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A CLÍNICA FONOAUDIOLÓGICA E A LINGUAGEM ESCRITA:


ESTUDO DE CASO

Speech therapy clinic and the written language: case study


Ana Cristina Guarinello (1), Giselle Massi (2), Ana Paula Berberian (3), Keylla Dariele Rivabem (4)

RESUMO

Objetivo: partindo do pressuposto que a atividade lingüística é constitutiva do sujeito, esse trabalho
busca discutir o processo de apropriação da escrita, na clínica de linguagem, a partir da relação que
o aprendiz estabelece com o outro, fonoaudiólogo. Métodos: foi analisado longitudinalmente o caso
de um sujeito dito portador de distúrbio de leitura e escrita, o qual antes de submeter-se a avaliação
fonoaudiológica apresentava produções escritas distantes da convenção ortográfica. Resultados:
a terapia de linguagem foi eficiente para apropriação da modalidade escrita, já que no decorrer do
tratamento houve melhora e superação das queixas. Conclusão: por meio da atividade conjunta de
construção da escrita, na clínica de linguagem, entre o sujeito dessa pesquisa e o fonoaudiólogo, o
primeiro pode ser percebido como alguém capaz de fazer uso significativo da escrita.

DESCRITORES: Linguagem; Escrita Manual; Fonoterapia

■ INTRODUÇÃO psicopedagogos - em muitos casos confirmam a


suspeita da escola, na medida em que se afastam
O presente trabalho teve sua origem a partir da de critérios lingüísticos capazes de esclarecer o
constatação de um aumento significativo de enca- processo de apropriação do objeto escrito 1,2.
minhamentos para avaliações e atendimentos de Ressalta-se, porém, que não é possível falar
crianças consideradas como portadoras de difi- sobre dificuldades de leitura e escrita de modo con-
culdade ou distúrbio de aprendizagem de leitura e sensual, pois há discordâncias de caráter etioló-
escrita à clínica fonoaudiológica 1,2. gico, sintomatológico e terminológico acerca dessa
Esses encaminhamentos, em geral, são funda- temática 3.
mentados no fato destas crianças não seguirem o Estudiosos da educação alinhados à visão neu-
padrão de aprendizagem estabelecido pela escola ropsicológica 4-6 apontam sintomas como dificul-
para essa modalidade de linguagem. Na prática dades para discriminar formas, tamanhos e cores;
clínica, observa-se também que os profissionais dificuldades na discriminação de figura-fundo; pro-
envolvidos no diagnóstico e no tratamento destas blemas de noção corporal; dificuldades na coorde-
crianças – médicos, psicólogos, fonoaudiólogos e nação de movimentos. Citam ainda disfunção cere-
bral relacionada ao sistema nervoso central e ao
“amadurecimento” desse sistema 7. Nessa direção, a
(1)
Fonoaudióloga; Docente do Programa de Mestrado e Dou- área educacional, assim como a médica, apresenta
torado em Distúrbios da Comunicação da Universidade uma tendência em detectar falhas orgânicas, loca-
Tuiuti do Paraná; Doutora em Estudos Lingüísticos pela
Universidade Federal do Paraná.
lizando os problemas no aprendiz 3,8,9. Entretanto,
algumas pesquisas discutem criticamente essas
(2)
Fonoaudióloga; Docente do Programa de Mestrado e Dou-
torado em Distúrbios da Comunicação da Universidade posições e questionam: “de onde vem a força do
Tuiuti do Paraná; Doutora em Estudos Lingüísticos pela pressuposto de que problemas de linguagem são
Universidade Federal do Paraná. determinados por dificuldades perceptuais, mesmo
(3)
Fonoaudióloga; Vice-Coordenadora do Programa de Mes- frente aos sucessivos fracassos em se estabelecer
trado e Doutorado em Distúrbios da Comunicação da Uni- objetiva e claramente as relações entre percepção
versidade Tuiuti do Paraná; Doutora em História pela Pon-
tifícia Universidade Católica de São Paulo. e linguagem?” 10.
(4)
Fonoaudióloga Clínica; Mestre em Distúrbios da Comuni- Na escola, de forma geral, questões educacio-
cação pela Universidade Tuiuti do Paraná. nais, culturais e familiares não são devidamente

