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FICHAMENTO DE LEITURA - ARISTÓTELES

Este capítulo de Bobbio trata, sobretudo, da obra de Aristóteles intitulada “Política”,


em que este expõe sua teoria clássica das formas de governo, a qual foi repetida durante
muitos séculos sem grandes variações.
Inicialmente, faz-se uma breve explanação a respeito de terminologias, e o autor nos
esclarece que os termos “forma de governo”, “constituição” e “politeia” podem ser
entendidos como sinônimos. Além disso, explica que “A constituição é a estrutura que dá
ordem à cidade, determinando o funcionamento de todos os cargos públicos e sobretudo da
autoridade soberana” (55-3).
Em se tratando das diversas formas de governo, ele comenta que existe o governo
de muitos, o de alguns e o de um só homem, sendo que, quando os governantes, seja qual
for a forma de governo, buscam seus próprios interesses, temos uma constituição
“corrompida”; quando não o fazem, buscando, então o interesse coletivo, temos uma
constituição “reta”.
No que diz respeito às formas retas de constituição, ao governo de um só ele dá o
nome de “reino”, ou monarquia; ao de poucos, aristocracia; ao de muitos, politia. Às formas
corrompidas desses governos, isto é, às que não visam ao bem comum, ele chama,
respectivamente, de tirania, oligarquia e democracia. O seguinte esquema ilustra bem essa
divisão:

“Reta” “Corrompida”

Monarquia Tirania

Aristocracia Oligarquia

Politia (ou timocracia) Democracia


O autor ainda complementa seu raciocínio comentando que a tirania é uma
monarquia a favor do monarca, e a oligarquia visa o interesse dos ricos, enquanto que a
democracia, o dos pobres.
Chama-nos atenção também o fato de a pior forma de governo ser a degeneração
da melhor forma, de modo que as outras degenerações são cada vez menos piores, por
justamente derivarem de formas cada vez mais distantes da melhor. Hierarquicamente, em
ordem decrescente, podemos elencar as seis formas de governo da seguinte maneira:
monarquia, aristocracia, politia, democracia, oligarquia, tirania.
Interessante notar que, diferentemente de Platão, que se vale do contraste de força
versus consenso e legalidade versus ilegalidade, Aristóteles tem como critério a questão do
interesse comum versus o interesse privado para distinguir as boas e más formas de
governo.
Especificamente sobre a Politia, ele comenta que se trata de uma mistura de
oligarquia com democracia. Quando pende para a primeira, chama-se aristocracia;
quando pende para a segunda, politia. Ainda nesse entendimento, ele comenta que essa
mistura é desejável, pois remediaria a causa de maior tensão na sociedade: a luta daqueles
que não possuem contra os que possuem; ele, vê, portanto, que é o regime mais propício
para a “paz social”. Ademais, elenca alguns expedientes necessários para que, na prática,
isso seja possível, a saber: conciliação de procedimentos que incompatíveis, a fim de se
diminuir a desigualdade; adoção de um “meio termo” entre as disposições extremas dos
dois regimes; e recolhimento do melhor dos dois sistemas. Com isso, observa-se que
Aristóteles prezava muito pela virtude do “meio-termo” para uma vida boa e feliz, por
acreditar que, seguindo esse caminho, torna-se mais fácil seguir a razão.
Por fim, comenta que a melhor comunidade estaria calcada nessa virtude e
personificada na figura predominante da classe média. Conforme comenta:

“Está claro que a melhor comunidade política é a que se


baseia na classe média, e que as cidades que têm essa condição
podem ser bem governadas - aquelas onde a classe média é mais
numerosa e tem mais poder do que as duas classes extremas, ou
pelo menos uma delas. Com efeito, aliando-se a uma ou a outra,
fará com que a balança penda para o seu lado, impedindo assim que
um dos extremos que se opõem ganhe poder excessivo (62-6)”.

Com isso, percebe-se, na defesa de Aristóteles, que a defesa a essa classe se faz
justamente por entender que ela é a que traria a maior estabilidade a uma sociedade,
evitando, por exemplo, revoluções.
Para Aristóteles, oligarquia e democracia não são classificadas como tal por serem
governos de poucos ou muitos, respectivamente. O critério fundamental para tal abordagem
consiste na diferença entre os ricos e pobres; um critério, portanto, qualitativo, e não
quantitativo. Assim, se os ricos governam (geralmente são a minoria), ele chama de
oligarquia; se os pobres (geralmente a maioria) o fazem, de democracia.
Por fim, nota-se que, desde Aristóteles até os dias atuais, a ideia de um bom
governo consiste justamente na mistura de várias formas de governo

REFERÊNCIA: BOBBIO, Norberto. Aristóteles. Teoria das Formas de Governo. Brasília:


UnB, p. 55 - 63.

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GRADUANDO: Scott Rocco Dezorzi (2018.2)