Você está na página 1de 18

2 TEORIA DA ELASTICIDADE

2.1 Considerações Gerais e Hipóteses Básicas


A teoria da elasticidade aplicada à mecânica estrutural busca descrever, por
meio de fundamentos matemáticos, como um corpo elástico se comporta sob a
ação de forças externas. Para a formulação da teoria, admite-se que o material
estudado é perfeitamente elástico. Esta propriedade é definida por S. P.
Timoshenko (1980), como a capacidade do material retomar completamente sua
forma ao cessar das forças externas.
Além da premissa da natureza elástica, será admitido neste trabalho que o
corpo é isótropo, ou seja, que suas propriedades elásticas não variam conforme
diferentes direções, e que sua matéria constituinte é homogênea com distribuição
contínua através de seu volume.
O conceito de continuidade afirma que o comportamento do material não
varia com as dimensões da porção analisada, ou seja, considera a matéria como
infinitamente divisivel. De um ponto de vista matemático, tratar um corpo como
um contínuo significa que as funções que descrevem suas forças internas,
deslocamentos, deformações, etc, serão funções contínuas do espaço e tempo.
Apesar dos materiais estruturais não satisfazerem completamente às
suposições acima, para os propósitos da engenharia é conveniente ignorar a
natureza molecular do material com suas consequentes descontinuidades e
variações em âmbito microscópico, e tratar o material como um meio contínuo.
No entanto, esta consideração só é válida desde que o volume infinitesimal do
corpo contenha um número suficiente de moléculas, de forma que a média de seus
efeitos sobre as propriedades do corpo não varie no tempo.

2.2 Análise de Tensões

2.2.1 Estado de Tensões em um ponto


O conceito de tensão, na mecânica estrutural, é definido como a intensidade
de forças distribuídas em uma dada área de um corpo sólido. Esta entidade física
permite relacionar as forças externas e internas de um corpo independentemente de
seu formato e dimensão.
As forças externas que atuam sobre uma estrutura física são as forças
exercidas por agentes exteriores e são definidas como de volume e superfície. As
forças de superfície são as forças que atuam sobre a superfície do material, como
por exemplo a ação do vento sobre uma estrutura, já as forças de volume são
distribuídas pelo volume do corpo, como por exemplo as forças gravitacionais.
As forças internas, por sua vez, são as forças exercidas por uma parte de um
corpo sobre outra parte deste mesmo corpo. Estas forças agem em superfícies
imaginárias delineadas no interior do material.
Com o objetivo de especificar a interação entre duas partes de um corpo, ou
seja, suas forças internas, é conveniente estudar o estado de tensão em um ponto do
material. Considera-se, então, um sólido em equilíbrio, indicado na Figura 2.1,
submetido à ação de forças externas. Passando um plano pelo ponto P do corpo,
divide-se o sólido entre as partes A e B. Para analisar a ação da parte B sobre a parte
A do corpo no ponto P, remove-se a parte B, substituindo a mesma por um sistema
de forças internas que restitui o equilíbrio da parte A, sendo 𝐹⃗ a força resultante do
sistema de forças que B exerce sobre A.

Figura 2.1 - Corpo sujeito a um sistema de forças equilíbrio (Fonte: AWRUCH,


2009).

Em ordem de definir a tensão no ponto P, considera-se uma área elementar


∆𝐴 que contém o ponto P. Sendo ∆𝐹⃗ a resultante de B sobre A nessa área, a tensão
média das forças internas em ∆𝐴 será ∆𝐹⃗/∆𝐴. A tensão no ponto P é dada
diminuindo a área ∆𝐴 e a força ∆𝐹⃗ indefinidamente, ou seja:
𝑑𝐹⃗ ∆𝐹⃗
𝜎⃗ = 𝑑𝐴 = lim (2.1)
∆𝐴→0 ∆𝐴

⃗⃗⃗⃗⃗)
Para obtenção das componentes normal (𝜎 𝑁 e tangencial (𝜏⃗) da tensão 𝜎
⃗,
basta decompor a resultante das forças internas ∆𝐹⃗ nas suas respectivas
componentes, as tensões são dadas de forma análoga à expressão (2.1).

⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗
𝑑𝐹 𝑁 ⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗
∆𝐹 𝑁
𝜎
⃗⃗⃗⃗⃗
𝑁 = = lim (2.2)
𝑑𝐴 ∆𝐴→0 ∆𝐴

⃗⃗⃗⃗⃗⃗
𝑑𝐹 𝑇 ⃗⃗⃗⃗⃗⃗
∆𝐹 𝑇
𝜏⃗ = = lim (2.3)
𝑑𝐴 ∆𝐴→0 ∆𝐴

Cabe ressaltar que as tensões definidas acima são aplicáveis somente ao


plano considerado. Um plano diferente passando por P terá uma distribuição
diferente de forças internas e, consequentemente, de tensões. Como um número
infinito de planos pode ser definido em um ponto, tem-se um infinito número de
vetores de tensões correspondentes a esses planos. L. S. Srinath (2009) define o
estado de tensões em um ponto como a totalidade de todos os vetores de tensão
agindo em todos os possíveis planos passando pelo ponto.
Será mostrado a seguir que o estado de tensões em um ponto do meio
contínuo pode ser determinado completamente se os vetores de tensão atuantes
em três planos mutuamente ortogonais são conhecidos. Isto ocorre, pois a partir
desses vetores é possível definir o vetor de tensão de qualquer outro plano
arbitrário ao ponto. As componentes de tensão, definidas a partir de três planos
mutuamente ortogonais, estão indicadas na Figura 2.2.
Figura 2.2 – Componentes de tensão em três planos mutuamente ortogonais
(Fonte: AWRUCH, 2009).

É utilizada a notação 𝜎𝑖𝑗 , onde o primeiro indice representa a direção da


normal ao plano atuante e o segundo indica a direção do próprio vetor da tensão.
Neste trabalho será utilizada a mesma convenção seguida por Awruch (2009), que
define a tensão como positiva quando atua no mesmo sentido do eixo coordenado
e em um plano cuja normal dirigida para fora também coincide com o eixo
coordenado, para as componentes normais, são consideradas positivas se de tração
e negativas se de compressão.

2.2.2 Componentes de Tensão em um plano arbitrário


Foi declarado na seção anterior que os vetores de tensão atuantes em três
planos mutuamente ortogonais permitem a determinação das componentes de
tensão atuantes em qualquer plano deste ponto. Para fundamentar tal afirmação,
passa-se um plano geral oblíquo ABC pelo ponto P, indicado na Figura 2.3, em
que a normal a este plano forma os ângulos 𝛼, 𝛽 e 𝛾 em relação ao eixos
coordenados (x, y, z). Seus cossenos diretores são, respectivamente, 𝑙1 = cos 𝛼,
𝑙2 = cos 𝛽 e 𝑙3 = cos 𝛾, e a partir da trigonometria espacial sabe-se que se a área
ABC = 𝛿𝐴, a área OBC = 𝛿𝐴 × 𝑙1, a área OAC = 𝛿𝐴 × 𝑙2 e, finalmente, a área
OBA = 𝛿𝐴 × 𝑙3 .
Figura 2.3 – Plano oblíquo passando por P (Fonte: AWRUCH, 2009).

Na Figura 2.4 estão indicadas as componentes de tensão atuantes nos


quatro planos do tetraedro. Sendo 𝜎𝑥𝑥 , 𝜎𝑥𝑦 e 𝜎𝑥𝑧 as componentes de tensão
atuantes no plano OBC, 𝜎𝑦𝑦 , 𝜎𝑦𝑥 e 𝜎𝑦𝑧 as componentes de tensão atuantes no
plano OAC, 𝜎𝑧𝑧 , 𝜎𝑧𝑥 e 𝜎𝑧𝑦 as componentes de tensão atuantes no plano OAB, e
por fim, 𝜎𝑛𝑥 , 𝜎𝑛𝑦 e 𝜎𝑛𝑧 as componentes de tensão atuantes no plano ABC.