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Linguagem escrita: estudo de caso 39
consideradas no processo de construção da escrita, diológica durante o ano de 2005. Para análise lon-
assim como não são priorizadas as funções, usos gitudinal do caso, foram utilizadas as informações
e valores dessa modalidade de linguagem. Des- contidas no prontuário do paciente, que constam de
considera-se que, nesse processo, a criança pode entrevista inicial, avaliação, relatórios bimestrais,
errar, formular hipóteses, questionar e manipular a relatórios de visitas à escola, registros diários de
escrita, como faz no processo de constituição da terapia e exames complementares, como laudos
oralidade, e geralmente são ressaltados aspectos médicos e educacionais. Esse paciente foi atendido
gráficos, em detrimento de aspectos textuais 11,12. por uma estagiária do curso de Fonoaudiologia da
Com efeito, grande parte dos pacientes enca- mesma Universidade, com orientação do supervisor
minhados para a clínica fonoaudiológica apresenta responsável que se colocaram à disposição para o
diagnósticos de falhas cognitivas, motoras, percep- esclarecimento de qualquer dúvida. Cabe notificar
tuais, como por exemplo, alteração no processa- que a utilização dos dados foi autorizada pela esta-
mento auditivo central 13. Contudo, na clínica da lin- giária, pelo supervisor e pela família do paciente.
guagem, quando são realizadas a entrevista inicial O sujeito da pesquisa, reconhecido pela inicial
e a avaliação, percebe-se que a queixa maior da A, é um menino nascido em 20/03/1992, encami-
criança e de seus pais relaciona-se com dificulda- nhado em 18/11/2004, para tratamento fonoaudio-
des vinculadas à linguagem escrita e não a dificul-
lógico pelo neuropediatra com o laudo de desatento
dades de percepção auditiva ou visual. Além disso,
e disléxico.
observa-se que as inadequações ortográficas, que
tanto preocupam professores e pais, ao invés de Com relação ao trabalho realizado na Clínica de
serem consideradas, conforme uma perspectiva Fonoaudiologia da Universidade Tuiuti do Paraná
constitutiva de linguagem, como parte do processo (UTP), esse se fundamenta a partir de uma pers-
de aquisição da escrita 11, são em geral avaliadas pectiva constitutiva de linguagem 22 e, portanto, os
equivocadamente como sinais patológicos e, geral- procedimentos terapêuticos enfatizam o uso social
mente, as condições sociais de domínio da leitura e da linguagem por meio de atividades significativas
escrita vivenciadas de forma diversa e desigual pela e contextualizadas.
população brasileira são desconsideradas 12,14. O processo clínico fonoaudiológico se desenvol-
