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Relações Internacionais

da América Latina
Velhos e novos paradigmas

Amado Luiz Cervo

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS
DA AMÉRICA LATINA
VELHOS E NOVOS PARADIGMAS
Diretoria José Flávio Sombra Saraiva (diretor-geral)
Antônio Carlos Lessa
Antônio Jorge Ramalho da Rocha
Luiz Fernando Ligiéro

COLEÇÃO RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Conselho Editorial Estevão Chaves de Rezende Martins (presidente)


Amado Luiz Cervo
Andrew Hurrel
Antônio Augusto Cançado Trindade
Antônio Carlos Lessa
DenisRolland
Gladys Lechini
Hélio Jaguaribe
José Flávio Sombra Saraiva
Paulo Fagundes Vizentini
Thomas Skidmore
Coleção Relações Internacionais

RELAÇÕES INTERNACIONAIS
DA AMÉRICA LATINA
VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

AMADO LUIZ CERVO


AMADO LUIZ CERVO

R382

Relações internacionais da América Latina: velhos


e novos paradigmas / Amado Luiz Cervo.
Brasília: IBRI, 2001.
320 p. ; 23 cm. — (Relações internacionais ; 4)

ISBN 85-88270-05-6 (broch.)

1. Relações internacionais. I. Cervo, Amado Luiz.


II. Instituto Brasileiro de Relações Internacionais. III. Título.

CDD-327.11

Direitos desta edição reservados ao

Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI)


Universidade de Brasília
Caixa postal 4400
70919-970 – Brasília, DF
Telefax (61) 307 1655

ibri@unb.br
Site: www.ibri-rbpi.org.br

Impresso no Brasil 2001

Efetuado o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional


conforme Decreto nº 1.825, de 20.12.1907

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Sumário

Prefácio
Um continente em desenvolvimento............................................. 9

Apresentação .............................................................................. 13

Introdução ................................................................................. 17

Primeira parte
O ciclo dadiplomaciado desenvolvimento na América Latina

1. Abandono do paradigma liberal-conservador e esboço


do Estado desenvolvimentista (1930-1947)............................ 23
1.1. A América Latina ao tempo da depressão capitalista
e da Segunda Guerra Mundial......................................... 23
1.2. Rumo a novo paradigma de relações internacionais
da América Latina .......................................................... 52

2. Relações regionais e mundiais e da América Latina durante a


depressão capitalista e a Segunda Guerra Mundial ................... 63
2.1. Políticas exteriores e relações regionais............................. 63
2.2. O enquadramento latino-americano na ordem bipolar .... 81

3. Apogeu do Estado desenvolvimentista, cooperação


internacional e Guerra Fria 1947-1979 ................................... 97
3.1. Uma teoria latino-americana do Estado
desenvolvimentista ......................................................... 97
3.2. Ainserção internacional da América Latina entre a
Guerra Fria e a cooperação............................................ 112

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AMADO LUIZ CERVO

Segunda parte
Argentina, Brasil e Venezuela

4. Adinâmica atlântica entre 1947 e 1959................................ 147


4.1. O sul do continente à época do peronismo ................... 147
4.2. Um balanço das relações interamericanas nos meados
dos anos 50, à época de Perón, Vargas e Pérez Jiménez .. 179
a) Estados Unidos ....................................................... 180
b) México, América Central e Caribe ........................... 182
c) Norte do continente sul-americano........................... 184
d) Cone Sul................................................................ 189
4.3. A ascensão de Stroessnere o triângulo
Argentina-Paraguai-Brasil.............................................. 197
4.4. O norte da América do Sul à época de Pérez Jiménez.... 203

5. A dinâmica do ângulo atlântico entre 1960 e 1979 ............... 211


5.1. Os primórdios da integração física na década de 1960 ... 211
5.1.1. O Cone Sul: da diplomacia da obstruçãoà
cooperação regional .............................................. 211
5.1.2. O norte da América do Sul: o isolacionismo
venezuelano ....................................................... 229
5.2. Relações regionais em compasso de espera na década
de 1970 ....................................................................... 236
5.2.1. O sul do continente latino-americano: as águas
e a geopolítica. .................................................... 236
5.2.2. O norte da América do Sul: a força do petróleo ..... 247

6. A construção de eixos bilaterais ............................................ 257


6.1. Novos equilíbrios às margens do Atlântico sul
(1980-1986) ................................................................ 257
6.2. O eixo Brasil-Venezuela................................................ 260
6.3. O eixo Brasil-Argentina................................................ 269

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Terceira parte
O ciclo da diplomacia neoliberal

7. Sob o signo neoliberal: as relações internacionais da América


Latina na virada do século .................................................... 279
7.1. A transição do Estado desenvolvimentista para o
Estado normal.............................................................. 280
7.2. Orientações externas dos regimes neoliberais ................. 284
7.3. Balanço das relações internacionais do Estado normal
e primeiras reações........................................................ 297

Siglas........................................................................................ 303

Bibliografia .............................................................................. 305

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AMADO LUIZ CERVO

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Prefácio

Um continente em desenvolvimento

Este livro do historiador Amado Luiz Cervo, professor da


Universidade de Brasília, amplia o escopo dos seus estudos de relações
internacionais. AHistória da política exterior do Brasil, lançada em 1992
em parceria com Clodoaldo Bueno, ainda permanece seu trabalho de
referência mais conhecido. Além de outros livros que organizou ou
dos quais participou como colaborador, Cervo publicou duas obras
com enfoque bilateral: As relações históricas entre o Brasil e a Itália – O
papel da diplomacia (1992) e Depois das Caravelas – As relações entre
Portugal e Brasil, 1808-2000 (2000), este último em parceria com o
historiador português José Calvet de Magalhães. Ademais, juntamente
com o professor Mario Rapoport, da Universidade de Buenos Aires,
coordenou um estudo coletivo e transnacional, publicado em 1998
com o título História do Cone Sul.
As relações internacionais da América Latina: velhos e novos
paradigmas, o novo estudo individual do autor, envolve os países latino-
americanosde 1930 a nossos dias. Atese de Cervo, ou seja, o argumento
central de sua interpretação orgânica da história, é a existência de um
destino comum que perseguiram esses países desde os anos da depressão
capitalista. De fato, uma vez configurados os espaços nacionais, os
governos da região orientaram sua ação interna e externa para a meta
do desenvolvimento. O paradigma desenvolvimentista, a invenção
política latino-americana, foi esboçado e posto em marcha pelos
homens de Estado antes de haver sido teorizado pelos economistas da
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Em
sua gênese, o paradigma expressou a aspiração desses povos,
inconformados com a condição de infância social em que eram
mantidos desde o início do século XIX.
A fase desenvolvimentista das políticas exteriores dos países
latino-americanos conferiu, pois, nova funcionalidade à diplomacia.

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AMADO LUIZ CERVO

Seu movimento, cujo impulso brotava da vontade soberana dos


Estados, era embalado pela esperança de produzir condições favoráveis
e de trazer fatores concretos de progresso e melhoria das condições de
vida para as nações.
O desafio que os países da América Latina tiveram pela frente
foi o de administrar esse destino comum. Dividida em múltiplos
Estados, a região lidava com os nacionalismos, propensos a alimentar
ambições desmesuradas de presença exclusiva ou de influência
preponderante nas vizinhanças. A diplomacia da obstrução fez sucesso
em alguns casos, convivendo ou precedendo a da cooperação e da
integração. Destino comum nem sempre significou concerto político
e ação coordenada.
A administração do destino comum enfrentou, por outro lado,
as contingências da hegemonia norte-americana sobre a região. Findo
o período da Segunda Guerra Mundial, em que a América Latina extraiu
ganhos concretos da relação com os Estados Unidos, a fase posterior
desalinhou as estratégias externas. Até o término da Guerra Fria, o
objetivo primeiro da diplomacia norte-americana era o combate ao
comunismo e não o desenvolvimento politicamente induzido como
queriam os outros governos. Na América Latina, em geral, mesmo
em períodos de regime militar, a Guerra Fria foi muitas vezes tomada
como uma invenção externa à qual convinha dispensar baixa prioridade
nos desígnios nacionais. A menos que pudesse ser utilizada para trazer
a potência hegemônica aos fins do desenvolvimento.
Segundo o autor, foram precisamente essas distintas visões de
mundo e a falta de convergência das políticas exteriores dos países latinos
com relação aos Estados Unidos que reforçaram o sentimento de um
destino comum a ser realizado mediante ação coletiva coordenada.
Perón, Vargas, Pérez Jiménez, Kubitschek e Frondizi entenderam muito
cedo que a América Latina deveria falar de uma só voz se quisesse
exercer com proveito algum controle sobre a inelutável dependência
diante dos Estados Unidos.
Esse patamar de evolução das relações interlatino-americanas
foi alcançado apenas na década de 1980. Sua face coletiva concretizou

10
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

se nos chamados consensos diplomáticos que então se estabeleciam. Em


termos operacionais, contudo, foi mais importante o caminho que se
abriu para construção de eixos bilaterais: entre Brasil e Argentina, Brasil
e Venezuela, Venezuela e Colômbia. As malogradas iniciativas de
integração política, comercial e econômica, como o ABC, a Operação
Pan-Americana e a Alalc, foram substituídas por processos realistas,
flexíveis e operacionais. Mecanismos inexistentes ou pouco ativos
ganharam relevância, e ocuparam espaços importantes: o Grupo do
Rio e as questões da democracia; o Mercosul e a integração regional; as
negociações do Mercosul com a Comunidade Andina, na Alca e com
a União Européia; e assim por diante. Com Sarney e Alfonsín foi
possível acelerar o processo de integração Brasil-Argentina, que
consagrou quatro princípios basilares para o continente sul-americano:
(1) o de que a integração depende essencialmente do interesse dos agentes
econômicos, ao qual se soma a vontade política dos Governos; (2) o
de que a integração deve partir necessariamente de correntes de comércio
já existentes e com um certo grau de abrangência e complexidade;
(3) o de que a integração deve ir além da liberalização comercial, para
alcançar a área da produção; e (4) o de que a integração continental se
fará a partir da escala sub-regional, como um somatório de iniciativas
semelhantes à empreendida pelo Brasil e Argentina, ao amparo, porém
indo mais além, dos esquemas previstos na Aladi. O Mercosul, o mais
bem concebido de todos os mecanismos de integração, alavancou a
idéia de América do Sul, região de convergência política e de integração
econômica em substituição à América Latina, desde que o México
orientou-se para o norte.
O livro de Amado Luiz Cervo revela as origens e a evolução
das tendências históricas que condicionaram as relações regionais. Chega
ao presente, em que se colocam os dilemas da inserção no mundo da
interdependência global. Sua análise paradigmática vem carregada de
esforço teórico de interpretação do processo histórico, que manipula e
organiza significativo estoque de dados empíricos.
Os leitores dispõem de um manual básico sobre as relações
internacionais da América Latina, fundamentado em extensa pesquisa

11
AMADO LUIZ CERVO

documental nas chancelarias da região, especialmente no Itamaraty. O


livro de Cervo é de leitura acessível para iniciados nos estudos de relações
internacionais e útil para profissionais que requeiram tal conhecimento
no desempenho de suas funções.

Luiz Felipe de Seixas Corrêa


Secretário-Geral do Ministério das Relações Exteriores
Brasília, setembro de 2001

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Apresentação

Este livro faz parte da coleção Relações Internacionais, organizada


academicamente pelo Instituto Brasileiro de Relações Interncionais
(IBRI), com o apoio da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), sob
o alto patrocínio da Petrobras. A coleção, constituída de dez títulos a
serem lançados, gradualmente, até 2002, objetiva a formação das novas
gerações brasileiras na área, mas também atende à demanda crescente
da opinião pública nacional interessada nas novas conformações
internacionais e ávida por conhecer, de forma sistemática e organizada,
os grandes temas que envolvem a construção de um novo ordenamento
internacional na passagem para o novo milênio.
Os estudos acerca das relações internacionais têm merecido
atenção especial por parte dos grandes editores, não apenas nos centros
culturais de tradição na área, como Paris, Londres ou Nova Iorque.
Lançamentos de novos títulos e reedições de obras clássicas animam a
vida intelectual e política das universidades e editoras em muitas partes
do mundo. Livreiros de países latino-americanos, europeus e asiáticos
exibem ao público leitor ampla escolha de novos títulos dedicados aos
desdobramentos mais recentes da vida internacional. Estudos de caso,
investigações teóricas e extensas sínteses históricas são cada vez mais
consumidos por numerosas pessoas, ávidas pela compreensão do
mundo.
A internacionalização das sociedades, a ampliação dos mercados,
o impacto dos processos de integração regional e a economia política
da globalização são alguns dos fenômenos que despertam atenção
crescente. Mas há razões adicionais, como a crise de identidade das
nações acentuada pela realidade pós-bipolar e a fragmentação teórica
da ciência política ligada aos estudos dos fenômenos internacionais,
para explicar a animação editorial que se observa em torno do estudo
das relações internacionais.
O interesse dos leitores brasileiros tem esbarrado, no entanto,
em uma limitada reflexão própria acerca das relações internacionais.

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AMADO LUIZ CERVO

Preferiu-se traduzir novos manuais e adotar teorias da moda a enfrentar


o desafio da compreensão e da explicação a partir de circunstâncias
vividas. Foi-se buscar nos outros, equivocadamente, as razões das
próprias vicissitudes. Confundiu-se, algumas vezes, teoria com
ideologia. Absorveu-se e divulgou-se nas salas de aula grande quantidade
de textos de qualidade discutível. Produzidos com o objetivo precípuo
de doutrinar os desavisados, levando-os a crer que as relações entre os
povos, Estados e culturas chegou a seu ápice com a liberalização dos
mercados e com a economia política da globalização, esses textos não
realizam o desafio intelectual de desvendar as entranhas das relações
internacionais contemporâneas.
As contingências do Brasil exigiam, assim, uma coleção
concebida por estudiosos comprometidos com a renovação do
conhecimento a partir de uma perspectiva própria acerca das relações
internacionais, como aliás se procede em toda parte. No entanto, por
mais objetiva que se pretenda que ela seja, todo esforço nessa área de
reflexão está condicionado por motivações, informação, formação e
legado cultural.
Por conseguinte, a coleção Relações Internacionais vem suprir
uma grande lacuna. Preocupado com a percepção inédita, por parte da
sociedade brasileira, dos constrangimentos internacionais que impõem
ajustes de ordens diversas à formulação e implementação das políticas
públicas, do ponto de vista econômico, social e de segurança, o Instituto
Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI) resolveu utilizar sua
condição de instituição decana nos estudos internacionalistas no Brasil
para, com seus parceiros, abrir a avenida da reflexão comprometida
com um olhar nacional sobre os grandes fenômenos da vida
internacional que envolvem a sociedade brasileira.
Estratégia comum alinha autores e livros. Em primeiro lugar,
eles pretendem contribuir para a formação da crescente mão-de-obra
brasileira interesada em compreender os desafios internacionais e traduzi-
los adequadamente para os atores sociais com interesses cuja realização
sofrem impactos diretos ou indiretos do meio internacional. Em
segundo lugar, os autores observam, com apreensão, o crescimento
exponenecial da comunidade brasileira de estudantes dos cursos de

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

graduação em Relações Internacionais a partir da década de 1990 e,


como conseqüência, da necessidade de prover base sólida para o
desenvolvimento dessas novas formações. Em terceiro lugar, preocupa
a cada um dos autores da coleção o plano secundário a que a tarefa de
produção de livros paradidáticos foi relegada, no Brasil, diante do rápido
surgimento de um público consumidor, ávido por boa bibliografia
que cumpra os requisitos formais de apresentação do conteúdo mínimo
preconizado pela Comissão de Especialistas de Ensino de Relações
Internacionais do Ministério da Educação.

José Flávio Sombra Saraiva


Organizador da Coleção Relações Internacionais
Brasília, outubro de 2001

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AMADO LUIZ CERVO

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Introdução

Este livro tem por objeto de estudo o ciclo da diplomacia para o


desenvolvimento que constituiu o paradigma de política exterior da
maior parte dos Estados latino-americanos, entre 1930 e 1986, mas
avança na análise das tendências do ciclo neoliberal posterior. A crise
de 1929 e a depressão capitalista dos anos 30 levantaram a questão do
paradigma de relações internacionais vigente na América Latina, cujas
origens situavam-se no período de independência, no início do século
XIX, e cujos parâmetros não serviam mais aos interesses da região.
Desde 1986, quando o presidente brasileiro José Sarney dispunha de
condições políticas para implementar processos de integração, seja ao
norte, com a Venezuela, seja ao sul, com a Argentina – embora somente
este tenha vingado – a filosofia do Estado desenvolvimentista, que
ainda presidira tais impulsos, pôr-se-ia à deriva. Encerrava-se, para a
América Latina um ciclo de relações internacionais e abria-se outro.
Decorridos mais de dez anos da mudança, ao iniciar-se o terceiro
milênio, convém proceder a uma avaliação do paradigma
desenvolvimentista e dos resultados que engendrou em cerca de sessenta
anos de história. Por um lado, porque a irrupção do neoliberalismo no
pensamento político e econômico levou alguns analistas à condenação
acrítica da fase anterior e à apologia da nova ordem internacional que
se convencionou chamar de globalização; por outro, porque parece
necessário perguntar se a mudança de paradigma de inserção
internacional trouxe benefícios sistêmicos para a região, na linha de
superação do atraso histórico com relação ao Primeiro Mundo; enfim,
porque a lógica do desenvolvimento parecia sugerir, no momento da
mudança e como hipótese operacional para a América Latina, não o
desmonte do núcleo central robusto das economias nacionais e sua
alienação, mas a transformação do Estado interventor, considerado
obsoleto no mundo globalizado, naquele tipo de Estado logístico que
se verifica como padrão de conduta dos governos nas economias
centrais.

17
AMADO LUIZ CERVO

Se alguma base sólida de convergência existiu entre os anos 30


e o fim dos anos 80 na América Latina foi, sem dúvida, a formulação
de projetos nacionais de desenvolvimento. Sua viabilidade dependia,
contudo, das condições em que se assentassem as relações políticas e
econômicas entre os Estados da região. Rivalidades, ambições nacionais
desmesuradas, conflitos isolados, ciúmes e imagens do outro
propositalmente distorcidas agiram como fatores nocivos para a
harmonização das políticas exteriores. Mas aquela base de união sugeria
visões de mundo sintonizadas, bem como iniciativas de cooperação e
integração regional. O equilíbrio ou desequilíbrio desses dois conjuntos
de fatores, com a prevalência seja de forças antagônicas que brotavam
de dentro das nações e dos nacionalismos, seja de ação concertada pela
comunhão de interesses, animou a vida internacional dos países latino-
americanos. Este estudo pretende desvendar o jogo das relações regionais
e internacionais nesse período, dando ênfase à conduta dos três grandes
Estados localizados às margens do Atlântico sul.
Este livro tem, portanto, como objetivo aprofundar o estudo
de um ciclo histórico e introduzir o estudo de outro ciclo. Na primeira
parte, tenta estabelecer a gênese e a evolução da teoria desenvolvimentista
latino-americana; na segunda, examina o comportamento externo dos
três países atlânticos durante o período em que aquela filosofia política
informou o processo decisório em matéria de relações exteriores; na
terceira, empreende, a título de conclusão, uma análise do paradigma
neoliberal de relações internacionais e de seus primeiros impactos sobre
as condições internas da América Latina.
O conhecimento exposto neste livro resultou da confrontação
metódica de conceitos com a base empírica de informação, em
constante diálogo entre a teoria e a história das relações internacionais.
O texto privilegiou, contudo, para a construção e a crítica do
argumento central e dos conceitos, a documentação diplomática do
acervo do Arquivo Histórico do Itamaraty, suficientemente rica para
abarcar a complexidade das relações interamericanas sob seus diversos
aspectos. Essa base de informação quase exclusiva, se impôs limites à
análise, conferiu-lhe a originalidade que a diferencia de outros estudos.

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Durante o período desenvolvimentista, o Estado brasileiro


demonstrou maior coerência entre as macropolíticas internas e as
diretrizes externas, o argentino maior instabilidade ao longo do tempo
e o venezuelano menor determinação. Essas distintas experiências
condicionavam as iniciativas dos governos no âmbito bilateral e
compeliam-nos a ver o espaço regional sob o prisma dos objetivos
estratégicos nacionais. Particular interesse será, portanto, dedicado ao
estudo dos entraves psicológicos, culturais e políticos; à cooperação
econômica entre as sociedades, por um lado e, por outro, ao estudo
dos fatores que uniram os três Estados atlânticos, em 1986, quando o
ciclo definhava, na vontade de engendrar moderno processo de
integração. Enfim, o estudo levanta a questão da integração latino-
americana de vertente sulina, que deixa de lado o grande potencial
posto à consideração dos tomadores de decisão pela Venezuela no
conjunto dos países da América do Sul.
As experiências neoliberais empreendidas pelos países da
América Latina ao termo do ciclo desenvolvimentista serão
interpretadas à luz da literatura especializada. Uma extensa bibliografia
anexa ao texto encaminha o leitor para o aprofundamento do estudo
das relações internacionais da região, entre 1930 e nossos dias.

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Primeira parte

O ciclo da diplomacia do
desenvolvimento na América Latina
AMADO LUIZ CERVO

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

1. Abandono do paradigma liberal-conservador


e esboço do Estado desenvolvimentista
(1930-1947)

1.1. A América Latina ao tempo da depressão capitalista


e da Segunda Guerra Mundial

A crise da economia capitalista desencadeada em 1929


provocou sobre a América Latina efeitos similares àqueles ressentidos
por outros mercados, como a diminuição, em 1932, para um quarto
de sua capacidade de importação. Os impostos de exportação, que
alimentavam o tesouro dos Estados, converteram-se em impostos de
importação, mesmo porque a industrialização já vinha sendo promovida
de longa data, embora a ritmo lento e sem continuidade1. Entretanto,
o que nos países capitalistas avançados configurou-se como fechamento
dos mercados e reforço do protecionismo, na América latina tomou o
rumo de um processo de modernização econômica, procurada com
determinação crescente por grupos dirigentes, que agregaram à
diplomacia o senso de conflito de interesses nas relações internacionais.
Até então, os Estados na América Latina serviam exclusivamente a
interesses dos grupos sociais hegemônicos – plantadores e exportadores
de produtos agrícolas ou produtores e exportadores de minerais –
deixando satisfeitas aquelas elites que se haviam apropriado do aparato
público. Importando os manufaturados, em um modelo de mercado
aberto, estes Estados contentavam, por outro lado, os interesses dos
países centrais exportadores de produtos da indústria moderna. O
entendimento entre elites sociais latino-americanas e países avançados
do capitalismo não era, contudo, um conluio de beneficiados para
manter estruturas de dominação aqui e lá, porém uma imposição que
se explica pela compulsão das estruturas hegemônicas do poder

1García, Rigoberto et al. Economia y geografia del desarollo en América Latina. México:
Fondo de Cultura, 1987.

23
AMADO LUIZ CERVO

internacional. Adependência sempre foi objeto de críticas e insatisfações


por parte das elites latino-americanas, que lutavam por seus próprios
interesses contrariados, por exemplo, pelo colonialismo europeu epelo
protecionismo dos países centrais. Ademais, alguns dirigentes da região,
mais esclarecidos, sempre sonharam com o desenvolvimento moderno,
a exemplo do que observavam nos Estados Unidos.
Nos anos 30, contudo, novas demandas sociais eram perceptíveis
na América Latina, provenientes do crescimento da população urbana,
de uma burguesia nacional ávida por negócios e das forças armadas
que viam a segurança e a defesa em estado precário. A crise do
capitalismo e a redução das exportações primárias da América Latina
não foram a determinação principal, mas contribuíram para o reajuste
das estruturas de poder2. Mediante eleições, revoluções ou golpes de
Estado, os velhos donos do poder e da ordem conservadora cederam
espaço para dirigentes com visão mais ajustada às necessidades sociais e
ao desenvolvimento econômico. O estudo deve buscar explicações para
a nova inserção internacional da América Latina não nos Estados,
agentes inertes desde a época da independência, mas nas idéias, lutas e
propósitos das novas elites. Elas encarnavam então novos interesses sociais
e a esses novos interesses haveriam de voltar-se os Estados nacionais.
O regime unilateral de portas abertas e o laissez-faire que vinham
do século XIX cederam, pois, a novos projetos nacionais que
modificaram as políticas exteriores dos países latino-americanos. Não
apenas políticas exteriores defensivas, mas condutas ousadas e
autocompensatórias que sacrificavam o político ao econômico eram
ensaiadas em toda parte, em uma demonstração de que, finalmente,
os latino-americanos assimilavam um pouco do egoísmo dos grandes3.
A disputa pelo mercado latino-americano por parte de
europeus, norte-americanos, japoneses e soviéticos, como a penetração
de seus empreendimentos, passaram a ser percebidas como fenômenos
a dominar com vistas à superação de desequilíbrios estruturais dos

2 Moniz Bandeira, Luís Alberto. De Martí a Fidel; a Revolução Cubana e a América Latina.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. p.22.
3 Paradiso, José. Debates y trajectoria dela política exterior argentina; orden, progresoy organización
nacional. Buenos Aires: Planeta, 1997. p. 81-95.

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

intercâmbios econômicos. A divisão do mundo em blocos antagônicos,


que precedeu a deflagração da Segunda Guerra Mundial, propiciou à
América Latina um acréscimo de poder de negociação, do qual alguns
países souberam tirar proveito. A adesão da região à aliança contra os
impérios centrais não foi cedida sem barganha aos Estados Unidos,
que ensaiavam, desde 1933, uma política de boa vizinhança para
alcançar o comando do forte movimento pan-americano com o fim
de assegurar a solidariedade continental.
O Brasil e o México contam entre os países que com maiores
ganhos exerceram esse poder de barganha, inaugurando a diplomacia
cooperativa responsável por resultados concretos em favor de seu
desenvolvimento. Paradoxalmente, um elevado grau de autonomia
pôde ser exercido por meio da ação diplomática desses países, nos anos
que precederam a guerra, ao ensejo da opção a fazer pelo lado das
democracias, e durante a mesma, em razão da importância estratégica
que essas nações representavam. O México pôde, assim, nacionalizar
seu petróleo em 1938 e domar interesses privados norte-americanos,
mesmo porque, ao acenar com negócios importantes do lado da
Alemanha, provocava a cooperação do grande vizinho. O Brasil pôde
desempenhar com maior desenvoltura esse duplo jogo com a Alemanha
e a Itália, por um lado, e os Estados Unidos, por outro, tirando enormes
benefícios com o objetivo de promover sua segurança, seu comércio
exterior eo seu processo de industrialização, cujas bases se consolidaram
com a implantação da grande usina siderúrgica de Volta Redonda em
1943. Entre os grandes, apenas a Argentina permanecia alheia à
diplomacia da barganha, embora obtivesse da Grã-Bretanha, rival dos
Estados Unidos no terreno dos negócios, o importante tratado de
comércio de 19334.
A depressão e a Segunda Guerra Mundial comportam para os
fins desse estudo três curtas fases: a primeira metade da década de 1930

4 Moura, Gerson. Sucessos e ilusões; relações internacionais do Brasil durante e após a Segunda
Guerra Mundial. Rio de Janeiro: FGV, 1991. p.7-39; Ojeda, Mario. Alcances y limites de la
política exterior de México. México: Colégio de México, 1984.p.26-31; Jalabe, Silvia. La
política exterior argentina y sus protagonistas, 1880-1995. Buenos Aires: Grupo Editor
Latinoamericano, 1996. p. 39-54.

25
AMADO LUIZ CERVO

caracteriza-se pelos esforços de superação dos efeitos da depressão sobre


uma economia latino-americana que havia sido escancaradamente aberta
ao livre fluxo do comércio internacional; durante a segunda metade da
década, além desse cuidado, os dirigentes passaram a lidar com os
desafios da opção estratégica que haveriam de fazer diante do conflito
mundial e, enfim, desde 1939, o desafio consistia em administrar as
relações exteriores em contexto de guerra. A América Latina transitava
então, em suas relações internacionais, de mercado aberto, exportadora
de produtos primários e zeladora por prestígio político, para um
esquema em que à política exterior conferiu-se a tarefa de trazer insumos
concretos de desenvolvimento nacional.
Em maio de 1930, ao ser entrevistado por um jornalista de La
Prensa de Buenos Aires, o estadista francês Eduard Herriot reconheceu
a importância da América Latina para as relações econômicas
internacionais da Europa: em razão de seu crescimento econômico e
da industrialização recente, era vista como campo de inversões européias
na indústria e fonte de suprimentos básicos, à condição que se
substituíssem os controles do câmbio pela competição aberta entre as
potências européias e entre a Europa e os Estados Unidos, ambos de
importância similar para apoiar “o assombroso desenvolvimento
industrial e comercial da América Latina”5. O presidente do Comitê
França-América da Academia Francesa de Letras, Gabriel Hanotaux,
apelava então à amizade entre Europa e América para viabilizar as relações
úteis nos tempos de crise que o mundo enfrentava6. A expectativa,
portanto, dos países capitalistas era de que o modelo de portas abertas
do mercado interno que causara o atraso secular da região fosse
reconvertido em modelo de sistema produtivo aberto, em que o
desenvolvimento fosse tocado pelo empreendimento, pelo capital e
pela tecnologia exógenos. Restava saber se as elites latino-americanas
que chegaram ao poder iriam se conformar com a transição de um
para outro esquema de dependência.

5 José de Paula Rodrigues Alves a Octávio Mangabeira, ofício, Buenos Aires, 14 maio 1930,
AHI, lata 731, maço 10461.
6 Luís de Souza Dantas a Afrânio de Melo Franco, ofício, Paris, 18 jun. 1931, AHI, lata
1198l, maço 25929.

26
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

O mercado europeu criava dificuldades para importação de


produtos primários latino-americanos em 1930, de acordo com o
observador Peixoto de Magalhães, diplomata brasileiro servindo em
Buenos Aires, de três maneiras: primeiramente, pelo fato de os lucros
comerciais serem absorvidos pelas companhias internacionais que se
beneficiavam das oscilações do câmbio e não pelos produtores locais;
em segundo lugar, pelos excedentes de oferta que afetavam
particularmente as exportações argentinas (carne, trigo); em terceiro
lugar, em razão da preferência que vinha sendo dada à produção colonial
européia. Em outros termos, o liberalismo, quando vigia, beneficiava
a Europa, quando não, era abatido por mecanismos europeus de
defesa7. Malcolm Robertson, ex-embaixador britânico na Argentina,
denunciou esta incongruência do liberalismo e propôs que à Argentina
fossem estendidos os privilégios que auferiam os domínios do império
britânico8. Esse modo de fazer face aos desafios da depressão capitalista
não tinha apoio na opinião nacional, como registrava The Times em
1932: “a política de comércio exterior britânico buscaria arranjos
recíprocos privilegiados com os domínios, e somente depois com a
Argentina e outras repúblicas latino-americanas que se dispusessem a
comerciar a seu modo”9. As dificuldades para o incremento do comércio
com a América do Sul, entre 1930-1933, segundo periódico
especializado, eram os baixos preços das mercadorias e as restrições
cambiais que bloqueavam na região fundos de exportadores estrangeiros.
Além do livre comércio, os ingleses exigiam o câmbio livre para estimular
o comércio10.
Os dirigentes da América Latina, para fazer face à estagnação
do comércio exterior, adotaram como estratégia os tratados com
cláusula de nação mais favorecida, na suposição de que se desse respeito
ao princípio da liberdade de comércio apregoado pela Liga das Nações.
Entre 1930 e 1933, o Brasil firmou mais de três dezenas desses tratados.

7 N. Peixoto de Magalhães a Octávio Mangabeira, ofício, Buenos Aires, 12 out. 1930, AHI,
lata 732, maço 10463.
8 LaNación, Buenos Aires, 17 nov. 1930. AHI, lata 732, maço 10463.
9 TheTimes, 19 jan. 1932, AHI, lata 731, maço 10461.
10 Birmingham Gazette, 31 jan. 1933. AHI, lata 731, maço 10461.

27
AMADO LUIZ CERVO

Ao perceberem, contudo, que as nações recorriam a medidas indiretas


de controle das importações, outra estratégia foi posta em execução, a
dos tratados de reciprocidade e, logo depois, a de comércio
compensado. Sacrificava-se o princípio da liberdade de comércio pelo
do benefício compartido, com vantagem para América Latina, que
passou a intercambiar seus produtos primários por máquinas e
equipamentos com que tocar a indústria interna11. Ademais, a margem
de manobra para lidar com a concorrência internacional acentuou-se,
já que uma política liberal poderia ser mantida do lado dos Estados
Unidos, em troca de créditos de exportação e de investimentos, e outra
de compensação, do lado da Europa, em troca de armas e equipamentos
industriais.
Após o golpe de Estado que, em setembro de 1930, derrubou
o governo constitucional da Argentina, restabelecendo, ao contrário
do que sucederia no mês seguinte com a revolução de Getúlio Vargas
no Brasil, o poder da oligarquia conservadora, George Lloyd
Courthope, prestigioso banqueiro inglês, escreveu ao ex-presidente
Marcello T. de Alvear que a city de Londres aguardava apenas a
normalização institucional para assegurar ao país o apoio financeiro
necessário para manter a preeminência dos negócios britânicos diante
da concorrência norte-americana12. Com efeito, os acordos de maio
de 1933 que limitaram as restrições ao comércio, como a imposição
de quotas e os entraves ao pagamento, consolidaram a posição
econômica da Grã-Bretanha na Argentina. Mesmo assim, os ingleses
prosseguiam insistindo na liberalização de fundos congelados para
estimular o comércio bilateral, enquanto os argentinos entendiam que
este estímulo apenas favoreceria as importações provenientes do Reino
Unido e que a via correta de promover o intercâmbio era o aumento
de fluxos equilibrados de comércio de lado a lado13. Prosseguia, aliás,
em vigência a norma antiliberal da política comercial britânica, que

11 Cervo, Amado, Bueno, Clodoaldo. História da política exterior do Brasil. São Paulo: Ática,
1992.p. 214-239.
12 N. Peixoto de Magalhães a Afrânio de Melo Franco, ofício, Buenos Aires, 8 jun. 1931,
AHI, lata 732, maço 10463.
13 LaNación, 15 set. 1934, AHI, lata 732, maço, 10463.

28
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

concedia privilégios aos domínios em detrimento de aliados especiais


como a Argentina, conforme registrava La Prensa em 1935: “A Grã-
Bretanha ignorou o direito que tem a República Argentina de exigir
que seus produtos recebam o mesmo tratamento aduaneiro que aqueles
dos domínios, com base em um tratado que contém a cláusula de
nação mais favorecida”14.
A queixa argentina era antes uma defesa. Com efeito, as
estatísticas das importações inglesas de trigo, outros cereais e carne,
indicam que a Argentina permanecia, entre 1933 e 1935, o fornecedor
quase exclusivo, com cerca de 80% dos fornecimentos externos15. Em
outros termos, os conservadores argentinos andavam já sensíveis com
as novas pressões sócio-econômicas internas e buscavam, como o
governo brasileiro, resultados recíprocos e desenvolvimentistas do
comércio internacional.
Apesar de dirigir seu comércio de exportação sobretudo para o
mercado inglês, os argentinos não se descuidavam de outros países
europeus. AHolandaerao segundo comprador argentino na Europa
em 1931, quando esse país comprava da América Latina um montante
cinco vezes superior a suas exportações para a região. Já na época,
contudo, a imprensa mostrava que esse desequilíbrio do comércio era
ilusório, visto que a balança de pagamentos, conceito que agrega os
lucros do capital investido, os fretes da marinha mercante e outras
variáveis, era favorável ao país europeu16. Entre as decisões a que
lançaram mão os países sul-americanos para atenuar os efeitos da
depressão no início dos anos 30 e evitar a deterioração de seus fluxos
financeiros e econômicos externos, o controle do câmbio e das remessas
para o exterior impedia ou criava dificuldades, por exemplo, para a
expatriação de lucros de empreendimentos industriais e de empresas
exportadoras estrangeiros sediados na região. Convinha estar atento
para o conjunto e a complexidade das relações internacionais, caso o
projeto de desenvolvimento nacional comandasse o processo decisório
em política externa.

14 La Prensa, 4 dez. 1935, AHI, lata 732, maço 10463.


15 Idem. 2 maio 1935, AHI, lata 732, maço 10463.
16 Ibidem. 31 jan. 1933, AHI, lata 732, maço 10463.

29
AMADO LUIZ CERVO

Foram de pouca valia, no contexto dos anos 30 e da transição


de seu paradigma de relações internacionais, as relações da América
Latina com a União Soviética. Mas não foram irrelevantes. A União
Soviética dirigia então suas energias políticas para a Europa e para a
promoção de seus interesses comerciais, em uma demonstração de
realismo que deixara para trás a fase da exportação da revolução como
prioridade externa. Na América Latina, interessava-se pela consolidação
dos partidos comunistas nos diferentes países, mas não descurava a
possibilidade de fazer negócios17.
A sociedade anônima Iuyamtorg era o instrumento com que a
União Soviética movia-se na América Latina com o intuito de fomentar
seu comércio. O presidente dessa empresa, Alexander Mikin, apresentou
em maio de 1931 ao ministro da Fazenda do Brasil, José Maria
Whitaker, uma proposta minuciosa de intercâmbio bilateral, nos
moldes com que a empresa já operava nos Estados Unidos (onde se
denominava Amtorg), Argentina, Chile e Uruguai. Os dois obstáculos
que o executivo soviético via para o desenvolvimento das relações
comerciais com o Brasil eram as dificuldades de créditos bancários e a
ausência de uma sucursal da Iuyamtorg no Rio de Janeiro. No mês
seguinte, Mikin entreteve-secom o ministro brasileiro em Montevidéu,
A.G. de Araújo Jorge, após haver obtido a recomendação da embaixada
brasileira em Buenos Aires. AURSS pretendia iniciar compras de café,
cacau, borracha e couros do Brasil. Araújo Jorge ponderava ao Itamaraty
as vantagens dessa aproximação oportuna que já produzia frutos
concretos e importantes nos países do continente naquele momento
de crise internacional. Perguntava se o governo brasileiro estaria em
condições de sobrepor esses interesses econômicos às razões de ordem
política que até o momento explicavam o distanciamento18. Contudo,
de Buenos Aires, Lafayette de Carvalho e Silva descrevia problemas de
relacionamento com autoridades e partidos políticos, que induziram
o governo a cassar a autorização para a empresa soviética funcionar na

17 Rapoport, Mario. Política y diplomacia en la Argentina; las relaciones com E.E.U.U. y la


URSS. Buenos Aires: Tesis, 1987. p.11-15.
18 A. G. de Araújo Jorge a Afrânio de Melo Franco, ofício, Buenos Aires, 29 set. 1931, AHI,
lata 1034, maço 17837.

30
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Argentina, onde se instalara em 192719. As autoridades chilenas não


haviam autorizado a instalação formal da empresa no país e a legação
brasileira em Santiago desaconselhava ao governo de Vargas atender à
sugestão vinda de Montevidéu no sentido de estabelecer relações
comerciais com a URSS20.
Getúlio Vargas consultou seu ministro das Relações Exteriores,
Afrânio de Melo Franco, acerca da conveniência de autorizar o
funcionamento no país daquela agência soviética de comércio. Ante
parecer contrário de sua assessoria de comércio exterior, aconselhou
Vargas a negar essa autorização em razão de desconfianças acerca da
atuação política que a Iuyamtorg poderia vir a exercer21. Na Argentina,
apesar da representação dos advogados da empresa a fim de que o poder
Executivo tornasse sem efeito o decreto que suspendera a autorização
da Iuyamtorg, a imprensa acusava-a de propaganda comunista e se
opunha ao restabelecimento do comércio pela via da representação
formal22. Em 1934, a empresa somente conservava sua sede de
Montevidéu, onde, aliás, seu presidente, Alexander Mikin, fora
acreditado como ministro soviético, sendo o Uruguai o único país sul-
americano a reconhecer oficialmente o regime de Moscou e a estabelecer
com ele relações diplomáticas (a Colômbia o faria em 1935, após haver
o México rompido essas relações). Mas a opinião dos representantes
brasileiros no Uruguai tornou-se contrária àquela expressa por Araújo
Jorge em 1931. Em maio de 1934, o Serviço de Passaportes do Itamaraty
informava ao secretário-geral que o consulado em Montevidéu negara
um pedido de visto para que um diretor viesse ao Brasil e aconselhava
terminantemente impedir a vinda de qualquer representante da empresa
ao país, levando em conta a imensa documentação proveniente das
legações na Argentina e no Uruguai que comprovavam “que a referida

19 Lafayette de Carvalho e Silva a Afrânio de Melo Franco, ofício, Buenos Aires, 24 nov.
1931, AHI, lata 731, maço 10461.
20 Legação do Brasil a Afrânio de Melo Franco, ofício, Santiago, 22 out. 1931, AHI, lata
1034, maço 17837.
21 Afrânio de Melo Franco a Getúlio Dornelles Vargas, despacho, Rio de Janeiro, 19 nov.
1931, AHI, lata 1034, maço 17837.
22 LaNación, 2 dez. 1931, AHI, lata 731, maço 10461. La Prensa, 19 jun. 1932, AHI, lata
731, maço 10461.

31
AMADO LUIZ CERVO

sociedade russo-uruguaia tem como pretexto o intercâmbio comercial


e como finalidade a expansão das idéias subversivas comunistas, onde
quer que ela consiga estender os seus tentáculos”23.
As reações da diplomacia latino-americana, diante da tentativa
soviética de penetração comercial na região por meio da agência
Iuyamtorg, comprovaram que, na primeira metade dos anos 30, ainda
longe dos tempos da Guerra Fria, aos países da região repugnava a
contaminação comunista ao ponto de contra ela estarem dispostos a
sacrificar interesses comerciais, mesmo nas adversas condições com que
a depressão capitalista limitava os negócios. Também pode-se
conjecturar acerca da determinação dos dirigentes latino-americanos
em manter as rédeas do novo processo de desenvolvimento como
explicação para sua atitude de fechar as portas à penetração soviética.
Havia repugnância mesmo de movimentos de esquerda latino-
americanos pelos métodos de aliciamento de camponeses e operários
fomentados desde Moscou e pela pregação de assalto ao capital privado.
Por essa razão, a União Soviética viu-se na necessidade de repensar sua
ação na América Latina e, desde 1935, optou pela composição de
alianças de libertação nacional, embriões das frentes populares que
vingaram em alguns países24.
Adepressão capitalista parecia, aliás, não afetar certos mercados
que demandavam os produtos latino-americanos. Ao lado da União
Soviética, era o Japão que buscava a região no início da década de
1930, por meio da companhia de navegação Osaka Shosen Kaisha,
despertando interesses e ciúmes entre Argentina, Uruguai e Brasil pelo
fornecimento de produtos agrícolas25. O desequilíbrio do comércio
com a Austrália e o interesse em diversificar as parcerias motivaram,
em 1933, a viagem de comissários japoneses de comércio para a

23 Lucillo Bueno a Félix de B. Cavalcanti de Lacerda, ofício, Montevidéu, 25 fev. 1934,


AHI, lata 301, maço 4452. Serviço de Passaportes ao secretário-geral, memorandum, Rio
de Janeiro, 8 maio 1934, AHI, lata 731, maço 10461.
24 Varas, Augusto (org). América Latina y la Unión Soviética; unanueva relación. Buenos Aires:
Grupo Editor Latinoamericano,1987. p.10-11.
25 N. Peixoto de Magalhães a Afrânio de Melo Franco, ofício, Buenos Aires, 14 fev. 1933,
AHI, lata 732, maço 10463.

32
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

América do Sul, onde pretendiam obter fornecimentos de lã, algodão,


couros, trigo, carnes e outros produtos26.
O esforço japonês alarmava os círculos de negócios americanos,
em 1935. Oswaldo Aranha, embaixador brasileiro em Washington,
escreveu ao ministro das Relações Exteriores, Macedo Soares, relatando
a “invasão comercial japonesa na América do Sul”. Após haverem
despertado a simpatia dos produtores locais com as aquisições de
produtos agrícolas, os comerciantes japoneses começaram a repassar
aos consumidores da região a preços baixos variada gama de bens que
incluíam medicamentos, munições, alimentos, tecidos, vidraçarias,
calçados, papel, celulose, roupas e brinquedos. Ao avaliar essa estratégia
de penetração, Aranha alertava para o propósito japonês de competir
abertamente pela conquista dos mercados sul-americanos, como tentara
Herbert Hoover com a finalidade de alijar a Grã-Bretanha e a Alemanha
e garantir a preponderância americana sobre os mercados vizinhos.
Segundo a imprensa norte-americana, osjaponeses estariam concorrendo
em condições favoráveis em razão dos baixos salários pagos a sua mão-
de-obra, da flexibilidade de sua produção a gostos diferentes, da
habilidade em vencer os obstáculos monetários e tarifários criados pela
crise do capitalismo, do engajamento agressivo de sua diplomacia, do
envio de missões comerciais representando interesses de meia centena
de empresas, do uso pragmático de uma diplomacia cultural e, ainda,
em razão de núcleos de imigrantes radicadosnospaíses da região. Poderia
haver exagero nessa avaliação da opinião americana, segundo Aranha.
Convinha, contudo, ter em mente os dois princípios da política norte-
americana a tal respeito: evitar o imperialismo japonês no Pacífico por
meio de um sistema coletivo, de que eram exemplo os tratados de
Washington, e conter qualquer penetração política no hemisfério por
parte de uma potência européia ou asiática27.
Por seu lado, a imprensa latino-americana denunciou a
campanha antinipônica na América do Sul fomentada por homens de

26 LaMañana, Montevidéu, 3 set. 1933, AHI, lata 731, maço 10461.


27 Oswaldo Aranha a José Carlos Macedo Soares, ofício, Washington, 28 mar. 1935, AHI,
lata 731 maço 10461.

33
AMADO LUIZ CERVO

negócios americanos que pressionavam os governos a romper com os


acordos de comércio que serviam de instrumento, desde antes da
Primeira Guerra, à penetração japonesa28. Em 1937, o Japão exportou
mercadorias para a América Latina no valor de 164 milhões de ienes,
mas uma queda verificar-se-ia no ano seguinte, não em razão da
campanha norte-americana, mas, segundo o representante brasileiro
naquele país, N. Tabajara, em razão das restrições cambiais latinas e
dos fornecimentos requeridos pelo exército do Japão engajado na
China29.
Como reagiram os norte-americanos ante as perspectivas de
negócios dos países da América do Sul com a Europa, a URSS e o
Japão? Para os latinos, obviamente, essas oportunidades deveriam ser
exploradas sem prejudicar a colocação de seus produtos no mercado
do norte. Para os americanos, elas representavam ameaças a seus interesses
comerciais e políticos, motivo por que não somente procuravam a elas
contrapor-se como haveriam de amenizar sua tradicional prepotência
ao longo da década30. Já em 1933, o secretário de Estado CordellHull
visitou a Argentina com a finalidade de recompor de modo franco e
despretensioso o estrago nas relações bilaterais causado pelo secretário
de Estado assistente, Francis White, que tivera até há pouco, a seu
cargo, os negócios com a América Latina31.
A literatura disponível não explora suficientemente este
contexto de barganha que se abriu à América Latina nos anos da
depressão capitalista e da divisão do mundo em blocos antagônicos.
Não pôde assim determinar com objetividade o desempenho e os
limites da nova diplomacia de cooperação destinada a apoiar os projetos

28 ElTiempo, Bogotá, 14abr. 1934;JornaldoCommércio,RiodeJaneiro, 17jun. 1935, AHI,


lata 731, maço 10461. Octávio de Abreu Botelho a Agamemnon de Magalhães, ofício,
Buenos Aires, 12 fev. 1936. AHI, lata 732, maço 10463.
29 N. Tabajara a Oswaldo Aranha, ofício, Yokoama, 15 nov. 1938, AHI, lata 731, maço
10461.
30 Dessa prepotência, os norte-americanos deram provas ainda no início da década por meio
de tratamento insultuoso e do assassinato brutal cometido por autoridades policiais de três
estudantes mexicanos que regressavam a seu país. Legação do Brasil a Afrânio de Melo
Franco, ofícios, México, 15 jul. e 27 nov. 1931, AHI, lata 1626, maço 34994.
31 EveningStar, Washington, 28 dez. 1933, AHI, lata 301, maço 4416.

34
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

nacionais de desenvolvimento. É necessário estimular o estudo dos


documentos das chancelarias, indispensável para a compreensão desse
momento de transição das políticas exteriores do continente. Não eram
apenas confrontos de interesse entre Estados Unidos e Alemanha que
estavam em jogo, como amiúde se vê escrito. Outras oportunidades
existiam, que acirravam a competição sobre o terreno dos negócios e
da política internacional, com a presença de velhos e a irrupção de
novos atores, Grã-Bretanha, Itália, Espanha, União Soviética, Japão e
outros. A potência hegemônica da área, os Estados Unidos, foi
encurralada pelos governos latinos, os quais acabaram por ceder-lhe a
solidariedade continental e a cooperação de guerra por preço
compensador.
De modo muito experto, o governo de Roosevelt convocou a
delegação de alguns países, dentre os quais o Brasil, para uma conferência
preliminar que se realizou em Washington, em maio de 1933, em
preparação à grande Conferência Monetária e Econômica Mundial
de Londres. A delegação brasileira, composta por uma dezena de
peritos, foi recebida pelo presidente e negociou com autoridades do
Departamento de Estado, na presença de Cordell Hull, por quatro
dias, um vasto programa que não só se destinava a alinhar as posições
a serem mantidas em Londres, como ainda a debelar obstáculos ao
intercâmbio bilateral. Na dimensão mundial, como na bilateral,
buscavam os Estados Unidos apoio ao comércio livre e desembaraçado
de entraves cambiais, de direitos alfandegários, de quotas e de outros
obstáculos, como também medidas que viessem estabilizar as moedas.
Propunham a generalização de acordos comerciais com cláusula de
nação mais favorecida como fórmula para debelar os entraves ao livre
comércio, mas não concordavam com limites aos direitos alfandegários,
visto que as tarifas norte-americanas eram muito elevadas. Buscavam,
pois, o liberalismo dos outros mercados, preservando os instrumentos
de proteção do próprio. No que tangia ao principal produto brasileiro
de exportação, o café, os negociadores americanos ameaçaram com
um imposto aduaneiro, caso o Brasil não liberalizasse fundos americanos
retidos por controles cambiais, e alcançaram o que queriam. A
Conferência, de cunho preliminar, de Washington acabou com uma

35
AMADO LUIZ CERVO

declaração em que ambos os governos anunciavam que havia “forte


identidade de propósito e de política entre os dois governos” acerca de
atitudes a tomar na Conferência de Londres32. Estava-se, ainda, na
época do alinhamento servil da diplomacia brasileira ao interesse norte-
americano que havia caracterizado a conduta do Itamaraty durante a
República Velha.
Na segunda metade dos anos 30, o comércio exterior da
América Latina esteve de forma crescente relacionado com a divisão
do mundo em blocos antagônicos que antecederam a conflagração
mundial. O Japão encontrava dificuldades para colocar seus produtos
na América Central e do Sul. Um relatório do conselheiro do Ministério
dos Negócios Exteriores, Yasundo Sudo, de regresso de uma viagem
de estudo em 1935, revelou que as exportações totais para a área
representaram, em 1934, 5% das exportações japonesas (104 milhões
sobre 2,1 milhões de ienes). Restrições crescentes, entre as quais
figuravam os direitos de importação e denúncias de tratados de
comércio, eram impostas pelos países da região à entrada de produtos
japoneses. O relatório de Sudo não registrou o antiniponismo como
uma das causas para esse declínio, mas assim mesmo previa atitudes de
repulsão aos produtos japoneses na América do Sul. Três razões
explicavam o declínio da exportação japonesa: os constrangimentos de
balanças de pagamento que operavam nos limites do suportável e
forçavam restrições às importações; aumento de importações feitas
recentemente na expectativa de mais restrições a serem adotadas pelos
governos; as pressões de Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha que
perdiam mercados para os bens japoneses na América Central e do
Sul. Sudo concluiu com uma crítica à política de comércio exterior do
próprio Japão, voltada para exportações sem o necessário equilíbrio de
importações para ajudar a harmonizar as contas externas da América
Latina33. Poderia ir mais longe na proposta de meios com que viabilizar
os negócios japoneses, sugerindo à potência do Oriente os mecanismos

32 Delegação do Brasil à Conferência Monetária e Econômica Mundial e a Afrânio de Melo


Franco, relatórios e ofícios vários, 1933, AHI, lata 1019, maço 17262.
33 The Japan Advertiser, Tóquio, 7 fev. 1935, AHI, lata 1016, maço 17163.

36
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

que logo se implantariam no comércio entre a América Latina e os


dois maiores contendores externos: os créditos que os Estados Unidos
cederiam para financiar seu comércio e o esquema das listas de
compensação que provocariam o incremento espetacular do comércio
alemão.
Sem uma boa política, o Japão não somente deixava de
fortalecer sua presença na região, como ainda perdia terreno. Norte-
americanos e locais uniam-se para combater os produtos japoneses,
alegando os primeiros que eles competiam deslealmente com os
produtos americanos e os segundos com as indústrias nacionais, em
razão dos baixos preços. Foi o motivo invocado pelo governo do Peru
para denunciar em 1935 o tratado de comércio com o Japão34. Nesse
mesmo ano, um decreto chileno se sobrepôs ao tratado com o Japão
firmado em 25 de setembro de 1897, impondo uma sorte de comércio
compensado com o intuito de aumentar as exportações de nitrato e
estabelecer o equilíbrio das trocas que fora desfeito com a invasão dos
manufaturados de baixo preço. Uma missão chilena ao Japão obteria
em 1937 da Federação dos Exportadores Japoneses para a América
Latina um acordo geral dispondo sobre meios e mecanismos para solver
as dificuldades e incrementar o comércio a contento de ambas as
partes35. Por essa época, o comércio do Japão com a Colômbia era
incipiente, mas o desequilíbrio tão acentuado que o governo colombiano
viu-se na contingência de denunciar o tratado de comércio bilateral,
firmado em 1905, mesmo porque a indústria nacional, cujas fábricas
fechavam em razão da concorrência, o pressionava nesse sentido. Mas
havia perspectivas de compra de volume importante de café para forçar
a penetração de manufaturados japoneses no mercado do país. Isso
inquietava o Brasil, obviamente36. A imprensa colombiana, acuada pela

34 La Prensa, 16 abr. 1935, AHI, lata 1016, maço 17163.


35 Rodrigues Alves a José C. de Macedo Soares, ofício, Santiago, 1 fev. 1935; P. Leão Veloso
a José C. Macedo Soares, ofício, Tóquio, 26 ago. 1936; Consulado do Brasil a Mário de
Pimentel Brandão, ofício, Kobe, 10 maio 1937, AHI, lata 1034, maço 17837.
36 Manoel Coelho Rodrigues a José Carlos de Macedo Soares, ofício, Bogotá, 26 nov. 1934;
Legação do Brasil a José Carlos de Macedo Soares, Bogotá, ofício, 2 mar. 1935, AHI, lata
1037, maço 17949.

37
AMADO LUIZ CERVO

indústria nacional que perdia mercado, não apoiava a guerra comercial


que movia o Japão contra americanos e ingleses dentro do território37.
Mas os importadores de tecidos e vestuário exigiam, com o intuito de
retomar as compras, uma nova regulamentação, que foi alcançada por
troca de notas em maio de 1935, estabelecendo um modus vivendi
com mecanismos de comércio compensado. Segundo a legação
brasileira, o Brasil não deveria preocupar-se com esse comércio, visto
que o principal produto brasileiro importado pelo Japão, que a
Colômbia não produzia, era o algodão, já que o consumo de café no
império do Oriente era ínfimo38.
O governo japonês discordava, todavia, do argumento dos
preços baixos, contando, aliás, com parte da opinião latina que via
neles uma vantagem prática contra a elevação do custo de vida, e
trabalhava com a hipótese da campanha antinipônica dos Estados
Unidos e da Grã-Bretanha. O próprio Peru, ao denunciar o tratado de
comércio com o Japão, firmou outro com a Grã-Bretanha, em que
lhe concedia redução alfandegária de 25% sobre os manufaturados em
troca apenas de açúcar de sua produção, infringindo a norma de nação
mais favorecida. O acordo em negociação entre o Japão e a Colômbia
foi suspenso em razão da conclusão de outro com Washington. A
Argentina mantinha suas quotas para a entrada de produtos japoneses
em razão de seu grande comércio com a Grã-Bretanha.
Esses e outros fatos levaram o governo japonês à conclusão de
que as dificuldades de seu comércio na América do Sul provinham de
Washington e Londres39. Aofensivajaponesa, não esmorecia, contudo.
O consulado brasileiro em Guayaramerin relatou em 1938 o
incremento do consumo deprodutosjaponesesno mercado boliviano,
por ocasião da visita de uma missão comercial e industrial do Japão.
Tecidos de seda já dominavam o mercado. Industriais japoneses

37 ElEspectador, Bogotá 18 e 25 mar. 1935; El Pais, Bogotá, 25 mar. 1925, AHI, lata 1037,
maço 17949.
38 Manoel Coelho Rodrigues a José Carlos de Macedo Soares, Bogotá, ofícios de 10 abr., 20
maio, 27 jun., 8 jul., 9 ago., e 30 ago. 1935, AHI, lata 1037, maço 17949.
39 Oscar Corrêa a José Carlos de Macedo Soares, exposição, Kobe, 29 fev. 1936, AHI, lata
1016, maço 17163.

38
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

acompanharam a missão com o fim de obter condições para instalar


fábricas de manufaturados como tecidos, porcelanas, cristais, etc. O
consulado advertiu a chancelaria brasileira que o plano japonês colocaria
em risco propósitos de industriais paulistas que também pretendiam
investir na Bolívia, montando lá diversas fábricas. O risco que todos
os estrangeiros haveriam de enfrentar vinha, contudo, do nacionalismo
boliviano, que era adverso a esses negócios e comprometia a estabilidade
futura dos contratos40. Outro exemplo da ofensiva japonesa verificava-
se na Argentina, cujas quotas de importação de produtos japoneses
eram fixadas em função do volume das exportações para aquele país.
Encontrando dificuldades para prosseguir abastecendo-se com a lã
australiana, oscomerciantesjaponeses propuseram em 1939 o aumento
da quota argentina em troca de tecidos e outros manufaturados41.
Percebem-se, pois, diversos problemas enfrentados pelo
comércio deexportação japonêsparaa América do Sul: guerra comercial
americana, restrições cambiais, baixa capacidade de importação
japonesa, reação do nacionalismo econômico latino. Quatro fortes
condicionamentos pesavam sobre suas possibilidades: a disposição dos
governos latinos de barganhar seu mercado por vantagens recíprocas a
investir no processo de desenvolvimento; o aumento da autonomia
decisória latina no contexto da depressão capitalista e da divisão do
mundo em bloco; o acirramento da competição internacional com o
aparecimento de novos centros produtores no mundo; e a aliança a
ceder aos Estados Unidos em troca de ganhos econômicos e estratégicos.
Para tudo, a solução parecia passar pelo sistema de comércio compensado,
feito de quotas equilibradas quanto ao valor total do intercâmbio,
exatamente como procedia o Brasil com o conjunto de suas trocas
com a Alemanha e a Itália.
O Brasil abrigava em 1938 a maior colônia de japoneses em
um país estrangeiro, cerca de duzentos mil. O comércio bilateral

40 J. de Mendonça Lima a Mário de Pimentel Brandão, ofício, Guayaramerin, 5 fev. 1938,


AHI, lata 1034, maço 17838.
41 José Rodrigues Alves a Oswaldo Aranha, ofício, Buenos Aires, 24 ago. 1939, AHI, lata
732, maço 10463.

39
AMADO LUIZ CERVO

ascendeu de um milhão de ienes em 1921 para seis milhões em 1935,


saltando para 75 milhões em 1937. As expectativas eram de chegar a
um bilhão em poucos anos. Esse incremento era explicado pela troca
de missões comerciais em 1935 (Missão Hirao) e 1936 (Missão Salgado
Filho), pelo esforço do embaixador brasileiro Leão Veloso, acreditado
em Tóquio desde 1935, e por uma ativa diplomacia cultural42. Iniciada
a guerra, a imprensa japonesa alarmou-se com o projeto norte-
americano de constituir uma corporação exportadora interamericana
dispondo de um capital de dois bilhões de dólares, destinada a financiar
toda a circulação de riqueza no continente, excluindo europeus e asiáticos
do envolvimento com o comércio regional. As autoridades japonesas
apelavam aos interesses argentinos e brasileiros realizados com seu
comércio com a Inglaterra e o Japão para opor-se ao empreendimento
monopolista americano43.
Em termos comparativos, se malogrou, durante a depressão
capitalista, a tentativa soviética de penetração comercial na América
Latina por razões políticas e ideológicas, o esforço japonês esbarrou
em outros obstáculos, como a resistência do nacionalismo econômico
local, a reação diplomática e política norte-americana e a baixa capacidade
japonesa de consumo de produtos primários latino-americanos.
O comércio com a Grã-Bretanha prosseguia sendo o eixo
principal dos negócios externos da Argentina na segunda metade dos
anos 30. As trocas foram novamente reguladas pelo acordo de comércio
de 1º de dezembro de 1936. No quinquênio 1935-1939, um quinto
das importações da Argentina provinha do Reino Unido, enquanto
esse absorvia um terço das exportações totais. Computados dividendos,
juros bancários, fretes e outras variáveis, era equilibrada a balança de
pagamentos bilateral segundo observava TheTimes44. ParaLaNación,
as dificuldades desse comércio prosseguiam sendo as mesmas dos anos
anteriores: baixa rentabilidade das empresas ferroviárias britânicas na

42 Japan News-Week, Tóquio, 3 dez. 1938, AHI, lata 1198, maço 25946.
43 Consulado do Brasil a Oswaldo Aranha, ofício, Kobe, 25jun. 1940, AHI lata 1016, maço
17163.
44 TheTimes, Londres, 6 jan. 1940, AHI, lata 732, maço 10463.

40
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Argentina; taxação britânica sobre a carne argentina superior àquela


imposta à carne proveniente dos domínios; subsídios aos produtores
de carne do Reino; pressão dos domínios pelo abastecimento do
mercado inglês com seus produtos agrícolas45. Em 1938 verificou-se
um decréscimo de 25 milhões de pesos na entrada de produtos ingleses
na Argentina. O início da guerra abriu novas perspectivas para os
negócios bilaterais segundo o Financial News de 30 de outubro de
1939, já que as importações de carnes haveriam de aumentar e a retirada
da Alemanha do mercado local – 10% das importações totais argentinas
– representaria novas oportunidades para outros fornecedores
externos46.
Com relação aos anos 20, o comércio da Argentina com a
França chegou a cair 40% nos anos 30. O princípio “comprar de quem
nos compra” embaraçava os negócios, sobretudo porque as duas
economiasnão eram complementares. Em 4 demarço de 1936 firmou-
se um acordo por troca de notas, cuja finalidade era a de superar as
dificuldades, mas, assim mesmo, esse comércio não apresentava um
desempenho promissor. A Argentina buscou então outros países,
mormente a Holanda, com a qual firmou um tratado de comércio
que ofereceu facilidades para a imigração holandesa e elevou as trocas
bilaterais acima daquelas registradas entre o Brasil e a Holanda47.
Na segunda metade dos anos 30, o Brasil reformulou com
senso muito pragmático sua política de comércio exterior, que passou
a fundar-se em três princípios: primeiro, aproveitar as rivalidades dos
blocos antagônicos em formação para provocar a competição interna e
elevar o poder de barganha nas negociações externas; segundo, manter
a política de comércio liberal do lado dos Estados Unidos, forçando-
os, contudo, a agir em razão das condições de competição provocadas;
terceiro, incrementar o intercâmbio com a Alemanha (e a Itália) por

45 La Nación, 4 mar. 1936, AHI, lata 732, maço 10463.


46 Régis de Oliveira a Oswaldo Aranha, ofício, Londres, 30out. 1939, AHI, lata 732, maço
10463.
47 João P. da Silva a José Carlos de Macedo Soares, ofício, Paris, 7 abr. 1936; Rui Ribeiro
Couto a Oswaldo Aranha, ofício, Haia, 27 out. 1938, AHI, lata 732, maço 10463.

41
AMADO LUIZ CERVO

meio de mecanismos de comércio compensado. Em 1938, Renato de


Azevedo, membro do Comitê Misto de Negociação Comercial Brasil-
Estados Unidos com sede em Nova Iorque, fez um balanço da reação
dos homens de negócio e do governo americanos a essa política.
Os norte-americanos opuseram-se, desde o tratado bilateral de
comércio de 2 de fevereiro de 1935 que firmaram com o Brasil, à
utilização por este país dos marcos compensados no comércio com a
Alemanha, convertendo-os no “cavalo de batalha” das negociações.
A seu turno, os negociadores brasileiros se negavam a entrar em
discussões com os norte-americanos sobre as relações comerciais de
seu país com outras nações. Tanto é verdade que o Brasil haveria de
firmar em 6 de junho do ano seguinte o ajuste de compensação com a
Alemanha. Sem limitar a liberdade de movimento da diplomacia
econômica do Brasil, o tratado com os Estados Unidos e o comitê de
negociação que dele resultara destinavam-se exclusivamente, no modo
brasileiro de ver e de operar, a remover obstáculos que porventura
viessem a dificultar o desenvolvimento do comércio entre os dois países.
E esses eram quatro, segundo os brasileiros: (a) restrições cambiais; (b)
escassez de créditos para o comércio; (c) inexistência no Brasil de
indústrias com capacidade de produção em escala para atender o
mercado norte-americano; (d) deficiência dos transportes marítimos.
As restrições cambiais a que o governo brasileiro fora forçado a
recorrer em razão do desequilíbrio de suas contas externas representavam
o obstáculo mais determinante, responsável pela quase paralisia do
comércio com osEstadosUnidos. Por outro lado, o importador brasileiro
buscava de preferência a Alemanha (alçada em 1938 à condição de
primeiro fornecedor do Brasil) em razão das facilidades do comércio
compensado, a França e a Inglaterra, em razão dos créditos que ofereciam.
Faltava aos norte-americanos experiência em comércio exterior, enquanto
abundavam em filosofia política. Por certo, se o Brasil desenvolvesse
em escala as indústrias cujos produtos tinham mercado garantido nos
Estados Unidos (óleos vegetais, madeiras, manganês e outros minérios),
o equilíbrio do comércio bilateral poderia estabelecer-se, estimulando
seu crescimento. Enfim, as taxas dos fretes marítimos elevaram-se
precisamente em razão da queda do volume do comércio e da grande

42
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

oferta de serviços, que forçaram as companhias a estabelecer uma


conferência de fretes48.
As soluções viriam para essas dificuldades, não pelo efeito de
negociações entre americanos e latinos, mas pelo das pressões oriundas
da Europa que afetavam a segurança e os interesses da potência
hemisférica. Com efeito, logo após a Conferência de Munique, Arthur
Krock expôs no New York Timesosplanospráticos em prol da unidade
hemisférica preparados por uma comissão interministerial presidida
pelo subsecretário de Estado Summer Welles e aprovados pelo
presidente Roosevelt. As iniciativas preventivas diante de ameaças
européias haveriam de produzir resultados em variadas frentes de ação.
Asconferênciaspan-americanasdestinar-se-iam ao intercâmbio de idéias
culturais, diplomáticas e políticas; a Marinha e o Exército dos EUA
seriam modernizados; a rodovia pan-americana estender-se-ia do
México ao Panamá e à América do Sul; seria estimulada a produção
agrícola na América Latina de produtos a serem adquiridos pelos Estados
Unidos, como madeiras, plantas medicinais einseticidas, borracha etc.49.
O contexto histórico da guerra modificou profundamente o
movimento das relações internacionais na primeira metade dos anos
40 para a América Latina como um todo. O periódico londrino The
Financial News previa desde 1940 uma melhora sensível do comércio
de exportação da região, com o aparecimento de saldos favoráveis, em
razão da alta dos preços e do aumento da demanda, mas ainda em
razão de deslocamentos para os Estados Unidos e a Europa atlântica
dos eixos comerciais que antes existiam entre a América Latina e a
Europa central50. Novas companhias britânicas foram criadas para
administrar o comércio em tempo de guerra e a tonelagem marítima
então empregada no comércio entre o Reino Unido e a América do
Sul elevou-se a 1 milhão de toneladas. Cogitavam os ingleses em
substituir a Alemanha, a Itália e os países ocupados pelos exércitos
alemães, tanto como fornecedores quanto como compradores de

48 Renato de Azevedo a J.G. Moniz, considerações, Nova Iorque, 19 abr. 1938, AHI, lata
1028, maço17597. Cf. ofício do mesmo dia.
49 The New York Times, 26 out. 1938, AHI, lata 1239, maço 27636.
50 The Financial News, London, 22 abr. 1940, AHI lata 731, maço 10761.

43
AMADO LUIZ CERVO

mercadorias da América do Sul51. Havia, entretanto, dificuldades nas


relações com a Grã-Bretanha. As medidas adotadas pelo governo
britânico para fiscalização do comércio dos neutros em 1939 sofreram
sérias reservas do governo brasileiro que reclamava de prejuízos diretos
e indiretos. Alista negra de empresas não foi reconhecida, os confiscos
de encomendas feitas à Alemanha e a censura da correspondência
diplomática, com a destruição de parte dela realizada pelos ingleses em
Gibraltar, eram inaceitáveis. Mas a decisão brasileira de estabelecer
relações diplomáticas com o Canadá, domínio imperial britânico,
recebeu acolhida muito favorável52.
Novas perspectivas se abriam para o comércio com a URSS. A
Câmara dos Deputados da Argentina tomou a iniciativa de propor em
1942 o estabelecimento de relações diplomáticas e comerciais, estas
últimas suspensas em 1930 com a cassação da licença de funcionamento
da empresa soviética Iuyamtorg. Aimprensa tendia a apoiar tal iniciativa
nos países latinos, como, por outro lado, hostilizava o regime de Franco
na Espanha, por suas ligações com Hitler e Mussolini.
Para os Estados Unidos voltavam-se as atenções dos latino-
americanos com o início da guerra. Mesmo porque o governo e a
diplomacia de Roosevelt mostravam-se extremamente ativos, alçando
a América Latina a um grau de importância que nunca tivera nas
considerações econômicas, políticas e estratégicas. A estratégia de
Roosevelt compreendia uma série de planos concretos: (a) estabelecer
um gigantesco monopólio do comércio intra e extrazonal; (b) fornecer
créditos às importações e exportações dos Estados Unidos na região;
(c) usar fundos americanos para estabilizar as moedas dos países latinos
e desencorajar o comércio compensado53. A grande corporação
comercial das Américas não foi instalada, mesmo porque muitas
dificuldades foram percebidas para seu funcionamento, mas o

51 Moniz de Aragão a Oswaldo Aranha, ofício, Londres, 11 set. 1940, AHI, lata 731, maço
10461.
52 Meira Penna à Divisão Política e Diplomática, memorando, Rio de Janeiro, 17 jan. 1940,
AHI, lata 1198, maço 25947.
53 Embaixada do Brasil a Oswaldo Aranha, ofício, Washington, 18 jun. 1940, AHI, lata
1130, maço 22565.

