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Mecânica Quântica

José Roberto Pinheiro Mahon

Rio de Janeiro

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Mecânica Quântica
(primeira versão)

José Roberto Pinheiro Mahon


Instituto de Física Armando Dias Tavares
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, 2009

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A meus pais, José e Zélia.


A Geisa.

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Prefácio

A Mecânica Quântica é, ao lado da Relatividade, um dos pilares fun-


damentais da Física Moderna. Este texto é baseado em um curso de
graduação, para estudantes avançados, e de pós-graduação em Mecânica
Quântica que ministrei nos últimos anos no Instituto de Física da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é uma exposição
básica e com uma abordagem moderna da Teoria Quântica.
O objetivo do texto é apresentar a Mecânica Quântica de uma forma
moderna, incluindo vários exemplos atuais e suas aplicações, que deverá
ser útil aos estudantes que irão utilizá-lo.
Os tópicos introduzidos são tratados de forma compreensiva, procu-
rando-se expor claramente as deduções dos principais resultados. Es-
pera-se que o estudante tenha familiaridade com o material básico de
um Curso de Estrutura da Matéria e Mecânica Analítica (nível de grad-
uação), bem como de Álgebra Linear e de Física Matemática abordados
nos cursos de Física.
Os temas da Mecânica Quântica tratados nesse texto foram di-
vididos em dezesseis capítulos assim distribuídos: Introdução aos Con-
ceitos Fundamentais, A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Op-
eradores, Aplicações da Equação de Schrödinger, Aproximação WKB,
Formalismo da Mecânica Quântica, Dinâmica Quântica, Propagadores
e Integrais de Caminho de Feynman, Potenciais Centrais e Momen-
tum Angular, Espalhamento, Rotações o Operadores Tensoriais, Matriz
Densidade, Simetrias e Leis de Conservação, Teoria das Perturbações
Estacionárias, Teoria das Perturbações Dependente do Tempo, Teoria
Formal do Espalhamento e Partículas Idênticas.
Desejo agradecer aos estudantes que proporcionaram a motivação

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8 Prefácio

para escrever este texto. Em especial André Calvet solucionando prob-


lemas em teoria de perturbação e colisões, Ana Thereza Bastos Garcia
da Rosa desenvolvendo através das integrais de caminho o problema do
oscilador harmônico forçado, Diego Figueiredo colaborando com efeito
Aharonov-Bohm e Alan Guzmán colaborando com teoria de gauge e
monopolos magnéticos.
Agradeço também aos colegas do Instituto que incentivaram na
preparação deste trabalho. Em especial os Profs. José Umberto Cinelli
Lobo de Oliveira e Vitor Oguri, pelas valiosas sugestões, discussões de
aspectos fundamentais, conceituais e da matemática usada na Mecânica
Quântica. Nossas longas conversas foram um grande estimulo para re-
alização desse texto.

UERJ, Rio de Janeiro


J. R. Mahon

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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Prefácio 9

Mecânica Quântica

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10 Prefácio

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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Sumário

Prefácio 7

1 Introdução aos Conceitos Fundamentais 17


1.1 Radiação do Corpo Negro . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
1.2 Calor Específico dos Sólidos . . . . . . . . . . . . . . . . 18
1.3 Efeito Fotoelétrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
1.4 Efeito Compton . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
1.5 Espectros Atômicos e Séries Espectrais . . . . . . . . . . 21
1.6 O Modelo de Bohr para o Átomo de Hidrogênio . . . . . 22
1.7 Experiência de Franck-Hertz . . . . . . . . . . . . . . . . 24
1.8 Regras de Quantização de Wilson-Sommerfeld . . . . . . 25
1.9 Mecânica Quântica Matricial . . . . . . . . . . . . . . . 26
1.10 Postulados de de Broglie . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
1.11 Interferência Em um Sistema de Duas Fendas . . . . . . 33
1.12 O princípio da Superposição . . . . . . . . . . . . . . . . 36
1.13 O Princípio da Incerteza . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
1.14 Pacotes de Onda e Relação de Incerteza . . . . . . . . . 38
1.15 Princípio da Complementaridade . . . . . . . . . . . . . 40
1.16 Equação de Onda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
1.17 Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44

2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores 47


2.1 A Equação de Onda e a Interpretação de ψ . . . . . . . 47
2.2 Conservação da Probabilidade . . . . . . . . . . . . . . . 49
2.3 Normalização da Função de Onda . . . . . . . . . . . . . 51

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12 Sumário

2.4 Equação de Onda – Sistemas Estacionários . . . . . . . 53


2.5 Estados não-estacionários . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
2.6 Ortogonalidade dos Auto-Estados . . . . . . . . . . . . . 56
2.7 Valor Esperado – Espaço de Coordenada e Momentum . 58
2.8 Operadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
2.9 Adição e Multiplicação de Operadores . . . . . . . . . . 68
2.10 A Derivada Temporal de um Operador . . . . . . . . . . 69
2.11 Teorema de Ehrenfest . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
2.12 Teorema Virial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
2.13 Comutadores e Regras de Comutação . . . . . . . . . . . 74
2.14 Operadores Unitários - Operador Deslocamento . . . . . 78
2.15 Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80

3 Aplicações da Equação de Schrödinger 81


3.1 A Função Delta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
3.2 Analogia entre a Quântica e a Óptica . . . . . . . . . . . 85
3.3 Potencial Degrau - Barreira de Potencial . . . . . . . . . 86
3.4 Barreira de Potencial Retangular . . . . . . . . . . . . . 92
3.5 Poço Quadrado Unidimensional . . . . . . . . . . . . . . 100
3.6 Potencial Delta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108
3.7 Potenciais Periódicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109
3.8 Oscilador Harmônico Linear . . . . . . . . . . . . . . . . 114

4 Aproximação WKB 123


4.1 Aproximação Semiclássica . . . . . . . . . . . . . . . . . 123
4.2 A Aproximação de Wentzel, Kramers e Brillouin . . . . 126
4.3 Fórmulas de Conexão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
4.4 Aplicação WKB para Barreira de Potencial . . . . . . . 137
4.5 Aplicação WKB para Estados Ligados . . . . . . . . . . 141
4.6 Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145

5 Formalismo da Mecânica Quântica 147


5.1 Experimento de Stern-Gerlach . . . . . . . . . . . . . . 147
5.2 Notação de Dirac - Bra e Ket . . . . . . . . . . . . . . . 151
5.3 Operadores Lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156
5.4 Base dos Kets e Representação Matricial . . . . . . . . 159
5.5 Mudança de Base - Transformação Unitária . . . . . . . 167
5.6 Observáveis e Relação da Incerteza . . . . . . . . . . . . 171
5.7 Posição, Momentum e Translação . . . . . . . . . . . . . 176

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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Sumário 13

5.8 Aplicações no Experimento de Stern-Gerlach . . . . . . 180


5.9 Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 187

6 Dinâmica Quântica 189


6.1 Evolução Temporal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 189
6.2 Derivação da Equação de Schrödinger . . . . . . . . . . 191
6.3 Solução Formal para U(t, t0 ) . . . . . . . . . . . . . . . 191
6.4 Dependência Temporal do Valor Esperado . . . . . . . . 193
6.5 Representações de Schrödinger, Heisenberg e Interação . 196
6.6 Precessão do Spin . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201
6.7 Ressonância Magnética . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205
6.8 Oscilador Harmônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 208
6.9 Evolução Temporal do Oscilador Harmônico . . . . . . . 219
6.10 Estados Coerentes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 220
6.11 Equação de Onda de Schrödinger . . . . . . . . . . . . . 225
6.12 Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 226

7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman 229


7.1 Propagadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 229
7.2 Evolução da Amplitude de Transição . . . . . . . . . . . 234
7.3 Integrais de Caminho de Feynman . . . . . . . . . . . . 235
7.4 Aproximação Semiclássica . . . . . . . . . . . . . . . . . 238
7.5 Oscilador Harmônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 242
7.6 Oscilador Harmônico Forçado . . . . . . . . . . . . . . . 248
7.7 Efeito Aharonov-Bohm . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248
7.8 Monopolos Magnéticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 252
7.9 Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 257

8 Potenciais Centrais e Momentum Angular 259


8.1 Momentum Angular Orbital . . . . . . . . . . . . . . . . 259
8.2 Energia Cinética e Momentum Angular . . . . . . . . . 263
8.3 Problema de Autovalores do Momentum Angular . . . . 264
8.4 Autofunções do Momentum Angular . . . . . . . . . . . 272
8.5 Harmônicos Esféricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 276
8.6 Redução do Problema de Força Central . . . . . . . . . 284
8.7 Partícula Livre como Problema de Força Central . . . . 287
8.8 Ondas Planas em Termos dos Harmônicos Esféricos . . . 291
8.9 Caixa Esférica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 293
8.10 Potencial de Coulomb - Átomo de Hidrogênio . . . . . . 295

Mecânica Quântica

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14 Sumário

8.11 Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 305

9 Espalhamento 307
9.1 Amplitude de Espalhamento . . . . . . . . . . . . . . . . 308
9.2 Seção de Choque Diferencial . . . . . . . . . . . . . . . . 310
9.3 Método de Ondas Parciais . . . . . . . . . . . . . . . . . 312
9.4 Teorema Óptico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 321
9.5 Espalhamento Elástico e Inelástico . . . . . . . . . . . . 322
9.6 Espalhamento Ressonante . . . . . . . . . . . . . . . . . 325
9.7 Efeito Ramsauer-Townsend . . . . . . . . . . . . . . . . 327
9.8 Espalhamento - Função de Green . . . . . . . . . . . . . 328
9.9 Aproximação de Born . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 331
9.10 Aproximação Eikonal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 335
9.11 Espalhamento de Partículas Idênticas . . . . . . . . . . 338
9.12 Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 339

10 Rotações o Operadores Tensoriais 341


10.1 Rotações e Momentum Angular . . . . . . . . . . . . . . 341
10.2 Sistema de Spin 21 e Rotações Finitas . . . . . . . . . . 346
10.3 Formalismo de Pauli . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 350
10.4 Os Grupos SO(3), SU (2) . . . . . . . . . . . . . . . . . 354
10.5 O Grupo SU (3) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 360
10.6 Rotações de Euler . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 362
10.7 Rotações e Momentum Angular - Parte 2 . . . . . . . . 365
10.8 Adição de Momentum Angular . . . . . . . . . . . . . . 369
10.9 Teorema de Wigner-Eckart . . . . . . . . . . . . . . . . 383
10.10Não-Localidade na Mecânica Quântica . . . . . . . . . . 388
10.11Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 396

11 Matriz Densidade 397


11.1 Operador Matriz Densidade . . . . . . . . . . . . . . . . 399
11.2 Matriz Densidade - Sistemas de spin- 12 . . . . . . . . . . 404
11.3 Evolução Temporal de um Sistema . . . . . . . . . . . . 407
11.4 Sistemas de dois níveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 409
11.5 Polarização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 414
11.6 Precessão do Vetor Polarização . . . . . . . . . . . . . . 415
11.7 Polarização e Espalhamento . . . . . . . . . . . . . . . . 417
11.8 Mecânica Estatística Quântica . . . . . . . . . . . . . . 420
11.9 Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 425

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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Sumário 15

12 Simetrias e Leis de Conservação 427


12.1 Simetrias na Física Clássica e Quântica . . . . . . . . . 427
12.2 Invariância Temporal e Energia . . . . . . . . . . . . . . 429
12.3 Invariância Espacial e Momentum Linear . . . . . . . . 430
12.4 Invariância Rotacional e Momentum Angular . . . . . . 431
12.5 Simetria Discreta, Paridade ou Inversão Espacial . . . . 432
12.6 Poço Duplo Simétrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 437
12.7 Simetria Discreta, Inversão Temporal . . . . . . . . . . . 442
12.8 Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 448

13 Teoria das Perturbações Estacionárias 449

14 Teoria das Perturbações Dependente do Tempo 451

15 Teoria Formal do Espalhamento 453

16 Partículas Idênticas 455


16.1 Princípio da Indistinguibilidade . . . . . . . . . . . . . . 455
16.2 Operadores de Permutação . . . . . . . . . . . . . . . . 459
16.3 Alguns Efeitos Observados Devidos à Indistinguibilidade 461
16.4 Correlação Espacial entre as Partículas . . . . . . . . . . 463
16.5 Átomo de Hélio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 466
16.6 Tabela Periódica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 469
16.7 Segunda Quantização - Bósons . . . . . . . . . . . . . . 472
16.8 Segunda Quantização - Férmions . . . . . . . . . . . . . 479
16.9 Espalhamento de Partículas Idênticas - Parte 2 . . . . . 481
16.10Comentários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 483

Lista de Figuras 487

Referências 491

Índice Remissivo 495

Mecânica Quântica

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Capítulo 1

Introdução aos Conceitos


Fundamentais

A Mecânica Quântica é um tratamento teórico na qual podemos descr-


ever, relacionar e prever vasto campo de sistemas físicos, desde partícu-
las através do núcleo, átomos e radiação até moléculas e matéria con-
densada. Esta disciplina é um dos pilares da física contemporânea.
A Mecânica Quântica se aplica a sistemas microscópicos, aonde a
Mecânica Clássica perde a validade, como por exemplo a dualidade
onda-partícula ou partícula-onda. A descrição quântica é de tal natureza
que dá margem, em particular, a que um mesmo sistema físico tenha
comportamento contraditório em situações observáveis diferentes, no-
vamente usamos o exemplo do comportamento ondulatório e do com-
portamento corpuscular.
Não é possível deduzir a Mecânica Quântica de noções ou esquemas
clássicos, nem tão pouco construí-la como uma extensão da Mecânica
Clássica. O objetivo deste Capítulo é apresentar uma introdução aos
conceitos fundamentais da Mecânica Quântica.

1.1 Radiação do Corpo Negro


Em 1900, supondo que a emissão de energia sob forma da radiação
eletromagnética (considerado como um oscilador harmônico) de fre-
qüência ν por um corpo negro estivesse associado a pacotes discretos
("quantum de energia") de grandeza hν, Max Planck 1 deduziu para
1
Karl Ernst Ludwig Max Planck (1858–1947), físico alemão.

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18 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

a radiação de corpo negro a distribuição espectral 2

8πν 2 hν
ρν = 3 hν
. (1.1)
c exp kT −1

onde ρν dν é a energia da radiação do corpo negro à uma temperatura


T , por unidade de volume, com freqüência entre ν e ν + dν. Essa dis-
tribuição concorda extremamente bem com os resultados experimentais,
utilizando um valor conveniente para a constante de Planck h. Essa
hipótese contradiz profundamente o que se poderia esperar a partir da
Mecânica e da Eletrodinâmica Clássicas.
Devemos mencionar ainda um importante detalhe nessa teoria. De
acordo com sua hipótese, um oscilador harmônico pode ter energias que
são múltiplas de uma quantidade fixa, hν: E = 0, hν, 2hν,    , nhν,    .
A emissão (e a absorção) de radiação pelo oscilador ocorre somente
quando ele "salta" de um estado de energia para um outro vizinho.
Passando do estado de energia nhν para um imediatamente abaixo,
(n − 1)hν, o oscilador perde uma quantidade de energia hν que é emi-
tida na forma de "pulso" de radiação. Quando o oscilador passa de um
estado de energia hν para um imediatamente acima, (n + 1)hν, uma
quantidade de energia hν é absorvida pelo oscilador. Essas idéias (prin-
cipalmente a de absorção) não eram ainda muito claras quando Planck
postulou sua teoria, pois ele não havia incluído a quantização da en-
ergia radiante (o fóton), que seria introduzida mais tarde por Albert
Einstein 3 .

1.2 Calor Específico dos Sólidos


Um outro sistema em que a hipótese de Planck foi inicialmente aplicada,
foi o caso do calor específico dos sólidos. Einstein, em 1907 4 , usou o
resultado de Planck para a energia média de um conjunto de osciladores,
considerando os átomos do sólido como um conjunto de 3N osciladores
de Planck unidimensionais com freqüência ν, sendo portanto a energia
2
M. Planck, Verhandlungen der Deutschen Physikalishen Gesellschaft v.2, 202–204
(1900); M. Planck, Verhandlungen der Deutschen Physikalishen Gesellschaft v.2,
237–245 (1900); M. Planck, Annalen der Physik, Ser. 4 1, 69–122 (1900).
3
Albert Einstein (1879–1955), físico alemão.
4
A. Einstein, Annalen der Physik, Ser. 4, 22, 180–190 (1907).

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1.3. Efeito Fotoelétrico 19

média por mol dada por:



U = 3N hEi = 3N hν
(1.2)
exp kT −1

resultando imediatamente que


µ ¶2 hν
∂U hν exp kT
Cv = = 3N k ¡ ¢2 . (1.3)
∂T kT hν
exp kT −1

Para hν ¿ kT essa expressão reproduz o resultado "clássico" 3N k con-


hecido como lei de Dulong e Petit 5 , mas diverge dele para tem-
peraturas baixas (na escala hν/k), indo a zero no limite T → 0. Esse
comportamento reproduz razoavelmente os valores medidos de Cv para
diversos sólidos, mediante um ajuste do valor de ν para cada caso.

1.3 Efeito Fotoelétrico


Por volta de 1887, H. Hertz 6 realizava a série de experimentos com
os quais demonstrou a existência das ondas eletromagnéticas, quando
observou que no receptor das ondas eletromagnéticas, a energia eletro-
magnética capturada pelo sistema era utilizada para produzir a faisca
nas correspondentes pontas (do receptor). Utilizando vários obstáculos
colocados entre as pontas dos aparelhos, como papelão, vidro e quartzo,
observou que o vidro, diferentemente do quartzo, afetava a distância
máxima e concluiu, corretamente, que o efeito era causado pela incidên-
cia, nas pontas do receptor, de luz ultravioleta produzida na descarga
do transmissor. Este fenômeno é conhecido como efeito fotoelétrico:
a luz ultravioleta (ou radiações mais energéticas como raios X e raios
gama) incidindo num metal faz com que elétrons sejam ejetados da
superfície metálica.
Em 1905 7 , Albert Einstein, utilizando, de uma forma mais geral, as
idéias de Planck para a energia dos osciladores na cavidade do corpo ne-
gro, conseguiu explicar as propriedades observadas no efeito fotoelétrico.
5
Pierre Louis Dulong (1785–1838), físico francês;
Alexis Thérèse Petit (1791–1820), físico francês;
A. T. Petit; P. L. Dulong, Annales de Chimie et de Physique [2], 10, 395–413
(1819).
6
Heinrich Rudolph Hertz (1857–1894), físico alemão.
7
A. Einstein, Annalen der Physik (Leipzig), 17, 132–148 (1905).

Mecânica Quântica

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20 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

Planck, em sua demonstração, se restringiu à quantização da energia


para o caso dos osciladores (elétrons) nas paredes da cavidade. As on-
das no interior da cavidade (produzida pelos elétrons oscilando) eram
quantizadas em decorrência disso. Einstein, ao invés disso, considerou
que a própria energia radiante era quantizada, sendo portanto consti-
tuída de corpúsculos, cada um portanto uma quantidade fixa de en-
ergia. Os fenômenos usuais não permitiam observar essa característica
devido ao enorme número de fótons normalmente associado à energia
radiante (assim como um líquido aparenta ser um fluido contínuo e não
formado por elementos discretos). É interessante notar, que antes da
descoberta da difração da luz, Newton 8 desenvolveu um modelo cor-
puscular para a luz, que no entanto não corresponde às idéias de
Einstein, principalmente porque seu modelo não previa a difração da
luz (fenômeno tipicamente ondulatório). Para explicar a difração e a
interferência, Einstein supôs que as partículas de luz (fótons) não se
movem como partículas usuais, mas que se propagam com intensidades
médias dada pela amplitude da onda eletromagnética associada, dada
pelo modelo ondulatório. O caráter corpuscular seria manifestado ape-
nas no processo de interação da radiação eletromagnética com a matéria
(na emissão e absorção). Seguindo as idéias de Planck, associou à ra-
diação de freqüência ν, com fótons de energia E = hν. A intensidade
de luz é agora dada pelo número de fótons emitidos por unidade de
tempo. Supôs também, que no efeito fotoelétrico, um único fóton in-
terage com um elétron, sendo completamente absorvido por este, que
após a interação terá uma energia cinética Eco = hν
Após receber esta energia pela interação com o fóton, o elétron deve
ainda perder alguma energia até escapar da superfície do metal. A en-
ergia cinética do elétron ejetado do metal será portanto:

Ec = Eco − W = hν − W , (1.4)

onde W é a função trabalho realizado para arrancar o elétron do


metal. Com essa teoria, Einstein explicou o fenômeno do efeito fo-
toelétrico, até então não entendido na física moderna, mostrando um
comportamento de dualidade onda-partícula para os fótons.

8
Isaac Newton (1642–1727), matemático, físico e filósofo inglês.

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1.4. Efeito Compton 21

1.4 Efeito Compton


A observação do espalhamento Compton só foi possível após a de-
scoberta dos raios X e do enorme interesse em seu estudo que se seguiu
após a descoberta. Em 1918, Arthur H. Compton 9 iniciou uma série
de experimentos visando o estudo do espalhamento de raios X. Esses
experimentos o levaram a descobrir, em 1923 10 , um importante efeito,
hoje conhecido como efeito Compton, que não tem explicação dentro
da teoria clássica da radiação eletromagnética. É interessante notar
que aqui também temos o comportamento dual onda-partícula dos fó-
tons, pois os fótons interagem com a matéria e produzem uma colisão
com o comportamento de matéria-matéria. A explicação é dada fazendo
uso da teoria de Planck para a energia dos fótons.

1.5 Espectros Atômicos e Séries Espectrais


A partir de 1880, o estudo dos espectros da radiação visível emitida
por chamas e posteriormente por descargas produzidas em gases ou em
vapores metálicos tomou um grande impulso. Os espectros atômicos,
tanto na região visível, quanto na do infravermelho e do ultravioleta,
têm enorme importância ainda nos dias atuais, principalmente por sua
aplicação em processos de análise de composição de materiais, com-
posição da matéria estrelar, etc., dada a enorme precisão com que se
pode determinar os comprimentos de onda da radiação (λ) emitida pelos
átomos.
Embora os espectros observados sejam relativamente complexos,
com um número muito grande de raias, elas podem em muitos casos
ser classificadas em grupos, de acordo com suas características princi-
pais. No espectro do hidrogênio, por exemplo, o mais simples de todos,
dado que o hidrogênio é também o átomo mais simples, duas séries eram
conhecidas. Uma na faixa do visível e ultravioleta próximo e outra, ob-
servada posteriormente, na região do ultravioleta (hoje são conhecidas
cinco séries distintas no espectro do hidrogênio, as outras três na região
do infravermelho). Nos espectros dos materiais alcalinos, como o só-
dio, as raias mais intensas eram classificadas em três séries: a nítida
(sharp), a principal e a difusa (s, p e d). Logo que essas regularidades
9
Arthur Holly Compton (1892–1962), físico americano.
10
A. H. Compton, Physical Review, 21 n.5, 483–502 (1923).

Mecânica Quântica

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22 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

foram identificadas, iniciou-se uma busca para a origem dessa ordem.


Em 1885, Balmer 11 descobriu as raias da série do visível do átomo de
hidrogênio 12 . Em 1889, Rydberg 13 encontrou a formulação geral 14 .
µ ¶
1 1 1
k= =R −
λ (m − a)2 (n − b)2
onde R é a constante de Rydberg. Para as três primeiras séries do
espectro do átomo de hidrogênio, temos:
µ ¶
1 1
k=R −
12 n2
para n = 2, 3, 4,    , conhecida como série de Lyman15 (m = 1),
µ ¶
1 1
k=R 2
− 2
2 n
para n = 3, 4, 5,    , conhecida como série de Balmer (m = 2), e
µ ¶
1 1
k=R 2
− 2
3 n
para n = 4, 5, 6,    , conhecida como série de Paschen 16 (m = 3).
Para os átomos dos elementos alcalinos como Li, Na, K, as constantes
a e b são não nulas (são conhecidas como defeito quântico).

1.6 O Modelo de Bohr para o Átomo de


Hidrogênio
Em 1911, Niels Bohr 17 foi à Inglaterra para uma visita científica, ini-
cialmente ao Laboratório Cavendish (com J. J. Thomson 18 ) e posterior-
mente à Universidade de Manchester onde trabalhou com Rutherford 19
11
Johann Jakob Balmer (1825–1898), matemático e físico suíço.
12
J. J. Balmer, Verhandlungen der Naturforschenden Gesellschaft Basel, 7, 548–560
(1885); Idem, p. 750; J. J. Balmer, Annalen der Physik und Chemie, Ser. 3, 25 n.
5, 80–87 (1885).
13
Johannes Robert Rydberg (1854–1919), físico sueco.
14
J. R. Rydberg, Den Kongliga Sven ska Vetenskaps Akademiens Handlingar, 23,
11 (1889).
15
Theodore Lyman (1874–1954), físico americano.
16
Friedrich Paschen (1865–1947), físico alemão.
17
Niels Henrik David Bohr (1885–1962), físico dinamarquês.
18
Joseph John Thomson (1856–1940), físico inglês.
19
Ernest Rutherford (1871–1937), físico neozelandês.

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1.6. O Modelo de Bohr para o Átomo de Hidrogênio 23

e seu grupo. Embora sendo um teórico, Bohr acompanhou de perto os


trabalhos desenvolvidos por Geiger 20 e Marsden 21 com espalhamento
de partículas α 22 , bem como o desenvolvimento do modelo do átomo
nuclear proposto por Rutherford 23 : uma carga central (positiva), pe-
sada, é circundada por uma distribuição muito mais extensa e leve de
carga de sinal oposto (negativa). No caso do átomo de hidrogênio temos
um próton e um elétron, respectivamente.
Assim, cerca de dois anos depois, introduzindo idéias revolucionárias
em relação à física clássica, Bohr conseguiu desenvolver um modelo sim-
ples que garantia as características observadas no modelo de Ruther-
ford, dava estabilidade ao átomo e previa as séries espectrais observadas
para o átomo de hidrogênio, determinando portanto a origem das séries
empíricas de Balmer e Rydberg.
O chamado modelo de Bohr 24 pode ser expresso em termos dos
postulados, conhecido como postulados de Bohr :

1. No átomo, o elétron se move em órbitas circulares, cujo movi-


mento é descrito em termos das leis gerais da mecânica e da elet-
rostática, com a limitação de que apenas algumas órbitas são pos-
síveis, sendo essas determinadas pela imposição de que o momento
angular do elétron deve ser um múltiplo inteiro de h/2π.

2. Enquanto descreve o movimento acelerado em sua órbita, o elétron


não irradia energia como prevê a teoria eletromagnética clássica.

3. O elétron pode saltar de uma órbita para outra. Se ele "salta" es-
pontaneamente de uma órbita em que sua energia total é Ei para
uma outra órbita de energia menor Ef , a energia perdida é emi-
tida na forma de radiação, cuja freqüência é dada pela relação
ν = (Ei − Ef )/h.

Entretanto, há implícita no trabalho de Bohr uma série de outras


hipóteses que valem mencionar:
20
Hans Geiger (1882–1945), físico alemão.
21
Ernest Marsden (1889–1970), físico neozelandês.
22
H. Geiger and E. Marsden, Philosophical Magazine, 25, n. 148, 604–623 (1913).
23
E. Rutherford, Philosophical Magazine, 21, 669–688 (1911); E. Rutherford, Na-
ture, 92, n. 2302, 423 (1913); E. Rutherford, Philosophical Magazine, 27, n. 158,
488–498 (1913).
24
N. Bohr, Philosophical Magazine S. 6, 26, n. 151, 1–25 (1913); Ibidem, 476–502;
Ibidem, 857–875.

Mecânica Quântica

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24 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

1. Os átomos produzem as linhas espectrais uma de cada vez.


2. O átomo de Rutherford oferece uma base satisfatória para os cál-
culos exatos dos comprimentos de onda das linhas espectrais.
3. A produção dos espectros atômicos é um fenômeno quântico.
4. Um simples elétron é o agente desse processo.
5. Dois estados distintos do átomo estão envolvidos na produção de
uma linha espectral
6. A relação E = hν, correlacionando a energia e a freqüência da
radiação, é valida para a emissão como para a absorção.
Um cálculo simples realizado para o átomo de hidrogênio, dá para
a energia dessas órbitas circulares, em termos do número quântico n,
onde µ é a massa do elétron,
2π 2 µe4
En = − . (1.5)
n2 h2
Essa formula obteve grande sucesso na explicação dos espectros atômi-
cos. Átomos alcalinos como o Li e o Na, podem ter seus primeiros
níveis de energia dados pelo modelo de Bohr em forma aproximada
(introduzindo os tais defeitos quânticos, como mostrado na fórmula de
Rydberg).
Além disso, Bohr está fornecendo a chave para a formulação da
Mecânica Quântica Matricial de Heisenberg 25 , Born 26 e Jordan 27 .

1.7 Experiência de Franck-Hertz


Embora o modelo atômico de Bohr tivesse um sucesso muito grande,
dado a exatidão de suas previsões para os espectros atômicos, não havia
outra indicação de que realmente os estados de energia do átomo eram
quantizados. Em uma experiência muito simples, realizada em 1914 por
James Franck 28 e Gustav Hertz 29 , o modelo de Bohr, ou mais precisa-
mente a quantização dos estados de energia do átomo foi comprovada
25
Werner Karl Heisenberg (1901–1961), físico alemão.
26
Max Born (1882–1970), físico e matemático alemão.
27
Ernest Pascual Jordan (1902–1980), físico alemão.
28
James Franck (1882–1964), físico alemão.
29
Gustav Hertz (1887–1975), físico alemão.

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1.8. Regras de Quantização de Wilson-Sommerfeld 25

por um processo puramente mecânico - o espalhamento inelástico de


elétrons por átomos de mercúrio.

1.8 Regras de Quantização de


Wilson-Sommerfeld
O impressionante acordo entre as previsões do modelo de Bohr e os re-
sultados experimentais determinaram seu imediato sucesso. Entretanto,
do ponto de vista de uma estrutura organizada do conhecimento como se
conhecia com a Mecânica Clássica e o Eletromagnetismo, a situação da
chamada "física quântica" era bem caótica. Planck havia postulado a
quantização da energia de um oscilador (E = nhν), Bohr, com seu mod-
elo, introduziu a quantização do momento angular L = nh/2π, fazendo
com que as energias das órbitas atômicas fossem também quantizadas,
mas com uma relação diferente daquela encontrada por Planck.
Uma ordenação parcial desse conjunto de novas idéias aparente-
mente desconexas foi introduzida em 1916, por Wilson 30 e Sommer-
feld 31 . Então foi enunciada o postulado que ficou conhecido como a
regra de quantização de Wilson-Sommerfeld 32 :
Para qualquer sistema físico com movimento periódico, sendo ~p o
momentum associado à coordenada de posição ~q, tem-se a relação,
I
p dq = nq h . (1.6)

A integral acima já era conhecida da Mecânica Clássica e é chamada


integral de ação ou simplesmente ação. As variáveis q e p são por ex-
emplo x e px , no caso de um oscilador harmônico, usando a regra de
quantização de Wilson-Sommerfeld, temos

E = nhν ,

que é a relação de Planck. Mas as variáveis q e p podem ser ϕ e L,


no caso de uma partícula descrevendo um movimento circular, através
30
William Wilson (1875–1965), físico inglês.
31
Arnold Johannes Wilhelm Sommerfeld (1868–1951), físico alemão.
32
W. Wilson, Philosophical Magazine S. 6, 24, n. 173, 795–802 (1916); Ibidem 31,
156 (1916); A. Sommerfeld, Annalen der Physik, 51, n. 17, 1–94 (1916); Ibidem
n. 18, 125–167; A. Sommerfeld, Physikalische Zeitschrift, 17, 491–507 (1916).

Mecânica Quântica

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26 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

da regra de quantização de Wilson-Sommerfeld, analogamente podemos


obter a relação de Bohr,

h
L=n = n~ .

Essas regras de quantização propiciaram por exemplo a obtenção,
pelo próprio Sommerfeld, da chamada constante de estrutura fina para
os espectros atômicos. Espectros atômicos de alta resolução mostravam
que algumas linhas eram na verdade duplas ou triplas, detalhes que
são conhecidos como estrutura fina dos espectros. Sommerfeld admitiu
a possibilidade de órbitas elípticas de diferentes excentricidades. Uti-
lizando expressões relativísticas, uma vez que em órbitas de alta excen-
tricidades os elétrons têm velocidades muito maiores ao passar próximo
ao núcleo, Sommerfeld obteve para a chamada constante de estrutura
fina 33 :
e2
α= .
~c
Embora a regra de quantização de Wilson-Sommerfeld fosse ainda
muito limitada (só é válida para sistemas com movimento periódico),
foi um avanço na compreensão dos sistemas físicos de pequenas dimen-
sões. Uma relação entre os resultados clássicos e os da teoria quântica
foi ainda introduzida por Bohr, por volta de 1923, segundo a qual "As
previsões da teoria quântica devem corresponder aos resultados das teo-
rias clássicas no limite de grandes números quânticos", conhecido como
Princípio de Correspondência.

1.9 Mecânica Quântica Matricial


Em 1925, Heisenberg deu os passos decisivos para a construção de uma
teria quântica completa, com base em dois pontos centrais: o primeiro
é que a mecânica clássica não é válida na escala atômica; o segundo
consiste que o princípio de correspondência de Bohr é uma condição
fundamental para a nova teoria 34 .
33
Recentemente, observações de detalhes de espectros atômicos produzidos por
galáxias distantes, mostraram uma constante de estrutura fina ligeiramente difer-
ente da que conhecemos, indicando que as constantes fundamentais podem variar
no tempo. Esses resultados precisam ainda ser confirmados
34
W. Heisenberg, Zeitschrift für Physik, 33, 879–893 (1925).

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1.9. Mecânica Quântica Matricial 27

O caminho seguido por Heisenberg foi reter a equação de movimento


clássica
d2 q
µ 2 − f (q) = 0 , (1.7)
dt
o que significa reter de certo modo o esquema dinâmico formal da
mecânica clássica, mas sem interpretar q(t) como uma função do tempo
com o significado de posição. O Heisenberg propõe é que q(t) deva ser
visto em geral como um objeto associado à quantidades atômicas ob-
serváveis, como proposto por Bohr.
Assim, no caso de um movimento clássico, periódico, é possível obter
elementos de freqüência bem definida expandindo q(t) em séries de
Fourier 35 , e que satisfaz uma condição de quantização. Dessa forma a
expansão de Fourier aparece como

X
q(n, t) = qk (n) ei kωn t , (1.8)
k=−∞

em que o número quântico n provém da condição de quantização da


ação, ver equação (1.6). Aqui interpretamos que as freqüências obser-
vadas são as freqüências de Bohr associadas a transições entre dois esta-
dos 36 estacionários, Heisenberg substitui, portanto, kωn → ω(n, n − k)
e qk (n) → q(n, n − k), nas quais as freqüências de Bohr será entre dois
estados estacionários n e n − k = m. Assim,

ω(n, m) = (En − Em )
h
e as amplitudes q(n, m) são entendidas como estando associadas tam-
bém a essas transições entre n e n − k = m. Logo

qk (n) ei kωn t → q(n, n − k) ei ω(n,n−k)t .

Para o momentum p(t) = µq̇(t), e usando os mesmos argumentos, en-


contraremos
X∞
p(n, t) = pk (n) ei kωn t ,
k=−∞

35
Jean Baptiste Joseph Fourier (1768–1830), matemático francês.
36
Conjuntos de quantidades físicas são denominados conjuntos completos de ob-
serváveis compatíveis. Um conjunto completo fornece uma descrição máxima do
sistema, e portanto, caracteriza um estado do sistema.

Mecânica Quântica

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28 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

com pk (n) = i µkωn qk (n), o que nos leva à substituição

pk (n) → p(n, n − k) = i µω(n, n − k) q(n, n − k) .

Uma classe importante de variáveis dinâmicas a ser considerada é a


que envolve produtos de q(t) e p(t), exemplo q 2 (t), p2 (t), p(t)q(t) etc.
Assim
X∞
2
qn (t) = Qk (n) ei kωn t
k=−∞

pode ser facilmente relacionada com a expansão correspondente de q(t)


usando a regra de composição das freqüências que dá

X
Qk (n) = qk−l (n)ql (n) . (1.9)
l=−∞

Fazendo agora as devidas substituições Qk (n) → Q(n, n − k) e kωn →


ω(n, n − k), e tendo em conta a regra de composição das freqüências
quânticas
ω(n, n − k) = ω(n, n − l) + ω(n − l, n − k) (1.10)
teremos que a tradução quântica natural da equação (1.9) é dada por

X
Q(n, n − k) = q(n, n − l)q(n − l, n − k) . (1.11)
l=−∞

Uma característica dessa regra de multiplicação quântica é que o


produto de variáveis dinâmicas diferentes, q(t) e p(t), deve ser visto em
geral como não comutativo, i.e., [q p](t) 6= [p q](t).
Resta agora determinar as freqüências ω(n, n − k) e as amplitudes
q(n, n−k) a partir da equação de movimento (1.7). Não podemos esque-
cer da reinterpretação da condição de quantização de Bohr ou da
regra de quantização de Wilson-Sommerfeld. Heisenberg reinterpre-
tou essa condição em termos da cinemática quântica, o que na realidade
é uma das passagens mais livres e ao mesmo tempo mais cruciais de
seu trabalho, mas mantendo-a consistente com o princípio de corre-
spondência. Em particular, para que o período clássico das órbitas de
Bohr coincida, para valores grande da ação
I
S = p dq = nh ,

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1.9. Mecânica Quântica Matricial 29

com n À 1, com as freqüências de Bohr (En − En−1 )/h, para duas


órbitas consecutivas basta que ∆S = h. Então, desse ponto de vista
temos I
d d
h= (nh) = pn (t) q̇n (t) dt ,
dn dn
ou usando as expansões de Fourier para pn (t) e qn (t),

X
h d ¡ ¢
=µ k kωn |qk (n)|2 .
2π dn
k=−∞

O derivação da expressão acima com relação a n não tem maior relevân-


cia, mas servem para motivar a reinterpretação quântica da condição de
quantização como sendo
X∞
h £ ¤
= 2µ | q(n, n + k)|2 ω(n + k, n) − | q(n, n − k)|2 ω(n, n − k) .

k=0
(1.12)
A equação (1.12), obtida por Heisenberg em 1925, expressa princi-
pal condição imposta à teoria na formulação da Mecânica Quântica
Matricial 37 e foi generalizada no mesmo ano por Born e Jordan 38 .
A representação de grandezas físicas cinemáticas por matrizes im-
plica a possibilidade de não-comutatividade entre pares de grandezas.
A formula generalizada de Born e Jordan adota um ponto de vista
hamiltoniano, no sentido de que utiliza coordenadas e momenta em
vez de coordenadas e velocidades. Então a coordenada espacial ~q e o
momentum ~p que devem ser representados por matrizes dependentes
do tempo,
© ª © ª d~q © ª
~q ≡ qnl ei ωnl t ,~p ≡ pnl ei ωnl t = µ ≡ i µωnl qnl ei ωnl t ,
dt
(1.13)
estão associadas a um átomo, e ωnl = −ωln são as freqüências associadas
a transições entre estados descritos pelos números quânticos n e l. Essas
matrizes devem ser hermitianas 39 , assim como a matriz qnl , ou seja,
∗ =q .
qnl ln
37
Quem identificou o caráter matricial dos arranjos numéricos propostos por Heisen-
berg foi Max Born.
38
M. Born and P. Jordan, Zeitschrift für Physik, 34, 858–888 (1925).
39
Para qualquer t real, as matrizes devem ser iguais às complexo-conjugadas de suas
transpostas.

Mecânica Quântica

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30 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

Assim, a relação de Heisenberg, equação (1.12), pode ser escrita na


forma
h X
∗ ∗
=µ (ωnl qnl qnl − ωln qnl qnl )
2π n
mas como pnl = i µωnl qnl da relação acima teremos
h X
= −i (pnl qln − pln qnl )
2π n

ou seja, a relação de Heisenberg (1.12) pode ser vista como uma re-
gra de comutação entre as matrizes que representam a coordenada
espacial e o momentum de uma partícula,
X h
(qln pnl − pln qnl ) = i = i~
n

ou ainda
(q p − p q)lk = i ~δlk ⇔ [q, p] = i ~ (1.14)
A regra de comutação entre as matrizes de coordenada espacial e de
momentum é a relação fundamental da Mecânica Quântica Matricial
e sua conexão entre a mecânica clássica e a quântica foi evidenciada por
Dirac 40 ao relacionar os comutadores aos parênteses de Poisson 41 .
De modo geral, qualquer grandeza periódica ~g(~p,~q) associada a um
oscilador harmônico pode ser escrita como

gnl (t) = Gnl ei ωnl t

onde ωnl = (En − El )/~, o que implica


d i
gnl (t) = i ωnl Gnl ei ωnl t = (En − El ) Gnl ei ωnl t
dt ~
o que pode ser reescrito, usando o fato de que H(~p,~q) ≡ {En δnl } é
a matriz correspondente à hamiltoniana e é uma matriz diagonal, na
seguinte forma
d~g i
= − (~gH − H~g) ,
dt ~
40
Paul Adrien Maurice Dirac (1902–1984), físico inglês.
P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society of London, A109, 642–653
(1926).
41
Siméon-Denis Poisson (1781–1840), matemático e físico francês.

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1.10. Postulados de de Broglie 31

ou seja, a evolução temporal da grandeza ~g é dada pela equação de


movimento de Heisenberg
d~g
i~ = [~g, H] (1.15)
dt
Apesar de terem sido estabelecidos aqui um sistema cujo comporta-
mento é periódico, as equações de movimento de Heisenberg, devido ao
caráter linear da teoria, são válidas para a descrição da evolução tempo-
ral de grandezas associadas a qualquer sistema cuja matriz hamiltoniana
H representa sua interação com a vizinhança, nas quais as energias En
são os elementos diagonais de H, que representam portanto às energias
dos estados estacionários.

1.10 Postulados de de Broglie


A partir de 1923, Louis de Broglie 42 apresentou uma série de trabalhos
sobre a teoria dos quanta que culminaram com a apresentação de sua
tese para obtenção do título de Doutor em 1925, intitulada Recherches
sur la théorie des quanta, onde introduziu idéias ainda mais fantás-
ticas para as propriedades dos sistemas microscópicos 43 . Essas novas
idéias foram fundamentais para o desenvolvimento, pouco depois, de
uma teoria mais formal, chamada Mecânica Quântica Ondulatória
ou simplesmente Mecânica Quântica.
A hipótese básica de de Broglie se relaciona com uma simetria que
poderia estar implícita nas propriedades de dualidade introduzidas por
Planck e principalmente por Einstein para a radiação eletromagnética.
Neste caso, a luz, que apresenta propriedades claras de ondas (pro-
duzindo fenômenos como difração e interferência) tinha também pro-
priedades que só poderiam ser interpretadas se ela fosse tratada como
um conjunto de corpúsculos, os fótons, ver efeito fotoelétrico e efeito
Compton. As relações entre as propriedades ondulatórias da luz (fre-
qüência, comprimento de onda) com as de corpúsculos (energia, mo-
mentum linear) são dadas pelas relações bem conhecidas, introduzidas
por Einstein:
h
E = hν ; p = . (1.16)
λ
42
Louis Victor Pierre Raymond de Broglie (1892–1987), físico francês.
43
L. de Broglie, Comptes Rendus, 177, 507–510 (1923); L. de Broglie, Nature, 112
n. 2815, 540 (1923); L. de Broglie, Comptes Rendus, 177, 548–560 (1923); L. de
Broglie, Thèse de Doctorat, Annales de Physique (10ème. serie), 3, 22–128 (1925).

Mecânica Quântica

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32 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

Louis de Broglie postulou que por uma questão de simetria, a matéria,


que tem caráter corpuscular, deveria também apresentar, em certas cir-
cunstâncias, características ondulatórias, i.e., dualidade partícula-
onda. As relações que permitem obter a freqüência e o comprimento
de onda associados a uma partícula são dadas pelas chamadas relações
de de Broglie:
E h
ν= ; λ= . (1.17)
h p

Em seu trabalho original, de Broglie, apresentou evidências de suas


idéias, aplicando os conceitos acima no modelo de Bohr para o átomo
de hidrogênio. Ele notou que a condição de Bohr para a quantização do
momento angular, utilizada agora com as novas idéias, correspondiam à
condição de ondas estacionárias para as órbitas eletrônicas. Utilizando
as relações de de Broglie, podemos calcular o comprimento de onda
associado a um elétron com energia E. Supondo a energia não muito
grande, de modo que não precisamos utilizar as relações relativísticas,
temos:
h h
λ= =√ ,
p 2µE

Isso sugere que propriedades ondulatórias dos elétrons possam ser obser-
vadas em situações semelhantes àquelas em que os efeitos de difração e
interferência foram observados com uso de raios-X, ou seja em cristais.
Em 1927, essas idéias foram confirmadas em experimentos realizados
independentemente por Davisson 44 e Germer 45 nos Estados Unidos e
por G. Thomson 46 na Escócia 47 . Fazendo um feixe de elétrons acel-
erados incidir num mono cristal, observa-se uma distribuição angular
dos elétrons espalhados. Essa distribuição, só pode ser interpretada se
pensarmos num processo de difração de Bragg, como a observada para
raios-X.

44
Clinton Joseph Davisson (1881–1958), físico americano.
45
Lester Halbert Germer (1896–1971), físico americano.
46
George Paget Thomson (1892–1987), físico inglês.
47
C. Davisson and L. H. Germer, Physical Review, 30, n. 6, 705–740 (1927);
C. Davisson and L. H. Germer, Nature, 119 n. 2998, 558–560 (1927); G. P. Thom-
son, Proceedings of the Royal Society of London, A117, 600–609 (1928).

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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1.11. Interferência Em um Sistema de Duas Fendas 33

1.11 Interferência Em um Sistema de Duas


Fendas
Pela seção anterior sabemos que de Broglie postulou, por uma questão
de simetria, que matéria tendo caráter corpuscular, deveria também
apresentar, em certas circunstâncias, características ondulatórias, dual-
idade partícula-onda. Para esta descrição faremos uso de uma experi-
mento conceitual, i.e., um experimento de dupla fenda para um canhão
de elétrons.
O sistema de duas fendas é muito bem conhecido da física ondu-
latória tradicional. Inicialmente vamos considerar um sistema simples,
com ondas em um tanque de água. Um pequeno objeto (fonte de ondas)
é balançado periodicamente para cima e para baixo, produzindo ondas
circulares na superfície do tanque. A uma certa distância da fonte, temos
uma parede com duas fendas verticais (duas portas). A seguir, as on-
das que passam pelas duas fendas (produzindo por difração duas novas
fontes de ondas circulares) são absorvidas num anteparo. Próximo ao
anteparo absorvedor temos um medidor de intensidade de onda, cuja
indicação é proporcional ao quadrado da amplitude das oscilações em
uma dada posição. O detector pode ser deslocado ao longo da posição
vertical da figura, cf. Fig. 1.1, de modo que podemos medir a intensidade
das ondas como função da posição x. Deslocando-se então o detector,
percebemos que a intensidade varia continuamente com a posição, tendo
vários pontos de máximo e de mínimo, conforme visto na curva I12 da
parte c) da Fig. 1.1. Essa é uma figura típica de interferência produzida
pelas fendas 1 e 2. Se fecharmos uma das fendas e medirmos a nova
distribuição de intensidades, vamos observar um padrão diferente, rep-
resentado pelas curvas I1 ou I2 na parte b) da Fig. 1.1, correspondentes
ao fechamento das fendas 2 e 1 respectivamente. O padrão de interfer-
ência I12 claramente não corresponde à soma dos padrões I1 e I2 , sendo
característico de um fenômeno ondulatório. Ondas originadas nas fendas
1 e 2 que chegam em fase numa dada posição do medidor se somam sofre
uma interferência construtiva, produzindo um máximo e nas posições
em que chegam com oposição de fase sofre uma interferência destrutiva,
produzindo um mínimo de intensidade.
Agora faremos uso de um experimento conceitual, i.e., utilizaremos
um feixe de elétrons produzidos em um canhão eletrônico e acelerados
em direção a uma placa metálica com duas fendas, como mostrado na
Fig. 1.2. Após as fendas, temos um detector de elétrons, podendo ser,

Mecânica Quântica

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34 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

Figura 1.1: Interferência: ondas de água em um tanque.

por exemplo, um contador Geiger. Esse detector pode estar conectado


a um sistema ligado a um alto-falante, produzindo um som (um clique),
cada vez que um elétron é detectado. Suponhamos que a intensidade do
feixe de elétrons produzido seja pequena o suficiente para que haja, em
média, um intervalo de tempo relativamente grande entre um elétron e
o consecutivo no feixe, maior que ∼ 1 s.
Em um primeiro momento observamos é que numa dada posição do
detector, ouve-se uma sucessão de cliques mais ou menos aleatoriamente
distribuídos no tempo. Entretanto, se contarmos o número de cliques
num intervalo de tempo relativamente longo (dezenas de minutos), o
número médio de cliques por unidade de tempo será constante. Tam-
bém, se colocarmos dois detectores em duas posições diferentes, nunca
se ouvirá dois cliques simultâneos (exceto, cliques que chegam muito
próximos em tempo e que nosso sistema auditivo não consegue separar,
mas que poderiam ser separados com um sistema eletrônico mais sen-
sível). Verificamos ainda que os sinais nos detectores ocorrem em grãos.
Todos os cliques são exatamente idênticos, de mesmo tamanho.
Então, qual o padrão da distribuição de intensidade (número/uni-
dade de tempo) de elétrons como função da posição ao longo do eixo x?
O resultado é a curva P12 mostrado na parte c) da Fig. 1.2. Um padrão
completamente análogo àquele produzido no experimento com ondas
na água, ou seja, o elétron mostrou um comportamento ondulatório.
Ora, se o elétron é uma partícula, ele passa ou pela fenda 1 ou
pela 2. Como vimos, sempre chega um elétron inteiro no contador
Geiger, e não uma fração de elétron. Para verificar por qual fenda
passou o elétron, podemos, por exemplo, colocar uma fonte de luz atrás
das fendas, de modo que ao passar por uma das fendas, o elétron espalha
luz e verificamos então um clarão luminoso próximo à fenda 1 ou à

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1.11. Interferência Em um Sistema de Duas Fendas 35

Figura 1.2: Interferência: com feixe de elétrons.

fenda 2, dependendo da fenda por qual passou o elétron. Poderíamos


agora contar os cliques no detector como função de x em duas tabelas:
uma quando o clarão indicar que o elétron passou pela fenda 1 e a
outra, quando vier da fenda 2. Essa experiência permite ainda verificar
que o clarão vem sempre apenas de uma das fendas, nunca das duas
simultaneamente. Os resultados dessas medidas correspondem às curvas
P10 e P20 da Fig. 1.3, correspondentes a elétrons que passaram pela fenda
1 e 2 respectivamente. A curva P12 0 = P 0 + P 0 corresponde à condição
1 2
do elétron passando pela fenda 1 ou pela fenda 2.

Figura 1.3: Identificação da fenda pela qual passou o elétron.

Concluímos então que quando observamos os elétrons, o resultado


(a distribuição de posições ao longo de x) é diferente daquele obtido
quando não observamos os elétrons nas proximidades das fendas. A
observação perturba o movimento dos elétrons. De um modo diferente,
esses resultados indicam que quando não observamos, os elétrons se
propagam como uma onda, desde o canhão de elétrons até o detector,
produzindo o padrão típico de interferência. Quando observamos, vemos
um comportamento de partícula, com o elétron passando por uma dada
fenda, mas nesse caso, o fenômeno de interferência não é observado. Os

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36 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

elétrons são ainda observados no detector Geiger como partículas. Esta


característica, vista também com os fótons, indica uma característica
dual onda-partícula para os elétrons bem como para todas as outras
partículas. Em sistemas macroscópicos, as propriedades ondulatórias
não são observadas pois os comprimentos de onda correspondentes são
muito menores que o tamanho de uma partícula como o próton e os
fenômenos de difração e interferência não podem ser observados.
A interferência ocorre, matematicamente, quando tomamos P =
|φ|2 , e φ(x) chamamos de amplitude de probabilidade do elétron chegar
em x. Porém, φ(x) é a soma das duas contribuições: φ1 , a amplitude
quando o elétron passa pela fenda 1, mais φ2 , a amplitude quando o
elétron passa pela fenda 2. Em outras palavras, P = |φ|2 e φ = φ1 + φ2 ,
com φ1 e φ2 sendo números complexos. Temos ainda P1 = |φ1 |2 e P2 =
|φ2 |2 , mas
P = |φ1 + φ2 |2 6= P1 + P2 . (1.18)

1.12 O princípio da Superposição


Sabemos portanto que o fenômeno de interferência ocorre tanto para
os fótons (luz) quanto para os elétrons (matéria). Então, matematica-
mente podemos descrever o nosso sistema como: Seja ~q o conjunto das
coordenadas de um sistema quântico, e d~q o produto das diferenciais
dessas coordenadas. Por exemplo, se ~q = {x, y, z}, temos d~q = dxdydz.
O estado de um sistema é descrito por uma função complexa ψ(~q)
das coordenadas. O quadrado do módulo dessa função determina a dis-
tribuição de probabilidades dos valores das coordenadas:

|ψ(x, y, z)|2 dxdydz , (1.19)

é a probabilidade de que uma medida realizada sobre o sistema encontre


os valores das coordenadas entre x e x + dx, y e y + dy, z e z + dz. A
função ψ é denominada função de onda do sistema.
O conhecimento da função de onda permite, em princípio, calcular a
probabilidade dos vários resultados de qualquer medida (não necessaria-
mente das coordenadas). Essas probabilidades são expressões bilineares
em ψ e ψ ∗ (∗ representando o complexo conjugado), como por exemplo:
Z

ψ(~q)∗ ψ(~q) d~q .
∂~q

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1.12. O princípio da Superposição 37

O estado de um sistema varia, em geral, com o tempo. Em conse-


qüência, a função de onda é uma função também do tempo, ψ(~q, t).
Se a função de onda é conhecida em um instante inicial, segue, do con-
ceito da descrição completa, que ela está, em princípio, determinada em
cada instante sucessivo. A dependência precisa da função de onda com
o tempo é determinada por uma equação conhecida como equação de
Schrödinger 48 .
A probabilidade de que as coordenadas de um sistema tenham qual-
quer valor, é 1. Devemos, então, ter
Z
|ψ(~q)|2 d~q ,

pois a integral acima é exatamente esta probabilidade.


Seja ψ(~q) a função de onda de um sistema. Considere a função

ψ 0 (~q) = ψ(~q) ei α

onde α é um número real. Diz-se , por isso, que a função de onda de um


sistema está definida a menos de uma fase (α), ou seja, que, se ψ(~q) é
função de onda de um sistema, ψ 0 (~q) também o é.
Seja um sistema físico que pode existir tanto num estado de função
de onda ψ1 (~q) como no estado de função de onda ψ2 (~q). A medida
de uma quantidade física F será, por hipótese, o resultado f1 , com
probabilidade 1, se o sistema estiver em ψ1 (~q), e o resultado f2 , também
com probabilidade 1, se o sistema estiver em ψ2 (~q). Postula-se então
que, ψ(~q) = ψ1 (~q) + ψ2 (~q) é também um estado do sistema. Nesse
estado, uma medida de F dará ou o resultado f1 ou o resultado f2 . Esse
postulado é denominado princípio da superposição. Segue dele que
a equação de Schrödinger deve ser linear em ψ(~q).
Voltando então ao nosso experimento conceitual da seção anterior,
utilizando o canhão de elétrons, a intensidade produzida na tela quando
apenas uma fenda está aberta é |ψ1 |2 ou |ψ2 |2 . Quando as duas fendas
estão abertas, a intensidade é determinada por |ψ1 + ψ2 |2 . Esse resul-
tado difere da soma das duas intensidades |ψ1 |2 + |ψ2 |2 , pelo termo de
interferência ψ1 ψ2∗ + ψ2 ψ1∗ .