Contrariando uma visão que toma a linguagem veu durante oito meses, uma vez por semana, em
por um viés organicista, estudos lingüísticos rela- sessões de 40 minutos, de março a outubro de 2005.
cionam a escrita com seu uso efetivo, considerando No processo de avaliação (março 2005) e durante
as condições de produção da linguagem e a rela- todo o processo terapêutico, foram utilizados pro-
ção estabelecida entre autor e leitor 15-17. Estudos cedimentos terapêuticos baseados em duas estra-
pautados na ótica discursiva e interacionista da lin- tégias: 1) o terapeuta promovia ao sujeito acesso e
guagem trazem novas possibilidades de compreen- leitura de materiais escritos ou visuais (seqüências
são do processo de apropriação da escrita 18. de figuras, fotos, histórias, jornais, livros, filme em
A reflexão teórica que embasa este estudo vídeo). Após essa etapa o terapeuta, solicitava ao
afasta-se de perspectivas que não consideram a sujeito a elaboração de um texto a partir de tal mate-
historicidade da linguagem, as situações efetivas rial; 2) a partir do diálogo de temas de interesse
de uso da escrita e o contexto social das interações comum estabelecidos entre o terapeuta e o sujeito,
verbais. Antes disso, toma a linguagem como traba- esse último elaborava textos registrando aspectos
lho social e histórico e considera o texto na perspec- mais relevantes (ex.: atividades preferidas, filmes,
tiva do diálogo, para concretização da prática inter- programas de televisão, assuntos do dia-a-dia, notí-
pessoal em situações de uso efetivo, envolvendo o cias, receitas, cartas, piadas, experiências etc.).
eu e o outro 18-21. Assim, com base numa perspectiva sociointera-
Nessa direção, esta pesquisa tem como cionista, para análise do caso clínico, foram enfati-
objetivo discutir o processo de apropriação da zados aspectos relacionados: às práticas de leitura
escrita, na clínica de linguagem, a partir da inte- e escrita desenvolvidas no contexto familiar; à posi-
ração que o aprendiz estabelece com o outro, ção de educadores envolvidos com a escolaridade
terapeuta/fonoaudiólogo. de A. acerca de seu desempenho, à postura de A.
frente às práticas de leitura e escrita, aspectos rela-
■ MÉTODOS cionados à coesão e coerência textuais, bem como,
aspectos relativos ao papel do terapeuta, uma vez
A pesquisa em questão foi realizada na Clí- assumida a perspectiva teórica aqui anunciada.
nica de Fonoaudiologia da Universidade Tuiuti do A análise dos resultados foi realizada a partir dos
Paraná, tomando como objeto o caso clínico de um dados coletados durante o processo terapêutico ao
sujeito adolescente que freqüentou terapia fonoau- longo de oito meses.