44
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

fornecimento de abundantes créditos americanos para o comércio


regional constituiu fator decisivo para seu incremento de acordo com
as necessidades americanas e os interesses dos países do sul. À frente do
Comitê Econômico-Financeiro Interamericano, Summer Welles
levantava as potencialidades e as necessidades dos países hemisféricos
quanto ao comércio exterior e propunha aprovação de leis que
convertessem o Export-Import Bank no grande financiador das trocas54.
O subsecretário de Estado Summer Welles recebeu em janeiro
de 1940 um extenso relatório apresentado por E. P. Thomas, membro
do Comitê Comercial Brasil-Estados Unidos com sede em Nova
Iorque. O documento incorporava dados de uma visita ao Rio de
Janeiro levada a efeito em janeiro de 1939, ocasião em que Thomas
encontrara-se com os membros do comitê que tinha sede no Rio e
com o chanceler Oswaldo Aranha. As reclamações americanas até então
diziam respeito aos atrasados comerciais e às restrições cambiais que
emperravam o comércio bilateral. Daí a importância que se deu nas
negociações à abertura de linhas de crédito. O comitê recomendava ao
governo americano créditos e investimentos para desenvolver extensa
gama de produtos que seriam requeridos pelo mercado americano
(bauxita, cromo, carvão, cacau, ferro, níquel, manganês, borracha,
carnaúba, peles, seda, amêndoas, babaçu, tabaco, fibras vegetais). O
Brasil deveria substituir outros fornecedores e converter-se em fornecedor
principal ao mercado americano. Para tanto, os investimentos americanos
no Brasil seriam estimulados (eram de 194 milhões de dólares em
1936, segundo o relatório), particularmente os investimentos privados
paraaprodução mineral, ostransporteseos serviçospúblicos. Aconselhava
para o Brasil a redução da burocracia na concessão de passaportes e no
registro de empresas, bem como o fortalecimento da estrutura bancária,
o incremento do turismo, tratamento igualitário ao capital nacional e
americano, estímulo e não apenas permissão à entrada de capitais. O
relatório apontava enfim cinco fatores que impediam a ampliação dos
investimentos estrangeiros no Brasil: (a) restrições legais para a
exploração mineira e do potencial hidráulico; (b) restrições legais para

54 Idem, ofício, Washington, 12 jul. 1940, AHI, lata 1130, maço 22565.

45
AMADO LUIZ CERVO

exploração e refinamento do petróleo; (c) uma constituição outorgada


pelo Executivo, em conflito com o Judiciário; (d) restrições legais à
imigração e à liberdade de movimento de estrangeiros; (e) entraves da
lei de sociedades anônimas à colaboração entre capital nacional e
estrangeiro55.
A proteção às indústrias locais enumerada no relatório de
Thomas como uma das dificuldade nas relações econômicas do Brasil
com os Estados Unidos também era denunciada pelo periódico portenho
La Prensa, no caso argentino56. Com efeito, nas percepções de lideranças
dos dois países, essa proteção era indispensável ao fortalecimento das
economias nacionais e à diversificação de suas estruturas rumo ao
capitalismo moderno. O desafio em harmonizar interesses antagônicos
norte-americanos e latino-americanos a esse respeito, voltados os primeiros
ao liberalismo doutrinário cuja aplicação manteria as estruturas vigentes,
foi em boa medida vencido pela disposição comum de unir os esforços
de guerra. A assertiva aplica-se sobretudo nas relações entre o Brasil e
os Estados Unidos.
A imprensa latino-americana noticiava no início de 1942 a
estreita cooperação e o perfeito entendimento entre Estados Unidos e
Brasil na defesa hemisférica contra eventuais ameaças das potências do
Eixo57. Essa avaliação reforçou-se com o encontro entre os presidentes
Roosevelt e Vargas em Natal, emjaneiro de 1943, destinado aexaminar
a segurança das Américas. A imprensa norte-americana salientou sua
importância, vendo nele o reconhecimento do papel de liderança latino-
americana por parte do Brasil nos esforços continentais de guerra e a
demonstração das relações especiais e da perfeita amizade existente entre
ambos os países. Não repercutiram no continente as interpretações da
imprensanazista alemã, segundo a qual Roosevelt viajara com a intenção
de implorar por uma expedição de cinqüenta mil brasileiros para Dacar
e ameaçara Vargas de apoiar a produção de borracha na Libéria caso

55 E. P. Thomas a Summer Welles, relatório, Nova Iorque, 22 jan. 1940, AHI, lata 1028,
maço 17597.
56 José de Paula Rodrigues Alves a Oswaldo Aranha, ofício, Buenos Aires, 14 dez. 1940,
AHI, lata 2090, maço 37712.
57 Cf. ofícios das legações no México, Lima e Santiago, AHI, lata 1628, maço 34999.

46
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

não obtivesse o consentimento58. A repercussão na imprensa inglesa


deu destaque ao papel da aviação e da Marinha do Brasil para combater
a ameaça submarina no mar das Antilhas e no Atlântico sul e tornar
mais segura a própria navegação do Atlântico norte59. A abertura de
uma legação brasileira no Canadá durante a guerra também contribuiu
para evidenciar o papel do Brasil no esforço de guerra dos aliados,
além de servir de ponto de partida de um relacionamento que era, do
lado canadense, apreciado tanto pela cooperação de guerra quanto pelas
perspectivas de negócios bilaterais60.
Enquanto crescia o prestígio do Brasil na opinião latina e no
conceito dos aliados em razão de seu intenso envolvimento nos esforços
de guerra e enquanto advinham benefícios econômicos e estratégicos
de sua aliança estreita com os Estados Unidos, a Argentina orientava-se
por um movimento de introspecção. Alarmavam-se os produtores de
cereais desse país, em 1940, pelo fato de disporem de grandes estoques,
cuja compra não convinha à Inglaterra, tanto pela falta de necessidade
desses excedentes quanto pela escassez de crédito61. Quando a Argentina
declarou a neutralidade, o Foreign Office veio a público lamentar tal
decisão política que julgava comprometer as relações do país com os
Estados Unidos e os demais países americanos que haviam declarado a
guerra ou rompido as relações com o Eixo. No início de janeiro de
1943, o embaixador argentino Carcano procurou o ministro inglês
Eden para manifestar-lhe o desagrado argentino diante da manifestação
inglesa, mas não obteve qualquer retificação62. O Financial News de

58 Cf. correspondência diplomática (ofícios, circulares, telegramas), AHI, lata 1628, maço
34999.
59 Ministro das Relações Exteriores ao ministro da Aeronáutica, despacho, Rio de Janeiro,
24 fev. 1943.
60 Department of External Affairs a Canadian legation, telegrama, Ottawa, 28 out. 1943;
Legação do Brasil a Oswaldo Aranha, ofício, Ottawa, 23 nov. 1942, AHI, lata1198, maço
25937.
61 Moniz de Aragão a Oswaldo Aranha, ofício, Londres, 19 set. 1940, AHI, lata 732, maço
10463.
62 Idem, ofício, Londres, 7 jan. 1943, AHI, armário, maço 45496. Rodrigues Alves à
Secretaria de Estado das Relações Exteriores, telegrama, Buenos Aires, 1 jan. 1943, AHI,
armário, maço 45496.

47
AMADO LUIZ CERVO

26 de janeiro de 1943 descreveu um quadro sombrio para as relações


econômicas entre a Grã-Bretanha e a Argentina. Os acionistas britânicos
das estradas de ferro estariam sendo lesados como resultado de uma
taxa cambial desfavorável criada pelas autoridades para as remessas de
juros, uma reclamação que vinha de anos anteriores. Insinuavam que
essa política tinha por objetivo preparar a nacionalização dessas estradas
em condições favoráveis. O jornal também aludia ao comércio de
carnes, sendo ainda a Argentina o principal fornecedor aos ingleses,
mas sem perspectiva de encontrar outros consumidores externos. A
balança de comércio bilateral era muito favorável aos argentinos que,
nos nove primeiros meses de 1942, venderam 440 milhões de pesos e
compraram apenas 184 milhões aos ingleses. Esses dados, concluía o
periódico londrino, estavam a exigir uma postura mais firme por parte
das autoridades britânicas em defesa dos interesses nacionais63. As
necessidades se sobrepunham todavia à política. Em meados de
setembro de 1943, ao assinar dois acordos pelos quais a Grã-Bretanha
adquiriria os excedentes argentinos de carne e de ovos, o Foreign Office
frisou que não deveriam ser tomados como gesto de simpatia pela
política internacional do país platino e ainda reclamou nessa ocasião
pelo tratamento que os interesses britânicos aí recebiam64. Um ano
mais tarde, certa imprensa britânica alardeava a sintonia entre a classe
rica argentina e o nazismo, denunciando que se preparava no país, via
Espanha e Áustria ou diretamente, um asilo a ser concedido a
importantes lideranças nazistas alemãs para depois da derrota65.
Se os argentinos encontravam dificuldades nas suas relações
com a Inglaterra em razão de sua neutralidade na guerra, maiores
obstáculos haveriam de se prever nas relações com os Estados Unidos.
O New York Times de 1º de abril de 1942, logo após a Conferência
Pan-Americana do Rio de Janeiro, noticiou o melancólico regresso a
Buenos Aires de mãos vazias de uma missão aos Estados Unidos, cujo

63 Ibidem, ofício, Londres, 26 jan. 1943, AHI, lata 2090, maço 37712.
64 La Prensa, 27 set. 1943; La Nación, 28 set. 1943, AHI, armário, maço 45496.
65 Moniz de Aragão a Pedro Leão Veloso, ofício, Londres, 20 set. 1944, AHI, armário, maço
45496.

48
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

fim era adquirir armas para a defesa nacional. A embaixada do Brasil


em Washington interpretou a recusa de venda de armas à Argentina a
preferências por países que ou estavam ameaçadosou haviam se engajado
no esforço de defesa continental66. Levantou-se a hipótese segundo a
qual os dirigentes argentinos não consideravam a neutralidade um ato
hostil aos Estados Unidos, mas uma decisão da qual se esperava o
incremento dos negócios com aGrã-Bretanha, que necessitava aumentar
suas exportações procedentes do país platino e, portanto, haveria de
compensá-lo economicamente. A documentação diplomática não
respalda com clareza esta hipótese, mas evidencia, isto sim, o quanto
tal neutralidade desagradava ao Departamento de Estado norte-
americano.
A América Latina passou a adquirir grande destaque na opinião
pública e nas esferas políticas dos norte-americanos em meados de 1942,
quando as vitórias de Rommel na África do Norte despertaram o temor
de um ataque aos Estados Unidos através da penetração na costa
atlântica sul-americana67. Nesse contexto, a neutralidade argentina
repugnava ao sentimento nacional americano. Em janeiro de 1943, a
embaixada brasileira em Washington confirmou a suposição de que a
declaração britânica de condenação da política de neutralidade argentina
foi na verdade inspiração americana. O objetivo dessa condenação seria
de apressar a ruptura do Chile com os países do Eixo, que era então
objeto de cogitação, de tal sorte que a Argentina permanecesse isolada
dos países do continente68. Em abril de 1943, após a esperada ruptura
chilena com o Eixo, lamentava o subsecretário Summer Welles o
isolamento argentino no concerto pan-americano e tinha na atitude
portenha não apenas um obstáculo, mas uma oposição, com todos os
ressentimentos de uma derrota diplomática de Washington, segundo
relatou o chefe da missão brasileira em Washington69. A mudança de
governo por um golpe de Estado militar na Argentina em 1943, sem

66 Legação do Brasil a Oswaldo Aranha, ofício, Washington, 2 abr. 1942, AHI, lata 1626,
maço 34993.
67 Idem, ofício, Washington, 30 jul. 1942, AHI, lata 1626, maço 34993.
68 Ibidem, ofício, Washington, 2 jan. 1943, AHI, lata 1626, maço 34993.
69 Ibidem, ofício, Washington, 20 abr. 1943, AHI, lata 1626, maço 34993

49
AMADO LUIZ CERVO

que houvesse mudança nas relações com o Eixo e na política de


cooperação continental, deixou o governo dos Estados Unidos ainda
mais revoltado, visto que parecia a política argentina situar-se acima de
uma eventual mudança de governo. Em setembro desse ano, uma troca
de notas entre o ministro argentino das Relações Exteriores, Segundo
Storni, e o secretário de Estado, Cordell Hull, expressou com muita
acidez essa revolta e a reação argentina. O incidente repercutiu nas capitais
latino-americanas, geralmente de modo desfavorável à imagem do país
platino. Oswaldo Aranha assegurou, contudo, por ocasião desse
agravamento das relações bilaterais, que a aliança do Brasil com os
Estados Unidos, que seria levada com lealdade até o fim, não significava
acompanhar a potência hemisférica em sua hostilidade para com a
Argentina, com a qual o Brasil prosseguiria mantendo relações
cooperativas e amigáveis. Ofereceu seus bons ofícios com o objetivo
de buscar um entendimento70.
Ao lado de Vargas e de seu chanceler Oswaldo Aranha, outras
lideranças americanas também não apoiavam a política de força e as
ameaçasdo Departamento de Estado contra a Argentina. Ainstabilidade
do governo militar argentino desde 1943 contribuía ora para despertar
esperanças de melhora, ora para exacerbar ainda mais os ânimos nos
Estados Unidos. A ascensão de Juan Domingo Perón era mal vista.
Uma corrente de opinião, que expressava talvez as vistas de Cordell
Hull, reclamava por uma forte pressão política e econômica dos Estados
Unidos e de seus aliados para demover a Argentina de sua atitude de
isolamento no continente. A corrente discordante era encabeçada por
Summer Welles que não perdia oportunidade de condenar em artigos
de imprensa a irredutibilidade do Departamento de Estado diante da
Argentina e a inabilidade em lidar com os assuntos latino-americanos.
Em livro então publicado, The time for decision, o ex-subsecretário
revela-se profundo conhecedor da realidade latino-americana e analisa
com objetividade as causas do ressentimento contra os Estados Unidos.
Tempos melhores nas relações interamericanas dependeriam, segundo

70Cf. telegramas e ofícios de Washington e das capitais sul-americanas à chancelaria brasileira


de setembro de 1943, AHI, lata 1626, maço 34993.

50
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Welles, da compreensão recíproca e da disposição de, por meio delas,


compartilhar benefícios71.
O Ministério das Relações Exteriores argentino respondeu com
firmeza aos ataques do Departamento de Estado, divulgando nos
Estados Unidos e na América Latina uma outra versão de sua política
exterior. Na visão da inteligência política argentina, a neutralidade
correspondia a um ato de soberania alicerçado nos interesses nacionais
que em nada obstava ao relacionamento harmonioso do país com a
comunidade pan-americana. A imprensa norte-americana, após a
instalação do governo Farell na Argentina, já não lhe era tão hostil
quanto esperava a corrente de política animada por Cordell Hull no
Departamento de Estado. Nem por isso extinguia-se a animosidade
entre os dois países72.
As relações dos Estados Unidos com os países latinos
dependeram, no contexto da Segunda Guerra, do grau de adesão desses
àpolítica de guerra e de envolvimento no conflito. Assim, foram muito
densas com o Brasil, desde que Vargas lançou-se francamente à cooperação
com os aliados, e com o México, um dos primeiros a declarar guerra ao
Eixo, havendo os presidentes Roosevelt e Camacho se encontrado a
20 de abril de 1943 para discutir a cooperação conjunta, a exemplo do
que sucedera com Vargas, do Brasil73. Em outros países essa colaboração
era menos perceptível, quando não irrelevante, como na Colômbia,
onde o embaixador americano Spruille Braden mostrou-se muito ativo
na promoção dos interesses norte-americanos, mas não colheu a adesão
de toda opinião política a uma aproximação estreita com os Estados
Unidos74.

71 Carlos Martins Pereira e Souza a Oswaldo Aranha, ofício, Washington, 29 jan. 1944;
idem, 27 jun 1944; ibidem, 18 jul. 1944, AHI, lata 1626, maço 34993.
72 Legação do Brasil à Secretaria de Estado das Relações Exteriores, ofício, Buenos Aires, 26
jul 1944; Legação do Brasil a Pedro Leão Veloso, ofício, Washington, 10 out. 1944, AHI,
lata 1626, maço 34993.
73 Cf. diversos ofícios das legações brasileiras em Washington e no México, 1942-43, AHI,
lata 1626, maço 34994.
74 Legação do Brasil a Oswaldo Aranha, ofício, Bogotá, 6 jun. 1941, AHI, lata301, maço
4415.

51
AMADO LUIZ CERVO

1.2. Rumo a novo paradigma de relações internacionais


da América Latina

O movimento das diplomacias latino-americanas, durante a


depressão dos anos 30 e a Segunda Guerra Mundial, fornece indícios
de que os governos da região traçavam objetivos a serem alcançados
externamente, que traduziam novas percepções dos interesses da região.
Emergiam, ao lado dos tradicionais interesses da economia agrícola e
mineira, segmentos sociais novos, cujas pressões repercutiam sobre os
governos em forma de necessidades sociais e ideais a perseguir. Era
uma incipiente burguesia industrial desejosa de ampliar seus negócios;
eram as massas urbanas à procura de trabalho e de salário; intelectuais
a reclamar da exacerbada dependência nacional do exterior e militares
preocupados com a vulnerabilidade de seus países. Os parâmetros da
diplomacia da agroexportação não respondiam a essas novas
necessidades. Haviam sido engendrados no século XIX, quando as
sociedades encontravam-se em sua infância, limitadas à produção de
açúcar, café, carnes, couros, minérios e outros bens primários. O
paradigma liberal-conservador do século XIX estendera até os anos 30
seu entendimento das relações internacionais, concebendo como um
bem a perpetuação das trocas entre essas sociedades infantes e os países
industrializados e confiando aos governos, que as representavam, a
incumbência de zelar pelo seu bom funcionamento. Nos anos 30,
aliás antes disso em alguns países, a contestação de tal inserção foi levada
ao debate público e os movimentos políticos deram respaldo às novas
forças oriundas das transformações sociais.
Um desconhecido diplomata brasileiro assim expressava em
1930 o ambiente mental em que aflorava essa nova visão latino-
americana das relações internacionais
Tenho visto dois grandes países exercer a hegemonia
comercial no continente americano. Tenho visto a marcha
triunfal... do dólar e da libra esterlina e o que é mais estranho,
tenho observado como uma nação, toda espírito, França, organizar
seus formidáveis e misteriosos exércitos espirituais e conquistar
a cultura e a alma americana, com milhares e milhares de volumes.

52
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Se umas nações nos arrebataram a matéria e outra o espírito,


dizei-me, que nos resta na América? Muito. Que nos resta para
fazer? Tudo75.

Na Argentina, em 1932, a viabilidade das mudanças era vista,


como testemunha La Prensa, com boas perspectivas, em razão do
abandono por parte dos Estados Unidos de sua política imperialista,
marcada por intervenções prepotentes sobretudo no Caribe e na América
Central e da disposição de respeitar as independências e os interesses
locais76. Poderia a política de boa vizinhança preparar o terreno para
relações de interesse compartilhado, sem perpetuar as estruturas
hegemônicas de dominação e dependência?
A mudança de paradigma das políticas exteriores toma forma
de um movimento quase coincidente nos diferentes países da América
Latina, entre 1930 e 1945. Apresenta características comuns, embora
com intensidade nacional variada. A linguagem diplomática expressa
com pouca objetividade e débil formulação conceitual a inflexão
política, que se torna mais perceptível no processo de tomada de decisão
dosgovernos. Em sua mensagem à Assembléia Constituinte de 1933,
o chefe do governo brasileiro, Getúlio Vargas, referiu-se ao contexto
internacional de acentuada introspecção que refletia “a ânsia de bastar-
se cada povo a si mesmo e a tendência para o isolamento”77. As políticas
exteriores exibiam caráter funcional e eram acionadas para realizar
necessidades internas. Fazer o mesmo, significava para o Brasil promover
seus interesses comerciais, mas, sobretudo, promover a indústria
nacional, o bem superior que perseguia o projeto nacional de
modernização do país. A industrialização converteu-se, assim, no
objetivo síntese da política exterior, porque das indústrias se esperavam
o aumento da riqueza, o provimento de meios de segurança, a abertura
de negócios para a burguesia nacional, a expansão do emprego para as

75 Discurso pronunciado por Auxílio Berdien, vice-cônsul do Brasil em Madri, anexo a


ofício de Álvaro da Cunha a Octávio Mangabeira, Madri, 19 jun. 1930, AHI, lata 1198,
maço 25929.
76 La Prensa, 7 jan. 1932, AHI, lata 300, maço 4410.
77 Brasil, MRE, Relatório, 1933, Anexo A, p. 3.

53
AMADO LUIZ CERVO

massas urbanas e a modernização da sociedade como um todo, no


entendimento da elite esclarecida. A indústria era tida como bem em
si, algo a conquistar, e não como conserto de situação incômoda.
Portanto, na origem do paradigma desenvolvimentista latino-
americano, o Estado não inventou nem implementou o modelo
substitutivo de importações, conceito equivocadamente aplicado nos anos
50 às relações econômicas internacionais da América Latina pelos
economistas na Cepal. O projeto nacional não tinha por fim a
substituição de importações mas a promoção do desenvolvimento
econômico, do qual a substituição constituía mera variável dependente.
Os países mais populosos da região, Brasil, México e Argentina,
aplicaram com maior coerência e com efeitos de maior impacto estrutural
os parâmetros do paradigma desenvolvimentista de inserção internacional,
que também era perceptível nos outros países. A experiência brasileira
foi a mais temperada, a argentina a mais radical. Essas experiências
moldaram, aos poucos, o discurso político e diplomático, que expressava
crescente grau de autonomia das políticas exteriores, entendida esta
autonomia como conformação das decisões externas, em primeiro lugar,
à percepção de interesses próprios. Todas respondiam à conjuntura de
fechamento dos mercados decorrente da crise do capitalismo e das
dificuldades conjunturais do comércio liberal, fechamento que
precedeu, portanto, as iniciativas de desenvolvimento latino-americanas.
J. de Mendonça Lima, cônsul do Brasil postado no centro da América
do Sul, observando o que se passava a seu redor, assim registrou, em
1935, os efeitos políticos e econômicos da adoção do novo paradigma

A Bolívia, como um agregado social, não escapando às


leis gerais de evolução, procura por todos os meios libertar-se,
tanto quanto possível, da influência econômica de outras potências,
e, mui particularmente, da das que a cercam, dedicando-se à grande
industrialização, com o direto aproveitamento das variadas
matérias-primas produzidas em seu próprio território78.

78J. de Mendonça Lima a Macedo Soares, ofício, Guayaramerin, 8 maio 1935, AHI, lata
1034, maço 17838.

54
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

A chancelaria brasileira, no início dos anos 30, após a revolução


de Vargas, ainda ocupava-se principalmente com questões tradicionais,
como a demarcação das fronteiras e pequenos incidentes, ou com
conflitos de fronteira entre países vizinhos, entre Bolívia e Paraguai,
Colômbia e Peru, a cuja solução oferecia bons ofícios ou mediação. A
mensagem lida por Vargas perante a Assembléia Constituinte, em 1933,
media as conseqüências da depressão no mundo (queda dos preços,
introspecção eprotecionismo, desemprego, desequilíbrios orçamentários)
e tirava lições práticas. A reação do governo veio com a nova política
de comércio exterior, cujo objetivo era o de promover as exportações
mediante revisão tarifária com base no tratamento universal de nação
mais favorecida, com o qual se esperava animar as trocas e estabelecer a
reciprocidade79. Mas a política liberal de comércio exterior não produziu
resultados satisfatórios para o país. Em 1935, apesar de fortes pressões
norte-americanas, a política brasileira de comércio exterior foi
radicalmente transformada para atender aos interesses do comércio de
exportação, do qual dependia a capacidade importadora e a aquisição
de meios para promover a indústria nacional. Não se cogitava em
substituir importações mas em promover o aumento da riqueza
nacional, bens e rendas, pela via da industrialização.
Um memorando do embaixador do Brasil nos Estados Unidos,
entregue no Departamento de Estado a 14 de dezembro de 1934,
expressou a nova política brasileira, marcada tanto pela vontade de
conciliar quanto pela determinação de realizar com autonomia o
interesse nacional. O memorando afirmava que a política liberal
apregoada pelos Estados Unidos não convinha nas circunstâncias dos
anos 30, tanto é que 142 acordos de compensação entre as nações
européias e algumas americanas estavam em vigor. Os acordos
estabeleciam um regime de trocas capaz de equilibrar balanças
comerciais, mesmo de pagamentos, e de impulsionar os intercâmbios.
Combinavam-se com políticas dirigistas dos Estados para relançar as
atividades produtivas. “Os Estados Unidos da América ( escreveu o
embaixador brasileiro ), sempre protecionistas, fizeram atarifade 1930,

79 Brasil, MRE, Relatório 1933, anexo A, p.3-6.

55
AMADO LUIZ CERVO

abaixado dólar, a intervenção agrícola e a regulamentação industrial”.


Todas essas políticas de emergência combinadas vieram, contudo,
agravar a situação universal, reduzindo o volume e o valor do comércio
entre os povos. Observando isso, os EstadosUnidosesforçaram-se então
para restabelecer a chamada política liberal. Pretendiam contar com o
Brasil, sem perceber que o Brasil era um país em formação ao passo
que os Estados Unidos haviam chegado à saturação do progresso. A
adoção de uma política liberal inflexível nos tratados de comércio
importaria, praticamente, na suspensão do comércio com aqueles países
que só compravam para vender, como a Itália, a Alemanha e muitos
outros. O Brasil mantinha com esses países 57% de seu comércio
global. Assim, embora a política liberal fosse condizente com a tradição
brasileira e o interesse universal, concluía o embaixador, o Brasil
desenvolveria uma política agressiva de vendas com normas flexíveis,
sob controle e orientação técnica do Conselho Federal de Comércio
Exterior, durante um período de transição, a fim de evitar que a simples
adoção doutrinária viesse prejudicar os objetivos nacionais80.
Em sua mensagem ao Congresso Nacional em 1935, dando
prosseguimento a esta linha de pensamento desenvolvimentista com
elevado grau de autonomia política, o presidente Vargas reconheceu a
desigualdade do desenvolvimento industrial do continente em favor
dos Estados Unidos. A formação do bloco de nações americanas
correspondia por certo à linha de solidariedade continental da política
exterior brasileira, porém o Brasil condicionava seu consentimento a
que comportasse uma proposta de cooperação construtiva que
contemplasse as aspirações de todos81. O pan-americanismo, como se
observou na Conferência de Consolidação da Paz em Buenos Aires
(dezembro de 1936), que inaugurou a política de boa vizinhança dos
Estados Unidos, não deveria atender somente aos ideais vazios da
solidariedade continental, mas converter-se em instrumento tanto de
garantia da paz quanto da promoção eficaz dos interesses dos povos82.

80 Embaixador do Brasil ao Departamento de Estado, memorando, Washington, 14 dez.


1934, AHI, lata 1019, maço 17262.
81 Brasil, MRE, Relatório, 1935, anexo A, p.3-5.
82 Brasil, MRE, Relatório, 1936, p. XIII-XIV.

56
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

As boas relações com os Estados Unidos haveriam de tornar-se


pragmáticas: destinavam-se a obter mercados externos, tão escassos na
época, e investimentos para o setor produtivo e de serviços83.
O novo paradigma ia agregando, dessa forma, componentes
teóricos à sua formulação: percepção de interesses em jogo a alimentar
o processo decisório, negociação de ganhos recíprocos nas relações
internacionais, determinação de superar desigualdades entre as nações,
visão cooperativa e não-confrontacionista.
Iniciada a guerra na Europa, grandes mercados foram fechados
aos produtos latino-americanos, mas outros abriram-se, com a surpresa
de aproveitamento de oportunidades pelas nações que houvessem, com
espírito progressista, desenvolvido suas indústrias. As resoluções
adotadas na Conferência Pan-Americana do Panamá contemplavam
os interesses econômicos em face do conflito europeu e vieram facilitar
as transações comerciais das nações americanas. Em janeiro de 1945, a
imprensa em Buenos Aires informava que no ano anterior o Brasil
tornara-se o principal fornecedor ao país vizinho, vindo os Estados
Unidos em segundo lugar e a Grã-Bretanha em terceiro. A ordem era
exatamente inversa entre os três maiores compradores da Argentina84.
O Latin American Trade Centre Inc., que havia sido criado em Nova
Iorque em 1940, expediu circular às chancelarias latino-americanas,
solicitando informações acerca do desenvolvimento local de indústrias
que pudessem suprir o mercado norte-americano. O Departamento
de Estado requisitou estudos na ocasião sobre a maneira de aumentar
o comércio de importação da América Latina85. O Conselho Federal
de Comércio Exterior recomendou e o presidente Vargas aprovou duas
diretrizes pelas quais o Itamaraty haveria de nortear as relações
econômicas com os Estados Unidos: (a) possibilitar maiores aquisições
de produtos brasileiros pelos Estados Unidos, onde o Brasil deveria
substituir os produtos oriundos das colônias, cujas metrópoles estavam

83 Pimentel Brandão a MRE, telegrama, Washington, 25 abr. 1938. AHI, lata 1019, maço
17262.
84 La Prensa, 31 jan. 1945, AHI, lata 2090, maço 37712.
85 A. George Nathanson a Oswaldo Aranha, ofício, Nova Iorque, 5 jul. 1939, AHI, lata
1019, maço 17262.

57
AMADO LUIZ CERVO

em guerra; (b) promover e facilitar a vinda de capitais e técnicos


americanos destinados à criação de novas indústrias86.
Desde 1943, tomou vulto um eixo de relacionamento
desenvolvimentista entre o Chile e a Argentina. Durante a visita do
chanceler Joaquín Fernández à Argentina, firmou-se um acordo
revolucionário à margem do pan-americanismo de defesa e cooperação
continental promovido pelas conferências continentais. Chile e
Argentina preparavam uma união aduaneira, germe de futuro bloco
econômico sul-americano, destinado a promover sob moderna forma
cooperativa o desenvolvimento do comércio intrabloco, os investimentos
produtivos e a ampliação do parque industrial. Estudos de comissões
mistas deveriam propor as modalidades e as etapas desse processo de
integração econômica. A imprensa registrou esses fatos com visível
entusiasmo. Em janeiro de 1944, um novo convênio deu continuidade
e forma ao projeto de união aduaneira, que era acompanhado com
interesse pelos governos regionais. Consoante o cônsul brasileiro:

... procura-se entrosar as duas economias de modo a criar, nessa


região, um bloco capaz de enfrentar os problemas que marcarão
o período imediato à conclusão da guerra... Resta saber se a
comunidade de interesses de um e outro país é de molde a
consentir na fusão de suas energias econômicas.

Com efeito, a política econômica crescentemente nacionalista


do governo Perón na Argentina não agradava aos meios de negócios
chilenos. Mesmo assim, concluíram-seem Buenos Aires, em dezembro
de 1946, as negociações com vistas a um amplo entendimento
comercial, financeiro e alfandegário. Seus pontos culminantes foram:
união alfandegária, inversão de capitais argentinos no Chile, empréstimos
argentinos ao Chile, desenvolvimento da indústria mineira chilena e
melhoramento dos transportes. A Argentina abria um crédito de cem
milhões de pesos ao comércio para financiar o comércio bilateral, investia
trezentos milhões na expansão do parque industrial chileno e emprestava

86 Raul Bopp a José Roberto de Macedo Soares, ofício, Rio de Janeiro, 3 ago. 1940, AHI,
lata 1019, maço 17262.

58
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

outros trezentos milhões para obras públicas. O acordo foi bem


recebido pela opinião pública de ambos os países, mesmo porque
representava uma forma inteligente de aproveitamento das reservas que
a Argentina havia acumulado durante a guerra87.
O audacioso projeto de cooperação econômica entre Argentina
e Chile, esboçado ao término da Segunda Guerra Mundial, tropeçou
em dificuldades que o tornaram inviável, por ocasião dessa tentativa,
como também em sua versão de pacto ABC, durante a primeira metade
dos anos 50. Ele é, contudo, relevantepara a construção do paradigma
desenvolvimentista das políticas exteriores latino-americanas. Veio
reforçar, com efeito, o tempero das motivações econômicas nas relações
interamericanas, modificando a visão do pan-americanismo, de
estratégico e político que havia sido no século XIX e ao tempo do
Barão do Rio Branco, no início do século XX, em econômico e
cooperativo, caráter que se lhe pretendia imprimir desde os anos da
depressão capitalista e da guerra.
Um novo paradigma de relações internacionais estava, portanto,
em construção, entre 1930 e 1945, na América Latina, quando o
desenvolvimento das nações convertia-se em vetor das decisões de
governo em matéria de políticas exteriores. Três elementos foram aos
poucos definindo o perfil que viria a adquirir: a consciência de estar-se
em uma fase de transição, provocada internamente pela emergência de
novas necessidades sociais e, externamente, pela crise do capitalismo e
pelo contexto de guerra; o caráter funcional que se confere às diplomacias
da região para obtenção de insumos de desenvolvimento mediante a
ação externa e a identificação de condições de êxito do movimento
diplomático.
O primeiro elemento, a fase de transição, carrega em sua gênese
uma crítica ao paradigma liberal-conservador que vinha do século XIX.
Em razão da abertura dos mercados latinos, a função primário

87 Legação do Brasil a Oswaldo Aranha, ofício, Santiago, 30 ago. e 9 nov. 1943; Carlos da
Silveira Martins Ramos a Oswaldo Aranha, oficio, Valparaíso, 29 jan. 1944; Legação do
Brasil a Samuel de Souza Leão Gracie, ofício, Santiago, 4 out. 1946; João Baptista Luzardo
a Samuel de Souza Leão Gracie, ofício, Buenos Aires, 9 dez. 1946, AHI, lata 2090, maço
37712.

59
AMADO LUIZ CERVO

exportadora e industrial-importadora da economia regional engendrara


a dependência e bloqueara a modernização. Com o tempo, a evolução
social fez nascer novos interesses derivados de necessidades de uma
sociedade que se tornara mais complexa. Os estados, propriedade dos
grupos agroexportadores hegemônicos, realizavam externamente
interesses que não contemplavam os segmentos emergentes. Esta
percepção de novos interesses a serem veiculados pela política exterior
constitui a essência da fase de transição.
O segundo elemento que se agrega ao perfil do novo paradigma
de relações internacionais da América Latina não é, propriamente, a
determinação de realizar novos interesses por meio da ação externa,
mas, antes, o caráter funcional e supletivo que adquire a política exterior,
da qual se requer que proveja fatores ou insumos de desenvolvimento
interno. Está claro que o conceito de desenvolvimento passa então a
abranger os interesses das massas urbanas que demandam emprego e
renda; da burguesia nacional que demanda espaço para seus negócios;
das forças armadas que requerem meios com que assegurar
minimamente sua responsabilidade em matéria de segurança e defesa e
dos intelectuais e críticos do atraso que postulam a superação da
dependência externa. O objetivo síntese consiste na modernização, que
então se confundia em boa medida com a industrialização. Àpolítica
exterior cabia prover o processo de meios que dependiam do exterior:
mercados de exportação com que elevar a capacidade de importação
de máquinas e equipamentos, recursos para deslanchar grandes
empreendimentos e tecnologias para viabilizá-los rapidamente. Não
se tratava de substituir importações, mas de promover o desenvolvimento
pela via da indústria. A substituição de importações não entrava como
componente do paradigma ou como fim da política, mas como variável
dependente do processo de desenvolvimento.
O terceiro componente do paradigma desenvolvimentista em
gestação era a avaliação que se fazia entre 1930-1945 das condições de
eficiência do movimento da diplomacia. Para ser benéfica ao
desenvolvimento, requeria-se da política exterior: (a) autonomia
decisória, para responder aos interesses nacionais; (b) caráter cooperativo
enão conflituoso com as grandes potências, sobretudo para promover

60
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

o impulso inicial do moderno sistema produtivo a implantar; (c) uma


política de comércio exterior nem liberal nem protecionista, porém
flexível e pragmática, a exemplo das nações avançadas que assim
promoviam o volume e a diversificação dos negócios; (d) a associação
da segurança, da formação de parcerias estratégicas e das grandes questões
da política internacional com resultados econômicos concretos da ação
diplomática; (e) a concomitância entre as negociações com as grandes
potências e as iniciativas bilaterais e coletivas com os países vizinhos.
Esses padrões de conduta, embora de forma diversificada e a
ritmos variados, foram se incorporando às políticas exteriores dos países
da América Latina entre 1930 e 1945, transformando sua visão de
mundo. Os traços coincidentes permitem ao analista concluir que as
idéias-forças de novo paradigma de política exterior que tomaria o
desenvolvimento como vetor pelas décadas a seguir foram inventadas.

61
AMADO LUIZ CERVO

62
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

2. Relações regionais e mundiais e da América


Latina durante a depressão capitalista e a
Segunda Guerra Mundial

2.1. Políticas exteriores e relações regionais

Entre 1930 e 1945, as políticas exteriores e a agenda diplomática


das chancelarias latino-americanas reagiam diante da crise do capitalismo
e da formação de blocos antagônicos que dividiam o mundo, como
também diante de pressões oriundas de transformações sociais e com
essareação, como ficou evidenciado no capítulo anterior, desenhava-se
um esboço de novo paradigma de relações internacionais. Contudo,
outros assuntos mais imediatos e corriqueiros também faziam parte
das ocupações diplomáticas dos governos. Eram questões de fronteira,
que por vezes chegavam ao conflito aberto, questões de prestígio
político, comércio bilateral, pan-americanismo etc.
As chancelarias passavam por reformas em sua organização para
atender melhor às exigências que lhes eram feitas. Duas reformas, na
década de 1930, aparelharam a brasileira com o intuito de torná-la
mais eficiente na gestão dos interesses econômicos que haveria de
proteger. A chilena criou um moderno departamento de comércio
exterior, de que resultou formulação mais adequada da política
comercial. Seus técnicos preparavam os tratados de comércio e saíam a
conquistar mercados, como o de Cuba, por meio de um tratado de
1930, que recebia o salitre e os feijões chilenos. Pensavam fazer de
Cuba um entreposto para distribuição de produtos chilenos no Caribe,
complementando o comércio brasileiro de charque e café que para lá
seguiam pela linha direta de navegação recentemente estabelecida1.
A chancelaria brasileira preparava seus técnicos para os tempos de uma
diplomacia econômica e pragmática. Seus integrantes eram instruídos
para realizar quatro objetivos permanentes, assim definidos pelo
ministro brasileiro de Relações Exteriores, Oswaldo Aranha: “observar,

1 F. Clark a Octávio Mangabeira, ofício, Havana, 7 jul. 1930, AHI, lata 1034, maço 17837.

63
AMADO LUIZ CERVO

representar, negociar e zelar pelos interesses brasileiros”. Aprodução de


documentos que hoje estão disponíveis no Arquivo Histórico do
Itamaraty (AHI) demonstra que esses objetivos converteram-se,
efetivamente, em rotinas2.
Os bons ofícios oferecidos em 1930 pelo chanceler brasileiro,
Afrânio de Melo Franco, levaram ao restabelecimento das relações
diplomáticas entre o Peru e o Uruguai, rompidas em razão de um
incidente3. O prestígio do chanceler brasileiro como conciliador estava
em alta. Sua atuação foi também importante para o restabelecimento
das relações diplomáticas entre a Venezuela e o México.
Antes mesmo de ser acreditado por La Paz, o chefe da missão
brasileira junto à Bolívia foi procurado em 1931 pelo ministro das
Relações Exteriores do país, que lhe confessou preferir o Brasil aos
Estados Unidos como interlocutor no conflito do Chaco com o Paraguai,
por uma questão de confiança. Solicitou nessa ocasião que o Brasil
influísse, caso e na forma com que fosse solicitado, junto ao governo
americano nesse sentido4. As relações entre o Uruguai e a Argentina foram
abaladas após o golpe do general José F. Uriburu que derrubou em 1930
o presidente Hipólito Yrigoyen, pelo fato de o Uruguai ter concedido
asilo político ao ex-chanceler H. Oyhanarte e se negado a atender ao
pedido de extradição. Uma guerra de imprensa e outra comercial
opunham Montevidéu e Buenos Aires em 19315. As desavenças que
perturbavam as relações entre Argentina e Uruguai, denegrindo o discurso
de uma decantada fraternidade platina, eram profundas e por tais
razões refluíam amiúde: a jurisdição das águas do estuário, o caso da
ilha de Martín Garcia, os direitos aduaneiros, a concessão de asilo
político, a empáfia portenha. Mas a admiração dos uruguaios pela

2 Oswaldo Aranha a Carlos de Lima Cavalcanti, instruções, Rio de Janeiro, 23 jan. 1939,
AHI, lata 1198, maço 25941.
3 Rangel de Castro a Afrânio de Melo Franco, ofício, Lima, 28 fev. 1931, AHI, lata 301,
maço 4445.
4 Gracie à Secretaria de Estado das Relações Exteriores, telegrama, La Paz, 15 st. 1931,
AHI, lata 301, maço 4442.
5 Legação do Brasil a Afrânio de Melo Franco, ofício, 11 jan. 1931, AHI lata 301, maço
4435.

64
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

esplendorosa metrópole do outro lado das águas do rio da Prata não se


extinguia6.
A diplomacia brasileira não ignorava, porém desprezava as
manifestações irresponsáveis da imprensa e de políticos de pequenos
países do Cone Sul, Uruguai, Paraguai e Bolívia, freqüentemente
propensos a profetizar que episódios quaisquer acenderiam as rivalidades
entre Argentina e Brasil, mesmo após a bem sucedida visita do
presidente argentino Augustín P. Justo ao Rio de Janeiro em 1933. A
visita foi uma demonstração de quão artificiais eram essas prevenções.
Para elas (escreveu Lucillo Bueno, chefe da missão em
Montevidéu, referindo-se a essas pequenas potências ) “o ideal seria a
desavença entre brasileiros e argentinos, de modo a que viessem a lucrar
na exploração desses atritos fazendo inclinar um ou outro para a balança
de seus interesses”.
Assim, tanto Paraguai quanto Bolívia, durante a Guerra do
Chaco, iniciada em 1932, viveram na crença de intervenção a favor da
própria tese nacional, por modo a exportar o conflito para as duas
grandes potências do sul, quando elas, ao contrário, obraram sempre e
até o fim no sentido de alcançar a paz definitiva7.
A contracurso dessa diplomacia da intriga a fomentar pelas
pequenas potências do Cone Sul, o entendimento entre Brasil e
Argentina na primeira metade da década de 1930 e a determinação
desses dois países de mediar, juntamente com os vizinhos Chile e Peru,
a longa e extenuante disputa entre Paraguai e Bolívia pelo território do
Chaco criaram ambiente favorável para iniciativas de estreitamento
político, superação de choques de interesses e incremento de relações
comerciais entre os países da América do Sul. O mesmo pode-se dizer
da mediação exercida pelo Brasil entre Colômbia e Peru no conflito
pela posse de Leticia, território fronteiriço por ambos disputado. O
governo de Vargas usava com habilidade sua política pan-americana
para expandir uma imagem de país conciliador e confiável, enquanto

6 Lucillo Bueno a Afrânio de Melo Franco, ofício, Montevidéu, 11 jan. 1931, AHI, lata 301,
maço 4435.
7 Idem, 8 nov. 1933, AHI, lata 301, maço 4446. Moniz Bandeira, L. A. AGuerrado Chaco.
Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília, v.41. n.1, p.161-200, 1998.

65
AMADO LUIZ CERVO

negociava duro com os Estados Unidos e lhes opunha uma inclinação


de jogo duplo com a Alemanha nazista. Toda estratégia externa tinha
por fim tirar vantagens das circunstâncias de então para o desenvolvimento
nacional. Por ocasião da referida visita do presidente Justo ao Brasil, em
1933, firmou-se no Rio de Janeiro, em demonstração da liderança e do
ativismo pan-americanista tanto de Vargas quanto do renomado chanceler
argentino Saavedra Lamas, o Tratado Antibélico de não-Agressão e de
Conciliação, ao qual aderiram logo Argentina, Brasil, Chile, México,
Paraguai e Uruguai.
Inúmeros tratados de comércio foram firmados entre países
da América Latina com o intuito de abrir mercados aos países vizinhos,
em oportuna política de contrapeso ao fechamento econômico
observado no mundo em conseqüência da crise do capitalismo8. O
periódico portenho La Razón deu em 1933 grande destaque à decidida
atuação do chanceler brasileiro Afrânio de Melo Franco e de seu colega
argentino, Saavedra Lamas, para a aproximação entre os povos do
continente, afirmando nunca haver o Brasil olhado para a Argentina
com tamanho espírito de entendimento político como então9.
Obviamente, em diplomacia, oferecer algo sem troca não consta entre
as regras da boa conduta. Contudo, tais disposições expressas pelas
altas autoridades de ambos os países, nessa como em tantas outras
ocasiões, por vezes longos períodos, despem de fundamento histórico
a tese da tradicional e constante rivalidade entre o Brasil e a Argentina,
que alguns autores insistem em repetir. Precisamente nos anos 30,
durante a política norte-americana de boa vizinhança, cujo objetivo era
o consenso regional para alinhamento estratégico, e durante a Segunda
Guerra, o governo brasileiro soube com arte política separar suas relações
especiais com os Estados Unidos da determinação desse país de castigar
a Argentina pela sua neutralidade10.

8 La Razón, Buenos Aires, 25 jun. 1932; La Prensa, 9 dez. 1935 e 13 maio 1936, AHI, lata
732, maço 10463. El Dia, Quito, 14 set. 1933; El Comercio, Quito, 13 set. 1933, AHI, lata
301, maço 4444. El Mercurio, Santiago, 16 nov. 1934; La Opinión, Santiago 9 jan. 1936,
AHI, lata 301, maço 4432.
9 La Razón, Buenos Aires, 21 jun. 1933, AHI, lata301, maço 4446.
10 Moreno, Isidoro Ruiz. La neutralidad argentina en la Segunda Guerra. Buenos Aires:
Emecé, 1997.

66
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

A Argentina de então havia imposto sua preeminência sobre


países vizinhos, particularmente o Uruguai e o Paraguai, monopolizando
neste último o comércio, os transportes e a influência política. Essa
expansão da presença argentina foi facilitada pela retirada proposital
do Brasil dos países da bacia do Prata, desde os anos 1870, ao termo
da Guerra do Paraguai. Os relatórios que chegavam de Montevidéu e
particularmente de Assunção à chancelaria brasileira alertavam para o
descuido do Itamaraty com esses países e para o equívoco de pensar
que ainda estendia por aí seu prestígio. Somente uma ação positiva
com a finalidade de restabelecer o equilíbrio das presenças e dos pesos
políticos e econômicos afastaria essa “ilusão brasileira no Paraguai”,
segundo escrevia Lucillo Bueno11.
Com o intuito de aperfeiçoar sua imagem e abrir caminho
para a cooperação com os países do hemisfério, efetivamente, o
Itamaraty havia se traçado uma estratégia que manteve invariável durante
o longo governo de Vargas (1930-1945). O objetivo era o de associar,
nas relações com o continente, o pan-americanismo e a estreita
cooperação com os Estados Unidos. Resposta e versão brasileiras à
política de boa vizinhança, que assim haveria de envolver o continente
como um todo e não apenas o eixo de um determinado país aos Estados
Unidos: “Política de solidariedade continental e fraternidade americana
( pregava o Itamaraty ), ela está baseada numa colaboração afetiva com
todos os povos da América e entendimento mais íntimo com os
Estados Unidos, aos quais estamos ligados por velha amizade...”12.
Em 1935, Vargas viajou ao Prata, visitando Montevidéu e
Buenos Aires. Retribuiu, desse modo, a visita de Justo ao Rio de Janeiro
em 1933. Tamanha importância dava à imagem de país pacifista e
conciliador que queria propalar do Brasil, que tomou como pretexto
para esta ida a Buenos Aires a inauguração da Conferência de Paz sobre
a Guerra do Chaco. Precedeu, assim, o presidente Roosevelt, que no
ano seguinte viajaria a Buenos Aires para inaugurar a Conferência

11 Lucillo Bueno a Afrânio de Melo Franco, ofício, Assunção, 3 jul. 1931; Antônio de São
Clemente a Afrânio de Melo Franco, ofício, Assunção, 1934, AHI, lata 302, maço 4447.
12 Brasil, MRE, Relatório, 1935, p. XIII.

67
AMADO LUIZ CERVO

Interamericana de Consolidação da Paz. Os anos de 1935 e 1936 fizeram


de Buenos Aires o centro das atenções do pan-americanismo, em razão
dessas duas conferências aí sediadas13.
Durante as negociações de paz acerca da Guerra do Chaco
de que resultou o Protocolo de Paz, os especialistas do Itamaraty
aconselhavam aos negociadores brasileiros apoiar a reivindicação
boliviana de um porto sobre o rio Paraguai, possivelmente na cidade
de Cáceres, situada na cabeceira da região do Pantanal mato-grossense.
Dois resultados eram previstos desse apoio ao interesse boliviano:
futuros e vantajosos acordos entre Brasil e Bolívia para fornecimento
de petróleo e afastamento da Bolívia da esfera de influência argentina e
chilena, atraindo-aparao lado brasileiro14. Aimprensa paraguaia nesse
mesmo ano reconhecia efeitos benéficos da diretriz que, especialmente
com relação ao Paraguai, vinha o Itamaraty imprimindo à política
brasileira de cordialidade sul-americana15. Apolítica de aproximação
entre o Brasil e o Paraguai, após décadas de afastamento, teve no então
deputado Neves da Fontoura, líder da bancada do Rio Grande do Sul
na Câmara dos Deputados, um defensor convicto. Para alegria dos
diplomatas e políticos paraguaios, propôs Fontoura, futuro chanceler,
que se fizesse em cerimônia solene a devolução dos troféus nacionais
seqüestrados durante a guerra, ao mesmo tempo em que se perdoaria
oficialmente a dívida pública da Guerra do Paraguai, em um gesto de
generosidade e esquecimento do passado16. Aopinião e o governo do
Paraguai viam com interesse e julgavam adequada a nova diretriz
brasileira. O presidente paraguaio, Ausebio Ayala, expressou seu desejo
se importantes
de ampliar os contatos
missões,concretos
na área de educação,
com e para tanto
o Brasil militar e técnica, já em
trocavam-

193617. Implementava-se, pois, a estratégia continental de Vargas e


dava-se, ao mesmo tempo, ouvidos ao conselho de Lucillo Bueno.

13 Brasil, MRE, Relatório, 1936, v. 1, p. 3-38.


14 N. Accioly, memorando, Rio de Janeiro 1º ago. 1935, AHI, lata 1198, maço 25943.
15 El Diário, Assunção, 13 out. 1935, AHI, lata 1198, maço 25943.
16 Ministro do Paraguai à chancelaria brasileira, telegrama, 18 nov. 1935, AHI, lata 1198,
maço 25943.
17 Cícero Peregrino, notas de viagem, 9 mar. 1936; Legação do Paraguai ao MRE, memorando,
Rio de Janeiro 10 set. 1936, AHI, lata 1198, maço 25943.

68
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

O estreitamento com o Paraguai empreendido pelos chanceleres


Macedo Soares e Riart, ao tempo do presidente Ayala, não sofreu
modificação com o golpe do coronel Rafael Franco que o derrubou
em 1936. Ao contrário, o programa de cooperação permaneceu em
andamento, com o intuito de estabelecer a união ferroviária entre ambos
os países e prosseguir no treinamento militar aos oficiais do Paraguai.
Mas o novo governo do Paraguai também se dispunha a intensificar
suas relações com a Argentina, negociando um tratado de comércio e,
por outro lado, Macedo Soares, o artífice dessa aproximação, não era
mais ministro das Relações Exteriores. O chefe da missão em Assunção,
nessas circunstâncias, solicitou esclarecimentos sobre a política brasileira
no Paraguai18. As instruções, em resposta, reforçaram as disposições
do Brasil de manter “uma política do mais franco e íntimo estreitamento
de relações de toda espécie”, incluindo o prosseguimento da ligação
ferroviária e a criação de comissão mista bilateral que estudaria as
modalidades de cooperação nas áreas de comércio, petróleo, instrução
militar, educação, cultura e outras19.
Duas correntes de opinião preocupavam vivamente as
chancelarias dos dois países, ambas à contracorrente dos esforços bilaterais
de aproximação. Por um lado, o lopismo primitivo, aquele que fez as
glórias pessoais do escritor Juan O’Leary e que esteve na origem da
aproximação entre o Paraguai e a Argentina em detrimento das relações
entre o Brasil e o Paraguai. Esse lopismo arcaico, porém, já não seria
mais um obstáculo de natureza a comprometer a recente aproximação,
visto que havia evoluído para um sentimento nacional, símbolo apenas
da soberania e da independência do Paraguai. De outro lado, as idéias
do historiador integralista brasileiro Gustavo Barroso, um geopolítico
da discórdia, diametralmente opostas ao pensamento e à prática
diplomáticos do chanceler Macedo Soares e de seu ministro em
Assunção, Lafayette de Carvalho e Silva, os artífices, com Lucillo Bueno,

Carvalho e Silva a Mário de Pimentel Brandão, ofício, Assunção, 5 fev. 1937,


18 Lafayette de
AHI, lata 1198, maço 25943.
19 Macedo Soares a Lafayette de Carvalho e Silva, despacho, Rio de Janeiro, 19 fev. 1937,
AHI, lata 1198, maço 25943.

69
AMADO LUIZ CERVO

da nova relação de cooperação bilateral20. Essas correntes de


pensamento, em razão de seu impacto sobre a imprensa, haveriam,
contudo, de influir sobre certas interpretações das relações bilaterais,
distorcendo fatos e corrompendo a realidade a seu favor. Amadureciam,
apesar disso, as condições para uma nova fase de cooperação entre o
Brasil e o Paraguai durante o governo de Vargas, que visitou Assunção
em 1941.
A Argentina era o centro das atenções brasileiras na América
do Sul. Um relatório da embaixada em Buenos Aires afirmava em
1937 que a República Argentina atingia “a fase culminante de sua
prosperidade, espelhada... nos balanços bancários, nas iniciativas do
poder Executivo, no bem-estar do comércio interno e na atividade sem
precedente do comércio exterior”. Após a Conferência Interamericana
de Consolidação da Paz, realizada em Buenos Aires em dezembro de
1936, ocasião em que o presidente Roosevelt visitou o país, as relações
políticas e o comércio com os Estados Unidos melhoravam e as críticas
da imprensa àquele país, de La Prensa em especial, tornaram-se mais
discretas21.
A autoconfiança dos argentinos impressionava a legação
brasileira em Buenos Aires. Segundo observavam os diplomatas
brasileiros, os dirigentes platinos fundavam sua autoconfiança na
capacidade de atração de indústrias estrangeiras para satisfazer o poder
aquisitivo interno, na produtividade agrícola, nas iniciativas de caráter
social, educativo e artístico, na solução fácil e imediata de todos os
problemas financeiros, no aumento das exportações, no excelente serviço
de comunicação com o exterior e na exaltação do sentimento nacional.
O comércio bilateral era tradicionalmente deficitário para o Brasil, o
que significava perda de oportunidade de negócios com um vizinho
de tão elevado valor, relatava a legação brasileira22. O Brasil exportava

20 Legação do Brasil a Mário de Pimentel Brandão, ofício. Assunção 27 mar. 1937; Lafayette
de Carvalho e Silva a Mário de Pimentel Brandão, ofício Assunção, 29 mar. 1937, AHI, lata
1198, maço 25943.
21 José Bonifácio de Andrada e Silva a Mário de Pimentel Brandão, relatório, Buenos Aires,
31 maio 1937, AHI, lata 590, maço 9337.
22 Idem, relatório, Buenos Aires, 31 jul. 1937, AHI, lata 590, maço 9337.

70
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

para a Argentina, pela ordem decrescente de valores: erva mate, café,


madeiras, tabaco, laranjas, bananas, arroz e outros. Importava, pela
mesma ordem de valores, trigo (90% das importações), farinha de
trigo, linho e outros23. Após a euforia de 1937, o ano seguinte não
apresentou o mesmo desempenho e o governo argentino alvoroçou-se
com a idéia de aplicar rigorosos controles para manter favorável seu
saldo comercial com o exterior. Procurava, como fazia o Brasil, novos
parceiros, elevando seu intercâmbio com a Alemanha ao nível do
brasileiro24.
À medida que melhoravam as relações entre Argentina e Estados
Unidos, a chancelaria brasileira ostentava ainda maior empenho em
construir o pan-americanismo a partir do perfeito entendimento com
os Estados Unidos e da responsabilidade coletiva pela preservação da
paz, na suposição de que daquele eixo proviriam os melhores insumos
ao desenvolvimento econômico e à segurança do continente25. O
Conselho Federal de Comércio Exterior assessorava a chancelaria na
condução da política de comércio exterior, instrumento essencial de
que dependia o esforço interno de industrialização, já que das
exportações decorria a possibilidade de fazer chegar máquinas e
equipamentos26.
O paradigma desenvolvimentista buscava a auto-suficiência
nacional. Quando aplicado pelos Estados sul-americanos a suas
macropolíticas criava dificuldades ao comércio regional, que eram
sentidas já nos meados dos anos 30. A Bolívia aumentava seu
intercâmbio com o Peru e o Chile, inquietando a chancelaria brasileira
que sobre aquele país vizinho cogitava reforçar apresença, naexpectativa
de fazer importantes acordos futuros para importação de petróleo27.

23 João Alberto Lins de Barros a Pimentel Brandão, relatórios, 30 nov. 1937 e 8 jan. 1938,
AHI, lata 590, maço 9337.
24 Legação do Brasil ao MRE, relatórios de 9 maio 1938, 3 de nov. e 28 dez. 1939, AHI, lata
590, maço 9337.
25 TheWashington Post, 25 set 1938, AHI, lata 1198, maço 25938.
26 Relatório, 1936, p. XVIII.
27 J. de Mendonça Lima a Macedo Soares, relatórios de 8 maio e 9 abr. 1935, Guayaramerin,
AHI, lata 301, maço 4442.

71
AMADO LUIZ CERVO

As instruções do chanceler Macedo Soares ao ministro brasileiro enviado


para La Paz, em 1936, Cyro de Freitas-Valle, davam continuidade ao
esforço de aproximação estratégica com os pequenos países do Cone
Sul. Com o intuito de “garantir a influência econômica e política que
estamos no direito de pretender nesse país”, três objetivos foram
definidos para a ação do novo representante brasileiro: a ligação
ferroviária, o transporte do petróleo e a tranqüilidade das fronteiras.
Para a ligação ferroviária entre os dois países, o Brasil havia posto à
disposição da Bolívia um milhão de libras, em virtude do tratado de
25 de dezembro de 1928, mas mesmo assim não confiava que o governo
do país vizinho tivesse condições de levar a termo o trecho interno e por
isso sugeria que o empreendimento fosse confiado a uma empresa dotada
de recursos próprios e que o empréstimo fosse destinado à construção
do
se em uma prioridade
oleoduto para
entre os dois o Brasil,
países. apesar dado
O transporte oposição
petróleodaconverteu-
Standard

Oil Company, possuidora de enormes concessões petrolíferas na


Bolívia28. Solenes tratados bilaterais foram concluídos em 1938,
estabelecendo soluções adequadas para as duas questões que eram de
interesse de ambos os países, a ligação ferroviária e o transporte do petróleo.
Esses tratados foram utilizados em larga escala pela diplomacia brasileira
para patentear sua determinação e sua capacidade de manter a cooperação
de benefícios compartidos com os países da América do Sul29.
A implantação de um regime autoritário conhecido por Estado
Novo, em fins de 1937, criou dificuldades para o Brasil em alguns
países da região, levando-o, nos anos seguintes, a exibir com maior
determinação sua política de boa vizinhança, segundo os firmes
princípios aprovados na Conferência de Consolidação da Paz em Buenos
Aires, em dezembro de 1936. Feito chanceler, Oswaldo Aranha elevou
essa “política de boa vizinhança” à primeira linha na ordem de suas
preocupações externas30. Assim mesmo, as amistosas relações que o

28 José Carlos de Macedo Soares a Cyro de Freitas-Valle, instruções, Rio de Janeiro, AHI,
lata 301, maço 4442.
29 Mário de Pimentel Brandão a Alberto Ostria Gutierrez, despacho, Rio de Janeiro, 25 fev.
1938, AHI, lata 301, maço 4442.
30 Brasil, MRE, Relatório, 1938, v. 1, p. 5.

72
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Brasil mantinha com o governo chileno foram afetadas e o fato


contribuiu, além da semelhança dos regimes, para maior aproximação
entreChileeArgentina31. O intercâmbio comercial entre Brasil e Peru
era minguado em razão de serem os dois produtos peruanos de
exportação, algodão e açúcar, concorrentes com idênticos produtos de
outros países, inclusive o Brasil32. Já o comércio entre o Chile e a
Colômbia parecia animado pelo grau de complementaridade entre as
duas economias. O Chile procurava colocar no mercado colombiano
salitre, vinhos e produtos manufaturadose adquirir café, cacau e fumo33.
A questão de Leticia, um litígio de fronteira entre Peru e
Colômbia, depois de resolvido pelo protocolo do Rio de Janeiro de
1934, ainda mantinha um ambiente adverso para as boas relações entre
ambos os países, em parte devido ao fato de haverem os partidos
políticos convertido o episódio em bandeira eleitoral34. Do lado da
Venezuela, a Colômbia procurava, em 1936, obter resultados positivos,
fixando tecnicamente a fronteira, firmando novo acordo comercial e
promovendo a visita presidencial, mas a imprensa dava conta de tensões
na fronteira35. Essas tensões abalavam a relação com a Santa Sé, desde
que o presidente Alfonso López do Partido Liberal decidiu reformar a
Constituição e pôr termo aos privilégios da Igreja36.
Em 1937, o Brasil resolveu abandonar apolítica de valorização
do café, à sombra da qual prosperara a produção e a exportação da
Colômbia, provocando grave crise social, econômica e financeira neste
país, resultante daperda de receita de exportação. Desorientado, cogitava
o governo colombiano em elevar a política protecionista para fazer
face ao inesperado desequilíbrio de suas contas externas37. A elevação

31 L. T. Leite Filho a Pimentel Brandão, ofício, Santiago, 13 abr. 1937; V. F. da Cunha a


Oswaldo Aranha, ofício, Valparaíso, 30 maio 1939, AHI, lata 1198, maço 25940.
32 G. do Amaral ao MRE, relatório, Lima, 11 out. 1939, AHI, lata 695. maço 10174.
33 Manoel Coelho Rodrigues a Macedo Soares, ofícios, Bogotá, 17 jul. 1935 e 5 fev. 1937,
AHI, lata 1034, maço 17837.
34 Legação do Brasil a Macedo Soares, ofício, Bogotá, 8 abr. e 30 de jun. 1936, AHI, lata
1198, maço 25935.
35Idem, 23 abr. e 29 ago. 1936, AHI, lata 1198, maço 25935.
36 Ibidem, 20 out. 1936, AHI, lata 1198, maço 25935
37 Octávio Fialho a Pimentel Brandão, relatórios de 5 jun. e 23 dez. 1937, AHI, lata 690,
maço 10108.

73
AMADO LUIZ CERVO

dos preços do café no mercado internacional no ano seguinte devolveria


o otimismo dos negócios ao país38. Ao dar ao embaixador designado
para Bogotá suas instruções em janeiro de 1939, Oswaldo Aranha
assinalava o contraste entre os dois países, uma Colômbia de arraigadas
e apaixonadas disputas políticas e doutrinais, um Brasil que visava tão-
somente o desenvolvimento nacional sem o desperdício das energias
em especulações daquela natureza. Assim mesmo, o novo embaixador
haveria de buscar o assentimento da Colômbia ao consenso continental
diante dos antagonismos europeus. Sendo a Colômbia o grande
concorrente do Brasil no mercado internacional do café, todas as
informações acerca desse negócio eram requeridas. Não estava o Brasil
interessado no momento em acordo para transporte de petróleo
colombiano, tanto pelo elevado custo que teria quanto pelo fato de
lançar sombra sobre o importante tratado com a Bolívia firmado em
25 de janeiro de 193839. No exercício de sua função, o novo
embaixador encontraria dificuldades em estimular o comércio bilateral,
em razão da falta de complementaridade das economias40.
O comércio entre o Brasil e a Venezuela, embora crescente,
ainda se fazia na primeira metade dos anos 30 por transbordo na ilha
deTrinidad41.
A nacionalização, em 1938, das empresas petrolíferas que
atuavam no México, por um decreto de 18 de março do presidente
Lázaro Cárdenas, suscitou forte interesse no continente americano. O
Departamento de Estado interferira no caso, com o intuito de mediar
o acerto para indenização das empresas americanas expropriadas, mas,
diante das dificuldades, retirou-se para não ferir sua política de boa
vizinhança. Na realidade, os Estados Unidos pretendiam estabelecer
um forte fluxo de comércio continental a seu benefício, que viesse

38 Legação do Brasil ao MRE, relatório, Bogotá, 12nov. 1938, AHI, lata 690, maço 10108.
39 Oswaldo Aranha a Carlos Lima Cavalcanti, instruções, Rio de Janeiro, 23 jan. 1939,
AHI, lata 1198, maço 25941.
40 Carlos de Lima Cavalcanti ao MRE, relatórios, Bogotá, 9 mar. e 18 jul. 1939. AHI, lata
690, maço 10108.
41 J. de A. F. de Melo a Macedo Soares, ofício, Caracas, 13 out. 1934, AHI, lata 1029, maço
17614.

74
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

competir com a presença européia e, sobretudo, pôr termo ao comércio


da América Latina com a Alemanha que crescia a passos de gigante em
conseqüência dos acordos de compensação. Muito lhe desgostou,
precisamente, o acordo de compensação para exportação de petróleo
mexicano à Alemanha, visto que dele resultaria um aumento sensível
das importações mexicanas de produtos daquele país já tido por inimigo.
As boas disposições do governo americano no continente seriam
correspondidas com a vontade mexicana de superar o trauma da
nacionalização e alcançar logo o regular comércio de exportação de
petróleo com o vizinho do norte. Em março de 1939, amissão Donald
R. Richberg, representante das companhias americanas, negociou em
clima de cordialidade com o governo de Cárdenas, sem contudo alcançar
uma solução a contento. O espírito nacionalista dessa expropriação
transparecia nas declarações de então acerca da autonomia econômica
que dela resultava e espraiava-se pelo continente, vindo logo depois a
Bolívia a nacionalizar a Standard Oil. Manifestações de simpatia à
política econômica de Vargas, tido por condutor firme e bem sucedido
dos interesses nacionais em política externa, eram externadas por
dirigentes mexicanos. As dificuldades, contudo, para implementar o
comércio do México com o Brasil eram apontadas pelo chefe da missão
naquele país: falta de política comercial do Brasil com relação ao
México, deficiência da representação, ausência de organização comercial
e bancária, ineficiência da navegação42.
O início da guerra provocou dois efeitos sobre as relações
interamericanas: o primeiro, na esfera política, correspondeu ao
revigoramento das relações diplomáticas regionais e do pan-
americanismo; o segundo, na esfera do comércio regional, acentuou o
interesse da América Latina pelo comércio com os Estados Unidos e
entre os próprios países latinos. AII Reunião de Consulta dos Ministros
de Relações Exteriores instalada em Havana entre 21 e 30 de julho de
1940, dando continuidade às anteriores conferências pan-americanas
de Buenos Aires, Lima e Panamá, produziu novos acordos coletivos

42A. Paços a Oswaldo Aranha, relatórios, México, 20 mar., 21 jun., 15 jul. e 30 nov. 1939,
AHI, lata 701, maço 10247.

75
AMADO LUIZ CERVO

com os objetivos de prover a organização de um sistema de defesa das


Américas e de agilizar o intercâmbio político, econômico e militar.
Mesmo a Argentina neutralista desenvolvia essas duas linhas de força
por meio de sua política exterior43.
Auscultando o pensamento de Vargas, Oswaldo Aranha tinha
extremo cuidado em manter excelentes relações com as duas potências
continentais das quais dependia o êxito do pan-americanismo e da
política exterior brasileira, Estados Unidos e Argentina. As declarações
de intenção distribuíam-se pelos dois lados. Em novembro de 1941,
regressando Oswaldo Aranha de uma visita a Buenos Aires, marcada
por inúmeros encontros com seu colega Enrique Ruiz Guinazu, as
duas chancelarias levaram simultaneamente a público um comunicado
em que os dois ministros concordaram “... desde logo na necessidade
imprescindível de que ambas as chancelarias mantenham em todos os
momentos o mais íntimo e estreito contato, observando uma atitude
solidária, de acordo com os compromissos pan-americanos assumidos...”.
Dispunham-se, além disso, a acionar os mecanismos de
negociação diplomática para auxiliar Peru e Equador a superar seu
conflito de fronteira44. A imprensa esforçava-se então para contra-
arrestar opiniões que lançassem sombras de desconfianças entre os dois
países e o chanceler Oswaldo Aranha muito apreciava a manifestação
dessa imprensa cordial, que expressava ao mesmo tempo a aceitação da
política de neutralidade e dos esforços de aproximação da Argentina
com todos os demais países do continente45. Por ocasião da visita de
Oswaldo Aranha a Buenos Aires nesse ano de 1941, a demonstrar que
a perspectiva de união entre Chile e Argentina nada tinha de hostil a
qualquer outro país, os dois grandes do Atlântico sul também firmaram
um tratado de comércio cujo espírito era o de induzir uma união
aduaneira aberta à adesão dos vizinhos.

43 Rodrigues Alves a Oswaldo Aranha, ofício. Buenos Aires, 11 set. 1940, AHI, lata 732,
maço 10463.
44 Idem, telegrama, Buenos Aires, 25 nov. 1941, AHI, lata 1198, maço 25942.
45La Prensa, 20 ago. 1942, AHI lata 1198, maço 25942; Oswaldo Aranha a Rolando J.
Aguirre, nota, Rio de Janeiro, 16 abr. 1943, AHI, lata 1198, maço 25942.

76
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Mas Oswaldo Aranha mantinha invariável sua diretriz de


combinar o pan-americanismo, ou seja, a solidariedade com os países
latinos, com o americanismo, ou seja, a fiel e estreita cooperação com
os Estados Unidos. Era embaixador em Washington, quando foi feito
chanceler em 1938. Em missão aos Estados Unidos, no ano seguinte,
obteve importantes acordos bilaterais de crédito e cooperação econômica.
Em 1940 alcançarao sonho de Vargas, o acordo com os Estados Unidos
para construção da usina de Volta Redonda, um passo de gigante rumo
à procurada industrialização. Empenhar-se-ia, resolutamente, para
alcançar não somente a solidariedade da América Latina com os Estados
Unidos no enfrentamento que este preparava contra a Alemanha nazista,
mas a cooperação efetiva de guerra, caso necessária.
Na Conferência de Buenos Aires de 1936 aprovara-se o
princípio de que a agressão a um país americano atingia a todos os
demais. Na III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações
Exteriores no Rio de Janeiro, em janeiro de 1942, após desfechado o
ataquejaponês a Pearl Harbor, Aranha esforçou-se, discordando de seu
colega argentino, para que todos os países rompessem as relações
diplomáticas e comerciais com as potências do Eixo, conforme
recomendação da conferência46. O Brasil recebeu com respeito,
contudo, a política neutralista da Argentina diante da guerra mundial
e, em aberta demonstração de autonomia de sua política exterior, soube
dissociar, nesse particular, sua estreita cooperação com os Estados
Unidos, dos esforços desse país em isolar e castigar a Argentina.
Estendeu-lhe a mão, em nome da solidariedade latina.
O projeto de união absoluta, política e econômica, entre o
Chile e a Argentina, continuava na segunda metade dos anos 40 a
ocupar a imprensa e a diplomacia. De modo geral, a opinião nos dois
países manifestava entusiasmo. A correspondência diplomática brasileira
relatava, sem crer, todavia, no realismo da proposta, a menos que se
ampliasse às outras repúblicas, sob a forma de uma união aduaneira ou
de medidas que viessem facilitar o comércio regional47. Quando se

46Relatório, 1942, p. XIII-XIV.


