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COMARCA DE SANTA HELENA DE GOIÁS

1ª PROMOTORIA DE JUSTIÇA

EXMO. JUIZ DE DIREITO DA 1ª VARA DA COMARCA DE SANTA HELENA DE


GOIÁS - GO

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS (CNPJ


01.409.598/0001-30), pelos Promotores de Justiça que o
representam, com legitimidade conferida pelo art. 129, inc. I,
da CF, e pelo art. 24, do Código de Processo Penal, embasados
nos autos de inquérito policial anexo (nº 201601423823), vem
oferecer a presente DENÚNCIA contra:

JOSÉ VALDIR MISNEROVICZ, vulgo “Gaúcho”,


brasileiro, solteiro, desocupado,
natural de Alpestre-RS, nascido em
16/03/1970, filho de Lourdes
Misnerovicz, e Pedro Misnerovicz,
residente à Rua Bartolomeu Bueno, Casa
02, nº 352, Vila Santa Maria, Anápolis-
GO;

LUIS BATISTA BORGES, vulgo “Joaquim”,


brasileiro, casado, pedreiro, natural de
Caiapônia-GO, nascido aos 15/08/1969,
filho de Analdina Mendes de Sousa e
Olivio Batista Borges, residente à Rua
Isaura Martins, nº 10, Quadra 09, Lote
09, Bairro Sol Nascente, Acreúna-GO;

DIESSYKA LORENA SANTANA SOARES,


brasileira, estado civil ignorado,
desocupada, natural de Acreúna-GO,
nascida aos 03/03/1992, filha de Lúcia
Cândido Santana e Romildo Felipe Soares,
residente à Rua 05, A3, Quadra 48, Lote
H, Centro, Acreúna-GO;

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NATALINO DE JESUS, brasileiro, estado


civil ignorado, desocupado, natural de
Nova Crixás-GO, nascido aos 25/12/1971,
filho de Maria de Jesus e José Rodrigues
da Silva, residente à Rua Clóvis Canedo,
QD. 07, LT. 33, ST Cristina, Trindade-
GO,

expondo e requerendo o seguinte:

1) Consta dos inclusos autos de inquérito policial


que, no dia 05 de outubro de 2015, por volta de 20hs e 10
minutos, na Fazenda Várzea das Emas, propriedade pertencente a
Márcio Antônio de Oliveira (qualificado à fl. 03) e ocupada
ilegalmente pelos denunciados e o vultoso grupo de sem terras
que eles lideram, NATALINO e DIESSYKA, acompanhados de um grupo
de pessoas não identificadas, mas que integravam o bando que
havia invadido a fazenda, privaram de liberdade, mediante
cárcere privado, as vítimas EDIVÂNIO MOREIRA BARROSO e MARIA
OLINDA MOURA VITORINO (qualificadas à fl. 28), resultando-lhes
tal privação, grave sofrimento moral.

Os ofendidos são marido e mulher e trabalham como


caseiros da fazenda Várzea das Emas. Naquela noite, utilizando-
se de um veículo Fiat Uno, foram até o barracão da propriedade,
com o intuito de buscar algumas ferramentas destinadas à
manutenção do pivô de irrigação da fazenda.

Lá chegando, foram abordados por várias pessoas das


quais estavam acampadas ilegalmente na fazenda e que integram o
“Movimento Sem Terra”.

O grupo, empunhando armas brancas, começou a gritar,


raivoso, dizendo que mataria o ofendido EDIVÂNIO. Ainda, diziam:
“VAMOS TE CORTAR COM O FACÃO E JOGAR SAL”.

Na oportunidade, os acusados NATALINO e DIESSYKA,


acompanhados de comparsas não identificados, mantiverem os
ofendidos cercados e privados de liberdade, dentro do barracão
da fazenda, por aproximadamente 40 (quarenta) minutos, intervalo
de tempo durante o qual os acusados e os comparsas proferiram
ameaças incessantemente, inclusive de morte e de prática de
lesões, descrevendo os requintes de crueldade que empregariam, o
que causou nas vítimas grave sofrimento moral.