Figura 2.4 – Componentes de tensão em um plano oblíquo


(Fonte: AWRUCH, 2009).
Fazendo equílibrio de forças na direção x tem-se

∑ 𝐹𝑥 = −𝜎𝑛𝑥 ∙ 𝛿𝐴 + 𝜎𝑥𝑥 ∙ 𝛿𝐴 ∙ 𝑙1 + 𝜎𝑦𝑥 ∙ 𝛿𝐴 ∙ 𝑙2 + 𝜎𝑧𝑥 ∙ 𝛿𝐴 ∙ 𝑙3 = 0 (2.4)

Dividindo-se a expressão (2.4) por 𝛿𝐴, tem-se

𝜎𝑛𝑥 = 𝜎𝑥𝑥 ∙ 𝑙1 + 𝜎𝑦𝑥 ∙ 𝑙2 + 𝜎𝑧𝑥 ∙ 𝑙3 (2.5)

De forma análoga, fazendo o equilíbro de forças nas direções y e z,


obtém-se, respectivamente, as expressões

𝜎𝑛𝑦 = 𝜎𝑥𝑦 ∙ 𝑙1 + 𝜎𝑦𝑦 ∙ 𝑙2 + 𝜎𝑧𝑦 ∙ 𝑙3 (2.6)

𝜎𝑛𝑧 = 𝜎𝑥𝑧 ∙ 𝑙1 + 𝜎𝑦𝑧 ∙ 𝑙2 + 𝜎𝑧𝑧 ∙ 𝑙3 (2.7)

Com o intuito de determinar as componentes normais e tangenciais da


tensão no plano inclinado, considera-se um sistema de eixos (x’, y’, z’) no ponto
P de tal forma que x’ coincida com o vetor normal n, conforme mostra a Figura
2.5. Os cossenos diretores formados pelos eixos x’, y’, z’ com os eixos
coordenados (x, y, z) são, respectivamente, 𝑙1, 𝑙2 , 𝑙3 , 𝑚1 , 𝑚2 , 𝑚3 , 𝑛1 , 𝑛2 e 𝑛3 .

Figura 2.5 – Componentes normais e tangenciais da tensão no plano inclinado


Fonte: (AWRUCH, 2009).
Fazendo a projeção das componentes 𝜎𝑛𝑥 , 𝜎𝑛𝑦 e 𝜎𝑛𝑧 sobre o eixo x’,
obtém-se

𝜎𝑥′𝑥′ = 𝜎𝑛𝑥 ∙ 𝑙1 + 𝜎𝑛𝑦 ∙ 𝑙2 + 𝜎𝑛𝑧 ∙ 𝑙3 (2.8)

Analogamente, para os eixos y’ e z’ tem-se

𝜎𝑥′𝑦′ = 𝜎𝑛𝑥 ∙ 𝑚1 + 𝜎𝑛𝑦 ∙ 𝑚2 + 𝜎𝑛𝑧 ∙ 𝑚3 (2.9)

𝜎𝑥′𝑧′ = 𝜎𝑛𝑥 ∙ 𝑛1 + 𝜎𝑛𝑦 ∙ 𝑛2 + 𝜎𝑛𝑧 ∙ 𝑛3 (2.10)

Finalmente, utilizando as expressões (2.5), (2.6) e (2.7), obtém-se

𝜎𝑥 ′ 𝑥 ′ = 𝜎𝑥𝑥 ∙ 𝑙12 + 𝜎𝑦𝑦 ∙ 𝑙22 + 𝜎𝑧𝑧 ∙ 𝑙32 + 2 ∙ 𝜎𝑥𝑦 ∙ 𝑙1 ∙ 𝑙2 + 2 ∙ 𝜎𝑦𝑧 ∙ 𝑙2 ∙ 𝑙3 +


+ 2 ∙ 𝜎𝑧𝑥 ∙ 𝑙3 ∙ 𝑙1 (2.11)

𝜎𝑥 ′ 𝑦 ′ = 𝜎𝑥𝑥 ∙ 𝑙1 ∙ 𝑚1 + 𝜎𝑦𝑦 ∙ 𝑙2 ∙ 𝑚2 + 𝜎𝑧𝑧 ∙ 𝑙3 ∙ 𝑚3 + 𝜎𝑥𝑦 ∙ (𝑙2 ∙ 𝑚1 + 𝑙1 ∙ 𝑚2 ) +


+ 𝜎𝑦𝑧 ∙ (𝑙3 ∙ 𝑚2 + 𝑙2 ∙ 𝑚3 ) + 𝜎𝑥𝑧 ∙ (𝑙3 ∙ 𝑚1 + 𝑙1 ∙ 𝑚3 ) (2.12)

