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Título: O Amor

Enxuga as
Lágrimas
Autor: Espírito
Irmão Ivo
Médium: Sônia
Tozzi
Páginas: 258

Sinopse:
Com "O Amor Enxuga as
Lágrimas", o espírito Irmão
Ivo nos ensina, com
sensibilidade e emoção, que
as perdas de entes queridos,
principalemente filhos, não
devem ser encaradas como
castigo ou injustiça de Deus
que conosco, mas sim como
sublimes oportunidades de
elevação espiritual e trabalho,
pois a vida continua, ninguém
morre e esses espíritos tão
queridos estarão sempre ao
nosso lado, compartilhando
alegrias e conquistas para
uma vida feliz.

Dedicatória
Este livro é dedicado
especialmente àquelas
pessoas que sofreram
separações dolorosas e que
encontraram ou encontram
dificuldades em aceitar a
vontade de Deus; e também
aos irmãos que, obedecendo
às leis divinas, não sofreram
ainda separações marcantes
e, em conseqüência disso, não
podem avaliar o tamanho
dessa dor.
Com certeza aqui encontrarão
ensinamentos que os ajudarão
a compreender o sofrimento
alheio e a aceitar a própria
dificuldade.
Dentro dessa conscientização,
entenderão que nossa vida se
desvia da rota traçada por
nós, sem que possamos
impedir isso, cumprindo a lei
de causa e efeito.
Aceitar essas mudanças é o
grande aprendizado da vida, e
essa aceitação está
relacionada à aceitação do
amor universal.
Que Jesus abençoe a
humanidade.
Irmão Ivo
Para
um
filho
ausent
e
Como vai você, que partiu
sem me dizer adeus.
Quisera neste instante saber
da sua vida
Na Espiritualidade;
Seu trabalho... Suas
conquistas... Sua paz!
Ah! Se eu pudesse lhe dizer
agora
Que fui o alvo perfeito da dor;
Meu peito atingido só pôde
encontrar alívio
Nas palavras mansas do
Cristo,
E na certeza da continuação
da vida.
Como vai você, parte de mim?
Que distância é essa que
maltrata e parece não ter fim!
Que dor é essa que cresce a
cada instante
Sem dar trégua ao meu
coração sofrido,
E fere minhas entranhas!
O que faço com esse vazio
que teima em me envolver!
Como vai você, filho da minha
alma?
Eu... Você... Quer saber de
mim?
Ah! Eu sou alguém ferido que
mal suporta a fúria desses
Vendaval,
Mas se segura no amor de
Deus,
Para continuar existindo.
Eu sou alguém que se
apaga... Para que você brilhe;
Que se curva ante a vontade
suprema de Deus
E espera com fé e confiança
A chegada do reencontro
Que se dará... Em algum
lugar do futuro!
Homenagem da médium
Sônia Tozzi para seu filho
Ricardo Luiz, desencarnado no
dia 11 de outubro de 1989.

SUMÁRIO
Pref e
P
ácio N
Sepa S
A
raçã E
C
o A
A
dolo O
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rosa D
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Muit M
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saud A
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cami A
nho P
do
escla
reci
men
to
Venc
endo
a
mela
ncoli
a
Laís
Prefácio
Sinto-me profundamente lisonjeado por ter a possibilidade de prefaciar este
livro. Trata-se de uma deferência muito importante dada por Sônia Tozzi,
minha sogra. Essa escolha deve-se mais ao vínculo familiar que à qualidade
pessoal, pois todos somos aprendizes no que diz respeito aos ensinamentos
da Doutrina Espírita.
Quero, primeiramente, falar sobre as qualidades pessoais da autora. Ela
passou a se dedicar mais intensamente às letras mediúnicas após ter sofrido
a grande perda de sua vida, seu filho amado — Ricardo Luiz —, na época
com apenas vinte e seis anos de idade. Essa perda transformou totalmente
sua vida como acontece com a personagem Marília. Até então, Sônia
colaborava na qualidade de voluntária em entidades que atendiam às
gestantes desamparadas. A partir do desencarne de seu filho amado, ela
fundou sua própria entidade — Lar de Amparo à Gestante Ricardo Luiz —
com sede em sua residência, proporcionando amparo a centenas de
gestantes com cursos, enxovais e cestas básicas. Entregou-se completa-
mente a esse trabalho de fraternidade e solidariedade com a colaboração de
vários amigos. Tal trabalho vem sendo acompanhado pelas sessões
espirituais realizadas semanalmente, também em sua residência, com o
ensino da Doutrina Espírita segundo Alan Kardec. Suas obras sempre falam
de amor. Ela procura efetivamente aplicar seus ensinamentos na vida
prática. Trata-se de pessoa abnegada, que está sempre pronta para
amparar seus familiares, proporcionando-lhes todos os recursos
necessários.
Este livro — O Amor Enxuga as Lágrimas — alcançará, com certeza, um
grande sucesso. Tal romance narra à história de uma mãe que também
perdeu seu filho. Ela se vê diante de um sofrimento invencível e profundo.
Irmão Ivo nos ensina como superar esse sofrimento. Não se trata de uma
dor física, mas dor da própria alma. Como superar a dor da alma? Como
transformar a tristeza em alegria? Somente o amor ao próximo poderá
enxugar as lágrimas de nosso coração por meio do exercício da fraternidade
e da solidariedade. E o trabalho incessante e contínuo que nos
proporcionará a paz e o equilíbrio para continuar na caminhada da vida.
Irmão Ivo nos ensina ainda que haja várias formas de amor, mas que uma
não anula a outra, se verdadeira. É o encontro com Deus que nos fará
compreender esse amor sublime. A perda permite-nos crescer aos olhos de
Deus. "Tudo o que existe vem de Deus: nós viemos de Deus e é para Ele
que retornaremos; o Pai nos une e nos separa por um curto espaço de
tempo comparado à eternidade." Assim, quem não vem pelo amor, vem
pela dor. Só que a dor é o caminho mais longo para se chegar a Deus. Mas
é Ele que nos proporcionará a tão necessária evolução. Além disso, não
basta sonhar com um mundo melhor; é preciso participar de todos os
movimentos coletivos. É necessária a prática do amor fraternal (universal).
É necessário o desapego aos bens materiais e a transformação deles em
amor verdadeiro.
Precisamos, não há dúvida, realizar obras. Não estamos aqui para nos servir
dos prazeres do mundo, mas devemos ficar em constante sintonia com o
plano espiritual para melhor desenvolver nossos trabalhos que nos
propusemos a realizar quando para cá viemos. É preferível errar pela ação
que pela omissão. A médium, como se vê, conseguiu aliar a fé à suas obras,
observando que esse binômio indissociável deve pautar a obra de Deus.
Aprendi muito com a leitura contemplativa e refletida deste maravilhoso
romance. Ensinou-me o valor da vida. Esta vida relaciona-se com as demais
vidas que, por sua vez, transforma-se em uma intensa luz que nos
iluminará para toda a eternidade.
Luís Paulo Sirvinskas

SEPARAÇÃO DOLOROSA
Quando a morte vem ceifar
nas vossas famílias
levando sem moderação as
pessoas jovens ao invés
das velhas, dizeis
freqüentemente: Deus não
é justo, uma vez que
sacrifica esse que é forte e
pleno de futuro, para
conservar aqueles que
viveram longos anos
plenos de decepções; uma
vez que leva aqueles que
são úteis e deixa aqueles
que não servem mais para
nada; uma vez que parte o
coração de uma mãe
privando-a da inocente
criatura que fazia toda a
sua alegria. Crede-me, a
morte é preferível para a
encarnação de vinte anos,
a esses desregramentos
vergonhosos que desolam
famílias honradas, partem
o coração de uma mãe e
fazem, antes do tempo,
branquear os cabelos dos
pais. A morte prematura,
freqüentemente, é um
grande benefício que Deus
concede àquele que se vai,
e que se encontra, assim,
preservado das misérias
da vida, ou das seduções
que teriam podido arrastá-
lo à sua perdição. Aquele
que morre na flor da idade
não é vítima da fatalidade,
mas Deus julga que lhe é
útil não permanecer por
mais tempo na Terra.
(Evangelho Segundo o
Espiritismo — Capítulo V,
item 21)
de três filhos - o mais velho
Madrugada fria de inverno. internado com pneumonia
A névoa envolvia toda a dupla e o motivo pelo qual
cidade emprestando-lhe um entravam no hospital àquela
ar melancólico. Apenas hora da madrugada -, e Inês,
poucos transeuntes se mãe de Marília.
arriscavam a caminhar por Sem demora estavam em
aquelas ruas desertas, frente à recepção solicitando
madrugada adentro informações. Paulo,
agasalhados por grossos adiantando-se à mulher e à
casacos de lã. sogra, e mal disfarçando a
As luzes dos postes pouco ou enorme ansiedade que lhe
nada clareavam sufocadas maltratava o peito, perguntou
pelo forte nevoeiro. Era a à recepcionista:
paisagem típica do inverno — Por favor, fomos chamados
rigoroso da cidade que todos pelo Dr. Rubens, em virtude
os anos era o responsável do agravamento da saúde de
pela morte de muitas pessoas nosso filho internado no CTI;
que viviam ao relento. poderia dar-nos maiores
Paulo estacionou o carro em informações sobre o estado
frente ao hospital, e do veí- dele?
culo saíram apressadas duas — Qual o nome do paciente? -
senhoras. Marília, a mais perguntou a recepcionista
nova, esposa de Paulo e mãe sem nenhuma emoção,
apresentando imunidade ao Subiram sem conseguir
sofrimento que presenciava esconder uns dos outros a dor
todos os dias. e o medo que os assaltavam.
— Fábio! - exclamou Paulo Assim que chegaram, o
com voz trêmula. médico foi ao encontro deles.
— Fábio de quê, senhor? Não puderam deixar de
— Fábio Dias... perceber o ar consternado do
— Um instante - respondeu a médico que, sabendo o
moça que os atendia. profundo desgosto que iria
Levantando-se foi ao telefone provocar naqueles corações
pelo qual se informou sobre o aflitos, tentava ser o mais
estado do garoto. Assim que prudente e cuidadoso
obteve a informação dese- possível.
jada, tornou a dirigir-se a — Boa noite, doutor!
Paulo. — Boa noite, Paulo.
— Por favor, queiram se — Então, doutor, o que está
encaminhar até o CTI onde o acontecendo com o nosso
médico os aguarda. menino?
— Obrigado! É no quinto — Ele... Ele... Morreu? -
andar, não? perguntou Marília abatida.
— Sim. Sigam pelo corredor à — Não - respondeu o médico
direita até o elevador; assim — ainda não, mas o estado
que saírem do elevador verão dele se agravou muito e
Dr. Rubens no saguão. devemos esperar pelo pior.
— Por favor, doutor, não fale seu organismo não responde
assim - sussurrou Marília, que mais às medicações e
mal conseguia disfarçar as tememos o pior.
lágrimas. — Por que, doutor, por quê? -
— Dona Marília, sinto muito falou Inês.
causar-lhe tanto sofrimento, — Porque os médicos podem
mas não posso omitir a muito, senhora, mas não
gravidade do estado de saúde podem tudo. A medicina não é
de seu filho. Estamos fazendo uma ciência exata, ela
todo o possível para salvá-lo. trabalha com seres humanos,
— Então faça o impossível! - e cada criatura, cada
gritou Marília sem se paciente, é um ser exclusivo e
controlar. responde ao tratamento de
— Senhora, não podemos acordo com essa exclu-
lutar contra a vontade de sividade. A senhora me
Deus. A medicina está muito entende?
adiantada, mas, mesmo — Tento, mas não consigo;
assim, às vezes, somos não quando meu coração não
impotentes para solucionar quer aceitar a razão.
determinados casos e Marília, adiantando-se,
situações. Acreditávamos que perguntou ao médico:
Fábio iria se salvar, que con- — Podemos vê-lo, doutor, só
seguiríamos reverter o por uns instantes?
quadro, mas, infelizmente, Dr. Rubens, tocado em sua
sensibilidade, respondeu qua- anos atrás, quando Fábio,
se paternalmente: chorando muito, entrava para
— Sim. Podem vê-lo, mas, o mundo dos encarnados.
por favor, um de cada vez. — Veja Paulo, como é lindo;
Será necessário que vistam as perfeito e lindo!
roupas adequadas. Venham! — É verdade, querida, hum...
Acompanharam doutor Vamos ver: vai ser enge-
Rubens. Marília foi a primeira nheiro como o pai!
a entrar. Aproximou-se do — Não senhor, nada disso: vai
leito de seu filho querido e ser médico! Sempre achei
chorou copiosamente. Fábio linda a medicina. O homem
estava em coma; os fica tão lindo de branco!
aparelhos ligados mantinham- — Mas o que é isso? - dizia
no ainda no mundo dos Dona Inês — A criança mal
encarnados. Ela sentiu que acabou de nascer e vocês
era só uma questão de poucas estão decidindo o que vai ser
horas e seu filho querido na vida! Que tal deixar que
partiria sem que nada se ela mesma resolva essa
pudesse fazer. Olhando questão no momento certo,
aquele rosto amado, as heim, papai e mamãe corujas
lembranças começaram a e apressados?
saltar ante seus olhos Todos riram felizes!
marejados de lágrimas. Marília olhava aquele corpo
Marília transportou-se para quase sem vida e parecia não
acreditar no que estava filho crescendo, correndo
acontecendo. Revia Fábio alegre pela casa,
alegre e expansivo; outras gesticulando; enfim, negava-
vezes sério, triste, ou então se a encarar a realidade dos
contando suas histórias e seus fatos.
ideais, sonhando com suas — Dr. Rubens, é melhor o
vitórias, e não conseguia senhor falar com ela, parece
entender nem aceitar a não ouvir nada do que digo.
realidade que estava vivendo: — Vou vê-la - respondeu o
— Meu Deus, ele é uma médico.
criança, quinze anos apenas. Aproximou-se de Marília e
Não conseguiu viver nenhum colocou lentamente o braço
dos seus sonhos, realizar seus em seu ombro. Ao perceber a
ideais de vida; enfim, não presença do médico, Marília o
viveu nada ainda e o Senhor o interrogou:
chama! Por que, meu Deus, — Dr. Rubens, pelo amor de
por quê? Deus, diga-me por que não
— Dona Marília, a senhora deu certo o tratamento,
está aí há muito tempo, é tantas pessoas se curam de
melhor sair para que seu pneumonia, por que
marido possa entrar - dizia a justamente meu filho não se
enfermeira. curou, o que faltou a ele?
Marília parecia nada ouvir. Medindo bem as palavras e
Apenas conseguia ver seu respeitando o momento de
intensa dor daquela mãe, Dr.
Rubens respondeu:
— Dona Marília, nada faltou a
seu filho. Tudo o que
podíamos fazer, fizemos, mas
a doença se complicou
agravando seu estado e
perdemos o controle sobre
ela, isso acontece. Os médicos
não podem tudo, temos
limitações apesar do avanço
da medicina, e, além disso,
acima da nossa vontade está
a vontade de Deus e,
acredite, será sempre como
Ele quiser, não importa se
queremos ou não.
— Mas não é justo, doutor!
— Deus é sempre justo. Dona
Marília, e um dia saberemos o
porquê do nosso sofrimento.
— Ele é apenas uma criança, um adolescente cheio de sonhos e
expectativas de vida, e agora... O nada para ele.
— O que disse Dona Marília, o nada?!
— Sim, o nada!
— Não fale assim. Sabemos que existe algo mais forte que o corpo físico
que, de verdade, é a essência, o ser em si. Temos de respeitar essa
entidade, pois é a nossa alma que, por graça divina, não morre, é
imortal. Esse ser, ao deixar o corpo físico, volta para seu lugar de
origem, o lugar onde fez por merecer. Não é o nada que aguarda nosso
querido Fábio, mas sim a vida em uma das muitas moradas na casa de
Deus. O nada não existe, Dona Marília, a vida ocupa todos os lugares.
— Mas nada vemos!
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— Porque são vidas microscópicas, e nossa visão é muito limitada. Nada
é vazio ou inútil na natureza, pois a vida se expande por todos os
lugares; nossa visão não a alcança porque temos a limitação da matéria.
Mas, por favor, Dona Marília, vamos sair para que seu marido também
possa vir vê-lo.
Como uma criança, Marília deixou-se conduzir até a sala de espera. Não
suportando mais a dor imensa que sentia, abraçou sua mãe e entregou-
se às lágrimas que caíram em um choro convulsivo, Dona Inês tentava
consolar a filha com palavras doces e confortadoras, mas para Marília
nada do que ouvia parecia fazer sentido, tudo soava vago e inútil.
Paulo, seguindo o médico, foi até Fábio. Ao ver o filho naquela situação
desesperadora, não se importou com a presença do médico e dos
enfermeiros, cobriu o rosto com as mãos e chorou.
— Sinto muito, Sr. Paulo, mas ninguém pode ir contra a vontade de
Deus. Se nosso Pai quer assim, temos de nos curvar à Sua vontade e
aceitar.
Paulo, ouvindo uma voz de mulher, virou-se e pôde observar uma
enfermeira de porte pequeno, olhos claros e rosto suave que
transparecia a bondade que lhe ia à alma. Experimentando o sentimento
de confiança, perguntou-lhe com a voz entrecortada pela emoção:
— Diga-me: o que eu poderia ter feito para merecer castigo tão cruel?
— Não sei Sr. Paulo, realmente não sei. Eu mesma me pergunto por que
um garoto tão jovem passa por momentos tão angustiantes; acho que a
resposta só Deus é quem sabe.
— É muito difícil aceitar a vontade de Deus nesses momentos, senhora...
— Mirtes! - Exclamou a jovem enfermeira, olhando penalizada para
aquele pai torturado pelo sofrimento.
Dr. Rubens, interferindo, pediu a Paulo que se retirasse e fosse juntar-se
à esposa na sala de espera. Concordando com a cabeça, Paulo foi ter
com Marília. As horas passavam lentas para aqueles corações
entristecidos que viviam a expectativa da separação.
A madrugada dera lugar ao amanhecer.
— Por que não vão para casa descansar um pouco, devem estar
exaustos - disse Mirtes.
— Obrigada - respondeu Marília. — Preferimos ficar aqui mais perto do
nosso filho.
— Pelo menos vão até a cantina do hospital tomar um café quentinho ou
um chocolate, vai fazer-lhes bem.
— Mais tarde iremos - respondeu Inês.
— Se precisarem de alguma coisa, saber notícias, é só tocar a
campainha que alguém virá atendê-los.
— Obrigada - responderam a uma única voz.
— Filha, vamos orar entregar nosso sofrimento nas mãos de Jesus.
Somente Ele poderá nos confortar.
— Mãe, por favor, nem Ele poderá tirar a dor que tenho dentro do peito,
ferindo meu coração.
— Não diga isso, filha, confie e ore para que a paz possa envolvê-la, não
permitindo pensamentos negativos que aumentarão ainda mais seu
sofrimento.
— Por favor, mãe, deixe-me quieta; só quero ficar quieta, só isso.
— Está bem, minha filha.
As horas foram passando, e nenhum dos três encontrava ânimo para se
levantar do lugar onde estavam. Dr. Rubens, aproximando-se, chamou-
os.
Levantaram-se ao mesmo tempo. Marília tremia toda, esperando ouvir a
terrível notícia, o que de fato aconteceu.
— Sinto muito dar-lhes essa notícia. Fábio deixou-nos e foi encontrar-se
com nosso Pai.
Sem que nada pudessem fazer, ouviram um grito, e Marília caiu
desfalecida no chão. Com presteza, Dr. Rubens atendeu-a. Compreendia
a dor alheia e respeitava a maneira com que cada um respondia às
agressões da vida, principalmente um sofrimento como esse. Apesar de
viver situações como essa desde que se formara médico, há vinte anos,
ainda vivia momentos de emoção sempre que se fazia necessário
comunicar fatos dessa natureza. Aprendera, em todos esses anos, que
não se pode tratar apenas um corpo físico, mas, sim, também da alma,
da essência divina que fazia parte daquele corpo; assim, com essa
consciência, cuidava dos seus pacientes com muito respeito e atenção,
para não cometer nenhum engano. Era estimado por todos que o
conheciam, principalmente por aqueles que dividiam com ele a bendita
tarefa de salvar vidas.
— Dona Marília, a senhora já se sente melhor?
— Sim, doutor, ou melhor, não, doutor, quer dizer... Não sei. Minha
cabeça está rodando e tenho a impressão de que vivo um pesadelo.
— Vou dar-lhe um remédio que vai auxiliá-la. Ficará bem.
— Meu filho, doutor! Não quero remédio, quero meu filho aqui comigo -
gritava Marília completamente descontrolada.
Usando de toda sua experiência como médico, acostumado a situações
como aquela, e compreensão, como espírita que era Rubens sentou-se
ao lado de Marília, Paulo e Inês. Sem deixar que ninguém percebesse,
por um segundo elevou o pensamento a Deus e solicitou, do Mais Alto,
proteção. Confiando que o auxílio viria, iniciou:
— Não quero tirar de vocês o direito de chorar e sofrer pela separação
de seu filho sei que é doloroso demais, mas também sei que, se
entregarem o coração machucado por essa dor, que fere e consome a
alma, a Jesus, com certeza sentirão força e coragem para suportar o
peso da ausência física.
— Não quero ouvir nada! Não me diga nada e, principalmente, não me
venha falar de Deus, de Jesus e sei lá o quê. O senhor fala assim porque
nunca perdeu um filho e não sabe o que é sofrimento de verdade.
Os olhos do doutor brilharam por conta das lágrimas que quase rolaram
por sua face, mas achando não ser o momento adequado preferiu nada
dizer sobre ele próprio, a dor que trazia dentro do peito. Segurou as
mãos de Marília e continuou.
— Por favor, Dona Marília, acalme-se e permita ser ajudada por aqueles
que lhe querem bem. Nosso Pai Maior não quer o sofrimento de
ninguém; se ofertar seu coração a Ele sentirá alívio para seu sofrimento
e esperança para continuar vivendo.
— Dr. Rubens, se Deus se importasse com o meu sofrimento, não teria
deixado morrer meu filho, um jovem de apenas quinze anos, na flor da
idade. Que Deus é esse, diga-me, que Deus é esse que fere sem dó o
coração de uma mãe?
— Querida - interveio Paulo — não blasfeme contra Deus. Você está sob
forte emoção, é melhor se calar e esperar seu coração se acalmar. Como
o doutor acabou de dizer, eu também acredito na bondade de Deus e na
Sua justiça.
— Deixem-me vocês todos; se não sofre pelo Fábio, Paulo, eu sofro e
minhas lágrimas demonstram o que sinto aqui dentro - dizendo isso,
Marília bateu com força em seu peito.
— Querida, pelo amor de Deus, não duvide do meu amor pelo nosso
filho nem do sofrimento que está queimando como brasa a minha alma,
mas nem por isso vou me voltar contra aquele que nos criou, porque sei
que somente Ele poderá me amparar nesse momento de tanta angústia.
Dona Inês, que até então tudo escutara calada, permitindo que lágrimas
sentidas descessem pelo seu rosto, abraçou a filha e lhe disse com voz
embargada pela emoção:
— Filha querida, confie em Deus. Precisamos confiar Nele para não
morrermos de dor; acalme-se e vamos orar pelo nosso querido menino.
— Não consigo nem quero orar, mãe. Já disse que quero meu filho,
quero meu filho, será que podem me entender! - exclamava Marília
completamente descontrolada.
Rubens sentiu que não era hora de falar mais nada, pois nada que
falasse Marília ouviria. Dirigindo-se a Paulo, disse-lhe constrangido:
— Podem ver seu filho, logo o levarão para o necrotério e o prepararão
para o velório. Se precisarem de mim é só mandar me chamar.
Fazendo um sinal, chamou Mirtes para que os acompanhasse. Paulo,
Marília e Inês aproximaram-se do corpo inerte de Fábio. A dor e o
desespero eram tão grandes que nem conseguiram perceber a
fisionomia serena do jovem. Marília, absolutamente desorientada,
debruçou-se sobre ele e deu vazão a sua imensa dor.
— Fábio, filho querido, volte para sua mãe, não me deixe, eu imploro
não me deixe sem você, ou então me leve com você...
Marília perdera completamente o controle de seu sofrimento e de sua
emoção. Por mais que Paulo e Inês tentassem, era inútil, pois ela não os
escutava. Mirtes delicadamente pegou-a pelo braço e pediu-lhe que a
acompanhasse, o que, inexplicavelmente, Marília o fez seguida pelo
marido e pela mãe. Seus olhos inchados e vermelhos traduziam sua dor.
Já na sala de espera, Mirtes perguntou-lhe se não queria ir até a capela
do hospital para conversar um pouco com Deus e pedir-lhe que a
confortasse naquele momento doloroso de sua vida.
— Já disse que não quero ir à capela alguma! - Marília respondeu aos
gritos. — Como pedir conforto a Deus se foi ele mesmo que me jogou no
fundo desse poço, tirando meu filho de mim sem a menor piedade,
dando-me tamanho sofrimento! Esse Deus é injusto, já disse, e não se
importa com o sofrimento de uma mãe!
— Não fale assim, minha filha, não se volte contra nosso Criador. Deus é
Pai misericordioso, devemos ter fé sempre, principalmente agora que
sofremos tanto.
— Não, mãe, não tenho fé. Não posso ter fé ou gratidão; tentei ser
caridosa, a minha vida inteira me esforcei para ser boa, orei com fé e
gratidão; enfim, tentei viver como uma cristã de verdade, e de que
adiantou se hoje sofro a dor pior que alguém pode sentir? Não quero
mais saber desse Deus impiedoso!
Paulo, apesar de padecer a mesma dor da esposa, tentava suportar com
coragem o difícil momento que vivia. Reunindo forças, disse-lhe.
— Querida, o fato de sermos bons e caridosos não nos isenta de
passarmos pelas provas da vida, de experimentarmos o sofrimento para
fortalecer a nossa fé e aprender a ser sensível ao sofrimento alheio.
Você foi tudo isso que acaba de dizer, mas foi tudo superficial.
— Superficial?! Por que diz isso, Paulo?

— Porque agiu como cristã enquanto sua vida transcorria sem nenhuma
anormalidade, nenhum sofrimento ou desgosto maior, e é muito fácil
acreditar e confiar em Deus quando temos a felicidade. O cristão de
verdade, aquele que crê realmente em nosso Pai que está no céu, jamais
o culpa pelo sofrimento que passa e, sim, apóia-se na fé e no amor de
Deus para suportar os grandes acontecimentos que marcam nossa vida
e enchem nossa alma de cicatrizes. O amor e a fé são reais quando
continuam existindo no instante em que Deus nos experimenta e nos
coloca à prova. Por favor, meu amor, mais uma vez eu lhe digo não se
volte contra nosso Pai, mas, sim, para Ele, com o coração aberto e
esperançoso, consciente de que somente o amor infinito de Deus poderá
acalmar nosso coração nos momentos difíceis. Mas lembre-se de que
isso só será possível se dermos essa chance para nós mesmos.
Paulo não percebia quanto estava amparado pelos espíritos benfeitores,
verdadeiros tarefeiros de Cristo que trabalhavam anônimos e incansáveis
nos hospitais, beneficiando com energia salutar os sofredores.
Marília ia responder, quando Mirtes veio informar-lhes que o corpo de
Fábio estava pronto, apenas aguardando as providências legais para ser
transportado ao velório. Foi então que Paulo se deu conta de que não
tinha providenciado nada nem avisado a família. Deixando sua esposa e
a sogra, saiu para tomar as medidas necessárias.
Dr. Rubens, em sua casa, tentava descansar um pouco para recuperar-
se da longa noite que passara no hospital. Homem que conhecia e vivia
a Doutrina Espírita, entregou-se silenciosamente ao Pai Maior e orou por
aquela mãe cujo sofrimento a impedia de raciocinar com lucidez e
permitia que o desespero envolvesse sua alma com a descrença. "Como
é fácil", pensava, "orar e dizer ao Pai: 'seja feita a vossa vontade aqui na
terra como no céu'; mas, quando a vontade divina vem se opor à nossa
esquecemos facilmente tudo que dizemos, que acreditamos e nos
entregamos à revolta e à descrença. É simples viver o Evangelho e
seguir as leis divinas quando todas as coisas acontecem conforme nosso
desejo, quando nada interfere na felicidade que vivemos, mas ao
primeiro sinal de que nossa vida pode mudar e percebemos que somos
impotentes para interferir e impedir os acontecimentos negamos tudo
que dizíamos acreditar. Que Jesus se apiede de nós, de todos nós", -
orava Rubens, "e que nos auxilie na compreensão da justiça divina".
Terminando suas reflexões, levantou-se, tomou um refrescante banho
para afastar o cansaço e seguiu no cumprimento de seu dever de médico
e de cristão.
Regozijai-vos ao invés de vos lamentar, quando apraz a Deus retirar um
de seus filhos desse vale de misérias. Não há egoísmo em desejar que
ele aí permanecesse para sofrer convosco? Ah! Essa dor se concebe
naquele que não tem fé, e que vê na morte uma separação eterna, mas
vós, espíritas, sabeis que a alma vive melhor desembaraçada de seu
envoltório corporal; mães sabeis que vossos filhos bem amados estão
perto de vós; sim, bem perto; seus corpos fluídicos vos cercam, seus
pensamentos vos protegem, vossa lembrança os embriaga de alegria;
mas também vossas dores desarrazoadas os afligem, porque elas
denotam uma falta de fé e são uma revolta contra a vontade de Deus.
Vós que compreendas a vida espiritual, escutai as pulsações de vosso
coração chamando esses entes bem amados, e se pedirdes a Deus para
os abençoar, sentires em vós essas poderosas consolações que secam as
lágrimas, essas aspirações maravilhosas que vos mostrarão o futuro
prometido pelo soberano Senhor (Evangelho Segundo o Espiritismo —
Capítulo V, § 21)