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Essa pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética A principal queixa da mãe em relação à escola é
da Universidade Tuiuti do Paraná sob o protocolo que “o que ele não sabe, ninguém ensina”, pois per-
número 077/2005. cebeu que o filho era “desligado, e a escola nunca
fez nada”. Segundo ela, a escola nunca a chamou
■ RESULTADOS para uma conversa sobre o comportamento de A.,
exceto ao final do ano letivo para receber a notícia
de que o filho havia sido reprovado. No início de
Em função da queixa formulada pela escola de 2005, a mãe parou de trabalhar para se “dedicar ao
que o sujeito apresentava dificuldades de aprendi- filho, para acompanhá-lo melhor”, já que percebeu
zagem, A., com 12 anos e oito meses, foi encami- que estava com dificuldades escolares. Passou,
nhado por um neuropediatra que solicitou avaliação então, a freqüentar a escola para saber como era
do processamento auditivo central. Com base no seu comportamento e quais eram seus interes-
resultado de tal exame, A. foi encaminhado para ses. Chegou a ser parte integrante do conselho
tratamento fonoaudiológico pelo neurologista com
estudantil, referindo ainda que estava ajudando na
o seguinte laudo: “Solicito: Fonoterapia com ênfase
cantina da escola diariamente, para verificar como
a reabilitação do processamento auditivo. Motivo:
seu filho se comportava e como era tratado pelos
TDA/H desatento, dislexia” (segundo laudo médico),
professores.
em 18/11/2004.
Quanto à avaliação diretamente realizada com
A mãe de A. procurou a Clínica de Fonoaudio-
A., o terapeuta pode notar, nos primeiros encon-
logia da UTP, em março de 2005, e em entrevista
tros, que este se mostrava receoso e tímido. Ao
revelou dados referentes aos contextos familiar e
ser questionado sobre os motivos que o trazia à
escolar de A. que auxiliaram na análise de suas
condições de leitura e escrita. terapia, ele disse não saber. Indagado sobre o seu
desempenho escolar, mais especificamente, acerca
Quanto ao contexto familiar, A. convive com os de suas dificuldades e reprovações, A. inicialmente
pais e uma irmã mais nova. O pai é mecânico e afirmou que não tinha dificuldades na escola, mas
possui o ensino fundamental incompleto, a mãe é
em seguida referiu dificuldades em matemática e
recepcionista e cursa o ensino médio. De forma
em inglês e gostar de história e ciências. Questio-
geral, a família não costuma ler, mas em casa exis-
nado a respeito da posição dos professores acerca
tem materiais escritos diversificados como jornais,
de seu desempenho, A. disse que eles nunca fala-
revistas e gibis. A mãe referiu que tem o hábito de
ram nada sobre suas dificuldades escolares.
ler para a irmã de A. e que fazia o mesmo com ele
quando este era pequeno, mas revela que atual- Ao ser questionado sobre o que gostava de ler,
mente percebe que o filho parece ler e escrever A. somente balançou a cabeça em sinal negativo.
por obrigação e não apresenta interesse em tais Com a insistência do terapeuta, revelou que não
atividades. gostava de ler nada, afirmando que só lia alguma
A mãe relatou ainda que os pais sempre nota- coisa se a professora pedisse. A partir das colo-
ram que o filho era “uma criança inquieta e agitada”. cações e posturas assumidas por A. foi possível
Quanto ao contexto escolar, os pais já haviam obser- constatar que ele encontrava-se desmotivado em
vado que o filho apresentava dificuldades escola- relação à escola e que procurava se esquivar de
res em séries anteriores. Quando A. reprovou pela qualquer atividade proposta que envolvesse leitura
primeira vez a 5ª série, referem ter avaliado o fato e escrita.
como algo que “faz parte”. Para maior compreensão sobre a situação
Quando ocorreu a segunda reprovação nessa escolar de A. e a posição da escola frente às suas
mesma série, a mãe procurou a direção da escola condições de leitura e escrita, em maio de 2005,
e, apesar de ter queixas da escola, decidiu que foi realizada por parte do terapeuta visita à escola.
daria continuidade aos estudos do filho no mesmo Naquela ocasião a pedagoga relatou que A. é um
estabelecimento por ser próximo de sua casa e pos- aluno introspectivo, tímido e que não assumia uma
suir poucos alunos. Referiu ainda que embora sou- postura participativa nas aulas, pois além de não se
besse que existem escolas melhores, optou por dar colocar, não realizava as atividades propostas pelo
continuidade aos estudos de A. na mesma escola, professor. Também referiu o laudo médico que dizia
para evitar outras que contavam com um número que A. era portador de transtorno de déficit de aten-
maior de alunos tendo em vista temer as implica- ção e hiperatividade, desatento e disléxico. Assim
ções de tal fato, conforme explicitado na sua afirma- como o terapeuta, a pedagoga referiu que o com-
ção: “sabe como é, geralmente é atraído pelo grupo portamento do aluno não era de hiperatividade, pois
mau, então resolvi mantê-lo nesta escola”. No final parecia bastante tímido e, por vezes, até mesmo
de 2004, A. reprovou a 5a. série pela terceira vez. apático.