48
Erwin Rudolf Josef Alexander Schrödinger (1887–1961), físico austríaco.

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38 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

1.13 O Princípio da Incerteza


Como veremos a seguir, a propagação ondulatória das partículas em
conjunto com a relação de de Broglie p = ~k nos leva a relação de
incerteza
~∆k∆x = ∆p∆x ≥ ~ , (1.20)
a qual significa que não podemos medir simultaneamente a posição e o
momentum de uma partícula com precisões arbitrárias. Isto não impede
de podermos medir, por exemplo, a posição x com uma precisão arbi-
trária, desde que não nos preocupemos em medir o momentum p. Esse
fato contraria radicalmente a Mecânica Newtoniana, pois esta assume
que podemos medir simultaneamente as duas grandezas com precisão
absoluta.
A "experiência de dupla fenda (de Young 49 )" para elétrons, em par-
ticular a formação de uma figura de interferência mesmo quando o feixe
de elétrons é tão rarefeito que não há dúvida de que os elétrons chegam
um a um na tela, mostra que a física dos elétrons é incompatível com
o conceito de trajetória. Não existe, na Mecânica Quântica, o conceito
de trajetória. Esse é o conteúdo do princípio da incerteza, um dos
fundamentos da Mecânica Quântica, descoberto por Werner Heisenberg
em 1927 50 .
É importante lembrar que os erros ∆x e ∆p são intrínsecos da na-
tureza ondulatória da matéria e não estão correlacionados com os erros
experimentais que ocorrem nos processos de medida.

1.14 Pacotes de Onda e Relação de Incerteza


Usaremos a análise de Fourier como ferramenta matemática para descr-
ever uma partícula localizada no espaço formada pela superposição de
ondas planas, pacote de onda, de diferentes números de onda k, cuja
amplitude seja não nula apenas numa pequena região do espaço, como
no caso de um pulso em uma corda.
O pacote de onda, em três dimensões, pode ser escrito na forma:
Z
φ(~k)ei(k ~r−ωt) d3 k ,
1 ~
ψ(~r, t) = 3/2
(1.21)
(2π)
49
Thomas Young (1773–1829), cientista inglês.
50
W. Heisenberg, Zeitschrift für Physik, 43, 172–198 (1927).

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1.14. Pacotes de Onda e Relação de Incerteza 39

onde d3 k representa o volume infinitesimal no espaço ~k: dkx dky dkz . Por
simplicidade faremos o estudo do pacote de onda em uma dimensão, no
caso em que as ondas se propagam paralelas ao eixo x. Assim, a função
de onda depende somente de x e t:
Z +∞
1
ψ(x, t) = φ(k)ei(kx−ωt) dk . (1.22)
(2π)1/2 −∞
Se escolhermos o instante inicial na origem t = 0, podemos escrever a
função de onda como:
Z +∞
1
ψ(x, 0) = φ(k)ei kx dk , (1.23)
(2π)1/2 −∞
e φ(k) é a transformada inversa da integral de Fourier para ψ(x, 0):
Z +∞
1
φ(k) = ψ(x, 0)e− i kx dx . (1.24)
(2π)1/2 −∞
Nos assumiremos que φ(k) é uma função real positiva e tenha uma
distribuição simétrica de k ao redor do valor médio k̄. Fazendo uma
mudança de variável u = k − k̄, escreveremos (1.23) como:
Z +∞
1 i k̄x
ψ(x, 0) = e φ(u + k̄)ei ux du . (1.25)
(2π)1/2 −∞

Assim, a partícula terá uma probabilidade maior de ser encontrada na


posição em que ψ tem um pico pronunciado. Logo, fica fácil notar pela
análise de Fourier a relação:
∆x∆k ∼
= 1. (1.26)
Para provar a relação (1.26), denotaremos um intervalo ∆x no qual |ψ|
é diferente de zero. Desde que φ seja diferente de zero somente no inter-
valo centrado em u, onde k = k̄, a fase de exp (i ux) em (1.25) varia de
−x∆k/2 até +x∆k/2, ou seja varia uma grandeza x∆k para um valor
fixo de x. Se x∆k for menor que ∼ = 1, nenhum cancelamento apreciável
no integrando irá ocorrer. Por outro lado, quando x∆k À 1, violen-
tas oscilações do fator exp (i ux) ocorrerá, tendo como conseqüência a
interferência destrutiva. Então, teremos a relação ∆x∆k ' 1.
Como a incerteza no momentum do elétron ∆p = ~∆k, para uma
elétron descrito por ψ o princípio da incerteza de Heisenberg será
∆x∆p ' ~ .

Mecânica Quântica

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40 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

Essa relação de incerteza, tem um análogo para o tempo e energia. A


energia cinética da partícula é E = p2 /2µ, e a incerteza
p
∆E = ∆p = v∆p ,
µ
mas
∆x
∆t = .
v
Então,
∆E∆t ' ~ .

1.15 Princípio da Complementaridade


O principal resultado da discussão sobre dualidades partícula-onda pode
ser sintetizado da seguinte forma: em qualquer situação experimental,
na qual a entidade física envolvida (matéria ou radiação) exibe sua
propriedade de onda, torna-se impossível que ela apresente qualquer
caráter corpuscular. A entidade comporta-se como partícula se repre-
sentada por um pacote de onda bastante compacto. Mas quando isto
acontece, ela perde sua habilidade de manifestar-se como onda. Assim, o
caráter de partícula ou de onda de uma entidade física é complementar
e não pode ser exibido ao mesmo tempo. Esse é o chamado princípio
da complementaridade de Bohr.

1.16 Equação de Onda


Através da representação da onda plana (1.21):
Z
φ(~k) ei(k ~r−ωt) d3 k
1 ~
ψ(~r, t) = 3/2
(2π)
dado como forma mais geral de uma função de onda de uma partícula, é
conveniente obter uma equação de onda para descrever seu movimento.
A proposta é encontrar uma equação diferencial parcial linear que ad-
mite (1.21) como solução geral.
Em três dimensões um pacote de onda inicial ψ(~r, t) pode ser rep-
resentado pela integral de Fourier
Z
φ(~k) ei k ~r d3 k
1 ~
ψ(~r, 0) = 3/2
(1.27)
(2π)

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1.16. Equação de Onda 41

e sua inversa
Z
ψ(~r, 0) e− i k ~r d3 r .
1 ~
φ(~k) = (1.28)
(2π)3/2
Se a função de onda descreve o movimento de uma partícula livre,
então pelo princípio da superposição cada componente da onda plana
contida em (1.27) propaga independentemente de todas as outras de
acordo com a descrição arbitrária, ' ei(k ~r−ωt) . Assim a função de onda
~

em um tempo t será
Z
φ(~k) ei(k ~r−ωt) d3 k .
1 ~
ψ(~r, t) = 3/2
(1.29)
(2π)

A equação (1.29) é incompleta até determinarmos a dependência de ω


em ~k.
Em três dimensões vale as relações:

∆x∆kx ≥ 1, ∆y∆ky ≥ 1, ∆z∆kz ≥ 1 .

Essas relações são generalizações de casos em uma dimensão. Mas, sabe-


mos que ∆~p = ~∆~k; então as relações de incerteza em três dimensões
serão
∆x∆px ≥ ~, ∆y∆py ≥ ~, ∆z∆pz ≥ ~ . (1.30)
Vamos considerar a inversa de Fourier φ(~k) com valor apreciavelmente
diferente de zero somente na região limitada ∆~k ao redor do vetor de
onda médio ~k0 . No espaço de coordenadas, o pacote de onda ψ(~r, t)
moverá aproximadamente como uma partícula livre clássica com mo-
mentum ~p = ~~k. Para ver este fato, expandimos ω(~k) em relação ao
valor médio ~k0 :
³ ´ ³ ´
ω(~k) = ω(~k0 ) + ~k − k~0  ∇~~ω
k
+
~k=~k0

e usando a notação para valor médio ω̄ = ω(~k0 ),


³ ´ ³ ´
ω(~k) = ω̄ + ~k − k~0  ∇~ ~ ω̄ +
k0
 (1.31)

Se substituirmos os dois primeiros termos de (1.31) em (1.29), teremos


³ ´ ³ ´
− i ω̄t + ~k0 ∇
~ ~ ω̄t
~ ~ ω̄t, 0 .
ψ(~r, t) = e k 0 ψ ~r − ∇ k0
(1.32)

Mecânica Quântica

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42 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

Ignorando o fator de fase em frente a equação (1.32), vemos que esta


descreve um pacote de onda em movimento de translação uniforme, com
velocidade de grupo
~~ω.
~vg = ∇ (1.33)
k
Nossa interpretação, baseado na correspondência entre as Mecânicas
Clássica e Quântica, permite identificar a velocidade de grupo da função
ψ com a velocidade média da partícula
~p ~~k
~v = = ,
µ µ
onde µ é a massa da partícula, assumimos um movimento não relativís-
tico. Assim,
~~k = µ∇
~~ω.
k
(1.34)
Integrando (1.34), obteremos
~ 2
ω(~k) = k + const. (1.35)

ou
~2 k 2 p2
~ω(~k) = +V = +V (1.36)
2µ 2µ
onde V é constante, e podemos identificar como uma energia potencial
constante. Ainda podemos identificar E = ~ω como a energia total da
partícula.
A equação diferencial de onda para a onda plana exp i(~k ~r − ωt),
com
~2 2
~ω(k) = (k + ky2 + kz2 ) + V
2m x
sendo V constante, é obviamente
∂ ~2
i~ ψ(~r, t) = − ∇2 ψ(~r, t) + V ψ(~r, t) (1.37)
∂t 2µ
que é conhecida como a equação de Schrödinger dependente do
tempo. Assim, podemos ver que a partir dos trabalhos de de Broglie,
em 1926, Schrödinger desenvolveu em uma série de artigos seminais a
formulação da Mecânica Quântica Ondulatória 51 .
51
E. Schrödinger, Annalen der Physik, Ser. 4, 79, 361–376 (1926);
E. Schrödinger, Annalen der Physik, Ser. 4, 79, 489–527 (1926);
E. Schrödinger, Annalen der Physik, Ser. 4, 80, 437–490 (1926);
E. Schrödinger, Annalen der Physik, Ser. 4, 81, 109–139 (1926).

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1.16. Equação de Onda 43

Aqui daremos atenção para uma forma alternativa de função de


onda, obtida pela transformação

ψ(~r, t) = ei S(~r,t)/~ .

Se essa expressão for substituída em (1.37), teremos a equação


( )
~ r, t)]2
∂S(~r, t) [∇S(~ i~ 2
+ − ∇ S(~r, t) + V ei S(~r,t)/~ = 0 . (1.38)
∂t 2µ 2µ

A função S(~r, t) é geralmente complexa, mas em casos especiais poderá


ser real, como quando ψ(~r, t) representa uma onda plana, para tal caso
teremos
S(~r, t) ~
= k ~r − ωt .
~
A equação (1.38) indica que a função de onda ψ(~r, t) não anula, e tere-
mos a equação diferencial não-linear
~ r, t)]2
∂S(~r, t) [∇S(~ i~ 2
+ − ∇ S(~r, t) + V = 0 (1.39)
∂t 2µ 2µ
que, exceto pelo termo que contém i e ~, corresponde à equação clás-
sica de Hamilton-Jacobi 52 , em que S(~r, t) é a função principal
de Hamilton, para o problema de uma partícula de massa µ sujeita
ao potencial V 53 . Essa equação pode portanto ser usada para identi-
ficar um limite clássico do tratamento quântico do problema de uma
partícula em um potencial externo. De fato, sempre que os efeitos desse
termo puderem ser ignorados quantitativamente na determinação de
S(~r, t) pela equação (1.39), essa função será tal que estarão satisfeitas
as relações clássicas
~ r, t) = ~pc (~r, t) = µ~vc (~r, t) ,
∇S(~

em que ~pc e ~vc são o momentum e a velocidade clássica, respectiva-


mente. Se a energia total tiver um valor bem definido vale
∂S(~r, t)
= −E .
∂t
52
William Rowan Hamilton (1805–1865), matemático e físico irlandês.
Carl Gustav Jacob Jacobi (1804–1851), matemático alemão.
53
Para uma revisão dos elementos da mecânica clássica Hamiltoniana, ver Gold-
stein, Classical mechanics, (1980), ou o livro de Landau e Lifshitz, Mechanics,
(1993).

Mecânica Quântica

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44 Cap. 1 Introdução aos Conceitos Fundamentais

Nesse limite, as linhas de velocidade associadas à densidade de corrente


de probabilidade se reduzem às trajetórias clássicas.
É importante notar que a descrição do sistema permanece como
sendo feito em termos de uma distribuição contínua de probabilidades,
de modo que a situação clássica a que esse limite se refere deve ser
entendida como sendo realizada em termos de propriedades médias em
uma coleção de sistemas idênticos com uma distribuição de condições
iniciais dada. As condições em que esse limite pode ser usado como
aproximação para o problema quântico podem ser caracterizadas da
seguinte forma: supondo que a energia tenha uma dispersão pequena
em torno de E, a equação (1.39) pode ser aproximada por

~ r, t)]2 ' 2µ(E − V ) + i~ 2


[∇S(~ ∇ S(~r, t) .

Uma aproximação clássica, consistindo em ignorar o último termo, será
válida quando
µ ¶
2 2µ 2π 2
∇ S(~r, t) ¿ 2 (E − V ) ≡ ,
~ λ(~r)
em que λ(~r) é o chamado comprimento de onda de de Broglie. Essa
condição mostra, em termos qualitativos, que efeitos de curvatura na
dependência espacial da amplitude de S(~r, t) devem ser pequenos na
escala de comprimento de onda de de Broglie.

1.17 Comentários
Recomenda-se ao leitor, como pré-requisito e requisito paralelo, os livros
do Prof. Leite Lopes (1992) 54 e dos Profs. Caruso e Oguri (2006) 55 como
introdução e fundamentos à estrutura da matéria. Nesses livros o leitor
encontrará deduções detalhadas, claras e históricas da mecânica quân-
tica antiga de Planck, Einstein, Bohr, Wilson e Sommerfeld, e descrições
dos experimentos fundamentais. Ainda nesses livros poderão estudar a
mecânica matricial de Heisenberg, Born e Jordan, bem como a dedução
de Broglie e da equação de Schrödinger. Com relação a mecânica matri-
cial, também poderá ser feita a leitura do livro do Prof. Piza (2002) 56 ,
esse livro está numa forma moderna e excelente.
54
J. Leite Lopes, Estrutura quântica da matéria, (1992).
55
F. Caruso e V. Oguri, Física moderna, (2006).
56
A. F. R. de Toledo Piza, Mecânica quântica, (2002).

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1.17. Comentários 45

Solicita-se ao leitor que estude, antes de prosseguir na leitura destas


notas, o capítulo 1 do Volume III do The Feynman Lectures on Physics
(1963) 57 , que contém uma excelente descrição da experiência da difração
por duas fendas, conhecida como experiência de Young, realizada com
elétrons, em lugar da luz (que Young usou). Quando eu conseguir re-
alizar essa descrição tão bem quanto Feynman, a minha tentativa me
deixará muito honrado.

57
R. Feynman, The Feynman Lectures on Physics, (1963).

Mecânica Quântica

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Capítulo 2

A Equação de Schrödinger e
Álgebra dos Operadores

Nesse capítulo iremos estudar as propriedades da equação de onda de


Schrödinger como função do espaço e do tempo. Também faremos um
estudo dos operadores hermitianos e suas propriedades algébricas. O
objetivo é extrair informações da função de onda e das propriedades
dos operadores

2.1 A Equação de Onda e a Interpretação de ψ


No caso particular da equação de onda (1.37), temos a energia potencial
V constante. Um caso particular é quando temos o movimento de uma
partícula livre, i.e., V = 0. A generalização dessa equação e quando
temos o caso de uma partícula de massa µ em um campo de força
representado pela energia potencial V (x, y, z, t), para qual é dependente
da posição ~r e possivelmente também dependente do tempo t. Assim
reescrevemos essa equação como
∂ ~2
i~ ψ(~r, t) = − ∇2 ψ(~r, t) + V (x, y, z, t) ψ(~r, t) (2.1)
∂t 2µ
usando a seguinte relação
ψ(~r, t) = ei S(~r,t)/~ ,
encontraremos a equação
~ r, t)]2
∂S(~r, t) [∇S(~ i~ 2
+ − ∇ S(~r, t) + V (x, y, z, t) = 0 . (2.2)
∂t 2µ 2µ

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48 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

Que é semelhante a equação clássica de Hamilton-Jacobi na presença


de forças, novamente com a presença de um termos quântico propor-
cional a ~.
Usaremos (2.1) como a equação fundamental da mecânica quântica
não-relativística para partículas sem spin e chamaremos de equação de
onda ou equação de Schrödinger dependente do tempo.
Note que para uma partícula de massa m na presença de um campo
de força ~F = −∇V ~ (~r), onde a energia potencial, nesse caso, não de-
pende do tempo. A energia total é a soma da energia cinético à energia
potencial, i.e.,
p2
E= + V (~r) .

Note que (2.1) e a equação diferencial de onda para a onda plana
exp i(~k ~r − ωt), que satisfaz a relação

~2 2
~ω(k) = (k + ky2 + kz2 ) + V (x, y, z)
2µ x
que é a mesma energia total, em termos de relações de de Broglie.
Assim, comparando a energia total e a equação (2.1) podemos definir
os operadores diferenciais, para a energia total E e para o momentum
~p, da seguinte forma:
∂ ~ .
E → i~ , ~p → − i ~∇ (2.3)
∂t
Muitas vezes é conveniente escrever a equação de Schrödinger em
uma forma mais compacta. Isso pode ser feito utilizando o operador H

~2 2
H=− ∇ + V (~r) , (2.4)

chamado operador hamiltoniano, para reescrever a equação de Schrö-
dinger da seguinte forma:

Hψ(~r, t) = i ~ ψ(~r, t) . (2.5)
∂t
A função de onda ψ é uma função complexa. Isso impede que ela
seja observada ou medida diretamente, como acontece com funções de
onda clássicas. O fato de ψ ser uma função complexa é uma condição
inibidora para atribuir-lhe qualquer interpretação física real. A fim de

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2.2. Conservação da Probabilidade 49

que possamos extrair dessa função de onda algum significado físico,


devemos procurar estabelecer uma conexão da função com quantidades
dinâmicas associadas à partícula.
A forma de extrair qualquer informação de um estado quântico rep-
resentado pela função ψ(~r, t) foi apresentado por Max Born em 1926, e
constitui um dos postulados fundamentais da mecânica quântica 1 . Por
esse postulado temos que, a probabilidade dP (~r, t) de uma partícula
associada a função de onda ψ(~r, t) ser encontrada, em um determinado
instante t, no interior de um elemento de volume d3 r = dxdydz em
torno do ponto localizado por ~r, é igual a

ψ ∗ (~r, t)ψ(~r, t)d3 r . (2.6)

Portanto, a probabilidade será

dP (~r, t) = |ψ(~r, t)|2 d3 r = ψ ∗ (~r, t)ψ(~r, t)d3 r (2.7)

onde, definimos uma quantidade real

ρ(~r, t) = |ψ(~r, t)|2 = ψ ∗ (~r, t)ψ(~r, t) (2.8)

que representa uma densidade de probabilidade.


Schrödinger interpretou que e|ψ(~r, t)|2 , onde e é a carga do elétron,
como a densidade de carga. Apesar dessa interpretação poder ser apli-
cada em alguns casos especiais, a interpretação aceita para a função de
onda ψ deve-se a Max Born.

2.2 Conservação da Probabilidade


Considerando a taxa de variação temporal da densidade de probabili-
dade probabilidade de encontrar a partícula associada a função de onda
ψ, teremos:
∂|ψ|2 ∂ψ ∗ ∂ψ
= ψ + ψ∗
∂t ∂t ∂t
usando as equações (2.4) e (2.5) podemos escrever
· µ 2 ¶ µ 2 ¶ ¸
∂|ψ|2 i ~ ~
= ψ − ∇2 + V ψ ∗ − ψ ∗ − ∇2 + V ψ
∂t ~ 2µ 2µ
1
M. Born, Zeitschrift für Physik, 37, 863–867 (1926); M. Born, Zeitschrift für
Physik, 38, 803–827 (1926).

Mecânica Quântica

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50 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

e levando em conta a relação


³ ´
~  ψ ∗ ∇ψ
ψ ∗ ∇2 ψ − ψ∇2 ψ ∗ = ∇ ~ − ψ ∇ψ
~ ∗

obtém-se
∂|ψ|2 i~ ~ ³ ~ ∗ ´
=− ∇  ψ ∇ψ − ψ ∗ ∇ψ
~ . (2.9)
∂t 2µ
Assim, definimos uma nova quantidade física
³ ´
~J(~r, t) = i ~ ψ ∇ψ
~ ∗ − ψ ∗ ∇ψ
~ , (2.10)

em que ~J(~r, t) é chamada de densidade de corrente de probabilidade


ou fluxo de probabilidade. Com isso, a equação (2.9) pode-se escrever
na forma:
∂ρ ~ ~
+ ∇J = 0. (2.11)
∂t
Essa equação é conhecida como equação de continuidade devido a
sua semelhança com a equação diferencial da teoria eletromagnética que
recebe esse nome.
Intuitivamente esperamos que o fluxo de probabilidade esteja rela-
cionado com o momentum. Para isso, tomemos o caso em que ~J é inte-
grado em todo o espaço. Da equação (2.10), temos ~J(~r, t) = µ~ =(ψ ∗ ∇ψ).
~
Então, Z
~J(~r, t) d3 r = h~pit , (2.12)
µ
onde h~pit é o valor médio do momentum em um tempo t.
Uma outra forma de interpretarmos a função de onda é escrevermos
· ¸
p i S(~r, t)
ψ(~r, t) = ρ(~r, t) exp ,
~

com S real e ρ > 0. Note que,

~ = √ ~ √ i ~
ψ ∗ ∇ψ ρ ∇ ( ρ) + ρ∇S
~
e então podemos escrever o fluxo de probabilidade como:

~
~J = ρ∇S . (2.13)
µ

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2.3. Normalização da Função de Onda 51

Nós agora podemos ver que há mais informação para a função de onda
além do fato que |ψ|2 é a densidade de probabilidade; o gradiente da fase
S contém uma peça vital de informação. Da equação (2.13) podemos ver
que a variação espacial da fase S da função de onda caracteriza o fluxo
de probabilidade, quanto mais intensa a fase, mais intenso o fluxo. A
direção do fluxo ~J em um ponto ~r é visto como a normal da superfície.
Fica evidente que
~ = ~p ,
∇S
~
mas geralmente podemos interpretar ∇S/µ como um tipo de veloci-
dade,
~
∇S
~v = ,
µ
e a equação de continuidade poderá ser escrita na forma

∂ρ ~
+ ∇  (ρ ~v) , (2.14)
∂t
como na dinâmica dos fluidos.
A equação de movimento, utilizando e equação de Schrödinger
dependente do tempo, é
" #
~ r, t)]2
∂S(~r, t) [∇S(~ ~ 2 ∇2 ρ
~2 (∇ρ)
+ +V + − =0 (2.15)
∂t 2µ 4µ 2ρ ρ

ou √
~ r, t)]2
∂S(~r, t) [∇S(~ ~2 ∇2 ρ
+ +V − √ =0 (2.16)
∂t 2µ 2µ ρ
onde novamente temos a equação de Hamilton-Jacobi para a dinâmica
da partícula, a o último termo que contém o potencial quântico adi-
cionado a energia potencial convencional V .

2.3 Normalização da Função de Onda


De acordo com a interpretação de Born, para todo o espaço deve valer
a chamada condição de normalização para a função de onda ψ,
Z Z
3
ρ(~r, t)d r = ψ ∗ (~r, t)ψ(~r, t)d3 r = 1 , (2.17)
V V

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52 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

que simplesmente expressa o fato de que a partícula deve ser encontrada


em qualquer ponto do espaço.
Entretanto, para uma interpretação consistente, além da conser-
vação local de probabilidade, é necessário que haja também uma con-
servação global. De acordo com a equação de continuidade da probabil-
idade, equação (2.11), pode-se escrever
Z Z
∂ρ(~r, t) 3 ~  ~J(~r, t) d3 r
d r=− ∇
V ∂t V

e, aplicando o teorema da divergência no segundo membro da equação


acima, obtém-se
Z I

ρ(~r, t) d r = − ~J(~r, t)  n̂ d2 r
3
∂t V S

onde S é a superfície que envolve todo o volume V . Observando-se a


definição de densidade de corrente de probabilidade, ~J(~r, t), dado por
(2.10), e supondo-seHque ψ(~r, t) seja uma função de onda bem compor-
tada2 , temos que − S ~J(~r, t)  n̂ d2 r = 0 e, portanto
Z

ρ(~r, t) d3 r = 0 , (2.18)
∂t V

que expressa a conservação global, ou seja, a normalização da função


não deve depender do tempo.
Para um feixe homogêneo constituído de N elétrons que possuem
basicamente a mesma energia, e portanto, estão associados à mesma
função de onda ψ, os elétrons ocupam regiões distintas do espaço, e
a probabilidade da presença de qualquer um deles é proporcional a
|ψ|2 d3 r. Nessas circunstâncias, ψ pode ser normalizada como
Z
ψ ∗ (~r, t)ψ(~r, t)d3 r = N , (2.19)
V

onde podemos interpretar |ψ|2 como a densidade de partículas, e e|ψ|2


como a densidade de carga em uma dada região, tal como Schrödinger
havia interpretado.
2
Funções de onda ψ(~r, t) que obedecem à condição ψ(~r, t) = 0, para x → ±∞, y →
±∞, z → ±∞, e que são contínuas e deriváveis em todo seu espaço de definição,
são chamadas de funções de onda bem comportadas.

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2.4. Equação de Onda – Sistemas Estacionários 53

2.4 Equação de Onda – Sistemas Estacionários


Para campos conservativos, a equação de Schrödinger dependente do
tempo

Hψ(~r, t) = i ~ ψ(~r, t) (2.20)
∂t
pode ser resolvida através da separação de variáveis. No caso em questão,
esse procedimento poderá ser empregado desde que a energia de poten-
cial do sistema quântico considerado não apresente explícita dependên-
cia do tempo, i.e., V = V (~r). Com isso, o operador H torna-se inde-
pendente do tempo e a função de onda ψ(~r, t) pode ter a solução na
forma,
ψ(~r, t) = ϕ(~r)Φ(t) . (2.21)
Substituindo na equação (2.1),

∂ ~2
i ~ ϕ(~r) Φ(t) = − Φ(t) ∇2 ϕ(~r) + V (~r) ϕ(~r)Φ(t) (2.22)
∂t 2µ

e dividindo por ϕ(~r)Φ(t), obtém-se

1 ∂ ~2 1
i~ Φ(t) = − ∇2 ϕ(~r) + V (~r) . (2.23)
Φ(t) ∂t 2µ ϕ(~r)

Como o lado esquerdo da equação dependo somente do tempo e o


outro lado dependo apenas da posição, a equação será satisfeita se os
dois lados forem iguais a uma mesma constante E com dimensão de
energia. Assim, teremos duas equações diferenciais


i~ Φ(t) = E Φ(t) ,
· ∂t
¸
~2 2
− ∇ + V (~r) ϕ(~r) = E ϕ(~r) .

A primeira equação diferencial no domínio do tempo não depende


da dinâmica de interação e pode ser integrada imediatamente,
i
Φ(t) = e− ~ Et . (2.24)

Devemos observar que se E na equação acima for uma quantidade real,


Φ(t) é uma função oscilante no tempo, com freqüência angular ω = E~ .

Mecânica Quântica

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54 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

A segunda equação diferencial á a equação de Schrödinger in-


dependente do tempo e do ponto de vista matemático, constitui um
problema de autovalor, tal que, dependendo das condições impostas à
função de onda ϕ(~r), o autovalor E, i.e., a energia da partícula, poderá
assumir valores discretos ou contínuos. As soluções, ϕE (~r), associadas
a cada valor E, são conhecidas como autofunções de energia.
Assim a solução geral para (2.21) será
i
ψ(~r, t) = ϕ(~r) e− ~ Et . (2.25)

que configura-se como um estado estacionário.


A cada possível valor de energia E pode corresponder um ou mais
estados da partícula. Se para um dado valor de energia tivermos asso-
ciados dois ou mais estados independentes, esse autovalor é conhecido
como degenerado. Por serem representados por autofunções ϕ(~r), são
chamados de auto-estado de energia e o conjunto de autovalores são
conhecidos como espectro de energia.
Em geral, a equação de Schrödinger independente do tempo, é es-
crita como
H ψ(~r, t) = E ψ(~r, t) (2.26)
onde H é o operador hamiltoniano. Desse modo, temos que o espectro
de energia de um sistema é constituído dos autovalores do operador H.
i
Substituindo ψ(~r, t) = ϕ(~r) e− ~ Et na equação da continuidade,
podemos verificar que a energia E, dessa equação, é uma quantidade
real. Dessa forma a densidade de probabilidade ρ(~r, t) pode ser colocada
como
i ∗
ρ(~r, t) = ψ ∗ (~r, t)ψ(~r, t) = ϕ∗ (~r)ϕ(~r) e− ~ (E−E )t ,
derivando a densidade de probabilidade em relação ao tempo

∂ i i ∗
~  ~J(~r, t) ,
ρ(~r, t) = − (E − E ∗ ) ϕ∗ (~r)ϕ(~r) e− ~ (E−E )t = −∇
∂t ~
integrando essa equação no volume V e utilizando o teorema da di-
vergência, temos
Z Z
(E − E ∗ )
i ∗
ϕ∗ (~r)ϕ(~r) e− ~ (E−E )t d3 r = − i ~ ~  ~J(~r, t) d3 r

V IV
= − i ~ ~J(~r, t)  n̂ d2 r .
S

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2.5. Estados não-estacionários 55

Lembrando que
Z I
∂ ~J(~r, t)  n̂ d2 r = 0
ρ(~r, t) d3 r = − i ~
V ∂t S

obtém-se Z
i ∗ )t

(E − E ) ϕ∗ (~r)ϕ(~r) e− ~ (E−E d3 r = 0 .
V
R i ∗
Como V ϕ∗ (~r)ϕ(~r) e− ~ (E−E )t d3 r > 0, se ϕ(~r) não identicamente
nula, conseqüentemente temos E = E ∗ , o que mostra que a energia E
é uma quantidade real. O fato de a energia E ser real nos garante que
a função Φ(t) seja puramente oscilatória. Com isso, podemos observar
que as funções ϕ(~r) e Φ(t) diferem por um fator de fase que depende
do tempo.
As autofunções da equação de Schrödinger correspondem aos es-
tados estacionários de Bohr, se o estado inicial, ψ(~r, 0), é um dado
auto-estado ϕE de energia,
ψ(~r, 0) = ϕE (~r)
a solução da equação de Schrödinger, ψ(~r, t), para um instante t qual-
quer, será dada por
i
ψ(~r, t) = ϕE (~r) e− ~ Et .
Assim, as densidades de probabilidades associadas às soluções que
evoluem de um auto-estado de energia não dependem do tempo,
ρ(~r) = ϕ∗E (~r) ϕE (~r) .
Portanto, os auto-estados de energia de uma partícula em um campo
conservativo são também chamados de estados estacionários.

2.5 Estados não-estacionários


Mesmo que o estado inicial, ψ(~r, 0), da equação de Schrödinger, não seja
um dos auto-estados de energia, mas sendo a equação de Schrödinger
linear e homogênea, a solução geral para uma partícula em um campo
conservativo, será expressa como a combinação linear de seus possíveis
estados estacionários,
X i X
ψ(~r, t) = cn ϕn (~r) e− ~ En t = cn (t) ϕn (~r)
n n

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56 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

onde {En } é o espectro de energia, {ϕn (~r)} é o conjunto de auto-estados,


i
o os coeficientes cn (t) = cn e− ~ En t são determinados pelo estado inicial.
Nesse caso, a densidade de probabilidade depende do tempo
X
ρ(~r, t) = c∗l (t) cn (t) ϕ∗l (~r) ϕn (~r)
l,n

e o estado ψ(~r, t) é chamado estado não-estacionário.

2.6 Ortogonalidade dos Auto-Estados


A ortogonalidade é uma das principais propriedades das soluções da
equação de Schrödinger independente do tempo. Se {ϕn (~r)} é o con-
junto de auto-estados estacionários de uma partícula de massa µ em um
campo conservativo V (~r), confinada em uma dada região do espaço
Z
ϕ∗l (~r) ϕn (~r) d3 r = 0 (l 6= n) (2.27)
V

que é a condição de ortogonalidade.


Uma vez que ϕl (~r) e ϕn (~r) satisfazem a equação de Schrödinger,
· 2 ¸
~ 2
Hϕn (~r) = − ∇ + V (~r) ϕn (~r) = En ϕn (~r) (2.28)

e · 2 ¸
~
Hϕ∗l (~r) = − ∇ + V (~r) ϕ∗l (~r) = En ϕ∗l (~r)
2
(2.29)

multiplicando a equação (2.28) por ϕ∗l (~r) e a equação (2.29) por ϕn (~r),
e então subtraindo uma da outra, temos

~2 £ ∗ 2 ¤
− ϕl ∇ ϕn − ϕn ∇2 ϕ∗l = (En − El ) ϕ∗l ϕn

ou seja

~2 ~ h ∗ ~ i
− ∇  ϕl ∇ϕn − ϕn ∇ϕ
~ ∗ = (En − El ) ϕ∗ ϕn .
l l

Integrando em todo o espaço,
Z h i Z

∇  ϕl ∇ϕn − ϕn ∇ϕl d r =
~ ∗~ ~ ∗ 3
(El − En ) ϕ∗l ϕn d3 r
V ~ V

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2.6. Ortogonalidade dos Auto-Estados 57

e aplicando o teorema da divergência, resultam uma integral sobre uma


superfície de raio arbitrariamente grande na qual as autofunções se an-
ulam, ou seja
Z h i I h i
~  ϕ ∇ϕ
l  n̂ d r = 0 .
∇ ∗ ~
~ n − ϕn ∇ϕ ∗
d3
r = ϕ∗~
∇ϕ n − ϕn
~
∇ϕ∗ 2
l l l
V S

Logo, se ϕl e ϕn são autofunções associadas a autovalores de energia


distintos, El 6= En , obtemos a relação de ortogonalidade,
Z
ϕ∗l (~r) ϕn (~r) d3 r = 0 (l 6= n) .
V

Assim, podemos afirmar que os auto-estados de energia de uma


partícula em um campo conservativo são representados por auto-
funções ortogonais e normalizadas.
A condição de ortogonalidade e normalização implicam que os coe-
ficientes, cn (t), da função de onda, ψ(~r, t), em termos das autofunções
normalizadas, ϕn , satisfazem à relação de completeza,
X X
|cn (t)|2 = |cn |2 = 1 . (2.30)
n n
P P
Uma vez que ψ(~r, t) = n cn (t) ϕn (~r) e ψ ∗ (~r, t) = l c∗l (t) ϕ∗l (~r), pela
normalização,
Z X Z
i
ψ ∗ (~r, t) ψ(~r, t) d3 r = c∗l cn e− ~ (El −En )t ϕ∗l (~r) ϕn (~r) d3 r = 1 .
V l,n V

Se as autofunções são ortogonais e normalizadas,


Z
ϕ∗l (~r) ϕn (~r) d3 r = δln
V

onde δln é igual a unidade, se l = n, e igual zero, se l 6= n, e é conhecido


como delta de Kronecker 3 . A equação acima satisfaz a relação de
completeza (2.30).
Podemos também determinar o peso cn (t) de cada auto-estado ϕn
no estado atual da partícula, ψ(~r, t), a partir do estado inicial, ψ(~r, 0).
Escrevendo o estado inicial como
X
ψ(~r, 0) = cn ϕn (~r)
n
3
Leopold Kronecker (1823–1891), matemático e lógico alemão.

Mecânica Quântica

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58 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

multiplicando por ϕ∗l (~r) e integrando em topo espaço,


Z X Z
ϕ∗l (~r) 3
ψ(~r, 0) d r = cn ϕ∗l (~r) ϕn (~r) d3 r
V n V

pelo delta de Kronecker, teremos


Z
cn = ϕ∗n (~r) ψ(~r, 0) d3 r . (2.31)
V

2.7 Valor Esperado – Espaço de Coordenada e


Momentum
Para um estado normalizado, o valor médio ou valor esperado de uma
observável física, por exemplo a coordenada x, é representado pela
integral Z Z
hxi = x |ψ|2 dx = ψ ∗ x ψ dx . (2.32)

O valor esperado para o vetor posição ~r, ou o centro do pacote de onda,


é definido por
Z Z
h~ri = ~r |ψ| d r = ψ ∗ ~r ψ d3 r .
2 3
(2.33)

E o valor esperado para uma função arbitrária f (~r), é dado por


Z Z
hf (~r)i = f (~r) |ψ|2 d3 r = ψ ∗ f (~r) ψ d3 r . (2.34)

Assim, lembrando das definições dos operadores diferenciais, E →



i ~ ∂t ~ para a energia total e para o momentum respecti-
e ~p → − i ~∇,
vamente, ou para qualquer outra quantidade física, podemos expressar
os valores estimados em termos da coordenada de posição, espaço de
coordenada. Exemplo, valor esperado para o momentum
Z Z
h~pi = ~p |ψ| d r = ψ ∗ (− i ~∇)
2 3 ~ ψ d3 r . (2.35)

Vamos agora verificar o desenvolvimento da equação de Schrödinger


e dos valores esperado em espaço de momentum, como por exemplo

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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2.7. Valor Esperado – Espaço de Coordenada e Momentum 59

expressar ~r como um operador diferencial (similar ao operador diferen-


cial para o momentum). Partindo da transformada de Fourier e sua
inversa Z
φ(~p, t) e ~ ~p ~r d3 p
1 i
ψ(~r, t) = 3/2
(2.36)
(2π~)
e Z
ψ(~r, t) e− ~ ~p ~r d3 r .
1 i
φ(~p, t) = 3/2
(2.37)
(2π~)
Note que nessas equações usamos ~p no lugar de ~k = ~p/~, para recuper-
armos as informações em espaço de ~k, basta fazer as substituições
~p → ~~k, d3 p → ~3 d3 k, φ(~p) → ~−3/2 φ(~k) .
Note que usamos a função ψ em espaço de coordenada e a função
φ em espaço de momentum, mas ambas são igualmente válidas para
descrever o mesmo estado do sistema considerado. Dado um ou outro,
podemos desenvolver a equação de movimento usando (2.36) ou (2.37).
As duas funções dependem do tempo t. Para o caso especial da partícula
livre, a onda onda plana de momentum ~p = ~~k desenvolve no tempo
através da equação
φ(~p, t) = φ(~p, 0) e− i ω(~p)t . (2.38)
Para um caso geral, na presença de um potencial, a evolução no
tempo de φ(~r, t) é mais complexa do que a da equação acima. Mas poder-
emos obter uma equação de onda em espaço de momentum fazendo uso
da diferenciação em relação ao tempo t de (2.37),
Z
∂φ(~p, t) 1 ∂ψ(~r, t) − i ~p ~r 3
i~ = i ~ e ~ d r
∂t (2π~)3/2 ∂t
ou
Z · 2 ¸
i~
∂φ(~p, t)
=
1
e 
− ~i ~p ~r

~
∇ + V (~r) ψ(~r, t) d3 r .
2
∂t (2π~)3/2 2µ
Usando novamente as transformadas de Fourier (2.36) e (2.37), e
fazendo pequenos ajustes, obteremos
∂φ(~p, t) p2
i~ = φ(~p, t)
∂t 2µ
Z
e− ~ ~p ~r V (~r) e ~ ~p ~r φ(~p0 , t) d3 r d3 p0 . (2.39)
1 i i 0
+
(2π~)3

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60 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

Lembrando que φ é uma equação de onda em espaço de momentum.


Podemos ainda transforma-la em uma equação diferencial se V for uma
função analítica de x, y, z, e se podermos escrever

e− ~ ~p ~r V (~r) = V (i ~∇
~ ~p ) e− ~ ~p ~r ,
i i

~ ~p . Substituindo
onde ~r aparece como um operador diferencial ~r → i ~∇
a equação acima em (2.39), executando a integral, teremos a solução
com o auxilio da função delta de Dirac, e o resultado final será uma
equação diferencial parcial em espaço de momentum:

∂φ(~p, t) p2 ~ ~p ) φ(~p, t)
i~ = φ(~p, t) + V (i ~∇ (2.40)
∂t 2µ

que é completamente equivalente a (2.1).


É importante observar que
Z Z
|φ(~p, t)|2 d3 p = |ψ(~r, t)|2 d3 r (2.41)

ou seja, se ψ é normalizada para qualquer t, da mesma forma φ é auto-


maticamente normalizado.
Para elucidar melhor, vamos deduzir explicitamente a componente
x como um operador diferencial x → i ~ dpdx . Partindo do valor esperado
hxi Z
hxi = ψ ∗ (x) x ψ(x) dx ,

da transformada de Fourier
Z
1 i
ψ(x) = φ(p) e ~ px dp ,
(2π~)1/2

e das propriedades da função delta de Dirac (a função delta será detal-


hada no próximo capítulo), dadas por
Z ∞
0 1 0
δ(p − p ) = ei(p−p )x dx
2π ∞

e Z
f (x0 ) δ(x − x0 ) dx0 = f (x) .

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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2.7. Valor Esperado – Espaço de Coordenada e Momentum 61

Sabemos que
Z
hxi = ψ ∗ (x) x ψ(x) dx
Z Z Z
1 i i 0
= φ∗ (p) e− ~ px dp dx x φ(p0 ) e ~ p x dp0 .
2π~

integrando por partes a última integral

d
u = φ(p0 ) → du = φ(p0 ) dp0
dp0
e Z
i 0 i 0 i 0
px 0
dv = x e ~ dp → v= x e ~ p x dp0 = − i ~ e ~ p x ,

assim
Z h i+∞ Z
i 0 i 0 d i 0
x φ(p0 ) e ~ p x dp0 = − i ~ φ(p0 ) e ~ p x + i~ φ(p0 ) e ~ p x dp0 .
−∞ dp0

Então,
Z Z Z
1 i 0 d
hxi = e ~ (p −p)x dx φ∗ (p) i ~ φ(p0 ) dp0 dp
2π~ dp0
Z Z
d
= φ∗ (p) i ~ φ(p0 ) δ(p0 − p) dp0 dp
dp0
Z
d
= φ∗ (p) i ~ φ(p) dp .
dp

Portanto, o operador diferencial para a componente x da coordenada


será
d
x → i~ (2.42)
dp
e em três dimensões teremos:

~ ~p .
~r → i ~ ∇ (2.43)

~ ~p é o gradiente no espaço de momentum.


onde ∇
Assim, teremos todos os casos no espaço de momentum:
Z Z
|ψ(~r, t)| d r = |φ(~p, t)|2 d3 p
2 3
(2.44)

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62 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores


Z
h~pi = ~p |φ(~p, t)|2 d3 p (2.45)
Z
h~ri = ~ ~p φ(~p, t)d3 p .
φ∗ (~p, t) i ~ ∇ (2.46)

Podemos generalizar para uma função arbitrária de posição, o valor


esperado é dado por:
Z Z ³ ´
2 3 ~ ~p φ(~p, t) d3 p .
hf (~r)i = f (~r) |ψ(~r, t)| d r = φ∗ (~p, t) f i ~ ∇
(2.47)
Similarmente, podemos usar para obter o valor esperado de uma função
arbitrária de momentum,
Z Z µ ¶
2 3 ∗ ~ ~
hg(~p)i = g(~p) |φ(~p, t)| d p = ψ (~r, t) g ∇ ψ(~r, t) d3 r .
i
(2.48)
Com essas relações podemos calcular para todo sistema físico, os
valores esperados para os operadores associados a energia, posição, mo-
mentum e qualquer função arbitrária de posição e de momentum, uti-
lizando tanto o espaço de posição bem como o espaço de momentum.

2.8 Operadores
Seja F uma quantidade física que caracteriza o estado de um sistema
quântico. Os valores que uma dada quantidade física pode assumir são
chamados de autovalores. O conjunto dos autovalores é o espectro.
Na mecânica clássica as quantidades físicas são contínuas. Porém na
mecânica quântica, não necessariamente. Pode haver espectros dis-
cretos ou espectros contínuos. Vamos supor, para simplificar, que o
espectro de F seja discreto. Os autovalores de F serão denotados por
fn , (n = 0, 1, 2,    ). A função de onda do sistema, no estado em que
F tem o valores fn , será denotada por ψn . Essas funções são chamadas
autofunções de F. Assim,

Fψn = fn ψn . (2.49)

Um operador é dito linear se sua ação em duas funções ψ1 e ψ2 é


tal que:
F(c1 ψ1 + c2 ψ2 ) = c1 Fψ1 + c2 Fψ2 ,

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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2.8. Operadores 63

onde c1 e c2 são números complexos arbitrários. A maior parte dos


operadores em mecânica quântica são lineares.
Somente uma outra categoria de operadores são importantes na
mecânica quântica, que é o anti-linear, caracterizado pela propriedade

F(c1 ψ1 + c2 ψ2 ) = c∗1 Fψ1 + c∗2 Fψ2 .

Os complexo conjugados são eles próprios um exemplo de operadores


anti-lineares. Esses operadores são importantes na mecânica quântica
quando processos físicos com reversão temporal são considerados
Assim, uma quantidade física, na qual é função da coordenada e do
momentum linear, temos um operador linear associado que nos dá o
valor esperado. O valor esperado, ou conceito de valor médio hFi da
quantidade física F em um dado estado. Sejam fn os valores possíveis de
F, ou seja, seus autovalores. Sejam |cn |2 as probabilidades de cada um
dos autovalores, no estado em questão. Define-se então o valor médio
como X
hFi = fn |cn |2
n

Como queremos encontrar uma expressão para F em termos da função


de onda do estado considerado, e ψ é esta função. Para fazer isso vamos
associar à quantidade física ao operador linear F que atua sobre as
funções de onda. Seja Fψ a função obtida quando F atua sobre ψ.
Assim, Z Z
hFi = ψ ∗ F ψ d3 r = φ∗ F φ d3 p (2.50)

para qualquer estado ψ em espaço de coordenadas, ou φ em espaço de


momentum. Então
X Z X
hFi = fn cn cn = ψ ∗

cn fn ψn d3 r
n n
R
onde usamos cn = ψ ∗ ψn d3 r. Vemos, primeiramente, que
X
hFi = cn fn ψn
n
P
e que ψ = n cn ψn , de maneira que hFi é linear, então

Fψn = fn ψn

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64 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

como já havíamos mencionado.


Do fato do valor esperado F ser real segue uma propriedade impor-
tante dos operadores associados a quantidades físicas:
Z µZ ¶∗
∗ 3 ∗ ∗ 3
hFi = ψ F ψ d r = hF i = ψ Fψd r . (2.51)

Mas
µZ ¶∗ Z
¡ ∗ ¢∗
ψ ∗ F ψ d3 r = ψ (F ψ) d3 r
Z
= ψ (F∗ ψ ∗ ) d3 r
Z
= ψ F∗ ψ ∗ d3 r , (2.52)

onde F∗ é definido por: se Fψ = φ, então F∗ é o operador tal que


F∗ ψ ∗ = φ∗ 4 . Então,
Z Z
ψ F ψ d r = ψ F∗ ψ ∗ d3 r .
∗ 3

Vamos definir o operador transposto Ft do operador F. Sejam ψ e φ


funções arbitrárias. Então Ft é tal que
Z Z
ψ (F ) φ d r = φ F∗ ψ ∗ d3 r .
∗ t 3

Se tomarmos como exemplo ψ = i φ,


Z Z ³ t´
ψ F ψ d r = ψ ∗ F∗ ψ d3 r .
∗ ∗ 3

Da condição de F ser real, da equação (2.52), temos


Z Z Z ³ t´
ψ F ψ d r = ψ F ψ d r = ψ F∗ ψ d3 r .
∗ 3 ∗ ∗ 3 ∗
(2.53)

Comparando os dois extremos da equação acima, vemos que

F = (Ft )∗ .
4 ∂ ∂ψ
Por exemplo, seja F = − i ∂x . Então, dado uma ψ qualquer, temos Fψ = − i ∂x
.
¡ ¢∗ ∗
O operador F deve ser tal que F∗ ψ ∗ = − i ∂ψ

∂x
= i ∂ψ
∂x
. Logo, F∗ = i ∂x

.

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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2.8. Operadores 65

Operadores com esta propriedade são ditos hermitianos. Logo, os op-


eradores associados a quantidades físicas são operadores lineares her-
mitianos.
Podemos, formalmente, considerar quantidades físicas complexas,
i.e., cujos autovalores são complexos. Por exemplo, dadas as coorde-
nadas x e y, podemos considerar a quantidade x + i y. Seja a função F
uma quantidade desse tipo, e seja F ∗ a quantidade cujos autovalores
são os complexo conjugados dos autovalores da função F . À quanti-
dade F corresponde o operador F. Denotemos por F† o operador corre-
spondente à quantidade F ∗ . Este operador é denominado o operador
adjunto de F.
O valor médio da quantidade F ∗ é dado por
Z
hF∗ i = ψ ∗ F† ψ d3 r

onde apenas adaptamos a definição de média de um operador.


Ora, Z
hFi = ψ ∗ F ψ d3 r

logo
µZ ¶∗ Z Z
∗ ∗ 3
hFi = ψ Fψd r = ψ F∗ ψ ∗ d3 r = ψ ∗ (Ft )∗ ψ d3 r .

Mas à !∗
X X
hF∗ i = fn∗ |cn |2 = fn |cn |2 = hFi∗ .
n n

Ou seja, Z Z
∗ † 3
ψ F ψd r= ψ ∗ (Ft )∗ ψ d3 r .

Comparando, temos F† = (Ft )∗ . Em palavras, o adjunto é o transposto


do conjugado.
A condição de hermiticidade de um operador, escrita anteriormente
como
Ft = F∗
pode agora ser escrita como:

F = F†

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66 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

e os operadores hermitianos são aqueles que coincidem com os adjuntos.


Daí serem chamados também de operadores auto-adjuntos.
Fica fácil demonstrar que a ortogonalidade das autofunções de um
operador hermitiano. Sejam fn e fm dois autovalores diferentes do op-
erador hermitiano F. Sejam ψn e ψm as autofunções correspondentes.
Então,
Fψn = fn ψn (2.54)
e
Fψm = fm ψm . (2.55)
∗ , temos
Multiplicando a (2.54) por ψm
∗ ∗ ∗
ψm Fψn = ψm fn ψn = fn ψm ψn

e Z Z
∗ 3 ∗
ψm Fψn d r = fn ψm ψn d3 r . (2.56)

Tomando o complexo conjugado de (2.55) e multiplicando por ψn , temos


ψn F∗ ψm
∗ = f ψ ψ ∗ . Integrando,
m n m
Z Z
∗ ∗ 3 ∗
ψn F ψm d r = fm ψn ψm d3 r (2.57)
Z Z Z
∗ 3 † ∗ 3 ∗
ψm Fψn d r− ψn F ψm d r = (fn − fm ) ψn ψm d3 r . (2.58)

Mas

Z Z
¡ t ¢∗
ψn F∗ ψm

d3 r = ∗
ψm F ψn d3 r
Z
∗ †
= ψm F ψn d3 r
Z

= ψm Fψn d3 r .

Pois F é hermitiano. Logo, o primeiro termo de (2.58) é nulo. Portanto,


Z

(fn − fm ) ψn ψm d3 r = 0

e, como fn 6= fm , segue a relação de ortogonalidade


Z

ψn ψm d3 r = 0 (n 6= m) . (2.59)

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2.8. Operadores 67

Segue um número de teoremas simples a respeito dos operadores 5 .

1. A soma de dois operadores hermitianos é um operador hermitiano.

2. O operador identidade I, para qual opera todas as funções nelas


próprias, é hermitiano. Se λ é um número real, λ I é hermitiano.

3. Se F é um operador não hermitiano, F + F† e i(I − I† ) são hermi-


tianos. Desde que, F possa ser escrito como a combinação linear
dos dois operadores hermitianos:

F + F† F − F†
F= +i . (2.60)
2 2

4. Se F e G são dois operadores arbitrários, o adjunto de seu produto


é dado por
(FG)† = G† F† . (2.61)

Prova.
Z Z
∗ † 3
ψ (FG) ψ d r = (FGψ)∗ ψ d3 r
Z
= (Gψ)∗ F† ψ d3 r
Z
= ψ ∗ G† F† ψ d3 r

Mas ψ é arbitrária, desde que segue (2.61). Se F e G são oper-


adores hermitianos,
(FG)† = GF .

Corolário: O produto de dois operadores hermitianos é hermi-


tiano se e somente se eles comutam.

5. O adjunto de um número complexo λ é seu complexo conjugado


λ∗ .
5
Dois livros fazem a ponte entre a análise funcional e a teoria de operadores lineares:
T. F. Jordan, Linear operator for quantum mechanics, (1968), e J. M. Jauch, Foun-
dations of quantum mechanics, (1968); ver também o magnífico livro de Landau
e Lifshitz, Quantum mechanics, (1976)

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68 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

6. É fácil verificar que a natureza dos seguintes operadores são her-


~
mitianos: operador de posição~r, operador momentum ~p = − i ~∇,
2
operador energia H = ~p2µ + V (~r), operador momentum angular
~L = ~r × ~p = ~r × ~ ∇.
~
i

2.9 Adição e Multiplicação de Operadores


Sejam F e G duas quantidades físicas que podem ter valores definidos
simultaneamente. Sejam F e G seus operadores associados. Os autoval-
ores da soma F + G são a soma dos autovalores de F e de G. Considere
o operador F + G, e sejam ψn as autofunções comuns a F e G. Então,

Fψn = fn ψn
Gψn = gn ψn

e, portanto,
(F + G)ψn = (fn + gn )ψn .
Esse resultado pode ser generalizado para funções de onda quaisquer,
assim:
(F + G)ψ = Fψ + Gψ .
Neste caso, tem-se
Z Z Z
hF+Gi = ψ (F+G)ψ d r = ψ Fψ d r+ ψ ∗ Gψ d3 r = hFi+hGi
∗ 3 ∗ 3

A multiplicação de operadores é definida assim:

(FG)ψ = F(Gψ) .

Suponhamos que ψn seja autofunção comum a F e G. Então,

FGψn = F(Gψn ) = Fgn ψn = gn Fψn = gn fn ψn

e
GFψn = G(Fψn ) = Gfn ψn = fn Gψn = fn gn ψn .
Logo, para as autofunções simultâneas, temos

(FG − GF)ψn = 0

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2.10. A Derivada Temporal de um Operador 69

Porém esse fato não é suficiente para se concluir que o operador

FG − GF = 0 .

Contudo, como o conjunto das autofunções ψn é completo, temos, dada


uma função de onda arbitrária, que
X
ψ= cn ψn
n

e X
(FG − GF)ψ = cn (FG − GF)ψn = 0
n

Logo, o operador FG − GF é zero como operador, pois leva qualquer


função ao valor zero. Nota-se que esse fato foi demonstrado para dois
operadores que possuem um conjunto completo de autofunções comuns.
No caso geral, esse comutador,

[F, G] ≡ FG − GF

é diferente de zero.