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2) No dia 17 de março de 2016, por volta de 15 horas


e 30 minutos, também na Fazenda Várzea das Emas, LUIS e
DIESSYKA, em companhia de cerca de 10 (dez) pessoas não
identificadas, mediante grave ameaça e com emprego de armas
brancas e restrição de liberdade, subtraíram uma caminhonete
Ford/F4000, placas KBA-8406, pertencente a JOSÉ BARBOSA DANTAS
(qualificado à fl. 17).

Nesse dia, a vítima e mais quatro ajudantes seus


realizavam serviço de limpeza na fazenda mencionada, quando
percebeu que um deles havia sido abordado por LUÍS, que o
questionou por “ordem” de quem estava fazendo aquele serviço.

Nesse momento, a vítima José Barbosa parou a


caminhonete, desceu da mesma e explicou que foi contratado pelo
proprietário da fazenda.

Em seguida, LUÍS e mais dez homens dos “sem terra”,


armados com facão, cercaram a vítima e seus ajudantes, dizendo
que eles desceriam para o acampamento “por bem ou por mal”.

Sentindo-se ameaçada, a vítima e seus ajudantes os


acompanharam, sendo ela obrigada a dirigir sua caminhonete sob
vigilância dos integrantes do grupo, tendo ido várias
motocicletas na frente e várias outras atrás do veículo. Ainda,
foi acompanhada por vários membros que estavam na carroceria da
caminhonete “escoltando” seus ajudantes.

Chegando no acampamento, a vítima e seus ajudantes


foram obrigados a descer do veículo e foram cercados por
aproximadamente 1000 pessoas que integram o movimento. Enquanto
LUÍS pegou a chave da caminhonete e informando que se reuniriam
para decidirem o que fariam com ela.

Ato contínuo, DIESSYKA disse para amarrar a vítima,


tendo ela informado que não havia necessidade e que não possuía
vínculo empregatício com o proprietário da fazenda. Então, a
vítima foi obrigada a mostrar o documento do veículo.

Durante o tempo em que ela permaneceu privada de sua


liberdade, a vítima foi ameaçada de morte, sendo liberada
somente depois que LUÍS e DYESSIKA verificaram que o veículo em
questão pertencia de fato a ela e não a Márcio Antônio de
Oliveira, proprietário da fazenda.

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Apesar de a vítima ter sido liberada, a caminhonete


dela continuou em poder dos denunciados, sendo recuperada
posteriormente, graças ao trabalha da Polícia Militar.

3) No mesmo dia, por volta de 16 horas, na Fazenda


Várzea das Emas, o denunciado NATALINO, acompanhado de vários
integrantes do mesmo grupo, mediante grave ameaça e violência e
com emprego de armas brancas, subtraiu, uma máquina agrícola
denominada pulverizador, pertencente a MÁRCIO ANTÔNIO DE
OLIVEIRA (qualificado à fl. 03), figurando como vítima JHON LENO
MARTINS OLIVEIRA (qualificado à fl. 14).

Naquele dia, Jhon Leno, que é empregado da fazenda


mencionada, aplicava veneno em uma área distante 5 km do local
onde os “Sem Terra” estavam acampados, momento em que percebeu
uma movimentação de pessoas na estrada e decidiu voltar para a
fazenda.

Quando retornava, foi cercado por várias


motocicletas, carros e caminhonetes conduzidos pelos integrantes
do movimento, que portavam podões.

Ato contínuo, o denunciado NATALINO e seus comparsas


derrubaram a vítima da máquina agrícola, arremessando-a ao chão,
bem como os pertences dela.

Com a vítima caída, NATALINO e os demais começaram a


empurrá-la de um lado para outro, tendo um deles a ameaçado com
um podão, ao passar o objeto próximo do seu rosto.

Enquanto ameaçavam a vítima, NATALINO e os demais,


diziam que “picariam” Márcio Antônio com podão.

Após subtraírem a máquina agrícola, NATALINO


determinou que um de seus comparsas a levasse para o acampamento
deles e que ateasse fogo nela.

