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1 – Introdução

A delação premiada do empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS, empresa de


produção alimentícia, publicada no Globo em 17 de maio último se tornou um dos
desdobramentos mais polêmicos da Lava-Jato, operação de investigação à corrupção e
lavagem de dinheiro no Brasil. Ao contrário de suas primeiras fases, as denúncias ampliaram
seu leque de investigação e atingiram o presidente Michel Temer (PMDB), acusado de
corrupção. A denúncia se refere à entrega de R$ 500 mil ao então deputado Rodrigo Rocha
Loures (PMDB – PR). No entendimento da Procuradoria-geral da República (PGR), o
dinheiro seria destinado a Temer, pois Rocha Loures seria o intermediário entre o mandatário
e a JBS. O conteúdo da delação ainda atinge o então presidente do PSDB e senador, Aécio
Neves, que acabou sendo afastado do cargo. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF),
Marco Aurélio Mello, determinou, porém, o retorno do senador às suas funções. O escândalo
deflagrou a maior crise do Palácio do Planalto deste ano, abrindo fissuras na coalizão política
que culminara no impeachment da presidente eleita, Dilma Rousseff (31/08/2016).
A primeira denúncia, porém, foi barrada pela Câmara dos Deputados que rejeitou, no
dia 2 de agosto de 2017, autorização para o STF julgar acusação a Temer. Pela Constituição
Federal (CF), a denúncia contra presidente da República em exercício somente pode ser
apreciada pelo STF após autorização da Câmara. O parecer do deputado, Paulo Abi-Ackel
(PMDB-MG), que recomendava o arquivamento da acusação da PGR, recebeu 263 votos
favoráveis, 227 contrários, 19 ausências e duas abstenções. O panorama político ainda contou
com a absolvição da chapa Dilma/ Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), acusada de
uso ilícito de dinheiro na campanha de 2014. O resultado de 4 a 3 foi conquistado pelo voto
de Gilmar Mendes, aliado político de Temer e presidente da corte. A denúncia, deflagrada
pelo partido derrotado no último pleito, o PSDB, encontrou novo quadro político – pois os
tucanos, de acusadores, tornaram-se aliados de Temer.
No dia 14 de setembro, dois dias antes de deixar o cargo de PGR, Janot entrou com
nova denúncia contra Michel Temer pelos crimes de organização criminosa e obstrução da
justiça. As acusações foram deflagradas com os depoimentos da JBS e do corretor de valores,
Lúcio Funaro, suspeito de atuar como operador do PMDB. As negociações sobre a delação
premiada, porém, foram ofuscadas por revelações, divulgadas no início de setembro, de
possível omissão de crimes. A situação ainda se complicou em virtude do ex-procurador,
Marcelo Miller, ter deixado a PGR para atuar no escritório da empresa Trench Rossi
Watanable, responsável por gerir o acordo de leniência da J&F, holding que controla a JBS. O
governo, por sua vez, passou a acusar a delação premiada de “ilícita”. Grande parte desta
disputa política foi, naturalmente, travada nas páginas dos grandes jornais nacionais – entre
ele, O Globo e Folha de São Paulo - que, como “caixas de ressonância” dos conflitos, não
apenas amplificaram, mas enquadraram ideologicamente os agentes em disputa.

2 – A Política e a Mídia nas Democracias Liberais: Hegemonia e Enquadramento

Tendo em vista que as sociedades contemporâneas são fundamentalmente midiáticas,


isto é, suas relações sociais são mediadas por diversas modalidades de mídia como os jornais
impressos, sua operação não consiste apenas no agendamento de temas, mas na seleção de
aspectos e construção ideológica das notícias. Processo que contribui para a formulação e
disseminação continuada de percepções sobre a realidade objetiva e conformação de um novo
tipo de articulação simbólica, calcada na interpenetração entre os universos do jornalismo e
da política com impactos sobre a própria a natureza do poder. O traço simbólico do discurso
jornalístico insere-o, por sua vez, no campo das lutas hegemônicas pelo controle do
imaginário coletivo e da percepção cultural de uma sociedade como “espaço da consciência
crítica do ser social”, o que implica a tarefa forjadora da própria liberdade humana, passando
pela conquista hegemônica da formação de consensos sociais.
Cultura e política, portanto, estão geneticamente associadas e são objeto de arguta
reflexão no pensamento do marxista italiano, Antônio Gramsci. Neste sentido, as dimensões
cultural e política estão interligadas pela hegemonia enquanto algo que opera não apenas
sobre a estrutura econômica e sobre a organização política da sociedade, mas também sobre o
modo de pensar e a percepção sobre a realidade objetiva, ou seja, o forjar de sentidos sobre a
própria realidade. A hegemonia, portanto, atua sobre imaginários sociais. Na sua relação
central com o universo da comunicação, o conceito de hegemonia “ajuda-nos a desvendar os
jogos de consenso e dissenso que atravessam e condicionam a produção simbólica nos meios
de comunicação, interferindo na conformação do imaginário social e nas disputas de sentido e
de poder na contemporaneidade” (MORAES, 2010, p.54).
Deste modo, a hegemonia tem a ver com “entrechoques de percepções”, enfatizando a
produção de saberes e representações de mundo na formulação de uma “direção cultural”.
Enquanto modelo persuasivo, a hegemonia atua como controle do imaginário social, usando,
entre outros meios, os Aparelhos Privados de Hegemonia (APH), como jornais impressos,
que cumprem o papel de “caixas de ressonância” das disputas ideológicas. Ao comentar
Gramsci, Moraes ainda observa a questão central da relação entre hegemonia e comunicação
“a partir da condição privilegiada de distribuidores de conteúdo” (MORAES, 2010, p. 61).
Neste sentido, a mídia impressa tende a fixar “os conteúdos ideológicos da ordem
hegemônica”. Dentro desta lógica, a imprensa seria “a parte mais dinâmica” da estrutura
ideológica do capitalismo, organizando tais visões de mundo, produzidas pelo conjunto de
forças dominantes.
Na medida em que interferem com a “cartografia do mundo coletivo”, tais APHs
atuam sobre o conjunto de símbolos, alegorias e afetos. Os símbolos revelam o que está por
trás da organização da sociedade e da própria compreensão da história humana (MORAES,
2002, p.1) e operam no sentido de naturalizar visões de mundo e auxiliar na condução
política de grupos sociais. “Hegemonia pode ser definida como a capacidade de um grupo
social determinar o sentido da realidade, exercer sua liderança intelectual e moral sobre o
conjunto da sociedade.” (COUTINHO, 2002, p.1).