MUITA SAUDADE

Inês abriu a porta do quarto de Marília e o que viu deixou-a chocada e


apreensiva. A filha, ainda com a roupa de dormir, permanecia sentada
em sua cama, despenteada e olhando com um ar perdido a foto de
Fábio. Tão absorta estava que não se deu conta da presença da mãe.
Aproximando-se cautelosamente de Marília, Inês, apoiada pelo enorme
carinho materno, disse-lhe baixinho, tendo o cuidado de não assustá-la:
— Filha, minha querida filha, não fique assim; volte para o seu mundo,
para sua família. Paulo, André e Laís precisam de você, do seu carinho e
da sua atenção.
Soluçando, Marília respondeu:
— Não posso! Não posso viver sem o Fábio. Ele se foi há quatro meses,
são cento e vinte dias sem vê-lo, e isso está acabando comigo. Só tenho
vontade de morrer, ir me encontrar com ele. Por que Deus fez isso
comigo, mãe? Nada fiz para merecer castigo tão cruel.
— Marília, não fale em morte, fale em vida. Está se esquecendo de
André e Laís, são seus filhos também. Querem o seu amor e têm direito
a ele. Todos nós sabemos quanto é dolorosa a separação, mas temos de
continuar vivendo. O fato de tentarmos retomar nossas tarefas, nossa
rotina, não quer dizer que nos esquecemos do nosso Fábio. Ele está
presente em nosso coração e estará sempre, porque faz parte da nossa
vida, da nossa história, do nosso amor e nunca deixará de fazer. Se
Deus não nos levou, é porque ainda não acabamos nossa missão aqui na
Terra; o que necessitamos fazer é nos curvarmos ante a vontade de
Deus e aceitá-la, mesmo com o coração sangrando de dor.
— Não penso assim, mãe. Não me conformo e não quero ouvir nada,
quero apenas ficar com a minha dor e a minha saudade. Minha vida
acabou não tem mais sentido, e gostaria que parassem de tentar me
convencer que tudo é normal, que tudo será como antes, porque sei que
não será. Nunca mais volto a sorrir, ou melhor, a viver.
— Marília, já se passaram quatro meses e você nem um dia pensou em
André e Laís, em quanto os dois estão sofrendo e necessitam do seu
carinho de mãe, do seu abraço. Eles estão tristes e inseguros. O Paulo,
então, você não lhe dá a mínima atenção, não repara no esforço que ele
faz para que a paz volte a este lar. Está destruindo seu casamento, sua
família; não se arruma, não faz comida, enfim, parece mais morta que o
Fábio.
Marília sobressaltou-se:
— O que disse?
— O que você ouviu Marília; você parece mais morta que o Fábio.
— Por que está me falando desse jeito, mãe?
— Paulo e eu temos conversado muito com o Dr. Rubens, e ele nos
explicou muitas coisas que desconhecíamos. Tudo tão lógico, tão
coerente, que nós estamos nos apoiando nesses conhecimentos para
conseguirmos caminhar para o futuro.
— Quando a senhora diz que pareço mais morta que o Fábio está
querendo me convencer de que o Fábio ainda vive em outro plano, como
algumas pessoas acreditam?
— Exatamente, filha, é isso que estamos aprendendo com o Dr. Rubens,
que nos explica tudo como um verdadeiro pai.
— Mãe, isso não é coisa de gente ignorante?
— Não, Marília, isso é coisa de gente que confia e acredita no poder
absoluto de Deus e sabe que o Criador não iria destruir suas criaturas,
porque, se assim fizesse, não faria sentido tê-las criado.
— Mãe, vamos admitir que isso seja verdade; o que adianta existir em
outro plano se não posso vê-lo ou tocá-lo?
— Mas pode se confortar sabendo que seu filho amado continua
existindo, que não se acabou como algo sem importância.
— Fale um pouco mais - pediu Marília.
— Minha filha, não me sinto apta para lhe esclarecer muita coisa, falar
mais sobre o assunto, estou só começando, engatinhando nessa
Doutrina; somente Dr. Rubens poderia lhe esclarecer melhor sobre suas
dúvidas. Por que não se achega a nós para aprender também?
— Não sei mãe, essa religião me parece tão absurda tão doida.
— Engano seu, Marília, seus ensinamentos são baseados no Evangelho
de Jesus; Paulo e eu percebemos tanta coerência que estamos dispostos
a aprender cada vez mais.
— Mas o que ela ensina de tão importante?
— Vou lhe responder com o pouco que sei, mas esse pouco já penetrou
em meu coração. Ela nos ensina que somos seres imperfeitos e que
viemos ao mundo para aprender a amar, por isso devemos lutar contra
nossas imperfeições por meio do amor ao semelhante, da prática da
caridade, da solidariedade com nossos irmãos que passam por situações
difíceis e conflitantes; enfim, devemos
tentar nos harmonizar com as leis divinas.
— Mas o que tem isso com o fato de a senhora dizer que o Fábio existe
em outro plano?
— Marília, vamos fazer o seguinte: não estou pronta para esclarecer
nada porque o que aprendi é ainda muito pouco para que eu cometa a
imprudência de tentar ensinar alguma coisa a você ou a qualquer outra
pessoa. Amanhã é sábado, o dia em que o Dr. Rubens nos visita desde a
partida do Fábio; por que você não participa desse encontro?
— Dr. Rubens vem aqui todos os sábados?
— Sim!
— Como nunca soube disso, mãe?
— Porque há quatro meses você não sai desse quarto, não presta
atenção em nada do que acontece em seu lar; enfim, não se preocupa a
não ser com você mesma e com essa dor que você teima em achar que
é exclusiva sua. Se notasse um pouquinho mais seu marido, perceberia
quanto ele está magro e abatido, mas, ao contrário de você, luta para
dar ao André e à Laís o lar de que eles precisam e têm direito.
— Mãe, não fale assim comigo, eu deixei de viver!
— Marília, ouça-me: não se mede a dor com fita métrica. Ela não é
maior só porque quem a sente se entrega à apatia, à melancolia e ao
medo de enfrentar a realidade; isso é fraqueza, falta de fé. Nem sempre
aquele que chora copiosamente é o que mais sofre; devemos respeitar a
maneira de cada um de vivenciar sua dor, portanto respeite seu marido
e seus filhos.
— A senhora nem parece minha mãe, não me compreende!
— Ao contrário, por ser sua mãe e amá-la tanto é que quero ajudá-la a
voltar à vida, entregar-se de novo àqueles que a amam e sofrem com
sua distância.
— Está bem, mãe, sábado, quando o Dr. Rubens estiver aqui, pode me
chamar, quero participar desse encontro, vou ouvir o que ele lhes diz.
— Filha! Que alegria me dá!
— Mas agora, por favor, deixe-me com minhas lembranças e com
minhas lágrimas.
— Outra vez trancada no quarto, vó?
— Venham cá - e Inês abraçou os netos — Não chorem, tudo vai dar
certo. Jesus há de trazer sua mãe de volta para nós.
—Tomara vó, tomara que isso aconteça - disse André.
— Mamãe só pensa no Fábio, esquece que eu e a Laís estamos aqui ao
seu lado e precisando muito dela. Também estamos sofrendo.
— Eu sei meus queridos, a vovó sabe!
— Tenho pena do papai - falou Laís com sua vozinha doce. — Outro dia
eu o vi chorando no escritório.
— Por que mamãe é tão diferente do papai?
— Porque não somos iguais, André. Não vamos julgar as atitudes de sua
mãe, ela precisa de ajuda e nós vamos ajudá-la. Devemos respeitar as
limitações e as fraquezas dos outros. Tudo dará certo. Vamos confiar em
Deus.
— É, vó, mas vou lhe dizer uma coisa, não é porque não choro o dia
inteiro que não sinto saudades do meu irmão - exclamou André. — Ele
me faz muita falta.
— Eu também, vó - repetiu Laís —, sinto muita saudade do Fábio.
— Eu sei meus netinhos, todos nós estamos sofrendo muito, mas temos
de ter muita fé em Deus e confiar que esse sofrimento vai se acalmar
um dia. Agora, digam-me, o que querem para o lanche?
— Eu quero cachorro-quente! - exclamou André.
— Eu também, com bastante molho e coca-cola, ta bom?
— Ta bom - repetiu Inês — imitando a vozinha de Laís. Abraçou-os com
muito carinho e levou-os para a cozinha para servir-lhes. — Quem comer
tudo, sem confusão, poderá tomar sorvete. Que tal?
— Oba! - exclamaram juntos André e Laís.
Passaram-se alguns instantes, e Paulo apareceu à porta:
— Por favor. Dona Inês, a senhora poderia vir até o meu escritório? -
perguntou com voz cansada.
— Claro, Paulo, estou indo! Crianças sirvam-se à vontade, mas não
desperdicem. Evitem fazer barulho, papai parece cansado. Vovó não
demora.
— Entre, Dona Inês, e sente-se.
Aceitando a sugestão do genro, Inês muito à vontade entrou e se
acomodou em uma cadeira em frente a ele.
— Diga-me: o que está preocupando você, Paulo?
— Dona Inês, não sei mais o que fazer. Marília não melhora, e, o que é
pior, não faz nenhum esforço para isso. Não quer ajuda, ignora a mim e
aos filhos, não se importa com a casa nem com a aparência pessoal;
enfim, construiu um mundo só para ela e não nos permite participar.
Estou preocupado e sem saber como agir.
— Concordo com você, Paulo. Hoje mesmo tive uma conversa com ela.
Falei-lhe dos nossos encontros com o Dr. Rubens e pedi-lhe que
participasse conosco, quem sabe assim ela não consegue ir aos poucos
superando essa melancolia e voltando para nós.
— Fez muito bem em conversar com ela. Dona Inês. Ela aceitou?
— Para minha surpresa, sim. Disse para chamá-la assim que ele
chegasse. Estou esperançosa; hoje ela me fez muitas perguntas, mas
infelizmente eu não soube respondê-las adequadamente.
— Não importa. Dr. Rubens saberá aconselhá-la. Vamos deixar as
respostas para ele que é experiente e conhecedor do assunto. Mas que
bom que a senhora tocou nessas reuniões com Marília e ela aceitou.
Perdi meu filho e não quero perder também minha esposa.
— Tudo vai melhorar Paulo, vamos acreditar nisso.
— Acredito Dona Inês, e lhe agradeço por tudo que está fazendo por
nós.
— Não me agradeça Paulo, vocês são minha família, sofro com vocês e
sou feliz quando os vejo sorrir.
Paulo levantou-se e com carinho e profundo respeito depositou um beijo
nas faces de sua sogra. Esta, emocionada, só conseguiu dizer:
— Obrigada, meu filho, pelo seu carinho.
Os dois, sentindo-se amparados um pelo outro, foram ter com as
crianças.
A CAMINHO DO resposta positiva. É
ESCLARECIMENTO importante tomar cuidado
para perceber a bênção de
Deus em nossa vida, porque
É comum nos sentirmos Ele virá em nosso auxílio por
perdidos, sem coragem e, em diversas maneiras.
muitos casos, desesperados, Com Marília não foi diferente.
quando somos visitados por Deus estava presente nas
acontecimentos que ferem a palavras de conforto,
nossa alma de maneira esclarecimento e esperança
profunda. Deus atua em ditas por Dr. Rubens a todas
nosso benefício sempre, as pessoas que, por um
principalmente nos momentos motivo ou outro, o
de muita dor e sofrimento. procuravam. O importante é
Devemos lembrar que, se que ela aprendesse a ouvir e
algum dia nosso coração abrisse o coração, em vontade
estiver desalentado, sofrido e e fé, para ser agraciada com a
desesperado, é necessário Bênção da paz.
prestar muita atenção porque, Sábado chegou, Inês e Paulo
de alguma forma, chegará até esperavam sempre com
nós a graça divina. Para cada ansiedade os momentos que
pensamento negativo que passavam conversando com o
cultivamos em nossa mente médico e amigo, pois era
Deus terá sempre uma nesses momentos que a paz
voltava a seus corações uma consideração sobre esse
machucados e a seu lar Deus que vocês dizem ser
entristecido. Assim que justo.
Rubens chegou, foi recebido — Querida, por favor, mais
com alegria, e mais felizes cautela. Nosso amigo acabou
ficaram quando Marília desceu de chegar - disse Paulo à
e se juntou a eles para par- esposa.
ticipar do encontro. — Não se preocupe Paulo,
Assim que todos se estou aqui para isso,
acomodaram, Marília, esclarecê-la em suas dúvidas.
precipitando, dirigiu-se de Pode dizer. Dona Marília,
imediato ao médico: estou ouvindo.
— Quero lhe dizer que o fato — Vou provar a vocês quanto
de eu estar aqui para lhe Ele é injusto. Vejam: deu para
ouvir não quer dizer que todos nós a memória, mas
aceito tudo o que fala, vim tira da nossa vida o ser que
mais para atender um pedido amamos, sabendo que iríamos
de minha mãe. recordar e sofrer. Não seria
Rubens esboçou ligeiro melhor não termos memória,
sorriso. Confiava na assim não sofreríamos tanto,
providência divina e sabia que pois não recordaríamos o
era um bom começo para passado?
Marília. Rubens, com toda prudência e
— De início gostaria de fazer compreensão, respondeu a
Marília. porque me deu memória. Ele
— Dona Marília, vou sabia que, no inverno, eu
responder-lhe narrando um poderia sempre recordar a
conto chinês, cujo autor me é primavera e sorrir."
desconhecido. Por favor, Rubens continuou:
preste atenção. Um velho — Dona Marília, se a senhora
sábio chinês caminhava por não tivesse memória, não
um campo de neve quando poderia recordar-se de seu
viu uma mulher chorando. filho, dos momentos felizes
"Por que choras?", perguntou que passaram durante todos
ele. "Porque me lembro do esses anos em que estiveram
passado, da minha juventude, juntos; seu sorriso, sua voz,
da beleza que via no espelho, seus olhos que a olhavam
dos homens que amei; eu ia com carinho.
recordar a primavera da Hoje, que o físico de seu filho
minha vida e chorar." O sábio não existe mais, não é
ficou contemplando o campo gratificante e consolador
de neve, com o olhar fixo em poder lembrar-se dele? Deus
determinado ponto. A certa não foi bom e generoso,
altura, a mulher parou de permitindo que ele ainda
chorar e perguntou: "O que permaneça em sua lem-
estás vendo aí?" "Um campo brança, trazendo-lhe de volta
de rosas", disse o sábio. os momentos felizes? E mais
"Deus foi generoso comigo sozinho aquele que não tem
nada para recordar. consciente os momentos
Calou-se e percebeu que os passados com ele, como a
olhos de Marília encheram-se dizer-lhe: "essa é a felicidade
de lágrimas. Com um jeito que agora pode ter, agarre-se
quase de criança assustada, à lembrança que lhe pertence,
aquela mulher sofrida disse- que é sua, traga-a junto ao
lhe como um pedido de ajuda: coração e encontrará a paz e
— Ainda não havia pensado o equilíbrio", mas tudo há seu
dessa maneira. Talvez o tempo. Dona Marília, porque o
senhor tenha razão. Cada vez tempo é o melhor consolo.
que me lembro do Fábio, sinto
um misto de tristeza e
felicidade, e incomoda-me
não conseguir entender o
porquê da mistura desses dois
sentimentos, principalmente a
felicidade. É possível isso?
— É natural que isso
aconteça, Dona Marília. A
separação ocorreu há muito
pouco tempo; a tristeza é
fruto dessa separação
dolorosa, e a felicidade é sua
essência, trazendo para o
— Mas eu não quero me que existindo pela eternidade.
esquecer do Fábio! se — Desculpe-me, Dr. Rubens,
— Não queira nem corra atrás tem mas fico pensando se o
do esquecimento, porque não .O senhor não fala assim porque
conseguiria, mas, para que am nunca passou por um
tudo possa acontecer com or tormento como esse.
equilíbrio, para que a senhora qua O rosto do médico se contraiu
e Fábio possam se harmonizar ndo em uma expressão de
é preciso que a lembrança ver angústia, mas, mantendo a
ocupe o lugar nobre do dad calma e o controle que lhe
coração; sentir a saudade que eiro eram peculiares, respondeu a
nasce do coração e do amor, não Marília.
e não do apego, da teimosia, se — Senhora, quem sabe um
do desespero; somente assim, retr dia não lhe conto a minha
somente por meio do amor ai história; talvez, quando
permitimos ao ser amado que dia souber, merecerei mais
se foi buscar da própria nte credibilidade em minhas
evolução e encontrar a paz. da palavras.
Quem ama deixa livre o ser dist — Por que não hoje?
amado para que ele não sofra, ânc — Desculpe-me, hoje não,
e entende que não temos a ia, outro dia qualquer, quem
posse de ninguém. O que une con sabe.
as pessoas realmente é a tinu Inês, tentando aliviar a tensão
afinidade espiritual e o amor a que percebeu no rosto do
amigo, perguntou. — como um homem
— Dr. Rubens, o senhor não Agr perfeitamente comum, assim
aceita uma bebida, café, ade como você, com defeitos e
suco? ço- qualidades, e que tenta
— Se não for causar-lhe lhe, melhorar a si mesmo. Quanto
incômodo, aceito um café. Pau à Doutrina, faz muito bem em
— Incômodo nenhum, é só lo, se interessar por ela, porque,
um instante. ma quando ela entra de verdade
Assim que saiu para buscar o s no coração do homem, leva-o
café, Inês olhou para o não a repensar seus valores e
médico e pensou no quanto sou suas atitudes diante da vida e
era uma alma nobre. Paulo, tão promover a reforma interior.
demonstrando a grande esp — Pronto, aqui está o
simpatia que sentia por esse ecia cafezinho, sirvam-se!
homem generoso, e disse-lhe: l — Hum! Que aroma gostoso!
— Dr. Rubens... assi — Obrigada, Paulo!
— Por favor, Paulo, apenas m. Marília permanecera calada
Rubens. Gos até então. Ignorou o café de
— Obrigado. Rubens, não tari Inês e, assim que viu Rubens
posso esconder a grande a terminar e elogiar o café
admiração que sinto por você que saboroso, perguntou-lhe sem
e cada vez interesso-me mais me fazer cerimônia.
por essa Doutrina que o fez viss — Dr. Rubens, posso fazer-lhe
um homem tão especial. em uma última pergunta?
— Claro, faça quantas quiser. pe mo espírito, não possui um
— É que, desde que Fábio se r- corpo de matéria como nós
foi, escuto falarem dele como feit encarnados; para que
se ele existisse em outro o, sejamos à semelhança do
lugar. Poderia explicar-me por oni Criador é fundamental que
que e como alguém pode pot tenhamos também um
existir se seu corpo foi ent espírito, infinitamente menor
enterrado aqui, e que lugar é e, e imperfeito, mas um espírito.
esse de que falam? oni Pois bem, para que esse
— Tenho enorme satisfação pre espírito pudesse vir a Terra e
em poder esclarecer suas sen ser visto, era necessário que
dúvidas, mas é necessário te, se revestisse de um envoltório
que seja uma de cada vez sob visível, que é o corpo de
para que tudo fique bem era carne, nosso corpo físico. A
compreendido. Para que todos no, partir do instante em que se
possam entender, é infi realiza a junção do espírito
necessário explicar quem nita com a matéria densa de
somos nós. me carne, tornamo-nos seres
Todos sabemos e aceitamos nte encarnados, mas sem perder
que Deus criou o homem à bo a condição de espíritos
Sua imagem e semelhança. me eternos criados à imagem e
Ninguém nunca viu o Criador just semelhança do Criador.
e, no entanto, cremos que Ele o. O corpo físico, assim como
seja um Espírito puro, único, Co qualquer matéria, se acaba,
volta à terra um dia quando me ar um pouco fantasioso, devo
acontece o desencarne, ou a faz reconhecer que existe lógica
morte como preferir; mas é er em tudo o que esclareceu.
somente a morte do corpo, ent Mas queria saber em que
porque o espírito não morre, end lugar ele está vivendo agora!
volta para uma das muitas er? — Dona Marília, como já
moradas no Reino de Deus, — disse, existem muitas
pois como espírito é eterno. Sim moradas na casa de Deus, e
Uma vez criado, jamais , cada um será atraído para
perecerá ou perderá sua ach aquela cuja afinidade for
individualidade, continuará o maior. A colheita é sempre
existindo pela eternidade. que proporcional ao plantio; a
Voltará a vestir o envoltório con morada de cada um será mais
carnal sempre que Deus achar seg ou menos feliz de acordo com
necessário para sua evolução ui o que cada um fez com a
retornar à vida física, por co oportunidade bendita de viver
meio da reencarnação. mp na Terra. Devemos nos
Fábio existe sim, somente seu ree esforçar para que nossa
corpo físico acabou; sua nde existência na Terra tenha
essência, seu espírito, está r. êxito.
vivendo a vida real na Ape — Eu sei, eu sei, mas o que
espiritualidade. Todos sar quero saber é do Fábio, onde
voltaremos um dia para nossa de ele está agora, o senhor não
verdadeira pátria. Consegui ach me disse.
— Não disse por que não sei. — oramos para alguém que se
Acredito que em algum lugar Mas foi e dizemos "Deus te
de paz ao lado de seus o abençoe", promovemos paz
familiares que o antecederam. que para aquele que partiu e para
Era um jovem e vivia dentro dev nós mesmos.
dos parâmetros da juventude em — Nossa, doutor, sinto-me
saudável e cristã. Creio eu os tão aliviada escutando suas
que possuía merecimentos faz palavras, nunca pensei que
para isso; mas nós aqui na er? conseguiria.
Terra não temos de nos - — Isso é muito bom e fico
preocupar muito com isso, e per feliz pela senhora, mas tudo
sim orar para que ele perceba gun precisa ser muito bem
a claridade divina e não entre tou compreendido e não
na revolta por ter Inê simplesmente aceito.
desencarnado tão jovem. s. Aconselharia a senhora a ler o
Nossas lágrimas — Evangelho Segundo o Espiri-
desarrazoadas tumultuam o Do tismo, com certeza vai lhe
espírito daquele que amamos na fazer muito bem, trazendo-lhe
e que partiu, trazendo-lhe Inê conforto, consolação e,
desconforto e desequilíbrio; s, principalmente,
em compensação, as orações se entendimento. Compreenderá
sinceras sempre produzem mp melhor que para aquele que
bem-estar e alívio para os re fica a tarefa não terminou e é
espíritos. que necessário fazer bom uso
dessa oportunidade de ainda cho s terrenos, e esperam
estar no mundo físico. ram também com ansiedade o dia
— Sim, farei isso! por do reencontro.
— Rubens, você poderia seu
elucidar-nos quanto às lem- s — Essa sua Doutrina é muito
branças naquele que partiu; o filh interessante - disse Paulo.
Fábio se lembra de nós, os Realmente é a única que traz
continua nos querendo bem? que conforto aos corações
— Com certeza, Paulo, não só par amargurados pela separação.
se lembra como sente tira — A consolação está na
saudades também, "essa m; palavra de Deus, dita aos
lembrança aumenta-lhes a eles homens por meio de seu filho
felicidade, se são felizes, e se con Jesus; basta prestar atenção
são infelizes serve-lhes de tinu nas máximas de Jesus para
alívio" am presentear a alma, libertando-
viv a dos pensamentos e
(Livro dos Espíritos — os sentimentos negativos. Quem
Capítulo VI — item IX — e se entrega à prática do bem e
pergunta 320). O am do amor ao próximo caminha
conhecimento disso deve and em direção à felicidade.
trazer alívio e consolação a o — Gostei muito de ouvi-lo,
todos que se separarem de seu doutor, fez-me muito bem,
seus entes queridos, s sinto meu coração mais
principalmente as mães que pai aliviado.
— Agradeço-lhe, mas na do esquecendo jamais de que
realidade isso aconteceu por- nos todos têm direito à casa de
que seu coração já ansiava so Deus. A lei de causa e efeito
por um alívio e a senhora dev se cumpre sempre. Dona
permitiu que minhas palavras er Marília, mesmo contra nossa
tocassem sua alma. em vontade.
— Tenho ainda dificuldade em rela Marília ia novamente
entender por que o Fábio foi ção questionar, quando este,
embora tão jovem. às levantando-se, disse aos
— Porque todos nós viemos pes presentes:
cumprir uma tarefa aqui na soa — Bem, já se faz tarde,
Terra e, ao terminar essa s preciso ir. Obrigado por esta
tarefa, o retorno se processa que tarde agradável que passei
para cumprir a lei. A causa nos junto a vocês. Semana que
real, só nosso Pai que está no rod vem se desejarem estarei
Céu tem conhecimento; para eia aqui novamente para
Fábio pode ter sido um me trocarmos idéias e
benefício, e para vocês, uma à conhecimentos. Até lá que
prova. Para que se passe no pró Jesus os proteja para que
teste é importante aceitar pria tenham uma semana
com dignidade, humildade e vid tranqüila.
respeito à vontade de Deus, e a, — Nós que agradecemos ao
a aceitação vem na não senhor pela amizade e
continuação do cumprimento se pa¬ciência com que nos ouve
e socorre - disse Paulo. — esp u amigo! Aquele que possui o
Saiba que esta casa é sua e írito coração cheio de amor para
só nos causa alegria sua pro dar ao próximo, sem nada
presença. teto pedir em troca, jamais viverá
— Muito obrigado, Paulo! r sem a misericórdia de Jesus.
Despediu-se dos amigos e se apr Seus pensamentos nobres e
retirou. oxi suas atitudes dignas o tornam
Ao alcançar a rua, Rubens, mo merecedor do amparo divino
com as mãos metidas nos u- e da companhia dos amigos
bolsos da calça, andava se espirituais que lhe querem
pensativo, chutando o nada, e bem. O perfume do respeito
tentando afastar as lhe com que trata as pessoas,
lembranças que, às vezes, ins pacientes ou não, transforma
teimavam em machucar seu piro seu lar em um oásis na Terra,
coração. u para que os espíritos do bem
— Meu Deus - pensava —, ao possam descansar de suas
dai-me equilíbrio para aceitar ouv tarefas na crosta. Siga em
sempre a vossa vontade sem ido: frente, querido amigo,
lamentar, e sustentar junto à "O continue presenteando seu
Isabela a prova penosa que que semelhante com esse amor
me deste. Tenho medo de cair é que transborda de seu
no desânimo, socorre-me! isso coração generoso.".
O coração sensível de Rubens ,
clamou por misericórdia. Seu me
Rubens, sentindo alívio e retomando seu bem-estar, dirigiu-se alegre para sua casa.
Enquanto isso, na casa de Paulo:
— Querida, o que achou? Gostou de ouvir as explicações de Rubens? Não faz bem
para nossa alma o que ele diz?
— Sim, Paulo, sinto-me mais leve e mais confortada.
— Ótimo querida! - exclamou Paulo sem esconder seu contentamento. — Sofro
muito em vê-la apática e infeliz.
— Você poderia trazer para mim o livro que o doutor mencionou como é mesmo o
nome?
— O Evangelho Segundo o Espiritismo! Com que prazer vou trazê-lo para você, meu
bem.
Os olhos de Marília brilharam agradecidos pela paciên¬cia e pelo amor de seu
marido. Pela primeira vez desde a desencarnação de Fábio, deu-se conta do quanto
havia relegado ao segundo plano o bem-estar de Paulo, André e Laís. Seu coração
apertou ao pensar nos filhos que ficaram, na maneira como os rejeitara, pensando
só em si mesma. Percebeu que não soubera se dividir, a ela importara apenas o que
sentia o que sofria e o que queria, sem se preocupar com os desejos e as
necessidades de André e Laís, duas crianças ainda, que sofriam pela perda do irmão
e pela indiferença da mãe.
— Meu Deus, o que fiz com a minha família! Quanto sofrimento causei a essas
crianças que não têm qualquer culpa do que aconteceu; são meus filhos, e eu
praticamente os aban¬donei. Meu Deus... meu Deus ajude-me a encontrar forças
para recuperar meu equilíbrio e fazer felizes as pessoas que eu amo e que me
querem bem.
Dizendo isso, ajoelhou-se e, sentindo novamente a con¬fiança no Pai Maior, orou
pela primeira vez desde a separação de seu filho. Seu pensamento fluía
naturalmente em direção ao Pai Celestial, confiante e angustiado. Assim que
terminou, levantou-se e caminhou em direção ao quarto das crianças. Vendo-os tão
tristes, deixou seu amor de mãe explodir e correu a abraçá-los, beijando-os com
ternura. Mãe e filhos choraram e sorriram juntos, certos de que a partir daquele dia
sofreriam muito, sim, mas estariam unidos pelo amor e esse amor daria suporte
para conviverem com a grande saudade que sentiam do querido Fábio. Assim que os
deixou, Marília foi até o escritório de Paulo. Ele estava sentado em frente a sua
escrivaninha; o rosto entre as mãos escondia a tristeza imensa que lhe ia à alma.
Marília aproximou-se devagar e com voz tímida e insegura disse ao marido:
— Paulo, me perdoe. Não fui capaz de compreendê-los nem perceber quanto vocês
também sofriam, mas hoje, depois de ouvir o Dr. Rubens dizer todas aquelas coisas,
fui perce¬bendo pouco a pouco quanto sou egoísta. Abandonei você e as crianças,
não me importei com o que minha mãe me dizia; nunca perguntei a nenhum de
vocês como estavam, do que necessitavam; enfim, abandonei minha casa e, creia,
aban-donei a mim mesma. Hoje consegui orar a Deus pela primeira vez, senti alívio,
uma paz acarinhou meu coração como se
fosse o Fábio a me beijar e me pedir que eu continuasse vi¬vendo. Tenho certeza
agora de que Jesus vai me auxiliar a passar por entre os espinhos sem destruir
minha alma.
Paulo interrompeu dizendo:
— Não se martirize Marília. Nós vamos ficar bem, todos ficam. Não somos os únicos
a passar por esse tormento e não seremos os últimos. O tempo se encarregará de
devolver-nos a paz perdida, e a alegria voltará ao nosso lar. André e Laís me¬recem
isso, devemos isso a eles que precisam de nós. Nosso tão amado Fábio ocupará para
sempre seu lugar em nosso coração e receberá sempre nosso amor e nossa
saudade, onde ele estiver.
— Só lhe peço que me perdoe e que tenha um pouco mais de paciência comigo. Não
me abandone, dê-me mais algum tempo; eu amo você e as crianças!
— Querida, nunca duvidei disso; darei o tempo de que você precisar. Nunca passou
nem vai passar pela minha cabeça abandoná-la, jamais faria isso, e se o fizesse, o
que faria com todo esse amor que sinto por você, diga-me? Só quero que lute por
você mesma, para vencer essa melancolia, esse desespero, para não cair na revolta
nem na depressão. Lembre-se de que o Fábio ficará feliz em nos ver bem e a
felicidade dele continua a ser importante para nós, não acha?
— Acho sim, Paulo. Agora aprendi que o equilíbrio daqueles que ficam é importante
para aquele que se vai, e nós queremos nosso menino indo em direção a Deus. Mas,
se eu cair novamente, ajude-me a levantar e me perdoe, sim?
— Venha aqui, minha querida!
Abriu os braços e colocou Marília sentada em seu colo. Abraçou-a com ternura e os
dois deixaram suas emoções, suas dores, suas angústias saírem de seus corações
em forma de lágrimas que se misturavam nos rostos de cada um. Inês, que viera
chamá-los para o jantar, parou e ficou olhando aqueles filhos queridos. Elevou o
pensamento ao Alto e orou ao Senhor, agradecida pelo reencontro daquele casal,
ainda jovem, mas tão machucado pelo sofrimento.

VENCENDO A MELANCOLIA

A vida na casa de Marília e Paulo continuava seguindo a rotina costumeira. Embora


Marília tivesse percebido o erro no qual caíra, e despertado pelas palavras de
Rubens, ainda não conseguia se equilibrar completamente. Paulo e Inês tratavam-na
com paciência e muito carinho; respeitavam suas limitações, sua insegurança e sua
brusca mudança de humor; passava do sorriso para as lágrimas com uma rapidez
que impressionava a todos. André e Laís, embora ainda crianças, cobriam-na de
carinho, falando-lhe palavras de amor e se esforçando para que a mãe sentisse o
menos possível a falta de Fábio. Inventavam brincadeiras, cantavam, enfim, faziam
o máximo que podiam para distrair a mãe, ajudando-a a sofrer menos.
Paulo olhava-os e pensava em quanto eram jovenzinhos e, no entanto, possuíam
tamanha força espiritual. Agradecia a Deus, em silêncio, por tê-los premiado com
filhos tão amorosos. Marília, por sua vez, sempre que os tinha por perto, abraçava-
os tão forte como se temesse perdê-los também.
— Mãe - dizia Laís nesses momentos —, a senhora vai me quebrar toda - o que fazia
Marília sorrir e beijar seu rostinho.
A menina, então, virava para seu irmão e dizia:
— Viu, fiz a mamãe sorrir!
Paulo e Inês conversavam sobre o comportamento de Marília, que os deixava
preocupados. Embora ela já tivesse assumido suas tarefas como mãe, esposa e
dona-de-casa, assustava-os a maneira diferente como passara a agir desde o triste
acontecimento.
— Sabe, Dona Inês, estou pensando em falar com o Rubens sobre esse assunto;
talvez ele recomendasse uma terapia para a Marília, não sei. O que a senhora acha?
— Concordo com você, Paulo. Sei que tudo faz para o bem de minha filha e sou
grata por isso. Pode ser que ela precise mesmo de alguém especializado para ajudá-
la. Faça isso, afinal, Dr. Rubens tornou-se nosso amigo e é um homem muito
generoso.
— Tem razão. Dona Inês, é um homem no qual podemos confiar, vou procurá-lo no
hospital hoje mesmo. Se eu me atrasar à noite, não se preocupe, estarei com ele.
— Vá sossegado, Paulo, tudo aqui estará bem.
— Obrigado, não sei o que teria sido de nós, principalmente das crianças, se não
fosse à senhora estar conosco esses meses todos.
— Por favor, não me agradeça, Paulo. Já lhe disse uma vez e repito novamente,
vocês são minha família e eu os amo.
Paulo, sensibilizado com o grande coração de sua sogra, deu-lhe um beijo afetuoso e
saiu para o trabalho.
Após a saída do genro, Inês subiu até o quarto da filha e encontrou-a lendo o
Evangelho Segundo o Espiritismo com o qual Paulo a presenteara, sob a indicação
de Rubens.
— Filha, não vai descer para tomar seu desjejum?
— Já vou mãe, um instante só.
Inês sentou-se ao seu lado e aguardou. Em dado momento Marília fechou o livro,
sem antes marcar com cuidado a página que lia e disse à sua mãe:
— Mãe, não sei o que faço!
— Sobre o quê, filha?
— Estava lendo no Evangelho sobre a melancolia, e aqui diz que devemos lutar
contra ela, mas, mãe, eu não consigo! Ela me bate tão forte que não tenho vontade
de fazer nada a não ser me entregar a esse sentimento que me deprime cada vez
mais.
— Por favor, filha, leia para mim o que está escrito aí, vamos pensar juntas.
— Está bem, mãe.
Marília iniciou a leitura. Percebendo o nervosismo da filha, Inês a interrompeu.
— Marília, leia mais pausadamente, sem ansiedade, para que possamos
compreender bem o ensinamento.
Marília respirou fundo e recomeçou.
— Sabeis por que uma vaga tristeza se apodera por vezes dos vossos corações e vos
faz achar a vida tão amarga! E o vosso espírito que aspira à felicidade e à liberdade
e que, preso ao corpo que lhe serve de prisão, se extenua em vãos esforços para
dele sair.
Mas, vendo que são inúteis, cai no desencorajamento, e o corpo, suportando sua
influência, a languidez, o abatimento e uma espécie de apatia se apoderam de vós,
e vos achais infelizes.
Crede-me, resisti com energia a essas impressões que enfraquecem a vossa
vontade. Essas aspirações para uma vida melhor são inatas no espírito de todos os
homens, mas não as procureis neste mundo; e, atualmente, quando Deus vos envia
seus espíritos para vos instruírem sobre a felicidade que vos reserva, esperai
pacientemente o anjo da libertação que deve vos ajudar a romper os laços que
mantêm vosso espírito cativo.
Lembrai-vos que tendes a cumprir, durante vossa prova na Terra, uma missão da
qual não suspeitais, seja em vos devotando à vossa família seja cumprindo os
diversos deveres que Deus vos confiou. E se, no curso dessa prova, e
desempenhando vossa tarefa, vedes os cuidados, as inquietações, os desgostos
precipitarem sobre vós, sede fortes e corajosos para os suportar afrontai-os
francamente, eles são de curta duração e devem vos conduzir para perto dos amigos
que chorais que se regozijarão com a vossa chegada entre eles e vos estenderão os
braços para vos conduzir a um lugar onde os desgostos da terra não têm acesso.
(Evangelho Segundo o Espiritismo — Capítulo V, §25). Então, mãe, o que achou?
— Marília, está tão claro, filha! Devemos lutar contra a melancolia, a tristeza e
aceitar nossa estada aqui, sem perder a fé em nosso Criador, mesmo, e
principalmente, quando somos atingidos por sofrimentos gigantescos, como o seu,
minha filha. A luta para o equilíbrio deve ser constante, ininterrupta, a consciência
sobre o porquê de estarmos na Terra e o que devemos fazer aqui, qual é a nossa
tarefa, não deve ser abafada por nossos desgostos, ao contrário, deve nos dar
forças para prosseguirmos na construção da nossa perfeição. Como diz o Evangelho
é necessário ter coragem e força para suportarmos as dores do caminho.
— Mas por que para mim é tão difícil?
— Por que você vai e volta Marília, ou melhor, dá para si mesma a oportunidade de
se melhorar, mas quando começa a galgar os primeiros degraus, recua e volta, com
medo de ser feliz novamente. As coisas quando se repetem é porque não as
aprendemos ainda, de verdade.
— Entendi o que a senhora quer dizer, mãe, mas o que devo fazer então?
— Ocupar-se, Marília, o trabalho é ótimo conselheiro. A ocupação dá alívio à nossa
mente e ao nosso coração, pois nos impede de achar que somos os únicos a sofrer
no mundo e tira de nós a tendência que o homem tem de se achar vítima. Quando
nos ocupamos, preenchemos nosso coração com a lei do trabalho e nos protegemos
de nós mesmos.
Marília, tentando mudar o assunto, perguntou:
— E Paulo, mãe?
— Já foi para o trabalho, avisou que chegará mais tarde hoje.
— Por quê?
— Irá até o hospital procurar o Dr. Rubens, deseja se aconselhar com ele.
— Aconselhar?! Sobre o quê, mãe?
— Não sei filha, assim que ele chegar com certeza dirá a você.
— Está bem!
— Você não vai descer tomar seu café, ajudar-me nos afazeres?
— Vou, mãe, vou sim. Espere só um instante que já desço.
— Aguardo você lá em baixo.
Dizendo isso, Inês desceu e foi até a cozinha.
Marília, aproveitando a ausência da mãe, retirou da gaveta da cômoda uma linda
foto de Fábio e, apertando-a contra o peito, chorou. Assim ficou perdida em suas
lembranças até que ouviu a voz de Inês chamando-a:
— Marília, desça!
— Estou indo, mãe!
Enxugou suas lágrimas, colocou a foto no lugar em que estava e desceu.
O dia passou sem novidades.
Assim que André e Laís chegaram da escola, Marília empregou todos os seus
esforços e se dedicou inteiramente aos filhos que, recebendo o carinho da mãe,
sentiram-se felizes. Enquanto Inês preparava a mesa para o jantar, o telefone tocou
e Marília o atendeu.
— Querida, estou aqui com o
Dr. Rubens e o convidei para
jantar conosco, algum
problema?
— Paulo, claro que não há
problema algum, é um grande
prazer para todos nós. A que
horas chegam?
— Por volta das vinte e trinta
- e, brincando, concluiu: —
coloca mais água no feijão!
— Vou colocar - respondeu
Marília também sorrindo. —
Mãe, o Paulo vai trazer o Dr.
Rubens para jantar conosco,
tudo bem?
— Claro, minha filha, não se
preocupe, temos peixe para o
jantar, acho que estará bem
para ele.
Organizaram melhor a mesa e
aguardaram a chegada de
Paulo e Rubens.
As vinte e quarenta e cinco,
Paulo e Rubens chegaram e
foram recebidos com alegria.
André e Laís já tinham se
acostumado com a presença
do amigo de seus pais e de-
monstraram isso dando um
gostoso abraço em Rubens,
que retribuiu com satisfação.
O jantar transcorreu com
harmonia. Todos se deliciaram
com o peixe tão bem
preparado por Inês.
— Parabéns, Dona Inês, a
senhora é uma ótima co-
zinheira, todos aqui devem
passar muito bem - brincou
Rubens.
— Isso é verdade - concordou
Paulo. — Minha sogra cozinha
como ninguém!
Assim que terminaram,
reuniram-se na sala de estar
e Paulo, sem nenhum
constrangimento, disse à
esposa:
— Querida, fui procurar nosso
amigo Rubens e pedi-lhe que
viesse vê-la, porque ando
muito preocupado com você.
— Comigo, Paulo?
— Sim, Marília, com você!
Paulo exclamou com voz
firme, mas dirigindo um olhar
carinhoso para a esposa.
— Paulo, diga-me, o que foi
que eu fiz para você se
preocupar assim comigo?
— Querida, ouça-me com
atenção: não é o que você
fez, especificamente, mas a
maneira como vem se
comportando. As suas
variações constantes e
repentinas de humor, enfim,
penso que você necessita
ainda ter uma atenção
especial; não quero que
adoeça.
— Como você é exagerado!
— Pode ser! Dr. Rubens
poderá me dizer se minhas
preocupações têm
fundamento ou não. Você se
importa de conversar com
ele?
— Evidente que não! Sinto-
me bem quando o ouço falar,
gosto de sua maneira
generosa de nos esclarecer.
— Pois bem. Dona Marília -
disse Rubens — gostaria que
me dissesse o que sente de
verdade, enfim, o que a faz
mudar de humor tão
repentinamente.
Marília abaixou a cabeça e
permaneceu assim por alguns
minutos. Após esse tempo,
olhou para o amigo e lhe disse
timidamente:
— Dr. Rubens, eu mesma não
sei. Tento me controlar, mas
não posso, é mais forte do
que eu é como se algo me
impedisse. Sinto um vazio tão
grande dentro de mim que
mal consigo raciocinar direito.
Calou-se e Rubens percebeu
um leve tremor em seus
lábios. Sentiu quanto àquela
mulher ainda sofria a falta de
seu filho. Apiedou-se dela e,
com sensatez, lhe disse:
— Dona Marília, imagino
quanto à senhora ainda sofre.
Sei da dificuldade que todos
sentem quando se separam
de seus entes queridos, mas
não se pode entregar à
melancolia e ao desânimo,
pois, se assim o fizer, logo
estará caindo em depressão.
É importante manter a
esperança e a fé no nosso Pai
que está no céu, porque é
nele que se deve buscar a
fonte da vida, a água
cristalina que equilibra nosso
corpo e acalma nossa alma.
Quando nos afastamos dessa
fonte de amor, estamos
impedindo a nós mesmos a
possibilidade de alcançar a
felicidade. Marília ouvia com
atenção as palavras do amigo.
Assim que ele deu uma
pausa, tornou a interrogá-lo.
— Dr. Rubens, tenho-lhe
muito respeito, carinho
mesmo pela pessoa boníssima
e generosa que o senhor
sempre demonstrou ser, mas,
às vezes, penso que, se o
senhor tivesse passado por
um sofrimento tão grande
como o meu, é possível que
não falasse ou pensasse
assim. Perdoe-me, mas é o
que penso.
— Não precisa se desculpar.
Dona Marília, não a culpo por
pensar dessa forma, mas,
quando me dirijo à senhora
ou qualquer outra pessoa que
sofre a dor da separação,
faço-o com muito respeito ao
sentimento que existe em seu
coração. Acredite se falo
todas essas coisas é porque
sei por experiência própria
que é possível recobrar o
equilíbrio, a paz e mesmo a
felicidade quando nos
entregamos ao Criador com
confiança e certeza do auxílio.
Passamos, então, a observar
as outras pessoas e
conseguimos perceber que a
dor não é propriedade nossa e
sempre haverá um caso mais
grave e alguém com uma
carga de sofrimento mais
pesado que o nosso.
— Como assim, doutor, não
entendi quando o senhor disse
por experiência própria.
Poderia explicar melhor?
— Claro Dona Marília! Uma
vez lhe disse que, quando
chegasse o momento certo,
lhe contaria minha história;
acho que a hora é esta.
— Verdade!
— Sim, se tiverem paciência
para me ouvir!
Paulo se dirigiu ao médico:
— Rubens, faça se achar
necessário, afinal, é sua vida
íntima que estará expondo
para nós. Quanto a ter
paciência para lhe ouvir, por
favor, tudo que queremos e
necessitamos é aprender com
o senhor.
— Pois bem, vou contar a
vocês minha história de vida,
creio que poderá auxiliar
Dona Marília a superar suas
ansiedades e angústias; é
bom quando conseguimos
aprender e aliviar nossas
tensões com as experiências e
atitudes alheias.
Rubens ajeitou-se na cadeira,
serviu-se de um pouco de
água que tinha à sua frente e,
acreditando realmente que
poderia ajudar Marília a
suportar com mais valentia e
coragem o momento delicado
que passava, iniciou seu
relato.
— Casei-me muito jovem com
a mulher que amava e que
sentia também por mim um
grande e sincero amor. Fomos
felizes durante muitos anos;
construímos nossa casa com o
esforço de ambos. Júlia era
fisioterapeuta e
trabalhávamos no mesmo
hospital, esse mesmo no qual
trabalho até hoje. Nosso
sonho de construirmos uma
família de verdade se realizou
com a chegada de Francisco,
Carlos e a pequena e meiga
Isabela. Supúnhamos que
ninguém poderia ser mais
feliz que nós dois. Amávamo-
nos como no primeiro dia em
que nos conhecemos; nossos
filhos eram lindos e
saudáveis; davam-nos todas
as alegrias que os pais
esperam receber de seus
filhos e por essa bênção
agradecíamos a Deus por toda
felicidade concedida a nós.
Quando completamos quinze
anos de casamento, resol-
vemos promover uma festa e
compartilhar nossa ventura
com todos aqueles que
queríamos bem e que
sabíamos nos querer também.
Júlia organizou a festa com o
maior cuidado e expectativa,
queria tudo perfeito para
receber nossos amigos e
familiares. No final da tarde,
disse-me que iria até a casa
da doceira buscar o bolo e os
doces encomendados, e
levaria os meninos para que a
ajudassem com a bandeja do
bolo, pois era grande e não
queria correr o risco de
quebrá-lo. Prontifiquei-me
para ir, o que ela recusou
dizendo que gostaria de
verificar se estava tudo
conforme o combinado.
Preferia que eu ficasse e fosse
colocando as bebidas e os
refrigerantes no gelo, e assim
foi feito. Passou-se mais ou
menos uma hora, uma hora e
meia e a campainha tocou.
— Dr. Rubens, por favor!
— Sou eu mesmo - exclamei
já um pouco apreensivo. O
que deseja senhor...
— Sargento Tomás, sou da
polícia e infelizmente não lhe
trago boas notícias.
— Pelo amor de Deus - disse
já completamente assustado
—, diga-me o que aconteceu,
por favor!
— Sua esposa sofreu um
acidente.
— Acidente?
— Sim, infelizmente seu carro
chocou-se com um caminhão
que ultrapassava um ônibus.
Não sabemos ainda o que
aconteceu, mas seu carro
ficou espremido entre os dois
veículos, causando a
destruição total do automóvel.
— Minha esposa e meus
filhos... eles... se
machucaram muito?
— Sinto muito lhe informar,
doutor, mas houve três
mortes, sua senhora e dois
meninos; a menina
conseguimos tirar com vida e
já foi encaminhada para o
hospital.
Nesse ponto Rubens mostrou
uma feição sofrida, trans-
tornada, transpirava muito e
parecia estar vivendo de novo
toda aquela situação de
completo sofrimento.
— Dr. Rubens - disse Inês —,
não seria melhor parar, essas
lembranças machucam muito.
Aceita um café, uma água?
Rubens parecia não ouvir as
palavras de Inês. Passou um
lenço sobre o rosto e
continuou:
— Esta é minha história. Dona
Marília, perdi minha esposa e
dois filhos na mesma hora e
no dia em que imaginávamos
ser só alegria.
— Desculpe-me, o senhor nos
disse ter tido três filhos, e a
menina?
— Minha pequena Isabela
nunca mais pôde andar, vive
hoje em uma cadeira de
rodas; ficou paralítica.
Paulo não conseguiu esconder
sua emoção, abraçou o
grande homem que via à sua
frente e sem esconder a
admiração lhe disse:
— E pensávamos ser os
únicos sofredores da Terra;
que pessoa nobre é o senhor!
Marília não pôde conter as
lágrimas.
— Diga-me, doutor, qual é a
idade de Isabela?
— Minha menina está hoje
com dez anos, Dona Marília,
tinha apenas cinco aninhos
quando tudo aconteceu;
Francisco estava com treze e
Carlos com dez.
— Ela mora com o senhor ou
está internada?
— Dona Marília, jamais a
internaria, ela mora comigo e
uma senhora que cuida dela
desde a época do acidente;
não poderia viver longe de
minha pequena Isabela, ela é
o meu referencial de
felicidade.
— Referencial de felicidade?
— Sim, Dona Inês, somos
felizes os dois porque nos
amamos muito e descobrimos
que a nossa felicidade apenas
mudou de roupagem e que
poderíamos voltar a pensar
em felicidade e em paz se
continuássemos a acreditar na
vida. Deus decidiu que
continuássemos apenas os
dois aqui na Terra, alguma
razão há de ter. Acatamos a
vontade Dele e procuramos
viver da melhor maneira que
podemos, sem deixar a
revolta se instalar em nosso
coração.
— Meu Deus, Dr. Rubens, o
senhor é realmente uma
pessoa especial! Estou
envergonhada, ensine-me a
reconquistar a minha paz -
disse Marília lacrimosa.
— Não precisa se sentir
envergonhada. Dona Marília,
cada um de nós tem um
tempo para se reequilibrar e
sair do lamaçal da dor. A
senhora reconquistará sua paz
se aprender que o amor
enxuga as lágrimas, e que é o
único sentimento que nos
mantém de pé e que nos faz
enxergar além de nós
mesmos. Nos primeiros
momentos após a trágica
separação de minha esposa e
de meus filhos, também me
senti perdido, angustiado,
como se me faltasse o chão
para pisar. Meu coração
estava machucado e cada vez
que olhava minha pequena
Isabela presa em uma cadeira
de rodas, sem nenhuma
chance de voltar a andar,
alimentava o desânimo, a
inconformação, enfim, não
entendia por que a felicidade
escapara de minha vida como
a água escorre por entre os
dedos, mas após quatro
meses do acontecido surgiu
em minha vida uma luz e eu
me agarrei a ela confiante,
segui de coração aberto a
orientação de amor e
reencontrei a paz.
Cada vez mais interessada,
Marília perguntou:
— Como assim, doutor, uma
luz, poderia explicar que luz é
essa?
— Claro que sim!
Fez uma pausa tentando
novamente controlar sua
emoção e retornou à
narrativa.
— Passados quatro meses da
separação, estávamos eu e
Isabela sentados na varanda
de nossa casa, recordando os
dias de intensa ventura que
havíamos vivido junto de
Júlia, Francisco e Carlos,
quando Isabela com os olhos
tristes me disse: "Papai, sinto
saudade da mamãe, queria
ficar no colo dela!" "Querida,
vem, fica no colo do papai!"
"Peguei-a com carinho e
cuidado e coloquei-a em meu
colo abraçando-a com
profundo amor. Isabela
aconchegou sua cabecinha em
meu peito, e eu, vendo aquela
criança tão pequena ainda,
frágil e presa a uma cadeira,
senti uma tristeza tão intensa,
como se todo o meu ser
estivesse mutilado, sem vida;
meus olhos não seguraram as
lágrimas e chorei
copiosamente agarrado à
minha filha. "Chora não papai,
eu "tô" aqui com você e não
vou te deixar nunca
mais!”Isabela demonstrava
uma força inexplicável para
seus cinco aninhos. Abracei-a
mais forte ainda e ela,
encostando novamente sua
cabecinha em mim,
adormeceu em seguida. Orei
a Deus pedindo força e
coragem para suportar
tamanha dor; de repente
senti uma leve vertigem e
ouvi uma voz que não sabia
de onde vinha me dizer:
"Transforme sua tristeza em
alegria"! "Minha tristeza em
alegria, impossível, jamais
terei alegria novamente",
exclamei mentalmente. "Não
falo de sua alegria e sim da
alegria de outras pessoas, de
seu semelhante; vá à busca
daquele que sofre e que não
consegue enxergar nenhum
caminho e ajude quanto
puder. “Por meio da felicidade
que proporcionar ao próximo
encontrará a sua própria e
construirá novamente a sua
vida de paz e equilíbrio;
lembre-se, somente o amor
enxuga as lágrimas.”
— Que lindo doutor! -
exclamou Inês impressionada.
E o senhor, o que fez?
— Deixei de sentir pena de
mim e fui à busca dos
sofredores para ajudá-los
como médico e como irmão
em Cristo.
— E o senhor é feliz?
— Sim, Dona Marília, meu
coração se aquietou e vivo em
harmonia usufruindo da
felicidade que posso ter.
Aprendi que Deus foi bom e
generoso comigo, deixando-
me Isabela que é a razão da
minha vida; entreguei minha
dor ao amor que posso sentir
pelo meu próximo. A cruz
ficou mais leve para eu
carregar e o coração adquiriu
a paz.
— Estou impressionada,
doutor, quem o conhece não
faz idéia do drama que o
senhor viveu; por meio de
seus conselhos, de suas
palavras de puro otimismo e
fé, imaginamos que está
sempre de bem com a vida! -
exclamou Marília. — Mais uma
vez digo que me sinto
envergonhada por minha
descrença, minha revolta,
enfim, envergonho-me da
minha fraqueza e de minha
pouca fé.
— Repito-lhe, não se
envergonhe. Cada um de nós
possui um tempo para
compreender e aceitar o
acontecimento que nos
machuca e fere nossa alma, o
importante é ir à busca do
entendimento para conseguir
ser feliz novamente e deixar
que nossos entes queridos
que partiram também possam
ir à busca da sua evolução e
serem felizes na
espiritualidade. Quanto a
estar de bem com a vida,
estou sim, aprendi que a vida
não maltrata ninguém, ela
apenas responde às nossas
agressões e imprudências
cometidas, se não nessa, em
encarnações passadas. Para
tudo existe um por que, uma
razão; Deus não quer nenhum
de seus filhos sofrendo, mas
nossa imperfeição nos faz
cometer enganos dos quais
teremos de prestar contas
mais tarde.
— O senhor acha que eu
poderia fazer alguma coisa
pelos necessitados, isso me
traria alívio?
— Se a senhora se deixar
tocar pelo amor e pela fé.
Dona Marília, com certeza
sim; mas não se afobe,
comece aos poucos, devagar,
e vá deixando que o mais
nobre dos sentimentos ocupe
um lugar no seu coração, aí,
então, verá como se tornará
gigante para exercitar a lei do
amor e da caridade. Ficará tão
envolvida em espalhar a paz e
a fraternidade à sua volta que
não terá tempo para sentir
pena de si mesma. É isso que
nossos entes queridos que
partem esperam de nós, a re-
formulação da nossa alma,
para que eles possam seguir
sua evolução em paz e com
equilíbrio.
— O senhor acha conveniente
Marília fazer uma terapia?
— A melhor terapia para
esses casos, Paulo, é a
terapia do amor, em que se
coloca em atividade o abraço,
o toque das mãos e a
fraternidade; preencher a
mente e o coração com o
trabalho edificante, essa é a
melhor terapia.
— Não sei o que dizer, nem
como me expressar - falou
Paulo. Nunca estive perto de
alguém tão nobre; jamais
ouvi palavras como as que o
senhor diz; nunca poderia
supor que alguém pudesse
emergir de um sofrimento tão
grande, conservando a alma
tão pura e limpa. O senhor é,
sim, uma pessoa especial, e
nós o admiramos por isso e
somos muito gratos pela
atenção e pelo carinho com
que nos presenteou. O senhor
nos indicou um caminho,
acendeu a chama da
esperança em nossos
corações e não sabemos como
agradecer-lhe por isso.
— É verdade, doutor -
completou Marília — minha
alma está ansiando pela
calmaria e vou encontrar meu
equilíbrio aceitando suas
palavras sensatas, admirando
sua postura perante os
vendavais da vida. O senhor
me fez ver a importância de
estar vivo, e agora
compreendo que a missão de
Fábio na Terra terminou e a
minha, agora eu sei, mal
começou.
— Alegra-me ouvi-la falar
assim, Dona Marília, rogo a
Jesus que a auxilie a
encontrar seu caminho e que
lhe dê coragem para percorrê-
lo com força e consciência de
todo o bem que se pode fazer
a outrem, quando se deseja
realmente; mas, por favor,
não dê a mim maior
importância do que mereço.
— Eu poderia lhe fazer um
pedido?
— Claro, faça!
— É que... bem... eu gostaria
de conhecer Isabela, o senhor
permitiria que eu e a Laís
fôssemos visitá-la?
— Por favor. Dona Marília,
quem fica agradecido com seu
interesse sou eu, vá quando
desejar. Isabela ficará muito
contente e feliz, tenho certeza
disso.
— Obrigada, Dr. Rubens,
muito obrigada!
Inês levantou-se e em
seguida retornou trazendo um
café fresquinho para servir
aos presentes.
— O senhor deve estar
cansado, doutor, e um
cafezinho irá lhe fazer bem;
reviveu muitas emoções.
— Obrigado, a senhora tem
razão, estou precisando
realmente.
— Faz bem em aceitar,
ninguém faz um café como
minha sogra.
— Está vendo, doutor, estou
com ciúmes, ele nem se
lembra do meu café!
Laís, que naquele momento
entrava na sala, disse natu-
ralmente:
— Também, mamãe, há
quanto tempo a senhora não
faz um café para o papai!
Marília, um pouco
desconcertada, abraçou a filha
e lhe disse:
— Isso vai acabar filha, a
partir de agora tudo vai
mudar, eu lhe prometo, a
mamãe ama muito vocês, a
vovó e o papai. Jesus vai
ajudar a mamãe a fazer vocês
felizes novamente.
— Que bom, mamãe, eu e o
André gostamos mais do jeito
que a senhora era antes!
— Eu também, filha, eu
também!
Olhou para Paulo e se deu
conta do marido bom e gene-
roso que Deus tinha colocado
ao seu lado.

