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Biologia -

Observa-se a existência de condições ambientais e bioecológicas mais favoráveis nas localidades


rurais, pois estas ficam próximas à vegetação natural que se desenvolve às margens dos corpos
d'água (rio, riachos e córregos), onde se formam os alagadiços e brejos. Nesses ambientes
úmidos, há um maior afluxo de maruins, que acabam invadindo os ambientes peridomiciliares
próximos, onde frequentemente se encontram aglomerados de animais domésticos, potenciais
hospedeiros sanguíneos para estes insetos.

A modificação das matas e brejos, por meio de atividades de desmatamentos e aterros,


respectivamente, pode diminuir a oferta de recursos chaves, como alimento, abrigo e criadouro
nos ecótopos naturais. Esse processo pode intensificar a chegada dos maruins aos núcleos
rurais, principalmente se não houver melhorias sanitárias e ambientais nos núcleos rurais. Em
consequência e, por causa do hábito hematofágico, as fêmeas de maruins podem constituir
verdadeiras pragas para o homem e vertebrados domésticos.

Apesar da maioria das espécies de Culicoides sugar uma variedade de vertebrados, as aves
constituíram os animais mais procurados, talvez por serem os mais frequentes nas habitações e
de maior densidade nos ambientes peridomésticos, conforme o depoimento dos moradores
locais. Neste caso, pode-se afirmar que os Culicoides também são oportunistas, por atacar com
mais avidez, o animal disponível no ambiente.

Nesse sentido, a presença do homem como o quarto hospedeiro mais sugado no presente
estudo, evidencia que além de estar incluído na dieta das fêmeas de Culicoides também pode
participar de eventuais ciclos epidemiológicos de parasitas, devido ao hábito eclético destes. Os
resultados deste estudo indicam que os Culicoides organizam o seu alimento de acordo com a
disponibilidade de vertebrados, apresentando uma característica peculiar aos hematófagos que
é de sugar o maior número de hospedeiros. Dessa forma, a variedade de animais que são criados
nos ambientes peridomésticos, ao tornarem-se fonte alimentar de sangue, passam a ter grande
significado na manutenção desses insetos no ambiente doméstico.

Do ponto de vista epidemiológico, o estudo do conteúdo estomacal dos Culicoides, para a


determinação de suas fontes alimentares, permite a obtenção de informações úteis para a
indicação de vertebrados que potencialmente servem de reservatórios para esses parasitas. Na
medida em que os vertebrados se aproximam ou coexistam no ambiente antropizado, alguns
patógenos acabam afetando o ser humano, como se observa na região amazônica, onde surtos
de infecção causados pelo vírus Oropouche são frequentes.

Os animais domésticos são importantes fatores de atração de populações de Culicoides para os


peridomicílio. Nesses ambientes, várias espécies desses dípteros foram encontradas
alimentadas com sangue de vertebrados. A presença de abrigos de animais domésticos,
construídos de forma desordenada e a carência de condições mínimas de saneamento básico
também são condições que podem facilitar a proliferação desses insetos nos peridomicílios.
Sabe-se que certas espécies de Culicoides desenvolvem-se em lamaçais, esterco de animais,
buracos de árvores, tecidos vegetais em decomposição que podem estar expostos nos
ambientes peridomiciliares.

Ciclo de vida

Os maruins são insetos holometábolos, cujo ciclo de vida inclui os estágios de ovo, larva, pupa e
adulto, podendo durar de três semanas em climas tropicais até um ano em climas temperados.
Normalmente fêmeas adultas requerem uma refeição de sangue, a fim de amadurecer seus
folículos ovarianos. As larvas e pupas de maruins podem desenvolver-se em poças, correntezas,
brejos, lamaçais, praias, pântanos, buracos de árvores, irrigações, solos saturados, esterco de
animais e tecidos de frutas ou outros vegetais em decomposição.

Os ovos têm 400 µm de comprimento por 50 µm de largura com formato elipsoide curvado,
lembrando o formato de banana. Geralmente são postos em lotes que aderem ao substrato
(troncos de bananeiras, cascas de cacaueiros, esterco animal, bancos de areia, etc.) ou podem
ficar sob a coluna d' água em ambientes aquáticos. Quando são postos possuem coloração
branca e com o passar do tempo adquirem a tonalidade escura. Não são resistentes ao
ressecamento e eclodem entre dois a sete dias.

As larvas podem ser encontradas em ambientes com água ou semiaquático, ou apenas com
umidade, dentre rios, pântanos, praias, esterco animal, solos alagados, cascas de árvores, frutas
em decomposição e outros ambientes.

Figura 5: Ambientes de procriacao e habitats de imaturos de Culicoides. A: solo encharcado; B:


esterco bovino; C: bananal. Fonte: L.P.C. Carvalho. (Foto mandei pra Luana) Commented [Hk1]: Figura por email

Os insetos adultos podem ser encontrados desde ambientes florestais úmidos, poças, praias,
montanhas e mangues, a abrigos de animais domésticos de zonas rurais, periurbanas e urbanas.

