Você está na página 1de 6

Pós-modernismo e Pós-estruturalismo: semelhanças de família

Valteir Vaz1
“O sentimento de que não estamos destinados moldura conceitual
a completar o projeto da modernidade (a frase é “modernismo/vanguardismo”. E é exatamente
de Habermas) e de que nem por isso desse “fracasso” do modernismo que,
necessitamos cair na irracionalidade ou no frenesi segundo, Huyssen nasce o Pós-modernismo:
apocalíptico e o sentimento de que a arte não
persegue exclusivamente um telos de abstração, Eu diria que as artes contemporâneas – no
não-representação e sublimidade têm aberto um sentido mais amplo possível, quer se
leque de possibilidades para os esforços criativos autodenominem pós-modernistas ou rejeitem
atuais. De certo modo, isso altera nossa esse rótulo – já não podem ser consideradas
concepção do próprio modernismo. Em vez de uma nova fase na sequência dos movimentos
ficarmos atados a uma história unilinear da
modernista e vanguardista que começaram
modernidade que a interpreta como
em Paris nas décadas de 1850 e 1860 e que
desdobramento lógico em direção a um objetivo
imaginário, e portanto fundada numa série de mantiveram vivo um ethos de progresso
exclusões, começamos a explorar suas cultural e vanguardista até a década de 1960.
contradições e contingências, suas tensões e (Huyssen, op. cit. p.74)
resistências internas a seu próprio movimento
Mas embora o Pós-modernismo denuncie a
“para adiante”. O pós-modernismo está longe de
tornar o modernismo obsoleto. Pelo contrário, ele fragilidade do Modernismo em incorporar a
joga uma nova luz sobre o modernismo e se produção contemporânea em seu vasto
apropria de muitas de suas estratégias e técnicas repertório conceitual, denunciado
estéticas, inserindo-as e fazendo-as trabalhar em particularmente as dicotomias como
novas constelações” (Andreas Huyssen, “progresso versus reação, direita versus
“Mapeando o pós-moderno”. In: Hollanda, esquerda, presente versus passado, modernismo
Heloisa Buarque. Pós-modernismo e política. versus realismo, abstração versus representação,
Rio de Janeiro: Rocco, 1991, pp. 15-80). vanguarda versus kitsch.”(Huyssen, op. cit. p.74),
tão importantes para as pioneiras do auto
Modernismo, ele não rejeita o Modernismo por
completo, pois necessita da tensão gerada
A passagem acima é parte do ensaio
entre a tradição e a inovação, entre o novo e
“Mapeando o pós-moderno”, do crítico
o antigo. Segundo Huyssen:
Andreas Huyssen. Trata-se de um ensaio
longo dedicado a já bastante conhecida “A sensibilidade pós-moderna do nosso tempo é
polémica teórica entre Modernismo e Pós- diferente tanto do modernismo quanto do
modernismo. A tônica dominante do ensaio vanguardismo precisamente porque coloca a
recai nas tensões entre o Pós-modernismo questão da tradição e da conservação cultural
com o Modernismo e as Vanguardas como tema estético e político fundamental, (…).
Históricas. Particularmente no trecho citado, Porém, o que acho mais importante no pós-
modernismo contemporâneo é que ele opera num
se encontra um dos núcleos duros do ensaio
campo de tensão entre tradição e inovação,
ou, se quisermos, é justamente aí que reside conservação e inovação, culturas de massas e
a tese fundamental sobre a qual está grande arte (…).” (Huyssen, op. cit. p.74)
travejada a arquitetura discursa do ensaio,
qual seja, a de que as produções artísticas a A análise proposta por Huyssen, na qual a
partir os anos 1960 já não cabem mais na tensão entre as grandes dicotomias