LAÍS E ISABELA
Após a revelação de Rubens, de Deus não há dois pesos e
alguma coisa mudou no duas medidas. Se foi da
coração de Marília. Sentia-se vontade de Deus que Paulo e
envergonhada por sua eu nos separássemos de
fraqueza, principalmente da nosso querido filho, sem
desconfiança em relação ao sombra de dúvida foi para que
Dr. Rubens, imaginando-o aprendêssemos algo que
sem o menor conhecimento ainda não sabemos, ou
da intensidade da dor de quitássemos alguma dívida
perder um filho. Entendera que, como diz Dr. Rubens,
finalmente que as pedras pode ter sido contraída em
estão no caminho para serem vidas passadas.
retiradas. Tinha sido incrédula Marília, ao mencionar o nome
na justiça divina; culpara o do médico amigo, percebeu
Criador por todo o sofrimento crescer dentro de si a grande
que atingira seu lar e agora admiração que sentia por ele.
compreendia que nada Ouvindo passos, voltou-se
acontece de importante na deparando com sua mãe que
vida das criaturas sem que a observava.
haja uma causa e com ela não — Oi, mãe, não reparei que
poderia ser diferente. estava aí!
— Deus é sempre justo — — Cheguei há pouco, filha,
dizia para si mesma. Hoje eu estava tão pensativa que não
sei com certeza que na justiça quis incomodá-la. Em que
pensava? esposa e dois filhos, tendo
— Venha, mãe, sente-se aqui ainda que conviver
ao meu lado, quero conversar diariamente com essa
uma coisa com a senhora. situação conflitante que é ver
Inês sentou-se perto da filha sua única filha presa a uma
e docemente incentivou-a a cadeira de rodas, para
dizer o que pretendia. sempre, pois não existe
— Pronto, Marília, diga-me o nenhuma possibilidade de
que deseja. reverter esse quadro. Como
— Mãe, pensava nas coisas ele consegue força para
que o Dr. Rubens nos disse e suportar tanto sofrimento?
não consegui entender como Diga-me, como é possível?
pode alguém que tanto sofreu — É verdade, filha, ele é um
conservar o coração limpo, homem admirável, especial
sereno e confiante em Deus e mesmo. Não permitiu que a
na vida. Não perder a tristeza o separasse de Deus,
esperança nem se revoltar ao contrário, uniu-se mais a
contra tudo e contra todos; Ele, e essa união o levou a
pode-se dizer mãe, foi e ainda amar o próximo, trazendo paz
é três vezes maior que o meu para sua alma.
e de Paulo. Nós perdemos um — É... enquanto eu me
filho e quase nos escondia usando a dor como
desesperamos, entretanto ele escudo, ele se mostrava para
perdeu no mesmo dia a o mundo como uma pessoa
que aspira a paz e luta para trabalhador está pronto, o
que não só ele, mas todos trabalho aparece". Confia e
possam conquistá-la por meio espera.
da união e da amizade entre — Estava pensando em ir
as pessoas. visitar Isabela!
— Ele acreditou que o amor — Ótimo, faça isso; será bom
enxuga as lágrimas e viveu para você e para ela.
essa crença com intensidade, — A senhora acha mesmo?
e o que pudemos notar é que — Claro que sim, Marília!
essa máxima é verdadeira. — Vou fazer o seguinte,
— Sabe mãe, estive pensando telefono para a senhora...
muito desde aquele dia que como é mesmo o seu nome?
tomamos conhecimento da — Ana!
história dele; raciocinei com — Isso mesmo. Dona Ana.
cuidado sobre tudo o que foi Telefono para ela e marco
dito e cheguei à conclusão de para hoje à tarde a minha
que também quero me visita. Irei com Laís; a
dedicar ao amor fraternal. Só senhora nos acompanha?
não sei como começar. — Não, filha, uma próxima
— Não se precipite Marília, vez irei com muito gosto.
ore a Jesus e peça que os — Está bem!
bons espíritos a ajudem nessa Assim que Inês desceu para
nova fase da sua vida. Como cuidar dos seus afazeres,
dizem os espíritas, "quando o Marília, mais animada,
aprontou-se, telefonou para fruto do grande amor que
Dona Ana e desceu ao sinto e sempre sentirei por
encontro da mãe. você. Não quero que sofra,
— Hum! Já está pronta, que deixe o sofrimento para mim,
ânimo, me agrada vê-la porque, apesar de intenso, é
assim. ele que está me fazendo
— Sim! Assim que Laís chegar perceber outros lados da vida.
da escola, iremos à casa de Nessa percepção nasce em
Isabela. Marquei às quatorze meu coração o desejo, até
horas. então inativo, de me
Dizendo isso, dirigiu-se até a aproximar das pessoas sem
sala de estar, sentou-se em me importar com o que
frente a uma bela foto de vestem ou onde moram,
Fábio e iniciou com tendo como alvo apenas a
serenidade uma vontade de ser útil e fraterna.
"conversação" com o filho Não quero mais lhe enviar
querido. lágrimas, mas, sim, trabalho
— Fábio, que Jesus o digno em favor do meu
abençoe. Hoje sei que pode semelhante. Só lhe peço
me ouvir e me entender, por paciência, pois na realidade
isso me dirijo a você, não sei ainda como iniciar
saudosa, mas tranqüila. essa tarefa. Mas confio em
Quero que receba em sua Jesus, que por meio de uma
nova vida a minha saudade, luz me mostrará a direção.
Siga seu caminho de evolução interprete mal, nada fiz de
no Reino de Deus, que eu errado, apenas lhe dizia o que
também seguirei o meu. pretendo fazer para me tornar
Como diz o Dr. Rubens, um uma pessoa útil.
dia nos encontraremos — E o que pretende, posso
novamente e é essa saber?
possibilidade que me faz — Na verdade ainda não sei
colocar com firmeza os pés na Paulo. A minha intenção é me
estrada da vida, em busca da aconselhar com o Dr. Rubens.
minha saúde espiritual. Ele tem experiência e muito
Os olhos de Marília conhecimento, acredito que
lacrimejavam, mas seu poderá orientar-me.
coração, apesar de — Faça isso, querida, com
machucado, começava a se certeza ele poderá ajudá-la.
abrir para o amor que Dizem que, quando nos
consola. ocupamos com algo útil em
— Querida, o que faz tão favor do próximo, nosso
pensativa. sofrimento vai se tornando
— Oi, Paulo, não o vi chegar! sonolento e acaba
— Faz algum tempinho que a adormecendo, propiciando-
observo. Em que pensava nos encontrar a paz e o
assim tão distraída? equilíbrio. O trabalho não
— "Conversava" com o deixa sobrar tempo para
Fábio... Ei... espere não me tristeza.
— Mas, Paulo, jamais vou me — Paulo, logo após o almoço
esquecer de Fábio! vou com Laís visitar Isabela.
— Eu não disse esquecer, — Que bom Marília. Traz-me
Marília, disse adormecer. Esse muita satisfação vê-la
adormecimento é que permite novamente acordando para a
a todos que sofrem grandes vida.
dores continuar vivendo — Então vamos. Mamãe deve
dentro do equilíbrio. Se assim estar nos esperando; quero
não fosse, todos os pais que chegar no horário combinado
se separam de seus filhos com Dona Ana.
pela desencarnação destes — Será que as crianças já
enlouqueceriam. chegaram da escola?
— Você tem razão, querido, é — Penso que sim!
insensato ir a busca do — Vamos então!
esquecimento daqueles que Marília e Laís seguiram rumo
amamos, mas é prudente ir a à casa de Rubens.
busca da compreensão e Assim que chegaram, foram
aceitação da vontade de recebidas com gentileza, por
Deus. Dona Ana que, de imediato,
— Assim que se fala meu levou-as à presença de
amor. Nós vamos nos forta- Isabela. Marília, ao vê-la, não
lecer e cumprir nossa tarefa pôde disfarçar a surpresa.
aqui na Terra, principalmente Acomodada em sua cadeira de
junto ao André e à Laís. rodas, ela mais parecia uma
pintura pelos belos traços de
seu rosto. Os cachos loiros de
seus cabelos harmonizavam-
se com o brilho de seus
expressivos olhos azuis. Suas
pernas estavam cobertas por
uma manta branca, e Isabela
trazia em suas mãos um
colorido livro de histórias.
Notando a aproximação de
Marília e Laís, abriu os braços
e lhes disse sorrindo:
— Sejam bem-vindas. Não as ter mais de Isabela, sentando-se
conheço, mas soube que são ami ao seu lado.
amigas de meu pai, por isso gos — Também quero muito ficar
minhas amigas também! e sua amiga, Isabela!
Marília, correspondendo à gos — Então... já somos! Mas tem
gentil recepção, abriu também tari uma coisa, Laís, que gostaria
os braços e enlaçou-a com um a de lhe dizer: não vou poder
carinhoso abraço. que sair correndo por aí com você,
— Meu nome é Marília e esta fica no entanto, se tiver paciência
é minha filha Laís. Queria sse posso acompanhá-la em
muito conhecê-la, Isabela. Em min minha cadeira de rodas. Já sei
minha casa todos admiramos ha manejá-la muito bem, não é
e queremos muito bem a seu ami mesmo. Dona Ana?
pai. Como você é linda! Estou ga. — Com certeza, Isabela,
realmente impressionada com Tim muito bem!
a beleza do seu rosto. ida — Não se aflija por isso -
— Obrigada, Dona Marília. me disse Marília. — Laís adora ler
Mas não deveria se sur- nte histórias, conversar, afinal,
preender tanto tem uma filha Laís existem muitas coisas que
tanto ou mais bela do que eu! se podem fazer sem ter de sair
- exclamou Isabela apr correndo por aí. Duas
suavemente. oxi jovenzinhas sempre têm o
— Vem, Laís, sente-se bem mo que conversar.
perto de mim, gosto muito de u — Claro, Isabela, somos
praticamente da mesma — aqui comigo? Podemos
idade, podemos passar Out lanchar juntas, tomar sorvete.
algumas horas nos divertindo, ro Que tal?
é só você querer. dia! — Posso ficar mamãe?
— Eu quero Laís, quero muito. Por — Se você quiser e não
Apesar de toda atenção e que incomodar Dona Ana, pode
carinho que recebo de papai e não sim.
de Dona Ana, sinto falta de hoj Ana, mais que depressa,
estar com pessoas da minha e... respondeu:
idade. ago — Ela não incomodará em
— Então, "tá" combinado, ra? nada. Dona Marília. Isabela
outro dia venho passar a — sente muita falta de
tarde inteira com você, "tá Ago companhia da sua idade.
bem"? ra?! Acredito que as duas vão se
— dar muito bem.
Sim — Se é assim, pode ficar Laís.
! As duas crianças se
Por afastaram. Marília sentiu um
que aperto no coração vendo Laís
não empurrar a cadeira de
pod Isabela. Sentiu um carinho
e grande por aquela criança tão
fica bela e condenada há passar
r seus dias na Terra presa a
uma cadeira de rodas. se perguntar, mas Isabela sofre
Dona Ana, como se mp algum tipo de preconceito na
adivinhasse o pensamento de re escola?
Marília, lhe disse: ale — Ostensivamente, não. Mas
— Ela é feliz. Dona Marília, gre sempre existem aquelas
não briga com o seu destino; ; pessoas que vêem os
possui um espírito elevado. par deficientes físicos como se
— Ela é realmente a fossem deficientes mentais.
encantadora! Diga-me, Dona mi Algumas vezes, Isabela voltou
Ana, Isabela freqüenta a mé para casa um pouco triste em
escola? co virtude de comentários a seu
— Claro Dona Marília! Todos mo respeito e que a deixaram
os dias pela manhã, o se magoada. As pessoas às
motorista vem pegá-la. É uma foss vezes esquecem que Isabela é
aluna dedicada, gosta de e uma criança como qualquer
aprender e se esforça um outra, a única diferença é que
bastante para isso. a não pode andar, e como as
— Que bom; pela maneira filh outras crianças gosta de ser
como ela se expressa a. tratada com carinho, respeito
percebe-se sua instrução, e o — e dedicação.
modo como fala cativa as Des — Não sei por que as pessoas
pessoas. cul nutrem no coração tanto
— A senhora tem razão. pe- preconceito. Julgam
Nunca se queixa e está me imprudentemente qualquer
que seja a deficiência Ana ila, Laís estará bem.
apresentada por uma pessoa, , Marília despediu-se, entrou
criança ou não. Imaginam que co em seu carro e tomou o ca-
são contagiosas; escondem o mpl minho de casa.
orgulho e o preconceito atrás eto Ao parar em um semáforo,
de atitudes que ousam u: olhou para o lado e assustou-
chamar de prudência. Geral- — se ao ver uma mulher grávida
mente esquecem que todos Por deitada no chão com quatro
estamos sujeitos a sofrer volt crianças ainda pequenas
agressão ou mutilação do a sentadas junto a ela. Deu o
nosso corpo quando menos das sinal e virou-se para a direita
esperamos. dez parando o carro próximo ao
— A senhora disse uma oito local. Sem se dar conta do
verdade. Dona Marília, nunca hor que fazia, aproximou-se da
sabemos quando a vida vai as, mulher e ao saber da
nos pregar uma peça. vire proximidade do parto, colocou
— Bem, Dona Ana, preciso ir. i a gestante em seu carro com
Vou despedir-me das bus as crianças e partiu
crianças. cá- rapidamente para o hospital.
Aproximando-se de Laís e la. No caminho tomou
Isabela, afagou seus cabelos e — conhecimento de toda a
disse à filha: Vá dificuldade que aquela mulher
— Virei buscá-la no final da tra passava junto a seus filhos.
tarde. Dirigindo-se a Dona nqü — Fique calma, logo
estaremos no hospital. Tudo ver o temerosa Marília respondeu
dará certo. dad afirmativamente. Acomodou
Chegando à recepção de um e todos novamente em seu
hospital público, Marília são carro e dirigiu-se ao local
colocou a recepcionista a par qua indicado.
do que acontecia. tro — Por gentileza, poderia falar
— A gestante podemos qua com a diretora deste abrigo?
atender senhora; quanto às r- — Um instante, por favor, vou
crianças, nada podemos fazer, teir chamá-la.
elas não poderão ficar aqui. A ões Assim que a diretora chegou,
senhora terá de levá-las para . Vá Marília explicou-lhe deta-
um orfanato ou coisa até lhadamente a situação.
parecida. lá, — Gostaria que ficassem com
— Mas eu não as conheço eles as crianças provisoriamente
como poderei interná-las? vão para que sua mãe pudesse se
— Faça o seguinte: vá com a rec internar para o parto que se
mãe delas até um orfanato e ebê aproxima. É possível? Assim
após a internação das - que ela obtiver alta, virá
crianças volte para que las, buscá-las.
possamos internar a mãe. acr — Ficaremos por quinze dias.
Certo? edit Dentro desse prazo a mãe
— Mas não conheço nenhum o terá de vir buscá-las, caso
orfanato! eu. contrário serão encaminhadas
— Tem um próximo daqui, na Mei para o Juizado da Infância e
Juventude para que o Juiz
decida o que fazer. Certo
assim. Dona...
— Gertrudes! Não quero me
separar de meus filhos, eles
são a minha vida, as únicas
coisas boas que tenho. Sou
pobre e nada tenho na
verdade, mas o amor de meus
filhos me faz viver -
respondeu com lágrimas nos
olhos.
— Olhe Gertrudes, seus filhos preo Querida, onde você estava?
só serão encaminhados para o cupa Deixou-nos todos preo-
Juizado se você não vier do; cupados. Dona Ana ligou-nos
buscá-los após quinze dias; se afin apreensiva com sua demora
vier dentro do prazo, eles al, em ir pegar a Laís.
estarão aqui à sua espera. não — Desculpe-me, Paulo, se o
Tenha certeza de que o que se preocupei; já me desculpei
queremos é entregá-los a lem com Dona Ana. Venha, vou
você, que é a brav contar-lhe o que aconteceu
mãe deles. Esteja certa disso. a de talvez você nem acredite.
Marília estava perplexa. uma Pegou o marido pela mão e
Admirava a coragem que tive- únic levou-o até a sala onde se
ra em socorrer Gertrudes. a sentou ao seu lado. Chamou
Nem se dava conta do vez sua mãe e contou-lhes tudo
adiantado da hora. Jamais em que acontecera. Inês,
pensara ter coragem de se que antecipando-se ao genro,
envolver dessa maneira com cheg disse à sua filha:
pessoas completamente ara — Filha, que atitude generosa
estranhas. Assim que as a a sua! Sinto-me feliz e
crianças foram recolhidas, casa orgulhosa de ver minha filha
Marília levou Gertrudes nova- sem abrindo o coração para
mente até o hospital onde enco minimizar a dor alheia. Sinto
esta ficou internada para a ntra que Jesus lhe enviou uma
realização do parto. ra mensagem, Marília, seria
Depois de tudo resolvido, espo muito bom que você
lembrou-se de avisar Paulo de sa compreendesse.
seu atraso e ir buscar Laís na espe — Dona Inês, tenho a
casa de Isabela. rand impressão de que pensamos a
Quando Paulo a viu chegar, o. mesma coisa.
correu ao seu encontro — — Por Deus, digam-me o que
estão planejando? desc Não se faz de vítima, ao
— Planejando?! Nada, obrir contrário, enfrenta sua
querida; apenas Dona Inês e am- invalidez com coragem e
eu tivemos a mesma se alegria. É um exemplo para
impressão. uma todos nós. Sabe querido,
— Impressão! De quê? à quando penso em mim, no
— Seu coração descobrirá e outr desânimo, na melancolia, no
dirá para você mesma, é só ae quanto eu me isolei de vocês
aguardar. Mas saiba que me se todos por conta da minha
orgulho muito de você. dive tristeza, sinto-me en-
Marília não conseguia ainda se rtira vergonhada do meu
centralizar diante dos fatos. m comportamento. Uma garota
Tinha a sensação de que tudo muit de dez anos com sua
acontecera com outra pessoa, o. E determinação exemplificou o
não com ela. Apesar disso você que seu pai durante todo esse
trazia em seu coração uma ,o tempo tentou me ensinar e eu
tranqüilidade que lhe causava que não fui capaz de
bem-estar. Resolvendo mudar acho compreender.
os rumos da conversa, disse u de — Filha, não se entristeça
ao marido: Isab nem sofra mais por isso.
— Paulo, Laís e eu fomos ela? Sempre é tempo para
visitar Isabela. — aprender e você, creio eu,
— Eu já sei querida, e fiquei Ah! encontrou hoje o caminho; é
muito contente. Paul necessário apenas enxergar o
— Ah! É verdade. Dona Ana oé que está tão claro.
ligou aqui para casa. um — Mãe, a senhora me
— Sim, e disse-nos que Laís e amo confunde o que quer dizer?
Isabela se deram muito bem. r de — Calma, Marília, calma. Você
Conversaram bastante, leram garo estava a procura de um
livros de história, enfim, ta. trabalho edificante por meio
do qual pudesse exercitar o desc surpreendo pensando que
amor ao semelhante, será que obrir Rubens tem razão, realmente
essa tarefa não apareceu? emo deve existir a reencarnação
— Olha mãe, não sei s que tanto ele tenta nos
realmente o que a senhora outr esclarecer, porque, se não
quer me dizer, mas, não os existisse, se fosse apenas
importa, agora quero apenas moti uma fantasia, não
tomar um banho e me vos encontraríamos motivos ou
preparar para o jantar. para respostas para tanto
Dizendo estar cansada, subiu ser sofrimento pelo qual nós e
para o quarto. mos tantas outras pessoas
Paulo e Inês sorriram. Sabiam feliz passam, sem compreender o
que algo muito importante es porquê.
aconteceria na vida de Marília, ness — Tem razão, Paulo, por meio
motivando-a a trabalhar e ser a dessa oportunidade de
útil ao próximo. nova retornarmos à vida física
— Dona Inês, que Jesus fase animando outro corpo, em
abençoe a todos nós para que de outra época, é que nos faz ter
possamos retomar nossa vida, noss certeza da justiça divina.
senão com toda a alegria que a — Tem muita lógica, Dona
tivemos, mas com a que exist Inês, caso contrário, o Criador
podemos ter agora se ênci seria injusto com uma parte
cultivarmos a esperança e a fé a. de sua criação. Quando me
no futuro. — questiono sobre o porquê da
— Tranqüilize-se, Paulo, Jesus Don nossa separação do Fábio,
não vai nos desamparar. a não encontro aqui e agora
Nossa vida sofreu uma Inês uma explicação que justifique
mudança dolorosa que criou , às tanta dor.
feridas em nosso coração, veze — E como diz o Dr. Rubens,
mas com a graça de Jesus s me alguma coisa desprezamos
em uma época anterior e que isso
se faz necessário aprender acon
nessa encarnação. Só não teça
posso entender o que poderia cono
ter sido feito para perdermos sco.
nosso Fábio dessa maneira,
sendo ele tão jovem.
Paulo pensou um pouco e
respondeu:
— Não sou entendido no
assunto, mas talvez para que
aprendêssemos, com a
separação drástica, a
desenvolver o amor de
verdade; o Rubens poderia
nos esclarecer melhor.
— É, pode ser Paulo, mas o
que importa é o aprendizado
do bem e do amor. O
sofrimento doloroso deve se
tornar, para quem o sente,
uma alavanca a impulsionar
para o conhecimento de
verdade e para a prática do
bem, fazendo emergir das
cinzas a fé e a confiança em
Cristo, para que se possa ir a
busca da luz e da paz.
— A senhora tem razão,
vamos nos esforçar para que
PROBLEMAS COM ANDRÉ

Após o incidente vivido por Marília, tudo começou a tomar novos rumos em sua vida.
Sentindo um grande vazio em seu coração e incentivada por Paulo e Inês, deu um
considerável salto para iniciar sua reforma interior e armazenar em sua alma
princípios de grande fé, confiança e conhecimento que lhe dariam suporte para
enfrentar novas dificuldades que aconteceriam em sua vida.
Procurando o médico amigo, este lhe orientou como iniciar o trabalho pelo qual seu
coração ansiava; assim, apoiada pelo amor fraternal que nascera em seu íntimo,
permitiu que esse mesmo amor enxugasse suas lágrimas e transformasse esse pranto
em estímulo para iniciar sua caminhada rumo ao Criador, fundado uma casa de
amparo às gestantes carentes da periferia.
Tudo era muito simples. Suas mãos com habilidade confeccionavam as roupinhas que
formavam os enxovais, doados às futuras mamães que freqüentavam os cursos
ministrados por ela e Rubens.
Nunca deixava de ouvir as explicações de Rubens e a cada dia se interessava mais
pelos ensinamentos da Doutrina Espírita. Convicta estava que só por meio do bem
praticado sem interesse algum poderia encontrar a paz para seu coração e força para
superar com dignidade cristã os revezes da vida.
Em uma de suas palestras, Rubens dissera:
— Jesus também caminha na Terra procurando certa categoria de doadores difíceis
de encontrar — doadores de suor que trabalhem desinteressadamente na construção
do reino de Luz. Irmãos, o Divino Amigo nos bate à porta do coração nos pedindo
serviço; sigamos adiante, guardando a felicidade de sermos, com Ele, os doadores de
suor. (Fonte: Ideal Espírita — Aura Celeste — Chico Xavier)
Essa mensagem calara fundo no coração de Marília. Entendera a importância de se
doar ao trabalho edificante sem esperar nada em troca; mas sabia também que não
seria o fato de trabalhar em favor dos necessitados que a impediria de viver futuras
preocupações e sofrimentos.
O bom médico sempre explicara que devemos fazer o bem pelo bem, sem achar ou
esperar que com isso nos tornemos isentos de qualquer contrariedade ou prova que
estivessem relacionadas com a nossa história. Nada se consegue de bom e duradouro
se não se empenhar em compreender o amplo significado desse sentimento tão
nobre que é o amor.
O coração de Marília se aquietara em relação ao sofrimento da separação de Fábio;
não que a ferida tivesse cicatrizado, mas o sangramento da dor não lhe impedia de
continuar vivendo e nutrindo sua alma com os ensinamentos evangélicos de Jesus, e
isso levava paz ao seu coração e serenidade para continuar o trabalho que abraçara.
O tempo, sem se importar com as tristezas ou alegrias dos encarnados, seguiu sua
rota e três anos se passaram desde a desencarnação de Fábio.
O trabalho de Marília ganhara força. Além dos enxovais, as gestantes passaram
também a receber alimentos, a freqüentar cursos em que aprendiam a tratar seus
filhos, física e espiritualmente, além das consultas ginecológicas quinzenais.
Tudo transcorria dentro do previsto pela espiritualidade amiga. Marília conseguira
realmente enxugar suas lágrimas exercitando o amor.
Certa tarde, regressando ao lar, Marília encontrou sua mãe esperando-a com
ansiedade e assim que entrou percebeu a aflição de Inês ao dizer-lhe:
— Graças a deus você chegou Marília!
— O que foi mãe, por que esse nervosismo todo?
— Filha, soube de algo que me deixou impressionada e, para falar a verdade, com
muito medo.
— Diga-me o que foi!
— Sabe o Marcos, o amigo do André que nunca se separa dele?
— Sim, claro que sei quem é, mas o que tem ele?
— Dona Gracinda me disse hoje que ele faz uso da maconha e não tem o menor
pudor ou preocupação de esconder isso.
— Lamento mãe, mas o que tem isso que ver conosco? Entendo que se torna um
problema para os pais dele e não nosso. Espero que saibam solucionar essa questão
da melhor forma.
— Você não entendeu Marília; o meu receio é que, como o André é muito amigo dele,
possa se influenciar e cair no mesmo erro, isso se já não aconteceu o pior.
— Mãe! - exclamou Marília indignada.
— Por que o espanto, Marília? Nos tempos de hoje ninguém pode dizer que está
totalmente seguro quanto à questão das drogas.
— Mãe, estou segura porque dei a ele uma boa educação e não acredito que caia
nessa armadilha. Por Deus, acho que ele jamais faria isso!

— Também penso como você, mas acho prudente ficarmos atentas, André está com
quinze anos, idade em que os adolescentes questionam, exigem e quando não
encontram respostas que lhes satisfaçam ou as que querem ouvir procuram nos
lugares errados, com pessoas erradas, costumes e práticas que só trazem enganos e
desgostos.
— A senhora pensa isso mesmo, mãe? Acha que o André poderia se envolver com
drogas?
— Filha, não estou afirmando, estou apenas dizendo que precisamos ficar atentas e
observar as atitudes do André, afinal, ele é igual a muitos adolescentes e geralmente
todos eles sofrem certa influência dos amigos mais chegados. Não custa ficarmos
atentas.
— Vou conversar com o Paulo e ver o que ele pensa a esse respeito.
— Faça isso, Marília, faça isso!
Assim que sua mãe se afastou, Marília subiu para seu quarto com a intenção de
tomar um banho e esperar a hora do jantar. Passou pelo quarto de André e sentiu
desejo de entrar para abraçar o filho. Parou em frente à porta e sem vacilar segurou
a maçaneta e empurrou. Ao verificar a porta trancada por dentro, estranhou. Bateu
levemente e com carinho chamou o filho:
— André, sou eu, filho, abra a porta para que eu possa entrar.
— O que quer mãe?
— Nada, filho, apenas abraçar você e saber do seu dia, só isso. Posso entrar? -
perguntou Marília.
— Para com isso, mãe, que "mico" é esse? Quer entrar no meu quarto só para me
abraçar?
— Claro, filho, que mal há nisso?
— Não vou abrir mãe, estou ocupado, mais tarde a senhora me abraça.
Marília abafou seu desapontamento e dirigiu-se para seu quarto.
Lembrou-se de Fábio, e a saudade bateu forte em seu peito.
— Que Jesus abençoe você, filho. Que sua caminhada rumo à evolução espiritual seja
sedimentada no amor ao nosso pai e a seus semelhantes. A saudade que sinto de
você é grande demais, torna-se quase uma dor física, mas procuro transformá-la em
estímulo para continuar trabalhando e amparando
as mãezinhas necessitadas. Creio eu que agindo assim fico cm harmonia com você e
com minha própria evolução. Fique com Deus, meu filho.
Marília sentiu uma sensação agradável percorrer-lhe o corpo.
— Dr. Rubens tem razão - disse para si mesma —, cada um é responsável por sua
vida. Se teimamos em preencher nossos dias com lamentações, revolta e desespero,
torna-se impossível encontrar a paz para nosso coração. Mas, se a fé e a confiança
em Deus forem o estandarte a abrirem o caminho por onde
devemos passar, com certeza enfrentaremos todas as dificuldades e transtornos
trabalhando com dignidade e fraternidade, encontrando assim a paz para nossa
alma. Somente o amor exercitado pode amenizar a dor que dilacera nosso coração
quando vemos um filho querido partir. A alegria proporcionada
ao semelhante traz ao nosso coração a paz e o equilíbrio como recompensa pelo
esquecimento de nós mesmos. É Dr. Rubens tem razão, vou a frente ao meu
trabalho.
Marília não se dava conta, mas espíritos amigos energizavam aquela mãe sofrida
para que seu espírito se fortalecesse e se preparasse para nova provas e dor.
— Cale gemidos e suspiros frustrados, decidindo realmente servir. O amor puro é a
síntese de todas as harmonias conhecidas. A fraternidade é o pacto do Amor
Universal entre todas as criaturas perante o Criador. Nossa alegria somente viceja
em conjunto com a alegria de muitos. De que vale a alguém o título de herói numa
tragédia. Onde estará o benefício de uma santidade que terá brilhado no deserto,
sem ser útil a ninguém?
Com o Espiritismo nasceu na Terra a fé raciocinada.
Você, portanto, interiormente, está livre para ajudar a você mesmo, consciente qual
se encontra de que auxiliar com desinteresse aos outros é interpretar vivamente a
filosofia de Cristo, é consolidar a segurança do próprio bem. (Fonte Ideal Espírita,
André Luiz/Chico Xavier).
NO MUNDO DAS DROGAS
Marília colocou o marido Os olhos de Marília encheram-
ciente do que sua mãe lhe se de lágrimas. O medo
contara. Paulo, como era de tomou conta de sua alma. Era
esperar, ficou preocupado e como se uma porta se abrisse
não descartou a possibilidade à sua frente e ela temesse
de André estar realmente ultrapassá-la por não saber o
envolvido com maconha, que encontraria do outro lado.
assim como seu amigo Incerteza, insegurança e
Marcos. receio foram os sentimentos
— Sua mãe tem razão, que rapidamente tomaram
Marília. É necessário ficarmos conta de seu coração. Paulo,
atentos com as atitudes de percebendo o estado em que
André. ficara sua esposa, abraçou-a
— Mas, Paulo, você acha que afetuosamente dizendo:
nosso filho se envolveria com — Querida, não fique assim.
algo dessa natureza? Para que sofrer por anteci-
— Querida, André tem apenas pação, se não temos certeza
quinze anos. Os adolescentes de nada porque nada
são influenciáveis pelos sabemos? Vamos ficar
amigos, pelo consumo, enfim, vigilantes, bem atentos, nos
não possuem ainda uma aproximarmos mais do nosso
personalidade bem definida, filho, enfim, tentar ajudá-lo se
madura, segura, em razão alguma coisa realmente
disso tudo é possível. Convém estiver acontecendo. Se
ficar vigilante. mantivermos a calma,
poderemos perceber a reito. O que há com você, o
situação como ela realmente que o preocupa?
é. — Nada me preocupa mãe,
Mais tranqüila Marília pode me deixar em paz?
respondeu: — Não é o que me parece,
— É, Paulo, você tem razão. sinto-o tenso.
Não sei o que seria de mim se — É coisa minha, mãe, dá
não tivesse você ao meu lado, licença?!
sempre me apoiando, con- — Por que a agressão, André?
fortando. Você é um grande Feri você com minha
companheiro e eu sinto um observação?
amor muito grande por você. Empurrando a cadeira, André
— Eu também, querida, eu levantou-se e saiu da sala
também a amo muito. indo trancar-se em seu
Delicadamente, abraçou-a quarto. Laís correu a abraçar
beijando-a nos lábios. a mãe.
Quinze dias se passaram. — Não fique triste, mamãe,
Conforme o combinado não se André anda muito nervoso!
descuidaram de André. — E você sabe por quê?
Atentos às mínimas reações — Talvez seja porque não está
do jovem procuravam dar indo bem na escola.
atenção e se aproximavam — Não está indo muito bem
cada vez mais. no colégio?! O que é isso,
— André, está tão quieto, Laís, não pode ser, ele
filho, nem se alimentou di- mostrou-me a caderneta
escolar, suas notas estão — Veja filha: se André está
muito boas. indo tão mal na escola ao
— É que... ponto de falsificar suas notas,
— Diga Laís, o que você está alguma coisa mais grave está
me escondendo? O que sabe acontecendo que motivou o
que ainda não sei? seu desleixo com os estudos e
— Bem, mãe, é que ele e o o induziu a cometer esse ato
Marcos falsificaram as notas. perigoso e reprovável de
Marília empalideceu. falsificar o boletim.
— Ele o quê? — É... a senhora tem razão,
— É isso mesmo, mãe, o mãe!
André falsificou as notas. Marília decidida a esclarecer o
— O que você está afirmando, fato, bateu na porta do quarto
Laís, torna-se inacreditável de André.
para mim. André falsificando — Abra filho, por favor.
notas na caderneta?! Não — O que a senhora quer,
nisso, não posso! mãe?
— Fique calma, mãe, afinal — Falar com você, André.
isto não é tão grave assim. — Eu não quero falar com a
— Engano seu, Laís, é grave senhora, me deixa quieto.
sim, e o mais grave é o que — Por favor, André, abra essa
deve estar por trás dessa porta e vamos conversar um
atitude leviana e perigosa do pouco. Não tenha receio,
seu irmão. quero apenas conversar com
— Como assim, mãe? você.
— Outra hora, mãe, agora que meu coração, procurando-
não quero, e pára de ficar te para se acalmar, enche-se
pegando no meu pé. de certeza do Teu amor por
Desanimada, Marília mim; então... desabafo e
respondeu: choro! Nem sempre tenho
— Está bem, como você forças para lutar, mas em
quiser. todos os momentos procuro-
Virou-se e foi até seu quarto. te para falar de mim e
O medo tomou conta de seu mostrar o que me aflige.
coração. Sentiu-se perdida e Quantas vezes perdida e
insegura diante da maneira pedindo-te ajuda, sinto Tua
como André a tratara. Elevou presença na paz que me
seu pensamento até Deus e invade e me leva ao descanso
suplicou ao Pai ajuda para das minhas dores; nessa hora,
resolver com sabedoria o que Senhor, consigo perceber as
a atormentava. Com a voz da flores da primavera
alma orou ao senhor: desabrochando no amanhecer
— Senhor, conheces minhas de um novo dia e fazendo-me
dúvidas e meus medos. Sabes lembrar que nenhuma dor
o quanto sou ainda pode ser maior que o Teu
imperfeita, mas mesmo amor por mim.
assim... me amas! Não posso Entrego-me a esse amor
esconder de Ti a fraqueza que divino e, amparada pela fé
muitas vezes atinge a minha que se renova em meu ser,
alma e é nessa hora, Senhor, levanto-me e prossigo.
A emoção de Marília fez-se — Fico feliz por você. É bom
presente nas pequenas vê-la forte e confiante,
gotinhas de lágrimas que disposta a lutar pela nossa
desciam pelo seu rosto e felicidade e a de nossos filhos.
transformavam-se em uma — É, mas estou muito
brilhante luz azul que a preocupada com o André. Não
envolvia dando-lhe paz e tenho mais dúvida de que
confiança no futuro. Mais uma alguma coisa está
vez Deus demonstrara Seu acontecendo com ele e não é
amor pelos seus filhos; era o coisa boa. Onde já se viu
Criador amparando Sua Paulo, falsificar notas da
criatura, era a resposta vinda escola!
do Mundo Maior direto para o — Vamos ver isso, Marília,
coração de Marília. vou agora mesmo conversar
A porta de seu quarto se abriu com ele.
e Paulo entrou. Sem demora foi direto bater
— Querida, Laís me contou o na porta do quarto de André.
que aconteceu. Como você Assim que ouviu a voz segara
está, e André? e enérgica de seu pai, André
— Agora estou bem, Paulo. abriu a porta do quarto e
Mais uma vez consegui permitiu que ele entrasse.
acalmar meu coração Paulo sentou-se ao pé de sua
conversando com Deus, e cama e, com prudência e
mais uma vez Deus entendeu carinho, mas sem perder a
minha alma. autoridade incentivou o filho a
falar. preconceituosos quanto a isso,
— O que acontece com você, não compreendem realmente
meu filho, que provoca o que seja e vão julgando
comportamento que não erroneamente.
condiz com o que você — Por favor, André, seja mais
sempre foi um filho amoroso e claro e não ponha palavras
educado? em nossa boca.
— Não está acontecendo — Pois bem, já que o senhor
nada, pai! quer saber, eu estou fumando
— Penso que esteja sim, maconha!
André, e nós, sua mãe e eu, — Você... o quê?
não estamos gostando nada — O que o senhor ouviu pai,
disso. Se você se abrir estou fumando maconha. Mas
conosco, seja o que for, já vou dizendo que não é ela
faremos tudo para ajudá-lo a que está mudando meu
resolver o problema. comportamento como o
— Mas, pai, não há problema senhor disse. A maconha não
algum comigo e... faz mal algum.
— E...? Paulo empalideceu.
— Se eu disser com certeza Recuperando seu autocontrole
vocês não vão entender. disse ao filho:
— Experimente filho! — Mas é claro que é por causa
— Você e mamãe, como a disso que você anda tão
maioria das pessoas, dos pais, diferente. Por Deus, meu filho,
principalmente, são por que procurou a droga? O
que esperava encontrar? Por drogas mais pesadas que
que foi em busca do sempre levam seus adeptos à
sofrimento seu e nosso, já morte.
não bastou o que passamos? — Mas o que é isso, pai, estou
Por que e para que andar na só me divertindo, zoando, e
corda bamba e comprometer fique o senhor sabendo que a
sua vida, sua saúde e seu hora que eu achar que devo
futuro? parar, eu paro numa boa. O
— Está vendo? Não disse que senhor está levando tudo isso
não entenderiam que são muito a sério.
como a maioria, — Temos de levar isso a sério,
preconceituosos! porque é sério.
— Não se trata de preconceito — Já disse que quando quiser
e sim de algo que você eu paro.
acende hoje e te apaga — Será, filho?
amanhã. — Claro, pai, claro! O Marcos
— Pai, o senhor não sabe o sempre diz que, quando ele
que está dizendo. A maconha enjoar e quiser, ele pára.
não é uma droga e, ao Comigo será a mesma coisa,
contrário do que se pensa, os jovens fumam apenas para
não faz mal algum. curtir, zoar, o senhor
— Engano seu, filho, a consegue entender?
maconha é uma droga sim e, — Não quero e nem posso
na maioria dos casos, é a entender como alguém pode
porta de entrada para outras comprometer sua vida apenas
para curtir e zoar como você não é droga, portanto não
diz. Não é arriscar demais? vicia.
— Pai, não estou arriscando — Vou insistir que é um
nada! grande engano seu, filho, é
— Está sim, André. Se a droga sim e raramente não
maconha fosse algo bom, por provoca danos naquele que
que se fuma escondido? Por dela faz uso. Vamos fazer o
que é proibida pela lei? Se seguinte, André, telefono para
fosse tão inofensiva, como o Dr. Rubens e peço-lhe que
diz, não induziria seus venha conversar com você.
usuários a mentir, a esconder Ele, melhor do que eu poderá
esta prática, a agredir a lhe explicar o mal que essa
família e relaxar nos estudos droga faz ao corpo humano.
chegando ao extremo de — O senhor acha mesmo
falsificar notas como você fez, necessário colocar o Dr.
enfim, não os levaria a Rubens nessa história?
abandonar seus ideais de — Acho! Sua mãe e eu
moral e honestidade e passar podemos dar-lhe nosso amor,
a viver escravo desse vício ampará-lo para que possa
nocivo, dessa inimiga que age pular fora dessa canoa furada
lentamente, mas que deixa e perigosa enquanto é tempo;
seqüelas, com certeza. mas o Dr. Rubens poderá
— Vou dizer mais uma vez mostrar-lhe cientificamente os
para ver se o senhor danos que poderá sofrer seu
consegue entender: maconha corpo, sua mente e,
principalmente, seu espírito.
Você concorda em ouvi-lo?
— Vou fazer isso para
satisfazer o senhor, mas
garanto que ele não mudará
minha opinião a respeito.
— Vamos aguardar André.
Paulo levantou-se retirando-
se do quarto do filho. Seus
ombros curvados eram um
sinal evidente da dor que ia à
sua alma.
— Então, querido, como foi a
conversa?
— Não sei dizer-lhe, Marília,
mas, enfim, conversamos -
respondeu Paulo.
— E aí, diga-me! O que achou faça isso! — disse Marília
a que conclusão chegou? angustiada.
— Cheguei à conclusão de que
devemos procurar nosso
amigo Rubens, mais uma vez,
e pedir-lhe ajuda.
— Por quê, é tão sério assim?
— Preste atenção, Marília,
nosso filho é usuário de ma-
conha e não nega acha
normal e defende esta erva
como se fosse a coisa mais
natural usá-la.
— Não é possível!
— Sim, é possível e real,
minha querida.
— E o que vamos fazer Paulo?
— Já disse pedir ajuda, sem
constrangimento, à única
pessoa que conhecemos e que
nos ajudara com
conhecimento e amizade.
— Faça isso o quanto antes,
Paulo, pelo amor de Deus,
SEGREDO DESCOBERTO — E o que faria com um
relógio de ouro?
— Venderia Marcos!
— Por que me chamou mãe? — Pode me dizer para que
— Não vou nem lhe venderia seu relógio?
responder. Marcos, porque — Para pagar ou para
tenho motivos para acreditar comprar alguma coisa que
que você sabe a razão. nem ouso dizer, meu filho.
— Motivo?! Motivo do quê, — Quer saber, e você já me
mãe? encheu o saco! Não sei por
— O motivo pelo qual o que fico aqui ouvindo suas
chamei aqui. bobagens!
— Se você me disser, ficarei
sabendo.
— Não se faça de bobo.
Marcos, o que você fez com o
relógio de ouro que ganhei de
aniversário de seu pai?
— Relógio de ouro? O que fiz?
O que é isso, mãe, está me
acusando de roubo?
— Gostaria que tudo fosse um
engano, filho, mas creio que
foi você quem o pegou.
Virou as costas para sua mãe aconteceu quando soube do
e ia saindo apressado, quando que fez comigo quando
a voz de Laura soou alto e apenas começava a existir.
firme. — Meu Deus, mas o que foi
— Fique onde está e não ouse que fiz de errado com você?
me desafiar! — Tentou me matar!
— Por quê? - gritou Marcos. Laura sentou-se. Cobriu o
— Vai me bater? rosto com as mãos e
— Por que sou sua mãe e me perguntou ao filho quase num
deve respeito. sussurro:
Marcos, com um sorriso — Por que diz isso, Marcos?
sarcástico, respondeu: — Por que sei que foi assim.
— Respeito? Eu lhe devo — Mas quem lhe disse isso?
respeito? Justamente você — Você!
que não me respeitou quando — Eu!
eu era indefeso, quando — Sim, você mesma!
apenas iniciava minha vida? — Quando, Marcos, quando
Laura, empalidecendo, foi isso?
respondeu: — Quando contou essa
— O que está dizendo, história para tia Elvira.
enlouqueceu? — Você... escutou?
— Não, Dona Laura, não — Sim, mãe, escutei e nunca
enlouqueci, mas para ser a perdoei. Já que você nunca
franco não sei como isso não me quis, resolvi lhe dar
motivos para que tivesse todas as quintas-feiras para
razão. tomar chá aqui em casa? Pois
Laura, pela primeira vez, se bem, em uma dessas visitas
assustou diante do que fizera ouvi uma conversa de vocês.
no passado. Percebeu que as — Então, Laura, como está a
conseqüências do ato que questão do seu ciúme em
imaginava ter caído no relação ao Pedro?
esquecimento estavam mais — Ah! Elvira, o ciúme que eu
presentes do que nunca em sinto do Pedro já está fora do
sua vida. Com voz trêmula e meu controle. Sofro só de
medrosa perguntou ao filho: pensar que ele pode estar
— Por favor, Marcos, conte- sorrindo para outra pessoa.
me o que sabe. Quero-o só para mim, só para
— Para que reviver isso mim.
agora? — Você precisa se controlar,
— Por favor, conte-me! Laura, foi por causa desse
— Quer mesmo que eu fale ciúme que nunca mais quis
Dona Laura? ter outros filhos, não foi?
— Sim! — Claro já basta dividi-lo com
— Pois bem, você pediu. Foi o Marcos, é mais que
em um dos encontros seu e suficiente; por mim não teria
da tia Elvira. Recorda que tido nem ele, mas nada do
naquela época, uns anos que fiz para interromper a
atrás, vocês se encontravam gravidez deu certo, lembra? O
jeito foi aceitar.
— Santo Deus, no início de
sua gravidez você parecia
uma louca tentando evitar a
qualquer preço que fosse para
frente.
— É verdade, Elvira. Tomei
tudo o que me ensinaram, fiz
tudo que podia e que não
devia, mas nada adiantou.
Cheguei ao extremo de enfiar
em mim mesma agulha de
tricô para provocar o aborto,
só que mesmo assim Marcos
vingou, e o remédio foi
aceitá-lo e dividir com ele o
amor de Pedro.
— É, Laura, tudo na nossa
vida será sempre como Deus
quiser e Ele quis que Marcos
vivesse e hoje é um lindo
menino.
— Aí está Dona Laura, o não escutou o fim da conversa
grande respeito que teve pela entre Elvira e eu. Se eu lhe
minha vida e ainda tem disser que o amo muito, meu
coragem de exigir que eu a filho, você acredita?
respeite? — Gostaria de acreditar.
Laura não emitia nenhum Queria muito acreditar, mas
som. Seu coração batia acele- não consigo.
rado, o suor cobria seu corpo — Por quê?
e um nó parecia apertar-lhe a — Porque não me lembro de
garganta. Com muito esforço ter recebido um beijo seu no
conseguiu dizer ao filho: meu rosto ou uma palavra
— Há quanto tempo sabe que pudesse me estimular
desse episódio? crescer e ser feliz. Suas
— Há cinco anos! palavras sempre foram de
— E... foi por isso que entrou críticas que me afundavam
para as drogas, por minha mais e mais.
culpa? — Filho, isso foi há muito
— Não sei se por sua culpa ou tempo, eu mudei, você é que
por minha própria culpa. O não percebeu. Saiba que eu o
que sei é que perdi o respeito amo, meu filho, muito!
por você; a frustração de não — Mas eu não entendo sua
ser esperado, não ser amado, maneira de amar, pelo menos
fez-me buscar outro caminho. não é a maneira que eu
— Marcos, pelo que vejo você entendo o amor maternal. E
fique sabendo que não fui eu Marília, desabafar com um
que tirei seu relógio, não amigo.
cheguei a este ponto ainda. — Olha Marcos, vou deixá-lo
Dizendo isso, saiu deixando entrar, mas, por favor, se é
sua mãe com o rosto entre as mesmo amigo de André,
mãos, amargando as lágrimas queira o bem dele, já que não
de arrependimento. Dirigiu-se está preocupado com o seu
à casa de André. próprio.
— Por favor. Dona Marília, Marília levou-o até o quarto
poderia falar um instante com de André.
o André?
— O que deseja falar com ele.
Marcos? ARREPENDIMENTO
— Nada de importante, só
conversar um pouco. Diante
do olhar indagador de Marília,
acrescentou;
— Não se preocupe, vou
realmente apenas conversar.
— Conversar sobre o quê,
Marcos?
— É que briguei com minha
mãe. Preciso conversar com
alguém, sabe como é Dona
Assim que Marcos saiu, Laura
não se conteve e caiu em
copioso pranto. Pela primeira
vez, em tantos anos, começava a
ter noção da extensão do mal
que fizera ao filho que rejeitara
no passado. Sua cabeça rodava,
impedindo-a de raciocinar com
clareza sobre a situação que
vivia.
— Que faço meu Deus! Que
louca fui a comentar com Elvira,
mais uma vez, esse fato que só
me causa vergonha. Não sei com
quem me aconselhar a quem
recorrer nesse momento. Não
posso falar com Pedro. Ele nunca
soube o que
fiz; imagino que se souber, vai
me odiar.
Laura mergulhou em profundo
abatimento.
Seus sentimentos eram
confusos. Não conseguia definir
com exatidão por que sofria se
por ela ou por Marcos. De
repente lembrou-se de Elvira.
— Elvira! Claro! Por que não me
lembrei antes dela! - exclamava
para si mesma.
Levantou-se e sem demora ligou
para a cunhada.
— Elvira.
— Sim! - ouviu-se do outro lado
da linha.
— Elvira, sou eu, Laura.
— Oi, Laura, tudo bem com você?
— Não, amiga, nada bem comigo. Você não imagina o que aconteceu
hoje, ou melhor, agora há pouco. Estou perdida!
— Conte-me, Laura. O que aconteceu para deixá-la assim tão ansiosa?
— Não posso falar por telefone. Poderia vir até aqui? Por favor, Elvira,
diga que sim!
— Está bem, quando quer que eu vá?
— Hoje, agora! Por favor!
— Agora, Laura?
— Sim! Por tudo que é mais sagrado, venha agora.
— Está bem. Dentro de uma hora mais ou menos estarei aí.
Laura sentiu-se mais aliviada. Confiava em Elvira e sabia que ela
poderia ajudá-la com seus conselhos.
Enquanto isso, Marcos desabafava com André.
Sentia-se magoado. Não furtara o relógio de sua mãe como ela havia
acusado. Fazia muita coisa errada, sim, mas nunca furtara nada em sua
vida.
— Mas ela o acusou mesmo. Marcos?
— Sim, André, acusou. Disse claramente que sabia por que eu furtara.
Acreditava que para comprar ou pagar dívida de droga.
— Ela disse "droga", com todas as letras?
— A palavra em si não. Mas deixou bem claro que era o que pensava.
— É, Marcos, estamos em uma enrascada. Meus pais também
descobriram que fumamos maconha.
— Verdade?!
— E o que pretendem fazer?
— Levar-me para conversar com um médico amigo deles, o Dr. Rubens.
Eu já lhe falei sobre ele.
— Essa não!
— E tem mais!
— Diga!
— Já têm conhecimento da falsificação das notas.
— André, como você foi deixar que descobrissem?
— Foi a linguaruda da Laís que contou para minha mãe.
— E agora, o que vai fazer?
— Nada! Fazer o que eles querem. Falar com o tal médico.
— Que "mico", hein, André?
— Não, Marcos, "mico" nenhum. Graças a Deus descobrimos tudo a
tempo de poder ajudá-los.
Os dois olharam espantados para Marília que, sem que eles
percebessem, entrara no quarto levando uma bandeja de suco.
— Mãe!
— Desculpem-me, esqueceram de fechar a porta e não pude deixar de
ouvir a conversa de vocês. Entristece-me ver dois jovens saudáveis,
com famílias bem constituídas, tendo todas as oportunidades de
conquistar uma vida digna de estudo, trabalho, enfim, vivendo em um
lar de verdade onde recebem carinho e amor, enveredarem para o
caminho da droga.
— Mãe, já disse que maconha não é droga.
— É sim, André! É uma droga traiçoeira que ataca e destrói lenta e
sorrateiramente seus adeptos.
— Mas, Dona Marília, não sentimos nada de diferente! - exclamou
Marcos.
— Ainda não Marcos. Mas se continuarem com essa prática leviana,
imprudente e enganosa, logo vão sentir os primeiros efeitos, e as
conseqüências fatalmente virão.
— Dona Marília, pode ser que o André não tenha motivos para isso,
mas eu tenho, e motivo sério.
— Verdade, Marcos? Eu poderia saber qual é? Quem sabe posso ajudá-
lo.

