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Vocação Perigosa

Confrontando os desafios singulares do chamado pastoral

paul trip p
Vocação Perigosa
C o n f r o n t a n d o os d e s a f i o s s i n g u l a r e s do c h a m a d o p a s t o r a l

Este é um livro diagnóstico. Ele foi escrito para ajudá-lo a olhar para si
mesmo no espelho expositor da vida e do coração, que é a Palavra de
Deus - para ver coisas que estão erradas e precisam ser corrigidas e para
ajudá-lo a colocar-se, mais uma vez, sob o poder curador e transform ador
do evangelho de Jesus Cristo.

“Este livro é bom no mesmo sentido em que uma cirurgia cardíaca é boa.
É doloroso e am edrontador e, ao lê-lo, você será tentado a fugir da
verdade que ele contém. Mas, ele pode até salvar a sua vida. Pastores
precisam deste livro. Eu sei que realmente preciso dele. Ele me mudou e
até me repreendeu ao dar-me esperança e fé renovada em Deus para o
ministério pastoral.”
Joshua Harris, pastor titular da Covenant Life Church, Gaithersburg,
Maryland, autor de Sexo não é problema, lascívia, sim, da Cultura Cristã.

“Meu amigo Paul Tripp repetiu o feito. Com discernim ento inquiridor e
realismo robusto, ele olha com honestidade para os desafios que são sin­
gulares ao ministério pastoral ou intensificados por ele. Centralizado no
evangelho e saturado de graça, Vocação Perigosa é um livro cuja leitura
é obrigatória para qualquer pastor ou sem inarista que precisa ser incenti­
vado pela lembrança de que Jesus veio para fazer por nós o que nós
nunca faríam os por nós mesmos ou por outros”.
Tullian Tchividjian, pastor da Coral Ridge Presbyterian Church, autor de
Fora de moda e Surpreendido pela graça, ambos da Cultura Cristã.

Dr. Paul David Tripp (M.Div. D.Min.) é pastor, escritor e palestrante internacio­
nal. É presidente do Paul Tripp Ministries e sua visão o levou a escrever quinze
livros sobre a vida cristã e a viajar pelo mundo pregando e ensinando. Entre
outros títulos, escreveu Como as pessoas mudam, Em busca de algo maior,
Guerra de palavras, O que você esperava?, Relacionamentos - Uma confusão
que vale a pena (com Timothy Lane) e Sexo e Dinheiro (todos da Cultura Cristã).
Paul é casado com Luella e o casal têm quatro filhos adultos.

A conselham ento / Vida cristã

EDITORA CULTURA CRISTÃ


s Poim ênica

w w w .e d ito ra c u ltu ra c ris ta .c o m .b r


Depois de viajar ao mundo e falar
em milhares de igrejas em todo o
mundo, Paul David Tripp desco­
briu um sério problema na cultura
pastoral.

Vocação Perigosa revela que a


cultura em torno de nossos
pastores é espiritualmente insalu­
bre - um ambiente que mina ati­
vamente o bem-estar e a eficácia
dos líderes da nossa igreja e,
portanto, todo o corpo da igreja.

Aqui está um livro que diagnostica


e oferece curas para questões
que afetam cada membro e líder
da igreja, e dá estratégias sólidas
para combater a guerra tão impor­
tante que hoje se agrava em
nossas igrejas.
"Se você esteve no ministério por
20 minutos ou 20 anos, eu reco­
mendo Vocação Perigosa a você.
Aproxime-se com oração, apaixo­
nadamente, e esteja preparado
para a mudança que Deus fará em
seu coração, vida e ministério."

Jam es M acDonald, Pastor da


Harvest Bible Chapei, Roiling
Meadows, Illinois

"Vocação Perigosa é um livro


perigoso. É também um livro que
cada pessoa no ministério deve ler.
Ele lhe trará convicção maciça se
você o lê com humildade. Peça a
Deus para expor os pecados pro­
fundamente escondidos em seu
alma. Ele corta, mas também
fornece remédios bíblicos para a
cura. Eu adoraria colocar este livro
na mão de todos os seminaristas
que caminham no meu campus."

Daniel L. Akin, presidente do


Southeastern Baptist Theological
Seminary
V o c a ç ã o P erigosa
Os t r e m e n d o s d e s a f i o s do m i n i s t é r i o p a s t o r a l
Vocação Perigosa - Os tremendos desafios do ministério pastoral © 2014 Editora C ultura Cristã. Originalm ente
publicado com o título Dangerous Calling: Confronting the Unique Challenges o f Pastoral M inistry Copyright
© 2012 by Paul David Tripp. Published by Crossway a publishing m inistry o f G ood News Publishers
W heaton, Illinois 60187, U.S.A. Esta edição foi publicada em acordo com a Crossway. Todos os direitos
são reservados.

I a edição 2014 - 3.000 exemplares


I a reim pressão 2 0 1 7 - 3.000 exem plares

C on selh o Editorial Produção Editorial


A n tô n io C oine Tradução
C láu d io M arra (Presidente) M eire Portes Santos
H eb er C arlos de C am pos Jr. Revisão
M arcos A ndré M arques Vagner Barbosa
M au ro F ernando M eister A na A m élia V icente
M isael B atista do N ascim ento Sebastiana G om es de Paula
T arcízio José de Freitas C arvalho Editoração
Z enaide Rissato
Capa
M agno Paganelli

T 836v Tripp, Paul


Vocação perigosa / Paul Tripp; traduzido por Meire Portes Santos. São Paulo: C ultura
C ristã, 2014.

192 p.: 16x23 cm

ISBN 978-85-7622-537-9

Tradução de Dangerous Calling

1. M inistério pastoral 2. Teologia Pastoral I. T ítulo


C D U 2 -4 6

A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus “símbolos de fé”, que apresentam o m odo Reform ado
e Presbiteriano de com preender a Escritura. São esses sím bolos a Confissão de Fé de Westminster e seus catecism os, o M aior e o
Breve. C om o Editora oficial de um a denom inação confessional, cuidam os para que as obras publicadas espelhem sem pre essa
posição. Existe a possibilidade, porém , de autores, às vezes, m encionarem ou m esm o defenderem aspectos que refletem a sua
própria opinião, sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente endosso integral, pela denom inação e pela Editora,
de todos os pontos de vista apresentados. A posição da denom inação sobre pontos específicos porventura em debate poderá ser
encontrada nos m encionados sím bolos de fé.

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f lU M essl
R e s r e t f * o tfW ertc aw fo r» !


€DITORR CUlTURfi CRISTfi
Rua Miguel Teles Júnior, 394 - C EP 01540-040 - São Paulo - SP
Fones 0800-0141963 / (11) 3207-7099 - Fax (11) 3209-1255
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Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas


Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
todos os pastores que já se importaram comigo.
A marca das suas mãos ainda está em mim,
e sou grato.
Sumário
Introdução....................................................................................................... 9

Parte 1
EXAMINANDO A CULTURA PASTORAL
1 Rumo ao desastre...................................................................................... 13
2 Repetidamente ......................................................................................... 24
3 Grandes cérebros teológicos e coração d o en te...................................... 34
4 Mais do que conhecimento e habilidade.............................................. 48
5 Juntas e ligam entos.................................................................................. 59
6 A comunidade ausente............................................................................. 71
7 Zonas de guerra........................................................................................ 83

Parte 2
O PERIGO DE PERDER A SUA REVERÊNCIA
(ESQUECENDO-SE DE QUEM DEUS É)
8 Familiaridade............................................................................................. 97
9 Segredos sujos........................................................................................... 107
10 Mediocridade............................................................................................. 118
11 Entre o já e o ainda não............................................................................ 130

Parte 3

O PERIGO DA SÍNDROM E DE CELEBRIDADE


(ESQUECENDO-SE DE QUEM V OCÊ É)
12 Glória própria........................................................................................... 145
13 Sempre preparando.................................................................................. 158
14 Separação................................................................................................... 171
15 E agora?...................................................................................................... 183
Introdução
Livros são escritos por muitas razões. Existem livros explicativos, que são
escritos para ajudá-lo a entender algo que tem deixado muitas pessoas confu­
sas. Há livros encorajadores, escritos para falar sobre o desalento da vida em um
mundo caído e dar a você esperança motivadora e uma razão para continuar.
Existem livros instrutivos, que o auxiliam saber como fazer algo que você precisa
fazer, mas simplesmente não sabe como. H á livros exegéticos, que separam uma
porção da Palavra de Deus, ajudando-o a entendê-la e a viver à luz das suas
verdades. Em certo sentido, o livro que você está para ler tem elementos de
todos esses quatro tipos de livros, porém, esse não é o seu objetivo principal.
Este é um livro diagnóstico. Ele foi escrito para ajudá-lo a olhar para si
mesmo no espelho expositor da vida e do coração, que é a Palavra de Deus -
para ver coisas que estão erradas e precisam ser corrigidas e para ajudá-lo a
colocar-se, mais uma vez, sob o poder curador e transformador do evangelho
de Jesus Cristo. Dos livros que já escrevi, considerei este o mais difícil de escre­
ver, não por causa do processo de escrita em si, mas porque suas páginas ex­
põem a feiura do meu próprio coração e mostram quão desesperadora a minha
necessidade de graça continua sendo. Não é exagero dizer que chorei durante
todo o processo de escrita de alguns dos capítulos. Havia momentos em que eu
subia as escadas de casa para compartilhar o que havia escrito com Luella; as
lágrimas de convicção chegavam e eu era incapaz de continuar. Mas, ao escre­
ver, não me senti desanimado ou sem esperançâ, pelo contrário, tive um amor
mais profundo pelo evangelho e uma alegria maior no ministério do que eu
jamais pensei que conheceria.
Este livro foi escrito para confrontar o assunto da forma frequentemente
insalubre da cultura pastoral e para colocar sobre a mesa as tentações que são
singulares ao ministério pastoral ou intensificadas por ele. Este é um livro de
advertências que convida você à autorreflexão humilde e à mudança. Ele foi
escrito para deixá-lo desconfortável, para incentivá-lo à mudança. Em alguns
momentos, ele pode deixá-lo irritado, mas estou convencido de que o conteú­
do deste livro é um reflexo do que Deus me chamou para fazer. Talvez tenha­
mos nos tornado confortáveis demais. Talvez tenhamos deixado de examinar a
nós mesmos e à cultura que circunda aqueles de nós que foram chamados para
o ministério em igrejas locais. Penso que, mais do que qualquer outro livro que
já escrevi, escrevi este porque não poderia viver sem fazê-lo. E eu mesmo me
lancei em um segmento da carreira ministerial para conseguir ajuda para pas­
tores que perderam a sua direção.
Creio que isso significa que sou um pastor que é tão ousado ao ponto de
supor que você, como eu, precisa de pastoreio e, pelo menos nas páginas deste
livro, tentarei pastoreá-lo. Faço isso sabendo que eu mesmo careço de cada
advertência que apresento diante de você e que também preciso de cada dose
do medicamento da graça que dou a você.
É o evangelho da graça do Senhor Jesus Cristo que possibilita a honesti­
dade presente nas páginas deste livro. Se todo o pecado, fraquezas e fracassos
dos quais este livro trata foram completamente cobertos pelo sangue do Senhor
Jesus Cristo, então podemos quebrar o silêncio, andar na luz e enfrentar as
coisas que Deus está nos chamando para enfrentar. A minha oração é que este
livro possa dar início a uma troca de ideias que nunca cesse e que leve a mudan­
ças necessárias há muito tempo.
Eu simplesmente peço que, ao ler, você desative o seu advogado interior
e considere tudo com um coração aberto. Seja ousado ao ponto de pedir a
Deus para revelar em você o que precisa ser revelado e dar a você a graça de
tratar o que precisa ser tratado. E, ao fazer essas coisas, celebre a graça que foi
derramada liberalmente sobre você, que o liberta do peso de ter de fazer aflorar
a sua justiça em si mesmo e ostentá-la diante das pessoas. Devido ao fato de sua
condição diante do seu Senhor ser fundamentada na justiça de Outro, você
pode se apresentar diante de um Deus santo e admitir os seus negros segredos
e os seus próprios fracassos mais profundos sem se sentir temeroso, sabendo
que, por causa da obra de Jesus, aquele para quem você confessa não lhe dará as
costas, mas se dirigirá a você com graça perdoadora, resgatadora, transformadora,
fortalecedora e libertadora. Essas são as boas-novas não somente que possibili­
tam este livro, mas também que você e eu precisamos pregar para nós mesmos
e uns para os outros, dia após dia.

Paul David Tripp


10 de abril, 2012
PARTE 1
EXAMINANDO A CULTURA
PASTORAL
»• m '
Capítulo 1
RUMO AO DESASTRE
Eu era um homem muito iracundo. O problema era que eu não sabia que
era um homem iracundo. Eu pensava que ninguém tinha uma visão mais pre­
cisa sobre mim do que eu mesmo, e simplesmente não me via como iracundo.
Não, eu não me considerava perfeito. Sim, eu sabia que precisava de outras
pessoas na minha vida, mas eu vivia como se não precisasse. Luella, minha
querida esposa, foi muito fiel em me apresentar à minha ira, por um longo
período de tempo. Ela fez isso com um misto de firmeza e graça. Ela nunca
gritou comigo, ela nunca me disse nomes feios e nunca chamou minha atenção
na frente dos filhos. Repetidas vezes, ela me fez observar que a minha ira não
era justificável nem aceitável. Eu olho para trás e me admiro do caráter que ela
demonstrou durante aqueles dias muito difíceis. Eu descobri, mais tarde, que
Luella já havia desenvolvido o seu plano de fuga. Não, ela não estava planejan­
do divorciar-se de mim; ela apenas sabia que o ciclo de ira precisava ser quebra­
do para que nós pudéssemos nos reconciliar e viver no tipo de relacionamento
que Deus projetou que o casamento fosse.
Quando Luella me abordava com outro caso dessa ira, eu sempre fazia a
mesma coisa. Eu me envolvia com o manto da justiça, ativava o meu advogado
interior e lembrava a ela, mais uma vez, quão maravilhoso era o marido que ela
tinha. Eu repassava toda a lista bem ensaiada e longa de todas as coisas que eu
fazia por ela, tudo o que eu fazia para tornar a sua vida mais fácil. Eu sou um
homem caseiro. Eu não me importo de fazer coisas de casa. Eu amo cozinhar.
Assim, eu tinha muitas coisas que eu podia apontar, que me certificavam que
eu não era o cara que ela estava dizendo que eu era e esperava convencê-la,
também, de que ela estava errada. Mas Luella não se convencia. Ela parecia
cada vez mais convencida de que estava correta e de que mudanças precisavam
acontecer. Eu só queria que ela me deixasse em paz, mas ela não deixava, e,
francamente, isso me deixava irado.
Hoje, ao olhar para trás, aflijo-me vendo que eu era um homem que
caminhava rumo ao desastre. Eu estava a meio caminho de destruir meu
casamento e meu ministério e não tinha a menor ideia disso. Havia uma
incoerência enorme entre a minha pessoa particular e a minha vida ministerial
pública. O homem impaciente e irritável de casa era um cara bem diferente do
pastor gracioso e paciente que a nossa congregação via naqueles ambientes de
culto e ministério público onde me encontravam na maior parte das vezes.
Eu estava cada vez mais à vontade com coisas que deviam ter me assombrado e
convencido. Eu estava satisfeito com as coisas como estavam. Eu sentia pouca
necessidade de mudança. Eu apenas não via a esquizofrenia espiritual em que
a vida de ministério pessoal havia se tornado. As coisas não continuariam do
mesmo jeito, se não por outra razão, apenas porque eu era e sou filho de um
Redentor implacável, que não abandona a obra das suas mãos antes que o
trabalho esteja completo. Pouco sabia que ele exporia o meu coração em um
momento poderoso de graça resgatadora. Eu estava cego e cada vez mais
endurecido, envolvendo-me alegremente no trabalho de uma igreja local que
crescia e de uma escola cristã.
Quando era confrontado, eu dizia a Luella várias vezes que eu pensava
que ela era apenas uma esposa comum, descontente. Eu dizia a ela que oraria
por ela, que a ajudaria e consolaria! Na verdade, fazia exatamente o contrário -
isso representava duas coisas para ela. Alertava-a para quão cego eu estava e
lembrava-a que ela não tinha qualquer poder para me mudar. A mudança que
era necessária precisava de um ato da graça. Luella era confrontada com o fato
de que ela nunca seria qualquer coisa além de uma ferramenta nas poderosas
mãos de Deus.
Mas Deus abençoou Luella com a fé perseverante de que ela precisava
para continuar vindo a mim, frequentemente em meio a muitos momentos
desanimadores. O que estou para compartilhar a seguir é hum ilhante e
constrangedor. Em certa ocasião, enquanto Luella me confrontava com outro
caso de minha ira, eu me meti em uma enrascada, dizendo essas palavras
profundamente humildes: “Noventa e cinco por cento das mulheres da nossa
igreja amariam estar casadas com um homem como eu!” Isso não é um bom
exemplo de humildade? Luella, bem rapidamente, me informou que ela fazia
parte dos cinco por cento! Quão cego alguém precisa estar para deixar uma
declaração como essa minha sair dos seus lábios? Deus estava para desfazer e
reconstruir o coração e a vida deste homem, e eu não sabia que precisava disso
e não fazia ideia de que essa mudança estava chegando.
Meu irmão Tedd e eu havíamos estado em um treinamento ministerial
no final de semana e estávamos voltando. Eu nunca imaginei que uma única
viagem pela extensão nordeste da rodovia expressa Pensilvânia poderia ser tão
significativa. Tedd sugeriu que tentássemos tornar a prática das nossas próprias
vidas o que havíamos aprendido durante o final de semana. Ele disse: “Por que
você não começa?” Depois prosseguiu, fazendo-me uma série de perguntas.
Penso que comemorarei o que aconteceu a seguir por dez milhões de anos, até
a eternidade. Enquanto Tedd me fazia perguntas, era como se Deus estivesse
retirando cortinas e eu estivesse vendo e ouvindo com precisão pela primeira
vez. Não há como exagerar a importância da obra que o Espírito Santo estava
fazendo naquele momento no carro por intermédio das perguntas de Tedd.
Q uando Deus abriu os meus olhos naquele m om ento, eu fiquei
quebrantado e aflito imediatamente. O que eu vi por intermédio das perguntas
de Tedd estava tão distante da ideia que eu tinha de mim mesmo, a qual tinha
alimentado por tantos anos, que era quase impossível crer que o homem que eu
agora estava olhando e ouvindo era, de fato, eu mesmo. Mas era. Eu não podia
crer no que eu me via fazendo e me ouvia dizendo enquanto relatava
detalhadamente as situações em resposta às perguntas de Tedd. Foi um
momento de resgate divino agudo e poderoso, um momento maior do que eu
tinha capacidade para entender no choque e na emoção do momento. Eu nem
sei se, no momento, Tedd soube quão grande foi esse momento.
Eu não podia esperar para chegar em casa e conversar com Luella. Eu
sabia que o discernimento que eu estava recebendo não era apenas o produto
de Deus usar as perguntas de Tedd; também era o resultado da fidelidade
amorosa, mas determinada, de Luella durante todos aqueles anos penosos.
Eu sou um homem com um intenso senso de hum or e frequentemente chego
em casa de forma cômica, mas não nessa noite. Eu estava sentindo as dores
de parto de uma transformação de vida, uma convicção de reformatação do
coração. Creio que Luella soube imediatamente que algo havia acontecido,
pela minha aparência. Eu perguntei a ela se nós podíamos sentar e conversar,
mesmo sendo tarde. Ao nos sentarmos, eu disse: “Eu sei que, por um longo
tempo, você tem tentado me fazer olhar para a minha ira e eu tenho estado
relutante. Eu sempre lançava o problema de volta a você, mas eu posso dizer
honestamente, pela primeira vez, que estou pronto para ouvi-la. Eu quero
ouvir o que você tem a dizer”.
Eu nunca me esquecerei do que aconteceu a seguir. Luella começou a
chorar; ela me disse que me amava e, depois, falou por duas horas. Foi naquelas
duas horas que Deus começou o processo de rasgar radicalmente o meu coração
e reconstruí-lo. A palavra mais im portante da sentença anterior é processo.
Eu não fui liquidado por um raio; eu não me tornei um homem não iracundo
instantaneamente. Mas agora eu era um homem com olhos, ouvidos, e coração
abertos. Os poucos meses seguintes foram incrivelmente dolorosos. Parecia que a
minha ira era visível onde quer que eu olhasse. Algumas vezes, parecia que a dor
era grande demais para suportar. Aquela era a dor da graça. Deus estava fazendo
a ira que eu havia negado e protegido ser como vômito em minha boca. Deus
estava trabalhando para assegurar que eu nunca voltaria. Eu estava no meio de
uma cirurgia espiritual. Veja você, a dor não era uma indicação de que Deus
havia retirado seu amor e graça de mim. Não, a verdade é o oposto. A dor era
uma indicação clara do derramamento do amor e da graça de Deus em mim.
Nesse processo de convicção, eu estava obtendo o que pedia frequentemente
em minhas orações - a salvação (santificação) da minha alma.
Eu nunca me esquecerei de um momento em particular que aconteceu
meses depois daquela noite de persuasão e resgate. Eu estava descendo a escada
para a nossa sala de estar e vi Luella sentada de costas para mim. E, ao olhar
para ela, veio o pensamento de que eu não podia me lembrar da última vez que
eu havia sentido aquela velha ira feia por ela. Eu quero ser sincero aqui. Não
estou dizendo que eu havia me elevado a um ponto na minha santificação em
que eu achava impossível experimentar um lampejo de impaciência ou irritação,
mas aquela antiga ira dominadora da vida havia sumido. Louvado seja Deus!
Eu andei até ela e coloquei as mãos sobre os seus ombros e ela, colocando a sua
cabeça para trás, olhou para mim, e eu disse a ela: “Sabe, eu não estou mais
irado com você”. Juntos, nós rimos e choramos ao mesmo tempo, pela beleza
do que Deus havia feito.

SOZINHO NÃO
Eu queria poder dizer que a minha experiência pastoral é singular, mas
descobri, em minhas viagens a centenas de igrejas ao redor do mundo, que,
infelizmente, não é. Certamente os detalhes são inigualados, mas a mesma
incoerência entre o indivíduo pastoral público e o homem, em particular, está
presente na vida de muitos pastores. Eu tenho ouvido tantas histórias conten­
do tantas confissões, que carrego comigo grande tristeza e preocupação sobre o_
estado da cultura pastoral na nossa geração. Foi o peso desta preocupação,
unida ao meu conhecimento e experiência da graça transformadora, que me
levou a escrever este livro.
Há três temas subjacentes que operaram em minha vida, que descobri
que operam na vida de muitos pastores com quem tenho conversado. Esses
temas subjacentes funcionaram como o mecanismo de cegueira espiritual em
minha vida e fazem o mesmo na vida de inúmeros pastores ao redor do mundo.
Destrinchar esses temas é uma boa maneira de nos induzir a um exame dos
lugares onde a cultura pastoral pode ser menos do que bíblica e a uma
consideração das tentações que são permanentes no ministério pastoral ou
intensificadas por ele.
1) EU PERMITO QUE O MINISTÉRIO DEFINA A MINHA IDENTIDADE
Isso é algo sobre o que já escrevi antes, mas penso ser particularmente
importante que os ministros entendam. Eu sempre digo isso assim: “Ninguém
é mais influente em sua vida do que você, porque ninguém conversa mais com
você do que você mesmo”. Perceba ou não, você está em um diálogo infinito
consigo mesmo, e as coisas que você diz a si mesmo sobre você são formativas
da maneira como você vive. Você está constantemente falando para si mesmo
sobre a sua identidade, a sua espiritualidade, a sua funcionalidade, a sua
emotividade, a sua mentalidade, a sua personalidade, os seus relacionamentos,
etc. Você está constantemente pregando para si mesmo algum tipo de evangelho.
O u você prega para si um antievangelho da sua justiça, poder e sabedoria
próprios, ou você prega para si mesmo o verdadeiro evangelho de profunda
necessidade espiritual e graça suficiente. O u você prega para si mesmo um
antievangelho de solidão e inabilidade, ou você prega para si mesmo o
verdadeiro evangelho da presença, das provisões e do poder de um Cristo
sempre presente.
Exatamente no meio da sua conversa interna está o que você diz a si
mesmo sobre a sua identidade. H á apenas dois lugares para olhar. O u você
obtém a sua identidade verticalmente, de quem você é em Cristo, ou você
procurará por ela horizontalmente, nas situações, experiências e relacionamentos
da sua vida diária. Isso é verdade para todos, mas estou convencido de que obter
a identidade própria horizontalmente é uma tentação particularmente difícil
para os que estão no ministério. Parte da razão pela qual eu estava tão cego para
a incoerência enorme entre o que estava acontecendo em minha vida ministerial
pública e a minha vida familiar privada era essa questão da identidade.
O ministério havia se tornado a minha identidade. Não, eu não pensava
sobre mim mesmo como um filho de Deus com necessidade diária de graça,
no meio de minha própria santificação, ainda em batalha contra o pecado,
ainda com necessidade do corpo de Cristo e chamado para o ministério pastoral.
Não, eu pensava sobre mim mesmo como um pastor. Era só isso e pronto.
O ofício de pastor era mais do que uma vocação e um conjunto de dons dados
por Deus, que haviam sido reconhecidos pelo corpo de Cristo. “Pastor” me
definia. Isso estava em mim de um modo que provou ser mais perigoso do que
eu podia imaginar. Permita-me explicar a dinâmica espiritual de tudo isso.
De um modo que os meus olhos não viam e meu coração ainda não estava
pronto para aceitar, meu cristianismo havia deixado de ser um relacionamento.
Sim, eu sabia que Deus é meu Pai e que eu sou seu filho, mas, na prática, as
coisas eram diferentes. A minha fé havia se tornado uma vocação profissional.
Ela havia se tornado a minha profissão. Meu papel, como pastor, era a forma
como eu compreendia a mim mesmo. Ele formatava a minha maneira de me
relacionar com Deus. Ele dava forma aos meus relacionamentos com as pessoas
em minha vida. Minha vocação havia se tornado a minha identidade e eu
estava em apuros e não tinha nem ideia disso. Eu estava destinado ao desastre
e, se não fosse pela ira, teria sido por alguma outra coisa.
Não me surpreende a existência de muitos pastores amargurados por aí,
muitos que estão socialmente incomodados, muitos que têm relacionamentos
desordenados ou disfuncionais em casa, muitos que têm relacionamentos tensos
com membros da liderança ou líderes leigos e muitos que lutam com pecados
secretos e não confessados. Existe a possibilidade de que todos esses conflitos
sejam potencializados pelo fato de que nós temos nos tornado acomodados em
olhar para nós mesmos e nos definir de modo menos que bíblico? Assim,
chegamos ao relacionamento com Deus e com outros sendo menos que
necessitados. E, devido a sermos menos que necessitados, somos menos abertos
ao ministério de outros e à convicção do Espírito. Isso esvazia a vida do aspecto
devocional privado da nossa caminhada com Deus. A adoração carinhosa e
sincera é difícil para uma pessoa que pensa que já chegou onde deveria.
Ninguém celebra mais a presença e a graça do Senhor Jesus Cristo do que a
pessoa que aceitou a sua necessidade desesperadora e diária delas. Mas o
ministério havia me redefinido. De maneira que hoje considero constrangedora,
ele me dizia que eu não era como todos os outros, que eu existia numa categoria
única. E se eu não era como todos os outros, então eu não precisava do que
todos os outros precisam. Porém, se você tivesse se sentado comigo e me dito
tudo isso especificamente, eu teria dito a você que isso era tudo besteira, mas
era como eu agia e me relacionava.
Eu sei que não estou sozinho. Há muitos pastores que têm se inserido em
uma categoria espiritual que não existe. Como eu, eles pensam que são alguém
que não são. Assim, eles reagem de modo que não devem e desenvolvem hábitos
que são espiritualmente perigosos. Eles estão contentes com uma vida devocional
inexistente ou constantemente sequestrada pela preparação. Eles estão contentes
em viver fora do corpo de Cristo ou acima dele. Eles são rápidos em ministrar,
mas não muito abertos para receber a ministração. Há muito tempo eles deixaram
de se ver com exatidão e, assim, têm a tendência de não receber bem a
confrontação amorosa de outras pessoas. E eles tendem a transportar essa
identidade de categoria singular para casa com eles e são menos que humildes
e pacientes com suas famílias.
A falsa identidade que muitos de nós temos prescrito para nós mesmos,
então, estrutura como vemos e reagimos aos outros. Você é mais amoroso,
paciente, gentil e gracioso quando está ciente de que não há verdade que você
possa dar para alguém da qual você mesmo não esteja desesperadamente carente.
Você é mais humilde e gentil quando pensa que a pessoa para quem você está
ministrando é mais parecida com você do que diferente de você. Quando você
se inserir em outra categoria que o leve a pensar que já chegou onde devia, é
muito fácil ser crítico e impaciente. Eu ouvi um pastor verbalizar isso muito
bem, inadvertidamente.
Eu e meu irmão Tedd estávamos em uma grande conferência sobre vida cristã
ouvindo um pastor muito conhecido falar sobre culto familiar. Ele contou histórias
do zelo, da disciplina e dedicação dos grandes pais da nossa fé sobre adoração
pessoal e familiar. Ele pintou figuras amplas para demonstrar como eram suas
devocionais particulares e em família. Creio que todos nós sentimos que tudo
foi muito condenatório e desalentador. Eu senti o peso da responsabilidade da
multidão que ouvia. Eu dizia para mim mesmo: “Console-nos com a graça,
console-nos com a graça”, mas a graça nunca veio.
No nosso caminho de volta para o hotel, Tedd e eu fomos no mesmo carro
com o palestrante e outro pastor, o qual era o nosso motorista. O pastor que
dirigia o veículo claramente havia sentido aquele peso e fez ao orador uma
pergunta brilhante. Ele disse: “Se um homem em sua igreja viesse a você e
dissesse: ‘Pastor, eu sei que devo fazer devocionais com a minha família, mas as
coisas andam tão caóticas em minha casa que é difícil até sair da cama e preparar
as crianças, alimentando-as e deixando-as prontas para a escola; eu não sei como
eu poderei fazer as devocionais também’ - o que você diria a ele?” (a resposta a
seguir não foi inventada nem realçada de alguma forma). O palestrante
respondeu: “Eu diria a ele: ‘Eu sou um pastor, o que significa que eu carrego
uma carga muito maior para um número muito maior de pessoas do que você
e, se eu posso fazer o culto doméstico diariamente, você também pode’”. Talvez
seja porque ele estava com um grupo de pastores, mas ele realmente disse isso!
Não houve uma identificação com o conflito do outro pastor. Não houve
ministração da graça. Vindo de um mundo que esse homem não entendia, o
palestrante depositou a lei sobre ele com maior peso ainda, como eu fazia
repetidas vezes com minha esposa e meus filhos.
Quando ouvi a sua resposta, fiquei irado, até me lembrar de que eu havia
feito a mesma coisa várias vezes. Em casa, era muito fácil distribuir condenação
enquanto, ao mesmo tempo, eu era mesquinho em repartir a graça. Mas havia
outra coisa em ação que era ainda mais perigosa. Essa identidade de categoria
única não apenas definia meu relacionamento com outras pessoas, mas também
estava destruindo o meu relacionamento com Deus.
Cego para o que estava acontecendo em meu coração, eu era orgulhoso,
inacessível, defensivo e exageradamente satisfeito com minha situação. Eu era
um pastor; eu não precisava do que outras pessoas precisavam. Agora eu quero
dizer novamente que, no nível conceituai, teológico, eu teria argumentado que
tudo isso era besteira. Ser um pastor era a minha vocação, não a minha
identidade. A minha identidade comprada na cruz era que eu era um filho do
Deus Todo Poderoso. Homem no meio do seu processo de santificação era a
minha identidade. Pecador e ainda carente da graça resgatadora, transformadora,
fortalecedora e libertadora era a minha identidade. Eu não compreendia que
eu procurava horizontalmente o que eu já havia recebido em Cristo e que isso
estava produzindo uma colheita de maus frutos em meu coração, em meu
ministério e em meus relacionamentos. Eu havia deixado que o meu ministério
se tornasse algo que nunca deveria ser (minha identidade); eu procurava nele o
que ele nunca poderia me dar (meu sentimento íntimo de bem-estar).

2) EU DEIXEI QUE MEU CONHECIMENTO BÍBLICO ETEOLÓGICO DEFINISSE


A MINHA MATURIDADE
Isso não é desconexo do tópico acima, mas é uma categoria diferente ao
ponto de necessitar atenção particular. No ministério, é bem fácil ceder a uma
redefinição sutil, mas significativa, do que a maturidade espiritual é e faz. Essa
definição tem as suas raízes em como pensamos sobre o que pecado é e o que
ele faz. Penso que muitos pastores levam para o seu ministério pastoral uma
definição falsa de maturidade que é resultado da aculturação acadêmica que
tende a se alojar no seminário. Permita-me explicar.
Uma vez que o seminário tem a tendência de tornar a fé acadêmica, fazendo
dela um mundo de ideias a serem dominadas (escreverei sobre isso com m ais
detalhes mais adiante, neste livro), é bem fácil para os estudantes comprar a
ideia de que a maturidade bíblica diz respeito à precisão do conhecimento
teológico e à integralidade da sua capacidade de compreensão bíblica. Assim,
os graduados no seminário, que são peritos em Bíblia e em teologia, têm a
inclinação de pensar sobre si como pessoas maduras. Mas deve ser dito que
maturidade não é meramente algo que você faz com a sua mente (embora isso
seja um importante elemento de maturidade espiritual). Não, maturidade tem
a ver com o modo como você vive a sua vida. É possível ser um ótimo conhecedor
da Bíblia e necessitar de significativo crescimento espiritual.
Eu me formei no seminário com honras. Eu ganhei o prêmio acadêmico.
Eu supunha que era maduro e me sentia mal entendido e julgado erroneamente
por qualquer pessoa que deixasse de compartilhar da minha avaliação. Na
verdade, eu via aqueles momentos de confrontação como parte da perseguição
que qualquer pessoa enfrenta quando se entrega ao ministério do evangelho.
Porém, as raízes disso são um profundo mal-entendido do que pecado e graça
realmente são. Veja, pecado não é, a priori, um problema intelectual (sim, ele
realmente afeta o meu intelecto, como o faz com todas as partes do meu
funcionamento). O pecado é, antes de tudo, um problema moral. Ele diz
respeito à minha rebelião contra Deus e minha procura por ter para mim
mesmo a glória que é devida a ele. Pecado não é, principalmente, a quebra de
um conjunto abstrato de regras. O pecado é, em primeira mão e principalmente,
a quebra do relacionamento com Deus e, devido a eu ter quebrado esse
relacionamento, é fácil e natural, então, rebelar-me contra as regras de Deus.
Assim, não é apenas a minha mente que precisa ser renovada pelo ensino bíblico
saudável, mas o meu coração precisa ser resgatado pela graça poderosa do Senhor
Jesus Cristo. A recuperação do meu coração é tanto um evento (justificação),
quanto um processo (santificação). O seminário, portanto, não solucionará o
meu mais profundo problema - o pecado. Ele pode contribuir para a solução,
mas também pode me cegar para a minha verdadeira condição por sua tendência
de redefinir o que a maturidade realmente é. A maturidade bíblica nunca é
apenas a respeito do que você sabe; é sempre sobre como a graça tem empregado
o que você veio a saber para transformar a maneira como você vive.
Pense em Adão e Eva. Eles não desobedeceram a Deus porque eram
ignorantes intelectualmente a respeito dos mandamentos de Deus. Não, eles
ultrapassaram os limites estabelecidos por Deus com conhecimento porque
ambicionaram a posição de Deus. A guerra espiritual do Éden foi travada no
território dos desejos dos corações de Adão e de Eva. A batalha estava sendo
travada em um nível mais profundo do que o mero conhecimento. Considere
Davi. Ele não reivindicou Bate-Seba como sua e planejou se livrar do seu marido
porque era ignorante a respeito das proibições de Deus contra o adultério e o
assassinato. Não, Davi fez o que fez porque, em algum momento, ele não se
importou com o que Deus queria. Ele queria ter o que o seu coração desejava,
não importava o que acontecesse.
O u pense sobre o que significa ser sábio. Existe uma enorme diferença
entre conhecimento e sabedoria. Conhecimento é um entendimento preciso
da verdade. Sabedoria é entender e viver à luz de como essa verdade se aplica às
situações e relacionamentos da sua vida diária. Conhecimento é um exercício
do seu cérebro. Sabedoria é o compromisso do seu coração que leva à
transformação da sua vida.
Mesmo sem saber, eu havia entrado para o ministério pastoral com uma
visão não bíblica de m aturidade bíblica. De forma assustadora, eu me
considerava um sucesso. Eu me via como alguém muito mais maduro do que
eu realmente era. Assim, quando Luella me confrontava amorosa e fielmente
quanto a eu estar sendo defensivo, por definição eu pensava que ela estava
errada. E, de modo crescente, eu estava convencido de que era ela quem estava
com problemas. Assim, eu não me via como necessitado, não estava aberto
para a correção e usava meu conhecimento bíblico e teológico para me defender.
A minha vida era uma desordem e eu não tinha a menor ideia disso.

3) EU CONFUNDIA 0 SUCESSO MINISTERIAL COM 0 APOIO DE DEUS AO


MEU ESTILO DE VIDA
O ministério pastoral era empolgante em diversos aspectos. A igreja estava
crescendo numericamente, as pessoas pareciam estar se comprometendo com
essa vibrante comunidade espiritual e nós víamos batalhas do coração sendo
travadas nas vidas das pessoas. Nós fundamos uma escola cristã, que estava
crescendo e expandindo sua reputação e influência. Nós estávamos começando
a identificar e discipular líderes. Nem tudo estava bem e havia momentos
dolorosos e difíceis de suportar, mas eu iniciava os meus dias com um profundo
sentimento de privilégio, de que Deus havia me chamado para fazer isso. Eu
liderava uma comunidade de fé e Deus estava abençoando nossos esforços.
Mas eu considerava essas bênçãos da maneira errada. Sem saber o que estava
fazendo, interpretei a fidelidade de Deus a mim, ao seu povo, ao trabalho do
seu reino, ao seu plano de redenção e à sua igreja como um apoio a mim. Eu
tinha a perspectiva “eu sou um dos caras legais e Deus está me apoiando o
tempo todo” sobre o meu ministério, mas, mais importante, sobre mim mesmo.
Na verdade, eu dizia a Luella (e isso é constrangedor, mas é importante admitir):
“Se eu sou um cara tão ruim, por que Deus está abençoando tudo em que
coloco minhas mãos?” Deus estava agindo como estava não porque apoiava a
minha maneira de viver, mas por causa do seu zelo por sua própria glória e sua
fidelidade às suas promessas de graça para o seu povo. E Deus tem a autoridade
e o poder para usar quaisquer instrumentos que ele escolha de qualquer maneira
que escolha usá-los. O sucesso de um ministério sempre é mais uma figura de
quem Deus é do que uma declaração sobre o que o povo que ele está usando
para o seu propósito é. Eu havia entendido tudo errado. Eu assumi um crédito
que eu não merecia pelo que eu não podia fazer; eu fiz com que tudo girasse ao
meu redor e, assim, eu não me via como um homem rumo ao desastre e em
profunda necessidade do resgate da graça de Deus.

♦ ♦ ♦

Eu era um homem carente da graça resgatadora e, por intermédio da


fidelidade de Luella e das perguntas cirúrgicas de Tedd, Deus fez exatamente
isso. E você? Como você se vê? Quais são as coisas que você diz regularmente a
si mesmo sobre você? Existem sinais sutis em sua vida de que você se vê como
alguém diferente daqueles a quem você ministra? Você se vê como um ministro
da graça com necessidade da mesma graça? Você se tornou acomodado com as
incoerências entre o evangelho que você prega e a maneira como você vive?
Existem desarmonias entre a sua personalidade ministerial pública e os detalhes
da sua vida privada? Você incentiva um nível de comunidade em sua igreja ao
qual você não se entrega? Você cai na armadilha de pensar que ninguém tem
uma visão mais precisa de você do que você mesmo? Você usa o seu conhecimento
ou experiência para manter a confrontação à distância?
Pastor, você não precisa ter medo do que está em seu coração e você não
precisa temer ser conhecido, porque não há nada em você que possa ser exposto
que já não tenha sido coberto pelo precioso sangue do seu Rei Salvador, Jesus.
Capítulo 2
REPETIDAMENTE
Eu queria poder dizer que a minha história é singular, que a maioria dos
pastores não luta da mesma forma que eu. Eu queria poder dizer que, na vida
da vasta maioria dos pastores, não existe incoerência entre a sua personalidade
ministerial pública e os detalhes da sua vida privada. Eu queria poder dizer
que, em sua maioria, os pastores são tão habilidosos para pregar o evangelho
para si mesmos como para os outros. Eu queria poder dizer que os relaciona­
mentos entre os pastores e os outros líderes raramente se tornam tensos e rara­
mente entram em colapso. Eu queria poder relatar que poucos pastores são
iracundos e amargos. Eu queria poder dizer a você que a minha experiência é
que a maioria das igrejas pastoreia bem os seus pastores. Eu queria poder enco­
rajar você com o fato de que a maior parte dos pastores é conhecida por sua
humildade e acessibilidade. Eu queria poder dizer que a maioria dos pastores
ministra com um profundo sentimento da sua própria carência. Sim, eu queria
poder dizer todas essas coisas, mas não posso.
Por causa do que Deus me chamou para fazer, estou com um grupo dife­
rente de pastores em algum lugar do mundo, cerca de quarenta vezes por ano.
Nesses finais de semana, sou obsessivamente intrometido, no melhor sentido
ministerial dessas palavras. Eu amo pastores. Eu amo igrejas locais. Eu enten­
do os empurrões e os puxões do ministério pastoral. Eu já tive experiência dos
seus momentos mais brilhantes e das suas noites mais sombrias. Eu sei como
esse chamado pode parecer insuportavelmente pesado e como ele pode ser
puro prazer. Eu sei que pastores não apenas enfrentam problemas, mas tam­
bém podem ser muito habilidosos em dificultar seus próprios problemas. Eu
sei que nenhum pastor está isento de sua carência da graça perdoadora,
transformadora, fortalecedora e libertadora. Assim, eu me importo e, porque
me importo, quero saber o que está acontecendo e como o(s)pastor(es) está(ão).
Eu amo me reunir com os grupos de pastores e me intrometer em seus com­
partimentos. Eu amo ajudá-los a comunicar o que estão passando e como estão
indo nisso tudo. Eu amo lembrar aos pastores os benefícios presentes da pessoa
e obra de Jesus. Eu amo ajudá-los a ver que a sua segurança não deve ser encon­
trada no quanto as pessoas de suas igrejas virão a gostar deles, mas na realidade
do quanto Jesus já os ama. Eu amo dar olhos ao pastor orgulhoso para que ele
se veja com uma clareza bíblica maior e amo ajudar o pastor derrotado a se ver
à luz da graça do evangelho. Assim, eu ouço cuidadosamente. Eu assisto com
intenções ministeriais. Eu extraio histórias e investigo seus significados no cora­
ção do pastor. Eu tento acessar o caráter da cultura pastoral local. Eu faço tudo
isso com uma pergunta em mente: como o evangelho de Jesus Cristo está for­
mando e transformando o coração deste pastor e sua cultura ministerial local?
Além do meu compromisso de espiar a vida do pastor e dos seus parceiros
de ministério, há uma segunda experiência que tem fornecido informações e
tem motivado o material neste livro. Quase todo final de semana, estou em
algum lugar ensinando algum tipo de tópico referente à vida cristã (casamento,
função dos pais, comunicação, corpo de Cristo, viver à luz da eternidade, etc.).
Repetidas vezes, nesses finais de semana, um dos pastores me puxa para uma
sala e começa a confessar para mim que ele é o “tolo” de quem eu estava falando
(eu nunca uso essa palavra). Ele confessa o estado lamentável do seu casamento,
que ele é um pai iracundo, que ele se entorpece toda noite com a televisão, que
lida com a pressão ministerial bebendo mais do que devia ou que tem uma
porção de relacionamentos ministeriais disfuncionais ao seu redor. Aqui está
uma das minhas histórias de final de semana.
Um dia antes de chegar para o final de semana, recebi uma chamada
telefônica de um membro mais experiente do conselho perguntando-me se eu
estaria disposto a gastar uma hora com o conselho da igreja. Eu soube, na
mesma hora, qual seria o tópico da nossa conversa. Eu fui levado às pressas para
um dos escritórios dos funcionários da igreja imediatamente após o término da
conferência de final de semana e fui saudado pelo conselho, cujos membros
apresentavam semblantes de quem havia sofrido experiências muito estressantes.
Meu coração se inclinou para eles antes de compartilharem comigo qualquer
detalhe da sua semana totalmente inesperada. Nós oramos e eles começaram a
contar sua história.
Os membros da equipe de liderança haviam chegado para a reunião matinal
semanal de prestação de contas, realizada às segundas-feiras. Geralmente eles
gastavam algum tempo em oração e depois falavam sobre os acontecimentos
do dom ingo. Mas essa reunião foi diferente em todos os aspectos.
Primeiramente, o pastor titular estava atrasado. Ele nunca se atrasava. Ele
detestava se atrasar, mas, desta vez, estava tão atrasado que um dos membros
da equipe ligou para ver o que estava acontecendo e se ele estava a caminho.
Quando entrou na sala, todos eles sabiam que alguma coisa estava errada,
muito errada. Ele tinha apenas quarenta e cinco anos e estava no auge do seu
ministério, mas tinha uma aparência de idoso, cansado e derrotado. Ele não
parecia o mesmo homem que havia pregado apenas um dia antes. Ele
resmungou um pedido de desculpas sobre o seu atraso e, sem qualquer
hesitação adicional, disse:

Para mim já chega, eu não posso continuar. Eu não consigo lidar com as pressões do
ministério. Não consigo me imaginar pregando outro sermão. Não consigo lidar
com outra reunião. Para ser honesto, eu teria que dizer que tudo o que eu quero fiywr
é ir embora. Eu quero deixar o ministério, quero deixar essa região e quero deixar a
minha esposa. Não, não tenho um caso amoroso. Eu estou apenas cansado de fingir
que eu sou alguém que; na verdade, não sou. Estou cansado de encenar que estou
bem, quando não estou. Estou cansado de agir como se o meu casamento fosse bom,
quando, na verdade, ele é o oposto polar de bom. Eu não posso pregar no próximo
domingo e preciso sair daqui sozinho ou vou explodir. Sinto muito por lançar toda
essa carga sobre vocês assim, mas para mim chega - não posso continuar.

E, com isso, ele se levantou e saiu. A equipe de liderança ficou perplexa


demais para detê-lo. Depois de conversar entre si e orar em conjunto nova­
mente, eles o chamaram para voltar. Foi nessa segunda conversa que esses com­
panheiros de liderança conheceram um homem com o qual eles haviam vivido
e ministrado, mas não haviam conhecido.
Para mim, o aspecto deste triste cenário que deve receber maior atenção,
o qual eu tenho ouvido muitas vezes, não foi sua chocante subitaneidade, mas
a realidade surpreendente de que o pastor viveu nesta comunidade ministerial,
dia a dia, fundamentalmente desconhecido e sem receber cuidados. Eu auxiliei
a equipe de liderança a pensar sobre o que fazer a seguir e como cuidar do seu
pastor, mas saí com um coração pesado e sabendo que eles haviam sido lançados
em algo que seria muito doloroso para todos eles e não acabaria tão cedo.
Eu tenho presenciado situações semelhantes com muitos pastores por
todo o mundo. De Belfast a Los Angeles, de Joanesburgo a Nova York, de
Mineápolis a Singapura, de Cleveland a Berlim, tenho ouvido histórias e sentido
seu desencorajamento, amargura, solidão, temor e ansiedade. Ao contar a minha
história, os pastores se sentem seguros de contar as suas. Tem me impressionado
vez após vez que existem pastores demais com histórias tristes para contar e eu
me pergunto, vez após vez: o que está errado com a cultura pastoral?
Muitas vezes, tenho sido solicitado a apresentar um material semelhante
ao que está neste livro como uma pré-conferência de uma conferência sobre
outro tópico. Eu sempre tento ser incansavelmente honesto, apesar de
inabalavelmente esperançoso. Eu terminei de falar para cerca de quinhentos
pastores em uma destas pré-conferências, mas não estava preparado para o que
aconteceria a seguir. Quando terminei e sai da plataforma, uma longa fila de
pastores preocupados e abatidos se formou na minha frente. O pastor que
estava em quinto lugar na fila se dirigiu a mim chorando. Creio que eu poderia
ter estabelecido um consultório de aconselhamento por duas semanas, por
tempo integral, e ainda não teria ministrado a todas as necessidades que estavam
diante de mim. Foi nessa conferência que eu me decidi a falar sobre esses
assuntos e fazer tudo o que pudesse para ministrar aos meus colegas pastores.
Este livro é o resultado daquele claro momento de chamado.
Ao destrinchar a minha própria história e me empenhar para interpretar
a história de outros no ministério, alguns temas têm aflorado. Sim, cada história
é singular, e generalizações podem ser tanto inúteis quanto perigosas, mas o
caminho para se perder no meio da sua própria história de ministério e uma
estrada que tem sido usada por muitos. Inspecionar essa jornada pode ajudá-lo
a entender a sua.
SINAIS DE UM PASTOR QUE ESTÁ PERDENDO O RUMO
Há coisas que o meu amigo pastor, do qual falei acima, fez e não fez que
resumem bem os sinais de um pastor que está em apuros.

1) ELE IGNOROU A EVIDÊNCIA CLARA DE PROBLEMAS


As evidências estavam todas ao redor dele e, mesmo assim, ele simplesmente
não prestou atenção. Eu observei, em outros livros, que ninguém é mais
influenciador em sua vida do que você mesmo, porque ninguém conversa com
você mais do que você mesmo. Meu amigo pastor havia estado em uma longa
conversa consigo mesmo negando, minimizando e racionalizando a evidência
que apontava para o fato de que ele era um homem em apuros. Não, não era
adultério ou pornografia; sua luta era mais básica do que isso. Sua ira explosiva
com seus filhos, que não era uma experiência irregular, era um desses sinais.
Suas reclamações constantes sobre colegas de liderança após reuniões ministeriais
era outro fragmento de evidência perturbadora. A distancia crescente entre ele
e sua esposa ilustrava que algo não estava correto. Sua vida devocional não
existente apontava para algo estar errado. O fato de que ele se entorpecia toda
noite com várias horas de televisão apontava para um coração instável. Suas
fantasias de ministrar com uma competência diferente ou em um lugar diferente
apontavam para algo que não estava certo. Sua habilidade em dar respostas evasivas
a perguntas pessoais era evidência de ele estar perdendo a sua direção. Sim, havia
todo tipo de evidências, mas elas eram negadas, ignoradas ou justificadas.
Esse pastor havia se tornado o que todos nós temos a tendencia de nos
tornar em nosso pecado —autoenganadores muito habilidosos. Eis como isso
funciona: se você não admite diariamente para si mesmo que esta perturbado e
em necessidade diária e desesperadora de perdão e de graça transformadora e se
a evidencia ao seu redor não o leva a abandonar sua confiança em sua própria
justiça, então você se dedicará ao trabalho de se convencer de que está bem.
Como você faz isso? Bem, você mostra a ampla evidência que o mundo caído
lhe fornece de que as pessoas e situações ao seu redor são inúteis e destruídas e
são, portanto, a razão para você reagir à vida da maneira como você reage. Você
diz a si mesmo repetidamente que você não é o problema - elas são, mas não
você. E você diz a si mesmo que, realmente, você não precisa de mudança; as
pessoas e circunstâncias ao seu redor é que precisam de mudança. O que você
está fazendo, mesmo que, provavelmente, não esteja consciente disso, é
construindo argumentos elaborados, aparentemente lógicos, para a sua própria
justiça. Diariamente, você os defende para si mesmo e encontra maneiras de
exibi-los diante de outras pessoas. Em vez de lançar-se à misericórdia do
verdadeiro Salvador, você age como seu próprio salvador, construindo argumentos
expiatorios para a legitimidade do que Deus claramente diz ser errado. Você
nega evidências, defende a sua retidão e resiste à graça. Não é de se admirar que
as coisas piorem até, finalmente, chegarem a um ponto extremo. Eu conheço
esse padrão de contradição de evidências. Eu obtive um diplom a nisso!
O problema era que eu era o pastor e não fazia ideia do fato de que, ao mesmo
tempo em que eu apresentava um lindo Salvador diante das outras pessoas, eu
trabalhava duro para ser o meu próprio salvador.

2) ELE ESTAVA CEGO PARA OS PROBLEMAS DO SEU PRÓPRIO CORAÇÃO


Um dos componentes mais assustadores do pecado remanescente é a sua
aparência enganosa. Esta e uma realidade que é vital reconhecer e confessar.
O pecado cega. Veja você: nós temos dois sistemas de visão. Existem os nossos
olhos físicos, que nos capacitam ver o universo físico que nos circunda, e há os
olhos do coração, que nos ajudam a “ver” as realidades espirituais, as quais é
vital que vejamos para sermos quem fomos projetados para ser e fazer o que
fomos projetados para fazer. O pecado destrói a nossa visão espiritual. Apesar
de sermos capazes de enxergar o pecado dos outros com especificidade e clareza,
temos a tendência de ficar cegos para os nossos próprios. E o aspecto mais
perigoso desta condição já perigosa é que as pessoas espiritualmente cegas têm
a inclinação de serem cegas à sua própria cegueira.
É assim que funciona: meu amigo pastor fez o melhor que pôde para
continuar na ilusão de que ninguém tinha um ponto de vista mais correto
sobre ele do que ele mesmo. Ele pensava que nenhum a crítica aos seus
pensamentos, desejos, motivações, escolhas, palavras e ações era mais confiável
do que a sua própria. Ele estava confiante demais em sua visão e crédulo demais
na sua critica sobre si mesmo. Ele considerava que as únicas perguntas e
confrontação de que ele precisava eram as que ele mesmo trazia para si. Ele
estava confiante demais em sua visão e em sua crítica a respeito de si mesmo.
Quando outros o questionavam ou confrontavam, sem saber que estava fazendo
isso, ele ativava seu advogado interior e gerava argumentos em sua própria
defesa. Frequentemente ele dizia para si mesmo que a pessoa que o confrontava
não o conhecia bem, porque, se o conhecesse, não o questionaria da maneira
como estava fazendo. Frequentemente ele dizia à sua esposa, furiosamente:
“Querida, você não me conhece tão bem quanto pensa que conhece”.
Devido ao fato de o pecado cegar, Deus estabeleceu o corpo de Cristo
para atuar como um instrumento de visão em nossa vida, de tal maneira que
podemos nos conhecer com uma profundidade e exatidão que seriam impossíveis
se fôssemos deixados à nossa própria sorte. Mas o meu amigo não confiava na
ajuda de visão dos outros; pelo contrário, ele fiava apenas em sua própria visão
de si e foi deixado à sua própria cegueira. Padrões de vida foram deixados sem
tratamento e, por isso, receberam tempo e espaço para crescer até que a
incoerência entre a sua vida e o seu ministério se tornou tão óbvia e pesada que
tudo em que ele conseguia pensar era em abandonar tudo.

3) FALTAVA DEVOÇÃO EM SEU MINISTÉRIO


Estou cada vez mais convencido de que o que dá ao ministério as suas
motivações, perseverança, humildade, alegria, amabilidade, paixão e graça é a
vida devocional daquele que está exercendo o ministério. Quando eu admito
diariamente como sou carente, meditando diariamente na graça do Senhor
Jesus Cristo e me alimentando diariamente da sabedoria restauradora da sua
Palavra, sou impelido a compartilhar com outros a graça que estou recebendo
diariamente das mãos do meu Salvador. Simplesmente não há um conjunto de
habilidades exegéticas, homiléticas ou de liderança que possam compensar a
ausência disso na vida de um pastor. É a minha adoração que me capacita a
levar outros à adoração. É a minha percepção de carência que me leva a pastorear
carinhosamente aqueles que estão necessitados de graça. É a minha alegria na
minha identidade em Cristo que me leva a querer ajudar outras pessoas a viverem
no meio do que significa estar “em Cristo”. De fato, uma das coisas que fazem
com que um sermão seja atrativo é que o pregador esteja cultuando durante a
sua apresentação do sermão.
Ter um ministério que seja alimentado pela devoção pessoal tem suas raízes
na confissão humilde e profunda do coração. Foi aí que tudo deu errado para o
meu amigo pastor e muitos outros que trilham o mesmo caminho. Devido a ele
ter negado a evidência que estava ao seu redor e estar cego para o seu próprio
coração, ele se inclinou a se enxergar como se estivesse bem, quando não estava.
Assim, ele não era condenado nem encorajado por sua preparação e não se sentava
na audiência da sua própria pregação. Sua satisfação própria significava que suas
palavras e suas ações no ministério não cresciam no solo de um amor pessoal por
Cristo e adoração a ele. A preparação se transformou em fazer uma transferência
de um conjunto de verdades para pessoas que precisavam ter o seu raciocínio
reajustado. Seus aconselhamentos eram mais voltados a solucionar problemas do
que a incentivar pelo evangelho. E, no caminho, tudo começou a ficar seco e
desagradável. Não havia mais vida. Tudo deixou de ter ligação com adoração e se
tornou uma série repetitiva de responsabilidades pastorais.

