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João José Reis/ Revista de História 136 (1997), 153-155 153

REVISTA DE FFLCH-USP
HISTÓRIA Revista de História 136 1º semestre de 1997
1997

RISÉRIO, Antônio. Avant-garde na Bahia. São Paulo, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi,


1995. 259p.

Fundada em 1946, a partir da reunião de esco- O livro de Antônio Risério é sobre a passagem
las e faculdades isoladas, a Universidade Federal desses personagens por uma Bahia ainda sonolen-
da Bahia foi dirigida desta data até 1962 por Edgard ta em termos de sua economia, apenas recém-ani-
Santos, que projetou a instituição para além de seus mada pelo surgimento da Petrobrás, e entrevada em
muros, inclusive para além da Bahia. Não negligen- termos de suas estruturas sociais, mas parte de um
ciando o campo das ciências, o reitor entretanto país otimista pelo desenvolvimentismo, um Brasil
centrou fogo no campo das artes e humanidades: o visto com otimismo por estrangeiros que deixaram
teatro, a dança, a música, os estudos africanos, to- a Europa recém-saída da guerra - vinham de Por-
dos novidades no currículo universitário brasileiro tugal, Itália, Alemanha, Suíça, Polônia - para des-
de então. Para sua mini-revolução cultural, recru- cobrir terras onde achavam ser possível o máximo
tou gente de peso e de fora, o humanista Agostinho de realização pessoal e criação artística. As traje-
da Silva, o maestro Hans Koellreutter, o diretor tórias, as idéias e obras de alguns serão nesse livro
teatral Martim Gonçalves, a dançarina Yanka enfocadas com mais vagar, o caso de Agostinho da
Rudzka. Outros personagens seguiram a estes, Silva e o Centro de Estudos Afro-Orientais que fun-
como os músicos Ernest Wídmer e Walter Smetak, dou na UFBa; de Koellereutter à frente da Escola
os únicos que ficaram depois do reitorado de de Música; Lina Bo Bardi e seus museus de Arte
Edgard. Essas pessoas se encontraram com outras Moderna e Artes Populares; além do próprio reitor
vindas de fora e por fora da universidade, como Edgard Santos.
Pierre Verger e Lina Bo Bardi. Todos aqui encon- O reitor ganhou um capítulo próprio, onde apren-
traram gente de cultura, nativos que engrossariam demos por exemplo que ele entendia pouco de arte
o caldo daquela “Ilustração baiana”, como os an- e arquitetura, tinha uma concepção pobre sobre
tropólogos Thales de Azevedo e Vivaldo da Costa música erudita, enfim tinha uma cultura mediana
Lima e o crítico de cinema Walter da Silveira. face ao grande empreendimento cultural que conse-
Interagindo e aprendendo com muitos desses, e tra- guiu realizar na Bahia daquela UFBa. Mas era um
zendo suas próprias luzes, circulavam pela UFBa homem intuitivo, charmoso, que circulava com de-
os jovens Caetano Veloso, Gilberto Gil, Glauber sembaraço nas esferas do poder federal e conseguia
Rocha, Carlos Nelson Coutinho, Lia Robatto, Sér- verbas com relativa facilidade. Tendo governado a
gio Cardoso, entre outros. universidade durante dezesseis anos, certamente teve
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tempo para aperfeiçoar cada uma dessas qualidades. tendências da arquitetura (e ele discute essas tendên-
É possível que seu longo reinado explique em gran- cias no país de origem e as que ela aqui encontrou),
de parte o que conseguiu realizar. Um estudo sua expertise em desenho industrial (e ele explica
historiográfico que seguisse as “iscas e pistas” dei- longamente do que se trata aqui, do começo, o que é
xadas por Risério, poderia revelar mais de perto seus “desenho industrial”). Faz o mesmo com a música de
métodos, apreender melhor seu próprio aprendiza- vanguarda de Koelleheuter, com o humanismo aber-
do, identificar suas redes de apoio local e nacional. to de Agostinho da Silva. Enfim, contextualiza
Mas também revelar as forças que resistiram à sua longamente seus personagens no ambiente histórico-
obra e sobretudo a ação de seus convidados estran- social e no âmbito das idéias e práticas estéticas e
geiros. Nós aprendemos que estes tiveram de enfren- outras. Com isso escapa ao biografismo estéril e ao
tar “a mediocridade suburbana e a velhacaria paro- sociologismo inepto.
quial”, que aliás acabaram vencendo em 1962 quan- Há, no entanto, um desequilíbrio no tratamento
do o reitor caiu. Mas quem eram os medíocres e os dos vários personagens e suas obras. Lina Bo Bardi,
velhacos da Bahia? Os “mandarins culturais da pro- por exemplo, é mais detalhadamente tratada do que
víncia”? Que tipo de mediocridade, de velhacaria, os demais, talvez em função do próprio patrocínio