Marcos olhou para André. Incentivado pelo olhar do amigo relatou a


Marília todo o seu drama, sem nada omitir. Marília sentiu um aperto em
seu coração por imaginar quanto devia sofrer aquele coração ainda
jovem que sabia ter sido rejeitado e acreditava não ser amado por sua
mãe. De maneira maternal, segurou suas mãos e lhe disse:
— Marcos, imagino quanto deve sofrer, mas penso que não devemos
nos desviar do caminho do bem, violentando nosso corpo, estragando
nossa saúde, por não conseguirmos compreender e muito menos
aceitar as fraquezas dos outros, mesmo que seja nossa mãe. Um erro
nunca vai justificar o outro. Você já tentou conversar com sua mãe,
conhecer os motivos, as fragilidades que a fizeram agir desse modo?
— Acabei de ter uma conversa com ela, mas foi a pior possível. Não
existem motivos que justifiquem o que ela fez. Não sei Dona Marília,
acho que não valeria a pena tentar conversar de novo.
— Pode ser Marcos, mas lembre que somos fracos e imperfeitos e
acredito que ela também deve sofrer remorso pelo que fez. Dê-lhe
oportunidade de desabafar e dizer-lhe que te ama. Esses anos todos
não foi uma boa mãe?
— Devo reconhecer que sim. Quando era pequeno não me recordo de
receber seus carinhos, mas, a partir dos sete anos, quando entrei para
a escola, realmente foi carinhosa e muito boa mãe para mim.
— Então, Marcos, converse com ela, saiba o caso por inteiro, assim
poderá avaliar com mais justiça.
— E, ela me disse que eu não tinha escutado o fim da conversa dela
com minha tia Elvira.
— Está vendo? Mais uma razão para voltar a conversar seriamente com
sua mãe. Faça isso!
— A senhora acredita que ela me ama?
— Acredito, acredito sim! - exclamou Marília com firmeza.
— Eu vou pensar. Prometo que vou pensar.
— Que bom Marcos. Por falar nisso, já que falamos de franqueza, por
que não acompanha o André no encontro com o Dr. Rubens? Poderá lhe
fazer muito bem e com certeza ajudá-lo bastante.
— É, pode ser talvez eu vá.
— Seria o ideal se vocês resolvessem essa questão juntos; um daria
força para o outro. Agora, se me dão licença...
Marília saiu deixando os dois amigos sozinhos.
— Puxa, sua mãe é esperta, heim, cara?
— Sabe, cara, eu falei para eles tudo o que você disse para mim, mas
não consegui convencê-los. Estão apavorados. Têm receio que eu me
envolva com as drogas pesadas.
— Mas você não explicou que maconha não é droga, que não vicia!
— Expliquei cara, mas eles não acreditam e não aceitam. Estão
convencidos que é droga sim e querem a todo custo me afastar disso.
— "Sujou", heim, cara! Por falar nisso, estou precisando. Topa?
— Sei não Marcos!
— Deixa de ser molenga, André!
— "Tá" bom, "vamo" lá.
Saíram sem avisar Marília.
Acreditavam poder resolver seus problemas e não conseguiam perceber
quanto iam se afundando no caminho incerto e perigoso do vício.
Marília da janela de seu quarto pôde vê-los saindo. Seu coração
apertou e seus olhos encheram-se de lágrimas.
— Meu Deus, o que será que nos espera? Por qual sofrimento ainda
teremos de passar, Paulo e eu?
Fechou as cortinas, cerrou os
olhos e orou ao Senhor por
aqueles dois adolescentes que
mal começavam a viver e já
comprometiam suas vidas
com a inconseqüência.
EM BUSCA DO PERDÃO
A











— Meu Deus, Laura, ele Estou confusa e temerosa
jamais deveria ter tomado com o que possa acontecer
conhecimento dessa loucura aqui em casa.
sua. — Agora, Laura, é encarar os
— Eu sei, mas o que posso fatos e tentar resolvê-los da
fazer? Não foi de propósito melhor maneira possível.
que falei para ele escutar. Acho que deve começar com
Agora não sei o que fazer uma conversa séria, adulta e
Elvira. Ajude-me, pelo amor franca com o Marcos.
de Deus! — Mas dizer o quê, se ele já
— Veja você, Laura: sabe de como tudo aconteceu,
pensamos que as coisas que e pelo visto não me perdoou?
fazemos se perdem no — Laura, controle-se e pense:
passado, acreditamos que o Marcos ouviu apenas uma
tudo não passa de lembranças parte da história, como você
tristes e nada mais, ou então mesma disse. Conte-lhe o que
que são fatos que jogamos no falta, o que aconteceu depois.
canto do nosso coração e os Abra seu coração para ele e
esquecemos. Mas esses deixe seus sentimentos
mesmos fatos ressurgem no saírem livremente. É disso
nosso presente e ameaçam- que ele está precisando nesse
nos de maneira muitas vezes momento: ouvi-la. Quanto ao
assustadora. perdão, se não for de
— Mas o que faço agora? imediato, virá posteriormente.
Dê-lhe o tempo de que ele guei, eu devo consertar.
precisar. — É verdade, só você poderá
Laura ficou pensativa por uns tirar do coração do Marcos o
minutos e em seguida disse à mal que causou a ele, a dor
cunhada: que dilacera seu coração. Mas
— Você tem razão! Preciso faça rápido, pois o tempo que
enfrentar a situação, não dá desperdiçamos que perdemos,
mais para fugir. Só espero jamais poderá voltar.
que ele tenha boa vontade Laura permaneceu pensativa
para me ouvir. por alguns instantes.
— Talvez esteja esperando Lembrou-se do momento em
por isso. que começou a perceber
— E Pedro? O que faço quanto quanto amava seu filho e
ao Pedro? quanto ele passara a ser a
— Escute Laura, Pedro é outra pessoa mais importante na
história. Você sustentou esse sua vida. "Fora uma tola, uma
casamento com este segredo inconseqüente", dizia para si
entre vocês, e nada é mesma.
verdadeiro entre duas — Ei, Laura, acorda! -
pessoas quando existe exclamou Elvira.
mentira entre elas. Faça uma — Desculpe-me. Estava
coisa de cada vez. pensando no amor que sinto
— Tem razão, Elvira. Vou pelo meu filho e nunca soube
seguir seu conselho, eu estra- demonstrá-lo da maneira
como ele precisava. Possivelmente quando chegar
— Então demonstre agora. estarei dormindo.
Devemos sempre acariciar e
dizer palavras de afeto para
as pessoas que amamos, no
presente, no hoje, porque
amanhã elas poderão partir e
nós também.
— E aí a oportunidade se
quebra e o momento passa,
não é isso?
— Exatamente, Laura!
— Você tem razão. Mais uma
vez você tem razão, Elvira. Eu
lhe agradeço pelo auxílio que
me deu no momento de maior
angústia, obrigada. Amanhã
mesmo chamarei o Marcos e
tentarei ter uma conversa
com ele.
— Por que não hoje?
— Hoje ele chega tarde. Vai
assistir ao show de um amigo
dele que toca em uma banda.
— Pensando bem, é melhor cunhada.
mesmo que seja amanhã, A prudência deve ser
assim você terá esfriado sua constante em nossa vida. Agir
cabeça e estará em melhores com leviandade traz
condições para se entender conseqüências que vão nos
com ele. Mas, por favor, machucar posteriormente, e
Laura, já que tudo veio à nem sempre podemos
tona, não lhe esconda mais consertar o estrago feito nos
nada. corações das pessoas e no
— Não, Elvira, não pretendo nosso próprio.
esconder nada, acredite. Temos de ser fortes para
Dizendo isso, Laura levantou- viver.
se e foi até a cozinha buscar Temos de acreditar que tudo
um refresco para ambas. está envolvido dentro de uma
— Pobre, Laura - pensou programação muito bem
Elvira —, está sendo vítima elaborada para nosso
dela mesma. Quantos progresso espiritual.
dissabores podemos evitar se Deus não nos dá o que
agirmos com mais prudência, pedimos, mas sempre o que
sem nos atropelarmos no precisamos. Se nos
nosso próprio egoísmo. rebelarmos contra a vontade
O som da voz de Laura do nosso Criador, um dia, em
chamando-a fez com que algum lugar do futuro ou da
Elvira fosse ter com a eternidade, perceberemos
que, como sempre, nosso Pai ninguém, seja qual for o
estava certo e justo e nos motivo, deve ser criterioso,
envergonharemos de nossas porque nem sempre
atitudes. conseguimos eliminar dos
Nossas ações devem controlar ouvidos das pessoas o som de
nossos pensamentos, as nossa voz que pronunciou o
marés avançam para as praias mal, ou mesmo a dor que foi
e recuam novamente para o causada por leviandade
mar, assim também será nossa.
nossa tristeza que se tornará O hábito de sorrir para a vida
o ontem, se permitirmos que deve ser cultivado apesar de
a alegria se torne o hoje. todas as dificuldades e
Devemos sempre nos esforçar violências que a humanidade
para aprender a amar e, por está sofrendo por conta de
que não, nos comportar de alguns que vivem sem Deus.
uma maneira que possamos Quando conseguimos sorrir,
ser amados. os nossos problemas são
Mais que tudo é adquirir reduzidos ao seu tamanho
serenidade e paz para nosso real.
espírito. Só conquistamos a Se a tristeza nos visitar e
paz quando não manchamos demorar em se retirar, é im-
nosso coração com o mal portante nos mantermos
causado pelo desamor. O ocupados para não termos
cuidado para não ofender tempo de ficar tristes.
Tudo passará um dia! É
importante nós nos
lembrarmos disso!
CONVERSA FRANCA

No dia seguinte, Laura amanheceu

animada. Conseguira dormir bem à noite


e sentia-se confiante.
— Farei tudo como de costume -
pensou. Não vou deixar que minha
ansiedade atrapalhe minha rotina
caseira.
— Tudo bem com você, Laura? -
perguntou Pedro, assim que sentou à
mesa para o desjejum.
— Claro, Pedro, tudo bem! Por que a
pergunta?
— Não sei. Pareceu-me um tanto
ansiosa, apesar de sua aparente
animação. Aconteceu alguma coisa que
não é do meu conhecimento?
— Não aconteceu nada, Pedro! -
exclamou Laura demonstrando
impaciência.
— Está bem, apenas preocupei-me com
você. Já que está bem...
Tomou o café servido pela esposa e
dirigiu-se ao trabalho. Em seguida
Marcos apareceu pronto para ir ao
colégio.
— Marcos, gostaria de ter uma conversa
com você.
— Para quê, mãe? O que tem a me
dizer?
— Muita coisa, meu filho, ou melhor,
tenho tudo a lhe dizer e gostaria que me
ouvisse.
— Sem essa, mãe, não "tô" a fim. Já sei
o que vai falar, vai tentar explicar o que
não tem explicação e procurar diminuir
sua culpa.
— Meu filho, não vou tentar explicar
nem diminuir minha culpa, porque
concordo com você; não tem explicação
que justifique o que fiz e sei que sou
culpada sim. Quero apenas me abrir
com você, dizer da minha insegurança
daquela época, da minha fraqueza e da
total falta de maturidade. Dizer também
o final da conversa que você não ouviu e
é muito importante que saiba.
Percebendo a franqueza e humildade de
sua mãe. Marcos sentiu seu coração se
enternecer. Sem o sarcasmo costumeiro
disse a Laura:
— Pois bem, mãe, podemos conversar,
mas não agora. Tenho prova e não
posso me atrasar.
— Quando chegar do colégio, após o
almoço, pode ser?
— Pode. Vamos combinar assim: às
quinze horas, está bem?
— Está, filho, para mim está ótimo.
Laura mal podia acreditar que Marcos
concordara. Era a grande oportunidade
para se harmonizar com seu filho. Era o
que mais queria e precisava. Abriria seu
coração sem reservas - pensava —, sem
medo ou constrangimento e tudo nos
mínimos detalhes seria dito.
Posteriormente teria com Pedro a
mesma conversa que evitara por tantos
anos.
A manhã transcorreu lenta em relação à
ansiedade de Laura. Mal conseguia se
concentrar em seus afazeres do-
mésticos. Temia perder de maneira
irreparável o amor de seu único filho.
— Por que caímos em erros tão graves?
- dizia para si mesma. Matar um filho
inocente por meio de um aborto, como
pude ser tão mesquinha e insensível ao
tentar realizar ato tão vil?
A cada pensamento seu coração
acelerava os batimentos e o medo se
agigantava em seu peito.
O toque do telefone trouxe-a de volta à
realidade.
— Alô!
— Laura, sou eu, Elvira.
— Oi, amiga! Que bom falar com você,
estou tão ansiosa que tenho a impressão
de que as horas pararam e o tempo não
sai do lugar.
— Nossa o que está acontecendo?
— Combinei com o Marcos hoje às
quinze horas para termos a conversa
que há muito tempo evitei, mas que
agora é necessária e não dá mais para
adiar. Estou nervosa e temerosa com o
que poderá acontecer após nosso
encontro.
— Coragem, minha amiga. A verdade é
sempre preferível que a mentira. Você já
não ouviu falar que a mentira tem
pernas curtas? Sabe por quê? Porque a
verdade tem voz e um dia todos
escutarão a voz da verdade, não
importa quanto tempo passe. Mas muito
cuidado, não conserte um erro come-
tendo outro. Conte-lhe toda a verdade,
limpe sua alma e acalme a dele.
— É o que pretendo fazer. Vou tirar dos
meus ombros este peso que carrego há
tantos anos.
— E Pedro?
— Farei o mesmo com Pedro. Já o
enganei demais, agora chega, quero
passar minha vida a limpo.
— Faça isso, Laura. Estou torcendo por
você. Jesus vai iluminá-la, porque Ele
nunca condenou ninguém. No que
precisar conte comigo.
— Obrigada, Elvira.
— Então boa sorte. Amanhã nos falamos
de novo.
— Tudo bem. Um beijo.
Assim que desligou o telefone, Laura
sentiu um desejo enorme de se
comunicar com Deus. Fez silêncio em
sua alma e entregou-se à prece,
confiando e suplicando auxílio Àquele
que ampara sempre os que erram e se
arrependem.
A hora esperada e temida por Laura
finalmente chegou.
Sentada em frente ao filho, torcia
nervosamente as mãos enquanto
buscava palavras que explicassem o que
tanto queria dizer.
— Vamos, mãe, diga logo o que tem
para me falar, estou esperando! -
exclamou Marcos também nervoso, mas
tentando dar um ar irônico à sua voz.
— Não é fácil para mim, filho, dizer para
você quanto eu errei; quanto fui
mesquinha e egoísta.
— E... não deve ser mesmo! Vamos ser
práticos; diga apenas o motivo que fez
com que você me rejeitasse não me
quisesse em sua vida, tentasse me
matar. É só isso que quero saber, o
porquê de tudo.
— Preste atenção no que vou lhe dizer e
faça um esforço para me compreender,
embora eu admita que tenha motivo
suficiente para não aceitar.
— Fale!
— Quando eu era ainda bem nova
pequena mesmo, comecei a perceber a
diferença com que minha mãe me
tratava em relação aos meus irmãos.
Tudo de melhor, de mais bonito, de mais
caro, era para eles. O carinho, os
abraços, a atenção, enfim, cresci
sentindo-me rejeitada, preterida, e não
conseguia entender o porquê dessa
atitude de minha mãe, até que um dia
descobri que era adotada.
— Que é isso, mãe! Quem adota uma
criança age por um ato de amor; não faz
sentido tratar mal um filho que adotou
porque quis. Não tem nenhuma lógica.
— Concordo com você. Marcos. Mas nem
sempre os motivos que levam a essa
adoção são de amor.
— Como assim? Não entendi.
— Na realidade, sou filha de meu pai
com outra mulher que morreu no parto
quando nasci. Não tendo outra saída,
meu pai foi obrigado a contar à esposa
dele que tinha uma filha, enfim, contou
toda a história de sua infidelidade. Não
tendo com quem deixar-me, obrigou-a a
aceitar-me como filha e ela legalmente
tornou-se minha mãe. Mas ela nunca me
perdoou por ter entrado em sua vida
sem ser esperada ou desejada. Ela já
tinha dois filhos e considerava-me uma
intrusa que usufruía do amor de meu pai
e dos meus irmãos sem ter direito
algum.
— E por que então ela aceitou?
— Por medo de perder meu pai.
— E o vovô não fazia nada?
— Durante algum tempo lutou muito
para que eu fosse aceita e amada de
verdade por sua esposa, mas depois
desistiu. Tratava-me bem, mas sem
nenhuma atenção ou carinho especial.
Talvez movido pelo remorso de ter
traído a esposa, não queria magoá-la
ainda mais e deixou que as coisas
corressem como mamãe determinava.
— Mas o que tudo isso tem que ver
comigo?
— Quando conheci seu pai, apaixonei-
me perdidamente por ele e fui
correspondida. Nunca ninguém me
tratara com tanto amor e carinho.
Quando nos casamos decidi que não
queria ter filhos para não dividir com
ninguém o amor que recebia pela
primeira vez em minha vida. Tinha
receio de agir como minha mãe e
começar a achar que meu filho era um
intruso e que iria roubar de mim o amor
do homem que eu amava. Entrei
praticamente em uma obsessão pelo
amor de seu pai e tinha convicção que
com um filho perderia o que tanto
custara para receber.
— E papai, também não queria ter
filhos?
— Queria, sempre quis desde que
casamos, mas eu sempre inventava
motivos para que isso não acontecesse.
Quando engravidei de você, entrei em
pânico e não preciso dizer o que fiz
porque você já sabe.


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M
O

Nesse instante, Laura para resolver fazer o que seu
lembrou-se de que ainda teria coração mandar.
de vencer outra batalha: Pedro sentou-se ao lado da
Pedro. esposa. Laura, bem mais
— Oi, querido, não chegou tranqüila, narrou-lhe tudo o
mais cedo hoje? que contara a Marcos, sem
— Não, sabe que horas são? nada omitir. Pedro a tudo
Quase dezenove horas, você escutava com uma expressão
não percebeu? de surpresa e incredulidade
— Meu Deus, perdi a noção do no rosto. Quando a esposa
tempo! - exclamou. terminou, disse-lhe:
— O que aconteceu para — Estou realmente perplexo
deixá-la assim. Onde está o com tudo isso. Por que você
Marcos, brigaram outra vez? nunca me contou? Escondeu
— Saiu, e ao contrário do que esse sentimento por tanto
pensa não brigamos, nos tempo, se martirizando, quase
encontramos. cometendo o ato vil do
— Explique-me. aborto, quase impedindo de
— Pedro, por favor, sente-se termos nosso filho do nosso
aqui ao meu lado, preciso lado. Por que não se abriu
contar-lhe uma coisa. comigo? Poderia ter evitado
— Nossa quanto mistério! toda essa história, para você
— É sério, Pedro, muito sério. e para o Marcos.
Gostaria que me ouvisse com — Por medo de perder você,
atenção e depois sinta-se livre se descobrisse a coisa horrível
que tinha feito. — Não, Laura, eu não vou
— Mas, se tivesse confiado no deixá-la, porque meu coração
meu amor por você, saberia ainda sente o mesmo amor
que nosso filho não iria nos por você, mas gostaria que
separar, ao contrário, iria nos aprendesse a confiar em mim,
unir mais, pois era o fruto, a entender as diversas formas
prova do nosso amor. O amor de amar. Devemos desejar a
de um pai jamais sufoca o felicidade de nossos entes
amor de um homem por sua queridos e a felicidade só é
esposa, se ele a amar de possível por meio da
verdade, e eu sempre a amei sinceridade e do amor que se
de verdade, Laura. O amor é exercita naturalmente, sem
um sentimento elástico, egoísmo, sem apego e sem
quanto mais damos, mais ele nos colocar como o centro do
cresce. Devia ter confiado Universo. Todos temos o
mais em mim, no meu direito de amar e ser amados.
sentimento por você. Laura levantou-se, e
— Me perdoa Pedro, por favor! sentando-se no colo do
— Não sou eu quem tem de marido, beijou-lhe
perdoá-la, é você mesma que delicadamente o rosto e lhe
deve tirar a culpa do seu disse emocionada.
coração, se harmonizar com — Obrigada, Pedro. Hoje sei
Deus pelo cumprimento de quanto fui tola, inconseqüente
Suas leis. e fraca. Tão tola que nem
— Você... não vai me deixar? pude perceber o homem
maravilhoso que tenho ao abraçados por algum tempo,
meu lado. até que escutaram a batida da
— Já passou Laura, o porta e a voz de Marcos
importante é que o Marcos gritando:
compreendeu e a perdoou; — Mãe, estou com fome!
isto quer dizer que daqui para
frente voltamos a ter paz aqui
em casa.
Os dois continuaram
A PASSAGEM DE ISABELA
sposta.
Naq Assim que Dona Ana entrou
uel no quarto, estranhou o fato de
a Isabela estar ainda dormindo.
ma Abriu as cortinas e se
nhã aproximou da menina para
de ajudá-la a se levantar. Olhou
out a cadeira de rodas ao lado de
ono sua cama e, sem ter
, explicação, sentiu um aperto
Isa no coração.
bel — Isabela, acorde, está na
a hora de levantar-se para ir à
aco escola.
rdo — Não estou dormindo Dona
u Ana - respondeu Isabela —,
sen estou apenas com os olhos
tind fechados.
o- — Não está se sentindo bem,
se querida?
um — Não sei dizer direito o que
pou sinto, mas estou sem forças,
co sem vontade, parece que meu
indi corpo pesa e não quer sair da
ca brincando e dando um beijo
ma. em seu rosto.
— — Não, não é Dona Ana,
Não estou mesmo indisposta. Será
é que vou ficar gripada?
um
pou
co
de
pre
gui
ça,
sua
mi
ma
din
ha?
!-
excl
am
ou
Do
na
Ana
— Pode ser! Quer que eu lhe Dona Ana atendeu ao pedido
traga o café aqui no quarto? de Isabela. Fechou as
— Não sinto vontade de cortinas, cobriu a menina com
comer. Não estou com fome. extremo carinho e foi direto
— Nem um chá ou um suco ao telefone falar com Rubens.
de laranja de que você gosta — Por favor, senhorita, aqui é
tanto? a governanta da casa do Dr.
— Obrigada, Dona Ana, mas Rubens, preciso falar com ele
não quero nada mesmo, a não com urgência.
ser ficar quieta. — Um momento senhora -
Fechou novamente os olhos. ouviu-se do outro lado da
Dona Ana começou a ficar linha. Dona Ana esperou com
preocupada. Nunca vira um pouco de impaciência.
Isabela assim desanimada. — Alô! Dona Ana, aconteceu
Olhou mais atentamente para alguma coisa com Isabela?
a menina e percebeu seu — Não sei, mas estou
rosto pálido e a feição triste. preocupada com ela.
"Vou chamar Dr. Rubens", — Diga-me por quê!
pensou; pode ser que ela — Não quer se levantar da
esteja mesmo doente. cama, disse que não vai à
— Por favor. Dona Ana, feche escola porque está indisposta
novamente as cortinas e e também não quis aceitar o
deixe-me ficar mais um pouco desjejum.
na cama. Não vou à escola — A senhora notou em
hoje. Isabela alguma alteração
significativa? abrir os olhos.
— Notei que está muito pálida — Sim, querida, sou eu.
um pouco febril e um olhar Chamei seu pai para vir vê-la.
muito triste. Gostaria que o Deve estar chegando. Fique
senhor viesse vê-la. tranqüila, não vou sair de
— Fique tranqüila, em quinze perto de você.
minutos estarei aí. Passado um curto espaço de
Dona Ana voltou novamente tempo, Rubens entrou no
ao quarto de Isabela. A quarto. Com carinho
menina continuava na mesma aproximou-se de sua filha e
posição, de olhos fechados e a depositou um beijo em sua
palidez acentuara um pouco face.
mais. Colocou a mão na testa — Então, meu anjo, o que
de Isabela e verificou que você está sentindo?
continuava febril. — Não sei explicar, papai.
— O que será que tem essa Sinto uma fraqueza muito
menina, meu Deus. Ontem ela grande, é como se não tivesse
estava tão bem! força para nada. Quero
Sentou-se na poltrona ao lado apenas ficar quieta e dormir.
de sua cama e ficou Rubens com delicadeza e
aguardando a chegada do Dr. carinho examinou a filha
Rubens. minuciosamente. Constatou
— É a senhora que está aí que realmente ela estava
Dona Ana? - perguntou febril. Fez-lhe algumas
Isabela com voz fraca e sem perguntas e optou em levá-la
até o hospital para fazer
alguns exames e chegar ao
diagnóstico correto.
— Não quero ir ao hospital,
papai!
— Filha, é o hospital onde o
papai trabalha. Gostaria que o
Dr. Alex a examinasse. Estarei
com você a maior parte do
tempo. São necessários
alguns exames para saber o
que exatamente você tem.
— Está bem!
Rubens ligou pedindo que a
ambulância viesse buscá-la.
Instalada no quarto de
hospital, Isabela pediu ao pai
que buscasse sua amiga Laís
para ficar com ela.
— Por favor, papai, gostaria
muito de conversar com ela.
Ela é minha amiga, traga-a
aqui.
— Filha, você veio apenas — Obrigada, pai. O senhor
para fazer alguns exames, eu sabe quanto eu amo o senhor,
já lhe expliquei. Ficará pouco não sabe?
tempo aqui. Amanhã ou — Sei filha. Mas saiba que é o
depois estará em casa meu amor por você que dá
novamente, aí sim, buscarei a sentido à minha vida; o seu
Laís para lhe fazer companhia. sorriso é que traz alegria ao
— Pai, sinto algo muito meu coração e a sua força é o
estranho em mim. Não sei exemplo que eu tento seguir.
explicar, mas pressinto que Papai ama você, filha, mais
não voltarei mais para casa. que tudo nessa vida.
Rubens espantou-se. Os dois se abraçaram de uma
Abraçando a filha com emoção maneira surpreendente.
lhe disse: Isabela experimentou a
— Filhota, não fale assim. São sensação de despedida, como
apenas alguns exames. Você se fosse a última vez que
ficará boa logo, acredite no abraçava seu pai.
que estou lhe dizendo. Dona Ana presenciava tudo
— Está bem, papai, acredito. sem entender nada nem por
Mas, por favor, traga a Laís que Isabela estava tão aflita
aqui, quero ficar perto dela, é se ainda não tinha feito
minha única amiga. nenhum exame e nada sabiam
— Se é o que você quer, a respeito do que ela poderia
mandarei o motorista buscá- ter.
la. — Vocês se comportam como
se fossem se separar mãe, seus irmãos e orou a
definitivamente. O que é isso, Jesus para que a amparasse.
Isabela? E o senhor, Dr. — Meu Deus, não sei o que
Rubens, não são apenas tenho nem o que vai me
exames que ela vai fazer? acontecer, mas seja o que for,
— Claro Dona Ana, é que confio em Vós e sei que não
Isabela é muito amorosa; é estou sozinha. Venha em meu
assim desde a mais tenra auxílio. Assim seja.
idade. Bem, agora vou Tudo aconteceu muito rápido.
chamar o Dr. Alex para vê-la Uma dor mais forte, outra, e
e posteriormente fazermos os uma parada cardíaca
exames que ele julgar transportou Isabela para o
necessário. Com licença. mundo dos Espíritos.
— Não se esqueça da Laís! - Isabela desencarnara na flor
exclamou Isabela. de sua adolescência.
— Dona Ana, por favor, diga — Dr. Rubens, o senhor
ao motorista que vá até a precisa reagir se alimentar.
casa da Dona Marília e peça- Por tudo o que já passou o
lhe permissão para trazer a que já sofreu sem nunca se
Laís. desesperar, confie mais uma
— Voltarei em um instante, vez em nosso Pai que está no
Isabela. céu.
Saiu e Isabela se viu sozinha. — Ele tirou, mais uma vez,
Sentiu uma dor forte no peito um ente querido meu.
e teve medo. Pensou em sua — Não, Dr. Rubens, Deus não
nos tira nada e o senhor sabe — Posso imaginar Dr. Rubens;
tão bem disso porque foi o pelo tamanho da minha dor,
senhor mesmo quem me posso imaginar a do senhor.
ensinou. Como o senhor Mas é preciso reagir, ter fé e
sempre diz, a resposta vamos esperança. Tudo o que nos
encontrar um dia em algum acontece nasce de uma causa
lugar do futuro. o senhor me ensinou isso.
— Dona Ana, não é desespero Hoje não conhecemos a
nem revolta o que sinto, mas resposta, mas futuramente,
uma tristeza tão grande que no retorno, tudo será
tira de mim todas as minhas compreendido. O senhor
forças. Separei-me de minha sempre foi uma pessoa boa,
mulher e de meus filhos no nosso Pai dará um jeito de lhe
dia que era para ser um dos trazer forças. O senhor aceita
mais felizes para nós. Sou um um café?
homem só, tive tudo e agora — Prefiro um chá. Se puder
nada tenho. O que fazer de trazer-me, fico agradecido.
minha vida se não possuo Enquanto isso vou dar uma
mais objetivo, ideal? O que olhada nas coisinhas de
fazer com essa casa enorme, Isabela.
com o fruto do meu trabalho? Dona Ana saiu. Rubens,
O que faço com tudo isso? dirigindo-se ao quarto de Isa-
Encontrei força da primeira bela, começou a mexer nos
vez, mas será que conseguirei objetos da filha, com a
novamente? saudade cortando-lhe a alma.
Após alguns instantes, Papai, nunca esqueça que eu te
observou em cima da cama, amo! Há dois dias sonhei com
ao lado do travesseiro, um um anjo e no sonho ele me
envelope branco. Pegou-o e disse que viria me buscar
leu: "Papai". porque era chegada a hora do
O coração de Rubens disparou meu retomo. Que eu não
e ele empalideceu. tivesse medo, pois a bênção de
Dona Ana, ao entrar trazendo Jesus iria me amparar. Sou
a bandeja com o chá, ainda uma criança, não entendo
encontrou-o ainda segurando dessas coisas nem sei se o que
o envelope, sem coragem de a gente sonha acontece.
abrir. Pensei, então, em escrever para
— O que é isso? o senhor caso seja verdade e
— Dona Ana, veja! Encontrei isto aconteça realmente,
perto do travesseiro de queria lhe pedir que não se
Isabela. desespere nem sofra tanto,
— Que estranho! - exclamou porque como disse o anjo
Ana. — Abra Dr. Rubens, estarei amparada pelo amor de
vamos ver o que tem aí Jesus. Sou muito feliz porque o
dentro. senhor é o melhor pai do
Com mãos trêmulas, Rubens mundo, eu o amo e, com
abriu o envelope. Em uma certeza, se eu partir, sentirei
folha perfumada e cheia de muita saudade. Mas maior que
florzinhas miúdas desenhadas, a nossa dor e a nossa saudade
estava escrito: é o amor de Deus por nós. O
senhor me ensinou que o amor deixe de iluminar os caminhos
enxuga as lágrimas e, se eu daqueles que acreditam no Pai;
não estiver mais aqui, é porque enfim, papai, troque suas
chegou a hora do grande amor lágrimas pelo suor vertido em
que o senhor tem nesse benefício da felicidade do
coração enorme enxugar suas próximo para que encontre a
lágrimas mais uma vez. sua paz e a sua harmonia.
A Laís me contou que a mãe Tudo o que existe vem de
dela trabalha como voluntária Deus; nós viemos de Deus e é
em uma entidade que cuida de para Ele que retornamos; o Pai
gestantes carentes, ajudando nos une e nos separa por um
na confecção dos enxovais. curto espaço de tempo,
Nossa casa é tão grande, comparado à eternidade. O
transforme-a em um abrigo senhor deve estar estranhando
maternal. O senhor melhor do uma menina escrever tudo
que eu sabe como fazer isso. isso, mas é o anjo que está me
Faria bem a mim, ao senhor e dizendo e eu acredito muito
às mãezinhas que não têm um nele. Ele é lindo, papai!
teto para se abrigar e ter seus Sabe, papai, acho que é
filhos com segurança. verdade o que ele me disse, é
O desespero não soluciona possível que eu vá mesmo me
problema algum; a dor não vai encontrar com ele, mas onde
impedir o sol de brilhar; a eu estiver o meu amor estará
tristeza não evitará que a luz com o senhor. Diga à Dona
da verdade e do amor fraternal Ana que gosto muito dela e
agradeço todos os seus um anjo para me ajudar a
cuidados comigo. Não se caminhar, agora, Ele quer que
esqueça de dizer para a Laís eu caminhe sozinho. Que
que ela foi a única amiga de meus pés tenham força para
verdade que eu tive. prosseguir.
Se nesse momento suas Os soluços de Rubens e Ana
lágrimas estiverem embaçando ecoavam no quarto sobre-
seus olhos, demonstrando pondo a qualquer som que
toda a sua dor, lembre-se do pudesse existir. Naquele
que o Dr. Rubens ensina para momento não estavam ali
todos aqueles que sofrem: "O governanta e patrão, mas,
amor enxuga as lágrimas". É sim, dois seres que sofriam a
chegada a hora de mais uma penosa dor da separação.
vez o senhor enxugar as suas — As pessoas que amamos
por meio do amor Eu te amo! vão embora e nós não pode-
Isabela. mos impedir, o que podemos
— Veja Dr. Rubens, o auxílio e devemos compreender é
divino veio pela própria que a vida jamais se extingue,
Isabela. Ela mesma lhe deu a sofre mudanças,
resposta do que fazer com sua transformação, mas sempre
casa tão grande, com seus existirá de alguma maneira e
objetivos e com sua vida, e em algum lugar.
isso o senhor vem fazendo há Quando o sol se põe, e a noite
anos. desce, na verdade ele não
— Deus colocou ao meu lado acabou apenas está
iluminando outra parte do essas poderosas consolações
mundo. Os seres que amamos que secam as lágrimas, essas
quando nos deixam não aspirações maravilhosas que
significa que deixaram de vos mostrarão o futuro
existir. A nossa veste carnal prometido pelo Soberano
acaba, sim, mas o nosso Senhor. (Evangelho Segundo
espírito nasce do outro lado o Espiritismo — Capítulo V,
da vida para prosseguir a sua item 2)
evolução. O amor quando
verdadeiro une as pessoas,
não importa onde estejam AS DROGAS
nem o tamanho da distância.
Francisco de Assis disse: "A
nossa vida é como o sol,
nasce e se põe, obedecendo a
um determinado espaço de
tempo para tornar a nascer.
Nada morre eis aí a nossa
alegria."
Vós que compreendeis a vida
espiritual, escutai as pulsações
de vosso coração chamando
esses entes bem-amados, e se
pedirdes a Deus para os
abençoar, sentireis em vós
Marília entrou nervosa no
quarto de André. Pela primeira
vez faria algo que contrariava
seus princípios de respeito em
relação aos pertences dos
outros.
Sem conter seu nervosismo
começou a mexer nas coisas
dele, procurando o que, na
realidade, tinha medo de
encontrar. "Não é possível
que ele não consegue
entender o perigo a que está
se expondo", pensava,
enquanto mexia
desordenadamente em tudo o
que encontrava. "Tantas
vezes conversamos, mostrei a
ele o mal que a maconha
pode trazer ao corpo e à
alma. Quando me acalmo,
pensando que ele finalmente
entendeu, cai essa bomba
sobre minha cabeça."
O quarto parecia ter sido
atingido por um vendaval,
tamanha confusão feita por
Marília.
— O que está fazendo no meu
quarto? - perguntou André
encostado na porta.
Marília virou-se rapidamente e
por alguns instantes teve
medo da reação do filho. Ia
responder quando novamente
André gritou:
— Quem te deu o direito de chorou.
entrar no meu quarto e mexer — Filho, não quero que vá
nas minhas coisas? embora daqui, nós amamos
— O fato de ser sua mãe me você, queremos o seu bem,
dá esse direito quando que seja feliz. Por que você
percebo que você está se não larga o vício? Veja o mal
envolvendo com prática que está fazendo a você, a
perigosa. nós que somos sua família.
— Engano seu. Nem a Tornou-se irônico, agressivo,
senhora tem esse direito; a enfim, mudou seu
senhora é minha mãe, não comportamento conosco.
minha dona, e da minha vida — Que mal, do que a senhora
cuido eu! está falando?
Marília um pouco — Fui chamada na escola e
descontrolada respondeu me disseram que você e o
quase gritando: Marcos foram suspensos por
— Enquanto viver sustentado uma semana porque foram
pelo seu pai e aqui na nossa pegos fumando maconha no
casa, você tem deveres para pátio na hora do recreio. A
conosco e um deles é nos diretora me disse que se
respeitar! acontecer novamente serão
— O que quer dizer com isso? os dois expulsos do colégio. O
Quer que eu vá embora? que você me diz?
Marília sentou-se na cama e André perdeu a valentia.
cobrindo o rosto com a mãos Sabia que não teria mais
nenhum argumento e que não ele. Diante do silêncio do
conseguiria enganar e mentir filho, Marília aproximou-se
mais para sua mãe. dele e dentro do possível
— Por que faz isso, filho? O tentou ser calma e prudente.
que procura? O que pensa que — André, pelo visto você não
vai conseguir entregando-se vai conseguir se livrar
ao vício? Não percebe que a sozinho, você precisa de
maconha poderá levá-lo à ajuda e o Marcos também.
perdição, à desgraça, ao Gostaria que o chamasse aqui
sofrimento e até à prisão? O com seus pais para
seu pai e eu deixamos de conversarmos e ver o que
fazer alguma coisa que podemos fazer para salvá-los
provocou essa sua atitude? enquanto é tempo.
Diga-me o que falta a você? Dizendo isso, Marília saiu do
André continuava cabisbaixo. quarto deixando para ele a
Não tinha o que responder tarefa de recolocar tudo no
porque sabia que não existiam lugar.
motivos para levá-lo a essa Assim que Paulo chegou,
imprudência. Sempre fora tomou conhecimento pela es-
amado e respeitado por seus posa de tudo o que
pais, nem ele mesmo sabia acontecera.
por que tinha entrado nessa — Marília, parece-me mais
loucura. Lembrava apenas sério do que supúnhamos.
que fora Marcos quem Você fez muito bem em
apresentara a maconha para chamar os pais do Marcos;
nós quatro teremos mais dependente da maconha.
condições de encontrar uma Vamos tentar ajudá-lo.
solução para o problema. — Vou ligar para a Marília e
Na casa de Marcos a mesma combinar o dia e horário para
cena se repetia. Laura e nos encontrarmos.
Pedro, temerosos com o
mesmo fato de que tomaram
conhecimento na escola,
tentavam encontrar uma
solução quando Laura teve a
mesma idéia de Marília.
— Boa idéia, Laura. Juntos
poderemos encontrar o me-
lhor caminho para resolver
essa situação.
— Eu havia dito ao Marcos
que precisávamos ter uma
conversa sobre esse assunto,
mas ele sempre fugia dizendo
ter de ir para a escola, fazer
isto ou aquilo, enfim, nunca
tinha tempo.
— Bem, agora é concentrar
nossa atenção nesse fato
concreto: nosso filho é um
— Faça isso, Laura! da vida com prudência e
A imprudência do homem faz equilíbrio, em troca conquista
com que ele traga para si a felicidade verdadeira que é
mesmo os motivos da o cultivo das virtudes que nos
infelicidade e da doença. aproximam do Criador (Irmão
Afunda-se nos vícios do Ivo).
alcoolismo, das drogas, do Marcos e André, sentados na
tabagismo, enfim, cai na sala ao lado de seus pais,
inconseqüência que mutila o mantinham a cabeça baixa
perispírito e aniquila o corpo como se quisessem dizer com
físico. Esta atitude enganosa essa postura que nada tinham
projeta-o na inconsciência de a declarar. Paulo, adiantando-
que um dia, mais cedo ou se aos demais, disse:
mais tarde, pagará muito caro — Gostaria que nos dissessem
para aprender. Esses vícios o que aconteceu que fez com
prejudicam o espírito por que trouxessem a droga para
várias encarnações. Aquele a vida de vocês, causando-nos
que compreende a energia da preocupação e medo.
vida, a bênção do corpo físico, — Não houve nada, Sr. Paulo
dá a ele somente o que ele - respondeu Marcos. —
necessita, ou seja, Apenas aconteceu.
alimentação saudável e — Como aconteceu Marcos? -
correta; preza suas horas de indagou Pedro. — Foi por
sono, de descanso, participa causa do problema que
enfrentava com sua mãe? isso foi se afundar na
— Não sei pai, pode ser eu maconha para esquecer. Você
não sei. entrou porque quis várias
— E você, André, que motivos vezes alertamos você e sua
teria para desprezar os irmã sobre o perigo dessa
ensinamentos que nós demos droga, só que parece que
a você e enveredar por um você não compreendeu nada.
caminho perigoso? — Sr. Paulo - disse Marcos —,
— Mãe, depois que o Fábio a maconha não é droga e a
morreu a senhora se esqueceu gente pára a hora que quiser.
de todo mundo. Vivia — Quem lhe disse isso
chorando pelos cantos, nem Marcos, que maconha não é
se lembrava de mim ou da droga?
Laís, ou mesmo do papai. Eu — Ora, pai, todo mundo sabe
comecei a me sentir sem disso.
importância alguma para — Qual todo mundo, André? -
vocês, sei lá, só sei que disse Marília nervosa. O todo
aconteceu. Experimentei uma mundo a que você se refere
vez e gostei, é isso. são as mesmas pessoas que
— Não culpe sua mãe ou a pensam como vocês, que
mim, André. Ela pode ter fumam como vocês e que não
errado, mas foi a maneira que têm nenhum limite do que é
ela encontrou de passar por certo ou errado. Estas pessoas
aquele sofrimento, e nem por não são "todo mundo". As
pessoa lúcidas, inteligentes, jovens necessitavam
que têm objetivo de vida, realmente de uma ajuda
corajosas e querem uma vida especializada, de alguém mais
de saúde, paz e progresso capacitado para orientá-los,
tanto material como espiritual, disse a Paulo:
não pensam nem agem como
este "todo mundo".
— Vocês estão fazendo uma
tempestade sem razão. Todo
jovem hoje fuma ou já fumou
maconha! - exclamou André.
— E você acha certo isso,
filho? Os inteligentes, os
espertos, com certeza já
largaram porque perceberam
o mal a que estavam se
expondo. Os que continuam é
porque já estão atolados no
regime pernicioso do vício e
não conseguem vislumbrar
quanto podem ser felizes
vivendo dentro da
normalidade e do bom senso.
Pedro, percebendo que os dois
— Paulo, sei que você tem imprevista. A menina
amizade com o Dr. Rubens. amanheceu indisposta e em
Eu não o conheço menos de vinte e quatro
pessoalmente, mas já ouvi horas, sem que nada ainda
falar muito bem desse tivesse sido feito, ela
médico, da sua capacidade e desencarnou.
da boa vontade em auxiliar as — Meu Deus! - exclamou
pessoas. Não poderíamos Laura.
encaminhar os dois para uma — Foi realmente muito triste -
consulta com ele? continuou Marília. Tínhamos
Marília, adiantando-se ao um carinho enorme pela
marido, respondeu de pronto: menina. Era a melhor amiga
— Há um tempo eu tinha da Laís, que até hoje sofre
planejado e combinado com o pela separação da amiga.
André que o levaria para uma Enfim, devido a esse
entrevista com ele, convidei lamentável acontecimento,
até o Marcos para nos achei melhor adiar e respeitar
acompanhar. o momento de dor de um pai.
— E por que razão não foram Sei quanto é difícil e dolorosa
não quiseram? a separação de um filho e sei
— Na realidade não foi isso. O também quanto esse bondoso
fato é que o Dr. Rubens médico já sofreu.
sofreu a perda de sua única — Nesse ponto você tem
filha, de uma maneira razão, Marília. Vamos
estranha e completamente aguardar um pouco mais, está
ainda muito recente - disse A maconha, ao contrário do
Paulo. que muitos dizem, faz muito
— O que fazemos, então? - mal e tem um poder viciante
perguntou Laura, medrosa e muito forte, sim, e a
insegura. dependência psíquica varia de
Paulo, com voz firme, dirigiu- pessoa para pessoa. Suas
se aos dois jovens. substâncias cancerígenas são
— O que vamos fazer é ficar 60% mais fortes que as
cada vez mais atentos com encontradas no cigarro; sem
vocês, prestar atenção em dizer de todas as outras
tudo que fazem e aonde vão, alterações que produz no
e não vamos desistir de corpo e na mente daquele
orientá-los quanto ao risco que dela faz uso. A sensação
que estão correndo, enfim, de prazer e de bem-estar é
esperamos que tenham um ilusória. Camufla o que o
pouco mais de dependente realmente é
juízo. Saibam que serão dando-lhe uma falsa im-
cobrados quanto aos seus pressão de que é o que
deveres para conosco e com a desejaria ser. É uma viagem
escola. Assim que meu amigo com muitos perigos pelo
Rubens retornar ao seu caminho e deixa marcas, na
trabalho rotineiro, marcarei maioria das vezes, graves;
uma entrevista com ele. Certo como, por exemplo,
estou de que ele não se alterações eletroence-
negará a auxiliar-nos. falográficas, com lentidão das
ondas cerebrais; aumenta a finalidade deste livro, aqui
freqüência cardíaca podendo apenas uma breve
dobrar a pulsação; pode pro- consideração a respeito, na
duzir ilusões e alucinações; tentativa de alertar aqueles
altera noções de tempo e que pensam que maconha
espaço, perdendo a noção de não faz mal e que conseguem
distância, enfim, são apenas parar no momento que qui-
alguns efeitos que a maconha serem. É importante que
pode exercer sobre a pessoa saibam que terão sérias
que dela faz uso. Se o uso for dificuldades quando decidirem
prolongado, acontece não parar de fumar a maconha;
raro diminuição de nem todos conseguem.
testosterona e de Os pais devem estar atentos
espermatozóides no homem, às atitudes dos filhos; prestar
e na mulher pode chegar à mais atenção no
inibição da ovulação por meio comportamento, em suas
das alterações hormonais. feições, em seus olhos, enfim,
(Poderíamos enumerar várias nas mudanças que poderão
alterações provocadas pelo ocorrer na conduta deles, em
THC (tetraidrocanabinol) - casa, na escola ou na rua.
substância química fabricada Somente assim terão
pela própria maconha) no condições de perceber se
corpo físico e, principalmente, algum traficante está
no corpo perispiritual do adotando seus filhos.
usuário, mas não é essa a Pedro e Laura despediram-se
dos amigos e retornaram à Tanto na residência de Marília
sua casa levando amargura quanto na de Laura, o clima
no coração. Marcos os acom- era tenso e de muita
panhava sem emitir uma ansiedade.
única palavra. Esperavam com expectativa o
Na casa de André, a mesma dia em que seus filhos
sensação de desconforto e pudessem se encontrar com
amargura incomodava o Rubens, pois acreditavam que
coração de Paulo e Marília. ainda poderiam salvá-los de
André subiu para seu quarto, prática tão nociva.
enquanto sua mãe fora ter Por insistência de Inês
com Laís que muito sofria com começaram a freqüentar com
a saudade de Isabela. regularidade uma casa
Paulo, aproveitando o espírita, com a esperança de
momento de silêncio e encontrar alívio para seus
tranqüilidade aparente, entrou corações e coragem para
em seu escritório e orou ao Pai enfrentar o que ainda poderia
suplicando ajuda para vir.
conseguir vencer mais essa Laura e Marília tornaram-se
batalha em sua vida. grandes amigas. Uma tentava
apoiar a outra. Perceberam
que ficavam mais fortes e
ORIENTAÇÃO ESPIRITUAL corajosas sempre que iam
assistir às palestras
ministradas na casa espírita.
— Marília, às vezes quando
estamos na reunião sinto
muita vontade de perguntar
ao mentor espiritual o porquê
de tudo que estamos
passando com nossos filhos.
— E por que não pergunta
Laura?
— Você acha que devo?
— Claro, por que não? Pode
ser que "Ele" nos esclareça e
possamos compreender
melhor essa situação.
— É verdade, existem coisas ajudou tanto quando perdi o
que não conseguimos Fábio e agora ele não quer ver
entender e temos muita ninguém.
dificuldade em aceitar. — Pode ser que ele se sinta
— Laura, tudo o que atinge culpado.
diretamente nosso coração — O que é isso, Laura?
temos dificuldade em aceitar. Culpado de quê?
— Uma coisa que não entendo — Sei lá! Talvez por não ter
Marília, é a atitude do Dr. podido fazer nada para salvar
Rubens. Pelo que me a filha, não sei Marília, mas
contaram, de tudo que vocês alguma coisa deve estar
falam dele, sempre foi uma acontecendo.
pessoa de fé, sempre — Isso é verdade. Ele sempre
ajudando o próximo. Superou foi muito forte, corajoso.
com tanta coragem a perda da Enfrentou tudo com dignidade
esposa e dos filhos, de um e amor no coração. O que
modo violento, e agora caiu será que acontece com as
no desânimo. Por quê? Já se pessoas, mesmo as fortes,
passaram quatro meses da para caírem assim?
morte da filha, e parece que — É uma boa pergunta -
ele não conseguiu retomar exclamou Laura!
suas atividades como fazia No Mundo Espiritual
antes. — Jacob, o que leva uma
— Às vezes me pergunto a pessoa a mudar de atitude
mesma coisa, Laura. Ele me após passar por determinado
sofrimento? atual e, no entanto, é agora
— Horácio, quando não temos que se fragiliza ao ponto de
firmeza para impedir que a não encontrar ânimo para
dor modifique nossos reagir.
conceitos, nossas atitudes — Horácio, não podemos
produtivas, é sinal evidente de querer avaliar qual dor é a
pouca fé. Aquele que conhece, maior quando não vivemos a
respeita e segue as leis situação, só quem sabe é
divinas de verdade se aquele que sente. A alma
fortalece na dor porque se humana é uma caixinha de
entrega ao amor de Deus e no surpresas, nem sempre
amor de Deus encontra o sabemos o que está guardado
bálsamo para todo o dentro dela. Nosso querido
sofrimento. Rubens conseguiu superar
— Mas no caso do nosso irmão mais rapidamente da primeira
Rubens. Conhecemos sua vez porque a ligação dele com
trajetória na Terra, pois o Isabela vem de muito longe.
acompanhamos há muito São dois espíritos que estão
tempo, sabemos de sua ligados há muitos séculos pela
capacidade de compreender e afeição sincera. Ele colocou no
amar o próximo, levando-o a coração o agravante da culpa
conhecer o amor de Deus e por não ter feito nada para
merecer esse amor por meio salvá-la, o que não
da caridade e da fraternidade conseguiria, porque o
vivida. Sofreu dor maior que a momento era aquele. A vida
de Isabela foi curta porque situação não demorará muito.
sua missão ao lado de Rubens Sua índole é de um homem
chegou ao fim. Quando na bom e generoso, é apenas
erraticidade, aceitou vir como uma fase, uma adaptação,
filha de Rubens, passar pelo logo estará novamente
que passou para ajudá-lo a enxugando suas lágrimas por
vencer. Mesmo quando meio do amor.
criança era ela quem levava Em breve perceberá que sua
força ao coração paterno. força espiritual vem dele
Quando sofreu o acidente deu mesmo e a ele pertence.
o exemplo de que, mesmo Prosseguirá sozinho na Terra,
paralítica, podia ser feliz, pois mas amparado por todos os
tinha o coração sadio, forte e amigos espirituais que
amoroso, e mostrou que para conquistou ao longo dos
amar não precisamos de tempos, inclusive Isabela. A
braços e pernas, mas somente partir desse momento nada
de um coração bondoso e poderá enfraquecê-lo de novo,
sincero. pois o amor possui alicerces
Depois que esse espírito fortes e se sustenta por si só.
retornou à espiritualidade, Ele só necessita de um tempo,
Rubens, inconscientemente, como ser humano que é.
sentiu-se sozinho, perdido e — Por que sofreu uma dor tão
acha que sua força vinha da grande, perder a esposa e os
força da filha; pensando filhos de uma vez só?
assim, enfraqueceu. Mas esta — A resposta ele terá no
retorno e no momento certo. responsabilidade, cabe a você
Só posso dizer que não houve cumpri-la. Os espíritos
injustiça ou castigo divino, podem, sim, abrir uma janela
apenas conseqüência. Ele não por meio dos conselhos,
é vítima, mas está sendo um indicando o caminho seguro
vencedor. que será sempre o do bem e
— Tantos encarnados desejam da verdade; agora, permitir
melhorar o mundo, mas que o sol entre e brilhe
entregam essas mudanças só depende de cada um.
nas mãos dos governantes, — Existem muitos enganos!
não é verdade, irmão Jacob? — Sim, existem. Mas isso
— Sim, Horácio, é verdade. acontece na maioria dos casos
Eles esquecem que fazem porque o homem está mais
parte de um todo e que interessado em adquirir bens
devem ser a transformação materiais, desprezando os
que desejam no mundo. bens morais e espirituais.
— É certo alguns espíritas Cabe ao dirigente espiritual
solicitarem dos espíritos que incentivar a leitura edificante,
resolvam seus problemas? para que os freqüentadores de
— Não! Podem pedir uma casa espírita possam
orientação e coragem para conhecer a verdade da vida
prosseguir, mas nunca futura, a que sobrepõe a vida
esquecer que a caminhada é terrena. Nas obras de Kardec
sua. A tarefa que lhe foi encontramos essa verdade
confiada é de sua inteira que clareia e conforta os
corações. está em saber que ninguém
Dia virá em que os homens morre, sofremos apenas uma
entenderão o porquê real do transformação livrando-nos do
soprar dos ventos; que nossas envoltório carnal e nascendo
tristezas são como as vindas e no Reino de Deus com nosso
idas das marés, vão e dão corpo fluídico. Pode ser que
espaço para as alegrias, se nesse momento ele necessite
permitirem. A noite escura se de alguém que o faça
transforma em dia ensolarado lembrar-se disso.
trazendo esperança e — Iremos quando quiser.
redescobrimento da vida, — Vou telefonar para Dona
enfim, entenderão de verdade Ana e marcar o melhor dia e
que a vida é algo maior do horário.
que alguns anos passados na No dia combinado, lá estavam
Terra e será nesse dia que Marília e Laura em frente ao
começará a transformação do Dr. Rubens.
homem por meio do amor. Mais magro, abatido, mal
— Laura, estive pensando que lembrava o médico forte,
poderíamos fazer uma visita cheio de energia e de
ao Dr. Rubens, levar-lhe um coragem para trabalhar e
abraço, uma palavra de enfrentar as dificuldades que
esperança. O que você acha? Marília conhecera e aprendera
— Acho ótima idéia, Marília! a admirar.
— Tantas vezes ele me fez Feita a apresentação de
enxergar que a nossa alegria Laura, sentaram-se próximas
ao médico e foi Marília a Marília olhou para Laura.
primeira a falar. Incentivada pelo olhar da
— Dr. Rubens, não nos leve a amiga respondeu:
mal, mas preocupamo-nos — Dr. Rubens, o senhor
com o senhor e quisemos vir conseguiu me fazer ver e
até aqui para dizer-lhe da querer a vida novamente por
nossa amizade, do quanto o ocasião da partida do Fábio.
respeitamos e que somos Hoje sou quem gostaria de
solidárias à sua dor. lembrá-lo que possui dentro
— Eu agradeço muito, Dona do seu coração todas as
Marília, a preocupação que ferramentas necessárias para
têm comigo, mas não há reconstruir a sua vida e deixar
necessidade, eu estou bem - que sua sabedoria e seu amor
respondeu sem muita possam ir ao encontro
convicção. daqueles que sofrem e não
Dona Ana, que permanecera conseguem enxergar uma
no recinto, interveio: réstia de esperança.
— Dona Marília, ele não está — Dona Marília, não é só a
bem. Não se alimenta direito, saudade que está me ator-
dorme mal e quase não tem mentando, mas saber que não
ido ao hospital, enfim, perdeu fiz nada para tentar salvar a
completamente o gosto pela vida da Isabela. Ela se foi sem
vida. Não sei mais o que que eu tivesse tido tempo
fazer, foi muito bom a senhora sequer de saber o que
ter vindo. realmente estava
acontecendo. Sei que minha força vir totalmente dela,
querida Isabela está bem e também é questionável. Vocês
feliz junto aos seus entes tinham afinidades, afeição
queridos, mas a culpa me sincera; a força dela apenas
consome, sem dizer que ela encontrava parceria na sua
era a minha força e a minha força própria, nesta força que
alegria. eu sei que possui e jamais
Laura continuava calada por perderá porque nasce do seu
não se achar no direito de grande coração cristão. Foi
dizer qualquer coisa. Acabara essa força que me fez amar a
de conhecer Rubens e não se vida novamente. O senhor só
sentia à vontade de dizer não descobriu ainda que pode
nada. Mas Marília, como se lutar e vencer sozinho, sem a
estivesse sendo inspirada por presença física de Isabela.
alguém, continuou mais Talvez o senhor não tenha se
segura ainda: dado conta ainda do bem que
— Pelo que sei Dr. Rubens, o faz para todas as pessoas que
senhor não teve culpa de se aproximam do senhor.
nada. A rapidez como Rubens olhava Marília com
aconteceu mostra que tudo surpresa.
seguia os desígnios de Deus. Jamais esperara ouvir dela
A tarefa dela na Terra e junto essas palavras, sensatas e
ao senhor terminava ali, foi o lógicas. A firmeza com que
senhor mesmo quem me expunha seu pensamento em
ensinou isso. Quanto a sua nada lembrava a Marília que
conhecera tempos atrás. aprendi e acreditei que para o
— A senhora poderia me dizer amor não existe distância; a
o que fez com a saudade do distância existe para os olhos,
seu filho, e o que faço com a não para o coração.
minha? Rubens estava estupefato.
— Posso Dr. Rubens, posso Custava a crer em tudo o que
sim. E o que vou dizer não fui ouvia. Marília continuou:
eu que descobri sozinha, foi o — E as suas lágrimas, Dr.
senhor quem me ensinou, vou Rubens, vai enxugá-las por
apenas lembrar-lhe. Sabe o meio do amor que me
que fiz? Guardei bem o rosto ensinou, ou vai continuar
do Fábio dentro do meu permitindo que elas
coração e, cada vez que a consumam sua alma
saudade apertava, eu o tirava impedindo-o de viver e ser útil
do coração e trazia seu rosto aos seus semelhantes?
aos meus olhos e o admirava Dona Ana e Laura olhavam
com o mais puro amor que Marília com admiração. Dona
meu coração pudesse sentir. E Ana saiu e instantes depois
como o senhor falou várias voltou e entregou a carta de
vezes, agradecia a Deus por Isabela para Marília. Voltando-
ter me dado memória para se para Rubens, disse-lhe:
poder lembrar-se do meu — Ela precisa saber. Leia
filho. Percebi, então, que me Dona Marília.
sentia em paz cada vez que Assim que Marília terminou a
me lembrava dele porque leitura, virou-se para Rubens
e com alegria na alma falou: fundar o Lar de Isabela, como
— Querido amigo, a própria ela mesma pediu? Conte
Isabela lhe deu a solução. Por comigo como voluntária!
que não cumpre seu pedido. — Se o senhor permitir, conte
Transforme esta casa que comigo também-disse Laura.
tantas alegrias lhe deu no "Lar Adoraria trabalhar com o
de Isabela", um abrigo para senhor no auxílio às
gestantes carentes. Permita mãezinhas carentes.
que essas mulheres, que — Quanto a mim, não preciso
pouco ou nada possuem, nem dizer, não é, Dr. Rubens?
possam ter um pouco de — Minha boa Ana, eu sei de
alegria, cuidado e orientação sua afeição por Isabela e do
para melhorar sua condição de seu cuidado comigo. E a
vida. Aprender as noções senhora é muito bem vinda.
básicas da higiene do corpo e Dona Laura. Agradeço a vocês
da alma, cuidar da dignidade e o carinho.
da integridade de seu corpo — O senhor talvez não tenha
físico. percebido, mas a Isabela
— A senhora acha isso deixou claro que sabia que a
mesmo, Dona Marília? sua hora do retorno havia
— Claro! Já não fazemos esse chegado. O senhor não
trabalho confeccionando poderia fazer nada, não
enxovais? O senhor não conseguiria mudar a vontade
atende às gestantes de Deus.
necessitadas? Por que não Rubens parecia outra pessoa.
O brilho dos seus olhos — Vou buscar um refresco
voltava timidamente na forma bem geladinho, hoje está
da esperança que enchera seu muito quente.
coração. Marília não se dava — Faça isso, Dona Ana, e
conta do peso que tirara dos obrigado. Dona Marília, vou
ombros do médico. Após começar a pensar nesse
alguns minutos de silêncio, ele projeto. Assim que tiver algo
disse: de concreto nos
— Dona Marília, se um dia eu encontraremos para discutir o
lhe fiz algum bem, hoje a assunto. Quando vier traga
senhora me fez um maior meu amigo Paulo, e a senhora
ainda. Trouxe a esperança de também Dona Laura, terei
volta ao meu coração e não muito prazer em conhecer seu
sei como poderei pagá-la por marido.
isso. — Obrigada, ele virá, com
— Pagar-me?! Eu não fiz certeza.
nada. Apenas repeti o que — Viremos todos - completou
ouvi do senhor tempos atrás e Marília.
que me devolveu a vida. — Jacob, Marília não percebeu
Sempre haverá um dia em que estava sendo inspirada
que precisaremos que alguém por você.
nos recorde o que sempre — Não, Horácio, não
acreditamos. percebeu. Mas isso só foi
Dona Ana, feliz, disse possível porque encontrei em
entusiasmada: seu coração a vontade real e
sincera de ajudar o amigo. — Sim! Mas trabalhando em
Não lhe disse que logo ele iria favor do próximo conseguirá
perceber a inutilidade do descansar seu coração dessa
desânimo e das lamentações? dor que dilacera a alma,
Era só uma questão de tempo, porque não terá tempo para
e pouco tempo por sinal. lamentar, mas terá todo o
— Mas o sofrimento continua, tempo para amar.
não?
MEDO E DECEPÇÃO

