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8 • Público • Segunda-feira, 1 de Abril de 2019

ESPAÇO PÚBLICO

Finalmente défice zero:


E agora o quê?
MIGUEL MANSO
cumprir todas as regras orçamentais
Ricardo Cabral europeias.
Tal não deixará de colocar pressão sob a
“geringonça” já este ano durante a
Pela primeira vez desde há elaboração do OE2020, uma vez que Mário
muito, o Governo pode Centeno deixará de poder alegar o
cumprimento das regras orçamentais
adoptar uma política europeias para impedir PCP e BE de
orçamental expansionista pretenderem aumentar mais a despesa e o
investimento público.

D
(ou menos restritiva) e Colocam-se agora duas questões sobre
cumprir as regras europeias a estratégia orçamental
1 — Qual o objectivo da política orçamental
e acordo com o INE, o déÆce nacional, agora que as regras orçamentais da
público de 2018 foi de 0,453% zona euro são integralmente cumpridas?
do PIB, i.e., de 0,5% do PIB. Parece óbvia a resposta a esta questão: o
A UTAO estima que sem objectivo continuará a ser o mesmo. O
medidas extraordinárias o saldo Governo continua obcecado com o seu
orçamental de 2018 seria nulo. Adamastor — mesmo que déÆces
É ainda provável que o INE orçamentais se transformem em excedentes,
venha a rever em Setembro o estes nunca serão suÆcientes.
défice em ligeira baixa, A prioridade dada ao combate ao déÆce
quedando-se oficialmente nos público nas últimas décadas, tal como os
0,4% do PIB, o que, excluindo as medidas eucaliptos que povoam as Çorestas
extraordinárias, se traduziria num ligeiro nacionais, parece ter criado um deserto à sua
excedente orçamental em 2018. volta. Será que um governo com margem
O desiderato do país, há duas décadas orçamental carece de ideias sobre como
obcecado pelo controlo dos sempre elevados utilizá-la para promover o desenvolvimento
défices públicos, foi atingido em 2018, do país?
excluindo medidas extraordinárias. 2 — Faz sentido continuar a subestimar a
No entanto, oficialmente, só em 2019 o evolução do déÆce orçamental nas propostas
país registará um saldo orçamental estimativa do saldo orçamental de 2019 para contabilidade pública nos primeiros dois de Orçamento do Estado de forma a
ligeiramente excedentário. Um resultado +0,1% do PIB (+ 0,1% = +0,4% - (0,7%-0,2%)). meses do ano foi excelente, com a receita posteriormente registar desvios favoráveis?
sem dúvida histórico. A última vez que o país Acresce que se a economia crescesse de Æscal a crescer 13% e a receita corrente a Não é a percepção e credibilidade do
registou um excedente orçamental foi em facto os referidos 3,6% em termos nominais crescer 10,5%. O saldo primário (antes da ministro das Finanças ou do Governo que
1973! como previsto no OE2019, a melhoria do despesa com juros) foi de 2,8 mil milhões de são prioritárias. Estas, aliás, não Æcariam em
Riscos para a execução orçamental em saldo orçamental entre 2018 e 2019 deveria euros, i.e., 1,4% do PIB). causa por desvios de algumas décimas em
2019? ser próxima de 1 p.p. e não de 0,5 p.p. como O ministro das Finanças referiu que em relação aos objectivos.
Em 2017, a economia cresceu 4,4% em estimado pelo Governo no OE2019, uma vez 2019 Portugal já cumprirá o objectivo para o O fundamental é que se evite apresentar
termos nominais e o déÆce, excluindo que os elementos fundamentais da despesa saldo estrutural de médio prazo (OMT), que a Orçamentos do Estado com almofadas e
recapitalização da CGD, reduziu-se de 2% do pública, nomeadamente despesa com Comissão Europeia reviu em baixa de 0,25% reservas em excesso. Por um lado, porque
PIB em 2016 para 0,9% do PIB em 2017 (1,1 pessoal e a despesa com pensões, continuam para 0% do PIB. esse documento deixa de reÇectir a
pontos percentuais ou p.p.). Em 2018, a em 2019 sob forte controlo, e a despesa com Ou seja, Portugal passará a cumprir em realidade, passando a ser um guião com
economia cresceu 3,6% em termos nominais juros e com subsídios 2019 todas as regras orçamentais da zona estatísticas para “inglês ver” e, por outro
e o saldo orçamental, excluindo medidas de desemprego está euro, que como já aqui se referiu, se lado, porque se perde uma oportunidade
extraordinárias, melhorou 1 p.p. em relação a cair mais traduzem em seis restrições principais à para utilizar essa margem orçamental que
a 2017, quando o Governo previa uma rapidamente do que despesa e ao déÆce e que implementam o tem existido para promover o crescimento
melhoria de 0,6 p.p. do saldo orçamental antecipado pelo que, na prática, se pode considerar uma económico mais rápido do país, que seria
nesse período.
O Orçamento do Estado de 2019 (OE2019)
A condição Governo.
Ou seja, novo
emenda paraconstitucional de obrigando a
contas públicas (sempre) equilibradas.
acompanhado de uma redução mais rápida
dos rácios de dívida em relação ao PIB.
é novamente muito prudente. É certo, o fundamental desvio favorável na Por conseguinte, o OE2020 será o E, como se sabe, a condição fundamental
Governo estima um crescimento nominal de
3,6% da economia, estimativa que poderá
para a melhoria execução
orçamental de
primeiro em que não existe um colete de
forças a obrigar a melhorias do saldo
para a melhoria da vida dos portugueses é o
crescimento económico.
suscitar dúvidas dada a envolvente externa da vida dos 2019? estrutural e em que não existem restrições à Dobrámos o cabo das Tormentas?
menos favorável. Mas o Governo antecipa
apenas uma melhoria de 0,5 p.p. do saldo
portugueses é É muito provável
que aconteça,
taxa de aumento da despesa pública.
Governo algum nos últimos anos teve tais
Em Abril, com a publicação do Programa
de Estabilidade para 2019-2023, Æcaremos a
orçamental: de 0,7% do PIB em 2018 para o crescimento mesmo que as taxas liberdades… e tal nível de opções no campo conhecer a estratégia do actual Governo para
0,2% do PIB em 2019 (ambos incluindo económico de crescimento da política orçamental. Claro que esta a próxima legislatura. Ir para além das regras
medidas extraordinárias). económico da “liberdade” continua cerceada: o saldo orçamentais europeias, registando
O ponto de partida em 2019 será três economia mundial e estrutural tem de continuar a ser melhor do excedentes orçamentais recorrentes; ou
décimas mais baixo que o anteriormente da economia que 0% do PIB. ignorar Ænalmente o Gigante Adamastor do
estimado pelo Governo (o referido déÆce de portuguesa Mas, signiÆca que, pela primeira vez desde déÆce e deÆnir uma política orçamental mais
0,4% do PIB em 2018). Assim, no Programa abrandem. Aliás, a há muito, o Governo pode adoptar uma adequada ao desenvolvimento do país.
de Estabilidade 2019-2023, a divulgar em execução das contas política orçamental expansionista (ou menos
Abril, o Governo deveria corrigir a sua públicas em restritiva) no OE2020 e simultaneamente Economista. Escreve à segunda-feira