1Licenciado em letras (Português e Inglês) pela Fundação Santo André (2006) e mestre em Teoria Literária e Literatura
Comparada pela USP (2012), com dissertação sobre a poética de Guimarães Rosa e sua confluência com o
Formalismo Russo. Atualmente realiza tese de doutorado sobre os romances Mar Paraguayo e Meu tio Roseno, a
cavalo, de Wilson Bueno, à luz dos conceitos de Semiosfera (Yuri Lotman) e Hibridismo romanesco (M. Bakhtin, H.
Bhabha e Robert C. G. Young), junto ao Programa de Literatura e Cultura Russa (USP). É professor de Língua
Portuguesa e Literatura da Escola Técnica Estadual Parque Belém do Centro Paula Souza.
modernistas é sua ponta de lança, nos permite A novidade do discurso proferido por Derrida,
mirar o Modernismo por um novo prisma; ou proclamado no auge do estruturalismo3
seja, trata-se de uma leitura à contrapelo da francês, consistia em questionar justamente
tradição modernista que denuncia suas as bases sobre as quais esse movimento
contradições internas e suas contingências estava erigido. Na perspectiva mais radical de
teóricas. Como diz o próprio crítico, “o pós- Umberto Eco, o pronunciamento do filósofo
modernismo está longe de tornar o modernismo equivale a nada menos que a “liquidação do
obsoleto. Pelo contrário, ele joga uma nova luz estruturalismo”4, particularmente aquele
sobre o modernismo e se apropria de muitas de praticado na academia francesa da década de
suas estratégias e técnicas estéticas, inserindo-as 1960, por teóricos como Claude Bremond,
e fazendo-as trabalhar em novas constelações.”
Gérard Genet e Tzvetan Todorov, para
(Huyssen, op. cit. p.75). Pensado por esse
ficarmos apenas no âmbito da análise da
ângulo, a proposta de Huyssen guarda
narrativa.
estreitas similaridades com o movimento pós-
estruturalista, particularmente na sua face As ideias apresentadas por Derrida tiveram
norte-americana e também com a filosofia notável aceitação em solo americano e logo
desconstrucionsia de Jacques Derrida. Os se espelharam pelo país, mas recebendo
desdobramentos da desconstrução na melhor acolhimento nos departamentos de
América, como por exemplo, os estudos sobre literatura de universidades, entre elas a
gêneros, sexualidade, etnias e a política do renomada Yale. Dessa forma, não demorou
pós-colonialismo também são aferíveis no muito para Derrida ser aclamado como o
ensaio de Huyssen, embora eles não os fundador de uma nova escola crítico-filosófico,
abordem de forma detida. a saber o Desconstrucionismo.
Como se sabe, em outubro de 1966, a Possivelmente uma das justificativas desse
Universidade Johns Hopkins, de Baltimore culto imediato da desconstrução nos Estados
(EUA), sediou o Colóquio Internacional sobre Unidos esteja ligada à tendência crítica que a
Linguagens Críticas e Ciências do Homem, antecedeu. Sabe-se que, entre 1920 e 1950,
que contou com a participação das mais floresceu nesse país o chamado New
ilustres figuras do pensamento teórico francês criticism, movimento crítico-literário que se
de então. Dentre os convidados estava o orientava, em suma, por uma leitura imanente
filósofo franco-argelino, Jacques Derrida, o (close reading) do texto literário, à cata de
antropólogo, Claude Lévi-Strauss, o linguista, suas ambiguidades, paradoxos, ironias e
Roland Barthes e o psicanalista, Jacques tensões. E nesse sentido, há uma
Lacan. Com destaque especial, a proximidade entre o New criticismo e a
comunicação apresentada por Derrida foi descronstrução, pois ambos prezam por uma
decisiva no evento: sua leitura do artigo “A prática meticulosas de leitura de textos da
estrutura, o signo e o jogo no discurso das tradição sejam eles literários ou filosóficos.
ciências humanas”2, que contém as ideias Mas, como também já apontou Leyla Perrone-
basilares do movimento que posteriormente Moisés, há também diferenças salutares entre
se denominaria “desconstrução”, estabeleceu ambas: “a diferença”, segundo a autora, “é que
novo rumo nos estudos literários daquele país o new criticismera estetizante e a-político, e a
assim como projetou novas perspectivas no desconstrução se coloca como uma prática
debate filosófico internacional. política, no sentido amplo da palavra.”5 Por outro