André entrou ofegante em sua


casa.
Subiu correndo para seu quarto e
trancou a porta.
Jogou-se de qualquer jeito na
cama e cobriu o rosto com as
mãos; seu nervosismo era tanto
que provocava tremor em suas
mãos.
— Estou perdido! - exclamava para
si mesmo. — O que fui fazer meu
Deus! Perdi realmente o juízo.
Marcos e eu extrapolamos dessa
vez e não temos saída. Daqui a
pouco, tenho certeza, a polícia
estará batendo na porta e vou
causar mais decepção aos meus
pais.
— Marília, que furacão é esse que
passou por aqui? - brincou Inês
dirigindo-se à filha.
— Foi o André, mãe. Estava
nervoso, tão agitado que nem
prestou atenção em mim. Deve ser
mais uma crise natural dos
adolescentes.
— Por que não vai ao seu quarto
saber o que aconteceu para ele
estar assim tão agitado? — insistiu
Inês.
— Está bem, eu vou. Com certeza
não deve ser nada de grave, é
criancice mesmo.
Começara a subir a escada quando a campainha da porta tocou. Ia
voltando para atender, mas a voz de Laís soou bem alto:
— Deixa mãe, eu atendo!
Laís abriu a porta e assustou-se ao ver parados à sua frente dois
policiais e junto a eles, Marcos. Empalidecendo chamou a mãe.
— Mãe, venha aqui depressa!
Marília, em um segundo, estava parada diante dos policias. Ao
avistar Marcos, seu coração disparou como pressentindo desgosto.
Quase gaguejando, perguntou;
— Em que posso ser útil?
— Boa tarde, senhora. É aqui a casa do André?
— Meu filho chama-se André, mas...
— Poderia chamá-lo?
— Claro, claro, entrem, por favor. Vou chamá-lo e se permitirem
telefonar para meu marido para que venha até aqui. Com licença.
Saiu apressada e foi direto ter com André em seu quarto.
— André, abra esta porta!
— Me deixe em paz, mãe, não me enche.
— Deixaria você em paz se não houvesse dois policiais na minha
sala, acompanhados do Marcos e pedindo para falar com você.
André por pouco não desfaleceu. Silenciosamente foi até a porta e
abriu.
— Pelo amor de Deus, André, o que vocês dois fizeram dessa vez?
— Nada, mãe!
— Nada! E o que fazem dois policias procurando por você, tendo o
Marcos com ele? Responda!
— Não sei, deve ser outro André.
— Isto nós vamos ver. Vou telefonar para seu pai e já descemos.
Não demorou dez minutos e Paulo já estava na sala de sua casa,
em meio a dois policiais. Marcos, André e Marília que sem se conter
entregava-se às lágrimas.
— Marcos, onde estão seus pais? Eles já sabem que você está
aqui?
— Não, Sr. Paulo, fui pego antes de chegar a casa - exclamou
envergonhado.
Paulo dirigiu-se aos policiais.
— Se me dão licença, vou avisar os pais desse garoto para que
venham até aqui. Sua casa é bem próxima.
— Fique à vontade, senhor.
Assim que Laura e Pedro chegaram. Marcos correu ao encontro dos
pais, gritando:
— Eu não fiz nada, isto tudo é um engano. Eles estão nos
confundindo com outros garotos.
Paulo e Pedro, ao mesmo tempo olharam para os policias
esperando uma reação, ou talvez uma palavra que os tirasse
daquela situação angustiante.
— Perdoe senhores, mas não há engano nenhum. Foram eles
mesmos. Este - dirigindo-se a Marcos — foi pego em flagrante, o
outro conseguiu correr, mas o seguimos até aqui.
— Por Deus, o que eles fizeram?
— Assaltaram o mercadinho da rua de cima e furtaram R$ 200,00
do caixa. Além do mais, estão de posse de certa quantia de
maconha que o Marcos disse ser para consumo próprio.
Marília e Laura não suportando a notícia desabaram em copioso
pranto. Um misto de angústia, medo e decepção sufocava o
coração dessas mães.
Pedro, que parecia estar um pouco mais equilibrado, perguntou:
— Eles estavam armados?
— Sim! Portavam canivetes.
— E o que vão fazer?
— Levá-los para a delegacia de polícia. Se quiserem poderão
acompanhá-los e chamar um advogado porque eles têm direito a
defesa.
Marcos e André foram enquadrados em roubo qualificado por
estarem portando arma branca e pelo porte de droga.
Tanto os pais de Marcos como os de André sofriam a dor de ver
seus filhos enveredando por um caminho que, com certeza, os
levaria à destruição.
Perguntavam-se em que haviam falhado o que deixaram de ensinar
que provocou mudança tão radical de comportamento. Não
encontravam respostas para este questionamento.
Enquanto o tempo passava, Marília e Laura dividiam-se entre as
visitas aos filhos e a elaboração do projeto do Lar de Isabela. Aos
poucos Rubens retomara suas atividades normais e se dedicava
com afinco aos preparativos para a inauguração do Lar.
Rubens mudara para um apartamento, levando consigo apenas os
objetos pessoais, retratos e algumas recordações de sua esposa e
filhos. Dona Ana e a cozinheira seguiram o patrão, pois se
recusaram a deixá-lo só. Com alegria foi vendo o projeto se tornar
realidade e se aproximar o dia da inauguração.
Paulo e Marília, Pedro e Laura, Rubens, Dona Ana e Inês se
tornaram uma grande família. Uniram-se pela dor e continuaram
unidos pelo amor.
— Paulo - disse Rubens ao amigo, — assim que os garotos
estiverem em liberdade, traga-os para conversarem comigo.
Pretendo, se permitirem, fazer um trabalho de recuperação e
conscientização desses garotos.
— Rubens, é tudo que mais queremos encaminhá-los a você.
— As vezes penso Paulo, que se eu tivesse reagido mais
rapidamente, talvez nada disso tivesse acontecido.
— Nem pense nisso, Rubens. Eles sabiam o que estavam fazendo.
Não existe culpa de ninguém, pode ser que agora eles aprendam
que inconseqüência, brincar de bandido e fazer o papel do
adolescente rebelde só traz sofrimento. O importante nesse
momento é ajudá-los, para que consigam superar essa tendência e
fortalecê-los para vencerem as tentações.
Se o adolescente já se envolveu com a droga, não desista dele,
lute para salvá-lo impedindo o avanço do vício, e trate das
complicações, se houver.
A maconha pode alterar o estado de consciência de quem dela faz
uso, provocando acidentes, principalmente de carro. É importante
insistir junto aos usuários da maconha que esta é uma droga, sim,
tem poder viciante e provoca danos tanto no corpo físico quanto no
perispírito. Aquele que se entrega a essa droga perceberá cedo ou
tarde os danos e as alterações causados por ela. A desistência é
sempre sofrida e nem todos conseguem. Quem entrar para essa
prática nociva pagará muito caro por ocasião do seu retorno ao
mundo espiritual. Se o jovem já usou a maconha algumas vezes e
não sentiu nada, passa a consumir com mais freqüência e a achar
que outras drogas também não lhe farão mal e daí a consumi-las é
uma questão de tempo. As drogas, inclusive a maconha, alteram o
comportamento e os pensamentos e levam os jovens a defendê-
las, dificultando a percepção de que a droga consumida, seja ela
qual for, já está fazendo mal e o impede de reconhecer que já está
viciado. Todas ás drogas atingem o cérebro, impedindo-o de
funcionar naturalmente. Os pais devem estar alertas, já o disse, e
empregar todos os esforços para reconduzir os filhos para o
caminho seguro, se ele já estiver envolvido com droga ou outras
práticas nocivas à integridade física, moral e espiritual. Muitas vezes
a prova é dura, mas Deus não permite uma carga maior que os
ombros possam agüentar.
Apresente desde cedo o Evangelho para seus filhos, mostrando-lhes
por meio do exemplo de sua conduta digna e coerente na família e
na sociedade que o bem-estar, a saúde e a felicidade só poderão
conquistar a partir do momento que assumirem também posturas
equilibradas e sensatas perante a vida.
— Está certo - respondeu Rubens, só posso agradecer a amizade
que recebo de todos vocês.
— Você conquistou amigos. Nada fizemos que você não mereça, e
nada que fizermos será o bastante para retribuir tudo que fez por
nós, e principalmente por Marília.
— Você tem ido regularmente visitá-los, não?
— Sim! E da última vez que lá estivemos recebemos a notícia de
que talvez saiam antes de cumprir toda a pena, por bom
comportamento.
— Isto é muito bom, pois é um sinal de que estão pensando no que
fizeram, e com certeza já devem estar arrependidos. Como eles
estão?
— Abatidos, envergonhados, enfim, sofridos.
— Não se entristeça meu amigo. Pode ser que durante este tempo
tenham consciência da importância da liberdade e isso os fará
reconhecer e valorizar a família e o aconchego do lar, e saberão
que não vale a pena brincar de delinqüente. Voltarão mais
maduros, acredito nisso. Eles têm boa índole, família bem
estruturada, pais que os amam. Saberão reconhecer isso. Tenham
fé em Deus.
— Temos fé e acreditamos nisso também. Mas vou ser sincero,
Rubens, nosso coração está muito machucado.
— São marcas da vida, Paulo. E marcas, quem não as tem? De
uma forma ou de outra todos nós, homens comuns marcamos
nosso coração com tristezas, amarguras e decepções. Mas nosso
esforço deve estar concentrado no que restou de bom dentro de
nós e trocar esses sentimentos por esperança, coragem e fé. Saber
que nenhum sofrimento dura para sempre e que, em algum
momento ele vai terminar, e entender que enquanto não chegar o
fim, é porque não chegou o momento certo, determinado por Deus.
— Rubens, alegra-me vê-lo novamente como sempre foi, forte,
corajoso, amigo e fraterno, colocando seu conhecimento e sua
bondade em benefício do próximo.
— É, Paulo, mas tive também meu momento de fraqueza. Devo à
sua esposa. Dona Marília, a reconquista da minha vida, a volta ao
meu trabalho, enfim, ela ajudou-me a retomar o curso da minha
tarefa junto à sociedade.
— Marília mudou muito, Rubens. Lutou e conseguiu vencer;
enxugou suas lágrimas vivendo o amor e a caridade que Jesus tão
bem exemplificou.
— É! As lágrimas são nossas e no coração devemos guardá-las; ao
próximo devemos mostrar e ofertar o sorriso da amizade que o
levará a acreditar cada vez mais na vida.

DE VOLTA AO LAR
O dia amanheceu chuvoso. a partir do desencarne de
No coração de Marília e Laura, Fábio. Agora - pensava —
assim como no de Paulo e tinha medo do futuro, da sua
Pedro, o dia era de sol, céu incerteza, do seu
azul e muita vida. desconhecido.
Iam apanhar Marcos e André — Meu Deus, tantas lágrimas
que, devido ao bom com- chorei, reserve para mim a
portamento, foram agraciados alegria de ver o André
com a liberdade. recuperado, longe da
Se no coração de seus pais delinqüência e das drogas.
existia a alegria, no coração Dai-me o entendimento e a
de Marcos e André existiam a condição de ajudá-lo.
culpa, o arrependimento e a — Mãe! Pai!
sensação de que, apesar da A emoção daqueles pais era
liberdade, jamais se sentiriam tanta que se uniram aos
livres, pois estavam presos ao filhos em um longo abraço,
passado que lhes trazia misturando suas lágrimas às
vergonha. deles. Saíram abraçados,
Os pais aguardavam com tentando dizer aos filhos com
ansiedade a chegada dos este gesto que estariam ali,
garotos. Marília trazia ao junto a eles, firmes e fortes
pensamento os dias felizes para auxiliá-los na retomada
que tivera com seus filhos, até da sua vida aqui fora.
que sua vida mudara e o — André - disse Marília assim
sofrimento fizera-se presente que chegaram a casa —, suba
e tome um banho demorado Marília, percebendo o
para relaxar, enquanto isso desconforto do filho,
sua avó e eu vamos preparar aproximou-se dele, beijou-lhe
um lanche bem gostoso para o rosto e lhe disse:
saborearmos todos juntos. — Filho, o que o detém? Está
— Hoje é um grande dia, meu na sua casa, com sua família,
filho, sua mãe e eu estamos o que está preocupando você?
emocionados em tê-lo — Meu quarto ainda existe?
novamente em casa. Faça o Marília espantou-se.
que ela sugeriu, sem pressa. — Claro filho! É claro que
Você se sentirá melhor. ainda existe e existirá
André até então não dissera sempre. Você tinha dúvidas
uma palavra. Abraçara a quanto a isso? Todas as suas
todos sem nada dizer. coisas estão lá, do jeito que
Olhava sua casa, seus pais, você deixou. Ele é seu, esta é
sua avó e sua irmã, com sua casa e nós somos sua
carinho, mas não tinha família. Suba e tome seu
coragem de encará-los de banho, troque esta roupa.
frente. Vamos aguardar nosso filho
Sentia-se um estranho para lanchar.
naquela casa onde crescera e André não se conteve mais.
recebera amor, e ele, por Abraçando seus pais chorou
leviandade, colocara tudo a como só um coração
perder e fora amargar meses machucado e sofrido pode
dentro de uma prisão. chorar.
— Pai, mãe, me perdoem! em seu quarto e a emoção
Pelo amor de Deus me per- misturada ao remorso o fez
doem! Eu não mereço vocês, jogar-se na cama e chorar.
nem estar aqui. Como pude Para que o mundo possa
magoá-los tanto, depois de sofrer uma melhora, o
terem sofrido a dor de ter equilíbrio e a paz que todos
perdido o Fábio? Como pude almejam, é necessário que
maltratar ainda mais seus toda a humanidade se una e
corações? passe a se preocupar uns com
— Calma, filho, somos seus os outros. E preciso que
pais e nunca deixamos de aprendam a amparar aqueles
amar você. Você errou, é que erram e auxiliá-los a
verdade, mas nem por isso encontrar sustentação para
deixou de ser nosso filho, nem não errar de novo. O homem
por isso deixou de ser dá muito carinho para as
importante para todos nós. pessoas que ama, mas, para
Agora, estamos juntos aqueles que diz não conhecer,
novamente e o momento é de nem o necessário para que
recomeçar, retomar seus possam viver com dignidade.
estudos, enfim, não cair de Existem dores muito penosas,
novo no mesmo erro. e uma delas é o abandono e o
— Obrigado, pai! descaso.
— Agora vá, filho, suba! O coração deve estar
André subiu as escadas de preparado para reconhecer
dois em dois degraus. Entrou um arrependimento sincero e
dar as mãos àqueles que
realmente querem se
regenerar. Nem sempre se
consegue levantar do tombo
sozinho, mas, se puder contar
com a mão amiga, o ombro
solidário e o coração
generoso, fica mais fácil se
reerguer e voltar aos bons
costumes. A vida é cheia de
desafios e não devemos fugir
deles, porque grandes obras e
grandes atos de amor nascem
da superação desses desafios.
Laís, ao se dirigir para seu o que você tem?
quarto, viu a porta do quarto — Laís, eu estou muito feliz
de André semi-aberta. em estar de volta, estar junto
"Aproximou-se e viu seu de vocês, receber o amor de
irmão sentado no chão, nossos pais, mas...
encostado na cama com olhar — Mas! O que, André?
pensativo. Pediu licença e — Não suporto a vergonha
entrou. que sinto, cada vez que olho
— André, desde que você para o papai e para a mamãe,
chegou noto seu ar tristonho, por ter me comportado como
quieto. Você não está bem? um bandido. Eu não sou um
André olhou para a irmã e marginal, Laís. Eu não sei o
pela primeira vez notou que que deu em mim.
Laís crescera. Já não era mais — Claro que não é André!
uma menina. Tornara-se uma — Mas eu e o Marcos nos
adolescente bonita e meiga. comportamos como se fôsse-
— Vem, senta aqui do meu mos. É o arrependimento que
lado. está acabando comigo. Não
Mais que depressa, Laís fez a sei como me livrar disso, Laís,
vontade do irmão. Sentia-se dessa vergonha. E o pior é
feliz em estar com ele e poder que fiquei marcado para o
voltar ao tempo em que os resto da vida.
dois, crianças ainda, eram tão Os olhinhos de Laís
unidos e amigos. encheram-se de lágrimas.
— Se abra comigo meu irmão; Sofria com o sofrimento do
irmão. Abraçou-o, dizendo acontecera com Rubens,
com carinho: inclusive a transformação de
— André, agora é preciso sua casa no Lar de Isabela.
esquecer. O sofrimento maior — Puxa, Laís, coitado do Dr. O
acabou. O que conta é a sua que me impressionou mais foi
vontade de não errar outra a mamãe ajudá-lo dessa
vez. maneira. Como ela mudou!
— Você tem razão, Laís, estou — Isso é verdade. Ela disse
determinado; não quero mais que ele só precisava se
agir de maneira leviana, lembrar das coisas que tinha
agressiva até, mas sinto que dito para ela.
preciso de ajuda; não sei se — Como assim?
conseguirei sozinho. — Lembra quando o Fábio
— Quanto a isso não se morreu o jeito que a mamãe
preocupe. Papai disse que vai ficou? Então, foi o Dr. Rubens
levar você e o Marcos para quem a ajudou, esclarecendo
conversarem com o Dr. um monte de coisas, falando
Rubens. Você se lembra dele? da vida espiritual, ah! sei lá,
— Claro! André, eu não entendo dessas
— Ele se propôs a ajudá-los. coisas. Quando Isabela
Por falar nele, você ainda não morreu, ele caiu em um
soube o que lhe aconteceu! sofrimento tão grande que se
— O que foi? esqueceu das coisas que ele
Laís narrou ao irmão, nos mesmo dizia e acreditava, e
mínimos detalhes, tudo o que entregou-se ao desânimo que
o impedia de reagir. Mamãe
diz que apenas falou para ele
as mesmas coisas que ele
falou para ela, entendeu?
— Que barato!
— Que coisa boa ver meus
dois filhos juntos como anti-
gamente, conversando
animadamente como bons
irmãos! - exclamou Marília,
entrando no quarto.
— Mãe, Laís me disse que o
papai vai marcar com o Dr.
Rubens para eu e o Marcos
irmos, falar com ele.
— É verdade, André. Seu pai
telefonará para ele hoje
mesmo. Você não quer ir?
— Ao contrário. Estava
dizendo para a Laís que
preciso de ajuda. Quero e
preciso ir.
— Que bom ouvir isso, meu traga a todo instante para seu
filho. Bem, eu entrei aqui no presente. Você não deve mais
seu quarto porque me lembrei nada para a sociedade. O que
que daqui a vinte dias é seu você deve é para as leis
aniversário. Dezoito anos, divinas, mas você pode trazer
meu filho! Eu e seu pai para sua consciência que atos
queremos comemorar. levianos, imprudentes e fora
— Não precisa mãe, não da moral cristã só causam
quero festa. dissabores. Harmonize-se com
— Posso saber por quê? Deus trazendo amor para o
— Tenho vergonha de seu coração e vivendo todo o
encontrar as pessoas. bem que pode. Agora vamos
— Isso passa André! Vamos descer, o lanche será servido.
comemorar sim, há quanto Enquanto saboreavam os
tempo não damos uma festa deliciosos quitutes feitos
aqui em casa. cuidadosamente por Inês,
— Mas como vou olhar nos todos conversavam e sorriam
olhos dos meus antigos dando vazão à alegria que
colegas, da nossa família, sentiam.
mãe? — Pai, o senhor conversou
— Da mesma maneira e com com o Dr. Rubens?
os mesmos olhos que você — Sim, filho. Marcamos para
está me olhando agora. Meu daqui a dois dias uma
filho, você já pagou pelo seu consulta para você.
erro, deixe-o para traz, não o — E o Marcos, ele não vai?
— André, assim que falei com eu. O que o fez mudar de
o Rubens, liguei para o Pedro idéia? Será que esqueceu o
e o coloquei a par do que que é ficar preso?
tínhamos combinado, — Não sei André. Só o que
informando-lhe o dia e a hora. posso achar é que seu
Passados alguns minutos arrependimento e sua
Pedro tornou a me ligar, vergonha não eram sinceros.
muito aborrecido, dizendo que Parece que ele não tem
tinha dito ao Marcos e este intenção nenhuma de mudar
disse-lhe que não iria. de vida.
— Não iria? — Pai, posso falar com ele?
— Sim, disse ao pai que não — Pode André. Mas cuidado
vai porque da vida dele quem para não se envolver na sua
cuida é ele. conversa e se desviar do seu
— Não acredito! propósito.
— É verdade, filho. Fiquei tão — Pode deixar pai. Quando
chocado quanto você. Laura e digo que me arrependo do que
Pedro não se conformam. fiz, que preciso de ajuda para
— Mas isso não é possível, ser o filho que o senhor e a
pai. Conversamos tanto mamãe merecem, estou
enquanto estivemos presos, sendo sincero.
ele me falou que também — Nós acreditamos filho!
estava envergonhado, André pediu licença, levantou-
arrependido do que tínhamos se e foi até a sala telefonar
feito, do mesmo modo que para Marcos.
— Aí, Marcos, papai me disse não vamos conseguir. Você
que você não quer mais ir disse que tinha se
falar com o Dr. Rubens. Por arrependido.
que mudou de idéia? — E você acreditou André?
— Não vou mesmo, André. Você é babaca mesmo, já vi
Desisti. Eu não tenho nada que com você não dá. Nós
que ver com esse médico. tivemos azar da primeira vez,
Nem o conheço em que ele mas agora, com a experiência
pode me ajudar? que temos, a gente faz a coisa
— Marcos, caia na real; bem-feita, e por falar nisso,
precisamos de ajuda, sozinhos tenho aqui uma da boa, topa?
— Não, mano, a
Marcos, gente termina
não quero aqui.
mesmo. — Marcos,
Para mim pense. Que
chega. Não futuro tem
tenho a quem vive na
intenção de delinqüência,
passar a na droga,
minha vida fugindo da
em uma polícia e
cela de fazendo a
cadeia ou família sofrer?
então — Não penso
fugindo da no futuro,
polícia. O vivo o
que eu falei presente.
para você é — Marcos,
sincero, tudo é uma
quero sair ilusão, é
dessa e vou engano; e
procurar seus pais,
ajuda. não pensa
— Então neles?
— Penso muito tempo,
em mim. Já lembrou-se
"tô" com de Jesus e
um lance pediu:
aí, uma — Me dá
parada força, eu
legal. preciso de
Topa? força!
— Nem
pensar.
Terminamo CONSELHOS
s aqui. Siga DE AMIGO
seu
caminho e
eu sigo o
meu. Boa
sorte.
— Tchau!
André
desligou o
telefone.
Pela
primeira
vez em
Sentado com toda a
em frente a sua
Rubens, experiência,
André percebera o
mantinha a acanhamento
cabeça de André e
baixa, procurava
olhos colocá-lo à
assustados vontade.
e coração — Então,
descompas André, por
sado. Paulo onde você
deixara-o quer
sozinho começar? Não
com o fique
médico e constrangido,
preferira considere-me
passar mais um amigo
tarde, no porque o sou
horário e quero
combinado, ajudá-lo a
para superar esta
apanhá-lo. fase difícil,
Rubens, mas não
impossível, jeito de
que você ajudá-lo.
está — Sei que é
vivendo. meu amigo e
Porém, confio no
para que eu senhor. O
possa senhor já
auxiliar deve saber
você, é tudo o que
importante me
que seja aconteceu.
sincero e Pois bem,
não minta Doutor, eu
para mim. quero muito
A largar de
transparênc fumar, de
ia do nosso fazer as
contato é bobagens que
que me andei
fará fazendo,
entender enfim, não
melhor e quero ser
analisar o mais motivo
melhor de lágrimas
para meus nossas
pais. atitudes estão
Rubens ficando
gostou do perigosas e
que ouviu. queremos sair
— Você já fora,
tem uma passamos a
grande ter nas mãos
vantagem, a força que
André; você nos
quer! A empurrará
partir dessa para o
sua sucesso:
vontade, da nossa
sua decisão vontade.
de mudar, — Mas por
fica bem onde devo
mais fácil começar?
sua — Diga-me
recuperaçã primeiro o
o. Quando porquê, o que
nós o levou a
compreend experimentar
emos que a maconha.
— Quando Sofria pela
meu irmão perda do meu
morreu irmão e da
tudo lá em minha mãe.
casa Passei a ir
desmo- mal à escola,
ronou. Eu falsifiquei a
me senti assinatura da
rejeitado, minha mãe,
pois não fiz um monte
consegui de asneiras.
fazer com Passei a
que mamãe andar com o
olhasse Marcos e
para mim sabia que ele
ou para a fumava
Laís. Para maconha. Daí
ela para começar
passamos a também a
não existir, fumar foi só
a não ter um passo.
importância Quando a
. Eu sofria mamãe já
muito. estava
recuperada, ade foi
graças ao explicando e
senhor, respondendo
tentei a todas as
parar, mas perguntas
não feitas por ele.
consegui. O Deixou bem
resto não claro a André
preciso que tudo que
dizer o fazemos na
senhor já nossa vida é
sabe. de inteira
Rubens se responsabilid
envolvia ade nossa,
com as embora
palavras do muitas vezes
rapaz. Com joguemos a
bondade e culpa em uma
tendo o terceira
cuidado pessoa, na
para não maioria das
feri-lo em vezes nossos
sua pais.
suscetibilid Abafamos
nossas O corpo não
fraquezas, deve ser
escondemo considerado
s nossas nem tratado
imperfeiçõe como se
se fosse um
passamos a depósito de
analisar e lixo, onde
julgar as jogamos tudo
atitudes o que não
dos outros, presta. Ao
não se contrário,
dando ao como foi dito,
menor é importante
trabalho e que se dê ao
boa corpo
vontade de somente o
tentar que ele
compreend necessita
er a para se
maneira fortalecer, ser
como cada saudável e
passa pelo dar condições
sofrimento. de prosseguir
a jornada a da
no plano preservação
físico. da vida pela
Ora, se conscientizaç
com a ão de que
imprudênci todo ser é
a de aquilo que
hábitos pensa que
nocivos à ingere que
saúde age e que
saturarmos pratica deve
o corpo ser constante
material, o na
que se compreensão
pode da vida.
esperar, Drogar-se,
além dos alcoolizar-se,
distúrbios é tirar o
dos órgãos funcionament
físicos e o normal e
também do natural dos
perispírito? órgãos do
A corpo de
importânci matéria, sem
dizer do de discernir o
estrago no que é bom e
corpo o que é ruim
fluídico, e a para nossa
conseqüênc integridade
ia dessa física, moral e
imprudênci espiritual.
a virá, com Cabe a cada
certeza, um perceber
tanto no e definir o
plano que quer para
terrestre sua vida, se a
como no felicidade ou
plano o sofrimento.
espiritual. Cada um
O Criador, deve saber
ao quanto vale a
presentear sua vida;
seus filhos qual a
com o importância
livre- que tem para
arbítrio, si a
deu-nos experiência
condições abençoada da
reencarnaç nascimento
ão e o que se faz na
pretende alma de cada
viver no um, e todos
futuro por os seres
ocasião do devem ter
seu consciência
retorno. de que
Geralmente somente eles
o homem poderão fazer
exige paz e com que a
solicita da paz envolva o
Vida Maior planeta. E
esta tão isso que Deus
sonhada espera que os
paz, homens
esquecendo compreenda
-se de que m, que o
ela só pode mundo
ser poderá se
encontrada tornar melhor
dentro de quando eles
nós e não perceberem
fora. Seu que podem
modificá-lo paz para o
somente mundo só é
por meio válido a partir
de seus do momento
hábitos, de em que se
suas luta para que
virtudes e ela aconteça,
de sua e se
integração compreende
com o que somente
semelhante o amor
. transforma o
Sonhar é homem, e
equilíbrio onde existir o
quando amor existirá
colocamos a paz.
o sonho Após duas
dentro da horas de
realidade diálogo entre
saudável e André e
produtiva, Rubens, este
isto é, encerrou a
sonhar e conversa
querer a deixando
marcado — Mãe, Dr.
outro Rubens é o
encontro na máximo.
semana Tivemos uma
seguinte. conversa
André muito boa,
retornou ao com
lar mais explicação
confiante e sobre tudo o
esperanços que me
o. Chegou incomodava.
com Paulo, Estou
alegre e confiante de
mais que vou
descontraíd conseguir.
o. Sentia- — Claro que
se mais vai, André.
seguro com — Ele
a ajuda de agendou
Rubens. outra
— Que bom consulta para
vê-lo assim a semana que
feliz, meu vem. É uma
filho! espécie de
terapia. verdadeira!
Não vou Só uma coisa
faltar, mãe, me deixa
quero triste.
muito — O quê,
melhorar e filho?
me salvar. — Marcos!
— André, Por que ele
você não não quer
imagina ajuda, mãe?
como eu e — André, não
seu pai podemos
estamos mudar as
felizes. convicções de
Acreditamo ninguém.
s em você Podemos e
porque devemos,
sabemos sim, orientar,
que sua mas as
intenção é mudanças
boa e sua acontecem
vontade, quando a
verdadeira. pessoa as
— Mãe! É deseja e as
permite. Os sofrimento e
pais de à dor, tanto
Marcos já sua como de
fizeram sua família.
tudo que — Dr. Rubens
podiam, aconselhou-
mas nada me a não
conseguira ficar inativo
m. em casa.
Ninguém Como
muda pela estamos no
vontade do final do ano e
outro, mas só voltarei a
sim pela estudar no
própria ano que vem,
vontade. O orientou-me a
Marcos não praticar
quer, algum
prefere a esporte.
vida de Sabe, mãe,
riscos e ele me
incertezas convidou para
que o ajudar nos
levará ao últimos
preparativo produtivo,
s para a somos alvo
inauguraçã fácil de
o do Lar de pensamentos
Isabela, prejudiciais
que está que nos
prevista levam a
para 24 de cometer atos
dezembro. dos quais
— E você, podemos nos
filho, arrepender
aceitou? mais tarde.
— Claro — Que bom
mãe. Ele André! Que
disse que bom saber
quando que vai nos
ficamos ajudar.
muito Precisamos
tempo sem mesmo de
fazer nada, pessoas
sem ocupar jovens que
nossa têm mais
mente com disposição
algo para certos
trabalhos que
mais receberão
pesados. aquelas que
Fico muito freqüentarem
feliz. o curso.
— A Laís — Bonito esse
está trabalho,
ajudando mãe!
também? — É, André, é
— Está! Ela um trabalho
e Laura muito bonito.
estão Quiçá a
providencia maioria das
ndo toda a pessoas se
parte de conscientizass
cama, e da
mesa e importância
banho das dele, quanto
gestantes podem
que ficarão colaborar
internadas, para tornar o
assim como mundo
dos melhor e as
enxovais pessoas mais
felizes. como brasas,
—A mas, ao
senhora contrário, se
encontrou elas forem
seu secas com
equilíbrio, atos de amor
não, mãe? e olhar de
— Sim! compaixão
Consegui com o
perceber próximo,
que, encontramos
quando a paz, porque
secamos nosso coração
nossas estará
lágrimas repousando
com no amor de
revolta, Deus. Foi o
desespero que fiz,
e entreguei
descrença, minha dor ao
elas amor de Deus
passam a e hoje sou
nos feliz da
queimar maneira que
posso ser. desanimou,
—A mesmo
senhora depois que eu
nunca a fiz sofrer.

