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O texto “Causalidade e determinação” de Anscombe (1971), diz haver duas posições sobre a

abordagem da causalidade: uma que trate causalidade como conexão necessária ou como um
instanciamento de generalizações sem exeção, dizendo sempre que de um evento seguem
seus antecedentes, o que teria uma suposição geral de que de causas similares decorrerm
efeitos similares, e senão, há uma diferença relevante entre eles. A segunda posição sobre
causalidade recusaria esta afirmação geral para levar a uma via diferente.
Teorias acerca da causalidade que consideram essa suposição como verdade são muito
antigas e influentes, e fazem parte do imaginário tanto popular quanto filosófico. A ideia de
causalidade como conexão necessária foi defendida por diversos autores na história, com
muitas versões diferentes e até divergentes entre si.
As versões de cunho racionalista, que colocam a causalidade no mundo como relação entre
fenômenos ou objetos, muitas vezes garantida por Deus ou a natureza do mundo, tiveram
como seu maior oponente David Hume, que, em princípio, desloca a causalidade do mundo
para o homem pelo mecanismo do hábito.
A teoria humeana distingue as percepções da mente em dois tipos básicos que são as
impressões e as ideias. A distinção entre essas duas é explicada por Hume mais em termos de
intensidade do que de qualidade, não tornando essas duas antagônicas. (Valadares. 2009).
Ideias são posteriores a impressões no fluxo temporal, mas dizem respeito às mesmas coisas.
Como não há para Hume uma diferença entre mundo da existência real e mundo aparente, as
ideias e impressões são sempre de algo.
O inglês também aborda mecanismos pelos quais ideias simples, que remetem diretamente a
impressões, podem associar-se na formação de ideias complexas, e operar na mente dessa
forma. A imaginação humana faria essas associações por três qualidades que seria as de
semelhança contiguidade e causalidade, que funcionam como regra na imaginação, não
apenas como jogo livre de associações.
A formação de ideias é sempre baseada em percepções, o que delimite existencialmente o
homem e o mundo exterior, que é um certa reconstrução mental advinda do nosso suporte
perceptivo.
Tomemos a regra associação da causalidade para estudo. Essa noção é a de asscoiar um
objeto como causa de outro, que seria seu efeito. Além de uma regra mental, em Hume a
casaulidade representa uma relação filosófica que permite comprar objetos implicados
(Valadares, 2009). Os raciocínios humanos são comparações entre objetos, e conhecer é fazer
proposições sobre causas, para Hume. Aqui todavia deve-se destacar que a relação causal
para Hume não é material, senão ocorrida apenas na mente humana. Se se pode formar a
ideia de dois objetos, não é lícito formar a ideia de causa deles, já que não há correspondente
material. A causalidade é uma relação da mente à ideia de dois objetos
[sobre causalidade e teoria da respresentção em Hume?]
Hume não aceita a causalidade como relação de sucessão, normalmente aceita, mas trabalha
com a noção de conjunção. Como as relações entre objetos ocorrem exteriormente ao âmbito
do entendimento e imaginação, não se pode falar de relações prioritárias ou do poder de causa
de um objeto sobre outro. Apenas a constante percepção de um objeto incidindo sobre outro
que permite estabelecer na mente uma relação. A constância e uniformidade nessa associação
que permite estabelecer a noção de necessidade, que é a tendência da imaginação de passar
de um objeto para o outro. A ação é, assim, necessária do ponto de vista de quem faz a
inferência.
Hume coloca em questão a necessidade da existência da causa dos cartesianos, para os quais
tudo o que existe tem uma causa de existir. Para a noção humeana de necessidade fundada na
percepção uniforme de conjunção constante da experiência, não há motivo para estabelecer
um princípio produtivo para tudo. As ideias do objetido tido por causa e do efeito são
independentes e não há nada nesses objetos que os qualifique como tais, senão uma relação
na mente do observador. (Valadares, 2009).
Embora essa postura humeana, Ancombe não considera que a relação entre causalidade e
necessidade tenha se dirimido com as ideias deste pensador. Hume tocaria apenas na
questão da conexãológica entre causa e efeito, nos fazendo ver que, dada uma causa e seu
efeito, não implica logicamente qualquer contradição o fato de um estar presente e outro não
(Anscombe, 1971).
