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O DENTE VICENTE

PERSONAGENS:

VICENTE – O dente cariado e maltratado.

FRANCISQUINHA- A menina rebelde

PONG- O chiclete vilão da história.

ESMERALDA- A escova de dentes namorada de Vicente.

BILLY BORDOADA- O dentista cruel e sanguinário

Ps. PONG/ BILLY BORDOADA - mesmo ator

FRANCISQUINHA / ESMERALDA - mesma atriz

NARRADOR- Esta é Francisquinha. Uma menina levada e sapeca. Cheia de saúde, ela é muito inteligente e só
tira boas notas na escola. Diz ela, que tem muitos namorados e que é a menina mais bonita do colégio. Adora
brincar, dançar e fazer esporte. Mas será que ela tem algum defeito?
FRANCISQUINHA- Claro que não, eu sou perfeita.
NARRAÇÃO- Sim, ela tem um grande defeito. Um defeito que pode atrapalhar todas as suas qualidades:
Francisquinha não escova os dentes.
FRANCISQUINHA- Isso é só um detalhe sem importância.
NARRAÇÃO- Isso é o que você pensa. Escovar e cuidar dos dentes é muito importante. Mas, para contar essa
história, precisamos contar com a ajuda de alguém muito especial.
FRANCISQUINHA- Quem ?
NARRAÇÃO- Vicente, o dente que sente !
(ENTRA EM CENA VICENTE) (MÚSICA) (FRANCISQUINHA DESMAIA)
VICENTE- Ei, menina? Acorde! Acorde!
(FRANCISQUINHA ACORDA E SE ASSUSTA)
FRANCISQUINHA- Quem é você?
VICENTE – Vicente.
FRANCISQUINHA- Vicente?
VICENTE- O dente.
FRANCISQUINHA- Que dente?
VICENTE- Que sente.
FRANCISQUINHA- Que história complicada! Não estou entendendo nada.
VICENTE- Eu sou um dos seus dentes. Fui escolhido, pois sou o mais maltratado de todos.
FRANCISQUINHA- Continuo sem entender. Se você é meu dente e mora na minha boca, o que está fazendo
aqui ?
VICENTE- Como disse, sou o representante do sindicato dos seus dentes. Adquiri formas humanas, para te fazer
uma série de reivindicações, que elaborei junto a meus companheiros de boca.
FRANCISQUINHA- Está muito complicado para eu entender. Mas, de qualquer forma, estou achando muito
estranha essa história de conversar com um dente.
VICENTE- Para você ver a que ponto chegou. Precisou um dos seus dentes adquirir vida, para implorar que nos
trate melhor.
FRANCISQUINHA- Na verdade, sendo meu dente ou não, eu não te dou a mínima importância. Vocês e seus
amigos não servem pra nada. A não ser, para me dar trabalho e doer.
VICENTE- Estou me sentindo profundamente ofendido. Como não sirvo pra nada? Eu trituro os alimentos antes
de irem para o estômago, facilitando o trabalho dele. Estou presente nos momentos mais felizes da sua vida, me
expondo no teu sorriso. E até para situações constrangedoras eu sou usado: tenho que roer unha, mascar chiclete,
tenho que agüentar o frio do sorvete e o quente do café. Preciso de consideração.
FRANCISQUINHA- Você é um dente muito folgado, sabia? Se acha uma maravilha... Mas, eu só percebo você
quando dói e tenho que ir ao dentista.
VICENTE- Por isso mesmo que estou aqui. Para fazer com que você cuide de mim, impedindo assim a dor e
aquele dentista sanguinário.
FRANCISQUINHA- Acontece, meu filho, que tenho muito que fazer e não posso perder tempo com um dente
sujo, amarelo e chato.
VICENTE- É tão simples, Francisquinha. Basta você nos escovar todos os dias, com uma escova leve e macia,
