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Campina Grande, Junho de 2018

II CONGRESSO INTERNACIONAL MUNDOS INDÍGENAS - DIÁLOGOS SOBRE HISTÓRIA, DIREITO


E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA INDÍGENA. SÉCULO XVI AOS DIAS ATUAIS.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE

UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBA

27, a 30 de junho de 2018, Campina Grande, PB, Brasil

2018@Copyrigth UFCG

Impresso no Brasil

Todos os direitos reservados

FICHA CATALOGRÁFICA

II CONGRESSO INTERNACIONAL MUNDOS INDÍGENAS - (27, a 30 de junho de 2018:


Campina grande, PB - Brasil)

DIÁLOGOS SOBRE HISTÓRIA, DIREITO E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA INDÍGENA. SÉCULO XVI AOS
DIAS ATUAIS: Caderno de Resumos do II CONGRESSO INTERNACIONAL MUNDOS INDÍGENAS
/Juciene Ricarte Apolinário e Ofélia Maria de Barros (Org.). – Campina Grande
2018.
ISSN:
1. História. 2. Etno História. 3. História Indígena. 4. História da Educação 5. História Ambiental.
6. História e Direito.

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DIREITO E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA INDÍGENA. SÉCULO XVI AOS DIAS ATUAIS.

ISSN:

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FERREIRA, Rafael Reis


Instituto de Ciências Jurídicas - UFRR
rafareis@uol.com.br

1 Problematização e pensamento crítico

A proposta de reflexão contida no título do trabalho anuncia a limitação ao direito e à


escravidão no Brasil, ou seja, à dinâmica da escravização de seres humanos, mais
exatamente dos grupos de indígenas, africanos e descendentes, bem como à juridicidade
brasileira, enquanto fenômenos possíveis de serem assim considerados, com especificidade
própria, no contexto histórico de rompimento formal com a América portuguesa, após a
Independência. Apesar da problemática do sincronismo dirigir-se aqui a esse momento da
formação jurídica do chamado direito da escravidão brasileira, certamente aí não se
restringe, podendo ser posta nesse momento, ao menos rapidamente e em esboço,
assumidos todos os riscos, para o contexto anterior, desde o movimento próprio de violência
inaugurado no séc. XVI. No centro de nossa preocupação está certa despreocupação com a
historicidade do direito, particularmente do direito da escravidão, como se estivéssemos
diante de um fenômeno humano excepcionalmente ahistórico, o que é bastante
preocupante.

A valorização dessa reflexão é decorrência da mudança, quanto às ciências sociais,


provocada pela utilização do direito na investigação da historicidade, cujo grande marco
certamente é a obra Whigs and Hunters, de Edward Palmer Thompson (1990), publicada em
1975, mais exatamente sentida no campo da história social (FORTES, 1995), mas não só,
abrindo muito claramente as perspectivas de pesquisa para o reconhecimento da
importância das fontes jurídicas para as investigações históricas. No Brasil, certamente,
talvez o mais importante campo de exploração entre o direito e a história tenha sido
marcado pelas pesquisas da escravidão. Entretanto, ao mesmo tempo em que as fontes

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consideradas como jurídicas foram sendo valorizadas, por outro lado, quase sempre
parecem estar desacompanhadas de esforço investigativo quanto aos sentidos de suas
juridicidades contextuais.

Sem haver a pretensão de tocar as questões profundas decorrentes dessa mudança


de perspectiva de valorização do direito, o que nos interessa aqui é ressaltar que aí se
encontra um grande problema, particularizado por uma profunda desarticulação entre as
fontes e os seus contextos. Sem ser possível construir um grande panorama dessa
problemática em tais investigações, como seria importante para fundamentar tal afirmação,
nos parece, mesmo assim, ser possível afirmar terem vindo a ser reconhecidas, mais
exatamente as fontes identificadas como jurídicas, sem grandes preocupações com o seu
próprio tempo histórico, ou seja, com as mudanças por que passaram desde a formação
jurídica inicial, através da afirmação de sua especificidade brasileira, até os nossos dias.

