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Introdução à edição brasileira

A publicação de um manifesto libertário no Brasil é mais um sinal de dois


desdobramentos animadores: o contínuo processo de aproximação entre os povos e
a disseminação mundial de ideias de paz e liberdade depois de um século de guerra
e estatismo.
Pode parecer que este livro está chegando ao Brasil inoportunamente, num
momento em que as pessoas, do presidente da França a Prêmios Nobel de Economia,
estão proclamando o fim do laissez-faire. Um intelectual de centro-esquerda americano
chegou a exultar-se com o “fim do libertarismo”. Esses críticos são míopes. A ideia do
libertarismo, da liberdade sob a lei, é agora mais necessária do que nunca.
Depois da crise econômica que se iniciou no fim de 2008, nossa primeira
tarefa é entender a própria crise e suas causas. Trata-se de uma crise causada
por regulamentação, subvenção e intervencionismo, e não será resolvida com a
manutenção das mesmas políticas. Christopher Hitchens estava com a razão quando
escreveu: “Há muitas causas para o show de horrores do mercado obrigacionista e
de derivativos que destruiu nossa confiança na ideia de crédito, mas uma forma de
definir isso seria dizer que se prometeu tudo a todos, e quase todo mundo mordeu a
isca populista”.
A economia americana é frequentemente vista ao redor do mundo como um
modelo laissez-faire, e realmente sua relativa abertura econômica e ausência de
regulamentação tornaram os Estados Unidos um líder em matéria de inovação,
crescimento e prosperidade. Mas foi o distanciamento do laissez-faire que precipitou a
crise. O comitê do Banco Central dos Estados Unidos, o Federal Reserve Board, usou
seu poder para manter baixas as taxas de juros e criar dinheiro barato, encorajando
um aumento na compra de imóveis e uma bolha nos preços da habitação. O governo
federal pressionou os bancos e as companhias hipotecárias a emprestar dinheiro a
mutuários inaptos.
“Prometeu-se tudo a todos” — dinheiro barato, empréstimos fáceis e preços de
imóveis em alta. E, quando todas as contas foram apresentadas de uma vez só, em vez
de permitir que negócios fracassados ruíssem, o governo federal entrou em cena para
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manter todas as empresas em atividade. Essa é a política econômica de um estado


corporativista, e não de um governo libertário.
Se essa crise nos leva a questionar o “capitalismo à americana” — o tipo no qual
uma autoridade monetária central manipula o dinheiro e o crédito, o governo central
tributa e redistribui 3 trilhões de dólares por ano, enormes empresas patrocinadas
pelo governo criam um duopólio assegurado pelo dinheiro do contribuinte no
negócio de hipotecas, as leis tributárias encorajam o uso excessivo do financiamento
de dívidas e o governo pressiona os bancos a fazer maus empréstimos — bem, esse é
um “capitalismo à americana” que vale a pena questionar.
O libertarismo pede liberdade e responsabilidade, livres mercados, liberdades
civis e um governo mínimo, que não se meta em nossas salas de reunião nem em
nossas salas de estar. Obviamente o libertarismo não estava na pauta do governo
Clinton, nem na do governo Bush.
Na esteira da crise, os americanos elegeram um novo presidente, alguém que
proclama que “nossa salvação individual depende da salvação coletiva”, propõe um
extenso plano para o controle, por parte do governo, da saúde, educação, energia,
finanças e da remuneração de executivos, entre outras coisas. Muitos observadores
acreditam que a eleição de Obama marca uma guinada da opinião americana para
a esquerda, uma rejeição à “revolução Reagan” e às ideias mais monarquistas que
passaram por uma revigoração no fim dos anos 1970. Mas isso talvez seja uma
extrapolação exagerada de uma mudança de maré eleitoral. A eleição de 2008 é
mais bem vista como uma rejeição a George W. Bush e suas políticas fracassadas. Na
verdade, muitos libertários americanos sentem que, embora o Partido Republicano
houvesse prometido menos governo, trouxe mais — um enorme aumento nos
gastos públicos, expansão dos direitos sociais, intrusões nas liberdades pessoais,
restrições às liberdades civis, aumento do poder do presidente, além de uma guerra
desnecessária. Ao fim de seu primeiro ano no cargo, não só a popularidade de
Obama estava em queda como seus programas se tornaram ainda menos populares.
Os Estados Unidos conseguiram ter um governo maior como resultado da crise
financeira e da eleição de 2008, mas ainda não está claro se houve uma verdadeira
mudança ideológica na opinião pública.
Tanto o sistema capitalista quanto a ideia do libertarismo vão ter mais durabilidade
do que seus críticos gostariam. Houve uma época em que metade do mundo rejeitava
o capitalismo, e os líderes intelectuais do “mundo livre” temiam que as economias
de planejamento centralizado fossem obviamente superar os países capitalistas e que
a “convergência” para algum tipo de modelo metade capitalista, metade socialista
seria a onda do futuro. Mas, depois que o mundo viu os resultados dos dois sistemas
nas Alemanhas Oriental e Ocidental, nas Coreias do Norte e do Sul, em Hong Kong
e Taiwan e na China, nos Estados Unidos e na União Soviética, ficou claro que o

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socialismo é uma receita grosseira e retrógrada de estagnação, no melhor dos casos,


e de tirania, no pior.
Enquanto isso, as economias parcialmente planejadas do Ocidente — Grã-
-Bretanha, Nova Zelândia e Estados Unidos, além de outras — desenvolveram
uma versão mais branda de esclerose econômica. A partir dos anos 1970, muitos
desses países começaram a eliminar controles de preços, suspender restrições à
concorrência de mercado, abrir a economia, cortar índices de tributação e reduzir
barreiras comerciais. Passou a ser amplamente reconhecido — eventualmente em
ambos os lados da Cortina de Ferro — que a propriedade privada e os mercados
são indispensáveis à organização de uma economia moderna. Uma revolução
cultural quase simultânea trouxe abertura à sociedade. Mulheres, minorias raciais e
homossexuais ganharam aceitação na sociedade em todo o mundo ocidental. A arte,
a literatura e os estilos de vida se tornaram mais diversificados e individualizados.
As décadas de 1960 e 1980 nos levaram àquilo que Brink Lindsey em The Age of
Abundance [A era da abundância] chamou de “a síntese libertária implícita” dos
Estados Unidos hoje.
Algumas pessoas veem um futuro com governos cada vez mais poderosos.
Outras o veem com mais liberdade. Os editores Nick Gillespie e Matt Welch, da
revista Reason, escreveram: “Estamos, na verdade, vivendo na crista do que deveria
ser chamado de Momento Libertário, o amanhecer (...) de uma era cada vez mais
hiperindividualizada, de escolhas hiperexpandidas em cada aspecto de nossa vida
(...). Este de agora é um mundo no qual é mais possível do que nunca que cada
um viva a vida em seus próprios termos; é um primeiro rascunho da “utopia das
utopias” do filósofo libertário Robert Nozick. (...) Este novo século do indivíduo,
que comparativamente faz a Década do Eu parecer marcadamente comunitária,
terá implicações de vasto alcance onde quer que pululem indivíduos reunidos no
comércio, na cultura ou na política.

Gillespie e Welch fazem o libertarismo, ou liberalismo, parecer um fenômeno


muito próprio do século XXI. Mas as ideias de direitos individuais e de governo
limitado são muito mais distintas e antigas do que isso. Como mostra este livro,
suas raízes podem ser encontradas nos escritos do filósofo chinês Lao-tsé e na Bíblia,
especialmente no aviso de Deus ao povo de Israel sobre a natureza de um governo.
E essas ideias podem ser encontradas também na história de Portugal e do
Brasil. No fim do século XVI, a Universidade de Coimbra, em Portugal, abrigava
um grupo de professores jesuítas conhecidos como conimbricenses, que eram os
líderes intelectuais do mundo católico. Estudiosos como Francisco Suarez e Luís
de Molina contribuíram para o corpo de pensamento econômico e ético que se
tornou mais conhecido como a Escola de Salamanca. Sua ênfase na dignidade e

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liberdade do indivíduo, na importância da propriedade privada, no livre-comércio


e na moeda forte, na imoralidade da escravidão e no consentimento dos governados
se fundamentava na teologia católica e nos escritos de São Tomás de Aquino e
pressagiavam muito do liberalismo moderno.
Os principais movimentos brasileiros na primeira metade do século XIX
compartilhavam os mesmos valores liberais que haviam guiado os revolucionários
americanos. No início do século, homens como José da Silva Lisboa e Bernardo
Pereira de Vasconcelos defenderam a causa do livre-comércio e da liberdade política,
que eventualmente levaria à independência do Brasil em 1822.
Após a independência brasileira, os partidos que outrora lutaram por um
objetivo comum se separaram em diferentes facções e grupos ideológicos. Havia,
porém, um consenso sobre a superioridade da liberdade pessoal entre republicanos,
constitucionalistas e defensores do governo representativo em geral, contra seus
oponentes, chamados por eles de servis ou corcundas (dada sua disposição a se
curvar perante o poder).
O ideal republicano levou Frei Caneca a contestar a legitimidade do imperador
D. Pedro I ao escrever ele próprio a Constituição de 1824. Segundo Caneca, caberia
ao povo brasileiro compor o pacto social que deveria defender e sustentar “a vida dos
cidadãos, sua liberdade, sua propriedade”. Mesmo seus opositores, na linha de José
Bonifácio de Andrada e Silva, defendiam uma monarquia constitucional, por julgar
que ela preservaria mais adequadamente as liberdades dos brasileiros.
Os esforços desses brasileiros da primeira metade do século XIX prepararam o
terreno para o progresso econômico e cultural do país. Mas uma minoria significativa
de brasileiros teria que esperar até o fim do século para gozar de algum tipo de
liberdade pessoal. A escravidão foi abolida somente em 1888, depois de uma longa
e incansável luta abolicionista cujos líderes tinham o exemplo de outros países da
América a inspirá-los. Joaquim Nabuco foi talvez o mais eloquente deles. Seu livro
Abolicionismo  inclui estas palavras comoventes que devem inspirar libertários de
toda parte: “Eduquem os seus filhos, eduquem-se a si mesmos, no amor da liberdade
alheia, único meio de não ser a sua própria liberdade uma doação gratuita do destino
e de adquirirem a consciência do que ela vale e coragem para defendê-la”.
O libertarismo é às vezes percebido como uma filosofia radical. E de fato ele é, de
algumas formas: tanto rejeita como tem combatido, alternadamente, o absolutismo,
o comunismo, o fascismo, o nacional-socialismo, o estatismo corporativista, a
teocracia e cada forma de tirania sobre a mente do homem. Os libertários defendem
uma visão radical e coerente de direitos individuais e governo estritamente
limitado que eliminaria a maior parte do estado moderno, mesmo em democracias
de economia mista. Mas, em um sentido mais amplo, o libertarismo é a filosofia
fundamental do mundo moderno: liberdade, igualdade, empreendedorismo, estado

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de direito, governo constitucional. Essas ideias se tornaram tão lugar-comum,


que nós esquecemos quão radicais elas foram em outros tempos. Os libertários
querem aplicar esses princípios mais coerentemente do que os seguidores de outras
ideologias. Mas poucas pessoas no mundo moderno desejariam rejeitar inteiramente
as ideias libertárias.
As mais fortes tendências do mundo refletem valores libertários. O comunismo
está praticamente extinto, e o preocupante crescimento do socialismo de estado
na América Latina vem sendo cada vez mais combatido pela sociedade civil latino-
-americana. A Europa Oriental está lutando para construir sociedades baseadas em
direitos de propriedade, mercados e estado de direito. Qualquer observador honesto
em todo o mundo desenvolvido pode ver que os estados de bem-estar social da classe
média são insustentáveis e terão que ser radicalmente reformados. A revolução da
informação está fortalecendo indivíduos e pequenos grupos e enfraquecendo a
autoridade do poder centralizado.

Talvez mais importante, a globalização cada vez maior do mundo significa


que países que querem prosperar terão que adotar um modelo econômico
descentralizado, livre de regulamentações e orientado para o mercado. Não se
podem evitar mercados mundiais no século XXI; ou, se isso se der, corre-se o risco
de ser excluído do crescimento econômico fenomenal que os mercados globais e o
desenvolvimento tecnológico trarão.
Uma razão, portanto, pela qual os leitores brasileiros devem se interessar pelo
libertarismo é muito simples e prática: essas são as ideias que impelem o mundo
moderno, e é preciso conhecê-las. A outra razão é que o libertarismo oferece a cada
país a promessa de paz, crescimento econômico e harmonia social. Espero que os
leitores brasileiros se unam aos libertários ao redor do mundo na luta para restringir
o poder do estado e libertar indivíduos, famílias, associações e empresas.

David Boaz

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Capítulo 1

A futura Era Libertária

O
libertarismo é a visão de que cada pessoa tem direito a viver sua vida da ma-
neira que decidir, contanto que respeite os mesmos direitos de outros. (Ao
longo deste livro, vou me referir a indivíduos em geral utilizando prono-
mes masculinos: “ele”, “eles” etc.; exceto se o contexto indicar o contrário, devem ser
entendidos como se referindo conjuntamente a homens e mulheres.) Os libertários
defendem o direito de cada um à vida, liberdade e propriedade — direitos naturais
de todo indivíduo, anteriores à criação de governos. Na visão libertária, todas as re-
lações humanas devem ser voluntárias; as únicas ações que devem ser proibidas por
lei são as que envolvem o uso da força contra indivíduos que não a usaram — ações
como assassinato, estupro, roubo, sequestro e fraude.
A maior parte das pessoas costuma acreditar nesse código de ética e o adotam
em sua vida. Os libertários acreditam que o código deve ser aplicado uniformemen-
te — e, em especial, que deve ser aplicado tanto às ações do governo quanto às dos
indivíduos. O governo deve existir para garantir direitos, para nos proteger daqueles
que podem usar a força contra nós. Quando os próprios governos empregam a força
contra pessoas que não violaram os direitos dos outros, são eles que se tornam os vio-
ladores. Portanto, os libertários condenam ações governamentais como a censura, o
recrutamento militar, o controle de preços, o confisco de propriedade e a regulamen-
tação de nossa vida pessoal e econômica.
Colocada tão assertivamente, a visão libertária pode soar como algo sobrenatural,
como uma doutrina aplicável a um universo de anjos que nunca existiu nem existirá.
Não seria melhor, no mundo caótico e frequentemente desagradável em que
vivemos, que os governos realizassem muito? Mas eis a surpresa: a resposta é não. Na
verdade, quanto mais caótico e moderno é o mundo, melhor funciona o libertarismo,
em comparação, por exemplo, com o monarquismo, as ditaduras e mesmo com o
estado de bem-estar social no estilo do pós-guerra americano. O despertar político
dos Estados Unidos hoje é, sobretudo, a percepção de que o libertarismo não é
uma relíquia do passado. É uma filosofia — mais ainda, um plano prático — para o
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futuro. Na política americana, é o que há de mais arrojado; não um retrocesso, mas


uma vanguarda.
O pensamento libertário é tão difundido hoje, e o governo americano, tão inchado
e ridículo, que os dois escritores mais engraçados dos Estados Unidos são libertários.
P. J. O’Rourke resumiu sua filosofia política da seguinte maneira: “Dar dinheiro e
poder ao governo é como dar uísque e as chaves do carro a um adolescente”. Dave
Barry entende o governo com tanta clareza quanto Thomas Paine: “A melhor forma
de entender tudo isso é olhar o que o governo faz: toma dinheiro de algumas pessoas,
fica com uma boa parte, e dá o resto a outras”.
O libertarismo é uma filosofia antiga, mas sua estrutura de liberdade sob a lei e o
progresso econômico o torna particularmente adaptável ao mundo dinâmico que
adentramos agora — chame-se ele Era da Informação, Terceira Onda ou Terceira
Revolução Industrial.

O ressurgimento do libertarismo
Alguns leitores talvez se perguntem por que o povo de um país de maneira geral livre
e próspero como os Estados Unidos precisaria adotar uma nova filosofia de governo.
Não estamos nos saindo razoavelmente bem com nosso atual sistema? De fato, temos
uma sociedade que trouxe uma prosperidade sem precedentes a um número de pessoas
maior do que em qualquer época. Porém enfrentamos problemas — de altos tributos
a más escolas, de tensões raciais à destruição do meio ambiente — com os quais nossa
atual abordagem não está lidando adequadamente. O libertarismo tem a solução para
esses problemas, como tentarei demonstrar. Por ora, ofereço três razões pelas quais o
libertarismo é a solução certa para os Estados Unidos.
Em primeiro lugar, não somos nem de longe tão prósperos quanto poderíamos
ser. Se a economia estivesse crescendo à taxa que cresceu de 1945 a 1973, o Produto
Interno Bruto seria 40% maior do que é. Mas essa comparação não dá a medida
real dos danos econômicos que o excesso governamental está nos causando. Em
um mundo de mercados globais e mudanças tecnológicas cada vez mais aceleradas,
não deveríamos estar crescendo à mesma taxa que há quarenta anos, mas sim mais
rápido. Mais confiança nos mercados e mais empreendimentos individuais trariam
maior riqueza para todos nós, o que é particularmente importante para os que hoje
são mais pobres.
Em segundo, nosso governo se tornou poderoso demais e ameaça cada vez mais
nossa liberdade — como disseram aos perplexos entrevistadores aqueles 52% de
americanos. O governo tributa demais, regula demais, interfere demais. De Jesse
Helms a Jesse Jackson, os políticos procuram impor seu próprio sistema moral a
250 milhões de americanos. Episódios como o ataque aos adventistas davidianos,
as execuções de Vicki Weaver e Donald Scott, o espancamento de Rodney King e as

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Cap. 1 — A futura Era Libertária 15

tentativas cada vez mais frequentes do governo de confiscar propriedades privadas


sem processos judiciais nos fazem temer um governo fora de controle e nos lembram
da necessidade de restabelecer limites mais estritos ao poder.
Em terceiro lugar, em um mundo de mudanças rápidas, em que todo indivíduo terá
acesso sem precedentes à informação, burocracias centralizadas e regulamentações
coercitivas não poderão acompanhar a economia real. A existência de mercados
capitais globais significa que os investidores não se tornarão reféns de governos
nacionais e seus sistemas tributários confiscatórios. Novas oportunidades de
teletrabalho significam que cada vez mais trabalhadores poderão escapar aos
tributos altos e outras políticas governamentais intrusivas. As nações prósperas
no século XXI serão aquelas que atraírem pessoas produtivas. Precisamos de um
governo limitado para abrir as portas para um futuro sem limites.
O século XX foi o século do poder do estado, de Hitler e Stalin aos estados totalitários
além da Cortina de Ferro, das ditaduras em toda a África ao estado de bem-estar social
burocratizado da América de Norte e da Europa Ocidental. Muitos presumem que, à me-
dida que o tempo passa e o mundo se torna mais complexo, os governos se tornam na-
turalmente maiores e mais poderosos. No entanto, o século XX foi sob muitos aspectos
um desvio do curso de 2.500 anos de história do mundo ocidental. Desde o tempo dos
gregos, a história do Ocidente foi em grande parte uma história de crescente liberdade,
com um papel cada vez mais limitado para governos coercitivos e arbitrários.
Desde o final do século XX, há sinais de que estamos retomando o caminho da
contenção do governo e aumento da liberdade. Com o colapso do comunismo, quase
não restou apoio ao planejamento central. Países do Terceiro Mundo estão privatizando
indústrias estatais e liberando mercados. Com a prática do capitalismo, os países da
costa do Pacífico foram da pobreza à liderança econômica mundial em uma geração.
Nos Estados Unidos, o leviatã burocrático é ameaçado pelo ressurgimento das
ideias libertárias sobre as quais o país foi fundado. Somos testemunhas de um co-
lapso de todas as crenças celebradas do estado de bem-estar social. Os americanos
assistiram à falência dos estados intervencionistas. Nos anos 1960, aprenderam que
governos entram em guerras impossíveis de vencer, espionam seus opositores do-
mésticos e mentem a esse respeito. Nos anos 1970, aprenderam que a administração
da economia pelo governo leva a inflação, desemprego e estagnação. Nos anos 1980,
aprenderam que o custo e as intromissões do governo crescem mesmo com uma
sucessão de presidentes que se candidatam com a promessa de mudar a situação.
E, a partir dos anos 1990, os americanos estão prontos para aplicar essas lições, fa-
zendo do século XXI o século não do estado, mas do indivíduo livre.
Essas mudanças apresentam duas raízes principais. Uma é o crescente
reconhecimento ao redor do mundo da tirania e ineficiência inerentes ao planejamento
estatal. A outra é o crescimento de um movimento político centrado em ideias,

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particularmente as do libertarismo. Como escreveu E. J. Dionne Jr. em Why Americans


Hate Politics [Por que os americanos detestam política]

O ressurgimento do libertarismo foi um dos menos no-


tados e mais notáveis acontecimentos dos últimos anos.
Durante os anos 1970 e 1980, sentimentos antibélicos,
antiautoritários, antigovernamentais e antitributários se
juntaram para reanimar uma tendência política há muito
estagnada.

Por que o renascimento libertário neste momento? A principal razão é que as al-
ternativas ao libertarismo — o fascismo, o comunismo, o socialismo, o estado de
bem-estar social — foram todas tentadas no século XX e não produziram paz, pros-
peridade nem liberdade.
O fascismo, como exemplificado pela Itália de Mussolini e pela Alemanha de
Hitler, foi o primeiro a cair. Sua centralização econômica e coletivismo racial soam
agora repulsivos para qualquer pessoa civilizada, o que talvez nos faça esquecer que
antes da Segunda Guerra Mundial muitos intelectuais americanos admiravam as
“novas formas de organização econômica na Alemanha e na Itália”, conforme ma-
téria da revista Nation publicada em 1934. O horror mundial diante da Alemanha
nacional-socialista ajudou a produzir não somente o movimento dos direitos civis,
mas prenúncios do renascimento libertário como The God of the Machine [O deus da
máquina], de Isabel Paterson, e O caminho da servidão, de Friedrich A. Hayek.
Outro grande sistema totalitário do século XX foi o comunismo, conforme
delineado por Karl Marx e implementado na União Soviética e seus satélites.
O comunismo preservou seu apelo perante os idealistas por muito mais tempo do
que o fascismo. Até pelo menos as revelações dos expurgos de Stalin, nos anos
1950, muitos intelectuais americanos viam o comunismo como uma tentativa no-
bre, embora por vezes excessiva, de eliminar as desigualdades e a “alienação” do
capitalismo. Mesmo lá adiante, nos anos 1980, alguns economistas americanos
continuavam a elogiar a União Soviética pelo seu suposto crescimento econômico
e eficiência — até o momento do colapso, na verdade.
Quando o comunismo implodiu subitamente, em 1989-1991, os libertários não
ficaram surpresos. O comunismo, já se vinha dizendo havia anos, era não somente
inimigo da liberdade e dignidade humanas, mas também arrasadoramente inefi-
ciente, e sua ineficiência apenas pioraria com o tempo, enquanto o mundo capitalista
progredia. O colapso do comunismo teve um profundo impacto no panorama ide-
ológico do mundo inteiro: praticamente eliminou o socialismo já desenvolvido do
debate entre as ideologias. Hoje é evidente que o estatismo total é um completo

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Cap. 1 — A futura Era Libertária 17

desastre, que leva um número cada vez maior de pessoas a se perguntar por que
qualquer sociedade iria querer implementar um pouco de socialismo se pleno ele
é tão catastrófico.
Mas e os estados de bem-estar social do Ocidente? As batalhas ideológicas res-
tantes podem ter um escopo relativamente estreito, mas ainda são importantes.
O governo não deveria equilibrar o mercado? Os estados de bem-estar social não são
mais humanos do que seriam os estados libertários? Embora a Europa Ocidental e os
Estados Unidos jamais tenham tentado implantar o socialismo completo, essas preo-
cupações causaram um aumento dramático do controle governamental sobre a vida
econômica das pessoas ao longo do século XX. Os governos europeus nacionaliza-
ram mais indústrias e criaram mais monopólios estatais do que os Estados Unidos;
companhias aéreas, empresas de telefonia, minas de carvão, siderúrgicas, fábricas de
automóveis e estações de rádio e televisão estiveram entre as principais indústrias
que nos Estados Unidos eram geralmente privadas e na Europa Ocidental, estatais.
Os países europeus também estabeleceram, mais cedo e com maior abrangência,
programas de benefícios que acompanhavam a população por toda a vida.
Nos Estados Unidos, poucas indústrias foram nacionalizadas (entre elas as ferro-
viárias Conrail e Amtrak), mas a regulamentação e a restrição de escolhas econômi-
cas cresceram por todo o século. E, embora não tenhamos criado exatamente um sis-
tema de “segurança social” como fizeram os europeus, temos transferências de renda
que vão do programa Women, Infants, and Children ao Head Start, de empréstimos
para financiamento do ensino superior ao salário-desemprego, da Previdência Social
(Social Security) ao Medicare — um belo começo para um acompanhamento vitalí-
cio por parte do governo.
No entanto, hoje, em todo o mundo desenvolvido, os estados de bem-estar social
estão perdendo força. Os níveis de tributação necessários para sustentar os colossais
programas de transferência de renda estão mutilando as economias do Ocidente.
A dependência do governo tirou valor da família, do trabalho e da temperança. Da
Alemanha à Suécia e à Austrália, as promessas do estado de bem-estar social já não
podem ser mantidas.
Nos Estados Unidos, a Previdência Social começará a incorrer em déficit em 2017
e estará sem dinheiro em 2041. Alguns economistas calculam que um americano
nascido em 1975 teria que pagar 82% de sua renda em tributos para manter ativos
os programas de benefícios do governo. Essa é a razão pela qual muitos jovens estão
hesitando diante da perspectiva de trabalhar durante a maior parte de sua vida para
arcar com programas de transferência de renda que de qualquer jeito acabarão indo à
falência. Uma pesquisa de 1994 mostrou que 63% dos americanos entre 18 e 64 anos
não acreditam que a Previdência Social ainda existirá quando eles se aposentarem;
os jovens creem mais em Óvnis (46%) do que na Previdência Social (28%).

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18 O Manifesto Libertário

Abandonar o estado de bem-estar social será um problema político-econômico


complicado, mas cada vez mais pessoas — não só nos Estados Unidos — reconhe-
cem que o estado intervencionista à moda ocidental está passando por uma versão
em câmera lenta do colapso do comunismo.
O crescimento econômico desacelerou dramaticamente nos Estados Unidos e na
Europa no início dos anos 1970. Várias explicações foram oferecidas para esse fenôme-
no; a mais convincente, eu diria, é que a carga tributária e a regulamentação aumenta-
ram substancialmente ao longo dos anos 1960. O número de páginas do Registro Fe-
deral (Federal Register), onde se imprimem as novas regulamentações, dobrou de 1957
a 1967 e triplicou entre 1970 e 1975. A Grã-Bretanha, que tinha tributos mais altos e
era mais socialista do que os Estados Unidos, sofreu ainda mais. No século XIX, era
o país mais rico do mundo, mas nos anos 1970 sua estagnação econômica e mal-estar
nacional eram conhecidos em todo o mundo como a “doença britânica”.
Esse tipo de problema levou à eleição de Margaret Thatcher ao cargo de primeira-
ministra da Grã-Bretanha em 1979 e Ronald Reagan ao de presidente dos Estados
Unidos em 1980. Thatcher e Reagan eram diferentes dos líderes anteriores de seus
respectivos partidos. Mais do que administrar o estado de bem-estar social um
pouco mais eficientemente do que os Partidos Trabalhista e Democrata, eles pro-
meteram fazer recuar o socialismo no Reino Unido e os altos tributos nos Estados
Unidos. Seus programas não eram, de forma alguma, consistentemente libertários,
mas a eleição desses candidatos indicou que os eleitores estavam cada vez mais des-
confortáveis com o fardo econômico de um governo inchado.
Infelizmente, nem Reagan nem Thatcher, apesar da extensão de seus mandatos,
fizeram muito para reduzir o crescimento do estado de bem-estar social. É verdade
que Thatcher privatizou um bom número de indústrias nacionalizadas, incluindo a
British Airways, a companhia telefônica, as habitações públicas e a fábrica de automó-
veis Jaguar. Mas fez poucos avanços contra o “estado de direito” da classe média, e os
gastos do governo como parte do Produto Nacional Bruto não diminuíram. Reagan
conseguiu talvez ainda menos na área econômica. Reduziu o imposto de renda, mas
aumentou os impostos sobre a massa salarial para preservar a pedra angular do estado
de bem-estar social, a Previdência Social. A percentagem da renda nacional gasta em
pagamentos de programas de transferência de renda continuou aumentando.
Nos anos 1980, surgiram algumas evidências de que um país levaria à falência o
estado de bem-estar social para tornar possível uma reforma. A maior história de
sucesso não era a Grã-Bretanha de Thatcher ou os Estados Unidos de Reagan, mas
a Nova Zelândia, cujo estado corporativista e paternalista havia quebrado. Ironica-
mente, foi o governo trabalhista do primeiro-ministro David Lange e do ministro
das Finanças Roger Douglas que se desfez de tarifas prejudiciais aos negócios, redu-
ziu tributos, moderou a assistência social da classe média e explorou ideias como a

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Cap. 1 — A futura Era Libertária 19

livre escolha de escolas na educação. Em relação a um índice mundial de liberdade


econômica, a Nova Zelândia decolou de um sombrio 4,9 (em 10) em 1985 para 9,1, o
terceiro mais alto do mundo, em 1995. O Chile e a Argentina, outros dois estados de
bem-estar social particularmente extravagantes, também atingiram o fundo do poço
e fizeram grandes reformas nos anos 1990. Como na Nova Zelândia, as reformas
na Argentina vieram de uma fonte surpreendente: o presidente Carlos Menem, do
Partido Peronista, que da década de 1940 à de 1970 havia implementado programas
populares de assistência que levaram a Argentina da posição de um dos países mais
ricos do mundo à de um país pobre e com um governo falido.

A desilusão com a política


A incapacidade dos governos ocidentais de cumprir suas promessas de
prosperidade, segurança e justiça social — somada às não exatamente bem-sucedidas
tentativas de reforma — levou a uma profunda desilusão com a classe política em
todo o Ocidente. O historiador Paul Johnson escreveu em seu livro Tempos modernos:

A desilusão com o socialismo e outras formas de coletivis-


mo foi somente um dos aspectos de uma perda muito mais
ampla da fé no estado como um agente da benevolência. O
estado era o grande ganhador do século XX; e seu princi-
pal fracasso (...). Enquanto, no tempo do Tratado de Ver-
salhes, a maior parte das pessoas inteligentes acreditava
que um estado ampliado poderia aumentar a soma total de
felicidade humana, nos anos 1980, essa visão não era ado-
tada senão por um pequeno, decrescente e cabisbaixo ban-
do de fanáticos. O experimento havia sido conduzido de
inúmeras maneiras e falhou em quase todas elas. O estado
demonstrou que era um gastador insaciável, sem rivais em
seu desperdício. De fato, no século XX, também se revelou
o maior assassino de todos os tempos.

Nos anos 1990, os líderes políticos de todos os grandes países do Ocidente haviam
alcançado baixas de popularidade sem precedentes. Nos Estados Unidos, pode-se afir-
mar que a cada eleição presidencial desde 1968 os eleitores vêm escolhendo o candidato
que parece oferecer mais perspectivas de um governo menor. No entanto, o maior e o
mais complexo governo da história permaneceu praticamente inacessível ao desejo do
povo de redução de seu tamanho e poder. (Note-se que não estou de maneira nenhu-
ma afirmando que o governo americano é o mais opressivo de todos os tempos; lon-
ge disso. Penso, contudo, que é justo dizer que esse governo dispõe de mais recursos,

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20 O Manifesto Libertário

confere mais favores e promulga mais regras e regulamentações do que qualquer ou-
tro.) A insatisfação pública vem sendo capturada pelas pesquisas do instituto Gallup,
que regularmente investiga o nível de confiança das pessoas no governo federal. Des-
de 2001, o número vem caindo continuamente durante o governo de George W. Bush
até alcançar uma das piores baixas de todos os tempos com Barack Obama em 2009.
Michael Ledeen, do American Enterprise Institute, afirma que ao longo da
Guerra Fria os eleitores ocidentais perceberam que tinham que ficar junto de suas
classes dominantes para evitar um destino muito pior. Mas, nos anos 1990, “tendo
caído a ameaça externa, as pessoas estão prontas para reclamar o controle de seu
próprio destino”.
Essas pessoas percebem, pelo menos intuitivamente, que a Era da Política não
cumpriu suas promessas e estão preparadas para uma filosofia e um movimento polí-
ticos que possam explicar por que a política fracassou e o que pode vir a substituí-la.

Por que a política falha


Uma grande parte deste livro será dedicada ao exame dos problemas do gover-
no coercitivo e da alternativa libertária. Ofereço aqui apenas uma breve introdução.
O verdadeiro problema nos Estados Unidos é o mesmo observado em todo o mundo: go-
verno demais. Quanto maior o governo, maior o fracasso; por isso o socialismo de estado
foi a política mais obviamente fracassada. Como avisaram os libertários ao longo de todo
o século XX, o socialismo, bem como outras tentativas de substituir a tomada de decisão
individual por soluções governamentais, retirou a liberdade e a dignidade do indivíduo
— o objetivo pelo qual se travaram tantas batalhas na civilização ocidental. O socialismo
também enfrentava vários problemas políticos e econômicos incontornáveis:
r O problema do totalitarismo, de que tamanha concentração de
poder fosse um convite irresistível a abusar dele;
r O problema do incentivo, da falta de estímulo para que os indivíduos
trabalhassem muito ou com eficiência;
r O menos entendido deles, o problema do cálculo, a incapacidade
de um sistema socialista, sem preços ou mercados, alocar recursos segundo as
preferências do consumidor.

Durante décadas, economistas libertários como Friedrich A. Hayek e Ludwig von


Mises insistiram em que o socialismo simplesmente não podia funcionar, que não
tinha meios de utilizar eficazmente todos os recursos e conhecimentos de uma gran-
de sociedade para servir aos consumidores. E no Ocidente, por décadas, os social-
-democratas menosprezaram esses argumentos, respondendo que não só o comunis-
mo soviético continuava vivo, como sua economia estava crescendo mais rápido do
que as economias ocidentais.

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Cap. 1 — A futura Era Libertária 21

Os social-democratas estavam errados. Embora a desastrada economia soviética pu-


desse produzir grandes quantidades de concreto e aço de baixa qualidade — pois pratica-
va o que o filósofo de origem húngara Michael Polanyi chamou de “produção conspícua”
— e até colocar homens no espaço, nunca conseguiu produzir nada que os consumidores
quisessem. No fim da década de 1980, a economia soviética não tinha dois terços do ta-
manho da economia americana, como a CIA estimou; não fazia “uso total de sua mão de
obra”, como o economista John Kenneth Galbraith, da Universidade Harvard, afirmou;
não era “uma poderosa máquina de crescimento econômico”, como o livro-texto de Paul
Samuelson, ganhador do Prêmio Nobel, disse a gerações de estudantes. Tinha, na verda-
de, mais ou menos 10% do tamanho da economia americana, em uma comparação tão
aproximada quanto se pode fazer entre duas coisas tão díspares, e fazia um uso grossei-
ramente ineficiente da mão de obra soviética qualificada. Um fracasso na era industrial
tornou-se um dinossauro na era da informação, um fato óbvio para qualquer um — exce-
to para os intelectuais ocidentais — que visitasse a União Soviética.
A intervenção governamental na sociedade e nos mercados nos Estados Unidos
sofre dos mesmos problemas, embora menos intensamente. O poder sempre corrom-
pe, e o poder do governo de dizer às pessoas como viver sua vida ou de transferir o
dinheiro que elas ganharam para outras é sempre uma tentação para ceder à corrup-
ção. Tributos e regulamentações reduzem o estímulo para que as pessoas produzam
riqueza, e os programas de transferência de renda do governo reduzem o incentivo
ao trabalho, à poupança e a ajuda a amigos e familiares em caso de doença, incapaci-
dade ou aposentadoria. E, embora os burocratas americanos não tenham cometido
os mesmos erros grosseiros dos planejadores socialistas, de todo modo está claro
que as empresas estatais são menos eficientes, menos inovadoras e mais perdulárias
do que as empresas privadas. Compare-se o Correio dos Estados Unidos (United
States Postal Service) com a Federal Express (FedEx). Ou compare-se a experiência
de ligar para a American Express para resolver um problema e fazer a mesma coisa
com a Receita Federal (Internal Revenue Service). Ou compare-se um condomínio
privado com um conjunto habitacional do governo. As pessoas que não detêm a pos-
se de uma propriedade não cuidam dela tão bem quanto se fossem seus donos; as
pessoas que não investiram seu próprio dinheiro em uma empresa, e portanto não
vão lucrar com ela, nunca vão inovar, servir a consumidores e cortar custos tão bem
quanto empresários interessados em obter lucros.
Em seu livro The Affluent Society [A sociedade afluente], Galbraith observou “a
opulência privada e a esqualidez pública” — isto é, observou uma sociedade em que
os recursos de propriedade privada são geralmente limpos, eficientes, bem mantidos
e em contínua melhoria, enquanto os espaços públicos são sujos, lotados e pouco
seguros — e chegou à estranha conclusão de que deveríamos carrear mais recursos
para o setor público. Este livro sugere uma conclusão diferente.

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22 O Manifesto Libertário

Escolhas políticas básicas


Durante séculos se vêm discutindo as questões básicas de política e governo. Se-
gundo Aristóteles, os sistemas políticos possíveis seriam a tirania, a aristocracia, a
oligarquia e a democracia. Em meados do século XX, as escolhas pareciam ser o co-
munismo, o fascismo e o capitalismo democrático. Hoje, todas essas escolhas caíram
em descrédito, exceto o capitalismo democrático, e muitos intelectuais adotaram a
proclamação do “fim da história” de Francis Fukuyama, que quer dizer que as grandes
batalhas em torno de ideologias terminaram com o triunfo da democracia de
economia mista. Já à época da publicação de seu livro, no entanto, o funda-
mentalismo islâmico estava despontando em uma parte do mundo, e alguns
líderes políticos e intelectuais asiáticos começavam a desenvolver um argumento favo-
rável a uma forma de capitalismo autoritário que eles chamavam de “valores asiáticos”.
Em todo caso, o suposto triunfo da democracia ainda deixa muito espaço para
ideologias concorrentes. Mesmo a identificação da “democracia” como alternativa
ocidental para o fascismo e o socialismo é problemática. Os libertários, como o nome
implica, acreditam que o valor político mais importante é a liberdade e não a demo-
cracia. Muitos leitores modernos talvez se perguntem: qual é a diferença? Liberdade
e democracia não são a mesma coisa? Certamente o ensino-padrão da história ame-
ricana poderia levar a essa concepção. Pondere-se, porém: a Índia é a maior democra-
cia do mundo, e no entanto seu comprometimento com a liberdade de expressão e o
pluralismo é fraco e seus cidadãos estão enredados em uma teia de regulamentações
protecionistas que limitam sua liberdade a cada movimento. Nas últimas décadas,
Hong Kong não foi uma democracia — seus cidadãos não têm o direito de votar em
seus líderes —, no entanto, concedeu mais espaço às escolhas e à liberdade do indi-
víduo do que qualquer outro lugar no mundo. Há uma conexão entre liberdade e de-
mocracia, mas não há identidade. Como diz meu amigo Ross Levatter, se vivêssemos
em uma sociedade em que o cônjuge de cada um fosse escolhido pela comunidade
mediante o voto da maioria, viveríamos em uma democracia, mas não teríamos lá
muita liberdade.
Grande parte da confusão se origina nos dois sentidos diferentes da palavra “liber-
dade”, uma distinção notavelmente explorada no século XIX pelo libertário francês
Benjamin Constant, em um ensaio intitulado “A liberdade dos antigos comparada
à liberdade dos modernos”. Constant notou que para os escritores da Grécia Antiga
a ideia de liberdade significava o direito de participar da vida pública, da tomada de
decisões em favor de toda a comunidade. Atenas, portanto, era uma politeia livre
porque todos os cidadãos — isto é, todos os atenienses homens, adultos e livres —
podiam ir à arena e participar do processo decisório. De fato, o próprio Sócrates era
livre porque pôde participar da decisão coletiva sobre sua execução por suas opiniões
heréticas. O conceito moderno de liberdade, porém, enfatiza o direito do indivíduo

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Cap. 1 — A futura Era Libertária 23

de viver como desejar, de falar e praticar sua religião livremente, de possuir proprie-
dades, de praticar o comércio, de estar a salvo de prisões ou detenções arbitrárias
— nas palavras de Constant, “de ir e vir sem necessidade de permissão, sem ter que
dar conta de motivos e propósitos”. Um governo baseado na participação dos gover-
nados é uma valiosa salvaguarda dos direitos individuais, mas a liberdade em si é o
direito de tomar decisões e buscar objetivos de acordo com sua própria escolha.
Para os libertários, a questão política básica é a relação do indivíduo com o estado.
Que direitos (se há algum) têm os indivíduos? Que forma de governo (se houver) me-
lhor protegerá esses direitos? Que poderes deve ter o governo? Que exigências poderão
os indivíduos fazer uns aos outros por intermédio do mecanismo de governo?
Como coloca Edward H. Crane, do Cato Institute, há somente duas maneiras bá-
sicas de organizar a sociedade: coercitivamente, por meio de ditames do governo, e
voluntariamente, por meio das miríades de interações entre indivíduos e associações
privadas. Todos os vários “ismos” políticos — monarquismo, oligarquismo, fascis-
mo, comunismo, conservadorismo, liberalismo, libertarismo — se reduzem a uma
única pergunta: quem decidirá sobre esse particular aspecto de sua vida? Você ou
outra pessoa?
É você que vai gastar o dinheiro que ganhar ou o Congresso?
É você que vai escolher a escola para seus filhos ou uma junta escolar?
É você que vai decidir que remédios tomar quando estiver doente ou será a
FDA (Agência de Alimentos e Medicamentos — Food and Drug Administration)
em Washington?
Em uma sociedade civil, é você que toma as decisões sobre sua vida. Em uma
sociedade política, é outra pessoa que faz isso. E, como as pessoas naturalmente
resistem a deixar que outros façam escolhas importantes por elas, a sociedade po-
lítica é necessariamente baseada na coerção. Ao longo deste livro, vamos explorar
as implicações dessa análise.

Principais conceitos do libertarismo


Com esse pano de fundo em mente, quero agora explicitar alguns dos principais
conceitos do libertarismo abordados de modo recorrente neste livro. Essas ideias vêm
se desenvolvendo por muitos séculos. Seus primeiros indícios podem ser encontrados
na China, Grécia e Israel antigos; começaram a se desenvolver como algo semelhante à
filosofia libertária moderna pelo trabalho de filósofos dos séculos XVII e XVIII, como
John Locke, David Hume, Adam Smith, Thomas Jefferson e Thomas Paine.

Individualismo. Os libertários encaram o indivíduo como a unidade básica


de análise social. Somente indivíduos fazem escolhas e são responsáveis por suas
ações. O pensamento libertário enfatiza a dignidade de cada indivíduo, que gera

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24 O Manifesto Libertário

tanto direitos quanto responsabilidades. A progressiva extensão da dignidade a


mais pessoas — a mulheres, a pessoas de outras crenças e raças — é um dos gran-
des triunfos libertários do mundo ocidental.

Direitos individuais. Por serem agentes morais, os indivíduos têm direito a


sentir segurança em relação a sua vida, liberdade e propriedade. Esses direitos não são
garantidos pelo governo ou pela sociedade; são inerentes à natureza do ser humano.
É intuitivamente correto que os indivíduos gozem da segurança de tais direitos; o
ônus da explicação deve ser daqueles que os restringem.

Ordem espontânea. É necessário que haja um alto grau de ordem na socie-


dade para que os indivíduos sobrevivam e prosperem. É fácil presumir que a ordem
devesse ser imposta por uma autoridade central, da forma como se organi-
za uma coleção de selos ou um time de futebol. O grande lampejo da análise so-
cial libertária foi o surgimento espontâneo da ordem na sociedade, a partir da
atuação de milhares ou milhões de indivíduos que coordenam suas ações entre
si de maneira a atingir seus propósitos. Ao longo da história, vimos optando gra-
dualmente por mais liberdade e ainda conseguimos desenvolver uma sociedade
complexa e intrincadamente organizada. As mais importantes instituições da socie-
dade humana — a língua, a lei, o dinheiro e os mercados —, todas, se formaram
espontaneamente, sem orientação do centro. A sociedade civil — a complexa rede de
associações e conexões entre as pessoas — é outro exemplo de ordem espontânea; as
associações feitas no âmbito da sociedade civil se formam com um propósito, mas a
sociedade civil em si não é uma organização e não tem um objetivo próprio.

O estado de direito. O libertarismo não é libertinismo nem hedonismo.


Não é a afirmação de que “todos podem fazer o que bem entenderem, e ninguém
pode reclamar”. Na verdade, o libertarismo propõe uma sociedade de liberdade sob
a lei, na qual os indivíduos são livres para se ocupar de sua própria vida contanto que
respeitem os mesmos direitos de outros. Um estado de direito significa que os indi-
víduos são governados por regras legais desenvolvidas de modo espontâneo e gene-
ricamente aplicáveis, e não por ordens arbitrárias; e que essas regras devem proteger
a liberdade dos indivíduos de buscar a felicidade à sua própria maneira, e não almejar
algum propósito ou resultado em particular.

Governo limitado. Para proteger direitos, os indivíduos formam governos.


Mas o governo é uma instituição perigosa. Os libertários têm forte antipatia pelo po-
der concentrado, pois, como disse Lord Acton: “O poder tende a corromper, e o po-
der absoluto corrompe absolutamente”. Querem, portanto, dividir e limitar o poder,

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Cap. 1 — A futura Era Libertária 25

o que significa em especial limitar o governo, geralmente mediante uma Constituição


escrita, enumerando e limitando os poderes que o povo delega ao governo. Governo
limitado é a implicação política básica do libertarismo, e os libertários apontam o fato
histórico de que foi a dispersão de poder na Europa — mais do que em outras partes
do mundo — que levou à liberdade individual e ao contínuo crescimento econômico.

Mercados livres. Para sobreviver e prosperar, os indivíduos precisam de-


senvolver atividades econômicas. O direito à propriedade acarreta o direito de trocar
propriedades por acordo mútuo. Os mercados livres são o sistema econômico dos
indivíduos livres, e eles são necessários para criar riqueza. Os libertários acreditam
que as pessoas serão mais livres e mais prósperas se a intervenção do governo nas
escolhas econômicas das pessoas for minimizada.

A virtude da produção. Muito do ímpeto pelo libertarismo no século XVII


foi uma reação contra monarcas e aristocratas que viviam do trabalho produtivo de
outras pessoas. Os libertários defenderam o direito das pessoas de manter os frutos de
seu trabalho. Esse esforço desabrochou como respeito pela dignidade do trabalho e da
produção, e especialmente pela classe média em expansão, que era desprezada pelos
aristocratas. Os libertários desenvolveram uma análise de classe pré-marxista que di-
vidia a sociedade em duas classes básicas: aqueles que produziam riqueza e os que a to-
mavam dos outros pela força. Thomas Paine, por exemplo, escreveu: “Há duas classes
distintas de homens nas nações: os que pagam tributos e aqueles que os recebem e vi-
vem deles”. Do mesmo modo, Jefferson escreveu em 1824: “Temos mais maquinário de
governo do que é necessário, parasitas demais vivendo do trabalho dos industriosos”.
Os libertários modernos defendem o direito das pessoas produtivas de preservar o que
ganham com sua produção, protegendo-se de uma nova classe de políticos e burocratas
que querem tomar seus ganhos e transferi-los para quem não produz.

Harmonia natural de interesses. Os libertários acreditam que em uma


sociedade justa há uma harmonia natural de interesses entre pessoas produtivas e
pacíficas. Os planos individuais de uma pessoa — entre os quais está conseguir um
emprego, começar um negócio, comprar uma casa, e assim por diante — podem con-
flitar com os planos de outros, de forma que o mercado faz com que muitos de nós
mudemos os nossos. Mas todos prosperamos com o funcionamento do mercado livre,
e não há nenhum conflito entre fazendeiros e comerciantes, manufatureiros e impor-
tadores. Somente quando o governo começa a distribuir recompensas com base em
pressões políticas é que nos vemos envolvidos em conflitos coletivos, sendo obrigados
a nos articular para competir com outros grupos por uma fatia do poder político.

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26 O Manifesto Libertário

Paz. Os libertários sempre lutaram contra o antigo flagelo da guerra. Eles com-
preendiam que a guerra traz morte e destruição em grande escala, perturba a vida
social e econômica e põe mais poder nas mãos da classe dominante — o que pode
explicar por que os líderes nem sempre compartilham o sentimento pacifista do
povo. Homens e mulheres livres, evidentemente, em muitas ocasiões já tiveram que
defender suas sociedades de uma ameaça estrangeira; mas, ao longo da história, a
guerra em geral foi um inimigo comum das pessoas produtivas e pacíficas em ambos
os lados do conflito.

Esses temas serão apresentados e desenvolvidos ao longo do livro. Neste ponto


talvez seja apropriado admitir a provável suspeita do leitor de que o libertarismo seja
exatamente a estrutura-padrão do pensamento moderno: individualismo, propriedade
privada, capitalismo, igualdade sob a lei. De fato, depois de séculos de luta política e
intelectual, às vezes violenta, esses princípios cardeais do libertarismo se tornaram
a estrutura básica do pensamento político moderno e dos governos de hoje, pelo
menos no Ocidente, e cada vez mais em outras partes do mundo. No entanto,
três observações adicionais precisam ser feitas. Primeiro, o libertarismo não se
limita apenas a esses princípios liberais generalizados. O libertarismo aplica esses
princípios, plena e uniformemente, bem mais do que a maioria dos pensadores
modernos e certamente mais do que qualquer governo moderno. Em segundo lugar,
enquanto nossa sociedade permanece genericamente baseada em direitos iguais e
capitalismo, todos os dias se criam novas exceções a esses princípios em Washington
e outras capitais, como Albany, em Nova York, Sacramento, na Califórnia, e Austin,
no Texas (para não falar em Londres, Bonn, Tóquio e outras). Cada nova diretriz
do governo usurpa um pouco de nossa liberdade, e devemos pensar com cuidado
antes de abrir mão de qualquer fração dela. Em terceiro lugar, a sociedade liberal é
resiliente; suporta muitos golpes e continua a prosperar; mas não é infinitamente
resiliente. Aqueles que alegam acreditar em princípios liberais mas advogam cada
vez mais confiscos da riqueza gerada pelas pessoas produtivas, mais restrições à
interação voluntária, mais exceções aos direitos de propriedade e à soberania da lei,
mais transferência de poder da sociedade para o estado, involuntária e fatalmente
acabam se envolvendo na ruína da civilização.

Esquerda ou direita?
No discurso político americano de hoje, quer-se determinar um lugar para cada
pessoa dentro de um espectro cujos extremos são rotulados de esquerda e direita,
ou, nos Estados Unidos, respectivamente de liberal e conservative. O libertarismo
é então de esquerda ou de direita? Bem, vamos ponderar o que significam esses

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Cap. 1 — A futura Era Libertária 27

termos. O American Heritage Dictionary diz que os liberais* favorecem “o progresso


e a reforma”, enquanto os conservadores “favorecem a preservação da ordem
existente e veem propostas de mudança com desconfiança”. O Random House
Dictionary diz que as pessoas de esquerda advogam “reforma liberal (...) geralmente
em benefício de maior liberdade pessoal ou melhores condições sociais”, enquanto
as de direita “defendem a manutenção da ordem econômica, política ou social
existente, às vezes por meios autoritários”. Bem, se essas são as alternativas,
fico com a “esquerda”. Mas, por esse critério, poderíamos chamar, por exemplo,
Ronald Reagan ou Newt Gingrich de conservadores? Eles não apoiaram mudanças
significativas no governo americano, acreditando que seriam “reformas” e trariam
“melhores condições sociais”? Essas definições não parecem dizer muita coisa a
respeito da política americana moderna.
Alguns livros-texto de ciência política mostram ideologias políticas dentro de
um espectro da esquerda para a direita, como se vê a seguir:

Mas será o liberalismo realmente uma versão moderada do comunismo e o con-


servadorismo uma versão moderada do fascismo? Não seriam o fascismo e o comu-
nismo ambos totalitários, de modo que têm mais em comum um com o outro do que
com seus vizinhos do espectro direita-esquerda?
O colunista Charles Krauthammer, tentando achar sentido nas palavras “libe-
ral” e “conservador” ao redor do mundo, sugeriu que concordássemos em que di-
reita significa menos governo e esquerda, mais governo. Seu diagrama pareceria
com o seguinte:

Mas, no mundo real, as pessoas não são sempre coerentes quanto a favorecer mais
governo ou menos. No diagrama de Krauthammer, onde se situaria o conservador
que quer diminuir tributos e censurar pornografia na internet? Ou o liberal que quer
aumentar a regulamentação governamental mas repelir leis anti-homossexualismo?
Na verdade, se examinarmos as pessoas que na política americana são chamadas
de liberais e conservadoras, encontraremos um padrão: os liberais geralmente que-
rem mais intervenção do governo na vida econômica — tributação e regulamen-
tação — e menos intervenção do governo em decisões pessoais e na liberdade de

* Mas não no sentido clássico, como se discutirá adiante. (N. T.)

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28 O Manifesto Libertário

expressão. Os conservadores geralmente querem menos intervenção do governo na


vida econômica e mais intervenção em questões pessoais e na liberdade de expres-
são. Alguns cientistas políticos sugeriram que essas são as opções disponíveis nos
Estados Unidos de hoje; qualquer um que não se enquadre em uma dessas categorias
é rotulado de “confuso”. Os cientistas políticos William S. Maddox e Stuart A. Lilie,
em seu livro Beyond Liberal and Conservative [Para além de liberais e conservadores],
fizeram uma pergunta simples: se há duas dimensões nessa abordagem, cada uma
com duas posições básicas, não deveríamos reconhecer as quatro combinações pos-
síveis de posições? Eles criaram o diagrama mostrado abaixo.

Intervenção do governo em questões econômicas

A favor Contra
Expansão das
liberdades A favor Liberal Libertário
pessoais Contra Populista Conservador

Os libertários acreditam que a história da civilização é o movimento do progresso em


direção à liberdade. Além disso, as posições libertária e populista (“estatista” talvez fosse
uma palavra melhor) são bem mais coerentes do que as posições liberal e conservadora.
Por que então não girar o diagrama para mostrar que um comprometimento consistente
com a liberdade não é apenas uma entre quatro escolhas possíveis, mas o apogeu do pen-
samento político? Com esse raciocínio, chegamos ao diagrama que se segue.

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Cap. 1 — A futura Era Libertária 29

Podemos agora responder à pergunta formulada há algumas páginas. No espectro


esquerda-direita americano da atualidade, o libertarismo não é nem esquerda nem
direita. Os libertários coerentemente acreditam em liberdade individual e governo
limitado, diferentemente tanto dos liberais quanto dos conservadores contemporâ-
neos. Alguns jornalistas dizem que os libertários são conservadores em se tratando
de questões econômicas e liberais, em assuntos sociais, mas teria muito mais sentido
dizer que os liberais de hoje são libertários em (algumas) questões sociais mas esta-
tistas em questões econômicas, enquanto os conservadores de hoje são libertários
em (algumas) questões econômicas mas estatistas nas questões sociais.

Um comentário sobre rótulos: por que libertários?


Algumas pessoas dizem que não gostam de rótulos. Afinal, cada um de nós é
muito complexo para ser reduzido a uma só palavra, seja ela preto ou branco, ho-
mossexual ou heterossexual, rico ou pobre, ou um termo ideológico como socialista,
fascista, liberal, conservador ou libertário. Mas os rótulos servem a um propósito;
eles nos ajudam a conceituar e economizam palavras. Se nossas crenças são coeren-
tes e consistentes, provavelmente há um rótulo para descrevê-las. E, de qualquer
maneira, se você não rotular sua filosofia ou movimento, alguém o fará por você.
(Foi assim que se rotulou de “capitalismo” o sistema de criatividade humana e pro-
gresso em um mercado livre, um termo que se refere à acumulação de dinheiro, o
que se dá em qualquer economia. Foi Karl Marx, inimigo jurado do capitalismo,
quem lhe deu esse nome.) Assim, estou disposto a usar o termo “libertário” para
descrever minha filosofia política e o movimento que busca promovê-la.
Por que alguém escolheria um termo esquisito como “libertária” para descrever
uma filosofia política? É um neologismo desajeitado e muito comprido. Provavelmente
essa não seria a primeira escolha de ninguém. Mas há uma razão histórica para o termo.
Alguns elementos do libertarismo têm raízes tão remotas quanto o filósofo Lao-
-tsé, da China antiga, e o conceito de lei superior dos gregos e israelitas. Na Grã-
-Bretanha do século XVII, as ideias libertárias começaram a tomar sua forma
moderna através dos escritos dos Levellers (Niveladores) e de John Locke. No
meio do século, opositores do poder real começaram a ser chamados de Whigs,
ou às vezes meramente de “oposição” ou “escritores do campo” (country writers),
em contraste com os da corte.
Nos anos 1820, os representantes da classe média nas Cortes Gerais, ou Parlamento,
da Espanha começaram a ser chamados de Liberales (liberais). Eles rivalizavam com
os Serviles (servis), que representavam os nobres e a monarquia absolutista. O termo
“serviles” para os que advogavam o poder do estado sobre os indivíduos infelizmente
não persistiu. Mas a palavra “liberal” para os defensores da liberdade e do estado de
direito se espalhou rapidamente. O partido Whig da Grã-Bretanha veio a se chamar

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30 O Manifesto Libertário

Partido Liberal (Liberal Party). Hoje conhecemos a filosofia de John Locke, Adam
Smith, Thomas Jefferson e John Stuart Mill como liberalismo.
Mas, por volta de 1900, o uso do termo “liberal” nos Estados Unidos sofreu uma
mudança. Pessoas que apoiavam o estado intervencionista e queriam limitar e con-
trolar o mercado livre começaram a se autodenominar liberais. O economista Joseph
Schumpeter comentou: “Em um supremo, ainda que involuntário, elogio, os inimi-
gos da iniciativa privada acharam por bem se apropriar de seu rótulo”. Desse modo,
hoje nos referimos à filosofia dos direitos individuais, mercados livres e governo li-
mitado — a filosofia de Locke, Smith, e Jefferson — como liberalismo clássico.
Mas “liberalismo clássico” não é lá um grande nome para uma filosofia política
moderna. “Clássico” soa velho, datado, cinzelado em pedra. (E nesta era de “anal-
fabetismo histórico”, aquele que se apresenta como liberal clássico será tomado por
um admirador de Teddy Kennedy!) Alguns dos defensores do governo limitado
começaram a usar o nome de seus velhos adversários, os “conservadores”. Mas con-
servadorismo propriamente dito significa, se não uma defesa da monarquia abso-
lutista e da velha ordem, pelo menos uma indisposição para a mudança e um desejo
de preservar o status quo. Seria estranho se referir ao capitalismo de livre mercado
— o mais progressista, dinâmico e adaptável sistema que o mundo jamais conheceu
— como conservador. Edward H. Crane propôs que os herdeiros de Locke e Smith
chamem a si mesmos de “liberais de mercado” (market liberals), mantendo a palavra
“liberal”, com sua conexão etimológica com a liberdade, mas reafirmando o compro-
misso liberal com o mercado. Esse termo foi bem recebido pelos intelectuais liberais
de mercado, mas sua absorção pelos jornalistas e pelo público parece improvável.
O termo correto para os defensores da sociedade civil e do mercado livre talvez
seja “socialista”. Thomas Paine fazia distinção entre sociedade e governo, e o escritor
libertário Albert Jay Nock resumiu todas as coisas que as pessoas fazem voluntaria-
mente — por amor, caridade ou lucro — como “poder social”, que está sob constante
ameaça de invasão pelo poder estatal. Poderíamos então dizer que aqueles que ad-
vogam poder social são socialistas, e os que apoiam o poder do estado são estatistas.
Mas infelizmente a palavra “socialista”, assim como a palavra “liberal”, foi reclamada
por aqueles que não defendem a sociedade civil nem muito menos a liberdade.
Em grande parte do mundo os defensores da liberdade ainda são chamados de
liberais. Na África do Sul, os liberais, como Helen Suzman, rejeitaram o sistema
de racismo e privilégio econômico conhecido como apartheid em favor de direi-
tos humanos, políticas não raciais e mercados livres. No Irã, os liberais se opõem
ao estado teocrático e fazem pressão por um “capitalismo democrático” no estilo
ocidental. Na China e na Rússia, os liberais são aqueles que querem substituir o
totalitarismo em todos os seus aspectos pelo sistema liberal clássico dos mercados
livres e do governo constitucional. Até mesmo na Europa Ocidental, liberal ain-

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Cap. 1 — A futura Era Libertária 31

da denomina pelo menos uma versão nebulosa do liberalismo clássico. Os liberais


alemães, por exemplo, geralmente encontrados no Partido Democrático, se opõem
ao socialismo dos social-democratas, ao corporativismo dos democratas cristãos e
ao paternalismo de ambos. Fora dos Estados Unidos, até os jornalistas americanos
entendem o significado tradicional de liberal. Em 1992, um artigo do Washington
Post referido em Moscou relatava que “os economistas liberais criticaram o governo
por não levar adiante rápido o suficiente as reformas estruturais e por permitir que
fábricas estatais que trazem prejuízo continuem a produzir bens dos quais ninguém
precisa”. Economistas liberais como Milton Friedman fazem críticas similares nos
Estados Unidos, mas aí o Post os chama de economistas conservadores.
Nos Estados Unidos, porém, nos anos 1940, a palavra “liberal” claramente já
havia se perdido para os defensores do estado intervencionista. Alguns liberais
clássicos resistiram por algum tempo, insistindo obstinadamente em que eles eram
os verdadeiros liberais e que os chamados “liberais” de Washington estavam na
verdade recriando a velha ordem de poder estatal que os liberais haviam lutado para
subverter. Mas outros se resignaram a encontrar um novo termo. Nos anos 1950,
Leonard Read, fundador da Foundation for Economic Education, começou a se
apresentar como libertário. A palavra já vinha sendo usada havia muito tempo para
designar os defensores do livre-arbítrio (contra o determinismo); e, como “liberal”,
era derivada do latim liber (livre). O nome foi gradualmente adotado por um grupo
crescente de libertários nos anos 1960 e 1970. Um Partido Libertário foi formado
em 1972. O termo ainda era rejeitado por alguns dos maiores libertários do século
XX, como Ayn Rand, que se autodenominava “radical do capitalismo”, e Friedrich A.
Hayek, que continuou a chamar a si mesmo de liberal ou Old Whig.
Neste livro, admito o uso contemporâneo. Chamo as ideias que advogo e o
movimento que procura promovê-las de libertarismo. O libertarismo pode ser
encarado como uma filosofia política que aplica as ideias do liberalismo clássico
com coerência, levando os argumentos liberais a conclusões que limitariam mais
estritamente o papel do governo e protegeriam as liberdades individuais mais
plenamente do que outros liberais clássicos o fariam. Na maior parte do tempo,
uso a palavra “liberal” no seu sentido tradicional; chamo os equivocadamente ditos
liberais de hoje de liberais do bem-estar social ou de social-democratas. E devo notar
que as ideias libertárias e o movimento libertário são muito mais amplos do que
qualquer partido político, tal como o Partido Libertário. Referências ao libertarismo
não devem ser tomadas como referências ao Partido Libertário, exceto quando assim
colocadas explicitamente.
Tentou-se adotar as velhas ideologias e descobriu-se que elas são deficientes.
À nossa volta — do mundo pós-comunista às ditaduras militares da África,
passando pelos estados de bem-estar social falidos e vacilantes da Europa e das

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32 O Manifesto Libertário

Américas do Sul e do Norte — vemos o legado fracassado da coerção e do estatismo.


Ao mesmo tempo, vemos movimentos na direção de soluções libertárias — governos
constitucionais na Europa Oriental e na África do Sul, privatizações na Grã-Bretanha
e na América Latina, democracia e estado de direito na Coreia e em Taiwan, e uma
demanda de redução dos tributos em toda parte. Vemos até mesmo pessoas em
muitas partes do mundo — Québec, Croácia, Bósnia, Itália setentrional, Escócia,
e grande parte da África, para não falar nas 15 novas repúblicas da velha União
Soviética — desafiando os grandes, intrusivos e incorrigíveis estados nacionais
em que se encontram e exigindo uma devolução do poder. O libertarismo oferece
uma alternativa ao governo coercitivo que tem apelo para as pessoas produtivas e
pacíficas em qualquer lugar.
Não, um mundo libertário não será um mundo perfeito. Ainda haverá
desigualdade, pobreza, crime, corrupção e desumanidade de um homem com outro.
Mas, diferentemente dos visionários teocratas, dos socialistas utópicos com os pés
nas nuvens, ou dos sonhadores Senhores Resolvem-Tudo do New Deal e da Grande
Sociedade, os libertários não estão prometendo um mundo cor-de-rosa. Karl Popper
disse certa vez que as tentativas de criar o paraíso na terra levam invariavelmente ao
inferno. O libertarismo propõe como objetivo não uma sociedade perfeita, mas outra
melhor e mais livre. Promete um mundo em que uma parte maior das decisões será
tomada da maneira certa pela pessoa certa: você. O resultado não será o fim do crime,
da pobreza e da desigualdade, mas haverá uma quantidade menor — frequentemente
bem menor — da maior parte dessas coisas, durante a maior parte do tempo.

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Capítulo 2

As raízes do libertarismo

D
e certo modo, sempre houve apenas duas filosofias políticas: liberdade e
poder. Ou as pessoas deveriam ser livres para viver sua vida como bem en-
tendessem, contanto que respeitassem os mesmos direitos dos outros, ou
algumas deveriam ser capazes de usar a força para obrigar outros indivíduos a agir de
formas que não seriam de sua escolha. Não é surpresa, é claro, que a filosofia do poder
tenha sido sempre mais atraente para aqueles que o estão exercendo. Muitas foram as
denominações que ela já recebeu — cesarismo, despotismo oriental, teocracia, socia-
lismo, fascismo, comunismo, monarquismo, ujamaa, estatismo assistencialista —, e os
argumentos em favor de cada um desses sistemas foram distintos o suficiente para dis-
farçar sua essencial similaridade. A filosofia da liberdade também teve muitos nomes,
mas seus defensores sempre mantiveram um elo comum de respeito pelo indivíduo,
confiança na habilidade das pessoas comuns de tomar decisões sobre sua própria vida
e hostilidade para com aqueles que usam de violência para conseguir o que querem.
O primeiro libertário de que se tem notícia talvez seja o filósofo chinês Lao-tsé,
que viveu por volta do século VI a.C. e é mais conhecido como autor do Tao Te Ching.
Lao-tsé aconselhava: “Sem lei ou compulsão, os homens viveriam em harmonia”.
O Tao é uma clássica afirmação da serenidade espiritual associada com a filosofia
oriental. O Tao é a união de opostos, o yin e o yang; o Tao antecipa a teoria da ordem
espontânea por meio do ensinamento de que a harmonia pode ser atingida mediante
a competição e aconselha os líderes a não interferir na vida do povo.
Apesar do exemplo de Lao-tsé, o libertarismo realmente nasceu no Ocidente. Isso o
torna uma ideia estritamente ocidental? Acredito que não. Os princípios de liberdade e
direitos individuais são universais, assim como o são os princípios da ciência, embora a
maior parte da descoberta desses princípios tenha se dado no Ocidente.

A pré-história do libertarismo
Ambas as principais linhas de pensamento do Ocidente, a grega e a judaico-
-cristã, contribuíram para o desenvolvimento da liberdade. De acordo com o Antigo
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34 O Manifesto Libertário

Testamento, o povo de Israel viveu sem rei ou qualquer outra autoridade coercitiva,
autogovernando-se não pela força, mas pela adesão mútua a seu pacto com Deus.
Então, como está registrado no Primeiro Livro de Samuel, os judeus foram a Samuel
e disseram: “Constituí um rei para nos julgar, como há em todas as nações”. Mas,
quando Samuel orou fazendo esse pedido, Deus disse:

Este será o costume do rei que houver de reinar sobre


vós: ele tomará vossos filhos e os porá em seus carros. E
tomará vossas filhas como cozinheiras. E tomará o me-
lhor de vossas terras e de vossos olivais e os dará a seus
servos. E dizimará vossas sementes e vossas vinhas. Dizi-
mará vosso rebanho, e vós lhe servireis de servos.
E nesse dia clamareis por causa do vosso rei que houver-
des escolhido; mas o Senhor não vos ouvirá nesse dia.

Apesar de o povo de Israel ter desafiado esse terrível aviso e criado uma monar-
quia, a história serviu como lembrete constante de que as origens do estado não são
de modo nenhum de inspiração divina. O aviso de Deus ressoou não apenas em Isra-
el de antigamente, mas alcançou os tempos modernos. Thomas Paine o cita em Senso
comum, para lembrar aos americanos que “os poucos bons reis” nos três mil anos
desde Samuel não poderiam “obscurecer a perversidade da origem” da monarquia.
O grande historiador da liberdade, Lord Acton, presumindo que todos os leitores da
Grã-Bretanha do século XIX estariam com ele familiarizados, referiu-se casualmen-
te ao “momentoso protesto” de Samuel.
Apesar de terem instaurado um rei, os judeus talvez tenham estado entre os
primeiros povos a elaborar a ideia de que o rei era subordinado a uma lei superior.
Em outras civilizações, o rei era a lei, geralmente por ser considerado divino. Mas
os judeus disseram ao faraó egípcio e a seus próprios reis que um rei continua sendo
apenas um homem e que todos os homens são julgados pela lei de Deus.

Lei natural
O conceito de uma lei superior também foi desenvolvido na Grécia Antiga. O
dramaturgo Sófocles, no século V a.C., contou a história de Antígona, cujo irmão
Polinice havia atacado a cidade de Tebas e morrido na batalha. Por essa traição, o
tirano Creonte ordenou que seu corpo fosse deixado fora dos portões, para apodrecer,
sem luto nem enterro. Antígona desafiou Creonte e enterrou o irmão. Levada diante
de Creonte, ela declarou que uma lei feita por um mero homem, mesmo sendo ele um
rei, não poderia se sobrepor às “leis tácitas e infalíveis dos deuses”, que existiam havia
mais tempo do que qualquer um poderia afirmar.

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 35

A noção de uma lei pela qual até os governantes podiam ser julgados perdurou e
cresceu por toda a civilização europeia. Foi desenvolvida no mundo romano pelos
filósofos estoicos, que argumentavam que, mesmo sendo o povo o governante, ele
pode fazer somente o que é justo, segundo a lei natural. O duradouro poder dessa
ideia estoica no Ocidente deveu-se em parte a um feliz acidente: o jurista estoico
Cícero foi posteriormente considerado o maior escritor da prosa latina, de modo que
seus ensaios foram lidos durante muitos séculos pelos europeus cultos.
Não muito depois do tempo de Cícero, em um famoso encontro, perguntou-se
a Jesus se seus seguidores deveriam pagar tributos. “Dai a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus”, Ele respondeu. Ao fazer isso, dividiu o mundo em dois
domínios, deixando claro que nem toda vida está sob o controle do estado. Essa
noção radical imperou na cristandade ocidental, mas não na igreja oriental, que foi
totalmente dominada pelo estado, sem deixar na sociedade espaço no qual fontes
alternativas de poder pudessem se desenvolver.

Pluralismo
A independência da igreja ocidental, que veio a ser conhecida como Católica Ro-
mana, significou que em toda a Europa havia duas instituições poderosas disputando
o poder. Nem estado nem igreja gostavam muito da situação, mas seu poder dividido
deixava espaço para que os indivíduos e a sociedade civil se desenvolvessem. Papas
e imperadores frequentemente denunciavam o caráter um do outro, contribuindo
para sua própria deslegitimação. Repetimos que esse conflito entre igreja e estado
era praticamente único no mundo inteiro, o que ajuda a entender por que os princí-
pios da liberdade foram descobertos primeiro no Ocidente.
No século IV, o imperador Teodósio ordenou que o bispo de Milão, Santo
Ambrósio, entregasse sua catedral ao império. Ambrósio repreendeu o impera-
dor, dizendo:

Não é lícito para nós entregá-la e nem para vossa majes-


tade recebê-la. Por lei nenhuma se pode violar a casa de
um particular. Pensais que a casa de Deus pode ser to-
mada? Afirma-se que todas as coisas são lícitas para o
imperador, que todas as coisas são suas. Mas não deixeis
pesar em vossa consciência o pensamento de que como
imperador tendes algum direito sobre as coisas sagradas.
Exaltai não a vós, mas, se quiserdes reinar por mais tem-
po, sujeitai-vos a Deus. Está escrito: “Daí a Deus o que é
de Deus e a César o que é de César”.

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36 O Manifesto Libertário

O imperador foi forçado a ir à igreja de Ambrósio e implorar perdão por sua trans-
gressão.
Séculos depois, um conflito similar teve lugar na Grã-Bretanha. O arcebispo de
Canterbury, Thomas Becket, defendeu os direitos da igreja contra as usurpações de
Henrique II. Henrique disse em voz alta que poderia se livrar “desse sacerdote intro-
metido”, ante o que quatro cavaleiros partiram para assassinar Becket. Quatro anos
depois, Becket foi canonizado, e Henrique, forçado a andar descalço pela neve até a
igreja de Becket, como penitência por seu crime, e a recuar em suas exigências à igreja.
Como a luta entre igreja e estado impediu o surgimento de qualquer poder abso-
luto, houve sempre espaço para que instituições autônomas se desenvolvessem e, já
que a igreja não tinha poder absoluto, as dissidências religiosas fermentavam desim-
pedidas. Mercados e associações, relações firmadas sob juramento, corporações de
ofício, universidades e cidades autogovernadas, todos contribuíram para o desenvol-
vimento do pluralismo e da sociedade civil.

Tolerância religiosa
O libertarismo é muitas vezes considerado, antes de tudo, uma filosofia de
liberdade econômica, mas suas verdadeiras raízes históricas jazem na luta pela
tolerância religiosa. Os primeiros cristãos começaram a desenvolver ideias de
tolerância como contraposição à perseguição que sofriam por parte do estado
romano. Um dos primeiros foi Tertuliano, um cartaginês conhecido como “pai da
teologia latina”, que escreveu, por volta de 200 a.C.:

É um direito humano fundamental, um privilégio da na-


tureza, que todo homem deva adorar segundo suas pró-
prias convicções. A religião de um homem não prejudica
nem ajuda outro homem. Certamente não faz parte da
religião impor uma religião à qual o livre-arbítrio, e não a
força, deve nos levar.

Já então a defesa da liberdade se fazia em termos de direitos fundamentais ou na-


turais.
O crescimento do comércio, de interpretações religiosas diversas e da sociedade
civil significou que havia mais fontes de influência dentro de cada comunidade, e que
esse pluralismo levou a uma exigência de limitações formais ao governo. Em uma dé-
cada notável, em três partes muito dispersas da Europa, grandes passos foram dados
em direção a um governo limitado e representativo. A mais famosa, pelo menos nos
Estados Unidos, ocorreu na Grã-Bretanha em 1215, quando os barões confrontaram
o rei João em Runnymede e o forçaram a assinar a Carta Magna, que garantia a todos

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 37

os homens livres segurança contra interferências legais em sua vida pessoal ou em


sua propriedade e justiça para todos. Limitou-se a capacidade do rei de aumentar a
receita, garantiu-se à igreja certo grau de liberdade e confirmaram-se as liberdades
das cidadelas.
Enquanto isso, por volta de 1220, a cidade alemã de Magdeburgo desenvolveu um
conjunto de leis que enfatizavam a liberdade e o autogoverno. A lei de Magdeburgo
era tão amplamente respeitada que foi adotada por centenas de cidades que come-
çavam a se formar por toda a Europa Central, e casos legais de algumas cidades da
Europa Centro-Oriental eram encaminhados para os juízes de Magdeburgo. Final-
mente, em 1222, os nobres menores e a pequena nobreza da Hungria — na época
parte importante da corrente europeia influente — forçaram o rei André II a assinar
a Bula de Ouro. Ela isentava de tributos o clero e a pequena nobreza, assegurava-lhes
liberdade para dispor de seus domínios como desejassem, protegia-os de prisão e
confisco arbitrários, garantia-lhes uma assembleia anual para apresentar reclama-
ções e dava-lhes até mesmo o Jus Resistendi, o direito de resistir ao rei se ele investisse
contra as liberdades e privilégios da Bula de Ouro.
Os princípios que orientavam esses documentos estavam longe do libertarismo
pleno; ainda excluíam muitas pessoas das garantias de liberdade, e tanto a Carta
Magna quanto a Bula de Ouro discriminavam explicitamente os judeus. No entanto,
são marcos em um avanço contínuo na direção da liberdade, do governo limitado e
da expansão do conceito de pessoalidade para todos os indivíduos. Eles mostraram
que por toda a Europa havia pessoas refletindo sobre o conceito de liberdade e aca-
baram gerando em outros grupos a inveja de pessoas que também queriam defender
suas liberdades.
Posteriormente, no século XIII, São Tomás de Aquino, quiçá o maior de todos
os teólogos católicos, e outros filósofos desenvolveram o argumento teológico para
limitar o poder real. São Tomás escreveu: “Um rei infiel a seus deveres perde o direito
à obediência. Não é rebeldia depô-lo, pois ele próprio é um rebelde a quem a nação
tem direito de destronar. Mas é melhor abreviar seu poder, para que não possa abusar
dele”. Era essa a autoridade teológica por trás da ideia de que tiranos podiam ser de-
postos. Tanto João de Salisbury, bispo inglês que testemunhou o assassinato de Be-
cket no século XII, quanto Roger Bacon, pensador do século XIII — os quais Lord
Acton descreve como os mais distintos escritores ingleses de suas respectivas épocas
—, defenderam até mesmo o direito de matar tiranos, um argumento inimaginável
em praticamente qualquer outro lugar do mundo.
Os pensadores escolásticos espanhóis do século XVI, às vezes chamados de Esco-
la de Salamanca, partiram da obra de São Tomás para explorar teologia, lei natural e
economia. Eles anteciparam muitos dos temas encontrados posteriormente na obra
de Adam Smith e da Escola Austríaca. De sua cátedra da Universidade de Salamanca,

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38 O Manifesto Libertário

Francisco de Vitória condenou a escravidão dos índios pelos espanhóis no Novo


Mundo em termos de individualismo e direitos naturais:

Todo índio é um homem, sendo por isso capaz de alcan-


çar a salvação ou a danação (...) Por ser uma pessoa, todo
índio tem livre-arbítrio e é, consequentemente, senhor
de suas ações (...) Todo homem tem o direito à própria
vida e à integridade física e mental.