4) ELE NÃO ESTAVA PREGANDO O EVANGELHO PARA SI MESMO


Se você está envolvido no ministério e não traz à lembrança repetidas vezes
a atualidade do evangelho, isto é, os benefícios aqui e agora da graça de Cristo,
você procurará em outros lugares para obter o que pode ser encontrado apenas
em Jesus. Se você não estiver alimentando a sua alma com as realidades da
presença, das promessas e provisões de Cristo, você pedirá às pessoas, situações
e coisas ao seu redor para serem o messias que elas nunca podem ser. Se você não
vincular a sua identidade ao amor inabalável do seu Salvador, você pedirá às
coisas em sua vida para serem o seu Salvador, e isso nunca acontecerá. Se você não
exige de si mesmo obter o seu mais profundo significado de bem-estar
verticalmente, você procurará por ele horizontalmente e ele sempre surgirá
vazio. Se você não estiver descansando no único evangelho verdadeiro, pregando-o
para si mesmo vez após vez, você esperará satisfazer as necessidades do seu
coração inquieto em outro evangelho.
Devido ao fato de meu amigo pastor não pregar para si mesmo as verdades
de quem ele era em Cristo, ele começou a procurar descanso em lugares onde
o descanso não podia ser encontrado. De modos peculiares que ele mesmo não
percebia, ele pedia às pessoas e situações ao seu redor para serem seu salvador.
Ele estava realmente consciente quanto à maneira como os outros líderes reagiam
a ele e precisava do respeito deles para ter paz interior. Ele necessitava das
reações congratulatórias da sua igreja à sua pregação, porque isso o fazia se
sentir bem sobre o que ele estava fazendo. Ele tinha sua identidade vinculada
demais às suas opiniões e ideias e sentia que rejeição a elas era rejeição a ele
próprio. E, ao procurar horizontalmente o que ele só poderia encontrar
verticalmente, ele se sentia mais e mais sozinho e menos valorizado. Sua conversa
íntima consigo mesmo era mais autodefesa, autocomiseração e mágoa de outras
pessoas do que um ensaio libertador e motivador das glórias presentes do amor
de Cristo. Esquecendo-se de pregar para si mesmo o evangelho que ele procurava
dar a outros, teve início uma espiral descendente em seu coração, da qual ele
estava inconsciente até que ficou tão dura de carregar que tudo o que ele desejava
era abandonar tudo.
5) ELE NÃO ESTAVA OUVINDO AS PESSOAS MAIS PRÓXIMAS
Em muitos aspectos, meu amigo pastor era desconhecido quanto aos
conflitos do seu coração, mas ele não estava totalmente sem auxílio externo.
Ele vivia e ministrava entre líderes que se importavam com ele e falavam com
honestidade com ele. Houve várias ocasiões em que um colega presbítero ou
um funcionário experiente o haviam abordado quanto à sua atitude ou sobre a
forma como ele havia falado com alguém. Naqueles anos, muitas vezes alguém
havia chegado a ele com preocupações sobre o seu casamento e o tempo que ele
estava ou não investindo nele ou sobre coisas que viram acontecer na vida de
seus filhos. Ele havia sido confrontado sobre quão fechados ele guardava os
detalhes da sua vida pessoal ou sobre quantas noites ele ficava até muito tarde
em seu escritório. Não, ninguém sabia da guerra grave que estava sendo travada
em seu coração, mas ele não havia sido abandonado pelos outros. Havia cuidado
que, se considerado seriamente, provavelmente teria chegado às questões
fundamentais do coração.
Apesar de o meu amigo não rejeitar publicamente, de fato ele não ouvia.
Devido a ele não ser aberto, ele dizia a si mesmo que havia sido mal entendido
ou que as coisas não estavam realmente tão más; ele dizia até que ele era grato
por todas as pessoas que se importavam com ele - elas simplesmente não sabiam
de todas as coisas boas que ele estava fazendo em sua vida pessoal. Ele era uma
pessoa muito acessível que, ao mesmo tempo, era muito habilidoso em fracassar
no acate das advertências que Deus estava dando a ele por meio de membros
fiéis do corpo de Cristo.

6) SEU MINISTÉRIO TORNOU-SE PESADO DEMAIS


O fim é inevitavelmente este. Você perdeu a visão do evangelho em sua
vida pessoal; você sente uma incoerência crescente entre a sua vida privada e a
sua personalidade pública ministerial; o seu ministério não é mais alimentado
pelo seu culto individual; você se sente mal-entendido pelas pessoas ao seu
redor; você se sente erroneamente criticado pelas pessoas do seu lar; você acha
que você e a sua liderança não são tratados com a estima que merecem; e você
está cada vez mais vazio espiritualmente porque está procurando vida espiritual
onde ela não pode ser encontrada. O impacto de todas essas coisas juntas é que
você descobre que o seu ministério é cada vez menos privilégio e alegria e cada
vez mais peso e dever.
Penso que ficaríamos chocados se soubéssemos quantos pastores têm
perdido a sua alegria - quantos de nós levantamos no início de cada semana e
trabalhamos numa rotina monótona, se não por outra razão, apenas porque
não sabemos o que poderíamos fazer! Para quantos de nós o ministério não é
mais um ato de adoração? Quantos de nós estamos construindo um reino
diferente do reino de Deus em nosso ministério? Quantos de nós estamos
carregando um peso de mágoa e amargura para cada momento de ministério?
Quantos de nós queremos escapar e simplesmente não sabemos como?

7) ELE COMEÇOU A VIVER EM SILÊNCIO


Existem duas coisas que se evidenciam aqui. Primeiramente, quando pessoas
são o seu messias substituto (você precisa do seu respeito e apoio para continuar),
é difícil ser honesto com elas sobre os seus pecados, fraquezas e fracassos. Há
uma segunda coisa que se evidencia também: o medo. Quanto mais separação
e incoerência houver entre os detalhes reais da minha vida pessoal e a minha
confissão e imagem públicas, maior será a minha tendência de temer ser
conhecido. Eu temerei como as pessoas pensariam a meu respeito e reagiriam
a mim se realmente soubessem o que está acontecendo em minha vida. Eu
posso até temer a perda do meu emprego. Assim, as minhas reações aos interesses
e indagações de outros se tornam estruturadas pelo temor e não pela fé. Deste
modo, não faço as confissões saudáveis e regulares de conflitos aos meus colegas
de ministério, não peço orações sincera e humildemente por aspectos da minha
vida que claramente precisam e sou muito cuidadoso em como respondo
perguntas pessoais quando são dirigidas a mim.
Tudo isso significa que eu não estou mais me beneficiando dos ministérios
criteriosos, protetores, incentivadores, adm oestadores, preventivos e
restauradores do corpo de Cristo. Eu estou tentando fazer o que nenhum de
nós é capaz de fazer - vencer espiritualmente sozinho. O cristianismo autônomo
nunca funciona, porque nossa vida espiritual foi planejada por Deus para ser
um projeto comunitário.

8) ELE COMEÇOU A QUESTIONAR A SUA VOCAÇÃO


Devido ao fato de eu não estar me vendo com exatidão e devido ao ministério
ter se tornado pesado demais, em vez de examinar o meu caráter e as minhas
reações, eu terei a tendência de começar a questionar se eu estava correto em
pensar que fui chamado para o ministério. Veja, existem apenas dois modos de
explicar o colapso interno e externo do meu ministério. O u estou tentando
fazer algo que eu não fui vocacionado para fazer, ou estou pensando e fazendo
coisas erradas no meio do ministério para o qual, claramente, fui chamado.
Uma vez que você tenha fechado os seus olhos para a evidência e parado de
ouvir as vozes das outras pessoas, você está entregue à cegueira e à justiça própria
do seu próprio coração ainda pecaminoso. Isso torna muito difícil para você
concluir que você é o problema. Não, o que você concluirá é que o ministério
ou coisas no seu ministério é que são o problema, e, portanto, o ministério é o
que precisa ser tratado para que haja alguma mudança. É exatamente neste
ponto que meu amigo pastor se encontrava. Ele tinha inseguranças profundas
quando se tratava de sua vocação, as quais não existiam cinco anos antes.

9) ELE SE ENTREGOU A FANTASIAS DE UMA VIDA DIFERENTE


Tudo isso o levou a uma esperança, um sonho: sair. A princípio, ele se
assustou em pensar tal coisa, mas não conseguia parar. Ele se tornou cada vez
mais à vontade com as fantasias de fazer algo diferente, mas tinha medo de
falar uma palavra sobre elas a qualquer outra pessoa. Em breve, porém, ele
havia apresentado o assunto à sua esposa, tentando sentir quão confortável ela
ficaria com a perspectiva de uma vida do outro lado do ministério, e não
demorou muito para que ele pensasse em dizer ao grupo da liderança que ele
queria sair. Foi uma semana ruim, que trouxe tudo à tona de uma maneira
mais perturbadora do que ele havia previsto.
Eu queria poder dizer que vi essa dinâmica operando somente no coração
deste homem em particular, mas, infelizmente, não posso. Eu tenho ouvido
essas histórias várias vezes. Eu posso predizer o que me dirão a seguir. E, com
todos os pastores que sabem que estão em apuros, há muitos, muitos que
estão, mas ainda não sabem. Não, nem todas essas características estão na vida
de cada um dos homens com quem eu tenho conversado, mas, em todos eles,
muitas dessas coisas estão operando. E elas não estão apenas operando, mas
operando fora das verdades motivadoras, encorajadoras, fortalecedoras,
transformadoras e libertadoras do evangelho de Jesus Cristo. Eu escrevo isso
porque estou preocupado comigo e com você. E estou preocupado com a cultura
em nossas igrejas, que permite que isso aconteça, na maioria das vezes, sem que
seja detectado.
Capítulo 3
GRANDES CÉREBROS
TEOLÓGICOS E CORAÇÃO DOENTE
Foi um momento de maior discernimento do que eu percebi ser na hora.
Olho para o passado agora e vejo que foi um doce momento de resgate divino
—exatamente o tipo de graça que devia ser a paixão do ministério para o qual eu
havia sido chamado. Eu estava interpretando Romanos, a exposição funda­
mental do evangelho feita por Paulo. Eu havia tomado um caderno e cortado
fora um quadrado no canto superior direito de cada terceira página para que eu
pudesse colar uma página do texto grego em ambos os lados da página.
Depois, eu preenchia as páginas com as observações exegéticas corresponden­
tes, resumos de sermões e ilustrações. Era um exercício que reunia todas as
minhas habilidades ministeriais recentemente ensinadas e adquiridas. Eu con­
siderava o exercício desafiador e empolgante. Eu me sentia orgulhoso por meu
caderno estar cheio das minhas observações sobre Romanos. Eu estava mergu­
lhado em um mundo inebriante de sintaxe linguística e argumentos teológi­
cos. Eu trabalhava com os tempos verbais, contextos, objetos e conectores.
Eu estudava etimologias e o vocabulário paulino. Eu tentava conectar cada
pequeno detalhe à intenção geral do autor. Eu consultava todos os peritos,
analisando critérios contra critérios e opiniões contra opiniões. Horas incontáveis
de estudo disciplinado particular foram representadas por páginas e páginas de
observações. Tudo era muito compensador.
Num a noite, depois de horas de exegese na próxima seção de Romanos,
um pensamento me atingiu. Eu havia gasto horas, a cada dia, por meses,
estudando a exposição talvez mais extensa e deslumbrante do evangelho que já
havia sido escrita, e eu estava, fundamentalmente, intocado por sua mensagem.
A mensagem havia exercido pouco impacto sobre mim. Tudo havia sido apenas
sintaxe e gramática, ideias teológicas e argumentos lógicos. Havia sido um
exercício intelectual maciço, mas quase completamente destituído de poder
espiritual. Ainda me lembro de olhar para as minhas páginas preenchidas com
tinta. Elas pareciam distantes e indistintas, de alguma forma não conectadas à
vida real, de alguma forma não relacionadas a mim. Não, eu não estava tendo
alucinações, eu havia escrito tudo isso, mas tudo parecia não relacionado a
mim, minha vida real, meu casamento, minhas lutas contra o pecado, meu
passado, meu futuro, minhas esperanças mais profundas, sonhos e temores.
Fixei meus olhos na página e parecia impossível que eu tivesse feito todo esse
trabalho quando ela era pouco mais do que uma tarefa para uma aula, para
uma nota, na tentativa de um diploma.
Fiquei sentado lá por um momento, entorpecido como se tivesse sido
suspenso entre dois mundos, um real e um que parecia qualquer coisa, menos
real. Pensei em todas as aulas, todos os trabalhos, todos os testes. Pensei no
enorme investimento de tempo, energia e dinheiro. Era tudo com esse objetivo?
Comecei a chorar - sim, quero dizer chorar mesmo. Uma emoção forte saiu de
dentro de mim, tanto que Luella ouviu do outro cômodo e veio ver se eu estava
bem. Eu não estava bem, e ela notou à primeira vista. Luella se encurvou,
colocou seus braços ao meu redor e me pediu que contasse a ela o que estava
errado. Lembro-me que ela parecia amedrontada ao observar seu jovem marido
seminarista se desmontar diante dos seus olhos. À minha maneira tipicamente
dramática, eu disse a ela que eu estava arruinado. Que eu não podia continuar
meus estudos no seminário. Eu disse a ela que tudo estava acabado.
Felizmente, estou casado com uma mulher sábia e paciente que me ajudou
a me controlar e permaneceu ao meu lado enquanto continuei e terminei meus
estudos. Naquela noite, com meu caderno de exegese em minhas mãos, aprendi
algo sobre mim mesmo e sobre as Escrituras. Meus olhos começaram a se abrir
para os perigos inerentes a reduzir a nossa fé a um conjunto de regras e princípios.
Experimentei pessoalmente o que pode acontecer quando o evangelho de Jesus
Cristo é reduzido a uma série de ideias teológicas unidas a todas as habilidades
necessárias para ter acesso àquelas ideias. Coisas ruins acontecem quando a
maturidade é definida mais por conhecer do que por ser. O perigo está à solta
quando você começa a amar mais as ideias do que ao Deus que elas representam
e às pessoas que elas desejam libertar.
Um dos cursos que eu fui solicitado a ensinar como membro do
departamento de teologia prática do Westminster Seminary, na Filadélfia, foi o
de aconselhamento pastoral. Era o curso de aconselhamento que os alunos do
Mestrado em Divindade, que realmente não tinham qualquer interesse em
aconselhamento pastoral, tinham que cursar. Era um curso obrigatório e meus
alunos faziam o curso somente porque era obrigatório. A cada ano eu ia, sabendo
que meus alunos não queriam estar na classe e não tinham muito interesse ou
compromisso com o que eu estava ensinando. Os primeiros anos aplicando
essa matéria foram incrivelmente difíceis, até que comecei a entender a
importância da minha voz nas vidas desses futuros pastores de enormes cérebros.
Eu desenvolvi uma estratégia que não somente mudou a atmosfera do curso,
mas fazia-me ficar na expectativa de ensiná-lo a cada ano.
Eu decidi que eu viria para a classe a cada semestre munido de um catálogo
de histórias de horror de pastores - você sabe, os tipos de coisas com as quais
nenhum pastor realmente quer lidar, mas todos lidam. Eu contei aos meus
alunos histórias das ligações tarde da noite, feitas por esposas que haviam acabado
de ser surradas por seus maridos, da aflição da mãe que havia acabado de
descobrir que sua filha de quinze anos estava grávida, de permanecer com uma
mãe e um pai diante do caixão de seu filhinho de quatro anos, das horas com a
pessoa severamente deprimida ou com o homem que gastou tudo, levando sua
família a um desastre financeiro. Eu contei a eles histórias da dor e da angústia
do corpo de Cristo vivendo as realidades da vida em um mundo arruinado pelo
pecado. Eu contei histórias de temor, deslealdade, desencorajamento, ira,
depressão, solidão e perda. Eu queria que os meus alunos entendessem que eles
são chamados não apenas para pregar sermões exegeticamente corretos e
teologicamente precisos, mas também para pastorear pessoas, para andar, viver,
apoiar e sofrer com elas. Eu queria que eles soubessem que são chamados para
ser mais do que instrutores teológicos de uma igreja local; eles são vocacionados
para serem embaixadores de Cristo, para serem o olhar em sua face, o toque da
sua mão e o tom da sua voz. Eu queria que eles sentissem o peso de serem
chamados para fazerem um Cristo invisível visível na vida das pessoas que
precisavam desesperadamente “ver” sua presença e se lembrar da sua graça. Eu
ansiava por eles entenderem que eles não eram chamados apenas para ensinar
teologia a outras pessoas, mas também para praticar teologia com essas pessoas.
Eu queria que eles pelejassem com a pergunta sobre se eles estavam no seminário
porque amavam a superestrutura labiríntica dos conceitos teológicos da Escritura
ou porque amavam a Jesus e queriam ser seus instrumentos de transformação
na vida de pessoas perturbadas.
Eu começava cada semestre mergulhando em histórias sobre a minha
própria falta de prontidão e fracassos pastorais, esperando que a minha narrativa
fosse usada para gerar neles uma visão maior e mais bíblica do ministério pastoral.
Foi no meio de uma dessas histórias que aconteceu uma coisa que nunca
esquecerei, nem nenhum dos meus alunos que estavam naquela aula. Eu estava
relatando sobre os conflitos do meu próprio coração quando havia sido solicitado
novamente a visitar um homem que já havia roubado grande parte do meu
tempo e energia pastoral, quando um dos meus alunos levantou sua mão e
falou descuidadamente: “Tudo bem, professor Tripp, nós sabemos que teremos
esses projetos em nossas igrejas. Diga-nos o que fazer com eles para que possamos
voltar ao trabalho do ministério!” H á muitas coisas para atentar em sua
declaração, mas observe esta: ele nem mesmo chamou as pessoas em conflito, a
quem somos chamados para trazer o evangelho, de “pessoas”. Para ele, elas
eram projetos, isto é, obstruções no caminho de sua definição de ministério.
Porém, se essas pessoas não forem o foco e objetivo do ministério, então o que
é ministério? Não havia amor pelas pessoas na declaração deste aluno e, se não
havia amor por pessoas em sua visão de ministério, então podemos concluir
que havia pouco amor operacional por Cristo também. Ele era como muitos
outros conceitos, homens da tecnologia da teologia que povoavam muitas das
minhas classes. O termo um tanto pejorativo que eu usava para eles era teologeeks,
os caras que veem a teologia como um fim em si mesmo e não como um meio
para um fim. Eles amam a academia e, involuntariamente, arrastariam a
academia para dentro da igreja local e pregariam sermões que são mais discursos
teológicos do que meditações no evangelho.
Eu desci o corredor até a sua carteira, me ajoelhei para que ele pudesse me
ver face a face e pedi a ele para repetir o que ele havia dito, audivelmente e
palavra por palavra. Naquele momento, eu o estava pastoreando, bem como à
classe que havia ouvido o que ele havia dito. Eu queria que eles nunca esquecessem
aquele momento. Eu pedi a ele para repetir de que ele havia chamado aquelas
pessoas. Ele disse brandamente: “Projetos”. Foi um momento maravilhoso de
ensino, dado por Deus. Não muito tempo atrás, fui saudado por um pastor
que havia estado naquela aula alguns anos antes. Ele se lembrava do ocorrido e
havia sido advertido várias vezes por sua lembrança.
Tendo dado esse curso por vários anos, m uitos dos meus alunos
perguntavam se eu poderia aconselhá-los. A dinâmica era a seguinte: ao
conversar com eles sobre a atualidade do evangelho e encorajá-los com o poder
do evangelho para transformar vidas de formas muito concretas, os alunos na
classe refletiam sobre tópicos da sua própria vida. Uma vez que a aula revelava
coisas que não haviam sido reveladas anteriormente e uma vez que faltavam
apenas alguns meses para que eles se formassem e entrassem em algum tipo de
cargo ministerial, eles sentiam a urgência de lidar com o que o curso havia
exposto. Eu estava despreparado para as narrativas que ouvia e os tipos de coisa
com as quais meus alunos estavam lidando.
Frank foi um dos primeiros. Ele estava casado há quinze anos, tinha quatro
filhos de adolescentes para baixo e havia chegado ao seminário depois de uma
carreira de sucesso em finanças. Nós nos sentamos no meu gabinete e, depois
de muita conversa sem importância, tornou-se óbvio que Frank estava tendo
dificuldade em entrar no assunto que o havia motivado a procurar a minha
ajuda. Eu o tranquilizei novamente quanto ao meu compromisso com ele, a
importância de sua decisão de procurar ajuda e da confidencialidade do nosso
relacionamento. Eu não estava preparado para o que ele falou em seguida: “Eu
tenho um armário cheio de roupas de mulheres no porão, que eu visto todas as
noites; é o horário do meu dia em que eu me sinto satisfeito”. Devo admitir
que me senti nocauteado por alguns instantes. Ele era um jovem teólogo
brilhante e dotado, um tipo de gênio. Ele vivia e trabalhava com a Palavra de
Deus todos os dias. Ele podia analisar gramaticalmente os detalhes do evangelho
de Jesus Cristo. Porém, com tudo isso, ele estava perdido em um mundo de
profunda confusão de identidade, e o evangelho que ele estava estudando para
ajudar outros parecia incapaz de resgatá-lo. Eu fiquei imaginando o que ele
estava dizendo a si mesmo ao fazer entrevistas com vistas ao ministério. Eu
imaginava como sua esposa estava sobrevivendo a tudo isso. Eu imaginava como
ele pensava que seria capaz de esconder isso dos seus filhos cada vez menos
ingênuos. Mas, acima de tudo, eu imaginava como você veste roupas de
mulheres à noite e levanta na manhã seguinte para fazer exegese de Colossenses.
George não achou tão difícil falar comigo, porque ele não podia confiar
mais em si e estava assustado. Ele havia começado a estudar na livraria Bames
and Noble à noite, depois de jantar com sua esposa. Ele descobriu que isso lhe
proporcionava uma pausa no ritmo intenso de estudos do seminário ao mesmo
tempo em que lhe fornecia um lugar quieto para estudar. Não demorou muito
para que ele pudesse começar a observar todas as lindas jovens que também
escolhiam aquela livraria como seu lugar favorito das noites. Uma determinada
noite ele vislumbrou uma linda jovem e, na verdade, até mudou de lugar para
se posicionar e ter uma visão melhor dela. Algumas vezes ele se assentava de tal
forma que podia ter contato visual com uma dessas moças, ou ele se assentava
tendo a visão delas que ele queria sem que elas sentissem que ele estava olhando.
Alguns meses depois, ele viu a mulher a quem estava observando sair e, assim,
ele fez o mesmo, talvez esperando que pudessem se chocar um ao outro. Ela foi
para o seu carro sem notá-lo e ele voltou aos estudos. Isso o levou não apenas a
sair quando uma mulher saía, mas a entrar em seu carro e segui-la, à distância,
até a casa dela. Ele pediu para se encontrar comigo na noite após ter seguido
uma mulher até a casa dela, saído do seu carro e caminhado até a porta da casa
dela. Imediatamente antes de bater à porta, ele ficou assustado e correu para o
seu carro e foi embora. N a sala de aula, ele parecia ser um seminarista doce e
flexível; o contraste entre o dia e a noite da sua vida era assustador.
Eu ouvi histórias de casamentos quase arruinados, de violência doméstica,
de mulheres que estavam prontas para sair de casa, de homens iracundos, de
relacionamentos destruídos com filhos e parentes, de pecados sexuais
particulares, de conflitos com vizinhos e na igreja, de dívidas enormes, de
batalhas contra a depressão e a ansiedade, de pensamentos obsessivos e
compulsivos e de pornografia via internet.
Quanto mais eu ouvia, mais me convencia de que as coisas às quais eu
estava sendo exposto na vida dos meus alunos não eram apenas individuais;
eram sistêmicas. Eu decidi que pastorearia os meus alunos; eu aplicaria tudo o
que estava ensinando aos pensamentos e motivos fundamentais dos seus corações.
Eu me convenci de que é perigoso lidar com a Escritura de qualquer outra
forma. Porém, quando eu me esforçava em agir assim, frequentemente era
repelido por um dos meus alunos. Um aluno até me confrontou diante de toda
a sala, dizendo: “Professor Tripp, você está pregando para nós. Isto aqui é uma
sala de aula, o que significa que esta não é a sua igreja, e nós não somos a sua
congregação”. Sim, isso realmente aconteceu.
Com o passar dos anos, eu tenho ouvido demais: “Nós vamos precisar
saber isso para a prova?” E não o bastante: “Me ajude a entender como viver à
luz do que você está nos ensinando agora”. Eu tenho recebido muitos trabalhos
arrogantes e seguros de si de alunos que se veem mais como meus professores
do que meus alunos. Eu lia e estremecia ao pensar que eles seriam pastores de
alguém muito em breve. Todos os meus alunos estavam em algum tipo de
problema espiritual? Claro que não, mas muitos estavam, e a maioria deles não
fazia ideia, mesmo se olhando no espelho da Palavra de Deus todos os dias.
Essa triste experiência tem sido um grande motivador para a escrita deste livro.
Tem me levado a meditar e a discutir com outras pessoas sobre essa pergunta:
o que está errado com a forma como procuramos preparar pessoas para o
ministério na igreja local?

O QUE NÓS ESTAMOS FAZENDO COM A PALAVRA?


Eu tenho um amigo (acerca de quem já escrevi antes) que se tornou um
ávido cultivador de rosas. O seu jardim de rosas era o mais bonito e saudável da
comunidade e com a mais ampla variedade de rosas. Ele fez tudo o que era
possível humanamente para podar, proteger e alimentar suas roseiras com a
máxima saúde e produtividade. Durante a estação, ele trabalhava nelas muitas
horas todos os dias. Ele fazia isso com disciplina e perseverança. Ele dizia a si
mesmo que ele o fazia porque amava rosas. Ele não se importava de levantar
cedo ou de se dedicar muitas vezes até a noite. Sua esposa pensou que ele estava
meio desequilibrado e seus amigos ficavam imaginando o que é que existia nas
rosas que havia obcecado esse homem, mas nada parecia enfraquecer sua deter­
minação. Ele conhecia o URL de todos os sites importantes sobre rosas, era
amigo de todos os bons proprietários de viveiros da sua região e havia enchido
sua cabeça com infinitas trivialidades sobre a história, saúde e cuidado de rosas.
Ele conseguia falar em uma linguagem de rosas que precisava de tradução se o
ouvinte não fosse um cultivador de rosas.
Numa noite de sexta-feira, depois de três horas de trabalho com as rosas,
ele estava olhando pela janela ao lavar suas mãos na pia da cozinha e um
pensamento veio subitamente à sua mente: uma coisa que ele não havia feito
há anos com suas rosas era apreciá-las. Ele havia estudado o mundo das rosas.
Ele havia cultivado o solo ao redor das suas roseiras. Ele as havia podado
cuidadosamente. Ele havia dado roseiras para outras pessoas. Ele havia alimentado
e aguado as suas rosas. Ele havia tido longas discussões com outros cultivadores
de rosas. Ele havia gasto tempo nos viveiros locais aprendendo mais e
examinando canteiros com a intenção de comprar. Mas, com todo o tempo
investido nas rosas, ele não havia tirado tempo para apreciar os frutos do seu
trabalho. Ele havia se tornado um perito, mas não havia se comovido ou sido
mudado pela exibição de beleza que era o objeto de todos os seus esforços.
Naquela noite, de pé ao lado da pia, ele decidiu que faria o que não havia
separado tempo para fazer: ele apreciaria as suas rosas. N a manhã seguinte, ele
decidiu se levantar, sair e sentar-se em seu jardim de rosas - sentar-se em frente
a um dos objetos do seu trabalho —mas, desta vez, ele não trabalharia; ele se
sentaria, observaria, ouviria e se deleitaria. Assim, antes do meio-dia, ele se colocou
diante de uma das suas roseiras e ficou sentado lá por horas. Ele observou como
cada galho de cada roseira era singular. Ele observou a curvatura individual e o
lugar de cada espinho. Ele observou as espécies de insetos que se anexavam a cada
roseira. Ele observou o contraste entre o verde claro dos brotos novos e a casca
áspera externa dos galhos mais velhos da roseira. Ele ficou intimidado pela
arquitetura exata e delicada de cada botão. Ele não podia crer em como cada
pétala amarela não era realmente um tom de amarelo, mas, na verdade, um
conjunto de cem diferentes nuanças de amarelo percorrendo-a, que davam a sua
aparência amarela. Ele me disse que pode parecer estranho dizer, mas suas horas
diante daquela roseira o transformaram. Aquelas horas lhe restituíram sua visão;
elas o tornaram agradecido, elas o fizeram sorrir no coração, elas o encheram de
mistério e de alegria e, mais importante, elas o levaram a adorar.
Veja você, ele nunca tencionou que aquelas roseiras fossem um fim em si
mesmas. Não, aquelas roseiras foram planejadas para ser um meio para um
determinado fim. A glória das roseiras não é a glória final. Não, é um sinal da
glória, como toda outra coisa criada. Toda a criação tem o objetivo de ser um
dedo apontando-nos a glória última, a única glória que pode satisfazer o coração
humano, a glória de Deus. O meu amigo era um perito em rosas, mas não
havia visto nem o sinal nem o que o sinal indicava. Perito, mas inalterado.
Perito, mas sem reverência. Perito, mas não levado a adorar. Perito, mas em
falta de alegria. Perito, mas não muito agradecido. Era um triste estado para
um homem que professava amar rosas.
Pode ser que isso se aproxime muito do que uma educação no seminário
pode fazer aos seus alunos? Não é possível que os seminaristas se tornem peritos
em um evangelho ao qual não estão sendo expostos, nem alterados por ele?
Não é perigoso ensinar aos alunos a ficarem satisfeitos com o conteúdo radical
da Escritura e, ao mesmo tempo, mantê-lo separado das suas vidas e corações?
Não é perigoso para os estudantes se tornarem acomodados com a mensagem
da Bíblia, não sendo humilhados, afligidos e condenados por ela? Não é
im portante que os seminaristas sejam confrontados diariam ente pelas
implicações pessoais da mensagem que eles estão aprendendo a esmiuçar e
entregar a outras pessoas? Não é vital manter diante dos alunos que estão
investigando a teologia de Cristo o chamado frequente e consistente para o
amor modelador de vidas de Cristo? Pode ser verdade que muitos alunos no
seminário estejam demasiadamente academicamente ocupados para sentarem
diante da Rosa de Saron em reverência, amor e adoração? Existe a possibilidade
de que, ao tornar a fé acadêmica, ou seja, um conjunto de regras e princípios,
tenhamos tornado, involuntariamente, os meios para um fim em um fim em
si? Não deveria toda instituição cristã de aprendizado mais elevado ser uma
comunidade de fé cordial, estimulante, cristocêntrica e dirigida pelo evangelho?
É possível que, em vez de ter como nossos alunos de missões aqueles que dominam
a fundo o Livro, o nosso alvo deva ser formar alunos que foram dominados pelo
Deus do Livro?
Isaías 55, uma das ofertas de graça mais bonitas da Bíblia, nos confronta
corretamente neste ponto:

... assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam,
sem que primeiro reguem a terra,
e a fecundem, e a façam brotar,
para dar semente ao semeador e pão ao que come,
assim será a palavra que sair da minha boca:
não voltará para mim vazia,
mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei.
Saireis com alegria e em paz sereis guiados;
os montes e os outeiros romperão em cânticos diante de vós,
e todas as árvores do campo baterão palmas.
Em lugar do espinheiro, crescerá o cipreste,
e em lugar da sarça crescerá a murta;
e será isto glória para o SEN H O R e memorial eterno,
que jamais será extinto (Is 55.10-13).
Eu já ouvi vários sermões pregados a partir da primeira parte desta gran­
de promessa. É muito encorajador que a Palavra de Deus não retornará vazia.
É muito motivador saber que as palavras de Deus sempre cumprem o seu
propósito. É maravilhoso entender que eu não tenho que me preocupar com
resultados e efeitos. É bom saber que o Deus da Palavra tem um propósito para
a sua Palavra e que ele está por detrás da sua Palavra, assegurando a sua produ­
tividade. Tudo isso é surpreendente e estimulante, mas eu sempre me sinto um
pouco parecido com um homem louco quando ouço um pregador expor essa
declaração sem esmiuçar a pergunta crítica que ela deixa. Declarar que a Pala­
vra de Deus sempre cumprirá seu propósito o deixa com esta pergunta inevitá­
vel: qual, então, é o seu propósito? Você simplesmente não pode entender a
força e esperança dessa passagem sem responder a essa pergunta. Veja, é bem
possível e, infelizmente, bem normal para nós usar a Bíblia de forma não bíblica.
Mesmo dada a sua intencionalidade dirigida por Deus, você pode abordar, ma­
nusear e fazer uso da Palavra de Deus de maneiras estranhas ao seu propósito.
A segunda parte desta passagem responde à pergunta que a primeira faz.
Com imagens lindas e relacionadas à natureza, ela nos convida a reconhecer
que o propósito final da Palavra é a adoração. Isso tem que ser assim, pois o
profundo drama deste mundo arruinado e dos ostentadores da imagem de
Deus que o habitam é um drama de adoração. Toda a narrativa do evangelho
diz respeito ao roubo e à restauração da verdadeira adoração, a coisa para a qual
recebemos fôlego, o culto a Deus. A história que a Palavra de Deus contém dá
garantia de um tempo em que toda a criação se dobrará em adoração a Deus.
Todo pecado é idólatra e a obra da graça é resgatar os profundos desejos, paixões,
pensamentos e motivos do nosso coração para Deus. Isso nos confronta com o
fato de que o conteúdo e teologia da Palavra de Deus não são um fim em si,
mas devem ser vistos como um meio para um fim. O fim planejado deste
conteúdo é a adoração que honra a Deus e que modela a vida.
Mas existem mais perguntas: “Como essa adoração do profundo do coração
é produzida?” É para esse assunto que a passagem se dirige a seguir. Ela emprega
uma das figuras de linguagem mais estranhas na Bíblia. Lembre-se, a metáfora
é a da chuva e da neve. De modo estranho, essa passagem diz que, quando esta
chuva cair, o espinheiro se tornará um cipreste e a sarça se tornará uma murta.
Agora pense comigo. Se você tem um pequeno espinheiro nos fundos da sua
casa e ele é alim entado pela neve e pela chuva, o que você espera obter?
A resposta óbvia é um espinheiro maior. Se a chuva e a neve regam o espinheiro
que está no seu jardim, você sabe que o resultado será um espinheiro maior.
Mas não é assim com a Palavra de Deus; quando essa chuva cai sobre o espinheiro,
ele, na verdade, se torna algo organicamente diferente! A figura aqui é de
transformação fundamental, específica e pessoal.
Quando a Palavra de Deus, fielmente ensinada pelo povo de Deus e
habilitada pelo Espírito de Deus, é lançada, as pessoas se tornam diferentes.
Pessoas lascivas se tornam puras, pessoas temerosas se tornam corajosas, ladrões
se tornam doadores, pessoas exigentes se tornam servas, pessoas iracundas se
tornam apaziguadoras, pessoas que têm o hábito de reclamar se tornam gratas
e idólatras vêm para a adoração alegre ao único e verdadeiro Deus. O propósito
último da Palavra de Deus não é informação teológica, mas transformação de
coração e de vida. O conhecimento bíblico e a perícia teológica não são, portanto,
o fim da Palavra, mas um meio ordenado por Deus para um fim, e o fim é uma
vida radicalmente transformada porque a adoração no centro daquela vida foi
solicitada. Isso significa que é perigoso ensinar, discutir e fazer exegese da
Palavra sem esse alvo em vista. Esse deve ser o alvo de todo professor de
seminário. Essa deve ser sua oração por cada um dos seus alunos. Isso deve
levá-lo a fazer apelos pastorais regulares aos alunos. O seu significado é o
reconhecimento de que o futuro ministério desse aluno nunca será modelado
por seu conhecimento e habilidade somente, mas também, inevitavelmente,
pela condição do seu coração.
Pense a esse respeito. Quando um pastor sai do seu gabinete e está em
casa gritando com sua esposa, ele não é ignorante do fato de que sua gritaria é
errada. Naquele momento, ele não se importa com o que é certo ou errado
porque alguma outra coisa está governando o seu coração. Quando um pastor
está reagindo a problemas em sua igreja de modo mais político do que pastoral,
não é porque ele é ignorante do egoísmo desta reação, mas porque ele está mais
comprometido com a construção do seu reinado do que com o de Deus. Quando
um pastor é corroído pela inveja da posição ministerial de outro, ele não está
dando vazão à inveja por ignorância do seu perigo, mas porque seu coração,
embebido em si mesmo, sente que tem o direito ao que, na verdade, é uma
bênção e não um direito.
Será que teremos cumprido a nossa tarefa de treinar se produzirmos gerações
de diplomados que têm enormes cérebros teológicos, mas, tragicamente, corações
enfermos? Não devemos manter juntas a instrução teológica e a transformação
pessoal? Não devemos exigir que todas as classes do seminário sejam fiéis ao
propósito tencionado de Deus para a sua Palavra? Não deveria cada professor
do seminário ter amor pastoral pelos seus alunos? Todo instrutor não deveria
anelar por ser usado por Deus para produzir um amor crescente por Cristo em
cada um dos seus alunos?
Estou convencido de que a crise de cultura pastoral frequentemente começa
nas salas de aula do seminário. Ela inicia com uma maneira de lidar com a
Palavra de Deus que é distante, impessoal, baseada em informações. Ela começa
com pastores que, em seus anos de seminário, se tornaram bastante satisfeitos
em manter a Palavra de Deus distante do seu próprio coração. Começa com
matérias que são acadêmicas sem serem pastorais. Começa com cérebros se
tornando mais importantes do que corações. Começa com pontuações em testes
sendo mais importantes do que caráter. O problema com todas essas coisas é que
elas são sutis e ilusórias. Elas não existem em um mundo preto ou branco de
ou/ou, mas em um mundo desordenado de ambos/e. Sim, todo professor de
seminário diria que se importa com os corações dos seus alunos. Todos nós diríamos
que queremos estimular o amor por Cristo. A questão é: esse alvo modela o
conteúdo e o processo da educação teológica à qual temos nos entregado?

A ESPECIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO TEOLÓGICA


Se você voltar no tempo, digamos, cem anos, cada professor na sala de
aula seria um pastor de igreja local. Ele teria vindo para a educação teológica
através do pastorado. Nesses homens queimava um grande amor pela igreja
local. Eles chegavam à sala de aula carregando a humildade e a sabedoria obti­
das somente nos seus anos nas trincheiras. Eles ensinavam com corações e vidas
de pessoas reais em mente - as pessoas com as quais haviam chorado, ficado
irados, se alegrado e contendido. Eles vinham para a sala de aula sabendo que
as maiores batalhas do ministério pastoral eram travadas no terreno do seu
próprio coração. Eles eram pastores que foram chamados não para deixar de
pastorear, mas para trazer o amor e o zelo pastoral para o ecossistema da educa­
ção teológica.
Mas, com o passar dos anos, a educação teológica começou a mudar. Ela
se tornou mais especializada e mais departamentalizada. Durante os anos se­
guintes, cada vez mais professores vinham para as salas de aula do seminário
com pouca ou nenhuma experiência em igrejas locais. Eles chegavam às salas
de aula não por serem pastores bem-sucedidos e, portanto, equipados para
instruir e discipular a próxima geração. Não, eles chegavam às salas do seminá­
rio porque eram peritos em seu campo. Assim, a atividade na sala de aula não
era a clonagem de uma nova geração de pastores, mas a clonagem de peritos em
apologética, ética, teologia sistemática, história da igreja e línguas bíblicas. Foi
uma mudança sutil, mas sísmica, na cultura do seminário e no tipo de resulta­
dos que ele produz. Em algumas situações, tudo isso se degenera em uma
cultura de poucos reinos feudais (o reino da sistemática ou da ética etc.) com o
professor sendo o senhor feudal, guardando o reino que ele construiu e prote­
gendo o terreno que ele adquiriu contra a expansão dos outros reinos. O estu­
dante se matricula de reino em reino, sempre sendo assegurado de que o reino
particular do seu foco atual é o mais vital para a saúde da federação dos reinos
que constituem o mundo da educação teológica. É uma cultura politizada,
mais voltada para a filtragem de informações do que para o pastoreio e mais
focalizada em aquisição de informações vitais do que no desenvolvimento do
caráter. Eu escrevo essas coisas como um pastor com um coração pesado que
viveu nesta cultura por vinte anos. Eu sei que o que escrevo deixará alguns
zangados e sei que o sistema tem uma maneira de se levantar para se defender,
mas é um preço que estou disposto a pagar. Vale a pena. O autoexame no
seminário é importante a este ponto. O diálogo honesto é vital.

ENTÃO, QUAL É O PERIGO?

O cristianismo academicizado, que não está constantemente conectado


ao coração e coloca sua esperança no conhecimento e na habilidade, pode, na
verdade, fazer estudantes perigosos. Ele os mune de conhecimento e habili­
dades poderosos, que podem fazê-los pensar que são mais maduros e piedo­
sos do que na verdade são. Ele mune os alunos de armas de guerra espiritual
que, se não usadas com humildade e graça, prejudicarão as pessoas que eles
deveriam ajudar.
Permita-me listar as coisas que podem acontecer na vida dos alunos quan­
do o ambiente do seminário não é totalmente fiel à intenção de Deus para a
sua Palavra. Escreverei apenas algumas sentenças sobre cada uma.

1) CEGUEIRA ESPIRITUAL
Devido ao fato de o pecado cegar, e aqueles que ficam cegos pelo pecado
tenderem a ser cegos para sua cegueira, é perigoso lidar com as verdades da
Palavra sem pedir aos alunos para olharem para o espelho da Palavra e verem-se
como eles são realmente. Alunos que não fazem isso entrarão para o ministério
convencidos de que precisam se ajustar somente na mesma medida que aqueles
a quem foram chamados para ministrar.

2) JUSTIÇA TEOLÓGICA PRÓPRIA


Para alunos a quem não foi exigido confessar que é mais fácil aprender
teologia do que vivê-la, é tentador pensar que maturidade é mais uma questão
de conhecer do que de viver. Eles pensam que piedade é mais uma questão do
que você percebe intelectualmente do que uma questão de como você vive a
sua vida. Assim, inchados de conhecimento, presunçosamente eles pensam
que estão bem.

3) RELACIONAMENTO PESSOAL DISFUNCIONAL COM A PALAVRA


Em algum lugar em sua educação teológica, o aluno perde seu
relacionamento devocional não somente com a Palavra, mas também com o
Deus da Palavra. O estudo da Palavra se torna mais um mundo de ideias corretas
do que um mundo de submissão ao Senhor, a quem aquelas ideias apresentam
e definem.

4) FALTA DE NECESSIDADE PESSOAL DO EVANGELHO


Uma vez que o aluno passou a pensar sobre si como alguém mais maduro
do que realmente é por causa do conhecimento que adquiriu, ele não aborda a
Palavra de Deus com brandura e necessidade do coração. Seu estudo da Palavra
o leva repetidas vezes à mesa de estudos, mas raramente o leva aos seus joelhos.

5) IMPACIÊNCIA COM OUTRAS PESSOAS


Eu já escrevi e disse muitas vezes que ninguém oferece graça melhor do
que a pessoa que está profundamente persuadida de que ela própria necessita
dela. Pessoas com justiça própria tendem a serem críticas, rejeitadoras e
impacientes com as outras.

6) PERSPECTIVA ERRADA SOBRE 0 MINISTÉRIO


Devido a tudo isso, o ministério é dirigido mais por precisão teológica do
que pela adoração e pelo amor ao Senhor Jesus Cristo. O sermão se torna mais
um discurso teológico do que uma exposição da graça do evangelho e um apelo
para seguir o Salvador. Infelizmente, ele é dirigido mais pela paixão por ideias
do que pelo amor a pessoas e a Cristo.

7) NENHUMA COMUNHÃO VIVA COM CRISTO


Tudo isso pode se degenerar em um cristianismo sem Cristo, que coloca a
sua esperança na teologia e nas regras e, de alguma maneira, se esquece de que,
se a teologia e as regras tivessem o poder para transformar o coração dos idólatras,
Jesus nunca teria vindo, vivido, morrido e ressuscitado. No fim, os meios se
tornam o fim e o cristianismo, destituído de poder contra o mundo, a carne e
o diabo.

PARA ONDE VAMOS, ENTÃO?


Não estou sugerindo de maneira nenhuma que o currículo do seminário
precisa ser devastado. Todas as áreas de estudo que formam a educação no
seminário são vitais. O que eu estou sugerindo é que a paixão pastoral para os
alunos modele o modo como o conteúdo da educação do seminário seja passado
e aplicado. Estou sugerindo que os professores do seminário se tornem
comprometidos a serem uma comunidade com os seus alunos e que eles sempre
ensinem com o coração em vista e o poder transformador do evangelho como
sua esperança. E estou sugerindo que o seminarista deva se sentir conhecido e
amado por seus professores e que, no processo da sua educação, ele venha a
conhecer seu coração e seu Senhor mais profunda e completamente. Estou
sugerindo que as salas de aula do seminário sejam lugares de educação e de
adoração. Estou sugerindo que os professores devem pregar para seus alunos e
pastoreá-los. Estou sugerindo que a formação espiritual não é um departamento
de educação teológica ou um curso particular. Não, o alvo da formação espiritual
deve colorir o conteúdo de cada área de estudo. Finalmente, estou sugerindo
que todo o curso de estudo apresente, diante de cada aluno, um lindo Salvador,
cuja beleza sozinha tem o poder de subjugar qualquer outra beleza que possa
capturar o seu coração.
Capítulo 4
MAIS DO QUE CONHECIMENTO
E HABILIDADE
Tenho ouvido a mesma história inúmeras vezes. O resumo é sempre o
mesmo: “Nós finalmente chegamos à conclusão de que havíamos convidado
(contratado) alguém que não conhecíamos”. A história mais recente era bas­
tante típica. O pastor titular, atualmente com idade aproximada de sessenta
anos, sabe que seu tempo de sair está chegando. Uma comissão de procura de
candidatos é formada e começa a desenvolver o critério que usará para examinar
minuciosamente os pretendentes. A vaga é publicada por meio da rede de
comunicação da igreja e o processo tem início. Com exceção das poucas linhas
que eram vagas e muito gerais, as duas páginas descrevendo o perfil do homem
por quem eles estavam procurando mostravam pouco interesse no homem em
si. Esperava-se que a lista impressionante de conhecimento e habilidades sal­
tasse da página de requerimento, mas passar a conhecer o coração do homem
simplesmente não era parte essencial do processo de procura.
Houve empolgação na reunião da comissão de exame de candidatos quando
o seu presidente apresentou a inscrição do homem que parecia preencher o
perfil apresentado por eles em todos os sentidos. Ele não somente havia recebi­
do o treinamento correto, possuía o conjunto certo de habilidades e o que
parecia ser a filosofia de ministério correta para unir sua igreja e fazê-la crescer,
mas também veio com um currículo de experiência ministerial em uma varie­
dade de contextos. Ao final da reunião, a comissão havia decidido enviar uma
delegação para ouvir o homem pregar e ter uma ideia de como sua igreja atual
estava. Depois de ouvi-lo falar naquela primeira manhã de domingo, a comis­
são ficou muito entusiasmada. Eles amaram a forma como ele analisou a passa­
gem bíblica e vários membros da comissão observaram que sua pregação os
fazia lembrar seu pastor, que estava se aposentando. Não demorou muito para
que eles o convidassem para pregar na igreja deles e, em seguida, veio uma
entrevista na manhã de segunda feira e um convite no final da semana para ser
o novo pastor titular da igreja. Sim, houve entrevistas superficiais com presbíteros
e diáconos, e o grupo teve uma oportunidade de encontrar sua família, mas a
realidade é que, uma vez que ele preenchera os requisitos do perfil de conheci­
mento, experiência e habilidades, era difícil para a comissão ouvir qualquer
outra coisa que se tornasse um obstáculo à oficialização de um convite a ele.
Os primeiros meses do seu ministério nesta nova igreja foram preenchidos
com entusiasmo e esperança. Parecia que Deus havia providenciado exatamente
a pessoa certa. Houve uma coisa que trouxe incerteza às pessoas mais criteriosas:
a esposa do novo pastor não parecia satisfeita nem feliz. Ela não se envolvia
com as senhoras da igreja e parecia participar somente das atividades em que
era esperado que ela estivesse presente. Ele não ficava no gabinete tanto quanto
os outros funcionários da igreja esperavam e, portanto, era difícil entrar em
contato com ele, mas essas questões pareciam ser insignificantes. “Oito meses,
e ninguém foi convidado a ir à sua casa ou a passar algum tempo com eles
socialmente”, foi o comentário preocupado de um presbítero sábio e mais
idoso ao me encontrar para tom ar café juntamente com um companheiro de
liderança. Estava claro que o novo pastor odiava reuniões e se sentia
socialmente desconfortável em cenários informais. Ele gastava a maior parte
do seu tempo semanal estudando em seu escritório em casa e geralmente só
aparecia na igreja para as reuniões administrativas das quintas-feiras e os cultos
de domingo. Os funcionários e outros pastores e líderes tiveram que aprender
a trabalhar sem ele e os seminaristas se sentiram abandonados. Nos ambientes
públicos, ele parecia ser o pastor experiente e superqualificado, mas sua
personalidade pública e o homem privado estavam começando a entrar em
conflito e nenhum dos dois parecia saber disso.
No final do primeiro ano, ele anunciou que sua esposa estava indo passar
um tempo com seus pais. Ele disse que sentia que era muito cedo para tirar
férias e, assim, ela e os filhos sairiam por algumas semanas e ele ficaria “se
virando” sozinho. Ninguém deu muita atenção a isso e refeições foram
providenciadas para que ele não passasse fome durante a ausência de sua esposa.
Tudo isso fez as pessoas ficarem intrigadas quando duas semanas se esticaram
para quatro, mas ninguém fez muitas perguntas. Não fazia muito tempo depois
do retorno de sua esposa quando ele começou a pedir orações por sua família e
para as tensões “norm ais” entre família e m inistério que os pastores
experimentam. Enquanto isso, sua esposa não parecia mais bem adaptada ao
seu novo local de ministério, nem mais próxima dos irmãos da igreja.
Seu isolamento anormal dos funcionários e da liderança da igreja e o
desconforto anormal da sua esposa com a comunidade da nova igreja se tornaram
o novo normal. Todos pareciam adaptados e esquecidos de como tudo era antes
e de como poderia ser. Os funcionários aprenderam a agrupar tudo o que era
necessário ser tratado com o pastor titular nas quintas, os seminaristas aprenderam
a tomar iniciativas próprias e a congregação parecia contente com as reuniões
públicas funcionando bem. “O mínimo do que deveria ser” se tornou o “nós
podemos fazer essa situação funcionar”. É geralmente assim que acontece.
Estou convencido de que a grande crise para a igreja de Jesus Cristo não é
que estamos facilmente descontentes, mas que nos satisfazemos com muito
pouco. Temos uma habilidade regular e perversa de fazer funcionar algumas
coisas que não funcionam e não deveriam funcionar. Aprendemos a nos adaptar
a coisas que deveríamos mudar. Aprendemos a nos sentir bem com coisas que
deveríamos confrontar. Aprendemos a evitar coisas que deveríamos encarar.
Preferimos nos sentir confortáveis a cobrar uma prestação de contas das pessoas.
Enganamos a nós mesmos ao pensar que algumas coisas são melhores do que
de fato são. E, ao fazer isso, comprometemos o chamado e os padrões do Deus
a quem dizemos amar e servir. Como pessoas enfermas, temos medo do médico,
colecionamos evidências que indicam que estamos saudáveis quando, na verdade,
em nosso coração, sabemos que estamos enfermos. Dessa forma, nós nos
contentamos com coisas de segunda categoria, quando Deus, em graça, nos
oferece muito mais.
Quatro anos se passaram e a evidência de que alguma coisa estava errada
no coração e na vida desse homem e de sua família era cumulativa e inescapável.
Ele geralmente parecia abatido e distraído. Ele se tornou menos paciente e se
irritava mais facilmente com aqueles que trabalhavam com ele, e sua esposa
frequentemente aparentava como se estivesse para se derramar em lágrimas.
Secretamente ele perguntou aos diáconos se havia recursos que pudessem ajudá-
lo a pagar aconselhamento para ele e sua esposa, e o dinheiro foi providenciado
com alegria. As pessoas do círculo mais íntimo estavam quebrantadas pelo fato
de que o casal estivesse buscando ajuda e pensavam que, ao refletirem sobre
isso meses mais tarde, ficariam gratas por terem evitado uma crise. Mas, na
verdade, ela não foi evitada.
O telefonema que nenhum presbítero deseja receber veio para o líder do
conselho em uma tarde fria de inverno, em um sábado. Era o pastor, perguntando
se havia qualquer possibilidade de encontrar alguém para substituí-lo no dia
seguinte (dois sermões matinais e uma palestra sobre missões durante o almoço).
O presbítero erroneamente pensou que seu pastor estivesse fisicamente enfermo,
assim, quando o pastor disse a ele que se tratava de uma emergência familiar,
seu coração apertou. Pouco sabia ele do que os próximos dias revelariam.
Na segunda feira, o pastor convocou a diretoria do conselho para uma
reunião de emergência e disse o que estava acontecendo. No domingo, a esposa
do pastor havia dado a ele um ultimato: “Sou eu ou o seu ministério. Você tem
que escolher um ou outro, porque você não terá ambos”. Ela continuou dizendo
que não podia suportar mais. Ela não poderia continuar lidando com a imensa
desconexão entre a vida pública e privada deles. Ela disse que estava exausta,
fingindo que as coisas estavam bem quando não estavam. Ela estava cansada de
ouvir seu marido consistentemente convocar pessoas para fazerem coisas que
ele não fazia. Ela odiava a nova cidade em que vivia e, com amargura, lembrou
ao seu marido que havia implorado a ele para não levar nem ela nem as crianças
para lá. Tendo descarregado tudo sobre ele, ela lhe disse que não iria para a
igreja no domingo, nem em qualquer domingo vindouro. Tudo estava “acabado”
e ele teria que fazer com que ela e as crianças fossem o foco da sua atenção “pela
primeira vez em muitos anos”.
“Ela está certa”, disse ele de cabeça baixa. “Tudo isso tem se arrastado por
muito tempo. Eu não sei se essa é a minha renúncia, um pedido para me
ausentar ou mesmo um clamor por ajuda, mas não podemos continuar fazendo
o que temos feito. Minha esposa está em casa fazendo as malas. Ela, juntamente
com as crianças, está indo para a casa da mãe dela e eu também planejo ir,
assim que essa reunião se encerre e tenha colocado várias coisas do meu
ministério em ordem”. A diretoria, chocada, não deveria ter ficado chocada.
Eles deveriam ter percebido. Eles deveriam tê-lo orientado, aconselhado e
protegido. Eles deveriam tê-lo admoestado e encorajado. Eles deveriam tê-lo
servido e resgatado. Mas eles haviam contratado um homem que não conheciam,
em um casamento do qual não sabiam muito e com uma esposa que estava
mais perturbada do que eles imaginavam. Eles foram persuadidos por uma
gama de conhecimento, a história da experiência ministerial e habilidades
ministeriais óbvias. Eles estabeleceram pressuposições que não deveriam ter
estabelecido. Eles deixaram de fazer perguntas que deveriam ter feito. Eles
conheciam o curriculum vitae do homem, mas não conheciam o seu coração. Se
conhecessem, nunca o teriam convidado porque teriam sido capazes de prever
o que agora estavam enfrentando.
Eles não tinham qualquer conhecimento das discussões noturnas entre o
pastor em potencial e sua esposa, que haviam acontecido antes de ele aceitar o
convite da igreja. Eles não sabiam que o isolamento que os funcionários e
seminaristas haviam experimentado também era vivenciado por cada membro
da família do pastor. Eles não sabiam que a razão que o levou a aceitar essa nova
posição era o fato de que o seu relacionamento com sua esposa já havia começado
a se desintegrar e que ela já havia começado a desabar emocionalmente. Eles não
sabiam que ela havia ficado devastada quando ele aceitou o convite e que ele
estava convencido de que aquela era a única maneira de resgatar a sua família e o
seu casamento. As palavras funcionais que revelam a crise dessa igreja local e
muitas outras igrejas que enfrentam situações semelhantes são: “eles não sabiam”.

O QUE TORNA OS PASTORES BEM-SUCEDIDOS?


