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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

CAMPUS DE GUARATINGUETÁ
DEPARTAMENTO DE MATERIAIS E TECNOLOGIA

RELATÓRIO DA DISCIPLINA PROPRIEDADES DOS MATERIAIS

ENSAIO DE IMPACTO CHARPY

Giovanni Faus Salussolia, Marco Aurelio Heluany Júnior


Unesp, Guaratinguetá
Turma: 342
giovannifs@outlook.com
jr_heluany@yahoo.com.br

Resumo: O ensaio de impacto, também conhecido como ensaio de choque ou resiliência, é


utilizado para analisar o comportamento dúctil ou frágil dos materiais, principalmente dos
metais. O resultado deste ensaio é expresso em uma curva da energia absorvida pela
temperatura de ensaio; ela varia conforme a tenacidade do material em questão. Existem dois
subtipos de ensaio de impacto, o Charpy e o Izod, que se diferenciam pelo modo como são
disponibilizados na máquina para o ensaio. Os corpos-de-prova são padronizados, contendo
entalhes que produzem um estado triaxial de tensões no material ensaiado. Neste
experimento, foram confeccionados com aço 1060[1][2].

Palavras-chave: Impacto, Ensaio, Tenacidade.

1. INTRODUÇÃO

1.1. Ensaio

1.1.1. Características
Durante a Segunda Guerra Mundial, devido à alta incidência de fratura frágil em
estruturas soldadas de aço de navios e tanques de guerra, foram implantados programas de
pesquisas que determinassem principalmente as causas dessas rupturas, o motivo delas
acontecerem nos meses de inverno e as providências para impedir futuras ocorrências[1]. O
ensaio de impacto é um dos mais utilizados para o estudo de fratura frágil dos materiais.
Denominado muitas vezes por ensaio de choque ou de resiliência, este é em ensaio dinâmico
utilizado principalmente para teste de aceitação de materiais usados em baixa temperatura [2].
O comportamento do material (frágil ou dúctil) é medido pelo ensaio de impacto. Os
corpos-de-prova utilizados são padronizados e possuem um entalhe que produz um estado
triaxial de tensões; quando submetido a uma flexão por impacto produzida por um martelo
pendular, que não se distribuem de modo uniforme por todo corpo-de-prova. Por isso, este
ensaio não fornece um valor quantitativo da tenacidade do metal. A energia que o corpo-de-
prova absorve é medida pela diferença entre a altura atingida pelo martelo antes e após o
impacto, multiplicada pelo peso do martelo, sendo obtida na própria máquina, através de um
ponteiro que corre em uma escala graduada já convertida em unidade de energia. Quanto
menor a energia absorvida, mais frágil será o material a aquela solicitação mecânica [2][3].
O resultado é simplesmente representado por uma medida de energia absorvida, não
fornecendo indicações seguras sobre o comportamento de toda a estrutura[1].
Existem dois tipos padronizados de ensaio de impacto: Izod e Charpy. Em ambos os
casos o corpo-de-prova tem o formato de uma barra de seção transversal quadrada, no qual é
usinado o entalhe.
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No ensaio tipo Charpy, os corpos-de-prova são bi-apoiados nos suportes localizados na


base da máquina e são dispostos de modo que o entalhe fique na face oposta àquela que
receberá o impacto do martelo pendular. Esses corpos-de-prova podem apresentar entalhe em
três configurações diferentes: tipo V, com um ângulo de 45º e profundidade de
aproximadamente 2mm; tipo U, com raio da ponta do entalhe de 1mm e profundidade
geralmente de 5mm; e entalhe cilíndrico, formado por um rasgo com um furo em sua
extremidade, assim como pode ser observado na Figura 3. A posição do entalhe é tal que o
impacto ocorre na região de maior tensão (seção transversal média do corpo-de-prova). Já
para o ensaio Izod, utilizam-se corpos-de-prova com entalhe em V, que são engastados na
máquina. A superfície que receberá o impacto é a que contém o entalhe, que é igual ao corpo-
de-prova tipo A para o ensaio Charpy, porém não centralizado como este (Figura 4).
A máquina utilizada para este tipo de ensaio e os corpos-de-prova dos ensaios Charpy e
Izod estão esquematizados nas figuras 1 e 2, respectivamente.