Vitória e seus colegas também desenvolveram doutrinas de lei natural em áreas


como propriedade privada, lucro, juros e tributação; sua obra influenciou Hugo
Grócio, Samuel Pufendorf, e, por intermédio deles, Adam Smith e seus colegas
escoceses.
A pré-história do libertarismo culmina no período da Renascença e da Reforma
Protestante. A redescoberta do aprendizado clássico e o humanismo que marcaram
a Renascença costumam ser vistos como a emergência dos tempos modernos
após a Idade Média. Com paixão de romancista, Ayn Rand resumiu uma visão da
Renascença, a da tensão secular, individualista e racionalista do liberalismo:

A Idade Média foi uma era de misticismo, dominada por


fé cega e cega obediência ao dogma de que a fé é superior
à razão. A Renascença foi especificamente o renascimen-
to da razão, a liberação da mente humana, o triunfo da ra-
cionalidade sobre o misticismo — um vacilante e incom-
pleto mas apaixonado triunfo que levou ao nascimento
da ciência, do individualismo e da liberdade.

No entanto, o historiador Ralph Raico defende a ideia de que a Renascença pode


ser superestimada como progenitora do liberalismo; as declarações de direitos me-
dievais e as instituições legais independentes ofereceram um fundamento mais segu-
ro para a liberdade do que o individualismo prometeico da Renascença.
A Reforma contribuiu mais para o desenvolvimento das ideias liberais. Os refor-
madores protestantes, como Martinho Lutero e João Calvino, não eram de forma
nenhuma liberais. Mas, ao quebrar o monopólio da igreja católica, inadvertida-
mente encorajaram uma proliferação de seitas protestantes, algumas das quais —
tais como os quacres e os batistas — não cultivavam o pensamento liberal. Após
as guerras religiosas, começou-se a questionar a noção de que a comunidade deve-
ria ter apenas uma religião. Pensava-se que, sem uma única autoridade religiosa e
moral, a comunidade assistiria a uma proliferação interminável de transgressões

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 39

morais e se faria literalmente em pedaços. Essa ideia profundamente conservadora


tem uma longa história. Data pelo menos da insistência de Platão em regulamen-
tar até mesmo a música em uma sociedade ideal, e mesmo em nosso tempo já foi
enunciada pelo escritor socialista Robert Heilbroner, que diz que o socialismo re-
quer “um objetivo moral adotado coletivamente” que “toda voz dissidente ameaça”.
E pode ser ouvida no medo dos habitantes da rural Catlett, na Virgínia, que relata-
ram ao Washington Post seus receios quando um templo budista foi construído em
sua comunidade: “Acreditamos em um único Deus verdadeiro, e creio que temíamos
que uma falsa religião como aquela pudesse influenciar nossas crianças”. Felizmente,
a maior parte das pessoas notou que após a Reforma a sociedade não se desfez ante a
existência de visões morais e religiosas diferentes. Ao contrário, tornou-se mais forte
ao acomodar a diversidade e a competição.

A reação ao absolutismo
No fim do século XVI, enfraquecida por sua própria corrupção e pela Reforma,
a igreja precisava mais do apoio do estado do que ele da igreja. A fraqueza da igreja
abriu uma brecha para o surgimento do absolutismo real, visto especialmente nos
reinos de Luís XIV na França e na dinastia Stuart na Grã-Bretanha. Os monar-
cas passaram a criar suas próprias burocracias, impor novos tributos, estabelecer
exércitos permanentes e reclamar cada vez mais poder. Inspirando-se na obra de
Copérnico, que provou que os planetas giram ao redor do sol, Luís XIV se autode-
nominava Rei Sol, por se considerar o centro da vida na França, e declarou celebre-
mente: “L’état, c’est moi” (“O estado sou eu”). Luís XIV baniu o protestantismo e
tentou se tornar o líder da igreja católica na França. Durante seu reinado de quase
setenta anos, nunca convocou uma sessão da assembleia representativa, os Estados
Gerais. Seu ministro das Finanças implementou uma política de mercantilismo na
qual o estado supervisionaria, guiaria, planejaria, projetaria e monitoraria a eco-
nomia — subsidiando, proibindo, concedendo monopólios, nacionalizando, fixan-
do salários e preços e assegurando qualidade.
Na Grã-Bretanha, os reis Stuart também tentaram instituir um governo absolu-
tista. Procuraram ignorar o direito consuetudinário e aumentar tributos sem a apro-
vação da assembleia representativa da Grã-Bretanha, o Parlamento. Mas a sociedade
civil e a autoridade do Parlamento se mostraram mais resistentes na Grã-Bretanha
do que no continente, e quarenta anos depois da ascensão de Jaime I ao trono a cam-
panha absolutista dos Stuart foi atalhada. A resistência ao absolutismo culminou na
decapitação de seu filho, Carlos I, em 1649.
Nesse ínterim, enquanto o absolutismo criava raízes na França e na Espanha, os
Países Baixos passaram a ser um ícone de tolerância religiosa, liberdade comercial e
limitação do governo central. Depois que os holandeses se tornaram independentes

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40 O Manifesto Libertário

da Espanha, no começo do século XVII, eles criaram uma frouxa confederação de


cidades e províncias, transformando-se na primeira potência comercial do século e
num abrigo para os refugiados da opressão. Muitos livros e panfletos de dissidentes
ingleses e franceses foram publicados nas cidades holandesas. Um desses refugiados,
o filósofo Baruch Spinoza, cujos pais judeus haviam fugido da perseguição católica
em Portugal, descreveu em seu Tratado político-teológico a feliz interação entre a
tolerância religiosa e a prosperidade na Amsterdã do século XVII:

A cidade de Amsterdã colhe os frutos da liberdade em


sua grande prosperidade e na admiração de todos os ou-
tros povos. Pois nesse mais vicejante dos estados e mais
esplêndida das cidades, homens de todas as nações e reli-
giões vivem juntos na maior harmonia e nada perguntam
antes de confiar seus bens a um concidadão. A religião ou
seita de um cidadão não é considerada importante; por
isso não tem efeito perante os juízes quanto a ganhar ou
perder uma causa, e não há nenhuma seita tão despreza-
da que seus seguidores, contanto que a ninguém preju-
diquem, paguem o que devem e vivam honestamente,
sejam privados da proteção da autoridade do magistério.

O exemplo de harmonia social e progresso econômico na Holanda inspirou pro-


toliberais na Grã-Bretanha e em outros países.

A Revolução Inglesa
A oposição inglesa ao absolutismo do rei criou uma intensa fermentação intelectual,
e a primeira agitação de ideias claramente protoliberais pode ser encontrada na
Grã-Bretanha do século XVII. Novamente, ideias liberais nasceram da defesa da
tolerância religiosa. Em 1644, John Milton publicou Areopagitica, uma eloquente
defesa da liberdade de culto e um ataque ao licenciamento oficial da imprensa. Sobre
a relação entre liberdade e virtude, uma questão que preocupa até hoje a política
americana, Milton escreveu: “A liberdade é a melhor escola da virtude”. A virtude,
disse ele, só é virtuosa quando escolhida livremente. Sobre a liberdade de expressão,
escreveu: “Quem já viu a Verdade ser derrotada em um duelo livre e aberto?”.
Após a decapitação de Carlos I, quando a Grã-Bretanha estava no período entre
reis e sob o governo de Oliver Cromwell, houve um intenso debate intelectual. Um
grupo conhecido como os Levellers começou a enunciar um conjunto de ideias que
viria a ser conhecido como liberalismo. Eles colocavam a defesa da liberdade de culto
e dos antigos direitos dos ingleses em um contexto de soberania individual e direitos

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 41

naturais. Em um famoso ensaio “An arrow against all tyrants” [Uma flecha contra
todos os tiranos], o líder dos Levellers, Richard Overton, defendeu a ideia de que todo
indivíduo tem o que chamou de self-property (literalmente, propriedade sobre si),
isto é, que todo homem é dono de si mesmo e portanto tem direito à vida, à liberdade
e à propriedade. “Nenhum homem tem poder sobre meus direitos e liberdades, nem
eu o tenho sobre os de homem nenhum”.
Apesar dos esforços dos Levellers e outros radicais, a dinastia Stuart retornou ao
trono em 1660, na pessoa de Carlos II. Carlos prometeu respeitar a liberdade de
consciência e os direitos dos proprietários de terra, mas ele e seu irmão, Jaime II,
novamente tentaram ampliar o poder real. Na Revolução Gloriosa de 1688, o Parla-
mento ofereceu a coroa a Guilherme e Maria de Orange (netos de Carlos I). Guilher-
me e Maria concordaram em respeitar os “verdadeiros, antigos e indubitáveis direi-
tos” dos ingleses, como referidos na Declaração de Direitos (Bill of Rights) de 1689.
Podemos dizer que o nascimento do liberalismo data da época da Revolução
Gloriosa. John Locke é corretamente visto como o primeiro verdadeiro liberal e
como o pai da filosofia política moderna. Sem conhecer as ideias de Locke, não é
possível entender realmente o mundo em que vivemos. Sua grande obra, O segundo
tratado sobre o governo, foi publicada em 1690, mas havia sido escrita alguns anos
antes, para refutar o filósofo absolutista Sir Robert Filmer, o que tornou sua defesa
dos direitos individuais e do governo representativo muito mais radical. Locke
pergunta: qual é o objetivo do governo? Por que temos que ter um? E responde: as
pessoas têm direitos anteriores à existência de governo — por isso os chamamos de
naturais, porque existem na natureza. As pessoas formam um governo para proteger
esses direitos. Seria possível fazer isso sem ele, mas o governo é um sistema eficiente
para a proteção de direitos. E, se o governo extrapola esse papel, é justo que o povo se
revolte. O governo representativo é a melhor maneira de garantir que ele vai se ater ao
objetivo adequado. Ecoando uma tradição filosófica arraigada há anos no Ocidente,
Locke escreveu: “Um governo não é livre para fazer o que bem entender (...) A lei da
natureza permanece regra eterna para todos os homens, legisladores ou não”.
Locke também articulou claramente a ideia de direitos de propriedade:

Todo homem tem uma propriedade em sua própria pessoa.


A esta nenhum corpo tem direito senão ele próprio. O
trabalho de seu corpo, e a obra de suas mãos, podemos
dizer, são propriamente seus. Tudo aquilo que então
recolher do estado que a natureza ofereceu e em que
deixou, ele misturou com seu trabalho e juntou ao que é
seu, fazendo assim sua propriedade.

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42 O Manifesto Libertário

As pessoas têm um direito inalienável à vida e à liberdade e adquirem um


direito à propriedade previamente sem dono que “misturam com seu trabalho”,
por exemplo, cultivando a terra. É papel do governo proteger a “vida, a liberdade e
a propriedade” do povo.
Essas ideias foram recebidas com entusiasmo. A Europa ainda estava sob as
garras do absolutismo real, mas, graças à experiência com os Stuarts, os ingleses
suspeitavam de todas as formas de governo. Acolheram calorosamente essa vigorosa
defesa filosófica dos direitos naturais, do estado de direito e do direito à revolução.
Começaram também, é claro, a trazer para o Novo Mundo, de navio, as ideias de
Locke e dos Levellers.

O século XVIII liberal


A Grã-Bretanha desabrochou sob um governo limitado. Assim como a Holanda
havia um século antes inspirado os liberais, o modelo inglês passou a ser citado pelos
pensadores liberais do continente e, por fim, de todo o mundo. Podemos dizer que o
Iluminismo data de aproximadamente 1720, quando o escritor francês Voltaire fu-
giu da tirania francesa e chegou à Inglaterra. Lá ele viu tolerância religiosa, governo
representativo e uma classe média próspera. Notou que o trabalho era mais respeita-
do do que na França, onde os aristocratas olhavam com desprezo para os que se en-
volviam com o comércio. Observou também que, quando se permite que as pessoas
comerciem livremente, seus interesses próprios relegam a um segundo plano os pre-
conceitos, como em sua famosa descrição da bolsa de valores em Cartas filosóficas:

Vá à Bolsa de Valores de Londres — um lugar mais res-


peitável do que muitas cortes — e lá você verá represen-
tantes de todas as nações reunidos em serviço da huma-
nidade. Lá o judeu, o muçulmano e o cristão tratam um
com o outro como se fossem da mesma religião e dão o
nome de infiel somente a quem vai à falência. Lá o pres-
biteriano confia no anabatista, e o anglicano aceita a
promessa do quacre. Ao sair dessas livres e pacíficas as-
sembleias, alguns vão à sinagoga, outros vão beber (...)
outros ainda vão à igreja aguardar a inspiração de Deus,
de chapéu na cabeça, e todos estão contentes.

O século XVIII foi o grande século do pensamento liberal. As ideias de Locke


foram desenvolvidas por muitos escritores, notavelmente John Trenchard e Thomas
Gordon, que escreveu uma série de ensaios para jornais assinando “Catão”, lembrando
Catão, o Jovem, defensor da República Romana contra a busca de poder por Júlio

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 43

César. Esses ensaios, que denunciavam o governo por continuar a infringir os direitos
dos ingleses, vieram a ser conhecidos como Cartas de Catão. (Nomes reminiscentes
da República Romana eram populares entre os escritores do século XVIII; exemplo
disso são os artigos de O federalista, que eram assinados por “Publius”.) Na França,
os Fisiocratas desenvolveram a ciência moderna da economia. Seu nome vinha do
grego physis (natureza) e kratos (soberania); defendiam a soberania da natureza,
com o que queriam dizer que leis naturais similares às da física governavam a
sociedade e a criação de riqueza. A melhor maneira de aumentar a oferta de bens
reais era permitindo o comércio livre, desimpedido de monopólios, regulamentação
de profissões ou altos tributos. A ausência de restrições coercitivas produziria
harmonia e abundância. É desse período que data o famoso lema libertário “laissez-
-faire”. Segundo a lenda, Luís XV perguntou a um grupo de mercadores: “Como posso
ajudá-los?”. E eles responderam: “Laissez-nous faire, laissez-nous passer. Le mond va de
lui-même”. (Deixe-nos fazer, deixe-nos passar. O mundo segue por si mesmo.)
Os principais fisiocratas incluíam François Quesnay e Pierre Du Pont de Nemours,
que fugiu da Revolução Francesa para a América, onde seu filho fundou um pequeno
negócio em Delaware. Um companheiro dos Fisiocratas, A. R. J. Turgot, foi um grande
economista nomeado ministro das Finanças por Luís XVI, um “déspota esclarecido”
que queria aliviar o peso do governo sobre o povo francês — e possivelmente criar
mais riqueza para ser tributada, pois, como apontaram os Fisiocratas, “camponeses
pobres, reino pobre; reino pobre, rei pobre”. Turgot promulgou os Seis Éditos para
abolir as corporações de ofício (que haviam se tornado monopólios calcificados),
abolir tributos internos e trabalho forçado (a corvée) e estabelecer tolerância para
os protestantes. Deparou-se com a dura resistência dos grupos de interesse e foi
demitido em 1776. Com ele, diz Raico, “foi-se a última esperança para a monarquia
francesa”, que de fato caiu com a revolução treze anos depois.
O Iluminismo francês é o que a história melhor conhece, mas houve também
um importante Iluminismo escocês. Os escoceses havia muito se ressentiam da
dominação inglesa, tendo sofrido muito com o mercantilismo britânico e em um
século haviam atingido melhores taxas de alfabetização e melhores escolas do que os
ingleses. Estavam bem preparados para desenvolver ideias liberais (e para dominar a
vida intelectual inglesa por um século). Entre os intelectuais do Iluminismo escocês
estava Adam Ferguson, autor do Essay on the History of Civil Society [Ensaio sobre a
história da sociedade civil], que cunhou a expressão “produto da ação humana, mas
não realização de um desígnio humano”, que inspiraria futuros teóricos da ordem
espontânea; Francis Hutcheson, que antecipou os utilitaristas com a noção de
“maior bem para o maior número”; e Dugald Stewart, cujo Philosophy of the Human
Mind [Filosofia da mente humana] foi amplamente lido nas primeiras universidades
americanas. Mas os mais preeminentes foram David Hume e seu amigo Adam Smith.

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44 O Manifesto Libertário

Hume era filósofo, economista e historiador, num tempo em que a aristocracia


universitária ainda não havia declarado que o conhecimento precisa ser dividido
em categorias distintas. Ele é mais conhecido entre os estudantes contemporâneos
por seu ceticismo filosófico, mas também ajudou a desenvolver nosso entendimento
moderno da produtividade e benevolência do mercado livre. Defendia a propriedade
e o contrato, a livre concorrência entre os bancos e a ordem espontânea das sociedades
livres. Argumentou, contra a teoria mercantilista da balança comercial, que todos
se beneficiam da prosperidade dos outros, inclusive da prosperidade de pessoas de
outros países.
Junto com John Locke, Adam Smith foi um dos pais do liberalismo, ou do que
agora chamamos de libertarismo. E, como vivemos em um mundo liberal, Locke e
Smith podem ser vistos como os arquitetos do mundo moderno. Em Teoria dos sen-
timentos morais, Smith distinguiu entre dois tipos de comportamento: o beneficente
e o autointeressado. Muitos críticos afirmam que Adam Smith, os economistas em
geral ou os libertários acreditam que todo comportamento é motivado por interesse
próprio. Em seu primeiro grande livro, Smith deixou claro que não é esse o caso.
É claro que as pessoas às vezes agem por benevolência, e a sociedade deve incentivar
tais sentimentos. Mas, disse ele, se necessário, a sociedade poderia existir sem que
a beneficência se estendesse para além da família. As pessoas ainda teriam alimen-
to, a economia funcionaria, o conhecimento progrediria; mas a sociedade não pode
existir sem justiça, isto é, a proteção dos direitos à vida, à liberdade e à propriedade.
A justiça, portanto, deve ser a primeira preocupação do estado.
Em seu livro mais conhecido, A riqueza das nações, Smith estabeleceu as bases para
a moderna ciência da economia. Disse que estava descrevendo “o simples sistema da
liberdade natural”. Em palavras atuais, poderíamos dizer que capitalismo é o que
ocorre quando se deixam as pessoas em paz. Smith mostrou como, quando produzem
e comercializam segundo seus próprios interesses, as pessoas são levadas “por uma
mão invisível” a beneficiar outras. Para conseguir um emprego ou vender algo por
dinheiro, cada pessoa deve descobrir o que outras gostariam de ter. A benevolência é
importante, mas “não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro
que esperamos nosso jantar, mas de sua preocupação com seus próprios interesses”.
Portanto o mercado livre permite que mais pessoas satisfaçam mais desejos — e
consequentemente gozem de um padrão de vida mais alto — do que qualquer outro
sistema social.
A mais importante contribuição de Smith para a teoria libertária foi o desen-
volvimento da ideia de ordem espontânea. Frequentemente ouvimos que há um
conflito entre liberdade e ordem, e esse ponto de vista soa racional. Mas Smith, de
modo mais completo do que os Fisiocratas e pensadores anteriores, enfatizou que
a ordem, nos assuntos humanos, surge espontaneamente. Quando se deixa que as

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 45

pessoas interajam livremente umas com as outras, protejem-se seus direitos à liberdade
e à propriedade, a ordem emerge sem um controle central. A economia de mercado é
uma forma de ordem espontânea; centenas ou milhares — ou hoje, bilhões — de pes-
soas entram no mercado ou no mundo dos negócios todos os dias, imaginando como
produzir mais bens ou conseguir um emprego melhor ou ganhar mais dinheiro para si
mesmos e para sua família. Essas pessoas não são guiadas por uma autoridade central
nem pelo instinto biológico que leva as abelhas a produzir mel; e no entanto criam
riqueza para si e para outros mediante a produção e o comércio.
O mercado não é a única forma de ordem espontânea. Considere-se a lingua-
gem natural. Ninguém decidiu criar a língua inglesa, por exemplo, e ensiná-la aos
primeiros ingleses. A língua surgiu e se transformou natural e espontaneamente,
em resposta às necessidades humanas. Considere-se, ainda, o direito. Hoje pen-
samos em leis como algo que o Congresso aprova, mas o direito consuetudinário
amadureceu muito antes que qualquer rei ou legislatura o registrasse por escri-
to. Quando duas pessoas entravam em conflito, pediam a uma terceira que atu-
asse como juiz. Às vezes júris eram reunidos para ouvir um caso. Juízes e júris
não tinham a incumbência de “fazer” a lei; em vez disso, procuravam “encontrar”
a lei, perguntando-se qual era a prática costumeira ou o que havia sido decidido
em casos semelhantes. Assim, de caso em caso, a ordem jurídica se desenvolveu.
O dinheiro é outro produto de ordem espontânea; surgiu naturalmente quando as
pessoas passaram a precisar de algo para facilitar o comércio. Friedrich A. Hayek
escreveu que

se [o direito] tivesse sido projetado deliberadamente,


mereceria um lugar entre as maiores invenções humanas.
Mas é claro que ele não foi produto de uma única mente
mais do que o são a língua, ou o dinheiro, ou a maior par-
te das práticas e convenções sobre as quais se sustenta a
vida social.

O direito, a língua, o dinheiro, os mercados — as mais importantes instituições


da sociedade humana — surgiram espontaneamente.
Com a elaboração sistemática de Smith do princípio de ordem espontânea, os
princípios básicos do liberalismo estavam essencialmente completos. Poderíamos
definir esses princípios básicos como a ideia da lei superior ou natural, a dignidade
do indivíduo, os direitos naturais à liberdade e à propriedade e a teoria social da
ordem espontânea. Muitas ideias mais específicas derivam desses fundamentos:
liberdade individual, governo limitado e representativo, mercados livres. Levou-se
muito tempo para defini-los; ainda era preciso lutar por eles.

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46 O Manifesto Libertário

Criação de um mundo liberal


Assim como se deu com a Revolução Inglesa, o período que antecedeu a Revolução
Americana foi de intenso debate ideológico. Até mais do que a Grã-Bretanha do século
XVII, a América do século XVIII era dominada por ideias liberais. De fato, seria correto
dizer que não havia praticamente nenhuma ideia não liberal em circulação na América;
havia apenas os liberais conservadores, que instavam os americanos a continuar pacifi-
camente a reivindicar seus direitos como ingleses, e os liberais radicais, que acabaram
rejeitando até uma monarquia constitucional e clamaram por independência. O mais
eletrizante dos liberais radicais foi Thomas Paine. Paine era o que poderíamos chamar
de agitador de fora, um missionário da liberdade. Nascido na Grã-Bretanha, foi para a
América com a intenção de ajudar a fazer a revolução. Quando deu sua tarefa por termi-
nada, cruzou novamente o Atlântico para ajudar os franceses a fazer a deles.

Sociedade versus governo


A grande contribuição de Paine para a causa revolucionária foi seu panfleto Senso
comum, do qual se diz que foram vendidas cerca de 100 mil cópias em poucos meses,
em um país de três milhões de pessoas. Todos o leram; aqueles que não sabiam ler
o ouviram lido em voz alta em tavernas e participaram da discussão das ideias que
continha. Senso comum não era apenas um chamado à independência. O panfleto
apresentava uma teoria radicalmente libertária para justificar os direitos naturais e a
independência. Paine começava fazendo uma distinção entre a sociedade e o gover-
no: “A sociedade é produzida por nossos desejos e o governo, por nossas perversida-
des (...) A sociedade em qualquer estado é uma bênção, mas o governo, mesmo em
seu melhor estado, não é mais do que um mal necessário; e, em seu pior estado, um
mal intolerável”. Denunciava então as origens da monarquia: “Pudéssemos remover
o escuro véu da antiguidade (...) descobriríamos no primeiro [rei] nada mais do que
o principal rufião de algum bando agitado, cujos modos selvagens ou preeminência
na argúcia conseguiram para ele o título de líder entre os saqueadores”.
Em Senso comum e em escritos posteriores, Paine desenvolveu a ideia de que a
sociedade civil é anterior ao governo e que as pessoas podem interagir pacificamente para
criar a ordem espontânea. Sua crença na ordem espontânea se fortaleceu quando ele viu
que a sociedade continuava funcionando mesmo depois que os governos coloniais eram
expulsos das cidades e colônias americanas. Em seus escritos, fundiu com elegância a
teoria normativa dos direitos individuais com a análise positiva da ordem espontânea.
Nem Senso comum nem A riqueza das nações foram os únicos marcos na luta pela
liberdade em 1776. Na verdade, talvez nenhum dos dois tenha sido o mais importante
evento naquele ano de sucessos, pois em 1776 as colônias americanas promulgaram sua
Declaração de Independência, provavelmente o mais belo texto libertário da história. As
palavras eloquentes de Thomas Jefferson proclamaram a todo o mundo a visão liberal:

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 47

Sustentamos como verdades autoevidentes que todos os


homens são criados iguais, que são dotados por seu Cria-
dor de certos direitos inalienáveis, entre os quais a vida,
a liberdade e a busca da felicidade. Que para assegurar
tais direitos, governos são instituídos entre os homens,
derivando seus justos poderes do consentimento dos go-
vernados. Que sempre que qualquer forma de governo se
torne destrutiva em relação a esses fins, é direito do povo
alterá-la ou aboli-la.

A influência dos Levellers e de John Locke é óbvia. Sucintamente, Jefferson fez


três afirmações centrais: que as pessoas têm direitos naturais; que o propósito do
governo é proteger esses direitos; e que, se o governo excede seu propósito, o povo
tem o direito de “alterá-lo ou aboli-lo”. Por sua eloquência ao expor a causa liberal e
por ter atuado por toda a vida na revolução liberal que mudou o mundo, o colunista
George F. Will nomeou Jefferson “o homem do milênio”. Longe de mim contestar
tal escolha. Mas deve-se notar que, ao redigir a Declaração de Independência,
Jefferson pouco trouxe de novo. John Adams, talvez ressentido pela atenção recebida
por Jefferson, disse anos depois que “não há sequer uma ideia [na Declaração] que
não houvesse ficado banalizada no Congresso durante os dois anos anteriores”.
O próprio Jefferson disse que, embora “não tivesse consultado nenhum livro ou
panfleto ao escrevê-la”, seu objetivo não era “encontrar novos princípios ou novos
argumentos”, mas meramente produzir “uma expressão da mente americana”.
As ideias da Declaração eram, disse, os “sentimentos do momento, expressos seja
em conversas, cartas, ensaios impressos ou nos livros elementares de cultura geral”.
O triunfo das ideias liberais nos Estados Unidos foi avassalador.

Limitando o governo
Depois de sua vitória militar, os americanos independentes passaram a pôr em
prática as ideias que os liberais ingleses vinham desenvolvendo por todo o século
XVIII. O distinguido historiador Bernard Bailyn, da Universidade Harvard, escreve
em seu ensaio “The central themes of the American Revolution” [Os temas centrais
da Revolução Americana], de 1973, que

os grandes temas do libertarismo radical do século XVIII


foram trazidos aqui à concretude. O primeiro é a crença
de que o poder é perverso — uma necessidade, talvez,
mas uma necessidade perversa; que é infinitamente cor-
ruptor; e que deve ser controlado, limitado, restringido

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48 O Manifesto Libertário

de todas as formas compatíveis com um mínimo de or-


dem civil. Constituições escritas; a separação dos pode-
res; as declarações de direitos; as limitações em relação
aos executivos, legisladores, tribunais; as restrições ao
direito de coagir e de fazer guerras — todos expressam a
profunda desconfiança que jaz no coração ideológico da
Revolução Americana e que se preservou entre nós como
um legado permanente desde então.

A Constituição dos Estados Unidos elaborava as ideias da Declaração para


estabelecer um governo adequado a um povo livre. Era baseada no princípio de que
os indivíduos têm direitos naturais que precedem o estabelecimento de um governo
e de que todo o poder de um governo é a ele delegado pelos indivíduos para proteção
de seus direitos. Com base nesse entendimento, os pais da Constituição (conhecidos
como Framers) não constituíram uma monarquia nem criaram uma democracia
ilimitada, um governo de plenos poderes restritos somente pelo voto popular. Em
vez disso, enumeraram cuidadosamente (no Artigo I, Seção 8) os poderes que teria o
governo federal. A Constituição, cujo maior teorizador e arquiteto foi James Madison,
amigo e vizinho de Jefferson, foi verdadeiramente revolucionária ao estabelecer um
governo cujos poderes eram delegados, enumerados e portanto limitados.
Quando surgiu a ideia de uma Declaração de Direitos, muitos dos pais da Consti-
tuição responderam que ela não seria necessária, pois os poderes enumerados eram
tão limitados que o governo estaria impossibilitado de infringir os direitos individuais.
Finalmente, ficou decidido o acréscimo de uma Declaração de Direitos, nas palavras de
Madison, “por cautela”. Após enumerar direitos específicos nas primeiras oito emen-
das, o primeiro Congresso adicionou mais duas, que resumiam toda a estrutura do
governo federal tal como ele foi criado: a Nona Emenda assegura que “a enumeração
na Constituição de certos direitos não será distorcida para negar ou rebaixar outros,
detidos pelo povo”. A Décima Emenda diz: “Os poderes não delegados aos Estados
Unidos pela Constituição nem proibidos por ela aos Estados são reservados respectiva-
mente aos Estados ou ao povo”. Novamente, os preceitos fundamentais do liberalismo:
as pessoas têm direitos antes mesmo de ser criado o governo e retêm todos os direitos
que não delegaram a ele expressamente; e o governo nacional não tem senão aqueles
poderes especificamente concedidos a ele na Constituição.
Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, o século posterior à Revolução
Americana foi marcado pela disseminação do liberalismo. Constituições escritas
e declarações de direitos protegeram a liberdade e garantiram o estado de direito.
Guildas e monopólios foram em grande parte eliminados, com todas as mercadorias
lançadas à competição com base no mérito. As liberdades de imprensa e de culto

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 49

foram amplamente expandidas, os direitos de propriedade, mais bem assegurados, e


o comércio internacional, liberado.

Direitos civis
O individualismo, os direitos naturais e os mercados livres conduziram logicamente
a uma agitação em favor da extensão dos direitos civis e políticos àqueles que haviam
sido excluídos da liberdade e do poder — notavelmente escravos, servos e mulheres.
A primeira sociedade antiescravidão do mundo foi fundada na Filadélfia em 1775, e a
escravidão e a servidão foram abolidas em todo o mundo ocidental durante o século
seguinte. No debate sobre a ideia de compensar os senhores de escravos pela perda de
sua “propriedade”, no Parlamento britânico, o libertário Benjamin Pearson replicou
que “achava que os escravos é que deveriam ser compensados”. O Pennsylvania Jour-
nal de Thomas Paine publicou uma veemente e precoce defesa dos direitos das mu-
lheres em 1775. Mary Wollstonecraft, amiga de Paine e de outros liberais, publicou
A Vindication of the Rights of Women [Uma reivindicação dos direitos das mulheres] na
Grã-Bretanha, em 1792. A primeira convenção feminista dos Estados Unidos ocorreu
em 1848, quando as mulheres começavam a exigir os direitos naturais que os homens
brancos haviam reclamado em 1776 e estavam sendo exigidos pelos homens negros.
Como apontou o historiador inglês Henry Sumner Maine, o mundo estava passando
de uma sociedade de status a uma sociedade de contrato.
Os liberais também se ocuparam do sempre presente fantasma da guerra. Na
Inglaterra, Richard Cobden e John Bright argumentaram incansavelmente que o
livre-comércio uniria as pessoas de diferentes nações pacificamente, reduzindo a
probabilidade de guerra. Os novos limites sobre os governos e o maior ceticismo
popular em relação aos governantes tornaram mais difícil para os líderes políticos
se intrometer nos problemas estrangeiros e ir à guerra. Após o turbilhão da Revo-
lução Francesa e a derrota final de Napoleão, em 1815, e com exceção da Guerra da
Crimeia e das guerras de unificação nacional, a maior parte dos povos da Europa
desfrutou de um século de relativa paz e progresso.

Os resultados do liberalismo
A libertação da criatividade humana gerou assombroso progresso científico
e material. A revista Nation, que na época era um jornal verdadeiramente liberal,
escreveu, em uma retrospectiva em 1900: “Liberados da vexatória intromissão
dos governos, os homens devotaram-se à sua ocupação natural, a melhoria de sua
condição, com os maravilhosos resultados que nos cercam”. Os avanços tecnológicos
do século XIX liberal são inúmeros: o motor a vapor, a estrada de ferro, o telégrafo,
o telefone, a eletricidade, o motor de combustão interna. Graças à acumulação de
capital e ao “milagre dos juros compostos”, na Europa e América as grandes massas

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50 O Manifesto Libertário

começaram a ser libertadas do duríssimo trabalho braçal que havia sido a condição
natural da humanidade desde tempos imemoriais. A mortalidade infantil caiu, e a
expectativa de vida começou a subir a níveis inauditos. Uma pessoa que olhasse para
trás em 1800 veria um mundo que ao longo de milhares de anos tinha mudado bem
pouco para a maioria das pessoas; mas, em 1900, ele estava irreconhecível.
O pensamento liberal continuou a se desenvolver por todo o século XIX. Jeremy
Bentham propôs a teoria do utilitarismo, a ideia de que o governo deve promover
“a maior felicidade para o maior número de pessoas”. Embora suas premissas
filosóficas fossem diferentes das premissas dos direitos naturais, chegou a muitas das
mesmas conclusões sobre o governo limitado e os mercados livres. Alexis de Tocqueville
viajou à América para observar como funcionava uma sociedade livre e publicou suas
brilhantes observações em Democracia na América, entre 1834 e 1840. John Stuart Mill
publicou, em 1859, Sobre a liberdade, uma eloquente defesa da liberdade individual. Em
1851, Herbert Spencer, um eminente estudioso cuja obra é hoje em dia injustamente
negligenciada e frequentemente deturpada, publicou Social Statics [Estática social],
trabalho em que propôs sua “lei da igual liberdade”, uma exposição precoce e explícita do
credo libertário moderno. O princípio de Spencer era “que todo homem pode reivindicar
a maior liberdade de exercício de suas faculdades que for compatível com a posse da
mesma liberdade por todos os outros homens”. Spencer apontou que “a lei da igual
liberdade claramente se aplica a toda a espécie — tanto a mulheres quanto a homens”. Ele
também estendeu a crítica liberal clássica da guerra com uma distinção entre dois tipos de
sociedades: a sociedade industrial, em que as pessoas produzem e comerciam pacífica e
voluntariamente; e a sociedade militante, em que a guerra prevalece e o governo controla
a vida de seus governados como meio de alcançar seus próprios fins.
Em sua era de ouro, a Alemanha produziu grandes escritores como Goethe e Schiller,
que eram liberais, e contribuiu para a filosofia liberal com as ideias de filósofos e estu-
diosos como Immanuel Kant e Wilhelm von Humboldt. Kant enfatizou a autonomia
individual e tentou fundamentar os direitos e liberdades individuais nos requisitos da
própria razão. Ele clamou por uma “Constituição legal que garanta a todos sua liber-
dade sob a lei, de modo que cada um esteja livre para buscar a felicidade naquilo que
julgar melhor, contanto que não viole a liberdade e os direitos legais de seus compa-
nheiros”. O clássico Os limites da ação do estado, de Humboldt, fortemente influenciado
pela obra Sobre a liberdade, de Mill, defendia a ideia de que o pleno desabrochar do
indivíduo requer não apenas liberdade, mas uma “variedade de situações”, querendo di-
zer com isso que as pessoas devem ter acesso a uma larga variedade de circunstâncias
e acomodações — o termo moderno seria “estilos de vida alternativos” — que possam
continuamente testar e escolher. Na França do início do século, Benjamin Constant
era o mais conhecido liberal do continente. “Ele amava a liberdade como outros amam
o poder”, disse um contemporâneo. Como Humboldt, via a liberdade como um sistema

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 51

no qual as pessoas poderiam descobrir e desenvolver da melhor forma possível sua pró-
pria personalidade e interesses. Em um ensaio importante, contrastou o significado da
liberdade nas antigas repúblicas — igual participação na vida pública — com a liberda-
de moderna — a liberdade individual para falar, escrever, possuir propriedades, comer-
ciar e se dedicar a interesses privados. Uma associada a Constant foi Madame de Stäel,
romancista, mais célebre talvez por sua frase: “A liberdade é antiga; o despotismo é que
é recente”, referindo-se à tentativa dos monarcas absolutistas de dissolver as duramente
conquistadas garantias de liberdade na Idade Média.
Outro liberal francês, Frédéric Bastiat, serviu no Parlamento como um ávido
defensor do livre-comércio e escreveu miríades de ensaios impactantes e espirituosos
atacando o estado e todas as suas ações. Seu último ensaio, “O que é visto e o que
não se vê”, ofereceu a importante percepção de que tudo aquilo que um governo
faz — construir uma ponte, subsidiar as artes, pagar pensões — tem efeitos simples
e óbvios. Dinheiro circula, empregos são criados e tem-se a impressão de que o
governo gerou crescimento econômico. A tarefa do economista é ver o que não é tão
facilmente visto — as casas não construídas, as roupas não compradas, os empregos
não criados — porque pela tributação o dinheiro foi tirado daqueles que o teriam
gasto em seu próprio interesse. Em “A lei”, atacou o conceito de “espoliação legal”,
pelo qual as pessoas usam o governo para se apropriar do que outros produziram.
E em “A petição”, zombou dos industrialistas franceses que queriam se proteger
da concorrência fingindo falar em nome de fabricantes de vela, que queriam que o
Parlamento bloqueasse o sol, por dispensar o uso de velas durante o dia — uma das
primeiras refutações de leis protecionistas.
Nos Estados Unidos, o movimento abolicionista foi naturalmente liderado por
libertários. Os principais abolicionistas chamavam a escravidão de “roubo de ho-
mens”, por ir contra a soberania individual e roubar do homem sua própria pessoa.
Seus argumentos eram paralelos aos dos Levellers e de John Locke. William Lloyd
Garrison escreveu que seu objetivo era não somente a abolição da escravatura, mas
“a emancipação de toda a nossa raça do domínio do homem, da sujeição do indiví-
duo, do governo da força bruta”. Outro abolicionista, Lysander Spooner, partiu dos
argumentos naturalistas contra a escravidão para concluir que não se podia alegar,
sobre nenhuma pessoa, que ela abrira mão de seus direitos por algum contrato, até
mesmo a Constituição, que não tivesse assinado pessoalmente. Frederick Douglass,
igualmente, formulou seu argumento pela abolição em termos do liberalismo clássi-
co: soberania individual e direitos naturais.

O declínio do liberalismo
Mais perto do fim do século XIX, o liberalismo clássico começou a dar lugar
a novas formas de coletivismo e poder estatal. Se o liberalismo havia sido tão

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52 O Manifesto Libertário

bem-sucedido — livrando a grande massa da humanidade do fardo esmagador


do estatismo e def lagrando uma melhoria sem precedentes nos padrões de vida
—, o que aconteceu? Essa pergunta atormentou liberais e libertários por todo o
século XX.
Um dos problemas foi que os liberais se tornaram preguiçosos; esqueceram a
advertência de Jefferson, “o preço da liberdade é a eterna vigilância”, e pensaram
que a óbvia abundância e harmonia social trazidas pelo liberalismo significavam
que ninguém ia querer reviver a velha ordem. Alguns intelectuais liberais deram
a impressão de que o liberalismo era um sistema fechado, sem nenhum trabalho
interessante a realizar. O socialismo, especialmente a variedade marxista,
apareceu com uma teoria inteiramente nova para desenvolver e atraiu os jovens
intelectuais.
É possível também que as pessoas tenham esquecido como foi difícil criar uma
sociedade de abundância. Americanos e britânicos nascidos na segunda metade do
século XIX entraram num mundo em que a riqueza, a tecnologia e os padrões de
vida avançavam rapidamente. Para eles, não era tão óbvio que o mundo não houvesse
sido sempre assim. E, mesmo aqueles que sabiam que o mundo era diferente, talvez
tenham presumido que o velho problema da pobreza estivesse solucionado, e que
não era mais importante manter as instituições sociais que o solucionaram.
Um problema relacionado a isso foi a separação de dois assuntos: o da produção e
o da distribuição. Em um mundo de abundância, as pessoas pararam de se preocupar
com a produção e começaram a discutir “o problema da distribuição”. O grande
filósofo Friedrich A. Hayek disse-me certa vez em uma entrevista:

Estou pessoalmente convencido de que a razão que le-


vou os intelectuais, especialmente no mundo anglófono,
ao socialismo foi um homem que é visto como o grande
herói do liberalismo clássico, John Stuart Mill. Em seu
famoso livro Princípios de economia política, publicado
em 1848 e que por algumas décadas foi um texto exten-
samente lido, ele faz a seguinte afirmação, ao passar da
teoria da produção à teoria da distribuição: “Uma vez
que elas estão lá, a humanidade, coletiva ou individual-
mente, pode fazer as coisas como bem entender”. Bem, se
isso fosse verdade eu admitiria que é uma obrigação moral
evidente garantir que elas estejam distribuídas de manei-
ra justa. Mas não é verdade, porque se fizéssemos com o
produto realmente o que bem entendêssemos, jamais se
produziria algo novamente.

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 53

Além disso, pela primeira vez na história, as pessoas começaram a questionar se a


pobreza é tolerável. Antes da Revolução Industrial, todos eram pobres e não havia pro-
blema a ser estudado. Somente quando a maior parte das pessoas se tornou rica — pelos
padrões históricos — surgiram questionamentos sobre por que algumas pessoas conti-
nuavam pobres. Charles Dickens então lamentou a prática já esmorecente do trabalho
infantil, que mantinha vivas muitas crianças que em outros tempos teriam morrido,
como a maior parte das crianças desde tempos imemoriais; e Karl Marx ofereceu uma
visão de um mundo de perfeita liberdade e abundância. Enquanto isso, o sucesso da
ciência e dos negócios deu origem à noção de que engenheiros e executivos poderiam
planejar e dirigir uma sociedade inteira como se ela fosse uma grande corporação.
A ênfase utilitarista de Bentham e Mill sobre “o maior bem para o maior número”
levou alguns estudiosos a questionar a necessidade de limitação do governo e prote-
ção dos direitos individuais. Se o objetivo é gerar prosperidade e felicidade, por que
tergiversar a respeito da proteção aos direitos individuais? Por que não ir diretamen-
te ao ponto do crescimento econômico e da prosperidade generalizada? Novamente,
as pessoas esqueciam o conceito da ordem espontânea, presumiam a superação do
problema da produção e criavam planos para guiar a economia numa direção esco-
lhida por meios políticos.
E, é claro, não devemos negligenciar o velho desejo humano de exercer poder so-
bre os outros. Alguns esqueceram as raízes do progresso econômico, outros lamen-
taram a perturbação da família e da comunidade trazida pela liberdade e riqueza, e
outros mais acreditaram sinceramente que o marxismo poderia tornar a todos prós-
peros e livres, sem necessidade de trabalho nos moinhos satânicos das trevas. Mas
muitos outros usaram essas ideias para subir ao poder. Se o direito divino dos reis
não persuadia mais as pessoas a abrir mão de sua liberdade e propriedade, os seden-
tos de poder se voltariam para o nacionalismo, ou o igualitarismo, ou o preconceito
racial, ou a belicosidade entre as classes, ou a vaga promessa de que o estado viria
aliviar qualquer mal que acometesse o indivíduo.
Na virada do século, os liberais remanescentes se desesperavam com as perspecti-
vas futuras. O Nation publicou um editorial dizendo que “o conforto material cegou
a presente geração para as causas que o tornaram possível”, mostrando preocupação
ao afirmar “antes que [o estatismo] seja novamente repudiado, haja conflitos interna-
cionais em tremenda escala”. Herbert Spencer publicou The Coming Slavery [A volta
da escravidão] e lamentou, à sua morte em 1903, que o mundo estivesse retornando
à guerra e ao barbarismo.
Realmente, como os liberais haviam temido, o século da paz na Europa, que co-
meçou em 1815, desabou com estrondo em 1914, com a Primeira Guerra Mundial.
A substituição do liberalismo pelo estatismo e nacionalismo foi uma das grandes
culpadas, e a própria guerra talvez tenha lhe dado o golpe de misericórdia. Nos

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54 O Manifesto Libertário

Estados Unidos e na Europa, os governos aumentaram seu escopo e poder em res-


posta à guerra. Tributação exorbitante, alistamento militar obrigatório, censura,
nacionalização e planejamento central — para não mencionar os dez milhões de
mortes nas batalhas de Flandres, Verdun e muitas outras — assinalaram que a era
do liberalismo, que havia tão recentemente suplantado a velha ordem, estava então
sendo superada pela era do megaestado.

O surgimento do movimento libertário moderno


Ao longo da era progressista, a Primeira Guerra Mundial, o New Deal e a
Segunda Guerra Mundial, houve grande entusiasmo por um governo maior entre
os intelectuais americanos. Herbert Croly, o primeiro editor da New Republic,
escreveu em The Promise of American Life [A promessa da vida americana] que tal
promessa seria cumprida “não pela (...) liberdade econômica, mas por um certo grau
de disciplina; não pela abundante satisfação dos desejos individuais, mas por uma
grande dose de subordinação individual e abnegação”. Nem mesmo o horrendo
coletivismo que começava a emergir na Europa repugnava muitos jornalistas e
intelectuais “progressistas” na América. Anne O’Hare McCormick relatou no New
York Times, durante os primeiros meses do New Deal de Franklin Roosevelt:

A atmosfera [em Washington] remete estranhamente a


Roma nas primeiras semanas depois da marcha dos Cami-
sas-Negras, a Moscou no começo do Plano Quinquenal...
Algo bem mais afirmativo do que aquiescência reveste o
presidente da autoridade de um ditador. Essa autoridade
é uma oferta grátis, uma espécie de procuração unâni-
me (...). Os Estados Unidos de hoje literalmente pedem
ordens (...). O presente ocupante da Casa Branca não
apenas possui mais autoridade do que qualquer de seus
predecessores, como preside um governo que tem mais
controle sobre as atividades privadas do que qualquer ou-
tro que jamais tenha existido nos Estados Unidos (...) [O
governo Roosevelt] vislumbra uma federação de indús-
tria, trabalho e governo à moda do estado corporativo
como o existente na Itália.

Embora alguns liberais — notoriamente o jornalista H. L. Mencken — tenham


continuado a defender suas opiniões, houve de fato uma aquiescência geral dos
intelectuais e do povo diante da tendência na direção do estado intervencionista.
O aparente sucesso do governo em pôr fim à Grande Depressão e vencer a Segunda

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 55

Guerra Mundial deu ímpeto à noção de que o governo poderia resolver todo tipo de
problema. Não foi senão cerca de 25 anos depois do fim da guerra que o sentimento
popular começou a se voltar contra o megaestado.

Os economistas austríacos
Enquanto isso, até no momento mais difícil do libertarismo, grandes pensadores
continuaram a emergir e a refinar ideias liberais. Um dos maiores foi Ludwig von
Mises, um economista austríaco que fugira dos nazistas, primeiro para a Suíça, em
1934, e depois para os Estados Unidos, em 1940. Seu devastador Socialism mostra-
va que o socialismo jamais poderia funcionar, porque sem propriedade privada e
um sistema de precificação não há forma de determinar o que deve ser produzido e
como. Seu aluno Friedrich A. Hayek recorda a influência que a obra Socialism exer-
ceu sobre alguns dos mais promissores jovens intelectuais da época:

Quando Socialism apareceu, em 1922, seu impacto foi


profundo. Provocou alterações graduais mas fundamen-
tais na perspectiva de muitos dos jovens idealistas que
retornavam a seus estudos universitários após a Primeira
Guerra Mundial. Sei disso porque eu era um deles (...). O
socialismo prometia corresponder às nossas esperanças de
um mundo mais racional e justo. E então veio esse livro.
Nossas esperanças se despedaçaram.

Outro jovem intelectual cuja fé no socialismo se esfacelou por Mises foi Wilhelm
Roepke, que se tornou o principal conselheiro de Ludwig Erhard, o ministro da Eco-
nomia da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial e principal arquiteto do “mi-
lagre econômico” alemão nos anos 1950 e 1960. Outros não aprenderam tão rápido.
Robert Heilbroner, popular autor e economista americano, escreveu que nos anos
1930, quando estudava economia, o argumento de Mises sobre a impossibilidade
do planejamento “não pareceu uma razão particularmente convincente para que se
rejeitasse o socialismo”. Cinquenta anos depois, Heilbroner escreveu na New Yorker:
“Acontece que Mises, é claro, estava certo”. Antes tarde do que nunca.
A obra-prima de Mises foi Ação humana, um abrangente tratado de economia.
Nele, o autor desenvolveu uma ciência econômica completa, que considerava ser o
estudo de todas as ações humanas intencionais. Ele era um defensor inflexível do
mercado livre, que apontou muito duramente como toda intervenção do governo no
mercado tende a reduzir a riqueza e o padrão geral de vida.
O aluno de Mises, Friedrich A. Hayek, tornou-se não só um brilhante economista
— ganhou o Prêmio Nobel em 1974 —, como talvez tenha sido o maior pensador

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56 O Manifesto Libertário

social do século. Seus livros The Sensory Order [A ordem sensorial], The Counter-
Revolution of Science [A contrarrevolução da ciência], Os fundamentos da liberdade e
Direito, legislação e liberdade exploraram tópicos que foram da psicologia à aplicação
errônea dos métodos das ciências naturais ao direito e à teoria política. Em sua mais
famosa obra, O caminho da servidão, publicada em 1944, avisou aos próprios países
que estavam envolvidos numa guerra contra o totalitarismo que o planejamento
econômico levaria não à igualdade, mas a um novo sistema de classe e status; não à
prosperidade, mas à pobreza; não à liberdade, mas à servidão. O livro sofreu amargos
ataques de intelectuais socialistas e de tendências esquerdistas na Grã-Bretanha e
nos Estados Unidos, mas vendeu muito bem (possivelmente uma das razões pelas
quais os escritores de livros acadêmicos se ressentiram) e inspirou uma nova geração
de jovens a explorar as ideias libertárias. O último livro de Friedrich A. Hayek, The
Fatal Conceit [A arrogância fatal], publicado em 1988, quando ele chegava aos 90
anos, retornava ao problema que havia consumido a maior parte de seu interesse
acadêmico: a ordem espontânea, que é resultado “da ação humana, mas não de um
desígnio humano”. A arrogância fatal dos intelectuais, disse, é pensar que pessoas
inteligentes podem planejar uma economia ou uma sociedade melhor do que as
interações aparentemente caóticas de milhões de pessoas. Esses intelectuais não
percebem quanto eles não sabem, ou como o mercado utiliza todo o conhecimento
localizado que cada um individualmente possui.

Os últimos liberais clássicos


Um grupo de escritores e pensadores políticos também estava contribuindo para
manter vivas as ideias libertárias. H. L. Mencken era mais conhecido como jornalista
e crítico literário, mas refletia profundamente sobre política; dizia que seu ideal era
“um governo que quase não é governo”. Albert Jay Nock (autor de Our Enemy, the
State [Nosso inimigo, o estado]), Garet Garrett, John T. Flynn, Felix Morley e Frank
Chodorov preocupavam-se com o futuro do governo limitado e constitucional em
face do New Deal e do que parecia ser a permanente atitude bélica que os Estados
Unidos assumiram durante o século XX. Henry Hazlitt, jornalista que escrevia sobre
economia, funcionou como ponte entre essas escolas. Ele trabalhava para a Nation e
para o New York Times, tinha uma coluna na Newsweek, escreveu para o Ação humana
de Mises uma exultante resenha e popularizou a economia de mercado livre em um
pequeno livro chamado Economia numa única lição, que aprofundava as implicações
do “que se vê e o que não se vê” de Bastiat. A seu respeito, Mencken afirmou que “foi
um dos poucos economistas da história humana que realmente sabiam escrever”.
No terrível ano de 1943, nas profundezas da Segunda Guerra e do Holocausto,
quando o mais poderoso governo da história dos Estados Unidos se aliou a um poder
totalitário para derrotar outro, três mulheres notáveis publicaram livros dos quais

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 57

se poderia dizer que deram à luz o movimento libertário moderno. Rose Wilder
Lane, filha de Laura Ingalls Wilder, a autora de Little House on the Prairie [Casinha
na pradaria] e outras histórias de austero individualismo americano, publicou um
apaixonado ensaio histórico chamado The Discovery of Freedom [A descoberta
da liberdade]. Isabel Paterson, romancista e crítica literária, produziu The God of
the Machine [O Deus da máquina], que defendia o individualismo como fonte de
progresso no mundo. E Ayn Rand publicou The Fountainhed [A nascente].

Ayn Rand
A nascente é um extenso romance sobre arquitetura e integridade. Seu tema
individualista não se adequava ao espírito da época, e os críticos o atacaram
ferozmente. Mas o livro encontrou os leitores a quem se destinava. Suas vendas
começaram devagar, mas depois foram crescendo. Passados dois anos inteiros,
ainda estava na lista dos mais vendidos do New York Times. Centenas de milhares de
pessoas leram-no na década de 1940, chegando a milhões, e milhares delas sentiram-
se inspiradas o suficiente para procurar saber mais sobre as ideias de Ayn Rand. Em
seguida, em 1957, ela escreveu um romance ainda mais bem-sucedido, Quem É John
Galt?, e fundou uma associação de pessoas que compartilhavam sua filosofia, que ela
chamava de Objetivismo. Embora sua filosofia política fosse libertária, nem todos os
libertários concordavam com suas visões sobre metafísica, ética e religião. Outros
foram afastados pela sua dura franqueza e por seus seguidores.
Como Mises e Friedrich A. Hayek, Rand demonstra a importância da imigração
não apenas para a América, mas para o libertarismo americano. Mises fugira dos
nazistas e Rand, dos comunistas que haviam tomado o poder em sua Rússia natal.
Quando um importunador lhe perguntou, depois de um discurso: “Que importância
tem o que uma estrangeira pensa?”, ela respondeu, com seu ardor habitual: “Eu escolhi
ser americana. O que você já fez, além de nascer?”.

O renascimento no pós-guerra
Não muito depois da publicação de Quem É John Galt?, o economista Milton
Friedman, da Universidade de Chicago, publicou Capitalismo e liberdade, no qual
defendia a ideia de que a liberdade política não poderia existir sem propriedade
privada e liberdade econômica. A estatura de Friedman como economista, que lhe
rendeu um Prêmio Nobel em 1976, vinha de seu trabalho em economia monetária.
Mas, por causa de Capitalismo e liberdade, de sua longa atuação como colunista da
revista Newsweek e do livro de um seriado televisivo de 1980, Livres para escolher, ele
se tornou o mais preeminente libertário americano da última geração.
Outro economista, Murray Rothbard, obteve menos fama, mas teve um importan-
te papel na construção tanto de uma estrutura teórica para o pensamento libertário

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58 O Manifesto Libertário

moderno como de um movimento político dedicado a essas ideias. Rothbard


escreveu um importante tratado econômico, Man, Economy and State [Homem,
economia e estado]; uma história em quatro volumes da Revolução Americana,
Conceived in Liberty [Concebido em liberdade]; um guia conciso da teoria dos di-
reitos naturais e suas implicações, The Ethics of Liberty [A ética da liberdade]; um
popular manifesto libertário, For a New Liberty: The Libertarian Manifesto [Por
uma nova liberdade: o manifesto libertário]; e incontáveis panfletos e artigos em
revistas e boletins. Os libertários o comparam tanto a Marx, construtor de uma
teoria político-econômica integrada, quanto a Lenin, o organizador incansável de
um movimento radical.
O respeito da comunidade acadêmica pelo libertarismo recebeu um grande im-
pulso em 1974, com a publicação de Anarquia, estado e utopia, de Robert Nozick, filó-
sofo da Universidade Harvard. Com espirituosidade e uma lógica minuciosa, Nozick
apresentou uma defesa dos direitos individuais, que concluía que

um estado mínimo, limitado a estreitas funções de pro-


teção contra a força, o roubo [e] a fraude, imposição de
contratos, e assim por diante, é justificado; que qualquer
estado maior do que esse violará o direito das pessoas de
não ser forçadas a fazer certas coisas, e é injustificado; e
que o estado mínimo é tanto inspirador quanto correto.

Em tom mais cativante, ele clamou pela legalização de “atos capitalistas


consensuais entre adultos”. O livro de Nozick — junto com For a new liberty [Por
uma nova liberdade], de Rothbard, e os ensaios de Rand sobre filosofia política
— definiu a versão “intransigente” do libertarismo moderno, que essencialmente
reafirmava a lei da igual liberdade de Spencer: os indivíduos têm o direito de fazer
o que quiserem, contanto que respeitem os mesmos direitos dos outros. O papel do
governo é proteger os direitos individuais de agressores estrangeiros e domésticos
que assassinam, estupram, roubam, atacam ou fraudam. E, se o governo procurar
fazer mais do que isso, ele próprio estará nos privando de nossas liberdades.

O libertarismo hoje
O libertarismo é às vezes acusado de ser rígido e dogmático, mas na verdade trata-se
apenas de uma estrutura básica para as sociedades, na qual os indivíduos possam con-
viver em paz e harmonia, cada um empreendendo o que Jefferson chamou de “sua pró-
pria busca por trabalho e melhorias”. A sociedade criada sobre a estrutura libertária é a
mais dinâmica e inovadora jamais vista, como mostram os avanços sem precedentes na
ciência, tecnologia e qualidade de vida desde a revolução liberal do século XVIII. Uma

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Cap. 2 — As raízes do libertarismo 59

sociedade libertária é marcada pela disseminação da caridade empreendida como


resultado da benevolência pessoal, não mais entregue à coerção estatal.
O libertarismo é também uma base criativa e dinâmica para a atividade intelec-
tual. Hoje são as ideias estatistas que parecem antigas e cansadas, enquanto há uma
explosão de estudos libertários em campos como economia, direito, história, psico-
logia, feminismo, desenvolvimento econômico, direitos civis, educação, meio am-
biente, teoria das sociedades, bioética, liberdades civis, política externa, tecnologia,
a Era da Informação e outros. O libertarismo desenvolveu uma base para a análise e
solução de problemas, mas nosso entendimento da dinâmica de sociedades livres e não
livres continua a se desenvolver.
Hoje, o desenvolvimento intelectual de ideias libertárias continua, mas o impacto
geral dessas ideias resulta de uma rede em expansão de revistas e think-tanks (grupos
de estudo) libertários, do retorno da tradicional hostilidade americana ao governo
centralizado e, mais importante, do fracasso continuado do estado intervencionista
em cumprir suas próprias promessas.

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Capítulo 3

Que direitos temos?

C
ríticos tanto da esquerda quanto da direita já reclamaram que os Estados
Unidos nos anos 1990 mergulharam num discurso sobre direitos. Em ne-
nhum debate político se passa muito tempo antes que um lado, ou ambos,
apoie seus argumentos em direitos: de propriedade, direitos sociais, direitos femini-
nos, direitos dos homossexuais, direitos dos não fumantes, direito à vida, direito ao
aborto, direito ao porte de armas — basta escolher.
Um jornalista recentemente me perguntou o que eu achava de uma proposta
de autodenominados comunitaristas para “suspender por algum tempo a criação
de novos direitos”. Comunitaristas, nos Estados Unidos do fim do século XX, são
pessoas que acreditam que “a comunidade” deve de algum modo ter precedência
sobre o indivíduo, de modo que é natural que respondam à sobrecarga do discurso
sobre direitos dizendo simplesmente: “Vamos parar com isso”. Fiquei pensando:
sob quantos aspectos diferentes isso está errado? Comunitaristas parecem ver
direitos como pequenas caixas: quando há caixas demais, não há espaço para todas.
Na visão libertária, temos um número infinito de direitos contidos em um único
direito natural. Esse direito humano fundamental é o direito de viver como bem
entender, contanto que não infrinja os mesmos direitos dos outros.
Esse único direito tem infinitas implicações. Como disse James Wilson, um
signatário da Constituição, em resposta à proposta de que se adicionasse uma
Declaração de Direitos à Constituição: “Enumerar todos os direitos dos homens!
Estou certo, senhores, de que nenhum cavalheiro na última convenção teria tentado
tal coisa”. Afinal, uma pessoa tem o direito de usar chapéu ou não; de se casar ou não;
de cultivar feijões ou maçãs; de abrir uma loja de miudezas. De fato, para citar um
exemplo específico, uma pessoa tem o direito de vender uma laranja a um comprador
voluntário mesmo que a laranja tenha somente 5,95 cm de diâmetro (embora isso
seja ilegal pela lei federal vigente).
É impossível enumerar espontaneamente todos os direitos que temos; geralmente
nos damos ao trabalho de identificá-los somente quando alguém propõe limitar um
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62 O Manifesto Libertário

ou outro. Tratar os direitos como reivindicações tangíveis que devessem ser limitadas
em número demonstra total incompreensão do conceito.
Mas a reclamação a respeito da “proliferação de direitos” não é totalmente errônea.
Há de fato um problema nos Estados Unidos de hoje com a proliferação de falsos “direi-
tos”. Quando direitos se tornam simplesmente reivindicações legais ligadas a interes-
ses e preferências, está preparado o cenário para conflitos sociais e políticos. Interesses
e preferências às vezes podem conflitar, mas direitos não. Não há conflito entre direitos
humanos genuínos em uma sociedade livre. Há, porém, muitos conflitos entre os de-
tentores dos chamados direitos sociais, os quais requerem que alguém nos forneça o
que queremos, seja educação, saúde, previdência social, assistência, subsídios agrícolas
ou que a vista de nossa casa não seja obstruída por alguma construção na propriedade
vizinha. Esse é um problema fundamental da democracia de grupos de interesse e do
estado intervencionista. Em uma sociedade liberal, as pessoas assumem riscos e obriga-
ções por meio de contratos; um estado intervencionista impõe às pessoas, pelo processo
político, obrigações que conflitam com seus direitos naturais.
Que direitos, então, temos de fato e como podemos diferenciá-los dos falsos “di-
reitos”? Comecemos revisitando um dos documentos básicos da história dos direitos
humanos, a Declaração de Independência americana. No segundo parágrafo da De-
claração, Thomas Jefferson delineou uma afirmação dos direitos e seus significados, de
graça e brevidade sem igual. Como se observou no capítulo 2, a tarefa de Jefferson ao
escrever a Declaração era expressar os sentimentos comuns dos colonos americanos,
e ele foi escolhido não porque tivesse novas ideias, mas por sua “peculiar felicidade de
expressão”. Apresentando ao mundo a causa americana, Jefferson explicou:

Sustentamos como verdades autoevidentes que todos os


homens são criados iguais, que são dotados por seu Cria-
dor de certos direitos inalienáveis, entre os quais a vida,
a liberdade e a busca da felicidade. Que para assegurar
tais direitos, governos são instituídos entre os homens,
derivando seus justos poderes do consentimento dos go-
vernados. Que sempre que qualquer forma de governo se
torne destrutiva de tais fins, é direito do povo alterá-la
ou aboli-la.

Procuremos agora destrinchar as implicações desse documento fundador americano.

Direitos básicos
Qualquer teoria de direitos deve começar em algum lugar. A maior parte dos filó-
sofos libertários iniciaria o argumento em um ponto anterior àquele em que Jefferson

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Cap. 3 — Que direitos temos? 63

o iniciou. Os seres humanos, diferentemente dos animais, vêm ao mundo sem um


conhecimento instintivo de suas necessidades e de como satisfazê-las. Como disse
Aristóteles, o homem é um animal racional; os humanos usam o poder da razão para
entender suas próprias necessidades, o mundo à sua volta e como usar esse mundo
para satisfazer essas necessidades. Precisam, portanto, de um sistema social que lhes
permita utilizar sua razão, agir no mundo e cooperar com outros para atingir propó-
sitos que não poderiam alcançar sozinhos.
Cada pessoa é um indivíduo único. Os seres humanos são animais sociais — gos-
tamos de interagir com outros e nos beneficiamos disso —, mas pensamos e agimos
individualmente. Cada indivíduo é dono de si mesmo. Que outras possibilidades há
além da soberania individual?

Alguém — um rei ou uma raça soberana — poderia ser dono de


outros. Platão e Aristóteles defenderam a ideia de que havia tipos diferentes de
humanos, alguns mais competentes do que outros e dotados por isso do direito e da
responsabilidade de governar, assim como os adultos orientam as crianças. Algumas
formas de socialismo e coletivismo são — explícita ou implicitamente — baseadas na
noção de que muitas pessoas não têm competência para tomar decisões sobre sua pró-
pria vida, de modo que os mais talentosos devem agir por elas. Mas isso significaria
que não há direitos humanos universais, somente direitos que alguns têm e outros não,
negando-se assim a essência humana dos que estão fadados a ser propriedade alheia.

Todos são donos de todos, um sistema comunista pleno. Em tal


sistema, antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa, precisaria da permissão de
todas as outras pessoas. Mas como seria possível que cada pessoa concedesse sua
permissão sem antes consultar todas as demais? Teríamos uma regressão infinita,
tornando qualquer ação logicamente impossível. Na prática, uma vez que a sobera-
nia mútua é impossível, esse sistema se desfaria no anterior: alguém, ou algum gru-
po, se tornaria dono de todos os outros. Foi o que aconteceu nos países comunistas:
o partido se tornou uma elite ditatorial governante.

Assim, tanto o comunismo quanto o governo aristocrático dividiriam o mundo


em facções ou classes. A única possibilidade humanizada, lógica e apropriada à natu-
reza dos seres humanos é a soberania individual. Essa discussão, obviamente, apenas
arranhou a superfície da questão da soberania individual. De qualquer forma, gosto
muito da declaração simples de Jefferson: os direitos naturais são autoevidentes.
Conquistadores e opressores disseram às pessoas por milênios que os homens não
foram criados iguais, e que alguns estavam destinados a governar e outros a ser go-
vernados. No século XVIII, essa antiga superstição havia sido descartada; Jefferson

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64 O Manifesto Libertário

denunciou-a com sua habitual felicidade de expressão: “A massa da humanidade não


nasceu com sela nas costas nem alguns poucos afortunados, com botas e esporas,
prontos para montá-los legitimamente com a graça de Deus”. Agora, entrando no
século XX, a ideia de igualdade é quase universalmente aceita. É claro, as pessoas não
são igualmente altas, igualmente bonitas, igualmente inteligentes, igualmente bondo-
sas, igualmente elegantes ou igualmente bem-sucedidas. Mas têm direitos iguais, e por
isso devem ser igualmente livres. Como escreveu Cícero, o jurista estoico: “Embora
seja indesejável equalizar a riqueza e embora não tenham todos os mesmos talentos, ao
menos os direitos legais devem ser iguais entre cidadãos da mesma nação”.
Em nossa época, vemos muita confusão sobre esse ponto. Têm-se defendido políti-
cas públicas, algumas brandas, outras repressivas, para se obter igualdade de resulta-
dos. Os defensores da igualdade material aparentemente não sentem necessidade de
defendê-la como princípio; ironicamente, tomam-na como autoevidente. Ao defender
a igualdade, geralmente confundem três conceitos:
r O direito à igualdade perante a lei, que é o tipo de igualdade que Jefferson
tinha em mente.
r O direito de igualdade de resultados, ou que todos tenham a mesma quantida-
de de... de quê? Geralmente os igualitaristas falam na mesma quantidade de
dinheiro, mas por que seria o dinheiro o único teste? Por que não igualdade
de beleza, de cabelo ou de trabalho? A verdade é que a igualdade de conse-
quências exige uma decisão política sobre medida e alocação, uma decisão
que nenhuma sociedade pode tomar sem que algum grupo imponha sua vi-
são sobre os outros. A verdadeira igualdade é logicamente impossível em um
mundo de diversidades, e a tentativa de atingi-la resulta em um pesadelo. Para
produzir igualdade de resultados, é preciso tratar as pessoas desigualmente.
r O direito à igualdade de oportunidades, que significa uma chance igual de ser
bem-sucedido na vida. Geralmente quem usa “igualdade” nesse sentido quer se
referir a direitos iguais, mas a tentativa de criar verdadeira igualdade de opor-
tunidade pode ser tão ditatorial quanto igualdade de resultados. Crianças cria-
das em famílias diferentes nunca estarão igualmente preparadas para o mundo
adulto, e no entanto qualquer alternativa à liberdade da família de criar seus
filhos significaria um estado-babá da pior espécie. A plena igualdade de opor-
tunidade pode de fato levar à solução proposta no conto Harrison Bergeron, de
Kurt Vonnegut, no qual os belos são deformados, os ágeis, algemados, e os inte-
ligentes têm seus padrões cerebrais continuamente perturbados.

O tipo de igualdade apropriado para uma sociedade livre é a igualdade de direitos.


Como está claramente afirmado na Declaração, os direitos não são uma concessão
do governo. São naturais e permanentes, inerentes à natureza da espécie humana

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Cap. 3 — Que direitos temos? 65

e detidos pelas pessoas em virtude de sua humanidade, especificamente por sua


capacidade de se responsabilizar por suas ações. Se os direitos vêm de Deus ou da
natureza não é uma questão essencial nesse contexto. Lembre-se de que o primeiro
parágrafo da Declaração se refere a “leis da natureza e do Deus da natureza”.
O que é importante é que direitos são imprescritíveis, isto é, não são assegurados
por nenhum outro ser humano. Em particular, não são garantidos pelo governo; as
pessoas formam governos para proteger os direitos que já têm.

Soberania individual
Como toda pessoa é dona de si mesma, de seu corpo e de sua mente, ela tem o
direito à vida. Tomar a vida de outro sem justificativa — assassiná-lo — é a maior
violação possível de seus direitos.
Infelizmente, o termo “direito à vida” é usado de duas formas hoje em dia, levando
a confusão. Talvez seja melhor que fiquemos com “soberania individual”. Algumas
pessoas, em sua maioria de direita, usam “direito à vida” para defender os direitos
dos fetos (ou nascituros) contra o aborto. Obviamente, esse não é o sentido em que
Jefferson usou o termo.
Outras pessoas, principalmente de esquerda, diriam que “direito à vida” significa
um direito, que todos têm, às necessidades da vida: comida, roupas, abrigo, cuidados
médicos e talvez até mesmo uma jornada de trabalho limitada a oito horas e duas se-
manas de férias. Mas, se o direito à vida significa isso, então uma pessoa tem o direito
de forçar as outras a lhe dar coisas, violando seus direitos iguais. A filósofa Judith Jar-
vis Thomson escreve: “Se estou doente, à beira da morte, e a única coisa que salvará
minha vida é o toque fresco da mão de Henry Fonda sobre minha testa febril, mesmo
assim não tenho direito ao toque fresco da mão de Henry Fonda sobre minha testa
febril”. E se ela não tem o direito ao toque de Henry Fonda, por que teria direito a
um quarto na casa de Henry Fonda, ou um pouco do dinheiro de Henry Fonda para
comprar comida? Isso significaria forçá-lo a servir-lhe, tomando o produto de seu
trabalho sem seu consentimento. Não; o direito à vida significa que cada pessoa tem
direito a agir visando ao prosseguimento de sua vida e de sua prosperidade, e não de
forçar os outros a prover suas necessidades.
O universalismo ético, o modelo mais comum para uma teoria da moral, afirma
que uma teoria ética válida deve ser aplicável para todos os homens e mulheres, em
qualquer tempo e local em que se encontrem. Os direitos naturais à vida, liberdade e
propriedade podem ser desfrutados pelas pessoas em quaisquer circunstâncias nor-
mais. Mas os chamados “direitos” a habitação, educação, saúde, televisão a cabo ou
férias remuneradas, generosamente proclamados na Declaração Universal dos Direi-
tos Humanos das Nações Unidas, não podem ser desfrutados em todo lugar. Algu-
mas sociedades são pobres demais para prover a todos com lazer, habitação ou mesmo

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66 O Manifesto Libertário

comida. E lembremos que não há entidade coletiva conhecida como “educação”


ou “saúde”; existem apenas bens específicos e particulares, tais como uma vaga, por
um ano, nesta ou naquela escola, ou uma operação feita pelo bondoso Dr. Fulano na
quinta-feira. Alguma pessoa ou grupo de pessoas teria que prover cada unidade par-
ticular de “habitação” ou “educação”, e oferecer essas coisas a uma pessoa significa
necessariamente negá-las a outra. Portanto, é logicamente impossível tornar esses
desejáveis bens “direitos humanos universais”.
O direito à soberania individual leva imediatamente ao direito à liberdade; de
fato, podemos dizer que o “direito à vida” e o “direito à liberdade” são apenas duas
formas de expressar a mesma coisa. Se as pessoas são donas de si mesmas, e têm
tanto o direito quanto a obrigação de agir como é necessário para sua sobrevivên-
cia e desenvolvimento, então elas devem gozar da liberdade de pensamento e ação.
A liberdade de pensamento é uma implicação óbvia da soberania individual. Em cer-
to sentido, é claro, é difícil negar a liberdade de pensamento. Quem poderia contro-
lar o conteúdo da mente de outra pessoa? A liberdade de expressão também é uma
consequência lógica da propriedade sobre si. Muitos governos já tentaram tornar ile-
gal ou restrita a liberdade de expressão, mas o discurso é inerentemente fugaz, então
o controle é difícil. A liberdade de imprensa — incluindo, em tempos modernos, di-
fusão de rádio e televisão, televisão a cabo, correio eletrônico e outras novas formas
de comunicação — é um aspecto da liberdade intelectual que governos opressivos
costumam atacar. E, quando defendemos a liberdade de imprensa, estamos necessa-
riamente falando sobre direitos de propriedade, pois as ideias são expressas por meio
de propriedades — de impressoras, auditórios, carros de som, outdoors, equipamento
de rádio, de frequências de difusão, de redes de computadores, e assim por diante.

Direitos de propriedade
Na verdade, a propriedade sobre bens é uma implicação necessária da proprieda-
de sobre si mesmo, porque toda ação humana envolve posse. De que outro jeito po-
deríamos buscar a felicidade? No mínimo, precisamos de um lugar onde nos instalar.
Precisamos do direito a usar a terra e outras propriedades para produzir novos bens e
serviços. Veremos que todos os direitos podem ser entendidos como direitos de pro-
priedade. Mas esse é um argumento controverso, nem sempre facilmente entendido.
Muitas pessoas se perguntam por que não poderíamos voluntariamente comparti-
lhar nossos bens e propriedades.
A propriedade é uma necessidade. “Propriedade” não significa simplesmente ter-
ras ou outros bens materiais. Propriedade é qualquer coisa que as pessoas possam
usar, manipular ou jogar fora. O direito à propriedade é o direito de usar, manipular
e jogar fora um objeto ou ente. Será essa uma necessidade perversa, ou própria da
exploração? De modo nenhum.

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Cap. 3 — Que direitos temos? 67

Se nosso mundo não fosse caracterizado pela escassez, não precisaríamos dos
direitos de propriedade. Isto é, se tivéssemos infinitas quantidades de tudo o que as
pessoas querem, não precisaríamos de nenhuma teoria sobre como alocar essas coisas.
Mas está claro que a escassez é uma característica básica de nosso mundo. Note-se que
escassez não implica pobreza ou falta de subsistência básica. Escassez significa sim-
plesmente que os desejos humanos são essencialmente ilimitados, de modo que nunca
temos recursos produtivos suficientes para supri-los todos. Mesmo um asceta que ti-
vesse transcendido o desejo de posse de bens materiais além da subsistência básica se
defrontaria com a escassez mais elementar de todas: a escassez do corpo, da vida e do
tempo. O tempo que devotasse à oração não estaria mais disponível para o trabalho
manual, para a leitura dos textos sagrados ou para a realização de boas ações. Não im-
porta quão rica nossa sociedade se torne — nem quão indiferentes aos bens materiais
nos tornemos —, sempre teremos de fazer escolhas, o que significa que precisamos de
um sistema para decidir quem pode usar quais recursos produtivos.
Não é possível abolir os direitos de propriedade, como os visionários socialistas
prometem fazer. Enquanto existirem coisas, alguém deverá ter o poder de usá-las. Em
uma sociedade civilizada, não queremos que esse poder seja exercido simplesmente
pela pessoa mais forte ou mais violenta; queremos uma teoria da justiça dos títulos de
propriedade. Quando governos socialistas pretensamente “abolem” a propriedade, o
que prometem é que toda a comunidade será dona da propriedade. Mas, dado que —
com ou sem teoria visionária — somente uma pessoa pode comer uma determinada
maçã, ou dormir em uma determinada cama ou estar em pé em um determinado local,
alguém terá que decidir quem terá direito a isso. Esse alguém — o oficial do partido, o
burocrata, o czar — é o verdadeiro detentor do direito de propriedade.
Os libertários acreditam que o direito à soberania individual significa que os indiví-
duos devem ter o direito de adquirir e trocar propriedades para satisfazer suas necessi-
dades e desejos. Para nos alimentar, abrigar nossas famílias ou abrir um negócio, preci-
samos fazer uso de uma propriedade. E, para que as pessoas se disponham a poupar e
investir, precisam estar confiantes em que seus direitos de propriedade estão legalmente
assegurados e de que ninguém pode chegar e confiscar a riqueza que geraram, seja ela a
colheita do que plantaram, a casa que construíram, o carro que compraram ou a grande
corporação que criaram por meio de uma rede de contratos com muitas outras pessoas.

