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NOÇÃO DE CORTESIA

Quando se fala de cortesia, um dado que merece ficar claro, é o de que ela é universal e
está presente em toda esfera social, constituindo-se como um conjunto de regras que os
interlocutores adotam de modo a tornar a interação mais equilibrada possível. Importa
ressaltar que a cortesia linguística estabelece uma relação intrínseca com a noção de face
que deriva dos trabalhos de Goffman (1967).

Como bem nos assegura Goffman , no seu livro On Face-Works: An analysis of ritual
elementsin social interaction (1967),
“the term face may be defined as the positive social value a person
effectively claims for himself by the line others assume he has taken
during a particular contact. Face is as image of self-delineated in terms
of approved social attributes – albeit an image that others may share,
as when a person makes a good showing for his profession or religion
by making a good showing for himself”
Neste caso, o locutor investe na sua imagem social, qual ele pretende preservar e ao
mesmo tempo transmitir, isto é, uma imagem do eu virada para os atributos e valores
estabelecidos pela sociedade.

Goffman (1980) retorna e acrescenta duas atitudes principais que estão imbricadas no
exercício da linguagem: o autorrespeito e a consideração com o próximo (o que
posteriormente Brown e Levinson chamaram de face negativa e face positiva). O
autorrespeito consiste na preservação da própria face, e a consideração com o próximo
consiste na preocupação com a face do outro.

Geofrey Leech também concorda com Goffman, no que toca a cortesia, afirmando que
esta manifesta-se não só no conteúdo da conversa, mas também na forma como a conversa
é gerenciada e estruturada pelos seus participantes” (tradução nossa).

“…politeness is manifested not only in the content of conversation, but


also in the way conversation is managed and structured by its
participants. For example, conversational behaviour such as speaking
at the wrong time (interrupting) or being silent at the wrong time has
impolite implications. Consequently we sometimes find it necessary to
refer to the speech acts in which we or our interlocutors are engaged,
in order to request a reply, to seek permission for speaking, to
apologize for speaking, etc.” (Leech 1983: 131-132)
Ainda no âmbito da teoria da cortesia linguística, Brown & Levinson (1987), definem a
face como sendo “the public self-image that every member wants to claim for himself”.
Percebe-se desta forma que Brow e Levinson sustentam-se das ideias de Goffman, no
seu entendimento sobre face, deixando claro que a face é “ a autoimagem pública que
todo membro quer reivindicar para si mesmo” (nossa tradução).
Para estes, na construção da imagem do eu, está presente no individuo uma face negativa,
que corresponde ao direito de não se expor ou à necessidade básica de se reservar, e uma
face positiva, que corresponde ao desejo de ser apreciado ou valorizado pelos outros.

Uma definição clara e sucinta nos é trazida por (LEITE, 2008, p. 55), quem entende a
cortesia linguística,

“ […] como um fenômeno em que os falantes, por meio de


determinados mecanismos linguísticos, buscam uma dinâmica
equilibrada e harmoniosa de se “comportar” de maneira previamente
esperada como cortês, para manter notavelmente estável e harmônica
a relação interpessoal, o que implica terem os interlocutores de
preservar mutuamente suas imagens de pessoas civilizadas.”

Desse modo, a cortesia linguística pode ser entendida como uma ferramenta comunicativa
usada pelo falante, em prol da construção e preservação de sua face, para atingir
determinados fins em determinadas situações comunicativas. Por outro lado, a face é a
imagem que o falante pretende construir a seu respeito e está associada às impressões que
ele pretende provocar nos seus interlocutores e aos objetivos que ele pretende alcançar.

Classificação da Face
Para Goffman (1967:5), citado por Gonçalves Segundo (2015), “ toda interação é
potencialmente ameaçadora, o que leva os interlocutores a realizarem, continuamente, um
trabalho de monitoramento do comportamento verbal de todos os participantes, incluindo
o seu, de modo a realizar, sempre que possível, os reparos necessários para a manutenção
da imagem pública e da harmonia social.”

Tentativa de manutenção do equilíbrio:

 Evitar comportamentos que ameacem a face;


 Corrigir atos verbais de ameaça à face.