A natureza do conflito consiste no fato de que ele é travado no terreno das ideias e das
construções imaginárias coletivas, isto é, “uma luta pela sistematização de formas culturais”.
Portanto, cultura e linguagem consistem em instâncias de domínio no interior das quais e
pelas quais diferentes grupos sociais buscam impor suas próprias hegemonias em dada
sociedade. Na medida em que o controle das subjetividades se coloca em primeiro plano, é
fundamental a análise das narrativas tecidas pela mídia hegemônica. “Posto que a linguagem
é um dado social que estrutura a consciência, cabe indagar sobre as narrativas e as formas de
comunicação predominantes na consciência popular na sociedade contemporânea”
(COUTINHO, 2002, p.4). Tendo em vista que os processos de domínio implicam tensão
permanente entre diferentes grupos e classes sociais, com diferentes níveis de acessos aos
APHs, os jogos de poder se tornam permanentes na arena midiática. “Uma hegemonia viva é
um processo. Um processo de luta pela cultura” (COUTINHO, 2008, p. 77).

Parte-se, desta forma, do reconhecimento da mídia como objeto fundamental de


análise para a compreensão do poder político no mundo contemporâneo (LIMA, 1996, p.
240) na medida em que, como o Imaginário Social, ela atua na produção de pontos de
referência dentro do amplo sistema simbólico produzido por uma sociedade. Ao se constituir
como peça efetiva de controle social, o jornalismo tende a fabricar representações globais da
vida social, entendidas não como mero reflexo da dimensão estrutural, mas como conjunto de
signos constituintes da própria realidade. Todavia, na construção de tais perspectivas
ideológicas, pode-se perceber pontos de vista dissonantes que tendem a configurar os jornais
como dispositivos ideológicos complexos – e não aparelhos monolíticos de poder. Parte-se
aqui do pressuposto de que o conflito deve ser considerado categoria analítica fundamental
para a compreensão do processo de reconstrução ideológica. Daí, a importância de se
verificar em que nível e qual a natureza do aparente dissenso entre os jornais Folha de São
Paulo e O Globo na cobertura da delação premiada da JBS.

Assim, em nossa articulação conceitual, representação significa não só re-presentar a


realidade, mas também constituí-la (LIMA, 1996, p. 245) por meio de operações semióticas.
Mikhail Bakhtin (2006) contribuiu para a compreensão das relações dialéticas entre signo,
cultura e poder ao definir a correspondência decisiva entre signo e ideologia. Em outras
palavras, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia. (BAKHTIN,
2006, p. 29) de forma que o ideológico possui valor semiótico e potencializa diferentes
leituras. Para o pensador russo, a linguagem se constituiu enquanto espaço fundamental de
luta política, partindo do reconhecimento de que ‘classes sociais diferentes servem-se de uma
só e mesma língua’ e que, portanto, uma mesma palavra pode ser interpretada de maneira
diferente por distintos sujeitos históricos (COUTINHO, 2012, p. 1). Segue-se que o signo se
converte na arena da luta de classes, pois diferentes apropriações de sentido dos seus índices
de valor estão em jogo, sublimando a absoluta reversibilidade da lógica da linguagem
enquanto discurso ideológico.

Pode-se, ao mesmo tempo, observar que, mesmo no polo da emissão, há potenciais


jogos de conflitos expressos em diferentes visões ideológicas de mundo – como nos possíveis
dissensos entre Folha de São Paulo e Globo, dois atores do bloco histórico no poder. Ora, um
bloco histórico constitui complexa argamassa de articulações entre diferentes atores em
constante luta. Por meio deste conceito, procura-se deslindar as alianças de classe que
compõem o bloco histórico hegemônico (o núcleo desta hegemonia e os setores passivos a ela
vinculados) e aquelas classes e setores de classes dominados (GUIMARÃES, 1999, pg. 155).
Tenta-se apreender a “complementaridade (ou não)” entre as várias dimensões da formação
social, como a econômica, social e ideológica, permitindo entender dialeticamente a natureza
destas relações sem reduzi-las ao economicismo. Conceito de “bloco histórico”, isto é,
unidade entre a natureza e o espírito (estrutura e superestrutura), unidade dos contrários e dos
distintos (GRAMSCI, 2011, pg. 26).

O papel dos diferentes jornais se encarna, em larga medida, nas diferentes formas de
organizações da realidade objetiva através do enquadramento. Elaborado, a princípio, por
Goffman (1974), o conceito se referia a esquemas utilizados para compreensão de situações
sociais a partir do modo como os indivíduos organizam seu cotidiano.

I assume that definitions of a situation are built up in


accordance with principals of organization which govern events
– or at least social ones – and our subjectivity involvement in
them; frame is the word I use to refer to such f these basic
elements as I am able to identify (GOFFMAN, 1974, pgs.
10/11).