Aquisição original da propriedade. Em primeiro lugar, como se ad-


quire uma propriedade? Se uma nave espacial cheia de homens e mulheres pousasse
em Marte, talvez não houvesse necessidade de conflito a respeito da terra. Seria só
escolher um lugar e começar a plantar ou construir. Um cartunista certa vez repre-
sentou dois homens das cavernas dizendo um ao outro: “Vamos cortar a terra em
pequenos retângulos e vendê-los”. Colocado assim, parece absurdo. Por que fazer tal

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68 O Manifesto Libertário

coisa? E quem compraria esses retângulos? E com quê? Mas, à medida que a popula-
ção aumenta, torna-se necessário decidir que terras — e que água, e que espectro de
frequência — pertencem a quem. John Locke descreveu uma forma de adquirir pro-
priedade: quem quer que fosse o primeiro a “misturar com seu trabalho” um pedaço
de terra se tornaria dono dela. Ao entrelaçar seu próprio esforço com um pedaço de
terra até então sem dono, tornava-o seu. O homem tem então direito a construir nele
uma casa, cercá-lo, vendê-lo ou dispor dele como bem entender.
Para cada entidade há na verdade um feixe de direitos de propriedade, que podem
ser desagregados. Pode haver tantos direitos de propriedade associados a uma enti-
dade quantos são os aspectos dessa entidade. Por exemplo, você pode comprar ou
alugar o direito de perfurar um terreno para encontrar petróleo, mas não o direito
de cultivá-lo ou construir nele. Você pode ser dono de um terreno, mas não da água
que houver sob ele. Você pode doar sua casa para uma instituição de caridade, mas
preservar o direito de morar nela enquanto viver. Como disse Roy Childs em Liberty
Against Power [A liberdade contra o poder]: “Antes que houvesse uma tecnologia
disponível para difundir áudio por ondas, certas coisas (...) não poderiam ser pro-
priedade, pois não poderiam ter sido especificadas por nenhum meio tecnológico”.
Mas, uma vez que entendemos a física da radiodifusão, podemos criar direitos de
propriedade sobre o espectro de frequência. Childs prossegue: “À medida que a so-
ciedade fica mais complicada (...) e a tecnologia avança, os tipos de propriedade que
as pessoas podem ter se tornam cada vez mais complexos”.
O princípio do usucapião — de adquirir, inicialmente, um título de propriedade
por ser o primeiro a usá-la ou transformá-la — pode funcionar de maneira diferente
para diferentes tipos de propriedade. Por exemplo, em estado de natureza, quando a
maior parte da terra não tem dono (por exemplo, no caso de homens chegarem a um
novo planeta), poderíamos dizer que simplesmente acampar em um pedaço de terra e lá
permanecer é suficiente para adquirir o direito de propriedade. Certamente assentar as
fundações para erguer uma casa e então começar a construí-la estabeleceria um direito
de propriedade. O direito à água — seja em lagos, rios, ou lençóis subterrâneos — tra-
dicionalmente tem sido adquirido de formas diferentes da aquisição de terras. Quando
se começou a usar o espectro de frequência para radiodifusão nos anos 1920, adotou-se
em geral um princípio de aquisição pelo uso: comece a transmitir em uma frequência e
adquira o direito de continuar a usá-la. (O papel do governo em todos esses casos é sim-
plesmente proteger, em grande medida por intermédio dos tribunais, os direitos que os
indivíduos adquirem por si mesmos.) A questão importante, que discutirei mais adian-
te, é termos alguma forma de estabelecer direitos de propriedade e, depois, de permitir
que as pessoas os transfiram umas para as outras por consentimento mútuo.
Direitos de propriedade são direitos humanos. O que exatamente
significa ser dono de uma propriedade? Podemos citar a definição de Jan Narveson:

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Cap. 3 — Que direitos temos? 69

“Se x é propriedade de A significa que ‘A tem o direito de determinar como dispor


de x’”. Note-se que um direito de propriedade não é um direito da propriedade nem
um direito próprio de uma propriedade, como frequentemente insinuam os oposito-
res dos direitos de propriedade. Na verdade, o direito de propriedade é um direito
humano à propriedade, o direito do indivíduo de usar e dispor da propriedade que
adquiriu justamente. Direitos de propriedade são direitos humanos.
Realmente, como se defende acima, todos os direitos humanos podem ser vistos
como direitos de propriedade, derivados do direito fundamental à soberania indi-
vidual, nossa propriedade sobre nosso corpo. Como coloca Murray Rothbard em
Power and Market [Poder e mercado]:

No sentido mais profundo, não há direitos senão os direi-


tos de propriedade (...). Isso é verdade em vários sentidos.
Em primeiro lugar, cada indivíduo, por um fato da natu-
reza, é dono de si mesmo, o governante de sua própria
pessoa. Os direitos “humanos” defendidos na sociedade
puramente de mercado livre são, com efeito, o direito de
propriedade de cada um a seu próprio ser, e desse direito
de propriedade deriva seu direito aos bens materiais que
tiver produzido.

Em segundo lugar, os direitos alegados “humanos” podem ser reduzidos a direi-


tos de propriedade (...) por exemplo, o “direito humano” à liberdade de expressão.
Liberdade de expressão significa o direito de cada um dizer o que quiser. Mas a per-
gunta que não se faz é: onde? Em que locais um homem tem o direito de dizer o que
quiser? Certamente não em uma propriedade que tenha invadido. Em resumo, ele
só tem esse direito ou em sua propriedade ou na propriedade de alguém que tenha
concordado, por doação ou contrato de aluguel, em permitir sua permanência nela.
Na verdade, então, não há nada que possa ser considerado separadamente um “di-
reito à liberdade de expressão”; existe somente o direito à propriedade, o direito de
fazer o que desejar com sua propriedade, ou de fazer acordos voluntários com outros
detentores de propriedades [incluindo aqueles cuja propriedade consista somente
em seu próprio trabalho].

Quando entendemos a liberdade de expressão dessa forma, vemos o que há de


errado com a famosa afirmação do juiz da Suprema Corte Oliver Wendell Holmes
de que a liberdade de expressão não pode ser absoluta, pois ninguém tem direito de
gritar em falso “Fogo!” em um teatro lotado. Quem gritaria “Fogo”? Possivelmente
o dono, ou um de seus agentes, caso em que teria fraudado seus clientes: vendeu

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70 O Manifesto Libertário

ingressos para uma peça ou filme e então perturbou o espetáculo, além de pôr sua
vida em risco. Se não foi o dono, foi um dos clientes, que está violando os termos de
seu contrato: seu ingresso lhe dá direito de desfrutar do espetáculo, e não de per-
turbá-lo. O argumento do falso grito de “fogo” no teatro não é razão para cercear a
liberdade de expressão; é uma ilustração da maneira como os direitos de propriedade
resolvem problemas e da necessidade de protegê-los e aplicá-los.
A mesma análise se aplica ao muito debatido direito à privacidade. No caso
Griswold v. Connecticut, de 1965, a Suprema Corte derrubou uma lei de Connecticut
proibindo o uso de anticoncepcionais. O juiz da Suprema Corte William O. Douglas
encontrou, em “penumbras, formadas por emanações” de várias partes da Constitui-
ção, um direito à privacidade para casais casados. Conservadores como o juiz Robert
Bork ridicularizam há trinta anos esse raciocínio vago e sem raízes. As penumbras
continuaram a emanar, até incluir o direito de casais não casados à anticoncepção e
o direito de uma mulher levar a termo uma gravidez, mas subitamente, em 1986, des-
cobriu-se que as emanações não iam longe o suficiente para cobrir atos consensuais
de homossexualismo em um recinto privado. Uma teoria de privacidade enraizada
em direitos de propriedade não teria precisado de penumbras ou emanações — as
quais, sendo penumbra a sombra imperfeita, são necessariamente bem vagas — para
descobrir que uma pessoa tem o direito de comprar anticoncepcionais de quem qui-
ser vendê-los, ou de ter relações sexuais consensuais em sua própria casa. “A casa de
um homem é seu castelo” oferece uma fundação bem mais forte para a privacidade
do que “penumbras, formadas por emanações”.
Aqueles que rejeitam o princípio dos direitos de propriedade precisam oferecer
mais do que apenas críticas. Precisam oferecer um sistema alternativo que defina com
a mesma eficiência quem pode usar que recursos e de que maneiras; assegure que a
terra, bem como outras propriedades, seja devidamente preservada; forneça uma base
para o desenvolvimento econômico; e evite a guerra de todos contra todos que pode
sobrevir quando o controle sobre bens valiosos não está claramente definido.

A teoria do justo título de Nozick


Em seu livro de 1974, Anarquia, estado e utopia, o filósofo Robert Nozick, de
Harvard, discutiu concepções alternativas dos direitos de propriedade de forma
muito elucidativa. Embora comumente chamado de “justiça distributiva”, o termo
propende para a discussão. Como aponta Nozick, o termo, do modo como é usado
frequentemente, implica algum processo de distribuição que talvez tenha se desvia-
do e queiramos corrigir. Mas, em uma sociedade livre, não há distribuição central de
recursos. Milton Friedman fala de visitar a China na década de 1980 e ser inquirido
por um ministro do governo: “Quem está encarregado da distribuição de materiais
nos Estados Unidos?”. Friedman ficou quase sem fala com a pergunta, mas teve que

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Cap. 3 — Que direitos temos? 71

explicar que em uma economia de mercado não há nenhuma pessoa ou comissão


“encarregada da distribuição de materiais”. Milhões de pessoas produzem bens —
através de uma complexa rede de contratos em uma economia avançada — e então
os trocam. Como diz Nozick, “O que cada pessoa recebe, recebe de outros, que o
cede em troca de algo ou como um presente”.
Nozick sugere que há duas formas de ver a questão da justiça nos direitos de proprie-
dade. A primeira é histórica: se as pessoas adquiriram sua propriedade justamente, en-
tão elas têm um título de propriedade, e seria errado interferir pela força e redistribuir
essa propriedade. A outra visão baseia-se em padrões, ou resultados finais, ou o que
Nozick chama de “princípios do momento presente”. Isto é, “a justeza de uma distri-
buição é determinada pelo modo como as coisas estão distribuídas (quem tem o que),
segundo um julgamento determinado por algum princípio estrutural de distribuição
justa”. Os defensores de distribuições padronizadas não perguntam se a propriedade
foi justamente adquirida, mas se o padrão da distribuição do momento se ajusta ao
que consideram o padrão correto. Há muitos tipos de padrões que as pessoas podem
preferir: que brancos tenham mais propriedades (ou dinheiro, ou qualquer coisa) que
negros ou cristãos tenham mais do que judeus, que pessoas inteligentes tenham mais,
que pessoas boas tenham mais, que cada um tenha tudo de que precisar. Algumas des-
sas visões são odiosas. Outras talvez sejam defendidas por seus amigos e muitas pessoas
decentes. Mas o que todas têm em comum é a presunção de que uma distribuição justa
é determinada por quem tem o quê, sem nenhuma menção a como a propriedade foi
obtida. Hoje em dia, no entanto, os críticos do capitalismo provavelmente defenderão
a ideia de que todos devem ter propriedades iguais, ou que ninguém deve ter mais do
que o dobro de outra pessoa, ou alguma outra variante de igualdade. Assim, essa é a
alternativa ao libertarismo que levaremos em consideração.
Nozick delineia sua teoria do justo título da seguinte maneira: em primeiro lu-
gar, as pessoas têm direito a adquirir uma propriedade que não tenha dono. Esse é
o princípio da justa aquisição. Em segundo lugar, as pessoas têm direito de dar essa
propriedade a outros, ou de trocá-la voluntariamente com outros. Esse é o princípio
da justa transferência. Portanto:

Se o mundo fosse totalmente justo, a seguinte definição


indutiva esgotaria o assunto da justiça nos valores:
1. Uma pessoa que adquire um valor de acordo com
o princípio da justa aquisição tem um título sobre
esse valor.
2. Uma pessoa que adquire um valor de alguém que
tenha direito a ele, de acordo com o princípio da justa
transferência, tem um título sobre esse valor.

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72 O Manifesto Libertário

3. Ninguém mais tem um título sobre um valor exceto


por aplicação (iterativa) de 1 e 2.
O princípio completo da justiça distributiva diria simples-
mente que uma distribuição é justa se todos tiverem títu-
los sobre os valores que detêm sob essa distribuição.
Uma distribuição é justa se derivar de outras distribui-
ções justas por quaisquer meios legítimos.

Uma vez que as pessoas tenham uma propriedade (incluindo o trabalho de sua
própria mente e corpo, que são inerentemente propriedade sua), elas podem legiti-
mamente trocá-la com outras pessoas por qualquer propriedade que estas tenham
legitimamente adquirido. Podem ainda doá-la. O que as pessoas não podem fazer é
tomar a propriedade de outra pessoa sem seu consentimento.
Nozick passa a discutir a questão da igualdade em uma famosa seção de seu livro,
intitulada “Como a liberdade perturba os padrões”. Suponha que comecemos uma
sociedade na qual a riqueza é distribuída da forma que você acha mais justa. Poderia
ser o caso de todos os cristãos possuírem mais do que qualquer judeu, ou que os
membros do Partido Comunista fossem donos de toda a propriedade (exceto do cor-
po das pessoas), ou qualquer outra coisa. Mas vamos presumir que seu padrão pre-
ferido é que todos tenham igual quantidade de riqueza e que é isso que observamos
em nossa sociedade hipotética. Agora considere um único evento.
Suponha que o grupo de rock Pearl Jam esteja em turnê. Eles cobram 10 dólares
pelo ingresso da apresentação. Durante a turnê, um milhão de pessoas veem seus
shows. No final, um milhão de pessoas estão 10 dólares mais pobres, e os membros
do Pearl Jam estão 10 milhões de dólares mais ricos. Eis a pergunta: a distribuição
de riqueza agora é desigual. Será ela injusta? Se sim, por quê? Concordamos em
que a distribuição de riqueza no início era justa, porque estipulamos que era a sua
distribuição favorita. No início, cada pessoa, presumivelmente, tinha direito ao
dinheiro que possuía e, portanto, o direito de gastá-lo como quiser. Muitas pessoas
exerceram esse direito, e agora os músicos do Pearl Jam estão mais ricos do que
todo mundo. Isso é errado?
Todas aquelas pessoas escolheram gastar seu dinheiro dessa forma. Elas pode-
riam ter comprado CDs do Michael Jackson, ou granola, ou exemplares da New York
Review of Books. Elas poderiam ter dado dinheiro ao Exército de Salvação ou para o
Habitat for Humanity. Se elas tinham direito ao dinheiro que possuíam no começo,
certamente tinham direito de gastá-lo, e nesse caso o padrão de distribuição de ri-
queza mudará.
Qualquer que seja o padrão, quando diferentes pessoas escolhem gastar seu di-
nheiro e oferecer bens e serviços para ganhar mais dinheiro para gastar, o padrão

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Cap. 3 — Que direitos temos? 73

estará em constante mudança. Alguém abordará o Pearl Jam e se oferecerá para pro-
mover seus shows em troca de uma parte da renda da bilheteria, ou para produzir
seus álbuns e vendê-los. Outra pessoa abrirá uma gráfica e produzirá os ingressos
para os shows. Como diz Nozick, para evitar as desigualdades em relação à riqueza,
teríamos que “proibir atos capitalistas consensuais entre adultos”. Ele nota ainda que
nenhum padrão de distribuição pode ser mantido “sem contínua interferência na
vida das pessoas”. Ou se tem que continuamente impedir que as pessoas gastem seu
dinheiro como bem entenderem, ou ficar continuamente — ou a intervalos regula-
res — tomando das pessoas o dinheiro que outras decidiram lhes dar.
É fácil dizer que não nos incomodamos que artistas de rock enriqueçam. Mas é
claro que o mesmo princípio se aplica a capitalistas, inclusive bilionários. Se Henry
Ford inventou um carro que as pessoas querem comprar, ou se Bill Gates inventou
um sistema operacional, ou se Sam Walton inventou um jeito eficiente e barato de
distribuir bens de consumo, e temos o direito de gastar nosso dinheiro como qui-
sermos, então eles ficarão ricos. Para impedir isso, teríamos que proibir as pessoas
adultas de gastar seu dinheiro do modo que quiserem.
Mas e os filhos deles? É justo que os filhos do magnata nasçam em meio a mais
riqueza, que provavelmente levará a uma educação melhor, do que eu ou você?
Essa pergunta parte de premissas errôneas sobre a natureza de uma sociedade
complexa. Em aldeias primitivas, abrangendo apenas umas poucas pessoas que
provavelmente são parentes distantes, era apropriado distribuir os bens da tribo
na base da “equidade”. Mas uma sociedade diversificada nunca vai concordar com
uma “justa” distribuição de bens. Por outro lado, conseguimos concordar sobre jus-
tiça — que as pessoas devem ter o direito de preservar aquilo que produziram. Isso
não significa que o filho de Henry Ford tenha “direito” de herdar riqueza, mas que
Henry Ford tinha o direito de adquirir riqueza e de então dá-la a quem quisesse,
inclusive a seus filhos. Uma distribuição por uma autoridade central — como um
pai distribui mesadas, ou como um professor dá notas — pode ser considerada
“justa” ou “injusta”. Mas o complexo processo pelo qual milhões de pessoas pro-
duzem bens e os vendem ou dão a outras é de uma natureza diferente, e não há
sentido em julgar isso pelas leis de equilíbrio que se aplicam a grupos pequenos
sob uma autoridade central.
De acordo com a teoria do justo título, as pessoas têm o direito de trocar a pro-
priedade adquirida justamente. Algumas ideologias têm por princípio “a cada um
segundo ”. Para Marx, era “de cada um segundo sua capacidade e
a cada um segundo sua necessidade”. Note que Marx separa a produção da distribui-
ção; entre essas duas orações, há alguma autoridade decidindo quais são a sua capa-
cidade e a minha necessidade. Nozick oferece uma prescrição libertária, integrando
produção e distribuição em um sistema justo:

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74 O Manifesto Libertário

De cada um segundo o que escolhe fazer, e a cada um se-


gundo o que faz para si (talvez com a ajuda contratada de
outras pessoas) e o que outros escolhem fazer por ele e
dar a ele do que lhes foi dado (sob esta máxima) e ainda
não tiverem gasto ou transferido.

Falta nessa passagem o vigor de um bom slogan. Então, parafraseando Nozick,


podemos resumi-la assim:
De cada um conforme sua escolha, e a cada um conforme é escolhido.

O axioma da não agressão


Quais são os limites da liberdade? O corolário do princípio libertário de que “cada
pessoa tem direito a viver sua vida como bem escolher, contanto que não interfira
nos direitos iguais de outros” é este:

Nenhum indivíduo tem direito de iniciar uma agressão


contra a pessoa ou a propriedade de nenhum outro.

Isso é o que os libertários chamam de axioma da não agressão, e é um princípio


central do libertarismo. Note-se que o axioma da não agressão não proíbe o uso da
força em retaliação, isto é, para recuperar a propriedade roubada, para punir os que
violaram os direitos alheios, para retificar uma injúria, ou até para impedir uma in-
júria iminente. O que o axioma afirma é que é errado usar ou ameaçar de agressão
física uma pessoa ou propriedade de alguém que antes não tenha feito uso ou ameaça
de agressão. A justiça, portanto, proíbe o assassinato, o estupro, o roubo, o sequestro
e a fraude. (Por que fraude? Será a fraude de fato uso não retaliativo da força? Sim,
porque é uma forma de roubo. Se prometo lhe vender uma cerveja Heineken por um
dólar, mas em vez dela lhe dou uma Bud Light, eu roubei o seu dólar.)
Como foi abordado no capítulo 1, a maior parte das pessoas costuma acreditar
nesse código de ética e o adota em sua vida. Os libertários acreditam que o código
deve ser aplicado coerentemente tanto às ações do governo quanto às dos indivíduos.
Direitos não são cumulativos; não se pode dizer que os direitos de seis pessoas têm
mais peso que os direitos de três, e que então essas seis podem tomar a propriedade
das outras três. Igualmente, um milhão de pessoas também não podem “combinar”
seus direitos em alguma forma de direito cumulativo para tomar a propriedade de
outras mil. Por isso os libertários condenam as ações do governo que se apossam
de nossa pessoa ou propriedade, ou nos ameaçam com multas ou prisão pela forma
como vivemos nossa vida ou como nos envolvemos em interações voluntárias com
outras pessoas (inclusive em transações comerciais).

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Cap. 3 — Que direitos temos? 75

A liberdade, na visão libertária, é a condição na qual os direitos de soberania indivi-


dual e o direito de propriedade do indivíduo não sofrem invasões ou agressões. Alguns
filósofos chamam a concepção libertária dos direitos de “liberdade negativa”, no senti-
do de que ela impõe somente obrigações negativas aos outros — o dever de não agredir
ninguém. Mas para cada indivíduo, como afirma Ayn Rand, um direito é uma reivindi-
cação moral a um positivo: “sua liberdade de agir segundo seu próprio julgamento, para
seus próprios propósitos e por sua própria escolha, livre e voluntária”.
Alguns comunitaristas dizem que “a linguagem dos direitos é moralmente incom-
pleta”. Isso é verdade; os direitos dizem respeito somente a um certo domínio da
moral — um estreito domínio, aliás —, e não a toda a moral. Os direitos estabelecem
alguns padrões mínimos sobre como devemos tratar uns aos outros: não devemos
matar, estuprar, assaltar ou iniciar outras formas de força uns contra os outros. Nas
palavras de Ayn Rand, “A pré-condição de uma sociedade civilizada é o banimento
da força física das relações sociais — estabelecendo assim o princípio de que, se os
homens querem interagir, podem fazê-lo somente pelos meios da razão: discussão,
persuasão e consentimento livre e voluntário”. Mas a proteção dos direitos e o esta-
belecimento de uma sociedade pacífica é somente uma precondição para a civiliza-
ção. A maior parte das perguntas importantes sobre como devemos lidar uns com
os outros deve ser respondida com máximas morais. Isso não significa que a ideia de
direitos seja inválida ou incompleta no domínio ao qual se aplica; significa apenas que
a maior parte das decisões que tomamos diariamente envolve escolhas que geral-
mente só são circunscritas pela obrigação de respeitar os direitos dos outros.

Implicações dos direitos naturais


Os princípios básicos da soberania individual, a lei da liberdade igual e o axio-
ma da não agressão têm infinitas implicações. Os libertários conseguem identificar
tantos direitos quantos são os modos que o estado consegue imaginar de regular e
expropriar nossa vida.
A mais óbvia e ultrajante violação do direito à soberania individual é a servidão
involuntária. Desde tempos imemoriais, as pessoas reclamam o direito de escravi-
zar outras. A escravidão nem sempre foi racial; geralmente começa com os despojos
de uma vitória. Os conquistadores tinham o poder de escravizar os conquistados.
A grande cruzada libertária da história foi o esforço de abolir a escravidão, que cul-
minou no movimento abolicionista do século XIX e na heroica Ferrovia Subter-
rânea (Underground Railroad), a vasta rede secreta que ajudava a libertar escravos
nos Estados Unidos. Mas, apesar da Décima Terceira Emenda à Constituição, que
aboliu a servidão involuntária, ainda hoje vemos vestígios dela. O que é a cons-
crição — o alistamento militar obrigatório — senão escravidão temporária (com
consequências permanentes para os recrutas que não voltam vivos para casa)?

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76 O Manifesto Libertário

Nenhuma questão hoje separa mais nitidamente os libertários daqueles que põem
a coletividade acima do indivíduo. A crença libertária de que as pessoas defenderão
voluntariamente um país que valha a pena ser defendido e que nenhum grupo de
pessoas tem o direito de forçar outro a abrir mão de um ano ou dois de sua vida — e
possivelmente da própria vida — sem seu consentimento. O princípio liberal bá-
sico da dignidade do indivíduo é violado quando os indivíduos são tratados como
recursos da nação. Alguns conservadores (como o senador John McCain) e alguns
dos chamados liberais de hoje (como Franklin Thomas, o presidente da Ford Foun-
dation) defendem um sistema de serviço nacional compulsório, em que todos os
jovens seriam obrigados a passar um ano ou dois trabalhando para o governo. Um
sistema como esse seria uma violação abominável do direito humano à soberania
individual, e só podemos esperar que a Suprema Corte o considere inconstitucional
sob a Décima Terceira Emenda.

Liberdade de consciência
Também é fácil, para a maioria das pessoas, ver as implicações do libertaris-
mo na liberdade de consciência, de expressão e pessoal. As ideias modernas do
libertarismo começaram na luta pela tolerância religiosa. O que pode ser mais
inerente, mais íntimo ao indivíduo, do que seus pensamentos? À medida que os
dissidentes religiosos foram desenvolvendo a defesa da tolerância, as ideias dos
direitos naturais e uma esfera de privacidade emergiram. Liberdade de expres-
são e de imprensa são outros aspectos da liberdade de consciência. Ninguém tem
o direito de impedir outra pessoa de expressar seus pensamentos e tentar persuadir
os outros a aceitar suas opiniões. Esse argumento, hoje, deve ser estendido ao
rádio, à televisão aberta e por assinatura, à internet e outras formas de comuni-
cação eletrônica. Pessoas que não quiserem ler livros de autores comunistas (ou
libertários!), assistir a filmes sangrentos ou baixar fotos pornográficas da inter-
net não precisam fazê-lo; mas elas não têm direito de impedir que outras pessoas
façam suas próprias escolhas.
Há muitas formas pelas quais o governo interfere na liberdade de expressão.
Os governos americanos vêm constantemente tentando proibir ou regulamentar li-
vros e filmes considerados indecentes, obscenos ou pornográficos, apesar da clara
formulação da Primeira Emenda: “O Congresso não fará nenhuma lei (...) que cer-
ceie a liberdade de expressão ou de imprensa”. Como disse uma manchete da revista
Wired, “Que parte de ‘nenhuma lei’ vocês não entendem?”.
Os libertários veem dezenas de violações da liberdade de expressão no direito
americano. Baniram-se informações sobre o aborto; na instância mais recente pela
lei de 1996, que regulamenta a comunicação pela internet. O governo federal fre-
quentemente tem usado seu monopólio sobre os correios para impedir o envio de

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Cap. 3 — Que direitos temos? 77

materiais moral ou politicamente ofensivos. Emissoras de rádio e televisão precisam


adquirir licenças federais e seguir várias regulamentações federais sobre o conteúdo
das transmissões. A Agência de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo (Bureau of Alcohol,
Tobacco, and Firearms) proíbe que os produtores de vinho e outras bebidas alcoó-
licas mencionem nos rótulos que há estudos indicando que o consumo moderado
de álcool reduz o risco de doença cardíaca e aumenta a longevidade — embora as
últimas orientações nutricionais do Departamento de Saúde e Serviços Humanos
(Department of Health and Human Services) falem dos mesmos benefícios. Nos anos
1990, mais de uma dúzia de estados aprovaram leis tornando ilegal a depreciação
pública da qualidade de itens perecíveis — isto é, frutas e vegetais — sem se basear
em “sólidos dados, fatos ou investigação científica”.
Um senhorio não pode anunciar que um apartamento fica “a algumas quadras
da sinagoga” — um eficaz apelo publicitário para judeus ortodoxos, que não podem
dirigir veículos no Sabá — porque supostamente estaria subetendida aí a intenção de
discriminar. Faculdades tentam banir o discurso politicamente incorreto — a Uni-
versidade de Connecticut ordenou que os estudantes não tomassem parte em “riso
por motivos impróprios, piadas maldosas e exclusão conspícua [de outro estudante]
da conversa”. (Para ser preciso nesse ponto, acredito que as universidades privadas
têm o direito de estabelecer regras sobre como seus docentes e alunos devem intera-
gir, inclusive sobre seu discurso — o que não equivale a dizer que tais regras demons-
trem sabedoria. Mas as faculdades públicas devem obedecer à Primeira Emenda.)
E é claro que cada nova tecnologia traz consigo novos pedidos de censura por par-
te daqueles que não a compreendem, ou que compreendem perfeitamente que novas
formas de comunicação podem estremecer as ordens estabelecidas. O ato de refor-
ma das telecomunicações em 1996, que, admiravelmente, desregulamentou grande
parte da indústria, incluiu, porém, a Lei de Decência nas Comunicações, visando a
impedir que adultos vissem material que pudesse ser inapropriado para crianças.
Uma lei de 1996 na França determina que pelo menos 40% da música transmitida pe-
las estações de rádio seja francesa. Requer também que metade das canções francesas
seja de um artista que nunca teve um grande sucesso. “Estamos forçando os ouvintes a
ouvir músicas que eles não querem ouvir”, diz um programador de rádio.
Mais importante, pessoas que querem gastar seu dinheiro apoiando a candidatura
de políticos de sua escolha estão limitadas a contribuições de mil dólares — o que
é mais ou menos como dizer ao New York Times que ele pode escrever um editorial
apoiando Barack Obama, mas só tem permissão para imprimir mil cópias do jornal.
Dessa forma, o governo, embora proclame devoção à liberdade de expressão, cerceia
o uso de um tipo de discurso que poderia vir a ameaçar o poder.
Há um argumento utilitário para a liberdade de expressão, é claro: do conflito de
opiniões, emergirá a verdade. Como disse John Milton: “Quem jamais viu a Verdade

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78 O Manifesto Libertário

ser derrotada em um duelo livre e aberto?”. Mas, para a maioria dos libertários, a
razão primária para defender a liberdade de expressão são os direitos individuais.
O direito de soberania individual implica o direito de decidirmos por nós mes-
mos que alimentos, bebidas ou drogas vamos ingerir; com quem vamos fazer amor
(presumindo que o parceiro escolhido concorde); e que tipo de tratamento médi-
co queremos (supondo que algum médico concorde em oferecê-lo). Essas decisões
são certamente tão íntimas e pessoais quanto a escolha dos objetos de nossa crença.
Podemos cometer erros (pelo menos aos olhos dos outros), mas ser donos de nossa
vida significa que as outras pessoas devem limitar sua interferência a conselhos e
persuasão moral, sem coerção. E, em uma sociedade livre, esse aconselhamento deve
vir de particulares, e não do governo, que no mínimo é potencialmente coercitivo
(e, em nossa sociedade, completamente coercitivo). O papel do governo é proteger
nossos direitos, sem interferir em nossa vida pessoal. No entanto, alguns governos
estaduais, não há muito tempo, na década de 1980, baniram bebidas alcoólicas dos
restaurantes, e cerca de vinte estados ainda hoje proíbem as relações homossexuais.
O governo federal, em nossos dias, proíbe o uso de certas drogas, disponíveis na Eu-
ropa, que aliviam a dor e podem salvar vidas. E nos ameaça com prisão se escolhemos
usar drogas como maconha ou cocaína. Mesmo quando não está banindo nada, o
governo se intromete em nossas escolhas pessoais. Intimida-nos com ameaças sobre
o tabagismo, insiste em que comamos direito — com tudo o que comemos no dia
a dia apresentado ordenadamente em forma de pirâmide num cartaz próximo — e
nos dá conselhos sobre como fazer sexo seguro e satisfatório. Os libertários não se
incomodam em receber conselhos, mas nós não achamos que o governo deva tomar
à força o dinheiro de nossos impostos e o usá-lo para aconselhar todas as pessoas da
sociedade sobre como viver sua vida.

Liberdade de contratar
O direito de firmar contratos é de importância crucial para o libertarismo e para
a própria civilização. O estudioso britânico Henry Sumner Maine escreveu que a
história da civilização é a transformação de uma sociedade de status numa sociedade
de contratos — isto é, de uma sociedade em que cada pessoa já nasce em seu lugar e
é definida por seu status, para uma sociedade em que as relações entre indivíduos são
determinadas por livre consentimento e acordo.
O libertarismo não é libertinismo nem caos. As pessoas de uma sociedade liber-
tária podem ser limitadas por várias regras e restrições, só que a mais genérica delas
não é escolhida: o dever mínimo de respeitar os direitos naturais das outras pessoas.
A maior parte das regras que nos orientam numa sociedade livre foi aceita por nós
através de contratos, isto é, por escolha própria. Podemos assumir uma obrigação,
por exemplo, ao assinar um contrato de aluguel. Nesse caso, o dono da casa assume

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Cap. 3 — Que direitos temos? 79

a obrigação de deixar que o locatário viva nela por, digamos, um ano, e mantenha
a casa nas condições acordadas. O locatário assume a obrigação de pagar o aluguel
todo mês e de evitar qualquer dano desnecessário à casa. O contrato pode explici-
tar outras obrigações para qualquer das partes — aviso prévio de trinta dias para
suspender o acordo, garantia de aquecimento e água quente (nos Estados Unidos,
hoje em dia, esta garantia talvez seja tácita, mas não era, absolutamente, admitida
há cinquenta anos, nem o é atualmente em muitas partes do mundo), nada de fes-
tas barulhentas, e assim por diante. Uma vez assinado o contrato, ambas as partes
se comprometem a observar seus termos. Pode-se também dizer que pelo contrato
ambas as partes adquiriram novos direitos — não naturais, mas direitos especiais.
O dono passa a ter direito a um pagamento feito pelo locatário todo mês, e o locatário
tem direito a viver na casa pelo período acordado. Esse não é um direito genérico a
renda ou habitação, mas um direito particular criado por um acordo voluntário.
Outros contratos podem, é claro, se aplicar a praticamente qualquer coisa em uma
sociedade livre: hipotecas, casamentos, empregos, vendas, acordos cooperativos, se-
guros, filiação a clubes ou associações e outras. Por que as pessoas assinam contratos?
Em geral, para remover parte da incerteza em nossa vida e permitir que persigamos
objetivos que requeiram alguma garantia de cooperação de outras pessoas por deter-
minado tempo. A pessoa poderia ligar para seu empregador todo dia pela manhã e
perguntar se ele tem trabalho para ela e quanto estaria disposto a pagar, mas ambos
preferem fazer um acordo de longo prazo (embora a maior parte dos contratos de
emprego americanos permita a qualquer das partes cancelar o acordo quando assim
desejar). Também poderia pagar ao senhorio a cada manhã pelo abrigo durante a
noite, mas obviamente ambos preferem eliminar a incerteza do acordo. E, para pes-
soas que não podem fazer acordos de longa duração, há opções de curto prazo, como
hotéis para viajantes, em que o contrato frequentemente se aplica a uma única noite.
Qual é a natureza de um contrato? É apenas uma promessa? Não, um contrato é
uma troca mútua de títulos de propriedade. Para que um contrato seja válido, ambas
as partes precisam ter o título legítimo da propriedade que propõem negociar. Se o
têm, então podem concordar em transferir esse título para outra pessoa em troca do
título de alguma propriedade que ela possua. É bom lembrar que todo objeto tem
uma série de direitos de propriedade a ele associados; o dono pode transferir alguns
ou todos eles. Quando se vende uma maçã ou uma casa, geralmente se transfere todo
o conjunto de direitos em troca de algum bem, provavelmente dinheiro, da outra
parte. Mas, quando se aluga uma casa, transfere-se apenas o direito de viver na casa,
por um período específico de tempo e sob certas regras. Quando se empresta dinhei-
ro, transfere-se o título para certa quantia de dinheiro, dessa vez em troca de um tí-
tulo por certa soma de dinheiro em algum momento no futuro. Como ter o dinheiro
agora é sempre melhor do que tê-lo depois, quem pede o empréstimo geralmente

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80 O Manifesto Libertário

concorda em pagar por ele uma soma maior do que a cedida a título de empréstimo.
Assim, os juros são aquilo que induz o prestamista a abrir mão de seu dinheiro num
momento para recebê-lo de volta só algum tempo depois.
O descumprimento de um contrato é uma forma de roubo. Se Smith toma em-
prestados 1 mil dólares de Jones, concorda em pagar 1.100 dólares um ano depois e
não o faz, ele é um ladrão. Ele roubou 1.100 dólares que pertencem a Jones. Se Jones
vende um carro a Smith, garantindo que ele possui um rádio funcionando, e o carro
não tem, então Jones é um ladrão: ele tomou o dinheiro de Smith e não lhe entregou
o que, por contrato, deveria entregar.
Sem contratos, seria difícil para qualquer economia crescer além do nível de sub-
sistência. Os contratos nos permitem fazer planos de longo prazo, fazer negócios a
grandes distâncias geográficas e com pessoas que não conhecemos.
Para que uma sociedade extensa funcione, é essencial que as pessoas cumpram as
obrigações assumidas e que os contratos sejam executados. Se as pessoas não forem
de modo geral dignas de confiança, ninguém vai querer fazer contratos com desco-
nhecidos, e a economia de mercado não poderá se expandir e se desenvolver. Se de-
terminados indivíduos faltam com a palavra em seus contratos, ninguém vai querer
fazer negócios com eles, e talvez por isso as oportunidades no sistema de mercado se
tornem restritas para eles. Mas, quando as pessoas honram seus contratos, e espe-
cialmente quando a maior parte das pessoas age assim, vastas e complexas redes de
contratos podem tornar possíveis extensas cadeias de produção ao longo do tempo e
através da distância, permitindo a concretização de maravilhosas façanhas tecnoló-
gicas e o antes inimaginável padrão de vida do capitalismo moderno.

É preciso acreditar em direitos naturais para ser


libertário?
A maior parte dos intelectuais que se consideram libertários acredita no conceito
de direitos naturais individuais e mais ou menos concorda com o que se afirmou
acima. A defesa dos direitos aqui apresentada reflete os argumentos de John Lo-
cke, David Hume, Thomas Jefferson, William Lloyd Garrison e Herbert Spencer,
bem como de libertários do século XX, como Ayn Rand, Murray Rothbard, Robert
Nozick e Roy Childs, e filósofos contemporâneos, como Jan Naverson, Douglas Ras-
mussen, Douglas Den Uyl, Tibor Machan e David Kelley.
No entanto, alguns libertários, especialmente os economistas, não aceitam a teoria
de direitos naturais dos indivíduos. Jeremy Bentham, um filósofo britânico de manei-
ra geral libertário, do início do século XIX, zombou dos direitos naturais, tachando-
-os de “colossal estupidez”. Economistas modernos como Ludwig von Mises, Milton
Friedman e seu filho David Friedman rejeitam os direitos naturais e defendem o pro-
grama político libertário com base em suas consequências benéficas.

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Cap. 3 — Que direitos temos? 81

Essa posição é conhecida como utilitarismo. Em sua formulação clássica, utili-


tarismo significa adotar como padrão para a ética e a filosofia política “o maior bem
para o maior número”. Essa filosofia parece irrepreensível, mas apresenta alguns pro-
blemas. Como sabemos o que é melhor para milhões de pessoas? E se a esmagadora
maioria em alguma sociedade quiser algo decididamente repreensível: expropriar os
gulags russos, submeter garotas adolescentes à mutilação genital ou assassinar os ju-
deus? Com certeza, defrontado com a alegação de que, em certas situações, o maior
número de pessoas achou que essas políticas resultariam no maior bem, um utili-
tarista certamente recorreria a algum outro princípio — provavelmente um senso
inato de que alguns direitos fundamentais são autoevidentes.

O utilitarismo de Mises
O economista Ludwig von Mises era tanto um firme utilitarista quanto um ad-
vogado inflexível da economia do laissez-faire. Como ele justifica sua rejeição a toda
interferência coercitiva nos processos do mercado, se não por uma doutrina de direi-
tos individuais? Mises dizia que, como cientista econômico, podia demonstrar que
as políticas intervencionistas trariam resultados que até seus defensores os conside-
rassem indesejáveis. Mas, como pergunta Murray Rothbard, que foi aluno de Mises,
como ele pode saber o que querem os intervencionistas? Mises pode demonstrar que
o controle de preços causará escassez, mas talvez os defensores do controle de preços
sejam socialistas que queiram tais controles por representarem eles um degrau na es-
calada para o controle total da economia pelo governo. Talvez sejam ambientalistas
extremistas que deploram a ideia de consumo excessivo e consideram uma boa ideia
termos menos bens, ou talvez igualitaristas, que acham que, se houver escassez, pelo
menos os ricos não poderão comprar mais do que os pobres.
Mises explica que ele “pressupõe que as pessoas preferem a vida à morte, a saúde
à doença, a alimentação à fome, a abundância à pobreza”. Se for esse o caso, o econo-
mista consegue demonstrar que a propriedade privada e os mercados livres são a me-
lhor maneira de atingir esse objetivo. Ele está certo, conforme discutiremos em mais
detalhes no capítulo 8, mas trata-se de uma extensa pressuposição. As pessoas po-
dem muito bem preferir um pouco menos de abundância em troca de mais igualdade,
ou da preservação da agricultura familiar, ou simplesmente do prejuízo para os ricos,
por inveja. Como pode um utilitarista fazer objeção à tomada de propriedade se a
maioria determinou que não se importa com a redução do crescimento econômico
gerada por tal decisão? Por isso, a maior parte dos libertários conclui que a liberdade
é mais bem protegida em um sistema de direitos individuais do que simplesmente
pelo utilitarismo ou pela análise econômica.
Isso não é dizer: “Faça-se justiça, ainda que desabem os céus”. É claro que as con-
sequências importam, e poucos de nós seríamos libertários se achássemos que uma

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82 O Manifesto Libertário

adesão estrita aos direitos individuais levaria a uma sociedade de conflito e pobreza.
Mas, por serem os direitos individuais enraizados na natureza humana, é natural que
sociedades que respeitam esses direitos sejam caracterizadas por um maior grau de
harmonia e abundância. Uma política econômica de laissez-faire, baseada na estrita
observância dos direitos, vai levar a mais prosperidade para um maior número de
pessoas. Porém, a raiz de nossas regras sociais deve ser a proteção do direito de cada
indivíduo à vida, à liberdade e à propriedade.

Emergências
Em seu livro The Machinery of Freedom [O maquinário da liberdade], depois de
fazer uma vigorosa defesa dos benefícios das políticas libertárias, David Friedman
apresenta várias objeções aos princípios libertários segundo o modo como eles são
representados na lei da igual liberdade e no axioma da não agressão. Muitos deles en-
volvem situações emergenciais, do tipo “bote salva-vidas”. O exemplo clássico do bote
salva-vidas é o seguinte: suponha que você está em meio a um naufrágio e que há so-
mente um bote, com capacidade para quatro pessoas, mas há oito tentando se agarrar
nele. Como se decide? E — pergunta dirigida aos libertários e outros defensores dos
direitos naturais — como sua teoria dos direitos responde a essa pergunta? David
Friedman coloca: suponha que ao roubar uma arma ou um equipamento científico
você possa impedir que um louco assassine várias pessoas inocentes, ou que um aste-
roide caia em Baltimore. Você o faria? E como ficam os direitos de propriedade?
Essas questões podem ser valiosas para testar os limites de uma teoria dos direi-
tos. Em algumas emergências, as ponderações sobre direitos saem de cena. Mas essas
perguntas não são as primeiras que os estudantes de ética devem examinar nem nos
dizem muito sobre os sistemas éticos de que a humanidade precisa, porque envolvem
situações com as quais as pessoas provavelmente nunca vão se deparar. A primeira
tarefa de um sistema ético é permitir a homens e mulheres viver uma vida coopera-
tiva, produtiva e pacífica no curso normal dos acontecimentos. Nós não vivemos em
botes salva-vidas, mas num mundo de recursos escassos no qual todos procuramos
melhorar a própria vida e a das pessoas que amamos.

Os limites dos direitos


Podemos imaginar outros desafios, menos remotos, à noção de que os direitos na-
turais são absolutos, isto é, nas palavras dos filósofos Douglas Rasmussen e Douglas
Den Uyl, que “‘ganham’ de todas as outras considerações morais na determinação
constitucional de quais questões de moralidade serão problemas de legalidade”. Um
homem morrendo de fome deve respeitar os direitos de outros e não roubar um pe-
daço de pão? As vítimas de enchentes ou de penúria devem morrer de fome ou frio
enquanto outros têm abrigo e comida de sobra?

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Cap. 3 — Que direitos temos? 83

Condições de enchente ou carestia não são normais. Quando ocorrem, segun-


do Rasmussen e Den Uyl em Liberty and Nature [Liberdade e natureza], talvez seja
preciso reconhecer que as condições para a vida social e política deixaram de existir,
pelo menos temporariamente. Um sistema de regras libertário permite que exista
vida social e política e oferece um contexto no qual cada pessoa pode se dedicar a
seus próprios propósitos. Em uma situação emergencial — dois homens se digladian-
do por um único bote, multidões desabrigadas em razão de um desastre —, a vida
social e política talvez seja impossível. A obrigação moral de cada pessoa é assegurar
pelo menos as condições mínimas de sua própria sobrevivência. Rasmussen e Den
Uyl escrevem: “Quando a vida social e política não é possível, quando em princípio
a convivência entre os seres humanos e a busca de seu bem-estar são impossíveis,
as considerações sobre direitos individuais ficam deslocadas: não se aplicam mais”.
É extremamente raro, em uma sociedade funcional, que um homem se veja na
situação de não encontrar trabalho ou assistência e à beira da inanição, sem ter fei-
to nada para provocá-la. Há quase sempre algum trabalho disponível, com remu-
neração suficiente para a sobrevivência (ainda que leis de salário mínimo, tributos
e outras intervenções governamentais possam diminuir o número de empregos).
Para aqueles que realmente não conseguem encontrar trabalho, há parentes e ami-
gos que podem ajudar. Para os que não os têm, há abrigos, missões e outras formas
de caridade. Mas, no interesse da análise teórica, vamos supor que um indivíduo
não conseguiu encontrar trabalho nem assistência e está diante da inanição imi-
nente. É presumível que ele viva em um mundo no qual a vida social e política
ainda seja possível; no entanto, podemos dizer que ele está numa situação de emer-
gência e deve adotar as ações necessárias para sua própria sobrevivência, mesmo
que isso signifique roubar um pedaço de pão. No entanto, se a vítima, ao ouvir
sua história, não se convencer, talvez seja apropriado levá-la à justiça e condená-la
por roubo. Ainda existe uma ordem legal, embora um juiz ou júri possa decidir
inocentá-la diante das circunstâncias — sem com isso descartar as leis gerais sobre
justiça e propriedade.
Note-se que essa análise não sugere que o homem faminto ou a vítima da enchen-
te tenham direito à assistência ou à propriedade de outras pessoas; afirma apenas
que os direitos não são aplicáveis em situações nas quais a vida social e política não é
possível. Mas, teremos com isso descartado completamente os direitos, abrindo
a porta para a redistribuição da riqueza para todos os que se encontram em sérios
apuros? Não. Enfatizamos que essas exceções se aplicam somente em situações
emergenciais. Um aspecto-chave da situação é que a pessoa se encontre em situação
desesperada sem ter feito nada para provocá-la. Não pode bastar que ela simplesmente
não tenha tanto quanto os outros, ou nem mesmo que não tenha o suficiente para
sobreviver. Rasmussen e Den Uyl escrevem:

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84 O Manifesto Libertário

Pobreza, ignorância e doença não são emergências meta-


físicas. Riqueza e conhecimento não são coisas recebidas
automaticamente, como maná dos céus. A natureza da
existência e da vida humana é tal que cada pessoa deve
usar sua própria razão e inteligência para criar riqueza e
conhecimento.

Se uma pessoa se recusa a receber a educação e o treinamento necessários, a tra-


balhar em empregos desinteressantes ou mal pagos, ou destrói sua própria saúde, ela
não pode alegar que está em condições desesperadas e que nada fez para provocá-las.
Uma mulher escreveu a Ann Landers perguntando se devia sentir-se obrigada a doar
um rim para sua irmã, que, apesar de repetidos avisos e ajuda oferecida pela famí-
lia, havia feito uso de álcool e drogas em excesso e ignorado os conselhos médicos.
A teoria dos direitos não pode nos dizer quais obrigações morais devemos sentir em
relação a nossos familiares, qualquer que seja o grau de responsabilidade deles por
sua própria condição; mas pode nos dizer que não há equivalência moral entre essa
pessoa e a vítima de um naufrágio ou de fome.
Chegamos a essas exceções extremas à proteção dos direitos somente depois de
satisfeitas várias condições: que uma ou mais pessoas estejam sob iminente risco
de morte por exposição à intempérie, fome ou doença; que tenham chegado a tal
situação sem nada ter feito para provocá-la; que não haja tempo ou oportunidade
para nenhuma outra solução; que apesar de todos os seus esforços elas tenham sido
incapazes de encontrar trabalho remunerado ou caridade privada; e que reconhe-
çam ter incorrido em uma obrigação com as pessoas cuja propriedade tomaram,
isto é, a obrigação de, tão logo possam, se esforçar para pagar o que quer que te-
nham tomado.
A eventualidade de que os direitos não se apliquem a condições em que a vida so-
cial e política seja impossível não enfraquece o status moral ou os benefícios sociais
dos direitos, em situações normais. Vivemos praticamente a vida inteira em situa-
ções normais. Nossa ética deve ser planejada para a sobrevivência e o desenvolvi-
mento em condições normais.
Uma palavra final sobre o utilitarismo libertário: os libertários que rejeitam os
direitos naturais como base para seus pontos de vista chegam às mesmas conclu-
sões políticas que os libertários que se baseiam em direitos. Alguns até dizem que o
governo deveria operar como se as pessoas tivessem direitos naturais — isto é, que
o governo deve proteger cada pessoa e propriedade da agressão alheia e deixar os
indivíduos livres para que tomem suas próprias decisões. O jurista Richard Epstein,
depois de oferecer em seu livro Simple Rules for a Complex World [Regras simples
para um mundo complexo] uma defesa essencialmente utilitarista da soberania

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Cap. 3 — Que direitos temos? 85

individual e da propriedade privada, conclui argumentando que “as consequências


para a felicidade e produtividade humanas” do princípio da soberania individual “são
tão fortes que ele deve ser tratado como um imperativo moral, ainda que a mais po-
derosa justificativa para a regra seja empírica e não dedutiva”.

O que os direitos não são


Como indicam as reclamações sobre a proliferação de direitos, o debate políti-
co nos Estados Unidos de hoje é de fato dirigido pela reivindicação de direitos. Até
certo ponto, isso reflete o esmagador triunfo do liberalismo (clássico) baseado em
direitos. Locke, Jefferson, Madison e os abolicionistas colocaram como regra funda-
mental, tanto para o direito quanto para a opinião pública, que a função do governo
é proteger os direitos. Assim, na prática, qualquer reivindicação de direitos atropela
todas as outras considerações nas políticas públicas.
Infelizmente, o entendimento acadêmico e popular dos direitos naturais decaiu ao
longo dos anos. Americanos demais acreditam, hoje em dia, que têm direito a qualquer
coisa desejável. Alguns reclamam o direito a um emprego, outros, de ser protegidos da
pornografia existente em algum lugar da cidade. Outros reivindicam o direito de não
ser incomodados por fumaça de cigarro em um restaurante; outros ainda, de não ser
despedidos por serem fumantes. Ativistas gays pedem o direito de não sofrer discrimi-
nação; seus oponentes — ecoando a zombaria de Mencken sobre o puritanismo ser “o
medo perturbador de que alguém em algum lugar possa estar feliz” — alegam o direito
de saber que ninguém está envolvido em relações homossexuais. Milhares de lobistas
rondam os corredores do Congresso reclamando para seus clientes o direito a assistên-
cia social, habitação, educação, previdência social, subsídios agrícolas, proteção contra
a concorrência das importações, e assim por diante.
À medida que tribunais e legislaturas reconhecem esses “direitos”, as reivindica-
ções de direitos se tornam cada vez mais audaciosas. Uma mulher em Boston alega
“meu direito constitucional de fazer exercícios com os pesos [mais pesados] que pu-
der levantar”, mesmo que eles estejam na ala masculina, que é vedada às mulheres.
Um homem em Annapolis, no estado de Maryland, exige que o conselho municipal
obrigue os entregadores de pizza e outros alimentos a atender ao seu bairro, que as
empresas alegam ser perigoso demais, e o conselho acolhe sua exigência. Ele diz: “Eu
quero os mesmos direitos de qualquer outro cidadão de Annapolis”. Mas nenhum
cidadão de Annapolis tem o direito de forçar pessoa alguma a fazer negócios consigo,
especialmente no caso da empresa que receia estar pondo seus empregados em peri-
go. Um homem surdo está processando a YMCA, que não o certifica como salva-vidas
porque, segundo a associação, um salva-vidas precisa ser capaz de ouvir gritos de so-
corro. Um casal não casado na Califórnia alega o direito de alugar um apartamento de
uma mulher que diz que seu relacionamento ofende suas crenças religiosas.

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86 O Manifesto Libertário

Como discriminamos todas essas reclamações? Há dois caminhos básicos. O pri-


meiro é decidir com base no poder político. Qualquer pessoa que consiga persuadir
a maioria no Congresso, na Assembleia Legislativa do estado ou na Suprema Corte,
terá o “direito” de fazer o que deseja. Nesse caso, teremos uma pletora de reivindi-
cações conflitantes, e as exigências postas sobre o tesouro público serão ilimitadas,
mas não teremos nenhuma teoria para lidar com elas; quando ocorrerem conflitos,
as cortes e legislaturas os classificarão segundo o caso. Quem parecer mais simpáti-
co, ou tiver mais poder político, ganha.
A outra abordagem é voltar aos princípios primordiais e avaliar cada reivindicação
de direitos à luz do direito de cada indivíduo à vida, à liberdade e à propriedade. Direi-
tos fundamentais não podem estar em conflito. Qualquer reclamação de direitos con-
flitantes deve ser uma interpretação errônea dos direitos fundamentais. Essa é uma das
premissas, e das virtudes, da teoria de direitos: como os direitos são universais, podem
ser desfrutados por todas as pessoas ao mesmo tempo em qualquer sociedade. A ade-
são aos princípios primordiais pode requerer que, em dada instância, rejeitemos uma
alegação de direitos de um requerente simpático ou que reconheçamos o direito de um
outro de ter comportamentos que a maioria de nós considera ofensivos. O que significa
ter direitos, afinal, se não se inclui aí o direito de cometer erros?
Reconhecer a capacidade de cada pessoa de assumir a responsabilidade por suas
ações, que é a essência de qualquer entidade que dê apoio a direitos, é aceitar o di-
reito de cada um de ser “irresponsável” no exercício deles, respeitando a mínima
condição de não violar os direitos alheios. David Hume reconhecia que a justiça fre-
quentemente requer que tomemos decisões que em seu contexto parecem infelizes:
“Embora atos isolados de justiça possam ser contrários ao interesse público ou pri-
vado, é verdade que o plano ou esquema como um todo é muito útil ou de fato abso-
lutamente necessário, tanto ao apoio à sociedade quanto ao bem-estar de qualquer
indivíduo”. Com isso, afirma, podemos às vezes ter de “devolver uma grande fortuna
a um avarento ou um intolerante sedicioso”, mas “cada indivíduo se descobrirá um
beneficiário” da paz, ordem e prosperidade que um sistema de direitos de proprieda-
de estabelece na sociedade.
Se aceitamos a visão libertária dos direitos individuais, temos um padrão por
meio do qual é possível discriminar todos esses direitos conflitantes. Podemos ver
que uma pessoa tem o direito de adquirir propriedade, seja pelo uso, se ela não tiver
dono, seja — em quase todos os casos, na sociedade moderna — persuadindo outra
pessoa a lhe dar ou vender uma propriedade que possua. O novo dono da proprieda-
de tem então o direito de usá-la como quiser. Se quiser alugar um apartamento para
uma pessoa negra, ou para uma avó com dois netos, uma lei de zoneamento que o
proíba é uma violação dos direitos de propriedade. Se uma senhoria cristã se recusa
a alugar um quarto para um casal não casado, seria injusto usar o poder do governo

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Cap. 3 — Que direitos temos? 87

para forçá-la a fazê-lo. (É claro que outras pessoas têm todo o direito de considerá-la
preconceituosa e de expressar suas opiniões, em sua própria propriedade ou em jor-
nais que aceitem publicar suas críticas.)
As pessoas têm direito de se envolver em qualquer tipo de negócio para o qual en-
contrarem um empregador ou clientes voluntários — daí o clássico lema liberal “la
carrière ouverte aux talents” (“oportunidade aos talentosos”) não protegido por guil-
das ou monopólios —, mas não têm direito de forçar ninguém a contratá-los ou fazer
negócios com eles. Agricultores têm direito de plantar grãos em sua propriedade e
vendê-los, mas não têm “direito a um salário para sobreviver”. As pessoas têm direito
de não ler textos com informações sobre a profissão de parteira; têm o direito de não
vendê-los em sua livraria ou não permitir que sejam transmitidos pelo seu serviço
online; mas não têm direito de impedir que outras pessoas assinem contratos para
produzir, vender e comprar tais materiais. Aqui, novamente, vemos que o direito à
liberdade de imprensa retoma a liberdade de propriedade e de contrato.
Um dos benefícios do sistema de propriedade privada — ou propriedade indi-
vidualizada, como Friedrich A. Hayek e outros a chamaram — é o pluralismo e a
descentralização da tomada de decisões. Há seis milhões de empresas nos Estados
Unidos; em vez de estabelecer regras para todas elas, um sistema de pluralismo e
direito de propriedade significa que cada uma tomará suas próprias decisões. Alguns
empregadores oferecerão salários mais altos e condições de trabalho menos agradá-
veis; outros oferecerão combinações diferentes, e os potenciais empregados poderão
escolher. Alguns empregadores certamente terão preconceito contra negros, ou ju-
deus, ou mulheres — ou até homens, como se alegou em um processo de 1995 contra
a Jenny Craig Company — e pagarão os custos associados a isso, e outros lucrarão
contratando os melhores trabalhadores, independentemente de raça, gênero, reli-
gião, orientação sexual ou qualquer outra característica não relacionada ao trabalho.
Há 400 mil restaurantes nos Estados Unidos; por que deveriam ter todos as mesmas
regras sobre o fumo, como mais e mais governos vêm decretando? Por que não dei-
xar que os diversos restaurantes experimentem formas diferentes de atrair clientes?
A diretoria do Cato Institute proibiu o fumo em nosso prédio. Essa é uma exigência
dura para um de meus colegas, que mais ou menos a cada hora escapa para a garagem,
para um desesperado trago da erva vil. A atitude dele é:

Eu gostaria de ter um trabalho interessante, com colegas


simpáticos, um ótimo salário, em um escritório que per-
mitisse o fumo. Mas ter um trabalho muito interessante,
com colegas simpáticos, por um salário adequado, em
um escritório que não permite o fumo é melhor do que as
outras opções disponíveis para mim.

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88 O Manifesto Libertário

O Wall Street Journal publicou recentemente que “cada vez mais os empregadores
têm que lidar com as exigências de trabalhadores que querem expressar sua fé durante
o expediente e de outros que não querem ouvir”. Alguns empregados estão exigindo o
“direito” de praticar sua religião no local de trabalho — com sessões de oração e estu-
do da Bíblia, uso de enormes buttons antiaborto com fotos coloridas de fetos, e assim
por diante —, enquanto outros estão entrando com processos para exigir o “direito”
de não ouvir nada a respeito de religião no trabalho. O governo, por intermédio do
Congresso ou dos tribunais, poderia fazer regras sobre como empregadores e empre-
gados devem lidar com religião e outras ideias controversas no local de trabalho. Mas,
se nos apoiássemos no sistema de direitos de propriedade e pluralismo, deixaríamos
milhões de empresas tomar suas próprias decisões, cada dono pesando suas próprias
convicções religiosas, as preocupações de seus empregados e quaisquer outros fatores
que lhe parecessem importantes. Empregados potenciais poderiam negociar com seus
empregadores, ou tomar suas próprias decisões sobre que ambiente de trabalho prefe-
rem, levando também em consideração fatores como salário, benefícios, proximidade
de casa, horário do expediente, quão interessante é o trabalho etc. A vida é cheia de
concessões e compensações; é melhor que elas sejam decididas de forma localizada e
descentralizada do que por uma autoridade central.

Como o governo complica os direitos


Tenho argumentado que os conflitos sobre direitos podem ser decididos com o
apoio de uma definição consistente dos direitos naturais, especialmente os de pro-
priedade privada, dos quais todos os nossos direitos dependem. Muitos dos mais
controversos conflitos sobre direitos em nossa sociedade ocorrem quando transfe-
rimos decisões do setor privado para o governo, em que não há propriedade privada.
Deve haver oração nas escolas? Deve-se permitir que os residentes em um determi-
nado prédio tenham armas de fogo? Devem-se apresentar produções de conteúdo
sexual explícito nos teatros? Nenhuma dessas questões seria política se as escolas,
os apartamentos e os teatros fossem privados. A atitude apropriada seria deixar que
os donos tomassem suas próprias decisões, e então os potenciais clientes poderiam
decidir se iam querer ou não patrocinar seus estabelecimentos.
Mas, tornem-se públicas essas instituições, e subitamente não haverá um proprie-
tário com um claro direito de propriedade. Alguma instituição política decide, e toda
a sociedade pode acabar envolvida na discussão. Alguns pais não querem que seus
filhos sejam forçados a ouvir oração na escola; mas, se ela for banida das instituições
públicas, outros pais sentirão que seu direito de criar os filhos da forma que acharem
melhor está sendo negado a eles. Se o Congresso diz ao Fundo Nacional para as Ar-
tes (National Endowment for the Arts) que não financie arte supostamente obscena,
os artistas podem sentir que sua liberdade está sendo cerceada; mas e a liberdade dos

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Cap. 3 — Que direitos temos? 89

contribuintes que elegeram os membros do Congresso para gastar com sabedoria o


dinheiro de seus impostos? O governo deveria dizer a um médico em uma clínica
obstétrica estatal que não recomende o aborto?
O professor de direito Walter Dellinger, da Universidade Duke, uma alta autori-
dade jurídica no governo Clinton, alertou para o fato de que tais regras são “especial-
mente alarmantes à luz do crescente papel do governo como patrocinador, senhorio,
empregador e patrono das artes”. Ele tem razão. Essas regras estendem o alcance do
governo para um número cada vez maior de aspectos de nossa vida. Mas, enquanto o
governo for o maior senhorio e empregador, não podemos esperar que os cidadãos e
seus representantes fiquem indiferentes à maneira como seu dinheiro é gasto.
O dinheiro do governo sempre vem com restrições. E o governo precisa fazer re-
gras para a propriedade que ele controla, regras que quase certamente vão ofender
alguns cidadãos contribuintes. É por isso que seria melhor privatizar o maior núme-
ro possível de propriedades, para despolitizar decisões sobre o uso da propriedade.
Deveríamos reconhecer e proteger os direitos naturais porque a justiça requer e
também porque um sistema de direitos individuais e propriedade amplamente dis-
persa leva a uma sociedade livre, tolerante e civilizada.

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Capítulo 4

A dignidade do indivíduo

H
á não muito tempo, numa manhã de sábado, em uma pequena cidade na
França, fui até um caixa automático embutido na maciça parede de pedra
de um banco que estava fechado durante o fim de semana. Inseri um peda-
ço de plástico na máquina, apertei alguns botões, esperei uns segundos e retirei cerca
de 200 dólares, sem nenhum contato com outro ser humano, muito menos alguém
que me conhecesse. Então tomei um táxi até o aeroporto, onde falei com um aten-
dente no balcão de uma locadora de veículos, mostrei-lhe outro pedaço de plástico,
assinei um formulário e saí com a chave de um carro de 20 mil dólares, que prometi
devolver a outra pessoa, em outro lugar, dentro de alguns dias.
Essas transações são tão rotineiras que o leitor se pergunta por que me dei ao tra-
balho de mencioná-las. Mas pare por um momento e reflita sobre as maravilhas do
mundo moderno: um homem que eu nunca vira e o qual nunca me veria de novo,
com quem eu mal conseguia me comunicar, me confiou um carro. Um banco estabe-
leceu um sistema automático para me dar dinheiro vivo sob demanda a milhares de
quilômetros de casa. Há uma geração, tais coisas não seriam possíveis; há duas ge-
rações, seriam inimagináveis; hoje, são um lugar-comum da infraestrutura de nossa
economia. Como surgiu essa rede mundial de confiança? Discutiremos os aspectos
estritamente econômicos desse sistema em um capítulo mais à frente. Neste e nos
próximos, desejo explorar como passamos do indivíduo isolado à complexa rede das
associações e conexões que constituem o mundo moderno.

Individualismo
Para os libertários, a unidade básica de análise social é o indivíduo. É difícil ima-
ginar como poderia ser qualquer outra. Os indivíduos são, em qualquer caso, fonte
e fundamento do pensamento criativo, da atividade e da sociedade. Somente os in-
divíduos pensam, amam, desenvolvem projetos, agem. Grupos não têm planos ou
intenções. Somente os indivíduos são capazes de escolher, no sentido de antecipar
os resultados de diferentes escolhas e pesar suas consequências. Os indivíduos, é
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92 O Manifesto Libertário

claro, frequentemente criam e deliberam em grupo, mas no fim das contas é a mente
individual que faz as escolhas. Mais importante, somente os indivíduos podem se
responsabilizar por suas ações. Como São Tomás de Aquino escreveu em A unidade
do intelecto, o conceito de mente ou vontade coletiva significaria que um indivíduo
não seria “senhor de seus atos e que nenhum de seus atos seria louvável ou condená-
vel”. Todo indivíduo é responsável por suas ações; é isso que lhe dá direitos e o obriga
a respeitar os direitos dos outros.
Mas e a sociedade? A sociedade não tem direitos? A sociedade não é responsável
por muitos problemas? A sociedade é de importância vital para os indivíduos, como
discutiremos nos próximos capítulos. É para atingir os benefícios das interações com
outras pessoas, como explicaram Locke e Hume, que os indivíduos ingressam na
sociedade e estabelecem um sistema de direitos. Mas, no nível conceitual, devemos
entender que a sociedade é composta de indivíduos. Se dez pessoas formam uma
sociedade, ainda há dez pessoas, e não onze. Também é difícil definir os limites de
uma sociedade; onde termina uma “sociedade” e começa outra? Em contraste, é fácil
ver onde termina um indivíduo e começa outro, uma vantagem importante para a
análise social e para a alocação de direitos e deveres.
O escritor libertário Frank Chodorov escreveu em The Rise and Fall of Society
[Ascensão e queda da sociedade] que “sociedades são pessoas”:

Sociedade é um conceito coletivo e nada mais; é uma for-


ma conveniente de designar uma quantidade de pessoas
(...) A noção de Sociedade como conceito metafísico cai
por terra quando observamos que a Sociedade desapa-
rece quando seus componentes se dispersam; como no
caso de uma “cidade-fantasma” ou de uma civilização que
desvendamos por meio dos artefatos que foram deixados
para trás. Quando os indivíduos desaparecem, desapare-
ce o todo. O todo não tem existência independente.

Não podemos escapar da responsabilidade por nossas ações pondo a culpa na so-
ciedade. Ninguém pode nos impor obrigações apelando para os supostos direitos
da sociedade ou da comunidade. Em uma sociedade livre, temos nossos direitos na-
turais e a obrigação geral de respeitar os direitos de outras pessoas. Nossas outras
obrigações são aquelas que escolhemos assumir por contrato.
No entanto, nada disso é defender o tipo de “individualismo atomista” de que filó-
sofos e acadêmicos gostam de zombar. Nós vivemos juntos e trabalhamos em grupos.
Como alguém poderia ser um indivíduo atomista na complexa sociedade moderna
não está claro: isso significaria comer apenas o que ele próprio cultiva, vestir somente

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Cap. 4 — A dignidade do indivíduo 93

o que ele próprio fabrica, viver em uma casa construída por suas próprias mãos, res-
tringir-se a remédios naturais extraídos de suas próprias plantas? Alguns críticos do
capitalismo ou defensores da “volta à natureza” poderiam endossar tal plano, mas
poucos libertários iam querer se mudar para uma ilha deserta e renunciar aos be-
nefícios do que Adam Smith chamou de Grande Sociedade, a complexa e produtiva
sociedade viabilizada pela interação social.
Os indivíduos se beneficiam enormemente de suas interações uns com os outros,
o que a filosofia tradicional resume como “cooperação”, e textos modernos de so-
ciologia e administração, como “sinergia”. A vida seria mesmo desagradável, bruta e
curta se fosse solitária.

A dignidade do indivíduo
Na realidade, a dignidade do indivíduo no libertarismo é uma dignidade que
aumenta o bem-estar social. O libertarismo é bom não só para os indivíduos, mas
para as sociedades. A base efetiva da análise social libertária é o individualismo
metodológico, o reconhecimento de que somente os indivíduos agem. A base ética
ou normativa do libertarismo é o respeito pela dignidade e pelo valor de todo indi-
víduo. Isso se expressa na máxima de Immanuel Kant de que toda pessoa deve ser
tratada não meramente como meio, mas como fim em si mesma.
É claro que ainda no tempo de Jefferson, e até depois, o conceito de indivíduo
com plenos direitos não incluía todas as pessoas. Observadores perspicazes nota-
ram o problema à época e começaram a aplicar mais plenamente as sonoras palavras
da Declaração de Independência e do Segundo tratado sobre o governo, de Locke.
A igualdade e o individualismo que constituíam a base do surgimento do capitalis-
mo levaram naturalmente as pessoas a começar a pensar nos direitos de mulheres e
escravos, especialmente escravos negros nos Estados Unidos. Não é acidente que o
feminismo e o abolicionismo tenham emergido do fermento da Revolução Indus-
trial e das Revoluções Americana e Francesa. Assim como um melhor entendimento
dos direitos naturais se desenvolveu durante a luta americana contra injustiças par-
ticulares sofridas pelas colônias, a feminista e abolicionista Angelina Grimké obser-
vou, em uma carta de 1837 a Catherine E. Beecher: “Encontrei na causa abolicionista
a escola superior de moral em nossa nação — a escola em que os direitos humanos são
investigados mais completamente e mais bem compreendidos e ensinados do que
em qualquer outra”.

Feminismo
A escritora liberal Mary Wollstonecraft (esposa de William Godwin e mãe de Mary
Wollstonecraft Shelley, a autora de Frankenstein) reagiu às Reflections on the Revolution
in France [Reflexões sobre a revolução na França] de Edmund Burke escrevendo

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94 O Manifesto Libertário

A Vindication of the Rights of Men [Uma reivindicação dos direitos dos homens], no
qual argumentou que “o direito inato do homem (...) é um grau de liberdade, civil
e religiosa, compatível com a liberdade de todos os outros indivíduos com os quais
está unido em um pacto social”. Apenas dois anos depois, publicou A Vindication of
the Rights of Woman, que perguntava: “Considere (...) se, quando os homens lutam
por sua liberdade (...) não é incoerente e injusto subjugar as mulheres?”.
As mulheres envolvidas no movimento abolicionista também levantaram a ban-
deira do feminismo, baseando seus argumentos em ambos os casos na ideia da sobe-
rania individual, o direito fundamental de propriedade sobre a própria pessoa. Ange-
lina Grimké baseou explicitamente sua obra em favor da abolição e dos direitos das
mulheres numa fundação libertária lockeana:

Seres humanos têm direitos, porque são seres morais: os


direitos de todos os homens são derivados de sua na-
tureza moral; e, como todos os homens têm a mesma
natureza moral, possuem essencialmente os mesmos di-
reitos (...) Se os direitos se fundamentam na natureza de
nosso ser moral, então a mera circunstância do sexo não dá
ao homem maiores direitos e responsabilidades do que
às mulheres.

Sua irmã, Sarah Grimké, também uma militante pelos direitos dos negros e das
mulheres, criticou o princípio legal anglo-americano de que uma esposa não era
responsável por um crime cometido sob instrução ou mesmo na presença de seu
marido, em uma carta à Sociedade Antiescravista Feminina de Boston: “Seria difí-
cil encontrar uma lei mais bem calculada para destruir a responsabilidade da mu-
lher enquanto ser moral ou agente livre”. Nessa defesa, enfatizava o fundamental
argumento individualista de que todo indivíduo deve, e somente um indivíduo
pode, assumir a responsabilidade por suas ações.
Um libertário é necessariamente feminista, no sentido de defender a igualdade sob
a lei para todos os homens e mulheres, embora infelizmente algumas feministas con-
temporâneas estejam longe de ser libertárias. O libertarismo é uma filosofia política,
não um guia completo para a vida. Um homem e uma mulher libertários poderiam
perfeitamente decidir iniciar um casamento tradicional, com o homem trabalhando
fora e a mulher sendo dona de casa, mas por um acordo voluntário. A única coisa que
o libertarismo nos diz é que homem e mulher são politicamente iguais, com plenos
direitos a escolher a forma de vida que preferirem. Em seu livro de 1986, Gender
Justice [Justiça de gênero], David L. Kirp, Mark G. Yudof e Marlene Strong Franks
endossaram esse conceito libertário de feminismo: “Não é nem a igualdade como

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Cap. 4 — A dignidade do indivíduo 95

exigência de uniformidade, nem a igualdade como aceitação da diferença que ade-


quadamente abrange a questão, mas em vez disso o conceito muito diferente de igual
liberdade sob a lei, enraizada na ideia da autonomia individual”.

Escravidão e racismo
O movimento abolicionista, também, derivou logicamente do libertarismo
lockeano da Revolução Americana. Como poderiam os americanos proclamar que
“todos os homens são criados iguais (...) dotados por seu Criador de certos direi-
tos inalienáveis” sem notar que eles mesmos estavam mantendo outros homens e
mulheres em cativeiro? Não poderiam, é claro, e realmente a primeira sociedade
antiescravista do mundo foi fundada na Filadélfia um ano antes que Jefferson es-
crevesse essas palavras. O próprio Jefferson tinha escravos e no entanto incluiu
uma apaixonada condenação da escravidão em seu rascunho da Declaração de In-
dependência: “[O rei George] empreendeu guerra cruel contra a própria natureza
humana, violando seus mais sagrados direitos de vida e liberdade nas pessoas de um
povo distante que nunca o ofendeu”; O Congresso Continental apagou essa passa-
gem, mas os americanos viviam em desconforto com a óbvia contradição entre seu
comprometimento com os direitos individuais e a instituição da escravidão.
Embora estejam intimamente conectados na história americana, a escravidão e o
racismo não estão inerentemente associados. No mundo antigo, o ato de escravizar
outra pessoa não implicava sua inferioridade intelectual ou moral; simplesmente era
aceito que conquistadores podiam escravizar seus cativos. Escravos gregos frequen-
temente eram professores em domicílios romanos, sendo sua eminência intelectual
reconhecida e explorada.
Em todo caso, o racismo em suas diferentes formas é um problema desde o prin-
cípio dos tempos, mas conflita claramente com a ética universal do libertarismo e os
direitos naturais iguais de todos os homens e mulheres. Como Ayn Rand apontou
em seu ensaio “Racism” [Racismo],

O racismo é a mais baixa, mais cruelmente primitiva for-


ma de coletivismo. É a ideia de atribuir significância po-
lítica, social ou moral à linhagem genética de um homem
(...) o que significa, na prática, que um homem será julga-
do não pelo seu caráter e suas ações, mas pelo caráter e
pelas ações de um coletivo de ancestrais.

Em suas obras, Rand enfatizou a importância das realizações produtivas do in-


divíduo para a sensação de eficiência e felicidade. Argumentou: “Assim como todas
as outras formas de coletivismo, o racismo é uma busca do que não foi conquistado.

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96 O Manifesto Libertário

É uma busca do conhecimento automático — por uma avaliação automática do ca-


ráter dos homens que ignora a responsabilidade de exercer um julgamento moral ou
racional — e, sobretudo, a busca de uma autoestima automática (ou pseudoautoes-
tima)”. Isto é, algumas pessoas querem se sentir bem consigo mesmas porque têm
a mesma cor de pele de Leonardo da Vinci ou Thomas Edison, em vez de se sentir
assim por causa de suas conquistas pessoais; e outros querem diminuir as conquistas
de pessoas mais inteligentes, produtivas e bem-sucedidas do que elas simplesmente
enunciando um epíteto racista.

O individualismo hoje
Como vai o indivíduo nos Estados Unidos hoje? Conservadores, liberais e co-
munitaristas, todos reclamam de vez em quando do “individualismo excessivo”, em
geral querendo dizer que os americanos parecem mais interessados em seu próprio
emprego e família do que nos projetos de planejadores sociais, intelectuais e grupos
de interesse em Washington. No entanto, o verdadeiro problema nos Estados Uni-
dos hoje não é um excesso de liberdade individual, mas sim as miríades de maneiras
como o governo infringe os direitos e a dignidade dos indivíduos.
Durante boa parte da história ocidental, o racismo foi usado por brancos contra
negros e, em menor escala, pessoas de outras raças. Da escravidão às leis de Jim Crow
e à Comissão de Soberania do Estado do Mississippi (State Sovereignty Commission of
Mississippi), do abrangente sistema racista do apartheid ao tratamento dos habitantes
nativos da Austrália, Nova Zelândia e América, alguns brancos usaram os mecanis-
mos coercitivos do estado para negar tanto a humanidade quanto os direitos naturais
das pessoas de outras raças. Os americanos de origem asiática também foram subme-
tidos a privação de liberdade, embora nunca na escala da escravidão: a Lei de Exclu-
são Chinesa de 1882, que proibiu no século XIX que os chineses testemunhassem
em tribunais, e mais notoriamente o encarceramento de nipoamericanos (e o roubo
de suas propriedades) durante a Segunda Guerra Mundial. Os colonos europeus na
América do Norte às vezes comerciavam e coabitavam em paz com os índios ameri-
canos, mas com frequência excessiva roubaram suas terras e praticaram políticas de
extermínio, tais como a notória remoção de índios dos estados do Sul e sua marcha
forçada pela Trilha das Lágrimas na década de 1830.
Milhões de americanos lutaram para derrubar primeiro a escravidão e, mais re-
centemente, as leis de Jim Crow e outros aparatos do racismo patrocinado pelo esta-
do. No entanto, os movimentos de direitos civis finalmente ficaram à deriva e sola-
param seu objetivo libertário de igualdade de direitos sob a lei com a defesa de uma
nova forma de discriminação patrocinada pelo estado. Em vez de garantir a todo
americano iguais direitos de possuir propriedades, firmar contratos e participar
de instituições públicas, as leis hoje exigem discriminação racial, tanto por gover-

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Cap. 4 — A dignidade do indivíduo 97

nos como por empresas privadas. Em 1995, o Serviço de Pesquisa do Congresso


(Congressional Research Service) identificou 160 programas federais empregando
critérios explícitos de gênero e raça. No começo da década de 1990, era política da
Universidade da Califórnia em Berkeley ocupar metade de suas vagas com base em
notas e exames padronizados e a outra metade com base em cotas raciais. Outras
grandes faculdades, apesar de muita retórica para tornar a questão confusa, fazem
a mesma coisa.
Se distribuirmos empregos e vagas no ensino superior com base na raça, po-
demos esperar bastante conflito a respeito do número de lugares que cada grupo
conseguirá, como já vimos em vários países, da África do Sul à Malásia, onde se
faz distribuição de bens com base em cotas raciais. Veremos mais casos como o
do membro hispânico do Conselho de Governadores do correio americano, que
reclamou que o correio estava contratando negros demais e hispânicos de menos.
Assim como alguns negros tentaram “se fazer passar” por brancos para conseguir os
mesmos direitos e oportunidades reservados a eles no começo do século XX, vemos
hoje pessoas — e podemos esperar ver mais — tentando reclamar que pertencem a
qualquer grupo racial que tenha as cotas mais altas. No condado de Montgomery,
no estado de Maryland, em 1995, uma escola francesa negou a duas meninas de
cinco anos, de origem metade caucasiana e metade asiática, vagas como asiáticas,
mas disse-lhes que poderiam se candidatar novamente como brancas. Em São Fran-
cisco, centenas de pais a cada ano mudam sua etnia oficial para conseguir que seus
filhos entrem nas escolas que preferem, e bombeiros brancos fazem elaboradas in-
vestigações genealógicas na esperança de descobrir um distante ancestral espanhol
que os qualifique como hispânicos. Um construtor na Califórnia ganhou um con-
trato de 19 milhões de dólares com o metrô de Los Angeles porque tinha 1/64 de
sangue índio. Em breve talvez precisemos enviar observadores à África do Sul para
descobrir como funcionava a antiga Lei de Registro da População, com cortes raciais
decidindo quem era realmente branco, negro, “de cor” ou asiático. Não é uma pers-
pectiva muito feliz para uma nação fundada nos direitos do indivíduo. Quão melhor
estaríamos hoje se o censo tivesse aceitado a proposta da American Civil Liberties
Union de remover a pergunta sobre “raça” do formulário do censo em 1960!
É claro, discriminação oficial de raça e gênero não é a única forma pela qual os gover-
nos atualmente nos tratam como grupos em vez de indivíduos. Somos constantemente
exortados a avaliar políticas públicas pelo seu efeito sobre grupos e não pelo tratamen-
to dos indivíduos em consonância com o princípio de igualdade de direitos. Grupos
de interesse, da American Association of Retired Persons à National Organization for
Women, da Gay and Lesbian Task Force aos Veterans of Foreign Wars, da National
Farmers Organization à American Federation of Government Employees, nos encora-
jam a pensar em nós mesmos como membros de grupos e não como indivíduos.