𝜎𝑥 ′ 𝑧 ′ = 𝜎𝑥𝑥 ∙ 𝑙1 ∙ 𝑛1 + 𝜎𝑦𝑦 ∙ 𝑙2 ∙ 𝑛2 + 𝜎𝑧𝑧 ∙ 𝑙3 ∙ 𝑛3 + 𝜎𝑥𝑦 ∙ (𝑙2 ∙ 𝑛1 + 𝑙1 ∙ 𝑛2 ) +


+ 𝜎𝑦𝑧 ∙ (𝑙3 ∙ 𝑛2 + 𝑙2 ∙ 𝑛3 ) + 𝜎𝑥𝑧 ∙ (𝑙3 ∙ 𝑛1 + 𝑙1 ∙ 𝑛3 ) (2.13)

As expressões definidas acima mostram que é possível obter as


componentes de tensão normal e tangenciais de um plano arbitrário qualquer,
desde que sejam conhecidas os vetores de tensão de três planos mutuamente
ortogonais.

2.2.3 Equações de Equiílibrio


A partir do fato de que as tensões e as forças externas precisam obedecer
às condições de equilíbrio estáticas e dinâmicas, é possível estabeler algumas
relações no interior e no contorno de um corpo.
O equilíbrio estático de um corpo, ou parte dele, sob ação de um sistema
de forças, demanda que o somatório de forças, bem como o de momentos, seja
igual a zero.
As forças agindo no paralelepípedo elementar, indicado na Figura 2.6,
estão em equilíbrio de translação, e são dadas pela componente de tensão
multiplicadas pela área em que estão atuando. Admite-se a presença de forças de
volume b, cujas componentes nos eixos coordenados (x, y, z) são,
respectivamente, 𝑏𝑥 , 𝑏𝑦 e 𝑏𝑧 .

Figura 2.6 – Componentes de tensão em um paralelepípedo elementar


(Fonte: AWRUCH, 2009).

A condição de equilíbrio de forças na direção x leva à expressão

𝜕𝜎𝑥𝑥 𝜕𝜎𝑦𝑥 𝜕𝜎𝑧𝑥


𝑑𝑥 ∙ 𝑑𝑦𝑑𝑧 + 𝑑𝑦 ∙ 𝑑𝑧𝑑𝑥 + 𝑑𝑧 ∙ 𝑑𝑥𝑑𝑦 + 𝑏𝑥 ∙ 𝑑𝑥𝑑𝑦𝑑𝑧 = 0 (2.14)
𝜕𝑥 𝜕𝑥 𝜕𝑥

Dividindo-se toda a expressão por 𝑑𝑥𝑑𝑦𝑑𝑧, tem-se

𝜕𝜎𝑥𝑥 𝜕𝜎𝑦𝑥 𝜕𝜎𝑧𝑥


+ + + 𝑏𝑥 = 0 (2.15)
𝜕𝑥 𝜕𝑥 𝜕𝑥

Analogamente, fazendo o somatório de forças nas direções y e z, obtém-


se, respectivamente

𝜕𝜎𝑥𝑦 𝜕𝑦𝑦 𝜕𝜎𝑧𝑦


+ + + 𝑏𝑦 = 0 (2.16)
𝜕𝑥 𝜕𝑥 𝜕𝑥
𝜕𝜎𝑥𝑧 𝜕𝜎𝑦𝑧 𝜕𝜎𝑧𝑧
+ + + 𝑏𝑧 = 0 (2.17)
𝜕𝑥 𝜕𝑥 𝜕𝑥

As expressões dadas em (2.15), (2.16) e (2.17) são conhecidas como as


equações diferenciais de equilíbrio.
Para o equilibrio de rotação, a fim de simplificar o problema, considera-se
eixos paralelos ao sistema de referência passando pelo centro geométrico do
paralelepípedo elementar da Figura 2.6. Considerando o eixo x’, paralelo ao eixo
x, as únicas forças que geram momento em torno deste eixo são as resultantes das
tensões 𝜎𝑦𝑧 e 𝜎𝑧𝑦 .
Fazendo, então, o equlíbrio de momento em x’, tem-se