Influenciados pelos trabalhos de Goffman, sobre a questão das faces, Brown e Levinson
(1987), assim a refletem:

“ Assim a face é algo em que há investimento emocional e que pode ser


perdida, mantida ou intensificada e que tem que ser constantemente
cuidada numa interação. Em geral as pessoas cooperam (e pressupõem
a cooperação mútua) na manutenção da face na interação, sendo essa
cooperação baseada na vulnerabilidade mútua da face. Isto é,
normalmente, a face de qualquer um depende da manutenção da face
de todos os outros e, como se pode esperar que as pessoas defendam
suas faces quando ameaçadas e, ao defender suas próprias faces,
ameacem a face dos outros, geralmente é do interesse de cada
participante manter a face do outro, isto é, agir de forma a assegurar
aos outros participantes que o agente está atento às pressuposições
relativas à face ameaçada.”(Traduzido)
Ampliando o conceito derivado de Goffman, Brown e Levinson (1987) também
defendem a conversação como uma atividade potencialmente ameaçadora às faces dos
participantes. Segundo eles, as faces classificam-se em :

1) Face negativa: corresponde ao desejo de liberdade de ação. Envolve a contestação


básica aos territórios, reservas pessoais e direitos.

2) Face positiva: corresponde ao desejo de ver a autoimagem ou personalidade aprovada


e apreciada pelos demais, ou seja, é o desejo de aprovação social.

Os autores postulam, ainda, que três fatores sociológicos e culturalmente determinados


que influenciam no nível de cortesia entre o locutor e o interlocutor. Trata-se dos
seguintes fatores:
a) a distância social entre locutor e interlocutor;

b) o poder relativo do locutor sobre o interlocutor;

c) o grau de imposição do ato de fala em determinada cultura.

Desenvolvem, assim, o conceito de face-threatening acts (atos ameaçadores da face),


conhecido pela sigla FTA. A esse conceito correlaciona-se outro: o de face want (desejos
da face), ou seja, o desejo mútuo de preservação da face. Atos que ameaçam a face
negativa do interlocutor:

1. Atos que ameaçam a face positiva do interlocutor:

a) Ordens, pedidos, conselhos, sugestões, advertências, etc.

Tais atos constituem ameaças porque pressionam o interlocutor a realizar ou deixar de


realizar algo;

b) Ofertas e promessas (pressionam o interlocutor a aceitar ou rejeitar tais atos,


implicando algum débito para este);
c) Elogios, expressões de inveja ou admiração, etc.

Constituem atos ameaçadores porque dão ao interlocutor razão para pensar que deve
proteger o objeto de desejo do locutor ou oferecer-lhe tal objeto.

2. Atos que ameaçam a face positiva do interlocutor:

a) Críticas, insultos, desaprovação, acusação, repreensão, desprezo, etc.

Representam ameaças, porque indicam que o locutor não valoriza desejos, atos,
características pessoais, bens, crenças e valores do interlocutor;

b) Desacordos, contradições e desafios por indicar que, para o locutor, aquilo que o
interlocutor pensa é desaprovado;
c) Abordagem de tópicos perigosamente emocionais ou que provocam divisão de
opiniões, como política, raça, religião, liberação feminina, por criar uma
atmosfera potencialmente perigosa à face;
d) Ausência de cooperação em uma atividade, como a interrupção da fala do outro
ou falta de atenção a ela, pois demonstra falta de preocupação com as faces
positiva ou negativa do interlocutor;
e) Uso de termos de identificação marcados por status, intencional ou
acidentalmente, por constituir modo ofensivo ou embaraçoso de dirigir-se ao
interlocutor.

3. Atos que ameaçam a face negativa do locutor:

a) Expressão de agradecimentos (significa que o locutor aceita que tem um débito


com seu interlocutor);
b) Aceitação de agradecimentos ou desculpas do interlocutor, pois indica que o
locutor minimiza o débito ou transgressão do outro;
c) Excusas, pois o locutor demonstra pensar que tem boas razões para não realizar
algo ou falhar em alguma atividade;
d) Aceitação de ofertas, pois o locutor sente-se impelido a assumir um débito;

4. Atos que ameaçam a face positiva do locutor:

a) Pedido de desculpas, pois, assim, o locutor admite estar arrependido por ter
realizado um FTA anteriormente;
b) Aceitação de elogios, pois o locutor sente-se obrigado a rejeitar ou a devolver o
elogio;
c) Confissões, admissão de culpa ou responsabilidade, auto-humilhação, etc.

Sobre essa classificação, os autores garantem que pode poderão surgir superposição de
ameaças, na medida em que um mesmo ato pode atingir tanto a face positiva quanto a
face negativa dos interlocutores (interrupções, fortes expressões de emoção, por
exemplo).