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Juliano de Oliveira Nunes

JORNALISMO ECONÔMICO:
O estilo Joelmir Beting

Belo Horizonte
Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH)
2010
Juliano de Oliveira Nunes

JORNALISMO ECONÔMICO:
O estilo Joelmir Beting

Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do Centro


Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) como requisito parcial à
obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo.
Orientador: Prof. Murilo Marques Gontijo

Belo Horizonte
Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH)
2010
Este trabalho é o resultado de minha paixão pelo jornalismo,
economia e política. A Deus e a minha Mãezinha Preta dispensam-se
agradecimentos porque essa é a prova da presença deles em minha
vida. Também importantes são meus pais Antonio e Rosa, eles
construíram a base do meu caminho; meus irmãos Júlio César,
Jussara, Júnior e Jusione, eles sonharam comigo; meus amados
amigos Julio Machado, Laura, Antônio e Luzia Vilas-Boas, Aender,
Kennely, Manu, Celso, Paula e Jéssica, Bicalho, Cláudio, Dani Melo,
Eliane, Bruna, Virgínia, Renata, Glenda, Sr. Eustáquio e Dona Regina,
Rubia, Tereza, Bárbara, Leydiane, Marconi, Família Pedra, amigos da
Seicho-No-Ie; Bethânia, Filipe, Kris, Anderson; Madrinha Lúcia,
Padrinho Matinho e Tia Rita, Padrinho José, Tio Xinga e Auxiliadora,
Tio Dione e Maria Helena, Tia Célia, Tio Hiomar, Adelle e Guto;
Mestres Alcântara – a mestra dos mestres –, Osiany, Vicente Geraldo,
Abel, Luciano, Diulara, Silvânia, Gisa Campos, Fernanda Agostinho,
Érika, Murilo, Sandra Freitas; meu ídolo Ayrton Senna; ícones João
Carlos Martins, João Doria Jr., Joelmir Beting, Vivian Santos, Nelson
Mandela, Steve Jobs, Bill Gates, Soichiro Honda; Juliana. A essas
estrelas meu eterno muito obrigado. “Sou do tamanho do que vejo não
do tamanho de minha altura”. Fernando Pessoa.
RESUMO

A economia é uma temática de suma importância cujos assuntos têm repercussão em todas as
classes sociais, sem distinção quanto à renda, padrão de vida ou formação escolar. Entretanto,
a aridez de sua linguagem, fechada em torno de um grupo restrito de pessoas, com mais
domínio sobre os jargões e termos técnicos, acabou por afastar o grande público das notícias
referentes è editoria. Nem o jornalismo econômico foi capaz, durante muito tempo, de
facilitar a compreensão da audiência dos veículos da imprensa. Soma-se a isso, o pouco
espaço dedicado à área nos periódicos da primeira metade do século XX, um momento em
que a economia brasileira era bem diferente dos dias atuais. Em 1964, Joelmir Beting
começou a escrever para a Folha de S. Paulo. Oriundo da editoria de esportes, o jornalista
mudou seu foco após o trabalho de conclusão do curso de sociologia da USP no qual estudou
a adaptação da mão-de-obra nordestina na indústria de São Paulo. Talvez Beting tenha levado
para os textos econômicos a leveza e simplicidade dos escritos sobre futebol. Anos depois,
teve início o período do “milagre econômico” e a cobertura de economia aumenta como
alternativa à censura à pauta de política. Beting conseguiu traduzir a temática para os leitores
e, hoje, participa do Jornal da Band, o terceiro telejornal mais assistido no país, que ocupa o
horário nobre da Band, emissora de TV aberta do Grupo Bandeirantes de Comunicação,
fundada pelo empresário João Saad. A análise dos comentários de Joelmir Beting mostrou que
o uso de linguagem popular não empobreceu a construção textual de um assunto,
aparentemente, elitizado, e o aproximou das pessoas, fazendo com que seja entendido pelos
telespectadores. Enquanto utiliza linguagem mais próxima dos receptores, a presença de
termos técnicos, infinidade de números e gráficos não faz parte dos textos do jornalista, o que
não faz falta à compreensão dos assuntos em discussão, até porque o tempo em TV é curto e a
explicação de números e gráficos demanda mais espaço na televisão. O “Chacrinha da
Economia”, como ficou conhecido no meio acadêmico, tem demonstrado, ao longo de mais
de quatro décadas, ser possível analisar a economia e transmitir suas informações a todas as
classes sociais com simplicidade, mas, ao mesmo tempo, mantendo o respeito e seriedade que
o tema exige.

Palavras-chave: Telejornalismo; Jornalismo Econômico; Joelmir Beting


LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Ticiana Villas Boas, Ricardo Boechat e Joelmir Beting em 10/2/2010 ................. 58
Figura 2 – O âncora e editor-chefe Ricardo Boechat em 10/2/2010 ...................................... 58
Figura 3 – Âncora e editora de Tempo Ticiana Villas Boas em 10/2/2010 ............................ 59
Figura 4 – Comentarista e editor de Economia Joelmir Beting em 10/2/2010 ....................... 59
Figura 5 – Joelmir Beting em 11/2/2010............................................................................... 60
Figura 6 – Joelmir Beting em 12/2/2010............................................................................... 60
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 07

1 AS PRIMEIRAS SOCIEDADES, A ECONOMIA E O BRASIL ................................. 10


1.1 A evolução da agricultura ............................................................................................... 10
1.2 Dos feudos ao mundo globalizado .................................................................................. 12
1.3 Crise na aldeia global ..................................................................................................... 15
1.4 O que é economia ........................................................................................................... 16
1.5 Da cana de açúcar ao café............................................................................................... 19
1.6 Indústria, crescimento econômico e o monstro da inflação ............................................. 21
1.7 O Brasil do Plano Real ................................................................................................... 25

2 UM JORNALISMO, VÁRIAS FORMAS ...................................................................... 27


2.1 Telejornalismo ............................................................................................................... 27
2.2 O processo de criação da notícia ..................................................................................... 30
2.3 Opinião no jornalismo .................................................................................................... 33
2.4 Jornalismo econômico .................................................................................................... 34

3 O ESPAÇO DE JOELMIR BETING ............................................................................. 39


3.1 Band .............................................................................................................................. 39
3.2 Jornal da Band ............................................................................................................... 40
3.3 Joelmir Beting ................................................................................................................ 41
3.4 Joelmir Beting no Jornal da Band ................................................................................... 42
3.5 Os comentários de Joelmir Beting .................................................................................. 44

5 CONCLUSÃO ................................................................................................................. 54

REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 57

ANEXOS ............................................................................................................................ 60
Anexo A – Imagens do Jornal da Band em 10, 11 e 12 de fevereiro de 2010 ........................ 60
Anexo B – Transcrição dos comentários de Joelmir Beting .................................................. 63
7

INTRODUÇÃO

Os assuntos da temática econômica têm uma característica muito peculiar: a linguagem


hermética, de difícil compreensão para o cidadão “comum”. O mesmo não acontece
quando se trata de áreas mais acessíveis à população, como esporte, por exemplo. O
futebol do fim de semana gera discussões acaloradas em qualquer lugar onde duas ou
mais pessoas estejam reunidas. Entretanto, é pouco comum uma troca de opiniões sobre
o aumento da taxa Selic, decidido pelo Copom, os números do PIB, a situação da
balança comercial. O esporte, além da linguagem simples, é vivido pelas pessoas do
cotidiano. Até mesmo a política, claro, não com tanta intensidade quanto o jogo de
domingo, rende longas conversas, sobretudo em tempos eleitorais ou quando casos de
corrupção ocupam espaço no noticiário.

Mas a Economia, de linguagem extremamente técnica, na maioria das vezes,


compreendida apenas pelos profissionais e estudiosos dos números, balanços, gráficos
pode ser tão acessível quanto o esporte e sua maneira simples de ser transmitida à
audiência. Além de poder ser, a Economia deve ter a mesma acessibilidade dos lances
do fim de semana, afinal, todos os cidadãos, sem distinção de classe social, dependem
das decisões econômicas tomadas dentro do gabinete do ministro da Fazenda ou na sala
onde se reúnem os membros do Copom, o Conselho de Política Monetária do Banco
Central. A sociedade complexa e diversa, na qual vivemos, precisa, diariamente, das
respostas encontradas pelos economistas, os cientistas das finanças.

Houve um tempo – 230 mil anos atrás, o homem vivia em bandos; há 10 mil anos,
surgiram as primeiras formações sociais – no qual os estudos não eram significativos
para os tenros agrupamentos humanos. Mesmo após a formação das sociedades, na
Europa e no Oriente, as cidades eram isoladas. Deslocar-se entre elas era difícil dadas as
condições das estradas, a baixa mobilidade e a inexistência de meios de transporte
eficientes. Essa situação perdurou até a Idade Média, afloramento e difusão do
feudalismo, surgimento das primeiras formas de comércio, aparecimento das relações de
troca de materiais utilizando moedas como pagamento, conforme os dias atuais. A
geografia do Planeta estava em construção e a globalização era caminho certo.

A aldeia global – conceito de Marshall MacLuhan – cristalizou-se e tornou-se


complexa. A economia entrou em cena para pesquisar, encontrar e responder as
8

questões mais difíceis de uma sociedade sem fronteiras, sobretudo após a explosão da
mídia. Hoje, circula um número gigantesco de informações ao redor do mundo. Quanto
mais informações, mais conhecimento, mais produção, mais empregos, mais renda e o
ciclo não se encerra. O desenvolvimento tecnológico aperfeiçoou os meios de
transporte, de difusão de conteúdo, as trocas. Na atualidade, é possível efetuar grandes
deslocamentos, obter notícias de um país distante, comprar produtos importados sem
precisar ir ao local onde são produzidos.

A história brasileira começou a ser escrita pelos portugueses durante a extração do pau-
brasil das matas deste solo. O Brasil passou pelo ciclo da cana-de-açúcar, pela extração
do ouro das Minas Gerais, pelo café e chegou à indústria. Hoje, de nossas minas saem
minério de ferro, de nosso litoral jorra petróleo, de nossas terras brotam soja, feijão;
exportamos commodities, mas nosso parque industrial constrói carros, eletrodomésticos
e eletroeletrônicos e aviões para o mundo. A dívida externa ficou no passado porque
nossas reservas internacionais compensam, com folga, os passivos dos governos e
empresas. No século XXI, a economia brasileira tornou-se estrela no palco onde
brilhavam Estados Unidos, Europa e os tigres asiáticos.

O capitulo II trata da televisão e nos seus telejornais. O meio de difusão mais comum
entre bilhões de habitantes mundo afora e divulgador das informações acima. Um
veiculo, ainda que superficial, o mais acompanhado entre os existentes. Dentro das
redações, muitos acontecimentos chegam a todo momento, entretanto, a maioria não
será “promovida” a notícia, a matéria-prima do jornalismo. É preciso envolver bom
número de pessoas ou pessoas proeminentes, ser próxima do receptor, ter impactos e
vender, conquistar audiência.

Noticia é passível de opinião, dada por quem conhece o assunto ou temática em questão.
Opinião que orienta, conduz, esclarece e educa. No capítulo III, está o jornalismo
econômico e a opinião que, antes ineficaz, a partir de Joelmir Beting, ajudou a traduzir o
economês para os cidadãos. O jornalista, sociólogo por formação, começou sua carreira
no esporte, mas migrou para a economia em 1964, quando ganhou uma coluna na Folha
de S. Paulo. Com passagens por veículos importantes, entre eles a Rede Globo, Beting é
editor de Economia e comentarista dos principais telejornais da Band, do Grupo
Bandeirantes de Comunicação, fundado por João Jorge Saad, entre eles o Jornal da
Band. De maneira simples, utilizando palavras e expressões populares, o “Chacrinha da
9

Economia”, como foi considerado por acadêmicos, facilitou a compreensão dos


brasileiros e mostrou que é possível tratar um tema tão árido com a mesma
tranquilidade que se trata o esporte.
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1 AS PRIMEIRAS SOCIEDADES, A ECONOMIA E O BRASIL

Este capítulo apresenta, de maneira sucinta, a evolução da espécie humana a partir do


surgimento do Homo neanderthalensis, entre 230 e 30 mil anos atrás, até o homem
contemporâneo, descendente do Homo sapiens moderno; mostra o surgimento das
primeiras sociedades complexas propiciado pelo crescimento do comércio; apresenta a
economia, ciência que estuda as relações de troca de bens materiais dentro das
sociedades, e faz um histórico sobre as transformações pelas quais o Brasil passou
desde a colonização até a condição de credor internacional.

1.1 A evolução da agricultura

Milhões de anos atrás, o homem vivia em pequenos grupos, habitava cavernas, caçava
para comer, vestia-se com peles de animais. Não percorria grandes distâncias, tal qual se
faz hoje, por causa de perigos naturais, muitos desconhecidos, e animais ferozes de
proporções gigantescas. Atividades como caçar e produzir roupas, por exemplo, fizeram
esse ser evoluir e, aos poucos, adaptar-se ao meio. Tal processo culminou com a origem
do Homo sapiens do qual descendem duas correntes evolutivas: o Homo
neanderthalensis e o Homo sapiens moderno. O primeiro teria vivido entre 230 e 30 mil
anos atrás, produzia armas, ferramentas e outros utensílios com mais sofisticação do que
seus ancestrais. Do Homo sapiens moderno, uma espécie de aproximadamente 150 mil
anos, corresponde o homem atual. Ele era capaz de efetuar grandes deslocamentos, uma
característica que o levou a se estabelecer em diversas partes do planeta em,
relativamente, pouco tempo. Além disso, e fazendo uso dos saberes cristalizados por
seus ancestrais, desenvolveu a linguagem, dominou o fogo, elaborou vários
equipamentos, criou a agricultura.

De acordo com Blainey (2007), as primeiras formações sociais mais completas surgem
no fim do Período Paleolítico, 8 mil anos a.C.. O vilarejo de Jericó foi palco dessa
transformação. Cerca de 500 anos depois, os primeiros animais domesticados
começaram a aparecer. Rebanhos de cabras e ovelhas, mesmo com poucos animais,
tornaram-se mais uma fonte de alimentos nas regiões do atual Iraque, Turquia e Irã.
Entretanto as atividades de cuidar da plantação e domesticar animais não eram exercidas
11

pelas mesmas pessoas. Domar cabras, ovelhas e bois exigia a participação de muitos
homens; os caçadores cuidavam disso, enquanto as mulheres lidavam com a terra.

Já naquela época, preparar estoques de alimentos foi extremante benéfico aos aldeães. A
construção de celeiros possibilitava a formação de reservas para gastos em momentos de
seca, uma garantia de sobrevivência por mais tempo. Além das provisões alimentares
guardadas para ocasiões difíceis, a formação de rebanhos de cabras e ovelhas permitiu a
fixação das pessoas em um lugar. Isso aconteceu por volta de 7 mil a.C. nas regiões da
atual Grécia, Sérvia e margens do Mar Adriático. Em 5400 a.C. começaram a se formar
povoamentos no oeste da Escócia e Ulster, província da Irlanda do Norte; em 3 mil a.C.
a Escandinávia começou a receber os primeiros povoamentos permanentes. Essa
ocupação lenta da Europa se deve ao fato de o velho continente, milênios atrás, ter 80%
de seu território ocupado por densas e espaçadas florestas. A derrubada das áreas verdes
com machados de pedra não era tarefa simples. Sair à caça de animais para se alimentar
exigia menos esforços.

Enquanto isso, o Norte do continente africano, entre o Egito, a Líbia até a Argélia,
recebia rebanhos bovinos domesticados. Os habitantes dessa região domaram burros,
importantes animais de carga, para utilizá-los no transporte dos insumos agrícolas e dos
proventos cultivados na terra. Outra colaboração africana foi a domesticação dos gatos.
Os felinos passaram a vigiar os celeiros de grãos, atrativos para roedores. A primeira
ferramenta utilizada no cultivo da terra foi um pedaço de pau com a extremidade afiada
e endurecida ao fogo. Essa invenção está entre as criações fundamentais da raça
humana, útil aos lavradores de muitos lugares por milênios.

Diferentemente dos povos nômades, agricultores e caçadores na maior parte do tempo, a


nova formação social viu surgir a necessidade por trabalho especializado. “Talvez 90 de
cada 100 pessoas de uma região ainda estivessem voltadas para o cultivo de alimentos,
para a caça e tarefas afins, mas as outras 10 assumiam uma grande variedade de
profissões”. (BLAINEY, 2007, p.35) Esses especialistas moravam em vilarejos ou em
cidades (vilarejos maiores), uma formação inviável sem o desenvolvimento da lavoura.
A capacidade de alimentar as pessoas era multiplicada muitas vezes com o uso eficiente
do solo, dos minerais e da pesca, um diferencial que os nômades não possuíam.

Com uma população mundial em crescimento, a agropecuária foi item de sobrevivência


fundamental. Um registro importante: o número de habitantes do planeta subiu de cerca
12

de 10 milhões, quando da criação das primeiras formas de agricultura, para algo em


torno de 300 milhões, na época de Cristo. Mas esse aumento foi bem mais lento se
comparado às taxas atuais. A explicação está nas várias epidemias que assolaram os
agrupamentos humanos, cada vez maiores e ainda sem conhecimento sobre prevenção
de doenças. De acordo com Blainey (2007), os nômades levavam vantagem nisso. Ao
percorrer os caminhos em busca de novas terras, deixavam seus dejetos para trás. Como
se vestiam com poucas roupas ficavam mais expostos à luz solar, o que dificultava e até
impedia a proliferação de germes; não possuíam animais, por isso eram menos
propensos a doenças.