Figura 1 – Representação da máquina utilizada no ensaio de impacto[2].

Figura 2 – Representação esquemática de um corpo-de-prova para os ensaios tipo Charpy (acima) e Izod (abaixo)[1].
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Figura 3 - Tipos de corpos-de-prova para o ensaio Charpy. [Segundo ASTM E23-94ª].

Figura 4 – Corpos-de-prova do ensaio tipo Izod. [Segundo ASTM E23-94ª].

O corpo-de-prova para o ensaio Izod é um pouco mais comprido que o do Charpy, uma
vez que necessita estar engastado na máquina para que ocorra o ensaio [1].
O ensaio de impacto permite a observação de diferenças de comportamento entre
materiais, as quais não são observadas em um ensaio de tração, por exemplo.
Os requisitos essenciais do ensaio são: corpo-de-prova padronizado, suporte rígido no
qual o corpo-de-prova é apoiado ou engastado, pêndulo com massa conhecida solto de uma
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altura suficiente para fraturar totalmente o material e um dispositivo de escala para medir as
alturas antes e depois do impacto do pêndulo[1].
A principal vantagem do ensaio de impacto é que se trata de um teste simples e possui
corpos-de-prova pequenos e baratos, além de poder ser executado em um vasto campo de
temperaturas, até mesmo naquelas abaixo da ambiente. No caso dos corpos-de-prova para
ensaios tipo Charpy, estes são adequados para medir as diferenças de comportamento para
materiais de baixa resistência ao impacto, como os aços estruturais. Além disso, este teste
também é usado para comparar a influência dos elementos de liga e tratamentos térmicos no
comportamento do entalhe[1].
A norma internacional que padroniza os ensaios de impacto é a ASTM E23-94, aplicada a
materiais metálicos[1].

1.1.2. Tipos de Fratura

Os tipos de fratura que podem ocorrer no material ao ser ensaiado por impacto são frágeis
ou dúcteis. As fraturas frágeis são caracterizadas por seu aspecto cristalino, e ocorrem com
baixa absorção de energia, sendo característica de materiais de baixa tenacidade. Já as
fraturas dúcteis possuem superfície fibrosa, consequente da alta absorção de energia durante
o impacto, e é característica de materiais que possuem alta tenacidade[3].
Existem três fatores que contribuem para o surgimento da fratura frágil em materiais que
são normalmente dúcteis à temperatura ambiente, os quais não precisam atuar ao mesmo
tempo para produzir uma fratura frágil no material. São eles:
 Existência de um estado triaxial de tensões;
 Baixas temperaturas;
 Taxa ou velocidade de deformação elevada.
Entre as temperaturas em que ocorrem as fraturas dúcteis e frágeis, ocorre a transição
dúctil-frágil, que está relacionada com a temperatura através da energia de impacto medida no
ensaio. Nessa faixa de temperaturas, o material pode romper tanto de maneira dúctil como de
maneira frágil[3].
A Figura 5 mostra um gráfico de energia absorvida pela temperatura de ensaio, que é
típico do ensaio de impacto.

Figura 5 – Gráfico envolvendo a energia absorvida pela temperatura de ensaio[4].

Para a maioria das ligas, a transição dúctil-frágil ocorre numa faixa de temperaturas,
acarretando dificuldades de especificação da temperatura de transição. Os metais que
apresentam estrutura cúbica de face centrada (CFC), como ligas de alumínio e de cobre,
permanecem dúcteis mesmo a temperaturas extremamente baixas. Já metais com estrutura
cúbica de corpo centrado (CCC) ou hexagonal compacta (HC) apresentam a transição dúctil-
frágil. Para esses metais, a temperatura de transição depende tanto da composição química da
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liga quanto da microestrutura. Por exemplo, a diminuição do tamanho de grão em aços diminui
a temperatura de transição[1].
O conteúdo de carbono na composição química dos aços também influencia
significativamente a temperatura de transição. A maioria dos materiais cerâmicos e poliméricos
também apresenta transição dúctil-frágil. Para os cerâmicos, a transição ocorre somente a
temperaturas elevadas (acima de 1000ºC), enquanto para polímeros esta faixa de temperatura
é geralmente abaixo da ambiente[3][1].