O conceito permite com que se compreenda quais são, nas palavras de Koening
(2004), as “estruturas cognitivas básicas que guiam a percepção e a representação da
realidade”. Enquanto padrões de leitura do mundo, os enquadramentos tendem a construir
verdadeiras matrizes gerais de significados, definindo diferentes níveis valorativos. Em
síntese, nos estudos jornalísticos, o conceito de enquadramento deve ser observado na sua
dimensão ideológica. Portanto, o enquadramento pode ser concebido como marco que
constitui os modos através dos quais se cataloga a experiência cotidiana e, por isso, não são
apenas definidores do significado da realidade, mas estabelecem também os modos
apropriados de participar dela (GONZAGA, 2010, p. 139). Quadros de sentido e modelos
acionais. Esta característica semiótica - a de que sua ação de demarcação do acontecimento é
parte deste acontecimento e em parte o define (ibid., p. 140, grifo nosso) encontra correlação
na percepção de William (1979) de que os signos são constituídos e constituidores da própria
realidade.

3 - Metodologia

O método escolhido consiste na articulação entre três modalidades de pesquisa: a


Análise do Discurso da linguística inglesa (FAIRCLOUGH, 2001) e duas categorias de
estudos de texto, elaboradas por John Thompson (2011). Além da pesquisa qualitativa,
também se optou pela Análise de Valência, criada pelo Laboratório de Pesquisas em
Comunicação, Política e Opinião Pública (DOXA), do Rio de Janeiro. Os estudados
qualitativos foram aplicados às reportagens dos jornais Folha de São Paulo e O Globo no
período de 18 de maio, data da publicação da denúncia, até 18 de junho, perfazendo um mês
de observação. Foram ainda analisadas as edições de 3/08, dia posterior à votação da Câmara,
que decidiu pelo arquivamento da denúncia. Importante salientar que as análises, em caráter
amostral, abrangem 64 edições - 32 de cada jornal que maio conta com 31 dias - mais uma
edição referente a agosto. A pesquisa ainda se restringiu à análise da principal reportagem
política. Em síntese:

 Análise do Discurso (FAIRCLOUGH, 2001);

 Uso extra de duas categorias analíticas (THOMPSON, 2001);

 Análise Quantitativa de valência (DOXA/RJ).

De Fairclough, as categorias analíticas utilizadas serão a eufemização, representação


de atores sociais por meio de sua agência, o significado da palavra, a intertextualidade, o
juízo de valor, a impersonalização, modalização e metáfora. A eufemização reduz a
intensidade e o impacto da ação de determinado sujeito sobre a realidade (ou sobre outros
sujeitos); a representação pode enfatizar a ação de atores sociais ou mesmo deslocar suas
agências para um verbo, instituindo mecanismo potencial de proteção. O significado da
palavra condensa significações em expressões como, por exemplo, “sem-terra” que naturaliza
condição social ao passo que a intertextualidade permite a introdução por ordem direta (com
aspas) ou indireta (paráfrase) do discurso de um ator social no texto. Deve-se observar,
porém, que a relação de domínio estabelecida entre os discursos depende da natureza da
anexação. O juízo de valor contribui para a construção de avaliação sobre determinada
situação, a impersonalização permite com que a impessoalidade e neutralidade sejam
deslocadas para documento, como a Constituição, adensando o sentido de autoridade. Já a
modalização diz respeito à intensidade mediante a qual uma ação ou posição é defendida no
discurso. Para finalizar, a metáfora contribui para a construção de uma percepção sobre a
realidade.

O expurgo do inimigo, categoria desenvolvida por Thompson, aponta para o processo


limite de deslegitimação/injúria do antagonista ao passo que as metáforas criam imagens que,
em tese, afetariam a percepção do (a) leitor (a) do texto. A narrativização implica a
construção de uma história como forma de narrar, definindo não apenas seu começo e
desenlace, mas também sua causa. Já a Análise de Valência permite classificar as manchetes
em positivas, negativas e neutras e, portanto, em perceber o ponto de vista implicado na
construção deste espaço semiótico por excelência.

Por fim, vale observar que o primeiro objeto de estudo consiste no Jornal O Globo,
maior veículo impresso do Conglomerado Globo, detentor de emissoras e afiliadas de TV que
representam 44, 3% da audiência nacional, atingindo 98, 4% do total de municípios do país
(5.478) – além de controlar uma rede de 121 emissoras comerciais e 3.305 retransmissoras. O
grupo ainda possui os jornais O Globo e Extra e mais de 20 emissoras de rádio ondas médias
(AM), além de frequência modulada (FM). De acordo com a Associação Nacional dos Jornais
(ANJ), a circulação paga do Globo, para o período 2014/2015, foi de 193.079. O segundo
objeto é a Folha de São Paulo, um dos maiores jornais impressos do país, com grande
influência em São Paulo, estado mais rico do país, contando com circulação, de acordo com a
ANJ, de 189.254 para o mesmo período.

4 - Análise: Folha de São Paulo

Em linhas gerais, por meio da aplicação do conceito de valência, pretende-se


apreender a posição do jornal em relação ao presidente da República, Michel Temer. Tendo
em vista o espaço deste trabalho, buscou-se restringir a pesquisa apenas à aparição do
mandatário nas manchetes dos jornais e a relação de valor vinculada a cada menção – houve
casos nos quais a remissão de se deu de forma implícita. Foram utilizadas três formas
valorativas: positiva, negativa e neutra. Do total das 25 menções a Temer, em sete delas
(28%) pode-se observar viés positivo ao passo que as aparições negativas, que perfizeram 17
ocorrências, corresponderam a 68%. As valorações com tendência à neutralidade foram de
apenas 4% - uma única menção. Portanto, o número de valorações negativas foi mais do que
o dobro das positivas. No entanto, um olhar mais aproximado sobre o grau das valências
negativas demonstra que, apesar de alto, elas apresentam certas estratégias discursivas de
blindagem à figura do presidente, como se verá a seguir.