um creme dental com flúor. Depois, tem que usar um bom fio dental, para tirar o resto dos alimentos que ficam
entre nós, dentes. Precisa fazer isso todos os dias, após as refeições, ao acordar e antes de dormir.
FRANCISQUINHA- Ufa, que trabalheira! Acho melhor você perder as esperanças. Não terei todo esse trabalho
com você. Agora, suma daqui, que eu tenho que brincar com as minhas amigas.
VICENTE- Pois fique sabendo a senhora, que eu não te deixarei em paz, até cuidar de mim e dos meus
companheiros. Estarei atrás de você, te fiscalizando e exigindo bons tratos.
FRANCISQUINHA- Estou morrendo de medo de você, seu bobo. Se quiser, pode ficar. Mas não quero nenhum
dente maluco atrás de mim, ouviu?
(FRANCISQUINHA SAI DE CENA)
VICENTE (AO PÚBLICO) - Que menina ! Não sabia que ela era tão atrevida assim. Terei muito trabalho com
ela. Mas, vocês precisam me ajudar, amiguinhos. Se ela não cuidar de mim, eu vou apodrecer e terei de ser
arrancado. Então, uma menina tão bonita como ela, ficará banguela e terá que usar dentadura. Vamos combinar o
seguinte então: enquanto Francisquinha não escovar os dentes, vocês não serão amigos dela. Fiquem de mal.
Outra coisa: tenho um grande inimigo na vida. É um cara mau e implicante. O nome dele é Pong. Um chiclete
vermelho, que só quer saber de nos destruir e nos causar cáries. Olhem como estou: cheio de buracos ! E um dos
responsáveis por isso, é o Pong. Não deixem que ele conquiste a Francisquinha mais uma vez. Agora, vou segui-
la, para ver o que ela está fazendo.
(VICENTE SAI DE CENA) (MÚSICA PARA ENTRADA DE PONG) (PONG ENTRA EM CENA)
PONG (AO PÚBLICO) – Eihoooo! Sou o Pong, o chiclete gostoso! Eihoooo! Sou irresistível e atraente. Todas
as crianças me amam, não é? Amam sim e não me tiram da boca. Existo em vários sabores. Hoje sou de tutti-
frutti, amanhã de morango, depois de hortelã. Já me inventaram de tangerina, de uva, de laranja e até de
melancia. Tem até Pong de caldinho dentro, com forma de bolinha e muito mais! Sou muito doce e só acabo,
quando a boca se cansa de me mastigar. Todos me mastigam, mastigam e nunca entro no estômago. Mas, quando
entro, causo o maior estrago. Colo tudo lá dentro. Eihoooo! Sou o terror dos dentes! Odeio todos eles e sempre
venço! Eihooo! Quem quer Pong, o chiclete gostosinho?
(ENTRA FRANCISQUINHA, COM VICENTE ATRÁS) (PONG SE ESCONDE E MONTA UMA BARRACA
DE VENDA DE CHICLETES)
VICENTE- O que você está pensando em fazer, Francisquinha ?
FRANCISQUINHA- Larga do meu pé, Dente Vicente. Você é uma mala sem alça!
VICENTE- Eu só quero o seu bem. Sou seu amigo.
FRANCISQUINHA- Não preciso da sua amizade. Eu já tenho muitos amigos aqui.
VICENTE- Você acha mesmo? Você acha também que eles aprovam o seu comportamento ruim?
FRANCISQUINHA- Claro que sim. (AO PÚBLICO) Colegas, vocês não me apoiam? O quê? Não? Vocês são
uns amigos da onça e eu estou de mal. Não quero papo com nenhum de vocês. Eu sou muito esperta e vocês são
uns bobos!
VICENTE- Eles também só querem a tua felicidade, Francisquinha.
FRANCISQUINHA- Não enche! Já estou farta desse papo chato. Vou me divertir! Já sei! Ali tem uma banca de
doces! (AVISTA PONG E SUA BANCA) Como eu estou cheia de dinheiro, vou gastar. Tem cada maravilha