2 4
A comunicação foi posteriormente publicada como Eco, Umberto. A estrutura ausente. São Paulo:
ensaio em Derrida, Jacques. A escritura e a diferença. Perspectiva, 1971.
São Paulo: Perspectiva, 2009, pp.407-426. 5
Perrone-Moisés, Leyla. “Pós-estruturalismo e
3
Segundo referência do historiador do movimento desconstrução nas Américas”. In: Perrone-Moisés,
estruturalista francês, Françoise Dosse, 1966 é Leyla (org.). Do positivismo à desconstrução. São
considerado “o ano-luz” do movimento. Cf. Dosse, Paulo: Edusp, 2004, pp.225-226. Também para uma
Francoise. História do estruturalismo. Vol. I: O campo discussão apurada dos paralelos entre a
do signo. Bauru: Edusc. 2007. desconstrução e o New criticism, veja: Graff,
Gerald. Literature against Itself: literary ideas in
lado, o influente crítico francês, Antoine francês. Spivak fora muito influenciada pelas
Compagnon credita o culto a Derrida, que – ideias de Derrida e se diz uma continuadora
diga-se de passagem – foi muito mais lido e das ideias do mestre francês, embora a esse
estudado nas Américas do que na própria respeito as opiniões se divirjam6.
França, a um interesse sempre vivo mantido
Embora uma definição precisa do que venha
pelos norte-americanos pelo pensamento
a ser precisamente desconstrução não seja
teórico francês (French theory).
possível, pois a própria noção de
Também não seria exagero afirmar que a conceituação lhe seja algo alheio, podemos
aceitação das ideias de Derrida, nos Estados elencar algumas características que
Unidos, deve-se muito ao trabalho de exímios comumente lhe são atribuídas. Atentos aos
interpretes e continuadores que ele encontrou propósitos deste ensaio, escolhemos a
neste país. Desde que o filósofo estabeleceu passagem seguinte por ela particularmente
suas visitas anuais à Universidade de Yale, apresentar estreito paralelo com as ideias de
logo se estabeleceu o que se denominou Andreas Huyssen:
Escola de Yale, ou mais pejorativamente
“Derrida afirmou que o pensamento ocidental e,
“Máfia de Yale”, e sua fama não parou de em especial, a filosofia haviam se baseado na
crescer. Entre seus discípulos mais notáveis noção binária implícita na lei da lógica. Nossos
está o belga radicado nos EUA, Paul De Man, conceitos definidores dependiam dessa oposição.
e os americanos, Geoffrey Hartman, Hillis Uma sentença era verdadeira ou falsa. Uma coisa
Miller e, em certa medida, parte dos trabalhos estava viva ou morta. Uma localização era dentro
mais antigos de Harold Bloom. Quanto a De ou fora, alta ou baixa, acima ou abaixo, à esquerda
Man, um dos professores mais queridos e ou à direita. E por aí seguia: positivo/ negativo,
admirados de seu tempo, talvez ele não seja bem/ mal, geral/ particular, mente/ corpo,
necessariamente um discípulo de Derrida. Em masculino/ feminino – assim era como deveríamos
verdade, a obra de ambos foi desenvolvida e classificávamos nossa experiência, afim de dar
a ela um sentido.” (Strathern, p.30)
paralelamente. Para Rorty: “se Derrida nunca
tivesse existido ou nem mesmo chegado a ser
conhecido nos EUA, os discípulos de De Man
seguramente teriam formado uma escola similar, Uma característica óbvia, evidente tanto na
apesar de que essa provavelmente tivesse desconstrução de Derrida como na proposta
nascido com outra etiqueta, diferente de de leitura da produção contemporânea de
“desconstrução”. Outra ligação importante Huyssen, é que ambas não podemos mais
entre Derrida e De Man e o subsequente operarem por exclusão; tanto uma como a
destino da desconstrução nas Américas, foi a outra só são possíveis se houver o abandono
orientação, por parte deste último, dos de tais dicotomias contrastivas que eram uma
primeiros trabalhos da mais ilustre teórica dos das molas propulsoras do estruturalismo. Para
chamados “Estudos pós-coloniais”, Gayatri ambas as teorizações o significado de algo
Chakravorty Spivak. Indiana de Calcutá, nasce da relação entre partes e não mais da
Spivak, sob a influência e tutela de De Man, exclusão. Em outras palavras, o processo de
traduziu para o inglês Of Grammatology (De la significação de um termo depende do
gramatologie) de Derrida. Na apresentação significado do outro. Para usarmos uma
desta obra, a tradutora redigiu um longo e expressão do filósofo Richard Rorty, tanto a
influente prefácio de mais de oitenta páginas, teorizaração de Huyssen como a de Derrida
repetindo assim um gesto do próprio Derrida são “antifundacionsita”, a primeira por
quando da sua tradução de “A origem da localizar o horizonte estético contemporâneo
geometria” de Edmund Husserl para o num campo de tensão que elimina “o