Estou convencido de que grande parte do problema em situações como
esta e uma definição não bíblica dos ingredientes essenciais do sucesso minis­
terial. Certamente no perfil do candidato há uma linha que exige “um cami­
nhar vibrante com o Senhor”, mas essas palavras foram enfraquecidas por um
processo que levanta pouquíssimas questões nesta área enquanto estabelece gran­
des pressuposições sobre o assunto. As pessoas realmente estão interessadas no
conhecimento do candidato (teologia correta), habilidades (bom pregador),
filosofia ministerial (edificará a igreja) e experiência (não está iniciando o seu
ministério em nossa igreja). Devido ao que faço, muitas vezes tenho ouvido
líderes de igrejas em momentos de crises pastorais dizerem para mim: “Nós
não conhecíamos o homem que contratamos”.
O que significa conhecer o homem? Significa conhecer a verdadeira
condição do seu coração (tanto quanto possível). O que ele realmente ama e o
que ele menospreza? Quais as suas esperanças, sonhos e temores? Quais são
seus desejos profundos que alimentam e moldam a maneira como ele pratica o
ministério? Quais são as ansiedades que têm o potencial de desencaminhá-lo
ou paralisá-lo? Quão acurada é a sua perspectiva de si mesmo? Ele é uma
pessoa aberta a confrontação, crítica ou encorajamento de outras pessoas? Ele
vê o projeto pastoral como um projeto comunitário? Ele tem um coração meigo
e estimulável? Ele é alguém cordial e hospitaleiro? E um pastor cuidador daqueles
que estão sofrendo? Quais qualidades de caráter seriam usadas por sua esposa e
filhos para descrevê-lo? Ele presta atenção à sua própria pregação? O seu coração
fica quebrantado e sua consciência entristecida à medida em que olha para si
mesmo no espelho da Palavra? Quão robusta, consistente, alegre e vibrante é a
sua vida devocional? O seu ministério com outras pessoas flui do entusiasmo
de sua comunhão com o Senhor? Ele mantém a si mesmo em alto padrão ou
está disposto a se submeter à mediocridade? Ele é alguém sensível à experiência
e às necessidades daqueles que ministram juntamente com ele? Ele é alguém
que encarna o amor e a graça do Redentor? Ele consegue deixar de lado as
ofensas menores? Ele é alguém pronto e disposto a perdoar? Ele é uma pessoa
crítica e condenadora? O pastor público é uma pessoa diferente do marido e
do pai no campo privado? Ele cuida da sua saúde física? Ele se entorpece por
meio da mídia social e da televisão? Se ele diz: “Se eu apenas tivesse________ ”,
o que preencheria o espaço vazio? Quão bem sucedido ele tem sido ao pastorear
a congregação que é a sua família?
Perceba que é absolutamente vital lembrar que o ministério do pastor não
é estruturado apenas por seu conhecimento, experiência e habilidade. Ele sempre
é estruturado também pela verdadeira condição do seu coração. Na verdade, se
o seu coração não estiver no lugar correto, todo o conhecimento e habilidade
podem funcionar para torná-lo perigoso. Vamos examinar a situação que revelei
para você.
O problema não era a esposa do pastor, ainda que ela tivesse vários problemas
significativos do coração que precisavam ser trabalhados. O problema não era
que ele tinha um casamento continuamente problemático. O problema não
era seu isolamento dos parceiros ministeriais e do corpo de Cristo. Todas essas
questões eram sintomas e sinais de um problema mais profundo, mais
fundamental. O problema dizia respeito ao coração, algo que teria um efeito
negativo inescapável em seu ministério. O problema era vertical. Ele dizia
respeito ao caráter e conteúdo do relacionamento do pastor com Deus.
O problema era o fato de o pastor carecer de uma comunhão com Cristo
viva, humilde, carente, celebradora, adoradora e meditativa. Era como se Jesus
tivesse abandonado o edifício. Havia todo tipo de conhecimento e habilidades
ministeriais, mas tudo isso parecia divorciado de uma comunhão viva com o
Cristo vivo e sempre presente. Na verdade, tudo isso era assustadoramente
impessoal. Tudo dizia respeito a conteúdo teológico, precisão exegética,
compromissos eclesiásticos e avanços institucionais. Tudo dizia respeito a
preparar o próximo sermão, organizar a agenda da próxima reunião corretamente
e preencher os requisitos da liderança. Tudo dizia respeito a orçamentos,
planejamento estratégico e parcerias ministeriais. Nenhuma dessas coisas estava
errada em si. Muitas delas são essenciais. Mas elas nunca podem ser um fim
em si mesmas. Elas nunca podem ser o motor que propulsiona o veículo. Todas
elas devem ser uma expressão de algo mais profundo e esse algo mais profundo
precisa estar alojado no coração do pastor titular. Ele deve acender e alimentar
a chama do seu ministério em cada nível e aquilo que acende o seu ministério
deve acender cada aspecto da sua vida pessoal também.
O pastor deve estar encantado, maravilhado - permita-me dizer, apaixonado
- pelo seu Redentor a tal ponto de tudo o que ele pensa, deseja, escolhe, decide,
diz e faz seja motivado por seu amor a Cristo e pela segurança de descansar no
amor de Cristo. Ele deve ser regularmente exposto, quebrantado, assegurado e
acalentado pela graça do seu Redentor. Seu coração precisa ser sensibilizado dia
após dia por sua comunhão com Cristo, até que ele se torne meigo, amoroso,
paciente, perdoador, encorajador e um líder servo doador. A sua meditação sobre
Cristo —a presença, promessas e provisões dele —não deve estar subjugada à sua
meditação sobre como ele desempenha o seu ministério.
Veja, é somente o amor a Cristo que pode defender o coração do pastor
contra todos os outros amores que têm o potencial de sequestrar seu ministério.
É somente a adoração a Cristo que tem o poder de protegê-lo contra todos os
sedutores ídolos do ministério que cochicharão em seus ouvidos. É apenas a
glória do Cristo ressurreto que vai guardá-lo contra a glória própria, que é uma
tentação para todos que estão no ministério, a qual destrói o ministério de
tantos. Somente Cristo pode transformar um arrogante, um seminarista
graduado com a atitude “que venha o m undo” em uma pessoa paciente,
humilde, doadora da graça. Somente profunda gratidão pelo Salvador sofredor
pode fazer um homem disposto a sofrer no seu ministério. É somente um
coração que está satisfeito em Cristo que pode estar espiritualmente contente
em meio às dificuldades do ministério. Somente em seu quebrantamento diante
do seu próprio pecado é que você pode conceder graça aos rebeldes, como você,
a quem Deus o tem chamado a ministrar. Somente quando a sua identidade
está firmemente enraizada em Cristo é que você está livre de buscar obter sua
identidade fora do ministério.
Devemos ser cuidadosos em como definimos prontidão ministerial e
maturidade espiritual. Há um perigo em pensar que o seminarista graduado
bem educado e treinado é um ministro pronto, bem como em confundir
ministério com conhecimento, trabalho e habilidades com m aturidade
espiritual. Maturidade é algo vertical, que terá grande variedade de expressões
horizontais. Maturidade diz respeito ao relacionamento com Deus que resulta
em um viver sábio e humilde. A maturidade no amor por Cristo se expressa no
amor por outros. Gratidão pela graça de Cristo se expressa na graça a outras
pessoas. Gratidão pela paciência e perdão de Cristo capacita você a ser paciente
e perdoador em relação a outros. É a sua própria experiência diária de resgate
do evangelho que concede a você uma paixão pelas pessoas a fim de que elas
experimentem o mesmo resgate.
Porque tudo isso é verdade, essas coisas devem ser colocadas em primeiro
plano na aplicação e no exame de todo candidato a pastor. Não estamos
contratando habilidades, conhecimento e experiência ministerial. Estamos
convidando a pessoa integral para viver de coração e cujo ministério será sempre
moldado e direcionado por algum tipo de adoração. Estamos convidando pessoas
em meio à sua própria santificação, ainda lutando contra o poder sedutor e
enganador do pecado. Estamos convidando pessoas que enfrentam as ciladas
diárias em um mundo que simplesmente não opera da maneira que Deus
projetou. Estamos convidando pessoas a quem Deus levará a sofrimentos para
o seu bem redentivo e para a sua glória. Estamos convidando pessoas que estão
em relacionamentos íntimos diários com outros pecadores. Estamos convidando
pessoas que sejam suscetíveis a se desorientarem, ao autoengano, à tentação de
serem autossuficientes e de terem justiça própria. Estamos convidando pessoas
que lutam com seus sentimentos e interpretações de experiências ministeriais
anteriores ao seu novo local de ministério. Estamos convidando pessoas que
estão desesperadamente necessitando de perdão, transformação, capacitação e
libertação da graça como qualquer outro a quem irão ministrar. Estamos
convidando pessoas reais que ainda não foram diplomadas na graça.

ALGUNS EXEMPLOS BÍBLICOS


Fica claro, a partir do exame das Escrituras, que frutificar ou fracassar na
liderança raramente diz respeito apenas a conhecimento, estratégia, habilidade
e experiência. Considero aqui o que foi dito de Abraão em Romanos 4. Ele foi
escolhido por Deus para receber as promessas pactuais. Foi dito a ele que sua
geração seria como a areia da praia do mar. Porém, sua esposa era uma mulher
avançada em dias, muito, muito além da idade de concepção, e ele não havia
ainda tido o filho que daria prosseguimento à sua linhagem. Romanos 4 nos
diz algo muito importante sobre o coração de Abraão. Considere isto: quando
você e eu somos chamados a esperar em Deus por um período extenso como
Abraão foi, geralmente, para nós, nossa história de espera se transforma em
uma crônica de uma fé cada vez mais enfraquecida. Por mais que tenhamos
tempo para pensar sobre o que estamos esperando, por mais que tenhamos tem­
po de considerar como é que não temos a habilidade de obter aquilo e por mais
que tenhamos tempo de ficar maravilhados com o porquê de termos sido esco­
lhidos para esperar, mais a nossa fé se enfraquece. Mas não foi assim com Abraão.
Nesta passagem, lemos que, durante esse tempo prolongado de espera, sua fé,
na verdade, ficou mais forte, e a passagem nos diz a razão. Em vez de meditar
na impossibilidade da sua situação, Abraão meditava no poder e no caráter
daquele que fez a promessa. Quanto mais Abraão permitia que seu coração se
aquecesse na glória de Deus, mais convencido ele se tornava de que estava em
boas mãos. Ao invés de um círculo de desencorajamento e desespero, a história
de Abraão é de encorajamento e esperança. Por quê? Porque ele meditou nas
coisas certas.
E o que dizer sobre José, a quem Deus escolheu como seu instrumento
para preservar os filhos de Israel da fome e, consequentemente, da extinção?
Quando seduzido pela esposa do comandante egípcio Potifar, ele não cedeu.
Por quê? Não era pelo medo das consequências ou por alguma coisa que hou­
vesse aprendido do passado ou por sua habilidade de negociar relacionamentos
complicados do palácio. Gênesis 39 nos diz claramente o que motivou José
neste ponto crítico de escolha em sua vida. Veja bem, ele foi capaz de resistir
porque, na devoção profunda do seu coração, havia o seu Senhor. O seu coração
não era governado por prazeres horizontais, mas pela adoração vertical. Ele não
podia conceber o ato de fazer algo tão maligno contra Deus. Uma glória maior
do que as glórias temporárias do mundo criado havia cativado seu coração e,
então, ele respondeu com um “não” imediato, enfático e de coração.
O u pense em Moisés, de pé em frente à sarça ardente. Deus havia esco­
lhido Moisés para ser sua ferramenta de redenção, para liderar Israel em sua
libertação do cativeiro, em direção à terra da promessa. Mas Moisés não estava
disposto nem esperançoso. Êxodo 3 e 4 registram o debate de Moisés com
Deus. A avaliação pessoal de Moisés é que ele é completamente incapaz,
despreparado e desqualificado para fazer o que Deus o havia chamado para
fazer. A resposta de Deus é simples: “Eu irei com você”. A conclusão de Moisés
é tão simples quanto a de Deus: “Ah! Senhor! Envia aquele que hás de enviar,
menos a mim” (Êx 4.13). Moisés disse isso mesmo depois de Deus ter dado a
ele uma demonstração de primeira mão do poder que estaria à sua disposição
como instrumento escolhido de Deus. O que estava acontecendo aqui? Moisés
não estava sendo protegido por toda a educação egípcia. Ele não estava sendo
motivado por toda riqueza do seu conhecimento cultural egípcio. Ele não
estava sendo endurecido por sua compreensão pessoal da política do palácio.
Nenhuma dessas coisas estava ajudando Moisés nesse momento, porque ele
estava sendo traído pelo temor do seu próprio coração. E é somente diante da
ira da face de Deus que Moisés, finalmente, atende.
O u pense no exército de Israel no Vale de Elá, armado para a batalha,
mas muito temeroso para lutar. Eles ficaram lá como o exército escolhido do
Deus altíssimo, o Senhor dos Exércitos, temerosos de enfrentar o campeão dos
filisteus. Era um exército que estava sofrendo um caso trágico de amnésia de
identidade. Eles se esqueceram de quem eram. Eles se esqueceram das promes­
sas que haviam recebido. E porque assim o fizeram, chegaram a uma conclusão
falsa de uma equação espiritual à medida que avaliaram o momento. A situação
não era: esses pequeninos soldadinhos contra esse enorme gigante, era um pe­
queno gigante contra o Deus Altíssimo. Primeiro Samuel 17 narra a chegada
de Davi. Esse pastor, que estava ali para entregar as provisões aos seus irmãos,
era um homem de fé, um homem que havia experimentado o poder resgatador
de Deus. Davi não podia entender por que o exército estava amedrontado. Em
um ato de coragem que só é possível a alguém que sabe que é um filho de Deus
e descansa naquilo que lhe foi concedido, Davi caminha para o vale a fim de
enfrentar Golias com nada mais do que uma funda de pastor. Davi está estabe­
lecendo a equação espiritual correta e sabe que Deus vai entregar o campeão
filisteu e o seu exército em suas mãos. Davi sabe que luta não na sombra da
glória de Golias, mas na claridade da glória de Deus. É essa coragem da fé que
reside em seu coração que o impulsiona a entrar no vale.
O u lembre-se de Elias, que, depois de uma grande vitória contra os profetas
de Baal no Monte Carmelo, se encontra só, desencorajado e sem esperança a
ponto de desejar a morte. Primeiro Samuel 19 retrata para nós esse profeta patético,
que estava completamente perdido em seu caminho e convencido de que aquilo
era o fim. Ele não consegue enxergar uma saída e está convencido de que é o
único homem reto que sobrou e, dessa perspectiva, olha como se o mal estivesse
vencendo. Deus vem a Elias e o traz de volta à sua razão. Ele não está sozinho;
a obra de Deus não foi realizada ainda. O mal não vencerá no final. Existem mais
de sete mil fiéis que permaneceram para dar continuidade à obra de Deus.
Considere o que Paulo diz em sua confrontação a Pedro, que estava a
ponto de comprometer o princípio central do evangelho porque estava com
medo do que certo grupo de pessoas haveria de pensar e como elas responderiam
a ele. Ele estava a ponto de agir de forma que contrariaria diretamente a
mensagem que ele havia sido chamado a representar, não porque carecia de
conhecimento, experiência ou habilidade, mas porque, naquele momento, seu
coração era dominado mais pelo temor horizontal do que pela fé vertical.
Em cada instância, com cada líder, o que faz a diferença nos pontos de
escolhas cruciais é a condição do coração da pessoa. O coração é o fator X
inescapável no ministério. Coloque dois homens com exatamente o mesmo
treinamento, experiência e habilidade sentados um ao lado do outro. Seria
fácil concluir que eles responderiam de maneira semelhante à dinâmica do
ministério da igreja local. Seria fácil concluir isso, mas perigoso. O potencial
para a diferença significativa na maneira como esses dois homens operam é tão
abrangente como um catálogo de coisas que podem governar o coração de uma
pessoa no ministério. É ingênuo pensar que o ministério pastoral é sempre
impulsionado pelo amor a Cristo e ao seu evangelho. É simplista concluir que
pessoas no ministério tenham amor natural e constante por pessoas. É perigoso
concluir que todos no ministério trabalham para o avanço do grande Reino.
É importante reconhecer que muitas pessoas no ministério têm sido bem-
sucedidas em prol de uma glória pessoal e que elas têm perdido a visão da
glória de Deus. Nem todas as pessoas no ministério desempenham o seu trabalho
motivadas pelo senso humilde das suas próprias necessidades. Ministros são
desviados porque líderes começam a pensar que atingiram um ponto ideal e
não se cercam de proteção, como exortam todos os outros a fazer. É ingênuo
pensar que pastores sejam livres de tentações sexuais, medo de homens, inveja,
cobiça, orgulho, ira, dúvidas sobre Deus, amargura e idolatria. É vital lembrar
que cada pastor se encontra no meio de ser reconstruído pela graça de Deus.
Assim, é essencial conhecer o coração do hom em por detrás do
conhecimento, habilidade, experiência e estratégia ministerial antes de chamá-
lo para pastorear o rebanho de Deus. Você pode ter certeza de que, como os
líderes de Deus no passado, ele enfrentará pontos de escolhas cruciais na sua
vida pessoal e ministerial. Naqueles momentos significativos, o que vai vencer
a batalha e determinar o que ele fará será o seu coração, porque, como qualquer
outra pessoa, é inescapavelmente verdadeiro que aquilo que governa o seu coração
dirigirá sua vida e seu ministério. É vital ir bem além do perfil que emerge da
informação do seu curriculum vitae.
Capítulo 5
JUNTAS E LIGAMENTOS
Pastor, você já se perguntou alguma vez: “Quem sou eu e do que eu
preciso espiritualmente?” O u você já pensou sobre o seu pastor e perguntou:
“Quem é o meu pastor e o que ele precisa para permanecer saudável espiritual­
mente e para crescer em graça?” Parece correto e saudável que, em muitas igre­
jas, a realidade funcional é que ninguém recebe menos do ministério do corpo
de Cristo do que o pastor? Parece ser melhor que a maioria dos pastores receba
certa aprovação para viver fora do corpo de Cristo ou acima dele? Se todo pastor
for, na verdade, um homem no meio da sua própria santificação, ele não deve­
ria estar recebendo a média normal do ministério essencial do corpo de Cristo
que Deus ordenou que todo membro da igreja recebesse? Existe alguma indi­
cação no Novo Testamento de que o pastor é exceção às regras normais que
Deus projetou para a saúde e o crescimento do seu povo? É possível que tenha­
mos construído um tipo de relacionamento entre o pastor e sua congregação
que não possa funcionar? Pode ser que estejamos pedindo algo dos nossos pas­
tores que eles sejam incapazes de fazer? É bíblico dizer aos pastores que eles não
poderão ter amizades, que eles devem viver em isolamento, o que consideramos
doentio para qualquer outra pessoa?

CEGOS GUIANDO OUTROS CEGOS


Você só precisa levar a sério o que a Bíblia tem a dizer sobre a presença e
o poder do pecado remanescente para conhecer o grande perigo de permitir
que qualquer pessoa viva isolada do ministério essencial do corpo de Cristo,
quanto mais a pessoa que está encarregada de liderar, orientar e proteger esse
corpo como representante de Cristo. Se Cristo é a cabeça do seu corpo - e ele
é - então tudo o mais é apenas corpo. O mais influente pastor ou líder minis­
terial é um membro do corpo de Cristo e, portanto, necessita do que os outros
membros do corpo necessitam. No Novo Testamento não existe indicação de
que o pastor seja uma exceção à regra de tudo o que é dito sobre a interconectividade
e o ministério necessário do corpo de Cristo. O que é verdadeiro sobre os
membros aparentemente menos significantes do corpo também é verdade so­
bre o pastor. Uma cultura intencional de separação e isolamento pastoral não é
bíblica nem espiritualmente saudável.
Deixe-me sugerir uma passagem a respeito da qual escrevi anteriormente,
que reforça esse ponto muito bem. Hebreus 3.12-13: “Tende cuidado, irmãos,
jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade
que vos afaste do Deus vivo; pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia,
durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja
endurecido pelo engano do pecado”. Essa passagem coloca diante de nós uma
advertência crítica e um convite essencial que, ao mesmo tempo, reforça a
presença e o poder do pecado remanescente e a necessidade de um ministério
diário do corpo de Cristo na vida de todo membro (inclusive do pastor) do
corpo de Cristo.
Considere comigo a advertência crítica. Não sei se você observou, mas a
advertência nesta passagem é progressiva. Ela retrata os passos progressivos do
endurecimento do coração do cristão (a saudação, “irmãos”, nos diz que esta
passagem foi escrita para cristãos). A advertência é assim: “Veja que nenhum de
voces tenha um coração mau — incrédulo, que se distancia de Deus —
endurecido . É um retrato do que o pecado faz se não for detectado, exposto e
abandonado. Deixe-me trabalhar esses passos com você.
Tudo começa comigo dando lugar ao pecado em minha vida. Eu permito
que algumas coisas entrem em minha vida, as quais estão fora dos limites do
que Deus me chamou para ser e fazer, coisas que Deus denominaria “más”.
Devido ao fato de eu ser um cristão e o meu coração de pedra ter sido tirado de
mim e substituído por um coração de carne, minha consciência me incomoda
quando eu peco. Esse é o ministério lindo e convincente do Espírito Santo.
Quando minha consciência é ativada e incomodada, defronto-me com duas
possibilidades. A primeira e melhor possibilidade é admitir que o que eu fiz é
errado e colocar-me novamente sob as misericórdias justificadoras de Cristo,
recebendo seu perdão. O u eu posso erigir algum sistema de expiação própria
que, em essência, argumenta a favor da justiça do que eu fiz. O que estou
fazendo aqui é fazendo-me sentir bem a respeito do que Deus diz que não é
bom. Eu estou participando da minha própria cegueira espiritual. Toda pessoa
que ainda vive em pecado dentro de si engana a si mesma com muita habilidade.
Creio que fazemos isso com muito mais frequência do que temos consciência.
Assim, o pastor que acabou de ficar irado durante a reunião do conselho
da igreja dirá a si mesmo que ele não estava irado, estava apenas falando como
um dos profetas de Deus: Assim diz o Senhor!” O marido e a esposa que estão
fofocando sobre alguém do seu pequeno grupo no caminho de volta para casa
dirão a si mesmos que isso não é fofoca, é apenas um pedido de oração bem
amplo e detalhado. O empresário de punhos cerrados que luta para não ceder
dirá a si mesmo que está sendo apenas um bom mordomo dos recursos que
Deus confiou a ele. Todos nós temos uma habilidade perversa de nos fazer
sentir bem a respeito do que não é bom de forma alguma.
É exatamente sobre isso que o próximo passo no processo de endurecimento
trata. “Incrédulo” captura o que fazemos para cobrir o nosso pecado e defender
a nossa justiça. Em vez de ter uma fé simples e de descansar no diagnóstico
preciso da Palavra de Deus e na graça suficiente de Cristo, trabalhamos para
dizer a nós mesmos que não somos, realmente, neste caso particular, pecadores
necessitando da misericórdia perdoadora porque o que nós fizemos não é, na
verdade, errado. Nossos argumentos de autorredenção são atos de orgulho,
rebelião e incredulidade.
Esse nível de orgulho, rebelião e incredulidade invariavelmente dá ao
pecado mais espaço para operar. Devido a não termos confessado, nos arrependido
e procurado a graça perdoadora, transformadora, habilitadora e libertadora de
que necessitamos, nos abrimos para mais obras feias do pecado. A terceira parte
nessa triste progressão, “se afastando”, captura essa ideia muito bem. É uma
aceitação do diagnóstico da Escritura e um descanso firme na graça de Cristo
que nos ancoram contra as tempestades da tentação e quando cortamos essa
corda da âncora, sempre acabamos nos distanciando.
Nós finalmente terminamos com um coração “endurecido . O que nos
incomodava antes não nos incomoda mais. O que antes ativava a nossa
consciência parece não fazê-lo mais. O que sabíamos estar fora dos limites de
Deus para nós e, portanto estava, funcionalmente, fora dos nossos, vive dentro
nos nossos limites e não nos incomoda mais. Não e maleavel mais. É duro e
resistente mudar, não mais sensível e suscetível ao aperto das mãos do Espirito.
O mal está em nosso coração e nas ações das nossas mãos, e nos estamos bem
com isso. Poderia existir um lugar mais perigoso para um cristão estar?
Deixe-me ser sincero aqui. Eu já estive neste lugar como pastor. Eu
mantinha uma lista amarga de erros contra pessoas da minha congregação e eu
trabalhava para ficar em paz com isso. Eu falava mal de pessoas das quais eu
fora chamado para cuidar, e isso não me aborrecia. Eu invejava o ministério de
outros e isso não me entristecia. Eu pregava para ganhar o respeito de alguns
da minha congregação e não via isso como a idolatria que era. E porque eu não
via essas coisas como o mal que eram, eu não sentia a necessidade de mudar.
Agora, a pergunta que todo leitor deve estar fazendo a essa altura é como
esses passos assustadores de endurecimento podem encontrar lugar na vida de
um cristão. É aqui que você precisa da teologia do escritor de Hebreus sobre o
pecado remanescente. Em essência, ele diz que isso é possível acontecer porque o
pecado é, fundamentalmente, enganador. Você nunca entenderá a advertência
desta passagem e o convite que se segue até que compreenda a teologia da cegueira
espiritual que é o epicentro tanto da advertência quanto do chamado.
O pecado é enganador, e pense comigo sobre a quem ele engana primeiro.
Não tenho dificuldades em reconhecer o pecado das pessoas ao meu redor, mas
posso estar bastante despreparado quando o meu pecado é indicado. O pecado
engana dez pessoas de dez que estão lendo este livro. Mas não é suficiente nem
dizer isso; há mais que precisa ser dito. É necessário observar que a cegueira
espiritual não é como a cegueira física. Quando você está fisicamente cego,
você sabe que está cego e faz as coisas para compensar esse déficit físico
significativo. Mas pessoas espiritualmente cegas não são somente cegas, elas
estão cegas para a sua cegueira. Elas estão cegas, mas pensam que veem bem.
Assim, a pessoa espiritualmente cega anda ao redor com a ilusão de que ninguém
tem um ponto de vista mais exato de si mesma do que ela própria. Ela pensa
que vê, mas não percebe as coisas imensamente importantes no seu coração
que ela não vê absolutamente.
É aqui que o apelo essencial da passagem entra. O apelo é para encorajar
(exortar) uns aos outros diariamente. Aqui está a explicação significativa de por
que esse apelo é essencial: “...a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo
engano do pecado”. A habilidade de cegueira do pecado é tão poderosa e
persuasiva que você e eu precisamos literalmente de intervenção diária. O que
o escritor aos Hebreus está esmagando com essa advertência e apelo é qualquer
dedicação que possamos ter a um cristianismo isolado, individualizado, do
tipo “Jesus e eu”. Ele está argumentando pela essencialidade do ministério de
outros na vida de todo cristão. Obviamente, isso inclui o pastor. Nenhum de nós
é fortificado o suficiente para viver a vida cristã sozinho. Nenhum de nós está
seguro vivendo separado e desconhecido. Cada um de nós, seja pastor ou
membro da congregação, precisa dos olhos de outros para nos vermos com
clareza e exatidão. E do que esse ministério diário de intervenção está nos
protegendo? A resposta deve trazer sobriedade a todos nós: a graça de ter as
nossas conversas particulares interrompidas pelo ministério revelador de outras
pessoas está nos protegendo de nos tornarmos espiritualmente cegos até o
ponto de endurecer o nosso coração. O autor argum enta aqui que o
entendimento espiritual pessoal é produto da comunidade. E muito difícil
conseguir isso sozinho. Talvez todo pastor precise reconhecer humildemente
que, por causa do poder cegante do pecado remanescente, o exame próprio é
um projeto comunitário. Todo pastor precisa de pessoas em sua vida para se
ver com precisão bíblica.
Isso significa que pastores que se convencem de que são capazes de viver
fora do sistema regular de ajuda e proteção de Deus estão correndo perigo de
se tornarem cada vez mais cegos e duros de coração. Isso significa que, em sua
cegueira, eles começam a pensar de si mesmos como pessoas mais justas do que
realmente são e, porque pensam que são mais justos do que na verdade são, eles
são resistentes a mudanças. Isso significa que não sentirão fome de exortações e
admoestações de outros. Eles não responderão bem quando forem lembrados
acerca da sua necessidade constante de mudança. Eles não trabalharão bem
com outros porque terão a tendência de pensar que estão corretos e sabem
mais. Pensar que estão certos e que sabem mais significa que não ouvirão bem
nem trabalharão tão bem quanto alguém que está convencido de que sua
caminhada com Deus é um projeto comunitário.
Isso também significa que eles lutarão para serem pacientes com pessoas
que estão errando ou se perdendo. Pessoas com justiça própria tendem a não ser
pacientes nem compreensivas em face ao fracasso de outras pessoas. Isso se relaciona
com a realidade de que ninguém oferece graça melhor do que uma pessoa que
sabe que ela própria precisa dela desesperadamente. Essa cegueira da justiça
própria também significa que eles não lidarão muito bem com oposição e acusação.
Eles não verão essas coisas como ferramentas de graça desconfortável enviadas por
Deus, que está continuando sua obra neles. Por estarem contentes com quem
são, ficarão imaginando porque Deus os destacou para essa dificuldade particular,
dando espaço a questionar, em certos momentos, a bondade e sabedoria de Deus.
Tenho conversado com muitos pastores cuja luta verdadeira não é, em
primeiro lugar, com a dificuldade do ministério, a falta de apreciação e
envolvimento das pessoas ou as dificuldades com líderes companheiros no
ministério. Não, a luta real que estão tendo, a que é muito difícil para um
pastor admitir, é com Deus. O que tem feito seu ministério se tornar difícil e
penoso é o desapontamento com Deus e a ira com ele. É difícil representar
alguém de quem você passou a duvidar. É difícil encorajar outros a confiarem
funcionalmente em alguém em quem você não está certo de confiar. É quase
impossível no ministério dar algo que você não tem.
Esta passagem poderia ser um diagnóstico, uma advertência e apelo mais
necessário e preciso a todo pastor, não importa há quanto tempo ele está no
ministério, não importa onde está ministrando e não importa o tamanho da
igreja a quem ele serve?

VIVENDO NA ZONA DE PERIGO


Tiago e Júlia entraram para o ministério com um sentimento mútuo de
empolgação e chamado. Eles não podiam crer que haviam sido chamados para
o privilégio de viverem pelo desempenho do ministério. Eles amavam a igreja
que frequentavam há anos, o lugar onde seus dons e seu chamado haviam sido
reconhecidos. Eles amavam ser seminaristas e, depois, membros do grupo de
funcionários e, finalmente, a honra de serem escolhidos como líderes da mais
nova congregação da igreja. Tudo parecia um sonho se tornando realidade. Eles
haviam vivido em uma comunidade vibrante e que ministrava mutuamente.
As pessoas haviam falado em suas vidas quase diariamente. Eles simplesmente
nunca eram deixados para terem a sua própria visão de si mesmos. Nunca havia
a expectativa de que eles agissem por si mesmos. Esperava-se que eles errassem
em alguns pontos e que se perdessem. O amor protetor e preventivo estava
sempre ao redor - amor que era sincero, encorajador, confrontador, perdoador
e esperançoso. Devido a terem se tornado tão acostumados a isso, Tiago ejúlia
saíram para começar a nova congregação, subestimando seriamente a impor­
tância do ministério da compreensão e crescimento pessoal que eles estavam
deixando para trás. Eles não faziam ideia de que estavam pisando em uma zona
de perigo onde nenhum cristão, muito menos um pastor, deve tentar viver.
Quase imediatamente, as coisas começaram a mudar dentro de Tiago,
mudanças que ele não viu e com as quais não se preocupou. Como jovem
pastor com um grupo comprometido e zelo para trazer o evangelho à sua
comunidade, Tiago começou a lidar com questões do coração com as quais não
havia lidado anteriormente, apesar de não reconhecer a importância dessas
questões. E certamente ele não fazia ideia de que essas preocupações o levariam
à zona de perigo e quase se tornariam a destruição do seu ministério. A primeira
vez em que me encontrei com Tiago e sua esposa eles estavam prontos a desistir.
Júlia disse o seguinte: “Tudo o que eu desejo é a liberdade de viver com um
homem que não esteja no ministério. Não consigo suportar o que isso tem causado
no Tiago e em nossa família. Eu desisto. Simplesmente não posso mais suportar
isso e creio que o Tiago não esteja em condições de liderar outras pessoas”.
Como Tiago e Júlia chegaram a esse estado de abatimento e desencorajamento?
A jornada da empolgação ministerial ao perigo pessoal e ao desânimo ministerial
começou com as mudanças no coração do Tiago. Talvez essas mudanças não
pareçam significativas ou perigosas para você, mas elas quase levaram esse
homem talentoso à ruína. Praticamente no momento em que chegaram para
plantar a igreja, Tiago começou a sentir um fardo que ele não havia
experimentado anteriormente. Ele não compartilhou isso com ninguém, nem
mesmo com Júlia. Como líder do grupo iniciante das pessoas corajosas que
haviam deixado uma igreja vibrante para se entregarem a esse novo ministério,
Tiago sentiu uma enorme pressão em não fazer nada que resultasse em
desapontamento. Ele sentiu mais pressão de ser seguro e sempre dizer a coisa
certa do que havia experimentado antes. Ele não queria que as pessoas ficassem
preocupadas com aqueles momentos em que ele se sentia fraco, abatido, incapaz
ou amedrontado. Certamente ele não queria que Júlia visse aquelas coisas
porque, de todas as outras pessoas, ela havia sido aquela disposta a deixar muito
e se arriscar muito para segui-lo nessa nova situação ministerial. Ele sentiu a
necessidade de agir de maneira encorajadora, inspiradora de esperança e segura
(o termo operativo para isso era agir), mesmo quando ele mesmo não tinha
nenhuma dessas qualidades. Ao fazer isso, ele começou a se sentir confortável
com uma desarmonia entre a pessoa do ministério público e as realidades atuais
do seu coração e da sua vida.
Ele disse a si mesmo que isso era importante porque ele não queria que as
pessoas começassem a questionar o envolvimento delas como resultado de
duvidar das habilidades de liderança dele. De maneiras alheias à sua consciência,
Tiago começou a se proteger, afastando-se das outras pessoas. Ele se tornou
muito bom em dar respostas evasivas generalizadas a questões pessoais. Ele se
tornou bom em discutir questões bíblicas e teológicas em vez de conversar
sobre o que ele realmente estava pensando ou sentindo. Certamente um pastor
precisa ser sábio acerca do que está revelando e para quem, mas ele não precisa
criar uma cerca ao redor de si mesmo que o afaste completamente do corpo de
Cristo e chamar isso de custo do ministério ao qual foi vocacionado. Mas isso
foi exatamente o que Tiago fez e o que muitos, muitos pastores estão fazendo
ao redor do mundo. Eles não somente estão vivendo em isolamento, mas também
estão convencidos de que foi para isso que foram chamados. Eles denominam
seu isolamento não como um perigo, mas como uma escolha boa e madura.
Muitos jovens pastores me dizem que foram aconselhados por pastores mais
experientes, que são seus mentores, a viverem em isolamento.
Tiago se preocupava sobre como o conhecimento das suas lutas prejudicaria
a esperança das pessoas no poder do evangelho. Ele não queria que as pessoas
questionassem o evangelho porque não parecia que o evangelho estava
funcionando na vida de seu pastor. Ele se perguntava como eles podiam confiar
no auxílio de Deus se não parecia que Deus estava ajudando seu pastor. Assim,
sem haver um momento consciente de decisão, Tiago entrou em seu esconderijo.
Pareceu natural para ele, o custo do seu chamado. É certo que ele dizia coisas
teológicas sobre sua necessidade de graça, mas nunca de forma a levar outros a
pensarem seriamente que o seu pastor era um homem espiritualmente carente.
Porém, ser o homem que ele pensava que precisava ser, trabalhando para
ser mais justo publicamente do que ele realmente era, era exaustivo e penoso.
Até mesmo em encontros mais informais, Tiago não relaxava. Assim, ele não
desfrutava desses encontros e procurava razões para não participar. Ele havia
almejado a liberdade e a alegria de poder usar e expressar seus dons como
pastor titular, mas não se sentia livre e não experimentava a alegria que pensava
que desfrutaria. Tiago estava convencido de algo que eu tenho ouvido de muitos
pastores também: ele estava convencido de que todas as outras pessoas do corpo
de Cristo podiam confessar pecados, mas ele não podia nem devia.
O isolamento de Tiago não somente acrescentou significativamente ao
peso do ministério pastoral, mas também fez algo que era até mais perigoso.
Ele abandonou Tiago à sua própria cegueira. Ele o deixou às suas próprias
racionalizações, desculpas, defesas e argumentos de reparação própria. Eu não
estou sendo duro com Tiago aqui. Essas coisas são as tendências de todo
pecador, porque um dos componentes mais poderosos da cegueira espiritual é o
engano próprio. Não há ninguém a quem fraudamos mais do que a nós mesmos.
Não há ninguém a quem corremos para defender mais do que a nós mesmos.
E, como todas as outras pessoas espiritualmente cegas, Tiago estava cego para a
sua cegueira. De fato, a cegueira de Tiago era até mais difícil para ele reconhecer
porque seus dons, sua habilidade e disciplina ministeriais faziam parecer a ele
mesmo que o que ele estava fazendo estava certo. Mas não estava.
Progressivamente, Tiago estava permitindo a si mesmo ficar bem com
coisas com as quais ele não devia ficar bem: uma alfinetada perniciosa em outra
pessoa, fofoca sobre um líder colega de ministério, impaciência no meio de
uma reunião, saindo de uma conversa de modo irado, abrigando amargura
contra certas pessoas na igreja, infrequência em seu tempo de adoração e devoção
pessoais e crescentes impaciência, irritação e isolamento em casa. Júlia começou
a observar o que ela agora caracterizava como um Tiago diferente, mas a mudança
não havia ocorrido instantaneamente. Havia sido um processo no qual Tiago
praticara e dissera coisas que não teria feito anteriormente, mas o que preocupava
Júlia era que isso não parecia incomodá-lo mais. No passado, quando Tiago
cedia a essas tentações, o padrão dele havia sido sempre confessar e endireitar o
que precisava ser endireitado.
Júlia não estava preocupada apenas com o fato de Tiago não estar
confessando, mas ele também começava a ficar irado rapidamente quando Júlia
tentava apontar os problemas. Ele dizia a ela que grande parte do seu ministério
envolvia ser escrutinado e criticado por pessoas e que ele não precisava voltar
para casa e ver isso acontecendo lá também. Júlia também notou que Tiago se
separou da família. Ele gastava muito tempo relacionando-se com o mundo
por meio do Facebook e uma quantidade considerável de tempo se entorpecendo
em frente à televisão. Parecia não haver qualquer maneira de Júlia falar com ele
sobre isso e, se as crianças o perturbavam, Tiago respondia de qualquer maneira,
menos com paciência e graça.
A separação entre a pessoa pública de Tiago no ministério e a sua vida
privada se tornou insuportável para Júlia. Ela começou a sentir que o ministério
estava destruindo Tiago e a família deles. Secretamente, ela começou a esperar
e orar para que Tiago atingisse o ponto final de desejar abandonar o ministério.
Tiago estava em um isolamento pastoral e em um modo de sobrevivência. Ele
estava cumprindo seus deveres, mas a alegria havia se esvaído. Quando Júlia
olhava para Tiago e o via em suas lutas semana após semana, parecia a ela que
Jesus Cristo havia abandonado a estrutura. Ela não podia mais suportar. Ela
amava muito Tiago. Ela considerava sua vocação como algo muito santo. Então,
ela lhe deu aquele ultimato: “Será eu ou o ministério”.
Gostaria de poder dizer que a história de Tiago é singular, mas não é.
Os detalhes são individuais, mas tenho ouvido os contornos desta história
vez após vez. O problema é maior do que o pecado individual de um pastor.
H á mudanças necessárias a serem feitas na cultura pastoral. Como podemos
realisticamente esperar que alguém, no meio do processo de santificação,
sobreviva fora de um dos meios divinos mais importantes de aprendizado e
crescimento pessoal e ao mesmo tempo ser espiritualmente sadio? Como
podemos pedir que pastores confessem o que eles, por causa do isolamento,
não veem? Como podemos pedir que eles confessem, quando estão convencidos
de que a confissão honesta custaria a eles não somente o respeito, mas também
o ministério? Como poderíamos esperar que eles se arrependam e abandonem
o que eles não confessaram? Como pode ser que, em muitas situações, temos
esperado que alguém , lid eran d o o corpo de C risto , se sobressaia
espiritualmente enquanto obtém m uito menos do ministério do corpo de
Cristo do que qualquer outra pessoa a quem ele foi vocacionado para liderar?
Por que ficaríamos surpresos com o fato de pastores lutarem contra o pecado?
Por que pensaríamos que os pastores não precisam ser amorosamente
confrontados e repreendidos? Por que nos surpreenderia saber que pastores
tam bém caem em um a am nésia de identidade e com eçam a buscar
horizontalmente o que já foi dado a eles em Cristo? Por que concluiríamos
que os pastores estão protegidos de justiça própria e autodefesa só porque
estão em tempo integral no ministério? Por que assumiríamos que os pastores
que não foram educados no caminho da graça descansariam na justiça de
Cristo e não defenderiam e confiariam na sua própria justiça?
É seguro assumir que o seu pastor está amando a sua esposa, filhos e
demais familiares corretamente? É seguro assumir que ele está usando o seu
tempo e o seu dinheiro apropriadamente? É seguro assumir que ele está
honrando a Deus com o que ele faz nos seus m om entos mais privados?
E seguro presumir que ele é tão comprometido com as oportunidades e
responsabilidades da sua vocação como deveria ser? É seguro presumir que ele
labora para assegurar que haja um acordo vivo entre as suas proclamações
públicas e a sua vida privada? Não seria o caso de que todo membro do corpo
de Cristo necessita do ministério do corpo de Cristo, inclusive o pastor?

UM CAMINHO MELHOR, MAIS SAUDÁVEL


Permita-me sugerir alguns passos que podem ajudar a retirar os pastores
do isolamento para um contato mais regular com o ministério normal e essen­
cial do corpo de Cristo. Essas coisas são escritas para pastores e aqueles que
cuidam deles.

1- PEÇA AO SEU PASTOR QUE FREQUENTE UM PEQUENO GRUPO NO


QUAL ELE NÃO SEJA 0 LÍDER
Essa é uma maneira simples, mas efetiva para que um pequeno grupo de
pessoas conheça o seu pastor e o veja em um contexto mais normal, que aprenda
as situações nas quais ele necessita de oração e de ser ministrado. Os pastores
com quem tenho conversado e que têm feito isso relatam quão espiritualmente
benéfico isso tem sido para eles.

2- PASTOR, PROCURE UMA PESSOA ESPIRITUALMENTE MADURA PARA


SER 0 SEU MENTOR 0 TEMPO TODO
Pastor, certifique-se de que você está sendo pastoreado o tempo todo em
que você está pastoreando outros. Procure uma pessoa madura e confiável com
quem possa compartilhar o seu coração. Esforce-se por construir com essa pes­
soa um elo robusto de confiança. Recuse-se a viver sem esse tipo de pessoa em
sua vida. Encontre-se com esse indivíduo tão frequentemente quanto possível.
Compartilhe com ele suas lutas e seja suficientemente humilde para ouvir quan­
do for pastoralmente admoestado.

3- ESTABELEÇA UM PEQUENO GRUPO DE ESPOSAS DE PASTORES


Na Décima Igreja Presbiteriana de Filadélfia, onde trabalho há muitos
anos, há uma linda reunião mensal de todas as esposas de pastores. Essa é uma
reunião na qual “o que é dito ali permanece ali”. A principal parte dessa reu­
nião consiste de compartilhamentos extensos por cada esposa de pastor, segui­
dos por um tempo extenso de oração por cada uma. Isso tem sido não apenas
uma maravilhosa ajuda e proteção para cada esposa, mas também tem estimu­
lado e direcionado cada uma a ministrar ao seu marido de maneira mais ousada
e sábia. Esse talvez seja o pequeno grupo mais efetivo na igreja. Se a sua igreja
é pequena e não há múltiplos pastores, tente estabelecer algo semelhante entre
várias igrejas.
4- PASTOR, SEJA COMPROMETIDO COM UMA AUTORREVELAÇÃO
APROPRIADA EM SUA PREGAÇÃO
Certamente há lutas que você não deve compartilhar no contexto do mi­
nistério público, mas há muitas outras que você pode. A prática frequente
disso não apenas torna mais efetivas as ilustrações da importância e relevância
de verdades que você exegetizou, mas também lembram às pessoas que, como
elas, você também necessita de graça redentora, perdoadora e habilitadora.
Quando você faz isso, as pessoas param de olhar para você e dizer “se eu apenas
pudesse ser como o meu pastor”. Não, elas olham através de você e veem a
glória do Cristo sempre presente. Você deixa de ser uma pintura que eles con­
templam e começa a ser uma janela para Aquele que é a sua esperança e a deles
também. Eu tenho ficado impressionado, quando compartilho pessoalmente
em minha pregação, com o número de pessoas que, mais tarde, dizem que têm
orado por mim.

5-ASSEGURE-SE DE QUE 0 SEU PASTOR EFAMÍLIA SEJAM REGULARMENTE


CONVIDADOS PARA FREQUENTAR LARES DA IGREJA
Determine que você não permitirá que o seu pastor e a sua família vivam
em isolamento. Encoraje as pessoas em sua igreja a convidarem a ele e sua
família para churrascos ou para nadar na piscina de sua casa, convide-os para
assistir ao jogo juntos durante o campeonato ou simplesmente para desfrutar
de uma refeição cuja receita foi passada de geração em geração. Leve seu pastor
e a esposa dele a um restaurante. Convide-o para jogar futebol ou pescar com
um grupo de homens da igreja que fazem isso regularmente. Tire-os do seu
esconderijo e os convide para situações em que possam relaxar e ser pessoas tão
comuns quanto possível.

6-ASSEGURE-SE DE QUE HAJA ALGUÉM MENTOREANDO REGULARMENTE


A ESPOSA DO SEU PASTOR
Cada esposa de pastor necessita “dirigir-se a alguém” a quem ela possa
chamar espontaneamente em um momento de necessidade e ter a certeza de
encontrar um ouvido atento e ajuda. Tal pessoa pode ouvir coisas delicadas que
a esposa do pastor talvez precise discutir e precisará estar disponível, na medida
do possível, 24 horas por dia.

7-ASSEGURE-SE DE QUE SEU PASTOR E ESPOSATENHAM RECURSOS PARA


SAÍREM DE CASA REGULARMENTE E PASSAR ALGUNS FINAIS DE
SEMANA FORA UM COM 0 OUTRO
Assegure-se de que o ativismo familiar e as exigências sem fim do minis­
tério não se acumulem para fazer com que o pastor e sua esposa fracassem em
dar a atenção e a manutenção de que o seu casamento necessita. Faça tudo o
que puder fazer para dar ao seu pastor e à sua esposa ajuda, tempo e recursos
de que necessitam para saírem de casa com frequência regular e ficarem alguns
finais de semana juntos, tanto quanto possível. Não permita que o seu pastor e
sua esposa presumam que as tensões entre família e ministério são aceitáveis e
inevitáveis. Ajude o seu pastor e sua esposa a terem todos os recursos possíveis
para dar o enfoque e o investimento necessário ao relacionamento deles, para
que esse relacionamento seja um local de unidade, compreensão e amor.

8- ASSEGURE-SE DE QUE A AJUDA POR MEIO DE ACONSELHAMENTO


ESTEJA SEMPRE DISPONÍVEL AO PASTOR, À SUA ESPOSA E À SUA
FAMÍLIA
Assegure o seu pastor, desde o primeiro dia, de que há um auxílio dispo­
nível por meio do aconselhamento, sempre que necessário. Pastores, sejam ho­
nestos sobre as condições do seu coração e busquem ajuda rápida e voluntaria­
mente quando for necessário. Pastor, você está dizendo a si mesmo que está
correto, que é o dever do seu chamado, viver em isolamento? Quem o conhece
suficientemente bem para falar a verdade a você quando você precisar? Quem é
que trabalha para proteger você de si mesmo? Quão precisa é a perspectiva do
corpo de Cristo quanto a quem você realmente é? Seria a cultura da igreja tal
que você se sentiria confortável ali, confessando o seu pecado? O u estaria você
temeroso de qualquer autorrevelação no contexto do ministério público? A sua
esposa vive com a dor da diferença entre o homem público e o privado?

♦ ♦ ♦

Que cada vez menos e menos daqueles que são vocacionados a nos liderar
vivam em isolamento e separação do corpo de Cristo e que isso conduza a mais
e mais pastores que sejam exemplos carinhosos e humildes, em sua vida priva­
da e pública, tanto da necessidade como do poder transformador da graça do
Senhor Jesus Cristo.
Capítulo 6
A COMUNIDADE AUSENTE
Fui criado no cristianismo privatizado e individualizado “Jesus e eu”, o
tipo fúndamentalista dos anos 60 e 70. O mais próximo que a nossa igreja
chegou de um corpo de Cristo operante e orientado pelo ministério era quan­
do havia uma rara visita pastoral e nas reuniões de oração das noites de quarta-
feira. Ninguém conhecia meu pai e minha mãe - quero dizer, conhecia real­
mente. Ninguém tinha a menor ideia do que acontecia em nosso lar. Ninguém
ajudou meu pai a ver através da cegueira que permitia que ele vivesse uma vida
dupla de engano e duplicidade hábeis. Ninguém sabia o quanto minha mãe
era perturbada sob aquele seu conhecimento enciclopédico das Escrituras.
Ninguém sabia. Nós éramos uma família cristã com participação ativa numa
igreja vibrante, mas tudo em que estávamos envolvidos carecia de ingredientes
primários e essenciais do cristianismo saudável do Novo Testamento: um corpo
de Cristo treinado, mobilizado e funcionando. Esse era o tipo de cristianismo
ao qual Efésios 4, ICoríntios 12 e Hebreus 3.12-13 faziam falta.
Durante grande parte da minha vida cristã e de uma porção do meu
ministério, eu não fazia ideia de que minha caminhada com Deus era um
projeto comunitário. Eu não fazia ideia de que o cristianismo do Novo Testa­
mento é distintamente relacional do princípio ao fim. Eu não compreendia
nenhum dos perigos inerentes da tentativa de viver a vida cristã por mim mes­
mo. Eu não tinha consciência do poder obscurecedor do pecado remanescente,
o qual foi discutido no último capítulo. Eu não tinha ideia de que eu estava
vivendo fora dos meios normais de Deus para perspicácia, encorajamento, con­
vicção, fortalecimento e crescimento. Eu não tinha ideia do quanto o
consumismo e de quão pouca participação verdadeira marcavam o corpo de
Cristo. Eu não tinha ideia da importância do ministério particular da Palavra
para a saúde do crente. Eu simplesmente não tinha ideia.
Agora eu entendo que preciso de outras pessoas na minha vida. Agora eu
sei que preciso me comprometer a viver em uma comunidade intencionalmente
intrusiva, centrada em Cristo, dirigida pela graça e redentiva. Agora eu sei que
meu trabalho é procurar essa comunidade, convidar pessoas para interromper
minhas conversações privadas e me dizer coisas que eu não poderia e nem diria
a m im mesmo. Tenho percebido o q uanto preciso de adm oestação,
encorajamento, repreensão, correção, proteção, graça e amor. Agora vejo a mim
mesmo como alguém conectado a outros, não porque eu tenha feito essa esco­
lha, mas por causa do plano sábio daquele que é a cabeça do corpo, o Senhor
Jesus Cristo. Eu não posso permitir a mim mesmo pensar que sou mais sábio
do que ele. Eu não posso permitir a mim mesmo pensar que sou mais forte do
que sou. Eu não posso atribuir a mim mesmo um nível de maturidade que não
tenho. Eu não posso começar a crer que sou capaz de viver fora dos meios
normais de Deus para o crescimento espiritual e que isso dará certo. Eu não
posso permitir que o meu nível de saúde espiritual seja definido por minhas
experiências e meu sucesso ministerial ou pelo meu conhecimento teológico.
Eu não posso me deixar ser enganado e descansar nos com entários
congratulatórios sobre o meu ministério nos finais de semana feitos por pessoas
com boas intenções, mas que realmente não me conhecem. Eu não posso me
deixar pensar que o meu casamento pode ser saudável se eu viver em isolamen­
to funcional do corpo de Cristo.
Dessa forma, como alguém que ainda possui o pecado remanescente
dentro de si, é correto afirmar que o maior perigo na minha vida existe dentro
de mim e não fora de mim. Logo, não seria a mais alta ingenuidade ou arrogân­
cia pensar que eu ficaria bem se ficasse sozinho? Não, nem por um momento
eu me esqueceria ou diminuiria o ministério convincente do Espírito Santo
que habita em mim, mas eu enfatizaria que o Espírito usa instrumentos (sua
Palavra transformadora, que é trazida fielmente pelo seu povo, e fortalecedora
por sua graça sempre presente).
Tendo dito tudo isso, é com tristeza que afirmo que o cristianismo indi­
vidualizado e privatizado ainda vive. Infelizmente, ele vive no ministério de
muitos pastores que têm forjado ou permitido forjar uma vida que é vivida
acima ou fora do corpo de Cristo. Isso acontece assim para muitos pastores.
A vida espiritual deles se torna imediatamente mais privativa quando eles dei­
xam sua igreja de origem e vão para o seminário em outra cidade. Para muitos,
o seminário se torna sua principal comunidade espiritual, uma comunidade
que não é nem pessoal, nem pastoral na maneira como lida com as Escrituras e
se relaciona com os estudantes. Tendo se graduado nesses ambientes onde, por
3 ou mais anos, não são pastoreados e têm um relacionamento casual com a
igreja local, eles acabam sendo contratados por uma igreja que realmente não
os conhece. Tudo isso é ampliado pelo fato de que eles não estão se unindo a
uma igreja per si, não, estão sendo contratados para liderar essa igreja. Logo,
eles não estão entrando em uma situação de expectativa natural do grupo ou de
relacionamentos ministeriais mútuos. Não são permitidas a eles as expectativas
e proteções normais que qualquer outra pessoa possui quando se agrega a uma
igreja. Essa é uma cultura potencialmente antibíblica e enferma que não prote­
ge o pastor e não guarda seu ministério do perigo.
Pastor, você sabe que todos os dias você oferece evidência pessoal empírica
de que ainda não atingiu o alvo. Todos os dias você pensa, deseja, diz e faz
coisas que indicam a existência de pecados remanescentes dentro do seu cora­
ção. Considerando que isso é verdade a respeito de cada um de nós, não e
verdade também que precisamos viver em um compromisso prontamente sub­
misso aos meios normais de Deus de proteger e fazer crescer seus filhos que
ainda estão sendo santificados?

UMA TEOLOGIA DE ESSENCIALIDADE


Eu quero considerar com você três passagens bem familiares das Escritu­
ras que necessitam de uma segunda abordagem, particularmente porque falam
à cultura pastoral normal. Eu gostaria de, antes de olharmos essas três passagens,
dar uma perspectiva abrangente do ministério da Palavra na vida da igreja local.
A Bíblia vislumbra dois ministérios da Palavra essenciais, interdependentes e
complementares. Primeiro, há o ministério da Palavra. Trata-se do ensino e da
pregação públicos regulares da Palavra de Deus para grupos reunidos na igreja.
Esse ministério compõe a disciplina formativa, da igreja. Todos os membros são
discipulados a partir do púlpito com o mesmo conjunto de verdades funda­
mentais que alteram perspectivas e modelam vidas. Aqui todo o povo de Deus
é colocado nos mesmos trilhos e na mesma direção. Devido a esse ministério
público da Palavra ser feito com grupos de pessoas, ele deve ser geral em sua
consideração da audiência e, portanto, em sua aplicação. Deus dá dons e sepa­
ra certas pessoas para esse importante ministério formativo.
Devido a ser também importante que a Palavra de Deus seja aplicada
com especificidade concreta na vida de cristãos individuais para que fique claro
para eles como se deve seguir a Cristo no contexto de sua situação e relaciona­
mentos específicos, Deus ordenou um segundo ministério da Palavra, comple­
mentar, o ministério privado. Esse ministério contribui para a disciplina corre­
tiva da igreja. Esse ministério não possui um conjunto diferente de conteúdo.
Ele toma verdades gerais que todas as pessoas estão ouvindo e as aplica com
especificidade à vida dos crentes individualmente, para que, de maneira mais
concreta possam compreender o que significa viver à luz das coisas sobre as quais
eles têm sido ensinados. A cultura radical da Palavra como Deus planejou impul­
siona todos os filhos de Deus a serem participantes voluntários, visionários,
treinados e mobilizados no segundo ministério da Palavra. O ministério priva­
do da Palavra depende do ministério público da Palavra para dar a fundação
formativa às pessoas e o ministério público olha para o ministério particular
para aconselhar as pessoas ao entendimento de implicações práticas da vida
daquilo que elas têm aprendido como Palavra e sido ensinadas publicamente.
Nenhum ministério é luxuoso. Cada um é parte essencial da estratégia de fator
duplo de Deus para o crescimento da igreja local centrado na Palavra.
Agora, vamos aplicar esse m odelo à vida e ao m inistério do pastor.
A primeira passagem é Efésios 4.11-16:

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para
evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos
santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até
que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus,
à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não
mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por
todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem
ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a
cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de
toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento
para a edificação de si mesmo em amor.

À medida que trabalho com essas passagens, vocês, pastores, que estão
lendo comigo, deverão resistir ao orgulho espiritual que o levam a acionar o
interruptor e se desligarem em meio à discussão porque no cerne do coração de
vocês, vocês não pensam, realmente, que tudo isso se aplica a vocês. Efésios 4
possui uma estrutura “já/ainda não”. Todos nós já fomos abençoados com a
graça redentora. Cada um de nós é habitado pelo Espírito Santo. Cada um de
nós foi abençoado com uma iluminação presente das Escrituras. Mas nós ainda
não entendemos completa e perfeitamente a nossa fé. Ainda não atingimos a
maturidade completa à semelhança de Cristo. A guerra enganadora pelos nos­
sos corações ainda não foi vencida. Nós vivemos e ministramos exatamente no
período intermediário e, nesse período, Deus estabeleceu ferramentas essenciais
para nossa proteção e crescimento. Nenhum de nós estará seguro ou saudável se
nos convencermos de que podemos viver fora dessas ferramentas essenciais.
Quais são os alvos do ministério “para todos e em todo tempo” que Paulo
estabelece nesta passagem? Os alvos são unidade da fé, conhecimento do Filho
de Deus e maturidade em todas as formas em Cristo. Os alvos nos encorajam a,
humildemente, admitir que todos nós - sim, mesmo os pastores —vivemos os
aspectos mínimos desses alvos. Nenhum de nós existe em comunidades de fé
plenamente unificadas, nenhum de nós conhece Cristo tão plenamente quan­
to podemos conhecê-lo e nenhum de nós é completamente desenvolvido à
semelhança de Jesus. Logo, qual é a implicação dessa admissão humilde? É que
cada um de nós - sim, mesmo os pastores - precisa se submeter alegremente
aos meios que Deus usa para fazer com que esses alvos sejam completados em
nosso coração e na nossa vida.
Quais são os perigos inerentes de convencermos a nós mesmos de que
podemos viver fora dos meios normais de Deus para saúde e crescimento espi­
ritual? Eles são igualmente claros nesta passagem. Se tentarmos fazer o que não
estamos estruturados pela redenção para fazer, seremos suscetíveis à imaturida­
de prolongada em áreas específicas de nossa vida, bem como ao erro ou confu­
são doutrinários e viveremos sob o risco de sermos enganados. Reflita comigo
por um momento. Cada um de nós é capaz de citar ocorrências de cada perigo
em nossos círculos de pastores. Eu tenho aconselhado pastores que danificam
suas igrejas porque fracassaram em crescer. Em minha experiência, tenho visto
igrejas danificadas por pastores que foram desviados pelo último vento de dou­
trina vazia. Eu era um pastor autoenganado, pensando que conhecia a mim
mesmo melhor do que era verdade e pensando que era mais saudável espiritu­
almente do que era na verdade. Essas admoestações não são apenas para o
cristão mediano, mas para cada membro do corpo de Cristo. Elas convocam
cada um no ministério a admitir humildemente que, no meio do “já/ainda
não”, há uma guerra que ainda ocorre em prol do governo do nosso coração.
E porque isso ocorre, todos nós precisamos de advertência, proteção,
encorajamento, repreensão e crescimento produtivo do ministério do corpo
de Cristo.
Que metodologia Deus escolheu usar para nos guardar, fazer crescer e
proteger? O ministério público e privado da Palavra. Esta passagem enfatiza
particularmente a essencialidade do ministério privado, de membro do corpo
para m embro do corpo. Novam ente, as palavras são específicas e claras:
“... seguindo a verdade em amor... bem ajustado e consolidado pelo auxílio de
toda junta... segundo a justa cooperação de cada parte... edificação de si mes­
mo em amor”. Não há indicação, nesta passagem, de que qualquer membro do
corpo de Cristo seja capaz ou receba permissão para viver fora do ministério
essencial do corpo de Cristo. Mas penso que é exatamente neste ponto que
podemos ser tentados a tirar conclusões desta passagem que ela na verdade não
ensina. Devido a ela atribuir ao pastor a responsabilidade de treinar o povo de
Deus para a função do ministério membro a membro, temo que tenhamos
erroneamente concluído que o pastor está acima da necessidade do resto do
que o corpo precisa e pratica. Mas a passagem nunca ensina isso; na verdade ela
ensina o oposto. O pastor está em uma posição singular não apenas de treinar
o corpo para esse ministério, mas também de, pessoalmente, necessitar desse
próprio ministério para o qual ele treina as pessoas. Lembre-se de que as pala­
vras aqui —“toda junta”, “cada parte” —não deixam muito espaço para isenções.
Novamente, penso sobre isso assim: se Cristo é a cabeça do seu corpo, então
tudo mais é apenas corpo, inclusive o pastor, e, portanto, o pastor necessita do
que o corpo foi projetado para oferecer.
De certa maneira, ICoríntios 12.14-25 apresenta essa verdade de modo
ainda mais contundente:

Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se disser o pé: Porque
não sou mão, não sou do corpo; nem por isso deixa de ser do corpo. Se o ouvido
disser: Porque não sou olho, não sou do corpo; nem por isso deixa de o ser. Se todo
o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde, o
olfato? Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como
lhe aprouve. Se to d o s, po rém , fossem um só m em bro, onde estaria o
corpo? O certo é que há muitos membros, mas um só corpo. Não podem os olhos
dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de
vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são
necessários; e os que nos parecem menos dignos no corpo, a estes damos muito
maior honra; também os que em nós não são decorosos revestimos de especial
honra. Mas os nossos mem bros nobres não têm necessidade disso. C ontudo,
Deus coordenou o corpo, concedendo m uito mais honra àquilo que menos
tinha, para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros,
com igual cuidado, em favor uns dos outros.