Parece importante reconhecermos a historicidade do direito que não decorra


simplesmente da utilização de fontes jurídicas do passado, mas da sua reflexão crítica,
somente possível de ser realizada pela comunidade das ciências sociais que tenha o passado
como preocupação séria. Ou seja, v. g., onde se possa reconhecer a valorização da evidência,
como nos fala Hobsbawn, ao menos enquanto reflexão distintiva entre fato histórico e ficção
(1997, p. 241), bem como a abertura pelo método crítico e dialógico, como proposto por Karl
Popper (1997), sem esquecermos a preocupação com a exterioridade da investigação
comprometida, reconhecido por Luc Boltanski (2009, p. 73), que distingue as preocupações
investigativas com lealdade intelectual. Tudo para, de forma bem rápida, mas confiante,
desde já, afirmarmos categoricamente que a juridicidade do direito da escravidão não pode
ser reconhecida em um qualquer paradigma moderno, por ser exemplo de juridicidade
complexa e plural, característica do chamado mundo do Antigo Regime, devendo a
investigação dessas fontes jurídicas estar atenta a essa especificidade distintiva. No mesmo
sentido, parece importante não somente justificar a preocupação com o problema do
anacronismo, mas também incitar aqueles(as) que se preocupam com a temática do direito
da escravidão a levar à sério alguns caminhos importantes para tal exploração, com a

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indicação aqui de alguns textos, bem como afirmar que a superação de tal problema, diante
de sua grande complexidade, somente parece ser possível com a contribuição das
investigações coletivas e críticas das ciências sociais.

2 O direito e a historicidade

A gravidade do problema aqui relevado pode ser apontada pela ainda necessária
afirmação de o direito, como qualquer outro fenômeno humano, também ter a sua história.
Mais ainda, tanto no passado quanto no nosso presente, só ser possível a afirmação séria da
possibilidade de reconhecimento de vários paradigmas de direito, no sentido de Thomas
Khun (1996, p. 43 s.) e Orlando de Carvalho (1997), mesmo quando se defenda, certamente
não pela juridicidade atemporal, o sentido do Direito, como o faz, v. g., Castanheira Neves
(2013), cuja proposta é oferecida em sentido sincrônico e criticamente preocupada com as
outras alternativas ao direito. Por isso, para o que mais nos interessa nesse momento, não
temos o receio de afirmar que o anacronismo, mesmo reconhecida a nossa limitação para
atingir um possível diagnóstico amplo do problema, está em quase toda a parte na temática
do direito da escravidão no Brasil, sendo clara consequência do paradigma do direito da
modernidade.

Assim, cabe o questionamento de o direito, ao menos na temática da escravidão


brasileira, normalmente não ser reconhecido no seu próprio tempo. Ou, pior ainda, ser
reconhecido enquanto sinônimo de lei, ou texto legal em sentido amplo, paradigma que
certamente não foi conhecido pela era da escravidão brasileira, por ser momento histórico
anterior à codificação civil, clara exigência para modernização da juridicidade e criação
posterior do chamado legal-normativismo. Sem esse reconhecimento da própria natureza do
projeto do direito investigado, cabe reconhecer, fica difícil, senão impossível, e muito
prejudicada, a pesquisa do direito da escravidão onde não haja minimamente a preocupação
com a reflexão de sua própria historicidade.

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Sem ser possível a resposta simples para tal questão, entretanto, parece ser devido
afirmar, que os grandes responsáveis por essa atemporalidade do direito são os próprios
fundamentos mitológicos do direito moderno, precisamente percebidos, v. g., por Clavero
(1993) e, muito especialmente, por Mário Reis Marques (2003). O projeto moderno de
estatalização do direito certamente foi, e continua sendo, profundamente marcado pela
exigência da ahistoricidade, particularmente quanto aos momentos anteriores à construção
do chamado Estado-Nação e todos aqueles que, de alguma forma, possam deslegitimar esse
projeto de poder que se apropriou do direito. Quanto à isso, se a nossa preocupação for
mesmo crítica, devemos sempre ter atenção à formação histórica desse projeto, bem como
ao seu correlato tipo de jurista, conhecido como “boca da lei”. O direito limitado pela visão
de ser simples e rápida decorrência do texto legal, que, como temos visto, está também
espalhado pelas ciências sociais como um todo, acaba por desembocar no problema aqui
considerado do anacronismo.

