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RISANDA DOS REIS SOARES

SÃO VICENTE DE CABO VERDE NO PÓS-GUERRA (1945-1960)

Orientador: Doutor Maciel Santos, Professor Catedrático

UNIVERSIDADE DO PORTO - FACULDADES DE LETRAS

Porto

2009

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RISANDA DOS REIS SOARES

SÃO VICENTE DE CABO VERDE NO PÓS GUERRA (1945-1960)

Dissertação apresentada para a obtenção do Grau de Mestre em Estudos Africanos – área histórica no curso de mestrado em Estudos Africanos, conferido pela Universidade do Porto

Orientador: Doutor Maciel Santos, Professor Catedrático

UNIVERSIDADE DO PORTO - FACULDADES DE LETRAS

Porto

2009

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Agradecimentos

À Universidade do Porto – Faculdade de Letras, pela iniciativa e por acreditar na realização de mais um Mestrado em Cabo Verde, bem como aos docentes por todo essa aprendizagem, pela força e pelas palavras de incentivo.

Um agradecimento especial para o meu orientador Professor Doutor Maciel Santos a todo o apoio dado na materialização desse trabalho.

Ao Msc. Isidoro Costa pela sua pronta disponibilidade, apoio e palavras de incentivo.

A todas as outras pessoas que tiveram a paciência de me ouvir e pelos sábios conselhos/contributos que muito ajudaram para melhorar o resultado desse trabalho.

E os últimos, mas sempre os primeiros, a minha família em especial aos meus pais: Antónia Soares e Jorge Soares por toda a dedicação, confiança, apoio, incentivo e o esforço que sempre fizeram para que seus filhos tivessem a formação e oportunidades que eles não foram possível ter.

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“Para começar um grande projecto é preciso valentia. Para terminar um grande projecto é preciso perseverança.” Autor desconhecido

Dedicatória

Dedico este trabalho aos meus pais: Jorge e Antónia

IV

Resumo

A ilha de São Vicente foi socialmente a mais recente do arquipélago, devendo o seu desenvolvimento ao impulso da revolução industrial europeia e a presença inglesa, com a implementação das companhias de carvão.

Com o decréscimo do movimento das embarcações e as crises agrícolas que ocorreram nos anos quarenta a ilha ficou numa situação bastante difícil tendo-se solicitado a metrópole vários apoios que seriam empregues na realização de obras. No entanto as respostas tardias fizeram com que muitas pessoas saíssem a procura de sustento para as suas famílias, dirigindo a emigração para o exterior nomeadamente para a colónia de S. Tomé, na condição de contratados. A maior parte dos que ficaram não resistiram e fizeram aumentar o número de mortalidade na ilha.

Nesse contexto do pós-guerra assiste-se ao aprofundar da crise em São Vicente, que somente viria a conhecer sinais de melhorias a partir dos anos cinquenta do século XX, altura que a produção agrícola em Cabo Verde melhora bastante de vido as chuvas e paralelamente começam a chegar ajuda financeira a metrópole através dos Planos de Fomento, destinados ao desenvolvimento económico da metrópole e das colónias.

Face a essa conjuntura manifesta-se a vontade de muitos entusiastas a favor da atribuição á Cabo Verde do estatuto de colónia adjacente, como forma da metrópole assumir com mais eficácia e prontidão os problemas da colónia. No entanto, após muitas discussões nada foi feito até a independência da colónia.

De forma a enriquecer melhor o trabalho recorreu-se a análise de composições antigas que retratam a vivência social da ilha, evidenciando todos os pontos importantes do trabalho que ora se apresenta.

Palavras-chaves: Colónia, São Vicente, II Guerra Mundial

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Abstract

From the historical and social point of view, São Vicente island is the last to be settled in the Archipelago of Cape Verde. Its development in the 19th century is closely related the Europeand Industrial Revolution and the British presence on the island, especially due to the establishing of coaling companies.

With the decline of the port movement and frequent agricultural crises in the 1940’s, the island fell into a deep economical depression. Several times, help and investments in the port infrastructure were solicited from Portugal. However, insufficient and late response of metropolis caused massive emigration of contracted laborers, especially to the colony of São Tomé. Many out of those who stayed on São Vicente perished.

This profound economical crisis on São Vicente is only to be attenuated in the 1950’, due to more abundant rainy seasons and financial help through Planos de Fomento which goal is to boost economical development of the colonies.

In this more favorable context, there is a growing movement in favor of the attribution to Cape Verde of a status of ‘adjacent colony’ as a way to make Portugal assume more efficiently and rapidly the main problems of the colony. However, after a lot of debates, nothing is done till the independence of the colony in 1975.

In order to enrich this thesis, I have analyzed lyrics of songs that depict the social life on the island in order to better illustrate all the main points of the present work.

Key-words: colony, São Vicente, 2 World War

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Índice de Quadros

Quadro n.º 1 – Evolução da população de São Vicente (1807 a 1832)……...…………8 Quadro n.º 2 – Aprovação de Contas do Concelho de São Vicente 1946……...……..33 Quadro n.º 3 – Saldos das contas de exercício (1931/32-1947) ………………………34 Quadro n.º 4 – Aprovação de Contas – 1947 …………………………………………35 Quadro n.º5 – Investimentos em Cabo Verde – 1958 …………………………….......40 Quadro n.º 6 – Unidades Industriais em São Vicente (1946-1949) …………………..41 Quadro n.º 7 – Principais produtos exportados de Cabo Verde (1951-52) ……..….…42 Quadro n.º 8 – Distribuição verbas para as colónias de Cabo Verde – 1949 …………44 Quadro n.º 9 – Carga carregada segundo a nacionalidade das embarcações – 1947 a 1951 ……………………………………………………………………………………49 Quadro n.º 10 – Relações dos investimentos dos contratados nas diferentes colónias..59 Quadro n.º 11 – Emigração, Imigração e Retornados (1906 a 1973) …………….…..62 Quadro n.º 12 – Emigração Geral segundo as ilhas de precedência – 1945 a 1960 ….63 Quadro n.º 13 – Total dos nascimentos e Óbitos no concelho de São Vicente – 1945 a 1952 …………………………………………………………………………...……….65 Quadro n.º 14 – Eleições para deputados á Assembleia pelo círculo de Cabo Verde (1949 a 1957) …………………………………………………………………….…….74 Quadro n.º 15 – Eleições para Presidente da República (1949 a 1958) ………………75

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Índice de Gráficos

Gráfico n.º 1 – Movimentos das embarcações – 1947 a 1951 …………………..…….48 Gráfico n.º 2 – Carga descarregada segundo a nacionalidade – 1947 a 1951 ………...48 Gráfico n.º 3 – Total de Nascimentos e Óbitos no Concelho de São Vicente – 1945 a 1952 ………………………………………………………………...………………….65

Índice de Figuras

Figura n.º 1 – Ilha de S. Vicente – 1945 ……………..……………………………….15 Figura n.º 2 – chegada do 1º Corpo de tropas expedicionárias portuguesas á Mindelo – 1942 ……………………………………………………………………………………24 Figura n.º 3 – Grupo do pessoal médico do Hospital Militar …………………………27 Figura n.º 4 – N/M Serpa Pinto trazendo o 1º corpo de tropas expedicionárias á Mindelo ……………………………………………………………………..………….28 Figura n.º 5 – Interior do Mercado de Verduras – Mindelo – 1943 …………..………36 Figura n.º 6 – Consultório Hospital de Mindelo – 1943 ……………...…………...….47 Figura n.º 7 – Esquadra Britânica no porto de Mindelo - 1948 ………………..…….67

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Índice Geral

I - Introdução ………………………………………………………………………..………… 1 II – A ilha de São Vicente e a chegada dos ingleses .…………..…………………..…………..4 1 – A política colonial portuguesa a partir dos anos 30. …………….………………….…16 2 – A questão do rearmamento das colónias e suas precursões na ilha de São Vicente …..23 III – A situação sócio-económica da ilha de São Vicente .....…………………………………29 1- O movimento das embarcações e das mercadorias em Cabo Verde .……………...….48 2- Movimentos Associativos de Assistência e de Classe ………………………………. 51 3 – O problema da adjacência ……………………………………………………………53 IV – As consequências da crise…………………………………………………..…………....57 1- Emigração …………………………………………………………………………….57 2 – Mortalidade…. ………………………………………………………………...…….64 3 - Repercussões da Guerra na Cultura Mindelense ……………………………….……68 a) Comportamento Eleitorais…………………………………………………...……68 b) Reflexos Culturais …………………….……………………………….…………76 V – Conclusão …………………………………………………………………………...……82 VI – Fontes Documentais …………………………………………………………………......85 VII – Anexo ……………………………………………………………………………………X

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I – Introdução

O presente trabalho de investigação cujo objectivo é a obtenção do grau de mestre em Estudos Africanos tem como tema: São Vicente de Cabo Verde no Pós-guerra (19451960).

Para desenvolver a pesquisa pretende-se servir do espaço geográfico e social da ilha de São Vicente, estabelecendo as balizas cronológicas entre 1945 e 1960. A partir do ano de 1945 porque procura-se relatar até que ponto e como os efeitos do pós-guerra fizeram-se sentir em Cabo Verde e mais especificamente em São Vicente, e até 1960 por ser um período de viragem na história dos países africanos, com os movimentos de emancipação.

As motivações que determinaram a escolha da ilha de São Vicente prendem-se com razões pragmáticas e afectivas. Trata-se do espaço onde vivemos e onde dispomos de algumas condições materiais objectivas para levar a cabo este empreendimento.

São Vicente é socialmente a ilha mais recente do arquipélago. Não se enquadrando nos paradigmas de ocupação quinhentistas, o espaço só viria a ter população humana com carácter de permanência entre finais do século XVIII e início do século XIX. A ilha só foi povoada graças ao eclodir da revolução industrial, à corrida imperialista na qual o seu porto serviu de palco para as estratégias de ocupação da África ao sul do Sara e das índias.

Sob o impulso industrial e imperialista dos países do norte, desenvolveu-se em São Vicente uma urbe voltada para a prestação de serviços aos navios que passavam pelo seu Porto rumo ao Atlântico Sul. A cidade do Mindelo desenvolvia, tornou-se um dos mais importantes pólos de desenvolvimento do país e da colónia com o seu Porto Grande. À margem da actividade portuária, desenvolveu uma sociedade activa e dinâmica com todas as características que se costuma designar de “sociedade de cidades-porto”.

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No entanto, as inovações nas técnicas de navegação, a alteração nos combustíveis, o desvio das rotas, são consideradas, entre outros, os factores que fizeram decair as actividades em torno do Porto Grande e com elas a vivacidade da emergente sociedade mindelense.

O arquipélago de Cabo Verde é caracterizado pela sua profunda vulnerabilidade face à conjuntura mundial. As crises cíclicas, a escassez de recursos de vária ordem colocam ao país sérios problemas de subsistência humana. Na ilha de São Vicente a situação é agravada pela quase ausência absoluta de zonas irrigadas e com uma igualmente quase absoluta escassez de chuva.

Neste sentido uma das medidas apoiadas pelo governo como forma de resolver a crise foi a emigração, facilitando a saída para novos destinos nomeadamente para os países da Europa.

O quadro traçado serve de pretexto para a análise da situação vivida pela sociedade mindelense entre 1945 e 1960.

As repercussões da II Guerra Mundial são consideradas a priori, uma das grandes causadoras do aprofundamento da crise vivida em São Vicente. Para além dos aspectos estruturais e constantes, é de realçar o período das secas, designadamente a de 1946 a 1948 como outro factor que explica a estrutura da crise social em Mindelo.

A caracterização histórica - social do Mindelo nos anos imediatos ao pós-guerra obriga a considerar várias dimensões, que determinam a articulação deste trabalho. Assim, optou-se por seguir os pontos abaixo indicados: Contextualizar a ilha de São Vicente - onde se fez um levantamento histórico da mesma, desde o povoamento até a vinda dos ingleses, nomeadamente os condicionalismos da sua chegada, da sua vivência e do seu contributo para o desenvolvimento de São Vicente nos diferentes sectores

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Analisar a situação política, económica e social – onde se fez uma ligação entre todos esses sectores, uma vez que estão intrinsecamente ligados, com a problemática em estudo Analisar as consequências dessa crise

A metodologia utilizada baseou-se essencialmente no recurso as fontes escritas, tendo sido analisadas fontes primárias cabo-verdianas e portuguesas, daquilo que dispomos na Câmara Municipal de São Vicente, do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde e dos arquivos de algumas instituições públicas. Recorreu-se ainda as fontes orais, tendo sido entrevistados duas pessoas que relataram a sua vida e a vivência social em São Vicente e os seus contributos foram enquadrados no trabalho. No entanto reconhece-se que muitas coisas ficaram por aprofundar devido a indisponibilidade de deslocar ao Arquivo Histórico Ultramarino e ao Arquivo do Tombo. Lamentamos que o Arquivo Histórico de Cabo Verde tenha poucas informações para pesquisas científicas e ainda o facto de não dispor de muitos documentos.

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II – A ilha de São Vicente e a chegada dos ingleses

Apesar de haver diversos debates e posições antagónicas em relação à descoberta das ilhas de Cabo Verde, havendo historiadores que se posicionam na tese de que anteriormente à chegada dos portugueses teriam aportado nessas ilhas, frotas de outras nacionalidades, aceita-se a tese de que as ilhas de Cabo Verde foram descobertas em Dezembro de 1460 (inicialmente cinco: Sal, Maio, Boavista, Santiago e Fogo) como atesta a carta régia de 1460, redigida por D.Afonso V, indicando como autores desse feito, António da Nola e Diogo Gomes (Albuquerque & Santos; 2001, vol.I:23 a 39). Pouco tempo depois os colonos portugueses e escravos da costa ocidental africana chegaram a Santiago e ao Fogo, dando assim início ao povoamento das ilhas de Sotavento.

A Ilha de São Vicente somente viria a ser descoberta a 22 de Janeiro de 1462, tendo sido doada ao Duque de Viseu, a título de dependência da Ilha de Santo Antão. Contudo três séculos após o seu descobrimento a ilha ainda se encontrava desabitada.

A fraca presença e controlo do governo português na região norte do arquipélago de Cabo Verde, ficou claramente demonstrada pelas incursões frequentes de muitos estrangeiros. Nota-se o caso da presença constante de baleeiros americanos nos mares de Barlavento, entre os meses de Novembro e Dezembro, altura em que cardumes de baleia passavam por esta região, fugindo aos mares gélidos do rigoroso Inverno do Atlântico setentrional (Silva, 2005:24-27). “Alguns anos mais tarde o açoriano António Aniceto Ferreira, capitão-mor da ilha da Boavista, regista o caso de uma embarcação americana, proveniente de Nantuket, que tendo capturado cerca de 90 toneladas de baleia, derreteu parte delas dentro do próprio Porto Grande de S. Vicente.” (Silva, 2005:27)

Umas vezes eventual outras de duração mais prolongada, holandeses e franceses marcaram presença na ilha de São Vicente, antes da sua ocupação efectiva. Segundo Correia e Silva (2005), os holandeses tiveram uma presença mais longa, cerca de quatro

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meses, datada de 1629, altura em que a frota holandesa se dirigia para a conquista da cidade de Olinda no Brasil.

Nessa altura São Vicente era um campo de pastagem com uma aldeia denominada de Nossa Senhora da Luz, constituída por pastores e alguns pescadores das ilhas vizinhas de Santo Antão e São Nicolau.

Assume-se pelos poucos dados existentes que a primeira proposta de povoamento tenha partido de uma iniciativa privada em 1734, quando um senhor de nome João Távora propôs ao governo português um contrato de concessão onde ficaria assegurado a ocupação e a fortificação do porto da ilha, por um período de 10 anos, podendo em contrapartida desfrutar-se de todos os rendimentos que a ilha produzisse. No entanto o governo português, na pessoa do Governador Bento Gomes Coelho, não se mostrou interessado na altura tendo o Távora voltado o seu interesse e se instalar no Brasil. (Almeida, 2009:8)

Seria a partir de 1781, que a coroa portuguesa teria iniciado as tentativas de povoamento da ilha e como forma de atrair ocupantes efectivos para a mesma, limitando desta forma a presença dos moradores da ilha de São Nicolau, Santo Antão e dos estrangeiros, que aportavam a ilha sem autorização do governo português. “Uma concretização do Decreto [elaborado em 1781] foi o Ofício do Ministro Martinho de Mello, que a 19 de Dezembro de 1788 ordenou ao Governador [de Cabo Verde] a adopção de todas as providências para que se levasse a efeito o povoamento de S. Vicente” (Fundo […], 1984:5)

Apesar de essa tentativa ter fracassado, a partir dessa data torna-se imperativo para a coroa portuguesa o povoamento da ilha, tendo-se seguido várias tentativas.

No ano de 1794 começam a ser enviados da metrópole condenados que deveriam cumprir as suas penas na ilha de São Vicente: “[…] o iate Bom Sucesso vindo de Lisboa transportava presos, géneros e ferramentas destinadas à ilha de São Vicente. Tendo-se naufragado à entrada da cidade, os presos aproveitavam para fugir, embarcando em

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navios estrangeiros, informou o Governador. Em Junho do mesmo ano chega outro iate com presos que seriam transportados para «(…) as ilhas de barlavento que se reputam de melhor clima (…) para dali passarem a povoar a ilha de S.Vicente, quando para esse efeito se dirigirem as ordens necessárias (…)»” (Lopes, 2005:74)

Por ordem da carta régia de Julho de 1795 chegavam a ilha 20 casais e 50 escravos vindos da ilha do Fogo e sob o comando de João Carlos da Fonseca Rosado, na altura capitão-mór da referida ilha e pretendendo alargar as suas possessões interessa-se pelo povoamento da ilha de São Vicente. Dois anos mais tarde chegariam mais colonos a ilha do porto grande. Rosado vai repartir as terras pelos colonos, e demarcas os terrenos da Câmara e ainda determinar o perímetro da povoação. (Almeida, 2009:9)

No ano de 1797 o governador Marcelino António Bastos recebe ordens para proceder ao povoamento da ilha pondo em prática o anteriormente estipulado na carta régia de 1795. No final desse mesmo ano apresenta um relatório dando conta do estado das sementeiras e as despesas efectuadas no transporte, compra de mantimentos e outros, para além da chegada de presos vindo da metrópole. (Lopes, 2005:75)

Por sugestão do governador Marcelino António Bastos a povoação passa a ter o nome de D. Rodrigo, em homenagem a D. Rodrigo de Sousa Coutinho antigo Ministro da Marinha.

Muito embora se reconhecesse as boas condições que o Porto Grande oferecia, todas as tentativas de povoamento conhecera o seu fracasso devido as condições naturais adversas que a ilha apresentava (calamidades naturais), que provocavam a morte e fomes da pouca população que aí se estabelecia.

O empreendimento de João Carlos do Rosado fracassou em 1814, devido a grandes dificuldades causadas pelos períodos de seca e consequentemente a população não tinha como sobreviver. Seguiu-se ainda o Inácio de Melo que após ter exposto ao Governador

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Geral a situação da ilha solicita autorização para administrar a ilha e apoio urgente as poucas pessoas ainda estavam na ilha. (Lopes, 2005:76)

Em 1819 segue-se mais uma tentativa de povoamento, desta vez sob a iniciativa do então Governador António Pusich, levou para a ilha 56 famílias pretendendo reforçar a ideia de que São Vicente poderia ter as condições para ser a capital do país, numa altura onde o governo da capital do país sediada na Praia viajava frequentemente para São Vicente, fugindo as más condições climáticas sazonais da capital do país. Pusich altera o nome da povoação e passa a ser designado de Povoação D. Leopoldina em homenagem a imperatriz Maria Leopoldina da Áustria, esposa de D. Pedro IV.

No entanto 3 anos depois Pusich vê falhado a sua tentativa de povoamento não obstante as várias “injecções” de fundos como forma de manter a povoação na ilha. (in Cabo Verde - Boletim de Propaganda e Informação, Ano V, nº 62, 1 de Novembro de 1954)

Como forma de incentivar o povoamento estabelece-se uma nova legislação em 1834, concedendo benefícios nomeadamente a concessão gratuita de terrenos por aforamento e isentos de dízimos durante 10 anos, mas em contrapartida o concessionário deveria construir alguns edifícios administrativos essenciais a dinamização e efectivação do povoamento da ilha e também erigir uma igreja, para além de outras regalias. (Lopes, 2005:78)

Até o ano quarenta do século XIX a população da ilha de São Vicente não chegava ao meio milhar, conforme nos elucida o quadro n.º 1, demonstrativo dos fracassos dos empreendimentos para a construção da mais nova cidade do arquipélago. De 1807 a 1827 a população cresceu no total de 5 pessoas, para nos 5 anos seguintes crescer para mais 95 pessoas. Esta análise deve ser considerada tendo em conta as permanências e saídas quando as condições de sobrevivência na ilha mostravam-se intransponíveis.

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Quadro n.º1 – Evolução da População em São Vicente de 1807 a 1832 ANO Nº População 1807 1827 1832 200 205 300

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Apesar do decreto ministerial de 1838 estabelecer que o governo da metrópole deveria mudar para a ilha de São Vicente, tal nunca efectivamente aconteceu devido as resistências dos habitantes da Santiago em aceitar tal decreto2. (Almeida, 2009:12)

Vinte anos depois, por decreto régio, reforça-se as medidas de povoamento, altura onde o povoamento ainda não tinha conhecido os objectivos desejados, inclusive o estabelecimento de residências de acolhimento dos comerciantes e o fraco número de pessoas com residência efectiva, cenário que iria mudar no final do século XX.

No processo de colonização e desenvolvimento da ilha de São Vicente estiveram presentes duas grandes influências externas: a Britânica e a Portuguesa. No entanto, esta última seria durante muito tempo inexpressivo. As autoridades portuguesas mostraram-se incapazes de proteger esta ilha da presença de piratas e corsários e optaram por deixar a ilha nas mãos dos investimentos e presença inglesa, como a seguir se descreve.