A metáfora aqui é o corpo de Cristo como um organismo funcional de


muitos membros mutuamente essenciais, inter-relacionados e mutuamente
contributivos. A interconectividade e a interdependência desses membros são
tão essenciais à saúde própria, funcionalidade e crescimento do corpo que Paulo
diz ser impossível para um membro dizer ao outro: “Eu simplesmente não
preciso de você”, ou “sou capaz de funcionar muito bem por mim mesmo,
obrigado”, ou “cresci até o ponto em que não preciso mais do que você tem a
me oferecer”. No contexto da metáfora de Paulo sobre a saúde física do corpo,
essas asseverações resultariam em uma negação da realidade inescapável. Assim
é com o corpo de Cristo. Assim também é, eu acrescentaria, com a saúde espi­
ritual e a vitalidade ministerial do pastor. Ele é um membro do corpo de Cristo
que precisa desesperadamente do ministério de cada parte do corpo que ele foi
vocacionado para treinar e liderar. O modelo aqui é de um homem em necessi­
dade de ajuda no treinamento de pessoas a fim de que elas estejam prontas
para oferecer a ele a mesma ajuda. Você simplesmente não pode escapar do que
essas passagens ensinam.
Adriano ficou em pé diante de mim durante o intervalo de uma grande
conferência e chorou. Ele nem se importava com quem estava olhando para ele
ou o que eles o ouviram dizer. Ele estava simplesmente desesperado. Ele tinha
aparência de estar completamente abatido, um homem totalmente quebranta­
do, mas era um pastor divinamente habilitado e divinamente vocacionado.
Não, ele não estava em uma guerra de orgulho com os seus líderes, ele não
havia cometido adultério e não estava escravizado à pornografia e nem a algu­
ma substância química. Ele era um homem iracundo, desencorajado, amargu­
rado e, agora, desesperado. Em meio às suas lágrimas, ele disse: “Paul, eu sim­
plesmente não sei como voltar para casa. Ninguém me conhece lá. Ninguém
sabe o que está acontecendo na minha família. Ninguém sabe o que se passa no
meu coração. Ninguém sabe que eu me esforço para produzir um sermão toda
semana. Ninguém sabe que eu odeio a maioria das reuniões que conduzo.
Ninguém sabe que a minha esposa e eu nos estranhamos e brigamos semana
após semana. Ninguém sabe que os meus filhos estão começando a odiar o
evangelho por minha causa. Ninguém sabe que eu me entorpeço diante da
televisão horas a fio. Eu não tenho ninguém com quem conversar, nenhum
relacionamento mais íntimo em toda a igreja. Minha família vive em isolamen­
to, mas não creio que ninguém perceba. Minha esposa possui algumas amigas,
mas é muito cuidadosa com o que diz. Se eu simplesmente parasse uma reu­
nião e começasse a confessar o que realmente está se passando comigo, não
creio que meus líderes pudessem enfrentar isso. Paul, se eu mudar, se eu deixar
as pessoas se aproximarem de mim e conhecerem quem eu sou, estou arruina­
do. Eu não sei como voltar para casa e encarar tudo isso”.
A situação de Adriano parece estranha para você? Não para mim, porque
ouço esse clamor vez após vez. Não, nem sempre ele atinge esse nível de deses­
pero, mas há muitos pastores ao redor que perderam sua alegria e estão gemen­
do no ministério. Há muitas pessoas amarguradas e iradas no ministério que
estão carregando uma relação autoprotetora de experiências de danos anterio­
res causados a elas. Há muitos pastores vivendo em isolamento que estão em
perigo e não sabem disso. Há muitas congregações e grupos de líderes que
possuem uma imagem distorcida, não realista e idealizada do seu pastor. Há
muitas famílias de ministros que estão desprotegidas porque não estão sendo
propriamente pastoreadas. H á muitos pastores que estão operando no modo
sobrevivência. H á muitas esposas de pastores que fantasiam com o que seria a
vida fora do ministério. Há muitas crianças que suportam o fardo diário do
ministério da amargura e ira dos seus pais. Simplesmente há muito anonimato
nos púlpitos de nossas igrejas.
A terceira de nossas passagens define especificamente a natureza do mi­
nistério privado essencial da Palavra, que é a vocação do corpo de Cristo. Dessa
maneira, Colossenses 3.15-17 é muito útil:
Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em
um só corpo; e sede agradecidos. Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo;
instruí-vos e aconselhai-vos m utuam ente em toda a sabedoria, louvando a Deus,
com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração. E tudo
o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus,
dando por ele graças a Deus Pai.

Paulo vislumbra um corpo de Cristo bem preparado com a Palavra de


Deus habitando em seu coração, pronto para fazer o que Deus planejou para o
corpo de Cristo. E o que é isso? Novamente Paulo é bem específico: instruir e
aconselhar. Agora, sejamos honestos. Em muitos contextos, o que Paulo está
descrevendo seria completamente radical, talvez até mesmo perturbador. Ele
realmente está propondo que cada crente foi projetado para ter uma função de
ensino na vida de outro crente. Esse é realmente um paradigma “todo povo de
Deus em todo tempo”. Isso significa que não é saudável para qualquer igreja e
seu pastor se, naquela igreja, o pastor for o único mestre. O que é presumido
aqui é que cada mestre, não importa onde Deus o tenha colocado no corpo,
necessita ser ensinado, e todas as pessoas que foram ensinadas precisam, tam­
bém, ensinar.
Observe agora, novamente, as duas palavras descritivas que Paulo usa:
instruir e aconselhar. Usando as definições mais básicas desses termos, afirma­
mos que instruir capacita você a olhar a vida sob a perspectiva de Deus. Ele está
saturado da história da vida no aspecto mais amplo da história da redenção.
Aconselhar é ajudar você a se ver sob a perspectiva de Deus. É como se você
estivesse em pé diante do espelho perfeito da Palavra de Deus de tal forma que
você é confrontado com a realidade de quem você realmente é. Não há um dia
em que todos os membros do corpo de Cristo não necessitem ser ensinados,
ajudados a identificar aqueles artefatos remanescentes de uma cosmovisão não
submetida ao evangelho. Também não há um dia em que não necessitemos ser
aconselhados, confrontados com o fato de que ainda olhamos pelos espelhos
festivos do mundo e andamos ao redor com opiniões distorcidas de quem somos.
Pastor, você também precisa ser cercado por mestres bem treinados e
conselheiros fiéis e amorosos. E você está em perigo se o anonimato permitir
que você seja o único mestre regular do seu coração e viver destituído de um
círculo protetor de conselheiros motivados pela graça.

O CICLO DO PERIGO
1) SUPOSIÇÕES INÚTEIS
Em muitos casos, o ciclo de isolamento e perigo começa quando a igreja
que chama o pastor faz suposições incorretas e inúteis sobre a pessoa que eles
convidaram. Infelizmente, em muitos casos, a pessoa convidada não vive em
uma comunidade protetora e produtora da redenção há muitos anos. Tendo se
separado do estímulo da sua igreja natal, onde seus dons eram reconhecidos,
ela foi para um lugar onde a fé foi academizada e compartimentalizada, sendo
ensinada por professores que não ousam funcionar como pastores dos seus alu­
nos. Em muitos casos, devido a estar trabalhando, bem como se empenhando
nos rigores da educação teológica, tem pouco tempo de sobra para ter um
relacionamento mais do que superficial com uma igreja local. Provavelmente,
isso também significa que tem sido um marido um pouco distraído e um pai
ausente. Entrementes, seu próprio relacionamento com a Escritura tem sido
mais acerca de cumprir as suas tarefas do que uma alimentação devocional da
sua alma.
Mas a igreja que o convidou tende a supor que, como os seus dons e certo
nível de maturidade foram reconhecidos e como agora ele é um estudioso da
Bíblia, treinado para o pastoreio, ele é saudável espiritualmente e capaz de viver
sem as proteções normais e encorajamentos que desejariam para qualquer outro
crente. Assim, uma cultura de suposições infelizes e isolamento pastoral funcio­
nal frequentemente é estabelecida desde o momento da primeira entrevista.

2) EXPECTATIVAS NÃO REALISTAS


Deveria ser óbvio que as suposições inúteis feitas quando o pastor está
vindo para liderar a igreja sejam o produto de todo um conjunto de expectati­
vas não realistas. A maior delas é que muitas igrejas simplesmente não esperam
que seu pastor lute contra o pecado. Mas ele não está livre do pecado. Devido
ao fato de ainda estar sendo santificado, o pecado ainda permanece e está sendo
progressivamente erradicado. Eles não esperam que ele fique desanimado no
meio da guerra pelo evangelho. Eles não esperam que ele seja tentado pela
amargura ou pela inveja. Eles esperam que ele seja modelo de marido e de pai.
Eles não esperam que ele seja preguiçoso ou se incline para a mediocridade.
Eles não esperam que, em momentos de autoproteção, ele seja tentado a ser
antissocial e controlador. Eles esperam que ele seja capaz de desempenhar ale­
gremente uma relação não realista de trabalho que sufocaria qualquer um antes
do retorno de Jesus. Eles esperam que ele fique contente com um pagamento
muito menor do que a maioria das pessoas que têm o mesmo nível de educação
dele. Eles esperam que sua esposa seja, ela própria, tão completamente com­
prometida com o ministério que a vinda dele para a igreja seja, na verdade, um
negócio do tipo pague um, leve dois. Eles não esperam que haja momentos em
que ele seja tentado a duvidar da bondade de Deus. Eles não esperam que, em
uma reunião ou no púlpito, o temor de homens o impeça de dizer as coisas que
Deus o chamou para fazer e dizer. Eles não esperam contratar um homem
imperfeito que ainda está desesperadamente necessitado da própria graça que
ele foi chamado para oferecer e interpretar para outros.

3) RESERVA PARA FALAR COM IMPARCIALIDADE


N a maior parte das situações, a cultura pastoral da igreja local (a natureza
e o caráter do relacionamento de um pastor com os seus líderes e congregação)
é estabelecida nos primeiros dias do seu ministério naquela igreja em particu­
lar. Se os líderes que o convidaram procuraram conhecer o homem por detrás
dos dons, da experiência e das habilidades e se eles o alertaram para o fato de
que ele está entrando em uma comunidade intencionalmente intrusiva, cen­
tralizada em Cristo, redentora e dirigida pela graça, então seguem-se exigências
de que ele participe e seja um receptor do ministério do corpo de Cristo e a
promessa daqueles que procuram construir relacionamentos com ele como meios
de transparência em sua vida. Se o processo do convite falhou em enxergar o
coração do pastor em potencial e se, nos primeiros dias, não ficou claro que a
igreja realmente pretende pastorear o seu pastor - não apenas pedir prestações
de contas, mas ministrar o evangelho de Jesus Cristo à sua alma - então prova­
velmente ele conduzirá a maior parte do seu ministério no contexto do isola­
mento pessoal com uma grande rede de relacionamentos ocasionais. Tanto o
corpo quanto os líderes serão reticentes em falar com ele serenidade bíblica
temperada com amor e serão reticentes em fazer confissão a pessoas que não
estão acostumadas a ter esse tipo de relacionamento com seu pastor. Provavel­
mente haverá mais conversas sobre ele do que com ele, e ele provavelmente se
esconderá mais do que confessará. Simplesmente está longe do que Deus pro­
jetou o que essa comunidade de graça chamada “a igreja” é e faz.

4) AUSÊNCIA DE INTERVENÇÃO CONVENIENTE


O mandamento de Hebreus 3.13, “exortai-vos mutuamente cada dia”,
nos diz que, devido ao pecado remanescente, nossa capacidade para o autoengano
é tão grande que precisamos de intervenção regular, até mesmo diária. Nós
todos precisamos deste ministério de intervenção, em que alguém interrompe
nossa conversa particular e nos ajuda a nos enxergar com exatidão bíblica maior,
até o fim do pecado. Mas quando uma igreja local faz suposições erradas sobre
o seu pastor, não o convidando para uma cultura de franqueza amorosa, e
permite que ele viva em separação funcional do corpo de Cristo, ele não será o
receptor da intervenção do tipo centrada em Cristo e resgatadora de corações,
de que todo pastor necessita.

5) PERDA DE RESPEITO DIANTE DAS REVELAÇÕES PESSOAIS


O que acontece, então, é que o pastor tenderá a viver em um estado
contínuo de ocultação espiritual com separação crescente entre sua vida privada
e a pública e fará confissão aos companheiros de liderança e, talvez, a um grupo
maior somente quando as batalhas progredirem até um ponto em que não
podem mais ser escondidas. Não, não é como se ele estivesse participando em
um enorme disfarce espiritual; é simplesmente que este é o modo como uma
cultura de suposições, silêncio e separação opera. Quando finalmente confes­
sar, ele cairá do pedestal não realista e não bíblico onde tem estado, despeda­
çando-se. A comunidade que o cerca ficará chocada e espantada e sofrerá
grande perda de respeito por ele e estará, portanto, incapaz de ministrar a
graça do evangelho a ele da forma como ele fazia e que agora precisa de
maneira tão desesperadora.
6) SISTEMAS DISFUNCIONAIS DE RESTAURAÇÃO
Diante desse choque e dessa perda de respeito, a igreja local é tentada a
querer apenas virar a página sobre o ministério deste homem, substituindo-o
por alguém a quem eles possam novamente respeitar e seguir. Assim, a igreja se
desfaz do seu problema e ultrapassa sua crise de liderança, mas o pastor e sua
família são as vítimas. As questões do coração do homem não foram tratadas
biblicamente, ele não tem compreensão espiritual pessoal maior, ele não rece­
beu a graça transformadora do evangelho, os líderes que ele deixa são tentados
a serem um pouco mais cépticos, as fraquezas na cultura da liderança deles não
são tratadas e ele é tentado a assumir a amargura de uma vítima. Essa figura é
tenebrosa demais? Eu queria dizer que sim, mas tenho testemunhado pessoal­
mente essa triste sucessão.

7) FALTA DE ARREPENDIMENTO E CRESCIMENTO PASTORAL PERCEPTÍVEL


Nós devemos nos importar, orar e fazer tudo o que pudermos para agir no
sentido do crescimento espiritual constante e progressivo dos nossos pastores.
Não devemos supor que ele está acontecendo. Devemos desejar que eles este­
jam em uma comunidade completamente evangelizada que leva isso a sério e
os convida para relacionamentos amorosos e honestos onde esse tipo de cresci­
mento prospera. É muito triste quando um pastor se muda de um local de
ministério para outro e não cresce como resultado das coisas que um Deus de
graça tem exposto. Saiba disto: se os seus olhos algum dia virem ou os seus
ouvidos alguma vez ouvirem o pecado, fraqueza ou fracasso do seu pastor, ele
nunca deve ser visto como um incômodo ou uma interrupção; é sempre graça.
Deus ama aquele homem e exporá suas necessidades a você para que você possa
fazer parte de sua instrumentalidade de mudança e crescimento.

8) LEVANDO OS PROBLEMAS PARA O PRÓXIMO LOCAL DE MINISTÉRIO


Da mesma forma como o divórcio muitas vezes aborta o crescimento de
um marido ou de uma esposa, a dissolução do relacionamento de um pastor
com sua igreja e a mudança para um novo local de ministério muitas vezes
obstrui ou inibe o seu crescimento. Frequentemente há tantos mal-entendi­
dos, acusações de ambos os lados e feridas que acompanham essa separação que
é muito difícil para o pastor olhar para si mesmo com o tipo de objetividade e
precisão que é necessária para perspicácia, convicção e arrependimento. Na
verdade, frequentemente é pior do que isso. Muitas vezes o pastor sai conven­
cido de que o seu problema não é que ele lutou com áreas de pecado, mas que
ele foi ingênuo de confessar, e determina silenciosamente que nunca se coloca­
rá nesta situação, fazendo isso novamente. Quando eu estava desenvolvendo
este material, me senti acuado por um pastor experiente que estava convencido
de que a única forma de um pastor sobreviver é viver em silêncio e separação.

9) DESONRA AO NOME DE CRISTO


Todo esse triste processo nega o poder transformador do evangelho, des­
valoriza os dons que Cristo dá à sua igreja, enfraquece a pregação do evangelho,
diminui o ministério da igreja e, no fim, desonra o nome de Cristo.

♦ ♦ ♦
Não devemos trabalhar para edificar culturas em igrejas locais que ani­
mem, solicitem e ajudem pastores a serem exemplos vivos do poder transfor­
mador de corações e vidas do evangelho de Jesus Cristo? Não devemos supor
que a presença e o poder do pecado remanescente vivem dentro de todo pastor?
Não devemos concluir, então, que é perigoso para o pastor viver fora do minis­
tério essencial do corpo de Cristo, que está lá para guardar, proteger, confron­
tar, encorajar, fazer crescer e, se necessário, restaurá-lo? Não devemos, todos
nós, parar e fazer perguntas que almejem o coração? Se você for um pastor, você
vive acima ou fora do corpo de Cristo? Você procura a compreensão e a sabedo­
ria de outros? Existem aqueles que o conhecem - quero dizer, realmente co­
nhecem você - ao nível do coração? Pastor, você sente fome de ser pastoreado?
Se você não é um pastor, a sua igreja faz tudo que pode para ajudar o seu pastor
a se beneficiar do ministério do corpo de Cristo? Ele está vivendo em uma
cultura centralizada no evangelho de franqueza e amor? Você está pastoreando
o seu pastor?
Capítulo 7
ZONAS DE GUERRA
Talvez seja a aula à qual faltei no seminário, mas eu não tinha o conceito
das batalhas que enfrentaria no ministério. Certamente eu sabia que haveria
batalhas pelo evangelho ou batalhas por uma filosofia bíblica de ministério. Eu
sabia que haveria escaramuças com companheiros de liderança ou pequenas
lutas entre interesses ministeriais concorrentes. Eu sabia que haveria um fluxo
e refluxo de ministério, que passaríamos por episódios brilhantes e sombrios.
Eu sabia que as pessoas não estariam sempre famintas pelo evangelho de Jesus
Cristo nem o valorizariam como deviam. Eu sabia que nem todos a quem eu
fora chamado a ministrar teriam afeição natural ou ligação comigo. Eu sabia
que seria comparado aos pastores que haviam me precedido. Eu sabia que seria
chamado para ministrar em momentos de escassos recursos, tanto de auxílio
quanto financeiros. Eu sabia que seria chamado para batalhar pelo evangelho
na vida de pessoas em momentos muito difíceis. Eu sabia que haveria tempo
em que as pessoas estariam iradas com Deus e, portanto, não muito empolgadas
comigo. Eu sabia tudo isso, mas o que eu não sabia nem podia prever eram as
batalhas que assolariam o meu interior, batalhas que são singulares ao ministé­
rio pastoral ou intensificadas por ele.
É essa guerra interior que eu desejo apresentar neste capítulo e que com­
porá o restante do livro. Como pastor, você deve estar pronto para lutar pelo
evangelho, mas você também deve estar pronto para a guerra pela sua própria
alma. Você deve estar comprometido em ser honesto acerca das batalhas que
estão acontecendo em seu próprio coração. Você deve estar preparado para
pregar o evangelho para si mesmo. Você deve armar-se para o conflito íntimo
que se apresenta a todos os que se envolvem com o ministério.

MINISTÉRIO É GUERRA
Por que tantos pastores se queixam de estarem sobrecarregados e muito
estressados? Por que tantos pastores se queixam das tensões entre a vida fami­
liar e a ministerial? Por que o ministério pastoral tantas vezes mais parece um
sofrimento do que uma alegria? Por que com frequência existe desarmonia en­
tre a vida privada do pastor e a sua pessoa ministerial pública? Por que frequen­
temente existem relacionamentos disfuncionais entre o pastor e os seus líderes
ou funcionários que atuam conjuntamente no ministério? Por que a vida mi­
nisterial de muitos pastores é surpreendentemente curta?
Talvez tenhamos nos esquecido de que o ministério pastoral é guerra e
que você nunca terá sucesso no pastorado se viver com uma mentalidade de
paz. Permita-me explicar. A batalha fundamental do ministério pastoral não é
com os valores inconstantes da cultura circundante. Não é a luta com as pessoas
resistentes que não parecem estimar o evangelho. Não é a luta pelo sucesso dos
ministérios da igreja. E não é a luta constante por recursos e pessoas para
atingir o alvo da missão. Não, a guerra do pastorado é uma guerra profunda­
mente pessoal. Ela é lutada no terreno do coração do pastor. É uma guerra de
valores, alianças e motivações. Ela diz respeito a desejos sutis e sonhos funda­
mentais. Essa guerra é a maior ameaça para todo pastor. Porém, é uma guerra
que nós, muitas vezes, ignoramos ingenuamente ou da qual nos esquecemos
rapidamente em meio ao ativismo do ministério da igreja local.

A GUERRA PELO 5EU CORAÇÃO


Primeiramente, o ministério pastoral sempre é moldado por uma guerra
entre o reino de alguém e o reino de Deus, a qual é lutada no campo do seu
coração. A razão pela qual essa guerra é tão perigosa e enganosa é que você
constrói ambos os reinos no ministério ao desempenhar o ministério. Talvez
uma base teológica seja útil aqui. Paulo diz, em 2Coríntios 5.15, que Jesus veio
para que aqueles que vivem não mais “vivam para si”. Paulo está argumentando
algo significativo aqui, algo de que todo pastor deve se lembrar. Ele está argu­
mentando que o DNA do pecado é o egoísmo. O pecado me insere no meio do
meu universo, o lugar reservado para Deus e apenas Deus. O pecado reduz o
meu campo de interesse aos meus desejos, minhas necessidades e meus senti­
mentos. O pecado realmente faz com que tudo seja sobre mim.
Devido ao fato de a inércia do pecado me afastar do propósito e glória
de Deus, levando-me para o meu propósito e glória, enquanto o pecado esti­
ver dentro de mim haverá a tentação de trocar a glória de Deus pela minha
própria. De formas sutis e outras não tão sutis, começo a procurar os acessó­
rios da glória humana. Coisas como apreciação, reputação, sucesso, poder,
conforto e controle tornam-se importantes demais. Devido a serem tão im­
portantes para mim, elas começam a moldar a forma como penso sobre o
ministério, as coisas que quero fora do ministério e as coisas que faço no
ministério. Lembre-se, o ministério de um pastor não é moldado apenas por
seu conhecimento, dons, habilidades e experiência, mas também pela condi­
ção do seu coração. Pode ser que grande parte da tensão e do desalento que os
pastores experimentam seja o resultado de procurar obter coisas do ministé­
rio, as quais não deveriam procurar?

GUERRA PELO EVANGELHO

Isso nos leva ao segundo campo de batalha na guerra que é o ministério


pastoral: a guerra pelo evangelho. Não somente devemos batalhar ativamente
pelo evangelho como paradigma fundamental para todo ministério da igreja,
mas também devemos lutar para o evangelho ser o lugar de descanso do nosso
coração. Pastor, ninguém é mais influente em sua vida do que você mesmo,
porque ninguém mais fala tanto a você. As coisas que você diz para si mesmo
sobre Deus, sobre si mesmo, sobre o ministério e os outros são profundamente
importantes, moldando a sua participação no ministério e a sua experiência
nele. Minha experiência com centenas de pastores é que muitos, infelizmente,
funcionam num estado constante de amnésia do evangelho. Eles se esquecem de
pregar particularmente para si mesmos o evangelho que declaram publicamen­
te para os outros.
Quando você esquece o evangelho, você começa a procurar nas situa­
ções, posições e relacionamentos do ministério o que você já recebeu em
Cristo. Você começa a procurar no ministério identidade, segurança, espe­
rança, bem estar, significado e propósito. Estas são coisas que você só encon­
trará verticalmente. Elas já são suas em Cristo. Assim, você precisa lutar para
que o evangelho obtenha lugar em seu coração. Também, quando você vive
pela graça do evangelho, você para de temer o fracasso, você deixa de evitar
ser conhecido e você para de ocultar as suas lutas e o seu pecado. O evange­
lho declara que não há nada que poderia ser descoberto sobre você e sobre
mim que já não tenha sido coberto pela graça de Jesus. O evangelho é a única
coisa que pode libertar um pastor da culpa, da vergonha e da compulsão do
estilo de vida esconde-esconde (“nunca deixe sua fraqueza aparecer”/pedir ao
ministério para fazer o que Cristo já fez) que faz com que o ministério se
torne opressivo para tantos pastores.
Assim, na guerra do ministério pastoral, você é um bom soldado? Lem­
bre-se de que o Espírito Santo vive dentro de você e batalha em seu favor até
mesmo quando você não percebe. Lembre-se também de que, em Cristo,
você já recebeu tudo o que precisa para ser o que necessita ser e fazer no lugar
onde Deus o colocou. E lembre-se de que, como o Emanuel está com você, é
impossível estar sozinho em todo o decorrer da guerra que é o ministério
pastoral.
DOIS REINOS CONCORRENTES
Foi necessário que Deus empregasse as dificuldades pastorais para que eu
recebesse a realidade inescapável de que tudo o que eu fiz no ministério foi
feito em aliança com o reino próprio ou com o reino de Deus, ou à procura de
um deles. Essa verdade é exegetizada de melhor maneira para nós em Mateus
6.19-34 (por favor, pegue sua Bíblia e leia a passagem). Estou convencido de
que essa passagem é um desenrolar esmerado de pensamentos, desejos e ações
do reino próprio. Observe a guinada na passagem no versículo 33, onde Jesus
diz: “Buscai, pois, em primeiro lugar o seu reino”. A palavra “pois” nos diz que
este versículo é o ponto de transição da passagem. Tudo o que está antes explica
a operação de outro reino, o reino próprio. Isso faz com que esta passagem traba­
lhe como uma lente muito útil para visualizar a luta entre esses dois reinos que,
de alguma forma, se trava no coração de cada pessoa envolvida no ministério.
Neste capítulo, quero examinar, a partir desta passagem, quatro princípios
que são um tesouro para o ministério, os quais julgo úteis quando procuro
examinar as motivações do meu próprio coração no ministério.

1) NO SEU MINISTÉRIO, VOCÊ SERÁ ORIENTADO PARA UM TESOURO


Fomos projetados por Deus para sermos seres orientados no sentido de
valores, motivados por propósitos. Deus nos deu essa capacidade porque nos
projetou para a adoração a ele. Assim, o que você faz e diz no ministério sempre
é feito à procura de algum tipo de tesouro. Explicarei, mais tarde, como poucas
das coisas que entesouramos são intrinsecamente valorosas. A maioria dos te­
souros tem um valor determinado. Deste lado da eternidade, veja o que acon­
tece com todos nós: coisas começam a subir em importância além de sua real
importância e estabelecem a agenda dos nossos pensamentos, desejos, esco­
lhas, palavras e ações. Do que a batalha do tesouro trata? Ela diz respeito a
trabalhar diariamente para manter como importante o que Deus diz que é
importante em nossa vida e em nosso ministério pessoal. Pastor, o que é impor­
tante para você no ministério?

2) OS TESOUROS DO SEU MINISTÉRIO CONTROLARÃO A ALIANÇA DO


SEU CORAÇÃO
Jesus diz: “Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu cora­
ção” (v. 21). O coração, sendo o termo resumido para o homem interior, pode­
ria ser caracterizado como o cerne eventual da sua individualidade. O que Jesus
está dizendo aqui é profundo. Ele está sugerindo que existe uma guerra sobre
um tesouro sendo travada no centro do que faz você pensar o que você pensa,
desejar o que você deseja e fazer o que você faz. Estando você consciente disso
ou não, as suas palavras e ações no ministério sempre são a sua tentativa de
extrair dele o que é valioso para você. Pastor, quais são osprofundos desejos do seu
coração que modelam as suas palavras e atitudes todos os dias?

3) O QUE CAPTA A ALIANÇA DO SEU CORAÇÃO MOLDARÁ AS AÇÕES,


REAÇÕES E RESPOSTAS DO SEU MINISTÉRIO
Lembre-se que, pelo esquema de Deus, somos adoradores. Adoração não
é, em primeiro lugar, uma atividade; adoração é, primeiro, a nossa identidade.
Isso significa que tudo o que você e eu fazemos e dizemos é produto de adora­
ção. Assim, os tesouros (coisas que se elevaram a níveis de importância em
nosso coração) que governam os pensamentos e desejos do nosso coração con­
trolarão, então, as coisas que fazemos. A guerra entre esses dois reinos no mi­
nistério não é, em primeira mão, uma guerra de comportamento; é uma guerra
pela posição de governo funcional, do dia a dia do nosso coração. Se perdermos
essa guerra mais profunda, nunca mais ganharemos terreno na área das nossas
palavras e ações. Pastor, o que as suas palavras e ações revelam sobre o que é verda­
deiramente importante para você?

4) OS SEUS TESOUROS FUNCIONAIS ESTÃO SEMPRE LIGADOS AO REINO


PRÓPRIO OU AO REINO DE DEUS
Cristo realmente nos dá somente duas opções. Nós conectamos a nossa
identidade, significado, propósito e percepção interior de bem-estar aos tesou­
ros terrenos do meu próprio reino ou aos tesouros celestiais do reino de Deus.
Esse é um diagnóstico incrivelmente útil para o ministério pastoral. Considere
essas perguntas: A ausência do que nos leva a querer desistir e renunciar?
A procura do que nos leva a nos sentir sobrecarregados e oprimidos? O temor
do que nos faz experimentais e tímidos em vez de corajosos e esperançosos?
A ânsia do que nos faz extinguir os nossos recursos por todos os lados até termos
pouco restando? A “necessidade” do que rouba a beleza e alegria do nosso mi­
nistério? O desejo do que estabelece tensões entre ministério e família?

♦ ♦♦
Pode ser que muitos desses estresses do ministério sejam o resultado da
nossa procura para obter coisas do ministério que ele nunca fornecerá? Pode ser
que estejamos pedindo ao ministério que faça por nós o que somente o Messias
pode fazer? Pode ser que, em nosso ministério, estejamos procurando
horizontalmente o que já recebemos em Cristo? Pode ser que esse conflito de
reinos seja induzido e capacitado por uma amnésia funcional e pessoal do
evangelho? Quando nos esquecemos do que obtivemos em Cristo, temos a
tendência de procurar essas coisas nas situações, posições e relacionamentos do
nosso ministério. Pastor, de que maneira você é tentado a procurar em seu ministério
o que vocêjá obteve em Cristo?
Veja, a maior proteção contra o reinado próprio não é um conjunto de
estratégias defensivas para a reforma de si mesmo. É um coração que esteja tão
cheio das glórias da graça de Jesus Cristo daqui mesmo, de agora mesmo, que
não somos seduzidos facilmente pelas glórias menores e temporárias daquele
reino claustrofóbico pessoal, o reino próprio. O problema é que, não importa
quão comprometidos estejamos com o grande reino, sempre lutamos com a
dinâmica do tesouro inconstante. Permita-me explicar.

O PROBLEMA DO TESOURO INCONSTANTE


Comecemos revelando o conceito de tesouro que Cristo usa. Tesouro é uma
palavra provocante. Imagine que eu esteja segurando uma nota de cinquenta
reais na sua frente. Por que ela vale cinquenta reais? Não é porque é feita de um
papel que vale cinquenta reais. Para isso, precisaríamos de uma pilha de papel.
Não é porque a tinta usada em sua confecção valha cinquenta reais. Isso requere­
ria um balde de tinta. Veja, o valor da nota de cinquenta reais não é um valor
intrínseco, mas um valor atribuído. Nosso governo atribuiu a essa nota o valor de
cinco mil centavos. Assim é com a maioria das coisas que entesouramos. Poucas
delas têm valor intrínseco. Sim, a maior parte delas tem valor atribuído. O que
isso significa? Significa que elas têm valor porque nós as denominamos valorosas.
Isso é algo que você faz o tempo todo. Constantemente, você avalia as
coisas em sua vida. Essa é a razão pela qual o antigo provérbio diz: “O lixo de
uma pessoa é o tesouro da outra”. Constantemente você denomina algumas
coisas muito importantes e outras coisas não tão importantes. Você sempre está
anexando a sua esperança e contentamento interiores a algo e, quando o faz,
aquelas coisas assumem valores moldadores de vida.
Retornemos à nossa nota de cinquenta reais e vejamos como ela modelará
nossa vida, uma vez que foi atribuído um valor a ela. Já que a minha nota tem
o valor de cinquenta reais, o número delas que você me oferecer determinará se
eu aceitarei o trabalho ou não. O número delas determinará o tamanho da
minha casa, o bairro onde moro, o tipo de carro que possuo, a qualidade das
roupas que uso, os alimentos que como, o nível do sistema de saúde que rece­
bo, as férias que tiro e minhas esperanças de aposentadoria e, infelizmente,
pode até determinar o tipo de pessoas com as quais eu gosto de me relacionar.
Uma vez que algo passa a ser o nosso tesouro, isso controlará os nossos desejos
e modelará o nosso comportamento.
Assim, existem duas conclusões práticas que fluem imediatamente do ensi­
no de Cristo sobre tesouro. Eu quero mencionar cada conclusão no contexto do
ministério pastoral. Primeiramente, no ministério pastoral é muito difícil guardar
como importante em seu coração o que Deus diz ser importante. O que sempre acon­
tece a cada um de nós é que as coisas no ministério crescem em importância
numa proporção muito além da sua real importância e, quando isso acontece,
elas começam a dirigir os nossos desejos e a moldar o nosso comportamento.
Também, torna-se crítico entender que o seu ministério sempre será impulsionado ou
atormentado pelo que você entesoura. Quando você entesoura o que Deus diz ser
verdadeiramente precioso, o seu ministério será protegido e acentuado pelos ri­
cos compromissos do seu coração. Mas, quando você valoriza coisas que Deus
não diz que são importantes, você se encontra no meio do caminho das realiza­
ções de Deus em seu ministério naquele momento, e não fazendo parte delas.
Quem, no ministério pastoral, não consegue se relacionar com o exemplo a seguir?
Depois do culto matutino de domingo, ele perguntou se podia ter uma
conversa comigo. Eu pensei que ele havia sido tocado por meu sermão e queria
ajuda para aplicar as verdades aos detalhes da sua vida cotidiana. O que ele
queria, na verdade, era me dizer quão ruins - “sofríveis” foi o que ele realmente
disse - os meus sermões eram. Ele disse também que estava falando por outros
que sentiam a mesma coisa. Eu estava ferido, é claro, mas continuei preparan­
do como eu havia feito na semana anterior.
No domingo seguinte, quando me levantei para pregar e olhei para os
ouvintes, todos da congregação tinham cabeça de tamanho normal, exceto aquele
homem! Sua cabeça parecia enorme, com olhos da Mona Lisa, que pareciam
estar fixos em mim de todos os ângulos. Houve uma mudança sutil na motiva­
ção do meu coração, algo que eu não tinha consciência anteriormente. É certo
que eu queria ser fiel ao texto e explicar o evangelho claramente, mas eu tam­
bém queria algo mais. Eu tinha certeza de que ele viria a mim e diria: “Paul, eu
estava errado; você realmente é um pregador formidável”. Eu preparei o ser­
mão e o expus com ele em mente.
A usurpação do reino próprio no ministério realmente é uma questão de
alteração de tesouro. Chamado para ter tudo o que digo e faço governado pelos
tesouros do céu, que são cristocêntricos e dirigidos pela graça, em vez disso o
meu ministério começou a ser formatado por um catálogo de tesouros munda­
nos. O meu ministério começou a ser modelado por mudanças sutis, mas
formativas no tipo de tesouro que governa o meu coração e, portanto, molda as
minhas palavras e o meu comportamento. Quando coisas começam a controlar
os pensamentos e desejos do meu coração, elas excedem muito sua verdadeira
importância e, fazendo isso, modelam a forma como desempenho o meu minis­
tério. Deixe-me sugerir apenas cinco de uma longa lista de possíveis mudanças
de tesouro que podem facilmente acontecer no coração de qualquer pastor.
1) IDENTIDADE: MUDANDO DE IDENTIDADE EM CRISTO PARA
IDENTIDADE NO MINISTÉRIO
No ministério pastoral, é muito tentador olhar horizontalmente para o
que você já recebeu em Cristo. É possível ser pastor e amnésico funcional de
identidade. Quando sou assim, começo a necessitar que o meu valor, senso
interior de bem-estar, significado e propósito sejam afirmados pelas pessoas e
programas da igreja. Em vez da esperança e da coragem que surgem de descansar
em minha identidade em Cristo, meu ministério se torna preso e moldado
pelo tesouro de uma série de afirmações horizontais temporárias do meu
valor e dignidade. Isso rouba a coragem do meu ministério e me faz focalizado
demais em como aqueles que fazem parte do círculo do meu ministério
respondem a mim.

2) MATURIDADE: DEFININDO O BEM-ESTAR ESPIRITUAL NÃO PELO


ESPELHO DA PALAVRA, MAS PELO MEU MINISTÉRIO
O conhecimento bíblico não deve ser confundido com a maturidade cristã.
A exatidão homilética não é o mesmo que piedade. Destreza teológica é muito
diferente de santidade prática. Liderança bem sucedida não é o mesmo que
um coração para Cristo. Crescimento em influência não deve ser confundido
com crescimento em graça. É tentador permitir que aconteça uma mudança
na maneira como avalio minha maturidade como pastor. Ao invés de viver com
uma profunda necessidade da operação contínua da graça em meu próprio
coração eu começo, por causa da experiência e sucesso no ministério, a ver a
mim mesmo como alguém mais maduro do que na verdade sou. Por causa
desses sentimentos de satisfação própria, eu não me submeto à minha própria
pregação; eu não prego a partir de um coração cativante, terno e humilde; e eu
não procuro ser orientado pelo ministério do corpo de Cristo. Isso permite que
o meu preparo seja menos devocional e minha perspectiva acerca dos outros,
mais crítica.

3) REPUTAÇÃO: MUDANDO DE UM MINISTÉRIO MOLDADO PELO ZELO


PELA REPUTAÇÃO DE CRISTO PARA UM MINISTÉRIO MOLDADO PELA
FOME DA APROVAÇÃO DE PESSOAS
O meu ministério deveria ser funcionalmente motivado pela glória de
Cristo, que a fama dele se tornasse conhecida por mais e mais pessoas e que
juntos, todos nós compreendêssemos, na prática, o que significa submissão ao
seu senhorio. Em vez disso, meu ministério se torna seduzido pelo tesouro da
minha própria reputação. Meu coração começa a ser capturado pelo desejo de
ser estimado por outros, pelo frenesi de ser necessário, pelo engano de me
distinguir na multidão, pela glória de estar no controle e o poder de estar
sempre certo. Isso torna difícil admitir que estou errado, submeter-me ao
conselho de outros, entregar o controle, não ter que vencer ao final de cada dia
e provar que estou com a verdade. Torna-se difícil aceitar a culpa ou compartilhar
os créditos e isso me faz menos motivado a olhar para o ministério como um
processo de colaboração do corpo de Cristo.

4) ESSENCIALIDADE: MUDANDO DO DESCANSO NA PRESENÇA ESSENCIAL


DE JESUS, O MESSIAS, PARA A PERSPECTIVA DE SE VER MUITO
ESSENCIAL PARA O QUE DEUS ESTÁ FAZENDO
Onde antes eu me via como uma das muitas ferramentas na caixa de ferramentas
do reino de Deus, agora eu começo a me ver como muito central, importante
demais para o que Deus está fazendo em meu cenário local. Ao invés de descansar
na pessoa e obra do Messias, começo a carregar o fardo do crescimento individual
e coletivo do povo de Deus sobre os meus próprios ombros. Isso me leva a
desvalorizar a importância dos dons e do ministério de outras pessoas e me
tenta a atribuir a mim mesmo mais do que sou capaz de fazer. Eu começo a
tentar ser o Messias, em vez de descansar a minha identidade como instrumento
em suas mãos fiéis e poderosas, mesmo que, provavelmente, não tenha
consciência disso.

5) CONFIANÇA: MUDANDO DE UMA CONFIANÇA HUMILDE NA GRAÇA


TRANSFORMADORA PARA UMASUPERCONFIANÇA NA EXPERIÊNCIA
E NOS DONS PESSOAIS
Longevidade e sucesso no ministério são coisas boas, mas também podem
ser perigosas para o coração de um pastor. Todos nós somos capazes de nos
tornar demasiadamente confiantes em nós mesmos. Uma mudança de confiança
começa a ocorrer e tomar o lugar da confiança humilde no poder da graça
resgatadora, perdoadora, transformadora e libertadora para descansar no
conhecimento, habilidades, dons e experiência próprios. Por causa disso eu
não me entristeço, não oro, não me preparo, não confesso e não ouço outras
pessoas suficientemente. Eu começo a atribuir a mim mesmo capacidades que
não tenho e, por fazer isso, não ministro a partir da minha própria consciência
da necessidade da graça de Cristo e não procuro a ajuda de outras pessoas.

♦ ♦♦
Em cada área, é tentador que o meu ministério seja moldado por uma
mudança da confiança no entesouramento da graça contínua de Jesus, o Re­
dentor, para a esperança nos tesouros terrenos, os quais ele nos lembrou (Mt
6.19-34) que são temporários, por natureza, e não têm a capacidade de dar o
que buscamos. Pode ser que esta mudança de tesouros conduza tantas pessoas
aos problemas institucionais costumeiros e às ruínas relacionais no ministério?
Pode ser que essas mudanças sejam o que fazem o ministério se tornar um fardo
em vez da alegria que ele realmente é? O seu ministério viverá na perigosa
encruzilhada entre as dificuldades e tentações deste mundo caído e a batalha
pelo domínio que ainda ocorre no seu próprio coração. Essa en c ru zilh aria crucial
será o enfoque do restante deste livro.
Os tesouros do reino próprio se tornam ainda mais sedutores e podero­
sos quando eu, como pastor, deixo de vislumbrar a glória do que me foi dado
em Cristo. Quando faço isso, começo a pensar de mim mesmo como alguém
pobre, quando a graça me fez rico, e procuro riquezas em lugares onde elas
simplesmente não podem ser encontradas. Mas eu não preciso correr com ver­
gonha ou entrar em pânico, porque a graça da cruz abrangeu essa luta também
e operará ainda hoje para me libertar de mim mesmo.

O QUE LEMBRAR

Diante de tudo isso, quais são as coisas que devemos lembrar? Deixe-me
abordar essa pergunta da maneira a seguir. Os especialistas dizem que há so­
mente três coisas a considerar quando você vai comprar uma propriedade: loca­
lização, localização e localização. O mesmo pode ser dito a respeito da vida.
Quando você compreende a localização, você vive e ministra de maneira radi­
calmente diferente. Isso lhe parece confuso? Deixe-me indicar a você quatro
coisas nas quais a localização realmente importa.

1) VOCÊ VIVE EM UM MUNDO DRAMATICAMENTE CAÍDO


Você precisa estar preparado. Você tem que viver com expectativas realistas.
Você simplesmente deve trazer uma compreensão bíblica ao lugar onde você
agora vive e ministra ou estará constantemente despreparado e desapontado.
Você e eu vivemos em um mundo caído onde há problemas por todos os lados.
Seu corpo e sua mente estão afetados pela queda e nem sempre funcionam
como deviam. Sua família e seus amigos não funcionam como deveriam.
O governo sobre você não funciona como foi criado para fazer. A igreja à qual
você serve está repleta de pessoas falhas e em necessidade de redenção. O ambi­
ente físico caído sofre sob o peso da queda. O apóstolo Paulo diz isso muito
bem em Romanos 8:

Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até
agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito,
igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção
do nosso corpo. Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é
esperança; pois o que alguém vê, como o espera? (Rm 8. 22-24).
Não há como escapar disso: você está localizado em um lugar onde os
problemas, de alguma forma,o receberão a cada dia. Muitos desses problemas
viverão dentro de você. Você vive e ministra em um lugar onde, por alguma
razão, de alguma forma, a tentação vai saudá-lo a cada dia. Quando você encara
essa realidade difícil, você viverá preparado para os problemas que surgirem em
seu caminho.

2) A GRANDE BATALHA ÉTRAVADA EM SEU CORAÇÃO


Ao reconhecer a ruína do mundo onde você vive e ministra, você não
deseja dar lugar ao ambientalismo espiritual no qual você põe a culpa de todas
as suas lutas nas coisas que estão fora de você. Esse foi o erro dos monastérios
medievais, comunidades cercadas, separadas do mundo mau e com intenção
de alimentar uma vida de retidão. Como resultado, essas comunidades têm a
tendência de repetir todos os males do mundo ao redor, do qual se separaram.
Os monastérios foram um fracasso porque negligenciaram uma verdade
bíblica muito significativa: o maior perigo de cada ser humano, mesmo aqueles
que estão no ministério, está localizado dentro, e não fora dele. Há algo tene­
broso e enganador que ainda espreita no coração de cada um dos filhos de
Deus que ainda não foram glorificados: o pecado. É somente o pecado que está
dentro de você que o atrai e cativa ao pecado que está fora de você. A cada dia
há uma batalha a ser travada pelo controle do seu coração. Mas o seu Salvador
amoroso, com zelo e imenso amor redentor, não compartilhará o seu coração
com outro. Ele não descansará até que o seu coração seja governado por ele e
somente por ele.

3) VOCÊ CORRERÁ PARA ALGUM LUGAR EM BUSCA DE REFÚGIO


No meio do problema, quando você estiver no calor da batalha, você
correrá para algum lugar procurando refúgio. Você correrá para algum lugar à
procura de descanso, conforto, paz, encorajamento, sabedoria, cura e força. Há
apenas um lugar para onde correr e onde a verdadeira proteção, descanso e
força podem ser encontrados. Você e eu precisamos aprender, na vida e no
ministério, a fazer do Senhor o nosso refúgio.
Talvez nos problemas você corra para as outras pessoas, esperando que
elas sejam o seu Messias pessoal. Talvez você corra para o entretenimento, espe­
rando se anestesiar devido à dor dos problemas. Talvez você corra para uma
substância, tentando, da melhor maneira, acabar com a dor. Talvez você seja
tentado a correr para a comida ou o sexo, confrontando a dor com o prazer.
Uma vez que nenhuma dessas coisas pode ser o refugio que você procura, colo­
car a sua esperança nelas só acrescenta o desapontamento ao problema que você
já experimenta.
Deus realmente é o nosso refúgio e fortaleza. Somente ele reina em cada
local onde o seu problema existe. Somente ele controla todos os relacionamentos
onde o desapontamento erguerá sua cabeça. Somente ele tem o poder de resgatar
e libertar você. Somente ele tem a graça da qual você precisa para encarar o que
agora está enfrentando. Somente ele possui a sabedoria de que, em meio aos
problemas, você necessita tão desesperadamente. Somente ele está ali para você,
com você e em você em todos os momentos. Ele é o refúgio dos refúgios.
Você corre para ele?

4) PARA 0 LUGAR ONDE VOCÊ ESTÁ INDO NÃO HAVERÁ MAIS


PROBLEMAS
Você pode argumentar que a história bíblica diz respeito a três localizações.
O jardim, em Gênesis, foi uma localização de perfeição e beleza, mas se tornou
um lugar de pecado e problemas. A colina do Calvário foi um lugar tanto de
sofrimento horrível quanto de graça transformadora. E a Nova Jerusalém, aquele
lugar de paz e refúgio iluminado pela claridade do Filho, será o refúgio final
para sempre. Por causa da cruz de Jesus Cristo, a sua história não terminará
com os problemas diários e um refúgio temporário. Não, sua localização
final será completamente diferente de qualquer coisa que você já tenha
experimentado, até mesmo no seu melhor e mais glorioso dia no ministério.
Você se dirige para a Nova Jerusalém, onde a lágrima final será enxugada e
não haverá mais problemas.

♦ ♦ ♦
Hoje, na vida e no ministério, você encara problemas de alguma espécie.
Hoje você corre para algum lugar em busca de refúgio. Hoje há esperança e
auxílio a serem encontrados. Que seja Deus o nosso refúgio e, à medida que
você corre para ele, lembre-se de que ele prometeu que haverá um dia em que
os seus problemas não mais existirão. Mas você vive entre o “já” e o “ainda não”
e a batalha ainda assola. A pergunta para você, pastor, é: “Você é um soldado
consciente, sábio e preparado que corre mais e mais para o Capitão de sua alma
a fim de experimentar a graça resgatadora, perdoadora, transformadora,
fortalecedora e libertadora?”
PARTE 2

O PERIGO DE PERDER
A SUA REVERÊNCIA
(ESQUECENDO-SE DE QUEM DEUS É)
•' .J*

M ■iViH A J2 A
Capítulo 8
FAMILIARIDADE
Ele disse muito prosaicamente, talvez nem entendendo a importância do
que estava dizendo, mas eu não conseguia tirar suas palavras da minha cabeça.
Ele era o líder de um ministério nacional. Nós estávamos em uma reunião,
falando sobre parceria ministerial. Eu estava compartilhando minha empolgação
sobre o que eu vi acontecendo na igreja ao redor do mundo, e ele disse: “Acre­
dito que não há nada mais que me empolgue”. Não era de minha responsabi­
lidade responder o que ele disse, mas eu pensei imediatamente: “É melhor você
ficar empolgado. Você está liderando um ministério, e, se você não conseguir reaver a
sua empolgação, talvez você não devesse estar nesta posição”. Ele havia perdido seu
entusiasmo e ficado apenas com uma tarefa a cumprir no empreendimento do
ministério em uma obrigação repetitiva, dia após dia. Que triste e perigoso
lugar para estar!
Talvez isso comece no seminário, com o exame detalhado de todos os
elementos da fé. Talvez haja um momento em que a glória de Deus não pareça
mais tão gloriosa. Talvez a vida em meio à comunidade teológica comece a
atenuar a minha empolgação e a entorpecer o meu entusiasmo. Talvez a Bíblia
seja reduzida a pouco mais do que um manual teológico a ser exegetizado e com
o qual interagimos. Talvez até o próprio Deus se torne mais um ser divino a ser
estudado e compreendido teologicamente do que o Senhor da glória que ele é.
Talvez tudo isso seja relacionado com a dinâmica da familiaridade. O gran­
de professor e teólogo de Princeton, B. B. Warfield, escreveu aos seus estudantes:

Frequentemente nos dizem que o grande perigo do estudante teológico consiste


precisamente em seu contato constante com coisas divinas. Elas podem se tornar
comuns a ele porque são costumeiras. Assim como uma pessoa comum respira o ar e
se aquece à luz do sol sem qualquer pensamento de que é Deus, em sua bondade,
que faz o sol se levantar sobre ele, ainda que ele seja mau, e lhe envia chuva ainda que
ele seja injusto; assim também você pode lidar até com a mobília do santuário sem
qualquer pensamento acerca do material terreno bruto com o qual ela foi feita.
As palavras que descrevem a você a terrível majestade de Deus ou a sua gloriosa
bondade podem se tornar apenas meras palavras para você - palavras hebraicas e
gregas, com etimologias, inflexões e conexões nas sentenças. A razão que estabelece
para você o mistério de suas atividades salvadoras pode se tornar para você meros
paradigmas lógicos com premissas e conclusões, habilmente moldadas, sem dúvida,
e triunfantemente convincentes, mas sem qualquer outro significado além da sua
lógica formal conclusiva. Os passos imponentes de Deus em seu processo redentivo
podem se tornar para você apenas uma série de fatos da história, curiosamente
relacionados à produção das condições sociais e religiosas e apontando, talvez, a um
assunto que todos nós ardilosamente conjecturamos: mas muito parecidos com
muitos outros fatos que ocorrem no tempo e no espaço que podem ser observados
por você. Esse é o seu grande perigo. Mas esse é o seu grande perigo apenas porque
esse é o seu grande privilégio. Pense no seu privilégio quando o seu maior perigo é
que as grandes coisas da religião podem se tornar comuns para você! Outros homens,
oprimidos pelas difíceis condições de vida, se afundam nas lutas diárias talvez por
pão, e, distraídos em vários sentidos pela terrível draga do mundo sobre eles e pela
difícil correria do trabalho no mundo, acham difícil ter tempo e oportunidade a
ponto de parar e considerar se existem coisas tais como Deus, religião, salvação do
pecado que os alcançam e os mantêm cativos. A própria atmosfera de sua vida
consiste nessas coisas; você as respira por cada poro: elas o rodeiam, o abrangem, o
pressionam de cada lado. Tudo isso corre o perigo de se tornar comum para você.
Que Deus o perdoe. Você corre perigo de se tornar cansado de Deus!1

Que palavras poderosas de advertência a qualquer pessoa em qualquer tipo


de ministério: “O maior perigo... consiste precisamente em seu constante conta­
to com as coisas divinas”. Qual é o perigo? É que a familiaridade com as coisas de
Deus faça com que você perca a reverência. Você já gastou tanto tempo com a
Escritura que a sua grandiosa narrativa redentora, com sua vasta sabedoria, não o
empolga mais. Você já gastou tanto tempo exegetizando a expiação que pode
ficar ao pé da cruz chorando só um pouquinho e com escassa exultação. Você já
gastou tanto tempo disciplinando outras pessoas que não está mais maravilhado
com a realidade de ter sido escolhido para ser um discípulo de Jesus Cristo. Você
já gastou tanto tempo expondo a teologia da Escritura que se esqueceu de que
sua finalidade é a santidade pessoal. Você já gastou tanto tempo no planejamento
estratégico do ministério da igreja local que já perdeu sua admiração com o
soberano Planejador que guia todos os seus momentos. Você já gastou muito
tempo meditando no que significa conduzir outros na adoração, mas não tem a
sua própria adoração particular. Tudo isso se torna tão comum e normal que
deixa de motivá-lo; na verdade, há momentos tristes quando a maravilha da graça
quase não atrai mais a sua atenção no meio da sua agenda ministerial ocupadíssima.
Os artistas falam sobre a dinâmica da letargia visual, que significa que,
quanto mais você vê algo, menos você realmente vê aquilo. Naquele caminho
1Benjamin B. Warfield, “T he Religious Life ofTheological Students”, de um a palestra feita por ele
na Conferência de O utono no Seminário Teológico de Princeton, dia 4 de outubro de 1911.
para o primeiro dia de trabalho, você está consciente de todas as imagens e
sons. Você observa aquele lindo bosque de árvores antigas e aquele duplex mo­
derno legal na esquina. Mas, na vigésima viagem sua para o serviço, você deixa
de observar e deseja que o trânsito se desloque mais rapidamente para que você
consiga chegar ao trabalho. Alguma coisa aconteceu a você que parece inevitá­
vel, mas não boa. Você parou de observar e, em sua falha em ver, você deixou de
ser motivado e agradecido. A beleza que uma vez o atraiu ainda está para ser
vista, mas você não a vê e não pode celebrar o que não consegue ver. Poderia
haver um perigo maior no ministério do que quem lidera o ministério perder a
sua reverência? Deixe-me explicar.
Talvez o local para começar seja uma das passagens da Bíblia, o Salmo 145.

Exaltar-te-ei, <5Deus meu e Rei;


bendirei o teu nome para todo o sempre.
Todos os dias te bendirei
e louvarei o teu nome para todo o sempre.
Grande é o S en h o r e mui digno de ser louvado;
a sua grandeza é insondável.

Uma geração louvará a outra geração as tuas obras


e anunciará os teus poderosos feitos.
Meditarei no glorioso esplendor da tua majestade
e nas tuas maravilhas.
Falar-se-á do poder dos teus feitos tremendos,
e contarei a tua grandeza.
Divulgarão a memória de tua muita bondade
e com júbilo celebrarão a tua justiça.

Benigno e misericordioso é o Senhor,


tardio em irar-se e de grande clemência.
O Senhor é bom para todos,
e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras.

Todas as tuas obras te renderão graças, Senhor;


e os teus santos te bendirão.
Falarão da glória do teu reino
e confessarão o teu poder,
para que aos filhos dos homens se façam notórios os teus poderosos feitos
e a glória da majestade do teu reino.
O teu reino é o de todos os séculos,
e o teu domínio subsiste por todas as gerações.

O Senhor é fiel em todas as suas palavras


e santo em todas as suas obras.
O Senhor sustém os que vacilam
e apruma todos os prostrados.
Em ti esperam os olhos de todos,
e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento.
Abres a mão
e satisfazes de benevolência a todo vivente.
Justo é o Senhor em todos os seus caminhos,
benigno em todas as suas obras.
Perto está o Senhor de todos os que o invocam,
de todos os que o invocam em verdade.
Ele acode à vontade dos que o temem;
atende-lhes o clamor e os salva.
O Senhor guarda a todos os que o amam;
porém os ímpios serão exterminados.

Profira a minha boca louvores ao Senhor,


e toda carne louve o seu santo nome, para todo o sempre.