Folha de São Paulo


Dando início à análise qualitativa, a manchete da Folha de São Paulo do primeiro dia
do escândalo (FSP, dia 18/05), “Delator envolve Temer em compra de silêncio de Cunha”,
atua reduzindo o impacto político do caso com o uso de “envolver” (ver a tabela 1.1). Basta
observar que tal verbo poderia ser substituído por “acusar”/ “suspeitar”, negativizando o
discurso. Da possibilidade negativa máxima - “Delator acusa Temer...” – ou intermediária –
“Delator suspeita...” - desloca-se, por eufemização, para “envolve”.

Realização
Data Jornal Frase
linguística
“Delator envolve Temer
18/05 FSP Eufemização em compra de silêncio
de Cunha”,
“Procurador vê indícios
Deslocamento do
20/05 FSP de três crimes em
agente para a ação
atuação de Temer”.
“Ato tem conflito e
depredação; Temer
25/05 FSP Eufemização
chama Forças
Armadas”.
“oito ministérios
depredados”, “dois
25/05 FSP Enumeração
incendiados” e “41
feridos”.
“negou que tenha
participado de
18/05 FSP Intertextualidade
movimento para impedir
delação de Cunha”.
“mercados desabaram e
19/05 FSP Juízo de valor base aliada esteve perto
de cair”.
Temer acusou o áudio de
“fraudulento” e Joesley
Batista de cometer “falso
21/05 FSP Expurgo do outro
testemunho”, de
perpetrar o “crime
perfeito”.
Acontecimentos
15/06 FSP (editorial) Narrativização anteriores “ao terremoto
político”
Tabela 1.1: Algumas das principais realizações linguísticas da Folha de São Paulo