2.10 A Derivada Temporal de um Operador


podemos dizer que um operador dF
dt é a derivada no tempo do operador
F se, sendo hFi o valor médio de F num estado arbitrário, e h dF
dt i o
valor médio de dF
dt nesse mesmo estado, tivermos

d dF
hFi = h i (2.62)
dt dt
Explicitando, devemos ter
Z
d d
hFi = ψ ∗ Fψ d3 r
dt dt
Z Z Z
∗ ∂F 3 ∂ψ ∗ ∂ψ 3
= ψ ψd r+ Fψ d r + ψ ∗ F
3
d r (2.63)
∂t ∂t ∂t
e usando a equação de Schrödinger,

∂ψ ∗ i
= H∗ ψ ∗
∂t ~

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70 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

∂ψ i
= − Hψ .
∂t ~
Substituindo esses resultados em (2.63), temos 6
Z Z Z
d ∗ ∂F 3 i ∗ ∗ 3 i
hFi = ψ ψd r+ (H ψ )Fψ d r − ψ ∗ F(Hψ) d3 r
dt ∂t ~ ~
(2.64)
usando o fato de que H ser hermitiano, temos
Z Z
(H ψ )Fψ d r = ψ ∗ HFψ d3 r
∗ ∗ 3
(2.65)

e, conseqüentemente,
Z µ ¶
d ∗ ∂F i i
hFi = ψ + HF − FH ψ d3 r . (2.66)
dt ∂t ~ ~
Como, por definição,
Z
d dF
hFi = ψ∗h iψ d3 r
dt dt
temos que:
dF ∂F i
= + (HF − FH) . (2.67)
dt ∂t ~
Como dissemos, a maioria dos casos são aqueles em que ∂F ∂t = 0, onde
dissemos que o operador não tem dependência explícita no tempo. Nesse
caso,
dF i
= (HF − FH) . (2.68)
dt ~
As equações (2.67) e (2.68) são as equações de movimento de Heisen-
berg para os casos em que F é explicitamente dependente do tempo e
não explicitamente dependente do tempo, respectivamente.
6
O termo que contém a derivada parcial do operador só existe quando a expressão
do operador contém parâmetros que dependam do tempo. Por exemplo, se tiver-
mos uma partícula livre de massa variável, seu hamiltoniano seria

~2
H=− ∇2
2µ(t)
e sua derivada seria
∂H ~2 dµ 2
= ∇
∂t 2µ2 (t) dt
Mas, na grande maioria dos casos estudados esse termo é inexistente.

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2.11. Teorema de Ehrenfest 71

Se F for uma constante de movimento, dF dt = 0. Assim, [H, F] = 0.


Na mecânica quântica, a constância de uma quantidade física no tempo
quer dizer isto: que o valor médio dessa quantidade independe do tempo.
Considere o operador H. Temos, evidentemente, que [H, H] = 0, logo,
se H não depende explicitamente do tempo,

dH i
= [H, H] = 0 , (2.69)
dt ~
d
e dt hHi = 0. A quantidade física associada ao operador hamiltoniano é
a energia. Logo, a energia se conserva 7 .

2.11 Teorema de Ehrenfest


Paul Ehrenfest 8 mostrou que para os valores médios da posição ~r e do
momentum ~p de uma partícula de massa µ, em um campo conservativo
V (~r), obedecem a expressões análogas às equações de movimento da
mecânica clássica de Isaac Newton 9 .
Por exemplo, partindo da expressão para o valor médio da posição
h~ri, derivando em relação ao tempo temos:
Z Z µ ¶ Z µ ∗¶
d ∂ρ 3 ∗ ∂ψ 3 ∂ψ
h~ri = ~r d r = ~r ψ d r + ~r ψ d3 r
dt ∂t ∂t ∂t
Z
i~ £ ¤
= ~r ψ ∗ ∇2 ψ − (∇2 ψ ∗ )ψ d3 r

Z h ³ ´i
i~ ~  ψ ∇ψ
~ ∗ − ψ ∗ ∇ψ
~
=− ~r ∇ d3 r

7
R
Como |ψ|2 dr = 1, é a integral estendida a todo o espaço, temos que
Z Z Z µ ∗ ¶
d d ∂ψ ∂ψ
0= |ψ|2 d3 r = ψ ∗ ψ; d3 r = ψ + ψ∗ d3 r
dt dt ∂t ∂t
Eliminando as derivadas no tempo através da equação de Schrödinger , temos:
µZ Z ¶ µZ Z ¶
i i
0= ψH∗ ψ ∗ d3 r − ψ ∗ Hψ d3 r = ψ ∗ (Ht )∗ ψ d3 r − ψ ∗ Hψ d3 r
~ ~
Z ³ ´
i
= ψ ∗ H† − H ψ d3 r
~

Segue então que H = H† , ou seja, que H é um operador hermitiano.


8
Paul Ehrenfest (1880–1933), físico austríaco.
9
P. Ehrenfest, Zeitschrift für Physik 45, 455–457 (1927).

Mecânica Quântica

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72 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores


Z ³ ´
=− ~r ∇~  ~J d3 r (2.70)

Uma vez que os termos que envolvem componentes distintas de ~r e ~J


são nulas, a taxa de variação do valor médio de ~r é dada por
Z ∞ Z ∞
∂Jx
x dx = Jx dx
−∞ ∂x −∞

ou seja
Z
d
h~ri = ~J d3 r .
dt
³ ´
Usando ~J = 2µ
i~ ~ ∗ − ψ ∗ ∇ψ
ψ ∇ψ ~ e integrando por partes, obteremos
finalmente Z
d ³ ´
µ h~ri = ψ ∗ − i ~∇ ~ ψ d3 r = h~pi . (2.71)
dt
Agora faremos a derivada da expressão do valor médio do momen-
tum em relação ao tempo,
·Z µ ¶ Z µ ∗¶³ ´ ¸
d ∗~ ∂ψ 3 ∂ψ ~ 3
h~pi = − i ~ ψ ∇ d r+ ∇ψ d r
dt ∂t ∂t
Z h
~2 ¡ ¢ ¡ ¢³ ´i
= ψ∗∇~ ∇2 ψ − ∇2 ψ ∗ ∇ψ ~ d3 r +

Z h ³ ´i
+ ~ (V ψ) + V ψ ∗ ∇ψ
−ψ ∗ ∇ ~ d3 r (2.72)

Usando o teorema de Green 10 na primeira integral temos,


Z h
¡ ¢ ¡ ¢³ ´i
~ ∇2 ψ − ∇2 ψ ∗ ∇ψ
ψ∗∇ ~ d3 r =
Z h³ ´³ ´ ³ ´i
~
∇ψ ~ ∗ − ψ∗∇
∇ψ ~ ∇ψ
~  d~S
S

10
George Green (1793–1841), matemático inglês.
O teorema de Green para as funções continuas e diferenciáveis, φ e ψ, é dado por:
Z I h i
(φ∇2 ψ − ψ∇2 φ) d3 r = ~ − ψ ∇φ
φ∇ψ ~  d~S
V S

onde a superfície S envolve todo o volume V.

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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2.12. Teorema Virial 73

que para uma grande superfície, a integral é nula. Para resolver a se-
gunda integral, teremos que integrar por partes duas vezes no termo
ψ ∗ , logo
Z ³ ´
d ~ ~ i = h~Fi .
h~pi = − ψ ∗ ∇V ψ d3 r = −h∇V (2.73)
dt

A equação (2.73), conhecida como teorema de Ehrenfest, é semel-


hante à segunda lei de Newton, de acordo com o valor esperado e o
princípio de correspondência.
Para um caso geral, a formula da derivada temporal do valor esper-
ado de uma quantidade física qualquer associada a um operador F, tal
que a equação de onda está na forma

∂ψ
i~ = Hψ
∂t
com
~2 2
H=− ∇ + V (~r)

será
d ∂F
i~ hFi = hFH − HFi + i ~h i. (2.74)
dt ∂t
Essa formula é de muita importância para mecânica quântica, e já dis-
cutimos anteriormente seu significado.

2.12 Teorema Virial


Vamos considerar um simples exemplo para nossa ilustração. Considere
a equação de movimento do operador ~r  ~p. De acordo com (2.74),

d
i~ h~r  ~pi = h[~r  ~p, H]i ,
dt

usando a relação dada em (1.14) para a componente x, x px −px x = i ~,


teremos
p2
[xpx , H] = i ~ x + x[px , V ]
µ

Mecânica Quântica

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74 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

e similar relações encontraremos para as componentes y e z. Combi-


nando os resultados, teremos
Z h i
d p2
h~r  ~pi = h i + ψ ∗~r  ∇(V
~ ψ) − V (∇ψ) ~ d3 r
dt µ
Z ³ ´
p2
= h i + ψ ∗ ~r  ∇V
~ ψ d3 r . (2.75)
µ

Como na mecânica clássica 11 , podemos obter de (2.75) o valor médio


em todo tempo τ

1
[h~r  ~pit=τ − h~r  ~pit=0 ] = 2hT i − h~r  ∇V
~ i = 2hT i + h~r  ~Fi
τ
Se o valor esperado dessa expressão tende a finito quando τ → ∞, o
lado que contém 2hT i − h~r  ∇V
~ i → 0, assim

2hT i = h~r  ∇V
~ i = −h~r  ~Fi . (2.76)

Para os estados estacionários, todos os valores esperados em (2.76)


são constantes no tempo, e então

2hT i = h~r  ∇V
~ i = −h~r  ~Fi . (2.77)

Os resultados encontrados em (2.76) e (2.77) são conhecidos como o


teorema virial. Uma aplicação importante é quando temos moléculas
de gás interagindo fracamente.

2.13 Comutadores e Regras de Comutação


Vamos considerar algumas propriedades dos operadores lineares:

1. Sendo A e B dois operadores lineares, temos que (A + B)ψ =


(B + A)ψ, o que significa que esses operadores são comutativos
em relação a soma;

2. O produto de dois operadores lineares, em geral, não é comutativo,


i.e., AB 6= BA;
11
Ver o livro de Goldstein, Classical mechanics, (1980), seções 3–4.

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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2.13. Comutadores e Regras de Comutação 75

3. A diferença do produto de dois operadores lineares quânticos, es-


crita na forma AB − BA é chamada de comutador de A e B e
é representada por

[A, B] = AB − BA ; (2.78)

4. A soma do produto de dois operadores lineares A e B, escrito na


ordem AB + BA é chamada de anticomutador ou operador de
anticomutação desses operadores e é representado por

{A, B} = AB + BA . (2.79)

Um exemplo de duas variáveis dinâmicas que não se comutam é x e



px = − i ~ ∂x , atuando em uma função de onda arbitrária ψ(x)
µ ¶
~ ∂ ~ ∂
[x, px ]ψ(x) = x − x ψ(x)
i ∂x i ∂x
µ ¶
∂ψ(x) ∂(xψ(x))
= −i~ x −
∂x ∂x
µ ¶
∂ψ(x) ∂ψ(x)
= −i~ x − ψ(x) − x
∂x ∂x
= i ~ ψ(x) ,

logo,
[x, px ] = i ~ . (2.80)
O mesmo vale para as componentes y e z. Assim,

[x, px ] = [y, py ] = [z, pz ] = i ~ I . (2.81)

Na notação dos comutadores, para qualquer variável dinâmica, é


fácil verificar as seguintes regras elementares:

[A, B] + [B, A] = 0
[A, A] = 0
[A, B + C] = [A, B] + [A, C]
[A + B, C] = [A, C] + [B, C] (2.82)
[AB, C] = A[B, C] + [A, C]B
[A, BC] = [A, B]C + B[A, C]
[A, [B, C]] + [C, [A, B]] + [B, [C, A]] = 0

Mecânica Quântica

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76 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

Sendo a última relação conhecida como identidade de Jacobi 12 . Ainda


podemos provar que, para um inteiro positivo n,

[A, B n ] = nB n−1 [A, B]


[An , B] = nAn−1 [A, B] (2.83)

A seguinte relação de uso freqüente, também tem importante relevân-


cia na mecânica quântica, pois envolve funções eA , é dado pela função:

F(λ) = eλA Be−λA (2.84)

onde λ é um número real. Faremos uma expansão em série de Taylor 13 ,


observando que

dF
= AF(λ) − F(λ)A = [A, F(λ)]
dλ · ¸
d2 F dF
= A, = [A, [A, F(λ)]]
dλ2 dλ

e então, desde que F(0) = B, nós teremos a relação

λ2 λ3
eλA Be−λA = B + λ[A, B] + [A, [A, B]] + [A, [A, [A, B]]] + . . .
2! 3!
(2.85)
e quando λ = 1, temos a série de Lie 14 :

1 1
eA Be−A = B + [A, B] + [A, [A, B]] + [A, [A, [A, B]]] + . . .
2! 3!
Se as variáveis dinâmicas A e B satisfazem a condição [A, B] = γB,
onde γ é um número, a equação acima reduz à

eA Be−A = eγ B . (2.86)

Um caso particular da equação (2.85), nos leva a uma simples relação


eA eB = eA+B , mas em geral não é valida para operadores. Em seu lugar,
12
Assumimos que a identidade de Jacobi em mecânica quântica é bem mais fácil de
provar do que seu análogo clássico; para uma revisão dos parênteses de Poisson,
ver Goldstein, Classical mechanics, (1980).
13
Brook Taylor (1685–1731), matemático inglês.
14
Marius Sophus Lie (1842–1899), matemático norueguês.

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2.13. Comutadores e Regras de Comutação 77

normalmente usamos a fórmula de Baker-Campbell-Hausdorff 15 .


1 1 1
eA eB = eA+B+ 2 [A,B]+ 12 [A,[A,B]]+ 12 [B,[B,A]]+...

A série dentro da exponencial no lado direito da equação acima é um


tanto complexa, mas envolve apenas comutadores múltiplos de A e B.
Temos outras relações importantes que são usadas na mecânica
quântica, como:
1
eA eB = eA+B+ 2 [A,B] (2.87)

Prova. Consideremos o operador G(α) = eαA eαB , sendo α real. Derivando


G(α) em relação a α, temos

d
G(α) = AeαA eαB + eαA BeαB

= AeαA eαB + eαA Be−αA eαA eαB
£ ¤
= A + eαA Be−αA G(α)

Usando (2.85), podemos reescrever a equação acima do seguinte modo:

d
G(α) = [A + B + α[A, B]]G(α) ,

o que nos permite escrever:

dG(α)
= [A + B + α[A, B]] dα .
G(α)

Integrando essa expressão, obtemos


1 2 [A,B]
G(α) = eαA eαB = G(0) eα(A+B)+ 2 α (2.88)

Nessa equação, podemos observar que para α = 0, temos G(0) = 1 e,


portanto, fazendo α = 1, demonstramos a relação (2.87).
15
Henry Frederick Baker (1866–1956), matemático inglês.
John Edward Campbell (1862–1924), matemático inglês.
Felix Hausdorff (1868–1942), matemático alemão.
H. Baker, Proceeding London Math. Sociaty (1) 34, 347–360 (1902); Ibid (1) 35,
333–374 (1903); Ibid (Ser. 2) 3, 24–47 (1905); J. Campbell, Proceeding London
Math. Sociaty 28, 381–390 (1897); Ibid 29, 14–32 (1898); F. Hausdorff, Ber Verh
Saechs Akad. Wiss Leipzig 58, 19–48 (1906).

Mecânica Quântica

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78 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

2.14 Operadores Unitários - Operador


Deslocamento
As quantidades observáveis (resultados de medidas) aparecem, na mecânica
quântica, sob a forma de norma de todos os estados,
Z
ψ ∗ (~r) ψ(~r) d3 r ,

e o valor esperado de uma observável O é dado por,


Z
hOi = ψ ∗ (~r) O ψ(~r) d3 r .

Como toda teoria, a mecânica quântica admite transformações "de lin-


guagem": por exemplo, quando eu descrevo o mesmo fenômeno us-
ando dois sistemas de eixos ortogonais, obtenho descrições distintas do
mesmo fenômeno. Essas descrições devem ser equivalentes, já que rep-
resentam o mesmo fenômeno de pontos-de-vista distintos: as descrições
são diferentes, mas têm o mesmo conteúdo.
Como as quantidades físicas preservam o produto escalar (pro-
duto interno ou escalar hermitiano) de dois estados, é importante o
estudo dos operadores que conservam os produtos escalares, ou seja,
dos operadores U que são tais que
Z Z
ψ1∗ (~r) ψ2 (~r) d3 r = [Uψ1 (~r)]∗ Uψ2 (~r) d3 r . (2.89)

Pela definição do operador adjunto U† , escrevemos (2.89) como


Z Z
ψ1∗ (~r)U† Uψ2 (~r) d3 r = [U† Uψ1 (~r)]∗ ψ2 (~r) d3 r

Assim, um operador linear é dito operador unitário, se satisfaz a


relação
UU† = U† U = 1 . (2.90)
Seja U um operador unitário e considere as transformações de funções
de onda:

ψ 0 (~r) = Uψ(~r)
φ0 (~r) = Uφ(~r)

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2.14. Operadores Unitários - Operador Deslocamento 79

Então,
Z Z
ψ 0∗ φ0 d3 r = [Uψ]∗ Uφ d3 r
Z Z
= ψ ∗ U† Uφ d3 r = ψ ∗ φ d3 r

o que mostra que uma transformação implementada por um operador


unitário conserva os produtos escalares.
Como exemplo de operadores unitários vamos considerar o oper-
ador deslocamento ou de translação, definido por Da ψ(x) = ψ(x+a)
no caso de um deslocamento na direção x, onde a é um número real.
Então, podemos escrever

ψ 0 (x) = Da ψ(x) = ψ(x + a)

Se a for apenas um deslocamento infinitesimal, podemos expandir a


função ψ em série de Taylor, em torno do ponto (x, y, z), do seguinte
modo:
∼ ψ(x) + a ∂ ψ(x) = (1 + i aTx ) ψ(x) ,
ψ 0 (x) = (2.91)
∂x

em que Tx = − i ∂x . Dessa forma, podemos observar que a diferença
0
entre ψ (x) e ψ(x) é originada pela ação do operador i aTx sobre a
função de onda ψ(x). Chamaremos Tx de um gerador infinitesimal de
translação so longo da direção x. A relação expressa em (2.91) não
é restrita somente à mecânica quântica. Porém, no seu contexto, Tx
tem um significado especial em mecânica quântica, pelo simples fato do

momentum px = − i ~ ∂x . Diante desse fato, o gerador infinitesimal de
de translação pode ser representado por

∂ px
Tx = − i = . (2.92)
∂x ~

Então o operador deslocamento Da = 1 + i aTx , mas como D†a Da = 1 é


unitário, segue que Tx = Tx† é um operador hermitiano.
Se temos uma translação numa distância finita a, podemos ver
como n ¡translações
¢ infinitesimais em que devemos considerar o limite
limn→∞ na . Então, podemos escrever (2.91) como
³ a px ´n apx
ψ 0 (x) = lim 1+i ψ(x) = ei ~ ψ(x) . (2.93)
n→∞ n ~

Mecânica Quântica

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80 Cap. 2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores

Generalizando para as três dimensões, temos

ψ 0 (~r) = ei
~
p ~r
~ ψ(~r) . (2.94)

Logo, nesse caso o operador deslocamento unitário é definido por

D~r = ei
~
p ~r
~
 . (2.95)

e fica claro que D†a Da = 1, como havíamos dito.

2.15 Comentários
Para esse capítulo, recomenda-se ao leitor, uma leitura paralela do clás-
sico livro do Prof. Eugen Merzbacher (1998) 16 , nesse livro poderá en-
contrar um trabalho muito bom sobre a equação de Schrödinger e a
interpretação probabilística. Com relação ao estudo dos operadores, de-
verá ser feita a leitura do magnífico livro dos Profs. Landau e Lifshitz
(1989) 17 .

16
E. Merzbacher, Quantum mechanics, (1998).
17
L. D. Landau and E. M. Lifshitz, Quantum mechanics, (1989).

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Capítulo 3

Aplicações da Equação de
Schrödinger

Do mesmo modo que os processos abordados pela Mecânica Clássica


são calculados através de modelos que permitem a determinação de
suas soluções, em mecânica quântica ocorre o mesmo. Assim, nesse
capítulo faremos um estudo das soluções de modelos abordados pela
Mecânica Quântica Ondulatória, i.e., pelas aplicações da equações
de Schrödinger. Iremos mostrar modelos matematicamente simples, us-
ando potenciais constantes em uma dimensão.

3.1 A Função Delta

Normalmente a normalização da função ψ é realizada em todo o es-


paço, mas normalmente os modelos utilizados em mecânica quântica
podem apresentar degraus, como a barreira de potencial ou mesmo o
poço de potencial retangular, não podemos esquecer que a função ψ é
contínua e bem comportada. Assim, uma ferramenta conveniente em
nossa discussão é a função delta de Dirac.
A função delta é uma generalização do delta de Kronecker para o
caso de variáveis contínuas. O delta de Kronecker é dado por

½
1 se i = j,
δij =
0 se i =
6 j.

81

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82 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

Alternativamente podemos definir



X
f (j) = δij f (i) (3.1)
i=1

onde i e j tomam valores discretos 1, 2, 3, . . .


Generalizando (3.1), temos a definição da função delta, dada pela
equação Z +∞
f (x0 ) = δ(x, x0 ) f (x) dx (3.2)
−∞

onde f (x) é uma função arbitrária bem estudada. Desde que f (x) possa
ser alterada sem afetar o valor de f (x0 ), fica claro que δ(x, x0 ) = 0 para
todos os valores de x, exceto quando x = x0 , i.e., estão muito próximos.
Pela definição (3.2), δ(x, x0 ) e δ(x + a, x0 + a) são equivalentes, onde a
é arbitrário. Se ajustamos a = −x0 , δ(x, x0 ) depende somente de x − x0 .
Assim escrevemos
½
0 0 1 se x = x0 ,
δ(x, x ) = δ(x − x ) = (3.3)
0 se x 6= x0 ;
e Z ½
+∞
0 f (x0 ) se x = x0 ,
δ(x − x ) f (x) dx = (3.4)
−∞ 0 6 x0 .
se x =
Em particular, se x0 = 0, teremos
Z +∞
f (0) = δ(x0 ) f (x0 ) dx0 (3.5)
−∞

e se δ(x) for uma função par,

δ(x − x0 ) = δ(x0 − x) . (3.6)

Nesse momento, faz sentido compararmos a integral de Fourier


Z +∞ Z +∞
1 0
f (x0 ) = du ei u(x−x ) f (x) dx
2π −∞ −∞

com (3.4) para vermos a equivalência da função delta


Z +∞
0 1 0
δ(x − x ) = ei u(x−x ) du . (3.7)
2π −∞

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3.1. A Função Delta 83

Fisicamente, (3.7) será interpretada como a superposição com aplitudes


e fases iguais de um oscilador harmônico de todas as freqüências. A
contribuição da integral de Fourier cancelam completamente por inter-
ferência destrutiva argumentos que se anulam, i.e., x = x0 .
Se a condição (3.5) for aplicada para uma função simples definida
como f (x) = 1 para x1 < x < x2 , e f (x) = 0 para qualquer x fora do
intervalo [x1 , x2 ], a função delta satisfaz
Z +∞ ½
0 se x = 0 e x 6∈ [x1 , x2 ],
δ(x) dx = (3.8)
−∞ 1 se x1 < 0 < x2 .

Portanto apresentamos a função delta de Dirac, que será de grande


utilidade nessas notas. vale lembrar que em uma dimensão, a função
delta, escrita como δ(x − x0 ), é uma função matematicamente imprópria
na qual valem as seguintes propriedades e representações, além das já
apresentadas:
1. O limite da função delta, (3.7), pode ser representadas por
1 1 x2
δ(x) = √ lim √ e− ε
π ε→0 ε
1 ε
δ(x) = lim 2
π ε→0 x + ε2
1 sen N x
δ(x) = lim .
π N →∞ x

2. Se a é uma constante real, mas a 6= 0, então


1
δ(ax)= δ(x)
|a|
e
f (x)δ(x − a)=f (a)δ(x − a).

3. Se a 6= b
1
δ ((x − a)(x − b)) = [δ(x − a) + δ(x − b)].
|a − b|

4. Se A ⊂ R então
Z ½
0 −f 0 (a) se a ∈ A
δ (x − a) f (x) dx =
A 0 se a ∈
6 A

Mecânica Quântica

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84 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

onde f 0 (a) e a derivada da função f (x) com x = a, e


d
xδ 0 (x) = −δ(x), δ 0 (x) = δ(x).
dx
5. Seja f (x) uma função que tem raízes simples em x=xi , i=1, . . . , N ,
então
N
X 1
δ(f (x)) = δ(x − xi ).
|f 0 (xi )|
i=1

6. Em três dimensões e em coordenadas cartesianas temos


δ(~r − ~a) = δ(x1 − a1 ) δ(x2 − a2 ) δ(x3 − a3 ).

Introduziremos aqui uma formula importante obtida da identidade


1 ω ∓ iε ω iε
= 2 = 2 ∓ . (3.9)
ω ± iε ω + ε2 ω + ε2 ω 2 + ε2
O segundo termo nos leva a função delta, segunda equação do item 1
acima, e o primeiro termo do lado direito tende a ω1 quando ε → 0,
exceto se ω = 0. Se f (ω) é uma função bem conhecida, teremos
Z +∞
ω
lim f (ω) 2 dω
ε→0 −∞ ω + ε2
Z −ε Z +∞ Z +ε
dω dω ωdω
= lim f (ω) + lim f (ω) + lim f (ω) 2
ε→0 −∞ ω ε→0 +ε ω ε→0 −ε ω + ε2
Z +∞ Z +ε
dω ωdω
=P f (ω) + f (0) lim f (ω) 2
−∞ ω ε→0 −ε ω + ε2
onde P denota o valor principal de Cauchy 1 , e última integral é
nula. Se temos uma função bem conhecida de ω, do limite de (3.9)
teremos
1 1
lim = P ∓ i πδ(ω) . (3.10)
ε→0 ω ± i ε ω
Em adição a função delta, é conveniente introduzir a função degrau
de Heaviside 2 definida por 3
Z x ½
0 0 0 se x < 0,
η(x) = δ(x ) dx = (3.11)
−∞ 1 se x > 0.
1
Augustin Louis Cauchy (1850–1925), matemático francês.
2
Oliver Heaviside (1850–1925), engenheiro, matemático e físico inglês.
3
Para um estudo do valor principal de Cauchy e da função de Heaviside, ver Whit-
taker and Watson, A course in modern analysis, (1950).

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3.2. Analogia entre a Quântica e a Óptica 85

Para ε > 0 teremos


Z +∞
1
= e−(i ω+ε)x η(x) dx (3.12)
iω + ε −∞

e Z +∞
1 1 ei ωx
η(x) = + P dω . (3.13)
2 2π i −∞ ω

3.2 Analogia entre a Quântica e a Óptica


As equações de Maxwell 4 para os campos eletromagnéticos ~E, D ~ e ~B,
em um meio dielétrico linear e isotrópico, na ausência de cargas, podem
ser escritas como
~ D
∇ ~ =0 (3.14a)
~  ~B = 0
∇ (3.14b)
~
~ × ~E = − 1 ∂ B
∇ (3.14c)
c ∂t
1 ∂ ~
D
~ × ~B =
∇ , (3.14d)
c ∂t
onde D~ = ²~E, e ² é a permissividade elétrica do meio.
Em um meio homogêneo, onde a susceptibilidade não depende da
posição ∇~ D
~ = ²∇ ~  ~E = 0 ⇒ ∇ ~  ~E = 0 e as equações de Maxwell
serão as mesmas que descrevem a propagação de campos eletromag-
néticos no vácuo, com velocidade v = √c² . Mas sabemos do eletromag-

netismo clássico que o índice de refração n = ².
Em um meio não homogêneo, onde a permissividade varia suave-
mente com a posição em relação as variações dos campos, podemos
~ D
p ' ²∇  E = 0 ⇒ ∇  E = 0, teremos que o índice de
considerar ∇ ~ ~ ~ ~ ~
refração n = ²(r) dependente da posição.
Para os dois casos, a dependência espacial da equação de onda eletro-
magnética obedece à equação de Helmholtz 5 ,
· ³ ω ´2 ¸
∇2 + n2 (r) ψ(~r) = 0 , (3.15)
c
4
James Clark Maxwell (1831–1879), físico escocês.
5
Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz (1821–1894), físico alemão.

Mecânica Quântica

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86 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

onde ψ(~r) representa qualquer componente dos campos.


De acordo com a mecânica quântica, a parte espacial da função de
onda associada a uma partícula de massa µ, em um campo conservativo
V (r) é dada pela equação de Schrödinger independente do tempo,
· ¸
~2 2
− ∇ + V (r) ψ(~r) = Eψ(~r) ,

ou · ¸
2 2µ
∇ + 2 (E − V (r)) ψ(~r) = 0 . (3.16)
~
Definindo o índice de refração quântico por
c p
n(r) = 2µ [E − V (r)] . (3.17)

as equações (3.15) e (3.16) tornam-se formalmente idênticas.
Portanto, podemos associar um problema de mecânica quântica a
um problema de óptica. Esse analogia mostra que, se na mecânica clás-
sica não podemos ter uma partícula com E < V , na mecânica quântica
é possível a partícula penetrar em uma região classicamente proibida 6 .

3.3 Potencial Degrau - Barreira de Potencial


Nesse caso a dependência de x do potencial se reduz a uma descon-
tinuidade finita em um determinado ponto, que pode ser tomado como
correspondente a x = 0, ver Fig. 3.1:
½
V0 > 0 para x ≥ 0
V (x) = V0 η(x) =
0 para x < 0

Caso 1 - E > V0 : Primeiramente, procuremos analisar o caso em


que a partícula de massa µ possui energia total E > V0 . Visto o potencial
ser independente do tempo, a equação de Schrödinger na região I, x < 0,
será
~2 d2
− ϕI (x) = EϕI (x) (3.18)
2µ dx2
6
Situação parecida em que classicamente temos a penetração de ondas eletromag-
néticas em um meio altamente dissipativo

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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3.3. Potencial Degrau - Barreira de Potencial 87

Figura 3.1: Potencial degrau de altura V0 em x = 0.

Nessa região,a energia da partícula e puramente cinética, pois V (x) = 0.


Assim,
d2 2µE
2
ϕI (x) = − 2 ϕI (x)
dx ~
p2 2µE
sendo E = 2µ e p = ~k. Introduzindo a quantidade kI2 = ~2
, teremos

d2
ϕI (x) = −kI2 ϕI (x)
dx2
cuja solução geral é

ϕI (x) = Aei kI x + Be− i kI x (3.19)

em que A e B são constantes arbitrárias.


Para a região II, x ≥ 0, a equação de Schrödinger será

d2 2µ(E − V0 )
2
ϕII (x) = − ϕII (x)
dx ~2
2 = 2µ(E−V0 )
definindo a quantidade kII ~2
, teremos

d2 2
ϕII (x) = −kII ϕII (x)
dx2
cuja solução geral é

ϕII (x) = Cei kII x + Be− i kII x (3.20)

Considerando a situação inicial de uma partícula de massa µ vindo da


esquerda, −∞, para a direita, temos D = 0, pois não há partículas

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88 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

vindo de +∞. A descontinuidade do potencial em x = 0 exige cuidados


d
adicionais, pois ϕ(x) e dx ϕ(x) devem ser finitas, continuas e unívocas
(ϕ(x) é uma função bem comportada). Como o potencial V (x) é finito
(embora descontínuo) nesse ponto, é preciso que a segunda derivada,
da equação de Schrödinger, esteja definida e seja também finita em
x = 0. Isso só será possível aplicando e satisfazendo as condições de
continuidade de ϕ e sua derivada em x = 0, tais que:

ϕI (x = 0) = ϕII (x = 0)
A + B = C, (3.21)

e
d d
ϕI (x = 0) = ϕII (x = 0)
dx dx
kI
i kI A − i kI B = i kII C ⇒ C = (A − B). (3.22)
kII
Das equações (3.21) e (3.22), podemos determinar a razão
B kI − kII
= , (3.23)
A kI + kII
substituindo em (3.21), temos
C 2kI
= . (3.24)
A kI + kII

A densidade de corrente de probabilidade ~J(~r, t) pode ser expressa


por
³ ´
~J(~r, t) = − ~ = ψ ∇ψ
~ ∗ . (3.25)
µ
e com o uso dessa equação, podemos determinar a densidade de corrente
de probabilidade para a onda incidente, para a onda refletida e para a
onda transmitida através da barreira. Para o caso em questão,
µ ¶
~ d ∗
J(x) = − = ϕ(x) ϕ (x) . (3.26)
µ dx
Assim, para a onda incidente, temos
~ h i ~k
I
Jinc (x) = − = Aei kI x (− i kI )A∗ e− i kI x = |A|2 . (3.27)
µ µ

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3.3. Potencial Degrau - Barreira de Potencial 89

Usando de forma similar para as ondas refletida e transmitida, termos

~kI
Jref (x) = − |B|2 , (3.28)
µ
e
~kII
Jtrs (x) = |C|2 . (3.29)
µ
Com esses resultados podemos calcular os coeficientes de reflexão e
de transmissão da partícula pelo potencial degrau (barreira de po-
tencial). Esses coeficientes são definidos por:
¯ ¯
¯ Jref (x) ¯
R=¯ ¯ ¯, (3.30)
Jinc (x) ¯
e ¯ ¯
¯ Jtrs (x) ¯
T = ¯¯ ¯. (3.31)
Jinc (x) ¯
Então, das equações (3.27), (2.28) e (2.29), teremos

(kI − kII )2
R= , (3.32)
(kI + kII )2
e
4kI kII
T = . (3.33)
(kI + kII )2
Note que R + T = 1. Os coeficientes de reflexão e transmissão podem
ainda ser escritos em termos de E e V0 :
q  2
V0
1− 1− E E
R=1−T = q  para >1
1+ 1− V0 V0
E

e
E
R = 1 − T = 1 para ≤ 1.
V0
Note também que a reflexão ocorre da mesma maneira quando a
partícula vem de uma região com potencial constante e "cai" numa
região de potencial menor (ou nulo). O fenômeno de reflexão descrito
acima é devido basicamente à passagem abrupta da partícula de um
potencial para outro. Este tipo de reflexão já era conhecido na óptica,

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90 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

quando a luz passa, perpendicularmente entre dois meios com diferentes


índices de refração.
Caso 2 - 0 < E < V0 : Consideremos agora o caso em que a energia
total tem um valor 0 < E < V0 . Do ponto de vista clássico não há
nenhuma possibilidade da partícula ser encontrada na região II, x > 0.
Na região I, x < 0, a solução da equação de onda não é alterada, logo

ϕI (x) = Aei kI x + Be− i kI x (3.34)


h i1
2µ 2
Entretanto, na região II, temos κ = ~ (V0 − E) . Assim, teremos
a seguinte equação diferencial

d2
ϕII (x) = κ2 ϕII (x) (3.35)
dx2
cuja solução é
ϕII (x) = Ce−κx + Deκx
Para que ϕII (x) seja uma função finita quando x → +∞, devemos ter
D = 0, e a equação acima será

ϕII (x) = Ce−κx . (3.36)

Utilizando as mesmas condições de contorno do caso anterior, encon-


traremos as razões:

A+B =C
i(A − B) = −κC

ou
B i kI + κ
= = ei α (α : real) (3.37a)
A i kI − κ
C 2kI
= = 1 + ei α . (3.37b)
A i kI − κ
Substituindo esses valores em (3.34) e (3.36), obteremos
α
³ α´
ϕI (x) = 2Aei 2 cos kI x − para x < 0 (3.38a)
³ ´ 2
α α −κx
ϕII (x) = 2Aei 2 cos e para x > 0 (3.38b)
2

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3.3. Potencial Degrau - Barreira de Potencial 91

Calculando os coeficientes de reflexão e de translação para esse caso,


encontraremos T = 0, uma vez que
· ¸
~ d
Jtrs (x) = − = ϕII (x) ϕ∗II (x) = 0
µ dx

pois nesse caso, ϕII (x) é uma função real. O coeficiente de reflexão R
será
¯ ¯ ¯ ¯
¯ Jref ¯ ¯ B ¯2
R=¯ ¯ ¯=¯ ¯ =1
Jinc ¯ ¯ A ¯
Um resultado que concorda com o caso clássico de uma partícula ser
totalmente refletida pela barreira de potencial.
Para x > 0, a probabilidade decresce de acordo com e−2κx . Nesta
região, temos E < V0 e portanto a energia cinética seria negativa. Clas-
sicamente esta é uma região proibida para as partículas. Do ponto de
vista quântico, pode-se encontrar a partícula nessa região, porém esta
não poderá permanecer nessa região pelo fato de que o coeficiente de
transmissão ser nulo e o coeficiente de reflexão ser igual a unidade. A
penetração da partícula na região proibida (por intervalos de tempo
muito pequenos) é possível devido o princípio da incerteza. Durante
um pequeno intervalo de tempo, a energia pode não se conservar. A
profundidade da penetração também é muito pequena e pode ser carac-
terizada pela distância em que a probabilidade cai para cerca da metade
de seu valor em x = 0, correspondendo a uma penetração estimada pelo
princípio da incerteza ∆x∆p > ~, isso implica que a penetração é da
ordem de
1 ~
∆x ' = p .
κ 2µ(V0 − E)

Como R = 1, a amplitude de onda refletida difere da amplitude de


onda incidente por uma fase, que é explicitada em (3.37a),

i kI + κ
= ei α .
i kI − κ

O fato de que a defasagem da onda refletida com relação à onda inci-


dente ser uma função de kI (ou, equivalentemente, da energia E) tem
conseqüências físicas importantes que pode ser identificadas constru-
indo um pacote de onda com evolução temporal que irá mostrar um

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92 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

atraso ou um adiantamento do pacote refletido, com relação ao tempo


livre de trânsito de ida e volta à origem 7 .
Caso especial - E < 0: Não há soluções fisicamente aceitáveis para
esse caso, devido o fato de que a energia total E nunca poderá ser menor
que o valor mínimo absoluto de V (x).

3.4 Barreira de Potencial Retangular


Esse é um dos problemas simples para o qual podemos resolver analitica-
mente e cuja solução traz em evidência fenômenos muito interessantes,
com aplicações em muitos problemas físicos, como o tunelamento
quântico, também conhecido como penetração de barreira (efeito túnel ).
Vamos considerar uma partícula, vindo de x = −∞ em direção à bar-
reira de potencial vista na Fig. 3.2, definida por:
½
V0 > 0 para |x| ≤ a
V (x) = V0 η(a − |x|) =
0 para |x| > a

Figura 3.2: Barreira de potencial regular de altura V0 e largura 2a.

Caso 1 - E < V0 : Vamos iniciar procurando seus estados esta-


cionários. Para especificar mais o problema, digamos que a partícula
7
Uma excelente discussão desse aspecto, tratando detalhadamente de todos os cál-
culos envolvidos, podemos encontrar no magnífico livro: Toledo Piza, Mecânica
quântica, (2002).

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3.4. Barreira de Potencial Retangular 93

incide sobre a barreira vindo da esquerda (−∞). No regime estacionário


esperamos ter, como no caso clássico, ondas incidentes e ondas refleti-
das, à esquerda da barreira. Mas, a principal diferença introduzida pela
mecânica quântica nesse problema, pode haver ondas saindo da bar-
reira, no lado direito, indo para +∞. O que caracteriza o problema
estacionário como advindo de uma partícula incidente da esquerda para
a direita é que, do lado direito da barreira, existem apenas partículas
afastando-se da barreira. Note que a partícula é livre para x < −a e
x > a. Por essa razão, a barreira de potencial retangular simula, de
forma esquemática, o espalhamento de uma partícula livre sofrendo a
influência desse potencial.
A solução geral da equação de Schrödinger nesse caso:

 Aei kx + Be− i kx x < −a
ϕ(x) = Ce −κx + De κx −a ≤ x ≤ a (3.39)

F ei kx + Ge− i kx x>a
√ p
onde os números de onda são k = ~1 2µE e κ = ~1 2µ(V0 − E). As
condições de contorno de ϕ(x) e sua derivada em x = −a requer
Ae− i ka + Bei ka = Ceκa + De−κa (3.40a)
³ ´ ¡ ¢
i k Ae− i ka − Bei ka = −κ Ceκa − De−κa . (3.40b)

Essas relações lineares homogêneas entre os coeficientes A, B, C e D


são convenientemente representadas em termos de matrizes:
µ − i ka ¶ µ ¶ µ κa ¶µ ¶
e ei ka A e e−κa C
− i ka i ka = i κ κa i κ −κa (3.41)
e −e B k e −ke D
mas µ ¶ µ ¶
A C
= M(a)
B D
onde M(a) é dado por
¡ iκ
¢ ¡ iκ
¢ 
1+ eκa+i ka 1− e−κa+i ka
1 k k

M(a) = (3.42)
2 ¡ iκ
¢ ¡ iκ
¢
1− k eκa−i ka 1+ k e−κa−i ka
Similarmente, para as condições de contorno de ϕ(x) e sua derivada em
x = a, teremos µ ¶ µ ¶
F C
= M(−a)
G D

Mecânica Quântica

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94 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

e combinando para obtermos a relação entre a função de onda dos dois


lados da barreira
µ ¶ µ ¶
F −1 A
= M(a)M (−a)
G B
onde M−1 (−a) é dado por
¡ ¢ ¡ ¢ 
1 − iκk eκa+i ka 1 + iκk eκa−i ka
1
M−1 (−a) = ¡ ¢ −κa+i ka ¡ ¢ −κa−i ka
 (3.43)
2 ik ik
1+ κ e 1− κ e
e finalmente µ ¶ µ ¶
A F
=M
B G
podendo escrever M = M−1 (a)M(−a) como
¡ ¢ iη 
cosh 2κa + i2ε senh 2κa e2 i ka 2 senh 2κa
M= 
iη ¡ iε
¢ −2 i ka
− 2 senh 2κa cosh 2κa − 2 senh 2κa e
(3.44)
κ k κ k
onde as notações abreviadas usadas são ε = k − κ e η = k + κ .
Considerando uma onda incidente da esquerda (−∞) para a direita
(+∞), a amplitude da onda incidente é dada por A, já a amplitude da
onda refletida é dada por B, o fluxo transmitido é dado por F e G = 0.
Então, de (3.44) teremos:
µ ¶

A = F  cosh 2κa + senh 2κa e2 i ka (3.45a)
2

B = −F  senh 2κa . (3.45b)
2
B
Assim, a amplitude A devida a reflexão, será
−iη −2 i ka
B 2 senh 2κa e
= (3.46)
A cosh 2κa + i2ε senh 2κa
e o coeficiente de reflexão
¯ ¯2 ¯¯ − i η ¯
−2 i ka ¯2
¯B ¯ ¯ senh 2κa e ¯
R = ¯¯ ¯¯ = ¯ 2
¯
A ¯ cosh 2κa + i2ε senh 2κa ¯
η2
4 senh2 2κa
= ε2
(3.47)
cosh2 2κa + 4 senh2 2κa

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3.4. Barreira de Potencial Retangular 95

pelo fato de
µ ¶
2 ε2 2 ε2
cosh 2κa + senh 2κa = 1 + 1 + senh2 2κa
4 4

teremos
η2
senh2 2κa
R= ³4 ´ (3.48)
2
1 + 1 + ε4 senh2 2κa

F
E a amplitude de transmissão A é dado por

F e−2 i ka
= (3.49)
A cosh 2κa + i2ε senh 2κa

e o coeficiente de transmissão será


¯ ¯2 ¯¯ ¯2
¯
¯F ¯ ¯ e −2 i ka
¯
T = ¯¯ ¯¯ = ¯ i ε ¯
A ¯ cosh 2κa + 2 senh 2κa ¯
1
= ³ ´ (3.50)
ε2
1+ 1+ 4 senh2 2κa

Considerando o caso limite em em que a barreira é alta e larga, temos


κa À 1. Expandindo senh 2κa ≈ 12 e2κa À 1, encontraremos
µ ¶2
−4κa kκ
T ≈ 16e
k 2 + κ2
16(V0 − E)E − 4 √2µ(V0 −E)a
= e ~ (3.51)
V02

Então, para esse caso de barreira de potencial, o efeito túnel é suprimido


exponencialmente. Se a barreira for alta, porém estreita, ocorre o efeito
túnel. Note que o efeito de tunelamento quântico de uma partícula
através da barreira de potencial é bastante sensível a sua largura. Um
exemplo é o decaimento α de núcleos instáveis. De fato, em situações
reais, as barreiras de potencial em que ocorrem esses fenômenos físicos
não são quadradas e nem retangulares, e as expressões obtidas para o
coeficiente de transmissão são apenas aproximações.

Mecânica Quântica

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96 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

É interessante saber o que ocorre dentro da barreira de potencial


−a < x < a? Nessa região encontramos

µ ¶
1 ik
C=F 1− e(κ+i k)a (3.52a)
2 κ
µ ¶
1 ik
D=F 1+ e(−κ+i k)a . (3.52b)
2 κ

Considerando novamente o caso limite em em que a barreira é alta e


larga, i.e.κa À 1.
F ∝ e−2κa

C ∝ e−κa+i ka
D ∝ e−3κa+i ka
⇒ Ce−κx |x=a ∝ e−2κa ∝ Deκx |x=a .

Portanto, F consiste de duas partes, uma exponencialmente decrescente


Ce−κx e outra exponencialmente crescente Deκx , tal que as duas partes
se encontram em x = a, ver Fig. 3.3.

Figura 3.3: Função de onda na região −a < x < a.

Um caso interessante em que temos tunelamento é a barreira de


potencial contínua, como visto na Fig. 3.4. Então faremos uma aproxi-
mação de V (x) em pequenas barreira retangulares de largura dx, i.e.,

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3.4. Barreira de Potencial Retangular 97

substituímos a largura 2a por dx. Logo,


n
Y 2

T = e− ~ 2µ(V (xi )−E) dx

i=1
2 Pn √
= e− ~ i=1 2µ(V (xi )−E) dx
R √
− ~2 ab 2µ(V −E) dx
Ln→∞ ⇒ e (3.53)

Figura 3.4: Potencial contínua - gaussiana.

Aplicações importantes: Vários processos que ocorrem na na-


tureza dependem do fenômeno de tunelamento, tais como:

1. Um dos mais importantes é o da fusão de dois prótons no interior


do Sol, o mecanismo básico de produção de energia nesse tipo
de estrela. A energia cinética decorrente da temperatura do Sol é
insuficiente para vencer a barreira de repulsão coulombiana entre
dois prótons. Somente uma pequena fração dos prótons teriam
energia acima deste valor e a taxa de fusão e portanto de pro-
dução de energia, seria cerca de 1000 vezes menor que a realizada
pelo Sol. O processo de fusão de dois prótons é dominado pelo
tunelamento dessas partículas pela barreira coulombiana.

2. O diodo de efeito túnel é um dispositivo eletrônico disponível com-


ercialmente, baseado nesse efeito quântico. Com técnicas especiais
de construção, pode-se fazer um diodo semicondutor cuja barreira
de potencial é extremamente fina, propiciando que partículas a
atravessem por tunelamento. As conseqüências são uma inversão
na curva característica corrente × tensão desses dispositivos, como

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98 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

mostrado na Fig. 3.5. Numa pequena região, há uma reversão da


curva e neste trecho, a derivada dV
dI é negativa, correspondendo a
uma resistência negativa. Dispositivos como esse podem ser uti-
lizado em circuitos osciladores ou de chaveamento de altíssimas
freqüências.

Figura 3.5: Curva característica de um diodo túnel.

3. O decaimento radiativo por emissão de partículas alfa, que ocorre


em vários elementos pesados próximos ao urânio também depende
do tunelamento. Nesse decaimento, as partículas alfa α são emi-
tidas com energia cinética de cerca de 5 MeV. Como essa energia
é medida longe do núcleo, onde o potencial é nulo, podemos su-
por que esse é o valor da energia total da partícula alfa dentro do
núcleo. Se tomarmos uma partícula alfa com essa energia se aprox-
imando de um núcleo, por exemplo, o de Tório (Th), a distância
de maior aproximação, quando toda a energia está na forma de
energia potencial, será na ordem de 30 Fm (3, 0 × 10−14 m). Se
considerarmos o raio do núcleo de Th da ordem de 10 Fm, o valor
da barreira coulombiana nessa distância será:

Zze2
V (r)|r=10−14 = ' 30 × 106 eV
r
Como para distâncias menores que o raio nuclear esta partícula
alfa está ligada ao núcleo, e sabendo-se que sua energia total é 5
MeV, para escapar, ela deve sofrer o efeito túnel com a barreira de
altura máxima de 30 MeV. Embora não seja uma barreira de altura
constante como a que estudamos, o problema pode ser resolvido

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3.4. Barreira de Potencial Retangular 99

de maneira análoga, substituindo-se a barreira coulombiana por


uma série de barreiras de pequena largura e alturas decrescentes.
Um cálculo aproximado pode ser feito trocando-se a barreira orig-
inal por uma barreira média equivalente. Por simplicidade, vamos
tomar uma barreira de altura 30 MeV e largura de 10 Fm. Nesse
caso, temos o produto
q
E
2µc2 V0 a(1 − V0 )
κa = ' 20
~c

e podemos usar a expressão aproximada o coeficiente de transmis-


são T :
T ' 10−28 .

4. Um outro exemplo é o microscópio de varredura por tunelamento.


A relação para o coeficiente de transmissão de uma partícula de
massa µ e energia E através da barreira de potencial V0 e largura
2a, indica que a variação relativa da probabilidade de tunelamento
é dada por
¯ ¯
¯ ∆T ¯
¯ ¯
¯ T ¯ = 2κ∆a

A energia necessária para que o elétron no interior de um material


abandone-o através de sua superfície, função trabalho, é da ordem
de 10 eV. Uma vez que a energia cinética dos elétrons é bem menor
que esse valor, existe uma barreira de potencial na região da super-
fície do metal, tal que os elétrons mais energéticos só conseguem
escapar quando absorvem a energia de um fóton, como no efeito
fotoelétrico, ou calor, emissão termoiônica. O efeito túnel indica a
possibilidade de emissão de elétrons de um metal a outro através
da barreira de potencial estabelecida quando as duas superfícies
metálicas encontram-se suficientemente próximas. Esse fenômeno
é utilizado no microscópio de varredura por tunelamento, no qual
uma ponta de prova metálica se desloca bem próxima à superfí-
cie do material observado, de modo que as variações da corrente
estabelecida entre ambas, revelem as irregularidades da superfície
do material. Para uma barreira de altura com cerca de 5 eV mais
alta que a energia E de um elétron, o parâmetro de penetração
κ é da ordem de 1010 m−1 . Uma estimativa da sensibilidade do

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100 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

efeito túnel indica que mudanças da distância entre as duas su-


perfícies de apenas 10−2 Å acarretam uma variação de cerca de
2% na probabilidade de tunelamento.

Caso 2 - E > V0 : Nesse caso as funções de onda nas regiões x < −a


e x > a não mudam suas formas. No entanto, na região −a < x < a, a
função de onda passa a ser oscilatória, sendo representada por

ϕII (x) = Cei βx + De− i βx


p
onde β = ~1 2µ(E − V0 ). Assim, para encontrar o coeficiente de re-
flexão pela barreira de potencial, faremos a substituição de κ por i β.
Visto que senh (i x) = i sen x e cosh (i x) = cos x, o coeficiente de reflexão
R será:
(β 2 − k 2 )2 sen2 2βa
R= 2 2
4k β + (β 2 − k 2 )2 sen2 2βa
e o coeficiente de transmissão T será

4k 2 β 2
T =1−R= .
4k 2 β 2 + (β 2 − k 2 )2 sen2 2βa

3.5 Poço Quadrado Unidimensional


Uma partícula de massa µ se move sob a ação de um campo de forças
que confere à partícula uma energia potencial V (x) tal que
½
−V0 para |x| ≤ a
V (x) = −V0 η(a − |x|) = V0 > 0 real
0 para |x| > a

como descrito na Fig. 3.6, poço quadrado unidimensional.

Figura 3.6: Poço quadrado de potencial.

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3.5. Poço Quadrado Unidimensional 101

Caso 1 - −V0 < E < 0: Nesse caso, onde E < 0 é a energia total
da partícula, temos estados ligados. No caso clássico, a partícula não
pode atingir as regiões x < −a e x > a. De fato, sua energia total é
E = 12 µv 2 + V (x), ou seja, 12 µv 2 = E − V (x). Nas regiões mencionadas
temos V (x) = 0, o que daria 12 µv 2 = E. Mas E < 0, o que daria uma
energia cinética negativa, portanto impossível 8 .
Na região −a < x < a não há problema, pois teríamos
1 2
µv = E + v0
2
e é possível ter energia cinética positiva mesmo com E < 0.
A equação de Schrödinger para as regiões I e III, i.e.x < −a e
x > a respectivamente, é
~2 d2
− ϕ(x) = Eϕ(x)
2µ dx2
d2 2µE 2µ|E|
2
ϕ(x) = − 2 ϕ(x) = ϕ(x)
dx ~ ~2

1
p
fazendo κ = ~ 2µ|E| temos
d2
ϕ(x) = κ2 ϕ(x)
dx2
cuja solução geral é
ϕ(x) = A0 e−κx + Aeκx para x < −a . (3.54)
e
ϕ(x) = Ce−κx + C 0 eκx para x > a. (3.55)
Para x > a o termo em eκx é inadequado, pois daria uma probabilidade
de localização da partícula tendendo a infinito para x → ∞. Logo, temos
que tomar C 0 = 0. Assim,
ϕ(x) = Ce−κx para x > a. (3.56)
8
O leitor poderia se surpreender com a idéia de que uma partícula possa ter energia
negativa, mas essa é uma situação bastante comum. Considere a "partícula" Terra,
em seu movimento em redor da "partícula" Sol. A energia total da Terra é neg-
ativa! De fato, precisamos realizar trabalho para levá-la ao "infinito" (livrá-la da
ação do Sol) e deixá-la por lá, em repouso, i.e., com energia total zero. Logo,
fornecemos energia à Terra para levá-la a um estado de energia zero. Sua energia
inicial era, portanto, menor do que zero!

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102 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

Por raciocínio análogo,

ϕ(x) = Aeκx para x < −a . (3.57)

Nas soluções acima C e A são constantes arbitrárias, a determinar pos-


teriormente.
Na região II, i.e., −a < x < a e V (x) = −V0 , e a equação de
Schrödinger é
d2 2µ
2
ϕ(x) = (V0 − |E|) ϕ(x)
dx ~
p
fazendo q = ~1 2µ(V0 − |E|), a solução geral é

ϕ(x) = B sen qx + B 0 cos qx . (3.58)

Usando as condições de contorno para uma função bem comportada


em x = a, teremos

Ce−κa = B sen qa + B 0 cos qa (3.59a)


−κa 0
−κCe = qB cos qa − qB sen qa , (3.59b)

e em x = −a

Ae−κa = −B sen qa + B 0 cos qa (3.60a)


−κa 0
κAe = qB cos qa + qB sen qa . (3.60b)

Dividindo (3.59a) por (3.60a) temos:

C B sen qa + B 0 cos qa B tan qa + B 0 tB + B 0


= = = (3.61)
A −B sen qa + B 0 cos qa −B tan qa + B 0 −tB + B 0

onde t = tan qa. Dividindo (3.59b) por (3.60b) temos:

C qB cos qa − qB 0 sen qa
− = (3.62)
A qB cos qa + qB 0 sen qa
ou
C tB 0 − B
= . (3.63)
A tB 0 + B
Combinando (3.61) e (3.63), teremos

C tB + B 0 tB 0 − B
= 0
= . (3.64)
A −tB + B tB 0 + B

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3.5. Poço Quadrado Unidimensional 103

e teremos sem nenhuma dificuldade

(t2 + 1)BB 0 = 0 .

A última relação nos dá que temos ou B = 0 ou B 0 = 0. Para B = 0 as


funções são, na região −a < x < a, cossenos, ou seja, são funções pares
de x. Para B 0 = 0, são senos, ou seja, funções ímpares de x. Podemos
tratar os dois casos separadamente.
B 0 = 0 - funções ímpares.