Nos finais do séc. XVIII a Revolução Industrial na Inglaterra conhece um novo dinamismo que fez acelerar a sua produção industrial. O desenvolvimento técnico,

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Demografia Cabo-verdiana: subsídios para o seu estudo, Praia, Instituto Caboverdiano do Livro, Praia, 1985 2 A 11 de Junho de 1838 publicou-se o decreto-lei que determinou que: “A cidade do Mindelo será a capital das ilhas de Cabo-Verde, e como tal residirá nella o respectivo Governador Geral e as principais autoridades desta província.” Esta decisão deveu-se ao facto de na altura, a ilha de São Vicente apresentar melhores condições de vida do que a ilha de Santiago: “Causando gravíssimo prejuízo e transtorno à Administração publica da Província de Cabo Verde o retirarem-se em certos mezes do anno as principais Authoridades da Ilha de S. Thiago, aonde presentemente se acha fixada a Sede d´aquelle Governo, para se subtrahirem às moléstias que periodicamente se desenvolvem na mesma ilha, […] e por existir felizmente n´aquelle archipelago uma outra ilha, a de S.Vicente, que gosa de melhor clima e de outras vantagens, entre as quaes merece attenção o possuir um porto dos mais espaçosos e seguros da Monarchia: Hei por bem determinar que as principaes Authoridades do Governo Geral de Cabo Verde assentem residência permanente na sobredita ilha de S.Vicente.

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aliado à necessidade de aumentar o mercado comercial para a venda dos produtos ingleses e de trazer matérias-primas das colónias, ocasionou a revolução no sector dos transportes, entrando o navio a vapor nos mercados do mundo. Esse novo meio de transporte, acarretava uma frequente manutenção e abastecimento. Desta forma era necessária a criação de postos de abastecimento em locais estratégicos e de fácil acesso, permitindo que os barcos tivessem mais espaço para as cargas comerciais.

É neste contexto que os Ingleses começam a demonstrar o seu interesse meramente comercial pela ilha de São Vicente. No primeiro quartel do século XIX, com total permissão do governo português, enviaram hidrógrafos para fazerem um estudo mais preciso das condições do porto de São Vicente. Em 1819, chegaram a ilha os hidrógrafos Vidal e Mugde. Quase vinte anos depois, os ingleses conseguiriam a licença para instalarem um depósito flutuante de carvão de pedra no porto do Mindelo, tendo tido pouca duração. Seria nos finais dos anos trinta, que os ingleses iriam concentrar os seus esforços no desenvolvimento do porto de São Vicente, aumentando consideravelmente o fluxo de navios à ilha (Fundo […], 1984:6).

O interesse dos ingleses ficou somente pela ilha de São Vicente, devido às boas condições geográfica e portuária, que não encontraram em nenhuma outra ilha deste arquipélago, passando a servir de entreposto comercial e serviço postal entre Inglaterra, América do Sul, África e Ásia.

A efectivação dessa presença inglesa na Ilha de São Vicente, teve início em 1838, altura em que o Cônsul, Mr. John Rendall instalou na ilha a 1ª companhia inglesa, a East India, criando assim o primeiro depósito de carvão e a instalação efectiva dos ingleses. Nesta mesma altura, o Marquês de Sá da Bandeira decretou que a povoação na baía do Porto Grande adoptasse o nome de Mindelo, em memória do desembarque do exército liberal expedicionário de D. Pedro IV nas praias perto da localidade do Mindelo em Portugal. Dava-se assim, início a construção da futura cidade de Cabo Verde. (Fundo […], 1984:13 & Ramos, 2003:91)

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No entanto, em 1836 já havia interesses por parte dos Ingleses em desfrutar da situação privilegiada da baia. O inglês John Lewis visitou a ilha com o objectivo de avaliar as condições do porto para servir de escala aos navios da inglesa Companhia das Índias Inglesas, proposta que foi recusada pela coroa portuguesa. A carvoeira East India teria uma presença passageira no Mindelo. Porém, em 1850 a companhia Royal Mail Steam Packet inicia a instalação de depósitos de carvão para abastecimento dos barcos que passavam rumo ao Atlântico Sul. Neste sentido viu-se necessário criar infra-estruturas que apoia-se esse comércio tendo sido construída a alfândega da ilha. No ano seguinte, a companhia inglesa Visger & Miller`s instala novo depósito de carvão de pedra. Patent Fuel, Thomas & Miller, MacLoud & Martin, Companhia de St.Vincent de Cabo Verde, a Wilson & Sons Cª LTD e a Cory Brothers são outras empresas carvoeiras em actividade nessa época. (Silva, 2005:103) O grande fluxo de navios no porto representava grandes oportunidades de emprego. Esta actividade provocou um rápido aumento da população vinda de quase todas as ilhas do arquipélago, principalmente homens. Isto numa 1ª fase, uma vez que depois se passou a admitir as mulheres nos trabalhos portuários. “À medida que a cidade – porto vai vingando, a imigração tende a deixar de ser masculina e individual, para se tornar bissexual e familiar.” (Correia e Silva, 2005: 120). Esses trabalhadores eram denominados de: estivadores, catraeiros, mergulhadores, etc., que trabalhavam tanto nas instalações carvoeiras, como no porto. A ilha de São Vicente, torna-se inevitavelmente um atractivo, uma nova esperança para as pessoas das outras ilhas, nomeadamente camponeses das ilhas de Santo Antão e São Nicolau que viam no Porto Grande uma oportunidade de fugirem às secas cíclicas que assolavam as ilhas rurais causando terríveis ‘crises de fome’ e de conhecerem um mundo novo que era a cosmopolita e movimentada Mindelo (Silva, 2005:112). No entanto a ilha encontrava-se juridicamente sob a dependência da ilha de Santo Antão, facto que começava a trazer alguns problemas, devido a dinâmica que essa

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cidade do Mindelo havia conhecido nessa altura e o facto das comunicações entre as ilhas serem deficientes, não obstante a proximidade das mesmas. Torna-se imperativo constituir um governo local e ainda algumas instituições importantes a nova dinâmica que o porto e a ilha tinham adquirido, nomeadamente a instituição de uma alfândega de categoria de despacho maior, devido a afluência em número sempre crescente dos navios que aportavam a ilha.3 (Lopes, 2005:80)

Em Março de 1852, após visita do Governador-geral de Cabo Verde a ilha, foram tomadas algumas deliberações, nomeadamente a criação de uma Comissão Municipal, formada por 5 (cinco) membros: o juiz ordinário, juiz de paz, e escrivães, com todas as atribuições e obrigações de uma Câmara Municipal, mas que somente seria efectivada a substituição da denominação de Comissão para Câmara em 1879, recebendo também o estatuto de cidade. A ilha de São Vicente estava formalmente desligada das dependências da ilha de Santo Antão. (Idem:81)

A prosperidade dessa população em franco crescimento seria abalada em 1852, ano em que a ilha de São Vicente é desgraçada pela peste amarela e estima-se uma redução de quase metade da população dos 1400 habitantes existentes na ilha. No entanto passada o perigo dessa doença, Mindelo volta a reanimar-se e a sua população aumenta com o contributo da emigração das outras ilhas. (Almeida, 2009:16-17)

Em 1879, dos 3717 habitantes da Ilha, 3497 eram naturais de Cabo Verde, (inclui-se aqui os imigrantes das outras ilhas) e dos 114 estrangeiros, 86 eram britânicos, mas até a viragem desse século este número atingiu uma centena. Havia em São Vicente mais estrangeiros do que naturais de Portugal. (Fundo […], 1984:33).

Outras medidas administrativas começaram a ser tomadas, nomeadamente “o estabelecimento de uma botica [farmácia] por conta do governo; a designação de um facultativo para fazer visitas aos navios e outros serviços; a transferência das funções de chefes das alfândegas do circuito norte, que eram desempenhadas pelo chefe da Boavista, para o de S.Vicente; a criação de uma comissão denominada do “Bem Comum e Melhoramento da Agricultura” para responder as solicitações de distribuição de terrenos e fazer desenvolver a agricultura; a nomeação de um Patrão-Mor para o policiamento do porto; a proibição de construção de casas fora dos “alinhamentos necessários”

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Apesar dos ingleses serem pessoas muito reservadas vivendo isolados do povo, pois não permitiam que os nacionais se aproximassem do seu meio social (exemplo: criação dos grandes salões de bailes privados, edificação de uma igreja própria, etc); havia sempre nacionais (cicerones), que os acompanhavam no seu dia-a-dia, como serventes ou ajudantes, nomeadamente nas práticas desportivas (golfe, ténis, cricket, o footing (atletismo), a natação, e o cross) para além dos contactos diários que mantinham com os seus empregados domésticos e os trabalhadores das carvoeiras. Os ingleses eram considerados a elite da terra. Como se referiu anteriormente, as relações de maior proximidade com os naturais da ilha, verificavam-se mais a nível laboral. O povo mindelense aprendeu com os ingleses, para além das bases linguísticas necessários para o contacto e dessas práticas desportivas acima referidas, vários ofícios, entre os quais: carpintaria, ferraria, serralharia electromecânica, electricidade, contabilidade, serviços administrativos, entre outros. De referir que o ensino dessas práticas acabou por impulsionar o desenvolvimento económico da ilha, mas foram introduzidas como benefício próprio para os ingleses, uma vez que a população vivia em condições miseráveis, enquanto faziam lucrar os investimentos dos ingleses, sem qualquer intervenção por parte do governo português, que preferia ficar a margem das actividades inglesas. (Silva, 2005:116-118). De referir ainda que, a sociedade mindelense também herdou desses estrangeiros os hábitos e costumes sociais, gastronómicos, morais e éticos. Os jovens do Mindelo, como não podia deixar de ser, cedo começaram a imitar os ingleses em tudo quanto faziam, desde a aprendizagem da língua até o modo de vestir e proceder. Eram muitos os mindelenses que dominavam razoavelmente a língua, quer no falar, quer no escrever. […] Formas de procedimento que se enraizaram na sociedade mindelense, em todos os níveis, chegando-se até ao exagero de alguns falarem o português deturpado, tal como os ingleses faziam. (Matos, 16) No ano de 1879 a ilha encontrava-se dotada de vários edifícios, tendo alguns sido construídos por altura da criação da Comissão Municipal em 1852. Desses edifícios destaca-se a Igreja (Nossa Senhora da Luz), a alfândega, um quartel (Fortim d´el Rei), um palacete do governo, os Paços do Concelho (edifício Administrativo onde se situa a 12

actual Câmara Municipal, a cadeia civil, um mercado municipal, um armazém de vendas a grosso da companhia Millers, que fornecia a população mindelense e as outras ilhas, lojas de revenda, padarias, tabernas, talhos, casas fornecedores de refeições, três hotéis, tendo também iniciado a construção outras infra-estruturas, obras de saneamento e de embelezamento da cidade. A nível da educação construíram escolas primárias para os dois sexos em separado. Foi inaugurado a 10 de Junho de 1880 a escola Camões, destinada a formação feminina e a constituição da primeira biblioteca pública, em homenagem ao tricentenário da morte do escritor Camões e com abertura ao público quatro meses depois com mais de mil volumes, adquiridos por donativos dos mindelenses. (Almeida, 2009:19) Seria também neste mesmo ano lançado as bases para a construção do primeiro hospital da ilha, para dois anos mais tarde ser a primeira ilha do arquipélago a dispor de água canalizada, resolvendo um dos principais problemas que afectava a ilha. Graças ao progresso económico que possibilitou o desenvolvimento da ilha, a vila do Mindelo foi-lhe atribuído o estatuto de cidade nesse mesmo ano, cem anos depois do início das diversas tentativas de povoamento. Seguiu-se então a construção de mais edifícios públicos e com o crescimento populacional começaram a alargar progressivamente as zonas habitacionais. No entanto devidas as várias actividades do porto, uma área muito grande do centro da cidade foi entregues as companhias carvoeiras para as construções de vários edifícios administrativos ingleses, residenciais, salões de convívio, etc. Nos finais da década de 80 do século XIX, verificou-se um crescimento considerável da população, de 3717 pessoas em 1979 para os 6561 em 1889, mesmo considerando a grande fome que assolou as ilhas de Cabo Verde nos anos de 1883 a 1885. Este progressivo crescimento populacional, devido em parte pela grande entrada de pessoas das outras ilhas, começou a preocupar a Administração da ilha, quando em 1890 verificou-se o primeiro decréscimo da navegação ao porto da ilha, tendo sido chamada a atenção da metrópole sobre a situação vigente: No ano seguinte, em 1890,

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começou no Porto Grande o primeiro grande decréscimo da navegação. Isso criou imediatamente problemas. No mês de Maio começou «a sentir-se excesso de trabalhadores, em consequência de muita gente que tem affluido de outras ilhas», e calculava-se que logo que terminassem os trabalhos de canalização das águas do «Norte», não seriam «sufficientes as obras particulares para ocupar os individuos que procuram trabalho braçal?» (Fundo […], 1984:58) Quatro anos mais tarde o porto volta a conhecer um relativo aumento da navegação, continuando os anos seguintes com oscilações dos números de navios que aportavam a ilha. Paralelamente a essas crises a população continuava a crescer, expandindo-se cada vez mais para o interior da ilha. A cidade do Mindelo entrava no século com um plano urbanístico bem definido, tendo a Administração delimitando-se o limite físico do centro da cidade das outras zonas mais periféricas e contava com uma população a rondar os 7.000 habitantes. De referir a implementação no ano de 1901 da Câmara Judicial com sede na cidade do Mindelo e que abarcava os concelhos de São Vicente, São Nicolau, Sal e Boavista: Esta decisão foi motivada pela urgente necessidade «de se facilitar uma profícua, prompta e benefica administração de justiça», considerando que a ilha de S.Vicente, com uma população de cerca de 7000 pessoas, era «a mais concorrida por europeus e frequentada pela navegação inter-oceanica» e contribuída «com mais que metade da receita pública da província, sendo a sua capital, a cidade de Mindello, a mais importante do arquipélago, tanto em população, como em comércio. (Fundo […], 1984:62). Apesar de haver uma tendência geral do senso comum de verem este período da chegada dos ingleses, 1830 até princípios do século 20 como um período de grande prosperidade na cidade do Mindelo, não corresponde a realidade uma vez que a população vivia em condições precárias em habitações com pouca ventilação, com salários muito baixos e sem o mínimo de condições de higiene. Apesar de os trabalhos do caís oferecer meios de trabalhos a população, trazia por outro lado problemas de

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saúde aliados aos trabalhos do carregamento do carvão sem protecção que provocava graves problemas respiratórias. Como qualquer outra cidade-porto a prostituição torna-se um meio de subsistência da classe pobre e em São Vicente ganha tamanha proporção que as autoridades são forçadas a tomarem medidas severas de controlo, devido a propagação de doenças venéreas que assolavam a população, sendo que passaram a limitar as zonas onde se pudessem fazer tal actividade e impor a fiscalização sanitária periódica de forma obrigatória. Esta situação agravou-se ainda mais principalmente com a entrada e permanência do numeroso contingente de tropas expedicionárias na ilha, por um período de quase 6 anos, uma vez que não havia controlo por parte das unidades sanitárias, acabando por serem também veículos transmissores de doenças sexualmente transmissíveis. Seria esse o cenário socioeconómico, que retrata a difícil vida mindelense, a permanecer até aos anos quarenta do século XX em estudo, como veremos mais adiante, não obstante todas as tentativas da Câmara em ajudar a população e as várias notas enviados ao governo solicitando ajuda a ilha de São Vicente, tendo sido realizadas as primeiras manifestações na ilha declaradamente contra o governo português. Trata-se de um período marcado claramente pela decadência do porto e por arrastamento o profundo mergulhar na crise da população.
Figura n.º 1 - Ilha de São Vicente - 1945

Autor: Foto Melo

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1 - A Política Colonial Portuguesa a partir dos anos 30 A tentativa de mudança desse cenário acima referido, caracterizado pelo completo domínio da presença estrangeira, acontece com a mudança do regime político português em 1926, a implantação do Estado Novo. Seria no entanto em 1930, que Oliveira Salazar procura mudar este cenário atribuindo um novo estatuto as colónias com a publicação do Acto Colonial – o Decreto n.º 18570, de 08 de Julho. Foi o primeiro documento constitucional a ser publicado e comportava quatro capítulos: o I refere-se as garantias gerais, o II refere-se ao “indígena”, o III sobre o regime político e o IV referese as garantias económicas e financeiras. O Acto Colonial traduzia-se na tentativa de centralização do poder concentrada no Ministro das colónias, em detrimento da acção da Assembleia Nacional e das estruturas administrativas das colónias.4 No que se refere a estrutura ideológica imperial durante o Estado Novo, podemos distinguir três fases: a primeira inicia-se no ano de 1926 a 1945 corresponde ao período na qual a Europa assume o papel de civilizar as regiões colonizadas, numa clara posição de superioridade civilizacional; a segunda decorre do ano de 1945 até o ano de 1960 altura onde a ONU reconhece o direito de autonomia aos povos colonizados e também ano que se inicia as reivindicações á autodeterminação das colónias africanas portuguesas e a terceira inicia-se em 1960 e prolonga-se até ao fim do Estado Novo, altura marcada por rebeliões armadas nas então colónias de Angola, Moçambique e Guiné.5 No que se refere a primeira fase e de forma resumida essa revisão reforça a função integradora do projecto colonial, insistindo na missão imperial como a expressão de um ideal colectivo baseado num imperativo histórico e político. Nessa fase as colónias deveriam servir como local de instalação e acolhimento do excedente populacional da metrópole, para o escoamento de matérias-primas e ainda para como mercado para os produtos europeus. Destaca-se nesse período alguns opositores dessa revisão constitucional, entre os quais o general Norton de Matos, que se mostrou contra o

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In, A Reformulação do conceito do Império – Diciopédia 2009 [DVD-ROM], Porto Editora, 2008 Idem

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trabalho forçado nas colónias e a favor da igualdade social que permitisse aos nativos das colónias desempenhar cargos de relevância na administração das mesmas.6 Em relação a segunda fase, esta fundamentava-se na ideologia de que as colónias deveriam estar dotadas de estruturas industriais e ainda deveriam ser criadas mecanismos legais que estabelecessem as relações comerciais entre as colónias e outras nações estrangeiras. Por causa da pressão internacional os territórios ultramarinos portugueses passam a ser designados de “províncias ultramarinas” que mais não eram segundo as palavras de Oliveira Salazar: “o prolongamento natural e indispensável do Ocidente”. No entanto manteve-se o “Estatuto do Indígena”.7 A terceira fase que compreende o período entre 1961 até 1974, tem-se uma reforma a nível jurídico que revogaria o Estatuto do Indígena e procederia a outras reformas profundas. Caracteriza-se ainda por um período de grande desenvolvimento económico nas colónias de Angola e Moçambique. Verifica-se uma maior autonomia em relação as colónias: liberalização da entrada de naturais da metrópole. Cria-se em 1961 o Espaço Económico Português (EEP), procurando-se reforçar a unidade da nação, na qual se preveria a implementação de um “mercado único”, na qual se estipulava a eliminação das barreiras alfandegárias entre a metrópole e as colónias e ainda a criação de uma moeda única. No entanto tais medidas não chegaram a efectivar-se, principalmente porque entrou-se no período conturbada das guerras coloniais.8 Segundo Matoso este Decreto incorporado na Constituição em 1933, resumia os princípios dos diplomas anteriores e apresenta novas directrizes nas quais deviam sujeitar-se as colónias, apresentando um quadro jurídico-institucional geral orientada pela nova política que se queria implementar nos territórios coloniais portugueses. De entre essas novidades destaca-se o reforço da legitimação da soberania portuguesa sobre as colónias (“função histórica e essencial de possuir, civilizar e colonizar domínios ultramarinos”) e ainda restrições a presença e concessões comerciais estrangeiros e privados nas colónias. No domínio político destaca-se a introdução do cargo de Governador-Geral em substituição dos Altos-Comissários, com reduzidos poderes de
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Idem Idem 8 Idem

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jurídicos e administrativos e ainda o fim da autonomia financeira de que disponham as colónias, devendo estas estar, para além de outras restrições, proibidas de contrair empréstimos com estrangeiros. (Matoso, 1998: 253 e 254). A constituição elaborada para o Estado Novo e referindo-se ao artigo 146º legalizava o trabalho forçado nas colónias, muito embora limitando-o aos trabalhos nos serviços públicos: “O Estado não pode forçar os indígenas a trabalhar senão nos serviços públicos de interesse geral para a colectividade, em ocupações em que os benefícios lhes digam respeito, na execução de decisões judiciais de carácter geral, ou para a execução de obrigações fiscais.” A questão colonial ganha nesse período uma importância excepcional nunca vista tendo-se inclusivamente surgido algumas conferências e exposições com o tema central a questão colonial: em 1 de Junho realiza-se a Conferência Imperial Colonial; em 1934 realiza-se a I Exposição Colonial e reúne-se o I Congresso de Intercâmbio Comercial com as Colónia na cidade do Porto, para além de outras conferências que decorreram nas próprias colónias. (Idem:254) A nível económico essa revisão constitucional estipulou como grandes linhas de acções que deveriam dar o impulso necessário a economia colonial de entre elas: as barreiras alfandegárias que regulavam a entrada de produtos estrangeiros concorrentes aos produtos portugueses e concessão de benefícios na percentagem mínima de 50% dos direitos as mercadorias produzidas na metrópole. A 8 de Junho de 1936 realiza-se a I Conferência Económica do Império Colonial, entre os quais foi discutida a questão do excesso da população em Portugal, que poderia ser aliviada com o envio de pessoas para as colónias, para além de se instituir que a função das colónias deveria ser a de produção de matérias-primas, destinadas a metrópole que depois deveriam ser transformados em manufactoras que em troca, seguiriam para consumo nas colónias. (Almeida, 1979:229)

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Realce para esse mesmo ano, a 29 de Outubro, a criação do Campo de Concentração de Cabo Verde9, no Tarrafal - ilha de Santiago, que serviria de prisão para os condenados e presos políticos, que conheceria o primeiro encerramento provisório em1946, ano em que se estipula que tenham morrido mais de trinta democratas. No entanto seria reaberto em 1949 por altura das primeiras eleições “livres” em Portugal no Estado Novo, para acolher presos políticos, maioritariamente comunistas ou simpatizantes. Embora essas medidas políticas se destinassem a todas as colónias portuguesas, e no caso específico da ilha de São Vicente, tais decisões não foram efectivadas tendo em conta a própria situação de crise que se vivia em Portugal. Isto é, o facto de a partir dos anos 20, Portugal se ter tornado mais dependente financeiramente da Grã-Bretanha, devido a avultada dívida externa que mantinha com este país e com a garantia de este país estrangeiro suportar os custos de infra-estruturas que de certa forma atenuava os problemas de desemprego e ainda servia como fonte de receitas para a colónia. “ Mas a Inglaterra era ainda, já o sabemos, o primeiro fornecedor da economia portuguesa (em combustíveis, máquinas e manufacturas…), o seu principal cliente (vinho do Porto, cortiça, resinosos…) e o transportador do grosso das mercadorias importadas ou exportadas pelo País; era também o principal investidor estrangeiro em Portugal (controlava os transportes urbanos, os telefones, as comunicações, importantes explorações minerais …) e fora o seu principal credor externo.” (Idem: 265) No ano de 1937 surgem rumores de negociações entre Portugal e Alemanha, alertando para uma possível concessão das colónias portuguesas para a Alemanha nomeadamente a colónia de Angola, que prontamente foram desmentidos por Salazar: “Alheios a todos os conluios, não vendemos, não cedemos, não arrendamos, não partilhamos as nossas