A M

L









— Disse que era a última vez — Infelizmente acredito que
que cobrava a dívida, se ele sim. Há quanto tempo ele e
não pagasse em vinte e André fumavam maconha?
quatro horas, ele o apagava. Envolveram-se até em
— Ele disse isso, que o assalto, ficaram recolhidos em
apagava? um reformatório. André se
— Disse! arrependeu e procurou ajuda,
— E você, o que respondeu? mas Marcos se negou. Desde
— Nada. Não deu tempo. Ele que retornou para casa parou
falou assim e desligou antes de andar com André e se
que eu tivesse qualquer envolveu com péssimas
reação. Aí, senti-me mal e companhias.
desmaiei. — É ele me disse um dia que
— Meu Deus, que dívida será não andava mais com o André
essa, Laura? Onde o Marcos porque ele tinha ficado
está se metendo? babaca.
— Não sei. Mas só pode ser — Ele me disse isso também.
dívida de droga, Pedro. Ele — Paulo me contou que até
não quis receber ajuda assim hoje o André se trata com o
que voltou para casa, e não Dr. Rubens, pratica esporte e
largou de fumar maconha. continua ajudando vocês no
Tenho medo de falar, mas Lar de Isabela. Pena que
acho que nosso filho se nosso filho não quis seguir
envolveu com drogas mais seu exemplo.
pesadas. — É, e cada vez se afunda
— Será, Laura? Será que mais. Tenho medo, Pedro,
Marcos é tão inconseqüente a medo do que possa acontecer
esse ponto? com ele.
— Assim que Marcos chegar, — E posso saber quais?
falarei com ele. Pedro continuou:
— É bom que fale, mas — Claro que pode, porque
acredito que não adiantará. eles são seus, você é o res-
— Mas sempre vale a pena ponsável por eles.
tentar, Laura. — Sermão há esta hora, estou
— Isso é verdade. fora.
As horas passaram. Pedro e Ia saindo da cozinha quando
Laura não continham mais a ouviu a voz enérgica do pai.
ansiedade. Os dois sentados — Marcos! Sente-se aqui
na cozinha tomavam uma porque vamos conversar.
xícara de café quando — Outra hora, pai.
ouviram o barulho da porta da — Agora!
frente. Laura, impaciente, Marcos nunca tinha visto uma
gritou: atitude tão severa de seu pai.
— Marcos, é você? Pela expressão de seu rosto
— Sim, mãe, sou eu. achou melhor obedecer.
— Por favor, filho, venha até Sentou-se em frente a sua
aqui. Precisamos falar com mãe.
você. — Pronto. Estou sentado, o
Marcos desconfiado, e já que o senhor quer?
colocando no rosto uma ex- — Primeiro que tenha uma
pressão de defesa, postura mais educada. Pedro
aproximou-se dos pais e lhes respirou fundo e abrandou a
disse: voz:
— Algum problema? — Marcos, você nos preocupa.
Foi Pedro quem respondeu: Em que você está metido?
— Sim, Marcos, problemas! Com quem está andando?
— O que é isso agora, pai? me resolver isso com ele.
Vai começar a me controlar? Voltando-se para Marcos
Esqueceu que dentro de continuou:
poucos dias completo dezoito — Você sabe, sim. Quem é
anos? Eu e o André temos a Nestor? Ele ligou para cá
mesma idade, lembra? Nossa cobrando uma dívida. Que
diferença é de apenas uma dívida é esta?
semana. Marcos não sabia o que dizer.
— Marcos, não estamos Percebeu que não conseguiria
falando do André, estamos mais enganar seu pai e
preocupados é com você. receava sua reação.
Você é nosso filho. — Uma dívida boba, pai.
— Preocupado com quê? Não — Não me enrola, Marcos.
fiz nada! Quero saber que dívida é
— Quem é Nestor? essa, de quanto é e quem é
Pedro perguntou tão de Nestor?
repente que Marcos, — O senhor não vai entender!
empalidecendo, ficou sem — Entender o quê? Que você
reação. se envolveu com droga
— Responda-me quem é pesada e ele está cobrando
Nestor? - repetiu Pedro. porque é um traficante? É
— Eu... eu sei lá. Não conheço isso?
nenhum Nestor. — Tudo bem, já que vocês
— Conhece sim! - gritou querem saber, é isso sim. Eu
Laura me drogo sim e devo a ele o
Pedro, observando o dinheiro da droga que
descontrole da esposa, pediu: comprei. E isso é problema
— Fique calma, Laura. Deixe- meu.
Pedro e Laura sentiram-se a punição não é falta nessa
como se lhes faltasse o chão. vida, será necessariamente
Enquanto Laura chorava, em outra. É por isso que
Pedro tentava o mais que aquele que é justo aos vossos
podia controlar o nervosismo olhos vê se freqüentemente
e o medo. tingido pelo seu passado.
De repente Marcos lhe (Livro dos Espíritos - Capítulo
pareceu um estranho. 1
Nada lembrava o menino que - (item V - pergunta 984).
criara e que o acompanhava Pedro dirigiu-se até a
ao jogo de futebol aos geladeira, pegou um copo
domingos. Não conseguia com água e tomou-o de um
emitir nenhuma palavra. gole só. Estava dando a ele
Apenas olhava seu filho e mesmo um tempo para
internamente se perguntava: conseguir assimilar o que o
por quê? filho lhe dissera. Laura não
As vicissitudes da vida não conseguia conter o pranto.
são sempre punição das faltas Marcos, impaciente, quase
atuais. São provas impostas gritou:
por Deus ou escolhidas por — Então! Vão ficar aí sem
vós mesmos quando no dizer nada? Digam alguma
estado de espírito e antes da coisa, reclamem, briguem, ou
vossa reencarnação, para estão esperando que eu caia
expiar as faltas cometidas de joelhos e peça perdão? É
numa outra existência. isso?
Porque jamais a infração das Pedro e Laura estavam
leis de Deus, e, sobretudo da atônitos. Não acreditavam ser
lei da justiça, fica impune; se o filho que tanto amavam
quem os afrontava daquela
maneira. O brilho dos seus
olhos estava embaçado pelas
lágrimas. Pedro, recuperando
o autocontrole, respondeu:
— Escute aqui. Marcos, por
maior que seja o amor que
temos por você, exigimos que
nos respeite. Abaixe seu tom
de voz, aqui não existe
ninguém surdo, mas pessoas
educadas, e eu não estou
brincando!
A valentia de Marcos
enfraqueceu ao ouvir a voz
enérgica e segura do pai.
Sentiu que eles não estavam
realmente brincando.
— É que vocês ficam me
regulando, "poxa"!
Laura, um pouco mais calma, dirigiu-se ao filho e com esforço falou de
maneira mais terna:
— Meu filho, acho que você já entendeu que o meu amor por você é
um sentimento real e verdadeiro. Tudo foi explicado há tempo e eu
senti que você me perdoou. Eu lhe pergunto então: por que você nos
agride dessa maneira? Por que não quer se tratar, se cuidar e voltar a
ser a pessoa que era tempos atrás? Podemos refazer tudo, recomeçar
de novo, reconstruir nossa família trazendo harmonia e felicidade para
todos.
— Mãe, eu sou assim!
— Não, filho, você não é assim. Você ficou assim porque relutou e
reluta ainda em aceitar os ensinamentos que nos tornam pessoas
melhores. Mas você pode deixar de ser, basta que queira se modificar.
Pedro, apoiando a esposa, continuou:
— Reconheça que você é um viciado Marcos. A partir daí aceite a ajuda
de quem está lhe oferecendo.
— Pai, eu não sou um viciado. Paro a hora que eu quiser.
— Então queira e pare pelo amor de Deus! - gritou Laura.
— Calma, Laura, controle-se!
— Não posso Pedro, não agüento mais!
Pedro fez um carinho na esposa e continuou dirigindo-se a Marcos:
— De quanto é essa dívida?
— É "porcaria", pai, pouca coisa.
— Pouca coisa, quanto? - insistiu Pedro.
— R$ 200,00!
— E onde pretende conseguir esse dinheiro?
— Não pretendo, já consegui.
— Como?
— Não importa pai. Fica "frio" que já tenho o dinheiro para pagar. Já
disse que isso é um problema meu, e depois o Nestor não tinha nada
que ligar para cá.
— Marcos - insistiu Pedro —, como você conseguiu esse dinheiro?
— Fiz um serviço aí para um cara amigo meu e ele me pagou. Agora
chega! Não sou mais criança para ter que dar tanta satisfação. Sei
comandar minha vida.
— Não é criança, mas age como tal, metendo-se sempre em
enrascadas - disse Laura.
— Dá um tempo, vai, vou sair.
Virou as costas e saiu, deixando seus pais boquiabertos com sua
atitude.
— Pedro, isso não vai acabar bem.
— Eu sei Laura. Também estou angustiado e temeroso como você, mas
para ser sincero não sei mais o que fazer.
Quando relutamos em reconhecer nosso erro, toma-se difícil sair dele.
Sofremos e fazemos sofrer nossa família e as pessoas que nos amam.
Nem sempre temos condições de sair sozinhos do lamaçal no qual nos
metemos, é hora de pedir ajuda e aceitá-la com a certeza de que
somente assim teremos condições de renovar nossa vida. Muitos se
envolvem em um emaranhado de enganos, confusões e ilusões, e se
torna muito difícil achar a ponta desse novelo e encontrar de novo o
bom caminho. A droga é o que o nome diz: uma droga! No início leva
seus adeptos à euforia, ao êxtase, à sensação de poder e depois atira-
os no inferno, transformando-os em farrapos humanos, sem dignidade
e sem noção de respeito e de responsabilidade. Rouba-se, mata-se e
violenta-se em nome da droga. Passam a viver como servos dessa
substância alucinógena, cometendo barbaridades e machucando os
corações sensíveis e amorosos dos pais. O estrago feito no corpo físico
é grande, mas nada comparado ao estrago no perispírito. A dor
acompanhará esses insensatos além-túmulo, e a conseqüência virá por
meio do sofrimento que experimentaram na espiritualidade. As lágrimas
virão e o arrependimento também ao perceberem que deformaram seu
corpo fluídico com entorpecentes e que desperdiçaram a bênção da
encarnação na Terra, por conta da satisfação de desejos vis;
corromperam-se em nome de algo desprezível e inútil.
Portanto, pensem muito antes de se entregarem a algo perigoso, porque
poderão não conseguir sair. Se quiserem que uma coisa dê certo lá na
frente, têm de começar a cuidar dela agora.
Como disse Jesus: "Orai e vigiai", para que seus passos possam levá-lo
ao encontro da verdade e, conseqüentemente, da felicidade.

DIA DE FESTA
Marília não se cansava com os preparativos para a festa de André.
Tudo fora cuidadosamente organizado.
A alegria de Marília e Paulo só era embaçada, às vezes, pela saudade de
Fábio e o desejo de que ele estivesse ali, naquele momento junto ao
irmão no dia em que este completava dezoito anos. Mas, com a força
da fé que os amparava, logo tomavam a satisfação de poder, não tanto
pelo aniversário do filho, mas pela graça recebida por sua recuperação.
Fábio - sabiam — com certeza estaria protegendo o irmão e feliz em
ver sua família retomando a paz perdida.
Tudo o que lhes acontecera fizera-os amadurecer na fé e na crença de
que, quando se sofre com Jesus no coração, a possibilidade de
permanecer de pé é bem maior e mais segura. Jesus fortalece aquele
que O recebe.
— Mãe, não precisava tanta preocupação com o meu aniversário, afinal,
é só um aniversário, mais um ano de minha vida. Não justifica tanto
trabalho.
— Justifica sim, André. Nós sabemos que é só mais um ano de sua vida,
mas para nós é como se estivéssemos recebendo você de novo,
pequenininho, em nossos braços. Jamais nos cansaremos de agradecer
ao Pai por ter permitido que você voltasse para nós da maneira que
sempre foi gentil, educado e digno. Isso para nós, filho, não tem preço.
O que estamos fazendo hoje é apenas externar o que nos vai à alma:
felicidade!
— Está bem, mãe, façam tudo como quiserem; queria apenas poupá-
los.
— Você convidou o Marcos?
— Desde aquele dia que falei com ele no telefone, lembra, no início do
tratamento com o Dr. Rubens, ele não falou mais comigo. Cada um
seguiu seu caminho.
— É uma pena. Laura e Pedro têm sofrido tanto por causa dele.
— A senhora sabe de alguma coisa?
— O que sei vem por meio do desabafo de Laura. Ele continua se
drogando, se envolveu com traficantes e ela desconfia que deve até
praticar algum furto ou coisa parecida.
— Por quê?
— Porque ele não trabalha, e eles não sabem onde ele arruma dinheiro
para sustentar o vício.
— E não procuraram saber?
— Inúmeras vezes. Muitas mesmo, mas em todas elas só conseguiram
gritos, brigas e agressões verbais como resposta. André, se os filhos
soubessem a grande dor que causam no coração de seus pais quando
assumem posturas inadequadas e perigosas, teriam mais controle e
cautela na vida.
— E eu já causei esta dor, não é, mãe?
— Filho, não se culpe mais, pois nós já lhe dissemos várias vezes que
já lhe perdoamos e admiramos você pela luta que travou consigo
mesmo. Uma luta que, graças a Deus e ao Dr. Rubens, você venceu.
Hoje nos proporciona muita alegria; pela sua mudança, seu trabalho
voluntário no Lar de Isabela, enfim, por voltar a ser o filho que criamos
e amamos tanto.
— Obrigado, mãe. Por falar no Lar de Isabela, falta pouco para a
inauguração. Sabe que estou ansioso.
— Eu também. Todos nós estamos. Dr. Rubens escolheu uma data
bonita para inaugurar: véspera de Natal.
— É verdade, não podia ter escolhido data melhor e mais bonita.
— Bem, agora vamos nos apressar; logo mais seus amigos e nossa
família estarão aqui para abraçar você.
— Tem razão. Quer que eu arrume as mesas e as cadeiras?
Marília, feliz como uma criança, aceitou.
— Faça isso, André, por favor. Chegando próximo à escada gritou:
— Laís, venha nos ajudar, filha.
Ao cair da noite, tudo estava pronto.
Os primeiros convidados começaram a chegar trazendo mais alegria
para Marília e Paulo.
André, ao contrário do que pensava, estava descontraído e feliz.
Recebia os convidados com cortesia e agradecia a todos o carinho da
amizade.
Tudo transcorria em perfeita harmonia. Para Marília a noite estaria
perfeita, se não fosse a preocupação com os amigos Laura e Pedro, ao
notar a tristeza nos olhos deles.
— Não fique assim, amiga. Tudo irá se resolver. Um dia Marcos
perceberá o inferno em que está se metendo e sua razão voltará.
Confie, Deus sabe o momento certo de intervir.
— Eu sei Marília. Se não fosse a amizade de vocês, do Dr. Rubens e
nosso trabalho social, não sei, acho que tanto eu quanto Pedro já
teríamos sucumbido. Há momentos em que pensamos não agüentar
mais, aí, lembramos do que o Dr. Rubens sempre diz: "nenhuma dor
pode ser maior que o amor de Deus por nós", e, segurando nesse
amor, prosseguimos.
— É assim que deve ser um presente,
Laura, mas hoje é dia de olha, tenho aqui uma da boa,
festa. Dê uma trégua para sua "tá ligado"?
cabeça e seu coração e Laura, estupefata e mal
divirta-se. podendo se controlar apro-
A reunião prosseguia animada ximou-se do filho e, tentando
e descontraída. No momento segurá-lo, lhe disse:
em que André se preparava — Pelo amor de Deus, Marcos,
para soprar suas dezoito velas pare!
e servir o bolo, o inesperado — Parar? Eu mal comecei!
aconteceu. Marcos, des- — Vamos embora!
controlado, drogado e Sem que Laura esperasse,
agressivo, apareceu. Entrando recebeu do filho um empurrão
na sala, gritou para o antigo e teria caído no chão se Pedro
amigo, tomando uma postura não fosse rápido e a tivesse
inadequada e provocativa: segurado.
— Parabéns, babaca! Que — Que embora que nada,
cena mais comovente, o acha que vou perder essa
filhinho da mamãe apagando cena patética? Meu antigo
as velinhas, Não tem companheiro dando uma de
vergonha "meu"? - gritou bonzinho? Qual é "mano"?
mais alto ainda. — Vai ficar Pedro, assim que atendeu a
eternamente agarrado na saia esposa, voltou-se para o filho
da mamãe, é? Vim te trazer e, segurando-o firme pelo
braço, puxou-o levando-o Não posso mais esconder nem
para fora. negar: meu filho é viciado em
Paulo imediatamente drogas. Pedro e eu não
acompanhou o amigo. sabemos mais o que fazer
André, sem se importar com o para ajudá-lo. Ele não quer
que pudessem dizer, chorou. ajuda. Gostaria que os jovens
Marília e Inês estavam aqui presentes pensassem
atônitas. Não sabiam como muito bem antes de entrar
agir, se davam continuidade à pelos caminhos perigosos das
festa ou se davam por drogas. A volta é sofrida para
encerrada aquela noite que todos. Não sigam o exemplo
prometia ser uma das mais do meu filho, mas sim o
felizes para elas. exemplo de André, que
Assim que Laura se recompôs, mostrou que tudo é possível
levantou-se. Enfrentando os quando existe vontade. Peço
olhares indagadores dos que me desculpem.
presentes, disse de uma Olhando diretamente para
maneira que surpreendeu a Marília, disse com voz
ela própria: suplicante:
— Por favor, perdoem-nos. — Para que eu não me sinta
Como vocês todos puderam pior do que estou me
presenciar, eu e meu marido sentindo, por favor, continue
estamos passando por um a festa; o André merece vocês
momento difícil de nossa vida. merecem. Vocês têm o que
comemorar. Com licença. tamanha a força com a qual
Virou-se para sair. ele lutava com os dois.
Marília, visivelmente Assim que chegaram,
emocionada, abraçou-a com colocaram-no no quarto e
carinho. saíram trancando a porta. No
— Um dia isso vai passar andar de baixo podia-se ouvir
minha amiga. Não desanime. os gritos de Marcos.
— Eu sei Marília. São vocês
que nos dão força, com
amizade sincera. Eu estou
bem. Por favor, continue a
sua festa, eu lhe peço, e não
se zangue comigo, eu vou me
retirar, vou ver o que
podemos fazer com o Marcos.
— Eu compreendo Laura.
Rogo a Deus que os ampare.
Laura retirou-se
acompanhada por Rubens. A
festa continuou, mas sem o
brilho anterior.
Pedro, com a ajuda de Paulo,
levou Marcos para casa. Mal
conseguiam segurá-lo
Pedro sentou-se, cobriu o — Pode ser talvez tenha se
rosto com as mãos e chorou. apagado sob o efeito da
— Meu amigo, estamos todos droga. Vamos vê-lo.
nós solidários com a sua dor. Ao abrir a porta do quarto, a
Em que podemos ajudá-lo? surpresa: Marcos havia pulado
Não se intimide, conte sempre a janela do quarto, no andar
conosco. de cima da casa, e fugido.
— Não sei mais o que fazer Diante do espanto dos dois
Paulo. É como se estivesse amigos, Laura disse:
acorrentado e vendo o fogo — Ele já fez isso antes. Da
destruir meu lar. janela, segura-se no galho
Passados poucos instantes, dessa árvore que é bem
Laura chegou com Rubens. Ao próximo e desce por ela.
ver o marido naquele estado — Por que não me lembrei
correu a abraçá-lo. Rubens e disso? - culpou-se Pedro.
Paulo olhavam os dois — Porque você é humano -
amigos, juntos, abraçados, disse Rubens, para aliviar a
sofrendo a mesma dor e não tensão de Pedro. — Estava
puderam deixar de se sob forte pressão emocional, é
sensibilizar até as lágrimas. bastante compreensível.
De repente perceberam o — E agora, Laura, o que será
silêncio. do nosso filho?
— Será que ele dormiu — Não sei Pedro, não sei
Rubens? - indagou Pedro. mesmo; vamos aguardar.
Rubens e Paulo despediram- reconhecem e aceitam que
se dos amigos, deixando-os são dependentes e procuram
mergulhados em profunda ajuda, tudo fica mais fácil e a
dor. No caminho Paulo recuperação é mais segura.
perguntou ao médico: Na realidade não existe cura,
— Rubens, diga-me, até e sim, abstinência; é vencer
quando sofrerão com isso? cada dia, como o alcoolismo.
—Não sei lhe dizer, Paulo. Só Cada dia é uma etapa
posso afirmar que se Marcos vencida, mas sabem que se
não quiser ser ajudado, pouco experimentarem novamente
eles poderão fazer. Na depen- tudo voltará. A internação
dência química, para que o contra a vontade do
tratamento surta o efeito dependente se faz em casos
desejado é necessário que o graves, realmente
dependente cumpra sua parte necessários.
através da sua vontade e — Meu Deus, por que os
determinação em ficar limpo. jovens hoje andam tão loucos
A volta é muito sofrida. É ao ponto de comprometerem
comum aos usuários de droga sua saúde, seu futuro e sua
serem internados contra a vida por conta de prazeres
vontade, porém, assim que se fictícios? Vivem a ilusão por
desintoxicam e voltam ao lar, algum tempo e,
a primeira coisa que procuram posteriormente, voltam à dura
é a droga. Mas quando realidade de quem é viciado.
— É, Paulo, os jovens — E aí, Laura, Marcos
deveriam ser mais prudentes apareceu?
consigo próprios. Não colocar Marília não podia ver o
a perder nem arriscar uma abatimento no rosto da
vida que poderá ser amiga.
promissora. — Obrigada por me ligar,
A festa de André, por não Marília. Não, ele não apareceu
mais ter mantido o brilho do ainda. Pedro já deu queixa na
início, logo terminou. delegacia; estamos
Ninguém ousava falar mais desesperados, não sabemos o
nada. Preparavam-se para que fazer, estamos perdidos e
dormir quando André entrou assustados.
no quarto de seus pais e lhes — Temos orado muito por ele,
disse: amiga. Ele vai aparecer, vivo
— Pai, mãe, obrigado. Valeu! você vai ver.
Sem esperar resposta, virou- — Deus a ouça! - exclamou
se e dirigiu-se para seu Laura, demonstrando uma
quarto. tristeza que mal conseguia
Marília e Paulo olharam-se e, esconder. — Imploro a Deus
cada um, sem nada dizer, que ele esteja vivo e que volte
agradeceu mais uma vez a para nós.
Deus a graça recebida. — Ele vai voltar Laura, confie
Passaram-se doze dias após o em Deus. Assim que ele
aniversário de André. aparecer, por favor, nos avise.
Se precisarem de alguma com desumanidade; se foi
coisa nos procure. orgulhoso, poderá nascer em
— Obrigada, Marília, sabemos uma condição humilhante; se
que podemos contar com foi avarento, egoísta, ou se
vocês. O Dr. Rubens também fez mal uso da sua fortuna,
tem ligado todos os dias para poderá ser privado do
saber notícias. Assim que ele necessário; se foi mau filho,
voltar, nós avisamos. poderá sofrer com os próprios
Laura, desligando o telefone, filhos etc. (Evangelho
sentou-se e pegando o Segundo o Espiritismo —
Evangelho Segundo o Capítulo V — item VII).
Espiritismo leu: Laura fechou o livro e,
— Os sofrimentos por causas elevando o pensamento até
anteriores são, Nosso Pai, orou:
freqüentemente, como 05 das — Senhor, não sei o que fui
faltas atuais, a conseqüência ou o que fiz na minha vida
natural da falta cometida; passada, mas sei que não
quer dizer, por uma justiça sofro injustamente porque
distributiva rigorosa, o confio no amor e na tua
homem suporta o que fez os justiça. Peço perdão pelo que
outros suportarem; se foi possa ter feito e suplico
duro e desumano, ele poderá auxílio para que saiba, pela
ser, a seu turno, tratado paciência e pela aceitação dos
duramente e teus desígnios, consertar o
que estraguei e suportar com correndo. Marcos está aqui e
coragem e fé tudo que possa eu estou assustada.
estar ainda por vir. Ajude-me — Calma, querida, estou indo.
a vencer. Laura realmente estava sem
Ainda estava com o ação, tamanho era seu
pensamento direcionado ao espanto com a figura do filho.
Pai, quando voltou à realidade Sentia um misto de alegria e
ao ouvir o barulho da porta tristeza, e não saberia definir
fechando bruscamente. Olhou qual sensação era mais forte.
assustada e ficou perplexa Marcos continuava olhando-a
com o que viu. sem nada dizer. Parecia
Marcos estava ali, parado, dementado. Com passos
sujo e malcheiroso. Olhar imprecisos, Laura foi se
espantado, mostrando pelo aproximando receosa. Tinha
seu aspecto fraco e medo do que poderia
cambaleante que nada tinha acontecer.
comido até então. Suas — Filho, por onde andou? Por
roupas estavam rasgadas e que está nesse estado?
seus pés, descalços. Marcos continuava em
Laura, cedendo aos seus silêncio. Laura, seguindo o im-
impulsos e sem tirar os olhos pulso natural nas mães,
do filho, pegou o telefone e enlaçou-o em seus braços,
ligou para Pedro. sem se importar com o odor
— Pedro, por Deus, venha fétido que exalava. Foi assim
que Pedro os encontrou. do lugar e não disse uma
— Marcos! O que aconteceu, palavra. Veja o estado dele,
meu filho, que estado é esse estou assustada.
tão deplorável? — Laura, melhor chamar o
— Ele está assim, Pedro, Rubens. Ele precisa de
desde que chegou. Não saiu atendimento médico.
Enquanto aguardavam a chegada de Rubens, levaram Marcos para o banheiro,
despiram-no e colocaram-no embaixo do chuveiro. Os dois tentavam controlar
a emoção de ver o filho, o único filho, naquele estado quase de demência.
Após o banho, vestiram-no com pijama limpo e o acomodaram em sua cama
confortável e cheirosa.
Marcos deixava-se conduzir sem ter nenhuma reação ou emitir nenhum som.
Assim que Rubens chegou, colocaram-no ciente de como ele chegara e o
levaram até ele. Marcos, deitado, olhava para o teto com os olhos parados,
dando a impressão que nada via. A proximidade de Rubens, ele teve um leve
tremor.
Rubens examinou-o com cuidado.
— Ele está em estado de choque - disse. — É preciso levá-lo para o hospital.
Necessita de atendimento médico e só terá o que precisa dentro de um
hospital.
— Mas como vamos saber o que aconteceu com ele, Dr. Rubens?
— Dona Laura, ele agora não tem a mínima condição de explicar nada.
Precisamos tratar dele com urgência. Mais tarde, quando melhorar e tiver
condições de falar, explicará tudo. Tenham paciência, é necessário aguardar.
Vou chamar o resgate para levá-lo.
— Faça o que achar melhor, Rubens.
— Fiquem calmos, ele ficará bom.
— Podemos ir com ele?
— Claro, é mesmo necessário que estejam com ele.
Laura e Pedro discretamente enxugaram uma lágrima que teimava em cair.
Assim que o resgate chegou, acompanharam o filho até o hospital.
NO LIMITE DA DOR

Sentados na sala de espera, Laura e Pedro dividiam um com o outro a dor que
machucava seus corações. De repente tudo se confundia em suas mentes, e o
mundo parecia desmoronar. A vida tranqüila que levavam fora derrubada por
um furacão e eles, perdidos e ainda confusos, não conseguiam se posicionar e
saber qual a melhor atitude a tomar.
— Pedro, sinto medo, muito medo! Medo do que está por vir.
— Laura, confesso que também sinto medo e não sei o que fazer. Estou
temeroso como você, é como se me faltasse o chão para pisar.
— É, sei bem como é isso.
Deram-se as mãos como que tentando adquirir um com o outro a força que
faltava em seus corações. Por um longo tempo ficaram assim, juntos, calados,
mas cada um sentindo a dor dilacerar o coração. Tão absortos estavam que
nem perceberam a presença de Marília e Paulo. Ao toque suave da mão de
Marília em seus cabelos, Laura reagiu como se saindo de um mundo longínquo.

— Marília, é você! - exclamou quase num sussurro.


— Minha amiga, que momento doloroso este que estão passando. Viemos aqui
para saber de Marcos e verificar se não precisam de alguma coisa.
— É verdade - complementou Paulo. — Sabem que podem contar conosco para
tudo o que precisarem.
— Meus amigos - disse Pedro emocionado —, estamos precisando mesmo de
alguém que nos dê forças e não nos deixe cair na desesperança.
— Viemos porque Rubens nos ligou informando o que tinha acontecido, até
então não sabíamos de nada.
— Ele achou que vocês precisariam de amigos que pudessem ampará-los nesse
momento.
— Já avisaram a família de vocês?
— Não, Paulo, Laura e eu achamos melhor não preocupá-los, já que moram tão
longe e pouco poderiam fazer.
— É verdade, íamos fazê-los sofrer. Minha mãe, assim como a de Pedro, já tem
idade avançada, meu sogro está doente. Achamos melhor poupá-los.
— Rubens imaginou que agiriam assim, por isso colocou-nos a par da situação
para que pudéssemos estar junto de vocês.
— É sempre bom termos alguém do nosso lado quando enfrentamos situações
difíceis.
— Obrigada. Vocês fizeram muito bem em vir. A dor que sentimos está difícil
de suportar sozinhos.
— Tranqüilize-se, Laura, Deus vai ampará-los, com certeza, fortalecendo-os
para que não percam a esperança e a fé nesse momento crítico. É necessário
prosseguir com valentia. É o instante em que Marcos mais precisará de vocês.
— Sabemos disso, mas nem sempre agimos em conformidade com a nossa
razão.
— Vão conseguir, amiga, vão conseguir, com certeza.
Nesse instante Rubens entra trazendo notícias.
— Se quiserem, podem entrar para vê-lo. Ele está dormindo, nesse momento é
muito importante o sono, portanto não o acordem, deixem que ele desperte
sozinho.
— Mas o que aconteceu, Dr. Rubens?
— Dona Laura, como já foi dito, ele não tem condições ainda de explicar nada.
Está emocionalmente muito abalado. Por causa disso é fundamental que
descanse bastante. Fique tranqüila, ele não corre risco algum de vida.
— Então, o que acontece? - perguntou Pedro.
— Seu filho deve ter passado por momentos de tensão intensa, muito
sofrimento e, em vista disso, abalou-se emocionalmente. É uma reação comum
nesse tipo de situação.
— Mas ele ficará bem, não terá nenhuma seqüela?
— Fisicamente sim, não terá problema algum. Com certeza deverá ter um
acompanhamento psicológico e um tratamento desintoxicante, isto é, limpar
seu corpo dos efeitos das drogas.
Os olhos de Laura umedeceram. Sensível à dor da amiga, Marília abraçou-a.
Quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não combateram suas más
tendências no princípio! Por fraqueza ou indiferença, deixaram desenvolver
neles os germes do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade que secam o
coração; depois, mais tarde, recolhendo o que semearam, se espantam e se
afligem da sua falta de respeito e ingratidão. Que todos aqueles que são
atingidos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida interroguem
friamente sua consciência; que remontem progressivamente à fonte dos males
que os afligem, e verão se, o mais freqüentemente, não podem dizer: se eu
tivesse, ou não tivesse feito tal coisa eu não estaria em tal situação.
(Evangelho Segundo o Espiritismo — Capítulo V, item 4)
desse ponto de qual.
Pedro e força. experimen Todo
Laura — Vai ser tar tanta efeito tem
entraram difícil, dor? uma
no quarto Pedro, — Eu causa.
do filho. muito também Ora, a
Pararam difícil. Ás me causa
próximo vezes me pergunto precedend
ao leito e, pergunto e não o sempre
emociona o porquê encontro o efeito,
dos, de tudo resposta, uma vez
observara isso estar Laura. que não
m Marcos acontecen Mas está na
que do algum vida
dormia. conosco. motivo atual,
Pedro Será que deve ter; deve ser
segurou a somos tão deve anterior a
mão da ruins existir ela, quer
esposa assim; alguma dizer,
pedindo- será que explicação pertencer
lhe, com ainda não , só não a uma
este me redimi consegui existência
gesto, do meu mos precedent
que lhe erro, ao entender e. Por
outro a da qual indício de mas a
lado. é uma falta prova não
Deus não impossíve determina é sempre
poderia l escapar, da; são uma
punir pelo e na qual freqüente expiação,
bem que a lógica mente mas
se fez, diz de que simples prova ou
nem pelo lado está provas expiação
mal que a justiça escolhidas são
não se de Deus. pelo sempre
fez, se Entretant espírito sinais de
somos o, não para uma
punidos, seria acabar inferiorida
é porque preciso sua de
fizemos o crer que depuração relativa,
mal; se todo e apressar porque o
não sofriment seu que é
fizemos o o adiantam perfeito
mal nesta suportado ento. não tem
vida, o neste Assim, a mais
fizemos mundo expiação necessida
em outra. seja, serve de de ser
É uma necessari sempre provado.
alternativ amente, o de prova, (Evangelh
o que nos para casa bom
Segundo aguarda pode ser poder
o no futuro? um indício contar
Espiritism - Pedro da sua sempre
o— fez a vontade com sua
Capítulo V pergunta em se amizade,
— item VI com tratar. Se Rubens,
e VIX). ansiedade ele quiser nos
Rubens, na voz. realmente estimula a
entrando — Não ajuda e continuar
no quarto, vou aceitar o lutando.
condoeu- enganá- tratament Vamos
se com a los o, acreditar
situação dizendo acredito que
dos que tudo eu, Marcos vai
amigos. se voltará a renascer.
— Ele resolverá se —É
está facilmente relacionar verdade,
dormindo, , Pedro. bem com doutor,
não se Mas o fato a Pedro tem
preocupe de Marcos sociedade razão.
m! ter e consigo Sozinhos
— voltado próprio. não
Rubens, o sozinho — É muito teríamos
condições suficiente s. O impossível
de para estar important de
suportar a perto de e é não conseguir.
tristeza vocês e pressioná- Seus
que se auxiliar lo, deixar corações
abateu quanto que as pulsavam
sobre nós. puder. explicaçõe acelerado
Somos — Quando s venham s, talvez
muito ele poderá no não
gratos. nos momento suportand
— Não se explicar o que ele se o o peso
faz que sentir da
necessári aconteceu pronto e emoção
o me ? seguro contida.
agradecer — Assim para isso, Foi Pedro
. Vocês que ele tenham quem,
são meus acordar calma. segurando
amigos e vamos A palavra as mãos
estão verificar calma de Laura,
sofrendo, suas soava aos lhe disse:
para mim condições ouvidos —
isto basta, psicológic de Pedro Querida,
é motivo as e e Laura nossos
mais que emocionai como algo amigos
estão lá vamos
fora nos aguardar
esperando lá fora.
. Vamos
ter com
eles.
—E
deixar
Marcos
sozinho?!
— Laura,
ele está
dormindo,
não vai
perceber
nossa
ausência.
Assim que
ele
despertar,
viremos
ter com
ele. Nós
apenas
— Está bem, vamos. recomeçar! Como já nos foi
Paulo e Marília, ao vê-los sair dito antes, não importa o que
do quarto, se aproximaram de tiraram do Marcos ou de nós,
imediato. mas sim o que faremos com o
— Como ele está? que sobrou. Que Deus nos dê
— Dormindo. Rubens disse sabedoria.
que temos de esperar que ele — Gosto de vê-lo falar assim,
acorde espontaneamente. Pedro - falou Rubens, que
— O que poderá ter acabara de chegar. — Tenho
acontecido que o deixou nesse certeza de que saberão o que
estado? - perguntou Laura, fazer, porque já aprenderam
que não escondia sua aflição. que só o amor enxuga as
— Laura, é difícil imaginar, lágrimas, e amor vocês têm
mas seja o que for que tenha forte e sincero em seus
acontecido impediu que ele corações.
voltasse morto - respondeu — Obrigado, Rubens. Se
Marília. — Isto é na verdade o temos alguma sentimento bom
que, dentro do contexto, mais dentro de nós, com certeza foi
importa. você quem nos ajudou a
— Concordo com você - disse descobrir e a expandir ao
Pedro. — Deus está nos ponto de crer que o sol
dando uma nova chance, para sempre brilhará, não importa
nós e para o Marcos, e é o quanto tempo durar a
que devemos fazer: tempestade.
— Realmente, gosto de ouvi- naquele estado?
lo falar assim, Pedro. Marcos olhou para sua mãe
As horas se passaram sem com uma expressão triste no
que na realidade Pedro e rosto. Era um misto de
Laura percebessem. Só se arrependimento, vergonha,
deram conta quando ouviram decepção consigo mesmo.
a voz da enfermeira dizendo: Diante do seu silêncio, Rubens
— Dr. Rubens, Marcos interferiu:
acordou. — Marcos, o que nos importa
— Vamos até lá - respondeu o agora é vê-lo bem. Se não
médico. quiser conversar agora, não
Antes que entrassem no fale. Seus pais respeitarão sua
quarto de Marcos, Paulo e vontade e seus limites. Tem o
Marília se despediram, tempo que achar conveniente
deixando-os na companhia de para acalmar suas idéias e
Rubens, e à vontade para retomar a posse de si mesmo.
conversar com o filho. As explicações virão mais
Marcos ostentava uma tarde, no momento que você
aparência melhor e mais julgar oportuno.
tranqüila. Os medicamentos — É verdade, meu filho - disse
ministrados surtiram o efeito Pedro segurando-lhe as mãos.
desejado. — Agora é importante que
— Você está melhor? Filho, o descanse bastante e alimente-
que aconteceu que o deixou se bem. Para mim basta
saber, por enquanto, que está certo, é só ficarmos juntos,
bem. As explicações, como unidos, nos apoiando um no
disse Rubens, virão ao seu outro, nos fortalecendo e
tempo. acreditando no amparo divino.
Marcos não conseguia dizer Como disse, tudo vai dar
uma só palavra. certo!
Laura sentou-se próxima ao Marcos, absorvendo todo o
filho, enlaçou-o, colocando amor que seus pais lhe
sua cabeça em seu colo. dedicavam, esboçou um leve
Passando suavemente a mão sorriso e falou com voz ainda
sobre seus cabelos, falou com fraca e quase imperceptível:
carinho: — Obrigado, pai, obrigado,
— Filho, tudo o que aconteceu mãe!
com você já passou. Está
agora com seus pais que o
amam e tudo farão para que
recobre seu equilíbrio e sua
vontade de viver. Não iremos
lhe cobrar nada.
Posteriormente
conversaremos para
concluirmos qual o melhor
caminho para sua
recuperação. Tudo vai dar
Entregando-se como uma sensação que hoje será um
criança aos carinhos de sua dia especial. Alguma coisa me
mãe, fechou os olhos e diz que você vai acordar bem
adormeceu novamente. disposto e pronto para
O olhar indagador de Laura enfrentar a situação.
fez com que Rubens se Desconfio que hoje saberemos
apressasse a explicar. como tudo aconteceu, tenho
— Não se assustem ele certeza de que você vai se
apenas adormeceu recuperar e voltar a ser feliz.
novamente. Durante o sono, os liames que
Lembrem-se de que ele está unem o espírito ao corpo se
sob o efeito de afrouxam e o corpo não
medicamentos. Volto a necessita do espírito. Então ele
repetir, é necessário que percorre o espaço e entra em
tenham muita paciência. O relação mais direta com os
processo é esse, vamos outros espíritos. (Livro dos
aguardar. Espíritos — Capítulo VIII —
Passaram-se quatro dias item 401).
desde a internação de Marcos. Foi o que aconteceu com
Laura acordou sentindo uma Laura. Durante seu sono
alegria inexplicável. Olhou Jacob veio ter com ela e pôde
para Marcos que ainda dormia orientá-la quanto a Marcos.
e disse para si mesma: Fortaleceu seu espírito na
— Filho querido, tenho a esperança e na crença de que
tudo se resolveria com o — Marcos!
tempo. Fez com que seu De um salto abraçou-o
espírito compreendesse que a ternamente.
situação poderia se modificar — Filho, filho querido; você
se ela contribuísse de maneira está com um ótimo aspecto.
efetiva para isso. Ao acordar, Dormiu bem?
Laura não se lembrava — Sim, mãe. Sinto-me muito
conscientemente de seu bem e estou faminto.
encontro com Jacob, mas — Vou chamar a enfermeira e
trouxe a recordação do pedir-lhe que providencie seu
colóquio espiritual pela café.
sensação e pela intuição que Enquanto esperava o
sentia de que tudo se desjejum, Marcos levantou-se,
modificaria a partir daquele tomou banho e, sentado em
dia. uma cadeira do quarto,
Após uma hora e meia, mais conversava com sua mãe.
ou menos, Marcos despertou. — Mãe, quanta tristeza trago
Laura, sentada ao lado de sua em meu coração. Quantas
cama, lia atentamente, marcas cravei em meu peito
quando ouviu chamá-la: por ter sido teimoso, incon-
— Mãe! seqüente, leviano e imaturo o
Rapidamente voltou-se para o suficiente para não perceber
filho e seu rosto se iluminou quanto eu estava me
de alegria. afundando e perdendo todos
os meus valores.
— Filho, não fale agora, isto
poderá fazê-lo reviver e sofrer
mais.
— Não, mãe, eu preciso falar;
tirar de dentro de mim essa
angústia... dividir com as
pessoas que amo os meus
erros e procurar me curar.
Preciso de ajuda, mãe,
realmente muita ajuda.
— Você terá meu filho,
estaremos sempre do seu lado
ajudando-o a se reerguer.
— Isso é possível?
— Claro filho! Agora será
possível porque você tem o
ingrediente principal: a
vontade. E você quem quer e
é isso que faz toda a
diferença.
— Com licença, trouxe seu
café, senhor Marcos.
Agradecendo, Laura apressou-se a servir seu filho.
— Marcos, tome seu café, você se sentirá melhor ainda.
— Obrigado, mãe, mas eu preciso falar desabafar.
— Eu sei filho, e você o fará. Tome seu café e vamos aguardar um
pouco, logo seu pai e o Dr. Rubens estarão aqui. Você não acha que
seria bom que eles o ouvissem? Seu pai ama tanto você!
— Eu sei mãe.
— O Dr. Rubens, não preciso nem falar quanto ele é nosso amigo, e
seu também; seria prudente que ele o escutasse para saber como
conduzir seu tratamento, e ajudá-lo caso houvesse necessidade.
— Está bem, mãe, vamos aguardá-los.
Olhou para sua mãe como se pela primeira vez a visse como realmente
era. Esboçou um leve sorriso e voltou a tomar seu café.