Em seguida, a vítima foi liberada e escoltada por


“sem terras”, que a todo tempo a ameaçavam.

4. Consta, ainda, que na Fazenda Várzea das Emas,


NATALINO e vários integrantes do movimento “sem terra” causaram
incêndio, expondo a perigo o patrimônio de MÁRCIO ANTÔNIO DE
OLIVEIRA (qualificado à fl. 03).

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Verificou-se que após a subtração da máquina


agrícola, anteriormente mencionada, NATALINO e seus comparsas a
levaram para o local onde estavam acampados e atearam fogo na
mesma.

05. Por fim, consta que desde meados do mês de agosto


de 2015, até os dias atuais, os denunciados JOSÉ VALDIR
MISNEROVICZ, LUIS BATISTA BORGES, DIESSYKA LORENA SANTANA SOARES
e NATALINO DE JESUS, constituíram e integram, pessoalmente,
organização criminosa.

Apurou-se, com a instauração do presente inquérito


policial, que os quatro denunciados são integrantes do
“Movimento Sem Terra”, sendo o primeiro deles o coordenador das
ações praticadas pelo grupo, inclusive em todo o estado de
Goiás.

Trata-se de um ajuntamento de aproximadamente mil


pessoas, que atendem ordens informais dos líderes do movimento,
e que têm se valido da prática dos diversos crimes ora narrados,
para obterem vantagem indiretamente. Isso porque pretendem
forçar o governo a criar para eles, no local invadido, um
assentamento rural, sem o preenchimento dos requisitos legais
pertinentes.

JOSÉ VALDIR participou de uma reunião em Goiânia,


representando o grupo acampado nas fazendas de Márcio Antônio de
Oliveira, e deixou clara a intenção de se retirar das terras
invadidas, para reinvadi-las em seguida, contrariando ordem
judicial de desocupação. Tanto é, que dias depois da
desocupação, os “sem terra” retornaram para as fazendas de
Márcio Antônio e montaram novamente acampamento.

06. Assim agindo, os denunciados JOSÉ VALDIR


MISNEROVICZ, LUIS BATISTA BORGES, DIESSYKA LORENA SANTANA SOARES
e NATALINO DE JESUS, invadiram, com violência contra alguns
empregados e grave ameaça a MÁRCIO ANTÔNIO DE OLIVEIRA, mediante
concurso de pessoas, terreno, para o fim de esbulho possessório.

Ante o exposto, o MINISTÉRIO PÚBLICO denuncia:

JOSÉ VALDIR MISNEROVICZ, como incurso no art. 2º, §


3º, da Lei nº 12.850/2013 e art. 161, inc. II, do Código Penal;

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LUIS BATISTA BORGES, como incurso no art. 2º,


“caput”, da Lei nº 12.850/2013, art. 161, inc. II, do Código
Penal e art. 157, § 2º, incs. I e V, do Código Penal;

DIESSYKA LORENA SANTANA SOARES, como incursa no art.


2º, “caput”, da Lei nº 12.850/2013 e art. 161, inc. II, do
Código Penal, art. 148, § 2º, do Código Penal e art. 157, § 2º,
incs. I e V, do Código Penal; e,

NATALINO DE JESUS, como incurso no art. 2º, “caput”,


da Lei nº 12.850/2013 e art. 161, inc. II, do Código Penal, art.
148, § 2º, do Código Penal, art. 157, § 2º, inc. I e art. 250,
“caput”, do Código Penal,

requerendo que, recebida e autuada esta, sejam os


mesmos citados para se verem processar, até final decisão
condenatória, ouvindo-se as testemunhas do rol abaixo e
cumprindo-se as formalidades do rito legalmente estabelecido ao
caso.