47Consulado do Brasil ao MRE, ofício, Valparaíso, 22 abr. 1942, AHI, maço 39871; Legação
do Brasil a Oswaldo Aranha, ofício, Buenos Aires, 8 jul. 1942, lata 2090, maço 37712.

77
AMADO LUIZ CERVO

preparava a paz, em 1944-1945, esse entusiasmo não fazia mais a


unanimidade da opinião chilena, que era afetada em sua visão da união
com a Argentina por pressões de refugiados políticos daquele país e
dos governos inglês enorte-americano48. Aliás, sempre restara alguma
desconfiança diante das intenções argentinas, quando um ministro
de país vizinho visitava a Argentina, o boliviano sobretudo49. Mas a
Argentina não se contentava em sonhar com a união aduaneira com o
Chile. Durante a guerra, desenvolveu intenso esforço para aumentar
suas exportações para a Colômbia e a Venezuela, países com os quais o
Brasil mantinha baixo nível de comércio bilateral, seja pela falta de
complementaridade das economias seja pela falta absoluta de meios de
transporte50. Essas iniciativas argentinas não tinham apenas fins
comerciais, porquanto destinavam-se, como outras, no México, por
exemplo, a explicar e fazer respeitar na América Latina a posição de
neutralidade, que importantes setores da opinião tinham facilidade
em hostilizar51.
Embora estendesse seus olhares para o outro lado dos Andes,
em direção à possível união aduaneira com a Argentina, como esta, a
república do Pacífico não permanecia inativa em outros quadrantes.
Uma nova relação tomou impulso entre o Chile e o México, durante
a guerra, em razão da afinidade política dos regimes. As trocas de missões
importantes, com evidente caráter político-cultural, além de
negociações comerciais, para intercâmbio de salitre, vinhos, lãs e
madeiras por petróleo, açúcar, tabaco e algodão assentavam as novas
relações em base realista52. As estatísticas do comércio exterior chileno

48 MRE, memorando, Rio de Janeiro 21 março 1944, AHI, armário, maço 39871;
El Mercurio, Santiago, 5 jun. 1944, AHI, maço 39871. Souza Leão Gracie ao MRE,
telegrama, Santiago, 8 jun 1945, AHI, maço 39871.
49 Souza Leão Gracie ao MRE, telegrama, Santiago, 7 out. 1941, AHI, armário, maço
45497.
50 Legação do Brasil a Oswaldo Aranha, ofícios, Bogotá, 21 jan., 25 mar. e 24 set. 1943;
Caracas, 27 abr., 28 ago. e 2 dez. 1943, AHI, lata 2090, maço 37712.
51 Carlos de Lima Cavalcanti a Oswaldo Aranha, ofício, México, 17 maio 1943, AHI,
armário, maço 45497.
52 Souza Leão Gracie a Oswaldo Aranha, ofícios, Santiago, 27 mar. e 4 abr. 1940. AHI, lata
1198, maço 25934.

78
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

revelavam que a união aduaneira com a Argentina estava muito distante


da realidade. Em pesos chilenos, as exportações elevaram-se, no
primeiro semestre de 1940, a 274 milhões para os Estados Unidos, 31
milhões para a Grã-Bretanha, 20 milhões para a Itália, 11 milhões
para o Japão e 10 milhões para a Argentina, que ocupava o quinto
lugar como fornecedor externo do Chile, atrás de Estados Unidos,
Inglaterra, Peru e Japão. Apesar da melhora dos índices– em 1943, a
Argentina vinha em terceiro lugar como fornecedor e em segundo como
comprador – ainda assim a projetada união econômica parecia
artificial53. Aprópria união política mais se assemelhava a um sonho, a
crer nas confidências do ministro chileno das Relações Exteriores ao
embaixador dos Estados Unidos, segundo as quais, para a tradição
diplomática chilena, a parceria estratégica com o Brasil seria a mais
importante de todas54.
Nessas circunstâncias, a percepção de Oswaldo Aranha segundo
a qual o projeto de união política e econômica entre Argentina e Chile
carecia de realismo, confirmava-se. Aruptura chilena com os países do
Eixo em 1943 eliminou uma diferença da política exterior vis-à-vis
do Brasil, na atitude dos dois governos diante da guerra mundial.
Imediatamente após, as relações bilaterais tomaram novo impulso com
a perspectiva de negociação de importantes acordos e a visita do
chanceler chileno ao Rio de Janeiro. Um memorando de entendimento,
semelhante a outros que o Chile firmara com seus vizinhos, também
estava em cogitação, com o parecer contrário do chefe da missão
brasileira em Santiago, que via nele um risco de difusão precipitada de
decisões diplomáticas brasileiras na América do Sul55.
O presidente Amézaga do Uruguai esperava do Brasil maiores
facilidades para a circulação de seus cidadãos na fronteira e a construção

53 Orlando Leite Ribeiro ao MRE, relatório, Santiago, 25 nov 1940, AHI, lata 1563, maço
34057. Souza Leão Gracie a Oswaldo Aranha, relatório, Santiago, 9 dez. 1943, AHI, lata
1563, maço 34057.
54 Souza Leão Gracie ao MRE, telegrama, Santiago, 8 mar. 1942, AHI, lata 1198, maço
25940. Fermandois, Joaquín. Abismo y cimiento; Gustavo Ross y las relaciones entre Chile y
Estados Unidos. 1932-1938. Santiago: Universidad Católica, 1997.
55 Joaquim Fernandes ao embaixador do Chile no Brasil, despacho, Santiago, 29 abr. 1943;
Acyr Paes ao MRE, ofício, Santiago, 4 jun. 1943, AHI, lata 1198, maço 25940.

79
AMADO LUIZ CERVO

de uma ponte internacional unindo Artigas a Quaraí. Ao Uruguai e à


Bolívia, causavam expectativas os acordos firmados com o Paraguai
em 1942, objetivando a construção ferroviária, o intercâmbio comercial,
o porto franco na cidade de Santos, o crédito do Banco do Brasil,
decisões com que se removera grande parte dos problemas derivados
da situação mediterrânea do país56.
As intrigas acerca das relações entre países do Cone Sul eram
freqüentemente suscitadas por jornais da época, exigindo constantes
desmentidos de autoridades e representantes diplomáticos. Aimprensa
promovia a intriga e a diplomacia se esforçava por desmenti-la. Isso
ocorria sobretudo em pequenos países como Uruguai, Paraguai e
Bolívia, onde, obviamente, as chancelarias de outros países zelavam
por manter influência, enquanto os governos locais buscavam iniciativas
concretas de cooperação que lhes dessem respaldo. Os arquivos
guardam documentos que retratam essas manifestações que não
afetavam seriamente o clima de entendimento estabelecido pela união
dos países ao lado de Brasil e Estados Unidos contra as potências
totalitárias, mas que despertavam a emulação entre os grandes, elevando
o poder de pressão dos pequenos em política internacional57.
Os relatórios de Bogotá à chancelaria brasileira revelavam que,
iniciada a guerra, as relações entre os dois países giravam unicamente
em torno do café, que ambos tinham como primeiro produto de
exportação. Não convinha, segundo os governos, alimentar uma ruinosa
guerra de preços, mas pensar nos mecanismos de quotas de exportação
para os Estados Unidos e de limitação da produção como alternativas
adequadas. Depois do café, era a disposição colombiana de estimular a
produção do algodão, outro produto brasileiro de exportação, que
levantava novas dificuldades para as relações bilaterais58.

56 Legação do Brasil a Oswaldo Aranha, ofício, Assunção, 25 fev. e 24 nov. 1943, AHI, lata
1198, maço 25943. Baptista Luzardo a Oswaldo Aranha, ofício, Montevidéu, 9 jul. 1943,
AHI, lata 1198, maço 25944.
57 Cf. AHI, lata 1198.
58 Cf. relatórios, AHI, lata 1028, maço 17565 e lata 1564, maço 34063.

80
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

2.2. O enquadramento latino-americano na ordem bipolar

O pan-americanismo havia assegurado, enfim, a união do


continente ao lado dos Estados Unidos, para reforçar a campanha de
guerra dos aliados. Na expressão de Oswaldo Aranha, deixara de ser
uma doutrina para se transformar em uma ação política das nações do
hemisfério59. A construção da ordem bipolar, engendrada pela
inteligência norte-americana durante a guerra, e a montagem dos
sistemas de aliança para reger o mundo do pós-guerra teriam na América
Latina uma reserva estratégica, com função semelhante à que ela
desempenhara durante a guerra. Em ambos os momentos, durante e
logo após o conflito, a política exterior do Brasil foi instrumento
decisivo para a realização dos objetivos hemisféricos norte-americanos,
que foram, sucessivamente, a cooperação de guerra e o apoio à
montagem da ordem internacional no pós-guerra60.
A 14 de julho de 1944, antes da Conferência de Dumbarton
Oaks entre seus representantes e os de Inglaterra, Rússia e China, os
Estados Unidos consultaram o governo brasileiro sobre as relações
especiais que cogitavam estabelecer com a América Latina, findo o
esforço de guerra. A resposta foi além da expectativa. Pelo memorando
de 16 de agosto, concordou o governo brasileiro com a criação de um
organismo internacional regional destinado a garantir a ordem e a paz
à luz da filosofia aliada61. Abriam-se, assim, aos Estados Unidos as
portas do continente para moldar a futura Organização dos Estados
Americanos (OEA) e o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca
(Tiar), no quadro de sua estratégia global, epara obter o consentimento
dos governos do continente.

59Brasil, MRE, Relatório, 1942, v. 1, p. XV.


60 Smith, Peter. Talonsoftheeagle. Dynamics ofU.S- Latin American relations. Oxford: Oxford
University Press, 1996, p. 117-216. Moniz Bandeira, L. A. Estadonacionalepolíticainternacional
na América Latina; o continente nas relações Argentina-Brasil (1930-1992). Brasília: Edunb,
1993. p. 43-56. Rapoport (1987); Moura, Gerson. A segurança coletiva continental: o
sistema interamericano, o Tiar e a Guerra Fria. In: Albuquerque, José Augusto Guilhon
(org). Sessenta anos de política externa brasileira. São Paulo: Edusp, 1996. 2 v. v.1,p. 161-172.
61 Relatório, 1944, v. I, p. 21-23.

81
AMADO LUIZ CERVO

Contudo, o consentimento dos latinos ao enquadramento que


os Estados Unidos pretendiam lhes aplicar na ordem do pós-guerra
não foi unânime e gratuito. Enquanto se planejava nos Estados Unidos
o mundo do pós-guerra, havia nos meios políticos latinos quem
pensasse o futuro do subcontinente, levando em consideração a força
que assumira sobre a área a potência hegemônica regional e a possibilidade
de uma influência avassaladora após a guerra. A Argentina, ao contrário
do que já se afirmou, não foi o único país a manifestar essas preocupações.
Em agosto de 1943, o chanceler colombiano Turbay enviou
um memorando aos países latino-americanos que haviam rompido as
relações diplomáticas e comerciais com o Eixo, sem contudo haver
declarado a guerra, a fim de realizar uma consulta sobre a atitude a
tomar após o término do conflito. O fato de alguns haverem declarado
guerra e outros apenas rompido relações denotava não existir perfeita
sintonia dos países do continente a tal respeito. Esse desentendimento,
segundo Turbay, criava dificuldades para o estabelecimento de sólida
união latina. A chancelaria colombiana sugeria, por conseguinte, esforços
regionais como forma concreta, a exemplo dos acordos de união
regional entre Venezuela, Colômbia e Equador com vistas à formação
daGrã-Colômbia.
O embaixador brasileiro em Quito, João Carlos Moniz, fez
uma exaustiva análise dospossíveis desentendimentos regionais e de seus
efeitos sobre o sistema interamericano. Identificou dois condicionamentos
capazes de afetar essas relações internacionais e de dar-lhes um curso que
não considerava adequado: a influência desagregadora espanhola a
despertar o sentimento de raça inerente à cultura da hispanidad e a
necessidade de provocar a união das nações hispânicas para conter a
influência americana. O regionalismo, segundo Moniz, agrupando
Estados que cultivassem afinidades históricas como força de coesão,
poderia degenerar em força de desagregação do pan-americanismo, ao
contrapor-seou excluir as grandes potênciasnão espanholasdo continente.
Quanto ao Brasil, a desunião das nações espanholas favorecera, no
passado, a ação da diplomacia, que alcançara importantes conquistas como
a fixação das fronteiras. A criação de um bloco de países hispânicos
poderia modificar a seu favor a balança do poder e comprometer a

82
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

influência e o prestígio do Brasil na América do Sul. Tanto mais que o


movimento haveria de ser conduzido pela Argentina, cuja ascendência
econômica e espiritual exerceria um fascínio sobre o mundo hispano-
americano. O ofício de João Carlos Moniz ao chanceler Oswaldo
Aranha concluía propondo ao Brasil uma política de aproximação
íntima com os países hispano-americanos, “tendente a anular, neles, o
natural sentimento de despeito provocado pelo nosso engrandecimento
e progresso e a criar, ao invés, um sentimento de admiração e de respeito
pela nossa força, o que acabaria por despertar-lhes a consciência da
nossa pacífica supremacia e amistosa liderança”62.
A percepção de que a Espanha de Franco ensaiava uma forte
influência sobre os destinos da América hispana estava correta. Seu
governo tinha o propósito de reforçar a liderança da Argentina,
neutralista como a Espanha, no mundo do pós-guerra63. O reatamento
das relações com a União Soviética e o fato de a Argentina ser o único
país americano a ter um embaixador junto a Franco confirmava essa
disposição de liderança64. Em meio a um mundo apreensivo, que era
aquele do pós-guerra, repercutiu enormemente na imprensa espanhola
a missão Estanislao López enviada por Perón a Madri para conferir a
Franco o colar da Ordem do Libertador. Do lado da França, Perón
não perdia igualmente a ocasião de projetar a imagem de uma Argentina
progressista e elo de ligação entre os povos do mundo inteiro65.
Além de haver estabelecido relações com a União Soviética, a
Argentina reforçou no imediato pós-guerra sua presença na África do
Sul e no Canadá, de onde chegou o primeiro embaixador acreditado

62 João Carlos Moniz a Oswaldo Aranha, ofício, Quito, 27 ago. 1943, AHI, lata 1198, maço
25935.
63 Legação do Brasil a José Roberto de Macedo Soares, ofício, Madri, 16 mar. 1945; Lunes,
Madri, 26 fev. 1945, AHI, armário, maço 45496.
64 Vasco Leitão da Cunha ao MRE, telegrama, Madri, 9 jun. 1946, armário, maço 45496.
65 Legação do Brasil a Samuel de Souza Leão Gracie, ofício, Madri, 19 out. 1946; João
Emílio Ribeiro a Hildebrando Accioly, ofício, Buenos Aires, 16 nov. 1946; LeFigaro, Paris,
19 dez. 1946, AHI, armário, maço 45496. Rein, Raanan. Spanish-Argentine relations and
the changing place of the Hispanic heritage in peronist nationalism, 1946-1955. In: Cervo,
Amado, Döpcke, Wolfang (orgs). Relações internacionais dos países americanos; vertentes da
História. Brasília: Linha Gráfica, 1994, p. 132-139.

83
AMADO LUIZ CERVO

no país. Em janeiro de 1946, o ministro das Relações Exteriores,


Juan I. Cooke, expôs publicamente a orientação da política exterior
argentina: adesão à política de boa vizinhança na América e à amizade
com os Estados Unidos, rejeição a qualquer política intervencionista
no continente66.
O governo norte-americano não apreciava esse prestígio
argentino e suspeitava das intenções da chancelaria portenha. A 12 de
fevereiro de 1946, o subsecretário de Estado Dean Acheson presidiu
uma reunião a que compareceram Spruille Braden e todos os chefes de
missões latino-americanas acreditados nos Estados Unidos, exceto o
da Argentina. Informou-lhes que documentos alemães caídos nas mãos
dos americanos comprovaram a conexão da Argentina com o Eixo e a
disposição de derrubar governos de países vizinhos, como o do Brasil.
Essa séria impugnação, que adiante será objeto de análise, parecia sugerir
que o governo dos Estados Unidos pretendesse excluir a Argentina do
Tratado de Assistência e Defesa Mútua que as repúblicas do continente
tencionavam firmar na Conferência do Rio de Janeiro. Os documentos
seriam brevemente tornados públicos67. Nesses primeiros meses de
1946, a imprensa norte-americana refletia as interpretações do
Departamento de Estado acerca da hostilidade argentina para com os
Estados Unidos. Segundo a opinião dominante na imprensa norte-
americana, Perón visava obstruir a Conferência do Rio de Janeiro, que
somente se faria sem a presença da Argentina, e assumir a liderança
antiamericanano continente. Para tanto, o restabelecimento de relações
com a União Soviética contribuiria, trazendo para o continente o
conflito ideológico existente na Ásia e na Europa68.
Embora as articulações do Departamento de Estado, como a
reunião que a excluíra, correspondessem a uma estratégia para fulminar

66 Décio Coimbra a Pedro Leão Veloso, ofício, Buenos Aires, 21 jan. 1946, AHI, lata 940,
maço 14723.
67 Fernando Lobo ao MRE, telegrama, Washington, 12 dez. 1946, AHI, lata 940, maço
14723.
68 João Carlos Moniz ao MRE, telegrama, AHI, armário, maço 45496. Rapoport, Mario,
Spiguel, Claudio. Estados Unidosy el peronismo; lapolítica norteamericana en la Argentina:
1949-1955. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 1994.

84
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

a indocilidade e o prestígio da Argentina no pós-guerra, acusando-a,


por exemplo, de golpismo – que ela, sim, tramara contra o governo de
Vargas no Brasil – a posição da Argentina no continente e no mundo
era, no mínimo, controversa. A substituição do argentinófilo Ernesto
Barros Jarpa por Joaquín Fernandez na chancelaria chilena esfriou o
entusiasmo que antes era explícito de uma união íntima entre os dois
países. Era então embaixador brasileiro em Buenos Aires João Baptista
Luzardo, ironicamente, o grande admirador da obra e da política
peronista, simpático mais que o chileno à causa argentina69. Para
compensar esse esfriamento do lado do Pacífico, preparou Perón com
muito esmero sua viagem à Bolívia, levada a efeito com grande pompa
e comitiva em outubro de 1947. A imprensa, o rádio, como também
o presidente Enrique Hertzog corresponderam às expectativas
apoteóticas do estilo peronista, afirmando este último que a Bolívia
“está com a Argentina, hoje, como no passado e como sempre”.
Enalteceu-se a coesão da comunidade hispânica do continente, não
sem reconhecer-se que esse ideal vinha sendo obstruído por alguns e
que a política peronista enfrentava oposição dentro da própria
Argentina. Ratificou-se, na ocasião, o Tratado Econômico, Financeiro
e Cultural Argentino-Boliviano70.
Mas a liderança que Perón projetava sobre os países vizinhos
era de molde ousado, a ponto de provocar reações que ele mesmo
reconheceu a 1º de maio de 1948, em sua mensagem ao Congresso
Nacional: “os esforços para ajudar a Bolívia e o Chile sofreram
interferência de forças exteriores não identificadas”, afirmação essa que
provocou uma repulsa enérgica por parte de seu entusiasta de antes, o
presidente Enrique Hertzog71.
Os governos do Brasil e da Grã-Bretanha procuravam conter a
agressividade norte-americana contra a Argentina. Em outubro de 1944,

69 Legação do Brasil a Samuel de Souza Leão Gracie, ofício, Santiago, 24 out. 1946, AHI,
armário, maço 39871.
70 Freitas-Valle a Raul Fernandes, ofícios, Buenos Aires, 24 out., 27 out., 30 out. 31 out. e
20 nov. 1947, AHI, armário, maço 45497.
71 Legação do Brasil ao MRE, telegrama, La Paz, 12 maio 1948, AHI, armário, maço 45497.

85
AMADO LUIZ CERVO

a imprensa e os meios de negócios londrinos fizeram grande pressão


sobre o Foreign Office para que não seguisse o governo de Roosevelt
em sua decisão de suspender o tráfico marítimo com a Argentina.
Lembravam que, se os Estados Unidos adotassem tais medidas, seria
porque seus parcos interesses na Argentina o permitiam, não ocorrendo
o mesmo com os vultosos interesses comerciais, empresariais e
financeiros ingleses72.
Arevogação da lei britânica de empréstimos e arrendamentos
em 1945 abriu perspectivas de fornecimento de material pesado para
as ferrovias argentinas. O professor de economia Torcuato Di Tella foi
a Londres fazer encomendas. O Tratado Bilateral de Comércio, de 1º
de dezembro de 1936, expirava então, mas foi revigorado por seis
meses, enquanto se fariam as negociações. Em junho de 1946 chegou
a Buenos Aires a missão especial Percival Liesching com o intuito de
regular por novo acordo o futuro das relações comerciais. Grande
conturbação nessas relações econômicas, comerciais e financeiras
adviriam com a inesperada suspensão da conversibilidade da libra
em meados de 1947. As negociações tornaram-se muito difíceis, em
razão de inúmeros problemas que derivavam da inconversibilidade da
libra esterlina, havendo a Argentina, por precaução, suspendido
temporariamente a exportação de suas carnes. Havia, com efeito, grandes
saldos argentinos retidos na Inglaterra durante a guerra, que se tornaram
inconversíveis, e cuja utilização não contava mais com as garantias
anteriores. No início de 1948, nova missão inglesa chefiada por Olive
Baillieu deslocou-se para a Argentina com o intuito de dar continuidade
às negociações com o condutor da economia argentina, Miranda.
Percebe-se, pois, quão elevados eram os interesses bilaterais. As
negociações e os fluxos não esmoreceram no pós-guerra. Discretamente,
os britânicos iam superando dificuldades, prosseguiam importando as
carnes, os cereais e outros gêneros e, em meio a muita conversa e a
ataques e contra-ataques das imprensas de ambos os lados, continuavam

72 Moniz de Aragão ao MRE, telegrama, Londres, 9 out. 1944, AHI, lata 940, maço
14723.

86
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

pagando as compras em libras inconversíveis. Acima de tudo, baixavam


o déficit das transações comerciais73.
A inserção da América Latina na ordem do pós-guerra teve na
Argentina seu nó górdio a desatar e o ano de 1946 o momento decisivo.
Duas forças, radicais e intransigentes, confrontavam seus pontos de
vista e, enquanto não chegassem a harmonizar-se o suficiente, o
indispensável consenso continental não seria alcançado. Por um lado,
o governo norte-americano supunha que a união continental dependesse
do aniquilamento de Perón e do peronismo argentino e, por outro,
esse movimento crescia, organizava-se e triunfava democraticamente
com a consagração das urnas. A raiz do problema residia em erros
crassos de avaliação política que se situaram em sua quase totalidade
do lado americano, como veio a reconhecer Morgenthau, o pai do
realismo na teoria das relações internacionais.
A imprensa norte-americana deliciava-se em jogar lenha na
intriga: mutilava declarações de autoridades, traduzia-as capciosamente,
intercalava considerações alheias ao texto e chegava onde queria,
influindo na tomada de posições do Departamento de Estado74. Mais
objetiva e racional era a imprensa inglesa. The Times interpretou
moderadamente e com objetividade política, em agosto de 1945, a
nomeação de Spruille Braden, ex-embaixador na Argentina e feroz
adversário de Perón, para o cargo de subsecretário de Estado para
Assuntos Latino-Americanos. Como era de se supor, o periódico inglês,
embora reconhecendo os grandes interesses envolvidos bilateralmente,
considerou aqueles da reorganização do mundo do pós-guerra
superiores, afirmando que a Argentina não deveria esperar apoio político
no confronto com os EstadosUnidos que se prenunciava tenebroso75.

73 Baptista Luzardo a Pedro Leão Veloso, ofício, Buenos Aires, 25 ago. 1945; Moniz de
Aragão a Pedro Leão Veloso, ofício, Londres, 22 dez. 1945; Legação do Brasil a João Neves
da Fontoura, ofícios, Buenos Aires, 5 fev. e 12 mar. 1946; Baptista Luzardo a João Neves da
Fontoura, ofício, Buenos Aires, 22jun. 1946; Freitas-Valle a Raul Fernandes, ofício, Buenos
Aires, 19 set. e 2 out. 1947; Oswaldo Furst a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 15 jan.
1948, AHI, lata 2090, maço 37712. Rapoport, Mário. El laberinto argentino. Política
internacional en un mundo conflictivo. Buenos Aires: Eudeba, 1997, p. 193-264.
74 Paulo Demoro ao MRE, telegrama, Buenos Aires, 4 jul. 1944, AHI, armário, maço 45497.
75 Moniz de Aragão a Pedro Leão Veloso, ofício, Londres, 28 ago. 1945, AHI, armário,
maço 45496.

87
AMADO LUIZ CERVO

Ao tempo em que fora embaixador dos Estados Unidos em


Buenos Aires, Spruille Braden preparou uma documentação com o
intuito de causar profunda impressão na opinião argentina e de todo o
continente, cujo resultado, ao que esperava, seria a repulsa generalizada
à pessoa de Perón. Publicou-a em fevereiro de 1946, sob a forma de
memorando do Departamento de Estado, que logo se denominou
“Livro Azul”. Eram revelações fartas, complexas e abundantemente
documentadas que vinculavam o nacionalismo argentino ao nazismo
por meio de intensos contatos entre personalidades e autoridades do
país com a Alemanha de Hitler. A imprensa argentina, que logo
divulgou o documento, reagiu estupefata, mas percebeu de pronto
que o Departamento de Estado agia em função das eleições marcadas
para dias depois, 24 de fevereiro. O efeito desmoralizante do
documento, para Perón e para a nação argentina, foi, portanto, associado
a finalidades políticas, estando a mão do Departamento de Estado por
trás da possível derrota de Perón, como estivera, em 1945, agindo na
queda de Vargas, os dois líderes nacionalistas das grandes potências
latinas do continente.
Além de ferir a imagem e a ética política do peronismo, Braden
qualificava o nacionalismo argentino de pernicioso. Primeiro, porque
tinha o caráter antilatino-americano, ao objetivar a reconstrução do
antigo vice-reino do Rio da Prata e a hegemonia argentina sobre a América
do Sul; segundo, porque essa hegemonia seria imposta por meio de uma
estratégia gradual, a começar pelos arredores, com união aduaneira com
o Chile, infiltração na Bolívia, expansão financeira no Paraguai e política
de atropelo ao Uruguai76. Essa injeção de pérfido fim ao esforço peronista
de cooperação com os vizinhos que impregnava a visão bradeniana da
política exterior argentina faria grande sucesso no Brasil, ao converter-se
na visão de uma seqüência de titulares do Itamaraty, entre 1946e 1955,
chanceleres João Neves da Fontoura, Vicente Rao e Raul Fernandes.
A imprensa argentina reagiu com grande indignação ao
requisitório de Braden contra o peronismo e as pessoas citadas no

76 Álvaro Teixeira Soares a João Neves da Fontoura, ofício, Montevidéu, 13 fev. 1946, AHI,
lata 940, maço 14723.

88
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

documento vieram a público explicar-se. De início, julgou-se que o


desprestígio causado a Perón comprometera fatalmente sua candidatura.
Não o fez. As eleições se processaram com calma e foram ilesas. O
novo partido peronista, criado com base em idéias sociais avançadas,
surpreendeu aos oposicionistas, reunidos nos tradicionais partidos
democráticos, que quiseram, sem conseguir, adiar as eleições e foram
vencidos. O “Livro Azul”, que prontamente foi rebatido por Perón, o
centro das acusações, com seu “Livro AzuleBranco”, as cores da Argentina,
produziu efeitos eleitorais contrários ao que pretendia o Departamento
de Estado, vertendo para o peronismo votos de muitos que não o teriam
sufragado77. A vitória de Perón em eleições democráticas abrandou a
imprensa dos Estados Unidos. Ao comentar os resultados, o New York
Times se perguntava como a Argentina poderia readquirir sua posição
na família americana e propunha iniciativas para alcançar rapidamente
um entendimento, convertendo aquele país, há pouco tido por
“endemoninhado”, em parceiro leal e seguro no empreendimento de
construir a aliança regional e firmar o tratado de defesa hemisférica
ocidental.
Estava, pois, em marcha na imprensa norte-americana uma
autocrítica que reconhecia o malogro político de Braden e aconselhava
ao Departamento de Estado outra conduta com relação à Argentina.
Ademais, chegavam das chancelarias dos países latino-americanos ao
Departamento de Estado inúmeras manifestações contrárias ao “Livro
Azul”, para decepção do subsecretário de Estado que lhes dirigira
esperançoso inquérito. Os documentos que o Itamaraty remeteu a
Braden respondendo às notas sobre o “Livro Azul”coincidiam com a
generalizada repulsa dos outros países, mas carregavam o prestígio do
aliado fiel à causa da aliança continental, durante o governo Vargas, e
da hegemonia regional norte-americana, que o novo governo de Eurico
Gaspar Dutra ajudava a consolidar. Pouco antes de transmitir o cargo
a Perón, o presidente Farrel confidenciou ao chefe da missão brasileira

77 Décio Martins Coimbra ao MRE, telegrama, Buenos Aires, 15 fev. 1946, AHI, armário,
maço 45497. Oswaldo Furst a João Neves da Fontoura, relatório, Buenos Aires, 7 mar.
1946, AHI, lata 2122, maço 37966.

89
AMADO LUIZ CERVO

em Buenos Aires que a compreensão feliz existente entre brasileiros e


argentinos era a melhor garantia de paz e tranqüilidade regional78.
Em poucos meses esvaiu-se, portanto, a hostilidade do
memorando contraproducente de Braden, com a repulsa das chancelarias
latinas, a classificação de absurdos atribuída por Morgenthau aostemores
de criação de um bloco de nações antiamericanas liderado pela Argentina
e o apoio que as legações especiais conferiram à posse de Perón. Estava
aberto o caminho para a Conferência do Rio de Janeiro que aprovaria
o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, que a própria
Argentina subscreveu, não sem argumentar em favor de outros projetos
de defesa mútua que não fossem uma rendição aos objetivos estratégicos
dos EstadosUnidos no continente, consentida sem contrapartida alguma
pelos países latinos79. Desprestigiado, o Departamento de Estado,
segundo o chanceler argentino Juan Isaac Cooke, esteve alheio
à importante missão do general Carlos von Der Becke aos Estados
Unidos, a convite das autoridades militares. Outros caminhos mais
desembaraçados eram, pois, trilhados para colocar os dois países em
cadência de marcha. Esperto, o governo de Perón, a exemplo do
procedimento pragmático de Vargas, iria negociar a adesão ao Tiar
pelo desbloqueamento do dinheiro-ouro argentino nos Estados Unidos
(equivalente a dois bilhões e meio de pesos), acenando aos fornecedores
americanos com sua utilização para compras de equipamentos à
indústria. Mas a imprensa, mais uma vez, aproveitou a ocasião para
semear a intriga acerca da missão, afirmando que o general iria advogar
uma “situação privilegiada” para a Argentina, a de ponto principal da
estratégia de defesa continental. Mais uma vez, Perón comunicou-se
com o embaixador do Brasil, João Baptista Luzardo, desmentindo
pretensão de tal natureza, que colheria indignação no continente80.
À diplomacia brasileira repugnava no imediato pós-guerra
acompanhar os Estados Unidos em sua tentativa de isolamento da

78 Carlos Martins Pereira e Souza ao MRE, telegrama, Washington, 9 abr. 1946, AHI, lata
940, maço 14723. Oswaldo Furst a João Neves da Fontoura, relatório, Buenos Aires, 30
abr. 1946, AHI, lata 2122, maço 37966.
79 Idem, ofício, Buenos Aires, 17 maio 1946, AHI, lata 940, maço 14723.
80 João Baptista Luzardo a João Neves da Fontoura, ofício, Buenos Aires, 19 jun. 1946,
AHI, armário, maço 45497.

90
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Argentina no continente, apesar de reconhecer que o país irmão incorria


em freqüentes fracassos e maladresses devido ao descuido em manejar
a arte diplomática. Entre os manejos inconvenientes apontados pela
documentação brasileira, enumeravam-se fatos tais como obstruir a
recomendação da Conferência dos Chanceleres no Rio de Janeiro, em
fevereiro de 1942, de romper relações diplomáticas e comerciais com
o Eixo e dar-lhe, depois, um cumprimento tardio, em fevereiro de
1944; não tomar medidas para coibir ou fiscalizar a propaganda do
Eixo, como fizera Vargas com osdecretosde 1938, que lhe asseguraram
o controle do nacionalismo; embarcar sem custos na generosidade
brasileira que fez com que a ata final da Conferência de Chapultepec
em 1945 (Conferência Interamericana sobre os Problemas da Guerra
e da Paz, da qual a Argentina fora excluída por exigência norte-
americana) ficasse aberta à adesão da Argentina, levando-a gratuitamente
a São Francisco; fomentar a altercação com o embaixador Braden, no
momento em que os Estados Unidos emergiam como a grande
potência vencedora da conflagração e líder da nova ordem internacional.
As interpretações favoráveis da diplomacia brasileira decorriam
em boa medida da simpatia que pelo país vizinho alimentava seu
representante em Buenos Aires, Baptista Luzardo. “Aconclusão a que
se chega ( afirmava um memorando do Itamaraty em junho de 1946)
à vista dos fatos é de que a Argentina logrou uma vitória indiscutível
na luta que sustentou contra os Estados Unidos”. No momento em
que o governo de Dutra se dispunha a ceder aos Estados Unidos em
todos os quadrantes, apoiando suas decisões no delineamento da ordem
internacional do pós-guerra de modo a “queimar” um poder de
barganha repleto de sucessos concretos construído com duras penas
por Vargas, é curioso observar que a diplomacia brasileira reconhecia
na Argentina a continuidade daquele estilo calculista e pragmático. O
estabelecimento de relações diplomáticas com a União Soviética e o
tratado de comércio que se preparava eram vistos como exemplo
destinado a robustecer o poder de barganha argentino face à supremacia
norte-americana81.

81Garcia de Sousa ao chefe da Divisão Política, memorando, Rio de Janeiro, 24jun. 1946,
AHI, lata 940, maço 14723.

91
AMADO LUIZ CERVO

As relações entre a Argentina e os Estados Unidos atingiram


seu ponto mais crítico em fevereiro de 1946, com a divulgação do
“Livro Azul”, mas já entre maio e junho recuperavam um ponto de
equilíbrio. O novo embaixador americano em Buenos Aires, George
Messersmith, levou consigo um espírito de conciliação. As negociações
sobre o desbloqueio do ouro argentino retido pela reserva de Nova
Iorque, bem como a liberação dos depósitos de bancos argentinos,
chegaram a bom termo, já no mês de julho, aliviando a agenda bilateral
de penosos entulhos82. Em agosto, a Câmara dos Deputados aprovou
a adesão argentina à Ata de Chapultepec e à Carta de São Francisco,
mandando-as à ratificação. No mês seguinte, o governo nomeou o
general Carlos von der Becke, um peronista moderado e simpático ao
próprio Braden, seu representante no Conselho Pan-Americano de
Defesa Continental e José Arce para as Nações Unidas. Aderindo a tais
atos internacionais e fazendo-se, desse modo, representar nos dois órgãos
multilaterais mais importantes da política continental e mundial, a
Argentina encaminhava-se para a normalização de sua política exterior
com a conjuntura da nova ordem bipolar.
A chave para compreender o alinhamento argentino àpolítica
pan-americana e à ordem do pós-guerra, com o sacrifício dos pruridos
nacionalistas do regime de Perón, era fornecida então pela análise do
representante brasileiro em Buenos Aires, Oswaldo Furst:

Todas as atividades da política internacional argentina,


ou de outras nações, em relação a ela, nesta cidade de Buenos
Aires, repousam em interesses comerciais: (1) Com o Brasil,
abastecimento das praças brasileiras com trigo, fornecimento de
tecidos e borracha do Brasil aos centros de consumo argentinos.
(2) Com a Grã-Bretanha, venda de carnes, a melhor preço;
descongelamento de 140 milhões de libras esterlinas, de
propriedade do Banco Central da República Argentina, retidos
no banco de Londres; administração das estradas de ferro de
propriedade inglesa em território argentino. (3) Com a Índia,

82 Baptista Luzardo a João Neves da Fontoura, relatório, Buenos Aires, 4 jul. 1946, AHI,
lata 2122, maço 37966.

92
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

fornecimento de milho contra o de aniagem e juta. (4) Com o


Peru e o Equador, intercâmbio de produtos tropicais, como
borracha, de petróleo e minerais, contra trigo argentino. (5) Com
o Chile, idem. (6) Com várias nações européias, inclusive a
Espanha, negociações comerciais de vários aspectos, mantidas
sempre em maior reserva do que as demais.

Embora ausentes dessa lista, as relações com a União Soviética


e com os Estados Unidos também revelavam muito mais interesses
econômicos que políticos, segundo as avaliações da época, e acabaram
esses últimos por entrar no ritmo da normalidade que os primeiros
exigiam para expandir-se83. Assim interpretou-se a nomeação do
embaixador George Messersmith como corretora da desastrosa atuação
deBraden: “... veio aBuenos Aires ( escreveu o representante brasileiro)
com carta branca para defender os interesses de seu país, suavizando
em tudo que lhe fosse possível as asperezas que se haviam criado nas
relações com os Estados Unidos”.
O ano de 1946 encerrou-se, por um lado, com o prestígio
internacionalmente elevado de Perón, que repôs seu país, com habilidade
política, na comunhão continental e mundial; e, por outro, com o
malogro de duas intrigaspoderosamente articuladas contra a Argentina,
uma pelo ex-embaixador norte-americano Braden, já conhecida, e outra
pela agência United Press, que bafejava a imprensa com insinuações de
divergências internacionais, maldades e intenções que não estavam na
orientação de governantes e homens de Estado, mas alojavam-se na
inconsciência profissional dejornalistas, no dizer de Baptista Luzardo84.
As duas orientações contraditórias da política norte-americana
para a Argentina, sugeridas respectivamente pelos embaixadores Braden
e Messersmith, estariam ainda dividindo opiniões e explicando
iniciativas aparentemente ilógicas do governo dos Estados Unidos, nos
anosa seguir. Na primeira metade de 1947, Braden estava em alta, já

83 João Baptista Luzardo a Samuel de Souza Leão Gracie, ofício, Buenos Aires, 2 set. 1946,
AHI, lata 940, maço 14723. Oswaldo Furst a Samuel de Souza Leão Gracie, relatório,
Buenos Aires, 2 out. 1946, AHI, lata 2122, maço 37966.
84 João Baptista Luzardo a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 27 dez. 1946, AHI, lata
940, maço 14723; relatório, Buenos Aires, 30 dez. 1946, AHI, lata 2122, maço 37966.

93
AMADO LUIZ CERVO

que contava com o apoio do secretário de Estado Byrnes, e seu objetivo


era obstruir a entrada da Argentina na família das nações americanas,
mesmo que necessário fosse recorrer a um tratamento de força para
domá-la. Sem dar ouvidos ao prepotente representante da diplomacia
norte-americana, comerciantes, técnicos, industriais e intermediários
demandavam a Argentina, tida por um dos países mais ricos do mundo,
atrás de negócios: automóveis, jipes, caminhões, máquinas, motores
de avião e outros manufaturados de peso, que chegavam aos milhares
aosportos argentinos, além das aquisições agenciadas pelo general norte-
americano, Royal B. Lord, conselheiro-técnico contratado pelo governo
argentino para assessorar a execução do plano qüinqüenal 85.
Não convinha, pois, alimentar essa divisão interna no governo
dos Estados Unidos, parecendo mais sensato erradicar as duas
tendências, afastando os respectivos protagonistas de políticas distintas
com relação à Argentina. Braden foi removido do posto de assistente
da Secretaria de Estado e Messersmith do posto de embaixador em
Buenos Aires. Para lá fora este com a finalidade de restabelecer a
normalidade das relações com a Argentina e não resta dúvida que a
logrou. Trabalhou na Argentina em condições muito especiais, posto
que visado por Braden e sem apoio do Departamento de Estado. Em
viagem a Washington, durante sua missão assegurou-se, contudo, da
opinião favorável de membros influentes do Congresso e do próprio
presidente Truman. Acabou por vencer, deixando Buenos Aires a 21
de junho de 1947 como herói e amigo da Argentina, contrariamente
ao que sucedera com a saída de Braden. Comentando o comportamento
afetado de ambos, assim expressou-se o novo embaixador do Brasil
em Buenos Aires, Freitas-Valle: “... O fato é que, em um caso como
em outro, para um diplomata da escola clássica, deveria parecer que
tanto o senhor Braden como o senhor Messersmith embandeiraram-
se sem medida e que isto não é o papel de um grande embaixador” 86.

85 Carlos Martins Pereira e Souza ao MRE, telegrama, Washington, 4 jan. 1947, AHI
armário, maço 45497. Oswaldo Furst a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 24 mar. 1947,
AHI, lata 940, maço 14723. Freitas-Valle a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 10 out.
1947, AHI, lata 940, maço 14723.
86 Freitas-Valle a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 21 jun. 1947, AHIBR, caixa 21.

94
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Nesse mesmo ano de 1947, agitou-se novamente a hipótese


de constituição de um bloco de nações do Cone Sul (incluindo Chile,
Paraguai, Uruguai e Bolívia) sob liderança argentina. Ocorria, com
efeito, que a força das finanças e da produção argentina estava-se
derramando sobre esses países menos avançados, estabelecendo-seuma
tutela econômica espontânea e natural. O assunto avivou-se com o
livro do diplomata argentino Lucio M. Moreno Quintana, Misiones
en Londresy Ginebra, que advogava a reconstituição, apenas econômica,
do antigo vice-reino do Rio da Prata, já que, logo depois de sua
publicação, o publicista também passou a defender a reconstituição
política do mesmo, sob adesão livre à República Argentina e
conseqüente extinção da personalidade política dos antigos territórios,
que incluíam aliás parte do Brasil meridional. A chancelaria veio a
público, embora sem resguardar-se da típica empáfia do discurso
portenho de então, para negar esses propósitos de ascendência política
e reafirmar seu espírito americanista87.

87 Oswaldo Fruet a Raul Fernandes, ofícios, Buenos Aires 13 e 18 mar. 1947; Freitas-Valle
a Raul Fernandes, Buenos Aires, 23 jun 1947, AHI, lata 940, maço 14723. Legação do
Brasil ao MRE, documentos, Buenos Aires, 7 jul. 1947, AHI, lata 940, maço 14723.

95
AMADO LUIZ CERVO

96
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

3. Apogeu do Estado desenvolvimentista,


cooperação internacional e Guerra .ria
1947-1979
3.1. Uma teoria latino-americana do Estado
desenvolvimentista

Como ficou evidenciado no capítulo primeiro, o desenho do


Estado desenvolvimentista foi esboçado no período 1930-1945. Desde
então, até o final dos anos 70 este paradigma conheceu o apogeu.
A América Latina sustentou uma fase de modernização generalizada,
responsável pelos avanços econômicos que tornaram alguns países
proeminentes no mundo de então. Convém questionar a idéia de que
o paradigma promovesse nesse período o isolamento da região, a não
ser que se trate de um isolamento apenas relativo, porquanto a expansão
do setor de transformação da indústria latino-americana, embora
originalmente concebida como responsabilidade de empresas locais
autônomas, foi confiada ao empreendimento estrangeiro. Os setores
estratégicos– cimento, siderurgia, comunicação, petróleo e petroquímica,
energia elétrica, nuclear, indústria aeronáutica, espacial e naval – foram
impulsionados por empreendimentos estatais, não por requisição
original do modelo, que os preferia privados, mas porque neles a
iniciativa privada se recusava a penetrar.
As políticas exteriores foram incumbidas de três responsabilidades
com que haveriam de subsidiar os esforços de desenvolvimento
empreendidos pelo Estado e pela sociedade:
a) abrir mercados para os produtos de exportação, em uma
primeira fase ainda os tradicionais produtos primários, mas,
logo a seguir – para o Brasil, desde 1960, ao termo do
governo de Juscelino Kubitschek – os produtos da indústria
e, mais tarde, os serviços de engenharia;
b) obter recursos que viessem complementar o volume interno
de investimentos para sustentar o desejado ritmo de
crescimento;

97
AMADO LUIZ CERVO

c) obter ciência e tecnologias, mormente por meio de


empreendimentos estrangeiros a instalar-se no país, em
quantidade igualmente adequada.
Essas incumbências das políticas exteriores, caso se acentuassem,
poderiam orientar o modelo de desenvolvimento para um nível tão
elevado de dependência externa que não se percebe onde estaria o
aludido isolamento. Em condições extremas, o paíslatino-americano
poderia converter-se em “grande esmoleiro”, como se o desenvolvimento
dependesse necessariamente de fatores exógenos. Essa dimensão de
“grande esmoleiro” contaminou o modelo do passado como um desvio,
por certo, e haveria de ser recuperada, com evidência mais explícita,
nos anos 90, pela ideologia que passou a impregnar as políticas
neoliberais dos Estados latino-americanos.
Adependência exógena tornou-se um valor na medida em que
fez sucesso o equivocado conceito de modelo substitutivo de
importações, conceito que chegou a esterilizar o pensamento econômico
latino-americano. Ao fazer-se a crítica ao passado de isolamento,
responsável pela decadência nacional, segundo uma comunidade
epistêmica argentina, e pelos desequilíbrios estruturais, segundo
economistas brasileiros, regrediu-se, em termos ideológicos, ao
paradigma liberal-conservador do século XIX, quando as elites se
contentavam em controlar uma sociedade primária e concebiam o
desenvolvimento como responsabilidade alheia. Como já se observou,
não houve historicamente um modelo de desenvolvimento substitutivo
de importações, uma vez que essa substituição constituiu variável
dependente do modelo de desenvolvimento em si. Aliás, a política de
comércio exterior dos grandes países latino-americanos não operou
com o fator substitutivo de importações. Pelo contrário, desde o final
dos anos 60, colocou seu empenho precisamente em substituir as
exportações primárias por exportações de manufaturados e serviços
com maior valor agregado.
Esse foi o significado do esforço diplomático em prol do
desenvolvimento, em todas as esferas, a bilateral, a regional e a
multilateral. Nesse sentido, em uma tentativa de identificar seus acertos
e distorções, procuramos acompanhar a seguir o movimento das

98
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

chancelarias latino-americanas, à época do apogeu do Estado


desenvolvimentista1.
O Departamento de Estado preparou, em 1949, cinco
documentos para instruir as delegações dos Estados Unidos a diversas
conferências econômicas interamericanas de conformidade com a
política econômica que o governo norte-americano desejava
implementar nas relações com a América Latina. Esses mesmos
documentos foram obtidos por influência pessoal e confiados pelo
cônsul-geral do Brasil em Nova Iorque ao chefe da delegação brasileira
à 2ª sessão da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal),
Carlos Alves de Souza, que os remeteu à chancelaria em junho de 1949.
Durante a sessão, Alves de Souza observou as atitudes e percebeu a
extrema vigilância com que a delegação americana agiu, sempre na
defensiva, para modificar as intervenções dos delegados latinos, quando
esses apresentassem resoluções conflitantes com as orientações do
Departamento de Estado.
A política norte-americana com relação à América Latina,
segundo os documentos, haveria de basear-se no pressuposto da
continuação da Guerra Fria a exigir que os Estados Unidos se
mantivessem no futuro “numa situação muito forte tanto do ponto
de vista industrial, agrícola, social como militar”. A grandeza dos
Estados Unidos fundara-se em seu sistema político representativo e no
empreendimento privado baseado na concorrência. A América Latina
deveria constituir-se em área de expansão desse sistema para garantia
de maior poderio na paz ou na guerra. Era a doutrina da reserva
estratégica com que se definia a função da América Latina para com a
zona de influência global dos Estados Unidos no pós-guerra.

1Vizentini, Paulo F. G. Relações internacionais e desenvolvimento: o nacionalismo e a Política


Externa Independente. Petrópolis : Vozes, 1995; Vizentini, Paulo F. G. A política externa do
regime militar brasileiro; multilateralização, desenvolvimento e construção de uma potência média
(1964-1985). Porto Alegre: UFRGS, 1998; Almeida, Paulo Roberto de. O Brasil e o
multilateralismo econômico. Porto Alegre: Livrariado Advogado, 1999; Albuquerque, (1996);
Cervo (1994); Moniz Bandeira (1998); Rapoport, Mario. Crisis y liberalismo en la Argentina.
Buenos Aires: Editores de América Latina, 1998. Jalabe (1996); Paradiso (1993); Bernal-
Meza, Raúl. América Latina en la economía política mundial. Buenos Aires: Grupo Editor
Latinoamericano, 1994.

99
AMADO LUIZ CERVO

Nessa época, registrava-se um declínio das exportações norte-


americanas para a América Latina, mas o Departamento de Estado não
estava preocupado com isso. Seus objetivos eram, primeiro, o de
ampliar as exportações para a Europa em reconstrução e para a área do
dólar e, segundo, o de promover os investimentos privados para a
América Latina. Para lá, os empréstimos de governo a governo seriam
mantidos, para cá, paulatinamente extintos e substituídos pelos
investimentos privados. A tarefa das delegações norte-americanas às
diversas conferências econômicas interamericanas consistia em encontrar
meios e modos para acelerar o afluxo de capital de desenvolvimento
para a América Latina pela via dos investimentos das empresas privadas
como a fonte de capital a longo prazo e bloquear, assim, as iniciativas
que visavam os empréstimos de governo a governo. Mesmo quando
fossem empréstimos governamentais, no futuro, far-se-iam por meio
de canais privados e controlados por entidades de propriedade privada.
Os meios e modos que buscavam os norte-americanos para
implementar essa política econômica regional compreendiam ações
do Estado para alcançar, na esfera multilateral das conferências, a
desobstrução política e jurídica, e, na esfera bilateral, as condições
favoráveis às negociações concretas. O governo norte-americano
comprometia-se a promover um fluxo de longo prazo de capitais aos
países que adaptassem sua legislação e, por acordos bilaterais, dessem
firmes garantias de segurança aos investimentos, franqueassem a remessa
de lucros e de amortização, eliminassem ou modificassem a cláusula
de agressão econômica (artigo 16 da Carta da OEA) e abrissem as
atividades, mesmo nos setores básicos, à participação das companhias
estrangeiras. Os delegados e negociadores norte-americanos, sempre
que a ocasião se apresentasse, haveriam de falar “francamente sobre os
maus resultados do programa resultante da pressão dos industrialistas
no sentido da proteção a indústrias antieconômicas na América
Latina...”.
Preocupado com as relações entre o Brasil e os Estados Unidos,
em razão do que descobrira lendo esses documentos, Carlos Alves de
Souza concluía seu ofício ao ministro interino das Relações Exteriores,
Cyro de Freitas-Valle:

100
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

A análise da documentação que estou transmitindo a Vossa


Excelência revelará que se abre para as relações entre o Brasil e os
Estados Unidos da América uma fase nova, e que talvez se revele
extremamente árdua e delicada, pois o Departamento de Estado
procura, visivelmente, manter a América Latina numa posição
de inferioridade, condicionando o seu desenvolvimento à capacidade
exclusiva dos investimentos privados2.

Travava-se, assim, antes de findar a década de 1940, aprimeira


grande batalha entre o modelo autonomista de desenvolvimento latino
e a hegemonia dominadora da economia norte-americana. Essa luta
de concepções econômicas não opunha tão-somente os Estados Unidos
à América Latina como se fossem defensores estanques de doutrinas
antagônicas. No interior das sociedades latino-americanas, esses
modos distintos de fazer política e organizar a economia dividiam
profundamente a opinião pública e o pensamento das lideranças sociais.
A tese norte-americana da liberdade econômica ilimitada e irrestrita
recolhia o apoio dos segmentos socialmente hegemônicos tradicionais
e de seus ideólogos, cujos interesses consistiam em manter as vantagens
que desfrutavam ao tempo da economia primária exportadora e do
mercado aberto. A bandeira do desenvolvimento autônomo era
desfraldada por tecnocratas, burguesias nacionais, massas urbanas, bem
como por seus ideólogos, cujos interesses centravam-se na expansão
do emprego, da renda e do consumo, ou seja, na conversão da economia
em uma moderna economia industrial e de serviços3.
A Câmara Argentina de Comércio, refúgio de conservadores
oriundos da velha oligarquia agrária, em nota enviada ao Conselho
Econômico Nacional em maio de 1950, descreveu e criticou o modelo
argentino de desenvolvimento e sugeriu-lhe mudanças, na linha das

2 Carlos Alves de Souza a Cyro de Freitas-Valle, ofício, Havana, 14 jun. 1949, AHIBR
caixa 1.
3 Smith (1996); Rapoport, Spiguel (1994); Vianna, Sérgio Besserman. Apolítica econômica
no segundo governo Vargas (1951-1954). Rio de Janeiro : BNDES, 1987. Hirst, Mônica. O
pragmatismo impossível: a política externa do segundo governo Vargas (1951-1954). Rio de
Janeiro: FGV, 1990. Silva, Alexandra de Mello e. A política externa de JK: Operação Pan-
Americana. Rio de Janeiro: FGV, 1992.

101
AMADO LUIZ CERVO

concepções enunciadas pelos documentos do Departamento de Estado.


A nota constitui uma apologia da liberdade econômica e uma
condenação do dirigismo estatal. Segundo esses comerciantes argentinos,
a onda dirigista que se generalizou no século XX teria provocado
distorções nocivas ao desempenho da economia e nela caiu a Argentina,
cujos dirigentes foram afastando o país dos princípios do comércio
livre. Os passos dessa evolução foram o controle do câmbio e, depois,
o controle dos preços de mercado. O esforço voltou-se para a manutenção
dos preços, afastando-se do aumento da produção e do intercâmbio.
Indústrias tornaram-se obsoletas, como as usinas de açúcar deTucumán,
determinando o recurso aos subsídios, uma solução instantânea, porém
antieconômica. Acorreção de rumos do modelo de desenvolvimento
comportaria o abandono da mentalidade estatista, cuja origem remonta
ao socialismo e ao marxismo, e a recuperação dos princípios da liberdade
econômica. Concretamente, para a Argentina de 1950, convinha abolir
todos os controles do câmbio e dos preços no mercado interno, como
também conter as despesas públicas4.
Quase nada separava esses pensadores argentinos de 1950 dos
políticos que, em 1989, ascenderiam ao poder para aplicar medidas
liberais de desnacionalização e de desmonte industrial, ou seja, de
regresso à infância de uma sociedade pastoril e mais uma vez sob o
influxo de doutrinas engendradas nos centros do pensamento liberal
para serem aplicadas na periferia.
Mas conservadores havia em toda parte, não apenas na
Argentina. Vargas haveria de enfrentá-los com dificuldades, ao regressar
ao governo em 1951. Retomou então as diretrizes de sua política
exterior, muito próximas daquelas cultivadas pela Argentina de Perón.
Seu principal objetivo era o aparelhamento econômico e industrial do
país, mas não descurava, obviamente, a defesa nacional e continental.
Em março de 1951 convocou-se para Washington a IV Reunião dos
Chanceleres Americanos, em virtude do conflito na Coréia. Os resultados
da reunião foram decepcionantes, em razão da contraditória política
norte-americana de descaso pelo desenvolvimento latino-americano e

4 La Prensa, Buenos Aires, 23 maio 1950, AHI, lata 2050, maço 37712.

102
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

de cooptação dos países da região para a guerra contra o comunismo.


Se os norte-americanos obtiveram uma declaração de solidariedade,
não lograram mais do que isso, porquanto a América Latina apenas se
dispunha a endossar a ação da ONU para reprimir a investida soviética
na Coréia ou em outras partes. Os resultados da IV Reunião dos
Chanceleres Americanos e a subseqüente reunião da Comissão Econômica
para a América Latina deram ensejo, em meados de 1951, a manifestações
em torno do modelo de desenvolvimento latino-americano.
Vargas e Perón concordavam em que, para fazer face aos
problemas de segurança, convinha robustecer a estrutura econômica
do país de tal modo que pudesse suportar as anomalias do período e
prover-se de meios de segurança5. O governo argentino sentiu-se
fortalecido e seguro em sua estratégia que buscava lograr a autonomia
econômica e eliminar a dependência externa, reduzindo as inversões
estrangeiras, produzindo insumos básicos como petróleo e carvão,
apoiando a produção agrícola de exportação, estabelecendo uma
indústria de transformação capaz de cobrir as necessidades de bens
manufaturados, ampliando a marinha mercante e promovendo
pesquisas em setores avançados como a física nuclear. Em síntese, a
reação diante do desinteresse norte-americano em investir na América
Latina estaria na busca da auto-suficiência econômica nos setores
fundamentais da produção e dos serviços. Pretendia-se mais: o
peronismo alçava a bandeira da luta contra o predomínio de Wall Street
e o imperialismo do dólar6.
A documentação de política internacional revela que o conceito
de modelo substitutivo de importações com que os economistas latino-
americanos definiram o pensamento da Cepal e as políticas de
desenvolvimento dos Estados latinos desde a Segunda Guerra
corresponde a uma formulação da teoria econômica que não encontra
respaldo empírico na História. O que se pretendia realizar nos anos 50
e nas décadas a seguir não equivalia a uma decisão negativa de substituir

5 Relatório, 1951, v. I, p. 7-13.


6 Legação do Brasil a João Neves da Fontoura, ofício, Buenos Aires, 7 jun. 1951, AHIBR,
caixa 30.

103
AMADO LUIZ CERVO

alguma coisa, mas a um projeto positivo de construir outra economia


e outra sociedade, moderna e desenvolvida. Se houvesse sido submetido
à crítica e ao desmonte pelo pensamento econômico, o conceito de
modelo substitutivo de importações não haveria de servir, como
ocorreu nos anos 90, de arma de combate aos avanços de meio século,
que os governos neoliberais consideraram obstrução ao progresso,
ignorando que, durante o século e meio que antecedeu o Estado
desenvolvimentista, a aplicação ortodoxa de doutrinas liberais impostas
pelas matrizes capitalistas à periferia fez com que a América Latina
permanecesse estagnada.
No final de 1957, a imprensa venezuelana veiculava rumores
de um movimento de integração econômica da América Latina.
El Universal publicou matéria de H. Perez Dupuy em estilo arrogante,
com críticas severas à criação de um mercado comum regional, visto
que a Venezuela, cujo desenvolvimento e nível de vida eram
incomparavelmente superiores aos demaispaíses, somente teria a perder,
associando-se de uma forma ou de outra a países em bancarrota7. O
governo venezuelano, com efeito, surpreendeu-secom a iniciativa do
presidente brasileiro, Juscelino Kubitschek, que escreveu ao presidente
Consultou
Eisenhower,inúmeros
propondo, em 1958,
governos e especialistas,
a Operação antes de revelar sua
Pan-Americana.

posição. Após firmar uma declaração conjunta com a Colômbia e o


Equador, a chancelaria venezuelana voltou atrás em sua disposição de
apoiar o estabelecimento de um mercado comum latino-americano.
Aimprensado paíspartiu em guerra contra a proposta, que considerava
a ruína da nascente indústria nacional8.
Atitudes desencontradas cruzavam os ares da América do Sul
diante de questões como a integração e a formação do mercado comum,
sejapelo risco que tais iniciativas trariam ao nível de vida, pretensamente
desigual entre os países, seja porque não se coadunavam com o modelo
fechado e de busca de auto-suficiência econômica que se espalhava. A

7 Oscar Pires do Rio a José Carlos de Macedo Soares, ofício, Caracas, 11 dez. 1957, AHIBR,
caixa 40.
8 Oscar Pires do Rio a Francisco Negrão de Lima, ofícios, Caracas, 12 jul. e 31 out. 1958,
AHIBR, caixa 40.

104
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

abertura do mercado de consumo à importação, mesmo regulada pela


integração regional, era por vezes, vista como fator nocivo ao
desenvolvimento. A Venezuela parecia substituir, ao findar adécadade
1950, a empáfia argentina da época do peronismo. Contava entre os
países que alimentavam desprezo pelas iniciativas de outros países e,
sobretudo, combatia a idéia da integração. Seu ministro das Relações
Exteriores, Ignacio Luis Arcaya, atribuiu a si e ao presidente Fidel Castro
o mérito da conversão do pan-americanismo em um movimento de
articulação dos interesses latinos, por trás da retórica tradicional,
denotando visível desprezo pela iniciativa de Kubitschek. Quanto ao
mercado comum latino-americano, idêntico tratamento recebeu do
chanceler: uma iniciativa sem criatividade que andava na esteira dos
europeus, por falta de pensamento próprio. Destilava-se, de seu discurso,
o despeito que sentia pela projeção de outros países em âmbito regional,
e este era mais um obstáculo concreto que se acrescentava à possível
união de esforços dos diversos países para implementar o modelo
regional de desenvolvimento9.
O desenvolvimento latino produziu distorções desde a origem,
primeiro porque não foi capaz de articular-se adequadamente com as
forças econômicas do Ocidente liberal, ao acentuar a auto-suficiência
horizontal das unidades nacionais; segundo porque recusou-se à
integração de esforços das mesmas unidades que teria robustecido sua
estratégia pela ampliação do mercado.
Ao sul do continente, a instabilidade das nações evidenciava
outras perspectivas de união e desagregação, distintas das visões
venezuelanas. A neutralidade argentina durante a Segunda Guerra foi
precursora da 3ª Posição, a política exterior do peronismo, que não
significava eqüidistância dos pólos americano e soviético, mesmo
porque a Argentina inseriu-se no mundo ocidental, mas prenúncio do
movimento dos países não-alinhados. A experiência peronista de
desenvolvimento haveria de malograr em razão do impasse causado
pelo desequilíbrio estrutural entre boa infra-estrutura agrícola disponível
e ausência de bases sólidas para a superestrutura industrial moderna.

9 Idem, ofício, Caracas, 12 maio 1959, AHIBR, caixa 40.

105
AMADO LUIZ CERVO

Por tal razão, governos posteriores a 1955, queda do primeiro


peronismo, entenderam que havia veleidade isolacionista e autárquica
no modo como se conduzia o processo de industrialização do país e
quiseram voltar ao mercado aberto e intensificar suas relações com o
resto do mundo, em particular com o continente. A recuperação do
realismo político por Arturo Frondizi inclinou a Argentina ao alinhamento
de posições com o Brasil, país de tradição desenvolvimentista, porém
aberta à cooperação estrangeira. Mas foi a filosofia política que vinculou
ambos os países: a política exterior passou a centrar-se nos imperativos
do desenvolvimento como condição para realização do projeto nacional.
O corolário de tal filosofia implicava o descomprometimento na Guerra
Fria, ou seja, uma eqüidistância relativa e crítica diante do conflito
ideológico e militar entre as duas superpotências mundiais e a
solidariedade com o resto do mundo subdesenvolvido. Implicava a
convicção de que a superação do atraso era o caminho para a eliminação
dos focos de tensão internacional. Uma política exterior feita com
cautela, movendo-se entre a contraposta e dupla solidariedade com o
mundo ocidental e com o mundo subdesenvolvido.
Essas premissas explicam a convergência de visões de mundo
que inspirou, em 1958, a aliança entre Brasil e Argentina, consubstanciada
na Operação Pan-Americana e nos acordos de Uruguaiana. A
solidariedade com o Ocidente correspondia então à expectativa de
cooperação como preço da reciprocidade e a solidariedade com o
mundo subdesenvolvido tinha como premissa a construção da
comunidade latino-americana. Brasil e Argentina compartilhavam, pois,
à época de Kubitschek e Frondizi, a visão de mundo da solidariedade
ocidental conjugada às necessidades de desenvolvimento, cuja expressão
realista era a superação do antiamericanismo e a inauguração do diálogo
construtivo com os Estados Unidos. O neutralismo potencial implícito
nesse pensamento político significava a possibilidade de a América Latina
desviar-se para o terceirismo neutralista do movimento dos países não-
alinhados, caso o Ocidente se recusasse aos apelos de cooperação para
o desenvolvimento.
A OPA agregava de revolucionário ao pensamento latino
aplicado à política exterior as idéias de solidariedade aos Estados Unidos,

106
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

condicionada à cooperação para o desenvolvimento econômico e de


repulsa à intervenção no contexto da Guerra Fria, como remédio aos
males do subdesenvolvimento. A viabilidade dessa política exterior
dependia da união dos latinos em torno a esses princípios e de seu
reconhecimento pelos Estados Unidos, o que parecia utópico. Brasil e
Argentina haviam chegado a essa encruzilhada comum por caminhos
diversos, que lançavam raízes nas heranças de Vargas e Perón. Não
conviria, para erradicar o caráter utópico da OPA, pensar na união do
Cone Sul para desviar a atenção dos Estados Unidos, que se concentrava
no Caribe? Uruguaiana representou a pedra angular da nova política e
a virada cubana para o comunismo seu teste. A comunhão de pontos
de vista e de interesses argentino-brasileiros, alicerçada em sólidas e
crescentes relações bilaterais, à qual se achegariam paulatinamente
Paraguai, Uruguai, Chile e Bolívia, representaria, no plano internacional,
um incremento à capacidade de negociação e uma contra-ação à política
norte-americana de balcanização da América Latina.
A derrocada do governo de Frondizi, em meados de 1962,
interrompeu a política coincidente que vinham adotando Brasil e
Argentina nos planos interamericanos, com a Operação Pan-Americana,
e mundial, com o neutralismo potencial. Enquanto para Frondizi o
ocidentalismo era, antes de tudo, um poder de barganha a utilizar de
forma pragmática em favor do desenvolvimento nacional, para o regime
militar de José María Guido, que o substituiu, esse ocidentalismo
implicava um ingresso ativo e resoluto no campo da Guerra Fria.
Ressurgiam, pois, forças retrógradas que bloqueavam o movimento
de união latina e o concerto para o desenvolvimento, reorientando a
política para a consecução de dois objetivos: o combate às esquerdas
no plano interno e externo e a obtenção de alguns ganhos da Aliança
para o Progresso ou de investimentos privados estrangeiros.
O atentado contra a política desenvolvimentista de Frondizi e
contra seu governo foi orquestrado, segundo a legação brasileira em
Buenos Aires, por interesses nacionais e estrangeiros que se sentiam
lesados com a conversão da estrutura agropecuária em uma economia
agroindustrial, com crescimento autônomo. Com relação ao Brasil, a
inflexão provocou o desmoronamento do espírito de Uruguaiana e a

107
AMADO LUIZ CERVO

volta da política de suspicácia e emulação; com relação ao continente,


a desvinculação argentina das causas latinas e sua submissão servil à
ação norte-americana. Volta ao passado liberal-conservador e obstrução
do modelo de desenvolvimento autônomo eram apregoados com vigor
pelo novo ministro de Relações Exteriores, Bonifácio del Carril. A
chancelaria brasileira via então esvair-se em sonho seu ideal de
convergência das posições dos países da região e digeria o conselho de
seu representante em Buenos Aires:

Nada esperar deste governo, mas de modo algum hostilizá-lo,


porquanto a manutenção de, pelo menos, relações diplomáticas
boas entre Brasil e Argentina, constitui imperativo estratégico
elementar não só para os dois países em particular, como para o
resto da América Latina, em conjunto10.

A 10ª reunião da Cepal realizada em Mar del Plata e encerrada


a 17 de maio de 1963 preparou as chancelarias latino-americanas para
instruir suas delegações à Conferência das Nações Unidas sobre
Comércio e Desenvolvimento convocada para o ano seguinte em
Genebra. AAmérica Latina tinha mais uma vez a ocasião, enão a perderia,
de unir seu pensamento e franquear ao órgão multilateral universal
suas concepções de uma ordem internacional que pretendia desvinculada
do conflito geopolítico e aberta ao diálogo e à cooperação para o
desenvolvimento. Mas a natureza dos regimes políticos, uns democráticos
ou esquerdistas, outros militares ou direitistas, causava dificuldades à
união, alcançada apenas e por vezes nos foros multilaterais regionais.
Acriação da Associação Latino-Americana de Livre Comércio
(Alalc), pelo Tratado de Montevidéu de 1960, surpreendeu o governo
e o setor privado da Venezuela, que procederam, como em outras
ocasiões, a consultas multidirigidas junto a outros países com o
intuito de averiguar a possibilidade de adesão ao mesmo11. O bom
funcionamento da Alalc, desde seus primeiros anos, esteve comprometido
pela natureza fechada e protecionista do modelo de desenvolvimento

10 Legação do Brasil a San Tiago Dantas, ofício, Buenos Aires, 16 jun. 1962, AHIBR, caixa 4.
11 Antônio Corrêa do Lago a Hermes Lima, ofício. Caracas, 10 abr. 1963, AHIBR, caixa41.

108
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

adotado isoladamente pelos seus membros, pela competição por


pequenas áreas de preeminência entre os grandes países da América do
Sul e pela dificuldade de compartilhar interesses. Em 1966, a imprensa
argentina, comentando pronunciamentos das autoridades e das
lideranças empresariais, atribuiu grande importância à necessidade de
converter o Tratado de Montevidéu em instrumento suficientemente
flexível para que os Estados membros exercessem a liberdade de
concertar ajustes e acordos necessários à realização de seus interesses.
Reconhecia-se, assim, que o estatuto rígido e utópico da Associação
era também obstáculo a seu funcionamento.
O chefe da delegação argentina ao VI período de sessões da
Alalc afirmou, em 1966, que antes de defender a associação era mister
defender a Argentina. Supunha-se, então, que a liberalização comercial
seguida na Associação Latino-Americana de Livre Comércio
representava uma ameaça à sobrevivência de muitas indústrias
argentinas, daí a necessidade de “defender a Argentina”12. Uma guerra
comercial estava se iniciando dentro da Alalc, segundo essa mesma
imprensa argentina, decorrente da intenção brasileira de utilizar o
Tratado de Montevidéu como instrumento para solapar uma suposta
hegemonia argentina no Cone Sul do continente13. Argumentava-se,
contudo, em favor da expansão do comércio bilateral, sem atinar-se
que ele era, além de favorável ao Brasil, um comércio não competitivo.
Com efeito, os três principais produtos argentinos de exportação para
o Brasil em ordem decrescente de valor eram o trigo (83% do total), a
maçã e o azeite de oliva, e de importação provinda do Brasil, na mesma
ordem, as madeiras (69% do total), osprodutos siderúrgicos e o café14.
Os governos latino-americanos, até o início dos anos 70,
haviam dedicado pouca atenção à ciência e à tecnologia como variáveis
agregadas ao modelo de desenvolvimento. Em maio de 1972, realizou-
se, em Brasília, a Conferência Interamericana Especializada sobre a
Aplicação de Ciência e Tecnologia ao Desenvolvimento da América

12 Décio de Moura a Juracy Magalhães, ofício, Buenos Aires, 11 nov. 1966, AHIBR, caixa
33.
13 El Cronista Comercial, Buenos Aires, 23 nov. 1966. AHIBR, caixa 33.
14 Legação do Brasil ao MRE, relatório, Buenos Aires, 24 nov. 1966, AHIBR, caixa 33.

