Você está na página 1de 9

Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.655.722 - SC (2015/0194930-1)

RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI


RECORRENTE : CLAUDIO LUIZ SALES PACHE
RECORRENTE : CARLOS GUSTAVO ADRIANO
RECORRENTE : TANIA REGINA RAITZ
RECORRENTE : RENATO EDISON RESSLER
RECORRENTE : ALEXANDRE JAIME DA SILVA
RECORRENTE : REGINETE PANCERI
RECORRENTE : VILMA BATTISTI PETRIS
ADVOGADOS : FELIPE DA LUZ SILVA E OUTRO(S) - SC023030
GABRIELA COCCO - SC037257
RECORRIDO : FORMACCO CEZARIUM EDIFICACOES LTDA.
ADVOGADO : SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS - SE000000M
INTERES. : FORMACCO CONSTRUÇÕES E COMÉRCIO LTDA
EMENTA

PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO RESCISÓRIA.


HIPÓTESE DE CABIMENTO. VIOLAÇÃO À LITERAL DISPOSIÇÃO DE
LEI. PRECEDENTE DO STJ COM EFICÁCIA VINCULANTE.
1. Ação rescisória ajuizada em 05/12/2014, de que foi extraído o presente recurso
especial, interposto em 18/03/2015 e concluso ao Gabinete em 24/02/2017.
Julgamento pelo CPC/73.
2. Cinge-se a controvérsia a decidir, preliminarmente, sobre o cabimento da ação
rescisória e, no mérito, se o acórdão rescindendo violou o art. 205 do CC/02.
3. A súmula 343/STF nega o cabimento da ação rescisória quando o texto legal
tiver interpretação controvertida nos tribunais. No entanto, o STF e esta Corte têm
admitido sua relativização para conferir maior eficácia jurídica aos precedentes dos
Tribunais Superiores.
4. Embora todos os acórdãos exarados pelo STJ possuam eficácia persuasiva,
funcionando como paradigma de solução para hipóteses semelhantes, nem todos
constituem precedente de eficácia vinculante.
5. A despeito do nobre papel constitucionalmente atribuído ao STJ, de guardião
da legislação infraconstitucional, não há como autorizar a propositura de ação
rescisória – medida judicial excepcionalíssima – com base em julgados que não
sejam de observância obrigatória, sob pena de se atribuir eficácia vinculante a
acórdão que, por lei, não o possui.
6. Recurso especial desprovido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Terceir do


Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas constantes dos
autos, por unanimidade, negar provimento ao recurso especial nos termos do voto da Sra.
Documento: 1580892 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 22/03/2017 Página 1 de 4
Superior Tribunal de Justiça
Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Paulo de Tarso Sanseverino, Ricardo Villas Bôas Cueva,
Marco Aurélio Bellizze e Moura Ribeiro votaram com a Sra. Ministra Relatora.

Brasília (DF), 14 de março de 2017(Data do Julgamento)

MINISTRA NANCY ANDRIGHI


Relatora

Documento: 1580892 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 22/03/2017 Página 2 de 4
Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 1.655.722 - SC (2015/0194930-1)
RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI
RECORRENTE : CLAUDIO LUIZ SALES PACHE
RECORRENTE : CARLOS GUSTAVO ADRIANO
RECORRENTE : TANIA REGINA RAITZ
RECORRENTE : RENATO EDISON RESSLER
RECORRENTE : ALEXANDRE JAIME DA SILVA
RECORRENTE : REGINETE PANCERI
RECORRENTE : VILMA BATTISTI PETRIS
ADVOGADOS : FELIPE DA LUZ SILVA E OUTRO(S) - SC023030
GABRIELA COCCO - SC037257
RECORRIDO : FORMACCO CEZARIUM EDIFICACOES LTDA.
ADVOGADO : SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS - SE000000M
INTERES. : FORMACCO CONSTRUÇÕES E COMÉRCIO LTDA

RELATÓRIO

O EXMO. SR. MINISTRO NANCY ANDRIGHI (RELATOR):