1.2 Dos feudos ao mundo globalizado

Chega a Idade Média e aparece um sistema de povoamento conhecido como


Feudalismo. Os agrupamentos humanos eram formados por um senhor de terras ou
senhor feudal que residia, em companhia da família, em castelos com fartura de comida
e bebida. Religiosos, servos e cavaleiros formavam os demais grupos sociais do período
feudal. As funções de cada categoria eram bem definidas: os sacerdotes pregavam a
palavra, os militares lutavam e defendiam as propriedades senhoriais e os trabalhadores
eram responsáveis por garantir alimentos e roupas aos clérigos, aos homens da
segurança e ao senhor e sua família.

O trabalho agrícola, principal atividade do Feudalismo, era bastante diferente das


práticas agrárias de nossos dias. O feudo, estrutura social existente, era formado por
uma aldeia circundada de terras aráveis onde os aldeães trabalhavam. Ao redor da
plantação havia, geralmente, bosques, pastos e terrenos ermos. Característica importante
do período: os campos de agricultura eram divididos em duas partes, uma cuja colheita
pertencia ao senhor e outra arrendada. O arrendamento era pago com parte da produção
e o restante, pertencente ao camponês, garantia sua subsistência e de sua família. Até a
utilização de ferramentas e estruturas como engenhos, por exemplo, dependiam de
pagamento com parcela dos itens produzidos.

De acordo com Huberman (1981), as primeiras formas de comércio nasceram entre os


séculos X e XI. No início, as transações ocorriam como trocas. Por exemplo: se alguém
desejasse um casaco de pele para se proteger do frio oferecia pela mercadoria uma
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dezena de galinhas ou outros bens. Não havia lojas, como as de hoje, dedicadas à venda
de casacos. A baixa demanda por artigos diversos era pequena e não justificava a
produção em escala maior.

O volume de trocas cresceu e surgiram os mercados locais, onde pessoas expunham


seus produtos, ainda trocados por outros. Esses lugares eram duramente controlados
pela Igreja – na maioria dos casos os mercados funcionavam ao redor de templos –, um
entrave ao desenvolvimento dos pontos de comercialização. Segundo Huberman (1981),
outros obstáculos estavam nas péssimas condições das estradas, empecilho ao transporte
de gêneros, nas muitas moedas existentes, nas diferentes formas de se pesar alguns
artigos. Essa situação findou-se ainda no século XI, período de crescimento rápido e
intenso do comércio. Nos 100 anos seguintes, a Europa foi transformada pelas
Cruzadas, movimento acelerador das práticas comerciais. Um grande número de
europeus partiu, via terra ou mar, em direção ao Oriente. No regresso, traziam consigo
as especiarias e os finos tecidos vistos e apreciados por eles nas regiões distantes. Aos
poucos a demanda cresceu, acompanhando o aumento da população européia. As
Cruzadas também cresciam porque nem todos os homens eram donos de terras e viram
no movimento uma oportunidade de fazer riqueza.

No final do século XII, as transações efetuadas por meio de trocas perderam espaço para
as compras e vendas mediante pagamentos em moeda. Os poucos mercados foram
multiplicados e ampliados. O comércio estava em franca expansão e fez surgir uma
nova classe social, a burguesia. Os burgueses, donos do capital e do comércio, novo
impulsionador da sociedade, tornavam-se cada vez mais influentes e tal influência
aumentou ainda mais após a Revolução Industrial, no século XVIII. O trabalho braçal e
artesanal foi substituído pelas máquinas. Mecanismos e ignições, capazes de realizar as
mesmas tarefas dos homens em menos tempo e em maior quantidade, ocuparam, no
chão das fábricas, um lugar onde pessoas demoravam, às vezes, muitas horas para
confeccionar uma ou poucas peças. A realidade da produção começava a se transformar
porque, se antes não havia demanda suficiente para a produção e geração de estoques,
nem infraestrutura para tal, agora a população crescia, gerando mercado consumidor, e
o maquinário multiplicava a capacidade produtiva das unidades fabris. As relações de
troca, feitas diretamente entre quem produzia e quem comprava, foram diminuindo
gradativamente porque, nos novos tempos, raramente um consumidor negociava com
quem participou da fabricação do seu produto, mais raro ainda passou a ser a
14

possibilidade de um encontro ou negociação face to face com o proprietário da


produção. Havia um patrão e muitos operários. Difícil imaginar um senhor ou senhora
podendo negociar diretamente com eles. Essa relação se estabeleceu no comércio, junto
aos comerciantes, o elo entre a produção e o consumo.

Pouco a pouco as cidades viram surgir gente especializada em determinadas funções.


Uma divisão de tarefas absolutamente necessária, uma vez que nem todas as pessoas
eram capazes de produzir seus artigos de necessidade e porque a própria produção de
bens e serviços foi sendo ampliada para acompanhar a demanda crescente. Imaginemos
a produção de um móvel, uma cama. Até o produto final, uma série de pessoas era
acionada: lenhador, serralheiro, carpinteiro, pintor. Surge a cadeia produtiva. Quem
extrai a madeira não a corta em tábuas; quem trabalha com o martelo não usa pincel
para fazer acabamento. A cama é apenas um entre tantos itens de uma casa. Outros
exigem ainda mais especialistas em sua confecção. Hoje, as linhas de produção são uma
realidade na maioria dos países; povos que testemunharam a introdução da tecnologia
nos galpões das fábricas, considerada por estudiosos a terceira revolução industrial 1,
momento no qual os operários foram substituídos por robôs em muitas etapas do ciclo
produtivo, a escala de transformação ficou mais dinâmica, diminuiu o tempo necessário
para as peças formarem um “corpo” maior. Na fábrica da Fiat Automóveis, em Betim,
região metropolitana de Belo Horizonte, um automóvel fica pronto a cada 27 segundos,
em uma linha de montagem altamente robotizada.

Até nossos dias, a humanidade conviveu com mudanças significativas no modo de vida
das sociedades. As relações intermediadas, o trabalho de várias pessoas para produzir
um mesmo bem, o aumento significativo da população mundial, hoje na casa dos 6,7
bilhões de habitantes2, a hierarquização social, tudo isso tornou os agrupamentos
humanos – em crescimento – complexos para se estudar e entender. A tecnologia que

1
A Primeira Revolução Industrial ocorreu na Inglaterra entre o final do século XVIII e início do século
XIX. França, Bélgica, Holanda, Rússia, Alemanha e Estados Unidos ingressaram nesse novo modelo de
produção industrial. Nesse momento, duas importantes invenções propunham uma reviravolta no setor
produtivo e de transportes: a ciência descobriu a utilidade do carvão como meio de fonte de energia e a
partir daí desenvolveram simultaneamente a máquina a vapor e a locomotiva. Ambas dinamizaram o
transporte de matéria-prima, pessoas e distribuição de mercadorias. A partir de 1870, novas ferramentas
conferem mais ganhos à indústria. A Segunda Revolução Industrial é marcada pelo emprego da energia
elétrica, uso do motor à explosão e corantes sintéticos e a invenção do telégrafo. Esses recursos
estipularam a exploração de novos mercados e a aceleração do ritmo industrial. Os cientistas passaram a
se dedicar à elaboração de teorias e máquinas capazes de reduzir os custos e o tempo de fabricação de
produtos que pudessem ser consumidos em escalas cada vez maiores.
2
Dados do Banco Mundial referentes ao ano de 2008
15

amplia a produção também auxilia nas tentativas de compreensão do Mundo na era da


internet. Hoje, as notícias vão de um canto ao outro do Globo a uma velocidade antes
inimaginável. Ou inimaginável é, para nós contemporâneos, saber, por exemplo, que a
notícia da morte do ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln, em 15 de abril de
1865, demorou treze dias para ser conhecida na Europa. As viagens transcontinentais
eram realizadas, exclusivamente, via águas oceânicas. Contudo os avanços tecnológicos
permitiram ao Planeta assistir, ao vivo, em 17 de janeiro de 1991, às primeiras imagens
da invasão norte-americana ao Golfo Pérsico, a operação “Tempestade no deserto”. O
repórter da rede de TV a cabo CNN, Peter Arnett, mostrou ao mundo as cenas do
conflito ordenado por George Bush – pai. Também ao vivo, assistimos aos atentados ao
World Trade Center, em setembro de 2001, em Nova York, e a consequente invasão ao
Afeganistão em busca de Osama Bin Laden, responsabilizado pela ofensiva às torres do
WTC; ao desembarque das tropas de George W. Bush – filho – no Iraque para caçar
Saddam Hussein; aos últimos momentos de vida do papa João Paulo II, um dos líderes
mais carismáticos dos nossos dias. Hoje, uma notícia, mesmo na China, Estados Unidos,
Europa ou Dubai, nos Emirados Árabes, percorre a Terra em segundos e pode provocar
um efeito dominó de proporções gigantescas. A aldeia global, conceito criado pelo
canadense Marshall MacLuhan, em 1967, mostra que nenhum país é uma ilha, isolada
em meio a um oceano calmo – se é que existem oceanos calmos – ou agitado.

1.3 Crise na aldeia global

MacLuhan tinha mesmo razão e a crise financeira pela qual o mundo atravessou entre o
segundo semestre de 2008 e os primeiros seis meses de 2009 – alguns países, entre eles
os Estados Unidos e o continente europeu, por mais tempo ainda – deixou isso bastante
evidente. Problemas no setor imobiliário norte-americano contaminaram os bancos que
não recebiam mais, ou recebiam em menor quantidade, os pagamentos de parcelas das
hipotecas de casas e apartamentos financiados pelas famílias americanas pertencentes à
baixa renda, o grupo de risco do chamado subprime3. Como os agentes bancários, a
quem se recorre para financiar um empreendimento, passaram para a retaguarda, a fim

3
O sistema de financiamento de moradias às famílias de baixa renda norte-americanas foi criado pelo ex-
presidente Bill Clinton (1993-2001). As primeiras agências a financiarem imóveis foram a Freddie Mac e
Fannie Mae. As duas instituições, patrocinadas pelo governo dos Estados Unidos, estavam entre as
primeiras a serem afetadas pela crise.
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de proteger seus ativos financeiros, a maioria ou quase todo o sistema produtivo global
foi afetado. Onde buscar capital para investir e produzir? Os grandes conglomerados
empresariais, responsáveis por boa parte da produção de bens e serviços para o consumo
planetário, optaram por reduzir a necessidade por mão-de-obra. As notícias eram cada
dia piores: milhões de demitidos nos Estados Unidos e na Europa. Quem não o fez,
ofereceu redução na jornada de trabalho com abatimento nos salários, férias coletivas.
Medidas para reduzir os gigantescos estoques formados em decorrência da queda
acentuada no volume de compras em escala global. A montadora japonesa Nissan
estocou carros em navios e aeroportos, uma alternativa aos seus pátios lotados. Com
ações negociadas em bolsas de valores do mundo inteiro, várias empresas viram o valor
de seus papeis cair a níveis preocupantes. O banco de investimentos norte-americano
Merrill Lynch perdeu 1/3 de seu valor de mercado entre setembro de 2008 e setembro
de 2009 e foi vendido, por 44 bilhões de Dólares, para o concorrente Bank of America,
um dos líderes do setor financeiro dos Estados Unidos. Outro banco, o Lehman
Brothers, a quarta maior instituição de investimentos dos EUA, seguiu rumo à falência.
As notícias da mega-desvalorização do Merrill Lynch e da quebra do Lehman Brothers
contaminaram o mundo inteiro e foram seguidas por uma série de fatos que, durante
meses, abalou a economia mundial.

Essa tormenta financeira, considerada por analistas a pior desde o crack da Bolsa de
Nova York, em 1929, deixou vários questionamentos, um dos principais foi em relação
ao papel do Estado sobre os agentes financeiros: bancos, agências de rating, empresas
de consórcios etc. Países onde as autoridades financeiras fiscalizavam intensamente esse
sistema foram menos prejudicados ao longo da crise. Governos que não fiscalizavam
tanto assim – ou não o faziam – conviveram com situação bem pior e durante muito
mais tempo.

1.4 O que é economia

O mundo evoluiu. Do homem primitivo – caçador, habitante de cavernas, vestido em


peles de animais –, passando por nômades – peregrinos constantes em busca de
suprimentos –, feudos, mercados, burgos, até este mundo globalizado e altamente
complexo, onde poucas pessoas têm o know-how para produzir bens e serviços com a
finalidade de atender a bilhões; onde um asiático fabrica artigos vendidos em todo o
17

mundo e investidores de quaisquer países possuem negócios na Ásia, Américas, Europa,


África e Oceania, ou ações de empresas dessas regiões, uma ciência é fundamental na
compreensão de boa parte dos questionamentos dos povos do planeta: a economia. Essa
área do conhecimento humano estuda a produção, comercialização e consumo de bens e
serviços e é importante na busca do equilíbrio entre a criação de bens, capazes de
atender à demanda, cada vez mais crescente, e a necessidade por matérias-primas, mais
escassas na medida em que o tempo passa. São duas vertentes de estudo: a
microeconomia e a macroeconomia. A primeira está voltada para o comportamento dos
agentes econômicos: famílias, empresas, governo (administração pública) e resto do
mundo (conjunto dos países). A segunda estuda a economia como um todo. Sua
preocupação é o impacto das decisões da equipe econômica do governo no dia a dia da
sociedade.

Todos os atores econômicos dependem da economia. Pais e filhos precisam tomar


decisões relacionadas ao lar. Comprar mais longe por ser mais barato ou mais perto, o
que dispensa o uso do automóvel? Morar mais próximo da escola das crianças ou do
trabalho dos pais? Aproveitar uma promoção ou poupar para garantir poder de compra
no futuro? Alugar ou financiar? Guardar a renda no banco ou fazer um plano de
aposentadoria privada? Famílias tomam decisões até nos fins de semana. Ir ao cinema
com toda a família ou alugar alguns DVDs e fazer pipoca? O que é mais barato? O que
tem melhor relação custo-benefício? Um empresário fica de olho nas taxas de juros para
decidir se investe agora ou daqui a alguns meses; se lança ações na bolsa, debêntures,
ou pega empréstimo em um banco; se desenvolve outro produto e cria um nicho de
mercado ou aperfeiçoa seu portfólio; se promove uma fusão com um concorrente maior
e busca novos mercados ou se permanece no mercado local onde tem boa cartela de
clientes. Famílias e empresários tomam decisões que ficam restritas a um pequeno
número de pessoas ou a algumas centenas ou poucos milhares de homens e mulheres.
Entretanto as autoridades fazem escolhas por uma região e por um país inteiro. Então,
falamos de milhões de vidas, todas à espera da palavra do ministro da pasta econômica
sobre uma recente medida, importante para as famílias, empresários, investidores,
trabalhadores com ou sem vínculo empregatício. Diminuir as taxas de juros para
incentivar a geração de emprego ou mantê-la – até mesmo aumentá-la – para evitar uma
alta inflacionária? Reduzir a carga tributária para aumentar as vendas ou mantê-las para
ampliar programas de distribuição de renda? Emitir moeda para financiar os gastos com
18

a máquina pública ou implantar um corte no custeio da administração? Somos bilhões


de habitantes no planeta Terra tomando decisões full time ou à espera das palavras de
empresários e dos governos.

As respostas a tantas perguntas podem ser obtidas junto aos economistas, os cientistas
da economia. Diferentemente dos cientistas em laboratórios, em meio a cobaias, tubos
de ensaio, líquidos e teses sobre a vida, os economistas vivem rodeados por números,
estatísticas, gráficos e questionamentos a respeito da sociedade. No laboratório, pode-se
estar à procura da cura para uma doença ou pesquisando o efeito de um elemento em um
camundongo. No escritório de uma equipe econômica, a pergunta está relacionada aos
efeitos de curto, médio e longo prazo da política de incentivo à indústria automobilística
implantada pelo governo ou a análise da última pesquisa realizada por algum instituto.

Qualquer cientista seja ele estudioso das áreas humanas ou sociais – caso da economia –
trabalha a partir de teorias. Formular uma ideia faz um pesquisador buscar dados que
corroborem ou mesmo gerem dúvidas, até neguem, uma hipótese. Biólogos, químicos,
físicos, economistas procuram elementos em todo o mundo para responder as perguntas
que a sociedade complexa faz todos os dias. Quanto mais hermética, mais perguntas,
mais incertezas, mais dúvidas, consequentemente mais trabalho para os cientistas.
Afinal, uma tribo de índios, isolada no meio da Amazônia, ou os touaregs, que
atravessam o Saara montados sobre camelos, não têm tanta necessidade de saber o
resultado da recombinação genética do DNA de uma planta ou animal qualquer ou
mesmo se a elevação no imposto sobre importação de máquinas vai trazer o resultado
esperado. Índios amazônicos e touaregs não tendem a se preocupar com essas coisas.