modern society. Chicago: Chicago University Press. 6


Cf. Perrone-Moisés, Leyla. “Desconstruindo os
1979 e também, do mesmo autor, Professing estudos culturais”. In: Vira e mexe nacionalismo:
literature: an institutional history. Chicago: Chicago paradoxos do nacionalismo literário. Veja também
University press, 1987. Eagleton, Terry. “Gayatri Spivak” in: Figures of dissent.
Verso: London/ New York. 2005, pp. 158-167.
sentimento de que a arte não persegue um (Huyssen, op. cit. p.75). Para T.S Eliot:
exclusivamente um telos de abstração, não- “Nenhum poeta e nenhum artista de qualquer
representação e sublimidade” (…). (Huyssen, op. ofício produz sentido integral sozinho. Seu
cit. p.75) e a segunda por desnudar, por meio significado é a apreciação de sua relação com os
de uma prática meticulosa de leitura (close poetas e artistas mortos. Não se pode prezar um
reading), certas aporias sobre as quais estaria artista sozinho; deve-se confrontá-lo, por contraste
erigido o pensamento metafisico ocidental. ou comparação, com os motos. Não se trata
meramente de historicismo ou criticismo.
Se considerarmos a desconstrução uma Considero isso um princípio da estética.” (Eliot,
característica do Pós-estruturalismo norte- T.S. p.39)
americano, como já fora defendido7, não faz
A valorização do fato artístico para Eliot é
sentido a afirmação de Huyssen de que “a
relacional, pois o novo artista criador – no
distância entre os discursos críticos da nova crítica
(new criticism) e do pós-estruturalismo (uma caso o poeta –, na intenção de entrar para o
constelação pertinente nos Estados Unidos mas seleto clube chamado tradição, terá sempre
não na França) não é idêntica às diferenças entre sua obra relacionada com os mestres do
modernismo e pós-modernismo.” (Huyssen, op. passado e poderá ou não alteração nossa
cit. p.60) O fato é que a nova crítica, como visão da tradição. Desta maneira a tradição,
sugerido anteriormente, em certo sentido, ou aquilo que já está temporariamente
preparou o terreno para o florescimento do estabelecido, não poderá ser considerado
pós-estruturalismo, e, visto por esse ângulo, algo obsoleto, livre de qualquer juízo crítico
os dois movimentos não podem ser tratados vindo do presente. Pois ela (a tradição)
como “distantes” mas, de certa forma, como também vive na dependência do devir da
uma continuação. O pós-estruturalismo produção contemporânea. A tradição e o
amplia o horizonte da nova crítica, pois passa, talento individual de Eliot, assim como o
particularmente, da análise da obra de arte Modernismo e o Pós-modernismo de
literária, para outros domínios da filosofia e da Huyssen, residem no campo de força entre
sociologia. Por essa razão, as análises e suas respectivas partes constitutivas, e não
conceituações de ilustres figuras do pós- conhecem, portanto, formalizações decisivas,
estruturalismo como o próprio Derrida e Paul para usarmos uma expressão de Mikhail
de Man são, em certa medidas, tributárias, por Bakhtin, trata-se de uma “totalidade aberta”.
exemplo, das conquistas de críticos literários
Huyssen, nas linhas finais, do ensaio em
como o inglês William Empson, com seu 7
questão, arrola quatro fenômenos que ele
types of ambiguity, que tanto influenciou os
considera constitutivos da cultura pós-
novos críticos americanos, e T.S Eliot.
modernista. Dentre os quatro seleciono dois
Quanto a obra de T.S Eliot, é possível que gostaria de associá-los aos
vislumbrar um estreito paralelo entre o seu desdobramentos do pós-estruturalismo norte-
famoso ensaio “Tradição e talento individual”, americano. Trata-se das afirmações de
texto basilar para compreensão da proposta Huyssen de que “o movimento de mulheres tem
do New criticism, e a proposta analítica da levado a algumas mudanças significativas da
produção contemporânea ou pós-modernista estrutura social e das atitudes culturais (…).
de Andreas Huyssen. Diz Huyssen que “O pós- (Huyssen, op. cit. p.78) e de que a “crescente
modernismo está longe de tornar o modernismo consciência de que outras culturas não-europeias,
obsoleto. Pelo contrário, ele joga uma nova luz não-ocidentais, devem ser abordadas por meios
sobre o modernismo e se apropria de muitas de
suas estratégias e técnicas estéticas, inserindo-as
e fazendo-as trabalhar em novas constelações.”