Ao mesmo tempo, a expressão “compra de silêncio” tende a blindar o ator, quando


oposta ao termo “propina”, como na possível manchete, “Delator acusa Temer de usar
propina para silêncio de Cunha”. Na mesma edição, pode-se observar generalização,
quando a acusação de uso ilícito de dinheiro é deslocada para o então ministro da Fazenda
das administrações Lula e Dilma, Guido Mantega. No trecho “Também o PT é atingido, com
a acusação de que o ex-ministro Guido Mantega era o contato do conglomerado junto ao
partido”, a ênfase recai sobre o sujeito coletivo. As expressões anteriores, que atuaram por
nomeação, mencionaram apenas Temer e Aécio sem destacar suas siglas (PMDB e PSDB).
Assim, deslocou-se a denúncia do ator para o coletivo – o PT – por generalização, que atinge
a todos seus membros.
Na manchete seguinte (FSP, 19/05), pode-se observar deslegitimação do áudio, base
da denúncia: “Temer descarta saída; áudio sobre Cunha não é conclusivo”. O juízo de valor
enfatiza o caráter inconclusivo do material, que se tornará o viés primordial da cobertura,
deslocando-a para a dimensão jurídica. No dia 20/05, pode-se observar o deslocamento da
ênfase do ator à agência: “Procurador vê indícios de três crimes em atuação de Temer”. No
caso, a manchete transfere a suspeita de ilicitude à ação, contribuindo para minorar o impacto
da acusação a Temer. A edição do dia 25/05 apresenta uma série de realizações linguísticas,
como pode ser visto pela manchete, “Ato tem conflito e depredação; Temer chama Forças
Armadas”. A estrutura enquadra a decisão arbritrária do presidente “chamar as Forças
Armadas”, como resultado do “conflito e depredação”, expressões clássicas de ruptura da
ordem. A intensidade do verbo “convocar” – “Temer convoca as Forças Armadas” – é diluída
pelo sentido mais frágil de “chamar”. O verbo “decretar” será usado apenas no texto. Por
isso, a manchete se configurou como espaço de administração verbal de sentido
tendencialmente neutro.
A enumeração permitiu contabilizar a extensão dos danos – “oito ministérios
depredados”, “dois incendiados” e “41 feridos”. Por outro lado, os atores de esquerda que,
pela primeira vez, recebem ampla cobertura, são retratados como opositores da ordem e
enumerados em sequência: “sindicalistas”, “professores”, estruturando a menção de cada
grupo social a partir de graus de intensificação negativa, até culminar com os
“mascarados”. Na edição (FSP, 8/06), a manchete “Temer muda versão e admite viagem em
jato particular”, a eufemização se evidencia quando a expressão “mudar versão” é
contraposta ao verbo “mentir” ou a expressões similares – “Temer mente/se contradiz...”.
No corpo textual, a expressão usada é “o presidente Michel Temer mudou o
posicionamento oficial” ao passo que, mesmo nos “bastidores”, o verbo principal é
“reconhecer” (“Nos bastidores, os assessores reconhecem que o avião era do empresário
[Joesley Batista, um dos donos do JBS]”). As realizações linguísticas posteriores apontam
que para “justificar o recuo”, a “equipe do presidente disse que cometeu um erro”,
expressão que aqui tende a ocupar o lugar do provável deslize para com a verdade dos fatos.
Como resultado, Temer “prestará explicações” e não “esclarecimentos”, palavra cujo sentido
remete a escuridão, conluio e conchavo no universo da política. Ademais, o ator social que
está em condições de “explicar” se distancia daquele obrigado a “esclarecer”.
A reportagem “Arquiteto cobrou coronel por reforma para filha de Temer”
(FSP,16/06) versa sobre suspeita de que o coronel, João Baptista Lima Filho, seria “laranja”
do presidente, isto é, estaria recebendo, em nome de Temer, dinheiro ilícito. Parte desta verba
teria sido, de acordo com a cobertura da FSP, destinada à reforma de apartamento da filha de
Temer, constituindo caso semelhante à acusação de irregularidade que pesa sobre o ex-
presidente Lula da Silva, acerca da reforma de apartamento triplex em Guarujá. De acordo
com a reportagem, na casa do coronel foi encontrado email “com sinais de que ele cuidou de
pagamento da reforma de um imóvel de Maristela [filha de Temer]”. O termo técnico –
“indícios” – foi abortado da matéria, contribuindo para dificultar possíveis comparações de
ilicitude entre os casos Lula e Temer. Na reportagem, Temer é mencionado como suspeito de
ter dado “aval para comprar silêncio de Eduardo Cunha” – e não “propina”. Na reportagem
sobre a votação na Câmara (FSP, 3/08), a intensa distribuição de recursos de emenda a
parlamentares na compra de votos para a absolvição de Temer foi definida como “cenas de
uso da máquina”.
Na reportagem do dia 18/05, observa-se anexação do discurso de Temer por ordem
indireta no qual o presidente, em nota, “negou que tenha participado de movimento para
impedir delação de Cunha”. A interlocutores, ele teria, no entanto, admitido que Joesley
“mencionou na conversa ajuda financeira a Cunha”. Percebe-se que a anexação do discurso
de Temer vem acompanhada de expressões de eufemização (“movimento” pode substituir
“propina”), que operam para neutralizar a denúncia da reportagem.
Na reportagem do dia seguinte (19/05), o autor estabelece juízo de valor sobre as
consequências da crise: “mercados desabaram e base aliada esteve perto de cair”. Na
avaliação por enumeração de resultados, o discurso da FSP enfatiza a desestabilização da
ordem econômico-financeira, que virá a se tornar o cerne de sua crítica à denúncia de Joesley
Batista. Na análise, o jornal reporta que a Bolsa de Valores de São Paulo estaria enfrentando o
“quinto pior pregão do século”, o que teria levado os operadores a optarem pelo “circuit
breaker”, expressão em inglês para a suspensão das negociações por meia hora. Desta forma,
a FSP atua na construção de dois pólos informacionais, o desabamento dos mercados,
inserido no primeiro parágrafo, e a crise na Bolsa, inserida no penúltimo, definindo a lógica
de cobertura de todo o período. Nas duas últimas linhas, a sociedade civil é mencionada por
generalização – “houve manifestações”.
Optou-se por verbos de intensidade relacionados à reação do presidente – “(...) Michel
Temer (PMDB) prometeu em pronunciamento à nação resistir no cargo: ‘Não renunciarei.
Repito: não renunciarei’, declarou”. A seleção verbal, que ocorre na segunda matéria do
escândalo, contribui para conferir hegemonia ao discurso de Temer, positivando sua decisão
de ficar no cargo e sua capacidade de resistir à crise. A reportagem do dia 21/05 abre espaço
para a operação do expurgo do outro, com a introdução de anexação de discurso de forma
direta e indireta (com ou sem citações). Definindo a acusação de corrupção como “pífia”
Temer acusou o áudio de “fraudulento” e Joesley Batista de cometer “falso testemunho”, de
perpetrar o “crime perfeito”. Neste sentido, por meio da aproximação dos discursos do autor
do texto e das citações do presidente, a FSP tende a assumir com Temer uma mesma posição
de crítica à atitude do dono do JBS. A coalescência discursiva permite a construção da
figura do inimigo público a ser combatido.
A anexação de discurso direto, na mesma reportagem, sintetiza o ponto de vista da
FSP/Temer: “O Brasil saído da mais grave crise econômica de sua história vive agora dias
de incerteza”. Ao longo de sua cobertura, a anexação de outras vozes pelo jornal vai se
configurando como tática de consolidação da posição de Temer que, mesmo crítica, pode ser
superada.
No dia seguinte (FSP, 23/05), Temer é concebido como estrategista político. Por meio
da expressão “ao mesmo tempo em que”, o presidente é descrito como político que: 1)
“desiste” do processo no STJ, mas 2) “recrudesce” esforços no Congresso para aprovação de
“pacote de medidas econômicas”. Apesar do verbo “desistir” implicar recuo, a seleção dos
demais verbos parece operar no adensamento do capital político de Temer: “recrudesceu o
esforço”, “para tentar, no Congresso, se reerguer”, “mobilizou líderes”. Há, ainda, menção
à esquerda, concebida como ator antagonista cujas ações são pressupostas: “O governo,
entretanto, vai enfrentar a resistência da oposição, que promete barrar as votações.” A
construção semiótica da imagem de esquerda adquire grau ainda mais negativo em 25/05,
com ênfase no expurgo do outro. Definindo a Explanada dos Ministérios como “campo de
batalha”, a reportagem narrativiza o evento, definindo a chegada dos manifestantes como
causa da confusão. “A confusão começou por volta das 13h30, quando a manifestação se
aproximava de um bloqueio policial a 500 metros do Congresso.” Aos “sindicalistas” e
“manifestantes” foram anexados verbos de violência física: “forçaram as grades”, “uma
multidão se engajou na tentativa de invadir o Congresso”.
A anexação da voz de um ator de esquerda, a deputada federal, Vanessa Grazziotin
(PCdoB), ocorreu, ao que tudo indica, para corroborar a imagem agressiva dos manifestantes:
“Companheiros mascarados, por favor, temos mães aqui, vamos manter a calma”. Por
meio de metáforas de violência – “palco de batalha” ou ênfase em descrições de embate –
“um estudante de Santa Catarina que teve a mão decepada por um rojão” -, a cobertura
tendeu a operar para diluir o conteúdo político do ato e blindar o arbítrio da decisão de
chamamento das Forças Armadas. Já a reportagem do dia 5/06 opera na desconstrução de
outro oponente, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como pode ser visto na
manchete, “Temer faz ofensiva contra Janot após prisão de aliado”. A defesa de Temer
“desferiu ataques públicos” contra a PGR, no intuito de “blindar” o presidente contra
“impacto político”. Neste caso, pode-se observar que o agente a desferir “ataques públicos”
não é Temer, mas sua defesa.
Nos editorias, a FSP opera com juízo de valor, expurgo do outro e narrativização. A
narrativização permite com que a análise se desenvolva a partir de um ponto específico – a
delação da JBS. Como no editorial de 19/05, emblemático da posição do jornal: “Gravação de
conversa de Temer com empresário da JBS, inconclusiva, produz uma crise de
governabilidade de desfecho imprevisível”. Por meio de narrativização, cria-se um ponto de
partida: a “crise de governabilidade” é causada pela delação que pode afetar a aprovação das
“reformas”. Como resultado, a FSP operacionaliza o expurgo do outro, isto é, ataca, algumas
vezes impiedosamente, o delator como no editorial de 22/05, no qual Joesley é definido como
“criminoso confesso”. Importante observar que “com ou sem Temer, os governistas tendem
a dar as cartas” (editorial de 23/05) e, portanto, podem dar continuidade às reformas.