naquela banca...
PONG (DENTRO DA BARRACA, GRITANDO) – Olha aí, olha aí! Quem vai querer? Quem vai querer?
VICENTE- Não faça isso, Francisquinha. Ali só tem besteira. E além do mais, você não está com fome.
FRANCISQUINHA- E desde quando se precisa ter fome para comer besteiras?
PONG- Eihooo ! Eihooo!
VICENTE (ASSUSTADO) – Nossa! Eu conheço esse grito... Não vá lá! (AJOELHADO) Eu te imploro!
FRANCISQUINHA- Eu faço o que quiser da minha vida, tá bom?
PONG- Venha menina! Venha ver que maravilhas nós temos aqui!
FRANCISQUINHA (A PONG) – Que banca legal! O que vocês tem aí?
PONG- Temos muitas coisas, menina. Mas, nada tão bom, quanto à especialidade da casa.
FRANCISQUINHA- E qual é a especialidade da casa?
PONG- Chicletes! Muitos chicletes!
VICENTE (GRITANDO, DESESPERADO) – Chiclete não! Chiclete não!
FRANCISQUINHA- O senhor sabe convencer um cliente, não é?
PONG- Temos chicletes de todos os sabores. Mas, devo indicar para a bela menina, o melhor deles!
FRANCISQUINHA- E qual é?
PONG- Pong sabor tutti-frutti ! Eihooo!
VICENTE- Pong tutti-frutti não!
FRANCISQUINHA- Adorei! Vou levar tudo. Tudo Pong tutti-frutti.
PONG- Fez uma bela compra, senhorita.
VICENTE- Não compre, Francisquinha. Ele é o meu maior inimigo. O chiclete Pong quer me destruir.
FRANCISQUINHA- Não tenho nada a ver com as suas brigas, Vicente. O importante, é que o Pong é gostoso e
açucarado. Vou levar a caixa e mascar tudo em casa.
(PONG DESMONTA A BARRACA E SAI DE CENA MOMENTANEAMENTE)
VICENTE- Francisquinha ! Se você fizer isso, sentirá dor também.
FRANCISQUINHA – Tchau, Vicente.
(FRANCISQUINHA SAI DE CENA COM A CAIXA DE CHICLETES) (PONG VOLTA)
VICENTE- Você mais uma vez provou que é um mal-caráter, Pong.
PONG- Está com medinho de me encarar, Mané? Eihooo! Está com os seus dias contados. Ela vai abrir a caixa e
mastigará todos os Pongs que tem direito. Então, eu acabarei com você! Eihooo!
VICENTE- Apesar de ser um covarde, iludindo a menina com seu sabor açucarado, eu não tenho medo. Mesmo
cariado e esburacado, eu ainda sou forte o suficiente para te enfrentar.
PONG- Francisquinha está abrindo o primeiro Pong nesse momento. Vamos ao duelo.
(MÚSICA PARA A LUTA DE VICENTE E PONG) (ELES SE PREPARAM PARA O COMBATE) (PONG
BATE EM VICENTE, QUE CAI DIVERSAS VEZES) (VICENTE, ENFRAQUECIDO, CAI DE VEZ)
(PONG, VITORIOSO, RI E COMEMORA)
PONG- Eihooo! Eu sou o campeão! A vitória é minha! Depois te pego de novo, mané!
(PONG SAI DE CENA) (VICENTE SENTE MUITAS DORES)
VICENTE (DOLORIDO)- Ah, estou cada vez mais fraco. Não aguento mais enfrentar o Pong. A Francisquinha
não podia ter feito isso. Não tenho mais forças, as cáries me enfraquecem. Se eu tiver que encarar o Pong de
novo, acho que não aguentarei. Terei que ser arrancado. Essa menina precisa tomar juízo, antes que seja tarde
demais. Aliás, por onde estará ela agora? De certo, deve estar cheia de dor-de-dente. Pelo menos, tão cedo não
mastigará outro Pong. Ah, já sei! Ela deve ter ido à farmácia com a mãe dela! Preciso ir até lá procurá-la. Ela não
pode ficar sozinha um minuto sequer.
(VICENTE SE DIRIGE AO CENÁRIO DA FARMÁCIA) (MÚSICA ROMÂNTICA) (ENTRA EM CENA
ESMERALDA)
ESMERALDA- Vicente!
VICENTE- Esmeralda!
