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Revista Brasileira de Ensino de Fı́sica, v. 26, n. 3, p.

i, (2004)
www.sbfisica.org.br

Editorial

Estamos avaliando bem os candidatos à docência no ensino superior?


Os dados oficiais do MEC indicam que há 50.000 dores das bases conceituais sobre as quais a disciplina
vagas não preenchidas de professores de Fı́sica no En- repousa.
sino Médio, em todo o paı́s. Todos os anos, os cur-
O primeiro e mais importante quesito a ser avali-
sos de licenciatura em Fı́sica formam pouco mais de
ado num concurso público para professor universitário
500 professores. Se supusermos mantida a situação
de Fı́sica é necessariamente o conhecimento das bases
atual, inclusive permanecendo vivos e trabalhando os
conceituais da Fı́sica, os conceitos mais fundamentais.
atuais e futuros professores, sem aposentadorias, daqui
a 100 anos ter-se-ia o número suficiente de profes- Destaquei a última frase num único parágrafo
sores de Fı́sica. Este dado é apenas uma caricatura porque, por incrı́vel que pareça, esta afirmação é con-
chocante da situação do ensino de Fı́sica em nosso paı́s, testada por vários colegas. Alega-se ser suficiente, num
fruto de equı́vocos acumulados há tempos na conduta concurso público, a avaliação da performance do can-
de sua polı́tica educacional, em vários apectos, entre didato como pesquisador, especificamente no tema a
outros, a valorização profissional, estı́mulo à formação que se dedica naquele efêmero instante da carreira.
continuada, padrão salarial digno, diminuição da carga Trata-se de uma interpretação equivocada, um perigo
didática excessiva sem prejuı́zo dos rendimentos. Com para todo o sistema universitário quando se reproduz
relação à polı́tica global, os professores universitários, no candidato, que se torna professor.
além de espernear, podem apenas investir na qualidade
Compete a nós, professores universitários de
de ensino dos cursos de licenciatura e participar de pro-
Fı́sica, introduzirmos a prática de avaliar o conheci-
gramas de formação continuada.
mento dos conceitos básicos nos concursos públicos
O ensino de Fı́sica universitário também se en- de nossas universidades, como quesito eliminatório.
contra em estado lastimável, e cabe a nós profes- A avaliação da performance do candidato nas ativi-
sores de Fı́sica no ensino superior a maior respon- dades de pesquisa propriamente dita é evidentemente
sabilidade. Não temos cumprido nossa função primor- necessária, e vem em seguida. Cabe aos colegas mais
dial de formar bons fı́sicos e/ou bons professores de imediatistas, ávidos de quadros especializados para
Ensino Médio. Por várias razões, entre elas sermos continuar seu próprio projeto de pesquisa, compreen-
avaliados profissionalmente apenas quanto à pesquisa der que isto só se consegue com bons profissionais, de
cientı́fica que produzimos, temos relegado a segundo formação ampla e completa. Faz parte da formação de
plano nossa principal função de formar pessoal qualifi- bons quadros profissionais sinalizar ao jovem ingres-
cado em Fı́sica. Com o passar do tempo, esta distorção sante na carreira qual a competência que dele se espera.
se auto-alimenta, se reproduz, o quadro já ruim se torna
Concursos com as idéias aqui alinhavadas já são re-
ainda pior. Nos concursos públicos de ingresso na car-
alizados em alguns bons Institutos/Departamentos de
reira de professor universitário, tenta-se “avaliar” os
Fı́sica em nossas universidades. Espero que se espa-
candidatos apenas pela pesquisa cientı́fica que seriam
lhem pelo paı́s.
capazes de produzir. Este tipo de “avaliação” não se
sustenta nem mesmo na hipótese absurda de se pre-
tender contratar um “bom apertador de parafuso” no Paulo Murilo Castro de Oliveira
laboratório de pesquisa experimental, ou um bom “cal- Professor Titular
culador” para atuar no formalismo teórico: não há bons I.F. da Universidade Federal Fluminense
pesquisadores em Fı́sica que não sejam bons conhece- Vice-Presidente da SBF

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