Você está na página 1de 113

Página 01 Página 02

EDITORA VOZES

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara


Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Carneiro, Moaci Alves


LDB fácil : leitura crítico-compreensiva : artigo a artigo / Moaci Alves Carneiro.
14. ed. - Petrópolis, RJ : Vozes, 2007.

Bibliografia.
ISBN 978-85-326-1966-2
LEITURA CRÍTICO – COMPREENSIVA
ARTIGO A ARTIGO 1. Educação - Leis e legislação - Brasil l. Título.
98-0243 CDD-370.2681
______________________________________________________________
14ª Edição Índices para catálogo sistemático:
1. Brasil: Leis: Educação 370.2681
2. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: Brasil 370.2681
MOACI ALVES CARNEIRO
Página 03 Página 04
Moaci Alves Carneiro © 1997, Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100
25689-900 Petrópolis, RJ
Internet: http://www.vozes.com.br

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida
por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e
gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da
Editora.

LDB FÁCIL
Leitura Crítico-compreensiva artigo a artigo

Capa: Josiane Furiati

ISBN 978-85-326-1966-2

EDITORA VOZES
Petrópolis

Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.


Página 05 Página 07
Sumário

Quase uma dedicatória ...

Para os que sonham,


Pois, sem esperança, a vida não existe ...
Prefácio, 9
Para os que olham o horizonte,
Pois, sem futuro, não há aprendizagem ...
Nota do Autor à Quarta Edição, 11
Para os que acreditam,
Pois, sem fé, não há construção ... Nota do Autor à décima primeira edição, 12

Para os que semeiam, Introdução, 13


Pois, sem plantação, nada vai brotar ...

Para os que trabalham, Breve História das Leis Básicas da Educação Nacional, 1 7
Pois só se descansa depois da criação ...
Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, 31
Para os que lutam por uma escola-cidadã, Pois, sem educação, fica distante o amanhã ...

Para os despossuídos e plebeus, Anexos, 209


Pois, sem eles, como entender a riqueza de Deus?
Bibliografia, 231

Página 06___________ Página em branco no original.


Página 08_____________ Página em branco no original.
Página 09 Página 10
marcos normativos se sucederam, começando com a Emenda Constitucional n° 14, que criou o
Prefácio Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do
Magistério até a promulgação da Lei 9.394/96 e legislação decorrente.
A nova LDB surge, assim, como o clímax desta ação política. Sancionada em dezembro de
1 996, a Lei Darcy Ribeiro resultou de uma gestação penosa em que a figura polêmica do
Relator nem sempre foi bem compreendida. Mas sua contribuição foi inquestionável.
Apresentou um substitutivo com duas qualidades essenciais: parcimônia e congruência. Neste
sentido, pode-se dizer que o corpo do texto não é pequeno, mas é adequado. Por definição, a
LDB deve conter princípios e diretrizes e, não, casuísmos.
A educação brasileira vive um clima de intensa efervescência depois de um quarto de O texto da 9.394/96 oferece um espaço de flexibilidade para que os sistemas de ensino
século, em que o País conviveu com uma legislação educacional ortodoxa e contraditória no operem, criativamente, os seus ordenamentos. A Lei respalda a prática da autonomia
seu processo de formulação. Ortodoxa pois inteiramente pautada por amarrações que lhe pedagógica e administrativa e de gestão financeira como condição para a escola executar,
impossibilitavam a mínima flexibilidade na organização. Nada traduz melhor este formato realmente, o seu projeto pedagógico. Por outro lado, a União, instância coordenadora da
travado do que a ideia de grade curricular. Contraditória, pois a Lei da Reforma Universitária, política nacional de educação, vai-se guiar pelo princípio colaborativo com Estados e
antecedendo a Lei da Reforma do Ensino de 19 e 2- graus, fraturou a lógica dos ordenamentos Municípios, desaparecendo, assim, o histórico comando vertical da educação nacional.
jurídicos da educação.
Todas estas questões e tantas outras são analisadas neste novo livro do Prof. Moaci Alves
Ao longo deste período, o mundo foi varrido por mudanças profundas. A revolução Carneiro. Trata-se de uma iniciativa de transcendental valor pelo sentido de contribuição à
científica e tecnológica, enquanto fato global, mudou os paradigmas de produção e educação brasileira. Creio que a "leitura crítico-compreensiva" da LDB é o primeiro passo para
transformou, radicalmente, o cotidiano das pessoas. A rápida evolução nos padrões de firmar convicção em torno de uma educação reconceituada e de uma escola refeita. De uma
comunicação e a aplicação universal da informática geraram um formidável impacto sobre a escola participativa e democrática. A hermenêutica do texto legal é enriquecida com o apoio de
produção e circulação de bens. Mudaram os conceitos de espaço e tempo e, portanto, também, uma sólida base conceitual e de aportes de estatísticas educacionais pertinentes e atualizadas.
de aprendizagem. Lançava-se, desta forma, um grande desafio ao aparelho escolar. Assim, o Autor oferece pistas iluminadas para uma adequada apropriação dos balisamentos
Na perspectiva da construção do saber, da ideia estanque de conteúdo aprendido, evoluiu- normativos da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação.
se para a noção de capacidade para a inovação. Em decorrência, a educação era instada a Enfim, ao buscar apreender o essencial, o Autor se preocupa, grandemente, com o aspecto
buscar novos paradigmas capazes de preparar trabalhadores com alta qualificação, íntimos de prático da Lei, razão por que os comentários são comedidos, uma vez que a intenção é
tecnologias nascentes. Aprender a lição passou a ser pensar, criar, imaginar e, não, memorizar estimular o leitor a desatar as idéias. Aliás, esta é a função de um bom livro.
apenas.
Brasília, outubro de 1997
No horizonte deste "tempo novo", o Ministério da Educação tomou uma série de
providências para conferir, à educação brasileira, as condições necessárias às mudanças, a Atila Lira
partir de uma legislação alicerçada em quatro grandes eixos: i) descentralização da gestão Secretário de Educação Média e Tecnológica do Ministério da
educacional; ii) democratização e flexibilização do sistema nacional de educação; iii) garantia Educação
de insumos básicos a fim de se oferecer, de fato, uma educação de qualidade; iv)
desenvolvimento de um robusto sistema de avaliação, capaz de conferir o adequado acompa-
nhamento dos processos educacionais. As iniciativas para as mudanças dos
Página 12
Página 11
Nota do Autor à décima primeira edição
Nota do autor à quarta edição

O LDB Fácil chega à 11ª - edição com seis anos de vida, o que revela a boa acolhida que
Esta quarta edição do LDB FÁCIL vem enormemente enriquecida. Muitos dos assuntos, lhe tem sido dispensada por professores, alunos e educadores em geral. Deste universo de
objeto de disposição regulamentar seja pelo Governo Federal através do MEC, seja pelo "usuários", temos recebido apelos para a ampliação de comentários sobre pontos como
Conselho Nacional de Educação, que foram disciplinados nestes dois últimos anos, acham-se, formação de professores, educação de jovens e adultos, educação a distância, organização do
aqui, devidamente comentados. A natureza destes assuntos é variada. Sumariamente, o ensino em ciclos, educação inclusiva, cursos sequenciais, universidade corporativa,
inventário dos itens regulamentados pelo CNE abrange as áreas de: a) Currículo; b) Formação universidade temática, mecanismos de controle e acompanhamento do FUNDEF, classes de
de docentes; c) Ensino Superior; d) Planos de carreira e de formação para o magistério; e) aceleração, cursos livres, pós-graduação, educação profissional e mercado de trabalho e, ainda,
Educação à distância; f) Educação Profissional; g) Carga Horária; h) Competência dos educação multicultural. Tudo isto está didaticamente tratado nesta nova edição. A questão
Conselhos Estaduais de Educação; i) Remuneração do Magistério; j) Educação Especial; l) multicultural ganha mais espaço em razão da própria alteração da LDB para o acréscimo de
Ensino Religioso; m) Instituições Filantrópicas. Quanto ao Governo Federal/MEC, a pu- dispositivos que tratam da educação das relações étnico-raciais.
blicação do Decreto que regulamenta as novas formas de organização do Ensino Superior teve Teve-se o cuidado de atualizar as estatísticas que servem para ilustrar a doutrina técnico-
os esclarecimentos necessários, como era de se esperar de um texto de legislação da educação. legal abordada. Neste caso, trabalhamos ora com dados de 2002, ora com dados de 2003, em
Temas como diretrizes curriculares e parâmetros curriculares, respeitantes ao Ensino razão de alguns números liberados pelo INEP serem ainda preliminares. Também, sempre que
Fundamental, Ensino Médio e à Educação Profissional estão convenientemente tratados. Os a inteligência do texto exigiu novos dados estatísticos para aumentar a visibilidade do alcance
Institutos Superiores, os Cursos Sequenciais, a nova estrutura anatômica do Ensino Superior e do conteúdo legal, incorporaram-se novos dados estatísticos, tentando, assim, responder a um
a formação de docentes através dos programas especiais de formação pedagógica mereceram desafio crônico da educação brasileira: trabalhar com estatísticas e informações atualizadas.
atenção maior, a partir de sugestões recebidas de educadores e de equipes técnicas de Promoveram-se ajustes na própria estrutura do texto, objetivando oferecer uma leitura mais
Secretarias Estaduais e Municipais de Educação de todo o País. harmoniosa do conjunto da LDB, pré-condição para os estudiosos do assunto se sentirem
Por fim, atualizamos as estatísticas educacionais e acrescentamos novas séries estatísticas, inteiramente confortáveis neste tipo de aprendizado.
tentando contribuir para um desafio crônico da educação nacional: aduzir estatísticas Deixo um penhorado muito obrigado a todos os profissionais da educação, professores e
defasadas. Neste sentido, o INEP/MEC vem dando uma contribuição inestimável ao gestores de escolas e, ainda, aos estudantes pela acolhida generosa ao LDB Fácil.
desenvolvimento da Educação do País.
Resta um agradecimento a todos os profissionais da educação, gestores de sistemas de Brasília, outubro de 2004
ensino e estudantes pela acolhida que têm dispensado ao LDB FÁCIL. Moaci Alves Carneiro
Brasília, março de 1999
Moaci Alves Carneiro
Página 13 Página 14
Introdução iii) o texto da nova LDB comentado, artigo a artigo; iv) e, por fim, os Anexos.
A Lei 9.394/96 resultou de um parto difícil. Os interesses envolvidos no palco das
discussões eram fortes, contraditórios e, não raro, inconciliáveis. Do Projeto inicial do
Deputado Octávio Elísio em 1988 ao substitutivo do Senador Darcy Ribeiro, afinal aprovado
em 1996, passaram-se oito longos anos que funcionaram como cenários fecundos de despistes
de interesses. O texto, por fim, aprovado tem o grande mérito de, abdicando das discussões
improdutivas, apresentar uma moldura de organização educacional dentro de um escopo de
autonomia possível. A nova LDB, é claro, não vai resolver todos os problemas da educação
Cada vez que surge uma nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, surge, também, um brasileira. Não sendo uma panacéia, tem limitações conceituais (confunde, às vezes, educação
ambiente de intranquilidade para todos aqueles - educadores e agências educacionais - que com ensino), estratégicas (compete à União a ação hegemônica de coordenar a política
lidam com a problemática da educação e do ensino. Além do que, a própria sociedade nacional nacional de educação (Art. 9º, Inc. l), aos Estados e ao Distrito Federal a responsabilidade de
questiona-se quanto à real funcionalidade do novo cânone legal. No fundo, os questionamentos elaborar e executar políticas) e planos educacionais (Art. 10, Inc. III), porém é omissa quanto
se orientam pelo desconforto que toda mudança profunda traz. Não apenas porque, sob o ponto à idêntica incumbência para os Municípios). Possui, no entanto, um acervo enorme de virtudes
de vista das externalidades, busca-se um ordenamento diferente, uma reorganização, mas legais, distribuído num visível feixe de eixos estruturantes.
também, e, sobretudo, porque se está inaugurando uma nova rota para a operacionalização de
Os grandes eixos da Lei 9.394/96 estão identificados pelas seguintes definições relevantes:
valores na prática escolar. Ou seja, implanta-se um processo de substituição de "convicções"
i) conceito abrangente de educação; ii) vinculação da educação com o mundo do trabalho e
sobre novas bases axiológicas.
com as diferentes práticas sociais; iii) padrões mínimos de qualidade do ensino; iv) pluralidade
As mudanças nas organizações regidas por normas explícitas, como é o caso das que de formas de acesso aos diversos níveis de ensino, como forma de ensejar o cumprimento da
ocorrem nos sistemas de ensino, supõem uma transição entre um e outro regime. Elas não obrigatoriedade de ensino; v) avaliação da qualidade do ensino pelo Poder Público; vi) defini-
podem operar-se abruptamente. Embora o novo texto legal passe a viger imediatamente, o ção das responsabilidades da União, dos Estados, dos Municípios, das Escolas e dos docentes;
ritmo de mudanças vai-se encorpando por aproximações: aos alunos que já estão na escola, vii) configuração dos sistemas federal, estaduais e municipais do ensino; viii) mapa conceitual
assegura-se o direito adquirido de permanecer como estão; dos novos alunos, exige-se preciso da educação escolar e de educação básica; ix) requisito de relação adequada entre o
obediência às novas conformidades legais. A concomitância das duas situações faz esmaecer os número de alunos e o professor, a carga horária e as condições materiais da escola; x)
pontos de resistência, ao mesmo tempo em que se vão ampliando os espaços de adesão aos construção da identidade do ensino médio; xi) resgate da natureza e da finalidade da educação
novos esquemas normativos e valorativos. Como já se disse, em toda mudança há um período profissional; xii) precisão conceitual para os elementos de despesas no âmbito da manutenção e
de descontaminação. do desenvolvimento do ensino; xiii) fortalecimento das fontes e dos canais de financiamento da
Como professor da área de gestão da educação, participei desta difícil travessia em 1971, educação, incluída a fixação dos prazos de repasses de recursos para Estados e Municípios;
quando do surgimento da Lei 5.692. Movido por esta experiência e comovido pelas xiv) reconfiguração de toda a base curricular tanto da educação básica como um todo, como do
dificuldades enfrentadas, à época, por tantos educadores, tomei a decisão de produzir esta ensino médio em particular. Neste caso, ganha relevância a educação tecnológica básica.
leitura crítico-compreensiva da nova LDB, artigo a artigo, calçando as reflexões com Para desocultar os grandes eixos da LDB, convém não distanciar, do horizonte de análise, a
estatísticas e conceitos elucidativos do texto legal nascente. função do Estado, de provedor de qualidade de vida da população e de provedor da equidade.
O trabalho está plantado sobre a seguinte estrutura: i) uma visão diacrônica da educação Nesta perspectiva, o aparelho estatal define políticas e elege estratégias para operacionalizá-
nas Constituições Brasileiras; ii) uma breve história das leis básicas da educação nacional; las. Dentre as políticas sociais
Página 15 Página 16
básicas e permanentes, está a educação. O provimento de serviços educacionais põe-se, desta Quem é o responsável pela escola? A quem a escola pertence? Para quem a escola existe?
forma, não apenas como resposta às postulações de uma cidadania fundamental, mas também Para quem a escola deverá continuar a existir? O que é o básico da educação na educação
como pré-requisito de eficácia social. No primeiro caso, emerge, como direito humano básica?
fundamental, a generalização do acesso, indiferenciado, às oportunidades do desenvolvimento
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação não vai responder, definitivamente, a estas
intelectual (educação) e de sociabilidade. No segundo caso, requer-se a alocação de recursos
questões. No entanto, sem ela, as respostas ficarão mais difíceis. Com efeito, a mudança de
adequados para "plasmar" competências e habilidades apropriadas a reconquista de padrões
padrões educacionais supõe a reestruturação dos marcos legais, institucionais e políticos do
razoáveis de desenvolvimento, propiciadores de resultados socialmente relevantes.
gerenciamento dos sistemas de ensino, da gestão da escola, de uma ampla capilaridade para
Sob esta ótica, a vigência de uma nova lei educacional pode ser importante à medida que se disseminação de conceitos e de metodologias e, relevantemente, de um ágil e eficiente sistema
consiga, a partir do seu conhecimento, um patamar mínimo de consenso social, um grau de accountability.
satisfatório de agregação de suportes políticos, uma sistemática de articulações producentes e,
Com o advento da Lei 9.394/96, renasce a esperança da superação da cultura das ações
ainda, instrumentos adequados de controle de etapas e de resultados.
educativas concorrentes, inaugurando-se um novo desenho de medidas de natureza estrutural
Para a adoção do novo regime legal, por conseguinte, não se pode desconsiderar que, por inafastáveis, envolvendo gestão e financiamento da educação, reestruturação curricular,
mais bem formulada e estruturada que seja a nova LDB, preexistem condições intrínsecas e formação do professor, atualização dos conteúdos e inovação metodológica e, por fim,
extrínsecas ao sistema educativo, enquanto realidade desigual sob o ponto de vista encorpamento de sistemas de ensino dinamicamente articulados. Tudo isto supõe relações
organizacional. E, enquanto realidade complexa, sob o ponto de vista político. As condições intergovernamentais robustas, definidoras de um novo padrão de responsabilidades na formula-
intrínsecas decorrem da existência de grupos com interesses diferenciados no interior do ção e implementação de políticas para a educação.
sistema educativo, com percepções e alternativas diversas no tocante à compreensão das
A nova LDB poderá nos ajudar a responder por que a escola está, sempre, na sociedade,
funções sociais dos sistemas de ensino, dos seus objetivos e dos seus beneficiários. As
embora a sociedade nem sempre esteja na escola.
condições extrínsecas vinculam-se às funções díspares que os sistemas de ensino passaram a
assumir em decorrência de padrões distintos de demanda social.
A leitura da Lei 9.394/96 deve principiar, assim, pelas várias leituras da realidade. Sim,
porque a Lei é uma só, mas o País é múltiplo. Cada diretriz normativa refinalizada em linha de
ação política deverá, portanto, visualizar o foco de conflitos e de contradições. Basta olhar a
deslinearidade da expansão e da desigualdade de oferta do parque escolar nacional, para inferir
a existência de graves desequilíbrios e de conflitivas superposições na repartição de
responsabilidades entre os diferentes níveis de governo e entre os segmentos público e privado.
Esta problemática não é menos aguda quando se buscam enxergar as formas de participação da
categoria dos professores, da burocracia escolar, dos pais de alunos, da representação política e
das organizações da sociedade civil, seja no gerenciamento das redes, seja na gestão da
unidade escolar. A constatação vai desde uma inteira desarticulação até um total
esquartejamento na distribuição de encargos.
Página 18
Página 17
No caso da Educação, as conquistas foram desiguais de país a país. No preâmbulo da
Breve história das leis básicas da educação nacional Declaração Mundial Sobre Educação Para Todos (1990), este registro está feito. E o Brasil, que
ajudou a compor o cenário das nações com os mais elevados índices de desescolarização do
mundo, não fugiu à regra.
A inclusão da Educação como direito fundamental de todo cidadão contribuiu para sinalizar
na perspectiva da construção de uma Escola de padrão básico, vazada em um modelo
organizacional de objetivos convergentes, logo estruturado à luz de marcos normativos
comuns. A trajetória, no entanto, até se chegar a este estágio, foi demorada como se pode
verificar de uma visão-síntese das várias Constituições brasileiras.
1. AS CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS E A EDUCAÇÃO A primeira Constituição do País data de 1824. De então até agora, o Brasil teve oito
Constituições, a saber: a de 1824, a de 1891, a de 1934, a de 1937, a de 1946, a de 1967, a de
A dimensão teleológica da atividade estatal foi-se aperfeiçoando ao longo da História, até o 1969 e a de 1988. Destas, apenas as de 1891,1934, 1946 e 1988, foram votadas por
estágio de compreensão atual segundo o qual o escopo do Estado é o interesse coletivo. Para representantes populares com delegação constituinte. A última destas Constituições, a de 1988,
atingi-lo, o Estado moderno, enquanto sistema político, pressupõe uma ordem de valores sobre contou com uma robusta participação da Comunidade nacional, mediante a mobilização de
a qual repousam as instituições. Esta ordem é encorpada na Constituição, verdadeira bússola da amplos segmentos da sociedade civil. Culminância deste movimento cívico, foram os atos
vida pública e garantia de liberdade dos cidadãos. públicos que cimentaram a criação do Plenário Nacional Pró-Participação Nacional Popular na
Constituinte. Neste cenário, a defesa da escola pública e de uma educação de qualidade ganhou
Nas formas democráticas de governo, a Constituição é o fundamento do direito à medida relevância ímpar no conjunto da sociedade brasileira como se verá mais adiante.
que, de seu cumprimento, deriva o exercício da autoridade legítima e consentida. Não menos
importante é compreender que, ao institucionalizar a soberania popular, o texto constitucional A Constituição imperial de 1824 incorporou a iniciativa de implantação de colégios e
traduz o estado da cultura política da nação. universidades ao conjunto de direitos civis e políticos, além de fixar a gratuidade do ensino
No que concerne especificamente à Educação, as Constituições brasileiras foram primário. O processo gerencial do ensino ficou resguardado no âmbito da Coroa e, quatro anos
incorporando, ao longo do tempo, conquistas tênues dentro de um ritmo historicamente lasso, mais tarde, com a instalação das Câmaras Municipais, foi-lhes cometida a tarefa de inspeção
como, de resto, foi todo o processo brasileiro de aproximação entre direitos políticos e direitos das escolas primárias. Em 1834, a declaração do Ato Adicional criou as Assembléias
sociais. No fundo, estivemos, sempre, distanciados da cidadania como categoria estratégica de Legislativas Provinciais, cabendo-lhes a atribuição de legislar sobre instrução pública. No en-
tanto, o formato assumido pelo ensino superior, de conteúdo generalizante e humanístico,
construção do cotidiano1 (nota: Cotidiano deve ser entendido aqui como vida cotidiana, ou seja, como um
nível de realidade social, na acepção de Lefebvre. Para um melhor entendimento desde conceito, ver:
terminou por repercutir no próprio ensino secundário. De fato, ao excluir, da competência das
LEFEBVRE, Henri, La vicia cotidiana em el mundo moderno, Madrid, Alianza Editorial S/A, 1968.). Na
Assembléias Legislativas Provinciais, as Faculdades de Medicina, de Direito e as Academias,
verdade, somente a partir de 1948, com a Carta de Direitos da Organização das Nações Unidas abria-se uma brecha para a coexistência de uma dualidade de sistemas, advinda de uma
concomitância de poderes (provincial e central), no tocante ao ensino primário e secundário. E
(ONU), é que grande parte de países como o Brasil se deu conta de que todos serão iguais
não poderia ser diferente, até porque estabeleceu-se um mecanismo natural de direcionamento
perante a lei, de fato, à medida que todos tiverem direito ao trabalho, à moradia, à saúde, à
do currículo pré-universitário. De um lado porque o ensino secundário visava à preparação dos
educação, à livre expressão, a uma vida digna, enfim. alunos para o ensino superior, portanto, tinha uma orientação curricular propedêutica e, de
outro, porque os candidatos às Faculdades Superiores eram examinados nos próprios cursos em
que faziam o Secundário. Tanto mais grave: a maioria das Escolas Secundárias abrigava-se
Página 19
em mãos de particulares, o que por si só representava uma elitização da escola, dado que Página 20
somente famílias de posse poderiam custear os estudos de seus filhos. primeira vez, a obrigatoriedade de auxiliar alunos carentes, pelo mecanismo da concessão de
O que parecia na Constituição imperial uma incursão descentralizadora no formato bolsas de estudo.
organizacional do ensino, representava, na verdade, um despiste legal, uma vez que os avanços Estas diferentes conquistas abraçadas pela Constituição de 1934 devem ser percebidas na
aparentes dos dispositivos constitucionais eram contidos por uma mística organizacional moldura das metamorfoses por que o País passava. Todo o período da 1 - República exibiu um
cimentada no princípio da ação hegemônica da Igreja e da Família sobre a Educação2(nota: A índice de urbanização e industrialização bastante baixo. Daí, poder-se dizer que, até o final da
escola que se queria buscava manterá tradição da educação aristocrática, totalmente voltada para os década de 20, a economia não fazia, praticamente, nenhuma exigência à escola. Como assinala
freqüentadores da Corte e, portanto, para os destinatários do ensino superior, em detrimento dos demais níveis de Octavio IANNI, é depois da Primeira Guerra Mundial - e em escala crescente a seguir - que os
ensino.). setores médios e proletários urbanos e rurais começam a contar mais abertamente como
A Constituição Republicana de 18913 (nota: Primeira Constituição Republicana, instituiu ela o categoria política5(nota: IANNI, Octavio, O Colapso do Populismo no Brasil, Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 2- edição, 1971, p. 13.). De fato, na estrutura oligárquica de predominância rural, os
trouxe mudanças significativas na Educação. Ao Congresso
sistema federativo de governo.)
Nacional foi atribuída a prerrogativa legal exclusiva de legislar sobre ensino superior. Ainda requerimentos de instrução não eram sentidos. É a partir de 19306(nota: De 1930 a 1945, o País foi
governado por Getúlio Vargas. Foram 15 anos de instabilidade política, culminando com a ditadura de 37 a 45.
poderia criar escolas secundárias e superiores nos Estados, além de responder pela instrução
Mas foi neste período que o Estado assumiu mais ativamente a tarefa de dínamo do desenvolvimento, firmando as
secundária do Distrito Federal. Quanto aos Estados, cabia-lhes legislar sobre o ensino primário
bases para a implantação de uma indústria pesada. Estavam, assim, asseguradas as condições para o ingresso do
e secundário, implantar e manter escolas primárias, secundárias e superiores. Nestes dois últi-
País na era da civilização urbano-industrial.), com a intensificação do capitalismo industrial, que se
mos casos, o Governo Federal poderia, igualmente, atuar.
inaugura um quadro de novas exigências educacionais por parte de camadas da população cada
A Constituição de 1934 inovou ao atribuir, à União Federal, a tarefa absoluta de fixar as vez mais amplas7( nota: O adensamento demográfico e a diversificação ocupacional geraram a expansão da
diretrizes e bases da educação nacional. Criou, também, o Conselho Nacional de Educação e os demanda de ensino. Para uma melhor compreensão deste fato, ver: FILHO, Lourenço M.B. “Redução da taxa de
Estados e o Distrito Federal ganharam autonomia para organizar seus sistemas de ensino e, analfabetismo no Brasil de 1900 a 1960”, in Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, nº 100, p. 265.).
ainda, instalar Conselhos Estaduais de Educação com idênticas funções das do Conselho
A Constituição de 1946, traduzindo o clima de afirmação democrática que invadiu o
Nacional, evidentemente, no âmbito de suas respectivas jurisdições. A União recebeu a tarefa
mundo no ambiente dos pós-guerra, possuía um eixo teleológico representado por um conjunto
institucional de elaborar o Plano Nacional de Educação, com dois eixos fundamentais: a
de valores transcendentais que tinham, na liberdade, na defesa da dignidade humana e na
organização do ensino nos diferentes níveis e áreas especializadas e a realização de ação solidariedade internacional, os dormentes de sustentação. Proclamava a educação como um
supletiva junto aos Estados, seja subsidiando com estudos e avaliações técnicas, seja aportando direito de todos plasmado em princípios interligados, tais como:
recursos financeiros complementares. Três outras conquistas foram incorporadas ao texto
constitucional: ensino primário gratuito para todos, desde que oferecido em escola pública, • Compulsoriedade do ensino primário para todos e sua gratuidade nas escolas públicas.
inclusive para alunos adultos, percentual de 10%, por parte da União e dos Municípios, e de • Gratuidade do ensino oficial nos níveis ulteriores, para alunos carentes.
20% por parte dos Estados e do Distrito Federal, da renda resultante de impostos, objetivando
ações de manutenção e desenvolvimento do ensino4(nota: Aqui surge, pela primeira vez, esta • Obrigatoriedade de oferta de ensino primário gratuito por parte de empresas com mais de
expressão, embora com contornos conceituais imprecisos, ensejando que, ao longo de décadas, se aplicassem cem empregados e, ainda, exigência às empresas industriais e comerciais de assegurarem
recursos do ensino primário em ações que nada tinham a ver com sua manutenção e desenvolvimento. Somente no aprendizagem aos trabalhadores menores.
atual Governo, este ralo de desvio de dinheiro do ensino fundamental foi corrigido.). Dos recursos federais, • Ingresso no magistério através de concurso de provas e títulos.
20% deveriam destinar-se ao ensino na zona rural. Por fim, estabelecia-se, pela
• Fornecimento de recursos por parte do Estado para que o direito universal de acesso à escola
primária fosse assegurado, buscando-se, desta forma, a equidade social.
Página 21 Página 22
• Responsabilidade educativa compartilhada pela família e pela escola, podendo haver oferta para esta causa comum. As emendas populares calçaram a ideia da educação como direito de
pública e privada em todos os níveis de ensino. todos (direito social) e, portanto, deveria ser universal, gratuita, democrática, comunitária e de
• Oferta obrigatória de ensino religioso, embora fosse de matrícula facultativa para os alunos. elevado padrão de qualidade. Em síntese, transformadora da realidade. Para tanto, deveria
pautar-se pelos seguintes princípios fundamentais8(nota: Arts. 206, 207 e 208 da Constituição Federal.
Pode-se afirmar que a Carta de 1946 preceituou uma organização equilibrada do sistema 22) :
educacional brasileiro, mediante um formato administrativo e pedagógico descentralizado, sem
que a União abdicasse da responsabilidade de apresentar as linhas-mestras de organização da
educação nacional. Nela, há muito das idéias e do espírito do Manifesto dos Pioneiros da I. Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
Educação Nova, de 1932. Foi a partir desta percepção que o Ministro da Educação de então, II. Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;
Francisco Mariani, oficializou comissão de educadores para propor uma reforma geral da edu-
cação nacional. Aqui, a origem da Lei 4024/61, Lei de Diretrizes e Bases da Educação III. Pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas e coexistência de instituições
Nacional, nossa primeira LDB, somente aprovada pelo Congresso Nacional depois de uma públicas e privadas de ensino;
longa gestação de onze anos. IV. Gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
Com a Constituição de 1946, o Ministério da Educação e Cultura passava a exercer as V. Valorização dos profissionais do ensino, garantindo, na forma da lei, planos de carreira
atribuições de Poder Público Federal em matéria de Educação. para o magistério público, com piso salarial profissional e ingresso exclusivamente por
A Constituição de 1967, pautada sob inspiração da ideologia da segurança nacional, abriu concurso público de provas e títulos, assegurado regime jurídico único para todas as
amplos espaços de apoio ao fortalecimento do ensino particular. Para ele, eram direcionados instituições mantidas pela União;
recursos públicos desapeados de qualquer critério. A ampliação da obrigatoriedade do ensino VI. Gestão democrática do ensino público, na forma da lei;
fundamental de sete a quatorze anos, aparentemente uma grande conquista, conflitava com
outro preceito que permitia o trabalho de crianças com 12 anos. Nisto, contrastava com a Carta VII. Garantia de padrão de qualidade.
de 1946 que estabelecia os 14 anos como a idade mínima para o trabalho de menores. Também Por outro lado, as universidades passaram a gozar de autonomia didático-científica,
a ideia de gratuidade do ensino esbarrava na prescrição constitucional da criação de um sistema administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e a obedecer ao princípio de
de bolsas de estudo reembolsáveis. Por fim, retirava-se a obrigatoriedade de percentuais do indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
orçamento destinados à manutenção e desenvolvimento do ensino.
Enfim, o dever do Estado com a educação passou a ser efetivado mediante a garantia de:
A Constituição de 1969 preservou, basicamente, todos os ângulos restritivos da Carta
I. ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram
anterior. Recursos orçamentários vinculados ao ensino ficaram adstritos aos municípios que se
acesso na idade própria;
obrigavam a aplicar, pelo menos, 20% da receita tributária no ensino primário.
O lado mais obscurantista do texto constitucional de 1969 foi o relativo às atividades II. progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio;
docentes. A escola passou a ser palco de vigilância permanente dos agentes políticos do III. atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência,
Estado. Neste período, editaram-se vários Atos Institucionais que eram acionados, com muita preferencialmente na rede regular de ensino;
frequência, contra a liberdade docente. IV. atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade;
A Constituição de 1988 significou a reconquista de cidadania sem medo. Nela, a Educação V. acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a
ganhou lugar de altíssima relevância. O País inteiro despertou capacidade de cada um;
Página 23 Página 24
VI. Oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando; a Lei Orgânica do Ensino Comercial. Mais tarde, já com o país redemocratizado, surgem as leis
VII. Atendimento ao educando, no ensino fundamental, através de programas orgânicas do Ensino Agrícola (Decreto-Lei n2 9.613, de 20.08.46), e do Ensino Primário
suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à (Decreto-Lei n9 8.529, de 02.01.46), do Ensino Normal (Decreto-Lei nº 8.530, de 02.01.46).
saúde. Três observações, aqui, são inescapáveis: i) É neste cenário legiferante que surgem o SENAI
(Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) (1942) e o SENAC (Serviço Nacional de
Aprendizagem Comercial) (1946); ii) A Lei Orgânica do Ensino Primário vem posterior à Lei
2. O SUBSTRATO DAS VÁRIAS LEIS DE DIRETRIZES E BASES DA Orgânica do Ensino Profissional. Ou seja, estávamos dispostos, legal e realmente, a manter um
EDUCAÇÃO sistema produtivo com operários de baixo nível de escolaridade, iii) A Lei Orgânica do Ensino
Secundário precede, em quatro anos, a promulgação da Lei Orgânica do Ensino Primário.
Os termos diretrizes e bases como conceitos integrados não surgiram na educação Ambas, por seu turno, são posteriores à Lei Orgânica do Ensino Industrial.
brasileira, de forma refletida, ou seja, em decorrência de uma filosofia da educação que, Com a introdução dos conceitos de diretrizes e bases no bojo da norma constitucional de
nutrida por uma crítica pedagógica coerente, desaguasse numa postura de confrontação à natureza educacional, embora estivessem os termos postos de maneira não contígua,
visão fragmentária de compreensão de educação, de sistema educacional e de seus pronunciava-se, ainda tenuemente, a necessidade de buscar um princípio orientador para a
desdobramentos. São conceitos que se vão encorpando. Na verdade, estas noções educação nacional. Tanto é assim que, passados quatro anos, a Constituição do Brasil
(palavras), primeiro, surgiram separadas em contexto fraseológico fluido. Eram redemocratizado (1946) resgatava a significação interdependente dos dois conceitos, juntando-
despossuídas, portanto, do dinamismo de que se revestiriam quando, na Constituição do os no Art. 5º, Inc. XV, alínea a, que identificava, na União, a competência para legislar "sobre
Estado Novo (1946), reaparecem em posição contígua. De fato, o retorno à normalidade diretrizes e bases da educação nacional".
democrática, calçado pelo espírito liberal e democrático dos enunciados da nova ordem
constitucional, reencontrava a necessidade de organização de um sistema educacional Sob o ponto de vista denotativo, bases são fundamentos, vigas de sustentação, elementos
descentralizado administrativa e pedagogicamente, sem que isto representasse uma estruturantes de um corpo. Diretrizes denotam o conceito de alinhamento e, no caso, de normas
rendição do papel da União quanto à proposição dos grandes lineamentos através dos de procedimento. Aplicados os conceitos à norma educativa, infere-se que as bases remetem à
quais a educação nacional deveria organizar-se (Art. 5º, item XV, alínea d, e Art. 1 70 e função substantiva da educação organizada. Compõem-se, portanto, de princípios, estrutura
171). Mas, até se chegar a este entendimento, fez-se um longo trajeto, como vamos passar axiológica, dimensões teleológicas e contorno de direitos. A este conjunto, podemos chamar de
a examinar. funções substantivas. As diretrizes, por outro lado, invocam a dimensão adjetiva da educação
organizada. Encorpam-se, por conseguinte, em modalidades de organização, ordenamentos da
A Constituição de 1934 cometeu à União, com exclusividade, a atribuição de traçaras oferta, sistemas de conferência de resultados e procedimentos para a articulação inter e intra-
diretrizes da educação nacional (Art. 5Q, Inc. XIV). Três anos mais tarde, a Constituição sistemas. As bases detêm um conteúdo de concepção política, as diretrizes, um conteúdo de
do Estado Novo (1937) reforçou a ideia das diretrizes, pela adição do conceito de bases. formulação operativa.
Assim, surgiram, pela primeira vez, no texto constitucional brasileiro, estas duas noções
complementares, embora postas em espaços distintos. Dizia o Artigo 15, Inciso IX, que, à A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei 4.024, de 20 de
União, incumbia "fixar as bases e determinar os quadros da educação nacional, traçando dezembro de 1961, teve uma gestação lassa e penosa. Entre a chegada do texto à Câmara
as diretrizes a que deve obedecer a formação física, intelectual e moral da infância e da Federal, outubro de 1948, e o início dos debates sobre o texto, maio de 1957, decorreram oito
juventude". Cinco anos depois, o Ministro da Educação do Governo Vargas, Gustavo anos e meio. Daí, até a aprovação, em 20 de dezembro de 1961, mais quatro anos e sete meses!
Capanema, detonava o processo de reformas da educação, através das chamadas "leis Ou seja, entre o encaminhamento, as discussões e a aprovação do texto, passaram-se treze
orgânicas do ensino", começando com a promulgação da Lei Orgânica do Ensino anos. O texto original foi sucedido pelo substitutivo Lacerda e este, em decorrência de um
Industrial, através do Decreto-Lei nº 4.073, de 30.01.42. Ao longo deste mesmo ano e do
ano seguinte, foram postos em execução o Decreto-Lei 4.048, de 22.01.42, criando o
Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, o Decreto-Lei 4.244, de 09 de abril de
1942, fixando a Lei Orgânica do Ensino Secundário, o Decreto-Lei 6.141, de 28 de
dezembro de 1943, estabelecendo
Página 25
grande esforço na busca de uma posição conciliatória, pelo substitutivo da Câmara. O eixo das Página 26
discussões era o da defesa da presença da iniciativa privada nas atividades de ensino. A
pressão das escolas particulares terminou por transformar o debate partidário em um debate de Com o Congresso totalmente engessado em sua ação, o texto era aprovado em 28 de
fundo fortemente ideológico, galvanizado pela competente oratória de Carlos Lacerda, que, novembro de 1968, sob a forma da Lei 5.540/68. Por ela, extinguia-se a cátedra, a estrutura de
como ninguém, conhecia o poder da palavra. universidade passava a ser prioritária como forma de organização do ensino superior, o ensino,
a pesquisa e a extensão assumiam a natureza privada, via instituições isoladas, e o instituto da
O texto aprovado em 1961 oferecia, pela primeira vez na história de educação brasileira, autonomia não conseguia se afirmar, encalhado pelas injunções de natureza financeira.
um arcabouço onde se podiam divisar, com relativa clareza, as diretrizes e bases da educação
nacional. Os grandes eixos falavam: i) Dos Fins da Educação; ii) Do Direito à Educação; iii) Seguindo o espírito que presidiu a reforma universitária, em maio de 1970, criava-se,
Da Liberdade de Ensino; iv) Da Administração do Ensino; v) Dos Sistemas de Ensino; vi) Da também, um Grupo de Trabalho para cuidar da "atualização e expansão do ensino fundamental
Educação de Grau Primário; vii) Da Assistência Social Escolar; viii) Dos Recursos para a e do Colegial". Dois meses depois, estava pronto o Relatório do Grupo, que o encaminhou ao
Educação. Ministro da Educação. Apreciado pelo Conselho Federal de Educação e, a seguir, pelos
Conselhos Estaduais de Educação, o texto, com alterações, retornou ao Ministro da Educação
Como se pode inferir, definia-se, afinal, um lineamento estruturado para a educação do que o remeteu ao Presidente para encaminhamento ao Congresso Nacional. Aí o texto recebeu
País. 362 emendas de cuja apreciação originou-se o substitutivo do relator, submetido à apreciação
A Lei 4.024/61 conseguiu flexibilizar a estrutura do ensino, possibilitando o acesso ao da Comissão Mista e de quem recebeu aprovação em 20 de julho de 1971. Uma semana depois,
ensino superior, independentemente do tipo de curso que o aluno tivesse feito anteriormente. o Congresso Nacional aprovava o substitutivo, encaminhado, de imediato, para a sanção do
Por outro lado, a flexibilização se dava, também, em nível da migração interna do aluno que, Presidente da República. Assim, um ano e três meses depois da criação do Grupo de Trabalho,
através do mecanismo de aproveitamento de estudos, poderia, a partir de então, migrar de um era sancionada a nova Lei da Reforma do Ensino de 1s e 2S graus, Lei 5.692, de 11 de agosto
ramo para outro de ensino, sem ter de recomeçar como se nada houvera antes. de 1971.
A nossa segunda Lei de Diretrizes e Bases, a Lei 5.692/71, oficialmente denominada de Lei Sob o ponto de vista técnico-educativo-formal, não se pode considerar a Lei 5.692
da Reforma do Ensino de 19 e 2- graus, teve, também, um processo gestatório lento, embora propriamente uma Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Primeiro, porque lhe faltava um
impermeável a debates e à participação da sociedade civil, em função do contexto em que foi sentido de inteireza. Tratava do ensino de forma esquartejada, uma vez que focava somente os
gestada: período de governo discricionário com as liberdades civis estranguladas. O processo ordenamentos organizacionais da pré-escola e do 1º e 2º graus, deixando de lado o ensino
foi, portanto, atípico. O quadro de asfixia política empurrava as universidades para uma situ- superior. Depois, a substância educativa, energia vivificadora de uma LDB, era substituída pela
ação de confrontação com o poder estabelecido. Assim, a reforma da educação começava pelo mera "razão técnica", com inegáveis prejuízos para os aspectos de essencialidade do "processo
ensino superior. Ou seja, a reforma universitária se antecipava à reforma dos demais níveis de educativo". Estes aspectos nunca podem ser sufocados pelos elementos da organização do
ensino. Nascia, desta forma, a Lei 5.540 em 1968 e, somente três anos mais tarde, editava-se a ensino, sob pena de se oferecer uma subeducação.
Lei 5.692/71, voltada, especificamente, para os níveis de ensino anteriores ao ensino superior. A nova lei representava uma mudança radical na estrutura básica do ensino brasileiro. O
Deste modo, surgiam duas legislações sucedâneas à Lei 4.024/61, a nossa primeira LDB. Curso Primário, de quatro anos, e o Curso Médio Ginasial, de três, se cingiam no ensino de 1º
grau de oito anos. O Ensino Médio Colegial, de três anos, transformava-se em ensino de 2-
O trajeto da Lei da reforma universitária começou pela constituição de um Grupo de
grau com estrutura única, oferecendo, pelo mecanismo do currículo universal, a
Trabalho, instituído por Decreto, para realizar estudos que possibilitassem "a eficiência,
profissionalização compulsória, disponibilizada, legalmente, pela oferta de uma extensa gama
modernização e flexibilidade administrativa" das universidades. Em outubro de 1968, chegava,
de habilitações profissionais. Ficava claro, também aqui, o cunho político excludente das
ao Congresso, a Mensagem n- 36, acompanhada do projeto de lei n9 32, voltada para
estabelecer "normas de organização e funcionamento do ensino superior e sua articulação com
a escola média...".
Página 27 Página 28
duas reformas: a universitária e a da educação básica. O vetor de inspiração era o mercado de A ORGANIZAÇÃO DO ENSINO NAS DISPOSIÇÕES NORMATIVAS DAS DIVERSAS
trabalho, porém desfocado de uma visão de transformação das estruturas sociais e econômicas LEIS DE DIRETR1ZES
do País. Houve aguda resistência por parte da sociedade. Em consequência, onze anos depois, E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL
eram revogados os dispositivos que tornavam a profissionalização obrigatória. Era a Lei
7.044/82. Lei 4.024/61 Duração Lei 5.692/71 Duração Lei 9.394/96 Duração
Os grandes eixos da Lei 5.692/71 foram, assim, definidos: i) Do Ensino de 1°e2°Graus; ii)
Do ensino de 1QGrau; iii) Do Ensino de 2Q Grau; iv) Do Ensino Supletivo; v) Dos Professores
e Especialistas; vi) Do Financiamento. Ensino Primário 4 anos Ensino de Primeiro 8 anos Educação Básica: Variável
Ciclo Ginasial do 4 anos Grau 3 a 4 anos -Educação Infantil 8 anos
Como se observa, a 5.692/71 mantinha o conceito degrau de ensino, presente na legislação Ensino Médio Ensino de Segundo -Ensino 3 anos
anterior. Tal conceito está alicerçado na Psicologia Evolutiva. Cada Grau corresponde a uma Ciclo Colegial do 3 anos Grau Fundamental
Ensino Médio Ensino Superior Variável -Ensino Médio
faixa etária determinada. Ao lado disto, há que se considerar, igualmente, a questão do nível de Ensino Superior Variável Ensino superior Variável
desenvolvimento sócio-econômico do País. Com a evolução da matriz de conhecimentos e das
técnicas de produção, vai-se possibilitando a crescente incorporação de malhas da população OBS.: OBS.: OBS.:
ao mercado de trabalho. Em decorrência, exigem-se trabalhadores com níveis cada vez mais
a) A passagem do Primário para o Ginasial a) Com a junção dos antigos Primário e Gi- a) Os níveis da Educação Escolar passam a ser
avançados de escolaridade. Esta a razão do ensino organizado em graus. era feita através de uma prova de acesso: o nasial, desapareceu o Exame de Admissão. dois: educação básica e educação superior.
Exame de Admissão. b) A duração normal do 2º grau era de 3 b) A educação de jovens e adultos, a educação
Os quadros que seguem apresentam, de forma esquematizada, a organização do ensino nas b) Os ciclos Ginasial e Colegial eram anos. Ultrapassava, no entanto, este limite profissional e a educação especial são
disposições das diversas leis de diretrizes e bases da educação nacional e, ainda, a estrutura divididos em Ramos de Ensino, a saber: quando se tratava de Curso modalidades de educação.
comparada das Leis 5.691/71 e 9.394/96. Secundário, Comercial, Industrial, Agrícola, Profissionalizante. c) A educação básica, nos níveis fundamental e
Normal e outros. c) O Ensino de 1º grau e 2º grau tinham médio, passam a ter a carga horária mínima de
uma carga horária mínima anual de 720 800 horas anuais, distribuídas em 200 dias
horas e o ano letivo a duração mínima de letivos anuais, no mínimo.
180 dias.
Página 29
Página 31

QUADRO COMPARATIVO DA ESTRUTURA BÁSICA DAS LEIS 5.692/71 E Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996
9.394/96

Lei 5.692/71 Lei 9.394/96


Capítulo I - Do Ensino de 1a e 2a Graus
Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional
Título l - Da Educação
Capítulo II - Do Ensino de 1a grau Título II - Dos Princípios e Fins da Educação
Capítulo III - Do Ensino de 2a grau TITULO I
Nacional
Capítulo IV - Do Ensino Supletivo DA EDUCAÇÃO
Capítulo V - Dos Professores e Especialistas Título III - Do Direito à Educação e do Dever de
Capítulo VI - Do Financiamento Educar
Capítulo VII - Das Disposições Gerais Capítulo Título IV - Da Organização da Educação Art. 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na
VIII - Das Disposições Transitórias Nacional convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos
Título V - Dos Níveis e das Modalidades de sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.
Educação e Ensino
§ 19 Esta Lei disciplina a educação escolar, que se desenvolve, predominantemente, por
Capítulo l - Da Composição dos Níveis
meio do ensino, em instituições próprias.
Escolares
Capítulo II - Da Educação Básica § 2- A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social.
Seção l - Das Disposições Gerais
Seção II - Da Educação Infantil
O termo educação tem um sentido abrangente. Fala-se em educação formal, educação não-
Seção III - Do Ensino Fundamental
formal, educação continuada, educação a distância, educação ambiental, educação sexual, etc.
Seção IV - Do Ensino Médio
Sob o ponto de vista legal, educação tem, quase sempre, sentido limitado. Na legislação
Seção V - Da Educação de Jovens e
anterior, por exemplo, era sinônimo de ensino. Seja de ensino regular, seja de ensino supletivo.
Adultos
Portanto, referia-se, sempre, à educação formal. Embora a lei estatuísse que poderia ser dada
Capítulo III - Da Educação
no lar e na escola, de fato, a ação educativa verdadeiramente "certificada" pelos cânones legais
Profissional
era aquela encorpada na modalidade ensino.
Capítulo IV - Da Educação Superior
Capítulo V - Da Educação Especial O artigo em apreço representa uma ruptura de dimensão axiológica à medida que elastece a
Título VI - Dos Profissionais de carga semântica de educação, imputando-lhe um atributo de ação do indivíduo sobre o
Educação indivíduo para construir seu destino nas mais diferentes
Título VII - Dos Recursos
Financeiros
Título VIII - Das Disposições Gerais
Título IX - Das Disposições
Transitórias

Página 30____ Página em branco no original.


Página 32 Página 33
ambiências humanas: na família, no trabalho, na escola, nas organizações sociais, etc. Em causa, de prover a instrução primária de filhos em idade escolar". O Estatuto da Criança e do
qualquer destes espaços, há um processo formativo, ou seja, um chão de aprendizagem sobre o Adolescente, por sua vez, no Art. 53, declara que "a criança e o adolescente tem direito à
qual se forma a cidadania. Trata-se, por conseguinte, de uma prática humana eivada de escola pública e gratuita próxima de casa". Portanto, não se trata de uma mera concessão, mas
equipamentos de subjetividade e de ações intencionalizadas que focam a construção histórica e de um princípio de coercibilidade.
coletiva da humanidade. Ao atribuir a responsabilidade da educação à família e ao Estado, o dispositivo legal retrata
§ l° A lei 9.394 enquadra uma tipologia específica de educação, a chamada educação o Art. 205 da Constituição Federal e, igualmente o faz, ao abordar a dimensão tecnológica da
escolar, desenvolvida, predominantemente, porém não exclusivamente, em instituições educação (qualificação para o trabalho).
específicas, denominadas de instituições educativas (Creches, Escolas, Colégios, Institutos, As fontes de inspiração da Educação são conquistas da humanidade consagradas em
Faculdades, Centros Universitários, Universidades, etc.). estatutos universais como a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (março
§ 2º A educação aqui referida atrai quatro conceitos estruturantes do novo mapa de de 1948), a Declaração Universal dos Direitos Humanos (dezembro de 1948), as várias
referência da escola, enquanto palco principal do processo educativo: Constituições nacionais c a atual Constituição Brasileira em seu Artigo 5º.
a) Prática Social: Atividade socialmente produzida e, ao mesmo tempo, produtora de A finalidade da Educação é de tríplice natureza:
existência social. Significa, também, soma de processos históricos determinados pelas a) O pleno desenvolvimento do educando — Significa que a educação, como processo
ações humanas; intencional, deve contribuir para que o organismo psicológico do aprendiz se desenvolva
b) Mundo do Trabalho: Ambiente de construção de sobrevivência, mas também de numa trajetória harmoniosa e progressiva. É o nível cognitivo em evolução, voltando-se
transformação social; para a assimilação de certos conhecimentos e de certas operações mentais. A primeira
etapa da trajetória corresponde às aprendizagens desenvolvidas na fase inicial da
c) Movimentos Sociais: Esforços organizados de construção de espaços alternativos de
evolução da criança. Aqui, as aprendizagens estimulam a formação de hábitos
organização coletiva;
sensoriomotores. A segunda etapa corresponde à formação consciente de estruturas, ao
d) Manifestações Culturais: Trata-se de expressões da cultura enquanto conceito entendimento de propriedade e de relações fundamentais do mundo real. Aqui,
antropológico e se reporta ao mundo que o homem cria através de sua intervenção sobre adquirem-se formas de fazer e de aplicar conhecimentos adquiridos. No nível cognitivo,
a natureza, ou seja, através do seu trabalho. Neste sentido, não há cultura superior a as pessoas desenvolvem a aprendizagem na relação direta com o seu mundo e, também,
outra, há, isto sim, culturas diferentes. no uso do vocabulário, à medida que as palavras são portadoras de sentido. São elas
condição essencial de aprendizagem, uma vez que constituem a base dos conceitos com
os quais nós pensamos.
TÍTULO II
b) Preparo para o exercício da cidadania — O conceito de cidadania centra-se na
DOS PRINCÍPIOS E FINS DA EDUCAÇÃO NACIONAL condição básica de ser cidadão, isto é, titular de direitos e de deveres a partir de uma
condição universal — porque assegurada na Carta de Direitos da Organização das
Nações Unidas — e de uma condição particular — porque vazada em cláusula pétrea da
Art. 2- A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos
Constituição Federal: todos são iguais perante a lei. Mas tal entendimento vai além, sob
ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu
o resguardo do próprio texto constitucional, ao discriminar os chamados direitos sociais,
preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
a saber: educação, saúde, trabalho, lazer, segurança, previdência social, proteção à
maternidade e à infância, assistência aos desamparados. Estes direitos são tidos, na
A responsabilidade da família e do Estado com educação tem origem em vários atualidade e universalmente, como indicadores de competência social. A educação
dispositivos da Constituição (ver os arts. 203,1, 227,205,229). Em decorrência, outras fontes escolar é parte deles e, ao mesmo tempo, manancial para seu exercício.
legais ratificam e explicitam esta obrigatoriedade. Assim, o Código Penal estabelece pena de
detenção de 15 dias a um mês ou multa a quem "deixar, sem justa
Página 34 Página 35
A cidadania, hoje, não se reduz ao âmbito da ação do Estado, mas se dilata nas diferentes Art. 39 O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
formas de pressão da sociedade civil para responder às particularidades de grupos e de pessoas.
I. Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
c) Qualificação para o trabalho- A relação educação-trabalho deve ser entendida como a
necessidade de fazer do trabalho socialmente produtivo um elemento gerador de II. Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o
dinâmica escolar. O estudante é estimulado, pelo conjunto dos agentes da sala de aula saber;
(Professor, disciplina, materiais instrucionais e processos de acompanhamento e de III. Pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas;
avaliação), a inserir o aprendizado nas formas de produtividade. Como ensina
MANACORDA (1977), a educação deve ser concebida como um processo onde ciência IV. Respeito à liberdade e apreço à tolerância;
e trabalho coincidem. Assim, o objetivo essencial da educação científica é a V. Coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;
omnilateralidade do homem, visto que é no trabalho que ele se realiza. Expressão
criadora e transformadora, o trabalho é o chão firme das chances de liberdade para o ser VI. Gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
humano. Aprender, portanto, é conhecer e aprender a fazer. Segundo BUBER (1977), a VII. Valorização do profissional da educação escolar;
liberação das potencialidades humanas é a condição prévia da educação. Este alicerce de
VIII. Gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos
todo o processo de realização individual e coletiva não pode permanecer divorciado da
sistemas de ensino;
educação. A escola e os Sistemas de Ensino precisam entrar no mundo do trabalho e
introduzi-lo como categoria de inspiração do currículo se, de fato, pretendem resgatar a IX. Garantia de padrão de qualidade;
sala de aula como um ambiente funcional para a sociedade tecnológica em metamorfose X. Valorização da experiência extra-escolar;
profunda.
XI. Vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.
Para GRAMSCI (1976), o trabalho é o elemento catalisador de toda a vida do indivíduo e,
mais do que isto, é o elemento eficaz para se chegar a um conhecimento preciso e realista da
natureza. Importa dizer que, dificilmente, se chegará a saber cientificamente, a dominar c a Estes princípios constituem matéria constitucional (Art. 206) e, como tal, assumem a forma
transformar a natureza, sem uma ação através do trabalho. de ordenamentos jurídicos universais quanto à sua aplicação ao ensino ministrado nas escolas
O texto legal pretende possibilitar, ao estudante, os meios de aprendizagem que o brasileiras.
conduzam a depreender, do contexto cotidiano e do trabalho, o método científico e o teor
Considerando que a educação é direito de todos e dever do Estado nos termos do Art. 205
humanista de que necessita para se realizar como cidadão pleno na sociedade em que vive.
da Constituição Federal, é impositivo que, quando oferecida sob a forma de ensino
A qualificação para o trabalho não quer significar uma divisão da vida em dois tempos: um sistematizado, esteja norteada por princípios básicos que calçam o mundo dos valores e o chão
tempo próprio para estudar e outro, um tempo sucedâneo, para trabalhar. Considerando que das significações da organização escolar e dos ritos educativos. Ademais, se todos são iguais
não existem valores pedagógicos descontextualizados da prática social e da vida real, entende- perante a lei, o ensino oferecido deve ser igual na intenção específica de cada disciplina e na
se que a educação no e para o trabalho é inerente à educação política. Não se pode pensar em investigação problematizadora da sala de aula. Os princípios, portanto, devem ser entendidos
formação humana do aluno se, pela ação do trabalho, o cidadão não contribuir para humanizar como elementos recorrentes do diálogo pedagógico e da prática de ensino, de tal maneira que o
as estruturas sociais, econômicas e políticas. Como ensina JOÃO PAULO II (Laborem ser, o valer e o refletir sejam vividos como elementos integradores de "situacionalidades" da
Exercens, 1981, p. 20) cada um se faz homem, entre outras coisas, através do trabalho, e esse sala de aula, de cada curso, de cada Escola, de cada Sistema de Ensino, de cada projeto
fazer-se homem expressa precisamente a finalidade principal de todo o processo educativo. educativo, enfim.
Inc. I A igualdade de condições para o acesso e permanência na escola vai além de se
proclamar que a educação é direito de todos. É imperativo revelar como este direito pode ser
exercido a partir da oferta escolar. Esta preocupação implica em se definirem,
participativamente, parâmetros de qualidade para a educação à luz de três princípios:
Página 37
Página 36 que se fortalecem o reconhecimento e o respeito aos direitos civis das minorias. O ensino
a) Princípio da Inclusão: Trabalhar com uma organização escolar aberta a uma educação torna-se, assim, um veículo privilegiado de aprofundamento de uma pedagogia dos direitos
para a integração na diversidade. A realidade plural dos alunos deve encontrar, na sala humanos (BEST, 1991, p. 39) e de uma convivência democrática tranquila entre as pessoas.
de aula, o espaço adequado para a aprendizagem da convivência entre diferentes. Este é
Inc. V A coexistência de instituições públicas e privadas de ensino responde não apenas a
o melhor entendimento do conceito de equidade contido na Constituição Federal: Todos
exigências de uma sociedade pluralista, um dos fundamentos da República, mas também a
são iguais perante a Lei. Uma escola com qualidade funcional deve ser permeável às dispositivos constitucionais que cometem, ao Estado e à iniciativa privada, a co-
especificidades das populações. A criança de classe social favorecida economicamente responsabilidade de ministração de ensino.
não tem problema de permanecer na escola. O problema existe com as crianças de
periferias urbanas, de ambientes rurais, populações submetidas a condições de extrema Inc. VI Gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais - Esta é uma questão de
pobreza, populações negras e indígena, além dos evadidos e excluídos do sistema grandíssimo alcance social. O contribuinte paga a escola, quando paga seus impostos. O
escolar. Como garantir a permanência de todos estes desfavorecidos socialmente, de princípio da gratuidade do ensino decorre, assim, das responsabilidades públicas deste ente
modo que lhes seja assegurado um desenvolvimento pessoal à luz do critério da satisfa- dinossáurico que se chama estado. Cada vez que ele cobra por um serviço que é essencial e
ção das necessidades básicas de aprendizagem? O princípio da inclusão é o alicerce da universal, como é o caso da educação básica, está praticando a bitributação, o que é
ideia de uma só escola para todos, inclusive para aqueles alunos com algum tipo de constitucionalmente vedado.
deficiência. Inc. VII A valorização do profissional da educação escolar é tema recorrente em todas as
b) Princípio da Pertinência dos Conteúdos e das Metodologias: Contextualizar os discussões sobre educação, porem, de limitado alcance sob o ponto de vista de sua
programas escolares a fim de que sejam instrumentos para a formação geral de uma operacionalização. Como se trata de questão de dimensão político-transcendental, cabe à
sociedade brasileira exigir que os representantes políticos criem os marcos normativos e os
cidadania moderna e participativa.
mecanismos para concretização deste princípio. Questões como carreira do magistério, piso
c) Princípio da Avaliação Formativa: Diversificar a avaliação para que ela seja um profissional, formação, política de capacitação, concurso para ingresso na carreira e
processo impulsionador da aprendizagem e potencializador das capacidades dos alunos. mecanismos de atualização permanente, são fulcrais no âmbito da valorização do profissional
Inc. IIA liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte c o da educação. Nada disto, porém, ganhará expressão enquanto a sociedade não disser o que de-
seja de sua escola e, em decorrência, que tipo de professor deseja formar para trabalhar nesta
saber é, além de norma constitucional inviolável, princípio fecundador do processo de
escola. A área de educação, apesar de grande detentora de mão-de-obra, concentra os mais
aprendizagem com autonomia. A verdadeira escola ou a escola não-autoritária tem como baixos salários do setor público. Talvez este fato explique a falta de professores. De 5a à 8a
missão precípua formar para a autonomia. Neste sentido, o diálogo é a sua linguagem própria, série mais Ensino Médio, há necessidade de contratação de 250 mil professores licenciados. Na
método, aliás, muito utilizado nos primórdios da filosofia grega. verdade, seriam necessários 711 mil professores licenciados. Temos apenas 457 mil. Na área
Inc. III O pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas significa que o espaço escolar c o municipal da região Nordeste, ainda, perduram salários aviltantes, embora a implantação do
ensino nele ministrado devem ser dinamizados a partir do conceito de heterogeneidade Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do
cultural. Mais do que isto: a partir do eixo igualdade/alteridade. O ponto essencial do trabalho Magistério (FUNDEF) vá modificando esta situação. Na verdade, quanto mais vigilante for a
do professor, ao preparar suas aulas, reside em como articular o itinerário educativo da sala de sociedade no sentido da fiscalização e do controle dos recursos do FUNDEF, mais rapidamente
aula com a pluralidade cultural e ideológica dos alunos. Ao professor e à Escola cabe tal situação se reverterá. Enfim, sem bons salários, não há boa escola nem há bom ensino e,
contribuir para desatar as capacidades intelectuais do aluno, porém, jamais para induzir este com certeza, haverá sub-educação, conceito que pertence ao mundo do faz de conta, da
aluno a pensar como ele (professor) pensa. Se a escola não caminhar neste horizonte, o ensino pedagogia da ilusão.
será, apenas, um processo de impostura. A valorização do profissional da educação escolar é questão diretamente ligada às condições
Inc. IV O respeito à liberdade e o apreço à tolerância são manifestações avançadas da evolução de trabalho e ao salário. Neste último caso, vale a pena cada um perguntar o seguinte: No meu
democrática. O multiculturalismo vai sendo reconhecido à medida estado e no meu município, quanto vale um professor? Para responder a esta questão, a
Revista Educação realizou um levantamento
T