ESMERALDA- Vicente!
VICENTE- Esmeralda! A escova mais bela que o mundo já produziu... Suave, cerdas brancas, cabo flexível...
ESMERALDA- Há quanto tempo não nos vemos?
VICENTE- Desde quando a Francisquinha me escovou com você, pela última vez. Há um ano e meio atrás...
ESMERALDA- Estou com muitas saudades, Vicente. Você foi o dente mais bonito que já escovei.
VICENTE- Você continua linda, Esmeralda. Que pena, que a Francisquinha nunca mais te comprou para me
escovar.
ESMERALDA- Eu estou triste, Vicente. Vejo que há muito tempo ela não cuida de você. Está cheio de cáries e
sem alguns pedaços.
VICENTE- Ela nos separou. Por isso, estou acabado e fraco. Sinto que estou no fim. Fico com vergonha de
chegar perto de você, assim desse jeito. Acho que não me ama mais, Esmeralda.
ESMERALDA- Sempre é tempo de mudar, Vicente. A Francisquinha vai cuidar de você, como antigamente. E
voltará a ser aquele dente bonito, que era disputado por todas as escovas.
DENTE- Você lembra como éramos felizes naquele tempo? Todos os dias nos encontrávamos. Teve um dia até,
que fizemos uma festa e convidamos todos os seus parentes. Veio o seu irmão fio dental, a sua prima fita,
aplicaram até o seu tio flúor em mim. Eu estava completando um ano como dente permanente. Bons tempos
aqueles! A Francisquinha gostava de nós.
ESMERALDA- Agora tenho que ir, Vicente. Tem uma família querendo me comprar.
VICENTE- Não, não vá. A Francisquinha pode te comprar e te levar para a casa.
ESMERALDA- Não. Ela passou por aqui agora e nem olhou pra mim.
VICENTE- Não podemos nos separar de novo, Esmeralda. O nosso amor é muito forte. Você é a minha única
salvação.
ESMERALDA- Preciso ajudar a conservar os dentes da criança daquela família. Tenho que ir. Quem sabe um
dia, a Francisquinha mude de ideia e me leve de novo pra junto de você. Adeus, Vicente.
VICENTE (MUITO TRISTE) – Adeus, Esmeralda.
(MÚSICA TRISTE) (ESMERALDA SAI DE CENA) (VICENTE CHORA)
VICENTE- Acho que não está adiantando nada a minha presença aqui. Francisquinha nunca vai me ouvir.
Primeiro, ela come aquele chiclete malvado do Pong... Depois, ela não compra a Esmeralda, que era a minha
última salvação... O quê de pior, poderá me acontecer agora ?
(EFEITO DE ÁUDIO) (VOZ DA MÃE DA FRANCISQUINHA)
VOZ DA MÃE- Francisquinha ! Francisquinha !
VICENTE- É a voz da mãe dela. O que será que ela quer?
VOZ DA MÃE- Francisquinha ! Você é uma menina muito levada e sapeca. Além disso, é malcriada também.
De tanto comer chiclete, está cheia de dor-de-dente. Por isso, acabei de ligar para o Dr. Billy Bordoada.
VICENTE (ASSUSTADO)- É o dentista sanguinário! Além disso, ele não enxerga bem e não sabe falar
português.
VOZ DA MÃE- Preste atenção, Francisquinha: eu liguei pra ele e está vindo para cá, fazer uma consulta a
domicílio.
VICENTE- Ele é o único dentista que atende em casa. É igual ao tele-pizza.
VOZ DA MÃE- Se comporte bem e faça tudo que ele mandar.
(FIM DO EFEITO DE ÁUDIO)
VICENTE- Eu tenho muito medo dele. É muito feio e só trabalha de óculos escuros.
(ENTRA FRANCISQUINHA, COM UMA TALA NA MANDÍBULA)
FRANCISQUINHA- Você ouviu, Vicente? Dr. Billy Bordoada vem aí.
VICENTE- Tudo culpa sua, Francisquinha. Se tivesse me ouvido, se não tivesse mastigado o Pong, se tivesse