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98 O Manifesto Libertário

A ex primeira-dama Hillary Rodham Clinton oferece exemplos perfeitos de al-


guns dos problemas que o individualismo encontra hoje nos Estados Unidos. Co-
meçando com o provérbio — sensato, apesar de quase sempre exagerado — de que
“é tarefa de uma aldeia educar uma criança”, ela acaba, em seu livro É tarefa de uma
aldeia, convocando todos os 250 milhões de americanos a educar cada criança. Não
temos a menor possibilidade de assumir responsabilidade por milhões de crianças,
é claro. Ela invoca “um consenso de valores e uma visão comum do que podemos fa-
zer hoje, individual e coletivamente, para construir famílias e comunidades sólidas”.
Mas não pode haver tal consenso coletivo. Em qualquer sociedade livre, milhões de
pessoas terão ideias diferentes sobre como formar uma família, criar filhos e como
se associar voluntariamente entre si. Essas diferenças não são apenas resultado
de uma falta de compreensão; não importam quantos seminários de Harvard e
National Conversations financiados pelo Fundo Nacional para as Humanidades
tivermos, nunca chegaremos a um consenso nacional sobre questões morais tão
íntimas. Clinton implicitamente reconhece isso quando insiste em que haverá oca-
siões em que “a própria aldeia [leia-se: o governo federal] deverá agir no lugar dos
pais” e aceitar “essas responsabilidades em nome de todos nós através da autorida-
de que conferimos ao governo”. No final, então, ela revela seu antilibertarismo: o
governo deve tomar decisões sobre como criamos nossos filhos.
Mesmo quando o governo não interfere para tirar dos pais seus filhos, Hillary
Clinton o vê constantemente aconselhando, incomodando, intimidando os pais:
“Vídeos com cenas de cuidados comuns com bebês — como ajudá-lo a arrotar,
o que fazer quando cai sabão em seus olhos, como deixar confortável um bebê
com dor de ouvido — poderiam ser exibidos continuamente em consultórios
médicos, clínicas, hospitais, escritórios dos departamentos de trânsito ou qual-
quer outro lugar onde há reunião de pessoas”. Os vídeos sobre cuidados com
crianças poderiam se alternar com outros sobre a pirâmide alimentar, os males
do tabagismo e das drogas, a necessidade da reciclagem, técnicas de sexo seguro,
as alegrias da boa forma física e todas as outras coisas que os cidadãos adultos
responsáveis de uma complexa sociedade moderna precisam saber. Mais ou me-
nos como a tela de TV no filme 1984.
Quando Bill Clinton anunciou que iria promulgar, com sua própria autoridade,
novas regulamentações sobre tabaco e tabagismo em nome da “juventude dos Esta-
dos Unidos”, ele disse: “Somos seus pais, e cabe a nós protegê-los”. E Hillary Clinton
disse à Newsweek em 1996: “Não há isso de filhos de outras pessoas”. Essas ideias são
profundamente anti-individualistas e antifamília. Em vez de reconhecer pais indi-
vidualmente como agentes morais que podem e devem assumir a responsabilidade
por suas decisões e ações, o casal Clinton os absorveria em uma gigantesca massa de
paternidade coletiva dirigida pelo governo federal.

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Cap. 4 — A dignidade do indivíduo 99

O estado, cada vez maior, tem tratado os cidadãos adultos como crianças. Toma
cada vez mais dinheiro daqueles que ganham e o devolve, como uma mesada, por
meio de um sem-número de “programas de distribuição de renda” que vão do Head
Start e dos empréstimos estudantis a subsídios agrícolas, assistencialismo corpora-
tivo, programas de auxílio-desemprego e previdência social. O governo não confia
em nossas decisões (nem nas consultas a nossos médicos) sobre que remédios tomar,
quando nossos filhos devem ir para a escola ou o que podemos acessar de nossos
computadores. O cerco universal do estado é ainda mais sufocante para aqueles que
caem em sua disputada rede de segurança, que acaba prendendo as pessoas num pe-
sadelo de subsídio e dependência, tirando deles a obrigação de, como adultos, se sus-
tentar, subtraindo-lhes o amor-próprio. Recentemente, um ouvinte de um programa
de entrevistas numa emissora de rádio do governo ligou e reclamou: “Você não pode
cortar o orçamento sem causar a total aniquilação econômica — e em alguns casos
física — de milhões de nós que não temos a quem recorrer senão ao governo federal”.
O que foi que o governo fez com esses milhões de americanos adultos com medo de
não conseguir sobreviver à perda de um cheque de auxílio-desemprego?
Os libertários às vezes dizem: “Conservadores querem ser seu pai, dizendo-lhe
o que fazer ou não fazer. Os social-democratas querem ser sua mãe, alimentando-o,
colocando-o na cama e assoando seu nariz. Os libertários querem tratá-lo como adul-
to”. O libertarismo é o tipo de individualismo apropriado a uma sociedade livre:
adultos são tratados como adultos, permite-se que tomem suas próprias decisões,
mesmo quando cometem erros e confia-se neles para encontrar as melhores soluções
para sua própria vida.

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Capítulo 5

Pluralismo e tolerância

U
m dos fatos centrais da vida moderna, que qualquer teoria política deve
enfrentar, é o pluralismo moral. Os indivíduos têm concepções diferentes
sobre o significado da vida, a existência de Deus e as formas de buscar a fe-
licidade. Uma das respostas a essa realidade pode ser chamada de “perfeccionismo”,
uma filosofia política que procura uma estrutura institucional que aperfeiçoe a vida
humana. Marx ofereceu uma resposta dessa natureza, alegando que o socialismo
permitiria que os seres humanos, pela primeira vez, atingissem seu pleno potencial
humano. As religiões teocráticas oferecem uma resposta diferente, propondo unir
todo o povo num entendimento comum de sua relação com Deus. Filósofos comu-
nitaristas também procuram formar uma comunidade em que a “vida material”, nas
palavras de Michael Walzer, filósofo da Universidade Harvard, “é vivida de certa ma-
neira — isto é, fiel aos entendimentos compartilhados de seus membros”. Mesmo al-
guns conservadores modernos, que acreditam, como diz o colunista George F. Will,
que “a arte de governar é a arte da alma”, estão tentando usar o poder do governo
para remediar o pluralismo moral.
Libertários e liberais individualistas têm uma resposta diferente. A teoria liberal
aceita que nas sociedades modernas haverá diferenças irreconciliáveis sobre o que
é bom para os seres humanos ou o que é sua natureza fundamental. Alguns liberais
mais aristotélicos argumentam que os seres humanos têm de fato uma única natu-
reza, mas que cada indivíduo possui um conjunto de talentos, circunstâncias e am-
bições; assim, uma boa vida para uma pessoa pode não ser boa para outra, apesar de
sua natureza comum. O governo de si mesmo, a capacidade de escolher seu próprio
caminho na vida, é parte do bem humano.
Portanto, em ambas as correntes, os libertários acreditam que o papel do gover-
no não é impor uma determinada moralidade, mas estabelecer uma estrutura de re-
gras que possa garantir a cada indivíduo a liberdade de procurar seu próprio bem à
sua maneira, seja individualmente e, seja em cooperação com os outros, contanto
que não infrinja a liberdade alheia. Como nenhum governo moderno pode admitir
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102 O Manifesto Libertário

que seus cidadãos compartilhem um código moral completo e exaustivo, as obriga-


ções impostas às pessoas pela força devem ser mínimas. Na concepção libertária, as
regras fundamentais do sistema político devem ser essencialmente negativas: não
violar o direito de outra pessoa de buscar seu próprio bem à sua maneira. Se um
governo tenta alocar recursos e atribuir deveres com base em uma concepção moral
particular — segundo a necessidade ou o mérito —, ele vai criar conflitos sociais e
políticos. Isso não significa que não haja moralidade material, ou que todas as formas
de vida sejam “igualmente boas”, mas apenas que o consenso sobre o que é melhor
dificilmente será alcançado e que, quando tais questões são colocadas no domínio da
política, o conflito é inevitável.

Tolerância religiosa
Uma das implicações óbvias do individualismo, a ideia de que cada pessoa é um
agente moral individual, é a tolerância religiosa. O libertarismo se desenvolveu a par-
tir de uma longa luta pela tolerância, dos primeiros cristãos no Império Romano às
experiências de Roger Williams e Anne Hitchinson nas colônias americanas e além,
tendo passado pelos Países Baixos, pelos anabatistas na Europa Central e pelos dis-
sidentes da igreja anglicana.
A posse de si mesmo certamente inclui o conceito de “propriedade da própria
consciência”, como James Madison afirmou. O Nivelador Richard Overton escreveu
em 1646 que “todo homem por natureza [é] sacerdote e profeta em seu próprio cir-
cuito e bússola naturais”. Locke concordou em que “a liberdade de consciência é um
direito natural de todo homem”.
Além dos argumentos morais e teológicos, porém, havia fortes argumentos prá-
ticos para a tolerância religiosa. Como defende George Smith em “Filosofias de
tolerância”, ensaio de 1991, um dos grupos de defensores da tolerância teria pre-
ferido ver crenças religiosas uniformes, “mas não queriam impor uniformidade na
prática por causa de seus custos sociais elevados — compulsão maciça, guerras ci-
vis e caos social”. Eles recomendavam tolerância como a melhor forma de produzir
paz na sociedade. O filósofo judeu Baruch Spinoza, explicando a política holande-
sa de tolerância, escreveu: “É imperativo que seja concedida a liberdade de julga-
mento, para que os homens possam viver juntos em harmonia, não importa quão
diversas ou abertamente contraditórias forem suas opiniões”. Spinoza apontou
para a prosperidade que os holandeses tinham atingido ao permitir que pessoas
de todas as seitas vivessem pacificamente e fizessem negócios em suas cidades.
Como os ingleses, observando o exemplo holandês, adotaram uma política de re-
lativa tolerância, Voltaire comentou o mesmo efeito e a recomendou aos franceses.
Embora Marx tenha mais tarde denunciado a natureza impessoal do mercado, Vol-
taire reconhecia as vantagens dessa impessoalidade. Como George Smith afirmou,

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Cap. 5 — Pluralismo e tolerância 103

“A capacidade de lidar com outros impessoalmente, de lidar com eles unicamente


para benefício mútuo, significa que características pessoais, como crença religiosa,
se tornam largamente irrelevantes”.
Outros defensores da tolerância enfatizaram os benefícios do pluralismo religioso
na teoria. A verdade, diziam, emergirá da discussão. John Milton era um eminente
defensor dessa visão, mas também a endossavam Spinoza e Locke. Os libertários
britânicos no século XIX usaram termos como “livre-comércio na religião” para se
opor à oficialização da igreja anglicana.
Alguns dissidentes ingleses vieram à América para encontrar a liberdade
de praticar a religião à sua própria maneira, mas não para garanti-la a outros.
Eles não se opunham à existência de privilégios especiais para uma religião,
apenas queriam que a vigente fosse a sua. Mas outros novos americanos não ape-
nas apoiavam a tolerância religiosa, como estendiam a discussão para reclamar
a separação entre igreja e estado, uma ideia radical naquele tempo. Depois de
ser banido da Colônia da Baía de Massachussets em 1636 por suas opiniões he-
réticas, Roger Williams escreveu The Bloudy Tenent of Persecution, for Cause of
Conscience [A sangrenta perseguição de habitantes por motivos de consciência],
insistindo na separação e procurando proteger a cristandade do controle polí-
tico. As ideias de Williams, junto com as de John Locke, se espalharam pelas
colônias americanas; religiões oficiais foram gradualmente desoficializadas, e
a Constituição adotada em 1787 não incluía nenhuma menção a Deus ou reli-
gião, exceto pela proibição de testes de religião para cargos públicos. Em 1791,
a Primeira Emenda foi adicionada, garantindo a liberdade de culto e proibindo
qualquer religião oficial.
Membros da direita religiosa hoje insistem em que os Estados Unidos são — ou
pelo menos foram — uma nação cristã com um governo cristão. O ministro batista
de Dallas que deu a bênção na Convenção Nacional Republicana de 1984 disse que
“não existe separação entre igreja e estado”, e o fundador da Christian Coalition, Pat
Robertson, escreve: “A Constituição foi planejada para perpetuar uma ordem cristã”.
Mas, como Isaac Kramnick e R. Laurence Moore observam em The Godless Constitu-
tion [A constituição sem Deus], os antepassados de Robertson entendiam melhor a
Constituição. Alguns americanos se opuseram à ratificação da Constituição porque
ela era “friamente indiferente à religião” e a deixaria “arranjar-se sozinha”. Apesar
disso, a Constituição revolucionária foi adotada, e a maioria de nós acredita que a
experiência da separação entre igreja e estado foi feliz. Como Roger Williams talvez
tivesse previsto, as igrejas são bem mais fortes nos Estados Unidos, onde se permite
que sobrevivam por si mesmas, do que nos países europeus, onde ainda há religião
oficial (como na Inglaterra e na Suécia) ou onde as igrejas são apoiadas por tributos
que o governo colhe de seus adeptos (como na Alemanha).

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104 O Manifesto Libertário

Separação entre consciência e estado


Poderíamos refletir sobre por que a separação entre igreja e estado parece tão boa
ideia. Em primeiro lugar, é errado a autoridade coercitiva do estado interferir em
questões de consciência individual. Se temos direitos, se somos agentes morais in-
dividuais, devemos ser livres para exercer nosso julgamento e definir nossa relação
com Deus. Isso não significa que uma sociedade livre e pluralista não incluirá muita
persuasão e proselitismo — sem dúvida incluirá —, mas significa que esse proselitis-
mo deverá ser de natureza inteiramente persuasiva e voluntária.
Em segundo lugar, a harmonia social é reforçada com a remoção da religião do
domínio da política. A Europa sofreu durante as guerras de religião, quando as igre-
jas forjaram alianças com governantes e procuraram impor sua teologia a todas as
pessoas em uma região. Inquisições religiosas, segundo Roger Williams, punham
as cidades “em rebuliço”. Se as pessoas levam sua fé a sério, e o governo vai tornar
universal e compulsória uma única fé, então as pessoas vão lutar seriamente — in-
clusive até a morte — para assegurar que a verdadeira fé seja oficializada. Como as
experiências da Holanda, da Grã-Bretanha e depois dos Estados Unidos mostram, as
pessoas conseguem lidar umas com as outras na vida secular sem necessariamente
endossar suas opiniões particulares.
Em terceiro lugar, a competição produz resultados melhores do que o subsídio, a
proteção e a conformidade. O “livre-comércio na religião” é a melhor ferramenta que
os seres humanos têm para encontrar uma aproximação mais íntima com a verdade.
Empresas mimadas por subsídios e tarifas serão fracas e pouco competitivas, como o
serão também as religiões, sinagogas, mesquitas e templos. Religiões que são prote-
gidas da interferência política mas vivem por sua própria conta serão provavelmente
mais fortes e vigorosas do que uma igreja que tem o apoio do governo.
Essa última questão reflete a humildade, que é uma parte essencial da visão de
mundo libertária. Os libertários são às vezes criticados por serem muito “extremis-
tas” ou terem uma visão “dogmática” do papel do governo. Na verdade, seu firme
compromisso com a total proteção dos direitos individuais e um governo estrita-
mente limitado reflete sua fundamental humildade. Uma das razões para se opor à
oficialização de uma religião ou qualquer outra moralidade é que reconhecemos a
possibilidade muito real de que nossas próprias visões podem estar erradas. Os liber-
tários apoiam o mercado livre e a propriedade amplamente dispersa porque sabem
que as chances de um monopolista descobrir um grande avanço para a humanidade
são muito pequenas. Friedrich A. Hayek enfatizou o crucial significado da ignorân-
cia humana em toda a sua obra. Em Os fundamentos da liberdade, escreveu:

O argumento em favor da liberdade individual está prin-


cipalmente no reconhecimento da inevitável ignorância

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Cap. 5 — Pluralismo e tolerância 105

de todos nós sobre muitos dos fatores dos quais depen-


dem o cumprimento de nossos propósitos e nosso bem-
estar (...). A liberdade é essencial para deixar espaço para
o imprevisível e o inesperado.

Lillian Harman, libertária americana do século XIX, rejeitando o controle do es-


tado sobre o casamento e a família, escreveu em Liberty [Liberdade] em 1895: “Se eu
for capaz de conseguir que o mundo inteiro viva exatamente como eu vivo hoje, em
que isso me beneficiará em dez anos, quando, como espero, eu tiver um conhecimen-
to maior da vida e portanto minha vida provavelmente tiver mudado?”. Ignorância,
humildade, tolerância — não exatamente um sonoro grito de guerra, mas um argu-
mento importante para limitar o papel da coerção na sociedade.
Se esses temas são verdadeiros, eles têm implicações além da religião. A religião não
é a única coisa que nos afeta de forma pessoal e espiritual, como não é a única coisa que
leva a guerras culturais. Por exemplo, a família é a instituição dentro da qual desenvol-
vemos a maior parte do entendimento que temos do mundo e nossos valores morais.
Apesar da visão de Mario Cuomo dos Estados Unidos como uma grande família, ou
da aldeia global de Hillary Clinton, cada um de nós cuida mais de seus próprios filhos
do que de quaisquer outras crianças, e queremos inculcar nelas nossos próprios valores
e visão de mundo. É por isso que a interferência do governo na família é tão ofensiva e
controversa. Precisamos estabelecer um princípio de separação entre família e estado,
uma muralha tão firme quanto a que há entre igreja e estado, pelas mesmas razões:
para proteger as consciências individuais, reduzir conflitos sociais e diminuir os efeitos
perniciosos do subsídio e da regulamentação em nossas famílias.
Outra área na qual ensinamos formalmente valores aos nossos filhos é a educa-
ção. Esperamos que as escolas deem a nossos filhos não somente conhecimento, mas
também força moral para tomar boas decisões. Infelizmente, em uma sociedade plu-
ralista nem todos concordam sobre quais devem ser esses valores morais. Para come-
çar, alguns pais querem que a reverência a Deus seja ensinada nas escolas, e outros
não. Interpretou-se corretamente que a Primeira Emenda proíbe a oração nas esco-
las públicas; mas compelir pais religiosos a pagar impostos para sustentar escolas e
depois proibir que essas instituições, que eles ajudam a manter, deem a seus filhos a
educação que eles desejam certamente é injusto. No Estatuto pela Liberdade de Cul-
to da Virginia, Thomas Jefferson escreveu: “Compelir um homem a alimentar com
contribuições em dinheiro a propagação de ideias nas quais não acredita é perverso
e tirânico”. Mais ofensivo ainda é onerar uma família com impostos para transmitir
a seus próprios filhos opiniões nas quais ela não acredita!
Os problemas vão bem além da religião. As escolas devem exigir uniformes,
iniciar as aulas com o Juramento de Lealdade, aceitar professores homossexuais,

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106 O Manifesto Libertário

separar meninos e meninas, ensinar o ambientalismo antiempresarial, cultivar


apoio à Guerra do Golfo, celebrar o Natal e/ou o Hanucá, exigir exames de dro-
gas? Todas essas decisões envolvem escolhas morais, e pais diferentes terão pre-
ferências diferentes. Nessas questões, um sistema de monopólio estatal precisa
tomar uma única decisão para toda a comunidade. Uma separação estrita entre
a educação e o estado respeitaria a consciência individual de cada família, redu-
ziria os conflitos políticos em torno de questões muito carregadas e fortaleceria
em cada escola a percepção de sua missão, bem como o compromisso de seus
estudantes e famílias. Os pais poderiam escolher escolas privadas para seus filhos
com base nos valores morais e na missão educacional que as escolas oferecessem,
e não surgiria nenhum conflito político sobre o que ensinar.
Como a igreja, a família e a escola, a arte também expressa, transmite e questiona
nossos valores mais profundos. Como coloca o diretor administrativo do Center
Stage, em Baltimore, “A arte tem poder. Tem o poder de sustentar, curar, humanizar
(...) de mudar algo nas pessoas. É um poder assustador e também belo (...) E é essen-
cial em uma sociedade civilizada”. Por ser a arte — pintura, escultura, teatro, litera-
tura, música, cinema e outras — tão poderosa, ocupando-se de verdades humanas
básicas, não ousamos misturá-la com poder coercitivo. Isso significa ausência de
censura ou regulamentação da arte. Significa também ausência de subsídios finan-
ciados por tributos para artes ou artistas, porque, quando o governo entra no negó-
cio de financiar a arte, surgem conflitos políticos: o Fundo Nacional para as Artes
pode financiar fotografia erótica? O Public Broadcasting System pode transmitir o
programa “Tales of the City”, que tem personagens homossexuais? A Biblioteca do
Congresso pode mostrar uma exibição sobre a vida dos escravos antes da guerra?
Para evitar essas batalhas políticas sobre como gastar o dinheiro dos contribuintes
e manter a arte e seu poder no domínio da persuasão, seria uma boa decisão estabe-
lecer a separação entre arte e estado.
E quanto à divisora questão da raça? Não sofremos gerações suficientes de discri-
minação racial financiada pelo governo? Após o fim da escravidão — que era uma
violação odiosa demais dos direitos individuais para ser categorizada como mera
discriminação racial —, adicionamos três emendas à Constituição, cada uma com
a intenção de cumprir as promessas da Declaração de Independência garantindo
a todos os americanos (homens) direitos iguais. Especificamente, essas emendas
aboliram a escravidão, prometeram igual proteção das leis para todos os cidadãos
e garantiram que o direito ao voto não seria negado a ninguém com base em sua
raça. Mas, no período de poucos anos, governos estaduais, com a aquiescência dos
tribunais federais, começaram a limitar os direitos dos negros a votar, usar serviços
públicos e participar da vida econômica. A era Jim Crow durou até os anos 1960.
Então, infelizmente, o governo federal, num piscar de olhos, passou por cima da

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Cap. 5 — Pluralismo e tolerância 107

política libertária de igualdade de direitos para todos e começou a substituir ve-


lhas formas de discriminação racial por outras novas. Assim como as leis de Jim
Crow enraiveceram negros (e todas as pessoas que acreditavam em direitos iguais),
o novo regime de cotas enraiveceu brancos (e todas as pessoas que acreditavam em
direitos iguais). Estava preparado o cenário para mais conflitos sociais, e a animo-
sidade racial parece estar aumentando de muitas formas, mesmo à medida que a
integração prossegue e a renda dos negros aumenta rapidamente em relação à dos
brancos. Certamente seria melhor aplicar a lição das guerras de religião e manter o
governo fora dessa área sensível: repelir as leis que concedem ou negam direitos ou
privilégios com base na raça e estabelecer a separação entre raça e estado.
Ao mesmo tempo, devemos olhar criticamente as políticas que têm um impacto
desproporcionalmente negativo sobre quem há muito tempo sofre nas mãos do go-
verno. Tributos e regulamentações que criam obstáculos para novos negócios e para
a geração de empregos, por exemplo, prejudicam especialmente aqueles que ainda
não são parte do grande mercado. Benjamin Hooks, que depois dirigiu a National
Association for the Advancement of Colored People, certa vez comprou uma loja de
doughnuts em Memphis, no estado do Tennessee, de um homem que tinha sido seu
dono por 25 anos. “Naqueles 25 anos, haviam aprovado todo tipo de leis”, lembrou ele.
“Era preciso ter banheiros separados para homens e mulheres, dedetizar as paredes
e tudo o mais que se podia imaginar. Fomos atingidos por todas essas regulamen-
tações, e elas nos custaram 30 mil dólares. Tivemos que fechar a loja.” E continuou:
“É óbvio que hoje ninguém, mas ninguém mesmo, vai comprar alguma coisa em um
gueto negro em decadência, exceto os próprios negros. Assim, o efeito produzido por
algumas regulamentações é quase inteiramente a exclusão de negros”. Leis de exercí-
cio profissional também funcionam da mesma forma utilizada pelas corporações de
ofício medievais para manter as pessoas longe dos bons empregos. Em cidades como
Miami, Chicago e Nova York, conseguir um alvará para dirigir um táxi custa dezenas
de milhares de dólares, fazendo que uma forma de empreendimento que poderia ser
acessível seja negada para as pessoas que não têm capital.
Uma política governamental cuja discriminação contra os negros passa largamen-
te despercebida é o sistema politicamente intocável da previdência social. Direi mais
sobre o sistema como um todo no capítulo 10, mas comento aqui que, como qualquer
outro imenso monopólio governamental, a previdência social foi planejada para a
“típica” família da década de 1930. Não funciona tão bem para pessoas que não se
encaixem naquele padrão. Exige-se que pessoas solteiras e sem filhos paguem por be-
nefícios previdenciários que elas não comprariam de uma seguradora privada. Mu-
lheres casadas que trabalham fora não podem ser beneficiárias das contribuições do
marido, embora os dois paguem os tributos. E os negros — porque apresentam uma
expectativa de vida mais baixa do que a dos brancos — pagam os mesmos tributos

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108 O Manifesto Libertário

mas recebem muito menos benefícios. Um estudo do National Center of Policy


Analysis constatou que se entrasse no mercado de trabalho em 1986 um homem
branco podia esperar receber 74% mais em benefícios da previdência social e 47%
mais em Medicare do que um homem negro. Um casal de brancos empregados
poderia esperar 35% mais benefícios do que um casal de negros. A disparidade é
ainda maior no nível da renda. Um sistema de previdência privado e competitivo
ofereceria diferentes planos para atender às necessidades de diferentes pessoas em
vez de um único plano para todos. À medida que eliminamos preferências raciais
na lei, devemos também procurar rejeitar leis que prejudicam de modo despropor-
cional as minorias e pessoas pobres.
Como em tantas outras áreas, porém, a solução libertária não é uma panaceia.
Conflitos sociais em torno de educação, reprodução e raça não vão terminar nem
mesmo com uma emenda constitucional livrando todas elas da interferência do
governo. Afinal, a Primeira Emenda não pôs fim às batalhas políticas e legais sobre
a relação entre governo e religião. Mas é certo que já as diminuiu e confinou, e as
batalhas legais sobre onde traçar a linha nas outras áreas seriam travadas em terre-
no bem mais restrito do que os conflitos de hoje, nos quais um governo expandido
alcança cada canto da vida americana. A despolitização de nossas desavenças cul-
turais seria um grande avanço na redução da escala da guerra cultural.

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Capítulo 6

O direito e a Constituição

I
ntimamente relacionado com as questões do escopo da atuação do estado está o
venerável princípio libertário do estado de direito. Em sua forma mais simples,
o princípio significa que devemos ser governados por leis de aplicabilidade geral
e não por decisões arbitrárias dos governantes — “um governo de leis e não de ho-
mens”, como afirma a Declaração de Direitos de 1780 de Massachusetts.
Em Os fundamentos da liberdade, Friedrich A. Hayek discute em detalhes o estado
de direito. Ele apresenta três aspectos do princípio: as leis devem ser gerais e abstra-
tas, sem ser planejadas para ordenar ações específicas aos cidadãos; devem ser certas
e conhecidas, a fim de que o cidadão possa saber antecipadamente que suas ações
estão de acordo com a lei; e devem se aplicar igualmente a todas as pessoas.
Esses princípios têm implicações importantes:
r As leis devem se aplicar a todos, inclusive a quem as faz.
r Ninguém está acima da lei.
r Para impedir a acumulação de poder arbitrário, o poder deve ser dividido.
r As leis devem ser feitas por um órgão e aplicadas por outro.
r Um Judiciário independente é necessário para assegurar que as leis sejam ad-
ministradas com justiça.
r Aqueles que administram a lei devem ter pouca discrição, porque o poder
discricionário é o próprio mal que o estado de direito deve impedir.

Direito jurisprudencial
Há uma certa confusão no inglês moderno sobre o significado da palavra law (lei
e também direito). Tende-se a pensar em lei como algo escrito pelo Congresso ou
pela Assembleia Legislativa do estado. Mas na verdade a lei é mais antiga do que
qualquer órgão legislativo. Como observa Hayek, “somente a observância a regras
comuns pode tornar possível a coexistência pacífica de indivíduos em uma socieda-
de”. Essas regras são o direito, que foi desenvolvido originalmente pelo processo de
resolver disputas. As leis não eram estabelecidas antecipadamente por um legislador
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110 O Manifesto Libertário

ou um corpo legislativo; eram acumuladas uma a uma, conforme cada disputa era
resolvida. Cada nova decisão ajudava a delinear que direitos tinham as pessoas, es-
pecialmente com relação a como a propriedade poderia ser usada e como deveriam
ser interpretados e executados os contratos.
A evolução da lei dessa maneira é anterior aos registros históricos, mas é mais
conhecida na forma do Direito Romano, especialmente o Código Justiniano (ou
Corpus Juris Civilis), que subjaz na base do direito continental europeu, e do direito
consuetudinário inglês, que continuou a se desenvolver nos Estados Unidos e em
outras ex-colônias inglesas. A codificação das leis, como no Código Comercial Uni-
forme (Uniform Commercial Code), geralmente reflete uma tentativa de coletar e reu-
nir em um único lugar as decisões que juízes e júris tomaram em miríades de casos e
os termos dos contratos em áreas da economia que estão em evolução. O American
Law Institute, uma organização privada, recomenda regularmente às legislaturas re-
visões dos códigos comerciais. Segundo Hayek, mesmo os grandes legisladores da
história, como Hammurabi, Sólon e Licurgo, “não pretendiam criar novas leis, mas
apenas afirmar o que era e sempre havia sido a lei”.
Como observaram juristas ingleses como Coke e Blackstone, o direito consuetu-
dinário é parte da delimitação constitucional da concentração de poder. Um juiz não
promulga editos; ele só pode julgar quando uma disputa é levada até ele. Essa limitação
mantém sob controle o poder do juiz, e o fato de que a lei é feita por muitas pessoas
envolvidas em várias disputas limita o potencial de exercício arbitrário do poder por
um legislador, seja um monarca, seja uma legislatura. (Frequentemente, faz parte do
trabalho de um advogado dizer ao cliente: “A lei é clara. Você não tem defesa. Você só
vai desperdiçar o tempo e o dinheiro de todos nós indo à justiça”.) Desse modo, muitas
pessoas participam da evolução da lei para lidar com novos problemas e circunstâncias.
A legislação — que infelizmente é chamada de lei pela maioria das pessoas — é
um processo diferente. Grande parte da legislação envolve regras para gerir o gover-
no, caso em que é similar aos regulamentos internos de muitas organizações. Outras
partes da legislação, como se observou acima, consistem na codificação do direito
consuetudinário. Mas a legislação envolve cada vez mais ordens sobre como as pes-
soas devem agir, com o propósito de obter resultados específicos. Assim, a legislação
afasta a sociedade das regras gerais que protegem os direitos e deixam as pessoas
livres para buscar o que quiserem e a aproxima de regras detalhadas que especificam
como as pessoas devem usar sua propriedade e interagir com os outros.

O declínio do direito contratual


Enquanto a legislação suplantou o direito consuetudinário na regulamentação de
nossas relações uns com os outros, os legisladores têm se apropriado cada vez mais de
nossa renda em tributos e limitado os direitos de propriedade com regulamentações

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Cap. 6 — O direito e a Constituição 111

destinadas a assegurar de habitação a baixo custo a vistas panorâmicas. Os juízes, in-


felizmente, não apenas têm apoiado essas decisões legislativas, ignorando disposições
da Constituição americana que protegem os direitos de propriedade, como também
anulado contratos por achar que eles refletiam “poder de barganha desigual” ou que
não eram “de interesse público”. Em qualquer caso, embora o legislador ou juiz tenha
achado que estaria de acordo com seus valores transferir os direitos de propriedade de
seu legítimo dono para um reivindicante mais digno de compaixão, ou aliviar alguém
das obrigações contratuais que havia assumido, por outro lado os grandes benefícios
de um sistema de propriedade e contrato foram descartados.
Em seu livro Sweet Land of Liberty? [Doce terra da liberdade?], o jurista Henry
Mark Holzer identifica vários marcos na erosão da santidade dos contratos do gover-
no. Antes da Guerra Civil, afirma ele, o dinheiro nos Estados Unidos consistia em
moedas de ouro e prata. Para financiar a guerra, o Congresso autorizou a emissão de
papel-moeda inflacionário, que declarou ser “moeda de curso legal”. Isso significava
que deveria ser aceita para pagamento de dívidas, mesmo que o credor esperasse ser
pago em ouro ou prata. Em 1871, a Suprema Corte apoiou a Lei da Moeda de Curso
Legal, efetivamente reescrevendo todos os acordos de empréstimo — e pondo as
pessoas com dinheiro sob aviso de que o governo poderia unilateralmente mudar
os termos de futuros empréstimos. Então, em 1938, apesar da explícita provisão na
Constituição proibindo os estados de aprovar “qualquer lei que obstruísse a obrigação
dos contratos”, a Suprema Corte apoiou uma lei de Minnesota dando aos mutuários
mais tempo do que o contrato especificava para pagar suas hipotecas, deixando os cre-
dores sem outra escolha senão esperar pelo dinheiro que lhes era devido.
Mais ou menos na mesma época, a Suprema Corte deu mais um golpe na liberda-
de de contratar. Uma grande preocupação de qualquer credor é assegurar que o di-
nheiro a ser devolvido terá tanto valor quanto o que foi emprestado, o que pode não
ser o caso se a inflação nesse meio-tempo tiver reduzido o valor do dinheiro. Depois
da decisão sobre a Lei da Moeda de Curso Legal, muitos contratos incluíam uma
“cláusula do ouro”, especificando o valor da quantia a ser devolvida em ouro, que
preserva seu valor melhor do que o dólar emitido pelo governo. Em junho de 1933,
o governo Roosevelt persuadiu o Congresso a omitir em todos os contratos a cláu-
sula do ouro, efetivamente transferindo bilhões de dólares dos credores, que haviam
emprestado de boa-fé o dinheiro, para os mutuários, que poderiam então devolvê-lo
em dólares inflacionários. Em cada um desses casos, os legisladores e juízes disseram
que em sua opinião a aparente necessidade de um grupo de partes contratantes de-
veria se sobrepor às obrigações que essas partes tinham assumido voluntariamente.
Tais decisões foram enfraquecendo cada vez mais o progresso econômico, que de-
pende da segurança da propriedade e da confiança em que as obrigações contratuais
serão cumpridas.

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112 O Manifesto Libertário

Leis de interesse especial


Em larga medida, os Estados Unidos são uma nação governada pelo estado de
direito. Mas é possível apontar leis — Friedrich A. Hayek as chamaria de legislação e
não leis verdadeiras — que parecem conflitar com o estado de direito. Há subsídios
e coberturas explícitos para empresas específicas, como a garantia pelo Congresso,
em 1979, de 1,5 bilhão de dólares em empréstimos para a Chrysler Corporation. Um
tanto menos óbvias, há em muitos projetos de leis cláusulas ao longo das linhas de
“mas este requerimento não se aplicará a nenhuma sociedade anônima constituída
no estado de Illinois em 14 de agosto de 1967” — isto é, uma empresa está receben-
do isenção de um requisito imposto a seus competidores. Há grandes incentivos no
código tributário a produtos particulares como o etanol, um substituto da gasolina
fabricado com milho, 65% do qual é produzido por uma única empresa, generosa
colaboradora da política, a Archer-Daniels-Midland. Há partes valiosas do espectro
de frequência de transmissão reservadas para empresas cujos donos pertençam a mi-
norias, e há contratos do governo reservados para pequenas empresas.
A Quinta Emenda afirma que se a propriedade privada for desapropriada para uso
público o dono deve ser compensado. E no entanto a todo momento regulamenta-
ções desvalorizam propriedades, e os governos resistem a compensar os donos por
suas perdas. Os defensores dos direitos de propriedade dizem: “Se um governo quer
preservar a costa me proibindo de construir uma casa em minha propriedade, ou
quer criar uma ciclovia atravessando minhas terras, tudo bem — que me pague o
valor da parte de minha propriedade que me foi tirada”. Mas em geral o Judiciário
permite que o governo faça tais desapropriações, que frequentemente são impingi-
das de forma arbitrária, após o dono ter comprado a propriedade com certo plano em
mente. Mesmo se a propriedade estiver sendo desapropriada com objetivo público, o
dono deve ser compensado; mas com frequência o propósito é privado, não público
— como quando a cidade de Detroit condenou as casas e negócios em uma vizi-
nhança de descendentes de poloneses chamada Poletown para que a General Motors
pudesse construir uma fábrica lá. Para tornar o episódio ainda mais ofensivo, depois
que as pessoas foram forçadas a se mudar do local onde haviam morado por toda a
vida, a General Motors acabou decidindo não construir a fábrica.
Leis de exercício profissional frequentemente conflitam com o espírito do esta-
do de direito. Exigir que os indivíduos obedeçam a regulamentações específicas do
estado para poder oferecer serviços ao público, tais como advogados, motoristas de
táxi, esteticistas ou cerca de outras 800 ocupações, pode não entrar em conflito com
o estado de direito — embora seja certamente uma violação da liberdade econômica.
Mas obrigar uma cabeleireira licenciada no Tennesse a morar no Kentucky por um
ano antes que ela possa exercer sua profissão nesse estado parece mostrar claramente
que os cidadãos estão sendo tratados de modo diferente sob a lei e obviamente está

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Cap. 6 — O direito e a Constituição 113

criando o equivalente a uma tarifa protecionista em benefício dos cabeleireiros já


residentes no Kentucky.
Talvez a mais séria violação do estado de direito pela lei americana vigente esteja
na delegação de Poder Legislativo e Judiciário a administradores não eleitos e in-
visíveis. Em 1948, Winston Churchill reclamou: “Ouvi dizer que trezentos oficiais
têm o poder de fazer, totalmente separados do Parlamento, novas regulamentações
contendo a penalidade da detenção por crimes até então desconhecidos pela lei”.
Teríamos muita sorte hoje se somente trezentos oficiais tivessem o poder de fazer
leis. Até o New Deal de Franklin Roosevelt, entendia-se que era ao Congresso que
a Constituição dos Estados Unidos dava o exclusivo poder de legislar. De confor-
midade com o estado de direito, dava ao presidente o poder de executar as leis e
ao Judiciário, o de interpretá-las e aplicá-las. Nos anos 1930, porém, o Congresso
começou a aprovar leis mais amplas e a deixar os detalhes para agências administra-
tivas. Tais agências — o Departamento de Agricultura (Agriculture Department), a
Comissão Federal de Comércio (Federal Trade Commission), a Agência de Alimen-
tos e Medicamentos, a Agência de Proteção Ambiental (Environmental Protection
Agency) e incontáveis outras — agora cospem regras e regulamentações que clara-
mente têm força de lei mas nunca foram aprovadas pela autoridade legisladora cons-
titucional. Algumas vezes o Congresso não soube como tornar reais suas amplas
promessas, outras, nem sequer quis votar as compensações concretas envolvidas
em dar a algumas pessoas o que elas queriam à custa de outras pessoas, outras ainda
simplesmente não se importou com os detalhes. O resultado são dezenas de milha-
res de burocratas cuspindo leis — 60 mil páginas em um ano normal — pelas quais
o Congresso não assume nenhuma responsabilidade.
Para piorar a ofensa ao estado de direito, essas agências então interpretam e
executam suas próprias regras, decidindo como vão aplicá-las em cada caso. Elas
são legislador, promotor, juiz, júri e executor, todos em um só — uma violação do
estado de direito tão clara quanto se poderia imaginar. Um problema em parti-
cular é a federalização e criminalização das leis ambientais ao longo das últimas
três décadas. Em seu zelo pela proteção do ambiente, o governo federal criou uma
teia de regulamentações tão densa que o cumprimento da lei é, em essência, ina-
tingível. Promotores e tribunais privaram os suspeitos de crimes ambientais de
defesas legais tradicionais como boa-fé, prevenção e risco duplo, ao mesmo tempo
em que exigiam que os potenciais suspeitos se autoincriminassem. Justamente ao
buscar um objetivo de espírito tão público quanto a proteção ambiental, devemos
lembrar a nós mesmos de ter o máximo cuidado com o cumprimento das regras e
a obediência às proteções constitucionais, de modo a não permitir que o mérito de
um objetivo em particular nos leve a erodir os princípios que nos permitem atingir
todos os nossos objetivos.

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Limites constitucionais ao governo


Talvez a mais notável contribuição americana à proteção aos direitos individuais
e ao estado de direito tenha sido nossa Constituição escrita. O propósito do governo
foi estabelecido claramente na Declaração de Independência: “para assegurar tais
direitos, governos são instituídos entre os homens”. Tendo concluído que o governo
era necessário, os americanos procuraram produzir uma Constituição que limitasse
o governo a apenas esse propósito.
Cada indivíduo detém naturalmente o poder de proteger os direitos, enquanto ele
é delegado ao governo na Constituição. Para deixar claro que a Constituição não era
uma concessão genérica de poder ao governo, os poderes específicos cedidos ao go-
verno federal são enumerados no Artigo 1, Seção 8. Por serem delegados e enumera-
dos, os poderes do governo federal são limitados. Um governo de poderes delegados,
enumerados e limitados: essa é a maior contribuição americana ao desenvolvimento
da liberdade sob a lei.
O jurista Roger Pilon delineia o significado da Constituição em seu ensaio de
1995 “Restoring Constitutional Government” [Restaurando o governo consti-
tucional]:

O Congresso pode agir, em qualquer área e sobre qual-


quer assunto, somente se tem autoridade sob a Consti-
tuição para fazê-lo. Se não, essa área ou assunto deve ser
abordada pela ação estatal, local ou privada.
A doutrina dos poderes enumerados, conforme enuncia-
do, foi destinada pelos pais da Constituição a ser sua peça
central. Como tal, ela serve a duas funções básicas. Em
primeiro lugar, explica e justifica o poder federal: fluindo
do povo para o governo, o poder é legítimo na medida em
que foi assim delegado. Mas, em segundo lugar, a própria
doutrina que justifica o poder federal serve para limitá-
-lo, pois o governo tem somente os poderes que o povo
lhe concedeu. De fato, a enumeração dos poderes, e não
a enumeração dos direitos na Declaração de Direitos, foi
idealizada pelos pais da Constituição como a principal
limitação sobre o poder governamental. Pois eles dificil-
mente poderiam ter enumerado todos os nossos direitos,
e no entanto poderiam ter feito isso com os poderes fe-
derais. Por implicação, onde não há poder, há um direito
pertencente aos estados ou ao povo.

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Cap. 6 — O direito e a Constituição 115

Hoje, quando uma nova lei federal é proposta, muitas pessoas de mentalidade li-
bertária da direita e da esquerda vão à Declaração de Direitos para ver se a lei viola
algum direito constitucional. Mas deveríamos primeiramente olhar para os poderes
enumerados e ver se o governo federal recebeu o poder de empreender a ação propos-
ta. Somente se ele detém tal poder, devemos passar à pergunta sobre se a ação viola
algum direito protegido.
Muito — talvez a maior parte — do que o governo federal faz hoje não é auto-
rizado no Artigo 1, Seção 8. Isso quer dizer que o governo federal assumiu muitos
poderes que não foram delegados pelo povo ou enumerados na Constituição. Seria
difícil encontrar na Constituição qualquer autorização para planejamento econômi-
co, auxílio à educação, um programa de aposentadoria financiado pelo governo, sub-
sídios agrícolas, subsídios às artes, assistência a corporações, produção energética,
habitação pública, ou a maior parte da panóplia de empreendimentos federais.
Durante grande parte de nossa história, os limites sobre os poderes federais foram
dados como certos. Já em 1794, James Madison, principal autor da Constituição, levan-
tou-se na Câmara dos Deputados (House of Representatives) para se opor a um projeto
de lei porque “não podia apontar precisamente o artigo da Constituição Federal que
garantia ao Congresso o direito de gastar, sob pretexto de benevolência, o dinheiro dos
eleitores que representa”. Bem mais tarde, em 1887, o presidente Grover Cleveland ve-
tou um projeto de lei para oferecer sementes a agricultores atingidos pela seca porque
“não encontrava justificativa para tal apropriação na Constituição”. Em 1935, as coisas
haviam mudado; Franklin Roosevelt escreveu ao presidente do Comitê de Recursos
da Câmara: “Espero que seu comitê não permita que dúvidas sobre constitucionalida-
de, por mais razoáveis que sejam, bloqueiem a legislação proposta”. Trinta e três anos
depois, Rexford Tugwell, um dos principais conselheiros de Roosevelt, admitiu: “Até o
ponto em que essas [políticas do New Deal] se desenvolveram, elas eram interpretações
forçadíssimas de um documento que tinha a intenção de impedi-las”.
Hoje, ao que parece, nem sequer perguntamos onde o Congresso encontra a auto-
ridade constitucional para aprovar as leis que faz. É difícil lembrar uma ocasião em
que um membro do Congresso tenha se levantado para perguntar: “Onde na Consti-
tuição encontramos esse poder?”. Se um crítico externo o fizesse, provavelmente lhe
seria apontado o preâmbulo da Constituição:

Nós, o povo dos Estados Unidos, para formar uma União


mais perfeita, estabelecer a justiça, assegurar a tranquili-
dade doméstica, prover a segurança pública, promover o
bem-estar geral e garantir as bênçãos da liberdade para
nós e para a posteridade, ordenamos e estabelecemos a
Constituição dos Estados Unidos.

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A menção de “bem-estar geral”, se dirá, autoriza quase qualquer coisa que o Con-
gresso queira fazer. Mas essa é uma interpretação errônea da cláusula do bem-estar
geral. É claro que, como argumentaram Locke e Hume, criamos governos para aumen-
tar nosso bem-estar no sentido mais geral. Mas o que vai aumentar nosso bem-estar é
a oportunidade de viver em uma sociedade civil na qual nossa vida, liberdade e pro-
priedade estejam protegidas e sejamos deixados em paz para buscar a felicidade à nossa
própria maneira. Nosso bem-estar decididamente não é aumentado por um governo
sem limites, arrogando-se o poder de decidir que qualquer coisa, de um pacote de aju-
da para a Chrysler a um V-chip, passando por um programa de treinamento profissio-
nal, seja boa para nós. Uma crítica mais restrita dessa leitura expansiva da cláusula do
bem-estar geral diria que por “bem-estar geral” os pais da Constituição estavam dei-
xando claro que o governo deve agir no interesse de todos e não em nome de qualquer
pessoa ou grupo específico — mas praticamente tudo o que o Congresso faz hoje em
dia envolve tomar o dinheiro de uns e dá-lo a outros.
O valor da uma Constituição escrita é que ela define precisamente quais são os
poderes do governo e, pelo menos por omissão, indica os que não são. Estabelece
procedimentos metódicos para a operação do governo e, mais importante, sistemas
para impedir qualquer tentativa de exceder a autoridade constitucional. Mas o ver-
dadeiro impedimento ao poder de qualquer governo é a eterna vigilância do povo.
A Constituição americana foi um feito brilhante não só porque foi concebida por
gênios, mas porque o povo americano na era da fundação tinha plena consciência
dos perigos da tirania e estava imerso na teoria de direitos de Locke e na experiência
com o constitucionalismo britânico. Um amigo me disse por volta de 1990 que
tinha sido procurado pelo povo da recém-libertada Bulgária para ajudá-los a escre-
ver uma Constituição que protegesse a liberdade. “Tenho certeza de que você vai
escrever uma ótima Constituição”, eu disse, “até melhor do que a americana, mas
não é apenas uma questão de escrever um bom documento e entregá-lo à assem-
bleia popular. Escrever a Constituição americana levou quinhentos anos — da Carta
Magna em 1215 à Convenção Constitucional em 1787”. A questão é se o povo da
Bulgária percebe a importância, para a liberdade e a prosperidade, da garantia dos
direitos individuais por um governo de poderes delegados, limitados e enumerados.
Aqui nos Estados Unidos, a pergunta é se os americanos ainda conseguem apreciar a
Constituição e o pensamento subjacente a ela.
Como a Constituição americana poderia ser melhorada? Friedrich A. Hayek nos
recomenda prudência nas tentativas de melhorar instituições de longa data, e nenhum
de nós estaria bem aconselhado a empreender com humildade a tarefa de melhorar o
trabalho de Washington, Adams, Madison, Hamilton, Mason, Randolph, Franklin e
seus colegas. Mas, com duzentos anos de experiência, talvez possamos sugerir algumas
pequenas melhorias. A estrutura geral de poderes delegados, enumerados e portanto

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Cap. 6 — O direito e a Constituição 117

limitados, está obviamente de acordo com os valores libertários. Um libertário


apoiaria entusiasticamente a separação de poderes e não teria nenhuma crítica ób-
via à estrutura de um corpo legislativo com duas casas de proporções diferentes,
um presidente com poder de veto, um processo de emenda razoavelmente difícil,
e assim por diante.
Alguém sugeriu que além das salvaguardas contra o governo excessivo já constan-
tes da Constituição — a estrutura de poderes enumerados e limitados, a Declaração
de Direitos, a Nona Emenda esclarecendo que todos os outros direitos são detidos
pelo povo, a Décima Emenda reservando os poderes não enumerados aos estados ou
ao povo — fosse adicionada mais uma camada: uma emenda dizendo “E estamos
falando sério”. Nesse espírito, quem estivesse revisando a Constituição ou para os
americanos ou para algum outro país poderia adicionar uma cláusula esclarecendo
que os poderes garantidos no Artigo 1, Seção 8 são de fato todos os poderes do gover-
no federal. E, caso isso também fosse insuficiente, se poderia expandir a Declaração
de Direitos para garantir não apenas a separação entre igreja e estado mas entre fa-
mília e estado, escola e estado, raça e estado, arte e estado e até economia e estado.
Talvez fosse também desejável emendar a Constituição para
r exigir um orçamento equilibrado, como recomendou Thomas Jefferson e
como fazem quase todas as constituições dos estados;
r proibir o Congresso de delegar sua autoridade legisladora a agências admi-
nistrativas;
r reviver o princípio colonial de rotação no cargo, limitando os mandatos dos
membros do Congresso e do presidente; e
r dar ao presidente um veto parcial para que ele possa vetar partes individuais
de um projeto de lei, ou esclarecer que quando o Artigo 1 se refere a “lei”,
quer dizer uma única peça legislativa lidando com um único assunto e não
um enorme amálgama de assuntos e apropriações.

Os pais da Constituição e da Declaração de Direitos escreveram seus limites ao


governo e suas garantias de direitos específicos com base em sua experiência com as
depredações da liberdade levadas a cabo pelo governo britânico. Com duzentos anos
a mais de experiência com as formas como o governo procura romper as limitações
que lhe impomos, vemos novos direitos a enumerar e novos limites a impor ao poder.
Por ora, porém, aplicar a Constituição como ela é seria um grande passo na dire-
ção libertária, isto é, no sentido de proteger a liberdade de todo americano e manter
o poder coercitivo do estado fora da sociedade civil.

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Capítulo 7

A sociedade civil

N
a visão libertária, o papel do governo é proteger os direitos das pessoas —
e só. Mas essa é uma tarefa e tanto, e um governo que a desempenhe bem
merece nosso respeito e parabéns. A proteção aos direitos, porém, é apenas
uma condição mínima para a busca da felicidade. Como defenderam Locke e Hume,
estabelecemos governos para que estejamos seguros em nossa vida, liberdade e pro-
priedade enquanto nos ocupamos de sobreviver e progredir.
Mal podemos sobreviver, quanto mais progredir, sem interagir com outras pes-
soas. Queremos nos associar a outros para atingir fins instrumentais — produzir
mais comida, trocar bens, desenvolver novas tecnologias —, mas também porque
sentimos uma profunda necessidade de conexão, amor e amizade e comunidade. As
associações que formamos com outros constituem o que chamamos de sociedade
civil. Essas associações podem tomar uma impressionante variedade de formas: fa-
mílias, igrejas, escolas, clubes, sociedades fraternas, associações condominiais, gru-
pos de vizinhos e as miríades de formas da sociedade comercial, como parcerias,
corporações, uniões sindicais e associações comerciais. Todas essas associações
servem de diferentes formas aos propósitos humanos. A sociedade civil pode ser
largamente definida como todas as associações voluntárias e naturais na sociedade.
Alguns analistas distinguem entre organizações com e sem fins comerciais, argu-
mentando que os negócios são parte do mercado e não da sociedade civil; mas eu
sigo a tradição de que a real distinção está entre as associações coercivas (o estado)
e as naturais ou voluntárias (todas as outras). Se uma associação em particular é
estabelecida para obter lucro ou para atingir algum outro propósito, a caracterís-
tica-chave é que nossa participação nela é voluntária. As associações na sociedade
civil são criadas para atingir propósitos particulares, mas a sociedade civil como
um todo não tem propósito; ela é o resultado que emerge espontaneamente, sem
planejamento, de todas essas associações propositais.
Algumas pessoas não gostam muito da sociedade civil. Karl Marx, por exemplo.
Comentando a liberdade política em um de seus primeiros ensaios, “Sobre a questão
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judaica”, Marx escreveu que “os chamados direitos do homem (...) nada são senão os
direitos do membro da sociedade civil, isto é, um homem egoísta, separado dos ou-
tros homens e da comunidade”. Argumentou que “o homem, tal como é na sociedade
civil”, é “um indivíduo recolhido em seus interesses e manias próprias e separado da
comunidade”. Lembre-se de que Thomas Paine distinguia a sociedade do governo, a
sociedade civil da sociedade política. Marx revive essa distinção, mas com uma dife-
rença: ele quer que a sociedade política tome o espaço da sociedade civil. Quando as
pessoas forem realmente livres, diz ele, verão a si mesmas como cidadãos da comu-
nidade política como um todo, e não “decompostos” em papéis diferentes e não uni-
versais, como comerciante, trabalhador, judeu, protestante. Cada pessoa será “um
ser comunal” unido com todos os outros cidadãos, e o estado não vai mais ser visto
como instrumento de proteção aos direitos, para que os indivíduos possam buscar
seus objetivos egoístas, mas como a entidade por meio da qual todos atingirão “a es-
sência humana [que] é a verdadeira coletividade do homem”. Nunca foi esclarecido
como essa liberação viria, e a experiência real com regimes marxistas não foi lá muito
libertadora, mas a hostilidade em relação à sociedade civil está bastante clara.
Marxismo hoje em dia é quase um palavrão (e assim deve ser) nos Estados Unidos,
mas a poderosa influência de Marx sobre tantas pessoas indica que ele estava obser-
vando algo importante quando escreveu sobre as pessoas se sentirem alienadas e ato-
mizadas. As pessoas querem pelo menos sentir alguma conexão entre si. Em comu-
nidades tradicionais pré-capitalistas não havia muita escolha a esse respeito; em uma
aldeia, as pessoas que alguém conhecera por toda a vida estavam à sua volta. Desejado
ou não, o sentimento de comunidade não podia ser evitado. À medida que o libera-
lismo e a Revolução Industrial trouxeram liberdade, riqueza e mobilidade para mais
pessoas, um número cada vez maior delas decidiu deixar as aldeias onde tinha nasci-
do, às vezes até o próprio país, e ir fazer uma vida melhor em outro lugar. A decisão de
partir indica que as pessoas esperavam encontrar uma vida melhor; e a mobilidade e
a emigração contínuas na sociedade moderna, geração após geração, indicam que as
pessoas realmente encontram oportunidades melhores em novos lugares. Mas mes-
mo uma pessoa que está feliz por ter deixado sua aldeia ou país talvez sinta a perda
do sentimento de comunidade, assim como a partida do seio familiar para se tornar
um adulto pode gerar um profundo sentimento de perda, mesmo quando a pessoa
desfruta de autonomia e independência. Foi a essa ânsia que o marxismo pareceu,
para muitas pessoas, oferecer uma resposta.
Ironicamente, o marxismo prometeu liberdade e comunidade, mas deu tirania e
atomização. A tirania dos países marxistas é bem conhecida, mas talvez não se tenha
entendido tão bem que o marxismo criou uma sociedade muito mais atomizada do
que qualquer outra no mundo capitalista. Os governantes marxistas no império so-
viético, em primeiro lugar, acreditavam teoricamente que os homens sob condições

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Cap. 7 — A sociedade civil 121

de “verdadeira liberdade” não teriam necessidade de organizações que servissem a


seus interesses individuais e, em segundo lugar, entendiam na prática que as associa-
ções independentes ameaçariam o poder do estado. Por isso, não eliminaram apenas
a atividade econômica privada; procuraram proibir igrejas, escolas independentes,
organizações políticas, associações de moradores e tudo o mais, até clubes de jardi-
nagem. Afinal, segundo a teoria, essas organizações não universais contribuíam para
a atomização. O que aconteceu, é claro, foi que as pessoas, privadas de qualquer for-
ma de comunidade e conexão entre a família e o todo-poderoso estado, se tornaram
indivíduos extremamente atomistas. Como escreveu o filósofo e antropólogo Ernest
Gellner, “O sistema criava individualistas sem oportunidade, cínicos, amorais e iso-
lados, habilidosos em dar respostas evasivas e em se adaptar à opinião da maioria”.
As maneiras normais pelas quais as pessoas se ligavam a seus vizinhos, companhei-
ros de paróquia e pessoas com quem faziam negócios foram destruídas, deixando-as
com desconfiança umas das outras, sem ver razões para cooperação mútua ou mes-
mo se tratar com respeito.
Talvez a ironia ainda maior, no entanto, foi que o marxismo afinal produziu uma
renovada valorização da sociedade civil. À medida que a corrupção do tempo de
Brejnev se desfez na liberalização de Gorbachov, as pessoas começaram a procurar
uma alternativa para o socialismo e acabaram encontrando-a nos conceitos de so-
ciedade civil, pluralismo e liberdade de associação. O investidor bilionário George
Soros, ansioso para libertar sua terra natal (a Hungria) e seus vizinhos, começou a
fazer grandes contribuições destinadas não a provocar uma revolução política, mas
a reconstruir a sociedade civil. Procurou subsidiar tudo, de clubes de xadrez a jor-
nais independentes, para conseguir que as pessoas voltassem a trabalhar juntas em
instituições não estatais. O florescimento da sociedade civil não foi o único fator na
restauração da liberdade na Europa Central e Oriental, mas uma sociedade civil mais
forte ajudará não só a proteger a nova liberdade como também a proporcionar todos
os outros benefícios que só podem ser obtidos em associações.
Até pessoas não marxistas compartilham algumas preocupações de Marx
sobre comunidade e atomização. Os filósofos comunitaristas, por exemplo, que
acreditam que os indivíduos devem necessariamente ser vistos como parte de
uma comunidade, se preocupam com o fato de que as pessoas no Ocidente, es-
pecialmente nos Estados Unidos, enfatizam demais as reivindicações de direitos
individuais, sobrepondo-as à comunidade. Sua visão de nossas relações com os
outros pode ser representada por uma série de círculos concêntricos: um indi-
víduo é parte de uma família, de uma vizinhança, de uma cidade, de uma área
metropolitana, de um estado, de uma nação. A implicação desses argumentos é
que às vezes nos esquecemos de enfocar todos os círculos e deveríamos de alguma
forma ser encorajados a fazê-lo.

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Mas serão esses círculos meramente concêntricos? Uma maneira melhor de en-
tender as comunidades no mundo moderno é como uma série de círculos que se
entrecruzam, com inúmeras conexões complexas entre eles. Cada um de nós tem
muitas formas de se relacionar com outras pessoas — precisamente o que criticou
Marx e o que celebram os libertários. Uma pessoa pode ser esposa, mãe, filha, irmã,
prima; empregada em uma empresa, dona de outra e acionista de uma terceira; loca-
tário e senhorio; responsável por uma associação condominial; membro de uma liga
mirim e dos escoteiros; membro da Igreja Presbiteriana; voluntária do Partido De-
mocrata nas eleições; membro de uma associação profissional; membro de um clube
de bridge; de um fã-clube de Jane Austen; de uma organização conscientizadora
feminista, de uma vigilância comunitária e de outras associações. (É verdade que
essa pessoa em particular provavelmente se sente sobrecarregada, mas pelo menos
em princípio pode-se ter um número indefinido de associações e conexões.) A maior
parte dessas associações serve a um propósito particular — ganhar dinheiro, reduzir
a criminalidade, ajudar os filhos —, mas também permite que as pessoas mante-
nham conexões umas com as outras. Nenhuma delas, porém, vai exaurir nenhuma
personalidade nem defini-la completamente. (Uma pessoa pode se aproximar dessa
definição exaustiva juntando-se a uma comunidade religiosa que encerre todos os
aspectos da vida, digamos, uma ordem católica de freiras contemplativas; mas tais
escolhas são voluntárias e — como ela não pode se alienar de seu direito de fazer
escolhas — reversíveis.)
Nessa concepção libertária, nós nos conectamos com diferentes pessoas de distin-
tas formas por consentimento livre e voluntário. Ernest Gellner diz que a sociedade
civil moderna requer um “homem modular”. Em vez de ser inteiramente produto
de e absorvido por uma cultura em particular, o homem modular “pode se juntar a
associações limitadas, ad hoc, de propósitos específicos, sem se comprometer por um
ritual de sangue”. Ele pode formar com outras pessoas vínculos “efetivos, embora
flexíveis, específicos e instrumentais”.
À medida que os indivíduos se combinam de incontáveis maneiras, a comu-
nidade emerge: não a comunidade próxima da aldeia, nem a comunidade mes-
siânica prometida pelo marxismo, pelo nacional-socialismo ou por religiões que
absorvem todos os aspectos da vida, mas uma comunidade de indivíduos livres
em associações voluntariamente escolhidas. Os indivíduos não emergem da co-
munidade; a comunidade emerge dos indivíduos. Emerge não porque alguém pla-
neje isso e certamente não porque o estado a crie, mas porque deve ser assim. Para
satisfazer suas necessidades e desejos, os indivíduos precisam se associar a outros.
A sociedade é uma associação de indivíduos governados por regras legais, ou tal-
vez uma associação de associações, mas não uma grande comunidade, ou uma
família, na concepção completamente errônea de Mario Cuomo e Pat Buchanan.

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Cap. 7 — A sociedade civil 123

As regras da família e do pequeno grupo não são — não podem ser — as regras
da sociedade ampliada.
A distinção entre indivíduo e comunidade pode levar a erros. Alguns críticos di-
zem que a comunidade envolve uma entrega da individualidade. Mas o fato de se
pertencer a um grupo não necessariamente diminui a individualidade; pode ampli-
ficá-la, libertando as pessoas dos limites que encontram como indivíduos solitários e
aumentando as oportunidades de atingir seus próprios objetivos. Tal visão de comu-
nidade requer que essas associações sejam voluntárias e não compulsórias.

Cooperação
Como os seres humanos não podem conseguir sozinhos grande parte daquilo que
desejam, eles cooperam com outras pessoas de diversas maneiras. A proteção do go-
verno aos direitos e à liberdade de ação cria um ambiente em que os indivíduos po-
dem buscar seus objetivos, seguros quanto a sua pessoa e propriedade. O resultado
é uma rede complexa de livres associações na qual as pessoas assumem e cumprem
voluntariamente obrigações e contratos.
A liberdade de associação ajuda a reduzir os conflitos sociais. Permite que os
membros da sociedade se vinculem e construam redes entrelaçadas de relações
pessoais. Muitas dessas relações atravessam fronteiras religiosas, políticas e étni-
cas. (Outras, é claro, como as associações étnicas e religiosas, unem pessoas num
determinado grupo.) O resultado é que pessoas diferentes e desconhecidas se
juntam numa comunidade. Tensões que de outro modo poderiam dividi-las são
compensadas por esses aspectos de ligação. Um católico e um protestante, que
poderiam entrar em conflito, encontram-se como vendedor e comprador no mer-
cado, como membros da mesma associação de pais e mestres, como participantes
de um time esportivo, onde também se encontram e se associam com muçulma-
nos, judeus, hindus, taoístas e agnósticos. Eles podem discordar sobre religião e até
crer que os outros estão cometendo um erro mortal, mas a sociedade civil ofere-
ce um espaço onde eles podem cooperar mútua e pacificamente. Uma matéria do
Washington Post sobre a crescente popularidade dos serviços religiosos no horário
do almoço começa dizendo: “Nas ruas, esses homens e mulheres são balconistas
e advogados, democratas e republicanos, urbanos e suburbanos. Aqui, são católi-
cos”. Uma história diferente poderia se iniciar assim: “Lá fora, esses homens e mu-
lheres são católicos e batistas, negros e brancos, homossexuais e heterossexuais,
casados e solteiros. Aqui eles são empregados da America Online”. Ou: “Aqui eles
são tutores de crianças carentes”. Em cada circunstância, pessoas que talvez não
se sintam à vontade participando de um grupo, em estreita comunidade com os
demais membros, podem se juntar a eles com um propósito específico, aprendendo
no processo, se não a abraçar, a coexistir.

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124 O Manifesto Libertário

Nenhuma pessoa fez surgir essa ordem complexa. Ninguém a planejou. Ela é pro-
duto de muitas ações humanas, mas de nenhum desígnio.

Responsabilidade pessoal e confiança


Em outro capítulo comentei a notável rede de confiança que me permite conseguir
dinheiro e automóveis em qualquer lugar no mundo. Se os críticos do libertarismo
estivessem certos, a sociedade comercial “atomista” não tenderia a reduzir os níveis
de confiança e cooperação que permitem que caixas automáticos deem dinheiro a
estranhos? Essa crítica comum é desmentida pelas evidências à nossa volta.
Se vamos buscar a felicidade entrando em acordo com outras pessoas, é importan-
te que sejamos capazes de confiar uns nos outros. Além da obrigação mínima de não
violar os direitos alheios, em uma sociedade livre temos somente as obrigações que
assumimos voluntariamente. Mas, quando assumimos obrigações firmando contra-
tos ou participando de associações, somos obrigados moral e legalmente a cumprir
nossa parte. Vários fatores asseguram que o façamos: nosso próprio senso de certo
e errado; nosso desejo de ter a aprovação alheia; exortação moral; e, quando neces-
sário, várias formas de cumprir essas obrigações, inclusive a recusa de outros a fazer
negócios com pessoas que falham nesse particular.
À medida que a sociedade se desenvolve e as pessoas querem assumir tarefas maio-
res, torna-se necessário ser capaz de confiar em mais pessoas. No começo, elas podiam
confiar somente em sua própria família ou nas pessoas de sua aldeia ou tribo. A ex-
tensão do círculo de confiança é um dos maiores avanços da civilização. Contratos e
associações desempenham um papel importante ao permitir que confiemos uns nos
outros.
Como o herói celebrado na canção, meu pai era um homem que podia tomar
dinheiro emprestado no banco apenas com sua própria palavra. Esse tipo de honra
e confiabilidade é essencial para os mercados e a civilização. Mas não é suficiente
em uma sociedade extensa. A boa reputação de meu pai não ia muito além da pe-
quena cidade onde vivíamos, e ele poderia ter tido problemas para conseguir um
empréstimo de imediato até mesmo por perto, a poucas cidades adiante, quanto
mais do outro lado do país ou do mundo. Mas eu, como observei acima, tenho
acesso instantâneo a dinheiro em espécie e a crédito em praticamente qualquer
lugar do mundo — não porque eu tenha uma reputação melhor do que a de meu
pai, mas porque o mercado livre desenvolveu instituições de crédito que se esten-
dem pelo mundo todo. Contanto que eu pague minhas contas, as complexas redes
financeiras da American Express, Visa e most me permitem conseguir bens, servi-
ços e dinheiro aonde quer que eu vá. Esses sistemas funcionam tão bem que nós os
consideramos coisa garantida, mas eles são realmente uma maravilha. Funcionam
em uma escala muito maior do que meus saques ou aluguéis de veículos, é claro.

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Cap. 7 — A sociedade civil 125

A combinação de instituições que atestam a credibilidade de um indivíduo e as


instituições legais que punem as violações de contrato, quando necessárias, tor-
nam possíveis vastos empreendimentos econômicos, do projeto e fabricação de
aviões à construção de um túnel sob o Canal da Mancha e a redes sociais mundiais
como a Facebook e Twitter.
À medida que o crédito se torna tão difundido e facilmente disponível, algumas
pessoas começam a pensar nele como um direito e ficam moralmente incomodadas
quando se nega crédito a alguém. Elas exigem a regulamentação de escritórios de
créditos, a supressão de informação sobre crédito ruim, limites às taxas de juros, e as-
sim por diante. Elas não entendem a importância crucial da confiança. Parecem não
perceber que as pessoas não querem emprestar seu dinheiro, duramente conseguido,
a altos riscos de crédito. Se informações confiáveis sobre crédito não estiverem dis-
poníveis, as taxas de juros vão subir para cobrir o aumento do risco. Se a informação
não for confiável o suficiente, a extensão do crédito vai parar de funcionar, ou o cré-
dito estará disponível somente mediante conexões familiares e pessoais, certamente
o oposto do que querem os críticos dos escritórios de crédito.
A rede de confiança e crédito se apoia em todas as instituições de uma sociedade
livre: direitos e responsabilidades individuais, direitos de propriedade seguros, li-
berdade de contrato, mercados livres e o estado de direito. Uma ordem complexa jaz
sobre uma fundação simples mas segura. Como na teoria do caos, uma equação não
linear simples pode produzir uma complexidade matemática sem fim, de modo que
as regras simples da sociedade livre podem produzir relações legais, econômicas e
sociais infinitamente complexas.

As dimensões da sociedade civil


Seria difícil descrever todas as formas que a sociedade civil assume em um
mundo complexo. Há mais de cem anos, Alexis de Tocqueville escreveu em De-
mocracia na América:

Americanos de todas as idades, condições e disposições


constantemente formam associações (...) para oferecer
entretenimento, fundar seminários, construir hospeda-
rias, formar igrejas, difundir livros, enviar missionários
ao outro lado do mundo; dessa maneira fundam hospi-
tais, prisões e escolas.

Hoje em dia pode-se pegar qualquer jornal diário e olhar os tipos de organizações nele
descritos: empresas, associações comerciais, associações étnicas e religiosas, associações
de moradores, grupos de música e teatro, museus, instituições de caridade, escolas e

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126 O Manifesto Libertário

outras. No dia em que comecei a escrever este capítulo, olhei o Washington Post.
Além de todos os grupos usuais que formam o pano de fundo das notícias de cada
dia, encontrei três histórias que me chamaram a atenção como exemplos da diversi-
dade da sociedade civil.
Na primeira página estava uma história sobre três famílias de subúrbio, em que
marido e mulher trabalham fora, que criaram um clube do jantar, no qual cada fa-
mília cozinha uma vez por semana uma refeição, que as outras duas pegam e levam
para casa. Dessa forma, as famílias ocupadas podem ter mais refeições caseiras do
que qualquer uma delas poderia produzir sozinha, no mundo frenético das famílias
em que ambos os pais trabalham. Talvez não tão comunitário quanto se as famílias
se sentassem juntas para comer, mas os participantes afirmavam ter uma sensação
de extensão da família: “Ficamos um na cozinha do outro e falamos sobre nossos
filhos”. Outra matéria discutia uma devota família batista que “tenta proteger seus
[seis filhos] das tentações e provações do mundo secular criando uma vida largamen-
te povoada por pessoas com valores e crenças similares”. A mãe educa os filhos em
casa e procura oferecer a eles jogos, vídeos e livros saudáveis, promove seu envolvi-
mento com outras crianças de sua igreja, em sua rede de conhecidos que educam os
filhos em casa e aproveita o interesse do filho mais velho por piano. Pode parecer que
essa família está se retirando da sociedade civil, mas creio que devemos ver a história
como um exemplo da diversidade que a sociedade civil permite, mesmo para os que
querem buscar um modo de vida diferente daquele que a maioria das pessoas na
sociedade desejam. Finalmente, uma terceira matéria contava sobre o grupo infantil
de brincadeiras que conectava cinco famílias havia dez anos. Não somente o grupo
oferecia parceiros de brincadeiras para as crianças como também as mães, alternan-
do-se no acompanhamento das crianças, podiam proporcionar umas às outras “al-
guns preciosos momentos de independência”. O autor concluía: “[Minha filha] não
se lembra de um tempo em que não conhecia os amigos de seu grupo, e eu mal me
lembro de quando não conhecia os meus. Os vínculos entre amigos são assim às ve-
zes; na ausência de familiares próximos, eles podem ser os que mais nos amparam”.

Caridade e ajuda mútua


Instituições de caridade são um aspecto importante da sociedade civil. São o foco
da citação de Tocqueville acima. As pessoas têm um desejo natural de ajudar os me-
nos afortunados e formam associações para fazer isso, de cozinhas de sopa locais e
bazares de igreja a complexos empreendimentos nacionais e internacionais, como a
United Way, o Exército de Salvação, Médicos sem Fronteiras e Save the Children.
Os americanos gastam cerca de 150 bilhões de dólares em caridade todos os anos.
Os críticos do libertarismo afirmam: “Vocês querem abolir programas go-
vernamentais essenciais sem pôr nada no lugar”. Mas a ausência de programas

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Cap. 7 — A sociedade civil 127

coercitivos do governo decididamente não é “nada”. É uma economia em cresci-


mento, é a iniciativa e criatividade individual de milhões de pessoas e milhares de
associações que se estabelecem para atingir propósitos comuns. Que espécie de
análise social é essa que olha para uma sociedade complexa como a americana e não
vê “nada” além do que o governo faz?
A caridade tem um papel importante na sociedade livre. Mas não é “a” resposta
para a pergunta sobre como uma sociedade livre vai ajudar os pobres. A primeira
resposta a essa pergunta é que, por meio do dramático aumento e disseminação da
riqueza, uma economia livre alivia e até elimina a pobreza. Pelos padrões históricos,
mesmo as pessoas pobres nos Estados Unidos e na Europa são muito ricas. O fabulo-
so palácio de Versalhes não tinha esgoto; as laranjeiras no terreno eram uma tentati-
va de encobrir o fedor. Gorman Beauchamp, da Universidade de Michigan, escreveu
na revista American Scholar, em 1995, sobre a abundância que os mercados livres e a
tecnologia moderna produziram:

[Um filme] sobre a vida da imperatriz Wu, equivalente


chinesa de Catarina, a Grande (...) começava com um
mensageiro cavalgando furiosamente para entregar um
pacote obviamente valioso a outro mensageiro, que dis-
para para a próxima estação para dar o pacote a outro
mensageiro — e assim por diante pelo norte da China até
Pequim e finalmente até o Palácio Imperial. O conteúdo
do pacote, trazido com tanto esforço dos picos distantes
das montanhas, é então revelado como... gelo. Gelo para
resfriar as bebidas da imperatriz.
O que me marcou tanto a respeito dessa cena, me lembro,
foi a percepção de que eu poderia ter, a qualquer momen-
to, todo o gelo que quisesse simplesmente abrindo a porta
de minha geladeira. Nesse aspecto, como em incontáveis
outros, o nível de conforto material de minha vida —
uma pessoa jovem, sem nenhuma importância, vivendo
de uma modesta bolsa acadêmica — era marcadamente
superior ao de um poderoso imperador da China...
Tenho mais calor no inverno (com o aquecimento cen-
tral) e mais frescor no verão (com o ar-condicionado) do
que ele; obtenho mais e melhores informações, com mais
rapidez e credibilidade, do que ele; posso chegar a qual-
quer lugar em menos tempo e com mais conforto; sinto
(muito provavelmente) menos dor, por menos tempo, e

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128 O Manifesto Libertário

tenho atenção médica superior; vejo bem por mais tem-


po (com lentes bifocais), tenho dentes melhores (com
flúor) e um dentista que usa novocaína; e se ele tinha um
pássaro dourado cantando para ele — certo, certo, esse
era o imperador bizantino —, eu tenho Rosa Ponselle
ou Ezio Pinza ou Edith Piaf [para os leitores mais jovens,
podemos adicionar os Rolling Stones, o Grateful Dead ou
Alanis Morrissette] ou qualquer um entre literalmente as
centenas de intérpretes cuja voz tenho em minhas pratelei-
ras e posso convocar com o apertar de alguns botões.