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Quanto às condições de leitura de A., apresen-
tadas no início do processo terapêutico, o mesmo Nome led. zeppilin foi por causa de uma
demonstrou dúvidas com relação à pontuação e a Balão que esplodio na orlanda 1950, come-
fluência da leitura de certas palavras, bem como sarão a tocar em Bar? e gravarão o prinei-
dificuldades na interpretação do que lia. Quanto à cede na orlanda em uma gravadora e come-
escrita, foi observado que A. apresentava coesão e çarão a fazer show.
coerência em suas produções, embora ainda não
dominasse alguns aspectos relativos à pontuação e Figura 1 – Produção escrita de A.
acentuação e apresentasse dúvidas quanto à orto-
grafia, realizando omissões e trocas de letras.
Na avaliação da linguagem oral de A. verificou-
uma data, e a seguir relata os fatos que se sucede-
se que o mesmo não apresentava dificuldades na
ram a esta: ‘começaram, gravaram o primeiro CD’.
produção dessa modalidade de linguagem, embora
Da mesma forma, procura escrever um texto coeso,
falasse pouco, mostrando-se retraído e tímido.
com a explicação de causalidade dos fatos ‘foi por
A. freqüentou por oito meses as sessões de fono- causa’. Esse tipo de fenômeno é bastante discutido
terapia, e o trabalho prosseguiu por meio de ativida- pela lingüística, para explicar a possibilidade de um
des de seu interesse com o intuito de motivá-lo para texto manter continuidade 23-25.
as atividades com a linguagem escrita e evidenciar
A análise do texto mostra que esse sujeito
as diferentes funções sociais vinculadas a essa
demonstra condições de operar com organizadores
modalidade de linguagem. Durante esse processo,
textuais, mas é fato que esta produção apresenta
A. foi gradativamente assumindo uma posição mais
incompletudes que não comprometeriam a um lei-
participativa nas atividades propostas, postura tam-
tor que não tivesse um conhecimento prévio sobre
bém relatada pela mãe em atividades de leitura e
o assunto, interpretar o texto. Situação, contudo,
escrita vivenciadas por A. no contexto familiar.
recorrentemente apresentada por crianças, adoles-
Como parte do procedimento adotado foram centes e adultos que se encontram em processo de
desencadeadas discussões com A. acerca das apropriação da escrita, conforme descrito na litera-
dificuldades que apresentava com a linguagem tura 12.
escrita, como parte do processo de apropriação da
Observando a seqüência textual elaborada por
mesma.
A., percebe-se a necessidade de um trabalho sobre
Com o intuito de encaminhar a análise deste seu texto escrito para que sejam explicitadas várias
caso, são apresentados a seguir dois textos produ- questões relativas à sua produção, enfim, seu texto
zidos por este sujeito, bem como as condições de evidencia a necessidade de um trabalho terapêutico
produção dos mesmos. O primeiro foi produzido no com essa modalidade de linguagem voltado para a
início do processo terapêutico e o segundo ao final construção conjunta da significação 14.
do mesmo.
Procedimentos terapêuticos, tais como os uti-
Quanto à situação de produção do texto abaixo, lizados nessa pesquisa, que propõem atividades
ressalta-se que a partir de diálogos estabelecidos e discussões para a explicitação das funções e
entre terapeuta e A., acerca de seu universo de inte- dos usos sociais da linguagem escrita, vêm sendo
resse A. revelou gostar de bandas de “rock”. A partir analisados pela literatura fonoaudiológica como
daí foram propostas leituras de artigos sobre suas eficientes para o avanço não só de aspectos tex-
bandas preferidas e que A. relatasse por escrito tuais da escrita como daqueles denominados como
algo sobre tais bandas que julgasse interessante formais 1,2,15.
para compartilhar com outras pessoas.
A partir dessa perspectiva os procedimentos
No próximo texto, A. foi solicitado a escrever um terapêuticos voltados à queixa, formulada pela
final para uma história que havia lido. escola e pelo neuropediatra, pautada em trocas de
letras foram desenvolvidos. Manifestações ortográ-
■ DISCUSSÃO ficas desviantes da norma, inicialmente apresenta-
das por A., como, por exemplo, ‘comesarão’ para
No primeiro texto produzido por A. (Figura 1), é começaram, ‘esplodio’ para explodiu, ‘orlanda’ para
possível verificar que ele estabelece relação entre Holanda e omissões de letras, como em ‘prineicede’
suas partes, estabelecendo coerência e progres- para primeiro CD, passaram a ser trabalhadas a
são temática. A. iniciou sua produção com o nome partir das produções textuais e, gradativamente
da banda de rock que escolheu para dar título ao foram diminuindo as suas ocorrências.
texto. Percebe-se que A. estabeleceu uma seqüên- Com relação ao segundo texto (Figura 2), cabe
cia temporal na ordenação textual tentando garan- esclarecer, de início, que o volume de escrita não foi
tir uma progressão de eventos, nos quais aparece adotado como critério de julgamento de capacidade