5 – Análise: O Globo
Os resultados das Análises de Valência do Globo apresentam intensificação das
valências negativas. Do total das 29 menções a Temer, 22 são negativas, constituindo 75,9%
ao passo que as positivas respondem por apenas 20, 70% de todas as aparições do presidente.
As valências neutras corresponderam a 3,4% do total. Diante deste aumento do viés negativo,
procurou-se definir quais as realizações linguísticas mais recorrentes – tanto nas manchetes
quanto no texto – responsáveis pelo adensamento do discurso. A seguir, será desenvolvida a
pesquisa qualitativa.

Em 18/05, o jornal estampa na página política “Tem que manter isso, viu”, expressão
da frase de Temer ao empresário, Joesley Batista. A intertextualidade direta introduz, neste
sentido, não apenas a admissão, mas, de acordo com o jornal, o incentivo à continuidade do
pagamento de “propina” ao deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Na linha fina, “Temer
avaliza mesada a Cunha”, observa-se que se omite a expressão, juridicamente correta, “é
denunciado”. Provável estruturação linguística seria “Temer é denunciado por avalizar
mesada a Cunha”. A troca da suposição para a afirmação permite com que o jornal sentencie
ao invés de denunciar o acusado.

Realização
Data Jornal Frase
linguística
“Tem que manter isso,
18/05 O Globo Intertextualidade
viu”.
“Corrupção”,
Significado da “Obstrução de Justiça”
20/05 O Globo
palavra e “Organização
Criminosa”.
, “Temer chama o
25/05 O Globo Eufemização
Exército”.
“Tão logo chegaram à
linha final do protesto”,
25/05 O Globo Narrativização diz o texto, “a confusão
começou”.

“A Constituição prevê
que, no caso de vacância
da Presidência da
República, o presidente
06/06 O Globo Impersonalização
da Câmara assume o
posto provisoriamente e
convoca eleição indireta
em até trinta dias”.
Impersonalização, “aferir gravidade
04/06 O Globo Intertextualidade e delitiva”, “retribuição
Discurso jurídico penal”
“Nenhum cidadão,
cônscio das obrigações
da cidadania, pode deixar
de reconhecer que o
presidente perdeu as
21/05 O Globo Juízo de valor
condições morais,
éticas, políticas e
administrativas para
continuar governando o
Brasil”.
03/08 O Globo Juízo de valor com – “Isso porque a ética
ênfase na ética da deve prevalecer sobre
quaisquer outros
aspectos, e a lei precisa
ser aplicada

política independentemente de
pessoas, partidos e
ideologia”.

Tabela 1.2: Principais realizações linguísticas do Globo

Na manchete de 20/05, lê-se em letras garrafais “Corrupção”, “Obstrução de


Justiça” e “Organização Criminosa” que, estruturadas como manchete, atuam na
condenação explícita do presidente. Apenas na linha fina, percebe-se a oração “Janot acusa
Temer de três crimes”. A parti desta data, percebe-se a emergência de padrão de substituição
da oração (sujeito/verbo/predicado) por expressões de condensação de sentido. Em 22/05, a
manchete é dividida em duas linhas, “Sinal de Fraqueza” e, embaixo, “Base resiste a apelo
de Temer”. As significações condensadas na primeira linha tendem a operar como janelas de
leitura da oração seguinte. Nela, observa-se expediente de fragmentação/enfraquecimento,
pois enquanto a base “resiste” (oposto a “apoia”), Temer “apela” (oposto a “determina”).
Dentro dos graus de intensidade (“obriga”, “determina”, “manda”, “pede” e “apela”), o verbo
em questão ocupa um dos níveis mais frágeis das significações.

No dia 24/05, a situação é sintetizada em duas palavras, “Governo sitiado”, adensada