 −Ceκx x < −a
ϕ(x) = B sen qx −a ≤ x ≤ a (3.65)

Ce−κx x>a

Note que A = C, pois ϕ(a) = −ϕ(−a), já que a função é ímpar.


Para x = a temos as relações:

B sen qa = Ce−κa
qB cos qa = −κCeκa .

É desnecessário fazer uso das relações em x = −a, porque, sendo uma


função ímpar, elas repetem as relações em x = a. Dividindo a relação
de cima pela de baixo, temos:
q
tan qa = − . (3.66)
κ
Essa equação irá determinar para que valores da energia existem esta-
dos estacionários nesse poço de potencial. Equações desse tipo, que
não são equações algébricas 9 , só em raros casos podem ser resolvidas
analiticamente. Esse não é, infelizmente, um desses raros casos. Recorre-
se então a soluções numéricas. Porém, para nossa sorte, nesse particular
caso, é possível usar um método gráfico que ilustra muito bem as car-
acterísticas gerais da solução.
Introduzindo as variáveis ξ = qa e η = κa, tais que

ξ 2 + η 2 = q 2 a2 + κ2 a2 = a2 (q 2 + κ2 )

ou

ξ 2 + η2 = V0 a2 . (3.67)
~2
9
Uma equação algébrica tem a forma de um polinômio igualado a zero.

Mecânica Quântica

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104 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

Assim, a equação (3.66) ficará


ξ
tan ξ = − . (3.68)
η
Mas

η2 = V0 a2 − ξ 2
~2
logo,
· ¸− 1
ξ 2µ 2 2
2
− = −ξ 2 V0 a − ξ
η ~
substituindo em (3.68)
· ¸− 1
2µ 2
tan ξ = −ξ 2 V0 a2 − ξ 2 . (3.69)
~
Cada solução dessa equação dá um valor de ξ, e, portanto, um valor de q,
ou seja, de |E|. Logo, essa é a equação para os autovalores de energia.
Para isso faremos os gráficos da função tan ξ e da função f (ξ) que está
no segundo membro de (3.69). Na intersecção das curvas teremos os
valores de ξ que são as soluções de (3.69).
Para fazermos a curva da função que está no segundo membro, va-
mos estudar um pouco suas propriedades. Analisando a função
· ¸− 1
2µ 2 £ ¤− 1
f (ξ) = −ξ 2 V0 a2 − ξ 2 = −ξ A2 − ξ 2 2
~
Sua derivada será
A2
f 0 (ξ) = − 3
(A2 − ξ 2 ) 2
e é sempre negativa, tornando-se −∞ para ξ = A, i.e.
r

ξ= V0 a
~2
A Fig. 3.7 contém as curvas y = tan ξ e y = f (ξ). As soluções da equação
· ¸− 1
2µ 2
tan ξ = −ξ 2 V0 a2 − ξ 2
~
são as intersecções
p dessas duas curvas, pontos 1 e 2 no gráfico. Como
ξ = qa e q = ~1 2µ(V0 − |E|), os valores de ξ que satisfazem a equação

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3.5. Poço Quadrado Unidimensional 105

Figura 3.7: Função y = tan ξ e função y = f (ξ), solução ímpar.

acima permitem calcular os valores de E correspondentes. Esses serão


os valores possíveis para a energia do sistema.
B = 0 - funções pares. Temos,

 Ceκx x < −a
ϕ(x) = B 0 cos qx −a ≤ x ≤ a (3.70)

Ae−κx x>a
Aplicando as condições de contorno em x = −a e x = a teremos

Ce−κa = B 0 cos qa (3.71a)


−κa 0
−κCe = −qB sen qa , (3.71b)

Ae−κa = B 0 cos qa (3.72a)


−κa 0
κAe = qB sen qa . (3.72b)

Comparando (3.71a) e (3.72a), temos A = C. Dividindo (3.72b) por


(3.72a) teremos
κ
= tan qa ,
q

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106 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

introduzindo as variáveis ξ = qa e η = κa
η
tan ξ =
ξ
com r
2µa2
η= V0 − ξ 2
~2
de maneira que a equação que determina os autovalores da energia é
dado por r
1 2µa2
tan ξ = V0 − ξ 2 . (3.73)
ξ ~2
Seja r
1 2µa2 2 =
1p
f (ξ) = V0 − ξ A − ξ2
ξ ~2 ξ
novamente temos a solução gráfica, como mostra a Fig. 3.8

Figura 3.8: Função y = tan ξ e função y = f (ξ), solução par.

Interpretando, temos que ξ ≤ A (ξ > 0) e f (A) = 0 e ainda


lim f (ξ) = ∞
ξ→0
df 1 1p
= −p − 2 A − ξ2 < 0 para todo ξ.
dξ A − ξ2 ξ

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3.5. Poço Quadrado Unidimensional 107

A figura mostra algumas soluções da equação para os autovalores


da energia. Essas soluções são as intersecções entre a curva pontilhada
e o gráfico da tangente. Note-se que, por pequeno que seja A, sempre
haverá ao menos uma solução.
Podemos concluir então que o poço quadrado possui sempre soluções
de energia negativa. Os autovalores da energia de tais estados são dis-
cretos e em número finito. O menor valor, correspondente ao estado
fundamental, ocorre para um estado cuja função de onda é par.
Caso 2 - E > 0: Nesse caso, a solução geral da equação de Schrö-
dinger para as três regiões (I quando x < −a, II quando −a < x < a
e III quando x > a) será:

 Aei kx + Be− i kx x < −a
ϕ(x) = Cei κx + De− i κx −a ≤ x ≤ a (3.74)

F ei kx + Ge− i kx x>a

em que A, B, C, D, F e G são as novas constante arbitrárias


√ a serem
determinadas para esse caso, e onde definimos k = ~1 2µE e κ =
1
p
~ 2µ(E + V0 ). Uma partícula descrita por essas funções não é local-
izada, i.e., ela não está confinada em uma região do espaço, visto que,
para esse caso, ϕI (x) e ϕII (x) não se anulam quando x → ±∞.
A condição E > 0 forma um espectro contínuo de energia, ao con-
trário da condição E < 0. Se a partícula incide na barreira da esquerda
para a direita, i.e., caminhando na direção positiva do eixo x, temos
G = 0. Aplicando as condições de contorno quando x = −a e x = a,
encontraremos as relações:

Ae− i ka + Bei ka = Ce− i κa + Dei κa (3.75a)


− i ka i ka − i κa i κa
kAe − kBe = κCe − κDe , (3.75b)

Cei κa + De− i κa = F ei ka (3.76a)


κCei κa − κDe− i κa = kF ei ka . (3.76b)

Fazendo uma manipulação algébrica, é fácil verificar que o coeficiente


de transmissão T será expresso pela relação
¯ ¯2
¯F ¯ 16k 2 κ2
T = ¯¯ ¯¯ = (3.77)
A 16k 2 κ2 cos2 2κa + 4(k 2 + k 2 )2 sen2 2κa

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108 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

e coeficiente de reflexão R pode ser determinado por


4(k 2 − κ)2 sen2 2κa
R=1−T = . (3.78)
16k 2 κ2 + 4(k 2 − k 2 )2 sen2 2κa
A partícula sofre um espalhamento quando esse passar pela região de
influência do potencial.

3.6 Potencial Delta


Vamos considerar um potencial V (x) que é dado pela função delta
δ(x), e esse potencial é atrativo,
~2 λ
V (x) = − δ(x) . (3.79)

Mais uma vez vamos procurar auto-estados normalizáveis, os quais
obedecem a condição de contorno ϕ(x) → 0 para x → ±∞. A equação
de Schrödinger associada a esse problema é
~2 d2 ~2 λ
− ϕ(x) − δ(x) ϕ(x) = E ϕ(x) , (3.80)
2µ dx2 2µ
e para x 6= 0 toma a forma
~2 d2
− ϕ(x) = E ϕ(x) , (3.81)
2µ dx2
~2 k 2
já que a função delta anula-se nesta região. Para E = 2µ positivo, as
soluções da equação de Schrödinger
ϕ(x) = Aei kx + Be− i kx (3.82)
não são normalizáveis e portanto devem ser descartadas. Assim, iremos
2 2
então analisar o caso em que E = − ~2µκ negativo. Nesse caso a solução
geral de (3.81) é
½
Ae−κx + Ceκx x>0
ϕ(x) = (3.83)
Beκx + De−κx x<0
Aplicando a condição de contorno, temos que C = D = 0. Devemos
agora impor as duas soluções, a condição em x = 0. Uma vez que ϕ(x)
é contínua em x = 0 temos que
ϕ(0) = A = B .

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3.7. Potenciais Periódicos 109

A presença da função δ(x) no potencial em (3.80) manifesta-se no


fato de dϕ(x)
dx não ser contínua na origem. De fato, integrando essa
equação entre −² e ² temos que
µ ¶ µ ¶ Z ²
dϕ(x) dϕ(x) 2
− + λ ϕ(0) = κ ϕ(x) dx . (3.84)
dx ² dx −² −²

No limite ² → 0 temos que a última integral é nula, já que a função


ϕ(x) é contínua. Logo o salto da derivada em x = 0 é dado por
µ ¶ µ ¶
dϕ(x) dϕ(x)
− = −λ ϕ(0) , (3.85)
dx 0+ dx 0−

o que implica que κ = λ2 . Note que só existe solução para potenciais


atrativos (λ > 0) já que usamos explicitamente que κ > 0. Logo o único
autovalor discreto de (3.80) é

~2 λ2
E=− ,

e o correspondente auto-estado é
λ
ϕ(x) = Ae− 2 |x| .

3.7 Potenciais Periódicos


Um caso importante em mecânica quântica é o estudo de potenciais
periódicos devido a sua aplicação. Consideremos um modelo unidimen-
sional simples para um sólido, no qual os íons positivos encontram-se
fixos e igualmente espaçados enquanto os elétrons livres movem-se no
potencial V (x) gerado pelos íons positivos. Se a distância entre os íons
positivos for dada por a esse potencial satisfaz

V (x + a) = V (x) (3.86)

e a hamiltoniana do sistema é invariante pelo deslocamento a.


Discutindo o problema mais formalmente, vamos usar o operador
deslocamento,
Da ϕ(x) = ϕ(x + a)

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110 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

esse operador comuta com o operador hamiltoniano H do sistema. De


fato, para um estado arbitrário ϕ(x) temos que
µ 2 2 ¶
~ d
Da Hϕ(x) = Da − ϕ(x) + V (x)ϕ(x)
2µ dx2
~2 d2
=− ϕ(x + a) + V (x + a)ϕ(x + a)
2µ dx2

mas por outro lado, temos


µ 2 2 ¶
~ d
HDa ϕ(x) = − + V (x) ϕ(x + a)
2µ dx2
~2 d2
=− ϕ(x + a) + V (x + a)ϕ(x + a)
2µ dx2

logo,
[Da , H] ϕ(x) = 0
como ϕ(x) é arbitrário podemos concluir que os operadores Da e H
comutam. É conveniente diagonalizar simultaneamente H e Da e os
auto-estados de H neste caso são chamados de estados de Bloch 10 .
A equação de autovalores para Da é dada por

Da ϕ(x) = ϕ(x + a) = λϕ(x) (3.87)

e o produto interno de Da ϕ(x) é dado por


Z Z

[Da ϕ(x)] Da ϕ(x) dx = ϕ ∗ (x + a) ϕ(x + a) dx
Z
2
= |λ| ϕ(x)∗ ϕ(x) dx .

Tendo em vista que as duas integrais da última expressão são iguais


segue que
|λ|2 = 1 .
Podemos então escrever λ = ei ka onde k é real.
Para encontrar a forma geral dos auto-estados de Da definamos

ϕk (x) = e− i kx ϕ(x) ,
10
Felix Bloch (1905–1983), engenheiro e físico suíço-americano.

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3.7. Potenciais Periódicos 111

o qual é uma função periódica de x já que

ϕk (x + a) = e− i k(x+a) ϕ(x + a) = e− i kx e− i ka ei ka ϕ(x) = ϕk (x)

onde usamos (3.87). Logo, os auto-estados de Da são da forma

ϕ(x) = ei kx ϕk (x)

onde ϕk (x) é uma função periódica. Esse resultado é conhecido como


teorema de Bloch 11 .
Cristais contém um número N ' 1023 átomos, mas não são infinitos.
Tendo em vista que as propriedades dos elétrons dependem pouco de
efeitos de superfície, i.e. das condições de contorno, vamos considerar
a condição de contorno periódica

ϕ(x = N a) = ϕ(x = 0) , (3.88)

a qual preserva as propriedades acima. Dada essa condição os autoval-


ores do operador deslocamento Da podem tomar apenas um número
finito de valores visto que

ϕ(x = N a) = ϕ(x = 0)
= Dna ϕ(x = 0) = ei N ka ϕ(x = 0) .

Logo,
2πj
k= para j = 0, ±1, ±2, · · · , ±(N − 1) . (3.89)
Na

Exemplo: potencial de Kronig–Penney 12 Um potencial per-


iódico de fácil solúvel é
X
V (x) = v0 δ(x − na) , (3.90)
n

onde somamos sobre todos os sítios da rede. Quando diagonalizamos


simultaneamente Da e H, precisamos resolver a equação diferencial as-
sociada a HϕE (x) = EϕE (x) apenas no intervalo 0 < x ≤ a uma vez
11
F. Bloch, Zeitschrift für Physik, 52, 555–600 (1928).
12
Ralph Kronig (1904–1995), físico germânico-americano.
William George Penney (1909–1991), físico inglês.
R. Kronig and W. G. Penney, Proceeding of Royal Society (London), A 130, 499
(1931).

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112 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

que a autofunção para outros valores de x pode ser obtida usando o


operador Da :
ϕ(x + ja) = Dja ϕ(x) = ei jka ϕ(x) . (3.91)
A equação diferencial associada a esse problema de autovalores no
intervalo 0 ≤ x < a é dada por

~2 d2
− ϕ(x) + v0 δ(x) ϕ(x) = E ϕ(x) . (3.92)
2µ dx2

No intervalo 0 < x < a o potencial é nulo, sendo a solução geral da


equação acima dada por

ϕ(x) = A sen qx + B cos qx , (3.93)



onde q = ~1 2µE. Analisando o caso em que E > 0, i.e., q é real, temos
pela condição de contorno em x = 0 (ϕ(x) contínua) e fazendo uso de
(3.91) a relação abaixo:

e− i ka [A sen qa + B cos qa] = B . (3.94)

Conforme vimos anteriormente, a derivada de ϕ(x) apresenta uma de-


scontinuidade na posição do delta de Dirac. O salto da derivada para
x = 0 é dado por (3.85), que conduz à relação

2µv0
qA − e− i ka q [A cos qa − B sen qa] = B. (3.95)
~2
A partir das duas últimas expressões podemos obter a equação que
determina q para um dado valor de k
µv0 a sen qa
cos ka = cos qa + . (3.96)
~2 qa

Comecemos analisando o caso em que a partícula está livre, i.e.,


v0 = 0. Para um valor fixo de k temos que
2πj
q=k+ com j = 0, ±1, ±2, · · ·
a
Quando consideramos todos os valores possíveis de k dados por (3.89)
segue que
2πn
q= com n = 0, ±1, ±2, · · ·
a

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3.7. Potenciais Periódicos 113

Figura 3.9: Gráfico de cos qa + 2 senqaqa como função de qa.

No caso geral v0 6= 0 os valores possíveis de q que satisfazem (3.96)


dependem da constante β = µv~20 a . Para ilustrar o comportamento do
lado direito da equação (3.96) com qa exibimos na Fig. 3.9 o gráfico da
função cos qa + 2 senqaqa , i.e., assumimos β = 2.
Hoje, físicos e engenheiros projetistas de dispositivos eletrônicos
e óticos têm usado a excepcional flexibilidade dos materiais semicon-
dutores para produzir uma grande variedade de estruturas, nas quais
poços, barreiras ou potenciais periódicos se aproximam bastante das
situações ideais, como as que estudamos até o momento. Um caso
comum é quando uma camada muito fina (' 5) nm de arseneto de
gálio (AsGa) pode ser depositado (epitaxialmente) sobre um substrato
de arseneto de alumínio e gálio (AsAlGa) para formar uma estrutura
chamada poço quântico. Nos poços quânticos, os portadores de carga
(elétron e buracos) não se movimentam com os três graus de liber-
dade usuais. Nessas estruturas, seu comportamento é unidimensional
na direção perpendicular aos planos das camadas formadas e bidimen-
sional nos planos dessas camadas. Quando as barreiras de potencial
formadas são bastante estreitas ou quando a energia dos portadores de
carga é comparável à energia de descontinuidade entre as camadas, as

Mecânica Quântica

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114 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

funções de ondas associadas a essas partículas são estendidas perpendic-


ularmente às camadas, modificando o comportamento dos portadoras
de carga, devido à periodicidade e ao caráter modulador de longo al-
cance que se superpõe ao potencial cristalina. Quando o número de
poços quânticos numa super-rede é muito grande, o problema pode ser
tratado, sob determinadas condições, como uma potencial periódico de
Kronig-Penney. Por exemplo, considerando a largura das camadas dos
dois semicondutores, AsGa e AsAlx Ga1−x , com aproximadamente 3
nm, o tratamento apresentado no modelo Kronig-Penney pode ser us-
ado para determinar as bandas de energia de elétrons confinados nessas
estruturas quânticas 13 .

3.8 Oscilador Harmônico Linear


O oscilador harmônico constitui um dos problemas mais importantes na
física moderna. O oscilador harmônico tem grande importância na física,
pois muitos problemas de sistemas ligados em equilíbrio, como molécu-
las, átomos ou moléculas em uma rede cristalina, e mesmo partículas
no núcleo atômico, podem, para pequenos deslocamentos da posição de
equilíbrio (pequenas energias de excitação) ser descritos por um poten-
cial do tipo:
s
1 2 1 2 2 k
V (x) = kx = µω x , ω= . (3.97)
2 2 µ

Os autovalores e as autofunções ou auto-estados estacionários de


energia do oscilador são soluções da equação de Schrödinger inde-
pendente do tempo

~2 d2 1
− 2
ϕ(x) + µω 2 x2 ϕ(x) = E ϕ(x) , (3.98)
2µ dx 2

uma importante propriedade dessa equação é o fato de que o potencial


é uma função par. Assim podemos dizer que o potencial é simétrico
em relação a reflexões especulares, V (−x) = V (x). Se ϕ(x) é solução
da equação de Schrödinger, então ϕ(−x) também o é. A equação de
13
D. S. Chemia, Physics Today, 57, May (1985); L. Esaki and R. Tsu, IBM Research
Center Note, March (1969); F. A. P. Osório, M. H. Degani and O. Hipólito, Phys-
ical Review, B37, 1402 (1988).

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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3.8. Oscilador Harmônico Linear 115

Schrödinger, devido a condição de simetria do potencial (função par),


é invariante sob a reflexão. A densidade de probabilidade para as
posições da partícula, em um estado estacionário, apresenta a mesma
simetria ρ(x) = ρ(−x) ⇒ |ϕ(−x)|2 = |ϕ(x)|2 e, portanto
½
ϕ(−x) = ϕ(x) par
ϕ(−x) = −ϕ(x) impar
ou seja, os auto-estados estacionários possuem paridades par e ímpar.
A equação (3.98) pode ser transformada se substituirmos
r
µω
ξ= x
~
e
2E
γ= .

Logo
d2
ϕ(ξ) + (γ − ξ 2 ) ϕ(ξ) = 0 . (3.99)
dξ 2
Temos agora uma equação do tipo 14 . Impondo
R ∞ Sturm-Liouville
que ϕ(x) seja normalizável, i.e. que −∞ |ϕ|2 dx seja finita, implica que
ϕ(x) deve se anular para x → ±∞. Isso sugere que o parâmetro λ ficará
restrito a um certo conjunto de valores permissíveis. O comportamento
assintótico (ξ 2 À γ) das soluções dessa equação é governado por
d2
ϕ(ξ) − ξ 2 ϕ(ξ) ' 0 , (3.100)
dξ 2
cuja solução aproximada é
1 2
ϕ(ξ) ' e± 2 ξ .
Para levar em conta este comportamento e a condição de contorno,
bem como simplificar os cálculos posteriores, escrevemos que
1 2
ϕ(ξ) = e− 2 ξ h(ξ) . (3.101)
Substituindo esta expressão na (3.99) teremos a equação diferencial
d2 d
2
h(ξ) − 2ξ h(ξ) + (λ − 1) h(ξ) = 0 , (3.102)
dξ dξ
14
Jacques Charles François Sturm (1803–1855), matemático franco-suíço.
Joseph Liouville (1809–1882), matemático francês.

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116 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

conhecida como equação diferencial de Hermite 15 . Uma vez que


ϕ(ξ) → 0 para ξ → ±∞, escolheremos h(ξ) e λ tais que essas condições
sejam satisfeitas. Neste ponto aplicaremos o método de Frobenius 16
para resolver a equação diferencial (3.102), o que é feito expandindo
h(ξ) em série de Taylor,

X
h(ξ) = aj ξ j , (3.103)
j=0

que substituindo na equação diferencial acima, teremos



X
{(j + 1)(j + 2)aj+2 − 2jaj + (λ − 1)aj } ξ j = 0
j=0

Dado que os coeficientes dos ξ j devem se anular, obteremos a seguinte


relação de recorrência
2j + 1 − λ
aj+2 = aj (3.104)
(j + 1)(j + 2)

O teste da razão
aj+2 2
lim = lim = 0
j→∞ aj j→∞ j

mostra que a série convergirá para todos os valores de ξ. Isso é natu-


ralmente esperado, pois todos os pontos do plano ξ finito são pontos
ordinários para a equação diferencial de Hermite.
Como era de se esperar, obtemos duas soluções linearmente inde-
pendentes:

1. Uma solução par (hP (ξ)) para a qual a0 6= 0 e a1 = 0. Note que


essa escolha e a relação de recorrência acima garantem que a série
contém apenas as potências pares de ξ.

hP (ξ) = a0 + a2 ξ 2 + a4 ξ 4 + · · ·

2. Uma solução ímpar (hI (ξ)) para a qual a0 = 0 e a1 6= 0.

hI (ξ) = a1 ξ + a3 ξ 3 + a5 ξ 5 + · · ·
15
Charles Hermite (1822–1901), matemático francês.
16
Ferdinand Georg Frobenius (1849–1917), matemático alemão.

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3.8. Oscilador Harmônico Linear 117

Com o intuito de determinar qual é a solução física, i.e. qual a


que satisfaz as condições de contorno, precisamos obter o comporta-
mento assintótico das soluções par e ímpar para ξ → ±∞. Isso é feito
analisando-se a série (3.103) para grandes valores de j. Nesse caso temos
que aj+2 ' 2j aj . É fácil demonstrar que esta relação de recorrência im-
2 2
plica que hP (ξ) ∼ ξ 2 eξ (hI (ξ) ∼ ξeξ ). Esse comportamento não á
aceitável já que ele conduz a funções de onda não normalizáveis. Logo,
para que tenhamos soluções normalizáveis, a serie deve terminar, i.e.,
λ deve ser tal que a partir de um certo ponto todos os aj são zero e a
série é na verdade um polinômio. Inspecionando (3.104) vemos que isto
ocorre para
λ = 2n + 1 , (3.105)
onde n = 0, 1, 2 · · · . Além disso, ainda a partir de (3.104), vemos que
para n par (ímpar) apenas a série para hP (ξ) (hI (ξ)) termina enquanto
que hI (ξ) (hP (ξ)) apresenta um comportamento indesejado para ξ →
±∞. Portanto, a autofunção é dada por hP (ξ) para n par e por hI (ξ)
para n ímpar.
Visando usar uma notação padrão para as soluções do problema,
adotaremos as seguintes convenções:

1. Para n par definimos o polinômio de Hermite Hn (ξ) = hP (ξ) com

n n!
a0 ≡ (−1) 2 ¡ n ¢
2 !

e
n n!
Hn (ξ) = (−1) 2 ¡ n ¢ hP (ξ)
2 !

2. Para n ímpar definimos o polinômio de Hermite Hn (ξ) = hI (ξ)


com a escolha
n−1 2(n)!
a1 ≡ (−1) 2 ¡ n−1 ¢
2 !
e
n−1 2(n)!
Hn (ξ) = (−1) 2 ¡ n−1 ¢ hI (ξ)
2 !

Note que Hn (ξ) é um polinômio de Hermite de ordem n. Aqui, listamos


os primeiros seis polinômios de Hermite, ver Fig. 3.10:

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118 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

Figura 3.10: Funções de Onda do Oscilador Harmônico.

H0 (ξ) = 1
H1 (ξ) = 2ξ
H2 (ξ) = −2 + 4ξ 2
H3 (ξ) = −12ξ + 8ξ 3
H4 (ξ) = 12 − 48ξ 2 16ξ 4
H5 (ξ) = 120ξ − 160ξ 3 + 32ξ 5 .

Esses polinômios satisfazem a equação diferencial


d2 d
2
Hn (ξ) − 2ξ Hn (ξ) + 2n Hn (ξ) = 0 , (3.106)
dξ dξ
Finalmente, temos que os autovalores da hamiltoniana do oscilador
harmônico são dados por
µ ¶
1
En = n + ~ω (3.107)
2
e as correspondentes autofunções são
1 2
ϕn (ξ) = e− 2 ξ Hn (ξ) . (3.108)

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3.8. Oscilador Harmônico Linear 119

No estudo das autofunções, se n é um inteiro são conhecidos os


polinômios de Hermite de grau n. As completas autofunções são dadas
na forma µr ¶
µω µω 2
ϕn (x) = cn Hn x e− 2~ x , (3.109)
~
onde cn é uma constante a ser determinada.
Se fizermos a derivada em ξ da (3.106) teremos
d
Hn (ξ) = 2n Hn−1 (ξ) . (3.110)

Uma particular representação dos polinômios de Hermite é obtido pela
função geratriz

X
2 Hn (ξ)
F (s, ξ) = e2ξs−s = sn . (3.111)
n!
n=0

Como conseqüência de (3.110), teremos


∂F
= 2sF
∂ξ
Essa equação pode ser integrada

F (s, ξ) = F (s, 0)e2sξ

O coeficiente F (s, 0) pode ser determinado de (3.111) e dos polinômios


par e ímpar:

X (−1)k 2k 2
F (s, 0) = s = e−s
k!
k=1

e então a função geratriz F (s, ξ) terá a forma


2 2 −(s−ξ)2
F (s, ξ) = e2ξs−s = eξ , (3.112)

então fica claro que


∂n ξ2 n ∂
n
2
n
F (s, ξ) = e (−1) n
e−(s−ξ)
∂s ∂ξ
No entanto, µ ¶
∂ n F (s, ξ)
= Hn (ξ)
∂sn s=0

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120 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

por conseguinte,
2 dn −ξ2
Hn (ξ) = (−1)n eξ e , (3.113)
dξ n
que é a fórmula de Rodrigues 17 para os polinômios de Hermite.
Podemos usar a formula de Rodrigues para calcular a normalização:
Z +∞ Z +∞
−ξ 2 2 dn 2
e [Hn (ξ)] dξ = Hn (ξ)(−1)n n e−ξ dξ
−∞ −∞ dξ
¯+∞
n d n−1 ¯
−ξ 2 ¯
= (−1) Hn (ξ) n−1 e ¯
dξ −∞
Z +∞
dH n (ξ) dn−1 −ξ2
+ (−1)n−1 e dξ
−∞ dξ dξ n−1

onde integramos por partes. O primeiro termo da integral se anula 18 .


Podemos usar a fórmula de diferenciação para substituir dHdξ n (ξ)
por
2nHn−1 (ξ) e repetir a integração por parte (n − 1) mais vezes, obtendo
Z +∞ Z +∞
−ξ 2 2 n 2 √
e [Hn (ξ)] dξ = 2 n! e−ξ dξ = 2n n! π . (3.114)
−∞ −∞

Essa relação pode ser entendida para uma relação geral de ortogonali-
dade Z +∞
2 √
e−ξ Hl (ξ)Hn (ξ) dξ = 2n n! π δln . (3.115)
−∞
Dessa maneira, as autofunções de energia normalizadas do oscilador
harmônico são dadas por
µ ¶1 ³ ´1
1 2 µω 4 − ξ2
ϕn (ξ) = n
e 2 Hn (ξ) , (3.116)
2 n! π~

ou em função de x
µ ¶1 ³ ´1 µr ¶
1 2 µω 4 − µω x µω
ϕn (x) = n
e 2~ Hn x . (3.117)
2 n! π~ ~

Finalmente vamos analisar o caso geral, o movimento da função de


onda (pacote de onda) dependente do tempo ψ(x, t) em que a condição
17
Benjamin Olinde Rodrigues (1795–1851), matemático Francês.
18 dn−1 −ξ2 2
Pois dξ n−1 e = −Hn−1 (ξ)e−ξ .

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3.8. Oscilador Harmônico Linear 121

inicial ψ(x, 0) é dada. A equação de Schrödinger dependente do tempo

∂ ~2 ∂ 2 µω 2 2
i~ ψ(x, t) = − ψ(x, t) + x ψ(x, t) (3.118)
∂t 2µ ∂x2 2

determina o desenvolvimento temporal da função de onda. Se ψ(x, 0) é


normalizável, podemos expandir como

X
ψ(x, 0) = cn ϕn (x) (3.119)
n=0

com os coeficientes da expansão dados por


Z +∞
cn = ϕ∗n (x)ψ(x, 0) dx (3.120)
−∞
¡ ¢
então, conhecendo a energia do oscilador harmônico, En = n + 21 ~ω,
podemos construir a função de onda dependente do tempo t usando
X i
ψ(x, t) = cn ϕn (x)e− ~ En t
n

que em nosso caso será



X
− i ωt
ψ(x, t) = e 2 cn ϕn (x)e− i nωt (3.121)
n=0

O centro de probabilidade do pacote de onda normalizado, i.e., o


valor esperado do operador posição x é
Z +∞
hxi = ψ ∗ (x, t)xψ(x, t) dx .
−∞

Logo,
∞ X
X ∞ Z +∞
hxi = c∗n ck e i(n−k)ωt
ϕ∗n (x) x ϕk (x) dx (3.122)
n=0 k=0 −∞

Note que o termo integral


Z +∞
xnk = ϕ∗n (x) x ϕk (x) dx
−∞

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122 Cap. 3 Aplicações da Equação de Schrödinger

formam as quantidades xnk dos elementos da matriz de x.


Assim, poderemos calcular os elementos da matriz de posição asso-
ciada ao operador x explicitamente

n+k 1 1
³ µω ´ 1
2
xnk = 2− 2 (n!)− 2 (k!)− 2

µr ¶ µr ¶
Z ∞
µω 2
− ~ x µω µω
× e Hn x x Hk x dx
−∞ ~ ~
s Z ∞
~ − n+k − 1
− 1
− 1 2
= 2 2 (n!) 2 (k!) 2 π 2 Hn (ξ)Hk (ξ)ξe−ξ dξ
µω −∞

Usando a função geratriz dos polinômios de Hermite, (3.111), e con-



siderando ∂s F (s, ξ), teremos a relação de recorrência

2ξHn (ξ) = 2nHn−1 (ξ) + Hn+1 (ξ) (n ≥ 1) ,

e naturalmente
Z ∞
2 √
Hn (ξ)Hk (ξ)ξe−ξ dξ = π2n−1 n! [δk,n−1 + 2(n + 1)δk,n+1 ]
−∞

Assim, s "r #
r
~ n n+1
xn,k = δk,n−1 + δk,n+1 (3.123)
µω 2 2
e usando a notação convencional de matriz
 √
√0 1 √0 0 
s
~ 
 1 0
√ 2 √0 
(x) =
2µω 
 0 2 √0 3  (3.124)
 0 0 3 0 
    
A maioria dos elementos dessa matriz são nulos, e temos uma matriz
real simétrica.

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Capítulo 4

Aproximação WKB

Nesse capítulo iremos apresentar um método de aproximação que pode


ser aplicado quando a energia potencial apresenta uma variação lenta
com a posição. Na mecânica quântica, esse método foi proposto por
G. Wentzel 1 , H. A. Kramers 2 e L. Brillouin 3 e é conhecido como aprox-
imação WKB 4 , ou aproximação WKBJ, devido à H. Jeffreys 5 . Ini-
cialmente faremos uma introdução da aproximação semiclássica e a
seguir o método de aproximação WKB, e aplicações para estados ligados
e transmissão através de uma barreira de potencial.

4.1 Aproximação Semiclássica


A discussão das propriedades gerais da dinâmica quântica de uma par-
tícula sujeita a um potencial externo, pode ser adaptada no sentido de
dar um esquema de aproximação semiclássica, ou de grandes números
quânticos, na qual o último termo da equação (2.16)

~ r, t)]2 √
∂S(~r, t) [∇S(~ ~2 ∇2 ρ
+ +V − √ =0 (4.1)
∂t 2µ 2µ ρ
1
Gregor Wentzel (1898–1978), físico teuto-suíço.
2
Hendrik Anthony Kramers (1894–1952), físico holandês.
3
Léon Nicolas Brillouin (1889–1969), físico francês.
4
G. Wentzel, Zeitschrift für Physik, 38, 518–529 (1926); H. A. Kramers, Zeitschrift
für Physik, 39, 828–840 (1926); L. Brillouin, Comptes Rendus de l’Academie des
Sciences, 183, 24–26 (1926).
5
Sir Harold Jeffreys (1891–1989), matemático, estatístico, geofísico e astrônomo
inglês.
H. Jeffreys, Proceedings of the London Mathematical Society, 23, 428–436 (1923).

123

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124 Cap. 4 Aproximação WKB

pode ser ignorado em relação aos demais termos, i.e., consideramos



~ = 0. Aqui, usaremos A(x) = ρ.
Vamos então ao problema unidimensional de um estado estacionário
de energia E cujo a hamiltoniana do sistema é dada por
p2
H= + V (x)

que tem como solução a função de onda do tipo
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ψ(x, t) = ϕ(x)e− ~ Et ≡ A(x)e ~ [S(x)−Et] (4.2)
onde as funções reais A(x) e S(x) correspondem ao módulo e à fase
de ϕ(x), respectivamente. Substituindo a equação acima na equação de
Schrödinger
∂ ~2 d2
i~ ψ(x, t) = − ψ(x, t) + V ψ(x, t) (4.3)
∂t 2µ dx2
teremos, nesse caso particular
µ ¶2
dS 1 d2 A(x)
= 2µ [E − V (x)] + ~2 (4.4)
dx A(x) dx2
Em procedimento análogo ao §2.2, porém levando em consideração so-
mente a parte imaginária, e tendo em conta que ∂A
∂t = 0, teremos

d2 S(x) dA(x) dS(x)


A(x) 2
+2 =0 (4.5)
dx dx dx
Faremos agora o estudo dinâmico dessas duas equações. A dinâmica
do sistema se dá no regime semiclássico, assim o último termo de (4.4)
é muito menor que o termo precedente, i.e.
1 d2 A(x)
~2 ¿ 2µ [E − V (x)]
A(x) dx2
ou seja
~2 1 d2 A(x)
¿1
2µ [E − V (x)] A(x) dx2
O primeiro fator dessa última relação é de fato o inverso do quadrado
do vetor de onda local,
µ ¶
1 λ(x) 2

k 2 (x) 2π

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4.1. Aproximação Semiclássica 125

de modo que a última condição implica comprimentos de onda locais


λ(x) pequenos ou A(x) de pequena curvatura, no sentido que

λ2 (x) d2 A(x)
¿ (2π)2
A(x) dx2

Nos pontos de inversão clássica xI , V (xI ) = E, essa condição é violada.


Mas numa região em que a condição esteja satisfeita é possível usar a
aproximação
dS p 2π~
' ± 2µ [E − V (x)] = ±
dx λ(x)
da qual resulta
Z x p Z x
dx0
S(x) ' S(x0 ) ± dx0 2µ [E − V (x)] = S(x0 ) ± 2π~
x0 x0 λ(x0 )

dS(x)
Da equação (4.5), parte imaginária, temos A(x) em termos de dx
como
µ ¶ 1
dS(x) − 2
A(x) = C
dx
onde C é uma constante relacionada com a normalização da função de
onda. Note que essa relação é exata. Usando a expressão aproximada
no regime semiclássico obtida para S(x) temos
r · Z x ¸
λ(x) i dx0
ψ(x, t) ' C+0 exp − Et + 2π i 0
2π ~ x0 λ(x )
r · Z x ¸
0 λ(x) i dx0
+ C− exp − Et − 2π i 0
(4.6)
2π ~ x0 λ(x )

onde a dependência com S(x0 ) foi incluída nas constantes C±0 . A de-
terminação dessas constantes depende das condições impostas sobre
ψ(x, t).
Dessa expressão podemos ver facilmente: tendo em vista que λ(x)
é inversamente proporcional à raiz quadrada da energia cinética local,
a densidade de probabilidade resulta ser inversamente proporcional a
velocidade local. Por outro lado, S(x) é a fase acumulada medindo dis-
tâncias em unidades de comprimento de onda local λ(x). Essa fase pode
ser vista como uma extensão da fase da função de onda de uma partícula

Mecânica Quântica

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126 Cap. 4 Aproximação WKB

livre e± i kx , levando em consideração que o vetor de onda k varia lenta-


mente com x, temos o equivalente à
Z x
kx → dx0 k(x0 )

A implicação dessa relação é a de que o efeito dominante do poten-


cial V (x) altere o momentum da partícula sem que ocorra termos on-
dulatórios, como reflexões, interferências entre outros. Nosso próximo
passo será estudar o método WKB propriamente dito, e suas aplicações.

4.2 A Aproximação de Wentzel, Kramers e


Brillouin
O ponto de partida para a obtenção da aproximação semiclássica (4.6)
acima foi a representação (4.2) de ψ(x, t) em termos das duas funções
A(x) e S(x), o que leva à substituição da equação de Schrödinger pelo
par de equações (4.4) e (4.5). No entanto, essas mesmas equações po-
dem ser obtidas através de um critério para a determinação de A(x) e
S(x) que não impõe a realidade dessas duas funções. O novo critério
pode ser motivado observando que a aproximação semiclássica para a
equação (4.4) resulta independente de ~, enquanto correções devidas ao
último termo são proporcionais a ~2 , pelo menos. Isso sugere substituir
a decomposição (4.2) por
i
ψ(x, t) = e ~ W (x,t) com W (x, t) = S(x, t) − i ~T (x, t) (4.7)
onde as funções S(x, t) e T (x, t) são definidas de tal forma que contêm
apenas as potências pares de ~. Isso corresponde à decomposição da
função W (x, t) em duas partes, que envolvem respectivamente potências
pares, S(x, t) e potências ímpares, i ~T (x, t), de ~. Em particular, não
há agora qualquer restrição de realidade sobre essas duas funções. Um
tratamento que se limite aos termos de ordem mais baixa em ~ deve
assim coincidir com o tratamento anterior, nas regiões em que ele seja
aplicável, com uma amplitude A(x, t) dada por
A(x, t) = eT (x,t) (4.8)
Para implementar esse esquema basta agora substituir o ansatz
(4.7) na equação de movimento
∂ψ(x, t) ~2 ∂ 2 ψ(x, t)
i~ =− + V (x)ψ(x, t)
∂t 2µ ∂x2

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4.2. A Aproximação de Wentzel, Kramers e Brillouin 127

e escrever as duas equações que resultam da separação de potências


pares e ímpares de ~. Esse último passo substitui a separação de termos
reais e imaginários discutidos anteriormente, e leva ao par de equações
µ ¶
~2 ∂ 2 A A ∂S 2 ∂S
− 2
+ + V (x)A + A =0 pares
2µ ∂x 2µ ∂x ∂t
(4.9)
1 ∂A ∂S A ∂ 2 S ∂A
+ + =0 ímpares
µ ∂x ∂x 2µ ∂x2 ∂t
onde a amplitude A(x, t) corresponde à expressão (4.8). A particulariza-
ção para um estado estacionário de energia E corresponde tomar S(x, t)
e A(x, t) como sendo da forma
S(x, t) → −Et + SE (x) e A(x, t) → AE (x)
onde SE (x) e AE (x) são independentes do tempo mas não mais neces-
sariamente reais. Nesse caso a função de onda tem a forma
i i i
ψ(x, t) → AE (x)e ~ SE (x) e− ~ Et ≡ ϕE (x)e− ~ Et
e as equações (4.9) serão
µ ¶
dSE (x) 2 1 d2 AE (x)
= 2µ [E − V (x)] + ~2 (4.10)
dx AE (x) dx2
e
d2 SE (x) dAE (x) dSE (x)
AE (x)
2
+2 =0 (4.11)
dx dx dx
que são idênticas as equações (4.4) e (4.5), sem que exista uma condição
de realidade imposta sobre as funções SE (x) e AE (x). Essas duas equa-
ções são equivalentes á forma estacionária da equação de Schrödinger.
A solução para equação (4.11) tem a forma
µ ¶ 1
dSE (x) − 2
AE (x) = C
dx
que substituindo em (4.10) nos dá
 ³ ´2 ³ 3 ´
µ ¶2 d2 SE (x) d SE (x)
dSE (x) ~2  3 dx2 dx3 
= 2µ [E − V (x)] +  ³ ´2 − ³ dS (x) ´ 
dx 2 2 dSE (x) E
dx dx
(4.12)

Mecânica Quântica

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128 Cap. 4 Aproximação WKB

que também é uma equação exata.


Soluções aproximadas serão obtidas através da expansão semiclás-
sica, que exprime SE (x) como uma série de potências em ~2

SE (x) = S0 (x) + ~2 S2 (x) + ~4 S4(x) + · · ·

e a aproximação de ordem mais baixa nos dará


µ ¶
dS0 (x) 2
= 2µ[E − V (x)] .
dx
No entanto, agora não existe uma condição de realidade imposta sobre
S0 (x) e portanto, embora essa aproximação sendo inválida nas vizin-
hanças de pontos de inversão do movimento clássico, ela poderá ser
utilizada em regiões classicamente proibidas, nas quais E < V (x). Ex-
istem portanto duas situações distintas a considerar:
Situação em que E > V (x): Nesse caso temos,
Z x p
(>) (>)
S0 (x) = S0 (x0 ) ± dx0 2µ[E − V (x0 )]
x0
Z x
dx0
= S (>) (x0 ) ± 2π~ 0
x0 λ(x )

com a aproximação correspondente para a função de onda


r r
(>) (>) λ(x) 2π i Rxx λ(x
dx0
0 (>) λ(x) −2π i Rxx λ(x
dx0
0)
ϕE (x) ' C+ e 0 ) +C− e 0 . (4.13)
2π 2π
Situação em que E < V (x): Esses caso corresponde a regiões
classicamente proibidas e temos
Z x p
(<) (<)
S0 (x) = S0 (x0 ) ± i dx0 2µ[V (x0 ) − E]
x0
Z x
dx0
= S (<) (x0 ) ± 2π i ~ 0
x0 `(x )

onde
2π~
`(x) = p
2µ[V (x) − E]
com a aproximação correspondente para a função de onda
r r
(<) (<) `(x) 2π Rxx `(x
dx0
0 (<) `(x) −2π Rxx `(x
dx0
0)
ϕE (x) ' C+ e 0 ) + C
− e 0 . (4.14)
2π 2π

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4.2. A Aproximação de Wentzel, Kramers e Brillouin 129

As expressões (4.13) e (4.14) são as mais comumente usadas na


aproximação WKB. Correções da ordem ~2 podem ser obtidas direta-
mente da equação (4.12) e usando o resultado obtido para a aproximação
de ordem zero. A equação resultante para S2 (x) será
³ 2 ´2 ³ 3 ´
d S0 (x) d S0 (x)
dS2 (x) 3 dx2 1 dx3
= ³ ´3 − ³ ´
dx 8 dS0 (x) 4 dS0 (x) 2
dx dx

O segundo termo dessa equação pode ser calculado facilmente usando


(>) (<)
dS0 2π~ dS0 2π i ~
=± e =±
dx λ(x) dx `(x)
onde teremos
" µ ¶ #
(>)
dS2 1 d2 λ(x) 1 dλ(x) 2
=± −
dx 8π~ dx2 2λ(x) dx
e " µ ¶ #
(<)
dS2 i d2 `(x) 1 d`(x) 2
=∓ −
dx 8π~ dx2 2`(x) dx
ou ainda, fazendo uma integração em x
" Z µ ¶ #
1 dL(x) 1 x 0 1 dL(x0 ) 2
S2 (x) = ± − dx (4.15)
8π~ dx 2 L(x) dx0

onde ½
λ(x) para E > V (x)
L(x) =
− i `(x) para E < V (x)
As amplitudes corrigidas pelos efeitos de ordem ~2 , de fato, tem a forma
µ ¶− 1
dS0 (x) 2 dS2 (x)
2
AE (x) ' C +~
dx dx
µ ¶− 1 " µ ¶µ ¶ #
dS0 (x) 2 ~2 dS2 (x) dS0 (x) −1
'C 1−
dx 2 dx dx
" µ ¶µ ¶ #
~2 dS2 (x) dS0 (x) −1
= A0 (x) 1 − (4.16)
2 dx dx

Mecânica Quântica

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130 Cap. 4 Aproximação WKB

que representa na realidade quatro diferentes tipos de amplitude, cor-


respondentes
p respectivamente às soluções com cada um dos dois sinais
de ± |E − V (x)|, para os casos em que E > V (x) e E < V (x).
Condição de Validade da Aproximação WKB: Uma utilidade
imediata das expressões (4.15) e (4.16) para as correções de ordem ~2 é
o estabelecimento de critérios de validade para a aproximação WKB de
ordem mais baixa. De fato, a validade da aproximação de ordem zero
i
ϕE (x) ' A0 (x) e ~ S0 (x)

depende de estarem satisfeitas as condições

|~S2 (x)| ¿ 1

e ¯ µ ¯
¯ ~2 dS (x) ¶ µ dS (x) ¶−1 ¯
¯ 2 0 ¯
¯ ¯¿1
¯2 dx dx ¯

que mostram a irrelevância das correções de segunda ordem respectiva-


mente para o fator exponencial e para a amplitude da função de onda
aproximada.
Olhando a expressão (4.15) para S2 (x), é claro que a primeira dessas
duas condições estará satisfeita sempre que o módulo da derivada dL(x)
dx
for suficientemente pequeno em toda a região que esteja sendo consider-
ada, em função da variável x. Esse critério pode ser expresso em termos
do potencial V (x) e da energia E do estado estacionário como
¯ ¯ ¯ ¯
¯ ¯ ¯ ¯ ¯ dV (x) ¯
¯ dL(x) ¯ 2πµ~ ¯ dVdx(x) ¯ 1 ¯L(x) dx ¯
¯ ¯
¯ dx ¯ ¿ 1 → 3 =
2 |E − V (x)|
¿1 (4.17)
|2µ[E − V (x)]| 2

mostrando mais uma vez o colapso da aproximação nas vizinhanças dos


pontos de inversão do movimento clássico. A segunda forma da relação
acima tem ainda uma interpretação clara: a estimativa linear para a
variação do potencial ao longo de um comprimento de onda local 6 deve
ser muito menor que a energia cinética local 7 .
6
Ou, no caso E < V (x), ao longo de uma distância igual ao módulo do comprimento
de onda local imaginário.
7
Ou que o seu módulo, no caso E < V (x) em que ela é negativa.

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4.3. Fórmulas de Conexão 131

A condição referente à amplitude também pode ser escrita em ter-


mos de L(x) usando as relações obtidas para dS dS2
dx e para dx . Disso
0

resulta a condição
¯ µ ¶ ¯
1 ¯¯ d2 L(x) 1 dL(x) 2 ¯¯
¯L(x) − ¯¿1
32π 2 ¯ dx2 2 dx ¯

que também envolve explicitamente a segunda derivada do compri-


mento de onda local 8 . Isso introduz a restrição adicional à expressa por
(4.17), a saber, que a variação em x de dL dx seja suficientemente suave.
Mesmo quando o valor absoluto dessa derivada seja pequeno em toda a
região examinada, variações descontínuas, ou quase descontínuas, dessa
2
derivada acarretam valores muito grandes de ddxL2 . As propriedades do
potencial V (x) que levam a situações desse tipo podem ser identificadas
calculando
¯ ³ ´2 ¯
¯ ¯ ¯ dV (x) ¯
¯ d2 L(x) ¯ ¯ 3 1
d2 V (x)
¯
¯L(x) ¯ = |L(x)| ¯
2 ¯ dx dx 2 ¯
¯ + ¯
dx2 ¯ ¯ 4 [E − V (x)]2 2 E − V (x) ¯
¯ ¯

que aponta como ingrediente perigoso uma descontinuidade ou quase


descontinuidade na derivada do potencial, i.e., uma força clássica de-
scontínua ou quase descontínua, o que faz com que a segunda derivada
assuma valores absolutos muito grandes.

4.3 Fórmulas de Conexão


A quebra da validade da aproximação WKB de ordem mais baixa em
determinados intervalos de x, nitidamente quando nas vizinhanças dos
pontos de inversão do movimento clássico, é uma limitação séria do
ponto de vista de suas aplicações. As dificuldades que ocorrem dev-
ido a isso podem ser contornadas através de um tratamento especial
da função de onda nos intervalos restritos. A idéia central consiste em
utilizar, em cada um desses intervalos, seja a solução exata, seja a aprox-
imação válida para a função de onda, e em seguida ligar continuamente
essa solução especial às dadas pela aproximação WKB nas fronteiras do
intervalo crítico considerado. Em vários casos de interesse o resultado
desse tipo de procedimento pode ser expresso sob a forma de prescrições
8
Real ou imaginário para E > V (x) ou E < V (x) respectivamente.

Mecânica Quântica

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132 Cap. 4 Aproximação WKB

que relacionam as funções de onda da aproximação WKB nos dois ex-


tremos do intervalo. Tais prescrições são conhecidas como fórmulas de
conexão.
Ponto de Inversão Linear: A situação perigosa, crítica, mais co-
mum é a que envolve um ponto de inversão linear, em que x0 é um
ponto de inversão do movimento clássico na qual o potencial V (x) será
bem aproximado por uma função linear em x, i.e.
¯
dV ¯¯
V (x) ' E + (x − x0 ) ≡ E − (x − x0 )F0
dx ¯x=x0

A Fig. 4.1 mostra o potencial V (x) com ponto de inversão linear no

Figura 4.1: Potencial V (x) com ponto de inversão linear no ponto x0 .

ponto x0 , com a região classicamente proibida à esquerda do ponto


de inversão. O intervalo sombreado que aparece na figura é a região
perigosa, onde a aproximação WKB deixa de ser válida. Assim a aprox-
imação WKB terá validade tanto na região classicamente permitida à
direita do intervalo sombreado como na região classicamente proibida
à esquerda do intervalo sombreado. A constante F0 que aparece na
equação acima é a força que age classicamente no ponto de inversão
x0 . Nesse caso, a equação de Schrödinger estacionária pode ser escrita

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4.3. Fórmulas de Conexão 133

nas vizinhanças de x = x0 como

d2 ϕE 2µF0
+ 2 (x − x0 )ϕE = 0
dx2 ~
³ ´1
2µF0 3
introduzindo a variável y = ~2
(x − x0 ) teremos

d2 ϕE
+ yϕE = 0 (4.18)
dy 2

onde ϕE é tratada como uma função de y. Essa equação pode ser re-
solvida exatamente. Antes de resolvermos a equação acima, veremos o
seguinte: as soluções da equação diferencial de Airy 9 dada por

d2 ψ
− yψ = 0
dy 2

podem ser expressas em termos das chamadas funções de Airy 10


Ai(y) e Bi(y). Assintoticamente, para valores grandes e positivo de
y, temos

1 1 1
Ai(y) ∼
= π − 2 y − 4 e−ζ
2
1 1

Bi(y) = π − 2 y − 4 eζ

onde
2 3
ζ = |y| 2
3
e para valores grandes e negativo de y, temos
1 1
³ π´
Ai(y) ∼= π − 2 |y|− 4 cos ζ −
1 1
³ 4 π´
Bi(y) ∼ − −
= −π 2 |y| 4 sen ζ −
4
Note que a equação (4.18) tem um sinal positivo quando comparado com
a equação diferencial de Airy, o que nos leva para argumentos negativos.
Quando temos argumentos negativos, as funções de Airy podem por ser
9
George Biddell Airy (1801–1892), matemático e astrônomo inglês.
10
Para um estudo das funções de Airy, ver Abramowitz and Stegun, Handbook of
mathematical functions, (1965).

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134 Cap. 4 Aproximação WKB

escritas em termos de funções de Bessel cilíndricas 11 de ordem ± 13 ,


J± 1
3

· ¸
1√ 2 3 2 3
Ai(−y) = y J 1 ( y 2 ) + J− 1 ( y 2 )
3 3 3 3 3
· ¸
1√ 2 3 2 3
Bi(−y) = y J− 1 ( y ) − J 1 ( y )
2 2
3 3 3 3 3

Desse modo, voltando ao nosso problema, a solução geral da equação


(4.18) pode ser escrita como
· ¸
√ 2 3 2 3
ϕE (y) = y c1 J 1 ( y 2 ) + c2 J− 1 ( y 2 ) (4.19)
3 3 3 3

As constantes arbitrárias c1 e c2 podem ser ajustadas de modo que a


solução satisfaça condições de contorno apropriadas.
Fórmulas de conexão apropriadas para esse caso podem ser obtidas
comparando essa solução com aquela obtida através da aproximação
WKB onde ambas sejam válidas. Por exemplo, os coeficientes c1 e c2 de
(4.19) podem ser escolhidos de forma que

c 1 2 3 7
ϕE (y → −∞) → (−y)− 4 e− 3 (−y) 2 + O(−y − 4 )
2
e µ ¶
− 14 2 3 π 7
ϕE (y → +∞) → cy sen y2 + + O(y − 4 )
3 4
onde c é um fator multiplicativo global, a ser determinado pela nor-
malização da função ϕE (y). Utilizando a aproximação linear para o
potencial,
µ ¶ 13
2π~ 2π~ ~2 1
λ(x) = p 'p = 2π y− 2
2µ[E − V (x)] 2µ(x − x0 )F0 2µF0

de modo que
Z x Z x−x0
dx 1 2 3
2π = dy y − 2 = y 2
x0 λ(x) 0 3
11
Friedrich Wilhelm Bessel (1784–1846), matemático e astrônomo alemão.

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4.3. Fórmulas de Conexão 135

e o termo dominante da expressão assintótica para y → +∞ se reduz


r µ Z x ¶
0 λ(x) dx π
ϕE (x À x0 ) → c sen 2π +
2π x0 λ(x) 4
³ ´− 1
~2 6
com = c c0 . Um procedimento análogo para a expressão ass-
2µF0
intótica quando y → −∞ nos dará
r
c0 `(x) 2π Rxx `(x)
dx
ϕE (x ¿ x0 ) → e 0
2 2π
Essa última expressão pode ser identificada com a solução (4.14) da
(<)
aproximação WKB, na região classicamente proibida 12 , para C− = 0
(<) 0
e C+ = c2 , ao passo que a expressão válida para x À x0 corresponde
(>) (>)
à particular escolha dos coeficientes C+ e C− da expressão WKB
(4.13), válida na região classicamente permitida,

(>) (>) c0
C+ = −C− =
2i
Desse modo, o prolongamento para a região classicamente permitida
da função de onda da aproximação WKB que envolve a exponencial
decrescente na região classicamente proibida (ou vice-versa) deve ser
feito segundo a prescrição

x ¿ x0 x À x0

região proibida região permitida


q Rx
0 dx0 ´ q ³ R
`(x) −2π x dx0
ϕE = c
2 2π e x `(x0 ) ↔ ϕE = c λ(x)
+ π4 2π sen 2π x0 λ(x0 )
(4.20)
que é uma das fórmulas de conexão relevantes para o caso de um ponto
de inversão linear como o representado na Fig. 4.1.
Como indicado na equação (4.14), a forma geral da aproximação
WKB para a função de onda na região classicamente proibida consiste
porém numa superposição de contribuições com dependências expo-
nenciais crescentes e decrescentes. Além da fórmula de conexão para a
12
R x dx
Note que a integral x0 `(x) é negativa nas condições representadas na Fig. 4.1, em
que o ponto x está à esquerda do ponto x0 .