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construções diretamente condicionadas pelas posi-


...na hora do recreio ouvi um Barulho estra- ções e visões assumidas pelos adultos que fazem
nho vindo da floresta. e depois da escola eu parte de sua vida 28. Por isso, o fonoaudiólogo pre-
fui lá ver. cisa estar atento à relação que o aprendiz estabe-
lece com a escrita a partir dos discursos e das prá-
Figura 2 – Produção escrita de A. ticas que o circundam nos contextos clínico, familiar
e escolar 27,28.
Durante o processo terapêutico fonoaudiológico
ou incapacidade do aprendiz, enfim o texto não foi os procedimentos objetivavam, prioritariamente,
avaliado em função de critérios extensionais, mas que A. compreendesse o papel do terapeuta a par-
sim “como prática intersubjetiva que se constrói no tir da perspectiva assumida, ou seja, o papel que
próprio processo de enunciação” 26,27. o terapeuta assumiria nesse processo: – reconhe-
Durante a produção do segundo texto, o tera- cer A. como capaz de se apropriar da escrita, ser
peuta relatou que A. escreveu com mais desen- co-autor dos textos escritos em terapia a partir de
voltura, conseguindo elaborar um texto com vivências de leituras e escritas significativas e pra-
menos lacunas e, portanto, com maior autonomia zeirosas, participar da construção textual a partir
de construção de sentidos. Do ponto de vista dos da co-autoria de textos cujos sentidos poderiam
aspectos formais, observa-se avanço na apropria- ser compartilhados com outros leitores, participar
ção dos mesmos, apresentando apenas um uso da apropriação dos aspectos formais da escrita,
indevido de letra maiúscula no meio de frase, em explicitando as hipóteses formuladas por A. que
‘barulho’ que A. grafou com ‘b’ maiúsculo e no
resultassem manifestações desviantes da norma e
início da frase, após ponto final, iniciou com uma
oferecendo elementos que pudessem a A. avançar
letra minúscula.
na apropriação de tais aspectos 21.
Pelo relato do caso, ao longo do processo de
apropriação da linguagem escrita vivenciado por A partir da análise aqui realizada buscou-se
A., é possível perceber que sua postura na escola enfatizar que a apropriação da escrita implica
dava sinais claros de uma desmotivação com rela- a constituição de sentidos lingüísticos, a qual
ção à escola. Tal situação, apontada pelos educa- depende da interação estabelecida com o outro
dores como uma das principais causas do fracasso por meio de atividades significativas com e sobre
escolar, acabou por obscurecer os demais fato- a linguagem 1,3,19-21.
res que influenciam negativamente o processo de
ensino-aprendizagem e, assim, utilizada como a
justificativa das reprovações de A. por três vezes ■ CONCLUSÃO
consecutivas.
Por outro lado, a família optou por, ao invés de Considerando o objetivo desse estudo, discutir
abordar diretamente as dificuldades de A. com ele a apropriação da escrita na clínica de linguagem,
próprio e procurar ajuda para a superação das mes- tendo em vista o processo interativo estabelecido
mas, “observar o menino de perto”, enfim controlá- entre o aprendiz e o fonoaudiólogo, é possível con-
lo a partir da presença da mãe na escola. Diante cluir que tal apropriação se dá na relação intersubje-
dos elementos que permitem a compreensão de tiva, na qual estão vinculados, dentre outros pares,
como o problema escolar de A. se constituiu, cabem o sujeito e o terapeuta.
as seguintes questões: Quais as implicações do
fato da mãe referir terem optado por manter A. na Foi a partir dessa intersubjetividade, pautada em
mesma escola, mesmo tendo reprovado três vezes uma visão discursiva da linguagem que A. pode ser
a mesma série, por temer que em outra escola ele percebido como capaz de fazer uso significativo da
se envolvesse com a “turma do mal”? Quais as escrita e, assim, apresentar mudanças na relação
implicações do fato da família ter procurada ajuda estabelecida com as práticas de leitura e escrita,
apenas após a terceira reprovação de A.? adquirindo, ao longo do processo, maior autonomia
Cabe ressaltar, que os sentidos e a trajetória em relação aos diferentes aspectos que constituem
percorrida por A. acerca da linguagem escrita são essa modalidade de linguagem.

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Linguagem escrita: estudo de caso 43

ABSTRACT

Purpose: supposing that the linguistic activity constitute the subject, this work aims to discuss the
written appropriation process, in a language clinic, from the relation that the apprentice establish with
the speech language therapist. Methods: one clinic case of a subject to whom reading and writing
were distant from the conventional orthographic rules was analyzed. After speech language therapy
evaluation, the written language productions seem to be distant from the orthographic conventions.
Results: language therapy was efficient for the appropriation of the written language, as during
the treatment the complaints were surpassed. Conclusion: through the construction of the written
language between the speech language therapist and the subject of this research, the first one could
be noted as someone who is capable to use written language meaningfully.

KEYWORDS: Language; Handwriting; Speech Therapy

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RECEBIDO EM: 29/03/2007


ACEITO EM: 03/12/2007

Endereço para correspondência:


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Rev CEFAC, São Paulo, v.10, n.1, 38-44, jan-mar, 2008