pela linha fina “Aos gritos de ‘Fora Temer’, resistência ao presidente cresce no Congresso
até em votação simples”. A expressão “Fora Temer” se configura como injúria ao ocupante
do executivo ao passo que a escolha do verbo “crescer” e da palavra “até”, que atua como
advérbio, tende a adensar a fraqueza do presidente. Em 25/05, porém, a ação do governo é
representada de forma mais neutra, “Temer chama o Exército”, o que pode ser observado por
comparação a “Temer convoca o Exército”. O verbo “convocar” é deslocado da manchete
para a linha fina a partir de construção complexa “Ato contra governo e reformas acaba em
violência e presidente convoca Forças Armadas”. A “convocação” é justificada em função de
que o “ato” “acaba em violência”. Por isso, a ação de convocar o exército é eufemizada
(“chama” na manchete) e justificada (pela violência, na linha fina). Trata-se, ao longo do
período estudado, da única manchete em que ocorre processo de eufemização do
presidente ou de suas ações.
No texto, percebe-se juízo de valor não mencionado na manchete e linha fina. Nele, o
jornal aponta que devido à “perda de controle” e ao fato de estar “cada vez mais
enfraquecido”, “o presidente editou decreto que autorizou o uso das Forças Armadas”.
Portanto, o caráter crítico e os dois nexos causais que, de acordo com o Globo, teriam levado
à “convocação”, não foram reproduzidos na manchete. Caso as causas fossem explicitadas,
poder-se-ia ter algo como: “Sem controle e enfraquecido, Temer chama Forças Armadas”.
Logo, percebe-se que, de forma inusitada, a manchete reproduz certa dose de eufemização –
pela segunda vez – ao não expressar os dois elementos nodais do juízo de valor (perda de
controle + enfraquecimento). A cobertura do jornal sobre a manifestação é semelhante à FSP
quanto ao uso de metáforas e de expressões que levam ao expurgo do outro. A descrição
define o desenrolar dos acontecimentos como constituindo “cenário de caos”; partindo para
jogos de enumerações – “prédios de ministérios incendiados”, “mascarados armados com
coquetéis molotov”, “policiais disparando com munição letal”. Os agentes, em especial de
esquerda, também foram constituídos pelo mesmo expediente – “CUT, FS, CSB, Conlutas,
MST”. Outra realização linguística também usada pela FSP, a narrativização, estruturou a
reportagem: “Tão logo chegaram à linha final do protesto”, diz o texto, “a confusão
começou”.

No dia 31/05, vê-se a constituição da oração clássica, mas com intenso efeito negativo
para o presidente, “Polícia Federal vai interrogar Temer”. A negativização pode ser
observada quando se tem em mente outra expressão (“PF vai tomar depoimento de Temer”
ou ainda “Temer irá responder a questões da PF”). Na manchete original, o agente é a PF e
Temer se torna o polo passivo de tal forma que o órgão policial tende a concentrar a força
do sentido. Uma das edições mais densas (10/06) estampa “Sem punição”, como manchete,
quando da absolvição da chapa Dilma e Temer no TSE. A linha fina, “Por 4 votos a 3,
ministros do TSE ignoram provas e livram Temer de cassação”, aponta para uma dupla
condenação do jornal que sentencia tanto os ministros quanto o próprio Temer em razão do
resultado do julgamento.

Quanto à intertextualidade direta, a frase “Tem que manter isso, viu” é repetida no
dia 19/05, sendo, reiteradamente, utilizada. A reação de Temer – “Não renunciarei!” - é
deslocada para outra reportagem, não recebendo espaço na matéria principal. A avaliação
do relator no STF, ministro Edson Fachin, em 20/05, também é anexada diretamente ao
definir a natureza dos indícios como “consistentes”. No mesmo dia, também se anexa
avaliação do PGR: “Os elementos de prova revelam também que alguns políticos continuam
a utilizar a estrutura partidária e o cargo para cometerem crimes em prejuízo do Estado e da
sociedade”. A voz do procurador, hegemonizada, sintetiza o conteúdo do material como
“estarrecedor” e “surpreendente”.

Em 21/05, ocorre anexação direta da voz de Temer: “O Brasil, que já tinha saído da
mais grave crise econômica da sua história, vive agora dias de incerteza”. Porém, a
estruturação textual invalida a posição do mandatário ao apontar suas contradições.:
“enquanto no primeiro pronunciamento”, ele defendeu investigações; “ontem”, definiu as
gravações como cheias de “incoerências” e “manipulações”. Desta forma, a anexação da voz
direta foi usada para desqualificar a coerência de Temer. Também se introduziu a palavra de
pequenos partidos, desde que críticos ao presidente, caso de Sílvio Costa, (PT do B – PE).
De acordo com o Globo, “ele [Silvio Costa] disse que Temer não tem condições de ficar” e
“O governo de Michel Temer acabou”. O jornal usou da impersonalização na defesa da
saída para a crise pela obediência à lei, como na edição de 6/06: “A Constituição prevê que,
no caso de vacância da Presidência da República, o presidente da Câmara assume o posto
provisoriamente e convoca eleição indireta em até trinta dias”. O expediente se repete linhas
abaixo, em “A regra da eleição indireta está prevista na Constituição em caso de vacância
do cargo de presidência da República”. Pode-se notar que a posição do Globo em defesa das
eleições indiretas e, portanto, decididas pelo Congresso Nacional mais conservador da Nova
República, é realizada, entre outras, pela impersonalização.

A edição de 4/06 articula impersonalização, intertextualidade por discurso direto e


discurso jurídico, estruturado a partir de jogos de generalização e universalização por meio do
uso de verbos no infinitivo. Na citação de Janot, são anexadas expressões tais como “aferir
gravidade delitiva”, “retribuição penal” etc. Ao anexar o estilo jurídico, estruturado na
impersonalização, universalização e neutralização, tais características tendem a ser
deslocadas para o texto, impregnando-o da autoridade que, a princípio, o discurso jurídico
confere a si mesmo.

Em 23/05, observa-se a avaliação o uso de juízo de valor em: “Sob o risco de ser
derrotado no Supremo Tribunal Federal (STF)”, Temer “mudou de estratégia” ao passo que,
no dia seguinte, o jornal sintetiza sua opinião sobre o Palácio do Planalto: “O
enfraquecimento político do governo foi evidenciado ontem no Congresso no primeiro dia
de votação desde que veio à tona a delação da JBS, atingindo em cheio o presidente Temer”.
Os juízos de valor tenderam a operar por enquadramentos críticos, selecionando fatos e
deslocando a reação do Planalto para outras reportagens – fora da matéria principal, algo não
realizado pela FSP. Muitas vezes se percebe a estruturação de longos juízos de valor como na
edição do dia 6/06. “Antes de divulgada a delação da JBS, a tendência do TSE era pela
absolvição de Temer. Impressionados com o poder de destruição dos áudios divulgados,
alguns ministros balançaram”. Como se percebe, tal expediente se constitui como
estratégias de enfraquecimento do governo, o que se intensificou na absolvição de Temer pelo
TSE: “O desprezo às provas abriu caminho à absolvição”, na edição de 10/06.