Qual é a cosmovisão dominante deste salmo? É que todo ser humano


recebeu de Deus a condição inata de viver diariamente em reverência a ele. Isso
significa que a reverência a Deus foi projetada para ser a motivação diária mais
profunda, mais modeladora de vida e prática de todo ser humano. Essa é a
vocação de todo ser humano. Esse é o guarda-chuva de proteção sobre toda
pessoa. Essa é a realidade que deve definir e dar forma a qualquer outra realida­
de na vida da pessoa. Funcionalmente, qual é a aparência disso?
Bem, isso deve ser o que, de alguma maneira, motiva tudo o que faço e
digo. A reverência a Deus deve ser a razão de eu fazer o que faço com os meus
pensamentos. Ela deve ser a razão de eu desejar o que desejo. Reverência a
Deus deve ser a razão para eu tratar a minha esposa do modo como trato e
exercer minha paternidade com meus filhos da maneira como o faço. Ela deve
ser a razão para eu atuar do jeito que atuo em meu trabalho ou para eu lidar
com minhas finanças do modo como lido. Ela deve estruturar a forma como
penso sobre a possessão física e posição pessoal e poder. A reverência a Deus
deve moldar e motivar o meu relacionamento com minha família e meus vizi­
nhos. A reverência a Deus deve dar a orientação quanto à maneira como eu vivo
como cidadão da comunidade mais ampla. Ela deve formatar o modo como
penso sobre mim mesmo e minhas expectativas quanto a outras pessoas.
A reverência a Deus deve me erguer dos meus momentos mais negros de desâ­
nimo e ser a fonte das minhas celebrações mais exuberantes. A reverência a
Deus deve me fazer mais consciente e pesaroso para com o meu pecado e ao
mesmo tempo me tornar mais paciente e sensível para com as fraquezas dos
outros. Ela deve me dar a coragem que eu não teria de qualquer outra maneira
e sabedoria para perceber quando saio dos meus limites. A reverência a Deus
tem o objetivo de governar todos os domínios da minha existência.
Mas tem mais. A reverência a Deus deve dominar o meu ministério, por­
que um dos dons missionários centrais do evangelho de Jesus Cristo é devolver às
pessoas a sua reverência a Deus. Um ser humano que não está vivendo numa
reverência funcional a Deus é um ser humano profundamente prejudicado. Ele
está fora dos trilhos, tentando impulsionar o trem da sua vida em uma campina,
e pode nem estar sabendo disso. O perigo espiritual aqui é que, quando a reve­
rência a Deus está ausente, ela é substituída rapidamente por nossa reverência a
nós mesmos. Se você não estiver vivendo para Deus, a única alternativa é viver
para si mesmo. Assim, o ministério central da igreja deve ser fazer qualquer coisa
que possa para ser usada por Deus para fazer as pessoas voltarem àquilo para o
qual elas foram criadas: viver em uma reverência resoluta, alegre e fiel a Deus.
Isso significa que todo sermão deve ser preparado por uma pessoa cujo
estudo é marcado pela reverência a Deus. O sermão deve ser exposto em
reverência e ter como seu propósito motivar a reverência naqueles que ouvem.
O ministério infantil deve ter como seu alvo acender nas crianças uma reverên­
cia a Deus que é modeladora de vida. O ministério com os jovens da igreja deve
ir além do entretenimento bíblico e fazer tudo o que pode para ajudar adoles­
centes e jovens a ver a glória de Deus e denominá-la a coisa pela qual eles
viverão. O ministério de mulheres deve fazer mais do que dar às mulheres um
local para comunhão umas com as outras e para fazer trabalhos manuais. As
mulheres precisam ser resgatadas de si mesmas e de uma miríade de interesses
próprios que corroem seu coração, e a reverência a Deus proporciona esse resgate.
Os ministérios com os homens precisam reconhecer o frio no coração de tantos
homens para com as coisas de Deus e confrontar e estimular os homens com sua
identidade como aqueles criados para viver e liderar a partir de um zelo humilde
pela glória de Deus e não de si mesmos. Missões e evangelismo devem ser
direcionados pela reverência. Lembre-se, Paulo argumenta que esta é a razão para
a cruz. Ele diz que Jesus veio “para que os que vivem não vivam mais para si
mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Co 5.15).
A reverência a Deus é uma das coisas que impedirão a igreja de sair dos
trilhos e ser distraída por muitas agendas que podem desvirtuar qualquer grupo
de cristãos. A reverência a Deus coloca a teologia em seu devido lugar. Teologia é
vitalmente importante, mas qualquer reverência à teologia que tivermos é perigo­
sa se não produz em nós uma reverência prática a Deus. A reverência a Deus
coloca as estratégias de ministério da igreja em seu próprio lugar. Nós não
colocamos nossa confiança em nossas estratégias, mas no Deus de glória impres­
sionante, que é a cabeça da igreja que estamos nos empenhando em liderar bem.
A reverência a Deus coloca os dons e a experiência ministerial em seu devido
lugar. Não podemos crescer em arrogância e em convencimento sobre os nos­
sos dons, porque, a menos que esses dons sejam empregados pela gloriosa graça
do Deus a quem servimos, eles não têm poder para resgatar ou mudar qualquer
pessoa. A reverência a Deus coloca a nossa música e liturgia em seu devido
lugar. Sim, devemos ter o desejo de liderar as pessoas numa adoração que seja
tanto bíblica quanto simpática, mas não temos o poder para realmente atrair o
coração das pessoas sem a presença maravilhosa do Espírito Santo, que impul­
siona e aplica tudo o que procuramos fazer. A reverência a Deus coloca os
nossos prédios e propriedades em seu devido lugar. Como um prédio é
construído, mantido e usado é uma questão muito importante, mas prédios
nunca chamaram nem justificaram qualquer pessoa; somente um Deus de gra­
ça soberana maravilhosa é capaz de fazer isso. A reverência a Deus coloca a
nossa história e as nossas tradições em seu devido lugar. Sim, devemos ser
agradecidos pelas maneiras como Deus trabalhou em nosso passado e devemos
procurar reter as coisas que são expressão própria do que ele diz ser importante,
mas nós não descansamos em nossa história, nós descansamos no Deus de
glória, que é o mesmo ontem, hoje e para sempre.
Nós devemos nos comprometer a fazer qualquer coisa que pudermos para
sermos aquela geração que louva as obras de Deus, sua glória, à próxima gera­
ção de tal forma que eles possam ser resgatados e motivados por uma glória
maior do que o catálogo típico de glórias que eles escolheriam para si mesmos.
Porém, é muito difícil pregar e modelar o ministério da igreja desta ma­
neira se a familiaridade produziu uma cegueira que roubou efetivamente a sua
reverência a Deus. É muito difícil, no ministério, ofertar o que você mesmo
não possui (um tema principal deste livro). O seu ministério é sempre moldado
pelo que está em controle funcional do seu coração de maneira tal que nem
sempre você tem consciência disso. Se você estiver mais motivado pela experiên­
cia inspiradora de reverência de ter a estima e o respeito de pessoas ao seu
redor, você desempenhará o seu ministério de um modo que é estruturado para
obter esse respeito, mesmo que provavelmente não esteja cônscio disso. Se o
seu coração for governado pelo poder surpreendente que vem de controlar as
pessoas e situações ao seu redor, você trabalhará em seu ministério para estar
em controle. Se o seu coração é mais governado pelo temor de homens do que
por temer a Deus, você edificará um ministério que levanta paredes de prote­
ção ao seu redor e constrói um fosso entre a sua pessoa pública e a sua vida
particular. Se o seu coração é mais induzido pela experiência estimuladora de
reverência de estar correto teologicamente do que pela reverência a Deus, que
vive no centro de toda aquela teologia, você será um porteiro teológico que não
pastoreia bem pessoas confusas. Se o seu coração for governado mais por inveja
do ministério inspirador de reverência de outra pessoa do que por uma reve­
rência a Deus que o chamou e lhe deu dons, você ministrará com uma insatis­
fação debilitadora com a situação e localização do seu chamado.
Lembre-se, novamente, que o ministério que você está desempenhando
nunca é moldado apenas por seus dons, conhecimento, habilidade e experiência.
Ele também é moldado sempre pela verdadeira condição do seu coração. Essa é a
razão pela qual é importante reconhecer que o ministério na igreja local é uma
enorme guerra por glória. Em toda situação, local e relacionamento do seu mi­
nistério há uma guerra acontecendo sobre qual glória atrairá o seu coração e,
portanto, moldará o seu ministério. Há uma guerra acontecendo entre a reverên­
cia a Deus e todas as coisas inspiradoras de admiração que estão ao seu redor, as
quais Deus criou. A reverência a Deus capturará você e o seu ministério, ou você
será capturado por algum tipo de reverência criada. Lembre-se de que qualquer
coisa gloriosa na criação recebeu aquela glória de Deus para que funcionasse como
um dedo indicando a você a única glória que deve governar o seu coração - ele.
O fato é que muitos pastores se tornam insensíveis, confusos ou sequestra­
dos com respeito à reverência. Muitos pastores olham para a glória e não a veem
mais. Muitos pastores estão apenas funcionando tocados à manivela porque não
sabem mais o que fazer. Muitos pastores pregam um evangelho tão tedioso e sem
inspiração que o fazem pensar por que muitas pessoas não estão dormindo du­
rante sua exposição. Muitos pastores são melhores em argumentar pequenos pontos
de doutrina do que em estimular a admiração divina. Muitos pastores parecem
mais estimulados pela visão do próximo ministério ou pelo próximo passo no
plano estratégico do que pela glória formidável da maravilhosa intervenção da
graça em corações arrasados pelo pecado. As glórias de ser correto, bem-sucedi-
do, estar no controle, ser estimado e seguro frequentemente se tornam mais
influentes na forma como o ministério é desempenhado do que as realidades
surpreendentes da presença, soberania, poder e amor de Deus. Muitos pastores
perderam sua reverência e não sabem disso ou não sabem como reavê-la.
O FRUTO MINISTERIAL PRÁTICO DA REVERÊNCIA A DEUS
O que a reverência a Deus produz no coração de um pastor, que é vital
para um ministério efetivo, que honre a Deus e seja produtivo? Abaixo está a
sua lista.
1) HUMILDADE
Não há nada que coloque você em seu lugar, nada que corrija sua visão
distorcida sobre si mesmo, nada que o arrancará da sua arrogância funcional ou
nada que deixe de alimentar a combustão da sua justiça própria tanto quanto
permanecer, sem defesa, diante da impressionante glória de Deus.
Diante de sua glória, sou deixado nu, sem qualquer glória diante de mim
mesmo ou de qualquer outra pessoa à qual possa me agarrar. Enquanto me
comparo a outros, poderei sempre encontrar alguém cuja existência parece ser
um argumento para quão justo eu sou. Mas, se comparar os trapos de imundí­
cie da minha justiça ao linho puro e para sempre imaculado da justiça de
Deus, desejarei correr e me esconder com vergonha sofrida.
Isso foi exatamente o que aconteceu a Isaías, registrado em Isaías 6. Ele
permanece diante do maravilhoso trono da glória de Deus e diz: "... ai de mim!
Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um
povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SEN H O R dos Exérci­
tos!” (v. 5). Isaías não está usando uma hipérbole religiosa formal aqui. Ele não
está tentando insinuar-se com Deus por ser tão humilde. Não, é somente à luz
da impressionante glória e santidade de Deus que você vem a ter uma visão
precisa de si mesmo e da profundidade da sua necessidade do resgate que
somente um Deus de graça gloriosa pode providenciar.
Em algum lugar ao longo do caminho no ministério, vários pastores têm
se esquecido de quem são. Eles têm uma visão inchada, distorcida, pomposa de
si mesmos que os apresenta grandemente inacessíveis e permite-lhes justificar
coisas que pensam, desejam, dizem e fazem que simplesmente não são biblica­
mente justificáveis. Eu já estive nesta posição e, de vez em quando, volto lá
novamente, e, quando estou lá, preciso ser resgatado de mim mesmo. Quando
você está naquela posição de grande admiração de si mesmo, você se determina
a ser um autocrata eclesiástico farisaico, controlador, excessivamente confiante,
crítico, decididamente teimoso, construindo inadvertidamente um reino cujo
trono será ocupado por você, não importa o quanto você possa se convencer de
que faz tudo isso para a glória de Deus.

2) AMABILIDADE
A humildade que a reverência a Deus sozinha é capaz de produzir em meu
coração - isto é, uma consciência do meu pecado e necessidade desesperadora da
graça - produz, em seguida, amabilidade pastoral para com as pessoas ao meu
redor, as quais fornecem evidências empíricas de que estão necessitando da mes­
ma graça. Ninguém melhor do que a pessoa que está profundamente persuadida
de que ela mesma necessita da graça e a tem recebido de Cristo para dá-la. Essa
amabilidade me leva a ser gracioso, gentil, paciente, compreensivo e esperançoso
diante dos pecados de outros, apesar de nunca comprometer o santo chamado de
Deus. Ela me protege de avaliações implacáveis, como: “Eu não acredito que
você faria algo assim”, ou “Eu nunca imaginaria que...”, que significam que eu
digo a mim mesmo que sou essencialmente diferente das pessoas a quem minis­
tro. É difícil trazer o evangelho a pessoas a quem eu olho de cima para baixo ou
não de quem não gosto ou a quem não respeito. Em face aos pecados de outras
pessoas, a amabilidade inspirada pela reverência me liberta de ser um agente de
condenação ou de pedir à lei para fazer o que somente a graça pode realizar e me
motiva a ser uma ferramenta daquela graça.

3) PAIXÃO
Não importa o que está ou não está funcionando no meu ministério, não
importa que dificuldades ou batalhas eu esteja enfrentando, a extensa glória de
Deus me dá razão para me levantar de manhã e fazer o que eu fui dotado e
vocacionado para fazer com entusiasmo, coragem e confiança. Minha alegria
não está algemada às circunstâncias ou relacionamentos adjacentes; eu não
preciso ter o meu coração arrastado para onde eles vão. Eu tenho razão para
alegria porque sou um filho escolhido e um servo recrutado do Rei dos reis e
Senhor dos senhores, o grande Criador, o Salvador, o soberano, o vitorioso,
aquele que reina e reinará para sempre. Ele é meu Pai, meu Salvador e meu
chefe. Ele sempre está perto e é sempre fiel. Minha paixão pelo ministério não
diz respeito a como estou sendo recebido; ela flui da realidade de que fui recebi­
do por ele. Meu entusiasmo não é devido a pessoas como eu, mas porque ele me
aceitou e me enviou. Minha paixão não é resultante do meu ministério ser tão
glorioso quanto eu pensei que poderia ser, mas porque ele é eterna e imutavelmente
glorioso. Assim eu prego, ensino, aconselho, lidero e sirvo com uma paixão pelo
evangelho que inspira e provoca o mesmo nas pessoas ao meu redor.

4) SEGURANÇA
A segurança, aquele sentimento interior de bem-estar e capacidade no
ministério, não é direcionada à confiança em si mesmo, mas vem do conheci­
mento de quem servimos. Ele é a minha segurança e aptidão. Ele não me
chamará para uma tarefa sem me capacitar para fazê-la. Ele tem mais zelo pela
saúde da sua igreja do que eu possa ter. Ninguém tem mais interesse no uso
dos meus dons do que aquele que os deu. Ninguém tem mais zelo por sua
glória do que ele próprio. Ele está sempre presente e sempre pronto. Ele é todo
poderoso e todo conhecedor. Ele é ilimitado em amor e glorioso em graça. Ele
não muda, e é fiel para sempre. Sua Palavra não deixará de ser verdade. Seu
poder para salvar nunca se extinguirá. Seu domínio não terá fim. Ele nunca
será conquistado por alguém maior do que ele. Eu posso fazer o que fui
vocacionado a fazer com segurança, não por causa de quem eu sou, mas porque
ele é meu Pai e ele é glorioso de todas as maneiras.

5) DISCIPLINA
Existem momentos inglórios no ministério de todos. Existem momentos
em que as expectativas ingênuas que você tinha de como seria provam ser apenas
isso - ingênuas. Existem alguns momentos em que será necessário mais do que
sucesso no ministério ou a apreciação das pessoas ao seu redor para tirá-lo da
cama para desempenhar com disciplina as coisas que você foi chamado para
fazer. Haverá tempos em que parece haver pouco fruto como resultado dos seus
labores e pouca esperança de que essa situação possa mudar em breve. Há
momentos em que você pensa que foi traído e se sente solitário. Assim, é vital
que a sua disciplina seja enraizada em algo mais profundo do que uma avalia­
ção horizontal de como as coisas estão indo. Em minha própria vida, estou
cada vez mais persuadido de que a disciplina própria inflexível, do tipo que é
essencial no ministério pastoral, está enraizada na adoração. É a impressionan­
te glória da existência de Deus, seu caráter, plano, presença, promessas e graça
que me dão razão para trabalhar duro e não desistir, não importa se estamos em
um “bom” período ou em um tempestuoso.

6) DESCANSO
Finalmente, ao encarar minhas próprias fraquezas e a confusão da igreja
local, o que me proporciona descanso ao coração? É a glória que me dá descan­
so. Ela é o conhecimento de que não há nada difícil demais para o Deus a
quem eu sirvo. E a certeza de que todas as coisas são possíveis com ele. É saber,
com Abraão, que Aquele que fez todas aquelas promessas nas quais eu funda­
mento meu ministério é fiel. Pode parecer que existem muitas razões horizon­
tais para estar ansioso, mas eu não permitirei que o meu coração seja capturado
por preocupações ou temor, porque o Deus de glória inestimável que me en­
viou fez esta promessa: “Eu serei contigo”. Eu não preciso fazer jogadas comigo
mesmo. Eu não preciso negar nem minimizar a realidade para me sentir bem,
porque ele invadiu a minha existência com sua glória e eu posso descansar,
mesmo na ruína entre o já e o ainda não.

♦ ♦♦
REAVENDOA SUA REVERÊNCIA
Eu não tenho um conjunto de estratégias para você aqui. O meu conse­
lho é correr agora, correr rapidamente para o seu Pai de glória surpreendente.
Confesse a ofensa do seu enfado. Suplique por olhos que estejam abertos para a
glória revelada nos 360 graus, vinte e quatro horas por dia, sete dias por sema­
na, para a qual você tem sido cego. Decida gastar certa porção de cada dia
meditando na sua glória. Implore a ajuda de outros. E lembre a si mesmo de
ser agradecido por Jesus, que lhe oferece sua graça até mesmo naqueles mo­
mentos em que essa graça não é tão valorizada por você como deveria ser.
Capítulo 9
SEGREDOS SUJOS
Ele se acostumou com os maus hábitos da falta de fé. “Eles são apenas
minha maneira de relaxar”, dizia ele a si mesmo. Ele raciocinava que eles não se
tornavam obstáculos ao que ele havia sido vocacionado para fazer. Ele conti­
nuou dizendo a si mesmo que estava trabalhando duro e se saindo bem, mas
não estava indo bem. Ele tinha mais noites de insônia do que estava pronto a
admitir. Ele havia ganhado quinze quilos nos últimos anos. Ele hipnotizava
seu cérebro todas as noites com horas a fio de cultura pop vazia da TV ou da
Internet. Ele havia feito mais dívidas do que em qualquer outra época de sua
vida. Sua esposa teria dito que ele havia se tornado cada vez mais irritável e
distante. Em casa, ele muitas vezes demonstrava ser um homem sem alegria e
sobrecarregado. Seus filhos diriam que, até mesmo quando estava lá, frequen­
temente ele “não estava lá”. Ele tinha pavor de reuniões e se distraía facilmente
quando precisava focalizar para preparar seu próximo sermão. A porta para o
seu escritório ficava fechada com mais frequência agora do que antes, e ele
delegava mais das suas tarefas ao seu pastor auxiliar.
Mesmo assim, ninguém na congregação percebia qualquer coisa. Ele
cumpria todas as suas obrigações públicas e, da perspectiva de uma pessoa no
banco da igreja, ele parecia desempenhá-las muito bem. Ele liderava as reuniões
que havia sido destacado para liderar e fazia o melhor para dar continuidade ao
trabalho que caía sobre a sua mesa. O problema é que ele não estava indo bem.
Havia uma disparidade crescente entre a pessoa pública e o homem particular.
Havia uma desconexão crescente entre as declarações de fé que ele fazia na
frente da igreja e os pensamentos que governavam o seu coração na maior parte
do tempo. Ele carregava consigo o segredo sujo que muitos pastores carregam,
aquele que é tão difícil para um “homem de fé” admitir. O segredo sujo era que
grande parte do que ele fazia não era feito por fé, mas por medo.
Talvez esse não seja um segredo tão frequentemente compartilhado do
ministério pastoral, isto é, quanto dele é dirigido não por fé nas verdades do
evangelho e na pessoa e obra do Senhor Jesus Cristo, mas por medo. É muito
tentador para o pastor carregar a saúde da igreja sobre os seus ombros e, quan­
do ele faz isso, acaba ficando sobrecarregado e sendo motivado por um catálogo
sem fim e muito mutável de “e se”. Isso nunca leva a uma vida ministerial
tranquila e alegre, mas a um ministério debilitado por alvos não realistas e não
conquistados, um senso pessoal de fracasso e o pavor dos resultados.
Quantos pastores estão vivendo num estado constante de inquietação es­
piritual? Quantos de nós somos assombrados pela insegurança pessoal? Quantos
de nós imaginamos secretamente onde Deus está e o que ele está fazendo? Quantos
de nós estamos vivendo de forma autoprotetora dizendo: “Eu fui pego uma vez;
não acontecerá novamente”? Quantos de nós estamos com medo de admitir o
fracasso? Quantos de nós não compartilhamos com ninguém as lutas de fé que
nos assombram? Quantos de nós deixamos de ser sinceros e decisivos porque
temos medo do que acontecerá se formos? Quantos de nós encontramos modos
de fuga, maneiras de enfrentar as situações que não incluem a pregação do evan­
gelho para nós mesmos? Quantos de nós desejamos locais mais fáceis de minis­
trar? Quantos de nós levamos nossas cargas para casa, apresentando o nosso de­
sempenho como pais menos do que gracioso e produtivo? Quantos de nós temos
nos tornado tão habilidosos em nos esconder que nem mesmo as pessoas mais
íntimas de nós fazem ideia do que está acontecendo no nível do nosso coração?
Quantos de nós temos momentos em que fazemos concessões, alimentados pelo
medo de homens? Quantos de nós temos dado a pessoas em particular poder de
influência demasiado sobre nós? Quantos de nós temos permitido que o temor
nos leve a ser teimosos demais, tirânicos demais e controladores demais? Quantos
de nós temos permitido que o temor nos mantenha silenciosos quando devíamos
falar ou nos leva a falar quando devíamos ficar em silêncio? Quantos de nós
trabalhamos regularmente para reformar, como atos de fé, coisas que, na verdade,
fizemos por medo? Quantos de nós teríamos que confessar que há momentos em
que somos mais governados por medo d e ____________do que por temor a
Deus? Quantos de nós temos momentos em que nos importamos mais acerca de
sermos aceitos ou termos a nossa liderança validada do que em sermos bíblicos?
Quantos de nós somos enfraquecidos ou paralisados pelo medo da rejeição?
Quantos de nós somos temerosos demais para confiar partes vitais do ministério
das nossas igrejas a outros? Quantos de nós temos medo de examinar quanto
medo nos prende e motiva? Quantos de nós?

FALEMOS SOBRE MEDO


1) NUM MUNDO CAÍDO EXISTEM RAZÕES PARA TER MEDO
Vivemos em um mundo caído, deteriorado pelo pecado, que não opera
como Deus planejou. Sejam as ervas daninhas que infestam o seu jardim ,
a violência que faz a cidade perigosa, a corrupção do político da cidade ou a
morte de um ente querido, há lembretes suficientes ao seu redor de que o mundo
no qual vivemos está falido. Devido a isso, todos vivemos e ministramos em um
lugar imprevisível e perigoso, onde coisas inesperadas e difíceis realmente acon­
tecem. A sua salvação e a sua vocação para o ministério não lhe dão, automatica­
mente, uma passagem para fora da decadência do seu ambiente. A sua vida e o
seu ministério serão tocados e, de alguma forma, moldados pela falibilidade do
seu mundo. Seja o declínio da economia, o adultério de um líder, a enfermidade
física inesperada ou alguma aflição, você enfrentará dificuldades.
Devido a isso, é bobagem viver em um mundo caído e não sentir medo,
no sentido responsável do que isso significa. A fé bíblica não requer que você
negue a realidade, então existem coisas que devem preocupá-lo e torná-lo só­
brio. Há coisas que devem deixá-lo triste. Você será chamado para lidar com
certas coisas, rápida e decisivamente, devido ao seu potencial para o perigo.
Existem momentos em que o temor do que poderia acontecer é uma coisa
espiritualmente saudável, mas você deve se guardar é contra ser dirigido pelo
medo. A ordem do Salmo 37.8 é muito útil aqui: “... não te impacientes;
certamente, isso acabará mal”. Se você permitir ser governado pelo temor, você
terá problemas com o seu próprio problema. Você acabará fazendo as coisas
ruins se tornarem piores. As decisões que tomamos no pânico do temor são
aquelas das quais acabamos nos arrependendo.

2) EM RELACIONAMENTOS COM PESSOAS IMPERFEITAS HÁ RAZÕES


PARA TEMER
Todos a quem você ministra são seres humanos imperfeitos, ainda neces­
sitados de redenção. Ninguém ao seu redor tem um coração completamente
puro. Ninguém é totalmente livre de pensamentos, desejos, ânsias ou motivos
impuros. Ninguém diz sempre a coisa certa. Ninguém toma sempre as deci­
sões corretas. Ninguém é sempre nobre em suas intenções. Ninguém está livre
de atos de egoísmo ou de engrandecimento próprio. Ninguém é completa­
mente leal. Ninguém tem sempre alguém para proteger. Por esses motivos, os
relacionamentos no corpo de Cristo são confusos e imprevisíveis. Eles são os
lugares onde experimentamos algumas das mais gratificantes alegrias e as dores
mais agonizantes. É uma atitude responsável e piedosa temer a maneira como o
pecado pode criar lutas poderosas, grupos aliados que causam divisão, atitudes
críticas e condenatórias, reclamações egoístas, deslealdade e, por fim, divisão.

3) O MEDO PODE SER UMA COISA MUITO BOA E DIVINA


Existe o medo que o leva a ser cauteloso e proteger as pessoas em seu minis­
tério dos perigos do verdadeiro mal que existe tanto dentro quanto fora delas.
O temor guiado pelo evangelho, cuidadoso, que luta contra o pecado e que, ao
mesmo tempo, descansa na graça de Jesus, é um modo muito bom de viver em
um mundo que, ele próprio, ainda está gemendo, esperando a redenção.

4) O MEDO PODE SER UMA COISA ÍMPIA E PERIGOSA


O medo pode dominar os seus sentidos. Ele pode distorcer o seu raciocínio.
Ele pode sequestrar os seus desejos. Ele pode prender a sua meditação de tal
forma que você gaste mais tempo se preocupando acerca do que outros pensam
do que sobre o que Deus o chamou para ser. O temor pode levá-lo a tomar más
decisões rapidamente e deixar de tomar boas decisões a longo termo. O temor
pode levá-lo a esquecer o que você sabe e a perder de vista quem você é.
O medo pode fazer você desejar controle, que você nunca terá. Ele pode levá-lo
a desconfiar das pessoas em quem você tem razão para confiar. Ele pode levá-lo
a ser exigente, em vez de ser útil. Ele pode levá-lo a correr quando você deveria
permanecer e permanecer quando realmente deveria correr. O medo pode fazer
Deus parecer pequeno e suas circunstâncias parecerem grandes. O temor pode
fazer você procurar nas pessoas o que você somente obterá do Senhor. O temor
pode ser o solo das suas mais profundas perguntas e maiores dúvidas. O seu
coração foi projetado para o temor, porque você foi projetado para ter uma vida
que é moldada pelo temor de Deus. Mas o temor horizontal não pode receber
permissão para dominar o seu coração, porque se o fizer, ele destruirá você e o
seu ministério.

5) O TEMOR ÉCONQUISTADO SOMENTE PELO TEMOR


Reverência a Deus realmente é a solução aqui. É apenas o temor a Deus
que tem o poder espiritual para dominar todos os temores horizontais que
podem prender o seu coração. Esses temores localizados no campo relacional-
situacional somente são colocados em seu devido lugar e recebem o seu devido
tamanho por um temor maior - o temor do Senhor. Talvez essa seja uma boa
porção do que está sendo dito em Provérbios quando declara que “O temor do
SENHOR é o princípio da sabedoria” (9.10). Permitir ser torcido e retorcido
por qualquer que seja o temor que o domine no momento é uma forma insensata,
instável e não produtiva de viver. Viver apenas para aliviar o medo nunca o leva
a ser uma pessoa livre do medo. Simplesmente faz com que você seja mais
temeroso do temor, mas alerta ao temor e, no final, mais temeroso. É somente
quando Deus se mostra maior do que qualquer coisa que você esteja enfrentando
que você pode ser protegido e praticamente libertado do temor que o paralisa
ou o leva a tomar decisões tolas. Uma vida sábia, estável e livre de medo não
requer que você negue o que está enfrentando, mas, pelo contrário, encare suas
circunstâncias com a perspectiva de um temor gloriosamente libertador e
motivador daquele que governa todas as coisas às quais você, em outro caso,
temeria. Uma reverência funcional a Deus realmente é a chave para o seu coração
não ser governado pelo temor.

QUATRO TEMORES PASTORAIS DEBILITADORES


1) MEDO DE MIM
Existem poucas coisas que revelarão a você o alcance completo do seu
pecado, imaturidade, fraqueza e fracasso quanto o ministério. Existem poucas
coisas que exporão a sua fraqueza aos outros tão consistentemente quanto o
ministério. Há poucas atividades que o colocarão sob a expectativa e o escrutínio
públicos como o ministério. H á poucas coisas que são tão humilhantes
pessoalmente como o ministério. Existem poucas atividades que têm o poder
de produzir em você sentimentos tão profundos de inadequação como o
ministério. H á poucas coisas que podem ser um barril tão grande de dúvida
própria quanto o ministério. N o seu ministério existe uma grande tentação de
você ser desviado e prejudicado por seu temor de você mesmo.
Deus encontra Gideão lançando trigo em um lagar porque estava com
medo dos midianitas e saúda esse homem medroso com uma das mais irônicas
saudações na Bíblia: “O Senhor é contigo, homem valente” (Jz 6.12). Gideão
replica essencialmente: “Se o S e n h o r é conosco, por que nos sobreveio tudo
isto?” Deus diz: “Vai nessa tua força e livra Israel da mão dos midianitas”.
Gideão diz: “O Senhor deve estar com o endereço errado. Eu sou da família
mais fraca de Israel e sou a pessoa mais fraca na casa do meu pai. O Senhor não
deve estar me querendo”. E Deus diz: “Eu estarei com você”.
A resposta de Deus ao temor de Gideão é muito útil aqui. Ele não trabalhou
na autoconfiança dele. Ele não trabalhou para ajudar Gideão a ver que ele
trouxe mais para a mesa do que ele havia pensado. Ele não fez isso porque o
problema de Gideão não era, em primeiro lugar, que ele temia suas inadequações.
Não, seu problema era de reverência. Gideão falhava no quesito temer a Deus
no sentido “Deus está comigo e ele é capaz” do que isso significa. Assim, Gideão
ficou aterrorizado com a ideia de levar Israel a algum lugar.
O meu pastorado em Scranton, Pensilvânia, havia sido bem-sucedido em
expor toda a extensão da minha imaturidade e fraqueza e, de forma muito
dolorosa, elas estavam frequentemente expostas ao público. Eu havia me
considerado tão pronto. Eu havia me saído muito bem no seminário e estava
pronto para conquistar o mundo. Mas Deus havia me chamado para um lugar
falido, muito difícil e havia usado esse lugar para me arrancar do meu orgulho
e justiça própria de tal maneira que eu encontrasse minha esperança nele. Eu
estava machucado, desapontado, cansado, oprim ido, irado e um pouco
amargurado. Eu sentia que Deus havia armado um esquema para mim e que as
pessoas haviam me tratado cruelmente e tudo o que eu queria fazer era correr.
Eu tinha uma graduação em Pedagogia e pensei em me mudar para algum
lugar distante e começar uma escola cristã. Eu havia anunciado meu plano de
demissão ao meu conselho. Eles suplicaram que eu não fosse, mas eu estava
determinado. Assim, no domingo seguinte, fiz o anúncio e tive um sentimento
momentâneo de alívio. Bem, minha pequena congregação não ficou aliviada,
por isso tive que conversar com muitas pessoas após o culto. Era muito mais
tarde do que o normal e eu caminhava para a saída, quando fui cumprimentado
pelo homem mais idoso da nossa igreja.
Ele se aproximou de mim e perguntou se podíamos conversar. “Paul”,
disse ele, “nós sabemos que você é um pouco imaturo e precisa crescer. Nós
sabemos que você é um homem com fraquezas, mas onde é que a igreja vai
amadurecer os pastores, se os pastores imaturos saem?” Eu senti como se Deus
tivesse pregado meus sapatos no chão. Eu sabia que ele estava correto, e eu
sabia que eu não podia sair. Nos meses seguintes, comecei a aprender o que
significava ministrar em fraqueza, mas com uma reverência a Deus que me
dava segurança e produzia coragem em mim. Eu ainda estou aprendendo o
que significa estar em tal reverência a ele que não tenho mais medo de mim.

2) MEDO DE OUTROS
A maioria das pessoas a quem você serve o amará, apreciará e o encorajará
como pode, mas nem todos. Alguns o amarão e terão um maravilhoso plano
para a sua vida. Alguns se designarão para serem os críticos da sua pregação e/ou
liderança. Alguns serão leais e apoiadores e alguns farão coisas que minam a sua
liderança pastoral. Alguns se entregarão ao ministério em atos sacrificiais de
serviço e alguns reclamarão sobre a forma como estão sendo servidos. Alguns o
abordarão com candura amável e alguns cederão à tentação de falar nas suas
costas. Alguns se envolverão com prontidão, enquanto outros sempre se
relacionarão com a igreja com uma mentalidade de consumidores. Você se
relacionará com alguns facilmente e, com outros, você achará os relacionamentos
muito mais difíceis.
Devido ao fato de seu ministério sempre ser desempenhado com pessoas
e para pessoas, é vital que as pessoas estejam no local correto do seu coração.
Você não pode permitir que o temor das pessoas o isole das perspectivas dos
outros ou o faça indisposto a delegar tarefas do ministério, nem pode permitir
que o temor de pessoas estabeleça a agenda de tal maneira que controle,
erroneamente, a direção do ministério ao qual Deus o vocacionou. Você não
pode se permitir ministrar de portas fechadas e não pode ser tão sensível às
opiniões dos outros que fique incapaz de liderar.
Devido ao fato de todas as pessoas com as quais e para as quais você
ministra ainda estarem lidando com o pecado, os relacionamentos e o
ministério com elas serão confusos. As pessoas o ferirão e prejudicarão seu
ministério. As pessoas exigirão de você o que não devem exigir e reagirão às
suas iniciativas de maneira como não deveriam reagir. No meio de tudo isso,
pessoas peculiares, aquelas que são influentes e sem papas na língua, parecerão
maiores do que deviam em seus pensamentos e motivos. Elas receberão mais
poder de influenciá-lo e de influenciar a maneira como você desempenha o
seu ministério do que deviam. Em vez de trabalhar para a glória de Deus,
você será tentado a trabalhar para a aprovação delas. Ou, em vez de trabalhar
para a glória de Deus, você trabalhará para desarmá-las ou expô-las. Em
ambos os casos, o seu ministério será corrompido por um antigo temor
humano - o medo de homens.
O poder que o medo de homens tem para desviar ou enganar o ministério
é poderosamente retratado em Gálatas 2.11-14. Pedro não somente comprometeu,
mas abandonou o ministério aos gentios para o qual Deus o havia chamado (veja
Atos 10) porque temia os “da circuncisão”. A crítica de Paulo é que a conduta de
Pedro “não procedia corretamente segundo a verdade do evangelho” e assim ele
confrontou Pedro. Quanto do ministério é distorcido por ações, reações e respostas
que estão enraizadas não no temor do Senhor, mas no medo de homens? Com
que frequência isso compromete a obra do evangelho? Com que frequência isso
leva as pessoas a tropeçarem? Quantas vezes somos tentados a agir de modo que
não está de acordo com o que dizemos que cremos? Quanto da agenda das nossas
igrejas está sendo estabelecido pelo medo dos homens? Com franqueza e
humildade, precisamos continuar fazendo essas perguntas.
Eu queria poder dizer que estou livre desse temor, mas não estou. E você?
Já houve vezes em que eu me peguei pensando, ao preparar um sermão, que
um ponto em particular finalmente conquistaria meus caluniadores. Naquele
momento, minha pregação estava a ponto de ser moldada não pelo meu zelo
pela glória de Deus, mas por minha esperança de que o que eu disse levaria
alguém a, finalmente, ver a minha glória. Entendo que isso é uma guerra
contínua pelo domínio do meu coração para a qual eu recebi graça poderosa e
sempre disponível.

3) TEMOR DAS CIRCUNSTÂNCIAS


Já que você não é o autor da sua própria história e já que você não escreveu
o roteiro do seu próprio ministério, existe uma imprevisibilidade constante
relacionada à vida e ao ministério. Neste mundo do inesperado, você está sempre
vivendo na tensão entre quem Deus é e o que ele prometeu e as coisas inesperadas
que o circundam. Na interseção entre promessa e realidade, você precisa ser
muito cuidadoso para guardar a sua meditação. Você precisa ser muito disciplinado
no que se refere ao que você faz com a sua mente. Permita-me explicar.
Deus havia dito a Abraão que os seus descendentes seriam como a areia
do mar e ele havia construído a sua vida fundamentada nesta promessa. Porém,
a expectativa normal seria que sua esposa, Sara, tivesse filhos cedo e com
frequência. Mas isso não aconteceu. Durante todos os anos férteis de Sara, ela
foi incapaz de conceber. Agora, ela e Abraão estavam velhos, idosos demais
para pensar seriamente que seriam abençoados com o filho prometido. O velho
Abraão agora estava vivendo na tensão entre a promessa de Deus e os fatos das
suas circunstâncias. Quando você está na interseção entre as promessas de Deus
e os detalhes da sua situação, o que você faz com a sua mente é muito importante.
Nessa interseção, Deus nunca pedirá a você para negar a realidade. Abraão não
negou a realidade. Romanos 4 diz que ele “levou em conta a idade avançada de
Sara” (v. 19). A fé não nega a realidade. Não, ela é uma forma focalizada em
Deus de considerar a realidade.
Mas a passagem diz mais a você. Ela diz a você o que Abraão fez com sua
meditação. Ele não investiu em mudar as suas circunstâncias de dentro para fora
e muitas vezes. Não, ele considerou suas circunstâncias, mas meditou em Deus.
E, ao meditar em Deus, na verdade, ele teve a sua fé aumentada, mesmo que
nada em suas circunstâncias houvesse mudado ainda. Para muitas pessoas no
ministério, esperar se torna uma crônica de fé que se enfraquece continuamente
porque meditar nas circunstâncias o levará a reverenciá-las. Elas parecerão cada
vez maiores, você se sentirá cada vez menor e sua visão de Deus ficará nublada.
Mas, se meditar no Senhor, você terá uma admiração maior da sua presença,
poder, fidelidade e graça. A situação parecerá menor e você viverá com confiança
maior apesar de nada ter mudado. As circunstâncias têm capturado a sua
meditação? A sua fé tem se enfraquecido de alguma maneira? O u os olhos do
seu coração têm focalizado em um Deus que é infinitamente maior do que
qualquer coisa que você possa enfrentar?
4) MEDO DO FUTURO
Você sempre vive e ministra com a dificuldade de não saber. Tanto na vida
quanto no ministério, você é chamado para confiar e obedecer, crendo que
Deus guiará e proverá. Você e eu não sabemos o que o próximo momento trará,
muito menos o próximo mês ou ano. A segurança nunca será encontrada em
nossas tentativas de calcular tudo ou de tentar adivinhar a vontade secreta de
Deus. Sua vontade secreta é chamada “vontade secreta” porque é secreta. Porém,
em tudo isso, devido a você ser um ser humano racional, existe um desejo de
conhecer, de imaginar com antecedência. Quanto mais você se concentra no
futuro, mais você dará lugar ao temor quanto ao futuro e mais você ficará
confuso e desmotivado quanto ao aqui e agora.
Não ter conhecimento é difícil. Seria ótimo saber se aquele líder sucumbirá
à tentação de ser divisionista. Seria ótimo saber se as finanças da igreja terão
uma recuperação. Seria muito bom saber como aquela nova série de pregações
será recebida, se aqueles jovens missionários farão todas as adaptações que
precisam fazer ou se você conseguirá as permissões para construir aquele espaço
de culto tão necessário. A verdadeira questão é que achamos difícil lidar com
assuntos do futuro porque achamos difícil confiar em Deus. Aquele em quem
dissemos ter colocado a nossa confiança sabe todas as coisas referentes ao futuro
porque ele controla todos os aspectos dele. Nosso temor quanto ao futuro expõe
a luta que travamos em confiar nele e, confiando nele, em descansar em sua
orientação e cuidado mesmo não sabendo realmente o que vem a seguir.
O temor a Deus realmente é a única maneira de ficar livre do temor do que
vem a seguir. Quando a minha confiança em Deus é maior do que o meu medo
do desconhecido, sou capaz de descansar, mesmo não fazendo a menor ideia
do que encontrarei na esquina. Pastor, você carrega o futuro em seus ombros,
com todos os seus questionamentos e preocupações? O u você se oferece para o
trabalho do presente, deixando o que vem a seguir nas potentes mãos de Deus?
Em que medida você é assombrado pelos “e se”? Você recebe o desconhecido
com expectativa ou horror? A presença e as promessas de Deus aquietam as
suas dúvidas irrespondíveis acerca do futuro?

ASSIM, PARA ONDE VAMOS?


Temor é uma batalha diária que todas as pessoas envolvidas no ministério
são chamadas para lutar. Devido a todos nós, em momentos específicos, termos
a tendência de sofrer de amnésia de Deus, devido a vivermos em um mundo
caído e devido a não escrevermos nossa própria história, sermos dominados
pelo medo sempre é um perigo claro e presente. Existem momentos em que
todos nós ficamos presos. De alguma forma, todos nós nos desviamos. Existem
situações em que a preocupação dá forma ao ministério de modo mais poderoso
do que a fé. H á vezes em que o pavor é mais poderoso do que a confiança. Há
momentos em que todos nós somos subjugados por nossas fraquezas ou
dominados pelas circunstâncias. Há momentos em que o temor leva todos nós
a sermos muito controladores. Existem vezes em que o temor leva todos nós a
fazermos coisas que não deveríamos fazer ou nos impede de fazer o que fomos
chamados a fazer. Assim, é vital perguntar: “O que devemos fazer sobre o medo?”
Deixe-me sugerir quatro coisas.

1) RECONHEÇA HUMILDEMENTE OS SEUSTEMORES


O temor nunca é vencido pela negação de sua existência. Eu sei que é
difícil para aqueles chamados para serem pessoas de fé e a liderarem outros
para a fé terem de admitir que fazem coisas como resultado direto de falta de
fé. Reconheça o seu temor e corra para o único que é capaz de derrotá-lo.
Confesse que você não se lembra sempre da sua presença e da sua glória. Confesse
aqueles momentos em que você avalia as situações como se ele não existisse.
Reconheça o fato de que você frequentemente ama o seu conforto mais do que
ama a sua glória. Confesse que há momentos em que você tem maior admiração
pelas pessoas do que por ele. E, ao confessar, descanse na certeza da sua aceitação,
perdão, capacitação e livramento. A sua graça garante um dia em que o temor
não existirá mais.

2) CONFESSE AQUELAS SITUAÇÕES EM QUE 0 TEMOR PRODUZIU


DECISÕES RUINS E REAÇÕES ERRADAS
Admita aquelas situações de fingimento, favoritismo e concessão que
resultaram de permitir que o temor horizontal substituísse a reverência vertical.
Confesse as situações em que você não viveu com coragem o evangelho no qual
você diz acreditar. Confesse às pessoas com quem, em temor, você pecou por
silêncio, tagarelice, controle, deslealdade, idolatria, etc. E peça a Deus para
dar a você olhos para enxergar as circunstâncias nas quais você se torna susceptível
ao temor e precisa crescer na fé.

3) PRESTE ATENÇÃO À SUA MEDITAÇÃO


No ministério da igreja local há muitas obrigações difíceis que podem
capturar a sua mente. Existem muitas coisas com as quais você pode se
preocupar. Existem m uitos relacionam entos confusos, conversas não
terminadas, pecados não arrependidos, atividades não realizadas e conclusões
não conhecidas. No ministério, de maneiras intensamente práticas, você está
vivendo sempre entre o já e o ainda não. Desta forma, é vital estar sempre
cônscio do que está prendendo a sua reflexão. O que segura os seus
pensamentos quando você está dirigindo ou quando você tem uns poucos
momentos de quietude? Você vive o paradigma de Abraão, não negando a
existência de problemas, mas proibindo que os problemas dom inem e
controlem a sua meditação? Deus parece tão grande em seus pensamentos
que você cresce na fé, mesmo em meio ao que é inesperado e difícil?

4) PREGUE 0 EVANGELHO PARA SI MESMO


Devido ao fato de haver muitos momentos em que ninguém sabe o que
você está pensando e, portanto, não pode interromper a sua conversa particular,
você precisa se comprometer em pregar o evangelho para si mesmo. Você precisa
pregar um evangelho que encontra sua esperança não em seu entendimento e
habilidade, mas em um Deus que é grande e glorioso em todos os aspectos e
que encheu sua vida e seu ministério com a sua graça. Você precisa pregar para
si próprio um evangelho que não encontre sua base na sua habilidade de acertar,
mas na justiça de Jesus Cristo. Você precisa pregar para si mesmo um evangelho
que não obtenha sua motivação no sucesso, respeito e aclamação humanos,
mas na graça abundante, que você nunca poderia ter merecido. Você necessita
dizer a si mesmo, vez após vez, que não existe um abismo de vida ou de
ministério tão profundo que Jesus não seja mais profundo. Você precisa se
convidar a descansar e ter fé, quando ninguém mais sabe que você precisa de
um sermão particular.
♦ ♦ ♦
Que a graça o leve a ter um ministério que seja moldado pela fé viva e não
por uma longa lista de temores que saúda a cada um de nós deste lado do nosso
lar final.
Capítulo 10
MEDIOCRIDADE
Ele saiu apressadamente ao final da reunião de almoço pós-conferência
com os líderes de sua igreja. Eram cerca de I4h30 e ele estava afobado para sair
porque seu sermão do dia seguinte estava em sua mente. Ele me disse que
tinha algumas contas a pagar e, em seguida, jantaria com sua família, e, então,
em algum momento da noite, se trancaria no escritório de sua casa e tentaria
colocar as ideias em ordem, compondo a mensagem do dia seguinte. Não im­
portava o que acontecesse no resto daquele dia, não importava quanto tempo
ele, na verdade, pudesse dedicar ao seu sermão, não importava quão bem sua
preparação acontecesse e não importava quão preparado ele se sentisse para
lidar com o texto diante de si, ele se levantaria no dia seguinte e diria algo.
Eu fiquei imaginando quantos pastores estão na mesma situação e têm
desenvolvido os mesmos hábitos ministeriais. Fiquei imaginando quantos jun­
tam algumas ideias no último minuto e quantos sermões não recebem o tempo
necessário para comunicar o que precisa ser comunicado. Eu fiquei imaginan­
do quantas igrejas ao redor do mundo estão, simples e abertamente, sendo
escassamente alimentadas por pastores despreparados. Eu fiquei imaginando
quantos sermões acabam sendo repetições de declarações de comentários favo­
ritos ou um pouco mais do que discursos teológicos transmitidos de forma
impessoal e pobre.
Eu não preciso imaginar mais. Tendo falado em literalmente centenas de
igrejas ao redor do mundo, tenho observado esse cenário de sermão de sábado
à tarde muitas e muitas vezes. Isso me deixa ao mesmo tempo triste e irado.
Não é de se admirar que as pessoas tenham falta empolgação com o evangelho.
Não é de se admirar que elas não aguardem os domingos com empolgação.
Não é de se admirar que elas deixem de crer no que a Bíblia diz para o drama
das suas lutas diárias. Não é de se admirar que elas deixem de pensar que seu
pastor possa estar relacionado com o modo como vivem ou com as questões que
tendem a assombrá-las. Não é de se admirar que tantas pessoas em tantos
bancos de igrejas se assentem lá com sua mente voando e coração desimpedido.
Não é de se admirar que elas achem difícil empurrar os problemas da próxima
semana ou as tarefas do dia seguinte para fora de sua mente ao se sentarem lá
nas manhãs de domingos.
Estou muito preocupado com a aceitação da mediocridade das manhãs
de domingos e estou persuadido de que isso não é, principalmente, um pro­
blema de administração do tempo ou de preguiça. Estou convencido de que
seja um problema teológico. Veja, os padrões que você estabelece para si mes­
mo e para o seu ministério estão diretamente relacionados com a sua visão de
Deus. Se você está alimentando a sua alma todos os dias com a graça e a glória
de Deus, se você está em reverência adoradora de sua sabedoria e poder, se você
está espiritualmente estupefato com sua fidelidade e amor e se você é motivado
diariamente por sua presença e promessas, então você deseja fazer tudo o que
puder para capturar e demonstrar essa glória para as pessoas que Deus colocou
ao seu cuidado. Como pastor, é seu trabalho transmitir essa glória para a pró­
xima geração, e é impossível você fazer isso se não estiver sendo, você mesmo,
tomado pelo temor à glória de Deus.
Ora, há muita coisa em risco aqui. Você pode argumentar que todo culto é
pouco mais do que uma guerra de glórias. A grande questão do ajuntamento é: os
corações deste grupo de pessoas será capturado pela única glória que é verdadei­
ramente gloriosa ou pelas sombras de glórias do mundo criado? Como pastor,
desejo fazer tudo o que posso para ser usado por Deus para capturar o coração
daqueles agrupados pela glória resgatadora da graça de Deus, pela glória doadora
de compreensão da sabedoria de Deus, pela glória doadora de esperança do seu
amor, pela glória habilitadora da sua presença, pela glória doadora de descanso
da sua soberania e pela glória salvadora do seu Filho. Mas eu sei que isso é uma
batalha. Estou falando para pessoas cujo coração é inconstante e facilmente dis­
traído. Sei que estou falando para pessoas que são seduzidas por outras glórias.
Sei que estou falando para pessoas que vivem na luz da glória de Deus todos os dias
e, mesmo assim, são capazes de ser funcionalmente cegas para o seu esplendor.
Sei que estou me dirigindo à moça solteira que colocou o seu coração na
afeição de certo rapaz que ela pensa que lhe conferirá a felicidade pela qual anseia.
Assentado diante de mim está o adolescente que não consegue pensar além das
glórias do Facebook, Twitter e o vídeo game Portal2. Na igreja está o homem de
meia idade cujo coração está preso pela glória de recapturar sua juventude de
alguma forma. Uma esposa está- assentada lá, imaginando se algum dia terá a
experiência da glória do tipo de casamento a respeito do qual ela sonhou, o
tipo que ela sabe que outros têm. Um homem está assentado no meio da mul­
tidão sabendo que alimenta sua alma quase diariamente com as glórias negras
e distorcidas da pornografia e tem se tornado um mestre em mudar suas sintonias
espirituais. Alguns ouvintes estão mais empolgados com uma nova roupa, nova
casa, carro novo, nova arma, um gramado renovado no jardim, a abertura de
um novo restaurante, um novo local para as férias ou aquela nova promoção do
que com as boas-novas do evangelho de Jesus Cristo.
Daqueles que se reuniram para cultuar, existem aqueles distraídos pelo
sofrimento, ira, desânimo, solidão, inveja, frustração, desespero ou falta de
esperança, porque as glórias para as quais eles têm olhado esperando significado,
propósito e felicidade íntima fracassaram com eles novamente. Essas glórias pro­
varam ser mais temporárias do que eles jamais pensaram que seriam. Elas se
tornaram mais ilusórias do que pareciam à distância. Elas estouraram diante
dos seus olhos ou passaram entre os seus dedos como areia. E até mesmo quan­
do eram maravilhosas para experimentar, na verdade elas não deixaram seus
corações satisfeitos. A euforia era curta e a satisfação, ilusória. Assim, eles se
sentam lá vazios, feridos, irados e confusos.
Eles vêm para o culto no meio de uma guerra que provavelmente não
reconhecem. É uma guerra pela fidelidade, a adoração, do seu coração. De
maneiras provavelmente alheias ao seu entendimento, eles têm pedido à criação,
repetidas vezes, para dar-lhes o que somente o Criador pode prover. Eles têm
procurado horizontalmente diversas vezes o que pode ser encontrado somente
verticalmente. Eles têm pedido a pessoas, situações, locais e experiências para
serem a única coisa que nunca serão: o seu salvador. Eles têm pedido a essas coisas
para curar os seus corações partidos. Eles têm esperado que essas coisas os façam
pessoas melhores. Assim, uma guerra assola e soldados feridos se sentam diante
de você. É uma guerra de glórias, uma batalha por qual glória dominará o seu
coração e, ao fazê-lo, controlará suas escolhas, palavras e comportamentos.
Juntamente com isso, realmente existe um inimigo que fará qualquer coi­
sa que puder com mentiras, sedução, distração e engano para impedir o meu
coração de focalizar na glória para a qual fui criado para viver, a glória de Deus.
Assim, é um chamado sublime e santo pisar no meio desta guerra de glórias
comissionado para ser uma das ferramentas principais de Deus para recapturar
os corações errantes de soldados amedrontados e exaustos com a batalha.
Para outros, seguir este Deus de glória tem parecido ser qualquer coisa,
menos glorioso. Eles estavam esperando alegria e bênção e o que obtiveram foi
dor, tristeza e provações. Eles descobriram que era cada vez mais difícil crer
naquelas gloriosas verdades de que Deus está perto, que ele ouve, que ele se
importa, que ele é fiel, que ele é sábio, que ele exercita seu poder para o bem
dos seus filhos e que ele é amável, bom, gracioso e paciente. Eles sentem que
foram abandonados. Eles sentem que estão sendo punidos. Eles estão sendo ten­
tados a concluir que o que aprenderam ser verdade não é verdade realmente. Eles
ficam imaginando por que foram escolhidos dentre tantos para o sofrimento que
outros não parecem estar passando. Eles imaginam por que oram e nada parece
acontecer. Eles deixaram de ler as suas Bíblias porque parece que não ajuda e
julgam que as músicas de domingo parecem descrever uma realidade muito dife­
rente da que estão vivendo. Eles deixaram de pedir orações pelas mesmas coisas
repetidas vezes em seus pequenos grupos porque esses pedidos fazem com que
eles se assemelhem a derrotados. Eles sentem que a glória que foi colocada diante
deles os iludiu completamente e eles não sabem o que fazer a esse respeito.
Assim, sem estarem cônscios disso, começaram a oferecer seu coração a outras
glórias, esperando que, de alguma forma, a satisfação seja encontrada.
Pastor, você foi vocacionado para ser um embaixador de glória para esses
abatidos. Você foi vocacionado para resgatar aqueles que estão desanimados e
confusos. Você foi vocacionado para representar Aquele que é glória a pessoas
que, por meio de sofrimento e desapontamento, se tornaram céticas da glória.
Você foi vocacionado para ser a voz de Deus para persuadi-los a voltar. Você foi
colocado na vida delas como um meio divino de resgate, cura e restauração.
Você foi vocacionado para falar na confusão com a clareza e autoridade do
evangelho. Você foi vocacionado para dar esperança segura de glória àqueles
que se tornaram desesperançados. Você foi vocacionado para falar verdades
libertadoras àqueles que se tornaram enganados. Você foi vocacionado para
suplicar a filhos desleais que se reconciliem novamente com o seu Pai celestial.
Você foi vocacionado para dar motivação gloriosa àqueles que desistiram. Você
foi vocacionado para resplandecer a luz da glória de Deus aos corações que
foram enegrecidos por procurarem vida em todos os lugares errados. Você foi
vocacionado para oferecer àqueles que estão vazios e subnutridos as glórias da
graça que trazem saciedade. Você foi vocacionado para representar um Rei
glorioso que, sozinho, é capaz de resgatar, curar, redimir, transformar, perdoar,
livrar e satisfazer. Você foi vocacionado.