Não devemos perder de vista a pobreza universal e o árduo trabalho braçal que os
mercados livres eliminaram. Mas, por padrões contemporâneos, é claro, milhões de
americanos vivem numa pobreza que é menos material do que espiritualmente mortal:
marcada por um sentimento de desesperança. Então, a segunda resposta à pergunta é
que o governo deve parar de encurralar as pessoas na pobreza e impedi-las de escapar.
Tributos e regulamentações eliminam empregos, especialmente para os menos capa-
citados, e o sistema de assistência social possibilita a maternidade fora do casamento e
dependência por longo prazo. Uma terceira resposta é a ajuda mútua: pessoas se asso-
ciando não para ajudar os menos afortunados, mas para ajudar umas às outras em tem-
pos de dificuldades. Vou abordar o crescimento econômico, o assistencialismo estatal
e a caridade nos próximos capítulos, mas aqui quero enfocar a ajuda mútua.
A ajuda mútua tem uma longa história — e de maneira alguma limitada ao Oci-
dente. As primeiras corporações de ofício, antes de se tornarem os monopólios sem
sentido que todos os estudantes de história medieval conhecem, eram associações
para ajuda mútua entre pessoas da mesma ocupação. No costume africano do susu,
as pessoas contribuíam com certa quantia para um pote, e quando o fundo chegava
a um certo montante os membros alternadamente o recolhiam. Como escreveu o
economista ganês George Ayittey, “Se o ‘primitivo’ sistema de susu fosse introduzido
nos Estados Unidos, iria se chamar cooperativa de crédito”. Ou, se isso fosse feito por
americanos de origem coreana, talvez se chamasse keh, um grupo de pessoas que se
reúnem uma vez por mês para jantar, conviver socialmente, aconselhar e contribuir
com dinheiro para um pote comum, dado a cada mês a um dos participantes.
A historiadora Judith M. Bennett escreveu na edição de fevereiro de 1992 de Past
and Present sobre os ales da Grã-Bretanha medieval e moderna, eventos nos quais as
pessoas se reuniam para beber, dançar e jogar, pagando preços acima do mercado
para ajudar um vizinho; havia ales das igrejas, para ajudar a levantar dinheiro para
a paróquia; ales de noiva, para dar o impulso inicial a um casal recém-casado; e ales
de assistência, para ajudar aqueles que estavam enfrentando dificuldades. Bennett

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Cap. 7 — A sociedade civil 129

considera os ales um exemplo de como pessoas comuns “procuravam não somente


os ‘de melhor condição’ para obter ajuda, mas também uns aos outros”, uma “insti-
tuição social por meio da qual vizinhos e amigos se ajudavam em tempos de crise ou
necessidade”. Os ales reafirmavam a solidariedade social entre os trabalhadores. Ge-
ralmente requeriam esforços ativos da pessoa necessitada, e as contribuições depen-
diam do grau em que ela era considerada merecedora. Diferentemente da caridade,
os ales envolviam uma relação entre iguais: “Ao fundir esmolas com sociabilidade
e comércio, os ales de caridade minimizavam o potencial divisório da pobreza e da
caridade na sociedade”. Havia também um sentimento de reciprocidade entre “as
pessoas que poderiam razoavelmente esperar tanto contribuir quanto se beneficiar
de ales de caridade no curso de sua vida”.
Um exemplo mais moderno de ajuda mútua — que até recentemente passou pra-
ticamente despercebido entre os historiadores que estudam a pobreza, caridade e
assistência estatal — é o papel das sociedades fraternas e amistosas. David Green,
do Institute of Economic Affairs, em Londres, descreve as maneiras como os tra-
balhadores braçais britânicos formavam “sociedades amigáveis”, que consistiam em
associações autogovernadas para benefício mútuo. Os indivíduos participavam e
contribuíam para o grupo, comprometendo-se a ajudar uns aos outros em tempos
difíceis. Como eram associações mútuas, os pagamentos recebidos — auxílio-doen-
ça, assistência médica, despesas fúnebres e benefícios de pensionistas — eram “não
uma questão de generosidade, mas de direito, conquistado pelas contribuições regu-
lares pagas a um fundo comum por todos os membros e justificada pela obrigação de
fazer o mesmo pelos outros membros”. Algumas sociedades eram apenas clubes de
vizinhos, mas outras envolviam federações nacionais com centenas de milhares de
membros e extensos investimentos. Em 1801 estimava-se que havia 7.200 socieda-
des na Grã-Bretanha, com 648 mil membros, homens adultos, de uma população to-
tal de 9 milhões. Por volta de 1911, havia 9 milhões de pessoas cobertas por seguros
de associações voluntárias, mais de dois terços das quais em sociedades amigáveis.
Tinham nomes como Manchester Unity of Oddfellows, Ancient Order of Foresters
e Workingmen’s Conservative Friendly Society.
As sociedades amigáveis tinham um importante propósito econômico: oferecer
a seus membros seguro em grupo contra doenças, envelhecimento e morte. Mas
serviam também a outros propósitos, como companheirismo, entretenimento e am-
pliação da rede de contatos de cada um. Mais importante ainda, os membros da so-
ciedade se sentiam unidos por ideais comuns. Um propósito central era a promoção
de bom caráter. Eles entendiam que o desenvolvimento de bons hábitos não é fácil;
muitos de nós achamos útil ter apoio externo para nossas boas intenções. Muitos
o encontram em igrejas e sinagogas; os Alcoólicos Anônimos o oferecem para um
aspecto específico do bom caráter: a sobriedade. Outro benefício das sociedades

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130 O Manifesto Libertário

amigáveis era que os trabalhadores podiam adquirir experiência em gerir uma orga-
nização, uma oportunidade rara na sociedade classista britânica.
O historiador David Beito fez uma pesquisa similarmente pioneira sobre as so-
ciedades fraternas americanas, como os Masons, Elks, Odd Fellows e Knights of
Pythias. Beito escreve:

Somente as igrejas rivalizavam com as sociedades frater-


nas como provedoras institucionais de assistência social
antes do advento do estado de bem-estar social. Em 1920,
cerca de 18 milhões de americanos pertenciam a uma so-
ciedade fraterna, isto é, quase 30% de todos os adultos.

Um artigo de 1910 na Everybody’s Magazine explicava: “Os ricos fazem seguro nas
grandes companhias para construir um patrimônio, os pobres, nas ordens fraternas,
para produzir pão e carne. É um seguro contra a necessidade, contra o abrigo para
pobres, a caridade e a degradação”. Note-se a aversão à caridade: as pessoas se asso-
ciavam a sociedades fraternas para que pudessem prover mutuamente suas neces-
sidades em tempos de infortúnio e não ser forçadas à indignidade de apelar para a
caridade alheia.
No início, os seguros fraternais se centravam no benefício do sobrevivente. No
começo do século XX, muitas ordens estavam oferecendo também seguros con-
tra doença e acidentes. Um aspecto interessante dos seguros fraternais é o modo
como eles superam o problema do risco moral de que as pessoas venham a se apro-
veitar do sistema. Ao lidar com uma agência do governo ou uma distante compa-
nhia seguradora, um indivíduo talvez se sinta tentado a fingir que está doente, ou
reclamar benefícios exagerados para problemas menores ou inexistentes. Mas o
sentimento de comunidade com outros membros da ordem fraterna e o desejo de
ter a aprovação dos companheiros diminui a tentação de trapacear. Beito sugere
que é por isso que sociedades fraternas “continuaram a dominar o mercado do
seguro contra doenças muito depois de ter perdido o poder de concorrência na
área dos seguros de vida” — em que as fraudes são um pouco mais problemáticas.
Em 1910, seguros de saúde fraternais incluíam tratamento com um “médico do
abrigo”, que era contratado para oferecer atenção médica a todos os membros por
um preço fixo.
Os imigrantes formaram muitas sociedades fraternas, tais como a National Slo-
vak Society, a Croatian Fraternal Union, a Polish Falcons of America, a United
Societies of the USA for Russian Slovaks. Grupos judeus incluíam o Arbeiter Ring,
a American-Hebrew Alliance, o National Council of Jewish Women, o Hebrew
Immigrants Aid Society e outras. Em 1918, havia mais de 150 mil membros nas

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Cap. 7 — A sociedade civil 131

maiores associações tcheco-americanas. Springfield, no estado de Illinois, com


três mil habitantes italianos em 1910, tinha uma dúzia de sociedades italianas.
Em seu estudo de referência de 1944, An American Dilemma [Um dilema america-
no], o economista sueco Gunnar Myrdal afirmou que americanos negros de todas as
classes tinham ainda mais chances do que brancos de se associar a ordens fraternais
como a Prince Hall Masons, True Reformers e Grand United Order of Galilean
Fishermen, além de versões paralelas da Elks, Odd Fellows e Knights of Pythias.
Ele estimou que em Chicago mais de quatro mil associações foram formadas
pelos 275 mil negros da cidade. Em 1910, o sociólogo Howard W. Odum estimou
que, no Sul, o “pertencimento total a sociedades negras, pagantes e não pagantes é
quase igual ao pertencimento total a igrejas”. As sociedades fraternas, disse, eram
uma “parte vital” da “vida comunitária [dos negros], frequentemente seu centro”.
Assim como as sociedades britânicas, as sociedades fraternas americanas enfa-
tizavam um código de ética e as mútuas obrigações de cada membro perante os
outros. O historiador Don H. Doyle, em The Social Order of a Frontier Community
[A ordem social de uma comunidade fronteiriça], descobriu que a pequena cidade
de Jacksonville, em Illinois, tinha “dúzias (...) de abrigos fraternais, sociedades de
reforma dos bons costumes, clubes literários e companhias de bombeiros”, e que os
abrigos punham em prática “uma ampla disciplina moral que afetava o comporta-
mento pessoal em geral e a temperança em particular, questões intimamente liga-
das ao importantíssimo problema da obtenção de crédito”.
Companheirismo e solidariedade desencorajavam os membros a reclamar be-
nefícios sem causa justa, mas as sociedades também tinham regras e práticas para
assegurar adesão a elas. As regras da Western Miners’ Federation, de orientação
socialista, negavam benefícios aos membros quando “a doença ou acidente for cau-
sado por intemperança, imprudência ou conduta imoral”. O Sojourna Lodge of the
House of Ruth, a maior organização voluntária de mulheres negras no início do
século, exigia que seus membros apresentassem um atestado médico autenticado
para reclamar benefícios médicos e dispunha ainda de um comitê para doenças,
destinado tanto a apoiar quanto a investigar os membros doentes.
Associações fraternas também ajudavam as pessoas a lidar com a crescente mo-
bilidade na sociedade. Algumas das sociedades britânicas de múltiplas sedes ofere-
ciam a seus membros alojamento quando iam para outras cidades a fim de procurar
trabalho. Doyle descobriu que

para o membro em trânsito, um cartão dos Odd Fellows


ou dos Masons era mais do que um ingresso de readmissão
em outro alojamento. Era também um certificado portá-
til do status e reputação conquistado em sua comunidade

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132 O Manifesto Libertário

anterior e lhe dava acesso a toda uma nova rede de negó-


cios e contatos sociais.

Os críticos afirmam frequentemente que as soluções libertárias para os proble-


mas sociais são fantásticas. “Eliminar a rede de segurança do governo e simples-
mente ter esperança de que igrejas, casas de caridade e grupos de ajuda mútua vão
se expandir para preencher o vazio?” A resposta vem em duas partes. Sim, esses
grupos vão emergir; eles sempre emergiram. Mas, mais importante, a existência
da rede de segurança do governo e dos maciços tributos que a alimentam tomou o
lugar de tais esforços. As formas que toma a ajuda mútua são inúmeras, de grupos
de brincadeiras e clubes de jantares a associações comerciais e vigilâncias comuni-
tárias. Elas diminuíram dramaticamente não pelo ingresso das mulheres na força
de trabalho, nem porque a televisão toma todo o nosso tempo livre, mas por causa
da expansão do governo.

O governo e a sociedade civil


A proteção governamental aos direitos individuais é vital para a criação de um
espaço em que as pessoas possam se dedicar a seus muitos e variados interesses, em
voluntária associação umas com as outras. Quando o governo se expande para além
desse papel, porém, ele invade o domínio da sociedade civil. Assim como os pedidos
de empréstimo do governo “expulsam” os pedidos particulares, a atividade do gover-
no em qualquer campo expulsa a atividade voluntária (inclusive a comercial).
Da Era do Progresso em diante, o estado tem perturbado cada vez mais as co-
munidades naturais e instituições mediadoras nos Estados Unidos. Escolas públi-
cas substituíram as escolas privadas das comunidades, e distritos escolares grandes,
distantes e inadministráveis substituíram os de menor porte. A previdência social
não só removeu a necessidade de economizar para a própria aposentadoria como en-
fraqueceu os laços familiares, ao diminuir a dependência que os pais têm dos filhos.
Leis de zoneamento reduziram a disponibilidade real da habitação acessível, limita-
ram as oportunidades para que famílias numerosas vivam juntas e tiraram as lojas de
varejo das vizinhanças residenciais. Regulamentações exigindo creches no ambiente
de trabalho reduziram o tempo de permanência das crianças em casa. Todas essas
são maneiras como a sociedade civil foi massificada pelo estado.
O que se passa com as comunidades enquanto o estado se expande? O estado de
bem-estar social assume as responsabilidades dos indivíduos e comunidades e, no
processo, subtrai muito do que traz satisfação a nossa vida: se é papel do governo
alimentar os pobres, então a caridade local não é necessária. Se uma burocracia esta-
tal no centro da cidade administra as escolas, então as organizações de pais perdem
importância. Se agências governamentais gerem o centro comunitário, dão às crian-

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Cap. 7 — A sociedade civil 133

ças lições sobre sexo e cuidam dos idosos, então as famílias e associações de morado-
res se sentem menos necessárias.

De caridade e ajuda mútua ao estado de bem-estar social


A caridade e a ajuda mútua foram particularmente invadidas pela expansão do es-
tado. Judith Bennett nota que já no século XIII “oficiais reais e eclesiásticos tinham
ordenado a eliminação das scot-ales”. No século XVII, a oposição era mais séria por
causa de uma campanha generalizada contra a cultura tradicional, uma tendência
na direção de um controle mais centralizado da caridade, e o desenvolvimento de
assistência aos pobres financiada por tributos.
Na discussão sobre sociedades fraternais acima, os leitores talvez tenham se
perguntado: se essas sociedades eram tão boas, onde estão elas agora? Muitas
continuam por aí, é claro, mas têm menos membros e menor estatura na sociedade,
pelo menos em parte porque o estado assumiu suas funções. David Green escreve:
“Foi no pico de sua expansão que o estado interveio e transformou as sociedades
amigáveis ao introduzir o seguro de saúde nacional compulsório”. Nacionalizada sua
função maior, as sociedades atrofiaram. Beito apurou que as seguradoras fraternais
americanas foram obstruídas por leis de exercício profissional de medicina que im-
pediam a contratação dos “médicos de abrigo”, por proibições legais a certas formas
de seguro e pelo crescimento do estado de bem-estar social. À medida que os esta-
dos e o governo federal foram criando seguros contra acidente de trabalho, auxílio a
mães solteiras e previdência social, a necessidade de sociedades de ajuda mútua di-
minuiu. Uma parte do impacto pode ter sido involuntário, mas o presidente Theodo-
re Roosevelt criou objeções contra as sociedades fraternas dos imigrantes, dizendo:
“O próprio povo americano deve fazer [note-se o pronome coletivo] essas coisas para
os imigrantes”. Até o historiador Michael Katz, um defensor do estado de bem-estar
social, concorda em que as iniciativas de bem-estar federais “podem ter enfraquecido
[essas] redes de apoio nos centros metropolitanos, transformando a experiência da
pobreza e fomentando o aumento do número de sem-teto”.
O governo continua tomando o lugar de instituições de caridade. O Exército de
Salvação opera vinte abrigos para sem-teto em Detroit, mas em 1995 a cidade apro-
vou uma lei para licenciar e regulamentar alojamentos para os sem-teto. A lei reque-
ria que todos os membros da equipe fossem treinados, que todos os cardápios tives-
sem a aprovação de um nutricionista registrado, que se guardassem as medicações
em um depósito trancado, que o abrigo averiguasse a idade das pessoas atendidas e
assegurasse que todas as crianças fossem à escola. Todas boas ideias, mas o encarre-
gado do Exército de Salvação diz: “Todas essas exigências custam dinheiro, e nosso
orçamento é de 10 dólares por dia por pessoa”. O que vai acontecer? Alguns abrigos
provavelmente vão fechar, e então ou os sem-teto vão morar em prédios abandonados

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134 O Manifesto Libertário

e caixas de papelão ou haverá pressão para que Detroit gaste ainda mais dinheiro na
construção de abrigos municipais. E os voluntários do Exército de Salvação terão
menos oportunidade de ajudar.
Burocratas do Texas exigiram que um bem-sucedido programa de reabilitação
de viciados em drogas chamado Teen Challenge cumprisse as regulamentações
estatais quanto aos registros, padrões de manutenção dos abrigos e especialmente
ao uso de terapeutas licenciados em vez de seu programa religioso, gerido muitas
vezes por ex-alcoólatras e viciados reabilitados. O Teen Challenge não recebe aju-
da do governo, e um estudo do Departamento de Saúde e Serviços Humanos des-
cobriu que ele era tanto o melhor quanto o mais barato programa de reabilitação
entre os examinados. Mas em 1995 o estado do Texas ordenou que o programa do
sul do estado fosse fechado ou pagasse uma multa de 4 mil dólares por dia. O Teen
Challenge levou os burocratas à justiça, com o custo de no mínimo ter dirigido
parte de seus escassos recursos de tempo e dinheiro para lutar por permissão para
continuar funcionando.
Qual é o custo para nossa sociedade ver o governo assumir cada vez mais papéis
que costumavam ser desempenhados por indivíduos e comunidades? Tocqueville
nos alertou quanto ao que poderia acontecer:

Assim, após ter sucessivamente tomado e modelado à


vontade cada membro da comunidade em suas podero-
sas garras, o poder supremo então estende seu braço so-
bre toda a comunidade. Cobre a superfície da sociedade
com uma rede de complicadas regrinhas, minuciosas e
uniformes, através das quais as mentes mais originais e
as disposições mais enérgicas não podem penetrar para
se erguer acima da multidão. A vontade do homem não
é esmigalhada, mas amaciada, curvada e guiada: os ho-
mens dificilmente são forçados a agir, mas são constante-
mente impedidos de agir: tal poder não destrói, mas im-
pede a existência; não tiraniza, mas comprime, enerva,
extingue e estupidifica um povo até que cada nação fique
reduzida a não mais do que um bando de tímidos e indus-
triosos animais, dos quais o governo é o pastor.

Como afirmou Charles Murray, “Quando o governo retira uma função essencial
[das comunidades], isso empobrece não só a fonte de vitalidade pertencente àquela
função particular, mas também a vitalidade de um conjunto muito maior de respos-
tas”. A atitude de “deixe que o governo cuida disso” se torna um hábito.

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Cap. 7 — A sociedade civil 135

Em seu livro In Pursuit: Of Happiness and Good Government [Em busca: da feli-
cidade e de um bom governo], Murray relata algumas evidências de que a depen-
dência do governo de fato substitui a ação privada. Ele descobriu que, dos anos
1940 até 1964, a percentagem da renda americana cedida a causas filantrópicas au-
mentou — como se poderia esperar, dado que a renda estava subindo e as pessoas
provavelmente se sentiam aptas a fazer mais pelos outros. “Então, subitamente, no
período de 1964-1965, no meio de uma explosão econômica, essa tendência firme
se reverteu.” Embora a renda tivesse continuado a crescer (a grande desacelera-
ção do crescimento econômico não começou senão em 1973), a percentagem da
renda doada para causas filantrópicas diminuiu. Em 1981, durante uma recessão,
a tendência de repente se reverteu, e as contribuições em percentagem da renda
aumentaram enormemente. O que aconteceu? Murray sugere que quando a Gran-
de Sociedade começou, em 1964-1965, com o presidente Lyndon Johnson procla-
mando que o governo federal ia promover uma Guerra à Pobreza, talvez as pessoas
tenham achado que suas contribuições não fossem tão necessárias. Mas em 1981
o presidente Ronald Reagan assumiu o cargo, prometendo reduzir os gastos do
governo; talvez então as pessoas tenham pensado que, se o governo não ia ajudar
os pobres, era melhor que elas o fizessem.

A formação do caráter
Um governo expansivo destrói mais do que instituições e contribuições filantró-
picas; enfraquece o caráter moral necessário tanto para a sociedade civil quanto para
a liberdade sob a lei. As “virtudes burguesas” de trabalho, temperança, sobriedade,
prudência, fidelidade, autonomia e preocupação com a própria reputação se desen-
volveram e perduraram porque elas são as virtudes necessárias para o progresso em
um mundo no qual comida e abrigo devem ser produzidos e as pessoas são respon-
sáveis por sua prosperidade. O governo não pode fazer muito para incutir essas vir-
tudes nas pessoas, mas pode fazer muito para miná-las. Como David Frum nota em
Dead Right [Certíssimo],

Por que ser frugal quando sua velhice e saúde já estão


garantidas, não importa quão libertinamente você tenha
agido em sua juventude? Por que ser prudente quando o
estado assegura seus depósitos bancários, substitui sua
casa destruída por uma enchente, compra todo o trigo
que você puder cultivar e o resgata quando você se perde
em uma zona de combate estrangeira? Por que ser dili-
gente quando metade de seu salário é tomada de você e
dada a quem não trabalha? Por que ser sóbrio quando os

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136 O Manifesto Libertário

contribuintes financiam clínicas para curá-lo de seu vício


assim que ele já não o diverte?

Frum resume o impacto do governo no caráter individual como “a emancipação


do indivíduo das restrições que lhe são impostas por recursos limitados, ou temor
religioso, desaprovação da comunidade, risco de doença ou catástrofe pessoal”.
Agora se poderia supor que o verdadeiro objetivo do libertarismo é a emancipação
do indivíduo, e de fato é — mas a emancipação do indivíduo de impedimentos ar-
tificiais e coercitivos às suas ações. Os libertários nunca sugeriram que as pessoas
devem ser “emancipadas” do mundo real, da obrigação de arcar com os próprios cus-
tos e assumir a responsabilidade pelas consequências de suas próprias ações. Como
questão moral, os indivíduos devem estar livres para tomar suas próprias decisões
e obter sucesso ou fracasso de acordo com suas próprias escolhas. Como questão
prática, como Frum observa, quando protegemos as pessoas das consequências de
suas ações, temos uma sociedade caracterizada não por temperança, sobriedade, di-
ligência, autonomia e prudência, mas por libertinagem, intemperança, indolência,
dependência e indiferença pelas consequências.
Para voltar à imagem com que abrimos o capítulo 4 — a possibilidade de sacar
dinheiro e alugar carros em todo o mundo —, a necessidade humana de cooperação
ajudou a criar vastas e complexas redes de confiança, crédito e troca. Para que essas
redes funcionem, precisamos de muitas coisas: disposição por parte da maioria das
pessoas para cooperar com os outros e manter suas promessas, a liberdade de se recu-
sar a fazer negócios com aqueles que não cumprem seus compromissos, um sistema
legal que imponha o cumprimento dos contratos e uma economia de mercado que
nos permita produzir e trocar bens e serviços com base em direitos de propriedade
seguros e consentimento individual. Essa estrutura permite que as pessoas desenvol-
vam uma sociedade civil diversificada e complexa para atender a uma incrível varie-
dade de necessidades.

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Capítulo 8

O processo de mercado

Q
uando vou ao supermercado, encontro uma verdadeira cornucópia de ali-
mentos — de leite a pão, da Wolfgang Puck’s Spago Pizza a kiwis frescos da
Nova Zelândia. O supermercado médio dos dias de hoje tem 30 mil itens,
o dobro do número de apenas dez anos atrás. Como a maioria dos consumidores,
tomo essa abundância como uma coisa natural. No meio desse festival culinário,
paro e digo algo do tipo: “Não acredito que este buraco não tem Coca-cola diet
sabor cereja em lata!”.
Mas como é que acontece essa maravilha? Como é que eu, que não conseguiria
encontrar uma fazenda nem com um mapa, posso ir a uma loja a qualquer momento
do dia e esperar encontrar toda a comida que eu quiser, em pacotes convenientes e
prontos para compra, com mais peru no fim do ano e mais limonada no alto verão?
Quem planeja esse complexo empreendimento?
O segredo, obviamente, é justamente que ninguém o planeja; ninguém conseguiria
planejá-lo. O supermercado moderno é um exemplo corriqueiro mas certamente impres-
sionante da ordem espontânea infinitamente complexa conhecida como mercado livre.
O mercado surge do fato de que os seres humanos conseguem mais coisas em
cooperação com os outros do que individualmente e de que somos capazes de per-
ceber isso. Se pertencêssemos a uma espécie para a qual a cooperação não fosse mais
produtiva do que o trabalho isolado, ou se não pudéssemos distinguir os benefícios
da cooperação, então não apenas ficaríamos atomizados e isolados como, conforme
explica Ludwig von Mises, “Cada homem teria sido forçado a ver todos os outros
homens como seus inimigos; o desejo pela satisfação de seus apetites o teria levado a
um conflito implacável com todos os vizinhos”. Sem a possibilidade de obter benefí-
cio mútuo com a cooperação e a divisão do trabalho, nem sentimentos de empatia ou
de amizade, nem a própria ordem do mercado poderiam surgir. Aqueles que dizem
que os seres humanos são “feitos para cooperar e não competir” não percebem que o
mercado é colaboração. (Na verdade, ele nada mais é do que gente competindo para
cooperar melhor!)
137

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138 O Manifesto Libertário

O economista Paul Heyne faz a seguinte comparação de planejamento e ordem


espontânea: há três grandes aeroportos na área da baía de São Francisco. Todos os
dias milhares de aviões decolam desses aeroportos, cada um para um destino dife-
rente. Colocá-los todos no ar e de volta em terra sem colidir um com o outro é uma
tarefa incrivelmente complexa, e o sistema de controle do tráfego aéreo é uma mara-
vilha de organização sofisticada. Mas, na mesma área, também todos os dias, há gen-
te fazendo milhares de vezes mais viagens de carro, com pontos de origem, destinos
e “planos de voo” muito mais individualizados. Esse sistema, a coordenação de mi-
lhares de viagens de carro, é complexo demais para ser gerido por qualquer controle
de tráfego aéreo, então precisamos deixá-lo operar espontaneamente, de acordo com
algumas regras específicas: dirigir à direita, parar no sinal fechado, dar a preferên-
cia ao virar à esquerda. Há acidentes, certamente, e engarrafamentos — muitos dos
quais poderiam ser aliviados se as estradas fossem construídas e operadas de acordo
com os princípios do mercado —, mas a questão é que seria simplesmente impossível
planejar e conscientemente coordenar todas essas viagens. Assim, contrariamente a
uma primeira impressão, são precisamente os sistemas menos complexos que podem
ser planejados e os mais complexos que devem se desenvolver espontaneamente.
Muitas pessoas aceitam que os mercados são necessários, mas têm o sentimento de
que há algo vagamente imoral a respeito deles. Temem que os mercados levem à desi-
gualdade, ou desgostam do interesse próprio neles refletido. Os mercados são frequente-
mente considerados “brutais” ou baseados no “cada um por si”. Mas, como este capítulo
vai demonstrar, os mercados não são apenas essenciais para o progresso econômico, são
mais consensuais e levam a mais virtude e igualdade do que à coerção do governo.

Informação e coordenação
Os mercados se baseiam no consentimento. Nenhuma empresa envia uma fatura
de um produto que você não pediu, como ocorre com os formulários do imposto de
renda. Nenhuma empresa pode forçar você a fazer negócio com ela. As empresas
tentam descobrir aquilo que você quer e então o oferecem a você. Pessoas que estão
tentando ganhar dinheiro vendendo alimentos, ou carros, computadores, máquinas
para fabricar carros e computadores, precisam saber o que os consumidores querem
e quanto eles estão dispostos a pagar. Onde conseguem essa informação? Não está
em um grande livro. Em uma economia de mercado, ela não se inclui nas disposições
de uma agência de planejamento (embora, claro, em teoria, nas economias socialis-
tas os produtores de fato ajam sob ordens superiores).

Preços
Essa informação vital sobre os desejos de outras pessoas está incorporada nos
preços. Os preços não nos dizem apenas quanto algo custa na loja. O sistema de

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Cap. 8 — O processo de mercado 139

precificação agrega toda a informação disponível na economia sobre aquilo que cada
pessoa deseja, que valor atribui a que artigo seja e qual a melhor maneira de produzi-
-lo. Os preços tornam essa informação útil para produtor e consumidor. Cada preço
contém em si informações sobre a demanda do consumidor e os custos de produção,
indo da quantidade de trabalho necessária para produzir o item ao custo desse tra-
balho, passando pelo mau tempo do outro lado do mundo que está aumentando o
preço das matérias-primas necessárias para produzir o bem. Em vez de termos que
saber todos os detalhes, nos deparamos com um único número: o preço.
Os preços de mercado dizem aos produtores quando uma coisa não pode ser pro-
duzida por um custo menor do que os consumidores estão dispostos a pagar por ela.
O custo real de qualquer coisa não está no preço em dinheiro; está no que poderia ter
sido feito com aqueles recursos em vez daquilo. O custo para ler este livro é qualquer
outra coisa que você poderia ter feito com o tempo que empregou nisso: ter ido ao
cinema, dormido até mais tarde, lido um livro diferente ou limpado a casa. Os 15
dólares do custo de um CD é qualquer coisa que você poderia ter feito com esse di-
nheiro. Cada uso do tempo ou de outros recursos para produzir um bem incorre em
um custo, que os economistas chamam de custo de oportunidade. Esse recurso não
pode ser usado para produzir mais nada.
As informações que os preços fornecem permitem que as pessoas trabalhem jun-
tas para produzir mais. O objetivo de uma economia não é apenas produzir mais
coisas; é produzir mais coisas que as pessoas queiram. Os preços dizem a todos nós o
que as outras pessoas querem. Quando o preço de um bem sobe, tendemos a reduzir
nosso consumo desse bem. Alguns de nós calculamos se poderíamos passar a ganhar
dinheiro produzindo esse bem. Quando o preço (isto é, o pagamento ou salário) de
um certo tipo de trabalho sobe, ponderamos se deveríamos passar a trabalhar nesse
campo. Os jovens geralmente se preparam para trabalhar em empregos que estão
começando a pagar mais, e desistem dos treinamentos voltados para empregos cuja
remuneração está diminuindo.
Em qualquer economia mais complexa do que a de uma aldeia — talvez até mesmo
mais complexa do que a de uma família nuclear — é difícil saber exatamente o que
cada um quer, o que pode fazer e o que está disposto a fazer e a que preço. Na família,
amamos uns aos outros, e temos conhecimento íntimo das capacidades, necessidades
e preferências de cada um, de modo que não precisamos de preços para determinar o
que cada pessoa vai oferecer ou receber. Além da família, é bom que tenhamos uma
atitude benevolente com as outras pessoas. Mas não importa quanto pregadores e
professores nos exortem a amar uns aos outros, nunca vamos amar cada indivíduo na
sociedade tanto, ou conhecer suas necessidades tão bem, quanto as pessoas de nossa
família. O sistema de preços reflete as escolhas de milhões de produtores, consumi-
dores e detentores de recursos que talvez nunca se encontrem ou coordenem seus

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140 O Manifesto Libertário

esforços. Embora não possamos sentir afeição por — e nem mesmo encontrar — to-
das as pessoas na economia, os preços de mercado nos ajudam a trabalhar juntos para
produzir mais das coisas que as pessoas querem.
Diferentemente do governo, que no máximo faz a vontade da maioria (e mais fre-
quentemente age motivado pela pressão de um pequeno grupo) e a impõe a todos,
os mercados usam os preços para deixar que vendedores e compradores decidam
livremente o que querem fazer com seu dinheiro. Ninguém tem dinheiro para ter
tudo, e algumas pessoas podem ter muito mais que outras, mas cada pessoa é livre
para gastar seu dinheiro como quiser. E se 51% das pessoas gostam de carros pretos,
ou de Barry Manilow, os dissidentes estão livres para comprar outra coisa; eles não
precisam organizar um movimento político para conseguir que o país inteiro mude
para carros azuis ou para Willie Nelson.

Competição
Todo esse discurso sobre a maravilha de coordenação não deve deixar a impressão
de que os processos de mercado não são competitivos. Nossos planos individuais es-
tão sempre em conflito com os das outras pessoas; planejamos vender nossos serviços
ou bens para certos consumidores, mas há outras pessoas que também estão preten-
dendo vender para os mesmos consumidores. É exatamente por meio da competição
que aprendemos como as coisas podem ser produzidas pelo menor custo, descobrindo
quem vai nos vender matérias-primas ou mão de obra pelo menor preço.
A questão econômica básica é como combinar todos os recursos na sociedade, in-
clusive o esforço humano, para produzir o melhor resultado possível — não o maior
peso de aço, ou a quantidade maior de computadores, nem os filmes mais emocio-
nantes, mas a combinação de resultados que mais vai satisfazer às pessoas. Queremos
produzir o máximo possível de cada bem que as pessoas queiram, mas não tanto que
chegue a ser mais vantajoso produzir outra coisa. Os preços que estamos dispostos a
pagar por um bem ou serviço e os preços que estamos dispostos a aceitar por nosso tra-
balho ou pelo que produzimos guiam os empreendedores na direção da solução certa.
Quando tomamos decisões no mercado, cada decisão é tomada de modo incre-
mental ou “na margem”: eu quero este bife? Mais uma revista? Uma casa de três quar-
tos? Nossa disposição para pagar e o ponto além do qual não estamos dispostos a
comprar mais uma unidade diz aos produtores quanto eles podem gastar na fabri-
cação do produto. Se não puderem produzir mais um por menos do que o preço de
mercado, saberão que não devem dedicar mais recursos à produção daquele produto.
Quando o interesse dos consumidores por computadores está em alta e por televi-
sões, em baixa, as empresas se dispõem a pagar mais pelas matérias-primas e pela
mão de obra para produzir computadores. Quando o custo de contratar mais mão
de obra e materiais alcançar o limite do que os consumidores estão dispostos a

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Cap. 8 — O processo de mercado 141

pagar pelo produto final, as empresas param de dirigir recursos para a produção.
À medida que essas decisões vão se repetindo milhares, milhões, bilhões de vezes,
surge um sistema complexo de coordenação que traz aos consumidores qualquer
coisa, de kiwis a chips Intel.
É a competição entre todas as empresas para atrair novos consumidores que pro-
duz essa coordenação. Se uma empresa sente que a demanda de computadores pelos
consumidores está aumentando e ela é a primeira a produzir mais peças, ela será re-
compensada. Ao contrário, seu concorrente na produção de televisões pode ver que
suas vendas estão diminuindo. Na prática, todo ano dezenas de milhares de empre-
sas se saem bem, e milhares vão à falência. Essa é a “destruição criativa” do mercado.
Apesar de o julgamento dos consumidores parecer duro para alguém que perde um
emprego ou um investimento, o mercado trabalha sobre um princípio de igualdade.
Em um mercado livre, nenhuma empresa recebe privilégios especiais do governo,
e cada uma deve satisfazer constantemente os consumidores para se manter ativa.
Longe de induzir o próprio interesse, como acusam os críticos, no mercado, só o
fato de ele existir já leva as pessoas a procurar outros. Os mercados recompensam a
honestidade, porque as pessoas estão mais dispostas a fazer negócios com quem tem
uma reputação de honestidade. Os mercados recompensam a civilidade, porque as
pessoas preferem lidar com parceiros e fornecedores corteses.

Socialismo
É a ausência de preços de mercado que torna o socialismo inviável, como Ludwig
von Mises apontou na década de 1920. Os socialistas muitas vezes pensaram na pro-
dução como uma questão de engenharia: é só fazer alguns cálculos para saber o que
é mais eficiente. É verdade que um engenheiro pode responder a uma pergunta espe-
cífica sobre o processo de produção, como por exemplo: qual é a forma mais eficiente
de usar o alumínio para fazer uma lata de sopa de 350 ml, ou seja, que formato de lata
menor poderia conter 350 ml? Mas a questão econômica — o uso eficiente de todos
os recursos relevantes — não pode ser respondida por um engenheiro. A lata deve ser
feita de alumínio ou de platina? Todos sabem que uma lata de sopa de platina seria
ridícula, mas nós o sabemos porque o sistema de preços nos diz. Um engenheiro diria
que um fio de prata ou platina conduziria melhor a eletricidade do que o cobre. Por
que então usamos cobre? Porque ele oferece o melhor custo-benefício. Esse é um
problema de economia, não de engenharia.
Sem preços, como o planejador socialista iria saber o que produzir? Ele poderia
fazer uma pesquisa e descobrir que as pessoas querem pão, carne, sapatos, geladeiras
e televisores. Mas quanto de pão e quantos sapatos? E que recursos devem ser usados
para produzir quais bens? “O suficiente”, alguém talvez respondesse. Mas, além da
estrita subsistência, quanto de pão é “suficiente”? E em que ponto as pessoas passam

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142 O Manifesto Libertário

a preferir sapatos novos a mais comida? Se há uma quantidade limitada de aço dispo-
nível, quanto deve ser usado na fabricação de carros e quanto na de fornos? E, mais
importante, que combinação de recursos é a forma menos dispendiosa de produzir
cada bem? O problema é impossível de resolver em um modelo teórico; sem a infor-
mação transmitida pelos preços, os planejadores estarão “planejando” às cegas.
Na prática, os administradores das fábricas soviéticas tinham que ilegalmente
estabelecer mercados entre si. Eles não tinham permissão para usar preços em di-
nheiro, então sistemas fantasticamente complexos de troca indireta — ou escambo
— emergiam. Os economistas soviéticos identificaram pelo menos oitenta meios de
troca, de vodca a rolamentos, de óleo para motores a pneus de trator. A analogia mais
próxima desse desastrado mercado com que os americanos jamais se encontraram
foi provavelmente a habilidade de barganha de Radar O’Reilly no programa de tele-
visão “M*A*S*H”. Radar também estava trabalhando com uma economia planejada
centralmente — o exército americano —, e sua unidade não tinha dinheiro para
comprar bens, então ele pegava o telefone, ligava para outras unidades M*A*S*H e
combinava complexas trocas de luvas cirúrgicas por rações tipo C, penicilina, bour-
bon, em que cada unidade escassa era trocada por outra, disponível em excesso. Ima-
gine gerir toda uma economia dessa maneira.

Propriedade e troca
Uma grande razão pela qual o cálculo econômico é impossível no socialismo é a
inexistência de propriedade privada, então, não há donos para indicar por meio de
preços o que eles estão dispostos a aceitar em troca de uma parte de sua propriedade.
No capítulo 3, examinamos o direito de possuir propriedade privada. Aqui, olhamos
para a importância econômica da instituição da propriedade privada. A propriedade
está na raiz da prosperidade gerada por um mercado livre. Quando as pessoas têm
um título seguro da propriedade — seja ela terra, prédios, equipamentos ou qual-
quer coisa —, elas podem usá-la para atingir seus objetivos.
Toda propriedade deve pertencer a alguém. Há muitas razões para se preferir a
diversidade da propriedade privada à propriedade do governo. Proprietários priva-
dos tendem a cuidar melhor de sua propriedade porque vão colher os benefícios de
qualquer aumento em seu valor e sofrer se ele baixar. Se você deixar que a condição
de sua casa se deteriore, não vai conseguir vendê-la por tanto quanto poderia se a
tivesse mantido em bom estado — o que é um grande incentivo para manter o valor
da propriedade. Os donos geralmente tomam mais cuidado do que os locatários; isto
é, eles preferem manter o valor do capital em vez de, na prática, consumi-lo. É por
isso que muitos contratos de locação requerem que o locatário faça um depósito de
caução, para assegurar que ele, também, terá um incentivo para manter o valor da
propriedade. Apartamentos alugados de proprietários privados são muito mais bem

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Cap. 8 — O processo de mercado 143

mantidos do que conjuntos públicos. A razão é que ninguém é realmente “dono” da


habitação pública; nenhum indivíduo vai perder seu investimento se o valor da pro-
priedade pública diminuir.
A propriedade privada permite que as pessoas lucrem com sua melhoria, cons-
truindo sobre ela ou tornando-a de alguma outra forma mais valiosa. As pessoas
também podem lucrar melhorando a si mesmas, é claro, pela educação e o desen-
volvimento de bons hábitos, contanto que lhes seja permitido colher os benefícios
que vêm dessas melhorias. Não há muito propósito em se esforçar para desenvolver
suas habilidades, por exemplo, se regulamentações vão impedir a pessoa de exercer
a ocupação de sua escolha ou se altos impostos vão tomar a maior parte do aumen-
to de sua renda.
O valor econômico de um bem reflete a renda que ele produzirá no futuro. Por-
tanto, os proprietários privados, que têm direito a essa renda, recebem um incentivo
para manter o bem. Quando a terra é escassa e a propriedade, privada, os donos pro-
curam extrair valor dela no presente e também assegurar que ela continuará rentável
no futuro. É por isso que as madeireiras não cortam todas as árvores que há em suas
terras e em vez disso plantam continuamente mais árvores para substituir as que
foram cortadas. Elas podem ser motivadas por uma preocupação com o meio am-
biente, mas a futura renda da propriedade provavelmente é um incentivo maior. Nos
países socialistas do Leste Europeu, onde o governo controlava toda a proprieda-
de, não havia nenhum dono para se preocupar com o valor futuro dela, e a poluição
mais a destruição ambiental foram muito piores do que no Ocidente. Václav Klaus, o
primeiro-ministro da República Tcheca, disse em 1995: “Os piores danos ambientais
ocorrem em países sem propriedade privada, mercados ou preços”.
Outro benefício da propriedade privada, não tão claramente econômico, é que ela
dispersa o poder. Quando uma entidade, tal como o governo, é dona de toda a pro-
priedade, os indivíduos não têm muita chance de se proteger da vontade do governo.
A instituição da propriedade privada dá a muitos indivíduos um lugar para chamar
de seu, um lugar onde estão seguros da depredação causada por outros e pelo esta-
do. Esse aspecto da propriedade privada está capturado na máxima “A casa de um
homem é seu castelo”. A propriedade privada é essencial para a privacidade e para a
liberdade de imprensa. Tente imaginar “liberdade de imprensa” em um país em que
o governo seja dono de todas as prensas e todo o papel.

Divisão do trabalho
Como as pessoas têm diferentes capacidades e preferências e os recursos natu-
rais são distribuídos desigualmente ao redor do mundo, podemos produzir mais se
trabalharmos em diferentes tarefas. Mediante a divisão do trabalho, todos procu-
ramos produzir aquilo em que somos melhores, de modo que tenhamos mais para

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144 O Manifesto Libertário

trocar com os outros. Em A riqueza das nações, Adam Smith descreveu uma fábrica
de alfinetes na qual a produção de alfinetes era dividida em “mais ou menos dezoito
operações distintas”, cada uma executada por um trabalhador diferente. Com essa es-
pecialização, os trabalhadores produziam 4.800 alfinetes/homem por dia; sem a di-
visão de trabalho, Smith duvidava que um trabalhador pudesse fazer ao menos vinte
em um dia. Note-se que há ganho com a especialização, mesmo se uma pessoa for me-
lhor em tudo. Os economistas chamam isso de princípio da vantagem comparativa. Se
Sexta-feira pode pegar duas vezes mais peixe do que Robinson Crusoé, mas consegue
encontrar três vezes mais frutas em um dia, então é melhor para ambos se Crusoé se
especializar em pescar, e Sexta-feira, em colher frutas. Enquanto eles se especializam,
naturalmente, é provável que cada um melhore pela repetição e experimentação.
As pessoas fazem trocas porque esperam tornar-se melhores. Como colocou Adam
Smith em uma famosa passagem citada anteriormente mas relevante aqui também:

Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do


padeiro que esperamos nosso jantar, mas de sua preocupa-
ção com seus próprios interesses. Nós nos dirigimos não à
sua humanidade mas ao seu amor-próprio, e não lhes fala-
mos de nossas necessidades, mas de suas vantagens.

Isso não significa que as pessoas sejam sempre egoístas e não se preocupem umas
com as outras. Como mencionamos antes, o fato de que o açougueiro precise per-
suadir você a comprar a carne dele o incentiva a prestar atenção em seus desejos e
necessidades. Vendedores de lojas no Ocidente são sabidamente mais agradáveis do
que eram seus colegas soviéticos.
Ainda assim, há sentido em que instituições sociais operem efetivamente quando
cada um de fato age em interesse próprio. Na verdade, quando as pessoas agem em
interesse próprio em um mercado livre, elas melhoram o bem-estar de toda a socie-
dade. Como as pessoas trocam coisas que valorizam menos por outras que valorizam
mais, cada troca aumenta o valor de ambos os bens. Só vou trocar meu livro por
seu CD se eu valorizar o CD mais do que o livro, e se você valorizar o livro mais do
que o CD. Ambos levamos vantagem. Da mesma forma, se eu trocar meu trabalho
por um contracheque da Microsoft, é porque valorizo esse dinheiro mais do que o
tempo que passei trabalhando e porque os acionistas da Microsoft valorizam meu
trabalho mais do que o dinheiro de que estão abrindo mão. Através de milhões de
transações como essas, bens e serviços passam para as pessoas que os valorizam
mais, e a sociedade inteira se sai bem.
O capitalismo incentiva as pessoas a servir a outras para conseguir o que que-
rem. Em qualquer outro sistema, pessoas ambiciosas e talentosas têm mais chances

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Cap. 8 — O processo de mercado 145

de adquirir riqueza do que outras. Em um sistema estatista, seja nos velhos regimes
pré-capitalistas, seja em um país socialista “moderno”, a maneira de prosperar é con-
seguindo pôr as mãos nas alavancas do poder e forçar outras pessoas a fazer o que
se quer. Em um mercado livre, é preciso persuadir as outras pessoas a fazer o que se
quer. Como se faz isso? Oferecendo algo que elas queiram. Assim, a maior parte das
pessoas talentosas e ambiciosas tem um incentivo para descobrir o que os outros
querem e tentar oferecer-lhes o que seja.
A propriedade privada no estado de direito impede o tipo de egoísmo que envol-
ve tomar aquilo que se quer daqueles que o têm. Além disso, incentiva as pessoas
a adquirir riqueza produzindo bens e serviços que as outras querem. E assim elas
fazem — Henry Ford com seus automóveis baratos e eficientes; Bill Cosby com seu
popular programa de televisão; Sam Walton com suas lojas de preços baixos; Bill
Gates com seu sistema operacional de computador; e muitas pessoas obscuras, em
uma economia complexa como a nossa, tais como Philip Zaffere, que obteve 200
milhões de dólares quando vendeu a empresa que havia fundado, que comercializava
alimentos populares pré-prontos. Leona Helmsley pode não ser uma pessoa gentil,
mas, para conseguir enriquecer no negócio de hotelaria, ela tem que oferecer um
quarto confortável e atendentes que pareçam gentis.

Lucros, prejuízos e empreendedores


Todos podem ver os papéis que consumidores e produtores — sejam eles fazen-
deiros, trabalhadores, artesãos ou donos de fábricas — desempenham em um siste-
ma de mercado, mas às vezes o papel do empreendedor ou intermediário não é tão
bem compreendido. Historicamente, muita hostilidade é dirigida aos intermediá-
rios. (Frequentemente, isso tem tomado a forma de preconceito racial ou étnico con-
tra os empresários judeus na Europa e nos Estados Unidos, os indianos e libaneses
na África, os chineses em grande parte da Ásia e os coreanos nas cidades hoje, como
aponta Thomas Sowell em Race and Culture [Raça e cultura]. A ignorância econômi-
ca obviamente não é a única fonte de tais atitudes, mas um entendimento melhor de
economia ajudaria a aliviá-la.) O sentimento parece ser: o fazendeiro cultiva o trigo,
o moleiro o mói, o padeiro assa o pão, mas que valor é agregado pelos comerciantes
e distribuidores que movem o trigo ao longo da cadeia até o consumidor? Que valor
tem o comerciante de Wall Street que passa seu tempo explorando discrepâncias de
preço entre mercados?
Em uma economia complexa, o papel do empreendedor é de importância vital.
Ele pode até ser visto como a pessoa que de fato faz a coordenação do que é o proces-
so de mercado, a pessoa que direciona recursos para onde eles são mais necessários.
Em certo sentido, somos todos empreendedores. Toda pessoa tenta prever o futuro
e alocar seus próprios recursos com sabedoria. Até mesmo Robinson Crusoé tinha

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146 O Manifesto Libertário

que prever se as condições climáticas futuras significavam que naquele dia seria me-
lhor ele gastar mais tempo construindo um abrigo à custa de comer menos. Cada um
de nós prevê onde nossas habilidades serão mais necessárias, que consumidores po-
tenciais estarão dispostos a pagar por nossos produtos, se os produtos que queremos
vão custar mais ou menos na semana seguinte, onde devemos investir as economias
de nossa aposentadoria. É claro, ninguém é realmente o “homem econômico” tão
ridicularizado, fazendo cálculos com base unicamente no retorno monetário. Pode-
mos aceitar um emprego que pague menos por ser um trabalho interessante ou se
localizar perto de casa; talvez comecemos um negócio de fotografia realmente por
gostarmos de fotografia, embora pudéssemos ganhar muito mais dinheiro venden-
do equipamentos; podemos estar dispostos a pagar mais por produtos vendidos por
amigos ou por companhias ecologicamente corretas. Tomamos a maior parte de nos-
sas decisões econômicas com base em uma combinação de fatores, incluindo preços,
conveniência, satisfação, relações pessoais, e assim por diante. A única coisa que a
análise econômica presume é que fazemos escolhas orientadas por nossos próprios
interesses, qualquer que seja o modo como definimos esses interesses.
Mas os economistas usam o termo “empreendedor” para denotar um participante
específico no processo de mercado, que não é nem produtor nem consumidor mas
alguém que enxerga e age com base em uma oportunidade de mobilizar recursos de
onde são menos valiosos para onde são mais valiosos. Ele pode ver que se vendem
kiwis por 30 centavos na Costa Oeste dos Estados Unidos e por 50 centavos na Costa
Leste e que consegue transportá-los a um custo de 10 centavos cada um, de modo
que pode ganhar 10 centavos por kiwi comprando-os na Costa Oeste e levando-os
para a Costa Leste. Ele pode descobrir que uma companhia quer comprar um prédio
de escritórios por até 10 milhões de dólares e que outra tem um prédio apropriado
que está disposta a vender por 8 milhões de dólares. Ao comprar e revender o prédio
(ou simplesmente pôr comprador e vendedor em contato mediante uma comissão),
ele pode obter um belo lucro. Ele consegue observar que rádios poderiam ser produ-
zidos a um custo muito baixo na Malásia e vendidos nos Estados Unidos por menos
do que custam então e fazer um contrato com um fabricante para produzir rádios e
fazer o transporte. Ele ou outro empreendedor talvez então veja que empresas ame-
ricanas podem oferecer na Malásia seguros mais baratos do que qualquer empresa
local, e assim outra troca lucrativa pode ser feita.
Em cada um desses casos, o papel do empreendedor é enxergar uma situação
na qual os recursos possam ser usados de maneira mais valiosa do que aquela
que vem sendo adotada. Sua recompensa por ver isso é uma porção do valor que
ele adiciona a ambas as partes. Para satisfazer o ceticismo de algumas pessoas
quanto aos intermediários, consideremos: o que aconteceria se proibíssemos a
atividade do empreendedorismo? As pessoas na Costa Leste não teriam os kiwis

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Cap. 8 — O processo de mercado 147

pelos quais pagam com alegria, os americanos pagariam mais por rádios, uma
companhia não conseguiria o prédio de escritórios que poderia usar, a outra não
receberia o dinheiro que valoriza mais do que um prédio. Mas essas são apenas
manifestações superficiais. O que realmente aconteceria é que nossa complexa
economia moderna entraria em pane. Os intermediários existem por uma razão,
porque seus serviços têm um valor para as pessoas com quem fazem negócios.
Os fazendeiros poderiam trazer seus próprios produtos ao mercado, mas a maior
parte deles acha mais eficiente concentrar-se no cultivo e vender suas colheitas
aos intermediários. Os consumidores poderiam ir aos estados rurais e lá com-
prar seus produtos dos próprios fazendeiros, mas é claramente mais eficiente ir
até o supermercado.
O papel dos empreendedores em alocar bens de capital — os recursos que são
usados para produzir os bens de consumo — é ainda mais necessário. À medida
que uma economia se torna mais rica e complexa, a estrutura de sua produção se
alonga, isto é: surgem mais etapas entre as matérias-primas e os bens de consumo.
Os primeiros bens de capital foram provavelmente redes para pesca. Na época de
Adam Smith, havia muito mais etapas envolvidas na produção das máquinas que
ajudariam os trabalhadores a produzir alfinetes em uma fábrica. Hoje, imagine só as
etapas envolvidas em levar um computador ao consumidor: a loja, na qual alguém
tem que investir; o sistema de transportes; a empresa que produz o computador; os
engenheiros de software, que tiveram que ser treinados; os chips, que tiveram que ser
projetados e produzidos; o metal, vidro e plástico, que tiveram que ser produzidos,
refinados, moldados; e assim por diante. À medida que a estrutura de produção se
alonga, demandando investimentos em processos de produção muito antes que os
consumidores decidam se vão ou não comprar um produto, torna-se cada vez mais
essencial ter pessoas procurando continuamente oportunidades para usar recursos
de forma mais eficiente.
As pessoas se envolvem em atividades econômicas para obter algo que desejam —
mais bens e serviços, em última análise, mas, na situação imediata, um contracheque
ou uma compra. Os trabalhadores são pagos por seu trabalho, os fazendeiros vendem
seus produtos. A recompensa que um empreendedor recebe é o lucro. A palavra “lu-
cro” pode significar várias coisas. Para um contador, ela significa apenas o dinheiro
que fica após um período de atividade econômica. Frequentemente esse dinheiro é
na verdade o salário pago ao dono do negócio por seu trabalho, ou juros recebidos
sobre dinheiro emprestado. O lucro puro do empreendedor vem da lacuna entre os
usos menos e mais valorizados de um serviço, que o empreendedor percebeu e cor-
rigiu. Reflete sua previsão correta sobre o que os consumidores preferem. O outro
lado da moeda é que os empreendedores às vezes fazem uma previsão errada, caso
em que têm perdas com o empreendimento.

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148 O Manifesto Libertário

As pessoas às vezes se sentem incomodadas com lucros altos. Elas querem limitar
os lucros ou eliminá-los com tributos, especialmente o notório “lucro imprevisto”.
(Mas dificilmente se ouve as pessoas dizendo que a sociedade devia contribuir para
ajudar os empresários que têm “prejuízo imprevisto”.) Na verdade, devíamos ser gra-
tos àqueles que obtêm lucros. Como disse o economista Murray Rothbard, “o lucro é
um indício de que os desajustes [isto é, os usos menos eficientes dos recursos] estão
sendo vistos e combatidos pelos empreendedores que o obtêm”. Ou, como explica
Israel Kirzner, da New York University, “A busca empreendedora de lucro implica
a busca de situações nas quais os recursos estão mal alocados”. Quanto mais alto o lu-
cro de um empreendedor, maior a lacuna que ele descobriu entre como os recursos
estavam sendo usados e como poderiam ser usados, portanto, maior o benefício que
ele trouxe à sociedade. Quando os críticos reclamam que os lucros das empresas da
indústria farmacêutica são altos demais, eles supõem que altos lucros sobre tais pro-
dutos essenciais são imorais. Na verdade, os altos lucros sinalizam a necessidade de
mais investimento na produção de medicamentos e na cura de doenças. As empresas
que conseguiam os maiores lucros estavam preenchendo as maiores lacunas entre
aquilo de que os consumidores necessitavam e o que o mercado vinha até então pro-
duzindo. Um limite sobre os lucros das empresas farmacêuticas desincentivaria o
investimento onde ele é mais necessário.
Não é aquele que lucra que devemos criticar, mas quem perde. Mas não precisamos
de tributos sobre perdas inesperadas. O mercado pune os empreendedores que fazem
previsões equivocadas baseadas em perdas, que acabarão tirando-o do papel de empre-
endedor e encorajando-o a ir trabalhar para alguém melhor na alocação de recursos.
Por meio desse processo enormemente complexo — que superficialmente parece
tão simples, com um fluxo interminável de bens de consumo chegando às prateleiras
—, os preços do mercado livre ajudam a todos nós a coordenar esforços e aumentar
nosso padrão de vida.
Entusiastas do processo de mercado às vezes se referem à “mágica do mercado”.
Mas não há mágica nenhuma, apenas a ordem espontânea de pessoas pacíficas e pro-
dutivas interagindo livremente, cada uma buscando ganho próprio mas sendo levada
a cooperar com os outros para consegui-lo. Isso não acontece de um dia para o outro,
mas depois de anos e séculos o processo de mercado nos trouxe de uma sociedade
caracterizada pela necessidade de um trabalho braçal enorme para atingir a subsis-
tência mínima e uma expectativa de vida média de 25 anos ao nível verdadeiramente
impressionante de abundância, saúde e tecnologia que temos hoje.

Crescimento econômico
Como se dá o crescimento econômico? Como viemos de um mundo em que as pes-
soas tinham somente seu próprio trabalho, terras e recursos naturais imediatamente

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Cap. 8 — O processo de mercado 149

visíveis à complexa estrutura econômica de hoje, que sustenta uma qualidade de vida
sem precedentes?
Em seu (bem acessível) livro What Everyone should Know about Economics and
Prosperity [O que todos deveriam saber sobre economia e prosperidade], os econo-
mistas James D. Gwartney e Richard L. Stroup oferecem um guia conciso das fontes
de prosperidade. Um primeiro ponto a notar é que para consumir mais é preciso pro-
duzir mais. A escassez é um componente básico da existência humana; isto é, nossos
desejos sempre excedem os recursos disponíveis para atendê-los. Para ampliar a sa-
tisfação de nossos desejos, devemos aprender a usar os recursos mais eficientemente.
Também devemos observar que nosso objetivo não é aumentar o “crescimento da
economia”, muito menos o Produto Interno Bruto, a renda nacional ou qualquer ou-
tro agregado estatístico. Há muitos problemas com essas estatísticas (apesar de que
ocasionalmente elas serão usadas neste livro), que podem levar as pessoas a cometer
sérios erros na observação econômica, como as notórias estimativas de que a economia
soviética era muito maior do que de fato era ou as ridículas estatísticas mostrando que
a economia da Alemanha Oriental tinha per capita a metade da apresentada pela da
Alemanha Ocidental. O objetivo da atividade econômica é aumentar a oferta de bens
de consumo para as pessoas, o que leva também ao aumento da oferta de bens de capi-
tal com os quais se produzem os de consumo. Pode ser difícil medir isso com precisão,
mas devemos lembrar que nossa preocupação são os bens reais e não as estatísticas.
Uma forma de produzir crescimento econômico real é poupando e investindo.
Ao consumir menos hoje, podemos produzir e consumir mais amanhã. Há dois be-
nefícios básicos em poupar. O primeiro é a constituição de um fundo para os “dias
de chuva”, uma metáfora que evoca uma economia primitiva, no nível até mesmo de
Robinson Crusoé. Crusoé separa uma parte do peixe e das frutas que obtém num dia
para o caso de estar doente no dia seguinte ou de ser impedido pelo mau tempo de
conseguir mais comida. O segundo benefício é ainda mais importante. Poupamos e
investimos para que possamos produzir mais no futuro. Se Crusoé poupar comida
para alguns dias, ele poderá usar um dia inteiro para produzir uma rede, o que lhe
permitirá pegar muito mais peixes. Em uma economia complexa, a poupança nos
permite abrir um negócio ou inventar ou comprar equipamentos que nos tornem
mais produtivos. Quanto mais economizamos (como indivíduos ou como socieda-
de), mais investimentos podemos fazer na produção futura e maior poderá ser o nos-
so padrão de vida futuro — e o de nossos filhos.
Uma economia complexa precisa de um mercado de capitais eficiente para atrair
poupanças e direcioná-las para investimentos que vão produzir mais riqueza. O mer-
cado de capitais inclui os mercados de ações, imóveis e negócios, além de institui-
ções financeiras como bancos, seguradoras, fundos e companhias de investimentos.
Como Gwartney e Stroup escrevem:

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150 O Manifesto Libertário

O mercado de capitais coordena as ações dos poupadores


que proveem os fundos para o mercado e dos investido-
res que procuram fundos para financiar várias atividades
empresariais. Investidores privados têm um forte incen-
tivo para avaliar cuidadosamente potenciais projetos e
procurar os lucrativos.

Os investidores são recompensados por tomar as decisões certas — ao direcionar


o capital para projetos que atendem às necessidades dos consumidores — e casti-
gados com perdas por aplicar capital escasso em projetos errados. Frequentemente
ouvimos referências aviltantes a “empreendedores de papel”, com uma espécie de
desdém machista por “pessoas que não fazem coisas” como aço ou automóveis. Mas,
em uma economia cada vez mais complexa, nenhuma tarefa é mais importante do
que alocar o capital em projetos certos, e é inteiramente apropriado que o mercado
recompense generosamente certas pessoas por tomarem as decisões corretas sobre
seus investimentos.
Outra fonte de crescimento econômico são as melhorias no capital humano, isto é,
nas habilidades dos trabalhadores. Pessoas que aumentam sua capacidade — apren-
dendo a ler e escrever, fazendo cursos de carpintaria ou programação de computa-
dores, ou cursando uma faculdade de medicina — geralmente serão recompensadas
com salários mais altos.
Melhorias na tecnologia também contribuem para o crescimento econômico.
Começando com a Revolução Industrial há 250 anos, as mudanças tecnológicas
transformaram nosso mundo. O motor a vapor, a combustão interna, a eletricidade
e a energia nuclear substituíram a força humana ou animal como nossas principais
fontes de energia. Os transportes sofreram uma revolução com a estrada de ferro, o
automóvel e o avião. Aparelhos que economizam esforço, como máquinas de lavar,
fogões, fornos de microondas, computadores e uma panóplia de máquinas indus-
triais, permitem-nos produzir mais em menos tempo. O entretenimento se tornou
irreconhecível com o surgimento de gravações, fitas, discos compactos, filmes e te-
levisão. No século XVIII, somente o imperador austro-húngaro e sua corte podiam
ouvir Mozart; hoje qualquer um, por uns poucos dólares, ouve Mozart, Mancini ou
Madonna. Hollywood pode produzir muito lixo (embora devamos lembrar que se
trata de um lixo que as pessoas decidem ver), mas hoje em dia mais pessoas já viram
Ricardo III, de Shakespeare, no cinema, com Laurence Olivier ou Ian McKellen no
papel-título, do que as que viram sua apresentação no palco em toda a história.
Uma fonte de crescimento frequentemente negligenciada são as melhorias na or-
ganização econômica. Um sistema de direitos de propriedade, estado de direito e go-
verno mínimo permite o máximo de abrangência para que as pessoas experimentem

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Cap. 8 — O processo de mercado 151

novas formas de cooperação. O desenvolvimento da sociedade anônima permitiu


que se realizassem tarefas econômicas maiores do que as que podiam ser desempe-
nhadas por indivíduos ou parcerias. Organizações como associações condominiais,
fundos de investimentos, seguradoras, bancos, cooperativas de trabalhadores e ou-
tras são tentativas de resolver problemas econômicos específicos por novas formas
de associação. Algumas dessas formas acabam sendo ineficientes; muitos dos con-
glomerados corporativos dos anos 1960, por exemplo, se mostraram inadministrá-
veis, e os acionistas perderam dinheiro. A resposta rápida do processo de mercado
garante que formas bem-sucedidas de organização sejam copiadas e as malsucedi-
das, desencorajadas.
Todas essas fontes de crescimento — poupança, investimento, melhoria do
capital humano, tecnologia e organização econômica — refletem as escolhas de
indivíduos motivados por seu próprio interesse em um mercado livre. O mercado
nos Estados Unidos e na Europa Ocidental definitivamente não é tão livre quanto
poderia ser, mas sua relativa liberdade produziu grande aumento dos resultados.
Como Gwartney e Stroup apontam, “Os trabalhadores na América do Norte, Eu-
ropa e Japão produzem mais ou menos cinco vezes mais resultado per capita do que
seus ancestrais há cinquenta anos”. Então não é surpresa que “sua renda per capita
ajustada pela inflação — o que os economistas chamam de renda real — seja apro-
ximadamente cinco vezes maior”.

A descoordenação do governo
Qual é o papel do governo na economia? Para começar, ele desempenha um pa-
pel muito importante: proteger os direitos de propriedade e a liberdade de troca, de
modo que os preços de mercado possam permitir a coordenação de planos indivi-
duais. Quando vai além desse papel, tentando oferecer bens ou serviços específicos
ou encorajar determinados resultados, o governo não apenas não ajuda o processo
de coordenação como faz exatamente o oposto: descoordena-o. Os preços veiculam
informação. Se o governo controla ou intervém nos preços, eles não vão veicular in-
formação precisa. Quanto mais interferência, mais imprecisa é a informação e meno-
res a coordenação econômica e a satisfação das necessidades. A interferência na
informação veiculada pelos preços é tão destrutiva para o progresso econômico
quanto a interferência na linguagem seria para se ter uma conversa.

Manutenção de empregos
Sempre que se encontra uma maneira melhor de satisfazer uma necessidade hu-
mana (ou quando a demanda de um produto qualquer diminui), alguns dos recursos
previamente empregados no atendimento dessas necessidades não serão mais ne-
cessários. Esses recursos podem ser máquinas, fábricas ou mão de obra. As pessoas

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152 O Manifesto Libertário

estão sujeitas a perder seus investimentos ou o emprego quando um competidor apare-


ce com uma maneira mais barata de atender aos desejos dos consumidores. Devemos
ter compaixão diante daqueles que ficam desempregados ou enfrentam uma perda de
investimento nessa situação, mas não devemos perder de vista os benefícios da competi-
ção e da destruição criativa. As pessoas numa situação assim muitas vezes querem que
o governo tome uma atitude para manter a demanda de seu produto, impedir que um
competidor entre no mercado, ou de alguma forma preservar seu emprego.
A longo prazo, contudo, não há sentido em tentar preservar empregos ou investi-
mentos desnecessários. Imagine se tivéssemos tentado preservar todos os empregos
na indústria de buggies quando apareceram os automóveis. Estaríamos mantendo
recursos — terras, mão de obra e capital — em uma indústria que não podia mais
satisfazer os consumidores tão bem quanto outros usos dos mesmos recursos. Para
citar um exemplo mais recente — que deve ser familiar àqueles que entraram na
escola na década de 1960, embora talvez seja completamente ignorado entre gente
mais jovem —, a régua de cálculo foi totalmente suplantada pelas calculadoras em
questão de poucos anos na década de 1970. Deveríamos ter preservado os empregos
dos fabricantes de réguas de cálculo? Com que propósito? Quem as compraria quan-
do as calculadoras se tornaram acessíveis e baratas? Se fizéssemos isso cada vez que
uma firma ou uma indústria se torna antieconômica, logo teríamos um padrão de
vida comparável ao da União Soviética.
Diz-se frequentemente que o objetivo de uma economia, ou pelo menos de uma
política econômica, é criar empregos. Mas essa ideia está invertida. O objetivo de
uma economia é produzir coisas que as pessoas queiram. Se realmente quiséssemos
criar muitos e muitos empregos, observa Richard McKenzie, economista, podería-
mos fazê-lo com uma política federal em apenas quatro palavras: proíba-se o maqui-
nário agrícola. Isso criaria mais ou menos 60 milhões de empregos, mas significaria
tirar os trabalhadores de onde eles são mais produtivos e usá-los para produzir comi-
da, o que poderia ser feito com muito mais eficiência por menos trabalhadores e mais
máquinas. Todos estaríamos bem pior.
Norman Macrae, há muito tempo editor-adjunto da Economist, observou que na In-
glaterra, desde a Revolução Industrial, mais ou menos dois terços dos empregos que
existiam no início do século tinham sido eliminados no fim do século, e no entanto
três vezes mais pessoas se encontravam empregadas no fim do século. Ele observa que

no fim dos anos 1880, cerca de 60% da força de trabalho


nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha estava na agricul-
tura, no serviço doméstico e em empregos relacionados
ao transporte com cavalos. Hoje, somente 3% da força de
trabalho está nessas ocupações.

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Cap. 8 — O processo de mercado 153

Ao longo do século XX, a maior parte dos trabalhadores se transferiu desses empre-
gos para outros, na indústria, e finalmente para o setor de serviços. Durante o século
XXI, é provável que muitos, talvez a maior parte, dos trabalhadores saiam da produção
direta para trabalhar com informação. Ao longo do caminho, muitas pessoas perderão
o emprego e seus investimentos, mas o resultado será um padrão de vida mais alto para
todos. Se tivermos sorte, daqui a cinquenta anos estaremos produzindo cinco vezes
mais por pessoa do que hoje — exceto se o governo distorcer os sinais dados pelos pre-
ços, impedir a coordenação e mantiver os recursos em usos improdutivos.
Em outras palavras, a melhor maneira de “preservar” um emprego é libertando a
economia. Os empregos vão mudar, mas sempre haverá mais novos empregos criados
do que velhos empregos perdidos. Isso é verdade até mesmo nos casos de progresso
tecnológico; as pessoas são substituídas por máquinas no campo, mas o nível mais
alto de investimento de capital na economia significa um aumento do nível salarial
para outros empregos.

Controles de preços
Controles de preços — inclusive os salários, que são o preço do trabalho — são
talvez a maneira mais direta que o governo usa para distorcer a mensagem dos pre-
ços. Às vezes os governos tentam estabelecer preços mínimos, mas em geral querem
fixar preços máximos. Os controles de preços geralmente são implementados como
resposta a um aumento dos preços. Esses aumentos ocorrem por várias razões. Em um
mercado livre, um preço que sobe costuma indicar ou um aumento da demanda do
produto ou uma redução da oferta. Em qualquer caso, haverá uma tendência de mo-
vimento dos recursos para aquele mercado para obter vantagem do preço em alta, que
tenderá a reduzir ou até reverter o aumento do preço. (Podemos notar que, a longo
prazo, em termos reais, o único preço que parece subir constantemente é o preço do
trabalho humano. Olhando para mais ou menos cem anos atrás, vemos que os preços
dos bens — do trigo ao óleo e aos computadores — caíram, enquanto o índice de salário
real quintuplicou em cinquenta anos. A única coisa que fica cada vez mais escassa em
termos econômicos, isto é, relativamente a todos os outros fatores, são as pessoas.)
O controle de aluguéis é um exemplo particularmente difundido de controle de
preços. Qualquer economista entende que o controle de aluguéis produz carência
de habitações para alugar. Se os controles são estabelecidos de forma a manter os
aluguéis abaixo do seu valor de mercado, então as pessoas vão procurar imóveis para
alugar mais do que o fariam em uma situação diferente. Isto é, o preço estabelecido
pelo estado não é o preço justo do mercado: mais pessoas vão querer ir para a cidade,
ou procurar apartamentos maiores do que aqueles pelos quais estariam dispostas a
pagar o preço de mercado, ou ficar em apartamentos grandes depois que os filhos
saem de casa, ou procurar alugar mesmo que possam comprar uma casa. Mas, como

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154 O Manifesto Libertário

os aluguéis estão sendo mantidos abaixo do preço de mercado, os investidores pre-


ferem investir em algo que possa lhes dar pleno retorno do mercado, o que faz que a
oferta de habitação não aumente para suprir a demanda.
De fato, se o controle de aluguéis se mantém, a oferta pode diminuir, se os donos
decidirem morar em sua propriedade em vez de alugá-la, ou os imóveis deteriora-
dos não receberem manutenção nem substituição. Se os senhorios não podem alugar
apartamentos para quem oferece mais, eles encontrarão outras formas de escolher
entre locatários em potencial; talvez passem a aceitar suborno por baixo do pano,
conhecido em Nova York como “o dinheiro da chave”, ou a discriminar com base em
raça, favores sexuais ou algum outro fator alheio ao preço. Em circunstâncias extre-
mas, que parecem ser o caso em alguns bairros ao sul do Bronx, os donos de prédios
de apartamentos cujo aluguel não é suficiente para cobrir os tributos sobre a proprie-
dade, e portanto não podem nem sequer ser vendidos, simplesmente os abandonam
e procuram desaparecer.
Assim como ocorre com tantas outras formas de intervenção governamental, os
problemas criados pelo controle de aluguéis levam a mais intervenção. Os senhorios
tentam converter em condomínios seus prédios de apartamentos não lucrativos, por
isso as Câmaras Municipais aprovam leis restringindo a conversão em condomínios.
No mercado, locatários e senhorios têm boas razões para tentar manter feliz um ao
outro, mas o controle de aluguéis significa que os locatários são apenas um fardo
sobre o senhorio; então as partes acabam brigando, e os governos criam comissões
para locatários e senhorios, visando regulamentar todos os aspectos de sua intera-
ção. Subornos e informações privilegiadas tornam-se a melhor maneira de encon-
trar um apartamento. A Câmara Municipal em Washington, D.C., aprovou certa vez
uma lei para revogar o controle dos aluguéis assim que a taxa de desocupação subisse
acima de certo nível — indicando uma oferta suficiente de habitação disponível —,
mas é claro que a oferta de habitação não vai aumentar enquanto houver controle de
aluguéis. Não é nenhuma surpresa que o economista sueco Assar Lindbeck tenha
escrito: “Ao lado das bombas, o controle de aluguéis parece em muitos casos ser a
técnica mais eficiente dentre as já conhecidas para destruir as cidades”.
Os controles nem sempre são planejados para manter os preços baixos. Às vezes
o governo tenta estabelecer preços mínimos, como no caso da lei do salário mínimo.
É provável que nenhuma outra questão ilustre melhor a natureza às vezes contrain-
tuitiva da ordem espontânea, do processo de mercado e da função coordenadora dos
preços. Oitenta por cento dos americanos apoiam o aumento do salário mínimo — e
por que não? A ideia parece boa: é difícil sobreviver ganhando, digamos, 4 dólares por
hora, então por que não estabelecer um salário mínimo de 5 dólares por hora? Mas,
assim como os preços máximos criam carências, os mínimos produzem excedentes.
Trabalhadores cuja produtividade para o empregador vale menos do que o mínimo

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Cap. 8 — O processo de mercado 155

legal jamais serão contratados. Novamente, o indicador do preço é distorcido, e a


coordenação não pode ocorrer. Notamos antes que o processo de mercado produz
empregos para todos que queiram um — exceto quando se impede o processo de
funcionar. Como os economistas William Baumol e Alan Blinder (que depois parti-
cipou do governo Clinton) escreveram em seu livro-texto Economics: Principles and
Politics [Economia: princípios e política], “A consequência primária da lei do salário
mínimo não é um aumento na renda dos trabalhadores menos qualificados, mas uma
restrição de suas oportunidades de emprego”. Os empregadores vão contratar um
trabalhador qualificado em vez de dois não qualificados, ou investir em maquinário,
ou simplesmente deixar alguns serviços por fazer. Pessoas mais velhas contam que
antigamente havia lanterninhas em cinemas; talvez esse emprego ainda existisse, se
os cinemas pudessem pagar menos do que o salário mínimo para as pessoas que pro-
curam o primeiro emprego. Em vez disso, o índice de desemprego entre adolescentes
é várias vezes mais alto do que era nos anos 1950. A maneira de aumentar os salários
não é tornar ilegal o trabalho remunerado abaixo de certa quantia, mas aumentar o
acúmulo de capital e aprimorar a qualificação de cada empregado, a fim de que eles
possam produzir mais com as mesmas ferramentas.
Os programas de sustentação de preços de produtos agrícolas são outro exemplo de
preços mínimos. Em qualquer economia não inflacionária em crescimento, a expec-
tativa seria de uma suave queda dos preços; mais produção significa que o preço real
de tudo, em termos de trabalho, está caindo. Colheitas agrícolas, sendo os “primei-
ros” produtos em qualquer economia, seriam o exemplo mais claro disso. Realmen-
te, ao longo dos últimos duzentos anos, as ofertas de grão e outras colheitas agrícolas
vêm aumentando e os preços, caindo (quando medidos em horas de trabalho neces-
sárias para comprar unidades de produção). Com a maior abundância de comida,
precisamos de menos pessoas trabalhando no campo. Preços em queda indicam isso
aos fazendeiros. É por isso que 53% dos americanos eram fazendeiros em 1870, e ape-
nas cerca de 2,5% o são hoje. Isso são boas notícias: significa que todas essas pessoas
podem produzir outras coisas, tornando a si mesmas e a todos nós mais ricos.
Mas, a partir dos anos 1920, o governo federal decidiu manter os preços das co-
lheitas altos, para deixar os fazendeiros felizes. Isto é, o governo decidiu bloquear os
sinais dos preços, que diziam aos fazendeiros para passar a empreendimentos mais
lucrativos. Estabeleceu então preços mínimos para colheitas agrícolas e prometeu
comprar o suficiente de cada colheita para manter os preços nesse nível. Em troca,
os fazendeiros tiraram da produção parte de suas terras. É daí que surgiu este dito
popular nos Estados Unidos: que o programa de subsídios agrícolas paga aos fazen-
deiros para não trabalhar. É claro que os fazendeiros não são burros. Eles coloca-
ram a pior terra no “banco de solo” e cultivaram a melhor parte dela. Então, como
o governo pagaria um preço acima do mercado por qualquer coisa que pudessem

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156 O Manifesto Libertário

produzir na terra trabalhada, os fazendeiros refinaram suas tecnologias, fertilizantes


e sementes para aumentar a produção. O governo acabou comprando mais colheitas
do que pretendia, acumulando bilhões de dólares em produção excedente. (Talvez
o único consolo para os consumidores e contribuintes americanos tenha sido o fato
de que a Comunidade Europeia implantou programas similares mas ainda menos
econômicos, produzindo o que os críticos na Europa chamam de “lagos de vinho”
e “montanhas de manteiga”.) Parte do excedente de alimentos foi enviada a países
pobres como a Índia — o que parece simpático, mas acabou reduzindo os preços lá e
desencorajando os fazendeiros locais a produzir, ajudando assim a manter os países
pobres e dependentes dos excedentes que os fazendeiros americanos continuavam
produzindo e vendendo para o governo dos Estados Unidos.
Os programas de subsídios agrícolas mudaram ao longo dos anos, mas o objetivo con-
tinua tipicamente sendo manter os preços altos, distorcendo assim os sinais dos preços,
que tenderiam a incentivar os fazendeiros a adotar linhas de trabalho mais produtivas.
Controle de preços e de remuneração são a intervenção mais desastrada possível
no processo de coordenação do mercado. Em termos de economia, isso equivaleria
a Michael Jordan sacudindo os braços entre você e um amigo que estão tentando
passar uma bola de basquete um para o outro.