𝑑𝑦 𝑑𝑦
∑ 𝑀𝑋′ = 2 (𝜎𝑦𝑧 𝑑𝑥 𝑑𝑧 ) − 2 (𝜎𝑧𝑦 𝑑𝑥 𝑑𝑧 ) = 0 → 𝜎𝑦𝑧 = 𝜎𝑧𝑦 (2.18)
2 2

Analogamente, fazendo o equilíbrio de momentos em y’ e z’, obtem-se

𝜎𝑥𝑦 = 𝜎𝑦𝑥 (2.19)

𝜎𝑧𝑥 = 𝜎𝑥𝑧 (2.20)

As expressões (2.18), (2.19) e (2.20) representam a reciprocidade das


tensões de cisalhamento em superfícies perpendiculares de um corpo. Como os
eixos de referência considerados podem assumir qualquer orientação espacial,
pode-se definir a reciprocidade como:

“[…] considering two perpendicular facets, the components of the shearing


stresses which are perpendicular to the common edge of the two facets have
the same magnitude and either both point to that edge or both diverge from it.”
(SILVA, 2006, p.12)

2.2.4 Condições de contorno de tensões


As equações diferencias de equilíbrio precisam ser satisfeitas em todos os
pontos do corpo considerado. Como as compontentes de tensão variam ao longo
do volume do corpo, quando chega-se ao contorno do mesmo, é preciso que as
componentes de tensão estejam em equilíbrio com as forças externas atuantes.
As condições de equilíbrio de forças agindo em uma região infinitesinal
de ponto no contorno do corpo podem ser obtidas considerando o mesmo tetraedro
elementar da Figura 2.4, em que agora, a face inclinada está localizada no
contorno do corpo e consequentemente, forças de superfície agem nesta face.
Considerando que 𝑝𝑥 , 𝑝𝑦 e 𝑝𝑧 são as componentes das forças de superfície nas
direções dos eixos coordenados, e sabendo que a área ABC = 𝛿𝐴, a área OBC =
𝛿𝐴 × 𝑙1, a área OAC = 𝛿𝐴 × 𝑙2 e a área OBA = 𝛿𝐴 × 𝑙3 , faz-se o somatório de
forças na direção x, obtendo

∑ 𝐹𝑥 = 𝑝𝑥 ∙ 𝛿𝐴 − 𝜎𝑥𝑥 ∙ 𝛿𝐴 ∙ 𝑙1 + 𝜎𝑦𝑥 ∙ 𝛿𝐴 ∙ 𝑙2 + 𝜎𝑧𝑥 ∙ 𝛿𝐴 ∙ 𝑙3 = 0 (2.21)

Divindo toda a expressão por 𝛿𝐴, tem-se

𝑝𝑥 = 𝜎𝑥𝑥 ∙ 𝑙1 + 𝜎𝑦𝑥 ∙ 𝑙2 + 𝜎𝑧𝑥 ∙ 𝑙3 (2.22)

Analogamente, fazendo somatório de forças nas direções y e z, obtém-se,


respectivamente,

𝑝𝑦 = 𝜎𝑥𝑦 ∙ 𝑙1 + 𝜎𝑦𝑦 ∙ 𝑙2 + 𝜎𝑧𝑦 ∙ 𝑙3 (2.23)

𝑝𝑧 = 𝜎𝑥𝑧 ∙ 𝑙1 + 𝜎𝑦𝑧 ∙ 𝑙2 + 𝜎𝑧𝑧 ∙ 𝑙3 (2.24)

2.3 Análise de Deformações

2.3.1 Definições
Define-se deformação como o produto do deslocamento relativo entre
pontos de um corpo, ou seja, a mudança de forma do corpo, entre sua configuração
inicial e final, após a ação de um agente externo sobre ele. Na maioria dos casos,
a deformação é consequência das forças internas do material, mas pode-se citar
também deformações causadas por variação de temperatura, como por exemplo a
retração do concreto em seu processo de cura.
O interesse da análise de deformações está em determinar a variação de
distância entre dois pontos arbitrários do corpo, situados infinitamente próximos,
apenas a partir de informações sobre a posição dos mesmos nas configurações
original e após a aplicação da carga, sem preocupação com a causa da deformação
ou a lei segundo a qual o corpo resiste.
Cabe definir que existem dois tipos de deformação, a deformação
longitudinal, que ocorre ao longo de uma direção do corpo, e a deformação
angular, que ocorre em um plano do mesmo. A Figura 2.7 ilustra estes dois casos
simples de deformação no caso bidimensional, onde a forma original do corpo
está representada por linhas contínuas, e a deformada por linhas tracejadas.