me escovado com a Esmeralda... Não seria preciso a presença do Doutor Billy Bordoada aqui. Você só precisaria
ir, de seis em seis meses, a um bom dentista, para saber como estávamos.
FRANCISQUINHA- Mas você está doendo muito, Vicente. Eu não estou aguentando mais.
VICENTE- Claro! Estou cheio de cáries, esburacado, quebrado. Tem mais é que doer mesmo. Nem sei se tenho
conserto ainda. Já pensou se ele quiser me arrancar?
FRANCISQUINHA (IRRITADA)- Sabe de uma coisa, Vicente? É melhor que ele te arranque mesmo. Você só
fica doendo, vive reclamando... Não pode isso, não pode aquilo, não pode aquilo outro. Você é muito chato! E
essas crianças também!
VICENTE- Não diga isso. Todos nós somos seus amigos. Um dia você sentirá falta de mim.
(EFEITO DE ÁUDIO – VOZ DA MÃE)
VOZ DA MÃE- Francisquinha ! Dr. Billy Bordoada chegou! Atenda!
VICENTE- Ele é paraguaio. Ninguém entende nada do que ele fala.
(FRANCISQUINHA SAI DE CENA)
(MÚSICA LATINA) (ENTRA BILLY BORDOADA E SEU CONSULTÓRIO CENOGRÁFICO)
BILLY BORDOADA- Donde está mi enferma?
VICENTE- Vou traduzir: ele está perguntando onde está a paciente dele, a Francisquinha. Como vocês vêem,
sou o único dente poliglota deste mundo.
BILLY BORDOADA- Donde está? Ya sé! Estas se escondendo de mí ! Yo voy buscala.
VICENTE- Acho que ele pensa que ela está se escondendo dele. E vai procurá-la...
BILLY BORDOADA- Donde está a chiquitita?
(FRANCISQUINHA APARECE)
FRANCISQUINHA- Cadê as chiquititas?
BILLY BORDOADA (GRITANDO) – Encontrei usted chiquitita!
(FRANCISQUINHA GRITA)
VICENTE- Chiquitita, quer dizer menininha em espanhol. Cultura ajuda muito, sabia?
BILLY BORDOADA- Ah, ah,ah ! (PÕE FRANCISQUINHA SENTADA NA CADEIRA) Vamos à consulta!
VICENTE- O espanhol, às vezes, é bem parecido com o português...
FRANCISQUINHA- Você está entendendo o que esse cara tá falando?
VICENTE- Sou dente mas não sou burro, minha filha.
BILLY BORDOADA- Yo veo mutchas cáries... Mutchos orifícios... Mutchos dientes pútridos...
FRANCISQUINHA- o que ele disse, Vicente?
VICENTE- Em resumo, que a coisa tá feia.
BILLY BORDOADA- Y que lo bicho vá coger !
VICENTE- E que o bicho vai pegar! Socorro, Francisquinha !
BILLY BORDOADA- Quietos! Preciso tener concentración para hacer mi trabajo.
FRANCISQUINHA- E agora?
VICENTE- Está ficando aborrecido conosco.
BILLY BORDOADA- Abra la boca!
VICENTE- Entendeu, né?
BILLY BORDOADA (ANALISANDO)- Hum, hum, hum...
FRANCISQUINHA- E agora?
VICENTE- Hum, hum, hum...
BILLY BORDOADA- Há quanto tiempo usted non usa lo cepillo de dientes ?
VICENTE- Ele perguntou, há quanto tempo você não me faz um carinho com a Esmeralda?
FRANCISQUINHA- Há um ano e meio.
BILLY BORDOADA- Hunnn...Um año e medio sim cepillar los dientes ? Entonces...
VICENTE- Entonces...
FRANCISQUINHA- Entonces...
(BILLY BORDOADA FICA EM SILÊNCIO) (VAI PARA UM CANTO E MEDITA) (MEXE EM SUA
BOLSA)
FRANCISQUINHA- O que ele está fazendo, Vicente?
VICENTE- Acho que está meditando.
(BILLY BORDOADA DÁ UM GRITO ENFURECIDO) (PUXA UM BOTICÃO GIGANTE DE SUA BOLSA)
BILLY BORDOADA- Entonces tenemos que arrancar su diente ! Ah, ah, ah!
FRANCISQUINHA- No, no, no!
VICENTE- Acho que agora você está aprendendo o espanhol, Francisquinha.