2. OBJETIVOS

O objetivo deste experimento é avaliar o comportamento do aço 1060 quando ensaiado


por impacto em diferentes temperaturas.

3. MATERIAIS E MÉTODOS

3.1. Materiais
Foram utilizados 12 corpos-de-prova do aço 1060, sendo testados:
 02 à -196ºC;
 02 à -21ºC;
 02 à 0ºC;
 02 à temperatura ambiente(19°C);
 02 à 100ºC;
 02 à 200ºC.
O equipamento utilizado foi a máquina para ensaio de impacto tipo charpy.

Figura 6 - Maquina para ensaio de impacto tipo charpy. Fonte: O autor.


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3.2. Métodos

Os corpos-de-prova foram mantidos por 10 minutos na sua respectiva temperatura de


teste e posteriormente foram dispostos na máquina de modo que ficassem bi-apoiados e com a
superfície que não continha entalhe voltada para trás, sendo esta a região que receberia o
impacto. Depois de feito o acerto da posição dos corpos-de-prova na máquina, o martelo foi
solto, impactando o material na temperatura ensaiada, sendo freado lentamente pelo
operador[3].
Após o impacto, foram feitas leituras das energias absorvidas pelo material ensaiado, com
ajuda de um relógio localizado no próprio equipamento (leitura direta). Essas medidas possuem
unidades em Kpm.

4. Resultados e Discussão

A partir dos dados de energia absorvida obtidos durante para dois corpos de prova à cada
temperatura, foi montada a Tabela 1 com a média da energia, e seu valor em Joules, e então
foi plotada a curva de Energia de impacto (J) vs.Temperatura (ºC), mostrada na Figura 7.

Tabela 1 – Energia de impacto média para várias temperaturas

ENERGIA DE IMPACTO
TEMPERATURA
(kgf.m) (J)
(OC)
Ensaio 1 (cdp 1) Ensaio 2 (cdp 2) Média
-196 0,4 0,5 0,45 4,41
-21 0,9 1,0 0,95 9,32
0 1,5 2,3 1,90 18,63
19 2,6 2,6 2,60 25,50
100 7,0 6,4 6,70 65,71
200 7,0 6,6 6,80 66,80

Através da curva da Figura 7, foram então determinadas as seguintes temperaturas de


importância na característica de ductilidade ou resistência do material:
 T1 = Temperatura do patamar superior (fratura 100% dúctil), onde a curva forma um
assíntota horizontal;
T1 = 184 ºC;
 T2 = Média de temperaturas encontradas para os patamares superior e inferior;
T2 = 26 ºC;
 T3 = Temperatura de transição de característica frágil-ductil do material, onde a
energia absorvida no impacto é igual a 20 Joules. Esse valor de energia é adotado
para aços de baixa resistência, quando se deseja encontrar a temperatura de
transição;
T3 = 7,15 ºC;
 T4 = Temperatura do patamar inferior (fratura 100% fragil), onde a curva forma um
assíntota horizontal;
T4 = -132 ºC.
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Energia de Impacto (J)


60

30

-200 0 200
Temperatura (‫؛‬C)

Figura 7 - Curva de Energia de Impacto (J) vs. Temperatura (ºC).

Pela análise da Tabela 1 e da Figura 7 percebemos que a energia de impacto cresce com
o aumento da temperatura ou diminui com o abaixamento da temperatura. Tal mudança é
decorrente do grau de ductilidade ou fragilidade do material naquela temperatura, ou seja, ao
trabalhar a temperaturas mais baixas o material permite um menor movimento atômico em sua
estrutura, e dessa forma sua capacidade de absorver energia fica reduzida provocando uma
fratura de característica frágil, e analogamente para o aumento da temperatura.
As características das fraturas podem ser melhor observadas nas Figuras 8, 9a, 9b, 9c,
9d, 9e e 9f, abaixo:

Figura 8 - Fraturas dos corpos de prova ensaiados.


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Figura 9 (a, b, c, d, e, f) - Imagens das fraturas dos corpos de prova ensaiados.