Como área do conhecimento, altamente especializada, a economia está repleta de


palavras e expressões que a tornam de difícil compreensão para a maioria dos cidadãos.
São verbetes que, junto a gráficos, estatísticas, números e análises fazem desse um tema
árido para se discutir sem um mínimo de conhecimento. Vemos, nos telejornais, o
movimento da bolsa de valores, operando em alta ou baixa, acompanhando a cotação
das ações; somos informados sobre a taxa do câmbio; é anunciado o resultado da
balança comercial, em déficit ou superávit; periodicamente é divulgado o resultado do
PIB. Há ainda aqueles que exigem um pouco mais de contato com a economia. Um
investidor realiza uma operação no mercado futuro; o Banco Central diminui o
compulsório para aumentar a liquidez do mercado; o Brasil ainda exporta muitas
19

commodities, produtos com baixo – ou sem – valor agregado; o spread bancário é muito
elevado; o aumento da Selic visa a controlar a inflação. Esses são apenas alguns
exemplos de quão técnica é a economia, tanto que fala-se em uma linguagem própria: o
economês. Assim como outras linguagens, passível de “tradução”.

1.5 Da cana de açúcar ao café

Quando se fala da sociedade brasileira, a dependência dos estudos econômicos é a


mesma dos demais países do Globo. A partir do século XVI, período em que começou a
colonização brasileira, nossa economia evoluiu de um sistema agrário para um parque
industrial desenvolvido e uma agropecuária altamente mecanizada.

De acordo com Furtado (1998), o primeiro empreendimento dos portugueses nessas


terras, a partir da colonização, foi dedicado à atividade extrativista do pau-brasil, planta
com várias utilidades, da qual podia se obter uma tinta para tecidos. Esse vegetal era
abundante nas matas da colônia. A derrubada das florestas de pau-brasil abriu caminho
para a agricultura, uma iniciativa na qual era empregada a técnica portuguesa de
manipulação de terras, entretanto custos elevados obrigaram os colonizadores a
contarem com capital holandês. A produção era voltada na quase totalidade para
exportação o que tornou o uso da mão-de-obra essencial. Começou então um novo
negócio: a importação de negros africanos.

Com o retorno financeiro alcançado no empreendimento agrícola, a coroa portuguesa


viu boas perspectivas em relação à exploração das terras brasileiras. No lado espanhol
(as terras do Novo Mundo, as Américas, foram divididas entre Portugal e Espanha pelo
Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494), a extração de metais preciosos prendia a
atenção dos exploradores e eles, até por pressão dos vizinhos, limitavam-se a seus
domínios, além de não utilizarem mão-de-obra escrava. Eles recorreram aos nativos,
profundos conhecedores das densas matas do hemisfério oeste da América do Sul.

O ciclo da cana-de-açúcar, pioneiro neste solo, levou à construção de engenhos.


"Admitindo-se a existência de apenas 120 engenhos – ao final do século XVI – e um
valor médio de 15 mil libras esterlinas por engenho, o monte total dos capitais aplicados
na etapa produtiva da indústria resulta aproximar-se de 1,8 milhão de libras”.
(FURTADO, 1998, p. 46) Para trabalhar nesses locais, eram utilizados 20 mil escravos,
ao preço médio de 25 libras, cada um. O trabalho necessitava também de uso de gado.
20

Os canaviais invadiam as matas fechadas e os animais eram empregados na busca de


lenha em regiões cada vez mais longínquas. Entretanto a possibilidade de criar bovinos
nas localidades onde se produzia cana-de-açúcar foi imediatamente inviabilizada. A
criação de animais teve seu desenvolvimento direcionado para as atuais regiões
Nordeste4 e Sul. A ocupação das terras era extensiva e itinerante.

A extração de ouro sucedeu a atividade canavieira no Brasil. O declínio da indústria


açucareira foi provocado principalmente pela concorrência com outros produtos
desejados pelos clientes europeus. A monarquia portuguesa sabia que precisava buscar
os metais preciosos, há muito conhecidos por lá e não explorados pelos portugueses
aqui residentes. Portugal conhecia a técnica de lavra, mas estava pobre. Isso explica, em
parte, a rápida evolução do ciclo do ouro que, por sua vez foi responsável pela formação
da primeira caravana portuguesa de colonização espontânea rumo ao Brasil. De acordo
com Furtado (1998), a exportação de ouro cresceu até 1760 quando atingiu o número
máximo de 2,5 milhões de libras. Nos vinte anos seguintes, esse valor registrou queda
superior a 50%.

Declinado o ciclo do ouro, a siderurgia entrou em cena. A metalurgia do ferro era


necessária porque crescia a necessidade de uso de animais ferrados, assim o minério de
ferro e o carvão vegetal, abundantes por aqui, viraram matéria-prima para uma nova
indústria, movida pela técnica dos escravos africanos. Entretanto o empreendimento
fracassou devido à baixa demanda causada pelo fim da exploração massiva do ouro que
fez baixar a procura por ferramentas cuja matéria-prima era o ferro. Então surgiu outro
negócio em solo brasileiro: a produção têxtil. As mercadorias desse setor eram
destinadas tanto à população, em número crescente, quanto aos escravos. O problema é
que os produtos nacionais enfrentavam a concorrência dos ingleses, mais baratos. Não
restava outra opção a não ser baixar os preços dos produtos fabricados aqui. E eles eram
tão baixos que, muitas vezes, não cobriam os custos. O governo decidiu fixar cotas de
importação aos tecidos oriundos da Inglaterra. Uma medida também prejudicial à
população já empobrecida após o declínio do ouro. Era necessário modernizar o parque
industrial brasileiro, mas os ingleses dificultavam ao máximo a exportação de máquinas
para nosso território.

4
Nos estados de Pernambuco, Bahia e Alagoas o ciclo da cana-de-açúcar teve acentuado
desenvolvimento com vistas à produção de açúcar.
21

A partir da segunda metade do século XIX, o Brasil conheceu o café, produto originário
do continente africano, cujo cultivo, aqui, foi possibilitado pelas condições climáticas
de nosso país. Essa commodity assumiu significativa importância comercial no fim dos
anos 1800. De acordo com Furtado (1998), na primeira década após a independência, o
café já era responsável por 18% das exportações brasileiras; pouco tempo depois
alcançou a terceira posição no ranking de vendas ao exterior, atrás do açúcar e do
algodão; vinte anos depois assumiu a liderança da lista, respondendo por mais de 40%
de tudo o que vendíamos. Enquanto a produção crescia, os preços caíam, mas isto não
afastou quem desejasse cultivar o produto. Os recursos financeiros, quase ociosos desde
a decadência da mineração, foram empregados na ampliação do cultivo e o volume de
exportação aumentou mais de quatro vezes entre 1821 e 1830 e entre 1841 e 1850. No
mesmo período, o valor da mercadoria despencou cerca de 40%.

Na segunda metade do século XIX, o crescimento da economia brasileira foi


impulsionado pelo aumento do setor assalariado. Em períodos anteriores, este
movimento aconteceu por causa da massa escrava e da multiplicação dos núcleos de
subsistência. Os novos assalariados movimentavam a economia quando compravam
roupas, alimentos, artigos para uso diário, serviços etc.

Com a crise de 1893, nos Estados Unidos, o valor de exportação da saca de café caiu
cerca de 50% e não parou de declinar. A expansão das plantações aumentou os
estoques, mas a demanda não acompanhou o volume ofertado. Este quadro de
desequilíbrio levou o governo a adotar uma série de medidas para restabelecer a
tranquilidade à população: intervenção no mercado, através da compra do excedente, e o
desincentivo, por parte dos Estados, à expansão das plantações. O primeiro foi
possibilitado por empréstimos junto ao exterior, pagos por um novo imposto, cobrado
em ouro, sobre cada saca exportada. Com o crack de 1929 na bolsa de Nova York
muitos cafeicultores não puderam mais vender o produto para o exterior porque
inúmeras fortunas evaporaram da noite para o dia ao redor do mundo, além disso, o café
não é um artigo de primeira necessidade, tendo, caso necessário, sua compra relegada
para segundo plano.

1.6 Indústria, crescimento econômico e o monstro da inflação

De acordo com Gremaud (2007), a condição de país agroexportador durou até,


aproximadamente, a década de 1930. A partir daí esse modelo começou a ganhar outro
22

formato, passando para o sistema conhecido como industrialização por substituição de


importações5. Com isso, a indústria nacional foi protegida da concorrência externa por
uma legislação protecionista. A população, antes rural, em sua maioria, aos poucos
migrou para as cidades dando início à urbanização do Brasil. Em 1940 mais de 2/3 da
população brasileira morava no campo, hoje, menos de 20% dos brasileiros residem em
sítios, fazendas ou chácaras. A agricultura também perdeu participação na produção
nacional enquanto a indústria ganhou em presença nos números nacionais. Em 1950,
cada área representava 25% de nossas riquezas. Nos anos 1990, a agricultura respondia
por apenas 10%, permanecendo até o início dos anos 2000 nesse patamar, enquanto a
indústria alcançava 35% de contribuição para o PIB do Brasil. A liderança atual no giro
financeiro nacional é do setor de serviços, perfazendo uma participação superior a
60%6. A fatia do campo na produção brasileira diminuiu, mas continua sendo
importante em sua composição. Exportamos muitos produtos agrícolas como grãos,
frutas e carnes, alguns considerados semi-industrializados como celulose, ouro em
forma semimanufaturada, ferro fundido, couros e peles, açúcar em bruto e ferro-ligas7.

“A industrialização não se fez, pelo menos de imediato, visando ao mercado


internacional, ou seja, não se industrializou o país para exportar produtos
manufaturados”. (GREMAUD, 2007, p. 322) Até a década de 1960, o Brasil tinha
dependência, nas exportações, de poucos produtos primários, com destaque para o café,
como item número 1, e ano após ano, a segunda posição na pauta de exportações era
ocupada pela borracha ou cacau ou algodão, perfazendo uma participação de 55% nas
vendas brasileiras ao exterior. Foi justamente em torno do café que cresceu o
movimento industrial brasileiro. A partir da década de 1970, o portfólio de exportações
do Brasil se diversificou, diminuindo a vulnerabilidade externa em relação à balança
comercial. O ferro e a soja apareceram na lista, sendo a commodity agrícola o produto
de destaque nos embarques para outros países desde os anos 1980, segundo Gremaud
(2007). Soja e ferro representam, hoje, 10% do que vendemos ao resto do mundo. Nos
últimos anos, o Brasil ampliou seu leque de produtos comercializados ao exterior e um

5
De acordo com o economista Wilson Suzigan, a industrialização por substituição de importações (ISI)
verifica-se empiricamente quando ocorre crescimento da produção industrial com expansão da demanda
interna, simultaneamente a uma redução do coeficiente de importações da indústria (participação relativa
das importações no produto industrial). De um modo geral, a SI contribuiu positivamente para dinamizar
o crescimento da produção interna, principalmente nas fases iniciais da industrialização.
6
Dados do IBGE
7
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior
23

dos efeitos disso foi uma menor vulnerabilidade a choques externos proporcionada à
nossa balança comercial.

Na década de 1930, tendo na presidência da República o gaúcho Getúlio Vargas, o


Brasil conheceu a CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas –, um conjunto de normas
que trazia uma série de benefícios aos trabalhadores urbanos. O principal objetivo do
governo era evitar radicalizações da massa urbana nas mãos de comunistas e
anarquistas. Nas décadas seguintes aconteceu um forte crescimento industrial em nosso
país, voltado para o mercado interno. O Estado teve participação ativa no processo de
desenvolvimento do parque produtivo brasileiro em várias frentes: a criação de uma
Legislação Trabalhista com o objetivo de formar e regulamentar um mercado de
trabalho nas cidades e a relação entre empregados e empregadores; a geração de infra-
estrutura de transportes e energia que, até a Segunda Guerra Mundial, teve como
preocupação eliminar os pontos de estrangulamento e, no pós-guerra, com algum
planejamento, buscou evitá-los; o fornecimento de insumos básicos em complemento ao
setor privado, impossibilitado de fazê-lo naquele momento. Foram criadas a Companhia
Siderúrgica Nacional (CSN), Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), Companhia
Nacional de Álcalis (CNA), Petrobrás e algumas usinas hidrelétricas. O governo atuou
ainda na captação e distribuição de poupança através do Banco do Brasil e do BNDE,
criado em 1952, hoje BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social.

Entre 1956 e 1960, impulsionado pelo Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, o


desenvolvimento industrial brasileiro se acentuou. O setor de produção de bens duráveis
ganhou força. Destaque para a fabricação de veículos automotores e seu nicho. O
governo investiu em transporte rodoviário, em detrimento ao sistema ferroviário do
período de Vargas, e em geração de energia elétrica. Os incentivos foram direcionados
também ao setor de bens intermediários, como aço, carvão, cimento, zinco, entre outros
e produção de máquinas. Data desse período a construção de Brasília, a nova capital
federal, erguida no Planalto Central.

De acordo com Gremaud (2007), entre 1964 e 1973, o Brasil assistiu aos anos de maior
crescimento econômico de sua história. Em 1969, foi registrado o “menor” crescimento
do PIB – Produto Interno Bruto – no período. Naquele ano, as riquezas nacionais
cresceram 9,5%. O avanço de 1973 é histórico, com uma taxa de 14%. A inflação
24

nesses nove anos oscilou entre 15 e 20%. Os presidentes foram, então, os generais Artur
da Costa e Silva e Emílio Garrastazu Médici e o ministro da Fazenda era o economista
Antônio Delfim Netto. A economia brasileira manteve-se na linha crescente durante a
década de 1970, mas os números não alcançaram dois dígitos. Em 1977, as riquezas
nacionais cresceram 4,6% e, em 1979, registraram alta de 7,2%.

O quadro do início da década de 1980 foi bastante diferente. Transformações no cenário


externo trouxeram à tona a vulnerabilidade brasileira em relação a condições externas.
O choque do petróleo, ocorrido anos antes, reverteu as garantias de financiamento
estrangeiro, sobretudo com a elevação das taxas de juros, em um momento de elevado
endividamento externo brasileiro. Esse incidente e problemas na agricultura levaram a
inflação para 77% com viés de alta. O general João Batista Figueiredo assumiu o
governo no lugar de Ernesto Geisel promovendo uma abertura política, com anistia de
exilados, maior liberdade sindical e reforma partidária. Mario Henrique Simonsen
assumiu o comando da pasta econômica e chegou à conclusão de que o excesso de
demanda interna, materializada no déficit público, era o causador da pressão
inflacionária. Porém, Simonsen não obteve sucesso na busca de bons resultados sendo
substituído por Delfim Netto que assumira a Secretaria de Planejamento com a
promessa de reeditar os anos de crescimento a números elevados. Gremaud (2007)
afirma que as propostas de Netto também não trouxeram os efeitos esperados e o Brasil
viu a inflação chegar a 100% a.a., em 1980. Nos anos seguintes, os índices de inflação
mostram dados um tanto elevados. Entre 1983 e 1985, o IGP-DI8 manteve-se acima dos
200%; entre 1988 e 1992 – exceto 1991, com 480% –, o índice apresentou altas
superiores a 1000% – em 1989 alcançou 1782,9%. Em 1993, a alta foi de
impressionantes 2708,6%. Foi nessa época que o Brasil conheceu muitos planos
econômicos com a proposta de causar quedas urgentes na inflação. Passamos pelo
Cruzado (1986), Bresser (1987), Verão (1989), Collor I (1990), Collor II (1991) e Real
(1994). Antes do Real, a ideia central era o congelamento de preços e, um após o outro,
o que havia era uma mudança em um ou outro ponto a fim de não se cometer os
mesmos erros. Se compararmos aos anos anteriores, os planos acima lograram certo
êxito no controle inflacionário. Entre as medidas citadas, apenas o plano Collor 1
registrou alta nos preços superior a 70%.

8
Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna, calculado pela Fundação Getúlio Vargas
25

1.7 O Brasil do Plano Real

O Plano Real, criado durante o mandato do ex-presidente Itamar Franco pela equipe do
então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, finalmente conseguiu conter a
inflação. Fernando Henrique foi eleito presidente da República, em 1994, sucedendo
Itamar Franco, e reeleito em 1998. Hoje, a área econômica do governo trabalha com
uma rígida política inflacionária. A meta anual de inflação medida pelo IPCA9, o índice
oficial do Governo Federal, é de 4,5% com tolerância de dois pontos percentuais, para
mais ou para menos.

O crescimento pujante da economia, registrado durante o “milagre econômico”, ainda


não foi repetido nas duas primeiras décadas do Plano Real. Durante a gestão do ex-
presidente Fernando Henrique Cardoso, a economia brasileira foi prejudicada por crises
na Rússia, na Argentina e choques na cotação internacional do petróleo. No governo
Lula, a crise internacional que eclodiu nos Estados Unidos, em 2008, se espalhou pelo
mundo, atingiu o Brasil. A média da produção de riquezas, nesses 16 anos, foi de 2,5%,
de acordo com Gremaud (2007), um crescimento relativamente baixo se comparado ao
período do “milagre econômico”. Outro destaque negativo está na alta do déficit
público, causada por sucessivos aumentos dos gastos para manutenção da máquina
pública, sempre superiores ao crescimento da arrecadação.