FRANCISQUINHA- Por favor, seu Billy! Não arranque o meu dente! Ele é chato, mala, mas não vivo sem
Ele!
BILLY BORDOADA- Non tiene perdón ! Voy arrancar uno diente suyo. Tenere que escoger uno. Cual será?
VICENTE- Ele disse que vai arrancar um dente seu e terá que escolher um...
BILLY BORDOADA- Pues yo no tengo tiempo.
VICENTE- Pois ele não tem tempo. Então vá embora, homem!
FRANCISQUINHA- Sai daqui, ruindade!
BILLY BORDOADA- No, no! No voy volver sin antes sacar su diente ! Veamos...hunnn...hunn... Esto ?...
Aquello ?...
VICENTE- Ele está escolhendo um dente para arrancar... Já passou pelo Clemente, pelo Gerente, agora pelo
Presidente e está chegando no...
BILLY BORDOADA- Esto acá !
VICENTE- Vicente !!!!
FRANCISQUINHA- Vicente não! Não arranque o Vicente!
BILLY BORDOADA – Esto sí ! és o más pútrido y agujereado de sú boca !
VICENTE- Disse que sou o mais caidinho que tem aí.
BILLY BORDOADA- Ah, yo estoy chiflado ! Ah, yo estoy chiflado !
VICENTE- Ah, ele tá maluco! Ah, ele tá maluco!
BILLY BORDOADA- Voy completar luego mi misión. Abra la boca, chiquitita !
(FRANCISQUINHA CHORA) (BILLY ARRANCA COM O ALICATE O DENTE DA MENINA) (VICENTE
CAI NO CHÃO)
BILLY BORDOADA- Presto! Saquei mas uno! Voy para mi moradia. Adios, ninõs. I non si esquieçam: cevillen
bien sus dientes !
(BILLY BORDOADA SAI DE CENA, LEVANDO A CADEIRA E SEUS MATERIAIS CÊNICOS)
(FRANCISQUINHA TENTA ACODIR VICENTE, CAÍDO)
FRANCISQUINHA (CHORANDO) – Me perdoa, Vicente. Eu devia ter te ouvido... Não morra! Você é meu
dente e faz muita falta. Se você viver, prometo que vou te escovar com a Esmeralda todos os dias... Que eu não
vou mais mastigar o Pong.. Por favor...
VICENTE (MORIBUNDO) – Comigo não tem mais jeito, Francisquinha. Mas, você ainda pode salvar os
outros. Escove-os bem, passe fio dental, evite chicletes. Mande um beijo para a Esmeralda.
(VICENTE MORRE) (MÚSICA TRISTE) (FRANCISQUINHA CHORANDO, SAI DE CENA) (EFEITO DE
ÁUDIO – VOZ DO NARRADOR)
NARRADOR- Se Francisquinha cuidasse bem dos seus dentes, Vicente não teria esse final tão triste. Se ela os
escovasse diariamente e visitasse um bom dentista, pelo menos a cada seis meses, Vicente estaria forte, branco e
sem cáries. Por isso, Francisquinha não é mais a menina mais bonita da escola. Está faltando um pedaço em sua
boca. Mas, como em nossa história tudo é possível, vamos dar um final feliz para Vicente. Imaginemos que
Francisquinha mudou seus hábitos. Que ela atendeu os pedidos e passou a cuidar melhor de sua boca. Então,
daremos nova chance à ela e fazer com que a nossa história tenha um final feliz.
(MÚSICA SUAVE) (VICENTE VAI RENASCENDO) (TIRA AS MANCHAS PRETAS DO SUA ROUPA)
VICENTE- Ela atendeu meus pedidos. Estou ficando sem cáries.
(MÚSICA ROMÂNTICA) (AO FUNDO SURGE ESMERALDA)
ESMERALDA- Vicente!
VICENTE- Esmeralda!
ESMERALDA- Vicente!
VICENTE- Esmeralda! Você voltou pra mim!
ESMERALDA- Francisquinha mudou seus hábitos e resolveu me comprar na farmácia. Estou vendo que a
minha presença já te deixou mais bonito. Está forte, sem cáries.
VICENTE- Esmeralda, eu te amo.
ESMERALDA- Nunca mais nos separaremos. Eu te amo também.

FIM

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