109
AMADO LUIZ CERVO

Latina, que teve origem nas negociações do Consenso de Viña del


Mar. O seu objetivo consistiu em identificar elementos e ações regionais
e nacionais que possibilitassem a aceleração do desenvolvimento latino-
americano através da efetiva produção, adaptação e utilização da ciência
e da tecnologia. O maior interessado era então o próprio Brasil, que
atravessava um período de acelerado crescimento econômico, cuja
sustentação dependia da apropriação e da aplicação da ciência e da
tecnologia ao processo de desenvolvimento. Contudo, manifestando
ainda aquele matiz dependentista do modelo de desenvolvimento, a
América Latina confiava ao estrangeiro a responsabilidade de produzir
ciência e tecnologia e requeria, como se fosse um direito, sua
transferência15. Essa característica de dependência do modelo somente
seria enfrentada anos depois, com o envolvimento de alguns países na
geração de tecnologias próprias.
O agregado científico ao modelo latino-americano de
desenvolvimento acentuou seu estatismo. Não por exigência filosófica
ou política mas por contingência histórica. As empresas privadas
nacionais eram de pequeno porte e atuavam em áreas subsidiárias,
sobretudo da indústria de transformação, constituída praticamente toda
de empresas estrangeiras sediadas nos países. Foram, pois, as empresas
estatais de grande porte, que operavam no setor da energia elétrica, do
petróleo, da siderurgia, da produção de meios de defesa e, mais tarde,
das comunicações, da aeronáutica e espacial que se voltaram para a
geração de tecnologias. Ao lado delas, universidades, institutos e
fundações, também públicas, iriam promover a pesquisa pura ou a
pesquisa aplicada a médio prazo, como a pesquisa agrícola. O risco
sempre existiu, como aquele sentido pela Venezuela, em 1975, por
ocasião da nacionalização definitiva do petróleo, de malograr na
apropriação do conhecimento e da tecnologia requeridos por empresas
de grande porte, mas não havia outro caminho que fortalecesse o
modelo de desenvolvimento, conferindo-lhe a progressiva autonomia
sistêmica. Aidéia de associar empresas nacionais de diferentes países, a

15 Secretaria de Estado das Relações Exteriores à embaixada em Buenos Aires, despacho,


Brasília, 26 abr. 1972, AHIBR, caixa 13.

110
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Petroven com a Petrobrás, por exemplo, inaugurando uma cooperação


no setor avançado, era aventada a cada ocasião em que grandes projetos
vinham a público, antes que a ideologia neoliberal contaminasse a
inteligência política dos governos dos anos 9016.
De modo geral, os países que se desenvolveram no quadro do
capitalismo liberal, tanto na Europa, com exceção da Inglaterra, como
no Oriente e nos Estados Unidos, passaram por idêntica fase de
introspecção econômica, que muitos apelidaram de economia de
isolamento ou, no caso latino-americano, modelo substitutivo de
importações. Essa fase foi sempre considerada indispensável para o
reforço da economia nacional e precedeu a fase de abertura para conquista
dos mercados externos. A diferença que houve entre a América Latina
e as outras três regiões dinâmicas do capitalismo esteve na incapacidade
do desenvolvimentismo de promover o surgimento de grandes
empresas com tecnologias próprias.
A grande exceção foram as empresas estatais brasileiras. Ao
iniciar-se o processo de privatizações nos anos 90, essas empresas
poderiam ter servido de apoio para alguns empreendimentos nacionais
ou regionais se projetarem globalmente, alcançando a envergadura e a
competitividade sistêmica. Foram, contudo, as autoridades econômicas
responsáveis pelo comando das decisões estratégicas no Brasil e em
outros países latino-americanos que, ao se submeterem à ideologia do
neoliberalismo divulgada desde as matrizes do capitalismo, como aquela
das portas abertas, no início do século XIX, para reger as economias
periféricas, que, ao final do século XX, deitaram a perder a oportunidade.
Aprosseguir tal política, a América Latina haverá de esperar, talvez por
mais um século, para erguer novamente algum empreendimento de
caráter local, com capacidade produtiva de escala, tecnologia própria e
condições de competitividade sistêmica, se quiser galgar o último estágio
do desenvolvimento. Depois de quinhentos anos de periferia, a falência
do desenvolvimentismo no final do século XX parecia sugerir que a
América Latina não tinha outra opção senão regredir a sua infância

16 Lucillo Haddock Lobo ao MRE, ofício, Caracas, 29 ago. 1975, AHIBR, caixa 51.

111
AMADO LUIZ CERVO

social e econômica e essa era a sorte que lhe reservava a onda devastadora
do neoliberalismo17.

3.2. A inserção internacional da América Latina entre a


Guerra .ria e a cooperação

Em 1947, ano em que se anunciava o Plano Marshall de ajuda


norte-americana para a reconstrução da Europa, a América Latina cedia,
durante a Conferência Interamericana para a Manutenção da Paz e da
Segurança no Continente, realizada em Petrópolis, o Tratado
Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar), possibilitando o passo
inicial do sistema norte-americano de alianças do pós-guerra para
contenção do comunismo. Nesse mesmo ano, o governo brasileiro
rompeu relações diplomáticas com a União Soviética e cassou o Partido
Comunista Brasileiro. Apresentou-se, ademais, como sócio fundador
do Gatt e emprestou ao governo norte-americano incondicional apoio
na determinação da nova ordem internacional do pós-guerra, pautada
pelo liberalismo ilimitado sob o aspecto econômico e político e
pelas fronteiras ideológicas sob o aspecto estratégico. No ano seguinte,
em decorrência da Conferência de Petrópolis – dita também do Rio
de Janeiro – aprovou-se, na IX Conferência Internacional Americana,
realizada em Bogotá, a criação da Organização dos Estados Americanos
(OEA). Estava, pois, o continente americano enquadrado estrategica
mente na esfera de influência dos Estados Unidos, sem haver para tanto
tirado vantagem econômica alguma, a não ser que se considere a criação,
em 1948, no âmbito do sistema das Nações Unidas, da Comissão
Econômica para a América Latina (Cepal), um ganho concreto.
Quando se preparava, em 1947, a Conferência do Rio de Janeiro
para enquadrar a América Latina no sistema norte-americano de alianças
do pós-guerra, a Argentina peronista era o único país disposto a
barganhar com a potência hegemônica da área algo em troca da adesão
da região a uma frente comum de países do continente face à ameaça

17 Guimarães, Samuel Pinheiro. Quinhentos anos de periferia; uma contribuição ao estudo da


política internacional. Porto Alegre: UFRGS, 1999.

112
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

comunista. Não havendo então disposição coletiva para tal, pleiteou,


individualmente, a supremacia naval na distribuição de forças entre os
países da América do Sul e o afastamento do princípio da uniformização
dos armamentos a depender da ajuda e fornecimento dos Estados
Unidos18.
As pretensões argentinas não se assentavam, todavia, no realismo
do pós-guerra. Com efeito, apenas os Estados Unidos estavam em
condições de fornecer ao país platino não somente armamentos, como
os outros meios com que implementar o audacioso plano econômico
qüinqüenal. Com esse intuito, fora contratado, como conselheiro
técnico, o general norte-americano Lord, um verdadeiro representante-
vendedor da indústria norte-americana de tratores, caminhões, vagões,
dragas, carros-tanques, máquinas para construção e armas. Inúmeros
homens de negócios de ambos os lados relacionados com os governos,
incluindo diplomatas e autoridades aposentados, acorriam a Buenos
Aires e aos Estados Unidos, depois que o embaixador George S.
Messersmith removera os entulhos antepostos ao caminho dos negócios
pelo radicalismo político do subsecretário de Estado SpruilleBraden19.
Sendo a presença norte-americana tão avassaladora sobre a
América Latina no pós-guerra, as relações entre as partes tenderiam a
evidenciar não mais a interdependência que existiu durante a guerra,
mas a dominação econômica e ideológica. Seria, contudo, um erro
atribuir à ação norte-americana o anticomunismo latino, visto que à
tradicional opinião liberal e cristã repugnava a ideologia marxista.
Ademais, a diplomacia fazia circular pelos países um grande volume
de informações acerca de planos ou supostos planos de infiltração
comunista sob orientação de Moscou, o que levantava preocupações
legítimas por parte dos governos. Exemplo de informação a respeito
da infiltração comunista é fornecido por José Roberto de Macedo
Soares, embaixador brasileiro em Montevidéu. Em 1948, comunicou
esse diplomata ao Itamaraty a existência de um plano de ação oriundo
da legação soviética em Montevidéu, que instruía os comunistas

18 Legação do Brasil ao MRE, ofícios, Buenos Aires, 23 jun. e 2 jul. 1947, AHIBR, caixa 1
19 Oswaldo Fruet a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 23 dez. 1947, AHIBR, caixa 21.

113
AMADO LUIZ CERVO

brasileiros a promoverem apreparação de um golpe de Estado destinado


à tomada do poder e à execução sumária dos chefes de governo
derrubados, à semelhança da malograda intentona comunista de 1935.
Qualquer encontro entre autoridades argentinas e soviéticas levantava
suspeita de alianças que a imprensa alardeava com especulações
alarmistas, como fazia o periódico uruguaio El Pais, em outubro de
1949, após um jantar oferecido pelo chanceler soviético ao delegado
argentino nas Nações Unidas: uma entente entre o comunismo
staliniano e o justicialismo peronista não seria capaz de neutralizar o
Plano Marshall ou o Pacto Atlântico, questionava?20.
Em meio a essas pressões externas oriundas de Moscou e de
Washington, entre o liberalismo e o comunismo, a América Latina
inclinava-separao lado ocidental, dando provas disso e amiúde o regime
mais autonomista que era o peronismo. No início de 1949, Perón
condecorou o general Harry Vaughan, assessor do presidente Truman.
Assim mesmo, o Washington Post, que ainda refletia a alergia da
imprensa norte-americana pelo peronismo, serviu-se do fato para
denegrir a imagem da Argentina, que qualificava como sendo a nação
mais antidemocrática e antiamericana do continente21. Nas percepções
da opinião americana, tão natural era vista a adesão da América Latina
à causa ocidental, sob condução dos Estados Unidos, que qualquer
dissensão de qualquer natureza causava espécie nos meios de comunicação.
Quando se gestava, após o Tiar, o pacto de segurança do
Atlântico norte, firmado em abril de 1949, em Washington, Maurício
Nabuco sugeria ao Brasil buscar a adesão à futura Organização do
Tratado do Atlântico Norte (Otan). Argumentava o representante
brasileiro que essa adesão lhe convinha tanto em termos globais como
regionais sob todos os ângulos: estratégico, financeiro e político. Ela
reforçaria, ademais, os vínculos de cooperação historicamente mantidos
com os Estados Unidos. Mas o próprio diplomata brasileiro reconhecia
a inviabilidade da inclusão do Brasil na Otan, primeiro porque seria

20 José Roberto de Macedo Soares a Raul Fernandes, ofícios, Montevidéu, 22 abr. 1948 e 10
out. 1949, AHIBR, caixa 1.
21 Maurício Nabuco ao MRE, telegrama, Washington, 16 fev. 1949, AHI, lata 2122, maço
37966.

114
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

recusada pelo Departamento de Estado, estando o Brasil, como Estado


americano, garantido contra uma agressão soviética pelo Tratado do
Rio de Janeiro, o Tiar, e, segundo, porque sua adesão poderia provocar
reações em outros países do continente22. Assim mesmo, estava correta
a interpretação de Maurício Nabuco: ao invés de um lugar privilegiado
no Conselho de Segurança da ONU, melhor teria convindo aos
interesses do Brasil à época ter sido aceito como membro da aliança
atlântica, condição à qual sua participação na guerra lhe dava certo
direito. Contudo, a diplomacia submissa do governo de Eurico Gaspar
Dutra facilmente concordava com as decisões norte-americanas que
diziam respeito à criação das instituições da ordem bipolar e do mundo
liberal.
Diluiu-se, pois, na segunda metade dos anos 40, a capacidade
latina de barganhar algum ganho concreto em troca da aliança
anticomunista no contexto da Guerra Fria e conformavam-se os países
da região com a hegemonia norte-americana, aceita, quando não
considerada natural. O país mais servil, o Brasil, amargou profundas
frustrações por não alcançar recompensa econômica nem pela cooperação
de guerra nem pelo concurso que prestou à implantação da nova ordem
internacional. Amalograda viagem de Dutra aos Estados Unidos, em
1949, firmou essa consciência, que logo depois se traduziu na vitória
eleitoral de Getúlio Vargas, o líder capaz de negociar interesses nacionais
com mais firmeza23.
Um dos fatores que acentuou a incapacidade de negociar,
evidenciada pelas chancelarias da região quando se engendrou o
enquadramento latino-americano na ordem do pós-guerra, adveio da
ausência de visão comum e de percepção de interesses coletivos. O
movimento das diplomacias latino-americanas entre os blocos
ideológicos e suas pressões, embora se inclinasse para o lado da
hegemonia norte-americana, denotava nos anos imediatos do pós-guerra
mais emulação em busca de vantagens nacionais do que coesão que
pudesse reforçar o poder de negociação da região, em busca de alguma
vantagem coletiva, como aconteceu com a adesão da Europa à Otan.

22 Maurício Nabuco a Raul Fernandes, ofício, Washington, 17 fev. 1949, AHIBR, caixa 1.
23 Moura ( 1991); Moniz Bandeira ( 1998).

115
AMADO LUIZ CERVO

O peronismo era a referência constante das chancelarias, mas estas viam


nele o espantalho da possível união dos países e não uma força comum.
A imprensa de vários países refletia essa visão das chancelarias
amesquinhada pelo temor da dominação política e da expansão
econômica da Argentina peronista. Os latinos não se davam conta de
que o comprometimento da unidade era o que mais os prejudicava e o
que mais convinha, por outro lado, aos interesses norte-americanos,
econômicos e estratégicos, que assim lograram converter sem custos o
subcontinente em reserva de potência.
Se os objetivos de Perón na América Latina eram concretos,
fora da área visavam sobretudo realçar o prestígio político. Assim deve-
se entender a visita de Eva Perón à Europa em 1947. Seu maior sucesso
alcançou-se na Espanha, com a qual nesse ano Perón firmou tratados
financeiros e econômicos, vendo reconhecido o caráter flexível e realista
de sua política econômica com o exterior. Em outubro de 1948, o
ministro espanhol das Relações Exteriores foi a Buenos Aires retribuir
a visita da primeira dama e assinou outros quatro convênios que
reforçavam as relações culturais e políticas bilaterais. Para Cyro de
Freitas-Valle, embaixador brasileiro em Buenos Aires, a intensificação
das relações bilaterais tinha por objetivo imediato realçar o prestígio
de ambos os governos e fortalecer a situação interna de cada um em
proveito das instituições que advogavam e defendiam. Tanto é verdade
que toda essa movimentação diplomática não produzia efeitos sobre a
grande reivindicação argentina que era a liberação de recursos congelados
por Franco, que a Argentina procurava recuperar para ultimar a
liquidação de interesses britânicos no país. Em meados dos anos 50,
estando ainda pendentes de pagamentos essas somas, a pretexto de
uma aproximação entre a Espanha e os Estados Unidos, a cordialidade
cedeu e o clima das relações bilaterais tornou-se hostil24.
Perón era abertamente hostilizado pela imprensa suíça, durante
seu primeiro mandato. A balança do comércio registrava belos

24Cyro de Freitas-Valle a Hildebrando Accioly, ofício, Buenos Aires, 28 out. 1948, AHI,
armário, maço 45496; Rubens Ferreira de Mello a Raul Fernandes, ofício, Madri, 16 ago.
1950, AHI, lata 2090, maço 37712; Rubens Ferreira de Mello ao MRE, telegrama, Madri,
19 out. 1954, AHI, armário, maço 45496.

116
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

excedentes de francos em favor da Argentina, que se negava a autorizar


a transferência de fundos aplicados no país pelos credores helvéticos,
preferindo transformá-los em dólares a serem empregados em aquisições
nos Estados Unidos. Em outros termos, a liberação de fundos
bloqueados que a Argentina cobrava de outros países, como Espanha,
França, Inglaterra e Estados Unidos, negava-se ela mesma a conceder.
Nos meados dos anos 50, ridicularizava-se, na Suíça, a ambição da
Argentina em substituir o Brasil como aliado especial dos Estados
Unidos, em um momento em que, diante da liberdade de ação dos
capitais internacionais, Vargas acentuava os controles e Perón relaxava,
com o intuito de desviar seu curso para si25. As dificuldades nas relações
da Argentina com a França eram similares, porque viciadas pela busca
de prestígio e pela incoerência diplomática. Com efeito, a Argentina
quase nada comprava à França, cuja reconstrução econômica aumentava
a capacidade exportadora de sua indústria. Apesar disso, Perón convidou
o presidente do Partido Trabalhista Francês e com ele firmou um contrato
por meio do qual se comprometeu a fornecer um subsídio mensal, com
o intuito de vê-lo galgar o poder e instaurar na França um regime similar
ao justicialismo. Quando soube, logo depois, que aquele partido era
irrelevante, deixou de cumprir o acordado. Em outubro de 1950, Le
Mondepublicou extensa matéria esclarecendo aos franceses o significado
da 3ª Posição em política internacional. A Câmara de Comércio
Francesa de Buenos Aires denunciou por essa época o descumprimento
de estipulações firmadas pela Argentina nos acordos econômicos com
a França. Os fundos franceses eram arbitrariamente bloqueados e a
balança comercial desfavorável. Essas reclamações de descumprimento
de obrigações contratuais eram comuns e afetavam negativamente a
imagem da Argentina em grande número de países26.

25 Gazette de Lausanne, 22 maio 1948 e 9 dez. 1949; José Roberto de Macedo Soares ao
MRE, telegrama, Montevidéu, 4, dez. 1948, AHI, lata 2090, maço 37712. Francisco
d’Alamo Lousada ao MRE, telegrama, Berna, 15 fev. 1954, AHI, armário, maço 45497.
26 Cyro de Freitas-Valle a Hildebrando Accioly, ofício, Buenos Aires, 22 out. 1948, AHI,
lata 2090, maço 37712.Carlos Martins Ferreira de Sousa ao MRE, telegrama, Paris, 26 jun.
1949, AHI, armário, maço 45496. Milton de F. Almeida a Raul Fernandes, ofício, Buenos
Aires, 4 abr. 1950, AHI, lata 2090, maço 37712. LeMonde, 20 out. 1950, AHI, lata 2122,
maço 37966.

117
AMADO LUIZ CERVO

Em 1947, com efeito, Perón adotara uma medida de caráter


geral, unilateral e arbitrária, bloqueando no Banco Central de Buenos
Aires os fundos estrangeiros, a despeito de acordos anteriormente
concluídos. Em represália, a Bélgica suspendeu os créditos às exportações
para a Argentina e essa veio a impor restrições às importações provenientes
da Bélgica. O regime de Perón sofria reveses em sua imagem. AHolanda
protelou a elevação de sua legação em Buenos Aires ao nível de embaixada,
não permitindo que os argentinos fizessem o mesmo em Haia, em razão
de “certos aspectos da política peronista, aqui considerados de perigoso
caráter fascista”, na interpretação da embaixada brasileira na Holanda.
Somente em 1954 elevou-se a representação diplomática ao nível
máximo da hierarquia27. O tratado de comércio entre a Argentina e a
Itália, concluído em 1947, enfrentava, em sua aplicação, o problema
do congelamento dos fundos, além da escassez de dólares para o
pagamento das importações. Essas dificuldades reduziram a quase nada
o intercâmbio comercial, embora a Argentina continuasse aceitando
imigrantes italianos, cuja corrente atingiu 150 mil durante o biênio
1947-1948. Os efeitos de novas leis fiscais que restringiam ainda mais
as remessas e taxavam as importações eram sentidos na Itália como um
obstáculo novo à série de medidas que comprimiam as relações
econômicas da Argentina com o exterior28.
Sem manifestar preocupações diante das reclamações de seus
parceiros, escolhidos sem estratégia, a Argentina de Perón nutria uma
auto-imagem desmesurada e parecia poder abarcar o mundo com seu
prestígio e negócios. Foi o primeiro país sul-americano com o qual o
Japão estabeleceu uma linha regular de navegação no pós-guerra.
A Argentina passou a alimentar um importante comércio bilateral e a
empolgar os japoneses, que lhe vendiam grandes quantidades de ferro
e aço, destinados à construção de fábricas e de usinas de fabricação de
armas e de energia elétrica, e adquiriam o trigo, as peles, os couros e

27 Consulado do Brasil a Hildebrando P.P. Accioly, ofício, Antuérpia, 26 out. 1948; Ribeiro
Guimarães a Raul Fernandes, ofício Antuérpia 18jan. 1950, AHI , lata 2090, maço 37712.
Legação do Brasil a Vicente Rao, ofício, Haia, 18 jun. 1954, AHI, armário, maço 45496.
28 Il Giornale d’Itália, Roma, 14jun. 1949; Corriere del Popolo, Gênova, 16fev. 1950;Il Sole,
Milão, 23 ago. 1950, AHI, lata 2090, maço 37712.

118
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

outras matérias-primas. Apropaganda argentina no Japão desencadeou


uma pequena corrente migratória, com cerca de 200 japoneses
emigrados em 195029.
As maiores correntes de negócios que a Argentina do pós-guerra
mantinha eram a inglesa, em declínio, e a americana em ascensão.
O país platino dispunha de grandes estoques de fundos retidos em
Londres. Cogitava-se, em 1948, na utilização de parte desses esterlinos
para nacionalizar as estradas de ferro que pertenciam a investidores
britânicos. Percebia-se, ademais, que a Grã-Bretanha não tinha
condições de atender além de 40% da demanda argentina de máquinas,
geradores elétricos, locomotivas, produtos químicos e outros bens.
A essa dificuldade de fornecimento somavam-se outras duas: a escassez
argentina de dólares e as limitações impostas pelos ingleses às
importações de carnes e cereais. Um acordo firmado em maio de 1949
para superar tais impasses resultou paradoxalmente em seu agravamento.
A Argentina exigia a conversão em dólares de seus saldos, preços
adequados para suas exportações agropecuárias e tratamento paritário
com os fornecedores dos domínios britânicos. Não obtinha o que
queria e tratava de reconverter a economia agrícola em industrial,
estabelecendo controles de câmbio e listas de licenciamento de
importações, o que vinha a contrariar os interesses ingleses. Além disso,
deslocava seus negócios para os Estados Unidos, de onde provinham
créditos e equipamentos. Os negócios britânicos entravam em declínio,
com relação à presença que a Grã-Bretanha mantivera na Argentina no
passado, prevendo-se para o futuro o minguado papel de compradora
de carnes e produtos agrícolas e fornecedora de carvão e combustíveis30.
As relações da Argentina com os Estados Unidos, por outro
lado, pareciam entrar em nova fase no início de 1950. Após apassagem

29 Gastão P. do Rio Branco a Raul Fernandes, ofício, Tóquio, 23 dez. 1949 e telegrama de
8 set. 1950, AHI, lata 2090, maço 37712.
30 Moniz de Aragão ao MRE, telegramas, Londres, 3jan. 1948, AHI, armário maço 45496.
Moniz de Aragão ao MRE, telegrama, Londres, 6 out. 1948, AHI, lata 2090, maço 377712.
Milton de F. Almeida a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 8 mar. 1959, AHIBR caixa 22.
Alfredo Polzin a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 12 jan. 1950, AHI, lata 2090, maço
37712. Moniz de Aragão a Raul Fernandes, ofício, Londres, 1º jun. 1950, AHI, lata 2090,
maço 37712. LaNación, 24 out. 1950, AHI, lata 2090, maço 37712.

119
AMADO LUIZ CERVO

por Buenos Aires do subsecretário de Estado Edward G. Miller,


preparava-se a visita do ministro da Fazenda argentino, Ramón A.
Cereijo, aos Estados Unidos, com a finalidade de empreender
negociações globais sobre as questões pendentes e as modalidades de
intensificar rapidamente as relações bilaterais. O necessário aumento
das importações argentinas dependia precisamente da disponibilidade
de dólares e esta disponibilidade aumentaria unicamente com um
aumento das exportações argentinas para o mercado norte-americano.
Esperava-se da Comissão Mista Bilateral, cujos trabalhos haviam-se
iniciado em Washington em fins de 1949, o encaminhamento dessas
negociações gerais que resultariam em um tratado de comércio e
amizade. Cereijo previa “uma mais estreita colaboração econômica, o
que pressupunha crescente cordialidade política entre as duas nações”31.
Essas constataçõesdemonstram que o regime peronista desde sua origem
em 1945, com a partida do embaixador Spruille Braden, apesar da
retórica antiamericana exibida para fins de prestígio internacional,
buscava concretamente e por todos os modos o aumento das relações
políticas e econômicas com a potência hegemônica regional, capaz de
fornecer créditos e equipamentos com que compensar os baixos fluxos
de outras origens e levar em frente seu plano de reconversão econômica.
Paraosnorte-americanos, napercepção de Mario Rapoport, “a
Argentina de Perón era um enigma e por isso sua política com relação
a ela foi contraditória, inicialmente, e de aproximação calculada, quando
se consolidou o poder justicialista”. Por outro lado, a documentação
diplomática revela o equívoco de se pensar que a Argentina de Perón
não tinha consciência do declínio britânico e do necessário reforço da
cooperação com os EstadosUnidospara tocar o processo de modernização
do país. Havia muito mais interesses de ambos os lados em fomentar
essa relação bilateral do que em fomentar intrigas. Braden era o
equívoco, Messersmith o bom senso e foi seu pensamento que acabou
por triunfar nas decisões políticas e nos fluxos dos negócios32.

31 Milton de F. Almeida a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 21 mar. 1950, AHIBR caixa 25.
32 Rapoport, Spiguel (1994).

120
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Perón não deixava perplexa apenas a potência hegemônica da


área. Nos pequenos países vizinhos à Argentina, associava-se ou
confundia-se a propaganda peronista com as agitações comunistas. Em
setembro de 1949, Perón convocou o embaixador do Brasil em Buenos
Aires, Milton de F. Almeida, ao qual, em longa entrevista, afirmou
estarem os comunistas na origem das perturbações que ameaçavam a
ordem legal no Chile e na Bolívia e que também causariam proximamente
cuidados aos governos do Paraguai e do Uruguai. Desmentiu com
convicção as insinuações segundo as quais tais ocorrências deviam-se à
iniciativa de seu governo. O presidente chileno, Gonzales Videla, estava
equivocado ao apresentar a Argentina como uma ameaça à ordem legal
dos pequenos países sul-americanos. Tendo em vista dissociar o
peronismo do comunismo, Perón insistiu em três pontos na conversa
que teve com o chefe da missão brasileira em Buenos Aires: a completa
abstenção de seu governo nas perturbações intestinas ocorridas nospaíses
vizinhos; a responsabilidade do Chile pela intriga que apontava o
governo argentino como uma ameaça à democracia dos pequenos
países; e a eficiência dos serviços argentinos de informação para
acompanhar o itinerário de quaisquer iniciativas de governos. Colocou
seu ministro das Relações Exteriores à disposição da embaixada brasileira
para transmitir-lhe toda informação que necessitasse a tal respeito33. A
dezenas de estudantes estrangeiros bolsistas do governo argentino, Perón
dizia, dias depois, “que seu regime era qualificado por uns de fascista,
por outros de 3ª Posição ou 3ª Força, por outros ainda de comunista,
mas que isso pouco importava, ante o fato de estar-se em presença de
um regime popular e democrático”34. Entre o Ocidente e o mundo
comunista, o governo de Perón fizera clara opção ideológica pelo
primeiro.
O embaixador brasileiro em Assunção confirmou as informações
de Perón acerca das atividades comunistas no Paraguai. Descreveu seu
movimento em duas frentes: por um lado, pequenas manifestações

33 Milton de F. Almeida a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 8 set. 1949, AHIBR
caixa 23.
34 Idem, ofício, Buenos Aires, 15 out. 1949, AHI, lata 2122, maço 37966.

121
AMADO LUIZ CERVO

relâmpagos para provocar o choque na opinião e, por outro, insidiosas


intrigas opondo quer oposicionistas ao governo, quer governos vizinhos
contra o Paraguai, ao aventar pretensões de uns contra outros ou contra
os interesses do país. O governo paraguaio estava empenhado em adotar
medidas de defesa contra as atividades comunistas e buscava para tanto
reunir informações sobre providências porventura tomadas a esse
respeito por outros países americanos35.
Aidéia de articular uma estratégia entre os governos, para fazer
face às ameaças de perturbação da ordem por parte da ação de
comunistas, tomava corpo. Em abril de 1950, Milton F. de Almeida,
embaixador brasileiro em Buenos Aires, manteve longo colóquio com
o chefe da Polícia Federal argentina, Arturo Bertollo. Acreditava essa
autoridade que, consoante informações de que dispunha, “oscomunistas
sul-americanos não esmorecem em seu afã de derrocar as instituições
legais e tendem mesmo a redobrar esforços e recorrer à violência para
realizar tais propósitos”. Para a polícia argentina, os principais centros
orientadores das atividades comunistas na América do Sul situavam-se
na França, no México e no Uruguai. Com o intuito de fazer-lhes face,
propôs Bertollo uma coordenação de esforços de todos os países, a ser
exercida através de um órgão centralizador de informações técnico-
policiais36.
A constatação de atividades comunistas, pondo em risco a
estabilidade dos governos da América Latina, perpassava a correspon
dência diplomática no início dos anos 50. Ela explica o apoio político
à guerra que os Estados Unidos faziam na Coréia, mas não induziu a
decisão de envolvimento concreto na mesma, que a América Latina
pretendia eventualmente negociar em troca de algum ganho econômico.
O governo dos Estados Unidos mais de uma vez confundiu esse apoio
político com a disposição de enviar tropas ou ceder generosamente
materiais estratégicos, levando os governos a desmentir tais intenções37.

35 Júlio Augusto Barboza Carneiro a Raul Fernandes, ofício, Assunção, 23 set. 1949, AHIBR
caixa 1.
36 Milton F. de Almeida a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 5 abr. 1950, AHIBR caixa 25
37 Idem, ofícios, Buenos Aires, 12e27jul. 1950, AHIBR caixa 26. Huggins, Martha. Polícia
e política: relações Estados Unidos/ América Latina. São Paulo: Cortez 1998.

122
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Apenas a Colômbia dispôs-se a colaborar com seus soldados, mesmo


assim com base em cálculo de interesse nacional.
Outra esfera de contradições da América Latina, ao mover-se
entre os termos da ordem bipolar, correspondia, à época, à organização
sindical. Em janeiro de 1951, reuniu-se na cidade do México a
Conferência de Sindicatos Livres, de caráter anticomunista, com a
finalidade de criar um organismo interamericano, filiado à Confederação
Internacional de Sindicatos Livres, com sede em Londres. Dominada
pelas Confederações americana e canadense, com apoio de organizações
de mesmo matiz ideológico de outros países do continente, a
Conferência do México obstruiu a participação da CGT argentina,
sob pretexto de que aquela organização não correspondia ao tipo de
sindicalismo livre, e provocou, em reação, a retirada da conferência da
maior organização sindical do México. Assim mesmo, a conferência
cumpriu sua agenda, mas deixou clara a divisão do sindicalismo
continental. Dois meses depois, grande delegação de sindicalistas
mexicanos visitou a Argentina em desagravo. Nessa ocasião, percebeu-
se a intenção da CGT em coordenar o movimento sindical no
continente com o inequívoco intuito de fazer a propaganda do regime
peronista, da qual era o braço forte oficial38.
A visita de Perón ao Chile em fevereiro de 1953, com a
ostensiva divulgação de um plano para realizar a integração econômica
e a união aduaneira entre os dois países, foi interpretada com certa
frieza pela imprensa e chancelarias dos Estados Unidos e de outros
países do continente. Enquanto os governos dos dois países confessavam
propósitos grandiosos e revolucionários para o futuro da união sul-
americana, a opinião continental manifestava-se com cautela, preferindo
reduzir aqueles propósitos a simples estudos tendentes à simplificação
de procedimentos e formalidades alfandegárias e fiscais. Ademais,
opunha-se ao que interpretava como uma espécie de conquista da
hegemonia continental ou de interferência em outros Estados soberanos
e com isso concordava a maioria do senado chileno, dominado pela
oposição ao presidente Carlos Ibañez del Campo. Na realidade, a

38Legação do Brasil a Raul Fernandes, ofícios, Buenos Aires, 31 jan., 7 e 22 mar. 1951,
AHIBR caixa 28.

123
AMADO LUIZ CERVO

iniciativa correspondia à disposição de Perón de aliar-se com os vizinhos


para reforçar a política exterior da 3ª Força, um meio termo entre as
vias do comunismo e do capitalismo, que supunha ser mais conveniente
para o desenvolvimento dos povos e que reivindicava certa autonomia
econômica e politicamente vis-à-vis daqueles modelos clássicos. The
Washington Daily News de 9 de março expressou, contudo, outra
interpretação do pensamento peronista acerca da iniciativa de seu
formulador, vendo nela o propósito da Argentina em criar seu próprio
bloco continental para confrontar a presença dos Estados Unidos39.
Esta visão confrontante da inteligência norte-americana converteu-se
em obstáculo concreto ao triunfo da filosofia de integração que
impregnava o pensamento político e as iniciativas do peronismo, uma
vez que, àquela época, a capacidade de convencimento e de influência
dos Estados Unidos sobre as decisões dos governos latino-americanos
suplantava de muito a capacidade argentina.
O caráter hostil com que a imprensa norte-americana julgava
tradicionalmente o regime de Perón repercutia de duas formas: primeiro,
sobre o próprio governo, junto ao qual causavam preocupação suas
iniciativas de aproximação com ospaíses vizinhos do Cone Sul; segundo,
sobre as chancelarias latinas que recebiam de rotina recortes e resenhas
daquela imprensae moldavam por eles suas apreciações. Abrasileira, em
especial, criou ojeriza pela idéia peronista de formação de bloco,
interpretando-a na linha do aludido TheWashington Daily News.
Sabia-se que Vargas tinha fortes simpatias pela idéia
integracionista de Perón, mas que não agia por estar preso, por um
lado, ao exercício da democracia representativa, que envolvia então o
respeito por uma oposição radicalmente antiperonista e, por outro, à
necessidade de não hostilizar os Estados Unidos, de onde advinham
empréstimos e investimentos destinados à modernização do país. A
imprensa norte-americana aludia precisamente ao empréstimo de

39 MRE à embaixada em Santiago, telegrama, Rio de Janeiro, 6 mar. 1953, AHI, armário,
maço 39870. Freitas-Valle ao MRE, telegrama, Santiago, 11 mar. 1953, AHI, armário,
maço 39870. Baptista Luzardo ao MRE, ofício, Buenos Aires, 22 mar. 1953, AHI armário,
maço 39870. Baptista Luzardo ao MRE, telegrama, Buenos Aires, 8 maio 1953, AHI,
armário, maço 39870. The Washington Daily News, 9 mar. 1953, AHI, armário, maço
45497.

124
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

trezentos milhões de dólares do Export-Import Bank ao Brasil e aos


inúmeros acordos militares firmados pelos Estados Unidos, com países
da América do Sul, como instrumentos de contenção da formação do
bloco antiamericano sob liderança argentina. Esses e outros equívocos
de interpretação, já que obviamente o governo norte-americano não
tomava decisões continentais em função do perigo argentino, sempre
produziam algum efeito concreto e esse era sem dúvida um dos nefastos
resultados de manipulação dos fatos por uma imprensa não
comprometida com a verdade.
Nos últimos meses de 1953, The New York Times registrou
com alívio uma mudança de atitude por parte de Perón no sentido de
romper com sua recente política e de buscar a aproximação com os
Estados Unidos. Reproduzia “meia verdade”, visto que a Argentina de
Perón vinhabuscando os Estados Unidos desde 1945. As explicações
do órgão norte-americano de imprensa para a inflexão da política
exterior estavam, contudo, corretas, diante das circunstâncias: a resistência
de Brasil, Peru e Uruguai às tendências regionalistas do peronismo e o
malogro da política econômica que arruinara a agricultura, sem modernizar
a indústria, e esvaziara as reservas, obrigando o país a recorrer a
investimentos estrangeiros. Após a subida dos republicanos ao poder,
manifestações de afeto ao presidente Eisenhower resultaram no envio
de seu irmão, Milton Eisenhower, a Buenos Aires, como também em
uma missão parlamentar chefiada pelo senador Capehart. Ao ser
conhecido o relatório de Milton Eisenhower ao presidente ao termo
de sua viagem à América do Sul, TheWashington Daily Newsperguntou
se os Estados Unidos não estariam negligenciando a região, sendo em
parte responsável, ao frustrar-lhe expectativas, pelas dificuldades de
relacionamento. De qualquer forma, em fins de 1953, Perón avançara
pelo caminho do entendimento com os Estados Unidos, cuja
cooperação buscava com a finalidade de superar desequilíbrios internos
provocados pelo seu modelo de desenvolvimento40.

40João Carlos Moniz ao MRE, telegrama, Washington 12 out. 1953; Legação do Brasil ao
MRE, ofícios, Washington, 10 nov., 7 e 8 dez. 1953; Washington Daily News, 7 dez. 1953,
AHI, armário, maço 45497.

125
AMADO LUIZ CERVO

À medida que iam melhorando as relações com os Estados


Unidos, Perón via sua situação interna agravar-se com o malogro de
sua política, a ascensão das oposições e um surpreendente conflito com
a Igreja. Esse último sublevou a opinião italiana. Com exceção do
periódico L’Unità e de outros pequenos periódicos de esquerda, a
imprensa italiana era unânime em condenar os métodos de combate à
Igreja empregados pelo presidente Perón. Sendo então, em 1955,
Amintore Fanfani, secretário-geral da Democracia Cristã, as relações
entre a Itália e o Vaticano estreitaram-se ao ponto de esta exercer grande
influência sobre a vida política e a diplomacia. Perón não era, pois, um
problema somente para o Vaticano, mas também para o governo
italiano, cuja diplomacia não poderia permanecer inerte diante do
conflito em curso na Argentina41.
A deposição de Perón em 1955 deixou seqüelas nas relações
com os Estados Unidos. Nas eleições presidenciais norte-americanas
de 1956, o candidato democrata Adlai Stevenson converteu apolítica
do republicano Eisenhower para a Argentina em tema de campanha.
Nos dois países, a imprensa tomou partido, produzindo relatórios muito
circunstanciados que, ao final, tanto denegriam a imagem da Argentina
quanto deprimiam a credibilidade do governo dos Estados Unidos.
Tão longe andou-se nessa polêmica que veio a público uma mordaz
crítica à política de aproximação e apaziguamento levada a efeito pelo
Departamento de Estado, seja sob o governo democrata deTruman,
seja sob o republicano de Eisenhower. No fundo, o debate pouco
dignificante despertou sentimentos antinorte-americanos e induziu
apreciações em outros países, segundo as quais, democratas e
republicanos não diferiam no modo de tratar a América Latina, podendo
tanto uns quanto outros dar continuidade às duas vertentes históricas
da política exterior dos Estados Unidos para a região: a diplomacia do
“porrete” e a da boa vizinhança42.

41 Fernando Ramos de Alencar ao MRE, telegrama, Roma, 22 jun. 1955, AHI, armário,
maço 45496.
42 La Razón, Buenos Aires, 26 set. 1956; Mário Gibson Barbosa a José Carlos de Macedo
Soares, ofício, Buenos Aires, 8 out. 1956, AHI, armário, maço 45497.

126
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Com os condicionamentos desse dualismo de interpretações


acerca da política norte-americana, a opinião latino-americana
manifestava-se por vezes ruidosa, nos últimos anos da década de 1950,
diante das ideologias antagônicas que impregnavam a Guerra Fria e
seus atores. Agitações de rua e protestos diante de embaixadas soviéticas
verificaram-se em 1956, em razão da invasão da Hungria43. Nada,
todavia, haveria de comparar-se com as manifestações ocorridas na
Venezuela, em maio de 1958, por ocasião da visita do vice-presidente
RichardNixon.
Em Lima, de onde chegara no dia 13, a autoridade norte-
americana experimentara o clima adverso à visita criado pelos estudantes
da Universidade de São Marcos. Apesar dapreocupação com a segurança
deNixon na embaixada norte-americana em Caracas, ajunta venezuelana
de governo recém-empossada não tomou providências adequadas.
Verificaram-se reações populares “impiedosas, incontroláveis e
desenfreadas”, na avaliação do embaixador brasileiro, Oscar Pires do
Rio. Pedradas, vidros do cortejo quebrados, cuspidas no rosto, baldes
de água suja suportaram os hóspedes do governo, que acabaram por
refugiar-se na embaixada americana, onde “asilaram-se”, segundo o
jornal El Universal, sem haver visitado o país. Nixon deixou a Venezuela
no dia seguinte, antes da hora prevista e sem haver cumprido sua agenda.
Circulou então a notícia segundo a qual tropas de fuzileiros e pára-
quedistas americanos haviam sido enviados às pressas para bases no
Caribe, para a eventualidade de ter que assegurar a integridade do
mandatário. Essa atitude, considerada impulsiva e antidiplomática pela
imprensa venezuelana, provocou novos protestos, quando os ânimos
já se haviam acalmado.
Quais as razões da hostilidade latino-americana diante dos
Estados Unidos? Em grande medida, as causas eram extraídas pela
imprensa e pela correspondência diplomática dos apelos que brotavam
das profundezas da Guerra Fria. Nessa linha de explicações, vinculavam-
se os comunistas aos operários e estudantes. Essa avaliação ideológica

43Mário Gibson Barbosa ao MRE, telegrama, Buenos Aires, 13 nov. 1956, AHI, armário,
maço 45496.

127
AMADO LUIZ CERVO

adquiria, contudo, acréscimo de peso porque a ela se somavam então


os motivos de ordem política e econômica. No caso venezuelano,
irritação diante das restrições americanas às importações de petróleo.
Mas o apoio norte-americano a ditaduras era outro fator perturbador.
Estavam em jogo, portanto, a política econômica do governo e o
comportamento do Departamento de Estado diante das questões da
América Latina44. Ademais, a ação indireta dos Estados Unidos por
meio dos organismos internacionais que controlava também era objeto
de controvérsia, quando não motivo de franca divergência.
No momento em que o presidente brasileiro Juscelino
Kubitschek rompia com o Fundo Monetário Internacional (FMI),
em 1959, devido à oposição que o órgão movia a seu plano de
desenvolvimento, um relatório do embaixador brasileiro em Assunção,
Euclydes Zenóbio da Costa, evidenciava até que ponto a instituição,
com apoio norte-americano, ingeria-senaspolíticas econômicas internas
do Paraguai. Como fazia em toda parte, o FMI sugeriu um Plano de
Estabilização Econômica e, para vigiar sua implementação, designou
Kemal Kurdas como representante junto à diretoria do Banco Central,
com a incumbência de opinar sobre “todas as medidas de natureza
econômica e financeira que o governo é chamado a adotar”. Era uma
intervenção monetária, sob vigilância da embaixada dos EstadosUnidos
em Assunção, com o consentimento do presidente Alfredo Stroessner,
que assim contava obter créditos diretamente do governo dos Estados
Unidos ou mediante instituições que este controlava. “A aplicação do
Plano de Estabilização Econômica tem resultado em pesados sacrifícios
para a economia nacional”, afirmava da Costa: salários congelados,
restrições aos investimentos, repressão social, controle sobre os bancos
privados, alienação da agroindústria paraguaia aos investidores
americanos pela via dos créditos condicionados, descumprimento da
cláusula de nação mais favorecida inerente ao Tratado Geral de
Comércio e Investimentos de 1956 com o Brasil. Em suma, ainvestida
do FMI com a retaguarda dos interesses americanos comprometia a

44Oscar Pires do Rio a José Carlos de Macedo Soares, ofício, Caracas, 16 maio 1958,
AHIBR, caixa 40.

128
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Estados argentina
presençaUnidos da América
no Paraguai e a própria
(concluía disputa com
o embaixador) adquirirão
o Brasil. aqui
“Os

uma preponderância que no futuro previsível ninguém poderá arrebatar-


lhe”45.
Desde o triunfo do movimento revolucionário em Cuba, com
a ascensão de Fidel Castro ao poder, em 1959, o país caribenho
arrebatou o interesse das diplomacias latino-americanas que se
movimentavam sob pressão das ideologias em pugna durante a Guerra
Fria. É bem verdade que diplomatas cubanos desde logo começaram a
ingerir-se em assuntos internos de países nos quais serviam, provocando
reações muito previsíveis. Assim, o embaixador cubano em Caracas,
Luís Orlando Rodriguez, que se havia intrometido na política interna
venezuelana, retirou-se a seu país em junho desse ano, seguindo-o o
chefe da missão diplomática, Francisco Pividal, declarado personanon
grata pelo mesmo motivo. O substituto de Rodrigues, León Antich,
incorreu na mesma impropriedade de conduta, participando
pessoalmente de manifestações de rua. Essas atitudes da diplomacia
cubana contribuíam para criar um clima de mal-estar diplomático na
América Latina, forçando a opinião a radicalizar posições, a favor ou
contra a diplomacia cubana e a ideologia revolucionária, com
repercussões sobre a vida política dos países. O mesmo ocorria na
Venezuela, onde o presidente Betancourt discordava de seu chanceler
Arcaya, por demostrar apoio público aos objetivos de Fidel Castro.
Prensa Latina, uma agência de notícias criada em Havana, em princípios
de 1959, com um corpo de funcionários formados por ex-empregados
da soviética Tass, para divulgar para a América Latina os ideais
revolucionários, contava, em agosto do ano seguinte, com escritórios
em funcionamento em Buenos Aires, Santiago, Montevidéu, Rio de
Janeiro, São Paulo, Nova Iorque, Washington e Caracas. Seu objetivo
era o de agregar à informação que veiculava um feroz antiamericanismo
e elogios sistemáticos aos regimes cubano e soviético. Derramava-se
sobre a América Latina, portanto, com maior impetuosidade, a

45 Euclydes Zenóbio da Costa a Horácio Lafer, ofício, Assunção, 1º set. 1959, AHIBR,
caixa 3.

129
AMADO LUIZ CERVO

informação contaminada pelos apelos liberais e comunistas em


confronto na Guerra Fria46. Cuba e os Estados Unidos arremeteram,
simultaneamente, sobre os países da América latina, como demonstrou
Moniz Bandeira, “a primeira com sua diplomacia e sua ação
insurrecional, os segundos com sua diplomacia e seus órgãos de coerção
(Pentágono eCIA), pretendendo ao termo implantar regimes socialistas
ou ditaduras que os combatessem”47.
Ao verem-se confrontados com a divisão do mundo bipolar,
que obviamente não lhes interessava, os países da América Latina,
mesmo aqueles que aparentemente desviaram-se para a ditadura de
direita, reforçaram seu nacionalismo, cujas raízes se localizam em
interpretações negativas dapresença e da ação norte-americana na região.
Nos últimos meses de 1961, as chancelarias do continente
converteram a questão cubana em centro das preocupações e do
movimento diplomático, desde que o governo colombiano, em
outubro, tomara a iniciativa de propor a todas as repúblicas a convocação
do órgão de consulta prevista no artigo VI do Tratado Interamericano
de Assistência Recíproca. Ocupava então o posto em Bogotá o
embaixador brasileiro Álvaro Teixeira Soares, diplomata de carreira e
escritor ilustrado. Com a experiência e o conhecimento que lhe eram
próprios, assim condensou a filosofia inerente à iniciativa colombiana,
em ofício que endereçou ao ministro brasileiro das Relações Exteriores,
San Tiago Dantas

(1º) é necessário impedir que o sistema interamericano sofra


fraturas de tal natureza que representem eventualmente o seu
completo malogro; (2º) o caso de Cuba pôs em cheque a eficácia
do sistema interamericano; (3º) a revolução cubana despertou
ressonância em setores distintos dos países latino-americanos,
constituindo por isso mesmo um fator de perturbação; (4º) a
desorientação reinante quanto a uma exata apreciação do
problema cubano constitui motivo para que as chancelarias

46 Oscar Pires do Rio a Fernando Ramos de Alencar, ofício, Caracas, 19 ago. 1960, AHIBR,
caixa 41.
47 Moniz Bandeira (1998); Huggins (1998).

130
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

americanas dêem ao assunto redobrada atenção com vistas a uma


fidedigna formalização destinada a estabelecer uma unidade de
vistas quanto ao problema em si e quanto às conseqüências
continentais ou internacionais desse mesmo problema48.

Por trás dessas legítimas preocupações já estava em curso uma


cisão continental, que se agravaria nos meses a seguir e durante a própria
VIII Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores
Americanos em Punta del Este, em 1962. Havia divisões que tendiam
a se tornar radicais em toda parte, como a manifestação de quatro
ex-chanceleres brasileiros, que por nota apoiaram publicamente a
exclusão de Cuba da OEA. Mas o Departamento de Estado, ao haver
feito da convocação uma frente de batalha a travar contra Cuba e o
comunismo, ao invés de nela captar a mensagem colombiana de
promover por esforço conjunto a unidade política pan-americana que
se esfacelava, foi o maior responsável pela cisão e pelo reforço dos
nacionalismos.
Animado com a favorável acolhida de sua proposta, o governo
colombiano encaminhou para exame, em novembro, às 21 chancelarias
dos governos americanos cinco anteprojetos de resolução que preparara
para instruir os debates e orientar as decisões da futura reunião dos
chanceleres em Punta del Este. A se considerar a generalizada opção
latino-americana pelo ocidentalismo, a atitude colombiana adquiria
caráter objetivo e isento. Com efeito, os documentos refletiam o desejo
de não ver a América Latina penetrada pelos meios de guerra externos
e evoluir da Guerra Fria para o confronto militar entre os dois lados
do mundo bipolar. A Colômbia propôs, com base nos tratados
multilaterais regionais em vigor, erradicar a neutralidade diante de
ameaças externas, considerar ameaças o estabelecimento de bases
militares e o fornecimento de armas atômicas sino-soviéticas, como
ainda o apoio militar, político ou econômico à subversão dos governos
estabelecidos. Propôs que se cobrasse de Cuba o cumprimento das
cláusulas de segurança dos tratados e das resoluções da conferência,

48 Álvaro Teixeira Soares a San Tiago Dantas, ofício, Bogotá, 13out. 1961, AHIBR, caixa 4.

131
AMADO LUIZ CERVO

cuja execução seria acompanhada por uma comissão de vigilância e


informação a ser criada. A convocação da reunião de consulta evidenciava,
dessa forma, tanto o desejo de preservar a América Latina distante da
Guerra Fria quanto de mantê-la coesa em torno da unidade pan-
americana sob a égide dos Estados Unidos.49.
A deterioração de suas relações com Cuba levou o governo
venezuelano de Betancourt a romper as relações diplomáticas a 11 de
novembro de 1961. Os simpatizantes do regime cubano, além de
personalidades políticas como o ex-chanceler Ignacio Luís Arcaya,
eram numerosos nos meios estudantis e em organizações políticas
como o Partido Comunista, a totalidade do Movimiento de Izquierda
Revolucionaria, a maioria da Unión Republicana Democrática. Acrise
que culminou com a ruptura foi desencadeada por ataques públicos de
governo a governo e por distúrbios de rua, mas, sob inspiração dos
partidos que compunham a coalizão governamental, os argumentos
invocados pelo presidente Betancourt foram o desrespeito aos direitos
humanos e a violação do princípio da autodeterminação dos povos
pelo regime cubano50. O governo argentino cogitava à época na mesma
decisão. Em meio a esse clima, preparava-se a Reunião de Punta del
Este.
O Departamento de Estado americano acolheu a convocação
colombiana e preparou, com base nos anteprojetos de resolução que a
consubstanciavam, seu próprio, cuja tônica era reforçar as medidas
contra o regime cubano e provocar uma condenação geral, com a ruptura
de relações diplomáticas caso Cuba não viesse a cumprir as decisões
coletivas51. Pequenos países articulavam, provavelmente sob pressão
norte-americana, uma resolução favorável à ruptura coletiva de relações
diplomáticas e comerciais com Cuba. Nessas circunstâncias, era de
extrema importância conhecer a atitude esperada dos grandes países da
América do Sul, Brasil e Argentina, uma vez que a do México era
conhecida.

49 Idem, ofício, Bogotá, 16 nov. 1961, AHIBR, caixa 4.


50 Antônio Corrêa do Lago a San Tiago Dantas, ofício, Caracas, 7 dez. 1961, AHIBR, caixa 41
51 Álvaro Teixeira Soares a San Tiago Dantas, ofício, Bogotá, 22 dez. 1961, AHIBR, caixa 4.

132
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

O presidente colombiano, Alberto Lleras Camargo, jogou seu


próprio prestígio no caso, procurando angariar adeptos para os
anteprojetos de resolução que a chancelaria dera a conhecer. Convidou
o embaixador do Brasil, o ilustrado e experiente Álvaro Teixeira Soares,
para uma conversa em que lhe solicitou expor francamente seu próprio
entendimento, do governo de João Goulart e do chanceler San Tiago
Dantas, acerca da Reunião de Punta del Este. Soares confidenciou-lhe
pessoalmente que julgava exagerada a importância que se estava
atribuindo a Fidel Castro e que sua revolução com o tempo tenderia a
temperar-se, diante das dificuldades econômicas que enfrentava e da
reação interna ao desrespeito dos direitos humanos. Como embaixador,
disse-lhe que o governo do Brasil:

(1) julgava dever-se jogar com o tempo; (2) acreditava que o


bom senso haveria de trazer ao convívio americano o regime de
Fidel Castro; (3) considerava a proposta colombiana prematura;
(4) entendia que não preenchia os requisitos jurídicos para
invocar o Tratado do Rio de Janeiro; (5) comunicava que o
Brasil compareceria a Punta del Este, mas não apoiaria as
sanções contra Cuba.

Ante essa ducha fria sobre o ânimo do presidente colombiano,


argumentou a favor de seu pensamento, lamentou a frieza com que
fora acolhido por Brasil, Argentina e Chile e criticou a intransigência
do México. Justificou-o, a reverso, afirmando que suas propostas
conteriam uma intervenção unilateral dos Estados Unidos contra Cuba,
que ninguém apoiaria, e dariam ânimo à Aliança para o Progresso como
estratégia de cooperação continental para o desenvolvimento. Soares
percebeu nos conceitos de Lleras Camargo uma preocupação pela
displicência dos países do Cone Sul ante o problema cubano, que “feria
na carne” os povos da área caribenha e do norte da América do Sul52.
Na percepção do embaixador do Brasil em Bogotá, a chancelaria
colombiana nutria apreensões pelo êxito de Punta del Este, em razão

52 Idem, ofício, Bogotá, 27 dez. 1961, AHIBR, caixa 4.

133
AMADO LUIZ CERVO

das posições reticentes dos grandes países da América Latina, México,


Argentina, Brasil e Chile. Por isso, redobrou seus esforços, enviando
seu ministro de Relações Exteriores, Caicedo Castilla, aos países do
Cone Sul, desde que a visita do presidente Kennedy à Colômbia
reforçara sua posição no continente, tanto mais que este acenara com
os recursos da Aliança para o Progresso aos países que tomassem
posições afinadas com a Colômbia e os Estados Unidos. Era o caso da
Bolívia e de outros, dispostos a compor a maioria anticubana na
Reunião de Punta del Este, ao preço da ajuda americana53.
AConferência de Punta del Este de janeiro de 1962, dado este
cenário complexo, em que até mesmo mesquinhos interesses nacionais
foram trazidos à baila, teve como grande resultado o agravamento da
desunião latino-americana: por 14 votos expulsou Cuba da OEA, mas
entre esses votos não estavam os de Brasil, Argentina, México, Chile,
Bolívia e Equador, mais de 80% da região. O chanceler brasileiro, San
Tiago Dantas, mentor da chamada Política Externa Independente que
então o país implementava, invocou na reunião o princípio de não
intervenção e a incumbência da política exterior em prover meios de
desenvolvimento, alçando-se por sobre a divisão ideológica do mundo.
Em agosto de 1962, após os golpes militares que derrubaram
os governos civis na Argentina e no Peru, o embaixador brasileiro em
Buenos Aires traçou para Afonso Arinos de Melo Franco, titular do
Itamaraty, um quadro sombrio para o futuro político da América
Latina, em decorrência das contradições que a seu juízo existiam entre
o Pentágono e o Departamento de Estado, o primeiro a apoiar
abertamente a ação insurrecional da extrema direita civil e militar contra
os regimes democráticos, o segundo esforçando-se por emprestar o
apoio da diplomacia à sobrevivência democrática, porém, aceitando
aposteriori a ação degradante dos militares norte-americanos. Essa dupla
orientação vinha incorporada à própria Aliança para o Progresso de
Kennedy, uma resposta política de conformidade com os nobres ideais
daOperação Pan-Americana lançada por Kubitschek em 1958, que se
desmoralizara ao estabelecer como estratégia, por influência da direita

53 Ibidem, ofícios, Bogotá, 30 dez. 1961 e 13 jan. 1962, AHIBR, caixa 4.

134
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

norte-americana, “buscar fazer com que as novas ditaduras fossem aceitas


como democracias, ou pelo menos, como embriões de democracias”.
Aos poucos, o governo de Kennedy deixava de lado suas eloqüentes
pregações democráticas, aplicando apenas um critério para suas relações
com a América Latina: “tal regime, seja qual for sua natureza, nos
favorece? Então, ajudemo-lo, a despeito de quaisquer críticas que isso
provoque”. Essa política pragmática e imediatista correspondia, no
conceito do diplomata brasileiro, à melhor tradição norte-americana,
que sustentava ditadores como Trujillo, Castillo, Somoza, enquanto
alardeava a democracia, excluindo Cuba com esse argumento. “De
contradições como essas surgem, acadapasso, na política norte-americana
atual, com respeito à América Latina, essa ambivalência, essa duplicidade
entre o dito e o feito...”. Assim, a Aliança para o Progresso corrompeu-
se em suas motivações de origem para tornar-se uma provocação que
levava as lideranças de direita a fazer proliferar ditaduras no continente.
O pragmatismo da política norte-americana eliminou a
distinção entre democracia e ditadura e substituiu-a pela de regimes
pró-americanos, geralmente de força, e democráticos, tidos por
esquerdistas e perigosos. Em 4 de agosto de 1962, o senador norte-
americano Wayne Morse denunciou essa contradição entre a ação do
Pentágono e as intenções do Departamento de Estado. Fê-lo, contudo,
com preocupações puramente administrativas, temendo haver
corrupção das forças armadas na utilização de recursos empregados
para apoiar golpes de Estado militares na América Latina. Tão
impregnado estava o mundo de então com as ideologias de direita e
esquerda que dividiam o mundo e esterilizavam o pensamento político
que ao senador escapava o verdadeiro problema dessa contradição, a
sobrevivência da democracia nos países latinos. A decadência moral da
Aliança para o Progresso e as contradições entre Pentágono e
Departamento de Estado, afinal a submissão do último ao primeiro,
demonstravam o grau de degenerescência em que se assentavam as
relações interamericanas no início dos anos 6054. Demonstravam,

54 Embaixada do Brasil a Afonso Arinos de Melo Franco, ofício, Buenos Aires, 27 ago. 1962,
AHIBR, caixa 32.

135
AMADO LUIZ CERVO

concretamente, que a Guerra Fria, enquanto investida norte-americana


na América Latina, em nada correspondeu aos ideais de defesa da
liberdade e da democracia que os Estados Unidos alardeavam pelo
mundo em sua luta para conter a expansão do comunismo. Nessa
região, a Guerra Fria norte-americana contribuiu para emergência de
coerções sociais que atentavam contra as liberdades e os direitos
humanos, da mesma forma, em regimes comunistas ou em ditaduras
militares.
Cuba havia criado um problema praticamente insolúvel para a
inteligência política da América, incluindo os Estados Unidos e países
democráticos como o Brasil de João Goulart. Em setembro de 1962,
o embaixador brasileiro em Havana remeteu a Brasília uma descrição
completa do estado das forças armadas de Fidel Castro e do apoio
político-militar da URSS a Cuba, denotando a preocupação de Goulart
com a segurança do continente, já que seu governo solicitara aquele
estudo sobre as forças cubanas.
Quando Castro mudou osrumosde sua política exterior, novas
fontes de suprimento de armas apareceram, ao tempo em que seu país
saía da órbita interamericana. O marco dessa inflexão pode ser fixado
a 9 de julho de 1960, quando Kruschev admitiu a possibilidade de
apoiar Cuba com seus foguetes, em caso de intervenção norte-americana
na ilha. Armamentos soviéticos desde então chegavam e boatos havia
de que incluíam projéteis teleguiados. Segundo a embaixada brasileira
em Havana, entre junho de 1960 e abril de 1961, mais de 30 mil
toneladas de material bélico procedente de países socialistas (URSS,
Checoslováquia e China) foram desembarcados, no montante de mais
de 100 milhões de dólares. Preocupados, os americanos preparavam a
invasão, levada a cabo em abril de 1961, na praia Girón. Apesar daquela
chegada de armamentos, a invasão evidenciou as fraquezas do sistema
defensivo. Uma reforma das forças armadas cubanas adveio em razão
da vulnerabilidade percebida, com a criação de três exércitos, o
treinamento de uma milícia de 300 mil homens, o melhoramento da
qualidade técnica da oficialidade, o aperfeiçoamento dos serviços de
inteligência, a instalação de missões militares permanentes, checas, russas
e chinesas, e, não menos importante, a aquisição de novos equipamentos.

136
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Um ano depois de praia Girón, a qualidade das forças armadas cubanas


era superior, em todos os sentidos, mas conservava ainda seus propósitos
defensivos. Intensa doutrinação marxista dava às tropas o adequado
tempero político: “ Todo esse enorme progresso militar que estamos
relatando (concluía o chefe da missão brasileira em Havana) transformou
as forças armadas cubanas, sem sombra de dúvida, no contingente
melhor treinado e preparado da América Latina”.
Estimava-se em mais de 350 milhões de dólares a importação
de armas atéjulho de 1962, que incluíam aviões MIG, tanques, lanchas
contratorpedeiras e canhões, equipamentos já em desuso na URSS,
mas o que de mais moderno havia na Checoslováquia. O embaixador
brasileiro, às vésperas do bloqueio naval de Cuba ordenado por
Kennedy, que aliás contou com o apoio do próprio Goulart, não estava
convencido da instalação de bases próprias da Rússia, mas afirmava
que, no caso de uma guerra mundial, os soviéticos teriam na ilha uma
base natural, afinada com seu exército em termos ideológicos, de
treinamento e de equipamento55.
A opinião das massas, a intelectualidade e os meios artísticos
latino-americanos continuavam impregnados de simpatia pela Cuba
de Fidel, em razão de seus ideais revolucionários, de seus heróis
libertários, como Che Guevara, mas sobretudo pelo fato de ser o único
país da América Latina, em um século, a confrontar abertamente a
prepotência norte-americana. Cuba suplantara de muito, nesses círculos
sociais, o poder de sedução do peronismo como força de propulsão da
autonomia latino-americana diante dos Estados Unidos. Já o
pensamento dos diplomatas, dos militares e dos governos girava em
torno do conflito potencial. Não convinha, por certo, raciocinavam
todos, “esquentar” a Guerra Fria no continente. Mas o dilema colocava-
se apenas em teoria. Sobre o terreno, expandia-se a guerrilha, que
dilacerava as sociedades. As poucas democracias latinas, ainda não
derrocadas por golpes militares, estavam perplexas e divergiam entre si
sobre o caminho a seguir.

55 Legação do Brasil a Carlos Alfredo Bernardes, ofício, Havana, 15 set. 1962, AHIBR,
caixa 4.

137
AMADO LUIZ CERVO

Era o que se observava, por exemplo, entre o Brasil de Goulart


e a Venezuela de Betancourt. O primeiro, reticente diante de toda
condenação de Cuba e simpático a sua causa, em nome das liberdades
de escolha dos povos. O segundo, intransigente diante de Cuba, como
também diante das ditaduras, com todas as quais rompia as relações
diplomáticas, consoante a “doutrina Betancourt” de somente reconhecer
governos constituídos por eleições democráticas e respeitadores dos
direitos humanos. No início de 1963, o seqüestro do navio-motor
venezuelano Anzoátegui por guerrilheiros pró-cubanose o subseqüente
asilo político concedido pelo Brasil aos seqüestradores trouxeram à luz
do dia a perplexidade que envolvia as democracias na tomada de
decisões em assuntos que diziam respeito a Cuba56.
A derrocada do governo de Goulart e a implantação da ditadura
militar no Brasil, em 31 de março de 1964, acentuaram o desequilíbrio
de forças no conflito ideológico da Guerra Fria que dividia a América
Latina, restando, entre os grandes países, o México, quase isolado, em
sua postura diante de Cuba. Era a vitória do Pentágono sobre o
Departamento de Estado, do dólar sobre a ética política, da ideologia
sobre o ser. A diplomacia brasileira que, com sua acentuada formação
profissional, antes executava instruções do regime democrático, viu-se
de chofre colocada diante das pressões da chancelaria acerca do modo
como enfrentar o problema dos refugiados políticos brasileiros que se
espalhavam por alguns países do continente, Uruguai, Peru, Chile e
México.
O ex-presidente João Goulart, acompanhado de seu fiel
companheiro político Leonel Brizola e de outros colaboradores do
governo derrocado, refugiou-seno Uruguai, tendo alegação brasileira
em Montevidéu que esforçar-se logo para restringir a liberdade de
movimento do grupo57. Não se entendiam, entretanto, os dois governos,
no sentido de conter a ação dos refugiados. Três reclamações do governo
militar brasileiro fundadas em suposto descumprimento por parte do

56Antônio Corrêa do Lago a Hermes Lima, ofício, Caracas, 15 mar. 1963, AHIBR, caixa 6.
57Legação do Brasil a Vasco Leitão da Cunha, ofício, Montevidéu, 10 abr. 1964, AHIBR,
caixa 7.

138
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Uruguai de normas internacionais de asilo chegaram à embaixada em


Montevidéu: (a) as atividades de asilados configuravam ameaça à
segurança interna do Brasil; (b) declarações políticas de asilados
violavam o estatuto de asilo; (c) a acolhida por parte do Uruguai de
brasileiros asilados em terceiros países feriam-no do mesmo modo.
Com efeito, Goulart e Brizola não eram vigiados suficientemente
o tempo todo. Sobre alguns de seus próximos colaboradores não havia
vigilância alguma. Dispunha esse grupo principal de asilados políticos
brasileiros de cinco aviões com os quais se deslocavam dentre e fora do
país. Ademais, esses refugiados faziam amiúde declarações políticas à
imprensa internacional, limitando-se o governo uruguaio a advertências
que não impediam a reincidência. Ante tais liberdades, inúmeros
asilados em outros países demandavam o Uruguai, tolerando-se sua
presença ilegal no país. Duas avaliações fazia dessa situação a embaixada
do Brasil em Montevidéu: incorriam em omissão as autoridades uruguaias
no tocante à garantia de respeito ao estatuto de asilo, resultando do fato
uma ameaça positiva à segurança interna do Brasil pela via da incitação
à subversão. A embaixada tentava remediar a falta de vigilância, fazendo-
a por conta própria, mas exigia, em fins de 1964, uma atitude resoluta
do governo brasileiro: “A repetição ad infinitum (oficiava) de
reclamações não produzirá outra coisa, é evidente, senão um desgaste
político que cedo equivalerá a um desprestígio total para o Brasil”.
Urgia obter do governo uruguaio a expulsão dos asilados ilegais, a
apreensão das aeronaves, a vigilância dos movimentos, o controle dos
paradeiros, a proibição de se aproximarem da fronteira e sanções para
transgressões do estatuto do asilo. Por pouco a embaixada brasileira no
Uruguai não sugeria uma intervenção58. Assim mudava, em razão de
golpe de Estado, a diplomacia de um país democrático para a de um
país ditatorial.
Outro exemplo de indisfarçada e incômoda pressão da
chancelaria brasileira sobre congêneres de países que concediam asilo a
brasileiros registrou-se em Lima. Os asilados Abelardo Jurema e
Clidenor Freitas dos Santos desejavam fazer uma viagem à Argentina

58 Idem, ofício, Montevidéu, 21 nov. 1964, AHIBR, caixa 7.

139
AMADO LUIZ CERVO

para encontrar-se com familiares e a embaixada do Brasil recebeu ordens


de impedir que as autoridades do país concedessem a autorização de
saída. O embaixador Javier Perez de Cuellar, então diretor de Assuntos
Políticos e Diplomáticos do ministério peruano, não querendo
desagradar ao Brasil e tampouco negar a autorização, deixou transparecer
seu desconforto e pouco entusiasmo diante da pressão do Brasil. Agindo
por trás, alcançou o governo brasileiro do argentino a recusa de concessão
de visto de entrada para a viagem59.
O presidente LópezMateos do México retardou o reconhecimento
do governo militar de Castelo Branco, querendo significar com a demora,
segundo a embaixada brasileira naquele país, uma sanção moral ao
novo regime. Somente normalizou as relações depois da concessão de
48 salvo-condutos a asilados que se haviam abrigado na embaixada
mexicana no Rio de Janeiro. Nesse caso, como em outros, as explicações
provindas das legações brasileiras na América Latina, para as atitudes
dos governos no sentido de dificultar o reconhecimento do regime
militar brasileiro e de dar cobertura aos pedidos de asilo, faziam
referência às tendências esquerdistas dos governos ou ao necessário
equilíbrio interno para não provocar a oposição. No caso do México,
a irritação tinha uma razão especial, já que aquele governo sentiu-se
isolado no continente, após a queda de Goulart, nas simpatias que
manifestava a Fidel Castro. Mesmo sendo o único, prosseguiu resoluto
em sua atitude, para desgosto das ditaduras e em dissonância com a
doutrina Betancourt, informando que não daria cumprimento às
resoluções da IX Reunião de Consulta dos Ministros de Relações
Exteriores Americanos, que decidiu aplicar sanções contra Cuba,
inclusive a ruptura de relações diplomáticas e comerciais.
No México, o numeroso grupo de asilados brasileiros
acomodou-se bem, sendo tratado de forma condizente tanto pelas
autoridades do país quanto pela embaixada do Brasil, onde estavam
aos cuidados do encarregado de negócios, O. L. de Berenguer Cessar.
Alguns tinham tanta confiança que haviam solicitado passaporte

59 Ibidem, ofícios, Lima, 12 e 19 jun. 1964, AHIBR, caixa 7.

140
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

brasileiro para viajar a outros países, o que obviamente lhes foi negado
pela embaixada, mas não os documentos de outros países dispostos a
recebê-los. O grupo do México, por ser expressivo, espelhava bem o
perfil e as aspirações do brasileiro no exílio. Com base em contatos e
informações colhidas junto a esse grupo, a embaixada informou que
havia entre os asilados: (a) membros do Partido Comunista Brasileiro,
ideologizados e radicais que preferiam transladar-se para países do bloco
socialista; (b) sindicalistas que auferiam os benefícios de colegas
mexicanos, pouco ideologizados e mais preocupados com reivindicações
classistas; (c) marinheiros e sargentos sem grandes convicções políticas,
dispostos a viajar a Cuba onde, por sua habilidade técnica, poderiam
encontrar emprego; (d) intelectuais, equilibrados e moderados,
desejosos de regressar ao Brasil, serem reabilitados e atuar como
nacionalistas de esquerda; (e) arrependidos, sobretudo da Marinha,
envolvidos fortuitamente, que pediram asilo por temores injustificados
e que desejavam regressar logo.
Já que inúmeros casos de repatriamento potencial se colocavam
à chancelaria brasileira, essa veio a regulamentar o procedimento das
legações brasileiras no exterior pela Circular nº 5285, secreta, de 24 de
agosto de 1964. O primeiro beneficiado foi o sargento da Marinha,
Abelardo José de Sant’Ana, que renunciou formalmente ao asilo que
lhe fora concedido pelo México, recebeu da embaixada brasileira o
passaporte comum e o bilhete da Varig, e embarcou de volta ao país
em 26 de setembro, no vôo 811. Os asilados no México recebiam
hospedagem e alimentação do governo. Fundaram um pequeno jornal,
o Correio Braziliense, que lançou nove números. Criaram a Associação
dos Asilados, que também teve vida efêmera60.
Cuba prosseguia sendo uma das ocupações principais das
diplomacias americanas durante a década de 1960. Após a implantação
do regime militar no Brasil em 1964, também as legações do país
receberam ordens de fornecer, e o faziam com profusão, informações
sobre movimentos de guerrilha e atitudes, diante de Cuba, manifestas

60 O.L. de Berenguer César a Vasco Leitão da Cunha, ofícios, México, 16 jun., 22 jul.,
18 ago., 25 set., 27 out., 20 nov. e 11 dez. 1964, AHIBR, caixa 7.