Tributação
As desajeitadas intervenções descritas acima devem soar patentemente injustas
e não igualitárias. Consideremos agora uma forma eternamente popular de coer-
ção pela qual os governos extraem dinheiro diretamente daqueles que trabalharam
por ele: a tributação. Os tributos reduzem o retorno que cada indivíduo recebe por
sua atividade econômica. Como uma das funções mais importantes da renda — in-
cluindo lucros e perdas — é dirigir recursos para seus usos mais valorizados, uma
redução artificial do retorno tem um efeito de distorção sobre o cálculo econômico.
Os defensores da tributação podem argumentar que um tributo coletado igualmen-
te sobre todas as atividades econômicas seria neutro em seus efeitos. A lista de varia-
dos e incontáveis tributos coletados pelos governos contemporâneos — impostos
sobre vendas, impostos sobre a propriedade, impostos sobre heranças, impostos
sobre bens suntuosos, impostos do pecado, impostos sobre formação de sociedade
anônima, imposto de renda societário, contribuições para a Previdência Social e
os impostos de renda, incidindo em taxas variadas sobre diferentes pessoas — su-
gere que os governos não estão fazendo muito esforço para chegar a um sistema
de tributação neutro. Mas, mesmo que tentassem, falhariam. Os tributos sempre
têm efeitos diferentes sobre agentes econômicos diferentes. Eles empurram o for-
necedor e o consumidor marginais para fora do mercado. Como o tributo vem
sempre acompanhado de gastos governamentais, a combinação só pode ter o efeito

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Cap. 8 — O processo de mercado 157

de desviar os recursos de onde os consumidores queriam que eles fossem aplicados


para usá-los em algo escolhido por políticos.
Os tributos inibem a função vital do empreendedorismo ao reduzir a restituição que
o empreendedor pode obter ao notar e remediar uma má alocação de recursos. Tudo o
que é tributado é mais escasso; tributar as recompensas do empreendedorismo signifi-
ca que teremos menos empreendedorismo, menos atenção às formas como os recursos
podem ser realocados para melhor atender às necessidades dos consumidores.
Os tributos criam um abismo entre compradores e vendedores, incluindo em-
pregadores e empregados, o que pode impedir que trocas produtivas sejam feitas.
Se estou disposto a pagar até 200 dólares por um terno, e você está disposto a ven-
der um por qualquer preço acima de 190 dólares, temos uma oportunidade óbvia
de troca que beneficiará a ambos. Mas, adicione 10% em tributo sobre a venda, e
não haverá nenhum preço sobre o qual possamos concordar. Se estou disposto a
trabalhar por um salário no mínimo de 30 mil dólares, e você estima em 35 mil
dólares o valor de meus serviços, então deve ser possível que cheguemos a um acor-
do entre essas duas cifras. Mas, adicione-se uma contribuição para a Previdência
Social de 15,3%, e um imposto de renda federal de 28%, e um imposto de renda
estadual, e talvez até um municipal, e não poderemos chegar a um acordo sobre o
salário. Se os tributos fossem mais baixos, haveria no setor privado mais dinheiro
sendo dirigido à satisfação da demanda dos consumidores, mais demanda de tra-
balhadores e, portanto, menos desemprego.
Tributos altos desincentivam o esforço do trabalhador. Por que trabalhar horas ex-
tras se o governo vai tomar metade do que você ganhar? Por que investir em um negó-
cio arriscado se o governo promete levar metade de qualquer lucro que você conseguir,
mas deixará que arque sozinho com os prejuízos? De todas essas maneiras os tributos
reduzem o esforço produtivo dirigido para servir às necessidades humanas.
Impostos altos também podem encorajar investidores a pôr seu dinheiro em in-
vestimentos planejados para evitar o pagamento de impostos em vez de aplicá-lo em
projetos cujo retorno real é maior na ausência do diferencial tributário. Eles também
induzem as pessoas a gastar dinheiro em compras superficiais mas dedutíveis dos
impostos, como escritórios mais luxuosos do que o necessário, férias disfarçadas de
viagens a trabalho, carros da empresa, e assim por diante. Essas coisas podem valer a
pena para as pessoas que as fazem; sabemos que sim quando gastam seu próprio di-
nheiro com elas. Mas as leis de tributação podem encorajar superinvestimentos em
coisas nas quais ninguém gastaria seu próprio dinheiro. Finalmente, o cumprimento
das leis tributárias afasta os recursos da produção de outros bens. Empresas e indiví-
duos gastam 5,5 bilhões em homem-hora a cada ano em formulários de tributos — o
equivalente a 2,750 milhões de trabalhadores que poderiam estar produzindo bens e
serviços que os consumidores querem.

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158 O Manifesto Libertário

Regulamentação
Um livro inteiro, com certeza, poderia ser escrito a respeito dos efeitos da regu-
lamentação governamental sobre o processo do mercado. Aqui poderemos olhar
apenas alguns pontos básicos. Devemos começar notando que algumas regras, ge-
ralmente conhecidas como “regulamentações”, são parte inerente do processo de
mercado em um sistema de direitos de propriedade e estado de direito. A proibição
de poluir o ar, a água e a terra de outras pessoas, por exemplo, é um reconhecimento
de seus direitos de propriedade (o capítulo 10 vai discutir um pouco mais detalhada-
mente que tipos de regras são eficazes e apropriados). Regulamentos que exigem que
as pessoas cumpram os termos de um contrato, como proibições a fraudes, também
são parte da base de direito consuetudinário do processo de mercado.
Infelizmente, a maior parte das regulamentações promulgadas por órgãos legis-
lativos e agências administrativas nos dias de hoje não se enquadram nessas cate-
gorias. As regulamentações que nos concernem aqui são projetadas explicitamente
para produzir resultados econômicos diferentes daqueles que o processo de mercado
teria gerado. Às vezes podemos apontar problemas específicos causados por essas
regulamentações: o controle de aluguéis reduz a oferta de habitação; a regulamenta-
ção das linhas aéreas aumenta o custo das viagens aéreas; um processo muito longo
de aprovação de medicamentos afasta dos consumidores drogas que podem aliviar a
dor e salvar vidas. Contudo, quase sempre é mais difícil avaliar o efeito de uma regu-
lamentação, isto é, entender o que teria acontecido se o processo de coordenação do
mercado tivesse podido funcionar. São precisamente as ausências menos óbvias da
coordenação que a regulamentação pode, sem que se note, impedir que os agentes
do mercado identifiquem e remediem. Se estamos convencidos de que o processo
de mercado funciona para satisfazer as necessidades do consumidor — isto é, para
alocar recursos de maneira a produzir o máximo de valor para um dado nível de re-
cursos —, então vamos concluir que para as regulamentações sempre há custos que
impedem trocas voluntárias.
Robert Samuelson escreveu na Newsweek em 1994:

A totalidade das regulamentações federais agora chega


a 202 volumes, com 131.803 páginas. Essa quantia é ca-
torze vezes maior do que em 1950 e quase quatro vezes
maior do que em 1965. Há dezesseis volumes de regula-
mentações ambientais, dezenove de agrícolas e dois de
trabalhistas.

Se você tem uma empresa, é bom que saiba o que está escrito nessas regulamen-
tações — e nas mais ou menos 60 mil páginas de outras novas (algumas das quais

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Cap. 8 — O processo de mercado 159

substituem ou alteram anteriores) publicadas a cada ano no Registro Federal. Cerca


de 130 mil pessoas trabalham em agências reguladoras federais, e o economista
Thomas D. Hopkins estima no Journal of Regulation and Social Costs que a regula-
mentação custe cerca de 600 bilhões de dólares para nossa economia por ano em
resultados perdidos — recursos que poderiam estar sendo usados para satisfazer ne-
cessidades dos consumidores. Clifford Winston, da Brookings Institution, estima
que “a sociedade ganhou pelo menos 36-46 bilhões de dólares (1990) anualmente
com a desregulamentação”, o que sugere que, apesar de toda a desregulamentação
recente de transportes, comunicações, energia, e serviços financeiros, o fardo regu-
latório praticamente não diminuiu.
Winston escreve ainda que “os economistas têm tido dificuldade de prever, ou mes-
mo ponderar, quais são as mudanças nas operações e tecnologias das empresas, e as
reações dos consumidores a essas reações, que surgiram em resposta à reforma regula-
tória”. Isto é, as descoordenações produzidas pela interferência no processo de merca-
do são tão grandes e complexas que é muito difícil avaliá-las e prever as melhorias em
matéria de coordenação que poderiam ocorrer com a desregulamentação. Tomando
um único exemplo, alguns economistas perceberam que a regulamentação de preços e
rotas de transporte de caminhões pela Comissão de Comércio Interestadual (Intersta-
te Commerce Commission) estava produzindo as principais ineficiências. Eles previram
que uma desregulamentação poderia economizar de 5 bilhões a 8 bilhões de dólares
para os consumidores e empresas ao tornar esse transporte mais eficiente. Estavam
certos; na verdade, um estudo de 1990 para o Departamento de Transportes (De-
partment of Transportation) estimou em mais ou menos 10 bilhões de dólares a eco-
nomia anual resultante da desregulamentação de 1980. O que os economistas não
previram foi um resultado muito mais importante: o transporte mais barato e con-
fiável permitiu que as empresas reduzissem seu inventário, sabendo que poderiam
entregar seus produtos aos compradores quando eles fossem necessários. A economia
com inventário, que ficou entre 56 bilhões e 90 bilhões de dólares por ano em meados
da década de 1980, fez a economia direta no custo do transporte parecer pequena.
A real motivação para a regulamentação muitas vezes é interesse egoísta no pior
sentido do termo, uma tentativa de conseguir por meio da coerção governamental
algo que não se conseguiria pelas ações dos consumidores. Esse comportamento,
conhecido como “rentismo”, se apresenta de muitas formas; várias delas são discuti-
das no capítulo 9. Uma indústria pode conseguir impor a uma concorrente tributos
mais altos do que os que incidem sobre ela mesma. Uma grande empresa pode apoiar
regulamentações que custarão às grandes e pequenas empresas montantes seme-
lhantes de dinheiro, prejudicando proporcionalmente mais as empresas menores.
Pode-se conseguir uma tarifa que proteja um produto da competição estrangeira.
Pode-se conseguir uma regulamentação que torne seu produto mais barato para o

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160 O Manifesto Libertário

consumidor do que o do concorrente. Pode-se conseguir uma lei de licenciamento


que limite o número de pessoas competindo em sua indústria, e assim por diante.
Todas essas regulamentações distorcem o processo de mercado e afastam recursos
de seu uso mais valorizado.
Mas hoje em dia muitas regulamentações são propostas por pessoas que geral-
mente acreditam que elas sejam de interesse público, que talvez até acreditem fir-
memente no processo de mercado, salvo quando as regulamentações parecem real-
mente necessárias. Promulgam-se regulamentações para garantir a segurança dos
produtos para o consumidor; para proibir a discriminação com base em raça, sexo,
religião, nacionalidade, estado civil, orientação sexual, aparência pessoal ou origem
indígena; para reduzir os inconvenientes enfrentados pelas pessoas com deficiência;
para assegurar a eficácia das drogas farmacêuticas; para garantir o acesso ao seguro-
-saúde; para desincentivar demissões; e muitas outras causas igualmente nobres. É
difícil questionar os objetivos de quaisquer dessas regulamentações. Todos quere-
mos uma sociedade de produtos eficazes e seguros, livre de discriminação, na qual
todos tenham seguro-saúde e emprego garantido.
Mas a tentativa de atingir esses objetivos pela regulamentação acaba sendo um
obstáculo para eles. Substitui os resultados de um processo de mercado que co-
ordena as necessidades e preferências de milhões de pessoas pelo julgamento de
um pequeno e falível grupo de políticos. Estabelece regras estáticas e retrógradas
que nunca poderão lidar tão bem com mudanças nas circunstâncias quanto trocas
voluntárias e contratos. Nenhuma regulamentação vai destruir o processo de mer-
cado. Mas, cada uma delas age como um cupim, devorando a estrutura de um sis-
tema que é resistente mas não indestrutível. E se a regulamentação custa mesmo à
nossa economia um valor aproximado de 600 bilhões de dólares, então ela está nos
custando vidas. Um estudo de 1994 do Centro para Análise de Risco da Universi-
dade Harvard mostrou que nossos sistemas regulatórios de “comando e controle”
podem estar custando 60 mil vidas por ano ao investir em riscos insignificantes,
deixando menos dinheiro para que as pessoas o gastem se protegendo de riscos
maiores mas menos dramáticos. Como disse Aaron Wildavsky, da Universidade
da Califórnia, em Berkeley, ser mais abastado é ter mais saúde e ser mais rico é
ter mais segurança. À medida que as pessoas ficam mais ricas, elas compram mais
saúde e mais segurança — não apenas no que toca a cuidados médicos, mas a uma
melhor nutrição, melhor higiene, menos horas de trabalho, cozinhas e ambientes
de trabalho mais seguros. O custo de cada regulamentação proposta para melho-
rar a saúde ou a segurança deveria ser comparado com os custos de saúde em que
se incorrerá se as pessoas tiverem menos riqueza. Além disso, Wildavsky argumen-
ta, como as instituições e processos competitivos produzem ao longo do tempo
resultados melhores do que sistemas centralizados, então o processo de mercado

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Cap. 8 — O processo de mercado 161

competitivo tem mais chances de promover avanços na saúde e na segurança do


que sistemas mais burocráticos ou regulatórios.

Comércio internacional
O comércio internacional é uma das aplicações importantes do princípio de van-
tagem comparativa. Para um economista, não há nada especial no comércio inter-
nacional; os indivíduos fazem uma troca comercial quando ambos esperam obter
benefícios, vivam eles na mesma rua, ou em estados ou países diferentes.
Desde 1776, quando Adam Smith demonstrou os benefícios do livre-comércio,
não tem havido muito debate intelectual sobre o assunto. Mais do que com a maior
parte dos tópicos econômicos, o debate sobre o comércio tem sido levado adiante
por interesses particulares que buscam obter do governo vantagens que não estavam
conseguindo no mercado.
Quando dois indivíduos fazem uma troca comercial, ambos esperam obter benefí-
cios; e tanto a teoria quanto a observação mostram que na maior parte das vezes isso
se dá realmente, e o nível de riqueza na sociedade aumenta. A divisão de trabalho
permite que as pessoas se especializem naquilo que elas fazem melhor e promovam
trocas com quem geralmente tem especialização em outras coisas. Como escreveu
Smith, “É a máxima de [toda família] prudente (...) nunca tentar fazer em casa o que
será (...) mais caro produzir do que comprar (...). O que é prudente na conduta de
toda família privada dificilmente seria insensatez na de um grande reino”.
Ou seja, geralmente é melhor vender algo pelo qual se pode obter o melhor preço
e comprar algo que se pode obter pelo menor preço. Mas de alguma forma a existên-
cia de fronteiras nacionais confunde o pensamento das pessoas sobre os benefícios do
comércio. Talvez seja porque as estatísticas a respeito de “balança comercial” sejam
calculadas com base na nação. Poderíamos também calcular a balança comercial entre
Nova York e o estado vizinho de New Jersey, ou entre os estados de Massachussetts
e da Califórnia. Aliás, você pode calcular sua própria balança comercial, isto é, entre
você e todas as pessoas com quem faz comércio. Se eu fizesse isso, teria enormes défi-
cits com a mercearia, o dentista e certa loja de departamentos, porque eu compro mui-
to deles e eles nunca compram nada de mim. Meus únicos excedentes seriam com meu
empregador e o editor deste livro, porque não compro quase nada deles. Qual seria o
sentido desses cálculos? Eu esperava obter benefício de cada uma dessas transações, e o
único balanço que me importa é se minha renda excede meus gastos. O melhor jeito de
fazer que isso aconteça é me concentrar em fazer aquilo que faço melhor e deixar que
os outros façam o que eles fazem melhor.
A própria noção de “balança comercial” é errônea. O comércio não tem que ser
equilibrado. Assim como um indivíduo não pode consumir mais do que produz
(exceto se ele for um ladrão ou beneficiário de presentes, caridade, ou programas

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162 O Manifesto Libertário

governamentais), todos os indivíduos de um país não podem consumir mais do que


produzem, ou importar mais do que exportam. Por mais que essa seja uma imagem
agradável, os produtores de outros países não vão nos dar seus produtos de graça,
nem em troca de dólares que nunca serão trocados por nossos bens ou serviços. Uma
“balança comercial” nacional é apenas um compósito de todas as trocas comerciais
feitas pelos indivíduos da nação; se cada uma dessas trocas teve sentido econômico,
não é possível que a agregação delas seja um problema.
Frédéric Bastiat afirmou que uma nação podia melhorar sua balança comercial car-
regando um navio com produtos de exportação, registrando sua partida e depois afun-
dando-o além do limite de 3 milhas. Os bens foram exportados, não se importou nada,
e a balança comercial é favorável. É óbvio que essa não seria uma política razoável.
O verdadeiro problema pode estar em um erro econômico fundamental: consi-
derar positivas as exportações e negativas as importações. Vemos essa falácia em
todas as discussões de negociações comerciais. Os jornais sempre relatam que os
Estados Unidos “abriram mão” de algumas de suas restrições às importações em
troca de “concessões” similares de outras nações. Mas não estamos abrindo mão
de nada quando o governo americano deixa que os consumidores americanos com-
prem de fornecedores estrangeiros. O objetivo da atividade econômica é o consu-
mo. Produzimos com o objetivo de poder consumir. Vendemos para poder comprar.
E exportamos para pagar nossas importações. Para cada participante do comércio
internacional, o objetivo é adquirir bens de consumo tão baratos quanto possível.
O benefício da troca é o produto importado; o custo é o produto exportado.
Em sua campanha presidencial de 1996, Pat Buchanan pôs-se de pé no porto de
Baltimore e disse: “Este porto em Baltimore é um dos maiores e mais movimentados
da nação. Precisamos ter mais bens americanos saindo daqui”. Isso é fundamental-
mente errôneo. Não queremos enviar para fora uma parte de nossa riqueza maior do
que a necessária para adquirir bens de fora. Se a Arábia Saudita nos desse petróleo
de graça, e o Japão, televisores, os americanos estariam em situação melhor. As pes-
soas e o capital usados para produzir esses televisores — ou para produzir coisas que
foram trocadas por televisores — poderiam então ser deslocados para a produção
de outros bens. Infelizmente, para nós, não recebemos esses bens de outros países
de graça. Mas, se podemos tê-los por um custo menor do que o de produzi-los nós
mesmos, então estamos em situação melhor.
Às vezes o comércio internacional é visto em termos de competição entre nações.
Devemos vê-lo, em vez disso, como uma forma de cooperação, tal como o comércio
doméstico. E devemos lembrar que os bens são produzidos por indivíduos e empre-
sas, não por estados-nações. O “Japão” não produz televisores; os “Estados Unidos”
não produzem o entretenimento mais popular do mundo. Os Indivíduos, organiza-
dos em parcerias e corporações em cada país, produzem e trocam. Em todo caso, a

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Cap. 8 — O processo de mercado 163

economia de hoje é tão integrada globalmente que não está claro nem mesmo o que
vem a ser uma empresa “japonesa” ou “holandesa”. Se a Ford Motor Company é dona
de uma posição controladora na Mazda, que produz carros na Malásia e os vende na
Europa, que “país” está ganhando pontos no placar internacional? Os ganhadores
imediatos parecem ser os investidores nos Estados Unidos e no Japão, os trabalha-
dores na Malásia e os consumidores na Europa; mas é claro que os benefícios mais
amplos do comércio internacional virão naturalmente para os investidores, trabalha-
dores e consumidores em todos esses lugares.
O benefício do comércio internacional para os consumidores está claro: podemos
comprar bens em outros países se acharmos que eles são melhores ou mais baratos.
Há ainda outros benefícios. Primeiro, o comércio internacional permite que a divi-
são do trabalho seja feita em maior escala, tornando possível às pessoas em cada país
produzir os bens nos quais elas têm vantagem comparativa. Segundo Mises, “Os ha-
bitantes da [Suíça] preferem manufaturar relógios a cultivar trigo. A relojoaria é para
eles a maneira mais barata de adquirir trigo. Por outro lado, o cultivo do trigo é para
o fazendeiro canadense a maneira mais barata de adquirir relógios”.
Uma grande vantagem dos sistemas de preços é que eles nos dão um padrão pelo
qual podemos determinar quais os bens que cada um de nós deve produzir. Devemos
produzir café, milho, rádios, filmes ou máquinas de fazer roscas? A resposta é: o que
nos der mais lucro. O economista Michael Boskin, da Universidade de Stanford, viu-
-se em dificuldades quando foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos
(Council of Economic Advisers) do presidente George Bush, por, segundo relatos, ter
dito algo que era absolutamente verdade: um dólar em batata frita vale tanto quanto
um dólar em chips de computador, e não importa qual dos dois se produza. Um país
tão avançado em tecnologia quanto os Estados Unidos vai fabricar muitos produtos
de ponta e, embora muitas vezes os projetos sejam desenvolvidos localmente — onde
o lucro é maior —, enviar chips, televisores e outros produtos físicos para fabricação
em outros lugares, onde o custo for mais barato. Também parece que temos uma
enorme vantagem comparativa na produção de cultura popular: filmes, televisão,
música, jogos de computador etc. E, apesar dos nossos avanços tecnológicos, temos
grandes quantidades de rica terra cultivada e fazendeiros altamente produtivos, en-
tão produzimos muitos produtos agrícolas a um preço que ninguém consegue supe-
rar. Contrariamente às ideias mercantilistas, muitas economias prosperaram graças
à exportação, principalmente de materiais relativamente não transformados, como
madeira, carne, grãos, lã e minerais. É só pensar no Canadá, Estados Unidos, Aus-
trália, Nova Zelândia. Outros prosperaram como comerciantes e manufatureiros,
apesar de uma carência inegável de recursos naturais. Aí se pode pensar na Holanda,
Suíça, Grã-Bretanha, Japão e Hong Kong. O importante são os mercados livres, e não
os recursos ou produtos específicos.

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164 O Manifesto Libertário

Deve-se lembrar que não é necessário que cada país tenha vantagem absoluta em
produzir alguma coisa; sempre haverá uma vantagem comparativa em alguma coisa.
Mesmo que Liz Clairborne seja a melhor digitadora em sua empresa, ainda assim ela
vai continuar desenhando roupas e contratar alguém para digitar releases. Mesmo
que os americanos possam fabricar qualquer produto que se imagine por um preço
menor que o dos mexicanos, ambos os países continuarão ganhando com o comér-
cio, porque as empresas mexicanas farão os bens que forem relativamente — mesmo
que não absolutamente — produzidos com mais eficiência.
O comércio internacional também permite economias de escala (isto é, a efici-
ência que as companhias podem atingir ao produzir em grandes quantidades), o
que não se conseguiria em economias nacionais menores. Isso é menos importante
para as empresas americanas, que já têm o maior mercado do mundo, do que para as
empresas da Suíça, Hong Kong, Taiwan e outras pequenas nações. Mas, mesmo as
companhias americanas, especialmente se produzirem para um mercado restrito,
podem reduzir seu custo por unidade vendendo no mercado internacional.
O livre-comércio internacional é um incentivo competitivo importante para em-
presas domésticas. Os carros americanos são melhores do que eram há vinte anos
por causa da concorrência de empresas japonesas e de outros países. Segundo Brink
Lindsey, um advogado especializado em direito comercial, as siderúrgicas integradas
também melhoraram sua eficiência em resposta à concorrência estrangeira, e os “fa-
bricantes americanos de semicondutores, diante da brutal concorrência japonesa em
chips de memória produzidos em massa, melhoraram sua eficiência na manufatura
e concentraram recursos em sua força na área de chips lógicos de design complexo”.
Quando os governos restringem o comércio internacional a mando de grupos
de interesse domésticos, eles impedem o processo de informação e coordenação do
mercado. Eles “protegem” algumas indústrias e empregos, mas à custa de toda a eco-
nomia. O protecionismo impede que o capital e o trabalho se direcionem a usos que
satisfariam melhor a demanda do consumidor. Assim como as automações, as im-
portações diminuem os empregos em uma parte da economia, permitindo que esses
trabalhadores se desloquem para trabalhos mais produtivos.
Henry George, economista do século XIX, apontou em Protection or Free Trade
[Proteção ou livre-comércio] que as nações tentam barrar a passagem de seus inimi-
gos para restringir o comércio internacional em tempos de guerra, o que se parece
muito com protecionismo:

Bloqueios navais são um meio pelo qual as nações pro-


curam impedir que seus inimigos façam comércio;
tarifas protetoras são um meio pelo qual as nações pro-
curam impedir que seu próprio povo faça comércio.

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Cap. 8 — O processo de mercado 165

O que o protecionismo nos ensina é fazer a nós mesmos


em tempo de paz o que os inimigos procuram nos fazer
em tempo de guerra.

Finalmente, um grande benefício do comércio internacional é reduzir as oportu-


nidades de guerra. Os liberais do século XIX diziam: “Quando os bens não podem
atravessar as fronteiras, os exércitos as atravessam”. O comércio gera pessoas interes-
sadas na paz em ambos os lados das fronteiras nacionais e aumenta os contratos e o
entendimento internacional. Isso não significa que nunca haverá uma guerra entre
países que praticam o livre-comércio, mas as relações comerciais realmente parecem
melhorar as perspectivas de paz.

O governo e o processo produtivo


De todas essas formas e outras mais, o governo interfere na cooperação e coorde-
nação, que são o processo de mercado. Introduzir a intervenção governamental no
mercado é como introduzir uma chave inglesa em uma engrenagem complexa. Só
pode reduzir sua eficiência. Felizmente, o processo de mercado é mais parecido com
uma rede de computadores do que com uma engrenagem; em vez de parar comple-
tamente, o processo de mercado envia informações por rotas alternativas para con-
tornar a intervenção destrutiva. Sua eficiência é reduzida, mas ele não para. Adam
Smith certa vez encontrou um jovem que reclamava de alguma nova política, dizen-
do: “Esta será a ruína da Grã-Bretanha”. Ao que Smith respondeu: “Meu jovem, há
muita ruína em uma nação”. De maneira semelhante, o grande historiador britânico
Thomas Babington Macaulay escreveu: “Muitas vezes se percebeu que gastança exa-
gerada, tributação pesada, restrições comerciais absurdas, tribunais corruptos [etc.]
não têm sido capazes de destruir o capital tão rápido quanto os esforços de cidadãos
privados podem criá-lo”.
É nossa grande sorte que o processo de mercado seja tão resiliente que possa con-
tinuar a progredir e produzir apesar do fardo de tanta tributação e regulamentação.
Mas há custos reais. Se apenas olharmos a desaceleração da produtividade por traba-
lhador, e portanto do crescimento econômico nos Estados Unidos a partir dos anos
1970 — em grande parte por causa do dramático crescimento de tributos e regula-
mentações nos anos 1960 e 1970 —, o americano médio poderia ser 40% mais rico
hoje, se a produtividade tivesse continuado a aumentar tão rápido quanto cresceu
durante os 25 anos precedentes. Pessoas prósperas podem achar que um aumento
de 40% em riqueza e renda não seria tão importante (embora eu certamente fosse
gostar de ver as novas tecnologias e produtos que fariam parte desse aumento), mas
os americanos de renda mais baixa indubitavelmente teriam a vida melhorada por
um crescimento dessa escala.

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166 O Manifesto Libertário

Cada novo tributo, cada nova regulamentação torna a propriedade um pouco me-
nos segura, dá a cada indivíduo um pouco menos de incentivo para criar riqueza, torna
nossa sociedade um pouco menos adaptável, concentra o poder um pouco mais. Há
muitas ruínas em uma nação, mas a sociedade civil não é infinitamente resiliente.

O que se vê e o que não se vê


Toda proposta de intervenção do governo na economia envolve um truque de mágica.
Como um mágico, o político que propõe um tributo, um subsídio ou um programa quer
que os eleitores olhem somente para sua mão direita e não notem sua mão esquerda.
No início do século XIX, Frédéric Bastiat escreveu um brilhante ensaio que ins-
pirou o popular Economics in One Lesson [Economia numa única lição] de Henry
Hazlitt. Como afirma Hazlitt,

Pode-se reduzir toda a economia a uma única lição (...).


A arte da economia consiste em olhar não apenas para os
efeitos imediatos, mas para os efeitos de longo prazo de qual-
quer ato ou política; consiste em rastrear as consequências
dessa política não apenas para um grupo, mas para todos os
grupos. (grifo no original)

Bastiat e Hazlitt começam ambos com a história da janela quebrada. Em uma ci-
dade pequena, um adolescente quebra a janela de uma loja. No início, todos se reú-
nem na frente da loja e o chamam de vândalo. Mas então uma pessoa diz que, afinal,
alguém vai ter que substituir a janela. O dinheiro que o dono da loja paga ao homem
que instala a janela permitirá que ele compre um terno novo. O alfaiate então vai
poder comprar uma nova escrivaninha. À medida que o dinheiro circula, todos na
cidade se beneficiam do vandalismo do menino. O que se vê é o dinheiro circulando
a partir da substituição da janela; o que não se vê é o que teria sido feito com o di-
nheiro se nenhuma janela tivesse sido quebrada. Ou o dono da loja o teria poupado,
adicionando-o ao capital de investimento e conseguindo posteriormente um melhor
padrão de vida, ou o teria gasto. Talvez tivesse comprado um novo terno ou uma nova
escrivaninha. A cidade não está em melhor situação; as pessoas tiveram que gastar
dinheiro substituindo algo, em vez de ter gerado uma riqueza nova.
Colocada de maneira tão simples, a falácia pode soar obviamente absurda. Quem
afirmaria que uma janela quebrada pode beneficiar a sociedade? Mas, como aponta-
ram Bastiat e Hazlitt, a mesma falácia pode ser encontrada todos os dias nos jornais.
O exemplo mais claro é a história que sempre aparece dois dias depois de um desastre
natural. Sim, o furacão Andrew foi horrível, as pessoas refletem no dia seguinte, mas
pense em todos os empregos na construção civil que serão criados quando forem

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Cap. 8 — O processo de mercado 167

reconstruídas as casas e fábricas. De fato, um jornal da Flórida trazia a manchete:


“Furacão Andrew traz boas notícias para economia do sul da Flórida”. O Washington
Post relatou que o Japão está considerando construir uma nova capital em algum
lugar exceto Tóquio. Pode haver bons argumentos para isso, mas não este: “Os de-
fensores afirmam que uma nova capital impulsionaria a letárgica economia do Japão.
O enorme projeto de construção criaria muitos empregos, e as reverberações seriam
sentidas por toda a economia nacional”. Seriam mesmo, mas em ambos os casos de-
vemos olhar para o que não se vê. Um furacão destrói riqueza real em uma sociedade
— casas, fábricas, igrejas, equipamentos. O capital e a mão de obra que são utilizados
na reconstrução dessas coisas não estão sendo usados para produzir riqueza adicio-
nal. Quanto a construir uma nova capital, o mesmo número de empregos poderia ser
criado com a construção de pirâmides; mas, se não há uma boa razão para uma nova
capital, então capital e mão de obra estão sendo afastados de usos mais produtivos.
Uma falácia relacionada com isso é a afirmação de que a Alemanha Ocidental e o
Japão cresceram tão rápido após a Segunda Guerra Mundial não porque tinham tri-
butos menores e mercados mais livres do que alguns dos vencedores da guerra, mas
porque suas fábricas foram destruídas e eles construíram outras, novas e mais mo-
dernas. Até onde sei, as pessoas que afirmam tais coisas nunca chegaram a incentivar
o bombardeio das fábricas, digamos, da França ou da Grã-Bretanha para impulsionar
seu crescimento econômico.
A falácia da janela quebrada tem uma aplicação bem mais ampla:
r Sempre que os políticos propõem tributar as pessoas para construir um está-
dio para o dono multimilionário de um grande time esportivo, eles acenam
com a mão direita a promessa de que o aumento da atividade econômica vai
mais do que repor o dinheiro gasto. Mas eles não querem que você olhe para a
mão esquerda — os empregos e a riqueza criados com o dinheiro que as pes-
soas teriam gasto se ele não lhes tivesse sido tomado sob a forma de tributos
para a construção do estádio.
r Depois que o governo federal deu à Chrysler Corporation 1,5 bilhão de dó-
lares em garantias de empréstimos, os jornais relataram que o esforço era um
sucesso porque a Chrysler se manteve no mercado. O que eles não relataram
— não podiam relatar — foi o que não se viu: as casas que não foram cons-
truídas e as empresas que não se expandiram com o dinheiro que outras pes-
soas não puderam tomar emprestado, porque o governo direcionou recursos
escassos para a Chrysler.
r Em todas as gerações, desde a Revolução Industrial, as pessoas têm se preo-
cupado com a ideia da eliminação de empregos pela automação. Em 1945,
a primeira-dama Eleanor Roosevelt escreveu: “Chegamos a um ponto hoje
em que máquinas automáticas são positivas somente quando não expulsam o

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168 O Manifesto Libertário

trabalhador de seu emprego”. Nesse caso, parece que não havia muito traba-
lho para proteger. Gunnar Myrdal, que chegou a receber um Prêmio Nobel de
economia, escreveu em 1970, em The Challenges of World Poverty [Os desafios
da pobreza mundial], que máquinas para automação da produção não deviam
ser introduzidas em países em desenvolvimento porque elas “diminuem a de-
manda de mão de obra”. É claro que a automação reduz a demanda de certos
tipos de mão de obra, mas isso significa que a libera para fazer outras coisas.
Se é possível produzir coisas com menos recursos, então mais coisas podem
ser produzidas — mais roupas, mais casas, mais vacinas para manter nossos
filhos vivos, mais comida para as pessoas subnutridas, mais centros de trata-
mento de água para combater a cólera e a disenteria.

Cada plano para criar empregos por meio de gastos do governo significa que tri-
butos serão cobrados das pessoas para pagar pelo projeto. O dinheiro gasto pelo
governo deixa então de ser gasto pelas pessoas que trabalharam para ganhá-lo, nos
projetos que elas teriam escolhido. As emissoras de televisão podem mandar câ-
meras para filmar as pessoas que conseguiram empregos ou serviços do programa;
mas não conseguem encontrar aqueles que não conseguiram emprego porque uma
pequena quantia de dinheiro foi desviada de cada pessoa na sociedade para pagar
pelo programa que se vê.

Capitalismo e liberdade
No pioneiro ensaio “The use of knowledge in society” [O uso do conhecimento na
sociedade], Friedrich A. Hayek escreveu:

Não pensamos muito no funcionamento do [sistema de


preços]. Estou convencido de que se esse fosse o resulta-
do de planejamento humano deliberado, e se as pessoas,
guiadas pelas mudanças de preços, entendessem que suas
decisões têm um significado que vai muito além de seu
objetivo imediato, esse mecanismo teria sido reclamado
como um dos grandes triunfos da mente humana.

Mas, como enfatizo ao longo deste livro, as grandes instituições espontâneas da socie-
dade — o direito, a língua e os mercados — não foram planejadas por ninguém. Todos
participamos, sem saber, de seu funcionamento e de fato não pensamos nelas. Isso não é
problema. Afinal, elas evoluem mesmo espontaneamente. Precisamos apenas lembrar de
deixar funcionar a aparente mágica do processo de mercado e não permitir que as desa-
jeitadas intervenções do governo cheguem ao ponto de fazer que ele pare de funcionar.

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Capítulo 9

O que é realmente o
governo inchado

O
governo tem um papel importante em uma sociedade livre. Ele deve prote-
ger nossos direitos, criando uma sociedade na qual as pessoas possam viver
sua vida e empreender projetos em razoável segurança contra a ameaça de
assassinato, assalto, roubo ou uma invasão estrangeira. Pelos padrões da maior parte
dos governos ao longo da história, esse é um papel extremamente singelo. Foi isso
que fez a Revolução Americana tão revolucionária. A Declaração de Independência
proclamou: “Para assegurar esses direitos, são instituídos os governos entre os ho-
mens”. Não “para tornar morais os homens”. Não “para impulsionar o crescimento
econômico”. Não “para garantir a todos um padrão de vida digno”. Apenas a ideia
simples e revolucionária de que o papel do governo estava limitado a assegurar nos-
sos direitos. Mas imagine quão melhor estaríamos todos se o governo fizesse bem
seu trabalho nessa tarefa simples e limitada.
Infelizmente, a maior parte dos governos não atende às expectativas da visão
de Thomas Jefferson de duas maneiras. Primeira, eles não fazem bem o trabalho
de prender e punir, rápida e certamente, aqueles que violam nossos direitos. Se-
gunda, eles procuram se tornar maiores adquirindo mais e mais poderes, intro-
metendo-se em mais aspectos de nossa vida, exigindo mais do nosso dinheiro e
nos privando de liberdade.
O aspecto mais revolucionário da Revolução Americana foi que ela procurou
criar do zero um governo nacional limitado a quase nada além de proteger os direitos
individuais. Durante a Idade Média, na Grã-Bretanha e em outros países europeus,
a ideia de limites ao governo havia crescido. As cidades tinham escrito suas próprias
cartas constitucionais, e assembleias representativas tinham procurado controlar os
reis por meio de documentos como a Carta Magna ou a Bula de Ouro da Hungria.
Muitos dos colonos americanos — e alguns de seus aliados britânicos, como Ed-
mund Burke — viam a revolução como a reclamação de seus direitos como ingleses.
Mas as sublimes palavras da Declaração e as estritas regras da Constituição foram
além do que qualquer esforço prévio ao declarar os direitos naturais da vida, da
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170 O Manifesto Libertário

liberdade e da propriedade e delegar ao novo governo somente os poderes necessá-


rios para proteger esses direitos.
Devemos distinguir neste ponto entre “governo” e “estado”. Esses dois termos
às vezes são usados como se fossem intercambiáveis, especialmente no inglês ame-
ricano; na verdade se referem a duas instituições muito importantes mas facilmen-
te confundidas. Um governo é a organização consensual pela qual adjudicamos
necessidades, defendemos nossos direitos e atendemos a algumas necessidades
comuns. Uma associação de condomínio, por exemplo, tem um governo para adju-
dicar disputas entre os proprietários, regular o uso de áreas comuns, dar aos resi-
dentes segurança contra invasores externos e prover outras necessidades comuns.
Podemos ver prontamente por que as pessoas procuram ter um governo como o
descrito. Em todo caso, os residentes concordam quanto aos termos do governo
(sua constituição ou carta ou estatutos) e dão seu consentimento para ser por ele
governados. Um estado, por outro lado, é uma organização coercitiva que reivin-
dica ou tem o monopólio do uso da força em alguma área geográfica e exerce poder
sobre seus súditos. A audácia e o gênio dos Pais Fundadores americanos foram
uma tentativa de criar um governo que não fosse um estado.
Historicamente, as origens reais do estado se encontram na conquista e na ex-
ploração econômica. O sociólogo Franz Oppenheimer apontou que há duas formas
básicas de adquirir os meios de satisfazer nossas necessidades humanas. “São eles o
trabalho e o roubo, o labor próprio e a apropriação pela força do resultado do labor
de outros.” Ele chamou o trabalho e a livre troca de “meio econômico” de adquirir
riqueza, e a apropriação do trabalho de outros de “meio político”.
A partir desse insight básico, Oppenheimer afirmou, podemos discernir as origens
do estado. Bandidagem, roubo e fraude são as formas usuais pelas quais as pessoas
procuram se apropriar à força do que outros produziram. Mas quão mais eficiente
seria organizar e regularizar o roubo! Segundo Oppenheimer, “O estado é a organi-
zação do meio político”. Os estados surgiam quando um grupo conquistava outro e
passava a dominá-lo. Em vez de pilhar o grupo conquistado e seguir adiante, os con-
quistadores se instalavam e passavam da pilhagem à tributação. Essa regularização
tinha algumas vantagens para a sociedade conquistada, que é uma das razões pelas
quais perdurou: em vez de desenvolver culturas ou construir casas e então ficar sujei-
to a assaltos imprevisíveis por saqueadores, o povo produtivo e pacífico pode preferir
simplesmente ser forçado a abrir mão, digamos, de 25% de sua colheita para seus
dominadores, certo de que isso vai — em geral — ser a extensão total da depredação
e de que estará protegido de saqueadores.
Esse entendimento básico da distinção entre sociedade e estado, entre as pes-
soas e seus governantes, tem raízes profundas na civilização ocidental, remetendo
ao aviso de Samuel ao povo de Israel de que um rei iria “tomar seus filhos e suas

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Cap. 9 — O que é realmente o governo inchado 171

filhas e seus campos” e ao conceito cristão de que o estado é concebido em peca-


do. Os Levellers, os grandes lutadores pela liberdade inglesa no tempo de Carlos I e
Cromwell, entenderam que as origens do estado inglês jaziam na conquista da Grã-
-Bretanha pelos normandos, que impuseram aos ingleses um “jugo normando”. Um
século mais tarde, quando Thomas Paine procurou enfraquecer a legitimidade da
monarquia britânica, apontou que “Um bastardo francês, que desembarcou com um
bando armado e investiu-se rei da Grã-Bretanha contra o consentimento dos nativos,
é, falando francamente, um patife muito desprezível”.
Em um ensaio de 1925, “More of the same” [Mais do mesmo], o jornalista H. L.
Mencken concordou:

O homem médio... vê claramente que o governo é algo que


fica fora dele e da generalidade de seus companheiros —
que é um poder separado, independente e hostil, apenas
parcialmente sob seu controle e capaz de lhe fazer grande
mal (...). [O governo] é percebido não como um comitê de
cidadãos escolhidos para conduzir as preocupações co-
muns de toda a população, mas como uma corporação au-
tônoma e separada, devotada principalmente a explorar a
população para o benefício de seus próprios membros (...).
Quando um cidadão particular é roubado, um homem
digno é privado dos frutos de sua indústria e temperança;
quando o governo é roubado, o pior que pode acontecer é
que alguns trapaceiros indolentes tenham menos dinheiro
com que brincar do que tinham antes.

O estado democrático
Geralmente se discute nos Estados Unidos que tudo isso pode ter sido verdade
antigamente, ou até nos países dos quais nossos ancestrais fugiram, mas que em
um país democrático “nós somos o governo”. Os próprios Pais Fundadores espera-
vam que uma forma de governo democrática — ou, como diziam, republicana —
nunca violasse os direitos do povo ou fizesse qualquer coisa contra os interesses do
povo. A lamentável realidade é que não podemos todos ser governo. A maior parte
de nós está ocupada demais trabalhando, produzindo riqueza e cuidando da famí-
lia para vigiar o que os governantes estão fazendo. Que pessoa normal e produtiva
pode ler ao menos uma das leis de orçamento de mil páginas que o Congresso
aprova a cada ano para descobrir o que realmente se diz nela? Nem um americano
em cem sabe quanto realmente paga em tributos, dadas as muitas formas como os
políticos escondem seus custos.

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172 O Manifesto Libertário

Sim, temos o poder de mais ou menos a cada quatro anos expulsar os patifes e pôr
outros em seu lugar. Mas muitos fatores limitam o valor desse poder:
r Não há muitas opções fundamentalmente diferentes na cédula eleitoral.
A escolha entre Bush e Clinton, ou McCain e Obama, não é lá muito emo-
cionante. Até mesmo o supostamente revolucionário Congresso de 1994
mal diminuiu a velocidade com que o governo federal crescia.
r Somos obrigados a escolher um pacote. A Vila Sésamo recentemente mostrou
um exemplo do que isso significa. Em um especial da eleição, os Muppets e
seus amigos humanos têm 3 dólares para gastar, e eles aprendem a votar ao
decidir se querem comprar lápis de cera ou suco.
Rosita: Você conta as pessoas que querem lápis de cera. Depois conta as
que querem suco. Se mais pessoas quiserem suco, é suco para todos. Se mais
pessoas quiserem lápis, então é lápis.
Telly: Parece maluquice, mas talvez funcione!

Mas por que não deixar que cada criança compre o que ela quer? Quem é que pre-
cisa de democracia para essas decisões? Talvez haja alguns bens públicos, mas com
certeza suco e lápis de cera não são. No mundo real, um candidato oferece tributos
mais altos, legalização do aborto e retirada das tropas do Vietnã; outro promete um
orçamento equilibrado, oração nas escolas e uma escalada da guerra. E se você qui-
ser um orçamento equilibrado e a retirada do Vietnã? No mercado, você tem muitas
escolhas; a política o força a escolher entre apenas umas poucas delas.
r As pessoas empregam o que os economistas chamam de “ignorância racio-
nal”. Isto é, todos gastamos nosso tempo aprendendo coisas a respeito das
quais de fato podemos fazer alguma coisa, e não questões políticas sobre as
quais não conseguimos opinar. É por isso que mais da metade de nós não
sabe o nome de nenhum dos dois senadores de seu estado. (Tenho certeza
de que os leitores deste livro sabem, mas 54% das pessoas entrevistadas pelo
Washington Post não sabiam.) Por isso a maior parte de nós não tem ideia de
quanto do orçamento federal vai para o Medicare, para a ajuda estrangeira ou
qualquer outro programa. Como um empresário do Alabama disse ao Post,
“Política não me interessa. Eu não acompanho (...). Sempre tive que ganhar
meu pão”. Ellen Goodman, uma sensível colunista de esquerda que acredita
no “bom governo”, reclama de um amigo que passou meses pesquisando um
carro novo e de seus próprios esforços pesquisando o conteúdo de carboidra-
to, fibra, gordura e o preço de vários cereais. “Será que meu amigo que quer
comprar um carro usaria as horas que gastou comparando sistemas de inje-
ção de combustível para comparar programas de saúde nacionais?”, pergun-
ta Goodman. “Talvez não. Os momentos que passo estudando cereais serão

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Cap. 9 — O que é realmente o governo inchado 173

devotados ao estudo do efeito estufa sobre o grão? Talvez não.” Certamente


não — e por que deveriam? Goodman e seu amigo terão o carro e o cereal que
quiserem, mas que bem faria estudar o programa de saúde nacional? Depois de
uma enorme quantidade de pesquisa sobre medicina, economia e burocracia,
seu amigo pode decidir que plano de saúde prefere. Ele então passa a estudar
os candidatos à presidência e descobre que oferecem apenas vagas indicações
sobre o plano de saúde que implementariam. Mas, após diligente investigação,
nosso eleitor bem informado escolhe um candidato. Infelizmente, o eleitor não
gosta da posição daquele candidato sobre nenhuma outra questão — o proble-
ma de escolher o pacote —, mas decide votar com base na questão da saúde.
Ele tem uma em centenas de milhões de chances de influenciar o resultado da
eleição presidencial, após a qual, se o candidato tiver sucesso, depara com um
Congresso de ideias diferentes e, no fim das contas, o candidato nem estava sen-
do sincero. Instintivamente percebendo todas essas coisas, a maior parte dos
eleitores não gasta muito tempo estudando políticas públicas. Dê a esse mesmo
eleitor três planos de seguro de saúde entre os quais ele possa escolher, no entan-
to, e provavelmente ele vai passar algum tempo estudando-os.
r Finalmente, como se observou acima, os candidatos no fim das contas pro-
vavelmente estão enganando a si mesmos ou aos eleitores. Em 2000, a cam-
panha de George W. Bush atravessou o país dizendo a seus eleitores: “meu
oponente confia no governo. Eu confio em vocês”. Essa confiança não durou
muito. Os gastos federais aumentaram em 83% durante os oito anos da admi-
nistração Bush, comparados com um aumento de 32% durante a presidência
de Bill Clinton. Um dos atrativos de Barack Obama – até para alguns liber-
tários – era a perspectiva de uma política externa mais contida e de melhoras
para a imagem internacional dos Estados Unidos. Mas Obama logo dobrou as
tropas comprometidas com o Afeganistão e frustrou aqueles que acreditaram
nele quando disse, “eu terminarei com essa Guerra em 2009. É hora de trazer
nossos soldados de volta pra casa”. Se nós somos o governo, por que acabamos
com tantas políticas que não queremos, da integração racial forçada nas esco-
las e da guerra no Vietnã a enormes dívidas, tributos mais altos do que quase
qualquer americano aprovaria, e a guerra no Oriente Médio?

Não, mesmo na democracia há uma diferença fundamental entre os governantes e


os governados. Mark Twain disse certa vez: “Provavelmente é possível mostrar por fa-
tos e números que não há nenhuma classe americana nativa distintamente criminosa,
exceto o Congresso”. Nosso Congresso, é claro, não é pior do que o de outros países.
Uma das mais fascinantes e honestas descrições da política jamais escritas veio de
uma carta escrita por Lord Bolingbroke, um líder Tory inglês no século XVIII.

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174 O Manifesto Libertário

Receio que tenhamos vindo à Corte com as mesmas


disposições de todos os outros partidos; que a principal
motivação de nossas ações tenha sido ter o governo do
estado em nossas mãos; que nossos principais objetivos
eram a conservação desse poder, bons empregos para nós
mesmos e grandes oportunidades de recompensar aque-
les que nos ajudaram a ascender e prejudicar aqueles que
se opuseram a nós.

Os libertários reconhecem que o poder tende a corromper quem o detém. Quantos


políticos, por mais bem-intencionados que sejam, podem evitar o abuso do considerável
poder dos governos expandidos de hoje? Observe-se os constantes esforços do senador
Robert Byrd para transferir toda a folha de pagamento federal para West Virgínia, ou o
longo registro do senador Bob Dole de contribuições provenientes da Archer-Daniels-
-Midland Corporation e sua defesa de enormes subsídios federais para a empresa. Ou
veja-se o claro eco da carta de Bolingbroke nas notas de um assessor da Casa Branca
sobre as instruções de Hillary Clinton para demitir servidores públicos de carreira no
Escritório de Turismo da Casa Branca (White House Travel Office): “Precisamos dessas
pessoas fora — Precisamos de nossas pessoas dentro — Precisamos das vagas”.
Uma ilustração particularmente impressionante do que poderíamos chamar de Lei
de Bolingbroke é o histórico do ex-governador de Maryland, Parris N. Glendening.
Eleito em 1994, Glendening parecia incorruptível e honesto, um ex-professor mo-
derado e um tecnocrata. Ele talvez desse a Maryland um governo inchado, mas pelo
menos seria um governo limpo. O que fez ele então quando assumiu? Bem, aqui está
a descrição de seu primeiro orçamento no Washington Post: “Em seu primeiro grande
ato como governador de Maryland, Parris N. Glendening apresentou um orçamento
isento de novos tributos que descaradamente dirige a maior parte dos gastos para as
três áreas que mais pesadamente votaram nele: os condados de Montgomery e Prince
George e Baltimore”. Lord Bolingbroke, esse é dos seus. Alguns dias depois, veio à
tona que Glendening e seu principal assessor estavam coletando dezenas de milha-
res de dólares em aposentadorias antecipadas do condado de Prince George — onde
Glendening tinha servido no Executivo antes de sua eleição a governador —, gra-
ças à sua interpretação criativa das regras que davam os benefícios de aposentadoria
antecipada a servidores do governo que tivessem sofrido “separação involuntária”
de seu emprego. Glendening decidiu que tinha sido “separado involuntariamente”
por causa do limite de dois mandatos sobre o Executivo do condado. E ele “exigiu”
a renúncia de seus principais assessores dois meses antes de deixar seu emprego no
condado — tornando-os também vítimas da “separação involuntária” —, contratan-
do-os depois como seus principais assessores na mansão do governador.

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Cap. 9 — O que é realmente o governo inchado 175

Como o coelhinho no anúncio da pilha Energizer, o trem de dinheiro de Glende-


ning simplesmente seguiu em frente. Em maio de 1995, o governador pediu à legisla-
tura para gastar 1,5 milhão de dólares em fundos de tributos para resgatar uma firma
de alta tecnologia do condado de Prince George em dificuldades, dirigida por um de
seus apoiadores políticos. Então, em agosto, Frank W. Stegman, secretário estadual
de Trabalho, Licenciamento e Regulamentação, contratou a esposa de Theodore J.
Knapp, secretário estadual de Pessoal e colega de Stegman na época do governo do
condado de Prince George, para um emprego em sua agência. Knapp, que não era
nenhum ingrato, retribuiu o favor recomendando um aumento de 10 mil dólares ao
parco salário de 100.542 dólares de Stegman.
Se isso é o que os políticos que parecem honestos fazem, imagine o que os outros
não estão fazendo.

Por que os governos incham


Thomas Jefferson escreveu: “O progresso natural das coisas é que a liberdade
ceda e o governo ganhe terreno”. Duzentos anos depois, James M. Buchanan ganhou
o Prêmio Nobel de Economia por uma vida inteira de pesquisa acadêmica confir-
mando os pensamentos de Jefferson. A teoria de Buchanan, desenvolvida junto com
Gordon Tullock, chama-se Escolha Pública. Baseia-se em um ponto fundamental: os
burocratas e políticos são tão autocentrados quanto qualquer um de nós. Mas muitos
acadêmicos tiveram — e têm — crenças diferentes, e é por isso que os livros-textos
de economia nos dizem que as pessoas na economia privada agem em interesse pró-
prio, mas o governo age em interesse público. Notou o pequeno truque da última
frase? Eu disse “pessoas na economia privada”, mas depois eu disse “o governo age”.
A transição do individual para o coletivo confunde a questão. Porque, na verdade, o
governo não age. Algumas pessoas no governo agem. E por que deveria um rapaz que se
forma na faculdade e vai trabalhar na Microsoft ter interesse em si mesmo, enquanto
seu colega de quarto que vai trabalhar no Departamento de Habitação e Desenvolvi-
mento Urbano (Department of Housing and Urban Development) subitamente, inspi-
rado pelo altruísmo, começa a agir no interesse do público?
Como se vê, assumir a simples premissa econômica de que os políticos e burocra-
tas agem exatamente como todo mundo — ou seja, em seu próprio interesse — tem
enorme poder explicativo. Muito melhor do que os modelos simplistas dos livros de
educação cívica, que presumem que os oficiais públicos agem em interesse público,
o modelo da Escolha Pública explica padrões de votação, esforço de lobby, gastos
deficitários, corrupção, expansão do governo e a oposição de lobistas e membros do
Congresso a limites do número de mandatos. Adicionalmente, o modelo da Escolha
Pública explica por que o comportamento em interesse próprio tem efeitos positivos
em um mercado competitivo, mas é tão danoso no processo político.

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176 O Manifesto Libertário

É claro que políticos e burocratas agem em seu próprio interesse. Um dos con-
ceitos-chave da Escolha Pública é o de benefícios concentrados e custos difusos. Isso
significa que os benefícios de qualquer programa do governo estão concentrados em
algumas pessoas, enquanto seus custos são pulverizados entre muitas. Tome-se o
subsídio de etanol para a Archer-Daniels-Midland, por exemplo. Enquanto a Archer-
Daniels-Midland ganha 200 milhões de dólares por ano com ele, o custo para cada
americano é de cerca de 1 dólar. Você sabia disso? Provavelmente não. Agora que
você sabe, vai escrever para seu congressista e reclamar? Provavelmente não. Vai
pegar um avião até Washington, levar seu senador para jantar, dar a ele uma con-
tribuição de mil dólares e pedir-lhe que não vote a favor do subsídio do etanol? É
claro que não. Mas pode apostar que Dwayne Andreas, diretor da Archer-Daniels-
-Midland, está fazendo tudo isso e mais. Pense: quanto você gastaria para conseguir
um subsídio de 200 milhões de dólares do governo? Cerca de 199 milhões de dó-
lares se necessário, aposto. Então a quem é que os membros do Congresso vão dar
ouvidos? O americano médio que não sabe que está pagando 1 dólar em benefício de
Dwayne Andreas? Ou Andreas, que faz uma lista e a checa duas vezes para ver quem
está votando a favor do subsídio?
Se fosse apenas etanol, é claro, não importaria muito. Mas a maior parte dos pro-
gramas federais funciona do mesmo jeito. Tome-se como exemplo o programa de
subsídios agrícolas. Alguns bilhões de dólares para os fazendeiros subsidiados, que
compõem cerca de 1% da população dos Estados Unidos; alguns dólares por ano
para cada contribuinte. O programa de subsídios agrícolas é ainda mais sorrateiro.
Muitos dos seus custos envolvem aumento nos preços de alimentos, então os consu-
midores pagam por ele sem sequer perceber.
Bilhões de dólares são gastos todo ano em Washington para conseguir uma parte
dos trilhões de dólares em tributos que o Congresso gasta todo ano. Veja este anún-
cio tirado do Washington Post:

InfraStructure [infraestrutura] (...) é a nova palavra da


moda em Washington, que significa: (a) As instalações
físicas dos Estados Unidos, caindo aos pedaços? 3 tri-
lhões de dólares são necessários para consertar auto-es-
tradas, pontes, redes de esgoto etc. (b) Bilhões de dólares
federais para reconstrução? O tributo de 0,05 de dólares
sobre o galão de gasolina é só o começo. (c) Sua bíblia de
gastos com infraestrutura — aonde vai o dinheiro e como conseguir
sua parte — em um conciso panfleto quinzenal? RES-
POSTA: Todas as anteriores. Assinale.

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Cap. 9 — O que é realmente o governo inchado 177

Incontáveis panfletos como esse dizem às pessoas que dinheiro o governo está
distribuindo e como pôr suas mãos nele.
Em 1987, um anúncio promovendo o Projeto Animas-La Plata de represamento e ir-
rigação, no Herald, de Durango, no estado do Colorado, tornava explícitos os habituais
cálculos ocultos daqueles que tentam pôr as mãos no dinheiro do governo federal: “Por
que deveríamos apoiar o Projeto Animas-La Plata? Porque outra pessoa está pagando!
Nós recebemos a água. Nós recebemos o reservatório. Eles recebem a conta”.
Os economistas chamam isso de “rentismo”, do inglês rent-seeking. É outra ilus-
tração da distinção de Oppenheimer entre os meios político e econômico. Alguns
indivíduos e empresas produzem riqueza. Eles cultivam alimentos ou constroem
coisas que as pessoas querem comprar, ou oferecem serviços úteis. Outros acham
mais fácil ir a Washington, a uma capital estadual ou a uma prefeitura e conseguir um
subsídio, uma tarifa, uma cota, uma restrição aos seus competidores. Esse é o meio
político de conseguir riqueza, que, tristemente, tem crescido mais rápido do que o
meio econômico.
É claro que, no mundo moderno, no qual governos de trilhões de dólares distri-
buem favores como se fossem Papai Noel, fica mais difícil distinguir entre os produ-
tores e os rentistas, os predadores e a presa. O estado tenta nos confundir, como um
jogador de monte de três cartas, tomando nosso dinheiro com o mínimo de ruído
possível e depois dando-nos de volta uma parte dele com grande alarde. Todos nós
acabamos reclamando dos tributos mas exigindo nossa assistência médica pública, o
transporte público subsidiado, programas de subsídios agrícolas, parques nacionais
gratuitos etc., etc., etc. Frédéric Bastiat explicou no século XIX: “O estado é a gran-
de ficção na qual todo mundo tenta viver à custa de todos os outros”. Na agregação,
todos nós perdemos, mas é difícil saber quem tem perda líquida ou ganho líquido nas
circunstâncias imediatas.
Em seu livro Demosclerosis [Demoesclerose], o jornalista Jonathan Rauch descre-
veu o processo de rentismo:

Nos Estados Unidos, somente algumas classes de pessoas


têm poder de tomar seu dinheiro se você não se defender.
Uma delas é a classe criminosa. Pessoas que arrombam
seu carro ou assaltam sua casa (ou fazem buracos em seu
telhado) são membros da economia parasitária no senti-
do clássico: elas tomam sua riqueza se você não lutar ati-
vamente contra elas. Essas pessoas são dispendiosas para
a sociedade, não somente pelo que tomam, mas pelo alto
custo de mantê-las afastadas. Elas nos fazem comprar ca-
deados, alarmes, portões de ferro, seguranças, policiais,

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178 O Manifesto Libertário

seguros, e assim por diante...


Os criminosos, porém, não são os únicos a fazer isso.
O rentismo não é crime, mas legal e perfeitamente possível
sob uma condição: é preciso obter a ajuda da lei. Isto é, a
pessoa precisa persuadir políticos ou tribunais a intervir
em seu favor.

Assim, continua ele, cada grupo da sociedade cria uma forma de ser ajudado pelo
governo ou de impor dificuldades a seus concorrentes: as empresas buscam tarifas,
os sindicatos reclamam leis de salário mínimo (que tornam trabalhadores muito
qualificados e de alto custo mais econômicos do que trabalhadores pouco qualifica-
dos e de custo menor), os empregados do correio convencem o Congresso a tornar
ilegal a concorrência privada, as empresas procuram na regulamentação pequenas
frestas que possam prejudicar mais seus concorrentes do que a elas. E, como os bene-
fícios de cada uma dessas regras estão concentrados em poucas pessoas, enquanto os
custos estão distribuídos por muitos consumidores ou contribuintes, poucos lucram
à custa de muitos e recompensam os políticos que tornaram isso possível.
Outra razão pela qual os governos crescem demais é o que Milton e Rose Fried-
man chamaram de “a tirania do status quo”. Isto é, quando um novo programa gover-
namental é proposto, torna-se assunto de acalorado debate. (Pelo menos se estamos
falando de grandes programas como os subsídios agrícolas ou o Medicare. Muitos
programas menores são enfiados no orçamento com pouca ou nenhuma discussão,
e alguns acabam ficando bem grandes depois de uns anos.) Mas, uma vez que te-
nha sido aprovado, o debate sobre o programa praticamente acaba. Depois disso, o
Congresso simplesmente considera a cada ano em quanto aumentar seu orçamento.
Não há mais nenhum debate sobre se o programa deve existir. Reformas como o
orçamento de base zero e as leis de caducidade automática supostamente atacariam
esse problema, mas elas não tiveram muito efeito. Quando o governo federal tomou
a iniciativa de fechar o Conselho de Aeronáutica Civil (Civil Aeronautics Board) em
1979, descobriu-se que não havia diretrizes para fechar uma agência governamental
— isso simplesmente não acontece. Mesmo a Avaliação da Performance Nacional
(National Performance Review) do próprio presidente Clinton — o muito badalado
projeto de “reinventar o governo” — dizia: “O governo federal parece incapaz de
abandonar o obsoleto. Ele sabe somar, mas não subtrair”. Mas é possível passar mui-
to tempo pesquisando um orçamento do governo Clinton sem encontrar uma pro-
posta de eliminar um programa.
Um elemento da tirania do status quo é o que os habitantes de Washington cha-
mam de Triângulo de Ferro, que protege todas as agências e programas. O Triângulo
de Ferro consiste no comitê ou subcomitê do Congresso que supervisiona o progra-

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Cap. 9 — O que é realmente o governo inchado 179

ma, dos burocratas que o administram e dos interesses particulares que dele se be-
neficiam. Há uma porta giratória entre esses grupos: uma funcionária do Congresso
escreve uma regulamentação, depois ela vai até o braço executivo para administrá-la,
em seguida passa para o setor privado e ganha um monte de dinheiro fazendo lobby
entre seus antigos colegas, em nome do grupo de interesse afetado pela regulamen-
tação. Ou então um lobista corporativo faz contribuições a membros do Congresso
para conseguir que uma nova agência regulatória seja criada, após o que ele é indica-
do para a diretoria da agência — afinal, quem mais entende tanto o problema?
Se os burocratas e políticos agem em interesse próprio, como todos nós, como vão
agir no governo? Bem, não há dúvida de que às vezes eles procurarão servir ao interesse
público. A maior parte das pessoas acredita em tentar fazer a coisa certa. Mas os incen-
tivos no governo não são bons. Para ganhar mais dinheiro na economia privada, você
tem que oferecer às pessoas algo que elas queiram. Se conseguir, você atrai consumi-
dores; se não, você talvez vá à falência, ou perca seu emprego, ou seu investimento. Isso
mantém as empresas atentas o tempo todo, tentando encontrar formas melhores de
servir aos consumidores. Mas os burocratas não têm consumidores. Eles não ganham
mais dinheiro ao satisfazer mais consumidores. Em vez disso, ganham dinheiro e po-
der aumentando suas agências. O que é que os burocratas “maximizam”? Os burocra-
tas! Seu incentivo, então, é encontrar maneiras de contratar mais pessoas, expandir sua
autoridade e gastar mais dinheiro dos tributos. Descubra um novo problema no qual
sua agência poderia atuar, e o Congresso talvez lhe dê mais um bilhão de dólares, mais
um suplente e mais um escritório inteiro sob seu controle. Mesmo se você não desco-
brir um novo problema, alardeie que o problema deixado a seu encargo piorou muito
e com isso você vai poder conseguir mais dinheiro e poder. Por outro lado, se você
resolver um problema — melhorar as notas das crianças nos exames padronizados, ou
conseguir que todos os beneficiários do governo arranjem emprego —, o Congresso
ou sua legislatura estadual provavelmente vão decidir que você não precisa de mais
dinheiro. (Poderia até mesmo decidir fechar sua agência, mas essa é basicamente uma
ameaça vazia.) Que belo sistema de incentivo! Quantos problemas têm chance de ser
resolvidos quando o sistema pune quem os resolve?
A resposta óbvia parece ser uma mudança no sistema de incentivo. Mas é mais fácil
falar do que fazer. O governo não tem consumidores que possam usar seus produtos
ou experimentar os de um concorrente, então é difícil decidir quando o governo está
fazendo um bom trabalho. Se mais pessoas enviam cartas todos os anos, isso signifi-
ca que o correio americano está fazendo um bom trabalho para seus consumidores?
Não necessariamente, porque os clientes do correio são cativos. Se eles querem enviar
uma carta, têm que fazê-lo pelo correio dos Estados Unidos — a menos que estejam
dispostos a pagar pelo menos dez vezes mais por um serviço de entrega expressa. En-
quanto qualquer instituição estiver recebendo seu dinheiro coercitivamente, median-

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180 O Manifesto Libertário

te pagamentos legalmente exigidos, é difícil, talvez impossível, medir seu sucesso no


tocante a servir a seus consumidores. Enquanto isso, interesses particulares dentro do
sistema — políticos, administradores, sindicatos — lutam pelos despojos e resistem a
qualquer tentativa de medir sua produtividade ou eficiência.
Para ver a natureza autointeressada dos que estão no estado, basta olhar os jor-
nais de qualquer dia. Verifique como o sistema de pensão dos servidores federais é
melhor do que a Previdência Social. Olhe os 2 milhões de dólares em aposentadoria
que serão recebidos por cada membro do Congresso. Note que quando o Congresso
e o presidente fecham temporariamente o governo federal, eles continuam ganhando
seus contracheques, enquanto os simples empregados têm que esperar.
O cientista político James L. Payne examinou o registro de catorze audiências
de apropriação separadas — reuniões de comitê em que os membros do Congres-
so decidem que programas financiar e por quanto. Ele descobriu que um total de
1.060 testemunhas compareceram, das quais 1.014 testemunharam a favor do gasto
pretendido, e somente sete contra (o resto não foi claramente contra ou a favor). Em
outras palavras, em somente metade das audiências houve pelo menos uma teste-
munha contra o programa. Membros das equipes dos congressistas confirmaram
que ocorria a mesma coisa no escritório de cada um deles: a média de pessoas que
vinham pedir que o congressista gastasse dinheiro versus aqueles que se opunham a
qualquer programa em particular era de “muitos milhares para um”.
Não importa quão fortemente um novo legislador se oponha aos gastos, os pe-
didos constantes de dinheiro, dia a dia, ano a ano, terão um efeito. Cada vez mais
ele vai dizer: “Nós temos que cortar nossos gastos, mas este programa é necessá-
rio”. Realmente, os estudos mostram que, quanto mais tempo uma pessoa passa
no Congresso, mais gastos ela favorece em seus votos. É por isso que Payne cha-
mou Washington de Cultura da Gastança, na qual é preciso fazer um esforço quase
sobre-humano para se lembrar do interesse geral e votar contra programas que vão
beneficiar uma pessoa em particular que visitou seu escritório ou testemunhou
diante de seu comitê.
Há cerca de um século, um grupo de brilhantes estudiosos italianos pôs-se a es-
tudar a natureza do estado e suas questões monetárias. Um deles, Amilcare Puviani,
tentou responder a esta pergunta: se o governo estivesse tentando arrancar o máxi-
mo de dinheiro que pudesse de sua população, o que teria que fazer? Ele elaborou
onze estratégias que esse governo empregaria. Vale a pena examiná-las:

1. Uso de impostos indiretos em vez de diretos, para que o imposto fique escon-
dido no preço dos bens.
2. Inflação, pela qual o estado reduz o valor da moeda nas mãos de todo mundo.
3. Empréstimos, de modo a prorrogar a tributação necessária.

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Cap. 9 — O que é realmente o governo inchado 181

4. Impostos sobre doações e bens suntuosos, em que o tributo acompanha o


recebimento ou a compra de algo especial, diminuindo sua inconveniência.
5. Impostos “temporários”, que de alguma maneira nunca são repelidos quando
a emergência acaba.
6. Impostos que exploram conflitos sociais, colocando alíquotas mais altas so-
bre grupos impopulares (como os ricos, ou os fumantes, ou quem tenha ga-
nhos inesperados).
7. Ameaça de colapso social ou recusa de serviços mopolizados pelo governo se
os tributos forem reduzidos.
8. Coleta do total de tributos em incrementos relativamente pequenos (tributos
sobre vendas, ou imposto de renda retido na fonte) ao longo do tempo, em vez
de em uma pesada soma anual.
9. Tributos cuja incidência exata não possa ser prevista antecipadamente, man-
tendo o contribuinte na ignorância de quanto exatamente está pagando.
10. Extraordinária complexidade orçamentária, para esconder o processo do or-
çamento do entendimento público.
11. Uso de categorias de despesas genéricas, como “educação” ou “defesa”, para
dificultar a quem olha de fora a avaliação de cada componente do orçamento.

Nota-se alguma coisa nessa lista? O governo dos Estados Unidos usa cada uma
dessas estratégias — assim como a maioria dos governos estrangeiros. Isso poderia
levar um observador cínico a concluir que o governo na verdade está tentando arran-
car dos contribuintes o máximo de dinheiro que puder, em vez de, digamos, levantar
apenas o suficiente para cumprir suas funções essenciais.
Em todas essas maneiras, o constante instinto do governo é crescer, assumir
mais tarefas, arrogar-se mais poder, tirar mais dinheiro dos cidadãos. Parece que
Jefferson estava certo: “O progresso natural das coisas é que a liberdade ceda e o
governo ganhe terreno”.

O governo inchado e os intelectuais da corte


O poder do estado baseou-se em mais do que leis justas e poder de executá-las, é
claro. É muito mais eficiente persuadir do que forçar as pessoas a aceitar seus gover-
nantes. Os governantes sempre empregaram sacerdotes, mágicos e intelectuais para
manter as pessoas satisfeitas. Antigamente, os sacerdotes asseguravam às pessoas
que o rei era mesmo divino; já mais recentemente, na Segunda Guerra, ainda se dizia
aos japoneses que seu imperador descendia diretamente do sol.
Os governantes frequentemente dão dinheiro e privilégios aos intelectuais que
contribuem com seu governo. Às vezes esses intelectuais viviam de fato na corte,
participando da vida de luxo que era negada aos demais plebeus. Outros eram indi-

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182 O Manifesto Libertário

cados para altos cargos, abrigados em universidades públicas, ou financiados pelo


Fundo Nacional para as Humanidades.
No mundo pós-Iluminismo, as classes dominantes perceberam que o decreto di-
vino não seria suficiente para manter a lealdade do povo. Tentaram então se aliar aos
intelectuais seculares, de pintores a roteiristas, passando por historiadores, sociólo-
gos, planejadores urbanos, economistas e tecnocratas. Em alguns casos os intelectu-
ais tiveram que ser cortejados; em outros, estavam verdadeiramente ansiosos para
glorificar o estado, como os professores da Universidade de Berlim no século XIX,
que se proclamaram “guarda-costas intelectuais da Casa de Hohenzollern” (isto é, os
governantes da Prússia).
Nos Estados Unidos de hoje, durante pelo menos as duas últimas gerações, a maio-
ria dos intelectuais vem dizendo à população que é necessário um estado ainda maior
— para lidar com a complexidade da vida moderna, ajudar os pobres e estabilizar o
ciclo econômico, aumentar o crescimento da economia, trazer justiça racial, proteger
o meio ambiente, criar um sistema de transporte público e muitos outros propósitos.
Coincidentemente, esse estado crescentemente maior trouxe cada vez mais empregos
para os intelectuais. Um governo mínimo, um que, nas palavras de Jefferson, “conti-
vesse os homens para evitar que se ferissem uns aos outros” e ao contrário os deixasse
“livres para conduzir suas próprias buscas de trabalho e progresso” não teria muito
que fazer com planejadores e construtores de modelos; e uma sociedade livre pode não
demonstrar grande demanda de sociólogos e planejadores urbanos. Então, muitos in-
telectuais estão simplesmente agindo segundo seu interesse de classe quando cospem
livros, estudos, filmes e artigos de jornal sobre a necessidade de um governo maior.
Não se deixe enganar, aliás, pelas atitudes supostamente “irreverentes”, “anti-
-establishment”, e até “antigoverno” de muitos intelectuais modernos, alguns deles
financiados pelo próprio estado. Olhe atentamente e verá que o “sistema” a que se
opõem é o sistema capitalista de empreendimento produtivo, não o leviatã em Wa-
shington. E, em suas corajosas críticas ao governo, eles geralmente repreendem o
estado por fazer muito pouco ou zombar das autoridades eleitas que estão tentando
sem muito entusiasmo responder à demanda popular de menos governo. Frontline
e P.O.V., os documentários provocativos sobre a emissora de televisão do estado
— digo, “pública”— geralmente, acusam o estado americano por sua inação. Que
classe governante não ficaria feliz em subsidiar intelectuais dissidentes que reivin-
dicassem constantemente que ela expanda seu escopo e poder?
Os intelectuais da corte não são simplesmente corruptos, é claro. Muitos deles
acreditam de fato que um estado em perpétuo crescimento é de interesse público.
Por quê? Por que os intelectuais americanos e europeus passaram do corajoso e vi-
sionário libertarismo de Milton, Locke, Smith e Mill a um estatismo intricado e
reacionário — de Marx, é claro, mas também de T. H. Green, John Maynard Keynes,

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Cap. 9 — O que é realmente o governo inchado 183

John Rawls e Catharine MacKinnon? Uma resposta já examinamos: o estado tomou


a iniciativa de cooptá-los e torná-los suas aias, com acesso a alguns dos benefícios do
poder. Mas essa não é a história toda. Muitos distintos acadêmicos tentaram decifrar
a grande atração dos intelectuais por estatismo e planejamento.
Permitam-me sugerir algumas razões. Primeiro, a ideia de planejamento tem
grande apelo para os intelectuais porque eles gostam de analisar e colocar as coisas
em ordem. Eles são entusiásticos construtores de sistemas e modelos, por meio dos
quais o construtor pode medir a realidade em relação a um sistema ideal. E, se um
indivíduo ou uma empresa se beneficia ao planejar um curso de ação, o mesmo não
deveria se verificar para uma sociedade como um todo? O planejamento, acreditam
os intelectuais, é a aplicação da inteligência e da racionalidade humanas ao sistema
social. O que poderia ter mais apelo para o intelectual, cuja mercadoria a vender é sua
inteligência e racionalidade?
Intelectuais projetaram todo tipo de sistema de planejamento para estados, es-
pecialmente no século XX, com sua explosão de conhecimento e demanda de inte-
lectuais. O marxismo era o grande plano que incluía toda a sociedade, mas essa real
abrangência assustava a muitos. Um primo próximo era o fascismo, um sistema que
propunha deixar os recursos produtivos em mãos privadas mas coordená-los segun-
do um plano central. Em seu livro Fascismo: doutrina e instituições, Benito Mussolini,
que governou a Itália de 1922 a 1943, apresentou o fascismo como resposta direta ao
liberalismo individualista:

Ele se opõe ao liberalismo clássico, que surgiu como rea-


ção ao absolutismo e exauriu sua função histórica quan-
do o estado se tornou a expressão da consciência e vonta-
de do povo. O liberalismo negava o estado em nome do
indivíduo; o fascismo reconfirma os direitos do estado
como expressão da real essência do indivíduo.

Nos anos 1930, o fascismo era muito admirado por alguns intelectuais america-
nos, que não se animaram a levar um sistema tão racional para os Estados Unidos,
um país ainda individualista. O Nation, então uma revista socialista, considerou o
“New Deal dos Estados Unidos, as novas formas de organização econômica da Ale-
manha e Itália e a economia planejada da União Soviética” sinais de uma tendência
“para que nações e grupos, capital bem como mão de obra, exijam uma medida de se-
gurança maior do que a que pode ser oferecida por um sistema de livre concorrência”.
Depois que o fascismo perdeu credibilidade por causa de sua associação com Hitler
e Mussolini, os intelectuais estatistas inventaram novos nomes para o planejamento
central em um sistema que oficialmente era de propriedade privada: o “planejamento

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184 O Manifesto Libertário

indicativo” francês dos anos 1960, o “planejamento econômico nacional” proposto


pelo economista Wassily Leontief e pelo líder trabalhista Leonard Woodcock nos
anos 1970, a “democracia econômica” de Tom Hayden e Derek Shearer, a política
de reindustrialização de Felix Rohatyn e Robert Reich, e a política de “competitivi-
dade” também promovida por Reich. Conforme cada variante ia perdendo credibili-
dade, os intelectuais partiam para outro nome e um plano superficialmente diferen-
te. Mas, cada um deles envolvia a contratação de intelectuais pelo estado, os quais
determinariam racionalmente as necessidades da sociedade e de acordo como elas
dirigiriam as atividades econômicas de todos.
Apesar da crescente desilusão com o estado intervencionista, o Santo Graal do pla-
nejamento persiste entre os intelectuais. O que era a proposta de sistema de saúde de
Clinton senão um plano central para um sétimo da economia americana? E esse não
é único exemplo do fascínio do presidente Clinton pelo planejamento central. Em um
comentário pouco notado durante a campanha de 1992, Clinton ofereceu uma visão
de tirar o fôlego da capacidade e obrigação do governo de planejar a economia:

Devemos dizer agora mesmo que precisamos ter um le-


vantamento nacional da capacidade de cada (...) fábrica
nos Estados Unidos; cada fábrica de aviões, cada peque-
na empresa subempreiteira, todas as pessoas trabalhando
na defesa nacional.
Temos que saber que levantamento é esse, o que são as
qualificações da força de trabalho e compará-las com o
tipo de coisa que temos que produzir nos próximos vinte
anos e então decidir como ir daqui até lá. Do que temos
ao que precisamos fazer.