7
Lucia Santaella, no ensaio “Pós-moderno & quando visitei os Estados Unidos, em maio-junho de
semiótica” declara: “Ora, a onda desconstrucionista, 1985. A conclusão óbvia que se pode extrais disso é
na América, coincidiu com a efervescência dos que desconstrução ou pós-estruturalismo e pós-
debates sobre o pós-moderno. Era essa composição moderno são uma só e mesma coisa, ou, no mínimo,
que borbulhava por todos os seus pontos cardeais, que se trata de fenômenos muito similares.”
(Santaella, 1994: 31)
que não os da conquista e da dominação (…). ocidental, o que ela denomina de “violência
(Huyssen, op. cit. p 79)8 epistêmica” do colonialismo e do imperialismo
O que Huyssen chama de “movimento de europeus. O colonialismo, segundo ela,
mulheres” é denominados, nos dias de hoje, procurou mascarar com sua “missão
denominado, na academia norte-americana civilizadora” estratégias de exploração e de
de gender studies e tem na figura de Judith dominação por parte de grandes potências
Butler sua representante mais proeminente. europeias como França e Inglaterra. Essas
Em seu já clássico Problemas de gênero, características, diga-se de passagem,
Butler explora as categorias fundacionais do Huyssen as identificam como do “cultura da
conceito de sexo, desejo e gênero, tomando modernidade esclarecida” e atribui a Adorno e
como conceito operatório a noção de Horkheimer, já nos anos de 1940, seus
“genealogia”, desenvolvida por Nietzsche e teóricos pioneiros. No livro citado, Spivak
levada a cabo por Foucault, esse último – também analisa (e nesse ponto, mais que em
segundo esta crítica – um pós-estruturalista. qualquer outro, é latente o paralelo com as
Apoiada nesse conceito, Butler recusa-se a formulações de Huyssen sobre o pós-
buscar as origens do gênero, “a verdade intima modernismo) como durante as últimas
do desejo feminino, uma identidade sexual décadas esses processos de exploração e
genuína ou autêntica que a repressão impede de dominação têm sido renovados no interior do
ver; invés disso, ela investiga as apostas políticas, pós-modernismo por meio de uma agressiva
designando como origem e causa categorias de globalização econômica e de um
identidade que, na verdade, são efeitos de cosmopolitismo político epistemológico de
instituições, práticas e discursos cujos pontos de face liberal.
origem são múltiplos e difusos.”(Butler, op. cit. p.
9). Como bem esclarece Huyssen, a história
cultural dos anos 70 deverá ser reescrita e os
Como se pode notar, o que Huyssen vê como mais diferentes campos artísticos deverão ser
uma característica do pós-modernismo é uma tratados separadamente em detalhes. Talvez
das ramificações do pós-estruturalismo e, por essa ocasião também a “semelhança de
como já dissemos, tem no seu tronco a crítica família” entre os movimentos pós-modernista
desconstrucionista de Derrida. Por outro lado, e pós-estruturalista seja melhor delineada.
convém lembrar que o próprio Huyssen
considera o pós-estruturalismo como uma
“teoria sobre o moderno” e não, como Referências bibliográficas
preferem alguns, atrelada ao pós-moderno.
Campagnon, Antoine. “L’exception françoise”.
Quanto à solicitação de que as culturas não- In: Textuel n. 37 (Où en est la théorie
ocidentais “devem ser abordadas por meios littéraire?), Université de Paris 7, 2000, pp.41-
que não os da conquista e da dominação”, não 52.
ocorremos em erro se denominarmos esse
movimento como Estudos Pós-coloniais. Os Culler, Jonathan. Sobre a desconstrução. Rio
dois representantes mais ilustres desse de Janeiro: Editora Rosa dos Ventos, 1997.
movimento, também é de procedência norte-
Derrida, Jacques. A escritura e a diferença.
americana, são os indianos Homi Bhabha e
São Paulo: Perspectiva, 4ed; 2009.
Gayatri Spivak. Essa última, como já foi dito, é
uma seguidora e tradutora de Derrida nos _______, Gramatologia. São Paulo:
Estados Unidos. No seu livro, Crítica da razão Perspectiva. 2ed. 4ª reimpressão. 2011.
pós-colonial, Spivak, munida de
Dosse, Françoise. História do estruturalismo.
procedimentos desconstrucionista, persegue
Vol. I: O campo do signo. Bauru: Edusc. 2007.
e desconstroe, em textos canônicos da cultura