GLÓRIA DE DEUS, NOSSA EXCELÊNCIA


Se o seu coração está em reverência funcional da glória de Deus, então
não haverá lugar em seu coração para a mediocridade pastoral funcional, escas­
samente preparada e mal transmitida. Permita-me explicar. Penso que todos
nós devemos ficar chocados com o nível de mediocridade que toleramos na
vida e no ministério da igreja local. Não, não estou falando sobre dar espaço
para as pessoas crescerem e amadurecerem sem esmagá-las com críticas no pro­
cesso. Estou falando sobre aquelas situações em que os nossos padrões são sim­
plesmente baixos demais, situações nas quais devíamos e podíamos fazer mui­
to, muito melhor. E eu estou convencido de que, se a reverência a Deus não
reinar no nosso coração, então essa reverência não moldará a nossa preparação
nem a transmissão das coisas que Deus nos vocacionou para fazer no ministério.
A mediocridade não é um problema de tempo, pessoal, recurso ou
localização. Mediocridade é um problema do coração. Perdemos o nosso
compromisso com os níveis mais elevados de excelência porque perdemos a nossa
reverência. A amnésia da reverência é a porta aberta que admite a mediocridade.
A reverência a Deus é produtora de temor, inspiradora, motivadora,
condenatória e produtora de compromisso. Não existe um substituto para isso
na liderança da igreja de Jesus Cristo. A reverência nos protege de nós ao pedir
mais de nós do que pediríamos a nós mesmos. A reverência nos lembra de que
o mundo não gira ao nosso redor e assim, impede-nos de sair da posição de
sentinela quando for conveniente.
A reverência o faz lembrar que Deus é tão glorioso que é impossível para
você, como seu embaixador, ter padrões ministeriais que sejam altos demais.
Não estou falando sobre edifícios esbanjadores e mobiliados com móveis
caríssimos. Não, eu estou falando sobre um compromisso firme de fazer tudo
o que você puder para demonstrar a glória da sua presença e graça tão poderosa
e claramente quanto puder todas as vezes em que o seu povo estiver reunido.
Você está com tal reverência à sua graça e foi tão satisfeito por ela que tem zelo
para demonstrar essa graça àqueles que estão sob o seu cuidado, um zelo que
você não consegue de outra forma. Você nunca está somente fazendo a sua
tarefa. Você nunca está apenas funcionando à manivela. Você nunca está apenas
indo com a corrente. Você nunca está apenas fingindo que está tudo bem. Você
está adorando durante tudo o que está fazendo naquele momento como
embaixador de um Rei expansivamente glorioso. E você está em temor reverente
de fazer qualquer coisa que cause dano, diminua ou profane aquela glória de
alguma forma. Como pastor, você é uma ferramenta capturada pela glória para
a captura de outros.
É aqui, novamente, que somos confrontados com o fato de que nossos
ministérios não são moldados apenas pelo conhecimento, pela experiência e
habilidade, mas pela verdadeira condição do nosso coração. A excelência no
ministério flui de um coração que está em admiração santa, reverente, adaptadora
de vida e capturadora de reverência do Senhor da glória. Na verdade, é até mais
profundo do que isso. Excelência é, na verdade, um relacionamento. Existe
apenas um que é verdadeira e perfeitamente excelente. Somente ele é a soma e
a definição do que a excelência é e faz. Assim, Aquele que é excelência, em sua
graça, veio a você quando você estava em um estado de qualquer coisa, menos
excelência e, pela graça, ofereceu a você a promessa de se tornar um participante
da sua natureza divina. Depois, então, ele conectou você a propósitos e alvos
muito mais elevados, muito maiores e mais gloriosos do que você procuraria
para si mesmo. Pela graça, ele o levou a pensar o que você não pensaria e a
desejar o que você nunca desejaria antes. Ele abriu os seus olhos para a sua
glória. Ele abriu a porta para o seu reino. A sua esperança de algum dia ser
excelente aos seus olhos e fazer o que é excelente à sua vista se cumpre no seu
relacionamento com ele e na sua graça, que não somente perdoa e aceita, mas
transforma radicalmente. E ele o chama e capacita para manifestar sua excelência
e a excelência da sua graça. É apenas essa excelência que tem o poder de nos
libertar da falsa excelência do orgulho humano e da mediocridade que resulta
quando nos satisfazemos conosco mesmos e com o nosso mundo da maneira
como estamos.
É quando estou, somente pela graça, em profunda admiração da realidade
de que eu fui vinculado ao que é verdadeiramente excelente de todas as maneiras
que desejo ser um embaixador dessa excelência. Eu quero que outros experimentem
a graça excelente que está me libertando de mim e pode libertá-los também.
Quando isso é verdade, eu me torno comprometido com a manifestação da
glória dessa excelência em todos os modos possíveis no âmbito do meu
ministério. Isso significa que terei mais sobriedade ao considerar a minha vocação
para ser o embaixador do Deus de tal glória e terei reverência pelo fato de ser
chamado para expor sua graça. Assim, terei altos padrões para todos os aspectos
do ministério que está sob os meus cuidados. Sejam ministérios com crianças
ou jovens, ministério feminino, pequenos grupos ou evangelização, sejam
treinamentos para a liderança ou missões de curto prazo, adoração pública ou
pregação, desejarei que cada ministério da igreja seja feito em excelência para
que eles manifestem fielmente a excelência daquele que chama das trevas para a
sua maravilhosa luz.
Isso significa que assumiremos compromisso com as disciplinas que levam
esses ministérios a serem tão livres do caos e da mediocridade quanto possível
entre o já e o ainda não. Primeiramente, devemos assumir o compromisso de
pregar o evangelho para nós mesmos, lembrando-nos da nossa contínua
necessidade de sermos resgatados de nós e dos baixos padrões aos quais o pecado
nos atrai. Nós nos lembramos constantemente de como somos tentados a valorizar
o que é conveniente e confortável em vez do que é excelente aos olhos de Deus.
E dizemos a nós mesmos, vez após vez, que, para essas batalhas, recebemos
graça abundante e imediata, para aqui e agora.
Isso também significa que faremos tudo para manter os relacionamentos
de unidade, compreensão e amor entre nós. Sabemos que somos pecadores.
Sabemos que pecaremos uns contra os outros. Sabemos que há momentos em
que seremos desapontados e feridos. Sabemos que seremos mal entendidos e
julgados erroneamente. Sabemos que seremos egoístas e controladores, exigentes
e praticantes da justiça própria. Sabemos que pediremos uns aos outros para
nos dar o que já recebemos em Cristo. Desta maneira, determinamo-nos a dar
a nós mesmos a humildade da afabilidade e a coragem de amar a honestidade.
Assumiremos o compromisso de ter padrões regulares de confissão e perdão e
celebraremos, juntos, a graça que capacita pecadores a viver e ministrar
juntamente com pecadores em uma comunidade de unidade e amor.
E nos comprometeremos com a disciplina da preparação adequada, que
nos capacita a fazer bem feito o que fomos vocacionados a fazer. Você não pode
ter um ministério que seja comprometido com a excelência diplomática se
essas coisas (disciplinas) não fizerem parte normal da sua comunidade. Se você
se esquecer de quem é, o seu ministério será moldado por uma presunção que
diz respeito mais a expor quão brilhante você é do que quão glorioso o Salvador
é, o Salvador que ainda o sustenta em sua fraqueza. Se você não assumir um
compromisso com a amável comunidade evangélica, você desempenhará seu
ministério com frustração e desânimo, demonstrando a glória de Deus de forma
abstrata, não com vitalidade realista e transformadora de vida. E se você não
estiver comprometido com a disciplina da preparação, você oferecerá uma
liderança desorganizada a pessoas com visão limitada, a qual se tornará mais
uma distração à habilidade delas de ver Deus por quem ele é e colocar a esperança
delas nele do que uma intensificação dessa habilidade.

A PREGAÇÃO E O DEUS QUE É EXCELENTE

Desejo examinar um aspecto na igreja de Jesus Cristo no qual creio existir


mediocridade demais - a pregação. Desejo falar sobre pregação. Devido ao que
Deus me chamou para fazer, tenho a oportunidade de estar em diversas igrejas
ao redor do mundo. A cada ano, cerca de quarenta finais de semana eu passo
com alguma parte do corpo de Cristo em algum lugar do mundo. Grande
parte das vezes, não consigo voltar para casa no sábado e, então, participo do
culto público da congregação local (quando não está marcado para eu pregar).
Provavelmente, o que estou para dizer me deixará em apuros, mas estou con­
vencido de que precisa ser dito. Estou entristecido e aflito por dizer isso, mas
estou cansado de ouvir preleções teológicas enfadonhas e inadequadamente
preparadas, lidas por pregadores não piedosos como manuscritos que não ins­
pirarão ninguém - tudo isso feito em nome da pregação bíblica. Se você exami­
nar todo o processo, de certo modo ela não é bíblica nem pregação! Nestes
momentos, não me surpreendo de a mente das pessoas voar. Não me surpreen­
do de que as pessoas estejam lutando para se manterem atentas e acordadas.
Fico surpreso de que não haja mais pessoas assim. Elas estão sendo ensinadas
por aquele que não trouxe as armas apropriadas ao púlpito para lutar por elas e
com elas a batalha espiritual que cada momento da pregação na verdade é.
Pregação é mais do que a regurgitação do seu comentário exegético favorito,
ou uma reformulação bem transparente dos sermões dos seus pregadores
favoritos, ou uma remodelação das observações de uma das suas matérias favoritas
do seminário. É trazer as verdades transformadoras do evangelho de Jesus Cristo
a partir de uma passagem que foi compreendida adequadamente, aplicada
convincente e praticamente e transmitida com a brandura e a paixão sedutoras
de uma pessoa que foi arruinada e restaurada pelas próprias verdades que se
levanta para comunicar. Você simplesmente não pode fazer isso sem preparação,
meditação, confissão e adoração adequadas.
Simplesmente não há como começar a pensar sobre uma passagem pela
primeira vez na tarde ou noite de sábado e dar a ela o tipo de atenção que ela
necessita de tal maneira que você entenda e tenha sido pessoalmente impactado
por ela e esteja preparado para transm iti-la a outros de forma que seja
compreensível e consumível e contribua para a transformação contínua deles.
Como pastores, precisamos lutar pela santidade da pregação, ou ninguém mais
o fará. Precisamos exigir que recebamos, na descrição das nossas atividades, o
tempo necessário para nos preparar bem. Precisamos esculpir tempo em nossa
agenda para fazer o que for necessário para que cada um de nós, dados os
nossos dons e nossa maturidade, estejamos prontos para ser arautos do nosso
Rei Salvador. Não podemos nos tornar acomodados com padrões que denigram
a pregação e degradem nossa habilidade de representar bem um Deus glorioso,
de graça gloriosa. Não podemos permitir a nós mesmos ser ocupados demais
e distraídos demais. Não podemos estabelecer baixos padrões para nós mesmos
e para aqueles a quem servimos. Não podemos ser acomodados nem ter o
hábito de nos desculpar. Não podemos permitir a nós mesmos tentar apertar
uma preparação avaliada em 1.000 dólares em momentos de centavos.
Devemos nos determinar a fazer tudo o que pudermos para entrar bem
preparados em cada momento da pregação. Devemos não perder de vista
Aquele excelente que fomos chamados para representar e a sua excelente graça.
Não podemos deixar seu esplendor parecer maçante e sua graça maravilhosa,
comum, por estarmos despreparados.
A cultura e a disciplina que cercam nossa pregação sempre revelam o
verdadeiro caráter do nosso próprio coração. É exatamente aqui que a confissão
e o arrependimento precisam acontecer. Não podemos nos permitir culpar as
descrições dos nossos trabalhos ou o excesso de ocupações. Não podemos
permitir a nós mesmos apontar o dedo para coisas inesperadas que aparecem
na agenda de todo pastor. Não podemos nos permitir culpar as exigências da
nossa família. Precisamos confessar humildemente que a nossa pregação é
medíocre, não se elevando ao padrão ao qual fomos chamados e, assim, que o
problema somos nós. O problema é que perdemos a nossa reverência e, ao
perder nossa reverência, estamos acomodados demais com a representação da
excelência de Deus de uma maneira que é tudo, menos excelente. A mediocridade
no ministério, em qualquer forma, é sempre uma questão do coração. Se isso o
descreve, então corra para o seu Salvador em confissão humilde e abrace a
graça que tem o poder de resgatá-lo de si mesmo e, ao fazê-lo, dar-lhe sua
reverência de volta.
É importante entender as duas partes essenciais da pregação efetiva e
como cada uma requer sua própria disciplina de preparação. Primeiramente,
há a parte do conteúdo da pregação. Pregação tem tudo a ver com a exegese e
compreensão precisas das verdades do evangelho do modo como são expostas
em uma passagem específica da Escritura. Não posso apressar esse aspecto da
minha preparação. Não posso abandonar a disciplina do conteúdo antes de ter
compreendido o propósito do conteúdo da passagem diante de mim. E devo
entender que, se for incapaz de aplicar de maneira prática as verdades da passagem
à minha vida e àqueles para quem pregarei, então ainda não compreendi
com pletam ente a passagem. O processo exegético não term ina com o
entendimento, termina com a aplicação. A pregação não é apenas sobre “isso é
o que isso significa”, é também sobre “isso é o que significa viver à luz do que
isso significa”.
A minha experiência é que a exegese que termina com a habilidade do
pastor de aplicar o que ele aprendeu da passagem que tem diante de si não é
um acontecimento, mas um processo. É necessário que eu viva com uma
passagem, que a carregue comigo e sacie minha alma com suas águas nutritivas
e que saciam a sede. Eu simplesmente não posso fazer isso em umas poucas
horas. Preciso de tempo de meditação com a passagem, de tal maneira que o
Espírito possa trabalhar em mim através dela e através de mim para as pessoas
sob meu ministério. Estou para deixar alguns de vocês irritados, mas vou dizer.
Se você estiver desenvolvendo um conteúdo original tarde da noite no sábado,
você não deve pregá-lo no domingo. E improvável que você tenha compreendido
o alcance todo das glórias da verdade radical da passagem, é duvidoso que elas
tenham tido tempo de confrontar o seu próprio coração e é improvável que
você tenha desenvolvido muita prontidão para comunicá-las de modo cativante
e prático aos seus ouvintes.
Tão tarde da noite você decidirá ter uma visão superficial da passagem e
chamá-la de sermão; você fará pirataria do trabalho de outros, mesmo que não
saiba que está fazendo isso, e terá pouca habilidade para retratar bem a
confrontação e o encorajamento radicais do evangelho de Jesus Cristo. Devido
a você não ter reservado o tempo necessário, você pregará coisas teológicas,
partes doutrinárias despersonalizadas que estão desassociadas do evangelho da
graça. Você comunicará ideias, mas não pregará poderosamente um Cristo
glorioso, que está poderosamente presente em toda passagem que você possa
ser chamado para pregar. Você se habituará a oferecer às pessoas um sistema de
redenção (teologia e regras), mas você não os ajudará a encontrar sua esperança
e auxílio em um redentor. Assim, seus ouvintes pensarão que estão crescendo
em maturidade porque estão crescendo em compreensão teológica, mas sua
pregação não os induzirá a deixar de focalizar em si mesmos e focalizar a cruz
de Jesus Cristo. Devemos sempre, sempre nos lembrar de que a teologia da
Palavra de Deus não é um fim em si mesmo, mas um meio com uma finalidade,
e essa finalidade é uma vida radicalmente transformada pela graça.
Mas existe um segundo aspecto essencial da pregação. Pregação não é
apenas uma perícia no conteúdo; ela é também uma arte da comunicação. Você
deve meditar, orar, lidar, lutar e trabalhar na forma como comunicar as verdades
que você veio a compreender às pessoas específicas que estão aos seus cuidados.
Estou persuadido de que temos desvalorizado o aspecto comunicação da pregação
poderosa, efetiva e transformadora de vidas do evangelho. Não estou falando
da sua tentativa de ser um John Piper ou um Tim Keller. Não, estou falando
sobre o seu compromisso de fazer tudo o que puder para explicar e aplicar
atraente e convincentemente as verdades gloriosas que você interpretou quando
se incumbiu da disciplina necessária do conteúdo. Você não tem qualquer
tempo para desenvolver o aspecto da comunicação do seu sermão - pensar
sobre uma guinada útil de uma frase, uma ilustração pessoal que traga luz ao
que está sendo tratado ou um ponto prático de aplicação do evangelho - se o
processo não tiver começado antes de sábado. Você está aliviado por ter
conseguido analisar o conteúdo, porque já tem alguma coisa para dizer quando
chegar a hora de se levantar e pregar. Mas você não conseguirá falar bem, você
não desenvolverá imagens que transmitam ensinamentos com suas palavras,
você não terá aquele momento terno de honestidade autorreveladora, você não
fará aplicações específicas à cultura na qual seu povo vive, você não mostrará ao
seu povo que toda verdade revelada na passagem é um dedo que aponta para
Cristo e você não deixará as pessoas com fome de mais. Você subiu para o
púlpito com um saco de conteúdo, mas esse conteúdo ainda não havia sido
transformado em um sermão.
Penso a respeito do relacionamento entre esses dois aspectos da pregação
em grande parte como penso sobre cozinhar. Eu amo cozinhar, então sou eu
quem faz as refeições da família nas festas de Ações de Graças e no Natal.
Agora, se você se propõe a oferecer à sua família uma refeição maravilhosa,
memorável, tudo começa com a obtenção de bons ingredientes. Se você não
tirar o tempo para procurar os melhores ingredientes disponíveis, você nunca
terá aquela boa refeição dos seus sonhos. A obtenção dos melhores ingredientes
é análoga à parte conteúdo da pregação. A boa pregação está enraizada na obtenção
de bons ingredientes do evangelho a partir da passagem que você tem diante
de si. Mas, no Dia de Ação de Graças, eu não coloco os ingredientes sobre a
mesa. Os ingredientes são a substância da refeição, mas não são a refeição. Eles
precisam ser transformados em elementos atraentes, saborosos, nutritivos e
consumíveis, que, juntos, formam uma refeição. Um tablete de manteiga e um
punhado de farinha acompanhados de uma colher de fubá não são muito
apetitosos nem digestivos, mas um pão de milho é maravilhoso. O melhor de
todos os perus colocado cru sobre a mesa não seria atraente nem comestível.
A transformação dos ingredientes de ótim a qualidade em uma refeição
maravilhosa é semelhante ao aspecto comunicação da pregação.
Temo que muitos pregadores por aí tenham adquirido o triste hábito de
colocar os ingredientes sobre a mesa. Eles podem ser bons ingredientes, mas,
infelizmente, não foram transformados em refeição e, assim, não são atraentes
nem consumíveis. Se cada pessoa que eu alimento fosse um chef, eu poderia
colocar os ingredientes sobre a mesa para que eles pudessem transformá-los em
refeições, mas eles não são. E se todos a quem você está pregando fossem
pregadores/pastores, você poderia colocar ingredientes do evangelho sobre a
mesa para que eles pudessem transformá-los em refeições, mas eles não são.
Não, eu não estou negligenciando o poder do Espírito Santo de capturar,
convencer e mudar pessoas por sua Palavra. Não há nem um momento sequer
na pregação em que não sejamos totalmente dependentes dele, e nunca somos
chamados para fazer seu trabalho. Mas o Espírito Santo nos comissionou para
sermos seus instrumentos, e o nosso trabalho é fazer tudo o que pudermos para
sermos instrumentos afiados em suas mãos redentoras.
Eu lhe direi o que isso significa para mim. Significa que não posso ter um
encontro recente com as verdades de uma porção particular da Escritura que
estou para comunicar na semana em que elas devem ser pregadas. Uma semana
não me dá tempo de conteúdo e comunicação suficiente. Trabalho com
antecedência para me preparar para pregar onde quer que eu seja chamado.
Isso significa que, quando preparo o conteúdo de uma mensagem, esta é a
mensagem que pregarei por três ou quatro semanas. Isso me dá tempo para
que as verdades “fiquem de molho” em meu próprio coração e se tornem mais
profunda e praticamente compreendidas. Na semana em que o sermão deve
ser pregado, eu o prego em voz alta para mim mesmo quinze ou vinte vezes.
Ao fazer isso, tanto o meu entendimento da passagem quanto as maneiras
criativas como ela pode ser comunicada se aprofundam e desenvolvem.
Porém, não estou sugerindo que esse regime de preparação seja o correto
para você, mas estou sugerindo que não podemos ficar satisfeitos com meandros
exegéticos mal preparados, comunicados por um pastor que não enxerga sua
própria mediocridade porque o seu coração precisa ser recapturado pela
admiração à glória e graça de Deus. A presença de Deus em nossa pregação e
sua graça, que nos assiste em nossa fraqueza, nos assegura de que podemos
fazer melhor.
Pastor, você está sofrendo de uma amnésia de reverência que permite que
você estabeleça padrões muito mais baixos do que os exigidos se você quiser
levar a sua vocação representativa a sério? A amnésia de reverência permitiu que
você se tornasse confortável com a mediocridade no ministério, que é uma
contradição funcional com as glórias que você proclama? Se a resposta for sim,
não se afunde em vergonha; não se esconda devido à culpa. Corra para o seu
Redentor. Desfrute da sua gloriosa graça. Procure o perdão e a capacitação que
somente ele pode dar. E comprometa-se, por sua graça, com as disciplinas de
excelência que somente acontecerão quando ele o resgatar de você mesmo e lhe
restituir sua reverência.
Capítulo 11
ENTRE O JÁ E O AINDA NÃO
Eu não tinha consciência do meu orgulho. Talvez a maioria das pessoas
orgulhosas não esteja consciente de quão orgulhosas elas realmente são. Mas eu
sentia que havia me tornado célebre. Hoje, pensar nisso me deixa chocado e
constrangido, mas eu me considerava um graduado na graça. Eu não ministra­
va com base nas minhas próprias necessidades. Eu havia me saído muito bem
no seminário. Havia começado uma igreja num lugar muito difícil e fundado
uma escola cristã que crescia rapidamente (tanto a igreja quanto a escola eu havia
fundado juntamente com outras pessoas, mas eu não analisava desta maneira).
Eu recebia convites para falar em vários lugares. Atualmente, é difícil imaginar
isso, mas eu pensava que havia me tornado célebre espiritualmente. Eu tinha
uma confiança própria amedrontadora. Frequentemente eu olhava para as pes­
soas a quem estava ministrando com uma piedade autocongratulatória, conside­
rando, é claro, que elas eram essencialmente diferentes de mim. Não, eu não as
ridicularizava e não gastava meu tempo gabando-me das minhas realizações, mas
uma atitude de ter me tornado célebre realmente moldava o meu ministério.
Eu era incrivelmente impaciente e, frequentemente, calmamente irrita­
do. Eu achava muito difícil delegar serviço a outros, queria mais controle do
que era necessário e produtivo e dava minha opinião demasiadamente. Eu tra­
tava os ministérios para os quais Deus me havia vocacionado como se eles per­
tencessem a mim e desejava que as pessoas decidissem rapidamente apoiar os
meus desenvolvimentos de raciocínio. Meus sermões eram, na verdade, discur­
sos arrogantes - você sabe, a palavra final sobre o tópico ou a passagem. Certa
vez, preguei o que considerava ser o ponto final em um sermão sobre orgulho
que era, na verdade, um exemplo vivo do mesmo! Minha pregação e ensino
eram mais lei do que evangelho. Isso é típico de uma pessoa que pensa ser
cumpridora da lei.
Como pastor, eu estava cometendo um perigoso erro de autoanálise. Eu
havia aceitado uma visão distorcida e enganosa da minha maturidade espiritual.
Essa visão é muito tentadora e muito cômoda para pessoas envolvidas no
ministério e quando a aceitamos, ela nos inicia em uma longa lista de tentações.
Em vez de olhar para mim mesmo pelo espelho preciso da Palavra de Deus - o
único lugar onde você obterá uma definição exata de maturidade espiritual e
uma leitura confiável da sua própria condição espiritual - eu olhei através de
outras coisas. Eu olhei para notas excelentes e prêmios estudantis no seminário
para que estes me dissessem quão maduro eu era. Este é um perigoso método
intelectual e fundamentado no conhecimento para avaliar a sua condição
espiritual. Eu olhei para a habilidade ministerial para que ela me dissesse quão
espiritualmente maduro eu era, esquecendo-me de que Deus dá dons a quem
quer que ele deseje. Eu olhei para a minha experiência no ministério; os anos
de trabalho me fizeram sentir espiritualmente experiente e maduro.
Em vez de me colocar humildemente diante da avaliação honesta do
espelho da Bíblia para me ver como eu realmente era, eu olhei para espelhos
curvos, que distorcem a imagem. Ora, o problema com o espelho curvo é que
ele realmente mostra você, mas com distorção. Na verdade, você não tem um
pescoço de 50 cm e tronco de 15 cm; sim, é você naquele espelho côncavo, mas
ele não está mostrando você da maneira como você realmente é. O perigo da
síndrome da celebridade saúda a todos no ministério. O perigo de você deixar
de pensar em si como alguém fraco e carente está sempre próximo. O perigo de
você se ver em uma categoria diferente daqueles a quem você ministra está logo
ali. Esse perigo vem ao seu encontro todos os dias porque existem espelhos
curvos em todos os lugares que têm o poder de dar a você uma visão distorcida
de si mesmo. E quando você pensa que já alcançou o sucesso, quando você
deixa de se convencer da sua própria fraqueza, dos seus fracassos e pecados e
deixa de se ver arruinado por eles, você começa a fazer más escolhas ministeriais
e pessoais. A realidade e a confissão de fraquezas espirituais pessoais não é um
risco grave ao seu ministério. Deus escolheu construir a sua igreja por intermédio
da instrumentalidade de ferramentas tortas e quebradas. São as suas ilusões
quanto a poder que o induzirão a problemas e o levarão a formar um ministério
não cristocêntrico nem dirigido pela graça.
Quando ouço um sermão que é essencialmente orientado pela lei, isto é,
que pede à lei para fazer o que somente a graça de Jesus Cristo pode realizar,
imediatamente fico preocupado com o pregador. Imediatamente imagino qual
seria a visão dele sobre si mesmo, porque, se ele tivesse qualquer consciência da
sua própria fraqueza e do seu próprio pecado, encontraria pouca esperança e
conforto para si mesmo e para os seus ouvintes naquele tipo de sermão. Você vê
essa dinâmica nos fariseus. Por se considerarem justos, cumpridores perfeitos
da lei, eles não tinham problema em colocar pesos de lei insuportáveis sobre os
outros. O mau uso que eles faziam da lei tinha suas raízes não somente numa
má teologia, mas também em um horrível orgulho humano. Eles viam a
possibilidade de guardar a lei porque pensavam que eles mesmos a estavam
guardando. E eles pensavam que outros deviam se dispor a cumpri-la tão bem
quanto eles a cumpriam. Eles eram os líderes religiosos da época, mas eram
arrogantes, insensíveis, desapiedados e críticos. Eles não faziam parte do que
Deus estava fazendo no momento; não, eles eram um obstáculo a essa obra.
Temo que haja grande quantidade de orgulho no púlpito moderno. Há
muito orgulho na classe do seminário. H á uma grande quantidade de orgulho
na equipe pastoral da igreja. Esta é uma das razões para todo o conflito relacional
que acontece na igreja. Esta é a razão pela qual somos melhores como vigias
teológicos do que como arautos ternos e humildes do evangelho. Esta é a razão
pela qual os pastores frequentemente parecem inacessíveis. Esta é a razão de
ficarmos irados em reuniões ou defensivos quando alguém discorda de nós ou
aponta algum erro. Somos confiantes demais em nós mesmos. Somos muito
seguros de nós; avaliamos m uito rapidamente que estamos bem. M uito
rapidamente fazemos nós mesmos e a outros de heróis. Muitas vezes nos
apoderamos do mérito de coisas que a graça soberana produziu. Muito
frequentemente avaliamos que não precisamos da ajuda que o crente normal
precisa. Somos muito rápidos em falar e muito lentos para ouvir. Em várias
circunstancias, consideramos como afrontas pessoais coisas que não são pessoais.
Deixamos de ser alunos muito cedo. Não nos vemos como carentes com a
frequência necessária. Temos pouquíssimo tempo de comunhão meditativa com
Cristo reservado em nossa agenda. Atribuímos confiantemente a nós mesmos
mais trabalho ministerial do que podemos desempenhar e vivemos em maior
isolamento do que é espiritualmente saudável. Pastor, existe ampla evidência
ao nosso redor de que tendemos a nos esquecer de quem somos e que nos
permitimos ser definidos pelas coisas que não deviam nos definir.
Deixe-me dizer novamente: se você for um pastor ou líder ministerial,
você está, ao mesmo tempo, no meio da sua própria santificação. Você ainda
não está livre do pecado nem de todos os seus perigos consequentes. Você
ainda carrega a suscetibilidade moral. Você é capaz de ceder a coisas desastrosas.
Você é capaz de errar o seu alvo. Você é capaz de atitudes ímpias e desejos
tenebrosos. Você não foi completamente liberto do orgulho, da cobiça, da
lascívia, da ira e da amargura. Em alguns aspectos, você é um idólatra, naqueles
aspectos em que a sua agenda está sendo estabelecida por um desejo por algo
criado com maior intensidade do que pela adoração ao seu Criador. Nem sempre
você ministra como um embaixador. H á momentos em que você desempenha
seu trabalho ministerial com a atitude de um rei e não como alguém chamado
para representar o Rei. Nem sempre você ama a Deus acima de todas as coisas.
Você não ama o seu próximo como a si mesmo sempre. Você não é sempre
amável e compassivo. Você não é sempre paciente e perdoador. Há momentos
em que você ama mais o seu próprio reino do que o reino de Deus. Há vezes
em que você ama o conforto e o prazer mais do que a redenção. E há vezes em
que o orgulho o leva a ser insensível e inacessível. Há momentos em que você
deseja que o seu ministério seja referente a você. H á vezes em que você está
irritado com as mesmas pessoas a quem você foi chamado para pastorear. Você
não se orgulha de todos os seus pensamentos e nem desejaria que a sua
congregação ouvisse todas as suas palavras. Você faz coisas em momentos
particulares que não gostaria que fossem vistas em público.
Essas coisas são verdade a meu respeito também. E elas dão evidência do
fato de que nós mesmos, que somos chamados para suprir e liderar o ministério,
estamos desesperadamente necessitados de ministração. Nós mesmos, que
proclamamos a mensagem da graça, estamos profundamente carentes de graça.
Nós ainda não chegamos lá. Nós ainda não estamos fora de perigo. Nós ainda
não estamos livres da tentação. A guerra pelo nosso coração ainda ruge. Nós
ainda caímos e fracassamos. Nós simplesmente não chegamos ao fim, mas somos
tentados a pensar que chegamos porque aceitamos as falsas avaliações da nossa
condição espiritual.

OLHANDO NOS ESPELHOS CURVOS DO MINISTÉRIO


Devido ao fato de todos nós sermos tentados a ser autossuficientes e a
pensar que somos justos independentemente, todos nós somos atraídos a visões
enfatuadas e grandiosas de nós mesmos. Usando as palavras de Paulo, “não
pense de si mesmo além do que convém” (Rm 12.3). Todos nós temos a
tendência de querer ter a nossa retidão reconhecida e confirmada. Todos nós
queremos ser vistos como justos e maduros. Todos nós queremos ser considerados
e estimados. Assim, somos atraídos para coisas que parecem nos definir como
semelhantes a Cristo e maduros. Resumindo, todos nós somos suscetíveis a ter
a nossa definição de nós mesmos formada por espelhos curvos, que distorcem a
imagem, os quais estão na vida de toda pessoa envolvida com o ministério.
Lembre-se, nenhum espelho para o qual você olha para se conhecer lhe mostrará
você com a clareza e precisão do espelho da Palavra de Deus. Deixe-me sugerir
quatro desses espelhos.
1) 0 ESPELHO DO CONHECIMENTO MINISTERIAL
O conhecimento bíblico e a compreensão teológica são coisas muito
importantes; afinal de contas, Deus escolheu fazer sua grande revelação de si e
do seu plano em um livro. É um livro que você deve ser determinado em
conhecer em todos os aspectos. É um livro cuja verdade dos temas você deve
entender tão completamente quanto possível. Você precisa ver a estrutura da
verdade, isto é, como as verdades são entrelaçadas e conectadas entre si. Você
deve entender a fluidez do plano da redenção. O conhecimento bíblico é vital,
essencial, insubstituível, mas ele não deve ser confundido com a verdadeira fé
ou maturidade espiritual pessoal. A fé é profundamente mais do que o que
você faz com o seu cérebro. O conhecimento é um aspecto da fé, mas não a
define. Finalmente, fé é um investimento do coração que leva a uma forma
radicalmente nova de viver a sua vida. A maturidade espiritual é mais do que
maturidade de conhecimento. N a verdade, você pode ser maduro em seu
entendimento da soberania de Deus e viver uma vida de temor, porque, em
sua imaturidade, você anexou sua segurança mais ao seu controle do que ao
domínio sábio de Deus. Não é um oxímoro dizer que há toneladas de pastores
instruídos teologicamente que, na maneira como vivem e ministram, são
imaturos espiritualmente. O seu nível de conhecimento bíblico e teológico
não é um espelho seguro no qual olhar para avaliar a sua maturidade espiritual.

2) 0 ESPELHO DA EXPERIÊNCIA MINISTERIAL


Q uanto mais tempo no ministério, mais obstáculos você terá conhecido,
mais tropeços terá tido e mais fácil será você pensar que chegou ao topo do
sucesso. Você não é mais inexperiente em seu ministério. Os empurrões e puxões
do ministério na igreja local não são mais novidade para você. Provavelmente
você não ficará mais surpreso pelo que acontecerá a seguir porque já viu quase
de tudo acontecer. Você veio a saber que ministério é guerra. Você sabe que
frequentemente ele é tão desapontador quanto empolgante. Você sabe que terá
ambos: os seus caluniadores e os seus defensores. Você conhece as pressões que
enfrentará, equilibrando ministério e família. Você sabe que o ministério da
igreja local passa por fases. Quero dizer que os pastores têm a tendência de
passar por fases boas e ruins do ministério. Assim, toda essa experiência faz
você sentir que é maduro, mas isso pode ser um espelho perigoso e distorcido
no qual olhar.
O fato é que há uma diferença crítica entre a sabedoria obtida pela
experiência e a obtida pela maturidade espiritual. Você pode saber o que vai
acontecer a seguir, porque já passou por essa experiência algumas vezes, mas
você pode não lidar bem com o que vai acontecer a seguir porque lhe falta
maturidade. Se tudo o que fosse necessário para formar maturidade fosse
certa quantidade de experiência, não só haveria muito mais pessoas maduras,
mas Jesus não precisaria ter vindo. A experiência lhe ensinará algumas coisas,
mas ela simplesmente não tem o poder de torná-lo santo. Infelizmente,
quando você deixa a experiência lhe dizer que você é maduro, quando não
o é, você deixa de se comprometer com a mudança porque não acredita que
ela seja necessária.

3) 0 ESPELHO DO SUCESSO MINISTERIAL


É muito tentador querer obter sua identidade pelo seu sucesso ministerial.
Mas o sucesso ministerial da igreja local é o resultado de coisas que são
intensamente mais profundas do que o conhecimento do líder, o planejamento
estratégico, a percepção dos momentos, a habilidade para montar uma equipe
ministerial e instilar uma visão ministerial atraente na igreja. Se os nossos esforços
ministeriais humanos não forem acionados pela graça poderosa de Deus e
aplicados pelo Espírito Santo, eles de nada servirão. É Cristo, e apenas Cristo,
quem edifica a sua igreja. Isso é algo humilhante porque requer de nós a admissão
de que não possuímos qualquer poder para mudar qualquer pessoa. Não temos
habilidade para fazer o reino de Deus progredir. Assim, o sucesso ministerial
sempre diz mais sobre o Senhor a quem servimos do que sobre nós. O sucesso
ministerial não é um instrumento de medida válido para a nossa maturidade.
De fato, um Deus de graça abençoará os nossos ministérios apesar de nós, por
causa do seu zelo por sua igreja e seu compromisso com a sua própria glória.

4) 0 ESPELHO DA CELEBRIDADE MINISTERIAL


A celebridade pastoral ministerial é, simplesmente, uma coisa perigosa. As
pessoas que estão expostas somente à sua pessoa ministerial pública, seus livros
ou seus blogs de internet e sua voz quando está em uma conferência ou em um
DVD são funcionalmente incapazes de lhe dar uma visão precisa sobre você.
Você deve receber as suas palavras congratulatórias como palavras vindas de
pessoas bem-intencionadas, mas palavras carentes de exatidão e, portanto, de
utilidade espiritual. Essas pessoas não viram você em seu domínio particular,
elas não conhecem o seu coração e não entrevistaram aqueles que vivem mais
próximos a você. Tendo dito tudo isso, ainda é tentador ouvir grande parte do
que vem de pessoas que o admiram. É tentador pensar que você alcançou a
posição de celebridade porque as pessoas o tratam como se você fosse alguém
especial. É tentador esquecer quem você realmente é. A aclamação pública
frequentemente é o viveiro para o crescimento da semente do orgulho espiritual.
A pergunta sobre a maturidade espiritual não pode ser respondida por pessoas
que apreciam você, mas, francamente, não o conhecem nem um pouquinho.
♦ ♦ ♦
Pastor, você se examina diariamente, colocando-se humildemente diante
do único espelho no qual você pode confiar, o espelho da Palavra de Deus? Ou
você tem caído no hábito de olhar para espelhos que distorcem a imagem, os
quais só dão a você uma visão desvirtuada de onde você está em sua jornada
espiritual pessoal?

OS RESULTADOS PERIGOSOS DA SÍNDROME DA CELEBRIDADE


Eu não enxerguei isso na época, mas eu desfrutava da celebridade minis­
terial que experimentei durante o princípio do meu ministério no interior. Eu
era o centro de uma pequena igreja que crescia e de uma escola cristã que
crescia rapidamente, e eu amava aquilo. Estávamos vendo frutos em um lugar
onde não havia tido muitos frutos e as pessoas estavam empolgadas. Pessoas
agradecidas pareciam estar em todos os lugares e elas expressavam sua gratidão
com frequência. Mas eu me apossei de grande parte do mérito de modo
alheio à minha percepção na época. Eu não tinha consciência de quão orgu­
lhoso eu havia me tornado até que um homem me perguntou se podia se
encontrar comigo. Eu tinha certeza de que ele havia sido convencido por um
dos meus gloriosos sermões e desejava se aconselhar comigo. Nós nos encon­
tramos para jantar, uma refeição que nenhum de nós acabou comendo, e
ficou claro bem rapidamente que ele não queria falar sobre si, ele queria falar
sobre mim. Ele gastou algumas horas me dando vários exemplos do meu
orgulho. Ele me disse que acreditava que eu pensava que o meu trabalho era
dar “opinião final sobre tudo”.
Eu estava devastado. Pensei que ele havia sido incorreto e rude. Mas eu
não podia deixar de pensar nas suas palavras, então liguei para meu irmão,
Tedd, para perguntar a ele o que eu devia fazer. Tedd me deu o melhor e mais
duro conselho. Ele simplesmente me disse: “Ouça”. Por todas as próximas
semanas, eu tentei, da melhor maneira que pude, parar, olhar e ouvir, e o que
vi foi um homem orgulhoso que havia começado de modos sutis, e outros não
sutis, a receber o mérito pelo que somente a graça podia produzir. Eu ouvi o
que um homem que havia se esquecido de quem ele era falava. Eu vi um jovem
pastor que já tinha começado a agir como se fosse uma celebridade. Eu queria
poder dizer que estou livre de todas essas ilusões de avaliação própria da minha
juventude ministerial, mas não estou. Há vezes em que os comentários de
parabéns vindos de um o u v in te agradecido se tran sfo rm am em
autocongratulações. Às vezes, eu me torno defensivo quando alguém se atreve
a me questionar ou confrontar. H á vezes em que estou muito mais cônscio de
mim mesmo do que de Cristo. Veja, eu ainda luto porque ainda há justiça
própria latente em mim, e o louvor dos outros tende a confirmar o louvor por
mim mesmo que eu ainda carrego em meu coração. Desta maneira, eu ainda
clamo por socorro. Eu ainda preciso ser resgatado de mim mesmo. Eu ainda
tenho apenas uma esperança: a graça transformadora de Jesus Cristo.
Assim, quais são as tendências de estilo de vida de um pastor que está
vivendo e ministrando com a síndrome da celebridade? Bem, se você pensa que
está nesta posição:

1) VOCÊ PENSARÁ QUE NÃO NECESSITA DO QUE PREGA


Sinclair Ferguson disse, em uma sessão de perguntas e respostas pós-
conferência, que havia decidido ser um homem que se sentava sob sua própria
pregação. Até mesmo a sua preparação deveria ser um reconhecimento de
necessidade contínua, um clamor por auxílio divino e uma celebração de graça
sempre presente, inexaurível. Esse é o significado do “sou homem de lábios
impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios”, de Isaías 6.5. Se você
se considera uma celebridade, você prepara o material com uma postura de
superioridade, para pessoas que, infelizmente, ainda precisam do que você não
precisa mais. Você está desesperadamente fam into pelas verdades que
normalmente prepara para expor a outros?

2) VOCÊ NÃO SERÁ ABERTO PARA 0 MINISTÉRIO DO CORPO DE CRISTO


A síndrome da celebridade tende a produzir a autossuficiência. Se você
pensa que é sábio, você não procura a sabedoria de outros. Se você pensa que é
maduro, você não sente a necessidade da proteção de outros. Se você se vê
como uma pessoa de fé madura, não procura em outras pessoas o encorajamento
que produz coragem. Se você não vê o seu pecado, não verá o valor de confessá-
lo àqueles que podem aconselhá-lo e adverti-lo. Se você pensa que consegue
vencer qualquer tentação, você não pede que outros olhos o observem nem que
outros corações orem em seu favor. O sentimento de superioridade, seja ele
consciente ou não, sempre começará a eliminá-lo do ministério protetor e
santificador essencial do corpo de Cristo.

3) VOCÊ ESPERARÁ DE OUTROS A PERFEIÇÃO QUE PENSA JÁ TER


ATINGIDO
O sentimento de ter obtido sucesso não é o solo no qual a graça pastoral
cresce. Pessoas que pensam em si mesmas como justas tendem a esperar e a
exigir de outros a mesma justiça que pensam já terem alcançado. Em vez de ser
o solo no qual a graça cresce, a síndrome de celebridade é o solo no qual as
expectativas irreais, o criticismo, a impaciência e os julgamentos duros crescem.
Não consigo dizer a você quantos membros do quadro de funcionários têm
compartilhado comigo que seu relacionamento com seu pastor titular (e essas
são palavras minhas) é caracterizado mais pela lei do que pela graça. Se pensa
que está guardando a lei, então você se sente confortável em colocar a lei sobre
os outros. Mas se você estiver entristecido com a realidade de que diariamente
você erra o alvo das exigências de Deus, de que o seu descanso não está na sua
própria justiça, mas na justiça de Cristo, então você ministrará naturalmente a
outros a mesma graça da qual precisa tão desesperadamente e recebe tão
graciosamente da mão de Deus.

4) VOCÊ SE SENTIRÁ QUALIFICADO A TER MAIS CONTROLE DO QUE TEM


Se você chegar a ficar impressionado com a sua própria sabedoria e força, se
você se fundamentar nas evidências da sua própria justiça, então faz sentido
você ser autoconfiante, pensando que é mais capaz, mais pronto a lidar com
qualquer coisa que Deus enviar a você, do que realmente é. Devido a você estar
convencido de sua própria força e sabedoria, é natural avaliar que você deve
estar no controle. Você não leva consigo a fome da sabedoria que não tem ou da
proteção contra as fraquezas pessoais. Você não está preocupado que o seu
controle possa ser manchado pelo pecado, isto é, que ele possa se reduzir ao
controle para interesse e engrandecimento próprios.
Sejamos honestos, existem lutas demais pelo poder na igreja local.
O ministério do evangelho facilmente se torna politizado. O orgulho o leva a
uma fome pelo poder (mesmo que você nem saiba disso); a fome pelo poder
leva você a ajuntar aliados ministeriais, e o desejo de controle o leva a localizar
inimigos ministeriais. De alguma maneira, o ministério do evangelho tem se
tornado um campo de batalha político pelo poder humano. Esta é uma forma
de ministério que tem perdido o seu centro. Jesus saiu do recinto. Um rei
está sendo colocado à frente, mas não o Rei. Um reino está sendo edificado,
mas não o reino. Se, como pastor, você está sendo pastoral, está fazendo isso por
outros; mas se, como pastor, você se tornou político, está fazendo isso para
si mesmo.

5) VOCÊ NÃO SENTIRÁ A NECESSIDADE DE COMUNHÃO MEDITATIVA


DIÁRIA COM CRISTO
A adoração pessoal não diz respeito, em primeiro lugar, a quantas vezes
você já leu a sua Bíblia inteira. Não diz respeito a ir do começo ao fim no seu
livro devocional ou comentário favorito mais uma vez. Não está relacionada a
repassar as suas observações de sermões. Todas essas coisas devem ser vistas e
usadas como auxiliares para algo mais fundamental. O que seria isso? É a
adoração humilde, diária, pessoal, meditativa e alegre a Deus. É iniciar ou
terminar o seu dia com a comunhão com Cristo. É o hábito de “contemplar a
beleza do Senhor” (veja SI 27.4).
A comunhão com Cristo é alimentada pela humildade. A comunhão
com Cristo é alimentada por tristeza e celebração. A comunhão com Cristo
é impulsionada por uma percepção precisa de quem você é e do que você
precisa, e uma celebração daquele que fornece tudo isso. Consciência de
pecado e promessa de salvação são o que o levam diariamente a Cristo, não
passar rapidamente por uma passagem em sua Palavra e fazer uma oração
breve, mas sentar-se aos seus pés e se entristecer pelo seu pecado e dar
louvores pela graça que sai ao seu encontro. A síndrome de celebridade
esmaga a adoração pública.

6) VOCÊ RECEBERÁ OS MÉRITOS DAQUILO QUE SOMENTE A GRAÇA PODE


PRODUZIR
Eu já disse neste capítulo: nós nos apossamos de méritos demais. Damos
a pastores honras demais pelo que apenas a graça poderosa, divina e soberana
tem o poder para realizar. Assim, tendo dado ao instrumento méritos demais,
corremos para a conferência ou compramos o livro para que possamos fazer
o que o nosso herói ministerial tem feito. Podemos aprender com outras
pessoas? É claro que sim. Os ingredientes de um ministério saudável podem
ser identificados? Sim. Nós devemos ser agradecidos por servos dedicados
do Senhor e comunicar a nossa gratidão? Seria errado não fazê-lo. Mas
devemos reservar a nossa adoração (seja ela de nós mesmos ou de outra
pessoa) para o Senhor. Não conseguimos nos lembrar o suficiente de que,
sem a sua presença, poder e graça, nossos ministérios são nada. Essa é a
verdade inescapável.

7) VOCÊ SENTIRÁ QUE TEM DIREITO AO QUE NUNCA PODERIA OBTER OU


REALIZAR
Sentir que tem direito a algo parece sempre seguir o orgulho. Se você
pensa que obteve______ , então você pensará que merece________. Depois,
carregando consigo não somente o orgulho, mas também o direito, você se
inclinará a transform ar bênçãos em exigências e dons da graça em
expectativas. N unca devemos esquecer que não fizemos nada para merecer
a nossa posição diante do Senhor, nem nosso lugar no ministério. Cada
m om ento em que ele nos aceita e cada situação na qual ele nos usa são o
resultado de uma coisa e apenas uma coisa: graça. Nós não temos direitos
diante de Deus ou de outros de nos posicionarmos com autoconfiança.
Somos habilitados a nada mais do que à sua ira; é somente a graça que nos
dá direito ao seu amor aceitável. A expectativa presunçosa de bênção o
levará a questionar não somente a apreciação das pessoas ao seu redor, mas
também a bondade de Deus.
8) VOCÊ NÃO SERÁ TÃO ALERTA E DEFENSIVO NO QUE DIZ RESPEITO À
TENTAÇÃO E AO PECADO
A síndrome de celebridade o leva a ser muito confiante em si mesmo; ser
confiante em si o leva a fazer escolhas insensatas; escolhas insensatas o expõem
a tentação e ao pecado; o orgulho o leva a pensar que você pode controlar a
exposição - e, antes de perceber, você terá caído. O sentimento de estar no
auge o leva a esquecer a guerra diária que é travada em seu coração e viver com
uma mentalidade de tempos de paz. Devido a você pensar mais alto sobre si do
que deveria, você não constrói as precauções no seu estilo de vida espiritual que
precisariam existir. Você começa a perder de vista o fato de que é como qualquer
outra pessoa que conhece ou a quem ministra. Você vive exatamente no meio
entre o já e o ainda não. No meio, há tentação por todo lado. N o meio, você
ainda está suscetível à sua influência. N o meio, ainda há um inimigo
espreitando, procurando sua próxima refeição. No meio, somos capazes de
engano proprio e ilusões pessoais. No meio, ainda necessitamos ser resgatados
de nós mesmos. No meio, devemos sempre ter vida humilde, interessada e
defensiva. No meio, constantemente precisamos do resgate da graça.

9) VOCÊ COLOCARÁ MAIS CARGA NO SEU MINISTÉRIO DO QUE PODE


SUPORTAR
O orgulho o leva a aceitar mais responsabilidade do que você pode aguentar.
A avaliação de si mesmo como alguém célebre permite que você atribua mais
trabalho ministerial a si mesmo do que pode realizar realisticamente. A glória
própria o leva a pensar que é mais essencial do que realmente é e mais necessário
do que algum dia será. É o orgulho, não a humildade, que dificulta dizer não.
É o orgulho que dificulta viver dentro dos limites do seu caráter e força
verdadeiros. Estou persuadido de que grande parte da tensão entre família e
ministério é causada pela grandeza. Sabemos que Deus não nos chamará para
guardar um mandamento de forma a nos levar à quebra de outro. Assim, se, ao
longo do caminho, a nossa família tem sofrido negligência por causa do nosso
ministério, é porque estamos fazendo coisas no nosso ministério que não
deveríamos fazer porque temos avaliado erroneamente que podemos controlar
mais do que realmente podemos.
♦ ♦ ♦
E você, pastor? Há evidências do complexo de celebridade no seu
ministério? Permita que este capítulo gere uma autoavaliação humilde. O fato
é que você e eu ainda somos um pouco confusos. Sim, pela graça, frequentemente
acertamos, mas também frequentemente erramos. Há vezes em que somos os
exuberantes celebrantes do Senhor e há outras vezes em que somos apenas
cheios de nós mesmos. Em algumas circunstâncias, somos profundamente gratos,
mas há outras em que sentimos que temos direito e somos exigentes. Há vezes
em que lideramos com coração pastoral e outras vezes em que somos temerosos,
interessados em nós mesmos e políticos. H á vezes em que, como pessoas
arruinadas, ajudamos pessoas arruinadas com o evangelho; há outras vezes em
que, com orgulho, queremos apenas que as pessoas se virem, como nós fizemos.
Há vezes em que vivemos e trabalhamos com o reino de Deus em vista; outras
vezes, amamos a nós mesmos e temos um plano maravilhoso para a nossa vida.
Tudo isso tem o objetivo de dizer que a grande guerra espiritual não
assola somente fora de nós; há ampla evidência, todos os dias, de que ela ainda
assola dentro de nós. Um ministério orientado pelo evangelho e cristocêntrico;
um ministério que traz graça para aqueles que ouvem não começa com
conhecimento teológico; não, ele começa com um coração humilde. Ele começa
com o reconhecimento da sua própria necessidade e do reconhecimento de
que você e eu somos mais semelhantes às pessoas a quem Deus nos vocacionou
para ministrar do que diferentes.
PARTE 3

O PERIGO DA SÍNDROME DE
CELEBRIDADE
(ESQUECENDO-SE DE QUEM VOCÊ É)
Capítulo 12
GLÓRIA PRÓPRIA
O ministério pastoral sempre é moldado, formado, direcionado e dirigi­
do pela adoração. O seu ministério será moldado pela adoração a Deus, adora­
ção a si mesmo ou, para a maioria de nós, uma mistura perturbadora de ambas.
Talvez não haja uma tentação mais poderosa, sedutora e enganosa no ministé­
rio do que a glória própria. Talvez no ministério não haja um intoxicante mais
potente do que o louvor dos homens, e não há forma mais perigosa de embria­
guez do que estar embriagado com a sua própria glória. Ela tem o poder de
reduzi-lo à justiça própria chocante e à inacessibilidade. Ela fará de você alguém
com quem é difícil trabalhar e será quase impossível para as pessoas mais próximas
a você ajudá-lo a ver que você se tornou difícil. Ela fará com que você considere
com desprezo as pessoas que são mais parecidas do que diferentes de você. Ela o
levará a se cercar de pessoas que, frequentemente, dizem sim e, frequentemente
estão prontas a concordar. Ela o deixará espiritualmente insensato e moralmente
desprotegido. E tudo isso acontecerá sem que você note porque você permanece­
rá convencido de que está perfeitamente bem. Quando confrontado, você se
lembrará da sua glória. Quando questionado, defenderá sua glória. Você negará
sua cumplicidade em problemas e sua participação em fracassos. Você terá muito
mais habilidade em atribuir culpa do que em participar da culpa. Você será
melhor em controlar do que em servir. Você resistirá ao trabalho que pensa ser
abaixo do seu nível e se ofenderá com aqueles que se atrevem a dizer a você o que
fazer. Você constantemente confundirá ser um embaixador com ser um rei.
Ele estava totalmente atrapalhado, mas não sabia. Seu ministério estava
desabando sob a sobrecarga, mas ele não via. Seu casamento estava em um
estado de constante disfunção, mas ele não fazia a menor ideia disso. Ele real­
mente vivia e ministrava com a síndrome de celebridade. Ele parecia cego para
este fato, mas estava cheio demais da percepção da glória das suas habilidades,
dons, conhecimento, experiência e liderança.
Quando sua esposa se aventurava a fazer até mesmo o comentário mais
brandamente crítico sobre um dos seus sermões, ele ficava altamente ofendido
e rapidamente lhe comunicava que ela não sabia sobre o que estava falando.
Quando um companheiro de liderança questionava uma das suas iniciativas
propostas, ele era mais rápido em defender suas ideias do que em ouvir a ma­
neira como aquelas ideias estavam sendo compreendidas por outros. Seu assis­
tente administrativo aprendeu a evitar aquelas áreas nas quais ele se irritava
fácil e rapidamente. Ele não tinha tempo para participar de um pequeno gru­
po; dizia à sua esposa que desejava muito que eles participassem juntos, mas
“com tudo o que tenho para fazer, não tenho tempo para gastar ouvindo al­
guém fazer um trabalho deficiente ao liderar um estudo bíblico”. Ele não se
encontrava mais com os homens com quem se encontrava antes para reuniões.
Sim, ele dizia à sua igreja constantemente que sua caminhada com Deus era um
projeto comunitário, mas ele mesmo sentia pouca necessidade daquela comuni­
dade. Faltava ternura pastoral em seus sermões. Eles deixavam de retratar uma
paixão cativante pelo evangelho. Eles eram mais discursos bíblicos autoconfiantes
do que uma exegese aplicada praticamente de um homem que, ele mesmo, esta­
va sendo quebrado e encorajado pela maravilhosa história redentiva.
Ele parecia mais autoconfiante do que cheio da coragem da fé. Ele parecia
mais uma fábrica de ideias para o avanço da igreja local do que alguém que
realmente cria que a esperança da igreja é Cristo. Ele continuava a marcar
reuniões, mas elas não eram realmente moldadas por seu respeito aos dons dos
outros. Essas reuniões não eram colaborativas; não, elas eram mais ajuntamentos
com o propósito de anúncios e pronunciamentos. Ele dominava o encontro com
seu discurso e rapidamente conclamava seus líderes para apoiar ideias que ainda
eram muito novas no raciocínio deles. Ele era bom em calar perguntas e desarmar
críticas, mas devo dizer novamente, ele não se via assim nem um pouco.
Ele se sentia sobrecarregado com o que lhe era atribuído fazer, mas carregava
aquele peso porque havia colocado sobre si mesmo coisas demais. E ele fazia
isso porque achava cada vez mais difícil delegar o ministério a outros. Ele estava
convencido de que a maior parte das coisas estratégicas que precisavam ser
feitas seria melhor se feitas por ele. Cada vez menos pessoas eram comissionadas
a desempenhar tarefas ministeriais. Não, companheiros de liderança estavam
cada vez mais atarefados com trabalhos de apoio por causa do aumento das
tarefas ministeriais, todas feitas por ele.
Ele se via como alguém muito mais essencial à saúde da sua igreja do que
qualquer ser humano possa ser. Devido a isso, havia vezes em que ele se importava
demais sobre o que as pessoas pensavam a seu respeito. Por pensar sobre si
como essencial, ele precisava que outros o vissem como essencial também e,
quando não viam, isso o assombrava. Ele, então, marcava aquelas pessoas como
aquelas a quem ele precisava vencer. Por outro lado, havia vezes em que ele se
importava muito pouco com o que as pessoas pensavam a seu respeito. Ele era
tão autoconfiante que não sentia que precisava ouvir bem aqueles a quem Deus
havia colocado em seu caminho para desafiá-lo pessoalmente e para afiar suas
ideias e alvos. A glória própria o puxará para ambos os lados em seus
relacionamentos ministeriais.
Devido a tudo isso, a confiança em seu ministério começou a esmorecer
no coração daqueles que trabalhavam ao seu lado. É difícil confiar em alguém
que é tão autoconfiante, tão cônscio de si mesmo, tão autocongratulatório, tão
importante para si mesmo e tão dominador. É difícil confiar em alguém que
fala tanto, mas não ouve bem. É difícil confiar em alguém que é rápido para
criticar, mas não recebe críticas muito bem. É difícil confiar em alguém que é
confrontador e inacessível ao mesmo tempo. É difícil confiar em alguém que
parece estar mais confortável em tirar o m inistério do que em delegá-lo.
É difícil confiar em alguém que prega o que parece pensar que não necessita.
É difícil confiar em alguém que lidera por decretos e pronunciamentos, e não
por um consenso instruído pela Bíblia e reconhecedor de dons. É difícil confiar
em alguém que atribuiu a si mesmo glória demais. Mas ele o fez. E o mais
triste é que ele não está sozinho. Há um número enorme de pastores que não
entendem que seus ministérios são mais formatados por glória própria do que
pela glória do Cristo ressurreto, sempre presente e todo suficiente.
Pela graça resgatadora de Cristo, sua própria esposa colocou um fim
àquele processo. Ela havia visto tudo aquilo acontecer. Ela havia assistido o
humilde jovem pastor com quem ela havia se casado tornar-se o homem
orgulhoso com o qual ela agora vivia. Ela havia experimentado como sua
atitude dominadora, inacessível e autoconfiante no lar havia alterado seu
casamento. Ela sabia que as pessoas em sua igreja estavam lutando com seu
estilo de liderança. Ela havia vivido com a dor de amigos queridos que
deixaram a igreja. Assim, numa noite, em desespero, ela se sentou próxima a
ele no gabinete de casa e disse a ele que ela não conseguia mais viver assim.
Ela disse a ele sobre a dor diária que ela sentia ao ver o que estava acontecendo
com ele e com a igreja. Ela disse a ele que não sabia se era a coisa certa a fazer,
mas havia chegado à conclusão de que ela não desejava mais estar presente e
deixar que aquilo continuasse a acontecer. Ela havia marcado um horário
com um pastor local bem conhecido e ia se abrir com ele. Ela disse: “Querido,
se você não reconhece a sua necessidade de ajuda, eu reconhecerei por você e
conseguirei a ajuda que nós dois precisamos”.
A princípio, ele ficou irado e se sentiu traído, mas, por fim, ele disse que
estava disposto a ir com ela na busca de auxílio e conselho. Foi nesse momento
que um processo de resgate e restauração radicais começou.
Pastor, e quanto a você? Onde, no seu ministério, há evidência de glória
própria? Em que áreas você é mais dominante do que deveria ser? Em que
situações você deixa de ouvir, quando devia? Onde você tenta controlar coisas
que você não precisa controlar? Em que circunstâncias você acha difícil delegar
o ministério a outros? Em que áreas você é tentado a falar mais do que devia?
Você deixa de reconhecer e valorizar os dons de outras pessoas? Você está
indisposto a examinar as suas fraquezas e admitir os seus fracassos? Você é
tentado a pensar sobre si mesmo como alguém mais essencial do que na verdade
é? Você se importa demais com o respeito, estima e apreciação das pessoas?
Você acha mais fácil confrontar do que receber confrontação? Em que sentido
você é menos agradecido pelos companheiros de ministério com os quais Deus
o conectou? Em que áreas você é confiante demais na sua própria força e
sabedoria? Em que sentido a confiança em si mesmo inibe a confiança formadora
de ministério de Cristo? Existe a possibilidade de que a saúde do seu ministério
esteja sendo enfraquecida pela glória própria?