Santa Helena de Goiás, 06 de maio de 2016

JULIANA GIOVANINI GONÇALVES


Promotora de Justiça

SERGIO LUÍS DELFIM


Promotor de Justiça

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ROL DE TESTEMUNHAS:

01. Márcio Antônio de Oliveira (vítima), brasileiro, divorciado,


agropecuarista, residente na Rua Alzira Maria da Silva, nº 136,
Centro, Santa Helena de Goiás-GO;

02. Jhon Leno Martins Oliveira (vítima), brasileiro, casado,


residente na Avenida Jatobá, Qd. 33, Lt. 12, Bairro Rodrigues,
Santa Helena de Goiás-GO;

03. José Barbosa Dantas (vítima), brasileiro, solteiro,


residente na Rua 02, Qd. 07, Lt. 07, Conjunto Nossa Senhora
Aparecida, Santa Helena de Goiás-GO;

04. Edivanio Moreira Barroso (vítima), brasileiro, amasiado,


caseiro, residente na GO 210, Fazenda Vargem das Emas, Zona
Rural de Santa Helena de Goiás-GO (próximo a granja);

05. Maria Orlinda Moura Vitorino, brasileira, amasiada, caseira,


residente na GO 210, Fazenda Vargem das Emas, Zona Rural de
Santa Helena de Goiás-GO (próximo a granja);

06. Cléber Martins da Cunha, brasileiro, casado, residente na


Avenida Jatobá, Qd. 33, Lt. 12, Bairro Rodrigues, Santa Helena
de Goiás-GO ou Rua João Antônio Lourenço, nº 637, Bairro
Arantes, Santa Helena de Goiás-GO.

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JULIANA GIOVANINI GONÇALVES


Promotora de Justiça

SERGIO LUÍS DELFIM


Promotor de Justiça

Inq. Pol. n° : 201601423823


Indiciados : José Valdir Misnerovicz e outros
Vítimas : Márcio Antônio de Oliveira e outros

Meritíssimo Juiz,

a) Segue denúncia contra os indiciados;

b) A Autoridade Policial relatou que no dia


07/10/2015 um homem invadiu o escritório da esposa da vítima,
alegando ser “oficial federal” e informando que estava em
investigação ao marido dela, pois esse seria primo do juiz e
teria alguns privilégios. Ainda, segundo consta, referido homem
proferiu as seguintes ameaças a Márcio Antônio de Oliveira: “que
pegasse sua família e viajasse para longe, que saíssem da
cidade, que seria melhor para eles”.

Apesar de ter sido registrado Boletim de Ocorrência


para apurar os fatos, nada foi apurado, já que sequer consta o
nome da pessoa que supostamente proferiu a ameaça.

Da mesma forma, consta que no dia 30/12/2015,


Edivanio, conduzindo uma motocicleta e prestando apoio ao pivô
de irrigação, avistou um veículo VW/Gol, de cor branca, que foi
em sua direção.

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Em determinado momento, os ocupantes do veículo


passaram a efetuar disparos de arma de fogo na direção dele.
Edivanio chegou em casa, pegou sua esposa e abandonou o local,
escondendo-se em uma mata.

Essas pessoas pararam nas proximidades da porteira da


entrada da sede da fazenda, tendo Edivanio acionado a Polícia
Militar, porém, não foram localizadas.

Por tal fato, também foi registrado Boletim de


Ocorrência, sem contudo, ter sido apurado quem foram os autores
dos disparos.
Também consta que, nos dias 27/01/2016 e 1º/02/2016,
várias pessoas lideradas por Luís Batista Borges impediram o
início do plantio no local e incendiaram adubos que seriam
utilizados. A Polícia Militar foi acionada, mas como havia mais
de 350 pessoas no local, não interferiram.

Contudo, não há elementos suficientes para


oferecimento da denúncia.

Sendo assim, em relação a esses três fatos aqui


explanados, sem indícios de autoria, torna-se, ao menos por
enquanto, impossível a tomada de qualquer providência pelo
Ministério Público.

No entanto, nada impede que, após a conclusão das


investigações, e com dados mínimos para a persecução penal, o
Ministério Público intente ação penal contra os responsáveis
pelos crimes mencionados.

Assim, aguarda o Ministério Público a conclusão das


investigações aos fatos mencionados, para tomada de providências
cabíveis.

Santa Helena de Goiás, 06 de maio de 2016

JULIANA GIOVANINI GONÇALVES


Promotora de Justiça

SERGIO LUÍS DELFIM


Promotor de Justiça