A Colónia Penal do Tarrafal foi criado através do Decreto-lei n.º 26:539, em 1936, no âmbito da reorganização dos serviços prisionais, enquadrada na vertente prisões especiais. Destinado a presos políticos e sociais no Ultramar que tivessem cometidos crimes políticos e os presos de delito comum quando não respeitavam as normas de disciplinas e mostravam-se como maus exemplos para os outros presos da metrópole e ainda os que tivessem cometidos crimes de rebelião: a ofensa contra o prestígio da República ou contra o prestígio do Presidente da República ou do Governo, a propaganda ou outro meio de provocação à disciplina social, o não cumprimento dos deveres da função pública ou das ordens da autoridade, o encerramento de fábricas ou cessação de qualquer industria sem causa legítima, a ofensa contra a bandeira, o Hino nacional ou qualquer emblema do Estado [etc]. No entanto desde 1931 que eram enviados para Cabo Verde, ilha de São Nicolau, presos políticos para o Colónia Penal que ali existia. (Tavares, 2007:63-65)

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colónias, com reserva ou sem ela de qualquer parcela de soberania nominal, para satisfação dos nossos brios patrióticos. (…)” (Idem:232) No entanto a questão colonial fora posta em evidência nos membros de comunicação social internacional e nos organismos internacionais, quando Hitler reivindica à Alemanha o direito de possuir colónias. No ano de 1940 é inaugurado com grande destaque em Lisboa a I Exposição Colonial do Mundo Português, demonstrando a realidade cultural africana, como forma exibicionista do governo de Salazar, gastando mais de 100.000 contos nessa exposição. Nesse mesmo ano morria em Cabo Verde vítimas da fome 20.000 pessoas numa população estimada em 180.000 habitantes. (Idem: 241) Destinado a encobrir o colonialismo, em 1941 o governo português aprova o decreto 31207, referente ao Estatuto Missionário, onde estipula como lema: cristianizar e educar, nacionalizar e educar: “Passam a estar nas mãos da Igreja a fundação e direcção de escolas primárias, secundárias, profissionais, seminários, escolas de catecismo, assim como enfermarias e hospitais.” (Idem:244) Nesse mesmo ano em Cabo Verde registam-se 9000 mortes causadas pela fome devido a falta de chuvas e de assistência da metrópole: “Na ilha do Fogo há povoações desaparecidas, e parecem de fome cerca de 40 pessoas por dia. Na cidade da Praia, ilha de S.Tiago, funda-se uma associação de beneficência (SAGA), dirigida pelo Governo, que sobretudo se dedica a fazer escoar trabalhadores esfomeados e “livres” para a ilha de S.Tomé. No seu transporte por barco morrem dezenas. Só na travessia do Cubango morrem 18[...].” (Idem:245) De acordo com a carta das Nações Unidas, artigo 73, aprovado a 24 de Outubro de 1945, na qual Portugal viria a ser membro a 14 de Novembro de 1955, dizia que os estados membros responsáveis por outros territórios deveriam prestar informações sobre os mesmos, no que diz respeito ao aspecto político, socioeconómico e educacional dos seus povos.

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No entanto a revisão constitucional de 1945 da Carta Orgânica dispôs no artigo 246, ponto único que “no Estado da Índia e nas colónias de Macau e Cabo Verde as respectivas populações não estão sujeitas nem a classificação de indígenas, nem ao regime do indigenato na sua acepção legal”, portanto reafirmou-se o estatuto do indigenato, que estava em vigor desde 1926, para os territórios da Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Timor. Sugere-se que ao invés de passar ao estatuto de colónias adjacentes, deviam formar primeiro um regime de transitório onde o arquipélago pudesse gozar de um estatuto mais descentralizado do que o de ilhas adjacentes. Surge nesta altura uma outra questão aliada a própria denominação: províncias ultramarinas. A substituição do termo colónias por províncias ultramarinas na constituição, implicaria uma mudança da mesma de forma a evitar que todo o que fosse escrito anteriormente sobre as colónias perdesse a sua autoridade jurídica e também implicaria uma mudança também nas estruturas administrativas: Ministério das Colónias, Conselho do Império Colonial, Ordem do Império Colonial, Escola Superior Colonial e Agência-Geral das Colónias, são exemplos e que deveriam também ser alvo de modificações nos seus regulamentos internos. Tratava-se de uma decisão que deveria ser introduzida lentamente, através de leis ordinárias, que iriam substituindo lentamente a nomenclatura das colónias, até que fossem resolvidos os problemas administrativos que a adopção do termo províncias ultramarinas implicaria.

Estes trâmites legais iam contra as expectativas daqueles que acreditavam que esta seria uma forma que rapidamente poderia resolver a situação de crise que se vivia em Cabo Verde, porque era um processo bastante moroso para a resolução rápida que os apoiantes do estatuto da adjacência pretendiam.

No ano de 1946 é aprovada a proposta de lei n.º 2066 da Lei Orgânica do Ultramar Português, prevendo-se que a partir daquele ano era necessário rever a legislação sobre na qual se regia a administração das colónias, numa tentativa de driblar os movimentos anticolonialistas. (Almeida, 1978:266)

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Em relação a Cabo Verde, na sessão da Assembleia do dia 19 de Janeiro de 1951, fica aprovado no ponto único artigo 1º da Constituição o seguinte: A administração do arquipélago de Cabo Verde poderá ser integrada, parcial ou totalmente, no sistema da administração metropolitana. (Actas das Sessões da Câmara Corporativa, diário nº 70) Na mesma sessão, leva-se a cabo uma revisão e reformulação do texto dos artigos do Acto Colonial, devidas as pressões externas contra o colonialismo. Procurou-se constituir uma legislação que abrangesse todas as colónias, tendo em conta as diversidades, as realidades geográficas e o meio social de cada colónia, mas principalmente devido ao desenvolvimento das mesmas. De entre outras reformulações, continua-se a definir uma descentralização administrativa e também a autonomia financeira, mas trata-se de uma autonomia relativa, uma vez que decisões de foro político e administrativo, nomeadamente autorização de contratos ou empréstimos que exigem cauções ou outras garantias; arrendamento ou venda de propriedades, entre outros. As funções legislativas e executivas são sempre exercidas sob a fiscalização dos órgãos de soberania, Assembleia Municipal, Ministro do Ultramar ou pelo governador. O governo português afirmaria que Portugal não administrava territórios que poderiam ser incluídos na categoria de indicada pelo artigo 73º da Carta das Nações Unidas.

Somente na 15ª Assembleia Geral da ONU em 1960, é apresentada o relatório comprovativo da situação das colónias portuguesas, onde se admitiu (menos Portugal) que os estados sob dominação portuguesa não eram autónomos.

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2 - A questão do rearmamento das colónias

Sabe-se que Portugal manifestou imediatamente após o inicio da guerra a sua política de neutralidade, apesar de alguns actos do chefe do Governo, Salazar, ter demonstrado um apoio não declarado a Alemanha e a Itália.10 No entanto era necessário defender a soberania portuguesa, não somente no continente como também nas ilhas e nas colónias.

Essa mudança de atitude por parte do Governo português estava também relacionada com o desenvolvimento económico das colónia, nomeadamente de Angola e de Moçambique, impulsionada com a entrada de colonos portugueses que tinham dinamizado as culturas do café, do milho e do algodão, na qual resulta na criação de recursos para novos investimentos. A esse desenvolvimento económico impôs ao Governo português uma presença mais atenta às mesmas afastando qualquer tentativa que pudesse por em causa a soberania portuguesa nas colónias.11 Nesse sentido envidam-se todos os esforços no reapetrechamento militar, substituindo várias armas que se encontravam obsoletas e comprando armamento em diferentes países da Europa.

Era necessário ainda proteger as regiões de Açores e Cabo Verde, por serem zonas de interesses estratégicos no atlântico. Assim sendo desde 1940 que tinham sido enviados para ilhas e as colónias tropas expedicionárias armados.

Para reforçar essa medida foi aprovado a 30 de Março de 1942, no Diário do Governo o decreto-lei n.º 31:943, na qual no artigo primeiro se estipula: “O Ministro das colónias fica autorizado a requisitar aos Ministérios da Guerra e da Marinha os oficiais que julgue conveniente mandar às colónias a fim de procederem aos estudos e trabalhos necessários à defesa das mesmas.” Ficariam salvaguardadas o mesmo vencimento que
“Timor sofreu, por duas vezes, invasão, primeiro pelos Australianos (1941), depois pelos Japoneses (1942) que o ocuparam por três anos, destruindo e matando milhares de portugueses e indígenas a seu bel-prazer sem que sequer fossem quebradas as relações diplomáticas entre Portugal e Japão. Em Macau, igualmente os Japoneses controlam de facto a administração. Salazar foi também forçado a ceder aos Aliados (Grã-Bretânia e Estados Unidos) bases militares nos Açores, em 1943. […] parace claro que as simpatias de Salazar estavam muito mais com a Alemanha e a Itália (em cujos regimes ele tanto se inspirara), do que com as demo-liberais Inglaterra e Estados Unidos, aliadas ao seu inimigo de sempre, a União Soviética.” (Marques, 1986:381-382) 11 In, Colonialismo do Estado Novo – Diciopédia 2009 [DVD-ROM], Porto Editora, 2008
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usufruíram na metrópole e ainda teria direito a ajudas de custo diários que seriam estabelecidas através de um despacho do Ministério das Colónias, conforme o artigo 2º desse mesmo decreto-lei.

Em Outubro de 1943 foi mobilizado 100.000 homens no continente e também para as ilhas e colónias.

Figura n.º2 - Chegada do 1º Corpo de Tropas Expedicionárias Portuguesas a Mindelo - 1942

Autor: Desconhecido

A 21 de Dezembro de 1943 é dado a conhecer a todos os concelhos de Cabo Verde um edital solicitando a incorporação de recrutas naturais da colónia, para reforço das tropas expedicionárias que se encontravam em São Vicente, nascidos nos anos de 1919 a 1923, devendo os mesmos apresentar ao chamamento de inspecção para a tropa de reforço. Segundo a Portaria dos Recursos Serviços de Recrutamento da Colónia, artº 164, as pessoas que conseguissem encontrar desertores, recebiam como prémio o valor de 20$00 por cabeça. Os mancebos (recrutas) recebiam o valor de 3$50 de abono diário para alimentação, destinado ao tempo que estiveram concentrado a espera do embarque para São Vicente, quando estes residiam em zonas rurais distantes dos centros de cidade ou noutras ilhas.12

In, Reletórios e Correspondéncias enviadas e recebidas pelo Chefe da Repartiçao Central dos Serviços de Administraçao Civil, Instituto do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde, caixa nº 222

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Entre os anos de 1940 a 1945 foram mobilizados cerca de 180.000 homens da metrópole para as colónias e ilhas.13

A entrada dos militares portugueses em São Vicente trouxe alguns transtornos a população, uma vez que foram delimitadas áreas reservadas somente a movimentação dos militares, sentindo a população lesada, por se tratar de zonas onde habitualmente frequentavam, muito embora a Câmara, tivessem tentado sensibilizar as pessoas para a necessidade de haver uma zona militar restrita, aos quais não estavam habituados. Sobre esse assunto nos informa o relatório do então vice-cônsul Britânico da ilha, a 03 de Dezembro de 1943, que diz o seguinte: “A circulação das pessoas foi restringida pelos militares limitando a área em que as pessoas podiam fazer as suas vidas. Em consequência, a fome, o sobrepovoamento dessas áreas e condições de insalubridade aumentou, assim como qualquer possibilidade de fazer negócio. A tensão entre os militares e a população também aumentou, dando origens a motins.” (Gatlin, 1990:185)

Wahnon (2006) diz-nos o seguinte: Só em São Vicente desembarcaram mais de 3.000 soldados que, mostrando um total desprezo pelos direitos dos habitantes da ilha viriam a ocupar ainda e sem mais cantigas tudo o que de melhor havia no Mindelo em matéria de organizações recreativas e desportivas, entre os quais o Clube de Tenis do Mindelo que foi transformado em uma enorme garagem, o clube social Gremio Recreativo Mindelo onde ficou a funcionar o Quartel General, o Clube dos Ingleses [...], o Liceu onde foi instalada uma enorme oficina para o conserto das botas de tropa [...], a Câmara Municipal14, esta transformada em hospital militar, além de parte de nosso hospital, [...], e muitos outros prédios e propriedades [...] Quanto a tropa propriamente dita eram tantos os abusos, que os atritos com a população passaram a ser frequentes, chegando a haver mesmo focos de rebelião em várias zonas da ilha. (pg. 20-21)

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Actas das Sessões Parlamentares, 15 Dezembro, 1945, pag. 129-130

A 26 de Setembro de 1945, a Câmara Municipal recebe um ofício do Comando Militar de Cabo Verde, nº1466, disponibilizando uma verba no valor de 72.447$00,para custear as despesas de reparação do edifício dos Paços do Concelho que esteve ocupado pelas Forças Expedicionárias, in Actas das Sessões da Câmara Municipal de São Vicente de 27 de Setembro de 1945.

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Questionado sobre a presença militar portuguesa na ilha, o Sr. Gregório Dias desdramatizou os acontecimentos acima referidos dizendo que, do que ele teve conhecimento tratou-se de pequenos incidentes que prontamente foram resolvidos, resultados de algum desentendimentos, relacionado com festas que os militares não poderiam entrar pelo facto de não serem convidados. Relatou um episódio que aconteceu na zona periférica da cidade, em Salamansa, onde realizava uma festa e os militares portugueses impedidos de entrar utilizaram a violência para conseguirem o seu intento, ao qual todos os rapazes da festa ripostaram. Os que não entraram nesse conflito, partiram a correr e a festa terminou com esse incidente.15

Sobre o mesmo assunto o Sr. Arnaldo Lima também tem a mesma opinião. Disse que tratava-se de pequenas quezilas que na maior parte das vezes ocorria nas festa e o principal motivo eram as moças de Mindelo que despertavam o interesse dos militares e resultava em confronto quando os namorados ou os irmãos estavam próximos e desaprovavam as investidas dos militares.16

Com o término da guerra as tropas expedicionárias seguem imediatamente para Portugal. A 27 de Setembro de 1945 o Comando Militar de Cabo Verde envia um ofício (nº 1466 de 26 de Setembro de 1945), disponibilizando uma verba no valor de 72.447$00 a fim de custear as despesas de reparação do edifício dos paços do Concelho, que serviu de abrigo as tropas expedicionárias.

A população mostrou-se saudosa com a saída dos militares, reconhecendo principalmente a ajuda médica e medicamentosa que lhes tinham prestado durante a sua presença na ilha.

Entrevista realizada no dia 14 de Setembro de 2009, na residência do mesmo, zona da Ribeira Bote Entrevista realizada no dia 19 de Setembro de 2009, no restaurante do mesmo, na rua de Matijim (Centro Histórico da Cidade do Mindelo)
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Foto n.º3 - Grupo de pessoal Médico do Hospital Militar

Autor: Desconhecido

No entanto o relatório administrativo do Concelho de São Vicente, referente ao ano de 1947, diz-nos que o Comando Militar fez a entrega de materiais para reparação dos edifícios do Paços do Concelho, na zona do Lazareto, e dos Falcões17 e outros locais onde estiveram, no valor de 150.986$73. Não foram feitas reparações na zona de Lazareto, por se considerarem desnecessárias, uma vez que ainda não havia interesse habitacional, apesar de mais tarde ter-se tornado no posto militar da ilha. Fizeram reparações nos Falcões e os restantes materiais foram, em parte entregues a SAGA (órgão competente, encarregue da venda e regulação dos preços dos produtos) para venda, tendo o dinheiro sido aplicado na construção de obras, segundo o relatório, devidamente autorizadas pelo Governo.

A fundação dos Falcões de São Vicente, mais conhecida pelos Sokol, foi uma organização originária da Checoslováquia, voltada para actividades desportivas, cultura física e ensinamentos de boa conduta ética e social, contribuindo para a prática do desporto na ilha, que incluíam marchas ao estilo paramilitares, paradas, ginásticas rítmicas entre outros exercícios. Pensa-se que a criação da Mocidade Portuguesa foi inspirada nos Sokol, uma vez que a sua criação teve lugar logo após a visita a Cabo Verde do então Presidente da República Portuguesa, General Carmona, na qual os Sokol haviam participado no programa de recepção do Presidente. A criação da Mocidade Portuguesa em Cabo Verde marcou o fim dos Sokol, uma vez que os dirigentes foram substituídos por sargentos metropolitanos e o espaço da organização fora também substituído pela Mocidade Portuguesa. (Wahnon, 2006:14-15)

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Em Novembro do mesmo ano o Comando militar começa a embarcar os seus materiais para a metrópole. A Câmara Municipal solicitou ao comando a oferta de uma camioneta-tanque, que seria de grande ajuda aos serviços municipais. O hospital militar montada para assistência aos militares que também auxiliavam a população com cuidados médicos e fornecimento de medicamentos aos mais desfavorecidos, fora também desmantelado.

Figura n.º4 - N/M Serpa Pinto trazendo o 1º Corpo de Tropas Expedicionárias a Mindelo

Autor: Desconhecido

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III – A Situação socioeconómica da ilha de São Vicente A partir dos anos 40 do século XX a situação sócio-económica que se viviam em Cabo Verde torna-se muito grave. O bloqueio económico que Portugal estava sujeita pelos aliados devido a sua política do não-alinhamento ou neutralidade, trouxe graves consequências as suas colónias. No caso de Cabo Verde, muito dependente da ajuda da metrópole, essa situação agrava-se com as secas prolongadas que causaram, durante este período em estudo, a grande fome de 1947-48. (Carreira, 1977). Como forma de resolver esta situação devastadora, provocada pelas grandes secas prolongadas, pela fraca circulação marítima entre e para fora das ilhas, pela decadência do Porto Grande, pela falta de investimentos em obras municipais, que garantiam o emprego de muitas pessoas (são algumas causas para o aprofundar da vivência difícil em que se encontravam as ilhas de Cabo Verde) o governo português intensifica a política da emigração, como forma de diminuir o número de desempregados a seu cargo e ainda pensando na ajuda que os imigrantes poderiam dar as suas famílias que ficaram. Num país onde a principal actividade económica era a agricultura, depare-se com uma situação bastante difícil, uma vez que trata-se de um país onde as secas são cíclicas e quando há pluviosidade ou são demasiado fracas ou são muito fortes, acabando por arrastar consigo o pouco que se tem das terras cultiveis para o mar. Aliada a este cenário, tem-se os fortes ventos que acabam também por provocar a erosão das poucas terras cultivadas, que se mantém até hoje graças a perseverança do homem caboverdiano. Com a situação agrícola deficiente a pecuária também é deficitária, devido a inexistência de campos de pastagem. O número de animais mortos destinados ao consumo da população é elevado, havendo em toda a ilha, do total de 1870 animais no ano de 1946, um decréscimo para 1100 animais, no ano de 1947. Em São Vicente no período pós- guerra, os efeitos da crise são mais devastadores. Fraco em recurso, completamente dependente da actividade portuária e das outras actividades que gravitavam a volta do porto e da qual dependiam a sociedade mindelense e da importação de géneros alimentícios das outras ilhas, devida a existência de poucas

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extensões de cultivo na ilha. Esta situação vai agravar-se com a progressiva decadência do Porto Grande, com os desvios das rotas comerciais para os portos de Las Palmas e Dakar. Entre os anos de 1944 a 1945 todos os fornecimentos de bens a São Vicente estavam nas mãos dos portugueses, suplantando os ingleses. Devido a posição neutral de Portugal na guerra, o negócio do carvão passou também a ser dirigidos pelos portugueses até ao término da guerra. (Gatlin, 1990:185) De referir ainda, que o Porto Grande produzia o maior volume de receitas da colónia, com as actividades de reexportação do carvão e óleos combustíveis. (Fundo […], 1984:93). A 22 de Fevereiro de 1946, o deputado Adriano Moreira, representando Cabo Verde chama a atenção da Assembleia Municipal para a situação difícil da colónia de Cabo Verde. Reclama uma maior participação e atenção a colónia de Cabo Verde e diz ainda que esta não tem merecido a mesma atenção que as colónias mais ricas tinham merecido. Aproveita essa mesma sessão para abordar a questão dos vencimentos, dizendo que estes não eram uniformes para as colónias e pede ainda a revisão e actualização do diploma legislativo colonial nº 38, que regula os vencimentos, encontrando-se em vigor desde o ano de 1923, com um regime de vencimentos complicado e dividido em quatro categorias (vencimento de categoria, vencimento de exercício, subsídio eventual e subvenção colonial) e afirma o seguinte: “Não importa, pois, ao Estado saber se o funcionário é europeu, africano ou asiático, preto ou branco, como não lhe interessa averiguar se ele é alto ao baixo, gordo ou magro, sóbrio ou imoderado.” Apelando a unidade que sempre caracterizou o império, disse ainda que esta deveria ser real e não meramente discursiva. E sendo o Império muito vasto com grande diversidade de povos, torna-se imperativo promover uma política de igualdade social entre os mesmos, não beneficiando somente os indivíduos de origem europeia: “O exclusivismo racista leva os povos à ruína e à morte”