Cuida-se de recurso especial interposto por CLÁUDIO LUIZ SALES


PACHE E OUTROS, fundamentado nas alíneas “a” e “c” do permissivo
constitucional, contra acórdão do TJ/SC.
Ação: rescisória, ajuizada pelos recorrentes em face de
FORMACCO CEZARIUM EDIFICAÇÕES LTDA, na qual alegam violação à
literal disposição de lei, qual seja, do art. 205 do CC/02, porque “o prazo
prescricional aplicado ao caso em tela é decenal e não trienal, pois se trata de
indenização em virtude do descumprimento de um contrato de empreitada ante ao
caráter pessoal da ação e não simplesmente de uma reparação civil” (fl. 11,
e-STJ).
Acórdão: o TJ/SC, no julgamento do agravo interno interposto pelos
recorrentes, manteve a decisão monocrática que havia extinto o processo sem
resolução do mérito, por impossibilidade jurídica do pedido. O acórdão está assim
ementado:

AGRAVO REGIMENTAL EM AÇÃO RESCISÓRIA. - IN-


DEFERIMENTO DA INICIAL. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS
Documento: 1580892 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 22/03/2017 Página 3 de 4
Superior Tribunal de Justiça
CONSTRUTIVOS. DECISÃO OBJETO QUE APLICOU PRAZO
PRESCRICIONAL TRIENAL (ART. 206, § 30, V, DO CC/02). ALEGAÇÃO
DE VIOLAÇÃO A LITERAL DISPOSIÇÃO DE LEI (ARTS. 177 DO CC/16,
205 E 2.028 DO CC/02 E ENUNCIADO N. 194 DA SÚMULA DO STJ)
AFASTADA DE PLANO. TEORIA DA ASSERÇÃO. CONCLUSÃO DO
ACÓRDÃO COM SUPORTE EM POSIÇÃO DOUTRINARIA
DEFENSÁVEL. IMPOSSIBILIDADE JURIDICA DO PEDIDO
CARACTERIZADA.
- Embora o descompasso jurisprudencial não seja, nem de longe, salutar, a
análise das hipóteses de cabimento da ação rescisória há de ser sobremaneira
criteriosa, sob pena de tornar essa via excepcionalíssima nova instância recursal.
- Nessa toada, vislumbrando-se de plano que o acórdão, conquanto se
afaste do entendimento jurisprudencial dominante, tem suporte em respeitáveis
vozes da doutrina nacional e em enunciado das Jornadas de Direito Civil, não há
falar em violação a literal disposição enquanto hipótese autorizadora da ação
rescisória, o que acarreta a sua extinção sem resolução de mérito.
DECISÃO MANTIDA. RECURSO DESPROVIDO.

Recurso especial: alega-se ofensa ao art. 485, V, do CPC e aos arts.


205 c/c 2.028 do CC/02, além de divergência jurisprudencial.
Sustentam os recorrentes, em síntese, a presença de “justa causa
para processamento da ação rescisória, haja vista que o acórdão proferido às fls.
425/456 encontra-se em nítido confronto com o entendimento desta própria
Corte” (fl. 485, e-STJ), bem como que “resta comprovado que o prazo
prescricional aplicado ao caso em tela é decenal (art. 205, do Código Civil) e não
trienal” (fl. 495, e-STJ).
Juízo prévio de admissibilidade: o recurso foi inadmitido pelo
Tribunal de origem, dando azo à interposição de agravo, provido para determinar
a autuação como especial (fls. 567/569, e-STJ).
Parecer do MPF: da lavra do Subprocurador-Geral da República
Mauricio Vieira Bracks, pelo não provimento do agravo em recurso especial.
É o relatório.

Documento: 1580892 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 22/03/2017 Página 4 de 4
Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 1.655.722 - SC (2015/0194930-1)
RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI
RECORRENTE : CLAUDIO LUIZ SALES PACHE
RECORRENTE : CARLOS GUSTAVO ADRIANO
RECORRENTE : TANIA REGINA RAITZ
RECORRENTE : RENATO EDISON RESSLER
RECORRENTE : ALEXANDRE JAIME DA SILVA
RECORRENTE : REGINETE PANCERI
RECORRENTE : VILMA BATTISTI PETRIS
ADVOGADOS : FELIPE DA LUZ SILVA E OUTRO(S) - SC023030
GABRIELA COCCO - SC037257
RECORRIDO : FORMACCO CEZARIUM EDIFICACOES LTDA.
ADVOGADO : SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS - SE000000M
INTERES. : FORMACCO CONSTRUÇÕES E COMÉRCIO LTDA

VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO NANCY ANDRIGHI (RELATOR):

Cinge-se a controvérsia a decidir, preliminarmente, sobre o


cabimento da ação rescisória e, no mérito, se o acórdão rescindendo violou o art.
205 do CC/02.