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136 Cap. 4 Aproximação WKB

componente exponencial decrescente, é preciso estudar também o pro-


longamento para a região permitida da componente crescente. Ele pode
ser obtido repetindo o procedimento acima com uma escolha diferente
dos coeficientes c1 e c2 na equação (4.19), e leva a

x ¿ x0 x À x0

região proibida região permitida


q R dx0
q ³ R ´
2π xx0 x dx0
ϕE = c `(x)
2π e `(x0 ) ↔ ϕE = c λ(x)
2π cos 2π x0 λ(x0 ) + π4
(4.21)
Um ponto que deve ser observado com relação a esse procedimento
para obter as fórmulas de conexão é o de que as funções de onda na
aproximação WKB foram comparadas às formas assintóticas da solução
da equação de Airy (4.18), que envolve a aproximação linear para o
potencial nas vizinhanças do ponto de inversão. A implicação desse
fato é que a validade das fórmulas obtidas depende de que os parâmet-
ros do problema sejam tais que a aproximação WKB seja válida numa
região em que tanto a forma assintótica da solução para o potencial
linear quanto a própria forma linearizada do potencial sejam válidas.
Para que isso seja possível, é preciso que em regiões suficientemente
próximas do ponto de inversão os efeitos da curvatura do potencial se-
jam desprezíveis, os valores do argumento y se tornem suficientemente
grandes para permitir o uso das relações assintóticas e da aproximação
WKB, ver equação (4.17). Isso ocorrerá se λ(x) e `(x) se tornarem su-
ficientemente pequenos dentro da região em que a aproximação linear
para o potencial possa ser usada.
As conexões (4.20) e (4.21) são característica da inversão linear ap-
resentada na Fig. 4.1. No caso em que essa região esteja à direita do
ponto de inversão, como mostra a Fig. 4.2, temos F0 < 0, mas a mesma
equação (4.18) é obtida para a função de onda ϕE (x) quando consid-
³ ´1
erada função da nova variável y = − 2µ|F ~2
0| 3
(x − x0 ). Isso permite
adaptar facilmente os resultados (4.20) e (4.21) a essa nova situação.
Assim, as fórmulas de conexão nesse novo caso são simplesmente for-
mas refletidas especularmente no ponto de inversão x = x0 das soluções
do caso ilustrado na Fig. 4.1, Logo, as fórmulas de conexão desse novo

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4.4. Aplicação WKB para Barreira de Potencial 137

Figura 4.2: Região proibida à direita do ponto de inversão x0 .

caso, como ilustrado na Fig. 4.2, são dadas por

x ¿ x0 x À x0

região permitida região proibida


q ³ R ´ q Rx dx0
x dx0 −2π
ϕE = c λ(x)
2π sen 2π x 0 λ(x0 ) + π
4 ↔ ϕE = c
2
`(x)
2π e x0 `(x0 )

q ³ R ´ q R dx0
x dx0 2π xx
ϕE = c λ(x)
2π cos 2π x 0 λ(x0 ) + π
4 ↔ ϕE = c `(x)
2π e 0 `(x0 )

(4.22)

4.4 Aplicação WKB para Barreira de Potencial


Nessa seção faremos o estudo da aproximação semiclássica WKB para
uma barreira de potencial. O interesse desse problema remonta a um
trabalho clássico de 1928 de G. Gamow 13 , em que ele é relacionado com
a forte dependência das vidas médias observadas para o decaimento alfa
13
George Gamow (Georgiy Antonovich Gamov) (1904–1968), físico e cosmólogo
alemão.

Mecânica Quântica

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138 Cap. 4 Aproximação WKB

de núcleos radioativos com a energia das partículas alfa emitidas 14 .


O problema consiste, de uma forma geral, em obter uma aproxi-
mação para a função de onda no caso de um potencial como mostrado
na Fig. 4.3. Para uma partícula com energia E, note que esse potencial

Figura 4.3: Barreira de Potencial de forma arbitrária.

tem dois pontos de inversão clássicos em x = x1 e x = x2 . A região


I, x < x1 , e a região III, x > x2 são classicamente acessíveis para
a partícula. A região II, x1 < x < x2 , é classicamente proibida. As
fórmulas de conexão permitem determinar a aproximação WKB para a
função de onda na região II em termos da aproximação correspondente
na região I, e em seguida a aproximação WKB na região III em termos
da correspondente na região II. Isso permite relacionar as aproximações
WKB para as funções de onda nas regiões classicamente permitidas I
e III, e com isso estimar a probabilidade de tunelamento através da
região classicamente proibida II.
De um feixe de partículas com energia E, incidente pela direita sobre
a barreira de potencial, ver Fig. 4.3, algumas são refletidas no ponto
de retorno clássico x = x2 , outras atravessam a região II e podem
eventualmente alcançar a região I, através do efeito túnel.
Na região I, a função de onda é oscilatória e a solução WKB pode
14
G. Gamow, Zeitscrift für Physik, 51, 204 (1928).

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4.4. Aplicação WKB para Barreira de Potencial 139

ser convenientemente colocada na forma, quando x ¿ x1


r h R i
λ(x) i dx0
2π xx + π4
ϕIE (x) =c e 1 λ(x0 ) ,

onde c é uma amplitude arbitrária e a fase π4 foi introduzida explicita-


mente para conveniência posterior, no uso das fórmulas de conexão. A
condição x ¿ x1 é para excluir devidamente intervalo perigoso em torno
do ponto de inversão linear x1 . Escrevendo a exponencial em termos de
seno e cosseno, e usando as fórmulas de conexão (4.22), resulta que a
aproximação WKB para a função de onda na região II, x1 ¿ x ¿ x2
será dada por
r · ¸
`(x) 2π Rxx `(x
dx0 i −2π Rxx `(x
dx0
ϕII
E (x) =c e 1 0 ) + e 1 0 )
2π 2
r · ¸
`(x) 2π Rxx2 `(x
dx0
0)
R
2π x dx
0
i −2π Rxx2 dx0
−2π
Rx dx0
=c e 1 e x2 `(x0 ) + e 1 `(x0 ) e x2 `(x0 )
2π 2

A primeira forma da expressão acima resulta diretamente das fórmulas


de conexão (4.22). Em seguida fizemos uma transformação para conter
a dependência com o segundo ponto de inversão x2 , o que faz com que
as amplitudes apareçam multiplicadas por exponenciais das integrais
sob a barreira
Rx 0
± 2 dx
x1 `(x0 )
I± ≡ e

Para a região III podemos usar as fórmulas de conexão (4.20) e (4.21).


Assim a aproximação WKB para a função de onda sera dada por,
quando x À x2
r µ ¶ h R i
λ(x) I− dx0
III(−) − i 2π xx λ(x0 )
+ π4
ϕE (x) = ic I+ + e 2
2π 4

que representa partículas incidindo pela direita sobre a barreira de po-


tencial, e ainda
r µ ¶ h Rx i
λ(x) I− dx0
III(+) i 2π x λ(x0 )
+ π4
ϕE (x) = ic −I+ + e 2
2π 4

que representa partículas refletidas pela barreira e se afastando da mesma.

Mecânica Quântica

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140 Cap. 4 Aproximação WKB

Uma amplitude de transmissão da barreira de potencial à energia E


pode então ser definida através da razão
¯ ¯ s s
¯ ϕI (x ) ¯ 1 λ(x ¿ x ) λ(xI ¿ x1 )
¯ E I ¯ I 1
TE ≡ ¯ III(−) ¯= = I−
¯ϕ (xIII ) ¯ I+ λ(xIII À x2 ) λ(xIII À x2 )
E

já que na aproximação WKB o expoente de I± é tipicamente muito


maior que a unidade, de modo que I+ = I1− À I− . Escolhendo xI e xIII
nas regiões assintóticas, i.e., quando VI e VIII tem valores constantes
nas regiões I e III, resulta que
µ ¶1
E − VIII 4
TE → I−
E − VI

Assim, a probabilidade de tunelamento será dada por


r
2 E − VIII 2
PE = |TE | = I
E − VI −
r
E − VIII −2 Rxx2 `(x
dx0
0)
= e 1 .
E − VI

Exemplos: O primeiro exemplo da aplicação da aproximação WKB


em barreira de potencial pode ser feita em um metal, onde elétrons fi-
cam ligados por um potencial que pode ser representado por um poço
quadrado de altura finita. No metal, os níveis de energia ficam preenchi-
dos por elétrons até o nível de Fermi EF 15 . A diferença entre o nível
de Fermi e o topo do poço de potencial V0 é a função trabalho W do
metal. Um meio de retirar os elétrons da superfície do metal é aplicar
um campo elétrico ~E que altera a função potencial na forma −eEx.
Esse processo é conhecido como emissão a frio de elétrons pelos metais
e o coeficiente de transmissão por ser expresso por
à 1 3
!
4 (2µ) 2 W 2
T = exp − .
3 ~eE

O segundo exemplo da aplicação da aproximação WKB em bar-


reira de potencial é tunelamento em física nuclear onde explicamos o
efeito túnel de uma partícula-α através de uma barreira de potencial

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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4.5. Aplicação WKB para Estados Ligados 141

Figura 4.4: Barreira de potencial para o decaimento α.

coulombiana 16 , conforme mostra a Fig. 4.4. O coeficiente de transmis-


são, para esse caso será, dado por
µ ¶
2π Z1 Z2 e2
T = exp −
~v
q
2E
onde v = µ é a velocidade clássica da partícula. Esse coeficiente
também é chamado de fator de Gamow. Esse fator é decisivo na
descrição da emissão de partículas-α por alguns átomos pesados.

4.5 Aplicação WKB para Estados Ligados


Esse problema consiste, de uma forma geral, em obter uma aproxi-
mação para a função de onda no caso de um poço de potencial como
mostrado na Fig. 4.5, que tende ao infinito para grandes valores de x,
tanto positivo quanto negativo. Para uma partícula com energia E,
como mostrada nessa figura, existem dois pontos de inversão lineares,
indicados por x1 e x2 . As regiões I e III são classicamente proibidas
para a partícula e a região II é classicamente permitida. A solução
15
Enrico Fermi (1901–1954), físico italiano.
16
Charles Augustin Coulomb (1736–1806), físico francês.

Mecânica Quântica

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142 Cap. 4 Aproximação WKB

Figura 4.5: Poço de Potencial de forma arbitrária.

procurada para o problema deve ser exponencialmente decrescente nas


regiões I e III e, como acontece na solução da equação de Schrödinger,
essa condição nos leva à obtenção de estados ligados.
Na região I, a função de onda será puramente decrescente no sentido
x ¿ x1 , podendo ser expressa por
r
I c `(x) 2π Rxx `(x
dx0
0)
ϕE (x) = e 1
2 2π
então, sendo x1 um ponto de inversão linear, a sua continuação na região
II, x1 ¿ x ¿ x2 , é dada pela fórmula de conexão (4.20) como
r µ Z x ¶
II λ(x) dx0 π
ϕE (x) = c sen 2π 0
+ (4.23)
2π x1 λ(x ) 4

Por outro lado, se a solução na região III é também decrescente, i.e.,


para x À x2 tem a forma
r
c0 `(x) −2π Rxx `(x
dx0
ϕIII
E (x) = e 2 0)
2 2π
sendo também x2 um ponto de inversão linear, a sua continuação para
a região permitida II, x1 ¿ x ¿ x2 , é dada pela primeira das fórmulas

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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4.5. Aplicação WKB para Estados Ligados 143

de conexão (4.22) como


r µ Z x2 ¶
λ(x) dx0 π
ϕII
E (x) =c 0
sen 2π + (4.24)
2π x λ(x0 ) 4

Para que exista um estado estacionário à energia E é preciso que as


expressões (4.23) e (4.24) coincidam. Portanto os valores de E para os
quais existem estados estacionários são tais que
r µ Z x2 ¶ r µ Z x ¶
0 λ(x) dx0 π λ(x) dx0 π
c sen 2π + =c sen 2π +
2π x λ(x0 ) 4 2π 0
x1 λ(x ) 4

ou seja
r · Z x2 ¸
0 λ(x) dx0 π
c sen 2π +
2π x λ(x0 ) 4
r · Z x2 µ Z x2 ¶¸
λ(x) dx0 π dx0 π
=c sen 2π 0
+ − 2π +
2π x1 λ(x ) 2 x λ(x0 ) 4

Essa condição estará satisfeita para valores de E tais que


µ Z x2 ¶
dx0 π
sen 2π 0
+ =0
x1 λ(x ) 2
e µ Z x2 ¶
c dx0 π
− 0 cos 2π 0
+ =1
c x1 λ(x ) 2
ou seja
Z x2 µ ¶
dx0 1 c
2π = n+ π e = (−1)n (4.25)
x1 λ(x0 ) 2 c0

com n ≥ 0, inteiro. Lembrando que


r
2π 2µ[E − V (x)] p(x)
= =
λ(x) ~2 ~

a primeira dessas duas condições pode ser expressa como


Z x2 µ ¶
0 0 1
p(x )dx = n + π~
x1 2

Mecânica Quântica

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144 Cap. 4 Aproximação WKB

ou ainda como I µ ¶
0 0 1
p(x )dx = n + h
2
onde a integração se estende sobre um período completo do movimento
clássico da partícula. Essa condição reproduz a condição de quantização
usada por Bohr na velha teoria quântica, ver (1.6), exceto pela presença
do fator h2 devido a energia de ponto zero. O inteiro n pode ser inter-
pretado como o número de zeros da função de onda, e a fase (−1)n em
(4.25) tem em conta o fato de que as caudas decrescentes da função de
onda nas regiões classicamente proibidas têm fases opostas quando se
ligam a soluções oscilatórias com um número ímpar de zeros na região
classicamente permitida, ver Fig. 4.6, onde mostra o comportamento

Figura 4.6: Comportamento qualitativo das funções de onda.

qualitativo das funções de onda para estados estacionários com n = 1 e


n = 2 mostrando a diferença de fase nas regiões I e III nos casos em
que n é ímpar.
Última Observação: Da mesma forma que no caso do tunelamento
de uma barreira de potencial em energias próximas à do topo da bar-
reira, o uso da aproximação WKB para o cálculo de energias de estados
estacionários próximos ao mínimo do poço de potencial não é a rigor
justificável, devido à diminuição da distância entre os dois pontos de in-
versão lineares e à conseqüente violação das condições de validade dessa

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4.6. Comentários 145

aproximação agora na região classicamente permitida. É fácil verificar,


no entanto, que uma aplicação direta da condição (4.25) a um potencial
quadrático, como o oscilador harmônico, leva ao espectro quântico exato
para esse potencial. Devido a esse fato, sempre que o potencial possa ser
bem descrito por uma aproximação quadrática numa região suficiente-
mente extensa em torno de seu mínimo, o espectro obtido através de
(4.25) dará uma boa aproximação para o espectro exato também para
valores pequenos de n. No entanto, a validade da aproximação WKB
na região classicamente permitida a rigor só se justifica para valores
grandes de n, o que está relacionado com o princípio de correspondên-
cia de Bohr.

4.6 Comentários
Com relação a aproximação WKB, o melhor texto que encontrei e re-
comendo, um dia talvez conseguirei faze-lo tão bem, está no excelente
livro do Prof. Piza (2002) 17 , esse trabalho está numa forma moderna, lu-
cida e elegantemente escrita. Ainda recomendo ao leitor uma leitura par-
alela dos livros do Prof. Merzbacher (1998) 18 e do Prof. Wolney Filho
(2002) 19 , que apresentam um bom trabalho da aproximação WKB.
Solicita-se ao leitor que estude fortemente as funções especiais us-
adas em física, como as funções de Airy e funções cilíndricas de Bessel.
Uma excelente discussão sobre essas funções poderá ser encontrada nos
livros do Prof. Arfken (1970) 20 , além do livro de Morse e Feshbach
(1953) 21 .

17
A. F. R. de Toledo Piza, Mecânica quântica, (2002).
18
E. Merzbacher, Quantum mechanics, (1998).
19
W. Wolney Filho, Mecânica quântica, (2002).
20
G. Arfken, Mathematical methods for physicist, (1970).
21
P. M. Morse and H. Feshbach, Methods of theoretical physics, (1953).

Mecânica Quântica

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Capítulo 5

Formalismo da Mecânica
Quântica

Nesse capítulo iremos estudar o formalismo matemático da mecânica


quântica, utilizaremos a notação de Dirac, Bra e ket, e a estrutura al-
gébrica da representação matricial. Como motivação para o desenvolvi-
mento desse capítulo iremos utilizar o experimento de Stern-Gerlach,
originalmente proposto por O. Stern em 1921 e realizado por ele em co-
laboração com W. Gerlach em 1922. O entendimento dos experimentos
proposto serão a nossa base para o formalismo que queremos desen-
volver.

5.1 Experimento de Stern-Gerlach


Começaremos nossa discussão com o experimento de Stern-Gerlach 1 ,
que podemos ver seu esquema na Fig. 5.1, mostrando: o forno de onde
sairá o feixe de prata E, a trajetória do feixe F e o ímã A com a orien-
tação do campo magnético ~B.
O aparato utilizado por Stern-Gerlach consistia essencialmente de
um ímã que produzia um campo magnético não uniforme. Um feixe
direcionado de átomos de prata (Ag) era obtido aquecendo a prata em
um forno com pequeno orifício por onde os átomos escapavam. A es-
colha da prata deve-se ao fato dela possuir apenas um elétron na sua
1
Otto Stern (1888–1969), físico alemão.
Walther Gerlach (1899–1979), físico alemão.
W. Gerlach and O. Stern, Zeitschrift für Physik 9, 349–352 (1922); Ibidem, 353–
355 (1922); W. Gerlach and O. Stern, Annalen der Physik 74, 673–699 (1924).

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148 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

Figura 5.1: Esquema do experimento de Stern-Gerlach.

camada mais externa. Se os elétrons não tivessem spin, seria observado


o mesmo que na ausência do campo magnético, ou seja, os átomos não
seriam desviados pelo ímã. A observação do deslocamento do feixe em
dois pode ser facilmente compreendida atribuindo um momentum an-
gular intrínseco, ou spin, ~S aos elétrons tal que, ao interagirem com
um campo magnético na direção z, ficasse evidente que os autovalores
associados à componente Sz valem ± ~2 .
Isso ocorre porque ao elétron é associado um momento magnético,
proporcional ao spin, dado por
e ~
µ
~s = − gs S
2µc
onde gs = 2, é chamado de fator g para o elétron. Assim, quando o
elétron interage com um campo magnético não uniforme ~B = Bz k̂, sofre
a ação de uma força proporcional ao gradiente do campo, i.e.,

~F = −∇V ~ µs  ~B)
~ = ∇(~ ∂Bz
⇒ Fz = (µs )z
∂z
Na configuração do experimento, os átomos podiam ser desviados para
cima ou para baixo, caso tivessem spin.
Classicamente espera-se uma distribuição contínua, porém o exper-
imento apresentou uma distribuição com dois picos, um para cima (up)
com Sz = ~2 no estado |+i e outro para baixo (down) com Sz = − ~2
no estado |−i. Em mecânica quântica podemos escrever as relações de
auto-estado e autovalores,
~
Sz |+i = + |+i
2
~
Sz |−i = − |−i
2

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5.1. Experimento de Stern-Gerlach 149

Esse experimento também ficou conhecido como quantização do espaço.

Nota sobre o spin: Em 1925, George Uhlenbeck 2 e Samuel Goud-


smit 3 sugeriram um novo grau de liberdade para o elétron, um momen-
tum angular intrínseco, o spin, independente do momentum angular
orbital e, portanto, de qualquer interação 4 . Com o resultado desse tra-
balho, Uhlenbeck e Goudsmit deram uma explicação para os resultados
obtidos no experimento de Stern-Gerlach, compatível com apenas dois
autovalores para a projeção do momento dipolar magnético na direção
z, seria possível se fosse atribuído ao elétron um momentum angular
intrínseco (~S).
A principal aplicação do conceito de spin, no entanto, veio com
o princípio de exclusão de Pauli 5 . Apesar da relutância inicial
de aceitar o conceito de spin, em 1925 Pauli propõe que a estrutura
eletrônica dos átomos seria explicada com o chamado princípio de ex-
clusão, o qual estabelece que os números quânticos, incluindo os de
spin, que caracterizam dois elétrons não podem ser todos simultanea-
mente iguais 6 . Em 1927, Pauli apresentou uma equação que descreve
fenomenologicamente a dinâmica da interação entre uma partícula com
spin e um campo magnético 7 .
É interessante notar que o momento angular intrínseco, spin de
uma partícula pode ser inteiro ou semi-inteiro, dependo da partícula
considerada. Por exemplo, elétrons, prótons e neutrons possuem spin
1 0 ± 0 ±
2 , enquanto que os pions (π , π ) e os kaons (K , K ) possuem spin
zero. São também conhecidas partículas com spin 1, tais como o fóton
(γ), Z0 , W ± , e o ρ, e com spin 32 , tais como ∆++ .
Experimento Stern-Gerlach seqüencial: Vamos considerar uma
série de experimentos Stern-Gerlach SG sequenciais. A Fig. 5.2, mostra
três experimentos para ilustração o problema
Experimento 1: No primeiro arranjo da figura, temos inicialmente
um SGẑ que produz os dois picos, um para cima e outro para baixo.
Iremos bloquear o feixe de spin down, teremos então somente o feixe
2
George Eugene Uhlenbeck (1900–1988), físico holandês.
3
Samuel Abraham Goudsmit (1900–1978), físico holandês.
4
G. E. Uhlenbeck and S. Goudsmit, Nature 117, 264–265 (1926)
5
Wolfgang Pauli (1900–1958), físico austríaco.
6
W. Pauli, Zeitschrift für Physik 31, 765 (1925)
7
W. Pauli, Zeitschrift für Physik 43, n. 8, 601–623 (1927)

Mecânica Quântica

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150 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

Figura 5.2: Experimento de Stern-Gerlach seqüencial.

de spin up, com Sz = + ~2 no estado |+i. Esse feixe caminha para


outro SGẑ. Aqui encontraremos todas as partículas no estado |+i com
autovalor de Sz = + ~2 .
Experimento 2: No segundo arranjo da figura, iremos considerar
o feixe de spin up, como no primeiro caso. Esse feixe irá para um SGx̂,
com seu campo magnético orientado ao longo do eixo x. Ao passar
pelo segundo SG teremos 50% do feixe de partículas com Sx = + ~2 ,
entretanto estão no estado |+ix e 50% do feixe de partículas com Sx =
− ~2 , estando no estado |−ix . Por outro lado, se considerarmos o feixe
inicial saindo do primeiro SG com spin down, encontraremos o mesmo
resultado.
Experimento 3: No terceiro arranjo da figura, temos o caso mais
interessante para a nossa discussão, onde é adicionado um terceiro SGẑ
na linha do feixe. Até o segundo SGx̂ temos o experimento 2, porém ire-
mos bloquear o feixe de spin down do segundo SG, e teremos somente
o estado |+ix indo para o terceiro SGẑ. Como resultado teremos 50%
do feixe de partículas com Sz = + ~2 , no estado |+i e 50% do feixe de
partículas com Sz = − ~2 , no estado |−i. Essa situação é uma surpresa
pois como aparece o estado |−i após o terceiro SG se inicialmente temos
certeza de que a componente |−i após o primeiro SG foi completamente
bloqueada. Há em fato uma analogia na física clássica, a transmissão
de luz polarizada através de filtros de polarização. A correspondência
associada com a luz pode ser feita por

Sz ± átomo ↔ x−, y − luz polarizada


Sx ± átomo ↔ x0 −, y 0 − luz polarizada

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5.2. Notação de Dirac - Bra e Ket 151

onde os eixos x0 − e y 0 − são os eixos x e y rodados em 45o . Assim,


podemos escrever os estados |±ix como superposição dos estados |±i
de Sz

1
|+ix = √ [|+i + |−i] (5.1a)
2
1
|−ix = √ [|+i − |−i] (5.1b)
2

E a respeito dos estados |±iy , esses também formam uma combi-


nação linear dos estados |±i de Sz . Aqui a analogia clássica é a luz de
polarização circular que poderá ser expressa como
h i
~E = √1 x̂ei(kz−ωt) + i ŷei(kz−ωt)
2
π
onde podemos usar i = ei 2 . A correspondência associada com a luz
polarizada circularmente pode ser feita por

Sy + átomo ↔ luz polarizada circularmente direita


Sy − átomo ↔ luz polarizada circularmente esquerda

e teremos
1
|±iy = √ [|+i ± i |−i] . (5.2)
2
Uma excelente discussão desses experimentos poderá ser aprofun-
dada no excelente Feynman lectures on physics 8 .

5.2 Notação de Dirac - Bra e Ket


Na seção anterior fizemos uma analise do experimento Stern-Gerlach,
e indicando que podemos representar as equações através do estado
| i para Sx , Sy e Sz . Nessa seção começamos por supor que a teoria
quântica seja formulada em termos de um espaço vetorial complexo,
em geral de dimensão infinita, munido de um produto escalar her-
mitiano. A partir desse ponto, para escrever os vetores desse espaço
vetorial vamos utilizar uma notação muito conveniente, desenvolvida
8
R. Feynman, The Feynman Lectures on Physics, (1963).

Mecânica Quântica

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152 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

por P. A. M. Dirac 9 , na qual um vetor genérico é indicado pelo sím-


bolo | i. Aqui o espaço vetorial em questão é conhecido como espaço
de Hilbert 10 , que estudou espaços vetoriais em dimensões infinita. Ve-
tores específicos, designados por rótulos identificadores como ϕ, ψ etc.
aparecem então na forma de vetores kets |ϕi, |φi etc.
Kets: Usando a notação ket, temos a informação completa à re-
speito do estado físico; toda a informação que queremos está contida no
vetor ket, como o spin, sua orientação, etc. Dado os vetores kets, esses
satisfazem as seguintes propriedades

1. A soma de dois kets resulta em um outro ket

|χi = |ϕi + |ψi (5.3)

2. Associativa

|χi + (|ϕi + |ψi) = (|χi + |ϕi) + |ψi (5.4)

3. Comutativa
|ϕi + |ψi = |ψi + |ϕi (5.5)

4. Existe um vetor ket nulo |∅i tal que

|ϕi = |ϕi + |∅i (5.6)

para todo |ϕi

5. Para todo vetor ket |ϕi existe um outro ket | − ϕi tal que

|ϕi + | − ϕi = |∅i (5.7)

O produto de um vetor ket |ϕi por um número complexo c tem


como resultado um vetor ket c|ϕi. Um importante postulado é que |ϕi
e c|ϕi, com c 6= 0 corresponde à um mesmo estado físico. Em out-
ras palavras, somente a "direção" no espaço vetorial é significante. O
número complexo c pode operar, sem fazer diferença, da seguinte forma

c|ϕi = |ϕic (5.8)


9
Ver esse magnífico trabalho no maravilhoso livro, P. A. M. Dirac, The principles
of quantum mechanics, (1958).
10
David Hilbert (1862–1943), matemático alemão.

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5.2. Notação de Dirac - Bra e Ket 153

No caso particular onde c = 0, teremos um ket nulo.


Uma observável física, tais como o momentum ou spin, estão as-
sociados a um operador, tal como A, no espaço vetorial em questão.
Então o operador atuando no vetor ket será

A  (|ϕi) = A|ϕi (5.9)

Em geral
A|ϕi 6= c|ϕi
onde c é complexo. Mas em analogia com os autovetores da álgebra
linear, existem os autokets do operador A, onde

A|ϕ0 i = a0 |ϕ0 i, A|ϕ00 i = a00 |ϕ00 i, · · · (5.10)

onde a0 , a00 , · · · são apenas números. O conjunto de números dado


por {a0 , a00 , · · · } são conhecidos como o conjunto dos autovalores do
operador A. E, finalmente o estado físico correspondente ao autoket é
chamado de auto-estado.
Como exemplo, vamos usar o sistema de spin 12 , em que temos as
relações de autovalores e autokets expressa por
~
Sz |+i = + |+i
2
~
Sz |−i = − |−i
2
onde |±i são os autokets do operador Sz com os autovalores ± ~2 . No
caso do operador Sx aplicado em |±ix teremos
~
Sx |+ix = + |+ix
2
~
Sx |−ix = − |−ix .
2
Para um ket arbitrário |ϕi podemos escrever como a combinação
linear X
|ϕi = cn |φn i , (5.11)
n
onde cn são coeficientes complexos.
Bra e Produto Interno: Uma classe importante de objetos que é
possível definir em um espaço vetorial complexo é a classe de todas as

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154 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

funções lineares, com valores complexos, cujo o argumento é um vetor


do espaço. A notação genérica introduzida por Dirac para esses objetos
é h |. Funções lineares específicas, designadas por rótulos identificadores
a, b etc. aparecem como vetores bra ha|, hb| etc.. Assim, o resultado da
ação da função linear ha| sobre o ket |ϕi, ha|ϕi, é um número complexo.
A linearidade de um hχ| qualquer significa que

hχ| (c1 |ϕ1 i + c2 |ϕ2 i) = c1 hχ|ϕ1 i + c2 hχ|ϕ2 i , (5.12)

i.e., o número complexo que resulta da aplicação de uma função linear


qualquer a uma combinação linear de vetores kets é a combinação linear
dos números complexos que resultam dessa aplicação.
Algumas propriedades importantes das funções lineares são:

1. A soma (associativa e comutativa) de duas funções

(ha| + hb|) |ϕi = ha|ϕi + hb|ϕi (5.13)

2. O produto de uma função por um número complexo

(cha|) |ϕi = cha|ϕi (5.14)

3. A função nula h®| tal que

h®|ϕi = 0 (5.15)

para qualquer |ϕi

4. Para cada ha| podemos ter h−a| através de h−a|ϕi = −ha|ϕi, tal
que
ha| + h−a| = h®| (5.16)

Com essas propriedades e definições resulta que o conjunto de funções


lineares sobre o espaço vetorial considerado tem por sua vez uma estru-
tura de espaço vetorial, chamado de espaço dual do espaço de partida.
Note que o vetor bra é o correspondente dual do vetor ket

|ϕi ↔ hϕ|
|ϕi + |ψi ↔ hϕ| + hψ|
c|ϕi ↔ c∗ hϕ| não chϕ|

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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5.2. Notação de Dirac - Bra e Ket 155

onde c∗ é o complexo conjugado de c, no qual é um ponto muito im-


portante. Geralmente temos

c1 |ϕ1 i + c2 |ϕ2 i = c∗1 hϕ1 | + c∗2 hϕ2 | (5.17)

onde essa uma correspondência antilinear. É fácil verificar que o cor-


respondente dual do vetor nulo |0i é a função nula h®|, i.e.,

|0i ↔ h®| ≡ h0| .

Agora podemos definir o produto interno 11 de um bra e um ket, da


seguinte forma hϕ|ψi. Esse produto é, em geral, um número complexo.
Assim, teremos as seguintes propriedades do produto interno:

hϕ|ψi = hψ|ϕi∗ (5.18a)


hϕ|c1 ψ1 + c2 ψ2 i = c1 hϕ|ψ1 i + c2 hϕ|ψ2 i (5.18b)
hc1 ϕ1 + c2 ϕ2 |ψi = c∗1 hϕ1 |ψi + c∗2 hϕ2 |ψi (5.18c)
hϕ|ϕi ≥ 0, somente = 0 se |ϕi = 0 (5.18d)

Ainda, se tomarmos dois kets, tal que

hϕ|ψi = 0 ⇒ hψ|ϕi = 0 (5.19)

a última parte da equação acima vem de (5.18a), se diz que |ϕi e |ψi
são ortogonais. E ainda podemos explicitamente normalizar um ket |ϕ̃i
por
1
|ϕi = p |ϕ̃i (5.20)
hϕ̃|ϕ̃i
p
onde hϕ̃|ϕ̃i é a norma de |ϕ̃i.
Cabe nesse momento uma nota final. Um espaço vetorial complexo,
de dimensão infinita, munido de um produto escalar que define, em
particular, a norma dos vetores que o constituem, é chamado espaço de
Hilbert quando dotado ainda da propriedade adicional de completeza.
Essa propriedade consiste em que toda sequência infinita de vetores
{|ϕi i}, i = 1, 2, · · · , tal que

k|ϕi i − |ϕj ik < ²


11
Na literatura o produto interno é frequentemente mencionado como produto es-
calar por causa de sua analogia com ~a  ~b no espaço euclidiano.

Mecânica Quântica

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156 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

com ² arbitrariamente pequeno, desde que i e j sejam maiores que algum


N (²), chamadas sequências de Cauchy, tem um limite |ϕi que é um
vetor pertencente ao espaço. No que se segue vamos supor também
que o espaço a ser considerado é tal que admite bases constituídas de
um conjunto enumeráveis de vetores |an i, n = 1, 2, · · · , que é uma
propriedade conhecida como separabilidade. Um espaço de Hilbert
separável será então tomado como substrato natural sobre o qual pode
ser desenvolvida a cinemática e a dinâmica da mecânica quântica.

5.3 Operadores Lineares


Na seção §2.8 do capítulo 2, fizemos um estudo detalhado de operadores
usando a função de onda. Nessa seção iremos rever esse estudo fazendo
uso da notação de Dirac.
Um operador linear A num espaço de Hilbert transforma vetores
kets desse espaço em outros vetores kets do mesmo espaço,

|ψi = A|ϕi , (5.21)

e se comporta com relação às operações lineares como

A (c1 |ϕ1 i + c2 |ϕ2 i) = c1 A|ϕ1 i + c2 A|ϕ2 i . (5.22)

Uma exceção é o operador reverso temporal que é um operador


anti-linear.
A soma e o produto de dois operadores lineares A e B podem ser
definidos na forma

(A + B) |ϕi = A|ϕi + B|ϕi (5.23a)


(AB) |ϕi = A (B|ϕi) (5.23b)

e correspondem também a operadores lineares. Em geral, o produto de


dois operadores é não comutativo e obedece a regra de comutação

(AB) |ϕi 6= (BA) |ϕi (5.24a)


[A, B] = AB − BA 6= 0 (5.24b)

Se os dois operadores A e B são iguais, então

A=B se A|ϕi = B|ϕi , (5.25)

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5.3. Operadores Lineares 157

para um ket arbitrário. O operador A é dito operador nulo se, para


um ket arbitrário, temos
A|ϕi = 0 . (5.26)
O produto de um operador por um número complexo c também é
definido simplesmente por

(cA) |ϕi = c (A|ϕi) . (5.27)

Um operador atua em um vetor bra pelo lado direito

(hϕ|)  A = hϕ|A

e o produto resulta em outro vetor bra. Note que A|ϕi e hϕ|A em geral
não são uma correspondência dual. O correspondente dual nesse caso
é
A|ϕi ↔ hϕ|A† . (5.28)
Naturalmente o operador A† é o operador adjunto hermitiano, ou
simplesmente operador adjunto, de A. O operador A é hermitiano se

A = A† . (5.29)

Dado dois vetores bra hϕ| e ket |ψi. O resultado do produto

(|ψi)  (hϕ|) = |ψihϕ| (5.30)

é conhecido como produto externo, que atua como um operador. De


fato, se
(|ψihϕ|)  |χi = |ψi  (hϕ|χi) (5.31)
onde hϕ|χi é um número, tal que o produto externo atuando em um
ket é exatamente um outro ket, em outras palavras |ψihϕ| atuou como
um operador. Se defino um operador como

A = |ψihϕ| (5.32)

então
A† = |ϕihψ| (5.33)
Outra importante ilustração, é quando temos o operador A entre
dois kets |ϕi e |ψi, o produto escalar será:

hψ| (A|ϕi) = (hψ|A) |ϕi = hψ|A|ϕi . (5.34)

Mecânica Quântica

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158 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

Note que temos os elementos da matriz associada ao operador A. Us-


ando o correspondente dual (5.28), então

hψ|A|ϕi = hψ| (A|ϕi)


n³ ´ o∗
= hϕ|A† |ψi
= hϕ|A† |ψi∗ (5.35)

Para A hermitiano, i.e., A = A† teremos

hψ|A|ϕi = hϕ|A|ψi∗ . (5.36)

A definição do operador adjunto permite verificar as seguintes pro-


priedades:
1. (A† )† = A, de fato,

hϕ|(A† )† |ψi = hψ|A† |ϕi∗


= hϕ|A|ψi

para quaisquer |ϕi e |ψi;

2. (A + B)† = A† + B† , pois

hϕ| (A + B)† |ψi = hψ|A + B|ϕi∗


= hψ|A|ϕi∗ + hψ|B|ϕi∗
= hϕ|A† |ψi + hϕ|B† |ψi
= hϕ|(A† + B† )|ψi ;

3. (AB)† = B† A† , de fato,

hϕ|(AB)† |ψi = hψ|AB|ϕi∗


= hϕ|B† A† |ψi ;

4. (cA)† = c∗ A† , o operador cA é definido como o produto da "mul-


tiplicação do número complexo c" com o operador A.
Usando a relação (AB)† = B† A† , podemos estabelecer a seguinte
correspondência dual

AB|ϕi = A (B|ϕi) ↔ (hϕ|B† )A† = hϕ|B† A† .

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5.4. Base dos Kets e Representação Matricial 159

Uma extensão dessa correspondência dual é


c1 A|ϕ1 i + c2 A|ϕ2 i ↔ c∗1 hϕ1 |A† + c∗2 hϕ2 |A† .
Finalizando essa seção, se temos uma observável física associada a
um operador A, o valor esperado é representado por
hAi = hϕ|A|ϕi , (5.37)
para qual existe um análogo na mecânica quântica ondulatória.

5.4 Base dos Kets e Representação Matricial


O operador A, atuando sobre um dado autoket |ϕi, produz um outro
autoket, cuja direção não é alterada pela ação do operador, i.e., a ação
do operador apenas multiplica-o por um certo fator numérico, tornando-
o um múltiplo de si mesmo. O fator real ou complexo pelo qual o autoket
fica multiplicado é o conhecido autovalor do operador A. O conjunto
de números dado por {a1 , a2 , · · · } são conhecidos como o conjunto dos
autovalores dos correspondentes autokets. Assim,
A|ϕ1 i = a1 |ϕ1 i, A|ϕ2 i = a2 |ϕ2 i, · · · (5.38)
Seja A um operador hermitiano, i.e., A = A† . Usando a relação
0 = hϕ2 |A|ϕ1 i − hϕ2 |A|ϕ1 i
= a1 hϕ2 |ϕ1 i − a∗2 hϕ2 |ϕ1 i
= (a1 − a∗2 )hϕ2 |ϕ1 i
onde teremos:
1. Se |ϕ1 i = |ϕ2 i implica a1 = a2 , então,
(a1 − a∗1 )hϕ1 |ϕ1 i
A menos que |ϕ1 i = 0, temos hϕ1 |ϕ1 i 6= 0. Assim, a1 = a∗1 . Con-
cluímos então que os autovalores do operadores auto-adjuntos
ou hermitianos são reais;
2. Se a1 6= a2 , temos que
hϕ2 |ϕ1 i = 0
o que implica |ϕ1 i e |ϕ2 i serem autokets ortogonais. Logo, os
autovalores dos operadores hermitianos são reais e os correspon-
dentes autokets são ortogonais

Mecânica Quântica

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160 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

Base dos Kets: Considerando um conjunto completo de autokets


de base, linearmente independente, representado por {|ϕi i}. Esse con-
junto obedece a relação de ortogonalidade

hϕi |ϕj i = δij . (5.39)

O conjunto {|ϕi i}, constitui uma base. Assim, qualquer ket |ψi poderá
ser escrito como uma combinação linear da base,
X
|ψi = ci |ϕi i . (5.40)
i

Multiplicando essa relação pelo bra hϕj |, obteremos


X
hϕj |ψi = ci hϕj |ϕi i
i
X
= ci δij
i
= cj (5.41)

onde interpretamos cj como sendo o componente do ket |ψi na base |ϕi


na direção |ϕj i. Em outras palavras, teremos
X
|ψi = |ϕi ihϕi |ψi . (5.42)
i

Note que a relação de ortogonalidade (5.39) expressa o fato de que os


autokets do conjunto {|ϕi i} serem normalizados à unidade e ortogonais.
Podemos ainda estabelecer uma outra relação que expressa o fato desse
conjunto de autokets constituir uma base. De (5.42) temos
X
|ϕi ihϕi | = 1 (5.43)
i

onde 1 desempenha o papel de um operador identidade. A relação


(5.43) é conhecida como relação de completeza ou fechamento. Cada
elemento |ϕi ihϕi | seleciona a porção do ket |ψi paralelo a base |ϕ1 i,
esse elemento é conhecido como operador de projeção, e escrevemos

Pϕi = |ϕi ihϕi | . (5.44)

Aplicando no ket arbitrário |ψi:

Pϕi |ψi = |ϕi ihϕi |ψi

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5.4. Base dos Kets e Representação Matricial 161

O significado "geométrico" de Pϕi é claro, pois representa a "projeção


ortogonal". Essa interpretação é confirmada pelo fato de P2ϕi = Pϕi :

P2ϕi = Pϕi Pϕi = |ϕi ihϕi |ϕi ihϕi |

Como hϕi |ϕi i = 1, teremos

P2ϕi = |ϕi ihϕi | = Pϕi

Da relação de completeza (5.43) podemo escrever


X
Pϕi = 1 . (5.45)
ϕi

Representação Ortonormal de Base Discreta ou Contínua:


Um conjunto de kets, discreto {|ui i}, ou contínuo {|wα i}, se diz orto-
normal se os kets desses conjuntos satisfazem a relação de ortonor-
malizado:

para {|ui i} ⇔ para {|wα i}


hui |uj i = δij ⇔ hwα |wα0 i = δ(α − α0 ) (5.46)

para um conjunto contínuo, hwα |wα i não existe. Os autokets com es-
pectro contínuo tem norma infinita, dimensão infinita. Muito dos re-
sultados derivados de espaço vetorial de dimensão finita obtidos com
espectro discreto podem ser generalizado a espectro contínuo.
Um conjunto de kets, discreto {|ui i}, ou contínuo {|wα i}, con-
stituem uma base para qualquer ket, se podemos escreve-lo como
X Z
|ψi = ci |ui i ⇔ |ψi = c(α)|wα i dα (5.47)
i

com as componentes cj e c(α0 ) dados por

cj = huj |ψi ⇔ c(α0 ) = hwα0 |ψi (5.48)

A relação de fechamento será:


X Z
|ui ihui | = 1 ⇔ |wα ihwα | dα = 1 (5.49)
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Mecânica Quântica

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162 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

Temos ainda outras analogias:


X Z
|ψi = |ui ihui |ψi ⇔ |ψi = |wα ihwα |ψi dα (5.50a)
i
X Z
|hui |ψi|2 = 1 ⇔ |hwα |ψi|2 dα = 1 (5.50b)
i
X Z
hϕ|ψi = hϕ|ui ihui |ψi ⇔ hϕ|ψi = hϕ|wα ihwα |ψi dα (5.50c)
i
hui |A|uj i = ui δij ⇔ hwα |W|wα0 i = αδ(α − α0 ) (5.50d)
Representação Matricial: Na base {|ui i}, o ket |ψi é represen-
tado por um conjunto de seus componentes, i.e., por um conjunto de
números ci = hui |ψi. Na representação matricial, esses números po-
dem ser arranjados na forma de uma matriz coluna:
 
hu1 |ψi
hu2 |ψi
 
 .. 
|ψi = 
 . 
 (5.51)
 hui |ψi 
 
..
.
Para um bra hϕ| arbitrário, na base {|ui i}, podemos escreve-lo na
forma, X
hϕ| = hϕ|ui ihui |
i
onde b∗i
= hϕ|ui i é o complexo conjugado de bi = hui |ϕi. Assim, na
representação matricial será uma matriz linha.
¡ ¢
hϕ| = hϕ|u1 i hϕ|u2 i · · · hϕ|ui i · · ·
¡ ¢
= hu1 |ϕi∗ hu2 |ϕi∗ · · · hui |ϕi∗ · · · (5.52)
Usando essa representação, o produto interno hϕ|ψi é o produto da
matriz linha hϕ| pela matriz coluna |ψi. O resultado é um número
 
hu1 |ψi
hu2 |ψi
 
¡ ¢  .. 
hϕ|ψi = hϕ|u1 i hϕ|u2 i · · · hϕ|ui i · · ·  . 
 (5.53)
 hui |ψi 
 
..
.

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5.4. Base dos Kets e Representação Matricial 163

ou seja
X
hϕ|ψi = hϕ|ui ihui |ψi = b∗i ci . (5.54)
i

Seja {|ui i} o conjunto autovetores que formam a base ortonormais.


O operador linear A poderá ser associado com uma séries de números
definidos que será representado pela matriz,

Aij = hui |A|uj i


 
A11 A12 · · · A1j ···
A21 A22 · · · A2j · · ·
 
 .. .. .. 
= . . . 
 (5.55)
 Ai1 Ai2 · · · Aij · · ·
 
.. .. ..
. . .

Fazendo uso da relação de fechamento para calcular a matriz que rep-


resenta o operador AB na base {|ui i}

hui |AB|uj i = hui |A1B|uj i


X
= hui |A|uk ihuk |B|uj i (5.56)
k

ou seja, a equação acima expressa o fato de que a matriz que representa


o operador AB é o produto das matrizes associadas com A e B.
Podemos também fazer a representação matricial para o autoket
|ψ 0 i = A|ψi. Conhecido as componentes de |ψi e os elementos da matriz
A, temos |ψ 0 i = A|ψi na base {|ui i} dado por

c0i = hui |ψ 0 i = hui |A|ψi . (5.57)

Usando a relação de fechamento


X
c0i = hui |A|uj ihuj |ψi
j
X
= Aij cj (5.58)
j

Mecânica Quântica

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164 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

que na expressão matricial, teremos


 0   
c1 A11 A12 · · · A1j ··· c1
c0  A21 A22 · · · A2j · · · c2 
 2   
 ..   .. .. ..   .. 
.= . . .  .  (5.59)
    
 c0   Ai1 Ai2 · · · Aij · · ·  
 i   cj 
.. .. .. .. ..
. . . . .
Ainda usando a base {|ui i} fica fácil escrever hϕ|A|ψi na representação
matricial,
X
hϕ|A|ψi = hϕ|ui ihui |A|uj ihuj |ψi
i,j
X
= b∗i Aij cj (5.60)
i,j

novamente usamos a relação de fechamento. A equação em forma de


matriz será então
  
A11 A12 · · · A1j ··· c1
A21 A22 · · · A2j · · · c2 
  
¡ ∗ ∗ ¢  .. .. ..   .. 
hϕ|A|ψi = b1 b2 · · · bi · · · 

 . . .  . 
 
 Ai1 Ai2 · · · Aij · · ·  
  cj 
.. .. .. ..
. . . .
(5.61)
Da transformação |ψ 0 i = A|ψi, podemos ter a transformação inversa
|ψi = A−1 |ψ 0 i, desde que A−1 exista. Essa matriz inversa vai existir
sempre que tivermos |Aij | 6= 0, em que |Aij | é o determinante da ma-
triz. Designando esse determinante por ∆, ele poderá ser representado
por X
∆= (−1)i+k aik |aik |
i
onde |aik | é chamado de determinante menor do elemento da matriz Aik .
Assim, a quantidade |aik | é um escalar cujo valor é dado pelo determi-
nante de ordem n − 1, obtido do determinante original após retiradas
desse determinante a i-ésima linha e a k-ésima coluna. A representação
(−1)i+k |aik | é o cofator do elemento Aik . Assim teremos:
1. Matriz cofator - É formada dos cofatores de Aij . Então,
¡ ¢
Cof(Aij ) = (−1)i+j |aij | ;

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5.4. Base dos Kets e Representação Matricial 165

2. Matriz transposta - É formada trocando-se as linhas pelas col-


unas da matriz original

Trans(Aij ) = (Ãij ) = Aji ;

3. Matriz adjunta - É a transposta da matriz cofator 12

¡ ¢
Adj(Aij ) = Cof(Aji ) = (−1)i+j |aji | ;

4. Matriz inversa - É formada pela divisão da matriz adjunta por


seu determinante
Adj(Aij )
A−1 = (Aij )−1 = .

Para resolvermos a equação de autovalor e autoket na forma ma-


tricial faremos uma escolha de base ortonormal de kets {|ui i}, tal que

hui |A|ψi = λhui |ψi


X
hui |A|uj ihuj |ψi = λhui |ψi (5.62)
j

com a notação usual

ci = hui |ψi
Aij = hui |A|uj i

teremos
X
Aij ci = λ ci
j
X
[Aij − λδij ] cj = 0 (5.63)
j

Esse sistema é linear e homogêneo. Se o sistema acima consiste de N


equações (i = 1, 2, · · · , N ) em N cj incógnitas (j = 1, 2, · · · , N ),
temos uma solução não trivial (a solução trivial é que um dos cj seja
zero) se e somente se o determinante dos coeficientes for zero. A condição
é escrita na forma
Det[A − λI] = 0 (5.64)
12
Essa é uma definição clássica para a matriz adjunta

Mecânica Quântica

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166 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

onde A é a matriz N × N de elementos Aij e I é a matriz unidade e a


(5.64) é a equação característica. Assim, explicitamente escrevemos
 
A11 − λ A12 ··· A1N
 A21 A22 − λ · · · A2N 
 
 .. .. .. =0 (5.65)
 . . . 
AN 1 AN 2 ··· AN N − λ

Então, os autovalores de um operador são as raízes de sua equação


característica.
Podemos ainda escrever o produto externo |ψihψ| pela matriz qua-
drada
 
c1
c2 
 
 ..  ¡ ∗ ∗ ¢
|ψihψ| =   ∗
 .  c1 c2 · · · cj · · ·
 ci 
 
..
.
 ∗ 
c1 c1 c1 c∗2 · · · c1 c∗j · · ·
c2 c∗ c2 c∗ · · · c2 c∗ · · ·
 1 2 j 
 . . . 
= . . .  (5.66)
 . . . 
 ci c∗ ci c∗ · · · ci c∗ · · ·
 1 2 j 
.. .. ..
. . .

Ainda podemos analisar o seguinte teorema: Sendo A um operador


matricial definido pelos elementos de matriz hui |A|uj i, onde {|ui i} e
{|uj i} formam um sistema de base ortonormal completo, mostre que o
operador matricial A† , com elementos de matriz definidos por A†ij =
hui |A† |uj i, é a transposta conjugada de A, i.e., A† = Ã∗ .

Prova. Tomemos a (5.60), fazendo


X
hϕ|A|ψi = hϕ|ui ihui |A|uj ihuj |ψi
i,j

= hψ|A† |ϕi∗
X³ ´∗
= hψ|uj ihuj |A† |ui ihui |ψi ,
i,j

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“mq_notas-N” — 2009/5/5 — 21:48 — page 167 — #167


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5.5. Mudança de Base - Transformação Unitária 167

em que identificamos

Aij = hui |A|uj i = (huj |A† |ui i)∗ = (A†ji )∗ .

Tomando o complexo conjugado de ambos os lados da igualdade acima


e transpondo, obteremos
A∗ji = A†ij
e a demonstração está completa.

5.5 Mudança de Base - Transformação Unitária


Por definição, ver §2.14, um operador U é unitário se seu inverso U−1
for igual ao seu adjunto U† , i.e.,

UU† = U† U = 1 . (5.67)

Transformação Unitária: Considere dois kets arbitrários |ψ1 i e


|ψ2 i do espaço vetorial, e suas transformações |ψ̃1 i e |ψ̃2 i através da
ação de U

|ψ̃1 i = U|ψ1 i
|ψ̃2 i = U|ψ2 i (5.68)

Vamos calcular o produto escalar hψ̃1 |ψ̃2 i,

hψ̃1 |ψ̃2 i = hψ1 |U† U|ψ2 i = hψ1 |ψ2 i (5.69)

A transformação unitária associada com o operador U conserva


o produto escalar, e conseqüentemente a norma, no espaço vetorial.
Quando o espaço vetorial tem dimensão finita, essa propriedade é car-
acterística de um operador unitário.
Mudança de Base: Sendo {|vi i} a base ortonormal de um estado
no espaço vetorial considerado, assumiremos ser discreto. Chamaremos
|ṽi i a transformação de |vi i sob a ação do operador U

|ṽi i = U|vi i (5.70)

mas o operador U é unitário, então

hṽi |ṽj i = hvi |vj i = δij (5.71)

Mecânica Quântica

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168 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

e a nova base {|ṽi i} é ortonormal. Para mostrar que é uma nova base,
vamos considerar o ket |ψi do espaço vetorial, tal que
X
U† |ψi = ci |vi i (5.72)
i

aplicando o operador U nesse equação, teremos


X
UU† |ψi = ci U|vi i (5.73)
i

e X
|ψi = ci |ṽi i (5.74)
i

Essa equação expressa o fato de que o ket |ψi pode ser expandido em
termos dos vetores |ṽi i, no qual constituem uma base. Podemos concluir
desse resultado que: uma condição necessária par um operador U ser
unitário é que os vetores de uma base ortonormal do espaço vetorial,
transformada por U, constituem outra base ortonormal.
Matriz Unitária: Consideremos

Uij = hvi U|vj i (5.75)

sendo os elementos de matriz de U. Como poderemos observar se a


matriz desse operador é unitária? Para isso, começaremos por:
X
hvi |U† U|vj i = hvi |U† |vk ihvk |U|vj i (5.76)
k

e X

Uki Ukj = δij (5.77)
k
onde temos uma matriz unitária.
Transformação Unitária de Operadores: Por definição, a trans-
formação à do operador A será o operador em que, na base {|ṽi i}, tem
os mesmos elementos da matriz do operador A na base {|vi i}

hṽi |Ã|ṽj i = hvi |A|vj i

substituindo (5.70) nessa equação, teremos

hvi |U† ÃU|vj i = hvi |A|vj i (5.78)

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5.5. Mudança de Base - Transformação Unitária 169

Desde que i e j sejam arbitrários, teremos

U† ÃU = A (5.79)

ou aplicando U no lado esquerdo da equação e U† no lado direito:

à = UAU† (5.80)

que a transformação inversa de (5.79).


Transformação Unitária Infinitesimal: Considerando o oper-
ador unitário U(ε) que depende de uma quantidade real infinitesimal ε,
tal que: U(ε) → 1 quando ε → 0. Expandindo esse operador em séries
de potência em ε, teremos

U(ε) = 1 + εG + · · ·

e
U† (ε) = 1 + εG† + · · ·
temos
U(ε)U† (ε) = U† (ε)U(ε) = 1 + ε(G + G† )
Desde que U† (ε)U(ε) = 1, i.e., unitário, e desprezando termos de ordem
superior em ε, teremos
G + G† = 0 .
Essa equação expressa o fato de que o operador G é anti-hermitiano.
Assim, é conveniente que ajustamos F = i G, tal que

F − F† = 0 ⇒ F = F†

onde F é hermitiano. Logo, o operador infinitesimal será escrito na


forma
U(ε) = 1 − i εF . (5.81)
Substituindo (5.81) em (5.80), obteremos

à = (1 − i εF )A(1 + i εF † ) = (1 − i εF )A(1 + i εF ) . (5.82)

e finalmente
à − A = − i ε[F, A] . (5.83)
A variação do operador A através da transformação U é, em primeira
ordem em ε, proporcional ao comutador [F, A].