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O deputado Adriano Moreira, justifica a sua intervenção como uma realidade que se mostra urgente adaptar-se uma vez que as outras potências coloniais começaram a mudar as suas formas de tratamento para com os nativos das colónias. Validando essa informação relativo aos baixos vencimentos temos o Relatório Administrativo do Concelho de São Vicente enviado a Administração Central da Colónia em 1949 que diz-nos que o trabalhador do estado recebe o vencimentos no valor de 8$00 diários e no privado o valor de 6$00 diários para os homens, sendo que para as mulheres o valor é de 4$50 diários, valores insuficientes para a manutenção de uma família, quando uma refeição modesta e elementar custa em média 5$70. Esta situação dos baixos vencimentos aplicados na ilha de São Vicente continua a ser abordada nos relatórios seguintes. O relatório de 1958, diz o seguinte: As despesas com o pessoal administrativo é de 37,2%, bem baixo dos 50% que a lei impõe como máximo, a verdade é que os salários dos serventuários estão num baixo nível, os mais baixos a 8$00 diários, sem alimentação e sem alojamento [...], as mulheres também empregadas nos serviços municipais com as mesmas funções de outros trabalhadores assalariados com resultados produtivos tanto ou melhor que aqueles recebem metade desse valor, 4$00 diários, para todas as despesas diárias quando se sabe que o milho, alimentação basilar se vende a 1$40 litros. 18 De referir ainda a paralisação de muitas obras iniciadas pela Câmara, nomeadamente o calcetamento de algumas ruas principais da cidade, que aguardavam o envio de mais remessas para a sua continuidade, mas que devido a essa paralisação muitos operários estavam desempregados. Esta situação levou a Câmara a solicitar ajuda ao Governo Ultramarino, conforme se pode ler o seguinte: “A crise dos trabalhadores resultante da fraca movimentação do Porto e da paralisação de obras do estado e de particulares, agravados com o considerável aumento do custo de vida, […], solicita-se a Provedoria

In, Relatórios da Inspeção à Càmara Municipal de São Vicente, 1954, realizado por A. Mendes Serra, Intendente Administrativo, que reporta o periodo de Agosto de 1948 a 1954 – Instituto do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde, RPSAC, caixa nº 126

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Geral da Assistência Pública a concessão de um subsídio no valor de 50.000$00, para a realização de obras de utilidade pública e empregar os operários.”.19 Perante a resposta do Governo que não havia possibilidades de transferência de nenhum valor, uma vez que todo o orçamento estava sendo utilizado para os propósitos anteriormente indicados, a Câmara volta a propor ao Governo que os autoriza-se a fazerem movimentações de alguns montantes que se encontravam no Banco Emissor, proveniente dos saldos não orçamentados dos anos anteriores. E ainda em caso de recusa, e dispondo o Município do Fundo de Reserva, pedia-se autorização superior para movimentar os montantes que também se encontravam depositados neste mesmo banco. (Actas das Sessões […], 22 de Maio de 194720 No entanto essas medidas não tiveram aval favorável porque todas as movimentações bancárias teriam de ter aprovação superior, ou seja, os pedidos de empréstimos aos Bancos somente poderiam ser feitos por solicitação do governo das colónias ou com intervenção do governo da Metrópole, não estando nas atribuições dos Bancos a concessão de créditos à Corpos Administrativos das Colónias. (Actas das Sessões […], de 01 de Abril de 1947)

A 05 de Junho de 1947 a Câmara Municipal envia um comunicado ao Governo da Colónia relatando a situação decadente da classe trabalhadora: “Todos os dias, há meses, ocorrem aos poucos postos de trabalhos, grande nº de trabalhadores a procura de emprego estando a sua situação a degradar cada vez mais. A Câmara tenta fazer todos os sacrifícios em manter as suas obras em andamento, até que se iniciam as obras dos trabalhos agrícolas desse ano e assim possam suavizar a situação. A verba destinada as obras esta próxima de esgotar mostrando-se incortornavél o despedimento dos trabalhadores. É necessário recorrer ao Fundo de Reserva de forma a manter os

In, Actas das Sessões da Câmara Municipal de São Vicente, de 14 de Novembro de 1946 Solicita-se mais uma vez ao governo o reforço da verba destinada as obras de calcetamento de ruas, uma vez que estas se mostram insuficiente e afirma-se a importância de continuação das mesmas não somente para a utilidade pública como auxílio a grande número de operários que estavam a trabalhar nas referidas obras. Não havendo possibilidades de transferência de verbas, estando todos a serem utilizados para os propósitos indicados, solicitou-se ao governo a utilização do saldo não orçamentado do ano de 1946 no valor de 111.901$79, que se encontrava depositado no Banco Emissor.
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trabalhos até que as condições melhorem.” Propõem a tutela a aprovação de um crédito no valor de 80.000$00 a sair do Fundo de Reserva.

A 18 de Setembro de 1947 a Câmara solicita mais uma vez ao Governo, a autorização para utilizar do Fundo de Reserva do ano de 1946, como forma de reforçar o pagamento dos trabalhadores que se encontravam com grandes dificuldades económicas. O quadro n.º 2 mostra-nos o balancete para aprovação das contas referentes ao ano de 1946, na qual se expressa em termos contabilísticos as despesas e as receitas do concelho de São Vicente, sendo que as despesas correspondem a remuneração dos factores produtivos, ou seja, obrigações a pagar e as receitas correspondem a remuneração das rendas efectuadas e/ou dos serviços prestados, ou seja, direitos a receber, que representam no conjunto entradas e saídas de valores monetários para o referido concelho. Procedendo-se a análise do quadro n.º2 verifica-se que as receitas foram superiores as despesas, sendo que os valores nele traduzido demonstram que o resultado (receitasdespesas) resulta no valor de 214.427$72 para o ano de 1945 e o total seria o valor de 271.908$74. Seria com base nesse valor que a Câmara fazia a solicitação de utilizar parte deste valor que se encontrava no fundo de reserva.
Quadro n.º 2 - Aprovação Contas 1946 Saldo 1945 250.481$74 Receitas 1946 1.047.147$74 Despesas 1946 1.025.720$02 Saldo para 1947 311.901$79

Segundo o Engenheiro Rui de Sá Carneiro21 no seu discurso proferido na 2ª Conferência da União Nacional, realizada no Porto, em Janeiro de 194922 a situação económica das colónias era bastante próspera, depois de se terem aplicado medidas para a organização dos orçamentos coloniais, sendo que a partir dos anos 1931-32 e até o ano de 1947 começaram a demonstrar a sua eficácia com saldos bastante expressivos totalizando cerca de 3 milhões de contos, ficando assim distribuídos esse valor conforme o quadro

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Subsecretário de Estado das Colónias In, Boletim Geral das Colónias, Ano XXV – N.º284, Fevereiro de 1949

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n.º1, na qual se incidem os défice apresentados por algumas colónias nos períodos de crise: Quadro n.º 3 - Saldos das contas de exercício das colónias (1931/32 – 1947) Colónia Saldos das Contas Saldo definitivo (valor em contos) (valor em contos) Cabo Verde 55.000 6.000 Guiné 150.000 14.000 S.Tomé 80.000 17.000 Angola 750.000 200.000 Moçambique 1.500.000 312.000 Índia 11.000.000 (rupias) 20.000 (rupias) Macau 32.000.000 (pacatas) 90.000 (pacatas) Timor 5.000.000 (pacatas) 7.000 (pacatas) Nessa mesma conferência Carneiro elucida para o facto de que essas receitas foram utilizadas em proveito do interesse público, nomeadamente no reforço dos serviços da saúde, da educação e às missões, que disponham sempre de valores mais elevados de ano para ano. No entanto como se pode verificar no quadro acima, os saldos definitivos continuavam a ser bastante expressivos. Carneiro afirma no seu discurso que: “Evitouse a ruína, e a Metrópole e as Colónias apresentam-se hoje com finanças sãs.”23

No entanto essas verbas não poderiam resolver a situação difícil das colónias e também de Portugal, assolada por muitas revoltas da classe trabalhadora, que tinham organizados uma serie de greves por reivindicações económicas, manifestações, concentrações, marchas de fome e várias outras formas de luta, uma vez que não havia um uso coerente e eficaz do governo na utilização desses saldos: “De Dezembro de 1946 a Junho deste ano, as reservas de ouro e outras disponibilidades do Banco de Portugal no país e no estrangeiro diminuem em mais de um milhão e meio de contos (a riqueza nacional é esbanjada em compras inúteis: em 1946 compraram-se 163.000 contos de fios e tecidos que a indústria nacional poderia produzir; só com a compra de automóveis ligeiros, na sua maioria de luxo, gastam-se, nos primeiros seis meses de 1947, 155.752 contos; a importação de trigo, milho e batata, em 1946, orça pelos 500.000 contos; a de bacalhau, pelos 171.400 contos; a de lã, primeiros 6 meses de

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In, Boletim Geral das Colónias, Ano XXV – N.º284, Fevereiro de 1949

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1947, pelos 129.908 contos, etc). Entretanto, com a compra de todo o material ferroviário despendem-se apenas, em 1946, cerca de 27.000 contos…” (Almeida, 1979: 269)

Ainda no ano de 1947 essas despesas aumentam consideravelmente para além dos produtos acima referidos destacam-se as despesas que o Governo tinha com as forças de repressão, pelo Ministério da Guerra e da Marinha: “A despesa prevista com as forças repressivas é de 158.213 contos (mais 35.538 contos que no ano anterior). Para a PIDE (fora as despesas com “bufos” e vários departamentos do Estado) são destinados 11.051 contos (isto é, cerca de metade de todos os gastos com a saúde pública). Num total de despesas do Estado de 5.694.484 contos, 1.319.911 contos são consumidos pelos Ministérios da Guerra e da Marinha.” (Idem: 269-270)

Nas Actas das Sessões da Câmara do dia 08 de Janeiro de 1948 é enviado mais um comunicado ao Governo, mostrando a situação difícil dos trabalhadores da ilha de S. Vicente e solicita-se ainda a utilização do saldo de gerência do ano de 1947 no valor de 60.000$00.

Da análise do quadro n.º 4 verifica-se que: as contas aprovadas referente ao saldo de 1946 foram superiores aos previstos, ou seja as receitas foram maiores, ou ainda podemos pensar que as despesas também foram maiores, mantendo-se o saldo positivo. Em relação ao ano de 1947 podemos dizer que houve um aumento tanto a nível das receitas como também com as despesas, uma vez que a Câmara tinha aprovado valores inferiores no ano anterior. Nesse sentido teve-se que aumentar os valores (receitas e despesas) tendo em conta o aumento da população activa.
Quadro n.º 4 - Aprovação Contas 1947 Saldo 1946 311.901$79 Receitas 1947 1.117.170$96 Despesas 1947 1.050.220$92 Saldo para 1948 378.841$83

A 07 de Outubro de 1949, a Câmara volta a insistir e envia mais uma nota ao Governo solicitando o reforço da verba destinado ao pagamento dos trabalhadores, face a falta de

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trabalhos para os empregar, a diminuição dos movimentos do Porto Grande, os reflexos da crise agrícola, insistiu mais uma vez para ser aprovada a autorização para o levantamento do Fundo de Reserva do ano de 1947, do valor de 28.464$58, que segundo orçamento enviado em anexo destinava-se aos trabalhos de alargamento e renovação da rede eléctrica da ilha. No ano de 1949 é oferecido a Cabo Verde o valor de 11.000$00, pelas colónias de Angola, Moçambique, Guiné e São Tomé, por iniciativa do então Ministro das Colónias o Capitão Teófilo Duarte, que tinha conseguido mobilizar as outras colónias para a precária situação a que se encontrava a colónia de Cabo Verde.24
Figura n.º5 - Interior do Mercado de Verduras (Plurin d'Virdura) - Mindelo - 1949

Autor: Desconhecido.25

Após várias comunicações da situação dos trabalhadores desempregados em São Vicente, chega a 05 de Agosto de 1950, a aprovação no Boletim Oficial n.º 31, da retirada do valor de 50.000$00 do fundo de reserva do ano de 1948, destinada a construção de novas obras na cidade.

Esta situação acima referida demonstra que as solicitações de ajuda ao governo da colónia tinham resposta muito tardias, quando se sabe que as verbas solicitadas,
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In, Actas das Sessões da Câmara Municipal de São Vicente, de 14 de Novembro de 1949 Senhora de classe alta comprava o milho e dá-o as senhoras para o pilar em troca de alguns tostões.

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poderiam ser movimentadas porque faziam parte dos fundos de reservas e dos saldos positivos dos anos anteriores, depositados no Banco Ultramarino, que não se encontravam contemplados nos orçamentos dos anos seguintes e que numa situação difícil em que se apresentava a sociedade da lha era aceitável a retirada desses valores. Entre os anos 1947-1949 o país depara-se com a maior crise agrícola. A falta de chuvas nas regiões de cultivo, nomeadamente em Santo Antão26, que desde 1945 não tinha chovido e o facto de ser a ilha que mais mantimentos enviava a São Vicente, trás consequências gravíssimas aos mindelenses, que também não podem recorrer as reservas das outras ilhas uma vez que a situação é de crise geral. (Brito-Semedo, 2006: 305-306) “ (…) Anos maus, agricolamente falando, prolongando-se com altos e baixos, mais baixos do que altos, de 1940 a 1953 sangraram a economia da província desfalcando-a de mais de 200 mil contos, empregues só na aquisição de géneros alimentícios indispensáveis, (…)” (Almeida, 2007:110) Seria a partir de 1954 que se poria em práticas medidas efectivas para a resolução dessa situação. O governo propõe uma série de actividades como forma de empregar o maior número de trabalhadores que tinham sido despedidos das actividades portuárias devido a fraca movimentação dos navios. Estes investimentos realizados a partir da década de 50 do século do século XX, também designado como “os anos dourados” para Portugal, tiveram como principal objectivo fazer crescer os seus investimentos aproveitando-se da mão-de-obra barata das colónias.

A ilha de Santo Antão cuja actividade agrícola era a principal actividade económica tinha entrado em franco declínio no período pós- guerra. A situação é tal forma grave que chega-se a importar produtos fora do país, nomeadamente de Angola, que nas épocas normais de colheitas mais se produz nesta ilha (milho e feijão) como forma de socorrer as populações das zonas mais dependentes da produção agrícola, permitindo que esses géneros fossem adquiridos a baixo preço. “Fica temporariamente suspensa a cobrança do imposto 3% ad-valorem, destinado aos corpos administrativos dos concelhos da Ribeira Grande e do Paúl, sobre o milho e o feijão entrados nos respectivos concelhos para reabastecimento da Ilha de Santo Antão. Cumpra-se”, in Diploma Legislativo nº 909 – Boletim Oficial nº 25 de 22 de Junho de 1946

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Assim autoriza-se e dá-se início a 1ª fase dessas actividades, designadas por o I Plano de Fomento, aprovado pela Lei n.º 2058, de 29 de Dezembro de 1952, resultado do enquadramento de Portugal no Plano Marshall e da sua adesão à OECE, onde foram elaborados planos de desenvolvimento anuais e de médio e longo prazo, cujas metas foram a de melhorar o nível de vida, aliviar as pressões demográficas, melhorando a produtividade do trabalho e reduzindo o emprego. Assim os principais objectivos eram: fomentar a agricultura, aumentar a produção da energia eléctrica, conclusão das indústrias de base existentes, instalação da siderurgia, desenvolvimento de meios de comunicação e de transportes e ainda incentivos ao desenvolvimento da marinha mercante, da refinação do petróleo e da produção de adubos. No entanto não são disponibilizados verbas à saúde pública, ao ensino e a investigação científica. Em relação a Cabo Verde o Plano previa o aproveitamento de recursos e povoamento, comunicações e transporte, abrangendo o primeiro a irrigação, a produção de energia eléctrica, e o segundo os caminhos-de-ferro e os portos. Dos 4.354.834 contos, couberam a Cabo Verde a quantia de: 51.111 contos, aplicados no aproveitamento de recursos e no investimento nos transportes couberam a Cabo Verde a quantia de 45.678 contos, o que totalizaram o montante de 96.789 contos. Ainda no I Plano de Fomento Ultramarino foram realizados alguns reajustes também a nível financeiro, uma vez que se constatou que as verbas anteriormente destinadas eram insuficientes. De entre as alterações propostas as principais para Cabo Verde a questão dos transportes: “Em Cabo Verde as obras portuárias exigem, para se poderem realizar em condições satisfatórias, seja elevada para 80.000 contos a verba de 45.000 que lhes estava consignada. Sendo dispensável, por o serviço estar assegurado por empresa particular, a verba de 10.000 contos destinada a transportes marítimos, o custo global do Plano é elevado para 137.000 contos, devendo o novo encargo de 25.000 ser coberto, como demais nesta província, por subsídio reembolsável da metrópole.” (in, Actas da Câmara Corporativa, n.º 45, Abril de 1955) O relatório do I Plano de Fomento foi alargado para uma dotação de 137.000 contos. No entanto ficaram por gastar 44.000, cerca de 32%. Em sessão plenária do dia 30 de Outubro de 1958, na Assembleia Nacional, o então deputado Dr. Duarte Silva disse que 38

era «na realidade muito, sobretudo se considerarmos que Cabo Verde é uma província onde tudo está por fazer. E mais ainda é de lamentar o facto quando verificamos que as verbas não gastas dizem respeito a estradas e portos, precisamente as obras que (…) mais necessárias são ao arquipélago». As acções decorrentes do I Plano ficaram muito aquém dos resultados previstos, uma vez que a maior parte dos investimentos foram canalizados para as infra-estruturas, que imediatamente não se mostraram rentáveis, sendo que o desenvolvimento almejado seria conseguido após a elaboração e efectivação do II Plano. Numa 2ª fase, o II Plano de Fomento Ultramarino, aprovado pela Lei n.º 2094 de 24 de Novembro de 1958, teria como objectivo essencial dar seguimento aos trabalhos iniciados no I Plano, nomeadamente dar mais incentivos no sector industrial estabelecendo-se um programa mais coerente, onde se estabeleceu algumas medidas institucionais: criação do Instituto Nacional de Investigação Industrial e do Banco de Fomento Nacional e foram tomadas medidas que propiciassem o investimento privado nas industrias e nas actividades financeiras. Para todo esse investimento prevê-se uma verba no de 3.387.000 contos em Portugal e 9 milhões de contos nas colónias. No que se refere a Cabo Verde, no II Plano continuam os investimentos nas obras de regadio, nos trabalhos de rearborização e nas medidas de fomento pecuário, continuação das pesquisas de águas subterrâneas para abastecimento da população e para fins agrícolas, conclusão das obras do Porto Grande de São Vicente e do Porto Novo de Santo Antão e começo dos outros nas outras ilhas, conclusão da construção da estrada do Porto Novo à zona norte da ilha de Santo Antão, bem como o início de outras estradas e seguimento dos trabalhos iniciados de estabelecimento de uma rede de aeródromos nas principais ilhas; mas dar-se-ia especial atenção aos investimentos de melhoramentos de carácter social, da saúde e da instrução, do conhecimento científico do território e do apetrechamento dos serviços públicos. (Actas […], 26 Novembro de 1959, pg. 801) Na elaboração dos programas dos designados Planos de Fomentos eram tidos em conta algumas fontes de recursos, igualmente aplicados na metrópole: orçamento da província, fundos autónomos, instituições de providência, empresas seguradoras, 39

instituições de crédito, entidades particulares, autofinanciamento, empréstimos e subsídios. Sendo assim, dos 9 milhões de contos a que estavam destinados o II Plano de Fomento para todas as colónias portuguesas, 5 milhões deveriam ser obtidos por empréstimos da metrópole e 4 milhões deveriam provir dos recursos das próprias províncias. Em relação a colónia de Cabo Verde o exposto acima não foi aplicado devida a precária situação económica da mesma: Cabo Verde – Nem tem capacidade de crédito nem esta em condições de mobilizar qualquer importância para despesas concernentes ao Plano de Fomento. O seu financiamento (210 000 contos) fica, pois, integralmente a cargo da metrópole. (In, Actas [...], 25 de Setembro de 1958, pg.239)

No entanto quase seis meses depois, as obras ainda não tinham iniciado e nem fazia-se ideia de quando é que poderiam começar, aguardando-se primeiro, inspecções técnicas, aos quais as condições climáticas ainda não tinham permitido realizar (ventos fortes, agitação do mar) e ainda as avaliação técnicas que não se encontravam concluídas.

A 12 de Abril de 1958 é apresentada para apreciação na Câmara Corporativa um documento registando a situação precária da colónia de Cabo Verde, solicitando um reajustamento dos investimentos na mesma, conforme nos indica o resumo no quadro em baixo: Quadro nº5 – Investimentos em Cabo Verde - 1958
INVESTIMENTOS Revisão da cartografia geral Aproveitamento dos recursos (Agricultura, Silvicultura e Pecuária) Industria (Pesca) Comunicações e Transportes (execução do plano rodoviário; portos e aeroportos) Instrução e Saúde Total MILHARES DE CONTOS 3,5 79 5,5 113 9 210

Este II Plano previa uma actuação de conjunto abarcando os aproveitamentos hidroagrícolas, a protecção do solo e defesa contra a erosão, o fomento florestal e o

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fomento agrário, tendo-se previsto o investimento de 3000 contos na cultura do café, esperando que a produção desse produto iria melhorar consideravelmente a volume das exportações da nossa colónia. Outra actividade que seria apoiada no valor de 5500 contos, neste segundo plano seria a pesca, reconhecida que era a grande diversidade de quantidade de peixes nas águas das ilhas de Cabo Verde, fomentado-se a indústria pesqueira.

No que se refere as indústrias da ilha os relatórios Administrativos consultados fornecenos o seguinte quando, quanto a produção na ilha, de 1946 a 1949. De referir a falta de dados referentes ao ano de 1948. No entanto pode-se verificar que das poucas produções da ilha a tendência foi de descida da produção ou de oscilações com ligeiros aumentos, nomeadamente nas poucas indústrias alimentícias, o que mais uma vez demonstra-nos a situação difícil da ilha no período pós-guerra.

Quadro nº 6 – Unidades Industriais em São Vicente (1946-1949) Indústrias Unidade Produção 1946 1947 1948 1949 Bolachas quilos 174.170 239.100 162.594 Cal barricas 1.730 550 1.500 Calçado pares 1.083 670 584 Refrigerantes litros 26.420,4 28.231,7 21.831,3 Óleos não comestíveis quilos 24.820 10.101 10.388 Sabões quilos 21.820 41.809 34.247 Pães quilos 654.255,35 560.729,15 472.543,75 Massas quilos 20.700 4465 12.515 Tabacos quilos 19.083 17.401,5 148.955 Energia Eléctrica kw 79.834 74.109 97.270 Gelo quilos 10.500 48.450 5.500ª Nota:ª - a fábrica não funcionou no 2º e 3º trimestre

A situação económica das ilhas de Cabo Verde começa a melhorar progressivamente a partir do início dos anos cinquenta, altura em que as ilhas começam a ser agraciadas pelas chuvas, que trazem muitos benefícios a economia interna, para além de melhorar significativamente a vida da população. O quadro nº 7 mostra-nos essa melhoria económica, em relação a produção interna e a exportação, referente aos anos de 1951 a 1952. No entanto os dados estatísticos fornecidos não nos permitem saber qual o

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contributo da ilha de São Vicente, no fornecimentos de produtos para exportação, uma vez que os mesmos dizem respeito a exportação geral de Cabo Verde nesse período.