A estabilidade econômica, conquistada com o Plano Real, atraiu mais investimentos


estrangeiros para o Brasil e empresários daqui tornaram-se destaque no mundo dos
negócios. Em 2010, Eike Batista, chairman do Grupo EBX, era o 8ª homem mais rico
do mundo10, com patrimônio avaliado em 27 bilhões de Dólares. Jorge Gerdau,
chairman do Grupo Gerdau, fez da empresa a mais internacionalizada do Brasil. A
siderúrgica mantém operações nas três Américas. Vale citar a indústria de bebidas
InBev. Em 1999, a Brahma comprou a Antarctica e nasceu a AmBev, que teve parte dos
ativos negociada junto à escocesa Interbrew, em 2003. Os brasileiros Jorge Paulo
Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira administram a companhia que, em
2009, comprou a cervejaria norte-americana Anheuser-Busch, por 47 bilhões de
Dólares. Busch fabrica a Budweiser, cerveja mais consumida nos Estados Unidos. A
lista inclui Roger Agnelli, CEO da Vale, Carlos Ghosn, CEO do grupo Renault-Nissan,

9
Índice de Preços ao Consumidor Amplo, calculado pelo IBGE
10
Fonte: Revista Forbes
26

Antonio Ermínio de Moraes, presidente do Grupo Votorantim, Benjamin Steinbruch, a


frente da CSN, e Abílio Diniz, controlador do Grupo Pão de Açúcar.

Do milagre econômico, alcançado pela equipe de Delfim Netto, até a condição de


credor internacional, conquistada após acúmulo de reservas em dólar superior à dívida
externa, o país assistiu à inflação descontrolada, planos econômicos falhos,
congelamento de preços, confisco de poupança, Plano Real. O PIB do Brasil, registrado
entre 2004 e 200711, mesmo com números inferiores aos dos anos 1960 e 1970, foi um
dos que mais cresceram no Planeta atrás da China e da Índia; a BM&FBovespa é a
terceira maior bolsa de valores do mundo em valor de mercado 12, atrás da CMENymex,
dos Estados Unidos, e da Deusche Börse, da Alemanha. Nona economia do mundo em
2010, de acordo com organismos internacionais 13, o Brasil ocupará a quinta posição no
ranking econômico global até 2020.

11
Dados do IBGE. Os números são: 5,7, 3,2, 4,0 e 6,1 respectivamente
12
Fonte: Bloomberg e World Federation of Exchanges
13
Projeção do FMI e do Banco Mundial
27

2 UM JORNALISMO, VÁRIAS FORMAS

Este capítulo apresenta algumas características da TV, a mídia de maior impacto e


alcance na sociedade contemporânea; cita o telejornalismo, produto agregador de
credibilidade aos canais televisivos e, a partir desse, comenta o processo de criação das
notícias, a opinião, cada vez mais importante ao jornalismo e o jornalismo econômico
que, no Brasil, ganhou espaço durante a ditadura militar, período de forte repressão
política e elevados índices de crescimento econômico.

2.1 Telejornalismo

Entre as mídias existentes – TV, rádio, impresso, internet e celular – a TV, com seus
telejornais, é o meio de maior alcance e impacto na atualidade brasileira. De acordo com
Becker (2005), a TV, pelos telejornais, cria e procura dar visibilidade a uma experiência
coletiva de nação. É um espaço importante de construção de sentidos nacionais como
ritual diário.

A televisão e seus noticiários têm influenciado o modo de o País ser governado, a


maneira de votar e até o jeito de o Brasil pensar. As notícias televisivas são uma espécie
de prestação de contas aos cidadãos sobre assuntos de interesse coletivo e têm
capacidade de provocar reações múltiplas. Prova disso, um fato pode ser divulgado em
qualquer outra mídia, mas a maioria das pessoas acompanha, pela TV, os
desdobramentos desse acontecimento. “A TV tem ganho, ao longo das últimas cinco
décadas, uma dimensão cada vez maior no cenário nacional. Na década de 70, por
exemplo, foi claramente um instrumento político-ideológico [...]”. (BECKER, 2005, p.
17) A expansão das telecomunicações, a criação de uma infraestrutura de rede e a
desregionalização da informação, transformou a técnica e a linguagem do
telejornalismo, no qual predominava o estilo do rádio. A transformação começou a
acontecer a partir das primeiras experiências com o videoteipe durante os anos 1970.

A característica maior da TV é a informação visual, entretanto ela prende a atenção do


telespectador pela informação sonora. Essas são características próprias de sua natureza
como meio de comunicação. O ritmo frenético das transmissões jornalísticas também é
uma das marcas desse veículo. De acordo com Paternostro (2006), a TV aberta é
28

marcada, principalmente, pela informação visual, imediatismo, instantaneidade, alcance,


envolvimento, superficialidade, audiência. O jornalista norte-americano Ted White diz
que escrever para televisão é escrever para os ouvidos. Para White, jornais impressos
são escritos para os olhos, o que significa que, se o leitor não entender alguma coisa,
pode retornar ao parágrafo ou frase anterior.

Nas emissoras de televisão abertas, o noticiário é, de acordo com Becker (2005), uma
instituição soberana e quase intocável, carregada de múltiplos sentidos e constitui-se,
efetivamente, numa proposta reguladora das noções de realidade local e global.

Os modos de construção e transmissão das notícias trazem simulacros, que acabam


por intervir, inclusive, em outros campos sociais, especialmente na política, frente à
fragilidade de outras instituições no Brasil. Objetivamente, a função do telejornal é
narrar, dar conta dos principais fatos sociais de diferentes países em todo o mundo.
Ao mesmo tempo ordena, ou melhor, reordena a experiência social do cidadão nas
comunidades e em diferentes cidades. Tem, por isso, uma função política e, ao
mesmo tempo, pretende ser uma abertura para o mundo. Utiliza linguagem e
discursos complexos, regularidades e estratégias enunciativas singulares, que devem
ser reveladas para que possamos compreendê-lo como um gênero. (BECKER, 2005,
p. 22)

Os telejornais, elemento de maior impacto entre os meios de informação de nossa era,


são construídos em linguagem cujas características marcantes são, segundo Becker
(2005), a garantia à veracidade do conteúdo discursivo e a credibilidade do enunciador,
esta proporcionada pela primeira. Muitos estudiosos consideram os telejornais um dos
discursos mais onipotentes e mais persuasivos da mídia ao tentarem convencer uma
audiência significativa das verdades. Para isso, o conteúdo transmitido por jornais em
TV têm uma série de recursos à sua disposição como depoimentos testemunhais,
gráficos e mapas associados a texto e imagens, que possibilitam a precisão, a
objetividade e até mesmo a tentativa de neutralidade da notícia, gerando um efeito de
verossimilhança.

O Homem confere significados às coisas que o rodeiam quando nomeia e classifica as


pessoas, os objetos e as circunstâncias. Para Becker, “[...] toda experiência que
pressupõe o uso de linguagem implica construção de sentidos, não existindo discursos
neutros, ou livres de intencionalidades”. (BECKER, 2005, p.44) O processo de escolhas
durante a construção dos acontecimentos como notícia atribui significado aos fatos. Os
produtos jornalísticos apresentam a visão de mundo dos profissionais e das empresas
onde eles atuam. Sendo assim, é difícil imaginar textos jornalísticos livres de
29

parcialidade. Os jornalistas não estão imunes às suas opiniões e visões de mundo


durante a elaboração de qualquer material noticioso.

Nossas vivências coletivas nos conduzem à construção de um arcabouço teórico-cultural


e, de acordo com Becker (2005), não há quem ou o quê a proporcione de modo tão
eficaz e ostensivo como os discursos midiáticos.

Vale ressaltar que nossas experiências coletivas não são proporcionadas apenas
pelos discursos jornalísticos, mas também por outras produções midiáticas, como o
cinema e a literatura, por exemplo. No entanto, o jornalismo tem um papel
particularmente importante nesse contexto, de supostamente retratar a realidade,
enquanto outras modalidades discursivas transitam com maior clareza para o
leitor/telespectador entre mundos reais e ficcionais. Esta crença lhe confere uma
posição privilegiada de mais “verdadeiro” do que os outros. E desse modo, exerce
uma influência muito maior na constituição da experiência coletiva de um real
cotidiano. O simples fato de um acontecimento estar inserido ou não no âmbito dos
discursos jornalísticos implica em (SIC) que faça parte ou não do nosso repertório
da atualidade. (BECKER, 2005, p. 45)

A construção da realidade e sua dinâmica estão associadas ao processo de elaboração da


notícia, principal produto do jornalismo, imaginado como o relato de acontecimento
relevante à compreensão da realidade. Mas os fatos não trazem consigo algo acerca de
sua essência. Os acontecimentos cotidianos são cercados por uma série de outros
elementos que formam um contexto mais amplo do que as imagens e informações ao
nosso alcance. A comparação com um iceberg é um tanto clichê, mas é bastante
adequada a fim de ilustrar a afirmação anterior.

A objetividade é o principal instrumento para ocultar a construção de sentidos nos


discursos jornalísticos e pretende supor a existência de uma verdade absoluta, ligada aos
fatos, que possa ser expressa no discurso. De acordo com Becker (2005), o mecanismo
que melhor exemplifica tal esforço é a tentativa cotidiana de aproximação das palavras
dos jornalistas às palavras dos cientistas, com o uso contínuo da terceira pessoa,
tentando evidenciar uma separação entre o pesquisador e o material observado. No caso
da notícia, uma separação entre o jornalista e o fato coberto e analisado. “Essa distância
[...] confere credibilidade necessária para que o discurso jornalístico possa permanecer
em sua posição privilegiada de lugar de enunciação dos acontecimentos do mundo”.
(BECKER, 2005, p. 46)

Os telejornais ocupam lugares estratégicos na programação das redes e nos discursos


midiáticos contemporâneos. Uma das principais características da linguagem dos
noticiários é garantir a verdade ao conteúdo do discurso e credibilidade do interlocutor.
30

Tais garantias são obtidas por meio de um jogo de sentidos utilizados por noticiários, o
qual resulta numa pretensa objetividade e no mito da imparcialidade. Os textos
jornalísticos provocam efeitos de realidade e, se passam a imagem do real, é porque os
personagens são reais e os fatos sociais, a matéria-prima da produção. Os discursos dos
telejornais podem ser considerados um dos mais persuasivos. O objetivo das
construções textuais é convencer um conjunto de espectadores que os programas
transmitem as verdades do Brasil e do mundo.

2.2 O processo de criação da notícia

Todos os dias, um número gigantesco de eventos acontece ao redor do Planeta. Nem


todos ganham as páginas dos impressos, espaço no noticiário da TV, do rádio e dos sites
da internet. Mouillaud (2002) aponta a anormalidade e a excepcionalidade como
valores-notícia básicos. Ele cita Amus Cummings, ex-editor do New York Sun, que
pronunciou a frase: se um cachorro morde um homem, não é notícia, mas, se um
homem morde um cachorro, é notícia. Temos, nesse caso, uma inversão da ordem
natural das coisas porque o primeiro caso é normal: um cão agir por instinto e atacar um
ser humano. Segundo Mouillaud (2002), o status de notícia cabe aos fatos atuais,
próximos, proeminentes (em relação às pessoas envolvidas), impactantes e
significantes.

Mauro Wolf é indicado por Mouillaud (2002) como quem melhor sistematizou os fatos
noticiáveis, a partir dos critérios de noticiabilidade. Wolf (2002) explica que se
transforma em notícia aquilo que é trabalhado pela empresa jornalística sem alterar seu
ciclo produtivo. Os valores-notícia, justifica Wolf, orientam uma redação quanto ao que
deve ser escolhido, omitido ou realçado e lista cinco critérios com função de valores-
notícia: substantivos, relativos ao produto, ao meio, ao público, ou à concorrência. Tais
critérios norteiam os repórteres e editores ao acolherem um fato e tomarem uma destas
decisões: ignorá-lo, selecioná-lo ou destacá-lo como notícia. Essa condição á atribuída
aos acontecimentos que envolvem os ocupantes dos níveis mais altos de uma hierarquia.
Também são importantes: a proximidade com os receptores, o número de personagens,
o significado para o futuro, se novidade, se recente ou atual, e interesse público.
31

O processo de transformação de um fato em notícia envolve uma cadeia que vai da


infraestrutura empresarial/comunicacional ao trabalho do jornalista propriamente dito.
Os editores são responsáveis por providenciar todo o aparato técnico que permite o
funcionamento diário e produtivo do negócio do jornalismo: computadores,
impressoras, câmeras, máquinas fotográficas, telefones etc. Os produtores devem captar,
interpretar e codificar a matéria até o conteúdo chegar às mãos dos repórteres.

As reportagens têm sua origem no jornalismo interpretativo. Beltrão (1976) diz que o
jornalista não deve apenas informar. Também é função do profissional da redação
elogiar, ensinar, guiar, propor soluções. As informações da atualidade, matéria-prima da
prática jornalística, devem ser interpretadas.

Interpretar em jornalismo é o ato de aplicar uma seleção crítica às informações


coletadas. Isto permite levar ao público um conjunto de dados que tem significância
para ele. Ou seja, é necessário, além de ouvir as fontes, submeter suas falas ao contexto
atual para produzir o que, de fato, pode levar contribuições para a sociedade.

De acordo com Beltrão (1976), a evolução do jornalismo está diretamente ligada ao


dinamismo da sociedade. Se, no princípio, era possível trabalhar sozinho e de forma
artesanal, hoje as redações estão divididas em equipes por editoria, tamanha a
especialização. Uma matéria, após concluída, demanda o trabalho de produtor, repórter,
fotógrafo ou cinegrafista, editor. Tanta gente em um único trabalho justifica-se devido
ao volume de informações circulante no mundo. Um volume que cresceu ao longo da
história e vai crescer ainda mais, sobretudo por causa dos avanços tecnológicos, uma
garantia à circulação ininterrupta de notícias ao redor do Planeta. Notícias que
irrompem de todos os lugares e atendem às mais diversas necessidades e públicos.

O crescimento do jornalismo fez desta atividade um meio de transmissão de


informações ao público, em diversos setores. Entre os principais atributos sociais dessa
atividade estão a difusão de conhecimento, orientações à coletividade, além do papel
empresarial de proporcionar credibilidade às empresas de mídia, vender periódicos e
espaços para publicidade. Os jornalistas atuam como interlocutores entre o poder
público – Executivo, Legislativo e Judiciário –, as instituições, governamentais ou não-
governamentais e os cidadãos. Destaque também para os profissionais dedicados às
assessorias. É função deles servir como um elo entre as casas públicas, as corporações
empresarias e as redações que, por sua vez, repassam as informações à sociedade.
32

Quando diz que difundir conhecimento e orientar a opinião pública é o objetivo do


jornalismo, Beltrão (1976) aponta para o que tem sido o “espírito” desta atividade
profissional. Também é verdade que o jornalismo tem servido de agente fiscalizador da
atividade política e de outros exercícios profissionais.

O jornalismo trabalha com informações atuais porque a população depende delas para
construir ações visando ao bem coletivo. Entretanto Beltrão (1976) alerta que nenhuma
ação é construída se seu agente desconhece os fatos e ideias que a antecederam e suas
possíveis consequências. Deste modo, a atividade jornalística é, ainda que
informalmente, educativa, quando fornece dados objetivos que sirvam à opinião
pública, permitindo movimentos práticos e consistentes na busca por progresso,
desenvolvimento e estabelecimento de um ciclo virtuoso de atividades políticas,
econômicas e sociais.

A interpretação é uma das características do jornalismo. É o trabalho essencial do


profissional da informação da atualidade. Ela está diretamente ligada a um conjunto de
ideias, circunstâncias ambientais e temporais e seu desenvolvimento é fator de
contribuição para a sociedade. Sobre este conceito, Santamarina14 (1947 citado por
BELTRÃO, 1976) diz que “[...] essa análise preliminar de submeter os dados recolhidos
a uma seleção crítica, e transformá-los em matéria para a divulgação é a interpretação
jornalística”. Para Leandro e Medina 15, (1973 citado por BELTRÃO, 1976) jornalismo
interpretativo é o esforço de determinar o sentido de um fato, através da rede de forças
que atuam nele.

A elaboração do conteúdo interpretativo, rico em elementos e ângulos que exigem


esforços múltiplos e especialização de profissionais, depende da organização de um
comando editorial. Este grupo é constituído por chefes de departamentos como política,
internacional, economia, esportes, cultura, tecnologia. Cabe a eles supervisionar e
orientar a produção deste tipo de informação da atualidade.

14
SANTAMARINA, Clemente – Manual de Periodismo – Buenos Aires, 1947.
15
LEANDRO, Paulo Roberto e MEDINA, Cremilda – A arte de Tecer o Presente – São Paulo, Media,
1973.
33

2.3 Opinião no jornalismo

Tão importante quanto interpretar é opinar. Os veículos têm espaços dedicados ao


posicionamento sobre os acontecimentos: os editoriais. Além deste, voltado para a
opinião do veículo ou da empresa jornalística, há também páginas dedicadas às crônicas
e aos artigos. Os três trazem opiniões sobre temas da atualidade, podendo a crônica
trazer textos em estilo mais literário, livres da linguagem padrão do jornalismo. Seu
tema, geralmente, não tem relevância para grandes grupos da população; é diferente do
artigo, que deve seguir estilo jornalístico e discutir assunto de consequências amplas.
Luiz Beltrão classifica a opinião como “[...] a expressão do juízo de um ser humano
informado de ideias, fatos ou situações conflitantes”. (BELTRÃO, 1980, p. 14)

Uma opinião bem elaborada depende de conhecimento do jornalista sobre o objeto


tratado. Deve-se ter informações anteriores ao fato da atualidade para emitir juízo sobre
o mesmo, orientar o receptor e prever as consequências do resultado final do processo.
Porque um fato novo é fruto de acontecimentos anteriores e desencadeará uma série de
outros direta ou indiretamente ligados e dependentes do hoje.