Observando os corpos-de-prova no laboratório, após o impacto, nota-se que aqueles


submetidos a maiores temperaturas apresentaram características de materiais dúcteis, ou seja,
apresentaram aparência fibrosa, com grande deformação da zona onde ocorreu a fratura.
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Nota-se inclusive que para o aquecimento a 100ºC houve um corpo de prova que não chegou a
romper, onde pode-se perceber a grande deformação.
Para corpos-de-prova resfriados a baixas temperaturas, a característica visual do material
na superfície de ruptura foi de material frágil, ou seja, apresentou aparência brilhante. Para
temperaturas próximas à ambiente (intermediárias), verifica-se que as propriedades foram de
transição entre dúctil e frágil.
Houve diferença também no som provocado pelo impacto do pêndulo no corpo-de-prova.
Para materiais com características frágeis o som foi mais agudo e menos intenso do que para
os materiais com características dúcteis.
O fato de alguns corpos-de-prova utilizados apresentarem valores muito diferentes para a
mesma temperatura de ensaio pode ser explicado pela existência de defeitos internos no
material, por exemplo, ou por um tempo maior de exposição à temperatura ambiente antes de
ocorrer o impacto. Os defeitos propiciam o surgimento de tensões internas, o que pode fazer
com o que material dúctil apresente um comportamento frágil em situações em que o mesmo
deveria ser dúctil, devido à nucleação de trincas e sua rápida propagação pelo corpo-de-prova.
Isto se traduz em menores valores de energia absorvida durante o impacto.
É válido ressaltar que durante a realização do ensaio existem perdas que não são
computadas nos dados finais. Tais perdas estão relacionadas, desde ao atrito do ar com o
martelo, até perdas devido ao calor e ao som. Essas dissipações não são medidas com certa
facilidade, razão pela qual, são desprezadas, até mesmo, devido ao seu baixo poder de
influência sobre os dados dos resultados.

5. Conclusão

O ensaio Charpy foi o método utilizado por ser bastante eficaz na investigação da
tenacidade ou a fragilidade do material sob condições definidas. Após o experimento pode-se
inferir que a temperatura de transição não divide necessariamente, em partes simétricas, a
faixa entre a temperatura mínima e máxima de transição.
Para temperaturas elevadas, o material apresentou características dúcteis, comprovadas
pela observação da superfície de ruptura pela presença de aspecto fibroso e coloração escura.
Enquanto isso, para temperaturas baixas, o material apresentou características frágeis,
confirmadas pela refletividade da luz incidente na superfície de ruptura e pela diferença do
ruído provocado pelo impacto (mais agudo);
Finalmente, pode-se concluir que este aço não apresenta características muito boas para
aplicação prática na temperatura ambiente, pois, sendo a temperatura de transição média igual
a 26 °C, o aço apresenta uma porcentagem de característica frágil, estando sujeito a provocar
falhas. Seria ideal que a temperatura de transição fosse mais baixa, para que o material
apresentasse maiores características dúcteis, prevenindo sua fratura catastrófica em possíveis
aplicações.

6. Bibliografia

[1] GARCIA, A.; SPIM, J. A.; SANTOS, C. A. Ensaios dos Materiais. Rio de Janeiro: LTC, 2000.

[2] CALLISTER, W. D.; RETHWISCH, D. G. Ciência e Engenharia de Materiais: Uma Introdução.


Rio de Janeiro: LTC, 2013.

[3] SOUZA, S. A. Ensaios Mecânicos de Materiais Metálicos: Fundamentos Teóricos e Práticos. São
Paulo: Edgard Blücher, 1982.

[4] GOUVEIA, KÁtia Cristina . INVESTIGAÇÃO DOS MÉTODOS DE DETERMINAÇÃO DA


TEMPERATURA DE TRANSIÇÃO DÚCTIL-FRÁGIL (TTDF) UTILIZANDO ENSAIO DE
IMPACTO CHARPY. 2014. 160 f. Tese (Doutorado) - Curso de Engenharia Mecânica, Centro
UniversitÁrio da Fei, São Bernardo do Campo, 2013. Disponível em:
<http://fei.edu.br/~rodrmagn/mestrado/2013/KCG.pdf>. Acesso em: 10 jul. 2015.