1.Do cabimento da ação rescisória por violação à literal


disposição de lei (violação do art. 485, V, do CPC/73)

Defendem os recorrentes a possibilidade jurídica do pedido de


rescisão, com o argumento de que o acórdão rescindendo confronta com a
jurisprudência desta Corte sobre o prazo prescricional aplicável à hipótese.
Sobre a ação rescisória fundada no inciso V do art. 485 do CPC/73,
oportuno destacar que a súmula 343/STF nega o seu cabimento quando o texto
legal tiver interpretação controvertida nos tribunais.
A despeito disso, o STF tem admitido a ação rescisória por “ofensa à
literal disposição constitucional, ainda que a decisão rescindenda tenha se

Documento: 1580892 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 22/03/2017 Página 5 de 4
Superior Tribunal de Justiça
baseado em interpretação controvertida, ou seja, anterior à orientação
fixada pelo Supremo Tribunal Federal”, porque “a manutenção de decisões
das instâncias ordinárias divergentes da interpretação adotada pelo STF revela-se
afrontosa à força normativa da Constituição e ao princípio da máxima efetividade
da norma constitucional” (AR 1.478, Tribunal Pleno, julgado em 17/11/2011,
DJe de 01/02/2012). Na mesma linha: AR 1.527, Tribunal Pleno, julgado em
17/11/2011, DJe de 09/03/2012; e AR 1.409, Tribunal Pleno, julgado em
26/03/2009, DJe de 15/05/2009.
No âmbito do STJ, a 1ª Seção decidiu que “a ação rescisória é
cabível, se, à época do julgamento originário cessara a divergência, hipótese que o
julgado divergente, ao revés de afrontar a jurisprudência, viola a lei que confere
fundamento jurídico ao pedido” (AgRg nos EREsp 772.233/RS, Primeira Seção,
julgado em 27/04/2016, DJe de 02/05/2016; REsp 1.001.779/DF, Primeira
Seção, julgado em 25/11/2009, DJe de 18/12/2009).
A 2ª Seção, igualmente, assentou entendimento segundo o qual, “nas
hipóteses em que, após o julgamento, a jurisprudência, ainda que vacilante, tiver
evoluído para sua pacificação, a rescisória pode ser ajuizada” (AR 3.682/RN,
Segunda Seção, julgado em 28/09/2011, DJe de 19/10/2011). Por oportuno,
destaca-se este trecho do voto condutor do acórdão:

Dessas ponderações decorrem duas regras distintas, no trato da ação


rescisória à luz do Enunciado 343 da Súmula do STF, quando se verificar
controvérsia na interpretação da lei à época em que prolatado o acórdão
rescindendo: (i) ou essa controvérsia ainda persiste, e a ação rescisória não pode
ser acolhida por força do referido enunciado sumular; (ii) ou essa controvérsia
já se solucionou em um sentido, e nesta hipótese é admissível a ação
rescisória, desde que seja demonstrada a pacificação do entendimento
sobre a questão federal, no sentido contrário ao do acórdão vergastado.
(sem grifos no original)

Com efeito, a relativização da súmula 343/STF visa a conferir maior


eficácia jurídica aos precedentes dos Tribunais Superiores, ou melhor, “à tese ou