Mecânica Quântica

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170 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

Consideremos em seguida algumas quantidades que permanecem


invariantes sob a ação de uma transformação unitária. Tomemos o caso
da equação secular, expressa por (5.63), qual seja

|Aij − λδij | = 0

Efetuando uma transformação unitária nessa equação, escrevemos

|Ã − λ0 I0 | = |U−1 (A − λI)U|

Visto que U e U−1 comutam com λ e I e lembrando que o deter-


minante do produto de diversas matrizes é igual ao produto de seus
determinantes, temos que

|U−1 (A − λI)U| = |U−1 |  |A − λI|  |U|


= |U−1 |  |U|  |A − λI|
= |U−1 U|  |A − λI|
= |A − λI| ,

ou seja
|Ã − λ0 I0 | = |A − λI| .
Isto é, a equação secular é invariante sob a ação de uma transformação
unitária. De maneira análoga, podemos mostrar que o traço de uma
matriz é também invariante sob a ação de uma transformação unitária.

Prova.
X
tr(X) = hai |X|ai i
i
XXX
= hai |bj ihbj |X|bk ihbk |ai i
i j k
XXX
= hbk |ai ihai |bj ihbj |X|bk i
i j k
XX
= hbk |bj ihbj |X|bk i
j k
X
= hbj |X|bj i (5.84)
j

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5.6. Observáveis e Relação da Incerteza 171

Temos também outras propriedades de traço

tr(XY ) = tr(Y X) (5.85a)


tr(U † XU ) = tr(X) (5.85b)
tr(|ui ihuj |) = δij (5.85c)
tr(|vi ihui |) = hui |vi i (5.85d)

5.6 Observáveis e Relação da Incerteza


Considerando duas observáveis físicas associadas aos operadores A e
B, respectivamente. Dado o sistema físico que se encontra no estado
ket |ϕi quando aplicamos sobre ele o operador A, seguido do operador
B e, de modo reverso, quando aplicamos o operador B seguido pela
aplicação do operador A. Os valores esperados para essas operações
são representados por

hBAi = hϕ|BA|ϕi (5.86)

e
hABi = hϕ|AB|ϕi . (5.87)
O ket |ϕi é um autovetor normalizado e a e b são os autovalores dos
operadores A e B respectivamente, ambos pertencentes ao mesmo ket
|ϕi, i.e.:
A|ϕi = a|ϕi (5.88)
e
B|ϕi = b|ϕi . (5.89)
Utilizando esses resultados em (5.86) e (5.87), teremos

hBAi = ahϕ|B|ϕi = abhϕ|ϕi = ab (5.90)

e
hABi = bhϕ|A|ϕi = bahϕ|ϕi = ba . (5.91)
Se a e b são apenas números ordinários, eles se comutam. Sendo assim, a
ordem em que esses operadores atuam em |ϕi, não altera o resultado fi-
nal. Fisicamente, isso significa que o estado de um sistema quântico, que
seja simultaneamente auto-estado de dois operadores diferentes, não é

Mecânica Quântica

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172 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

alterado pela seqüência das operações das medidas dessas observáveis.


Matematicamente,
[A, B] = 0
e dizemos que são observáveis compatíveis.
Porém, se os autovalores a e b não comutam, não poderemos medir
simultaneamente as observáveis associadas aos operadores A e B, re-
spectivamente. Logo,
[A, B] 6= 0
e para esse caso teremos observáveis incompatíveis. Um bom exem-
plo dessas observáveis são: ~S2 e Sz são observáveis compatíveis, mas Sx
e Sy são incompatíveis.
Autovalores Degenerados: Um autovalor a associado a um op-
erador A é degenerado se a ele está associado mais de um autovetor.
Note, o autovalor a é N vezes degenerado se existirem N autovetores,
linearmente independentes, correspondendo a esse autovalor. Um con-
junto de autovetores {|ϕi i} é linearmente independente se a relação
N
X
ci |ϕi i = 0 (5.92)
i=1

for satisfeita. Porém, isso só ocorre se todos os ci ’s forem nulos. Sendo


assim, na expressão (5.92), temos que nenhum dos kets |ϕi i pode ser
escrito como uma combinação linear dos outros N − 1 kets do conjunto.
Um conjunto de N autovetores |ϕi i, linearmente independentes,
ortonormalizado, pode servir de base para representar qualquer autove-
tor |ψi nesse espaço vetorial. Sendo isso possível, os autovetores da base
considerada formam um conjunto completo de kets {|ϕi i}. Um teorema
importante é que: Qualquer combinação linear de autovetores degener-
ados, linearmente independentes, é também um autovetor pertencente
ao mesmo autovalor.

Prova. Dado um conjunto de N autovetores |ϕi i, todos correspondendo


ao mesmo autovalor a associado ao operador A, i.e.,
A|ϕi i = a|ϕi i ,
para i = 1, 2, 3, · · · , N , escreveremos a combinação linear
N
X
|ψi = ci |ϕi i .
i=1

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5.6. Observáveis e Relação da Incerteza 173

Aplicando o operador A nos dois lados da equação acima, teremos


N
X N
X
A|ψi = ci A|ϕi i = a ci |ϕi i = a|ψi ,
i=1 i=1

o que mostra que |ψi também e um autovetor do operador A.

No caso de uma degenerescência de ordem n, combinações lineares


de n autovetores degenerados podem ser encontrados de modo a formar
n autovetores linearmente independentes, ortogonais, correspondendo
ao mesmo autovalor.
Princípio da Incerteza - Relação Geral: Consideremos dois op-
eradores hermitianos A e B, que estão associados a duas observáveis
físicas. Tomemos a relação de comutação entre eles

[A, B] = AB − BA = i C , (5.93)

em que C, em geral, é um operador hermitiano. No caso de C nulo, os


operadores A e B comutam.
Seja um ket arbitrário |ϕi que não necessariamente precisa ser auto-
estado de A e B. Os valores médios dessas observáveis são

hAi = hϕ|A|ϕi (5.94a)


hBi = hϕ|B|ϕi (5.94b)

e os desvios desses valores médios são dados por

∆A = A − hAi (5.95a)
∆B = B − hBi (5.95b)

Visto que os valores esperados são apenas números, torna-se fácil mostrar
a relação de comutação para ∆A e ∆B

[∆A, ∆B] = [A − hAi, B − hBi]


= [A, B] − [hAi, B] − [A, hBi] + [hAi, hBi]
= [A, B] = i C . (5.96)

Para nosso propósito, temos:

h(A + i B)† (A + i B)i ≥ 0

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174 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

ou
h(A† − i B † )(A + i B)i ≥ 0

pois
(i B)† = − i B † .

Como temos operadores hermitianos

h(A − i λB)(A + i λB)i ≥ 0

onde λ é uma variável numérica real. O valor mínimo da forma quadrática


em λ
hB 2 iλ2 + ihAB − BAiλ + hA2 i ≥ 0 (5.97)

obtém-se para
2λhB 2 i + ihAB − BAi = 0

ou seja
i hAB − BAi
λ=− .
2 hB 2 i
Então, substituindo em (5.97), teremos

1
hA2 i  hB 2 i ≥ − hAB − BAi2 (5.98)
4
O valor médio dos quadrados dos desvios, chamamos de flutuações, são
dados por

h(∆A)2 i = hA2 i − hAi2 (5.99a)


2 2 2
h(∆B) i = hB i − hBi (5.99b)

Logo, teremos

1
h(∆A)2 ih(∆B)2 i ≥ − hAB − BAi2
4
p p
Mas ∆A = h(∆A)2 i e ∆B = h(∆B)2 i. Lembrando que [A, B] =
AB − BA = i C, então

1
∆A  ∆B ≥ hCi (5.100)
2

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5.6. Observáveis e Relação da Incerteza 175

No caso de variáveis canonicamente conjugadas, como as coorde-


nadas e componentes do momentum linear de uma partícula, temos
que hCi = ~. Assim o princípio da incerteza de Heisenberg será:
1
∆qi  ∆pi ≥ ~ para i = 1, 2, 3. (5.101a)
2
∆qi  ∆pj = 0 para i 6= j. (5.101b)
Essa demonstração do princípio de Heisenberg se deve a Max Born.

Desigualdade de Schwarz: Para um dado ket, temos que


hψ|ψi ≥ 0 (5.102)
sendo que hψ|ψi = 0, somente quando |ψi = 0. Usando a relação (5.102),
podemos derivar a desigualdade de Schwarz 13 , para qual tomamos
dois kets arbitrários |ϕ1 i e |ϕ2 i do espaço vetorial, então
|hϕ1 |ϕ2 i|2 ≤ hϕ1 |ϕ1 ihϕ2 |ϕ2 i (5.103)
Prova. Dado |ϕ1 i e |ϕ2 i, considere o ket |ψi definido por
|ψi = |ϕ1 i + λ|ϕ2 i
onde λ é um parâmetro arbitrário. Assim,
hψ|ψi = hϕ1 |ϕ1 i + λhϕ1 |ϕ2 i + λ∗ hϕ2 |ϕ1 i + λλ∗ hϕ2 |ϕ2 i ≥ 0
Vamos escolher o valor de λ como
hϕ2 |ϕ1 i
λ=−
hϕ2 |ϕ2 i
Substituindo na equação anterior, teremos
hϕ1 |ϕ2 ihϕ2 |ϕ1 i
hϕ1 |ϕ1 i − ≥0
hϕ2 |ϕ2 i
Desde de que hϕ2 |ϕ2 i é um número positivo, podemos multiplicar a
equação acima por hϕ2 |ϕ2 i para obter
hϕ1 |ϕ1 ihϕ2 |ϕ2 i ≥ hϕ1 |ϕ2 ihϕ2 |ϕ1 i
que é a desigualdade de Schwarz. Teremos hψ|ψi = 0, somente se |ϕ1 i =
−λ|ϕ2 i, e os kets |ϕ1 i e |ϕ2 i são proporcionais.
13
Karl Herman Amandus Schwarz (1843–1921), matemático alemão.

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176 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

5.7 Posição, Momentum e Translação


Os autokets |x0 i do operador posição X satisfaz

X|x0 i = x0 |x0 i (5.104)

são postulados para formar um conjunto completo. Aqui x0 é o autovalor


do operador X aplicado no ket |x0 i. O estado ket para um estado físico
arbitrário, pode ser expandido em termos de {|xi i} discretos:
X
|ψi = |xi ihxi |ψi (5.105)
i

e para o caso de um espectro contínuo, temos


Z ∞
|ψi = |xihx|ψi dx (5.106)
−∞

Agora, a probabilidade de encontrarmos a partícula em um intervalo


dx é
|hx|ψi|2 dx = hψ|xihx|ψi dx (5.107)
Nesse formalismo a função de onda é definida, e identificada, como o
produto interno
hx|ψi = ψ(x) (5.108)
Essa é a função de onda ψ(x) do estado |ψi. No formalismo de Dirac
será desenvolvida como uma expansão dos coeficientes. Finalmente o
produto interno hϕ|ψi pode ser interpretado como a amplitude de prob-
abilidade de encontrarmos |ϕi em |ψi
Z ∞
hϕ|ψi = hϕ|xihx|ψi dx
−∞
Z ∞
= ϕ∗ (x)ψ(x) dx . (5.109)
−∞

Translação: Agora, introduziremos um importante conceito que é


o da translação, ou deslocamento espacial. Supõe que temos um
estado físico bem localizado ao redor de x (uma dimensão). Vamos con-
siderar um operador que muda esse estado para outro bem localizado
ao redor de x + dx. Tal operador é definido por uma translação in-
finitesimal de dx, assim

T(dx)|xi = |x + dxi . (5.110)

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5.7. Posição, Momentum e Translação 177

em termos de estado físico

T(dx)|ψi = |ψ 0 i . (5.111)

Então,
Z Z
0 0 0
T(dx)|ψi = T(dx) |x ihx |ψi dx = |x0 + dx0 ihx0 |ψi dx0 . (5.112)

usamos a variável x0 para não confundir quando calculamos a amplitude


de translação do estado na posição x:

ψ 0 (x) = hx|ψ 0 i = hx|T(dx)|ψi


Z Z
= hx|x + dx ihx |ψi dx = δ[x − (x0 + dx0 )]hx0 |ψi dx0
0 0 0 0

= hx − dx|ψi = ψ(x − dx) (5.113)

Em uma primeira observação, parece estranho ψ 0 (x) 6= ψ(x + dx).


Mas se, ψ(x) tem um máximo em x = b, então ψ 0 (x) = ψ(x − dx)
tem um máximo em x − dx = b, ou x = b + dx, i.e., o estado está
transladando na direção positiva do eixo x.
Note que o operador de translação é um operador unitário, já que,

hψ 0 |ψ 0 i = hψ|T† (dx)T(dx)|ψi = hψ|ψi , (5.114)

que requer
T† (dx)T(dx) = 1 (5.115)
Podemos ver a vantagem do resultado de (5.113) de outro modo. De
(5.110) temos que
hx|T† (dx) = hx + dx| . (5.116)
Mas desde que o operador translação é unitário, T† (dx) = −T(dx), logo

hx|T(dx) = hx − dx| . (5.117)

Entretanto,
hx|T(dx)|ψi = hx − dx|ψi = ψ(x − dx) (5.118)
como já havíamos obtido.
Se dx for apenas um deslocamento infinitesimal, podemos expandir
a função ψ em série de Taylor, em torno do ponto (x), do seguinte modo:

|ψ 0 (x)i ∼
= |ψ(x)i + dx |ψ(x)i = (1 + i dxTx ) |ψ(x)i , (5.119)
∂x

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178 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

onde desprezamos derivadas de ordem superior e

∂ px
Tx = − i = . (5.120)
∂x ~
Logo
i
T(dx) = 1 − px dx (5.121)
~
que opera o posição dando

T(dx)|xi = |x + dxi (5.122)

em aproximação de primeira ordem. Note que px é o gerador da translação.


E para uma translação finita em dx através da aplicação de um número
infinito de translações infinitesimais, teremos
· µ ¶¸n
i dx
T(dx) = lim 1 − px
n→∞ ~ n
i
= e− ~ px dx (5.123)

O operador de translação é exatamente o mesmo dado em §2.14, ou


seja, o operador deslocamento.
Note que o operador de translação espacial, cujo gerador é o mo-
mentum linear, comuta com o momentum

[~p, T(d~x)] = 0

com isso podemos generalizar a relação de comutação para as compo-


nentes do momentum
[pi , pj ] = 0
Assim, quando os geradores de uma translação comutam, temos um
grupo correspondente conhecido como grupo comutativo ou grupo
abeliano 14 . Logo, o grupo de translação em três dimensões é um grupo
abeliano.
Espaço de Momentum: Iremos agora introduzir o operador mo-
mentum P, tal que aplicado em um conjunto de kets |p0 i, teremos

P|p0 i = p0 |p0 i hp0 |p00 i = δ(p0 − p00 ) (5.124)


14
Niels Henrik Abel (1802–1829), matemático norueguês.

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5.7. Posição, Momentum e Translação 179

Aqui, o estado ket para um estado físico arbitrário, pode ser expandido
em termos de {|pi} da mesma forma que anteriormente fazíamos a ex-
pansão em {|xi}, como:
Z ∞
|φi = |pihp|φi dp (5.125)
−∞

com a função de onda no espaço de momentum


hp|φi = φ(p) (5.126)
e podemos identificar em
Z ∞
hφ|φi = |hp|φi|2 dp (5.127)
−∞

a quantidade |hp|φi|2 dp como a probabilidade da partícula no estado


|φi ter seu momentum entre p e p + dp.
Nós podemos determinar hx|pi, a função de onda dos auto-estados
momentum no espaço de posição. Vamos para isso usar o produto in-
terno hx|px |φi, onde obteremos um importante resultado:

hx|px |φi = − i ~
hx|φi (5.128)
∂x
já que o operador momentum na base de posição é o gerador da translação.
Agora iremos substituir |φi por |pi

hx|px |pi = phx|pi = − i ~ hx|pi (5.129)
∂x
A solução da equação diferencial (5.129) é
i
hx|pi = N e ~ px
onde N é a constante de normalização a ser determinada. Assim iremos
considerar Z
|pi = |xihx|pi dx

Então,
Z
0
hp |pi = hp0 |xihx|pi dx
Z ∞
i 0

=N N e ~ (p−p )x dx
−∞
= |N | (2π~)δ(p − p0 )
2
(5.130)

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180 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

Logo, N = √1 e
2π~
1 i
hx|pi = √ e ~ px (5.131)
2π~
Finalmente podemos escrever em espaço de momentum e espaço de
posição as relações, usando um ket |αi:
Z
hp|αi = hp|xihx|αi dx (5.132a)
Z
hx|αi = hx|pihp|αi dp (5.132b)

ou em funções de onda:
Z
1 i
φα (p) = √ e− ~ px ψα (x) dx (5.133a)
2π~ Z
1 i
ψα (x) = √ e ~ px φα (p) dp (5.133b)
2π~
Essas equações mostram que hp|αi e hx|αi formam um par de transfor-
mada de Fourier.

5.8 Aplicações no Experimento de


Stern-Gerlach
Usando todo o desenvolvimento realizado até o momento, voltemos à
nossa análise do experimento de Stern-Gerlach, agora não somente na
forma qualitativa, mas também quantitativamente.
Sabemos que o experimento apresentou uma distribuição com dois
picos, um para cima (up) com Sz = ~2 no estado |+i e outro para baixo
(down) com Sz = − ~2 no estado |−i. Logo, podemos escrever as relações
de auto-estado e autovalores,
~
Sz |+i = + |+i (5.134a)
2
~
Sz |−i = − |−i (5.134b)
2
onde |+i e |−i formam a base ortonormal do espaço vetorial em questão

h+|+i = h−|−i = 1 (5.135a)


h+|−i = 0 (5.135b)

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5.8. Aplicações no Experimento de Stern-Gerlach 181

e vale a relação de fechamento

|+ih+| + |−ih−| = 1 (5.136)

O ket normalizado e mais geral do espaço vetorial é a superposição


linear de |+i e |−i:
|ψi = α|+i + β|−i (5.137)
com
|α|2 + |β|2 = 1 (5.138)

Na base {|+i, |−i}, a matriz que representa Sz é obviamente diago-


nal, pois
~
Sz = [|+ih+| − |−ih−|] (5.139)
2
mas µ ¶ µ ¶
1 0
|+i = , |−i = (5.140)
0 1
então µ ¶
~ 1 0
Sz = . (5.141)
2 0 −1
o operador Sz é obviamente hermitiano.
Vamos introduzir dois operadores importantes,

S+ = ~|+ih−| S− = ~|−ih+| (5.142)

no qual ambos não são hermitianos. O operador S+ atuando no ket


|−i, muda-o para o ket |+i multiplicado por ~. Por outro lado, se atua
no ket |+i, teremos um ket nulo. A interpretação física de S+ é que
esse operador levanta a componente do spin em uma unidade de ~.
Logo, esse operador S+ é conhecido como operador de levantamento.
Conseqüentemente, S− abaixa a componente do spin em uma unidade
de ~, e é conhecido como operador de abaixamento. Ainda podemos
definir S± como:
S± = Sx ± i Sy (5.143)
usando (5.142) a representação matricial de S± será,
µ ¶ µ ¶
0 1 0 0
S+ = ~ , S− = ~ . (5.144)
0 0 1 0

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182 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

Pelas definições (5.142) e (5.143) os operadores Sx e Sy representa-


dos na base {|+i, |−i} são matrizes 2 × 2 hermitianas,

~
Sx = [|+ih−| + |−ih+|] (5.145a)
2
~
Sy = [− i |+ih−| + i |−ih+|] (5.145b)
2
que nos leva à
µ ¶ µ ¶
~ 0 1 ~ 0 −i
Sx = , Sy = . (5.146)
2 1 0 2 i 0

Os operadores Sx e Sy , juntamente com o operador Sz , satisfazem


a relação de comutação 15

[Si , Sj ] = i εijk ~Sk (5.147)

onde εijk é o tensor de Levi-Civita 16 . E a relação de anticomu-


tação
1
{Si , Sj } = ~2 δij (5.148)
2
onde o comutador [ , ] e o anticomutador { , } estão definidos em
(2.78) e (2.79) respectivamente.
Podemos definir também o operador ~S2 = ~S  ~S, como

~S2 = S 2 + S 2 + S 2 (5.149)
x y z

e fica fácil verificar que


~S2 = 3 ~2 I (5.150)
4
onde I é a matriz identidade. Obviamente teremos a relação de comu-
tação h i
~S2 , Si = 0 (5.151)

para i = 1, 2, 3.
Preparação dos Estados |±ix , |±iy e |±iu : Na análise realizada
nos três experimentos sequenciais de Stern-Gerlach tiramos algumas
15
O grupo que satisfaz essa relação de comutação é conhecido como grupo não
abeliano.
16
Tullio Levi-Civita (1873–1941), matemático italiano.

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5.8. Aplicações no Experimento de Stern-Gerlach 183

conclusões úteis. Podíamos escrever os estados |±ix como superposição


dos estados |±i de Sz
1
|±ix = √ [|+i ± |−i] (5.152)
2
E a respeito dos estados |±iy , esses também formavam uma combi-
nação linear dos estados |±i de Sz . Aqui fazíamos uma analogia clássica
com a luz de polarização circular, e tínhamos
1
|±iy = √ [|+i ± i |−i] . (5.153)
2
As relações (5.152) e (5.153) podem ser deduzidas diretamente pela
seguinte análise geral. Primeiro, recordamos quando o feixe |+ix vai em
direção ao SGẑ, temos o feixe abrindo em duas componentes com iguais
intensidades. Então,
1
|h+|+ix | = |h−|+ix | = √ . (5.154)
2
e podemos construir |+ix geral como
1 1
|+ix = √ |+i + √ ei δ1 |−i (5.155)
2 2
com δ1 real é a fase que iremos estudar. Para construirmos um ket |−ix
ortogonal à |+ix teremos
1 1
|−ix = √ |+i − √ ei δ1 |−i (5.156)
2 2
por convenção o coeficiente de |+i é real e positivo. Aqui podemos
escrever o operador Sx em uma forma mais geral como segue:
~
Sx = [|+ix h+|x − |−ix h−|x ]
2
~ h − i δ1 i
= e |+ih−| + ei δ1 |−ih+| (5.157)
2
Note que Sx é hermitiano, como deveríamos esperar. Com argumento
similar, poderei construir Sy e o feixe |±iy
1 1
|±iy = √ |+i ± √ ei δ2 |−i (5.158)
2 2
~ h − i δ2 i
Sy = e |+ih−| + ei δ2 |−ih+| (5.159)
2

Mecânica Quântica

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184 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

Vamos considerar o experimento seqüencial de Stern-Gerlach com SGx̂


seguido do SGŷ. Então,

1
|y h±|+ix | = |y h±|−ix | = √ , (5.160)
2
o que não é nenhuma surpresa devido a invariância do sistema físico
sob uma rotação. Substituindo (5.156) e (5.158) em (5.160), obteremos

1 ¯¯ ¯
¯ 1
¯1 ± ei(δ1 −δ2 ) ¯ = √ (5.161)
2 2
na qual é satisfeita somente se
π π
δ2 − δ1 = ou − . (5.162)
2 2
Isto mostra que os elementos das matrizes Sx e Sy não podem ser todos
reais. Se os elementos da matriz Sx são reais, os elementos da matriz Sy
serão puramente imaginários, e vice-versa. Por conveniência tomaremos
os elementos da matriz Sx reais e fixaremos δ1 = 0; se nossa escolha
fosse δ1 = π, o eixo x positivo estaria orientado em direção oposta. A
segunda fase δ2 poderá ser − π2 ou π2 . O fato é que ainda temos uma
ambigüidade. Podemos escolher o sistema de coordenadas que obedeça
as rotações usando a regra da mão direita. Assim, temos que δ2 = π2 é
nossa melhor escolha. Com isso teremos
1 1
|±ix = √ |+i ± √ |−i (5.163)
2 2
~
Sx = [|+ih−| + |−ih+|] (5.164)
2
e
1 i
|±iy = √ |+i ± √ |−i (5.165)
2 2
~
Sy = [− i |+ih−| + i |−ih+|] (5.166)
2
como havíamos mencionado anteriormente.
Para uma componente de ~S ao longo do vetor unitário û, caracter-
izado pelos ângulos polares θ e ϕ, ver Fig. 5.3, usaremos as expressões
para Sx , Sy e Sz na forma matricial, e então será fácil encontrar a

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5.8. Aplicações no Experimento de Stern-Gerlach 185

Figura 5.3: Definição dos ângulos polares θ e ϕ.

matriz que representa a correspondente observável Su = ~S  û na base


{|+i, |−i}

Su = Sx sen θ cos ϕ + Sy sen θ sen ϕ + Sz cos θ


µ ¶
~ cos θ sen θe− i ϕ
= (5.167)
2 sen θei ϕ − cos θ
e seus autokets nessa base serão
θ θ
|+iu = cos |+i + sen ei ϕ |−i (5.168a)
2 2
θ −iϕ θ
|−iu = − sen e |+i + cos |−i (5.168b)
2 2
Prova. Os autovalores de Su são + ~2 ou − ~2 , e os autokets na base
{|+i, |−i} são

|+iu = a|+i + b|−i


~
Su |+iu = + |+iu
2
e

|−iu = c|+i + d|−i


~
Su |−iu = − |−iu
2
onde a e b são números imaginários. Assim,
~
(Sx sen θ cos ϕ+Sy sen θ sen ϕ+Sz cos θ)(a|+i + b|−i) = (a|+i + b|−i)
2

Mecânica Quântica

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186 Cap. 5 Formalismo da Mecânica Quântica

onde poderemos escrever


µ ¶µ ¶ µ ¶
~ cos θ sen θe− i ϕ a ~ a
=
2 sen θei ϕ − cos θ b 2 b
Aqui temos um sistema de duas equações e duas incógnitas,
a cos θ + b sen θ cos ϕ − i b sen θ sen ϕ = a
a sen θ cos ϕ + i a sen θ sen ϕ − b cos θ = b
onde
(1 + cos θ)b
a=
sen θ(cos ϕ + i sen ϕ)
mas
|a|2 + |b|2 = 1
então µ ¶
2 (1 + cos θ)2
|b| 1 + =1
sen2 θ
ou, depois de alguma álgebra
θ
|b|2 = sen2
2
Então poderei escolher b = ei ϕ sen 2θ , e
1 + cos θ θ θ
a= sen2 ei ϕ = cos
sen θ ei ϕ 2 2
logo
θ θ
|+iu = cos |+i + sen ei ϕ |−i
2 2
Desde que |+iu e |−iu são ortonormais
θ −iϕ θ
|−iu = − sene |+i + cos |−i
2 2
como queríamos demonstrar. Assim, a probabilidade de termos Su =
+ ~2 é µ ¶
~ θ
P + = cos2
2 2
e a probabilidade para termos Su = − ~2 é
µ ¶
~ θ
P − = sen2
2 2

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5.9. Comentários 187

Note que todos os operadores Sx , Sy e S têm os mesmos autovalores,


+ ~2 e − ~2 como Sz . Isso é possível desde que possamos rodar o aparato
Stern-Gerlach de tal forma que definimos o campo magnético paralelo
ao eixo x, y ou û.

5.9 Comentários
Para esse capítulo, recomenda-se ao leitor, uma leitura detalhada da
obra prima do Prof. Paul Dirac (1958) 17 , nesse livro o leitor encontrará
o mais detalhado trabalho sobre a notação bra e ket, além de ser um
dos mais importantes livros de mecânica quântica.
Um estudo paralelo poderá ser realizado com os livros dos Profs.
Cohen-Tannoudji et.al. (1977) 18 , Jun John Sakurai (1994) 19 , John Townsend
(1992) 20 e A. Messiah (1970) 21 , o livro do Prof. Messiah tem um tra-
balho muito profundo do ponto de vista do formalismo matemático da
mecânica quântica.
Uma excelente discussão sobre os experimentos sequenciais de Stern-
Gerlach poderá ser aprofundada no excelente Feynman lectures on physics 22 .

17
P. A. M. Dirac, The principles of quantum mechanics, (1958).
18
C. Cohen-Tannoudji, B. Diu and F. Laloë, Quantum mechanics, (1977).
19
J. J. Sakurai, Modern quantum mechanics, (1994).
20
J. S. Townsend, A modern approach to quantum mechanics, (1992).
21
A. Messiah, Quantum mechanics, (1970).
22
R. Feynman, et.al, The Feynman lectures on physics, (1963).

Mecânica Quântica

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Capítulo 6

Dinâmica Quântica

No capítulo anterior discutimos o formalismo matemático, porém não


discutimos como o sistema físico evolui com o tempo. Fizemos esse
trabalho usando equações de onda, no capítulo dois. Nesse capítulo
iremos dedicar ao estudo da dinâmico de um sistema físico. Em outras
palavras faremos aqui as equações de movimento análogas as equações
de movimento de Newton (ou Lagrange 1 ou Hamilton).

6.1 Evolução Temporal


Vamos começar nossa discussão da evolução temporal na mecânica quân-
tica com a definição do operador de evolução temporal U(t, t0 ) que
opera em um ket da seguinte forma,

U(t, t0 )|ψ(t0 )i = |ψ(t)i (6.1)

onde |ψ(t0 ) é o estado inicial do sistema no tempo t = 0 e |ψ(t) é o estado


do sistema em um tempo t qualquer, t > t0 . Esses estados podem ser
estendidos em termos de uma combinação linear de autokets da mesma
quantidade física observável A:
X
|ψ(t0 )i = cn (t0 )|ϕn i (6.2)
n
X
|ψ(t)i = cn (t)|ϕn i (6.3)
n
1
Giuseppe Luigi Lagrangia (Joseph-Louis Lagrange) (1736–1813), matemático
franco-italiano.

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190 Cap. 6 Dinâmica Quântica

Em geral 2

|cn (t)| 6= |cn (t0 )|


Uma importante propriedade é a conservação da probabilidade antes e
depois, X X
|cn (t0 )|2 = |cn (t)|2
n n
Isso não afeta a normalização do estado:
hψ(t)|ψ(t)i = hψ(t0 )|U† (t, t0 )U(t, t0 )|ψ(t0 )i = hψ(t0 )|ψ(t0 )i = 1 (6.4)
então
U† (t, t0 )U(t, t0 ) = 1 (6.5)
ou seja, o operador de evolução temporal é unitário. podemos ainda
considerar a propriedade da composição de dois operadores
U(t2 , t0 ) = U(t2 , t1 )U(t1 , t0 ), (t2 > t1 > t0 ) . (6.6)
Se considerarmos uma translação temporal infinitesimal, dt, como
no caso do operador deslocamento ou de translação espacial, teremos
|ψ(t0 + dt)i = U(t0 + dt, t0 )|ψ(t0 )i (6.7)
Devido a continuidade, se t → t0 ⇒ |ψ(t)i = |ψ(t0 )i, o operador de
evolução temporal se reduz à um operador identidade
lim U(t0 + dt, t0 ) = U(t0 , t0 ) = 1 . (6.8)
dt→0

Então, o operador que satisfaz as condições acima, será


i
U(t0 + dt, t0 ) = 1 − Hdt , (6.9)
~
onde o operador H é o gerador da translação temporal. Naturalmente
esse operador é hermitiano, H† = H. Precisamos definir o signifi-
cado físico de H. Da equação (6.9), a dimensão de H é a constante
de Planck dividido pelo tempo, ou seja, nominalmente a energia. Na
idéia da mecânica quântica antiga, a freqüência angular está relacionada
com a energia através da relação de Planck-Einstein
E = ~ω
Na mecânica clássica 3 , a idéia do hamiltoniano ser o gerador da evolução
temporal, nos dá a conservação de energia.
2
Se o hamiltoniano comuta com A, então |cn (t)| = |cn (t0 )|.
3
H. Goldstein, Classical mechanics, (1980).

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6.2. Derivação da Equação de Schrödinger 191

6.2 Derivação da Equação de Schrödinger


Podemos mostrar que U(t, t0 ) satisfaz, em primeira ordem uma equação
diferencial no tempo. Desde que
µ ¶
i
U(t + dt, t0 ) = U(t + dt, t)U(t, t0 ) = 1 − Hdt U(t, t0 )
~
i
U(t + dt, t0 ) − U(t, t0 ) = − Hdt U(t, t0 ) (6.10)
~
Usando a definição de derivada 4 , teremos


i~ U(t, t0 ) = H U(t, t0 ) . (6.11)
∂t
Aplicando na equação acima o estado ket inicial |ψ(t0 )i, obteremos


i~ U(t, t0 )|ψ(t0 )i = H U(t, t0 )|ψ(t0 )i (6.12)
∂t
e

i~|ψ(t)i = H |ψ(t)i . (6.13)
∂t
Essa é a equação de Schrödinger usando o operador de evolução tem-
poral, U(t, t0 ). É a equação fundamental de movimento que determina
como os estados evoluem no tempo na mecânica quântica. Schrödinger
propôs essa equação em 1926, não envolvendo um ket mas sim uma
função de onda na representação espaço de posição 5 .

6.3 Solução Formal para U(t, t0 )


Para a solução formal do operador U(t, t0 ) há três casos a serem tratados
separadamente:
Primeiro Caso: O operador hamiltoniano é independente do tempo,
i.e., quando o tempo varia, o operador H não muda. Um exemplo
4
A derivada de um operador e definido como
dU U (t + ∆t) − U (t)
= lim
dt ∆t→0 ∆t
.
5
Como vimos em §1.16 do capítulo 1.

Mecânica Quântica

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192 Cap. 6 Dinâmica Quântica

para esse caso é o hamiltoniano para a interação do momento spin-


magnético com um campo magnético constante independente do tempo.
A solução de (6.11) nesse caso é dado por
i
U(t, t0 ) = e− ~ H(t−t0 ) . (6.14)

Para provar isto basta expandir a exponencial como e derivar


· ¸· ¸
− ~i H(t−t0 ) i H(t − t0 ) (− i)2 H(t − t0 ) 2
e =1− + + · · · (6.15)
~ 2 ~
µ ¶2
∂ − i H(t−t0 ) − i H 2 H
e ~ = + (− i) (t − t0 ) + · · · (6.16)
∂t ~ ~
mas
H2
HU(t, t0 ) = H − i (t − t0 ) + · · · (6.17)
~
comparando (6.16) com (6.17), temos que (6.14) satisfaz a equação difer-
encial (6.11), como queríamos provar.
Uma demonstração alternativa para obter (6.14) é considerar uma
série de translações temporais infinitesimais, tal que
· µ ¶¸
i t − t0 N i
U(t, t0 ) = lim 1 − H = e− ~ H(t−t0 ) , (6.18)
N →∞ ~ N
logo, para t0 = 0
i
|ψ(t)i = e− ~ Ht |ψ(0)i . (6.19)
Para solucionarmos a equação de movimento quando H é independente
do tempo, precisamos conhecer o estado inicial do sistema, |ψ(0)i, e
estar pronto para trabalhar com o operador (6.18) nesse estado.
Segundo Caso: O hamiltoniano é explicitamente dependente do
tempo, mas em diferentes tempos comutam. Um exemplo para esse
caso é o momento spin-magnético sujeito à um campo magnético que
varia com o tempo, porém não altera a direção. Assim teremos

i~ U(t, t0 ) = H(t0 ) U(t, t0 )
∂t R t
− ~i H(t0 )dt0
U(t, t0 ) = e t0 (6.20)

que pode ser facilmente provado,


Rt somente substituindo H(t − t0 ) nas
equações (6.15) e (6.16) por t0 H(t0 )dt0 .

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6.4. Dependência Temporal do Valor Esperado 193

Terceiro Caso: O hamiltoniano é dependente do tempo, mas em


temos diferentes não comutam. O exemplo para esse caso será o mo-
mento spin-magnético sujeito à um campo magnético que varia com
o tempo e também varia a direção: em t = t1 o campo magnético está
na direção x̂, em t = t2 está na direção ŷ e assim por diante. Devido
Sx e Sy não comutarem, i.e., [Sx , Sy ] = i ~Sz , H(t1 ) e H(t2 ), tais como
~S  ~B, não comutam. A solução formal para essa situação é dado por

U(t, t0 ) =
∞ µ
X ¶ Z Z t1 Z tn−1
−i n t
1+ dt1 dt2 · · · dtn H(t1 )H(t2 ) · · · H(tn ) ,
~ t0 t0 t0
n=1
(6.21)

conhecida como série de Dyson, devido ao fato de que F. J. Dyson 6


desenvolveu a expansão perturbativa dessa série em teoria quântica de
campos.

6.4 Dependência Temporal do Valor Esperado


Quando o operador H é ele próprio independente do tempo, o valor es-
perado da observável correspondente é também independente do tempo:

hψ(t)|H|ψ(t)i = hψ(t0 )|U† (t)HU(t)|ψ(t0 )i = hψ(t0 )|H|ψ(t0 )i (6.22)

desde que H comute com U 7 . naturalmente sugerimos que a identidade


H seja o operador de energia, i.e., o operador hamiltoniano. Assim, o
valor esperado da energia é

E = hψ|H|ψi . (6.23)

Os autokets do hamiltoniano, são os auto-estados de energia que


satisfazem
H|ϕn i = En |ϕn i (6.24)
e que têm um papel fundamental na mecânica quântica. É fácil deter-
minar a ação do operador evolução temporal U(t) nesses estados, para
6
Freeman John Dyson (1923– ), físico e matemático anglo-americano.
F. J. Dyson, Physical Review, 75, 486, p. 1736 (1949).
7
Para estabelecer que H comuta com U, use a expansão da série de Taylor para U.

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194 Cap. 6 Dinâmica Quântica

isso usaremos a série de Taylor para a exponencial


" µ ¶ #
− ~i Ht i Ht 1 i Ht 2
e |ϕn i = 1 − + − + · · · |ϕn i
~ 2! ~
" µ ¶ #
i En t 1 i En t 2
= 1− + − + · · · |ϕn i
~ 2! ~
i
= e− ~ En t |ϕn i ,

onde podemos observar que En = ωt.


Usando o operador de evolução temporal em termos de |ϕn ihϕn |
i XX i
e− ~ Ht = |ϕm ihϕm |e− ~ Ht |ϕn ihϕn |
n m
X i
|ϕn ie− ~ En t hϕn | , (6.25)
n

mas, em t = 0
X
|ψ(0)i = |ϕn ihϕn |ψi
n
X
= cn |ϕn i (6.26)
n

e em t qualquer
i
|ψ(t)i = e− ~ Ht |ψ(0)i
X i
= |ϕn ihϕn |ψi e− ~ En t (6.27)
n

Assim, temos que quando cn (t = 0) ⇒


i
cn (t) = cn (t = 0)e− ~ En t . (6.28)

Se o estado inicial do sistema é o auto-estado de energia, |ψ(0)i =


|ϕn i, então
i
|ψ(t)i = e− ~ En t |ϕn i (6.29)
dizemos que os auto-estados de energia formam o conjunto de estados
estacionários, como já discutido no capítulo 2.

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6.4. Dependência Temporal do Valor Esperado 195

Então, se o sistema é um auto-estado simultâneo da observável A,


não dependente explicitamente do tempo, e do operador hamiltoniano
H, assim o será em todo tempo,
d d
hAi = hψ(t)|A|ψ(t)i
dt µdt ¶ µ ¶
d d
= hψ(t)| A|ψ(t)i + hψ(t)|A |ψ(t)i
dt dt
i
= (hψ(t)|HA|ψ(t)i − hψ(t)|AH|ψ(t)i)
~
i
= hψ(t)|[H, A]|ψ(t)i
~
i
= h[H, A]i = 0 (6.30)
~
Assim, o operador associado à observável A é uma constante de movi-
mento.
Também podemos mostrar que o valor esperando de uma observável
A com respeito à um autoket para o caso estacionário é independente
através de outra relação. Usando (6.29) temos:
hAi = hψ(t)|A|ψ(t)i
i i
= hϕn |e+ ~ En t A e− ~ En t |ϕn i
= hϕn |A|ϕn i (6.31)
Consideremos agora o valor esperado da observável A quando lev-
amos em conta superposição dos auto-estados de energia, ou estados
não-estacionários. Começaremos por
X
|ψ(0)i = cn |ϕn i
n
Logo,
" # " #
X i X
− ~i Em t
hAi = c∗n hϕn |e+ ~ En t A cm e |ϕm i
n m
XX i
= c∗n cm hϕn |A|ϕm i e− ~ (Em −En )t (6.32)
n m
Esse valor esperado depende da freqüência angular de Bohr, ou seja,
consiste em valores em função dos termos de oscilação
Em − En
ωmn = . (6.33)
~

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196 Cap. 6 Dinâmica Quântica

6.5 Representações de Schrödinger, Heisenberg


e Interação
Representação de Schrödinger: Faremos um sumário do desenvolvi-
mento temporal na conhecida e familiar representação de Schrödin-
ger que usamos em nosso discussão da evolução temporal

|ψ(t)i = U(t)|ψ(0)i (6.34a)


hψ(t)| = hψ(0)|U† (t) , (6.34b)

onde
i
U(t) = e− ~ Ht (6.35)
com o hamiltoniano H independente do tempo. Sabemos que o operador
de evolução temporal satisfaz a equação diferencial

i~ U(t) = H U(t) . (6.36)
∂t
Assim, a variação temporal do valor esperado de um operador OS é
dado por
d i
hψ(t)|OS |ψ(t)i = hψ(t)|[H, OS ]|ψ(t)i (6.37)
dt ~
onde assumimos que o operador OS não depende explicitamente do
tempo, mas os kets variam com o tempo.
Representação de Heisenberg: Uma alternativa para a repre-
sentação de Schrödinger na descrição da evolução temporal é a rep-
resentação de Heisenberg. Nessa representação, os estados kets são
constantes no tempo
i
|ψH (t)i = U† (t)|ψ(t)i = e ~ Ht |ψ(t)i = |ψ(0)i (6.38)

Por outro lado, o valor esperado de OS , pode ser escrito como


i −i
hψ(t)|OS |ψ(t)i = hψ(0)|e ~ Ht OS e ~
Ht
|ψ(0)i
= hψH |U† (t) OS U(t)|ψH i (6.39)

Essa relação, sugere a definição de um operador OH na representação


de Heisenberg dado por

OH = U† (t) OS U(t) (6.40)

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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6.5. Representações de Schrödinger, Heisenberg e Interação 197

que carrega toda a dependência temporal. Logo,

hψ(t)|OS |ψ(t)i = hψH |OH |ψH i (6.41)

Concluindo, na representação de Heisenberg os autokets são fixos no


tempo, enquanto os operadores são dependentes do tempo.
Equação de Movimento de Heisenberg: Iremos deduzir a equa-
ção fundamental de movimento na representação de Heisenberg. Assu-
mindo um caso geral, OS depende explicitamente do tempo. A equação
diferencial será
d H d ³ † S ´
O = U O U
dt dt
∂U† S ∂U ∂OS
= O U + U† OS + U† U
∂t ∂t ∂t
i i ∂OS
= U† HUU† OS U − U† OS UU† HU + U† U
~ ~ ∂t
i ∂OH
= [U† HU, OH ] + (6.42)
~ ∂t
Como H e U comutam, resulta que

U† HU = H

e a equação diferencial será

d H i ∂
O = [H, OH ] + OH (6.43)
dt ~ ∂t

Se OS não depende explicitamente do tempo, que são os casos de situ-


ações físicas de maior interesse, teremos

d H i
O = [H, OH ] (6.44)
dt ~

que é a conhecida equação de movimento de Heisenberg 8 . Histori-


camente, essa equação foi escrita primeiramente por Paul Dirac, que a
chamou de equação de de movimento de Heisenberg. É instrutivo com-
parar a equação (6.44) com a sua correspondente em Mecânica Clássica
8
Note que a hamiltoniana é a mesma nas duas representações.

Mecânica Quântica

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198 Cap. 6 Dinâmica Quântica

em para a observável O(q, p). Classicamente a equação de movimento


poderá ser escrita na forma, através do parênteses de Poisson:
d
O(q(t), p(t)) = {O, H}(q, p) (6.45)
dt
onde H é a hamiltoniana clássica do sistema e (q(t), p(t)) é a trajetória
clássica no espaço de fase, obedecendo as equações de Hamilton 9 ,
∂H ∂H
q̇(t) = , ṗ(t) = − (6.46)
∂p ∂q
A comparação entre (6.44) e (6.45) remete-nos mais uma vez ao princí-
pio de correspondência
1
{A, B} = [A, B] (6.47)
i~
entre a Mecânica Clássica e a Mecânica Quântica, a qual é usada como
guia para a quantização de sistemas com análogos clássicos. Esse relação
foi observado por Dirac ao relacionar os comutadores aos parênteses de
Poisson 10 .
Representação de Interação: Aqui estudaremos uma represen-
tação intermediária em que operadores e kets carregam alguma infor-
mação da dependência temporal. Podemos considerar a hamiltoniana
H em duas partes,
H = H0 + H1 (6.48)
onde H0 não contém dependência temporal explícita. Quando assumi-
mos H1 = 0, voltamos ao nosso problema usual

H0 |ϕn i = En |ϕn i (6.49)

que são completamente conhecidos.


Definimos um estado |ψI (t)i na representação de interação por
i
|ψI (t)i = e ~ H0 t |ψ(t)i (6.50)
9
Para uma excelente revisão dos colchete de Poisson e das equações de Hamilton,
ver Goldstein, Classical mechanics, (1980), ou o livro de Landau e Lifshitz, Me-
chanics, (1993).
10
Ver o excelente Dirac, The principles of quantum mechanics, (1958) e o artigo
original P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society of London, A109, 642–
653 (1926).

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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6.5. Representações de Schrödinger, Heisenberg e Interação 199

Note que
d i i d
i~ |ψI (t)i = −H0 e ~ H0 t |ψ(t)i + e ~ H0 t i ~ |ψ(t)i
dt dt
i i
H t H t
= −H0 e ~ 0
|ψ(t)i + e ~ 0
(H0 + H1 )|ψ(t)i
i i i
= e ~ H0 t H1 |ψ(t)i = e ~ H0 t H1 e− ~ H0 t |ψI (t)i (6.51)

A dependência temporal do autoket na representação de interação é


governada por H1 .
Se examinarmos o valor esperado de um operador, temos
i i
hψ(t)|O|ψ(t)i = hψI (t)|e ~ H0 t O e− ~ H0 t |ψI (t)i (6.52)

que nos leva a definir um operador na representação de interação por


i i
OI = e ~ H0 t O e− ~ H0 t (6.53)

Partindo que o operador na representação de Schrödinger não depende


explicitamente do tempo, a equação de movimento usando OI é dada
por
d I i ³ i H0 t i i i
´
O = e~ H0 O e− ~ H0 t − e ~ H0 t OH0 e− ~ H0 t
dt ~
i
= [H0 , OI ] (6.54)
~
O desenvolvimento temporal dos operadores na representação de inter-
ação é determinado por H0 . Da definição (6.53), vemos que a hamilto-
niana H0 é a mesma tanto para a representação de Schrödinger quanto
para a de interação. Por outro lado, H1 e
i i
HI = e ~ H0 t H1 e− ~ H0 t (6.55)

diferem, desde que H0 e H1 não comutem. A evolução temporal (6.51)


dos estados na representação de interação pode ser escrita em termos
de HI como
d
i ~ |ψI (t)i = HI |ψI (t)i (6.56)
dt
da mesma forma que a equação de Schrödinger, onde substituímos H
por HI . As equações (6.54) e (6.56) são as equações fundamentais na
representação de interação. Nessa representação a evolução temporal dos

Mecânica Quântica

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200 Cap. 6 Dinâmica Quântica

operadores é determinada por H0 e a evolução temporal dos autokets


é determinada por H1 . Essa representação é um intermediário entre a
representação de Schrödinger, em que os kets carregam a dependên-
cia temporal, e a representação de Heisenberg, em que os operadores
carregam a dependência temporal.
Podemos expressar a solução de (6.56) em termos do operador de
evolução temporal na representação de interação,

|ψI (t)i = UI (t)|ψI (0)i (6.57)

de (6.56) teremos
d I
i~ U (t) = HI UI (t) (6.58)
dt
que tem a solução formal dada por
Z t
I i
U (t) = 1 − dt0 HI (t0 )UI (t0 ) (6.59)
~ 0

que pode ser verificado, facilmente, substituindo essa expressão em


(6.58) e tomando UI (0) = 1, como condição inicial. A solução per-
turbativa para a interação é dada por

Z " Z #
t t0
I i 0 I i 0 00 I 00 I 00
U (t) = 1 − dt H (t ) 1 − dt H (t )U (t )
~ 0 ~ 0
Z
i t 0 I 0
=1− dt H (t ) +
~ 0
µ ¶ Z Z t0
i 2 t 0 I 0
− dt H (t ) dt00 HI (t00 ) + · · · (6.60)
~ 0 0

Tipicamente essa série converge rapidamente de tal forma que os primeiros


termos da série são suficientes para nos dar uma boa aproximação do
desenvolvimento temporal do sistema.
Finalmente, se
X i
|ψ(t)i = cn (t)e− ~ En t |ϕn i
n

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6.6. Precessão do Spin 201

então,
i
|ψI (t)i = e ~ H0 t |ψ(t)i
i X i
= e ~ H0 t cn (t)e− ~ En t |ϕn i
n
X
= cn (t)|ϕn i (6.61)
n

e
ci (t) = hϕi |ψI (t)i (6.62)
As relações (6.60), (6.61) e (6.62) são importantes quando estudarmos a
teoria de perturbação dependente do tempo, e na dedução da regra
de ouro de Fermi 11 .

6.6 Precessão do Spin


Devido ao spin do elétron, esse possui um momento magnético µ
~ s que
é dado por
e ~
µ
~s = − gs S
2µc
onde o fator g para o elétron vale aproximadamente 2, i.e., gs = 2.
Assim, na presença de um campo magnético externo ~B = B k̂, a hamil-
toniana será
H = −~µs  ~B (6.63)
Como e < 0 para o elétron,

e~ ~ eB
H=− S  B = − Sz (6.64)
µc µc

onde Sz comuta com H, ou seja eles têm autokets simultâneos. Definindo


a freqüência angular, ou freqüência de Larmor 12 , ω = |e|B
µc , a hamil-
toniana será 13

H = ωSz (6.65)
11
E. Fermi, Nuclear physics, (1950).
12
Joseph Larmor (1857–1942), físico e matemático irlandês.
13 2µB B
Também podemos escrever a freqüência de Larmor como ω = ~
, em que
µB = |e|~
2µc
é o magneton de Bohr.

Mecânica Quântica

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202 Cap. 6 Dinâmica Quântica

Portanto, seus autovalores serão:



H|+i = ωSz |+i = |+i = E+ |+i
2

H|−i = ωSz |−i = − |−i = E− |−i
2
isto é,
e~B
E± = ∓ Sz para Sz ± (6.66)
2µc
Podemos perguntar: o que acontece com a evolução temporal do
sistema? Desde que a hamiltoniana seja independente do tempo,
i i i
U(t) = e− ~ Ht = e− ~ ωSz t = e− ~ Sz φ = R(φk̂) (6.67)
assumimos o operador de evolução temporal como um operador de
rotação girando ao redor do eixo z por um ângulo φ = ωt. É fácil
notar que a partícula de spin- 12 na presença de um campo magnético
na direção z, esse fará com que seu spin gire em torno do eixo z com
um período de T = 2π ω .
Vamos trabalhar com um exemplo específico para detalhar nossa
dinâmica. Com ~B = B k̂, escolheremos o estado inicial ψ(0) = |+ix . O
estado |+ix é a superposição dos estados de Sz . Naturalmente, em um
tempo t
µ ¶
− ~i Ht 1 1
|ψ(t)i = e √ |+i + √ |−i
2 2
i ωt i ωt
e− 2 e 2
= √ |+i + √ |−i
2 2
µ ¶
− i ωt 1 ei ωt
=e 2 √ |+i + √ |−i (6.68)
2 2
Note que, esse estado é justamente o fator de fase vezes o estado spin
up de |+iu , com a escolha do ângulo azimutal φ = ωt.
Vamos investigar as probabilidades e os valores esperados do spin
envolvendo o tempo. Usando a equação acima para |ψ(t)i, vemos que:
¯ i ωt ¯2
¯e 2 ¯ 1
¯ ¯
|h+|ψ(t)i|2 = ¯ √ ¯ = (6.69)
¯ 2 ¯ 2
¯ i ωt ¯2
¯ e− 2 ¯ 1
2 ¯ ¯
|h−|ψ(t)i| = ¯ √ ¯ = (6.70)
¯ 2 ¯ 2

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6.6. Precessão do Spin 203

são independentes do tempo. Então,


µ ¶ µ ¶
1 ~ 1 ~
hSz i = + − =0 (6.71)
2 2 2 2
que também é uma constante de movimento.
Quando examinamos as componentes do spin no plano x − y, vere-
mos a dependência explícita do tempo. Desde que
µ ¶ Ã − i ωt i ωt
!
1 1 e 2 e 2
x h+|ψ(t)i = √ h+| + √ h−|  √ |+i + √ |−i
2 2 2 2
à i ωt !
1 ¡ ¢ 1 e− 2 ωt
=√ 1 1 √ i ωt = cos (6.72)
2 2 e 2 2

Logo,
ωt
|x h+|ψ(t)i|2 = cos2 (6.73)
2
note que esse valor de probabilidade é para spin up em x. Para o spin
down teremos
µ ¶ Ã − i ωt i ωt
!
1 1 e 2 e 2
x h−|ψ(t)i = √ h+| − √ h−|  √ |+i + √ |−i
2 2 2 2
à i ωt !
1 ¡ ¢ 1 e− 2 ωt
= √ 1 −1 √ i ωt = − i sen (6.74)
2 2 e 2 2
e,
ωt
|x h−|ψ(t)i|2 = sen2 (6.75)
2
Assim, o valor esperado será
µ ¶ µ ¶
2ωt ~ 2 ωt ~
hSx i = cos + sen −
2 2 2 2
~
= cos ωt (6.76)
2
Similarmente, para os estados em y teremos:
1 + sen ωt
|y h+|ψ(t)i|2 = (6.77)
2
1 − sen ωt
|y h−|ψ(t)i|2 = (6.78)
2

Mecânica Quântica

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204 Cap. 6 Dinâmica Quântica

e
~
hSy i =
sen ωt (6.79)
2
Todos esses resultados são consistentes com a precessão do spin
na forma anti-horária ao redor do eixo z, com período T = 2π ω . De
acordo com a nossa análise usando o operador de evolução temporal
(6.67) como um operador de rotação, é fácil observar que
d i
hSz i = hψ|[H, Sz ]|ψi (6.80)
dt ~
Pois podemos ver explicitamente que H comuta com Sz . Isso nos leva
dizer que Sz é uma constante de movimento. Por outro lado, Sx e Sy
variam no tempo. Logo, H não comuta com esses operadores.
Nota sobre o fator g: Para uma partícula com fator g = 2, o spin
precessa com a mesma freqüência que a freqüência de cíclotron da
partícula no campo magnético. O fator g, também é conhecido como
fator giromagnético. Em virtude das correções radiativas dadas pela
Eletrodinâmica Quântica, o elétron tem um fator g 6= 2 por uma pe-
quena quantidade da ordem de α = 1/137, α é a constante de estrutura
fina. Assim, podemos escrever
³ α ´
g =2 1+ + · · · = 2, 0023192

ou
³g ´ 1α ³ α ´2 ³ α ´3
−1 = − 0, 328478 + 1, 195 + ···
2 2π π π
= (115.965, 54 ± 0, 33) × 10−8
Essa correção radiativa permite a determinação experimental do fator
(g/2 − 1) com grande precisão. Este fator é denominado de momento
magnético anômalo do elétron. Uma aplicação interessante da pre-
cessão do spin é a determinação do fator g para o muon (µ). A primeira
medida desse fator g para os muons foi realizada por Garwin 14 , Leder-
man 15 e Weinrich 16 , que obtiveram g = 2, 00 ± 0, 10 17 . Na final da dé-
cada de 1970, vários experimentos ocorridos no CERN 18 determinaram
14
Richard Lawrence Garwin (1928– ), físico americano.
15
Leon Max Lederman (1922– ), físico americano.
16
Marcel Weinrich (1927–2008), físico polonês-americano.
17
R. L. Garwin, L. M. Lederman and M. Weinrich, Physical Review, 105, 1415
(1957).
18
CERN - European Organization for Nuclear Research, Genebra, Suíça.