Página 39

partir de legislação própria, como é o caso do IPTU, do ISS e do ITBI (Imposto sobre
Página 38 Transmissão de Bens Imóveis). A União deve aplicar em educação pelo menos 18% do
que arrecada. Estes recursos são constantemente ameaçados pelo que MONLEVADE
inédito objetivando cotejar o valor da hora-aula nas 27 unidades da federação e os resultados (1997, p. 83) chama de "demônios que cercam as verbas da educação", a saber: sonegação,
são assombrosos como se pode verificar: isenções e desvios. Agora mesmo, vai tomando corpo, junto a vários governadores, a ideia
Acre 25 1200,00 12,00 de acabar com a desvinculação constitucional dos recursos para a educação. Se isto
Alagoas 20 454,25 5,67 acontecer, o país sofrerá um dos maiores retrocessos no tocante à aplicação de recursos na
Amapá 40 957,00 5,98 área social. Na verdade, a vinculação constitucional dos recursos para educação foi uma
Amazonas 20 595,00 7,43 luta de toda a sociedade brasileira ao longo de 25 anos e que teve na Emenda Calmon
Bahia 20 388,00 4,85 (incorporada à Constituição de 1988) o primeiro grande passo neste sentido. E lamentável
Ceará 20 340,00 4,25 que a equipe econômica do governo atual venha trabalhando pelo fim da vinculação
Distrito Federal 40 800,00 5,00 orçamentária, o que significa um golpe fatal sobre os recursos constitucionais para
Espírito Santo 25 360,23 3,60
Goiás 30 572,92 4,77
educação e saúde. Sem estes recursos, a dívida social do país assumirá proporções
Maranhão 20 850,00 10,62 inimagináveis. Com a aprovação da PEC 233/95, transformada na Emenda 14 à
Mato Grosso 30 978,00 8,15 Constituição Federal, oportunizou-se a criação do Fundo de Manutenção e De-
Mato Grosso do Sul 20 365,38 4,56 senvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, passo essencial
Minas Gerais 24 382,28 3,90 para se reverter esta situação calamitosa de valorização salarial do professor. A
Pará - - 2,44 regulamentação dos Fundos se deu através da Lei 9.424/96. Seu funcionamento estava
Paraíba 20 670,00 8,37 previsto para 1997, no entanto, governadores e prefeitos, pressentindo que a re-distribuição
Paraná 20 515,00 6,43
Pernambuco 150 301,50 2,01
(ver o mecanismo de funcionamento na exegese dos Arts. 68 a 77) poderia ensejar perda
de recursos, montaram um forte lobby, ficando a aplicação do FUNDEF para o ano
seguinte. A partir de então, a evolução do valor básico do salário pago com recursos do
FUNDEF passou a ser como se vê abaixo:
Piauí 40 459,00 2,86
Evolução do valor per capita (aluno/ano) do FUNDEF, no período 1997/2004
Rio de Janeiro 22 431,00 4,89
Ano 1ª a 4ª 5ª a 8ª + Educação 1ª a 8ª Ato legal de fixação do valor
Rio Grande do Norte 40 580,00 3,62 Especial
Rio Grande do Sul 20 421,13 5,26
1997 — — 300,00 Art. 6S, § 42, Lei 9.424, de 24/12/1996
Rondônia 40 897,00 5,60
Roraima 30 1205,40 10,04
1998 - - 315,00 Dec. 2.440, de 23/1 2/1 967
Santa Catarina 40 585,75 3,66
São Paulo 30 800,60 6,67
1999 _ _ 315,00 Dec. 2.935, de 11/01/1999
Sergipe 25 343,08 3,43
Tocantins - - 9,22
Revista Educação, ano 08, nº 86, junho 2004 2000 333,00 349,65 _ Dec. 3.326, de 31/1 2/1 999

2001 363,00 381,15 _ Dec. 3.742, de 01/02/2001

E estranho que nem o MEC, através do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas 2002 418,00 438,90 _ Dec. 4.103, de 24/01/2002
Educacionais Anísio Teixeira (INEP), nem o Conselho Nacional de Secretários de Educação 2003 462,00 485,60 _ Dec. 4.861, de 20/10/2003
(CONSEDE), nem a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), nem a
União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME), instâncias comprometidas 2004 537,71 564,60 - Dec. 4.966, de 30. 01. 2004
com a qualidade dos serviços educacionais, e, em decorrência, com a valorização dos
profissionais da educação, disponham de dados sistematizados sobre o salário docente. Fonte: MEC/SEF/FUNDEF, 2004.
Os Estados e o Distrito Federal têm de investir, no mínimo, 25% de todas as transferências
e impostos em manutenção e desenvolvimento do ensino. O mesmo ocorre com os Municípios.
Estes contam, ainda, com impostos arrecadados a Inc. VIII A gestão democrática do ensino público tem sido um dos desafios dos anos 90.
O horizonte deste conceito de gestão é o da construção da cidadania que inclui: autonomia,
participação, construção compartilhada dos níveis de decisão e
Página 40 Página 41
posicionamento crítico em contraponto à ideia de subalternidade. Este é o visor que nos faz avaliada permanentemente. E esta prática deve ser fonte de uma formação permanente em
construir c enxergar a escola-cidadã2 (nota: Expressão cunhada por BORDICNON, Genuíno e serviço. O currículo foca os conteúdos e esta prática pedagógica avaliada foca o aluno nas suas
OLIVEIRA, Luís S. Macedo de, "A escola cidadã: uma utopia municipalista". Revista Educação Municipal. São diferenças individuais e, portanto, nas suas apropriações diferenciadas de trabalhar e de
Paulo, Cortez/Undime/Cead, no 4, mai-1989, p. 5-13.) que nada tem a ver com um modelo burocrático assimilar cada disciplina.
tradicional, tecnicista e excludente. Na gestão democrática, a ideologia da burocracia, que tem O conteúdo legal destes dois últimos incisos (Gestão Democrática do Ensino Público e
como eixo a hierarquia autoritária, é substituída pela "construção da hegemonia da vontade Garantia de Padrão de Qualidade) deve ser agregado ao Art. 4°, Inc. IX, que trata do "padrão
comum", pela construção de um projeto político-pedagógico que a caracteriza e singulariza, na mínimo de qualidade do ensino”, como um dos deveres do Estado com a educação escolar
sua execução, acompanhamento e avaliação, por todos os participantes3 (nota: ANPAE, pública. Estes três dispositivos formam o amálgama garantidor de sistemas de ensino e de redes
"Administração da Educação: Desafios dos anos 90", Anais do XVI Simpósio Brasileiro da Administração c/a
de escolas comprometidos com uma educação para a sociedade do conhecimento. Importa
Educação, Rio de Janeiro - 7 a 11 de setembro de 1993, p. 31.). Neste caso, a eleição de diretores
dizer que os próprios gestores dos sistemas precisam estar adequadamente preparados para o
representa, apenas, um dos aspectos deste tipo de gestão, sem esgotar o processo de exercício de uma gestão educativa em uma sociedade que está trocando ordenamentos
democratização e de participação gestionárias. A formulação coletiva deste modelo de gestão patrimonialistas por conhecimento, competência e capacidade co-gestionária. A realidade
parte da definição de uma filosofia pedagógica referenciada à realidade social ampla, passando brasileira mostra que estamos bem distantes deste tipo de gestão. Pesquisa da UNESCO e da
pelo entorno da escola, até adentrar o contexto imediato. São cenários articulados para esta União dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME), denominada "Um Perfil dos
tarefa de definição do projeto político-pedagógico. Os atores/profissionais da educação Dirigentes Municipais de Educação/2000", revelou que apenas l em cada 5 secretários
precisam ter competência técnica, política e humana, condição que vai assegurar uma adequada municipais de educação concluiu o Ensino Médio. O tempo médio de estudo foi de 14,7 anos,
percepção da realidade concreta. ou seja, tempo inferior ao necessário para se percorrerem os caminhos da educação infantil, do
A gestão democrática do ensino público é fundamental para a ultrapassagem de práticas ensino fundamental e médio. Isto sem contar a ocorrência de anos de repetência. Foram
sociais alicerçadas na exclusão, na discriminação, na apartação social que inviabilizam a ouvidos 2.000 secretários em todo o Brasil e este estado de "calamidade pública" está presente
construção histórico-social dos sujeitos. Neste sentido, a ingerência político-partidária na em todas as regiões do país. Por fim, convém registrar que as avaliações internacionais (testes e
gestão escolar é antidemocrática e deformadora dos interesses educacionais. provas) com alunos brasileiros revelam a má qualidade da educação básica oferecida, com foco
Inc. IX A garantia de padrão de qualidade está cimentada no princípio da nas áreas de Matemática e Português. Alguns pesquisadores consideram a baixa qualidade do
eqüidade/diversidade que não pode ser visto como critério abstrato de oferta de ensino. Urge ensino médio como um problema mais preocupante do que o já reconhecido nível crítico de
desocultar os parâmetros concretos de um ensino de qualidade. O começo do começo e a qualidade do ensino fundamental. Resultados recentes do SAEB (Sistema de Avaliação da
visualização dos fundamentos éticos deste ensino. Fundamentos que vão além dos conceitos Educação Básica) revela que os alunos da 3a série do ensino médio apresentam uma baixa
de eficácia e de eficiência administrativas. Cabe, aqui, ressituar a questão das demandas performance no campo das competências e habilidades de leitura e de resolução de problemas.
sociais face ao saber escolar formal. Professores bem qualificados e bem pagos, escolas Ou seja, no caso de português, desenvolveram habilidades insuficientes para o nível de
adequadamente equipadas, salas de aula bem organizadas são precondições importantes para a letramento da 3a série. No caso de matemática, os alunos não conseguiram responder a
garantia de um padrão de qualidade institucional. Porém, é no currículo, na eleição das comandos operacionais elementares compatíveis com a 3a série do ensino médio. As últimas
disciplinas, na integração dos conteúdos, na formulação dos objetivos de cada programa e na estatísticas da educação básica/2004 confirmam estas constatações do SAEB. Os dados mais
forma da construção da aprendizagem no cotidiano da sala de aula que se reflete, de fato, o relevantes são: a) mais de 10 milhões de alunos estão em séries atrasadas para a sua idade; b)
chamado padrão de qualidade. Mas, o currículo somente motiva, criativamente, quando há um em cada cinco alunos do ensino fundamental e médio, o que equivale a 8,7 milhões de
materiais pedagógicos à disposição de professores e de alunos e, ainda, quando o uso deste estudantes e a 19,8% do total de matrículas, foi reprovado ou abandonou a escola em 2002; c)
material é feito mediante uma prática pedagógica no ensino médio, a proporção de alunos reprovados evoluiu de 10,7% em 2000, para 10,9% em
2001 e, afinal, para 11,5% em 2002; d) no ensino médio, a evolução foi 7,4% em 2000, 7,7%
em 2001 e 8,5% em
Página 42 Página 43
2002; c) as desigualdades regionais são, mais uma vez, reveladas pelas estatísticas. Enquanto a TITULO III
proporção nacional média de aprovação da primeira à oitava série do ensino fundamental ficou DO DIREITO À EDUCAÇÃO E DO DEVER DE EDUCAR
em 10,7% na região Nordeste, a reprovação foi a mais alta do país, alcançando 14,8%.
Inc. X Valorização da experiência extra-escolar: Aqui está uma das desafiadoras questões do Art. 4º O dever do Estado com educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de:
ensino brasileiro. A nossa tradição escolar, radicalmente formal e formalizante, tem impedido o
desenvolvimento de uma cultura pedagógica que valorize o patrimônio de conhecimentos que o I. Ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram
aluno construiu e constrói fora do espaço da sala de aula. No fundo, esta dificuldade traduz a acesso na idade própria;
relevância absoluta que se dá à qualidade formal do conhecimento. O saber sistematizado
II. Progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio;
encorpa um tipo de hegemonia que beneficia estratos restritos da sociedade, em detrimento da
coletividade ampla. Os próprios professores recebem uma formação que lhes dificulta o III. Atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades
desenvolvimento da capacidade para construir interseções de saberes no bojo das disciplinas especiais, preferencialmente na rede regular de ensino;
que ministram. O extra-escolar representa um canal importante para abrir espaços de
articulação escola/comunidade, pela possibilidade de construir um conteúdo de ensino capaz de IV. Atendimento gratuito em creches e pré-escolas às crianças de zero a seis anos de
"satisfazer as necessidades básicas de aprendizagem". idade;
Convém destacar que o extra-escolar não é a subeducação. Pelo contrário, o extra-escolar é V. Acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a
o trabalho, a convivência, o lazer, a família, o amor, a festa, a igreja, o esporte em suas capacidade de cada um;
diferentes modalidades, a vida, enfim. Portanto, valorizar o extra-escolar é atribuir valor
educativo ao cotidiano das pessoas; ou seja, "o homem participa na vida cotidiana com todos VI. Oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando;
os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade" (HELLER, 1972, p. 17). VII. Oferta de educação escolar regular para jovens e adultos, com características e
Inc. XI A vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais tem, no currículo modalidades adequadas às suas necessidades e disponibilidades, garantindo-se aos que
escolar, seu estuário próprio de concretização. Esta relação significa o próprio desenho da forem trabalhadores as condições de acesso e permanência na escola;
formação básica na linha da pedagogia contemporânea do "aprender a aprender". Sem isto, não
VIM. Atendimento ao educando, no ensino fundamental público, por meio de programas
se pode falar em qualidade educativa nem em ensino de qualidade. Nesta perspectiva, há de se
suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde;
alentar uma urgente transformação da pedagogia pouco afeita à ideia de atribuir, ao ensino,
uma dimensão produtiva. A própria expressão ensino/aprendizagem transmite a ideia de ensino IX. Padrões mínimos de qualidade de ensino. Definidos como a variedade e quantidade
como processo passivo, marcado por uma formulação burocrática inercial. Longe desta visão, o mínimas, por aluno, de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo de
texto legal preconiza um ensino ativo enriquecido pelo dinamismo interno do trabalhar e ensino-aprendizagem.
fecundado pelas vibrações transformadoras das práticas sociais. Para tal, é necessário substituir
a ideia de grade curricular pela ideia de currículo ativo. O uso dos métodos pedagógicos
precisa, igualmente, ser reorientado, uma vez que eles não existem para "aprisionar" os Inc. I O Poder Público, nos seus vários desdobramentos formais (União, Estados, Distrito
conhecimentos, as disciplinas, senão para realçar os processos das articulações do que se está Federal e Municípios), tem o dever de oferecer ensino fundamental gratuito a todas as crianças
aprendendo. na faixa etária de 7 a 14 e, ainda, àquelas pessoas que não puderam frequentar este nível de
ensino na idade própria.
Página 44 Página 45
Alemanha 99%
Grécia 95%
A Evolução da Matrícula no Ensino Fundamental por Regiões e no Brasil foi a seguinte
Inglaterra 94%
nos últimos 4 anos:
Israel 94%
Chile 93%
Matrículas no Ensino Fundamental por Região Argentina 90%
Região 1999 2001 2002 2003* Hong-Kong 90%
Uruguai 90%
Norte 3.317.657 3.272.305 3.331.130 3.255.476 Hungria 89%
Itália 89%
Nordeste 12.552.677 12.430.998 12.369.470 12.119.384 França 88%
Malásia 85%
Centro-Oeste 2.626.659 2.542.969 2.582.346 2.500.726
Tailândia 73%
Indonésia 71%
Índia 60%
Sudeste 13.201.120 12.672.107 12.575.085 12.415.790
Brasil 13%
Sul 4.472.530 4.379.710 4.375.465 4.352.556
Fonte: UNESCO's Statistics on Education, 2003.
Brasil 36.170.643 35.298.089 35.233.496 34.719.506 Estudos recentes indicam que a população brasileira se acha cerca de dois anos de estudo
abaixo da expectativa de um país com idêntica renda per capita. Focando esta questão na
perspectiva latino-americana, países como Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, Costa Rica
Fonte: MEC/INEF! 2004. e México se encontram dois anos a mais em termos de média de escolaridade. Note-se que
estes países têm renda per capita similar à do Brasil (Relatório Sobre Desenvolvimento
* Os dados de 2003 são preliminares. Humano, ONU, 2002).
No que pesem as possibilidades de acesso à 2- fase do ensino fundamental e ao próprio
O declínio de matrícula no Ensino Fundamental se deve ao fato de que o Brasil já em 1998 ensino médio virem crescendo significativamente a partir de 1990 (entre 92 e 98, as matrículas
atingiu uma taxa de escolarização líquida de 98% (relação percentual da população de 7 a 14 no Ensino Médio cresceram a uma taxa anual acima de 11%, o que representa um incremento
anos matriculada no Fundamental sobre o total da matrícula da população nessa faixa etária). jamais visto no Brasil), continuamos, ainda, em ritmo abaixo das necessidades do País. Este
O grande desafio consiste em assegurar condições de permanência no sistema e de êxito fato revela que o quadro de escolarização desigual em nosso país resulta do processo de
escolar. Não menos importante é registrar que os desníveis regionais em matéria de extrema concentração de renda e de níveis elevados de pobreza. O Quadro que segue dá uma
escolaridade continuam maiúsculos. Basta lembrar que, nas Regiões Norte e Nordeste, no que visão de conjunto da condição de educação da população adulta na América Latina:
pesem os avanços de 1991 a 1998, as taxas de escolarização continuam bem abaixo da média
nacional. Tanto mais grave: estas duas Regiões possuem cerca de 60% das crianças de 7 a 14
INDICADORES DE EDUCAÇÃO E IDH DA POPULAÇÃO NA AMÉRICA LATINA
anos que estão fora da escola.
Apesar de uma cobertura de matrícula bastante expressiva, com a média nacional em torno País PI B per capita US$ Taxa de Nº de anos de estudo IDH
analfabetismo
de 95%, havia, neste mesmo ano, 1.3 milhões de crianças na faixa etária de escolaridade
Argentina 6,9 3,2 8,7 0,849
compulsória fora da escola. Deste total, 84% eram crianças residentes na região Nordeste. Bolívia 9,5 14,6 4,0 0,672
Inc. II O Ensino Médio e a etapa final da Educação Básica. Embora com uma matrícula em Brasil 3,07 12,4 4,6 0,777
2003 de 8.398.008 para uma população na faixa etária própria (de 15 a 17 anos) de Chile 4,6 4,2 7,9 0,831
10.727.038, segundo o IBGE, há de se considerar, pela relevância do problema, que 63% dos Colômbia 1,89 8,4 7,1 0,779
brasileiros matriculados neste nível de ensino estão fora da faixa etária. Por outro lado, embora
gratuito nas escolas públicas, o Ensino Médio, equivocadamente, não é obrigatório. A lei fala
em sua progressiva obrigatoriedade e gratuidade. Esta posição deixa o Brasil em nítida
desvantagem em relação ao que ocorre não apenas no mundo desenvolvido, mas também em
muitos países com nível de desenvolvimento semelhante ao nosso. Vejamos a situação da
população com o Ensino Médio em alguns países em diferentes regiões do mundo:
Página 46 Por outro lado, não se pode negar uma melhoria crescente nas estatísticas da Educação
Básica, com destaque para o Ensino Médio, como se pode ver nas Tabelas que seguem:
País PIB per capita Taxa de Nº de anos de IDH
Costa Rica US$
4,06 analfabetismo
4,4 estudo
8,1 0,832 Brasil: estimativa de matrículas na Educação Básica — 1995 a 2010.
Cuba 7,45 3,3 7,6 0,806
El Salvador 1,897 21,3 4,1 0,719 Ano Total (em mil) 1aa45(%) 5a a 8ª (%) Ensino Médio
Equador 1,080 8,4 5,6 0,731 1995 37.857 52,9 33,0 14,0
Guatemala 1,680 39,5 5,3 0,652 1998 42.451 49,9 33,7 16,4
Haiti 4,8 50,2 1,7 0,467 2002 44.968 42,9 34,8 22,3
Honduras 9,0 25,0 3,9 0,667 2006 43.936 40,9 35,3 23,7
México 5,5 8,8 7,9 0,800 2010 42.594 40,5 35,2 24,3
Nicarágua 3,70 35,5 4,3 0,643 Fonte: MEC/INEP/SEEC.
Panamá 3,231 8,1 7,3 0,788
Paraguai 1,35 6,7 4,9 0,751 Brasil: evolução das matrículas de 1a à 4a e de 5a à 8a séries no Ensino Fundamental -
Peru 1,98 10,1 6,4 0,752 1997 a 2000.
Rep. Dominicana 2,537 16,3 4,3 0,737 Ano Total 1a a 4ª série 5a a 8a série
Uruguai 5,71 2,4 8,3 0,834
Venezuela 4,960 7,5 7,9 0,775 1975 19.549.249 13.919.065 5.630.183
O IDH capta a expectativa de vida, grau de conhecimento traduzido por duas variáveis: a taxa de 1985 24.769.359 17.338.551 7.430.807
alfabetização de adultos e a taxa combinada de matrícula nos três níveis de ensino, renda "per capita"
ajustada para refletir a paridade do poder de compra entre países. 1989 27.557.542 18.849.358 8.708.183
1993 30.548.879 19.795.673 10.753.205
Fontes: Banco Mundial, Pnud, Unesco, 2004. 1997 34.229.388 20.571.862 13.657.525
Numa visão de síntese, constata-se que a escolaridade no Brasil é inferior àquela dos 2000 35.717.948 20.211.506 15.506.442
países membros da OECD e até mesmo de países da América Latina. O Quadro que segue Variação % 4,3 -1,8 13,5
aponta neste sentido: Fonte: MEC/INEP/SEEC, 2000.
Brasil e outros países: percentual da população de 25 a 64 anos, por nível máximo de
escolaridade atingida. Matrículas no Ensino Médio
Região 2002 2003 Crescimento
País Ensino Ensino Médio 3º grau não Educação Superior Norte 669.269 695.142 3,8
Fundamental Completo universitário Nordeste 2.374.200 2.545.164 7,2
Coréia Completo
39 42 19 Centro-Oeste 628.070 633.808 0,9
Espanha 70 13 5 13 Sudeste 3.890.297 3.987.259 2,4
Estados Unidos 14 52 8 26 Sul 1.221.901 1.252.811 2,5
Hungria 37 50 13 Brasil 8.783.737 9.114.184 3,76
Polônia 26 61 3 10 Fonte: MEC/INEP 2003.
Portugal 80 9 3 7
República Checa 16 74 0 10 Número de Matrículas no Ensino Médio por Dependência Administrativa
Média OECD 40 40 10 13
Argentina 73 18 4 5
Brasil Federal Estadual Municipal Privada
8.398.008 88.537 6.962.330 232.661 1.114.480
Brasil 75 16 9
Índia 92 3 1 5 Fonte: MEC/INEP, 2003.
Paraguai 67 19 13 11
Uruguai 73 12 4 10
Fonte: Education at a Glance. OECD, 1998.
Página 48 Página 49
Brasil: Ensino Médio - matrículas estimadas (em milhares). A lei determina que todas estas crianças têm o direito a um atendimento educacional
especializado. Preferencialmente, devem ter o seu espaço de aprendizagem em classes
Ano Matrículas % Ensino Médio/ Educação
normais, ao lado das demais crianças, evitando-se, desta forma, qualquer modalidade de
1994 Básica segregação. Países como Itália e Canadá trabalham com o conceito de "escolas inclusivas", ou
4,936 13,4 seja, estabelecimentos normais de ensino que contam com um programa especial para as
1995 5,313 14,0
1996
crianças com necessidades especiais. Isto porque está comprovado que elas rendem mais
5,739 14,8 quando convivem com crianças normais. Infelizmente, a "inclusão" é um tema ainda novo no
1997 6,405 15,8
1998
Brasil, restrito à área acadêmica.
6,962 16,4
1999 O tema da inclusão ganhou, nos últimos tempos, grande expressão sobretudo nos
7,941 18,3 documentos do governo, com rápido desdobramento nas diretrizes político-administrativas dos
2000 8,774 19,8
2001
governos estaduais. A ideia básica da inclusão c que a escola é o lugar onde todos devem estar
9,464 21,2 juntos exatamente porque a escola é de todos. A isto se chama Educação Inclusiva que tem
2002 10,020 22,3
2003
como ponto de partida o direito à diversidade. Em 2001, foi editado o Decreto n.° 3.956 que
10,175 22,7 promulgou a Convenção Interamericana para eliminação de Todas as Formas de
2004 10,297 23,1 Discriminação Contra as Pessoas Portadoras de Deficiência. Por esta Convenção, todas as
2005 10,383 23,5 pessoas têm os mesmos direitos humanos e as mesmas liberdades fundamentais. A inclusão, ao
2006 10,434 23,7 lado da integração, constitui processo através do qual se concretiza o princípio da
2007 10,454 24,0 normalização. Para BENGT NIRGE, este princípio, operacionalmente entendido, significa
2008 10,446 24,1 "colocar ao alcance dos portadores de deficiência modos e condições de vida diários os mais
2009 10,416 24,3 parecidos possíveis com as formas e condições devida do resto da sociedade". Por outro lado,
2010 10, 369 24,3 enquanto a integração escolar, um dos eixos norteadores da normalização, nada mais e do que
"o processo de educar juntas pessoas portadoras ou não de deficiência" (VAN STEELANDT,
Fonte: MEC/INEP/SEEC/98. 1991, p. 31), a inclusão encorpa um novo paradigma de conduta da sociedade. Esta, assumindo
Inc. III Educandos com necessidades especiais são aqueles que possuem necessidades a diversidade e, portanto, a singularidade dos indivíduos, qualifica-se, coletivamente, para
pessoais específicas e, portanto, diferentes dos outros alunos no atinente às aprendizagens atuar no desenvolvimento educativo das pessoas portadoras de deficiência.
curriculares compatíveis com suas idades. Em razão desta particularidade, estes alunos As estatísticas sobre educação especial têm melhorado bastante no Brasil. Primeiro, já
precisam de recursos pedagógicos e metodológicos próprios. existem estatísticas! Segundo, há por parte do Ministério da Educação uma preocupação nítida
quanto à formulação de um planejamento adequado para o setor, a partir de políticas claras e
O alunado da Educação Especial pode ser classificado, assim, genericamente falando: descentralizadas. Os Quadros que seguem oferecem alguma visibilidade sobre a condição da
• Portadores de Deficiência (Mental, Física, Auditiva, Visual, Múltipla); educação especial no Brasil:
• Portadores de Condutas Típicas (comportamentos típicos de portadores de síndromes e
quadros psicológicos, neurológicos ou psiquiátricos com repercussão sobre o
desenvolvimento e comprometimento no relacionamento social); Matrículas da Educação Especial
• Crianças de Alto Risco (aquelas que têm o desenvolvimento fragilizado em decorrência
de fatores como: gestação inadequada, alimentação imprópria, nascimento prematuro e Em escolas públicas 239.234 53,3%
privação sociocultural); Em escolas privadas 209.367 46,7%
• Portadores de Altas Habilidades (também chamadas de superdotadas) são aquelas Educação Infantil 92.452 20,6%
crianças que exibem elevada potencialidade em aspectos como: capacidade intelectual Ensino Fundamental 296.361 66,0%
geral; aptidão acadêmica específica; capacidade criativa e produtiva; alta perfomance Ensino Médio 3.981 0,9%
em liderança; elevada capacidade psicomotora; talento especial para as artes. Educação Profissional 33.926 7,6%
Em escolas especializadas e em classes especiais 337.897 75,3%
Em classes comuns de escolas 110.704 24,7%
População deficiente na faixa 4.533.364

Fonte: IBGE.
Página 50 Página 51
Total de estabelecimentos da Educação Básica 179.935 1 00% EVOLUÇÃO DA POLÍTICA DE ATENDIMENTO DA EDUCAÇÃO ESPECIAL
Total de estabelecimentos que registraram matrículas da 24.789 1 3,8%
Educação Especial
Funções Docentes no Ensino Fundamental 1.581.044 1 00%
Funções Docentes na Educação Especial 44.490 2,8%
Total de Municípios - BRASIL 5.561 1 00%,
Total de Municípios que registraram matrículas da 3.612 64,9%
Educação Especial
Fonte: INEP/MEC, 2003.

Matrícula da Educação Especial por Modalidade de Atendimento


1998 1999 2000 2001 2002 Crescim
ento
2002/19 Fonte: INEP/MEC, 2003.
n.° % n.° /o n.° % n.° % n.° % %
Classe Crescim
comum 43.9 13 63.3 16, 81.6 21, 81.34 20, 110.7 24,7 15,1 Inc. IV As creches e pré-escolas são estruturas de organização da 1a etapa da educação básica,
com e sem 23 89 9 95 4 4 1 04
sala de como se vê no Art. 29 desta Lei. Historicamente, o Poder Público tem sido arredio no sentido
recursos
Escola de assumir a chamada educação infantil. Para ela, se destinam todas as crianças de zero a seis
Especializ 293. 87 310. 83, 300. 78, 323.4 79, 337.8 75,3 15,2
ada e 403 740 1 520 6 03 9 97 anos. A alegação era sempre a mesma: não se trata de nível de educação constituinte de
Ciasse
TOTAL 337. 10 374. 10 382. 10 404.7 10 448.6 100 33,0 responsabilidade obrigatória do Estado. Este encargo vem sendo assumido por Estados e
Fonte: INEP/MEC, 2003. Municípios crescentemente. A população brasileira de zero a seis anos é da ordem de 25.6
milhões, segundo dados do IBGE/SIDRA/2003. Deste, apenas 6.397.601 vêm sendo atendidos
por serviços de educação infantil, dentro da seguinte distribuição por nível administrativo:
Evolução da Matrícula de Alunos da Educação Especial por Tipo de Necessidade Matrículas na Educação Infantil
Especial
Região 1997 2001 2002 2003
Tipo de 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 96/02 Norte 344.140 420.929 437.242 449.609
Necessid Alunos Alunos Alunos Alunos Alunos Alunos Alunos Distr. %de Nordeste 1.511.164 1.759.804 1.786.813 1.833.920
ade % Evolução
Especial Centro-Oeste 248.250 333.019 345.685 360.455
Total Brasil Sudeste 1.986.739 2.600.454 2.744.705 2.897.550
201.142 334.507 337.326 374.129 382.215 404.747 448.601 100 123
Sul 549.927 797.944 810.324 937.999
Deficiência 8.081 13.875 15.473 18.629 18.926 17.100 20.257 4,5 150,7
Visual Brasil 4.640.220 5.912.150 6.124.769 6.397.601
Deficiência 30.578 43.241 42.584 47.810 48.790 49.678 52.422 11,7 71,4
Auditiva Fonte: MEC/INEP, 2003.
Deficiência 7.921 13.135 16.463 17.333 18.160 19.157 21.352 4,8 169,6
Física
Deficiência 121.021 189.370 181.377 197.996 200.145 212.996 231.021 51,5 90,9 Sob o ponto de vista do Governo Federal, cabe-lhe definir as diretrizes pedagógicas para a
Mental
Deficiência
educação pré-escolar em âmbito nacional. Estas diretrizes são complementadas por Estados e
23.522 47.481 42.582 46.745 46.418 51.174 56.166 12,5 138,8
Múltipla Municípios, responsáveis por suas próprias propostas pedagógicas. Os objetivos da educação
Prob. De 9.529 25.681 8.994 9.223 11.522 11.664 13.70 3,0 43,5 pré-escolar, propostos na política nacional, são: I) proporcionar condições adequadas de
Conduta
Superdotaç
desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social da criança; II) promover a aplicação de
490 1.724 1.187 1.228 758 984 1.110 0,2 126,5
ão suas experiências e conhecimentos, estimulando seu interesse pelo processo de transformação
Outras - - 28.666 35.165 37.496 41.994 52.603 11,7 83,5 da
Fonte: INEP/MEC, 2003.
Página 52 Página 53
natureza e pela dinâmica da vida social; III) contribuir para que sua interação e convivência na maiores e outro para a noite, sob condições de funcionamento bem mais precárias. Este fato,
sociedade sejam marcadas pelos valores de solidariedade, liberdade, cooperação e respeito. aliás, reflete a visão elitista de uma educação que primeiro prepara os que não trabalham e,
Segundo documento do MEC, as diretrizes de política para educação infantil e o currículo depois, os outros! São dois clientes: o estudante que, mais tarde, será trabalhador, e o
levam em conta o grau de desenvolvimento da criança e a diversidade social e cultural da trabalhador, eventual estudante. Esta visão vai de encontro às exigências da sociedade do
população-alvo. conhecimento que tem, no trabalho, uma forma também relevante de aprendizagem.
O atendimento gratuito em creches e pré-escolas fica grandemente comprometido pela Embora os alunos da noite sejam, na sua maioria, adultos, a formulação dos conteúdos e as
inexistência de recursos vinculados a este nível de educação, o que contribui para a indefinição metodologias de ensino são indiferenciadas para o dia e para a noite e os professores, também,
de responsabilidade. Este fato põe a educação brasileira na contramão da tendência mundial não são qualificados para um trabalho docente "adequado às condições do educando". Este fato
que é, precisamente, a de uma responsabilidade crescente do Estado pela educação infantil. Os é gravíssimo e responde, certamente, pelo desestímulo, pela deserção de alunos e pelo baixo
rendimento da aprendizagem das classes noturnas. Sobretudo, em nível de ensino médio, cuja
países da Europa Ocidental, por exemplo, cuidam, com especial cuidado, desta questão. Nos
matrícula mais expressiva ocorre à noite e no qual se constata uma nítida deteriorização dos
Estados Unidos há pesquisas recentes indicativas da alta repercussão da educação infantil sobre indicadores de eficiência (repetência, evasão e promoção). Aqui, embora se verifique, nos
o restante da educação escolar e da formação integral do estudante. Muitos estados americanos últimos anos, uma evolução do número de diplomados, o que se deu, na verdade, foi uma
incorporaram, nos últimos anos, esta responsabilidade nos seus estatutos de encargos públicos. evolução positiva de matrículas, mais do que a melhoria de eficiência do sistema.
A não previsão de recursos específicos para o atendimento desta oferta de educação se torna
grave em sociedades como a brasileira, marcada por enormes desigualdades sociais. Segundo o Os números que seguem apontam nesta direção:
Relatório sobre Desenvolvimento Humano no Brasil/1996, documento de responsabilidade
Proporção de Alunos que Abandonaram os Estudos
das Nações Unidas, apenas 5% das crianças de zero a três anos frequentam creche. Este
percentual cai para 3% quando se trata de crianças originárias de famílias pobres. Por outro
lado, e ainda de acordo com este mesmo documento, apenas a metade das crianças de cinco a
seis anos frequentavam escola em 2002. Como se pode concluir, é imenso o débito do estado
brasileiro em relação à criança, sobretudo nos seus primeiros anos de vida. Ou seja,
continuamos a ter uma visão equivocada ao confundir ensino com educação. O Art. 11 da
LDB que trata do nível de responsabilidade dos municípios consagra, definitivamente, esta
confusão ao dizer que o Município incumbir-se-á, entre outras, da tarefa de "oferecer educação
infantil em creches e pré-escolas, e com prioridade o ensino fundamental (grifo nosso)..." A
EC 14/96 corrigiu.
Inc. V No âmbito do direito à educação, o acesso aos níveis mais elevados de ensino seria uma
coisa natural, não fosse a restrição que a própria lei cria ao delimitar esta possibilidade "à Fonte: Sinopse da Educação Básica MEC INER 2004.
capacidade de cada um". Ora, a capacidade não é algo estanque, senão potencialidade cm
processo e para cujo desenvolvimento requer estimulação, ambiência externa, entorno Proporção de Alunos Reprovados
estimulador de criatividade. Por esse ângulo, crianças pobres, submetidas a circunstâncias de
absoluta privação cultural, estão impossibilitadas de realizar este trânsito pêlos diferentes
níveis de ensino. Em um país em que a estrutura económica é um impiedoso filtro seletivo
para o acesso à educação em suas diferentes fases, esta prescrição restritiva (acesso segundo
capacidade de cada um) conflita com o princípio constitucional de que todos são iguais perante
à lei.
Inc. VI A oferta de ensino regular noturno constitui um dos grandes desafios da educação
brasileira. De fato, o que ocorre é que as escolas brasileiras apresentam dois níveis distintos de
condição de funcionamento: um para o dia com facilidades

Fonte: Sinopse da Educação Básica MEC INER 2004.


Página 54 Página 55
formação na área de psicopedagogia do adulto. De fato, a escola pública brasileira está mal
preparada para oferecer atendimento educacional dentro de um quadro de observância as
Índice de Reprovação e Abandono
diferenças individuais, da criança e do adolescente, e totalmente despreparada para fazer o
mesmo em relação ao adulto. Neste sentido, o direito à educação efetiva é uma utopia ainda
Em 2002, 8,7 milhões de estudantes foram reprovados distante. As diretrizes Curriculares Nacionais da Educação de Jovens e Adultos destacam a
ou abandonaram a escola (19,8% do total de
matriculados nos ensinos fundamental e médio) função reparadora da EJA e, ainda, a sua função de suprimento. Ou seja, além de a EJA
representar o passaporte de entrada no circuito dos direitos civis pela restauração de um direito
negado no tempo próprio, representa, igualmente, a oportunidade de o cidadão aportar à
educação escolar para se ressituar no contexto do progresso humano, o que supõe compreender
que "a alfabetização concebida como um conhecimento básico, necessário a todos, num mundo
em transformação, é um direito humano fundamental. Em toda sociedade, a alfabetização é
uma habilidade primordial em si mesma e um dos pilares para o desenvolvimento de outras
habilidades, além de ser um requisito básico para a educação continuada durante a vida"
(Declaração de Hamburgo, 1997). Convém acrescentar que o Brasil é signatário desta
Declaração.
Fonte: Sinopse da Educação Básica MEC INEP, 2004.
Inc. VIII Há fato rés que atuam fora do palco da sala de aula e que repercutem diretamente
sobre as condições de aprendizagem do aluno. Estes fatores têm sua etiologia em um modelo
É forçoso reconhecer que, há muito tempo, o ensino noturno travou. Ou seja, ampliam-se as de desenvolvimento sócio-econômico que favorece, historicamente, a concentração de renda e,
matrículas e multiplicam-se os problemas. Se considerarmos que, no ensino médio, mais de em consequência, nutre, multiplicadamente, bolsões de pobreza.
60% das matrículas concentram-se no horário noturno, a questão assume dimensões Em decorrência destes fatores exógenos à escola, o dever de educar e o direito à educação
dramáticas. Com um aluno de perfil inteiramente diferente do aluno que estuda pela manhã ou implicam, no âmbito do ensino fundamental de responsabilidade pública, na oferta de
à tarde, o ensino noturno tem ainda o agravante do tamanho das turmas. Aqui urge mudar programas de apoio escolar, tais como: material didático, alimentação, transporte e programas
inteiramente as atuais condições de funcionamento das escolas e da organização da sala de de saúde. Neste caso, o Poder Público pode só parcialmente incluir estes gastos nos 25%
aula. É imperativo atuar sobre fatores como: constitucionais destinados à manutenção e desenvolvimento do ensino, respeitando o que a Lei
1. Formação inicial e continuada específica do professor; define como tal. O que ultrapassar o conceito legal deverá ter custos cobertos com recursos
outros do orçamento, nos termos do Art. 212, § 4a da Constituição Federal.
2. Mudanças metodológicas profundas na forma de trabalhar o currículo;
Inc. IX A questão dos padrões mínimos de qualidade de ensino deve ser interpretada como a
3. Apoio irrestrito às bibliotecas e ao uso de materiais audiovisuais em geral; existência das precondições para que a escola possa desempenhar, plenamente, a função de
4. Valorização do repertório de conhecimentos do aluno; ensinar. Tais precondições dizem respeito aos aspectos da organização escolar e pedagógica.
Ou seja, envolve o núcleo de gestão e o núcleo pedagógico. Os insumos são de base material
5. Compreensão flexível diferenciada e construtiva do processo de avaliação. (estrutura física e acervo de equipamentos), de base gerencial (tipo de gestão e modalidades de
Estes são os balizamentos para a oferta de um ensino noturno adequado às condições do flexibilização do planejamento), de base instrumental (material instrucional e metodologias),
aluno. de base mutacional (qualidade dos recursos humanos e cultura da inovação) e de base
Inc. VII A oferta de educação regular para jovens e adultos pelo texto legal deverá ser finalística (missão da escola, perspectiva dos cursos, função das disciplinas e cultura de
realizada mediante uma pluralidade de formas apropriadas a este tipo de aluno, não apenas no avaliação). Todos estes indicadores de qualidade mínima deverão estar referidos
sentido de suas características biopsíquicas, mas também no sentido das necessidades objetivas
do trabalhador. Deve-se, portanto, oferecer uma educação acessível ao seu perfil em duplo
sentido: no sentido de chegar à escola e no sentido de permanecer na escola. Para a colimação
deste duplo objetivo, há necessidade de escolas bem equipadas e de professores
adequadamente preparados, sobretudo com sólida
Página 56 Página 57
ao tamanho da escola, à sua matrícula, aos turnos de funcionamento e às condições de § 5º Para garantir o cumprimento da obrigatoriedade do ensino, o Poder Público criará
otimização de uso dos espaços e do tempo escolares. formas alternativas de acesso aos diferentes níveis de ensino, independentemente da
escolarização anterior.
Evidentemente que, além destas precondições, há de se prever recurso financeiro mínimo
para as necessidades de manutenção da escola. O Ministério da Educação vem repassando
recursos diretamente às escolas, para atender a este tipo de necessidade. Os recursos, no A Constituição Federal assegura que o ensino fundamental é obrigatório e gratuito. Importa
entanto, têm levado em conta só a matrícula escolar e não as condições gerais das escolas, dizer que a criança e os que a ele não tiveram acesso na idade própria têm direito líquido e
muitas vezes, totalmente precarizadas pelo próprio uso ao longo do período que antecedeu a certo à vaga. Tal direito c público subjetivo, ou seja, é direito irrenunciável de cada um,
nova política de repasse adotada pelo MEC, a partir de 1994. De qualquer sorte, a diretriz do configurando o não cumprimento, portanto, razão para o mandado de injunção (Art. 208, Inc.
MEC representa uma revolução nos mecanismos de repasse de recursos. A medida fortalece a VII, § l- e 2-)4 (nota: A concessão do mandado de injunção está prevista no Art. 5a, Inc. LXXI, da Constituição
escola como unidade de gestão pedagógica, estimula a organização política da comunidade Federal.). Caso o demandante de vaga não a encontre na rede pública, poderá impetrar recurso
escolar ao lhe entregar recursos públicos para cujo uso exige-se prestação de contas e, ainda, junto ao Poder Judiciário contra a autoridade responsável (Governador/Secretário Estadual de
desvencilha a escola da teia das relações políticas baseadas no fisiologismo e no compadrio. Educação ou Prefeito/Secretário Municipal de Educação). Estas autoridades poderão, ainda,
ser responsabilizadas criminalmente, caso sejam consideradas omissas no atendimento deste
serviço público.
Art. 5- O acesso ao ensino fundamental é direito público subjetivo, podendo qualquer cidadão,
grupo de cidadãos, associação comunitária, organização sindical, entidade de classe ou outra Inc. I e II Para que Estados e Municípios procedam à luz de um planejamento que evite a falta
legalmente constituída, e, ainda, o Ministério Público, acionar o Poder Público para exigi-lo. de vagas, a lei determina a realização de censo e, outrossim, a chamada pública para matrícula.
Por outro lado, a oferta de educação deve ser feita a começar da matrícula para o ensino
§ 1º Compete aos Estados e aos Municípios, em regime de colaboração, e com a
assistência da União: obrigatório (ensino fundamental), podendo-se elevar tal oferta a níveis ulteriores somente
depois de atendida a exigência de oferecimento do ensino fundamental.
I. Recensear a população em idade escolar para o ensino fundamental, e os jovens e
adultos que a ele não tiveram acesso; Inc. III O núcleo familiar, constituído dos pais ou responsáveis, deve cuidar, também, da
frequência escolar dos filhos. Na verdade, o compareci mento da criança à escola é algo que
II. Fazer-lhes a chamada pública; deve ser acompanhado pela sociedade. A infância e a juventude são os maiores patrimônios de
III. Zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela frequência à escola. uma coletividade.
§ 2º Em todas as esferas administrativas, o Poder Público assegurará em primeiro lugar o A pobreza crônica de milhões de famílias, segundo o Relatório sobre Desenvolvimento
acesso ao ensino obrigatório, nos termos deste artigo, contemplando em seguida os demais Humano no Brasil —2003 (PNUD), uma vez que o Brasil tem 30 milhões de pessoas
níveis e modalidades de ensino, conforme as prioridades constitucionais e legais. consideradas em estado de pobreza absoluta, contribui para desresponsabilizar os pais quanto à
educação dos filhos. Daí, a importância da ação do Ministério Público que, como fiscal da
§ 3° Qualquer das partes mencionadas no caput deste artigo tem legitimidade para
sociedade, deve cuidar para que as crianças brasileiras tenham o direito fundamental de
peticionar no Poder Judiciário, na hipótese do § 2Q do art. 208 da Constituição Federal,
frequentar a escola. O Estatuto da Criança e do Adolescente remete para esta responsabilidade.
sendo gratuita e de rito sumário a ação judicial correspondente.
§ 4° Comprovada a negligência da autoridade competente para garantir o oferecimento do Os §§ 2°, 3°, 4° e 5° alcançam a dimensão de responsabilidade pública do poder estatal,
ensino obrigatório, poderá ela ser imputada por crime de responsabilidade. alicerçada no princípio da igualdade e da justiça social. De fato, há de se criarem mecanismos
de concretização deste princípio, o que supõe definição de iniciativas e meios coercitivos. A
ideia, contida no § 2°, de caber, ao Poder Público,
Página 58 Página 60
a priorização do acesso ao ensino obrigatório e, somente depois, aos demais níveis de ensino, c Convém, por fim, anotar que, se, de um lado, o grande número de crianças fora da escola c
fundamental na perspectiva do entendimento de educação básica e de educação pública. Por devido à necessidade de trabalho infantil para complemento da renda familiar, de outro lado,
outro lado, muitos estados e municípios brasileiros, embora não tenham sido capazes de há casos de desídia dos pais que ou não matriculam seus filhos ou não se preocupam em saber
resolver a dramática situação de malhas imensas da população, condenadas ao analfabetismo, se, uma vez matriculados, estão ou não frequentando a escola. No Brasil, o Poder Público tem
investem recursos significativos em ensino superior. sido omisso no exigir dos pais maior responsabilidade neste sentido. O próprio Ministério
Público tem condições de ser efetivo para o cumprimento desta norma. Infelizmente, a socie-
O § 3° aponta para o recurso judicial contra o crime de responsabilidade da autoridade que
dade brasileira não se convenceu de que, no rumo da civilização planetária, a educação é o
se revelar omissa no cumprimento da oferta de ensino obrigatório. A ação dispensa pagamento
oxigênio da vida das pessoas.
e a autoridade judicial deve responder imediatamente.
O § 4º reforça a ideia de crime de responsabilidade a ser atribuído àquela autoridade
pública que deixou de oferecer ensino fundamental ao aluno. Infelizmente, os altos índices de Art. 7- O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições:
analfabetismo e as longas filas de pais de alunos - que a televisão mostra todos os anos no I. cumprimento das normas gerais da educação nacional e do respectivo sistema de ensino;
início do período letivo - são indicações de que este dispositivo legal necessita ser posto em
prática. Neste sentido, a sociedade precisa se organizar mais. II. autorização de funcionamento e avaliação de qualidade pelo Poder Público;

Por fim, o legislador, prevendo as dificuldades de todos os alunos serem absorvidos pela III. capacidade de autofinanciamento, ressalvado o previsto no Art. 213 da Constituição
rede regular de ensino, sinaliza para a criação de "formas alternativas de acesso" à escola. Esta Federal.
abertura representa um abrandamento de mau gosto que arranha a cláusula pétrea de nossa
Constituição, segundo a qual "todos são iguais perante a lei". De fato, não pode haver Trata-se de mera transcrição do Art. 209 da Constituição Federal, acrescida da capacidade
concessão nem facilidade para se resolver a questão do cumprimento da obrigatoriedade de de autofinanciamento. Isto significa dizer que escolas privadas devem gerar receita própria
acesso ao ensino fundamental. capaz de assegurar sua própria manutenção. A ressalva referida ao Art. 213 da Constituição
Federal concerne ao caso das instituições de ensino de natureza comunitária, filantrópica ou
Art. 6º É dever dos pais ou responsáveis efetuar a matrícula dos menores, a partir dos sete anos confessional, desde que constituídas nos termos da legislação que disciplina o funcionamento
de idade, no ensino fundamental. deste tipo de instituição.
Por outro lado, os recursos públicos, diz o mesmo dispositivo constitucional, podem ser
destinados a bolsas de estudos para o ensino fundamental e médio, sob duas condições: i)
O Art. 2- da LDB diz que a educação é dever da família e do Estado. Desdobramento deste quando houver falta de vagas e cursos regulares da rede pública na localidade de residência do
dever familiar é a obrigatoriedade de os pais ou os responsáveis pela criança fazerem a estudante; ii) quando este não tiver condições econômicas de custear seus estudos.
matrícula na época que corresponde ao imperativo de frequência à escola fundamental. Como
a educação infantil cobre a faixa etária de O a seis anos, a matrícula compulsória no ensino Inc. I e II As escolas privadas estão obrigadas a cumprir as leis da educação nacional, como,
fundamental começa aos sete anos. também, as leis criadas pêlos órgãos normativos dos Sistemas Estaduais de Educação
(Conselhos Estaduais) a que elas se vinculam. Para seu funcionamento, é imperativo que sejam
Esta exigência é essencial para se assegurar o cumprimento de universalização do ensino
autorizadas pelo Conselho de Educação do respectivo Estado. Uma vez em atividade, elas
fundamental. Por outro lado, através deste Art. 6°, está-se criando um importante mecanismo
estão sujeitas a processos de avaliação permanente pelo Poder Público. Esta exigência tem sido
para atalhar, na origem, o problema da criança fora da escola e, portanto, do analfabetismo.
totalmente esquecida. Aqui e ali, os Inspetores de Ensino fazem visitas rápidas às Escolas,
Nesta mesma direção deve ser entendida a exigência do censo escolar anual e da chamada
transformando este mandamento
pública, tema sobre o qual já falamos ao tecer considerações sobre o Art. 5- da LDB.
Página 60 Página 61
público em mera formalidade de caráter burocrático. As Inspetorias de Ensino são, via-de- da política nacional c a do exercício de responsabilidade normativa, redistributiva e supletiva
regra, órgãos constituídos por quadros profissionais deteriorados pêlos sistemas com reduzido em relação às demais instâncias educacionais. Diante da presença acachapantemente
apoio logístico para o cumprimento adequado de suas incumbências, e, como se não bastasse, centralizadora da União, a função de articular os diferentes níveis e sistemas torna-se
quase nunca atualizados sob o ponto de vista das transformações sociais, das mudanças secundária porque diz respeito a uma relação de funcionamento e não à concepção do
organizacionais e dos avanços da pedagogia, além de exercerem suas funções em um aparelho funcionamento. Desta forma, o grau de liberdade para a concepção da organização dos
burocrático inteiramente empobrecido. De fato, a avaliação de qualidade pelo poder público sistemas de ensino nos termos desta Lei fica restrito, praticamente, à sua organização
das instituições privadas de ensino é procedimento exercido pelo Estado de forma tímida, para burocrática, sem qualquer possibilidade do exercício da autonomia plena no tocante à
não dizer pouco producente. concepção, gestão, configuração e avaliação do respectivo sistema.
As Universidades tem desprezado a formação do Inspetor de Ensino. O fato é que a Em nítido conflito com a tradição dos textos normativos anteriores (Leis 4.024/61, 5.540/68
legislação o inclui entre os "profissionais de educação" (Art. 64), e, portanto, há necessidade de (disciplina o funcionamento das Instituições de Ensino Superior) e 5.692/71), este dispositivo
se atentar para sua formação inicial e para sua capacitação contínua. O trabalho do Inspetor c reduz o modelo federativo descentralizado a um modelo federativo compacto, pelo mecanismo
avaliar o desempenho da instituição/escola como um todo. A partir daí, configura de dependência que cria entre os sistemas de ensino de Estados, Distrito Federal e Municípios.
possibilidades e detecta necessidades sempre à luz do desenvolvimento curricular. Ele vai Estabelece-se, desta forma, um mecanismo de ordenamentos jurídicos hierarquicamente
disponibilizar, ao órgão gerenciador do sistema, as informações para a tomada de decisões subalternos na área de educação, com inegáveis desvantagens para o exercício de um planeja-
respaldadas na realidade escolar e no contexto sócio-cultural das diferentes regiões de ensino e mento educacional descentralizado. As disposições legais deste Artigo esmaecem à ideia de
do Estado enquanto realidade político-administrativa. O conhecimento da legislação, neste administração compartilhada e de gestão democrática do sistema de ensino. Parece aprofundar-
caso, é importante não para o exercício de ações burocráticas, — esta seria uma visão se, aqui, a não-dialogicidade nas relações inter e intrapoderes federal, estadual e municipal na
reducionista c dcscaracterizadora de sua função — mas no sentido de compatibilizar, área de educação.
pedagogicamente, funcionamento, fins e objetivos do sistema escolar. Para esta tarefa, é Para amenizar esta visão, o texto legal (Arts. 8º, 9°, 10 e 11) enfatiza a ideia do
necessário que possua sólida formação e atualizada capacitação. estabelecimento do regime de colaboração e de integração dos sistemas, o que e, indiscu-
tivelmente, importante para dar dinamismo e sinergia à organização da educação nacional. O
grande problema reside em se dar institucionalidade a este regime de colaboração. A história
TITULO IV
da educação brasileira é cada um por si e os demais contra! Este comportamento teria origem
DA ORGANIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NACIONAL
na nossa cultura individualista?!

Art. 8º A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão, em regime de


colaboração, os respectivos sistemas de ensino. Art. 9º A União incumbir-se-á de:
§ 1º Caberá à União a coordenação da política nacional de educação, articulando os I. Elaborar o Plano Nacional de Educação, em colaboração com os Estados, o Distrito
diferentes níveis e sistemas e exercendo função normativa, re-distributiva e supletiva em Federal e os Municípios;
relação às demais instâncias educacionais. II. Organizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais do sistema federal de
§ 2° Os sistemas de ensino terão liberdade de organização nos termos desta lei. ensino e dos Territórios;
III. Prestar assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos
Municípios para o desenvolvimento de seus sistemas de ensino e o atendimento
Este Artigo e um tanto ou quanto contraditório. Estabelece o regime de colaboração, mas prioritário à escolaridade obrigatória, exercendo sua função redistributiva e supletiva;
atribui, ao Poder Federal, através da instância própria, o Ministério da Educação, uma função
não apenas hegemônica, mas excludente, qual seja a da coordenação IV. Estabelecer, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios,
competências e diretrizes para a educação infantil, o ensino
Página 62 Página 63
fundamental e o ensino médio, que nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos, de das ciências do comportamento), prescritiva (identificar os fins que a educação busca e os
modo a assegurar formação básica comum; meios para chegar a eles) e, por fim, analítica (buscar esclarecer os enunciados especulativos e
V. coletar, analisar e disseminar informações sobre a educação; prescritivos, sobretudo, mediante o entendimento da lógica dos conceitos educacionais e de
sua conformidade/desconformidade).
VI. Assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino
fundamental, médio e superior, em colaboração com os sistemas de ensino, objetivando A par do que foi dito, acrescente-se que cada gestão federal prepara seu próprio "menu" de
a definição de prioridades a melhoria da qualidade do ensino; programas educativos. O resultado é que o País vive de modismos pedagógicos, com a exata
duração do governo de plantão.
VII. Baixar normas gerais sobre cursos de graduação e pós-graduação;
A discussão do Plano Nacional de Educação/PNE foi lenta e polêmica. Depois de dois
VIII. Assegurar processo nacional de avaliação das instituições de educação superior, com Projetos de Lei, prevaleceu o novo texto apresentado sob a forma de substitutivo, e, afinal,
a cooperação dos sistemas que tiverem responsabilidade sobre este nível de ensino; aprovado no início do ano de 2001, ou seja, quatro anos depois da primeira versão de iniciativa
IX. Autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar, respectivamente, os cursos do Poder Executivo.
das instituições de educação superior e os estabelecimentos do seu sistema de ensino; Com um alcance de dez anos, o PNE oferece à educação nacional um conjunto de diretrizes
§ 1º Na estrutura educacional, haverá um Conselho Nacional de Educação, com funções e metas balizadoras das políticas educacionais do país. Ou seja, não é um roteiro, e, sim, um
normativas e de supervisão e atividade permanente, criado por lei. instrumento para nortear toda a sociedade brasileira na condução de ações educativas
§ 2º Para o cumprimento do disposto nos incisos V a IX, a União terá acesso a todos os prioritárias. Para esta perspectiva fazer-se real é necessário o compartilhamento e a integração
dados e informações necessários de todos os estabelecimentos e órgãos educacionais. entre todas as esferas e agentes do processo educativo, incluindo a união, os estados e
municípios, as escolas e seus gestores, os professores, os alunos e suas famílias.
§ 3° As atribuições constantes do inciso IX poderão ser delegadas aos Estados e ao Distrito
Federal, desde que mantenham instituições de educação superior. O PNE aprovado está sustentado em três eixos: i) a educação como direito inalienável do
cidadão; ii) a educação como alavanca do desenvolvimento socioeconômico e cultural; iii) a
educação como instrumento imprescindível de enfrentamento da pobreza. Com um horizonte
Os próximos cinco Artigos (9°, 10,11, 12 e 13) são de natureza atributiva, ou seja, tratam de dez anos, o PNE destina-se a produzir: i) a ampliação universal da escolaridade da
da atribuição de responsabilidades dos níveis federal, estadual, municipal, institucional população; ii) a elevação dos padrões de qualidade da escola e do ensino nos diferentes níveis;
(entenda-se: da escola) e docente. Portanto, a leitura compreensiva de cada artigo supõe uma iii) o alargamento das chances de acesso e permanência do aluno na escola pública, como
visão de conjunto dos demais, a fim de se preservar o eixo compreensivo de distribuição das mecanismo de encurtamento das desigualdades sociais, regionais e inter-regionais; iv) o
esferas das respectivas incumbências. fortalecimento dos mecanismos de autonomia escolar e de democratização da gestão do ensino
Inc. I A ideia de um Plano Nacional de Educação tem sido um desejo sempre in-concluso da público.
sociedade brasileira. A ausência de uma política nacional de educação, sustentada por uma
Os macroobjetivos do PNE estão vinculados a metas em todos os níveis e modalidades de
filosofia educacional consistente, é responsável por este vazio. Para ser consistente, a filosofia
ensino. Estas metas, por seu turno, estão articuladas com diretrizes no âmbito da gestão e do
educacional deverá conter uma dimensão especulativa (buscar teorias da natureza do homem,
financiamento da educação e, ainda, no âmbito da formação e valorização do magistério e dos
da sociedade e do mundo e, mediante estas teorias, ordenar e interpretar os dados conflitantes
demais profissionais da educação. Como se trata de metas endereçadas ao conjunto do País,
da pesquisa educacional e
caberá a cada estado e a cada município, no atendimento às particularidades locais, produzir as
adequações necessárias.
Página 64 Página 65
UNIÃO (Artigo 9º) ESTADO (Artigo 10) MUNICÍPIO (Artigo 11)
Sumariamente, o PNE dá centralidade aos seguintes compromissos: a) Na educação
infantil: ultrapassar a discriminação assistência/educação, unificando-se a educação da criança Tipo de Função Referência Legal/ Tipo de Função Referência Legal/ Tipo de unção Referência Legal/
de zero a seis anos em uma instituição educativa única, sob os cuidados de profissionais Observações Observações Observações
qualificados; b) No ensino fundamental: universalizar, em cinco anos, o atendimento escolar e 1 - Conceitual Inc. l ("Elabora o 1 - Colaborativa Inc. I e III 1 - Colaborativa Inc. I e § Único
Plano...)
disponibilizar, progressivamente, a escola de tempo integral; c) No ensino médio: oferecer, no Inc. IV ("Estabelecer
prazo de cinco anos, vagas que correspondam a 50% da demanda de ensino médio, e, no prazo ... competências e 2 - Político-Diretiva Inc. III 2 - Gerencial Inc. I, V e § Único
diretrizes... e seus
de dez anos, a 100% desta mesma demanda, em decorrência da universalização e regularização conteúdos mínimos,
do fluxo de alunos do ensino fundamental; d) Na educação superior: adotar medidas de de modo a assegurar
a formação 3 - Gerencial Inc. I 3 - Redistributiva Inc. II
ampliação de cobertura de demanda e de atendimento aos alunos mais carentes, como forma de básica comum")
4 - Técnica Inc. III, IV e V
se atalhar o nefasto processo de exclusão de talentos. Para tanto, é necessário avançar no 4 - Certificativa Inc. IV
atendimento da prática da autonomia universitária, ampliar o reconhecimento público da
universalidade, objetivado através de maiores investimentos financeiros destinados às áreas de 2 - Político-Diretiva Inc. l e IV 5 - Redistributiva Inc. II 5 - Normativa Inc. III
ensino, pesquisa e tecnologia, infra-estrutura física e recursos humanos; e) Na educação de
jovens e adultos: erradicar o analfabetismo, qualificar, profissionalmente, jovens e adultos e
criar oportunidades de programas educacionais dentro de uma linha de educação permanente; 3 - Gerencial Inc. l e II

f) Na educação profissional: multiplicar as oportunidades de programas de formação inicial e 4 - Técnica Inc. III e IV 6 - Avaliativa Inc. IV 6 - Eletiva Inc. V
continuada para trabalhadores, alicerçadas em ofertas de níveis diferenciados de cursos.
5-Redistributiva Inc. III 7 - Certificativa Inc. IV
Dentro de uma visão global, o Plano Nacional de Educação contém duzentas e noventa c
cinco metas referenciadas às áreas seguintes: educação infantil, ensino fundamental, ensino 6 - Informativa Inc. V e VI
médio, educação superior, educação especial, educação de jovens e adultos, educação a
7-Avaliativa Inc. VI e IX 8 - Normativa Inc. V
distância c tecnologia educacional, educação profissional, educação indígena, magistério da
educação básica c financiamento e gestão da educação. 8 - Certificativa Inc. IX 9 - Eletiva Inc. VI