Documento: 1580892 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 22/03/2017 Página 6 de 4
Superior Tribunal de Justiça
ao princípio jurídico (ratio decidendi) assentado na motivação do provimento
decisório” (Didier Jr., Fredie. Curso de direito processual civil: teoria da prova,
direito probatório, ações probatórias, decisão, precedente, coisa julgada e
antecipação dos efeitos da tutela. 11 ed. Salvador: Juspodivm, 2016. p. 455), que
é o precedente em sentido estrito.
No entanto, convém destacar que embora todos os acórdãos
exarados pelo STJ possuam eficácia persuasiva, funcionando como paradigma de
solução para hipóteses semelhantes, nem todos constituem precedente de eficácia
vinculante.
Pela sistemática do CPC/73, apenas aqueles processados na forma
do art. 543-C têm natureza impositiva para os órgãos subordinados.
Já a nova sistemática adotada pelo CPC/15 impõe aos juízes e
tribunais a observância obrigatória dos acórdãos proferidos pelo STJ em incidente
de assunção de competência e julgamento de recurso especial repetitivo; e
também da orientação do plenário ou do órgão especial (art. 927).
Nessa toada, a despeito do nobre papel constitucionalmente atribuído
ao STJ, de guardião da legislação infraconstitucional, não há como autorizar a
propositura de ação rescisória – medida judicial excepcionalíssima – com base em
julgados que não sejam de observância obrigatória, sob pena de se atribuir
eficácia vinculante a precedente que, por lei, não o possui.
Isso porque, a se admitir que a parte pudesse ajuizar a ação rescisória
com base em quaisquer julgados desta Corte, ainda que refletissem a
“jurisprudência dominante”, estar-se-ia impondo ao Tribunal o dever de decidir
segundo o entendimento neles explicitado, o que afronta a sistemática processual
dos precedentes.
Em atenção à segurança jurídica, portanto, a coisa julgada só há de
ser rescindida, com base no art. 485, V, do CPC/73, acaso a controvérsia seja

Documento: 1580892 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 22/03/2017 Página 7 de 4
Superior Tribunal de Justiça
solucionada pelo STJ em sentido contrário ao do acórdão rescindendo, por meio
de precedente com eficácia vinculante (art. 543-C do CPC/73 ou art. 927 do
CPC/15), que unifica a interpretação e aplicação da lei.
No particular, da leitura da petição inicial, depreende-se que os
recorrentes se limitaram a afirmar que o acórdão rescindendo conflita com a
jurisprudência desta Corte, citando, apenas, um acórdão da Terceira Turma
(AgRg no Ag 1.208.663/DF, julgado em 18/11/2010, DJe de 30/11/2010) e uma
decisão monocrática (REsp 1.340.474/SE, Min. Ricardo Villas Bôas Cueva,
publicada em 26/09/12).
Curiosamente, apesar da mencionada divergência, não interpuseram,
à época, o recurso especial.
Assim, à luz de todo o exposto, o argumento deduzido pelos
recorrentes não se mostra apto a ensejar a admissibilidade da ação rescisória por
eles ajuizada.

Forte nessas razões, NEGO PROVIMENTO ao recurso especial.

Documento: 1580892 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 22/03/2017 Página 8 de 4
Superior Tribunal de Justiça

CERTIDÃO DE JULGAMENTO
TERCEIRA TURMA

Número Registro: 2015/0194930-1 PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.655.722 / SC

Números Origem: 00415760820158240000 023090386496 20140800362 20140800362000100


20140800362000200 20140800362000201 2014080062002 23090386496

PAUTA: 14/03/2017 JULGADO: 14/03/2017

Relatora
Exma. Sra. Ministra NANCY ANDRIGHI
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. CARLOS ALBERTO CARVALHO VILHENA
Secretária
Bela. MARIA AUXILIADORA RAMALHO DA ROCHA

AUTUAÇÃO
RECORRENTE : CLAUDIO LUIZ SALES PACHE
RECORRENTE : CARLOS GUSTAVO ADRIANO
RECORRENTE : TANIA REGINA RAITZ
RECORRENTE : RENATO EDISON RESSLER
RECORRENTE : ALEXANDRE JAIME DA SILVA
RECORRENTE : REGINETE PANCERI
RECORRENTE : VILMA BATTISTI PETRIS
ADVOGADOS : FELIPE DA LUZ SILVA E OUTRO(S) - SC023030
GABRIELA COCCO - SC037257
RECORRIDO : FORMACCO CEZARIUM EDIFICACOES LTDA.
ADVOGADO : SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS - SE000000M
INTERES. : FORMACCO CONSTRUÇÕES E COMÉRCIO LTDA

ASSUNTO: DIREITO CIVIL - Obrigações - Espécies de Contratos - Empreitada

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia TERCEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na
sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Terceira Turma, por unanimidade, negou provimento ao recurso especial, nos termos
do voto da Sra. Ministra Relatora.
Os Srs. Ministros Paulo de Tarso Sanseverino, Ricardo Villas Bôas Cueva, Marco
Aurélio Bellizze (Presidente) e Moura Ribeiro votaram com a Sra. Ministra Relatora.

Documento: 1580892 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 22/03/2017 Página 9 de 4

Você também pode gostar