O juízo de valor tende a se adensar nos editoriais, a exemplo de 21/05:. “Nenhum


cidadão, cônscio das obrigações da cidadania, pode deixar de reconhecer que o presidente
perdeu as condições morais, éticas, políticas e administrativas para continuar
governando o Brasil”. O presente editorial pode ser considerado emblemático da linha
adotada pelo Globo que consiste na crítica não apenas a Temer, mas à corrupção em geral,
estabelecendo como saída política sua renúncia “já que a Constituição e as instituições
permitem a transição por este momento difícil” (editorial de 3/08, quando da votação pelo
Congresso do arquivamento da denúncia contra Temer). A ênfase das análises do Globo se
volta para a defesa da ética na política e nas instituições, como se pode verificar pelo trecho
do mesmo dia – “Isso porque a ética deve prevalecer sobre quaisquer outros aspectos, e a
lei precisa ser aplicada independentemente de pessoas, partidos e ideologia”.

Considerações Finais

A cobertura da FSP caracterizou-se pelo intenso uso de eufemização ao minimizar,


simbolicamente, os danos causados à imagem do presidente Michel Temer pela delação da
JBS. Neste sentido, a manchete – esse espaço semiótico de condensação de significações –
operou a blindagem da imagem do presidente. As estruturações de eufemização no corpus
textual questionaram o conteúdo das gravações, amenizaram as denúncias e a crise do
governo e deslocaram as críticas de Temer para sua “atuação”. Além disso, na convocação
das Forças Armadas, o ato foi justificado em virtude do mecanismo do expurgo do outro,
endereçado aos manifestantes cuja imagem foi enquadrada a partir de categorias e metáforas
bélicas – “guerra”, “vandalismo”. Por outro lado, quando mencionados, os parlamentares de
esquerda são observados pela ótica do obstáculo, ou seja, como “empecilho” à votação das
ditas reformas ou participantes do protesto que gerou a depredação do Estado..

Desta maneira, pode-se perceber a tendência à exclusão dos partidos de esquerda e da


sociedade civil, como os movimentos sociais, da cobertura da FSP. Nas raras inclusões, foram
expurgados como “inimigos públicos” – oscilando semanticamente entre a ruptura à ordem
estabelecida e a paralisação das votações. O expurgo e a narrativização foram,
intensamente, utilizadas pelo jornal quanto na construção da imagem de Joesley Batista, pois,
além de ser alcunhado de “criminoso confesso”, o empresário foi enquadrado como o estopim
do processo político de paralisação das reformas, consideradas fundamentais pelo jornal. A
cobertura da FSP enquadrou a crise política como obstáculo ao processo de reestruturação
liberal do Estado brasileiro. Nos editoriais, a FSP caracterizou-se pelo uso de expurgo
contra Joesley e narrativização da crise cujo início teria se da a partir das delações, pondo em
perigo, de acordo com o jornal, a necessária reforma do Estado Brasileiro.

Já o Globo primou pela deslegitimação por meio do intenso uso de expressões de


condensação que substituíram as manchetes tradicionais. Neste sentido, o espaço semiótico
da manchete se converteu em dispositivo de administração negativa da imagem do
presidente por meio da intensificação da realização linguística dupla: significado da
palavra e o expurgo do outro. A defesa do acusado, não raras vezes, foi excluída da
reportagem principal em franca oposição à cobertura da FSP que, além de inscrever a posição
do presidente na primeira matéria, usou da intertextualidade direta, introduzindo o discurso
de Temer e suas injúrias contra o delator. Neste sentido, se a FSP permitiu não apenas a
defesa, mas o ataque na reportagem principal, o Globo tendeu a operar por exclusão da
posição presidencial. Quando de sua inclusão, a própria estruturação do corpus textual tendeu
a enfatizar as contradições entre os discursos de Temer. Neste sentido, o Globo primou pela
exclusão e/ou ênfase nas contradições do acusado por meio de juízos de valor.

Na cobertura dos protestos, o enquadramento foi marcado pelo mesmo padrão da FSP
– expurgo do outro e metáforas bélicas. Ou seja, os jornais não apenas se posicionaram
contra os partidos de esquerda e os movimentos sociais como também lançaram mão da
realização linguística limite – o expurgo do outro que faz da alteridade o inimigo a ser
combatido, cancelando a possibilidade do pensamento dialético de apreender os nexos
causais, fundamentalmente históricos, que levaram ao embate. A posição do Globo, nos
editorias, se destacou pela veemente defesa do judiciário e da posição moralista e
moralizante da ética da política como forma de reconquista civilizacional. Neste sentido, a
retomada do crescimento seria conduzida através da moralização da política e do
fortalecimento da justiça para aceleração da votação das reformas.
Apesar de ter sido constatado dissenso no que diz respeito à manutenção ou queda
de Temer, na cobertura dos dois jornais prevaleceu consenso inegável sobre a necessidade do
que eles consideram “reformas”, isto é, a reestruturação liberal do Estado brasileiro.
Ambos os veículos incentivaram o protagonismo do papel do Legislativo como ramo de
poder incumbido de conduzir as reformas ao longo de crise. Neste sentido, ao contrário do
FSP cujo mecanismo de expurgo do outro foi endereçado à figura de Joesley Batista, o Globo
expurgou a corrupção como obstáculo moral ao desenvolvimento da nação. Para
concluir, o conglomerado lança mão da narrativização que permite a introdução de um ponto
epistemológico – a corrupção inicia-se com o “lulopetismo”.

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