Depois de realizar estudos comparativos com outros países, a partir dos investimentos 9 - Normativa Inc. IV e VII
atuais do Governo Federal com educação (5% do PIB), o relator do Substitutivo que resultou
10-Delegativa Inc. IX§3º
no PNE aprovado concluiu que, para cumprir as metas previstas, os gastos com educação
deveriam ser ampliados em R$ 20 bilhões de reais/ano, o que levaria o Brasil a investir 7% do
seu PIB em educação.
Assentadas as bases de uma leitura vinculada dos artigos retrocitados, passemos a alguns
Da leitura dos Artigos 9º, 10 e 11, pode-se inferir um conjunto de atribuições sumarizadas comentários adicionais, considerando cada um de per-si.
no seguinte Quadro: Inc. I e II O Plano Nacional de Educação, de responsabilidade da União, deverá ser a bússola
de todo o sistema de educação do País. Daí ser tarefa da União que, além disto, deve organizar,
manter e desenvolver os órgãos e instituições federais de ensino. A viabilidade deste Plano
pressupõe fontes refeitas e vinculadas de recursos, uma vez que, embora ele garanta a
sequência das diretrizes políticas, somente recursos vinculadas garantirão as consequências
previstas. Esta função redistributiva da União motivou a aprovação da Emenda Constitucional
n°14/96 que cria o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e
Valorização do Magistério. Este assunto será tratado mais adiante.
Página 65 Página 67
Inc. III A função supletiva deve ser compreendida em mão dupla: de um lado, mediante ações c) O nível de autoconstituição - entenda-se a possibilidade de o ente administrativo
de cooperação técnica a Estados, Distrito Federal e Municípios e, de outro, mediante aporte (Estado/Município) se auto-organizar com seus Poderes próprios, na conformidade do
financeiro para, numa ação de intercomplementaridade, viabilizar o conceito de educação como que estabelecem suas respectivas Constituições e Leis Orgânicas.
direito de todos e dever do Estado. Em síntese, a conformação do Estado Federal, qualquer que seja o estágio democrático que
Com a crescente tendência de descentralização na área de gestão pública, o papel do viva, inclui, necessariamente, a união de unidades políticas autônomas (Estados e Municípios),
Ministério da Educação na área de assistência técnica às Unidades Federadas vai-se porém, o "modas operandi" do Estado se norteia pelo princípio de que o Governo Federal é um
fortalecendo. Os campos de Formação Inicial e Continuada, Educação a Distância, Fomento, governo de PODERES ENUMERADOS, enquanto as outras instâncias são governos de
Avaliação e Disseminação de Inovações, Desenhos Curriculares, Alternativas de Atendimento PODERES RESIDUAIS (SCHWARTZ, 1966, p. 49).
Escolar, Novas Tecnologias Educacionais e Desenvolvimento de Recursos Pedagógicos As particularidades essenciais da Federação brasileira remontam aos seus primórdios.
constituem algumas das avenidas cm que esta cooperação pode-se realizar com grande êxito. Assim, pode-se afirmar que a Constituição atual repete, mutatis-mutandis, a fórmula instituída
Quanto ao financiamento, o Ministério da Educação vem aportando recursos para a imple- pelo Decreto nº 01 a 15 de novembro de 1889, por força do qual procedeu-se a instituição da
mentação da Reforma da Educação Profissional e do Ensino Médio, além das novas Federação no Brasil. Ou seja, a Federação brasileira teve sua gênese cm um Estado Unitário
modalidades de aplicação dos recursos do salário-educação. Tudo isto constitui modalidades do que se fragmentou. Daí por que alguns constitucionalistas afirmam que a Constituição de 1988
exercício da função supletiva e redistributiva do Governo Federal a que este Inciso III alude. terminou por atribuir, ao poder Central, o quase monopólio do poder político, fazendo com que
Inc. IV Uma das questões mais importantes da LDB situa-se no nível da esfera de relações o Brasil se assemelhe mais a um Estado Unitário descentralizado do que a um Estado Federal
entre os vários níveis de governo. Na verdade, esta é uma questão jamais resolvida no conjunto propriamente dito. De qualquer sorte, o arquétipo federativo é o adotado no Brasil, até porque
da legislação educacional brasileira. A gênese do problema está no modelo federativo adotado são detectáveis todas as características que o tipificam.
pelo País, talvez, menos no aspecto da formulação jurídica do modelo e mais na Indiscutivelmente, tanto a União como Estados e Municípios recebem, da Lei Magna, uma
operacionalização do modelo. As características do Estado Federal são de três níveis: determinada porção de competências. Por conseguinte, é sobre este universo de autonomias
a) O nível de descentralização política - implica na divisão do poder governamental que, consentidas legalmente que se devem apurar as articulações possíveis. Embora se reconheça
como ensina LOEWENSTEIN (1986, p. 335), é a medula do federalismo. O alicerce que "é bastante complexa a repartição de competências na Constituição brasileira"
desta divisão de competências está assentado no princípio da predominância de (FERREIRA FILHO, 1989, p. 50), fato que termina por produzir uma certa deformação
interesses. As atividades de predominante interesse geral (interesse nacional) cabem ao causada pela absorção centralizada e autoritária dos poderes federais, há que se reconhecer,
poder central. E óbvio que, neste passo, enfrenta-se um problema prático, sobretudo igualmente, que é possível avançar-se bastante na operacionalização do nosso modelo
quando o "affaire" envolvido é transferência de recursos. A operacionalização da federativo.
repartição de competências poderá acentuar o poder de decisão da União Federal, Na área educacional, agregação e articulação de competências acham-se insculpidas em
poderá conduzir à descentralização, reduzindo os poderes federais e ampliando os diferentes dispositivos constitucionais. Assim, é competência comum (grifo nosso) da União,
poderes de Estados e Municípios ou poderá, ainda, buscar um nível de equilíbrio onde dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios proporcionar os meios de acesso à cultura, à
se dosem ordenamento central e ordenamentos parciais. educação (grifo nosso) e à ciência. A seguir, a Constituição reforça e reitera a ideia de
b) O nível de participação dos Estados-membros perante o poder central. Significa competência compartilhada, ao prescrever que essas mesmas instâncias do Poder Público são
dizer que a vontade das ordens jurídicas parciais produz ressonância na vontade da competentes para legislar concorrentemente sobre educação, cultura, ensino e desporto.
ordem jurídica central. Esta característica flutua à mercê do tamanho da agregação das
Inc. V e VI A inclusão de uma política de avaliação no conjunto das responsabilidades da
forças políticas que sustentam a governabilidade.
União, mas de forma compartilhada com Estados e Municípios, é importante como foco
indispensável para se assegurar o princípio constitucional da
Página 68 Página 69
"garantia de padrão de qualidade" do ensino (Art. 206. Inc. VII). Além disso, avaliar e a melhor modalidades de ensinei; vi) manter intercâmbio com os sistemas de ensino dos Estados, do
forma de assegurar transparência no uso de recursos públicos. O Inciso V, aliás, cria o chão da Distrito Federal e dos Municípios.
avaliação ao cometer, à União, a incumbência de "coletar, analisar e disseminar informações Constituído de 24 membros, o CNE se reúne, ordinariamente, a cada dois meses e suas
sobre a educação". Como anota DEMO (1997,31), até que enfim a LDB consagra o princípio
Câmaras, mensalmente, e, extraordinariamente, sempre que convocado pelo Ministro da
da avaliação como parte central da "organização da educação nacional" (Art. 8"). A propósito,
Educação.
as instituições de ensino superior alimentam um clima de desconforto no tocante à questão da
avaliação. Discutem e discutem o problema numa perspectiva enviesada: a quem cabe a O Conselho Nacional de Educação tem mudado significativamente o perfil de seus
titularidade da avaliação? Ora, se a questão escapar do chão sacrossanto da academia e membros através de uma representação consentânea com a diversidade do país.
aterrissar no terreno profano do contribuinte, ele não terá dúvida quanto à resposta. No fundo,
não há avaliação institucional unidirecional. Avalia-se a instituição internamente e a sociedade
avalia a instituição externamente. Deste conúbio, emerge "a garantia do padrão de qualidade" Art. 10 Os Estados incumbir-se-ão de:
(Art. 3-, Inc. IX). I. Organizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais dos seus sistemas de
Inc. VII O legislador fala em baixar normas gerais sobre os cursos de graduação e pós- ensino;
graduação, uma vez que as normas específicas ficam a critério de cada instituição de ensino II. Definir, com os Municípios, formas de colaboração na oferta do ensino fundamental, as
superior, desde que devidamente credenciada. Sobretudo em se tratando de Universidades que, quais devem assegurar a distribuição proporcional das responsabilidades, de acordo com
nos termos do Art. 207 da Constituição Federal e do Art. 53 da LDB, gozam de autonomia. a população a ser atendida e os recursos financeiros disponíveis em cada uma dessas
Inc. VIII A avaliação das instituições de Educação Superior constitui fato positivo, dadas as esferas do Poder Público;
responsabilidades sociais e públicas destas instituições. Esta tarefa, o Ministério da Educação III. Elaborar e executar políticas e planos educacionais, em consonância com as diretrizes
realiza de dupla forma: no caso dos cursos de graduação, há uma Secretaria específica e planos nacionais de educação, integrando e coordenando as suas ações e as dos seus
(Secretaria de Educação Superior/SESU), acompanhando o funcionamento. Além disto, o Municípios;
Conselho Nacional de Educação, como órgão de assessoria do MEC, também tem papel
relevante nesta área, quando consultado. No caso dos programas de Mestrado e Doutorado, a IV. Autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar, respectivamente, os cursos
CAPES tem a responsabilidade da avaliação, sob critérios e metodologias próprios. das instituições de educação superior e os estabelecimentos do seu sistema de ensino;
Inc. IX, § 1º O Conselho Nacional de Educação foi criado pela Lei 9.131, de 24de novembro V. baixar normas complementares para o seu sistema de ensino;
de 1995. Compõe-se de duas câmaras autônomas: a Câmara de Educação Básica e a Câmara VI. Assegurar o ensino fundamental e oferecer, com prioridade, o ensino médio.
de Educação Superior. Órgão de Assessoramento do Ministério da Educação, o Conselho
Nacional de Educação tem como competência suprema colaborar na formulação da Política Parágrafo Único. Ao Distrito Federal aplicar-se-ão as competências referentes aos Estados
Nacional de Educação, além de: i) subsidiar e acompanhar a execução do Plano Nacional de e aos Municípios.
Educação; ii) manifestar-se sobre questões que abranjam mais de um nível ou modalidade de
ensino; iii) assessorar o MEC no diagnóstico dos problemas e deliberar sobre medidas para
Diferentemente do que ocorreu com as Leis 4.024/61 c 5.692/71, o texto cm análise
aperfeiçoar os sistemas de ensino; iv) emitir parecer sobre assuntos da área educacional por
iniciativa de seus conselheiros ou quando solicitado pelo Ministro da Educação; v) analisar e especifica o conjunto de competências dos Estados. Como desdobramento, esclarece o terreno
emitir parecer sobre questões relativas à aplicação da legislação educacional no que tange à próprio para o exercício da articulação com os Municípios (ensino fundamental) e as formas de
integração entre os diferentes níveis e promover esta articulação (população cm faixa etária de escolaridade compulsória e volume de
recursos financeiros). Estas condicionalidades são importantes porque são definidoras do lastro
de negociação
Página 70 Página 71
intersistemas (Estado/Município), evitando-se zonas de conflito tão comuns num cenário de de decisão, mas também nos conceitos substantivos de formulação de políticas educacionais,
cultura política nem sempre voltada para o interesse coletivo. incluindo as bases materiais do processo e o próprio entorno em que este processo se
desenvolve.
Os Estados devem elaborar, também, seus Planos de Educação à luz das diretrizes e dos
Planos Nacionais. Esta determinação legal acode a necessidade de se garantir uma base O Artigo em estudo (Art. l1) resgata, de alguma forma, esta preocupação ao definir áreas de
congruente de políticas públicas para a educação, a fim de que não se promovam esforços competência da educação para os Municípios. A Constituição, aliás, criou a condicionalidade
concorrentes. Nas sociedades pobres, a falta de políticas comuns e coerentes é tão grave, legal para tanto, ao determinar que "a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios
quanto o é a falta de recursos financeiros para a Educação. No entanto, não menos grave é o (grifo nosso) organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino" (Art. 211).
desperdício de recursos pela justaposição de ações. De fato, o fortalecimento do poder local emerge e se encorpa como forma de explicitação
Vale ressaltar que assegurar a oferta de ensino fundamental é responsabilidade secundária do esforço de apagar a separação entre estado e sociedade, através do princípio da igualdade
para os Estados. A responsabilidade primária é a oferta de ensino médio. formal entre todos os cidadãos. O Município é, sem dúvida, a mais próxima instância pública
responsável pela solução dos problemas do cidadão. Assim, o poder local surge como uma
maneira de transformar as aspirações da comunidade em direitos dos cidadãos.
Art. 11 Os Municípios incumbir-se-ão de:
I. Organizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais dos seus sistemas de O Inciso II deste Artigo traz a grande novidade da LDB no tocante à ação municipal: a
ensino, integrando-os às políticas e planos educacionais da União e dos Estados; função redistributiva pela qual o Município deverá "abastecer" suas escolas através do
princípio da equidade na distribuição dos recursos.
II. Exercer ação redistributiva em relação às suas escolas;
Inc. III Ao constituir sistema próprio (ver Art. 8-), cada Município passa a gozar de autonomia
III. Baixar normas complementares para o seu sistema de ensino; para organizar, pôr em funcionamento, monitorar e avaliar seus órgãos de educação e sua rede
IV. Autorizar, credenciar e supervisionar os estabelecimentos do seu sistema de ensino; de escolas. Imagina-se que, a partir de agora, cada Município brasileiro poderá constituir seu
Conselho Municipal de Educação com a responsabilidade de legislar no âmbito de sua
V. oferecer a educação infantil em creches e pré-escolas, e, com prioridade, o ensino jurisdição, preservados os limites da legislação federal e estadual. É isto que o legislador quer
fundamental, permitida a atuação em outros níveis de ensino somente quando estiverem significar quando fala em baixar normas complementares. Convém não confundir o Conselho
atendidas plenamente as necessidades de sua área de competência e com recursos acima Municipal de Educação com o Conselho de Acompanhamento e Controle Social do FUNDEF
dos percentuais mínimos vinculados pela Constituição Federal à manutenção e sobre o qual falaremos na análise do Art. 68 c seguintes.
desenvolvimento do ensino.
Inc. IV Este Inciso é desdobramento do anterior. Para o regular funcionamento de uma escola,
Parágrafo Único. Os Municípios poderão optar, ainda, por se integrar ao sistema estadual a lei prevê as etapas de autorização, reconhecimento periódico, credenciamento, supervisão e
de ensino ou compor com ele um sistema único de educação básica. avaliação (ver Art. 9-, Inc. IX, c Art. 10, Inc. III). Estas diferentes etapas se estendem, agora, à
responsabilidade do Município ao qual caberá a gestão do respectivo sistema de ensino.
A problemática da gestão descentralizada dos serviços públicos e, portanto, da educação, Inc. V Por outro lado, para atalhar distorções frequentes em que Municípios criam e mantêm
tem recebido enorme atenção dos diferentes fóruns da sociedade civil organizada. No que instituições de ensino superior sem que hajam atendido, convenientemente, às necessidades da
tange, especificamente, à educação, desde a promulgação da Constituição atual (1988), vêm-se educação infantil e do ensino fundamental, o Inciso V condiciona o atendimento a níveis
discutindo as formas de substituir o modelo burocrático-tecnicista de gerenciamento da ulteriores ao ensino fundamental, somente quando o Município tiver atendido, plenamente, às
educação por um modelo descentralizado-participativo, alicerçado não apenas no conceito de demandas educacionais em sua esfera de competência (entenda-se: educação infantil e ensino
instâncias permeáveis fundamental).
Página 72 Página 73
§ Único Para um país como o Brasil em que a fragmentação político-administrativa c 2°, que os estados, o Distrito Federal e os municípios (grifo nosso) elaborem, em consonância
desconforme, a julgar pela existência de cerca de seis mil Municípios, o parágrafo único do com o nacional, planos estaduais e municipais correspondentes. Em decorrência, o Conselho
Art. 11 pode representar uma alternativa altamente benéfica ao prever a possibilidade de os Nacional de Secretários de Educação (CONSEDE), a União Nacional dos Dirigentes
Municípios se integrarem ao sistema estadual de ensino e comporem, com ele, um sistema Municipais (UNDIME), o Ministério da Educação (MEC), a Comissão de Educação, Cultura e
único de educação básica (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio). Esta Desporto da Câmara dos Deputados, a Comissão de Educação do Senado Federal, a UNESCO
possibilidade apresenta as seguintes vantagens: i) viabiliza, sob o ponto de vista político- e a ABONG criaram comissão nacional para coordenar e subsidiar o compasso na elaboração
pedagógico, a rede de escolas dos pequenos municípios, à medida que se incorporam a um dos planos estaduais e municipais de educação. Esta providência não apenas corrigiu a lacuna
sistema mais sólido; ii) otimiza o uso de estruturas físicas existentes (escolas, prédios, es- da EDB, como contribuiu, em assunto de tamanha relevância, para a prática saudável de
paços, bibliotecas, centros audiovisuais, equipamentos etc.); iii) permite a concretização de procedimentos efetivos de articulação entre os responsáveis pelas estruturas formais dos
uma diretriz de zoneamento escolar, evitando-se o desperdício da construção de prédios serviços educacionais.
escolares estaduais e municipais, um ao lado do outro, e todos subutilizados — afinal, os
alunos nem são estaduais nem municipais, são cidadãos com direito à escola; iv) possibilita Art. 12 Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de
uma política de capacitação docente com níveis integrados e articulados, assim que os ensino, terão a incumbência de:
professores da l- fase do ensino fundamental se formam e se aperfeiçoam ao lado dos I. Elaborar e executar sua proposta pedagógica;
professores da 2- fase, portanto, numa perspectiva de ensino fundamental - por sua vez, o
mesmo vai ocorrer com professores do ensino fundamental e do médio, ou seja, capacitam-se II. Administrar seu pessoal e seus recursos materiais e financeiros;
numa perspectiva integradora de educação básica; v) ganha-se em termos de custo/aluno/ano, III. Assegurar o cumprimento dos dias letivos e horas-aula estabelecidos;
uma vez que o material de apoio às atividades de ensino é adquirido em condições mais
vantajosas - porque em volume maior - e é usado de forma consorciada; vi) multiplicam-se os IV. Velar pelo cumprimento do plano de trabalho de cada docente;
resultados do uso de tempo dos professores, pois o tempo docente deixa de ser uma referência V. prover meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento;
meramente contratual, para ser um componente de ação pedagógica articulada; vii) abre-se
VI. Articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da
uma importante perspectiva para uma condição salarial mais homogênea, inibindo-se
sociedade com a escola;
exemplos de professores que trabalham em escolas próximas, sendo que, pela manhã, ganham
um salário X e, à tarde, um salário Y, equivalente à metade, só porque se trata de escolas de VII. Informar os pais e responsáveis sobre a frequência e o rendimento dos alunos, bem
esferas administrativas diferentes: uma é estadual e outra, municipal; viii) podem-se trabalhar como sobre a execução de sua proposta pedagógica.
conteúdos curriculares e tipologias de avaliação mais próximos e, portanto, mais compatíveis VIII. Notificar ao Conselho Tutelar do Município, ao juiz competente da Comarca e ao
com uma escola de bom padrão de qualidade. respectivo representante do Ministério Público a relação dos alunos que apresentem
A Lei fala em Planos Nacionais e em Planos Estaduais de Educação, mas é omissa quanto à quantidade de faltas acima de cinquenta por cento do percentual permitido em lei (Inciso
necessidade de se fazerem Planos Municipais. Este vazio é injustificável à medida que as incluído pela Lei nº 10.287, de 20.09.2001).
populações se organizam, de fato, no território municipal. Se, em cada edilidade, passa a haver
um Sistema Municipal de Ensino (Art. 11, Inc. I), nada mais natural do que se exigir um Plano
Municipal de Educação elaborado com a ampla participação da sociedade organizada. A não As matérias constantes deste e do próximo Artigo extrapolam o território de uma Lei de
exigência deste Plano reflete uma visão preconceituosa do legislador quanto às possibilidades Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O Regimento Escolar, elaborado à luz de diretrizes
de cada comunidade tecer seu próprio projeto educativo e, assim, exercitar, plenamente, suas emanadas do órgão normativo de cada sistema (Conselho Estadual/Conselho Municipal), sob
prerrogativas culturais. Apesar desta omissão legal, a Lei n.° j 10.172, que estabelece o Plano os influxos do projeto técnico-pedagógico de cada escola, seria o lugar próprio para estas
Nacional de Educação, determinou, em seu Art. l definições.
Inc. I Feitas estas ressalvas, enxerga-se uma nítida orientação legal de confiar, à escola, a
responsabilidade de se autoconduzir, a começar pela tarefa de produzir
Página 74 Página 75
sua proposta pedagógica. Entenda-se por isto: a missão da escola, tipos de cursos (educação responsabilidade social, a família, a empresa e a comunidade. A família por ser o elemento
infantil, ensino fundamental e médio, educação superior e as diferentes modalidades condicionador da plasmação do caráter individual. Do ambiente familiar depende a integração
educativas), conteúdos das disciplinas e objetivos, formas de avaliação, metodologias e do jovem à vida, ao trabalho, à história de sua gente, ao meio físico e social da região e do País
material de apoio didático, etc. e aos compromissos superiores com a própria humanidade. As empresas porque são
laboratórios permanentes de trabalho e, portanto, de aprendizagem. Aqui, vale lembrar que a
Inc. II e III Estes Incisos têm uma dimensão mais burocrática, porém, nem por isto, menos produtividade não é somente uma questão de quantidade e de qualidade de equipamentos, mas,
importante, dado tratar-se de condições viabilizadoras da proposta pedagógica. Ademais, sobretudo, de recursos humanos. A comunidade por ser o lugar natural da educação das
destaque-se que são mecanismos concretos para a escola exercitar sua autonomia. Para tanto, é pessoas. A escola c tão-somente "um ordenador de informação". Neste sentido é que o Inciso
imperativo uma profunda mudança na legislação contratual de pessoal e de uso de recursos VII prescreve que os pais e responsáveis sejam informados da proposta pedagógica da escola.
financeiros. No mínimo, as escolas precisam fortalecer as estruturas das Associações de Pais c É neste horizonte que CECCON, OLIVEIRA e OLIVEIRA (IDAC, 1980) falam da vida na
Mestres e das Caixas Escolares e os Sistemas de Educação devem compreender que estes escola e da escola da vida.
mecanismos não substituem a necessidade da valorização dos profissionais da educação,
mediante planos de carreira consentâneos com a importância do trabalho escolar (Art. 67). A conexão escola/família/comunidade supõe estratégias diferenciadas, dependentes do
tempo social e do ritmo cultural de cada "milieu". À escola, cabe a tarefa de criar mecanismos
Inc. IV Os docentes não apenas devem participar do planejamento escolar, mas, cada um indutores de um diálogo permanente com o seu entorno.
tem seu plano de trabalho cujo acompanhamento é de responsabilidade da Escola. Percebe-se,
assim, uma preocupação do legislador em realçar o projeto pedagógico da Escola, à luz do qual De qualquer sorte, há de se reconhecer a importância de uma lei nacional da educação
o individualismo do professor é instado a transformar-se em solidariedade dos professores. definir as incumbências da escola, pois, afinal, é nela que o ensino acontece.

Inc. V A questão da recuperação dos alunos reflete um dos espaços críticos de fragilidade Art. 13 Os docentes incumbir-se-ão de:
da escola básica brasileira. Na verdade, anterior a este problema, está o da dificuldade de a
escola oferecer uma educação "adequada às condições individuais do aluno". Tratar, na escola I. Participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino;
brasileira, as chamadas diferenças individuais é difícil, seja porque a sala de aula é toda II. Elaborar e cumprir plano de trabalho, segundo a proposta pedagógica do
estruturada para mascarar a heterogeneidade dos alunos, seja porque os professores, também, estabelecimento de ensino;
não foram preparados para trabalhar com o aluno, mas com turma de alunos. Em decorrência,
III. Zelar pela aprendizagem dos alunos;
o provimento de meios para responder, positivamente, a alunos que carecem de recuperação
torna-se difícil. Resultado: o aluno em recuperação é considerado um incômodo adicional para IV. Estabelecer estratégias de recuperação para os alunos de menor rendimento;
o professor c para a burocracia da escola. Os registros escolares atrasam! V. ministrar os dias letivos e horas-aula estabelecidos, além de participar integralmente dos
Inc. VI A articulação escola/família/comunidade é outro desafio. Na verdade, o texto legal períodos dedicados ao planejamento, à avaliação e ao desenvolvimento profissional;
busca levar a escola a criar mecanismos para operacionalizar o Art. 205 da Constituição VI. Colaborar com as atividades de articulação da escola com as famílias e a comunidade.
Federal que define a educação como direito de todos e dever do Estado c da família e será
promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. No fundo, o problema é que a
escola tem um lugar na sociedade, mas a sociedade nem sempre tem lugar na escola. Esta Dentro do critério de afunilamento de atribuições adotado pelo legislador, o professor
integração passa por uma mudança cultural que, fundamentalmente, importa em reconhecer, aparece no degrau final de uma escala que passa pela União, pelos Estados e pelo Distrito
como educativo, o extra-escolar. O eixo da solução parece estar em a escola construir seu Federal, pelos Municípios e pela escola. O professor é o último mesmo, na lei e na realidade da
projeto pedagógico em cima de uma proposta do percurso de uma educação para o trabalho. educação! Nas campanhas políticas, não há candidato que não fale na educação, mas nenhum
À luz de uma perspectiva dos currículos escolares como canais de convergência do e para candidato fala no professor! E que
o trabalho, o sistema/escola passará a envolver, no seu percurso de
Página 76 Página 77
nada mais real na educação do que o professor, embora nada mais irreal nas preocupações dos I-A família;
políticos e governantes do que o professor! II-A escola;
O professor e seu trabalho constituem questão estratégica de qualquer política de educação. III - As empresas;
Edgar MORIN (1973) ensina que a educação será sempre o espaço da "ordem-desordem" ou, IV - A comunidade;
como diz GADOTTI (1995, 178), a educação fornece modelos e as armas críticas destes Tracemos um percurso da responsabilidade social de cada uma isoladamente:
modelos. E precisamente neste jogo de contrários, do inacabado, que ganha expressão o papel
do professor como agente de mediação e de equilíbrio. Importa dizer que professor I —A família — A responsabilidade da família decorre do fato de ser ela a célula-mater da
despreparado, mal pago e desestimulado, corresponde a ensino desqualificado, escola "sem sociedade, o núcleo fecundador e sustentador das gerações nascentes e o primeiro elemento
classe", aprendizagem opaca, enfim, subeducação. condicionador da plasmação do caráter individual. Com efeito, é na família que se estabelecem
os primeiros padrões de conduta, e do meio familiar depende a integração do jovem à vida, à
Inc. I a V O Artigo em foco é desdobramento do anterior, o que vale dizer: trata-se, história de sua gente, ao meio físico e social da região e do País e aos compromissos superiores
igualmente, de matéria que melhor se posicionaria no Regimento Escolar, desde que este fosse com a própria humanidade. Ainda, no círculo familiar, centra-se a primeira visão da realidade
uma "bússola" para o funcionamento da escola enquanto projeto pedagógico (círculos de representação), que se vai expandindo, com o deslizar do tempo, em círculos cada
institucionalizado. Revela a preocupação em se assegurar o cumprimento do calendário vez mais amplos c abrangentes.
escolar, muitas vezes, encolhido em decorrência das precárias condições materiais de nossas
escolas, alem de eventuais greves e paralisações. A Lei, também, busca corrigir uma distorção Ora, como a preparação para o trabalho, longe de ser algo adstrito ao currículo escolar, é
bastante frequente — fruto do nosso individualismo exacerbado - que consiste em cada algo que pertence à formação lenta de uma consciência que deságua num compromisso social
professor sentir-se livre e, portanto, desresponsabilizado funcionalmente, uma vez cumprida a do indivíduo e dos grupos com a construção do país comum, infere-se que o passo inicial desta
carga horária de sua(s) disciplina (s). O texto legal vai mais além... elaborar e cumprir plano etapa formativa do cidadão útil deve ser dado no âmbito da família e desde tenra idade.
de trabalho, segundo a proposta pedagógica do estabelecimento de ensino. Ou seja, as Há que se considerar, porém, no conjunto das estratégias, as características correspondentes
responsabilidades deixam de ser de cada um, para ser de todos. A ação do professor deixa de às faixas etárias, dentro do processo de evolução psicológica do educando.
ser solitária, para ser solidária. Por fim, retorna a questão da interface Em nível da Escola de Ensino Fundamental (7 a 14 anos), a ação da família é decisiva para
escola/família/comunidade, como tarefa colaborativa do professor, nos termos do Inciso VI. despertar a consciência sobre o problema e suscitar, na criança, sentimentos agradáveis em
Inc. VI A ação do professor, no entanto, não pode ser, apenas, colaborativa. Tem que ser torno do mundo do trabalho. Assim, a primeira etapa deste percurso cm busca de uma educação
indicativa. O professor é componente da centralidade do ato pedagógico. Por isso, há de para o trabalho deve abarcar um conjunto de estratégias que privilegiem o próprio mundo
veicular, no conteúdo da disciplina que ministra, formas e fórmulas de integração circundante da criança, incluindo-se, entre outras, as seguintes ações familiares:
escola/família/comunidade. Colaborar com as atividades de articulação dá a ideia equivocada 1. Organização, com a criança, do seu tempo livre, de tal sorte que o espaço familiar se
de algo fora da sala de aula, algo alheio ao conteúdo trabalhado com os alunos. Na verdade, transforme numa espécie de oficina de criatividade domestica voltada para a realização de
ou este casamento se faz no cotidiano escolar c no espaço da sala de aula ou nada mudará pequenos trabalhos. Aí, a criança vai descobrir que existe uma inteligência prática;
porque a escola continuara trabalhando esta relação através de eventos, de programação
episódica, descontextualizada de cada disciplina e, logo, fora do foco da reconstrução do 2. Utilização do período de férias escolares para a realização de tarefas domésticas de maior
saber. A questão é como fazer esta articulação. À guisa de ilustração, vamos apresentar fôlego, onde se destaque a cooperação familiar no trabalho, tendo em vista uma necessidade
algumas formas de operacionalizar esta tarefa-desafïo. comum. A criança vai descobrir que o que não foi possível fazer sozinha se tornou possível
pelo concurso dos demais membros da família;
Em nível de preocupação inicial, qualquer tentativa consequente de uma educação para o
trabalho deve envolver, obrigatoriamente, quatro instâncias, a nosso ver inseparáveis na 3. Visitas, aos domingos e feriados, a ambientes e espaços que destaquem o valor do
abordagem da questão: trabalho individual e grupai (museus, feiras, exposições, etc.);
Página 78 Página 79
4. Fabricação, montagem e desmontagem de brinquedos domésticos; da faixa etária da escola fundamental serem igualmente aplicáveis à população adolescente, o
5. Organização de oficinas domésticas, de tal sorte que a criança tenha diante de seus compromisso familiar deve ampliar o espaço de conscientização de uma educação para o
olhos e ao alcance de suas mãos instrumentos de trabalho que despertem, nela, interesse por trabalho, no jovem adolescente, para setores mais definidos da economia, tendo em vista a
algum tipo de trabalho (reparo de brinquedos, de calçados, de roupas, de livros, de utensílios maior maturidade mental do estudante.
domésticos, de estantes, de jardim, de horta, etc.); Neste caso, as estratégias familiares, tendo em vista o percurso formativo do jovem, devem
6. Presença dos pais na Escola, sobretudo através de Círculos de Pais e Mestres. Aliás, a contemplar a realidade extra-lar, dado que c nesta fase de vida que o indivíduo começa a
participação nestes círculos deveria ser condição sine qua non para que a criança se superar o confinamento clânico. Entre outras, podem-se destacar as seguintes ações familiares,
mantivesse na escola pública. "Como a escola jamais consegue abranger toda a experiência planejadas e realizadas em articulação com os professores das diferentes disciplinas que
que a comunidade deve transmitir às novas gerações, o Círculo de Pais e Mestres servirá de compõem o currículo escolar em curso:
instrumento de complementação do quadro experimental posto à disposição dos jovens, 1. Visitas a feiras livres, supermercados, shoppings e armazéns, para um levantamento
fazendo de cada pai ou mãe um educador em seu campo de atividade específico"; sistemático dos produtos da região;
7. Incentivo à participação dos alunos na conservação do prédio escolar, através da 2. Visitas a indústrias locais que transformam materia-prima regional em itens acabados;
constituição de equipes por setor; 3. Visitas a órgãos de classe (órgãos patronais, sindicatos, etc.), para conhecimento da
8. Realização periódica de jornadas de Ação Local onde cada pai e cada mãe tenha a situação do mercado de trabalho real e de suas tendências;
oportunidade de ser professor de acordo com a capacidade c condição de cada um. Com isto, 4. Incentivo à realização de feiras de produção, com prêmios para jovens inventores;
estar-se-ía recuperando toda a riqueza semântica dos termos PROFESSOR e SABER, ao
colocar-se, dentro da escola, para ensinar, ensinantes não-profissionais. Como ensina 5. Levantamento sistematizado das condições de infra-estrutura da comunidade (saúde,
documento da UNESCO, "... podem-se definir quadros de formação nos quais educadores não- educação, transportes públicos, equipamentos de lazer, associações e grupos comunitários,
profissionais (grifo nosso) devem inserir-se, mas evitando-se toda formalização rígida; no número de pequenas, médias e grandes empresas, etc.), tendo em vista o conhecimento
interior e no exterior das instituições educativas haverá, no futuro, necessidades crescentes do concreto do potencial comunitário;
concurso de um pessoal cujas atividades principais se desenvolvem fora da instituição 6. Articulação com instituições sociais públicas e entidades empresariais, para um
educativa. Cientistas, técnicos, operários, artistas, práticos, todos terão uma contribuição inventário das áreas profissionais locais e regionais que mais absorvem mão-de-obra;
importante a oferecer, sob a condição de que conservem suas tarefas na produção e, em 7. Estudo orientado das categorias sócio-profissionais mais adaptadas às exigências do
conseqüência, sejam capazes de estender experiências reais de criação intelectual e manual no mercado de trabalho regional.
interior da instituição educativa, evitando-se, assim, a defasagem nas técnicas de produção, na
Todas estas ações da família, tendentes a educar o brasileiro para o trabalho produtivo,
expressão artística e em todas as atividades da vida cotidiana";
haverão de contribuir, cumulativamente, para aprofundar a relação entre educação e trabalho, à
9. Organização das famílias em grupos, por rua ou localidade, tendo em vista a manutenção medida que estabelecem um nível da consciência que alcança raízes na convicção de que o
e recuperação de praças e jardins ou plantio de arvores, tudo sob a forma de um mutirão da saber escolar somente ganha sentido e transcendência se posto a serviço da construção do bem
juventude; comum. Ora, a via que conduz a tal passa, necessariamente, pelo trabalho.
10. Estímulo familiar à participação na vida associativa (clubes de jovens, escotismo, II -A escola -A ação da escola tendo em vista uma educação para o trabalho produtivo
associações de proteção ao meio ambiente, clubes de leitura, etc.). começa pelo seu compromisso com o meio físico e social onde está inserida, dado que ela é o
Em nível de Escola de Ensino Médio (15 a 18 anos), a ação de família deve-se receptáculo da experiência social. Desta forma, a estratégia escolar deve cobrir um conjunto
consubstanciar em uma articulação permanente com cada professor, de tal sorte que as de seis estratégias básicas:
disciplinas ensinadas percam a feição de doses de conhecimento isolado e assumam o caráter l. Deixar de supervalorizar o atual sistema de coação da aprendizagem, representado por
de conteúdos globalizados por uma prática de instrumentalização extra-escolar. Neste sentido, notas e exames, e dar lugar ao desenvolvimento de atitudes ativas em relação à
alem de muitos itens propostos para a criança
Página 80 Página 81
formação do estudante. Em outros termos, cabe à escola desenvolver a autonomia do aluno e 1. Colocar à disposição do sistema escolar informações que o orientem no re-
exercer a sua avaliação em cima deste aspecto tão primordial; direcionamento das políticas de formação de recursos humanos;
2. Aumentar a educabilidade do aluno. Ao invés de insistir sobre o ensino de 2. Subsidiar a escola na construção do perfil profissional de áreas ocupacionais emergentes
conhecimentos específicos em diferentes domínios, deve, antes, desenvolver mecanismos de e na atualização de enfoques, novos cursos, programas, áreas de conhecimento ou mesmo
aprendizagem. Na escola, o aluno deve aprender o hábito de utilizar diversas estratégias de novas disciplinas;
atividades. Aprender a observar, escutar, exprimir-se e a questionar. A escola deve apoiar o
3. Fortalecer o quadro de formadores profissionais pela liberação eventual de seus técnicos
aluno no sentido de ele tornar-se capaz de identificar suas necessidades em matéria de
para programas de reciclagem educacional;
educação e de planejar, conduzir e avaliar seus estudos. A escola deve equipar-se não apenas
para transmitir o saber, mas, principalmente, para exercitar o saber-fazer. Neste caso, o aluno 4. Formular políticas sociais adequadas que compatibilizem o crescimento da organização
substitui a aprendizagem de conhecimentos específicos pela aprendizagem de tarefas a empresarial com o desenvolvimento do pessoal qualificado;
cumprir; 5. Oferecer informações que orientem o sistema escolar para a desativação de programas de
3. Praticar a aprendizagem aberta. Trata-se de levar o aluno a adquirir uma base tão vasta formação profissional considerados em processo de obsolescência;
quanto capaz de lhe oferecer possibilidades de opções para a atualização ou prosseguimento de 6. Testar e aplicar os avanços técnico-científicos gerados nos laboratórios escolares, a
estudos. Para tanto, é mister que a escola o familiarize com a natureza e a estrutura das começar por aqueles que dizem respeito à cultura da organização;
diferentes disciplinas e não com um excesso de conteúdos aprofundados, porém
descontextualizados. Desta forma, o aluno se apropriará dos instrumentos de aprendizagem 7. Receber alunos-estagiários para complementação de sua formação escolar, em nível de
indispensáveis para poder avançar nos diferentes domínios e, assim, identificar seus próprios estágio fundamental, estágio profissional, cursos integrados, pesquisas, etc.
interesses; A importância da empresa no setor educativo pode, enfim, ser dimensionada pelo fato de
4. Evitar o enciclopedismo. Isto significa, na prática, substituir a pedagogia dos conteúdos que "a produtividade não é somente um problema de quantidade e qualidade de equipamentos,
pela pedagogia dos objetivos. É precisamente nesta substituição que se cria espaço para que as mas muito mais de recursos humanos, formados segundo as necessidades da empresa e de sua
experiências extra-escolares se transformem em experiências escolares; política de reinvestimento para a sua expansão futura".
5. No caso específico do Ensino Médio, ampliar o tempo de permanência na escola. No TV—A comunidade — A ação da comunidade, tendo em vista a educação para o trabalho, é
momento, os jovens despendem apenas 1/6 do dia, durante 2/3 do ano, nos estabelecimentos inspirada na circunstância segundo a qual é a própria comunidade que educa as gerações. A
de ensino. E preciso atribuir a estes jovens, como requisito educativo, cumprimento de tarefas escola é tão-somente "um ordenador de informação".
comunitárias; Para um país de população jovem como o Brasil5 (nota:De acordo com a Síntese de Indicadores
6. No caso específico da Educação Superior, incluir o cumprimento de um estágio prático, Sociais - 2003, do IBGE, o Brasil possui uma população de 171.667.536. As pessoas na faixa de O a 24 anos
ao fim do primeiro ano da Universidade. Esta exigência acadêmica seria cumprida, também, estão assim distribuídas: i) de O a 4 anos - 14.971.3 70; ii) de5a9anos-16.343.165; iii)de 10a 14 anos-16.572.234;
em trabalhos comunitários; iv)de 15 a 1 7anos-10.357.443; v) de 18a 19 anos - 6.802.197; vi) de 20 a 24 anos - 16.296.265.), esta ação
ganha extraordinário relevo, dado que, sem ela, os jovens tendem a perder-se pelos caminhos
III —As empresa -A ação da empresa na direção de uma educação para o trabalho é, no da vida e, fatalmente, engrossarão o exército dos inúteis socialmente falando. Para evitar que
mundo atual, simplesmente insubstituível. De fato, a empresa representa, como laboratório isto possa ocorrer, a comunidade deverá criar instrumentos canalizadores de energia jovem.
permanente de trabalho, uma fonte educacional fantástica. Com uma população Estes instrumentos devem atuar de forma sincronizada, a fim de que se "evite a duplicação de
economicamente ativa que cresce à taxa de 4% por ano, o Brasil precisa criar l ,7 milhão de meios para fins idênticos". Vislumbramos, como exequível, o seguinte feixe de ações
empregos anuais para poder responder a esta in-contida demanda. Por outro lado, o comunitárias:
planejamento da economia, o planejamento da educação e o planejamento do trabalho
encontram, na empresa, uma única realidade. A contribuição concreta da empresa pode se
cristalizar por via das seguintes ações:
Página 83
Página 82 estimulação do jovem para um preparo mais aplicado tendo em vista o primeiro emprego.
1. Criação de Centros de Apoio Comunitário (a quem caberá fixar as linhas gerais de uma Poderá, enfim, ser um diálogo mais consistente entre as principais forças sociais
integração escola/comunidade); comprometidas com a construção sólida do país. Com estas providências, a educação e a
2. Instalação de Oficinas Comunitárias, para realização de tarefas ligadas a uma preparação escola passam a funcionar como uma espécie de oxigênio social.
para o trabalho; Para este processo de extensa e intensa articulação, a participação do professor é essencial,
3. Manutenção de Núcleos de Orientação Ocupacional, de modo que os jovens saibam enquanto agente mediador dos atos e dos espaços de aprendizagem.
como se ocupar fora do horário escolar;
4. Criação de Comitês Sócio-Profissionais. Estes Comitês cuidariam do acompanhamento Art. 14 Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na
dos jovens nas Oficinas Comunitárias e também das diligências respeitantes à aquisição, pelo educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios:
jovem, do seu primeiro emprego; I. Participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da
5. Contato com empresas e instituições comunitárias para saber a tendência do mercado de escola;
trabalho e a existência de profissões e áreas ocupacionais emergentes; II. Participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes.
6. Articulação com os poderes públicos tendo em vista negociar a ampliação de
oportunidades de trabalho, em âmbito local e regional;
Estes dois princípios definidores da gestão democrática do ensino público ratificam o Inciso
7. Estudos das reais condições de vida da população rural, visando à adoção de estratégias VI do Art. 206 da Constituição Federal. A participação dos professores e especialistas na
educacionais que possibilitem uma filosofia de aprendizagem pautada pelo princípio do in elaboração do projeto pedagógico da escola e o congraçamento participativo em colegiados
service trainning; diretivos escolares funcionam como balisamentos desta "utopia concreta" da gestão
8. Criação de um Fundo Financeiro Comunitário chamado Edu/Trabalho, capaz de democrática escolar no âmbito das instituições públicas. Nesta perspectiva, as decisões
viabilizar todas estas iniciativas educacionais locais. Este Fundo seria administrado pelo centralizadas no diretor cedem lugar a um processo de resgate da efetiva função social da
Conselho de Educação local, constituído por membros eleitos periódica e democraticamente escola, através de um trabalho de construção coletiva entre todos os agentes da escola e, destes,
pela própria comunidade; com a comunidade. Tal horizonte vai retirar, também, a prática do professor que chega à
escola, vai à sala de aula imediatamente, desconhecendo, muitas vezes, os objetivos e a própria
9. Abertura de Bibliotecas Comunitárias e Centros Audiovisuais, onde se centralizem as filosofia pedagógica da escola em que passa a trabalhar. Por outro lado, a consciência crítica é
comemorações cívicas da comunidade; estimulada pela participação. O trabalho participativo não apenas descentraliza as decisões,
10. Criação de um Estatuto da Comunidade, onde se fixem diretrizes gerais norteadoras da mas também sacode o mofo da rotina e recria o sonho das pessoas a cada dia.
vida sócio-educativa da comunidade, seja uma comunidade de rua, de bairro, de seção urbana
mais ampla ou da própria cidade;
Art. 15 Os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica
11. Estímulo à criação e multiplicação de órgãos associativos; que os integram progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa e de gestão
12. Manutenção parcial de Escolas Profissionais, implantadas pelos respectivos governos, financeira, observadas as normas gerais de direito financeiro público.
setor produtivo e comunidade;
13. Manutenção parcial de Escolas Agrícolas Intermunicipais, implantadas pelas
administrações municipais de cada conjunto de dez municípios localizados em um mesmo
compartimento geográfico.
A conjugação destas quatro instâncias - a família, a escola, as empresas e a comunidade -
poderá representar um passo importante, um alento decisivo na direção da preparação do
jovem para o trabalho produtivo, no combate à intransparência do mercado de trabalho, na
atenuação do desvio ocupacional de profissionais, na
Página 84 Página 85
As escolas foram conquistando, gradualmente, espaços de autonomia. O primeiro passo se Os próximos três Artigos (16,17 e 18) referem-se aos elementos constituintes de cada
deu na área pedagógica, embora de forma bastante limitada. O planejamento escolar sempre foi sistema (Federal, dos estados, do Distrito Federal, dos municípios e da iniciativa privada). O
mais um mecanismo de execução do que de concepção. A pré-definição dos conteúdos termo sistema tem sentido abrangente. No caso específico, porém, o texto legal restringe a
curriculares, com suas quase intocáveis "grades curriculares", o sistema rígido da avaliação da compreensão de sistema às instituições (escolas de vários níveis) e aos órgãos de
aprendizagem e uma carga horária previamente definida fora do espaço escolar gerenciamento. Assim, tanto integram o sistema federal de ensino o MEC, quanto o Conselho
comprometeram, substantivamente, a autonomia pedagógica. Ou seja, as escolas quase se Nacional de Educação, a rede de escolas técnicas federais, de escolas agrotécnicas federais, de
resignaram diante de um projeto pedagógico alienígena, descontextualizado, tipo pré-moldado. Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFETs), de Unidades Descentralizadas de
Felizmente, as pressões da sociedade foram elastecendo este tecido estranho, mas temos, ainda, Ensino (UNEDs), de escolas vinculadas às Universidades Federais (Escolas de Aplicação,
que avançar muito nesta área. Escolas Técnicas e Colégios Universitários), de Instituições Federais de Ensino Superior e,
O passo seguinte foi o da autonomia administrativa. Pode-se dizer que este tem sido o ainda, de instituições mantidas pela iniciativa privada.
grande desafio dos anos 90 ate esta data. A administração compartilhada da e na escola tem
constituído tema onipresente em todos os fóruns nacionais de educação. De início, a ênfase foi
na eleição do diretor. Depois, houve o desdobramento do processo mediante a agregação de Art. 17 Os sistemas de ensino dos Estados e do Distrito Federal compreendem:
procedimentos complementares e configuradores da chamada "gestão participativa". Muitos I. As instituições de ensino mantidas, respectivamente, pelo Poder Público estadual e pelo
Estados definiram o processo de viabilização deste modelo de gestão através de leis Distrito Federal;
específicas.
II. As instituições de educação superior mantidas pelo Poder Público municipal;
Enfim, a gestão que se põe no lastro desta tendência política e pedagogicamente correta
parece a mais difícil de ser viabilizada: a gestão financeira. De um lado, porque o Direito III. As instituições de ensino fundamental e médio criadas e mantidas pela iniciativa
Financeiro Público é extremamente exigente em termos de gestão de recursos públicos e, de privada;
outro, porque as escolas não desenvolveram uma cultura burocrática adequada à prestação de IV. Os órgãos de educação estaduais e do Distrito Federal, respectivamente.
contas de recursos recebidos. Na verdade, nossas escolas nunca foram instâncias ordenadoras
de despesa. A expansão das Associações de Pais e Mestres e a implantação de uma estrutura Parágrafo Único. No Distrito Federal, as instituições de educação infantil, criadas e
racional de Caixas Escolares são fatos promissores. mantidas pela iniciativa privada, integram seu sistema de ensino.
Uma última questão diz respeito ao risco que esta abertura pode representar para as
próprias escolas, à medida que o Poder Público poderá usar este mecanismo para, a pretexto Os sistemas de ensino dos Estados e do Distrito Federal abrangem as redes pública e
de possibilitar tal autonomia, repassar algum recurso e, depois, deixar a escola entregue à privada de escolas e, ainda, os órgãos de educação vinculadas às esferas administrativas
própria sorte. O fato é que a autonomia financeira para ser adequadamente praticada requer estaduais, ou que a elas oferecem apoio, tais como: i) Conselhos Estaduais de Educação; ii)
condições de reciprocidade entre as instâncias envolvidas. Inspetorias Técnicas de Ensino; iii) Departamentos de Estatística Educacional; iv) Órgãos
Estaduais da Assistência ao Estudante; v) Centros Estaduais de Educação Especial, de
Educação Profissional c Educação de Jovens e Adultos.
Art. 16 O Sistema Federal de Ensino compreende:
Conclui-se, portanto, que o conceito de sistema reporta-se, aqui, ao conjunto das
I. As instituições de ensino mantidas pela União; organizações escolares e das estruturas organizacionais que oferecem apoio ao ensino e à
II. As instituições de educação superior criadas e mantidas pela iniciativa privada; educação.

III. Os órgãos federais de educação.


Art. 18 Os sistemas municipais de ensino compreendem:
I. As instituições do ensino fundamental, médio e de educação infantil mantidas pelo Poder
Público municipal;
Página 86 Página 87
II. As instituições de educação infantil criadas e mantidas pela iniciativa privada; iniciativa. Princípio c fundamento que encontram seu teor operacional no Capítulo III da
III. Os órgãos municipais de educação. Constituição Federal em cujo Art. 2006, Inc. III, está contido o argumento do "pluralismo de
idéias e de concepções pedagógicas e a coexistência de instituições públicas e privadas de
ensino".
Os sistemas municipais de ensino compreendem as escolas da rede pública municipal, as
instituições dedicadas à educação infantil e o conjunto de órgãos municipais que respaldam o Art. 20 As instituições privadas de ensino se enquadrarão nas seguintes categorias:
funcionamento das escolas.
I. Particulares em sentido estrito, assim entendidas as que são instituídas e mantidas por
A ideia de sistema municipal e um grande avanço em termos de descentralização da uma ou mais pessoas jurídicas de direito privado que não apresentem as características
"ordem educacional". O Município é o real pólo gerador da experiência de aprendizagem dos incisos abaixo;
coletiva e, portanto, de uma verdadeira pedagogia política. Por isso, ele e o berço da autêntica II. Comunitárias, assim entendidas as que são instituídas por grupos de pessoas físicas ou
educação comunitária. por uma ou mais pessoas jurídicas, inclusive cooperativas de professores e alunos que
incluam na sua entidade mantenedora representantes da comunidade;
III. Confessionais, assim entendidas as que são instituídas por grupos de pessoas físicas ou
Os sistemas municipais de ensino representam a base irradiante de um sistema nacional por uma ou mais pessoas jurídicas que atendem a orientação confessional e ideologia
integrado de ensino, condição imprescindível para a superação da dicotomia entre ensino específicas e ao disposto no inciso anterior;
público e ensino privado. O horizonte é o da construção de uma estrutura consistente de
ensino básico. Por outro lado, faz mais de cinquenta anos que a escola foi proclamada direito
de todos (Constituição Federal de 1934), no entanto, o seu acesso não está, ainda, IV. Filantrópicas, na forma da lei.
inteiramente, universalizado. O princípio da democratização do ensino carece de estruturas
ágeis e flexíveis para sua plena concretização. Para tanto, a organização municipal de
educação representa externalidade inafastável deste processo de descentralização6 (nota: Para
aprofundar o nível de compreensão sobre a questão da educação municipal, ver: BOTH, Ivo José, As instituições filantrópicas no Brasil totalizam 15.311, de acordo com os dados do
Municipalização da Educação/Uma contribuição para um novo paradigma de gestão do ensino fundamental, Conselho Nacional de Assistência Social - CNAS (2004), estando devidamente registradas
Papirus Editora, Campinas, 1997.). 6.545, ou seja, 43%. Trabalham na área específica de Educação 735, o equivalente a 11%. São
instituições com atuação na educação básica e superior.
Art.19 As instituições de ensino dos diferentes níveis classificam-se nas seguintes categorias Na definição de Pessoa Jurídica de Direito Privado, sem fins lucrativos, a Lei 9.790/99
administrativas: assim considera a entidade "que não distribui, entre os seus sócios ou associados, conselheiros,
I. Públicas, assim entendidas as criadas ou incorporadas, mantidas e administradas pelo diretores, empregados ou doadores eventuais, excedentes operacionais, brutos ou líquidos,
Poder Público; dividendos, bonificações, participações ou parcelas do seu patrimônio, auferidos mediante o
exercício de suas atividades, e que os aplica integralmente na consecução do respectivo objeto
II. Privadas, assim entendidas as mantidas e administradas por pessoas físicas ou jurídicas social" (Art. 1°§ 1°).A lei n.° 9.790/99 e Decreto n.° 3.100/99 tratam das entidades
de direito privado. filantrópicas que se qualificam como organizações da sociedade civil de interesse público.
Preenchidos os requisitos de qualificação, a entidade filantrópica pode ser signatária de termo
A categorização prevista neste artigo para as instituições de ensino resulta da aplicação do de parceria com o poder público, visando à aplicação de bens e recursos em programas
princípio constitucional da República de se construir uma "sociedade livre, justa e solidária". filantrópicos previstos na referida lei. O que, de fato, qualifica uma entidade como filantrópica
Este princípio, por sua vez, está arrimado em um dos fundamentos da República segundo o é o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social.
qual cabe o respeito aos valores sociais do trabalho e da livre
Página 88 Página 89
As instituições confessionais e filantrópicas prestam relevantes serviços ao país tanto na A partir deste conceito pleno, fica claro que a educação básica passa a incorporar a nova
área de educação escolar (LDB Art. 1°, Parágrafo I), como na de assistência a estudantes semântica das responsabilidades públicas do Estado. A educação infantil é a primeira etapa da
pobres (bolsas de estudo) e de projetos sociais. No âmbito da Educação Superior, elas são 43 educação institucionalizada. O ensino médio, por sua vez, encerra o ciclo da educação básica.
entidades universitárias comunitárias, reunidas através da Associação Brasileira das Sucede-lhe a educação superior como etapa terminal do ciclo pleno da educação escolar.
Universidades Comunitárias — ABRUC. Alem de oferecerem ensino de reconhecida qualidade Convém esclarecer que estão fora da composição dos níveis e das modalidades de educação
e de desenvolverem linhas de pesquisa cm área de vanguarda do conhecimento, estas e ensino - como denomina o título V da LDB - os cursos livres, tais como: i) Pré-vestibulares;
instituições disseminam, junto às comunidades locais e regionais e por meio dos seus setores de ii) Cursinhos para exames de qualificação e de exercício profissional; iii) Cursinhos
extensão e de consultorias especializadas, os resultados de suas investigações acadêmicas e preparatórios de qualquer natureza; iv) Cursos de nivelamento; v) Aulas de reforço escolar; vi)
científicas. Aulas particulares. Sob o ponto de vista pedagógico, estes cursos estão fora do circuito da
legislação educacional. O que, de fato, os rege é o contrato de prestação de serviços. De acordo
com o Conselho Estadual de Educação de São Paulo, "estes cursos escapam à regulamentação
TITULO V
dos órgãos normativos porque não criam direitos para os alunos". Por isso, ao se inscrever em
DOS NÍVEIS E DAS MODALIDADES DE EDUCAÇÃO E ENSINO um destes cursos, deve-se exigir que constem do contrato de prestação de serviços informações
como: 1) Programa a ser desenvolvido; 2) Quantidade de módulos; 3) Carga horária total; 4)
Duração de cada aula; 5) Início e término do curso; 6) Local das aulas; 7) Material a ser
CAPÍTULO l incluído para utilização no curso; 8) Custo total e formas de pagamento e 9) Condições para a
DA COMPOSIÇÃO DOS NÍVEIS ESCOLARES rescisão do contrato em caso de necessidade. O suporte legal para fundamentar eventual
reclamação é o Código de Defesa do Consumidor.

Art. 21 A educação escolar compõe-se de:


CAPITULO II
I. Educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio;
DA EDUCAÇÃO BÁSICA
II. Educação superior.