141
AMADO LUIZ CERVO

pelos diversos segmentos sociais dos países em que atuavam61. Não


havia, contudo, uniformidade de ação e de pensamento entre as
chancelarias do continente para enfrentar o desafio das esquerdas.
A intromissão desenfreada da Guerra Fria no continente levantava
ciúmes e suspeitas entre os países, grandemente governados por
militares, que buscavam o tratamento privilegiado dos Estados Unidos
em troca de envolvimento político contra a guerrilha e Fidel Castro.
No Cone Sul, essas circunstâncias acenderam as rivalidades entre
Argentina e Brasil, mesmo porque esse país irrompeu como campeão
do anticomunismo pan-americano, ao ponto de pretender influir sobre
a conduta da OEA e comandar forças de paz interamericanas, como
ocorreu de fato na República Dominicana.
Em 1966, uma forte campanha contra o governo civil de Arturo
Illia na Argentina, em preparação ao golpe militar que adviria a 28 de
junho, foi interpretada pelo embaixador brasileiro em Buenos Aires,
Décio de Moura, como resultado da emulação pelas vantagens a auferir
com o envolvimento na Guerra Fria

Tenho a honra de submeter a Vossa Excelência algumas


considerações sobre as críticas que, com intensidade crescente, vêm
sendo feitas à política exterior argentina sob o fundamento
principal de que a chancelaria de Buenos Aires tem aceito, por
incúria ou inconfessáveis interesses, a suposta orientação do
Departamento de Estado dos Estados Unidos da América no
sentido de conferir ao Brasil liderança efetiva na parte meridional
do continente, transformando-o em grande potência industrial,
e mantendo, correlativamente, a Argentina, no papel de país agrícola
fornecedor de produtos pecuários... Critica-se principalmente a
administração do ministro Zavala Ortiz, nos últimos meses, por
sua suposta omissão em face dos problemas que mais de perto
dizem respeito aos interesses argentinos, provocando um vazio
de influência na bacia do Prata, em favor do Brasil... Essas críticas

61Expedito de Freitas Resende a Vasco Leitão da Cunha, ofícios, Buenos Aires, 16 fev. e 30
mar. 1965, AHIBR, caixa 33.

142
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

têm servido de pretexto para justificar um possível golpe de


Estado62.

O novo governo militar instalado na Argentina em 1966,


zeloso por influências regionais, passou a prestar ajuda à Bolívia para o
combate à guerrilha, com a intenção de “demonstrar publicamente a
solidariedade efetiva da Argentina sempre e quando um país do
continente for ameaçado por atividades daquela natureza”63. O serviço
secreto do Exército argentino fornecia às missões estrangeiras que
solicitassem informações sobre a infiltração comunista nas instituições
do respectivo país. Quando uma circular do Itamaraty solicitou das
missões sediadas na América Latina uma descrição da frente estudantil
de esquerda nas universidades, a de Buenos Aires produziu um informe
extenso e detalhado, com dados fornecidos por aquele serviço secreto.
Segundo esse informe, a pregação ideológica levada a cabo pelos
esquerdistas teria se intensificado a partir de 1955, após a queda de
Perón. A Federação Universitária Argentina, fortemente infiltrada por
comunistas, fora dissolvida pelos militares, porém a ação prosseguia
clandestina e articulada pelo Partido Comunista Argentino, vinculando
as agremiações estudantis com os sindicatos de trabalhadores. Os
estudantes comunistas estavam divididos em dois grupos: os
reformistas, que obedeciam às diretrizes de Moscou e buscavam
fomentar a luta de classe dentro do quadro institucional regular das
universidades onde marcavam presença, e os de linha chinesa, partidários
da mudança total dos métodos de ação e apologistas da revolução
violenta e da guerrilha. Os principais centros de atividade comunista
eram, segundo o informe, a Universidade de Buenos Aires, cuja
Faculdade de Filosofia e Letras contava com 40% de seus professores e
77% de seus alunos infiltrados, a Universidade de La Plata e a de
Tucumán64.

62 Décio de Moura a Juracy Magalhães, ofício, Buenos Aires 22 jun.


1966, AHIBR, caixa 10.
63 Legação do Brasil ao MRE, ofício, Buenos Aires, 2 nov. 1967, AHIBR, caixa 12.
64 Décio de Moura a Juracy Magalhães, ofício, Buenos Aires, 1º mar. 1967, AHIBR,
caixa 34.

143
AMADO LUIZ CERVO

Durante os anos 60 e 70, portanto, a expansão de regimes


militares pela América Latina deixou o governo dos Estados Unidos
em posição confortável diante do combate ao comunismo. Podia dar-
se ao luxo de distribuir pouca ajuda militar e de dirigi-la ideologicamente
para os países, quase como se sorteio fizesse, dando ânimo à corrida
que os movia em troca da cooperação na Guerra Fria. Podia ainda
alardear nessa ajuda a questão dos direitos humanos que sua ação de
apoio aos golpes militares contribuíra para sepultar. Essa indisfarçável
hipocrisia política não escapava aos olhos de quase ninguém, da opinião
pública esclarecida e até de regimes militares, como o de Ernesto
Geisel o qual, em 1977, tomou grande distância com relação àpolítica
de dominação desenfreada e sem reciprocidade que os Estados Unidos
implementavam na América Latina.
As táticas norte-americanas de combate ao comunismo na
América Latina no contexto da Guerra Fria, impregnadas de coerção e
desrespeito às liberdades e aos direitos humanos, não isenta de
responsabilidade os grupos associados latino-americanos. Inúmeros
estudos revelam as modalidades e a intensidade das conexões entre as
elites orgânicas do norte e do sul do continente, entre a polícia e a
política, o empresariado e os militares, a intelectualidade de direita e o
poder. A internacional capitalista, na expressão de Dreifuss65.

65 Cf. Moniz Bandeira (1993) ; Dreifuss, René. A internacional capitalista: estratégias e táticas
do empresariado transnacional (1918-1986). Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1987; Smith
(1996); Black, Jan Knippers. Sentinels of empire. The United States and Latin American
militarism. New York: Greenwood Press, 1986; Lebow, Richard, Stein, Janice. Weall lost the
ColdWar. Princeton: Princeton University, 1993.

144
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Segunda parte

Argentina, Brasil e Venezuela

145
AMADO LUIZ CERVO

146
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

4. A dinâmica atlântica entre 1947 e 1959

4.1. O sul do continente à época do peronismo

O regime peronista, embora consagrado pelas urnasnas eleições


democráticas de 1945, não recolhia as simpatias de todo o meio
político brasileiro. Simpatizantes e desafetos manifestavam-se
publicamente de tal sorte que suas atitudes tornar-se-iam um dos
primeiros desafios que as diplomacias de ambos os países haveriam de
enfrentar1.
Desde janeiro de 1947, as chancelarias brasileira e argentina
preparavam o encontro entre os presidentes Eurico Gaspar Dutra e Juan
Domingo Perón, que se realizou a 21 de maio, em Paso de los Libres e
Uruguaiana, na fronteira, onde se inaugurou a ponte internacional sobre
o rio Uruguai, ligando os dois países. Dutra fora o candidato de Vargas
à presidência, mas não tinha a habilidade política de seu predecessor,
tanto é que cedeu aos Estados Unidos, no pós-guerra, o apoio
incondicional brasileiro à montagem da ordem internacional gestada
pela inteligência norte-americana, sem nadabarganhar em compensação.
Manteve contudo a diretriz externa de não hostilizar a Argentina, por
maiores que fossem as pressões da diplomacia americana e a disposição
de próximos auxiliares seus, que ouviam os impropérios da oposição,
a União Democrática Nacional (UDN), contra o regime peronista.
Havia, efetivamente, no Brasil, quem nutrisse muita admiração pelo
presidente argentino e quem por ele externasse sentimentos hostis,
bombardeando-o com qualificativos políticos pejorativos. Essa divisão
da opinião acerca do regime de Perón existia também entre os
diplomatas brasileiros que se manifestavam a seu respeito.
O chanceler brasileiro Raul Fernandes contava entre os que
não alimentavam simpatias por Perón. De Buenos Aires, o embaixador

1 Lladós, José María, Guimarães, Samuel Pinheiro (orgs). Perspectivas; Brasil y Argentina.
Buenos Aires: Cari,1999; Jalabe (1996); Moniz Bandeira (1993); Lanús, Juan Archibaldo.
Un mundo sin orillas; nación, Estado e globalización. Buenos Aires: Emecé, 1984. 2 v; Cervo,
Bueno (1992).

147
AMADO LUIZ CERVO

João Baptista Luzardo, um admirador confesso e amigo íntimo de


Perón, esforçava-se para concluir a agenda e concertar a data do encontro
de Uruguaiana. Para esse diplomata, a ocasião se revestia de máxima
importância, uma vez que haveriam de encontrar-se, além dos
presidentes, os ministros de Relações Exteriores, Raul Fernandes e Juan
Atilio Bramuglia, os responsáveis pelas economias nacionais, Corrêa e
Castro, ministro brasileiro da Fazenda, e Miguel Miranda, presidente
do Banco Central e do Instituto Argentino de Promoção do
Intercâmbio. Esperava Luzardo que a chancelaria brasileira
correspondesse às intenções de Perón de ajustar os entendimentos sobre
todos os pontos de interesse comum, incluindo o trânsito de fronteira,
o comércio bilateral, o aproveitamento hidrelétrico conjunto das quedas
do Iguaçu e a convergência de posições a serem tomadas na próxima
Conferência Interamericana do Rio de Janeiro. O otimista Luzardo
dava a entender que o Brasil de Dutra conservava as mesmas disposições
de entendimento e cooperação positiva com a Argentina que decorriam
das visões políticas de Vargas2. Antevia resultados que somente seriam
alcançados 14 anos depois, em 1961, no mesmo local, ondeencontrar-
se-iam novamente os dois presidentes, então Jânio Quadros e Arturo
Frondizi.
Por que se equivocou Luzardo a respeito do primeiro encontro
presidencial de Uruguaiana acerca das possibilidades da cooperação
regional? Enquanto ele se empenhava em obter resultados concretos
do encontro, Oswaldo Furst, também da embaixada brasileira em
Buenos Aires, remeteu a Raul Fernandes um relatório depreciativo sobre
a Argentina de Perón. Segundo esse desafeto, o recém-formado Partido
Peronista não diferia em sua doutrina e orientação daqueles existentes
nos Estados totalitários. O regime era um amálgama de falangismo,
fascismo enacional-socialismo, sob aparência de trabalhismo, mas com
doutrina socialista, próxima do comunismo. O comportamento de
Perón, em suas reuniões públicas, reproduzia as concentrações fascistas
de Mussolini. Adiplomacia argentina decidira propagar o regime por
meio de seus adidos trabalhistas e culturais. Utilizando ainda o termo

2 Baptista Luzardo a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 20jan. 1947, AHIBR, caixa 21.

148
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

“peronismo” e não “justicialismo”, Furst citou uma definição do


Ministério das Relações Exteriores da Argentina para designar a doutrina
político-social do regime

uma síntese das ideologias em disputa, pois tomou de cada uma


delas aquilo que melhor pode servir à felicidade do homem e a
seu melhor deslocamento no sentido da justiça e da liberdade
(e comentou). Nessa fraseologia se condensam as expressões a que
venho me referindo em vários relatórios: pensa-se numa doutrina
nova e em sua propagação, se bem que de nova nada possa ter
quando recopilada nas de ordem totalitária que o mundo acaba
de combater e continua combatendo.

O consenso nacional que o peronismo alcançou era tal, segundo


Furst, que os oposicionistas, paradoxalmente, acabavam por robustecer
o governo, como sucedeu com os casos Braden e Avalos. O Partido
Radical, vencido nas urnas, silenciou ante o triunfo do governo, que se
apoiava nas massas obreiras, nas forças armadas e no Partido Peronista.
Nessas condições, o Estado não encontrava freios e limites à intervenção
econômica, que desejava e realizava, sob o comando do poderoso
Miguel Miranda. Além de enormes recursos nacionais, dispunha esse
Estado de capitais e técnicos norte-americanos para implementar o
plano qüinqüenal, desde que o novo embaixador, George Messersmith,
concertara as relações com os Estados Unidos. Concluía Furst seu
relatório ao chanceler brasileiro com duas visões prospectivas: se
mantiver o bom senso político, a Argentina terá um futuro grandioso,
mas “o afã de se industrializar não impressionaria, na Argentina, se não
visasse diretamente princípios de hegemonia política e predomínio
militar”3.
Gostassem ou não do peronismo, diante de relatórios
contraditórios que lhes chegavam de Luzardo e Furst, Raul Fernandes
e Dutra não haveriam de ignorar a Argentina. Tomaram o caminho de
Uruguaiana, não sem antes colocar em Buenos Aires novo embaixador,
Cyro de Freitas-Valle, homem competente e de confiança. A mudança

3 Oswaldo Furst a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 24 fev. 1947, AHIBR, caixa 21.

149
AMADO LUIZ CERVO

traía os sentimentos do governo de Dutra, e particularmente a força de


seu ministro das Relações Exteriores no trato da questão argentina.
Com efeito, Freitas-Valle foi enviado a Buenos Aires em substituição
a Luzardo, porém em substituição à orientação de entendimento e
cordialidade “excessiva” a manter nas relações com Perón. No primeiro
encontro pessoal de Freitas-Valle com o presidente argentino, a 8 de
maio de 1947, após recebido suas credenciais, Perón esquivou-se de
todo assunto e somente falou com o embaixador brasileiro, como se o
sondasse, do combate ao comunismo, um assunto tão caro ao governo
Dutra4.
O encontro dos presidentes realizou-se no dia21 de maio para
a inauguração da ponte internacional. Ao relatá-lo, afirmou Freitas-
Valle que a realização do encontro não agradou a Raul Fernandes nem
ao ministro interino, Hildebrando Accioly, a quem escreveu, nem a
ele mesmo. Foi apenas inevitável, “coisa acertada, de que nem um de
nós três deve arrepender-se”. O Itamaratynão estava disposto, portanto,
a endossar apolítica cooperativa de iniciativa argentina, para satisfação
dos desafetos de Perón entrincheirados na UDN, a agremiação política
que abrigava em termos ideológicos e de representatividade social as
velhas elites conservadoras, como ocorria com o Partido Radical
argentino. O fato relevante para a política exterior era a cisão da opinião
brasileira diante do peronismo, cisão tão profunda que se pode
comparar àprópria cisão danação argentina diante do mesmo fenômeno
político.
Assim mesmo, o encontro de Uruguaiana foi útil para as
relações regionais. Fez descer, para o governo brasileiro, o peronismo
da mitologia à realidade e comprovou que Brasil e Argentina tinham
interesses a concertar que transcendiam a governos e regimes políticos.
Seus resultados envolveram questões variadas e de grande interesse para
os dois países e para a região. Segundo avaliação de Freitas-Valle, os
resultados mais relevantes foram: (a) melhora da imagem do outro,
em sentido realista, condição indispensável à manutenção de relações
bilaterais cooperativas; (b) demonstração da necessidade de perpetuação

4 Freitas-Valle a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 12 maio 1947, AHIBR, caixa 21.

150
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

da amizade argentino-brasileira; (c) entendimento para aproveitamento


conjunto do potencial elétrico do Salto Grande do rio Uruguai; (d)
cooperação para solução do contencioso de fronteira entre Equador e
Peru, mediante convocação no Rio de Janeiro dos representantes dos
quatro Estados garantes; (e) esforços conjuntos pela mediação na luta
civil paraguaia; (f) posterior negociação por via diplomática de outros
assuntos como o tráfico de fronteira, o aproveitamento conjunto do
potencial hidrelétrico das quedas do Iguaçu e o intercâmbio comercial;
(g) convergência de posições na Conferência do Rio de Janeiro. No
âmbito da política internacional, este último ponto revelou-se de maior
importância para a Argentina, que buscava o apoio do Brasil para
converter em fato a opinião do embaixador norte-americano
Messersmith, favorável à readmissão da Argentina, sem limitações, na
comunidade pan-americana5.
Freitas-Valle transmitia ao governo brasileiro informações
bastante isentas e objetivas sobre o governo de Perón, de sorte a instruí-
lo para a tomada das grandes decisões concernentes às relações com a
América Latina. Seus relatórios atenuavam a carga doutrinal e ideológica
que contaminavam as visões de Furst. O peronismo deveria entender-
se como uma mística “usada para conservar ao lado do presidente as
massas que o levaram ao poder”. Enfraquecidas, as oposições não
alcançavam articular-se nem sequer com uma opinião mundial
arregimentada contra o presidente Perón, incluindo aquela que se
espalhava pela imprensa brasileira. Por outro lado, Miranda exigia pelo
trigo argentino, de que necessitavam tantos países, preços exorbitantes,
no dizer do embaixador. A situação de desconforto político e econômico
da Argentina explicava demonstrações espetaculares de apreço a pessoas
e fatos, como as manifestações na despedida do embaixador
Messersmith, o encontro com o presidente brasileiro em Uruguaiana e
com o presidente chileno em Tucumán. Explicava, outrossim, a
grandiloqüência sem base, que mais evidenciava “o quanto há de
oco no regime imperante na Argentina”, como sua proclamada

5 Freitas-Valle a Hildebrando Accioly, ofício, Buenos Aires, 24 maio 1947, AHIBR,


caixa 21.

151
AMADO LUIZ CERVO

independência econômica, nas comemorações de 9 de julho de 19476.


Sabendo que Raul Fernandes iria dirigir a Conferência do Rio de Janeiro,
Freitas-Valle deu-lhe, por conveniência política, dois bons conselhos:
que o ministro solicitasse aos diretores dos diários brasileiros um
armistício em seus ataques ao peronismo durante a conferência e que
ficasse atento para não haver manobra alguma por algum país do
continente, pondo em risco a presença argentina na comunhão
interamericana7.
Coincidia, portanto, Freitas-Valle com a linha de ação
cooperativa com a Argentina, que tão valorizada fora pelo presidente
Vargas entre 1930 e 1945, a despeito de pressões em contrário por
parte da diplomacia norte-americana. Essa linha de força da política
exterior brasileira encontrava idêntica expressão na visão política de
longo prazo na Argentina, de tal sorte que os tropeços de caminho, nas
décadas seguintes, mais corresponderiam a imprevistos do que a uma
estratégia.
Se desejava o convívio argentino no continente, como seu
predecessor em Buenos Aires, Baptista Luzardo, o embaixador Freitas-
Valle não alimentava entusiasmo pela natureza do regime peronista e
nisso dele diferia. Chegou a sugerir a Raul Fernandes uma ação com a
finalidade de torpedear no Brasil a filial da agência de notícias argentina
Andi, voltada à propaganda política do peronismo8. Em encontro
mantido com Freitas-Valle em novembro de 1947, Perón, após repetir
ser sua política a de manter com o Brasil as melhores e mais estreitas
relações, queixou-se da tendência oposta da política brasileira que se
manifestava seja por uma imprensa hostil, seja pela ação do Itamaraty,
no sentido de dificultar a negociação argentina de acordos comerciais
com o Chile e a Bolívia. Retrucou-lhe o embaixador haver no Brasil
certa crítica em razão de se pagar pelo trigo argentino preço superior
aos preços internacionais do produto. Miguel Miranda, presente ao
encontro, rebateu duramente, dizendo que comprar tecidos, ferro-gusa

6Freitas-Valle a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 16 jul. 1947, AHIBR, caixa 21.
7Idem, ofício, Buenos Aires, 21 jun. 1947, AHIBR, caixa 21.
8 Ibidem, ofício, Buenos Aires, 25 out. 1947, AHIBR, caixa 21.

152
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

e açúcar do Brasil, cujos preços também estavam acima do mercado,


era um favor que a Argentina lhe fazia9. Esses atritos acerca dos negócios
bilaterais escondiam potenciais disputas de grande envergadura que
haveriam de aflorar, caso sobre eles se derramassem as antipatias das
correntes de opinião.
Após a assinatura, em Petrópolis, do Tratado Interamericano
de Assistência Recíproca (Tiar), os relatórios expedidos de Buenos Aires
evidenciavam, em finsde 1947, uma melhora na posição internacional
da Argentina, grandemente beneficiada com a acolhida que tivera na
conferência pan-americana. O comandante americano de defesa do
Caribe, general Willis D. Krittemberg, visitou Buenos Aires, por
cortesia, mas igualmente para sondar a possibilidade de padronizar o
mercado argentino de armas, estações meteorológicas, aviões de guerra
e outros materiais, pela via dos fornecimentos americanos. O New
York Timespublicou elogiosas referências a Perón e a sua capacidade de
dirigir o país para um umbral de grandeza, com a política de
recuperação econômica e de combate ao comunismo. Na realidade,
observava Oswaldo Furst, a política exterior argentina orientava-se pelo
neutralismo da 3ª Posição e buscava a aproximação com os Estados
Unidos porque neles viam os grandes provedores na hipótese de guerra
com a URSS, guerra na qual aliás o modelo econômico e político
argentino apostava como se fosse sua grande esperança10.
Em balanço que fez a Raul Fernandes e ao presidente Dutra de
seu primeiro ano como embaixador em Buenos Aires, findo em maio
de 1948, Freitas-Valle revelou-se perplexo, não com a Argentina de
Perón, que paradoxalmente passou a admirar com antipatia, mas com
a ausência de uma política objetiva com relação à Argentina e aos
interesses bilaterais por parte do governo Dutra. Responsabilizou o
temor brasileiro em desagradar aos Estados Unidos pela linha de
afastamento ou reticência diante da Argentina que lhe foi recomendada
e percebeu-a irrealista e obsoleta. Foi forçado a conter suas iniciativas
de ação e suas palavras de cordialidade, interpretando ser a vontade de

9 Ibidem, ofício, Buenos Aires, 4 nov. 1947, AHIBR, caixa 21.


10 Oswaldo Furst a Raul Fernandes, relatório, Buenos Aires, 27 dez. 1947, AHIBR, caixa 21

153
AMADO LUIZ CERVO

Raul Fernandes e de Eurico Gaspar Dutra, os quais, com essa finalidade,


haviam removido Luzardo, quando a diplomacia americana seguirao
caminho contrário, de Braden a Messersmith, e deste ao novo
embaixador James Bruce, que chegou rasgando elogios à pessoa de
Perón. A Luzardo e a estes abriram-se todas as portas, a Freitas-Valle,
frestas. No início de 1948, era maior a intimidade do Departamento
de Estado do que a do Itamaraty com o Palácio San Martín. Concluía
o embaixador sentir-se frustrado e desorientado na Argentina, “pois
não temos uma política determinada em relação a ela”11. Mais azedo
tornou-se dias depois Freitas-Valle ao acompanhar o chanceler
Bramuglia em visita ao Rio de Janeiro e ser colocado depois de Luzardo,
então deputado federal, no banquete oferecido pelo próprio Itamaraty12.
O desabafo de Freitas-Valle se explica pela ambigüidade do
Brasil, que tinha na presidência um homem fraco ena chancelaria um
homem de têmpera, o primeiro desorientado e o segundo disposto a
emperrar a cooperação com a Argentina peronista e também suas
iniciativas regionais, seja por indisposição sentimental, seja por
convicção de que agindo assim poderia angariar algum ganho do lado
dos Estados Unidos.
A ação diplomática brasileira na Argentina não primava,
portanto, por investir inteligência na promoção de interesses brasileiros.
Ingressara, com Freitas-Valle, em 1947, em fase de contenção de
iniciativas, que prenunciava o pior, a diplomacia de obstrução dos
interesses argentinos, a prevalecer nos anos 50. Parece mais plausível
supor que essa linha de conduta derivava da prevalência entre os
dirigentes do governo de Dutra de prevenções contra o regime de Perón,
ao invés de fluir do cálculo segundo o qual marchar com a Argentina
comportaria como custo a perda de benefícios advindos das relações
especiais com os Estados Unidos. Freitas-Valle deixou claro para o
governo brasileiro que a diplomacia norte-americana, desde o início
do regime de Perón, esmerava-se em implementar interesses concretos
norte-americanos e não lhe aborreceria ver o Brasil agindo nesse mesmo

11 Freitas-Valle a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 15 abr. 1948, AHIBR, caixa 21.
12 Idem, ofício, Buenos Aires, 8 maio 1948, AHIBR, caixa 21.

154
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

sentido. Por isso se queixava, como profissional responsável que era,


vendo-se condenado à inércia ao lado de quem recolhia resultados
concretos. Sentia-se um diplomata contido por ordens superiores e
frustrado como profissional.
Apesar da antipatia do presidente, do chanceler e do próprio
embaixador do Brasil pelo regime peronista, a propaganda desse se
fazia em toda a América com eficiência e pompa. Caravanas de
estudantes, professores, jornalistas, operários e letrados brasileiros e de
outros países eram levados a Buenos Aires em aviões fretados pelo
governo argentino13.
Freitas-Valle chamava de realismo político o modo como a
economia nacional era controlada pela administração pública através
do Instituto de Promoção do Intercâmbio e do Conselho Econômico
Nacional, ambos dirigidos pelo ministro Miguel Miranda que se havia
amparado inclusive da responsabilidade de firmar tratados e acordos
econômicos com outras nações, esvaziando o papel do Palácio San
Martín e tornando as negociações mais técnicas que políticas. Segundo
ele, a Argentina havia levado o princípio da economia dirigida a
extremos nunca alcançados. Ridicularizava a proclamada independência
econômica, ao observar quanto corriam os argentinos atrás dos dólares
americanos, sem os quais seria impossível implementar o plano
qüinqüenal. Admirava as contradições de um discurso político que
tinha destino duplo: o prestígio e a eficiência. Eram reclamações serenas
pela não destinação à Argentina dos recursos do Plano Marshall, eram
agressões políticas contra o imperialismo americano, eram missões de
negociação aos Estados Unidos que se sucediam para obtenção de
recursos14.
As prevenções que era forçado a carregar no exercício da função
diplomática induziam Freitas-Valle a concluir que nada se haveria de
levar a sério na linguagem diplomática argentina, em razão de suas
contradições, cabendo, ao revés, levantar suspeitas sobre qualquer

13 Carlos Alves de Sousa a Raul Fernandes, ofício, Havana, 12 maio 1948, AHI, armário,
maço 45497.
14 Freitas-Valle a Raul Fernandes, relatórios, Buenos Aires, 14 e 31 jul., 11 out. e 3 nov. 1948,
AHIBR, caixa 21.

155
AMADO LUIZ CERVO

declaração ou afirmação do líder argentino. Desse modo, despiu de


todo sentido positivo a surpreendente declaração feita por Perón ao
jornalista brasileiro Luís de Medeiros, em outubro de 1948, ao aludir
à forma como entrava trigo argentino no Rio Grande do Sul, qualificada
pela imprensa de “contrabando oficial”. O presidente argentino sugeriu
a supressão da fronteira entre o Brasil e a Argentina: “Tomemos uma
borracha, passemo-la sobre o mapa e resolvamos que não existem mais
alfândegas entre os dois países. Reformemos isso de uma vez, para que
argentinos e brasileiros passemos de um lado a outro como irmãos
vizinhos que se visitam sem necessidade de bater à porta”.
Qual teria sido o pensamento de Perón ao lançar essa idéia no
campo das relações argentino-brasileiras, perguntou o observador
brasileiro em Buenos Aires, embaixador Freitas-Valle? Seria mais uma
manifestação de sua estratégia de angariar simpatias no exterior ou
estaria Perón propondo realmente a união aduaneira e a livre circulação
de pessoas entre os dois países com a finalidade de fortalecer um regime
autoritário?15.
Tão retrógrado em suas idéias políticas e econômicas andava
Freitas-Valle, talvez por nutrir pessoalmente prevenções e por carregar
aquelas que lhe despejava a correspondência do Itamaraty, que não só
vislumbrava nessa idéia integracionista, a concretizar-se cinqüenta anos
depois, uma maquinação urdida pelo peronismo contra os interesses
do Brasil, como ainda considerava lesivos aos interesses do Brasil os
empreendimentos brasileiros que se aproveitavam do crescimento
econômico argentino para investir seus capitais no país vizinho, os
grupos Matarazzo, Eduardo Guinle Filho e Seabra16.
Ao despedir-se de Perón, ao término de sua curta permanência
de 18 meses em Buenos Aires à frente da missão brasileira, o embaixador
Freitas-Valle, em rápido colóquio que manteve, admirou uma última

15 Idem, ofício, Buenos Aires, 18 out. 1948, AHIBR, caixa 21. Declaração de Perón,
transcrita nesse ofício: “Vamos a tomar una goma, pasarla sobre el mapa y resolver que no
existem más aduanas entre los dos países. Vamos a reformar esto de una vez, para que
argentinos y brasileños pasemos de un lado a otro como hermanos vecinos que se visitan sin
necesidad de golpear a la puerta”.
16 Ibidem, relatório, Buenos Aires, 31 jul. 1948, AHIBR, caixa 21.

156
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

vez o espírito fértil, a informação controlada e a opinião ágil do líder


argentino. Em poucos minutos, o presidente lhe falou do atraso nos
planos de aproveitamento do potencial hidrelétrico dos rios Uruguai e
Iguaçu, dos problemas no comércio bilateral, da acusação que lhe faziam
de imperialista, das relações que não haviam sido normais nem profícuas
entre o Brasil e a Argentina nos últimos tempos. Ao retrucar-lhe, o
embaixador concordou e atribuiu o fato aos ataques da imprensa
brasileira e ao preço do trigo. Despediu-se dele Perón, recomendando-
lhe, com extrema afabilidade, quando assumisse funções no Brasil,
“facilitar as relações argentino-brasileiras” e promover um encontro entre
os dois presidentes17.
Apesar da esperança de uma relação cooperativa com o Brasil
que Perón manifestara a Freitas-Valle, os ofícios e relatórios dos
representantes brasileiros nas capitais do Cone Sul, que chegavam à
chancelaria nos dois primeiros anos de governo eleito de Perón, eram
alarmistas, denunciando constantemente objetivos expansionistas.
Fundavam-se esses diplomatas brasileiros em uma percepção da
degradação do regime e de sua marcha para o nacionalismo. A
diplomacia brasileira de então não era ativa, porém atenta. Feita de
cautela em Buenos Aires e de vigilância nos arredores.
A documentação diplomática permite concluir que a política
exterior do governo de Dutra com relação à Argentina de Perón
orientava-se pelos seguintes parâmetros de pensamento e ação: repulsa
à idéia de integração regional, minguado esforço para contrabalançar a
presença argentina nos países do Cone Sul e apoio à boa inserção da
Argentina na comunidade pan-americana, sem melindrar o governo
dos Estados Unidos. Com o tempo, essa política exterior tenderia ao
confronto, por meio do que convencionamos chamar de diplomacia
da obstrução. Por seu lado, Perón buscava decididamente a cooperação
bilateral e regional de modo, se possível, a criar um bloco de países que
promovesse coletivamente o desenvolvimento e resistisse, na medida
do necessário, à dominação econômica e política dos Estados Unidos
sobre a América Latina.

17 Ibidem, ofício, Buenos Aires, 5 nov. 1948, AHIBR, caixa 21.

157
AMADO LUIZ CERVO

A 27 de fevereiro de 1948, os presidentes Perón e Luís Battle


Berres do Uruguai passaram em revista as relações entre os dois países,
em encontro que simbolicamente realizou-se na praia Agraciada, onde
haviam desembarcados os 33 orientais para a luta pela independência
do Uruguai. Trataram do combate ao comunismo, das relações pan-
americanas, do aproveitamento de Salto Grande, dos investimentos
argentinos no Uruguai. Procurava Perón angariar apoio à reafirmação
dos direitos argentinos sobre as Malvinas e sobre grande parte do território
da Antártica, temas que queria levar às conferências interamericanas, com
o firme propósito de projetar imagem para fins externos e internos18.
Em Montevidéu, o embaixador José Roberto de Macedo
Soares mantinha freqüentes encontros com o presidente, Battle Berres,
nos quais ambos avaliavam as intenções do poderoso Perón e ajustavam
atitudes a tomar. Uruguai, Brasil e Estados Unidos opunham-se a que
as questões das Malvinas e da Antártica, como também a de Belize,
fossem levadas à IX Conferência Internacional Americana de Bogotá,
marcada para março de 1948, com intuito de servir de instrumento de
propaganda para a Argentina. Mas Perón tinha apoios de outros países
e as diplomacias do Brasil e do Uruguai, que concertaram previamente
asposições a serem defendidas em Bogotá, onde se criaria a Organização
dos Estados Americanos (OEA), agiriam no sentido de desmontar o
circo propagandístico a ser armado pela delegação argentina19.
Os anos de 1947 e 1948 foram instáveis no Paraguai, onde
uma rebelião que tomou as dimensões de guerra civil tentou derrocar
o governo regular do presidente Higínio Morínigo. Brasil e Argentina
sustentaram o governo contra os sediciosos, que foram derrotados.
A intervenção argentina fora firme e a brasileira hesitante. Perón
engrandeceu-se até mesmo aos olhos da oposição derrotada, por
implementar uma política forte, em contraposição ao abandono do
Paraguai por parte do Brasil, na avaliação do presidente Berres do vizinho
Uruguai.

18Ibidem, relatório, Buenos Aires, 29 fev. 1948, AHI, lata 2122, maço 37966.
19José Roberto de Macedo Soares a Raul Fernandes, ofícios, Montevidéu, 12-13 mar.
1948, AHIBR, caixa 1.

158
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Por ocasião de uma viagem a Bogotá, em contatos com


autoridades brasileiras e argentinas, o ministro paraguaio das Relações
Exteriores, César Vasconcelos, reclamaria de seus respectivos países
maior atenção ao Paraguai. Esperava a conclusão pelo Brasil da estrada
de ferro para Ponta Porã e da estrada de rodagem para Foz do Iguaçu.
Esperava investimentos argentinos. Lembrou-lhe o chefe da missão
brasileira em Assunção que o Brasil esperava do Paraguai necessária
estabilidade política em que assentar as iniciativas de cooperação com
países vizinhos20. Cauteloso como convinha, mas de ouvidos estendidos
à oposição argentina ao regime de Perón, Freitas-Valle, então embaixador
em Buenos Aires, embora com repugnância, ouvia dessa oposição o
plano diabólico que o peronismo arquitetava, de fomentar a instabilidade
paraguaia ao extremo, para justificar uma intervenção salvadora e a
posterior espontânea anexação. As tramas urdidas pelas oposições aos
regimes fortes do Paraguai e da Argentina, “verdadeira onda de intrigas
com que os adversários do governo procuram dificultar-lhe a tarefa”,
no dizer do representante brasileiro em Assunção, Julio Augusto Barboza
Carneiro, derramavam-se constantemente sobre a correspondência
diplomática e chegavam aos respectivos governos com extrema
facilidade. Não fosse um permanente destilamento dessas intrigas e
uma atitude de prudência a seu respeito, no momento em que eram
digeridas pelas máquinas burocráticas dos negócios estrangeiros, as
relações entre os países tenderiam forçosamente à deterioração21.
A competição entre Brasil e Argentina por influência na
América do Sul não era, contudo, armação das oposições. A Conferência
de Bogotá permitiu ao chanceler argentino Juan Atilio Bramuglia
contatos com autoridades de países do Pacífico, Peru, Equador, Bolívia,
Colômbia e Venezuela, que logo após demandavam Buenos Aires com
o objetivo de firmar acordos e intensificar o comércio de minerais em
troca de cereais. Freitas-Valle, alarmado como sempre, denunciava essa

20Idem, ofício, Montevidéu, 13 de mar. 1948, AHIBR, caixa 1. Barboza Carneiro a Raul
Fernandes, ofício, Assunção, 19 de mar. 1948, AHIBR, caixa 1.
21 Freitas-Valle a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires. 22 maio 1948, AHIBR, caixa 1.
Barboza Carneiro a Freitas-Valle, ofício, Assunção, 3 jun. 1949, AHIBR, caixa 1.

159
AMADO LUIZ CERVO

“gravitação argentina no Pacífico”22. Oswaldo Furst em Buenos Aires


e Álvaro Teixeira Soares em Montevidéu reforçavam as desconfianças.
Denunciava o primeiro a exigência de Perón no sentido de cobrar maior
empenho de sua diplomacia na orientação da “política expansionista
argentina”.
Teixeira Soares, que seria um renomado historiador da diplomacia
brasileira, analisou, com preocupação, o movimento no sentido de
reconstituir o vice-reino do Prata, sob a égide do general Perón:
Quando uma ditadura demagógica, como a do general Perón,
conta com um pugilo de publicistas, empenhados em justificar
sua programação interna e internacional, há necessariamente que
atentar para a circunstância de que essa campanha de proselitismo
pode aprofundar-se no espírito das massas, facilmente conduzidas
por um chefe que tenha elã.

O sistema ideológico do peronismo, assessorado por publicistas


e historiadores, segundo Soares, destinava-se a provar aos países
americanos que o país estava fadado à grande missão histórica de
reconstituir a antiga unidade administrativa colonial. Condições
favoráveis à realização do ambicioso projeto eram fornecidas pelas
vizinhanças, onde somente Brasil e Uruguai apresentavam consistência
capaz de resistir. O Chile havia-se enfraquecido pela crise econômica e
andava longe da força que ostentara no século XIX. A Bolívia,
atormentada por crises políticas e econômicas, estava à mercê de quem
fosse mais rápido em suas iniciativas, Brasil ou Argentina. O Paraguai
não passava de uma expressão nominal de soberania, na realidade um
quintal da Argentina. Pequena democracia bem organizada, o Uruguai
fazia exceção mas também sobre ele se derramava a pressão argentina.
Em suma, a penetração econômica e comercial da Argentina sobre os
países do Cone Sul estava a respaldar o projeto expansionista, que a
assessoria intelectual de Perón desejava anexacionista23.

22 Freitas-Valle a Raul Fernandes, relatório, Buenos Aires, 17 jul. 1948, AHIBR, caixa 21.
23 Oswaldo Furst a Hildebrando Accioly, relatório, Buenos Aires, 9 set. 1948, AHIBR,
caixa 21. Álvaro Teixeira Soares a Hildebrando Accioly, ofício, Montevidéu, 15 set. 1948,
AHIBR, caixa 1.

160
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

As apreciações alarmistas dos diplomatas brasileiros quanto ao


suposto expansionismo argentino veiculavam interpretações distorcidas
de inúmeros fenômenos contemporâneos. Assim, o chamado
armamentismo argentino era complemento acessório de tal política.
Por outro lado, também não hesitavam esses diplomatas em atribuir à
mão argentina os golpes de Estado ou a instabilidade política que se
verificavam em diversos países: Chile, Uruguai, Peru, Venezuela, Paraguai
e Bolívia. Comprovou-se, apenas, o envolvimento de dois funcionários
argentinos em uma tentativa de golpe para derrubar o presidente chileno
Gonzalez Videla, em fins de 1948, mas as lentes da desconfiança
diplomática brasileira, durante o governo de Dutra, tendiam a identificar
a ação peronista com toda instabilidade política, já que refletiam um
suposto plano de instalar governos ou regimes fascistas na América do
Sul24. A diplomacia da intriga, provavelmente instigadapela chancelaria
brasileira, prenunciava a diplomacia da obstrução.
A legação brasileira em Buenos Aires definiu no início de 1949
essa orientação que os diplomatas brasileiros acreditavam corresponder
à estratégia expansionista da política argentina na América do Sul:
O conjunto dos fatos acima expostos, além de muitos
outros sucedidos nos últimos tempos, inclusive aqueles relacionados
diretamente com o Brasil, parecem indicar ter o governo do
general Perón uma política externa própria em relação à América
do Sul. Fundamentada por certo em velhas aspirações e persistentes
sonhos, que desde sempre, com maior ou menor intensidade,
envolveram Buenos Aires, haveria tomado agora nova e mais ousada
amplitude, muito embora sem se afastar do terreno das realidades.
Dá mostras de ser uma política ativa, expansionista, que procura,
inicialmente, ganhar posições chaves, por etapas previamente
estudadas. Sente-se um plano e a mão que o dirige. O objetivo
mediato: a hegemonia continental. Buenos Aires, de imaginação
fértil, ambiciona o bastão do comando25.

24 Álvaro Teixeira Soares a Hildebrando Accioly, ofício, Montevidéu, 8 out. 1948, AHIBR,
caixa 1. Legação do Brasil a Hildebrando Accioly, relatório, 7 dez. 1948; ofícios, 8 e 18 dez.
1948, Buenos Aires, AHIBR, caixa 21.
25 Legação do Brasil ao MRE, relatório, Buenos Aires, 11 jan. 1949, AHIBR, caixa 22.

161
AMADO LUIZ CERVO

Torna-se evidente, portanto, que as prevenções inerentes às


interpretações veiculadas nos documentos diplomáticos produzidos
por representantes brasileiros no Cone Sul, um fato capaz de induzir
per seefeitos concretos, também deturpavam a realidade, outro fato a
contaminar a política exterior, deteriorando-a e desviando-a de suas
funções naturais, de promover os interesses e o bem-estar dos povos.
Em janeiro de 1949, designado embaixador do Brasil, chegou
a Buenos Aires o general Milton de F. Almeida. O novo representante
do general Dutrajunto ao general Perón, paradoxalmente, contribuiria
para aliviar as tensões que os pesados ofícios e relatórios com que
os diplomatas de carreira do Itamaraty inundavam a chancelaria,
descrevendo o sombrio horizonte das relações regionais, alimentavam.
Convidado por Perón, antes mesmo de apresentar suas credenciais,
com ele conversou por mais de uma hora, no dia 31 de janeiro, ficando
encantado com a “extrema cordialidade” com que foi recebido.
Confessou-lhe o líder argentino sua satisfação em contar em Buenos
Aires com um colega de armas e homem de confiança do presidente
Dutra. Os assuntos tratados durante o encontro foram: o combate ao
comunismo na América Latina, para o qual Perón esperava a cooperação
entre os dois países; a crítica dos jornais brasileiros ao regime argentino,
que irritava Perón, pessoalmente responsável pelo silêncio da imprensa
argentina, proibida de revidar por ordem do presidente; o armamentismo
argentino, que Perón afirmou ser um instrumento de campanha política
das oposições para perturbar as relações bilaterais, tanto é que abria ao
embaixador brasileiro o acesso a todos os quartéis e fábricas de armas
do país26.
Com bom senso e visão política de qualidade superior à dos
diplomatas, tratou logo Milton F. de Almeida de desativar os alarmas
acerca dapolítica expansionista argentina, interpretando como benévola
e benéfica a cooperação regional que o país levava a efeito mediante a
promoção do comércio, a ajuda para obras públicas e os investimentos
nos países vizinhos27. As numerosas caravanas de estudantes (nove

26 Milton deF. Almeida a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 3 fev. 1949, AHIBR, caixa 22.
27 Idem, ofícios, Buenos Aires, 3 fev., 6, 21 e 28 jun. 1949, AHIBR, caixa 22.

162
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

somente nas férias de fim de ano de 1948) e intelectuais brasileiros que


demandavam a Argentina, vistas pelo seu predecessor e diplomata de
carreira Freitas-Valle como veículo danoso de propaganda do regime
no Brasil, eram consideradas convenientes para o relacionamento
bilateral pelo general embaixador, que solicitou o empenho do Itamaraty
em informá-lo para que colocasse os serviços da embaixada à disposição
desses turistas admiradores do peronismo28. Embora reconhecendo o
caráter pouco democrático do exercício do poder, o controle de imprensa
e a imposição do Partido Peronista por meios coercitivos, o novo
embaixador eliminou da correspondência diplomática os adjetivos
pejorativos acerca do regime que enfeitavam os textos anteriores29.
Comentando uma troca de correspondência entre ospresidentes
Perón e Gonzales Videla, do Chile, em novembro de 1949, em uma
tentativa de restabelecer o bom entendimento após a intervenção de
dois funcionários argentinos, em um complô levado a efeito um ano
antes com o intuito de derrubar o governo Videla, Almeida não
considerou que a iniciativa viesse apaziguar os ânimos em definitivo.
Em caso de agravamento futuro das relações argentino-chilenas, pensava
que a ação do Itamaraty ou do Departamento de Estado seriam as
únicas capazes de mediar o conflito30. Com a nomeação de Almeida
para o posto de Buenos Aires, o governo brasileiro parecia que
recuperava, portanto, a orientação cooperativa com relação à Argentina
de Perón.
O clima de cordialidade, restabelecido pelo embaixador
Almeida em 1949, permitiu aos dois países atualizar os instrumentos
que regularizavam o comércio bilateral, aliviando mais este setor de
constrangimentos que obstruíam o intercâmbio, com sérios prejuízos
para os consumidores de ambos os lados. O comércio bilateral regia-se
por um acordo de 1941, que o Brasil denunciara em 1947, mas que
fora prorrogado depois até 31 dedezembrode 1948. Quando Almeida
chegou a Buenos Aires, o comércio bilateral carecia de qualquer
instrumento regulador, havendo caído no regime geral dos inconvenientes

28 Ibidem, ofícios Buenos Aires, 16 fev. e 18 jul., 23 set. 1949, AHIBR, caixa 22.
29 Ibidem, ofício, Buenos Aires, 3 ago. 1949, AHIBR, caixa 23.
30 Ibidem, ofício, Buenos Aires, 22 nov. 1949, AHIBR, caixa 24.

163
AMADO LUIZ CERVO

que constituía o sistema de controles de câmbio, de listas de importação


e de quotas próprios de Estados intervencionistas.
A 16 de maio de 1949, quando já era extrema a necessidade de
produtos argentinos no Brasil e brasileiros na Argentina, firmou-se,
enfim, o novo convênio. Em razão de seus dispositivos, o Brasil adquiria
600 mil toneladas de trigo a 36 pesos o quintal e mais 300 mil na
forma e condições a serem fixadas posteriormente. Para os demais
produtos do comércio tradicional entre os dois países criavam-se
facilidades e estabelecia-se que seu preço deveria situar-se na média do
triênio 1946-1948. A Argentina importava madeiras, fios e tecidos,
frutas, erva-mate, cacau, tabaco, café, ferro e aço e seus manufaturados,
metais não ferrosos e seus manufaturados, fibras, chá, ceras, drogas e
produtos medicinais e veterinários. O Brasil importava, além do trigo,
frutas frescas e secas, alho, manteiga, queijos, aves congeladas, couro e
lãs, artigos de couro, medicamentos, sêmola e alpiste. O comércio
argentino-brasileiro era de grande importância mas decaiu muito nos
anos 1947 e 1948, ao tempo da diplomacia das prevenções, em razão
de restrições impostas de lado a lado pelos governos, tais como o regime
de licença prévia, a fixação de quotas e as proibições de importação de
certos produtos. O Brasil jáfora o principal comprador do trigo argentino
e voltaria a ser pelos próximos doze meses, em razão do convênio de 16
de maio31.
O ano de 1950, ao adentrar outra década, registrou novos
condicionamentos nas relações entre os países do Cone Sul. Era nítida
a nova maneira com que o presidente Truman mirava para a América
do Sul, ante a perspectiva de que a Guerra da Coréia se alastrasse em
conflito mundial entre as duas superpotências que haviam estabelecido
a rígida divisão do mundo em fronteiras ideológicas. Ante tal perspectiva,
uma das prioridades da política exterior norte-americana consistia em
restabelecer a solidariedade continental que se alcançara durante a
Segunda Guerra Mundial. Para realizar este objetivo, percebia o governo
de Truman a necessidade de melhorar as relações com a Argentina de
Perón, o único país importante a poder criar dificuldades com sua

31 La Prensa, Buenos Aires, 19 maio 1949, AHIBR, caixa 22.

164
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

política neutralista inerente à 3ª Posição. Os esforços americanos foram


coroados de êxito do lado argentino, visto que envolveram créditos
com que interromper a queima de reservas para fazer face às necessidades
de importação. O bom entendimento entre Argentina e Estados Unidos
refletiu-se, na ocasião, em melhora das próprias relações da Argentina
com seus vizinhos, em termos políticos e econômicos.
Animado com a desobstrução de entraves à ação externa
regional, Perón parece haver-se excedido, como era bem de seu estilo,
jogando sobre a arena da política regional, e de forma espetacular, nesse
ano de 1950, a idéia de retomar o projeto do barão do Rio Branco de
constituir o bloco ABC, entre Argentina, Brasil e Chile. Diante da
campanha eleitoral para apresidência da República no Brasil, a imprensa
argentina, que até então vinha sendo contida por ordens pessoais de
Perón e proibida de revidar à sistemática crítica da imprensa brasileira
ao peronismo, foi liberada. Mesmo porque Vargas apresentou sua
candidatura e contava com as simpatias da opinião peronista. O governo
de Dutra passou a ser, enfim, hostilizado pelos editoriais e por notícias
sombrias estampados nos jornais de Buenos Aires. Sobrou ao presidente
Berres do Uruguai a qualificação de subserviente e lacaio de Dutra. Se
com esse fato Perón cogitava influir sobre os resultados da eleição no
Brasil ou, quiçá, criar condições para um alinhamento que sempre
buscara com o país vizinho, é certo que, pela culatra, sua mudança de
atitude excitaria a UDN e o próprio meio diplomático, que contra ele
logo se voltariam com redobrado denodo, com a vitória de Vargas e a
recondução de João Neves da Fontoura à chancelaria.
Noiníciode 1950, aAssociação Brasileira de Imprensa(ABI)
votou uma moção de solidariedade com a imprensa argentina, cuja
ação era cerceada pelo peronismo. Esse foi o ponto de partida de violenta
reação dos jornais portenhos vinculados ao regime, a quase totalidade
da imprensa, acusando ser a brasileira, em especial Folha da Manhã,
O Jornal, Diário da Noite e revista O Cruzeiro, comprada pelas forças
do imperialismo americano, cujo braço na América Latina era
precisamente o governo de Dutra32. Mas a campanha de sistemático

32Milton de F. Almeida ao MRE, relatório, Buenos Aires, 7 fev. 1950 e ofício 19 abr.
AHIBR, caixa 25.

165
AMADO LUIZ CERVO

combate a esse governo seria animada logo depois pelo envolvimento


da imprensa argentina nas eleições presidenciais que se avizinhavam no
Brasil.
O Uruguai esforçava-se por manter sua autonomia diante do
peronismo. Isso significava evitar o confronto, manter boas relações
comerciais e políticas, mas sobretudo significava estar conectado com
o Brasil de Dutra. Esses objetivos correspondiam à visão do novo
embaixador designado para Montevidéu no início de 1950, Mateo
Marques Castro, que mantinha contato permanente com a embaixada
do Brasil em Buenos Aires para concertar atitudes diante da Casa
Rosada33.
A tendência de aproximação da Argentina com os Estados
Unidos acentuou-se no mês de março desse ano de 1950 com a viagem
a Washington do ministro argentino da Fazenda, Ramón Antonio
Cereijo, à procura de entendimentos referentes aos vários aspectos das
relações econômico-financeiras entre os dois países34. A viagem fora
precedida pela passagem por Buenos Aires do secretário assistente do
Departamento de Estado, Edward Miller, considerada auspiciosa para
as negociações de Cereijo. O clima de mais íntima eefetiva cooperação
entre os Estados Unidos e as repúblicas do hemisfério estava instalado.
Urgia à Argentina superar o grave problema da escassez de dólares que
estrangulava seu comércio de importação. Embora Perón e seu ministro
Miguel Miranda sempre houvessem desprezado a idéia de empréstimos
norte-americanos para resolver esse desequilíbrio das contas externas, a
eles acabaram por recorrer, pondo em risco a denominada independência
econômica com relação aos capitais usurários. Essa aproximação com
os Estados Unidos vinha acompanhada de gradual afastamento da
Argentina do Reino Unido, uma vez que não se obtinha solução para
o problema do preço das carnes e da importação de carvão. O ambiente
de “cordialidade e mútua compreensão”, no dizer do embaixador
Almeida, estabelecido para as negociações em Washington frutificou
em maio com os acertos firmados nos domínios comercial e financeiro.

33 Idem, ofício, Buenos Aires, 28 fev. 1950, AHIBR, caixa 25.


34 Rapoport, Spiguel ( 1994).

166
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Consolidou-se, assim, a tendência de aproximação entre os dois países.


Para tanto concorriam como determinações objetivas a pressão de
industriais e comerciantes norte-americanos que tinham interesses na
Argentina, o pessimismo do governo de Truman diante do cenário
internacional, a necessidade de uma sólida harmonia continental, o
envio de sucessivas missões militares à Argentina, a virada da opinião
norte-americana com relação à Argentina manifesta pela imprensa e
pelo Congresso e, enfim, o desempenho dos embaixadores enviados a
Buenos Aires depois de SpruilleBraden: George S. Messersmith, James
Bruce e Stanton Griffis, entusiastas, por convicção ou conveniência,
pelas realizações do regime de Perón em termos trabalhistas, sociais,
culturais e econômicos.
Nova demonstração das excelentes relações que mantinham
então Estados Unidos e Argentina foi a surpreendente aprovação
pela Câmara dos Deputados e a ratificação em julho do Tratado
Interamericano de Assistência Recíproca, trâmites esses que foram
utilizados por Perón para alardear a solidariedade continental e o
combate coletivo ao comunismo, tão a gosto norte-americano35.
Em agosto desse ano, evidenciando novamente a melhora de
suas relações exteriores, a Argentina recebeu a visita oficial do novo
presidente do Paraguai, Frederico Chaves, outro entusiasta, que foi a
Buenos Aires com a finalidade de “impregnar-se com a doutrina e
com a prática peronista”36. Contudo, a aproximação política requeria
redobrados esforços para manter os fluxos do comércio entre os países
do Cone Sul, que era contido pela escassez de divisas e pelos entraves
criados à livre circulação das mercadorias. Em 1949, as exportações
argentinas para o Chile caíram em 38% de seu valor, asdo Brasil para
a Argentina em 24%, enquanto as exportações argentinas para o Brasil
aumentaram 45%. Inúmeras negociações eram mantidas entre os países
para se chegar a novos acordos que viessem estimular os negócios37.

35 Milton de F. Almeida ao MRE, relatórios, Buenos Aires, 4 abr., 8 maio, 14 jun. e 25 jul.
1950, AHIBR, caixa 26.
36 Idem, ofício, Buenos Aires, 14 set. 1950, AHIBR, caixa 27.
37Alfredo Polzin a Raul Fernandes, ofícios, Buenos Aires 24 maio e 24 ago. 1950, AHI, lata
2090, maço 37712.

167
AMADO LUIZ CERVO

Não perdeu ocasião o governo argentino de externar, em 1950,


um ponto de vista acerca do item quarto do Plano Truman que lhe
serviu de positiva propaganda no continente. Em virtude desse plano,
os Estados Unidos se propunham fornecer auxílio tecnológico e
financeiro para os países menos desenvolvidos, mas solicitavam
aos mais avançados da América Latina que se incorporassem ao
empreendimento em favor de vizinhos menos favorecidos. Brasil e
Chile opuseram reservas a esta sugestão, alegando que necessitavam do
plano e não de oferecer-lhe alguma coisa. Bem ao estilo do pensamento
liberal da UDN e do governo Dutra, que relegava ao exterior a
responsabilidade do desenvolvimento, a reação do Brasil ao apelo de
Truman foi mesquinha, ao externar frustraçõespela falta de ajuda norte-
americana e contribuir para a construção da figura de um país grande
esmoleiro internacional, no dizer de Clodoaldo Bueno.
A diplomacia argentina reagiu com altivez e patriotismo diante
da proposta dos Estados Unidos, afirmando ser já tradicional apolítica
de exportar o avanço tecnológico nacional aos países vizinhos com a
finalidade de permitir-lhes o incremento da produção. Com efeito, a
Argentina contribuía, na medida do possível, para solução de problemas
junto aos países vizinhos mediante cooperação técnica, econômica e
cultural. Acordos vigentes haviam criado comissões técnicas para
realização de obras públicas que indiretamente promoviam a produção
e a produtividade econômica. Eram exemplos os acordos com o Chile,
a Bolívia, o Uruguai, o Paraguai e outros. Afirmava o embaixador
argentino Jeronimo Remorino, referindo-se ao item quarto. “Os
problemas do continente são os problemas argentinos e é por esse
motivo que qualquer iniciativa, como a que está sob consideração,
para melhorar o nível de vida dos povos terá sempre uma cálida acolhida
na Argentina”.
O embaixador brasileiro em Buenos Aires, Milton de F.
Almeida, percebeu, como já se observou anteriormente, agafe política
em que incorreu a diplomacia de prevenções e de contenção do governo
de Dutra acerca da política de cooperação regional e escreveu ao
chanceler Raul Fernandes:

168
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Como vossa excelência perceberá, o embaixador Remorino


fez em seu discurso praça de gestos que não são evidentemente
exclusivos da Argentina, pois vêm sendo praticados igualmente
por quase todos os países deste continente, entre eles o Brasil.
Todavia essa declaração indica uma mudança na conhecida
atitude argentina de que resulta o seu isolamento na política
continental, assim enveredando, quiçá obrigada pelas prementes
circunstâncias de sua atual situação financeira, pelo caminho
largo da desejável cooperação internacional38.

Em junho de 1950, dois decretos criaram na Argentina a


Comissão Nacional de Energia Atômica e a Junta de Investigações
Científicas das Forças Armadas. Destinava-se a primeira a coordenar e
estimular as investigações que se realizavam no país e propor medidas
tendentes a assegurar o bom uso da energia atômica na atividade
econômica do país. Ajunta haveria de assessorar os ministérios militares
sobre as possibilidades das investigações que interessassem às forças
armadas39.
Nada teve, em 1950, tanta repercussão sobre a opinião quanto
a proposta de Perón de compor o bloco dos países do ABC, dando
conteúdo ao pensamento do barão do Rio Branco. Expôs pela primeira
vez essa idéia em fins de abril, em encontro que manteve com o
embaixador do Brasil, Milton de F. Almeida. Segundo Perón, as nações
fracas deveriam desde logo agrupar-se para formar unidades econômicas,
com a finalidade de enfrentar a dominação do mundo por parte das
duas superpotências. Brasil, Argentina e Chile, com suas economias
complementares, se unidos, multiplicariam sua importância e seu peso
nas relações internacionais40.
Dirigindo-se, no início de maio, a uma caravana de rotarianos
(associados do RotaryClub) que visitaram Buenos Aires, Perón iniciou
a série de elogios ostensivos ao barão do Rio Branco. O sentido do
acordo ABC tirava inspiração da visão política daquele chanceler

38 Milton deF. Almeida a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires,24 abr. 1950, AHIBR, caixa 25.
39 Idem, ofício, Buenos Aires, 20 jun. 1950, AHIBR, caixa 26.
40 Ibidem, ofício, Buenos Aires, 4 maio. 1950, AHIBR, caixa 26.

169
AMADO LUIZ CERVO

brasileiro41. Posteriormente, dirigindo-se a uma caravana de estudantes


brasileiros em julho, o presidente Perón voltou a referir-se à obra de
Rio Branco, afirmando que seus sucessores não tiveram a grandeza de
lhe dar forma e consistência: “Devemospensar o seguinte... disse-lhes:
no futuro do mundo somente subsistirão os conglomerados políticos,
sociais e econômicos que constituam uma unidade econômica, porque
a luta do futuro será essencialmente econômica”42.
Nessa ocasião, o jornal de oposição La Nación, a 22 de julho,
tomou a liberdade de retificar as palavras do presidente, afirmando
que o ABC não havia sido inspirado por Rio Branco. Os jornais
peronistas, que constituíam a massa da imprensa argentina, entraram
logo a escrever sobre o assunto, demonstrando com documentos que
publicavam que o inspirador do ABC fora efetivamente o chanceler
brasileiro e que sua filosofia era a do entendimento e cooperação mútua
dos três países, cuja integração teria influência benéfica dentro e fora
de suas fronteiras. Abria-se assim um verdadeiro precedente na história
do periodismo argentino que até então guardava memória do duelo
jurídico que Rio Branco tivera com Estanislao Zeballos e da derrota
desse em Washington, na questão fronteiriça da zona de Palmas43.
A recuperação do pensamento de Rio Branco feriu de morte o
chamado revisionismo histórico, outra corrente de pensamento político
dedicada ao enaltecimento das idéias e da imagem do ditador Rosas
que até então vinha tendo admiradores e cultores entre os nacionalistas
argentinos44.
Liberada a imprensa peronista para escrever sobre o Brasil por
ocasião do enaltecimento de Rio Branco, partiu ela em guerra contra a
brasileira, cuja campanha antiperonista ficara sem resposta desde
1947. O objetivo imediato era denegrir o governo e a pessoa do general
Dutra, responsabilizado-os pela conduta da imprensa brasileira.

41 Ibidem, ofício, Buenos Aires, 2 jun.. 1950, AHIBR, caixa 26.


42 Ibidem, ofício, Buenos Aires, 31 jul. 1950, AHIBR, caixa 26
43 Ibidem, ofício, Buenos Aires, 9 ago. 1950, relatório 14 ago. AHIBR, caixa 27. Conduru,
Guilherme Frazão. O subsistema americano; Rio Branco e o ABC. Revista Brasileira de
Política Internacional, Brasília, v.41, n.2, p. 59-83, 1998.
44 Milton F. de Almeida a Raul Fernandes, ofício, 12 jun. 1950, AHIBR, caixa 26.

170
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

A verdadeira finalidade era apoiar a candidatura de Getúlio Vargas à


presidência, visto que os argentinos esperavam dela o triunfo dos valores
dojusticialismo: independência econômica, soberania política e justiça
social45.
Os fatos que vieram condicionar as relações regionais em 1951
foram, fundamentalmente, o retorno de Vargas ao poder no Brasil e a
reeleição de Perón para mais um mandato de seis anos. Reconduzido a
seu posto de embaixador em Buenos Aires, João Baptista Luzardo
encontrou novamente todas as portas abertas a sua ação. Mas a
chancelaria brasileira, a cargo de João Neves da Fontoura, não apreciava
o novo clima propício ao entendimento bilateral, preferindo dar
continuidade ao ranço diplomático mantido no exercício anterior por
Raul Fernandes. Com Fontoura, recuperava a diplomacia brasileira a
obsoleta idéia de que o entendimento com a Argentina era prejudicial
ao manejo das boas relações com os Estados Unidos. Enfim, 1951 foi
o ano do blefe atômico argentino que consistiu em um anúncio
sensacionalista no estilo do peronismo demagógico, logo desmascarado.
A missão especial que compareceu àposse do presidente Vargas
em janeiro de 1951, chefiada pelo chanceler Hipólito Jesús Paz,
compunha-se de cinco ministros de Estado, dos presidentes do Senado
e da Câmara dos Deputados e dos altos chefes das forças armadas.
Evidenciava a satisfação do governo argentino com a vitória de Vargas
nas urnas e ante a perspectiva de uma nova fase nas relações bilaterais46.
A atmosfera política iria contudo transformar-se, sensivelmente,
em Buenos Aires, com a chegada, em agosto, do novo embaixador
brasileiro, João Baptista Luzardo, um admirador explícito do
peronismo e amigo pessoal de ambos os presidentes. A Casa Rosada, o
Congresso e a imprensa interpretaram sua designação como o início
de uma nova era nas relações entre os dois países, com a possibilidade
de se chegar à realização do sonho do ABC. Buenos Aires reservou-lhe
uma acolhida apoteótica, nunca vista para o caso de um embaixador e
apenas comparável à recepção do mais renomado chefe de Estado.

45 Idem, relatórios, 14 ago., 13 set. e 9 out. 1950, AHIBR, caixa 27.


46 Legação do Brasil ao MRE, relatório, Buenos Aires, 15 fev. 1951, AHIBR, caixa 28.

171
AMADO LUIZ CERVO

Acorreram ao aeroporto o presidente Perón e sua esposa Eva Perón,


todos os ministros de Estado, generais, almirantes e brigadeiros do ar,
os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, todas as altas
autoridades do ministério das Relações Exteriores e Culto, uma
companhia de infantaria com bandeira e fanfarra para saudá-lo com as
continências militares. Acerimônia de entrega das credenciais constituiu,
dias depois, outro acontecimento incomum47.
Desde osprimeiros relatórios do novo embaixador, o Itamaraty
dispunha de uma versão das iniciativas de Perón nos arredores que
contrariava os relatórios provenientes do Cone Sul e aprofundava a
interpretação do último embaixador em Buenos Aires. Luzardo
depurou os textos do cunho negativo e imprimiu-lhes caráter marcado
por juízos resolutamente construtivos da ação diplomática do peronismo
junto aos países vizinhos. O acordo de 16 de agosto com a Bolívia,
escrevia, “revela um notável poder de expansão da economia argentina
e um planejamento de política econômica de largo alcance”, como os
anteriores concluídos com o Chile e o Peru. Dado o vulto dos interesses
brasileiros nesses países, convinha frisar a importância de tais acordos
para o movimento da diplomacia brasileira, caso pretendesse esta, como
se supunha, manter nesses países sua presença48.
Desde sua chegada, Luzardo empenhou-se em regular por longo
prazo o conturbado comércio entre o Brasil e a Argentina, mediante
um tratado negociado com todo o cuidado. Encontrou boas disposições
por parte das autoridades argentinas, o que lhe permitiu fazer avançar
as negociações prévias, mas esbarrou na má vontade da chancelaria
dirigida no Rio de Janeiro por João Neves da Fontoura, que Vargas
convidara para chanceler, com o intuito de acalmar a oposição encan-
tonada na União Democrática Nacional (UDN ).
O fato demonstra que Vargas tinha a intenção de reproduzir
em seu segundo governo o mesmo esquema do primeiro: trazer para
dentro da máquina do poder as correntes da opinião e dos interesses

47Idem, relatório, Buenos Aires, 14 set. 1951, AHIBR, caixa 30.


48Baptista Luzardo a João Neves da Fontoura, ofícios, Buenos Aires, 11 set.e31 out. 1951,
AHIBR, caixa 30.

172
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

expressas socialmente. Fê-lo com extraordinário êxito durante seu


primeiro mandato, legitimando, desse modo, em certa medida, até
mesmo o período ditatorial de 1937 a 1945, quando, do alto,
administrava a intriga, em uma demonstração de arte política, e realizava
seu projeto nacional. Durante o segundo mandato, em pleno regime
democrático, mas não por isso, seu esquema não reproduziu o êxito
anterior; ao contrário, encaminhou-oparaum impasse governamental.
Desde o início, o desempenho de Luzardo em Buenos Aires
eratorpedeado pelo Itamaraty49. Ao comentar o resultado das eleições
de 11 de novembro de 1951 que reconduziram Perón à presidência
com aprovação de 66% do eleitorado, prevendo a reação do ministro,
quis Luzardo preveni-lo e mesmo dar-lhe um lição de engenharia
política, em relatório que lhe enviou:

É importante que se dê às eleições do dia 11 de novembro


(escreveu-lhe) o seu justo valor e significação. Apreciá-las, com
intransigência, à luz de princípios diferentes ou de tendências
opostas (que, por exemplo, levassem a crer ou a desejar que
houvessem sido o produto de uma mistificação) poderia conduzir
a atitudes ou orientações, no campo das relações internacionais,
que não fossem as mais verdadeiras ou convenientes50.

Ao que parece, Perón tentou remediar ao impacto muito


negativo à imagem de seu país nos demais países do continente,
particularmente nos Estados Unidos, provocado pelo fechamento do
jornal de oposição La Prensa, com o anúncio de uma espetacular
descoberta científica no domínio da energia atômica, que colocaria a
Argentina à frente das pesquisas e das possibilidades de aproveitamento
econômico e militar dessa forma de energia no mundo todo. Esse
anúncio, feito no dia 24 de maio, às vésperas da IV Conferência dos
Chanceleres Americanos em Washington, haveria de polarizar em torno
da Argentina os debates que se desenvolveriam e esta era uma tática
propagandística do peronismo para angariar apoio de chancelarias latino

49 Idem, ofício, Buenos Aires, 20 dez. 1951, AHIBR, caixa 30.


50 Ibidem, relatório, Buenos Aires, 22 dez. 1951, AHIBR, caixa 30.

173
AMADO LUIZ CERVO

americanas a resoluções que desejava ver aprovadas. A engenhosa


descoberta teria resultado das pesquisas do físico austríaco Ronald
Richter na ilha Huemul do lago Nahuel Huapi, perto de San Carlos
de Bariloche, onde logo seria criada a Usina Nacional de Energia
Atômica. Seu impacto seria enorme, tendo em vista a aplicação que
preparara da energia atômica, não só ao domínio militar, mas sobretudo
ao industrial, que passaria por uma revolução nos setores siderúrgico,
em turbinas e caldeiras.
Passado o impacto, embora não houvesse desmentido oficial,
percebeu-se tratar-se de manobra política característica da inabilidade
da diplomacia peronista. Apesar de se saber que a Argentina desenvolvia
pesquisas atômicas desde 1946, os meios científicos mundiais receberam
o anúncio com ceticismo inicial, para depois desacreditá-lo por
impossível. A imprensa, sobretudo a americana, usou-o para lançar o
ridículo sobre o peronismo. Alegação brasileira em Buenos Aires reagiu
com cautela, aventando as graves conseqüências do fato, caso sua
veracidade fosse comprovada, e menosprezando-o, caso fosse mais uma
manobra de prestígio da propaganda peronista.
Nos Estados Unidos, entretanto, os dois fatos conjugados, o
fechamento de La Prensa e o anúncio sensacionalista com a finalidade
de influir sobre os resultados da IV Conferência, colocaram o
Departamento de Estado em situação crítica, acusado que era de haver
favorecido a Argentina em detrimento de outros países confiáveis da
América Latina, em uma tendência inadequada para as relações
hemisféricas, inaugurada e mantida pelos embaixadores que sucederam
Braden em Buenos Aires e recentemente reafirmada pelo secretário
adjunto para Assuntos Latino-americanos, Edward Miller. O favoritismo
argentino nos Estados Unidos estava em risco51.
Convém, pois, frisar o fato de se haverem revertido as simpatias
de Washington para a Argentina, em detrimento do aliado especial, o
Brasil, fato confirmado pela documentação diplomática e ignorado
pela literatura especializada que não a compulsa. Maior significado

51Legação do Brasil ao MRE, ofício, Washington, 28 mar. 1951, AHI, armário, maço
45497; Buenos Aires, ofícios, 3 e 12 abr. 1951, AHIBR, caixa 29; relatórios, 6 abr. 1951,
AHIBR, caixa 1; relatório 11 e 16 jun. e 10jul. 1951, AHIBR, caixa 30.