Depois da eleição, um assessor da Casa Branca chamado Ira Magaziner aperfei-


çoou essa arrebatadora visão: a conversão da defesa nacional demandaria um plano
de vinte anos desenvolvido por comitês governamentais, “um plano organizacional
detalhado (...) para delinear como, especificamente, uma proposta como essa pode-
ria ser implementada”. Veja bem, planos quinquenais falharam na União Soviética,
então talvez um plano de vinte anos fosse suficiente para a tarefa.
Uma segunda razão pela qual os intelectuais são atraídos pelo poder do estado é
o que Thomas Sowell chama de sua visão utópica do homem, a visão de que não há
limitações naturais à construção de uma utopia na terra. Pode-se compreender essa
perspectiva no fim do século XX, depois de dois séculos do avanço mais veloz já
testemunhado no conhecimento, na expectativa de vida e no padrão de vida das pes-
soas. A atitude é resumida no popular slogan: “Se conseguimos colocar um homem

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Cap. 9 — O que é realmente o governo inchado 185

na Lua, por que não conseguiríamos (...) curar o câncer, dar fim ao racismo, pagar a
professores mais do que a estrelas de cinema, abolir a poluição?”. Afinal, a engenho-
sidade humana nos últimos duzentos anos nos levou de uma vida que era “desagra-
dável, bruta e curta” a uma sociedade que conquistou muitas doenças que persistiam
havia eras, reduziu dramaticamente as barreiras à mobilidade e aumentou ampla-
mente o repositório de conhecimento. Mas essas conquistas não foram simplesmen-
te produto da vontade; demandaram esforço, físico e intelectual, e ocorreram em um
sistema social baseado principalmente no estado de direito, na propriedade privada
e na liberdade individual.
A versão vulgar da visão utópica do homem pode ser observada em um adesivo de
para-choque que vi em meu bairro em Washington: “Exija a cura para a aids”. Mas
é claro; que cruéis são... as empresas ou a sociedade ou o governo ou quem quer que
seja... em não nos dar a cura para a aids. Vamos exigi-la. Se conseguimos colocar um
homem na Lua, conseguiremos encontrar a cura para a aids.
Os expoentes mais sofisticados da visão utópica ririam de uma versão tão in-
gênua; eles são intelectuais, afinal. Mas eles também não conseguem entender as
limitações ao conhecimento humano que nos impedem de resolver todos os pro-
blemas de uma vez só, ou as concessões que são ignoradas nos arrebatadores pla-
nos que promulgam.
Finalmente, a visão libertária de uma sociedade livre parece, para muitas pes-
soas, essencialmente irracional porque se supõe que a sociedade deve ser deixada a
seu próprio cargo. Karl Marx, um acadêmico brilhante, ainda que profundamente
errado, reclamou da “anarquia da produção capitalista”. De fato assim parece. Em
uma grande sociedade, milhões de pessoas seguem sua rotina diária sem se guiar por
nenhum plano central. Todos os dias empresas são abertas e outras vão à falência,
pessoas são contratadas e outras são demitidas. Neste exato momento várias empre-
sas diferentes estão desenvolvendo produtos similares ou idênticos para oferecer aos
consumidores: navegadores para a web, talvez, ou restaurantes que servem frango
assado, ou medicamentos para aliviar o estresse do coração. Não teria mais sentido
que uma autoridade central escolhesse uma empresa para desenvolver cada projeto
e garantisse que todas elas direcionassem recursos para as tarefas realmente impor-
tantes, em vez da Rap Star Barbie ou cores novas para os carros da Chevrolet? Não,
não teria — e é isso que é tão difícil para os intelectuais enxergarem. O processo
de mercado coordena a atividade econômica muito melhor do que qualquer plano
jamais conseguiria. Na verdade, essa frase ameniza dramaticamente a comparação.
Nenhum plano poderia nos dar o padrão de vida que temos hoje. Somente o aparen-
temente caótico processo de mercado pode coordenar os desejos e as capacidades
de milhares, milhões, bilhões de pessoas para produzir um padrão de vida continua-
mente mais alto para toda a sociedade.

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186 O Manifesto Libertário

A incapacidade de ver esses resultados é o que Friedrich A. Hayek chamou de


arrogância fatal — a ideia de que pessoas inteligentes poderiam planejar um sistema
econômico que fosse melhor do que o mercado anárquico e não planejado. Trata-se
de uma ideia notavelmente persistente.

O estado e a guerra
A apoteose do poder do estado é a guerra. Na guerra, a força do estado não está
escondida ou implícita; está vividamente demonstrada. A guerra cria o inferno na
terra, um pesadelo de destruição em uma escala inimaginável em outras circunstân-
cias. Não importa quanto ódio as pessoas possam às vezes sentir por outros grupos
de pessoas, é difícil conceber a razão pela qual as nações tão frequentemente esco-
lhem a guerra. Porém, o cálculo feito pela classe dominante deve ser diferente do que
fazem as outras pessoas. A guerra quase sempre proporciona mais poder ao estado,
ao atrair e controlar mais gente. Mas a guerra pode aumentar o poder do estado até
mesmo na ausência de conquistas. (Perder uma guerra, é claro, pode derrubar um
governo, então, ir à guerra é uma aposta, mas a recompensa é boa o suficiente para
atrair apostadores.)
Liberais clássicos há muito tempo entendem a conexão entre guerra e poder es-
tatal. Thomas Paine escreveu que um observador do governo britânico concluiria
que “os tributos não foram criados para manter as guerras, e sim as guerras é que
foram criadas para manter os tributos”. Isto é, o governo inglês, como outros gover-
nos europeus, dava a impressão de lutar com o objetivo de “tosquiar seus países com
tributos”. Randolph Bourne, liberal do início do século XX, escreveu simplesmente:
“A guerra é a saúde do estado” — a única forma de criar um instinto coletivo em um
povo livre e a melhor maneira de estender os poderes do governo.
A história dos Estados Unidos oferece ampla evidência disso. Os grandes saltos
nos gastos federais, na tributação e na regulamentação ocorreram em tempo de guer-
ra — primeiro, notavelmente, na Guerra Civil e também tanto na Primeira Guerra
Mundial como na Segunda. A guerra ameaça a sobrevivência da sociedade, de forma
que até mesmo americanos naturalmente libertários estão mais dispostos a tolerar
demandas escassas em tais situações — e os tribunais a concordar em sancionar ex-
tensões inconstitucionais do poder federal. Então, depois que a emergência acaba, o
governo se esquece de abrir mão do poder que tomou, os tribunais concordam que se
estabeleceu um precedente, e o estado se estabelece confortavelmente em seu novo
e mais amplo domínio. Durante as grandes guerras americanas, o orçamento federal
se multiplicou por dez ou vinte e depois caiu após a guerra, mas nunca voltou a ser
tão baixo quanto antes. Tome-se a Primeira Guerra Mundial por exemplo: os gastos
federais eram de 713 milhões de dólares em 1916, mas subiram para quase 19 bilhões
em 1919. Nunca voltaram a menos de 2,9 bilhões.

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Cap. 9 — O que é realmente o governo inchado 187

Não se trata apenas de dinheiro, é claro. As guerras ocasionaram extensões do poder


do estado, como o alistamento militar obrigatório, o imposto de renda, a retenção do
imposto na fonte, os controles de preços e salários, o controle de aluguéis, a censura,
a dura repressão das dissidências e a Lei Seca, que na verdade começou com um esta-
tuto de 1917. A Primeira Guerra Mundial foi um dos grandes desastres da história: na
Europa, foi o fim de 99 anos de relativa paz e progresso econômico sem precedentes, e
levou à ascensão do comunismo na Rússia e do nazismo na Alemanha e à destruição
ainda maior com a Segunda Guerra Mundial. Nos Estados Unidos, as consequên-
cias foram bem menos dramáticas, mas ainda dignas de nota; em meros dois anos o
presidente Woodrow Wilson e o Congresso criaram o Conselho de Defesa Nacional
(Council of National Defence), a Agência de Alimentos dos Estados Unidos (United
States Food Administration), a Agência de Combustível dos Estados Unidos (United
States Fuel Administration), o Conselho das Indústrias da Guerra (War Industries Bo-
ard), a Corporação da Frota de Emergência (Emergency Fleet Corporation), a Corpo-
ração de Grãos dos Estados Unidos (United States Grain Corporation), a Corporação
de Habitação dos Estados Unidos (United States Housing Corporation) e a Corpora-
ção de Finanças de Guerra (War Finance Corporation). Wilson também nacionalizou
as ferrovias. Foi um salto dramático em direção ao megaestado que agora pesa sobre
nós, e poderia não ter sido dado se não houvesse guerra.
Os estatistas sempre foram fascinados pela guerra e suas possibilidades, mesmo se
esquivando às vezes de suas implicações. Os governantes e os intelectuais da corte
entendem que as pessoas livres têm suas preocupações — família, trabalho e recre-
ação —, e não é fácil conseguir que elas se alistem voluntariamente nos planos e
cruzadas dos governantes. Os intelectuais da corte clamam constantemente por um
“esforço nacional” para empreender uma ou outra tarefa, e a maior parte das pessoas
os ignora solenemente e continua a se ocupar de sustentar sua família e tentar pro-
gredir. Mas, em tempo de guerra, aí sim é possível organizar a sociedade e conseguir
que todos dancem conforme a mesma música. Já em 1910, William James lançou a
ideia de “equivalente moral da guerra”, em um ensaio que propunha que os ameri-
canos fossem recrutados para a formação de “um exército contra a Natureza”, o que
faria que “tivessem sua infantilidade suprimida e voltassem à sociedade com dispo-
sições mais saudáveis e ideias mais sóbrias”.
A fascinação dos coletivistas pela guerra e seu “equivalente moral” é persistente.
Em 1977, o presidente Carter fez reviver a expressão de James para descrever sua
política energética, com ênfase na instrução do governo e em padrões de vida reduzi-
dos. Esse deveria ser seu substituto em tempos de paz do sacrifício e do despotismo
da guerra. Em 1988 o Democratic Leadership Council (DLC) propôs um programa
de serviço nacional quase compulsório, que implicaria “sacrifício” e “abnegação” e
faria reviver “a tradição americana da obrigação cívica”. Em nenhum lugar no artigo

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188 O Manifesto Libertário

do DLC sobre o assunto havia menção alguma à tradição americana dos direitos
individuais. A proposta foi descrita como uma maneira de “ampliar a base política
de apoio às novas iniciativas públicas que de outra maneira não seriam possíveis na
presente era de restrições orçamentárias”. Em outras palavras, seria uma forma de
arregimentar mão de obra barata e quase compulsória. O último capítulo do artigo
era, inevitavelmente, intitulado “The Moral Equivalent of War” [O equivalente mo-
ral da guerra].
Então, em 1993, o líder do DLC, Bill Clinton, tornou-se presidente e propôs seu
próprio plano de serviço nacional, que bem que soava um tanto como “o equivalente
moral da guerra”. Ele queria “reavivar a emoção de ser americano” e “unir homens e
mulheres de todas as idades e raças e levantar o espírito de nossa nação” e “atacar os
problemas do nosso tempo”. Ao fim, talvez, todos os jovens seriam alistados. Naque-
le momento, porém, o presidente visava a “um exército de 100 mil jovens (...) para
servir aqui em nossa casa (...) para servir nosso país”.
Em 1982 o líder do Partido Trabalhista Britânico Michael Foot, um distinto in-
telectual de esquerda, foi questionado a respeito de um exemplo de socialismo na
prática que pudesse “servir como modelo à Grã-Bretanha que você visualiza”, e ele
respondeu: “O melhor exemplo que já vi de socialismo democrático funcionando
neste país foi durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa época governávamos a Grã-
-Bretanha com grande eficiência, conseguimos emprego para todos (...). O recruta-
mento obrigatório de mão de obra foi apenas um elemento muito pequeno de tudo
isso. Era uma sociedade democrática com um objetivo comum”.
O socialista americano Michael Harrington escreveu: “A Primeira Guerra Mun-
dial mostrou que, apesar do que dizem os ideólogos do mercado livre, o governo
poderia organizar nossa sociedade eficientemente”. Ele saudou a Segunda Guerra
Mundial por ter “justificado uma mobilização realmente substancial de recursos hu-
manos e materiais que teriam sido desperdiçados” e reclamou que o Conselho de
Produção da Guerra (War Production Board) foi “um sucesso que os Estados Unidos
estavam decididos a esquecer tão rápido quanto possível”. Continua:

Durante a Segunda Guerra Mundial, houve provavel-


mente um aumento na justiça social maior do que em
qualquer [outro] tempo da história americana. Os con-
troles de preços e salários foram usados para cortar os
diferenciais entre as classes sociais (...). Havia também
um forte incentivo moral a estimular os trabalhadores:
o patriotismo.

Coletivistas como Foot e Harrington não gostam da matança envolvida na

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Cap. 9 — O que é realmente o governo inchado 189

guerra, mas adoram seus efeitos domésticos: centralização, crescimento do poder


do governo e, não por coincidência, um aumento do papel dos intelectuais da corte
e dos planejadores com doutorado. Os perigos da guerra na era moderna encoraja-
ram o estado e seus aliados intelectuais a procurar mais emergências simuladas e
“equivalentes morais da guerra” para reagrupar os cidadãos e persuadi-los a ceder
aos planos do estado uma parte maior de sua liberdade e propriedade. Assim cria-
mos a Guerra contra a Pobreza, a Guerra contra as Drogas e mais crises e emergên-
cias nacionais do que um planejador poderia contar usando um supercomputador.
Uma vantagem desses “equivalentes morais da guerra” é que as guerras de verdade
em algum momento terminam, enquanto a Guerra contra a Pobreza e a Guerra
contra as Drogas podem continuar por gerações e gerações. E desse modo a aliança
entre o estado e os intelectuais complacentes atinge seu zênite na guerra ou em seu
equivalente moral.
Assim, a guerra é a teoria da Escolha Pública no auge: ruim para o povo, mas boa
para a classe governante. Não admira que todos queiram que termine, mas nin-
guém consiga terminá-la.

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Capítulo 10

Questões contemporâneas

U
ma coisa é concordar abstratamente que a liberdade é algo positivo. Outra
bem diferente é olhar à volta em meio a uma crise familiar, riscos ambien-
tais e crimes violentos e concluir que o governo não deve desempenhar ne-
nhum papel na solução dos problemas. É aí que muitas pessoas a caminho do liber-
tarismo descem do ônibus.
Mas elas deveriam ficar. O governo não pode resolver todos esses problemas. Na
verdade, frequentemente é ele que os causa. O libertarismo oferece uma estrutura
melhor para a solução de problemas do que o governo coercitivo. Aqui está ela.
Obviamente esta não é uma revisão completa nem dos problemas das políticas
públicas nem das respostas libertárias; discussões mais extensas sobre mais ques-
tões podem ser encontradas nas fontes recomendadas no fim deste livro. Mesmo es-
sas obras não tocam em todos os tópicos possíveis relativos às políticas públicas. A
abordagem libertária das políticas publicas deve ser vista não como um catecismo,
mas como um conjunto de técnicas de solução de problemas que podem ser aplica-
das a diversos deles. Muitas das propostas deste capítulo são tentativas de consertar
as coisas, de aplicar princípios libertários a problemas do mundo real que foram em
muitos casos causados pelo governo excessivo. Ainda assim, o desafio não é apenas
afirmar o objetivo libertário, mas desenhar um mapa que nos leve de onde estamos
até o objetivo de uma sociedade livre.
Podemos começar identificando três fatores que parecem tornar céticas as pes-
soas quanto às ideias libertárias e simpáticas ao uso do governo para atingir obje-
tivos sociais e econômicos:

r Ignorância a respeito de quanto a sociedade liberal con-


seguiu. É fácil apontar problemas no mundo — pobreza, poluição, racismo
e outros —, mas não devemos perder de vista os verdadeiros ganhos, econô-
micos e outros, que concretizamos por meio dos mercados livres e do estado
de direito.
191

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192 O Manifesto Libertário

r Visão instantânea da realidade. É demasiado frequente que olhe-


mos para uma parte específica da sociedade, congelada no tempo, e exijamos
ação para solucionar um problema. Mas precisamos entender os processos
pelos quais as mudanças econômicas e sociais acontecem. Preocupamo-nos
com as 40 mil demissões anunciadas pela AT&T, mas não percebemos que as
empresas americanas criaram 2 milhões de empregos nos doze meses ante-
riores, dia a dia, empresa por empresa.
r Paternalismo. A visão de que outras pessoas não são confiáveis para to-
mar boas decisões é predominante demais. Raramente exigimos que o governo
tome decisões sobre nossa vida, mas muitos de nós nos preocupamos com o
fato de que outras pessoas não consigam escolher boas escolas para os filhos e
remédios adequados para si mesmos, ou tomar decisões econômicas racionais.

Tendo em mente essas falácias e os princípios de responsabilidade individual, di-


reitos de propriedade, estado de direito e tomada de decisão competitiva, podemos
explorar problemas das políticas públicas atuais e ver como resolvê-los.

Restaurando o crescimento econômico


O maior problema aos olhos da maior parte dos americanos dos anos 1990 era pre-
servar e aumentar o crescimento econômico. Há duas afirmações básicas a fazer sobre
a prosperidade na América moderna: primeiro, temos mais riqueza — inclusive mais
saúde e amenidades ambientais — do que qualquer outro povo na história do mundo
jamais teve. (As pessoas em outras democracias capitalistas também gozam de um
padrão de vida sem precedentes, mas, em termos de espaço de habitação e bens de
consumo, o alemão ou o japonês médio consomem na verdade cerca de 30% a menos
que o americano médio.) Segundo, a descoordenação do processo de mercado pelo
governo está nos tornando menos prósperos do que poderíamos ser, e essa perda é
sentida mais agudamente por aqueles quem têm menos renda e riqueza.

As boas notícias
Para começar, o primeiro ponto: ouvimos muito nos anos 1990 sobre os salários
estagnados, a classe média em declínio e o medo de que a geração do pós-guerra
não esteja tão bem de vida quanto seus pais e que a geração X não se dará tão bem
quanto a geração do pós-guerra. Embora haja preocupações legítimas que vamos
considerar depois, não devemos esquecer que desde a Revolução Industrial o ca-
pitalismo produziu um padrão de vida que gerações anteriores literalmente nem
poderiam ter imaginado.
Os críticos do capitalismo agora admitem que os padrões de vida melhoraram
até mais ou menos os anos 1970; foi durante as duas últimas décadas, dizem eles,

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 193

que os salários estagnaram e o padrão de vida começou a cair. W. Michael Cox, do


Banco Central dos Estados Unidos (Federal Reserve Bank) em Dallas, e Richard Alm,
do Dallas Morning News, lançaram um olhar crítico a tais afirmações e descobriram
outra história. É verdade que a remuneração horária média sofreu leve queda desde
meados da década de 1970, mas a compensação total continuou a aumentar lenta-
mente. Nas décadas de 1970 e 1980, empregados receberam uma parte maior de sua
compensação sob a forma de seguro de saúde, contribuições para aposentadoria e
outros benefícios, que não são incluídos no cálculo da remuneração horária.
Estamos trabalhando mais para ganhar essa remuneração que aumenta lentamen-
te? Não. O americano médio trabalhou 1.903 horas por ano em 1950, 1.743 horas
em 1973, e 1.562 horas em 1990. Também passamos menos anos trabalhando, pois
começamos mais tarde e nos aposentamos mais cedo do que antes e temos aposenta-
dorias mais longas à medida que aumenta a expectativa de vida.
E os bens de consumo? Esses, afinal, são o real objetivo do processo econômi-
co. Não trabalhamos para ganhar dólares, trabalhamos para comprar mais bens e
serviços. De acordo com Cox e Alm, entre 1970 e 1990 vimos as seguintes mudan-
ças em nosso padrão de vida: o tamanho médio de uma casa nova aumentou de
140 para 190 metros quadrados. A percentagem de lares com televisão em cores
aumentou de 33,9% para 96,1%. O número de lares com TV a cabo aumentou de
4 milhões para 55 milhões, e o número de lares com videocassete aumentou de 0
para 67 milhões. Praticamente ninguém tinha forno de microondas em 1970, o
que 79% de nós tínhamos em 1990.
Os pobres foram excluídos de todo esse progresso? Por definição, os pobres têm me-
nos do que os não pobres. É por isso que as pessoas tentam se tornar mais prósperas. Mas,
quando os produtos são inventados e depois se tornam mais baratos, eles se disseminam
pela sociedade. Em 1971, 44,5% de todos os lares tinham uma secadora de roupas; em
1994, 50,2% dos lares pobres tinham uma. Em 1971, 83,3% de todos os lares tinham uma
geladeira; em 1994, 97,9% dos lares pobres tinham uma. Ninguém possuía videocassete
ou forno de microondas em 1971; em 1994, 60% dos pobres tinham ambos. Também em
1994, 92% dos lares pobres tinham uma televisão em cores, comparados a 43% de todos
os lares em 1971. Em 1970, 6,9% das unidades habitacionais americanas não tinham en-
canamento completo; em 1990, a cifra estava em apenas 1,1%.
Os americanos hoje estão mais ricos, saudáveis, seguros e confortáveis do que
povo algum jamais esteve na história. Às vezes as pessoas chamam esse crescimento
econômico de “milagre”, mas na verdade isso é apenas o que ocorre quando se permi-
te que as pessoas produzam e comerciem em um mundo de direitos de propriedade
e estado de direito. O que faz que isso pareça tão miraculoso é que em uma parte tão
grande do mundo, por um período tão grande da história, o simples sistema de liber-
dade natural de Adam Smith foi sufocado e esmagado pelo poder do estado.

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194 O Manifesto Libertário

As más notícias
Apesar de tudo isso, os americanos se sentem inquietos. Eles intuem que o padrão
de vida não está aumentando tão rápido quanto deveria e que as crianças de hoje tal-
vez não vivam tão bem quanto seus pais. Talvez tenhamos esquecido que a melhora
do padrão de vida não é automática; ele tem que ser produzido, mediante trabalho
duro e acumulação de capital.
Temos realmente um problema e outro maior ainda adiante. Apesar de todos os
novos bens de consumo em nossa economia, o crescimento econômico americano
desacelerou dramaticamente. Entre 1973 e 1990, o Produto Interno Bruto per capita
nos Estados Unidos cresceu apenas 1,5% ao ano, enquanto o PIB japonês aumentou
em 3,1% ao ano. A produção real por trabalhador dobrou entre 1947 e 1973, e então
quase parou de crescer. Depois de 1973, a compensação por trabalhador cresceu ape-
nas um quinto da cifra anterior.
Por que o crescimento econômico diminuiu? Economistas e entendidos oferece-
ram todo tipo de respostas, e sem dúvida a questão é complexa. Mas a razão mais
importante é que o governo tributou, regulamentou e interferiu cada vez mais no
processo produtivo das trocas de mercado. Cada troca no mercado dirige recursos
para um uso mais eficiente a fim de satisfazer as necessidades do consumidor. Cada
ato que obstrui as trocas voluntárias reduz a eficácia do uso dos recursos. Quando
os recursos são tomados por meio de tributos daqueles que os conquistaram para
serem gastos por funcionários do governo, eles não funcionam tão eficientemente
para satisfazer as necessidades dos consumidores quanto os recursos dirigidos por
proprietários particulares. Quando a regulamentação proíbe que as pessoas façam
trocas que elas em outras circunstâncias considerariam valiosas, a economia fica ine-
vitavelmente menos produtiva.
A riqueza amplamente distribuída — isto é, bens e serviços para todos na socie-
dade — é gerada no mercado pelos indivíduos, ao produzir e fazer trocas uns com os
outros. O governo só pode adquirir recursos expropriando-os daqueles que os pro-
duzem. Nas últimas décadas, o governo tem tomado cada vez mais riqueza do setor
privado. Há muitas formas de medir a depredação do setor produtivo da economia
pelo governo. Podemos olhar a taxa do imposto de renda ou o gasto do governo como
um todo. Podemos calcular as despesas do governo como fração do Produto Interno
Bruto (PIB), mas, como o PIB inclui compras de bens e serviços pelo governo tanto
no numerador quanto no denominador, eles são contados duas vezes. Dean Stansel,
do Cato Institute, inventou uma maneira melhor de fazer isso, procurando medir os
gastos do governo em todos os níveis (federal, estadual e local) como percentagem
da riqueza produzida pelo povo americano. Todos os gastos governamentais — seja
por tributação, seja por empréstimo — retiram dinheiro do setor privado produtivo
da economia e o gastam de acordo com ditames políticos. O cálculo de Stansel mos-

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 195

tra o que está nesta tabela, que poderíamos chamar de Indíce de Depredação pelo
Governo. Alguém se admira que a economia tenha desacelerado dramaticamente na
época em que a depredação foi acima de 50%? Imagine quão mais forte e produtiva
seria nossa economia se o governo parasse de tomar mais da metade da riqueza pro-
duzida por homens e mulheres trabalhadores.

Também é instrutivo olhar para os gastos do governo. Os governos nos Esta-


dos Unidos agora gastam cerca de 2,6 trilhões de dólares por ano — isso são
2.600.000.000.000, ou soma suficiente para comprar toda a terra produtiva dos
Estados Unidos mais todo o estoque das cem maiores corporações do país. Somam-
-se assim 24 mil dólares por lar anualmente. A próxima tabela mostra quanto esse
número cresceu (lembre-se de que esses números são corrigidos pela inflação).
É difícil acreditar que esses gastos estejam dando a qualquer família americana o
que lhe é devido. Mas não se deve presumir que todo esse dinheiro esteja indo para
“desperdício, fraude e abuso”, como o presidente Ronald Reagan costumava dizer.
Os gastos federais compram algumas coisas de valor real, inclusive a defesa nacio-
nal, as autoestradas interestaduais, o sistema de saúde, a previsão meteorológica e a
previdência, bem como outros programas que na verdade são destrutivos, como sub-
sídios a indústrias, proibição de drogas e regulamentações dispendiosas. Ninguém
deve presumir que se os gastos do governo fossem cortados iria dispor de milhares
de dólares a mais para gastar em carros, roupas e férias. Se o governo não sustentasse

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196 O Manifesto Libertário

a Previdência Social, por exemplo — o maior dos programas federais —, cada ame-
ricano teria que decidir quanto poupar para garantir sua própria aposentadoria.
Se os governos locais não oferecessem escolas, os pais teriam que gastar uma parte
do dinheiro economizado com a eliminação tributos com educação. O argumento
libertário não é que os gastos do governo são inúteis, mas que as pessoas podem
obter bens melhores a um preço melhor mediante trocas voluntárias no mercado do
que se pode esperar de um monopólio burocrático.

O governo também reduz o crescimento econômico por meio da regulamentação,


como se discutiu no capítulo 8. Se fossem adicionados ao Índice de Depredação pelo
Governo os 600 bilhões de dólares que o economista da Universidade de Rochester
Thomas Hopkins estima que a regulamentação custe para nossa economia, teríamos
o governo reduzindo a riqueza real da sociedade ainda mais do que os 55% calcula-
dos acima.
A maneira de restaurar o crescimento econômico — de impulsionar salários es-
tagnados, elevar o padrão de vida e restaurar a confiança de cada americano em que
o futuro será melhor do que o presente — é reduzir o tamanho do governo e devolver
a riqueza dos Estados Unidos às pessoas que a produziram. Ao longo deste capítu-
lo, serão discutidas algumas maneiras específicas de reduzir o tamanho do governo,
mas o plano básico está claro:
1. Privatizar os serviços do governo.
2. Reduzir gastos, empréstimos e tributação do governo.
3. Desregulamentar o processo de mercado.
4. Devolver aos indivíduos o direito de tomar decisões importantes em sua vida.

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 197

Esse é o caminho tanto para a liberdade individual quanto para o crescimen-


to econômico. Até onde devemos seguir nele? Isso depende de quanta confiança
temos na sociedade civil e no processo de mercado. Os libertários afirmam que
podemos e devemos percorrer um longo caminho na direção do governo mínimo;
fora a proteção de nossos direitos pela polícia, o judiciário e a defesa nacional, é di-
fícil pensar em bens e serviços que pudessem ser produzidos mais eficientemente
por uma burocracia governamental do que no mercado competitivo.
O respeito à dignidade dos trabalhadores e a virtude da produção e maximiza-
ção do crescimento econômico podem ser atingidos pela mesma política: redução
da tributação. Os governos e os intelectuais da corte frequentemente tentam con-
fundir os contribuintes deslocando a carga tributária de um grupo para outro e
especialmente disfarçando o impacto dos tributos, como se discutiu no capítulo
9. Imposto fixo, imposto progressivo, imposto sobre vendas, imposto sobre bens
de luxo — certamente há diferenças entre eles, mas a política de tributos libertária
básica é reduzir os tributos que pesam sobre todas as pessoas.
Até onde é possível reduzi-los? A visão libertária é uma sociedade livre de coer-
ção. Qualquer leitor que achar que os tributos não são coercitivos está convidado
a imaginar qual seria a arrecadação do governo se ele anunciasse que não haveria
penalidades legais — nada de auditorias, multas, prisão — para as pessoas que
escolhessem não pagar seus tributos. A razão pela qual os amáveis defensores dos
tributos não propõem um programa tão agradável é porque eles sabem que o povo
americano não estaria disposto a entregar metade do dinheiro que ganha ao go-
verno. Como a tributação é coercitiva, o objetivo final dos libertários é eliminá-la.
Como, então, pagaríamos pelas legítimas funções do governo — política, judici-
ário e defesa nacional? Muitas respostas a essa pergunta têm sido oferecidas, mas
nenhuma delas é completamente satisfatória. A melhor que podemos oferecer aqui
é que temos um bom volume de gastos governamentais e de tributação para cor-
tar antes que cheguemos ao ponto em que a tributação restante vai diretamente
para as legítimas funções do governo. Nesse ponto, talvez consigamos ver como
até mesmo a tributação coercitiva restante pode ser eliminada. Talvez as pessoas
em uma sociedade libertária próspera estivessem dispostas a contribuir, digamos,
com 5% de sua renda para um governo que protegesse seus direitos e em contra-
partida os deixasse em paz. Talvez as miríades de organizações da sociedade civil
— empresas, igrejas, associações comunitárias — estivessem dispostas a produzir
a receita necessária. Se não, o objetivo libertário é maximizar a liberdade indivi-
dual e minimizar a coerção; um governo que nos cobrasse 5% de nossa renda para
nos proteger da agressão por concidadãos ou forças estrangeiras estaria bem mais
próximo da visão libertária do que o estado expansivo de hoje.

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198 O Manifesto Libertário

Como cortar o orçamento


Os libertários querem reduzir os gastos em todos os níveis do governo. Ao longo
deste capítulo, vou discutir maneiras de privatizar ou eliminar programas governa-
mentais, que seriam uma forma óbvia de reduzir o orçamento do governo. Aqui es-
tão algumas sugestões para reduções imediatas dos gastos:
r Fim do assistencialismo corporativo. O governo federal gasta
cerca de 75 bilhões de dólares por ano em programas para beneficiar empre-
sas, e os governos estaduais e locais adicionam outros bilhões. Negócios que
estão atendendo bem seus clientes podem sobreviver sem subsídios; negócios
que precisam de subsídios não deveriam existir.
r Fim dos subsídios agrícolas. Os mesmos princípios são aplicados pe-
los programas federais de subsídios agrícolas, que custam cerca de 15 bilhões
de dólares por ano. Os agricultores deveriam competir no mercado livre,
como outros negócios.
r Gastar somente o necessário com a defesa nacional. Com o
fim da Guerra Fria, em 1991, a única superpotência restante poderia se de-
fender com cerca de metade do que gasta atualmente com as forças armadas,
com uma economia de cerca de 120 bilhões de dólares por ano.
r Abolir agências federais desnecessárias e destrutivas. Nós
passamos quase duzentos anos sem um Departamento de Educação (Depart-
ment of Education), e há concordância geral no que diz respeito ao fato de que
a educação nos Estados Unidos piorou desde a criação do departamento fede-
ral, em 1979. O Departamento de Energia (Department of Energy) não produz
energia nenhuma. O Departamento de Comércio (Department of Commer-
ce) obstrui o comércio. A Agência de Repressão às Drogas (Drug Enforcement
Administration) não consegue impedir o uso de drogas, mas gera um enorme
volume de crimes relacionados à proibição. O Departamento de Transportes
(Department of Transportation) subsidia projetos de transporte locais que de-
veriam ser financiados ou pela iniciativa privada ou pelo governo local.
r Privatizar a Previdência Social, conforme discutirei em mais de-
talhes imediatamente abaixo. Isso criaria uma enorme economia do dinheiro
dos tributos, mas, mais importante, impediria o eventual colapso do sistema
com o qual os americanos contam para ter sua aposentadoria.
r Privatizar outros programas e bens do governo, da Amtrak à
Tennessee Valley Authority, das terras federais ao Correio dos Estados Uni-
dos. O argumento básico é que proprietários particulares usam os recursos
com muito mais cuidado e eficiência do que os governos, então a vantagem
real é maior eficiência econômica. Economizar o dinheiro dos tributos é ape-
nas a cereja do bolo.

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 199

O Congresso e as legislaturas estaduais poderiam passar muito tempo cortando


os orçamentos dos governos antes de chegar aos seus verdadeiros deveres: proteger
nossos direitos por meio da polícia, do judiciário e da defesa nacional. Até esse pon-
to, qualquer governo que choramingue por causa de recursos limitados ou procure
aumentar os tributos é um governo que não está disposto a olhar criticamente para os
gastos desnecessários. A economia orçamentária de um Congresso realmente preo-
cupado com os contribuintes seria imensa, bem como o impulso econômico que tal
redução no tamanho do governo causaria. Mas a verdadeira razão para eliminar esses
programas não é nem sequer orçamentária, mas sim para expandir a liberdade e a res-
ponsabilidade individuais e libertar e revigorar a sociedade civil.

Uma aposentadoria segura


O maior programa federal — muito maior do que a defesa nacional — é a Pre-
vidência Social, que gastou 334 bilhões de dólares em 1995 e continuará gastando
valores exorbitantes nos próximos anos. Os gastos federais totais com benefícios de
assistência são de 750 bilhões de dólares, ou cerca de metade do orçamento total
(bem mais do que a metade, se não se considerar o pagamento de juros). Em todo
o mundo desenvolvido, a principal atividade do governo é transferir dinheiro de al-
gumas pessoas para outras por meio de diversos tipos de programas de benefícios.
E, em todo o mundo desenvolvido, há rios de dívidas e o crescente reconhecimento
de que esses programas são insustentáveis. Os governos fizeram promessas que não
têm a menor chance de cumprir, e há uma possibilidade real de se assistir a tributos
nas alturas, colapso econômico, guerra entre gerações ou alguma combinação dessas
assustadoras perspectivas.
Quando a Previdência Social foi criada, em 1935, parecia uma ótima ideia — apo-
sentadoria para os idosos, tributos muito baixos e nenhum grande gasto governa-
mental por duas décadas. As pessoas começaram a acreditar que estavam pagando
pela sua Previdência Social ao contribuir com tributos ao longo dos anos. Na verda-
de, os tributos nunca foram suficientes para pagar pelos benefícios, mas por décadas
isso não teve importância, porque todos estavam pagando, e poucas pessoas aposen-
tadas estavam cobertas pela Previdência. A cada ano de eleição, o Congresso aumen-
tava os benefícios; eles deixavam muitos eleitores felizes, e os eventuais problemas
ainda estavam anos à frente.
O economista inglês John Maynard Keynes descartou uma reclamação sobre os
efeitos de longo prazo de suas políticas dizendo: “A longo prazo estaremos todos
mortos”. Bem, no que tange à Previdência Social, o longo prazo chegou, Keynes está
morto, e nós ficamos com a conta.
E desde a entrada da geração do pós-guerra no auge de seus anos de trabalho re-
munerado, a Previdência Social está em “superávit”, para usar os termos da contabi-

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200 O Manifesto Libertário

lidade. O excesso de renda em relação ao pagamento de benefícios está “investido”


inteiramente em apólices da dívida pública, que nada mais são do que promessas de
pagamento com os tributos futuros. Já em 1999, os fundos fiduciários combinados
da Previdência Social (incluindo o Medicare e o seguro contra invalidez) começarão
a entregar essas apólices ao governo federal para pagar benefícios, o que significa
que o governo terá que tomar mais empréstimos, aumentar tributos ou cortar outros
gastos. Nos próximos anos, o fundo fiduciário do Medicare estará exausto. O princi-
pal fundo fiduciário da Previdência Social começará a incorrer em déficit em 2012 e
estará exaurido em 2029. O ex-atuário chefe do sistema de Previdência Social, A. Ha-
eworth Robertson, calcula que a Previdência Social custe atualmente 15% da massa
salarial tributável, mas que em meados do século XXI vá custar algo entre 26% e
44% da massa salarial tributável. É difícil imaginar que os trabalhadores americanos
apoiariam os tributos necessários para pagar pela Previdência Social então.
Phillip Longman, em The Return of Thrift [A volta da parcimônia], colocou tudo
isso em uma tabela fácil de entender. Com base no ano de seu nascimento, a tabela
mostra o que você pode esperar da Previdência Social e do Medicare.

Se O principal Fundo O fundo de pensão Sem mais cortes, Para oferecer os benefícios
você de Seguro Hospi- e invalidez da benefícios e juros sobre da Previdência Social e do
nasceu talar do Medicare Previdência Social a dívida nacional toda Medicare que lhe prometeram
em... está sob previsão de está sob previsão de a receita do governo quando você chegasse aos
falência quando você falência quando você federal terá sido con- 65 anos, o governo terá que
chegar à idade de... chegar à idade de... sumida quando você aumentar os impostos sobre a
chegar à idade de... massa salarial para...
1935 65 80 77 17,8%
1945 55 70 67 20,0%
1955 45 60 57 26,3%
1965 35 50 47 34,1%
1975 25 40 37 38,4%
1985 15 30 27 41,7%
1995 5 20 17 44,6%

O grande problema é que, como acontece com qualquer outro programa do go-
verno, os planejadores da Previdência Social não tiveram que pensar no futuro e não
foram obrigados a tornar seu programa financeiramente sólido. Em 1935, quando o
governo federal escolheu 65 anos como a idade para a aposentadoria, a expectativa de
vida média para uma criança nascida naquele ano era de 61 anos. Hoje, a expectativa
de vida média é de 76 anos e continua subindo. Enquanto isso, as pessoas estão se

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 201

aposentando mais cedo, somando assim mais anos a ambas as pontas de sua apo-
sentadoria. Em 1950 havia dezesseis contribuintes na Previdência Social para cada
beneficiário. Hoje a razão está em 3,3 para um, e provavelmente vai cair para dois
para um até 2030.
Um sistema como esse não tem condições de ser sustentado. Teremos que fazer
grandes mudanças, certamente no sistema de Previdência Social e possivelmente em
nossa própria vida. Conforme Longman argumenta, é provável que vejamos a volta
de algumas virtudes à moda antiga em resposta ao colapso do estado de bem-estar da
classe média: temperança, porque teremos que poupar mais; família, porque preci-
saremos contar mais com nossos pais e filhos à medida que as promessas do governo
se revelam vazias; e o trabalho, porque provavelmente teremos que gastar mais anos
trabalhando, conforme o aumento da expectativa de vida.
Mas há também uma solução política importante, que pode evitar o colapso da
Previdência Social e o caos econômico e o conflito entre gerações que daí resulta-
riam: a privatização. A Previdência Social é financeiramente inconsistente porque é
administrada por políticos. É um sistema no modelo de repartição simples: tributa
os trabalhadores de hoje e quase imediatamente transfere o dinheiro para os aposen-
tados de hoje. Como uma corrente de mensagens ou um esquema de pirâmide, pode
oferecer grandes compensações a quem chega primeiro, mas traz somente perdas
para os participantes mais tardios. Um sistema de aposentadoria sólido precisa ser
construído sobre poupança e investimento. Os trabalhadores separam dinheiro para
sua aposentadoria, e o dinheiro é investido na criação de nova riqueza — por meio de
ações, títulos, fundos de investimentos, ou outros investimentos reais — e não trans-
ferido diretamente para outras pessoas. Tal poupança contribui para o crescimento
econômico real, e o trabalhador individual prospera ao participar desse crescimento.
Poderíamos imaginar isso como uma expansão dramática do programa de contas
individuais de aposentadoria, que permitisse que as pessoas colocassem não apenas
2 mil dólares mas todo o montante de seus tributos da Previdência Social — ou mais
— em contas de aposentadoria isentas de tributos. Para os jovens trabalhadores de
hoje, um programa como esse ofereceria a perspectiva de benefícios muito mais altos
do que a Previdência Social promete, e as promessas privadas são muito mais garan-
tidas, porque são baseadas em investimento e crescimento econômico.
O analista financeiro William G. Shipman calcula que um trabalhador nascido
em 1970 que ganhe durante toda a sua vida a renda máxima coberta pela Previdência
Social tenha a promessa da Previdência de receber 1.908 dólares por mês (em dólares
de 1995). Se ele investisse suas contribuições pagas à Previdência Social no mercado
de ações, poderia esperar uma renda mensal de 11.729 dólares. Um trabalhador de
baixa renda, ganhando o equivalente a 12.600 dólares por toda a vida, tem a promessa
da Previdência Social de receber 769 dólares mensais. Um plano de aposentadoria

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202 O Manifesto Libertário

privado investido em ações pagaria 2.419 dólares por mês — ou ele poderia receber
um pagamento menor, retirado dos juros de sua poupança e deixar um montante
substancial para seus filhos. Os preços das ações sobem e descem; às vezes o mercado
quebra; mas, no curso de uma vida de trabalho, investimentos em ações quase sem-
pre sobem nas economias em crescimento.
Programas similares já foram instituídos em Cingapura, Chile e Nova Zelândia,
e os resultados foram excepcionais. Mais de 90% dos trabalhadores chilenos decidi-
ram abandonar o sistema de pensão do governo e abrir contas privadas, e a economia
do Chile cresceu 7% ao ano desde que o país implementou seu programa de aposen-
tadoria individual baseado em poupança real com empresas em competição.
Nosso grande erro foi entregar algo tão importante quanto a aposentadoria segura
ao sistema político, burocrático e coercitivo. No mundo do futuro, os trabalhadores não
poderão contar com o governo para oferecer-lhes uma aposentadoria segura e outros
benefícios. Está na hora de deixar as pessoas confiarem em si mesmas, em sua família e
em seus próprios investimentos no crescimento dinâmico de um mercado livre.

Cuidados com a saúde


Desde a eleição do ex-presidente Clinton em 1992, o sistema de saúde está no cen-
tro dos debates políticos americanos. Os jornais nos falaram dos muitos problemas
do nosso atual sistema de saúde: os gastos com saúde vêm crescendo duas vezes mais
rápido do que a economia como um todo; subiram de 6% do PNB em 1965 para 14%
em 1993; cerca de 35 milhões de americanos não têm seguro de saúde. Estranha-
mente, apesar de toda a evidência do fracasso dos sistemas compulsórios e burocrá-
ticos, geralmente a “solução” apresentada para esses problemas é mais regulamenta-
ção, mais gastos governamentais ou simplesmente a estatização da indústria médica.
Podemos encontrar uma solução melhor olhando para a verdadeira fonte dos nos-
sos problemas de saúde nacional. Primeiro, devemos notar que os Estados Unidos
de fato têm uma cobertura de saúde excelente e muito abrangente. De uma forma
ou outra, a vasta maioria dos pobres e não segurados consegue atendimento. Em
segundo lugar, devemos reconhecer que os tremendos avanços tecnológicos nos cui-
dados médicos, tais como tomografias computadorizadas, transplantes de órgãos e
outras inovações são caros; melhor atendimento médico frequentemente custa mais
dinheiro. Em terceiro lugar, devemos perceber que o aumento da expectativa de vida
é uma coisa ótima, mas uma população cada vez mais idosa provavelmente vai gastar
mais com saúde. Em quarto lugar, podemos especular que uma população mais rica
provavelmente gastará uma parte maior de sua renda em cuidados com a saúde. Gas-
tamos menos do PNB a cada ano em coisas básicas como alimentação e vestuário.
Aonde vai o dinheiro que sobra? Para coisas que agora temos dinheiro para pagar,
como viagens, entretenimento e melhores cuidados médicos.

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 203

Ainda assim, há em nosso sistema de saúde um grande problema que está aumen-
tando os custos. Hoje, nos Estados Unidos, o problema fundamental com a saúde
é que o consumidor não está tomando as decisões. Mercados competitivos produ-
zem bens melhores a custos mais baixos porque cada participante procura satisfazer
suas próprias necessidades ao custo mais baixo possível. Mas os pacientes do sistema
de saúde americano não pagam diretamente por sua própria saúde. De cada dólar
gasto com saúde, 76 centavos são pagos por outra pessoa além do paciente — pelo
governo, pelas companhias de seguro ou pelos empregadores. Assim, a maior parte
dos pacientes não obtém nenhum benefício ao gastar com sabedoria, nem paga pelas
consequências de tomar decisões ruins.
Por que os consumidores não pagam pelos seus próprios cuidados médicos?
A resposta nos leva a um grande exemplo do círculo vicioso da intervenção governa-
mental, com uma regulamentação criando problemas que levam a mais uma regula-
mentação e depois a outra. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo federal
impôs controles de preço e salários para disfarçar a enorme inflação que estava ge-
rando ao imprimir dinheiro. O controle de salários tornava difícil segurar os bons
empregados ou atrair novos. As empresas tiveram a ideia de oferecer seguro de saú-
de, um benefício que não estava banido pelos controles de salários. Depois da guerra,
o benefício estava tão enraizado que o Congresso decidiu não contar o seguro de
saúde como parte da renda tributável do empregado, o que levou outras empresas a
oferecê-lo, porque era mais barato tanto para o empregado quanto para o emprega-
dor pagar pelo seguro de saúde com o dinheiro da pré-tributação.
Como o empregador estava pagando o seguro de saúde e o seguro cobria a maior
parte dos cuidados médicos, os pacientes tornaram-se indiferentes aos custos. Que
importa se o médico cobra 20 ou 40 dólares, uma vez que não é você quem está pa-
gando? Já em 1965 os pacientes estavam pagando somente 17% dos custos hospita-
lares (estão em cerca de 5% agora), então esses custos aumentaram de modo muito
rápido. Os custos também aumentaram, porque os políticos insistiram em requerer
que mais procedimentos fossem cobertos pelo seguro de saúde — de tratamento
para abuso de álcool e drogas a fertilização in vitro, de acupuntura a tratamentos
experimentais para aids —, em vez de deixar que as diferentes seguradoras e os
empregadores oferecessem diferentes planos. Os custos ascendentes eventualmente
levaram os empregadores, que estavam pagando as contas, a começar a implementar
controles de custos. Cada um de nós controla os próprios custos todos os dias, todas
as vezes que toma uma decisão sobre o que comprar e quanto gastar. Cada decisão
de gastar é ponderada: preciso mesmo desta camisa nova? Preciso de freio ABS e teto
solar? Nenhum de nós faz as mesmas escolhas que faz outra pessoa. Mas terceiros,
como os especialistas em benefícios de saúde do empregador, não conhecem nossas
preferências tão bem quanto nós mesmos. Então eles limitam os custos de maneira

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204 O Manifesto Libertário

tal que eles não se ajustam bem às necessidades de ninguém. Isso significa que os
empregados resistem aos controles de custos e veem sob uma luz favorável a ideia da
regulamentação pelo governo.
Políticos proíbem certas formas de cortes nos custos; eles aprovam leis, por exem-
plo, exigindo que as mães possam passar duas noites no hospital depois de dar à luz.
Parece uma boa ideia, mas será que todas as novas mães insistiriam nisso se elas
mesmas estivessem pagando a conta? Enquanto isso, como os consumidores não
compram o seguro de saúde diretamente, pois encontram dificuldades em conse-
guir exatamente os benefícios que desejam; conseguem apenas o que todo mundo na
empresa consegue. Se os consumidores estivessem comprando seu próprio seguro
de saúde, alguns talvez quisessem cobertura completa para gravidez, benefícios de
saúde mental, terapia de casal, acupuntura etc. Outros talvez optassem por pacotes
de menor valor. (Os cada vez mais populares planos de benefícios flexíveis dão aos
empregados algumas opções, mas geralmente não a opção de receber dinheiro em
vez de benefícios; e os planos de saúde flexíveis ainda estão sujeitos a mais de mil
leis estaduais obrigando tipos específicos de cobertura.) Como os consumidores não
estão pagando pelo seguro, eles têm todo o incentivo para querer o plano completo,
com acabamento em ouro, então muitos se voltam para o governo para conseguir
que ele se torne obrigatório. É claro, cada novo requisito torna o seguro de saúde
proporcionalmente mais caro, e os empregadores se sentem mais pressionados a ou
desistir completamente do seguro de saúde, ou implementar o gerenciamento de cui-
dados ou outras medidas para cortar custos.
A insatisfação do consumidor com o gerenciamento de cuidados e políticas simi-
lares pode levar à pressão por um seguro de saúde nacional, mas não se engane: em
todos os lugares do mundo, o seguro de saúde nacional significa um racionamento
feito por uma burocracia muito mais distante do consumidor do que o responsável
pelo gerenciamento de cuidados. Na Grã-Bretanha, geralmente se nega diálise renal
a pacientes com idade acima de 55 anos, e o Serviço Nacional de Saúde (National
Health Service) sugeriu recusar cuidados médicos de custo elevado a fumantes. No
Canadá, o tempo de espera médio para se consultar com um especialista depois
de ser recomendado por um clínico geral é de cerca de cinco semanas, frequente-
mente seguidas por outra longa espera pela cirurgia recomendada pelo especialista.
O tempo de espera total entre a recomendação do clínico e o tratamento varia de
11,5 semanas em Ontário a 21 semanas na ilha Prince Edward. O sistema canaden-
se economiza dinheiro cortando equipamentos sofisticados: há mais unidades de
ressonância magnética no estado de Washington (população de 4,6 milhões) do
que em todo o Canadá (população de 26 milhões), e os Estados Unidos têm sete
vezes mais unidades per capita de radioterapia para tratamento de câncer do que
o Canadá. Na Suécia, a espera por um raio X de coração é de mais de onze meses.

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 205

A França implementou em 1996 medidas para monitorar os custos de cada paciente


e penalizar médicos que excedessem orçamentos determinados pelo governo.
Como podemos sair desse círculo vicioso? A chave é devolver o controle sobre os
cuidados com a saúde aos pacientes. Os consumidores individuais devem decidir
quanto de cuidado com saúde — ou seguro de saúde — querem comprar. A manei-
ra de caminhar nessa direção é mediante as contas de poupança médicas, ou Me-
dical Savings Accounts, descritas em Patient Power: Solving America’s Health Care
Crisis [Poder ao paciente: resolvendo a crise de saúde nos Estados Unidos], de John
C. Goodman e Gerald L. Musgrave. No plano de Patient Power, as pessoas pode-
riam depositar certa quantia em dinheiro a cada ano em uma conta de poupança
médica isenta de tributos, que poderia então ser usada para pagar despesas médicas.
A forma lógica de gastar esse dinheiro seria usar parte dele para comprar um seguro
“catastrófico” com uma alta franquia, como 3 mil dólares. Então o dinheiro deixado
na conta de poupança médica seria usado para pagar despesas médicas de rotina, e o
seguro catastrófico estaria lá para os casos de acidente ou doença grave.
Um plano como esse seria um retorno ao verdadeiro objetivo do seguro, que é
oferecer garantia contra desastres improváveis. Usar “seguro de saúde” para pagar
exames de rotina e males menores é como usar um seguro de automóvel para pa-
gar gasolina e calibragem de pneus. A manutenção de sua saúde deveria ser uma
despesa normal, incluída no orçamento. O seguro de saúde, como o seguro de au-
tomóvel, é comprado para nos resguardar contra a possibilidade de um problema
financeiro com que não possamos arcar.
Neste momento, em uma cidade com custo de vida médio, os empregadores
pagam cerca de 5.200 dólares por ano para oferecer a um empregado e sua família
cobertura de seguro de saúde. O plano tem uma baixa franquia, tipicamente 100
ou 250 dólares, o que significa que é isso que o empregado paga a cada ano antes
de o seguro entrar em cena. Em contraste, o prêmio de seguro por um plano ca-
tastrófico com uma franquia de 3 mil dólares é apenas cerca de 2.200 dólares ao
ano. No plano de Patient Power, um empregador poderia oferecer um plano ca-
tastrófico e colocar a economia de 3 mil dólares na conta de poupança médica do
empregado. O custo é o mesmo para o empregador. O empregado sai em vantagem
se tiver menos de 3 mil dólares em despesas médicas no ano, como é caso de 94%
das famílias americanas, porque ele pode ficar com o dinheiro em sua conta de
poupança médica ou passá-lo adiante para uma conta de aposentadoria individual.
O controle individual do dinheiro gasto em saúde também encorajaria as pessoas
a praticar estilos de vida saudáveis, já que cada dólar economizado em saúde iria
para o próprio bolso do consumidor.
O benefício real, porém, é que o plano de Patient Power devolveria a escolha ao
consumidor e o controle de custos do consumidor ao negócio da saúde. Assim, os

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206 O Manifesto Libertário

consumidores seriam incentivados a perguntar quanto custa um procedimento, se


ele é necessário e se outro médico poderia fazê-lo por menos — todas as coisas que
perguntamos sobre tudo o que compramos —, porque o dinheiro economizado fi-
caria com eles. Um teste desse plano feito pela Rand Corporation em 1976 mostrou
que os consumidores que tinham cuidados de saúde gratuitos gastavam 45% a mais
do que as pessoas que pagavam 95% de suas despesas médicas abaixo do nível catas-
trófico. E no entanto a saúde nos dois grupos era a mesma.
Junto com a devolução do financiamento da saúde ao mercado competitivo, os li-
bertários desregulamentariam o sistema de saúde. Outra razão pela qual os cuidados
com a saúde custam tão alto é que a regulamentação da profissão de médico limita o
número de médicos (e menor oferta significa preços mais altos, lembre-se) e requer
que os pacientes sejam tratados por médicos em vez de outros profissionais de saúde,
mesmo em casos em que estes poderiam oferecer cuidados adequados a um custo
menor. Muitos estudos mostraram que pessoas qualificadas mas sem formação mé-
dica — como parteiras, enfermeiras ou quiropráticos — podem prestar muitos ser-
viços médicos e de saúde tradicionalmente prestados por médicos com resultados
de saúde comparáveis, custos menores e alta satisfação por parte do paciente. Mas as
leis de licenciamento e as regulamentações federais limitam o escopo de sua prática
e restringem o acesso a seus serviços.
Em resumo, temos que decidir se queremos uma medicina de mercado ou uma medi-
cina administrada pelo governo. A lição da análise econômica e de nossa experiência de
vida real com mercados e governos é que os mercados oferecem bens e serviços melho-
res, a um custo menor, com mais flexibilidade e inovação, do que as burocracias.

Reduzindo tensões raciais


Você talvez concorde que os mercados geralmente funcionam melhor do que as bu-
rocracias e que menos governo levaria a mais crescimento econômico. Mas e as ques-
tões sociais? E os males associados de tensões raciais, pobreza e subclasse? Milhões de
americanos têm medo de sair de casa à noite; milhões de americanos (alguns deles os
mesmos) se sentem permanentemente excluídos do sistema social vigente; as tensões
raciais e até mesmo o ódio racial estão crescendo, em uma época em que deveriam es-
tar desaparecendo. Comecemos com a mais disputada questão social: raça.
Houve três eras no tratamento dedicado a negros e brancos nos Estados Unidos:
a escravidão, que durou quase 250 anos; então, depois de um breve período de trata-
mento igual, o sistema das leis de Jim Crow, do fim do século XIX até cerca de 1960;
e o período contemporâneo, em que a política do governo é caracterizada por direi-
tos eleitorais iguais, assistência social e ação afirmativa.
O que essas três eras têm em comum? Exploração? Não exatamente. Discrimina-
ção? Não no sentido habitual da palavra. O que elas têm em comum é uma negação da

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 207

humanidade e da individualidade dos negros. De 1619 e 1865, um sistema projetado


por brancos negava direitos individuais básicos aos negros. A escravidão como siste-
ma é uma tentativa de fazer que algumas pessoas façam a vontade de outras, como se
fossem animais ou máquinas. Era chamada de “roubo de homens” pelos abolicionistas
libertários, que a viam como uma tentativa de roubar a própria pessoa do indivíduo.
Então as leis de Jim Crow foram criadas para proteger os brancos da competição
com os negros e para limitar sua capacidade de participar do mercado livre de tra-
balho. As leis de Jim Crow desumanizaram os negros ao negar a cada indivíduo a
chance de atingir tudo o que seus talentos naturais permitiriam.
Depois que as leis de Jim Crow foram desmanteladas, no fim da década de 1950
e início de 1960, parecia que os negros finalmente poderiam ser tratados com igual
dignidade nos Estados Unidos. Martin Luther King, Jr. anunciou essa esperança,
ao sonhar com “uma nação em que [as pessoas] sejam julgadas não pela cor de sua
pele, mas pelo conteúdo de seu caráter” e chamar a Declaração de Independência e
a Constituição de “uma promessa de que todos os homens, sim, tanto negros como
brancos, terão garantidos os direitos inalienáveis da vida, da liberdade e da busca da
felicidade”. Mas, em vez das garantias simples da Constituição, o governo federal,
com a melhor das intenções, lançou a Guerra contra a Pobreza e o sistema de ação
afirmativa. Tanto o assistencialismo quanto as políticas de preferência racial trata-
vam os negros americanos como incapazes de se realizar na sociedade americana
sem ajuda. As elites brancas que implementaram essas políticas presumiram que os
negros não conseguiriam entrar para a faculdade ou ser contratados para empregos
pelos seus méritos individuais, mas que precisariam da ajuda paternalista do gover-
no federal. As políticas tratavam negros não como indivíduos mas como membros
de um grupo; o governo mais uma vez negava a pessoalidade individual dos negros
americanos. Os estudiosos Glenn C. Loury e Shelby Steele, do Center for New Black
Leadership, apontam que a cada pagamento de transferência ou preferência racial
recebida por um negro, “um pouco mais do seu destino é tirado de suas mãos”.
Hoje em dia, apesar das leis dos direitos civis, da ação afirmativa e das claras
evidências do progresso econômico dos negros, as relações raciais nos Estados
Unidos parecem mais acrimoniosas do que nunca. Estudantes brancos de faculda-
des rabiscam epítetos raciais nas portas de estudantes negros e asiáticos, artistas
negros conseguem larga audiência para letras de música racistas e antissemitas,
igrejas negras no Sul do país e lojas de brancos em Los Angeles são incendiadas, e
os ressentimentos não cicatrizam — embora as pesquisas indiquem que negros e
brancos querem sinceramente se entender. Tanto negros quanto brancos america-
nos percebem que, quando falam uns com os outros, sentem-se como embaixadores
de sua raça, medindo cuidadosamente as palavras para manter o equilíbrio diplomá-
tico apropriado.

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208 O Manifesto Libertário

Parece que o estado de bem-estar social e a ação afirmativa tiveram devastadoras


e inesperadas consequências. O estado de bem-estar social se combinou com a guer-
ra contra as drogas para criar um horrível volume de violência nos centros metropoli-
tanos, levando residentes de guetos a suspeitar de uma conspiração para destruí-los,
e os brancos de classe média a identificar os negros na ausência da lei. A forma de
ação afirmativa de um governo coercitivo (junto com corolários como normatiza-
ção racial e contratos deixados de lado) reflete os piores aspectos do liberalismo de
bem-estar social: culpa branca combinada com uma crença não explicitada de que os
negros não conseguem se realizar em uma sociedade competitiva sem ajuda e uma
preferência por identificação de grupos em vez de capacidades. Preferências raciais
fizeram pouco ou nada pelos negros pobres e de baixa escolaridade, causando ao
mesmo tempo ressentimento entre os homens brancos, que temem estar perdendo
oportunidades de emprego e educação superior que mereceriam ter.
Outro problema é o crescimento contínuo do governo. À medida que o governo
controla uma parte cada vez maior da sociedade, quem controla o governo se tor-
na mais importante. Se o governo americano toma metade de nossa renda, controla
nossas escolas, regula nossos negócios, estabelece cotas para empregos e vagas no
ensino superior, subsidia arte e literatura e interfere em nossa vida pessoal, então
se torna vitalmente importante garantir que “nós” controlemos o governo. Essa luta
política tem um papel na criação de guerras culturais nos Estados Unidos e de guer-
ras reais na Irlanda, África do Sul, na antiga Iugoslávia e em outros estados de várias
etnias com governos centralizados. Podemos reduzir as tensões raciais tirando da
arena política mais aspectos da vida, deixando que as pessoas trabalhem juntas — ou
separadas — pacificamente, de acordo com o processo de mercado.
A solução libertária começa com a renovação de nossos esforços para construir
uma sociedade baseada nas virtudes da escolha, da responsabilidade e do respeito
por si mesmo e pelos outros. Quando elites brancas tentam melhorar a autoestima
das minorias e dos pobres garantindo-lhes que eles que não são responsáveis por sua
condição — como quando em 1994 o reitor da Universidade Rutgers defendeu as
preferências raciais no tocante ao ingresso no ensino superior, dizendo que os negros
são “uma população em desvantagem que não tem herança genética para ter uma
média mais alta” —, elas estão negando a essas pessoas o respeito por si mesmas que
só pode vir de suas conquistas. O governo precisa pelo menos dar a todas as pessoas,
independentemente de sua cor, o máximo possível de oportunidades para escolha
e responsabilidade — nas escolas, na habitação, na escolha de bairros, e assim por
diante —, e então a sociedade deve garantir a todas as pessoas a dignidade de ser
consideradas responsáveis pelas consequências de suas ações.
O libertarismo é uma filosofia política, não um código moral completo. Ele pres-
creve algumas regras mínimas para que vivamos juntos em uma sociedade pacífica

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 209

e produtiva — propriedade, contrato, e liberdade — e deixa outros ensinamentos


morais para a sociedade civil. Mas sobre essa questão parece ser necessário expres-
sar alguns sentimentos morais que vão além da mera descrição de uma política
libertária. Embora tenham dado grandes passos em direção a uma sociedade de
dignidade igual para todos, americanos de todas as raças precisam afirmar seu com-
promisso de elevar-se acima do preconceito racial. Precisamos rejeitar o racismo
explícito e odioso de qualquer fonte, seja ele vindo de David Duke ou Al Sharpton.
Devemos condenar especialmente a violência racialmente motivada, do assassina-
to de um jovem rapaz do Kentucky com uma bandeira confederada em sua picape
ao assassinato de um negro que se aventurou na vizinhança de Bensonhurst, no
Brooklyn, passando pelo assassinato um americano de ascendência chinesa em
Detroit por dois trabalhadores desempregados da indústria automobilística que
pensaram que a vítima fosse japonesa.
Os brancos carregam um fardo especial nesse ponto. Seu compromisso com uma
sociedade que não faz distinção de cores está frequentemente sob suspeita. Conser-
vadores como Strom Thurmond e Jesse Helms nunca reclamaram quando crianças
negras passavam pelas escolas brancas em seus ônibus, a caminho das distantes es-
colas negras, ou quando os direitos eleitorais ou bons empregos eram reservados aos
brancos. Assim, suas atuais denúncias sobre zoneamento escolar orientado no senti-
do da integração racial ou preferências raciais soam vazias.
De muitas formas, a consciência de raça está em lento declínio nos Estados Uni-
dos. Muitas vezes podemos observar diferenças claras na atitude racial entre as ge-
rações de uma mesma família. As faculdades relatam que um número significativo e
cada vez maior de candidatos tem se recusado a declarar sua raça nos formulários de
sua candidatura, um fenômeno que provavelmente reflete tanto o medo de “discri-
minação reversa” por parte de alguns estudantes quanto a rejeição da consciência
de raça por outros. O número de casamentos inter-raciais, um dos mais claros indi-
cadores de diminuição do preconceito, está crescendo — mas isso preocupa algu-
mas pessoas cujo cacife político depende da consciência de raça. Perguntado sobre
a inclusão de uma categoria “multirracial” nos formulários do censo, o funcionário
da National Association for the Advancement of Colored People Wade Henderson
respondeu: “Se as pessoas são classificadas ou não se incluem nas categorias estabe-
lecidas, como vamos assegurar que a execução dos estatutos faça sentido?”. Parece
que para algumas pessoas a manutenção de um sistema complexo de “direitos” ra-
ciais se tornou mais importante do que a superação do racismo.
Os antirracistas devem confiar mais nos libertários do que em outros grupos po-
líticos, porque o compromisso libertário com a neutralidade do governo vai muito
além da raça. Libertários rejeitam todos os privilégios e “direitos” criados pelo go-
verno, mas pedem que ele seja escrupulosamente neutro na aplicação dos direitos

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210 O Manifesto Libertário

individuais. Eles têm muito mais chances de manter sua palavra do que os estatistas, que
nos asseguram que os usos que fazem do poder do estado serão inteiramente benignos.
Os americanos brancos negaram a individualidade aos negros e os trataram como
uma classe especial por cerca de 380 anos. Está na hora de tentar a dignidade indivi-
dual, os direitos individuais e a responsabilidade individual para todos os americanos.

Libertando os pobres
A condição dos pobres, especialmente nos centros metropolitanos, é um dos
maiores problemas com que se defrontam hoje os Estados Unidos. A acusação de que
o mercado livre deixa para trás os pobres é também uma das críticas mais comuns ao
libertarismo. É verdade, como se observou antes, que as pessoas pobres nos Estados
Unidos, hoje, têm um padrão de vida material muito mais alto do que o desfrutado pela
maior parte das pessoas ao longo da história. Quarenta por cento dos americanos abai-
xo da linha de pobreza têm casa própria, 92% têm televisão em cores e sua expectativa
de vida é de mais de 70 anos. Mas “melhor do que no passado” não é suficiente.
Há pessoas pobres nos Estados Unidos que realmente vivem em lamentável pobre-
za, privadas mais de esperança do que de bens materiais. Elas se encolhem de medo dos
criminosos de seus bairros; não têm emprego ou esperança de se aprimorar; não espe-
ram que seus filhos tenham uma vida melhor e lhes transmitem o tipo de valores que faz
que essas baixas expectativas se concretizem. Essas pessoas são comumente chamadas
de subclasse. Seus bairros são marcados pelo estado civil de solteira de mais de 80% das
mães, uma ausência quase total de pais, uma opressiva dependência da assistência do go-
verno e taxas de criminalidade extraordinárias. Embora sempre tenha havido pobreza,
a condição da subclasse parece ter piorado marcadamente em apenas poucas décadas.
O distinto sociólogo William Julius Wilson descreveu como “os negros no Harlem e em
outras vizinhanças de guetos não hesitavam em dormir em parques, escadas de incêndio
externas e telhados em noites quentes de verão dos anos 1940 e 1950, e os brancos fre-
quentemente visitavam tavernas e clubes noturnos nas mesmas vizinhanças”. Bem me-
lhor do que estatísticas, esse tipo de reflexão histórica nos lembra de quão inabitáveis se
tornaram as áreas centrais de nossas grandes cidades em pouco mais do que uma geração.
Muitas pessoas preocupadas com os pobres argumentam que o governo deveria
gastar mais em programas para ajudá-las. No entanto, desde o começo da Grande
Sociedade em 1965, gastamos mais de 5 trilhões de dólares em programas contra a
pobreza. Estamos gastando mais de 300 bilhões de dólares por ano hoje. E os proble-
mas pioraram. O índice de pobreza — que caiu dramaticamente entre o fim da Se-
gunda Guerra Mundial e os anos 1960 — se nivelou depois que a Grande Sociedade
começou e se manteve bastante estável desde então.
O problema hoje é que os pobres urbanos estão presos em uma armadilha que
tem dois lados. De um lado, as regulamentações do governo, como as leis do salário

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 211

mínimo e de exercício profissional, tornam difícil que pessoas pouco qualificadas


encontrem emprego. Por outro lado, os programas de assistência oferecem uma for-
ma de sobreviver sem trabalho. É fácil ficar preso na dependência.
Praticamente ninguém nos Estados Unidos cai abaixo da linha de pobreza se
fizer três coisas: completar o ensino médio, não engravidar fora do casamento e
conseguir um emprego, qualquer que seja ele. O primeiro emprego pode não pa-
gar um salário acima da linha de pobreza, mas pessoas que adquirem alguma ex-
periência de trabalho não ficam em emprego de salário mínimo por muito tempo. A
questão com que os dirigentes se deparam é: como encorajar os jovens americanos,
especialmente os jovens pobres, a fazer escolhas que os afastarão da pobreza? Temos
que reconhecer que esses três passos simples para evitar a pobreza não parecem tão
atraentes quando você está no ensino médio em um bairro no qual poucas pessoas
trabalham. O assistencialismo pode parecer uma escolha racional. De fato, um estu-
do de 1996 descobriu que os benefícios do governo (incluindo o Medicaid e a assis-
tência de habitação) pagam melhor do que um emprego de salário mínimo em todos
os cinquenta estados e melhor do que o salário inicial de uma secretária em 29 deles.
A dura verdade é que, enquanto o estado de bem-estar social tornar possível que jo-
vens mulheres — ou garotas adolescentes — tenham filhos mas não um marido e sobre-
vivam sem um emprego, a taxa de natalidade fora do casamento continuará catastrofica-
mente alta (chegando a 68% entre os negros e 23% entre os brancos, segundo cálculos
mais recentes), e as áreas centrais metropolitanas continuarão a ser marcadas pelo crime,
pela pobreza e pelo desespero. Reformas improvisadas — exigência de emprego, de assi-
duidade à escola por no mínimo dois anos — não vão funcionar. O único jeito de quebrar
o ciclo de maternidade fora do casamento, crianças sem pai, pobreza, crime e assistencia-
lismo é reconhecer que a assistência do governo cria mais problemas do que os resolve.
O que aconteceria a potenciais beneficiários do assistencialismo se ele não estivesse
disponível? Muitos conseguiriam empregos. Para ajudar o processo, devemos remover os
impedimentos aos trabalhos de baixa qualificação. Revogar a lei de salário mínimo para
que as pessoas consigam o tão importante primeiro emprego e adquiram as habilidades
que as ajudarão a conseguir empregos melhores. Revogar as leis de exercício profissional
que impedem que as pessoas se tornem cabeleireiras, motoristas de táxi etc. Reduzir os
tributos e a burocracia para que mais pessoas possam abrir empresas. E reduzir o crime
— sobre o qual falarei mais depois — para que as pessoas estejam mais dispostas a abrir
negócios em áreas metropolitanas. Em seu clássico livro de 1969, The Economy of Cities
[A economia das cidades], Jane Jacobs escreveu: “A pobreza não tem causas. Somente a
prosperidade tem causas”. Ela tinha razão; queremos trazer mais pessoas para o mundo
do trabalho, para que elas possam criar prosperidade para si mesmas.
Algumas adolescentes ainda vão ficar grávidas, é claro; continuará a haver pessoas im-
possibilitadas de trabalhar ou precisando de ajuda. Muitas delas vão depender da família,

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212 O Manifesto Libertário

a instituição básica da sociedade civil. As famílias podem ajudar seus membros ociosos
de duas maneiras básicas: simplesmente acolhendo-os, naturalmente, ou dando-lhes
assistência financeira ou de outra natureza — mas também transmitindo-lhes valores e
ajudando-os a aprender a conduta correta. Saber que não haverá assistência do governo
disponível será um grande incentivo para fazer que as mães transmitam a suas filhas a im-
portância de evitar a gravidez e continuar na escola. Nenhum assistente social tem tantas
chances de oferecer a combinação certa de amor e rigor quanto um parente.
Quando falham o trabalho e a família, as outras instituições da sociedade civil
entram em cena, especialmente instituições de caridade. Discutimos no capítulo
7 a ajuda mútua, que é uma parte importante para se evitar a pobreza, que deveria
ser ainda mais importante; aqui enfocaremos a caridade. Na discussão recente de
corte dos gastos do governo com programas assistenciais, muitas das principais ins-
tituições de caridade avisaram que não podem assumir todas as responsabilidades
do governo; dizem que não têm tanto dinheiro. Bem, é claro que não têm. Mas a
questão é que os programas do governo fracassaram. A solução não é replicá-los. Se
o governo parasse de incentivar a irresponsabilidade, haveria menos necessidade de
caridade. E instituições particulares de caridade podem fazer bem mais com menos
dinheiro do que as burocracias do governo. A Sister Connie Driscoll’s House of
Hope, em Chicago, ajuda mulheres sem-teto a um custo de menos de 7 dólares por
dia, enquanto são gastos 22 dólares diários em abrigos financiados pelo governo.
E no entanto a House of Hope tem um índice de sucesso fenomenal, com menos
de 6% das mulheres lá atendidas retornando às ruas. A Gospel Mission existe em
Washington, D.C., desde 1906. Opera um abrigo para pessoas sem-teto, um banco
de alimentos e um centro de tratamento de abuso de drogas, seguindo o princípio
de que ninguém deve receber algo em troca de nada. As pessoas têm que pagar ou
3 dólares por noite ou oferecer uma hora de trabalho em troca de abrigo por uma
noite. O reverendo John Woods, diretor da missão, diz: “A compaixão está em tirar
as pessoas das ruas e não em se deitar lá com elas e ser simpático. Essas pessoas
precisam de responsabilidade”. Quase dois terços dos viciados que completam o
programa de tratamento não voltam a usar drogas. Um centro de tratamento próxi-
mo, administrado pelo governo, tem um índice de sucesso de 10% a um custo por
cliente vinte vezes maior.
No país inteiro, há milhares de pequenas organizações de caridade locais ajudan-
do os pobres. Os americanos dão mais de 125 bilhões de dólares e vinte bilhões de
horas por ano para a caridade. Se os tributos fossem mais baixos e as pessoas compre-
endessem que o governo estava entregando a responsabilidade pela caridade para a
sociedade civil, elas doariam bem mais.
Se você não está convencido de que a caridade privada pode substituir a assistên-
cia do governo, pergunte-se o seguinte: suponha que você ganhasse 100 mil dólares

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 213

na loteria. Mas há uma condição: teria que gastá-los ajudando os pobres. Você daria
o dinheiro ao Departamento Nacional de Saúde e Serviços Humanos, sua agência
estadual de serviços humanos, ou a uma instituição de caridade privada? A maior
parte das pessoas não hesitaria em doar a uma caridade privada.

Crime
Os horrendos níveis de crimes violentos nos Estados Unidos tornam inabitáveis
as áreas centrais de nossas metrópoles, levam a classe média para fora das cidades e
aumentam as tensões sociais. Embora nos digam que o crime diminuiu nos últimos
anos, precisamos colocar essa afirmação em perspectiva. Em 1951, a cidade de Nova
York teve 244 assassinatos; com a mesma população, a média anual foi de mais de 2
mil nos anos 1990. Em 1965, em Milwaukee houve 27 assassinatos e 214 assaltos;
em 1990, 165 assassinatos e 4.472 assaltos. E a situação pode piorar drasticamente
nos próximos anos. Para o ano 2000, projeções já indicavam 500 mil rapazes adoles-
centes a mais do que havia em 1995. Criminologistas advertem que eles serão mais
propensos ao crime e mais violentos do que as gerações anteriores, em grande parte
porque cresceram sem pai e em comunidades sem pais. O professor da Universidade
Princeton John DiIulio Jr. entrevistou homens em uma prisão de segurança máxima
e descobriu que eles têm medo dos jovens predadores de hoje.
A primeira exigência da sociedade civil é proteger os cidadãos da violência. Nosso
governo está fracassando dramaticamente nessa tarefa, e precisamos de uma nova
abordagem para lidar com o crime. Primeiro, devemos lembrar que, sob a Constitui-
ção, a luta contra o crime é uma questão dos governos municipais e estaduais. Não há
autoridade constitucional para um código federal de crimes em geral; as propostas
recentes de “leis de prevenção ao crime” são motivadas inteiramente por política, e
na melhor das hipóteses, não terão efeito sobre os índices de criminalidade. Segundo,
devemos lembrar que cerca de 80% dos crimes reais — assassinato, estupro, agressão
e roubo — são cometidos por 20% dos criminosos. As agências estaduais de execu-
ção da lei devem concentrar seus recursos em criminosos perigosos reincidentes e
tirá-los das ruas.
A longo prazo, a coisa mais importante que os Estados poderiam fazer é mudar
os sistemas assistenciais que estão elevando a taxa de crianças sem pais. Os meni-
nos, especialmente os de comunidades sem pais, são os principais perpretadores de
crimes violentos em nossas cidades hoje. Os pais ensinam e mostram aos meninos
como lidar com sua agressividade natural e como se tornar homens adultos fortes e
controlados. Meninos sem pai constituem 72% de todos os adolescentes assassinos e
70% dos presos condenados a longas penas.
Mais de imediato, a principal coisa que os estados podem fazer para reduzir o
crime é legalizar as drogas. Nossas políticas atuais levam os preços das drogas às

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214 O Manifesto Libertário

alturas e fazem que seu tráfico pareça a opção mais lucrativa e charmosa disponível
para muitos jovens dos centros metropolitanos. Dada a qualidade pobre das escolas
das metrópoles, muitos jovens veem como opção o “troco miúdo” no McDonald’s,
a assistência do governo ou a venda de drogas. Mas, assim como ocorreu com a
proibição do álcool nos anos 1920, a das drogas garante que elas serão vendidas por
criminosos. Os viciados têm que cometer crimes para pagar por um vício que seria
facilmente financiável (e mais seguro) se fosse legal. Os traficantes não têm como
resolver conflitos senão com tiros. Se as drogas fossem produzidas por firmas de boa
reputação e vendidas junto com o álcool, menos pessoas morreriam de overdose ou
devido a drogas em mau estado, e menos pessoas seriam vítimas de assaltos, roubos
e tiroteios relacionados com sua proibição. Se há limites ao poder do estado sobre
os indivíduos, sem dúvida ele não deveria poder regulamentar o que colocamos em
nosso corpo. A proibição das drogas é tão repressiva quanto contraproducente.
Se dermos fim à proibição das drogas, liberaremos recursos policiais, o tempo do
Judiciário e celas na prisão para criminosos violentos. Nosso objetivo para tais delin-
quentes deve ser punição rápida, garantida e severa. A gravidade da punição apropriada
para crimes violentos está relacionada à gravidade do problema da criminalidade en-
frentado pela sociedade. Como a criminalidade nos Estados Unidos é extremamente
grave, provavelmente devemos aumentar a severidade das punições para crimes reais
como assaltos, agressões físicas, estupros e assassinatos. Devemos então implementar
leis exigindo sentenças transparentes, para que a comunidade saiba que um criminoso
vai de fato cumprir a sentença que lhe for dada; leis agravando a punição de criminosos
reincidentes ante o terceiro crime violento; e, dado nosso horrível problema de crimes
juvenis, sentenças mais duras do que temos dado aos jovens criminosos.
Ao implementar tais políticas, no entanto, precisamos reafirmar nosso compro-
misso com as liberdades civis. Conservadores gostam de queixar-se dos “direitos dos
criminosos”; o termo apropriado seria “direitos do acusado”, e essa é uma distinção
importante para aqueles de nós que não pretendem jamais se tornar criminosos mas
podem imaginar algum dia ser acusados de um crime, especialmente nos dias atuais,
com essa profusão de leis. Podemos melhorar nossos esforços contra o crime sem dar
à polícia carta branca para revistar nossos carros, escritórios e casas sem um manda-
do ou nem mesmo uma batida na porta; sem deixar que a polícia apreenda proprie-
dades sob regras de “confisco civil” cada vez mais frouxas; sem que nos tornemos
vítimas de grampeamento e outras formas de vigilância eletrônica.
Uma solução popular que não vai reduzir o crime é o controle de armas. Há mais
de duzentos milhões de armas na posse de particulares nos Estados unidos, e nenhu-
ma medida de controle de armas vai mudar isso. Os cidadãos cumpridores da lei têm
o direito natural e constitucional de possuir e portar armas, não apenas para caçar
mas para autodefesa e como último recurso na defesa da liberdade.