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6.7. Ressonância Magnética 205

este fator, e os resultados mais recentes são

(g/2 − 1)(e− ) = (115.965, 77 ± 0, 35) × 10−8


(g/2 − 1)(e+ ) = (116.030 ± 120) × 10−8
(g/2 − 1)(µ± ) = (116.616 ± 31) × 10−8

Estes resultados estão de acordo com as previsões da eletrodinâmica


quântica 19 .

6.7 Ressonância Magnética


Vamos agora descrever uma técnica para a medida do fator giromag-
nético do próton gp , ou seja de seu momento de dipolo magnético
intrínseco. Conforme vimos na seção anterior, um momento magnético
associado a uma partícula de spin 12 imerso em um campo magnético
uniforme ~B na direção z apresenta dois estados de energia bem definida.
Consideraremos um dipolo magnético que se encontra inicialmente no
estado de energia mais baixa, i.e., alinhado com o campo magnético
externo, e então aplicaremos um campo magnético perpendicular ao
original o qual oscila com freqüência ω. Mostraremos que a probabil-
idade do estado do sistema passar para o estado de energia mais alta
é maximizada para ω ∝ gp , o que nos permite a determinação deste
parâmetro. Várias aplicações tais como, o relógio atômico e tomo-
grafia por ressonância magnética nuclear estão baseadas nos resul-
tados desenvolvidos nessa seção.
Consideremos um próton cujo momento de dipolo magnético é dado
por
e~ ~S ~S
µ
~ próton = gp ≡ gp µp (6.81)
2Mp c ~ ~
e~
onde µp = 2M pc
é o magneton nuclear. Consideremos que esse próton
esteja na presença de um campo magnético
~B = BT (ı̂ cos ωt − ̂ sen ωt) + BL k̂ (6.82)

Como a hamiltoniana do sistema é

µpróton  ~B
H = −~
19
J. Bailey et al, Nuclear Physics, B150, 1 (1979).

Mecânica Quântica

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206 Cap. 6 Dinâmica Quântica

e a equação de Schrödinger dependente do tempo escreve-se como



i~ ~ próton  ~B|ψ(t)i
|ψ(t)i = − − µ
∂t
onde o estado do sistema é
µ ¶
a(t)
|ψ(t)i = ,
b(t)

temos que a equação de movimento para o spin desse próton é dada


por
µ ¶ µ ¶µ ¶
∂ a(t) gp µp BL BT ei ωt a(t)
i~ =− (6.83)
∂t b(t) 2 BT e− i ωt BL b(t)

Definindo as freqüências
gp µp BL gp µp BT
ΩL = e ΩT = (6.84)
2~ 2~
podemos reescrever (6.83) como um par de equações diferenciais
acopladas
∂a ¡ ¢
= i ΩT ei ωt b + ΩL a ,
∂t
(6.85)
∂b ¡ ¢
= i ΩT e− i ωt a − ΩL b .
∂t
Para resolvermos a equação acima, devemos procurar soluções da
seguinte forma
a = a0 ei ωa t b = b0 ei ωb t (6.86)
onde a0 , b0 , ωa e ωb são constantes. Substituindo essas relações em
(6.85) teremos
µ ¶µ ¶
(ωa − ΩL ) −ΩT e− i ϕt a0
− i ϕt =0 (6.87)
−ΩT e (ωb + ΩL ) b0

onde ϕ = ωa − ωb − ω. Tendo em vista que fizemos a suposição de que


a0 e b0 são constantes, devemos ter que ϕ = 0, ou seja

ωa = ωb + ω (6.88)

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6.7. Ressonância Magnética 207

E para que obtenhamos uma solução não trivial, o determinante da


matriz quadrada que aparece em (6.87) deve anular-se, o que nos conduz
a
ω ω
ωa = ± ω̄ e ωb = − ± ω̄ (6.89)
2 2
com ³ ω ´2
ω̄ 2 = ΩL − + Ω2T (6.90)
2
Agora podemos escrever a solução geral de (6.83)

a(t) = a1 ei( 2 −ω̄)t + a2 ei( 2 +ω̄)t


ω ω
(6.91)

b(t) = b1 e− i( 2 +ω̄)t + b2 e− i( 2 −ω̄)t


ω ω
(6.92)

Para especificarmos completamente o problema assumiremos que o sis-


tema encontra-se no instante t = 0 no estado de energia mais baixa, a
saber, quando a(0) = 1 e b(0) = 0. Utilizando essas condições iniciais,
bem como (6.85) para obter as derivadas em t = 0, segue que
h ³ ω ´ i sen ω̄t ω
a(t) = i − + ΩL + ω̄ cot ω̄t ei 2 t (6.93)
2 ω̄

ΩT ω
b(t) = − sen ω̄t e− i 2 t (6.94)
ω̄
Logo a probabilidade de transição para o estado de energia mais alta
é dada por
Ω2T
|b(t)|2 = ¡ ¢ sen2 ω̄t (6.95)
ω 2 2
ΩL − 2 + Ω T
que é conhecida como fórmula de Rabi 20 .
Note que essa probabilidade será máxima quando tivermos a con-
dição de ressonância ωres = 2ΩL , i.e., para
gp µp BL
ωres = (6.96)
~
e ainda, quando queremos aplicar esse cálculo para elétrons trocamos
os parâmetros do próton pelos parâmetros do elétron. Com isso é fácil
verificar que a freqüência de ressonância dos elétrons é muito diferente
20
Isidor Isaac Rabi (1898–1988), físico austro-húngaro americano .

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208 Cap. 6 Dinâmica Quântica

da freqüência de ressonância dos prótons, permitindo assim a separação


dos efeitos devidos aos prótons e aos elétrons.
Experimento de Rabi: O experimento de Rabi 21 consiste de dois
aparatos de Stern-Gerlach com campos magnéticos opostos separados
por uma região contendo um campo estático e um oscilante como em
na equação (6.82); como mostra Fig. 6.1. Na ausência do campo os-

Figura 6.1: Esquema do experimento de Rabi.

cilante o feixe gerado com autovalor ~2 de Sz no primeiro aparato de


Stern-Gerlach é detetado integralmente após o segundo desses aparatos.
Quando o campo oscilante é ligado o número de átomos detetados é
menor, sendo que o número de átomos que chegam ao detetor depende
da freqüência do campo oscilante. Quando esta freqüência é a freqüên-
cia de ressonância dada por (6.96) o número de átomos detetados será
mínimo. Isso irá permitir medir com precisão ωres , e conseqüentemente
o valor de gp ; conforme podemos ver na Fig. 6.2.

6.8 Oscilador Harmônico


O oscilador harmônico é um dos mais importantes problemas aborda-
dos pela mecânica quântica. Do ponto de vista pedagógico, ilustra con-
ceitos básicos e o método dos operadores. Do ponto de vista prático,
pode ser aplicado em espectroscopia molecular, estado sólido, estrutura
nuclear, teoria quântica de campos, ótica quântica, mecânica estatística
21
I. I. Rabi, J. R. Zacharias, S. Millman and P. Kusch, Physical Review, 53, 318
(1923).

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6.8. Oscilador Harmônico 209

Figura 6.2: Número de átomos detetados em função do freqüência do campo


magnético BL num experimento de Rabi.

quântica, e outros. Historicamente foi M. Planck quem propôs asso-


ciar unidades discretas de energia com a radiação dos osciladores dando
início aos conceitos quânticos. Porém foi P. Dirac que elegantemente
introduziu o conceito de operadores para solucionar o problema do os-
cilador harmônico, e aplicou as mesmas técnicas para a quantização do
campo eletromagnético 22 .
Autokets e autovalores de energia: A hamiltoniana básica do
oscilador harmônico é dada por

p2 µω 2 x2
H= + , (6.97)
2µ 2

onde ω é a freqüência angular do oscilador clássico. Os operadores ~x e


~p são hermitianos, e obedecem a relação de comutação

[x, px ] = i ~ . (6.98)

Nota-se que a hamiltoniana é quadrática tanto na posição x como


no momentum px . Para o oscilador iremos introduzir dois operadores

22
Ver o excelente livro de P. Dirac, The principles of quantum mechanics, (1958)
e os artigos originais P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society of Lon-
don, A109, 642–653 (1926); P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society of
London, A114, 243–265 (1927).

Mecânica Quântica

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210 Cap. 6 Dinâmica Quântica

não-hermitianos
rµ ¶
µω i
a= x+ p (6.99)
2~ µω
r µ ¶
† µω i
a = x− p (6.100)
2~ µω
conhecidos como operador de aniquilação e operador de criação,
respectivamente. Usando a relação de comutação (6.98), teremos
1
[a, a† ] = (− i[x, p] + i[p, x]) = 1 (6.101)
2~
Invertendo (6.99) e (6.100), obteremos
s
~ ³ ´
x= a + a† (6.102)
2µω
r
µω~ ³ †
´
p = −i a−a (6.103)
2
Logo, podemos escrever a hamiltoniana como
µ ¶
~ω ³ † †
´
† 1
H= a a + aa = ~ω a a + (6.104)
2 2
Nessa última equação usamos a relação de comutação (6.101). Para
encontrarmos os auto-estados de H é suficiente encontrarmos os auto-
estados de
N = a† a (6.105)
conhecido como operador número, no qual é hermitiano, pois

N † = (a† a)† = a† (a† )† = a† a = N .

Assim, a hamiltoniana será


µ ¶
1
H = ~ω N + (6.106)
2
No tratamento que iremos apresentar, vamos introduzir a seguinte
abreviação |ϕn i = |ni, para representar os autokets do oscilador quân-
tico. Na ótica quântica, os estados |ni são chamados estados de Fock 23 .
23
Vladimir Aleksandrovich Fock (1898–1974), físico russo.
Ver livro D. F. Wals and G. J. Milburn, Quantum optics (1994).

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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6.8. Oscilador Harmônico 211

Como H é uma função linear de N , o operador N pode ser diagonalizado


simultaneamente com H. Assim,

N |ni = n|ni (6.107)

O valor esperado do operador número no autoket é dado por

hn|N |ni = hn|a† a|ni = nhn|ni (6.108)

Chamamos
a|ni = |ψi (6.109)
podemos escrever (6.108) como

hψ|ψi = nhn|ni (6.110)

Desde que hψ|ψi ≥ 0 e hn|ni ≥ 0, a equação acima mostra que os


autovalores esperados n ≥ 0 são números positivos.
Para termos uma melhor compreensão dos operadores a, a† e N ,
notemos que

[N, a] = [a† a, a] = a† [a, a] + [a† , a] = −a (6.111)

Similarmente
[N, a† ] = a† (6.112)
Como resultado, nós temos
³ ´
N a† |ni = [N, a† ] + a† N |ni
= (n + 1)a† |ni (6.113)

indicando que
a† |ni = c+ |n + 1i (6.114)
Essas relações implicam que a† |ni é um autoket de N com autovalor
n+1. Então a† é um operador de criação ou operador de levantamento.
Similarmente

N a|ni = ([N, a] + aN ) |ni


= (n − 1)a|ni (6.115)

com
a|ni = c− |n − 1i (6.116)

Mecânica Quântica

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212 Cap. 6 Dinâmica Quântica

Essas relações implicam que a|ni é também um autoket de N com


autovalor n − 1, e a é um operador de aniquilação ou operador de
abaixamento.
Como n ≥ 0, existe um autovalor mínimo, chamado nmin , tal que o
ket com esse autovalor satisfaz

a|nmin i = 0 (6.117)

pois a|nmin i = c|nmin − 1i, violando a condição de mínimo nmin . Se


aplicarmos o operador de levantamento a† , teremos

a† a|nmin i = nmin |nmin i = 0 (6.118)

Desde que |nmin i exista, requer que nmin = 0. Então podemos escrever
o autoket mínimo como |0i. Aplicando o operador de levantamento (ou
criação) n vezes, fica claro que n deve ser um inteiro positivo. Natural-
mente
N |ni = n|ni n = 0, 1, 2, 3, · · · (6.119)
Assim, os autovalores do operador número N são inteiros positivos.
Logo, os autovalores da hamiltoniana são determinados por
µ ¶ µ ¶
1 1
H|ni = ~ω N + |ni = ~ω n + |ni = En |ni (6.120)
2 2
Então, a energia do oscilador harmônico
µ ¶
1
En = n + ~ω n = 0, 1, 2, 3, · · ·
2
é quantizada, tomando valores discretos. No estado fundamental, n = 0,
o oscilador quântico tem energia
1
E0 = ~ω
2
Note que o espectro de energia tem um espaçamento uniforme entre
os níveis.
Elementos de Matriz dos operadores a† e a: Inicialmente ire-
mos determinar as constante c+ em (6.114) e c− em (6.116). Por exem-
plo, a equação bra correspondente a equação ket

a† |ni = c+ |n + 1i (6.121)

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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6.8. Oscilador Harmônico 213

é dada por
hn|a = c∗+ hn + 1| (6.122)
Do produto interno dessas equações, temos

hn|aa† |ni = hn|a† a + 1|ni = (n + 1)hn|ni


= c∗+ c+ hn + 1|n + 1i (6.123)

Se os auto-estados são normalizados, i.e., eles satisfazem a √relação


hn|ni = 1 para todos os valores de n, podemos escolher c+ = n + 1,
ou √
a† |ni = n + 1|n + 1i (6.124)
Similarmente, se usarmos o ket

a|ni = c− |n − 1i (6.125)

e seu bra será


hn|a† = c∗− hn − 1| (6.126)
o produto internos é dado por

hn|a† a|ni = nhn|ni


= c∗− c− hn − 1|n − 1i (6.127)

novamente usando a normalização para todos os valores de n. Podemos



escolher c− = n. Logo,

a|ni = n|n − 1i (6.128)

Portanto para a base {|ni}, os elementos de matriz dos operadores


de criação e aniquilação são dados pela relação de ortogonalidade

hn0 |a† |ni = n + 1 δn0 ,n+1 (6.129)


hn0 |a|ni = n δn0 ,n−1 (6.130)

Logo, 
√0 0 0 0 
 1 0
 √ 0 0 
† 
(a ) =  0 2 √0 0  (6.131)
 0 0 3 0 
    
Mecânica Quântica

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214 Cap. 6 Dinâmica Quântica

e
 √
0 1 √0 0 
0
 0 2 √0 
(a) = 
0 0 0 3  (6.132)
0 0 0 0 
    
Como
s
~ ³ ´
x= a + a†
2µω
r
µω~ ³ ´
p=i −a + a†
2

temos as seguintes matrizes


s
~ ¡√ √ ¢
hn0 |x|ni = n δn0 ,n−1 + n + 1 δn0 ,n+1 (6.133)
2µω
r
µω~ ¡ √ √ ¢
hn0 |p|ni = i − n δn0 ,n−1 + n + 1 δn0 ,n+1 (6.134)
2

Então,
 √
√0 1 √0 0 
s
~ 
 1 0
√ 2 0
√ 
(x) =  0

2µω 
2 √0 3  (6.135)
0 0 3 0 
    
e
 √
√0 − 1 √0 0 
r  1
µω~  √0 − 2 √0 
(p) = i
2 
 0
 2 √ 0 − 3  (6.136)
0 0 3 0 
    
como o esperado, essas matrizes são hermitianas, porém não são diag-
onais na representação N que estamos usando, claro que as matrizes x
e p assim como a e a† não comutam com N .

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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6.8. Oscilador Harmônico 215

Finalmente, podemos aplicar sucessivamente o operador de criação


a† no estado fundamental |0i. Usando a relação (6.124), teremos
|1i = a† |0i
a† (a† )2
|2i = √ |1i = √ |0i
2 2
a† (a† )3
|3i = √ |2i = √ |0i
3 32
..
.
(a† )n
|ni = √ |0i (6.137)
n!
Nesse modo garantimos a construção de simultâneos autokets de N e
H com autovalores de energia
µ ¶
1
En = n + ~ω (n = 0, 1, 2, 3, · · · ) .
2
Funções de Onda no espaço de posição: Iremos usar o método
dos operadores para obter as autofunções no espaço de posição. Vamos
iniciar com o estado fundamental |0i que satisfaz
a|0i = 0 (6.138)
Projetando essa equação no espaço de posição, teremos
r µ ¶
µω i
hx|a|0i = hx| x + p |0i = 0 (6.139)
2~ µω
Mas sabemos que
~ ∂hx|0i
hx|p|0i = (6.140)
i ∂x
onde hx|0i é a amplitude de encontrarmos uma partícula no estado
fundamental na posição x. Temos também,
hx|x|0i = xhx|0i (6.141)
Assim, a equação (6.139) se reduz a uma equação diferencial de primeira
ordem 24
dhx|0i µωx
=− hx|0i (6.142)
dx ~
24
Desde que hx|0i é uma função somente de x, podemos substituir a derivada parcial
por uma derivada total.

Mecânica Quântica

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216 Cap. 6 Dinâmica Quântica

cuja solução é
µωx2
hx|0i = N e− 2~ (6.143)
Normalizando essa Gaussiana 25 , teremos
³ µω ´ 1 2
4 − µωx
hx|0i = e 2~ (6.144)
π~
Note que determinamos a função de onda do estado fundamental,
para determinar todas as autofunções de energia usaremos (6.137):
1
hx|ni = √ hx|(a† )n |0i
n!
µr ¶n µ ¶
1 µω ~ d n ³ µω ´ 14 − µωx2
=√ x− e 2~ (6.145)
n! 2~ µω dx π~
Essa equação é uma forma alternativa de obtermos as autofunções do
oscilador harmônico.
Podemos verificar que essas autofunções formam
q os polinômios de
µω
Hermite através da mudança de variável y = ~ x. Assim, a equação
(6.145) será
µ ¶
1 ³ µω ´ 41 d n − y2
hy|ni = √ y− e 2 (6.146)
2n n! π~ dy
Considerando o operador identidade
µ ¶ 2
− y2
2
d y d
e y− e2 =−
dy dy
µ ¶n 2
y 2
d y dn
e− 2 y − e 2 = (−1)n n
dy dy
o que simplifica o termo
µ ¶ µ ¶
d n − y2 − y2 y2 d n − y2
y− e 2 =e 2 e2 y− e 2
dy dy
µ ¶
2 2
− y2 y 2 − y2 d n y2 −y2
=e e e y− e2e
dy
y2 2 dn 2
= e− 2 ey (−1)n n e−y
dy
y2
= e− 2 Hn (y) (6.147)
25
Johann Carl Friedrich Gauss (1777–1855), matemático alemão.

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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“mq_notas-N” — 2009/5/5 — 21:48 — page 217 — #217


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6.8. Oscilador Harmônico 217

pois
2 dn −y2
Hn (y) = ey (−1)n e
dy n
são os polinômios de Hermite. Logo
1 ³ µω ´ 41 − y2
hy|ni = √ e 2 Hn (y) (6.148)
2n n! π~
como vimos na §3.8 do capítulo 3.
Propriedades estatísticas do oscilador quântico: Considerando
os operadores x e p, é fácil perceber por (6.133) e (6.134) que
hxi = hpi = 0 (6.149)
e ainda podemos expressar x2 e p2 pelas relações
2 ~ h 2 † 2 † †
i
x = a + (a ) + a a + aa (6.150)
2µω
e
~µω h 2 i
p2 = − a + (a† )2 − a† a − aa† (6.151)
2
Desse modo, quando procuramos determinar os valores esperados desses
dois operadores para um estado estacionário |ni do oscilador, os únicos
termos que dão contribuições não nulas são aqueles que envolvem os
produtos aa† e a† a. Os valores esperados serão expressos por
~
hx2 in = (2n + 1) (6.152)
2µω
e
~µω
hp2 in = (2n + 1) (6.153)
2
Com isso, no estado fundamental do oscilador, n = 0, temos
~ ~µω
hx2 i0 = , hp2 i0 = .
2µω 2
Segue-se que o valor esperado para a energia total do oscilador quântico,
no estado fundamental será
¿ 2À ¿ 2 2À
p µω x
hEi0 = +
2µ 0 2 0
~ω ~ω
= +
4 4
1
= ~ω
2

Mecânica Quântica

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218 Cap. 6 Dinâmica Quântica

Como o resultado previamente encontrado, aqui podemos que o valores


esperados da energia cinética e da energia potencial são dados pelo
teorema virial para a mecânica quântica.
Incertezas na posição e no momentum: No caso do oscilador
harmônico, as dispersões associadas a posição e ao momentum para
qualquer estado estacionário |ni, podem ser expressas pelas relações

h(∆x)2 in = hx2 in − hxi2n (6.154)

e
h(∆p)2 in = hp2 in − hpi2n (6.155)
como resultado,
· ¸1
£ ¤1 ~ 2
h∆xin = hx2 in − hxi2n 2 = (2n + 1)
2µω
e
· ¸1
£ 2
¤1 ~µω 2
h∆pin = hp in − hpi2n 2
= (2n + 1)
2
Para o estado fundamental, n = 0, teremos
· ¸1
~ 2
h∆xi0 =
2µω
e
· ¸1
~µω 2
h∆pi0 =
2
Essas duas relações podem ser usadas para obter a mínima incerteza
para a posição e para o momentum no estado fundamental do oscilador,
i.e.,
~
h∆xi0 h∆pi0 =
2
Para estados excitados do oscilador harmônico, n > 0, o produto acima
passa a ser µ ¶
1
h∆xin h∆pin = n + ~
2
mostrando que a relação de incerteza é sempre maior que aquela do
estado fundamental.

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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6.9. Evolução Temporal do Oscilador Harmônico 219

6.9 Evolução Temporal do Oscilador


Harmônico
De acordo com as equações de movimento de Heisenberg, temos
dp 1 ∂H
= [p, H] = − = −µω 2 x (6.156)
dt i~ ∂x
e
dx 1 ∂H p
= [x, H] = = (6.157)
dt i~ ∂x µ
Esse par de equações diferenciais acopladas é equivalente à duas equações
diferenciais não acopladas para a e a† ,
r s
µω~ d † ~
i [a − a] = −µω 2 (a + a† )
2 dt 2µω
d †
[a − a] = i ω(a + a† ) (6.158)
dt
e
s r
~ d † i µω~ †
[a + a] = (a − a)
2µω dt µ 2
d †
[a + a] = i ω(a† − a) (6.159)
dt
Logo,
da da†
= − i ωa e = i ωa† (6.160)
dt dt
cuja soluções são
a(t) = a(0) e− i ωt e a† (t) = a† (0) ei ωt (6.161)
Essas equações mostram que, tanto o hamiltoniano H quanto o oper-
ador número N não dependem do tempo, visto que o produto a† (t)a(t),
o tempo é eliminado. A dependência temporal para os operadores x e
p pode ser obtida usando as definições dos operadores a e a† , equações
(6.99) e (6.100), respectivamente. Assim,
i i
x(t) + p(t) = x(0)e− i ωt + p(0)e− i ωt (6.162)
µω µω
i i
x(t) − p(t) = x(0)e+ i ωt − p(0)e+ i ωt (6.163)
µω µω

Mecânica Quântica

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220 Cap. 6 Dinâmica Quântica

Igualando as partes hermitianas e não-hermitianas dessas equações sep-


aradamente, deduzimos
1
x(t) = x(0) cos ωt + p(0) sen ωt (6.164)
µω
p(t) = −µωx(0) sen ωt + p(0) cos ωt (6.165)

Essas equações apresentam a mesma forma que a equação clássica de


movimento do oscilador. No entanto, quando procuramos calcular os
valores esperados de hx(t)i e hp(t)i para qualquer estado |ni, o resultado
encontrado é nulo, i.e.,

hx(t)in = hp(t)in = 0

pois
hn|x(0)|ni = hn|p(0)|ni = 0
são resultados que estão de acordo com aqueles obtidos para o caso do
estado fundamental do oscilador quântico.

6.10 Estados Coerentes


Calculamos o valor médio da posição, hxi, nos estados estacionários
do oscilador harmônico e vimos até agora que esse valor é nulo, ou
seja, nenhuma oscilação! Estados estacionários não são apropriados para
comparar o sistema quântico com o análogo clássico. Para obter alguma
coisa semelhante a um pêndulo, devemos estudar pacotes de onda. Os
particulares pacotes de onda que vamos estudar agora se chamam esta-
dos coerentes. Os estados coerentes foram introduzidos por Glauber 26
e são largamente empregados no estudo da ótica e eletrônica quântica 27 .
Consideremos as autofunções do operador a. Como a não comuta com
H, as autofunções de a não serão, em geral, autofunções de H, ou seja,
não serão estados estacionários. Sejam então |αi funções tais que

a|αi = α|αi (6.166)

Como o operador a não é hermitiano, os autovalores α serão números


complexos quaisquer.
26
Roy Jay Glauber (1925– ), físico americano.
27
Para aplicações em física de laser, ver M. Sargent III, M. O. Scully and W. E. Lamb
Jr., Laser physics (1974).

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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6.10. Estados Coerentes 221

Lembremos que os estados estacionários podem ser escritos em ter-


mos do estado fundamental assim:

(a† )n
|ni = √ |0i (6.167)
n!

Vai ser importante para os cálculos que faremos, a seguinte quantidade:

1
hn|αi = √ h0|an |αi
n!
αn
= √ h0|αi (6.168)
n!

Vamos agora expandir |αi em estados estacionários


X
|αi = |ni hn|αi
n
X αn
= √ |ni h0|αi
n n!
X αn
= c0 √ |ni
n n!
X αn (a† )n
= c0 √ √ |0i
n n! n!
X (αa† )n
= c0 |0i (6.169)
n
n!

pois usamos o coeficiente c0 = h0|αi, naturalmente esse coeficiente é


determinado pela normalização de |αi. Logo,
X (α∗ )n X αm
1 = hα|αi = |c0 |2 h0|am (a† )n |0i
n
n! m
m!
X |α|2n
= |c0 |2 h0|an (a† )n |0i
n
(n!)2
X |α|2n ³√ ´2
= |c0 |2 n! hn|ni
n
(n!)2
X |α|2n
= |c0 |2 n!
n
(n!)2

Mecânica Quântica

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222 Cap. 6 Dinâmica Quântica

X |α|2n
= |c0 |2
n
n!
2 |α|2
⇒ |c0 | e =1 (6.170)

pois
X |α|n
= e|α|
n
n!
onde obtemos
|α|2
c0 = e− 2

Portanto, o estado coerente do oscilador harmônico quântico é


|α|2 X αn
|αi = e− 2 √ |ni (6.171)
n n!

Para obter a dependência temporal de |αi precisamos mostrar o resul-


tado geral: Seja H o hamiltoniano de um sistema físico, e sejam |ni suas
autofunções. Sabemos que
i
|n(t)i = |ni e− ~ En t

onde os En são os autovalores de H, ou seja, satisfazem as equações

H|ni = En |ni

Seja ψi um estado qualquer desse sistema, e


X
|ψi = an |ni
n

sua expansão nas autofunções de H no instante t = 0. Então para uma


tempo t posterior teremos
X i
|ψ(t)i = an |ni e− ~ En t (6.172)
n

Essa relação é de fácil demonstração, pois consiste em mostrar que |ψ(t)i


satisfaz a equação de Schrödinger.
Aplicando (6.172) em
|α|2 X αn
|αi = e− 2 √ |ni
n n!

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6.10. Estados Coerentes 223

temos
|α|2 X αn i
|α(t)i = e− 2 √ |ni e− ~ En t
n n!
|α|2 X αn
√ |ni e− ~ ~ω(n+ 2 )t
i 1
= e− 2

n n!
|α|2 X (α e− i ωt )n ω
= e− 2 √ |ni e− i 2 t (6.173)
n n!

Comparando esse resultado com (6.171), vê-se que


ω
|α(t)i = |α[α(t)] i e− i 2 t (6.174)

o índice α(t) é o autovalor de |αi em função do tempo que é igual

α(t) = α e− i ωt (6.175)

Agora podemos calcular o valor esperado de x e p no estado |α(t)i.

hxi = hα(t)|x|α(t)i = hα[α(t)] |x|α[α(t)] i (6.176)


hpi = hα(t)|p|α(t)i = hα[α(t)] |p|α[α(t)] i (6.177)

Das definições de a† e a obtém-se facilmente os operadores x e p


µ ¶1
~ 2
x= (a + a† ) (6.178)
2µω
µ ¶1
µ~ω 2
p = −i (a − a† ) (6.179)
2

Visto que a|α[α(t)] i = α(t)|α[α(t)] i e que hα[α(t)] |a† = α∗ (t)hα[α(t)] |, temos


µ ¶1
~ 2
hxi = hα[α(t)] |a + a† |α[α(t)] i
2µω
µ ¶1
~ 2
= (α(t) + α∗ (t))
2µω
µ ¶1
2~ 2
= <[α(t)]
µω
µ ¶1
2~ 2 £ − i ωt ¤
= < αe (6.180)
µω

Mecânica Quântica

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224 Cap. 6 Dinâmica Quântica

e
µ ¶1
µ~ω 2
hpi = − i hα[α(t)] |a − a† |α[α(t)] i
2
µ ¶1
µ~ω 2
= −i (α(t) − α∗ (t))
2
1
= (2µ~ω) 2 =[α(t)]
1 £ ¤
= (2µ~ω) 2 = α e− i ωt (6.181)

Note que do valor esperado hxi surgiu finalmente a oscilação procu-


rada! O valor médio da posição, nesse estado, oscila exatamente como
o previsto, i.e., a equação é similar ao caso clássico.
A energia média do oscilador é independente do tempo
µ ¶
2 1
hHi = ~ω |α| +
2

mas ainda temos


µ ¶
2 ~ £ ¤
hx i = 1 + (α(t) + α∗ (t))2
2µω
e µ ¶
2 µ~ω £ ¤
hp i = 1 − (α(t) − α∗ (t))2
2
Teremos então que os valores médios quadráticos de ∆H, ∆x e ∆p ficam
expressos por,

∆H = ~ω |α|
µ ¶1
~ 2
∆x =
2µω
µ ¶1
µ~ω 2
∆p =
2

Note que ∆x e ∆p não são dependentes do tempo, então o pacote de


onda retém um pacote de onda mínimo por todo o tempo, ou seja,
podemos dizer que os estados coerentes correspondem a uma pacote de
onda de mínima dispersão.

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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6.11. Equação de Onda de Schrödinger 225

6.11 Equação de Onda de Schrödinger


Vamos voltar a representação de Schrödinger e examinar a evolução
temporal do ket |ψ(t)i na representação de espaço de posição. Em outras
palavras, vamos estudar o desenvolvimento da função de onda

ψ(~r, t) = h~r|ψ(t)i (6.182)

como função do tempo, onde |ψ(ti) é o estado ket na representação de


Schrödinger em um tempo t, e h~r| é o vetor bra de posição independente
do tempo, com autovalor ~r. A hamiltoniana do sistema é dada por

~p2
H= + V (~r) . (6.183)

O potencial V (~r) é um operador hermitiano e na representação espaço


de posição
h~r0 |V (~r)|~ri = V (~r) δ 3 (~r −~r0 ) (6.184)
onde V (~r) é uma função real de ~r.
Para derivar a equação de Schrödinger, vamos partir da equação

i~ |ψ(t)i = H |ψ(t)i , (6.185)
∂t
multiplicando os dois lados pelo vetor bra, h~r|, temos


i~ h~r|ψ(t)i = h~r|H|ψ(t)i . (6.186)
∂t
Mas sabemos que
¿ ¯ 2¯ À µ 2¶
¯ ~p ¯ ~
~r ¯¯ ¯¯ ψ(t) = − ∇2 h~r|ψ(t)i
2µ 2µ
e
h~r|V (~r)|ψ(t)i = V (~r) h~r|ψ(t)i

onde no primeiro termo da última expressão, V (~r) é o operador e no


segundo termo da mesma expressão é o autovalor. Combinando esses
resultados na equação (6.186) teremos
µ 2¶
∂ ~
i ~ h~r|ψ(t)i = − ∇2 h~r|ψ(t)i + V (~r) h~r|ψ(t)i (6.187)
∂t 2µ

Mecânica Quântica

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226 Cap. 6 Dinâmica Quântica

na qual podemos reescrever a equação acima como


µ 2¶
∂ ~
i ~ ψ(~r, t) = − ∇2 ψ(~r, t) + V (~r) ψ(~r, t) , (6.188)
∂t 2µ
que é a equação de Schrödinger dependente do tempo.
Como sabemos se o estado inicial do sistema é o auto-estado de
energia, |ψ(0)i = |ϕn i, então
i
|ψ(t)i = e− ~ En t |ϕn i (6.189)
e dizemos que os auto-estados de energia formam o conjunto de estados
estacionários. Multiplicando essa expressão por h~r| em ambos os lados,
teremos
i
h~r|ψ(t)i = h~r|ϕn i e− ~ En t (6.190)
onde no sistema temos H|ϕn i = En |ϕn i e N|ϕn i = n|ϕn i simultanea-
mente. Assim, substituindo em (6.187) e cortando a parte exponencial
comum em todos os termos, teremos
µ 2¶
~
− ∇2 h~r|ϕn i + V (~r) h~r|ϕn i = En h~r|ϕn i (6.191)

como h~r|ϕn i = ϕn (~r) podemos reescrever a expressão acima como
µ 2¶
~
− ∇2 ϕn (~r) + V (~r) ϕn (~r) = E ϕn (~r) (6.192)

Essa é a conhecida equação de Schrödinger independente do tempo.
Com essa demonstração vimos que podemos escrever a equação de
Schrödinger na forma usual, i.e., da mecânica quântica ondulatória,
através da notação de Dirac, o que mostra sua equivalência. Podemos
ver as interpretações e aplicações dessas equações nos capítulos 2 e 3.

6.12 Comentários
Para esse capítulo, recomendo uma leitura detalhada em paralelo da
obra do Prof. Paul Dirac (1958) 28 . Um estudo poderá ser realizado com
os livros dos Profs. Cohen-Tannoudji et.al. (1977) 29 , Jun John Saku-
rai (1994) 30 , John Townsend (1992) 31 e A. Messiah (1970) 32 , o livro
28
P. A. M. Dirac, The principles of quantum mechanics, (1958).
29
C. Cohen-Tannoudji, B. Diu and F. Laloë, Quantum mechanics, (1977).
30
J. J. Sakurai, Modern quantum mechanics, (1994).
31
J. S. Townsend, A modern approach to quantum mechanics, (1992).
32
A. Messiah, Quantum mechanics, (1970).

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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6.12. Comentários 227

do Profs. Cohen-Tannoudji et.al. tem um trabalho muito interessante


sobre estados coerentes.
Uma excelente discussão sobre os estados coerentes também poderá
ser encontrada nos livros do Prof. Merzbacher (1998) 33 e do Prof. Wol-
ney Filho (2002) 34 .

33
E. Merzbacher, Quantum mechanics, (1998).
34
W. Wolney Filho, Mecânica quântica, (2002).

Mecânica Quântica

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Capítulo 7

Propagadores e Integrais de
Caminho de Feynman

Tomando como motivação os trabalhos originais de P. Dirac 1 sobre a


conexão entre a mecânica clássica e quântica, Richard Feynman 2 de-
senvolveu o conceito de integral de caminho para a teoria quântica,
assim a mecânica quântica foi praticamente reinventada de forma genial
e elegante nos anos 40 do século passado 3 .
Essa forma de desenvolver a mecânica quântica, diferente das versões
de Heisenberg e Schrödinger, oferece pontos de vista novos de muito
interesse e úteis. Hoje grande parte dos trabalhos realizados em teoria
quântica de campos e física estatística fazem uso desse formalismo.

7.1 Propagadores
Vamos iniciar escrevendo a amplitude de transição hx0 , t0 |x0 , t0 i para
uma partícula que inicialmente encontra-se no estado |x0 , t0 i (em um
tempo t0 ) e evolui para a posição |x0 , t0 i (num tempo posterior t). No
capítulo anterior, quando introduzimos o operador de evolução tem-
poral, nós ajustamos nosso relógio no estado inicial da partícula em
t = 0, e então consideramos a evolução para o tempo t. Aqui, o tempo
1
P. A. M. Dirac, Physikalische Zeitschrift der Sowjetunion, 3, 64 (1933);
P. A. M. Dirac, Reviews of Modern Physics, 17, 195 (1945).
2
Richard Philips Feynman (1918–1988), físico americano.
3
R. P. Feynman: The Principle of Least Action in Quantum Mechanics,
Ph.D. Thesis, Princeton University, May (1942); R. P. Feynman, Reviews of Mod-
ern Physics, 20, 367 (1948).

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230 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

inicial será t0 e a evolução temporal será para o intervalo t0 − t0 . Então


a amplitude de transição será dada por
i 0
hx0 , t0 |x0 , t0 i = hx0 |U(t0 − t0 )|x0 i = hx0 |e− ~ H(t −t0 ) |x0 i (7.1)
onde U(t0 −t0 ) é o operador de evolução temporal. O hamiltoniano, aqui
assumimos ser independente do tempo, é em geral função do momentum
e da posição, H = H(p, x). Em uma dimensão
p2
H= + V (x) . (7.2)

Uma vez conhecida a amplitude, podemos determinar como o estado
ket |ψi evoluí no tempo. Desde que podemos escrever o estado |ψi como
a superposição de autokets de posição |x0 i então
i 0
hx0 |ψ(t)i = hx0 |e− ~ H(t −t0 ) |ψ(t0 )i
Z ∞
i 0
= dx0 hx0 |e− ~ H(t −t0 ) |x0 i hx0 |ψ(t0 )i
Z−∞

= dx0 hx0 , t0 |x0 , t0 i hx0 |ψ(t0 )i (7.3)
−∞

A amplitude hx0 , t0 |x0 , t0 i que aparece dentro da integral (7.3), é freqüen-


temente chamada em mecânica ondulatória como kernel do operador
integral que representa o propagador das ondas mecânicas, do estado
inicial ao estado final.
Exemplos de propagador: Vamos calcular o propagador para uma
partícula livre. O hamiltoniano da partícula livre é dado por
p2
H= (7.4)

Inserindo um conjunto completo de estados de momentum
Z ∞
dp |pihp| = 1 (7.5)
−∞

em (7.1), teremos
µ ¶
Z ∞ p2
− ~i (t0 −t0 )
hx0 , t0 |x0 , t0 i = dp hx0 |e

|pi hp|x0 i
−∞
µ ¶
Z ∞ p2
− ~i (t0 −t0 )
dp hx0 |pi hp|x0 i e

= (7.6)
−∞

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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7.1. Propagadores 231

Usando
1 i
hx|pi = √ e ~ px (7.7)
2π~
vemos que
µ ¶
Z ∞ p2
1 i − ~i (t0 −t0 )
p(x0 −x0 )
hx0 , t0 |x0 , t0 i =

dp e ~ e (7.8)
2π~ −∞

Essa é uma integral Gaussiana 4 . Logo teremos,


r 0
0 0 µ i µ(x −x0 )
2~(t0 −t0 )
hx , t |x0 , t0 i = 0
e (7.9)
2π i ~(t − t0 )

Essa expressão é usada para um problema típico de evolução temporal


quando a partícula livre é representada por um pacote de onda Gaus-
siano e que se propaga como função do tempo.
Um segundo exemplo é o caso do oscilador harmônico, onde a função
de onda de um auto-estado de energia é dada por
µ ¶³ ¶ µr
1 µω ´ 41 − µωx2
µω
x e− i ω(n+ 2 )t
1
− ~i En t
ϕn (x) e = √ e 2~ Hn
2n/2 n! π~ h
(7.10)
o propagador, cuja prova é encontrado em livros de funções especiais
4
Uma integral Gaussiana é dada por
Z ∞ r
−ax2 π
I(a) = dx e =
−∞ a

Se tivermos Z ∞ 2
I(a, b) = dx e−ax +bx

−∞

podemos fazer
µ ¶2
b b2
ax2 − bx = a x − −
2a 4a
mudando de variável
b
x0 = x −
2a
teremos Z r

b2 02 b2 π
I(a, b) = e 4a dx0 e−ax = e 4a .
−∞ a

Mecânica Quântica

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232 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

como Morse (1953) 5 é dado por


r
µω
hx00 , t|x0 , t0 i =
2π i ~ sen [ω(t − t0 )]
·½ ¾n o¸
i µω 002 02 00 0
× exp (x + x ) cos [ω(t − t0 )] − 2x x
2~ sen [ω(t − t0 )]
(7.11)

Note que (7.11) é uma função periódica do tempo t com freqüência


angular ω, a freqüência do oscilador clássico. A idéia é que a partícula
que inicialmente está localizada em x0 retornará a sua posição de origem
quando t = 2π 4π
ω ( ω e assim por diante).
Notas sobre o Kernel : Do operador evolução temporal temos
i
|ψ(t)i = e− ~ H(t−t0 ) |ψ(t0 )i
X i
= |a0 iha0 |ψ(t0 )i e− ~ Ea0 (t−t0 ) (7.12)
a0

mas X i
h~x0 |ψ(t)i = h~x0 |a0 iha0 |ψ(t0 )i e− ~ Ea0 (t−t0 ) (7.13)
a0

Note que Z
0
ha |ψ(t0 )i = d3~x0 ha0 |~x0 ih~x0 |ψ(t0 )i (7.14)

usando (7.13) e (7.14), o desenvolvimento do estado inicial em ~x0 para


o estado final ~x00 será
Z X i
h~x00 |ψ(t)i = d3~x0 h~x00 |a0 iha0 |~x0 ih~x0 |ψ(t0 )i e− ~ Ea0 (t−t0 ) (7.15)
a0

onde X i
K(~x00 , t;~x0 , t0 ) = h~x00 |a0 iha0 |~x0 i e− ~ Ea0 (t−t0 ) (7.16)
a0

é o kernel do operador integral que representa o propagador. Algumas


propriedades importantes:

1. Para qualquer problema dado, o propagador depende somente do


potencial e é independente da função de onda inicial;
5
P. M. Morse and H. Feshbach, Methods of theoretical physics, (1942).

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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7.1. Propagadores 233

2. A evolução temporal da função de onda é completamente prevista


se K(~x00 , t;~x0 , t0 ) for conhecido e a função de onda ψ(~x0 , t0 ) for
dada inicialmente;

3. Se t > t0 , K(~x00 , t;~x0 , t0 ) satisfaz a equação de Schrödinger depen-


dente do tempo nas variáveis ~x00 , t com ~x0 , t0 fixos. Evidentemente,
de (7.16)
i
h~x00 |a0 i e− ~ Ea0 (t−t0 ) → U(t, t0 )|a0 i

4. limt→t0 K(~x00 , t;~x0 , t0 ) = δ 3 (~x00 − ~x0 )

Com essas propriedades, é fácil verificar que de (7.16) teremos


i
K(~x00 , t;~x0 , t0 ) = h~x00 |e− ~ H(t−t0 ) |~x0 i = h~x00 , t|~x0 , t0 i (7.17)

a última passagem se deve à (7.1). A equação (7.17) nada mais é do que


o operador de evolução temporal.
Finalmente, a solução geral para a evolução temporal da função de
onda será Z
ψ(~x , t) = d3~x0 K(~x00 , t;~x0 , t0 ) ψ(~x0 , t0 )
00
(7.18)

onde X
K(~x00 , t;~x0 , t0 ) = φa0 (~x00 ) e− i Ea0 t φ∗a0 (~x0 ) ei Ea0 t0
a0

é o kernel, núcleo, propagador de Feynman ou função de Green


do propagador de Feynman.
Como em mecânica quântica não relativista um sistema físico só se
propaga para o futuro, para satisfazer o princípio da causalidade de
Galileu 6 , devemos ter

K(~x00 , t;~x0 , t0 ) 6= 0 (t > t0 ) (7.19a)


00 0
K(~x , t;~x , t0 ) = 0 (t < t0 ) (7.19b)

Essas duas expressões podem ser escritas por intermédio de uma única
expressão, usando a função de Heaviside, definida em (3.11), i.e.
Z x ½
0 0 0 se x < 0,
η(x) = δ(x ) dx = (7.20)
−∞ 1 se x > 0.
6
Galileu Galilei (1564–1642), matemático e físico italiano.

Mecânica Quântica

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234 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

Desse modo
X
K(~x00 , t;~x0 , t0 ) = φa0 (~x00 ) e− i Ea0 t φ∗a0 (~x0 ) ei Ea0 t0 η(t − t0 ) (7.21)
a0

que satisfaz a equação de onda dependente do tempo


·µ 2 ¶ ¸
~ 00 2 00 ∂
− ∇ + V (~x ) − i ~ K(~x00 , t;~x0 , t0 ) = − i ~δ(~x00 −~x0 )δ(t−t0 )
2µ ∂t
(7.22)

7.2 Evolução da Amplitude de Transição


Para resolver a evolução da amplitude de transição hx0 , t0 |x0 , t0 i iremos
usar pequenos intervalos de tempo. Assim, dividiremos o intervalo de
0
tempo t0 −t0 em N intervalos iguais, cada um com a grandeza ∆t = t −t N .
0

Podemos tomar um número muito grande de intervalos, tal que N →


∞ e naturalmente ∆t → 0. Em intervalos de tempo muito pequeno,
podemos expandir a exponencial no operador de evolução temporal em
série de Taylor.

i i
e− ~ H∆t = 1 − H∆t + O(∆t2 ) (7.23)
~

onde os termos de ordem O(∆t2 ), incluindo ∆t2 e de ordem superiores,


podem ser ignorados sem complicações futuras. Assim,
· ¸
0 − ~i H∆t 0 i
hx |e |xi = hx | 1 − H∆t |xi
~
· µ ¶ ¸
0 i p2
= hx | 1 − + V (x) ∆t |xi (7.24)
~ 2µ

É fácil desenvolver a equação acima, desde que conhecemos o auto-


estado do operador posição e momentum

V (x)|xi = V (x)|xi

e
p|pi = p|pi .

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7.3. Integrais de Caminho de Feynman 235

Desse modo,
Z ∞ · µ ¶ ¸
0 − ~i H∆t 0 i p2
hx |e |xi = dp hx |pihp| 1 − + V (x) ∆t |xi
−∞ ~ 2µ
Z ∞ · ¸
0 i
= dp hx |pihp| 1 − E∆t |xi (7.25)
−∞ ~
onde a energia total, E, é dada por
p2
E(p, x) = + V (x) (7.26)

Agora, com o uso da energia total, podemos fazer o inverso (7.23)
i i
1 − E∆t + O(∆t2 ) = e− ~ E∆t (7.27)
~
Então, a amplitude de transição (7.25) será
Z ∞
i i
hx0 |e− ~ H∆t |xi = dp hx0 |pihp|xi e− ~ E∆t
−∞
Z ∞
1 i 0 i
= dp e ~ p(x −x) e− ~ E∆t
2π~ −∞
ou
Z ∞ · µ ¶ ¸
1 i (x0 − x)
= dp exp p − E ∆t . (7.28)
2π~ −∞ ~ ∆t

7.3 Integrais de Caminho de Feynman


Estamos preparados pra resolver a amplitude de transição hx0 , t0 |x0 , t0 i
em um intervalo de tempo finito. Novamente faremos uma divisão do
intervalo de tempo t0 − t0 por N intervalos iguais ∆t, com tempos
intermediários t1 , t2 , · · · , tN −1 . Então,
i i i
hx0 , t0 |x0 , t0 i = hx0 |e− ~ H∆t · · · e− ~ H∆t e− ~ H∆t |x0 i (7.29)

onde temos N vezes o produto de operadores de evolução temporal


i i
e− ~ H∆t · · · e− ~ H∆t . No próximo passo, vamos inserir um conjunto com-
pleto de estados de posição |xi i
Z ∞
dxi |xi ihxi | = 1 i = 1, 2, · · · , N − 1 (7.30)
−∞

Mecânica Quântica

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236 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

entre cada um desses operadores de evolução temporal


Z Z
0 0
hx , t |x0 , t0 i = dx1 dx2 · · ·
Z
i i
× dxN −1 hx0 |e− ~ H∆t |xN −1 ihxN −1 |e− ~ H∆t |xN −2 i · · ·
i i
× hx2 |e− ~ H∆t |x1 ihx1 |e− ~ H∆t |x0 i (7.31)

Analisando essa expressão da direita para a esquerda temos: a amplitude


de transição para a partícula na posição x0 em t0 chegar na posição x1
em t1 = t0 + ∆t, multiplicado pela amplitude de transição em que uma
partícula na posição x1 em t0 +∆t tem para chegar na posição x2 em t2 =
t0 +2∆t, e assim por diante. Essa seqüência termina com a amplitude de
transição de termos a partícula em x0 no tempo t0 partindo da posição
anterior xN −1 no tempo ∆t anterior. Note que estamos integrando sobre
todos os valores de x1 , x2 , · · · , xN −1 na equação (7.31). Assim, se
tomarmos ∆t → 0, estaremos efetivamente integrando sobre todos os
caminhos possíveis para alcançar a posição x0 em t0 quando partimos
da posição x0 em t0 . A Fig. 7.1 mostra os possíveis caminhos no plano
x − t para a partícula que saiu de x0 em t0 até chegar em x0 no tempo
t0 .

Figura 7.1: Amplitude sobre todos os caminhos possíveis.

Usaremos a expressão (7.28) para N amplitudes de transição


i
hxi+1 |e− ~ H∆t |xi i

em (7.31). Devemos ter o cuidado ao inserir os intervalos apropria-


dos para as posições inicial e final em cada caso. Se N → ∞, conse-
qüentemente ∆t → 0, podemos com certeza ignorar O(∆t2 ) para cada

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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i i
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7.3. Integrais de Caminho de Feynman 237

amplitude individualmente, a expressão para a completa amplitude de


transição é dada por
Z Z Z
dp1
hx0 , t0 |x0 , t0 i = lim dx1 · · · dxN −1 ···
N →∞ 2π~
Z ( N · ¸ )
dpN i X (xi − xi−1 )
× exp pi − E(pi , xi−1 ) ∆t
2π~ ~ ∆t
i=1
(7.32)

Em fato, (7.32) envolve tanto um número infinito de integrais de mo-


mentum como de integrais de posição. Felizmente para a hamiltoniana
p2
H = 2µ + V (x), cada integral de momentum é uma integral Gaussiana
do tipo Z ∞ r
b2
0 −ax0
2 b2 π
I(a, b) = e 4a dx e =e 4a ,
−∞ a
i ∆t i(xi −xi−1 )
com a = 2µ~ eb= ~ . Uma integral típica de momentum é dada
por
Z · ¸
dpi p2i ∆t pi (xi − xi−1 )
exp − i +i
2π~ 2µ~ ~
r " µ ¶µ ¶ #
µ i µ∆t xi − xi−1 2
= exp . (7.33)
2π i ~∆t ~ 2 ∆t

Depois de realizar todas as integrais em p, encontraremos


Z Z ³ ´N
µ 2
hx0 , t0 |x0 , t0 i = lim dx1 · · · dxN −1
N →∞ 2π i ~∆t
( N
" µ ¶ #)
i X µ xi − xi−1 2
× exp ∆t − V (xi−1 ) (7.34)
~ 2 ∆t
i=1

Para N → ∞, ∆t → 0, o argumento do expoente torna-se a definição


padrão de uma integral de Riemann 7
N
" µ ¶ # Z 0
i X µ xi − xi−1 2 i t
lim ∆t − V (xi−1 ) = dt L(x, ẋ)
N →∞ ~ 2 ∆t ~ t0
i=1
(7.35)
7
Georg Friedrich Bernhard Riemann (1826–1866), matemático alemão.

Mecânica Quântica

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238 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

onde µ ¶2
1 dx 1
L(x, ẋ) = µ − V (x) = µẋ2 − V (x) (7.36)
2 dt 2
é a lagrangiana usual da mecânica clássica 8 .
Finalmente, é conveniente escrever as integrais de posição em uma
notação mais compacta
Z x0 Z Z ³ ´N
µ 2
D[x(t)] = lim dx1 · · · dxN −1 (7.37)
x0 N →∞ 2π i ~∆t

no qual é um modo simbólico de indicar que a integramos sobre todos


os possíveis caminhos que conectam x0 e x0 . Então,
Z x0 i
hx0 , t0 |x0 , t0 i = D[x(t)] e ~ S[x(t)] (7.38)
x0

onde Z t0
S[x(t)] = dt L(x, ẋ) (7.39)
t0

é a ação para uma particular trajetória tomada pela partícula. A in-


tegral (7.38) é conhecida como uma integral funcional ou integral
de caminho de Feynman 9 . Na soma sobre todos os possíveis cam-
inhos, estamos realmente integrando sobre todas as possíveis funções
x(t) cuja condições de contorno são x(t0 ) = x0 e x(t0 ) = x0 . Mais tarde,
Kac 10 mostrou com rigor matemático que que usando o expoente real
é possível uma formula análoga à integral de Feynman 11 . Essa integral
funcional é muito importante em física estatística e na teoria dos proces-
sos estocásticos, e ficou conhecida como fórmula de Feynman-Kac.

7.4 Aproximação Semiclássica


Para obter a aproximação semiclássica das integrais de caminho segui-
remos o seguinte passo: Numa típica aproximação semiclássica, a ação
8
Para um estudo da lagrangiana e do princípio da mínima ação, ver Goldstein, Clas-
sical mechanics, (1980), ou o livro de Landau e Lifshitz, Mechanics, (1993).
9
Para um estudo detalhado da integral de caminho de Feynman, ver Feynman and
Hibbs, Quantum mechanics and path integrals, (1964).
10
Mark Kac (1914–1984), matemático polonês-americano.
11
M. Kac, Trans. Am. Math. Soc., 65, 1 (1949).

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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7.4. Aproximação Semiclássica 239

ao longo das trajetórias representada pelo kernel


Z x0 i
0 0 0 0
K(x , t ; x0 , t0 ) = hx , t |x0 , t0 i = D[x(t)] e ~ S[x(t)] (7.40)
x0

satisfaz á condição S~ >>> 1, e, para pequenas variações δx(t) das


trajetórias, a variação correspondente da fase será tal que δS ~ >>> 1,
de modo que as contribuições resultantes à integral de Feynman tendem
a se cancelar por interferência destrutiva. Como mostra a Fig. 7.2 a
interferência destrutiva só ocorre quando afastado da trajetória clássica,
xc (t), caso contrário haverá uma interferência construtiva na vizinhança
dessa trajetória clássica, tais que

Figura 7.2: Aproximação semiclássica.

Z t0
¡ ¢
δS [xc (t)] , x0 , x0 ; t = δ dt L = 0 (7.41)
0

pois nesse caso a fase é estacionária para pequenas variações δx(t) em


torno de xc (t). Como L é a lagrangiana clássica, a equação (7.41) é o
princípio de Hamilton, e naturalmente xc (t) liga os pontos (x0 , 0) e
(x0 , t0 ). A contribuição resultante à (7.40) deve ser proporcional a
i i 0
e ~ Sc = e ~ S([xc (t)],x ,x0 ;t) (7.42)

onde Sc é a ação clássica. Em geral, pode haver mais de uma trajetória


clássica ligando os pontos considerados, sendo de se esperar que a aprox-
imação semiclássica da integral de Feynman seja uma soma de termos
desse tipo.