174
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

adquire esse deslocamento das simpatias americanas, se se considera


que ocorreu precisamente durante o governo de Dutra, subserviente
aos interesses norte-americanos, os quais respaldava internamente e
sobre o cenário internacional, e durante o governo de Perón, que os
confrontava, se julgados contrários aos interesses nacionais. Estaria a
grande potência disposta a apreciar a quem a enfrenta de igual para
igual e a desprezar a pusilanimidade política?
As negociações para o tratado de comércio com o Brasil,
iniciadas desde a chegada do novo embaixador brasileiro a Buenos Aires,
não evoluíram satisfatoriamente. Em janeiro de 1952, Luzardo
encaminhou ao Itamaraty as boas sugestões da Câmara de Comércio
Argentino-Brasileira, que sempre se empenhara no sentido do
entendimento comercial entre osdoispaíses. Demonstrava-se, por um
lado, a capacidade argentina de importar produtos brasileiros, mas,
por outro, a situação de inferioridade do Brasil, devida a sua condição
de comprador de trigo. Os embaraços vinham, segundo Luzardo, cujo
entendimento coincidia com o parecer da Câmara, sobretudo da parte
do governo argentino, que deixava os importadores em situação de
desânimo com os entraves burocráticos e políticos de toda ordem que
transformavam o comércio “numa aventura incerta e nem sempre límpida
e clara”. Do tratado esperavam-se, portanto, dois efeitos: primeiro, o
de afastar os entulhos administrativos que emperravam os negócios e,
segundo, a possibilidade de planejar as operações pelo menos para dois
ou três anos à frente52.
Neves da Fontoura não esmorecia em seus esforços para
torpedear a ação peronista nos países vizinhos. A 29 de dezembro de
1952, despachou uma circular secreta a todas as missões diplomáticas
da América com um estudo das atividades da diplomacia peronista em
alguns países, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru, Uruguai, em especial. Em
seu posto privilegiado de observador, Buenos Aires, Luzardo respondeu
ao Itamaraty, em longo ofício que foi seu testamento diplomático,
discordando essencialmente da visão que o Ministério das Relações
Exteriores brasileiro divulgava acerca do expansionismo argentino,

52 Baptista Luzardo a João Neves da Fontoura, ofício, Buenos Aires, 17 jan. 1952, AHIBR,
caixa 31.

175
AMADO LUIZ CERVO

refutando seus argumentos e interpretando de outro modo a presença


peronista na América do Sul. Explicava a expansão, não com base no
rosismo ou no peronismo, como fazia o chanceler brasileiro, mas por
condições e necessidades econômicas decorrentes da configuração
econômica argentina, superior a de seus vizinhos. Essa base econômica
impulsionava todo imperialismo, segundo Luzardo, e não a doutrina
política, que apenas ocasionalmente vinha-lhe servir de acréscimo.
Assim, a Argentina tinha motivos para buscar fora de suas fronteiras a
complementação econômica que lhe faltava para robustecer sua
potência. O peronismo ou o justicialismo apareciam como o processo
político de se avançar nesse destino, e não como sua causa, mesmo
porque se tratava de país “satisfeito de suas condições econômicas,
transbordando de humanidade e avesso a imperialismos”. Tanto é que
a expansão argentina vinha acompanhada de generosa filosofia
integracionista dos países da América Latina com a finalidade de
remediar a sua sorte e eliminar a exploração norte-americana. Não havia
projeto algum de reconstituição do vice-reino do Rio da Prata. O Brasil
poderia prosseguir opondo-se à formação de blocos de países na
América do Sul, concedia Luzardo, tendo em vista suas especiais e
frutíferas relações com os Estados Unidos, mas lhe convinha por certo
abandonar a política de obstruir sistematicamente “tudo o que sejam
ligações perpétuas ou duradouras entre tais países”. O modo com que
o Brasil deveria enfrentar o expansionismo argentino era o de cooperar
concretamente e por empreendimentos duradouros com o
desenvolvimento dos povos vizinhos, aliando-se à filosofia cooperativa
do peronismo e cooptando a ação dos Estados Unidos53.
De nada serviram ao Itamaraty a visão moderna das relações
regionais e o conselho do embaixador Luzardo. Neves da Fontoura, o
Braden brasileiro, ao invés de ser demovido de sua diplomacia de
obstrução da cooperação regional argentina, firmou-se ainda mais nessa
linha de conduta e transformou o ano de 1953 no da ruptura radical
com a diplomacia integracionista argentina, a pretexto da projetada
união aduaneira entre o Chile e a Argentina, ante a qual Vargas hesitou.

53 Idem, ofício, Buenos Aires, 28 jan. 1953, AHIBR, caixa 1.

176
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

A reeleição de Perón e a recondução de Carlos Ibañez del


Campo ao governo pela vitória da oposição chilena criaram condições
favoráveis à aproximação entre os dois países. Os dois presidentes
firmaram em Santiago, a 21 de fevereiro de 1953, a Ata de Santiago,
uma declaração de intenções de constituir a união econômica entre o
Chile e a Argentina, com a possibilidade de adesão de outros países
para a formação do bloco regional. O entusiasmo do governo chileno
diante das possibilidades desse processo de integração pela via do
regionalismo aberto era tão forte que a ministra da Educação, Maria
de la Cruz, talvez pensando em reproduzir em seu país o fenômeno
Evita Perón, afirmava ter-se chegado com a invenção do justicialismo
ao fim e à superação da época do cristianismo.
Como em outros casos de anúncios espetaculares da diplomacia
peronista, este também revelar-se-ia inábil e contraproducente. Passado
como sempre o impacto da surpresa, a opinião em todo o mundo
logo tomaria a declaração por palavras vazias, menos Neves da Fontoura,
que manifestou sua irritação em público, devendo ser exonerado por
Vargas. O periódico Tribune de Genebra considerou o projeto um
fogo de artifício; La Prensa escrevia de Lima que nenhum povo na
América renunciaria a sua autonomia para fazer parte de outro Estado;
Le Monde de Paris considerava tudo uma manobra com apoio dos
comunistas para criar na América do Sul um bloco antiamericano; já
La Nación de Buenos Aires mostrava-se esperançoso tanto em relação
aos dois países que firmaram a Ata de Santiago quanto em relação às
adesões de toda a América Latina; El Tiempo de Bogotá confessava ser
impossível realizar o anseio de Perón; a imprensa norte-americana
revelava ceticismo, interpretando a Ata como um malogro da visita de
Perón ao Chile já que produzira apenas vagas intenções ao invés de
resultados concretos54.
À semelhança e convergindo com o pensamento de Luzardo
em Buenos Aires, o encarregado de negócios W. Pimenta Bueno, desde

54 Francisco d’Alamo Lousada ao MRE, telegrama, Berna, 14 jan.; Legação do Brasil a João
Neves da Fontoura, ofício, Lima, 21 fev.; Carlos Celso de Ouro Preto ao MRE, telegramas,
Paris, 26 fev.; Baptista Luzardo ao MRE, ofício, Buenos Aires, 27 fev.; Legação do Brasil ao
MRE, ofício, Bogotá, 22 fev.; João Carlos Muniz ao MRE, telegrama, Washington, 2 mar.
1953, AHI, armário, maço 39871.

177
AMADO LUIZ CERVO

Assunção, fez uma apreciação sobre a política brasileira no Paraguai,


sua orientação, seus órgãos e seus resultados, encaminhando-a a Neves
da Fontoura com uma crítica mais sutil à ação da diplomacia brasileira
no Cone Sul que, durante o governo de Dutra e, depois, durante a
gestão de Neves da Fontoura, Luzardo qualificara de apenas obstrutora
da presença argentina. Reconhecia Pimenta Bueno a grandiosidade do
aparato brasileiro em Assunção, somente inferior ao dosEstadosUnidos.
Compreendia essa presença brasileiro, em solo guarani, a missão
diplomática, a militar, a cultural, o Instituto Paraguai-Brasil, o consulado,
o escritório comercial, o Correio Aéreo Nacional, a agência do Banco
do Brasil e o Serviço de Navegação da Bacia do Prata. Esse dispositivo
custava aos cofres públicos 100 mil dólares mensais. Embora se pudesse
aparentemente justificar, em razão dos interesses do Brasil, esse dispêndio
elevado, a ação desses órgãos era quase nula, porque orientada para
influenciar pessoas de comando em um país de extrema instabilidade
política e mudanças bruscas de dirigentes. Conveniente seria mudar
essa política e orientá-la para obtenção de resultados em dois domínios:
prover o Paraguai de comunicações duráveis que lhe abrissem as portas
do Brasil e do Atlântico, concluindo a rodovia entre Ponta Porã e
Pedro Juan Caballero e a ferrovia com terminais em Santos e Porto
Esperança; sobre essa base física, firmar entendimentos para cooperação
econômica e intercâmbio comercial e cultural55.
Apreciações como essas de Luzardo e Pimenta Bueno eram
raras, visto que os representantes brasileiros nos países da América do
Sul tendiam a acompanhar o pensamento do Itamaraty, que
correspondia à visão retrógrada da União Democrática Nacional,
partido político avesso à cooperação regional e servil diante dos interesses
norte-americanos no continente. Enquanto esteve sob a direção de Raul
Fernandes, João Neves da Fontoura e Vicente Rao, o Itamaraty fazia
na América do Sul o trabalho que a própria diplomacia americana se
negou a executar, de torpedear a ação da Argentina de Perón, pensando
assim agradar ao Departamento de Estado, quando lhe convinha, por

55W. Pimenta Bueno a João Neves da Fontoura, ofício, Assunção, 6 mar. 1953, AHIBR,
caixa 1.

178
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

todos os títulos, acompanhar a ação integracionista proposta por Perón,


depurando-a – o que estava em condições de alcançar – de seu caráter
hostil à potência hegemônica do hemisfério.
O sucessor de Luzardo em Buenos Aires, Orlando Leite Ribeiro,
também percebeu o rumo inconveniente da política brasileira para a
América Latina e não via razão para “hostilizar a idéia argentina” da
integração econômica. Pelo contrário, propunha também esse diplomata
outra atitude diante dos países da América do Sul: “aceitar em tese o
princípio da integração econômica” e concorrer para tornar-se o Brasil
o centro desse movimento com base na força de sua indústria e na
criação da infra-estrutura de comunicação rodoviária, ferroviária e fluvial
entre os países da região. Desse modo se faria face ao descaso dos Estados
Unidos pela América Latina, que vinha desde o término da Segunda
Guerra e que se perpetuava no propósito exclusivo de combate ao
comunismo56.
O pensamento político brasileiro aplicado às relações regionais
dividiu-se, portanto, nos anos 50, entre a corrente obstrutora da
integração regional, que prevalecia na cúpula da chancelaria e que
contribuiu para o malogro da diplomacia peronista, e a que respaldava
essa linha de ação, representada por diplomatas de segundo escalão,
que triunfaria ao final da década, com a Operação Pan-Americana.

4.2. Um balanço das relações interamericanas nos


meados dos anos 50, à época de Perón, Vargas
e Pérez Jiménez

A 19 de novembro de 1953, o Itamaraty enviou uma circular


a todas as missões diplomáticas brasileiras no continente, solicitando
um relatório pormenorizado acerca da situação interna e da política
exterior de cada país, bem como sugestões para compor a agenda da X
Conferência Internacional Americana, prevista para realizar-se em
Caracas em março de 1954. Atingia-se então o clímax da primeira
Guerra Fria. Os Estados Unidos obtiveram dos países americanos, nessa
56 Orlando Leite Ribeiro a Vicente Rao, ofício, Buenos Aires, 22 dez. 1953, AHIBR, caixa 31.

179
AMADO LUIZ CERVO

conferência, a aprovação de resoluções anticomunistas. Os relatórios


que chegaram ao Itamaraty compõem um volume de informações
abundantes sobre os países americanos e as relações interamericanas, de
cuja análise se pode traçar um perfil estático do continente naquele
ano de 1953, consoante a visão dos representantes diplomáticos
brasileiros que chefiavam as embaixadas junto às repúblicas americanas.

a) Estados Unidos
O embaixador João Carlos Muniz, em Washington, fez uma
apreciação sobre a capacidade do novo governo republicano, inaugurado
com a eleição de Dwight D. Eisenhower, de implementar uma nova
política para com a América Latina. O pessimismo era natural,
entretanto, diante dessa possibilidade, visto que a tensão da Guerra
Fria obscurecia nos Estados Unidos os espíritos e deprimia a moral
pública, até mesmo a ética política, envolvendo-se todos os órgãos de
governo, inclusive o Congresso, convertido em órgão de investigação,
com as preocupações em torno da segurança e do combate ao
comunismo. Para Muniz, a América Latina tinha uma visão de mundo
e alimentava uma perspectiva de relações internacionais alheias às
preocupações dos tomadores norte-americanos de decisão.
Até julho de 1951, quando a Comissão Mista Brasil-Estados
Unidos, criada em dezembro de 1950, iniciou seus trabalhos, o Banco
de Exportação e Importação concedera ao Brasil empréstimos no
montante de 169 milhões de dólares e o Banco Mundial, outros 105
milhões. Após essa data, o primeiro emprestara mais 495 eo segundo
48, totalizando, no total dos empréstimos americanos desde 1939,
817 milhões de dólares. Desses, 300 milhões foram aplicados à
liquidação de atrasados comerciais, o que vale dizer que apenas 517
destinaram-se a investimentos em projetos de desenvolvimento
econômico. Avaliando as obrigações do serviço dessa dívida nos
próximos anos, Muniz considerava praticamente esgotado o crédito
brasileiro nos Estados Unidos, a menos que uma mudança importante
ocorresse na política norte-americana para a América Latina. Essa
possibilidade foi, contudo, descartada pelo secretário Maury Gurgel
Valente, que redigiu a segunda parte do relatório de Washington, acerca

180
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

da posição do governo dos Estados Unidos quanto aos problemas


interamericanos.
Na primeira parte de sua análise, Valente expôs os pronun
ciamentos do governo republicano, da campanha eleitoral de 1952 ao
momento presente. Uma das teses alardeadas pelos republicanos era
justamente a negligência dos anteriores governos democratas pelas
legítimas aspirações dos países da América Latina. Eisenhower, como
candidato, criticara diversas vezes a falta de um programa mútuo
destinado a resolver os problemas econômicos continentais a longo
prazo. Foster Dulles disse ao Senado, antes de assumir o cargo de
secretário de Estado, que a posição dos Estados Unidos na América
Latina se havia deteriorado em razão daquela negligência e que, em
caso de necessidade, não era certa sua solidariedade. A infiltração
comunista e o nacionalismo exagerado eram, a seu ver, os dois fenômenos
mais graves observados. Noventa dias após o início do governo,
Eisenhower decidiu mandar seu irmão Milton Eisenhower a dez países
da América Latina com a finalidade de corrigir aquela aludida
negligência dos democratas. A 23 de junho de 1953 iniciou sua viagem,
ao termo da qual apresentou um relatório, que veio a público a 22 de
novembro.
O Relatório Eisenhower, segundo Valente, nada continha de
original, porquanto todo seu conteúdo poderia ser retirado das
informações diplomáticas e jornalísticas. Constituía um repositório
das teses sustentadas pelos representantes latino-americanos em
negociações multilaterais e bilaterais com os Estados Unidos. Amissão,
portanto, era vazia de propósitos e seu significado não ia além de um
gesto de boa vontade. As nove recomendações que vinham à cauda do
relatório não faziam prever nada relevante, suscetível de equacionar a
conjuntura interamericana. O único efeito imediato da missão
Eisenhower foi a distensão obtida nas relações com a Argentina. Afora
este benefício, podia-se compará-la com asmanifestaçõespropagandísticas
do peronismo. Fez-se, com efeito, um bom diagnóstico, sem terapia.
Outra missão à América Latina teve desempenho similar na
época para a formulação da política continental dos Estados Unidos.
Foi a do senador Homer Capehart, cujas conclusões evidenciavam certo

181
AMADO LUIZ CERVO

paralelismo com o Relatório Eisenhower, porém ainda mais impregnadas


da ideologia da Guerra Fria. Valente previa para os próximos anos o
prosseguimento da negligência dos Estados Unidos e a concentração
de seus esforços em uma meta única, o combate ao comunismo. A
delegação americana à Conferencia de Caracas seria instruída nesse
sentido, porém não seria autorizada a aprovar qualquer ajuda oficial
do governo americano para as tarefas da repressão, que haveria de ser
custeada com recursos próprios dos países latino-americanos. Como
Moscou dava pouca importância à América Latina, os Estados Unidos
também lhe dariam, concluía Valente.
O relatório da embaixada brasileira em Washington confirmou,
portanto, a retórica republicana, que criticava a negligência da política
dos democratas com relação à América Latina, mas que aprofundou a
mesma atitude, afunilando as preocupações dos Estados Unidos na
exclusiva direção da segurança continental, no contexto da Guerra Fria,
convertida em valor, fim e movimento prioritário de sua diplomacia.
Frustravam-se os latinos, cada vez mais, e eram por isso culpados
pelos intérpretes políticos e estratégicos dos Estados Unidos, que
os qualificavam, pejorativamente de nacionalistas. Como se a
América Latina, não tendo a Guerra Fria como escopo político, fosse
antiamericana. Particular decepção recolheu o governo de Vargas que
viu exaurir-se a cooperação da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos,
cujos trabalhos encerraram-se em 1953, sem nada haver trazido de
concreto para o desenvolvimento.

b) México, América Central e Caribe


Adolfo Cardoso de Alencastro Guimarães, embaixador no
México, indicou os dois eixos da política exterior do país, as relações
com os Estados Unidos, em primeiro lugar, e com os países da América
Central, em segundo. Distante da América do Sul, o México pretenderia
apenas exercer nas relações latino-americanas um papel moderador.
Opunha-se à formação de blocos, por isso não manifestava intenção
de estender um olhar ativo para o lado do Brasil e da Argentina. Esperava
pelo malogro da Conferência de Caracas.

182
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Décio Martins Coimbra, embaixador em San Salvador,


apresentou um balanço econômico positivo da América Central, que
havia acumulado divisas durante a Guerra Mundial e prosseguira
fazendo-o depois, em razão dos bons preços dos produtos agrícolas,
particularmente do café. El Salvador tomara a iniciativa de criar uma
organização regional, nascendo assim a Organização dos Estados
Centro-Americanos (Odeca), em 14 de novembro de 1951. Todos os
países aderiram, exceto o Panamá, porém a Guatemala se retirara,
alegando voltar-se a associação apenas para o combate ao comunismo
ao invés de fomentar o desenvolvimento social. Atribuía-se a El Salvador
o propósito de liderar a ação anticomunista na América Central. De
Honduras, o ministro Pedro Alcântara Nabuco de Abreu Filho registrou
o isolamento desse país e sua aversão ao comunismo, alinhando-se
contra o governo de esquerda da Guatemala no seio da Odeca. Da
Conferência de Caracas, desde Tegucigalpa, esperavam-se medidas de
combate ao comunismo e uma demonstração de desentendimento
generalizado no continente. O Haiti acompanharia a orientação de
Washington, segundo o relatório do ministro Manuel Vicente Cantuária
Guimarães.
Não seria o caso da Guatemala, segundo o ministro Raul Bopp.
Em outubro de 1944 triunfara uma revolução social no país, em grande
parte movida pelos estudantes, que derivou com o tempo para a
esquerda, abrindo-se à penetração da influência comunista, sem,
contudo, sacrificar os mecanismos de eleições livres para a presidência,
que se mantinham. A Guatemala via-se, portanto, isolada, como regime
de esquerda, que concedia asilo político a perseguidos de países vizinhos
e era por eles hostilizada. Temia a ação anticomunista da Odeca, da
OEA e dos Estados Unidos que absorviam 85% de suas exportações.
O embaixador Paulo Hasslocher, partidário da aliança incondicional
com os Estados Unidos, descreveu a situação favorável a tal respeito da
República Dominicana, cuja contribuição ao pan-americanismo
assentar-se-ia nas relações de bom entendimento que mantinha com
todos os países, exceto com o regime esquerdista da Guatemala, e no
alinhamento à orientação de Washington.

183
AMADO LUIZ CERVO

Melo Franco Filho, embaixador na Costa Rica, redigiu um


simpático relatório acerca desse país democrático, de nível de vida e
instrução muito superior a seus vizinhos, desenvolvendo uma política
exterior pacifista e cooperativa, que tinha como único defeito o de
prestigiar o peronismo. A Costa Rica pouca importância dava à
Conferencia de Caracas, que, aliás, se propunha boicotar em razão das
perseguições políticas e da censura da imprensa impostas pelo governo
venezuelano de então. Já a descrição de Cuba, feita pelo embaixador
Manoel César de Góes Monteiro, contrastava em tudo com a anterior.
Há vinte anos a história do país, de violências e repressões, girava em
torno do ditador Fulgêncio Batista, que conservava, contudo, o apoio
dos Estados Unidos, aos quais vinculava-se o país econômica e
ideologicamente. O embaixador Abelardo Bretanha Bueno do Prado
remeteu o relatório acerca do Panamá. Apolítica externa do país vinha
sendo dirigida com coerência e mão firme, voltada tanto para o
continente sul-americano quanto para a América Central, regiões
limítrofes que atraíam o país. Evitava engajar-se na Odeca, como
atender acenos para integrar um projeto federativo que ressuscitasse a
idéia da Grã-Colômbia. Apreocupação maior era administrar em bom
entendimento as relações com os Estados Unidos, que detinham, por
um tratado de 1903, poderes soberanos sobre o canal do Panamá e
uma faixa contígua. Emendado várias vezes, este tratado ainda suscitava
reclamações, como a participação panamenha nos lucros da empresa.
O México, a América Central e o Caribe espelhavam, pois,
grande diversidade entre os países sob o aspecto sócio-econômico, mas
constituíam, com exceção da Guatemala, uma região confiável para os
intentos superiores da diplomacia norte-americana de combater o
comunismo nos meados dos anos 50.

c) Norte do continente sul-americano


Equador, Peru, Colômbia e Venezuela esboçavam um
subsistema de relações internacionais ao norte do continente sul-
americano em razão das afinidades políticas e da velha raizbolivariana
grã-colombiana, como também das relações de fronteira, e apesar do
pequeno intercâmbio comercial. Sanado o contencioso lindeiro entre

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Peru e Colômbia com a mediação do Brasil, reanimou-se, no início


dos anos 50, a disputa entre Peru e Equador. Colômbia e Venezuela
empenhavam-se para obter a liderança do grupo, a primeira com seus
12 milhões de habitantes e uma economia apenas cafeeira, mas a
segunda, embora com seis, ostentando extraordinário crescimento
econômico, em razão da exploração do petróleo e do início da indústria
siderúrgica. As relações com os Estados Unidos eram intensas, mas a
liberdade de penetração das empresas norte-americanas não tolhia aos
países a autonomia política com que defendiam os interesses nacionais
da exportação e as vistas sobre a América Central e o Caribe. Nessas
condições, apesar de grandes representações locais da Argentina, a
propaganda peronista não encontrava ao norte do continente sul-
americano um terreno de penetração fácil.
Segundo o embaixador brasileiro Edgar Bandeira Fraga de
Castro, a política exterior do Peru afinava-se com a dos demais países
do continente no combate ao comunismo e na visão de que a união
espiritual dos países do continente e o cumprimento dos pactos pan-
americanos eram a condição desse empreendimento.
A tranqüilidade do Peru era afetada pelo conflito fronteiriço
com o Equador. Em 1859 e 1941, os dois países foram à guerra, com
duas vitórias peruanas, o que sempre deixou o Equador em situação de
inferioridade, bramando contra o imperialismo do vizinho. O Peru
sentia-se na condição de jamais haver ferido o direito territorial
equatoriano e acatara o protocolo do Rio de Janeiro de 1942, no qual
os quatro garantes (Argentina, Brasil, Chile e Estados Unidos) haviam
presumivelmente chegado a uma solução para o litígio. Velasco Ibarra,
reconduzido pela segunda vez à presidência do Equador, criticou
contudo aquele protocolo em abril de 1952, qualificando-o de “infame
mutilação do território pátrio equatoriano e um ato de imperialismo
internacional” e exigiu sua revisão. Buscava o Equador uma saída para
o Amazonas que nada aos olhos do Peru justificava. Em resposta, o
Peru se declarava pelo estrito cumprimento do protocolo, considerando
inexistir qualquer problema de fronteira. Aliás, quatorze quinze avos
da linha haviam sido demarcados. Entretanto, logo que eleito, Ibarra
ordenou a paralisação dos trabalhos dos demarcadores equatorianos,

185
AMADO LUIZ CERVO

apelando à mediação dos Estados garantes, o que rejeitou o Peru,


alegando que o atributo de garante era incompatível com o de mediador.
Um incidente militar de fronteira reacendeu o conflito em março de
1952. O Peru solicitou a investigação dos garantes.
Com a Colômbia, o governo peruano também enfrentava
aborrecimentos derivados do asilo que aquele país concedera ao chefe
da organização revolucionária Apra (Partido do Povo), Raúl Haya de
la Torre, há quatro anos internado na embaixada peruana em Lima.
Foram acionadas a Convenção de Havana sobre asilo político e a Corte
Internacional de Haia, que se pronunciou por sentença. Intransigentes
os dois lados, negando-se um a conceder salvo-conduto e outro a
desconsiderar o asilo, cogitou-se em mediação da Venezuela e do Brasil.
As relações do Peru com a Argentina, apesar de limitadas,
eram desfavoráveis aos propósitos de propaganda do peronismo.
Primeiramente, porque suas relações econômicas orientavam-se na quase
totalidade com os Estados Unidos, que importavam seus minerais e
peixes e exportavam trigo, farinha, banha e outros gêneros alimentícios.
Em julho de 1952, o presidente Manuel A. Odría destituiu o chanceler
Callagher, que nutria simpatias por Perón, substituindo-o por Ricardo
Rivera Schreiber. A decisão significava uma mudança de orientação
que o Peru adotava com relação aos grandes vizinhos, no sentido de
um afastamento da Argentina e concomitante aproximação com o
Brasil e com os Estados Unidos. Uma série de altas personalidades
brasileiras acorreu logo ao Peru, incluindo o vice-presidente João Café
Filho e o chanceler João Neves da Fontoura, o deputado Afonso Arinos
e o general Cyro Cardoso. Ao Brasil foram o presidente da Câmara
dos Deputados, Peña Prado, e o chanceler Schreiber. Coroando esse
entendimento político, Odría visitou o Brasil em agosto de 1953,
ocasião em que firmou cinco tratados bilaterais.
Consoante declaração política firmada pelos dois presidentes,
os países estabeleceram um eixo firme pelo qual triunfava a linha de
força da política do chanceler brasileiro, João Neves da Fontoura, que
com Schreiber encontrou-se no Rio de Janeiro, contrária à formação
de blocos econômicos ou políticos no continente, vale dizer, contrária
às veleidades do imperialismo ideológico e econômico de Perón, na

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

acepção desses dois demolidores do projeto argentino de solidariedade


continental. Por isso, a Ata de Santiago teve eco negativo em Lima.
Peru e Brasil invocavam os princípios de não-intervenção e de unidade
do novo mundo para opor-se à subtração de países ao todo continental,
mas na realidade eram braços do poder norte-americano, cuja hegemonia
ideológica e econômica asseguravam contra a idéia da autonomia
avançada por Perón e por Vargas, posto este em desconfortável silêncio
pela ação da direita conservadora que monitorava Neves da Fontoura
no Itamaraty. Esse eixo era o primeiro instrumento político forte de
combate às idéias de Vargas e Perón e prenunciava a reação que contra
eles triunfaria um e dois anos depois, afastando-os da história do
continente. Ao expor a nova orientação da diplomacia peruana, assim
concluía o embaixador Fraga de Castro seu relatório sobre o Peru.
“Em suma, pode afirmar-se hoje que o prestígio político e a influência
em geral que a Argentina manteve no Peru foram por este transferidos
ao Brasil, apesar da diferença dos idiomas e das raças, o que constitui
sem dúvida uma grande vitória da diplomacia brasileira”.
As relações do Peru com a Bolívia tendiam ao esfriamento, já
que eram distintos os governos de direita de Odría e de esquerda de
PazEstensoro. Com os Estados Unidos, pelo contrário, alinhavam-se
em harmonia perfeita, como aliás com o Brasil. As companhias
americanas de petróleo e mineração apoderaram-se dos negócios
peruanos em razão das reformas do governo de Odría, detendo 80%
dos investimentos na área. Esses interesses, temendo represálias,
pressionavam o Congresso dos Estados Unidos que desejava impor
encargos à importação do atum peruano. Por essa razão, em maio de
1953, também foi rejeitado por Eisenhower o projeto de lei apresentado
por R. M. Simpson contra a importação de zinco e chumbo que dava
proteção a indústrias obsoletas americanas.
O fulcro de toda política exterior do Equador, nesse ano de
1953, consoante o relatório do embaixador Carlos da Silveira Martins
Ramos, era seu conflito de fronteira com o Peru. Nas vizinhanças, o
Equador nutria simpatias pelo Chile e pela Argentina, onde o
presidente, Velasco Ibarra, havia vivido na condição de exilado. Quanto
ao comércio, era importante o chileno e sem expressão alguma o

187
AMADO LUIZ CERVO

argentino. Por isso, o significado do Pacto de União Econômica,


firmado com a Argentina em 1953, não iria além de um gesto de boa
vontade, aliás explicável politicamente pela aproximação entre Peru e
Brasil, que de forma alguma viria afetar o bom entendimento do
Equador com os Estados Unidos.
Apolítica exterior da Colômbia orientava-se por três objetivos,
segundo o relatório do embaixador Carlos Maximiano de Figueiredo:
administrar a rivalidade com o Peru, manter aamizadedosEstadosUnidos
e sonhar com a impossível reconstituição da antiga Grã-Colômbia.
Quanto a essa possibilidade, a oposição da Venezuela, fortalecida pelo
seu recente crescimento econômico, esterilizava toda chance, sem,
contudo, afetar as relações corretas entre os dois países. Diante do
Panamá, outra nostalgia se amesquinhava, para não comprometer as
boas relações com os Estados Unidos. Equador e Colômbia mantinham
as melhores relações, mesmo porque os dois tinham pendências com
o Peru. Eram precisamente as relações com esse país as mais difíceis.
Qualquer caso, como o de Haya de la Torre, poderia avivar a memória
de velha rivalidade bilateral que vinha da guerra de independência,
passava por duas agressões peruanas em1828e1911e desembocava
na guerra de 1932 pelo território de Leticia. O problema peruano
condicionava as relações da Colômbia com outros países do sul, como
o Brasil, a Argentina e o Chile. Sentia-se o país grato pela mediação
brasileira que levou a bom termo o conflito de Letícia, mas esse entusiasmo
arrefeceu com a recente aproximação peruano-brasileira, recolhendo a
Argentina, decontragolpe, a simpatia perdida pelo Brasil. Autoridades
argentinas correram atrás do trunfo que se lhes apresentava, visitando
o país inclusive o chanceler Jeronimo Remorino, com o objetivo de
obter a adesão colombiana à Ata de Santiago, o apoio às teses argentinas
na próxima Conferência de Caracas e acordos comerciais. Tudo isso
ficaria, entretanto, na dependência da reação de Washington, pedra
angular da política exterior colombiana, já que daquele país dependia
quase todo o comércio exterior da Colômbia, que era a exportação de
café. Tanto é que, em gesto isolado no continente, a Colômbia atendeu
à solicitação americana ao pé da letra e enviou uma força expedicionária
à Coréia, mercê da qual conquistou especial relevo na opinião americana.

188
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

O envolvimento no combate ao comunismo já se manifestara na rapidez


com que aderiu ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca e
na aversão que devotava ao regime infiltrado da Guatemala.
Coube ao embaixador Joaquim de Souza Leão Filho analisar
as relações exteriores da Venezuela. Impressionava-secom a prosperidade
econômica do país, em conseqüência do surto petrolífero que o
transformou no segundo maior produtor mundial e no primeiro
exportador. A produção crescera 34% entre 1948 e 1952, quando as
exportações de petróleo alcançaram 97% das vendas externas, que
tinham nos Estados Unidos o primeiro e no Brasil o segundo comprador.
Mas outro setor dinâmico se anunciava do lado da siderurgia, passando
a produção de minério de ferro de 198 mil toneladas em 1950 para
dois milhões em 1952, toda ela destinada ao mercado americano, o
que colocava aos economistas o desafio de implantar a grande indústria
siderúrgica. Ocupando umaposição geográfica estratégica entre o Caribe
e a América do Sul, a Venezuela, com sua pujante economia, apesar de
população pequena, seis milhões de habitantes, tinha ambições
internacionais de peso sobre o sistema interamericano, baseadas em
forte autoconfiança. Decidiu atrair o capital norte-americano mediante
reformas liberais que para lá orientaram o fluxo mais intenso destinado
à América Latina. Aborrecia-lhe a idéia de blocos de qualquer espécie,
preferindo andar sozinha. Sentindo-se o pivô do Caribe, desdenhava
uma aproximação com Buenos Aires, que poderia comprometer a
desejada penetração econômica norte-americana. Duzentas empresas
norte-americanas haviam investido 3 bilhões de dólares na Venezuela,
país que eliminara as restrições ao movimento de capitais. Assim mesmo,
fazia valer seus direitos, contrariados com a ameaça da Lei Simpson,
contra a qual buscava apoio latino-americano, particularmente do Brasil.
Industriais brasileiros não ficaram alheios às possibilidades de negócios
e buscavam implantar filiais de fábricas na Venezuela. Dezenas de
estudantes venezuelanos freqüentavam universidades do Brasil,
reforçando a nova relação de intercâmbio.

d) Cone Sul
O governo de Paz Estenssoro da Bolívia foi instalado a custo
de violenta ação de força, evoluindo para certa feição democrática de

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AMADO LUIZ CERVO

matiz socializante. O Brasil, segundo o embaixador Hugo Manhães


Bethlem, esforçou-se para que fosse reconhecido. Em razão de sua
posição central e mediterrânea, a política exterior da Bolívia tendia a
cultivar boas relações com todos os vizinhos, evitando comprometer-
se demasiadamente com uma região. Teoricamente, essa situação lhe
dava um poder de negociação, com a qual especulavam seus homens
públicos, tendo em vista atingir no exterior resultados de interesse
nacional. Se o sonho de recuperar uma saída para o Pacífico esbarrava
nas obstruções do Chile e do Peru, Brasil e Argentina poderiam ser
provocados a contribuir para as saídas amazônica e platina, além de
vias férreas e rodovias. Disso tudo depreendia-se o importante papel que
de sua posição geográfica central decorria para a política internacional do
continente.
Na realidade, a grande dependência era de fora da área contígua,
dos Estados Unidos, os quais, juntamente com a Inglaterra, adquiriam
todo o estanho produzido no país e forneciam máquinas para processá-
lo. Nenhum governo, por mais nacionalista que fosse, ousaria prescindir
de boas relações com os Estados Unidos. As campanhas antiamericanas
dos sindicatos e agremiações esquerdistas retardavam os entendimentos
mas não os impediam, mesmo que obtivessem, por exemplo, a
nacionalização das minas. O próprio governo brasileiro, através de sua
chancelaria, intervinha com o fim de alcançar os acordos, quando estes
se tornavam difíceis. De modo geral, destarte, as relações com os Estados
Unidos eram boas.
Com o México e América Central mantinha a Bolívia relações
puramente políticas e diplomáticas. Com a Venezuela, Colômbia, Peru
e Equador, intensificavam-se nos últimos anos. Com o Chile, sempre
haveriam de ter em conta a grave conseqüência da Guerra do Pacífico,
de que resultou a incorporação àquele país do litoral boliviano. Os
propósitos nacionalistas dos governos de então, Estenssoro e Ibañez,
aproximaram as presidências, mas a chancelaria boliviana tentava esfriar
esse estreitamento para não enfraquecer sua histórica posição diante da
questão da saída para o Pacífico e para estimular, do outro lado,
o encontro entre Estenssoro e Vargas. Por estranho que pareça, as
relações entre a Bolívia e o Paraguai haviam-se encaminhado muito

190
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

favoravelmente após a Guerra do Chaco que dizimou os dois países.


Ao Uruguai, a opinião boliviana era grata pela proposta do senador
Alberto Cusano que fez a VIII Assembléia das Nações Unidas aprovar
a tese do direito de nacionalização das fontes de produção, que permitiu
à Bolívia enfrentar os Estados Unidos na questão da nacionalização de
suas minas.
O jogo boliviano de país central exercia-se concretamente entre
Argentina e Brasil. Não havia mais ressentimentos acerca da anexação
pelo Brasil do Acre pelo Tratado de Petrópolis de 1903. Na Guerra do
Chaco, sem quebra de sua neutralidade, o Brasil auxiliou a Bolívia,
equilibrando o apoio argentino ao Paraguai. Em 1938, negociou os
convênios de vinculação ferroviária e de saída e aproveitamento do
petróleo, cujas origens remontavam à questão do Acre, e tornou-se
garante da integridade territorial da Bolívia. Contestados por correntes
políticas e governos posteriores, os convênios foram modificados e
novos arranjos firmados até as conclusões de 1953, quando notas
reversais regularam mais uma vez as questões ligadas à construção da
estrada de ferro Brasil-Bolívia e à saída e aproveitamento do petróleo
boliviano. As relações bilaterais foram postas novamente em ambiente
de boas disposições.
Favorecida pela geografia, a Argentina cedo havia estendido
sua rede ferroviária a La Paz e para além, penetrando, como desejava,
em zona petrolífera. Após a Guerra do Chaco, durante a qual as relações
ficaram estremecidas, os fatores geográficos e econômicos reaproximaram
osdoispaíses. Firmou-se o convênio de vinculação ferroviária em 1941,
semelhante ao assinado com o Brasil em 1938. ABolívia usava de sua
especulação diplomática para abrir a corrida ferroviária entre Brasil e
Argentina para Santa Cruz, finalmente ganha pelo primeiro. Seguiu-
se, em contrapartida, com o famoso convênio de cooperação econômica
e comercial firmado em 1947, ao tempo de Perón e no compasso de
seu expansionismo regional. Com o regime de Paz Estenssoro, a
propaganda peronista invadiu La Paz, sem contudo afastar a presença
brasileira, que prosseguiu mais forte. O objetivo da diplomacia argentina
era o de obter a adesão da Bolívia à Ata de Santiago, mas as autoridades
desta confessavam sua oposição à filosofia de constituição de blocos

191
AMADO LUIZ CERVO

econômicos ou políticos regionais, embora a orientação doutrinária


dos três governos se assemelhasse. Aliás, a Argentina perdeu para firmas
dos Estados Unidos concessões de exploração de petróleo que buscava.
O embaixador Cyro de Freitas-Valle que trocara Buenos Aires
por Santiago, deslocara-se de um a outro centro do pensamento
integracionista, que lhe repugnava. Sentiu, contudo, alívio, ao relatar,
em 1953, após a assinatura da Ata de Santiago, o estado de dificuldades
do governo deCarlosIbañezdelCampo, forçado a transigir, parafazer
face à situação interna, com uma grande quantidade de facções políticas,
entre as quais fortes opositores ao processo de união política com a
Argentina. O clima propício à união dos países latinos seja para fazer
frente, seja contra os Estados Unidos, esfriava, segundo Freitas-Valle.
Precisamente porque, como o próprio Chile que lhes exportava 90%
de seu cobre, esses países, por mais nacionalistas que se apresentassem,
dependiam do mercado e dos dólares norte-americanos para acionar
sua economia. Era o modelo brasileiro, temperado de abertura e
autonomia que haveria de vingar e permitir a defesa dos interesses
nacionais e não os modelos nacionalistas sem fundamento econômico.
O embaixador Moacyr Ribeiro Briggs, de Assunção, comparava
a política exterior pendular do Paraguai à da Bolívia e pelas mesmas
razões. Um caráter marcadamente econômico adquirira, em razão da
competição que internamente promovia entre o Brasil e a Argentina,
embora o governo fosse inclinado à filosofia integracionista do
peronismo pelo Partido Colorado então no poder. A penetração
argentina no Paraguai havia criado laços de dependência profundos,
tornando a nação virtualmente tributária da vizinha platina. Contudo,
osEstadosUnidos emergiam no pós-guerracomo um terceiro elemento,
cuja presença interna era comparável. A penetração norte-americana
fazia-se pelo programa de cooperação e assistência que era ponderável
em razão da exígua dimensão do país. Os Estados Unidos mantinham
no Paraguai os serviços de cooperação agrícola, de saúde, de educação,
de cultura, as missões militar, aérea e uma assessoria de estudos, da
qual dependia, por exemplo, a liberação de empréstimos do Banco
Mundial. Essa presença tinha, obviamente, o sentido decontra-arrestar,
como a brasileira, a influência argentina. Desse modo, o Paraguai

192
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

apresentava-se como terreno de penetração mais equilibrada de interesses


externos e seu jogo de cintura diplomático alçava-se acima daqueles
países vizinhos que eram dependentes dos Estados Unidos e de mais
ninguém.
O papel histórico do Brasil no Paraguai foi o de defender sua
independência diante da Argentina e sua integridade territorial após a
Guerra da Tríplice Aliança, como também mais tarde contribuir para
solução do conflito com a Bolívia. Mas o Paraguai era levado a
superdimensionar seu valor na política exterior brasileira, com o
corolário de dificilmente estar satisfeito, segundo Briggs, com o que
fazia o Brasil. Com a retirada do Brasil após a Guerra daTríplice Aliança,
o Paraguai abriu-se à penetração argentina, decaindo a preeminência
brasileira. Bem que tentara reverter essa tendência o primeiro governo
de Vargas, com a conclusão de uma série de acordos. Apolítica negativa
do governo de Dutra, no sentido de apenas obstruir a ação argentina,
resultou em um aparato grandioso e custoso, que Pimenta Bueno havia
já descrito e reputado inútil, indicando os caminhos de outra orientação
política a ser trilhado por meio de empreendimentos de obras viárias e
ativação dos fluxos econômicos e financeiros bilaterais. Briggs concordava
em tudo com a inadequação da política brasileira para o Paraguai, já
descrita por Pimenta Bueno, e sugeria a mesma correção. Airrelevância
da presença brasileira era tal que o país ocupava o 24º lugar entre os
fornecedores ao Paraguai e o 15º entre os compradores externos. Nos
últimos doze anos, dezoito convênios haviam sido firmados entre os
dois países, mas nenhum que regulasse as relações econômicas bilaterais
estava em vigor.
A Argentina habilmente beneficiou-se com os erros da
diplomacia obstrucionista dos chanceleres Raul Fernandes e Neves da
Fontoura. Preencheu paulatinamente o vazio deixado pelo Brasil, até
firmar, em agosto de 1953, o Convênio de União Econômica
Argentino-Paraguaia, um passo somente abaixo, em termos concretos,
da própria Ata de Santiago. A Argentina sabiamente ia agregando à sua
política exterior aquele conteúdo econômico positivo de que carecia a
política brasileira de mera obstrução e utilizava seu grande aparato
diplomático para fins efetivos de política. Compreendia esse aparato

193
AMADO LUIZ CERVO

as missões militar, policial e naval, além da estatal de transporte que


executava 90% das operações fluviais do Paraguai. O Convênio de
União elevou o capital da agência do Banco de la Nación Argentina
em Assunção de 4 para 100 milhões de guaranis e abriu três outras
agências em outras cidades, com a finalidade de incrementar as atividades
agrícolas, pecuárias e industriais; regulou o comércio, a industrialização
da carne, o balizamento e a drenagem do rio Paraguai, os serviços de
telecomunicações, de balsas, a construção de escolas, as tarifas fluviais
e pôs em funcionamento uma comissão mista para administrar as
formas de cooperação. A hegemonia que a Argentina exercia então
sobre a sociedade, a política e a economia do Paraguai era tal que
preocupava algumas autoridades, entre as quais o comandante em chefe
das forças armadas, general Alfredo G. Stroessner. Julgavam esses ser
do interesse do Paraguai uma estreita cooperação com o Brasil, para
que o país viesse, como se dizia, a respirar por mais de um pulmão.
A democracia uruguaia, descrita nesse ano de 1953 pelo
embaixador do Brasil em Montevidéu, esforçava-se por resistir à
penetração argentina, mesmo porque havia profunda dissensão
doutrinal entre aquela e o regime peronista. De índole pacífico, o
governo uruguaio era, contudo, castigado pela perseguição comercial
e turística argentina, por recusar-se a entrar na órbita de influência
política e ideológica do regime peronista, o que estava nos planos do
vizinho país desde o triunfo do GOU em 1943 e a ascensão de Perón.
A normalização das relações entre os dois países não parecia viável fora
da hipótese da derrocada do regime peronista. Infelizmente, para o
pequeno país platino, sua resistência ao peronismo de nada lhe valeu
nas relações com os Estados Unidos. A democracia uruguaia estava
perplexa diante da conivência dos governos dos Estados Unidos com
regimes ditatoriais e de exceção. Segundo os políticos uruguaios, a
conduta diplomática dos Estados Unidos respondia às pressões das
corporações norte-americanas e dos consumidores, não fazendo
qualquer concessão à ética política. O Uruguai enfrentava barreiras à
colocação de sua lã e de suas carnes no mercado americano e não percebia
estímulo nos investimentos destinados ao país.

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

De Buenos Aires, o embaixador Orlando Leite Ribeiro


confirmava as percepções que vinham das missões brasileiras em outras
capitais do continente quanto aos propósitos da diplomacia argentina.
Ativa como sempre, procurava essa convencer os outros governos a
acompanhar suas posições durante a Conferência de Caracas, já que
representava melhor que qualquer outra as preocupações morais e
econômicas de todos. Às vésperas da conferência, percebendo a cerrada
oposição que se levantava por toda parte contra a tese da formação de
blocos regionais, a diplomacia peronista modificou mais uma vez sua
posição, alegando ser porta-voz de uma união econômica continental,
que incluísse os Estados Unidos. Na realidade, os países não viam
solução a seus problemas econômicos fora da órbita das relações com
os Estados Unidos e esse fato fundamental convertia a idéia argentina
do pacto regional ou latino-americano em uma proposta desprovida
de realismo político.
O perfil das relações interamericanas que se pode inferir desse
conjunto de relatórios da diplomacia brasileira, produzidos na virada
de 1953 para 1954; evidencia alguns traços claros. Os conflitos
ideológicos, que se espalhavam pelo continente, opunham as simpatias
comunistas às ocidentais, as peronistas às filoamericanas. Desconsiderando
as iniciativas dos governos em busca de influências sobre os outros
países, conflitos de outra natureza eram inexistentes, com exceção do
contencioso de fronteira entre Peru e Equador, o que denotava a
generalização de relações pacíficas. Os asilados políticos que se
espalhavam pela América Latina em razão dos golpes de força sobre os
regimes constitucionais ou de perseguições movidas contra adversários
políticos embaraçavam ocasionalmente as relações entre os Estados,
tornando muito delicada a concessão do asilo.
Todos nessa parte do continente dependiam dos Estados
Unidos, enfim, e disputavam os favores norte-americanos: capitais com
que implantar os elementos do desenvolvimento interno, sobretudo
industrial, créditos para financiar o comércio exterior, mercado para
exportação de seusprodutos, suprimento de conhecimentos, tecnologias
e equipamentos, segurança contra a subversão comunista da ordem
vigente. Desse quadro que evidencia os traços fundamentais da

195
AMADO LUIZ CERVO

dependência dos países latino-americanos com relação aos Estados


Unidos e da inviabilidade da política alternativa de integração sub-
regional, percebe-se quão fácil seria à potência hegemônica manter sua
negligência diante dos interesses do desenvolvimento da região. E quão
fácil seria iludir as diplomacias para induzir os países à realização do
objetivo maior que os Estados Unidos visavam no contexto da Guerra
Fria, o combate ao comunismo. Destarte, republicanos e democratas
prosseguiriam com a mesma política diante da América Latina: confiar
os negócios às duras regras do mercado, que não realizavam o anseio
de desenvolvimento, e submeter as relações interamericanas conduzidas
pelo Estado ao objetivo exclusivo, autônomo e não negociável de
martelar os comunistas e seus simpatizantes.
A melhor percepção dessa dissociação entre o econômico e o
político e da degenerescência que a ação diplomática interamericana
prenunciava foi evidenciada pela inteligência uruguaia57.
De Santiago, o embaixador brasileiro Freitas-Valle assinalava,
em janeiro de 1954, o arrefecimento do entusiasmo pelo peronismo.
Guillermo del Pedregal, ministro interino das Relações Exteriores, em
exposição ao Senado, considerou contraproducente o efeito da insistente
propaganda peronista no país, tanto que a Argentina não conseguiu do
Chile o tratado de união econômica que firmou com o Paraguai e o
Equador, consoante o espírito da Ata de Santiago. Aexplicação haver-
se-ia de encontrar no fato de resistir historicamente o Chile a que os
pactos firmados com a Argentina fossem além do plano meramente
financeiro e comercial, como sucedera com o pacto firmado a 13 de
dezembro de 1946, no início do governo de González Videla, que foi
rejeitado pelo Congresso sob o argumento de que se excedia
politicamente. Em outros termos, apesar de haver triunfado a oposição
ao governo de Videla com a eleição de Ibañez, mantinha o Chile aquela
antiga diretriz, que não permitiu ao espírito integracionista alçar-se ao
nível político, limitando o alcance das intenções da Ata de Santiago ao
tratado econômico celebrado em 1953, aliás longe de uma verdadeira

57Os relatórios provenientes de todas as missões brasileiras no continente, em decorrência


da Circular nº1750, de 19 de novembro de 1953, doItamaraty, foram reunidos em volume
especial, avulso, que se encontra no AHIBR.

196
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

união aduaneira, porquanto estabelecia a livre importação e exportação


mútua de alguns produtos enquanto outros ficavam sujeitos a
autorizações58.
As relações entre Brasil e Argentina soçobraram por efeito de
um discurso pronunciado por Perón, a 11 de novembro de 1953, em
que relatou as negociações que mantivera com Vargas para a concertação
do Pacto ABC, confessou sua decepção pela hesitação deste e acusou o
Itamaraty de obstruir a formação do bloco e manter, por sobre a diretriz
do Estado, a política de zonas de influência na América Latina. Tudo
que disse tinha fundamento. O discurso era sigiloso, mas a embaixada
em Buenos Aires remeteu cópia ao Itamaraty. Havendo a oposição ao
governo de Vargas, entrincheirada na UDN, se apropriado do texto,
deu-lheescandalosapublicidadenaimprensa, àqual se associou João
Neves da Fontoura, que se servira do episódio para pedir demissão da
chancelaria e acusou Vargas de trair os interesses da nação e da solidariedade
continental. Dessa forma, o discurso de Perón não só perturbou as
relações bilaterais como ainda aprofundou a divisão dentro da própria
família brasileira, o que talvez desejasse para forçar Vargas a uma decisão.
O fato revelou, conforme ofício de Orlando Leite Ribeiro, embaixador
em Buenos Aires, ao chanceler Vicente Rao, que Vargas se comunicava
com Perón por meio de agentes especiais, sem que dessa diplomacia
paralela tomasse conhecimento a missão brasileira em Buenos Aires,
até mesmo Baptista Luzardo, que jamais se afastara da linha de conduta
oficial do governo que representava59.

4.3. A ascensão de Stroessner e o triângulo


Argentina-Paraguai-Brasil
Vargas retirou-se do cenário político, suicidando-se a 24 de
agosto de 1954. AaçãodaMarinhaedo Exército da Argentina derrubou
o governo Perón a 19 de setembro de 1955, assumindo provisoriamente

58 Freitas-Valle a Vicente Rao, ofício, Santiago, 15 jan. 1954, AHI, armário, maço 45497.
Orlando Leite Ribeiro ao MRE, telegrama, Buenos Aires, 26 jun. 1956, AHI, armário,
maço 45497.
59 Orlando Leite Ribeiro a Vicente Rao, ofício, Buenos Aires, 8 abr. 1954, AHIBR, caixa 1.

197
AMADO LUIZ CERVO

o governo o general Eduardo Lonardi. A trajetória dos dois países do


Cone Sul haveria de assemelhar-se, contudo, nos anos seguintes: o
Brasil passou por um interregno irrelevante em que governou o país,
nos termos da Constituição, o vice-presidente João Café Filho e elegeu
Juscelino Kubitschek, dando prosseguimento à ação do Estado
desenvolvimentista; a Argentina, após um período transitório de contes
tação do peronismo, confiou o mando ao presidente Arturo Frondizi,
que também deu, em boa medida, continuidade à ação de Perón, apesar
de pertencer à agremiação política que sempre lhe fizera oposição.
Estando a Argentina sob rigoroso estado de sítio, não foi difícil
ao governo de Lonardi exercer o controle da situação interna e orientar-
se, o que era firme propósito da revolução libertadora, pela recuperação
de tendências do passado anterior ao justicialismo. A mais delicada
tarefa de foi a de conter a Confederação Geral do Trabalho, uma
estrutura piramidal de poder que congregava seis milhões de associados,
sobre a qual se assentara o regime peronista.
Organizou-se o novo governo argentino em um gabinete
conservador que reabilitava antigas lideranças políticas. Ele agia com
moderação tanto do lado das conquistas operárias quanto dos derrotados
que, como o próprio Perón, demandavam as representações de Paraguai,
Uruguai, Nicarágua, Equador e Chile, onde obtinham asilo. As relações
com o Brasil pareciam poder encaminhar-se melhor, pelo menos assim
pensava Lonardi, para quem a união dos dois países simbolizava a
unidade ibérica do continente e, além do mais, dizia, “o contato com
a deliciosa cultura brasileira nos ajudará a preencher o vazio desses doze
anos de estrepitoso mau gosto”60. Ao deixar seu posto um ano depois do
golpe que derrocou o peronismo, também o embaixador brasileiro em
Buenos Aires, Orlando Leite Ribeiro, nutria grandes esperanças de
entendimento entre Argentina e Brasil, ante a perspectiva de eleição do
líder da União Cívica Radical, Arturo Frondizi, com que se consolidaria
o movimento de restauração das liberdades políticas comprometidas
desde 1943:

60 Orlando Leite Ribeiro a Raul Fernandes, ofício, Buenos Aires, 26 set. 1955, AHIBR,
caixa 31.

198
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Vi e senti com íntima satisfação o fato de que a profunda


mudança verificada na Argentina em setembro do ano passado
não trouxe até agora problemas com o Brasil. A linha de isenção
adotada pelo governo brasileiro em matéria de política interna
de seus vizinhos mais uma vez se evidencia como a única que
devemos seguir61.

Com a ascensão do general Alfredo Stroessner à presidência do


Paraguai, preparava-se, em 1958, com apoio do Partido Colorado, a
transição do país da órbita argentina onde gravitara há décadas para a
brasileira, que se prenunciava no futuro. As novas autoridades paraguaias
acusavam a República Argentina de envolver-se em ações cuja intenção
era derrubar o governo e devolvê-lo ao Partido Liberal, a que pertenciam
quase todos os ricos do país, que se haviam beneficiado com a ordem
vigente à época da preeminência argentina. Além de envolver-se em
ações políticas, as autoridades argentinas, conforme confessou o
chanceler interino Raúl Peña ao encarregado de negócios do Brasil,
José Jobim, não tolerariam um governo que desse andamento aos
projetos de ligação rodoviária do Paraguai com o Brasil. Com efeito,
o comércio entre estes dois países ainda era nulo, mas o Convênio
de Comércio Fronteiriço recentemente firmado poderia modificar
drasticamente essa situação, caso as rodovias fossem concluídas e
pavimentadas. Acoadjuvar as autoridades argentinas, nesse intento de
obstruir a ligação com o Brasil, estava o embaixador dos Estados
Unidos, Walter C. Ploeser, que se manifestou contrário, já que seu
país buscava a cooperação da Argentina para a exploração do petróleo
do Chaco paraguaio. Circulava, com efeito, entre as capitais, Assunção
e Buenos Aires, o advogado das empresas petrolíferas norte-americanas,
Henry Holland, com o intuito de associar os interesses dos dois países
na exploração do petróleo paraguaio, já que aquelas empresas
dominavam essa atividade na Argentina, no Paraguai ena Bolívia, onde
procuravam cercar o Brasil e mantê-lo distante.

61Orlando Leite Ribeiro a José Carlos de Macedo Soares, ofício, Buenos Aires, 19 jul.
1956, AHIBR, caixa 31.

199
AMADO LUIZ CERVO

Na mesma intensidade com que Raúl Peña e o próprio chanceler


Sapena Pastor aspiravam simultaneamente o desenvolvimento da
economia paraguaia e sua libertação da tradicional submissão à República
Argentina, José Jobim cobrava do Itamaraty uma política positiva de
resposta brasileira a este anseio, não deixando escapar o petróleo
paraguaio, que julgava indispensável à construção da independência
econômica de seu país. Duas condições vislumbrava favoráveis: em
primeiro lugar, a posse de Frondizi, que aspirava ao entendimento com
o Brasil; conseqüentemente, o abandono da ingerência política argentina
no Paraguai, com a finalidade de substituir o governo por outro menos
entusiasta da cooperação com o Brasil e de desfazer a concessão já
outorgada ao grupo brasileiro Rocha Miranda para exploração do
petróleo em uma área equivalente à obtida pela americana Pure Oil.
O que era de se esperar por parte do Brasil, perguntava Jobim, para
concretizar a transição de órbita ou ao menos o equilíbrio de presenças
de Argentina, Estados Unidos e Brasil? A conclusão e apavimentação
das rodovias com que tornar-se-ia efetivo o convênio de comércio
fronteiriço e um tratado econômico que amarrasse a produção e o
escoamento do petróleo paraguaio aos interesses brasileiros, como
ocorrera com o tratado firmado entre Brasil e Bolívia62.
Achancelaria deu ouvidos à insistente demanda de cooperação.
A 19 de abril de 1958 instruiu sua embaixada em Assunção no sentido
de iniciar as gestões necessárias para que o governo paraguaio colaborasse
na realização de estudos tendentes ao aproveitamento hidrelétrico do
Salto de Sete Quedas e à aplicação industrial da energia elétrica. José
Jobim percebeu então, antes de passar nota à chancelaria paraguaia
sobre a proposta, que o governo paraguaio contestava um tratado de
limites de 1872 e considerava necessário proceder ao levantamento
aerofotogramétrico das duas margens do rio Paraná com o intuito de
rever a demarcação de uma faixa de dez quilômetros que reivindicava
de seu direito, onde presumivelmente estaria o Salto del Guairá63.

62 José Jobim a José Carlos de Macedo Soares, ofício, Assunção, 11 abr. 1958, AHIBR,
caixa 3.
63 Idem, ofício, Assunção,20 maio, 1958, AHIBR, caixa 3.

200
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Apesar desse problema, Jobim prosseguiu insistindo no


programa de cooperação econômica com que firmasse o Itamaraty
uma política concreta de cooperação com o Paraguai de Stroessner,
atraindo o país para a influência brasileira. Estava o encarregado de
negócios angustiado com os avanços dos planos integrados de exploração
petrolífera na Argentina, Paraguai e Bolívia por parte das empresas
americanas e argentinas, sem envolvimento brasileiro algum, negociados
pelo representante dos trustes americanos, Henry Holland, com o
assentimento de Frondizi, que não aceitaria sem luta que o Paraguai
saísse da órbita de influência de seu país. Metade da área do Chaco,
doze milhões de hectares, já havia sido dada em concessão, havendo
o grupo Rocha Miranda obtido uma área de valor inestimável,
correspondente a quatro milhões de hectares, em condições de contrato
muito favoráveis ao Brasil, que poderia intercambiar manufaturas por
petróleo sem ter que despender dólares, como previam os dispositivos
do Convênio de Comércio Fronteiriço. Mas as oportunidades poderiam
esvair-se, caso perdurasse a ausência de uma política global para o Paraguai.
Quando Francisco Negrão de Lima, que fora embaixador em
Assunção, assumiu a chancelaria brasileira, apressou-se Jobim aescrever-
lhe, propondo que criasse no Itamaraty um grupo de trabalho para
estudar as condições do Paraguai em face dos interesses do Brasil e
elaborasse um plano de cooperação de acordo com a filosofia pan-
americana de Kubitschek. A estratégia que sugeria para as relações com
o Paraguai envolvia quatro frentes de ação: o aproveitamento do
petróleo, a industrialização do Paraguai, a conclusão das ligações
rodoviárias e o incremento do comércio bilateral64.
Em fins de outubro de 1958, o governo paraguaio tornou
públicas informações colhidas em depoimento acerca de incidentes
ocorridos na fronteira entre Paraguai e Argentina, segundo os quais
altas autoridades militares argentinas tramavam um golpe contra o
presidente Arturo Frondizi, devendo para tanto assassiná-lo, quando
de sua programada visita à Assunção. O chanceler Sapena Pastor

64José Jobim a Francisco Negrão de Lima, ofício, Assunção,9 jul. 1958 e 2 mar. 1959,
AHIBR, caixa 3.

201
AMADO LUIZ CERVO

convocou Jobim solicitando que interviesse junto a Kubitschek para


que ele acalmasse as autoridades argentinas. Desde então, por decisão
própria, Stroessner tomou a iniciativa de afirmar amiúde, quando se
fazia necessário, que nas suas relações com a Argentina contava com a
solidariedade do Brasil para qualquer eventualidade, até mesmo o uso
da força. Assim respondia aos ataques da imprensa argentina, que
ridicularizava sua atitude de apoio ao chamado revisionismo histórico,
que significava o endeusamento dos líderes nacionais do século XIX,
Francia e os dois Lopez. Mas a ostentação da amizade com o Brasil
tinha dois outros objetivos: internamente, a fixação da política do
Partido Colorado, que se apresentava como antiargentino e, por
contraste, como pró-brasileiro; externamente, o Brasil era usado como
esteio para uma eventual política de pressão, quer sobre a Argentina
quer mesmo sobre os Estados Unidos.
A amizade de Stroessner para com o Brasil era, pois, sincera e
oportunista. Por que não corresponder-lhe? “O Brasil não tem um
programa estabelecido para a sua política em relação ao Paraguai”,
reafirmava Jobim, que avançava uma idéia moderna de cooperação,
longe de rivalidades e intrigas:

conviria uma pronta ação diplomática nossa... tendente a alertar


o governo paraguaio para os riscos que comporta uma política
de atritos com a República Argentina e também para convencer
ao governo de Buenos Aires de que não somos os instigadores
dessa política e que, ao contrário, consideramos que está no real
interesse do Brasil que as relações argentino-paraguaias se
processem num clima de confiança mútua para a tranqüilidade
dos três países65.

Essa interpretação seria mantida pelo novo embaixador em


Assunção, Euclydes Zenóbio da Costa, que alertava o Itamaraty para
não embarcar na aventura de indispor-se com seus vizinhos, Bolívia e
Argentina, em atendimento ao apoio que Stroessner alardeava contar

65 José Jobim a Antônio Mendes Vianna, ofício, Assunção, 6 nov. 1958 e 10 jun. 1959,
AHIBR, caixa 3.

202
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

por parte do Brasil para seus pronunciamentos e até mesmo sonhos de


expansão territorial ao norte e ao sul66.
Ao final da década de 1950, com a queda de Perón e a ascensão
de Stroessner, a posição internacional do Paraguai modificara-se
profundamente em razão da ilusão do petróleo. A política exterior
de Stroessner orientava-se por dois objetivos: atenuar fortemente a
tradicional dependência política e econômica diante da Argentina e abrir
seu país à concorrência estrangeira com que impulsionar o
desenvolvimento com base na exploração de presumíveis depósitos de
petróleo no território do Chaco. Para atingir o primeiro, voltou-se
resolutamente para o lado do Brasil, cujo interesse e ação provocava
por todos os modos; para realizar o segundo, abriu o caminho às
companhias americanas que dispunham de capitais, meios e mercado,
sem, contudo, deixar de acenar ao Brasil e à Argentina com as grandes
facilidades e vantagens que àquelas concedia.

4.4. O norte da América do Sul à época de Pérez Jiménez

A Venezuela desempenhava, ao norte do continente, um papel


similar sob certos aspectos ao da Argentina de Perón entre 1947 e
1959. Essa proeminência lhe advinha da riqueza que representava a
produção e a exportação do petróleo que fortalecia a autoconfiança
nacional e a projetava nas vistas expansionistas, que envolviam tanto
ambições territoriais quanto influência a exercer sobre as adjacências.
A Venezuela antecipou-se à Operação Pan-Americana proposta por
Kubitschek em 1958, ao avançar a idéia do fundo financeiro com o
objetivo de tornar efetiva a solidariedade americana. Internamente,
consignava-se o duelo político entre o democrata Rômulo Betancourt
e o ditador Marcos Pérez Jiménez, cuja sorte, em 1957, foi duramente
ferida, como acontecera com Perón dois anos antes. Os vínculos entre
Venezuela e Brasil eram quase inexistentes, a demonstrar que este país
não tinha competência para fazer valer sua condição de segundo

66 Euclydes Zenóbio da Costa a Horácio Lafer, ofício Assunção, 19 ago. 1959, AHIBR,
caixa 3.

203
AMADO LUIZ CERVO

importador de petróleo venezuelano. A documentação diplomática


do lado da Venezuela era vazia de conteúdo, contrariamente ao que
ocorria com a que circulava entre o Rio de Janeiro e as capitais do
Cone Sul.
Em 1947, uma remessa de armas brasileiras a São Domingos
evidenciou a complicada rede de rivalidades entre os governantes da
região, armada em razão dos asilos políticos concedidos a opositores
de regimes implantados na vizinhança. São Domingos acusava Gua
temala, Cuba e Venezuela de protegerem abertamente os dominicanos
contrários ao governo do ditador Trujillo. Era, aliás, de todos conhecida
a inimizade entre os presidentes Betancourt e Trujillo, apoiando esse
pecuniariamente os venezuelanos refugiados em seu país. As boas
relações políticas entre Brasil e Venezuela inspiraram o envio de uma
missão ao Rio de Janeiro com a finalidade de impedir aquele embarque
de armas destinado a São Domingos67.
No início dos anos 50 prosseguiam sem relevância as relações
entre a Venezuela e o Brasil, conforme relatório do embaixador brasileiro
em Caracas, Fernando Lobo. Politicamente nenhum problema se havia
imiscuído nessas relações no pós-guerra, a não ser os decorrentes de
freqüentes golpes e mudanças de governo na Venezuela. Asilaram-se
na embaixada do Brasil dois líderes da oposição, Mario Briceño Iragorry
em 1952 e, no ano seguinte, Hugo Quintana Franklin. No terreno
econômico, o Brasil, que fora grande supridor da Venezuela, durante
a guerra mundial, de tecidos, produtos farmacêuticos e gêneros
alimentícios, perdeu aquele mercado no pós-guerra. As causas do recuo
eram três: seus preços situavam-se acima do mercado internacional, a
intensificação da concorrência dos produtores norte-americanos e
europeus e a falta de comunicações marítimas diretas. No início dos
anos 50, o Brasil nada vendia à Venezuela além de pouco algodão e
alguns produtos farmacêuticos, em uma conjuntura em que todos
demandavam aquele mercado pelo fato de se pagarem as importações
em dólares.

67 W. do Amaral Murtinho a Raul Fernandes, ofício, Caracas, 20 nov. 1947; W. do Amaral


Murtinho a Gonzalo Barrios, ofício, Caracas, 5 dez. 1947. AHIBR, caixa 40.

204
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

A falta de comunicação marítima direta e regular era outro


grande obstáculo ao incremento do comércio bilateral. Alegavam tanto
o Loide Brasileiro quanto a Flota Mercante Grancolombiana que seus
navios teriam carga apenas à chegada nos portos brasileiros, pois, sendo
as importações brasileiras unicamente de petróleo, haveriam de regressar
vazios. Ademais, apesar de importar 45 mil barris diários, como segundo
importador do Petróleo venezuelano, o intercâmbio de mercadorias,
afora este produto, quase inexistia. Durante dois anos esforçou-se em
vão o embaixador Fernando Lobo para mandar uma missão venezuelana
de comércio ao Brasil68.
As relações culturais entre o Brasil e a Venezuela eram singelas,
porém corretas. Compreendiam troca de visitas de professores, literatos
e artistas e a matrícula de mais de uma centena de estudantes venezuelanos
em universidades brasileiras, sobretudo nas faculdades de medicina e
agronomia. Em 1956, surpreendeu-se o embaixador brasileiro em
Caracas, Oscar Pires do Rio, com a incitava de um grupo de alunos da
Universidade de São Paulo de dirigirem-se diretamente ao ministro da
Educação da Venezuela, solicitando-lhe interceder junto a seu governo
e à missão brasileira para facilitar-lhe uma excursão ao país.
A concretizar-se essa hipótese (escrevia Pires do Rio ao
Itamaraty), poderíamos ainda vir a defrontar-nos com uma repetição
do que, a esse respeito, ocorria com a Argentina no seu regime
anterior de governo, sob os auspícios do qual inúmeras caravanas
de estudantes e de professores brasileiros passaram a ser convidados
para visitar Buenos Aires, com evidentes finalidades políticas.

Nessa época em que remanesciam ainda entre representantes


do Itamaraty ranços da diplomacia da obstrução, com que se
notabilizou João Neves da Fontoura, não é de estranhar que Pires do
Rio visse com suspeitas as excursões de estudantes entre os países da
América Latina69.

68 Fernando Lobo a João Neves da Fontoura, relatório, Caracas, 28 maio 1953, AHIBR,
caixa 40.
69 Oscar Pires do Rio a José Carlos de Macedo Soares, ofício, Caracas, 27 set. 1956,
AHIBR, caixa 40.

205
AMADO LUIZ CERVO

A 8 de agosto de 1956 chegou à Venezuela, procedente do


Paraguai, o ex-presidente Perón, beneficiando-se do asilo que lhe concedia
o regime corrupto de Pérez Jiménez. Esse governo estava dividido
quanto à decisão, opondo-se o ministro das Relações Exteriores a que
lhe fosse concedido o visto, mas sendo-lhe favorável o ministro do
Interior, a eminência parda do regime. Perón não causou problemas,
sendo discreta sua atuação pessoal e um pouco mais sensacionalista a de
seus porta-vozes, que pretendiam manter a imagem de seu senhor em
cartaz nos meios jornalísticos. O embaixador da Argentina em Caracas
esforçou-se em aniquilar a propaganda peronista, tomando iniciativas
até certo ponto constrangedoras, como o pedido apresentado ao governo
venezuelano, que o desprezou, de embargo contra os bens pessoais do
líder justicialista e de numerosos seguidores seus, decretado pelo governo
argentino. Em represália ao asilo concedido aPerón, o governo de Buenos
Aires estaria disposto a asilar Rômulo Betancourt, líder político, então
vivendo em Porto Rico, e adversário tenaz do general Pérez Jiménez. Ao
expirar, a 9 de novembro, o visto para estar na Venezuela, Perón desapa
recera do contato público, sabendo-se depois que continuava no país.
Suas atividades públicas eram aparentemente nulas durante mais de um
ano de estada no país. Em dezembro de 1957, contudo, chegaram a
Caracas Jorge Antonio e Angel Borlenghi, como também John William
Cooke e Guillermo Patricio Kelly, fugidos do Chile, todos peronistas
que para lá acorreram a uma reunião política na presença de seu chefe70.
Eram ativas as relações do general Pérez Jiménez com outros
regimes militares da América Latina. Entendia-se com o general
Anastácio Somoza, o homem forte da Nicarágua, assassinado em
setembro de 1956. Vendeu-lhe aviões e deu-lhe dinheiro para combater
os revolucionários de Costa Rica71. Recebeu em junho do ano seguinte
o general Alfredo Stroessner, presidente do Paraguai, que veio solicitar
empréstimos e negociar convênios sobre cooperação cultural, transporte
aéreo e assistência técnica72.

70 Idem, relatórios, Caracas, 17 set., 6 out. e 14 nov. 1956, 2 nov. 57 e 3 jan. 1958, AHIBR,
caixa 40.
71 Ibidem, relatório, Caracas, 6 out. 1956, AHIBR, caixa 40.
72 Ibidem, ofício, Caracas, 8 jul. 1957, AHIBR, caixa 40.