Não obstante um detalhe na produção da opinião precisa ser respeitado por jornalistas e
empresas: nem todas as ocorrências são suscetíveis de opinião. Beltrão (1980) ressalta a
necessidade de o objeto ser questionável, isto é, oferecer duas ou mais alternativas,
igualmente possíveis. “Quando o objeto não comporta diferentes faces, não há lugar
para a opinião”. (BELTRÃO, 1980, p. 15)

A construção da opinião passa por três etapas: dominar, reger e assistir à informação.
No primeiro, o fato é calculado em toda a sua extensão e alcance; o segundo é levar ao
conhecimento público quando conveniente e oportuno, observando as normas práticas e
éticas da divulgação ou da supressão de matérias; no terceiro, a notícia é acompanhada
em seus efeitos imediatos e mediatos de maneira conscienciosa. Este comportamento,
ordenado e meticuloso, pode render ao jornal e ao público uma opinião segura,
elaborada à base da técnica, da ética e do interesse social – pilares em que se
fundamenta a obra jornalística.

Com função cada vez mais importante dentro da sociedade, o profissional do jornalismo
é muito mais exigido pela comunidade. Para Beltrão (1980), o jornalista não é mais um
mero informante. Há setores em que ele é um “ator” de transformações, atuando
34

também como agente fiscalizador a serviço da sociedade. Nos campos político,


econômico, social, através de artigos e editoriais, transmite informações e comentários
que narram os acontecimentos, e tão importante quanto isto, emite opinião que norteia e
esclarece.

2.4 Jornalismo econômico

A economia é um sistema complexo, com muitos paradoxos e contradições que tornam


difícil o seu entendimento. Várias perguntas, muitas em sentidos opostos, fazem parte
desta ciência: Por que e para quem produzir tantos alimentos? Por que há fome no
mundo? Como vender mais? Como combater a inflação? A alta nos preços é saudável
ou prejudicial? Para Kucinski (2000), muitos desses paradoxos devem-se ao fracasso
político do homem e outros são intrínsecos à economia.

A economia brasileira é marcada pelas questões acima e por outras, às vezes paradoxais.
Segundo Kucinski (2000) “[...] o primeiro contraste é entre a abundância e a indulgência
[...]; o segundo paradoxo são as crises por falta de moeda forte [...]; o terceiro paradoxo
é o de não acumular os capitais necessários à industrialização auto-sustentada”.
(KUCINSKI, 2000, p.11) Produzimos muito, mas exportamos grande parte da safra
agrícola; o dólar, moeda utilizada em transações internacionais, já foi escasso em nosso
país devido à falta de confiança dos investidores estrangeiros no Brasil, um dos motivos
para sua cotação ter superado a casa dos 4 Reais entre o final dos anos 1990 e início dos
anos 2000, durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso; a maioria das
unidades do parque industrial brasileiro tem matriz no exterior, isso significa enviar
parte dos lucros obtidos em solo brasileiro para as sedes. Com relação ao segundo
paradoxo, apontado por Kucinski, a situação, hoje, é bem diferente. O Real é utilizado
como forma de pagamento em transações internacionais entre o Brasil e outros países,
como a Argentina. Em 2008, o investidor norte-americano Warren Buffet, CEO e
presidente da holding Berkshire Hathaway, apontado pela revista Forbes como o
homem mais rico do mundo, naquele ano, lucrou mais de 2 bilhões de Dólares depois de
comprar alguns bilhões de Reais entre 2002 e 2008. Segundo informação divulgada pelo
Jornal da Globo, de 29 de fevereiro, Buffet acreditara na desvalorização do Dólar
diante do Real.
35

Resende (2003) faz uma síntese acerca da evolução do jornalismo econômico no Brasil.
As notícias ligadas à pecuária foram as precursoras das páginas de economia de nossos
dias. O começo foi em 1936, na cidade de Barretos, interior de São Paulo, onde,
segundo Resende (2003), Mário Mazzei Guimarães começou a se interessar pelo
jornalismo especializado a partir de seu trabalho como assessor jurídico do Sindicato
dos Pecuaristas daquele município. Guimarães seguiu para a economia porque a
instituição editava um boletim para os associados no qual abordava os problemas da
pecuária bovina de corte, com destaque para os preços, além de levar orientações para
os pecuaristas. Os primeiros veículos a dedicarem espaço para a temática econômica
foram os produtos do Grupo Folhas: Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da
Noite. Nesses periódicos, Constantino Ianni escrevia sobre economia em geral e
relações econômicas ítalo-brasileiras. Talvez a explicação para a escolha por tratar
dessas duas economias esteja no fato de, na época, a empresa estar nas mãos do conde
Matarazzo Jr, que a adquiriu para brigar (literalmente) com Assis Chateaubriand, dono
dos Diários Associados.

Mário Mazzei, segundo Resende (2003), trabalhou no Grupo Folhas, de Matarazzo até
1958. Advogado por profissão teve o primeiro contato com a economia na Faculdade de
Direito, na disciplina Economia Política, sua disciplina preferida, lecionada pelo
professor Cardoso de Melo. Nessa época, aponta Resende (2003), os jornalistas eram
formados na redação e dava-se preferência aos bacharéis em Direito.

Para Kucinski (2000), o jornalismo econômico não conseguiu vencer o desafio de


traduzir a linguagem econômica de maneira acessível. Basile (2002) também aponta
para esta questão. O autor afirma que os economistas e políticos não explicavam os
termos técnicos presentes na editoria. Líderes da arrancada desenvolvimentista,
administradores de elevada competência técnica, mas pouco dispostos a discutir as
condições sob as quais esse desenvolvimento está sendo obtido, se expressam em uma
estranha língua, o economês.

Um exemplo recente, no noticiário econômico envolvendo o Brasil e o FMI, pode


mostrar como é complexo um entendimento na área. Nosso país tornou-se credor do
Fundo Internacional ao comprar títulos dessa instituição. O Jornal da Band, na edição
de 5 de outubro de 2009, noticiou que foram adquiridos 10 bilhões de Dólares em
participação no organismo e, pela primeira vez na história, o Brasil se tornou credor do
36

FMI. A explicação é que o valor foi retirado das reservas em moeda estrangeira
acumuladas pelo Brasil nos últimos anos. Como o nome diz, é dinheiro de reserva e não
entra diretamente em nossa economia, não movimenta nosso mercado. O que o
presidente Luis Inácio Lula da Silva chamou de empréstimo e falou que é “chique”, na
verdade é conhecido entre os economistas como “operação de troca de papeis”, uma vez
que o Brasil trocou títulos da dívida norte-americana por títulos de cotas junto ao Fundo
Monetário Internacional.

Kucinski (2000) diz que com o colapso da economia soviética, de linha estatizante, a
ideologia neoliberal, que prega a eficiência econômica em detrimento da solidariedade
social, chegou à vitória. “Foi decisivo o jornalismo como auxiliar na campanha
neoliberal dos anos 90 pelo desmonte do Estado social-democrata [...] Um jornalismo
que não se propõe a explicar e sim seduzir” (KUCINSKI, 2000, p. 15).

Mesmo com o crescimento que sobrepôs o noticiário econômico ao político, a posição


hierárquica e a estrutura de produção são as mesmas da época de uma editoria
especializada. Na verdade, o fenômeno que ampliou a atuação dos jornalistas de
economia fez nascerem veículos dedicados somente ao movimento financeiro, público e
privado. Mas Kucinski (2000) diz que o espaço dos profissionais permanece confinado,
dificultando a formação de nova linguagem, apropriada à apresentação e à análise da
questão econômica para o grande público. Ainda segundo o autor, na cobertura e na
disposição temática, o político continua frequentemente separado do econômico. Algo
passível de ser considerado, no mínimo, um contrassenso, uma vez que política e
economia, no dia a dia, caminham lado a lado.

O jornalismo econômico fez crescer o jornalismo de serviços. Enquanto nos anos 1970,
o crescimento da economia fez aparecerem notícias sobre a alta do petróleo, na década
seguinte, por causa das greves operárias, a recessão, os saques a supermercados e a
inflação ganharam as páginas. Esta última levou os profissionais a orientar a população
sobre formas de aplicar o dinheiro, alíquotas de imposto cobradas pelo governo,
pesquisas de preço. O jornalismo prestador de serviços recoloca o cidadão como sujeito
da história e objeto da preocupação jornalística. Por isso, segundo Kucinski (2000),
entre 1968 e 1988, a cobertura diária de economia cresceu de 1,5 página para 6,5
páginas na Folha de S. Paulo e no Estado de São Paulo, conhecido como Estadão, dois
dos principais diários paulistas. Do conjunto das manchetes, 20% estavam relacionadas
37

à editoria e a TV passou a dedicar tempo maior às questões econômicas, com análises


constantes e entrevistas com especialistas.

No jornalismo, de um modo geral, é muito importante contextualizar o fato na história e


no espaço. Kucinski (2000) alerta que em jornalismo econômico, processos e sistemas
são igualmente objetos de interesse, sendo singularizados pela linguagem jornalística
que os noticia como se fossem isolados (exemplo: “PIB cresce a taxa recorde”).
Entretanto, mesmo os fatos episódicos devem ser interpretados com base em processos,
relações econômicas, muitas vezes em situações opostas. Isto é importante porque,
segundo Kucinski (2000), o contexto é ignorado pelo senso comum e as informações
são formuladas a partir do saber econômico. Os acontecimentos, de qualquer natureza,
não se dão de forma isolada. Quando se tratam de fatos de ordem econômica, há um
contexto antecedendo o fato atual, mesmo que esse esteja na contramão do presente.

Kucinski (2000) aponta três diferentes vertentes com as quais a editoria de economia
trabalha na cobertura dos assuntos econômicos: matérias sobre negócios e empresas ou
grupos de empresas, políticas do governo e problemas macroeconômicos, além do
mercado financeiro. No primeiro caso, a chave para entendimento está, quase sempre,
na compreensão dos mecanismos de acumulação de capital daquele setor. Para o
segundo caso, é essencial o conhecimento das relações mais importantes entre as
variáveis econômicas, assim como sua ligação com os âmbitos político e social. Por
fim, na cobertura do mercado financeiro encontram-se as maiores dificuldades devido à
sofisticação das operações financeiras que exigem alto grau de abstração e raciocínios
matemáticos complexos que a maioria dos jornalistas não domina.

Para Kucinski (2000), a complexidade das situações da economia faz que o


entendimento do jornalismo sobre o assunto abordado seja fundamental para se alcançar
a clareza. Caso contrário, as matérias serão protegidas com termos técnicos, de
compreensão restrita aos profissionais da economia.

O jornalismo econômico, no Brasil, ganhou espaço a partir dos anos 1960, década do
golpe militar e instauração da ditadura. Neste período, a cobertura política perdeu
espaço por causa do rígido controle imposto às redações pelo governo. A censura
alcançou o ápice com a instituição do AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Este ato
suspendeu uma série de garantias constitucionais e cerceou a liberdade de expressão.
38

A cobertura da economia cresceu beneficiada pelo “milagre econômico”, período


marcado por baixa inflação, elevados índices de crescimento econômico e
endividamento exacerbado do setor público. As obras de grandes rodovias, hidrelétricas
e a criação de estatais de telefonia e outros serviços datam desses anos. Segundo
Kucinski (2000), nessa mesma época, a editoria de política “atrofiou”.

A partir dos anos 1960, as editorias de economia cresceram e nasceram veículos


especializados. O primogênito surgiu a partir da revista Veja, em 1967: a revista Exame.
Dentro da redação da editora Abril, responsável por Exame, nasceram VOCÊ SA,
dedicada ao universo corporativo, e Meu Dinheiro. Outro importante veículo da década
de 60 é a Gazeta Mercantil. O “caçula” entre os veículos especializados em economia é
o jornal Valor Econômico; o diário de finanças e política foi lançado em março de 2000
por uma joint-venture entre Organizações Globo e Folha de S. Paulo.

Os jornalistas econômicos são testemunhas da evolução da economia brasileira e


internacional. Destaque para Joelmir Beting, Mirian Leitão, Carlos Alberto Sardenberg,
Lilian Wite Fibe. Eles se destacam porque, de acordo com Basile (2002), “é tarefa dos
repórteres e editores facilitar a compreensão em um mundo difícil de entender e que, às
vezes apresenta uma lógica simplesmente bizarra e absurda”. (BASILE, 2002, p. 5).
Como profissionais é isso que Beting, Mirian, Sardenberg e Lilian fazem: explicam de
maneira didática a linguagem econômica.

A evolução do jornalismo de economia no Brasil acompanhou as mudanças históricas


no exterior e dentro de nossos limites fronteiriços. Cresceu e se especializou; ganhou
veículos específicos para o assunto, conquistou espaço nos já existentes e, em muitos
momentos, além de educar os brasileiros, pagadores da maior carga tributária do
Planeta, foi conselheira dos governos.
39

3 O ESPAÇO DE JOELMIR BETING

Neste capítulo é apresentada, em síntese a história da Band, a emissora de TV aberta do


Grupo Bandeirantes de Comunicação, fundado pelo empresário João Jorge Saad; uma
pequena análise do Jornal da Band, o telejornal que ocupa parte do horário nobre da
emissora; a trajetória da carreira de Joelmir Beting e a análise de seus comentários nos
dias 10, 11 e 12 de fevereiro de 2010 com discussão a partir dos critérios de
noticiabilidade.

3.1 Band

A trajetória da Band começou no final dos anos 1960, como resultado do projeto de
expansão do empresário João Jorge Saad na área das comunicações. Antes de fundar a
televisão, Saad já possuía experiência em mídia com a Rádio Bandeirantes, adquirida
em 1948. De acordo com o atual presidente do Grupo Bandeirantes de Comunicação,
Johnny Saad, seu pai acreditava na informação como importante vetor do futuro.

A TV Bandeirantes de São Paulo (canal 13) entrou no ar no dia 13 de maio de 1967. Um


discurso de João Saad e a apresentação de alguns cantores abriram as transmissões.
Também presentes à solenidade, o presidente Artur da Costa e Silva, o governador de
São Paulo Abreu Sodré, o prefeito Faria Lima, ministros e secretários de Estado. Com
base no que havia feito no rádio, João Saad ressaltou que a TV teria programação menos
clássica, pois o povo pedia algo mais simples. Sua base seriam o jornalismo, esporte e
entretenimento, como filmes, programas de auditório e musicais. O canal 13 entrou no
ar sem intervalos entre os programas, e a separação das atrações era feita com a exibição
do “coelho Bandeirante”, mascote da emissora.

A TV Bandeirantes estreou sem primeiro telejornal em 1969 com o nome Titulares da


Notícia, homônimo de programa já apresentado na emissora de rádio do grupo. A
atração foi apresentada por Maurício Loureiro Gama (primeiro apresentador de
telejornal da América Latina), Vicente Leporace, Salomão Esper, Murilo Antunes
Alves, Julio Lerner, Lourdes Rocha e depois José Paulo de Andrade.
40

Em dezembro de 1975, para dar início à formação da rede, João Jorge Saad comprou a
TV Vila Rica, posteriormente denominada TV Bandeirantes de Belo Horizonte. No Rio
de Janeiro, no dia 7 de julho de 1977, a Bandeirantes transmitiu seu primeiro sinal de
teste, às 7 da noite, no canal 7. Dois meses depois, a Bandeirantes Rio entrou no ar
oficialmente com o nome de TV Guanabara, em Botafogo. Nessa época, outras 12
pequenas estações espalhadas pelo Brasil compunham a Rede. Em 1980, já eram 24
emissoras espalhadas pelo País. Mas o crescimento da cobertura nacional não ocorreu
facilmente: a Embratel só possuía dois canais para os estados com menor densidade
populacional e que já estavam ocupados por Tupi e Globo. Isso foi um obstáculo
dramático na expansão da rede. A Band foi buscar na Intelsat, com o apoio da Embratel,
tecnologia e know-how para operar por satélite 24 horas por dia. Com isso, em 1982, a
Bandeirantes foi a primeira empresa comercial nas Américas a operar uma rede de
televisão por satélite.

3.2 Jornal da Band

O principal telejornal da Band é transmitido, em rede nacional, de segunda a sábado,


das 19h20 às 20h15. A atração é ancorada pelos jornalistas Ricardo Boechat, também
editor chefe, e Ticiana Villas Boas, editora de Tempo. A dupla divide a bancada com
Joelmir Beting, editor de Economia, que comenta os acontecimentos dessa área no
Brasil e no Mundo. A cobertura internacional é realizada pela parceria com a BBC
Brasil, com repórteres destacados no Oriente Médio, Washington e Londres. A
emissora também mantém correspondentes em Nova York e Madri.

O Jornal da Band é acompanhado, diariamente, por aproximadamente 3 milhões de


telespectadores, um número que o posiciona na terceira colocação entre os telejornais
transmitidos no horário nobre da televisão brasileira, das 20h às 22h. O público que
assiste ao programa é predominantemente adulto, com poder de decisão de compra e
altamente qualificado: 37% oriundos da classe AB (maior audiência entre os vários
segmentos de telespectadores do programa) e 84% com idade superior a 25 anos16.