Figura 2.7 – (a) Deformação linear na direção x (b) Deformação linear na


direção y (c) Deformação angular no plano xy (Fonte: SRINATH, 2009).

Pode-se definir a deformação específica longitudinal (𝜀) de um corpo


como a variação no comprimento pelo comprimento original. Então, a partir das
Figuras 2.7 (a) e 2.7 (b), tem-se

∆𝑢𝑥
𝜀𝑥 = (2.25)
∆𝑥

∆𝑢𝑦
𝜀𝑦 = (2.26)
∆𝑦
Já a deformação angular, denotada por 𝛾, é definida como a mudança no
ângulo reto inicial entre dois segmentos de linha originalmente paralelos aos eixos
ordenados. A partir da Figura 2.7 (c), pode-se observar que a mudança total no
ângulo é dada por 𝜃1 + 𝜃2 . Partindo do pressuposto que 𝜃1 e 𝜃2 são muito
pequenos, é possível afirmar que 𝜃1 e 𝜃2 em radianos são iguais, ou
aproximadamente iguais, a, respectivamente, tan 𝜃1 e tan 𝜃2 . Desta forma, sendo

∆𝑢𝑦
tan 𝜃1 = (2.27)
∆𝑥

∆𝑢𝑥
tan 𝜃2 = (2.28)
∆𝑦

Tem-se

∆𝑢𝑦 ∆𝑢𝑥
𝛾𝑥𝑦 = 𝜃1 + 𝜃2 = + (2.29)
∆𝑥 ∆𝑦

2.3.2 Estado de Deformações em um ponto


Com o propósito de definir completamente as deformações de um corpo,
extende-se as definições da seção anterior para o caso tridimensional, onde 𝜀𝑥𝑥 ,
𝜀𝑦𝑦 e 𝜀𝑧𝑧 simbolizam as deformações lineares específicas de um ponto nas
direções 𝑥, 𝑦 e 𝑧, e 𝛾𝑥𝑦 , 𝛾𝑦𝑧 e 𝛾𝑥𝑧 representam as deformações angulares no planos
𝑥𝑦, 𝑦𝑧 e 𝑥𝑧.
Analogamente ao estado de tensões, será mostrado a seguir que
conhecendo essas seis componentes de deformação se pode determinar a
deformação linear de um ponto em qualquer direção arbitrária, indepentemente de
seu formato ou da causa da mudança de forma. L. S. Srinath (2009) define o estado
de deformações em um ponto como a totalidade das deformações específicas em
todas as direções possíveis.
Para estabelecer matematicamente tais afirmações, compara-se as posições
de um ponto, dentro de um corpo sólido, antes e depois da deformação. É tomado
como referência o sistema cartesiano de eixos coordenados, como mostra a Figura
2.8.
Figura 2.8 – Deslocamento de um ponto P de um corpo sólido - antes e
depois da deformação (Fonte: SILVA, 2006).

A posição inicial do ponto P é descrita pelas coordenadas (𝑥, 𝑦, 𝑧) e o seu

deslocamento é definido pelo vetor ⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗


𝑃𝑃′ de posição (𝑢, 𝑣, 𝑤) Desta forma, a
posição do ponto P depois da deformação é dado por (𝑥 + 𝑢, 𝑦 + 𝑣, 𝑧 + 𝑤).
Considera-se, então, um linha reta de comprimento infinitesimal dx,
definida pelos pontos 𝑃0 (𝑥0 , 𝑦0 , 𝑧0 ) e 𝑃1 (𝑥0 + 𝑑𝑥, 𝑦0 , 𝑧0 ), a qual é paralela ao
eixo x na configuração indeformada do corpo. Após a deformação, como pode ser
observado na Figura 2.9, esses pontos irão ocupar as posições definidas por
𝑃′ 0 (𝑥0 + 𝑢0 , 𝑦0 + 𝑣0 , 𝑧0 + 𝑤0 ) e 𝑃′1 (𝑥0 + 𝑑𝑥 + 𝑢1 , 𝑦0 + 𝑣1 , 𝑧0 + 𝑤1 ), onde
(𝑢0 , 𝑣0 , 𝑤0 ) representa o deslocamento de 𝑃0 e (𝑢1 , 𝑣1 , 𝑤1 ) representa o
deslocamento de 𝑃1 . Sabe-se, também, que 𝑢1 = 𝑢0 + 𝑑𝑢, 𝑣1 = 𝑣0 + 𝑑𝑣 𝑒 𝑤1 =
𝑤0 + 𝑑𝑤.
Figura 2.9 – Concepção da deformação longitudinal (Fonte: SILVA,
2006).

Como 𝑃1 e 𝑃0 , na configuração indeformada, estão somente a uma


distância 𝑑𝑥 um do outro, em outras palavras, somente a coordenada 𝑥 sofre um
incremento infinitesimal, por aproximação de primeira ordem por série de Taylor,
tem-se

𝜕𝑢
𝑑𝑢 = 𝜕𝑥 𝑑𝑥 (2.30)

𝜕𝑣
𝑑𝑣 = 𝜕𝑥 𝑑𝑥 (2.31)

𝜕𝑤
𝑑𝑤 = 𝑑𝑥 (2.32)
𝜕𝑥

𝑃0 𝑃1 no segmento ̅̅̅̅̅̅̅̅
A deformação transforma o segmento de linha ̅̅̅̅̅̅ 𝑃′0 𝑃′1 ,
o qual sofre um alongamento e deixa de ser paralelo ao eixo 𝑥, a projeção de
̅̅̅̅̅̅̅̅
𝑃′0 𝑃′1 nas direções dos eixos ordenados são, então

𝜕𝑢 𝜕𝑢
(𝑥0 + 𝑑𝑥 + 𝑢0 + 𝜕𝑥 𝑑𝑥) − (𝑥0 + 𝑢0 ) = (1 + 𝜕𝑥 ) 𝑑𝑥 (2.33)

𝜕𝑣 𝜕𝑣
(𝑦0 + 𝑣0 + 𝜕𝑥 𝑑𝑥) − (𝑦0 + 𝑣0 ) = 𝜕𝑥 𝑑𝑥 (2.34)
𝜕𝑤 𝜕𝑤
(𝑧0 + 𝑤0 + 𝑑𝑥) − (𝑧0 + 𝑤0 ) = 𝑑𝑥 (2.35)
𝜕𝑥 𝜕𝑥

Defininindo a deformação longitudinal como o alongamento por unidade


de comprimento, para a direção 𝑥, tem-se

̅̅̅̅̅̅̅̅̅
𝑃′0 𝑃′1 −𝑃 ̅̅̅̅̅̅̅
0 𝑃1
𝜀𝑥𝑥 = ̅̅̅̅̅̅̅
→ ̅̅̅̅̅̅̅̅
𝑃′0 𝑃′1 = (1 + 𝜀𝑥𝑥 ) 𝑑𝑥 (2.36)
𝑃0 𝑃1

A partir do teorema de Pitágoras, o comprimento ̅̅̅̅̅̅̅̅


𝑃′0 𝑃′1 pode ser
determinado utilizando as projeções nos eixos coordenados, obtidas em (2.33),
(2.34) e (2.35), logo obtém-se que

2 𝜕𝑢 𝜕𝑣 𝜕𝑤 2 2 2
̅̅̅̅̅̅̅̅
(𝑃′ 2 2
0 𝑃′1 ) = (1 + 𝜀𝑥𝑥 ) 𝑑𝑥 = [(1 + 𝜕𝑥 ) + (𝜕𝑥) + ( 𝜕𝑥 ) ] 𝑑𝑥
2
(2.37)

