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Esquizófonia, Causas e Efeitos no Contemporâneo:

Antes de entrar no tema do trabalho, é necessário fazer uma análise prévia do


termo em causa, a sua derivação e, até mesmo, a sua aplicação no quotidiano.
O termo em si foi cunhado por Murray Schafer no seu livro Ouvinte Pensante, e
é derivado do grego schizo(separar) e phono(som). Logo, segundo o autor, o
termo refere-se a um rompimento entre o som e a sua transmissão
electroacústica, ou seja, uma desconecção do som original com o seu meio
reprodutor eletroacústico. A semelhança do termo com o de esquizófrenia
serve para dar enfâse, sendo que o autor encara o resultado do processo como
uma “aberração” apenas possível com o desenvolvimento que se deu na área
do som no séc. XX.
Existe também uma preocupação por parte do autor que esta nova forma de
reprodução venha a sobrepor a paisagem sonora natural.
Não se pode negar que de facto o sere humano é influênciado
psicologicamente pelo som, e que somos bombardeados diariamente por
ruídos. A captação constante de contaminação sonora que estamos sujeitos
altera inadvertidamente a nossa disposição, muitas vezes de uma forma
negativa. Mas quando esta é controlada pelo ser humano, é de pensar que os
efeitos no mesmo vão ser positivos, infelizmente, a repetição exaustiva dos
sons e a predisposição que a pessoa tem na altura para ouvi-los leva a que
algo bem intensionado se torne em algo desprezável, ou até mesmo irritante.
Um exemplo disto é a música de elevador. O seu objectivo é proporcionar à
mente do ouvinte uma distracção “pacífica”(calma) a fim de abstraí-lo de outros
factores dos quais o mesmo está sujeito, tais como o tempo de espera, o
espaço limitado, o stress, etc.. A intenção, embora boa, leva no entanto a um
eventual efeito negativo, sendo que uma pessoa que apanhe todos os dias
esse elevador fique saturada com a música e logo stressada.
A predisposição da pessoa também tem um peso relevante no efeito
conseguido pelo som. Usando mais uma vez o exemplo do elevador, pomos
agora em causa uma pessoa que entra previamente stressada, chateada ou
zangada no elevador. É provável que o estado de espírito dessa pessoa possa
ser agravado porque, consciente ou inconscientemente, a pessoa apercebe-se
que o efeito desta música é o de distracção, algo que não deseja, e, mais
importante ainda, que esse efeito é imposto sobre o ouvinte sem autorização
nem controlo.

A origem do termo e seu conceito

O termo esquizofonia, cunhado por Murray Schafer no seu livro “ouvido pensante”,
deriva do grego schizo, separado, e phono, som. Assim, a palavra significa um
rompimento entre o som e sua transmissão ou reprodução eletroacústica. O autor
pretendia remeter a idéia de uma palavra nervosa, relacionado-a com a esquizofrenia, no
sentido de aberração e drama. Por fim, destaca-se a destruição do ambiente sonoro de
alta fidelidade, por uma paisagem sonora artificial, de baixa fidelidade, onde os sons
naturais perdem espaço para os sons produzidos por máquinas.
O prefixo grego schizo significa cortar, separar. E phone é a palavra
grega para voz. Esquizofonia refere-se ao rompimento entre um som
original e sua transmissão ou reprodução eletroacústica. É mais um
desenvolvimento do século XX.

No princípio, todos os sons eram originais. Eles só ocorriam em


determinado tempo e lugar. Os sons, então, estavam
indissoluvelmente ligados aos mecanismos que os produziam. A voz
humana somente chegava tão longe quanto fosse possível gritar.
Cada som era individual, único. Os sons têm semelhanças entre si, a
exemplo dos fonemas que se repetem numa palavra, mas não são
idênticos. Testes mostraram que é fisicamente impossível para o ser
mais racional e calculista da natureza reproduzir duas vezes
exatamente da mesma maneira um só fonema de seu próprio nome.