Seção l
Este dispositivo ratifica uma tendência alojada no interior de documentos e de diretrizes do
próprio MEC, segundo o qual o ensino fundamental é conceito insatisfatório para a adequada Das Disposições Gerais
compreensão de educação básica. Tanto mais que há uma constatação universal, sobretudo a
partir de uma avaliação do êxito das políticas de educação dos países mais desenvolvidos do
Art. 22 A educação básica tem por finalidade desenvolver o educando, assegurar-lhe a
mundo, que aponta para o entendimento de que básica é a educação que introduz a criança na
formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para
instituição pré-escolar para lhe disponibilizar mecanismos intencionais de socialização, ofe-
progredir no trabalho e em estudos posteriores.
rece-lhe, a seguir, as condições de uma primeira imersão no mundo dos conhecimentos
sistematizados via ensino fundamental e, por fim, possibilita o desenvolvimento das
capacidades e habilidades intelectuais sobre uma base de conhecimentos científicos que A ideia de formação comum deve ser interpretada como um lastro integral e integrado de
lastreiam a formação do pensamento crítico e autônomo do aluno adolescente, permitindo-lhe conhecimentos potencializadores da capacidade de cada um, de acordo com seu biótipo (seja
o domínio de métodos e de técnicas de labor intelectual. Chama-se de educação básica homem, seja mulher), de se situar, ativamente, no ambiente social, no ambiente de trabalho,
precisamente porque oferece os meios para a construção da trajetória do cidadão socialmente
nas relações produtivas e na construção do destino
produtivo e para construção da qualidade da vida coletiva.
Página 90 Página 91
individual c do destino coletivo. A formação comum se viabiliza por meio de uma base § 2º O calendário escolar deverá adequar-se às peculiaridades locais, inclusive climáticas e
comum de conteúdos de aprendizagem. Esta base comum não apenas assegura a existência de econômicas, a critério do respectivo sistema de ensino, sem com isso reduzir o número
um padrão de escola decorrente de um conjunto de valores educacionais, mas também, facilita de horas letivas previsto nesta Lei.
a migração de alunos de uma escola para outra, de um sistema para outro, mecanismo
inteiramente necessário em um país de dimensões continentais como o Brasil, em que o fluxo
migratório interno e um dado social de grande relevância. Por outro lado, com esta formação A liberdade de organizar a educação básica de acordo com um projeto pedagógico
comum se garante uma linha de homogeneidade mínima na qualidade dos serviços contextualizado, com o perfil do alunado e com o seu entorno, existia já na legislação anterior.
Recurso limitadamente utilizado pelas escolas representa, de fato, um relevantíssimo
educacionais. Do contrário, as desigualdades inter-regionais terminariam por impregnar os
instrumento de construção da autonomia escolar. Este dispositivo, aliás, é desdobramento do
programas escolares de forma profundamente comprometedora.
preceito constitucional que dispõe sobre a liberdade de ensinar (Art. 206, Inc. II). O princípio
O conceito de exercício da cidadania já foi abordado nos comentários do Art. 22. constitucional não apenas confere este direito, mas também, ao falar em "pluralismo de idéias e
Ao focar, entre os objetivos da educação básica, o de "fornecer ao aluno, os meios de de concepções pedagógicas" (Art. 206, Inc. III), admite alternativas diferenciadas de organi-
progredir no trabalho e em estudos posteriores", o legislador estabelece uma ruptura de cunho zação da educação.
teleológico, em relação à Lei 5.692/71. De fato, a lei anterior falava só de qualificação para o Por extensão, convém compreender que este Artigo oferece desdobramento ao conceito de
trabalho. Trata-se de expressão pedagogicamente incorreta, pois traduz a ideia de ação organização da educação nacional, que encima o Título IV da LDB. Embora o Título se
concluída, estado acabado, produto definido. Ou seja, cumpridas as etapas da educação básica, refira aos macro-sistemas (Federal, Estadual c Municipal), a educação básica transborda estes
o aluno estaria preparado para enfrentar o trabalho, pois teria um certificado. A escola jamais limites enquanto oferta organizada e se cristaliza no sistema concentrado, compacto, que é a
terá tamanha força! Cada etapa de ensino, cada avanço na aprendizagem, potencializa, agrega escola. Esta é razão por que o Art. 15 da LDB diz que os sistemas de ensino assegurarão às
capacidades adicionais para que o educando adquira novas competências para progredir no unidades escolares públicas de educação básica (grifo nosso) que o integram progressivos
trabalho. Este conceito, portanto, plenifica a ideia de qualificação para o trabalho, graus de autonomia pedagógica e administrativa... Ou seja, estamos diante de uma
imputando-lhe um sentido de dinamismo e, como tal, de educação continuada. possibilidade legal de conceber, com total autonomia, o modelo de organização da escola, de
Fica afastada, definitivamente, a equivocada ideia de profissionalização compulsória, já acordo com as suas peculiaridades (Art. 14).
desfeita na Lei 7.044/81, porém, ainda muito presente na pedagogia cartorial do certificado. A A riqueza de possibilidades que este dispositivo inaugura é ilimitada. Sua concretização
educação básica é um processo de predisposição de capacidades e de instrumentação de poderá contribuir, grandemente, para que, de fato, cada escola constitua um projeto pedagógico
aptidões, além de sedimentar condições para estudos ulteriores. específico. Estamos diante de uma abertura legal para a efetiva construção da identidade
escolar. Isto é que o texto legal enseja. No entanto, as possibilidades de transformá-lo em
utopia concreta são remotas. Efetivamente, não existem as condições objetivas que
Art. 23 A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos,
oportunizariam organizar modelos variados, diferenciados e curricularmente diversificados em
alternância regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade, na
sua concepção organizativa de escolas. Primeiro, porque a educação infantil c ainda uma
competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o
concessão e não um efetivo direito. Segundo, porque o ensino fundamental é desigual em seus
interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar. parâmetros básicos: escolas funcionando sem os insumos básicos, portanto, mais
§ 1º A escola poderá reclassificar os alunos, inclusive quando se tratar de transferências caracterizadas, sob o ponto de vista da organização, pelas desconformidades, do que pelas
entre estabelecimentos situados no País e no exterior, tendo como base as normas adequações. Terceiro, porque o ensino médio, não tendo identidade, não tem, igualmente,
curriculares gerais. parâmetros de organização. O foco de organização do ensino médio é o vestibular, de que ele
se tornou refém. Não existe, sequer, uma rede de escolas de ensino médio no País. Na rede
pública, por exemplo, tem sido um artifício usado pêlos planejadores c gestores da educação a
coabitação de escolas de ensino fundamental e de ensino médio em um
Página 92 Página 93
mesmo prédio, para lançar mão dos 25% da receita tributária, prevista na Constituição, para possa significar, na prática, o funcionamento da escola dentro de um calendário
investimentos em manutenção e desenvolvimento do ensino fundamental e, desta forma, contextualizado.
poderem estender, camufladamente, o uso destes recursos, também, para o ensino médio. Este
A escola urbana, de formato indiferenciado, desconsidera a procedência múltipla dos
problema deverá desaparecer somente com a criação do FUNDEB (Fundo Nacional de alunos, a pluralidade cultural de suas ambiências e, sobretudo, o valor do cotidiano das pessoas
Desenvolvimento da Educação Básica). Há de se reconhecer que, neste particular, a situação do como elemento fundante de suas ações. Ao não reconhecer a importância da diversidade de
Ensino Médio é crítica. Tanto c assim que o Ministério da Educação estuda a possibilidade de culturas dos alunos, a escola despreza "o conhecimento já adquirido que as pessoas usam para
ampliar o raio de alcance do FUNDEF criando o FUNDEB, ou seja, o Fundo de Desenvolvi- interpretar experiências e gerar comportamentos" (SPRADLEY, 1979, p. 05). Talvez esta seja
mento da Educação Básica. Este Fundo incluiria, por definição legal, o Ensino Médio. Como a razão por que os estudos etnográficos da prática escolar sejam tão relegados pela escola
assinala documento do IPEA (2003, p. 54), "a instituição do FUNDEB constitui uma antiga brasileira.
reivindicação da área de Educação, principalmente daqueles segmentos vinculados à Educação
Infantil e ao Ensino Médio. No entanto, um dos principais óbices à concretização dessas idéias
refere-se aos recursos financeiros necessários à sua implementação". Art. 24 A educação básica, nos níveis fundamental e médio, será organizada de acordo com as
A criação do FUNDEB será inócua se não vier acompanhada da definição do seguintes regras comuns:
custo/aluno/qualidade como referenciai de valor previsto na legislação. Esta medida garantirá I. A carga horária mínima anual será de oitocentas horas, distribuídas por um mínimo de
um salto de qualidade educativa e alinhará as condições efetivas de acesso e permanência do duzentos dias de efetivo trabalho escolar, excluído o tempo reservado aos exames finais,
aluno na escola pública que a sociedade deseja. quando houver;
Uma outra dificuldade reside na inexistência, a não ser em situação de excepcionalidade, II. A classificação em qualquer série ou etapa, exceto a primeira do ensino fundamental,
da escola de tempo integral. Esta alternativa, aliás, está prevista no Art. 34, § 2-, porém, para pode ser feita:
implantação gradual. Pelo contrário, há, no Brasil, uma significativa malha de escolas
a) por promoção, para alunos que cursaram, com aproveitamento, a série ou fase
funcionando com turnos intermediários. O regime de desseriação, por exemplo, cimentado na
anterior, na própria escola;
deslinearidade de competências dos alunos, na faixa etária, na disponibilidade de tempo para
frequentar a escola e para cumprir as tarefas de reforço de aprendizagem (em casa), supõe que b) por transferência, para candidatos procedentes de outras escolas;
os professores trabalhem em tempo integral, sob pena de não poderem fazer o acompanha-
c) independentemente de escolarização anterior, mediante avaliação feita pela escola,
mento educacional dentro do princípio de respeito às diferenças individuais dos alunos. Ou que defina o grau de desenvolvimento e experiência do candidato e permita sua
seja, a organização diversificada da escola exige condições de trabalho diferentes das que os inscrição na série ou etapa adequada, conforme regulamentação do respectivo sistema
professores têm hoje. Falta salário, falta qualificação, falta material de apoio ao ensino, faltam de ensino;
condições materiais (Art. 25) para que se conceba uma organização do espaço escolar a partir
da análise plural das situações educativas (JACQUES ARDOINO, 1980). III. Nos estabelecimentos que adotam a progressão regular por série, o regimento escolar
pode admitir formas de progressão parcial, desde que preservada a sequência do
A organização do calendário escolar de acordo com as peculiaridades locais é outra currículo, observadas as normas do respectivo sistema de ensino;
questão crítica. O Brasil optou por um modelo de escola urbana vazado na elitização da
educação como um valor definidor de sua organização. Nesta perspectiva, a prática escolar IV. Poderão organizar-se classes, ou turmas, com alunos de séries distintas, com níveis
aceita como capaz de conferir certificado/diploma é aquela que corresponde a este padrão. equivalentes de adiantamento na matéria, para o ensino de línguas estrangeiras, artes, ou
Daí por que a escola não consegue organizar-se de acordo com o calendário dos alunos. Ela só outros componentes curriculares;
cabe no calendário gregoriano! A esperança é que o encorpamento de um sistema municipal V. a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios:
de ensino
a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos
aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre
os de eventuais provas finais;
b) possibilidade de aceleração de estudos para alunos com atraso escolar;
Página 94 Página 95
c) possibilidade de avanço nos cursos e nas séries mediante verificação do aprendizado; aprendizagens desenvolvidas independentemente de escolaridade anterior, ou seja, fora do
palco do ensino regular, do conhecimento formalmente sistematizado. Esta alternativa põe-se
d) aproveitamento de estudos concluídos com êxito;
como extensão do Art. 1º que dá grande amplitude aos "processos formativos" estribados em
e) obrigatoriedade de estudos de recuperação, de preferência paralelos ao período letivo, uma educação vinculada ao mundo do trabalho e à prática social. Por outro lado, o Art. 3º, Inc.
para os casos de baixo rendimento escolar, a serem disciplinados pelas instituições de X, diz que o ensino será ministrado com base, entre outros, no princípio da valorização da
ensino em seus regimentos; experiência extra-escolar. O sistema de ensino regulamenta a matéria, a escola avalia o grau
VI. O controle de frequência fica a cargo da escola, conforme o disposto no seu regimento de desenvolvimento e a experiência do candidato, mas este incorpora o patrimônio de
e nas normas do respectivo sistema de ensino, exigida a frequência mínima de setenta e conhecimento construído nos esquemas informais de vida aos esquemas formais da escola.
cinco por cento do total de horas letivas para aprovação; Esta possibilidade representa um marco importante para o resgate da pedagogia da alternância.
VII. Cabe a cada instituição de ensino expedir históricos escolares, declarações de Inc. III A Lei inova, igualmente, no tocante à questão da promoção. No caso de a escola adotar
conclusão de série e diplomas ou certificados de conclusão de cursos, com as a promoção por série, poderá ocorrer a promoção por disciplina, assegurada a estrutura
especificações cabíveis. seqüencial do currículo. Aqui reside a maior dificuldade para operacionalizar a cultura da
construção curricular, porque ela própria nunca trabalhou com um projeto pedagógico próprio
e, portanto, capaz de espelhar sua especificidade. Os professores "adotavam" as disciplinas que
Inc. I Este dispositivo encerra uma contribuição importante para a melhoria da educação compunham a grade curricular, porém, sem qualquer visão de integralidade dos conteúdos.
básica nacional: a ampliação da carga horária mínima anual e a duração mínima do ano letivo. Assim, a sequência sempre foi mais contingência da distribuição dos conteúdos no tempo,
De fato, ao sair de 720 horas para 800 horas anuais e de 180 para 200 dias letivos, o Brasil logo, do regime de sedação, do que de uma lógica interna, de uma articulação intrínseca.
renuncia à incômoda posição de país que, embora signatário do Estatuto Universal dos Direitos Talvez este processo seja facilitado com a adoção, no ensino fundamental, de uma estrutura
Humanos de 1948, exibe um dos mais reduzidos tempos de permanência do aluno na escola. desdobrada em ciclos (Art. 32, Inc. IV, § 1-) e, no ensino médio, através de uma organização
curricular que realce a plurissignificação dos conteúdos curriculares e os vincule a atividades
O ganho aqui é inestimável. Ao final dos oito anos do ensino fundamental, o aluno contínuas de reconstrução dos saberes do aluno e, na educação profissionalizante, com a
brasileiro terá tido uma carga horária adicional de 640 horas, o que equivale a, praticamente, utilização do mecanismo de modularização, significando não a fragmentação estanque das
um ano a mais de estudos. Ao final do ensino médio, terá 240 horas adicionais de estudo, o disciplinas, mas a relação ativa do(s) conteúdo(s) com habilidades e competências a
equivalente a dois meses extras de escolaridade. desenvolver. Na verdade, constata-se que a escola brasileira vai deixando de lado a
A esta carga horária, some-se o adicional de dias letivos. No caso do ensino fundamental, o possibilidade da oferta de matrícula por disciplina, para se concentrar na oferta seriada. De um
aluno terá um acréscimo de 160 dias de estudos ao final do curso, o correspondente a quase lado, pelas dificuldades na área dos registros escolares e, de outro, porque os custos aumentam
um ano letivo no regime anterior em termos de letividade. No caso do ensino médio, o à medida que demandam mais professores, além de ter uma baixa repercussão na integralização
acréscimo será de dois meses. de estudos por parte dos alunos com maiores dotes intelectuais.
Ao término dos estudos correspondentes ao ciclo da educação básica, o aluno terá tido uma Inc. IV A organização de turmas/classes com alunos de séries distintas, utilizando o critério de
ampliação de carga horária, entre o fundamental e o médio, de cerca de 220 dias letivos. Um adiantamento na matéria, é uma possibilidade interessante, embora, também, de difícil
avanço espetacular da escola básica brasileira. operacionalização. Muitos Estados Brasileiros têm trabalhado com esta alternativa na área do
ensino de Língua Estrangeira. Depois de duas décadas de experiência, os Centros de Língua
Inc. II A possibilidade de as turmas se organizarem por critérios diferentes (alíneas a, b e c) dá não provaram ser uma solução ideal. Tanto pior quando os Centros se situam fora da escola. Os
desdobramento ao Art. 12 que põe, entre as incumbências da escola, a de "elaborar e executar alunos têm que se desdobrar para poder frequentar a escola e, ainda, o Centro de Língua. Por
sua proposta pedagógica". O clímax da proposta pedagógica, sob o ponto de vista da
certificação do conhecimento, é, precisamente, o processo de classificação dos alunos. A
alínea e trata do reconhecimento de
Página 96 Página 97
outro lado, a disciplina Língua Estrangeira, oferecida fora da escola, encontra-se totalmente de aceleração. Trata-se de mecanismo usado timidamente por alguns estados da federação e
divorciada do conjunto de disciplinas que compõem o currículo regular, criando uma visão por menos de 3% dos municípios e que atinge um pouco mais de 1,5 milhão de matrículas
disjuntiva do bloco de aprendizagem a que o aluno se vincula. Os professores, por seu turno, se concentradas de 5a à 8a série.
"especializaram" em ministrar disciplinas estanques no conteúdo e isoladas na seriação. A De quanto foi dito, o importante é o desafio que institutos como o da avaliação contínua e
prática da organização de classes com alunos de séries distintas exigirá professores cumulativa, da aceleração de estudos para alunos com atraso escolar (distorção idade/série), do
recapacitados e competentes para substituir a pedagogia do currículo pela pedagogia dos avanço nos cursos e nas series e dos estudos de recuperação continuam a representar para a
objetivos. escola brasileira. A irresolução destas questões, sob o ponto de vista da operacionalidade
Inc. V Os critérios de sustentação da avaliação do rendimento escolar voltam-se para dois tipos pedagógica, tem repercussão direta sobre o fenômeno da repetência e da evasão e nos remete
de avaliação: a qualitativa e a quantitativa. A legislação anterior já adotava idêntico a uma questão definitiva: sem resolver estes problemas, como falar em escola eficaz?
mecanismo. A avaliação qualitativa se estriba no processo contínuo e cumulativo da avaliação, Todas as questões aqui inventariadas estão ligadas, diretamente, ao problema do fracasso na
sendo, assim, menos processo de medição e, mais, busca de aferição de conhecimento escola. Problema quase sempre atribuído ao aluno, quando, na verdade, se trata, sobretudo, de
contextualizado. O processo de aceleração de estudos deve constituir componente inafastável efeitos da organização equivocada da escola. A psicóloga Adriana Marcondes Machado, do
de uma política de correção de fluxo escolar de todos os sistemas de ensino. Como se sabe, o serviço de psicologia escolar do Instituto de Psicologia da USP, afirma que entre 70% a 90%
Brasil é campeão na América Latina em alunos que, fora da faixa etária, frequentam a escola das crianças atendidas em clínicas de Psicologia trazem o que se chama de queixa escolar. A
fundamental. Este fenômeno que chega a mais de 50% de toda matrícula denomina-se de falta de estratégias pedagógicas e de recursos diversificados para o trabalho com crianças,
defasagem idade-série e é um dos fatores mais diretamente responsáveis pela baixa qualidade preconceito, salas lotadas e transferências mal realizadas entre escolas são causas de fracasso
do ensino. Os números que seguem revelam a dramaticidade da situação: escolar. Em regra, o aluno que apresenta dificuldades de adaptação à escola não tem problemas
patológicos que justifiquem o baixo rendimento. A escola é que desenvolve um trabalho
TAXA DE DEFASAGEM DOS ESTUDANTES DE 7 A 14 ANOS, % POR IDADE pedagógico dissociado da realidade do aluno.
7 anos 8 anos 9 anos 10 anos 11 anos 12 anos 13 anos 1 4 anos
14,4 27,5 35,5 41,3 48,3 54,3 58,4 65,7
Art. 25 Será objetivo permanente das autoridades responsáveis alcançar relação adequada
FONTE: IBGE/Síntese de Indicadores Sociais, 2003. entre o número de alunos e o professor, a carga horária e as condições materiais do
estabelecimento.
Quando estes números são analisados por região, percebe-se a gravidade do problema nas Parágrafo Único. Cabe ao respectivo sistema de ensino, à vista das condições disponíveis
regiões Norte e Nordeste, como se pode ver: e das características regionais e locais, estabelecer parâmetro para atendimento do disposto
Grandes Taxa de defasagem dos estudantes de 7 a 1 4 anos por idade e Regiões neste artigo.
Regiões
______________________________________________________________________
7 anos 8 anos 9 anos 10 anos 11 anos 12 anos 13 anos 1 4 anos
Brasil 13,6 28,9 37,7 44,1 51,4 58,0 62,3 69,1
Norte 14,4 35,6 44,7 50,3 59,0 66,1 73,1 81,1
Nordeste 19,7 37,5 50,9 57,9 67,5 73,7 79,8 84,1
Escola é currículo. Aprendizagem é conteúdo transformado. Sala de aula não é local, é
Sudeste 13,9 21,9 27,7 32,4 39,5 45,3 44,5 51,8 ambiente. Aluno não é destinatário, é ator da aprendizagem. Professor não é depositante, é
Sul 3,7 18,9 20,5 25,5 29,9 35,3 44,7 56,8 mediador. Estas premissas ajudam a compreender a dimensão pedagógica deste Artigo. Não se
Centro-Oeste 43,9 25,1 30,3 36,1 39,3 49,3 57,0 66,9 busca uma relação fria, adequada burocraticamente, entre vários fatores: Aluno/professor/carga
Fonte: IBGE/Síntese de Indicadores Sociais, 2003. horária/meios materiais. O que se pretende é assegurar uma relação viabilizadora do ato
pedagógico (a aula), do espaço pedagógico (a sala de aula) e do resultado pedagógico (a
aprendizagem socialmente relevante). A escola brasileira tem muito que rever nesta área. Os
É importante registrar que 40% do total dos municípios brasileiros detêm 66% do total da
Sistemas de Ensino têm sido pouco diligentes no controle destas relações e os
matrícula do ensino fundamental. Por outro lado, 46% da totalidade da matrícula neste nível de
ensino detêm, pelo menos, 2 anos de distorção ; em relação à série cursada. A solução para este
problema é a implantação de classes,
Página 98 Página 99
próprios Conselhos Estaduais de Educação pouco vigilantes em seu acompanhamento. Esta é a mais recente e a mais importante alteração do texto original da LDB. Decorre da
Comportamentos que traduzem, ainda, uma preocupação pouco densa com a questão da Lei 10.639, de 09 de janeiro de 2003, que acrescenta novos dispositivos às Diretrizes e Bases
qualidade do ensino. da Educação, a saber: Art. 26-A e 79-B. Ambos tratam da obrigatoriedade de inclusão da
temática história e cultura Afro-Brasileira no currículo da educação escolar. Mais do que um
acréscimo ao texto legal, o legislador resgata uma dimensão calculadamente esquecida do
Art. 26 Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a currículo escolar em todos os níveis: a influência da cultura africana na formação da sociedade
ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte brasileira. O esquecimento desta marcante contribuição visa a sepultar um dos mais
diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da importantes capítulos de nossa História: a da luta dos negros no Brasil. Por outro lado,
economia e da clientela. denuncia a existência de uma cultura travada e preconceituosa, impermeável a aceitar o
§ 1º Os currículos a que se refere o caput devem abranger, obrigatoriamente, o estudo da diferente e a conviver com o desigual. De fato, todas as formas de manifestação do racismo são
língua portuguesa e da matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da formas de negação do ser humano.
realidade social e política, especialmente do Brasil. O§ 1° trata do conteúdo programático a ser incluído no ensino de História e Cultura Afro-
§ 2º O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da Brasileira. Os objetivos da oferta do novo conteúdo, desde a educação infantil até a educação
educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos. superior, são: i) reforçar a luta pela construção de uma sociedade justa, independentemente do
§ 3º A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente seu pertencimento racial; ii) operacionalizar políticas de reparações, de reconhecimento e de
curricular da Educação Básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população valorização da história, da cultura e da identidade da população afro descendente; iii)
escolar, sendo facultativa nos cursos noturnos. reintroduzir, no corpo curricular, dimensões histórico-sociais e antropológicas, constituintes da
realidade brasileira; iv) dar visibilidade aos direitos dos negros de se reconhecerem na cultura
§ 4º O ensino da Historiado Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas nacional, v) fortalecer o sentido de urgência da formação inicial dos professores, tendo como
e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana fundamento uma estética da sensibilidade, valorizadora dos princípios da inclusão e da
e européia. diversidade; vi) destacar a necessidade de uma diretriz política em todos os sistemas de ensino
§ 5º Na parte diversificada do currículo será incluído, obrigatoriamente, a partir da quinta (federal, estaduais, municipais e privados), voltada para a formação continuada dos professores
série, o ensino de pelo menos uma língua estrangeira moderna, cuja escolha ficará a e gestores da educação e fundada em um horizonte da capacitação pedagógica que "eduque o
cargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição. professor e a comunidade escolar para lidarem com as tensas relações produzidas pelo racismo
e por todas as formas de discriminação"; vii) desenvolver mecanismos sócio-educativos e
institucionais capazes de produzir a reeducação das relações entre diferentes grupos étnico-
Art. 26-A Nos Estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna- raciais, ou seja, entre descendentes de africanos, de europeus, de asiáticos, de povos indígenas,
se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. etc.; viu) produzir e disseminar matérias para uso pedagógico escolar (livros, revistas, filmes,
§ 1° O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da CDs, jornais e todos os tipos de produtos à disposição da mídia) para a valorização de uma
História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e cultura escolar em que todos possam interagir na construção de uma nação democrática em
o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas cujo convívio cada um tenha seus direitos assegurados e sua identidade valorizada.
áreas: social, económica e política, pertinentes à História do Brasil.
§ 2° Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no
âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de
Literatura e História Brasileiras.
Página 100 Página 101
O Conteúdo Programático deve ser trabalhado com três focos: i) A luta dos negros no Neste Artigo, o currículo escolar ganha a possibilidade de ter uma configuração em planos
Brasil; ii) A cultura negra brasileira e iii) A contribuição do negro na formação brasileira, que se integram. A base nacional comum articula-se com disciplinas complementares eleitas
envolvendo as dimensões estruturantes da sociedade nacional, a saber: a dimensão sócio- pelo respectivo sistema de ensino e, ainda, pela própria escola. A idéia-matriz é garantir que a
histórica, a dimensão sócio-econômica, a dimensão sócio-política, a dimensão sócio-religiosa e base comum do currículo seja enriquecida com alguns conteúdos vinculados aos contextos
a dimensão sócio-educativa. regional e local. Desta forma, a escola estará construindo seu projeto pedagógico específico,
assegurando homogeneidade no geral e especificidade no particular. Ou seja, constrói-se uma
O § 2° define o território de abrangência da oferta dos conteúdos de História e Cultura afro-
relação germinativa entre a cultura geral e a cultura regional e local.
brasileira-todo o currículo escolar-, ou seja, conteúdos correspondentes a cada nível de ensino
e a cada modalidade educativa. A LDB fala em adequar o calendário escolar às peculiaridades locais (Art. 23, § 2°). Diz
que, para a determinação de parâmetros básicos respeitantes a uma relação adequada entre o
Convém, por fim, esclarecer que, como desdobramento da Lei 10.639/03, o Conselho
número de alunos e o professor a carga horária e as condições materiais do estabelecimento, as
Nacional de Educação produziu o Parecer CNE/ CP3/2004 e a Resolução n. 1, de 17 de 06 de
autoridades responsáveis devem levar em conta as características regionais e locais (Art. 25, §
2004. Esta última institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações
Único). Destaca que a base nacional comum dos currículos do ensino fundamental e médio
Etnico-Raciais e para o ensino de História e Cultura afro-brasileira e africana. Destas diretrizes,
deve ser complementada por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e
decorre a compreensão de uma pluralidade de formas de oferta dos conteúdos referidos,
locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela (Art. 26). Determina que os
sempre à luz das definições dos Conselhos de Educação de cada sistema (estado, Distrito
conteúdos curriculares, as metodologias e a organização escolar sejam adaptados às
Federal e municípios (quando houver)), a quem cabe dar desenvolvimento às Diretrizes
peculiaridades da vida rural e década região (Art. 28 e Incisos). Vê-se, em todos estes
Curriculares Nacionais em foco.
dispositivos, a preocupação do legislador em contextualizar os conteúdos da aprendizagem.
As modalidades de organização da oferta do ensino sistemático de História e Cultura Afro-
De fato, a ideia de educação básica só pode ser operacionalizada, adequadamente, se
Brasileira e africana na educação brasileira podem assumir formas como: i) Disciplinas
incorporar o conceito moderno de região. Longe da noção de unidade político-territorial,
específicas; ii) Conteúdos curriculares especiais oferecidos em Educação Artística e História
estanque, consagrada em uma certa tradição geográfica já superada, região é um conceito
do Brasil; iii) Programações especiais envolvendo conteúdos, competências, atitudes e valores
dinâmico que, além de incorporar a combinação de elementos comuns (território, arranjos
estabelecidos pela comunidade escolar, inseridos no projeto político pedagógico da instituição,
físicos, história c cultura), envolve a apropriação simbólica de uma porção de espaços que, na
sob a supervisão dos sistemas de ensino e acompanhamento das respectivas coordenações
verdade, funcionam como interações sociais produtivas. Neste conceito irradiante, articulam-se
pedagógicas; iv) Desenvolvimento de estudos, projetos, programas e pesquisas escolares e
localidades centrais, dinâmica urbana e espaços rurais, todos como "loci" de produção. Neste
sócio-comunitárias, que servirão de base para a formação de unidade de estudo no âmbito
conjunto, tempo (sucessão), espaço (acumulação) e meios de produção (relações preva-
curricular; v) Criação e institucionalização de mecanismo de articulação com grupos do
lecentes) se conjugam para a conceituação de região como espaço sócio-educativo. A partir
movimento negro, com grupos culturais negros, com núcleos de estudo afro-brasileiros e com
deste entendimento, define-se a função do currículo como o espaço de aprendizagem voltado
instituições formadoras de professores, para agendas de valorização de experiências que
para construir competências.
possam enriqueceres planos institucionais, os planos pedagógicos e os projetos de ensino na
área em foco. Cabe destacar que, ao ensejar esta flexibilidade, o legislador está considerando a tendência
Todas estas diferentes formas de execução do ensino e da aprendizagem de História e contemporânea de diversificação das fontes do currículo. A pluralidade destas fontes tem a ver
Cultura Afro-brasileira e africana e da educação das relações étnico-raciais supõem uma com critérios de seleção, organização, apresentação e sequência na sistematização do
permanente e densa abordagem interdisciplinar, capaz de assegurar a integração dos conteúdos conhecimento. As fontes do currículo incorporam traços sócio-culturais (carências do aluno c
através de uma busca contínua de convergência de focos. Esta é uma forma interessante de a da sociedade), traços epistemológicos (características particulares das disciplinas e das
escola procurara aproximação da verdade sobre a realidade social. articulações das disciplinas configurando uma área de conhecimento), traços psicopedagógicos
(especificidades psico-evolutivas dos alunos e respectivas competências).
Página 102 Página 103
A referência a conteúdos curriculares específicos neste Artigo deve ser interpretada como enorme população jovem. Esta diretriz, associada à oferta da educação física, constitui
uma preocupação de se construir um currículo ativo, contemporâneo, empolgante, não apenas iniciativa legal de grande valor formativo.
pela inclusão de disciplinas de base como Português, Matemática, mas também de disciplinas
que ajudem a situar o aluno no mundo físico e em sua cultura. Neste último caso, valorizando
as raízes da civilização em que desenvolve a sua cidadania, mediante a desocultação dos Art. 28 Na oferta de educação básica para a população rural, os sistemas de ensino
substratos indígenas, africanos e europeus. Por fim, vivendo numa cultura totalmente icônica, o promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades da vida rural e de
ensino de arte impõe-se como oferta obrigatória da composição curricular. A educação física cada região, especialmente:
deixa de ser obrigatória para estudantes de cursos noturnos, posição legal compatível com o I. Conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos
perfil destes alunos. A oferta de uma língua estrangeira sob livre escolha da escola surge, alunos da zona rural;
também, como algo imperativo cm um mundo de civilização planetária. Hoje, falar mais de um
idioma é questão de sobrevivência. II. Organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar às fases do
ciclo agrícola e às condições climáticas;
Na explicação dos Art. 32 (que trata do Ensino Fundamental) e 36 (que trata do currículo
do Ensino Médio), vamos retornar ao tema, agora, na perspectiva dos conteúdos específicos de III. Adequação à natureza do trabalho na zona rural.
cada um destes níveis de ensino.
O princípio constitucional de univerzalização do atendimento escolar (Art. 206, Inc. I)
Art. 27 Os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes pressupõe uma escola de organização plurimodal, capaz de diversificar seu modelo de acordo
diretrizes: com a diversidade da clientela. Por outro lado, a LDB fala, em diferentes artigos, em um ensino
que leve em conta as diferenças individuais. A soma destes mandamentos induz à formulação
I. A difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos
de um conceito de educação básica voltado para a população rural, desafio sem tamanho da
cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática;
escola brasileira.
II. Consideração das condições de escolaridade dos alunos em cada estabelecimento;
A população brasileira e de, aproximadamente, 169 milhões (IBGE, Estimativa, 1992).
III. Orientação para o trabalho; Destes, 38,2% constituem população rural. De um total de 37 milhões de matrículas no ensino
IV. Promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não-formais. fundamental, cm torno de 6 milhões estão matriculados na zona rural. Ainda, dos cerca de 200
mil estabelecimentos de ensino fundamental do País, 64% estão situados na zona rural. A
grande maioria e constituída por pequenas escolas municipais. Neles trabalham 280 mil
O Artigo anterior afirma que os currículos devem ter uma base nacional comum e uma professores. Todos os dados apontam para uma enorme rede de escolas rurais, sempre
parte diversificada. Este Artigo complementa tal orientação mediante algumas diretrizes a ignoradas na hora do planejamento da educação nacional. Isto sem falar nas imensas diferenças
serem observadas. Na verdade, trata-se de oferecer, ao currículo escolar, orientações que sócio-ambientais do mundo rural brasileiro. De fato, quase nada existe de comum entre o
preservem "os princípios fundamentais" constantes do Título l da Constituição Federal. Os mundo rural do interior de São Paulo, quando comparado com o interior do extremo Sul, do
fundamentos e os objetivos da República, além dos direitos e garantias fundamentais, extremo Norte ou do Nordeste, por exemplo. E aqui é necessário não confundir conceitos. A
precisam, de fato, construir o chão de referência obrigatória no norteamento dos currículos da ideia de "uma só escola para todos", definitivamente presente nos compromissos internacionais
educação básica, vez que ela é estratégica para a formação do cidadão. a partir da Conferência Mundial patrocinada pela UNESCO, UNICEF, PNUD e BANCO
MUNDIAL e realizada de 5 a 9 de março de 1990, em Jomtien, Tailândia, não significa que
A promoção do desporto educacional e das práticas desportivas não formais representa todos tenham uma escola sob um único padrão inflexível de organização. Pelo contrário,
avanço importante para um país como o Brasil, possuidor de uma significa que, sendo a educação básica área prioritária dos investimentos públicos em
educação, deve ela ser acessível universalmente, organizada
Página104 Página 105
porém, sob o critério "da satisfação das necessidades básicas de aprendizagem". E estas
necessidades são de indivíduos contextualizados.
As dificuldades encontradas para a objetivação deste dispositivo legal refletem o caráter
As estatísticas sobre a condição da educação no campo podem ser melhor visualizadas profundamente elitista da escola básica brasileira, fator grandemente responsável pelo
assim: alargamento da dívida social dos governos em relação às populações pobres. Não se trata de
investir na "pedagogia da pobreza", senão de buscar uma escola possível em que se levem em
conta as peculiaridades e carências dos alunos e em que se adaptem as metodologias, os
conteúdos e a organização do processo pedagógico, como diz ARROYO (1986, p. 27).
Evidentemente, tal somente ocorrerá quando o calendário escolar sair do foco urbano e se
deixar iluminar pelas fases do ciclo agrícola e pelas condições climáticas de cada região. De
Obs.: TABELAS ANEXADAS AO FINAL DO LIVRO. outra forma, adequar o conteúdo à natureza do trabalho na zona rural importa em repensar a
própria formação do professor desta escola e suas condições de trabalho, a partir do material de
apoio ao ensino e das condições salariais. A matriz psicopedagógica, eivada de um
culturalismo anti-rural, norteadora da formação destes professores, produz uma disfunção
educativa entre o que o professor quer e o que o aluno é. Por isso, avaliações feitas das escolas
rurais (e são pouquíssimas!) revelam alunos atrasados, indispostos à aprendizagem, sem base
cultural e avessos às atividades intelectuais. Na verdade, a escola é que não construiu uma
matriz diferente para receber um aluno diferente7 (NOTA: Para um melhor entendimento deste assunto,
ver: ARROYO, Miguel C., Da Escola Carente à Escola Possível, Edições LOYOLA, Col. Educação Popular, São
Paulo, 1986.).
Página 107
Página 106
Seção II Da Educação Infantil Os números da educação pré-escolar no Brasil indicam uma grande concentração de
matrícula de base municipal, como se pode ver:
Art. 29 A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o
Matrícula Total Federal Estadual Municipal Privada
desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico,
psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. 4.977.847 1.751 302.234 3.402.909 1.270.953
Fonte: INPE/MEC, 2003.

A inclusão da Educação Infantil no conceito de educação básica - primeira etapa, diz o A matrícula por faixa etária revela uma extrema concentração na faixa de 4 a 6 anos, como
texto legal - representa um avanço importante nas responsabilidades públicas sobre educação. se pode ver:
A LDB anterior foi omissa a tal respeito. Tratou, superficialmente, da questão ao dizer, no § 2°
do Art. 19, que "os sistemas de ensino velarão (grifo nosso) para que as crianças da idade
Matrícula Total De 0 a 3 anos De 4 a 6 anos De 7 a 9 anos Mais de 9 anos
inferior a sete anos recebam conveniente educação cm escolas maternais, jardins de infância e
instituições equivalentes". Ou seja, isto e nada faz pouca diferença. 4.977.847 183.601 4.375.810 415.309 3.127
Fonte: INPE/MEC, 2003.
O texto em análise, dando desdobramento a dispositivo constitucional (Art. 208, IV),
alberga a necessidade da oferta de educação a crianças de zero a seis anos e, mais do que isto,
define sua área de alcance (desenvolvimento integral da criança nos aspectos físico, As diretrizes gerais do MEC para a Educação Infantil estão centradas nos seguintes grandes
psicológico, intelectual e social). eixos:

O Ministério da Educação, embora tenha, desde 1974, um setor para tratar deste assunto, 1. A Educação Infantil é a primeira etapa da Educação Básica e destina-se à criança de
na verdade, jamais desenvolveu uma política coerente e sequencial que compatibilizasse zero a seis anos de idade, não sendo obrigatória, mas um direito a que o Estado tem
idéias, corpo técnico para cooperação com os Estados e recursos financeiros. Ou seja, ausente obrigação de atender;
dos orçamentos públicos, a educação pré-escolar jamais ultrapassou o terreno das intenções. 2. As instituições que oferecem Educação Infantil, integrantes dos Sistemas de Ensino, são
Abrigada deste 1988 em dispositivo constitucional e, agora, integrada ao conceito de educação as creches e pré-escolas, dividindo-se a clientela entre elas pelo critério exclusivo da
básica, é de se esperar que possa desenvolver-se sistematicamente, a exemplo do que ocorre faixa etária (zero a três anos na creche e quatro a seis na pré-escola);
nos países de estrutura educacional sólida. 3. A Educação Infantil é oferecida para, em complementação à ação da família,
Atenta a este aparente descaso, a atual gestão do MEC vem buscando resgatar a educação proporcionar condições adequadas de desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e
pré-escolar mediante uma clara definição de políticas e diretrizes para o setor, desdobradas social da criança e promover a ampliação de suas experiências e conhecimentos,
em: i) diretrizes gerais; ii) diretrizes pedagógicas; e iii) diretrizes para uma política de estimulando seu interesse pelo processo de transformação da natureza e pela convivência
Recursos Humanos. Os objetivos da política de educação infantil definidos pelo MEC são: em sociedade;
1. Expandir a oferta de vagas para crianças de zero a seis anos; 4. As ações de educação, na creche e na pré-escola, devem ser complementadas pelas de
saúde e assistência, realizadas de forma articulada com os setores competentes;
2. Fortalecer, nas instâncias competentes, a concepção de educação infantil;
5. O currículo da Educação Infantil deve levar em conta, na sua concepção e
3. Promover a melhoria da qualidade do atendimento em creches e pré-escolas. administração, o grau de desenvolvimento da criança, a diversidade social e cultural das
populações infantis e os conhecimentos que se pretendam universalizar;
6. Os profissionais de Educação Infantil devem ser formados em cursos de nível médio ou
superior, que contemplem conteúdos específicos relativos a essa etapa da educação;
Página 109
Página 108 profissionais trabalharão de forma permanentemente articulada, para se poder garantir o
7. As crianças com necessidades especiais devem, sempre que possível, ser atendidas na acompanhamento da criança e o adequado registro do processo de evolução. Dirão alguns que
rede regular de creches e pré-escolas. se trata de uma utopia, tal a dificuldade de reunir tantos profissionais e a complexidade de
fazê-los trabalhar educativamente! Mas, afinal, o que é a educação senão um processo de
Art. 30 A educação infantil será oferecida em: construção da utopia concreta?!

I. Creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; A experiência internacional revela que, quando iniciada cedo, a escolarização contribui
para a igualdade de oportunidades, como apoio adicional à superação das dificuldades iniciais
II. Pré-escolas, para crianças de quatro a seis anos de idade. de pobreza ou de um meio sócio-cultural limitado. Além destas razões, que por si sós
constituem argumentos de importância transcendente, a UNESCO, em seu Relatório sobre a
O Artigo anterior oferece os conceitos e as funções. Este Artigo complementa, definindo a Educação para o século XXI, faz duas constatações importantíssimas: sem a escola, a
forma de oferta dentro de marcos temporais. De fato, busca-se respeitar a faixa etária da socialização perde espaço em nossa sociedade, pois "as crianças que se beneficiam da
criança, a partir da constituição do próprio espaço institucional que se deve organizar com as educação pré-escolar têm uma disposição mais favorável em relação à escola e correm menos
condições objetivas de atendimento ao desenvolvimento infantil. Nunca é demais acentuar que, risco de abandonar prematuramente do que as que não tiveram esta oportunidade".
na educação infantil, há necessidade de toda uma ambientação psicopedagógica própria, capaz Deve-se reconhecer a acentuada evolução da matrícula na educação infantil por pressão da
de estimular o desenvolvimento sensoriomotor da criança e as dobras culturais do seu processo própria sociedade, como se pode constatar:
de socialização. Afinal, esta etapa da educação é fundamental para o sucesso escolar no tempo
posterior. Matrículas na Educação Infantil
Região 1997 2001 2002 2003*
Norte 344.140 420.929 437.242 449.609
Art. 31 Na educação infantil a avaliação far-se-á mediante acompanhamento e registro do seu Nordeste 1.511.164 1.759.804 1.786.813 1.833.920
desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental. Centro-Oeste 248.250 333.019 345.685 360.455
Sudeste 1.986.739 2.600.454 2.744.705 2.897.550
Sul 549.927 797.944 810.324 937.999
Os conceitos que devem ser atendidos na educação infantil são o de acompanhamento do Brasil 4.640.220 5.912.150 6.124.769 6.397.601
desenvolvimento c do processo de observação, com o respectivo registro, e não o da promoção Fonte: INEP/MEC, 2003.
como acontece no ensino fundamental. Esta diferença ajuda a compreender a distância que
existe entre ensino e educação, ou, mais precisamente, entre crescer interiormente e ser Seção III
aprovado exteriormente. Trata-se, portanto, de um processo essencialmente qualitativo. Do Ensino Fundamental
Neste campo, há muito que se fazer ainda. O processo de avaliação da escola brasileira não
consegue ultrapassara dimensão do "ensino dado", sem considerar, por conseguinte, os ritmos Art. 32 O ensino fundamental, com duração mínima de oito anos, obrigatório e gratuito na
individuais. Ê uma avaliação de conteúdos de ensino e, não, uma avaliação de escola pública, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante:
desenvolvimento evolutivo da aprendizagem. Para esta tarefa, tem-se que formar um
competente quadro de especialistas da área de apoio ao desenvolvimento, o que inclui, alem I. O desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno
dos professores, médicos, psicólogos, sociólogos, assistentes sociais, fonoaudiólogos, domínio da leitura, da escrita e do cálculo;
terapeutas familiares (a educação infantil é complementar à ação da família e da comunidade), II. A compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das
orientadores educacionais, supervisores c especialistas cm medidas educacionais. Todos estes artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade;
Página 110 Página111
III. O desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de de professores e gestores com os resultados da experiência. Na verdade, a adoção da
conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; organização do ensino em ciclos supõe as seguintes providências: i) professores
IV. O fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de permanentemente capacitados; ii) material escolar abundante e diversificado; iii) turmas
tolerância recíproca em que se assenta a vida social. menores em sala de aula; iv) planejamento contínuo e articulado das ações de ensino; v) maior
disponibilidade de tempo dos professores para cuidarem do planejamento da escola como um
§ 1º É facultado aos sistemas de ensino desdobrar o ensino fundamental em ciclos. grande laboratório de aprendizagem dos alunos, dos professores, dos gestores e dos próprios
§ 2º Os estabelecimentos que utilizam progressão regular por série podem adotar no ensino pais; vi) adoção de mecanismos de acompanhamento de alunos com foco especial no
fundamental o regime de progressão continuada, sem prejuízo da avaliação do processo de desenvolvimento individual da aprendizagem diária
ensino-aprendizagem, observadas as normas do respectivo sistema de ensino. Evidentemente, medidas deste tipo não produzirão os efeitos esperados, se tomadas
§ 3° O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às isoladamente. Antes de qualquer iniciativa inovadora, deve-se definir, claramente, o padrão
comunidades indígenas a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de básico de funcionamento e de desenvolvimento de uma escola de educação básica. Quais são
aprendizagem. os insumos necessários à tipificação deste tipo de escola, tratando-se de uma escola pública?
Quais os marcos de referência para que esta escola pública trabalhe o processo de incremento
§ 4º O ensino fundamental será presencial, sendo o ensino à distância utilizado como da qualidade educativa, envolvendo professores, alunos, funcionários e seu entorno? Sem
complementação da aprendizagem ou em situações emergenciais. prévia e adequada resposta a estas questões, muitas iniciativas, embora impregnadas de elevada
motivação, de sadia política educativa, não passarão de um despiste enganoso. Ao que consta,
tanto no caso de São Paulo como do Ceará, estas preocupações estão presentes.
Inc. I a IV Em relação à Lei 5.692/71, há duas importantes inovações no campo do ensino
fundamental. A primeira refere-se à duração. Enquanto a Lei anterior definia para este nível de O § 2º abre a possibilidade de adoção do regime de progressão continuada para as escolas
ensino uma duração de oito anos (Art. 18), a nova LDB fala de duração mínima, ou seja, os que funcionarem com o sistema de progressão regular por série, como ocorre com grande parte
sistemas de ensino terão a liberdade de ampliar este tempo se assim o desejarem. A segunda de nossas escolas. Progressão continuada é expressão para "despistar" a questionada ideia de
refere-se à clara definição dos grandes eixos constituintes da formação básica, definidos nos progressão automática. Com esta alternativa, abre-se uma brecha para a redução dos alarmantes
Incisos de I a IV. índices de reprovação no ensino fundamental brasileiro. Mas, para a colimação deste objetivo,
é imprescindível a implementação de mecanismos eficazes no campo dos estudos de
O § 1º atribui, aos sistemas de ensino, a faculdade de desdobrar o ensino fundamental em recuperação (Art. 12, Inc. V). Caso contrário, a progressão continuada contribuirá, também,
ciclos. Na prática, é desta forma que tem funcionado. Fala-se em primeiro grau menor e para a reprovação continuada.
primeiro grau maior. Esta possibilidade oferece o perigo de uma organização do ensino
§ 3º O Art. 210, §2º, da Constituição Federal, prescreve a obrigatoriedade de o ensino
fundamental dividida em duas etapas estanques, em prejuízo do conceito psicopedagógico de
fundamental ser ministrado em língua portuguesa. No caso em tela, a LDB transcreve este
fundamental. Superar este risco implica uma prática escolar de trabalho integrado dos dispositivo. No entanto, comete uma restrição à Constituição, ao assegurar às comunidades
professores e de conteúdos integrais na perspectiva dos objetivos do ensino. indígenas o direito da utilização de suas línguas maternas, porém, excluindo o termo também,
Várias unidades da federação têm experimentado a reorganização do ensino fundamental denotativo de inclusão, contido no texto constitucional. Trata-se de um lapso lamentável do
em ciclos. No Brasil, São Paulo e Ceará foram pioneiros na implantação do sistema, visando à legislador, sobretudo em uma época em que falar mais de uma língua tornou-se questão de
redução dos índices de evasão e repetência, pela adoção do regime de promoção automática. A sobrevivência. A prevalecer o descumprimento do texto constitucional, o indígena brasileiro
ideia é que o aluno fique estimulado a se envolver, inteiramente, no processo de aprendizagem estará condenado a permanecer em crescente isolamento. A propósito, a experiência de países
sem as pressões naturais da aprovação semestral e anual. Tem havido frequentes manifestações que tiveram como política a preservação da cultura indígena
de insatisfação
Página 112
Página 113
caminhou no sentido de uma aprendizagem bilíngüe para os seus índios, até como forma de
lhes possibilitar uma progressiva integração à sociedade nacional. Quanto aos processos conhecimentos de diferentes disciplinas) de Língua Portuguesa, Matemática, História,
próprios de aprendizagem, é imperioso que assim seja, visto tratar-se do princípio de respeito Geografia, Ciências Naturais, Educação Física, Arte e Língua Estrangeira, os Parâmetros
à identidade étnico-cultural das comunidades indígenas. Ainda bem que o Art. 78 repõe o incluem a abordagem de questões sociais urgentes, sob a forma de temas transversais.
estatuto da educação indígena bilíngüe, como oferta escolar. Uma razão a mais para a não São eles: i) Ética; ii) Saúde; iii) Meio Ambiente; iv) Orientação Sexual; v) Trabalho; vi)
exclusão do vocábulo TAMBÉM, conforme se constata no § 3º deste artigo. Consumo; e vii) Pluralidade Cultural. Estes temas não constituem áreas novas do
O § 4º destaca, como regra geral, a organização do ensino fundamental sob a forma currículo, senão que devem ser tratados de forma internalizada pelas diferentes áreas,
presencial, embora admita a educação a distância como metodologia pedagógica possível à permeando seus objetivos, conteúdos e orientações didáticas. Por fim, cabe esclarecer que
guisa de complementação da aprendizagem. Esta possibilidade é democratizante (amplia as os Parâmetros Curriculares Nacionais devem ser apropriados como referência curricular
possibilidades de acesso ao ensino fundamental), é moderna (inclui a instrumentação nacional, para o Ensino Fundamental, devendo ser refinalizados em propostas regionais
eletrônica nos "materiais" de apoio ao ensino), é compensatória (agiliza a aprendizagem por Estados e Municípios do País e, ainda, no âmbito dos projetos escolares da proposta
daqueles alunos que não tiveram acesso à escola na idade própria) e, por fim, é pedagógica escolar de que falam o Art. 12, Inc. I, e o Art. 13, Inc. I, da LDB. Trata-se,
reequacionadora do processo de organização de turmas (reduz a distorção idade/série). portanto, de material de referência para a reflexão da prática e seleção de materiais
didáticos e de recursos tecnológicos. Os parâmetros indicam os "pontos comuns" que
Por fim, retornando ao caput deste artigo, cabe anotar que o legislador fala em formação- caracterizam a aprendizagem no Ensino Fundamental. Mas, ao mesmo tempo, abrem-se
básica, quando se refere ao ensino fundamental e em formação-comum quando se refere à para as diversidades regionais e a pluralidade cultural do País.
educação básica. Sobre este último aspecto, ver o que foi dito nos comentários ao Art. 22. Não
se trata de expressões equivalentes. A ideia de formação-comum é bem mais abrangente.
Enquanto a formação básica adjunge-se ao ensino fundamental, portanto, ao ensino de oferta Art. 33 O ensino religioso, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários
universalmente obrigatória a todos os cidadãos brasileiros, a ideia de formação comum normais das escolas públicas de ensino fundamental, sendo oferecido, sem ônus para os
pervade os três níveis de constituição da educação básica e, desta forma, desentranhando-se cofres públicos, de acordo com as preferências manifestadas pelos alunos ou por seus
dos limites do tempo no ensino fundamental (oito anos), busca superar a quantidade pela responsáveis, em caráter:
qualidade educativa. Tanto é assim que o art. 9°, Inc. IY ao falar das incumbências da União, I. Confessional, de acordo com a opção religiosa do aluno ou de seu responsável,
refere-se a competências e diretrizes (para a educação infantil, para o ensino fundamental e ministrado por professores ou orientadores religiosos preparados e credenciados
para o ensino médio) que nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a pelas respectivas igrejas ou entidades religiosas; ou
assegurar formação básica comum (grifo nosso). Portanto, formação básica e formação
comum são conceitos diferenciados, embora complementares. II. Interconfessional, resultante de acordo entre as diversas entidades religiosas, que
se responsabilizarão pela elaboração do respectivo programa.
No cumprimento do que estabelece o Art. 9°, Inc. IV da LDB, o MEC elaborou, através da
Secretaria de Ensino Fundamental, os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino * Este Artigo foi alterado pela Lei 9.475/97, de 25 de julho de 1997. Assumiu a
Fundamental, buscando sinalizar referências nacionais comuns ao processo educativo. Aqui seguinte redação:
busca-se apontar o universo de conhecimentos identificados como indispensáveis ao exercício Art. 1º O art. 33 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar com a
da cidadania. Neste sentido, a visão dos conteúdos deve ultrapassar os conceitos, pela seguinte redação:
incorporação de procedimentos, atitudes e valores como formas de conhecimento tão úteis
"Art. 33. O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação
quanto os aspectos teóricos abordados tradicionalmente. Assim, além dos conteúdos
básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de
específicos trabalhados nas áreas (o tratamento dos conteúdos deve integrar
ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil,
vedadas quaisquer formas de proselitismo.
§ 1º Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição
dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação e
admissão dos professores.
Página 114 Página 115
§ 2º Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações igrejas, mas é uma forma de operacionalizar o princípio universal da liberdade; iii) abrir um
religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso. espaço para o ensino religioso não é abrir um espaço para a catequese, mas ensejar a
Art. 2° Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. valorização da espiritualidade humana; iv) o conteúdo do ensino religioso deve contribuir
para que o aluno transite da consciência ingênua para a consciência crítica da realidade, na
Art. 3º Revogam-se as disposições em contrário. busca da transformação do mundo.