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 215

Finalmente, uma solução frequentemente negligenciada para o crime é a privati-


zação. A proteção aos direitos é o propósito legítimo e fundamental do governo, mas
isso não o torna necessariamente melhor nessa tarefa do que em outras. Os ameri-
canos já empregam cerca de 1,5 milhão de seguranças privados, mais ou menos três
vezes mais homens do que são empregados pelos governos estaduais e locais. Há não
muito tempo, jantei em um restaurante depois de uma noite de compras, por isso já
era bem tarde quando saí de lá. Enquanto caminhava pelas ruas desertas e lojas gra-
deadas, ocorreu-me que eu não estava com medo. Por quê? Porque estava em uma
comunidade privada, um shopping center. Esses locais têm mais incentivo e maior
capacidade para manter a ordem do que os governos, que é o motivo pelo qual as
pessoas cada vez mais fazem compras em shoppings e até moram em condomínios
fechados. Nessa área, como em tantas outras, um estreitamento da sociedade políti-
ca e mais confiança na sociedade civil nos beneficiariam a todos.

Valores familiares
A família é a instituição básica da sociedade civil, e pessoas de todos os lados do
espectro político começaram a expressar preocupação com seu aparente declínio.
O estado, ao se expandir e tirar o lugar da associação voluntária, da liberdade e da
responsabilidade, criou sociedades atomizadas. Não é o libertarismo que é “atomis-
ta”, e sim o estatismo assistencialista.
O problema é mais notável no crescimento rápido da taxa de crianças sem pai, de
5% em 1960 a 30% hoje. Duas décadas de pesquisas em ciências sociais nos lembra-
ram do que havíamos esquecido sobre milênios de experiência: crianças precisam de
pai, tanto por razões emocionais quanto financeiras. Mães sozinhas — especialmen-
te mães adolescentes, sem experiência — têm grandes dificuldades para sustentar
uma família, motivo pelo qual as crianças que vivem em lares sem pai têm cinco ve-
zes probabilidade de ser pobres. O maior problema é que mães sozinhas encontram
dificuldades para controlar — isto é, civilizar — meninos adolescentes. Garotos
adolescentes fora de controle tornaram nossos centros metropolitanos um pesadelo,
marcado por tiroteios e crianças com medo de brincar na rua.
Temos dado pouca atenção a um problema menos dramático na criação de filhos:
os efeitos do divórcio sobre as crianças. A cada ano, o número de filhos de pais sepa-
rados ou divorciados aumenta em relação ao número de crianças que nascem dentro
de um casamento. A maior parte dos homens e mulheres divorciados diz que está
melhor fora do casamento, mas muitas crianças sofrem. Dez anos depois de um di-
vórcio, mais de dois terços das crianças já estão sem ver o pai há um ano. Crianças de
famílias desfeitas têm quase duas vezes mais probabilidade de abandonar o ensino
médio do que as de famílias intactas; jovens adultos de famílias desfeitas são quase
duas vezes mais carentes de assistência psicológica.

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216 O Manifesto Libertário

Alguns comunitaristas e “defensores da família”, tanto na esquerda quanto na


direita, culpam o capitalismo pelos problemas da família, e eles não estão de todo
errados. Liberdade significa que as pessoas podem fazer suas próprias escolhas, e
melhores condições de vida lhes dão os meios de deixar suas famílias e irem viver so-
zinhas. (Mas, não esqueça, a opressão e a pobreza na Europa impeliram milhares de
pessoas a abandonar a família e cruzar o Atlântico em busca de liberdade e uma vida
melhor.) A riqueza e a tecnologia do capitalismo produziram métodos anticoncep-
cionais eficientes, que ajudaram a criar uma revolução nos costumes sexuais, que por
sua vez pode ter levado não só a casamentos mais tardios para muitos como também
a índices mais altos de divórcio. Ainda assim, famílias se formam e persistem, não
simplesmente porque as pessoas não tenham outras escolhas, mas porque desejam e
precisam do conforto e da estrutura da família.
Em nosso tempo, de algumas maneiras óbvias e outras não tão óbvias, o governo
enfraqueceu as famílias. A mais óbvia é que o sistema assistencialista torna possível
que mulheres jovens tenham filhos fora do casamento e sobrevivam com algum grau
de conforto. Em gerações anteriores, as mães ensinavam às filhas que um filho ilegí-
timo seria um desastre. Muito do estigma moral em torno da ilegitimidade em últi-
ma análise teve origem na realidade bastante prática de que ela imporia uma carga
financeira sobre a família ou até a uma pequena comunidade. Quando o assistencia-
lismo do governo removeu essa carga, o estigma entrou em rápido declínio e as taxas
de ilegitimidade foram às alturas.
Mas esse é apenas o impacto mais óbvio do governo sobre a família. Em 1950, a
família americana mediana pagava 5% de sua renda em imposto de renda federal;
hoje a cifra para a família mediana é de 24%. As mulheres devem ter o direito de
trabalhar, mas os altos tributos estão forçando mães que prefeririam ficar em casa
com seus filhos a ir para o trabalho. Leis de zoneamento obscuras em muitas cidades
tornaram ilegais os granny flats, como são conhecidos nos Estados Unidos os aparta-
mentos localizados no fundo das casas, com entrada separada, um ótimo lugar para
que um avô ou avó contem com a combinação certa de proximidade e independên-
cia. É claro que as pessoas talvez não queiram ter a sogra morando nos fundos de sua
casa. Afinal, o maior de todos os programas do governo, a Previdência Social, com
certeza afrouxou os vínculos familiares. Antes da Previdência Social, muitas pessoas
mais idosas contavam com os filhos para ter sustento, o que mantinha os laços fami-
liares mais fortes por toda a vida. Hoje em dia, esperamos que o governo sustente
nossos pais. Um amigo uma vez me disse, quando eu avisava a respeito dos apuros
financeiros da Previdência Social: “Se custa 200 bilhões de dólares por ano manter
minha mãe fora de minha casa, vale cada centavo”. Compreensível, talvez, em alguns
casos, mas dúbio como política social. Claro, nós também esperamos que o governo
ofereça cuidados para nossos filhos, que os eduque, mantenha as escolas abertas até

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 217

as dezoito horas, como se fossem creches. Por que a família não declinaria, quando o
governou usurpou a responsabilidade por crianças e idosos?
Os libertários não acham que o governo precise apoiar ou encorajar as famílias
tradicionais, como defendem os conservadores moralistas. O governo precisa ape-
nas parar de minar as famílias, para que as pessoas então formem o tipo de famí-
lia que desejarem. Idealmente, os libertários gostariam que o governo se afastasse
totalmente das questões de família e casamento. Por que o governo deveria emitir
licenças para casamentos? Casamento é um acordo voluntário, um contrato, que
para muitas pessoas tem um profundo significado religioso. O que isso tem a ver
com o governo? Devemos voltar à noção de casamento como um contrato civil para
todos e um pacto religioso para aqueles que assim escolhem.
Uma política como essa poderia até dar força ao casamento. O estado vem re-
gulamentando pesadamente o casamento, oferecendo o que é essencialmente um
contrato feito pela mesma fôrma para todos os casais. À medida que os costumes
sociais foram mudando — com famílias menores e mais mulheres escolhendo traba-
lhar fora — o contrato do estado se tornou inadequado para mais famílias. Os casais
deveriam poder escrever seus próprios contratos, e os tribunais deveriam lhes dar o
mesmo respeito que recebem os contratos comerciais.
Enquanto o estado conceder licenças para casamento, deve fazer isso sobre bases
não discriminatórias. Foi errado que os estados negassem licenças de casamento a
casais inter-raciais, e foi uma caricatura de justiça que a Suprema Corte não derru-
basse essa discriminação até 1967. Da mesma forma, é errado hoje negar aos casais
homossexuais o direito de se casar. Jonathan Rauch defende a ideia de que há três
grandes benefícios sociais no casamento — uma criação estável para os filhos, a do-
mesticação dos homens e a criação do compromisso de cuidar do cônjuge na doença
e na idade avançada — e que pelo menos os dois últimos se aplicam claramente a
relacionamentos homossexuais masculinos, enquanto o terceiro e possivelmente o
primeiro se aplicariam aos casais homossexuais femininos. E há, é claro, também a
questão básica de dignidade humana, de poder fazer uma declaração pública de amor
e comprometimento. É difícil ver como a aceitação dos casamentos homossexuais iria
enfraquecer qualquer outro casamento, como alegam alguns conservadores; uma coi-
sa que casais homossexuais raramente fazem é pôr no mundo crianças sem pai, e certa-
mente é bom para a instituição do casamento que mais pessoas se casem.

Educação
A esta altura a posição libertária sobre educação deve estar bastante clara. A edu-
cação é o processo pelo qual passamos adiante não apenas o conhecimento mas va-
lores essenciais em nossa civilização. Como a educação envolve ensinar às crianças
o certo e o errado, e o que é importante na vida, ela deve ser controlada por famílias

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218 O Manifesto Libertário

individuais, não por políticos ou burocratas. Nenhum sistema monopolista pode re-
fletir adequadamente os valores de todos os pais em uma sociedade diversificada, e
é o cúmulo da arrogância sugerir que elites políticas devam se sobrepor aos pais no
que toca a decidir o que ensinar às crianças.
Além disso, é claro, um monopólio burocrático é uma forma altamente ineficiente
de oferecer serviços de valor. Se não temos mais nenhuma confiança na capacidade
do estado para produzir aço, por que deveríamos esperar que ele fosse bem-sucedido
na tarefa muito mais sutil e complexa de transmitir conhecimento e valores a mi-
lhões de crianças diferentes? Devemos ter em mente a sarcástica observação de Mark
Twain: “Nunca deixei minha escolarização interferir em minha educação”. A edu-
cação acontece de muitas formas diferentes; não devemos achar que o atual sistema
escolar está gravado em pedra.

A falha básica do sistema de escolas públicas americanas pode ser vista no gráfico.
Como o gasto real (ajustado pela inflação) triplicou em trinta anos, os resultados
nos exames padronizados afundaram e depois se estabilizaram. Desde a Segunda
Guerra Mundial, as escolas e os distritos escolares têm ficado maiores, tornando-os
ainda mais inacessíveis ao controle da comunidade e cada vez mais burocráticos. De
1960 a 1984, o índice de matrículas nas escolas americanas aumentou 9%, enquanto
o número de professores subiu 57% e o número de diretores e supervisores cresceu
79%. Enquanto isso, o número de funcionários que não eram nem professores, nem

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 219

supervisores aumentou 500% — e, no entanto, de alguma forma, cada vez que um


sistema escolar é ameaçado com cortes no orçamento, anuncia-se que será preciso
dispensar professores e não burocratas. O sistema de escolas públicas da cidade de
Nova York tem 6 mil burocratas em seu escritório central, enquanto o sistema de
escolas católicas de Nova York atende um quarto do número de alunos com apenas
trinta funcionários administrativos centrais.
Não só os resultados em exames estão piorando, como os empresários vêm recla-
mando que os alunos formados nas escolas americanas não estão preparados para o
trabalho. Nas pesquisas, os alunos americanos dizem aos entrevistadores que suas
habilidades de leitura, redação e matemática são boas, mas os empregadores pensam
diferente. Em uma pesquisa, apenas 22% dos empregadores achavam que os empre-
gados com ensino médio completo que haviam recém-contratado tinham habilida-
des matemáticas suficientes, e somente 30% estavam satisfeitos com as habilidades
de leitura de seus novos contratados. Quando a BellSouth testou candidatos a téc-
nico, somente 8% passaram. A Motorola gasta 1.350 dólares por empregado a cada
ano ensinando capacidades básicas. Muitas empresas estão reescrevendo manuais
para se adaptar à baixa capacidade de leitura ou projetando tecnologias que não re-
queiram habilidades de leitura ou matemática. As escolas não estão produzindo uma
força de trabalho preparada para a competição global.
Cada forma de comunicação e transferência de informação em nossa sociedade foi
revolucionada nos últimos vinte anos, e no entanto nossas escolas ainda funcionam
exatamente como há duzentos anos — um professor dando aula na frente de trinta
alunos, com o dia letivo e o ano letivo orientados pelo ritmo de uma sociedade agríco-
la. Podemos somente imaginar as inovações dinâmicas no aprendizado que empresas
com fins lucrativos poderiam ter produzido se estivessem provendo educação.
Os libertários querem tirar a educação do estado burocrático e fazê-la verdadei-
ramente reativa aos alunos e pais. Escolas particulares fazem um trabalho muito me-
lhor na educação dos alunos, mas a maior parte dos pais encontra dificuldades para
pagar uma vez pelo sistema de escola pública e outra pela particular. Se eles não tives-
sem que pagar tributos para manutenção das escolas, teriam dinheiro para pagar pela
educação no mercado. Ou, se os tributos fossem mais baixos, seria viável para mais
famílias que um dos pais ficasse em casa para educar seus filhos.
Muitas pessoas temem que as crianças não seriam educadas se a escolarização não
fosse gratuita e compulsória. Evidências históricas mostram que na Inglaterra e nos Es-
tados Unidos a vasta maioria das crianças já era educada antes de o governo assumir a
escolarização. Até o senador Edward M. Kennedy, que não era nenhum fã da sociedade
civil ou do processo de mercado, afirmou que a taxa de alfabetização era mais alta antes
do advento da educação pública do que é hoje — o que nos faz pensar por que ele quer pôr
mais e mais dinheiro em um sistema governamental que está dando resultados tão maus.

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220 O Manifesto Libertário

Para pessoas simpáticas a esses argumentos mas não exatamente convencidas de


que um mercado totalmente livre fosse capaz de prover educação suficiente, os li-
bertários oferecem alguns passos moderados na direção da liberdade na educação.
Poderíamos pegar o dinheiro que gastamos hoje com alunos de escolas públicas —
cerca de 6.800 dólares por aluno ao ano — e dá-lo diretamente às famílias sob a for-
ma de uma bolsa ou vale, para ser gasto na escola pública ou privada de sua escolha.
Dessa forma, a educação ainda seria financiada pela tributação compulsória, mas pelo
menos os pais poderiam escolher o tipo de escola que querem para seus filhos. Melhor
ainda seria esperar que as famílias ricas e de classe média pagassem pela educação de
seus próprios filhos — certamente a educação deve ser considerada um custo básico da
criação de filhos — mas oferecessem um vale financiado por tributos para as crianças
pobres. Isso permitiria uma redução significativa nos tributos sobre as escolas, o que
possibilitaria que a maior parte dos pais pagassem eles mesmos pela educação.
Como as fábricas soviéticas de alguns anos atrás, as escolas americanas de hoje
são tecnologicamente atrasadas, inchadas, inflexíveis, indiferentes à demanda dos
consumidores e operadas para a conveniência dos altos burocratas. Precisamos abrir
essa indústria de educação de 300 bilhões de dólares por ano para deixar entrar o
processo de mercado. Imagine as formas que as escolas que competem pelo dinhei-
ro dos pais encontrariam para atender às necessidades dos estudantes. A tecnologia
educacional está na infância, mas é só criar um mercado para vermos bilhões sendo
gastos em pesquisa e desenvolvimento. Veríamos escolas respeitando os valores dos
pais e acolhendo com prazer seu envolvimento. Veríamos, nas palavras de um talen-
toso educador, que “não precisamos preparar as crianças para a escola, precisamos
preparar a escola para as crianças”. É isso que acontece nos mercados.

Protegendo as liberdades civis


Como já dissemos, o libertarismo é a visão de que cada pessoa tem o direito de viver
sua vida da maneira que desejar, contanto que respeite os direitos iguais das outras pes-
soas. Assim, os libertários se opõem a restrições governamentais ao comportamento
individual quando esse comportamento não infringe os direitos dos outros. Isso não
significa necessariamente aprovar ou endossar qualquer comportamento específico;
significa apenas que o poder coercitivo do estado deve ser limitado à proteção de nos-
sos direitos. Seria impossível fazer uma lista de todas as liberdades civis que temos;
tendemos a identificar liberdades civis específicas à medida que o estado tenta restrin-
gi-las. A Declaração de Direitos refletiu a experiência particular dos Pais Fundadores
com as restrições britânicas aos direitos individuais; mas, reconhecendo que era im-
possível enumerar todos os direitos individuais, eles adicionaram a Nona Emenda —
reservando aos indivíduos outros direitos não enumerados — e a Décima Emenda —
reiterando que o governo federal tem somente os poderes declarados na Constituição.

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 221

Libertários civis frequentemente se encontram na posição de defender o direito


de um indivíduo de fazer algo que eles mesmos talvez achem repreensível. Como
Friedrich A. Hayek escreve em Os fundamentos da liberdade, “Liberdade significa ne-
cessariamente que serão feitas muitas coisas das quais não vamos gostar”. Todos nos
beneficiamos da condição geral da liberdade, não só porque ela nos dá direito de fazer
o que nós desejarmos, mas também porque a civilização progride por tentativa e erro,
com os indivíduos experimentando novas formas de vida. Ele continua: “A liberdade
usada por um único homem em um milhão pode ser mais importante para a socieda-
de e mais benéfica para a maioria do que qualquer liberdade que todos usemos”.
A sociedade civil oferece espaço para que os indivíduos vivam da forma que esco-
lherem, mesmo que talvez ofendam a maioria. No entanto, também dá às pessoas a
oportunidade de limitar sua própria liberdade de ação ingressando em contratos e
associações com outros e usando sua propriedade para criar um ambiente que achem
agradável. Por exemplo, as pessoas têm direito de fumar tabaco ou maconha mesmo
que a maioria ache que fumar é perigoso e repulsivo. Mas outras pessoas têm direito
de proibir o fumo em sua casa, em restaurantes ou empresas. As pessoas têm direito
de pintar suas casas de roxo, mas não se tiverem entrado voluntariamente em acordo
com os vizinhos — em um condomínio de casas com cláusulas restritivas, por exem-
plo — de pintar todas as casas somente em tons pastel.
Libertários defendem o direito à liberdade de expressão, de imprensa e de difu-
são, embora ao exercer essa liberdade se possa ofender outras pessoas na sociedade,
seja mediante uma linguagem sexualmente explícita, ou com revistas racistas, livros
comunistas etc. Cada nova tecnologia traz consigo novos pedidos de censura, e as
comunicações eletrônicas não são uma exceção. Felizmente, a fabulosamente com-
plexa internet vai se mostrar muito difícil de censurar, e os governos vão enfrentar
cada vez mais dificuldades para restringir o que os cidadãos podem saber.
A sexualidade é outro aspecto íntimo da vida em que os governos têm se introme-
tido desde tempos imemoriais. Recentemente, nos anos 1960, as relações homosse-
xuais eram ilegais em quase todos os estados, e cerca de vinte estados ainda têm tais
leis em seus livros, beirando o século XXI. Quando essas leis eram vigorosamente
aplicadas, elas marginalizavam os homossexuais e geravam muita infelicidade. Uma
vez que os homossexuais passaram a reivindicar seus direitos, os governos começa-
ram a recuar na execução das leis. No entanto, a Suprema Corte em 1986 estabeleceu
em lei que entre pessoas maiores de idade não havia direito constitucional a escolher
o próprio parceiro sexual, e leis contrárias à sodomia ainda são usadas, por exemplo,
para negar a pais homossexuais a custódia de seus filhos. Tais leis devem ser repeli-
das, e todos os americanos devem ter direitos iguais.
Em nome da proteção de nossa segurança, o governo restringe os direitos que temos
de tomar nossas próprias decisões e assumir a responsabilidade por elas. Leis sobre o

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222 O Manifesto Libertário

uso de cinto de segurança ou capacete, por exemplo, nos negam o direito de escolher
que riscos queremos assumir. A Agência de Alimentos e Medicamentos nos nega o
direito de escolher que vitaminas, medicamentos e aparelhos médicos queremos. Cer-
tamente a decisão de seguir um determinado curso de tratamento é tão pessoal e ínti-
ma quanto pode ser qualquer escolha. Muitos médicos acreditam que a maconha traz
benefícios médicos, para alívio do glaucoma e redução da dor e náusea associadas a
aids, câncer e quimioterapia; esses médicos podem estar certos ou errados, mas a deci-
são deveria ser do paciente, e não de uma agência burocrática sediada em Washington.
Uma das tendências mais perturbadoras na questão das liberdades civis é a crescente
militarização da execução da lei nos Estados Unidos, em grande parte — embora não
totalmente — numa tentativa de aumentar a escala da cada vez mais fútil guerra contra
as drogas. Mais uma vez, o fracasso de uma intervenção do governo resulta em pressão
por mais intervenção. A proibição das drogas não consegue impedir o comércio de dro-
gas, então o governo aponta o próprio fracasso como razão para contratar mais policiais,
pressionar governos estrangeiros, expandir seus poderes de busca e apreensão e confis-
co civil, privar cidadãos obedientes à lei de telefones públicos em áreas de comércio de
drogas, sujeitar todos os empregados a testes toxicológicos, e assim por diante. Há hoje
52 agências federais cujos oficiais têm poder de portar armas de fogo e efetuar prisões.
Talvez seja por isso que vemos um número cada vez mais alto de violentas agressões
de agentes federais a indivíduos americanos, das mortes de Vicki e Sammy Weaver em
Ruby Ridge, no estado de Idaho, ao assassinato de Donald Scott em uma farra simulada
com maconha em Malibu, passando pelo ataque com tanques e helicópteros aos adven-
tistas davidianos em Waco, no Texas, que deixou mais de oitenta mortos.
Como disse Thomas Jefferson, “O preço da liberdade é a eterna vigilância”.
As constituições ajudam a preservar a liberdade, mas somente uma sociedade de
pessoas determinadas a proteger sua liberdade de invasões pode, a longo prazo,
resistir à tendência natural que o poder tem de se expandir.

Protegendo o meio ambiente


A qualidade do meio ambiente é um aspecto importante de uma boa sociedade, e
muitas pessoas não acreditam que o mercado livre possa oferecê-la adequadamente.
Embora não haja solução perfeita para os problemas ambientais em nenhum sistema
político ou filosófico, o libertarismo oferece o melhor modelo disponível para produ-
zir a proteção ambiental que as pessoas desejam.
O crescimento econômico ajuda a produzir um meio ambiente de qualidade.
Pessoas e sociedades mais ricas podem arcar com os custos da exigência de melhor
qualidade para o ar e a água. Pessoas que estejam lutando para sobreviver ou resistir
a intenso trabalho braçal não vão se importar muito com amenidades ambientais;
quando as pessoas atingem um padrão de vida confortável, elas voltam sua atenção

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 223

para esses “bens” de ordem mais alta. Na verdade, a qualidade do ar e da água nos
Estados Unidos aumentou consistentemente durante o século XXI, e nossa expec-
tativa de vida em ascensão é a melhor evidência de que nosso meio ambiente está se
tornando mais — e não menos — adequado aos humanos.
À medida que as economias se tornam mais eficientes e avançadas tecnologica-
mente, elas usam menos recursos para produzir maior valor para os consumidores.
Lembrem-se: o problema econômico básico é como tirar mais valor de nossos recur-
sos. Como os fabricantes de refrigerantes querem economizar dinheiro, eles desen-
volveram maneiras de usar bem menos estanho — e depois alumínio — em cada
lata. Em 1974, uma libra (cerca de 450 gramas) de alumínio rendia 22,7 latas de be-
bida; em 1994, a mesma libra rendia 30,13 latas. O mesmo incentivo do lucro impele
as empresas a procurar uso para os produtos que descartam; a Coca-Cola Company
descobriu que as folhas de metal das quais tiram as tampinhas das garrafas são filtros
ideais para fornalhas. Quando a divisão Minute Maid da Coca-Cola faz suco de la-
ranja, nenhuma parte da laranja é descartada: a empresa tira cada gota de suco, extrai
o óleo da casca e com o que sobra alimenta as vacas.
Um dos maiores geradores de problemas ambientais é o que o ambientalista
Garrett Hardin chama de “a tragédia dos comuns”. Quando recursos — como
uma pastagem comunal, floresta ou lago — são “de todos”, na verdade não são de
ninguém. Não há incentivo para que alguém mantenha o valor do bem ou o use
de forma sustentável. É como seis crianças dividindo um milk-shake: cada uma
está motivada a secar o copo antes que as outras possam fazê-lo. Quando madei-
reiras cortam árvores em uma floresta nacional, estão incentivadas a cortar todas
sem demora, antes que outra empresa consiga permissão para usar a mesma área.
Quando essas empresas cortam árvores em suas próprias terras, elas replantam
tantas quantas cortaram, para que assim tenham um bem que lhes venha a render
dinheiro nos anos vindouros. Um dos maiores problemas ambientais de hoje é o
esgotamento da pesca nos oceanos, um exemplo claro da tragédia dos comuns para
o qual se precisa urgentemente de uma solução de privatização.
Como pode então uma perspectiva libertária ajudar a melhorar a qualidade do meio
ambiente? Em primeiro lugar, uma sociedade livre oferece uma diversidade de abor-
dagens para a solução de problemas. Sistemas competitivos — o capitalismo, a demo-
cracia, a ciência — permitem que ideias sejam testadas e que as bem-sucedidas sejam
imitadas. Regulamentações saídas de Washington no estilo “comando e controle”
não conseguem administrar eficientemente as questões ambientais com que se de-
frontam centenas de milhares de empresas comerciais melhor do que podem guiar
adequadamente as atividades econômicas de uma sociedade.
Em segundo lugar, proprietários particulares têm mais cuidados com seus recur-
sos do que os públicos. Os direitos de propriedade privada significam que as linhas

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224 O Manifesto Libertário

de autoridade são claras e que pessoas específicas colherão ou os benefícios ou os


custos de suas ações. A maneira de evitar a tragédia dos comuns é privatizar os co-
muns. Como diz o economista ambiental Richard Stroup, os direitos de proprieda-
de devem ter três características: “ser claramente definidos, facilmente defendidos
contra invasores e alienáveis (transferíveis) em termos acordados por comprador e
vendedor”. Por que os búfalos são uma espécie em risco de extinção e as vacas não?
Por que os pombos-correio desapareceram mas não as galinhas? Porque os donos
têm incentivo maior para manter o que lhes pertence. O Congresso deveria parar
com seus debates anuais politizados sobre como administrar suas terras — cotas de
madeira, direitos sobre o subsolo, taxas pela pastagem em terras federais, perfura-
ções em alto-mar — e caminhar na direção da privatização dos recursos naturais,
para que os administradores privados possam exercer administração privada.
Em terceiro lugar, os problemas ambientais devem ser administrados no nível
mais local possível. Ativistas políticos de ambos os lados das questões ambientais
vão correndo a Washington para conseguir que seu próprio planejamento seja im-
posto ao país inteiro. Mas os princípios do federalismo e da subsidiariedade levariam
a crer que os problemas devem ser resolvidos se possível de modo particular e, não
sendo assim, no nível local ou estadual, antes de se pensar em qualquer envolvimen-
to federal. Perdemos os benefícios da descentralização e da experimentação quando
impomos uma solução ao país inteiro.
Em quarto lugar, onde os mercados nem sempre funcionam — onde os direitos
de propriedade são mal definidos ou os bens são difíceis de dividir — o direito con-
suetudinário é uma importante instituição para solução de problemas. Em qualquer
lugar onde haja pessoas vivendo juntas, vão surgir problemas ambientais: cheiros,
escoamentos, fumaça de fábricas. À medida que os indivíduos levam essas desaven-
ças à justiça, eles ajudam a definir os direitos de propriedade e a lei. Uma produção
do direito descentralizada e em constante evolução leva a respostas melhores do que
uma ordem legislativa igual para todos os casos.
Em quinto lugar, a ênfase libertária na responsabilidade individual significa que
devemos evitar o convite à irresponsabilidade pessoal imposta pela responsabilidade
coletiva e adotar uma abordagem de “o poluidor paga” para questões de responsa-
bilidade jurídica. O programa Superfund é um erro clássico nesse ponto. Todos os
produtores de lixo perigoso são obrigados a contribuir para o fundo, que é então
alocado por uma burocracia regulatória para limpar locais específicos. Devemos
responsabilizar poluidores individuais pelo dano que eles de fato causem, em vez de
impor culpa coletiva a toda a indústria e eliminar o incentivo de cada empresa, indi-
vidualmente, a evitar a poluição. O objetivo da política ambiental deve ser a proteção
das pessoas e de sua propriedade, assim como do sistema legal como um todo.
Finalmente, é claro, um governo menor significa que ele mesmo pararia de poluir

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 225

e de encorajar o dano ambiental. A destruição ambiental do governo era galopante


nos países soviéticos, mas é um problema real também em economias mistas. Os
subsídios do governo encorajam a destruição de florestas tropicais. Gigantescos pro-
jetos de hidrelétricas dos Estados Unidos à China são quase sempre patrocinados
pelos governos. Programas de subsídios agrícolas, especialmente as cotas de açúcar,
têm encorajado o abuso das terras agrícolas. Governos sem tais poderes causariam
menos danos ao meio ambiente, assim como à economia.
As instituições da propriedade privada, da tomada de decisão descentralizada, do
direito consuetudinário e da responsabilidade objetiva nos levarão a soluções melho-
res — soluções que refletem os custos e benefícios reais da qualidade do meio ambien-
te — do que as regulamentações de “comando e controle” produzidas por um processo
político e implementadas por reguladores que não podem ser responsabilizados pelas
consequências de suas ações. No entanto, como tanto os direitos de propriedade quan-
to o direito consuetudinário estão em constante evolução, há sem dúvida alguma ques-
tões ambientais para as quais ainda não temos soluções adequadas. Desenvolvemos
direitos de propriedade para fluxos de água, lençóis subterrâneos, pastagens, rebanhos;
como poderemos desenvolver direitos de propriedade para o ar? Se o aquecimento
global for um problema real — e as evidências sobre isso ainda não são claras —, os
direitos de propriedade e o direito consuetudinário podem nos levar a uma solução?
Economistas, juristas, juízes, empresários e proprietários estão envolvidos em
uma busca ainda em curso de respostas a essas perguntas. Instituições de mercado li-
vre ou pelo menos orientadas para o mercado, desenvolvidas recentemente para tra-
tar de questões ambientais com racionalidade e pelo menor custo para a sociedade,
apontam para multas por poluição, permissões de emissão comerciáveis, mercados
para comércio de recicláveis e padrões de performance (em vez de regulamentações
prescrevendo tecnologias e tipos específicos de redução de poluição). Essas não são
soluções perfeitamente libertárias, e há mais trabalho a fazer, mas são exemplos de
como podemos obter qualidade ambiental sem politizar o meio ambiente ou impor
custos desnecessários à economia.
Há poucos anos, em uma conferência acadêmica sobre questões ambientais, ouvi
um professor de biologia que administrara um rancho em Montana por vinte anos
discutir algumas das muitas questões com que havia se defrontado sobre a melhor
forma de administrar os recursos de seu rancho. O que me impressionou foi que ali
estava um homem comprometido com a qualidade do meio ambiente, profissional
treinado das ciências biológicas, com décadas de experiência em administração de
recursos, e ele não sabia responder com certeza às perguntas que surgiam sobre seu
próprio rancho. A lição é que ninguém tem todas as respostas, então não se deve
impor à sociedade as respostas de ninguém. O que precisamos, como escreveu Karl
Hess Jr. em Visions upon the Land [Visões sobre a terra], é “um mercado de visões

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226 O Manifesto Libertário

panorâmicas, (...) uma república virtuosa de independentes, responsáveis e preocu-


pados administradores” de seus próprios recursos.

Preservando a paz
Os liberais clássicos sempre viram a guerra como o maior flagelo que o governo
poderia impor à sociedade. Eles abominavam o morticínio implicado pela guerra e
entendiam também outra coisa: que a guerra destrói famílias, negócios e a sociedade
civil. Impedir que os reis coloquem seus súditos em risco com guerras desnecessá-
rias era um de seus maiores objetivos. Adam Smith argumentou que pouco mais era
necessário para criar uma sociedade feliz e próspera além de “paz, baixos tributos e
uma administração tolerável da justiça”.
Os Pais Fundadores americanos, felizes por estarem livres das guerras sem fim
na Europa, fizeram da paz e da neutralidade um princípio cardeal do novo governo.
Em seu discurso de despedida, George Washington disse à nação: “A grande regra
de conduta para nós, em relação às nações estrangeiras, é estender nossas relações
comerciais para ter com elas o mínimo possível de conexão política”. E Thomas
Jefferson assim descreveu a política externa americana em seu primeiro discurso de
posse: “Paz, comércio e amizade honesta com todas as nações — sem forjar aliança
com nenhuma delas”.
No século XX, porém, muitas pessoas passaram a acreditar que os Estados Unidos
deviam se envolver nas questões mundiais e nas guerras estrangeiras. Por cinquen-
ta anos a política externa dos Estados Unidos esteve voltada para a derrota de dois
poderes totalitários: a Alemanha nazista e a Rússia soviética. Hoje a grande cruza-
da está terminada; os Estados Unidos estão seguros, e nenhuma ideologia agressiva
ameaça os cidadãos americanos ou a paz mundial*. Mas o enorme aparelho militar e
diplomático que surgiu durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria se recusa
a declarar vitória e voltar ao estado de paz. Em vez disso, as forças armadas ameri-
canas continuam extensas e dispendiosas, e diz-se aos cidadãos americanos que o
mundo pós-Guerra Fria é ainda mais perigoso e instável do que quando ele estava
sob a ameaça da União Soviética. Assim, temos ainda números significativos de tro-
pas americanas na Europa, Japão, Coreia e Oriente Médio.
Em poucos anos, desde a Guerra do Golfo Pérsico, enviamos tropas americanas
ou fomos instados a enviar tropas americanas à Somália, ao Haiti, à Bósnia, à Libé-
ria, a Ruanda, ao Burundi, à Macedônia e muitos outros lugares. Esses lugares têm
somente uma coisa em comum: nenhum interesse vital americano está em risco em
nenhum deles. Menos de uma geração depois do desastre no Vietnã, parece que es-

* É importante lembrar que esse livro foi escrito antes dos atentados terroristas aos EUA em 11 de
setembro de 2001. (N. E.)

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Cap. 10 — Questões contemporâneas 227

quecemos as lições de nossa intervenção lá. Aquela intervenção também começou


pequena e com boas intenções; ninguém esperava que fôssemos acabar com 50 mil
tropas americanas no local e 55 mil americanos mortos.
Precisamos lembrar algumas regras simples sobre guerra e política externa. Pri-
meiro, a guerra mata pessoas. Especialmente no mundo moderno, frequentemente
mata tantos civis quanto soldados. A guerra não pode ser evitada a qualquer custo,
mas deve ser evitada sempre que possível. Propostas de envolver os Estados Unidos
— ou qualquer governo — em conflitos estrangeiros devem ser tratadas com grande
ceticismo.
Em segundo lugar, como se discutiu antes, a guerra incha o governo. Em toda a
história, a guerra ofereceu um pretexto para que governos arrogassem para si dinhei-
ro e poder e regimentassem a sociedade. Durante a Primeira e a Segunda Guerras
Mundiais, o governo dos Estados Unidos assumiu poderes que jamais teria adqui-
rido em tempo de paz, como o controle de preços e salários, racionamento, controle
estrito da produção e da mão de obra e tributação astronômica. As restrições cons-
titucionais ao poder federal foram rapidamente minadas. Isso não significa que es-
sas guerras não deviam ter sido disputadas. Mas significa que devemos entender as
consequências de uma guerra para toda a nossa ordem social, e por isso ir à guerra
somente quando for absolutamente necessário.
Em terceiro lugar, os Estados Unidos não conseguem policiar e planejar o mundo
inteiro melhor do que podem planejar uma economia nacional. Sem a ameaça de
uma superpotência contra a qual se mobilizar, o establishment político-militar quer
empregar nossos recursos militares pelo bem da democracia e da autodeterminação
ao redor do mundo e contra ameaças vagas e descentralizadas como o terrorismo,
as drogas e a destruição ambiental. As forças armadas foram criadas para entrar em
guerras pela defesa da liberdade e soberania americanas; elas não estão equipadas
para ser polícia e assistência social do mundo inteiro.
Em quarto lugar, nossos aliados da Guerra Fria se recuperaram da destruição
da Segunda Guerra Mundial e hoje são plenamente capazes de se defender. Não
apenas não há mais uma ameaça soviética à Europa, como os países da União Euro-
peia têm uma população coletiva de mais de 370 milhões de pessoas, um Produto
Interno Bruto de 7 trilhões de dólares por ano e mais de 2 milhões de tropas. Eles
podem defender a Europa e lidar com problemas como a agressão sérvia sem ajuda
dos Estados Unidos. A Coreia do Sul tem o dobro da população e dezoito vezes a
produção econômica da Coreia do Norte; não precisa de nossas 37 mil tropas para
se defender.
Em quinto lugar, a explosão das comunicações significa que o desequilíbrio de in-
formação entre os líderes políticos e os cidadãos está muito reduzido. Os presidentes
frequentemente acompanham junto com todos nós o desdobrar de acontecimentos

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228 O Manifesto Libertário

mundiais pela CNN. Isso significa que os presidentes acharão mais difícil esperar
deferência pública sobre questões de política externa, portanto devem proceder com
cautela ao assumir compromissos no estrangeiro sem o apoio popular.
O mundo ainda está cheio de potenciais ameaças, e o propósito do governo é pro-
teger os direitos de seus cidadãos. Devemos manter um nível adequado de defesa na-
cional, mas podemos defender os interesses vitais dos Estados Unidos com forças ar-
madas de cerca de metade do tamanho das atuais — especialmente se reorientarmos
nossa política externa para a independência estratégica, em vez de compromissos
globais em acordos de segurança coletiva. Isso ainda nos daria cerca de um milhão
de homens em serviço ativo. Embora possamos eliminar parte do caro armamento
da Guerra Fria, planejado para projetar o poder americano até bem longe de nossas
costas, devemos explorar a possibilidade de realmente defender os cidadãos america-
nos com um sistema de defesa antimísseis balísticos.
Libertários que propõem trazer para casa as tropas americanas e se concentrar na
defesa dos Estados Unidos são às vezes acusados de ser “isolacionistas”. Isso é um
engano. Os libertários na verdade são cosmopolitas. Ansiamos por um mundo unido
por um comércio livre, comunicações globais e intercâmbio cultural. Acreditamos
que a intervenção militar ao redor do mundo dificulta esse esforço. Acreditamos
também que, embora o mundo de várias maneiras esteja se tornando menor, não é
adequado ver o mundo inteiro como uma aldeia em que todos devam contribuir para
apaziguar cada briga. Em um mundo perigoso, com terrorismo e armas nucleares, é
melhor manter os conflitos militares limitados e regionais, em vez de aumentá-los,
envolvendo uma superpotência.
O que pode parecer para muitos leitores uma resenha exaustiva das questões políti-
cas contemporâneas mal arranhou a superfície da análise política, e muitas perguntas
obviamente não foram respondidas aqui. Os moldes para a análise política libertária,
no entanto, devem estar claros: liberdade individual, propriedade privada, mercados
livres e governo limitado criam uma sociedade civil dinâmica e vibrante, que acomoda
da melhor forma possível as necessidades e preferências de milhões de cidadãos.

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Capítulo 11

O estado obsoleto

C
om os serviços públicos começando a entrar em declínio e os mercados se
tornando mais sofisticados com a Era da Informação, as pessoas estão se
voltando para a oferta privada de tudo, da educação ao correio comum e ao
seguro contra acidentes. Mesmo pessoas que achavam que havia necessidade de o
governo prover esses serviços agora veem o estado como um provedor cada vez mais
desajeitado e obsoleto da maior parte dos bens e serviços.
Por que o governo oferece tantos bens que poderiam ser mais bem providos pela
iniciativa privada? Algumas respostas, a maior parte delas relacionada ao imperialismo
político e à natureza disfuncional da política, foram sugeridas no capítulo 9. Mas cer-
tamente há razões menos sinistras, como o argumento de que o governo é necessário
para prover bens públicos. O argumento dos “bens públicos” tem sido ultimamente
submetido por acadêmicos a minucioso exame crítico. Os empreendedores, porém,
não esperaram que os acadêmicos mostrassem o caminho; de faróis a escolas, dos cor-
reios ao seguro contra enchentes, os mercados produziram aquilo de que os consumi-
dores precisavam enquanto os estudiosos debatiam se eles poderiam fazê-lo.

A falha de mercado e os bens públicos


A alegação de “falha de mercado” é provavelmente o mais importante argumen-
to intelectual a favor da intervenção do estado no mercado. Há argumentos sérios
desenvolvidos por economistas afirmando que em algumas circunstâncias os mer-
cados não conseguem oferecer determinada coisa que muitas pessoas querem e pela
qual estão dispostas a pagar. Fora das revistas acadêmicas de economia, porém, a
pessoa que alega uma falha de mercado geralmente quer dizer que o mercado deixou
de oferecer algo que ela quer. Um amigo meu gosta de zombar de minha fé cega no
processo de mercado declarando “falha de mercado” a cada vez que eu reclamo de
não conseguir encontrar um produto ou serviço em particular. Não tem uma boa
pizzaria nesse bairro? “Falha de mercado!”
Na maior parte dos casos, se não conseguimos encontrar um bem ou serviço que
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230 O Manifesto Libertário

queremos, é por uma de duas razões: ou os empreendedores estão perdendo uma boa
chance (e devemos pensar em aproveitá-la) ou há uma boa razão pela qual ninguém
está oferecendo o que procuramos. Hoje em dia, muitas pessoas aparentemente gos-
tariam de ir a bares de não fumantes. Então por que não há quase nenhum? É possível
que esta seja uma grande oportunidade de empreendimento. É mais provável que os
fumantes tendam a beber mais e dar mais gorjetas, por isso talvez seja extremamente
difícil lucrar com um bar de não fumantes*.
A maior parte das alegações sérias de falha de mercado se baseia na teoria dos bens
públicos. Um “bem público” é definido pelos economistas como um bem econômi-
co com duas características: não há nele exclusibilidade nem disputa de consumo.
Isso significa: primeiro, é impossível impedir que indivíduos não pagantes desfru-
tem do bem. O exemplo clássico é o farol, cuja luz pode ser vista por todos os navios.
E, segundo, a capacidade dos indivíduos de desfrutar do bem ou serviço não se torna
menor ao se permitir que outros indivíduos também o consumam. Por exemplo, um
sinal de rádio ou um filme, diferentemente de um automóvel ou um corte de cabelo,
podem ser aproveitados por muitas pessoas simultaneamente.
Os economistas argumentaram que as pessoas vão “pegar carona” na oferta de
bens não exclusivos; isto é, os navios não vão contribuir para a manutenção de um fa-
rol porque podem desfrutar de seus serviços enquanto outros navios estiverem contri-
buindo. Claro, se muitas pessoas procurarem “pegar carona”, o serviço pode deixar de
ser oferecido. Alguns economistas argumentam que nesse caso o governo deve cobrar
tributos das pessoas e oferecer ele mesmo o serviço para superar a falha de mercado.
Há vários problemas com essa análise. Os bens podem ser produzidos e distri-
buídos de muitas formas, algumas das quais permitem a exclusão de não pagantes
e outras, não. Quase todos os bens podem ser produzidos “publicamente”, isto é, de
maneira a dificultar a exclusão de não pagantes, ou privadamente. Pode muitas vezes
ser o caso de que a “publicidade” de um bem reflete o fato de que o governo o tenha
produzido sem se preocupar com a exclusibilidade. Como Tom G. Palmer escreveu
no Cato Policy Report [Relatório de Políticas do Cato] em 1983,

O argumento favorável à provisão estatal é colocado em


termos puramente estáticos, em vez de dinâmicos; dado
um certo bem, o custo marginal de torná-lo disponível
para mais de uma pessoa é zero (ou menor do que o cus-
to de exclusão), é ineficiente gastar recursos para excluir

* A situação dos fumantes nos Estados Unidos mudou radicalmente desde a data em que esse livro
foi escrito. Já passaram de duas mil as cidades que aprovaram a lei que proíbe o fumo em locais fecha-
dos, entre elas Nova York, Los Angeles e São Francisco. (N. E.)

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Cap. 11 — O estado obsoleto 231

não pagantes. Mas isso levanta uma questão. Se vivemos


em um mundo em que os bens não são dados, mas têm
de ser produzidos, o problema é saber qual a melhor for-
ma de produzi-los. Um argumento em favor da provisão
estatal que presume que todos os bens já estão produzi-
dos não é um argumento.

A questão então é saber se é mais eficiente deixar que os empreendedores encon-


trem formas de oferecer o bem no mercado obtendo lucro, ou entregar a provisão
de bens importantes ao governo, onde encontraremos problemas como a falta de
sinais reais do mercado, a ausência de incentivos e um processo de tomada de deci-
são dominado por interesses particulares e influência política. O argumento básico
deste livro tem sido que bens e serviços valiosos são melhores quando oferecidos no
mercado competitivo. Neste capítulo, veremos alguns exemplos específicos de bens
e serviços que as pessoas achavam que o mercado não podia oferecer e acabaram
descobrindo que não só podia como oferecia.

Alguns exemplos clássicos que não eram bens públicos


O exemplo tradicional de bem público era o farol. Obviamente, disseram os eco-
nomistas a gerações de estudantes, os faróis não podem ser oferecidos pela iniciativa
privada, porque seria impossível cobrar de todas as pessoas que se beneficiam deles.
De Princípios de economia política de John Stuart Mill em 1848 à Introdução à análise
econômica de Paul A. Samuelson, ganhador do Prêmio Nobel, os livros-texto lidos
por milhões de estudantes nas faculdades americanas modernas apontavam o farol
para mostrar a necessidade da provisão estatal de bens públicos.
Então, em 1974, um economista decidiu descobrir como realmente os faróis haviam
sido colocados à disposição. Ronald H. Coase, da Universidade de Chicago, que tam-
bém ganharia um Prêmio Nobel, investigou a história dos faróis na Grã-Bretanha e
descobriu que eles não tinham sido construídos nem financiados pelo governo:

A história remota mostra que, ao contrário do que creem


muitos economistas, o serviço de farol pode ser oferecido
pela iniciativa privada (...). Os faróis foram construídos,
operados e financiados por proprietários particulares
(...). O papel do governo era limitado a estabelecer e ga-
rantir os direitos de propriedade do farol.

Pedágios eram coletados nos portos; reconhecendo o valor do farol, os donos dos
navios ficavam felizes em pagar. No século XIX, todos os faróis ingleses se tornaram

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232 O Manifesto Libertário

propriedade da Trinity House, uma organização antiga que aparentemente surgiu a


partir de uma guilda medieval de marinheiros, mas o serviço ainda era financiado
com pedágios pagos por navios.
Depois que o artigo de Coase foi publicado, o economista Kenneth Goldin es-
creveu: “Os faróis são um dos exemplos favoritos de bem público, porque a maior
parte dos economistas não consegue imaginar um método de exclusão (o que prova
apenas que os economistas são menos criativos do que os donos de faróis)”.
Outro exemplo clássico de bem público, embora muito mais recente do que o
caso do farol, foi a apicultura. Vários distintos economistas do século XX argumen-
taram que os produtores de maçãs se beneficiavam da presença de abelhas porque
elas polinizavam as flores da maçã; mas os apicultores não tinham incentivo para
ajudar os produtores de maçã, e, como as abelhas não podem ser confinadas em
fazendas específicas, um investimento menor na apicultura não seria bom para a
economia. Novamente, parecia plausível e até óbvio — tão óbvio na teoria que nin-
guém se preocupou em verificar os fatos.
Quando o economista Stephen Cheung da Universidade de Washington se pôs a
examinar o negócio do cultivo de maçãs em Washington, verificou novamente que os
empresários já estavam fazendo algo que os economistas alegavam que não poderia
ser feito. Havia um longo histórico de contratos entre produtores de maçã e apicul-
tores. Esses contratos asseguravam que os apicultores teriam incentivos para prover
as abelhas das quais os produtores de maçã se beneficiavam. Acordos informais entre
os produtores de maçã asseguravam que todos eles pagassem montantes similares aos
apicultores, em vez de tentar “pegar carona” com os outros produtores. Esses acordos
informais, assim como os contratos formais, são parte da vasta rede de cooperação civil
que chamamos de processo de mercado ou sociedade civil. Economistas que queriam
apontar exemplos do fracasso do mercado foram ficando sem exemplos à medida que
outros economistas analisavam o funcionamento do mercado.

Quando é que o governo oferece serviços?


Geralmente se presume que o governo interfere para prover um serviço quando o
setor privado não consegue oferecê-lo. Mas, mesmo se isso fosse verdade, surgiria a
questão de por que as pessoas deveriam ser tributadas para que se oferecesse um ser-
viço pelo qual elas não estariam dispostas a pagar. A menos que se possa defender so-
lidamente a ideia de que aquele bem ou serviço em particular é um bem público — o
que, como vimos, é difícil de fazer — o argumento a favor da provisão estatal limita-
-se a dizer simplesmente que decisões feitas por milhões de consumidores gastando
seu próprio dinheiro devem ser substituídas pelas preferências de algumas pessoas.
Na verdade, porém, o governo geralmente não oferece um serviço que não esteja
disponível no mercado. Em vez disso, os políticos prometem dar às pessoas, a expen-

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Cap. 11 — O estado obsoleto 233

sas públicas, algo pelo qual elas não gostam de pagar. A provisão de um monopólio
burocrático não torna um serviço mais barato, mas disfarça os custos. As pessoas
deixam de relacionar um pagamento específico com o serviço, por isso elas ficam
satisfeitas por ter aparentemente de graça um serviço que antes era caro, apesar de
que prefeririam que seus tributos não estivessem subindo. A oportunidade política
de ter ganhos com a oferta de um novo serviço do governo parece vir quando um nú-
mero suficiente de pessoas está pagando por um serviço cujo custo muitos eleitores
prefeririam ter tirado de suas mãos.
O economista W. Allen Wallis defende a ideia de que a educação na Grã-Bretanha
e nos Estados Unidos é um bom exemplo disso. Ele escreve:

Em 1833, quando o governo da Grã-Bretanha começou a


subsidiar escolas, pelo menos dois terços da juventude da
classe trabalhadora eram alfabetizados, e a população es-
colar tinha dobrado em uma década — embora até então o
governo tivesse deliberadamente obstruído a disseminação
da alfabetização às “classes baixas”, porque temia as conse-
quências da propaganda impressa. (Grifo nosso)

Em 1870, quando a educação do governo se tornou gratuita e compulsória, quase


todos os jovens estavam alfabetizados. Haviam sido alfabetizados em escolas que co-
bravam taxas, incluindo as pouco dispendiosas “escolas de damas” estabelecidas pelas
famílias proletárias. O filósofo James Mill já tinha notado em 1813 “o rápido progresso
que o amor pela educação está fazendo entre as classes baixas na Grã-Bretanha”.
Nos Estados Unidos, também, Wallis escreve, “o governo começou a oferecer es-
colas ‘gratuitas’ somente depois que a escolarização já era quase universal”. Os go-
vernos estaduais talvez tenham decidido tornar a educação gratuita, compulsória e
administrada pelo estado, no fim do século XIX, para ganhar a simpatia dos eleitores
que deixariam de pagar diretamente por ela, ou para impor uma agenda política e
religiosa específica às escolas, mas está claro que a ação do estado não era necessária
para tornar as escolas amplamente disseminadas.
O Medicare é outro exemplo de serviço que estava sendo oferecido pela iniciativa
privada, a custos individualizados, até que o governo federal tomou-o para si. Uma
pesquisa de 1957 do National Opinion Research Center descobriu que “cerca de
uma pessoa em cada vinte entre a população mais idosa [de 65 anos ou mais] relatou
que está sem cuidados médicos porque não pode pagar por esses cuidados”. Se mais
de 90% dos idosos podiam pagar pelos cuidados médicos de que precisavam, por
que seria necessário um programa governamental para oferecer assistência médica a
todos os idosos? Wallis assim resume as lições:

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234 O Manifesto Libertário

A tarefa do empreendedor político, então, é identificar


serviços que estão sendo comprados por blocos identifi-
cáveis e substanciais do seu eleitorado e criar meios pelos
quais o custo desses serviços seja transferido para o pú-
blico. A inovação bem-sucedida está não em conseguir
fazer algo que não era feito antes, mas em transferir os
seus custos para o público em geral. Somente se números
bastante altos de eleitores já estiverem pagando pelo ser-
viço a oferta de aliviá-los do custo terá boas chances de
influenciar seus votos.

Um exemplo mais recente poderiam ser os subsídios do governo para as creches.


Quanto mais pais pagam por creches, maior é o contingente de pessoas que gosta-
riam de ser poupadas da despesa. Assim, os políticos começam a declarar que ofe-
recer creches é uma responsabilidade nacional ou que os pais “não podem pagar” as
despesas com creches. Na verdade, eles podem pagar — eles já pagam —, mas eles
não gostam muito de pagar. Os políticos nunca dizem exatamente por que pessoas
sem filhos e mães que não trabalham fora deveriam pagar tributos que vão ser usados
para financiar cuidados com os filhos de outras pessoas, mas esses já se tornaram tão
altos e aparentemente inevitáveis que os eleitores não parecem relacionar a carga
tributária cada vez mais alta aos novos serviços do governo.
Quando um serviço é transferido do mercado para o governo, é óbvio que sua
provisão não mais responde diretamente aos consumidores, mas reflete cada vez
mais as preferências dos provedores em vez dos compradores. Aqueles que recebem
os serviços do governo só podem influenciá-los por meio do incômodo processo
político e não pelo outro, muito mais eficiente, o de escolher entre provedores em
concorrência.

A atual fuga dos serviços do governo


Hoje em dia, o governo tenta oferecer mais bens e serviços do que se poderia
contar, e as pessoas estão cada vez mais desiludidas com a qualidade de seus servi-
ços. O mundo está se movendo rapidamente com a Era da Informação, exceto pelas
escolas e pelos correios. Gigantescos provedores de serviços financeiros oferecem
fileiras de produtos projetados para atender às necessidades de cada consumidor,
com atendimento ao cliente 24 horas, exceto pela Previdência Social e outros ser-
viços administrados pelo governo. Parques, ruas, conjuntos habitacionais e escolas
do governo estão cada vez mais sujos e perigosos. É por isso que cada vez mais ame-
ricanos procuram escapar dos serviços do governo, frequentemente pagando mais
por produtos e serviços pelos quais já pagaram com seus tributos.

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Robert Reich, secretário do Trabalho no governo Clinton e autor de vários


best-sellers sobre mudança econômica, reclamou do que ele chama de “secessão
dos bem-sucedidos”. Em 1995, ele disse a formandos da Universidade de Ma-
ryland que os americanos mais ricos estão se isolando do resto da sociedade —
trabalhando nos subúrbios, fazendo compras em shoppings suburbanos seguros e
até vivendo em comunidades privadas. Pior, disse ele, estão resistindo aos esfor-
ços do governo para gastar o dinheiro de seus tributos fora de suas próprias comu-
nidades. Social-democratas como Reich, preocupados com valores comunitários,
deveriam refletir sobre o que suas políticas fizeram para dividir os americanos.
Eles deram ao governo tantas tarefas e enfraqueceram tanto as velhas noções de
moralidade e responsabilidade pessoal que o governo não pode mais exercer sua
função básica de nos proteger de danos físicos. Eles centralizaram e burocratiza-
ram as escolas de tal maneira que pouco se aprende nelas. Eles nacionalizaram e
burocratizaram a caridade. Alguém se admira de que as pessoas estejam fugindo
das instituições criadas dessa forma?

Comunicações
O Correio dos Estados Unidos é um dos maiores monopólios do mundo e demons-
tra toda a letargia que esperaríamos de um monopólio governamental. Todas as outras
formas de transmissão de informação mudaram, a ponto de estarem irreconhecíveis
da última geração para os dias de hoje, mas o Correio ainda se arrasta com seus 800
mil empregados, entregando cartas da mesma maneira de sempre, mas cada vez mais
devagar. O preço de um megabit de memória em um computador pessoal caiu de 46
mil dólares para 1 dólar em quinze anos, mas o preço dos selos continua a aumen-
tar. Já ouvimos todo tipo de história aterrorizante sobre o Correio — 100 quilos de
correspondência encontrados debaixo de um viaduto em Chicago; 800 mil itens de
correspondência comum empilhados em caminhões-baús perto de uma agência em
Maryland, porque a correspondência não conta como “atrasada” se estiver abrigada —
mas a grande questão é a velocidade e confiabilidade das comunicações.
Nas áreas em que se permite competição, o Correio dos Estados Unidos perdeu
quase toda a sua fatia do mercado. Sua parcela no mercado de encomendas caiu de
65%, há 25 anos, para 6% em 1990, e sua parcela de entregas em 24 horas caiu de
100% para 12% ou menos (as estimativas da indústria variam). Até mesmo as caixas
de correio e o atendimento no balcão são, com frequência cada vez maior, oferecidos
por firmas como a Mail Boxes Etc., que um consumidor descreveu como sendo “exa-
tamente do jeito que você gostaria que fosse o correio” — serviço eficiente e aten-
dimento amigável com acessórios úteis como caixas e fita adesiva. Tendo escolha,
tanto empresas quanto indivíduos optam, em esmagadora proporção, por ter suas
cartas e pacotes entregues por empresas privadas competitivas.

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Com a correspondência comum, porém, não há escolha. O Correio dos Estados


Unidos tem um monopólio legal, o que significa que é ilegal uma empresa privada
oferecer o serviço de levar uma carta ao seu destinatário, exceto por comunicações
“urgentes”, pelas quais as empresas privadas têm que cobrar pelo menos 3 dólares.
O Correio leva a sério essa exceção de “urgência”: vigia, com binóculos e telescópios,
carregamentos e caminhões de entrega e envia agentes a empresas privadas para au-
ditar o que elas estão enviando pela Federal Express (FedEx) ou pela United Parcel
Service (UPS). O Correio impõe centenas de milhares de dólares em multas todo
ano a firmas cujos pacotes entregues por empresas privadas são considerados não
urgentes. Seria de pensar que a disposição de uma empresa de pagar vários dóla-
res para ter um item de correspondência entregue no dia seguinte poderia ser prova
suficiente de sua urgência, mas o Correio acredita ser o melhor juiz daquilo que é
urgente para empresas privadas.
Enquanto isso, empresas privadas e muita gente cada vez mais procuram meios
de contornar o monopólio postal. De certa forma, o fax e o correio eletrônico estão
minando a parcela do Correio até mesmo no mercado do qual ele tem o monopólio
legal. Estima-se que 50% do tráfego telefônico que cruza o Atlântico e 30% do trá-
fego no Pacífico já sejam de mensagens de fax. O correio eletrônico será ainda mais
revolucionário. Steve Gibson, do Bionomics Institute, nota que a invenção da prensa
de tipos móveis por Gutenberg cortou o custo de copiar informação escrita em mil
vezes em apenas quarenta anos. Em contraste, diz ele, nos primeiros 25 anos depois
da invenção do microprocessador em 1971, o custo de copiar informação caiu dez
milhões de vezes. Durante a próxima década, espera-se que o poder de computação
aumente cem vezes; e a largura de banda, o tamanho do “cano” que carrega informa-
ções digitais como e-mail, aumentará mil vezes. O correio comum logo será deixado
na lixeira da história.
No fim dos anos 1970, o Correio tentou proteger seu monopólio com uma iniciati-
va para monopolizar o correio eletrônico. Essa é a reação natural de um monopolista
à potencial concorrência, e podemos todos ficar felizes por esse plano ter falhado.
Agora a pergunta é: por que uma desengonçada burocracia deveria ter monopólio
sobre as cartas de correio? Se o monopólio postal fosse eliminado, talvez as empresas
privadas pudessem encontrar uma forma de entregar as cartas de casa em casa por
mais alguns anos. Por outro lado, a economia vai tratar o Correio como um ruído em
uma linha telefônica e desviar dela o tráfego importante.

Educação
Gastamos mais dinheiro a cada ano nas escolas públicas — três vezes mais em
termos reais do que gastávamos em 1960 — e no entanto os resultados em exames
declinam, e muitas escolas urbanas são perigosas. De acordo com Keith Geiger,

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presidente da National Education Association (NEA), cerca de 40% dos profes-


sores de escolas públicas em grandes cidades mandam seus filhos para escolas par-
ticulares. E no entanto a NEA resiste amargamente a facilitar essa escolha para
outras famílias; gastou 16 milhões de dólares para derrubar uma única iniciativa
de livre escolha das escolas na Califórnia em 1993.
Muitos americanos escolheram tirar seus filhos das escolas do governo e enviá-los
para escolas particulares, na prática pagando em dobro pela educação. Entre esses
pais estão o presidente Clinton, o vice-presidente Al Gore, o senador Edward M.
Kennedy, o reverendo Jesse Jackson e a fundadora do Children’s Defense Fund, Ma-
rian Wright Edelman, todos oponentes arraigados da livre escolha. Famílias menos
abastadas encontram dificuldades para pagar altos tributos e depois pagar novamen-
te por uma escola particular. Mesmo assim, algumas famílias acham que a educação
privada vale qualquer sacríficio. O Institute for Independent Education identificou
390 pequenas escolas administradas por negros em todo o país e descobriu que 22%
de seus alunos vêm de famílias de renda anual de menos de 15 mil dólares enquanto
outros 35% das famílias ganham entre 15 mil e 35 mil dólares ao ano.
Outras famílias, frequentemente aquelas com mais habilidade política, tentam
enganar o sistema levando os filhos para escolas melhores em partes diferentes da
cidade ou a uma cidade vizinha. As famílias se valem de endereços de amigos ou
parentes para matricular os filhos em outro distrito escolar, usam caixas postais para
esconder seu endereço ou conseguem com funcionários da escola dispensa para que
os filhos possam ir para escolas melhores. Em reação a isso, os funcionários das es-
colas começaram a filmar as crianças à saída do metrô para descobrir alunos de fora
do distrito, tendo já pedido aos legisladores que endureçam as penas por “fraude na
matrícula escolar”.
Muitas famílias já desistiram totalmente da escolarização pública e começaram a
ensinar os filhos em casa. As famílias escolhem a educação doméstica por vários mo-
tivos. Outras fazem objeção ao que veem como um agressivo secularismo nas escolas
do governo e querem dar aos filhos uma educação de base religiosa. Há também as
que não gostam do conformismo e autoritarismo que provavelmente são inerentes
ao processo do agrupamento de crianças pequenas em turmas de vinte a trinta e ten-
tando ensinar a todas elas a mesma coisa ao mesmo tempo. “Escolas públicas como
as que conhecemos são uma burocracia aberrante”, diz David Colfax, que mandou
três filhos educados em casa para a Universidade Harvard. Mães que querem ficar
em casa com os filhos podem descobrir na educação doméstica uma alternativa me-
nos dispendiosa para a educação privada. E algumas famílias simplesmente acham
que a escola não ensina bem.
As estimativas do número de crianças que são educadas em casa variam enorme-
mente, de cerca de 500 mil a 1,5 milhão, mas todos os observadores concordam em

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que o número cresceu rapidamente nos últimos vinte anos. Há boletins para famílias
cristãs, judias, negras e agnósticas que educam os filhos em casa. Há serviços online
para educadores domésticos e ligas desportivas em que as crianças se reúnem para
fazer atividades físicas e manter um convívio social. A educação doméstica é uma
opção para ficar fora do governo, não da sociedade civil.
Apesar dos bons resultados obtidos em exames pelas crianças educadas em casa,
os sistemas escolares resistiram amargamente a deixar que os pais eduquem os pró-
prios filhos. Um oficial de educação de Michigan defendeu a prisão, naquele estado,
de uma mãe que não era professora licenciada, dizendo: “O estado tem interesse no
futuro do estado, e as crianças são o futuro do estado”. As autoridades das escolas
parecem ver a educação doméstica como uma rejeição a suas escolas, o que de fato é.
Adicionalmente, os distritos escolares recebem em média 4 mil a 7 mil dólares por
aluno em ajuda federal e estadual; portanto, cada criança educada em casa represen-
ta menos dinheiro para a administração da escola. A maior parte dos estados relaxou
seus tributos, mas a cada ano cerca de 2.500 famílias que educam seus filhos em casa
procuram aconselhamento legal da Home School Legal Defense Association (houve
75 casos contestados na justiça em 1991 e 55 em 1987).
O próximo grande desafio do sistema educacional será a entrada de empresas com
fins lucrativos no negócio da educação. Os americanos gastam cerca de 600 bilhões
de dólares por ano com educação, metade disso em escolas do jardim de infância
ao término do ensino médio. Se esse dinheiro fosse todo gasto pelas famílias, pa-
rece provável que empresas com fins lucrativos poderiam oferecer educação muito
superior ao vazio monopólio dos sistemas escolares. Porém, o dinheiro é gasto co-
letivamente, é claro, o que significa que as empresas de fins lucrativos são mantidas
completamente fora do jogo, enquanto a tecnologia educacional se manteve no nível
do século XVIII. Mas as escolas estão ficando tão ineficientes, que 60% das juntas
escolares estão pensando em contratar empresas para administrar alguma parte do
funcionamento da escola. A Primeira Conferência Anual da Indústria da Educação
foi realizada em 1996, e um novo boletim, o Education Industry Report, compilou
uma lista de 25 empresas de educação em um Índice da Indústria da Educação, à
maneira do Índice Dow Jones; está em pleno voo. Empresas como a Sylvan Learning
Systems e a Huntington Learning Centers estão lucrando ao dar às crianças um en-
sino que as escolas não conseguiram lhes oferecer. A Hooked on Phonics tem um
anúncio que diz: “Nós garantimos seu dinheiro de volta. Não seria bom se as escolas
garantissem também?”.
O problema não está na questão de que a sociedade civil e o mercado não possam
oferecer educação. Está no fato de que interesses privados que se beneficiam do
atual sistema financiado por tributos não permitem que os pais fiquem com seu
próprio dinheiro e comprem educação onde encontrarem o melhor produto. Mas,

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nos próximos anos, enquanto as escolas do governo continuam a se deteriorar e


novas tecnologias de aprendizado são disponibilizadas, mesmo em um mercado
gravemente atrofiado, as famílias vão cada vez mais ignorar a educação estatal para
conseguir aquela de que precisam.

Comunidades privadas
Apesar dos conselhos de Robert Reich, 4 milhões de americanos escolheram mo-
rar em alguma comunidade privada dentre as 30 mil existentes. Outros 24 milhões
moram em condomínios fechados, cooperativas ou prédios de apartamentos. Por
que as pessoas decidem morar em comunidades privadas? Primeiro, para se prote-
ger do crime e da dramática deterioração dos serviços públicos em muitas cidades
grandes. Um professor universitário reclama da “nova Idade Média (...) uma espécie
de paisagem medieval na qual pequenas cidades muradas e fechadas com defesas
próprias pontilham o campo”. As pessoas construíam muralhas em torno de suas
cidades na Idade Média para se proteger de bandidos e saqueadores, e muitos ameri-
canos estão fazendo o mesmo.
Comunidades privadas são uma resposta pacífica mas abrangente ao fracasso do
estado intervencionista. Como seu correspondente federal, os governos locais hoje
nos cobram mais tributos do que nunca, mas oferecem em troca serviços decadentes.
Não apenas a polícia parece incapaz de combater o aumento da criminalidade, como
as escolas se tornam cada vez piores, o lixo não é recolhido, bueiros abertos não são
consertados e topamos com mendigos a cada esquina. Comunidades privadas con-
seguem oferecer segurança física aos residentes, em parte por excluir delas as pessoas
que não vivem ali ou não são convidadas.
Mas há uma razão mais ampla para escolher viver em uma comunidade privada.
Os governos municipais não conseguem satisfazer as necessidades e preferências
de todos os habitantes. As pessoas podem ter diferentes exigências em termos de
densidade populacional, tipo de habitação, presença de crianças, e assim por diante.
Regras que poderiam atender às preferências de alguns cidadãos seriam inconstitu-
cionais ou ofensivas à mente aberta de outros cidadãos.
Comunidades privadas podem resolver alguns desses problemas de bens públi-
cos. Nos projetos maiores, as casas, ruas, esgotos e parques são todos privados. De-
pois de comprar uma casa ou condomínio, os residentes pagam uma taxa mensal
que cobre segurança, manutenção e administração. Muitas das comunidades são
fechadas e vigiadas.
Muitas têm regras que seriam de irritantes a enfurecedoras, ou até inconstitucio-
nais, se impostas por um governo: regulamentação das cores das casas, da altura dos
arbustos, do estacionamento nas ruas e até da posse de armas. As pessoas escolhem tais
comunidades em parte porque acham as regras — mesmo as estritas — apropriadas.

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Em uma edição de 1989 do Public Finance Quarterly, os economistas Donald


J. Boudreaux e Randall G. Holcombe oferecem uma explicação teórica para a cres-
cente popularidade das comunidades privadas, que chamam de governos contratu-
ais. Ter suas regras constitucionais concebidas por um único desenvolvedor, que en-
tão oferece a propriedade e as regras aos compradores em um pacote, reduz os custos
de tomada de decisão para desenvolver regras apropriadas e permite que as pessoas
escolham comunidades com base no tipo de regras que estas oferecem. O desejo de
ganhar dinheiro é um grande incentivo para um desenvolvedor criar boas regras.
Boudreaux e Holcombe escrevem: “O estabelecimento de um governo contratual
parece ser a coisa mais próxima de um contrato social que pode ser encontrada no
mundo real, porque é criado sob algo análogo a um véu [de ignorância], e porque
todos concordam unanimemente em se mudar para a jurisdição de um governo con-
tratual”.
Fred Foldvary aponta para o fato de que a maior parte dos “bens públicos” existe
dentro de um espaço em particular, então os bens podem ser oferecidos somente às
pessoas que compram ou alugam acesso àquele espaço. Isso permite aos empreen-
dedores superar o problema das pessoas que tentam “pegar carona” nos pagamentos
alheios de bens públicos feitos pelos outros. Os empreendedores tentam tornar seu
espaço atraente para os consumidores, oferecendo a melhor combinação possível de
características, que variam de espaço para espaço. Foldvary explica que as comuni-
dades privadas, os shopping centers, os parques industriais, os parques temáticos e
os interiores de hotéis são todos espaços privados criados por empreendedores, que
têm um incentivo muito maior do que os governos para identificar e responder à
demanda do consumidor. Além disso, vários empreendedores privados competindo
em seus negócios podem oferecer um leque muito mais amplo de escolhas do que os
governos.
Comunidades privadas — incluindo condomínios e prédios de apartamentos —
existem em variedade praticamente ilimitada. Os preços variam largamente, assim
como as amenidades oferecidas. Algumas têm políticas banindo crianças, animais
de estimação, armas, cores berrantes, aluguéis, ou qualquer outra coisa que se jul-
gue tornar o espaço menos agradável para os residentes. O movimento crescente de
“coabitação” responde à necessidade que muitas pessoas têm de um sentimento mais
próximo de comunidade, oferecendo unidades de moradia organizadas em torno de
um espaço comum para refeições e atividades coletivas. Algumas pessoas criam ar-
ranjos de coabitação com base em um comprometimento religioso comum.
Comunidades privadas são uma parte vital da sociedade. Elas dão às pessoas
oportunidade de encontrar o tipo de vida (ou de trabalho, ou de compras, ou de en-
tretenimento) que querem. Refletem o entendimento de uma sociedade livre não
como uma grande comunidade, mas como uma comunidade de comunidades.

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Cap. 11 — O estado obsoleto 241

Direito e justiça
Os libertários acreditam que uma função apropriada do governo é proteger nos-
sos direitos. Para esse fim, o governo contrata policiais para nos proteger de agres-
sões de nossos vizinhos e institui um Judiciário para resolver disputas legais. Porém,
talvez porque estejam distraídos com todas as tarefas adicionais que assumiram, os
governos não estão exercendo nem mesmo essas funções básicas com eficiência, e as
pessoas são forçadas a encontrar alternativas no mercado.
À medida que os tribunais vão acumulando mais trabalho e as pessoas descobrem
que o litígio é caro e desagradável, mais gente tem levado suas disputas a árbitros
privados. As decisões dos árbitros são vinculantes e, se necessário, podem ser levadas
a execução em tribunais públicos, embora a questão central da arbitragem privada
seja evitar os custos e atrasos de se recorrer à justiça. A próxima onda na resolução
alternativa de disputas provavelmente será a mediação, um processo menos formal,
não vinculante, em que uma parte neutra ajuda os contendores a chegar a um acordo
entre si. Muitas pessoas preferem a mediação porque ajuda a evitar a atmosfera de
rivalidade e os persistentes sentimentos desagradáveis gerados tanto pelos tribunais
quanto pela arbitragem vinculante. Como a maior parte das disputas se dá entre pes-
soas que vão continuar se relacionando — parentes, vizinhos, empresas que mantêm
vínculo constante —, justifica-se tentar solucionar os problemas sem que uma ter-
ceira parte imponha uma solução.
Arquivam-se cerca de 200 mil casos nas cortes federais a cada ano, enquanto a
American Arbitration Association (AAA), privada e sem fins lucrativos, tem cerca
de 60 mil arbitragens e mediações. A JAMS/Endispute, uma empresa com fins lu-
crativos, teve cerca de 20 mil casos em 1995, o dobro do número de três anos antes.
A JAMS/Endispute, a AAA e outras empresas de arbitragem têm amplas redes de
“neutros” — terceiros imparciais disponíveis para resolver disputas para clientes.
Os neutros que trabalham com a JAMS/Endispute são todos advogados, muitos deles
juízes aposentados, enquanto a AAA oferece tanto advogados quanto profissionais de
administração. Os provedores argumentam que, comparada aos tribunais do governo,
a resolução alternativa economiza tempo e dinheiro, permite flexibilidade dos procedi-
mentos, dá aos contendores mais controle sobre o processo de arbitragem, preserva as
relações, oferece confidencialidade e dá uma sensação de conclusão, porque acordos de
mediação e arbitragem não podem sofrer apelação, exceto em circunstâncias extraor-
dinárias. Muitos contratos de negócios garantem que qualquer disputa originada pelo
contrato será resolvida por um representante de uma determinada firma de resolução
alternativa. Os árbitros tomam decisões com base nos termos do contrato e no direito
consuetudinário, que em sua origem era ele próprio uma instituição privada, e conti-
nua a ser um processo de legislação caso a caso em vez de por editos.
Enquanto isso, preocupações com o crime também incentivaram os americanos

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a contar cada vez mais com polícias privadas. Há cerca de 550 mil homens servindo
nas forças policiais estaduais e locais; há cerca de 1,5 milhão de seguranças parti-
culares. Muitos desses são empregados por empresas para proteger sua proprieda-
de, carregamentos, e assim por diante. Outros trabalham para firmas de segurança
como a Brink’s, que oferece seus serviços para bancos, empresas, condomínios e
organizadores de eventos. Haveria menos seguranças particulares se o governo fi-
zesse um trabalho melhor na prevenção do crime e punição dos criminosos, mas
os seguranças também oferecem serviços para os quais a provisão estatal não seria
apropriada, como proteção 24 horas por dia para fábricas, escritórios e condomínios.
Em algumas áreas, empresas e indivíduos pagam por proteção policial extra em uma
espécie de parceria público-privada. Comerciantes e habitantes dos bairros de Kore-
atown e West Adams de Los Angeles levantaram cerca de 400 mil dólares e conse-
guiram um prédio para uma delegacia na vizinhança. Algumas pessoas reclamaram
que os contribuintes não deveriam ter que pagar mais para ter serviços básicos, outras
que nem todas as vizinhanças poderiam pagar pelo serviço da polícia. Mas pelo menos
esses esforços financiados pela iniciativa privada evitam a questão de ser necessário
concordar em pagar tributos mais altos, em uma jurisdição vasta como Los Angeles, na
esperança de que sua vizinhança talvez consiga alguns serviços adicionais.

Seguro e futuros
As pessoas costumam achar que seguro é um valioso serviço que o governo deve-
ria oferecer. Muitos dos maiores programas federais têm a intenção de oferecer aos
americanos seguro contra riscos, problemas de ordem econômica ou de outra natu-
reza: a Previdência Social, o Medicare e o Medicaid, o seguro de depósito, contra
enchentes e outros. O argumento geral a favor do seguro é a pulverização do risco;
uma perda que seria desastrosa para um único indivíduo pode ser absorvida por um
grupo grande de pessoas. Pagamos por um plano de seguros para nos proteger contra
a pequena possibilidade de um evento catastrófico.
O argumento a favor dos seguros governamentais, em vez de privados e compe-
titivos, é que assim se pode distribuir o risco entre um número maior de pessoas.
Mas, como apontou George L. Priest, da Yale Law School, os seguros do governo já
tiveram muitos resultados indesejados. Não há vantagem econômica em criar uma
concentração de dinheiro maior do que o necessário, e há claras desvantagens em
grandes monopólios. O governo é muito ruim em cobrar prêmios apropriados ao
risco, então seus seguros tendem a ser caros demais para as pessoas avessas ao risco
e baratos demais para as que têm atividades arriscadas. E o governo aumenta drama-
ticamente o problema do “risco moral” — isto é, a tendência das pessoas que têm se-
guro a correr mais riscos. Companhias seguradoras tentam controlar esse risco por
meio de franquias e copagamentos, de modo que os segurados tenham que enfrentar

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Cap. 11 — O estado obsoleto 243

algumas perdas somadas às que estão cobertas pelo seguro, e por meio da exclusão
de certos tipos de atividade da cobertura do seguro (como suicídio ou comporta-
mentos de risco maiores do que o seguro é projetado para acomodar). Por motivos
políticos e econômicos, o governo geralmente não emprega tais ferramentas, incen-
tivando as pessoas a se arriscar mais.
Priest cita vários exemplos concretos. O seguro federal de poupança e empréstimo
aumentou o nível de risco dos investimentos: as associações de poupança e emprés-
timo colhiam os lucros com empreendimentos de alto risco, mas tinham as perdas
compensadas pelos contribuintes; então, por que não ir atrás de altos retornos? O se-
guro-desemprego oferecido pelo governo aumenta tanto o alcance quanto a duração
do desemprego; as pessoas encontrariam novos empregos mais rapidamente se não
tivessem seguro-desemprego, ou se o custo de seu próprio seguro fosse afetado pela
frequência de uso, como os seguros de automóveis. Priest escreve: “Não vou afirmar
que o seguro estatal aumenta a frequência dos desastres naturais. Mas, por outro lado,
não tenho nenhuma dúvida de que os seguros estatais aumentam a magnitude das
perdas com os desastres naturais”. Seguros contra enchentes, por exemplo, oferecidos
pelo governo a um preço menor do que o de mercado, encorajam mais construções
em planícies de inundação ou nas frágeis ilhas-barreiras da Costa Leste.
O desejo de reduzir a exposição ao risco é natural, e os mercados oferecem meios
para que se atinja esse fim. Mas, quando se procurava reduzir o risco por programas
de seguro do governo, o resultado era c