Quanto à escravidão brasileira, nos parece muito claro, que o direito ali é visto com
os olhos desse projeto moderno e posterior, provocando não somente sérios problemas de
compreensão, mas a perda constante de oportunidades reflexivas da pesquisa dessas fontes
jurídicas, quando pesquisadas sem o esforço de reconhecimento da natureza do projeto
jurídico correspondente. Infelizmente, as investigações jurídicas da formação do fenômeno
do direito quanto à escravidão, não somente no Brasil, usualmente a excluem pura e
simplemente pela incompatibilidade com o afirmado direito moderno mitológico, ou a
acomodam em certo sentido evolutivo e ideológico enquanto uma etapa vencida em rumo
de um futuro sempre antecipado. Tais posturas retiram a complexidade decorrente do
tempo dos(as) juristas do passado, que não têm a sua própria história considerada como
importante, como podemos reconhecer nas comuns hagiografias produzidas pela
investigaçao jurídica. No fundo, para onde olhamos, o tema do direito da escravidão em
nosso presente, claro que assim generalizando totalmente, também tem sido pouquíssimo e
mal investigado pelos(as) próprios(as) juristas.

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Em termos de suficiência argumentativa, podemos apenas indicar que o direito da


escravidão brasileira não somente conheceu profundamente o processo de construção do
paradigma jurídico moderno de várias partes do mundo ocidental, mas aspirou à sua
construção, contudo, por razões históricas que devem ser sempre consideradas, a ele não
pode ser identificado, por não ter sido elevado o texto legal a única, ou mesmo principal,
fonte jurídica, nem a interpretação a ele se limitou, em lógicas de um qualquer sistema
fechado. Cabe ressaltar claramente que estamos diante de um tipo de direito anterior à
codificação civil, que no Brasil só foi realizada em 1916, portanto, ausente o fundamento
básico para a sua caracterização em termos de juridicidade moderna, devendo assim os
fenômenos jurídicos históricos anteriores à modernização do direito, aí incluído
integralmente o direito da escravidão, levar em conta o tempo daquela juridicidade
complexa e plural. E aí o sentido do pensamento crítico parece ser muito importante para
não restringir a historicidade do direito à uma qualquer dinâmica que limite os sentidos
jurídicos pelas institucionalizações exigidas pelo direito moderno, deixando de lado o sentido
da historicidade que seja possível ser pensada desde a própria dinâmica da sociedade, para
evitarmos a construção de outra perspectivação acrítica e positiva do direito.

3 Direito, interpretação jurídica e escravidão

O direito da era da escravização de seres humanos no Brasil formou-se em uma


dinâmica de aproveitamento dos materiais jurídicos e sentidos da interpretação jurídica do
contexto anterior, desde a América portuguesa, mas com clara aspiração pelo Estado
brasileiro em construção de realizar o processo amplo de estatalização do direito, seja
através da unificação do direito com a lei, seja pelo sentido da juridicidade enquanto seiva
voluntarista desse poder político centralizador. Processo, é bom afirmar, que o direito da
escravidão não chegou a conhecer em sua plenitude, apesar de já sentida claramente a
dinâmica de apropriação do Estado por domínios tradicionalmente pertencentes a outros
agentes sociais daquela sociedade civil ao mesmo tempo burguesa e escravocrata.

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Cabe referir que tal processo político não pode ser reconhecido enquanto atuação
singular e evolucionista, normalmente visto em mitos fundadores do posterior Estado-
Nação, já que inserida em um grande quadro social de forças em combate, v. g., como das
pessoas escravizadas e das proprietárias. Nessa turbulência, que não cabe aqui aprofundar,
permaneceu a juridicidade da escravidão, marcada pela pluralidade, complexidade e
desigualdade daquele tipo de direito que, apesar de claras aspirações pela segurança
jurídica, não chegou a ter alterada essa sua principal marca de um direito ainda não
moderno. Faltaram, não somente a codificação civil, mas especialmente o tipo de
interpretação jurídica de sistema fechado, onde o texto legal não é só o começo, mas
também o seu fim, nesse tipo de realização de direito.