AUSÊNCIA DE DEUS

Rubens estava satisfeito com o estado geral de Marcos. Tudo indicava


que ele teria êxito no seu propósito de cura.
— Está pronto para falar sobre o assunto? - perguntou, olhando
atentamente para o rapaz.
— Estou Dr. Rubens; acredito que estou - repetiu.
— Pois bem; comece à hora que quiser. Lembre-se de que estamos
aqui para ajudá-lo, não para recriminá-lo. Não nos cabe julgá-lo, fique
certo disso.
— É verdade, filho. Queremos o seu bem e lutaremos ao seu lado para
que você se recupere.
— Obrigado, pai.
— É importante que saibamos o que aconteceu com você, filho, para
melhor compreendê-lo. Todos nós erramos, é necessário se
conscientizar do erro e partir em busca dos acertos. Conte sempre
conosco.
— Eu sei mãe. Sei que posso contar com vocês. Quero apenas preveni-
los de que o que vão ouvir não é nenhuma história da carochinha, com
final feliz, muito pelo contrário, o final é triste, promíscuo e traumático.

Laura olhou para Pedro e Rubens com expressão assustada. Pedro


adiantou-se:
— Não importa filho, estamos preparados para ouvi-lo. Seja o que for
que tenha acontecido, conte-nos sem receio e sem nada esconder. O
que está feito não tem volta, mas o que está por vir depende de cada
um de nós.
— Seu pai tem razão, Marcos - disse Rubens —, agora é se esforçar e
tentar consertar o estrago que o vendaval fez, recuperando o bom
senso. Somos todos adultos e sabemos que a vida é o cenário do bem
e do mal. Por algum tempo você se incorporou no cenário do mal, mas,
agora, percebendo a inutilidade e sofrendo a conseqüência dessa ilusão
nefasta, pode retornar e se integrar no cenário do bem. Todos nós
estamos aqui prontos para ajudá-lo a se ajustar e fazer parte nova-
mente desse cenário, portanto confie na Providência Divina que o
auxiliará nessa tarefa de adequação.
— Acredito no que diz Dr. Rubens. Estou ansioso para tirar de mim este
peso que quase me levou à loucura.
— Então fale!
Marcos respirou fundo. Reportando o dia do aniversário de André,
iniciou a narrativa:
— Naquela noite, quando fui à casa do André, já tinha me drogado com
maconha e cocaína. Nem sei direito o que fiz e o que falei. Só me
lembro que, quando me trancaram no quarto, fiquei louco. Era como se
um bicho enorme e poderoso tomasse conta de todo o meu corpo. A
única coisa que eu sabia era que precisava de mais droga. Pulei a
janela do meu quarto e fui à boca onde sempre conseguia a "muamba".
Já era conhecido de lá, pois sempre ia buscar o que queria. Cheguei
dizendo que tinha conseguido muito dinheiro e que eles poderiam me
abastecer porque no final pagaria tudo de uma só vez. Como sempre
pagava a eles, não desconfiaram que eu estava mentindo e que não
tinha dinheiro algum. Forneceram-me sem economia o que eu queria.
Quando atingi o auge do delírio, caí ali mesmo e ali fiquei até que o dia
amanheceu e o efeito da droga aliviou. Quando me preparei para ir
embora, o chefe se aproximou de mim e me cobrou o que devia. Ao
saber que não existia nenhum dinheiro, ordenou que seus capangas me
batessem ao ponto de quase me quebrarem todo, trancou-me em um
quarto malcheiroso e disse-me que só me soltaria após alguém vir
pagar a minha dívida. Não conseguiram me obrigar a dizer onde meus
pais moravam, então mantiveram-me preso dando-me somente pão
duro e água, sem direito algum, muito menos tomar banho.
Marcos calou-se e limpou o suor que molhava seu rosto.
Rubens, percebendo seu abalo emocional, lhe disse:
— Marcos, não prefere continuar outra hora? Talvez seja melhor parar
por hoje.
— Não, doutor, comecei e vou até o fim. Deixe-me terminar, por favor,
nem que o senhor tenha que me sedar depois.
— Faça como quiser.
Marcos pediu um copo com água e continuou:
— Após quatro dias de prisão e sem conseguir meu endereço para
cobrar a dívida pressionando os meus pais, alguém teve a idéia de
fazer com que eu pagasse trabalhando para eles e me prostituísse para
satisfazer seus desejos sexuais anormais e imorais.
Ao ouvir isso, Laura escondeu o rosto entre as mãos e soltou um
gemido de dor. Foi como um punhal cravando no peito de Marcos. Pela
primeira vez tomava consciência da proporção do mal que fizera a seus
pais.
— Perdoe-me, mãe - disse quase chorando —, nunca quis e nunca fiz
isso por motivo algum. Obrigaram-me com uma violência física e moral
que é melhor nem comentar. Me drogava sim, mas nunca violentei
meu corpo.
Rubens, na tentativa de poupar os pais de Marcos de tamanho
sofrimento, interveio de imediato.
— Marco não é necessário que eles só vale o dinheiro, o
contar-nos os detalhes; já rem lucro. Pena que descobri isso
sabemos o suficiente, tanto per muito tarde e a duras penas.
que podemos imaginar o der — Olha onde você foi se
resto. Diga-nos apenas como e meter, filho!
conseguiu fugir dessa jam — Eu sei mãe, eu sei! Conheci
situação. ais o inferno, mas não quero
— Entre eles havia um rapaz se voltar para ele; é por isso que
que sempre foi meu sen peço ajuda. Voltando-se para
camarada. Tínhamos uma sibil Rubens, perguntou:
amizade boa; depois de dias iza — O senhor, que é um
vendo o sofrimento que m homem com conhecimento
estava me levando à co profundo da vida,
demência, condoeu-se da m conhecimento adquirido pelos
minha situação humilhante e os seus estudos e de sua
ajudou-me a fugir. Pediu-me pro vivência de fraternidade,
que nunca mais voltasse ble diga-me: por que existe tanto
àquele lugar ou me deixasse ma mal e por que caímos nele?
encontrar pelo chefe, pois s — Tanto para uma como para
com certeza ele me mataria. dos a outra pergunta Marcos, só
— Meu Deus! - exclamou out existe uma resposta: ausência
Pedro. ros. de Deus! O mal existe pela
— Essa é a lei dos traficantes, Par ausência de Deus no coração
pai. Não são amigos, nunca a daquele que o pratica, assim
como aquele que cai na sua ver conseguiremos vencer a
armadilha o faz pelo mesmo o estrada árdua da volta.
motivo. É importante que — É melhor descansar agora
colocarmos Deus em nosso de Marcos - disse Rubens. — Vou
coração, Marcos; Ele é a bo dar-lhe um medicamento para
bússola, a direção que nos m relaxar e dormir. Amanhã
leva ao porto seguro. sob provavelmente poderá voltar
— Doutor, tenho alguma rou para casa.
chance de recuperação? em — Antes quero responder a
— Claro Marcos! Mas voc uma pergunta que, tenho
precisará ter muita força de êe certeza, todos vocês estão se
vontade, fazer o tratamento res fazendo.
de maneira séria, terapia e gat — Qual filho?
acreditar que pode. Querer é ar — Onde conseguia dinheiro
fundamental, e todos vamos sua para sustentar meu vício, já
ajudá-lo nessa batalha. aut que nunca me viram
— Sim, filho, confie em nós, o- trabalhar.
em você e, principalmente, esti — Sim, na verdade
em nosso Pai que está no céu. ma, gostaríamos de saber.
Tudo vai se resolver. seu — Mãe, acredite, por favor,
Voltaremos a ser felizes. val nunca me prostituí. Fazia
— Coloquei tudo a perder, não or. alguns serviços para o senhor
é verdade, mãe? Jun José, aquele do mercadinho
— Agora é pensar no futuro, tos da rua de cima, lembra dele?
Entregava suas encomendas, tod balhando em um mercadinho
limpava o chão, enfim, tudo o a para servir a esse carrasco.
que ele precisava. Com o sua Jogara fora seus princípios,
dinheiro que ele me pagava fam seus estudos e sua
comprava a droga. Depois ília. integridade física.
daquele envolvimento com a Não
polícia, no qual eu e o André con
fomos presos, confesso que seg
duas ou três vezes me envolvi uia
em confusão com uma turma ima
aí. Fizemos algumas gin
besteiras, mas logo percebi ar
que era gente da pesada e caí seu
fora. Acredite em mim, eu filh
imploro! o,
Pedro, enquanto ouvia o filho que
relatar suas experiências, tinh
pensava no grande carrasco a
que é a droga. Enlaça sua tud
vítima, aperta o cinto o
aprisionando-a e depois joga- em
a na sarjeta, tirando sua cas
dignidade, sua esperança e a,
desgraçando sua vida e de tra
— Pai, o senhor ouviu o que precisarei de nada. Ficaria
eu disse? mais tranqüilo se soubesse
— Claro, filho, claro. Fique que estão em casa
certo de que acreditamos em descansando. Quero mesmo
você. O que nos importa ficar um pouco sozinho,
agora é saber que você caiu pensar um pouco.
na realidade e percebeu a Pedro e Laura olharam para
necessidade de se recuperar, Rubens esperando seu
reestruturar sua vida. Vamos parecer.
confiar em você, na sua — Ele tem razão. Podem ir.
sinceridade. Sabemos que não Ele ficará bem e depois hoje é
será fácil, mas vamos lutar meu dia de plantão, estarei
colocando Jesus à frente, nos aqui no hospital toda a noite.
mostrando o caminho e Virei vê-lo, fiquem tranqüilos.
firmando nossos pés na longa — Bem, se é assim, nós
jornada. vamos. Amanhã bem cedo
— Vamos ficar aqui com você estaremos aqui.
no hospital - disse Laura. Se Aproximando-se do filho,
Deus quiser, será só mais esta beijaram-no.
noite. — Fique com Deus, filho!
— Mãe, não se preocupe. Vão — Vão com Deus também -
para casa e descansem. Eu respondeu Marcos.
estou bem e o doutor disse Assim que seus pais saíram.
que vou dormir. Não Marcos recostou em sua cama
e, enquanto aguardava a informação porque as tive
medicação prescrita por todas e várias vezes. Pensou
Rubens, deixou-se navegar no amigo André.
em suas reflexões. Tudo — André foi mais esperto do
passava como um filme em que eu. Percebeu mais cedo a
sua mente. furada em que tínhamos nos
— Quanta bobagem e metido e a inutilidade da
irresponsabilidade pratiquei! - rebeldia dos jovens quando
exclamava para si mesmo. — essa rebeldia vem destruir
Meu Deus, o que fiz da minha nossas próprias oportunidades
vida. Tendo tudo para ser um de crescer; quando esses atos
vencedor, consegui me insanos e irresponsáveis vêm
transformar em um jovem acabar com nossa moral,
completamente arrasado, nossa dignidade
destruído e sem esperanças. e caráter, trazendo apenas
Larguei meus estudos, frustrações, mágoas e
afastei-me das pessoas que sofrimentos para aqueles que
me queriam bem e o que é dizemos amar e para nós
pior, magoei meus pais e a mesmos. Nada disso vale a
mim mesmo, transgredindo pena, hoje bem sei.
com total leviandade as leis — Por que esse olhar tão
dos homens e até as leis de absorto, Marcos?
Deus. Não posso nem culpar a Marcos levou um susto.
falta de orientação e — Oi, Dr. Rubens, o senhor
me assustou! arrependimento, enfim,
— Desculpe-me! Vim ver ressaltou com veemência a
como estava e o encontro tão dor que sentia em seu peito
pensativo. Como diz o dito pela experiência nociva de ter
popular, "um níquel pelos vivido por alguns dias na
seus pensamentos" - brincou. promiscuidade, em contato
Marcos sorriu. direto com uma violência que
— É bom vê-lo sorrir! até então ele próprio
— O senhor poderia dispor de desconhecia.
alguns minutos para Rubens compadeceu-se com a
conversar um pouco comigo? aflição daquele jovem que
— Claro! pagara bem caro por sua
Animado, Marcos colocou imprudência. Lembrou-se de
Rubens a par de todas as suas seus filhos mortos anos atrás
reflexões, seus medos, seu em plena juventude e pensou:
"Meu Deus, — Marcos,
poderia ser vamos
um filho conversar
meu. Quem sim. Temos a
pode noite toda se
afirmar quiser, salvo
com se eu for
certeza que chamado para
jamais alguma
passará por emergência.
esta ou Diga-me sem
outra constrangime
situação nto o que o
conflitante? aflige dentre
" todas as
Paternalme aflições que
nte apertam seu
aproximou- coração.
se mais de — Não
Marcos, saberia
sentando enumerá-las
bem por ordem de
próximo à importância,
sua cama. porque todas
machucam é claro que
meu tem e deve
coração acreditar no
com a seu futuro
mesma que, com
inten- certeza,
sidade, mas poderá ser
gostaria promissor se
muito que você quiser e
me se esforçar
respondess para isso.
e a uma — Mas o
pergunta senhor acha
específica: mesmo que
terei algum depois de
futuro? tudo valerá a
Poderei pena? Com
esperar e todas essas
acreditar cicatrizes,
em uma essas marcas
nova que deixei
chance de por onde
vida? passei?
— Marcos, — Preste
atenção, completar o
Marcos: um curso. O
velhinho de velhinho
setenta respondeu:
anos queria "Sempre vale
aprender a pena. Se
violino, conseguir
regressar aprender
ao mundo apenas seis
espiritual meses,
com noções chegarei ao
musicais. O mundo
professor, espiritual com
surpreso, um
disse não conhecimento
valer a a mais,
pena, pois noções de
o estudo do música. Na
violino era realidade
muito longo andei um
e ele não passo em
teria idade direção ao
suficiente meu sonho."
para Isso quer
dizer. assim parece
Marcos, fácil!
que na vida — Não,
é hora de Marcos, não é
aprender fácil, aliás, é
com até difícil.
qualquer Sabe por
idade quê? Porque
independen nós homens
temente do temos a
que fizemos tendência em
ou do que cair na auto-
deixamos compaixão,
de fazer, se damos muita
erramos ou atenção ao
acertamos. orgulho; nos
O que afundamos no
importa é egoísmo e na
melhorar vaidade em
sempre, admitir que
sem cansar estamos
nunca. errados,
— O senhor enganados. É
falando preciso muita
coragem mesmo
para se aceitam a
conscientiz necessidade
ar que de ir a busca
errou e do
pedir ajuda. fortaleciment
Os que o de seu
agem com espírito, de
coragem e sua
esperança personalidade
no futuro e de seu
aumentam caráter.
muito a — O que
chance de tenho de
conquistar fazer, então,
a felicidade. doutor?
Os que — Se adequar
percebem às leis divinas
que são e às leis dos
fracos e homens. Ter
assumem consciência
esta que nenhum
fragilidade de nós é o
perante si centro do
universo e estão! Mas
acreditar não se
que suas esqueça
chances de Marcos, de
progresso que eles
são as amam você, e
mesmas a sua
dos outros, felicidade é a
desde que felicidade
se esforce deles. Como
para isso. já disseram,
Nada vão ajudá-lo,
adquirimos depende só
se não for de você
por esforço aceitar essa
próprio; ajuda e
essa é a lei. passar a
— E os valorizar a
meus pais, vida como
estão uma bênção
sofrendo maior que o
tanto. nosso Criador
— Estão! nos concede.
Realmente — Uma última
pergunta, com
doutor: a prudência,
rebeldia fraternidade e
dos jovens generosidade.
é válida? É válida.
— É válida Marcos se for
se for uma uma rebeldia
não- que constrói e
aceitação, que mostre
sem pelo exemplo
violência do do trabalho e
preconceito da
, das honestidade
injustiças e que podemos
das melhorar o
misérias; mundo se nos
se for uma esforçarmos
não acei- para isso,
tação que permitindo
leva aquele que cada um
que sente a viva e tenha
lutar pelos sua chance
oprimidos e de
sofredores, aprendizado.
Esta é só está
válida! Mas satisfazendo
rebeldia os interesses
que falsos e
corrompe nocivos
que se daqueles que
entrega aos se dizem
desvarios rebeldes
aniquilando porque a vida
aquele que os fez assim.
sente Marcos
aqueles que chorava. A
estão a sua emoção
volta e a tomou conta
sociedade de todo o seu
em geral, ser. Nunca
esta não é pudera
válida e imaginar que
deve-se seria
trabalhar agraciado
para que com tanta
desapareça compreensão.
, porque na Na realidade
realidade nunca dera
valor à Segurou as
ami¬zade, mãos de
nunca Rubens e
enxergara apertou-as
os com força.
verdadeiros Com voz
amigos, trêmula, disse
aqueles que baixinho:
querem — Eu vou
sempre o vencer!
nosso bem; — Claro que
aquela vai -
amizade respondeu
que acolhe, Rubens.
mas educa; Rubens notou
que a emoção
enxerga o forte que
bom tomava conta
caminho de Marcos.
quando Achou que
nossos era hora de
olhos são parar.
incapazes — É melhor
de ver. descansar.
Vou pedir à retirou-se do
enfermeira quarto.
que lhe Marcos,
traga agora voltando a se
a recostar na
medicação. cama,
Terá um esperou a
sono enfer¬meira,
reparador. com a certeza
Por hoje de que teria
chega de uma boa
emoções. noite de sono,
Levantou- como lhe
se e, desejara seu
desejando amigo.
boa noite,
NOITE ades das contente. está.
DE crianças. — Dona Muito
NATAL Os Marília, obrigado.
quartos, não sei — Por
cuidados como favor,
Os amente agradece não nos
preparati enfeitado r toda a agradeça
vos para se ajuda , Dr.
a coloridos que a Rubens.
inaugura , senhora, Foi o
ção do aguardav assim senhor
Lar de am como quem
Isabela apenas Paulo, nos
chegara os Dona ajudou
m ao sorrisos Laura e permitin
fim. dos Pedro me do que
Tudo pequeno deram. participá
ficara de s que Tenho ssemos
acordo iriam certeza deste
com os habitá- de que projeto
desejos los. sem essa que se
de Rubens ajuda tornou
Rubens e não nada muito
com as cabia em estaria importan
necessid si de como te para
todos semeado enxergav isso
nós. res a acontece
— Isso dispostos nenhuma r foi a
acontece a possibilid senhora
u porque trabalhar ade de quem
foi ao . saída, propiciou
encontro — É bem mas, ao
dos verdade hoje, entender
anseios o que depois o que é o
de seus está de tudo o amor na
corações. dizendo. que sua
Entender Houve aprendi, essência
am que, um olho para verda-
além das tempo trás e deira.
gigantes em que mal Existem
montanh tudo acredito formas e
as que se parecia que formas
colocam escuro e consegui de viver
à nossa sombrio sobreviv esse
frente, na minha er às sentimen
existem vida, e o amargur to, e
vales senhor as. todas
imensos sabe —A elas se
esperand disso. possibilid entrelaça
o apenas Não ade de m se o
amor for como bonito, e de
simplesm con- Dr. desânim
ente duzimos Rubens! o; nem
amor; nossa — Não sempre
verdadeir vida, da falo fui esta
o, forte e aceitação bonito, fortaleza
limpo. E das falo o que
esse coisas que vocês
sentimen fortes sinto. dizem
to que que não Passei admirar.
nos estão ao por Sou
trans- nosso muitos humano
forma e alcance sofriment e tenho
nos mudar, os. Dona fraqueza
fortalece com Marília, e s, mas
Dona certeza alguns aprendi
Marília. encontra deles a nesses
Quando mos o senhora anos
compree equilíbrio pre- todos
ndemos que nos senciou. que
que tudo leva à Tive somente
depende paz. meus quando
de nós, — Como momento nos
da o senhor s de entrega
maneira fala angústia mos ao
amor, e nossa — Vocês o
vivemos paz. são estaremo
esse — mesmo s
sentimen Atrapalh amigos - recolhen
to ao o! disse do
lado de — Laura, Laura nossos
nossos que bom sorrindo. filhos do
semelhan vê-la! — Faltam coração
tes, Você apenas que
companh nunca dois dias estarão
eiros de atrapalha para conosco,
jornada - iniciarmo dia após
na Terra, responde s nosso dia,
é que u Marília. trabalho aprenden
nossas —É Dona do a
lágrimas verdade, Laura. viver e a
secam e Dona Se Deus ser feliz.
dão lugar Laura, quiser, Emocion
ao jamais na noite ada,
trabalho sua de vinte Marília
edificant presença e quatro falou ao
eeà vai nos para amigo:
conduta incomod vinte e —Éa
que ar, é um cinco de maneira
resgatam prazer. dezembr mais
linda de — É, Laura muito
passar a Laura, a ficou bem,
noite de noite do pensativ Marília,
Natal. Só encontro a. Uma melhor
mesmo o das lágrima do que
senhor almas fortuita eu e o
para ter que, à escapou Pedro
idéias frente de seus esperáva
como dos olhos. mos,
essa. presente — O que apesar
—É s e das foi de
verdade, guloseim amiga? sabermo
Marília, as, Ficou s que
nunca consegue triste de ainda
tinha me m ver de repente. tem um
ocorrido verdade O que longo
que se é o amor está caminho
pudesse de Jesus, sucedend pela
fazer da o o, o frente.
noite de aniversar Marcos — Então,
Natal a iante não está o que a
noite do muitas bem? preocupa
encontro vezes — Dona
entre as esquecid Marcos Laura?
criaturas. o. está indo —
Lembram Marcos que e receio,
-se do tiveram, ele nos
daquele consultór ele aconselh
rapaz io do Dr. contou ou a tirar
que Jaques, que o tal o Marcos
ajudou onde ele de daqui,
Marcos a faz Alfredo, deixar a
fugir terapia, que é o cidade,
naquela encontra chefe antes
ocasião? mos com daquele que ele o
— Sim, o esse bando de encontre,
que tem rapaz. traficante o que
ele? - Ele de s, não acontece
pergunta pronto esqueceu rá mais
ram ao reconhec o Marcos dia
mesmo eu o e ainda o menos
tempo Marcos. procura dia,
Rubens e Ficaram para assim
Marília. contente cobrar a poderem
— Pois s de se dívida e os evitar
bem, encontra se uma
dias rem e, vingar. desgraça
atrás, ao durante Diante .
sairmos a do nosso
com o conversa espanto
— Meu Deus, Laura, isso é risco.
muito sério e perigoso! - — Sentiremos muita saudade
exclamou Marília. de vocês, do nosso trabalho
— É verdade, Dona Laura - que na verdade nem cheguei
concordou Rubens. Com essa a fazer aqui no Lar; dos seus
gente não se brinca. sábios conselhos, Dr. Rubens,
— Nós sabemos. É por isso enfim, há anos moramos aqui
que decidimos nos mudar e agora vamos ter de começar
daqui. tudo de novo.
— Mas quando e para onde — Não se lastime Dona Laura,
vocês pretendem ir? foi uma bênção ter encontrado
— Logo após a inauguração esse rapaz, e ter a
do Lar de Isabela, vamos para oportunidade de recomeçar
a cidade onde moram nossos com seu filho ao seu lado, pior
pais, enfim, toda a nossa seria se fosse sem ele.
família. Acreditamos que lá o — Eu sei Dr. Rubens e até me
Marcos estará a salvo desse envergonho de dizer isso, mas
bandido, e mais tranqüilo para Pedro e eu estamos tão
prosseguir seu tratamento. fragilizados.
Marília enlaçou a amiga em — Isso vai passar Dona Laura.
um gostoso abraço. Nenhum sofrimento dura para
— Não fique tão triste, Laura. sempre. Pensem que estarão
O importante é resguardar novamente juntos com a
seu filho, afastando-o desse família de vocês e que o
Marcos está se recuperando. palavras, Dr. Rubens. O
Se Deus quiser, verão seu senhor sempre consegue
filho feliz novamente. acalmar nosso coração.
— Mas o nosso trabalho Poderia me dizer se tudo o
social, como fica? que Pedro e eu estamos
— Dona Laura, quando passando é uma prova? Foi
trabalhamos movidos pelo Deus quem nos impôs todo
sentimento de fraternidade, esse castigo?
não importa o lugar, sempre — Dona Laura, veja bem:
acharemos o que e onde Nada acontece sem a
realizar nossa tarefa de amor, permissão de Deus, porque foi
se realmente a desejamos. Ele quem estabeleceu todas as
Tanto a senhora quanto Pedro leis que regem o universo.
possuem dentro do coração a Perguntareis por que Ele fez
semente da caridade e ela tal lei em vez de outra. Dando
germinará se vocês ao espírito a liberdade de
permitirem, escolha, deixa-lhe toda a
independentemente do lugar responsabilidade dos seus
onde estejam. Jesus está atos e das conseqüências;
perto de nós sem se importar nada lhe estorva o futuro; o
com o lugar onde estejamos, caminho do bem está à sua
porque a Ele interessa nosso frente, como o do mal. Mas,
coração limpo e verdadeiro. se sucumbir, ainda lhe resta
— Obrigada por suas uma consolação, a de que
nem tudo se acabou para ele, com a paz; mas, também, por
pois Deus na Sua bondade tudo que fazemos de
permite-lhe recomeçar o que imprudente, leviano e
foi mal feito. É necessário inconseqüente sofreremos as
distinguir o que é obra da conseqüências. Nós
vontade de Deus e o que é da escrevemos nossa história,
vontade do homem. Se um Dona Laura. Deus não permite
perigo vos ameaça, não foste o sofrimento ao inocente e
vós que o criaste, mas Deus quem de nós pode dizer e
tivestes, porém, a vontade de afirmar ser completamente
vos expordes a ele, porque o inocente, ser uma vítima da
considerastes um meio de injustiça divina?
adiantamento; e Deus o Marília interveio.
permitiu. (Livro dos Espíritos — Dr. Rubens, e se não nos
— Capítulo VI — item V — lembramos de nada que
pergunta 258a). tenhamos feito para ocasionar
— Isso quer dizer que somos nossas dores?
culpados e merecemos este
castigo?
— Isso quer dizer que Deus
não nos impõe castigo, mas
respeita a lei de ação e
reação. Por tudo que fazemos
de bom somos agraciados
— Se a causa não está nesta Ficou lindo!
vida, Dona Marília, há de Todos seguiram André e Laís,
estar no pretérito. Deus é participando da contagiante
justo, jamais devemos nos alegria dos jovens.
esquecer ou duvidar da Sua Noite de 24 de dezembro.
justiça. O entusiasmo se estampava
— Mas também podemos no rosto de Rubens; Pedro e
estar em uma situação con- Laura; Paulo e Marília,
flitante, com a finalidade de seguidos de André, Laís, Inês,
ajudar entes queridos, não é Marcos e Ana. A imensa
mesmo, Dr. Rubens? alegria que sentiam ao
— É verdade. São espíritos recolher os futuros moradores
que se submetem aos espi- do Lar de Isabela se
nhos para auxiliar aqueles misturava com as luzes, bolas
que amam, e são mais fracos, coloridas, fitas vermelhas e
a vencerem as provas. É o Papai Noel, que enfeitavam as
exercício do amor altruísta. ruas da cidade, embalados
André e Laís aproximaram-se por músicas natalinas que
entusiasmados, inter- levavam aos corações dos
rompendo a conversa: transeuntes a mensagem de
— Dr. Rubens, mãe e Dona Natal.
Laura, venham ver a beleza Uma a uma foram sendo
que ficou o quarto de lazer recolhidas as crianças que,
das crianças. Terminamos abandonadas, jaziam
agora de arrumar, montamos dormindo nas calçadas,
todos os brinquedos, indiferentes ao reboliço que o
selecionamos os jogos por "Espírito de Natal" causava a
idade, enfim, está uma graça. todos.
— Rubens, podemos recolher mas carentes de vida, de
essas crianças e levá-las para esperança e de saúde.
o Lar? Não teremos — É, tenho certeza de que
problemas com o Juízo da nossos entes queridos que se
Vara da Infância e da foram vão nos amparar e
Juventude? auxiliar nessa tarefa que
— Tranqüilize-se, Paulo. O Lar iniciamos hoje: devolver os
de Isabela está legalmente sonhos, a esperança e a
habilitado para receber estas vontade de viver a estes
crianças. Foi-nos concedida irmãozinhos.
uma autorização especial para — Dr. Rubens, Paulo, não
que fosse dessa maneira, podemos demorar - disse
mas, assim que estiverem Marília. — Até chegarmos ao
devidamente instaladas, Lar, dar banho em todas
limpas e alimentadas a essas crianças, aprontá-las
assistente social nos visitará para a ceia que as espera,
para iniciar todo o vamos demorar. Vamos!
procedimento legal para que — Marília tem razão, Rubens,
elas permaneçam internas. vamos nos apressar.
— Foi muito bom o juiz ter — Vamos. Quero que a nossa
nos dado permissão para que oração de Natal seja feita
fosse assim, não, Rubens? pontualmente à meia-noite.
— De fato, Paulo. Este era o Após mais ou menos quatro
meu grande sonho, passar a horas de contato e diálogo,
noite de Natal ao lado dos conseguiram retornar ao lar
nossos irmãozinhos carentes acompanhados de vinte
de afeto. crianças.
— Não só de afeto, Rubens, Meia-noite do dia 24 de
dezembro. oportunidade única de servir.
A mesa do grande refeitório, Sabemos que as lágrimas se
cuidadosamente arrumada secam com o trabalho
para a ocasião, acolhia todos edificante e nobre feito
aqueles seres que, esquecidos desinteressadamente em
de suas dores, tormentos e favor daqueles que
angústias pessoais, se uniam necessitam de amparo, de
como uma grande família e se alguém que lhes mostre o
entregavam inteiros e felizes caminho e as possibilidades
à tarefa do amor fraternal. existentes dentro deles
Rubens, emocionado, mesmos. Aprendemos
levantou-se e iniciou o Senhor, que aquele que serve
colóquio com Deus: acima do dever encontrou o
— Meu Pai e meu Criador, caminho da verdadeira
somos gratos por nos ter felicidade, e é esta felicidade
mostrado a luz da verdade e que almejamos. Que o amor
do amor. Para nós nesse possa sempre enxugar as
momento não nos machuca o nossas lágrimas para que
passado de dor e tristezas, nossos olhos e nosso coração
porque conseguimos enxergar possam ver e sentir onde o
através dos olhinhos infantis a Senhor está, por meio do
esperança no futuro esquecimento do nosso
promissor. Se somos próprio sofrimento, cumprindo
escolhidos para impedir que a difícil, mas sublime tarefa
essa esperança se desfaça da caridade em todas as suas
nos corações de nossos formas. Com a vossa bênção,
irmãozinhos, agradecidos meu Pai, iniciamos hoje, na
estamos por esta noite de Natal a nossa
caminhada. Marília e Paulo caminhavam
Pequenos flocos de luzes lado a lado por entre as
desciam sobre as cabeças alamedas do Parque
daquelas pessoas, que, Municipal.
fortalecidas pelo desejo O tempo passara rápido.
autêntico de servir, viviam a Seis anos desde a
plenitude do amor. As inauguração do Lar de
crianças limpas, vestidas com Isabela.
cuidado e bem penteadas, Experimentavam em seus
não conseguiam desviar os corações sentimentos contra-
olhinhos daquela mesa farta, ditórios, que se misturavam,
com comida quente e causando emoções intensas.
guloseimas saborosas. Tudo mudara.
A grande jornada se iniciava. Laura e Pedro realmente se
Nascia o Lar de Isabela. transferiram para outra
cidade a fim de preservar a
vida de Marcos e hoje,
NOVOS TEMPOS sabiam, viviam em harmonia
por conta da recuperação do
filho que, completamente
restabelecido, voltara a
estudar e trabalhar sem
nunca mais ter dado motivos
da lágrimas para seus pais.
André prestou vestibular em
uma cidade próxima e
cursava o segundo ano de
Medicina, com a intenção de
se especializar em Psiquiatria.
Laís, noiva de Renato, não
quisera fazer nenhum curso
universitário e empregava seu
tempo auxiliando Marília na
administração do Lar de
Isabela, tarefa que sua mãe
assumira desde a
desencarnação de Rubens há
seis meses.
O Lar desviasse do
contava propósito
com trinta traçado por
crianças, e Rubens:
tudo seguia amor...
conforme o simplesmente
desejo e a amor!
orientação — Hoje,
de seu sinto-me um
fundador: pouco triste,
Dr. Rubens. Paulo. A
Marília fazia saudade de
questão de todas as
continuar o pessoas que
trabalho de amo dói em
seu grande meu coração;
e machuca
inesquecíve minha alma
l amigo e e, às vezes,
se me fragilizo.
esforçava — Eu sei
ao máximo querida, sei
para que o muito bem
lar não se como é isso.
De repente — Isso
nos vimos mesmo.
sozinhos, Temos
mas não sempre de
podemos agradecer a
nos Deus por ter
esquecer colocado em
das nosso
palavras caminho
sensatas do pessoas que
nosso amamos e
querido que nos
amigo que amam
partiu tão também, não
cedo e importa se
tantos neste ou no
ensinament reino de
os nos Deus;
deixou: "a importa que
distância nos amam,
existe para tenho certeza
os olhos, disso.
não para o — Sem
coração". esquecer o
carinho que deixar de me
recebemos sentir feliz.
das Paulo
crianças e delicadament
dos e segurou as
funcionário mãos de sua
s do Lar. esposa.
— Paulo, Marília olhou-
quando o com
vejo minha ternura e seu
mãe e coração
Dona Ana, sensível
já com agradeceu ao
idade Criador por
avançada, ter colocado
mas felizes ao seu lado
por companheiro
estarem tão amoroso.
cooperando Os dois não
no podiam ver
atendiment nem sentir,
o às mas ao lado
crianças, deles
não posso caminhavam
felizes dois no entanto,
espíritos temos mais
que companhia
agradeciam do que
ao Pai o podemos
fato de imaginar.
pessoas tão Se nosso
queridas coração se
terem nutre de
aprendido e sentimentos
conseguido generosos,
enxugar bons e
suas edificantes, é
lágrimas natural que
por meio do atraia para
amor: junto de si
Fábio e espíritos
Isabela. também
Muitas generosos e
vezes bons, que
acreditamo são sensíveis
s estar a esses
completam sentimentos.
ente sós, e, É a lei da
afinidade. conduzindo-
Estas nos sem que
companhia possamos
s, esta perceber,
proximidad para atitudes
e de dignas,
espíritos elevadas e
elevados, fraternas.
que sentem Os bons
e espalham espíritos nos
o bem por aconselham
onde sempre o
passam, bem e
traz-nos lamentam,
uma tentando nos
sensação ajudar
gostosa de quando
paz e estamos
tranqüilida prestes a cair
de. em atos
Inspiram- inconseqüent
nos es. Nosso
pensament comportamen
os nobres, to digno
frente à quando
vida faz praticamos
com que ações
conquistem desastrosas,
os a levianas e
simpatia inconseqüent
dos bons es. Assim
espíritos. como Fábio e
Mas Isabela
também é amparam
verdade Paulo e
que, assim Marília, todos
como os
atraímos os encarnados
bons recebem de
espíritos Deus a
com nossa bênção de ter
prudência e ao seu lado
amor, espíritos
atraímos os protetores
levianos, os que os
inconseqüe auxiliam.
ntes e os Cabe a cada
maus, um atrair a
companhia ar a fé e a
que se constância
afina com dos homens
sua no bem. Tu,
maneira de sendo
pensar e de espírito,
agir (Irmão deves
Ivo). progredir na
Os bons ciência do
espíritos infinito, e é
não por isso que
aconselham passas pelas
senão o provas do
bem; cabe mal até
a vós chegar ao
distinguir. bem. Nossa
Os espíritos missão é a de
imperfeitos te pôr no
são os bom
instrument caminho, e
os quando más
destinados influências
a agem sobre
experiment ti, és tu que
a chamas, terás uma
pelo desejo nuvem de
do mal, espíritos que
porque os entreterão
espíritos esse
inferiores pensamento
vêm em em ti; mas
teu auxílio também terás
no mal, outros, que
quando tratarão de
tem a influenciar
vontade de para o bem,
o cometer; o que faz que
eles não se reequilibre
podem a balança e
ajudar-te te deixe
no mal senhor de ti.
senão É assim que
quando tu Deus deu à
desejas o nossa
mal. Se és consciência a
inclinado ao escolha da
assassínio, rota que
pois bem, devemos
seguir, e a em suas
liberdade mentes.
de ceder a Lágrimas,
uma ou sorrisos,
outra das esperanças e
influências desesperos.
contrárias Quantas
que se histórias no
exercem grande livro
sobre nós. da vida.
(Livro dos — Quanto
Espíritos — sofremos,
Capítulo IX não, Paulo?
— item 464 — Sim,
e 466). Marília! Mas
Marília e não é Hora de
Paulo trazermos de
prosseguia volta nossas
m em seu angústias
passeio. passadas;
Muitas agora é hora
cenas do de nos
passado conscientizar
desfilavam de que
conseguimo resta a menor
s enxugar dúvida. Cada
nossas criança que
lágrimas. abracei, cada
Veja mão que
querida, estendi em
nossos direção ao
olhos estão meu próximo
secos, e corresponde
nosso amor a uma
está vivo, lágrima que
dando-nos sequei e são
forças para esses olhos
continuar o secos da
trabalho de lágrima da
um grande dor que posso
homem e umedecer
de um com as
grande lágrimas da
amigo. emoção.
— Tem — Querida,
razão, meu você fala
amor, para como nosso
mim não querido
amigo com o Dr.
Rubens! Rubens
Fico feliz jamais
em ouvi-la. conseguiu
— Dr. permanecer o
Rubens! mesmo.
Com Ninguém
certeza conseguiu
hoje goza a ficar
alegria dos indiferente às
justos, a suas demons-
paz dos trações de
sensatos e amor
o amor dos fraternal e
sensíveis. aos seus
Vou lhe exemplos de
dizer uma generosidade.
coisa, — E sem
Paulo, todo olhar para os
aquele que espinhos que
de uma lhe
forma ou sangravam os
de outra pés. Vamos
conviveu querida.
Vamos ainda
continuar naquelas
seguindo alamedas
seu seus últimos
exemplo; é raios
hora de aquecendo o
passarmos planeta como
no Lar e que
conferir se acariciando
tudo está todas as
indo bem. criaturas,
— Sim, filhos de
vamos. Deus.
Paulo e Para que o
Marília mundo possa
seguiram sofrer uma
de mãos melhora, o
dadas rumo equilíbrio e a
ao dever paz que
que os todos nós
chamava. almejamos, é
O sol se necessário
escondia e que todos
projetava estejamos
juntos e viver com
preocupado dignidade,
s também existem
com o dores muito
bem-estar penosas, e
do uma delas é
semelhante o abandono e
. o descaso.
Damos A vida é
carinho cheia de
para as desafios e
pessoas não devemos
que fugir deles,
amamos, porque
mas, para grandes
os outros obras nascem
que da superação
dizemos desses
não desafios.
conhecer Amparar os
nem o desvalidos,
necessário ser doador de
para que suor
possam trabalhando
em prol de um mundo
uma melhor.
comunidad Deus nos
e deu, por
necessitada meio de
, dos Jesus, todos
irmãos que os
padecem ensinamentos
de fome, e
frio, sem esclareciment
ter o os que nos
mínimo levam ao
necessário encontro da
para uma luz & da
vida digna verdade.
e menos Por que
sofrida, é fugimos
um desafio deles?
que precisa Qual a razão
ser vencido que nos
se impede de
quisermos vencer a nós
realizar o mesmos,
sonho de extirpando da
nossa alma
os
sentimento
s
mesquinho
s que nos
transforma
m em seres
pequenos,
seres que
se colocam
no centro
do universo
e esperam
que o
mundo gire
em tomo
mesmo:
É hora de reflexão! seis meses de retorno da
É hora de repensar e enxugar Terra, é prudente que
as próprias lágrimas, e aguarde um pouco e se
redescobrir a vida e as belezas fortaleça mais. Tudo no seu
com as quais ela nos presenteia devido tempo.
quando aprendemos a amar — Compreendo - exclamou
de verdade, transformando Rubens um pouco desa-
nosso coração na grande casa pontado.
de Deus. — Não fique desapontado,
Rubens; compreenda e confie.
Tudo na espiritualidade é bem
UMA NOVA VIDA planejado e feito com a
finalidade de levar benefício a
quem faz e a quem recebe.
No Mundo Espiritual — Desculpe-me! Só uma
— Como está passando, questão me angustia, tra-
Rubens? zendo-me às vezes um certo
— Sinto-me muito bem, irmão desconforto.
Jacob. Tão bem que gostaria — E qual é Rubens?
de solicitar do Mais Alto — A razão pela qual ainda não
autorização para poder me me encontrei com meus entes
dedicar a algum trabalho. queridos: minha esposa,
— Ainda é muito cedo, meus filhos e, principalmente,
Rubens; você tem somente Isabela; e mesmo Fábio, que
é filho de dois grandes amigos um no lugar que deve estar.
meus. Por que ninguém veio — Obrigado, irmão Jacob.
ainda me ver? Suas palavras me
— Alguns deles já vieram lhe tranqüilizam.
ver, Rubens, inclusive lhes — Agora descanse Rubens.
deram boas-vindas assim que Ore a Jesus, entregue-se sem
chegou. reservas ao Divino Amigo;
— Mas não me recordo! tudo segue seu curso normal.
— Como já lhe disse tudo aqui Você fez por merecer um
acontece no momento exato retorno tranqüilo; sempre foi
que deve acontecer. Você justo e bom, chegou o
estava ainda sonolento, por momento da colheita.
esta razão não se recorda. Assim que Jacob saiu, Rubens
Mas virão ter com você deixou-se vagar em seus
novamente, é só aguardar pensamentos.
com paciência. Neutralize sua Sempre acreditara na vida
ansiedade e, como já disse, futura, mas não imaginava
confie. que tudo fosse tão "real".
— Mas todos estão bem? Olhava-se e via seu corpo
— Claro, Rubens, todos estão igual ao que tinha na Terra,
bem, seguindo seu caminho quando encarnado, mas havia
de evolução; trabalhando na algo diferente: era mais leve,
seara de Jesus, enfim, dentro etéreo, sutil e admirava-se de
do equilíbrio e da paz, cada não poder apalpá-lo.
— Lembro-me da doutrina indivíduos. Para uns é
espírita, especialmente do bastante rápido e pode dizer-
Livro dos Espíritos - dizia para se que o momento da morte é
si mesmo. — Este deve ser o também o da libertação, que
perispírito. Realmente é se verifica logo após. Em
verdade, sinto-me vivo: outros, porém, sobretudo
penso, sinto e raciocino, meus naqueles para quem a vida foi
sentimentos são os mesmos. toda material e sensual, o
Tudo é desprendimento é muito mais
verdade! demorado, e dura às vezes
Durante a vida o espírito está alguns dias, semanas e até
ligado ao corpo pelo seu mesmo meses, o que não
envoltório semi-material ou implica a existência no corpo
perispírito; a morte é apenas de nenhuma vitalidade, nem a
a destruição do corpo, e não possibilidade de retorno à
desse envoltório, que se vida, mas a simples
separa do corpo quando cessa persistência de uma afinidade
a vida orgânica. entre o corpo e o espírito,
A observação prova que no afinidade que está sempre na
instante da morte o des- razão da preponderância que,
prendimento do espírito não durante a vida, o espírito deu
se completa subitamente; ele à matéria.
se separa gradualmente, com É lógico admitir que, quanto
lentidão variável, segundo os mais o espírito estiver
identificado com a matéria, suicídios. (Livro dos Espíritos
mais sofrerá para separar-se — Capítulo III — item II —
dela. Por outro lado, a pergunta 155a).
atividade intelectual e moral e Fábio e Isabela acabavam de
a elevação dos pensamentos sair de uma palestra do irmão
operam um começo de Jeremias, e comentavam com
desprendimento, mesmo outros espíritos afins o teor
durante a vida corpórea, e dos ensinamentos contidos na
quando a morte chega é grande sabedoria de
quase instantânea. Jeremias.
Este é o resultado dos estudos
efetuados sobre todos os
indivíduos observados no
momento da morte. Essas
observações provam ainda
que a afinidade que persiste,
em alguns indivíduos, entre a
alma e o corpo é às vezes
muito penosa, porque o
espírito pode experimentar o
horror da decomposição. Este
caso é excepcional e peculiar
a certos gêneros de morte,
verificando-se em alguns
— Nestes anos todos que me me onformação e seu
encontro na erraticidade, u afastamento de Deus. Esta
aprendi muitas coisas; me ret sua atitude impedia-me de me
fortaleci e estou me orn adequar a minha nova vida. A
preparando para uma nova o cada lamento queria voltar e
encarnação; mas, hoje, da ajudá-la, mas não tinha ainda
ouvindo a explanação do Ter condições de fazer nada por
querido irmão Jeremias, tomei ra, ela, então me desequilibrava
a consciência definitiva da sofr no afã de querer retornar ao
importância do amor na i meu lar terreno.
construção da nossa evolução mui Carla, uma garota de
espiritual. Espero não me to dezessete anos, desencarnada
esquecer disso na minha nova co por causa de uma leucemia,
experiência na Terra. mo confidenciou aos amigos:
— É verdade, Fábio; se não des — O que você esta dizendo é
existir amor, não existirá esp bem verdade, Fábio. Comigo
transformação, pois somente ero aconteceu algo parecido.
este sentimento traz consigo de Meus pais não se con-
a compreensão, o altruísmo, a min formaram com a separação e
generosidade e acima de tudo ha se afastaram de Deus, com-
a bondade e a benevolência mã pletamente, culpando-o pelo
em relação ao convívio com o e, sofrimento que passavam.
semelhante - disse Isabela. sua Gritavam, blasfemavam
— Anos atrás, por ocasião do inc contra o Criador, enfim, cada
vez mais impediam-me de lon a em harmonia. E como
encontrar a paz com a gos aconteceu esta aceitação, veio
aceitação do meu desencarne. ano a compreensão de que
Sofri muito, até que, por s. precisamos aceitar a vontade
misericórdia do Divino Amigo, So de Deus, que a separação
fui agraciada com a bênção me acontecerá um dia para todos.
divina. Isolaram-me para que nte — É a única certeza que
nenhum grito de desespero ou há temos quando estamos
chamamento de meus pais doi encarnados, que o retorno
pudessem chegar até meu s acontecerá para todos.
espírito. ano — Bem, uma vizinha de meus
— Como fizeram isso? sé pais é espírita, conhecedora e
— Não sei Isabela; como se que praticante da Doutrina Espírita
faz isso eu não sei. O que sei eles em toda a sua pureza. Com
é que fui recebendo se paciência e carinho, deu-lhes
tratamento, orientação, aos con assistência até que um dia
poucos fui me entregando à for conseguiu levá-los ao Centro
prece, aceitando minha nova mar Espírita que freqüenta.
situação e encontrei meu am Devagar foram tomando
equilíbrio e minha paz. e conhecimento da vida futura;
— Quanto tempo durou a seg que a morte não existe, que a
inconformação de seus pais? - ue chama da vida não se
perguntou Fábio. ma extingue, apenas se
— Cinco anos, Fábio. Cinco vid transforma. Deus não iria
criar seus filhos para poste- Soli u pai ajudou tanto a sua mãe
riormente acabar com eles. O cite e, no entanto, quando
espírito é eterno e aqueles i retornei, foi sua mãe quem o
que partem continuam aut auxiliou a retomar sua
existindo em alguma morada oriz esperança e sua vida de
da casa do Pai, nutrindo o açã amor.
mesmo sentimento de amor o — É verdade, eles
para com seus entes queridos par conseguiram enxugar suas
que na Terra ficaram. O reino a lágrimas baseados no amor
de Deus é infinito e nele isso que constrói. O ser humano
existem muitas moradas. , no sempre desequilibra quando o
— Com minha mãe também que coração é atingido. É por isso
foi assim, Carla. Ela caiu no fui que necessitamos prestar
desespero e na depressão. Se ate muita atenção em nossas
não fosse o pai de Isabela, o ndi reações diante de um grande
querido e bondoso Dr. do. sofrimento. Nunca se deve
Rubens, minha mãe não teria — fechar as portas para o amor
encontrado o caminho de Vej de Deus, pois somente esse
volta. É por isso, Isabela, que a amor nos traz a consolação e
quando soube do retorno de voc o entendimento para os
seu pai, quis logo estar com ê, desígnios divinos.
você, para junto com você Fáb — Entregar-se ao desespero
agradecer a ele o bem que fez io. desarrazoado é negar a fé que
a minha mãe e a mim. Me se diz ter; é permitir a
ausência de Deus em seu do ito.
coração - disse Isabela. — seu O espírito leva a lembrança e
Nossos parentes que ficam se pla o desejo de ir para um mundo
esquecem de que, quando net melhor. Essa lembrança é
enviam para nós pensamentos ae cheia de doçura ou de
de amor e saudade, esta que amargor, segundo o emprego
lembrança nos deixa mais rep que tenha dado à sua vida.
felizes, aumenta o nosso res Quanto mais pura ela for,
bem-estar e, para aqueles ent mais compreenderá a
que ainda não encontraram a aa futilidade daquilo que deixou
felicidade no reino de Deus, e apa na Terra.
sofrem, serve-lhes de alívio, e rên A prova da individualidade da
é um bálsamo para suas cia alma, nós a temos pelas
dores. da comunicações que obtemos.
A alma no instante da morte sua Se não estiverdes cegos,
volta a ser espírito e retorna últi vereis; e se não estiverdes
ao mundo dos espíritos, que ma surdos, ouvireis; pois
ela havia deixado enc freqüentemente uma voz vos
temporariamente. A sua arn fala e vos revela a existência
individualidade, ela não a açã de um ser que está ao vosso
perde jamais. Esta indivi- o: redor.
dualidade ela constata por seu A separação da alma e do
meio de um fluido que lhe é peri corpo não é dolorosa; o corpo,
próprio, que tira da atmosfera spír freqüentemente sofre mais
durante a vida do que no Isa Isabela sentiu uma imensa
momento da morte; neste a bel alegria tomar conta de todo o
alma nada sente. Os a. seu ser.
sofrimentos que às vezes se Dis — Fábio, você não sabe
provam no momento da se- quanto esperava por este
morte são um prazer para o me encontro! Vamos?
espírito, que vê chegar o fim que — Antes preciso lhe dizer que
do seu exílio. ele o irmão Jacob pediu que
A partir do momento que se se controlasse sua ansiedade, e
desligam os liames que a enc não comentasse nada sobre
retinham, a alma se ont sua mãe e seus dois irmãos.
desprende gradualmente e ra Uma sombra de tristeza
não escapa como um pássaro pre abateu o semblante risonho
cativo que fosse liberto. Os par de Isabela.
dois estados se tocam e se ado — Por quê, Fábio?
confundem, de maneira que o par — Não sei lhe responder,
espírito se desprende pouco a ao Isabela, mas devemos sempre
pouco dos seus liames; eles se enc acatar e respeitar as
soltam e não se rompem. ont orientações dos nossos
(Livro dos Espíritos — Capítulo ro superiores. Sempre existe
III — item II — pergunta 154 co uma causa justa.
e seguintes). m — Está certo! Vamos, então?
— O irmão Jacob autorizou voc — Quer nos acompanhar,
que fossemos visitar seu pai, ê. Carla? - perguntou deli-
cadamente Fábio.
— Obrigada amigos, mas não
posso; tenho uma tarefa a
cumprir.
— Então, até mais tarde!
— Até mais tarde! cor conseguira mais uma vez se
Fábio e Isabela seguiram ao açã reerguer e secar suas
encontro de Rubens. Isabela o lágrimas sempre em favor do
esforçava-se para se aba semelhante.
equilibrar, controlando sua tido Isabela sentiu uma ternura
ansiedade e expectativa. por imensa invadir todo o seu ser.
mai Fora aquele espírito que
s estivera ao seu lado nos seus
REENCONTRO um anos terrenos; que a amara e
a auxiliara a superar as
pro limitações de seu corpo físico
Rubens imerso em suas va preso a uma cadeira de rodas.
reflexões. de Fábio conseguia compartilhar
A paz reinava naquele quarto sep de toda a sua emoção, afinal,
onde abrigava um espírito ara fora ele quem levantara sua
que, vencendo todas as ção mãe e mostrara-lhe as
provas às quais fora se maravilhas da fé e da
submetido na sua trajetória incli aceitação da vontade de Deus,
na Terra, conseguira se firmar nar quando tomamos consciência
como um vencedor. a de que esta vontade é
Demonstrara amor e ao soberana e que jamais pode-
generosidade; não des remos mudar. Esta é a grande
questionara os desígnios de âni sabedoria, tomar consciência
Deus e, mesmo quando seu mo, do que podemos e devemos
fazer para modificar certas — grandes amigos - e voltando-
situações que estão ao nosso Est se para Fábio perguntou-lhe:
alcance e aceitar com fé e eé Não somos Fábio?
subserviência ao Criador, Fáb — Claro Isabela!
quando não conseguimos io, — Que prazer reencontrá-lo,
entender as razões e os pai. Fábio. Tenho grande estima
porquês das dores que Le por seus pais terrenos. São
sofremos, e nas quais não mb espíritos lutadores e que estão
podemos interferir. ra- dando continuidade à tarefa
Rubens percebeu a presença se que deixei na Terra. Posso
dos dois espíritos e virou-se. del dizer-lhe que sinto por você a
Todo o seu ser iluminou-se de e? mesma estima e afeto que
alegria e emoção ao ver a O cresce ao saber de sua
filha querida. filh amizade por Isabela. É uma
— Isabela! o bênção que recebo neste
— Sou eu sim, papai! Graças de instante.
ao Senhor nos Mar O espírito encontra
reencontramos! Esta é a ília imediatamente aqueles que
grande bênção, poder estar e conheceu na Terra e que
novamente junto daqueles Pau morreram antes dele?
que amamos e que deixamos lo? Sim, segundo a afeição que
na Terra. So tinham mantido
Ao olhar indagador de mo reciprocamente. Quase
Rubens, Isabela disse: s sempre eles o vêm receber na
sua volta ao mundo dos est bela e Fábio.
espíritos, e o ajudam a á — Sinto a felicidade de vocês
libertar-se das faixas da me pela paz reinante neste
matéria. Vê também muitos agr recinto.
que havia perdido de vista acia Percebendo o desejo de
durante a passagem pela ndo Rubens de identificá-lo, apres-
Terra; vê os que estão na co sou-se a se apresentar.
erraticidade, bem como os m — Sou Horácio, discípulo do
que se encontram um irmão Jacob. Acompanhei ao
encarnados, que vai visitar. a lado do meu querido mestre a
(Livro dos Espíritos — Capítulo bên sua trajetória de lutas e
III — item II — pergunta ção vitórias, Dr. Rubens. Solicitei
160). ao aos superiores a permissão de
Enquanto os três espíritos se per acompanhá-lo na sua
deliciavam com o encontro tão miti caminhada terrena, no que fui
esperado, entrou no quarto de r atendido.
Rubens um irmão até então me Conheci-o quando encarnado
desconhecido para ele. u e sabia que poderia aprender
— Posso fazer parte deste enc muito com o senhor. A sua
momento de união e afeto? - ont generosidade, o seu amor
perguntou sorrindo. ro espontâneo pelo semelhante
— Claro - apressou-se Rubens co atingiram meu coração e
a responder. — Hoje é um dia m nunca o esqueci.
muito feliz para mim. Jesus Isa Rubens surpreendeu-se. Não
se lembrava de tê-lo co- me da interrogação de Rubens,
nhecido na Terra. diz Horácio iniciou sua narrativa.
— Não se questione nem se er
sinta embaraçado; não se de
lembra mesmo de mim. Esta é ond
a característica do bem feito e
por um impulso generoso. me
Aquele que o faz nada cobra, con
não exige recompensa e hec
esquece o ato de bondade e?
praticado, não por descaso, —
mas por saber que foi um Clar
dever cumprido, o amor o!
executado por conta da Vim
aceitação e da compreensão aqu
dos ensinamentos de Jesus. i
Só age assim aquele que se par
sente seguro na fé. Hoje vim a
agradecer-lhe. agr
Rubens estava estupefato. ade
Realmente não se lembrava cer-
de nenhuma situação em que lhe.
Horácio estivesse envolvido. Dia
— Perdoe-me, mas poderia nte
— Quando da minha estada
na Terra, contraí matrimônio
com Lucila. Moça de classe
média, bonita, estudada,
simpática, enfim, para mim
possuía todas as qualidades
com as quais eu sonhava na
mulher que iria ser minha
companheira e mãe de meus
filhos. Apaixonei-me
perdidamente. Namoramos
durante um ano e meio e nos
casamos. No início tudo
parecia caminhar de acordo
com os meus sonhos, e me
sentia o homem mais feliz e
afortunado do mundo. Todos
os meus desejos pareciam se
realizar e para que meu
universo de felicidade se
completasse só faltava uma
criança me chamar de pai.
Lucila parecia comungar com
minha aspiração. Após oito
meses de casamento,
comecei a notar em Lucila
uma irritação notoriamente
visível. Questionada sobre a
razão desta mudança de
comportamento, respondeu-
me estar grávida. Quase
enlouqueci de tanta
felicidade, meu maior sonho
iria se tornar realidade.
Peguei-a no colo e a beijei
com carinho e profundo amor.
Não podia imaginar que o
mesmo não acontecia com
Lucila. Passou-se um mês.
Certo dia, ao regressar do
trabalho, encontrei-a
acamada, pálida e fraca.
Assustado, quis inteirar-me
do que acontecera para
deixá-la naquele estado.
— Perdi o bebê - respondeu-
me.
Com o rosto entre as mãos
chorei como uma criança,
mas logo tentei acalmá-la
dizendo que Deus enviaria
outra criança para nos
alegrar.
Lucila piorou. Sem demora
levei-a ao hospital mais
próximo onde, internada,
recebeu o atendimento
necessário, mas, apesar da
habilidade do médico, seu
estado piorou. Meu desespero
era quase incontrolável.
— Senhor Horácio - disse-me
o médico —, como foi permitir
que sua esposa fizesse o
aborto?
— Aborto?!
— Sim! É com mãos
incapazes, curiosas, que
matam sem escrúpulos. Seu
estado é grave - completou.
Diante da minha perplexidade
o doutor percebeu que de
nada eu tinha conhecimento.
Lucila pressentiu seu fim.
Chamando-me disse-me com
voz fraca, mas sem
demonstrar nenhum
arrependimento ou emoção:
— Não sofra, não chore nem
se desespere Horácio; o filho
não era seu!
Meu mundo desmoronou mais
uma vez, levando com ele
minha alegria, minha
esperança e a minha fé na
vida e em Deus. Quase num
sussurro perguntei:
— Por quê, Lucila?
— Porque conheci outro
homem e me apaixonei perdi-
damente por ele.
— Em oito meses você deixou
de me amar?
— Eu nunca fui apaixonada
por você, Horácio; casei-me
porque vi em você um porto
seguro.
Naquele momento foi como se
meu coração se petrificasse.
A revolta e o ódio se
instalaram em mim,
impedindo-me de sentir
qualquer outro sentimento
que não fosse o rancor. Lucila
desencarnou e levou com ela
qualquer possibilidade de vida
em mim. Comecei a beber.
Perdi o emprego, a dignidade
e os amigos. Em uma das
minhas insanidades alcoó-
licas, encaminharam-me para
seu hospital, Dr. Rubens. Foi
o senhor, com seu
conhecimento médico e sua
grande capacidade de
compreender as fraquezas do
próximo e amá-lo mesmo
assim, quem me "adotou"
como filho. Tratou-me como a
uma criança perdida,
mostrou-me o rumo a seguir;
devolveu-me com sua
generosidade a consciência de
que necessitamos prosseguir
mesmo, e principalmente,
quando a dor nos visita.
Ensinou-me que é nessa hora
que damos testemunho de
que nossa fé é real; que a
presença de Deus em nós é
verdadeira. Foi o senhor
quem me mostrou tudo isso;
quem me acompanhou e me
reergueu no momento em
que me faltou o estímulo.
Voltei a trabalhar,
reconquistei minha auto-
estima e reconstruí minha
vida. Dediquei-me a aprender
o Evangelho de Cristo e
consegui ver a vida com olhos
de esperança e otimismo.
Sou-lhe muito grato por isso.
— Você se casou de novo?
— Não, Isabela. Após seis
anos desse acontecimento,
desencarnei por causa de um
acidente de carro. Hoje sei o
porquê de tudo o que me
aconteceu e agradeço a Deus
e ao querido Mestre Jesus ter
permitido que eu tivesse um
mestre como o irmão Jacob.
Rubens se emocionou.
— Não me agradeça Horácio,
o mérito é todo seu. Tudo o
que lhe disse estava
intrínseco em seu ser.
— Mas foi o senhor quem me
fez enxergar. Foi o senhor
quem tirou de dentro de mim
o que sufoquei com meu ódio.
Enquanto muitos criticavam e
me chamavam de bêbado, o
senhor se apiedou de mim e
auxiliou para que eu me
reencontrasse.
— Bem - disse Fábio —, mais
uma vez tomamos cons-
ciência do poder de Jesus em
nossa vida, quando
permitimos a entrada desse
amor infinito no nosso
coração.
— Obrigado, Horácio, fico feliz
por ter de alguma forma
colaborado com você no
momento difícil pelo qual
passou.
Rubens calou-se.
Diante do silêncio do pai,
Isabela lhe perguntou:
— O que foi pai, ficou
pensativo? Não se sente
bem? Quer descansar?
— É que ainda não entendi
por que minha esposa e meus
outros filhos não vieram ainda
me ver.
Foi Horácio quem respondeu:
— Meu amigo, nada acontece
antes do momento certo.
As leis são respeitadas. Nosso
querido Jacob se encarregará
de tudo; as coisas na
espiritualidade acontecem,
não para satisfazer
curiosidades, mas para trazer
benefícios. Tenha calma e
confiança. Nós vamos nos
retirar, aproveite e se
entregue à prece que nos
acalma e equilibra.
Assim que Fábio, Isabela e
Horácio se retiraram, Rubens
ajoelhou-se em frente a um
lindo quadro de Maria de
Nazaré e orou:
— Graças vos dou. Mãe de
Jesus, e ajoelhado aos vossos
pés entrego meu coração
agradecido pelas bênçãos
recebidas durante a minha
estada na vida física e agora
que me encontro de volta à
Pátria Espiritual. Curvo-me
diante de vossa grandeza e,
humilde, vos suplico, permita
meu reencontro com aquela
que foi minha companheira na
vida terrena, assim como com
meus dois filhos que com ela
retornaram à casa do Senhor.
Sinto meu espírito inquieto e
ansioso, mas, se ainda não
for o momento propício,
aceito a vossa vontade como
soberana e aguardo a hora do
chamado como o menor de
vossos filhos. Assim seja!
Todo o quarto estava
inundado por uma luz violeta
que envolvia Rubens e
acalmava seu espírito.