de “baixaria” a elite intelectual e outras elites da do livro, o Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, que o
velha Bahia aprontaram contra essa vanguarda cul- encomendou. Já o trabalho de Martim Gonçalves à
tural? Forças e faculdades ocultas. Risério optou por frente da Escola de Teatro é minimizado, o que fez
discutir os heróis, sem expor os malfeitores. Caetano Veloso corrigir o autor numa “Apresenta-
E com que abrangência discute seus heróis! Os ção” que escreveu para o livro. Neste texto, aliás,
quais, diga-se logo, não são vítimas de uma visão Caetano fala da sensação que lhe causou a leitura de
meramente deslumbrada do escritor. Risério mobili- Risério: “É como se eu não soubesse bem quem eu
za sua ampla formação humanística - que envolve era antes de lê-lo”.
história, sociologia, antropologia, crítica literária, li- Antônio Risério é marinheiro de muitas viagens,
teratura etc. - para um balanço crítico de seus perso- já escreveu diversos livros e artigos sobre temas da
nagens e da produção destes. Para entender Edgard, história cultural da Bahia e outros assuntos. Cito
discute o ambiente político e cultural dos anos trinta, Carnaval Ijexá (Corrupio, 1979), já um clássico
que teriam sido fundamentais para a formação do rei- sobre a reafricanização do Carnaval baiano; Caymmi
tor. Passeia pela Europa do pós-guerra para nos fazer (Perspectiva, 1993), uma biografia cultural do com-
entender a imigração de Agostinho, Lina, Hans. Avi- positor baiano; Textos e tribos (Imago, 1993), sobre
sa-nos, entretanto, que não é (e realmente não é) adep- a poética nos textos orais - textos “extra-ocidentais”
to de determinismos sociológicos ou históricos. O in- - indígenas e africanos. Este novo livro é um ensaio
divíduo conta e conta muito, a sensibilidade estética em história da cultura. Um belo ensaio, inteligente,
de cada um, suas opções políticas, suas razões ínti- informativo, polêmico, escrito de alguém que conhe-
mas, de ordem espiritual, de ordem afetiva. Sobretu- ce na intimidade nossa e outras línguas. Seu estilo
do a formação específica de cada um. Assim, para “ex- aliás é extraordinário. Ele brinca com a linguagem
plicar” a trajetória de Lina Bo Bardi conta a desilu- com rara desenvoltura. Cada parágrafo nos presen-
são pessoal com a Itália dos anos cinqüenta, que teia com tiradas luminosas, inovadoras - como bom
reconduziria ao poder velhas raposas políticas, mas (neo)barroco serpenteia sem a chatice da ornamen-
também sua formação profissional, sua inserção em tação pela ornamentação. As imagens, as metáforas,
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as palavras (algumas inventadas), não apenas expri- tese de Mestrado em Antropologia na UFBA, que
mem, explicam. Não gosto de algumas coisas: seus neste particular pareceu reencarnar o espírito inova-
longos parágrafos, seus parênteses também longos, dor de suas origens.
embora substanciais, que às vezes o faz (nos faz) Os limites do ensaísmo também se evidenciam
perder o foco e o fogo da questão tratada. Suas cita- neste livro, sobretudo em sua parca base documen-
ções também longas e recorrentes, que no entanto tal - que contrasta, insisto, com a ousadia interpre-
têm a virtude de revelar um intelectual de formação tativa do autor. Muitos aspectos ainda obscuros desse
abrangente (num universo cada vez mais de especi- tema fascinante poderiam ser melhor esclarecidos se
alistas), um escritor que reconhece e celebra a con- fontes primárias tradicionais - jornais, arquivos da
tribuição de seus pares para sua própria criação. UFBA, entrevistas - fossem recolhidas através da-
O ensaio é uma tradição dos nossos grandes in- quele trabalho paciente de peão da pesquisa. Melhor
telectuais - por exemplo Gilberto Freyre e Darcy talvez dizer, trabalho de garimpeiro. Mas ao termi-
Ribeiro - mas gênero que foi quase à extinção no nar a leitura deste ensaio fica a boa impressão de que
âmbito da produção universitária, especialmente o autor descobriu a mina, recolheu suas melhores
aquela gerada dentro dos programas de pós-gradua- pepitas - entre as quais está um encarte de fotos dos
ção. É uma pena, porque se o ensaio não aprofunda, personagens e do período - e, para conhecimento de
ele abre mais espaço à criatividade, o que sobra em todos, deixou o mapa da mina. E garante, diz com
Risério. Este livro, no entanto, foi originalmente uma todas as letras: tem mais ouro lá.

João José Reis


Depto. de História/Universidade Federal da Bahia