A maioria das espécies de Culicoides é de hábito crepuscular, sendo encontradas ao entardecer


e ao amanhecer, com picos de atividade por volta de 17:00 e 18:00 e nas primeiras horas do dia
entre 04:00 e 05:00, embora algumas espécies possuam hábito noturno e outras espécies são
diurnas, como Culicoides paraensis. As fêmeas têm atividade de voo relacionada à busca por
refeição de sangue e local para oviposição e sua autonomia de voo atinge de 2 a 3 km do local
de procriação. Os machos assim que emergem formam enxames durante o voo, que ocorrem
próximo aos locais dos quais emergiram, e as fêmeas ao passar pelo enxame são abordadas pelo
macho. A cópula pode acontecer durante o voo ou os insetos pousam no substrato (solos, rochas
ou galhos de árvores).

Importância médica

Ao praticarem a hematofagia, os maruins podem funcionar como vetores de várias espécies de


parasitas. Assim, nas áreas neotropicais há relato de que filárias podem ser transmitidas por
maruins, como sucede com Mansonella ozzardi que no norte da Argentina é transmitida para
humanos pelo Culicoides lahillei e, no Brasil, com Onchocerca cervicallis, que suspeitasse ser
transmitida por Culicoides spp. Do mesmo modo, C. paraensis transmite o vírus do Oropouche.
Há relato também da transmissão de protozoários. Commented [Hk2]: Não precisa citar essas espécies no
slide, a maioria delas é de importância veterinária ou de
Além disso, as picadas de fêmeas de maruins podem causar desconforto, insônia, irritabilidade outros países. Estão aqui mais para contextualizar.
e reações alérgicas em seus hospedeiros. Ela pode causar reações como dermatites alérgicas,
pápulas, pústulas até reações mais graves como eczema, descamação e cicatrizes com
pigmentação anormal da pele de humanos. Nesse sentido, o ataque que algumas espécies de
Culicoides spp. realizam sobre vertebrados, incluindo o homem, pode causar impacto no
desenvolvimento de áreas úteis para a agricultura, pecuária e turismo, tornando esse gênero de
grande importância não apenas para a medicina humana e veterinária, mas também para a
economia e o meio ambiente
Mansonella ozzardi

O diagnóstico da infecção por M. ozzardi depende da presença das microfilárias no sangue


periférico. As microfilárias desta espécie são encontradas no sangue periférico, sem
periodicidade.

A sobrevida dessa espécie de microfilária é estimada em 32 meses, com o seu ciclo biológico
completado em dípteros do gênero Culicoides em doze dias. Durante uma refeição de sangue
(hematofagia), um mosquito infectado introduz larvas infectantes (L3) na pele do homem,
através da abertura da picada. Tornam-se vermes adultos que permanecem geralmente no
tecido subcutâneo. Esses vermes adultos produzem microfilárias que alcançam à corrente
sanguínea que quando de uma refeição de um novo mosquito são ingeridas pelo mosquito
juntamente com o sangue indo até o estomago de onde através da hemocele migram para os
músculos torácicos do mosquito. Nos músculos torácicos do mosquito se transformam em larva
de primeiro estádio (L1), segundo estádio (L2) e larva infectante (L3) que poderá no momento
de uma nova refeição sanguínea infectar um novo indivíduo.

Oropouche

O VORO (Oropouche) ocorre em dois ciclos: o silvestre e o urbano. No ciclo silvestre, os possíveis
reservatórios são aves, macacos e preguiças, tendo como possível vetor Aedes serratus. No ciclo
urbano, o vírus é transmitido ao ser humano através da picada de Culicoides paraenses Goeldi,
que está presente fora ou dentro de domicílios, visto que seus hábitats são plantações de
banana e cultivo de cacau de zonas urbanas e semiurbanas, com atividade diurna de picadas
principalmente em horários no início da manhã e ao final da tarde.

Os sintomas da febre de Oropouche se assemelham com outras doenças, como dengue e


malária, e são caracterizados por quadro febril agudo, cefaleia, artralgia, mialgia, fotofobia,
meningite asséptica e outras manifestações. Os sintomas reaparecem poucos dias após o
primeiro episódio febril, apesar dos primeiros sintomas serem mais severos.

"O oropouche é um vírus que tem um grande potencial de emergência, porque o Culicoides
paraensis está distribuído por todo o continente americano. O vírus pode sair da região
amazônica e do planalto central e chegar às regiões mais povoadas do Brasil," apontou Luiz
Tadeu.

No Brasil, o vírus já foi isolado em aves no Rio Grande do Sul, em um macaco sagui em Minas
Gerais e foi detectada a presença de anticorpos neutralizantes (que se ligam ao vírus e sinalizam
ao sistema imune que destrua aquele corpo estranho e o impeçam de completar a infecção com
sucesso) em primatas em Goiânia.

O inseto se alastra igualmente no esterco de galinha e de porco, nas hortas em que o esterco é
utilizado como adubo e mesmo nos gramados de jardins. Enfim, se o ambiente tiver umidade e
temperatura de em média 28 graus centígrados, a proliferação é maior ainda.