HUMILDADE NO MINISTÉRIO: UM MODELO CRISTOLÓGICO


Há um momento surpreendente na vida de Jesus e dos discípulos que
destrói a glória própria e define o tipo de humildade que, pela graça, deve
fascinar o coração de todo pastor e formar o estilo de vida do seu ministério.

... antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste
m undo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no m undo, amou-os até o
fim. Durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de
Simão, que traísse a Jesus, sabendo este que o Pai tudo confiara às suas mãos, e que
ele viera de Deus, e voltava para Deus, levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de
cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois deitou água na bacia e
passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava
cingido. Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, e este lhe disse: Senhor, tu me lavas os
pés a mim? Respondeu-lhe Jesus: O que eu fàço, não o sabes agora; compreendê-lo-
ás depois. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu não
te lavar, não tens parte comigo. Então Pedro lhe pediu: Senhor, não somente os pés,
mas também as mãos e a cabeça. Declarou-lhe Jesus: Quem já se banhou não necessita
de lavar senão os pés; quanto ao mais, está todo limpo. Ora, vós estais limpos, mas
não todos. Pois ele sabia quem era o traidor. Foi por isso que disse: Nem todos estais
limpos. Depois de lhes ter lavado os pés, tom ou as vestes e, voltando à mesa,
perguntou-lhes: Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor
e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o mestre, vos lavei os pés,
também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para
que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o
servo não é maior que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou.
Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes (Jo 13.1-17).
Este é um daqueles momentos na vida de Jesus que é tão estupendo, tão
inesperado que é quase impossível compreender, muito menos traduzir em
palavras. Jesus está, naquele momento final, com seus discípulos naquele
cenáculo. É um momento santo quando ele declara ser o Cordeiro da Páscoa.
Devido ao lugar ser alugado, não há servos de prontidão com a requerida jarra,
bacia e toalha para lavar os pés de Jesus e dos discípulos. É claro que os discípu­
los, sendo cheios de si mesmos, preocupados demais com seu poder e posição
no reino, eram orgulhosos demais para fazer o trabalho sujo.
Agora, essa tarefa aviltante, mas culturalmente essencial, não foi desig­
nada a um servo qualquer. Está claro que, nos tempos do Novo Testamento,
havia muitos níveis de autoridade e responsabilidade na cultura dos servos.
Havia servos que administravam todos os negócios domésticos e havia servos
que viviam a vida servil de um escravo. O trabalho de lavar os pés sujos das
pessoas antes que elas se reclinassem para comer era reservado aos escravos mais
inferiores, mais degradados. Não havia como os discípulos se rebaixarem a tal
posição na frente uns dos outros, pelo menos não enquanto estavam em dispu­
ta pelas grandezas do reino.
Ao final da refeição, Jesus se levanta, tira as suas vestimentas, amarra a
toalha ao redor de sua cintura e enche a bacia de água. Ele não pode estar para
fazer o que você pensa que ele vai fazer. Este é o Senhor Deus Todo Poderoso.
Este é o Filho de Deus, o rei prometido, o criador de tudo que existe. Este é o
cumpridor de todas as promessas do pacto. Este é o Cordeiro Salvador. Ele não
pode estar pensando em fazer algo tão impróprio, tão indigno e tão semelhante
a trabalho de escravo. Mas aquela era exatamente sua intenção. E é vital com­
preender que ele sabia exatamente quem ele era e como isso se relacionava com
sua verdadeira identidade e missão. João diz que Jesus foi para essa tarefa vil e
suja sabendo exatamente quem ele era, de onde havia vindo e para que ele havia
sido enviado: “Jesus, sabendo que o Pai lhe entregara tudo nas mãos, e que
viera de Deus e para Deus voltava, levantou-se”. Esse ato atordoante de amor
humilde resultou não do esquecimento de Jesus quanto a quem era, mas de se
lembrar de quem ele era. Esta era a missão santa do Filho Salvador. Ele tinha
que estar disposto a entrar na mais vil condição humana, para fazer a coisa mais
degradante e abdicar dos seus direitos de posição para que pudéssemos ser
redimidos. Era uma vocação elevada e santa, e era a única maneira. Sua identi­
dade, como Filho de Deus, não o levou a ser arrogante e pedir os seus direitos,
relutante em fazer o que precisava ser feito para cumprir a redenção. Sua iden­
tidade não o levou a avaliar que ele era bom demais para a tarefa. Não, sua
identidade o motivou e impeliu a fazer o que os discípulos estavam convencidos
de que era indigno para eles.
Quando o trabalho sujo havia sido completado, Jesus olhou para os seus
discípulos e disse: “Ora, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós
deveis lavar os pés uns aos outros”. Cristo está dizendo: “A atitude que eu estou
tendo com vocês, vocês devem ter uns com os outros. A minha percepção de
vocação deve se tornar a sua percepção de vocação. A boa vontade que eu exibi,
vocês devem demonstrar em seu ministério”. Que atitude é essa? Qual é o
compromisso que deve moldar o ministério de todo pastor?
Você e eu não devemos nos tornar pastores cônscios demais das nossas
posições. Não devemos dar lugar a proteger e polir o nosso poder e proeminência.
Devemos resistir a nos sentirmos privilegiados, especiais ou em uma categoria
diferente. Não devemos pensar sobre nós mesmos como pessoas merecedoras
ou com direitos. Não devemos exigir sermos tratados de modo diferente ou
colocados em algum pedestal ministerial. Não devemos ministrar de uma
posição superior, mas ao lado.
Q ual é a lição grandiosa, a vocação m ajestosa deste m om ento
surpreendente? Aqui está: Jesus diz: “Se vocês não são maiores do que o seu
mestre e ele está pronto a fazer essa coisa repulsiva, vocês também devem
estar prontos. Se vocês forem meus embaixadores, chamados para representar
a minha vontade e o meu caminho, chamados para ser instrumentos da minha
graça redentora, então vocês não devem pensar que qualquer tarefa ministerial
está abaixo de vocês. Vocês devem estar dispostos a fazer a coisa mais baixa,
mais aviltante, de tal maneira que a minha obra e a minha vontade sejam
feitas. Vocês não devem recusar. Vocês não devem pensar que são bons demais.
Vocês devem estar dispostos a serem os mais inferiores dos escravos para que
meu reino possa vir e minha vontade possa ser realizada. Vocês devem estar
dispostos a fazer qualquer coisa que seja necessária para se colocarem na posição
de instrumentos da graça redentora. Vocês não devem ser orgulhosos. Vocês
não devem ser relutantes”.
Sejamos honestos, pastores: nós somos tentados a pensar acerca de nós
mesmos de modo mais elevado do que devemos. Às vezes nós nos irritamos
com coisas que estão abaixo do nosso nível salarial. Nem sempre estamos
dispostos a fazer o trabalho sujo do ministério. Eu sei que não estou sempre
pronto e disposto. Somos direcionados demais para a reputação, posição e
poder. Desejamos ser reconhecidos como proeminentes. Sei que luto com isso.
Não somos atraídos à servidão redentora. Desejamos que os nossos ministérios
sejam limpos e confortáveis. Eu sei que desejo. Temos a tendência de pensar
sobre nós mesmos mais como proponentes e pessoas influentes do que como
servos. E tudo isso é porque não nos apossamos da nossa identidade como
embaixadores. Não, se você e eu pensamos que há trabalho do reino que seja
inferior para nós, pensamos isso porque somos amnésicos de identidade.
E a linha divisória entre nos esquecer da posição atribuída a nós e nossa inserção
na posição de Deus é muito tênue.
O exemplo e a comissão maravilhosos de Cristo devem produzir tristeza
que leva à confissão em todos nós. Realmente erramos nosso alvo. Realmente
nos tornamos mais como mestres do que como servos. E, no fundo do nosso
coração, sabemos que nunca nos tornaremos o que fomos vocacionados para
nos tornar, a menos que sejamos resgatados pela própria graça que viemos
proclamar e viver diante dos outros. E não precisamos temer que o nosso orgulho
bobo e ilusório faça com que o Pai vire suas costas para nós.
Ele sabe quem você é. Ele sabe que você não está à altura. Ele sabe que
você ainda não consegue atingir as suas exigências justas; esta é a razão pela
qual ele lhe deu a dádiva do seu Filho. Você pode correr para ele e admitir a
glória própria constrangedora e saber que ele não o ridicularizará nem o recusará,
porque sua permanência diante dele não está baseada no seu desempenho, mas
no desempenho do seu Filho. Por que você não faz a confissão que precisa fazer
agora mesmo, aqui mesmo? Clame pelo auxílio de que você necessita. O seu
Salvador está perto, está pronto e é capaz.

O FRUTO DA GLÓRIA PRÓPRIA, PREJUDICIAL AO MINISTÉRIO

E importante reconhecer o resultado da glória própria em você e no seu


ministério. Q ue Deus possa usar a lista a seguir para dar-lhe sabedoria
diagnostica. Que ele possa usá-la para expor o seu coração e redirecionar o seu
ministério. Aqui está o poder modelador de ministério da glória própria.

1) A GLÓRIA PRÓPRIA 0 LEVARÁ A APRESENTAR PUBLICAMENTE 0 QUE


DEVE SER MANTIDO EM PARTICULAR
Os fariseus deixaram um exemplo fundamental para nós. Devido ao fato de
verem sua vida como gloriosa, eles eram prontos a desfilar essa glória diante dos
olhos atentos daqueles que os circundavam. Quanto maior a sua síndrome de
celebridade e quanto menos você se vir como alguém que necessita diariamente
de livramento, mais você terá a tendência de ser autorreferente e autocongratulatório.
Por ser atento à glória própria, você trabalhará para obter glórias maiores, mesmo
quando estiver consciente de estar fazendo isso. Você se inclinará a contar histórias
pessoais que fazem de você um herói maior do que você realmente é. Você encontrará
maneiras, em locais públicos, de falar sobre atos particulares de fé. Devido a
pensar que é digno de aclamação, você procurará os aplausos dos outros
encontrando formas de se apresentar como “piedoso”.
Porém, eu sei que a maioria dos pastores que estão lendo isso pensará que
nunca faz isso, mas estou convencido de que há muito mais “desfile d.e retidão”
no ministério pastoral do que teríamos a tendência de imaginar. Esta é uma das
razões pelas quais considero as conferências para pastores, reuniões de presbitérios,
assembleias gerais, simpósios e reuniões de plantadores de igrejas incômodos, às
vezes. Ao redor de uma mesa, no final de uma sessão, esses encontros podem se
degenerar em verdadeiras competições do ministério pastoral onde nós somos,
pelo menos, tentados a ser menos do que honestos sobre o que realmente está
acontecendo em nosso coração e no nosso ministério. Depois de celebrar a glória
da graça do evangelho, há glória autocongratulatória demais por pessoas que
parecem necessitar mais de aclamações do que, na verdade, precisam ou merecem.

2) A GLÓRIA PRÓPRIA 0 LEVARÁ A SER MUITO AUTORREFERENTE


Todos nós sabemos disso, todos nós vimos, todos nós ficamos incomodados
com isso e todos nós fizemos isso. O resultado é este: pessoas orgulhosas tendem
a falar muito sobre si mesmas. Pessoas orgulhosas têm a tendência de gostar
mais das suas opiniões do que das opiniões dos outros. Elas pensam que suas
histórias são mais interessantes e atrativas do que as dos outros. Pessoas orgulhosas
pensam que sabem e entendem mais do que os outros. Elas pensam que
merecem o direito de serem ouvidas, que têm glória para oferecer. Pessoas
orgulhosas, devido a serem basicamente orgulhosas do que sabem e do que
têm feito, falam muito sobre ambas estas coisas. Pessoas orgulhosas não fazem
referência a fraquezas nem falam sobre fracassos. Elas não confessam pecados.
Assim, pessoas orgulhosas são melhores em dirigir os holofotes para si do que
em lançar a luz das suas histórias e opiniões na graça gloriosa e totalmente
imerecida de Deus para conosco.

3) A GLÓRIA PRÓPRIA 0 LEVARÁ A FALAR QUANDO DEVERIA FICAR CALADO


Quando você tem a síndrome de celebridade, você é bem confiante em
suas opiniões e orgulhoso delas. Você confia nas suas opiniões mais do que nas
dos outros e, assim, você não está tão interessado nas opiniões dos outros como
deveria estar e, por isso, você tende a querer que os seus pensamentos, suas
perspectivas e pontos de vista vençam em toda reunião ou conversa. Isso significa
que você ficará muito mais confortável do que deveria em dominar um encontro
com a sua conversa. Você deixará de ver que, na multidão de conselheiros, há
sabedoria. Você deixará de ver a essencialidade do ministério do corpo de Cristo
em sua vida. Também deixará de reconhecer sua própria cegueira espiritual.
Desta maneira, você não irá para as reuniões, formais ou informais, com uma
percepção pessoal de necessidade do que os outros têm para oferecer e você
controlará a conversa mais do que devia.
4) AGLÓRIA PRÓPRIA 0 LEVARÁ A FICAR QUIETO QUANDO DEVERIA FALAR
Mas a glória própria pode ir para a outra direção também. Líderes que são
muito autoconfiantes, que atribuem a si, inconscientemente, o que só poderia
ter sido realizado pela graça frequentemente veem reuniões como um desperdício
de tempo. Por serem tão orgulhosos, são muito independentes, então as reuniões
tendem a ser vistas como uma interrupção irritante e desnecessária de uma
agenda ministerial já muito cheia. Por causa disso, eles deixam de comparecer
ou a toleram, tentando levá-la ao final tão rapidamente quanto possível. Assim,
eles não lançam suas ideias para consideração e avaliação porque, francamente,
não acreditam que precisam fazê-lo. E quando suas ideias estão sobre a mesa e
sendo debatidas, eles não se dão ao trabalho de argumentar, porque pensam
que sua opinião ou proposta simplesmente não precisa ser defendida. A glória
própria realmente o levará a falar demais quando devia ouvir e a não sentir
necessidade de falar quando certamente você devia.

5) A GLÓRIA PRÓPRIA 0 LEVARÁ A SE IMPORTAR DEMAIS COM 0 QUE AS


PESSOAS PENSAM SOBRE VOCÊ
Quando você tiver aceitado a ideia de ser alguma coisa, você desejará que
as pessoas reconheçam essa alguma coisa que você pensa que é. Novamente,
você vê isso nos fariseus: avaliações pessoais de glória própria sempre levam ao
comportamento de procurar algum tipo de glória. As pessoas que pensam que
são célebres podem se tornar atentas demais a como outros estão respondendo
a elas. Devido a você estar muito vigilante, observando a maneira como as
pessoas no seu ministério estão respondendo a ele, talvez mesmo não tendo
consciência do fato, você começará a moldar as coisas que diz e faz com o
propósito de aclamar a si mesmo. Você começará a dizer e a fazer coisas de uma
forma que lhe dá o reconhecimento que você pensa que merece. Infelizmente,
você, na verdade, começa a ministrar o evangelho de Jesus Cristo não para a
glória de Cristo ou a redenção das pessoas sob o seu cuidado, mas por amor à
sua própria glória. Eu já fiz isso. Eu já pensei, durante a preparação de um
sermão, que um determinado ponto colocado de certa maneira responderia a
um caluniador e já observei as reações de certas pessoas enquanto eu pregava.
Nesses momentos, na preparação e pregação de um sermão, renunciei ao meu
chamado como embaixador da glória eterna de outro com o objetivo de adquirir
o louvor temporário dos homens.

6) A GLÓRIA PRÓPRIA 0 LEVARÁ A SE IMPORTAR MUITO POUCO COM O


QUE AS PESSOAS PENSAM SOBRE VOCÊ
Mas isso também pode tomar o sentido oposto. Se você tem a síndrome de
celebridade, você pode ir no sentido de se importar muito pouco com o que as
pessoas pensam de você. Você é tão seguro de si que simplesmente não imagina
que precisa ter os seus pensamentos, ideias, ações, palavras, planos, alvos, atitudes
ou iniciativas avaliados por outros. Você realmente não pensa que precisa de
ajuda. Você não pensa que o que você tem a oferecer será realçado ou estimulado
pela contribuição de outros. Assim, repetidamente você, sozinho, faz o que
devia ser feito por um grupo. E se você trabalha com um grupo, você terá a
inclinação de se cercar de pessoas que estão muito impressionadas com você e
empolgadas demais por serem incluídas por você e que acharão difícil dizer
qualquer coisa diferente de um “sim”. Você se esqueceu de quem é e o que o seu
Salvador diz que você é e precisa diariamente: alguém vivendo em um lugar de
perigo pessoal e ministerial.

7) A GLÓRIA PRÓPRIA 0 LEVARÁ A RESISTIR À CONFRONTAÇÃO E À


ADMISSÃO DOS SEUS PECADOS, FRAQUEZAS E FALHAS
Por que qualquer um de nós fica desconcertado ou tenso quando
confrontado? Por que qualquer um de nós ativa o seu advogado interior e se
levanta em sua própria defesa? Por que qualquer um de nós vira a mesa e lembra
à outra pessoa que não somos os únicos pecadores na sala? Por que argumentamos
sobre os fatos ou contestamos a interpretação da outra pessoa? Nós fazemos
todas essas coisas porque estamos convencidos, em nosso coração, de que somos
mais retos do que o modo como estamos sendo retratados neste momento da
confrontação. Pessoas orgulhosas não dão boas-vindas a advertências amáveis,
censuras, confrontação, questionamentos, críticas ou prestação de contas porque
não sentem a necessidade disso. E quando elas realmente falham, são muito
boas em levantar razões plausíveis para o que disseram ou fizeram, considerando
os estresses da situação ou relacionamento no qual isso aconteceu.
Pastor, você é rápido em admitir fraquezas? Você é rápido em reconhecer
suas falhas diante de Deus e dos outros? Você é pronto a enfrentar suas fraquezas
com humildade? Lembre-se, pastor, se os olhos ou ouvidos de um companheiro
de ministério algum dia virem ou ouvirem o seu pecado, fraqueza ou deficiência,
isso não é um problema, nunca seria uma interrupção de ministério e nunca
deve ser visto como uma afronta. É sempre graça. Deus ama você e o colocou
nessa comunidade de fé e revelará suas necessidades espirituais pessoais àqueles
ao seu redor de tal maneira que eles possam ser seus instrumentos de convicção,
livramento e transformação.

8) A GLÓRIA PRÓPRIA 0 LEVARÁ A LUTAR COM AS BÊNÇÃOS DE OUTROS


A glória própria está sempre na base da inveja. Você é invejoso das bênçãos
dos outros porque os vê como menos merecedores do que você. E por se ver
mais merecedor, é difícil não ficar furioso por eles terem obtido o que você
merece, e é quase impossível não desejar e cobiçar o que eles estão desfrutando
erroneamente. N a sua glória própria invejosa, na verdade, você está acusando
Deus de ser injusto e desleal. Mesmo não estando cônscio disso, você começa
a se sentir confortável com a dúvida da sabedoria, justiça e bondade de Deus.
Você não acha que ele tem sido bondoso com você da forma como você merece.
Isso começa a lhe tirar sua motivação em fazer o que é correto, porque não
parece fazer qualquer diferença.
É importante reconhecer que a linha divisória entre a inveja e a amargura
é muito tênue. Esta é a razão pela qual o invejoso Asafe clamou no Salmo 73:
“Com efeito, inutilmente conservei puro o coração e lavei as mãos na inocência”
(v. 13). Ele está dizendo: “Eu obedeci e isso é o que eu recebo em troca?”
Depois ele escreve: “Quando o coração se me amargou e as entranhas se me
comoveram, eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua
presença” (v. 21 -22). Que figura - um irracional! Eu já encontrei muitos pastores
amargos, homens que estão convencidos de terem passado por sofrimentos que,
na verdade, não mereciam. Eu já encontrei muitos pastores amargurados, invejosos
dos ministérios de outros, que perderam sua motivação e alegria e estão
desempenhando seus ministérios mecanicamente e sem entusiasmo, semana após
semana. Eu já encontrei muitos pastores que vieram a duvidar da bondade de
Deus e, tragicamente, não têm a tendência de correr em busca de auxílio em seu
tempo de necessidade para alguém de quem vieram a duvidar.

9) A GLÓRIA PRÓPRIA 0 LEVARÁ A SER MAIS ORIENTADO PARA A SUA


POSIÇÃO DO QUE PARA A SUA SUBMISSÃO
A glória própria sempre fará você mais orientado para o lugar, poder e
posição do que para a maneira como a submissão a um Rei maior é trabalhada
no contexto do seu ministério. Você vê isso na vida dos discípulos. Jesus não os
havia chamado para si mesmo com o objetivo de fazer com que os propósitos
dos seus pequenos reinados viessem a acontecer, mas para recebê-los como
receptores e instrumentos da obra de um reino melhor. Porém, em seu orgulho,
eles perderam o alvo e foram orientados perseverantemente para a questão de
quem seria o maior no reino.
Você nunca poderá cumprir sua vocação ministerial e, ao mesmo tempo,
desejar o poder e a posição de um rei. A orientação para a posição o levará a ser
político, quando deve ser pastoral. Ela o levará a solicitar serviço, quando deve
estar disposto a servir. Ela o levará a exigir de outros o que você mesmo não
estaria disposto a fazer. Ela o induzirá a pedir privilégios, quando deveria estar
desejoso de abdicar dos seus direitos. Ela o levará a pensar muito alto sobre
como as coisas afetam você em vez de como as coisas refletirão em Cristo. Ela o
levará a desejar estabelecer a agenda em vez de encontrar alegria em submeter
sua agenda a Outro. A glória própria transforma embaixadores escolhidos e
vocacionados em reis autointitulados. E quando isso acontece, de maneiras
alheias a você e a mim, estamos ministrando para promover uma pessoa, mas
essa pessoa não é Jesus Cristo.

10) A GLÓRIA PRÓPRIA O LEVARÁ A CONTROLAR O MINISTÉRIO EM VEZ


DE DELEGAR MINISTÉRIO
Quando você está cheio de si mesmo, quando está muito seguro de si, você
tenderá a pensar que é a pessoa mais capaz no círculo do seu ministério. Você
achará difícil reconhecer e estimar os dons dados por Deus a outros e, por não
fazê-lo, será difícil para você fazer do seu ministério um processo comunitário.
Pensar de si mesmo mais do que deve pensar sempre leva a desprezar os outros
de alguma forma. É a humildade pessoal e a miséria que o induzirão a procurar
e valorizar os dons e contribuições de outras pessoas. Pastores que pensam de si
como celebridades são propensos a não gostar de processos de grupo e tendem
a ver a delegação de atividades como desperdício de tempo. Em seu coração,
eles pensam: “Por que eu deveria dar a outro o que eu mesmo poderiafazer melhor?”
O orgulho pastoral aniquilará o ministério compartilhado e o ministério essencial
do corpo de Cristo.

♦ ♦ ♦

E importante dizer que escrevi a seção acima com aflição e contrição pes­
soais. Eu caí em glória própria revoltante, em algumas etapas do meu ministé­
rio, em todas essas armadilhas. Eu dominei quando devia ter ouvido e contro­
lei o que devia ter dado a outros. Eu fui defensivo quando necessitava desespe­
radamente de reprovação. Eu resisti ao auxílio quando devia ter implorado por
ele. Fui muito cheio da minha própria opinião e descartei muito a perspectiva
dos outros. Eu exibi muito as minhas próprias coisas visando à aprovação das
pessoas. Ao refletir sobre os meus muitos anos de ministério,fico triste, mas
não deprimido. Não estou deprimido porque, em toda a minha fraqueza, o
Deus de graça surpreendente me resgatou e restaurou várias vezes. Progressi­
vamente ele tem me livrado de mim mesmo (uma obra que ainda continua).
E, estando dividido entre o reino próprio e o reino de Deus, ele tem me usado
miraculosamente na vida de muitos. Em amor, ele tem trabalhado para golpear
e desfigurar a minha glória para que a sua glória seja o meu deleite. Ele tem
saqueado o meu reino para que o seu reino seja a minha alegria. E ele tem es­
magado a minha coroa sob os seus pés para que eu busque ser um bom
embaixador e não almeje ser um rei.
Nesta misericórdia violenta, há esperança para toda pessoa no ministério.
O seu Senhor não está buscando apenas o sucesso do seu ministério, ele está
trabalhando para destroná-lo também. Apenas quando o trono dele for mais
importante do que o seu é que você encontrará alegria na difícil e humilhante
tarefa do ministério do evangelho. E sua graça não cederá até que o nosso
coração tenha sido completamente capturado por sua glória. Isso sim são
boas-novas!
Capítulo 13
SEMPRE PREPARANDO
Confesso que sou um pouco obcecado. É muito difícil para mim desligar
minha mente. Frequentemente coloco o carro no acostamento ou paro no meio
de uma caminhada para pegar o meu telefone e fazer algumas anotações por­
que ideias que eu estava alimentando repentinamente tomaram forma. Minha
esposa, Luella, reclama sempre que, mesmo estando com ela fisicamente, pare­
ce que não estou lá realmente. Ela pode dizer por minha quietude ou pela
expressão na minha face que minha mente e atenção foram sequestradas pelo
conteúdo de algo em que estou trabalhando. Sempre achei muito difícil esca­
par da regra da “Preparação do Rei”. Nos meus dias de folga, acho muito difícil
ficar de folga e me desligar. Creio que estou incessantemente distraído pelo que
Deus me chamou para fazer. Acho que raramente eu verdadeiramente saio do
ministério para a minha vida privada. Posso estar em silêncio e posso estar em
um local tranquilo, mas o barulho do ministério é algo em minha cabeça.
Penso que, de certa forma, nunca paro de preparar.
Um dia desses, eu estava muito cônscio da batalha entre preparação e
devoção pessoal que acontece no meu coração. Eu estava prestes a participar de
uma conferência internacional bastante expressiva onde eu iria falar várias ve­
zes. Eu estava no meio da preparação de material novo e remodelação de mate­
rial previamente preparado. Eu sabia que o que eu ia dizer para as pessoas que
viessem apresentaria a elas uma nova maneira de pensar sobre si mesmas e
acerca do que significa andar com Deus. Isso era empolgante e eu queria fazer
isso corretamente. Ao sair da cama, manhã após manhã, eu trabalhava em
minha mente as maneiras de como abordar o tópico. O meu dia não tinha tido
nem uma chance de começar e eu já havia sido sequestrado pelo peso da prepa­
ração. Na minha bicicleta de exercícios, minha mente corria mais rápido do
que minhas pernas ao focalizar conceitos e mais conceitos, ilustrações e mais
ilustrações e aplicações e mais aplicações. Dia após dia, ao me sentar para ler e
orar pela alimentação da minha própria alma, as coisas que eu estava lendo
rapidamente se tornavam novos pontos para as palestras vindouras.
Então, em dado momento, percebi que eu não estava lendo comigo em
vista, mas, ao contrário, com os meus futuros ouvintes. Eu não estava sendo
instruído, confrontado, entristecido ou transformado pela passagem. Na
verdade, a passagem havia tido impacto mínimo em mim. Naquela manhã eu
estava empolgado com as Escrituras, mas não pessoalmente, não porque eu
havia olhado no espelho da Palavra de Deus e sido humilhado pelo que vi.
Não, eu estava entusiasmado porque havia adquirido mais conteúdo para
compartilhar com outros. Não havia adoração pessoal naquela manhã. Não
havia fome de Deus nem tristeza pelo pecado. Não havia celebração de graça
nem movimento em meu compromisso de viver pela fé. Não havia crescimento
em minha disciplina, perseverança ou esperança. Não havia admiração pela
glória de Deus nem uma percepção mais profunda da sua presença e amor.
Não havia aprofundamento de minha gratidão por ser incluído em sua família.
Não havia uma visão motivadora da derrota final do pecado nem estimulação
do meu clamor pela eternidade. Também não havia um rogo para que o seu
reino viesse e sua vontade fosse feita.
Não, não havia “eu” naquele momento de adoração pessoal. Talvez seja
mais correto dizer que esse momento que eu descrevi, apesar de acontecer
quando eu normalmente tenho o meu tempo particular com o Senhor, não foi
um momento de culto individual. Pouco havia sobre ele que era pessoal ou
relacional. Não foi um momento de um filho se comunicando com o seu pai.
Se foi relacional em algum sentido, foi mais de mim me relacionando com
minha futura audiência do que de mim me relacionando com Deus. Creio que
toda preparação para pregar ou ensinar deve ser devocional, mas, neste exemplo,
a preparação esmagou a devoção. Apesar de ter a Bíblia em minhas mãos,
minha alma necessitada e faminta não foi alimentada. Eu saí daquele tranquilo
escritório pessoalmente inalterado e entendi o que havia acontecido somente
mais tarde, quando refleti sobre a manhã. Mais tarde, naquele dia, alguém me
perguntou o que eu estava lendo em minha hora devocional. No momento em
que respondi foi que compreendi que não havia tido a minha hora particular
de adoração naquele dia; não, apenas outra oportunidade de preparar.
Creio que a luta que estou descrevendo aqui é uma luta para todos nós no
ministério. É muito difícil ter a responsabilidade de pregar ou ensinar a Palavra
de Deus cada semana e esta responsabilidade não dominar a sua mente todas as
vezes em que você tem a Bíblia em suas mãos. O compromisso de ter um horário
regular de comunhão com o seu Senhor estimula a batalha em seu coração entre
a essencialidade da adoração particular e a necessidade de preparação adequada.
No plano de Deus, elas não são mutuamente exclusivas nem competem entre si.
Como tenho dito várias vezes, Deus não nos chamará para uma tarefa que
necessitaria que o desobedecêssemos em outra área. Porém, é muito difícil
manter esses dois aspectos da sua vocação em seu local apropriado.
Quando falo com um grupo de pastores sobre a falta de adoração pessoal
individual, na maioria das vezes estou olhando para um grupo de homens com
sua cabeça abaixada. Muitos dos meus ouvintes têm confessado que não
conseguem se lembrar de quando seu horário devocional era consistente e
vibrante. Muitos deles me disseram que eles simplesmente pararam de tentar
travar a batalha. Eles se levantam, se aprontam e pulam na sela do ministério.
Eles estão prontos para correr para servir a Jesus, apenas têm pouco tempo pessoal
para gastar com ele numa vida de exigências ministeriais urgentes. Eles vivem
com Jesus como maridos que trazem as provisões muito bem para as suas esposas,
mas têm pouco tempo de sobra para participar em um relacionamento que é
remotamente íntimo. Eles provêm muito bem, mas não amam bem. Eles
trabalham duro, mas não no relacionamento principal da sua vida. Muitos
pastores por aí estão tentando liderar e ensinar bem, mas esse trabalho
simplesmente não é alimentado nem dirigido pela devoção do seu coração ao
seu Salvador. Seu cristianismo é mais uma disciplina institucional do que um
relacionamento pessoal. Eles são mais atraídos por ideias do que por Jesus. Eles
são mais atraídos pelo sucesso ministerial do que por crescimento pessoal.
A próxima fase do planejamento estratégico enche os seus olhos mais do que a
glória de Deus e a grandiosidade da sua graça. Eles perderam o centro de tudo
isso e seu coração foi sequestrado, e muitos deles não sabem.
Mas há outra coisa que entra em cena aqui. A falta de uma vida meditativa,
centrada em Cristo, por parte de muitos pastores, não é apenas o resultado das
exigências aparentemente infinitas da preparação ministerial, é também o
produto da síndrome de celebridade. Eu estou convencido de que, quando a
profissão se intercepta com a síndrome da celebridade, uma das primeiras coisas
que acabam é a adoração particular. Talvez seja uma combinação de temor com
gratidão que nos leve a ficar de joelhos e em comunhão com Cristo a cada
manhã. Quando nos defrontamos com quem somos e com a inconstância do
nosso coração é que sentimos a necessidade de que o nosso coração seja
recapturado manhã após manhã. Quando refletimos sobre o fato de que o
pecado não é sempre um horror para nós, mas, às vezes, parece positivamente
atrativo, é então que queremos correr para os braços protetores do nosso Senhor
repetidamente. Nos momentos em que consideramos a perigosa tentação deste
mundo caído é que desejaremos obter ajuda para a batalha diária. E o temor
da nossa própria fraqueza que nos leva para o Salvador em busca de força.
É no momento em que tememos o poder da tolice, que ainda permanece em
nós, que somos impulsionados a procurar, diariamente, a sabedoria que pode
ser encontrada somente nas páginas da Escritura. Um temor humilde e santo
é a parte maior daquilo que impulsiona a uma vida consistente de adoração
pessoal diária.
Assim, quando você se esquece de quem é, quando atribui a si mesmo
maior maturidade do que, na verdade, você tem, e quando pensa que é mais
capaz do que realmente é, você se permite ter pouca razão para procurar o
auxílio contínuo do seu Salvador.
A síndrome de celebridade também esmaga a gratidão que alimenta a
adoração pessoal. Vale a pena repetir que, quando você pensa que é alguém
muito bem-sucedido, você se congratula por coisas que apenas a graça poderia
produzir. Quando você se considera alguém célebre, você tem a tendência de
aceitar os méritos por coisas que somente Deus teria produzido. Você começa
a pensar que o sucesso no ministério tem mais a ver com você do que realmente
tem. Você começa a pensar que é mais essencial do que realmente é. Nada disso
produz a gratidão que abastece a adoração. Pessoas orgulhosas têm a inclinação
de não serem gratas, exatamente porque o orgulho as leva a se apoderarem de
mais méritos do que elas merecem.
Desta maneira, quando a habilidade, a experiência e o sucesso ministeriais
começam a redefinir o modo de você pensar sobre si, o que enfraquece
inevitavelmente é o seu zelo pela adoração em particular. Devido a você estar
convencido de que está bem, você sente pouca necessidade verdadeira de cuidado,
conforto, sabedoria e cura do Grande Médico. A humilde fome de temor e a
fome celebrativa de gratidão foram esmagadas pela síndrome da celebridade e
a adoração é que recebe o impacto.
Talvez um dos escândalos silentes da igreja evangélica moderna seja que
existem muitos, muitos pastores nesta situação. Eles são líderes de ministérios
evangélicos, mas sentem pouca necessidade do evangelho em sua vida diária.
Eles não estão interessados na cura, alimentação e crescimento em seu próprio
coração. Eles não são constantemente agradecidos pela graça resgatadora,
transformadora e fortalecedora. Eles estão funcionalmente mais apaixonados
pelo ministério do que por Cristo. Estão mais empolgados com as ideias da
redenção do que com o Redentor. Sabendo disso ou não, acabaram ficando
mais impressionados consigo mesmos do que com Aquele que lhes dá o fôlego
físico e o espiritual. Eles não vivem com a tristeza diária de saber que tudo o
que ensinam é muito mais fácil de ensinar do que de viver. Não se entristecem
por frequentemente deixarem de ser bons embaixadores do Rei. Eles deixam
de reconhecer os produtos do seu estilo de vida anterior —impaciência, ira,
amargura, lascívia, inveja, cobiça, justiça própria, etc. - e não anseiam que
as mãos graciosas e moldadoras de caráter do Redentor estejam sobre eles.
Eles negligenciam hábitos consistentes de adoração pessoal não porque sejam
indisciplinados ou preguiçosos, mas porque precisam se preparar para alguma
responsabilidade ministerial vindoura. Eles não são motivados a gastar tempo
em adoração e meditação pessoal porque a síndrome de celebridade esmagou o
temor divino e a gratidão humilde que as faziam acontecer.

A DICOTOMIA PERIGOSA

Tudo isso acarreta uma dicotomia perigosa e enganosa. É a crença, cons­


ciente ou não, de que a minha vida ministerial e a minha vida privada não estão
conectadas de modo íntimo e causal. É começar a crer que um homem que não
tem vida devocional pessoal pode liderar as pessoas no culto a Deus. É crer que
uma pessoa que não tem gratidão vertical possa liderar outras em serem agra­
decidas. É crer que uma pessoa orgulhosa seja qualificada para liderar uma
congregação para ser humilde. É o pensamento de que você pode distribuir no
ministério aquilo que você não tem.
Mas o Novo Testamento não dá espaço para que um pastor comece a crer
que seja duas pessoas separadas: o homem particular em casa e o homem público
no púlpito. Paulo teria considerado isso uma heresia do ministério pastoral
m uito perigosa. Assim, quando Paulo apresenta as qualificações para o
presbiterato, um dos lugares para onde ele lhe diz para ir e olhar é o lar do
pastor. Se um presbítero não pode gerenciar bem o seu lar, como pode liderar
o grupo de crentes que está sob os seus cuidados?
Você é uma pessoa. Os limites de vida e ministério não são separados e
definidos. Você não se torna uma pessoa diferente quando entra em algum tipo
de função ministerial. Eu e você estamos de posse de somente um coração e,
assim, a condição do nosso coração é uma questão enorme em nosso ministério.
Eu sei que isso parece muito óbvio, mas temo que não seja tão funcionalmente
óbvio em nossas igrejas.
Ouça o conselho de Paulo para o jovem pastor Timóteo: “Tem cuidado de
ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás
tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (lTm 4.16). Existem duas suposições
cruciais por trás do conselho de Paulo a Timóteo. A primeira é que Timóteo
não havia atingido a posição de pessoa de sucesso. Paulo está lembrando a
Timóteo que, como pastor, ele devia se lembrar de que estava no meio de sua
própria santificação. Ele devia se lembrar de que o seu coração ainda era capaz
de se desviar. Ele devia se lembrar de que necessitava de tudo o que ele ofereceria
aos outros. Ele precisava de advertência, encorajamento, reprovação, conselho,
etc. Timóteo, o ministro do evangelho, necessitava pessoalmente do evangelho
também. Assim, a recomendação de Paulo a Timóteo foi que ele mantivesse
muita atenção em si mesmo. Embutido nessa recomendação a Timóteo existia
um chamado para que ele alimentasse o seu coração. Ele não podia se permitir
pensar que tudo o que ele precisava fazer para ser útil no ministério era se
preparar bem, e não podia deixar que a alimentação pessoal fosse esmagada
pelas exigências da preparação. Sim, ele devia se preparar e preparar bem. Ele
devia ter um olho cuidadoso em seu ensino, mas apenas isso simplesmente não
era suficiente.
Desta forma, a primeira suposição de Paulo é que, devido ao pecado
remanescente, Timóteo ainda estava em perigo e devia manter atenção humilde
ao seu próprio coração. Mas Paulo continua com uma segunda conjectura que
é importante não perder. É que o fato de Timóteo guardar e alimentar o seu
coração não era apenas para a sua própria proteção e crescimento, mas também
para a salvação dos seus ouvintes. Paulo estava considerando que a condição do
coração de Timóteo, de alguma maneira, moldaria a direção e a fecundidade
do seu ministério.
A nutrição particular do seu próprio coração como pastor não é somente
uma confissão humilde de necessidade e do seu amor pelo seu Salvador; é
também uma declaração do seu amor pelas pessoas que Deus colocou aos seus
cuidados. É deste modo que a preparação e a devoção pessoal se interceptam.
Não, você não está lendo aquela passagem de manhã para desenvolver conteúdo
para um momento de ensino, você a está lendo para alimentar o seu próprio
coração. Mas, ao fazê-lo, você está preparando o seu coração para enfrentar
todas as responsabilidades, oportunidades e tentações do ministério da igreja
local. O que você está fazendo todas as manhãs eleva o potencial para que, em
momentos cruciais do ministério pastoral, você faça parte do que Deus está
fazendo e não seja um obstáculo a isso.
Veja, existem momentos muito importantes no ministério da igreja local
em que a igreja é abençoada e protegida não porque a pessoa que está liderando
sabe todas as coisas certas, mas porque aquela pessoa traz o coração certo para
o m om ento. Assim, ele é capaz de lidar sabiamente com acusação, ou
pacientemente com aqueles que querem controlar, ou humildemente com aqueles
que o idolatram mais do que deviam. Ele não está apenas preparado para ensinar,
mas também para evitar as minas terrestres da tentação que estão aos pés de
todos que m inistram a pessoas caídas neste m undo defeituoso. Se você
trabalha diariamente para guardar o seu coração, você está, ao mesmo tempo,
fazendo um compromisso diário de pastorear e proteger o seu povo. As duas
coisas simplesmente não podem ser separadas. E quando a síndrome de celebridade
enfraquece a sua necessidade de guardar o seu próprio coração, você coloca as
pessoas a quem Deus o chamou para pastorear em perigo também.
ADORAÇÃO INDIVIDUAL: SUA MORTE, SUA VIDA
Realmente e verdade: a saude e o sucesso do seu ministério realmente são
uma questão de morte e vida. Para você se tornar um embaixador nas mãos de
um Deus de graça gloriosa e poderosa, você deve morrer. Você deve morrer para
os seus planos, para a sua própria vida. Você deve morrer para os seus sonhos de
sucesso focalizados em si mesmo. Você deve morrer para as suas exigências de
conforto e bem-estar. Você deve morrer para a sua definição individual da boa
vida e para suas exigências de prazer, aclamação, proeminência e respeito. Você
deve morrer para o seu desejo de estar no controle e para a sua esperança de
justiça independente. Você deve morrer para os planos que faz para outros e
também para a sua ânsia por certo estilo de vida ou aquele local específico.
Você deve morrer para a sua própria realeza e para a busca da sua própria glória
para acolher a causa da glória de Outro. Você deve morrer para o seu controle
sobre o seu próprio tempo. Você deve morrer para a manutenção da sua repu­
tação e para ter a resposta final e fazer as coisas à sua maneira. Você deve morrer
para a sua confiança inabalável em si. Você deve morrer.
O que isso tem a ver com a sua vida de adoração pessoal individual? Bem,
aqui está. A sua vida devocional particular tem o poder de matá-lo como nada
mais. Por “matá-lo” eu quero dizer que ela tem o poder de matar o “me-ismo”
que esta dentro de voce (e de mim) que o levará repetidamente a ser um obstáculo
ao que quer que seja que Deus esteja fazendo no momento, ao invés de fazer
parte. A adoração pessoal particular é um instrumento efetivo de graça nas
mãos de Deus para matar aquelas coisas em você que devem morrer para que
você seja o que foi chamado para ser e fazer o que você foi designado para fazer
em seu lugar no ministério. Deixe-me explicar.
Primeiramente, a adoração pessoal consistente resulta em você ter uma
visão precisa de Deus. Um dos grandes perigos para todos nós é este: temos a
habilidade perversa de olhar ao redor e não ver a glória majestosa de Deus.
Muito embora, como Isaías diz, “toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6.3),
podemos ser incrivelmente cegos para a exposição que está por todo lado ao
nosso redor. A nossa visão se torna nublada devido a todas as outras coisas que
estão na nossa linha de visão. Vemos todas aquelas pessoas que estão perturbadas,
com necessidade desesperadora de cuidado pastoral. Vemos um orçamento da
igreja que parece não estar funcionando. Vemos líderes que precisam trabalhar
com maior humildade e unidade. Vemos um edifício que vai além da sua utilidade.
Vemos um ministério infantil que está definhando, destituído de liderança efetiva.
Vemos circunstâncias de divisão teológica e controvérsia. Vemos o líder de cânticos
que e mais um artista do que um pastor. Vemos uma série de sermões que precisa
ser preparada, missionários que precisam receber apoio e líderes que precisam
ser treinados. Os olhos do nosso coração estão cheios de muitas coisas
importantes, mas, muitas vezes, não vemos a coisa mais importante.
O estudo bíblico diário, a meditação e a oração têm o poder e o potencial
de tornar a glória de Deus grande aos nossos olhos novamente. E se formos
confrontados diariamente com a sua grandeza, isso não somente nos dará
coragem e esperança, mas também trabalhará para nos lembrar de que não
somos grandes nem gloriosos. A adoração pessoal tem o poder de nos colocar,
progressivamente, em nosso lugar. Por colocar Deus no centro do universo, ela
tem o poder de matar qualquer esperança que temos de estar no centro. Devido
ao fato de a adoração nos apontar para o reino maravilhoso de Deus, ela tem o
poder de nos libertar da servidão de estabelecer o nosso próprio. Por nos expor
vez após vez à graça de Deus que transforma vidas, a adoração particular nos
liberta da nossa esperança de que podemos mudar as pessoas. A adoração
individual é uma das coisas que Deus usa para nos libertar de qualquer confiança
remanescente que tenhamos de que podemos fazer o que somente o Messias é
capaz de fazer. Mas ela faz mais.
Uma vida devocional particular também dá a você uma visão precisa do
mundo. Enquanto a Escritura o expõe diariamente ao sangue e às entranhas, à
fumaça e poeira deste mundo caído, você é libertado progressivamente da sua
esperança de que o seu mundo caído, pessoas ou igreja defeituosas um dia
serão o paraíso ministerial que nunca serão. Você começa a morrer para as
expectativas e sonhos ministeriais irreais. Você é liberto progressivamente de
invejar o ministério de outros e de inquirir por que as coisas são tão difíceis
para você. Você começa a entender que o ministério é guerra e que você não
pode abordá-lo com uma mentalidade de tempos de paz. Você começa a
entender que isso aqui não é o seu destino, mas que todas as dificuldades da
vida e do ministério aqui e agora têm o objetivo de preparar você e o seu povo
para o destino final. A devoção pessoal diária tem o poder de libertá-lo das
ideias ingênuas e românticas sobre a igreja local que, infelizmente, na maioria
das vezes, são o que fazem as pessoas ficarem empolgadas no ministério.
A honestidade total e descritiva da Bíblia ao observar o mundo no qual você e
eu vivemos e ministramos tem o poder de matar o seu sonho egoísta de que
você será capaz de servir ao seu Rei crucificado sem sofrimento de sua própria
parte. Mas ainda tem mais.
A adoração pessoal privada tem o poder de m atar a nossa visão
frequentemente inexata sobre nós mesmos. Quando nos olhamos diariamente no
espelho, acabamos tendo uma noção atual e precisa sobre nós mesmos.
Gostaríamos de pensar que nos conhecemos bem. Gostaríamos de pensar que
fazemos uma estimativa válida das nossas fraquezas e dos nossos pontos fortes.
Gostaríamos de pensar que temos interpretado a nossa jornada de forma
adequada e também que temos sido libertados de apontar o dedo quando
devíamos ter aceito a culpa. Gostaríamos de pensar que reconhecemos e
admitimos rapidamente os nossos erros, mas essas coisas não são sempre verdade
a nosso respeito. Muitas vezes temos um ponto de vista muito distorcido sobre
nós mesmos. Na maioria das vezes, pensamos que somos melhores do que
realmente somos. Assim, precisamos desesperadamente de um espelho que nos
mostre nossa imagem com precisão completa.
Isso é importante porque a autonomia, a confiança em si e a justiça própria
esmagam o ministério pastoral gentil, humilde, gracioso, paciente e amável.
Como pastor, você necessita da esperança e da coragem que somente uma
visão exata da graça de Deus pode lhe dar. Você precisa se lembrar de que não
precisa tentar fazer em seu ministério o que somente a graça tem o poder para
fazer. Porém, temo que muitos pastores percam a visão dessa graça. Temo que
eles caiam no problema do exército de Israel, que comparou seu potencial ao
tamanho deles mesmos e ao tamanho do problema. Não é de se admirar que
eles tenham temido enfrentar Golias no campo de batalha! Eles se esqueceram
de que não estavam sozinhos. Eles se esqueceram de que, como filhos de Deus,
seu potencial era enormemente maior do que sua sabedoria, força ou experiência,
porque o Deus Todo-Poderoso havia se comprometido pactualmente a liberar
seu poder em defesa deles.
Da mesma maneira, pastores são tentados a medir mal o seu potencial
porque, apesar de provavelmente não notarem, eles têm uma enorme lacuna
no meio da sua compreensão do evangelho. Eles negligenciam a pregação do
evangelho da graça de Jesus Cristo aqui e agora para si mesmos. Desta maneira,
eles estão temerosos de enfrentar o que pensam estar além de sua capacidade
ou atribuem a si mesmos habilidades que não possuem. A mensagem da graça,
de páginas após páginas, que a Bíblia lhe dá tem o poder de matar o temor
paralisante e o orgulho envaidecedor potencial, e todo pastor precisa confessar
diariamente sua necessidade dessa graça, ou será um perigo para si mesmo e se
torna um perigo para outros. Essa mensagem de graça o humilha e lhe dá
esperança ao mesmo tempo - duas qualidades de caráter indispensáveis para
qualquer líder na igreja de Jesus Cristo.
O que o mata também lhe dá vida. Enquanto a adoração pessoal se torna
uma ferramenta graciosa da sua morte, levando-o progressivamente a morrer
para a sua confiança própria, justiça própria, soberania própria e egocentrismo,
você começa a viver, realmente viver. A vida verdadeira está do outro lado da
sua morte. Talvez a justiça verdadeira somente comece quando você chega ao
fim de si mesmo. Lembre-se das palavras de Cristo: “Se alguém quer vir após
mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser
salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa acha-la-á
(M t 16.24-25).
Devido ao fato de a adoração individual diária colocar a glória de Deus na
minha frente constantemente, devido ao fato de ela me forçar a encarar a triste
condição do meu mundo, devido ao fato de ela me confrontar com as minhas
fraquezas e meu pecado e devido ao fato de esta adoração me banhar com a
graça maravilhosa de Deus, ela progressivamente me faz ficar alerta e pronto
para as coisas que Deus me chamou para fazer e para as lutas que enfrentarei ao
desempenhá-las.
A adoração individual é um dos meios de Deus para resgatar não somente
você, mas também aqueles que ele colocou sob os seus cuidados. Quando a
síndrome de celebridade o separa do santo temor e da gratidão humilde que
alimentam a adoração pessoal consistente, isso é uma coisa triste e perigosa não
apenas para você mesmo, mas para a igreja sob os seus cuidados.

SINAIS DE QUE VOCÊ SE ESQUECEU DA SUA IDENTIDADE DUPLA


Assim, aqui está o ponto principal para qualquer pessoa no ministério:
você sempre deve ser cuidadoso em levar uma identidade dupla com voce, não
importa onde você esteja ou o que esteja fazendo. Não importa quão influente
você se torne, nem quão bem você seja conhecido e nem quão experiente você
seja, você deve lutar para manter ambas as identidades. Você deve pensar de si
não apenas como um instrumento do trabalho, mas também como um receptor.
O seu trabalho como instrumento não cancela sua identidade como receptor e
sua identidade como receptor não enfraquece seu trabalho como instrumento.
Você e eu nunca devemos nos aproximar da graça somente como instrumentos
da graça na vida de outros; nós devemos também nos lembrar de que não há
graça que oferecemos a outros da qual nós mesmos não necessitemos em algu­
ma circunstância.
Quando você se esquece de que ainda precisa receber o que é vocacionado
para dar a outros, você para de ser alguém que procura a graça que é a sua
proteção, sabedoria, esperança e força. Esquecendo-se de que ainda é um re­
ceptor carente e pensando acerca de si somente como instrumento, voce esma­
gará seu mundo de estudo pessoal da Palavra e sua adoração ao seu Senhor. Isso
significará que você parou de ver a Palavra como algo necessário para voce e, por
fazê-lo, cada vez que você pegar a sua Bíblia será com o proposito de se preparar
para ensinar a outros e não com o propósito de alimentar o seu proprio coração.
Na realidade, você sempre estará preparando, mas não consumindo pessoalmen­
te as verdades nutritivas que está preparando para dar a outros.
Isso traz à lembrança as palavras evocativas de Pedro: “Desejai ardentemente,
como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos
seja dado crescimento para salvação” (IPe 2.2). Eu me lembro da fome voraz
do nosso primeiro filho. Ele ansiava pelo leite que somente sua mãe podia
providenciar e não se dissuadia! Mas também me lembro de que, após ter
saciado sua fome física, ele chorava quando sua mãe o tirava do peito para
colocá-lo no berço. Aquelas lágrimas demonstravam outra fome. Ele também
estava faminto de uma conexão íntima, comunhão e segurança dos braços da
sua mãe. Isso me leva a questionar a mim mesmo. Eu perdi a minha fome
semelhante à de um recém-nascido pela nutrição da Palavra de Deus? Eu perdi
a minha fome de conforto e segurança de comunhão íntima com o meu Senhor?
Isso se tornou um pouco mais do que um compromisso disciplinado para o
serviço de uma instituição religiosa? Tudo isso se reduziu a ideias teológicas e
estrategias de ministério? Isso deixou de ser um relacionamento pessoal com um
chamado pessoal e se tornou pouco mais do que um trabalho, uma carreira
profissional? O desejo sincero de levar o evangelho da graça aos outros se
transformou em uma amnésia de identidade perigosa e mortal para a alma?
Voce esta tão ocupado alimentando outros que negligencia a necessidade
de alimentar a si mesmo?
Aqui estão alguns sinais aos quais você pode prestar atenção em sua vida e
ministério, os quais indicam que seu trabalho como instrumento da graça o tem
levado a esquecer ou a negar sua identidade como receptor dessa mesma graça.
1) A BÍBLIA DEIXOU DE SER UM ESPELHO
O primeiro sinal é uma mudança no seu relacionamento com a Palavra de
Deus. A Bíblia deixou de ser um espelhopara você e é usada somente comoferramenta
para ministrar a outros. Este e um lugar perigoso de estar; essa situação coloca
em risco o seu coração, mas este e o lugar em que muitos, muitos pastores
trabalham e vivem. É possível mudar sua vida de adoração também.
2) A ADORAÇÃO PASSA DE BUSCA PARTICULAR PARA DEVER PÚBLICO
A adoração parte de uma busca pessoal humilde e agradecida para assumir a
forma de algo que você lidera como um dever público. Sim, o dever é seu de levar
outros a adoração, como é o seu dever ensiná-los a partir da Palavra de Deus,
mas como você pode levar pessoas atraente e persuasivamente a fazer o que é
estranho à sua experiência diária?
3) 0 CRISTIANISMO SETORNA UM SISTEMA ENÃO UM RELACIONAMENTO
O seu cristianismo se torna mais relacionado com um sistema de redenção do
que com um relacionamento pessoal e comunhão com o Redentor. Talvez haja mais
cristianismo sem Cristo por ai do que nós pensamos, e talvez sua existência seja
mais uma questão do coração do que uma fraqueza em nossa teologia funcional.
4) O SEU DESEJO DE DOMINAR A FUNDO O CONTEÚDO NÃO É
ACOMPANHADO PELO DESEJO DE SER DOMINADO POR JESUS
O utro sinal da perda da sua identidade como receptor é que o seu desejo de
dominara fundo o conteúdo da Palavra não é acompanhado pelo desejo ardente de
que o seu coração seja dominado afundo pelo Deus da Palavra. Um dos perigos da
síndrome de celebridade é uma bibliolatria sutil, na qual a confiança no Deus
da Palavra vai sendo substituída progressivamente pela sua confiança em seu
conhecimento e habilidade de lidar com a Palavra. Você é mais orientado para
ser teologicamente informado do que para ter seu coração e sua vida radicalmente
transformados pela Palavra de Deus. Existe a possibilidade de que você tenha
um coração voltado para a Palavra (uma busca pela perícia teológica e
conhecimento bíblico), mas não um coração voltado para o Deus da Palavra?

5) VOCÊ SE IMPORTA MAIS COM 0 PECADO DOS OUTROS DO QUE COM


O SEU PRÓPRIO
Esquecer-se da sua identidade como receptor também resultará em você
ter uma preocupação pelos outros que sobrepuje a sua tristeza por si mesmo. Quem
de nós não se sentou em frente a um pregador talentoso e não ouviu outra
pessoa? Você não está faminto pessoalmente e nem agradecido ao ouvir. Não,
você está muito agradecido de que tal pessoa esteja presente no recinto porque
ela realmente precisa ouvir o que o pregador está dizendo. Essa dinâmica é
uma tentação real e presente para qualquer um no ministério. Você está em
grande perigo se a tristeza que você experimenta com a condição dos outros for
maior do que a tristeza que sente pelo seu próprio pecado.