8
Essas questões foram abordadas, detidamente, por políticas da memória. Rio de Janeiro: Contraponto,
Huyssen no seu recém lançado no Brasil: Culturas do 2014.
passado-presente: modernismo, artes visuais,
Duque-estrada, Paulo Cesar. “Desconstrução semiótica, cultura, psicanálise, literatura, artes
e incondicional responsabilidade: os plásticas. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
caminhos da desconstrução, de Heidegger a
Spivak, Gayatri Chakravorty. Crítica de la
Derrida”. In: Revista Cult, nº 117, ano 10,
razón pós-colonial: hacia una historia del
setembro/2007.
presenter evanescente. Madrid: Akal, 2010.
Eco, Umberto. A estrutura ausente. São
______“Translator’s preface”. In: Derrida,
Paulo: Perspectiva, 1971.
Jacques. Of grammatology. Johns Hopkins
Elliot, T.S. “Tradição e talento individual”. In: Paperbacks Edition, 1976 – (Corrected
Elliot. Ensaios. Tradução e notas e Ivan edition, 1997).
Junqueira. São Paulo: Arte Editora, 1989.
____________________________________
Hollanda, Heloisa Buarque. Pós-modernismo ___
e política. Rio de Janeiro: Rocco, 1991
Huyssen, Andreas. “Mapeando o pós-
É modernista até 1960 +ou-, e o pós-
moderno”. In: Hollanda, Heloisa
estruturalismo vem junto, mas pelo visto em
Buarque. Pós-modernismo e política. Rio de
perspectivas diferentes., uma mais para as
Janeiro: Rocco, 1991
artes e linguagens e outra para a política e
Perrone-Moisés, Leila (org.). Do positivismo à sociologia.
desconstrução: ideias francesas na América.
São Paulo: Edusp, 2004.
Derrrida  descontrução  pós colonial
___________. “Desconstruindo os ‘estudos
culturais’”. In. Perrone-Moisés. Leyla. Vira e
mexe nacionalismo: paradoxos do
nacionalismo literário. São Paulo: Companhia Pós estruturalista, mais ligado aos
das Letras, 2007. pensadores estadunidenses.

___________. “Aquele que desprendeu a


ponta da cadeia”. In: Nascimento, VAZ. Valteir. Revista Qorcups. UFSC. Como
Evandro. Jacques Derrida. Pensar a é/Ensaios? Ed. nº 15. Disponível em:
desconstrução. São Paulo: Estação <http://qorpus.paginas.ufsc.br/como-e/edicao-n-
Liberdade, 2005. 015/pos-modernismo-e-pos-estruturalismo-
semelhancas-de-familia-valteir-vaz/> Acesso: 28 de
Santaella, Lúcia. “Pós-moderno & semiótica”.
mar.19.
In: Chalhub, Samira (org). Pós-moderno &:

Você também pode gostar