Porém, não somente pela superveniência do modelo de direito podemos perceber os


anacronismos, mas particularmente com a pesquisa da juridicidade daquela época, onde,
com o esforço de se pensar sem a desconsideração do próprio contexto histórico, claro que
sem as pretensões muitas vezes decorrentes de posturas científicas positivistas e
simplificadoras, pode ser facilmente percebida a presença ali de um outro tipo de
juridicidade, de um outro tipo de paradigma jurídico. No fundo, claramente aquele direito
não era o do nosso presente, que também não pode ser reconhecido de forma unívoca, em
nosso contexto de defesa de um sentido do Direito e as suas alternativas pois, o direito da
escravidão brasileira, em sua essência, não contou com as aspirações do séc. XX pelos
universalismos, como a igualdade, a liberdade e a dignidade da pessoa humana. Tais
perspectivações não estavam lá na escravidão, mas antes, o seu principal fundamento, e
grande marca da juridicidade ocidental do séc. XIX, o direito de propriedade. É bastante
reveladora, para ficarmos em um só exemplo, a definição do direito de liberdade como a
propriedade do próprio corpo, como podemos ver com Seabra (1850, p. 11). Nesse ponto,
não pode nos causar qualquer espanto, se houver compromisso mínimo com a sincronia,
que o principal eixo de discussão da escravidão brasileira tenha sido realizado quanto ao
direito de propriedade, não o de liberdade como hoje tem sido reconhecido.

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Portanto, sem a atenção ao tipo de direito que estava na base da legitimação da


escravização indígena e africana brasileira, conjuntamente com a preocupação contextual,
temporal, espacial e em sentido crítico, muito pouco se pode compreender de tal
juridicidade, bem como da própria historicidade que se vale daqueles materiais jurídicos que
são reconhecidos, muitas vezes anacronicamente, desde uma juridicidade que não era a sua.
A ideia geral da complexidade daquele tipo de direito, como bem percebeu Pontes de
Miranda (1981, p. 67-78), pode ser vista em suas próprias fontes jurídicas, não
hierarquizadas, nem estruturadas na base da coesão e coerência, que são as conhecidas
exigências do direito moderno, v. g., as cartas de lei, patentes, régias e cartas; os alvarás; as
provisões reais; o costume e estilos da Corte; os assentos da Casa de Suplicação; o direito
canônico; o direito romano; legislação da América portuguesa que não foi revogada; as leis
nas Nações civilizadas, dentre outras.

No centro, também estava o problema da interpretação jurídica, da passagem do


direito do Antigo Regime ao movimento constitucional, como nos faz ver Michael Stolleis
(2011). Por isso, a pesquisa da historicidade deve passar pela interpretação jurídica, onde
está o pulsar mais profundo das características da juridicidade, que nos faculta a reflexão
crítica dos problemas do direito e da história sincronicamente, bem como, a partir daí, o
aprofundamento mais adequado das fontes jurídicas consideradas para a reflexão daquele
passado. Isso porque, não somente as fontes jurídicas não estavam organizadas
hierarquicamente, nem logicamente, como a interpretação jurídica desses materiais não
chegou a ser realizada em sentido moderno, por ter havido ali, se vistas as coisas em linhas
gerais, o choque entre os pensamentos de fundo escolástico-tomista, o usus modernus
pandectarum, a racionalidade iluminista, o jusnaturalismo racionalista e o legal-positivismo,
sem, ao que sabemos pela ausência quase completa de pesquisa crítica quanto à essa
problemática no direito da escravidão, a prevalência e dominância de um deles sobre o
outro no séc. XIX. Dessa forma, não havia ali a centralidade do modelo de jurista neutro,
decorrente da modernização do direito (MARQUES, p. 444).

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4 Rumos do direito da escravidão

O tempo próprio e as principais características do direito da escravidão brasileira


passam certamente pelo reconhecimento da complexidade tanto das fontes jurídicas, como
dos sentidos da interpretação jurídica daquele contexto. Algo que, para ser construído de
forma suficiente, para abrir novos horizontes, bem como auxiliar as pesquisas daquela
temática pelas ciências sociais, no nosso pensar, passa necessariamente ao menos por dois
grades esforços importantes. O primeiro deles é o da pesquisa da interpretação jurídica nas
fontes daquele período, com destaque para as ações judiciais, não somente as de liberdade,
manutenção de liberdade e de escravidão, como tem sido realizado, como também das que
num primeiro momento pareçam não ter diretamente interesse para a compreensão do
direito da escravidão, mas que sejam reconhecidas como importantes para a compreensão
da interpretação jurídica naquele contexto da juridicidade complexa. O segundo, é o da
leitura dos textos jurídicos da escravidão com a preocupação não só de pesquisar elementos
e referências para a investigação da história em sentido amplo, os fenômenos históricos tais
como a luta por direitos, o pecúlio, a organização social das pessoas escravizadas etc., mas
também com a preocupação de se tentar perceber como era o direito da escravidão e os
sentidos de sua interpretação. Esforços, no nosso sentir, necessários para atendermos com
suficiência a exigência da pesquisa com respeito mínimo à sincronia, não enquanto utopia
positivista realizável em pleno, mas enquanto horizonte e perspectiva nunca alcançada pelo
pensamento crítico, sempre preocupado com a contextualização do fenômeno humano.