RUBENS E JÚLIA

Rubens estudava o
Evangelho, usufruindo da
doce paz, reinante no parque
arborizado e florido. O
sussurrar da água descendo
pela cascata convidava à
meditação.
Dois meses se passaram
desde o encontro com
Isabela. Rubens aguardava
com paciência a realização de
seu sonho de se reencontrar
com Júlia e os filhos,
Francisco e Carlos.
Sabia, por meio de Fábio e
Isabela, que na Terra todos
os amigos estavam bem.
O Lar de Isabela a cada dia se
firmava como um exemplo de
amor e fraternidade, graças
aos esforços de todos que ali
trabalhavam especialmente
Marília e Paulo.
Somente a saudade de Júlia e
dos filhos perturbava ainda
seu espírito.
— Posso me sentar?
Rubens olhou e esboçou um
largo sorriso.
— Claro irmão Jacob, sua
presença só me traz alegria.
— Tenho boas notícias para
você.
— Quais?
— Vou levá-lo ao encontro de
Júlia.
Rubens sentiu uma leve Sente-se, vamos conversar.
vertigem. Mal podia controlar Rubens, obedecendo, sentou-
sua emoção. se e aguardou.
— Quando? - perguntou — Meu caro amigo - iniciou
timidamente. Jacob —, nem tudo ocorre da
— Agora! maneira que imaginamos. A
— Agora?! cabeça de cada um responde
— Sim. Por que não? A não à crença que cada um
ser que não queira ir. agasalha em seu ser. O que
— Não brinque comigo, irmão acreditamos ser verdade nem
Jacob. Sabe que é meu sonho, sempre é, e se não damos
desde que aqui cheguei nenhuma chance a nós
encontrar Júlia. mesmos para que esta pseudo
— Se estiver preparado, verdade se desmistifique,
podemos ir. fechando nossos ouvidos às
— Espere! Como ela está? explicações que poderiam
Jacob percebeu tremor e trazer a consciência de que
ansiedade em Rubens. estamos errados, caímos em
— É como eu pensava - um engano destrutivo e
exclamou. — É melhor que perigoso, que pode nos levar
saiba a história de Júlia antes a anos de sofrimento e
de encontrá-la; creio que amargura. Isto aconteceu com
assim manterá o equilíbrio nossa querida irmã Júlia. O
para seu próprio benefício. acidente que a trouxe com
seus filhos de volta à casa colônia e se perdeu vagando
espiritual seguiu apenas o por muitos anos, tentando se
curso natural do planejamento punir por um mal de que não
espiritual. tinha culpa nenhuma. Entrou
— Não consigo entender, em demência profunda e mais
irmão Jacob! parecia uma andarilha; sem
— Júlia, assim como Francisco rumo, sem destino, sem
e Carlos, foi logo socorrida e Deus.
levada para o hospital Maria Quando Isabela retornou,
de Nazaré. Ficou adormecida assim que tomou conheci-
por quatro meses. Assim que mento do estado deplorável
acordou, apesar de todo o da mãe, e se sentiu capaz,
acompanhamento necessário, solicitou permissão para
desequilibrou-se e recusou acompanhar uma equipe
qualquer auxílio. Sentia-se socorrista e com ela foi a
responsável pelo acidente; busca de Júlia.
culpou-se de uma maneira tão Júlia não a reconheceu de
severa que nada conseguia imediato, mas, cansada, e to-
penetrar seu coração. cada pela vibração terna e
Começou a sentir medo, amorosa de Isabela, pediu
principalmente de você, pois ajuda. Foi recolhida e trazida
acreditava que iria castigá-la novamente ao hospital onde
por ter matado seus filhos. começou um tratamento para
Quis ir embora de nossa fazê-la voltar à sua realidade.
Tudo foi muito lento, jamais a acusei de culpa
respeitando o tempo de Júlia. alguma.
Posteriormente reconheceu a — Eu sei. Mas ela não sabe
filha e docilmente entregou-se que em nenhum momento
ao amor de Jesus, aceitando você a culpou. Quero apenas
com passividade todas as que não passe para ela
orientações, os passes que a nenhum sentimento de
fortaleciam, enfim, os frustração ou qualquer outro
medicamentos para recobrar que possa desencadear seu
seu equilíbrio. desequilíbrio novamente. Júlia
Já estava fortalecida e em é um espírito fraco, Rubens, e
paz, quando soube do seu você já aprendeu a
retorno. O antigo medo compreender as fragilidades e
voltou. Estes meses todos fraquezas dos outros.
Isabela e Fábio, assistidos pelo
Dr. Danilo, querido irmão
colaborador eficiente do
hospital, cuidaram dela com
dedicação e desvelo. Hoje ela
se sente segura para
encontrar você, mas é muito
importante a maneira como
você se comportará com ela.
— Eu a amo, irmão Jacob, e
— Mas porque se culpou Carlos, quando poderei estar
tanto? Na perícia ficou com eles?
provado que a culpa tinha sido — Você poderá vê-los em
toda do motorista do outro corpo físico, Rubens,
caminhão, que transitava na encontram-se reencarnados.
contramão. Ela não teve culpa — Reencarnados?!
de nada, foi uma vítima. — Sim. Reencarnaram em um
— Você sabe disso e nós lar espírita; família simples,
também, Rubens. As mortes que tem como ideal de vida
violentas trazem exercitar o amor fraternal.
freqüentemente perturbações Moram em uma cidade
muito grandes para o espírito pequena do interior de Santa
que é surpreendido com a Catarina e são novamente
separação inesperada. Júlia irmãos consangüíneos.
culpou-se da morte de Francisco hoje se chama
Francisco e Carlos, foi a Gabriel e está com quatro
maneira que ela mesma anos de idade; Carlos é Rafael
encontrou de se punir. E por e conta dois aninhos. Vivem
isso que devemos ter muito felizes e levaram como
cuidado com nossas crenças, proposta de vida uma
nosso cérebro sempre importante tarefa social junto
encontra um jeito de nos à comunidade de sua cidade.
satisfazer — Entristeço-me por não
— Irmão Jacob, Francisco e poder estar com eles, vê-los
mais uma vez como meus Jacob percebeu a expressão
filhos, mas alegro-me pelo de Rubens e captou seu
fato de terem conseguido pensamento.
nova oportunidade de se — Diga-me sem
reencarnar, relativamente em constrangimento, amigo, o
um curto espaço de tempo e que gostaria de saber?
preparados para uma tarefa — Ocorreu-me então que tudo
importante junto ao era uma prova para mim e
Evangelho de Jesus. Eles não para eles.
sofreram muito quando — É verdade. Alegro-me que
retornaram com Júlia? tenha percebido sozinho.
— Não, Rubens. São dois — Mas e Júlia? Se ela também
espíritos esclarecidos, firmes se propôs a me auxiliar, por
em seus propósitos do bem e que no retorno entrou em
muito bem alicerçados na fé. desequilíbrio?
Não tardaram a se equilibrar e — Júlia é um espírito bom,
a recordar o porquê de tudo porém fraco. A atitude dela foi
acontecer daquela forma. inesperada também para nós,
Ficaram felizes por terem ficamos surpresos. Ela mesma
cumprido de maneira solicitou permissão para
satisfatória a proposta ajudá-lo nesta prova, antes de
daquela encarnação, que era se reencarnar. Em uma
auxiliar um grande e estimado encarnação passada foi sua
amigo: você! mãe terrena e, por conta do
grande amor que sentia por se por infligir ao ser que
você, quis ajudá-lo a vencer amava tanto sofrimento, e a
suas más tendências, partir dessa crença entrou em
tendências essas que ela demência. Por esta e outras
mesma alimentou com uma razões, volto a dizer que é
educação fraca e sem pulso. importante vigiar a nossa
Não combateu os germes dos mente, o que agasalhamos
sentimentos mesquinhos que dentro de nós, o que acredi-
corroíam sua alma, e você tamos como verdade
muito errou. Por esta razão absoluta. Todos são passíveis
quis estar novamente com de erro; por isso não se pode
você e fazê-lo feliz dentro do ser fanático nem radical
amor e da sensatez, o que demais.
conseguiu, pois como marido
e mulher viveram a felicidade
plena.
— É verdade, fui muito feliz
ao lado dela. Mas por que o
desequilíbrio?
— Infelizmente, ao retornar
Júlia, não entendeu e não
aceitou a separação súbita,
sofreu pela teimosia de não
querer compreender. Culpou-
— E como ela está agora? explicação!
— Feliz equilibrada e ansiosa — Pergunte!
por ver você. — Isabela, minha doce e
— Explique-me o que deveria querida Isabela.
aprender para que me fosse — Rubens, Isabela já esteve
imposta uma prova tão dura e ao seu lado em outras
penosa. encarnações e sempre se
— Esta prova não lhe foi gostaram muito. É um espírito
imposta, mas escolhida por forte e vencedor. Por meio
você mesmo. Quis que seu dessa força, ajudou-o a
coração se sensibilizasse pelas enxergar que sempre vale a
perdas. A partir de todo esse pena viver; que nenhum
sofrimento seu coração se sofrimento ou dor pode
abriu para entender a razão superar o amor de Deus.
da vida. Aprendeu a perder, a Criança ainda se viu presa em
amar e a compreender as uma cadeira de rodas, mas,
fraquezas humanas. Tomou mesmo assim, mostrou-lhe a
consciência da importância da alegria e o otimismo. Ensinou-
fraternidade; amparou e lhe que se pode ser feliz
auxiliou quantos se mesmo quando os sonhos não
aproximaram de você; tornou- se realizam, porque a
se melhor e mais justo, enfim, felicidade é um estado da
fortaleceu seu espírito na fé e alma.
extirpou a semente do orgulho — Realmente ela foi um anjo
e do egoísmo e, sendo assim, em minha vida. Julgava que
pôde retornar como um era eu quem a amparava e na
vencedor. realidade era ela quem me
— Falta-me apenas uma ensinava a mágica do amor.
— Rubens, a humanidade caminho de volta cada vez se
sofre porque insiste em ido- distancia mais.
latrar o poder e a riqueza; as — Tem razão! Como sou feliz
conquistas e as aquisições e agradeço a Deus por ter
materiais estão sempre em conseguido vencer.
primeiro plano. Não consegue — É, Rubens, ninguém
perceber os valores reais que consegue vencer se não se
se devem cultivar e insiste preparar e semear para isso,
nos enganos que fatalmente e a preparação se inicia
nos levam ao sofrimento conhecendo e praticando o
futuro. Evangelho de Jesus.
— E quando isso mudará Rubens sentia-se leve e em
irmão Jacob? paz. Pensava em como tudo
— Quando o homem aprender na espiritualidade é lógico,
a amar seu semelhante como justo e planejado.
Jesus amou e exemplificou. Jacob, tirando-o de suas
Quando aprender a respeitar a reflexões, chamou-o para
liberdade e a limitação do seu irem ao encontro de Júlia.
próximo, enfim, quando Rubens seguiu-o.
entender que a casa de Deus Encerrava-se ali a trajetória
pertence a todas as criaturas de um espírito que fez da
e todos têm igualmente direito Terra sua escola de amor.
a um lugar ao sol. Mas o Sofreu, amou, evoluiu.
homem não quer Aprendeu a se depurar por
compartilhar, dividir; ao meio da vivência do amor;
contrário, acostumou-se tanto enxugou suas lágrimas nos
a enganar, a tirar vantagem lenços sedosos do amor;
em benefício próprio que o acreditou que ninguém se
torna sensível ao sofrimento
alheio se não vivê-lo;
ninguém sabe a dor de uma
lágrima se suas faces nunca
foram molhadas por uma,
enfim, ninguém sabe o valor
da luz se não conhecer a
sombra.
Este é o desfecho de uma
história, de uma etapa na
imensa trajetória de uma
alma; mas também o início de
um novo aprendizado para
que a evolução se faça no
infinito universo de Deus.
Necessário se faz
compreender a importância do
amor em todas as suas
formas; da fé raciocinada e da
ligação plena e verdadeira
com Deus para que possamos
promover a nossa reforma
íntima que nos aproximará
mais do Criador.
Não se deve ter apenas a que faz do que o selvagem
aparência da piedade ou da ignorante e será tratado de
bondade, mas ser realmente maneira conseqüente, no dia
bom e piedoso. Nossa conduta do juízo. Se um cego vos
deve ser coerente com o que derruba ao passar, vós o
se diz se prega se assim não desculpais, mas se é um
for, será apenas um homem que enxerga bem,
fingimento. Deus quer que vós o censurais e com razão.
seus filhos o adorem com Os homens que se entregam
sinceridade, do fundo do à vida contemplativa, não
coração e fazendo todo o bem fazendo nenhum mal e só
que se pode fazer. pensando em Deus, não têm
Aquele que se vangloria de nenhum mérito aos Seus
adorar o Cristo, mas que é olhos, pois, se não fazem o
orgulhoso invejoso e mal, também não fazem o
ciumento, que é duro e bem e são inúteis. Aliás, não
implacável para com os outros fazer o bem já é um mal.
ou ambicioso de bens Deus quer que se pense Nele,
mundanos, eu vos declaro que mas não que se pense apenas
só tem a religião nos lábios e Nele, pois deu ao homem
não no coração. deveres a serem cumpridos
Deus que tudo vê dirá: aquele na Terra. Aquele que se
que conhece a verdade é cem consome na meditação e na
vezes mais culpável do mal contemplação nada faz de
meritório aos olhos de Deus,
porque sua vida é toda Marília brincava com a netinha
pessoal e inútil para a no jardim de sua casa.
humanidade. Deus lhe pedirá Marina, com apenas um
contas do bem que não se aninho, respondia às de-
tenha feito. monstrações de carinho de
Os cânticos não chegam a sua avó. Esperta, alegre e
Deus senão pela porta do saudável, era a alegria de
coração. (Livro dos Espíritos Paulo e Marília.
— Capítulo II — pergunta 654 Laís, ao se casar com Renato,
e seguintes). optara em continuar morando
com seus pais, fato que
proporcionou a eles uma
A VIDA PROSSEGUE... grande satisfação.
André fazia residência no
hospital e, apesar da distância
da cidade onde estava não ser
tão grande, vinha pouco
visitar os pais devido aos
compromissos como médico
residente.
Desde a desencarnação de
Inês, vítima de um enfarto,
Paulo e Marília sentiam-se um
pouco sós em uma casa tão miséria já existente e que a
espaçosa, razão pela qual Laís pior de todas elas é a miséria
e Renato preferiram ficar com espiritual, é o coração vazio
eles. de fé, pela ausência de Deus.
Tudo era harmonia naquele lar Continuava com seu trabalho
que já havia experimentado o social no Lar de Isabela, que a
sofrimento, mas que cada dia acrescentava mais
continuara de pé, por conta do luz na sua grande
esforço e da fé existentes fraternidade.
naquele casal. Marília, durante esses anos,
Muitas vezes o desânimo enfrentara duas cirurgias,
tentara encobrir a disposição mas, se seu corpo físico se
com que Paulo e Marília enfraquecia, sua alma mais e
enfrentavam seu dia-a-dia, mais se fortalecia pela
mas baseados nos caridade que aprendera a
esclarecimentos recebidos de exercitar.
Rubens, esforçavam-se para Soubera pelas cartas de
não acrescentar mais Laura, que chegavam
problemas aos que já regularmente, que Marcos se
existiam, e logo retomavam a formara técnico em
disposição e o ânimo para computação e estava de
enfrentá-los. casamento marcado com
Aprenderam que não se deve Priscila, moça que, segundo
acrescentar mais miséria à Laura, dava demonstrações
de ótimo caráter, o que foi uma grande bênção ter
deixava Laura e Pedro felizes convivido com você,
com a escolha do filho. aprendido com você há
Muitas vezes Marília em suas valorizar cada minuto vivido e
reflexões revivia seu passado, ser feliz pelo simples fato de
todos os acontecimentos que poder respirar. Que Jesus o
lhe trouxeram dor e que tanto abençoe na sua caminhada
ela quanto Paulo haviam espiritual que, acredito eu,
enfrentado. Percebia que na deve estar sendo de glórias.
superação desses fatos ruins e — Mãe! Mãe! - exclamou Laís.
conflitantes sempre fora o — Que foi filha?
amor a mola mestra que os — Há tempos estou chamando
impulsionara para as soluções e a senhora não responde,
acertadas. estava tão absorta.
Lembrava-se sempre do — É que Marina adormeceu
querido amigo Rubens, que em meu colo e entreguei-me
tanta importância tivera em aos meus pensamentos. O
sua vida. A cada pensamento que deseja Laís?
enviava vibração de carinho e — Nada, mãe. É que vim ver
agradecimento por todo o como estava Marina, só isso.
bem que tinha feito, tanto Já que ela dormiu, vou colocá-
para ela quanto para toda a la no berço.
sua família. — É melhor mesmo, filha, ela
— Querido amigo - pensava -, dormirá mais confortável.
Laís entrou, carregando a filha senhora poderá entender o
no colo. meu
Marília também resolvera sofrimento e me ajudar.
entrar quando foi surpreen- Marília enterneceu-se com a
dida por uma voz sofrida que visível angústia estampada no
a chamava no portão de sua rosto e nos olhos tristes
casa. daquela mulher. Abriu o
Aproximou-se e portão e a convidou a entrar.
educadamente perguntou: Sentaram-se no mesmo banco
— Eu a conheço? no qual momentos antes
— Não, Dona Marília, mas eu brincava com sua netinha.
a conheço. — Qual o seu nome?
— Em que posso ajudá-la? — Iolanda!
— Posso entrar? — Em que posso ajudá-la,
Dizendo isso, percebeu o ar Iolanda?
indeciso de Marília e com- — Dona Marília...
plementou: — Marília! Por favor.
— Não tenha receio, não vim
para fazer-lhe mal algum, ao
contrário, vim pedir-lhe ajuda.
Moro a três quadras daqui e
estou passando pelo pior
momento da minha vida. Total
desespero! Sei que somente a
— Está bem, Marília - repetiu. pensou. Movida pela força dos
— Estou vivendo, como já sentimentos que assaltaram
disse o pior momento da seu coração naquela época, e
minha vida, o fundo do poço, compreendendo toda a dor,
como todos dizem, e não vejo todo o redemoinho que com
a tão famosa luz no final do certeza estava aprisionando o
túnel. coração daquela pobre
— Mas o que aconteceu de tão mulher, condoeu-se ainda
grave assim? mais de Iolanda, pois pôde se
— Perdi meu filho! - exclamou identificar com ela e
quase gritando. — E não compreender ainda mais a dor
posso aceitar isso. Ele era tão que ela estava sentindo.
jovem, tão cheio de vida, de Notou uma leve brisa envolvê-
esperança, de ideais, e morrer la e foi como se uma voz
assim, de uma maneira tão amiga lhe dissesse em um
brutal, sem nenhuma razão. sussurro: "Marília, ajude-a a
Por segundos Marília se sair desse desespero, mostre-
ausentou e viu a si própria lhe a única forma de
quando se separou de Fábio. encontrar novamente a
O mesmo desespero, a esperança e a fé; fale-lhe do
mesma revolta, a mesma amor de Deus e da
angústia e a mesma falta de necessidade de redescobrir a
fé. vida em meio à tristeza que a
"A situação se repete", está sufocando. Você
conseguiu, auxilie para que respondeu:
ela consiga também. Todos — Aprendi com um grande
um dia sofrerão a dor da amigo que jamais devemos
separação, mostre-lhe como acrescentar mais sofrimento
passar por essa dor e sair ao nosso sofrimento. Que, se
ileso, sem colocar ranço e fechamos o coração para
mofo no coração." todas as possibilidades de
Voltando à realidade, Marília superação dessa dor,
segurou as mãos de Iolanda dificilmente nos livraremos
com carinho maternal. dela. Aprendi que não era a
— Ele estava doente? única a sofrer no mundo, que
— Não, foi brutalmente existiam mães que já haviam
assassinado por um assaltante se separado de dois ou três
que reduziu o valor de sua filhos, e que se confiasse em
vida a um par de. Eu sei que Deus, na Sua sabedoria e
você também passou por este justiça, se me entregasse ao
sofrimento, perdeu um filho. amor para com ela enxugar as
Diga-me, pelo amor de Deus, minhas lágrimas, poderia
o que fez para continuar encontrar, senão a felicidade
vivendo? antiga, pelo menos a paz que
Marília respirou fundo. Não se pode ter quando sofremos
queria que sua ferida san- com Jesus.
grasse novamente. Iolanda se entregava às
Pensou em Jesus e palavras de Marília como um
náufrago se apega a uma mesmo da insanidade
tábua de salvação. Com voz espiritual do coração do seu
mais contida disse: filho. Sofre por perceber a
— Mas, Marília, eu sou mãe! completa ausência de amor e
— Eu sei. Eu também sou e de Deus naquele ser que saiu
sobrevivi a este vendaval, de suas entranhas. Por isso,
outras mães também Iolanda, não alimente
sobreviveram. Demorei, mas sentimentos de vingança, a
aprendi que se pode viver reação vem por si só.
apesar da dor que nos sufoca. Iolanda continuava pensativa.
Gostaria que você não
demorasse tanto como eu
demorei, a perceber a presen-
ça de Deus em sua vida,
principalmente nesta situação
de angústia. Lembre-se de
que você sofre a separação de
um filho digno e bom, mas a
mãe daquele que
levianamente tirou a vida do
seu filho sofre tanto quanto
você e ainda com o agravante
de saber da maldade, da
leviandade, da imprudência e
— Iolanda, no Evangelho qual o remédio é preciso
Segundo o Espiritismo, empregar para curar tal
Capítulo V - item 19, nós úlcera ou tal chaga, tal
encontramos a saída para tentação ou tal prova;
nossas aflições: recordai que aquele que crê é
Um só remédio é infalível para forte pelo remédio da fé. E
aqueles que estão aquele que duvida um
atravessando males segundo da sua eficácia, é
cruciantes: a fé, o olhar para logo punido, porque
o céu. Se no acesso dos experimenta no mesmo
vossos mais cruéis instante as pungentes
sofrimentos, vossa voz cantar angústias da aflição.
ao Senhor, o anjo à vossa — Marília, como suas palavras
cabeceira, de sua mão vos me acalmam! É como se eu
mostrará o sinal de salvação e conseguisse ver, fraca, mas
o lugar que deveis ocupar um existente a luz do fim do
dia... túnel.
É a fé o remédio certo do — Que bom, Iolanda, poder
sofrimento; ela mostra ajudá-la neste momento. É
sempre os horizontes do importante que saiba que
infinito, diante dos quais se nada vai desaparecendo como
apagam os poucos dias em um passe de mágica. Esta
sombrios do presente. Não luz fraca vai aumentando,
vos pergunteis mais, pois, brilhando e se tornando forte
gradativamente, a cada dia, a amor não existe paz. Tudo o
partir do momento que você que aprendemos devemos
quiser acalmar sua dor e se compartilhar com o nosso
entregar ao amor de Deus, se próximo e não trancafiar o
esforçando para compreender que sabemos em nosso
Seus desígnios. coração, impedindo que o
A nossa alegria é saber que semelhante tenha acesso à
nenhum sofrimento é eterno, informação edificante e,
e não dura um só dia a mais conseqüentemente,
que o necessário; um dia ele diminuindo-lhe a chance de
adormece e conseguimos nos renovação.
sentir felizes novamente. — Obrigada, Marília, sinto-me
— Você é realmente tudo em condições de refletir em
aquilo que as pessoas falam tudo o que me disse.
de você, amiga e fraterna. É — Faça isso, reflita! E lembre-
realmente uma pessoa se de que a distância não
especial. existe para aqueles que
— Você está exagerando, amam. Seu filho continua
Iolanda. Posso ser um pouco amando você e espera
melhor do que fui tempos prosseguir recebendo o
atrás; apenas tento passar mesmo amor e carinho com
para você o que meu grande os quais você o criou. Este
amigo me ensinou no meu amor chegará até ele como
momento de desespero: sem um bálsamo, aliviando a
saudade e estimulando sua que você me disse, e se Deus
estrada de evolução. quiser conseguirei sair da
— Posso lhe fazer uma auto-compaixão, do papel de
pergunta? vítima, de sofredora.
— Claro! — Isso mesmo, Iolanda, você
— Teria algum inconveniente conseguirá. Transforme seu
se eu me tornasse uma sofrimento na alegria de
voluntária no Lar de Isabela muitos irmãozinhos que ne-
que você dirige? cessitam. Guarde seu filho no
— Nenhum Iolanda, ao lugar mais nobre de seu
contrário, iria lhe fazer muito coração, deixe o amor que
bem e traria uma grande sente por ele existir sempre,
alegria para todos nós. sem anular o amor que pode
Apareça por lá um dia, assim sentir pelo seu semelhante.
tomará conhecimento do Verá como a paz retornará ao
trabalho que fazemos. Inicie seu coração e à sua vida.
no dia que quiser e se sentir Delicadamente, Marília
preparada para assumir esta perguntou:
tarefa. Será muito útil, creia. — Aceita um café, um suco?
— Eu vou pensar em tudo o


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