16
Fonte: Ibope Media Workstation PNT (01/01/09 a 31/08/09). Dados fornecidos pela emissora.
41

O cenário do telejornal é composto por uma bancada de madeira em tom marrom e aço
escovado17. Atrás da mesa dos apresentadores, está a redação da emissora. Apresentar o
telejornal dentro da redação é uma tendência mundial introduzida nos Estados Unidos
entre fins da década de 1980 e princípio da década de 1990. O motivo foi o crescimento
dos blogs18, fenômeno que fez os executivos do jornalismo norte-americano perceberem
que o diferencial das redações era a credibilidade. Durante as edições, o jornalista
Ricardo Boechat, editor-chefe do Jornal da Band, ocupa o centro do vídeo, ladeado, à
direita, pela jornalista Ticiana Villas Boas, editora de Tempo do telejornal, e à esquerda
por Joelmir Beting, editor de Economia, que participa do programa como comentarista
e, esporadicamente, lê editoriais.

Quando Beting ou Ticiana aparecem em destaque no vídeo, o fundo do cenário é


composto por um painel trabalhado em madeira com dois filetes de luz nas
extremidades. A redação, atrás do cenário do Jornal da Band, é vista apenas nos
momentos em que Boechat é filmado.

3.3 Joelmir Beting

Joelmir Beting é formado em sociologia, com vasta experiência na área econômica. O


jornalista comenta assuntos econômicos nos principais telejornais da Band. É
considerado, por muitos, um dos melhores jornalistas de finanças do país, ao lado de
Mirian Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, ambos da Rede Globo, Globo News e CBN.

Beting era bóia-fria quando, aos sete anos de idade, aconselhado por um padre, foi para
São Paulo iniciar seus estudos. Na faculdade teve como colega a ex-primeira-dama Ruth
Cardoso e como professor o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso. O
jornalismo econômico apareceu na vida de Joelmir Beting nos anos 1960, quando ele
ganhou o primeiro espaço para publicar seus textos, uma coluna no jornal Folha de São
Paulo. Para Basile (2002), Beting foi o primeiro a explicar de maneira clara para os
leitores o que significam os termos econômicos do noticiário dessa editoria. Para isto,
ele utilizava termos do cotidiano. Para falar sobre crescimento dos juros, empregava a
expressão “acelerador da economia”. Se a notícia eram eventos sucessivos, de

17
O Jornal da Band estreou novo cenário em 24 de maio de2010, no qual prevalece a cor azul-clara.
18
Blog é a abreviatura do termo em inglês weblog, diários eletrônicos publicados na internet.
42

conseqüências imprevisíveis, desencadeados por um primeiro fenômeno, Beting recorria


à imagem de uma “bola de neve”. Essa maneira peculiar de tratar um assunto tão árido
como a economia rendeu ao jornalista o apelido de “Chacrinha da economia”.

Joelmir Beting tem no currículo passagens pela Rede Globo e pelo jornal Folha de São
Paulo. Hoje, além de ser o editor de Economia da Band, Beting apresenta o programa
de entrevistas Canal Livre e mantêm um site na internet com discussões econômicas e
análises diárias sobre os acontecimentos nessa área ao redor do mundo.

Critico da política de juros praticada pelo Banco Central, Beting, até pela experiência
acumulada em anos de redação, sempre arrisca palpites sobre as reuniões do Conselho
de Política Monetária – Copom – que definem a taxa Selic, o sistema de custódia que
funciona como indexador em empréstimos e financiamentos. Durante a gestão do ex-
presidente Fernando Henrique Cardoso, sua alíquota foi mantida no alto e assim
continuou durante grande parte do governo Lula. A explicação da autoridade monetária
é que a elevação da Selic mantém a inflação sob controle, mas, de acordo com Beting, a
influência dessa sobre a alta dos preços é como a influência da rainha Elizabeth II sobre
a Inglaterra: nenhuma.

3.4 Joelmir Beting no Jornal da Band

O estudo desta monografia é desenvolvido a partir da análise de vídeos das


participações do jornalista econômico Joelmir Beting, no Jornal da Band. A finalidade
é analisar a construção textual de Beting sobre este tema árido e de difícil compreensão,
para a maioria das pessoas: a economia. Uma área altamente especializada e com
linguagem bastante específica e técnica entendida, na maioria das vezes, apenas pelos
técnicos e estudiosos da área.

Como o volume de material é extenso, foi preciso delimitar algumas datas consideradas
importantes por apresentarem conteúdo em que Joelmir Beting faz comentários nos
quais utiliza termos e expressões populares, datas comemorativas e fenômenos naturais
ligando-os aos assuntos econômicos na pauta do dia, característica peculiar de Beting,
uma tentativa de aproximar a economia das pessoas que não lidam com ela diariamente
como profissionais. No dia 10 de fevereiro de 2010, o jornalista emendou a notícia de
uma nevasca no Europa e nos Estados Unidos em sua primeira participação no Jornal
43

da Band. Ele disse que a neve não impediu o funcionamento das bolsas nos países
atingidos pelo fenômeno, mas o presidente do Fed – Federal Reserve –, o Banco Central
norte-americano, Ben Bernanke, não pôde ir ao Congresso, em Washington. Ainda
nessa data, a notícia sobre problemas no ar-condicionado e nos elevadores do Aeroporto
Internacional do Rio de Janeiro foi sucedida pelo comentário a respeito dos números da
Anac – Agência Nacional de Aviação Civil – para o aumento de passageiros nos voos
nacionais. No dia 11 de fevereiro, Beting comentou a alta das bolsas ao redor do
mundo. A explicação foi a ajuda da União Europeia à Grécia. As palavras do jornalista
foram: “a União Europeia jogou a boia salva-vidas para a Grécia afogada até o pescoço
na dívida pública.”

Ao analisar os comentários de Beting, pode-se constatar que política e economia são


temas interdependentes. A notícia anunciada e comentada pelo jornalista foi do
adiamento, no Congresso Nacional, da apreciação e votação do projeto de Banda-larga
de Inclusão Social, também chamado de Internet Popular, de projetos referentes ao Pré-
sal e da Consolidação das Leis Sociais. Joelmir Beting comentou a duração do ano
legislativo em Brasília e chamou a atenção para o período ainda menor no qual os
deputados federais e senadores vão trabalhar em 2010, ano eleitoral. Beting também
divulgou nota a imprensa assinada pelo presidente do Banco Central, Henrique
Meirelles, na qual o líder do sistema financeiro brasileiro desistia de concorrer a cargos
eletivos nas eleições seguintes.

No dia 12 de fevereiro, após a notícia sobre o movimento dos turistas no carnaval de


Ouro Preto, cidade histórica de Minas Gerais, Beting comentou ensaio sobre o Brasil
publicado na revista inglesa The Economist. No texto, foi estabelecido um paralelo entre
a reativação da economia brasileira e a internacionalmente conhecida festa cultural de
nosso país. Para a revista, a “escola de samba” do setor privado recuperou o ritmo e o
enredo, enquanto no setor público o “samba” estava cada vez mais “atravessado”. A
publicação informou que os gastos públicos crescem, no Brasil, três vezes mais do que a
economia fazendo a dívida federal interna alcançar 1,5 trilhão de Reais. Com estas
palavras, Beting encerrou esse comentário: na gastança, ainda vamos de bum bum
paticumbum prugurundum19.

19
“Bum bum paticumbum prugurundum” é o samba-enredo da escola de samba carioca Império Serrano
composto, em 1982, por Aluísio Machado.
44

Ainda em 12 fevereiro, comentou informação da ANP – Agência Nacional do Petróleo


– dando conta de que a produção brasileira da commodity alcançou o volume de 2,030
milhões de barris/dia, pela primeira vez na história. Um aumento de 7% em 12 meses. O
órgão ratificou a lucratividade da exploração do Pré-sal se o barril continuasse custando
mais de 30 Dólares. Nesse dia, a cotação internacional foi superior a 70 Dólares. Beting
explicou os custos mundiais, na média, para se extrair um barril de petróleo: 9 Dólares.
O jornalista encerrou essa participação dizendo que é possível vender a unidade por até
15 Dólares.

Joelmir Beting ocupa, na bancada do Jornal da Band, o mesmo espaço dos âncoras do
telejornal: Ricardo Boechat e Ticiana Villas Boas. O jornalista tem participações curtas
durante as edições. No período analisado, 10, 11 e 12 de fevereiro foram registradas três
participações no primeiro dia e quatro em cada uma das outras datas. O tempo dos
comentários não foi igual. Entre as 11 participações estudadas, a menor durou 20
segundos e a maior 55 segundos. Seus comentários não são precedidos por chamadas
dos apresentadores do telejornal, Boechat e Ticiana, e não aparecem, necessariamente,
após a divulgação de matérias nas áreas de economia e finanças.

3.5 Os comentários de Joelmir Beting

Em 10 de fevereiro de 2010, na primeira intervenção, de 45 segundos, sobre a


mensagem ao mercado divulgada pelo presidente do Banco Central norte-americano,
Ben Bernanke, Beting utilizou expressões e palavras populares como “meio metro”,
referindo à altura da neve que caiu na Europa e nos Estados Unidos prejudicando as
visitas dos turistas à Torre Eiffel, em Paris, e complicando o dia de trabalho na América
(o Aeroporto Internacional Washington Dulles, o principal terminal aéreo da capital
norte-americana, ficou fechado e em Nova York as universidades, prédios públicos e a
sede da ONU não funcionaram); “enxugamento”, em referência ao movimento de
resgate, pelo Tesouro Norte-Americano, do dinheiro que foi aplicado nas instituições
financeiras prejudicadas pela crise econômica, chamadas por Beting, nesse comentário
de “bancos em apuros”. A mensagem de Bernanke, divulgada pela internet, não
“agradou” o mercado e as bolsas de Nova York encerraram o pregão daquele dia em
queda. Outra palavra popular serviu para anunciar a alta na Bovespa, diferente dos
resultados nos Estados Unidos: contramão. O pregão da Bolsa de São Paulo, de acordo
45

com Beting, voltou a flutuar acima dos 65 mil pontos e o dólar “andou de lado”, cotado
“na faixa” de R$ 1,84. Nesse momento, uma informação visual com os três números – a
pontuação, o índice e a cotação do dólar – apareceu na tela, colocada de maneira
simples. O design é formado pela logomarca do programa (o mapa mundi girando) ao
lado de uma tarjeta azul escuro e letras amarelas e brancas em fonte sem serifa,
contrastando com o marrom e as demais cores da bancada e do cenário. A expressão
“andou de lado” é comum entre os economistas para ilustrar oscilações na cotação de
moedas. Nessa participação, ao falar da “neve de meio metro”, logo no início do
comentário, que não paralisou o funcionamento das bolsas, mas impediu Ben Bernanke
de estar no Congresso para ler mensagem ao mercado, Beting ia dizendo que a neve
deixou, quando precisou trocar, ao vivo, pelo texto “a neve não deixou”, em referência à
ausência de Bernanke na casa de trabalho dos congressistas norte-americanos, uma vez
que a presença dele era aguardada pelos políticos, investidores e empresários, por todo o
país, à espera das palavras do líder da política econômica dos Estados Unidos.

A segunda participação de Joelmir Beting no Jornal da Band nesse dia teve um caráter
didático. Após matéria sobre mudanças na declaração do Imposto de Renda, o
comentário foi acerca desse tributo e sua importância para o desenvolvimento dos países
ricos. O analista explicou como os impostos são cobrados nas nações desenvolvidas:
taxa-se a renda e o patrimônio e menos de 1/3 da carga tributária incidem sobre a
produção e o consumo. De acordo com Beting, o Imposto de Renda trata desigualmente
os desiguais: quem ganha mais paga mais, quem ganha menos paga menos, ou nada
paga. Nas palavras de Joelmir, é um imposto justo. O contrário acontece em relação aos
impostos incidentes sobre o consumo das famílias. Eles tratam igualmente os desiguais,
tirando até mais dos mais pobres. Para Beting isso é injusto e cruel e no Brasil 2/3 de
tudo que é pago por quem produz ou compra tem como destino os cofres dos governos
municipais, estaduais e federal. Todos os comentários de Joelmir Beting que mostram
diferenças entre o Brasil e os países desenvolvidos terminam com a expressão: um dos
dois está errado, ou o Brasil ou o mundo. Nesse comentário, o encerramento foi
pronunciado em ritmo diferente ao do restante do texto. Beting deu mais ênfase à última
frase inclusive fazendo uma mudança um tanto sutil em sua expressão facial. Na
intervenção não foi utilizado nenhum recurso visual, nem para mostras os números
acima citados.
46

Beting iniciou sua terceira e última participação na edição de 10 de fevereiro de 2010


com uma expressão que aparentava certo desânimo. O comentário foi ao ar após matéria
que mostrava os problemas com o sistema de ar-condicionado e com os elevadores do
Aeroporto “Tom Jobim”, no Rio de Janeiro. A expressão de desânimo apareceu
concomitantemente à frase “em que pese esse autêntico „apagão‟ aeroportuário de um
sistema sucateado”, mas desapareceu logo em seguida para anunciar balanço da
Agência Nacional de Aviação Civíl – Anac – sobre o aumento do número de
passageiros nos voos pelo Brasil. Beting disse que os brasileiros voltaram a “bater asas”
por todo o país. Segundo os dados do órgão que regulamenta a aviação de passageiros
no Brasil, o acréscimo de pessoas voando pelo território nacional, em janeiro de 2010,
foi de 31, 63% sobre igual período de 2009, ainda com crise internacional. O analista
arredondou a informação para 32% no texto, mas, na tela, o índice apareceu tal qual o
documento da Anac. Beting informou também a taxa de ocupação dos assentos: 77,5%.
No texto, arredondada para 77%, mas, no vídeo, mostrada de acordo com o
levantamento da agência. Joelmir Beting encerrou essa terceira intervenção com outro
dado relevante: entre janeiro de 2008 e janeiro de 2010, 59% dos brasileiros com renda
mensal média de 2 mil Reais voaram pela primeira vez na vida. Beting divulgou essa
informação de maneira mais vagarosa. O período, o índice, a renda, a expressão “pela
primeira vez‟ e “na vida” foram pronunciados após breves pausas. Esse ritmo deu mais
ênfase à notícia, bastante relevante para os brasileiros.

Em 11 de fevereiro de 2010, Beting fez quatro comentários no Jornal da Band. Na


primeira participação, de 30 segundos, o analista noticiou sobre o fechamento das
principais bolsas ao redor do mundo. Os índices encerraram aquele dia em alta superior
a 1% impulsionados pela ajuda da União Europeia à Grécia. Joelmir Beting falou que o
bloco comercial jogara a “boia salva-vidas” para aquele país, segundo o jornalista,
afogado até o pescoço em dívida pública. A Bovespa encerrou as negociações em alta
de 1,66%, aos 66128 pontos. De acordo com Beting, o dólar preferiu andar de lado mais
uma vez, cotado a R$ 1,849, número que o jornalista arredondou, no texto para R$ 1,85,
alta de 0,01%. A cotação do Euro, a moeda comum da União Europeia, fechou com
valor de R$ 2,53, queda de 0,51%.

A segunda participação de Joelmir Beting durou 45 segundos, teve viés político e


aconteceu após a intervenção do repórter Willian Correa, ao vivo, dos estúdios da Band,
em Brasília. Correa fez um resumo sobre a carreira política de José Roberto Arruda
47

(DEM-DF), governador do Distrito Federal, que estava preso sob acusação de receber
propina. A prisão ocorreu após divulgação de um vídeo que mostrava Arruda, ainda em
campanha eleitoral, recebendo um maço de dinheiro, no total de 50 mil Reais. O
esquema de corrupção, presente nos poderes Executivo e Legislativo do DF, descoberto
durante a operação “Caixa de Pandora”, da Polícia Federal, ficou conhecido como
“mensalão do DEM”. Caso semelhante foi registrado em 2004 e envolveu autoridades
do alto escalão do governo federal, sob a liderança do presidente Luis Inácio Lula da
Silva, do Partido dos Trabalhadores. Beting iniciou o comentário com uma ironia:
enquanto isso estava escrito, os esforçados congressistas brasileiros. A ironia do
jornalista deve-se ao fato de a maioria da população brasileira considerar lentos os
trabalhos no Congresso Nacional. Joelmir noticiou o adiamento, pelos parlamentares,
para março e abril, o exame-votação do projeto de Internet de Inclusão Social, mais
conhecido como Internet Popular; adiaram também a apreciação de projetos do Pré-sal e
da consolidação das Leis Sociais, de acordo com Beting, matérias importantes, de
interesse do País. O jornalista prosseguiu falando que, no Congresso Nacional, parece
que o ano não começa após o carnaval, mas depois da páscoa e, em ano eleitoral, como
2010, termina logo em junho. Uma crítica: quatro meses de trabalho para 14 meses de
salário. Na verdade, os deputados e senadores recebem 15 salários anualmente. O
encerramento foi feito com mais uma ironia e de forma bastante enfática: e eles
trabalham, quando trabalham, 12 dias úteis por mês. Nesse momento, Joelmir fez uma
expressão de atenção franzindo a testa e arregalando os olhos. Pausas foram feitas entre
as palavras trabalham e quando e entre a palavra úteis e a expressão por mês. A ênfase e
as pausas transmitem uma sensação de alerta à população e de cobrança aos políticos
em questão pelo jornalista.