Quadro nº7 – Principais produtos exportados de Cabo Verde (1951-1952) Produtos 1951 1952 Quantidades Valores Quantidades Valores em quilos em em quilos em escudos escudos Aguardente 180 2.200 280 3.030 Café 52.347 1.162,207 87.411 2.092,179 Frutas verdes 33.745 77.713 31.202 74.038 Milho 6.969 8.005 22.120 35.289 Peixe em conserva 246.378 3.580,369 579.520 8.097,092 Peixe em salmoura 56.795 397.565 48.471 474.811 Peixe seco 33.756 135.024 36.801 107.504 Peles e couros 24.716 272.321 41.658 452.028 Mostarda 34.805 166.575 1.406 6.378 Sal comum 23.583.820 2.270.192 24.296.646 2.342.280 Sementes de purgueira 1.566.146 2.338.891 2.705.432 4.756.304 Sementes de rícino 22.453 708.724 145.033 651.797 Tabaco 1.145 14.078 1.525 21.315 A administração do Concelho reclama no relatório de 1949, uma redistribuirão mais justa dos apoios e verbas destinadas as ilhas do arquipélago, para a persecução de obras e também para assistência da população. Segundo o quadro em baixo extraído do referido relatório, comparativamente com as outras ilhas com menor número populacional, nomeadamente a Brava, a Boavista e o Fogo, estas recebem mais apoio do estado do que a ilha de São Vicente, que recebe mensalmente grande número de pessoas de diversas ilhas e que não possui meios de subsistência para além dos movimentos do porto, uma vez que como já se referiu anteriormente a ilha não possuía grandes estruturas agrícolas.

De referir que a produção do aguardente tinha sido expressamente proibida pelo Governo, através do Diploma Legislativo n.º 724 de Dezembro de 1941. No entanto desde o ano de 1912, tinham sido publicados vários Diplomas, destinados a regulamentação da produção e comercialização desse produto, nomeadamente através do pagamento de taxas alfandegárias internas e externas, que sucessivamente eram

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aumentadas e ainda as restrições sobre o número de alambiques que poderiam funcionar em Cabo Verde.

Sobre esta questão Carreira (1982) diz-nos o seguinte: [...] era em parte a política de entravar as produções locais de forma a facilitar a conquista dos mercados pelos produtos similares de origem metropolitana – neste caso os aguardentes e os conhaques [...]

No entanto os produtos exportados eram de pouca qualidade e no caso do vinho, metade da produção destinava-se as colónias: “Segundo o relatório do Decreto 24976, mais de 50% da produção vinícola portuguesa é absorvida pelas colónias. Para o membro da Assembleia Nacional Henrique Cabrita, o vinho para lá enviado seria adulterado por produtos químicos. O seu colega Pacheco de Amorim condena também o chamado “vinho para preto”, que se exporta para África.” (Almeida, 1979: 226)

Essa ideia é confirmada por Matoso que disse que o Governo Português na sua política de desenvolvimento da sua indústria interna privilegia os produtos da metrópole em detrimento dos mesmos produzidos na colónia. “Noutros casos relativamente importantes os exportadores coloniais não conseguiram bonificar os seus produtos. O tabaco, o álcool e a aguardente pagam direitos como se fossem artigos estrangeiros. No primeiro caso para proteger a indústria tabaqueira metropolitana (novamente a CUF, desta vez contra os interesses coloniais…), e nos outros para impedir a concorrência à viticultura.” (Matoso, 1998:257)

Como consequências dessas restrições os produtores da aguardente em Cabo Verde, começam a produzi-lo e a comercializa-lo de forma clandestina, inter-ilhas e com a navegação de longo curso que aportava na ilha de São Vicente.

Tendo em conta esses aspectos acima referido estima-se que a produção da aguardente tenha sido superior ao que as estatísticas oficiais nos apresentam.

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Relativamente a produção industrial, a partir de 1945, através do Decreto nº 34562, de 01 de Maio, que se mostrou importante criar uma legislação que regulamenta-se a produção no Ultramar, principalmente às produções que se encontram nas mãos dos estrangeiros, aos quais o governo português não tinha até então nenhum controlo: “[...] as companhias estrangeiras não se acham registadas nem nas colónias e nem no continente e o exercício da sua industria se faz sem qualquer fiscalização ou autorização. [...] Desta situação privilegiada resulta que o Estado é desfalcado, por falta de pagamento de contribuição e impostos, e isto tanto na metrópole como nas colónias; que a balança económica é desfalcada, pela drenagem do ouro para fora do Império; que as garantias do cumprimento das obrigações por parte das companhias estrangeiras, quando discutidas contenciosamente, são precárias.” (in, Actas da Câmara Corporativa, n.º 103, Fevereiro de 1954). Em relação a indústrias estrangeiras fixadas em Cabo Verde, até a data de 1954, essa legislação nunca foi posta em prática. O documento acima referido diz-nos que: “Em Cabo Verde, Guiné, Moçambique e Macau nenhuma providência legislativa foi publicada, não obstante em algumas dessas províncias se terem iniciado estudos para esse efeito, pelo que tem de considerar-se que, nesta matéria, teriam apenas aplicados os preceitos do Comercial relativos a sociedades anónimas e de seguros.” Quadro nº 8 – Distribuição de verbas para a Colónia de Cabo Verde (1949) ILHAS/CONCELHOS MONTANTES DISTRIBUÍDOS (valores anuais) Obras Assistência 448.500$00 133.000$00 1.016.000$00 262.000$00 1.230.000$00 39.000$00 1.501.000$00 117.000$00 1.787.000$00 932.000$00 2.174.6000$00 1.043.000$00 4.663.500$00 3.515.000$00 2.099.500$00 887.000$00 1.976.000$00 813.000$00 327.500$00 75.000$00 516.582$00 24.000$00

Boavista Brava Fogo S. Nicolau Santa Catarina Tarrafal Praia Paúl Ribeira Grande Maio São Vicente

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Decorrente dessa grave crise económica, presencia-se também o agravar da situação social, que já se mostrava bastante débil com a decadência do Porto Grande, em finais do século XIX. O fim da guerra representou uma mudança de ordem mundial, na qual se exteriorizou nas manifestações de exultação que ocorrem em todo o Mundo, esperando pelo triunfo das democracias liberais e desaparecimento das ditaduras. Em Cabo Verde a notícia do fim da guerra foi também aclamada com muita esperança, nomeadamente na ideia que as mudanças internacionais significaram para as colónias uma maior abertura com vista a modernização das mesmas e no caso específico da ilha de São Vicente, representou o acender das esperanças nos tempos áureos do Porto Grande. Na entrevista feita ao Sr. Gregório Dias ele afirma que nesse dia as pessoas saíram a rua após terem ouvido um senhor que tocava um tambor anunciando o fim da guerra por onde passava: “Guerra já terminou… guerra já terminou!”27 O Sr. Arnaldo Lima afirma que estava na escola e a professora comunicou que: “a grande guerra tinha enfim terminado”. No entanto passado esse momento diz que não via nas pessoas aquela euforia apesar de nesse dia o assunto ter sido o mesmo: a guerra tinha terminado e os Aliados tinham vencido.28 Tendo em conta que se encontra perante uma cidade-porto, com todas as características que se pode observar numa cidade deste género, nomeadamente o facto de quase todos os serviços gravitarem a volta das actividades do porto, depara-se com uma crise social que se alastra a quase toda a população. A classe da elite corresponde ao que melhor consegue contornar essa situação, principalmente os comerciantes. O restante da população vive em condições sub humanas, com problemas de alimentação e higiénicos-sanitários. Essa situação faz aumentar consideravelmente o número de indigentes que vagueavam pelas ruas do Mindelo. Segundo o relatório Administrativo de 1949 a população havia aumentado consideravelmente com a entrada de pessoas das outras ilhas do Barlavento, que
27 28

Entrevista realizada no dia 14 de Setembro de 2009, na residência do mesmo, zona da Ribeira Bote Entrevista realizada no dia 19 de Setembro de 2009, no restaurante do mesmo, na rua de Matijim (Zona Histórica do Mindelo)

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passando por graves necessidades nas ilhas de origem, nomeadamente nas ilhas de Santo Antão e São Nicolau, ilhas essencialmente agrícolas, que viam em São Vicente uma possibilidade de melhorar a sua situação, ou pelo menos uma porta de saída para outras paragens. Apesar de haver grandes movimentações de contratados para outras colónias, continuava a haver na ilha grande número de pessoas desempregados e debilitadas fisicamente, que não lhes permitia ter essa possibilidade de saída como contratados. “ (…) a morte do carvão como combustível necessário à propulsão dos navios de longo curso que demandavam o Porto Grande, lançou na miséria o grosso da população do Mindelo e criou ali um legião de indigentes (…)” (Almeida, 2007:110) “ (…) Há em S.Vicente 17.000 pessoas que constituem peso morto, 85% da população arrastando uma vida de privações e de miséria.” (Almeida, 2007:124) Os relatórios da Administração do Concelho de São Vicente referentes aos anos de 1946 e 194929 chamam a atenção para o número crescente de delinquentes juvenis que vagueavam pelas ruas da cidade cometendo furtos, devendo para a resolução deste caso criar uma colónia penal agrícola ou um internato/escola de artes e ofícios, destinado a regeneração de menores e dirigidos pelos Salezianos.

Esses mesmos relatórios mostra-nos a situação precária de saúde e higiene que afectaram a ilha no pós Segunda Guerra Mundial. Doenças como a sífilis, a lepra, a tuberculose e outras doenças venéreas, preocupavam a administração, pelo facto de não haver formas eficazes de tratamentos e em número suficiente para toda a população.

De referir que o hospital da ilha não estava convenientemente preparado para receber doentes afectados por essas doenças, uma vez que não possuía alas de isolamento e nem medicamentos adequados, sendo que os doentes eram enviados para as suas casas e ficavam a sua sorte, provocando o alastramento das doenças contagiosas: “Em Cabo Verde no ano de 1950 contam-se somente três hospitais com 380 camas… Não
In, Relatórios da Administração do Concelho de São Vicente, referente aos anos de 1946 a 1949, Instituto do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde, RPSAC, caixa nº 125 e 126
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contando com as cinco enfermarias designadas por hospitais regionais.” (Almeida, 1979: 288)

Esta situação agravou-se ainda mais com o crescente aumento da prostituição na ilha, principalmente com a permanência do numeroso contingente de tropas expedicionárias na ilha, por um período de quase 6 anos, uma vez que não havia controlo por parte das unidades sanitárias, acabando por serem também veículos transmissores de doenças sexualmente transmissíveis.

Aliada a estas doenças consideradas mais graves devido ao número de mortes que faziam anualmente, tem-se ainda doenças gastro-interites agudas, que provocavam a debilidade de grande número da população pobre que vivia em péssimas condições habitacionais.

No entanto a administração do concelho da ilha agradeceu a oferta de materiais e medicamentos pelo Hospital Militar, aquando da saída das tropas expedicionárias da ilha. Essa ajuda foi muito aplaudida pela Administração do concelho que possuía uma unidade hospitalar civil com poucos recursos e desta forma fornecia tratamento insuficiente e inadequado, havendo somente o serviço de cirurgia, uma maternidade, um dispensário para consultas externas, enfermeiros de medicina geral e inexistência de locais de isolamento para os doentes com doenças infecto-contagiosas e nem meios de desinfecção ou esterilização dos materiais hospitalares. Nessas condições era difícil melhorar a situação da população através dos cuidados médicos.

Figura n.º 6 - Consultório do Hospital de Mindelo - 1943

Autor: Desconhecido

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1 – Movimentos das embarcações e das mercadorias em Cabo Verde Neste ponto torna-se necessário analisar as entradas e saídas das embarcações em Cabo Verde. No entanto as informações encontradas reportam-se a partir do ano de 1947 até 1951, uma vez que não foi possível encontrar dados estatísticos anteriores a essa data.
Gráfico nº 1 – Movimento das Embarcações 1947 a 1951
3500 3000 2500 2000 1500 1000 500 0 1947 1948 1949 1950 1951 P ortugues es E s trangeiros

O Gráfico n.º 1, regista que houve mais entrada de embarcações estrangeiras do que Portuguesas, sendo que a maior parte eram navios de longo curso que aportavam no Porto Grande. A situação começou a inverter a partir de 1950, altura em que as embarcações portuguesas começam a chegar em Cabo Verde em maior número, sendo também a partir desta data que se regista um aumento considerável dos movimentos marítimos no geral depois da grande guerra. (vide quadro em anexo n.º1)
Gráfico nº 2 – Carga Descarregada segundo a nacionalidade das embarcações – 1947 a 1951
300.000 250.000 200.000 150.000 100.000 50.000 0
A m u es er a ic a na Be Es l pa g a nh F r ola an ce sa G re Ho la g a nd es In a N o g le s ru eg a ue sa ou tra s rtu g

1947 1948 1949 1950 1951

Po

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Quanto ao volume cargas e descargas realizadas em Cabo Verde durante o período compreendido entre 1947 a 1951, pode-se constatar através do gráfico n.º 2, na qual os números referem-se a quantidades em toneladas, que os navios de nacionalidade inglesa descarregavam maiores quantidades de mercadorias, seguido pelas embarcações americanas e norueguesas, respectivamente. Esta tendência iria manter-se para as embarcações inglesas que até o ano de 1951 continuaram a ser os que mais mercadorias descarregaram em Cabo Verde, seguidos pelos noruegueses. De referir a grande quantidade descarregada por navios não identificados de outras nacionalidades nas estatísticas. (vide quadro em anexo n.º2)

Quadro n.º 9- Carga carregada segundo a nacionalidade das embarcações - 1947 a 1951
Nacionalidades Ano Portuguesa Americana Belga Espanhola Francesa Grega Holandesa Inglesa Norueguesa Suiça 1947 1948 1949 1950 1951 5.801 5.286 8.580 5.984 2.927 2.360 70 36 2.227 237 12 9.334 2.212 1 17.854 4.878 16.793 4.779 927 3.881 12 11 534 56 16 3.398 outras 3.456

Obs.: Quantidades em toneladas

Em relação ao carregamento de mercadorias em Cabo Verde, verifica-se através do quadro n.º 9, que os navios portugueses eram os que mais carregavam nessa época. No entanto nota-se que a partir do ano de 1950 aumenta consideravelmente o número de carregamentos efectuados em Cabo Verde, começando a aparecer embarcações de outras nacionalidades, o que se deduz que a situação económica começava a demonstrar algumas melhorias, após a grande seca de 1947-48. Realça-se ainda a falta de informações em relação ao ano de 1948 e de os Boletins de Estatística não mencionarem quais eram as mercadorias que entravam e quais as que

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saíam de Cabo Verde, o que não nos permite saber se eram produtos nacionais que eram exportados.

Fazendo uma análise nossa dos quadros acima, verificamos que o quadro nº 5 verificase que as descargas dos navios portugueses eram muito menores do que os estrangeiros, apesar de a partir do ano 1950, terem aumentado o número de navios portugueses. Pensa-se que esse aumento dos navios devia-se ao grande número de emigrantes que saíam para a Europa, porque de outro modo não se justifica a presença de grande número de barcos, se o número de carga e descarga de materiais eram muito pouco comparativamente aos dados dos movimentos estrangeiros. Trata-se de uma época onde a entrada de mão-de-obra na Europa era necessária para a sua reconstrução e que segundo os dados estatísticos, a partir dos anos 50 regista-se uma grande saída de emigrantes.

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2 – Movimentos Associativos de Assistência e de Classe A 7 de Junho de 1956, aproveitando-se da apresentação de uma nova legislação corporativa metropolitana, é apresentada uma adaptação das mesmas as províncias ultramarinas, justificando-se a importância de o ultramar dispor de uma dispositivo legal que regulamenta-se a existência de algumas organismos corporativos e de coordenação económica existentes na altura. Em Cabo Verde são indicadas 3 sindicatos: Sindicato Nacional dos Empregados do Comércio e Ofícios Correlativos (Portaria Ministerial n.º11240, de 17 de Janeiro de 1946); Sindicato dos Inscritos Marítimos (Portaria n.º 8455 de 25 de Outubro de 1947) e Sindicato dos Operários das Empresas Fornecedoras de Combustíveis e Água à Navegação
(Portaria n.º 14174, de 10 de Março de 1951)

Dos relatórios do Governo analisados constatou-se a indicação de alguns movimentos associativos na ilha de São Vicente. Mas devido a própria situação que se vivia na altura em estudo, havia anos que essas associações não apresentavam nenhuma actividade voltando ao activo nos anos seguintes.

Dessas associações existente a que sempre manteve-se “de pé” com muitas dificuldades foi a Associação de Caridade, fundada em Fevereiro de 1947, com apoios religiosos (na administração e assistência) e de comerciantes (apoio financeiro) albergava crianças órfãos e ainda apoiava crianças carenciadas, famílias pobres e recém nascidos.

Havia ainda a Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Barlavento, que também ajudou a população mindelense, tanto na recolha de alimentos e roupas para distribuição aos mais necessitados, como também, aproveitando-se do facto do seu corpo gerente ter elementos ligados ao grande comércio e a administração da ilha, para chamar a atenção do governo central das colónias para a situação difícil de todos os cabo-verdianos. No entanto, o relatório do ano de 1949, diz-nos que naquele ano os sócios tinham manifestado pouco interesse pela associação.

Sobre a Associação Comercial dos Lojistas de Barlavento, a Associação Operária Caboverdiana e ainda o Sindicato Nacional dos Inscritos Marítimos de Cabo Verde,

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desconhece-se se estes tiveram um papel social activo como a primeira, embora o relatório do Concelho de São Vicente dos anos de 1946 a 1949, informa-nos que não tiveram nenhuma actividade apesar de os seus estatutos estarem aprovados.30

De referir a criação a 17 de Janeiro de 1946 do Sindicato Nacional dos Empregados do Comércio e Ofícios Correlativos da Colónia de Cabo Verde com sede na Praia. Este organismo de carácter corporativo, com personalidade jurídica, representava todos os profissionais que dentro da colónia trabalhavam no ramo do comércio, escritórios comerciais e botequins, deveria garantir os interesses dos seus associados e velar por melhores condições de trabalho, higiene e segurança. Poderiam ser admitidos como sócios, indivíduos de ambos os sexos, portugueses ou estrangeiros, maiores de 18 anos e pagar a devida cota mensal. Este sindicato afirmava o seu respeito pelos princípios e finalidades da colectividade nacional e renunciava expressamente toda e qualquer actividade contrária aos interesses da Nação Portuguesa, repudiando a luta de classes.31

Dos relatórios analisados da Administração do Concelho de São Vicente não foi encontrado nenhuma referência a esse sindicato, nem a menção se havia uma delegação na ilha, uma vez que se trata de ilha com forte vocação comercial.

De referir ainda a não referência, nesses mesmos relatórios, de actividades sociais levados a cabo pela Igreja Católica.

Das entrevistas realizadas aos Sr.s Gregório Dias e Arnaldo Lima, eles desconheceram a existência de tais associações, dizendo que se os mesmos existiam não sabiam quais as suas actividades e muito menos onde ficavam sediados.