206
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

O tema que passou a preocupar a missão diplomática brasileira,


ao final do governo Pérez Jiménez, foi o fato de se ressuscitar no país
velhos sonhos de anexar os territórios das Antilhas inglesas, das Antilhas
holandesas, a ilha de Trinidad, a Guiana inglesa, além de territórios
brasileiros. Aquestão fora levada para a imprensa a partir de entrevistas
concedidas pelo escritor Ramiro Nava, cujos livros advogavam esta
expansão territorial73. A anexação das Antilhas e da Guiana, como
também da ilha de Trinidad, far-se-ia como desfecho da descolonização,
sobre cujas soluções se cogitava então nos meios pan-americanos,
aproveitando-se a Venezuela dessa circunstância que a opinião pública
contemplava. Ramiro Nava tentava fundamentar direitos venezuelanos
sobre tais territórios, mas era evidente que correspondiam à aspiração
venezuelana. Para realizar uma eventual expansão à custa de possessões
européias no Caribe e no continente, teria a Venezuela de obter o
assentimento do Brasil, dos Estados Unidos e dos países ditos
bolivarianos, principalmente o Peru e a Colômbia. Para tanto, dispunha
de empréstimos a acenar para o primeiro e para os últimos e, quanto
aos Estados Unidos, havia os negócios petrolíferos.
As preocupações do embaixador Oscar Pires do Rio acerca das
ambições sobre territórios brasileiros tinham, pois, certo fundamento.
Confidenciava ele ao Itamaraty, em agosto de 1957, um plano de
expansão hegemônica engendrado pelo regime Pérez Jiménez para
estender-se à América Central e ao norte da América do Sul. Aprimeira
fase estava em execução por instrumentos diversos que comportava a
intensa campanha de influência predecessora do desfecho territorial.
Depois de conquistada a opinião pública dos habitantes das possessões
e os governos referidos, como se oporia o Brasil a que a solução fosse
tomada na OEA em favor de um plebiscito?74.
Apoiada nos dólares do petróleo, vinha a Venezuela cuidando
de projetar uma imagem de nação solidária e generosa com o sistema
interamericano. Em julho de 1956, o presidente Pérez Jiménez, por

73 Mellilo Moreira de Mello a José Carlos de Macedo Soares, ofício, Caracas, 26 dez. 1956,
AHIBR, caixa 40.
74 Oscar Pires do Rio a José Carlos de Macedo Soares, ofício, Caracas, 3 ago. 1975, AHIBR,
caixa 40.

207
AMADO LUIZ CERVO

ocasião da Reunião dos Chefes de Estado das Nações da América


no Panamá, propôs solenemente a criação do Fundo Econômico
Interamericano, no mesmo espírito com que Juscelino Kubitschek
lançaria a Operação Pan-Americana dois anos depois e com que Perón
buscara a integração latina anos antes. Sete países apoiaram, quatro
não emitiram opinião e nove propuseram que fosse encaminhada ao
exame do Conselho Interamericano Econômico e Social da OEA.
Nesse conselho, o governo dos Estados Unidos fez gestões ante outros
para obstruir a aprovação da proposta, em reação semelhante, aliás, ao
boicote que ofereceria à iniciativa brasileira do presidente Kubitschek.
Em outros termos, o sistema interamericano haveria de girar em torno
de propostas norte-americanos centradas sobre interesses nacionalistas
dos Estados Unidos ou paralisar-se. Esta linha de ação caracterizara a
política continental da potência hegemônica para a América Latina
desde o pós-guerra.
americanismo, reconheceu Pérez
Irritado,solidariedade continental
Jiménezem declaração
e outros conceitos do estilo
pública.“Pan-

só seguirão sendo proposições teóricas que fracassarão ou permanecerão


como aspirações latentes, enquanto não se traduzam em medidas
concretas com resultados de benefício coletivo”.
Seu embaixadorjunto à OEA, diante das circunstâncias, retirou
a proposta de criação do fundo e solicitou o fim dos debates. Orientou-
se então o governo venezuelano, ainda naquela linha de influência a
exercer sobre o subcontinente latino-americano, para concessão de
empréstimos a serem decididos bilateralmente. Haiti, Paraguai, Bolívia
e Equador já se haviam habilitado75.
O ditador não permaneceu no poder tempo suficiente para
levar adiante seu plano hegemônico regional e sua solidariedade
continental. A 15 de dezembro de 1958, o plebiscito eleitoral forjado
para reconduzi-lo ao poder em novo mandato presidencial de cinco
anos deu-lhe 2 milhões, 374 mil e 790 sobre 2 milhões, 924 mil e
985 votos apurados. Mas a farsa desencadeou uma revolta na base
aérea de Maracay no mês seguinte. Embora aparentemente controlada,

75 Idem, relatório, Caracas, 2 out. 1957, AHIBR, caixa 40.

208
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

a revolta estendeu-se a forças do Exército e da Marinha que exigiam


uma reforma do ministério, tido por corrupto e imoral. Jiménez exigiu
a demissão coletiva e, nessa ocasião, vieram a público desmandos,
prevaricações, peculatos e escândalos envolvendo particularmente o
poderoso ministro das Relações Interiores, Laureano Vallenilla Lanz.
Pérez Jimenez não resistiu e, a 23 de janeiro, tomou o caminho do
exílio, seguindo os passos de toda a alta administração. As legações em
Caracas de República Dominicana, Brasil, França, Paraguai, Bolívia,
Panamá, Colômbia, Equador, Nicarágua e Paraguai receberam os
asilados da débâcle do regime, que fugiam de graves delitos pelos quais
haveriam de prestar contas se permanecessem no país. Instalou-se uma
junta de governo cuja função era de convocar eleições e restaurar a
democracia venezuelana76.
O movimento de libertação nacional instituiu um governo
provisório que foi logo reconhecido no exterior. Embora executado
pelas forças armadas, seu alicerce subterrâneo era civil. Gestões foram
postas em marcha para o restabelecimento imediato das relações
diplomáticas com Uruguai, Argentina, Chile e Costa Rica, rompidas
pelo regime anterior. Uma devassa empreendeu-se então que
demonstrou quão profunda era a corrupção do regime e quão desumana
era a conduta da Seguridad Nacional, o braço forte da ditadura.
Procedeu-se à depuração dos quadros das forças armadas, do
funcionalismo público e do órgão de segurança, para o qual trabalhavam
70 mil pessoas, comprometidos com os desmandos de função e a
violência. Os líderes partidários democratas e políticos asilados
acorreram logo à pátria: Rafael Caldera, Rômulo Betancourt, Rafael
Pisani e outros. Com essa catarse, a Venezuela estava pronta para um
longo período de democracia, no qual sobressaiu a figura do grande
estadista Rômulo Betancourt77.

76 Ibidem, relatórios, Caracas, 3 jan. e 3 fev. 1958, AHIBR, caixa 40.


77 Ibidem, relatórios, Caracas, 7 mar. 1958, AHIBR, caixa 40.

209
AMADO LUIZ CERVO

210
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

5. A dinâmica do ângulo atlântico entre 1960


e 1979

5.1. Os primórdios da integração física na década de 1960

5.1.1. O Cone Sul: da diplomacia da obstrução à cooperação


regional

No início dos anos 60, o dirigente paraguaio, Alfredo


Stroessner, com seu ministro das Relações Exteriores, Sapena Pastor,
implementou uma diretriz de política exterior, que assim definia o
embaixador brasileiro em Assunção, Euclydes Zenóbio da Costa: “É
evidente o interesse do atual governo em vincular o seu destino com
os interesses do Brasil”. Afirmava o primeiro constantemente que seus
opositores do Partido Liberal, caso assumissem o poder, cederiam a
todas as injunções argentinas e cortariam os aspectos concretos das
relações com o Brasil. Não se podia aquilatar então quanto essa política
tirava sua motivação da disputa interna pelo poder, haja vista o apoio
que Perón havia dado para a consolidação do regime de Stroessner e a
espontânea e cordial solidariedade com que este o acolhera quando de
seu asilo político1. Mas é certo que a nova diretriz de política exterior
paraguaia, de aproximação com o Brasil, produzia efeitos concretos
como o aproveitamento hidrelétrico do Acaraí e do Mondaí, o uso do
porto de Paranaguá, a construção de estradas dentro do território
paraguaio, o pagamento do empréstimo de 1942, o apoio moral,
técnico e militar, bem como o fornecimento de armas. Criava, ademais,
condições para a futura corrente de imigrantes brasileiros que iriam
promover a modernização agrícola de uma faixa lindeira do país2.

1 Euclydes Zenóbio da Costa a Horácio Lafer, ofício, Assunção, 12 fev. 1960, AHIBR,
caixa 3.
2 Ver Menezes, Alfredo daMota. A herança deStroessner: Brasil-Paraguai, 1955-1980. Campinas:
Papirus, 1987. Laino, Domingo. Paraguai: fronteiras e penetração brasileira. São Paulo, Global,
1979.

211
AMADO LUIZ CERVO

Sapena Pastor mantinha a missão brasileira informada acerca


de todos os lances que envolviam as relações do país com a Argentina.
O embaixador brasileiro em Assunção recomendava à chancelaria,
contudo, muita prudência. Ao invés de envolvimento com os embates
políticos internos, convinha-lhe intervir junto ao Palácio San Martín e
ao governo de Arturo Frondizi para que coibisse as invasões que se
armavam em território argentino com a finalidade de causar instabilidade
e derrubar o governo de Stroessner3. A diretriz paraguaia de política
exterior não era servil com relação ao Brasil. Dois graves problemas, o
primeiro de alguns anos atrás, o segundo recente, preocupavam o chefe da
missão brasileira em Assunção, precisamente porque envolviam uma
percepção unilateral de interesses por parte do país guarani.
O Paraguai ambicionava tornar-se condômino do setor das
Sete Quedas do rio Paraná. Com tal intuito, pretendia fazer uma revisão
do critério adotado pela Comissão Mista Demarcadora de Limites
que atuou entre 1872-1874, embora não estivesse disposto o Brasil a
ceder, ante um direito considerado líquido e inalienável sobre a área
pretendida. É bem verdade que essa reivindicação territorial paraguaia
vinha acompanhada de outras sobre territórios bolivianos e argentinos,
o que a enfraquecia politicamente e lhe tolhia operacionalidade. Assim
mesmo, Zenóbio da Costa sugeria ao Itamaraty abrir negociações,
invocando o estado favorável das relações bilaterais para solver a pendência
por ato internacional4.
Outro problema, a demonstrar a autonomia paraguaia diante
dos interesses brasileiros, teve origem na criação da zona franca em
uma área de Puerto Presidente Stroessner, contígua à cidade brasileira
de Foz do Iguaçu e à ponte internacional que as vincularia. Esta zona
foi criada por um convênio firmado a 26 de fevereiro de 1960 entre o
governo de Stroessner e a empresa estrangeira Foreign Markets Trading
Corporation, que se tornou administradora do empreendimento.
Um ano depois de criada, portanto em fevereiro de 1961, a
missão brasileira em Assunção denunciou os inconvenientes para os

3 Euclydes Zenóbio da Costa a Horácio Lafer, ofício, Assunção, 23 jun. 1960, AHIBR,
caixa 3.
4 Idem, ofício, Assunção,30 jun. 1960, AHIBR, caixa 3.

212
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

dois lados das atividades desenvolvidas pela Foreign Markets. Embora


tivesse um caráter prospectivo bem fundado, tal denúncia não
encontrou acolhida e conservou sua validade pelos próximos 40 anos,
visto que, sem prestar ouvidos às sugestões que continha, as partes não
tomaram providência alguma com a finalidade de erradicar atividades
abusivas e ilegais. Segundo relato encaminhado então por Gomes
Pereira ao chanceler Afonso Arinos de Melo Franco, a zona franca
paraguaia nasceu em 1960 como um “centro de contrabando em larga
escala para o Brasil”, desenvolvendo-se esse comércio ilegal “com o
conhecimento das autoridades fronteiriças paraguaias” e contando, de
outra parte “com a cumplicidade de indivíduos residentes no território
nacional”. Embora devesse dedicar-se a fomentar a industrialização da
zona por força dos dispositivos de convênio, aForeign Markets restringiu-
se ao comércio e ao contrabando de uísque, cigarros americanos, rádios,
produtos de náilon etc., que lhe asseguravam lucros fáceis5.
A questão das Sete Quedas tomou vulto ainda na primeira
metade dos anos 60. Os dois governos trocavam notas oficiais a esse
respeito desde o início de 1962. As atitudes que tomavam diante da
questão decorriam de um “crescendo” reivindicativo paraguaio marcado
pelas seguintes fases: (a) nota de 12 de março de 1962 do embaixador
Raúl Peña ao governo brasileiro, vinculando o aproveitamento hidrelétrico
à nova demarcação das fronteiras; (b) noticiário enfático dos jornais
oposicionistas paraguaios, (c) nota de 19 de setembro de 1962 do
Itamaraty, opondo-se à revisão do traçado da fronteira e reafirmando
os direitos do Brasil; (d) publicação pelo Ministério de Minas e Energia
do relatório do engenheiro brasileiro Otávio Marcondes Ferraz acerca
do aproveitamento do salto de Sete Quedas; (e) segunda nota do
governo paraguaio de 10 dejunho de 1963, protestando contrao fato
de aquele relatório não fazer referência ao impacto sobre o Paraguai do
aproveitamento do rio e reivindicando estudos conjuntos sobre o
mesmo aproveitamento; (f) agressividade crescente da imprensa
oposicionista e assunção de sua tese pelo governo paraguaio;(g)

5Carlos S. Gomes Pereira a Afonso Arinos de Melo Franco, ofício, Assunção, 7 fev. 1961,
AHIBR, caixa 4.

213
AMADO LUIZ CERVO

conversações bilaterais por ocasião da inauguração do novo mandato


de Stroessner; (h) declaração pública dos direitos do Paraguai sobre o
Salto de Guaíra ou das Sete Quedas pela Câmara dos Representantes;
(i) visita ao Paraguai do ministro de Minas e Energia do Brasil, Oliveira
Brito, e longas negociações com o chanceler Sapena Pastor, das quais
resultou um acordo para realização de estudos conjuntos acerca do
aproveitamento hidrelétrico; (j) envolvimento das imprensas dos dois
países e perspectiva da visita do presidente João Goulart ao Paraguai.
As conclusões do embaixador brasileiro em Assunção, Mário
de Ascensão Palmério, acerca do aproveitamento de Sete Quedas eram,
em novembro de 1963, as seguintes: (a) convinha levar em conta a
suscetibilidade da opinião paraguaia e a ambição pessoal de Stroessner,
desejoso de tornar-se o restaurador da história; (b) o Paraguai somente
aceitaria participação no empreendimento em igualdade de condições,
criando toda sorte de obstáculos a um empreendimento unilateral do
Brasil; (c) a falta de afinidade ideológica entre os dois governos, um
independente e outro alinhado com o ocidentalismo, poderia estar
sendo utilizada pelo Paraguai para adiar o projeto hidrelétrico6.
Existiu, portanto, nos anos 60, um contencioso entre o Brasil
e o Paraguai sobre o aproveitamento dos rios para produção de energia
elétrica, que foi desde o início muito bem administrado pela negociação
diplomática, o que veio criar condições para a cooperação conjunta de
que resultou na década seguinte a construção de Itaipu, o maior
empreendimento do mundo no setor. Sorte inversa afetou o contencioso
de mesmo gênero entre o Brasil e a Argentina, travado na década de
1970 e muito mal administrado pelas diplomacias, de tal modo que
nenhum projeto conjunto de cooperação tornou-se viável até o início
do século XXI.
Como já se observou em parágrafo anterior, o governo de
Frondizi imprimiu à política exterior um caráter pragmático que
rompeu de vez com os sonhos peronistas. Seus princípios básicos eram
a posição ideológica ocidental, sem sacrifício da autonomia de decisão

6Mário de Ascenção Palmério a João Augusto de Araújo Castro, ofício, Assunção, 26 nov.
1963, AHIBR, caixa 6.

214
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

e sem hipoteca dos interesses nacionais; cooperação com todos os povos


para manutenção da paz; reforço das relações com os Estados Unidos e
demais Estados americanos com o objetivo de promover o desenvol
vimento interno; estreitamento das relações políticas, econômicas e
culturais com o Brasil, como se correspondessem a uma “quarta posição”;
expansão das pautas e mercados do comércio exterior; cooperação
econômica norte-sul; criação do mercado comum latino-americano; e
defesa da democracia na América.
Esses princípios da política exterior frondiziana fluíram por
meio da Operação Pan-Americana concertada pessoalmente entre os
presidentes de Brasil e Argentina, Kubitschek e Frondizi, em 1958, e
afinaram-se ainda mais no encontro de Uruguaiana, em 1961, entre
Frondizi e Quadros. Correspondiam aos princípios da Política Externa
Independente então formulados no Brasil por Afonso Arinos de Melo
Franco e San Tiago Dantas e implementados durante os governos de
Quadros e Goulart, entre 1961 e 1964. No encontro de Uruguaiana,
em abril de 1961, negociou-se um acordo de amizade e consulta,
convergindo os dois chefes de Estado em marchar unidos nos órgãos
multilaterais, diante da questão cubana e para alcançar a paz entre Peru
e Equador. Medidas de promoção do comércio bilateral e do
intercâmbio cultural e científico foram concertadas. As relações de
cooperação entre Brasil e Argentina assumiam em Uruguaiana a feição
de alternativa, tanto à solução revolucionária cubana para a vida política
e o desenvolvimento da América Latina quanto à solução de dominação
econômica e ideológica norte-americana, no contexto da Guerra Fria7.
As relações entre Brasil e Argentina, nas circunstâncias dos
governos Kubitschek, Quadros e Goulart, por um lado, e Frondizi,
por outro, afinadas política e ideologicamente, voltaram-se, portanto,
para a realização de interesses mútuos, políticos e econômicos. No
primeiro plano, situava-se a implementação efetiva do Acordo de
Uruguaiana, primeiro passo da unidade latino-americana, em razão da

7 Beired, José Luis B. La experiencia histórica del Brasil y de la Argentina (1955-1964),


p.293-310; Di Tella, Torcuato. La politica en Brasil y en Argentina entre 1955 y 1966. p.
311-28 In: Llados, Guimarães (1999).

215
AMADO LUIZ CERVO

posição relativa e absoluta dos dois países no concerto interamericano


e mesmo porque a simples descoordenação entre suas políticas
constituía fator de debilitamento regional. Daí a necessidade de
intensificar o intercâmbio cultural e científico, criar as casas respectivas
no outro país, firmar um convênio turístico, conjugar a ação política
para os projetos que tratassem do aproveitamento dos recursos da bacia
do Prata, neutralizar a disputa por esferas de influência no Uruguai,
Paraguai e Bolívia e, enfim, conformar as posições diante de Cuba.
No plano econômico, a realização de interesses sugeria aumentar os fluxos
do comércio bilateral de modo a fortalecer as duas economias, vincular
estreitamente as duas economias, removendo óbices psicológicos
resultantes de rivalidades anacrônicas, concertar posição comum diante
das restrições do Mercado Comum Europeu às importações agrícolas,
equacionar o comércio bilateral do trigo, do café, dos manufaturados
e do petróleo, de modo a resultar o equilíbrio do comércio e a corresponder
ao estádio de evolução das economias nacionais.
Se esta política de entendimento e cooperação entre o Brasil e
Argentina, inaugurada por Kubitschek e Frondizi, não sofria restrições
no Brasil, o mesmo não se pode dizer da Argentina. O governo e a
chancelaria acompanhavam-na sem restrições, mas o mesmo não ocorria
com as forças armadas, que exerciam verdadeira tutela sobre as decisões
de Frondizi e que consideravam a Política Externa Independente do
Brasil algo radical, próximo do neutralismo nasseriano8. Ao derrubar
o presidente Frondizi, após as eleições provinciais de 18 de março de
1962 que deram vitória aos peronistas, e ao instalar na presidência da
República o presidente do Senado, José María Guido, os militares
argentinos apoderaram-se concretamente do poder. Não alcançara
Frondizi, embora fosse sua intenção, conduzir com suficiente equilíbrio
sua política pendular entre as forças conservadoras tradicionais e as
massas operárias ainda politizadas pelo justicialismo. As forças armadas,
que nunca haviam confiado em seu governo e desaprovavam sua política
interna e internacional, diante do resultado das eleições, da posição
assumida pela chancelaria durante e após a Conferência de Punta del

8 Narto Lanza ao MRE, relatório, Buenos Aires, 1º fev. 1962, AHIBR, caixa 32.

216
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Este com relação ao governo de Fidel Castro e diante do temor de


uma volta ao passado, intervieram brutalmente na vida política9.
Romperia a Argentina com apolíticade franco entendimento e cooperação
com o Brasil, mola mestra da união sul-americana, ou encamparia o
papel de obstrutora dos interesses da outra parte por meio das zonas de
influência a firmar, papel que coube ao Itamaraty desempenhar entre
1945 e 1956?
As sucessivas quarteladas na América Latina estavam, com efeito,
contagiando as políticas exteriores dos diferentes países, como vasos-
comunicantes, colocando em xeque a doutrina da não-intervenção.
Um governo com culpa sufocada, como era o argentino de Guido,
exultava com males alheios, como o golpe militar que depôs o governo
de Manuel Prado no Peru, golpe cuja brutalidade aliviava a consciência
dos militares portenhos que mantinham uma ilegalidade menos
acintosa. Mas a situação na Argentina permanecia explosiva e qualquer
mudança nesse país afetaria as relações interamericanas em seu conjunto.
Quem negaria que a falsa democracia argentina, com os militares a
governar por trás das aparências constitucionais, não houvesse
influenciado o meio castrense peruano, que implantou uma junta de
governo diretamente militar e que, ao reverso, como vasos-comunicantes,
a ditadura peruana não encorajasse os militares argentinos a fazer o
mesmo? Assim raciocinava, com preocupação, o chefe da missão
brasileira em Buenos Aires. Toda a diplomacia americana estava
perplexa, sem bem saber como reagir diante dos golpes de força que
feriam de morte a democracia no continente. A maior parte dos
governos do hemisfério manifestou aberta repulsa pela deposição de
Prado e os Estados Unidos suspenderam a ajuda econômica ao Peru.
O governo argentino, por conveniência, não se pronunciou, já que
por golpe havia deposto Frondizi. Quando o governo venezuelano
solicitou na OEA a convocação de uma reunião de consulta para
considerar o caso peruano. Com tal atitude deixou constrangidos tanto
o governo argentino, quanto o norte-americano.Quando os militares
argentinos depuseram Frondizi, John F. Kennedye seu secretário Dean

9 Legação do Brasil a Renato Archer, ofício, Buenos Aires, 11 abr. 1962, AHIBR, caixa 32.

217
AMADO LUIZ CERVO

Rusk não só não suspenderam a ajuda econômica como apadrinharam


o regime falsamente democrático. Com que moral aplicariam uma
política diversa no caso do Peru, quando tivessem que acompanhar as
decisões de uma reunião de consulta? Melhor seria, para ambos, que
não prosperasse a iniciativa venezuelana10.
O comércio entre o Brasil e a Argentina, em razão de
dificuldades políticas de relacionamento bilateral que se reproduziam,
fluía abaixo das potencialidades, como reconheciam os negociadores
do novo acordo do trigo, firmado em novembro de 1964, em virtude
do qual prosseguia o intercâmbio de produtos primários tradicionais11.
Quando o golpe militar de março de 1964 no Brasil alinhou o
país à ideologia ocidentalista e ao contexto da Guerra Fria, o entendimento
com o Paraguai de Stroessner sobre o aproveitamento das Sete Quedas
não ocorreu como supôs o embaixador Palmério. Em 1966, o governo
paraguaio ostentava publicamente, como se quisesse referi-lo como
modelo, o projeto de aproveitamento dos saltos de Apipé que resultou
de estudos bilaterais feitos por Comissão Mista Paraguaio-Argentina.
Dava a entender que havia clara diferença entre a posição argentina, de
colaboração no aproveitamento da energia de Apipé, e a brasileira,
monopolística e esbulhadora de territórios, no caso de Sete Quedas.
O governo de Stroessner havia evoluído diante do aproveitamento do
rio, adotando de forma intransigente aquela tese do Partido Liberal.
Quando, em 1962, esse partido de oposição acusou Stroessner de alta
traição por não reclamar direito de soberania sobre Sete Quedas,
desencadeou a mudança de atitude, percebendo o presidente as vantagens
que poderia tirar para firmar sua posição dentro e fora do país, ao
sustentar com intransigência a tese liberal. Encampou-a como desiderato
nacional, mas não recolheu junto à opinião argentina o entusiasmo
esperado. O Itamaraty solicitou das missões diplomáticas um
levantamento dos reflexos da tese paraguaia na imprensa e na opinião.
As respostas foram dispersas. Na Argentina, por exemplo, apenas a

10 Legação do Brasil a Afonso Arinos de Melo Franco, ofício, Buenos Aires, 24 jul. 1962,
AHIBR, caixa 32. Moniz Bandeira (1993); Black (1986).
11 Arnaldo de Vasconcelos ao MRE, ofício, Buenos Aires, 18 nov. 1964, AHIBR, caixa 33.

218
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

pequena imprensa peronista apoiava a reivindicação paraguaia,


permanecendo a imprensa de modo geral cautelosa. Algumas revistas,
entretanto, alertavam as forças armadas do país para não permanecerem
inertes diante de um projeto que poderia afetar o regime das águas e a
navegação do ribeirinho inferior12.
Havia uma corrente de opinião favorável ao golpe de estado
para derrubar o governo radical do presidente Arturo Illia, corrente
que se aproveitou do caso para provocar as forças armadas do país.
Enquanto se mantinha Illia no poder, a orientação do Palácio San Martín
correspondia às idéias de Frondizi quanto às relações regionais, que
deveriam pautar-se pelo entendimento político e pela cooperação.
Supunha-se, então, que a futura integração regional deveria ser preparada
com a implantação de uma infra-estrutura física de transportes e
comunicações ligando os países do Cone Sul: Uruguai, Argentina,
Paraguai, Bolívia e Chile. Esse pressuposto da administração radical
tinha preponderância na política regional e também envolvia os projetos
hidrelétricos e da navegação dos rios. Inúmeros atos dispondo sobre
ferrovias, rodovias, pontes, navegação, drenagem, utilização de portos
foram concluídos entre o governo de Illia e os governos do Paraguai,
Bolívia e Brasil com o intuito de levar a termo obras integradas de infra-
estrutura para os transportes regionais. “Conforme ficou evidenciado
(escreveu, em 1966, o embaixador brasileiro em Buenos Aires Décio de
Moura) a política de transportes da Argentina, em relação a seus três
vizinhos citados, é um corpo inteiriço e indissociável”. Tal espírito
então reinante preparava as negociações em torno do tratado de integração
física da bacia do Prata que se iniciaram em 1967. Em tais condições,
sem uma mudança radical de governo, o que aliás logo sucederia na
Argentina, a postura intrigante do Partido Liberal do Paraguai soava
como uma aberração política, como também a proposta inicial do
Ministério de Minas e Energia do Brasil, que ignorava as repercussões
em outros países do aproveitamento de Sete Quedas13.

12 Décio de Moura a Juracy Magalhães, ofícios, Buenos Aires, 26 jan. e 15 mar. 1966,
AHIBR, caixa 33.
13 Idem, ofício, Buenos Aires, 11 maio 1966, AHIBR, caixa 10.

219
AMADO LUIZ CERVO

Sem aparelhar a infra-estrutura física de modernos meios de


transporte, conectando rodovias, ferrovias ehidrovias, a expansão dos
negócios regionais, particularmente do comércio, estaria comprometida.
O comércio entre o Brasil e a Argentina reduziu-se a partir de 1958,
ano em que, nos dois sentidos, ultrapassou os duzentos milhões de
dólares. Somente em 1965 recuperou aqueles níveis, atingindo 269
milhões, o que acendeu as esperanças de um intercâmbio futuro em
escala crescente, ao abrigo do Tratado de Montevidéu que criou a Alalc.
Essas expectativas resultavam da modificação da pauta brasileira de
exportação para a Argentina e da maior venda do trigo para o Brasil.
Entre 1953 e 1963, compunha-se a pauta brasileira de produtos
tradicionais (café, madeira, cacau e mate) na proporção de 70%, caindo
então o peso relativo desses produtos a 41% em 1965,comavendade
industrializados14.
Em dezembro de 1966, o presidente boliviano René Barrientos
visitou seu colega Juan Carlos Onganía em Buenos Aires com o objetivo
de acelerar a obra de integração viária com o Prata, de que dependia o
incremento do comércio regional no seio da Alalc e o próprio
desenvolvimento boliviano. A cooperação que buscava na Argentina
visava a incorporação efetiva da Bolívia ao sistema de navegação do
Prata como também a ligação de suas ferrovias à rede argentina, como
condição para executar os projetos bilaterais de complementação
econômica nos campos de siderurgia, petróleo e petroquímica15.
Em fevereiro de 1967, em decorrência da visão integracionista
moderna do governo argentino, os cinco países (Brasil, Argentina,
Paraguai, Uruguai e Bolívia) compareceram à I Reunião dos Chanceleres
da Bacia do Prata, “um passo certo para a complementação racional de
ideais, objetivos e meios para superar os obstáculos que se opõem a
uma efetiva assistência que dê impulso ao desenvolvimento”, na
avaliação do periódico portenho Clarin. A realização de um programa
multinacional com espírito integracionista era vista como passo no
sentido de promover o desenvolvimento de cada uma das economias

14 Legação do Brasil ao MRE, relatório, Buenos Aires, 7 jun. 1966, AHIBR, caixa 33.
15Décio de Moura a Juracy Magalhães, ofício, Buenos Aires,28 dez. 1966, AHIBR, caixa 33.

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

nacionais que disporia de infra-estrutura física e energética complementar.


A imprensa portenha desconhecia as negociações que haviam precedido
a reunião. Manifestou certa obsessão contra a presença do Brasil no
Prata, exceto quanto ao Clarin, que se diferenciava das manifestações
nacionalistas, porque estava imbuído de espírito desenvolvimentista.
Era geral a preocupação acerca da divisão internacional do trabalho e o
receio de ver o processo de integração agravar a desigualdade entre o
Brasil industrial e a Argentina fornecedora de alimentos e matérias-
primas. Aimprensa reivindicava aparticipação argentina nos projetos
hidrelétricos de Sete Quedas em razão de os trabalhos poderem afetar
o regime do rio e alegando, corretamente, que o Brasil invocara a
Declaração de Montevidéu de 1933 para ser consultado quando dos
estudos relativos ao aproveitamento de Salto Grande. Elogiava o
chanceler Costa Mendez por haver englobado Sete Quedas no
complexo dos temas da bacia do Prata. Mas a verdade não era bem a
que aparecia, porquanto a delegação brasileira esvaziou de conteúdo a
exigência argentina de trocar informações e consultar-se reciprocamente
sobre a realização de obras hidráulicas que pudessem afetar os demais
países, exigência essa que foi eliminada na declaração final da I Reunião
dos Chanceleres da Bacia do Prata16. Assim mesmo, parecia estar-se
em condições mais favoráveis à negociação da integração física do que
ao tempo em que ela era proposta por Perón ou Pérez Jiménez.
Onganía dera, pois, continuidade à política de Illia, projetando
a imagem do chanceler Costa Mendez, artífice da Reunião dos
Chanceleres da Bacia do Prata, onde se negociava a integração física
regional, e promotor depois dela de inúmeros estudos que visavam
seu desenvolvimento. O Brasil via com bons olhos e confirmou seu
interesse pela cooperação com a visita a Buenos Aires do presidente
eleito, Artur da Costa e Silva17. A extensão da jurisdição argentina
sobre as 200 milhas do mar territorial decretada então provocou
dificuldades por parte do Brasil, que se opunha a seu reconhecimento,

16 Carlos dos Santos Veras a José Magalhães Pinto, ofício, Buenos Aires, 16 mar. 1967,
AHIBR, caixa 34.
17 Décio de Moura a José de Magalhães Pinto, ofício, Buenos Aires, 3 maio 1967, AHIBR,
caixa 34.

221
AMADO LUIZ CERVO

mesmo recebendo em troca isenção de taxas previstas na legislação


para a pesca18.
Ao lado dos mecanismos instituídos pela Reunião dos
Chanceleres da Bacia do Prata com o objetivo de dar operacionalidade
às iniciativas de cooperação, também operavam aqueles inerentes à Alalc,
os primeiros destinados aos empreendimentos de infra-estrutura, os
segundos à promoção do comércio. Nas reuniões da Comissão Especial
Brasileiro-Argentina de Coordenação, decorrente do Tratado de
Montevidéu, os representantes brasileiros esforçavam-se por vender
produtos manufaturados à Argentina, como, aliás, aos demais países
da América Latina. Mas estavam abertos às oportunidades de comple
mentação dos processos produtivos em determinados setores da
indústria, como a siderurgia, a construção naval, os equipamentos
ferroviários etc. e, para tanto, apelava-se de lado a lado para aparticipação
do empresariado privado nas negociações19. Esse espírito de
entendimento facilitou as negociações do Tratado do México relativo
à proscrição de armas nucleares na América Latina, uma resposta da
região ao Tratado de não- Proliferação Nuclear proposto pelas duas
superpotências e considerado então obstrutor da pesquisa científica e
do uso econômico da energia atômica20.
O mais grave problema a repercutir nas negociações e nos
projetos discutidos pelos países da bacia do Prata era a tese segundo a
qual inaugurava-se uma tendência de comércio desigual, aparecendo o
Brasil como exportador de manufaturados e os demais países como
fornecedores de matérias-primas. As exportações de manufaturados
argentinos para o Brasil passaram de sete para dez milhões de dólares
entre 1963 e 1967, enquanto o fluxo inverso ascendeu de um para 32
milhões.
O editorialista do Clarin, Oscar Camilión, descrevia com
freqüência os inconvenientes estruturais desse fluxo comercial e acusava
as autoridades argentinas de terem aceito um esquema de trocas

18 Idem, ofício, Buenos Aires, 15 maio 1967, AHIBR, caixa 34.


19 Legação do Brasil ao MRE., relatório, Buenos Aires, 1º dez. 1967, AHIBR, caixa 34.
20 Décio de Moura a José de Magalhães Pinto, ofício, Buenos Aires, 17 maio 1967, AHIBR,
caixa 34.

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

qualitativamente desfavorável, o que afetava as negociações no seio da


Comissão Especial da Alalc, retardando os acordos. A Reunião dos
Chanceleres da Bacia do Prata, realizada em Santa Cruz de la Sierra
nos meados de 1968, dividiu a opinião platina, alguns órgãos de
imprensa como LaNación a sufragar, outros, como Clarin, a rejeitar a
própria filosofia do desenvolvimento integrado da região, em bases
multinacionais, por ver nessa tendência o caminho da preservação da
desigualdade de estádios de desenvolvimento entre as nações. Clarin
apoiava o pensamento desenvolvimentista de linhagem frondiziana,
porém não sua dimensão integracionista, em editorial de 31 de maio
de 1968:

estamos nos prolegômenos de uma operação de grande alcance


em prol da divisão internacional do trabalho, máxima aspiração
precisamente da burocracia internacional que destinou a
Argentina à função de continuar uma feliz era pastoril provendo
alimentos ao resto do mundo.

Tanto o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)


quanto o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
manifestaram interesse em apoiar estudos sobre oportunidades de ação
integradora e em contribuir financeiramente para execução de projetos,
caso os recursos fossem solicitados pelos governos. No embalo desse
movimento de difícil condução, as chancelarias formulavam seus
anteprojetos para um tratado de desenvolvimento integrado da bacia
do Prata21. A iniciativa concreta desse movimento coube à Argentina,
que convocou para Buenos Aires a I Reunião de Chanceleres dos Países
da Bacia do Prata, realizada em 27 de fevereiro de 1967, ocasião em
que uma declaração conjunta determinou a constituição do Comitê
Intergovernamental Coordenador (CIC), integrado por representantes
de Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai, com sede em Buenos
Aires. AII Reunião de Chanceleres (Santa Cruz de la Sierra, 18 a 20 de
maio de 1968) aprovou seu estatuto e a I Reunião Extraordinária de

21 Legação do Brasil ao MRE, Buenos Aires, ofícios e relatórios de 15, 21 e 26 mar., 15 maio,
6 e 27 jun., 12 jul., 13 set., 4 out. e 26 dez. 1968 , AHIBR, caixa 34.

223
AMADO LUIZ CERVO

Chanceleres, realizada em Brasília, a 23 de abril de 1969, firmou o


Tratado da Bacia do Prata, em que se dispôs que o CIC:
é reconhecido como o órgão permanente da bacia, encarregado
de promover, coordenar e acompanhar o andamento das ações
multinacionais, que tenham por objeto o desenvolvimento
integrado da bacia do Prata, e da assistência técnica e financeira
que promova com o apoio dos organismos internacionais que
estime convenientes, bem como de executar as decisões que
adotem os ministros das Relações Exteriores.

Desde 1967, portanto, os chanceleres da bacia do Pratareuniam-


se, em princípio anualmente, repassando à responsabilidade executiva
do CIC, desde que criado, as resoluções destinadas a promover,
mediante ações coordenadas, a integração física da região22.
Ao deixar seu posto em Buenos Aires, o embaixador brasileiro
Pio Corrêa produziu, emjaneiro de 1969, um relatório sobre as relações
entre os dois países, analisando circunstancialmente as dificuldades e
indicando caminhos para construção de uma parceria estratégica. A
tese que defendia o diplomata brasileiro fundava-se na necessidade de
entendimento prévio entre Brasil e Argentina para o êxito de qualquer
processo de integração regional. Com efeito, argumentava, sendo elas
as duas maiores potências da América do Sul, sua influência política
seria tal que o entendimento mútuo asseguraria via de regra a maioria
em qualquer foro decisório regional. Disso resultaria a necessidade não
só de se manter o entendimento cordial mas de se criar um sistema de
consulta permanente e de concertação política. Os regimes implantados
em 1964 no Brasil e 1966 na Argentina convergiam quanto a convicções
ideológicas e teorias sócio-econômicas: repudiaram a 3ª Posição, o
neutralismo dosnão alinhados e fizeram uma opção clara pelo Ocidente
liberal. Essas afinidades que aconselhavam a implantação do sistema
de consultas, eram neutralizadas por forças negativas que agiam nos
dois lados. No Brasil, a tendência de evitar uma associação íntima
com a Argentina em razão de seu regime militar ditatorial; na Argentina,

22 Cláudio Garcia de Souza ao MRE, ofício, Buenos Aires, 5 set. 1978, AHIBR, caixa 159.

224
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

o trauma psicológico de país mais atrasado economicamente, receoso de


se tornar caudatário ou parente pobre. Essas determinações ou
preconceitos compeliam as sociedades para relações frias e formais,
com conseqüências negativas para as relações econômicas e comerciais.
A Argentina era o terceiro maior comprador do Brasil, após
Estados Unidos e Alemanha, e o primeiro comprador de manufaturados.
Mas a cada ano, de forma constrangedora, o Brasil lhe impunha negociar
a quota de trigo destinada a seu mercado como forma de pressão para
ampliar a venda de manufaturados. Resultou desse mecanismo irritante
a crítica ao que se convencionou chamar de relação trigo-aço, expressão
da má qualidade do comércio bilateral. Convinha, pois, alcançar uma
reestruturação desse comércio em novas bases. A V Reunião da
Comissão Especial Brasileiro-Argentina de Coordenação realizada no
Rio de Janeiro entre 26 de novembro e 9 de dezembro de 1968, de
certo modo, corrigiu alguns defeitos acumulados. O Brasil programou
a compra anual de um milhão de toneladas de trigo no período de
1969-1971 e a Argentina comprometeu-se com a compra de telas de
juta. Mais relevante foi o compromisso assumido por ambas as partes
de adquirir no outro país 30% de suas importações de produtos
siderúrgicos, consoante as características da produção. Inúmeras outras
medidas foram sugeridas como conveniências para desentravar o
comércio bilateral de obstáculos tradicionais. Um convênio de créditos
recíprocos foi concluído logo depois, entre os respectivos bancos
centrais.
Não obstante esses resultados, Pio Corrêa considerava ao
término da década de 1960 os entendimentos muito aquém das
exigências concretas para situar as relações econômicas ao nível de suas
potencialidades:
Para o Brasil e para a Argentina, existe a necessidade
imperiosa de uma complementação industrial mútua: somente
assim poderão os dois países chegar a economias de escala,
condição indispensável para atingir a um desenvolvimento
econômico de caráter genuinamente industrial e pós-industrial.
Não há outro caminho para chegar a isso, senão a articulação
dos dois mercados em um mercado comum sub-regional,

225
AMADO LUIZ CERVO

mediante o planejamento em conjunto da política industrial


dos dois países, de modo a assegurar às respectivas indústrias, na
fase sobretudo de amortização do investimento inicial, base de
mercado que proporcione condições econômicas de operação,
competitivas com as similares de outros países.

As oposições a essa política sensata de integração e desenvol


vimento provinham, em ambos os países, do nacionalismo autárcico
do setor público e do nacionalismo protecionista do setor privado.
Daí a necessidade de empreender longo e metódico esforço de remoção
desses obstáculos à integração pelas diplomacias, em negociações de
alto nível, de preferência longe do debate público que sempre acaba
por influir e enrijecer as posições. O foro das reuniões dos chanceleres
da bacia do Prata, bem encaminhado nas reuniões de Buenos Aires de
1967 e de Santa Cruz de la Sierra de 1968, parecia adequado. Paraguai,
Bolívia e Uruguai, três integrantes da bacia sem dimensão de mercado,
acompanhariam Argentina e Brasil, caso estes levassem à frente o projeto
racional de integração econômica para o desenvolvimento. Os
investimentos externos fluiriam em tais condições.
O Brasil e a Argentina (conclui Pio Corrêa sua análise) estão
naturalmente designados para a tarefa pioneira dessa elaboração,
que supõe um entendimento lúcido entre ambos para uma política
orgânica da bacia do Prata. Daí resulta o maior e mais nobre desafio
que confronta a diplomacia brasileira desde o Império.

O erro estratégico brasileiro seria o de recusar esse desafio e de


acantonar-se em uma política de isolamento, omissão ou obstrução
que comprometeria o desenvolvimento do Cone Sul durante décadas23.
Ao término dos anos 60, apesar da existência de regimes
militares em ambos ospaíses, a diplomacia brasileira recuperou o espírito
de presidentes democratas como Kubitschek, Frondizi, Quadros e
Goulart, espírito que ascendeu ao cenário da política regional por meio
da Operação Pan-Americana e do Acordo de Uruguaiana. Havia,
23M. Pio Corrêa a José de Magalhães Pinto, ofício, Buenos Aires, 27 jan. 1969, AHIBR,
caixa 35.

226
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

portanto, cursos profundos na política regional dos países do Cone


Sul, que afloravam e submergiam, por sobre governos e regimes.
Indicavam a existência de alternativas excludentes de política regional:
a alternativa da rivalidade, das zonas de influência e da diplomacia da
obstrução e a alternativa da negociação de interesses, da colaboração
bilateral e coletiva e da integração regional aberta, ambas contando com
defensores civis e militares. E com diplomatas de matiz ideológico
contraditório, como serviram de exemplo os embaixadores brasileiros
em Buenos Aires, João Baptista Luzardo, o nacionalista, e Pio Corrêa,
o anticomunista, dois entusiastas da cooperação entre Brasil e Argentina.
Carece, pois, de fundamento a tese segundo a qual as relações
interamericanas balizaram-se por perfis contraditórios emanados ora
do regime democrático, ora do ditatorial. As relações internacionais
são mais complexas e freqüentemente escondem forças profundas
capazes de se impor ao processo decisório e de neutralizar, em certa
medida, a natureza dos regimes políticos. A diplomacia brasileira
forneceu sólido exemplo disso, ao implementar durante o regime
militar, entre 1967 e 1979, uma estratégia oriunda de princípios e
valores cultivados por governos democráticos anteriores, traçada por
estadistas de envergadura24. Embora com menos continuidade e
coerência, a política exterior da Argentina também ostentou linhas de
conduta comum a regimes democráticos, populistas e militares, por
sobre a turbulência da vida política nacional25. Careceria por certo de
fundamento, por outro lado, uma tese que não reconhecesse à natureza
dos regimes políticos importante influência sobre a conduta exterior
dos Estados. Assim, o papel do desenvolvimento como vetor das
políticas exteriores foi mantido por distintos regimes políticos na
América Latina, na segunda metade do século XX, mas democracia e
ditadura reagiram de forma diferente às coerções que a Guerra Fria
impôs à região.

24 Cervo, Amado Luiz (org). O desafio internacional; a política exterior do Brasil de 1930 a
nossos dias. Brasília: Edunb, 1994; Cervo, Bueno ( 1992); Albuquerque (1996); Vizentini
(1998); Vizentini (1995).
25 Rapoport (1997); Lladós, Guimarães (1999); Lanús, Juan Archibaldo. DeChapultepecal
Beagle; política exterior argentina, 1945-1980. Buenos Aires: Emecé, 1984, 2 v; Jalabe(1996).

227
AMADO LUIZ CERVO

O sucessor de Pio Corrêa, futuro chanceler Azeredo da Silveira,


chegou cauteloso a Buenos Aires, em 1969. Apresentou uma proposta
para reformar o precário Centro de Estudos Brasileiros com a “aplicação
do princípio de que a difusão cultural e a cooperação intelectual devem
ser instrumentos auxiliares e paralelos de uma política internacional
global”26. Deu ênfase ao papel da imagem positiva do outro em política
internacional. Considerou-a oportuna, no momento em que o inter
câmbio comercial vinha sendo desobstruído pela Comissão Especial
Brasileiro-Argentina de Coordenação, cujas reuniões anuais tornaram-
se regulares desde a criação da Alalc. As expectativas e as recomendações
das delegações de ambos os países coincidiam quanto à possibilidade
de ampliação dos fluxos de comércio e de preparação para um sistema
de integração mais avançado, tanto mais que ocupavam-se elas
igualmente dos transportes e do turismo. A fé na Alalc como etapa
prévia de futura integração mantinha-se viva27.
Uma proposta de convênio entre a Eletrobrás e a Agua Y
Energia Electrica negociada, em maio de 1969, para o estudo conjunto
do trecho internacional dos rios Iguaçu e Uruguai e seus afluentes trouxe
à ordem do dia a divergência entre os dois governos quanto ao princípio
de consulta aos ribeirinhos inferiores que a Argentina queria consagrar28.
A troca de informações na área militar, entre as chancelarias
latino-americanas, comprovava estar em elaboração, no fim dos anos
60, a nova doutrina de segurança, quejá ensaiava seusprimeirospassos.
O ambiente da década fora favorável à emergência de um pensamento
criativo em matéria de segurança. Desejava-se, então desvincular a
segurança de sua forma coletiva, atrelada à Guerra Fria e à dependência
dos Estados Unidos, que nenhum dividendo trouxera à América Latina,
fazendo emergir seu nexo com a economia e o desenvolvimento
nacional. Encaminhavam-se os governos em direção à nacionalização
da segurança, que compreendia o domínio próprio de tecnologias em
setores estratégicos, demandado tanto pela produção de meios de

26 Azeredo da Silveira a José de Magalhães Pinto, ofício, Buenos Aires, 2 jul. 1969, AHIBR,
caixa 35.
27 Idem, ofício, Buenos Aires, 23 out. 1969, AHIBR, caixa 35
28 Ibidem, ofício, Buenos Aires, 28 maio 1969, AHIBR, caixa 35

228
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

dissuasão e defesa quanto pela modernização do processo produtivo


como um todo. Azeredo da Silveira acompanhava desde Buenos Aires
a mudança que se processava na Argentina.
A Experiencia Navidad, realizada com êxito, constou do
lançamento de três foguetes – Castor 00, Rigel e Canopus II-Bio II –
com que a Argentina, aparentemente, inseria-se “num grupo extrema
mente restrito de Estados que podem apresentar resultados expressivos
em provas espaciais”, já que praticamente tudo fora realizado por
técnicos argentinos29. O Plano Europa de modernização das Forças
Armadas da Argentina era mais revelador. Esboçado em 1967 para
modernizar o Exército, destinava-se a prover o país de meios de segurança,
em um esforço conjugado entre universidade, empresa privada e governo.
Essa estratégia não era uma invenção, porquanto os Estados Unidos a
vinham implementando há muitos anos. Para a América Latina,
contudo, havia algo criativo, porquanto ela vinha dar suporte ao projeto
de desenvolvimento econômico e tecnológico, vinculando os setores
civil e militar no sistema produtivo. As etapas de execução do plano
previam a importação inicial de armamentos e a posterior produção
dos mesmos mediante associação interna do conhecimento, daprodução
e das necessidades de defesa para as três forças, Exército, Marinha e
Aeronáutica30.

5.1.2. O norte da América do Sul: o isolacionismo venezuelano

Nos anos 60, como antes, a conjuntura ao norte do continente


sul-americano punha em marcha fatores distintos daqueles do Cone
Sul para a evolução das relações interamericanas. Diferentemente da
Argentina de Perón e Frondizi, a Venezuela de Romulo Betancourt e
Rafael Caldera relutava em incorporar-se à Alalc e opunha-se a qualquer
projeto de integração sub-regional. Não nutria simpatias pelo terceiro-
mundismo. Seus interesses econômicos condicionavam de duas formas

29 Azeredo da Silveira a Mario Gibson Barbosa, ofício, Buenos Aires, 30 dez. 1969, AHIBR,
caixa 35.
30 Idem, relatório, Buenos Aires, março. 1969, caixa 1.

229
AMADO LUIZ CERVO

a política exterior, incumbindo-a, por um lado, de lutar pela manutenção


da quota de petróleo no mercado norte-americano e, por outro, de
defender o protecionismo e as restrições às importações em nome da
necessária industrialização interna. Indispunha-se, por isso, com os
demais países do continente que buscavam seu mercado em troca de
petróleo e que, não satisfeitos, dirigiam-se a outros fornecedores, países
árabes e União Soviética.
Para compensar esse isolacionismo comercial e econômico, a
diplomacia venezuelana acionava a doutrina Betancourt, segundo a
qual sanções haveriam de ser aplicadas aos regimes que atentassem contra
a legalidade das instituições, os direitos humanos e a democracia. Por
força de tais convicções, o governo venezuelano abriu conflito tanto
com os regimes de esquerda, como Cuba de Fidel, quanto com as
ditaduras de direita, do Caribe, da Argentina, do Peru, do Brasil, entre
outras. Essas contradições políticas encantonavam, ao final, a ação
externa venezuelana em horizonte limitado, cujo espectro estendia-se
ao norte pelaAméricaCentraleCaribe, ao sul pela Guiana, para definhar
sobre os demais países bolivarianos.
A ditadura de Pérez Jiménez foi derrocada pela revolução de
23 dejaneirode 1958, época em que a Venezuela dava a falsa impressão
de ser um dos países mais ricos do mundo, graças à extração e à
exportação de petróleo. Na realidade, um dispendioso programa de
obras públicas consumira as grandes receitas geradas pelo incremento
das exportações resultante da crise de Suez. O déficit fiscal e do
orçamento acentuou-se depois, ao tempo em que uma superoferta de
petróleo criava dificuldades para as exportações, afugentava os
investimentos externos e provocava até mesmo a saída de capitais. Ao
assumir novamente a presidência, a 13 de fevereiro de 1959, Romulo
Betancourt anunciou a política de proteção alfandegária à indústria
nacional, garantiu as concessões já feitas para a exploração do petróleo,
mas reservou para a empresa estatal nacional toda e qualquer concessão
futura concernente ao petróleo e aos minérios.
Betancourt governava o país com base em coalizão que tinha
por centro o Partido da Ação Democrática e o apoio do Partido Social
Cristão. O da Ação Democrática cindiu-se, todavia, contribuindo, com

230
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

correntes de oposição, para um clima de constante agitação, do qual


foi exemplo o atentado que sofreu o presidente em junho de 1960,
com apoio da ditadura de São Domingos.
A conduta internacional da Venezuela era influenciada por três
fatores: a dependência das exportações de petróleo, cerca de 90% do
total; a dependência dos Estados Unidos, principal investidor, cliente e
fornecedor; e a repercussão interna dos acontecimentos políticos na
áreado Caribe. Osobjetivosdaação externafluíam naturalmente desses
fatores: conservar os mercados e defender o preço do petróleo; preservar
e desenvolver suas relações com os Estados Unidos; impedir o
estabelecimento de governos hostis no Caribe e sua interferência em
assuntos internos, mobilizando para tal fim os governos democráticos
das Américas. A filiação conceitual da política exterior punha em
evidência a defesa do sistema representativo e da autodeterminação
dos povos, a repulsa à ação comunista promovida por guerrilheiros
com apoio sino-soviético eaperspectiva de converter em responsabilidade
internacional coletiva dos Estados americanos a proteção aos direitos
humanos e à democracia representativa. Nesse sentido, esforçava-se
por provocar sanções da OEA tanto contra a ditadura de Rafael Trujillo
na República Dominicana, de onde partidários de Pérez Jiménez
partiam para desestabilizar a democracia venezuelana, quanto contra o
regime cubano, de onde vinham doutrinas e agentes de subversão.
No início dos anos 60, a Venezuela mantinha-se fora do Gatt
e da Alalc porque lhe repugnava ter que fazer concessões aduaneiras
generalizadas, preferindo outorgá-las por tratados bilaterais, aliás pouco
numerosos. Na origem dessapolítica econômica internacional estava
o receio de que o liberalismo comprometesse seu projeto nacional de
industrialização31. Gestionou junto aos países árabes, entretanto, a
Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep ), com a
finalidade de defender o preço desse combustível e de ganhar mais pela
mesma quantidade exportada.
A Opep não foi de grande valia à Venezuela. Seus objetivos
foram comprometidos pelo excesso de oferta no mercado internacional

31 AntônioCorrêadoLagoaSanTiagoDantas, relatório, Caracas, 29 dez. 1961,AHIBR, caixa41.


Legação do Brasil ao MRE, ofícios, Caracas, 21 jul. e 31 dez. 1960, AHIBR, caixa 41.

231
AMADO LUIZ CERVO

e pela disposição dos países americanos de não aceitar a política de


quotas de importação por origem, estimulando, assim, a concorrência
internacional do lado da oferta. Ademais, os países da América Latina
estavam dispostos a comprar de quem lhes comprasse, mas a Venezuela
fechava seu mercado à importação sobretudo de manufaturados. Esse
entrave parecia intransponível nas relações comerciais com o Brasil, o
segundo importador de petróleo venezuelano nas Américas. Sendo
originalmente o fornecedor quase exclusivo, em 1960 a Venezuela já
participava com menos de 50% das importações brasileiras de petróleo
e derivados. Do lado brasileiro, havia boa disposição no sentido de
reanimar o comércio bilateral com uma política de intercâmbio de
petróleo por manufaturas. Os óbices já conhecidos, aliados recentemente
ao controle do câmbio implantado no país bolivariano, impediam as
intenções de se realizar, permanecendo esse comércio extremamente
favorável à Venezuela, que importava do Brasil quase nada além de
alguns produtos químico-farmacêuticos. Se, com o poder de barganha
de que dispunha, o Brasil não alcançava expandir seu comércio com a
Venezuela, maiores dificuldades existiam nos negócios com os demais
países. A oposição venezuelana à Alalc e ao acordo de integração
sub-regional dos países andinos, por receio de que afetassem sua
industrialização, fechava o cerco do país aos negócios sul-americanos32.
As relações da Venezuela com os demais países da América Latina
espraiavam o vazio de conteúdo que seu isolacionismo estava a provocar.
Em julho de 1962, após o golpe militar que derrubou o governo de
Manuel Prado no Peru, teve certo impacto sobre a opinião o
comunicado do governo venezuelano que anunciou a ruptura de relações
com o Peru, coerente com a atitude que adotara nos casos de São
Salvador e da Argentina e ratificando a decisão de não manter relações
diplomáticas com governos que fossem produto de golpes de Estado.
Tratava-se da aplicação da doutrina Betancourt, uma forma de conduta
destinada, como já se observou, amanter viva a presença venezuelana
nas relações interamericanas. Diante do caso peruano, a diplomacia da
Venezuela manifestou, ademais, o desejo de que fosse convocada, de

32 Idem, ofício, Caracas, 18 set. 1961, AHIBR, caixa 41.

232
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

urgência, uma reunião de ministros das Relações Exteriores da OEA


para estudar medidas aplicáveis aos países vítimas de golpes de Estado.
Essas iniciativas venezuelanas situavam politicamente o país como arauto
da democracia nas Américas, um argumento de grande ressonância interna
a favor do governo de Betancourt, que também era objeto de
consideração pelos países da adjacência caribenha. Mas os grandes,
México, Argentina e Brasil, em nome do princípio de não-intervenção,
esfriaram o entusiasmo venezuelano, negando apoio à tese das sanções
contra regimes oriundos de golpes de Estado33.
Ao deixar o governo no início de 1964, Romulo Betancourt
advertiu as nações do continente de que haveriam ainda de escolher
entre o modelo cubano e o venezuelano, caso a OEA não aplicasse
sanções contra o regime de Fidel, que acusava de atentar contra as
instituições democráticas do país. Talvez o Brasil anticomunista dos
militares acorresse em apoio à tese venezuelana, após o golpe militar
que derrubou a democracia em 31 de março de 1964, mas de que
modo, se, em nome da doutrina Betancourt, a Venezuela rompera com
este vizinho as relações diplomáticas? O arauto da democracia no
continente isolava-se cada vez mais em razão de decisões de política
exterior derivadas de princípios democráticos. Isolava-se dos regimes
de direita, oriundos de golpes militares, porque os fustigava; e dos
regimes democráticos que ainda subsistiam, porque estes eram simpáticos
à causa cubana e defensores dos princípios de autodeterminação e não
intervenção.
Em uma visita não oficial a Caracas, logo após o golpe de
1964, o deputado brasileiro André Franco Montoro ouviu do ministro
das Relações Exteriores do governo recém-empossado de Raul Leoni,
Iribarren Borges, que a Venezuela aguardava a expiração do Ato
Institucional, pelo qual eram cassados os direitos políticos de
parlamentares e lideranças esquerdistas, para reatar as relações que havia
cortado com base na doutrina Betancourt. Mas as dificuldades internas
de tal decisão seriam graves, visto que à opinião pública repugnava

33 Fernando Paulo Simas Magalhães a Afonso Arinos de Melo Franco, ofício, Caracas, 30 jul.
1962 AHIBR, caixa 41.

233
AMADO LUIZ CERVO

transigir em matéria de reconhecimento de regimes antidemocráticos.


A Venezuela sentia-se aliviada com a deposição de João Goulart, porque
este se opunha a qualquer tratamento discriminatório contra Cuba,
mas não se beneficiava com o triunfo de seus adversários militares e
temia que o exemplo brasileiro desencadeasse uma série de levantes
castrenses no resto do continente. Cogitou, por isso, em abrir
importante consulado no Rio de Janeiro com a finalidade de, por via
indireta, manter relações políticas oficiosas com o Brasil. Essa atitude
era importante no momento em que Leoni sofria pressões internas no
sentido de aderir à Alalc para atenuar o isolamento tanto político quanto
econômico que as contradições entre uma diplomacia continental de
prestígio e outra de fechamento comercial haviam aprofundado34.
O modus vivendi com o Brasil prolongou-se, a demonstrar
que a censura venezuelana ao regime militar brasileiro era tênue e que
a ruptura não havia representado um ato hostil. O reatamento tardou
até julho de 1967, quando chegou a Caracas o primeiro embaixador
brasileiro depois de 1964. Com efeito, Leoni, o sucessor de Betancourt,
deu continuidade a sua doutrina em matéria de relações diplomáticas
continentais, afirmando ser este um contrato que o governo havia
firmado “não só com nossos cidadãos, mas com a América como um
todo”35. Rafael CalderaRodríguez, eleito em 1968, parecia, entretanto,
disposto a não mais comprometer-se com a rigidez da doutrina
Betancourt e sequer rompeu novamente as relações com o Brasil,
embora para tanto pressionasse o Partido da Ação Democrática, após
o Ato Institucional 5, que endureceu o regime e introduziu em 1968
a ferrenha ditadura do general Emílio G. Médici36.
A chancelaria venezuelana envidou grande esforço para a
convocação da XII Reunião de Consulta dos Ministros do Exterior da

34 Antônio Corrêa do Lago a João Augusto de Araújo Castro, ofício, Caracas, 29 fev. 1964,
AHIBR, caixa 41. Alberto da Costa e Silva a Vasco Leitão da Cunha, ofícios, Caracas, 20 e
25 maio 1964, AHIBR, caixa 41.
35 Cyro Gabriel Cardoso a Vasco Leitão da Cunha, ofício, Caracas, 14 out. 1964, AHIBR,
caixa 41.
36 Alfredo Rainho Neves a José de Magalhães Pinto, ofício, Caracas, 21 jan. 1969, AHIBR,
caixa 42.

234
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

OEA, que se realizou em 1967, com a finalidade de condenar Cuba


como foco subversivo. Seus resultados, contudo, ficaram muito aquém
do que esperava o governo de Leoni. Além de pretender afastar a ação
revolucionária apoiada por Fidel Castro da área caribenha, a Venezuela
preocupava-se então com um possível triunfo de governo esquerdista
e inimigo na Guiana, país fronteiriço com o qual tinha um contencioso
lindeiro37. Ao apresentar seu relatório em que prestava contas ao
Itamaraty de sua gestão na Venezuela, entre julho de 1967 e fins de
1969, o embaixador brasileiro, A. Boulitreau Fragoso, pela exiguidade
de assuntos que expunha, expressava a pouca repercussão das relações
internacionais da Venezuela sobre a América do Sul. A expectativa de
fomentar o comércio, ao menos com o Brasil, que lhe comprava
petróleo, foi frustrada pela suspensão das relações diplomáticas entre
1964 e 1967. Após o reatamento, em outubro de 1967, uma importante
missão comercial brasileira chefiada pelo embaixador Manuel Antônio
Maria de Pimentel Brandão dirigiu-se a Caracas para negociar com a
Venezuela as primeiras concessões tarifárias decorrentes da entrada do
país na Alalc. Dava-se, assim, mais um passo no caminho da superação
do isolamento venezuelano com relação à América do Sul, que se havia
iniciado com a adesão tardia e reticente à Alalc e ao movimento de
integração. O novo ambiente que se respirava inspirou o discurso latino-
americanista que passou a contaminar os pronunciamentos do
presidente Rafael Caldera. Este, em manobra de cunho oportunista,
alardeava a filosofia Betancourt por sobre o pensamento terceiro-
mundista dos demais países, com o intuito subterrâneo de provocar a
união para garantir o mercado regional para o petróleo venezuelano, o
maior objetivo concreto de interesse nacional pelo qual se movia a
diplomacia do país38.

37 Legação do Brasil ao MRE, relatório, Caracas, 6 dez. 1967, AHIBR, caixa 42.
38 A.Boulitreau Fragoso aMário Gibson Barbosa, relatório, Caracas, 21 nov. 1969, AHIBR,
caixa 42. Carlos Silvestre de Ouro Preto ao MRE, ofício, Caracas, 10 jun. 1970, AHIBR,
caixa 42. Ver Portillo, Julio. Venezuela-Brasil; relaciones diplomáticas (1842-1982). Caracas:
Artes, 1983; Guimarães, Samuel Pinheiro. Brasil e Venezuela: esperanças e determinação na
virada do século. Brasília: Funag, 1995.

235
AMADO LUIZ CERVO

5.2. Relações regionais em compasso de espera na


década de 1970

5.2.1. O sul do continente latino-americano: as águas e a


geopolítica.

Ter-se-ia observado no Cone Sul, nos anos 70, uma deterioração


da filosofia inaugurada e, em certa medida, implementada na década
anterior, concernente à integração física preparatória da integração
econômica? Esta interpretação foi muito difundida pela literatura
especializada39. Duas circunstâncias teriam compelido os governos da
região para essa tendência negativa das políticas exteriores: por um lado,
separou-se de outros aspectos da integração física a questão do
aproveitamento do potencial hidrelétrico dos rios, em cujo terreno o
desentendimento entre o Brasil e a Argentina agravou-se; por outro,
ressurgiram velhas visões geopolíticas, condicionando as oportunidades
de cooperação entre os países da bacia do Prata. A tendência positiva
da fase anterior teria sofrido um enfraquecimento, antes de amadurecer.
Naspáginas a seguir, há como verificar que esta interpretação tradicional
corresponde em boa medida a um equívoco do conhecimento histórico.
Em janeiro de 1970, o projeto de construção da ponte ligando
o Uruguai à Argentina entre Porto Unzué e Fray Bentos suscitou
preocupações da diplomacia brasileira, em razão da presença maior
que teria a Argentina no vizinho país. Por isso mesmo, diante da
precariedade do porto de Montevidéu, via-se com expectativas de
restabelecer o equilíbrio de influências o projeto de construção do
superporto brasileiro de Rio Grande, concebido como um porto da
bacia do Prata e não apenas do sul do Brasil40.
Ao assumir, naquele mês de janeiro, as funções de secretário de
Estado Recursos Hídricos, o engenheiro argentino Guillermo Cano
de
fez declarações no sentido de que seu país deveria adotar e manter uma

39 A bibliografia anexa ao final do texto contém uma extensa lista de obras concernentes.
O leitor poderá identificar pelos títulos as que analisam as relações interamericanas de
forma abrangente ou por países.
40 Expedito de Freitas Resende ao MRE, ofício, Buenos Aires, 23 jan. 1970, AHIBR, caixa 35.

236
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

política fluvial internacional definida, estável e coerente, integrando a


respectiva gestão com a política hídrica nacional, como se ambas
tivessem por objeto a mesma água41. Encaminhava-se, desde então, a
atitude argentina de requerer um estatuto jurídico destinado a
disciplinar o uso dos recursos hídricos da bacia do Prata, mediante a
incorporação da tese da consulta prévia compulsória aos ribeirinhos
inferiores acerca de obras que se construíssem em território de ribeirinhos
superiores em rios internacionais sucessivos. Já o Brasil sustentava tese
diferente baseada em dois princípios: o respeito à soberania do ribeirinho
superior em decisões concernentes ao aproveitamento dos rios e o
compromisso de não causar danos sensíveis a terceiros. Esses debates
que se travavam no Grupo de Peritos do Comitê Intergovernamental
Coordenador do Tratado da Bacia do Prata, sem perspectiva de acordo,
ameaçavam paralisar o mecanismo de discussão da integração física
regional42.
A diferença vinha sendo administrada até então nas reuniões
dos órgãos competentes e em contatos permanentes entre as chancelarias.
Em maio de 1971, o Itamaraty estava propenso a uma atitude de
ruptura, declarando-se oficialmente contrário à tese argentina, o que
provavelmente provocaria a suspensão de negociações, nas quais, aliás,
vinha obtendo êxito junto aos demais órgãos brasileiros interessados e
junto aos governos platinos do Paraguai e da Bolívia. O embaixador
em Buenos Aires, Azeredo da Silveira, não julgando oportuna a
mudança de política brasileira, da negociação à ruptura, produziu na
ocasião um longo parecer de 42 laudas em que aprofundou a análise
da questão do aproveitamento dos rios, à luz do direito internacional
e dos resultados das negociações anteriores entre os países da bacia do
Prata. Com seu estudo, Azeredo tinha a intenção de fundamentar a
doutrina brasileira e de consagrá-la regionalmente, caso viesse a demover
o Itamaraty de sua disposição rígida e garantir o prosseguimento das
negociações em curso, nas quais tinha chance de ser consagrada.

41 Idem, ofício, Buenos Aires, 29 jan. 1970, AHIBR, caixa 35


42 Azeredo da Silveira ao MRE, ofício, Buenos Aires, 20 mar. 1970, AHIBR, caixa 1.

237
AMADO LUIZ CERVO

Fruto de lento trabalho no qual participaram o Itamaraty, os


demais ministérios e órgãos interessados, como também o Conselho
de Segurança Nacional, a doutrina brasileira vinha sendo aplicada com
coerência nas negociações regionais e assim conviria proceder nesse
âmbito e em eventuais negociações extrazonais como a ONU e outros
foros. A doutrina brasileira exposta por Azeredo da Silveira estabelecia
a distinção entre rios contíguos, cujo aproveitamento deveria ser
precedido de acordo bilateral, e rios sucessivos, de soberanias sucessivas,
em que cada Estado reservar-se-ia o direito de dar a seu trecho o uso
compatível com seu interesse. Não era absoluta, entretanto, essa
soberania a exercer sobre as águas, mas limitada pelo princípio de não
causar prejuízos sensíveis e permanentes aos outros Estados. A aplicação
deste último corolário à doutrina far-se-ia mediante estudos técnicos e
adaptações das respectivas legislações nacionais.
Segundo Azeredo da Silveira, osprojetoshidrelétricosbrasileiros
conformavam-secom essadoutrina, elaborada como um corpo conceitual
homogêneo e coerente para ser aplicado também à bacia Amazônica,
onde o Brasil era ribeirinho inferior. Sob o âmbito internacional,
supunha o diplomata, as teses convinham ao Brasil, já que retiravam
da questão as conotações políticas e emocionais – com que, por
exemplo, o almirante Rojas da Argentina pretendia inflamar o
contencioso com o Brasil para dele tirar vantagem pessoal. O princípio
de não causar danos a terceiros temperava o da integridade territorial
absoluta e despertava a simpatia de outros governos; enfim, por meio
da negociação entre os envolvidos evitavam-se os longos e penosos
debates jurídicos dos foros extrazonais. Aprópria Argentina já evoluíra,
abandonando a exigência da consulta prévia, mas não chegando ainda
a admitir o princípio da soberania nacional temperada e advogando a
forma supranacional da tomada de decisão relativa aos recursos naturais.
Com um pouco de habilidade, certamente chegaria a dobrar-se e essa
deveria ser, segundo Silveira, a diretriz de conduta a ser mantida pelo
Itamaraty43.

43 Idem, ofício-parecer, Buenos Aires, 10 maio 1971, AHIBR, caixa 17.

238
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Quando tomou forma o projeto de construção da grande


hidrelétrica de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai, duas outras
preocupações foram suscitadas pela embaixada brasileira em Assunção:
o repentino interesse dos capitais e empresas estrangeiros ante a
perspectiva de que o Paraguai estaria dando um passo de gigante rumo
ao desenvolvimento econômico e o cerrado combate da oposição liberal
ao governo de Stroessner, acusado de submeter o Paraguai ao imperialismo
brasileiro. Aperspectiva de se implantar um pólo siderúrgico no Paraguai
e outro na Bolívia animavam a competição entre Brasil e Argentina
sobre a área platina44. As suspeitas de segundas intenções contaminavam
as interpretações do embaixador brasileiro no Paraguai, Fernando de
Alencar. Quando Sapena Pastor optou pela cooperação tripartite entre
Brasil, Paraguai e Argentina para a construção de uma fábrica de cimento
destinada a suprir a construção da barragem de Itaipu, Alencar alertou
o Itamaraty de que poderia tratar-se de uma estratégia argentina para
lançar uma ponta de lança com que viesse, em outros empreendimentos,
reapresentar suas teses de consulta prévia ou decisões supranacionais45.
Suas suspeitas tinham por fundamento a campanha difamatória da
imprensa de oposição que alardeava, sob instigação argentina, os
desígnios imperialistas e hegemônicos do Brasil. Com efeito, a invasão
brasileira feria diretamente os interesses dos líderes liberais que
integravam grupos econômicos vinculados à anterior preeminência da
Argentina sobre o Paraguai, agora frustrados com as perspectivas de
negócios decorrentes de Itaipu. A geopolítica irrompia sobre as obras
bilaterais, em conseqüência do efetivo avanço brasileiro sobre a região46.
Sugeria Alencar ao Itamaraty uma cobrança junto a Sapena Pastor, no
sentido de reagir à deturpação da imagem do Brasil. Suspeitava ainda
que o chanceler paraguaio estivesse cedendo à Argentina o argumento
de limitar a quota de eletricidade a ser produzida por Itaipu para
compatibilizá-la com o projeto argentino-paraguaio de Corpus, rio
abaixo47.