6) 0 ORGULHO DE CONHECER SUBSTITUI A HUMILDADE DE SER


CONHECIDO
Um último sinal de que você se esqueceu da sua identidade dupla: o orgulho
de conhecer substitui a humildade de ser conhecido. A sua vida e o seu ministério
começam a ser moldados mais pelo seu orgulho quanto ao que você sabe do
que pela hum ildade de ser com pletamente conhecido e, mesmo assim,
totalmente amado pelo Salvador. Assim, você ministra como alguém que é
uma celebridade e não como alguém que ainda celebra o resgate da graça da
qual, juntamente com outros, continua a necessitar.
♦ ♦♦
Esses sinais estão presentes em sua vida e ministério? Existe evidência de
que o seu chamado para ministrar graça o levou a esquecer sua própria necessi­
dade de graça?
Uma das bênçãos mais encantadoras da cruz de Jesus Cristo é que a cortina
da separação foi rasgada em duas partes. Os lugares santos não estão mais
abertos apenas para o sumo sacerdote uma vez por ano. Não, agora cada um
dos filhos de Deus recebeu as boas-vindas para chegar com confiança à presença
de Deus, e não somente uma vez por ano. Quando o autor de Hebreus escreve
sobre essas boas-vindas, ele diz: “Acheguemo-nos, portanto, confiadamente,
junto ao trono da graça...” (4.16). Nós, com todos os nossos pecados, fraquezas
e falhas, somos aceitos para fazer o que nos devia deixar surpresos. Não somente
somos tolerados por Deus a certa distância; não, nós somos recebidos em
comunhão pessoal íntima com o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, o Criador,
o Soberano, o Salvador. Nós, pecaminosos como somos, recebemos o convite
para entrar, com confiança, na sua santa presença. O sangue de Jesus tornou
possível o que era impossível. Para o escritor de Hebreus, existe apenas uma
resposta correta ao acesso a Deus que agora temos por intermédio de Jesus
Cristo. Aqui está: “Acheguemo-nos”. Talvez, ao nos esquecermos de quem somos
e do que recebemos, tenhamos essencialmente desistido de nos achegar. Tão
convencidos de que estamos bem e tão ocupados preparando, muitos de nós
têm deixado de se comunicar com Aquele que é nossa vida, paz, reconciliação,
sabedoria, esperança, perdão e força. E, por termos feito isso, a brandura,
humildade, paciência e paixão que a adoração necessitada e agradecida produz
em nosso coração estão ausentes no nosso ministério.
Você simplesmente não pode ser um bom embaixador da graça do Rei
sem reconhecer sua necessidade do Rei em sua própria vida. O ministério
público precisa ser alimentado e impulsionado pela devoção individual. Quando
isso está ausente, você e seu ministério mudam de maneira prejudicial a você e
às pessoas a quem você foi chamado para servir.
Pastor, a síndrome de celebridade e as ocupações do ministério têm
esmagado sua vida de adoração particular, meditativa, de comunhão com Cristo?
Ou, nas palavras de Hebreus, você ainda está se achegando?
Capítulo 14
SEPARAÇÃO
Foi um momento engraçado, constrangedor, porém útil. Meu assistente
Steve e eu estávamos sentados com um grupo de pastores que haviam pedido
para almoçar conosco. Um dos pastores havia perguntado a Steve o que o havia
motivado a deixar o seu negócio de seguros para o seu genro cuidar com o
objetivo de trabalhar por tempo integral diariamente com o Ministério Paul
Tripp. Steve disse espontaneamente: “Bem, eu não faço o que faço para o mi­
nistério porque idolatro Paul, porque Paul pode ser um pouco chato às vezes.
Eu faço isso porque creio na paixão de Paul em conectar o poder transformador
de Jesus Cristo para a vida cotidiana”. Ao ouvir, minha primeira reação silente
e defensiva foi: “Sim, Steve, às vezes eu sou chato, mas se isso for para ser
anunciado a pastores, eu gostaria de fazer o anúncio”. Foi uma cena interessan­
te. Alguns pastores riram; alguns deles apresentaram um semblante constran­
gido, enquanto eu ponderava se devia responder ao momento.
O fato é que Steve estava exatamente correto. Ele tem me visto em meus
momentos mais constrangedores, facilmente irritado, pobre de mim, difícil de
relacionamento. Você não pode viver e trabalhar próximo a alguém sem ver a
evidência empírica dos produtos remanescentes da sua depravação, aquelas
coisas no coração que ainda precisam da mão transformadora do Redentor.
Steve abandonou há muito tempo a ilusão de que eu sou um exemplo heroico
das coisas que ensino. Se ele estivesse fazendo o que está fazendo no ministério
por mim, eu já teria dado a ele muitas razões para desistir. Eu ainda sou um
homem falido, necessitado de mais atenção das mãos restauradoras da graça.
Portanto, ao nos aproximarmos do final deste livro, desejo ser brutalmente
honesto e pedir a você para fazer o mesmo também. Pastores, todos nós ainda
somos confusos. Em certas circunstâncias, somos exemplos muito pobres das
verdades que ensinamos. Todos nós temos a sombria habilidade de expor uma
passagem que enaltece a graça de Deus e, mesmo assim, sermos maridos ou
pais que não demonstram a graça no carro, de volta para casa. Você pode liderar
o debate do ministério de homens sobre o assunto da pureza sexual bíblica e
cobiçar as mulheres no supermercado, ao voltar para casa. Você pode ensinar
sobre a natureza autossacrificial do amor e ser egocêntrico e indisposto a servir
em casa. Você e eu podemos definir humildade bíblica, mas sermos orgulhosos
do que sabemos e do que já realizamos. Você e eu temos a habilidade de falar do
que significa investir nossos dons e energia na obra do reino de Deus e depois ir
para casa e desperdiçar incontáveis horas em frente à tela plana. Falamos sobre a
beleza do perdão, porém abrigamos amargura contra famílias ou líderes que se
opuseram a nós. Somos capazes de falar sobre a posse que Deus tem de todas as
áreas da nossa vida e depois nos masturbarmos no banheiro antes de ir para a
cama. Falamos do descanso que temos no controle de Deus e então, ansiosamente,
trabalhamos politicamente por trás das cenas para nos assegurarmos de conseguir
o que queremos. Falamos sobre dar a Deus a glória que é devida a ele e depois
falsificamos os números para que os nossos ministérios pareçam mais bem-
sucedidos aos olhos dos outros do que na verdade são. Falamos sobre confiar na
provisão de Deus, mas nos endividamos ao gastar mais do que ele proveu para
nós. Ensinamos às pessoas sobre o descanso que pode ser encontrado quando
voce se identifica verticalmente, mas, no momento mais importante do ministério
diário, nós nos importamos demais com o que as pessoas pensam a nosso respeito.
Podemos ensinar bem sobre como ser contentes, mas rapidamente reclamamos e
murmuramos quando as coisas ficam difíceis. Falamos sobre um coração dedicado
ao ministério, mas quando chegamos em casa, tudo o que desejamos é ser deixados
em paz. Todos nós temos a capacidade de sermos retos, orgulhosos, condenatórios,
controladores, facilmente irados, amargos e exigentes. Nós, às vezes, agimos como
se tivéssemos direito às nossas bênçãos. Frequentemente nos esquecemos do quanto
necessitamos de tudo o que ensinamos. Damos evidência, todos os dias, de que
somos pessoas no meio da nossa própria santificação, que ainda precisamos do
resgate da graça, momento a momento.
Em certo sentido, todos nos temos uma separação em nossa vida entre a
nossa pessoa ministerial publica pristina e os detalhes mais confusos da nossa
vida particular. Aspectos desta separação estarão conosco até o Senhor retornar.
Esta separação não o desqualifica, necessariamente, para o ministério, mas
torna-se espiritualmente debilitadora para você e para o seu ministério quando
você se torna confortável com ela. E perigoso quando você aprende a arte de
fazer essa separação funcionar. É um desastre pastoral quando você conquista
a tenebrosa habilidade espiritual de seccionar o seu próprio coração, como se
voce fosse duas pessoas distintas, e o lado sombrio não o assombra mais. Lembre-
se, essa separação existe mais frequentemente nas áreas cotidianas e mundanas.
Assim, é neste contexto que devo perguntar: “Existem áreas de clara desarmonia
ou desconexão entre a sua pessoa ministerial pública e a sua vida particular?
E você se tornou confortável com as desconexões, talvez até mesmo desenvolvendo
a habilidade de fazê-las funcionarem confortavelmente?”

PREGANDO O EVANGELHO PARA 51MESMO


É aqui que nós, pastores, precisamos pregar o evangelho para nós mesmos.
Grande parte desta separação e desarmonia é impulsionada pelo fato de que,
em nossa vida diária, tendemos a esquecer o próprio evangelho que pregamos
tão convincentemente nos cenários públicos para os outros. Aqui está a luta
pastoral cotidiana: estamos não somente lidando com a realidade do nosso
próprio coração duplo, mas também existem muitas outras coisas que podem
pressionar o nosso coração e, no processo, começar a moldar as coisas que fazemos
e dizemos no ministério.
Você pode sentir a pressão das expectativas para o seu futuro no ministério,
que foram colocadas sobre você por ter se saído bem no seminário. Você pode
sentir um peso de responsabilidade para com uma denominação que investiu em
você e no seu ministério. Você pode sentir o peso da visão de líderes experientes
de longa data que têm tido impacto significativo sobre a cultura e a direção da
igreja. Provavelmente você carrega a carga das suas próprias esperanças, a dos
sonhos que tem para si mesmo e a da visão de como seu ministério poderia ser
nos anos a seguir. Se você tem coração de pastor, você sente o peso dos desejos,
expectativas e necessidades espirituais do povo que Deus o chamou para servir.
Você sente a responsabilidade de construir a reputação ministerial correta diante
dos olhos de uma comunidade observadora. Você sente o peso da obrigação de
liderar uma variedade de ministérios que nem sempre funcionam em uníssono.
Você carrega a carga das necessidades de finanças e prediais. Você enfrenta uma
variedade de vozes que comentam sobre o seu ensino público, pregação e liderança
no culto. Você é atraído para a resolução de problemas que não criou, mas que
devem ser solucionados. Você enfrenta o peso da oposição e da crítica. Você
precisa lidar com líderes que querem controlar e são mais políticos do que pastores.
Você sente o peso de todas essas coisas pressionando contra a enorme
responsabilidade que você tem como marido e pai.
Todas essas preocupações são legítimas, mas, juntas, podem resultar em
um coração que raramente tem descanso e num ministério no qual falta foco,
inclinando-se de uma preocupação séria para outra. Existe outra coisa: é certo
carregar a responsabilidade de todas essas coisas, mas você não deve deixar que
nenhuma delas domine o seu coração. Todas essas preocupações podem se
tornar idolatrias pastorais sedutoras e, quando se tornam, você pode pensar
que está servindo a Deus, mas seu coração está sendo dominado por algo a que
você anexou sua identidade pastoral e percepção interna de bem-estar. No seu
ministério, você pode fielmente convidar pessoas para submeterem sua vida ao
senhorio de Jesus Cristo e, nesse mesmo ministério, render o seu coração a toda
uma lista de idolatrias pastorais. Quando isso acontece, você desempenha o
ministério com a esperança de obter horizontalm ente o que já recebeu
verticalmente. De forma inconsciente, você está pedindo à aclamação, ao sucesso,
à reputação ministerial, etc., para serem o seu próprio messias pessoal. Isso nunca
funcionara. Isso sempre leva a más escolhas e nunca resulta na segurança interna
que você procura. Pense sobre a insanidade desta idolatria ministerial sutil.
As pessoas em sua igreja não se tornaram participantes ativos no seu
ministério para que, coletivamente, pudessem fazer você se sentir melhor a
respeito de si mesmo e mais seguro com os seus dons ministeriais. Deus não o
chamou para sua posição ministerial particular para que você pudesse finalmente
remendar uma identidade com a qual pudesse viver. A liderança da igreja não
o chamou para ser seu pastor porque sabia que você precisava de um fórum
onde pudesse encontrar significado e propósito. As pessoas perturbadas da sua
igreja não se tornaram problemáticas para que você se sentisse necessário,
essencial e apreciado. As pessoas que contribuem fielmente não contribuem
para que você possa construir um ministério de sucesso e se deleite na segurança
das suas realizações. Assim, você nunca encontrará em seu ministério o descanso
de coração que todo ser humano procura. E quando você procura lá, essa busca
resulta somente em ansiedade, frustração, dor, desapontamento, ira e amargura
e pode, no final, levar você a questionar a bondade de Deus. Estou convencido
de que o que nós frequentemente chamamos de “estresse ministerial” (um
termo que não considero particularmente útil) é, na maioria das vezes, o resultado
da busca que pastores fazem em seus ministérios do que não pode ser encontrado
lá e, por não poder ser encontrado lá, eles acabam esgotados e desanimados.
Desta maneira você tem as realidades da sua vida espiritual particular
colidindo com todas as responsabilidades e expectativas do ministério público.
Você corre o perigo de se tornar confortável com uma desarmonia entre a sua
pessoa ministerial pública e a sua vida espiritual privada, interceptando a guerra
de adoração que está sendo travada em seu coração ao ouvir todas as vozes
idólatras que saúdam todo pastor de toda igreja.
Temo que, no calor desta guerra e na fadiga da batalha espiritual, muitos
pastores se permitam ficar a vontade com a duplicidade ministerial (uma separação
entre as verdades que eles ensinam e o modo como vivem) e com a idolatria
ministerial sutil (deixar que a busca p o r______ comece a dominar seus corações
no ministério). A única defesa contra isso é o evangelho de Jesus Cristo. É somente
quando estamos vivendo a vida que somente a graça é capaz de dar que paramos
de procurar vida em algum outro lugar. É apenas quando estamos adotando o
descanso do perdão da graça que podemos olhar para nós mesmos honestamente
e nos entristecer sem afundar na culpa e vergonha debilitantes.
Pastor, não há uma igreja para quem você necessite pregar mais do que
para si mesmo. Não há um lugar mais importante para exegetizar e expor a
graça do que o seu próprio coração. Não há um lugar mais importante para
ensinar o que significa aplicar esta graça a situações, locais e relacionamentos
concretos do que a sua própria vida. Não existe um lugar mais importante para
temer o resultado da duplicidade do que o seu próprio coração. Não há lugar
com o qual se preocupar mais sobre a idolatria funcional religiosamente aceitável
do que a sua própria vida. O ministério é uma guerra pelo evangelho em seu
próprio coração. A graça o capacita a ser um bom soldado. Você e eu não
podemos nem devemos permitir ficarmos satisfeitos com coisas que Deus diz
serem erradas. Você e eu não devemos trabalhar para convencer a nós mesmos
que os nossos ídolos não são realmente ídolos. Você e eu não podemos nos
permitir viver uma vida ministerial à qual faltam consistência e integridade.
Você e eu devemos entender que fomos chamados para lutar pelo evangelho de
Jesus Cristo e que a guerra começa no nosso coração.
Deixe-me sugerir algumas aplicações vitais do evangelho ao dia a dia que
todo pastor deve pregar para si mesmo continuamente.

1) EU NÃO PRECISO FICAR ANSIOSO QUANTO A NUNCA ESTAR À ALTURA,


PORQUE JESUS ESTÁ PERFEITAMENTE À ALTURA EM MEU FAVOR
Somente o evangelho pode me libertar do temor de não ser encontrado
digno. O fato é que eu sou indigno. Nunca poderia fazer ou dizer qualquer
coisa que me fizesse digno da aceitação e afeição do Pai. Nunca poderia ser tão
perfeitamente obediente que merecesse sua aprovação. Não estou no ministério
porque, por meu próprio esforço, me tornei um exemplo brilhante de tudo o
que o evangelho pode produzir. Fui liberto da escravidão de convencer a mim
e a outros de que sou digno. Não necessito argumentar individualmente por
meu valor ou fazer coisas em público para prová-lo. Jesus está à altura
perfeitamente; ele foi perfeitamente digno em meu lugar. Ele realizou o que
era impossível que eu realizasse para que eu recebesse a posição que não mereci
e nunca poderia merecer. Não preciso viver como se ainda estivesse num período
de experiência, como se ainda estivesse sendo avaliado. Fui aceito e chamado
para o ministério. Não mereci qualquer das duas coisas. Ambas são dons da
graça. Venho para o ministério com apenas uma coisa para provar: que o
evangelho de Jesus Cristo é confiável e verdadeiro e tem o poder de libertar e
transformar você e eu. No ministério, sou defrontado com a realidade do meu
próprio pecado, fraqueza e pressão das expectativas e críticas de outras pessoas.
Devo pregar o evangelho desta graça para mim mesmo dia após dia.
2) DEVIDO À GRAÇA ME PERMITIR OBTER MINHA IDENTIDADE E
SEGURANÇA VERTICALMENTE, ESTOU LIVRE DE FUNDAMENTÁ-LAS
NO QUE AS PESSOAS PENSAM DE MIM
Em certo sentido, como pastor, você deve se importar pouco com o que as
pessoas pensam a seu respeito. Porém, aqui está o que quero dizer com isso:
você não olha para elas na esperança de obter coragem, esperança, paz, descanso
e razão para continuar. Como resultado, você está livre de ser cauteloso demais
sobre como reagirão e de ser temeroso demais quanto aos seus caluniadores.
Voce esta em apuros como pastor quando precisa de doses regulares de apreciação
e respeito para conseguir continuar. Sim, você sabe que necessita do ministério
do corpo de Cristo e quer estar aberto para esse ministério, mas você está liberto
de entrar na montanha russa dirigida pela ansiedade, que é a opinião das pessoas.
Devido a ter uma identidade segura como filho de Deus, você não necessita
procurar identidade no sucesso do seu ministério ou na apreciação das pessoas ao
seu redor. Isso o liberta tanto para ser capaz de ouvir críticas sem ficar devastado
por elas quanto para estar relutante em deixar que as opiniões de outras pessoas
definam voce e a direção do seu ministério. A sua identidade segura em Cristo
também lhe permite encarar suas fraquezas com humildade e honestidade. Você
pode fazer isso porque sua posição com Deus não está baseada no seu desempenho,
mas na perfeita obediencia de Cristo. Você precisa pregar essas verdades para si
mesmo diariamente, porque, no ministério, você procura obter identidade do
seu ministério ou permanece firme e seguro na identidade que recebeu em Cristo.

3) EU NÃO PRECISO SER ASSOMBRADO PELO QUE POSSA SER EXPOSTO


A MEU RESPEITO, PORQUE TUDO 0 QUE PODERIA SER EXPOSTO JÁ
FOI COBERTO PELO SANGUE DE JESUS
Se voce for assombrado pelo temor de ser conhecido, você passará a vida se
escondendo. Voce se tornara um mestre de respostas evasivas a perguntas
pessoais. Voce levara consigo uma lista de respostas bíblicas triviais que
comunicam a outros que você é mais espiritual do que é na verdade. Estou
persuadido de que muitos pastores temem ser conhecidos como realmente são
e em que ponto eles têm dificuldades. Tenho tido a oportunidade de ouvir
muitos pastores dizerem que têm medo que os seus pecados sejam expostos.
Eles dizem que não podem ser apenas pecadores normais, como todo mundo.
Se temos produzido uma cultura na qual os pastores precisam negar o pecado
e viver temerosos, escondendo-se, construímos uma cultura pastoral que não
pode funcionar, porque é uma contradição do evangelho ao qual esta cultura é
chamada para proclamar e viver.
Devo lembrar a mim mesmo que o evangelho me recebe, mesmo quando
estou me ocultando. Ele me recebe para que eu enfrente minhas partes mais
tenebrosas com esperança. Ele me assegura de que não há nada a ser conhecido
a meu respeito que já não tenha sido tratado na pessoa e obra do Senhor Jesus.
Desta forma, não tenho que fundamentar meu ministério numa mentira de
que sou algo que, na verdade, não sou. Posso viver com honestidade e humildade
diante de outras pessoas, confiando meu ministério presente e futuro às mãos
do meu Salvador, sabendo que, não importa como as pessoas respondam a
mim, ele nunca virará suas costas para mim nem aos dons que me deu.

4) EU PRECISO LEMBRAR QUE AS MINHAS FRAQUEZAS NÃO SÃO UM


OBSTÁCULO AO MINISTÉRIO PRODUTIVO, MAS MINHAS ILUSÕES DE
FORÇA INDEPENDENTE SÃO
Você poderia argum entar que, se fraqueza hum ana fosse um
desqualificador automático para o ministério, nenhum dos discípulos teria
sido chamado para o ministério. A questão principal, pastor, é que não existe
um dia no qual você não demonstre, de alguma maneira, que você é fraco.
Nunca há um dia no qual você não revele que ainda existe muita tolice em
você. Na verdade, Deus usará as responsabilidades, oportunidades, pesos e
tentações do ministério para revelar a você e àqueles que o amam quão fraco
você realmente é. Ele revela a sua fraqueza a você para que continue a procurar
a ajuda da sua graça, e ele a revela a outros para que eles possam ser instrumentos
dessa graça em sua vida. Paulo não renunciou ao seu ministério por ter se torna­
do convencido de ser o principal dos pecadores. Não, você poderia argumentar
que é a sua admissão de fraqueza que protege o seu ministério de se tornar
interessado apenas na reputação e na construção de um reino humano. E é a sua
fraqueza que o protege dos perigos da justiça própria e da confiança em si.
São as suas ilusões a respeito de supostas maturidade e força, as quais
você não tem, que têm o potencial de desviar e, no final, destruir o seu minis­
tério. Isso acontece porque, quando pensa que é forte, você crê que pode viver
independentemente da graça de Jesus e do ministério de outros, apesar de não
saber que isso é o que você está fazendo.

5) EU POSSO DESCANSAR CONFIANTE DE QUE DEUS NÃO ERROU O


ENDEREÇO QUANDO ME CHAMOU PARA 0 MINISTÉRIO. MINHA
CARÊNCIA ESPIRITUAL NÃO COMPROMETE A MENSAGEM DO
EVANGELHO; PELO CONTRÁRIO, MINHA CARÊNCIA PREGA ESSE
EVANGELHO
Entretanto, deixe-me dizer que é óbvio que você precisa estar em certo
nível de maturidade para se qualificar para o ministério em uma igreja local.
O que penso que precisamos tratar é a ideia de que quaisquer fraquezas que
sejam expostas em um pastor comprometem ou, potencialmente, fazem um
escárnio da mensagem que ele proclama. Se você defende essa ideia, você
pensa que precisa se apresentar como o retrato perfeito de tudo o que o
evangelho é capaz de produzir ou você trará vergonha para o nome de Jesus.
Essa noção não deixa espaço para adm itir e procurar a ajuda que você
constantemente necessita como pastor, uma vez que você ainda está exatamente
no meio da sua própria santificação.
Mas, pastor, você nunca será esse retrato perfeito; o único que atingiu essa
perfeição foi Cristo. Não, em vez de ser um retrato perfeito que assegura às
pessoas que o evangelho é verdadeiro, você e eu somos chamados para sermos
janelas através das quais as pessoas olham e veem a glória do Senhor Jesus
Cristo ressurreto. É a nossa fraqueza que demonstra a essencialidade e o poder
da graça do Senhor Jesus Cristo. Somente sua graça sempre presente e poderosa
pode capacitar uma pessoa que, ela própria, ainda precisa ser transformada
para ser usada como instrumento da sua graça transformadora na vida dos
outros. Isso nos liberta de nos vangloriar sobre o que nunca poderíamos ter
produzido por nós mesmos e liberta as pessoas a quem servimos de nos colocar
em um pedestal messiânico que deve ser reservado somente para Jesus. Devemos
pregar para nós mesmos um evangelho de fraqueza contínua e graça suficiente.

6) EXISTE APENAS UM MESSIAS, E, DEFINITIVAMENTE, NÃO SOU EU!


H á uma coisa que o ministério pastoral deixa bem claro sobre nós: nós não
temos a sabedoria, o caráter e a força do Messias. É bom admitir que não
somos perfeitos em sabedoria, que algumas vezes somos tolos. Não há problema
em admitir que não somos completos em caráter, que há momentos em que
não temos o caráter que é necessário. É bom admitir que não atingimos o alvo
quando o assunto é força; o ministério exporá os nossos pontos fracos. Se o
ministério tem o poder de fazer qualquer coisa em nós, ele tem o poder de
destruir nossa confiança ingênua em nós mesmos e de nos convencer de que não
há uma rocha sólida de esperança a ser encontrada além da rocha Jesus Cristo.
♦ ♦♦
Veja, somente a esperança e certeza do evangelho é que podem resgatá-lo
da duplicidade e da idolatria que tentam todo pastor. É a coragem da graça
que o levará a estar disposto a olhar para os pontos de sua vida em que sua
mensagem e sua vida estão em desarmonia e a lidar com eles. Somente o
evangelho pode libertá-lo das suas tentativas fúteis de fazer essa separação
funcionar. E é a recepção irrevogável do evangelho que o liberta de procurar a
sua identidade e descanso em coisas no seu ministério que se tornam seus
objetos de adoração funcional, mas não têm qualquer habilidade de fornecer o
que você está procurando. É somente a certeza do amor ilimitado de Deus que
o libertará de procurar conforto e esperança nos falsos messias que vão ao encontro
de todo pastor.
Em certo sentido, o ministério pastoral o tornará triste ou desiludido.
Devido ao fato de o ministério expor sua fraqueza, ele tem o poder de produzir
em você uma tristeza benéfica, um abandono da sua própria justiça que o
conduzirá à cruz à procura de perdão, cura e conforto. Na amnésia do evangelho,
você trabalhará para esconder e negar o que está sendo revelado e usar o sucesso
da sua pessoa ministerial pública para argumentar contra o que está sendo
revelado em sua vida privada. Você buscará e polirá a ilusão de que é um graduado
na graça, quando, na verdade, você é um caso de estudo sobre a necessidade
das próprias coisas do evangelho que você oferece aos outros. Pode ser que
existam apenas dois caminhos para o seu coração no ministério: o caminho da
tristeza pessoal ou o caminho da grandiosidade pessoal. O primeiro leva a uma
esperança maior em Cristo e a maior coragem no ministério. O outro leva ao
orgulho da síndrome de celebridade, às escolhas insensatas e à tentativa de
encontrar, independentemente, uma vida que só pode ser o resultado de viver o
evangelho em comunhão com outros. A tristeza o levará a abandonar seus sonhos
de reinado ministerial pelos propósitos de um Rei melhor. A grandiosidade o
levará a confundir os propósitos do seu reinado com o Rei que você foi chamado
para servir. A tristeza o levará a encontrar alegria em ser um embaixador do Rei
da graça. A grandiosidade o levará a abordar seu ministério como um monarca
que não precisa de graça. Pastor, seja honesto aqui mesmo, agora mesmo - qual
caminho melhor descreve o seu ministério?

PREENCHENDO A LACUNA DA SEPARAÇÃO


Desta forma, se há lugares em toda a nossa vida como pastores onde exista
separação entre o que ensinamos a outras pessoas e como vivemos, o que
podemos fazer para preencher essa lacuna? Deixe-me sugerir cinco compromissos
que devem ser anexados à vida ministerial de cada um de nós.

1) EXIJA DE SI MESMO SENTAR SOB 0 SEU PRÓPRIO ENSINO E PREGAÇÃO


O nosso estudo para qualquer momento de ensino ou de pregação deve
incluir aplicação pessoal. Devemos perguntar a nós mesmos o que a passagem
específica que estamos estudando revela sobre o nosso próprio coração. Onde
esta porção da Palavra de Deus nos convida à confissão e ao arrependimento?
O que ela revela sobre o caráter e o plano de Deus que deve reacender a nossa
maneira de viver? Como devemos aplicar suas perspectivas, princípios e
mandamentos à nossa vida diária? Ao nos preparar, precisamos dar tempo ao
nosso coração de se entristecer pela nossa condição e de celebrar o evangelho.
Precisamos reservar tempo para orar palavras de confissão e nos comprometer
com passos concretos de arrependimento. Todos nós precisamos tirar vantagem
da enorme bênção que é ser chamado por Deus para gastar tanto tempo em
sua Palavra libertadora e transformadora.

2) CONFESSE PUBLICAMENTE A SUA PRÓPRIA LUTA


Entretanto, não estou sugerindo que você deva divulgar as manchas do seu
coração todas as vezes que ensinar ou pregar. Mas eu realmente penso que não
é apenas valioso para você, mas também importante para os seus ouvintes,
dizer que você também não chegou ao ápice, que a vida de fé ainda é uma luta
para você também. O próprio fato de você estar abrindo seu coração
publicamente preenche a lacuna entre sua pessoa pública e sua vida particular.
Você está se recusando a construir uma existência dupla. Você está lutando
contra se tornar confortável com uma desarmonia entre o que você ensina e
como você vive. Você está aplicando o seu ensino e sua pregação diante dos
olhos e ouvidos da sua congregação. Você os está convidando a orar por você,
confrontá-lo e encorajá-lo e está confessando publicam ente que está
comprometido em viver tudo o que ensina. Você está trabalhando publicamente
para preencher a lacuna.

3) COLOQUE-SE SOB CONSELHO SÁBIO E BÍBLICO


Pastor, é evidente e simples: você e eu precisamos ser pastoreados. Um dos
escândalos de multidões de igrejas é que ninguém está pastoreando o seu pastor.
Ninguém está ajudando-o a ver o que ele não está vendo. Ninguém está
ajudando-o a examinar seus pensamentos, desejos, palavras e comportamentos.
Ninguém está chamando-o regularmente para confissões. Ninguém está
delineando onde o arrependimento seria adequado. Ninguém está penetrando
em seu desânimo com as verdades da presença, promessas e provisões do
Salvador. Ninguém está confrontando sua idolatria e orgulho. Ninguém está
alertando-o para pontos de tentação e perigo em sua vida.
Porém, nem você nem eu temos permissão para apenas esperar que isso
aconteça. Precisamos tomar a iniciativa de procurar alguém a quem respeitamos
e com quem podemos construir esse tipo de relacionamento de aconselhamento
e nos comprometer durante o nosso ministério. Estou pressupondo que não é
suficiente fazer isso em momentos de desencorajamento pessoal e de problemas.
Você e eu precisamos reconhecer humildemente que necessitamos desse tipo
de relacionamento ministerial instruído como componente regular do nosso
ministério. Em todo local ministerial onde eu já estive, procurei alguém para
me pastorear. Eu nem posso imaginar viver a minha vida ou desempenhar o
meu ministério sem a proteção, livramento, visão e crescimento que isso tem
me proporcionado. E eu confessarei que necessito ser pastoreado hoje tanto
quanto eu necessitava anos atrás, quando comecei a entender que, como pastor,
não havia sido chamado para desempenhar meu ministério sozinho.

4) SEJA ACESSÍVEL AOS SEUS AMIGOS E FAMÍLIA


Há outro compromisso que precisamos fazer que tem o poder de preencher
a lacuna de separação que existe na vida de muitas pessoas no ministério: solicite
o ministério da sua família. Convide sua esposa a distinguir áreas de ócio ou
inconsistência espiritual. Convide sua esposa a confrontar você amorosamente
quando você estiver ativando seu advogado interior e estiver indisposto a ouvir.
Pergunte à pessoa que estiver vivendo mais próxima a você quando é que você
desconta na sua família as frustrações que coleciona no seu ministério. Peça
ajuda para fazer escolhas melhores quando o assunto for ser fiel ao chamado
duplo que você tem com a família e o ministério. Convide seus filhos a apelarem
respeitosamente a você quando você os tratar de maneira que nunca trataria
alguém em sua igreja. Não, nós nunca devíamos ser dirigidos por nossos filhos,
mas você e eu devemos ser humildes e acessíveis, prontos a admitir que o modo
como exercemos autoridade paternal não é sempre uma figura bonita da
autoridade de Deus. Peça à sua esposa ou aos seus filhos regularmente para
orarem por você. Nos momentos de culto familiar, peça orações pelos momentos
de luta que esteja passando. Comprometa-se a confessar os seus erros aos
membros da sua família e procure seu perdão. A questão é esta: estamos abertos
ao fato de que ninguém tem uma janela melhor sobre quem realmente somos do
que as pessoas com quem vivemos? Vemos isso como um benefício e uma bênção
e, portanto, tiramos vantagem pessoal e espiritual desses relacionamentos? Ou
estamos deixando de nos beneficiar do conhecimento daqueles que vivem mais
próximos a nós?

5) EDIFIQUE UMA COMUNIDADE DE LIDERANÇA HUMILDEMENTE


SINCERA
O fato é que muitos pastores não são conhecidos por seus líderes, e muitos
pastores não conhecem realmente seus líderes. O fato é que, na maioria das
comunidades de liderança, simplesmente não há tempo investido em formar
uma comunidade de liderança instruída e mutuamente ministradora. Estou
convencido de que o seu alvo deve ser que os seus presbíteros, diáconos ou
qualquer outro grupo de liderança que você tenha sejam os pequenos grupos
mais espiritualmente ricos e úteis na sua igreja. O que deveria acontecer é que
os outros pequenos grupos olhassem para a comunidade espiritual que você
formou com os seus líderes e dissessem: “Se o nosso pequeno grupo pudesse ser
assim!” Todas as vezes que vocês se reúnem, deveria haver confissão e oração
adequadas. Vocês deviam ter retiros de liderança para edificar aqueles
relacionamentos com compartilhamento, confissão e oração pessoais. Você devia
tirar vantagem dos encontros ministeriais para procurar orar por áreas em que
você está lutando ou precisa de crescimento. Lembre-se, os ministérios que
você dirige com sua liderança local nunca serão moldados pelo conhecimento,
pela perícia, pela experiência e pelo planejamento estratégico deste grupo de
liderança. Esses ministérios serão poderosamente influenciados pela condição
do coração de cada um daqueles que lideram. Você e eu não devemos permitir
que as ocupações da igreja destruam qualquer esperança de que os líderes da
igreja funcionem como uma comunidade espiritual vibrante.
♦ ♦♦
Sim, ainda há lugares na vida de todos nós onde somos pobres exemplos
do que apresentamos para os outros. H á lugares onde não estamos vivendo à
altura do padrão do que pregamos e ensinamos. Isso acontecerá até o Senhor
retornar ou nos levar para o lar, porque Deus decidiu que o nosso crescimento
fosse um processo, não um evento. Mas aqui está a questão: aprendemos como
estar confortáveis com a desconexão existente entre o ministério e a vida? Essa
desarmonia funcional não nos incomoda mais? Aprendemos como fazer nossa
esquizofrenia espiritual funcionar? O u estamos diariamente entristecidos por
nossa inconsistência e a nossa tristeza tem nos levado a viver e ministrar com
humildade e sinceridade maiores? Já abrimos a nossa vida para a ajuda que
Deus proporciona tão graciosamente a todos nós em sua igreja? Aqui está o
ponto principal: vivemos como se realmente pensássemos sobre nós mesmos,
que fomos chamados para pastorear outros, como pessoas necessitadas de
pastoreio? Vivemos?
Capítulo 15
E AGORA?

Confesso que a escrita deste livro tem sido muito difícil, mas muito útil.
Deus o tem usado para realçar muitas coisas em meu coração - palavras e
comportamentos que precisam de atenção. Ele o tem usado para expor atitu­
des e ações que são inconsistentes com o que ensino a outros de maneira tão
apaixonada. Houve muitas ocasiões durante a escrita em que tentei comparti­
lhar com Luella o que Deus está me mostrando e o que ele tem quebrado no
processo. Houve muitas vezes em que tive que me afastar da minha escrita para
gastar tempo orando em confissão ou em alegre celebração pessoal. Fui levado
a me ver com maior precisão e a uma gratidão mais profunda pela graça inces­
sante do meu Salvador. Fui humilhado para ver novamente por que minha
posição com o meu Pai Celestial nunca será baseada no meu desempenho, mas
no de Cristo. E tenho me tornado cada vez menos temeroso de confessar aos
outros que eu sou um homem que ainda é carente da libertação do Salvador, a
qual vem a mim por meio do ministério do seu povo.
Assim, desejo deixar uma passagem com você que é um resumo maravilhoso
de tudo o que consideramos. É o conselho de Pedro aos líderes da igreja,
encontrado em 1Pedro 5.6-11:

Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo
oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem
cuidado de vós. Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em
derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar; resisti-lhe firmes
na fé, certos de que sofrimentos iguais aos vossos estão-se cum prindo na vossa
irmandade espalhada pelo mundo. Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos
chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos
há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar. A ele seja o domínio, pelos
séculos dos séculos. Amém!

Deixe-me delinear cinco instruções desta passagem que são maneiras práticas
de viver o convite deste livro.
1) SAIBA 0 SEU LUGAR
É uma tristeza para mim, mas eu devo confessar que, ao olhar para os meus
anos de ministério, vejo que não soube o meu lugar sempre. Houve momentos,
até épocas, em que vi meu ministério como meu ministério. Agora está claro
para mim que alguns dos períodos mais significativos de dificuldades no
ministério foram enviados por Deus para arrancar o ministério das minhas
garras. Uma carta enviada a companheiros de pastorado questionando minha
ortodoxia, um voto que me removeu da escola cristã que eu havia fundado e
um líder influente da igreja local depreciando a minha pregação, tudo isso foi
muito mais do que as lutas esperadas do ministério do evangelho em um
mundo caído. Não, agora eu sei que essas coisas foram as ferramentas que
Deus empregou para resgatar o meu ministério e recapturar o meu coração.
Elas foram o resultado não de Deus virar as suas costas para mim, mas de
Deus voltar sua face de graça para mim. Talvez a igreja tivesse se transformado
em meu pequeno reinado ministerial. Talvez a escola tivesse se tornado a
minha escola. Talvez eu carregasse para o púlpito muito orgulho em minha
pregação. Deus não estava disposto a espremer sua igreja para que ela se
confinasse aos pequenos compartimentos dos propósitos do meu reinado.
Ele não estava disposto a abandonar seu trono para que eu fosse o soberano
real do meu próprio ministério. Ele não permitiria que eu me colocasse no
púlpito e fosse um ladrão de glória. Assim, ele tem usado os difíceis momentos
do ministério repetidamente para reivindicar minha fidelidade ao seu reinado
e à sua glória.
Este é o ponto principal. Esta é a grande guerra interna do ministério.
Você é vocacionado para ser um embaixador público e influente de um Rei
glorioso, mas deve resistir ao desejo de ser um rei. Você é chamado para proclamar
a glória de Deus, mas nunca deve se apropriar dessa glória. Você é chamado
para uma posição de liderança, influência e proeminência, mas, nessa posição,
você é chamado para “se humilhar sob a poderosa mão de Deus” (v. 6). Talvez
não haja nada mais importante no ministério do que saber o seu lugar. Talvez
todo o temor de homens, o orgulho do saber, a sedução da aclamação, a busca
pelo controle, a depressão em face às privações, a inveja do ministério de outros,
a amargura contra caluniadores e a ansiedade quanto a fracassos sejam todos
relacionados à mesma coisa. Cada um destes conflitos se relaciona à tentação
de fazer o seu ministério ser sobre você mesmo. Desde aquele momento tenebroso
no jardim, este tem sido o conflito —fazer com que tudo gire ao nosso redor.
É muito fácil confundir o seu reinado com o do Senhor. É muito fácil
dizer a si mesmo que está lutando pelo evangelho quando o que você está
realmente lutando é pelo seu espaço. E muito fácil dizer a si mesmo que você
está simplesmente tentando ser um bom líder quando o que você realmente
quer é controle. É m uito fácil dizer a si mesmo que você quer edificar
relacionamentos ministeriais saudáveis quando o que você realmente quer é
que as pessoas gostem de você. É muito fácil dizer a si mesmo que está tentando
ajudar pessoas a compreenderem os detalhes da sua teologia quando o que você
está trabalhando para fazer é impressioná-los com o quanto você conhece.
É muito fácil dizer a si mesmo que você deseja apenas o que é melhor quando
o que você realmente quer é uma vida ministerial confortável e previsível. É muito
fácil dizer a si mesmo que você quer que Deus receba glória quando, na verdade,
você se deleita na celebridade ministerial mais do que está disposto a admitir.
É difícil estar em uma posição de proeminência e influência ministerial e reconhecer
o seu lugar. De modo muito sutil, é tentador querer o lugar de Deus. É vital
compreender que a tentação do Jardim do Éden ainda vive no púlpito, no
escritório, no gabinete de aconselhamento e na sala de reuniões ministeriais.
Aqui está o ponto principal: em qualquer lugar do ministério, qualquer
que seja a sua posição, não importa quantas pessoas o admirem, qual é a influ­
ência que o seu ministério tenha angariado e não importa quão longo e bem-
sucedido seu ministério esteja sendo, ele nunca será sobre você porque ele é
sobre Deus. Deus não abandonará o reinado dele pelo seu. Ele não oferecerá o
seu trono a você. Ele não dará a você a glória que é devida a ele. O reinado e a
glória dele são a esperança do seu ministério e da sua igreja. E quando eu me
esqueço do meu lugar e busco, de alguma forma, a posição de Deus, coloco
meu ministério e a igreja a que fui chamado para servir em perigo.
É neste momento que preciso ser liberto de mim mesmo. Posso trocar
posições e locais de ministério, mas não posso escapar dos pensamentos e dese­
jos do meu próprio coração. Assim, nesta manhã, clamo novamente pela liber­
tação do meu Redentor. Oro que ele lute em meu favor, que sua graça me leve
a amá-lo mais do que amo a mim mesmo. Oro que ele me dê uma satisfação tão
profunda em sua glória que eu não tenha interesse em procurar a minha. E, ao
orar, sei que precisarei fazer esta oração amanhã novamente, porque amanhã
serei tentado de novo a perder o meu lugar e a fazer o meu ministério ser uma
coisa que ele nunca deve ser - sobre mim.
No seu ministério, no local onde Deus o posicionou, existe evidência de
que você tenha se esquecido do seu lugar, ou o seu ministério é moldado e
protegido por um compromisso diário de Uhumilhar-se sob a poderosa mão de
Deus”? As pessoas que servem com você pensariam que você é muito orientado
para o poder e o controle? As pessoas a quem você serve avaliariam que você se
importa demais com o que as pessoas pensam a seu respeito? Elas diriam que
voce se importa demais com atenção e influência? Elas o caracterizariam como
um líder servo humilde? Elas o veriam como alguém tentado a aceitar muito
mérito ou diriam que você demonstra claramente saber que o ministério para o
qual Deus o chamou não diz respeito a você? Elas concluiriam que você real­
mente conhece o seu lugar?

2) DESCANSE NO CUIDADO DE DEUS


O descanso no cuidado de Deus é o resultado de uma fé funcional,
modeladora de ministério, baseada no fato de que ele realmente se importa.
Há momentos no ministério em que você será tentado a inquirir se Deus está
próximo e se ele se importa. Haverá momentos em que parecerá que suas orações
ficaram sem resposta. Existirão momentos de provações nos quais será como se
Deus estivesse ausente. Haverá momentos em que você se sentirá mal entendido
e sozinho. Haverá momentos em que será quase impossível entender o que
Deus está fazendo. Haverá momentos em que você será tentado a imaginar se
vale a pena, quando vender iPads não parece ser uma ideia tão ruim. Haverá
momentos quando a pressão bifatorial do ministério e da família parecerá demais
para ser suportada. Haverá momentos em que parecerá que Deus não lhe deu
sabedoria nem força para fazer o que ele o chamou para fazer. Haverá momentos
quando a oposição é grande e o progresso, escasso. Haverá momentos em que a
tentação para duvidar do cuidado sempre presente de Deus será grande.
Escrevi sobre isso antes, mas é importante dizer novamente. Até mesmo
aqueles de nós que estão no ministério chegam à situação em que são tentados
a trazer Deus ao tribunal e questionar a sua bondade, fidelidade e amor. Há
vezes em que você quer apenas gritar: “Onde estás?”, ou “O que estás fazendo?”
Há momentos em que somos tentados a pensar que seríamos um líder melhor
da igreja do que aquele que é a Cabeça, ou um soberano melhor do que o
Soberano, ou um salvador melhor do que o Salvador. É difícil admitir, mas
pode haver momentos em que você fica imaginando se Deus dormiu no volante.
O ponto da questão é que nós nunca compreenderemos Deus. Ele nunca
fará todas as coisas que estamos esperando. Ele nunca permanecerá na nossa
página da agenda. Ele nunca será confortavelmente previsível. Se descansarmos
no cuidado de Deus somente quando entendemos o que ele está fazendo, haverá
muitas vezes e lugares em que não descansaremos no seu cuidado. O perigo em
tudo isso é esse: simplesmente não corremos à procura de auxílio em alguém
de quem passamos a duvidar. É nos momentos de conflito, quando o que Deus
está fazendo não faz qualquer sentido, que é muito mais importante pregar
para nós mesmos o evangelho do seu cuidado inabalável, incessante, sempre
presente. Ele está cuidando ativamente de você e de mim mesmo naqueles
momentos em que não entendemos o seu cuidado e não compreendemos o
que ele está fazendo.
Não direi a mim mesmo que estou sozinho. Não me permitirei pensar
que sou pobre. Não darei espaço para o pânico ou para a paralisia ministerial.
Não procurarei ajuda onde ela não pode ser encontrada. Deus está comigo e
ele se importa, e isso garante que eu tenho e terei tudo de que necessito para
ser o que sou chamado para ser e fazer o que fui escolhido para fazer no lugar
particular de ministério para o qual ele me designou.
O seu descanso no cuidado de Deus tranquiliza a sua ansiedade ministerial?
Ele o impede de se sentir sozinho e oprimido? Ele o conforta em tempos de
dificuldade? O seu descanso transmite descanso e conforto a outros? O seu
descanso no cuidado de Deus o guarda de sentir a necessidade de usar algum
tipo de fuga (comida, químicos, álcool, sexo, TV, internet, atividades, pessoas,
etc.)? O seu descanso no cuidado de Deus resulta em coragem no ministério?
Ele o auxilia a lidar humildemente com a oposição? N a vida cotidiana, você
descansa no cuidado de Deus?

3) LEVE 0 SEU MINISTÉRIO ASÉRIO


É quase como se Pedro estivesse dizendo: “Vocês se esqueceram da existência
do mal real, pessoal? Vocês se esqueceram de que o ministério é uma guerra
constante, espiritual, de momento a momento? Vocês se tornaram confortáveis
não levando essa guerra espiritual a sério no contexto da sua vida e ministério
diários? Vocês se esqueceram de que deste lado da eternidade você e o seu
povo estão sob ataque espiritual incessante? Sua atitude em relação ao seu
ministério é muito casual? Você se permite fazer coisas que não faria se pensasse
que está envolvido na guerra mais importante que já foi travada? Existem
coisas essenciais nas quais você fracassa por não ter levado a guerra espiritual
no ministério a sério?”
É triste e perigoso, mas é verdade que muitos de nós temos assumido
uma visão funcionalmente não espiritual do nosso ministério. Temos uma visão
trivial do ministério da igreja local que é mais relacionada a preenchimento de
vagas, planos estratégicos, programas de construção, planejamento financeiro,
estruturas corporativas, demografia da audiência, relevância cultural, promoção
da carreira, manutenção do orçamento, iniciativas de recursos, etc., do que a
como ser soldados melhores na grande guerra espiritual que é empreendida
dentro e fora de nós. Talvez seja essa visão profundamente não espiritual do
ministério que induz muitos de nós a problemas, porque expõe muitos de nós
a tentações. Você imaginaria que a última coisa que Pedro teria dito aos líderes
na igreja de Cristo é que eles precisavam ser cuidadosos porque realmente
existe um Maligno, mas é isso que ele faz.
Pedro conhecia a armadilha na qual muitos de nós temos caído, a saber,
que, no meio do ministério, nos esquecemos de quem somos, esquecemos a
condição do mundo no qual vivemos, nos esquecemos de quem são as pessoas
às quais fomos vocacionados para servir, e ao nos esquecermos, perdemos de
vista o mal no ataque, que é o contexto no qual todos nós ministramos. Pastor,
sua teologia não o impedirá de ser atacado espiritualmente. Seus dons não o
colocarão em uma posição de estar livre de ataque. Sua experiência não o
defenderá contra ataques. Um bom quadro de funcionários e ótimos planos
estratégicos não aliviarão as realidades espirituais para as quais Pedro nos adverte
aqui. Existe um Maligno voraz. Você precisa ser sério e atento.
Tem havido pouquíssimos pastores cujos ministérios têm sido prejudicados
por planejamentos estratégicos ruins. Existem muito poucos pastores cujos
ministérios têm sido comprometidos por um quadro de funcionários deficiente.
Pouquíssimos pastores perderam seu rumo no ministério por não fazerem um
bom orçamento. Mas há milhares de pastores que têm prejudicado ou destruído
seu ministério porque perderam de vista o que, na verdade, envolve o ministério
e não se protegeram contra a tentação e, infelizmente, se tornaram vítimas da
guerra da qual Pedro diz que nunca devemos nos esquecer.
Se você realmente crê no que Pedro diz sobre o ministério cotidiano na
igreja local, então há coisas que você fará constantemente. Você será cauteloso
com as mentiras sedutoras e tentadoras do inimigo. Você nunca pensará que se
elevou a um ponto onde não precisa mais ser cuidadoso. Você se certificará de
que, como pastor, está sendo pastoreado. Você se cercará de pessoas a quem pode
confessar, livremente, suas fraquezas, deficiências, lutas e pecados. Você convidará
pessoas para confrontá-lo, adverti-lo, desafiá-lo e repreendê-lo quando necessário
e não será defensivo, nem buscará a justiça própria quando eles o fizerem. Você se
comprometerá com o cultivo diário da sua própria alma. Você procurará evidências
da mão do diabo nos seus funcionários e líderes. Você estabelecerá limites para
si - cercas que outros o ajudam a manter para protegê-lo de si mesmo. Você
será vigilante para inconsistências entre sua pessoa ministerial pública e sua
vida privada. Você voltará muitas vezes a 1Pedro 5 com seus auxiliares e líderes.
Você exigirá que a maneira como você aborda o ministério, mesmo nas situações
mais corriqueiras, seja formada pelas palavras de advertência de Pedro.

4) RESISTA, NÃO IMPORTA 0 QUANTO FOR DIFÍCIL


Pedro diz algo aqui que parece estranho à primeira vista. Ele nos exorta, no
ministério, a resistir ao diabo, e depois diz: “... certos de que sofrimentos iguais
aos vossos estão se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo” (v. 9).
Essas palavras revelam que Pedro mesmo é um pastor sábio e criterioso. Depois
de chamar aqueles de nós que estão no ministério para resistir ao diabo, isso é,
não dar espaço para qualquer coisa que dê oportunidades para ele fazer seu
trabalho ávido, Pedro expõe, a seguir, uma das mentiras mais sedutoras do
diabo. O diabo quer que você pense que o seu ministério é particularmente
difícil. Ele deseja que você pense que você foi destacado para um sofrimento
singular. Ele quer que você comece a crer que a situação, localização e os
relacionamentos do seu ministério são, definidamente, mais difíceis do que o
que outros enfrentam. Ele quer que você aceite a mentira de que, enquanto
você está sofrendo, eles estão prosperando; enquanto você está sendo
questionado, eles estão sendo respeitados; e enquanto o seu trabalho é duro, o
trabalho deles é fácil. Ele quer que você comece a carregar o peso de que, de
alguma forma, você foi escolhido.
E por que o diabo quer que você pense que você foi escolhido para um
sofrimento em particular? Porque ele quer que você faça aquela coisa que
enfraquecerá e, finalmente, destruirá o seu ministério. Ele quer que você comece
a questionar a presença, bondade, fidelidade e graça de Deus. Essa é a sua arma
mais poderosa. Ela tem o poder de danificar você e seu ministério. Veja, se você
chega a duvidar da bondade de Deus, no seu momento de necessidade você
não correrá para ele, porque sua tendência é de não correr por auxílio para
alguém de quem você veio a duvidar. E se você questiona a bondade de Deus,
torna-se muito difícil convidar outras pessoas a se entregarem à sua bondade.
Abrigar dúvidas pessoais fundamentais sobre a bondade de Deus sugará a vitalidade
espiritual de você e do seu ministério. E deve-se observar que você pode estar
envolvido no ministério cotidiano, estar mantendo sua confissão teológica formal
e, mesmo assim, ser uma pessoa que, no recôndito do seu coração, veio a questionar
a fidelidade de Deus. H á muitos pastores irados e amargos que estão funcionando
à manivela, sem considerar a renúncia, mas imaginando se o Deus a quem foram
chamados para representar realmente se importa.
Há algo mais que precisa ser observado aqui. Pedro não está surpreso de
que seus leitores estejam sofrendo e ele não está surpreso de que seus irmãos no
ministério estejam sofrendo porque ele sabe, por experiência própria, que ser
chamado para o ministério é, imediatamente, ser chamado para sofrer (veja
2Co 1 para a argumentação de Paulo sobre esse assunto). Assim como todo
soldado em toda guerra sofre de algum modo, assim também os pastores, na
grande guerra espiritual da redenção, sofrerão de alguma maneira. Talvez o
militar não sofra ferimentos físicos, mas sofrerá a interrupção da sua vida, sofrerá
a separação dos seus amados, sofrerá o medo, a tensão e a exaustão da batalha,
sofrerá o horror de ver e experimentar coisas que nenhum ser humano deveria
experimentar e será atingido pela culpa de ser um sobrevivente que desejaria
ter feito mais. Da mesma maneira, o ministério do evangelho o coloca na linha
de frente e o expõe aos perigos pessoais e corporativos da guerra. É impossível
estar no ministério e não ser afetado. Assim, você e eu devemos resistir à mentira
do inimigo de que fomos selecionados para enfrentar o que outros não foram.
Devemos resistir à tentação de pensar que Deus se esqueceu de nós, nos
negligenciou ou virou as costas para nós. Devemos recusar sentir que somos
vítimas de abandono por Aquele a quem somos chamados para representar.
E devemos nos lembrar de que o nosso sofrimento não é um obstáculo ao plano
de Deus, mas parte dele. No nosso sofrimento, Deus não apenas está conosco,
mas também o está empregando para mudar a nós e àqueles a quem ministramos.

5) CONFIE NA GRAÇA SANTIFICADORA DE DEUS


Pedro termina seu convite aos líderes da igreja lembrando-lhes não para o
que foram chamados, mas o que eles receberam. Ao fazê-lo, ele indica para eles
o único lugar onde eles encontrarão descanso, esperança, segurança, paz interior
e uma razão para continuar.
Quando, no seu ministério, você começa a olhar horizontalmente para o
que já recebeu verticalmente, você coloca a si mesmo e ao seu ministério em
perigo espiritual. Quando você espera que o seu ministério lhe dê identidade
em vez de ministrar com a identidade que já recebeu, você introduz uma carência
e uma ansiedade que enfraquecerão e desviarão o seu ministério. Quando o
respeito e a estima das pessoas são o que o sustentam, e não a graça incessante
e sempre presente de Deus, você acabará desapontado e desencorajado e
imaginará se você tem o que é necessário para continuar. Quando você olha
para os seus próprios recursos de sabedoria e força, precisando ser mais justo
do que na verdade é, você se coloca à beira do fracasso porque não procura
graça momento a momento.
Desta forma, Pedro finaliza suas palavras de sabedoria, advertência e
conforto com o resumo para todos que estão no ministério. Você tem um - e
somente um - lugar onde procurar o seu descanso, motivação e esperança.
Você não pode procurar estas coisas em si mesmo, nas pessoas a quem serve,
nos líderes que servem com você ou no seu sucesso ministerial. Você e eu devemos
pregar um evangelho de graça para nós mesmos com aplicação nova e entusiasmo
todos os dias do nosso ministério. Não devemos nos avaliar somente com base
em nossos dons e realizações. Não devemos avaliar nosso futuro fundamentados
na resposta que estamos recebendo atualmente.
É interessante que Pedro sente a necessidade de convidar ministros do
evangelho para se lembrarem do evangelho. Você pensaria que isso não seria
necessário, mas é. Talvez essa seja a única coisa da qual trata este livro que você
está acabando de ler. Ele é uma exposição detalhada do que acontece na vida de
uma pessoa no ministério quando ela se esquece de pregar para si o mesmo
evangelho que ele oferece aos outros. É triste, mas verdade, que existem milhares
de ministros do evangelho cuja vida e ministério são formatados por uma
amnésia funcional do evangelho. Por causa disso, esses líderes e os ministérios
em que servem estão pagando o preço que advém quando você procura a vida
onde ela não pode ser encontrada.
Pedro não está hesitante ou constrangido para pregar o evangelho mais
uma vez a ministros do evangelho. Ele sabe que, no calor intenso, na luta e no
sofrimento do ministério da igreja local, frequentemente o evangelho é uma
das primeiras vítimas. Assim, ele começa lembrando aos seus leitores que a
graça garante o futuro deles. Ele diz: “Cristo vos chamou à sua eterna glória”
(veja v. 10). Porém, é importante entender por que isso não é só uma esperança
distante, mas uma motivação para ministrar aqui e agora. Aqui está a lógica de
Pedro. Se você e eu recebemos a garantia de um lugar na eternidade com o
nosso Salvador, então também recebemos a garantia de toda a graça da qual
necessitamos no percurso. A promessa de graça futura sempre transporta consigo
a promessa da graça presente. Se o fim da minha história é seguro, isso significa
que Deus não pode me abandonar nem me perder ao longo do caminho. Pastor,
o seu futuro eterno leva consigo a promessa certa de que você terá toda a graça de
que necessita para fazer o que foi vocacionado para fazer entre o tempo em que
você veio a Cristo e o tempo em que irá para o lar para estar com ele para sempre.
Mas Pedro diz mais ainda. Ele quer que você saiba que o seu Senhor não
está apenas protegendo e capacitando você e provendo para você, mas está
trabalhando para transformá-lo também. Não há um momento no ministério
em que você não esteja recebendo ministração. O Salvador não está somente
trabalhando por meio de você na vida de outros, mas também está trabalhando
em você como trabalha por seu intermédio. Ele não está apenas chamando-o
para ser um agente da sua graça transformadora; ele está transformando você
pela mesma graça. Ele não está apenas comprometido com o sucesso do seu
ministério, mas também com o triunfo da sua graça no seu próprio coração e
na sua vida. Assim, ele diz: “Cristo... vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar
e fundamentar” (v. 10). Você nunca é somente um veículo da sua graça
surpreendente. Não, você sempre é, também, um recipiente dessa graça. No
mais íntim o do seu coração, você necessita desesperadamente de tudo o
que você diz aos outros que o próprio Deus se comprometeu, em Cristo, a
dar-lhes. Bem, Pedro quer que você esteja seguro, mais uma vez, de que
ainda é e continuará a ser o objeto do seu cuidado redentor até que esse
cuidado tenha completado sua obra. Isso, então, lhe dá motivo para se levantar
de manhã e continuar, mesmo quando seu pecado e suas fraquezas são expostos
e o ministério é difícil.
Mas Pedro tem mais uma ênfase a acrescentar. Ele está ávido para lembrar
a você de que o seu Salvador tem o domínio para sempre e sempre. Aquele para
quem você olha buscando esperança tem o governo absoluto sobre toda situação
ministerial na qual você se encontrará. É impossível estar em algum tipo de
situação, local ou relacionamento ministerial que não seja dominado pelo Rei
Cristo. Esta é a razão disto ser tão importante: todas as promessas dele a você,
pastor, dependem da sua soberania. Ele só é capaz de garantir o cumprimento
das suas promessas nos lugares onde tem completo controle. E, uma vez que
ele tem controle completo sobre tudo, não há lugar no ministério onde você
seja incapaz de depender do cumprimento de tudo o que ele prometeu a você.
E, também, a esperança para o seu ministério não é o sucesso do seu controle
ou perspicácia pastoral, mas que um Salvador soberano completará seu plano
para sua igreja. Assim, e agora?
No seu local de ministério, comprometa-se a pregar regularmente o
evangelho de Pedro para si mesmo e peça às pessoas que o rodeiam para lembrá-lo
dele repetidamente. Se você for um líder ministerial num seminário ou
denominacional, trabalhe com outros para tratar das circunstâncias do seu
ministério em que seu treinamento e sua cultura são menos do que bíblicos.
Se você estiver no ministério e essas páginas expuseram o seu coração, confesse
o que precisa ser confessado e procure ajuda. Se você for um pastor e veio a
enxergar como sua cultura ministerial precisa ser mudada, trate desses assuntos
com os seus líderes e faça essas mudanças com eles.
Se você leu este livro porque ama o seu pastor ou líder ministerial e está
preocupado com ele, ore diariamente e procure encorajá-lo no evangelho onde
quer e quando quer que seja apropriado fazê-lo. Se você for a esposa de alguém
no ministério e estiver preocupada com seu bem-estar espiritual, não fique por
aí em silêncio, não o ataque com desânimo e ira, mas confronte-o e encoraje-o
a procurar ajuda. E, ao fazer essas coisas, lembre-se destas palavras: “Ora, o
Deus da paz, que tornou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o
grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança, vos aperfeiçoe em
todo o bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável
diante dele, por Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém!”
(Hb 13.20-21).