Desde a invenção do equipamento eletroacústico para a transmissão


e estocagem do som, qualquer um deles, por minúsculo que seja,
pode ser movimentado e transportado através do mundo ou estocado
em fita ou disco para as gerações futuras. Separamos o som do
produtor de som. Os sons saíram de suas es naturais e ganharam
existência amplificada e independente. O som vocal, por exemplo, já
não está ligado a um buraco na cabeça, mas está livre para sair de
qualquer lugar na paisagem. No mesmo instante, ele pode sair de
milhões de buracos em milhões de lugares públicos e privados, em
todo o mundo, ou pode ser estocado para ser reproduzido em data
posterior, talvez centenas de anos depois de ter sido originalmente
produzido. Uma coleção de discos e fitas pode conter informações de
culturas e períodos históricos completamente diversos, que
pareceriam, a qualquer pessoa de outro século que não o nosso, uma
justaposição surrealista e sem sentido.

O desejo de deslocar os sons no tempo e no espaço tem sido


observado de algum tempo para cá na história da música ocidental,
de modo que os recentes desenvolvimentos tecnológicos foram
simples consequência de aspirações que já haviam sido efetivamente
imaginadas. O secreto quomodo omnis generis instrumentorum
Musica in remotissima spacia propagari possuit (pela qual todas as
formas de música instrumental podem ser transmitidas a lugares
remotos) foi uma preocupação do músico e inventor Athanasius
Kircher, que discutiu pormenorizadamente o assunto em sua
Phonurgia Nova, de 1673. Na esfera prática, a introdução da
dinâmica, os efeitos do eco, a separação de recursos, a separação
entre solista e conjunto e a incorporação de instrumentos com
qualidades referenciais específicas (trompa, bigorna, sinos etc.)
foram tentativas de criar espaços virtuais que fossem maiores ou
diferentes das salas acústicas naturais, do mesmo modo que a
pesquisa da música folclórica exótica e a quebra do tempo para a
frente e para trás para encontrar novos ou antigos recursos musicais
renovados representam um desejo de transcender o tempo presente.

Quando, depois da Segunda Guerra Mundial, o gravador fez incisões


em um possível material gravado, podia-se cortar qualquer objeto
sonoro e inserí-lo em qualquer novo contexto desejado. Mais
recentemente, o sistema de som quadrifônico tornou possível uma
paisagem sonora de eventos sonoros estacionários ou em
movimentos de 360 graus, o que permite simular no tempo e no
espaço qualquer som do ambiente, como também permite a completa
transposição do espaço acústico. Qualquer ambiente sonoro pode
agora transformar-se em qualquer outro ambiente.

Sabemos que a expansão territorial dos sons pós-industriais


complementaram as ambições imperialistas das nações do Ocidente.
O alto-falante também foi inventado por um imperialista, pois
respondeu ao desejo de dominar outras pessoas com o próprio som.
Do mesmo modo que o grito dissemina angústia, o alto-falante
comunica ansiedade. "Não teríamos conquistado a Alemanha sem...o
alto-falante", escreveu Hitler em 1938. (1)

Cunhei o termo esquizofonia em A nova paisagem sonora (2)


pretendendo que ele fosse uma palavra nervosa. Relacionando-o com
a esquizofrenia, quis conferir-lhe o mesmo sentido de aberração e
drama. Na verdade, a destruição dos dispositivos hi-fi não somente
contribui generosamente para o problema do lo-fi como cria uma
paisagem sonora sintética na qual os sons naturais estão se tornando
cada vez mais não-naturais, enquanto seus substitutos feitos a
máquina são os responsáveis pelos sinais operativos que dirigem a
vida moderna.

1. Ohne Kraftwagen, ohne Flugzeug und ohne Lautsprecher hätten


wir Deutschland icht erobert, Adolf Hitler, Manual of the German
Radio, 1938-1939.

2. Publicado como um pequeno livro sobre audição e educação


musical, A nova paisagem sonora foi, mais tarde, incorporada ao livro
O ouvido pensante (São Paulo: Editora UNESP, 1991/1996
begin_of_the_skype_highlighting 1991/1996 end_of_the
_skype_highlighting), do mesmo autor, como um de seus capítulos.
(N.T.)

Este texto é parte do capítulo A Revolução Elétrica do livro A Afinação


do Mundo (São Paulo: Editora Unesp, 1997, pp. 133-135), do músico
e estudioso R. Murray Schafer.