In, Relatórios da Administração do Concelho de São Vicente, referente aos anos de 1946 e 1947, Instituto do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde, RPSAC, caixa nº 125 e 126 31 In, Diário do Governo, I Série, nº III, ano 1946

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3 - O Problema da Adjacência Nesse contexto de crise geral dos anos 40 do século XX entram em “cena” vários adeptos da atribuição à Cabo Verde do estatuto de território adjacente, ficando em pé de igualdade com os arquipélagos da Madeira e dos Açores e chamando a responsabilidade portuguesa na resolução da crise. Um dos grandes nomes que defendeu essa causa no órgão competente, foi o Dr. Adriano Duarte Silva, então deputado de Cabo Verde na Assembleia Nacional Portuguesa. No seu discurso em sessão plenária de 30 de Outubro de 1958, para além de reivindicar o comprimento do orçamento por parte do governo português, para se proceder o acabamento de obras cruciais para o desenvolvimento sustentado de Cabo Verde, nomeadamente os transportes, enfatizando a situação do Porto Grande da ilha de São Vicente, que no seu entender deveria estar melhor apetrechado como porto de reabastecimento que era e pela importância que desempenhava como sendo o principal porto de reabastecimento da metrópole, chegando a fornecer quantidades superiores de combustíveis líquidos em relação ao porto de Lisboa, tendo em atenção que o porto de São Vicente era meramente um porto de escala. Acrescenta ainda que a intervenção do estado português não se deveria limitar-se somente ao seu apetrechamento, mas também a actualização dos preços de combustíveis que continuavam a ser bastantes baixos em comparação com outros portos de reabastecimento. Facto que no entanto, não impedem que esses portos continuam a receber mais barcos porque o tempo de abastecimento é menor: “A razão por que muitos barcos preferem Dacar a S.Vicente é que, enquanto naquele porto o combustível lhes pode ser fornecido à razão de 1000 toneladas por hora, em S.Vicente não conseguem obter mais do que 300. E o tempo como se sabe é dinheiro.” Ele finaliza o discurso com o pedido para a adjacência de Cabo Verde a Portugal e de todos os benesses daí advenientes. (in Actas das Sessões da Câmara Corporativa, 22 Fevereiro 1946, Diário das Sessões nº 35) Em seguida, houve várias declarações públicas a favor da adjacência, mas com uma outra finalidade, que era a preservação das colónias, tendo em conta a ameaça da descolonização. 53

De entre esses apoiantes desse novo estatuto a Cabo Verde, estava o então Ministro dos Negócios Estrangeiros, que a 8 de Novembro de 1958, publica no jornal Diário Popular, integrado no Boletim Económico, o texto sobre o nome de ``Cabo Verde: ilhas adjacentes``, na qual ele expressa o seu apoio ao deputado Dr. Adriano Silva dizendo que: ``tal integração constitui imperativo nacional.`` Relata com alguma triste a situação da colónia cabo-verdiana enaltecendo a capacidade desta colónia em contornar as suas adversidades com espírito de sacrifício e denuncia as pesadas imposições fiscais da metrópole alegando que as mesmas são injustas para um povo que muito pouco tinha para dar: “Os portugueses de Cabo Verde são evoluídos e capazes. Esgotam as possibilidades de aprendizagem de que dispõem, mesmo alguns a quem o pão falta. E muitos e muitos se afirmam e acreditam entre o melhor escol lusitano (…) O próprio dinheiro é sobrecarregado e diminuído por força do regime vigente: cem escudos que para ali vão, da metrópole, deixam dez no banco. Pagam-se cem escudos e recebem-se noventa (…) Pescarias, conservas, rum, pozolanas que, aproveitadas em soluções técnico-económicas adequadas, poderiam ser riqueza progressiva, nem pobreza são.” Este texto acima referido surgiu numa altura em que as independências africanas estavam na ordem do dia por isso, pensa-se que esse apoio de um membro do governo da metrópole tinha como finalidade a angariação de simpatias políticas. No mesmo texto ela afirma que: “O Noroeste de África vai-se autonomizando em Estados independentes que vão surgindo. Na efervescência dos seus nacionalismos confusos, a expansão e o desejo de absorção têm de considerar-se, objectivamente, como um fenómeno biológico. Anulá-lo, limitá-lo ou contê-lo, só por outro mais forte. E nisso, como no futebol e em tudo, é primacial a antecipação da jogada. [...] A Europa ou se fixa na África e nela mantém e completa a sua europeização ou acabará por ser o que é geograficamente: uma península asiática. E nós, portugueses, não podemos ceder um só dia na consolidação do que lá temos.” Opinião favorável a adjacência, mas com alguma cautela, tem o Dr. Manuel Ribeiro de Almeida, que foi Presidente da Câmara Municipal de São Vicente e da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Barlavento, fundador e director do jornal Notícias de Cabo Verde, afirmou que: a integração de Cabo Verde no regime administrativo metropolitano é o corolário natural das condições de verdadeira assimilação dos

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naturais da província que atingiram, de há muito (...), um estado de adiantamento no campo civil e político que justifica plenamente o conceito. Mas mostra uma certa prudência quando afirma o seguinte: gostaríamos de ver o assunto largamente debatido na imprensa, porque segundo ele havia muita gente que não encaravam este estatuto com simpatia, preocupados com os encargos fiscais aos quais Cabo Verde poderia vir a estar sujeito, que poderiam passar a ser superiores as que estavam a ser aplicados na altura, que eram considerados bastante elevados para a fraca produção do país, nesse sentido era necessário uma maior divulgação e esclarecimento por parte dos meios de comunicação social. 32 Como não poderia deixar de ser, aparecem pessoas com algumas ressalvas e cepticismo quanto ao estatuto de colónias adjacentes. Uma delas foi de uma das figuras ilustre de São Vicente, o advogado Dr. Bento Levy. Este afirmou que o progresso de Cabo Verde dependia somente da melhoria da sua situação financeira, independentemente de sua administração estar ou não ligado a metrópole. Disse ainda que não era contra a descentralização de poderes, uma vez que acredita que um governo local teria sempre um conhecimento mais profundo dos problemas, aos quais mais rapidamente também teria capacidade de dar respostas. Em relação aos corpos administrativos realça que caso venha a ser atribuído este estatuto a Cabo Verde, o problema estaria na compreensão e integração de um novo meio [Cabo Verde], por parte de governadores habituados a metrópole, tarefa que não era fácil. (Boletim de Propaganda e Informação, Ano IV, n.º 42: 17-18) A 19 de Janeiro de 1951, discutiu-se na Sessão da Câmara Corporativa33 o estatuto de colónia adjacente para Cabo Verde e quais seriam os proveitos a retirar desse estatuto. A Câmara afirma que: como colónia o arquipélago desfruta de ampla autonomia, possui um governador com largos poderes, junto do qual actua o Conselho do Governo, onde tem voz os representantes locais. Demonstram-se que com este estatuto Cabo Verde não teria nada a ganhar e o quanto dispendiosa iria ser a sua administração: a legislação e o regime fiscal teriam de ajustar-se aos moldes metropolitanos, a sua

32 33

In, Cabo Verde Boletim de Propaganda e Informação, Abril de 1959 Diário das Sessões nº 70, pg. 296

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autonomia seria suficiente para lhe não deixar receber subsídios regulares do Estado (...), no entanto reconhece alguns benefícios que a colónia poderia ter com esse estatuto: a sua importância económica e estratégica como nó de comunicações marítimas e aéreas no Atlantico e o facto de já alguns dos seus serviços (defesa, aeroportos, meteorologia) estarem ligados a Ministérios metropolitanos. Neste sentido recomenda-se nessa sessão a maior prudência na atribuição deste estatuto de colónia adjacente, podendo-se começar por estabelecer um regime de transição caso o governo da metrópole opta-se pela implementação desse estatuto. Não obstante a polémica, os vários discursos contra e a favor do estatuto de ilhas adjacente, Cabo Verde manteve-se com o estatuto de colónia até a implementação da independência que viria a acontecer a 15 de Julho de 1975.

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IV - Consequências da crise 1 - Emigração Apesar de muitos apelos, a situação bastante difícil em Cabo Verde e mais alarmante da população mindelense, ao governo português, nenhum teve efeito prático e urgente. Uma das medidas tomadas pelo então governo foi a abertura a emigração, em muitos casos forçada, tendo-se como exemplo a emigração para S. Tomé, onde somente uma minoria conseguiu regressar a ilha, mas também para a Europa: Holanda, Portugal, França, Luxemburgo, Itália, Suíça, etc. Com esta nova orientação dos imigrantes cabo-verdianos para outros destinos, decresceu consideravelmente as saídas para os Estudos Unidos da América, que até este período tinha sido o principal país receptor dos emigrantes cabo-verdianos, embora se realce que a partir de 1919, os Estados Unidos tinham impostos algumas restrições a entrada de emigrantes no país. “A emigração – aliviando as ilhas de certo número de bocas a sustentar – para países desenvolvidos, em particular para a Europa, constitui um dos principais factores da cessação de essas hecatombes. Trabalhando duramente nos países de destino, mas auferindo salários elevados em relação aos possíveis de obter nas ilhas, esses emigrantes tornaram-se nas principais fontes de divisas (…)” (Carreira, 1984: 128) De referir que essa prática da emigração dirigida a cólonia de São Tomé, não representava uma novidade, uma vez que era conhecida desde finais do século XVIII, mas que nesse período intensificou-se, devido também aos graves problemas de fome. A emigração para São Tomé e Príncipe tem as suas raízes históricas no ano de 1863, altura da criação de grandes extensões de roças de café e cacau. Devido a falta de mãode-obra e coincidindo com a grande estiagem que assolou Cabo Verde nos anos de 1850

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- 1866, o governo português resolve essa situação através de uma emigração orientada para São Tomé, regulada pela Portaria Régia nº 250, de 19 de Dezembro de 1863.34 Nos anos 40 a emigração para São Tomé e Príncipe tinha como principal motivo a fome que assolou as ilhas de Cabo Verde. Mas a partir dos anos 50 a fome deixa de ser o principal motivo passando a explicar a sua partida como forma de melhorar as suas condições de vida, escassez de trabalhos e porque tinha-se a ilusão de que em São Tomé os trabalhos eram melhor remunerados. Toda essa situação estava directamente relacionada com a crise económica que se vivia na cidade do Mindelo. No entanto, parece-nos que essa procura de melhores condições de vida, representava uma fuga a condição de miséria que a população mindelense vivia. Nascimento (2008) mostra-nos que as pessoas por ele entrevistadas utilizam com maior frequência a palavra necessidade em vez da palavra fome. No crioulo de Cabo Verde, na variante de São Vicente, passá necessidad, significa eufemisticamente passar fome. Por isso, o facto de se ter substituído a terminologia portuguesa pela caboverdiana, não lhe retirou o significado uma vez que continuou a significar a mesma coisa. “A partir da II Guerra Mundial, o número de cabo-verdianos cresceu nas roças [de São Tomé] e, devido à maior liberdade de movimentos de que eles e suas famílias desfrutavam, puderam assim conservar parte da sua cultura e permanecer como uma comunidade distinta no arquipélago equatorial.” (Nascimento, 2003:91) Em Junho de 1954, numa entrevista concedida a Revista Cabo Verde, nº57, o deputado por Cabo Verde, Dr. Adriano Duarte Silva, mostrou-se preocupado com a saída de tantos cabo-verdianos para as roças de São Tomé, demonstrando que depois haveria necessidade de trabalhadores em Cabo Verde por altura da realização do I Plano de Fomento. Não reconhece que essa emigração fosse proveitosa para Cabo Verde, porque não havia uma valorização dessa mão-de-obra, que trabalhavam em péssimas condições e realça o problema dos salários que eram muito baixos: “Se realmente a economia de
Esta Portaria Régia viria a ser alterada a 18 de Maio de 1864, onde se poderia ler o seguinte: “O governador, em qualquer transporte de que possa dispor, ou nos paquetes, faça transportar para as ilhas de S.Tomé e Príncipe, até 1000 indivíduos de ambos os sexos, empregando para esse fim todos os meios possíveis de persuasão”, Carreira, 1983, 150-151.
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S.Tomé necessita dos nossos trabalhadores, deverá remunerá-los convenientemente. A verdade é que os serviçais que voltam, regressam em geral com a saúde abalada e com escassas economias.”35 O vencimento estipulado nos contratos de trabalho para São Tomé estava assim definido: 100$00 mensal para os homens e 70$00 para as mulheres, com alojamento, alimentação e algum vestuário por conta entidade patronal. (Almeida, 2007:136) Sobre a questão dos vencimentos aplicados aos contratados cabo-verdianos para as outras colónias portuguesas, elucida-nos o quadro n.º 8 que nos mostra a variação salarial nas mesmas. Quadro n.º 10 - Relação dos vencimentos dos contratados nas diferente colónias (valores mensais)
CONTRATADOS Homens Mulheres Menores de 14 a 16 anos (sexo masculino) Menores de 14 a 16 anos (sexo femenino) Menores de 16 a 18 anos (sexo masculino) Menores de 16 a 18 anos (sexo femenino) COLÓNIAS Angola Ilha do Princípeª 100$00 80$00 60$00 60$00 40$00 40$00 30$00 30$00 60$00 40$00 50$00 30$00 São Tomé 90$00 70$00 40$00 30$00 40$00 30$00

Notas: ª – a partir do 3º ano de trabalho haveria um aumento de 20$00 para os homens e as mulheres e de 10$00 para crianças com idades compreendidas entre 16 a 18 anos, para ambos os sexos.

A situação dos trabalhadores em S. Tomé sempre suscitou preocupações ao governo da colónia de Cabo Verde, uma vez que era a colónia para onde se dirigiu maior número de cabo-verdianos. A partir do ano de 1945 começam a ser elaboradas propostas de regulamento da emigração para as colónias de São Tomé, Moçambique e Angola. Em Maio de 1948 é produzido um projecto de Diploma Legislativo para Trabalhadores cabo-verdianos contratados para as outras colónias.

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In, Revista Cabo Verde, Boletim de Informação e Propaganda, 1 de Junho 1954, Ano V, nº57

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A 02 de Junho de 1952 é aprovado as alterações ao Diploma legislativo, n.º 956 de 04 de Setembro de 1947, que regulava as contratações para São Tomé. Estas alterações surgiram da recolha e uniformização de pareceres, resultantes de inquéritos dirigidos por todos os administradores dos concelhos de Cabo Verde, nas quais foram ouvidas todas as pessoas que tinham regressado de São Tomé. Dessa alterações propostas nesse novo diploma, procurava-se salvaguardar os interesses dos contratados cabo-verdianos, nomeadamente assegurar-lhes o cumprimento do contrato, prevendo-lhes um tratamento mais humano, depois de comprovadas que os mesmos estavam sujeitos a castigos corporais, melhorias de vencimento comparativamente com o das outras colónias, medidas de protecção as crianças com menos de 14 anos, melhorias na alimentação e fornecimento de vestuários Duarte Silva, deputado para Cabo Verde apresentou algumas alternativas caso o Governo insistir em manter essa emigração. A primeira seria de que os serviçais caboverdianos deveriam trabalhar em alternância, ou seja, viajariam para São Tomé nos períodos de escassez das chuvas em Cabo Verde e regressariam na época das águas, onde o trabalho da terra exigiria mais trabalhadores. A segunda alternativa era de que deveriam eliminar os contratadores, com a justificação de que eram os únicos que beneficiavam com grandes margens de lucros dessa emigração, passando a haver uma corporação governamental que trataria dos contratos colectivos entre o Sindicato de Cabo Verde e o Grémio dos agricultores de São Tomé. Durante o período pós-guerra alguns autores estimam uma redução de 30% da população mindelense. Segundo Carreira, o período compreendido entre 1946 a 1973 é considerado o período de maior êxodo para o exterior, preferencialmente para os países europeus. (Carreira, 1983: 107) Claúdio Furtado (1993) corrobora a afirmação de Carreira e afirma que: é a partir da década de cinquenta que assistimos a uma saída em massa de cabo-verdianos. Ele explica que dois factores estiveram na origem dessa saída: a seca que assolou as ilhas na década de quarenta e ainda a II Guerra Mundial que trouxe “graves problemas económicos para as ilhas, nomeadamente uma estagnação, falta de empregos, 60

impossibilidade de importação de alimentos ou de outros recursos da metrópole. Acresce-se a isto o relativo abandono que a administração colonial votou Cabo Verde, destituído mesmo do mínimo de recursos financeiros para o desenvolvimento de obras de infra-estruturas primordiais para a economia da ilha. ” Furtado (1993) afirma ainda que: “O fluxo migratório anteriormente voltado preferencialmente as Américas e continente africano passa a direccionar-se a partir dos anos 50, para os países da Comunidade Económica Europeia (CEE) e para Portugal. Os países da CEE conheciam um período de grande prosperidade e expansão económica, necessitando de mão-de-obra, mesmo não sendo esta especializada.” No entanto, o governo português começa a submeter a partir de 1940, a emigração legal a um rigoroso controlo, tornando-o mais burocrático, centralizador e moroso, uma vez que aumentou a documentação exigida e o tempo de espera pela emissão dos vistos e ainda centralizou-se os serviços de emissão de passaportes na sede do Governo que implicavam mais despesas com a deslocação e alojamento. (Carreira, 1983:107)

O quadro em seguida, nº8, Correia demonstra-nos a situação da emigração relativo ao período compreendido entre 1906 a 1973. Em relação ao período em estudo, pode-se verificar que, entre os anos 1943 a 1952, o número de emigrantes forçados é consideravelmente maior que a emigração espontânea e do total dos emigrantes, apenas uma pequena percentagem regressaram a Cabo Verde. No período compreendido entre 1953 a 1962, houve uma inversão dos números, apresentando-se um aumento considerável da emigração espontânea em comparação com a forçada. No cômputo geral a emigração e a imigração aumentaram consideravelmente entre esses dois períodos. No entanto apesar de se verificar uma entrada de grande número de imigrantes e retornados o saldo continua a ser negativo, porque saem mais pessoas do que entram. (Carreira, 1983:248)

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Quadro nº 11- Emigração, Imigração e Retornados (1906 a 1973)
Períodos Emigração Espontânea Forçada 1906-1918 1919-1932 1933-1942 1943-1952 1953-1962 1963-1973 Total 20797 6627 5605 8121 30522 104767 176439 10602 8988 1542 30304 18466 12744 82646 Total 31399 15615 7147 38425 48988 117511 259085 Imigração e Retornos Imigrantes Retornos … … 4524 7818 24241 73128 109711 6593 3123 2434 5794 8240 … 26184 Total 6593 3123 6958 13612 32481 73128 -24806 -12492 -189 -24813 -16507 -44383 Saldo

135895 -123190

Importa neste ponto fazer um pequeno esclarecimento sobre o termo “forçada”. Ainda do recente trabalho de Nascimento (2008), não se tratava de uma situação onde o poder central impunha de forma coerciva a emigração, mas tratou-se principalmente de uma situação imposta pela própria conjuntura interna, onde a emigração aparece como a única forma de salvação das dificuldades económicas. Diz ainda que a presença policial era somente para garantir que o contrato fosse cumprido. (Nascimento, 2008:15-17) Pondo em análise os quadros nº 9 e 10,verificamos que o nº de emigrantes era muito grande tendo em conta o nº precário de nascimento, pensamos que se tratava de uma medida, por um lado, para atenuar a situação de crise que se vivia, por outro, o governo português estimulava a saída de pessoas jovens com a preocupação de redimir os movimentos ligados a luta de libertação, que se tinha iniciado nos anos 50. No quadro nº 10, Carreira apresenta-nos a situação dos emigrantes tendo em conta as suas ilhas de origens. Pode-se verificar que no ano de 1945 o número de emigrantes é maior na ilha de São Vicente. No ano de 1948 houve um aumento progressivo dos emigrantes de São Vicente, embora em menor números do que Santiago e Maio, mas que a partir de 1949 a 1950 aumentou a sua cifra em relação a todas as ilhas, facto que viria a repetir-se em 1952. De referir ainda o caso da ilha de Santo Antão que vinham registando poucas saídas, mas que no ano de 1960 regista o seu maior número de saídas e também em relação as outras ilhas.

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A partir de 1953, os dados estatísticos passam a ser apresentados sem a indicação das ilhas de proveniência, passando a constar as terminologias: “Nascidos na Metrópole, Nascidos em Cabo Verde, Nascidos nas outras Colónias e Estrangeiros”.
Quadro nº 12 – Emigração geral, segundo as ilhas de procedências - 1945 a 1960 (H+M)
Anos Santiago e Maio 1945 1946 1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 209 1920 5729 3813 557 196 838 603 … … … … … 749 … 474 … 113 5 7 13 17 25 33 … … … … … 37 … 107 … 4 42 65 76 53 96 89 … … … … … 102 … 4 Fogo Brava Santo Antão 3 3 1 8 10 282 13 1292 … … … … … 145 … 1475 348 457 580 682 573 1053 369 1537 … … … … … 272 … 170 … 111 1 5 7 3 11 14 … … … … … 129 … 378 … 7 4 … … 14 59 81 … … … … … 1 … 1 S.Vicente S.Nicolau Sal Boa Vista … … … … … … … 3 … … … … … 1 … 2 Não indicadas … … … … … … … … 1707 2508 5097 2796 1840 2741 2839 1522 560 2615 6362 4582 1236 1618 1411 3652 1707 2508 5097 2796 1840 4177 2839 4133 Total

Uma vez que a situação de crise era geral em todas as ilhas e devido ao mito de prosperidade do Porto Grande, continua-se a registar um elevado número de pessoas provenientes das outras ilhas, em busca de uma vida melhor, nomeadamente de Santo Antão e São Nicolau, uma vez que estas eram ilhas predominantemente agrícolas e não possuíam outros meios de superação dessa crise geral, não obstante terem a prática da pastorícia mas, que como se sabe também não tinha condições para se desenvolver tal actividade.

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2 - A Mortalidade Uma outra das consequências gravíssimas verificadas nesse período foi o elevado número de óbitos e nados vivos. De referir a grande crise de 1947-48, que se analisa em seguida. Da consulta que se fez aos levantamentos do historiador António Carreira, depara-se com o problema dos dados estatísticos analisados apresentarem uma grande deficiência uma vez que o controlo da mortalidade era precário e o facto de também haver neste período um precário resenciamento populacional. Desta forma estima-se que esse número seja superior ao mencionado pelo autor. (“…continuamos a não dispor de informações oficiais ou outras, detalhadas, coerentes e de algum modo insuspeitas.”) (Carreira, 1984:109) Este controlo era feito tendo em conta o número de famintos que se deslocavam aos albergues de acolhimento, não sendo possível saber o número exacto ou pelo menos aproximado, das pessoas que acabavam por falecer a caminho desses albergues que ficavam localizados nos centros urbanos. “A evasão aos registos é praticamente impossível de evitar por maior que tivesse sido a fiscalização oficial. As perturbações de toda a ordem causadas pela deslocação, em grandes grupos, de famintos impossibilitavam o controlo do obituário.” (Idem:121) Pode-se constatar que a ilha onde se ocorreu maior número de mortandade, foi a ilha de Santiago, seguidamente da ilha de São Vicente. O que se tem de ter em conta nessa análise é que a ilha de Santiago detinham a maior concentração populacional do que em São Vicente e que essas informações não podem ser analisadas sem se terem em conta essa variável. (Idem: 117-118) Neste sentido, pode-se deduzir, com margem para erro, que a situação é mais crítica na ilha de São Vicente, uma vez que o número de óbitos ocorrido nesta ilha aproxima-se do da ilha de Santiago, que como se referiu anteriormente, tinha a maior concentração populacional.

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Pelo que se conhece das poucas informações que existem, os mais afectados por esta situação e na qual se regista o maior número de mortandade, são os indivíduos de parcos recursos económicos. A grande e a pequena burguesia conseguiu contornar essa crise. Estima-se que tenham morrido “brancos”, da elite devido as pestes que acompanharam essa crise e não devido a fome. (Carreira, 1984:119; 132) De referir ainda que essa elevada taxa de mortandade, deveu-se ainda as doenças e epidemias, pragas de insectos, como se pode verificar pelos dados do quadro nº 10, que contribuíram para a devastação da pouca área verde e dos gados ainda existente. As secas prolongadas provocam a diminuição das zonas irrigadas, das nascentes e das águas subterrâneas. (Carreira, 1984:130) Os anos mais críticos foram sem dúvida de 1947 a 1948, período de grande seca em Cabo Verde. Quadro n.º 13 – Total de Nascimento e óbitos no Concelho de São Vicente (1945 a 1952) ANOS 1945 1946 1947 1948 1949 1950 1951 1952 Nº Nascimentos 1670 872 789 678 666 743 891 914 Nº Óbitos 974 773 1034 1250 727 492 433 562 % 0,58 0,89 1,31 1,84 1,09 0,66 0,49 0,61 Saldo Demográfico 696 99 -245 -572 -61 251 458 352 % 0,42 0,11 -0,31 -0,84 -0,09 0,34 0,51 0,39

Gráfico nº 3 – Total de Nascimento e óbitos no Concelho de São Vicente(1945 a 1952)

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Outro factor que acabou por contribuir para agravar a situação foi a má distribuição das ajudas, marcadas pela diversidade na sua distribuição, que variava de concelho para concelho, sendo que umas vezes se distribuíam dinheiro, outras géneros alimentícios crus – na maioria das vezes o milho – e em outras ocasiões refeições quentes – cachupa. Essa distribuição era feita sem nenhuma forma de controlo. Carreira (1984) dá-nos conta de um relato do então inspector da administração, António Policarpo de Sousa Santos, informando-nos dos conflitos de interesses pessoais e de competências entre as autoridades, com graves repercussões nos trabalhos de assistência às populações, tratando de divergências nas formas de efectuar as distribuições dos géneros e ainda quais eram as obras públicas prioritárias. Apesar desse relatório fazer referência ao Concelho da Praia, demonstra-nos a situação tensa que se vivia em Cabo Verde, tendo sido enviado o citado inspector para averiguar a situação das ilhas, após terem sidos enviados ao Governo algumas acusações que recaiam sobre os funcionários da colónia. Em Fevereiro de 1949 acontece um trágico acidente na ilha de Santiago que vitimou 234 mortes e 100 feridos causado pelo desabamento de um moro que suportava um alpendre, mandado construir pelo Governo para albergar os desfavorecidos e fornecerlhes a refeição diária (sopa) que era a única refeição que tinham. (Almeida, 1979: 283)

Seria a partir de 1960 que o Governo viria a tomar medidas planificadas de actuação, visando o combate mais eficiente em tempo útil das crises agrícolas em Cabo Verde, evitando ainda os desperdícios que tinham sido cometidos anteriores. Assim, a 21 de Março desse mesmo ano enviou-se uma comissão de trabalho para elaborar um relatório mais completo possível, onde se definiriam as especificidades de cada ilha.