Esta foi a primeira emenda à LDB. Com a nova redação, a expressão sem ônus foi retirada Art. 34 A jornada escolar no ensino fundamental incluirá pelo menos quatro horas de
do texto, abrindo-se a possibilidade de os Estados remunerarem os professores. Aliás, vinte trabalho efetivo em sala de aula, sendo progressivamente ampliado o período de permanência
Estados da Federação já o fazem. Prevê, igualmente, a nova Lei que os Sistemas de Ensino na escola.
regulamentarão os procedimentos para a definição dos conteúdos e estabelecerão as normas § 1° São ressalvados os casos do ensino noturno e das formas alternativas de organização
para a habilitação e admissão de professores. Cada Sistema deverá, também, ouvir as autorizadas nesta Lei.
organizações religiosas de denominação variada para a definição dos conteúdos.
§ 2° O ensino fundamental será ministrado progressivamente em tempo integral, a
De matrícula facultativa, o ensino religioso passaria a ser ofertado sem ônus para o Estado. critério dos sistemas de ensino.
Mas a Lei 9.475/97 extinguiu esta proibição. Fica, portanto, resolvida a polemica da
remuneração dos professores. Qualquer que seja a modalidade de organização da oferta
(confessional ou interconfessional) parece evidente o processo de laicização da educação A escola pública brasileira, voltada para a educação básica, não apenas apresentava um
brasileira. dos menores calendários letivos da América Latina (180 dias), como também uma das
Em sendo de oferta integrada aos horários normais das escolas públicas, é dei se questionar menores cargas horárias/dia (na média nacional, não chega a três horas plenas de aula). O
como assegurar uma linha de equilíbrio dos conteúdos, sem cair, de um lado, numa espécie de objetivo deste dispositivo é reverter esta situação, conferindo, ao aluno, a permanência de
niilismo religioso e, de outro, no indesejável proselitismo. A resposta parece estar na própria quatro horas em sala de aula, para um trabalho efetivo de aprendizagem mais intensa. Esta
função de terminalidade da educação básica. Neste sentido, o ensino religioso deverá buscar a parece ser a primeira etapa do processo de ampliação do horário escolar na perspectiva da
oferta de subsídios para que o jovem vá elaborando o processo de construção de sua implantação progressiva da escola de tempo integral prevista no § 2° deste Artigo.
espiritualidade. Esta trajetória, partindo de um princípio ético fundamental, deverá contemplar Uma carga horária diminuta no ensino fundamental retira, dele, a possibilidade de se
os fundamentos da alteridade (reconhecer a existência do outro e lhe conferir respeito), da oferecer o fundamental do ensino. Há vários levantamentos feitos em diferentes Estados da
solidariedade (reconhecer que todas as pessoas são detentoras de limitações e, por isso, Federação que apontam o cumprimento da carga horária mínima anual (720 horas de acordo
carecem de apoio para a satisfação de suas necessidades "de sobrevivência e de transcendência) com a Lei 5.692/71), nas escolas públicas, só em apenas 70%. Casos foram constatados,
e de cooperação (reconhecer que a história humana constitui patrimônio natural e cultural igualmente, de aprovação dos alunos sem que houvessem tido aulas de português e
comum e, como tal, precisa de todos para a preservação de tudo). Mas é fundamental matemática. No Ensino Médio, a situação não é menos alarmante. A aprendizagem supõe
compreender que esta abordagem requer coragem das Escolas para tratarem das questões vitais tempo. Sem tempo, a aprendizagem é, apenas, suposição. Por fim, cabe compreender que a
dos jovens que, no mundo de hoje, passam pelo conjunto de problemas existenciais que noção de extensão da escolaridade é bivalente. No sentido vertical, denota prolongamento da
povoam os dois limites extremos da experiência humana: a vida e a morte. Assim, questões duração em horas/dia, em dias letivos/ano e em tempo de escolaridade básica compulsória.
como sexo, drogas e mudanças de comportamento em geral estão no centro da problemática de No sentido horizontal, denota ampliação da taxa de escolarização de alunos em nível local,
uma correta abordagem do ensino religioso na escola pública. regional e nacional.
Em síntese, é preciso compreender que: i) a educação integral inclui o ensino religioso; ii) O § 2° aponta para a evolução da oferta de ensino fundamental em tempo integral. Esta
a inclusão do ensino religioso na escola não é concessão do Estado às ideia parece contribuir para o enfrentamento da velha questão de uma escola pobre para o
aluno pobre. E curioso observar como o tempo do aluno oriundo de classes populares é curto.
Neste sentido, pode-se dizer que, embora o
Página 116 Página 117
aluno pobre vá tendo cada vez mais acesso à escola, seu programa de estudos contribui para a A ausência desta moldura finalística para o ensino médio retirou-lhe a substância educativa
desescolarização, à medida que a organização da escola não é concebida para ele permanecer enquanto processo de aprendizagem. Prevaleceu — e esta herança vai continuar certamente por
nela grande parte do dia. E importante compreender que escola de tempo integral não precisa um bom tempo - a ideia de ciclo preparatório de estudos para ingresso na universidade. Não
ser uma escola com arquitetura específica, caso dos Cieps, mas qualquer escola desde que seria, portanto, exagero afirmar-se que o ex-ensino de 2º grau tornou-se refém do vestibular.
inclua, na formulação do projeto pedagógico, os diferentes "tempos" de aprendizagem. A Com a planetarização da economia e o reordenamento dos esquemas de trabalho, vai-se
ideia do ensino fundamental de tempo integral respeita o princípio da oferta diversificada de alastrando o fantasma do desemprego, com repercussões diretas sobre o processo formativo do
tipos dei organização escolar. jovem. Neste cenário, o diploma universitário vai passando a ter um valor relativo e, em
Seção IV consequência, o ensino médio poderá recuperar sua identidade pela redescoberta da
Do Ensino Médio importância da educação básica.
A re-identidade do ensino médio passa pela ruptura da ambigüidade entre academicismo e
profissionalização. Busca-se a educação, não, o treinamento. O aluno vai-se educar a partir de
Art. 35 O ensino médio, etapa final da educação básica, com duração mínima de três anos, uma nova base técnica que exige, crescentemente, uma progressiva capacidade no âmbito do
terá como finalidades: pensamento lógico-abstrato. Como etapa terminal da educação básica, o ensino médio
I. A consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino posiciona-se na perspectiva de uma escola básica reconceituada à luz da apropriação de
fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos; inovações tecnológicas e organizacionais lastreadas por um substrato de conhecimento
II. A preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar assegurado por uma formação básica comum e essencial.
aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de Convém perceber que a lei trata o ensino médio como conceito completo, semanticamente
ocupação ou aperfeiçoamento posteriores; pleno e pedagogicamente suficiente. Não se fala mais em ensino médio propedêutico, ensino
médio de formação geral, ensino médio profissionalizante e expressões outras que lhe
III. O aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o
desfiguram a compreensão. A lei é clara: "O ensino médio, etapa final da educação básica ..."
desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;
(grifo nosso). Trata-se de um conceito com identidade epistemológica, com territorialização
IV. A compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, semântica precisa, ou, como diz DELEUZE (1987, p. 4), com paisagem decifrável.
relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.
Convém destacar que se o Ensino Médio tem, entre as suas finalidades, a consolidação e o
aprofundamento do que foi aprendido no Ensino Fundamental, é razoável concluir que a escola
Retorna a denominação de ensino médio, consagrada na Lei 4.024/61. A Constituição de Ensino Médio deve ter como traço marcante a característica de ser uma escola para jovens,
Federal já havia restabelecido esta expressão. A nomenclatura reflete a posição tópica deste ou seja, uma escola que seja ativa na sua concepção psicopedagógica, aberta na sua concepção
nível de ensino: posiciona-se entre o ensino fundamental e o ensino superior. E médio porque arquitetônica, permeável no seu currículo, de tal sorte que responda, adequadamente, às
está no meio. No entanto, ao restabelecer o nome, a LDB não pretende restabelecer a necessidades bio-sócio-afetivas e culturais desta população e que use as novas tecnologias de
compreensão, haja vista que já o define como etapa final de educação básica. Pretende, comunicação e informação no processo de ensino-aprendizagem (TV, Rádio, Vídeo,
desta forma, resgatar-lhe a identidade perdida. E o faz, definindo, claramente, as funções: i) Computador etc.). Mas, por outro lado, se esta escola deve oferecer condições para a
consolidar conhecimentos anteriormente adquiridos; ii) preparar o cidadão produtivo; iii) im- preparação básica para o trabalho, deve preocupar-se com o trabalhador-estudante, assim que
plementar a autonomia intelectual e a formação ética; e, ainda, iv) contextualizar os lhe seja oferecido acesso a conteúdos contextualizados, assegurando-se relações concretas e
conhecimentos. conseqüentes entre conhecimento e contexto. O fundamental é o estímulo ao protagonismo do
aluno, de tal sorte que ele vá ganhando autonomia intelectual.
Página 117 Página 119
A escola de Ensino Médio com este perfil deve ter na interdisciplinaridade dos conteúdos, A leitura deste Artigo deve ser feita articuladamente com a dos artigos 24,25 e 26, onde
na flexibilidade do currículo e no trabalho cm equipe as estratégias fundamentais de estão estatuídas as linhas básicas comuns que devem nortear toda a configuração funcional do
organização e funcionamento. Para tanto, impõe-se uma nova abordagem de formação inicial ensino fundamental e do ensino médio enquanto constituintes da educação básica. O Artigo
e continuada dos professores, administradores e do pessoal da equipe de apoio técnico- em apreço desdobra, sob a ótica da formulação do currículo, o que já foi dito, só que, agora, à
pedagógico. A evolução do crescimento do Ensino Médio para os próximos anos dá uma ideia luz de diretrizes, ou seja, à luz de linhas de procedimento.
exata do tamanho deste desafio. Inc. I A educação tecnológica básica, conceito que inaugura estas diretrizes, deve ser entendida
de forma muito precisa. Primeiro, uma distinção entre ciência e tecnologia. Enquanto aquela
Art. 36 O currículo do ensino médio observará o disposto na Seção l deste Capítulo e as busca a expansão do conhecimento, esta se orienta para a aplicação do saber na busca da
seguintes diretrizes: produção de bens e serviços. Uma e conceito teórico, outra, desenvolvimento prático. Tal
distinção não isola os dois conceitos. Ao contrário, estabelece um imbricamento entre ambos, à
I. Destacará a educação tecnológica básica, a compreensão do significado da ciência, das medida que o fazer tecnológico não se esgota num conteúdo meramente manipulativo, mas se
letras e das artes; o processo histórico de transformação da sociedade e da cultura; a sustenta num saber tecnológico, isto é, está jungido a métodos aplicados e a suas respectivas
língua portuguesa como instrumento de comunicação, acesso ao conhecimento e transformações.
exercício da cidadania;
Um novo modelo de currículo adequado aos novos conteúdos tecnológicos deverá centrar-
II. Adotará metodologias de ensino e de avaliação que estimulem a iniciativa dos se não apenas nos processos produtivos tradicionais, mas também nos processos
estudantes; automatizados, o que implica numa educação com vários níveis de formação. O fundamental é
III. Será incluída uma língua estrangeira moderna, como disciplina obrigatória, escolhida que o currículo esteja iluminado por um saber, por uma linguagem comum e por processos
pela comunidade escolar, e uma segunda, em caráter optativo, dentro das congruentes (educação tecnológica básica) que permeiem as etapas que vão da geração à
disponibilidades da instituição. execução da tecnologia. O aluno formado por este currículo incorpora habilidades tecnológicas
para o desempenho de funções e desenvolve competências metodológicas e atitudes mentais
§ 1º Os conteúdos, as metodologias e as formas de avaliação serão organizados de tal coerentes com o processo de mudança acelerada das tecnologias.
forma que ao final do ensino médio o educando demonstre:
Esta perspectiva curricular se opõe inteiramente à tradicional formação passiva do aluno do
I. Domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a produção moderna; ensino médio que só pensa no vestibular. Para isso, se especializa em "macetes", através da
II. Conhecimento das formas contemporâneas de linguagem; indústria dos cursinhos. O horizonte é de uma profunda articulação com o ensino fundamental,
evitando-se a descontinuidade da aprendizagem. No fundamental, o aluno adquiriu os meios
III. Domínio dos conhecimentos de Filosofia e de Sociologia necessários ao exercício para interpretar as linguagens básicas (códigos de leitura, operações fundamentais e de
da cidadania. apropriação do contexto). No ensino médio, vai aprofundar esses meios para interpretar os
§ 2º O ensino médio, atendida a formação geral do educando, poderá prepará-lo para o conteúdos tecnológicos básicos, o que significa adquirir capacidade intelectual para
exercício de profissões técnicas. acompanhar as transformações que se dão na área do conhecimento, aplicar, atualizadamente,
estas transformações, adequar-se às novas configurações do ambiente produtivo, estar apto a
§ 3° Os cursos do ensino médio terão equivalência legal e habilitarão ao prosseguimento
responder, prontamente, às situações de desconformidade laboral e, por fim, posicionar-se,
de estudos.
afirmativamente, frente às inovações decorrentes do desenvolvimento técnico-científico.
§ 4º A preparação geral para o trabalho e, facultativamente, a habilitação profissional,
Toda esta nova abordagem que a Lei impõe para o currículo de um ensino médio
poderão ser desenvolvidas nos próprios estabelecimentos de ensino médio ou em
reconceituado deve ter em conta os processos históricos da evolução do
cooperação com instituições especializadas em educação profissional.
Página 120 Página 121
conhecimento. Trata-se de algo dinâmico. O currículo trabalha um conhecimento sempre determinadas. Estas condições, presentes no conjunto das organizações sociais, definem os
provisório que exige, do aluno, estar em "reciclagem" permanente. Nesse sentido, as letras e as padrões de comportamento. Alcançará, por fim, que a educação é um processo político
artes, menos do que manifestações culturais congeladas no tempo, devem ser trabalhadas à luz planejado e, portanto, condicionador da relação poder/saber.
deste processo de agregação da cultura humana que se exterioriza (e sempre uma Pela agregação dos diversos conhecimentos adquiridos na escola, agora fortalecidos pela
manifestação), mas nunca se cristaliza (deve; captada, sempre, como urna manifestação visão crítica que a Filosofia e a Sociologia oferecem, o aluno vai poder posicionar-se mais
dinâmica). Assim, a pintura, o texto literário, a peça de teatro, a escultura, a cerâmica ou o adequadamente sobre a importância e a validade social do que aprendeu, do que está
desenho rupreste nada mais são do que corpos radiográficos do processo de transformação da aprendendo e do que vai aprender. E esta avaliação c fundamental para a definição de sua
sociedade. Por isso, são fotografias do dinamismo histórico. A base para esta compreensão é o postura ética.
domínio do próprio idioma pátrio, uma vez que, como ensinam os lingüistas, não se pensa
através de idéias, mas através de palavras e estas têm seu "dinamismo" na língua. No § 2º, a Lei traz uma inovação de extrema relevância. Define, como dimensão primeira
do ensino médio, a formação geral, ou seja, a formação básica qualitativa que consiste em
O Inciso II destaca a necessidade de o currículo ser trabalhado com metodologias de ensino compor um currículo através do qual o aluno aprenda a aprender, desenvolva a autonomia para
e de avaliação que incentivem à criatividade dos alunos. Esta é uma questão crucial da pensar e substitua a pedagogia formalista nos conteúdos e ortodoxa nos métodos e na
educação básica brasileira. Como tornar criativo o aluno que frequenta uma escola avaliação, por uma conduta crítica e criativa, face ao conhecimento veiculado pelas diferentes
inteiramente pautada por processos de ensino que favorecem a mera repetição? Como disciplinas. Assim, a educação profissional (ver Art. 39) torna-se complementar à educação
estimular a iniciativa dos alunos do ensino médio, quando eles são "treinados", mediante aulas básica. Em outras palavras, o preparo para o exercício de profissões técnicas vai-se dar através
essencialmente expositivas, para repassar, nos exames, o que foi exposto nas aulas? Mas é de um currículo específico, deslocado da educação geral. Este aspecto foi disciplinado pelo
importante que a Lei destaque a criatividade como diretriz de formação curricular, ao menos Decreto nº 2.208, de 17 de abril de 1997, objeto de comentários mais adiante (ver texto do
enquanto re-ação à pedagogia do clone. Decreto no Anexo III).
O Inciso III estabelece a inclusão, no currículo do ensino médio, de duas línguas Por fim, diz o § 4º que a preparação geral para o trabalho, que se realiza através de
estrangeiras: uma obrigatória e outra optativa. Trata-se de uma exigência de valor indiscutível. disciplinas não propriamente profissionalizantes, mas instrumentais básicas, e, ainda, a
Com a globalização da economia e a planetarização das relações internacionais, a tendência é habilitação profissional, que é formação específica de nível técnico, pode ser feita ou na
que cada um se torne, cada vez mais, cidadão do mundo. E, para tanto, faz-se impositivo falar própria escola ou em instituições especializadas do tipo: escolas técnicas, centros de formação
mais de um idioma. profissional e empresas que desenvolvam programas de qualificação, requalificação e
O § 1º determina que as disciplinas curriculares, as metodologias e os procedimentos de reprofissionalização. Aqui, parece oportuno já esclarecer que a educação profissional deixa de
avaliação devem convergir para que o aluno desenvolva as capacidades necessárias de ser um nível de ensino "stricto sensu" e passa a ser modalidade de educação complementar à
compreensão dos códigos básicos da moderna produção, revele-se familiarizado com as formas educação básica.
contemporâneas de comunicação e, ainda, possua conhecimentos de Filosofia e de Sociologia
A exemplo do que ocorreu com o Ensino Fundamental, o MEC, observando o que
capazes de o posicionar adequadamente, como cidadão. A Filosofia e a Sociologia no currículo
estabelece o Art. 9º, Inc. IV da LDB, encaminhou propostas de regulamentação da base
se completam e complementam a educação para a cidadania. Pelo estudo da Filosofia, o
curricular nacional e de organização do Ensino Médio, preparadas pela Secretaria de Educação
estudante vai penetrar na natureza da realidade e da significação dos seus códigos, vai
Média e Tecnológica/SEMTEC, para apreciação e deliberação da Câmara de Educação Básica
compreender as condições efetivas da construção do ser histórico, vai penetrar, criticamente,
do Conselho Nacional de Educação/CNE. Desta providência, resultou o Parecer nº CEB 15/98,
no mundo do conhecimento e em toda a sua estrutura axiológica e vai, por fim, equipar-se de
aprovado em 01/06/98, acompanhado da Resolução CEB 03 de 26 de junho do mesmo ano,
instrumental ético imprescindível para o estabelecimento das possibilidades e dos limites
instituindo as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio.
humanos. Pelo estudo da Sociologia, o aluno vai mergulhar na história humana como
dinamismo que se constrói na passarela da vida social. Compreenderá que esta trajetória As diretrizes são, na verdade, um compacto de "definições doutrinárias sobre princípios,
envolve diferentes atores sociais, pessoas, grupos e instituições que se encontram sobre fundamentos e procedimentos a serem observados na organização pedagógica e curricular" de
condições históricas cada escola. Os princípios norteadores desta organização são:
Página 122 Página 123
das práticas sociais e produtivas, situam a inserção do cidadão em um mundo cada vez mais
1. A estética da sensibilidade: busca substituir a estética da repetição e da do conhecimento c dos símbolos.
padronização, incentivando o aprender criativo, a função humana da curiosidade, o b) Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias: a apropriação de concepções
desenvolvimento da afetividade e "as formas lúdicas e alegóricas e conhecer o mundo". científicas atualizadas, referentes ao mundo físico e à conservação do espaço terrestre,
2. A política da igualdade: busca, a partir do respeito aos direitos humanos, desenvolver o constituem foco desta área. Na verdade, trata-se de compreender que o objeto da Física,
princípio constitucional da igualdade no acesso aos bens sociais e culturais, no respeito Química, da Biologia, da Matemática etc. deve ter como referência o mundo físico e natural,
ao patrimônio comum, no encorpamento do espírito de responsabilidade tanto na área embora não se confunda com ele. Os objetos destes campos de conhecimento são distintos.
pública como no mundo das relações privadas e na intolerância com todas as formas de Cada uma destas ciências possui leis próprias. Ao currículo escolar cabe contribuir para a
discriminação. compreensão e apropriação destas leis, situá-las na gramática interna de cada área e, a partir de
3. A ética da identidade: busca ultrapassar as dicotomias entre público e privado, entre então, resolver problemas concretos, mobilizando tecnologias disponíveis ou adequando
mundo moral e material, praticando um humanismo permeável de elementos de tecnologias.
solidariedade, espírito público e reciprocidade, qualidades que devem cimentar as ações c) Ciências Humanas e suas Tecnologias: a ética da identidade pressupõe o "aprender a
da vida cotidiana, profissional, social, civil. Enquanto fundamento educativo, esta ética ser". Em decorrência, a ação da escola não se esgota em transmitir conhecimentos. A ideia é
não se preocupa em "enquadrar" os alunos cm modelos preestabelecidos de conduta que a própria organização escolar e a constituição curricular flexível, cimentadas nos princípios
social. estéticos, políticos e éticos, adotem a inteligência de que os conhecimentos de teor histórico-
Para o êxito deste processo, os conceitos de interdisciplinaridade e contextualização geográfico, socioeconômico, jurídico, psicológico e antropológico constituem insumos
devem constituir uma espécie de energia fecundadora da prática pedagógica e didática a dar fundamentais de interpretação da História Cultural das sociedades e, portanto, instrumentos de
forma aos objetivos do Ensino Médio. sinalização e clarificação dos contornos do pensamento e do conhecimento nas transações e
confrontações da atividade humana.
Dando desdobramento ao texto das Diretrizes Curriculares Nacionais, o Ministério da
Educação publicou o texto dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o Ensino Por outro lado, enquanto as Ciências da Natureza criam e recriam tecnologias "duras", ou
Médio. Diferentemente das Diretrizes, os PCN não têm caráter mandatório no sentido da seja, ferramentas materiais, as Ciências Humanas produzem tecnologias impulsionadoras das
submissão "ipsis litteris" aversão do MEC. No entanto, o texto dos PCN constitui uma rota idéias e do pensamento, ou seja, tecnologias assestadas para processos de gestão, de
segura de construção do novo currículo do Ensino Médio, no processo sempre tenso de comunicação adequada, de seleção de informações, de potencialização da capacidade
qualquer reforma educacional. As indicações expressas são referenciais norteadores da nova decisória, de prontidão mental para intervenções normais ou emergenciais e, sobretudo,
organização do currículo do Ensino Médio, respeitada a pluralidade cultural, regional, étnica, capacitam intelectualmente os indivíduos para o exercício permanente da reflexão crítica entre
religiosa, política e económica do tecido social do País. O horizonte será um só: a busca da os processos científico-tecnológicos e os impactos que produzem sobre o cotidiano das pes-
qualidade da educação mediante a construção da cidadania concreta. soas. Esta é a razão por que o documento dos PCN diz: "... é através da referência a contextos
concretos e não abstratamente que se pode atribuir sentido às tecnologias na área das Ciências
As áreas curriculares trabalhadas, porque presentes nas próprias DCNEM são:
Humanas" (PCN, Vol. 4, P 23-MEC, Bsb, 1999).
a) Linguagem, Códigos e suas Tecnologias: processo arbitrário, as linguagens veiculam o
Diferentemente da ideia anterior de "grade curricular", tanto as DCNEM como os PCN
conhecimento e as formas de conhecer. Estruturam o pensamento e as formas de pensar,
apontam para a construção de uma proposta curricular (o currículo em ação vai-se
incorporam a comunicação e as tipologias de comunicar. No mundo atual, a inteligência das
enriquecendo com a realidade provocante de cada contexto de Ensino Médio) cuja centralidade
linguagens e de seus sistemas, mobilizados por códigos plurais, assegura o envolvimento na
está em dois grandes vetores: l) os princípios axiológicos apontados pela LDB, no art. 2°, ao se
dinâmica da vida social, no horizonte da cidadania desejada. Os códigos se mostram no
referir à educação, e, no art. 3°, ao se referir ao ensino; 2) o quadro de competências
conjunto de escolhas e combinações discursivas, gramaticais, lexicais, fonológicas, gráficas,
etc. (PCN — Vol. 2, P 15-MEC, BsB, 1999). Enfim, as tecnologias emergem do entendimento decorrentes das finalidades do Ensino Médio, conforme estabelece o art. 35 da LDB.
de que as conexões das práticas sociais e produtivas se dão via linguagens e códigos situados
no espaço e no tempo histórico. Estas conexões, que na verdade são as atividades
Página 124 Página 125
Por fim, é essencial compreender que: 1) não há uma distribuição legal de tempo para cada § 2º O Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na
área. Cabe à escola assumir esta decisão, aliás, embutida na incumbência de "elaborar c escola, mediante ações integradas e complementares entre si.
executar sua proposta pedagógica" (LDB, art. 12, Inc. I); ao fazê-lo, no entanto, deverá levar
em conta um sentido de equilíbrio entre as áreas; 2) o currículo pode ser organizado por
disciplinas (destacando-se, sempre, as relações dinâmicas entre as disciplinas como Como já foi dito nos comentários ao Art. 4°, existe, no ensino fundamental, cobertura de
fundamentos para entender e resolver os problemas da sociedade), por áreas (o que não 97% da demanda. O percentual remanescente e o acumulado ao longo do tempo e,
significa esmaecer os conceitos-chave de cada disciplina, mas realçar a dimensão evidentemente, até passado recente, em percentuais avantajados, responde pela necessidade da
transdisciplinar dos conteúdos e produzir, continuamente, espaços didáticos para a integração oferta educacional para jovens e adultos.
horizontal (extensiva) e vertical (intensiva) dos conhecimentos selecionados na proposta Esta população de necessidade de atendimento educacional tardio se distribui em três
pedagógica escolar e por projetos que "melhor abriguem a visão orgânica do conhecimento e o grupos bem distintos: primeiro, aqueles reconhecidamente analfabetos; segundo, aqueles que
diálogo permanente entre as diferentes áreas do saber" (DCNEM). foram à escola, passaram ali pouco tempo e, portanto, não tiveram tempo de sedimentar o que
haviam superficialmente aprendido. São os analfabetos funcionais; terceiro, aqueles que
Convém, ainda, destacar que toda a legislação atual e orientações da educação e, sobretudo,
estiveram na escola em momentos intermitentes. Todos estes carecem de uma política própria
a LDB, as DCNEM e os PCN, chamam a atenção para a interdisciplinaridade e para a
de atendimento, capaz de lhes conferir os meios adequados para a superação ou da
contextualização como princípios de organização do currículo. Interdisciplinaridade menos escolarização que não ocorreu ou que ocorreu de forma inadequada.
como conceito acadêmico e mais como compreensão do currículo escolar, o que significa
reorganizar e re-significar a experiência nem sempre sistematizada dos docentes e de outros Embora haja quem diga que a Constituição Federal não define a idade própria para ingresso
profissionais da educação que (vivem, convivem e trabalham) na escola, a fim de que revejam no ensino fundamental, há um equívoco neste entendimento. De fato, o texto constitucional
e ressituem, continuamente, suas práticas sobre o quê e sobre o como ensinar. afirma que o dever do Estado com a educação será efetivado, entre outras condições, mediante
Contextualização que não quer dizer apequenar o currículo na realidade miúda e circunscrita "atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade" (Art. 208, Inc.
da escola. Tampouco quer dizer aprisionar o currículo no território restrito da problemática IV). Há, por conseguinte, uma ilação legítima e legal de que a idade própria começa aos sete
local. A legislação, de motivação inteiramente avessa à ideia de "grade curricular, não sinaliza anos. E, como o ensino fundamental tem duração mínima de oito anos, a idade própria estende-
na direção de se provincianizar o currículo". Pelo contrário: contextualização significa se ate os catorze anos. Em decorrência, a idade própria para o ensino médio vai de 15a 18 anos.
ultrapassar a convenção propositiva de disciplinas ou de áreas, mediante uma proposta Tanto é assim que, para obtenção do diploma de conclusão do ensino fundamental, via
pedagógica sintonizada com o perfil dos alunos. Por isso, toda a formação geral envolve a supletivo, a LDB estabelece que o aluno seja maior de 15 anos (Art. 38, § 12 Inc. I).
ideia de preparação geral para o trabalho. Ideia que e extensiva à base nacional comum e à A Lei não apenas assegura a oferta de oportunidade escolar à população de jovens e adultos
parte diversificada do currículo. situados fora da idade regular (idade própria), mas estabelece a necessidade de toda uma
Seção V abordagem pedagógica, incluindo conteúdos, metodologias, tipologias de organização e
Da Educação de Jovens e Adultos processos de avaliação diferenciados daqueles dos alunos que se acham na escola em idade
própria. A ideia é que a escola trabalhe um processo psicopedagógico que respeite o perfil
cultural do aluno adulto, ensejando-lhe o aproveitamento da experiência humana adquirida no
Art. 37 A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou
trabalho e, portanto, manancial insubstituível de construção da trajetória de auto-aprendizagem.
continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria. Esta perspectiva legal tem tudo a ver com o que dispõe os Arts. 1° e 3º (neste último caso,
§ 1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não Incisos X e XI) da LDB.
puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas,
O texto legal fala, outrossim, em ações integradas e complementares a serem estimuladas
consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de
pelo Poder Público, para que o adulto não apenas chegue à escola, mas também nela
trabalho, mediante cursos e exames.
permaneça. O que se busca, de fato, realçar é que as funções
Página 126 Página 127
intelectuais do adulto devem ser trabalhadas de forma articulada com outras dimensões, como Aqui, mais uma vez a Lei reconhece a importância da aprendizagem não-formal (Art. 3-,
é o caso dos componentes psíquicos, notadamente os que dizem respeito às atitudes, às Inc. X da LDB). O fundamental é que não só atribui valor ao extra-escolar, mas prevê a
motivações e ao horizonte temporal. Neste último caso, basta lembrar o abismo de diferença possibilidade de certificação. Esta alternativa valoriza, igualmente, a utilização de
que existe entre o jovem e o adulto, quando se trata de estruturar, logicamente, o passado e o metodologias diversificadas como é o caso da educação à distância, através do uso de TV,
futuro ou de estruturar formalmente o pensamento. rádio, vídeo, material impresso. Cabe, aos sistemas de ensino, disciplinar esta matéria.
Na andragogia, mudam os fins dos programas, muda a noção de transferência da Em termos relativos, a Educação de Jovens e Adultos é a que mais cresce hoje no Brasil.
aprendizagem, relevam-se os fatores externos à escola e visceralmente ligados ao Dois dos quatro milhões de alunos que estão nesta modalidade educativa frequentam cursos
sujeito/aluno. E valorizam-se os traços da formação anterior, com grande ênfase na pedagogia que correspondem ao ensino fundamental. A evolução precisa da modalidade EJA pode ser
da alternância. aferida pêlos números que seguem:
Matrículas na Educação de Jovens e Adultos
Art. 38 Os sistemas de ensino manterão cursos e exames supletivos, que compreenderão a Região 1997 2001 2002 2003*
base nacional comum do currículo, habilitando ao prosseguimento de estudos em caráter Norte 325.890 521.708 589.992 588.291
regular. Nordeste 732.180 1.119.142 1.375.001 1.633.712
Centro-Oeste 209.631 262.221 236.706 276.584
§ 1º Os exames a que se refere este artigo realizar-se-ão: Sudeste 1.183.377 1.320.721 1.148.227 1.262.803
I. No nível de conclusão do ensino fundamental, para os maiores de quinze anos; Sul 430.692 554.197 442.812 443.727
Brasil 2.881.770 3.777.989 3.792.738 4.239.475
II. No nível de conclusão do ensino médio, para os maiores de dezoito anos.
Fonte: MEC/INEP 2003.
§ 2- Os conhecimentos e habilidades adquiridos pelos educandos por meios informais
serão aferidos e reconhecidos mediante exames. Um dos problemas da EJA é que os programas oferecidos desconsideram os interesses e as
competências adquiridas pela prática social dos alunos jovens c adultos. Para se corrigirem as
distorções existentes, é necessário: 1) Diversificar a oferta de programas; 2) Mobilizar toda a
Este artigo fala da obrigatoriedade de os sistemas de ensino manterem cursos e exames
comunidade, com o envolvimento das organizações da sociedade civil; 3) Proporcionar meios e
supletivos. Os cursos são programas regulares, desenvolvidos em um período certo de tempo e
recursos financeiros para produção de materiais didáticos e técnico-pedagógicos apropriados;
ministrados através de processo escolar. Os exames são realizados à parte dos cursos, portanto,
4) Especializar o corpo docente; 5) Integrar os programas de jovens e adultos com a educação
fora do processo. Os cursos são estudos sistemáticos de aprendizagem, embora não
profissional; 6) Envolver os empregadores no sentido de organizar jornadas de trabalho
necessariamente presenciais. Podem, também, alternar as duas modalidades, ou seja, funcionar
compatíveis com o horário escolar; 7) Desenvolver mecanismos de apoio educativo a milhões
na modalidade presencial e semipresencial.
de trabalhadores inseridos no amplo mercado informal; 8) Viabilizar programas especiais para
Ambos, cursos e exames, deverão cobrir, na parte dos conteúdos, a base nacional comum mulheres envolvidas, alem do trabalho profissional, com tarefas domésticas.
do currículo (Art. 26), definida, nos lineamentos básicos, pelo Conselho Nacional de Educação
(Art. 9-, Inc. IV e Art. 12, Inc. I) e complementado pêlos sistemas estaduais. Observada tal O Plano Nacional de Educação — PNE — prevê um total de 26 metas para a Educação de
exigência, o candidato aprovado poderá continuar seus estudos no chamado ensino regular. Jovens e Adultos, sendo uma delas "Articular as políticas da EJA com as de proteção contra o
desemprego e de geração de emprego e renda." O cumprimento destas metas supõe a
A idade para que alguém se submeta aos exames supletivos correspondentes ao ensino assistência técnica e financeira da União (Art. 9°, Inc.III LDB) e ainda, uma estreita articulação
fundamental é de quinze anos ou mais e, para o ensino médio, de dezoito anos ou mais. entre as três esferas de governo. A educação básica constitui, hoje, passaporte indispensável
para o exercício de uma cidadania produtiva. A EJA começa pelo processo de alfabetização,
desafio ainda enorme para o Brasil, como podemos ver: 1) População brasileira: 169.799.170

Página 128
hab.; 2) População analfabeta: 16 milhões (=13% da população com mais de 10 anos de Página 129
idade). 1/3 dessas pessoas tem 60 anos ou mais de idade. A meta do MEC é erradicar o mundo do conhecimento, do saber vertido em operações produtivas. A premência por uma
analfabetismo até 2005; 3) População analfabeta funcional: 30 milhões; 4) População formação profissional reconceitualizada decorre dos seguintes fatores:
analfabeta absoluta na zona rural: 29,8%; 5) População analfabeta absoluta na zona urbana: a) As diretrizes normativas da educação profissional no Brasil estiveram, quase sempre,
10,2%; 6) População negra analfabeta: 20%; 7)1 População branca analfabeta: 8,3%; 8) divorciadas das políticas de desenvolvimento econômico e tecnológico do País, das
População feminina analfabeta no universo da população brasileira analfabeta: 51% (IBGE, políticas sociais voltadas para o trabalho produtivo e para a geração de renda e de
2002). estratégias fecundadoras de parcerias e de integração;
Em 1958, a UNESCO definiu como alfabetizada a pessoa capaz de lerei escrever um b) A legislação pautada na Lei 5.692/71 e nos institutos normativos decorrentes, ao
enunciado simples. O Censo do IBGE segue, de certa maneira, esta mesma concepção contribuir para a falta de foco na educação do cidadão produtivo, concorria, para a
explicitada na autodeclaração do informante no que tange à habilidade de ler e escrever uma desarticulação entre os vários sistemas de ensino profissionalizante, gerando um
mensagem simples. subaproveitamento dos recursos existentes;
No início dos anos 80, a UNESCO sugeriu a adoção do conceito de alfabetização c) A educação profissional no Brasil possui, historicamente, uma estrutura inflexível e,
funcional, para designar a pessoa capaz de utilizar a leitura e a escrita para fazer frente às em decorrência, tem dificuldade de atender, com agilidade, a crescente demanda por
níveis mais elevados de qualificação;
demandas de seu contexto social e usar essa habilidades para continuar aprendendo e
desenvolver-se ao longo vida. O parâmetro para aferir esta última condição situa-se cm torno d) O modelo tradicional de oferta de cursos profissionalizantes contribui para aprofundar
de 8 a 9 ano de estudos, ou seja, aproximadamente a duração média da educação obrigatória. as desigualdades sociais à medida que se mostra impermeável à diversidade sócio-
No caso do Brasil, o IBGE utiliza o critério de 4 anos de estudo. econômica e cultural do País;
Esta foi a razão por que o legislador incluiu no Art. 60 § 6° da EC n.° 14 (Emenda e) O Brasil oferece cerca de 9 milhões de matrículas em Cursos de Educação Profissional,
quando suas necessidades efetivas são duas vezes este número. São 9 milhões,
Constitucional) a obrigatoriedade de aplicação de pelo menos 30% dos recursos vinculados à
considerada a variada gama de oferta, a saber: Rede Federal de Escolas Técnicas,
educação à manutenção e desenvolvimento do ensino fundamental e à erradicação do Agrotécnicas, Unidades Descentralizadas (UNEDs) e Escolas Vinculadas às
analfabetismo. Universidades (132 instituições), Cursos Profissionalizantes Estaduais e Municipais, e
CAPÍTULO III da Rede Privada e, ainda, o conjunto de cursos do Sistema "S" (SENAI, SENAC,
DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL SENAR, SENAT, SEBRAE). Esta oferta total é muito pequena, considerando que o
Brasil tem uma população economicamente ativa (PEA) em torno de setenta e quatro
milhões de pessoas. Os países paradigmáticos neste setor oferecem educação
Art. 39 A educação profissional, integrada às diferentes formas de educação, ao trabalho, à profissional a cerca de 20% da PEA anualmente. Neste sentido, o Brasil está bem atrás
ciência e à tecnologia, conduz ao permanente desenvolvimento de aptidões para a vida de países da própria América do Sul, como é o caso da Argentina, Chile e Uruguai.
produtiva. Convém registrar que as estatísticas disponíveis não incluem a Rede de Cursos Livres
de curta duração nem a Rede de Programas de Formação Profissional a Distância.
Parágrafo Único. O aluno matriculado ou egresso do ensino fundamental, médio e
superior, bem como o trabalhador em geral, jovem ou adulto, contará com a possibilidade O Artigo 39 destaca, ainda, a necessidade de uma vinculação estreita entre educação
de acesso à educação profissional. profissional e o desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva. Importa dizer que os
currículos dessa área devem ser desenvolvidos a partir de prévia definição das competências e
das habilidades requeridas para o exercício profissional em cada área específica. Esta
A LDB consagra um capítulo específico à educação profissional. O relevo que o assunto imbricação impõe a necessidade da realização de estudos de mercado, de análise de novos
merece decorre de uma profunda mudança por que passa o chamado mundo do trabalho. Mais perfis profissionais, de análise de tendências tecnológicas e de avaliação da atual oferta de
do que nunca, este mundo vai-se transformando no cursos, sem esquecer o imperativo de um diálogo consequente escola/empresa/comunidade.
Página 130 Página 131
Por outro lado, a Educação Profissional deve ser desenvolvida de forma articulada não só os objetivos das respectivas diretrizes curriculares nacionais, as novas orientações
com os diferentes tipos de educação e de metodologias educacionais, mas também com o complementares de cada sistema de ensino e, ainda, as alternativas de concepção e de
ambiente de trabalho, o chão de fábrica, tendo co base de sustentação a evolução científica e estratégias contidas no projeto pedagógico do respectivo estabelecimento de ensino.
tecnológica. 3. Educação profissional tecnológica de graduação e de pós-graduação oferecida a
Cabe, por fim, destacar que, sendo modalidade educativa e não nível de ensino "stricto quem haja concluído o ensino médio. O acesso a ambas as modalidades será feito
sensu", a educação profissional está aberta a qualquer pessoa, de dos parâmetros normativos do através de processo seletivo, firmado sob critérios de responsabilidade de cada
novo decreto n° 5.154/2004 (ver no anexo III),e regulamenta o § 2° art. 36 e os artigos 39 a 41 instituição ofertante.
da Lei 9.394/96. Por este Decreto a educação profissional deverá ser organizada por áreas A mudança mais importante deste Decreto é a possibilidade de progressividade e de
profissionais, em cor pendência a cada estrutura sócio-ocupacional e à base tecnológica acumulatividade na formação e na certificação do estudante.
requerida ainda, mediante processos articulados, envolvendo educação, trabalho e oferta de
emprego. Ou seja, ele poderá aproveitar a qualificação inicial e complementá-la com cursos do
nível médio e até mesmo de graduação, sob a condição de haverem sido eles organizados
Os cursos e programas de educação profissional devem cobrir etapas -itinerário formativo no limite de itinerários formativos específicos, com a vantagem adicional de saídas e
— por área sob um critério flexível de organização, assim que sempre possível o entradas intermediárias, o que permitirá um processo de certificação gradativa.
aproveitamento de estudos. Sua estruturação poderá ser eu três níveis de complexidade, a
saber: Aqui cabe destacar a urgência de se resolver a situação de abandono das pequenas
comunidades do interior do País, cujas populações excluídas do campo, vão também sendo
1. Formação inicial e continuada de trabalhadores, oferecida em articulação com a excluídas do mercado de trabalho.
educação de jovens e adultos, visando à crescente elevação ( escolarização de nível
médio do trabalhador. No tocante aos currículos, a legislação prevê tratamento diferenciado para as três
modalidades organizativas da educação profissional. Assim, a educação profissional voltada
2. Educação profissional técnica de nível médio, oferecida sob três formas para a formação inicial e continuada de trabalhadores é livre de regulamentação curricular
organizativas: por tratar-se de modalidade educativa não-formal. A educação profissional técnica de nível
a) Integrada, no caso de o aluno ter concluído o ensino fundamental, e, ainda, sob médio, ao contrário, deve-se pautar pelos Referenciais Curriculares Nacionais a ela
condição de a matrícula ser na mesma escola; respeitantes, aprovados pelo CNE e, ainda, pelos currículos básicos de responsabilidade dos
b) Concomitante, no caso de o aluno ter concluído o ensino fundamental ou estar sistemas.
cursando o ensino médio. Neste caso, a complementariedade entre a EP e o EM só Além disto, cada escola terá a liberdade de eleger disciplinas, conteúdos, habilidades e
será possível em havendo matrículas distintas para cada curso e, ainda, sob uma das competências específicas para incorporar ao currículo pleno do próprio estabelecimento, no
seguintes condições: i) aproveitamento de oportunidades educacionais disponíveis na limite do aprovado pelo respectivo Conselho Estadual de Educação. Flexibilidade e
mesma escola ou em instituições distintas. Neste caso, há necessidade de convênio de Empregabilidade são os princípios a orientar a formulação dos currículos da educação
intercomplementaridade de estudos que enseje a execução de projetos com base em profissional.
princípios pedagógicos convergentes; ii) sequencial ao ensino médio, pressupondo-se,
neste caso, a conclusão anterior. A proposta do MEC aprovada pelo CNE identifica três grandes setores de atividades do
mundo de trabalho: i) o de produção de bens; ii) o de produção de conhecimentos; e iii) o
c) Subsequente, no caso de o aluno já haver concluído o ensino médio. de produção de serviços. Cada um destes setores envolve insumos, objetos, métodos e
A educação profissional técnica de nível médio, consoante o disposto no § 2° do art. 36, técnicas singulares. Por seu turno, o agrupamento de atividades de um mesmo setor pela
art. 40, ainda parágrafo único do art. 41 da LDB, deverá ter oferta articulada com o ensino proximidade de propósitos e/ou de processos produtivos caracteriza áreas de produção e, em
médio, observando-se, em qualquer das tipologias organizativas decorrência, mapeia áreas de atuação profissional. Cada área profissional se tipifica por
grandes atribuições, que a proposta do MEC
Página 132 Página 133
denomina de Junções. Estas atribuições amplas desdobradas em atividades específicas (Art. 6°, Inc. III do Decreto n° 2.208/97), será enriquecido com disciplinas, habilidades e
constituem subfunções. As primeiras caracterizam processos produtivos, as segundas são competências específicas da organização escolar. Ou seja, a ideia central é ter clareza quanto
resultados parciais diluídos no interior destes processos. aos perfis profissionais de competências, voltados para as atividades e funções de cada área
A Educação Profissional de nível tecnológico (cursos de nível superior) terá currículos profissional.
constituídos a partir de normas específicas fixadas para este nível de ensino. Para subsidiar as escolas na elaboração dos perfis profissionais de conclusão e no
planejamento dos cursos, o MEC divulgou referenciais curriculares por área profissional
O Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir da proposta do MEC/SEMTEC,
(cursos de nível técnico). A organização curricular fica sob a responsabilidade de cada escola.
aprovou, em 05/10/99, o Parecer 16/99, desdobrando os setores de atividades em áreas
Os sistemas de ensino, por outro lado, poderão autorizar a implementação de cursos não
estruturadas pelo compacto de competências/habilidades/conteúdos mínimos e duração
referenciados às áreas profissionais definidas pelo CNE.
mínima correspondente. São as seguintes estas áreas:
Por fim, as competências profissionais gerais do técnico de cada área estão definidas pelo
Área Carga Horária CNE. As competências específicas, porém, ficam sob a responsabilidade de cada escola.
01. Agropecuária 1.200 h
800h Art. 40 A educação profissional será desenvolvida em articulação com o ensino regular ou por
02. Artes
diferentes estratégias de educação continuada, em instituições especializadas ou no ambiente
03. Comércio 800h de trabalho.
04. Comunicação 800h
05. Construção Civil 1.200 h
800h Como foi dito nos comentários ao artigo anterior, as disciplinas da educação profissional
06. Design
ganharam autonomia curricular, sendo oferecidas descoladas das disciplinas de formação geral,
07. Geomática 1.000h
embora não se pretenda um divórcio entre elas. Na verdade, diz o artigo 40 que se deve buscar
08. Gestão 800h uma articulação seja no âmbito do próprio ensino regular, seja mediante o uso de estratégias
09. Imagem Pessoal 800h diversificadas de educação. Entenda-se como tal não apenas uma aprendizagem seqüenciada
10. Indústria 1.200h dentro de um tempo escolar contínuo, mas também aprendizagens que se vão acumulando,
11. Informática 1.000h mesmo que em termos intermitentes. Neste caso, há toda uma necessidade de reconfiguração
12. Lazer e Desenvolvimento Social das metodologias, dos processos de avaliação com vistas à certificação e, sem dúvida, também,
800h
de uma gama diversificada de instrumentos de apoio à aprendizagem, de tal sorte que "as
13. Meio Ambiente 800h diferentes estratégias de educação continuada" não comprometam o padrão de qualidade (Art.
14. Mineração 1.200 h 3º, Inc. IX da LDB). Esta última alternativa legal reforça a ideia de educação profissional como
15. Química 1.200 h processo educativo, desapeado da estrutura rígida do ensino regular e aberto no tempo, pois que
16. Recursos Pesqueiros 1.000h referenciado, sempre, "ao permanente desenvolvimento de aptidões para ávida produtiva" (Art.
17. Saúde 1.200 h 39).
18. Telecomunicações 1.200 h Decorrência desta concepção destravada de educação profissional é a possibilidade legal de
19. Transporte 800h ela ser desenvolvida em escolas (instituições especializadas), no lugar de trabalho, desde que
20. Turismo e Hospitalidade 800h este esteja intencionado como espaço educativo. Esta ressalva é importante porque a educação
profissional deve estar referida a

Em nível de cada sistema far-se-á a complementação das diretrizes nacionais, objetivando o


estabelecimento dos currículos básicos. Por fim, este currículo básico, que não poderá
ultrapassar 75% da carga horária mínima obrigatória
Página 134 Página 135
cânones de qualidade, que requerem mecanismos de acompanhamento e de avaliação (ver aproveitamento de conhecimentos não sistematizados anteriores à escola. A ideia é que os
Art. 41). Neste caso, é de se supor a existência de vinculações for escola/empresa. Todas sistemas de ensino credenciem, periodicamente, instituições ou nomeiem, eventualmente,
estas possibilidades estão nutridas pelos princípios da democratização da oferta, diversidade comitês técnicos que postulem o reconhecimento como agências certificadoras em áreas
e flexibilidade curricular e, ainda, intensidade, ou seja, focar a formação, a aprendizagem profissionais específicas. A experiência adquirida fora do palco escolar constitui um tipo de
mais no domínio qualitativo de núcleo de conhecimentos, do que na cobertura quantitativa conhecimento de valor inestimável, pois que nutrida da vitamina do trabalho e do húmus
extensa de um currículo difuso. fecundante do desafio de construir a vida. O conhecimento oriundo destes diferentes
processos tem suas raízes no plano do "saber fazer". Portanto, a certificação, neste caso,
ressalta o conhecimento posto a serviço da necessidade de viver. E preciso compreender
Art. 41 O conhecimento adquirido na educação profissional, inclusive no trabalho, poderá ser que este tipo de conhecimento se assenta, igualmente, em competências cognitivas e em
objeto de avaliação, reconhecimento e certificação pari prosseguimento ou conclusão de habilidades instrumentais. Em suma, ele não é formal, mas é transformacional,
estudos. construtivista.
Parágrafo Único. Os diplomas de cursos de educação profissional de nível médio, quando
registrados, terão validade nacional.
Art. 42 As escolas técnicas e profissionais, além dos seus cursos regulares, oferecerão
cursos especiais, abertos à comunidade, condicionada a matrícula à capacidade de
A abertura que a Lei dá à educação profissional vai desde o reconhecimento do valor aproveitamento e não necessariamente ao nível de escolaridade.
igualmente educativo do que se aprendeu na escola e no próprio ambiente de trabalho, até a
possibilidade de saídas e entradas intermediárias. Se alguém deseja prosseguir a sua formação,
poderá fazê-lo. Caso não deseje, tem a possibilidade de, uma vez avaliado o conhecimento A inflexibilidade da organização curricular, característica do regime anterior, encontra,
adquirido, receber um certificado de conclusão de estudos. Evidentemente que esta aqui, uma clara ruptura. Centradas, historicamente, na oferta de cursos regulares, as
possibilidade supõe uma organização curricular modularizada, assim que o aluno tenha a escolas técnicas e profissionais trabalhavam com a ideia exclusiva de currículos prontos, de
possibilidade de trabalhar conteúdos (conhecimentos) correspondentes a habilidades teor vocacional fechado. Como os conteúdos de educação geral, também, denominados de
previamente definidas. Ou seja, aqui não se trata de "pagar" disciplina(s), como se diz no conteúdos propedêuticos por estarem centrados na preparação para o ingresso no ensino
jargão escolar, mas de desenvolver competências que assegurem o exercício criativo de um superior, eram colados aos conteúdos profissionalizantes, estas escolas foram desfigurando
ofício, de uma tarefa ou de um trabalho. A certificação, portanto, vai resultar da capacidade a função para a qual existiam. Agora, além de oferecerem cursos com finalidade exclusiva
que o aluno possui de operar os conhecimentos adquiridos. de qualificar tecnicamente o aluno para uma atividade laboral — desaparecendo, assim, a
referência: vestibular — terão de oferecer, igualmente, uma programação especial de cursos
O parágrafo único denomina de educação profissional de nível médio (que já não existe) o alternativos destinados à comunidade e de acesso deferido não mais pelo nível de
que é denominado, agora, de educação profissional técnica de nível médio. A necessidade de escolaridade do postulante, mas pela capacidade que ele exibir de apropriar-se do tipo e do
registrar os diplomas de cursos de nível técnico para que gozem de validade nacional decorre nível de conhecimento que vai ser trabalhado. E óbvio que, para viabilizar esta oferta
de dupla preocupação: primeiro, para submeter a qualidade da aprendizagem sobre uma base especial nos termos da Lei, a escola deverá desenvolver mecanismos de aferição de
curricular com reconhecido padrão de qualidade; depois, para possibilitar o trânsito aproveitamento, seja através de aplicações formais tipo teste/exame, seja mediante a
profissional onde quer que o diplomado esteja, evitando-se, desta forma, qualquer tipo de res- realização de estudos de processos de assimilação. Estes processos podem versar sobre
trição ao exercício da profissão. traços de uma formação anterior, sobre produtos de uma atividade recente, sobre métodos
A certificação de competência prevista neste artigo pretende valorizar a experiência de trabalho, sobre a postura diante do conhecimento, sobre a natureza das respostas dadas a
profissional extra-escolar. Fugindo do cartorialismo tão comum na escola brasileira, o perguntas apresentadas ou, ainda, sobre a solução oferecida a situações-problema acaso
legislador ensejou uma enorme abertura na compreensão de educação e de apresentadas. Tudo isto pressupõe uma boa formação metodológica por parte dos
professores. Para tanto, é imprescindível o apoio de psicólogos que são familiarizados, em
decorrência da formação que
Página 136 Página 137
possuem, com métodos e técnicas para observar e analisar pessoas nas relações com uma VII. Promover a extensão, aberta à participação da população, visando à difusão das
matéria específica ou com uma base de ensino. conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e
tecnológica geradas na instituição.
Convém deixar, de todo, claro que não se trata de "cursinhos" nem de programas de
extensão de qualidade duvidosa. Ao contrário, a lei fala em "cursos especiais" de matrícula
aberta à capacidade de aproveitamento de cada candidato ou seja, cursos de conteúdo A educação superior constitui o segundo nível estrutural da educação escolar, conforme
pertinente e relevante para o aluno. Neste caso, ênfase não poderá ser aproximar os conteúdos estabelece o Art. 21 da LDB. Ao todo, são quinze artigos cingidos à questão da educação
destes cursos dos conteúdos de cursos regulares, senão, fugindo da homogeneidade da cultura superior: do 43 ao 57. O Art. 43 é inteiramente absorvido pela dimensão teleológica deste nível
escolar, busca construir uma estratégia participativa diferenciada e estimuladora das de educação.
aprendigens individuais.
Há dois aspectos a considerar preliminarmente. Em primeiro lugar, cabe destacar que o
CAPITULO IV legislador fala de finalidade e não de objetivos. Ou seja, buscam-se valores e re-significações
DA EDUCAÇÃO SUPERIOR na perspectiva de uma cultura da transformação. Institucionalmente, a operacionalização da
educação superior deve estar inteiramente permeada dos fundamentos axiológicos do processo
educativo. Esta preocupação vai responder por um trabalho educativo mais consistente e
Art. 43 A educação superior tem por finalidade: coerente com as reais necessidades de contextos específicos onde cada instituição se localiza.
I. Estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento Em segundo lugar, vale ressaltar a preocupação do legislador em rearticular os níveis de ensino
reflexivo; (educação básica e educação superior), já através de uma providência de formalização legal,
trazendo a educação superior para o corpo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Aliás,
II. Formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimentos, aptos para a inserção em aqui é o seu lugar. Antes, prevaleciam duas legislações estanques: a Lei 5.692/71 para o ensino
setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e de 1º e 2° graus e a Lei 5.540/68, complementada pelo Decreto-Lei 464/69, para o ensino
colaborar na sua formação contínua; superior. Diga-se, à guisa de reconstrução histórica, que a antiga LDB (Lei 4.024/68) albergou
III. Incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento o tema ensino superior. Os vários Incisos do Artigo em estudo se vinculam, também, de
da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver alguma forma, às prescrições constitucionais contidas nos artigos 215 (Da Cultura) e 218 (Da
o entendimento do homem e do meio em que vive; Ciência e Tecnologia). De fato, a educação superior é o "locus" privilegiado para a
IV. Promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que concretização destes mandamentos através da formação de recursos humanos.
constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de A universidade moderna desempenha quatro funções essenciais: i) forma profissionais; ii)
publicações ou de outras formas de comunicação; oferece educação em nível avançado; iii) realiza estudos, pesquisas e investigação científica,
V. suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional e possibilitar a voltados para o desenvolvimento; iv) por fim, funciona como instituição social. Nesta
correspondente concretização, integrando os conhecimentos que vão sendo adquiridos condição, procura construir respostas-alternativas aos grandes desafios da sociedade
numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração; contemporânea, marcada por profundas dessimetrias sociais. O conjunto destas funções
encontra respaldo nos Incisos I a VI, nos quais estão demarcadas as finalidades da educação
VI. Estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os superior, senão vejamos: estimular a criatividade científica, formar profissionais, agregar
nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com conhecimentos para responder aos problemas do mundo, cobrindo o universal e o particular,
esta uma relação de reciprocidade; articular o conhecimento (pesquisa, ensino e extensão) e, por fim, prestar serviços especiali-
zados à comunidade.
Página 139
De acordo com o Plano Nacional de Educação, um terço dos brasileiros na faixa etária de
Página 138 18 a 24 anos deverá frequentar curso superior até 2010.
A rede de Educação Superior brasileira apresenta a seguinte configuração:
Instituições de Educação Superior Art. 44 A educação superior abrangerá os seguintes cursos e programas:
Abrangênci Categoria Total Univer- Centro Faculdades Faculdade Instituto Centro de I. Cursos sequenciais por campo de saber, de diferentes níveis de abrangência, abertos a
a Administrat sidade Universitári Integradas Escola Educação candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos pelas instituições de ensino;
Geográfica iva o superior Tecnológica
II. De graduação, abertos a candidatos que tenham concluído o ensino médio ou
equivalente e tenham sido classificados em processo seletivo;
Brasil Comuv/ 317 56 27 17 205 12
Confes/ III. De pós-graduação, compreendendo programas de mestrado e doutorado, cursos de
Filant especialização, aperfeiçoamento e outros, abertos a candidatos diplomados em cursos
Brasil Estadual 65 31 21 4 9 de graduação e que atendam às exigências das instituições de ensino;
Brasil Federal 73 43 1 7 22
IV. De extensão, abertos a candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos em cada
Brasil Municipal 57 4 2 3 48
caso pelas instituições de ensino.
Brasil Particular 1.125 28 47 85 877 66 22
Brasil Pública 195 78 3 3 76 4 31
Brasil Total 1.637 162 77 105 1.158 82 53
Este artigo trata da organização da educação superior. Estão previstos cursos de quatro
categorias: os sequenciais, os de graduação, os de pós-graduação e os de extensão.
Fonte: MEC/INEP, 2002. A inovação se dá no tocante à primeira categoria de cursos: os chamados cursos
sequenciais, inexistentes na legislação anterior. Sua concepção segue os mesmos princípios de
Embora tenhamos ganhos importantes nos últimos anos, o Brasil apresenta ainda, na democratização, flexibilização e diversificação de oferta de programas educacionais, já
educação superior, uma taxa de escolarização líquida baixa (6,7%) (população na faixa etária analisados nos artigos sobre educação profissional (Art. 40). Estes cursos estarão voltados
de 18 a 21 anos) em comparação com a Argentina (22,4%), com o Uruguai (11,3%) e com os para atender demandas de formação emergente e contextualizada. Sua configuração deverá
países membros da OCDE cuja média é de 23,2%. submeter-se ao perfil profissional requerido e definido a partir de competências
predeterminadas. O aluno deverá preencher os requisitos da instituição que vai oferecer este
Acessar a universidade ainda é um privilégio no Brasil. Tanto é assim que apenas um de
tipo de curso, de diferentes níveis de abrangência, e circunscrito a uma área de conhecimento.
cada oito brasileiros frequenta curso superior. De qualquer forma, é notória a expansão de
matrículas no ensino superior em todas as redes de ensino como se pode ver: Os cursos sequenciais foram regulamentados pelo Parecer CES 672/98 do CNJE,
transformado na Resolução n° l, de 27 de janeiro de 1999. Segundo este texto normativo, os
Matrículas no Ensino Superior
cursos sequenciais por campos de saber constitui de atividades sistemáticas de formação,
Ano Total Rede Pública Em% Rede Privada Em%
1994 1.661.034 690.450 41,6 970.584 58,4 alternativas, ou complementares aos cursos de graduação. As instituições de ensino têm a
1995 1.759.703 700.540 39,8 1.059.163 60,2 liberdade de definir os requisitos de acesso, porém, em qualquer caso, os candidatos devem
1996 1.868.529 735.427 39,4 1.133.102 60,6 possuir certificados de conclusão do ensino médio. Estes cursos conferem qualificação técnica,
1997 1.945.615 759.182 39,0 1.186.433 61,0 profissional ou acadêmica e, também, poderão habilitar nos campos das ciências, das
1998 2.125.958 804.729 37,9 1.321.229 62,1 humanidades e das artes. Neste último caso (campo das artes), o candidato pode
1999 2.377.715 833.093 35,0 1.544.622 65,0
2000 2.694.245 887.026 33,0 1.807.219 67,0
2001 3.030.754 939.225 30,0 2.091.529 70,0

Fonte: MEC/INEP, 2002.


Página 140 Página 141
ser, excepcionalmente, dispensado do certificado de conclusão do ensino médio. A norma necessaria formação para o exercício de profissões universitárias regulamentadas por lei.
prevê dois tipos de cursos sequenciais: i) os de formação específica, com destinação coletiva, Embora em algumas áreas os cursos não confiram o grau de bacharel, possuem, porém, o
conduzindo a diploma; ii) os de complementação de estudos com destinação coletiva ou mesmo valor prático. Este é o caso dos cursos de Engenharia, Odontologia, Medicina, etc. Os
individual, conduzindo a certificado. Os cursos sequenciais de formação específica estão segundos se destinam a formar professores. Existem vários tipos de licenciatura. Um deles é o
sujeitos a processos de autorização prévia, tal qual acontece com todos os cursos de Normal Superior, que prepara interessados em dar aula de Educação Infantil e para as quatro
graduação. Enquanto os de complementação de estudos independem de prévia autorização. Os primeiras séries do Ensino Fundamental. Há, ainda, os cursos de tecnólogo voltados para a
primeiros terão duração mínima de l.600 horas e os segundos terão carga horária, proposta formação prática de profissionais. Grande parte destes cursos atende a setores industriais como
curricular e prazo de integralização fixados pela instituição que os ministre. Para ambos os Eletrônica Mecânica e produção moveleira, embora se ampliem rapidamente a oferta destes
tipos de cursos, aplicam-se as normas vigentes para os cursos de graduação quanto à cursos nas áreas de Ciências Sociais Aplicadas e Humanas, como Hotelaria, Cinema, Vídeo,
verificação de frequência e ao aproveitamento. Por fim, cabe registrar que os cursos Gastronomia, Restauração, etc.
sequenciais de complementação de estudos com destinação individual somente serão O acesso aos cursos de graduação se dá, necessariamente, através de alguma forma de
acessados por candidatos interessados em cumprir disciplinas que definam um campo de saber processo seletivo, seja o vestibular ou equivalente. No momento, cresce o número de
(combinação de disciplinas através de um processo de penetração e de fusão mútuas) e nas instituições que incorporam a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) à
quais haja vaga em cursos de graduação reconhecidos. composição da nota do vestibular.
Regulamentados pela Rés. n.° l de 27 de janeiro de 1999, estes cursos se põem na Os cursos de pós-graduação previstos no Inc. III se dividem em dois grupos: a Pós-
perspectiva da flexibilização do ensino superior à medida que representam uma forma de graduação "stricto sensu" que inclui o mestrado e o doutorado; a Pós-graduação "lato sensu"
inovação como resposta à pressão da demanda por ensino pós-médio e superior, originária de que inclui a especialização, o aperfeiçoamento e programas de atualização destinados a
setores sócio-econômicos diferenciados. Os cursos sequenciais foram concebidos para a oferta graduados. O ingresso em qualquer deles depende do cumprimento de exigências de cada
de formação direta para o trabalho. instituição.
Dados da ABMES (2002) indicam que eles vêm atingindo seus objetivos, como se pode No campo da Pós-graduação "stricto sensu", o Brasil realiza um trabalho fantástico. Forma
verificar: 7.000 doutores e 20.000 mestres por ano (MEC/Capes, 2002). Por outro lado, se em 1994, 45%
dos alunos matriculados na Pós-graduação tinham chance de obter uma bolsa, hoje, apenas,
PERFIL DOS ALUNOS QUE FREQUENTAM CURSOS SEQUENCIAIS
22% em razão de um processo progressivo de contenção da operação federal de apoio à Pós-
Faixa Etária medida dos alunos 28 anos
Grupo de Faixa Etária Prevalecente 31 a 40 anos (28%) graduação.
Opção pêlos cursos sequenciais com base em formação específica 73% Por fim, os cursos de extensão, constantes no Inc. IV, que integram uma importante pauta
Relação direta do Curso com o trabalho que exerce 60% das instituições de educação superior, estão presentes em uma ampla agenda da relação
Retorno ao Ensino Superior 40%
universidade/comunidade. Não é por acaso que todas as universidades (públicas, comunitárias
Alunos que estudam e trabalham 94%
e privadas) incluem, na sua estrutura, um órgão de atividade de extensão. A ideia é a
Fonte: Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior, 2003 universidade socializar com a comunidade o conhecimento produzido e refinalizá-lo em
benefício da população.
Idêntica modalidade de ensino existe nos Estados Unidos, na Inglaterra, no Japão, Os cursos de extensão variam em duração, objetivos, destinatários e modalidades de oferta.
Alemanha, Itália e muitos outros países. Para um país como o Brasil com apenas l, 7% da São cursos sem pré-condições restritivas legais, cabendo a cada instituição definir os critérios
população frequentando o Ensino Superior, esta é uma alternativa que, responsavelmente de aceitação dos alunos.
conduzida pelas instituições, ajuda a elevar o padrão de qualificação geral da população.
O Inc. II trata dos cursos de graduação. São conhecidos os de nível de bacharelado e os de
Art. 45 A educação superior será ministrada em instituições de ensino superior, públicas ou
licenciatura. Os primeiros, com base teórica forte, fornecem a
privadas, com variados graus de abrangência ou especialização.
Página 142 Página 143
Preservando dispositivos constitucionais, este artigo assegura a ministração de educação A educação é, por essência, tarefa pública. Mesmo quando oferecida por instituição
superior em instituições públicas e privadas. Neste último caso, é evidente a necessidade de as privada, esta é permissionária de um serviço público. Daí, a obrigação de o Estado
instituições privadas cumprirem as normas gerais da educação nacional (Art. 209, Inc. I da acompanhar a qualidade deste serviço e avaliar os resultados. No caso do ensino superior, a
Constituição Federal). Tais instituições funcionarão com programas de ensino de nível e de própria LDB estabelece, no Artigo 9°, Inc. VI, a responsabilidade de a União, sob regime de
natureza variados. cooperação com Estados, Distrito Federal e Municípios, assegurar o processo nacional de
Para regulamentar o que a Lei denomina de variados graus de abrangência, o Governo avaliação do rendimento escolar.
Federal editou o Decreto n° 2.306, de 19 de agosto de 1997. Através dele, as instituições de Na mesma linha de responsabilidade pública, o Artigo 46 da LDB estabelece que os
ensino do sistema federal (ver Art. 16 da LDB) classificam-se em: i) Universidades; ii) processos de autorização e reconhecimento de cursos c de credenciamento de instituições de
Centros Universitários; iii) Faculdades Integradas; iv) Faculdades; e v) Institutos Superiores ou ensino superior ocorrerão, invariavelmente, mediante procedimentos regulares de avaliação.
Escolas Superiores. Neste sentido, pode-se dizer que as instituições de ensino superior terão funcionamento
Na emergência das flutuações e da necessidade de flexibilização dos produtos e da rápida renovável, sempre, mediante avaliação.
mudança de tipologia dos serviços disponibilizados pelas empresas, surgiram dois tipos de Para cumprimento do disposto no Inc. IX do Art. 9° da Lei de Diretrizes e Bases da
universidades diferenciadas, a saber: as Universidades Corporativas e as Universidades Educação Nacional — LDB (lei n.° 9.394/96), o Ministério da Educação vem realizando um
Temáticas. Ambas guardam semelhança entre si, embora não sejam idênticas. As trabalho de institucionalização e consolidação do sistema de avaliação e aperfeiçoamento de
Universidades Corporativas organizam seus programas de forma presencial e à distância e instrumentos para avaliação das instituições e cursos superiores. Nessa direção, a Diretoria de
focam os conteúdos em quatro eixos: a) os produtos da empresa, a capacitação continuada dos Estatísticas e Avaliação da Educação Superior — DAES, do INEP, realiza estudos e promove
seus recursos humanos e os parâmetros de qualidade; b) a reengenharia da empresa para tornar jornadas de trabalho com professores e representantes de instituições superiores públicas e
seus produtos cada vez mais competitivos; c) estudos de mercado e de perfil da clientela para privadas, com a finalidade de harmonizar os procedimentos e os instrumentos de avaliação, que
desenvolver canais de crescente aproximação comercial empresa/mercado; d) atualização culminam com a apresentação de uma proposta básica para a avaliação dos cursos de
permanente da linguagem de marketing. Estas instituições, além de um quadro mínimo de graduação.
gestores de conhecimento, utilizam bastante a figura do docente não profissional para a O Exame Nacional de Cursos/Provão, instituído pelo Dec. Federal 2.026/96, tende a mudar
ministração de cursos. Normalmente, são profissionais de notório saber em suas respectivas completamente a sua feição a partir de Medida Provisória encaminhada ao Congresso. O texto
áreas de atuação. As Universidades Temáticas, por sua vez, trabalham em ambientes confunde avaliação de cursos com avaliação institucional e, aplicado por amostragem, o teste
empresariais e de serviço com características marcantes de especialização de atuação. perderá o caráter obrigatório para os formandos. O atual sistema de avaliação do ensino
Funcionam, basicamente, com grupos de consultores por produto e têm uma agenda de superior, regulamentado pela Lei 9.131/95, foca a avaliação na efetiva aplicação do conteúdo
ocupações acadêmicas que se encorpam em grupos de estudos temáticos. Um bom exemplo de curricular no âmbito de cada curso e considera, ainda, a "avaliação das condições de oferta",
Universidade Temática é o Instituto Legislativo Brasileiro do Senado Federal, especializado isto é, a organização didático-pedagógica, a titulação dos docentes e a infra-estrutura dos
em treinamento na área do legislativo e que acaba de ser transformado em UNILEGIS, cursos. A eventual mudança poderá significar dar prioridade a investimentos arquitetônicos
inclusive, com Campus próprio no Distrito Federal. grandiosos, com grande poder de atração da clientela em detrimento de outros aspectos.
Os Centros Universitários são instituições pluricurriculares, com uma ou mais de uma área Em 2002, o MEC criou o Cadastro das Instituições de Educação Superior, sistema
de conhecimento e com um corpo docente predominantemente de qualificação acadêmica informatizado que permite à população acessar as informações relativas às IES vinculadas ao
formal avançada, de oferta de programas de pesquisa e pós-graduação, além de uma sólida Sistema Federal de Ensino ou ao Sistema Estadual de Ensino.
infra-estrutura de meios. Não menos importante é a existência de trabalhos acadêmicos de
sólida qualidade oferecidos à comunidade de alunos e à comunidade externa. No caso dos programas de Mestrado e Doutorado, a Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal do Ensino Superior (CAPES) continuará com a responsabilidade da avaliação, sob
critérios e metodologias próprios.
Página 145
Página 144 sua autonomia. Esta não é a postura adotada por grandes instituições universitárias do mundo.
Por fim, o MEC editou Portaria nº 878, de 30/07/97, determinando que todas as Normalmente, além de suas próprias avaliações, elas se deixam submeter ao controle externo.
Instituições de Ensino Superior deverão, até o dia 30 de setembro de cada ano, tornar públicas Nos Estados Unidos, por exemplo, as universidades se deixam acompanhar por diferentes tipos
informações gerais sobre as condições do ensino. Devem ser informados o número e a de avaliação, conduzidos por agências não-governamentais. No Canadá e na Inglaterra,
qualificação dos docentes, a infra-estrutura de bibliotecas, laboratórios, quantidades de também. Aqui, o temor da avaliação externa é que seja usada para fixar parâmetros para a
computadores disponíveis para cada curso, taxas de matrículas, encargos financeiros, taxas de redistribuição diferenciada de recursos.
eficiência (evasão, repetência e promoção e número de formandos no ano anterior). As Universidades como a USP, a Unicamp e a UnB têm avançado muito na direção de
informações devem constar de Catálogo a ser enviado à Secretaria de Ensino Superior do
processos mais amplos de avaliação.
MEC.
Em síntese, a LDB institucionalizou a avaliação como processo rotineiro. Isto é
Todas as exigências legais apresentadas indicam que a liberdade de ensinar não pretende
fundamental.
estimular a libertinagem no ensinar. Estatal ou privada, a instituição deverá trabalhar com a
mesma responsabilidade pública e, por isso, deve submeter-se a processos de avaliação Em julho de 1993, a SESU/MEC criou a Comissão Nacional de Avaliação das
explícita e permanente. Universidades Brasileiras, objetivando conduzir, politicamente, o processo de avaliação
institucional, na condição de coordenador, articulador e agente financiador. Inicialmente,
apresentaram-se 55 Universidades. Cinco anos depois, são 128, das 176 existentes, que
Art. 46 A autorização e o reconhecimento de cursos, bem como o credenciamento de participam do Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras/PAIUB. O
instituições de educação superior, terão prazos limitados sendo renovados, periodicamente, que se buscava, com este processo, era aperfeiçoar a qualidade do ensino, elevar o padrão da
após processo regular de avaliação. pesquisa acadêmica e aprimorar as atividades de extensão. A avaliação de nossas universidades
§ 1°Após um prazo para saneamento de deficiências eventualmente identificadas pela é imperativo social, é responsabilidade educativa e é, sobretudo, mecanismo apropriado para a
avaliação a que se refere este artigo, haverá reavaliação, que poderá resultar, conforme o construção da identidade institucional.
caso, em desativação de cursos e habilitações, em intervenção na instituição, em suspensão
temporária de prerrogativas da autonomia, ou em descredenciamento. Art. 47 Na educação superior, o ano letivo regular, independente do ano civil, tem, no mínimo,
§ 2° No caso de instituição pública, o Poder Executivo responsável por sua manutenção duzentos dias de trabalho acadêmico efetivo, excluído o tempo reservado aos exames finais,
acompanhará o processo de saneamento e fornecerá recursos adicionais, se necessários, quando houver.
para a superação das deficiências. § 1° As instituições informarão aos interessados, antes de cada período letivo, os
programas dos cursos e demais componentes curriculares, sua duração, requisitos,
qualificação dos professores, recursos disponíveis e critérios de avaliação, obrigando-se a
Para funcionar adequadamente, um curso superior deve submeter-se a três estágios: o
primeiro, de autorização, o segundo, de reconhecimento e o terceiro, de credenciamento, ou cumprir as respectivas condições.
seja, de renovação periódica para funcionar. Neste caso, o credenciamento c recredenciamento § 2° Os alunos que tenham extraordinário aproveitamento nos estudos, demonstrado por
serão decorrência de um processo de avaliação permanente pelo Poder Público. meio de provas e outros instrumentos de avaliação específicos, aplicados por banca
O Decreto n° 2.306/97 determina que "a criação e o reconhecimento de cursos jurídicos em examinadora especial, poderão ter abreviada a duração dos seus cursos, de acordo com as
instituições de ensino superior, inclusive universidades, dependerá de prévia manifestação do normas dos sistemas de ensino.
Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil". Idêntico procedimento deve ocorrer no § 3° É obrigatória a frequência de alunos e professores, salvo nos programas de educação
caso de criação de cursos de Medicina, Odontologia e Psicologia, sendo que, neste caso, o à distância.
processo de criação deve ser submetido à avaliação prévia do Conselho Nacional de Saúde.
A questão da avaliação externa (aquela feita pelo Poder Público no caso em foco) poderá
gerar turbulências junto às universidades, sempre muito ciosas de
Página 146 Página 147
§ 4S As instituições de educação superior oferecerão, no período noturno, cursos de § 3- Os diplomas de Mestrado e de Doutorado expedidos por universidades estrangeiras só
graduação nos mesmos padrões de qualidade mantidos no período diurno, sendo poderão ser reconhecidos por universidades que possuam cursos de pós-graduação
obrigatória a oferta noturna nas instituições públicas, garantida a necessária previsão reconhecidos e avaliados, na mesma área de conhecimento e em nível equivalente ou
orçamentária. superior.

Dentro da proposta de ampliação do tempo escolar, a educação superior passa, também, Para ser registrado, o diploma deve ser referido a cursos superiores devidamente
para uma duração mínima anual de 200 dias letivos. reconhecidos. Cumpridas estas duas exigências (reconhecimento do curso e registro do
diploma), o diploma conferido terá validade nacional.
O § 2° abre a possibilidade de alunos, com nível de aproveitamento e conhecimento
comprovadamente elevados, anteciparem a conclusão de seus cursos, desde que acobertados O § 1° inova ao permitir que diplomas expedidos por universidades sejam por elas próprias
por legislação específica do respectivo sistema. Trata-se de dispositivo que leva em conta as registrados. Neste caso, as universidades devem estar autorizadas a funcionar e devem estar
chamadas diferenças individuais. Assim, o aluno bem dotado, possuidor de capacidade reconhecidas legalmente.
privilegiada, poderá reduzir a duração do seu curso, desde que cumpridas as formalidades O § 3° trata da revalidação de diploma de Mestrado e de Doutorado expedidos por
legais. universidades estrangeiras. Diz a Lei que eles somente poderão ser reconhecidos por
instituições universitárias nacionais que ofereçam programas de pós-graduação reconhecidos e
O § 4° determina a obrigatoriedade de instituições públicas oferecerem cursos regulares de
avaliados e, ainda, na mesma área de conhecimento. Também estarão sujeitas a reconhecer só
graduação no período noturno, como forma de ampliação da oferta e de atendimento àquelas
cursos feitos no exterior equivalentes ao nível de oferta que possuam. Isto quer dizer que, para
pessoas que trabalham durante o dia. Desde que os cursos noturnos contem com a mesma
uma dada universidade reconhecer um diploma de Curso de Doutorado obtido no exterior, é
estrutura de apoio dos cursos diurnos, o que não acontece nas universidades públicas, embora necessário que ela própria ofereça curso equivalente, não apenas na área, mas também no nível.
os reitores insistam em dizer o contrário. Se o funcionamento durante o dia é, às vezes, Aliás, seria contra-senso uma instituição que só possui programas de mestrado reconhecer um
precário pela existência limitada de recursos de apoio ao ensino, o funcionamento à noite é diploma de doutorado.
muito mais precário, até porque a estrutura administrativa é inoperante neste turno. As pró-
reitorias não funcionam. Os departamentos são fechados. As coordenações de curso atendem
em dias alternados. Portanto, assegurar um mesmo padrão de qualidade para os cursos diurnos Art. 49 As instituições de educação superior aceitarão a transferência de alunos regulares, para
e noturnos é aspiração por enquanto. Mas, vale trabalhar para que não continuem existindo cursos afins, na hipótese de existência de vagas, e mediante processo seletivo.
dois tipos de curso superior: os diurnos, bons e os noturnos, nem tanto!
Parágrafo Único. As transferências ex officio dar-se-ão na forma da lei.