De forma bastante rápida e em enumeração simplificada, a juridicidade complexa e a


possibilidade de sua compreensão passam certamente pelos trabalhos de Perdigão
Malheiro, onde podemos encontrar o grande panorama do direito da escravidão brasileira,
tanto em seus textos mais conhecidos (1866), como também nos esquecidos (1873); de

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Teixeira de Freitas, com o seu peculiar usus modernus pandectarum adaptado ao contexto
do direito da escravidão, sendo o jurista contratado para realizar o “Código Civil” e a “Lei
sobre a escravidão”, na forma do decreto 2.318 (BRASIL, 1858, p. 156), sendo nota histórica
fundamental e poucas vezes lembrada, apesar de não realizados em pleno; ou ainda de
Pimenta Bueno, onde podemos pesquisar o choque da interpretação jurídica desde a
herança medieval do direito e as influências de um jusnaturalismo racionalista (1857, p. 16).
Sem esquecermos dos grandes nomes que influenciaram decisivamente a construção do
direito brasileiro, como Coelho da Rocha (1857) e Corrêa Telles (1880), bem como os juristas
menos conhecidos, mas também muito relevantes para pensarmos a especificidade do
direito brasileiro, como Pinto Junior e suas referências ao direito romano interpretado de
forma subisidiária (1888, p. 6), ou ainda, os que ofereçam testemunhos singulares
decorrentes de experiências ímpares, como é o caso de Le Breton (18??), jurista que
participou do contexto histórico da revolução francesa e escreveu sobre o direito no Brasil
em construção, algo que não pode ser realizado nas usuais referências acríticas e
descontextualizadas desses autores e textos, enquanto resultado da elevação do mito
fundador do direito moderno.

As fontes jurídicas, nessa complexidade e em em sentido crítico, para nós, são o


caminho mais importante para afastarmos o manto de esquecimento e acomodação da
escravização de seres humanos no Brasil dentro de uma tradição para legitimação do projeto
de direito moderno exigente de ahistoricidade. Projeto hoje mais difícil de ser observado,
por pesquisadores(as) soterrados(as) por essa construção mitológica já secular, mas
facilmente percebida se acompanhada desde autores importantes, como Clovis Bevilaqua,
em suas referências que fizeram escola quanto às “tribus que vagabundeavam ao longo e ao
largo deste vasto paiz” e aos “pretos definitivamente incorporados á sociedade brazileira”
(1896, p. 222-224), que devem ser compreendidas em seus contextos, sincronicamente,
como exemplos terríveis de um passado que se investiga, mas não se admite mais em nosso
presente. No ponto, para justificarmos o tempo do direito e a sua complexidade não
monológica, o legal-normativismo que temos ainda, onde o Estado se apropriou do direito
ao ponto de quase conseguir confundi-lo com a lei, somente atingido o paradigma

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constitucional em plenitude após a Constituição de 1988, estando atualmente vivendo uma


crise profunda não somente de eficácia, mas particularmente de legitimidade, que vêm
sendo discutida pela comunidade jurídica em um panorama de complexidade que aqui não
será explorado, mas que se mostra hábil para afastarmos a ideia equivocada de haver a
dominância completa de uma ideia de direito, mesmo em nossos dias. A simplificação do
conceito de direito a um só sentido positivo, irrefletido e desprovido de crítica, em termos
ahistóricos, é uma ideia que nem o mais profundo projeto positivista de direito nunca
sonhou um dia realizar, excluídos os projetos totalitários.

Nesse sentido, acreditamos que com o esforço em se tentar compreender os textos


jurídicos, não de forma apressada e em ligação direta com as fontes jurídicas históricas, mas
com a especial preocupação em tentar reconhecê-los contextualmente, poderemos aspirar à
formação de, no mínimo, um quadro amplo e suficiente para a pesquisa das temáticas do
direito e escravidão no Brasil. Essa pesquisa, pensamos nós, talvez supriria a grande ausência
de pesquisa crítica da juridicidade brasileira, em sentido não mitológico, não somente do
direito da escravidão, mas do fenômeno jurídico como um todo, já que o maior contraponto
ao mito moderno da elevação em sentido evolutivo, escalonado e linear da igualdade e
liberdade, reconhecidos na construção do sujeito de direitos, é certamente o fato histórico
do ser humano escravizado, legitimamente, pela sociedade escravocrata brasileira e o seu
específico direito.