De referir ainda ao facto de existir nessa altura, na ilha o único liceu do arquipélago, o que fez aumentar o número de intelectuais na mesma, contribuindo para a tomada de

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consciência da situação, pressionar o governo português e de procurar soluções externas.
Figura n.º 7 - Esquadra Britânica no Porto Grande – Mindelo. 1948

Autor: Desconhecido36

Fotografia de Foto Melo 1948 - Home Fleet Britânica, na sua viagem de agradecimento aos Países Aliados pelo esforço e apoios prestados durante a II Grande Guerra.

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3 - Repercussões do Pós-Guerra na Cultura Mindelense a) Comportamentos Eleitorais Durante o período em estudo ocorreram duas importantes eleições presidências decorrentes de vários descontentamentos e greves ocorridas a nível nacionais e de violentas repressões e perseguições: a de 1949 e a de 1958. Em relação ao primeiro marca um período de viragem na história de Portugal, uma vez que ocorreu num período logo após ao fim da segunda grande guerra e representava uma viragem para os novos tempos modernos, tendo ocorrido em Portugal várias manifestações contra o partido fascista no poder de Oliveira Salazar. No entanto essa viragem foi sentido pelo próprio governo que em Setembro de 1945, dissolve a Assembleia Nacional anunciando eleições livres e a tão aclamada abertura política. Destaque para dois grandes movimentos: a MUD (Movimento de Unidade Democrática) e a MND (Movimento Nacional Democrático), em representação da oposição constituídas por milhares de pessoas. Em Outubro de 1945 o PCP (Partido Comunista Português) condena veemente as manobras políticas do governo de Salazar e estabelece uma aliança com a MUD, apresentando uma única lista em representação da oposição. (Matoso, 1998: 347) No que se refere as eleições de 1949 assistiu-se ao levantar de uma oposição forte e grande contra o Estado Novo constituída por: comunistas, moderados, velhos democráticos e socialistas e tendo como candidato o general Norton de Matos, que assessorado por um grupo notável de conselheiros denunciou o governo fascista, não se coibindo de denunciar todos os males e fracassos do governo, prometendo implementar a democracia em caso de vitória nas eleições. (Marques, 1986:389) No entanto as suas convicções sobre as colónias não se tinham alterado, mostrando-se completamente a favor da manutenção das mesmas. Assim escreveu em 1943 no Memórias e Trabalhos da minha vida: Se alguém passar ao vosso lado e vos segredar palavras de desânimo, procurando convencer-vos de que não podemos manter tão grande império, expulsai-o do convívio da Nação.” (Almeida, 1979:254)

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No entanto a fraqueza dessa oposição que poderia ter mudando o rumo da História de Portugal nessa época deveu-se as suas cisões internas relacionados com os que eram partidários de ideologias arcaicas para a modernidade que se queria introduzir em Portugal e ainda devido ao facto de alguns partidos realizaram acções individuais em função dos seus interesses. (Idem: 392) O general Carmona foi eleito sem oposição, uma vez que o candidato da oposição, o general Norton de Matos desistiu nas vésperas do acto eleitoral, receando a derrota, uma vez que se mostrava desacreditado na reforma dos cadernos eleitorais e na liberdade de voto. Essa vitória do governo da situação demonstrava que a oposição não estava ainda preparada para combater o Estado Novo, o que resultou no fortalecimento do mesmo, não obstante os resultados eleitorais terem sido sempre controlados de forma fraudulenta de modo a garantir a vitória dos candidatos do Estado Novo. Seria reaberto nesse mesmo ano para acolher presos políticos, maioritariamente comunistas ou simpatizantes da oposição, o Campo de Concentração de Cabo Verde em Tarrafal – ilha de Santiago.37 Em 1949 Portugal torna-se membro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) tendo sido realizado algumas mudanças constitucionais defendendo-se das críticas ao colonialismo. O Acto Colonial de 1930 sofreu alterações no que se refere ao estatuto dos indígenas e na designação das colónias passando as mesmas a serem designadas de Províncias Ultramarinas.
A Colónia Penal do Tarrafal foi criado através do Decreto-lei n.º 26:539, em 1936, no âmbito da reorganização dos serviços prisionais, enquadrada na vertente prisões especiais. Destinado a presos políticos e sociais no Ultramar que tivessem cometidos crimes políticos e os presos de delito comum quando não respeitavam as normas de disciplinas e mostravam-se como maus exemplos para os outros presos da metrópole e ainda os que tivessem cometidos crimes de rebelião: a ofensa contra o prestígio da República ou contra o prestígio do Presidente da República ou do Governo, a propaganda ou outro meio de provocação à disciplina social, o não cumprimento dos deveres da função pública ou das ordens da autoridade, o encerramento de fábricas ou cessação de qualquer industria sem causa legítima, a ofensa contra a bandeira, o Hino nacional ou qualquer emblema do Estado [etc]. No entanto desde 1931 que eram enviados para Cabo Verde, ilha de São Nicolau, presos políticos para o Colónia Penal que ali existia. (Tavares, 2007:63-65). Mais tarde, a partir de 1961 seria utilizada para “acolhimento” de presos políticos africanos que teriam luta pela independência das colónias
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Com a morte de Carmona em 1951 foram realizadas novas eleições as quais serviram para reabrir questões antigas com adeptos a defenderem a restauração da monarquia para além de dos democráticos. Mas a ideia primeira era de que o Estado Novo deveria “desaparecer” e instituir o regime democrático. A oposição moderada propôs para Presidente o almirante Quintão Meireles e a esquerda Rui Luís Gomes, ao qual o Supremo Tribunal de Justiça vetou-lhe a candidatura acusando-o de comunista. Meireles desiste nas vésperas das eleições e sem oposição Craveiro Lopes, candidato do governo é eleito Presidente. Em 1955 a comunidade internacional permitiu a entrada de Portugal nas Nações Unidas após duas recusas anteriores. A partir dessa altura houve algumas mudanças políticas e sociais em benefícios da população portuguesa, nomeadamente melhoria nos vencimentos, fomento de obras públicas e das indústrias. No entanto as perseguições a oposição mantiveram-se. Seria nesse cenário acima referido que se realizariam as eleições de 1958, demonstrando a crise por que passava o Estado Novo. Nessa altura as atitudes do chefe do governo português, Oliveira Salazar, encontravam forte oposição dentro do próprio governo e por parte dos que se tinham mantido na neutralidade até aquele momento. De entre as reivindicações dos opositores do regime, apelavam a maior abertura política de forma a terem mais candidatos, reformas administrativas adequados aos novos tempos, novas formas governativas internas como também nas colónias. Para essas novas eleições Salazar escolheu o Almirante Américo Tomás em representação do regime, uma vez que a sua primeira escolha, Craveiro Lopes tinha sido vetado pela Comissão Central da União Nacional. A oposição centro-esquerda escolheu o general Humberto Delgado38 e a extrema-esquerda escolheu Arlindo Vicente. De entre esses dois últimos, Humberto Delgado granjeou as simpatias das populações por onde passava tendo suscitado enorme entusiasmo e apoios em todo o país. Esse
Na altura Humberto Delgado era oficial-aviador no activo e ao mesmo tempo Director Geral da Aeronáutica Civil. Tinha demonstrado ser, até então, grande defensor da política Salazarista. (Marques, 1986: 397).
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facto permitiu uma aliança política entre os dois blocos da esquerda, a 30 de Maio de 1958 com o intuito de unirem forças contra o governo fascista português, estabelecendo linhas de acção comuns. Em relação às colónias a oposição nunca cogitou a possibilidade de libertação das mesmas, muito pelo contrário afirmou que as mesmas deveriam ser mantidas, porém com políticas mais eficazes: “Na Proclamação de Humberto Delgado, [diz] que é seu objectivo manter e consolidar os nossos compromissos e direitos internacionais de potência ocidental, geograficamente dispersa, mas política e moralmente unida e indissociável” (Almeida, 1979: 349) A oposição demonstrou que tinha força política para mudar o regime e em reacção o governo no poder preparou em caso de derrota nas eleições uma acção militar, caso que não intimidou o general Delgado tendo o mesmo seguido com a campanha mesmo receando os conhecidos actos fraudulentos nos actos eleitorais, como seria de esperar de eleições realizadas durante a vigência de um regime fascista, que acabou por se verificar nos resultados onde Delgado ficou muito aquém das suas expectativas, tendo-lhe sido atribuído pelo governo 25% do total dos votos. Os actos fraudulentos não representavam novidades para a Oposição uma vez que conheciam todas as formas ilícitas que o governo utilizava e facto comprovado tinha sido o que aconteceu no ano anterior aquando das eleições para os deputados onde os votos tinham sido adulterados: “Nas eleições para deputados [em 1957] apenas são recenseados 1.300.000 portugueses, quando Portugal e colónias têm mais de 20 milhões de habitantes. A Oposição Democrática, que só se candidata em quatro distritos, é excluída no de Lisboa, e apenas se mantém até ao fim em Braga… Em numerosas terras, o eleitorado segue a palavra de ordem de abstenção dada pela Oposição Democrática.” (Idem:342) Terminado o acto eleitoral as repressões a oposição intensificaram. Humberto Delgado e os seus partidários foram demitidos e perseguidos, sendo que o general acabou por exilar-se na Embaixada do Brasil e depois na Argélia e os seus partidários julgados e presos. Delgado condenou os actos fraudulentos dessas eleições cometidas pelo governo

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dizendo que tinha sido ele o vencedor das eleições de 1958 e o grande número de pessoas que não tinham dirigidos as urnas.39 O general Delgado seria assassinado a 13 de Fevereiro de 1965 por uma brigada da PIDE perto da localidade de Badajoz em Espanha, quando tentava entrar clandestinamente em Portugal. As cisões internas no governo eram muito evidentes, tendo alguns membros sido afastados por discordarem das práticas governativas de Oliveira Salazar. A própria Igreja Católica que tinha mantido a sua posição neutral durante todo esse período conflituoso da política portuguesa começa a reagir contra o governo fascista referindo que o mesmo prejudicava as acções religiosas da Igreja, participando em manifestações contra o regime. Depois da projecção e apoio quase incondicional dos portugueses ao general Humberto Delgado nas eleições de 1958, o governo da ditadura alterou a legislação, vetando as eleições directas para o Presidente da República, passando a ser eleito em concertação da Assembleia Nacional e da Câmara Corporativa.

O cenário das eleições em Cabo Verde não foi diferente daquilo que se verificou em Portugal e no caso específico de São Vicente, daquilo que se pode verificar houve alguns factos que não se conseguiu chegar a uma explicação concreta uma vez que a nossa análise foi feita com base somente em documentos oficiais enviados para a Administração da Colónia. Em Cabo Verde não houve nenhum movimento da oposição que tivesse contestado os actos eleitorais e dessa forma não ficou registado nenhum acto fraudulento como se pode documentar em Portugal.

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“Em São Vicente, Cabo Verde, foi concedido o direito de voto a padres e sacristães que haviam chegado da capital apenas alguns dias antes das eleições, enquanto muitos dos votantes incluídos na lista para as últimas eleições legislativas, foram excluídos desta eleição presencial.” (Humberto Delgado, in Marques, 1986:398)

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As eleições legislativas de 1949 que ocorreram em São Vicente, no edifício da Câmara Municipal, para eleições do Deputado da Nação pelo círculo de Cabo Verde, tiveram uma única lista encabeçada pelo Dr. Adriano Duarte Silva.40 Depois de seguirem os tramites legais de acordo com o previsto na constituição, a Assembleia Eleitoral do concelho de São Vicente iniciou o processo de votação as 09:00 e encerrariam o acto eleitoral as 12:30, ao que se seguiu mais duas horas de trabalho dos escrutinadores e demais trabalhos decorrentes do acto eleitoral, tendo sido apurados 2099 votos a favor do Dr. Adriano Silva dos 2265 cidadãos recenseados no concelho. Em seguida as listas de votos entradas na urna foram queimadas, em cumprimento do artigo setenta e um, do Decreto-lei n.º 37.570 de 03 de Outubro de 1948. Seguiu para conhecimento do governo os seguintes documentos comprovativos do acto eleitoral: dois cadernos de recenseamento, três editais, um modelo da lista do candidato e dois cadernos das actas da eleição do Deputado da Nação. Em 1953 realizam-se novas eleições para o Deputado da Nação pelo círculo de Cabo Verde. Seguiu-se os mesmos trâmites eleitorais acima referidos, tendo sido apurados 2228 votos a favor de Adriano Silva, dos 2433 eleitores recenseados, tendo sido anulados 3 votos de eleitores aos quais se alegou na acta que votaram com certidões passadas pelo círculo eleitoral da Guiné. Da pesquisa realizada aos Certidões de Eleitor verificou-se que os 3 eleitores aos quais foram anulados os seus votos, eram naturais de São Vicente, mas por se encontrarem fora do país, foram recenseados no concelho da Guiné e de Bolama e no concelho de Farim em Portugal. No entanto foram validadas os votos de outros eleitores que apresentaram as mesmas certidões de recenseamento emitidos noutros concelhos.

O Dr. Adriano Silva sempre foi o candidato mais apoiado para assumir o cargo de representante da Colónia de Cabo Verde, na Assembleia Geral. Em todas as campanhas eleitorais havia um forte lobby a favor do mesmo. Nas eleições de 1949, há um forte apoio a sua campanha no único jornal então existente, o Notícias de Cabo Verde, servindo-se ainda do jornal para emitir desmentidos públicos dos que não eram apoiantes do Dr. Adriano Silva, chegando mesmo a publicar dizeres como: Os bons caboverdianos e os amigos da nossa Terra votam todos no Dr. Adriano e Quem deseja o progresso de Cabo Verde deve votar no Dr. Adriano. in, Notícias de Cabo Verde, Ano XIV, Nº 231, 10/10/1945

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Outro aspecto importante a referir esta relacionada com a duração do acto eleitoral de 1953 em comparação com o de 1949. Verificou-se o de 1953 teve inicio as 9:00 e terminou as 17:00 as votações ao que se seguiu os trabalhos normais acima referidos na pós-votação. Esse facto chamou-nos a atenção porque a diferença de votantes entre os actos eleitorais de 1949 e 1953 é de 132 votos, conforme se pode verificar no quadro n.º 12 e no entanto o segundo durou mais tempo com essa pequena diferença de votantes, ao qual se pensa que os trabalhos decorreram em tempo recorde em relação ao primeiro acto eleitoral ou de facto verificou-se a existência de actos fraudulentos também em Cabo Verde, nesse caso em São Vicente. Seguiu-se as eleições para Deputado da Assembleia por Cabo Verde em 1957. Nesse acto eleitoral, assiste-se ao mesmo “cenário” do que se verificou nas eleições anteriores, tendo-se mais uma vez sido eleito o Dr. Adriano Silva. Quadro n.º 14 – Eleições para deputado à Assembleia pelo círculo de Cabo Verde (1949 a
1957) Ano 1949 1953 1957 Total Eleitores 2265 2433 2791 Total Votos 2099 2231 2791 Votos Nulos --3 --Votos a favor 2099 2228 2791 Candidato Eleito Dr. Adriano Silva Dr. Adriano Silva Dr. Adriano Silva

Fonte: Actas das Sessões das Eleições (1949 a 1957) As eleições presidenciais de 1951 decorreram em Cabo Verde também sob vigilância do Governo, tendo sido indicados pelo mesmo as listas das pessoas que deveriam integrar as mesas de assembleia de votos, assim como tinha ocorrido em 1949. Em São Vicente o local de votação foi no edifício do Paços do Concelho (Câmara Municipal) e dos 2127 recenseados exerceram o direito de voto 1674 indivíduos, tendo todos votados a favor do General Francisco Higino Craveiro Lopes. Após a votação queimaram na presença dos membros da mesa, os boletins de votos que deram entrada na urna. A acta da sessão fora anexas os cadernos eleitorais, os editais afixados e o modelo das listas deitadas na urna, conforme as normas exigidas, tendo esses documentos seguido para a Administração da Colónia.

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Em relação a esse acto eleitoral constata-se que pela acta da sessão que 453 eleitores não se dirigiram as urnas, facto que nos chama a atenção quando se compara os números relativos aos eleitores que não compareceram aos outros actos eleitorais correspondendo em média a cerca de 200 eleitores. Quadro n.º 15 – Eleições para Presidente da República (1949 a 1958)
Ano 1949 1951 1958 2127 1674 --1674 Dr. Higino Lopes Total Eleitores Total Votos Votos Nulos Votos a favor Candidato Eleito

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b) Reflexos Culturais A nível cultural o ambiente que se vivia na altura em estudo não proporcionava grandes obras. O único jornal que ainda continuava a editar números era o Notícias de Cabo Verde (São Vicente – 1931-1962) sob a direcção de Manuel Ribeiro de Almeida, propriedade de grandes comerciantes Este jornal teve uma duração de 31 anos, no entanto resistiu algumas interrupções, no entanto chegou a ser o único órgão de imprensa em toda a Colónia. Em relação as revistas havia o Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação (Praia – 1949-1964), durou 16 anos e a Claridade – revista de artes e letras (São Vicente – 1936 – 1960) que durou 24 anos, também com algumas interrupções, devido a ausência de alguns colaboradores e problemas financeiros. (Brito-Semedo, 2006:174; 175) Eram todos periódicos não oficiais, que estavam sujeitos a fiscalização sendo que qualquer publicação deveria primeiro ser submetida as autoridades para validação antes da impressão e divulgação, chegando a casos de retirar-lhes formas de financiamento, quando as matérias publicadas assumiam um carácter interventivo e crítico quanto se tratava de assuntos sociais e políticos. Desses foram encontrados alguns números da revista Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação e ainda uma edição do Jornal Notícias de Cabo Verde Eram muito pouco os que nessa altura ainda despendiam o seus recursos na compra de jornais e/ou revistas. Em relação aos outros media, havia somente a rádio e eram muito pouco as famílias que na altura possuíam um aparelho de rádio e as notícias eram vinculadas entre a população de boca-a-boca, nos cafés, nos mercados, onde havia concentração de pessoas. Não se sabe se os grandes comerciantes possuíam aparelhos de televisão. No entanto foi através da música que muitos compositores cabo-verdianos exprimiam as suas posições em relação a II Guerra Mundial e o Pós-guerra e acabaram por representar o ensejo e as preocupações da vivência social nas ilhas. De entre essas composições destacamos algumas em baixo, com a tradução para o português, baseando-se essencialmente do conhecimento da língua crioula como nativa da ilha.

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Convém esclarecer que o que se pretende não é fazer uma análise da música, porque não é a nossa área de domínio, mas demonstrar através das letras das composições o retrato da vivência da população mindelense no período em estudo. Trata-se de temas que, de forma pouco explícita ou encriptada denunciavam a situação social, tendo sido muitos alvos de traduções para o português antes de serem tocadas nas rádios. A composição “Hitler”, escrita pelo compositor B. Lèza em 1944, demonstra a posição do compositor a favor dos aliados, trata-se da expressão de um sentimento comum, porque as composições eram retratos sociais. Através dos jornais e da rádio iam tendo informações sobre o que se passavam no mundo fora e o final da guerra eram aguardo com alguma expectativa de mudança. Todos estavam a favor dos aliados e almejavam o fim da guerra.
“HITLER” Hitler ca ta ganhá guerra n`é nada Guerra é di nos aliado Águia negra vencida na campo di batalha Nô tâ pô fé na British Nô tâ confia na tude sê valor Der Fuhrer jâ stâ pirdide Co tude sê horror Churchill é um barra di aço Qui câ tâ derretê Na terra, na mar e no ar El tem qui vencê... Morna de B.Léza “HITLER” Hitler não vai ganhar a guerra, não Guerra é dos nossos aliados Águia negra vencida no campo de batalha Nós temos fé no British Nós confiamos no seu valor Der Fuhrer esta perdido Com todo o seu horror Churchill é uma barra de aço Que não derrete Na terra, no mar e no ar Ele tem de vencer...

Traduçao nossa

Foram feitas também composições sobre o término da guerra. A composição “ Vitória” demonstra como a notícia do término da guerra foi acolhida com muito entusiasmo e esperança de que melhores dias estavam por vir. No entanto, as condições de vida da ilha mantiveram-se e a falta de emprego era preocupante. A canção “Vitória” traduz essa expectativa da população mindelense e não só, de todos os cabo-verdianos. Aos mindelenses a vitória dos aliados traduzia o voltar aos velhos tempos de reanimação de Porto Grande com entrada de navios e consequentemente mais trabalhos. Na última quadra a frase (Mesa de pobre que tem fome) parece desenquadrada do assunto da guerra, mas pensa-se que o autor aproveitou para chamar a

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atenção para a miséria em que a população vivia, uma vez que todas as canções eram alvos de censura. Os cantados na língua crioula eram traduzidos para o português e assim as autoridades seleccionavam os que podiam passar na rádio.