Art. 48 Os diplomas de cursos superiores reconhecidos, quando registrados, terão validade


nacional como prova da formação recebida por seu titular. A questão de transferência no ensino superior constitui problema que exige enorme
cuidado. O processo de ingresso na universidade é meramente classificatório, ou seja,
§ 1° Os diplomas expedidos pelas universidades serão por elas próprias registrados, e desconsidera a afinidade entre as aptidões do candidato, seus interesses pessoais e o curso de
aqueles conferidos por instituições não-universitárias serão registrados em universidades destinação. Resultado: o que mais se vê na universidade é aluno fazendo curso em que não
indicadas pelo Conselho Nacional de Educação. gostaria de estar. Este desencontro cria todas as pré-condições para que o instituto da
§ 2° Os diplomas de graduação expedidos por universidades estrangeiras serão revalidados transferência se transforme em negócio. Isto agravado, ainda, pela chamada migração interna
por universidades públicas que tenham curso do mesmo nível e área ou equivalente, de alunos. Consiste este mecanismo em o aluno submeter-se a um vestibular para acesso a um
respeitando-se os acordos internacionais de reciprocidade ou equiparação. curso de baixa demanda, ficar nele dois ou três semestres e, à vista de "boas" notas, ganhar
condições para transferir-se para cursos de Direito, Administração (na área de Humanas)
Página 148 Página 149
ou de Medicina, Odontologia (na área Biomédica) ou outros cursos considerados de maior representadas por patrões e trabalhadores), esta alternativa ganha extrema relevância. Positivo
prestígio sócio-econômico no mercado de trabalho. Tradicionalmente, os cursos de para o aluno especial, pois poderá se apropriar de conhecimentos novos em benefício do seu
Licenciatura são muito usados para nutrir este mecanismo perverso. Como muitas trabalho, sem ter que parar de trabalhar. Positivo para a universidade que, incorporando este
Universidades usam disciplinas indiferenciadas por curso, no Ciclo Básico, está armada a aluno eventual, possuidor, certamente, de um conhecimento prático, terá a oportunidade de
estratégia. testar o saber formal, sistemático. Abre-se, portanto, uma nova ambiência para "a reflexão
No artigo aqui analisado, a Lei condiciona a transferência de alunos de cursos regulares, na sobre as condições de veracidade do conhecimento e suas relações com os diferentes contextos
hipótese de existência de vagas, para cursos afins. No entanto, para que esta transferência seja sociais em que é produzido" (VELHO, 1996, p. 7).
efetivada, a instituição deverá fazer seleção dos candidatos. A Universidade de Brasília, por
exemplo, publica, no Diário Oficial, a relação de Cursos para os quais está disponibilizando
Art. 51 As instituições de educação superior credenciadas como universidades, ao deliberar
vagas. Publica, igualmente, o número de vagas existentes. E os postulantes se submetem a um
processo seletivo preso a requisitos acadêmicos. sobre critérios e normas de seleção e admissão de estudantes, levarão em conta os efeitos
desses critérios sobre a orientação do ensino médio, articulando-se com os órgãos normativos
Fica claro que só é possível transferência de alunos oriundos de cursos regulares. dos sistemas de ensino.
Entendam-se, como tal, os cursos de Graduação e de pós-graduação. Os cursos sequenciais
(Art. 44, Inc. I), por exemplo, estão fora do instituto da transferência, uma vez que são cursos
de oferta eventual. Retorna-se, neste Artigo, à questão da urgente necessidade de articulação entre os vários
Outrossim, cabe destacar a abertura que a Lei oferece na aplicação do instituto da níveis de ensino. No caso em tela, entre o ensino médio, última etapa da educação básica, e a
transferência, possibilitando que alunos migrem de um curso dado para outro afim, isto é, de educação superior. Assim, para definir procedimentos de acesso do aluno à universidade, esta
idêntica área de conhecimentos. Esta flexibilidade decorre do intuito do legislador de deverá informar-se sobre o conjunto de diretrizes adotadas pelo respectivo sistema para o
"desprender" o currículo, tradicionalmente travado no conceito de grades curriculares ensino médio e, sobre esta constatação, apoiar os critérios de seleção e de admissão de alunos.
inflexíveis. A providência legal é grandemente saudável. Há muito o ensino superior vem divorciado
do ensino médio. As provas dos vestibulares são radiografias de "macetes" apropriados pelos
alunos nos "cursinhos". É neste sentido que se há de reconhecer que o ensino médio se tornou
Art. 50 As instituições de educação superior, quando da ocorrência de vagas, abrirão matrícula refém do vestibular. Entre estes dois níveis de ensino não há qualquer relação de construção
nas disciplinas de seus cursos a alunos não regulares que demonstrem capacidade de cursá-las agregada e solidária de conhecimento. Leva-se em conta, tão-somente, a dependência legal-
com proveito, mediante processo seletivo prévio. organizativa entre eles. Não fora assim, inexistiria a necessidade de se ter um ensino médio de
três anos, fazendo o último ano funcionar integrado ao cursinho. Integrado? Para quê?! Não
será este estranho figurante (o cursinho) um despiste de um ensino médio desfigurado, sem
Uma das questões mais discutidas, hoje, no âmbito do ensino superior, é, precisamente, identidade?!
como tornar este ensino mais flexível na organização, mediante sua democratização. Trata-se,
portanto, de mudar o modelo operativo. Mais do que isto: buscam-se ampliar as O remédio legal parece, desta forma, muito adequado. Mas, ainda c insuficiente. O
responsabilidades sociais da universidade. Ora, o regime seriado, a matrícula em blocos de problema continuará enquanto os professores das universidades não desenvolverem um diálogo
disciplinas sob a forma de regime semestral fechado, tudo isto se faz elemento impeditivo para permanente com os professores do ensino médio. Diálogo que deverá passar por uma discussão
que um número crescente de pessoas possa acessar a instituição universitária. permanente sobre conteúdos e sua formalização (disciplinas), sobre metodologias, sobre
mecanismos de uma relação fecunda entre teoria/prática, sobre sistemas de avaliação, sobre o
Aqui, a legislação caminha no sentido oposto ao modelo travado de matrícula. Mediante
livro didático e outros materiais de apoio ao ensino e, por fim, sobre o problema da
processo seletivo (não necessariamente vestibular no sentido tradicional), qualquer pessoa,
desde que revele capacidade para cursar, poderá matricular-se em disciplina isolada. Numa compreensão e da operacionalização dos valores na prática educativa. Estas questões há muito
época de crescente importância das relações da escola com a comunidade e da universidade
com o sistema produtivo (empresas
Página 150 Página 151
andam esquecidas da universidade. Há alguma discussão sobre elas, aqui e ali, porém não dispersão de saberes. Na verdade, a espinha dorsal da organização do ensino na universidade é
existe uma preocupação sistematizada voltada para o fortalecimento do diálogo entre a construção da unidade do conhecimento por via da multiplicidade dos saberes. Daí, poder-se
professores universitários e professores da escola média. Aliás, nunca se ouviu falar de dizer que o essencial no conhecimento que se transmite não é o que resulta dele, mas,,
encontros, reuniões, simpósios e assemelhados, de nível nacional, para o debate sobre estas sobretudo, o processo como se chega a ele. Assim , a universidade é uma instituição
questões. Reuniões de professores universitários com professores do ensino médio só nos pluridisciplinar porque trabalharia com processos interdisciplinares. Processos que envolvem
meses que antecedem o vestibular. E para tratar de Sua Excelência, o Vestibular!! aspectos lógico-psicológicos da sistematização interna de cada disciplina, a correlação entre as
disciplinas do curso específico e as ciências de referência, a própria organização das disciplinas
que compõem um currículo dado e a estruturação do pensamento científico-teórico, o
Art. 52 As universidades são instituições pluridisciplinares de formação dos quadros desenvolvimento e a crescente elevação dos patamares do pensamento dos alunos e, por fim, a
profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber plena formação do cidadão contemporâneo.
humano, que se caracterizam por:
A caracterização do funcionamento (modo de se organizar) das universidades começa pela
I. Produção intelectual institucionalizada mediante o estudo sistemático dos temas e produção intelectual institucionalizada. Ou seja, não se trata de algo episódico, eventual, tipo
problemas mais relevantes, tanto do ponto de vista científico e cultural, quanto regional resposta aos desafios da imediatidade. Pelo contrário, a ideia é de uma produção científica
e nacional; referida a um esquema de tempo com ritmo próprio. Não significa que venha trabalhar dentro
II. Um terço do corpo docente, pelo menos, com titulação acadêmica de mestrado ou de um tempo sem limite, indeterminado, senão que o processo não pode ser comprometido pelo
doutorado; calendário. Piá uma organização do calendário, mas não uma subalternidade a ele.
III. Um terço do corpo docente em regime de tempo integral. Inc. I O estudo sistemático de temas e problemas relevantes atende à dimensão, comentada
Parágrafo Único. É facultada a criação de universidades especializadas por campo do anteriormente (Art. 43), da função social da universidade. A relevância refere-se seja à
dimensão científica do que se produz, seja à importância social que o produto tem para a
saber. coletividade. Por outro lado, esta relevância pode ter um foco geral (o conhecimento não tem
pátria), nacional (a universidade prepara cidadãos que vivem em um território autônomo) e
regional (a universidade está referida a um contexto e sua geografia cultural não pode ignorar a
Até agora, a Lei tratou da educação superior e das instituições universitárias. A partir de
geografia humana, na busca da construção de uma geopedagogia).
então, passa a focar a universidade propriamente dita. Ao conceituá-la, ratifica, na perspectiva
do "modus operandi", as finalidades da educação superior contidas no Artigo 43. Inc. II A missão da universidade, de grande transcendência social, supõe, para ser colimada, a
Em sendo instituições pluridisciplinares, as universidades têm o dever de organizar o existência de quadros docentes de avançada qualificação. Na verdade, não se produz ciência
conhecimento sob eixos estruturantes que envolvem: i) a estrutura das diversas áreas do sem competência. Não se desenvolvem competências sem inteligência. Não se constrói saber
conhecimento (Humanas, Biomédicas, Exatas e Tecnológicas); ii) vínculo entre o domínio de sem metodologia. Não pode construir profissões quem não tem formação. Daí, a necessidade de
conhecimento e o respectivo processo de aquisição; iii) identificação do conteúdo globalizante titulação acadêmica formal avançada para, ao menos, uma parte (1/3) do corpo docente.
de cada sub-área do conhecimento (Cursos), incluindo o saber específico e as metodologias Ensinar não é transmitir, senão recriar conhecimento. E como fazê-lo sem o instrumental cien-
que vão determinar a trajetória a ser palmilhada para a assimilação deste saber; iv) a captação tífico da competência possuída?!
da estrutura das disciplinas, lembrando que cada disciplina "constitui uma singular projeção do Inc. III Desdobramento da exigência anterior, é a profissionalização do corpo docente,
conhecimento científico no plano da assimilação e tem suas regularidades determináveis pelos mediante um regime de trabalho estável na instituição. Tempo integral significa quarenta horas
fins do ensino, as peculiaridades assimilativas, o caráter e as possibilidades da atividade semanais de trabalho acadêmico (ensino, pesquisa e extensão) centrado no projeto institucional
psíquica dos alunos c outros fatores" (DAVYDOV, 1981, p. 6). Portanto, a específico. A sociedade concorda com uma universidade competente e dedicada integralmente
pluridisciplinaridade deve ser entendida como um universo diversificado de disciplinas, sem à produção do saber e ao desenvolvimento
que isto signifique uma fragmentação, uma
Página152 Página 153
do ensino. Mas exige, também, resultados concretos e, por isso, reclama, cada vez mais, o X. Receber subvenções, doações, heranças, legados e cooperação financeira resultante de
direito de participar da avaliação externa das universidades. convênios com entidades públicas e privadas.
§ Único Aqui se aponta um novo horizonte para a constituição de universidades. Até agora, Parágrafo Único. Para garantir a autonomia didático-científica das universidades, caberá
somente poderiam ser criadas universidades com pluralidade de áreas. A ideia de universitas aos seus colegiados de ensino e pesquisa decidir, dentro dos recursos orçamentários
deveria estar representada na própria configuração dos campos de saber. Assim, a oferta de disponíveis, sobre:
cursos nas áreas das Ciências Humanas, das Ciências Biomédicas e das Ciências Exatas e da I. Criação, expansão, modificação e extinção de cursos;
Tecnologia era pré-condição para a criação de universidades. A partir de agora, poderão ser
II. Ampliação e diminuição de vagas;
criadas universidades especializadas, ou seja, universidades centradas em um campo de saber
verticalizado. Poderemos, a partir de então, ter universidades de Ciências Agrárias, de Ciências III. Elaboração da programação dos cursos;
da Saúde, de Ciências do Meio-Ambiente etc. O País poderá ganhar não apenas pelo processo IV. Programação das pesquisas e das atividades de extensão;
de extensão da rede de universidades, uma vez que ficará menos complexa a instalação de uma
universidade, mas também porque é de se esperar a evolução positiva de quadros de altos V. contratação e dispensa de professores;
especialistas. Esta estrutura especializada poderá concorrer para que os professores- VI. Planos de carreira docente.
pesquisadores se transformem de acadêmicos em cientistas.

Art. 53 No exercício de sua autonomia, são asseguradas às universidades, sem prejuízo de Este artigo trata de uma das questões mais debatidas da universidade brasileira: a sua
outras, as seguintes atribuições: autonomia. Instituto salvaguardado pela própria Constituição Federal (Art. 207), a autonomia
universitária tem encontrado, ao longo do tempo, resistências para a sua concretização,
I. Criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de educação superior sobretudo no tocante à gestão financeira. De partida, tem-se de reconhecer que as
previstos nesta Lei, obedecendo às normas gerais da união e, quando for o caso, do universidades públicas vem conseguindo, a duras penas, alguns avanços nesta área. O objetivo
respectivo sistema de ensino; da autonomia é assegurar a liberdade de crítica e a livre produção e transmissão do
II. Fixar os currículos dos seus cursos e programas, observadas as diretrizes gerais conhecimento, tornando as universidades impermeáveis a ingerências econômicas, políticas ou
pertinentes; religiosas estranhas ao desenvolvimento do ensino, da pesquisa e da extensão. A detentora da
autonomia c a comunidade acadêmica a quem cabe a autogestão das atividades de ensino,
III. Estabelecer planos, programas e projetos de pesquisa científica, produção artística e pesquisa e extensão. Estas são viabilizadas pela autonomia administrativa e de gestão
atividades de extensão; financeira.
IV. Fixar o número de vagas de acordo com a capacidade institucional e as exigências do Os incisos de I a X referem-se aos atributos da autonomia, ou seja, no exercício da
seu meio; autonomia didático-científica, as universidades têm as atribuições que estão aí contidas.
V. elaborar e reformar os seus estatutos e regimentos em consonância com as normas Por fim, convém compreender que o conceito de autonomia é igualitário para as
gerais atinentes; instituições públicas e para as instituições privadas. Afinal, o conceito de universidade é o
VI. Conferir graus, diplomas e outros títulos; VIL firmar contratos, acordos e convênios; mesmo para uma e outra. A própria Constituição Federal não estabelece distinção entre estes
dois tipos de universidade c, portanto, não autoriza modalidades diferentes de autonomia. No
VIII. Aprovar e executar planos, programas e projetos de investimentos referentes a obras, caso das universidades privadas, costuma haver uma confusão entre a autonomia da
serviços e aquisição em geral, bem como administrar rendimentos conforme universidade e a autonomia da mantenedora. No entanto, sob o ponto de vista conceituai, este
dispositivos institucionais; equívoco é inaceitável, pois que o instituto da autonomia se plenifica nas decisões sobre
IX. Administrar os rendimentos e deles dispor na forma prevista no ato de constituição, ensino, pesquisa e extensão. Tais decisões cabem, essencialmente, à comunidade acadêmica,
nas leis e nos respectivos estatutos; esta, sim, constituída pelo corpo docente através de colegiados dos quais participam, também,
representantes dos alunos e dos servidores técnico-administrativos.
Página 154 Página 155
Fica, como ganho adicional da autonomia financeira e administrativa, a progressiva organização e financiamento pelo Poder Público, assim como dos seus planos de carreira e do
desburocratização da educação superior. regime jurídico do seu pessoal.
O ensino superior público encontra-se estagnado a, mais ou menos, vinte anos. Sua § 1° No exercício da sua autonomia, além das atribuições asseguradas pelo artigo anterior,
expansão é imperiosa. O setor público encontra-se esgotado pela incapacidade de as universidades públicas poderão:
investimentos do estado. O setor privado esbarra em vários entraves de ordem burocrática para I. Propor o seu quadro de pessoal docente, técnico e administrativo, assim como um
sua expansão. O governo investe recursos vultosos na educação superior. Cerca de 6,5 bilhões plano de cargos e salários, atendidas as normas gerais pertinentes e os recursos
do Governo Federal que, somados a cerca de 3,5 bilhões dos governos estaduais, totalizam 10 disponíveis;
bilhões, ou seja, quase o mesmo volume de investimentos destinados à educação básica. O
alunado do setor privado está em torno de 2,09 milhões de um total de 3,03 milhões de vagas II. Elaborar o regulamento de seu pessoal em conformidade com as normas gerais
preenchidas na Educação Superior. O sistema de crédito educativo é limitado: atinge hoje 163 concernentes;
mil alunos/ano. III. Aprovar e executar planos, programas e projetos de investimentos referentes a
obras, serviços e aquisições em geral, de acordo com os recursos alocados pelo
O crescimento da rede privada e a estagnação da rede pública colocam a necessidade de
respectivo Poder mantenedor;
uma profunda reavaliação do sistema. Na América Latina, o Brasil apresenta um dos índices
mais baixos de acesso à educação superior. Basta verificar que a população brasileira de 18 a IV. Elaborar seus orçamentos anuais e plurianuais;
24 anos, que frequenta cursos superiores, é de menos de 12%. Na Argentina, é de 40%, na V. adotar regime financeiro e contábil que atenda às suas peculiaridades de
Venezuela de 26%, na Bolívia de 20,6% e no Chile de 20%. organização e funcionamento;
Em síntese, a autonomia da universidade passa por uma profunda transformação do seu VI. Realizar operações de crédito ou de financiamento, com aprovação do Poder
atual modelo de gestão, envolvendo formatos organizacionais diferenciados, sistemas de competente, para aquisição de bens imóveis, instalações e equipamentos;
avaliação interna e externa, fontes múltiplas de financiamento e plano de carreira docente
compatível com o novo modelo de autonomia plena. Aliás, é o que prevê o próximo Artigo que VII. Efetuar transferências, quitações e tomar outras providências de ordem
trata destas questões na ótica das universidades públicas. orçamentária, financeira e patrimonial necessária ao seu bom desempenho.
§ 2° Atribuições de autonomia universitária poderão ser estendidas a instituições que
Por fim, cabe destacar uma restrição ao exercício da autonomia, contida no Inciso I do
comprovem alta qualificação para o ensino ou para a pesquisa, com base em avaliação
Artigo 53, ao determinar que as universidades podem "criar, organizar e extinguir, cm sua sede
realizada pelo Poder Público.
(grifo nosso), cursos e programas de educação superior (...)". Ora, como sabemos, diversas
universidades têm uma estrutura multicampi... Neste caso, estariam proibidos de criar,
organizar e extinguir cursos fora de suas sedes? De fato, foi isto que a legislação decorrente O Artigo em apreço trata das questões de operacionalização da autonomia no âmbito
estabeleceu. Assim, o Decreto 2.306/97 fixa, no Art. 11, que "a criação de cursos superiores de exclusivo das universidades públicas. Para que atendam as necessidades de organização e
graduação ou a incorporação de cursos já existentes e em funcionamento, fora da sede, ou seja, financiamento, contarão com um estatuto jurídico especial. Este documento básico de conduta
em localidades distintas das definidas no ato de seu credenciamento, por universidades institucional servirá de bússola para o adequado uso dos recursos humanos e financeiros. Neste
integrantes do sistema federal de ensino, depende de autorização prévia do Ministério da caso, vale registrar que as instituições públicas de educação superior se sustentam de recursos
Educação e do Desporto, ouvido o Conselho Nacional de Educação..." do respectivo tesouro (federal ou estadual, conforme o caso). Portanto, os gastos com
manutenção e folha de pessoal passarão a ser feitos dentro dos limites das disponibilidades
orçamentárias.
Art. 54 As universidades mantidas pelo Poder Público gozarão, na forma da lei, de estatuto
jurídico especial para atenderás peculiaridades de sua estrutura, Prevê, outrossim, que instituições não-universitárias, dedicadas a atividades que as
capacitem para o ensino e para a pesquisa, porque desenvolveram altas competências para
tanto, poderão, igualmente, usufruir das prerrogativas da autonomia, em decorrência de
avaliações feitas pelo Poder Público.
Página 156 Página 157
Art. 55 Caberá à União assegurar, anualmente, em seu Orçamento Geral, recursos suficientes professor que não tem aulas para ministrar?! De fato, não há uma teoria do conhecimento sem
para manutenção e desenvolvimento das instituições de educação superior por ela mantidas. o ensino do conhecimento. E ele, o ensino, que possibilita a apresentação de uma
argumentação sólida para comprová-lo, ou seja, faz parte do construir o saber, ensinar. Neste
sentido, a educação pela pesquisa conduz à emancipação, mas é o ensino que assegura o
Este Artigo busca garantir a fonte de financiamento para a manutenção e o desen- ambiente pró-ativo da comparação/confrontação do que se pesquisa. Por fim, se a pesquisa é
volvimento das instituições federais de ensino, dentro das responsabilidades definidas para a função essencial da universidade, o ensino não é menos essencial. A pesquisa calca a atividade
União, no Art. 9°, Inc. II desta Lei e, ainda, no Art. 211, § 1° da Constituição Federal, agora, do professor, mas é pelo ensino que ela se define8 (nota: Sobre este tema, ver: DEMO, Pedro, Educar
com a nova redação da Emenda constitucional n° 14, que atribui, à União, a obrigação de pela pesquisa, Editora Autores Associados, Campinas, 1997.).
organizar e financiar o sistema federal de ensino.
CAPÍTULO V DA EDUCAÇÃO ESPECIAL
Art. 56 As instituições públicas de educação superior obedecerão ao princípio da gestão
democrática, assegurada a existência de órgãos colegiados deliberativos, de que participarão os Art. 58 Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação
segmentos da comunidade institucional, local e regional. escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de
Parágrafo Único. Em qualquer caso, os docentes ocuparão setenta por cento dos assentos necessidades especiais.
em cada órgão colegiado e comissão, inclusive nos que tratarem da elaboração e § 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para
modificações estatutárias e regimentais, bem como da escolha de dirigentes. atender às peculiaridades da clientela de educação especial.
§ 2°O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados,
A gestão democrática nas instituições públicas é matéria de definição constitucional (Art. sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua
206, Inc. VI). Evidentemente que a factibilidade deste tipo de gestão deverá estar disciplinada integração nas classes comuns de ensino regular.
na legislação de cada sistema e, portanto, também, em regulamentos específicos de cada § 3° A oferta de educação especial, dever constitucional do Estado, tem início na faixa
instituição. etária de zero a seis anos, durante a educação infantil.
O Parágrafo Único determina a predominância, em 70%, de docentes, na composição dos
colegiados deliberativos e nas comissões, mesmo quando se tratar de instâncias de escolha de
dirigentes. Há quem reivindique algo diferente. Na verdade, a qualidade da educação superior Estamos diante de mais uma modalidade educativa. Já foram comentados o conceito de
é responsabilidade do corpo docente e, portanto, a ele cabe ter posição hegemônica na Educação Especial e, ainda, suas diferentes manifestações, no Art. 4°, Inc. III.
definição dos destinos da instituição. Diferentemente dos textos anteriores de LDB, a nova Lei dedica um capítulo especial ao
assunto, definindo, inclusive, as.formas de organização, estruturadas, preferencialmente, na
Art. 57 Nas instituições públicas de educação superior, o professor ficará obrigado ao mínimo rede regular de ensino. A importância do tema foi emergindo à medida que a própria sociedade
de oito horas semanais de aulas. descobriu que os portadores de necessidades especiais são educandos, ou seja,
etimologicamente, devem ser educados. Mas, da etimologia, passou-se à pedagogia. A
sociedade posicionou-se, fortemente, contra a exclusão de pessoas que, embora com alguma
Este dispositivo visa a assegurar um mínimo de trabalho do professor em sala de aula. limitação biopsíquicas (daí, a equivocada expressão deficientes!), são potencialmente saudáveis
Aliás, para os professores que trabalham em regime de tempo integral (no caso das para a aprendizagem, desde que esta seja adequada às especificidades de cada caso.
universidades, deverá ser, pelo menos, um terço, nos termos do Art. 52, Inc. III), trata-se de
uma carga horária semanal diminuta. Como conceber um
Página 158 Página 159
A Constituição de 1988 incorporou esta pressão social sob a forma de dispositivo cidadania menor'? A OIT c taxativa: "Os portadores de deficiência, capazes de realizar
categórico (Art. 208, Inc. III). Em decorrência, foram-se multiplicando os centros brasileiros trabalho produtivo, devem ter o direito ao emprego como qualquer outro trabalhador". No
de atendimento em educação especial, os programas brasileiros de pós-graduação em educação entanto, para a concretização desta norma da OIT, três pressupostos são imperativos:
especial e o próprio Ministério da Educação elevou, em 1992, o órgão de Educação Especial à 1- Não buscar atividades laborais especiais, dando a equivocada impressão de que a
categoria de Secretaria, ao lado das Secretarias de Educação Fundamental, Média e pessoa portadora de deficiência é um trabalhador de perfil residual, fato que termina por
Tecnológica e Superior. Esta mudança sinalizou a valorização do tema, enquanto objeto de lhe reservar tarefas de natureza elementar, quando, não, subempregos;
política pública e diretrizes para a área. No momento, a SEESP/MEC desenvolve um relevante
trabalho voltado para a proposição de políticas e para o fomento técnico e financeiro de ações 2- Construir linhas de formação que não estejam centradas na monotecnia. Na verdade, a
de responsabilidade das Unidades Federadas. Em decorrência, a Educação Especial passou a produção atual exige uma formação não para postos de trabalho, mas, sim, para áreas de
ser tratada como componente relevante (c não mais eventual) da rede regular de ensino. atividades. Este novo enfoque assegura a flexibilidade para que o profissional se adapte
às constantes mudanças do processo produtivo;
Destaque-se, por outro lado, que, já em 1989, portanto um ano depois da promulgação da
Constituição, foi sancionada a Lei 7.853, de 24 de outubro, dispondo sobre o apoio às pessoas 3 - Formar para o mundo do trabalho e, não, para o mercado de trabalho. Formar para o
portadoras de deficiência, sua integração social e assegurando o pleno exercício dos direitos mundo do trabalho significa capacitar a pessoa portadora de deficiência a pôr-se de
individuais e sociais destas pessoas. Em 1993, o Governo editou o Decreto n° 914, de 6 de forma cooperativa e útil na comunidade em que vive e convive. Formar para o mercado
setembro, em que instituiu a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de de trabalho é buscar fornecer mão-de-obra requerida pelo processo produtivo
Deficiência. Assim, a partir da Constituição, estavam definidos os marcos normativos para segmentado. Em outros termos: formar para postos fixos de trabalho ou para núcleos que
uma ação consistente de criação e diversificação de espaços educativos no âmbito da Educação atendam à diversidade de funções existentes nos setores produtivos? Este é um desafio
Especial. que temos de enfrentar.
No que pesem os reconhecidos avanços, há que se registrar a necessidade de ações mais A Federação Nacional das APAEs tomou importante iniciativa em 1997, para tentar abrir
concretas por parte do Governo Federal, de Estados e Municípios, a fim de que, uma clareira de ações possíveis na área de Educação Profissional e Colocação no Trabalho da
articuladamente, desenvolvam estruturas operacionais rotineiras no parque escolar nacional, Pessoa Portadora de Deficiência (Os resultados desta iniciativa estão registrados no documento
voltadas para uma efetiva atividade educativa regular de educação especial. Educação Profissional e Colocação no Trabalho — uma nova proposta de trabalho junto à
Por outro lado, há duas áreas, ainda, esmaecidas neste setor. A primeira é a voltada para o pessoa portadora de deficiência, Federação Nacional das APAEs, Brasília, 1997). Por outro
aluno superdotado. O Brasil cuida mal ou não cuida do aluno com elevada aptidão intelectual, lado, a CEESP/MEC publicou, em 2003, importante documento com orientações para o
talvez porque não tenha conseguido resolver questões mais gerais da educação básica. Só que a trabalho das pessoas com deficiência e, por extensão, para uma ressignificação das Oficinas
educação do superdotado é, igualmente, uma questão de educação básica! A segunda diz Pedagógicas, intitulado: A Interface Educação Especial/Educação Profissional. O texto contém
respeito à formação profissional, à orientação profissional, inclusive, ao acesso a cursos dimensões teórico-conceituais para apoiar as instituições, professores c equipes
regulares voltados para a formação profissional dos portadores de deficiência. Esta área multidisciplinares da Educação Especial em sua prática pedagógica cotidiana.
continua opaca em termos de operacionalização das diretrizes políticas. Pode-se compor uma gama de iniciativas que, trabalhadas de forma articulada entre setor
Em nosso País, há uma enorme distância entre igualdade de oportunidades e igualdade público e setor não-governamental, vai ensejar uma rápida ampliação dos espaços de inserção
social. Esta, a gênese da multidão de excluídos da sociedade brasileira. Portanto, é no bojo da da pessoa com deficiência no mundo do trabalho.
discussão contemporânea em torno de cidadania e inclusão que se deve ressituar a Sugerem-se dez passos, a saber:
problemática do trabalho da pessoa com deficiência. A questão que se deve pôr é como ampliar
serviços e programas na área de Educação Profissional, assim que o portador de deficiência l — Consórcio de entidades para um adequado acompanhamento das ações das várias
não seja titular de uma esferas do setor público (União Federal, Estados e Municípios)
Página 160
Página 161
na área de geração de emprego e renda para a pessoa portadora de deficiência. Aqui,
convém lembrar a lição de Hanna ARENDT. As esferas constitutivas da vida social são: 8 – Implementação de diretrizes voltadas para a oferta curricular modularizada, de tal
a esfera pública, a esfera do mercado e a esfera privada. Esta tende a produzir exclusão. sorte que o critério de letividade ceda lugar ao de educabilidade e o critério da
A esfera de mercado tende a produzir discriminação. Só à esfera pública compete pedagogia dos currículos ceda lugar ao da pedagogia dos objetivos da aprendizagem.
sustentar os valores da equidade; 9 - Construção de modelos variados de oferta, dentro da concepção destravada de
2 - Inventário de ações em nível local e regional, conducentes à ampliação deste espaço, no educação profissional, conforme prescreve a nova Lei de Diretrizes e Bases da
âmbito do quadro das organizações comunitárias; Educação (Lei 9.394/96);
3 - Censo da população local de pessoas portadoras de deficiência e respectivos nível de l 0 - Definição, em cada caso, de pré-requisitos para ingresso no programa de capacitação.
capacitação, perfil da demanda, qualidade e graus de oferta dos programas de Este roteiro é um inventário aberto. Cada contexto, à vista da disponibilidade de recursos e
capacitação disponíveis e estudos de dimensionamento da capacidade de absorção de do grau de demanda, organizará uma trajetória comunitária para o enfrentamento da questão.
mão-de-obra por níveis de qualificação;
Na verdade, a pluralidade de formas de abordagem da questão e de sua solução põe-se na
4 - Criação de mecanismos de articulação permanente com o Ministério da Educação, perspectiva mais ampla da própria diversidade humana. Pode-se dizer que o respeito pela
através do Programa de Reforma da Educação Profissional (PROEP) e com o Ministério diversidade é o verdadeiro nutriente de uma solidariedade proativa.
do Trabalho, através da Secretaria de Formação Profissional (SEFOR) seja para
financiamento da realização dos estudos acima referidos, seja para financiamento do A nova LDB, em seu Art. 39, estabelece possibilidades amplas de organização da Educação
Processo de Educação Profissional e Colocação no Trabalho (PECT) nas instituições. Profissional. Por outro lado, o Decreto 5154/2004, ao fixar os diferentes níveis de oferta de
Como desdobramento, articulação constante com o Conselho Nacional de Secretários de Educação Profissional (Art. 1-), define, como um dos objetivos, qualificar, reprofissionalizar e
Educação (CONSEDE) para ampliar a visibilidade do tema na agenda dos diferentes atualizar jovens e adultos trabalhadores com qualquer nível de escolaridade. Ou seja, os
sistemas; gestores da área de Educação Especial têm, sob o ponto de vista legal, os meios para a
concepção e a operacionalização de modelos de oferta de preparação profissional de pessoa
5 - Definição de um quadro de metas e de objetivos específicos a serem alcançados,
portadora de deficiência, com liberdade e criatividade.
envolvendo:
a) Montagem de um Plano com a fixação de prioridades no uso dos recursos e no E, como ensina L. MOBLEY, a única forma de criatividade está na diversidade.
desenvolvimento dos serviços e dos programas ao longo de cada ano; Uma última questão para se viabilizar, plenamente, o conteúdo deste Art. 58, situa-se na
b) Definição de indicadores e de procedimentos a serem usados para medir os progressos área da formação do corpo docente. Não conta, o País, com quadros docentes bem preparados.
obtidos na consecução das metas; Pode-se falar mesmo em descaso neste setor. A formação do professor que atua na Educação
Especial 6 precária porque os cursos universitários são, normalmente, de baixa qualidade.
c) Identificação de grupos prioritários que requerem medidas especiais; Quase sempre noturnos, oferecem uma formação prática reduzidíssima e, tanto pior, as
d) Tipos de competência requeridos para implementar o plano; disciplinas específicas são poucas e de carga horária insatisfatória.

c) Identificação de meios para assegurar o intercâmbio de informação entre programas A Secretaria de Educação Especial do MEC, acolhendo indicações de várias universidades
de educação profissional formal e outros. brasileiras, tem diligenciado para que as Faculdades de Educação incluam, nos currículos de
formação docente, disciplinas de capacitação básica em Educação Especial. Com esta
6 - Elaboração e implantação de dispositivos institucionais e administrativos para a providência, os professores adquirirão a necessária competência para lidar com alunos
multiplicação de formas de apoio da comunidade; especiais, agora estudando em classes
7 - Criação de instrumentos de avaliação dos programas implantados e de
acompanhamento de egressos;
Página 162 Página 163
regulares. Nesta mesma perspectiva, têm sido desenvolvidos esforços para que as bem como possibilidade de aceleração de estudos para os superdotados; iii) existência de
universidades mantenham programas de especialização através da implantação de Núcleos de docentes com formação adequada para um trabalho pedagógico especializado, bem como de
Educação Especial. Estes prepararão recursos humanos capacitados em áreas específicas da docentes do ensino regular com competências pertinentes ao trabalho de "normalização" deste
Educação Especial, com um enfoque interdisciplinar e sócio-comunitário educando nas classes comuns; iv) educação para o trabalho, mediante o apoio de condutas
típicas que ensejem o desenvolvimento de habilidades profissionais para diferentes áreas; v)
Uma questão crucial e desafiadora é como as instituições de formação docente poderão
disponibilização dos programas sociais suplementares, tal qual existem para alunos do ensino
contribuir para a preparação de alfabetizadores de pessoas com deficiência mental,
regular, aos alunos com necessidades especiais (merenda escolar, livro didático, assistência
considerando que elas constituem hoje mais de 50% da matrícula da Educação Especial e que médica e psicológica, transporte escolar etc.).
preocupantemente formam uma população analfabeta de 97%. E inimaginável falar-se cm
Educação Inclusiva e respeito à diversidade, permitindo-se a ampliação dos espaços e das A LDB vai além da definição política. Faz o balizamento dos marcos operacionais de tal
circunstâncias que fecundam mais exclusão! sorte que se restabeleçam linhas de regularidade operativa para a Educação Especial no ensino
regular, na Educação Profissional e no acesso aos benefícios suplementares do ensino regular.

Art. 59 Os Sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais:


Art. 60 Os órgãos normativos dos sistemas de ensino estabelecerão critérios de caracterização
I. Currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para das instituições privadas sem fins lucrativos, especializadas e com atuação exclusiva em
atender às suas necessidades; educação especial, para fins de apoio técnico e financeiro pelo Poder Público.
II. Terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a Parágrafo único. O Poder Público adotará, como alternativa preferencial, a ampliação do
conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para atendimento aos educandos com necessidades especiais na própria rede pública regular de
concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados; ensino independentemente do apoio às instituições previstas neste Artigo.
III. Professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para
atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a
integração desses educandos nas classes comuns; A Educação Especial no Brasil desenvolveu-se, primeiramente, em instituições privadas
sem fins lucrativos. Só depois, mercê de grandes pressões sociais, o Estado passou a se ocupar
IV. Educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em
do assunto. Neste sentido, não se pode esquecer da grande contribuição que instituições como
sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de
as APAEs, PESTALLOZI, FEBIEXe tantas outras ofereceram e continuam a oferecer para o
inserção no trabalho competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem
desenvolvimento da Educação Especial no Brasil.
como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística,
intelectual ou psicomotora; Em decorrência desta importante ação, a lei reconhece a necessidade de os órgãos
normativos dos sistemas de ensino (Conselhos de Educação e congêneres) definirem critérios
V. acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para para que tais instituições recebam apoio técnico e financeiro do Poder Público.
o respectivo nível do ensino regular.
A possibilidade de apoio a instituições privadas, no entanto, não deve ser interpretada como
atenuação do critério anterior de se dar preferência a localização das ações da educação
Este Artigo define o modo de organizar a Educação Especial, a partir dos seguintes focos: especial no interior da rede regular de ensino. O Poder Público poderá assistir, técnica e
i) currículos, metodologias e recursos específicos de apoio; ii) possibilidade de antecipação de financeiramente, instituições privadas sem fins
conclusão do ensino fundamental em situações especiais,
Página 164 Página 165
lucrativos, porem, sem descartar o uso de sua própria rede como diretriz preferencial, para o atividades, marcadas por processos de aprendizagem e, portanto, de construção de uma
atendimento do aluno de Educação Especial. trajetória formativa.

TÍTULO VI Art. 62 A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em
curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de
DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação
infantil e nas primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na
modalidade Normal.
Art. 61 A formação de profissionais da educação, de modo a atender aos objetivos dos
diferentes níveis e modalidades de ensino e as características de cada fase do desenvolvimento
do educando, terá como fundamentos: A formação do professor constitui aspecto angular da educação básica. O ideal é que se
I. a associação entre teorias e práticas, inclusive mediante a capacitação em serviço; tenham docentes com formação avançada para atuar num nível de educação onde são definidos
II. aproveitamento da formação e experiências anteriores em instituições de ensino e os valores e as condições básicas para o aluno apreender o conhecimento mínimo e laborar a
outras atividades. visão estratégica imprescindível a compreender o mundo, intervir na realidade e agir como
sujeito crítico. Daí, a Lei definir a formação de nível superior, adquirida em cursos de
licenciatura9 (nota: As licenciaturas são de três tipos: a) Para as áreas do conhecimento humano: Filosofia,
Todo o Título VI trata dos profissionais da educação, a saber: os professores (Art. 62), que Psicologia, Ciências (Física, Química e Biologia), Educação Artística (Desenho, Artes Plásticas, Artes Cênicas e
ministram o ensino, e os demais (Art. 64), que apoiam todo o processo de Música), História, Geografia, Ciências Sociais, Estudos Sociais e Letras; b) Para as áreas profissionais:
ensino/aprendizagem. São eles: os administradores escolares, os planejadores da educação, os Pedagogia, Enfermagem e Educação Física; c) Para as disciplinas específicas do 2º grau profissionalizante
inspetores de ensino, os supervisores de ensino e os orientadores educacionais. Todos estes (Parecer 31/77 - CFE).), de graduação plena. Ficam, portanto, descartados os chamados cursos de
profissionais têm ação centrada na educação básica, isto é, na pré-escola, no ensino licenciatura de curta duração. A lei não os inclui.
fundamental e no ensino médio. O Conselho Nacional de Educação/CNE emitiu o Parecer N° CNE/CP 009/2001, aprovado
A existência e formação destes especialistas têm sido muito questionadas pelos meios em 08/05/2001, definindo as diretrizes curriculares nacionais para a formação de Professores
acadêmicos, ao menos no tocante à tipologia de formação e da ação que desenvolvem na da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura de graduação plena.
escola. É tanto que a figura do inspetor de ensino quase já não existe e a do supervisor vai
O ponto de partida da resolução do CNE é de tríplice natureza: a) atender, no tocante à
tendo, cada vez mais, presença diminuída, com reconhecidos prejuízos para o padrão de
formação docente, o novo ordenamento da educação básica, construindo-se uma linha de
qualidade das escolas, sobretudo em regiões em que a formação do professor é ainda precária.
articulação conceitual e operativa entre os princípios da LDB, os dispositivos normativos das
A ação do supervisor é fundamental porque tem como objeto de trabalho o resultado da relação
DCNEM para o conjunto da educação básica - referentes a níveis e modalidades de ensino - c
que ocorre entre o professor que ensina e o aluno que aprende (ou que deveria aprender!).
as orientações encorpadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais/PCN concebidos pelo MEC;
Inc. IA Lei amplia as possibilidades de formação dos profissionais da educação ao reconhecer a b) incorporar novas dimensões à formação docente, decorrentes dos avanços das ciências e do
validade da alternativa da capacitação em serviço. Trata-se, mais uma vez, de realçar a novo formato da sociedade do conhecimento, conformando uma outra cosmologia.
dimensão do extra-escolar, do não-formal, embora a capacitação em serviço queira significar
em serviço educacional. Fica redimensionado, no entanto, o extra-escolar à medida que a Assim, mudar o foco do ensino para aprendizagem, realçar o êxito do aluno, trabalhar,
capacitação se opera fora do espaço de formação acadêmica e dentro do espaço de trabalho. positivamente, a diversidade, estimular o desenvolvimento de práticas investigativas, criar
espaços curriculares para execução de projetos, inovar em
Inc. II Desdobramento da ideia da capacitação em serviço, o texto legal inclui, como um dos
fundamentos da formação, não só o aproveitamento de experiências anteriores em instituições
de ensino, mas, inclusive, em outros tipos de
Página 167
Página 166 atividade profissional, deve voltar-se, substantivamente, para a capacidade de o aluno-
metodologias através de estratégias criativas e não meramente reprodutivas, centrar o enfoque formando acionar saberes c buscar novos conhecimentos.
em atividades cooperativas e, por fim, construir, com o aluno, um saber/aprender Enfim, ganhando terminalidade e integralidade, a licenciatura, enquanto curso de
dinamicamente articulado, tudo isto constitui componentes essenciais da nova matriz formação docente, passa a realçar a necessária, porém, tradicionalmente esquecida,
definidora do perfil do professor esperado; c) desenvolver, mediante uma articulação dinâmica, interconexão dos conhecimentos tratados e trabalhados no currículo de formação do professor,
o conceito operativo de educação básica, assim que a educação escolar remova a ideia de com os conhecimentos tratados e trabalhados no currículo de formação do aluno de educação
"justaposição de etapas fragmentadas" e se reordene num alinhamento de tempo/espaço básica.
articulado e contínuo. Isto implica em uma visão reconceituada de escola, de professor, de
processo pedagógico (construção de currículo) e de avaliação. Além das universidades, poderão oferecer a formação docente para a educação básica os
institutos superiores de educação. Instituições de concepção nova, são institutos especializados
Com esta nova formulação, a licenciatura adquire identidade específica e encarna na formação do educador, o que poderá significar uma via alternativa muito interessante para o
conformidade própria, distinguindo-se, em sua natureza e musculatura orgânica, do desenvolvimento de processos formativos reconceituados do professor, encalhados, hoje, por
bacharelado. Este, convém lembrar, até hoje, verdadeira camisa-de-força das licenciaturas. falta de visibilidade da parte das Faculdades de Educação. Quem sabe não se criará, entre
Espera-se, a partir de agora, que o esquema 3+1 (três anos de bacharelado mais um de ambas as possibilidades, uma emulação germinativa da qual resultarão, enfim, linhas for-
licenciatura) seja progressiva e definitivamente sepultado. mativas mais claras, mais consentâneas com as necessidades plurais do País?
Para que a nova proposta de formação docente para a educação básica ganhe factibilidade é A Lei traz de volta a denominação de curso Normal, extinta no regime da Lei 5.692/71 e
necessária a adoção de políticas nacionais montadas sobre três grandes vertentes: a) substituída então pela expressão habilitação específica de 2º grau (Art. 30, alínea a).
Valorização (formação, condição de trabalho, carreira e remuneração) do professor de
educação básica; b) Elevação de padrões de qualificação acadêmica e fortalecimento do perfil
profissional do corpo docente formador; c) Recuperação da infra-estrutura físico-institucional Art. 63 Os institutos superiores de educação manterão:
formadora, o que supõe: recondicionamento de espaços físicos, renovação de práticas de I. Cursos formadores de profissionais para a educação básica, inclusive o curso normal
gestão e de formas de trabalho, recursos tecnológicos inovadores e construção, em linha contí- superior, destinado à formação de docentes para a educação infantil e para as primeiras
nua, de alianças estratégicas, sobretudo, entre agências formadoras e sistemas de ensino; d) séries do ensino fundamental;
Estabelecimento de programas nacionais permanentes de formação continuada, ancorados em II. Programas de formação pedagógica para portadores de diplomas de educação superior
um sistema de avaliação periódica e de "certificação de cursos, diplomas e competências de que queiram se dedicar à educação básica;
professores".
III. Programas de educação continuada para os profissionais de educação dos diversos
São os seguintes os princípios norteadores, definidos pelo CNE, para a nova formação níveis.
inicial de professores: a) a noção de competência deve pervadir todo o substrato da formação
docente; b) a harmonização entre formação disponibilizada e prática esperada do professor é
imprescindível; c) a aprendizagem se dá em cima de um conhecimento construído Tem-se, aqui, uma definição organizacional dos institutos superiores de educação já
coletivamente; d) os conteúdos são veículos de desenvolvimento de competências. Portanto, é referidos no Artigo anterior. Responsáveis pela formação de professores para a educação
nuclear a preocupação de trabalhar com conhecimentos mobilizados, articulados e infantil e as quatro primeiras séries do ensino fundamental, estas novas instituições vão
contextualizados; e) a interpretação da realidade supõe um conhecimento não repetido, mas oferecer uma modalidade específica de curso para o magistério que trabalhará com a educação
reconstruído, o que implica na transformação da sala de aula em ambiente de investigação infantil (primeiro nível da educação básica nos termos do Artigo 21) e para as primeiras séries
permanente; f) o professor e o aluno são detentores de repertórios prévios e pessoais de do ensino fundamental. Trata-se de uma nova visão da relevância da pré-escola e do ensino
conhecimentos. Assim, a seleção de conteúdos não pode ser um processo estanque, mecânico, fundamental. Esta fase da escolaridade exige professores com densa formação, capazes de bem
mas participado e coletivo, buscando-se, em qualquer circunstância, a sua ampliação e o seu entender a estrutura do sujeito cognoscente, dentro dos estágios do desenvolvimento
aprofundamento; g) a avaliação, focada no desenvolvimento de competências para a
Página168 Página 169
cognitivo da concepção piagetiana, que incluem: i) o período sensório-motor (percepção e Os programas especiais de formação pedagógica (correspondentes ao antigo Esquema I)
manipulação de objetos concretos; ii) etapa operatório-concreta (inaugurada pela função foram definidos pelo Parecer nº 4/97, do CNE. Estes programas têm as seguintes
simbólica (coleções figurais e não-figurais) e evolui até atingir as operações concretas (ações características: i) Têm caráter emergencial. Por isto, são tratados como programas e não
interiorizadas, reversibilidade, operações aplicáveis a conteúdos diferentes). A etapa seguinte cursos, ii) Destinam-se a portadores de diploma de nível superior; iii) Devem ser oferecidos no
seria a do pensamento operatório-formal que envolve a capacidade de pensar as operações âmbito de cursos que tenham direta vinculação com a habilitação pretendida; iv) Cabe à
desprendidas dos objetos e de colocar, em seu lugar, proposições. Esta é a etapa do pensamento instituição verificar a compatibilidade entre a formação do candidato e a disciplina objeto da
formal, da estruturação de conceitos, estágio que corresponde à fase do aluno adolescente, pretendida habilitação; v) A organização curricular deve-se articular em três eixos
portanto, ao ensino médio. estruturantes: a) NÚCLEO CONTEXTUAL: relação escola (concepção interna) com o seu
entorno (comunidade e teias de significação), visando a uma ampla compreensão do processo
Institutos Superiores de Educação, instituições de caráter profissional, objetivam a em que se assenta a prática pedagógica; b) NÚCLEO ESTRUTURAL: articulação dos
formação inicial, continuada e complementar para o magistério da educação básica. Os cursos conteúdos, adequação dos métodos e pertinência dos processos de avaliação; c) NÚCLEO
oferecidos podem ser: INTEGRADOR: Montagem de projetos multidisciplinares centrados na realidade questionante
a) Curso Normal Superior: destina-se à formação de professores da educação infantil e da prática de ensino; vi) o programa deve ter duração mínima de 540 horas, com a parte prática
das séries iniciais do ensino fundamental; compreendendo, pelo menos, 300 horas; vii) A parte prática deve ser desenvolvida em escolas
que ministrem educação básica; viii) e, por fim, os concluintes dos programas especiais de
b) Cursos de Licenciatura: destinam-se à formação de professores das séries iniciais do formação pedagógica receberão certificado e registro profissional equivalentes à licenciatura
ensino fundamental e do ensino médio; plena.
c) Programas deformação continuada: destinam-se à atualização profissional de docentes Por fim, os institutos superiores de educação deverão exercer um papel relevante na oferta
da educação básica;
de programas de educação continuada para profissionais de diferentes níveis. Espera-se que
d) Programas de formação pedagógica: destinam-se a profissionais que, embora não esta abertura motive as Faculdades de Educação a desenvolver mecanismos mais ágeis de
estejam matriculados em cursos de licenciatura, desejam ensinar nas séries iniciais do introdução da educação continuada em seus programas regulares.
Ensino Fundamental, no Ensino Médio ou na Educação Profissional de nível técnico,
em áreas de conhecimento ou disciplinas de sua especialidade; A Coordenação Geral de Educação Infantil da Secretaria de Educação Fundamental do
MEC vem desenvolvendo um grande esforço junto a especialistas de renome, profissionais dos
c) Programas especiais deformação pedagógica: destinam-se a portadores de diploma de sistemas de ensino, agências de formação e representantes dos Conselhos de Educação, no
nível superior que queiram ensinar nas séries finais do Ensino Fundamental, no Ensino
sentido de uma definição clara da formação profissional para a educação infantil. Esta
Médio ou na Educação Profissional de nível técnico. Neste caso, os programas devem-se
voltar para determinadas disciplinas ou áreas de conhecimento; formação deve ter dois focos de clientes principais: docentes que se encontram em atividade,
mas sem a devida qualificação; no País, são em torno de 19% , sendo que, em algumas regiões,
f) Formação pós-graduada: destina-se a portadores de diploma de graduação que desejem este percentual se eleva para um terço; e, ainda, docentes que vão trabalhar na rede pré-escolar.
atuar na Educação Básica. Neste caso, a formação aludida tem caráter profissional. Recentemente, foi assinado Protocolo, envolvendo os Ministérios da Educação, do Trabalho e
Foi desconsiderado pela LDB um dos esquemas emergenciais de formação pedagógica, da Previdência, para a implementação de uma ação convergente destas instâncias voltadas para
representado pelos conhecidos cursos do Esquema II (Conteúdos de disciplinas específicas da acelerar alternativas de solução para a questão do professor da pré-escola. Neste sentido,
área técnica). Em compensação, a lei abre uma importante perspectiva para a formação docente igualmente, vêm-se realizando encontros com os Conselhos de Educação que, como órgãos
de profissionais de áreas diversas, que desejem se tornai professores da educação básica. Esta normativos dos sistemas de ensino, têm a responsabilidade de produzir normas legais pertinen-
alternativa deverá enriquecer, grandemente, o novo perfil do professor. Por esta via, os cursos tes. Em 1996, realizaram-se, no Brasil, o 2º Simpósio Nacional e o 4° Simpósio
de Esquema I, criados para atender a uma situação de emergência, têm sua existência
perenizada.
Página 170 Página 171
Latino-Americano de Educação Infantil, com uma agenda fortemente marcada pelas Este Artigo mantém a formação dos especialistas em educação por via dos cursos de
preocupações da formação do professor para as crianças de zero a seis anos. graduação em pedagogia ou, como fazem várias universidades hoje, através de programas de
Documento do Ministério da Educação, contendo a Política Nacional de Educação Infantil, pós-graduação. O Conselho Nacional de Educação deverá estabelecer diretrizes sobre esta
reconhece que a expansão da rede, "sem os investimentos técnicos e financeiros necessários matéria, sob pena de se cair em um processo de baixa qualidade destes programas, com
por parte do Estado e da sociedade, acarretou, em termos globais, uma significativa evidentes prejuízos para a formação dos profissionais de educação.
deteriorização na qualidade do atendimento, especialmente na creche. (...) Particularmente A formação do Administrador Escolar confere-lhe possibilidade legal do exercício da
grave é a desvalorização e a falta de formação específica dos profissionais que atuam na área, profissão na gestão de sistemas de ensino e de escolas públicas e privadas. Além disto, pode
especialmente na creche. As agências formadoras devem observar as questões-desafio da este profissional oferecer assessoria pedagógica em empresas. No momento, a direção de
Educação Infantil nas Redes Públicas Municipais, como forma de prepararem mais adequa- escolas vem sendo exercida por pessoas sem a devida titulação (formação específica) em
damente os professores e equipes técnicas. Estas questões são: função, muitas vezes, da ambigüidade dos critérios adotados pelos sistemas de ensino.
1. Estudos tematizados de diferentes aspectos de operacionalidade da educação infantil, A formação do Supervisor comete-lhe a competência legal de atuar como um elemento de
que envolvam enfoques múltiplos; articulação do dinamismo do projeto técnico-pedagógico da escola. Sua função precípua é
2. Definição de uma gama de insumos estruturantes desta escola, a começar da irradiar energia estimuladora para a manutenção de um clima participativo. Atribuição tão
funcionalidade de suas instalações físicas; estratégica na escola contribuiu para que o profissional da área de Supervisão Escolar tenha
3. Definição de um projeto sócio-pedagógico-comunitário adequado, incluindo a recebido, ao longo do tempo, diferentes denominações, tais como: Orientador Pedagógico,
participação das famílias; Coordenador Pedagógico, Supervisor Pedagógico, Supervisor Educacional, Supervisor de
Ensino e Supervisor de Educação. O grande horizonte de trabalho do Supervisor é a qualidade
4. Capacitação inicial e continuada dos professores; da produção do ensino.
5. Articulação das áreas de Educação/Saúde, visando a assegurar o desenvolvimento bio- A formação do Orientador Educacional possibilita-lhe o conhecimento e a sistematização
psíquico e cognitivo adequado das crianças; dos fatores que influenciam a formação do aluno. Em decorrência, o Orientador assiste o aluno,
6. Desenvolvimento de mecanismos de avaliação da rede de creches e pré-escolas e dos aconselha-o, na solução dos problemas pessoais, estimula-o a superar dificuldades, a fim de
processos de ensino-aprendizagem capazes de assegurar um alto padrão de qualidade no avançar, progressivamente, no seu desenvolvimento intelectual e na plasmação da
seu funcionamento. personalidade. Ainda, subsidia o aluno na direção das opções que poderá fazer em termos de
Neste particular, pode-se dizer que a formação docente para creches e pré-escolas não tem projeto de vida, escolha de cursos tendo em vista o seu futuro profissional.
merecido a esperada atenção por parte dos Poderes Púbicos e das próprias comunidades. O Estas três são as áreas de maior incidência de profissionais da Educação na escola
resultado é que, com limitadas exceções, a pré-escola no Brasil vive entregue ao seu próprio brasileira, embora não se possa ignorar o fundamental papel do psicólogo escolar e do
destino, com raros mecanismos de acompanhamento da qualidade dos serviços educacionais assistente social escolar, não considerados pela LDB como componentes do circuito de
oferecidos. Um número significativo dos que trabalham na Educação Infantil sequer completou formação específica da área educativa.
a escolaridade fundamental.