Todavia, no que tange a relação entre causalidade e necessidade, Hume não a eliminaria, mas
ao contrário, a reforçaria. Segundo Anscombe, o autor assume necessidade causal como parte
essencial da relação causa efeito, e apenas faz o deslocamento da necessidade nos objetos
para a mente humana pelo mecanismo de conjunção constante. Para dizer que os eventos são
causados, há a iminência de generalizações sem exceção conectando-os a seus antecedentes.
Há, para Anscombe, um sugestão de leis determinísticas em Hume, aquelas para as quais,
dada um condição inicial e tais leis, segue-se apenas um resultado determinado. (Anscombe,
1971).
Parece realmente delicado equivaler necessidade com causação, já que muitas vezes
sabemos uma causa sem saber se ela é necessária ou se há uma generalização envolvida,
como na medicina, quando contraímos um doença que saber ser provinda de um contato, mas
que não poderia afirmar contrair apenas pelo fato do contato. O caminho do efeito para a causa
é muito mais fácil do que o caminha contrário.
A relação de causa com necessidade e determinismo em especial, é resultado, além da
tradição, do bom resultado da mecânica newtoniana na astronomia, o que se tratou de uma
ocasião dado que as únicas forças relevantes a esta previsão foram justamente as usadas na
teoria, e se mantiveram constantes na situação histórica da galáxia que a humanidade pode
observar.
Para Anscombe, todas as teorias relacionadas a causalidade caem num erro fundamental que
é deixar de mostrar a causa como geradora do efeito. Certamente a análise em termos de
necessidade não apresenta esta derivação de um para o outro. Dizer que A deriva de B não
implica que similares A serão derivados de similares B, ou que dado um B há sempre um A
que provém dele, etc (Anscombe 1971).
Nesse ponto, o argumento humeano de que não podemos observar causalidade no caso
individual entra em cena, colocando-se como possível objeção, já que a razão para chamarmos
algo de causa e algo de efeito deve residir em outro lugar, que seria a constante conjunção dos
objetos na mente.
Ao que Anscombe contra argumenta que esta afirmação já contém um pressuposto que a
confirma automaticamente: ninguém que diga ser impossível observar algo como a causalidade
irá observá-la, já que não faz parte de seu arcabouço. Se tentássemos afirmar que observamos
causalidade, Hume diria que vemos apenas conjunções de objetos físicos na nossa
aparelhagem sensível, e por isso causalidade deve ser dada nesses termos. Nessa condição, o
“conhecimento causal” se obtém pelos termos causais da linguagem que aprendemos a usar.
A autora também argumenta que esse âmbito de generalização universal que se supõe suprir o
que não se pode observar no caso individual requer exemplos pouco comuns, já que não se
chega à verdade com generalizações do tipo “de A segue B”, mas é preciso expor ainda as
exceções, condições de contorno, situações nas quais não daria certo etc. (Anscombe 1971)
Como consideramos a causalidade humeana no âmbito de leis científicas determinísticas,
podemos observar que elas não são generalizações desse tipo, embora tenhamos uma
tendência a reconhecê-las dessa forma.
Leis em termos de generalizações, como no exemplo de Anscombe do ponto de fulgor, são
muitas vezes falaciosas. Se tomamos a lei por “Sempre que certa substância é levada a tal
temperatiura ela entra em ignição”, é fácil encontrar contra-exemplos nos quais isso não ocorra,
devido há uma mudança nas condições de pressão, ou presença de impurezas, etc. Um
generalização mais adequada seria “se certa substância atinge dada temperatura e não
inflama, algo deve estar causando isso”. O que entra em questão são as “condições normais”
nas quais certo caso ocorre de acordo com a implicação da lei.
Embora Hume retira a causalidade das coisas e a coloque no sujeito, ele também mostra que
um mecanismo intelectual responde por relacionar causa e efeito mesmo na ausência de uma
desses por uma conexão necessária. Para Anscombe, não se sustenta a explicação nestes
termos para a causalidade,e seria preciso buscar uma solução que não envolva a ideia de
necessidade.