Mecânica Quântica

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240 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

Considerando a situação análoga para a integral ordinária de uma


função de uma única variável,
Z b
i
K(~) = dx e ~ S(x) (7.43)
a

onde ~ é um parâmetro pequeno (~ → 0), de modo que a integral seja


rapidamente oscilante. A contribuição dominante deve vir da vizinhança
de um ponto de fase estacionária x̄,
¯
0 dS ¯¯
S (x̄) = = 0, (7.44)
dx ¯x=x̄

e suponhamos para simplificar que exista precisamente um ponto de


fase estacionária interno ao intervalo [a, b].
Para aproximar assintoticamente (7.43), expandimos a fase em torno
de x̄,
1 ¡ ¢
S(x) = S(x̄) + (x − x̄)S 0 (x̄) + (x − x̄)2 S 00 (x̄) + O (x − x̄)3 (7.45)
2
note que S 0 (x̄) = 0. Substituindo em (7.43), teremos
µ ¶
Z b i (x−x̄)3
i (x−x̄)2 S 00 (x̄)+O
S(x̄) 2~ ~
K(~) = e ~ dx e
a

√ i S(x̄) Z (b−x̄)/ ~ √
= ~ e~
i
dy e 2 S
00 (x̄)y 2 +O
(~)
(7.46)

−(x̄−a)/ ~

onde usamos a nova variável x−x̄


√ = y. Quando (~ → 0), os limites de
~
integração tendem a ±∞, e podemos aproximar K(~) usando a integral
de Fresnel 12 Z ∞ r
i(ax2 +bx) i π − i b2
dx e = e 4a
−∞ a
dando, s
2π~ i π
K(~) = e ~ S(x̄)±i 4 + O(~) (7.47)
|S 00 (x̄)|
onde, na equação acima o sinal + é para S 00 (x̄) > 0 e o sinal − é para
S 00 (x̄) < 0.
12
Augustin-Jean Fresnel (1788–1827), físico francês.

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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7.4. Aproximação Semiclássica 241

O método pode ser estendido a uma integral múltipla n-dimensional


Z Z
i
K(~) = ··· dx1 · · · dxn e ~ S(x1 ··· xn ) (7.48)

Se há apenas um ponto de fase estacionária (x̄1 , · · · , x̄n ) dentro do


domínio de integração, a expansão análoga à (7.45) é

n ¯
1 X ∂ 2 S ¯¯
S(x1 · · · xn ) = S(x̄1 · · · x̄n ) + (x − x̄i )(x − x̄j ) + · · ·
2 ∂xi ∂xj ¯x̄i ,x̄j
i,j=1
(7.49)
Substituindo em (7.48), obteremos no expoente uma forma quadrática
nas variáveis yi = x − x̄i . Por uma transformação linear, podemos
diagonalizá-la e reduzir o resultado13 a um produto de integrais de
Fresnel. Obtém-se assim14
n
(2π~) 2 i iπ
K(~) = 1 e ~ S(x1 ··· xn )+ 4
ν
(7.50)
|det D| 2

onde D é a matriz ¯¯ 2 ¯¯
¯¯ ∂ S ¯¯
D = ¯¯¯¯ ¯¯ (7.51)
∂xi ∂xj ¯¯ x̄i ,x̄j

de S no ponto de fase estacionária, e ν = P − N é a diferença entre o


número de autovalores positivos P e negativos N da forma quadrática
associada a D.
Para a integral de Feynman (7.40), o análogo da expansão (7.49) é a
expansão funcional da ação S em série de Taylor funcional em torno
de xc (t) que corresponde a uma trajetória clássica:
Z t0
1
S= dt L (x(t), ẋ(t)) = Sc + δ 2 S(xc ) + · · · (7.52)
0 2

onde o termo δS = 0 e a variação δ 2 S é um funcional quadrático na


variação
X(t) = δx(t) = x(t) − xc (t)
13
ver Bellman, Introduction to matrix analysis, (1960).
14
note que o det D é o produto dos autovalores.

Mecânica Quântica

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242 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

em torno da trajetória clássica, ver Fig. 7.2, teremos


Z (µ ¶ µ 2 ¶
t0
2 δ2L 2 δ L
δ S= dt X (t) + 2 X(t)Ẋ(t)
0 δx2 x=xc δxδ ẋ x=xc
µ 2 ¶ )
δ L
+ Ẋ 2 (t) (7.53)
δ ẋ2 x=xc

e as expressões entre parênteses são derivadas funcionais.


A aproximação semiclássica da integral de Feynman (7.40) será en-
tão
i
K(x0 , t0 ; x0 , 0) = e ~ Scl φ(t0 ) (7.54)

onde
¡ ¢
Scl = S [xc (t)] , x0 , x0 ; t

é a ação clássica pois apenas uma trajetória clássica contribui nesse


caso, e
Z x0
i 2
0
φ(t ) = D[x(t)] e 2~ δ S[xc (t)]
x0

tem uma interpretação física muito simples, pois podemos notar que
φ(t0 ) representa precisamente o efeito das flutuações quânticas em
torno da trajetória clássica.

7.5 Oscilador Harmônico


A lagrangiana para o oscilador harmônico em uma dimensão é dada por

1 1
L(x, ẋ) = µẋ2 − µω 2 x2 (7.55)
2 2
da equação de Lagrange, temos

∂L d ∂L
− =0 ⇒ ẍ + ω 2 x = 0 (7.56)
∂x dt ∂ ẋ
cuja solução é dada por

x(t) = A cos ωt + B sen ωt . (7.57)

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7.5. Oscilador Harmônico 243

Aplicando as condições de contorno, t = 0 e t = T


x(t = 0) = x0 = A (7.58)
x(t = T ) = xT = x0 cos ωT + B sen ωT
xT − x0 cos ωT
⇒B= (7.59)
sen ωT
Assim
xT sen ωt + x0 sen ω(T − t)
x(t) = (7.60)
sen ωT
xT ω cos ωt − x0 ω cos ω(T − t)
ẋ(t) = (7.61)
sen ωT
Então
Z T Z T µ ¶
1 2 1 2 2
Scl = dt L(x, ẋ) = dt µẋ − µω x
0 0 2 2
Z T · ¸
1 d 1 1
= dt µ (xẋ) − µxẍ − µω 2 x2
0 2 dt 2 2
Z T
1 µ ¯¯T
=− µ dt x[ẍ + ω 2 x] + xẋ¯
2 0 2 0
2
mas ẍ + ω x = 0, logo
µ
= [x(T )ẋ(T ) − x(0)ẋ(0)]
2
µ h xT ω x0 ω i
= (xT cos ωT − x0 ) − (xT − x0 cos ωT )
2 sen ωT sen ωT
µω £ 2 2
¤
= (xT + x0 ) cos ωT − 2x0 xT (7.62)
2 sen ωT
O fator de flutuação é definido pela parte flutuante da ação
Z T
(f l) µ³ 2 ´
S [X] = dt Ẋ − ω 2 X 2 (7.63)
0 2
e o cálculo explicito é dado pelas múltiplas integrais de caminho, com
N aproximações de infinitesimal dimensão ε. Então,
r N ·Z ∞ r ¸
N µ Y µ
φ (T ) = dXj
2π i ~ε −∞ 2π i ~ε
j=1
 
 i µ NX+1 h i 
× exp ε Xj −∂ (ε) ∂¯(ε) − ω 2 Xk (7.64)
~ 2 jk 
j,k=0

Mecânica Quântica

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244 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

Aqui usaremos os operadores ∂ (ε) e ∂¯(ε) definidos por


1
∂ (ε) x(t) ≡ [x(t + ε) − x(t)]
ε
1
∂¯ x(t) ≡ [x(t) − x(t − ε)]
(ε)
(7.65)
ε
no limite contínuo, teremos

lim ∂ (ε) x(t), ∂¯(ε) x(t) → ∂t


ε→0

Então, se esses operadores atuam como funções diferenciáveis


1
∂ (ε) xj ≡ (xj+1 − xj ) 0≤j≤N
ε
1
∂¯(ε) xj ≡ (xj − xj−1 ) 1≤j ≤N +1 (7.66)
ε
Em particular, eles satisfazem a regra de soma por parte na qual é
análoga a integração por partes
N
X +1 N ³
X ´
ε pj ∂¯(ε) xj = pj xj |N
0
+1
−ε ∂ (ε) pj xj (7.67)
j=1 j=0

Assim, temos alguns casos úteis:

1. Se xN +1 = x0 = 0 temos
N
X +1 N ³
X ´
pj ∂¯(ε) xj = − ∂ (ε) pj xj
j=1 j=0

2. Se p0 = pN +1 e x0 = xN +1 temos
N
X +1 N
X +1 ³ ´
pj ∂¯(ε) xj = − ∂ (ε) pj xj
j=1 j=1

Para funções cujos pontos extremos se anulam, das relações acima ter-
emos
N
X +1 ³ ´2 N
X +1 ³ ´2 N
X
∂¯(ε) xj = ∂ (ε)
xj =− xj ∂ (ε) ∂¯(ε) xj (7.68)
j=1 j=1 j=0

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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7.5. Oscilador Harmônico 245

que pode ser apresentado como uma matriz padrão


N
X N
X ³ ´
− xj ∂ (ε) ∂¯(ε) xj = − xj ∂ (ε) ∂¯(ε) xk
j=0 j,k=0

onde a matriz (N + 1) × (N + 1), com ∂ (ε) ∂¯(ε) , simétrico é dada por


 
2 −1 0 · · · · · · · · · 0
−1 2 −1 · · · · · · · · · 0
 
 0 −1 2 · · · · · · · · · 0
1  
 ..  (7.69)
∂ (ε) ∂¯(ε) = ∂¯(ε) ∂ (ε) = 2  ... ..
.
..
.
..
. . 
ε  
 0 · · · · · · · · · 2 −1 0
 
 0 · · · · · · · · · −1 2 −1
0 · · · · · · · · · 0 −1 2
Esse é obviamente a versão da derivada ∂t2 no limite contínuo.
Usando as componentes da expansão da integral de Fourier, em
que usamos a decomposição
Z ∞
x(t) = dω e− i ωt x(ω) (7.70)
−∞

vemos facilmente que as componentes de Fourier são autofunções das


derivadas discretas
i ∂ (ε) e− i ωt = Ωe− i ωt (7.71)
i ∂¯(ε) e− i ωt = Ω̄e− i ωt (7.72)
com os respectivos autovalores
i ¡ − i ωε ¢
Ω=e −1 (7.73)
ε
i¡ ¢
Ω̄ = − ei ωε − 1 (7.74)
ε
Esta claro que no limite contínuo
lim Ω, Ω̄ → ω
ε→0

isto é, ambos Ω e Ω̄ tornam-se autovalores de i ∂t . De (7.73) e (7.74)


vemos que Ω̄ = Ω∗ , tal que o operador −∂ (ε) ∂¯(ε) = −∂¯(ε) ∂ (ε) é real e
tem autovalores não negativos,
1
− ∂ (ε) ∂¯(ε) e− i ωt = [2 − 2 cos ωε] e− i ωt (7.75)
ε2

Mecânica Quântica

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246 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

ou seja
[2 − 2 cos ωε] ≥ 0
Voltemos agora a solução da equação (7.64), podemos escrever essa
equação como
r N ·Z ∞ r ¸
N µ Y µ
φ (T ) = dan
2π i ~ε −∞ 2π i ~ε
n=1
N
Y ½ ¾
iµ¡ 2
¢ 2
× exp Ωn Ω̄n − ω an (7.76)
~2
n=1

onde an são os coeficientes da expansão de Fourier de X(τ ).


Calculando essa integral teremos uma importante distinção para os
autovalores

2 1 h ³ πn ´i
Ωn Ω̄n − ω = 2 2 − 2 cos ε − ω2 (7.77)
ε T
do operador na exponencial do integrando da equação (7.76). Esse
poderá ser negativo para casos em que o intervalo de tempo (T = t − t0 )
seja suficientemente grande.
Primeiro, vamos considerar os autovalores inteiramente positivos. A
formula gaussiana nos dá
r N
µ Y 1
N
φ (T ) = q ¡ ¢ (7.78)
2π i ~ε ε2 Ωn Ω̄n − ω 2
n=1

introduzindo uma nova variável para a freqüência, ω


e , que satisfaz

εe
ω εω
sen =
2 2
o produto dos autovalores pode ser decomposto em resultados conheci-
dos para o fator de flutuação 15 . Assim,
N
à !
Y sen2 b 1 sen (2(N + 1)b)
1− 2 nπ = (7.79)
sen 2(N +1) sen 2b (N + 1)
n=1
15
Ver Gradshteyn and Ryshik, Table of integrals, series and products, (1980), for-
mula 1.391.1.

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7.5. Oscilador Harmônico 247


εe
ω
naturalmente, usando b = 2 , teremos
N N N
" ¡ ¢#
Y ¡ ¢ Y Y ε2 Ωn Ω̄n − ω 2
2 2 2
ε Ωn Ω̄n − ω = ε Ωm Ω̄m
n=1 m=1 n=1
ε2 Ωn Ω̄n
N N
à !
Y Y sen 2 εe
ω
= ε2 Ωm Ω̄m 1− 2
(7.80)
sen2 2(Nnπ+1)
m=1 n=1
Como resultado, chegamos em
N
¡ ¡ ¢¢ Y ¡ ¢ sen ωeT
det −ε2 ∂ ε ∂¯ε − ω 2 = ε2 Ωn Ω̄n − ω 2 = (7.81)
N sen εe
ω
n=1
e o fator flutuante total será
r r
N µ sen εe
ω
φ (T ) = (7.82)
2π i ~ ε sen ω eT
Esse resultado é válido para autovalores positivos, em particular para o
intervalo de tempo que satisfaz
π
T = (t − t0 ) <
ω
e
Se o intervalo de tempo T = t−t0 aumentar e ficar maior que ωπe , o menor
autovalor Ω1 Ω̄1 −ω 2 se torna negativo e a amplitude resultante carregará
π
um fator de fase extra e− i 2 que será válido até T = t − t0 tornar-se
maior que 2π e , onde o segundo autovalor se torna negativo também
ω e
− i π2
sendo necessário a introdução de um outro fator de fase e , e assim
por diante.
No limite contínuo ε → 0, o fator de flutuação será então
r r
µ ω
φ(T ) = (7.83)
2π i ~ sen ωT
Logo o kernel será,
i
K(xT , T ; x0 , 0) = hxT , T |x0 , 0i = e ~ Scl φ(T )
r
µω
=
2π i ~ sen ωT
½ ¾
i µω £ 2 2
¤
× exp (xT + x0 ) cos ωT − 2x0 xT
2~ sen ωT
(7.84)
que é a expressão da amplitude de evolução temporal para um oscilador
harmônico.

Mecânica Quântica

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248 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

7.6 Oscilador Harmônico Forçado


A lagrangiana de de um oscilador harmônico forçado pode ser dada por

1 1
L = µẋ2 − µω 2 x2 + J(t)x (7.85)
2 2

onde J(t) representa uma força externa dependente do tempo. Usando


as técnicas das seções anteriores podemos mostrar que o kernel resul-
tante é dado por
r
µω i
K= e ~ Scl (7.86)
2π i ~ sen ωT
onde o termo que aparece antes da exponencial vem da flutuação quân-
tica em torno da trajetória clássica, φ(T ), e Scl é a ação clássica para
esse oscilador dada por
µω £¡ 2 ¢
Scl = xT + x20 cos ωT − 2xT x0
2 sen ωT
Z
2xT T
+ dt J(t) sen ω(t − t0 )
µω t0
Z
2x0 T
+ dt J(t) sen ω(T − t)
µω t0
Z T Z t ¸
2 0 0 0
− 2 2 dt dt J(t)J(t ) sen ω(T − t) sen ω(t − t0 )
µ ω t0 t0
(7.87)

sendo T o tempo para deslocar da posição inicial x0 para posição fi-


nal xT . Esse resultado tem grande importância em muitos problemas
avançados, em particular quando aplicamos em eletrodinâmica quân-
tica devido o fato do campo eletromagnético ser representado como um
conjunto de osciladores harmônicos forçados.

7.7 Efeito Aharonov-Bohm


Vamos discutir se o potencial vetor A~ é um campo real ou apenas
uma conveniência matemática. A existência de A~ não nulo em regiões
~ ~
onde B = 0 indica que A é um campo real e que podemos testar
experimentalmente está afirmação. Classicamente não existe este efeito.

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7.7. Efeito Aharonov-Bohm 249

Entretanto Aharonov 16 e Bohm 17 fizeram uma descrição quântica para


uma partícula sensível à presença do potencial vetor A~ 18 .
Esse efeito constitui uma importante aplicação da equação (7.38) ou
(7.40) em particular da fase
i
e ~ S[x(t)]

O efeito Aharonov-Bohm que mostra um efeito físico direto do potencial


eletromagnético sobre elétrons quânticos (contrariamente aos elétrons
clássicos) pode ser testado experimentalmente. Um arranjo experimen-
tal para medir este efeito é apresentado na Fig. 7.3, onde elétrons são
emitidos de uma fonte para chegar ao detetor. Um obstáculo é colo-
cado de tal forma que o feixe de elétrons tomará o caminho C1 ou C2 ,
após esse obstáculo um solenoide que fica entre o caminho da fonte de
elétrons e o detetor. Existem certos cristais de ferro, que podem ser
feitos crescer sob a forma de filamentos muito alongados, microscopi-
camente finos, chamados fios de cabelo (ou bigode de gato), em inglês
whiskers, que, quando magnetizados, produzem campo magnético es-
tático concentrado no interior do cristal, mas praticamente nulo fora
do cristal 19 . Embora nesses pontos exteriores temos ~B = 0, existe neles
um potencial de calibre A ~ 6= 0.

Figura 7.3: Efeito Aharonov-Bohm - Arranjo Experimental

Quando os elétrons passam em torno do cristal não-magnetizado,


produz-se interferência como em um experimento de ótica. Quando
16
Yakir Aharonov (1932– ), físico israelense.
17
David Joseph Bohm (1917–1992), físico anglo-americano.
18
Y. Aharonov and D. Bohm, Physical Review, 115, 485–491 (1959).
19
A. Tonomura et al, Physical Review Letters, 48, 1443 (1982).

Mecânica Quântica

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250 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

magnetizamos o cristal da maneira indicada, há uma interação com


o potencial, e a imagem de interferência muda em relação à anterior.
Na equação (7.38) a fase na experiência sem campo magnético se
escreve
i i
F = e ~ S1 + e ~ S2
onde S1 e S2 correspondem às trajetórias alternativas tomadas C1 e C2 .
Quando o cristal é magnetizado, a S acrescenta-se a ação correspon-
dente à interação dada pela lagrangiana
µ ¶
1 2 ~v ~
L = µ~v − e φ −  A ,
2 c

e teremos:
i ie
R i ie
R
Aµ dxµ Aµ dxµ
F(A) = e ~ S1 e+ ~c 1 + e ~ S2 e+ ~c 2

Como a componente A0 = φ = 0, tem-se:


n i o
F(A) = e− ~c 1 A  d~x e ~ S1 + e ~ S2 − ~c ( 2 − 1 )A  d~x .
R R R
ie ~ i ie ~

Mas, a diferença das integrais dá a integral ao longo do contorno fechado


C que envolve o cristal:
µZ Z ¶ I
− A  d~x =
~ ~  d~x = Φ
A (7.88)
2 1 C

e esta integral Φ é o fluxo do campo magnético ~B encerrado pelo con-


torno, nulo fora do cristal. A amplitude F(A) dará lugar a uma inter-
~
ferência distinta da anterior e ela resulta da existência do potencial A
fora do cristal. Este potencial vetor, e não o campo magnético, é que
estabelece uma quantidade física, invariante de Lorentz, observada.
Se escrevermos o resultado de (7.88) em termos do campo mag-
nético, encontraremos
I
e ~  d~x
∆S = − A
~c C
Z
e ~B  d~S
= −
~c
e
= − Φ (7.89)
~c

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7.7. Efeito Aharonov-Bohm 251

O efeito Aharonov-Bohm forma a base de operação dos "SQUID"20 ,


na qual usa a interferência (supercondutora) de pares de elétrons pas-
sando através de uma estrutura "tipo anel" para detetar campos mag-
néticos extremamente pequenos.
SQUID: O dispositivo "SQUID" é formado por duas junções Joseph-
son 21em paralelo. A corrente I que entra no dispositivo é dividida em
duas componentes, que atravessam as duas junções Josephson na forma
de correntes de pares de elétrons. Neste caso, pode-se mostrar que a
dependência de cada corrente nas fases das funções de onda nos dois
lados resulta numa corrente que varia com o fluxo magnético Φ que
atravessa o contorno do circuito (efeito Aharonov-Bohm), na forma
µ ¶
Φ
I = I0 cos π
Φ0
h
onde Φ0 é o fluxo quântico dado por Φ0 = 2e . Esse resultado mostra
que quando o "SQUID" é submetido a um campo magnético, a corrente
varia periodicamente, passando por máximos consecutivos à medida que
o fluxo passa por múltiplos de Φ0 . Então, por meio de um circuito conta-
dor digital pode-se contar o número de máximos que a corrente atravessa
e assim determinar o fluxo final. Este aparelho é usado para medir cam-
pos magnéticos com grande sensibilidade e precisão. Os magnetômetros
de "SQUID" são utilizados rotineiramente em equipamentos científicos,
médicos e industriais.
Sumário: Podemos fazer um sumário do efeito Aharonov-Bohm da
seguinte forma:
1. O efeito Aharonov-Bohm é um fato experimental e um fenômeno
puramente quântico;
2. A interpretação física para o potencial vetor, que é um campo
de gauge, fundamenta a descrição de Dirac para os monopolos
magnéticos;
20
Superconducting QUantum Interference Device, desenvolvido em 1964 por
Arnold Silver, Robert Jaklevic, John Lambe e James Mercereau da Ford Research
Labs.
21
Brian David Josephson (1940– ), físico galês.
O efeito Josephson é um efeito físico que se manifesta pela aparição de uma cor-
rente elétrica que flui através de dois supercondutores fracamente interligados,
separados apenas por uma barreira isolante muito fina. Esta disposição é conhecida
como uma junção Josephson e a corrente que atravessa a barreira é chamada de
Corrente Josephson.

Mecânica Quântica

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252 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

3. Sem dúvida o efeito Aharonov-Bohm é um fator determinante


para o surgimento e progresso de novas áreas científicas como
por exemplo a magnetoencefalografia 22 , a pesquisa em explo-
ração mineral, a previsão de terremotos, estudos com a energia
geotérmica terrestre, desenvolvimento de tecnologia supercondu-
tora dentre outros. Além disso, existem estudos para detecção de
ondas gravitacionais utilizando-se SQUID’s 23 .

7.8 Monopolos Magnéticos


Ao longo do tempo, acreditava-se que a carga magnética, monopolos
magnéticos isolados, não tinha existência real, sendo apenas um con-
ceito auxiliar. Sua negação devia-se ao fato de não podermos separar
os pólos de uma barra imantada. Ampère 24 , em 1825, considerava a
corrente elétrica como sendo a única fonte do magnetismo. Finalmente
Maxwell, em 1873, rejeitou completamente a idéia de carga magnética.
Em 1931, Dirac desafia a idéia dominante e reabilita o conceito de
carga magnética 25 . Fazendo uso da simetria, Dirac reescreve as equações
de Maxwell, levando em conta uma densidade magnética de carga ρm e
uma densidade de corrente magnética ~Jm , na forma:
~  ~E = 4πρ
∇ (7.90a)
~  ~B = 4πρm
∇ (7.90b)
~
~ × ~E = − 4π ~Jm − 1 ∂ B
∇ (7.90c)
c c ∂t
~
~ × ~B = 4π ~J + 1 ∂ E
∇ (7.90d)
c c ∂t
Essas equações são conhecidas como equações de Maxwell-Dirac.
Um outro ponto importante, é o argumento de Dirac para a existên-
cia de um monopolo magnético, já que este ofereceria uma explicação
sobre a natureza discreta da carga elétrica.
As equações (7.90a)-(7.90d) mostram uma simetria entre ~E e ~B,
e são invariantes sob uma transformação global de dualidade. Se
22
www.if.ufrgs.br/ast/med/imagens/node21.htm
23
Explorer Gravitational Wave Antenna, http://www.roma1.infn.it/rog/explorer/
24
André-Marie Ampère (1775–1836), físico francês.
25
P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society of London, A133, 60
(1931); Physical Review, 74, 817 (1948).

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7.8. Monopolos Magnéticos 253

E denota qualquer quantidade elétrica, tais como ~E, ρ ou ~J, e M de-


nota qualquer quantidade magnética, tais como ~B, ρm ou ~Jm , então as
equações de Maxwell-Dirac são invariantes sob:
E → E cos θ + M sen θ
M → M cos θ − E sen θ (7.91)
Essa substituição é chamada transformação de dualidade. Apesar dessa
generalização das equações de Maxwell parecer perfeitamente plausível,
ela contém certas dificuldades que aparecem ao expressarmos o campo
magnético como o rotacional do potencial vetor:
~B = ∇ ~
~ ×A (7.92)
Para ver porque essa equação pode conduzir a dificuldades, vamos in-
tegrar a equação
~  ~B = 4πρm

sobre o volume de uma esfera que contém um monopolo magnético g.
Usando o teorema de Gauss, temos:
Z
~B  d~S = 4πg

isto é Z
∇ ~  d~S = 4πg
~ ×A (7.93)

Agora vamos considerar o lado esquerdo da equação (7.93). Podemos


~ ×A
calcular a integral de ∇ ~ sobre uma superfície esférica fechada, con-
siderando primeiramente um pequeno círculo de raio δ que forma uma
abertura sobre essa superfície esférica.
Agora faremos o limite δ → 0. Usando o teorema de Stokes 26 , a
~ A
integral de ∇× ~ sobre uma superfície esférica "aberta" é igual a integral
~
de A em torno desse pequeno círculo.
Z Z
∇ × A  dS =
~ ~ ~ ~  d~l
A (7.94)
δ→0
~ for livre de singularidades, então esse potencial
Se o potencial vetor A
se aproxima de uma constante quando δ → 0. Logo, o lado direito da
equação (7.94) se reduz então a
I
A  d~l = 0
~

26
George Gabriel Stokes (1819–1903), matemático e físico irlandês.

Mecânica Quântica

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254 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

isto é Z
∇ ~  d~S = 0
~ ×A (7.95)

O que contradiz a equação (7.93). Para resolver esse problema Dirac


~ r), qualquer superfície
considerou a existência de singularidades em A(~
fechada em torno de um monopolo magnético deve ter pelo menos um
ponto em que A ~ é singular de tal forma que a integral de linha de A~
em torno da singularidade nos dá 4πg quando δ → 0. Por exemplo, um
potencial singular ao longo do eixo ẑ é
µ ¶
~ r) = − g 1 n̂ ×~
r n̂ ×~r g
A(~ − = − cot θφ̂ (7.96)
r 2 r − n̂ ~r r + n̂ ~r r
onde n̂ = ẑ, e produz, para 0 < θ ≤ π, o campo magnético do monopolo,

~B(~r) = g ~r
r3
Esse potencial vetor tem uma linha de singularidades ao longo do semi-
eixo positivo z, onde θ = 0. Essa linha de singularidades é chamada de
linha de Dirac do monopolo.
Talvez a conseqüência mais importante da teoria dos monopolos
magnéticos seja a condição de quantização para a carga elétrica. Dirac
sugere que se existe monopolos magnéticos, esses poderiam ser descritos
estando na extremidade de um solenoide infinitamente fino carregando
o fluxo magnético igual aquele do monopolo. O solenoide tem compri-
mento semi-infinito partindo do monopolo e indo ao infinito ao longo
de um caminho arbitrário. O campo magnético produzido ao longo de
~ ×A
tal solenoide ∇ ~ é aquele produzido pelo monopolo ~Bmonopolo = g ~r3
r
mais o campo usual de um solenoide ~B0 , nesse caso infinitamente in-
tenso e contido dentro do solenoide, ver Fig. 7.4. Para observar somente
o campo do monopolo, devemos escrever
~Bmonopolo = ∇ ~ − ~B0
~ ×A

onde ~B0 existe somente dentro do solenoide. Ainda em seu trabalho,


Dirac descreve a interação de um elétron com o monopolo magnético,
é necessário que o elétron jamais "veja" o campo ~B0 produzido no
solenoide.
Na situação descrita acima, podemos usar a integral de caminho,
similar ao efeito Aharonov-Bohm, onde o solenoide será invisível ao

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7.8. Monopolos Magnéticos 255

Figura 7.4: Representação de um monopolo magnético

Figura 7.5: Caminhos ao redor da linha de Dirac

elétron, e esse poderá tomar o caminho 1 ou 2 ao redor do solenoide,


ver Fig. 7.5.
Em ordem que a interferência desses caminhos não seja afetada pela
presença da linha de Dirac, a fase relativa será um múltiplo de 2π. Essa
fase é I
e ~  d~x = − eΦ = − 4πeg
− A
~c C ~c ~c
Ajustando essa em 2πn, para que o movimento do elétron não seja

Mecânica Quântica

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256 Cap. 7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman

afetado pela presença da linha de Dirac, a carga elétrica será

2π~c ~c
e= n= n
4πg 2g

onde n = 0, ±1, ±2, · · · . Isto nos leva a seguinte relação:

ge 1
= n~ (7.97)
c 2

que é justamente a condição de quantização de Dirac. Esse resultado


leva à notável conclusão de que a carga elétrica é quantizada: para um
dado g, e é proporcional ao inteiro n.
Se temo e como carga do elétron e n = 1 na equação (7.96), encon-
traremos a unidade fundamental da carga magnética:

c~ 137
g= = e (7.98)
2e 2

Apesar da falta de evidência experimental conclusiva 27 , existem fortes


razões teóricas para a existência dos monopolos magnéticos. Estas decor-
rem de idéias gerais sobre a unificação das interações fundamen-
tais. Durante as últimas décadas, houve grandes avanços na compreen-
são das forças fracas e fortes entre as partículas elementares.
G. t’ Hooft 28 e A. M. Polyakov 29 mostraram que as teorias unificadas
contêm necessariamente partículas estáveis que possuem carga mag-
nética, isto é, monopolos magnéticos 30 . Essas aparecem como soluções
independentes do tempo com energia finita das equações não-lineares
dos campos. Portanto, a existência dos monopolos magnéticos é uma
consequência muito geral da unificação das interações fundamentais.
Ainda nesses trabalhos, t’ Hooft e Polyakov fazem uma estimativa pu-
ramente teórica para a massa de um monopolo magnético de 137 × mW ,
onde mW = 80 GeV/c2 é a massa dos W ± , assim 137 × 80 GeV/c2 =
104 GeV/c2 .
27
P. B. Price, E. K. Shirk, W. Z. Osborne and L. S. Pinsky, Physical Review Letters,
35, 487 (1975); Blas Cabrera, Physical Review Letters, 48, 1378 (1982).
28
Gerardus ’t Hooft (1946– ), físico holandês.
29
Alexander Markovič Polyakov (1945– ), físico russo.
30
G. t’ Hooft, Nuclear Physics, B79, 276 (1974); Physical Review Letters, 37, 8
(1976); A. M. Polyakov, JETP Letters, 20, 194 (1974).

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7.9. Comentários 257

7.9 Comentários
Para esse capítulo, recomendo uma leitura detalhada em paralelo do
livro de Feynman e Hibbs (1964) 31 . Um estudo sobre integrais de cam-
inho também poderá ser realizado com os livros de Jun John Sakurai
(1994) 32 , John Townsend (1992) 33 e Eugen Merzbacher (1998) 34 .
Uma excelente discussão sobre o efeito Aharonov-Bohm e monopolos
magnéticos poderá ser encontrado no livro do Prof. Jun John Sakurai
(1994).

31
R. P. Feynman and A. R. Hibbs, Quantum mechanics and path integrals, (1964).
32
J. J. Sakurai, Modern quantum mechanics, (1994).
33
J. S. Townsend, A modern approach to quantum mechanics, (1992).
34
E. Merzbacher, Quantum mechanics, (1998).

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Capítulo 8

Potenciais Centrais e
Momentum Angular

Trabalharemos aqui com o movimento de uma partícula em um espaço


ordinário tridimensional. Em seus trabalhos, Bohr encontrou a chave
para a teoria do movimento dos elétrons ao redor do núcleo e na pre-
sença de um campo de Coulomb, isto é a quantização do momentum
angular. Aqui detalharemos sua relevância para a classificação de níveis
de energia em sistemas de forças centrais através do estudo do mo-
mentum angular orbital usando a equação de Schrödinger e regras
dos operadores.

8.1 Momentum Angular Orbital

O momento angular orbital é uma quantidade importante para a análise


de problemas clássicos e quânticos que contém potenciais centrais, dado
que ele é uma quantidade conservada, desde que forças centrais não
produzam torque em relação a origem. O momento angular orbital é
definido por
~L = ~r × ~p (8.1)

sendo que essa expressão não apresenta problema de ordenamento em


Mecânica Quântica. As componentes do momento angular orbital ~L são

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260 Cap. 8 Potenciais Centrais e Momentum Angular

representadas por

Lx = ypz − zpy , (8.2)


Ly = zpx − xpz , (8.3)
Lz = xpy − ypx . (8.4)

~ o momentum angular torna-se um op-


Usando a definição ~p = − i ~∇,
erador diferencial
~L = − i ~~r × ∇
~ (8.5)
Fazendo uso das conhecidas regras de comutação

[xi , pj ] = i ~δij
[xi , xj ] = 0
[pi , pj ] = 0 .

podemos deduzir as relações de comutação entre as varias componentes


de ~L, começamos com o exemplo das seguintes relações auxiliares:

[Lx , y] = [ypz − zpy , y] = −z[py , y] = i ~z ,


[Lx , py ] = [ypz − zpy , py ] = [y, py ]pz = i ~pz , (8.6)
[Lx , x] = 0 , [Lx , px ] = 0 .

Podemos obter similares relações para todos as outras componentes


entre ~L e ~r e entre ~L e ~p. Logo,

[Lx , Ly ] = [Lx , zpx − xpz ] = [Lx , z]px − x[Lx , pz ]


= − i ~ypx + i ~xpy = i ~Lz . (8.7)

e por permutação cíclica (x → y → z → x) desse resultado,

[Ly , Lz ] = i ~Lx , [Lz , Lx ] = i ~Ly (8.8)

as quais podem ser resumidas usando-se o tensor de Levi-Civita,

[Li , Lj ] = i εijk ~Lk (8.9)

onde εijk é o tensor anti-simétrico de Levi-Civita 1 , as componentes 1, 2


e 3 representam x, y e z respectivamente. Como as componentes de ~L
1
As propriedades do tensor de Levi-Civita podem ser encontradas em vários livros
de Física matemática, como por exemplo, E. Butkov, Mathematical physics (1968).

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8.1. Momentum Angular Orbital 261

não comutam entre si, não há autofunções comuns dessas componentes,


i.e., em um sistema quântico, a medida de uma das componentes de ~L
essencialmente destrói o que era anteriormente conhecido sobre a outra
componente.
Outra propriedade importante é obtido quando definimos o quadrado
do momento angular orbital
~L2 ≡ ~L  ~L = L2 + L2 + L2 (8.10)
x y z

Assim, observamos que

[~L2 , Lz ] = [L2x + L2y + L2z , Lz ]


= Lx [Lx , Lz ] + [Lx , Lz ]Lx + Ly [Ly , Lz ] + [Ly , Lz ]Ly
= Lx (− i ~Ly ) + (− i ~Ly )Lx + Ly (i ~Lx ) + (i ~Lx )Ly
=0 (8.11)

A direção z não tendo nenhum privilégio, segue que:

[~L2 , Lx ] = [~L2 , Ly ] = 0 (8.12)

ou seja
[~L2 , ~L] = 0 (8.13)
Então, como as componentes de ~L comutam com ~L , esses operadores
2

podem ter auto-estados simultâneos. Ainda, através do uso da relação


(8.9) podemos ver facilmente que
~L × ~L = i ~~L . (8.14)

Finalmente, para uma partícula de massa µ que está em um estado


de função de onda ψ(~r) vamos executar uma rotação infinitesimal
por um ângulo δϕ sobre o sistema 2 . Em sua nova posição, a função de
onda será
ψ(~r + δ~r) = ψ(~r) + δ~r  ∇ψ(~
~ r)
onde
δ~r = δ~ϕ ×~r
desprezando-se os termos a partir dos quadráticos em |δ~ϕ|. Como
³ ´
(δ~ϕ ×~r)  ∇
~ = δ~ϕ  ~r × ∇
~

2
Equivalentemente, uma rotação −δϕ sobre o sistema de eixos em relação ao qual
o sistema é referido.

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262 Cap. 8 Potenciais Centrais e Momentum Angular

podemos escrever
³ ´
ψ(~r + δ~r) = ψ(~r) + δ~ϕ  ~r × ∇
~ ψ(~r)
h ³ ´i
= 1 + δ~ϕ  ~r × ∇ ~ ψ(~r)
· ³ ´¸
i
= 1 + δ~ϕ  ~r × (− i ~)∇ ~ ψ(~r) (8.15)
~

~
mas como ~p = − i ~∇
· ¸
i
ψ(~r + δ~r) = 1 + δ~ϕ  (~r × ~p) ψ(~r) (8.16)
~

e sendo ~L = ~r × ~p, teremos


µ ¶
i
ψ(~r + δ~r) = 1 + δ~ϕ  L ψ(~r)
~ (8.17)
~

Como ~L é hermitiano, e δ~ϕ infinitesimal

R(δ~ϕ) = 1 + δ~ϕ  ~L = e ~ δ~ϕ  L


i i ~
~
é o operador de rotação unitário, que atuando sobre a função de onda
de um sistema, produz a função de onda do mesmo, rodado de δ~ϕ. O
~
operador momentum angular L~ é chamado de gerador da rotação
infinitesimal.
Se temos uma rotação infinitesimal podemos afirmar que para uma
função arbitrária qualquer

i
δf = − δ~ϕ  ~Lf
~
Se essa função arbitrária for substituída por V (r)g, onde V (r) é a en-
ergia potencial para forças centrais e g uma outra função arbitrária,
obteremos pela rotação

δ[V (r)g(~r)] = V (r)δg(~r)

ou
i i
− δ~ϕ  ~L(V g) = − V δ~ϕ  ~Lg
~ ~

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8.2. Energia Cinética e Momentum Angular 263

Desde que δ~ϕ é um vetor arbitrário e g(~r) uma função arbitrária, con-
cluímos que
~LV (r) − V (r)~L = 0 (8.18)
ou seja, o momentum angular comuta com a energia potencial para
forças centrais. Se mostrarmos que ~L comuta com a energia cinética,
então provaremos que ~L é uma constante de movimento.

8.2 Energia Cinética e Momentum Angular


O operador ~L2 é útil para mostrar que a energia cinética comuta com
~L. Ao mesmo tempo as ferramentas necessárias para reduzir o problema
de força central para uma equivalente em uma dimensão. Em mecânica
quântica, devemos tomar
~L2 = (~r × ~p)  (~r × ~p)
= r2~p2 −~r(~r  ~p)  ~p + 2 i ~~r  ~p (8.19)
onde o termo do meio, na equação acima, é para ser entendido como
3 X
X 3
~r(~r  ~p)  ~p = ri rj pj pi
i=1 j=1

e os índices 1, 2 e 3 correspondem as componentes das coordenadas


cartesianas x, y e z dos vetores.
A componente do gradiente ∇f ~ na direção de ~r é ∂f ; então
∂r


~r  ~p = − i ~r
∂r
e conseqüentemente
2
~L2 = r2~p2 + ~2 r2 ∂ + 2~2 r ∂
∂r2 ∂r
ou µ ¶
~L2 = r2~p2 + ~2 ∂ r2 ∂ (8.20)
∂r ∂r
Desde que ~L e naturalmente ~L2 comutam com qualquer função ar-
bitrária de r, usaremos (8.20) para escrever a energia cinética
~L2 µ ¶
~p2 ~2 ∂ 2 ∂
T = = − r (8.21)
2µ 2µr2 2µr2 ∂r ∂r

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264 Cap. 8 Potenciais Centrais e Momentum Angular

Aqui faremos uso dessa relação fundamental entre energia cinética T e o


momentum angular ~L2 . Sabemos que ~L comuta com a derivada radial,
e é irrelevante se a derivação em r ocorreu antes ou depois da rotação.
Com isso temos que ~L e T comutam, e assim provamos que para forças
centrais
[H, ~L] = 0 (8.22)
Essa relação de comutação mostra que nesse caso o momentum angular
é uma constante de movimento.

8.3 Problema de Autovalores do Momentum


Angular
A solução explícita do problema de autovalores do momentum angu-
lar orbital é mais direta quando expressamos em ~L2 e Lz coordenadas
esféricas (r, θ, ϕ), ver Fig. 8.1. Neste sistema de coordenadas
z

qP
­
Á
­
r ­
­
­
θ ­
­
­
­ y
¡e
¡ e
¡ ϕe
¡ e
¡ e
¡ e
¡ e

¡

Figura 8.1: Sistema de coordenadas esféricas.

x = r sen θ cos ϕ
y = r sen θ sen ϕ
z = r cos θ

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8.3. Problema de Autovalores do Momentum Angular 265

o operador momentum angular orbital é dado por


~L = − i ~~r × ∇
~ (8.23)

onde
~ = r̂ ∂ + ϕ̂ 1


+ θ̂
1 ∂
(8.24)
∂r r sen θ ∂ϕ r ∂θ
Os versores do sistema de coordenadas esféricas estão relacionados com
os versores cartesianos usuais (ı̂, ̂, k̂) através de

r̂ = sen θ cos ϕı̂ + sen θ sen ϕ̂ + cos θk̂ (8.25a)


ϕ̂ = − sen ϕı̂ + cos ϕ̂ (8.25b)
θ̂ = cos θ cos ϕı̂ + cos θ sin ϕ̂ − sen θk̂ (8.25c)

Portanto, temos que


µ ¶
~ = − i ~ ϕ̂ ∂ − θ̂ 1 ∂
~L = rr̂ × (− i ~)∇ (8.26)
∂θ sen θ ∂ϕ

Esse forma mostra novamente que ~L comuta com qualquer função de r


e com qualquer derivada com respeito a r.
As equações (8.26) e (8.25) nos permite obter as seguintes expressões

µ ¶
∂ ∂
Lx = i ~ sen ϕ + cos ϕ cot θ (8.27a)
∂θ ∂ϕ
µ ¶
∂ ∂
Ly = i ~ − cos ϕ + sen ϕ cot θ (8.27b)
∂θ ∂ϕ

Lz = − i ~ (8.27c)
∂ϕ

e como ~L2 = L2x + L2y + L2z ,


· µ ¶¸
~L2 = −~2 1 ∂2 1 ∂ ∂
+ sen θ (8.28)
sen2 θ ∂ϕ2 sen θ ∂θ ∂θ

Substituindo as expressões acima no problema de autovalores do


momentum angular ~L2 , obtemos a seguinte equação diferencial
· µ ¶¸
1 ∂2 1 ∂ ∂
+ sen θ Y (θ, ϕ) = −λY (θ, ϕ) (8.29)
sen2 θ ∂ϕ2 sen θ ∂θ ∂θ

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266 Cap. 8 Potenciais Centrais e Momentum Angular

Essa equação diferencial parcial pode ser resolvida através do método


de separação de variáveis,

Y (θ, ϕ) = Θ(θ)Φ(ϕ) (8.30)

Quando substituímos (8.30) em (8.29), obteremos através de uma pe-


quena álgebra
· µ ¶ ¸
sen2 θ 1 d dΘ 1 d2 Φ
sen θ + λΘ = − = m2
Θ sen θ dθ dθ Φ dϕ2

indicamos uma separação de duas variáveis. Ambas deverão ser iguais a


uma constante m2 . Então deduzimos as equações diferenciais ordinárias,
µ ¶
1 d dΘ m2
sen θ − Θ + λΘ = 0 (8.31)
sen θ dθ dθ sen2 θ
d2 Φ
+ m2 Φ = 0 (8.32)
dϕ2

A solução de (8.32) pode ser expressa na forma

Φ(ϕ) = ei mϕ (8.33)

para m = 0, ±1, ±2, · · · , i.e., m deve ser um inteiro, positivo ou neg-


ativo. Na velha mecânica quântica, m foi chamado de número quân-

tico magnético. Tomando a forma explícita do operador Lz = − i ~ ∂ϕ
e voltando a usar Y (θ, ϕ), já que o operador Lz atua somente em ϕ
temos

Lz Y (θ, ϕ) = − i ~ Y (θ, ϕ)
∂ϕ

= − i ~Θ Φ
∂ϕ

= − i ~Θ ei mϕ
∂ϕ
= m~Y (θ, ϕ) (8.34)

Usando (8.28) e (8.34) temos


~L2 Y (θ, ϕ) = λ~2 Y (θ, ϕ) (8.35)
Lz Y (θ, ϕ) = m~Y (θ, ϕ) (8.36)

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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8.3. Problema de Autovalores do Momentum Angular 267

mostrando que Y (θ, ϕ) é autofunção simultânea dos operadores ~L2 e


Lz , com autovalores λ~2 e m~ respectivamente. Isso era esperado já
que [~L2 , Lz ] = 0.
Método Algébrico: Para a obtenção dos autovalores e autofunções
do momentum angular, usaremos a técnica dos operadores de abaixa-
mento e levantamento, definidos por

L− = Lx − i Ly (8.37)

e
L+ = Lx + i Ly (8.38)
respectivamente.
Com o uso desse operadores podemos verificar certas propriedades.
Vamos considerar primeiramente

L+ L− = (Lx + i Ly )(Lx − i Ly )
= L2x + L2y − i Lx Ly + i Ly Lx
= L2x + L2y + i[Ly , Lx ]
= L2x + L2y + L2z + ~Lz − L2z
= ~L2 + ~Lz − L2 z (8.39)

Similarmente
L− L+ = ~L2 − ~Lz − L2z (8.40)
Assim,
[L+ , L− ] = 2~Lz (8.41)

Ainda podemos obter outras importantes relações de comutação,


que são:

[Lz , L+ ] = ~L+ (8.42)


[Lz , L− ] = −~L− (8.43)

[~L2 , L+ ] = 0 (8.44)
[~L2 , L− ] = 0 (8.45)

Mecânica Quântica

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268 Cap. 8 Potenciais Centrais e Momentum Angular

Das equações (8.39) e (8.40), podemos escrever as seguintes relações


para o operador ~L2
~L2 = L+ L− − ~Lz + L2 (8.46)
z

e
~L2 = L− L+ + ~Lz + L2 (8.47)
z

Desde que [~L2 , Lz ] = 0, sabemos que Y (θ, ϕ) é autofunção simultânea


dos operadores ~L2 e Lz , com autovalores λ~2 e m~ respectivamente.
Definindo Y (θ, ϕ) = |λmi, i.e., a função Y (θ, ϕ) como um ket, temos
~L2 |λmi = λ~2 |λmi (8.48)
Lz |λmi = m~|λmi (8.49)

Aplicando o operador L+ nos dois lados da equação (8.49), temos

L+ Lz |λmi = m~L+ |λmi (8.50)

Mas
[Lz , L+ ] = ~L+ ⇒ L+ Lz = Lz L+ − ~L+
Portanto, da equação acima teremos

Lz L+ |λmi = (m + 1)~L+ |λmi (8.51)

Essa equação nos diz que L+ |λmi é uma nova autofunção do operador
Lz , pertencendo ao autovalor (m + 1)~. Note que L+ é um operador de
levantamento. Aplicando novamente L+ na equação acima, teremos

(L+ Lz )L+ |λmi = (m + 1)~L2+ |λmi


(Lz L+ − ~L+ )L+ |λmi = (m + 1)~L2+ |λmi
Lz L2+ |λmi = (m + 2)~L2+ |λmi (8.52)

É fácil notar que todas as vezes que aplicamos L+ em Lz |λmi, o auto-


valor de Lz aumenta em uma unidade de ~. Generalizando esses resul-
tados, para n aplicações dos operadores L+ e ~L2 , teremos

Lz Ln+ |λmi = (m + n)~Ln+ |λmi (8.53)

e
~L2 Ln |λmi = λ~2 Ln |λmi (8.54)
+ +

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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“mq_notas-N” — 2009/5/5 — 21:48 — page 269 — #269


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8.3. Problema de Autovalores do Momentum Angular 269

Analogamente, n sucessivas operações de L− sobre (8.49) diminuem


o autovalor de Lz em uma unidade de ~ para cada operação de L− .
Note que L− é o operador de abaixamento. Assim teremos
Lz Ln− |λmi = (m − n)~Ln− |λmi (8.55)
e
~L2 Ln |λmi = λ~2 Ln |λmi (8.56)
− −
Podemos então concluir que autofunções simultâneas dos operadores
Lz e ~L2 podem ser geradas, aplicando-se os operadores L− ou L+ sobre
|λmi. Porém existem limites inferior e superior para as aplicações dos
operadores de abaixamento ou de levantamento. Logo, para determinar
o número de vezes que os operadores L− e L+ podem ser aplicados nos
auto-estados |λmi, escrevemos
(~L2 − L2z )|λmi = (λ − m2 )~2 |λmi (8.57)
Como os operadores do momentum angular são hermitianos seus au-
tovalores são reais positivos. Então,
λ − m2 ≥ 0 ou λ ≥ m2 .
Como m pode ser positivo ou negativo, seus valores dever estar com-
preendidos entre um valor mínimo e um valor máximo, i.e.,
−lmin ≤ m ≤ +lmax
Assim, temos duas condições
L+ |λ m = lmax i = 0 (8.58)
e
L− |λ m = −lmin i = 0 (8.59)
Assim, |λ m = lmax i é o auto-estado associado ao mais alto autovalor
de Lz , i.e., m = lmax . Entretanto, |λ m = −lmin i é o auto-estado
associado ao mais baixo autovalor de Lz , i.e., m = −lmin . Sendo m e l
números inteiros, para um dado l, temos 2l + 1 valores para m. Usando
(8.46) e (8.47), teremos
~L2 |λ m = lmax i = (L− L+ + ~Lz + L2 )|λ m = lmax i
z
= (~2 lmax + ~2 lmax
2
)|λ m = lmax i
= ~2 lmax (lmax + 1)|λ m = lmax i
= ~2 λ|λ m = lmax i (8.60)

Mecânica Quântica

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270 Cap. 8 Potenciais Centrais e Momentum Angular

~L2 |λ m = −lmin i = (L+ L− − ~Lz + L2 )|λ m = −lmin i


z
= (~2 lmin + ~2 lmin
2
)|λ m = −lmin i
= ~2 lmin (lmin + 1)|λ m = −lmin i
= ~2 λ|λ m = −lmin i (8.61)

o que nos leva a escrever a seguinte relação

λ = lmax (lmax + 1) = lmin (lmin + 1) , (8.62)

o que implica lmin = lmax ou lmin = −(lmax + 1). Sendo l uma quanti-
dade positiva, descartamos a última condição, i.e., lmin = −(lmax + 1).
Então lmin = lmax = l e teremos

λ = l(l + 1) . (8.63)

Assim, vemos que −l ≤ m ≤ l. Sendo l um número inteiro, os possíveis


valores de m são

l, l − 1, l − 2, l − 3, · · · , −l + 2, −l + 1, −l

que são os 2l + 1 valores inteiros permitidos para m. Finalmente temos


os autovalores dos operadores ~L2 e Lz ,

~L2 |lmi = l(l + 1)~2 |lmi (8.64)


Lz |lmi = m~|lmi (8.65)

com o ket |lmi associado às funções harmônicas esféricas Ylm (θ, ϕ).

Representação Matricial do Operador Momentum Angular:


Assumindo que os kets |lmi são auto-estados ortonormalizados dos
operadores ~L2 e Lz , eles obedecem a relação

hl0 m0 |lmi = δl0 l δm0 m (8.66)

Assim, os operadores ~L2 e Lz são matrizes diagonais, com elementos


³ ´
~L2 = hl0 m0 |~L2 |lmi = l(l + 1)~2 δl0 l δm0 m (8.67)
0 0
l m ,lm

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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“mq_notas-N” — 2009/5/5 — 21:48 — page 271 — #271


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8.3. Problema de Autovalores do Momentum Angular 271

e
(Lz )l0 m0 ,lm = hl0 m0 |Lz |lmi = m~ δl0 l δm0 m (8.68)
Os elementos de matriz para os operadores de levantamento e abaixa-
mento, temos

L+ |lmi = C+ ~|l m + 1i (8.69)


L− |lmi = C− ~|l m − 1i (8.70)

então

hlm|L− = hl m + 1|C+ ~
e
hlm|L− L+ |lmi = |C+ |2 ~2 hl m + 1|l m + 1i
Mas

hlm|L− L+ |lmi = hlm|~L2 − Jz2 − ~Jz |lmi


= [l(l + 1) − m2 − m]~2 hlm|lmi

e concluímos que

|C+ |2 = l(l + 1) − m(m + 1) = (l − m)(l + m + 1)

similarmente
|C− |2 = (l + m)(l − m + 1)
Com esses resultados, teremos
p
(L+ )l0 m0 ,lm = hl0 m0 |L+ |lmi = (l − m)(l + m + 1)~ δl0 l δm0 m+1
(8.71)
e
p
(L− )l0 m0 ,lm = hl0 m0 |L− |lmi = (l + m)(l − m + 1)~ δl0 l δm0 m−1
(8.72)
que não são diagonais.
Das relações (8.37) e (8.38), temos os operadores Lx e Ly dados por

1
Lx = (L+ + L− ) (8.73)
2
e
1
Ly = (L+ − L− ) (8.74)
2i

Mecânica Quântica

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“mq_notas-N” — 2009/5/5 — 21:48 — page 272 — #272


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272 Cap. 8 Potenciais Centrais e Momentum Angular

Então
(Lx )l0 m0 ,lm = hl0 m0 |Lx |lmi
~ hp
= δl 0 l (l − m)(l + m + 1)~ δm0 m+1
2 i
p
+ (l + m)(l − m + 1)~ δm0 m−1 (8.75)
e
(Ly )l0 m0 ,lm = hl0 m0 |Ly |lmi
~ hp
= δl 0 l (l − m)(l + m + 1)~ δm0 m+1
2i i
p
− (l + m)(l − m + 1)~ δm0 m−1 (8.76)

onde, os elementos não nulos das matrizes de (Lx )l0 m0 ,lm e (Ly )l0 m0 ,lm
estão diretamente acima e diretamente abaixo da diagonal: (Lx )l0 m0 ,lm
é uma matriz simétrica e real, enquanto (Ly )l0 m0 ,lm é uma matriz
anti-simétrica e puramente imaginária.

8.4 Autofunções do Momentum Angular


Usando os resultados já encontrados, desenvolveremos explicitamente
as equações diferenciais para obter as soluções das autofunções do mo-
mentum angular. Sabemos, de (8.28) e (8.27c), que os operadores ~L2 e
Lz na forma de operadores diferenciais são
· µ ¶¸
~L2 = −~2 1 ∂2 1 ∂ ∂
+ sen θ
sen2 θ ∂ϕ2 sen θ ∂θ ∂θ

Lz = − i ~
∂ϕ
Naturalmente, usando o problema de autovalores de ~L2 , obtemos a
seguinte equação diferencial
· µ ¶¸
1 ∂2 1 ∂ ∂
+ sen θ Y (θ, ϕ) = −λY (θ, ϕ)
sen2 θ ∂ϕ2 sen θ ∂θ ∂θ
E através do método de separação de variáveis, Y (θ, ϕ) = Θ(θ)Φ(ϕ),
obteremos depois de uma pequena álgebra
· µ ¶ ¸
sen2 θ 1 d dΘ 1 d2 Φ
sen θ + λΘ = − = m2
Θ sen θ dθ dθ Φ dϕ2

ed. Reco-Reco 2008 lá quando

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“mq_notas-N” — 2009/5/5 — 21:48 — page 273 — #273


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8.4. Autofunções do Momentum Angular 273

Os dois lados deverão ser iguais a uma constante m2 . Assim temos as


equações diferenciais ordinárias, já apresentadas anteriormente.
µ ¶
1 d dΘ m2
sen θ − Θ + λΘ = 0 (8.77)
sen θ dθ dθ sen2 θ
d2 Φ
+ m2 Φ = 0 (8.78)
dϕ2
A solução de (8.78) é a conhecida
Φ(ϕ) = ei mϕ (8.79)
onde m = 0, ±1, ±2, · · · , como visto anteriormente.<