Art. 64 A formação de profissionais de educação para administração, planejamento, inspeção, Art. 65 A formação docente, exceto para a educação superior, incluirá prática de ensino de, no
supervisão e orientação educacional para a educação básica, será feita em cursos de graduação mínimo, trezentas horas.
em pedagogia ou em nível de pós-graduação, a critério da instituição de ensino, garantida,
nesta formação, a base comum nacional.
Página 173 Página 173
A formação do professor supõe uma junção criativa de teoria e prática. Como já se disse As funções da educação superior já foram abordadas nos comentários ao Art. 43. Para o
"os formadores são formados". Enquanto indivíduo, o professor é um ser particular. Enquanto desempenho destas funções, exigem-se quadros docentes altamente qualificados, pois que, no
pessoa é um ser de relação da vida cotidiana. Neste acontecer histórico, o docente tece as ensino universitário, lida-se com ciência e consciência social. Aqui, o processo de
alternativas da cotidianidade e vai acumulando uma vivência que o marca, profundamente, aprendizagem é essencialmente de recriação do conhecimento complexo. Ora, tal somente se
como sujeito social. E precisamente a trajetória do ser relacional que recomenda uma formação alcançará com adequadas concepções teóricas, com adequada instrumentação metodológica e
contextualizada pela prática de ensino, como espaço de ressonância das tematizações e das técnica, com o apoio de estudos e de pesquisas e com recursos pertinentes de avaliação. Tudo
argumentações (HABERMAS, 1991, p. 43). isto poderá ser alcançado em programas de pós-graduação, através de um processo cumulativo
de adensamento de aprendizagem e de construção de conhecimento avançado.
A carga horária de trezentas horas mínimas pretende significar uma dimensão qualitativa
da formação docente, tanto no aspecto formal (habilidade de manejar meios), quanto no A questão do notório saber, citado no parágrafo único, refere-se à situação de alguém que,
aspecto político (estruturação de fins, valores e conteúdos), para usar as duas categorias de embora não tendo uma formação específica sistematizada, um alto conhecimento formalmente
adquirido, possui um nível excepcional de conhecimento em área específica. Neste caso, há
DEMO (1996, p. 14).
necessidade da chancela de uma universidade, a quem caberá oferecer a certificação das altas
A exceção referida à formação docente para o ensino superior se deve ao fato de que, competências.
embora possuam titulação avançada (Mestrado, Doutorado e, muitas vezes, Pós-doutorado), os
professores universitários não são submetidos à exigência de um processo sistemático de Art. 67 Os Sistemas de Ensino promoverão a valorização dos profissionais da educação,
formação pedagógica. Nos últimos anos, tem crescido bastante a oferta de cursos de assegurando-lhes, inclusive nos termos dos estatutos e dos planos de carreira do magistério
Metodologia do Ensino Superior, porém longe estão de representar uma formação pedagógica público:
ampla e sistematizada. Este assunto está disciplinado na Resolução CFE nº 20/77, que
estabelece, sumariamente, as seguintes condições para o exercício docente no ensino superior: I. Ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos;
i) posse do diploma de graduação expedido por cursos superiores em que se ministre a matéria II. Aperfeiçoamento profissional continuado, inclusive com licenciamento periódico
ou disciplina idêntica ou afim; ii) título de Mestre, Doutor ou Livre-Docente expedido por remunerado para esse fim;
instituição idônea; iii) ministração de disciplina(s) predominantemente da área de concentração III. Piso salarial profissional;
da pós-graduação; iv) aproveitamento, baseado em frequência e provas, em cursos de
especialização ou aperfeiçoamento em forma definida pela CFE (hoje CNE); v) exercício de IV. Progressão funcional baseada na titulação ou habilitação, e na avaliação do
atividade técnico-profissional ou de atividade docente do nível superior de, pelo menos, dois desempenho;
anos; vi) trabalhos publicados. V. período reservado a estudos, planejamento e avaliação, incluído na carga de trabalho;
Em síntese, seja para a formação docente da educação básica, seja para a formação docente VI. Condições adequadas de trabalho.
de nível superior, a articulação teoria/prática é requisito fundamental.
Parágrafo único. A experiência docente é pré-requisito para o exercício profissional de
quaisquer outras funções de magistério, nos termos das normas de cada sistema de ensino.
Art. 66 A preparação para o exercício do magistério superior far-se-á em nível de pós-
graduação, prioritariamente em programas de mestrado e doutorado.
A Constituição Federal determina a obrigatoriedade de admissão de professores somente
Parágrafo único. O notório saber, reconhecido por universidade com curso de doutorado por concurso público (além da existência de plano de carreira c de piso salarial) (Art. 206, Inc.
em área afim, poderá suprir a exigência de título acadêmico. V). O texto legal em análise ratifica o mandamento constitucional e determina, ainda, o
aperfeiçoamento contínuo dos professores, a exemplo do exigido na legislação anterior (Lei
5.692/71, Art. 38), a disponibilidade
Página174 Página 175
de tempo para o planejamento do ensino e a existência de condições adequadas de trabalho.
II. Receita de transferências constitucionais e outras transferências;
A ideia de condições adequadas de trabalho vincula-se ao que a Constituição Federal define
como um dos princípios do ensino: garantia de padrão de qualidade (Art. 206, Inc. VII). Tais III. Receita do salário-educação e de outras contribuições sociais;
condições encontram um obstáculo quase intransponível: a omissão dos órgãos normativos dos IV. Receita de incentivos fiscais;
sistemas (Conselhos Nacional, Estaduais e Municipais) que se têm ausentado, inteiramente, da
V. outros recursos previstos em lei.
função supervisora a que estão obrigados. Sem dúvida, boa parte das escolas brasileiras, sejam
privadas, sejam públicas, não oferecem condições adequadas de trabalho. Não há insumos
básicos para que o ensino se desenvolva dentro de uma ambientação criativa, em que o aluno A constituição Federal (Art. 212, revisto pela emenda constitucional nº 14/96 determina as
não seja domesticado para dar respostas, mas seja estimulado a reagir, criativamente, a fontes, os tipos e os porcentuais de recurso indispensável para os serviços educacionais de
desafios. Claro, esta escola instigadora requer professores valorizados, mas requer, igualmente, responsabilidade do estado nos termos do artigo 208.
salas de aula valorizadas. O Título VII da LDB, desdobrado em dez Artigos, aborda um dos pontos em que a
Na verdade, as nossas Secretarias de Educação se transformaram em Secretarias de educação básica brasileira mais evoluiu nos últimos três anos: a dos recursos financeiros.
Escolas. Confundem, por isso, expansão da rede de escolas com expansão da rede de educação. Mudou a Constituição, mudou a legislação decorrente e vão mudar os critérios de despesas
Os Conselhos, por sua vez, quase nunca ultrapassam a dimensão cartorial da análise de com educação nos Estados e nos Municípios, através das inovações do Fundo de Manutenção
processos. Não realizam estudos rastreadores das condições de funcionamento das Escolas e, e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Emenda
por isso, têm dificuldade de decidir sobre as condições adequadas de trabalho. Os Conselhos Constitucional nº 14/96).
Estaduais, com algumas exceções, se tornaram reféns das próprias Secretarias de Educação. Os Artigos 34, 208, 211 e 212 da Constituição Federal e Artigo 60 do Ato das Disposições
Por fim, o parágrafo único volta a realçar a importância da prática para o exercício de Constitucionais Transitórias passam a ser operacionalizados, cada um de acordo com a
quaisquer outras funções de magistério. Corrigindo o vazio da Lei 5.692/71, a nova LDB especificidade do seu conteúdo, pelo conjunto de Artigos da LDB que vão do 68 ao 77.
pretende robustecer a formação dos profissionais da educação que não ministram aula, mas A categorização das fontes de recursos para a educação é tema que requer uma maior
apoiam o ensino (ver comentários ao Art. 64). A obrigatoriedade de experiência docente como atenção por parte dos educadores. Há quatro tipos de fonte: a constitucional ampla (receita de
pré-requisito para a melhoria do padrão da construção da autonomia de "cada um" e de "todos" impostos), a constitucional restrita (recursos vinculados, do tipo salário-educação, cotas
(HABERMAS, 1990; CASTORIADIS, 1985). Para tanto, a prática docente semelha condição federal e estadual), a constitucional compensatória (incentivos fiscais) e as fontes alternativas
imprescindível na adequada formação dos chamados especialistas em educação. (recursos diversos previstos em lei).
TITULO VII Vejamos, então, o mapa conceitual de cada uma destas fontes.
DOS RECURSOS FINANCEIROS A constitucional ampla que foca a receita de impostos é aquela decorrente dos tributos
arrecadados por cada uma das esferas da administração pública. A Constituição Federal define,
no Artigo 18, quais são as esferas da organização político-administrativa do País: a União, os
Art. 68 Serão recursos públicos destinados à educação os originários de: Estados, o Distrito Federal e os Municípios.
I. Receita de impostos próprios da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos As transferências constitucionais e outras transferências são de múltipla base, como se
Municípios; pode aferir: i) 20% do que for arrecadado pela União através da instituição de um novo
imposto, desde que concebido à luz do Art. 154 da Constituição Federal; ii) transferência, aos
Estados e ao Distrito Federal, de 10% do que for arrecadado através da cobrança de impostos
de produtos industrializados pela União, nos termos dos Arts. 157, 158 e 159 da Constituição
Federal.
A constitucional restrita, assim denominada em razão da aplicação vinculada do salário-
educação. Trata-se, na verdade, de uma contribuição social, criada em 1964, com o objetivo de
"suplementar as despesas públicas com a educação
Página 176 Página 177
elementar". O foco inicial do salário-educação foi o combate ao analfabetismo. A bem da Fiscalizar recursos públicos, da arrecadação à aplicação, é dever de cidadania.
verdade, desde a Constituição de 1946, as empresas passaram a ter a obrigatoriedade de Infelizmente, esta prática é quase nula na sociedade brasileira.
oferecer ensino primário gratuito para todos os empregados analfabetos e para seus filhos em A constitucional compensatória é constituída dos incentivos fiscais que, de fato, nada mais
faixa etária de escolaridade compulsória. Poucas empresas, no entanto, cumpriam o dispositivo são do que mecanismos de amortização de impostos (imposto de renda) ou de isenções
constitucional. Para tal desobediência, concorria a própria omissão do Poder Público que não fiscais, previstas em lei. O processo é simples: pessoas físicas ou pessoas jurídicas que
fiscalizava as empresas. Em 1962, pressionado pelos países latino-americanos presentes à con- financiarem programas escolares ou bolsas de estudo, com recursos próprios, poderão ter
ferência de Punta-del-Este, o Brasil assumiu o compromisso de enfrentar a questão do estas despesas abatidas do imposto de renda a pagar.
analfabetismo. Surgiu, então, a Lei 4.440, de 27/10/64, instituindo o salário-educação. No ano
seguinte, foi editado o Decreto nº 55.551, de 12/01/65, regulamentando a Lei 4.420, e As fontes alternativas são aquelas oriundas de legislações emergentes, como é o caso dos
definindo que o salário-educação era instituído para "suplementar os recursos públicos impostos especiais que se criam para atender, em caráter provisório, certas situações que
destinados à manutenção e desenvolvimento do ensino primário comum". reclamam um aporte de recursos adicionais.
O salário-educação tem origem no desconto de 2.5% da folha de pagamento dos
empregados. Deste montante, 1% fica com o INSS, órgão encarregado de arrecadar os Art. 69 A União aplicará, anualmente, nunca menos de dezoito, e os Estados, o Distrito
recursos. A Constituição atual manteve o salário-educação como fonte de financiamento da Federal e os Municípios, vinte e cinco por cento, ou o que consta nas respectivas
educação (Art. 212, § 5º). Convém ressaltar que, com a criação do Fundo de Manutenção e Constituições ou Leis Orgânicas, da receita resultante de impostos, compreendidas as
Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, as empresas não transferências constitucionais, na manutenção e desenvolvimento do ensino público.
poderão mais descontar despesas realizadas com o ensino fundamental de seus empregados e
dependentes. § 1º A parcela da arrecadação de impostos transferida pela União aos Estados, ao Distrito
Federal e aos Municípios, ou pelos Estados aos respectivos Municípios, não será
Todo o recurso é transferido ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação considerada, para efeito do cálculo previsto neste Artigo, receita do governo que a
(FNDE), na proporção do arrecadado em cada Estado, Município e Distrito Federal, através de transferir;
transferência aos respectivos Fundos. As quotas serão, assim, distribuídas:
§ 2º Serão consideradas excluídas das receitas de impostos mencionadas neste Artigo as
1) QUOTA FEDERAL- 1/3 do total de recursos, repassados ao FNDE, é aplicado no operações de crédito por antecipação de receita orçamentária de impostos;
financiamento de programas e projeto para universalização do ensino fundamental.
§ 3° Para fixação inicial dos valores correspondentes aos mínimos estatuídos neste Artigo,
2) QUOTA ESTADUAL do Salário Educação de que trata o Art. 15, § 1°, inciso II, da Lei será considerada a receita estimada na lei do orçamento anual, ajustada, quando for o
n- 9.424/96 "será redistribuída entre o Estado e os respectivos municípios de conformidade caso, por lei que autorizar a abertura de créditos adicionais, com base no eventual excesso
com os critérios estabelecidos em lei estadual, que considerará, dentre outros referenciais, o de arrecadação;
número de alunos matriculados no ensino fundamental nas referidas redes de ensino" (Art. 2º
da Medida Provisória nº1.565-2, de 2 de março de 1997). § 4º As diferenças entre a receita e a despesa prevista e as efetivamente realizadas, que
resultem no não atendimento dos percentuais mínimos obrigatórios, serão apuradas e
Fica evidenciada a necessidade de uma permanente vigilância, por parte da sociedade, para corrigidas a cada trimestre do exercício financeiro;
o adequado repasse destes recursos e para sua conveniente aplicação. De fato, caberá às
Secretarias de Educação dos Estados e do Distrito Federal orientar parte destes recursos aos § 5° O repasse dos valores referidos neste Artigo do caixa da União, dos Estados, do
municípios, para viabilizar ações no âmbito do ensino fundamental. Haverá, em decorrência, Distrito Federal e dos Municípios ocorrerá imediatamente ao órgão responsável pela
necessidade de encaminhamento, para fins de aprovação, de legislação estadual específica, educação, observados os seguintes prazos:
fixando critérios e parâmetros para a redistribuição de recursos. I. Recursos arrecadados do primeiro ao décimo dia de cada mês, até o vigésimo dia;
II. Recursos arrecadados do décimo primeiro ao vigésimo dia de cada mês, até o
trigésimo dia;
Página 178 Página 179
III. Recursos arrecadados do vigésimo primeiro dia ao final de cada mês, até o décimo Para complementar o entendimento deste Artigo, cabe destacar quais os recursos de que se
dia do mês subsequente. fala e onde eles são colocados para a sua administração.
§ 6° O atraso da liberação sujeitará os recursos à correção monetária e à responsabilização Os recursos são colocados no fundo de manutenção e desenvolvimento do ensino
civil e criminal das autoridades competentes. fundamentem e valorização do magistério (emenda constitucional n° 14/96), alimentado a
partir das seguintes fontes:
a) Fundo de Participação do Estado — FPE e Fundo de Participação do Município —
Estão aqui estabelecidos os percentuais que as diferentes instâncias da administração FPM. Tais recursos passarão a constar do orçamento da União, dos Estados e do Distrito
pública (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) estão obrigados a aplicar em Federal. O Ministério da Fazenda fará o crédito nas respectivas instâncias, em contas
manutenção e desenvolvimento do ensino. Este conceito está explicitado no Artigo 70. Trata- próprias do FUNDO, nos percentuais c prazos previstos. A cada mês, a União divulgará
se de percentuais mínimos. Portanto, as Constituições dos Estados e as leis Orgânicas o total dos impostos arrecadados e adequadamente classificados para distribuição por via
Municipais poderão determinar um percentual maior. Em alguns Estados, isto já acontece, dos Fundos de Participação. Divulgará, também, os valores a serem liberados e, ainda, a
como é o caso da Constituição do Estado de São Paulo que, em seu Artigo 255, fixa um previsão destas três variáveis para os três meses seguintes ao da divulgação.
mínimo de 30% para gastos em educação e a Constituição do Estado do Rio Grande do Sul que
prevê um mínimo de 35% b) Recursos do Imposto de Circulação sobre Mercadorias - /CMS. Tais recursos passarão,
outrossim, a constar do orçamento anual dos governos estaduais e do Distrito Federal. O
Os parâmetros mínimos são estimados a partir da lei orçamentária anual. Como se sabe, o repasse será feito da seguinte forma: i) O FUNDO receberá a parcela devida aos
orçamento é o cálculo da receita e da despesa, organizado pelo Poder Executivo e, governos estaduais e ao governo do Distrito Federal; ii) O FUNDO dos Municípios
necessariamente, submetido ao Poder Legislativo. O orçamento é, de fato, uma lei. receberá a parcela devida aos Municípios pêlos Governos Estaduais.
Denominado de orçamento-programa porque, nesta lei, estão discriminados os investimentos
totais, seja de custeio (manutenção), seja de capital (infra-estrutura), seja dos programas e c) Recursos do Imposto Sobre Produtos Industrializados / IPI exportação. Tais recursos -
projetos, bem como das metas físicas anuais (o que se vai fazer, cm que tempo e com quanto). no tocante às parcelas devidas aos estados e municípios - serão transferidos pelos
governos federal e estaduais para a conta específica do FUNDO, evidentemente, dentro
Com o avanço dos níveis de participação da sociedade, vai tomando corpo a ideia do
orçamento participativo, no qual a comunidade decide, com o governante, as prioridades da dos critérios e formas de divulgação previstos.
ação governamental. Desta forma, assume maior controle sobre os gastos realizados. Por fim, a Lei prevê punição pelo não cumprimento destes prazos. A cultura da
Quando há excesso de arrecadação e, portanto, a estimativa feita é ultrapassada, calcula-se, cumplicidade silenciosa que existe entre os vários níveis de governo face ao não cumprimento
na base de três meses, os acréscimos para que a manutenção e desenvolvimento do ensino não de tantas leis e tantas normas referidas à educação (inclusive de dispositivos constitucionais!)
sofram prejuízos. recomenda uma rigorosa fiscalização por parte da sociedade, para que o FUNDO, de fato, não
confunda!!
Há critérios e prazos para a distribuição dos recursos arrecadados, constantes do § 5° deste
Artigo, e disciplinados pela Emenda Constitucional n- 14/96, que criou o Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do magistério. Art. 70 Considerar-se-ão como de manutenção e desenvolvimento do ensino as despesas
Os prazos são: realizadas com vistas à consecução dos objetivos básicos das instituições educacionais de todos
Recursos Arrecadados pela UNIÃO Repasse aos Estados e Municípios os níveis, compreendendo as que se destinam a:
• do dia 1º ao dia 10 • até o dia 20 I. Remuneração e aperfeiçoamento do pessoal docente e demais profissionais da educação;
• do dia 11 ao dia 20 • até o dia 30 II. Aquisição, manutenção, construção e conservação de instalações e equipamentos
• do dia 21 ao término do mês • até o dia 10 do mês seguinte necessários ao ensino;
Página 181
Página 180 ambiente da sala de aula. Tanto c assim que o inciso V, do Art. 71, diz que não constituirão
III. Uso e manutenção de bens e serviços vinculados ao ensino; despesas de manutenção e desenvolvimento do ensino... obras de "infra-estrutura, ainda que
IV. Levantamentos estatísticos, estudos e pesquisas visando precipuamente ao realizadas para beneficiar direta ou indiretamente a rede escolar". Em síntese, os /Artigos 70
e 71 devem ser lidos articuladamente, dado que não se trata de substância legal disjuntiva, mas
aprimoramento da qualidade e à expansão do ensino;
conjuntiva.
V. realização de atividades-meio necessárias ao funcionamento dos sistemas de ensino;
Por fim, cabe considerar que a LDB incluiu, como despesas de manutenção e
VI. Concessão de bolsas de estudo a alunos de escolas públicas e privadas; desenvolvimento do ensino, aquelas realizadas com a aquisição de material escolar e com a
VII. Amortização e custeio de operações de crédito destinadas a atender ao disposto nos manutenção de transporte escolar. Ficaram fora deste conceito as despesas feitas com
incisos deste Artigo; programas suplementares de alimentação e de assistência à saúde. O Poder Público, porém,
VIII. Aquisição de material didático-escolar e manutenção de programas de transporte não pode usar tal alegação para deixar de oferecer atendimento nestas áreas, uma vez que a
escolar. Constituição Federal, em seu Artigo 212, diz que tais programas "serão financiados com
recursos provenientes de contribuições sociais e outros recursos orçamentários".

Este Artigo traz à tona uma das questões mais intrincadas da educação básica brasileira:
definir o que é manutenção e desenvolvimento do ensino. A ausência de um conceito preciso Art. 71 Não constituirão despesas de manutenção e desenvolvimento do ensino aquelas
para tal contribuiu para o desperdício e a irresponsabilidade de recursos importantes ao longo realizadas com:
da história educacional de nosso País. Administradores públicos e, sobretudo, prefeitos - é no I. Pesquisa, quando não vinculada às instituições de ensino, ou, quando efetivadas fora dos
município que o ensino fundamental, de fato, acontece - usaram os recursos da educação para sistemas de ensino, que não vise, precipuamente, ao aprimoramento de sua qualidade ou
as ações mais estapafúrdias possíveis. Construção de pontes, de linhas de eletrificação rural, de à sua expansão;
muros para campos de futebol, de pagamentos de bandas e de conjuntos para festas, de
transporte para a primeira dama etc., tudo isto tem sido custeado em nome da manutenção e II. Subvenção a instituições públicas ou privadas de caráter assistência!, desportivo ou
desenvolvimento do ensino. À míngua de precisões legais, os Tribunais de Contas faziam, cultural;
também, vista grossa a tais despesas. Ou seja, uma cumplicidade satisfeita! III. Formação de quadros especiais para a administração pública, sejam militares ou civis,
A Emenda Calmon — que elevou os patamares percentuais para investimentos em inclusive diplomáticos;
educação e que foi incorporada à Constituição de 1988 - tentou resolver esta questão. Mas não IV. programas suplementares de alimentação, assistência médico-odontológica,
houve instrumentos legais que operacionalizassem o objetivo. A Lei 5.692/71 era de uma farmacêutica e psicológica, e outras formas de assistência social;
inocuidade a toda prova, quando definia, em seu Art. 42, que "05 recursos públicos destinados
V. obras de infra-estrutura, ainda que realizadas para beneficiar direta ou indiretamente a
à educação serão aplicados preferencialmente na manutenção c desenvolvimento do ensino
oficial" (...). Ou seja, deixava um campo aberto para a criatividade, muitas vezes, criminosa de rede escolar;
administradores inescrupulosos. VI. pessoal docente e demais trabalhadores da educação, quando em desvio de função ou
A partir de agora, espera-se que este problema esteja, definitivamente, resolvido. O em atividade alheia a manutenção e desenvolvimento do ensino.
legislador foi radical: definiu o que é e o que não é manutenção e desenvolvimento do ensino
(Arts. 70 e 71), buscando evitar, assim, interpretações desviadas. Mesmo no caso do inciso V, Para dirimir quaisquer dúvidas a respeito do conceito de manutenção e desenvolvimento do
que alguns consideram permissivo, aberto a interpretações subjetivas, vale lembrar que sua
ensino, o legislador resolveu esclarecer o que não pode ser considerado como áreas de
leitura deve ser feita vinculada ao caput do Artigo 70. Portanto, quando se fala em realização
investimento em educação, através dos recursos constitucionais definidos para o ensino
de atividades-meio necessárias ao funcionamento dos sistemas de ensino, quer-se referir a
fundamental. Fica evidenciado, de forma indubitável, que os recursos financeiros previstos na
atividades no âmbito da escola, voltadas, por conseguinte, para o ato pedagógico concreto que
se realiza no Constituição Federal e objetivo de disciplinamento
Página 182 Página 183
pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Art. 73 Os órgãos fiscalizadores examinarão, prioritariamente, na prestação de contas de
Magistério são de destinação exclusiva dos insumos para o ensino enquanto processo recursos públicos, o cumprimento do disposto no Art. 212 da Constituição Federal, no Art. 60
localizado no espaço escolar. Neste sentido, podem ser entendidos, também, o material do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e na legislação concernente.
didático e o transporte escolar. O primeiro, embora integrado exteriormente ao ato pedagógico
formal, é condutor essencial de aprendizagem; o segundo é essencial para que o aluno a ela
chegue e nela permaneça. Quando a Lei fala em órgãos fiscalizadores, está-se referindo, precipuamente, mas não
exclusivamente, aos Tribunais de Contas. A eles caberá o exame da prestação de contas na
O inciso VI, por outro lado, desestimula a fuga do professor e dos especialistas em ótica prioritária da observância dos seguintes aspectos, nos termos do Art. 212 da Constituição
educação (Administradores, Planejadores, Orientadores, Supervisores etc.) da sala de aula, ao Federal e do Art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: i) Aplicação anual
considerá-los fora do alcance das despesas com manutenção e desenvolvimento do ensino, de, no mínimo, 18% da receita resultante de impostos, em manutenção e desenvolvimento do
sempre que dedicados a outras tarefas. Com esta medida, os Poderes Públicos ficam, também, ensino; ii) Aplicação anual de, no mínimo, 25% da receita resultante de impostos em
desestimulados a contratar, irresponsavelmente, pessoas sem qualquer identificação com o manutenção e desenvolvimento do ensino; iii) Atendimento prioritário às necessidades do ensi-
múnus docente, apenas para atender a interesses políticos subalternos. no obrigatório; iv) Aplicação de, pelo menos, 60% dos recursos para manutenção e
desenvolvimento do ensino, para a eliminação e desenvolvimento do ensino, para a eliminação
do analfabetismo e universalização do ensino fundamental e remuneração condigna do
Art. 72 As receitas e despesas com manutenção e desenvolvimento do ensino serão apuradas e magistério. Convém esclarecer que, ao lado dos Tribunais de Contas, as Delegacias do MEC,
publicadas nos balanços do poder Público, assim como nos relatórios a que se refere o § 3º do extintas recentemente, estavam obrigadas a exercer, também, esta ação fiscalizadora, cada vez
Art. 165 da Constituição Federal. que iam emitir parecer sobre o Plano de Trabalho, apresentada para a habilitação a novos
recursos. O desaparecimento das DEMEC deverá dificultar, ainda mais, os procedimentos de
acompanhamento e fiscalização dos recursos federais encaminhados aos Estados para a
As questões de fiscalização da correta aplicação de recursos públicos no Brasil são pouco
aplicação na área do Ensino Fundamental. Por fim, o FUNDO deverá receber um rigoroso
consideradas pela sociedade. Na verdade, sabemos lutar pela criação de leis, mas não sabemos
acompanhamento dos Conselhos de Acompanhamento e Controle Social, a serem criados em
lutar, adequadamente, para sua aplicação. Fiscalizamos pouco e pouco exigimos dos órgãos de
nível dos Governos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Além disto,
fiscalização. No caso específico dos recursos da educação, nem participamos,
os órgãos de controle interno dos Governos têm idêntica responsabilidade.
convenientemente, das discussões orçamentárias nem exigimos, das instâncias fiscalizadoras
(Assembléias Legislativas, Câmaras Municipais e Tribunais de Contas), uma postura de rigor Os Conselhos de Acompanhamento e Controle Social terão como atribuições: i)
na aplicação correta dos recursos. Na verdade, a sociedade pouco sabe do que se passa no acompanhar e controlar a repartição, transferência e aplicação dos recursos; ii) examinar os
Tribunal de Contas da União e nos Tribunais de Contas dos Estados e dos Municípios. registros contábeis e demonstrativos gerenciais mensais referentes a recursos repassados ou
recebidos; iii) supervisionar o censo escolar. Os Conselhos serão criados no prazo de 180 dias a
O Artigo 72 busca avançar na área obscura do acompanhamento e da fiscalização das
partir da data de promulgação da Lei que criou o FUNDO. Deverão, por outro lado, ter
despesas com educação. Os Artigos 68, 69,70 e 71, do Título VII desta Lei, que tratam dos
Recursos Financeiros, oferecem o inteiro balizamento para esta ação fiscalizadora. O Poder representação de instituições públicas e da comunidade escolar.
Público exibirá balanços contendo receita e despesas com manutenção e desenvolvimento do Em nível federal, participarão, no mínimo, seis membros com a seguinte representação: i)
ensino, cabendo aos respectivos órgãos fiscalizadores apurar se a União está investindo 18% e Poder Executivo; ii) Conselho Nacional de Educação; iii) Conselho Nacional dos Secretários
Estados, Distrito Federal e Municípios 25%, ao ano, na manutenção e desenvolvimento do de Educação/CONSED; iv) Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação/CNTE; v)
ensino (Art. 212 da Constituição Federal). Alem disto, o texto constitucional é taxativo quanto Tribunal de Contas da União; e, por fim, vi) Pais de alunos e professores das escolas públicas
ao imperativo da publicação destes balanços, ao determinar que "o Poder Executivo publicará, de ensino fundamental.
até trinta dias após o encerramento de cada bimestre, o relatório resumido da execução
orçamentária" (Art. 165, § 3° da Constituição Federal).
Página 184 Página 185
Em nível de cada Estado e do Distrito Federal, participarão, no mínimo, oito membros, com considerando variações regionais no custo dos insumos e as diversas modalidades de
a seguinte representação: i) Poder Executivo Estadual; ii) Poderes Executivos Municipais; iii) ensino.
Conselho Estadual de Educação; iv) Seccional da União dos Dirigentes Municipais da
Educação/UNDIME; v) Seccional da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação;
vi) Delegacia Regional do MEC; vii) Tribunal de Contas do Estado; e, por fim, viii) Pais de A questão do ensino de qualidade é tema recorrente em vários dispositivos constitucionais,
alunos e professores das escolas públicas do ensino fundamental. como se pode ver: Arts. 206, Inc. VII, Art. 209, Inc. II, Art. 214, Inc. III. Por seu turno, a LDB
Em nível municipal, participarão, no mínimo, quatro membros, com a seguinte é, igualmente, insistente neste aspecto, como se pode ver a partir da incidência do tema: Art.
representação: i) Secretaria Municipal de Educação; ii) Conselho Municipal de Educação (se 3°, Inc. DC, Art. 4°, Inc. IX, Art. 7°, Inc. II e Art. 75. Além disto, a LDB fala, em diferentes
houver); iii) Tribunal de Contas do Município (se houver) e, por fim; iv) Pais de alunos das Artigos, na obrigatoriedade de avaliar o ensino (Art. 9°, Inc. VI e VIII, Art. 10, Inc. IV etc.).
escolas públicas de ensino fundamental.
A questão da qualidade tem, evidentemente, um custo. O legislador busca definir um
Os membros destes Conselhos não receberão qualquer remuneração como participantes
balizamento para a fixação do custo mínimo por aluno num processo de ensino de qualidade.
destes colegiados. O fato é que o controle da sociedade sobre os recursos públicos é tarefa
coletiva e de altíssima importância. Por sua vez, a Lei atribui à União, em colaboração com Estados, Distrito Federal e os
Municípios, as condições básicas para a oferta de vagas no ensino fundamental. Todos estes
O Art. 73 refere-se, ainda, à legislação concernente. No caso, há que se acrescentar, aspectos estão interligados. Dando desdobramento ao conjunto deles, o FUNDO criou as
também, o conjunto de exigências constantes da Emenda Constitucional n° 14/96, que cria o seguintes condicionalidades para a distribuição dos recursos financeiros no horizonte do
FUNDO DE MANUTENÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO ENSINO FUNDAMENTAL E
VALORIZAÇÃO DO MAGISTÉRIO (ver Anexo). Para assegurar o cumprimento fiel de uso chamado ensino de qualidade, de que falam a Constituição Federal e este Artigo ora analisado:
dos recursos do FUNDEF, o MEC firmou convénio com as Procuradorias-Gerais de Justiça dos a) Nos termos da Lei 9.424/96, rigoroso acompanhamento e controle social sobre a
estados com o objetivo de estreitar relações com o Ministério Público, de modo a facilitar a repartição, a transparência e a aplicação dos recursos do Fundo exercido pela União,
efetiva atuação das Promotorias de Justiça para observar e fazer cumprir os critérios legais pelos estados, Distrito Federal e municípios. Este controle deve ser exercido por
estabelecidos para o uso dos recursos do FUNDEF. Os principais problemas detectados pelo conselhos obrigatoriamente instituídos.
MEC no âmbito do FUNDEF têm sido: i) atraso no pagamento de salários aos profissionais da
educação; ii) não aplicação do mínimo de 60% dos recursos do FUNDEF na remuneração do b) O valor anual, por aluno, será fixado por ato do Presidente da República. O critério de
magistério; iii) não criação do Conselho de Acompanhamento e Controle Social do FUNDEF; embasamento será de dupla natureza: a previsão da receita total para o FUNDO e, ainda,
iv) não funcionamento adequado deste conselho; v) não criação/implantação de plano de a matrícula do ano anterior, totalizada pelo MEC, através do mecanismo do Censo
carreira e remuneração do magistério; vi) aplicação indevida dos recursos do FUNDEF em Educacional, que deverá ser, a cada ano, publicado no Diário Oficial;
outros níveis de ensino; vii) aplicação dos recursos do FUNDEF em ações não caracterizadas c) Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão recorrer ao MEC, caso se
como de manutenção e desenvolvimento do ensino; viu) aquisição e manutenção de transporte sintam prejudicados, quanto à matrícula apurada. Para tanto, têm o prazo de trinta dias, a
escolar inadequado; ix) elevação do número de alunos no Censo Escolar. Qualquer destes casos partir da publicação;
conta com respaldo legal para Abertura de Procedimento Administrativo.
d) A União fará a complementação de recursos para o FUNDO, sempre que o repasse dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios para o FUNDO for inferior ao
Art. 74 A União, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, estabelecido por aluno. Esta possibilidade é fundamental, pois o valor anual por aluno é
estabelecerá padrão mínimo de oportunidades educacionais para o ensino fundamental, feito dentro de um parâmetro nacional. Fia necessidade, por isto, de, considerando as
baseado no cálculo do custo mínimo por aluno, capaz de assegurar ensino de qualidade. variações regionais do custo dos insumos, sobretudo do salário docente, fazer-se esta
Parágrafo Único. O custo mínimo de que trata este Artigo será calculado pela União ao complementação.
final de cada ano, com validade para o ano subsequente,
O FUNDEF entrou em vigor em 1998. Movimentou R$ 13,3 bilhões cuja distribuição foi a
seguinte: 1) R$ 8,6 bilhões das UF; 2) R$ 4,2 bilhões dos
Página 186 Página 187
municípios; e, 3) R$ 524 milhões de complementação do Governo Federal. A redistribuição de A ação supletiva é de cunho quantitativo. Refere-se à dimensão de insuficiência de recursos.
recursos pelo FUNDEF beneficiou 2.159 municípios e significou um ganho real de receita de Ação redistributiva é de cunho qualitativo. Refere-se à dimensão das dissimetrias sociais. O
22,7% para as redes municipais de ensino. Estado, em qualquer dos seus níveis (União, Estados, (Distrito Federal e Municípios), tem
As regiões norte c nordeste foram beneficiadas com mais de dois terços do ganho líquido despesas e tem receita. Este dispositivo estabelece uma relação baseada no volume de recursos
de recursos destinados à complementação da rede municipal de ensino. Também houve um existentes para a manutenção e desenvolvimento do ensino e, também, no esforço fiscal que
importante incremento financeiro nos municípios das regiões metropolitanas. cada instância faz para o adequado investimento com os recursos constitucionais de uso
obrigatório . em educação básica. Os parâmetros para a calibragem destes dois vetores são a
Os municípios mais beneficiados pelo FUNDEF — que chegaram a 2.159—atendem a 8,2
matrícula e o padrão mínimo de qualidade do ensino.
milhões de alunos, o correspondente a 66,4% do universo de matrículas, das redes de escolas
municipais. A atitude de vigilância e o correto acompanhamento da aplicação destes recursos A União somente fará a transferência de recursos se os critérios de matrícula e de qualidade
em cada município é de responsabilidade dos Conselhos de Acompanhamento e Controle estiverem sendo observados e, portanto, se houver necessidade de, para consolidar a
Social do FUNDEF, mas também da comunidade. Os prefeitos municipais têm obrigação de capacidade de atendimento, um aporte adicional de recursos. E inquestionável o esforço que o
apresentar a prestação de contas dos recursos do FUNDEF aos professores, aos pais dos alunos MEC vem empreendendo, nestes últimos anos, para respeitar estes critérios, agora
e à comunidade em geral. Quando um prefeito se nega a fazer isto, já assume atitude suspeita. transformados em lei. Além disto, para evitar desvios e desperdícios, o Governo Federal tem
A região nordeste tem Conselhos instalados em 86,4% dos municípios, a região centro-oeste, implementado o mecanismo de repasse direto de recursos às escolas. Há algumas dificuldades
em 80,7%, a região sul, em 79,8%, a sudeste em 74,3% e a norte, em 61,3%. na área de prestação de contas, porque além de não possuírem uma cultura de administração
financeira descentralizada, ainda não estão adequadamente organizadas, sobretudo no que diz
Art. 75 A ação supletiva e redistributiva da União e dos Estados será exercida de modo a respeito à existência de sólidas Associações de Pais e Mestres c de Caixa Escolar. Mas a
corrigir progressivamente as disparidades de acesso e garantir o padrão mínimo de qualidade experiência é estimuladora. E a Emenda Constitucional n° 14 albergou esta filosofia de gestão
de ensino. ao cunhar a expressão ação redistributiva da União, experiência que vem sendo praticada
§ 1º A ação a que se refere este Artigo obedecerá a fórmula de domínio público que inclua desde 1995 pelo MEC.
a capacidade de atendimento e a medida do esforço fiscal do respectivo Estado, do Distrito Cabe, ainda, destacar que a União passa a exercer sua função indutora sobre os sistemas
Federal ou do Município em favor da manutenção e do desenvolvimento do ensino. estaduais e municipais, de forma mais robusta. O objetivo é, sem dúvida, corrigir distorções
§ 2º A capacidade de atendimento de cada governo será definida pela razão entre os crônicas nos sistemas de ensino.
recursos de uso constitucionalmente obrigatório na manutenção e desenvolvimento do
ensino e o custo anual do aluno, relativo ao padrão mínimo de qualidade.
Art. 76 A ação supletiva e redistributiva prevista no Artigo anterior ficará condicionada ao
§ 3º Com base nos critérios estabelecidos nos §§ 1° e 2°, a União poderá fazer a efetivo cumprimento pêlos Estados, Distrito Federal e Municípios do disposto nesta Lei, sem
transferência direta de recursos a cada estabelecimento de ensino, considerando o número prejuízo de outras prescrições legais.
de alunos que efetivamente frequentam a escola.
§ 4º A ação supletiva e redistributiva não poderá ser exercida em favor do Distrito Federal,
dos Estados e dos Municípios se estes oferecerem vagas, na área de ensino de sua Este Artigo ratifica a tendência de uma ação indutora por parte da União, sobre Estados e
responsabilidade, conforme o inciso VI do Art. 11 desta Lei, em número inferior à sua Municípios. Busca-se um reordenamento de critérios para uso dos recursos da educação. Neste
capacidade de atendimento. sentido, a ação supletiva e redistributiva da União acenará, cada vez, como uma senha de ações
concertadas para a multiplicação de resultados, dentro de uma política de "garantia de padrão
mínimo de qualidade do ensino."
Página 188 Página 189
Art. 77 Os recursos públicos serão destinados às escolas públicas, podendo ser dirigidos a VI. promover o atendimento e o assessoramento aos beneficiários da Lei Orgânica da
escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas que: Assistência Social e a defesa e garantia dos seus direitos.
I. Comprovem finalidade não-lucrativa e não distribuam resultados, dividendos, O Certificado de Entidade de Fins Filantrópicos somente poderá ser concedido ou
bonificações, participações ou parcela de seu patrimônio sob nenhuma forma ou renovado para entidade beneficente de assistência social que demonstre, nos três anos
pretexto; imediatamente anteriores ao requerimento, cumulativamente:
II. Apliquem seus excedentes financeiros em educação; I. Estar legalmente constituída no País e em efetivo funcionamento;
III. Assegurem a destinação de seu patrimônio a outra escola comunitária, filantrópica ou II. Estar previamente inscrita no Conselho Municipal de Assistência Social do município
confessional, ou ao Poder Público, no caso de encerramento de suas atividades; de sua sede, se houver, ou no Conselho Estadual de Assistência Social, ou Conselho de
Assistência Social do Distrito Federal;
IV. Prestem contas ao Poder Público dos recursos recebidos.
III. Estar previamente registrada no CNAS;
§ 1 º Os recursos de que trata este Artigo poderão ser destinados a bolsas de estudo para a
educação básica, na forma da lei, para os que demonstrarem insuficiência de recursos, IV. constar em seus estatutos dispositivos determinando que a entidade:
quando houver falta de vagas e cursos regulares da rede pública de domicílio do educando, a) aplica suas rendas, seus recursos e eventual resultado operacional integralmente no
ficando o Poder Público obrigado a investir prioritariamente na expansão da sua rede local. território nacional e na manutenção e no desenvolvimento de seus objetivos institucionais;
§ 2° As atividades universitárias de pesquisa e extensão poderão receber apoio financeiro b) aplica as subvenções e doações recebidas nas finalidades a que estejam vinculadas;
do Poder Público, inclusive mediante bolsas de estudo.
c) não distribui resultados, dividendos, bonificações, participações ou parcela do seu
patrimônio, sob nenhuma forma;
Este Artigo desdobra dispositivo constitucional que determina a destinação de recursos d) não percebem seus diretores, conselheiros, sócios, instituidores, benfeitores ou
públicos a escolas públicas, como princípio básico. As instituições privadas estão, portanto,
equivalentes remuneração, vantagens ou benefícios, direta ou indiretamente, por qualquer
fora do alcance destes recursos, a menos que preencham os requisitos legais de não-
forma ou título, em razão das competências, funções ou atividades que lhes sejam atribuídas
lucratividade e estejam sob o rigoroso acompanhamento do Poder Público. São as chamadas
escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas. Com base no Decreto nº 2.536, de 6 de pelos respectivos atos constitutivos;
abril de 1998, e face a disposições da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999 (que regula o e) destina, em seus atos constitutivos, em caso de dissolução ou extinção, o eventual
processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal), o Plenário do Conselho patrimônio remanescente a entidade congênere registrada no CNAS ou a entidade pública;
Nacional de Assistência Social (CNAS) emitiu a Resolução n- 32, de 24 de fevereiro de 1999,
f) não constitui patrimônio de indivíduo ou de sociedade sem caráter beneficente de
disciplinando a certificação de entidades de fins filantrópicos. Como tal, deverão ser entendidas
assistência social;
as entidades que atuem no sentido de:
g) presta serviços gratuitos, permanentes e sem qualquer discriminação de clientela, de
I. Proteger a família, a maternidade, a infância, a adolescência e a velhice;
acordo com Plano de Trabalho aprovado pelo CNAS;
II. Amparar crianças c adolescentes carentes; V. aplicar anualmente, em gratuidade, pelo menos vinte por cento da receita bruta
III. Promover ações de prevenção, habilitação e reabilitação de pessoas portadoras de proveniente da venda de serviços, acrescida da receita decorrente de aplicações financeiras, de
deficiência; locação de bens, de venda de bens não integrantes do ativo imobilizado e de doações
particulares, cujo montante nunca será inferior à isenção de contribuições sociais usufruídas:
IV. promover, gratuitamente, assistência educacional ou de saúde;
V. promover a integração ao mercado de trabalho;
Página 190 Página 191
a) a entidade que desenvolve atividades nas áreas de assistência social e/ou educacional Por outro lado, existem muitas instituições sérias cujo funcionamento está ameaçado por
deverá comprovar gratuidade, a que se refere o inciso V do Art. 3º desta Resolução, em cada força da Lei n° 9.732/98 que determinou o corte da isenção do pagamento à Previdência Social
área de atuação; da cota patronal. O resultado é que estas instituições — entre as quais se situam as
Universidades Comunitárias — se sentem obrigadas a reduzir o número de bolsas de estudo
b) a entidade da área de saúde deverá comprovar, anualmente, percentual de atendimentos, para os seus alunos. Segundo cálculos da Associação Brasileira das Universidades
decorrentes de convénio firmado com o Sistema Único de Saúde - SUS, igual ou superior a Comunitárias, o pagamento do imposto ao Governo Federal onera estas instituições em até
sessenta por cento do total de sua capacidade instalada; 25%, a cada mês. (In Jornal da ABRUC, Ano II, N° 9, Jun/Ag. 1999).
c) não poderão ser incluídos como estabelecimentos mantidos pela requerente entidades TÍTULO VIII
com personalidade jurídica própria, com inscrição independente no CNPJ (antigo CGC);
DAS DISPOSIÇÕES GERAIS
VI. As fundações que desenvolvam atividades previstas nos incisos de I a VI do Artigo 2°,
constituídas como pessoas jurídicas de direito privado, deverão apresentar seus contratos, atos
constituídos, estatutos ou compromissos inscritos junto ao Registro Civil de Pessoas Jurídicas, Art. 78 O Sistema de Ensino da União, com a colaboração das agências federais de fomento à
conforme o disposto no Artigo 16 do Código Civil c devidamente aprovados pelo Ministério cultura e de assistência aos índios, desenvolverá programas integrados de ensino e pesquisa,
Público; para oferta de educação escolar bilíngüe e inter-cultural aos povos indígenas, com os seguintes
VII. As fundações que desenvolvam atividades previstas nos Incisos de I a VI do Artigo 2-, objetivos:
constituídas como pessoas jurídicas de direito privado, instituídas pelos poderes públicos I. Proporcionar aos índios, suas comunidades e povos, o acesso às informações,
através de autorização legislativa, deverão comprovar que: conhecimentos técnicos e científicos da sociedade nacional e demais sociedades
indígenas e não-índias;
a) o regime jurídico do seu pessoal, não incluída diretoria, conselheiros, sócios, benfeitores
e instituidores, seja o da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT; II. Garantir aos índios, suas comunidades e povos, o acesso às informações,
conhecimentos técnicos e científicos da sociedade nacional e demais sociedades indígenas
b) não participam da diretoria, dos conselhos, dos sócios e dos benfeitores pessoas físicas
e não-índias.
ou jurídicas dos poderes públicos federal, estadual, municipal ou do Distrito Federal;
c) as subvenções sociais, dotações orçamentárias ou quaisquer recursos recebidos dos
poderes públicos federal, estadual, municipal ou do Distrito Federal não poderão ser destinados O Artigo 78 inaugura o conjunto de nove Artigos que encorpam o Título VIII, dedicado às
ao pagamento de pessoal; disposições gerais da LDB. O texto anterior continha, apenas, seis Artigos, que tratavam da
autorização de experiências pedagógicas com regimes diversos dos prescritos em Lei, do
d) no caso de dissolução, o eventual patrimônio da Fundação seja destinado, de acordo com
registro profissional, do ajuste de nomenclatura, do ensino ministrado em estabelecimentos
o Art. 30 do Código Civil, ao patrimônio de outras fundações que se proponham a fins iguais
militares, do Colégio Pedro II e, enfim, da possibilidade de as administrações dos sistemas de
ou semelhantes. ensino aprovarem um regimento para um conjunto de escolas pertencentes a uma mesma rede.
e) atendam os demais requisitos previstos nesta Resolução. Na nova LDB, as disposições gerais tratam de questões bem mais substantivas como a
Registre-se, aqui, a necessidade de urna maior fiscalização por parte do Ministério Público, educação indígena, a educação à distância e de escolas experimentais. Neste último caso, trata-
quanto à real natureza destas instituições. Sabe-se que muitas delas ocultam, sob o véu da se de um conceito bem mais avançado pedagogicamente do que a simples ideia de
comunitaridade e da filantropia, sua volúpia de lucro. O patrimônio físico e os sinais de "experiências pedagógicas com regimes diversos dos prescritos na presente lei", conforme
riqueza que seus proprietários, às vezes, exibem, revelam, bem, o falso espírito de rezava o Art. 64 da Lei 5.692/71. Entre uma c outra expressão, há a distância que separa
despojamento que os seus Regimentos e Estatutos contêm. modelo burocrático de modelo técnico-pedagógico.
Página 192
O Artigo cm tela atribui, ao governo federal, a responsabilidade de desenvolver programas Página193
integrados de ensino e pesquisa, a partir do concurso de agências de fomento à cultura e de
assistência aos índios (tipo FUNAI), para substanciar a oferta de educação bilíngüe e
intercultural aos povos indígenas. Desta forma, o legislador corrige o lapso do § 3º do Artigo
32, já comentado.
A educação bilíngüe e intercultural dos povos indígenas deve ser entendida como a
necessidade de se ter em conta, em qualquer processo pedagógico, a diversidade cultural. A
imposição da hegemonia de um modelo educativo cede lugar à concepção diversificada de
mundo. A pluralidade cultural é um estágio avançado do conceito de igualdade. Todos têm o
direito de exteriorizar a sua identidade, sem a imposição de valores.
A partir desta nova concepção educativa, a recuperação da memória indígena e a
reafirmação de suas identidades étnicas começam por programas de ensino que considerem a
especificidade destes grupos.
Um primeiro passo, neste sentido, fora dado, em 1992, com a instituição do Comitê de
Educação Escolar Indígena (CEEI) pelo Secretário Paulo Elpídio Menezes Neto, da
SENEB/MEC, através da Portaria n- 60/92. Funcionando junto ao Departamento de Educação
Fundamental e Média, o CEEI passou a proporcionar o apoio tecnico-científico às decisões que
envolvem a adoção de normas e procedimentos relacionados com o Programa de Educação
Escolar Indígena, além de acompanhar ações nos Estados. Desdobramento desta providência,
seguiu-se o documento Diretrizes Para a Política Nacional de Educação Escolar Indígena, um
marco na história dos povos indígenas brasileiros, distribuídos em 206 nações, com uma
população de cerca de 300 mil (Povos Indígenas no Brasil — 1991 l 1995. Instituto Sócio-
ambiental, 1996), espalhadas em todo o tecido do território nacional, como se pode ver no
Art. 79 A União apoiará técnica e financeiramente os sistemas de ensino no provimento da
mapa ao lado.
educação intercultural às comunidades indígenas, desenvolvendo programas integrados de
Em março de 1997, o MEC apresentou, ao Conselho de Secretários de Educação ensino e pesquisa.
(CONSED), um importante documento sobre a questão da Educação Indígena no País, § 1º Os programas serão planejados com audiência das comunidades indígenas.
destacando a necessidade de uma ação envolvendo as três esferas administrativas (Federal,
Estadual e Municipal), como condição para uma "educação de qualidade", direito § 2° Os programas a que se refere este Artigo, incluídos nos Planos Nacionais de
constitucional e fundamental dos povos indígenas brasileiros. Segundo o documento, o MEC Educação, terão os seguintes objetivos:
trabalhará focando três objetivos fundamentais: i) investir na formação de recursos humanos; I. Fortalecer as práticas sócio-culturais e a língua materna de cada comunidade
ii) estimular a produção e publicação de material didático; iii) divulgar, de forma séria e indígena;
criteriosa, a existência da diversidade étnica, linguística e cultural, como base para a formula-
ção de uma política educativa consistente. II. Manter programas de formação de pessoal especializado, destinado à educação
escolar nas comunidades indígenas;
III. Desenvolver currículos e programas específicos, neles incluindo os conteúdos
culturais correspondentes às respectivas comunidades;
IV. Elaborar e publicar sistematicamente material didático específico e diferenciado.
Página 194 Página 195
Aqui, parte-se para o detalhamento da organização de oferta escolar específica para os A inclusão, no calendário escolar, do Dia Nacional da Consciência Negra é uma iniciativa
povos indígenas. Trata-se de um avanço significativo. Afinal, a Lei de Diretrizes e Bases da importante como forma concreta de a sociedade brasileira refletir sobre o preconceito racial e
Educação Nacional reconhece não apenas a importância da sócio-diversidade nativa sobre a educação das relações étnico-raciais.
contemporânea no Brasil, mas define toda uma política, com os respectivos desdobramentos,
para sistematizar, com a audiência das comunidades indígenas, os processos educativos que
lhe respeitem a identidade. Tanto mais importante: o governo federal vai oferecer apoio Art. 80 O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino
técnico e financeiro a Estados e Municípios e, também, a organizações não-governamentais à distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada.
para a realização de pesquisas e de estudos voltados para o desenvolvimento da educação dos § 1° A educação à distância, organizada com abertura e regime especiais, será oferecida
povos indígenas. Convém lembrar que o País conta com 103 organizações indígenas re- por instituições especificamente credenciadas pela União.
gistradas em cartório e com 30 ONGs dedicadas à causa indígena.
§ 2°A União regulamentará os requisitos para a realização de exames e registro de
diploma relativos a cursos de educação à distância.
Art. 79-A (Vetado)
§ 3° As normas para produção, controle e avaliação de programas de educação à distância
e a autorização para sua implementação, caberão aos respectivos sistemas de ensino,
Art. 79-B O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como "Dia Nacional da podendo haver cooperação e integração entre os diferentes sistemas.
Consciência Negra".
§ 4° A educação à distância gozará de tratamento diferenciado, que incluirá:
I. Custos de transmissão reduzidos em canais comerciais de radiodifusão sonora e de
Embora a calendarização de temas, por mais relevantes que sejam, não constitua matéria
sons e imagens;
própria para uma Lei de diretrizes e bases da educação, deve-se, aqui, penetrar sobretudo na
motivação do Art. 79-B dentro do que a própria LDB define como educação em seu Art. 1° e II. Concessão de canais com finalidades exclusivamente educativas;
como princípio básico para a escola ministrar o ensino no Art. 3° Inc. II, III, X e XI. III. Reserva de tempo mínimo, sem ônus para o Poder Público, pelos concessionários
A distribuição da população brasileira por cor ou raça (%) de acordo com o IBGE, Censo de canais comerciais.
2002, é a seguinte:
DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA POR COR OU RAÇA (EM %)
REGIÃO Branca Preta Amarela Parda Indígena Este artigo está regulamentado pelo Decreto n.° 2.494/98 cujo conteúdo define a "Educação
Norte 29,7 5,1 0,2 63,5 1,6 a Distância como uma forma de ensino que possibilita a auto-aprendizagem, com a mediação
Nordeste 32,1 7,6 0,2 59,8 0,4 de recursos didáticos sistematicamente organizados, apresentados em diferentes suportes de
Sudeste 62,4 6,6 0,8 30,0 0,2 informação, utilizados isoladamente ou combinados e veiculados pelos diversos meios de
Sul 84,2 3,8 0,5 11,2 0,2 comunicação". Diz ainda o Decreto que "os cursos a distância que conferem certificado ou
Centro-Oeste 49,1 4,3 0,5 45,1 1,1
Brasil 53,8 6,2 0,5 39,1 0,4 diploma de conclusão do ensino fundamental para jovens e adultos, do ensino médio, da
educação profissional e de graduação, serão oferecidos por instituições públicas ou privadas
Fonte: IBGE - CENSO DEMOGRÁFICO 2002. especificamente credenciadas para este fim." Terão organização em regime especial, com
E importante destacar que os últimos Censos do IBGE registram um aumento da população flexibilidade de requisitos para admissão, horários e duração. Podem ser oferecidos tanto na
Negra e Indígena. Especialistas dizem que este fato se deve a um processo de fortalecimento educação básica, como na educação superior. Neste último caso, a oferta é objeto de
da identidade racial. Apesar disto, estudos realizados pelo Instituto de Pesquisa Económica regulamentação específica. É importante observar que "a matrícula nos cursos a distância no
Aplicada - IPEA (2002) mostram que, historicamente, as diferenças entre negros e brancos ensino fundamental para jovens e adultos, médio e educação profissional será feita
persistem: na educação, no mercado de trabalho, nos índices de qualidade de vida, etc. Neste independentemente de
sentido,
Página 196 Página 197
escolarização anterior, mediante avaliação que define o grau de desenvolvimento e experiência que descobriram a importância da teleducação. Há uma consciência planetária crescente
do candidato e permita sua inscrição na etapa adequada, conforme regulamentação do segundo a qual, na sociedade do conhecimento, aprender significa sobretudo "aprender a
respectivo sistema de ensino." Por outro lado, a matrícula nos cursos de graduação e pós- aprender". E, em circunstâncias de instabilidade crescente e de mutabilidade das formas do
graduação será efetivada mediante comprovação dos requisitos estabelecidos na oferta por trabalho, o grau de educação do trabalhador c fundamental como base para adequação aos
instituições que funcionem de acordo com o que estabelece a Resolução CNECES n.° 01/2001. novos requerimentos do perfil profissional do mercado de trabalho.
O processo de ingresso e saída de alunos é idêntico aos dos registros escolares comuns, ou A LDB caminha, portanto, na direção de redescobrir a relevância social dos sistemas de
seja, os cursos a distância poderão aceitar transferências e aproveitar créditos obtidos pelos educação a distância. Não se trata de substituir o sistema "presencial". Pelo contrário, trata-se
alunos em cursos presenciais, da mesma forma que as certificações totais ou parciais obtidas de oferecer alternativas de reforço aos processos de aprendizagem presencial. Na educação a
em cursos a distância poderão ser aceitas em cursos presenciais. distância, o ensino parte do princípio de que a auto-aprendizagem é possível, desde que o aluno
Os certificados e diplomas de cursos a distância autorizados pelos sistemas de ensino, conte com materiais de instrução de adequada qualidade educativa. Quanto à organização, o
expedidos por instituições credenciadas e registrados na forma da lei, terão validade nacional. sistema de ensino a distância supõe que existam redes de distribuição devidamente organizadas
para a produção e distribuição destes materiais. Por fim, a metodologia da educação a distância
O legislador foi taxativo ao definir os parâmetros para a avaliação, devendo ser realizada é, certamente, mais econômica. Requer menos pessoal docente, menos burocracia do que no
por meio de exames presenciais, de responsabilidade da instituição credenciada para ministrar sistema de ensino convencional. Segundo dados do Consórcio Interuniversitário de Educação
o curso e de acordo com procedimentos e critérios definidos no projeto de autorização. Em Continuada e a Distância / BRASILEAD (FE/ UnB/1997), estes custos são extremamente
qualquer caso, os exames deverão avaliar competências descritas nas diretrizes curriculares desiguais: no sistema de ensino convencional, as despesas com pessoal variam entre 80 a 85%
nacionais, quando for o caso, bem como conteúdos e habilidades que cada curso se propõe a dos gastos globais, enquanto que, no caso do ensino à distância, os gastos com funcionamento
desenvolver. No caso de cursos de Educação Profissional, os alunos devem contemplar variam entre 15 a 20%.
conhecimentos práticos avaliados em ambientes apropriados. Neste caso, para exame dos
conhecimentos práticos, as instituições credenciadas poderão estabelecer parcerias, convênios O Artigo 80 determina que o Poder Público vai não apenas incentivar o desenvolvimento
de programas de educação à distância, mas também de programas de educação continuada,
ou consórcios com instituições especializadas no preparo profissional, escolas técnicas,
dentro do entendimento de que a educação não 6 um produto, é um processo e, portanto, nunca
empresas e outras adequadamente aparelhadas.
se termina de aprender.
É importante destacar que a LDB fala em Educação a Distância e, não, em Ensino a
Para definir políticas e diretrizes, coordenar ações e dar institucionalidade à ideia, o MEC
Distância, portanto, o foco é o aluno e sua aprendizagem. O legislador buscou evitar a
criou a Secretaria de Educação a Distância/SEED que, no momento, desenvolve dois
tendência de um ensino como um mero processo de transmissão de conhecimentos,
programas principais: o TV Escola que consiste no gerenciamento de uma programação
caracterizador de uma atitude passiva. Para trabalhar com foco na perspectiva pedagógica da
transmitida via satélite às escolas públicas com mais de 100 alunos. Estes estabelecimentos de
EAD, o MEC criou a Secretaria de Educação a Distância (SEED) que pode ser contatada pelo
ensino receberam kit tecnológico (aparelho de TV, videocassete e antena parabólica). O
site http://www.mec.gov.br/secd. O crescimento nesta área é surpreendente. Formaram-se
público-alvo são professores, diretores c alunos de escolas públicas. O outro é o programa de
redes de cooperação, sendo as mais destacadas: i) a Universidade Virtual Brasileira
apoio ao emprego da informática nas escolas públicas brasileiras. Oferecido em estreita
(http://www.uvb.br); ii) a Universidade Virtual UNIVIR (http://www.univir.br); iii) a
articulação com as Unidades Federadas. O PROINFO objetiva o desenvolvimento de
Universidade Virtual Pública do Brasil, UNIREDE (http://www.unirede.br).
competências necessárias a professores e alunos para o uso apropriado da informática. Para
Fica claro que a educação escolar de natureza formal e presencial não pode continuar sendo tanto, estão sendo instalados Núcleos de Tecnologia Educacional/NTE, cada um deles
a forma exclusiva de acesso a níveis elevados de escolarização. Há muitos países como os responsável pelo suporte técnico de 50 escolas. Tanto as Escolas Técnicas Federais como algu-
Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Espanha e Alemanha mas Instituições de Ensino Superior têm-se associado ao PROINFO, oferecendo cursos de
capacitação de professores e de pessoal de suporte técnico.
Página 198 Página 199
Prevendo dificuldades face a uma cultura escolar radicalmente formalista, a Lei estatui que Este Artigo trata da questão do estágio curricular, requisito, portanto, para a aquisição do
o Governo Federal (MEC) vai credenciar instituições e vai definir requisitos para a realização diploma pelo aluno. O estágio é etapa de formação importante, embora as instituições de
de exames c de registro de diploma relativos a cursos de educação a distância. ensino dêem a ela uma atenção secundária. Na verdade, tudo é organizado para que o aluno
Por outro lado, para fins de produção, controle e avaliação de programas, os sistemas de cumpra o requisito, independentemente da qualidade deste cumprimento. A questão prática do
ensino deverão expedir normas e regulamentos compatíveis com cada realidade. ensino ainda é subestimada no bojo de uma cultura escolar extremamente academicista.
Felizmente, as circunstâncias do estágio vão mudando. Menos pela escola e mais pelas
Por fim, um tratamento diferenciado no tocante à concessão de canais com finalidade exigências do mercado de trabalho. Na verdade, o diploma, por si só, já não é suficiente para
educativa exclusiva é previsto. Igualmente prevista a redução de custos de transmissão por via justificar a contratação.
de canais comerciais para uso de programas de educação à distância, procedimento, ainda,
bastante reduzido. Na verdade, as estações de rádio e de TV só cumprirão esta norma legal A LDB retirou da esfera federal a responsabilidade de disciplinar o estágio. Fica a critério
quando descobrirem que, com cidadãos mais educados, terão mais chance de retorno dos sistemas de ensino fazê-lo. É importante esta mudança, vez que is condições de campo de
comercial. Mas a tendência é mudar rapidamente esta conduta das emissoras. O Telecurso estágio variam muito de estado para estado. A prerrogativa federal anterior, além de refletir
2000 que o diga! uma centralização descabida, funcionava como uma camisa-de-força, fazendo com que todos
os estágios feitos por alunos do País inteiro se parecessem. O que é uma desnecessidade sob o
ponto de vista da qualidade da formação do aluno.
Art. 81 E permitida a organização de cursos ou instituições de ensino experimentais, desde que
obedecidas as disposições desta Lei. Art. 83 O ensino militar é regulado em lei específica, admitida a equivalência de estudos, de
acordo com as normas fixadas pelos sistemas de ensino.
A Lei 4.024/61 previa a existência de cursos ou escolas experimentais (Art. 104). Esta
alternativa está praticamente repetida neste Art. 81. A Lei 5.692 falava de experiências O ensino militar continua a ser disciplinado por legislação específica. Durante muito tempo,
pedagógicas com regimes diversos do prescrito na presente lei (Art. 64). Tratava-se, portanto, os colégios militares só recebiam alunos filhos de militares. Atualmente, já existe abertura
de um conceito mais fluido, com pouca força de aplicabilidade à medida que não deixava claro neste sentido. As escolas militares são custeadas com recursos do orçamento dos respectivos
se tratava de experiências isoladas, dentro de uma estrutura de ensino já cristalizada, ou se ministérios militares. De qualquer sorte, são recursos do contribuinte brasileiro. Fechar,
alguém poderia "abrir" uma escola para a oferta de ensino inteiramente experimental. A versão portanto, a matrícula a filhos de militares é uma forma de privatizar espaços públicos. Nos
da Lei atual deixa claro que se estimula a ruptura de padrões convencionais de ensino, na anos de 1992 e 1993, o Ministério da Educação utilizou recursos do salário-educação, cota-
perspectiva de projetos pedagógicos de alternância, inovadores, capazes de estimular a cria- federal, para recuperar, em alguns casos, e construir, em outros, colégios militares. O uso
tividade da aprendizagem. Foi assim que surgiram todas as filosofias pedagógicas destes recursos gerou inquietação por parte de secretários estaduais de educação, uma vez que
revolucionárias que conhecemos (Pestalozzi, Montessori, Decroly, Summerhill, Piaget, Paulo os recursos do salário-educação estavam sendo usados para tender a escolas com acesso
Freire, etc.). limitado a alunos em geral, o que era, constitucionalmente, inadequado. Esta correção foi feita
e os Colégios Militares prosseguem oferecendo ensino de reconhecida qualidade em 12
instituições que ministram ensino fundamental e médio a filhos de militares e de civis. O
Art. 82 Os sistemas de ensino estabelecerão as normas para realização dos estágios dos alunos
primeiro Colégio Militar do Brasil foi fundado em 09 de março de 1889.
regularmente matriculados no ensino médio ou superior em sua jurisdição.
Parágrafo Único. O estágio realizado nas condições deste Artigo não estabelecem vínculo
Art. 84 Os discentes da educação superior poderão ser aproveitados em tarefas lê ensino e
empregatício, podendo o estagiário receber bolsa de estágio, estar segurado contra
pesquisa pelas respectivas instituições, exercendo funções de monitoria, de acordo com seu
acidentes e ter a cobertura previdenciária prevista na legislação específica.
rendimento e seu plano de estudos.
Página 200 Página 201
O instituto da monitoria ganha enorme importância seja para estimular o aluno, uma vez Científico e Tecnológico (CNPq); ii) Fundação Centro Tecnológico para Informática (CTI); iii)
que funciona como mecanismo de motivação à aprendizagem e ao desempenho escolar em Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP); iv) Conselho Científico e Tecnológico (CCT); v)
geral (há uma presunção de que o monitor seja sempre um bom aluno), seja como experiência Conselho Nacional de Informática e Automação (CONIN); vi) Comissão Técnica Nacional de
indutora de formação para atividades docentes futuras. De outra forma, o aluno se motiva, Biossegurança (CTNBIO); vii) Secretaria de Desenvolvimento Científico (SEDEC); viii)
igualmente, para uma instrumentalização crescente na área de pesquisa, potencializando-se, Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico (SEMTEC/MCT); ix) Instituto Nacional de
progressivamente, para o exercício de educação continuada. Pesquisa da Amazônia; x) Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais; xi) Instituto Nacional de
Tecnologia (INT); xii) Instituto Nacional de Pesquisa Aplicada (INPA) etc. Integram, portanto,
Art. 85 Qualquer cidadão habilitado com a titulação própria poderá exigir a abertura de o Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia, instituições de diferentes áreas do Poder Público
concurso público de provas e títulos para cargo de docente de instituição pública de ensino que e do conhecimento, também, como é o caso da EM-BRAPA, da FIOCRUZ, CAPES, INPI,
estiver sendo ocupado por professor não concursado, por mais de seis anos, ressalvados os INMETRO, etc.
direitos assegurados pelos Arts. 41 da Constituição Federal e 19 do Ato das Disposições As universidades, por conseguinte, porque trabalham as diversas áreas de ciência e
Constitucionais Transitórias. tecnologia, integram o sistema nacional constituído por tais áreas.
TÍTULO IX
A Constituição Federal é clara em seu Artigo 206, Inc. V: "... ingresso exclusivamente por DAS DISPOSIÇÕES TRANSITÓRIAS
concurso público de provas e títulos ..." O Artigo em apreço vai na mesma direção do
dispositivo constitucional, visando a atalhar situações de compadrio em que alguém permanece
indefinidamente, como professor, sem que, para tanto, haja feito concurso público. Em um Art. 87 É instituída a Década da Educação, a iniciar-se um ano a partir da publicação desta Lei.
ambiente de robusto corporativismo, em que os interesses da educação são substituídos por § 1° A União, no prazo de um ano a partir da publicação desta Lei, encaminhará, ao
interesses sindicais e político-partidários, o dispositivo tem um grande alcance democrático em Congresso Nacional, o Plano Nacional de Educação, com diretrizes e metas para os dez
favor da qualidade da educação, que começa pela seleção dos professores. anos seguintes, em sintonia com a Declaração Mundial sobre Educação para Todos.
§ 2° O Poder Público deverá recensear os educandos no ensino fundamental, com especial
Art. 86 As instituições de educação superior constituídas como universidades integrar-se-ão, atenção para os grupos de sete a quatorze e de quinze a dezesseis anos de idade.
também, na sua condição de instituição de pesquisa, ao Sistema Nacional de Ciência e
§ 3° Cada Município e, supletivamente, o Estado e a União, deverá:
Tecnologia, nos termos da legislação específica.
I. Matricular todos os educandos a partir dos sete anos de idade e, facultativamente, a
partir dos seis anos, no ensino fundamental;
As universidades são, por natureza, instituições de ensino e de pesquisa. Ou seja, estas
funções definem a identidade da universidade. Criadas para a produção do conhecimento em II. Prover cursos presenciais ou à distância aos jovens e adultos insuficientemente
favor da sociedade, as instituições universitárias pesquisam para poder assegurar a escolarizados;
competência necessária para a atividade de ensino. Porque pesquisam e ensinam, adquirem as III. Realizar programas de capacitação para todos os professores em exercício,
condições de estender (EXTENSÃO) este saber para a comunidade. utilizando também, para isto, os recursos da educação à distância;
Na condição de instituições pesquisadoras, as universidades se incorporam ao Sistema IV. Integrar todos os estabelecimentos de ensino fundamental do seu território ao
Nacional de Ciência e Tecnologia, este sistema é integrado por importantes instituições sistema nacional de avaliação do rendimento escolar.
nacionais, tais como: i) Conselho Nacional de Desenvolvimento
Página 202 Página 203
§ 4° Até o fim da Década da Educação somente serão admitidos professores habilitados desfavoráveis, mesmo quando comparamos o Brasil com alguns países da América Latina.
em nível superior ou formados por treinamento em serviço. O texto determina um conjunto de providências voltadas para operacionalizar as
§ 5° Serão conjugados todos os esforços objetivando a progressão das redes escolares transformações requeridas para que a Década da Educação que começa a partir de dezembro
públicas urbanas de ensino fundamental para o regime de escolas de tempo integral. de 1997 não caia, cada vez mais, no esquecimento.
§ 6° A assistência da união aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, bem como a § 1° - A elaboração do Plano Nacional de Educação e seu encaminhamento ao Congresso
dos Estados aos seus Municípios, ficam condicionadas ao cumprimento do Art. 212 da Nacional são etapas essenciais e predecessoras da aprovação que ocorreu em 09 de janeiro de
Constituição Federal e dispositivos legais pertinentes pelos governos beneficiados. 2001 através da Lei 10.172 de 2001 De fato, promulgada a LDB, era indispensável definir um
norte com diretrizes e metas para os anos seguintes, como forma de a sociedade acompanhar as
ações governamentais e cobrar resultados.
Como já foi comentado anteriormente, o Plano Nacional de Educação representa uma O censo escolar é outra medida capital. Nenhum país do mundo conseguiu resolver os
bússola para a orientação dos destinos da educação nacional. O PNE dá, aos governantes e à problemas básicos da educação, deixando de lado as estatísticas educacionais. É sobre elas que
sociedade, o alinhamento necessário para que os alunos, independentemente de origem, tenham se faz o planejamento.
as condições de acesso e permanência na escola. O horizonte do plano é o da universalização Inc. I A oferta de matrículas em dimensão correspondente à demanda da população
do ensino fundamental e, progressivamente, de toda a educação básica. A Declaração Mundial escolarizável constitui outra providência objetiva. A adequada cobertura escolar é fator
sobre a Educação Para Todos definiu posições de convergência das Nações Unidas sobre "a determinante para uma rede escolar equilibrada e para um atendimento adequado ao aluno.
satisfação das necessidades básicas de aprendizagem" para a população planetária e, ainda, a Com esta medida, evita-se o superpovoamento das salas-de-aula e a inadequação dos insumos.
elaboração do Plano Decenal de Educação. Foi importante o posicionamento dos países com os
mais baixos índices de produtividade de seus sistemas de ensino e com altos índices de Inc. II O provimento de cursos presenciais ou a distância para pessoas insuficientemente
analfabetismo. Os nove países mais populosos do mundo com graves problemas de escolarizadas busca responder a dois dispositivos constitucionais, a saber: i) Todos são iguais
desempenho escolar são: China (1.3 bilhão), índia (1,06 bilhão), Indonésia (219 milhões), perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (Art. 5°); ii) A Educação é direito de todos e
Brasil (178 milhões), Paquistão (153 milhões), Bangladesh (146,7 milhões), Nigéria (124 dever do Estado (Art. 205). Em decorrência, têm direito à educação escolar tardia aqueles que
milhões), México (103 milhões) c Egito (71 milhões). não a tiveram em tempo próprio. A LDB dá desdobramento a estes dois dispositivos ao fixar
como um dos princípios de organização do ensino "a igualdade de condições para acesso e per-
O Plano Decenal de Educação Para Todos teve, de fato, uma grande mobilização, porem, manência na escola" (Art. 3°). No caso em tela, deve-se, ainda, integrar estes dispositivos ao
não encontrou canais para sua operacionalização. Na verdade, o que sobrou em mobilização, Art. 37°, § 1° da LDB, que determina o direito de o aluno jovem e adulto ter, a sua disposição,
faltou em criatividade para identificar fontes alternativas de recursos financeiros. Ou seja, o oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as suas características, seus interesses,
governo de então repetiu a tradição brasileira de governar: identificar problemas, apontar suas condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames.
soluções e não identificar fontes de financiamento. De fato, diagnóstico e prognóstico sem Inc. III Um outro componente da escola eficaz diz respeito à capacitação dos mestres.
orçamento é fantasia. Professor qualificado é meio caminho para um ensino de qualidade. E esta qualificação deve
Agora, a LDB instituiu a Década da Educação a iniciar-se um ano a partir da publicação da ser feita em modalidades que incluam: i) capacitação formal, básica; ii) capacitação em serviço
Lei, ou seja, a partir do dia 20 de dezembro de 1997. A ideia é importante porque recoloca, e iii) capacitação continuada, utilizando metodologias diversificadas como os recursos de
mais uma vez, a necessidade de se criarem mecanismos favoráveis à atenção dos poderes educação a distância.
públicos e da sociedade para a questão da educação. De fato, a experiência tem mostrado que Inc. IV Por fim, a junção de todas estas várias providências somente resultará positiva se
somente ações de rotina são incapazes de levar a sociedade brasileira à ultrapassagem de desenvolverem mecanismos de acompanhamento e de avaliação não só do
índices educacionais
Página 204 Página 205
rendimento escolar, como diz o Inc. IV, mas também da avaliação institucional global, em que Por outro lado, as escolas deverão, também, adequar seus regimentos às novas normas de
a escola e avaliada interna e externamente. A avaliação da aprendizagem restringe-se à cada sistema. Neste caso, o prazo ficará sob a responsabilidade do respectivo sistema. A
avaliação do aluno enquanto estudante a quem se repassam conteúdos. É preciso ir à frente e medida e sábia porque, desta fornia, evitar-se-ão possíveis transtornos aos alunos.
verificar se, além do estudante, há um cidadão em processo formativo e uma escola em No tocante ao ensino superior, as universidades terão o prazo de oito anos para que, pelo
processo de educação contextualizada. menos, vim terço do corpo docente adquira titulação acadêmica em nível de mestrado ou
§ 4° - A Década da Educação fecha o seu ciclo em 2006, o que significa que, a partir de doutorado e para que, na mesma proporção, passe a trabalhar em regime de tempo integral. De
2007, somente serão admitidos professores com formação em nível superior. No que pese a fato, só se faz ensino superior de alta qualidade com mérito acadêmico e com dedicação.
relevância deste dispositivo - que aponta na perspectiva da universalização de um padrão de Cabe, por fim, considerar que a adaptação a que o Art. 88 alude não poderá lograr êxito se
ensino de qualidade - convém anotar que a LDB, em seu Art. 60, admite como formação os diferentes sistemas de ensino não levarem em conta o amplo contexto social, econômico e
mínima para o exercício do magistério na formação educação infantil e nas quatro primeiras cultural do mundo contemporâneo. Contexto social marcado pelo encurtamento da distância
séries do ensino fundamental oferecida em nível médio na modalidade Normal. entre os povos e por uma crescente busca de convergência na definição de padrões de
§ 5°- Prevê, ainda, a Lei a implantação progressiva de escolas de tempo integral, no âmbito qualidade de vida. Contexto econômico em reestruturação geométrica, tendo como
do ensino fundamental. Esta é, na verdade, a melhor solução para a elevação dos níveis de consequência o reordenamento produtivo e uma total redefinição do estatuto do trabalho.
aprendizagem do aluno, sobretudo daquele aluno que vive em um ambiente doméstico de Conceito cultural que se vai redefinindo pela crescente afirmação das identidades das minorias,
privação cultural. A experiência mundial aponta que a adoção da escola de tempo integral é a mas também por uma base comum de valores universais. E os sistemas legais têm que
melhor solução para se garantir uma aprendizagem plena c dinâmica. De um lado, porque o considerar todos estes ângulos, seja no processo de adaptação da legislação, seja na produção
aluno é motivado continuamente e, de outro, porque escolas de tempo integral significam de institutos normativos ou complementares10 (nota: Para aprofundar a compreensão do contexto de
escolas com insumos integrais. implantação da nova LDB, ver: SAVIANI, Demerval, A Nova Lei da Educação / LDB - trajetória, limites e
perspectivas, Editora Autores Associados, Campinas, SP, 1997, p. 229/234. Para compreender a reestrutura da
economia e do mercado de emprego, ver: CARLEIAL, Liana e VALLE, Rogério (Orgs.). Reestruturação
Art. 88 A União, os Estados, o Distrito Federal e os municípios adaptarão sua legislação Produtiva e Mercado de Trabalho no Brasil, Hucitec-Abet, São Paulo, 1997.).
educacional e de ensino às disposições desta Lei no prazo máximo de um ano, a partir da data
de sua publicação.
Art. 89 As creches e pré-escolas existentes ou que venham a ser criadas deverão, no prazo de
§ 1° As instituições educacionais adaptarão seus estatutos e regimentos aos dispositivos
três anos, a contar da publicação desta Lei, integrar-se ao respectivo sistema de ensino.
desta Lei e às normas dos respectivos sistemas de ensino, nos prazos por estes
estabelecidos.
§ 2° O prazo para que as universidades cumpram o disposto nos incisos II e III do Art. 52 As creches e pré-escolas, estruturas organizadas da educação infantil, deixam de estar à
é de oito anos. deriva do sistema de ensino e a eles se integram, como primeira etapa da educação básica (Art.
21). A oferta de educação infantil passa a ser incumbência especial dos Municípios, ao lado do
ensino fundamental, este, sim, prioritário.
Sempre que há mudanças na legislação educacional, é necessário prever um prazo para o
início do processo de adequação. São milhões de pessoas envolvidas na realidade escolar, além O processo de integração de creches e pré-escolas ao respectivo sistema de ensino exigirá
dos diversos sistemas de ensino normalmente montados em uma teia complexa de leis e um ingente esforço por parte das respectivas administrações. Sobretudo, no caso dos
regulamentos disciplinadores do funcionamento das instituições educacionais. Por tudo isto, a Municípios (no Brasil, há em torno de 5.500!) cujos órgãos
Lei prevê o período de um ano para que se façam as necessárias adaptações legais nos
diferentes sistemas.
Página 207
Página 206 O período de transição entre duas legislações - a que deixa de existir e a que passa a funcionar
de coordenação da rede escolar são, ainda, precários. Neles, as creches e pré-escolas — produz, via de regra, dúvidas, dificuldades, conflitos e desconforto institucional. Por tudo
funcionam, quase sempre, como instituições estanques. Pode-se mesmo dizer que se dispensa à isto, há necessidade de se prever instância a quem as dúvidas possam ser remetidas, de tal sorte
criança atenção material (alimentação e um mínimo de conforto), mas muito pouco em matéria que não se venha causar prejuízos às partes envolvidas.
de ação multidisciplinar voltada para o desenvolvimento biopsíquico infantil. Este Artigo prevê duas instâncias, uma atuando em nível definitivo c outra, em nível
A determinação de integrar a educação infantil ao respectivo sistema de ensino pode transitório. A primeira é o Conselho Nacional de Educação. A segunda são os Conselhos
representar um passo importante para o desenvolvimento de uma política consistente em torno Estaduais e Municipais de Educação (quando houver), porém, atuando ambos por delegação do
da educação infantil, embora se tenha de reconhecer a tremenda repercussão que tal medida CNE. E precisamente o teor da atuação delegada que tipifica sua natureza transitória. Para
causará aos sistemas de ensino, em termos de reordenamento. Mas, sem dúvida, a ambas as atuações, a Lei prevê um campo restritivo: o ensino superior organizado sob a forma
determinação legal é saudável para a educação do país. O impacto a ser causado pode ser de universidade. Neste caso, fica preservada a autonomia universitária.
aferido a partir dos seguintes números: Dentre as atribuições do Conselho Nacional de Educação/CNE, sobressai a de emitir
ESTABELECIMENTOS DE EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR POR DEPENDÊNCIA ADMINISTRATIVA parecer sobre questões relativas à aplicação da legislação educacional. Outras tantas foram
Total de Federal Estadual Municipal Privado destacadas nos comentários ao Art. 9°, § 1°. E precisamente cm decorrência deste conjunto de
Estabelecimentos de atribuições que a LDB, através do Art. 90, remete, ao CNE, a responsabilidade de dirimir
Educação Pré- dúvidas e questões porventura existentes na fase de transição entre o regime anterior e o que se
escolar
institui com a nova LDB.
92.687 17 5.347 61.667 25.656
A norma processual aqui adotada é decorrência do entendimento de que há uma
Fonte: MEC/INEP 2003. Organização Nacional da Educação (Título IV), há um Plano Nacional de Educação (Art. 9°,
Inc. I) e há, por outro lado, sistemas de ensino ligados às várias esferas administrativas (8°). A
FUNÇÕES DOCENTES POR NÍVEL DE FORMAÇÃO vigência de uma nova legislação enseja a criação de zonas de turbulência na aplicação da lei.
Total de Funções Ensino Ensino Ensino Médio Educação Superior Surge, daí, a imperatividade de um órgão que seja capaz de, respeitando a autonomia dos
Docentes na Educa- Fundamental Fundamental Completo Completo diferentes sistemas, apontar os caminhos legais para responder às questões suscitadas na fase
ção Pré-Escolar por Incompleto Completo transitiva dos dois regimes legais. Neste sentido, o Conselho Nacional vem desempenhando um
Grau de Formação
259.203 2.662 8.784 176.724 71.033 papel relevantíssimo, agindo com equilíbrio, mas sem pusilanimidade. Emitiu já vários textos
interpretativos e esclarecedores, como é o caso do Parecer n° 1/97, contendo "orientações
Fonte: MEC/INER 2003. preliminares da Câmara de Educação Básica", do Parecer n° 2/97, contendo "diretrizes para a
Além de ser, por si só, complexa a tarefa de integrar as creches e as pré-escolas aos carreira e remuneração do magistério", do Parecer n°3/97, contendo indicações sobre "os
respectivos sistemas de ensino, há que se reconhecer que tarefa de não menor complexidade parâmetros curriculares nacionais" e do Parecer n° 5/97, contendo "propostas de
será a implementação de propostas pedagógicas, sobretudo aquelas voltadas para a dimensão regulamentação da Lei 9.394/96", Resolução n°2/98, contendo as Diretrizes Curriculares
educativa da creche, a promoção de ações interdisciplinares e intersetoriais, capazes de garantir Nacionais, Parecer n°3/98, contendo as Diretrizes Curriculares para o Ensino Médio, Parecer
o pleno desenvolvimento da criança, a produção de pesquisas e a disseminação de n°18/98, apreciando os Parâmetros Curriculares de 5° à 8° series.
conhecimentos sobre a educação infantil, a criação de uma ampla base de dados sobre o tema e
sua disponibilização para todas as redes de ensino. Não menos importante é a identificação de Art. 91 Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
fontes de financiamento para a educação infantil, o que envolverá, também, recursos para a
formação c valorização contínua dos profissionais para esse tipo de educação.