5 Propostas de superação

Assim posto, mesmo que muito brevemente, estamos diante de exigências de


aprofundamento crítico para permitir a reflexão profunda da escravidão, seja nos contextos
da América portuguesa ou do Estado brasileiro. O tempo histórico do direito enquanto
fenômeno humano, seja o do complexo direito da escravidão, fundado em fontes jurídicas
não sistematizadas e sem hierarquia, cuja interpretação naquele contexto ainda não foi, ao

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que temos notícia, pesquisada suficientemente, merece ser ainda, por quem se preocupa
com a investigação do passado nas ciências sociais, melhor considerado.

Apesar dos grandes esforços já realizados de pesquisa da escravidão no Brasil,


quando relacionadas com a temática do direito, acreditamos que ainda seja muito
importante o aprofundamento da investigação sincrônica também da juridicidade,
especialmente da interpretação jurídica, sem a simples e bastante equivocada identificação
do direito com a lei, em um esforço coletivo de reconhecimento, ao menos de forma
imediata, de ser a mitologia do direito moderno a grande responsável, claramente pela
vitalidade e profundidade desse projeto de poder político, por impedir o esforço crítico de
pesquisa do direito da escravidão no Brasil. Trata-se do famoso “eclipse” que nos impede de
ver que o direito, o Estado e a lei são fenômenos diversos e com histórias próprias, mas que
se alinharam no direito moderno, em uma ideologia que talvez seja a grande responsável
pelas visões anacrônicas da juridicidade. Isso fica posto, apesar de aqui somente indicarmos
tal problema, para a chamada de atenção para o quê normalmente se considera enquanto
um paradigma indiscutível.

Segue tal apelo às ciências sociais em sentido amplíssimo, por muito pouco,
infelizmente, podermos nos valer de estudos profundos do direito da escravidão no campo
da pesquisa jurídica, manifestamente fundada, ainda, em hagiografias e naquela mitologia
fundadora da juridicidade moderna, também muito pouco reconhecida e identificada
criticamente. Tal diagnóstico, de forma simples, pode ser visto com a quase unívoca
recorrência ao pensamento de juristas de outros contextos, fora do Brasil, fundamentais
para aprofundar as reflexões da história do direito, mas bastante indicativa da quase
ausência da pesquisa jurídica brasileira da temática da escravidão.

Trata-se de um esforço, no nosso entender, que vale a pena, já que no eixo do direito
foi assentada em grande parte a construção da sociedade civil burguesa e a formação
ideológica da modernidade. Por isso, ainda dentro da possibilidade de certa recuperação da
herança iluminista, onde o direito era pensado filosoficamente, não secretado pela vontade
estatal pura e simplesmente, pensamos ser possível a pesquisa da juridicidade dentro de

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uma ainda possível racionalidade moderna, mesmo reconhecidas em grande parte as críticas
do movimento da pós-modernidade, que consiga realizar na prática o direito justo, sob a
ética dos valores humanos, juntamente com a sempre presente busca da consciência
histórica dos fenômenos sociais. Mas ao contrário das idealizações generalizantes, parece
ser cada vez mais importante o reconhecimento e a consciência das singularidades
envolvidas na realização do direito na prática, a que acrescentaríamos o dever de
consideração na perspectivação da busca histórica para discussão ampla quanto aos
caminhos sob a perspectiva profunda dos valores humanos, não enquanto projeções
subjetivas e unilaterais exclusivas de um qualquer projeto de poder.

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GT 2 - POLÍTICAS INDIGENISTAS E INDÍGENAS ENTRE OS SÉCULOS XVI


AO XIX NO BRASIL E NA AMÉRICA LATINA: SUAS ESPECIFICIDADES
DIANTE DAS RELAÇÕES INTERÉTNICAS E PODERES LOCAIS

Profa. Dra. Mariana Albuquerque Dantas - UVA


Profa. Dra. Juciene Ricarte Apolinário - PPGH-UFCG, Brasil | CHAM-UNL, Portugal

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