Logo,

𝜀𝑥𝑥 2 𝜕𝑢 1 𝜕𝑢 2 𝜕𝑣 2 𝜕𝑤 2
𝜀𝑥𝑥 + = 𝜕𝑥 + 2 [(𝜕𝑥 ) + (𝜕𝑥) + ( 𝜕𝑥 ) ] (2.38)
2

De forma similar, pode-se obter as expressões para deformação


longitudinal nas direções 𝑦 e 𝑧, dando origem as seguintes expressões

𝜀𝑦𝑦 2 𝜕𝑣 1 𝜕𝑢 2 𝜕𝑣 2 𝜕𝑤 2
𝜀𝑦𝑦 + = 𝜕𝑦 + 2 [(𝜕𝑦) + (𝜕𝑦) + ( 𝜕𝑦 ) ] (2.39)
2

𝜀𝑧𝑧 2 𝜕𝑤 1 𝜕𝑢 2 𝜕𝑣 2 𝜕𝑤 2
𝜀𝑧𝑧 + = + 2 [( 𝜕𝑧 ) + (𝜕𝑧 ) + ( 𝜕𝑧 ) ] (2.40)
2 𝜕𝑧

Com o intuito de se determinar as componentes das deformações


angulares, considera-se duas linhas retas de comprimento infinitesimal, 𝑑𝑥 e 𝑑𝑦,
que na situação indeformada são paralelas aos eixos ordenados 𝑥 e 𝑦 e são
definidas pelos pontos 𝑃0 , 𝑃1 e 𝑃2 , como mostra a Figura 2.10.
Figura 2.10 – Concepção da deformação angular (Fonte: SILVA, 2006).

Após a deformação, as retas ̅̅̅̅̅̅ 𝑃0 𝑃2 se tornam ̅̅̅̅̅̅̅̅


𝑃0 𝑃1 e ̅̅̅̅̅̅ 𝑃′0 𝑃′1 e ̅̅̅̅̅̅̅̅
𝑃′0 𝑃′2 ,
respectivamente. Seguindo o mesmo raciocínio utilizado para definir as
expressões (2.33), (2.34) e (2.35), a projeção de ̅̅̅̅̅̅̅̅
𝑃′0 𝑃′1 nas direções dos eixos
ordenados são

𝜕𝑢
(1 + 𝜕𝑥 ) 𝑑𝑥 (2.41)

𝜕𝑣
𝑑𝑥 (2.42)
𝜕𝑥

𝜕𝑤
𝑑𝑥 (2.43)
𝜕𝑥

E para ̅̅̅̅̅̅̅̅
𝑃′0 𝑃′2 , tem-se

𝜕𝑢
𝑑𝑦 (2.44)
𝜕𝑦

𝜕𝑣
(1 + 𝜕𝑦) 𝑑𝑦 (2.45)
𝜕𝑤
𝑑𝑦 (2.46)
𝜕𝑦

Como foi salientado anteriormente, o interesse da deformação angular se


dá na determinação da mudança de ângulo reto inicial entre dois segmentos de
𝜋
linha, demonstrado na Figura 2.10 como − 𝜃𝑥𝑦 . Para se determinar o ângulo
2

𝜃𝑥𝑦 , utiliza-se do produto escalar dos vetores ⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗


𝑃′0 𝑃′1 e ⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗⃗
𝑃′0 𝑃′2 , sabendo, com base
na definição de deformação longitudinal dada pela expressão (2.36), que o
comprimento das retas ̅̅̅̅̅̅̅̅
𝑃′0 𝑃′1 e ̅̅̅̅̅̅̅̅
𝑃′0 𝑃′2 são, respectivamente, (1 + 𝜀𝑥𝑥 ) 𝑑𝑥 e
(1 + 𝜀𝑦𝑦 ) 𝑑𝑦, obtém-se

𝜋 𝜕𝑢 𝜕𝑢
(1 + 𝜀𝑥𝑥 ) 𝑑𝑥 ∙ (1 + 𝜀𝑦𝑦 ) 𝑑𝑦 ∙ cos ( − 𝜃𝑥𝑦 ) = (1 + ) 𝑑𝑥 ∙ 𝑑𝑦
2 𝜕𝑥 𝜕𝑦
2.4 Lei Constitutiva
Componentes de tensões e de deformações. Lei de Hooke.

2.5 Teoremas de Energia


Princípio de Saint-Venant. Energia de deformação. Trabalho interno e
trabalho complementar de deformação. Energia potencial total mínima. Energia
potencial complementar mínima.