Art. 90 As questões suscitadas na transição entre o regime anterior e o que se institui nesta Lei
serão resolvidos pelo Conselho Nacional de Educação ou pelos órgãos normativos dos
sistemas de ensino, preservada a autonomia universitária.
Página 208 Página 209
A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, também conhecida como a Lei
9.394/94, foi publicada no dia 20 de dezembro de 1996. A partir de então, passou a vigorar, ou
seja, passou a ser a espinha-dorsal de toda a legislação educacional brasileira. Dentro do
princípio da hierarquia das leis, os dispositivos constitucionais que tratam da educação e do
ensino estão acima dela. Por isso, a Constituição é sempre referência maior e instrumento de
balizamento para toda a chamada legislação infraconstitucional. É o caso da LDB. A partir de
então, passa ela a regulamentar todos os atos constitutivos do processo educativo regular.
Como norma escrita de direito, aprovada pelo poder legislativo e sancionada pelo poder
executivo, a Lei 9.394 passou a produzir efeitos objetivos a partir do dia em que foi publicada,
embora, sob o ponto de vista do reordenamento dos sistemas e da nova formalização dos
procedimentos burocrático-administrativos, ela própria tenha fixado o prazo máximo de um
ano, a partir da data da publicação, para que a União, os Estados, o Distrito Federal e os
Municípios adaptem suas respectivas legislações educacionais e do ensino (Art. 88).

Art. 92 Revogam-se as disposições das Leis n-s 4.024, de 20 de dezembro de 1961, e 5.540, de
28 de novembro de 1968, não alteradas pelas Leis n° s 9.431, de 24 de novembro de 1995 e
Anexos
9.192, de 21 de dezembro de 1995 e, ainda, as leis n° 5.692, de 11 de agosto de 1971 e 7.044,
de 18 de outubro de 1982, e as demais leis e decretos-lei que modificaram e quaisquer outras
______________________
disposições em contrário.

Chegamos ao último dispositivo da nova LDB. Através dele, ficam revogadas todas as
disposições das Leis anteriores em vigor e citadas no Artigo 92. Importa dizer que, a partir de
então, toda a legislação referida perde a sua eficácia, ou seja, cessada a sua vigência, não mais
pode ser aplicada. Como sabemos, a vigência de uma lei aparece com a sua publicação e
desaparece com a sua revogação. Em outros termos, a lei começa a produzir efeitos após entrar
em vigência e deixa de produzi-los depois de revogada. A este fato se denomina eficácia da lei
no tempo.
Brasília, 20 de dezembro de 1996; 175° da Independência e 108° da República.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Paulo Renato de Souza


Página 210_________ Página em branco no original.
Página 211 Página 212
ANEXO l § 4° A implantação do Fundo poderá ser antecipada em relação à data prevista neste artigo,
mediante lei no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal.
Dispõe sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino § 5° No exercício de 1997, a União dará prioridade, para concessão de assistência
Fundamental e de Valorização do Magistério, na forma prevista no financeira, na forma prevista no Art. 211, § 1°, da Constituição Federal, aos Estados, ao
Art. 60, § 7°, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, e Distrito Federal e aos Municípios nos quais a implantação do Fundo for antecipada na forma
dá outras providências. prevista no parágrafo anterior.
Art. 2° Os recursos do Fundo serão aplicados na manutenção e desenvolvimento do ensino
fundamental público, e na valorização de seu magistério.
O PRESIDENTE DA REPUBLICA,
§ 1° A distribuição dos recursos, no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, dar-se-á,
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte lei: entre o Governo Estadual e os Governos Municipais, na proporção do número de alunos
matriculados anualmente nas escolas cadastradas das respectivas redes de ensino,
Art. 1° É instituído, no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, o Fundo de Manutenção e considerando-se para esse fim:
Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, o qual terá natureza
contábil e será implantado, automaticamente, a partir de 1° de janeiro de 1998. l - as matrículas da 1a a 8ª séries do ensino fundamental;
§ 1° O Fundo referido neste artigo será composto por 15% (quinze por cento) dos recursos: II-(VETADO.)
I - da parcela do imposto sobre operações relativos a circulação de mercadorias e sobre § 2º A distribuição a que se refere o parágrafo anterior, a partir de 1998, deverá considerar,
prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação - ICMS, ainda, a diferenciação de custo por aluno, segundo os níveis de ensino e tipos de
devida ao Distrito Federal, aos Estados e aos Municípios, conforme dispõe o Art. 155, Inc. II, estabelecimento, adotando-se metodologia de cálculo e as correspondentes ponderações, de
combinado com o Art. 158, Inc. IV, da Constituição Federal; acordo com os seguintes componentes:
II - do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal - FPE, e dos Municípios - l – 1ª a 4a séries;
FPM, previstos no Art. 159, Inc. I alíneas a e b, da Constituição Federal, e no Sistema II-5a a 8a séries;
Tributário Nacional de que trata a Lei n° 5.1 72, de 25 de outubro de 1966; e III - estabelecimentos de ensino especial;
III - da parcelado Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, devida aos Estados e ao IV - escolas rurais.
Distrito Federal, na forma do Art. 159, Inc. II, da Constituição Federal e da Lei Complementar
n° 61, de 26 de dezembro de 1989. § 3º Para efeito dos cálculos mencionados no § 1º, serão computadas exclusivamente as
matrículas do ensino presencial.
§ 2° Inclui-se na base de cálculo do valor a que se refere o Inc. l do parágrafo anterior o § 4º O Ministério da Educação e do Desporto - MEC, realizará, anualmente, censo
montante de recursos financeiros transferidos, em moeda, pela União aos Estados, Distrito educacional, cujos dados serão publicados no Diário Oficial da União e constituirão a base
Federal e Municípios a título de compensação financeira pela perda de receitas decorrentes da para fixar a proporção prevista no § 1º.
desoneração das exportações, nos termos da Lei Complementar n2 87 de 13 de setembro de
1996, também como de outras compensações da mesma natureza que vierem a ser instituídas. § 5º Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão, no prazo de trinta dias da
publicação referida no parágrafo anterior, apresentar recurso para retificação dos dados
§ 3° Integra os recursos do Fundo a que se refere este artigo a complementação da União, publicados.
quando for o caso, na forma prevista no Art. 62.
§ 6º E vedada a utilização dos recursos do Fundo como garantia de operações de crédito
internas e externas, contraídas pêlos Governos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios, admitida somente sua utilização como contrapartida em operações que se
destinem, exclusivamente, ao financiamento de projetos e programas do ensino fundamental.
Art. 3º Os recursos do Fundo previstos no Art. 1º serão repassados, automaticamente, para
contas únicas e específicas dos Governos Estaduais, do Distrito Federal e dos Municípios,
vinculadas ao Fundo, instituídas para esse fim e
Página 213 Página 214
mantidas na instituição financeira de que trata o Art. 93 da Lei n2 5.1 72, de 25 de outubro de dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios nas mesmas condições estabelecidas no Art.
1966. 2º.
§ 1º Os repasses ao Fundo, provenientes das participações a que se refere o Art. 159, Inc. § 7º Os recursos do Fundo, devidos aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios,
l, alíneas a e b, e Inc. II, da Constituição Federal, constarão dos orçamentos da União, dos constarão de programação específica nos respectivos orçamentos.
Estados e do Distrito Federal, e serão creditados pela União em favor dos Governos § 8º Os Estados e os Municípios recém-criados terão assegurados os recursos do Fundo
Estaduais, do Distrito Federal e dos Municípios, nas contas específicas a que se refere este previstos no Art. 1°, a partir das respectivas instalações, em conformidade com os critérios
artigo, respeitados os critérios e as finalidades estabelecidas no Art. 2º, observados os estabelecidos no Art. 2º.
mesmos prazos, procedimentos e forma de divulgação adotados para o repasse do restante
destas transferências constitucionais em favor desses governos. § 9º Os Estados e os respectivos Municípios poderão, nos termos do Art. 211, § 4º, da
Constituição Federal, celebrar convênios para transferência de alunos, recursos humanos,
§ 2º Os repasses ao Fundo provenientes do imposto previsto no Art. 155, Inc. II, materiais e encargos financeiros nos quais estará prevista a transferência imediata de recursos
combinado com o Art. 158, Inc. IV, da Constituição Federal, constarão dos orçamentos dos do Fundo correspondentes ao número de matrículas que o Estado ou o Município assumir.
Governos Estaduais e do Distrito Federal e serão depositados pelo estabelecimento oficial de
crédito, previsto no Art. 4º da Lei Complementar nº 63, de 11 de janeiro de 1990, no Art. 4° O acompanhamento e o controle social sobre a repartição, a transferência e a aplicação
momento em que a arrecadação estiver sendo realizada nas contas do Fundo abertas na dos recursos do Fundo serão exercidos junto aos respectivos governos, no âmbito da União,
instituição financeira de que trata este artigo. dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, por conselhos a serem instituídos em cada
esfera no prazo de cento e oitenta dias a contar da vigência desta lei.
§ 3º A instituição financeira, no que se refere aos recursos do imposto mencionado no §
2º, creditará imediatamente as parcelas devidas ao Governo Estadual, ao Distrito Federal e § 1° Os conselhos serão constituídos, de acordo com norma de cada esfera editada para
aos Municípios nas contas específicas referidas neste artigo, observados os critérios e as esse fim:
finalidades estabelecidas no Art. 2º, procedendo à divulgação dos valores creditados de forma I - em nível federal, por no mínimo seis membros, representando respectivamente:
similar e com a mesma periodicidade utilizada pêlos Estados em relação ao restante da a) o Poder Executivo Federal;
transferência do referido imposto.
º b) o Conselho Nacional de Educação;
§ 4 Os recursos do Fundo provenientes da parcela do Imposto sobre Produtos
Industrializados, de que trata o Art. 1°, Inc. III, serão creditados pela União, em favor dos c) o Conselho Nacional de Secretários de Estado da Educação - CONSED;
Governos Estaduais e do Distrito Federal, nas contas específicas, segundo o critério e d) a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação - CNTE;
respeitadas as finalidades estabelecidas no Art. 2°, observados os mesmos prazos,
procedimentos e forma de divulgação previstos na Lei Complementar n° 61, de 26 de e) a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação - UNDIME;
dezembro de 1989. f) os pais de alunos e professores das escolas públicas do ensino fundamental; e
§ 5º Do montante dos recursos do IPI, que se trata o art. 1°, inc. III, a parcela devida aos II - nos Estados, por no mínimo sete membros, representando respectivamente:
municípios, na forma de disposto no Art. 5º da lei complementar nº 6, de 26 de dezembro de
1989, será repassada pelo respectivo governo estadual ao Fundo, e os recursos serão a) o Poder Executivo Estadual;
creditados na conta específica a que se refere este artigo, observados os mesmos prazos, b) os Poderes Executivos Municipais;
procedimentos e forma de divulgação do restante desta transferência aos Municípios. c) o Conselho Estadual de Educação;
§ 6º As receitas financeiras provenientes das aplicações eventuais dos saldos das contas a
d) os pais de alunos e professores das escolas públicas do ensino fundamental;
que se refere este artigo em operações financeiras de curto prazo ou de mercado aberto,
lastreadas em títulos da dívida pública, junto à instituição financeira depositária dos recursos, e) a seccional da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação - UNDIME;
deverão ser repassadas em favor
Página 215 Página 216
f) a seccional da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação - CNTE; § 4º No primeiro ano de vigência desta lei, o valor mínimo anual por aluno, a que se refere
g) a delegacia regional do Ministério da Educação e do Desporto/MEC; este artigo, será de R$ 300,00 (trezentos reais).
III - no Distrito Federal, por no mínimo cinco membros, sendo as representações as § 5º (VETADO.)
previstas no Inc. II, salvo as indicadas nas alíneas b, e, e g; Art. 7- Os recursos do Fundo, incluída a complementação da União, quando foro caso, serão
IV- nos Municípios, por no mínimo quatro membros, representando, respectivamente: utilizados pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, assegurados, pelo menos, 60%
a) a Secretaria Municipal de Educação ou órgão equivalente; (sessenta por cento) para a remuneração dos profissionais do magistério, em efetivo exercício
de suas atividades no ensino fundamental público.
b) os professores e os diretores das escolas públicas do ensino fundamental;
c) os pais de alunos; Parágrafo único. Nos primeiros cinco anos, a contar da publicação desta lei, será permitida
a aplicação de parte dos recursos da parcela de 60% (sessenta por cento), prevista neste artigo,
d) os servidores das escolas públicas do ensino fundamental. na capacitação de professores leigos, na forma prevista no Art. 9º, § 1º.
§ 2º Aos conselhos incumbe ainda a supervisão do censo escolar anual. Art. 8º A instituição do Fundo previsto nesta lei e a aplicação de seus recursos não isentam os
§ 3º Integrarão ainda os conselhos municipais, onde houver, representantes do respectivo Estados, o Distrito Federal e os Municípios da obrigatoriedade de aplicar, na manutenção e
Conselho Municipal de Educação. desenvolvimento do ensino, na forma prevista no Art. 212 da Constituição Federal:
§ 4º Os conselhos instituídos, seja no âmbito federal, estadual, do Distrito Federal ou I - pelo menos 10% (dez por cento) do montante de recursos originários do ICMS, do FPE,
municipal, não terão estrutura administrativa própria e seus membros não perceberão qualquer do FPM, da parcela do l PI, devida nos termos da Lei Complementar nº 61, de 26 de dezembro
espécie de remuneração pela participação no colegiado, seja em reunião ordinária ou de 1989, e das transferências da União, em moeda, a título de desoneração da exportação nos
extraordinária. termos da Lei Complementar nº 87, de 13 de setembro de 1996, de modo que os recursos
Art. 5º Os registros contábeis e os demonstrativos gerenciais, mensais e atualizados, relativos previstos no Art. 1º, § 1º, somados aos referidos neste Inciso, garantam a aplicação do mínimo
aos recursos repassados, ou recebidos, a conta do Fundo a que se refere o Art. 1°, ficarão, de 25% (vinte e cinco por cento) destes impostos e transferências em favor da manutenção e
permanentemente, à disposição dos conselhos responsáveis pelo acompanhamento e desenvolvimento do ensino;
fiscalização, no âmbito do Estado, do Distrito Federal ou do Município, e dos órgãos federais, II - pelo menos 25% (vinte e cinco por cento) dos demais impostos e transferências.
estaduais e municipais de controle interno e externo.
Art. 6º A União complementará os recursos do Fundo a que se refere o Art. 1 ° sempre que, no Parágrafo único. Dos recursos a que se refere o Inc. II, 60% (sessenta por cento) serão
âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, seu valor por aluno não alcançar o mínimo aplicados na manutenção e desenvolvimento de ensino fundamental, conforme disposto no Art.
definido nacionalmente. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
§ 1º O valor mínimo anual por aluno, ressalvado o disposto no § 4°, será fixado por ato do Art. 9º Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios deverão, no prazo de seis meses da
Presidente da República e nunca será inferior à razão entre a previsão da receita total para o vigência desta lei, dispor de novo Plano de Carreira e Remuneração do Magistério, de modo a
Fundo e a matrícula total do ensino fundamental no ano anterior, acrescida do total estimado de assegurar:
novas matrículas, observado o disposto no Art. 2°, § 1°, Inc. l e II. I - a remuneração condigna dos professores do ensino fundamental público, em efetivo
§ 2° As estatísticas necessárias ao cálculo do valor anual mínimo por aluno, inclusive as exercício no magistério;
estimativas de matrículas, terão como base censo educacional realizado pelo Ministério da
Educação e do Desporto, anualmente, e publicado no Diário Oficial da União. II - o estímulo ao trabalho em sala de aula;
§ 3° As transferências dos recursos complementares a que se refere este artigo serão III - a melhoria da qualidade do ensino.
realizadas mensal e diretamente às contas específicas a que se refere o Art. 3°.
Página 217 Página 218
§ 1º Os novos planos de carreira e remuneração do magistério deverão contemplar Art. 14 A União desenvolverá política de estímulo às iniciativas de melhoria de qualidade do
investimentos na capacitação dos professores leigos, os quais passarão a integrar quadro em ensino, acesso e permanência na escola promovidos pelas unidades federadas, em especial
extinção, de duração de cinco anos. aquelas voltadas a crianças e adolescentes em situação de risco social.
§ 2º Aos professores leigos é assegurado prazo de cinco anos para obtenção da habilitação Art. 15 O Salário-Educação, previsto no Art. 212, § 5°, da Constituição Federal e devido pelas
necessária ao exercício das atividades docentes. empresas, na forma em que vier a ser disposto em regulamento, e calculado com base na
§ 3ºA habilitação a que se refere o parágrafo anterior é condição para ingresso no quadro alíquota de 2,5% (dois e meio por cento) sobre o total de remunerações pagas ou creditadas,
permanente da carreira conforme os novos planos de carreira e remuneração. qualquer título, aos segurados empregados, assim definidos no Art. 12, Inc. l, da Lei n° 8.212,
de 24 de julho de 1991.
Art. 10 Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios deverão comprovar:
§ 1° A partir de 1° de janeiro de 1997, o montante da arrecadação do Salário-Educação,
I- Efetivo cumprimento do disposto no Art. 212 da Constituição Federal; após a dedução de 1 % (um por cento) em favor do Instituto Nacional do Seguro Social -
II - Apresentação de Plano de Carreira e Remuneração do Magistério, de acordo com as INSS, calculado sobre o valor por ele arrecadado, será distribuído pelo Fundo Nacional de
diretrizes emanadas do Conselho Nacional de Educação, no prazo referido do artigo anterior; Desenvolvimento da Educação - FNDE, observada a arrecadação realizada em cada Estado e
III - Fornecimento das informações solicitadas por ocasião do censo escolar, ou para fins no Distrito Federal, em quotas, da seguinte forma:
de elaboração de indicadores educacionais. I - Quota Federal, correspondente a um terço do montante de recursos, que será destinada
Parágrafo único. O não-cumprimento das condições estabelecidas neste artigo, ou o ao FNDE e aplicada no financiamento de programas e projetos voltados para a universalização
fornecimento de informações falsas, acarretará sanções administrativas, sem prejuízo das civis do ensino fundamental, forma a propiciar a redução dos desníveis sócio-educacionais
ou penais ao agente executivo que lhe der causa. existentes entre Municípios, Estados, Distrito Federal e regiões brasileiras;
Art. 11 Os órgãos responsáveis pelos sistemas de ensino, assim como os Tribunais de Contas II - Quota Estadual, correspondente a dois terços do montante de recursos, que será
da União, dos Estados e dos Municípios, criarão mecanismos adequados à fiscalização do creditada mensal e automaticamente em favor das Secretarias de Educação dos Estados e do
cumprimento pleno do disposto no Art. 212 da Constituição Federal e desta lei, sujeitando-se Distrito Federal para financiamento de programas, projetos e ações do ensino fundamental.
os Estados e o Distrito Federal à intervenção da União, e os Municípios a intervenção dos § 2° (VETADO.)
respectivos Estados, nos termos do Art. 34, Inc. VII, alínea e, e do Art. 35, Inc. III, da
Constituição Federal. § 3° Os alunos regularmente atendidos, na data da edição desta lei, como beneficiários da
aplicação realizada pelas empresas contribuintes, no ensino fundamental dos seus empregados
Art. 12 O Ministério da Educação e do Desporto realizará avaliações periódicas dos resultados e dependentes, a conta de deduções da contribuição social do Salário-Educação, na forma da
da aplicação desta lei, com vistas a adoção de medidas operacionais e de natureza político- legislação em vigor, terão, a partir de 1° de janeiro de 1997, o benefício assegurado,
educacional corretivas, devendo a primeira realizar-se dois anos após sua promulgação. respeitadas as condições em que foi concedido, e vedados novos ingressos nos termos do Art.
Art. 13 Para os ajustes progressivos de contribuições a valor que corresponda a um padrão de 212, § 5°, da Constituição Federal.
qualidade de ensino definido nacionalmente e previsto no Art. 60, § 4°, do Ato das Disposições Art. 16 Esta lei entra em vigor em 1° de janeiro de 1997. Art. 17 Revogam-se as disposições
Constitucionais Transitórias, serão considerados, observado o disposto no Art. 2°, § 2°, os em contrário.
seguintes critérios:
Brasília, 24 de dezembro de 1996, 175° da Independência e 108° da República.
I - estabelecimento do número mínimo e máximo de alunos em sala de aula; FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
II - capacitação permanente dos profissionais de educação;
III - jornada de trabalho que incorpore os momentos diferenciados das atividades docentes; Paulo Renato de Souza
IV - complexidade de funcionamento;
V - localização e atendimento da clientela;
VI - busca do aumento do padrão de qualidade do ensino.
Página 220
Página 219 § 3° Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e
médio.
ANEXO II Emenda Constitucional n° 14, de 1996
§ 4° Na organização de seus sistemas de ensino, os Estados e os Municípios definirão
Modifica os Arts. 34, 208, 211 e 212 da Constituição Federal, e dá formas de colaboração, de modo a assegurar a universalização do ensino obrigatório.
nova redação ao Art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Art. 4º É dada nova redação ao § 5º do Art. 212 da Constituição Federal nos seguintes termos:
Transitórias.
"§ 5º O ensino fundamental público tenha como fonte adicional de financiamento a
contribuição social do salário-educação, recolhida pelas empresas, na forma da lei."
Art. 5º É alterado o Art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e nele são
inseridos novos parágrafos, passando o artigo a ter a seguinte redação:
As Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, nos termos do § 3° do Art. 60 da "Art. 60. Nos dez primeiros anos da promulgação desta emenda, os Estados, o Distrito
Constituição Federal, promulgam a seguinte emenda ao texto constitucional: Federal e os Municípios destinarão não menos de sessenta por cento dos recursos a que se
Art. 1° É acrescentada no Inc. VII do Art. 34 da Constituição Federal a alínea e, com a seguinte refere o caput do Art. 212 da Constituição Federal à manutenção e ao desenvolvimento do
redação: ensino fundamental, com o objetivo de assegurar a universalização de seu atendimento e a
remuneração condigna do magistério.
"e) aplicação do mínimo exigido da receita resultante de impostos estaduais, compreendida
a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino." § 1° A distribuição de responsabilidades e recursos entre os Estados e seus Municípios a ser
concretizada com parte dos recursos definidos neste artigo, na forma do disposto no Art. 211
Art. 2° É dada nova redação aos Inc. l e II do Art. 208 da Constituição Federal, nos seguintes da Constituição Federal, e assegurada mediante criação, no âmbito de cada Estado e do Distrito
termos: Federal, de um Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de
"l - ensino fundamental obrigatório e gratuito, assegurada, inclusive, sua oferta gratuita Valorização do Magistério, de natureza contábil.
para todos os que a ele não tiverem acesso na idade própria; § 2° O Fundo referido no parágrafo anterior será constituído por, pelo menos, quinze por
II - progressiva universalização do ensino médio gratuito;" cento dos recursos a que se referem os Arts. 155, Inc. II; 158, Inc. IV; e 159, Inc. l, alíneas a e
b; Inc. II, da Constituição Federal, e será distribuído entre cada Estado e seus Municípios,
Art. 3° É dada nova redação aos § 1°e 2° do Art. 211 da Constituição Federal e nele são proporcionalmente ao número de alunos nas respectivas redes de ensino fundamental.
inseridos mais dois parágrafos, passando a ter a seguinte redação:
§ 3° A União complementará os recursos dos Fundos que se refere o § 1° sempre que, em
cada Estado e no Distrito Federal, seu valor por aluno não alcançar o mínimo definido
"Art. 211............................................................................... nacionalmente.
§ 1° A União organizará o sistema federal de ensino e o dos Territórios, financiará as § 4° A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios ajustarão progressivamente,
instituições de ensino públicas federais e exercerá, em matéria educacional, função em um prazo de cinco anos, suas contribuições ao Fundo, de forma a garantir um valor por
redistributiva e supletiva, de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e aluno correspondente a um padrão mínimo de qualidade de ensino, definido nacionalmente.
padrão mínimo de qualidade do ensino, mediante assistência técnica e financeira aos Estados,
ao Distrito Federal e aos Municípios.
§ 2° Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil.
Página 221 Página 222
§ 5° Uma proporção não inferior a sessenta por cento dos recursos de cada Fundo referido Art. 212:
no § 1° será destinada ao pagamento dos professores do ensino fundamental em efetivo
“Art. 212 ....................................................
exercício no magistério.
§ 6° A União aplicará na erradicação do analfabetismo e na manutenção e no § 5° O ensino fundamental público terá como fonte adicional de financiamento a
desenvolvimento do ensino fundamental, inclusive na complementação a que se refere o § 3°, contribuição social do salário-educação, recolhida, na forma da lei, pelas empresas, que dela
nunca menos que o equivalente a trinta por cento dos recursos a que se refere o caput do Art. poderão deduzir a aplicação realizada no ensino fundamental de seus empregados e
212 da Constituição Federal. dependentes.”

§ 7° A lei disporá sobre a organização dos Fundos, a distribuição proporcional de seus ADCT, Art. 60:
recursos, sua fiscalização e controle, bem como sobre a forma de cálculo do valor mínimo “Art. 60 Nos dez primeiros anos da promulgação da Constituição, o Poder Público
nacional por aluno." desenvolverá esforços, com a mobilização de todos os setores organizados da sociedade e com
Art. 6º Esta emenda entra em vigor a primeiro de janeiro do ano subsequente ao de sua a aplicação de, pelo menos, cinquenta por cento dos recursos a que se refere o Art. 212 da
promulgação. Constituição, para eliminar o analfabetismo e universalizar o ensino fundamental.
Brasília, 12 de setembro de 1996. Parágrafo único. Em igual prazo, as universidades públicas descentralizarão suas
atividades, de modo a estender suas unidades de ensino superior às cidades de maior densidade
A MESA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS: Luís Eduardo, Presidente - Ronaldo Perim, populacional. ”
1° Vice-Presidente - Beto Mansur, 2° Vice-Presidente - Wilson Campos, 1º Secretário -
Leopoldo Bessone, 2º Secretário - Benedito Domingos, 3° Secretário -João Henrique, 4º
Secretário.
A MESA DO SENADO FEDERAL: José Sarney, Presidente - Teotonio Vilela Filho, 1º
Vice-Presidente -Júlio Campos, 2° Vice-Presidente - Odacir Soares, 1° Secretário - Renan
Calheiros, 2° Secretário - Ernandes Amorim, 4° Secretário - Eduardo Suplicy, Suplente de
Secretário. DO 13-9-96
Relator da Proposta de Emenda Constitucional no Senado
Senador LÚCIO ALCÂNTARA

REDACAO ORIGINAL

Art. 211:
“Art. 211 .....................................................
§ 1° A União organizará e financiará o sistema federal de ensino e o dos Territórios, e
prestará assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios para
o desenvolvimento de seus sistemas de ensino e o atendimento prioritário à escolaridade
obrigatória.
§ 2° Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e pré-escolar.”
Página 224
Página 223 uma determinada área, possibilitando o aproveitamento contínuo e articulado dos estudos.

ANEXO III § 2° Os cursos mencionados no caput articular-se-ão, preferencialmente, com os cursos de


educação de jovens e adultos, objetivando a qualificação para o trabalho e a elevação do nível
Decreto n° 5.154, de 23 de julho de 2004 de escolaridade do trabalhador, o qual, após a conclusão com aproveitamento dos referidos
cursos, fará jus a certificados de formação inicial ou continuada para o trabalho.
Art. 4º A educação profissional técnica de nível médio, nos termos dispostos no § 2º do art. 36,
Regulamenta o § 2° do art. 36 e os arts. 39 a 41 da Lei n° 9.394, de 20 art. 40 e parágrafo único do art. 41 da Lei no 9.394, de 1996, será desenvolvida de forma
de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação articulada com o ensino médio, observados:
nacional, e dá outras providências. I - os objetivos contidos nas diretrizes curriculares nacionais definidas pelo Conselho
Nacional de Educação;
II - as normas complementares dos respectivos sistemas de ensino; e
III - as exigências de cada instituição de ensino, nos termos de seu projeto pedagógico.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso § 1° A articulação entre a educação profissional técnica de nível médio e o ensino médio
IV, da Constituição, dar-se-á de forma:
D ECRETA: I - integrada, oferecida somente a quem já tenha concluído o ensino fundamental, sendo o
Art. 1° A educação profissional, prevista no art. 39 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de curso planejado de modo a conduzir o aluno à habilitação profissional técnica de nível médio,
1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), observadas as diretrizes curriculares na mesma instituição de ensino, contando com matrícula única para cada aluno;
nacionais definidas pelo Conselho Nacional de Educação, será desenvolvida por meio de II - concomitante, oferecida somente a quem já tenha concluído o ensino fundamental ou
cursos e programas de: esteja cursando o ensino médio, na qual a complementaridade entre a educação profissional
I - formação inicial e continuada de trabalhadores; técnica de nível médio e o ensino médio pressupõe a existência de matrículas distintas para
cada curso, podendo ocorrer:
II - educação profissional técnica de nível médio; e
a) na mesma instituição de ensino, aproveitando-se as oportunidades educacionais
III - educação profissional tecnológica de graduação e de pós-graduação. disponíveis;
Art. 2º A educação profissional observará as seguintes premissas: b) em instituições de ensino distintas, aproveitando-se as oportunidades educacionais
I - organização, por áreas profissionais, em função da estrutura sócio-ocupacional e disponíveis; ou
tecnológica; c) em instituições de ensino distintas, mediante convênios de intercomplementaridade,
II - articulação de esforços das áreas da educação, do trabalho e emprego, e da ciência e visando o planejamento e o desenvolvimento de projetos pedagógicos unificados;
tecnologia. III - subsequente, oferecida somente a quem já tenha concluído o ensino médio.
Art. 3° Os cursos e programas de formação inicial e continuada de trabalhadores, referidos no
inciso l do art. 1º, incluídos a capacitação, o aperfeiçoamento, a especialização e a atualização,
em todos os níveis de escolaridade, poderão ser ofertados segundo itinerários formativos,
objetivando o desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva e social.
§ 1° Para fins do disposto no caput considera-se itinerário formativo o conjunto de etapas
que compõem a organização da educação profissional em
Página 225 Página 226
§ 2º Na hipótese prevista no inciso l do§ 1º, a instituição de ensino deverá, observados o ANEXO IV
inciso l do art. 24 da Lei nº 9.394, de 1996, e as diretrizes curriculares nacionais para a Quadro de Estatísticas Básicas (Matrícula na Educação Pré-
educação profissional técnica de nível médio, ampliar a carga horária total do curso, a fim de escolar, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio por
assegurar, simultaneamente, o cumprimento das finalidades estabelecidas para a formação dependência administrativa, por faixa etária e por série).
geral e as condições de preparação para o exercício de profissões técnicas.
Ensino Regular - Matrícula, em 29/3/2000, no Ensino Fundamental, por
Art. 5° Os cursos de educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação Dependência Administrativa e Turno - 2002
organizar-se-ão, no que concerne aos objetivos, características e duração, de acordo com as Unidade Matrícula, por Dependência Administrativa e Turno
diretrizes curriculares nacionais definidas pelo Conselho Nacional de Educação. da
Federação
Art. 6º Os cursos e programas de educação profissional técnica de nível médio e os cursos de Total Federal Estadual Municipal Privada
Total Noturno Total Noturno Total Noturno Total Noturno Total Noturno
educação profissional tecnológica de graduação, quando estruturados e organizados em etapas Brasil 35.717.94 3.853.880 27.810 72 15.806.72 2.074.639 16.694.17 1.766.883 3.189.241 12.286
com terminalidade, incluirão saídas intermediárias, que possibilitarão a obtenção de Norte 3.273.693 279.986 4.748 1.406.278 152.574 1.719.612 127.175 143.055 237
Rondônia 321.125 20.855 168.824 16.387 132.687 4.378 19.614 90
certificados de qualificação para o trabalho após sua conclusão com aproveitamento. Acre 144.650 7.281 313 88.933 4.923 48.460 2.358 6.944 -
Amazona 665.187 79.865 610 333.321 50.980 295.977 28.885 35.279 -
§ 1º - Para fins do disposto no caput considera-se etapa com terminalidade a conclusão Roraima 79.504 8.383 _ 71.899 8.332 6.359 51 1.246 -
intermediária de cursos de educação profissional técnica de nível médio ou de cursos de Pará 1.606.537 91.967 3.825 451.382 1 9.946 1.089.490 71.885 61.840 136
Amapá 123.301 7.708 _ 93.279 6.354 22.649 1.354 7.373 -
educação profissional tecnológica de graduação que caracterize uma qualificação para o Tocantins 333.389 63.927 198.640 45.652 123.990 18.264 10.759 11
trabalho, claramente definida e com identidade própria. Nordeste 12.509.12 2.180.611 4.060 16 3.968.439 925.351 7.561.512 1.173.349 975.115 9.895
Maranhão 1.624.661 255.200 995 . 411.063 65.082 1.130.921 188.850 81.682 1.268
§ 2°- As etapas com terminalidade deverão estar articuladas entre si, compondo os Piauí 781.380 116.670 164 256.043 62.301 467.171 53.626 58.002 743
Ceará 1.892.443 289.144 555 445.463 113.877 1.252.007 1 74.063 194.418 1.204
itinerários formativos e os respectivos perfis profissionais de conclusão. R.G. do 657.794 84.181 236 278.904 38.341 314.794 44.928 63.860 912
Norte
Art. 7°- Os cursos de educação profissional técnica de nível médio e os cursos de educação Paraíba 889.003 144.215 326.556 65.798 486.212 77.575 76.235 842
profissional tecnológica de graduação conduzem à diplomação após sua conclusão com Pernambu 1.798.644 232.569 1.159 - 613.183 126.436 962.301 104.895 222.001 1.238
co
aproveitamento. Alagoas 720.576 137.784 - 184.682 43.107 481.531 92.969 54.363 1.708
Sergipe 431.952 68.833 257 _ 188.208 36.472 206.750 31.732 36.737 629
Parágrafo único. Para a obtenção do diploma de técnico de nível médio, o aluno deverá Bahia 3.712.673 780.015 694 16 1.264.337 373.937 2.259.825 404.711 187.817 1.351
concluir seus estudos de educação profissional técnica de nível médio e de ensino médio. Sudeste 12.936.31 945.642 14.221 56 6.751.814 614.344 4.675.423 330.034 1.494.855 1.208
Minas 3.630.524 430.594 3.138 1.916.245 238.857 1.507.484 191.420 203.657 307
Gerais
Art. 8° Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. Art. 9° Revoga-se Espírito 608.568 43.241 - - 303.922 21.405 237.895 21.647 66.751 189
Santo
o Decreto no 2.208, de 17 de abril de 1997. Rio de Ja- 2.472.017 150.500 10.890 56 666.327 83.415 1.334.163 66.736 460.637 293
neiro
Brasília, 23 de julho de 2004; 183° da Independência e 116° da República. São Paulo 6.225.204 321.307 193 . 3.865.320 270.667 1.595.881 50.231 763.810 409
Sul 4.416.528 168.228 2.251 _ 2.202.057 130.850 1.858.420 37.195 353.800 183
Paraná 1.692.648 68.046 439 - 787.308 66.611 775.183 1.387 129.718 48
Santa Ca- 983.157 23.616 626 - 526.150 15.418 381.402 8.198 74.979 -
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA tarina
R.G. do 1.740.723 76.566 1.186 888.599 48.821 701.835 27.610 149.103 135
Sul
Centro- 2.582.288 351.413 2.530 - 1.478.138 251.520 879.204 99.130 222.416 763
Oeste
Fernando Haddad M.G. do 459.475 51.283 550 - 220.951 33.849 198.676 17.191 39.298 243
Sul
Mato 611.620 93.124 - 308.496 61.558 266.979 31.566 36.145 -
Grosso
Goiás 1.124.217 1 81 .460 480 - 629.333 130.632 413.549 50.373 80.855 455
Distrito 386.976 25.546 1.500 - 319.358 25.841 - 66.118 65
Federal
Fome: MEC/INEP/SEEC.
Nora: Foram considerados como noturnos os turnos com início a partir das 17 horas (inclusive).
Página 227 Página 228
Ensino Regular - Matrícula, em 29/3/2000, no Ensino Fundamental de 1° a 4° Ensino Regular - Matrícula, em 29/3/2000, no Ensino Fundamental de 5a a 6ª
Série, por Dependência Administrativa e Turno - 2002 Série, por Dependência Administrativa e Turno - 2002
Dados da Matrícula, por Dependência Administrativa e Turno Unidade da Matrícula, por Dependência Administrativa e Turno
federação Federação Total Federal Estadual Municipal Privada
Total Noturno Total Noturno Total Noturno Total Noturno Total Noturno
Brasil 5.506.442 3.049.565 20.010 56 9.733.844 1.881.871 4.221.857 1.158.366 1.530.731 9.272
Total Federal Estadual Municipal Privada Norte 1.084.252 230.561 2.948 683.622 140.528 331.955 89.837 65.727 196
Total Noturno Total Noturno Total Noturno Total Noturno Total Noturno Rondônia - 137.966 20.702 - 90.080 16.387 38.571 4.225 9.315 90
Brasil 20.211.50 804.315 7.800 16 6.072.882 192.768 12.472.31 608.517 1.658.510 3.014 Acre 46.518 6.751 150 33.399 4.436 9.597 2.315 3.372 -
Norte 2.189.441 49.425 1.800 . 722.656 12.046 1.387.657 37.338 77.328 41 Amazonas 252.505 76.848 610 181.986 50.980 54.221 25.868 15.688 -
Rondônia 183.159 153 - 78.744 94.116 153 10299 - Roraima 35.027 6.781 34.476 6.766 205 15 346 -
Acre 98.132 530 163 - 55.534 487 38.863 43 3572 Pará 432.268 61.333 2.188 201.229 16.442 199.684 44.785 29.167 106
Amazonas 412.682 3.017 . 151.335 241.756 3017 19591 Amapá 44.752 7.616 36.727 6315 4.984 1301 3.041 -
Roraima 44.477 1.602 - 37.423 1.566 6.154 36 900 Tocantins 135.216 50.530 _ . 105.725 39.202 24.693 11.328 4.798 -
Pará 1.174.269 30.634 1.637 - 250.153 3.504 889.806 27100 32673 30 Nordeste 4.662.293 1.488.737 3.124 . 2.419.861 769.164 1.800.475 712.081 438.833 7.492
Amapá 78.549 92 - 56.552 39 17.665 53 4332 - Maranhão 515.303 174.828 560 250.300 62.520 231.440 111.284 33.003 1.024
Tocantins 198.173 13.397 - 92.915 6.450 99.297 6936 5961 11 Piauí 244.268 85.467 164 125.223 45.951 91.008 38.880 27.873 636
Nordeste 7.846.833 619.874 936 16 1.548.578 156.187 5.761.037 461268 536282 2403 Ceará 811.456 249.769 555 341.619 112.306 379.082 136.653 90.200 810
Maranhão 1.109.358 80.372 435 . 160.763 2.562 899.481 77566 48679 244 RG do Norte 269.956 78.911 236 143.114 37.338 95.775 40.902 30.831 671
Piauí 537.112 31.203 . 130.820 16.350 376.163 14746 30129 107
Ceara 1.080.987 39.375 - 130.844 1.571 872.925 37410 104218 394 Paraíba 302.544 88.641 . 18K.559 58.645 79.449 29.398 34.536 598
RG do 387.838 5.270 - 135.790 1.003 219.019 4026 33029 241 Pernambuco 741.407 217.055 790 420453 126.257 223.397 89.648 96.767 1.150
norte
Paraíba 586.459 55.574 . 137.997 7.153 406.763 48177 41 699 244 Alagoas 233.765 99.728 92.845 35.552 113.053 62.826 27.867 1.350
Pernambuc 1.057.237 15.514 369 - 192.730 179 738.904 15247 125234 88 Sergipe 157.178 49.660 257 101.791 31.704 37.998 17.676 17.132 280
o Bahia 1.386.416 444.678 562 755.957 258.891 549.273 184.814 80.624 973
Alagoas 486.811 38.056 - 91.937 7.555 368.478 30143 26496 358 Sudeste 6.383.829 855.970 9.826 56 4.214.580 607.179 1.416.505 247.743 742.918 992
Sergipe 274.774 19.173 . 86.417 4.768 168.752 14056 19605 349 Minas Gerais 1.755.978 367.416 2.090 1.219.663 237.564 428.298 192.535 105.927 317
Bahia 2.326.257 335.337 132 16 508.380 115.046 1.710.552 219897 107193 378
Espírito 299.631 41.490 - 164.581 21.405 99.924 19.947 35.126 138
Santo
Sudeste 6.552.484 89.672 4.395 . 2.537.234 7.165 3.258.918 82291 751937 216 Rio de Ja- 1.093.417 126.223 7.736 56 395.813 77.543 476.833 48.496 213.035 128
neiro
Minas 1.874.546 63.178 1.048 - 696.582 1.293 1.079.186 61885 97730 - São Paulo 3.234.803 320.841 - 2.434.523 270.667 411.450 49.765 388.830 409
gerais Sul 2.109.920 163.498 1.822 . 1.511.299 130.725 420.176 32.601 176.623 172
Espírito 308.937 1.751 - 139.341 - 137.971 1700 31625 51 Paraná 785.562 68.035 439 . 697.892 66.611 25.368 1.387 61.863 37
santo Santa Ca- 469.856 23.616 309 310.473 15.418 120.011 8.198 39.063
Rio de 1.378.600 24.277 3.154 - 270.514 5.872 857.330 18240 247602 165 tarina
janeiro
RG do Sul 854.502 71.847 1.074 502.934 48.696 274.797 23.016 75.697 135
São Paulo 2.990.401 466 193 - 1.430.797 . 1.184.431 466 3749890 Centro-Oeste 1.266.148 310.799 2.290 - 904.482 234.275 252.746 76.104 106.630 420
Sul 2.306.608 4.730 429 . 690.758 125 1.438.244 4594 177177 11
MG do Sul 218.587 50.263 550 127.544 33.186 71.092 17.035 19.401 42
Paraná 907.086 11 , 89.416 749.815 67855 11 Mato Grosso 287.486 77.241 188.642 53.582 81.078 23.659 17.766
Santa 513.301 - 317 - 215.677 261.391 - 35916 -
Catarina Goiás 554.224 157.749 240 417.322 122.026 100.576 35.410 36.086 313
RG do sul 886.221 4.719 112 385.665 125 427.038 4594 73406 - Distrito Fe-
Centro 205.851 25.546 1.500 - 170.974 25.481 - 33.377 65
1.316.140 40.614 240 573.656 17.245 626.458 23026 115786 343 deral
oeste
MG do sul 240.888 1.020 - 93.407 663 127.584 156 19897 201
Fonte: MEC/INEP/SEEC.
Mato 324.134 15.883 - 119.854 7.976 185.901 7907 18379 - Nota: Foram considerados como noturnos os turnos com início a partir das 17 horas (inclusive).
grosso
Goiás 569.993 23.711 240 212.011 8.606 312.973 14963 44769 142
Distrito 181.125 - - 148.384 32741
federal

Fonte: MEC/INEP/SEEC.
Nota: Foram considerados como noturnos os turnos com início a partir das 1 7 horas (inclusive).
Página 228 Página 130__________ Página em branco no original
Página 131
Ensino Regular - Matrícula, em 26/3/97, no Ensino Médio, por
Dependência Administrativa e Localização - 2002 Bibliografia
Unidade da Matrícula, por Dependência Administrativa e Localização
Federação

Total Rural
Total Federal Estadual Municipa Privada Total Federal Estadual Municipal Privada
Brasil 8.192.948 112.343 6.662.727 264.459 1.153.419 99.775 17.666 56.313 1 7.967 7.829
Norte 571.594 10.428 512.496 3.968 44.702 11.011 1.305 7.053 1.647 1.006 BORDIGNON, Genurusino e Oliveira, Luis S. Macedo, "A Escola Cidadã: Uma
Rondônia - 46.767 272 39.186 1.912 5.397 2.371 272 375 1.277 447 Utopia Municipalista", in Revista de Educação Municipal, São Paulo, Cortez
Acre 25.110 105 22.862 366 1.777 545 . 545 Editora/UNDIME/SEAD, n.° 4, maio, 1989.
Amazonas 121.094 3.004 106.623 91 11.376 643 . 336 91 216 CARNEIRO, Moaci Alves, Educação Comunitária: Faces e Formas, Petrópolis,
Roraima 21.318 783 20.275 . 260 644 . 644 Vozes, 1987, 2a edição.
Pará 264.469 5.861 237.507 1.275 19.826 5.211 630 4.302 279
Amapá 30.270 27.113 . 3.157 517 452 65 —, Os Projetos Juvenis na Escola de Ensino Médio, Petrópolis, Vozes, 2002.
Tocantins 62.566 403 58.930 324 2.909 1.080 403 399 278
Nordeste 1.923.582 35.024 1.408.198 182.785 297.575 36.701 5.551 15.794 13.496 1.860 —, A Escola sem Paredes, São Paulo, Escrituras, 2002.
Maranhão 206.623 P 3.300 121.971 52.348 29.004 6.864 887 4.933 886 158 —, A Interface Educação Especial - Educação Profissional, Brasília. SEESP/MEC,
Piauí 107.857 2.966 76.331 3.301 25.259 667 236 210 23 198 2003.
Ceará 264.431 3.437 201.690 4.127 55.177 1.447 689 758 _ _
RG do 130.142 4.672 99.039 7.597 18.834 855 254 240 361 - COSTA, Messias, O Brasil e seu Futuro - Um Estudo das Fragilidades Nacionais,
Norte Editora Alfa-Ômega, São Paulo, 1997.
Paraíba 117.271 2.528 86.554 5.705 22.484 791 369 422 . —, A Educação nas Constituições do Brasil. Dados e Direções, DP&A Editora, Bi-
Pernambu- 353.634 6.310 263.904 25.542 57.878 7.756 1.199 3.486 2.767 304
co blioteca Ampae, Rio de Janeiro, 2002.
Alagoas 89.436 3.758 51.171 7.999 26.508 2.744 436 869 1.229 210 GADOTTl, Moacir, Pedagogia da Práxis, São Paulo, Cortez Editora, 1995.
Sergipe 67.376 1.639 52.750 3.229 9.758 1.155 323 372 332 128
Bahia 586.812 6.414 454.788 72.937 52.673 14.422 1.158 4.504 7.898 862 INSTITUTO INTERDISCIPLINAR DE BRASÍLIA, Pareceres e Resoluções do
Sudeste 3.914.741 36.571 3.232.355 66.572 579.243 28.169 4.674 19.067 1.414 3.014 Conselho Nacional de Educação: 2001/2003, Brasília, 2004.
Minas Ge- 993.009 13.426 843.018 30.817 105.748 9.132 3.449 4.368 1.072 243
rais MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, Textos Legais Básicos, Brasília, 2002.
Espírito 167.222 4.119 134.613 1.759 26.731 2.915 1.225 868 822
Santo —, Educação Profissional - Legislação Básica, Brasília, 2001.
Rio de Ja- 675.369 15.920 480.428 13.100 165.921 8.243 - 6.998 281 964 —, Diretrizes Nacionais para Educação Especial na Educação Básica, Brasília,
neiro 2001.
São Paulo 2.079.141 3.106 1.774.296 20.896 280.843 7.879 6.833 61 985
Sul 1.206.688 21.498 1.017.913 7.493 159.784 15.472 3.478 10.319 501 1.174 —, INEP, Sinopse Estatística de Educação Básica, Brasília, 2003.
Paraná 491.095 7.775 433.151 102 50.067 4.310 235 3.363 . 712 —, INEP, Sinopse Estatística da Educação Superior, Brasília, 2003.
Santa Ca- 249.711 4.763 205.543 1.242 38.163 4.817 1.192 3.525 51 49
tarina —, Plano Nacional de Educação, Brasília, 2002.
RG do Sul 465.882 8.960 379.219 6.149 71.554 6.345 2.051 3.431 450 413 —, Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental, SEF/MEC,
Centro- 576.343 8.822 491.765 3.641 72.115 8.422 2.658 4.080 909 775 Brasília, 1996.
Oeste
MG do Sul 88.795 443 72.802 311 15.239 1.215 - 675 76 464 —, Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio, SEMTEC/MEC, Brasília,
Mato 99.973 3.464 84.429 1.798 10.282 3.900 1.272 1.851 706 71 1999. MITTLER, Peter, Educação Inclusiva, ArtMed, Porto Alegre,
Grosso 2003.
Goiás 254.548 3.386 225.594 1.532 24.036 2.332 1.386 579 127 240
Distrito 133.027 1.529 108.940 - 22.558 975 975 - RANIERE, Nina Beatriz, Educação Superior, Direito e Estado, São Paulo, Fapesp,
federal Edusp, 2000.
SISTO, Firmino Fernandes et ai., Dificuldades de Aprendizagem no Contexto
Fonte: MEC/INEP/SEEC. Psicopedagógico, Petrópolis, Vozes, 2001.
UNESCO, Educação: um tesouro a descobrir, S. Paulo, Cortez
Editora/Unesco/MEC.
VEIGA, lima Passos A. (Org.), Projeto Politico-Pedagógico da Escola. Uma Cons-
trução Possível. São Paulo, Papi, 1997.