Após matéria sobre as pessoas que confeccionam os bonecos gigantes do carnaval de


Olinda, Pernambuco, Joelmir Beting informou decisão tomada pelo presidente do
Banco Central, Henrique Meirelles, de não mais concorrer ao cargo de governador de
Goiás pelo PMDB, partido ao qual se filiara em 2009 exatamente para concorrer à
cadeira de chefe do executivo daquele estado. Olhando para baixo, provavelmente em
direção a algum papel, Beting leu trecho da nota do líder da autoridade monetária a
cerca de sua escolha: minha decisão, sobre meu futuro profissional, será anunciada ao
final de março. Para citar, quando de sua escolha para chefiar o BC, em 2002, Meirelles,
engenheiro por formação, ex-presidente do Bank Boston, se elegera deputado federal
48

pelo PSDB. Ele disputou uma vaga na Câmara a convite do ex-presidente da República,
Fernando Henrique Cardoso. Sua saída da legenda, já durante o primeiro mandato do
presidente Lula, entretanto, não se deu em decorrência da indicação ao BC, mas por
denúncias de sonegação na declaração de Imposto de Renda. Na época, a fim de evitar
problemas para Meirelles e para o Governo, o presidente Lula enviou medida provisória
ao Congresso conferindo status de ministro ao presidente do Banco Central. O texto
fora aprovado e Henrique Meirelles passou a ter foro privilegiado, podendo ser julgado
apenas pelo STF – Supremo Tribunal Federal – a instância máxima do judiciário
brasileiro. Essa participação durou 20 segundos.

Beting apareceu pela quarta e última vez, durante 50 segundos, na edição de 11 de


fevereiro do Jornal da Band, depois de o repórter Rinaldo de Oliveira, ao vivo, direto
da sede da Polícia Federal, em Brasília, divulgar informações atualizadas sobre o
governador do DF, José Roberto Arruda, preso na carceragem daquele órgão. O
jornalista iniciou dizendo que com o petróleo flutuando pela banda de 70 a 80 Dólares,
o dobro de fevereiro de 2009, a Agência Internacional de Energia divulgara dados
mostrando um avanço no consumo mundial do produto para 86, 5 milhões de barris por
dia, no mesmo ritmo de recuperação da economia após crise global. O mesmo relatório
da Agência apontou, na produção da commodity, a liderança do Brasil, com expansão de
10%. Beting encerrou essa intervenção com a notícia de mais uma descoberta da
Petrobrás na bacia de Campos: uma reserva com previsão inicial de 25 milhões de
barris. O achado foi localizado sob águas rasas. Beting ratificou a importância desse
detalhe dizendo que a exploração não exigiria o trabalho de “12 Hércules do Pré-sal”.
Quando informou que a cotação do barril do petróleo, em fevereiro de 2010, era o dobro
dos valores registrados um ano antes, Joelmir Beting elevou a voz e se mexeu na
cadeira. Talvez ele quisesse deixar claro o aumento de 100%, em um ano, nos preços do
petróleo. Ainda na divulgação desse dado, foi utilizada, pelo analista, a expressão é bom
lembrar. Para justificar o aumento da demanda mundial de petróleo, no mesmo ritmo da
recuperação econômica, depois da palavra ritmo, de maneira bem sutil, foi pronunciado
o verbete “claro”. Antes de anunciar a descoberta da Petrobrás, Beting pronunciou a
interjeição “ah”. O uso dessa interjeição deu ênfase à notícia porque veio depois de o
jornalista divulgar o aumento mundial do consumo e o apontamento do Brasil como
maior produtor de petróleo no mundo, em 2009. Enfatizar mais uma reserva, isso após
tantas outras, recentemente encontradas, parece mostrar a importância econômica de
49

exploração da camada Pré-sal, localizada a mais de 5 mil metros de profundidade, que


exigirão muito mais esforço material e tecnológico por parte da Petrobrás e de outras
empresas petrolíferas. Trabalho esse, justificado pelos “12 Hércules 20 do Pré-sal”.

Em 12 de fevereiro, Joelmir Beting fez quatro comentários no Jornal da Band, tendo o


primeiro duração de 50 segundos e os demais de 40 segundos. Sua primeira participação
aconteceu após matéria sobre o carnaval da cidade histórica de Ouro Preto, interior de
Minas Gerais. Beting, talvez por causa do tema da reportagem, iniciou sua fala com um
leve sorriso para dizer que a revista inglesa The Economist publicara longo ensaio sobre
o Brasil no qual traçara um paralelo entre a reativação da economia e o espírito do
carnaval brasileiro. A partir desse trecho, a feição do jornalista muda, passando a
mostrar seriedade para citar que, de acordo com a publicação, a economia brasileira e o
carnaval apresentam sucessos e excessos. Ainda segundo o periódico, a “escola de
samba do setor privado” recuperou o ritmo e o enredo, mas a “escola de samba do setor
público” está com o samba cada vez mais atravessado. Economist mostra, no texto, que
os gastos do governo brasileiro crescem três vezes mais do que a economia e a dívida
pública acabara de alcançar 1,5 trilhão de Reais. Beting encerrou essa participação de
maneira cômica, embora muito séria e mais pausada: quer dizer, na gastança, ainda
vamos de bum bum paticumbum prugurundum. Embora engraçado, o final precisou
transmitir a seriedade que o assunto exige. Depois desse momento, Ticiana e Boechat
começaram a rir e o âncora pediu a Joelmir para repetir. Beting o fez com um sorriso
intenso no rosto e até arregalou os olhos. Passado o comentário, não havia mais
problema em descontrair um pouco.

Joelmir Beting ocupou o vídeo pela segunda vez, em 12 de fevereiro, depois de


reportagem sobre e “Estação Espacial Internacional”. Ticiana Villas Boas noticiou a
instalação de janelas panorâmicas no equipamento e uma pequena rachadura no ônibus
espacial Endeavour, que levara cinco astronautas norte-americanos para a estação. De
acordo com a Nasa – a Agência Espacial Norte-Americana –, o problema não era grave,
mas talvez seria necessária uma caminhada a mais no espaço para retificá-lo. Beting
comentou o fechamento dos principais mercados ao redor do Planeta. Após pronunciar a
frase que sempre introduz seus comentários sobre a movimentação diária das bolsas – e
no mercado financeiro global –, o jornalista mostrou presença de espírito ao dizer a

20
Hércules é o personagem da mitologia grego, filho de Zeus e da mortal Alcmena. Um dos mitos
associados a Hércules são 12 trabalhos, sendo o último deles a captura do cão Cérbero.
50

expressão “aqui na terra” que parecia não estar escrita do texto, por ter sido dita em um
claro improviso. Meio por cento foi a queda registrada nas bolsas dos Estados Unidos e
da Europa. A Bovespa, segundo Beting, ficou por aí com queda de 0,41%. Para o
analista, no último dia de negociações da semana, o mercado ficou “chateado” com o
resultado do PIB de 2009 da Zona do Euro: recessão de 4%. Entretanto o mesmo
mercado poderia se “alegrar” com a China que, a partir daquele final de semana,
iniciaria o ano novo, o ano do tigre, segundo o zodíaco chinês. Na cultura chinesa, isso
significa ter êxito na economia. Beting encerrou dizendo que seriam proezas
econômicas de um tigre que já virou dragão. Quando disse “ano do tigre”, o jornalista
pronunciou com força a palavra tigre e falou mais vagarosamente “de um tigre que já
virou um dragão”. Com isso, o analista mencionou a crescente necessidade da China por
matérias-primas, principalmente minério de ferro e petróleo, e a velocidade com a qual
o país se transforma em um dos “motores” da economia mundial. No ranking das
maiores riquezas do mundo, a segunda posição, atrás apenas dos EUA, é ocupada pela
China.

O terceiro comentário de Beting, com viés político, teve início com um grande sorriso.
O motivo foi a reportagem que antecedeu sua participação. O presidente Lula
inaugurara uma barragem em Goiás e, no discurso, reclamou do atraso na obra de um
viaduto no Rio Grande do Sul, provocado por razões ambientais, a presença do Brasil
em diversos grupos mundiais e que depois de encerrar seu último dia de mandato, em
31 de dezembro de 2010, iria para comemorar o ano novo e tomar um uísque ou uma
cachaça se alguém do estado o presenteasse. O público presente ao evento sim, deu boas
risadas com as palavras do presidente. Quanto às obras do viaduto gaúcho, Lula disse
que foram interrompidas por causa de uma perereca que pensaram estar extinta até ser
descoberto o contrário. No discurso, de improviso, Lula disse dar graças a Deus pela
descoberta porque as pererecas não podem ser extintas. Beting começou com sorriso
aberto, batendo a caneta na bancada, levemente e dizendo “muito bom”. A expressão
facial mudou quando o jornalista repetiu as reclamações do presidente para mencionar
que perereca interrompeu construção de ponte no Rio Grande do Sul, perereca também
atrasou a construção do trecho sul do rodoanel, em São Paulo. O analista trouxe
informação de que uma espécie de papagaio do bico-cor-de-rosa impedia, há mais de 20
anos, a construção de dois túneis na rodovia Régis Bittencourt, conhecida, segundo o
analista, como “rodovia da morte”. Joelmir informou, ainda, balanço do Ministério dos
51

Transportes dando conta de mais de 2 mil quilômetros de malha rodoviária federal com
repavimentação interrompida por falta de licenciamento ambiental. O comentário foi
encerrado com uma ironia: ou seja, buraco pode, asfalto não. Beting fez duas pausas em
sua fala: antes de apresentar o motivo da interrupção do conserto das estradas federais –
o licenciamento ambiental – e antes da palavra asfalto, na ultima frase. Essa palavra foi
pronunciada com uma notória expressão de desânimo, como se houvesse, ali, uma
reclamação de que, no Brasil, o meio-ambiente prevalece em detrimento do
desenvolvimento econômico do país.

O quarto comentário de Beting, em 12 de fevereiro, o último analisado, foi feito após


vivo, direto da carceragem da Polícia Federal, em Brasília, no qual a repórter Sonia
Campos divulgou informações sobre o deputado distrital, Geraldo Naves, preso por
causa do mesmo esquema de corrupção que envolveu o então governador do Distrito
Federal, José Roberto Arruda. Naves, que tinha mandado de apreensão expedido desde
o dia anterior, estava foragido, mas acabara de se apresentar às autoridades. Joelmir
Beting introduziu a participação com mais um improviso: voltando ao Brasil que
trabalha. Uma crítica aos políticos envolvidos no caso de corrupção citado, e talvez aos
demais presentes em outros casos também, e uma antecipação ao tema da análise: a
nova marca alcançada pela produção brasileira de petróleo. O dado constava da revisão
da Agência Nacional do Petróleo – ANP – divulgada naquela data e apresentava o
número de 2,030 milhões de barris de petróleo extraídos diariamente, pela primeira vez
na história, perfazendo uma expansão de 7% em 12 meses. O analista informou que o
órgão considera a exploração do Pré-sal muito lucrativa com a unidade tendo valor
superior a 30 Dólares no mercado mundial. Consideração essa enfatizada com um “sim”
após pronunciar a palavra lucrativa. Depois dessa informação, foram divulgados, na
tela, os valores da commodity em Londres e Nova York, 72,35 Dólares e US$ 74,13
Dólares, respectivamente, na data. Beting disse que o produto havia se “contentado‟
com 73 Dólares. Uma ironia ao valor de 30 Dólares, considerado bom pela ANP. Então,
o analista deu uma inclinada com a cabeça para a direita e fez uma expressão ainda mais
séria para dizer o valor de um barril de petróleo, ainda “na boca do poço”, na média
mundial: nove Dólares. Segundo Beting, é possível vender a unidade por 15 Dólares.
Tudo isso foi dito de forma pausada, pois trata-se de uma dado relevante e pouco
conhecido pela maioria dos telespectadores. Beting cometeu um equivoco ao afirmar a
possibilidade de negociar o petróleo da camada Pré-sal por 15 Dólares. O próprio, em
52

comentário, feito no dia 11 de fevereiro, mencionou a necessidade de mais esforço para


extrair o produto de águas tão profundas, utilizando analogia com o personagem
Hércules, em número de dúzia. Além disso, a Petrobrás é uma empresa de capital misto,
ou seja, o governo é um dos acionistas, não o único; há investidores estrangeiros
aportando capital na companhia, interessados nos lucros de um dos papéis mais
rentáveis da Bovespa, ao lado da Vale; a demanda mundial por petróleo aumenta cada
vez mais, ao passo que a oferta diminui; e os próprios custos com tecnologia,
equipamentos, pessoal e logística tendem a encarecer a commodity retirada de
profundidades tão elevadas.

Algumas características da TV como informação visual, alcance, superficialidade e


audiência, apontadas por Paternostro (2006), estão presentes nas participações de
Joelmir Beting, no Jornal da Band. A informação visual, com os principais números da
economia, é inserida na tela para ratificar a informação textual divulgada pelo jornalista.
O visual faz-se necessário para facilitar a memorização do telespectador, a audiência do
programa. Além disso, as intervenções são breves, de, no máximo 55 segundos. Não é
possível aprofundar qualquer tema em tão pouco tempo; as informações transmitidas
pela televisão são superficiais, sem muitos detalhes.

Becker (2005) afirma que os modos de construção e transmissão das notícias trazem
simulacros, que acabam por intervir, inclusive, em outros campos sociais, especialmente
na política, frente à fragilidade de outras instituições no Brasil. Isso ficou evidente
quando Beting apontou a incidência da carga tributária brasileira (2/3 sobre a produção
e o consumo, ao contrário dos países desenvolvidos onde se cobra menos de 1/3), a
jornada de trabalho dos congressistas, o ritmo dos gastos do Governo Federal, citado
pela revista inglesa The Economist, e o atraso em obras públicas por falta de
licenciamento ambiental, também reclamado, em discurso, pelo presidente Lula. São
quatro situações em que o analista apresentou dados de setores importantes e
frequentemente fiscalizados por grupos da sociedade. Ainda segundo Becker (2005), os
telejornais são elaborados em linguagem marcada pela veracidade ao conteúdo
discursivo e credibilidade do enunciador (a segunda em conseqüência da primeira). É
que se pode constatar nos textos de Joelmir Beting, até pela sua experiência no trato
com a economia. Não obstante, o comentarista pretende construir um sentido com suas
participações no Jornal da Band. Seu discurso não é neutro ou livre de intenções, o que
53

está em acordo com a ideia de Becker (2005) segunda a qual o uso de linguagem parte
desses pressupostos.

Atualidade, proeminência, impacto, significado para o futuro e interesse público são


marcas que elevam um fato à categoria de notícia, listadas por Mouillaud (2002) e Wolf
(2002). Com relação ao personagem, a notícia sobre a desistência do presidente do
Banco Central, Henrique Meirelles, em concorrer ao cargo de governador de Goiás.
Esse fato não seria notório com um funcionário de escalão menor da instituição. O
telejornal é transmitido em rede nacional sendo o público goiano um dos mais
interessados nesse acontecimento, junto aos demais telespectadores do país por tratar-se
de uma autoridade em nível federal. Outro personagem citado por Beting foi o
presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, impedido de ir ao Congresso norte-
americano por causa de uma nevasca. Milhares, talvez milhões, de compatriotas de
Bernanke foram prejudicados pela neve, mas o sujeito em questão é o líder da
autoridade monetária dos Estados Unidos.

Ensinar, além de informar, para Beltrão (1976), é função do jornalista. Ao comentar o


modelo de cobrança dos impostos no Brasil, os custos de um barril de petróleo após sua
extração, o significado do “Ano do Tigre” para os chineses, Beting ensinou o público e
o fez interpretando a notícia atual, matéria-prima do jornalismo. Beltrão também alerta
para a necessidade de o locutor conhecer o que antecedeu e as possíveis consequências
de um fato. O discurso do presidente Lula, sobre os atrasos de obras públicas em
decorrência de fatores ambientais, e o levantamento do Ministério dos Transportes, a
respeito problemas na repavimentação de estradas por falta de licenciamento ambiental,
foram comentados por Joelmir Beting que fez uma previsão: o aumento dos buracos.

Por fim, a complexidade da economia exige do jornalismo um entendimento sobre o


assunto abordado para se alcançar a clareza, segundo Kucinski (2000), para que as
matérias não sejam preenchidas com termos técnicos, de compreensão restrita aos
profissionais da área. Joelmir Beting atua no jornalismo econômico desde os anos 1960
e testemunhou todos os fatos econômicos, no Brasil e no Mundo, a partir de então.
54

CONCLUSÃO

Conforme verificado em Resende (2003), o jornalismo econômico brasileiro teve início


em 1936, a partir de um boletim dedicado a pecuaristas, filiados ao sindicato da
categoria, do interior de São Paulo. Os primeiros textos, voltados para a economia, eram
relativos ao preço do gado e sua construção estava nas mãos de um bacharel em Direito.
Foi esse mesmo profissional, Mario Mazzei, o pioneiro na elaboração de trabalhos
direcionados ao assunto dentro das páginas de um jornal, o Folha da Manhã, do Grupo
Folhas, onde permaneceu dos anos 1940 até fins de 1958. Uma época em que bacharéis
em Direito e Ciências Sociais, segundo Resende (2003), se dedicavam ao noticiário de
economia.

Nos anos 1960, o jornalismo econômico passou a contar com os trabalhos de Joelmir
Beting. Recém formado em sociologia pela USP, Beting enveredou pela economia a
partir de um trabalho de conclusão de curso intitulado “Adaptação da Mão-de-Obra
Nordestina na Indústria Automobilística de São Paulo”, orientado pelo professor
Fernando Henrique Cardoso. Gostou tanto da área que tomou outro caminho dentro do
jornalismo: da editoria de esportes para a de economia. Um registro histórico: é de
Joelmir Beting a expressão “gol de placa”, criada a partir de um gol de Pelé contra o
Vasco, em 1961.