“VITÓRIA” Lulu nha Antónia general Giraud Djunta bo voz co Mari Pi Nô bem cantâ Morna de Vitória Que ta luniá Montgomery Sês câ contente co ês nôs cantiga Nem quês ca crê nô tem que cantal Se dj`el bá boca de rapariga Ês tâ rendê incondicional Por isso um biba pa Inglaterra Que comê ês carne el tchupa tutano Untrum pa Rússia que ba Berlim Na pêto forte de Maricano É si que é staca é si que é nôs fé Cabo quês bai dja tchiga um nome Pulso de aço, pêto de bronze Mensa de pobre que tenê fome. Morna de R.Peres e Kaká Barbosa

“VITÓRIA” Lulu, D. Antónia, general Giraud Junta a tua voz com a de Mari Pi Vamos cantar a Morna da Vitória Que ilumina Montgomery Se não estão contente com a nossa cantiga Se não quiserem, temos de cantá-la Se já está na boca de rapariga Vai render incondicional Por isso, um viva para a Inglaterra Que comeu a carne e o chupou o tutano Outrossim para a Rússia que foi a Berlim No peito forte do americano É assim a nossa estaca e a nossa fé De todos os sítios libertados chegou um nome Pulso de aço, peito de bronze Mesa de pobre que tem fome. Tradução nossa

Na composição seguinte intitulada de “27 de Setembro” o autor mostra-nos o descontentamento das pessoas que tiveram de ser recrutados para enquadrar a exército português, depois de terem prestado o serviço militar, como se pode verificar na terceira quadra (Eu vou voltar/Meu caminho outra vez para a tropa) Percebe-se que o autor refere-se a pessoas com família formada, que vêm-se obrigados a sair da ilha de Santiago para virem a ilha de São Vicente, local onde se encontravam os militares portugueses. Essa integração dos militares cabo-verdianos era vista para os nacionais como uma coisa irremediável, triste e causava muito sofrimento às famílias, talvez por pensarem

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que se tratava uma viagem para a Europa na luta efectiva na guerra e não meramente para defesa das ilhas em caso da guerra chegar a Cabo Verde.
“27 de Setembro” Dia 27 de Setembro ´M recebê um grande notícia Que causam nha tristéza Pamô ramede ca tem Quond sol ta bá ta cambâ Mi sentado na praia di Rubado ´M bem fazêbo ess morninha, cretcheu Pa b lembrâ sempre na mi Oh Neto qui côsa é ess Cá`s bem faze bô amigo ´M tâ torna bai Nha caminho outra vez pa tropa C`ta levom más trapassado É sodade de nha mãe má nhas irmãs Ó mãe ca bocês tchora nada Fé na Deus ´m ta torna volta Morna de Djidjungo “27 de Setembro” Dia 27 de Setembro Recebi uma grande notícia Que me deixou muito triste Porque não tem solução Quando o Sol ia se pôr Estava sentado na praia de Rubado Eu fiz essa morninha, cretcheu (querida) Para lembrares sempre de mim Oh Neto, que coisa é essa Que vieram fazer ao teu amigo Eu vou voltar Meu caminho outra vez para a tropa O que me deixa mais triste É a saudade da minha mãe e das minhas irmãs Oh mãe, não chore Com fé em Deus ei-de voltar Tradução nossa

A morna “Sodade de São Nicolau” foi escrita na década de 40 e representa o desespero das pessoas que viram-se obrigados a seguir para a colónia de São Tomé, como contratados das roças, fugindo a precária situação económica das ilhas. Apesar de ser uma composição que retrata a saída de um natural da ilha de São Nicolau, pensa-se que esta pessoa seria uma das muitas que saíram da ilha rumo a São Vicente em busca de melhores condições de vida. No entanto essa morna acabou retratar todos os que se encontravam na situação de contratados para as roças de S. Tomé. Esta morna tornou-se num música mais cantadas pela Cesária Évora que a tem levado a todos os cantos do mundo com os seus concertos e a expressão sodade é imediatamente ligada ao povo das ilhas de Cabo Verde, assim como a expressão morabeza. 79

“SODADE DE SÃO NICOLAU” Quem mostrabo êss caminho longe? Êss caminho pa Santomé Sodade, sodade, sodade Dess nha terra Sanicolau Si bô ´screvê`m ´Mta ´screvêbo Si bô ´squecê´m M´ta esquecebo Até dia qui bô volta Sodade, sodade Sodade de nha terra Sanicolau Morna Popular

“SAUDADE DE SÃO NICOLAU” Quem mostrou-te esse caminho longe? Esse caminho para São Tomé Saudade, saudade, saudade Da minha terra São Nicolau Se tu me escreveres Eu também te escrevo Se tu me esqueceres Eu também te esqueço Até um dia que tu voltares Saudade, saudade Saudade da minha terra São Nicolau Tradução nossa

A composição “Quatr´hora de madrugada” retrata o desespero da população mindelense, principalmente dos familiares quando, as quatro horas da madrugada, os jovens eram recrutadas para trabalhar nas roças de S.Tomé. Demonstra ainda algum descontentamento com a polícia política (PIDE), quando se refere ao Mota Carmo, capitão do exército das forças expedicionárias em São Vicente, que segundo a composição os jovens eram recrutados e colocados durante a noite na prisão da cidade designada de Vôvô e eram levados de madrugado para o embarque no cais onde a firma Willson fazia a descarga e carga do carvão. (Rodrigues e Lobo, 1996:83)

Importa referir que das pesquisas realizadas ao longo do trabalho

e

aos

materiais

oficiais consultados não foram encontradas nenhuma referência a prisão dos recrutados antes de seguirem para o trabalho nas colónias.

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“QUATR´HORA DE MADRUGADA” Quatr´hora de madrugada Gente de Sancente impé Tâ gritá, tâ tchorá, Tâ sperá largá Sis fidjo pâ Sant´mé. Grande rabolice na “Vôvô” Por causa di nhô Mota Carmo Qu´rê trá Sanconte sê povo Djudado pâ ses catchôr, Amigo de sê amo. Wilson ê cais pa carvon Pa povo ca fica descontente La ês bai imbarcòne De boxe de sês sorriso. Pa nôs ê indeferente! Morna Popular

“QUATRO HORAS DE MADRUGADA” Quatro horas de madrugada População de São Vicente esta de pé A gritar, a chorar A espera de ver sair Seus filhos para S. Tomé. Grande agitação na “Vovô” Por causa do senhor Mota Carmo Que quer tirar São Vicente o seu povo Ajudado pelos seus capangas Amigos do seu amo. Wilson é cais para o carvão Para o povo não ficar descontente Lá foram embarcados Com sorriso falso. Para nós é indiferente! Tradução nossa

A composição “Destino d´Home” também retratou o sofrimento daqueles que fugindo as crises das ilhas, tiveram de optar pela emigração para outras paragens. A saída dos cabo-verdianos era visto como uma fatalidade, ou seja tinham de seguir viagem, para poderem ajudar as suas famílias que ficavam, mas também era a única forma de escaparem da morte certa.

“DESTINO D´HOME” Oli´m na meio di mar Ta sigui nha distino Na caminho d´América É qu´é triste pa´m dixâ nha terra Sima é triste `m dixâ nha mãe Sodade bem morâ na nha peito... Dixâ´m bai pa´m ca morrê Bai terra longe É distino d´home Distino sem nome Qui nô tem qui cumpri Dixa´m sigui nha distino Es distino di meu Bai pa´m dixa nha mãe Sodade bem morâ na nha peito... Dixâ´m bai pa´m ca morrê Morna de B.Léza

“DESTINO D´HOME” Estou aqui no meio do mar A seguir o meu destino No caminho para a América É triste eu deixar a minha terra Como também é triste eu deixar a minha mãe Sodade veio morar no meu peito... Deixa-me ir para não morrer Ir para terra longe É destino de homem Destino sem nome Que nós temos de cumprir Deixa-me seguir o meu destino Esse meu destino Ir e deixar a minha mãe Sodade veio morar no meu peito... Deixa-me ir para não morrer Tradução nossa

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V – Conclusão Descoberta a 22 de Janeiro de 1462, a ilha de São Vicente constitui uma das mais novas ilhas de Cabo Verde no que se refere a sua ocupação efectiva. Comparativamente com a ilha de Santiago que seria a primeira a ser povoada, esta somente viria a conhecer um povoamento efectivo a partir do século XX. Todo o esforço realizada pela administração das colónias de Cabo Verde, visavam dotar a ilhas das mínimas condições de habitabilidade que permitissem por seu torno o desenvolvimento do seu porto, devido a boa posição geoestratégica da ilha, na qual um porto poderia ser uma grande fonte de rendimento para a colónia e para a metrópole. Muito embora se reconhecesse as boas condições que o Porto Grande oferecia, todas as tentativas de povoamento conhecera o seu fracasso devido as condições naturais adversas que a ilha apresentava (calamidades naturais), que provocavam a morte e fomes da pouca população que aí se estabelecia, não obstante a todos as cartas régias que previam a criação de incentivos fiscais e aduaneiros nunca antes aplicados nas outras ilhas, chagando a situação de pela carta régia de 1838 determinar que o governo da colónia deveria sediar-se na ilha de São Vicente, justificando-se as melhores condições que a ilha proporcionava em comparação com a ilha de Santiago, na qual nos períodos de grande humidade e pragas de insectos deslocavam a administração para as ilhas de clima mais acolhedoras. O verdadeiro desenvolvimento populacional da ilha acontece com a presença e investimento efectuados pelos ingleses que reconheceram as boas condições do porto, providenciaram a construções de algumas infra-estruturas que permitiram a instalação de Companhias carvoeiras. Esse investimento dos ingleses representou a abertura de muitos postos de trabalhos, permitindo a fixação das pessoas que viram nessa época uma saída para as épocas de crise agrícola nas ilhas. A imigração de pessoas das outras ilhas, devido ao crescente aumento da navegação que por sua vez desenvolveu muitas outras actividades que gravitavam a volta do porto, fomentou o desenvolvimento daquela que seria a mais nova das cidades de Cabo Verde, após 100 anos das primeiras tentativas de povoamento.

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O “el dorado” cabo-verdiano não passava de uma grande mentira, porque todo esse desenvolvimento geradora de lucro não era aproveitada no desenvolvimento da cidade, seguindo para os cofres das empresas inglesas e do governo português. A população vivia em más condições de habitabilidade, aliada ao facto de recebem muito pouco e de trabalharem em condições precárias que resultava na maior parte das vezes no aparecimento de muitas doenças respiratórias. No entanto representava na altura a única forma de rendimento certo na ilha uma vez que a mesma nunca teve uma forte vocação agrícola. Numa tentativa de reverter o cenário acima descrito e recuperar para si o monopólio das actividades nas colónias, o governo português promove uma mudança constitucional que aconteceria com a implementação do novo Regime Estado Novo, que procedeu a aprovação de vários decreto-leis que fundamentavam a imperialismo português, numa tentativa de rentabilizar cada vez mais as colónias, tornando-as as novas formas de rendimento de Portugal. Foram também aprovados novos decreto-lei numa tentativa de encobrir a precária situação socioeconómica das colónias devido as varias pressões internacionais. Mudamse o estatuto das colónias passando as mesmas a designarem-se por províncias ultramarinas, e as populações passar a ter o estatuto de assimilados ao invés de indígenas. A partir do ano de 1951 ganha corpo vários debates a favor e contra a adjacência de Cabo Verde, passando a integrar a administração da metrópole, numa tentativa de minimizar e resolver mais prontamente as crises que assolavam o arquipélago, apesar de até a independência nada ficou resolvido. A questão da adjacência ganha actualmente novas discursões/debates uma vez que esta a decorrer todos os demarch para que Cabo Verde passe a ser membro da União Europeia. Nesse mesmo ano, a câmara de São Vicente enviou várias notas ao Governo das colónias solicitando a permissão para utilizar os saldo positivos dos fundos de reservas de forma a auxiliar a população que passava fome devido ao franco declínio das actividades do porto, a falta de chuvas que assolava todo a arquipélago e ainda a paralisação de muitas obras. Esses vários apelos tiveram respostas muito tardias. 83

Fugindo a essa situação muitas pessoas foram obrigadas a emigrar para colónias nomeadamente para S. Tomé, na condição de contratados, onde a situação também não era melhor. No entanto, a situação financeira de Portugal não era melhor, devendo-se aos maus investimentos, numa altura onde todos os países europeus procuravam formas de saírem das (ruínas) da guerra, apesar de Portugal ter adoptado uma politica de neutralidade colaborante. Foi aprovado dois planos de fomentos que deveriam resolver a situação económica da metrópole e das colónias, financiados pelo plano marshall e que visavam o desenvolvimento dos recursos das colónias. No entanto, a demora entre a aprovação e a efectivação dos trabalhos foi um dos aspectos negativos desses planos, aliada ao facto de que os valores aprovados ficarem muito aquém daquilo que deveria ser utilizado no fomento desses recursos. O fim da II Guerra Mundial trouxe repercussões a todos os níveis, tendo sido analisadas as que ocorreram a nível das eleições e nas manifestações culturais durante o período em estudo. As eleições representavam novos ventos de mudanças que resultariam no triunfo das democracias em detrimento das ditaduras e todas as liberdades e garantias dai advenientes. Os reflexos culturais espelham os sentimentos do povo em relação a essa nova ordem mundial. Optou-se por demonstrar nas composições nacionais todos os principais pontos abordados no trabalho. Não obstante a falta de alguns documentos que não constavam no Arquivo Histórico Nacional, e a falta de recursos financeiros que propiciassem a ida ao Arquivo Histórico Ultramarino e ao Arquivo do Tombo, pensamos que conseguimos apresentar um trabalho aceitável dentro das limitações apresentadas. Urge trazer para o Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde toda a documentação em suporte papel e informático sobre a nossa História, permitindo que qualquer pessoa que queira fazer investigação sobre a sua história tenha a sua disposição, todo o material que se encontra disponível noutros arquivos, fora de Cabo Verde.

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VI – Fontes documentais 1 - Fontes Primárias: - Cabo Verde: Arquivo Histórico Nacional – Praia: Relatórios e Correspondências do Governo da Colónia, Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil, Caixas nºs: 031, 033, 125, 126, 173, 174, 178, 179, 180, 221, 222, 223, 227, 438, 439, 459, 465, 466, 492, 493, 494 e 495 Actas das Sessões da Câmara Municipal de São Vicente de 21 de Junho de 1945 a 1960 Boletim Oficial da Província de Cabo Verde de 1945 a 1955 Revista Cabo Verde – Boletim de Informação e Propaganda – 1949 a 1958 Jornal Notícias de Cabo Verde – Ano XIV, 1945, nº 231 e 232 - Portugal: Diários do Governo de Portugal - 1945 a 1955 Boletim Geral das Colónias: Ano XXV - n.º 284, 1949; Ano XVIII – n.º203; Ano XXXXIV – n.º 401, 1958 Diários das Sessões da Assembleia Nacional Portuguesa nº 31, 47, 51, 65, 70, 79, 95 Actas da Câmara Corporativa nº 2, 12, 27, 39, 45, 47, 58, 65, 75, 98 2 - Bibliografia Geral ALBUQUERQUE, Luís & SANTOS, Maria Emília Madeira (1991), História Geral de Cabo Verde – Instituto da Investigação Científica Tropical/Lisboa e Direcção Geral do Património Cultural de Cabo Verde/Praia, Lisboa ALMEIDA, Germano (2009) – Viagem pela História de São Vicente [14621934], Ilhéu Editora, São Vicente ALMEIDA, Manuel Ribeiro de (1997) – Problemas económicos de Cabo Verde e outros escritos (1946-1959), Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro

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ALMEIDA, Pedro Ramos de (1979) – História do Colonialismo Português em África – Cronologia, século XX, vol. III – Editorial Estampa, Lisboa BRITO-SEMEDO, Manuel (2006) – A Construção da Identidade Nacional, Análise de Imprensa entre 1877 e 1975, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, Praia CARREIRA, António (1977) - Cabo Verde - Classes Sociais, Estrutura Familiar Migrações, Biblioteca Ulmeiro CARREIRA, António (1982) – Estudos da Economia Caboverdiana, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa CARREIRA, António (1983) – Migrações nas Ilhas de Cabo Verde, Instituto Caboverdeano do Livro, 2ª Edição CARREIRA, António (1984) – Cabo Verde – Aspectos sociais. Secas e fomes do século XX, Biblioteca Ulmeiro, 2ª Edição CRUZ (B. Leza), Frank Xavier da (1950) – Razão da Amizade Cabo-verdiana pela Inglaterra, Rio DESHAIES, Bruno – Metodologia de Investigação em Ciências Sociais, Instituto Piaget DIAS, Juliana Braz (2004) – Mornas e Coladeiras de Cabo Verde, Brasília, Fundo de Desenvolvimento Nacional – Ministério da Economia e das Finanças, 1984 - Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade do Mindelo – Praia FURTADO, Claúdio Alves (1993) – A Transformação das Estruturas Agrárias numa Sociedade em Mudança – Santiago, Cabo Verde, Ed. Instituto do Caboverdiano do Livro e do Disco GATLIN, Darryle John (1990) – A Socio-Economic History of São Vicente de Cabo Verde, 1830-1970, (Tese de Doutoramento), University of California, Los Angeles LIMA, Mesquitela (1992) - A Poética Crioula de Sérgio Frosuni- uma leitura antropológica. Lisboa/Praia, Instituto da Cultura e da Língua

Portuguesa/Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco. LOPES, Baltazar. (1997) - Chiquinho. Mindelo, Edições Calabedotche.

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LOPES, Maria José (2005) – Surgimento de Câmaras Municipais nas ilhas do Norte: Santo Antão, S. Nicolau e S. Vicente, Notas para o seu estudo, Colecção Monografias, Instituto do Arquivo Histórico Nacional, Praia MATOS, Mário - Contos e Factos. Mindelo, Editora. MATOSO, José (1998) – O Estado Novo (1926-1974), Vol. 7, Editorial Estampa MARQUES, A.H. de Oliveira (1986) – História de Portugal – Das revoluções liberais aos nossos dias, Vol.III, Palas Editores, Lisboa NASCIMENTO, Augusto (2003) – O Sul da Diáspora – Cabo-verdianos em plantações de S.Tomé e Príncipe e Moçambique, Edição da Presidência da República de Cabo Verde NASCIMENTO, Augusto (2008) – Vidas de S.Tomé segundo vozes de Soncente, Ilhéu Editora, Cabo Verde SILVA, Alveno Figueiredo e (2003) – Aspectos político-sociais na música de Cabo Verde do século XX – Instituto Camões, Praia SILVA, António Correia e (2005) - Nos tempos do Porto Grande do Mindelo. Praia - Mindelo, Centro Cultural Português. TAVARES, José Manuel Soares (2007) – O Campo de Concentração do Tarrafal (1936 – 1954): A Origem e o Quotidiano – Edições Colibri, Lisboa QUIVY, Ramond, CAMPENHOUDT, Luc Van – Manual de Investigação em Ciências Sociais, Gradiva Publicações, Lda, 2ª Edição PEREIRA, Alexandre (2003) - Como escrever uma tese, Edições Sílabo, Lisboa RODRIGUES, Moacyr e LOBO, Isabel (1996) – A Morna na Literatura Tradicional – Fonte para o estudo histórico-literário e a sua repercussão na sociedade, Instituto Cabo-verdiano do Livro e do Disco, Praia RAMOS, Manuel Nascimento (2003) – Mindelo D`Outrora WAHNON, Donald M. (2006) – A Minha vida – Akron, Ohio VII – Fontes Orais- Gregório Dias - entrevista realizada no dia 14 de Setembro de 2009, as 18:00, na residência do mesmo, na zona da Ribeira Bote – São Vicente - Arnaldo António Lima - entrevista realizada no dia 19 de Setembro de 2009, as 10:00 no restaurante do mesmo, na rua de Matijim – Zona histórica da cidade - São Vicente

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VII – ANEXOS 1 – Quadros e Gráficos Quadro nº1 - Movimentações de entrada Navios em Cabo Verde - 1947 a 1951
Ano 1947 1948 1949 1950 1951 Portugueses 72 92 95 3230 3093 Estrangeiros 803 897 672 732 690 Total 875 989 767 3962 3783

Fonte: Boletim Trimestral de Estatística dos anos de 1947 a 1951

Quadro n.º 2- Carga descarregada segundo a nacionalidade das embarcações - 1947 a 1951
Nacionalidades Ano Portuguesa Americana Belga 1947 1948 1949 1950 1951 26.678 11.996 13.073 30.098 30.050 895 4.076 15.212 16.967 3.617 112.829 14.284 209.190 256.929 59.828 81.705 62.745 78.466 34.707 63.115 Espanhola Francesa Grega Holandesa Inglesa 7.186 3.717 8.123 172.094 Norueguesa Outras 59.482 14.839

68.728 105.712

Obs.: Quantidades em toneladas

18.000 16.000 14.000 12.000 10.000 8.000 6.000 4.000 2.000 0
Po rtu g A m ue s er a ica na Be Es pa l g a n F r ho l an a ce sa G H o re la g a nd es In a No g l ru es a eg ue sa Su iç a ou tra s

1947 1948 1949 1950 1951

Gráfico nº 1

X

Gráfico nº 2

6000

5000

S antiago e Maio F ogo

4000

B rava S anto Antão

3000

S .Vicente S .Nicolau

2000

S al B oa Vista Não indicadas

1000

0 1945 1946 1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960

2 - Fotos

1948 – Cidade do Mindelo

1948 – Cidade do Mindelo

XI

Réplica da Torre de Belém – Mindelo

1938 – Pavimentação da estrada da Rua de Lisboa

1941 - Desfile da Chegada do 1º Corpo de Tropas Expedicionárias Portuguesas a Mindelo

XII

1940 - Foto Melo. Chegada dos náufragos de um navio Italiano a Mindelo

Esse navio, foi torpedeado por engano por um Submarino Alemão, ao largo da Ilha de St. Antão, durante a IIª Grande Guerra. O caricato da cena é que foram considerados prisioneiros de guerra, por influência do governo Inglês, mas em Mindelo não havia onde albergar tanta gente, por isso, foram distribuídos por decreto do Governo da Colónia, pelas casas de algumas famílias da Terra, mediante o pagamento de umas senhas para as despesas com os mesmos.

XIII

1948 - Partida da imagem de Nossa Senhora de Fátima

1942 – Carregadeiras do cais

1942 - Puxando uma Zorra

XIV

1956 – Foto Melo. Chegada do Presidente da República Portuguesa, Craveiro Lopes a Mindelo

1956 – Muldura humana recebendo o Presidente da República Portuguesa

1956 - Foto Melo. Entrada do Presidente Português, Craveiro Lopes no pátio do Liceu Gil Eanes, para o Coktail de boas vindas, oferta das forças vivas da Cidade de Mindelo.

XV

Fotografia datada dos finais de 40, princípios de 50, de autoria do Comandante Eurico Serradas Duarte. Navio Oceanográfico, Baldaque da Silva.

XVI

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