Desde então, Beting tem feito um jornalismo econômico simples. Utilizando palavras e
expressões populares, fenômenos naturais, datas comemorativas e analogias, o jornalista
consegue traduzir o economês de maneira clara e objetiva. Basile (2002) afirma que o
analista foi o primeiro a explicar, claramente, aos leitores o que significam os termos
econômicos do noticiário dessa editoria. Termos como “acelerador da economia” e
“bola de neve” eram empregados por Joelmir Beting para falar sobre crescimento dos
juros e eventos sucessivos em decorrência de um primeiro fato. Uma maneira tão
popular para tratar de um tema árido que rendeu a ele o apelido de “Chacrinha 21 da
Economia”, dentro do meio acadêmico.

Já no primeiro comentário analisado, Beting utiliza a palavra “enxugamento” para se


referir ao recolhimento, pelo Federal Reserve, do dinheiro que o Tesouro Americano

21
Abelardo Barbosa, o Chacrinha (30 de setembro de 1917-30 de junho de 1988), foi um exímio
comunicador e o fez com simplicidade, tornando-se um ícone da televisão brasileira.
55

utilizou para ajudar bancos em situação de risco ou, como disse o jornalista, “bancos em
apuros”. No dia-a-dia, a água empossada, molhando o chão, por exemplo, é enxugada e
colocada em um recipiente adequado, o balde. Quando se diz que alguém está em
apuros, significa que se encontra em um momento difícil e isso requer um cuidado
extra, uma atenção mais focada. Outros termos presentes em uma das participações de
Beting foram “boia salva-vidas” e “afogada até o pescoço”. O primeiro para ilustrar a
ajuda da União Europeia à Grécía e o segundo para explicar o problema grego: dívida
pública nas alturas. Apenas isso não é suficiente para o telespectador compreender toda
a situação das instituições financeiras socorridas ou da Grécia, nem como funcionou a
ajuda a ambas, mas é a típica notícia na qual deve-se lançar mão de termos populares
porque o público final é esse. Mesmo a audiência maior do Jornal da Band sendo
predominante na classe AB, em idade adulta, com poder de compra e altamente
qualificado, não é o perfil único dos telespectadores do programa e, para todos os perfis
parte-se do pressuposto de serem pessoas que não fazem parte, no cotidiano, do
universo da economia. Ou seja, Beting faz um jornalismo econômico acessível à sua
audiência, podendo ser compreendido pelo adulto da classe alta e pelo porteiro do
condomínio de uma região nobre da cidade.

Joelmir Beting apresenta seus comentários na mesma bancada na qual estão Ricardo
Boechat e Ticiana Villas Boas, os âncoras do telejornal, então fica mais difícil o uso de
gráficos, tão comum quando se fala em muitos assuntos na pauta econômica. A solução
seria o jornalista levantar-se explicar os números e as linhas em subida ou descida, mas
isso exigiria mais tempo em suas participações. Beting não faz nada disso e apenas
alguns índices e indicadores mais relevantes são mostrados na tela quando o analista é
filmado. Os gráficos são importantes, entretanto a compreensão deles demanda um
esforço maior, mais espaço para análise e o entendimento sobre eles é mais facilmente
alcançado por quem lida com esse tipo de imagem com freqüência. A ausência desse
recurso não prejudica a qualidade da informação analisada por Beting, nem a
empobrece, ao contrário, elimina uma barreira para o telespectador compreender o
objeto principal do fato em questão.

Alguns textos de Joelmir Beting são didáticos. Isso pode ser observado quando o
jornalista explica como são cobrados os impostos de Renda e sobre produção e consumo
no Brasil e no mundo. Nos países desenvolvidos a maior parte da arrecadação é
proveniente da renda das famílias – quem ganha mais paga mais, quem ganha menos
56

paga menos, ou nada paga – enquanto, aqui, grande parte do bolo tributário é composta
pela taxação da produção e do consumo. O produto final não vê distinção entre ricos e
pobres e seu preço acaba pesando, além da medida, nos bolsos das pessoas que têm
menos recursos. Beting mostrou claramente uma situação que a maioria dos brasileiros
sente ao fazer compras: a alta carga tributária encarece nossos produtos.

Entre o Mercado e o Estado, o discurso de Beting segue a linha do primeiro. Ao analisar


o ensaio da revista inglesa The Economist, o jornalista compartilha da opinião da
publicação segundo a qual o setor privado brasileiro recuperou-se bem da crise global,
mas a máquina pública continua gastando mais do que arrecada, ou seja, é ineficiente.
Ineficiência, segundo Beting, também no “apagão aeroportuário de um sistema
sucateado” citado no comentário depois de matéria sobre problemas nos elevadores e no
equipamento de ar-condicionado do aeroporto Tom Jobim, no Rio de Janeiro.

Economia e Política são interdependentes. Comentar a primeira e ficar alheio à segunda,


ou vice-versa, é inviável na maioria dos temas, senão na totalidade. Os assuntos
políticos também integram o portfólio de Joelmir Beting. Os comentários sobre
adiamento de votações importantes no Congresso e a jornada de trabalho dos
parlamentares e seus salários são exemplos do conteúdo político das participações do
analista no Jornal da Band, na maioria das oportunidades, em tom de cobrança, o
mesmo tom com o qual defende o desenvolvimento a partir da melhoria da
infraestrutura. Aproveitando discurso do presidente Lula, no qual foi reclamado que
uma espécie de perereca adiou a construção de um viaduto no Rio Grande do Sul,
Beting citou dois túneis da rodovia Regis Bittencourt ainda não construídos por causa
dos papagaios-de-bico-rosa que habitam a região.

A tônica do discurso de Joelmir Beting é estar mais próximo do cidadão que não tem
conhecimento na temática econômica. Tal proximidade é alcançada com uma
linguagem de fácil acesso aos telespectadores, simplicidade na construção textual e na
exploração dos recursos visuais, além da posição exigente em relação às administrações
públicas e ao trabalho dos políticos em exercício de mandato.
57

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BASILE, Sidnei. Elementos de jornalismo econômico: a sociedade bem informada é


uma sociedade melhor. Rio de Janeiro: Negócio Editora, 2002.

BECKER, Beatriz. A Linguagem do Telejornal. Rio de Janeiro: E-Papers, 2005.

BELTRÃO, Luiz. Jornalismo interpretativo. Porto Alegre: Sulina, 1976.

BELTRÃO, Luiz. Jornalismo opinativo. Porto Alegre: Sulina. 1980.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. 2. ed. rev. atual. São Paulo:
Fundamento, 2007.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 27. ed. São Paulo: Nacional,
c1998.

GREMAUD, Amaury Patrick; VASCONCELLOS, Marco Antonio Sandoval de;


TONETO JÚNIOR, Rudinei. Economia brasileira contemporânea. 7. ed. São Paulo:
Atlas, 2007.

HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. Rio de Janeiro: Zahar Editores,


1981.

KUCINSKI, Bernardo. Jornalismo econômico. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2000.

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Rio de Janeiro: Campus, 2001.

MOUILLAUD, M. et al. O jornal: da forma ao sentido. 2. ed. Brasília: UnB, 2002.

PATERNOSTRO, Vera Iris. O texto na TV: manual de telejornalismo. 2. ed. rev. e


atual. Rio de Janeiro: Campus, 2006.

RESENDE, José Venâncio. Construtores do jornalismo econômico: da cotação do boi


ao congelamento de preços. São Paulo: SAA APTA, 2003.

WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. 7. ed. Lisboa: Presença, 2002.


58

PERIÓDICOS:

EXAME, Por dentro da empresa que dominou o mundo. São Paulo: Abril, EDITORA –
Edição 915.

EXAME, O brasileiro que quer dominar o mundo. São Paulo: Abril, EDITORA –
Edição 921.

EXAME, A era dos megabancos. São Paulo: Abril, EDITORA – Edição 931.

PESQUISA ELETRÔNICA:

BAND, Jornal da Band – gravação das edições do dia 10/02 a 12/02/2010. São Paulo:
BAND, 2010. DVD (19min), estéreo.

IBGE. Participação setorial no PIB do Brasil. Brasília. Disponível em:


<http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/pib-vol-val_200904_9.shtm>.
Acesso em: 13 mai. 2010.

INFOESCOLA. Síntese da história do personagem da mitologia grega, Hércules. São


Paulo. Disponível em: < http://www.infoescola.com/mitologia-grega/hercules/>. Acesso
em: 13 mai. 2010.

MDIC. Balança comercial. Brasília. Disponível em:


<http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=567>.
Acesso em: 13 mai. 2010.

PORTAL TERRA. Letra do samba Bum bum paticumbum prugurundum. São Paulo.
Disponível em: < http://letras.terra.com.br/imperio-serrano-rj/46375/>. Acesso em: 13
mai. 2010.

REVISTA FORBES. Lista dos homens mais ricos do mundo. Disponível em:
<http://www.forbes.com/lists/2010/10/billionaires-2010_Eike-Batista_R3VO.html>.
Acesso em: 13 mai. 2010.

UFCG. Síntese da biografia de Abelardo Barbosa, Chacrinha. Campina Grande.


Disponível em: < http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/Chacrinh.html>. Acesso em: 13
mai. 2010.
59

WORLD BANK. Estatística sobre a população mundial ano 2008. USA. Disponível
em: <http://siteresources.worldbank.org/DATASTATISTICS/Resources/POP.pdf>.
Acesso em: 13 mai. 2010.

TECSI/USP. Industrialização por substituição de importações. São Paulo.


Disponível em:
<http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/Contecsi2004/BrasilEmFoco/port/economia/indust
ri/substimp/apresent.htm>. Acesso em: 13 mai. 2010.
60

ANEXO A

Imagens do Jornal da Band em 10, 11 e 12 de fevereiro de 2010

Frame de vídeo: Ticiana Villas Boas, Ricardo Boechat e Joelmir Beting em 10/2/2010

Frame de vídeo: O âncora e editor-chefe, Ricardo Boechat em 10/2/2010


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Frame de vídeo: Âncora e editora de Tempo Ticiana Villas Boas em 10/2/2010

Frame de vídeo: Comentarista e editor de Economia Joelmir Beting em 10/2/2010


62

Frame de vídeo: Joelmir Beting em 11/2/2010

Frame de vídeo: Joelmir Beting em 12/2/2010


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ANEXO B

Transcrição dos comentários de Joelmir Beting

Transcrição dos comentários de Joelmir Beting em 10 de fevereiro de 2010

1º Comentário – Essa neve de meio metro não paralisou as bolsas de Nova York, mas
deixou o presidente do Banco Central, Ben Bernanke... não deixou ele comparecer ao
Congresso em Washington. Sua mensagem ao mercado, tão esperada, saiu só pela
internet e acabou ainda desagradando pelo seu conteúdo. Ele anunciou que começa
agora o enxugamento dos dinheiros aplicados pelo Tesouro americano na salvação de
bancos em apuros. As bolsas de Nova York acabaram fechando em queda de 0,30 e foi
de 0,5%, na contramão, a alta aqui da bolsa de São Paulo, que voltou a flutuar acima de
65 mil pontos. E o dólar, andando de lado, permaneceu na faixa de um e oitenta e
quatro.

2º Comentário – Nos países desenvolvidos, que se desenvolveram até por causa disso, o
piso maior da carga tributária, sobre a economia e a sociedade, é depositado, ali, na
renda e no patrimônio. Apenas, menos de 1/3 na produção e no consumo. Agora, na
renda das pessoas físicas, o imposto trata desigualmente ou desiguais, quem ganha mais
paga mais quem, ganha menos paga menos, ou nada paga. É um imposto justo. Agora,
no consumo das famílias, os impostos tratam igualmente os desiguais, tirando até dos
mais pobres do que tiram dos ricos. É cruel, pois no Brasil, ao contrário, 2/3 da carga
tributária estão na produção e no consumo. Então, mais uma vez, um dos dois está
errado: ou o Brasil, ou o Mundo.

3º Comentário – Em que pese esse autêntico apagão aeroportuário de um sistema


sucateado, os brasileiros voltaram mesmo a bater asas por todo o país. A Anac [Agência
Nacional de Aviação Civil] informou hoje que o movimento de janeiro (nos aeroportos)
ficou 32% acima do mesmo mês do ano passado, tempo de crise. A taxa de ocupação
dos aviões subiu agora para 77% e dos assentos. Com um detalhe: nos últimos dois
anos, nada menos de 59% dos brasileiros, com renda mensal média de R$ 2 mil, voaram
pela primeira vez na vida.
64

Transcrição dos comentários de Joelmir Beting em 11 de fevereiro de 2010

1º Comentário – E no mercado financeiro global, as bolsas fecharam, hoje, em alta de


1% por que a União Européia jogou mesmo a bóia salva-vidas para a Grécia, já afogada
até o pescoço na dívida pública. A bolsa de São Paulo escalou 1,66 superando os 66 mil
pontos. O Dólar preferiu andar de lado, mais uma vez, cotado na faixa de R$ 1,84 e o
Euro recuou para R$ 2,53.

2º Comentário – Enquanto isso estava escrito, os esforçados congressistas brasileiros


combinaram deixar para março e abril o exame-votação do Projeto de Banda Larga de
Inclusão Social, vulgo Internet Popular. Também adiaram, para março e abril, a
tramitação dos projetos do Pré-sal e da Consolidação das Leis Sociais. São matérias
relevantes, de interesse do País. Mas parece que para os nossos políticos o ano novo no
Brasil começa não depois do Carnaval, mas depois da Páscoa. E neste ano de eleição,
então, termina logo em junho. Quer dizer, um ano de quatro meses de trabalho para
quatorze meses de salário. E eles trabalham, quando trabalham, 12 dias úteis por mês.

3º Comentário – E em nota oficial, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles,


informou, hoje, que desistiu de se lançar candidato ao governo do estado de Goiás, pelo
PMDB. E adiantou: “minha decisão sobre o meu futuro profissional será anunciada ao
final de março”.

4º Comentário – E com o petróleo flutuando no mundo pela banda de 70 a 80 Dólares o


barril, o dobro de fevereiro do ano passado, é bom lembrar, a Agência Internacional de
Energia informou hoje que o consumo mundial vai avançar, neste ano, para 86 milhões
e meio de barris por dia e no mesmo ritmo de recuperação, claro, da economia pós-crise
global. E pelo lado da produção, a Agência aponta o Brasil como líder do setor no ano,
com expansão de 10%. Ah, hoje a Petrobrás anunciou nova descoberta na bacia de
Campos. Uma importante reserva, ali, inicial de 25 milhões de barris. Mais importante:
em águas rasas. Sem o trabalho de 12 Hércules do Pré-sal.
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Transcrição dos comentários de Joelmir Beting em 12 de fevereiro de 2010

1º Comentário – E por falar em carnaval, pelo país inteiro, a flegmática revista inglesa
The Economist publica, em sua edição deste fim de semana, um longo ensaio sobre o
Brasil. Ela traça um paralelo entre a reativação da economia e o espírito do carnaval
brasileiro. Economia e carnaval, hoje, segundo ela, com seus sucessos e seus excessos.
A revista pondera: “a escola de samba do setor privado recuperou o ritmo e o enredo,
mas a escola de samba do setor público está com o samba cada vez mais atravessado.
Os gastos do governo continuam crescendo três vezes mais que a economia e a dívida
federal interna acaba de alcançar R$ 1 trilhão e meio”. Quer dizer, na gastança, ainda
vamos de bum bum paticumbum prugurundum.

2º Comentário – E no mercado financeiro global, hoje, aqui na terra né, foi dia de baixa
geral em torno de 0,5 % na Europa, Estados Unidos, a bolsa de São Paulo ficou por aí
com queda 0,41%. No fechamento da semana, o mercado ficou chateado com a
divulgação do PIB 2009 da Zona do Euro: recessão de 4%. Mas pode se alegrar, a partir
de amanhã, com a China que começa, neste sábado, o Ano do Tigre que o zodíaco
chinês traduz por “ano de proezas econômicas”, de um tigre e que já virou um dragão.

3º Comentário – Mas como diz o presidente Lula, perereca travou construção de viaduto
no Rio Grande do Sul, perereca também atrasou a construção do trecho sul do rodoanel
de São Paulo. E uma espécie de papagaios de bico rosa impede, há mais de vinte anos, a
construção dos túneis da Régis Bittencourt, a rodovia da morte. E hoje, o Ministério dos
Transportes informou que mais de 2 mil quilômetros de malha rodoviária federal estão
com a repavimentação interrompida por falta de licenciamento ambiental. Ou seja,
buraco pode asfalto não.

4º Comentário – Voltando ao Brasil que trabalha, a revisão da Agência Nacional do


Petróleo, divulgada hoje, revela que a produção brasileira já está na marca de 2 milhões
de barris por dia, pela primeira vez. Uma expansão de 7% em doze meses. E nos
cálculos da agência, a exploração do Pré-sal será muito lucrativa, sim, com o barril
acima de 30 Dólares, no mercado mundial. Hoje, contentou-se com 73. Em tempo,
quanto custa um barril de petróleo na produção, ali na boca do poço, também na média
mundial? Nada além de nove Dólares. Dá até para vender por 15 [Dólares].