44 Fernando de Alencar ao MRE, ofícios, Assunção, 8jun. e 12 jul. 1973, AHIBR, caixa 23.
45 Idem, ofício, Assunção, 5 abr. 1974, AHIBR, caixa 25.
46 Ibidem, ofício, Assunção,28 maio 1974, AHIBR, caixa 25.
47 Ibidem, ofício, Assunção,28 nov. 1974, AHIBR, caixa 25.

239
AMADO LUIZ CERVO

De lado a lado do Prata, os generais projetavam suas doutrinas


geopolíticas sobre o processo de cooperação e sobre a conduta
diplomática. Contribuíam para deteriorar o ambiente em que se
moviam técnicos e diplomatas, com o intuito de chegar a decisões
concretas em resposta a aspirações e interesses dos povos, alimentavam
oposições locais, obstruíam a integração física e acabavam sendo por
vezes renegados pelos próprios colegas de farda. A irrupção do
pensamento militar sobre as diretrizes da política regional produzia
por certo efeitos concretos, mas não pode ser tomada como o vetor
permanente das decisões. Ao contrário, essa geopolítica feita de rivalidades
tendia a exercer um papel cada vez mais irrelevante – e mesquinho – no
contexto de interação entre os países do Cone Sul.
Em julho de 1975, o ex-embaixador argentino no Rio de
Janeiro, general Osiris Guillermo Villegas, lançou o livro Tiempo
Geopolítico Argentino, no qual caracterizava o Brasil como um país
com vocação expansionista e predisposto ao esquema de cooperação
subimperial amando dos Estados Unidos. Respondia, de certa forma,
à doutrina das “fronteiras vivas” advogada pelo general brasileiro Golbery
do Couto e Silva em seu livro Geopolítica do Brasil. Por sua vez, outro
general argentino, Juan Enrique Guglialmelli, diretor da revista
Estrategia, ilustrava por meio de mapas e estatísticas os aspectos
demográficos e econômicos da expansão geopolítica do Brasil no Cone
Sul do continente e as conseqüências ameaçadoras do fenômeno para a
segurança da Argentina. Interpretava Itaipu como um projeto geopolítico
e via por trás de todos os outros empreendimentos de cooperação, cuja
iniciativa cabia ao Brasil em razão de seu extraordinário crescimento
econômico, o desígnio de dominar o hinterland da bacia do Prata e o
Atlântico sul. Mas tanto ele quanto Villegas repudiavam as inferências
lógicas de suas doutrinas e aconselhavam, ao invés do confronto, a
negociação, o entendimento e a cooperação entre Brasil e Argentina,
na linha de conduta aconselhada por Azeredo da Silveira48. Em outros
termos, os generais geopolíticos, como teóricos, repudiavam apraxis

48 J. B. Pinheiro ao MRE, ofício, Buenos Aires, 28, jul. 1975, AHIBR, caixa 51. Marcos
Henrique C. Cortes ao MRE, ofício, Buenos Aires, 8 jan. 1976, AHIBR, caixa 82.

240
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

de sua lógica, que consideravam inadequada para alimentar as decisões


de governo.
A mirar-se o comércio bilateral, a complementaridade
econômica, as afinidades culturais, a necessidade de coordenar posições
nos foros multilaterais em defesa de interesses comuns e os benefícios
da cooperação para o desenvolvimento de tecnologias avançadas, eram
as incoerências dos generais e não seus pressupostos doutrinais que se
aproximavam da sabedoria e acabariam por informar a conduta
diplomática mais cedo ou mais tarde.
A questão atômica era uma das mais sensíveis e os próprios
generais argentinos aspiravam por uma concertação com o Brasil, que
afastasse o risco de corrida incontrolável. Acorrespondência diplomática
demonstra que havia elevado grau de preocupação nos dois lados,
particularmente do lado brasileiro, visto que a Argentina, pioneira na
pesquisa nuclear na América Latina, parecia situar-se em posição
avançada49.
Os esforços argentinos vinham de longe. Um período de
grandes realizações estendera-se entre 1955 e 1965, decrescendo
posteriormente o ritmo dasatividades. Em 1975, a Comissão Nacional
de Energia Atômica elaborou um plano decenal, que foi comunicado
ao Itamaraty pelo adido aeronáutico do Brasil em Buenos Aires.
O plano previa inversões de cinco bilhões de dólares até 1985 para
execução de investigações e construção, além da conclusão de Embalse,
em rio Tercero, de quatro centrais nucleares, em que a participação de
empresas e técnicos argentinos seria crescente. O principal colaborador
externo era o Canadá, mas a Argentina firmara igualmente acordos
nucleares com a Aiea, a Alemanha Federal, a Índia e a Líbia.
A tecnologia nuclear era vista como fator de desenvolvimento
econômico e não como fator de segurança, tanto pelos líderes argentinos
quanto brasileiros. O plano nuclear argentino de 1975 e também o
brasileiro, datado de 1976, foram desmesurados em seus propósitos e

49 Ver Carasales,Julio César. Derivalesa socios; elprocesodecooperación nuclear entre Argentina


y Brasil. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 1997; Hirst, Mônica et al. Desarme
ydesarrolloen América Latina. Buenos Aires: Fundación Arturo Illia, 1990.

241
AMADO LUIZ CERVO

por isso implementados como meros desenhos de intenções, ao sabor


das conveniências e das possibilidades efetivas50. O importante, para
os dois países e para o continente, era a determinação comum de não
se lançar a uma corrida armamentista. Pelo contrário, mantiveram
ambos os países, por décadas, desde que as questões foram aventadas
em negociações internacionais, invariável apoio à proscrição de armas
nucleares na América Latina por um lado, e, por outro, repulsa ao Tratado
de não-Proliferação Nuclear proposto pelas duas superpotências à
adesão de terceiros. As posições de Brasil e Argentina coincidiam
perfeitamente, em múltiplos aspectos. Não se opunham esses países
ao princípio da não-proliferação nuclear e davam firme apoio a todas
as iniciativas internacionais que visassem suaoperacionalização, como
a desnuclearização da Antártica e da América Latina. Recusavam o
tratado inventado pelas superpotências, entretanto, com base em dois
pressupostos: era discriminatório ao congelar o poder, não vir
acompanhado de compromissos de desarmamento por parte das nações
nucleares e não fornecer garantias a quem a ele aderisse; era antieconómico,
ao obstruir a pesquisa e o acesso dos países aderentes à tecnologia nuclear,
considerada indispensável ao processo de desenvolvimento, congelando
dessa forma, além do poder, o saber e a riqueza51.
Essa adequada sintonia de posições e idéias entre brasileiros e
argentinos diante da questão nuclear constitui, portanto, uma herança
histórica do pensamento político aplicado às relações internacionais, a
desmentir a vertente geopolítica avançada por generais de ambos os
países, como acima se observou. Paradoxalmente, todavia, convive,
nos anos setenta, com o contencioso acerca do aproveitamento dos
rios. Mas a rivalidade entre Brasil e Argentina não era então o paradigma
de relações bilaterais, a nortear e explicar as iniciativas em todos os
terrenos. Essa última interpretação, largamente divulgada, incorre no
erro de simplificar e distorcer uma rica e complexa gama de visões e
iniciativas políticas na bacia do Prata.

50 Azeredo da Silveira ao MRE, ofício, Buenos Aires, 25 out. 1972, AHIBR, caixa 3. Marcos
Henrique C. Cortes ao MRE, ofício, Buenos Aires, 19 nov. 1975, AHIBR, caixa 30.
Cláudio Garcia de Souza ao MRE, relatório, Buenos Aires, 5 jul. 1976, AHIBR, caixa 82.
51 Cláudio Garcia de Souza ao MRE, ofício, Buenos Aires, 5 abr. 1978, AHIBR, caixa 159.

242
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

O comércio bilateral e regional da América Latina adquiriu


maior importância ante as decisões tomadas pelo Executivo norte-
americano, a 15 de agosto de 1971, de suspender a conversibilidade
do dólar e de impor uma sobretaxa de 10% sobre todas as importações,
além de programar a redução de 10% da ajuda externa ao
desenvolvimento52. AXI Reunião da Comissão Especial de Coordenação
Latino-Americana (Cecla) realizada em Buenos Aires entre 3 e 5 de
setembro, examinou suas conseqüências, redigindo um manifesto a
ser encaminhado ao governo dos Estados Unidos. Os governos latino-
americanos consideraram uma iniqüidade ter que suportar as
conseqüências das medidas corretivas do déficit e do balanço de
pagamentos dos Estados Unidos. Viam-nas como obstrutoras do
crescimento, provocadoras de instabilidade no sistema monetário
internacional e como uma quebra da ética em política internacional,
porquanto sobre a base da moeda conversível se assentara o sistema de
Bretton Woods. Não sabiam ou não aceitavam esses governos do
Terceiro Mundo o fato de as grandes potências eliminarem de suas
medidas internas considerações acerca dos reflexos negativos que
viessem a provocar no exterior e levarem em conta o exclusivo interesse
nacional53. Esse egoísmo indisfarçável, se praticado por países da
periferia era estigmatizado como nacionalismo, se pelos países centrais,
como medida de ajuste requerida pelas leis do mercado. Mas aprendiam
com os grandes, esforçando-se por aumentar os fluxos do comércio
zonal. Em 1973, o mercado brasileiro absorvia 40% das exportações
argentinas de carne, 37% de cavalos de corrida, 38% de leite em pó,
70% de alho e cebola, 31% de trigo, 74% de maçã, acima de 90% de
passasdeuva, peras, cerejas, aveia, azeitonas, sabão industrial, inseticidas,
couros reconstituídos, arame de aço, máquinas para fabricação de pasta
de papel, medidores de gás, entre dezenas de outros produtos que a
compunham54.

52 Ver Sela (org). Relaciones económicas internacionales de América Latina. Caracas: Nueva
Sociedad, 1987;Hirst, Mônica (org). Continuidady cambio en las relationes América Latina/
Estados Unidos. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 1987.
53 Informe final de la XI Cecla, Buenos Aires, set. 1971, AHIBR, caixa 115.
54 Legação do Brasil ao MRE, relatório, Buenos Aires, 10 out. 1974, caixa 34.

243
AMADO LUIZ CERVO

O retorno do peronismo ao poder, entre 1973 e 1976, voltou


a dividir a opinião interna e a revolver velhos embaraços na diplomacia.
As esquerdas se infiltraram nas hostes justicialistas, cindiram-nas em
centro-direita e esquerda, sendo porta-voz da primeira corrente o jornal
Mayoria e da segunda o Noticias55. A imagem da Argentina com a
restauração do peronismo melhorou de modo geral nas correntes de
esquerda da opinião latino-americana, mas deteriorou-se junto à maioria
dos governos56. O êxodo de profissionais qualificados para o exterior
demonstrava a gravidade da crise argentina: entre janeiro e junho de
1975, ascendeu de vinte para duzentos o número dos que se destinavam
ao emprego no Brasil. Empresas brasileiras publicavam anúncios de
rotina na imprensa portenha, oferecendo vagas57.
As distorções de imagem eram ressentidas por quase todos os
governos de então, não fazendo exceção a imagem do Brasil que a
imprensa argentina levava à opinião pública. Parte da imprensa era
predominantemente hostil, parte do empresariado desfavorável, os
meios universitários agressivos e a classe média preconceituosa. Essa
análise do embaixador brasileiro em Buenos Aires, J. B. Pinheiro,
levou-o a propor uma reforma radical dos serviços da diplomacia
cultural com o objetivo de iniciar:

um amplo e sistemático trabalho de persuasão e esclarecimento


sobre a realidade brasileira e, mais importante, sobre a verdadeira
atitude de cooperação ( em todos os níveis ) que o Brasil pretende
manter com a Argentina, como base desejável (e talvez indispen
sável) ao desenvolvimento pacífico desta parte do continente.

Tratava-se de restabelecer a imagem do país, “com um máximo


de objetividade e pragmatismo”, como convinha à boa diplomacia
cultural. A importância da Argentina estava a exigir tal esforço. O
primeiro plano de atividades dessa nova dinâmica cultural, encaminhado

55 Azeredo da Silveira ao MRE, ofício, Buenos Aires, 8 dez. 1973, AHIBR, caixa 19.
56 J. B. Pinheiro ao MRE, ofício, Buenos Aires, 19 maio 1975, AHIBR, caixa51.
57 Idem, ofícios, Buenos Aires, 30jun. 1975, AHIBR, caixa51 e9 fev. 1976, AHIBR, caixa82.

244
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

à aprovação do Itamaraty em 1974, contemplava a difusão cultural, a


literatura, a música, o cinema, as artes plásticas, a cooperação intelectual,
o boletim cultural, as publicações e a divulgação, prevendo o total de
quarenta mil dólares para o ano de 1975. As ações destinavam-se,
principalmente, à classe média, sem afastar-se da diplomacia cultural
para as elites, implementada até então. Aprovado e executado com
êxito, o plano seria renovado nos anos seguintes, preparando a opinião
da geração que tomaria em mãos os destinos futuros do país58.
De qualquer modo, depois do esforço de Azeredo da Silveira
ao termo dos anos sessenta, pela segunda vez a embaixada do Brasil em
Buenos Aires alertou o Itamaraty para o descaso com que operava a
diplomacia cultural e indicou os graves inconvenientes dessa negligência
sobre os interesses políticos e econômicos do país.
A restauração peronista de 1973 não resistiria ao tempo. Após
os breves interregnos de Hector Campora e Lastiri, a recondução ao
poder do próprio Juan Domingo Perón acendeu a esperança de união
nacional e conciliação social. Sua morte a primeiro de julho do ano
seguinte e o sucessivo governo da viúva Maria Estela Martinez de Perón
comprometeram a união dos argentinos, ficando os militares a observar
de longe o agravamento das condições da vida política e social até a
intervenção de 24 de março de 1976, que conduziria à presidência o
general Jorge Rafael Videla.
Ao tempo da restauração do peronismo, as relações entre o
Brasil e a Argentina permaneceram corretas, sem avanços relevantes. A
opinião argentina expressava frustrações acumuladas pelo desempenho
díspar das economias nacionais nos últimos anos. Nunca apagou-se,
porém, dessa opinião a corrente que valorizava a cooperação com o
Brasil como meio de aparelhar e emparelhar os processos de
desenvolvimento. Na realidade, o único contencioso concreto dizia
respeito ao aproveitamento dos rios, obtendo até então o Brasil o
afastamento de princípios que lhe eram inadmissíveis e a direção do
processo da bacia do Prata. O comércio bilateral era o maior entre

58 Ibidem, ofício, Buenos Aires, 19 nov. 1975, AHIBR, caixa 34. Marcos Henrique
C. Cortesao MRE, ofício, Buenos Aires, 11 dez. 1975, AHIBR, caixa51.

245
AMADO LUIZ CERVO

países latino-americanos, acusando um valor de 600 milhões de dólares


em 1975. O Brasil era nos últimos anos o segundo mercado de
exportação argentino e a Argentina o novo mercado brasileiro. Esse
elevado fluxo produzia a convergência das posições dos dois países nos
órgãos multilaterais universais e regionais, onde defendiam seus
interesses comerciais, como também em outros órgãos multilaterais
voltados ao exame das relações internacionais e de questões específicas
como a não proliferação nuclear. Destarte, o contencioso acerca do
aproveitamento dos rios figurava como um irrelevante atrito que não
comprometia a qualidade e a intensidade de uma relação de rotina
positiva59.
O regime militar implantado em 1976 na Argentina não
provocou uma ruptura desses princípios de conduta, tampouco deu-
lhes nova vitalidade. As relações bilaterais prosseguiriam corretas, sem
atingir a modalidade e a intensidade apregoadas como desejáveis pelos
governos e diplomacias de ambos os lados60. Contudo, esse movimento
militar imprimiu duas novas orientações à política exterior argentina,
com o intuito de melhorar sua imagem no exterior, profundamente
desgastada com a guerrilha e o terrorismo que mergulharam o país em
uma espécie de guerra civil, mas também porque correspondiam à
ideologia conservadora que os militares cultivavam: a política exterior
de corte ideológico liberal e a conseqüente aproximação com os Estados
Unidos.
O peronismo, segundo os novos dirigentes argentinos, trouxe
conseqüências danosas à diplomacia, isolando-aeimobilizando-a. Com
o intuito de remediar as conseqüências dessa experiência anterior, Videla
na presidência, Martínez de Hoz na direção da economia e Oscar
Antonio Montes na condução da diplomacia projetavam nas decisões
internacionais o modelo liberal argentino e a conseqüente determinação
de estabelecer relações especiais com os Estados Unidos, na esperança
de que delas resultassem insumos para o desenvolvimento nacional.

59 Azeredo da Silveira ao MRE, relatório, Buenos Aires, 3 fev. 1976, AHIBR, caixa 42.
60Maury Gurgel Valente ao MRE, Ofício, Montevidéu, 15, out. 1976, AHIBR, caixa 159.
Oscar Antônio Montes a Azeredo da Silveira, nota, Buenos Aires, 28 jul. 1977, AHIBR,
caixa 46. Cláudio Garcia de Souza ao MRE, relatório, Buenos Aires, AHIBR, caixa 122.

246
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

A Argentina de Videla reproduziu, a partir de 1976, o modelo que


Castelo Branco implementara no Brasil entre 1964 e 1967, com
evidente malogro, já que os Estados Unidos não tinham por estratégia
retribuir com favores econômicos a subserviência política e já que o
liberalismo por si não criava credibilidade internacional. Aliás, a
campanha pelos direitos humanos com que o presidente Carter dos
Estados Unidos encobria então sua política para a América Latina
antepunha-se como muro de contenção para as ambições da nova
estratégia externa da Argentina. Esta teve que recusar em 1977, como
fizera o governo brasileiro, a ajuda militar dos Estados Unidos, que
vinha subordinada à verificação interna do respeito aos direitos
humanos. Sem esmorecer, dispostos irredutivelmente ao diálogo, os
dirigentes argentinos aplainaram arestas nas relações com a potência
matriz do mundo capitalista e transitaram do esfriamento à deterioração,
da deterioração a uma perspectiva promissora, estabilizando-se, enfim,
em relações corretas61.
Apesar de voltar-se para os Estados Unidos, não descuravam
os militares argentinos os intercâmbios com outras áreas, em primeiro
lugar com o Brasil. O comércio bilateral ascendeu de 200 a 750 milhões
de dólares entre 1968 e 1976, ano em que o Brasil tornou-se o primeiro
comprador e o segundo fornecedor da Argentina. Nessa evolução, a
interdependência não só se observava quanto ao volume do comércio,
como ainda quanto à diversificação de suas pautas, atingindo o Brasil
800 itensde sua nomenclatura de mercadorias nas exportações para a
Argentina. Estendia-se essa interdependência, por outro lado, ao sistema
de comunicações e a outros aspectos das relações econômicas bilaterais,
que se desenrolavam, portanto, em condições satisfatórias62.

5.2.2. O norte da América do Sul: a força do petróleo

Ao norte da América do Sul, a década de 1970 deu à Venezuela


novas condições de projetar seu prestígio em razão da alta dos preços

61 Cláudio Garcia de Souza ao MRE, ofício, Buenos Aires, 8 fev. 1978, AHIBR, caixa 159.
62 Idem, ofício, Buenos Aires,3 mar. 1978, AHIBR, caixa 159.

247
AMADO LUIZ CERVO

do petróleo. Carlos Andrés Pérez, sucessor de Rafael Caldera, nutria


ambições de liderar a América Latina, imbuído dos velhos ideais
bolivarianos. Não tinha simpatias pelo desenvolvimento brasileiro que
podia tolher-lhe o caminho da influência regional, por isso buscou
aproximar-se da Argentina e aderiu ao Pacto Andino por razões
puramente políticas. As duas áreas geográficas de interesse concreto da
Venezuela prosseguiam sendo o Caribeeospaíses bolivarianos. Afora
isso, o país girava em torno do petróleo e com ele se iludia. A sensação
de grandeza decorria desse elemento e explicava, como ocorrera com
Perón, as ambições políticas de liderança latino-americana e terceiro-
mundista, um desvio de conduta que o velho líder da Ação Democrática,
Romulo Betancourt, não hesitava em criticar com veemência. O Brasil
tinha em Caracas um observador realista e um analista inteligente dos
passos da diplomacia venezuelana na pessoa do embaixador Lucillo
Haddock Lobo. Por obstruir a cooperação econômica do Brasil, não
encontrar os mecanismos da cooperação com o Caribe e alimentar
velhas reticências diante do projeto de integração sub-regional, por
não contar, ademais, com uma chancelaria com corpo profissional
preparado, Pérez desenvolveu uma ação externa sem racionalidade,
conturbada pela “diplomacia do telefone” com que o presidente pensava
projetar suas idéias e angariar adesões no exterior. Perpetuava, ao termo,
em conseqüência de falhas estratégicas, o isolamento da Venezuela,
esterilizando seu grande potencial63.
A Comissão Mista Brasil-Venezuela, desde o início dos anos
70, não estabelecia agenda objetiva de cooperação com vistas a expandir
as relações mútuas e o intercâmbio entre os dois países. De parte a
parte reconhecia-se, em 1972, permanecer ela um instrumento ainda
inócuo64. Algo semelhante sucedia com o Pacto Andino, que não se
encaminharia a contento enquanto a Venezuela a ele não aderisse. Com
efeito, os meios empresariais e certos setores políticos do governo de
Rafael Caldera, eleito em dezembro de 1968, se haviam oposto àadesão,
prolongando negociações que evidenciavam o tradicional receio de que

63 Ver as referências da nota 38.


64 Lucillo Haddock Lobo ao MRE, ofício, Caracas, 25 ago. 1972, AHIBR, caixa 3.

248
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

a integração viesse prejudicar os interesses da economia venezuelana65.


A inexistência de agenda de negociação viável para relações oportunas
entre Venezuela e Brasil era percebida na realização da visita ao Brasil
do ministro de Obras Públicas, José Curiel, em janeiro de 1973. Seu
objetivo aparente era tratar de uma imensa obra hidroviária para
interconectar as bacias da Amazônia e do Prata, em uma extensão de
5.900 milhas navegáveis. Segundo Haddock Lobo, a viagem tinha
por escopo mobilizar a opinião pública da Venezuela em favor do
governo de Rafael Caldera, que estava em campanha eleitoral para
prestigiar seu companheiro do Partido Copei, candidato à presidência66.
A imprensa venezuelana interpretava de forma geralmente
negativa tudo aquilo que dizia respeito ao Brasil, até mesmo a adesão
da Venezuela ao Pacto Andino em meados de 1973, tida por medida
destinada a isolar o Brasil no continente67. Essa característica do
jornalismo latino-americano, como já se observou em outros casos,
denotava que os profissionais da área andavam, seja imbuídos de
sentimentos xenófobos, seja de miopia diante das possibilidades da
política internacional.
O petróleo constituía a verdadeira coluna-mestra das relações
bilaterais. Em julho de 1973, o chanceler brasileiro Gibson Barbosa
escreveu ao ministro de Minas e Hidrocarburos da Venezuela, Hugo
Pérez la Salvia, sumariando os pontos essenciais de uma cooperação
desejada entre as duas empresas estatais que operavam no ramo. O
Brasil manifestou a intenção de aumentar suas compras de óleo em
contratos de longo prazo, de colaborar na exploração, na comercialização
internacional e interna e de participar de licitações para vender equipa
mentos, dando passos concretos no sentido de efetivar as perspectivas
de cooperação e intercâmbio68.

65 Idem, relatório, Caracas, 11 dez. 1972, AHIBR, caixa 3.


66 Ibidem, ofício, Caracas, 24jan. 1973, AHIBR, caixa 19. Nestor Luiz dos Santos ao MRE,
ofício, Caracas, 4 abr. 1973, AHIBR, caixa 19.
67 Ibidem, ofício, Caracas, 29 maio, 1973, AHIBR, caixa 19.
68 Mário Gibson Barbosa a Hugo Perez La Salvia, despacho, Brasília, 19 jul. 1973, AHIBR,
caixa 26.

249
AMADO LUIZ CERVO

A adesão da Venezuela ao Pacto Andino atraiu também os


olhares da Argentina, cujo governo enviou a Caracas, no início de 1974,
uma missão de cem industriais, presidida pelo ministro da Economia,
José Gelbart. O objetivo era a criação de empresas binacionais e a
conclusão de acordos de complementação industrial. Constituiu-se de
imediato o Comitê Misto Privado com apoio oficial, uma decisão
esperada em vão pelo Brasil, desde a visita a Caracas da missão empresarial
brasileira chefiada pelo ministro ReisVelloso, em fins de 197269.
O vetor da política exterior venezuelana era então o de
movimentar os grandes recursos do petróleo para projeção do país no
hemisfério. A ressurreição do pensamento de Bolívar pelos meios
intelectuais e de imprensa de então dava respaldo intelectual a tal política
de raiz petrolífera de querer assumir a “posição permanente de porta-
bandeiradoslatino-americanos”. Essa ambição era cerceada, contudo,
no entender da oficialidade venezuelana, pela preeminência que o
dinâmico crescimento econômico brasileiro derramava sobre a América
do Sul. O presidente Rafael Caldera fora à Buenos Aires com o intuito
de entrelaçar os dois países como contraponto à expansão brasileira e
Carlos Andrés Pérez estava dando continuidade a tal política. A sedução
dos dólares também facilitou a entrada da Venezuela na América Central
e nas ilhas do Caribe. Embora Pérez tenha afirmado ao presidente do
Brasil, Ernesto Geisel, em carta que lhe dirigiu em março de 1974,
quando os dois iniciavam seus mandatos presidenciais, que desejava
ampliar e aprofundar as relações com o Brasil, Haddock Lobo, o
observador postado em Caracas, não dava fé àquelas palavras: “Asnossas
propostas não tiveram êxito; encalharam na suspicácia, no temor ou
no desinteresse. Nas conversas com altas autoridades venezuelanas, as
palavras são de simpatia, de chegarmos à cooperação fecunda; agradáveis
palavras o vento leva...” 70.
As perspectivas sobre a melhora das relações venezuelano-
brasileiras tropeçavam nos anos 70 em dificuldades concretas. O partido
de Carlos Andrés Pérez, a velha Ação Democrática, preservava uma ala

69 Lucillo Haddock Lobo ao MRE, ofício, Caracas, 3 abr. 1974, AHIBR, caixa 34.
70 Idem, ofício, Caracas, 12 fev. 1975, caixa51.

250
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

conservadora que alimentava concepções opostas ao modelo brasileiro


de desenvolvimento e com ele não tencionava vincular o país. O
empresariado e os homens de negócios estavam mais propensos ao
adensamento das relações, mas, no fundo, os venezuelanos cuidavam
de suas duas áreas de interesse, as Caraíbas e os países bolivarianos.
Uma coisa não excluía a outra necessariamente, porém havia ênfases
diferenciadas. Ademais, o temor da dependência, que era fomentado
pela opinião pública, criava outra ordem de obstáculos a projetos de
cooperação tecnológica, industrial e empresarial de grande porte que o
Brasil buscava realizar na América Latina, em conseqüência de seu
acelerado crescimento econômico71.
O esforço mais intenso da Venezuela na região da América
Central e Caribe iniciou-se com o chanceler Aristides Calvani, ao tempo
do governo de Rafael Caldera (1969-1973). O interesse que tinha a
Venezuela em dirigir sua ajuda financeira à América Central e ao Caribe
era múltiplo. Esperava, por um lado, em contrapartida, apoio desses
numerosos pequenos países a sua política de altos preços para o petróleo
que articulava no seio da Opep. Presumia, por outro, que com isso
aumentaria sua influência, divulgando a língua espanhola junto às ilhas
de fala inglesa que se haviam tornado países independentes e atraindo-
as para sua tutela. Buscava ainda sustentação a seus pleitos fronteiriços
com a Guiana, além de mirar para as jazidas de bauxita da Jamaica e da
Guiana para produção de alumínio em território venezuelano.
Dispondo de somas oriundas da elevação do preço do petróleo e
observando a retirada da Grã-Bretanha, a Venezuela foi ao encontro
das necessidades da área por meio de empréstimos, acordos e empresas
mistas, apoio ao Banco de Desenvolvimento dasCaraíbaseparticipação
em uma empresa de navegação regional. Aretirada do Chile do Pacto
Andino em 1976, enfraquecendo-o, reforçou a orientação venezuelana
para América Central e Caraíbas, tanto mais que pouca repercussão
mundial tivera o eloqüente discurso latino-americanista e terceiro-
mundista de Carlos AndrésPérez. Contudo, essa movimentação carecia
de racionalidade e desenvolvia-se sem planos estruturados, escalonados

71 Ibidem, ofício, Caracas, 29 maio, 1973, caixa 51.

251
AMADO LUIZ CERVO

e executados metodicamente. Enfrentava, ademais, a prudência dos


governos locais em ceder aos interesses venezuelanos além do que lhes
aconselhavam antigos vínculos europeus que haviam tomado outras
modalidades diante de ex-colônias72.
Quando a diplomacia brasileira passou a apoiar a política
venezuelana de altos preços para o petróleo, como uma variável de sua
luta pela valorização das matérias-primas produzidas pelo Terceiro
Mundo, o Brasil adquiriu novo conceito na política exterior da Venezuela,
havendo o próprio presidente Pérez rebatido a acusação que em Caracas
se lhe fazia, veladaou abertamente, de expansionistae hegemônico. Nessas
condições, seria possível, enfim, entabular negociações construtivas em
torno da cooperação bilateral no seio da Comissão Mista bilateral, inerte
até então? O embaixador em Caracas, Haddock Lobo, espreitando a
oportunidade, propôs em 1974 ampla agenda para a reunião prevista da
comissão. Sugeriu que se partisse do zero, onde em seu entender se
situavam as relações bilaterais, para criar condições operacionais sobre as
quais se assentariam futuros projetos de cooperação. A pauta que o
embaixador preparou contemplava as questões de tráfico fronteiriço,
controle sanitário, fiscalização aduaneira, turismo, comunicações, correios e
telégrafos, rádio, transporte terrestre e fluvial, entrepostos livres,
cooperação técnica, hidrologia, conservação ambiental, parques nacionais,
vigilância e combate ao crime, cooperação científica, preservação de áreas
indígenas, pesca, cooperação intelectual e cultural:

Acredito que, agora, passada a fase de estudo recíproco e da


eliminação das suspicácias, já é sem tempo que nos reunamos,
venezuelanos e brasileiros, para assentar bases concretas, equacionar
problemas, palmilhar as vias abertas pelo trabalho exploratório
das comissões anteriores. O saldo positivo e concreto que se obtiver,
ainda que em áreas aparentemente sem importância, constituirão
os primeiros degraus de cooperação com um vizinho de substancial
importância ao norte da América do Sul73.

72 Ibidem, ofícios, Caracas, 8 maio, 6 jun. 1975, AHIBR, caixa 51, 8 jul. e 11 nov. 1976,
AHIBR, caixa 82.
73 Ibidem, ofício, Caracas, 21 mar. 1974, AHIBR, caixa 34.

252
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Nos anos 70, portanto, defensores da cooperação para o


desenvolvimento entre o Brasil, por um lado, a Venezuela e a Argentina,
por outro, animavam o ambiente diplomático, que se punha em
compasso de espera ante a possível construção de eixos regionais.
Queixavam-se os diplomatas brasileiros em Caracas da falta de
meiospara desenvolver uma ação cultural e jornalística para contrarrestar
a imagem negativa que do Brasil se veiculava. A mesma sensação e a
mesma avaliação das deficiências da diplomacia cultural brasileira
verificaram-se nos relatórios que chegavam a Brasília desde Buenos
Aires, como se demonstrou em parágrafo anterior. Na capital venezuelana,
o pequeno Centro de Estudos Brasileiros era insuficiente. Seria necessário
afastar, segundo a legação brasileira, três dificuldades que se antepunham
àconstrução da boa imagem do país: a ignorância da realidade brasileira,
os preconceitos históricos e os preconceitos políticos. Não havia,
contudo, uma diretriz de ação cultural tática com que remediar tal
diagnóstico e por isso a legação fazia sugestões concretas, entre as quais
um novo convênio cultural funcional em substituição ao de 194274.
Ficaram sem efeito as reclamações e sugestões da legação em
Caracas acerca de nova política cultural. Prosseguiu o tratamento crítico
e desfavorável ao panorama brasileiro na imprensa venezuelana, a
obstruir, pelo efeito quederramava sobre os meios políticos, diplomáticos
e empresariais, a cooperação útil ao desenvolvimento dos dois povos.
Eram permanentes as críticas ao modelo de desenvolvimento e ao
expansionismo brasileiros, apoiadas no nacionalismo venezuelano, nos
interesses econômicos ligados aos círculos tradicionais do comércio
exterior venezuelano, nos opositores ideologizados ao regime político
brasileiro e na ignorância. A legação não dispunha de meios para agir
nessas quatro fontes de alimentação da imagem e reiterava em 1977,
quando lá chegou o novo embaixador, David Silveira da Mota Jr., suas
sugestões e solicitações de meios ao Itamaraty75. Mas este prosseguia

74 Nestor Luiz dos Santos Lima ao MRE, ofícios, Caracas, 9 abr. 1973, AHIBR, caixa 19 e
10 out. 1974, AHIBR, caixa 35.
75 David Silveira da Mota Jr. ao MRE, ofícios, Caracas, 29 set. e 28 out. 1977, AHIBR,
caixa 122.

253
AMADO LUIZ CERVO

sem dar à diplomacia cultural a relevância que abriga no seio das relações
internacionais, provocando com sua negligência o desperdício de
oportunidades concretas de realização externa de interesses nacionais.
Foram os próprios venezuelanos que mudaram suas visões acerca
das relações interamericanas. De uma postura isolacionista, imbuída de
empáfia sem lastro material, os dois grandes partidos transitaram para
uma orientação realista, que a integração regional sugeria, no sentido de
realizar, por meio de esforços conjugados, objetivos concretos de
desenvolvimento nacional. Tanto os lideres do Copei quanto da Ação
Democrática, por volta de 1976, haviam-se convertido ao pensamento
integracionista e ficaram surpresos com a decisão chilena de abandonar o
Pacto Andino, que consideravam o ponto de partida de um processo
que, vindo do norte, alcançaria o movimento em curso na bacia do
Prata, arrastando, domando e contendo, na medida do conveniente, a
expansão brasileira76. Assim deve ser entendida a viagem de Carlos Andrés
Pérez ao Brasil em novembro de 1977 e seu impacto sobre a mudança
da opinião venezuelana acerca da política continental do vizinho país77.
No embalo dessa nova perspectiva, despachou o governo
brasileiro para Caracas, em abril de 1978, seu ministro das Minas e
Energia, Shigeaki Ueki. Como resultado dessa visita, pela primeira vez
foram assentadas bases de cooperação para projetos relevantes que iam
muito além do mero comércio de petróleo em que se haviam assentado
no passado as relações bilaterais. As estatais brasileiras que operavam
nos ramos do petróleo, da petroquímica, da mineração e da metalurgia
encontraram boa acolhida por parte do empresariado venezuelano para
suas propostas de complementação empresarial e tecnológica.
Encaminhava-se, assim, o Tratado de Cooperação Amazônico, firmado
em 1978 por oito países. Nascia o terceiro agrupamento integrativo
sub-regional ao lado do Tratado da Bacia do Prata e do Pacto Andino78.
Não sem as dificuldades que a tradicional intriga ideológica, geopolítica
e política voltava a suscitar.

76 Lucillo Haddock Lobo ao MRE, ofícios, Caracas, 12 mar. e 21 out. 1976, AHIBR,
caixa 82.
77 Sérgio Damasceno Vieira ao MRE, ofício, Caracas, 25 nov. 1977, AHIBR, caixa 122.
78 David Silveira da Mota Jr. ao MRE, ofício, Caracas, 25 abr. 1978, AHIBR, caixa 160.

254
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

No entender do embaixador em Caracas, David Silveira da


Mota Jr., eram três as frentes de ação que visavam boicotar o projeto
de cooperação amazônica. Em primeiro lugar, a agência espanhola EFE,
que derramava notícias antibrasileiras sobre a imprensa venezuelana,
com o argumento de que esta presença brasileira representava sério
perigo para o triunfo da hispanidade da América Latina; em segundo
lugar, preocupações até mesmo legítimas acerca da assimetria no grau
de desenvolvimento entre os países da região, que poria em evidência a
liderança do Brasil; em terceiro, a difusão na Venezuela e em outros
países da América Latina de autores arcaicos do pensamento geopolítico
brasileiro (Mário Travassos, Everardo Backheuser, Paulo Schilling,
Golbery do Couto e Silva), em edições feitas no México e na Argentina,
pensamento que pouco ou nada influía sobre a política brasileira para
a América Latina. Esta última iniciativa era tributada aos generais
argentinos, desejosos de explorar a imagem do Brasil de país
hegemônico e expansionista para dela valer-se em seu contencioso acerca
do aproveitamento dos rios da região platina79.

79 Idem, ofícios, Caracas, 27 out. e 3 nov. 1978, AHIBR, caixa 160.

255
AMADO LUIZ CERVO

256
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

6. A construção de eixos bilaterais

6.1. Novos equilíbrios às margens do Atlântico sul


(1980-1986)

O fato mais relevante para as relações entre os países da América


do Sul, durante a primeira metade dos anos 80, foi a virada para o
processo de integração de longo curso. Essa mudança preparou-se
simultaneamente ao norte, nas relações entre o Brasil e a Venezuela, e
ao sul, entre o Brasil e a Argentina, embora somente o processo sulino
tenha-se operacionalizado em projeto político de envergadura.
Duas séries de fatores explicam essa virada estratégica: por um
lado, a herança do pensamento político e a ação diplomática que,
linearmente sob o aspecto teórico e intermitentemente sob o prático,
promoveram entendimento e cooperação, embora de alcance limitado;
por outro, a superação de entraves históricos e a conseqüente remoção
de entulhos ao movimento de integração dos países da América Latina.
A integração sempre fora uma bandeira da diplomacia latino-americana,
porém sem chance de adquirir viabilidade enquanto obstáculos que se
lhe antepunham não fossem identificados e erradicados. Esses fatores
negativos agiam isoladamente ou se combinavam, em função das
circunstâncias. Suas principais manifestações nas décadas precedentes
foram:

As rivalidades
Não eram próprias deste ou daquele país com relação a outro,
eram intermitentes, porém afetavam a opinião e os governos de todos
os países, embora pesassem de modo especial sobre o subsistema aquelas
que punham em confronto os grandes da região.

As ambições nacionais desmesuradas


A Argentina de Perón sentia-se suficiente para encaminhar a
formação de um bloco e projetá-lo com autonomia ao lado dos blocos

257
AMADO LUIZ CERVO

configurados como zonas de influência das duas superpotências no


contexto da Guerra Fria. Pérez Jiménez utilizou o bolivarismo com o
intuito de fomentar a união dos latinos sob a égide da Venezuela. O
Brasil do milagre dos anos 70 tinha a ambição de arrastar os países
vizinhos com seu modelo de desenvolvimento baseado no mercado
local e no empreendimento estatal. Há outros exemplos.

As atitudes diante dos Estados Unidos


O Brasil liderou o grupo de países decididos a boicotar a
formação do bloco regional, na suposição de que viesse prejudicar as
relações de cooperação entre os Estados Unidos e a América Latina.
Outrospaíses, inversamente, agiam como instrumento do confronto,
na suposição de que a intensificação das relações com os Estados Unidos
eram prejudiciais aos interesses dos povos latinos.

As atitudes diante do Brasil


O pensamento de esquerda e os nacionalismos dos países
hispano-americanos alimentaram a corrente de opinião segundo a qual
a integração estenderia a hegemonia brasileira sobre o subcontinente,
em razão dos desníveis econômicos.

A separação entre Estado e sociedade


Àépoca do Estado desenvolvimentista, os governos tomavam
decisões sem auscultar a sociedade organizada, alijando de experiências
de integração idealizadas o parecer realista das classes empresariais,
particularmente do setor privado.

A diplomacia da obstrução
Esta conduta sistemática de obstruir iniciativas de cooperação
de outros países inspirava-se nos entraves acima referidos e se sucedia
de país a país com as mudanças de governo. A obstrução era fatal à
formação do bloco quando praticada pelos grandes, como o Brasil, a
Argentina e a Venezuela.

258
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Desde o início da década de 1980, os sintomas de mudança


diante desses fatores negativos das relações interamericanas eram
percebidos. Em boa medida foram as dificuldades do modelo de
desenvolvimento que fomentaram a crítica das políticas exteriores. A
inflação, o endividamento externo, a recessão econômica, a instabilidade
das instituições, os regimes de força, a Guerra das Malvinas, a retomada
da democratização e outros fenômenos afetaram a autoconfiança
nacional e criaram a consciência da unidade regional e da necessidade
de se falar de uma só voz. Apareceram os consensos e novos órgãos
latino-americanos. Quando a Espanha que transitava do regime
franquista para o da democracia monárquica ensaiou uma investida na
área, comprovou precisamente o fato de estar desinformada sobre essas
mudanças, ao pretender soerguer sua influência com base no fomento
da, já então, arcaica rivalidade entre as nações hispanas e a nação lusa da
América Latina.
Aprimeira metade dos anos 80 assistiu à derradeira reação do
paradigma do Estado desenvolvimentista. Por meio dela, as iniciativas
de cooperação e a nova modalidade de integração estendiam para fora
das fronteiras nacionais as esferas de ação do modelo histórico de
desenvolvimento, em uma tentativa racional e coerente de superação
de entraves e de salto para uma nova fase de crescimento autônomo,
porém amparado na força de blocos. Ao final da década, o triunfo de
doutrinas liberais e sua adoção sem crítica pelos dirigentes dos principais
países da região provocaram o abandono da estratégia de desenvolvimento
auto-sustentado, cedendo o mercado em troca da alienação dos sistemas
produtivos e de serviço nacionais. Assim, ao invés de avançar, a América
Latina mergulhava no passado, reintroduzindo os parâmetros do
paradigma liberal-conservador da fase anterior a 1930, que a fazia
regredir à infância social. Reassumia sua função de exportadora para o
mundo de matérias-primas e importadora de produtos sofisticados,
de conhecimento e de tecnologias. Mas sobretudo acentuava sua
disposição de transferir renda para os países centrais, seja mediante os
serviços de uma dívida que se avolumou como nunca no passado, seja
mediante o crescimento das remessas de lucros de empresas industriais

259
AMADO LUIZ CERVO

e de serviços, que havia sido historicamente contido em proporções


adequadas1.
Reveste-se, pois, de grande interesse o estudo das últimas
manifestações relevantes do paradigma desenvolvimentista, que tiveram
lugar entre 1980 e 1986, em um momento em que dava demonstrações
de racionalidade e adaptabilidade, antes de sucumbir sob a onda liberal
de cunho fundamentalista que se derramou sobre a América Latina.

6.2. O eixo Brasil-Venezuela

O primeiro indicador da mudança em curso nas relações


regionais advém do memorando entregue às autoridades venezuelanas,
aos 6 de novembro de 1979, pelo governo brasileiro. A mudança de
filosofia consistia na transformação do Estado desenvolvimentista,
divorciado da economia de mercado, em Estado logístico, cuja função
consistiria em dar suporte operacional a projetos de cooperação a serem
implementados por empresas públicas e privadas. A participação
brasileira em empreendimentos venezuelanos era então prevista em
diversos e variados setores de atividades, tais como a implantação de
um complexo siderúrgico e de outro para a produção de valores, a

1 Há muitos estudos sobre as relações internacionais dos países latino-americanos no contexto


da globalização, como indica a bibliografia anexa. Há poucos que analisam as condições em
que o paradigma desenvolvimentista foi abandonado e o acerto ou o equívoco, nessas
circunstâncias, da adoção do paradigma neoliberal. Ver, entre outros, Albuquerque (1996);
Azpizau, Daniel, Nochteff, Hugo. El desarrollo ausente. Restricciones al desarrollo,
neoconservadorismo y elite económica en la Argentina. Ensayos de economia politica. Buenos
Aires: Tesis, 1995; Baumann, Renato (org). O Brasil e a economia global. Rio de Janeiro:
Campus, 1996; Bernal-Meza (1994); Cepal. Quince años de desempeño económico. América
Latina y el Caribe. Santiago: Cepal, 1996; Ferrer, Aldo. El capitalismo argentino. Buenos
Aires: Fondo de Cultura Económica, 1997; Guimarães (1995); Guimarães (1999); Hirst,
Mônica. Democracia, seguridad e integración; América Latina en un mundo en transición.
Buenos Aires: Norma, 1996; Llaidós, Guimarães (1999); Lowenthal, Abraham, Treverton,
Gregory (orgs). América Latina en un nuevo mundo. México: Fondo de Cultura Económica,
1996; Perina, Rubén, Russell, Roberto. Argentina en el mundo (1973-1987). Buenos Aires:
Grupo Editor Latinoamericano, 1988; Rapoport, Mario (org). Argentina y Brasil en el
Mercosur; políticas comunesy alianzas regionales.Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano,
1995; Russell, Roberto (org). Lapolítica exterior argentina en el nueva orden mundial. Buenos
Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 1992; Vizentini (1998).

260
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

construção de casas pré-fabricadas, a produção de açúcar, de óleo de


palma, a prospecção de urânio, a indústria alimentícia, a exploração
mineral, a transmissão de eletricidade. As oportunidades de cooperação
estavam a exigir das empresas que abrissem representações locais e para
tanto procurava a missão do Brasil em Caracas facilitar-lhes os meios,
como convinha a um Estado logístico2.
A percepção dessas novas condições havia-se configurado na
iniciativa brasileira de negociar o Tratado de Cooperação Amazônica, a
partir do momento em que os temas de cooperação começaram a
adquirir envergadura e a ultrapassar os limites e as possibilidades da
cooperação bilateral. Este tratado foi concebido com finalidade distinta
dos tratados que criaram a Alalc, a Aladi ou o Pacto Andino, que
visavam estimular o comércio intrazonal ou o mercado comum. Seu
principal objetivo consistia em implantar um mecanismo permanente
de concertação entre os governos e os setores técnicos dos países
amazônicos com vistas à cooperação nas áreas de caráter não econômico,
tais como os estudos hidrológicos e climatológicos, a cooperação técnica
e científica em matéria de saúde, transportes, comunicações, preservação
do meio ambiente etc. Indiretamente adviriam conseqüências
econômicas dos estudos que redundassem na criação de infra-estrutura
física, mas a cooperação regional, buscada pelos signatários, tinha por
escopo articular e fortalecer os esforços nacionais com impacto de longo
prazo sobre as condições de vida das populações amazônicas,
incorporando a vasta região no espaço produtivo do continente. Com
relação aos transportes, procedia-se ao estudo da infra-estrutura física
de conexão dos oito países signatários, associando rodovia e hidrovia.
A coordenação de projetos conjuntos estaria a cargo de comissões
nacionais permanentes, instituídas pelo tratado, que adquiria, desse
modo, um caráter de complementaridade vis-à-visdos demais tratados
de cooperação regional, como a Aladi, o Pacto Andino, o Sela e o
Tratado da Bacia do Prata.
Nenhum desses órgãos anteriores ocupava-se especificamente
da Amazônia, que permaneceria à margem das iniciativas latino-

2 David Silveira da Mota Jr. ao MRE, ofício, Caracas, 29 fev. 1980, AHIBR, caixa 205.

261
AMADO LUIZ CERVO

americanas de integração, se os dispositivos do Tratado Amazônico


não mobilizassem o potencial e as populações para aproximar países e
gerar cooperação. O tratado não correspondia a uma transferência de
prioridade da bacia do Prata para a Amazônica, mesmo porque os
potenciais das duas bacias eram de natureza muito distinta, mas ao
propósito de desenvolvimento integrado e sustentável da bacia norte,
conjugando os esforços dos três subsistemas amazônicos que a
compunham, o brasileiro, o andino e o das Guianas. Pela primeira vez,
o conceito de desenvolvimento sustentável era aplicado na esfera
multilateral, propiciando, nos anos 80 e 90, grandes vitórias à diplomacia
brasileira em outras organizações internacionais, que foram levadas
a discuti-lo, inclusive a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvol
vimento realizada no Rio de Janeiro em 1992.
Em documento emanado de sua chancelaria, o governo
brasileiro respondeu a duas objeções que foram levantadas a respeito
do Tratado de Cooperação Amazônicapor correntes de opinião adversas
ao processo de integração. A primeira referia-se à dimensão ecológica:

Ao atribuir desde o preâmbulo igual prioridade às metas


do desenvolvimento e da preservação ecológica, o Tratado de
Cooperação Amazônica transformou-se possivelmente no
primeiro grande tratado multilateral a consagrar juridicamente
uma das idéias-forças do nosso tempo: a convicção da finitude
dos recursos, dos limites do planeta Terra, da obrigação de não
saquear o patrimônio existente.

A segunda ressuscitava a velha tese da hegemonia brasileira a


expandir-se pela América do Sul:

A tese não tem qualquer fundamento. Em termos gerais,


porque o Brasil busca a realidade da cooperação, não a quimera
da hegemonia e considera altamente positivo que a América
Latina seja uma área de desconcentração do poder, formada por
numerosas unidades grandes ou médias, insatelizáveis pelas
dimensões, recursos e tradição de autonomia. Em termos
específicos, o Tratado Amazônico consagrou no artigo XXV a

262
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

regra da unanimidade das decisões, que terão forçosamente de


nascer do consenso. Não haverá assim maiorias ou minorias, nem
espaço para hegemonias, já que qualquer membro do pacto
poderá evitar uma decisão que não atenda aos seus interesses3.

Por iniciativa conjugada dos embaixadores Miguel Angel Burelli


Rivas e David Silveira da Mota Jr., implantou-se em 1980 na sede do
Instituto de Altos Estudos da América Latina da Universidade Simón
Bolívar, em Caracas, o Centro de Estudos Brasileiros, com a finalidade
de realizar atividades de investigação, docência e extensão relativas à
realidade brasileira e às relações entre o Brasil e os demais países latino-
americanos, bem como aos processos de integração latino-americana
de que o Brasil fazia parte4.
como resposta ao ativismo
A oportunidade dessa
espanhol pós-franquista
nova ação cultural brasileira adequava-se
na Venezuela ena

América Latina, desencadeado quando Carlos Andrés Pérez, à sombra


da riqueza petrolífera, projetou sobre a Espanha a imagem de campeão
da democracia e colheu, em 1977, por ocasião da visita a Caracas do
rei Juan Carlos, importantes acordos econômico-comerciais.
Sucessivamente à penetração econômico-comercial na Venezuela, a
Espanha obteve status especial no Pacto Andino, a admissão como
membro pleno daCepaleum acordo com o Sela. Essa bem orquestrada
ação diplomática conferiu à ex-metrópole ares de triunfalismo,
perceptível no propósito de tornar-se ponte entre a América hispânica
e a Comunidade Econômica Européia (CEE) e de deter posição
privilegiada em relação aos países de língua espanhola no continente.
Os chanceleres do Pacto Andino não apreciavam a insistência de “levá-
los a Bruxelas” com que o chanceler espanhol, Marcelino Oreja, exibia
seu apadrinhamento sobre a organização regional.
Com relação ao Brasil, a ofensiva diplomático-econômica da
Espanha sobre a América Latina era negativa. A agência de notícias
espanhola EFE dedicava-se regularmente a divulgar notícias insidiosas

3 MRE à legação em Buenos Aires, despacho, Brasília, 25 ago. 1980, AHIBR, caixa 221.
4 David Silveira da Mota Jr. ao MRE, ofício, Caracas, 13 nov. 1980, AHIBR, caixa 205.

263
AMADO LUIZ CERVO

destinadas a prejudicar a imagem do Brasil junto aos vizinhos hispanos,


possivelmente com o intuito de, como parte da estratégia espanhola,
retirar credibilidade a um importante concorrente, colocando em risco
o processo de integração da América do Sul5. Se começou equivocada
e à contracorrente a aproximação da Espanha democrática com a
América Latina, uma vez depurada de seus vícios, serviria anos mais
tarde para a profícua experiência de concertação entre as nações ibero-
americanas. O fato de Espanha e Portugal serem admitidos, em 1983,
como observadoresjunto à Aladi, constituiu o primeiro passo corretivo
daquela contraproducente estratégia espanhola de influência.
A administração deHerreraCampins, que se iniciou em março
de 1979, manteve as linhas tradicionais da política exterior de
institucionalização da democracia e dos direitos humanos na América
Latina, com o respaldo que lhe dava uma democracia consolidada pela
vidapartidária da AçãoDemocráticaedo Partido Social Cristão (Copei).
Como não dispunha mais dos volumosos recursos do petróleo que
haviam inspirado ao governo de Carlos Andrés Pérez uma audaz
diplomacia de projeção, a Venezuela de então, apesar de ser um
interlocutor privilegiado da administração do presidente Carter em
razão dessas afinidade políticas, não cessava de criticar a OEA por seu
conformismo diante dos interesses e iniciativas norte-americanas, de
denunciar o crescente protecionismo dos Estados Unidos e as deficiências
da cooperação norte-sul. Essas percepções venezuelanas inspiravam sua
nova fase de política exterior voltada à cooperação e à integração latino-
americana6.
As tradicionais linhas de força da política externa venezuelana
mantiveram-se nos anos 80: as relações com os Estados Unidos e com
as regiões do Caribe e da América Central. Manteve-se, igualmente, o
tradicional conflito externo, a questão de Essequibo, nos limites com
a Guiana. Nos anos 80, entretanto, Caracas inovou quanto à política
exterior, ao consolidar as relações com o Brasil e ao buscar novas
aberturas com a China Popular. A inclinação realista para a América

5 Idem, ofício, Caracas,13 nov. 1980, AHIBR, caixa 205.


6 Ibidem, ofício, Caracas, 10 abr. 1981, AHIBR, caixa 231.

264
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Latina e o crescente interesse pela integração efetiva da região derivavam


da constatação de que a Venezuela não era mais objeto das prioridades
continentais dos Estados Unidos. Mas sua tentativa de politização do
Pacto Andino não teve acolhida junto aos demais integrantes,
estancando-se virtualmente esse processo de integração econômica sub-
regional. Já com o Brasil, consolidava-se, por volta de 1981, o processo
de aproximação diplomática e econômica, aberto com a visita de Carlos
Andrés Pérez a Brasília em 1977.
A Comissão de Coordenação Brasil-Venezuela vinha
demonstrando a disposição dos dois países de incrementar o lastro
econômico e comercial do relacionamento bilateral. Em outubro de
1981, firmou-se um protocolo de intenção entre os governos de
Venezuela, Brasil e México para criação da primeira transnacional de
petróleo do Terceiro Mundo. A aproximação com o Brasil, um país
com o qual nunca tivera conflito de qualquer natureza, além da
substancial dimensão econômica que engendrava, era aconselhável e
útil à Venezuela, no momento em que esta necessitava coordenar com
aquele sua política para a área do Caribe e da América Central, afim de
fortalecer-se diante das investidas do nacionalismo norte-americano.
Era oportuna, ademais, no momento em que o Pacto Andino definhava
e que a Venezuela mantinha dois conflitos de fronteira, com a Colômbia
e com a Guiana. Foram esses fatores que propiciaram a construção
pelas diplomacias de ambos os países de um arcabouço jurídico e
político destinado ao apoio dos operadores oficiais e privados das
relações bilaterais. O noticiário de imprensa, antes adverso, tornou-se
crescentemente favorável ao Brasil nos periódicos venezuelanos,
precisamente em decorrência do processo de consolidação da
aproximação política que o sucesso das telenovelas brasileiras favorecia7.
Somente quando tratava dos limites com a Guiana na região do
Essequibo, as reticências da imprensa venezuelana afloravam quanto à
atitude do Itamaraty, presumivelmente de apoio às pretensões de
Georgetown8.

7 Ibidem, relatório, Caracas, 31 dez. 1981, AHIBR, caixa 231.


8 Ibidem, ofício, Caracas,15 fev. 1982, AHIBR, caixa 254.

265
AMADO LUIZ CERVO

O governo deHerreraCampinsdesgastava-se, contudo, ante a


estagnação do mercado petrolífero mundial e ante o quadro recessivo
que vinha de 1979. Afalência financeira do México, em 1982, ameaçava
atingir a própria Venezuela. Com tudo isso, desgastava-se o Copei,
abrindo o caminho para a ascensão à presidência do candidato da Ação
Democrática, Jaime Lusinchi. As esquerdas e os militares, nos extremos
desse centro político da democracia venezuelana, nenhuma chance
ostentavam de alcançar o mando supremo da nação. A nova orientação
moderna da diplomacia venezuelana ocupou muito espaço na campanha
presidencial de 1982. O conflito das Malvinas uniu toda a classe política
no apoio irrestrito à ação militar argentina e reativou a reclamação
territorial sobre o Essequibo, considerado outro resquício não solucionado
da usurpação colonial britânica na América do Sul.
Tributária desses condicionamentos, a política exterior
venezuelana, ao termo do mandato de Herrera, voltou-se para os
seguintes objetivos: solução para a reivindicação territorial sobre o
Essequibo; envolvimento político em favor da Argentina durante o
conflito das Malvinas; relativo distanciamento de Washington que
enquadrava no conflito leste-oeste as crises centro-americanas e do
Atlântico sul; permanente atenção à região caribenha e centro-americana;
e, enfim, estreitamento do relacionamento com o Brasil9.
A recessão que afetava ambas as economias retardava a
implementação de projetos de cooperação regional. Assim é que
permanecia nas intenções o ambicioso projeto de constituição da
multinacional Petrolatina, mediante associação das estatais de Venezuela,
México e Brasil. Nova evidência dos limites dessa cooperação
representou a criação do Grupo de Trabalho Interministerial, Calha
Norte, em 1985, com que o Brasil enfrentava isoladamente os
problemas de desenvolvimento da região situada acima dos rios
Amazonas e Solimões, entre os quais a demarcação dos limites, o
levantamento da situação das terras indígenas, a criação de colônias de
povoamento com forte presença do Exército e o estímulo ao comércio
fronteiriço. Causavapreocupação aos integrantes desse GTI o fato de

9 Jório Salgado Gama Filho ao MRE, relatório, Caracas, 31 dez. 1982, AHIBR, caixa 254.

266
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

as terras indígenas concentrarem-se precisamente na região de fronteira,


registrando-se o fato de o grupo étnico ianomâmi viver em ambos os
lados, a requerer uma política comum de proteção10.
Em 1987, negociavam-se modificações no estatuto do Pacto
Andino, com o objetivo de reerguê-lo de sua letargia e de transformá-
lo em um bloco operacional. O exame das sugestões que chegavam à
confecção do Protocolo Modificatório deixou transparecer falhas
congênitas na concepção integracionista e na condução processual,
responsáveis em última análise pelo seu malogro como instrumento
destinado à promoção da integração sub-regional. Essas mesmas falhas
foram sabiamente evitadas nos dispositivos com que Brasil e Argentina
haviam posto em marcha, no ano anterior, o processo de integração
do Cone Sul.
Com efeito, os empresários e os governos das nações que
integravam o bloco andino requeriam mudanças no ato constitutivo,
o Acordo de Cartagena, para: (a) eliminar previsão de datas rígidas de
constituição da união aduaneira; (b) flexibilizar e individualizar prazos
para eliminação de barreiras aduaneiras; (c) suprimir a obrigatoriedade
da programação industrial coletiva, tornando-a optativa; (d) revogar a
legislação coletiva a respeito de capitais e tecnologias estrangeiros; (e)
estabelecer mecanismos de transição para o comércio bilateral e de
salvaguardaspara as contingências que afetassem as economias nacionais.
Desse modo, a nova filosofia da integração andina enfraquecia o
dirigismo estatal coercitivo e conferia maior determinação ao mercado
e à concorrência não desleal como motores do crescimento, da alocação
eficiente de recursoseda expansão dos mercados nacionais. Osempresários
venezuelanos criticavam, contudo, a hesitação da Venezuela, que até
então não aderira ao Gatt, que entrara tardiamente para a Alalc e para o
Pacto Andino e que retardava a assinatura do Protocolo Modificatório,
correndo o risco de isolar-se diante de pólos mais dinâmicos da
economia latino-americano como o México, a Argentina e o Brasil11.

10 MRE à legação em Caracas, despachos, Brasília, 24 set. 1985, AHIBR, caixa 286 e 6 jan.
1986, AHIBR, caixa 292.
11 Paulo Henrique de Paranaguá ao MRE, ofício, Caracas, 13abr. 1987, AHIBR, caixa 302.

267
AMADO LUIZ CERVO

A fim de desencadear o processo moderno de integração, o


presidente brasileiro, José Sarney, foi ao encontro de seu colega
argentino, Raúl Alfonsin, em 1986, e venezuelano, Jaime Lusinchi,
no ano seguinte, com o intuito de assentar sobre eixos de sólidas relações
bilaterais o progressivo e flexível processo de integração da América do
Sul. No Compromisso de Caracas, subscrito a 17 de outubro de 1987,
expressava-se “a irreversível vontade política comum de iniciar as ações
capazes de elevar aos níveis mais altos e em benefício mútuo as relações
econômicas entre o Brasil e a Venezuela”. Os novos eixos de cooperação
ao norte e ao sul do Brasil tinham causas comuns, no plano político: a
consolidação da democracia, uma atitude de maior introspecção latino-
americana, em substituição à introspecção nacional dos países, e a
presença ativa dos governos em grupos regionais de concertação política
e econômico-financeira, como o Tratado da Bacia do Prata e o de
Cooperação Amazônica, o Grupo de Contadora-Apoio, o dos Oito e
o do Consenso de Cartagena.
Os laços foram estreitados pelos encontros dos presidentes
Sarney e Lusinchi em Brasília e em Caracas, com a criação de um
ambiente político muito favorável à cooperação econômico-comercial
de que resultou o Compromisso de Caracas. Um programa de ação
foi criado com o objetivo de promover de imediato a recomposição
do comércio bilateral. Com efeito, esse fluxo situava-se muito abaixo
do potencial de ambas as economias e enveredara-se por desequilíbrios
estruturais que o haviam deteriorado nos últimos anos. Entre 1982 e
1986, o comércio bilateral caiu de 1 bilhão e 440 milhões de dólares
para 440 milhões, sobretudo em razão da queda das exportações
venezuelanas para o Brasil, constituídas quase que exclusivamente de
petróleo, queda de 970 milhões para apenas 96 milhões de dólares. O
perfil do comércio bilateral evidenciava, portanto, a extrema dependência
da Venezuela com relação a um produto de exportação e as vantagens
de um exportador de múltiplos itens como o Brasil. O déficit que
fora tradicionalmente brasileiro verteu-se para o outro lado, colocando
à Venezuela o desafio de diversificar sua pauta para não perpetuá-lo.
Outra idéia perdida em favor do equilíbrio bilateral fora a associação
das estatais de ambos os países na exploração do petróleo venezuelano,

268
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

o que teria evitado a drástica redução do volume da importação


brasileira, de 28 milhões de barris em 1982, para pouco menos de
cinco em 1986. Esses problemas requeriam soluções criativas, como a
associação de empresas de ambos os países, que a nova modalidade de
cooperação se propunha engendrar12. De qualquer modo, ao tempo
em que o processo de criação do bloco do Cone Sul nascia da
cooperação entre Brasil e Argentina, a diplomacia do presidente brasileiro
José Sarney havia preparado outro processo alternativo, ao norte,
construindo um firme eixo de perspectivas similares com a Venezuela.

6.3. O eixo Brasil-Argentina

A Argentina iniciou a década de 1980 com instabilidade


acentuada de seu regime militar, evidenciada, por um lado, pelo grotesco
afastamento do presidente Roberto Eduardo Viola, uma demonstração
do malogro da Junta Militar criada para aparentar coesão interna ao
processo ditatorial, e, por outro, pela ruptura da apregoada continuidade
da política econômica que representou a elevação de Leopoldo
Fortunado Galtieri à presidência. Os ministros civis, sobretudo da área
econômica, careciam de poder e de visão orgânica nacional, visto que
agiam como representantes de interesses setoriais da sociedade. Arecessão
econômica era em parte conseqüência da inabilidade administrativa e
as críticas à política cambial do ministro Martinez de Hoz faziam-se
uníssonas em todos os setores de atividade. Os argentinos correram
atrás do dólar, provocando uma perda excepcional de divisas para o
país. Tanto o setor industrial quanto o dinâmico setor agropecuário
entraram em declínio.
Apesar da instabilidade do regime, apolítica exterior argentina
conservou suas prioridades tradicionais em 1980-1981, mesmo porque
teve à frente do Palácio San Martín chanceleres competentes, como
Oscar Camilión, ministro de Viola, e Nicanor Costa Méndez, de
Galtieri. Os dois conflitos de fronteira, com o Chile na parte austral e

12 Osmar Vladimir Chohfi ao MRE, relatório, Caracas, 14 jan. 1988, AHIBR, caixa 324.

269
AMADO LUIZ CERVO

com a Grã-Bretanha acerca das Malvinas, eram conduzidos, o primeiro


sob mediação do papa e o segundo em rodadas de negociações.
Camilión foi responsável por progressiva recuperação da imagem
internacional da Argentina, ao explorar diversas possibilidades de tirá-
la do isolamento em que haviam-na mergulhado os militares desde
1976. Essa tendência vinha se delineando desde o governo Videla, como
reação a dificuldades de monta que os militares provocaram nas relações
com os Estados Unidos, o Pacto Andino e a Europa Ocidental, tendo
no bojo a questão dos direitos humanos, e com o Brasil, pelo conflito
acerca do aproveitamento dos rios internacionais da bacia do Prata, sem
mencionar os de fronteira, com o Chile e a Inglaterra. Fora precisamente
a atuação de Camilión, à frente da embaixada em Brasília, no sentido de
desativar o contencioso dos rios que o credenciara ao Palácio San Martín.
Sua política exterior seria marcada por uma orientação prioritáriapara os
países da América Latina, reflexo da política de afastamento da Europa
que se fechava aosprodutos argentinos de exportação.
Camilión caiu, entretanto, na armadilha criada pela eleição de
Ronald Reagan à presidência dos Estados Unidos e seu sucessor dela
não se livrou. Crendo com sua atitude vis-à-vis dos Estados Unidos
poder superar os embaraços que a campanha de Carter pelos direitos
humanos fez emergir nas relações bilaterais, a Argentina ofereceu-se à
colaboração norte-americana na Guerra Fria, engajando-se nas
intervenções que Reagan promovia contra os regimes de esquerda e os
movimentos revolucionários na América Central e no Caribe. Embora
fosse idéia do ministro apenas colaborar na contenção do comunismo
pela assistência econômico-financeira, excluído o envolvimento militar,
sua diplomacia civil ensejou intensos contatos entre os setores castrenses
de ambos os países, como se operassem uma diplomacia militar
paralela. Os militares argentinos criaram a ilusão de um capital político
que se acumulava, como se, mais adiante, se lhes seria outorgado de
direito o apoio de Reagan a suas iniciativas, como a tomada das
Malvinas, já que as negociações diplomáticas com a Grã-Bretanha
andavam estagnadas.
Visitas presidenciais, efetuadasem 1980 e 1981, repuseram as
relações entre o Brasil e a Argentina no quadro do entendimento

270
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

político, desde que o acordo de compatibilização entre as hidrelétricas


de Itaipu eCorpuspôs termo ao contencioso acerca dos rios, em outubro
de 1979. Eventuais dificuldades no comércio ou nos transportes de carga
tinham pronta solução nesse clima de entendimento que, ademais,
resultava na coordenação de posições em organismos internacionais. Mas
a assunção de Galtieri, em dezembro de 1981, abriu perspectivas de
acentuado envolvimento na Guerra Fria, de intensificação de contatos
com os militares norte-americanos e de maior engajamento com relação
à América Central. O Itamaraty não apreciava essa inflexão da política
exterior argentina, apesar de que, e felizmente, ela não comprometia a
prioridade para a América Latina e a estreita cooperação bilateral13.
Essa atitude moderada e autônoma do governo brasileiro diante
do envolvimento argentino na Guerra Fria e a concomitante ocupação
das ilhas Malvinas permitiu-lhe, durante e após o conflito no Atlântico
sul, desempenhar um papel importante para o conserto que a política
exterior argentina estava a requerer.
As instruções de julho de 1982 que recebeu a delegação
brasileira à I Reunião Ordinária do Comitê de Ação de Apoio à
Argentina, criado no quadro dos mecanismos regimentais do Sela,
revelam a delicadeza das decisões a tomar para socorrer o vizinho país
em contexto de amarga desventura. Recomendava o Itamaraty nesse
documento a dissuasão da “retórica do ressentimento” que extravasasse
os limites dos problemas concretos argentinos para abarcar outros
reclamos; recomendava obstruir a latino-americanização do antagonismo
norte-sul ou leste-oeste ao ensejo do epílogo da crise das Malvinas, por
considerá-lo prejudicial às relações bilaterais ou multilaterais com os
países industrializados e corruptora do processo de integração da América
Latina; recomendava desativar o próprio Comitê de Ação, caso o
governo argentino aceitasse tratar da questão da soberania sobre as
Malvinas no âmbito das Nações Unidas; os compromissos de ajuda à
Argentina não deveriam comportar a solidariedade política agressiva
que a secretaria do Sela propunha, por isso melhor seriam encaminhados
na esfera bilateral; especificamente, no caso do Brasil, as fórmulas de

13 Carlos F. Duarte ao MRE, relatório, Buenos Aires, 13 jan. 1982, AHIBR, caixa 253.

271
AMADO LUIZ CERVO

ajuda bilateral teriam por escopo o aprofundamento do entendimento


entre os dois países14.
Em suma, a diplomacia brasileira, quando reagiu diante da
derrota da Argentina, buscou salvar a unidade da América Latina de
forma realista, evitando desvios introspectivos que haviam-na
comprometido no passado, e mirou para o lado do entendimento
com a Argentina, que a ocasião poderia reforçar em favor de um
processo gradual e flexível de integração, que mais tarde iniciar-se-ia
efetivamente.
Com efeito, um mês depois dessa reunião do Sela, teve lugar
em São Paulo grande encontro empresarial brasileiro-argentino
convocado para examinar o desenvolvimento das relações econômicas
bilaterais e sugerir iniciativas. Dentre estas, recomendava-se a divulgação
das normas vigentes na área do comércio exterior, a estabilização dessas
normas para evitar os inconvenientes de mudanças bruscas nas
legislações, facilidades operacionais para empresas comerciais e uma
presença empresarial constante nos foros decisórios da Aladi. A
integração econômica com que sonhavam os empresários dependia de
entendimentos setoriais, da identificação de carências dos sistemas
produtivos nacionais, do progressivo desagravo comercial e da segurança
de execução para os projetos industriais ou comerciais bilaterais diante
de eventuais modificações de políticas econômicas nacionais. Essas
recomendações, de caráter objetivo, iriam conformar os protocolos de
cooperação que, em 1986, foram firmados pelos dois governos, a
demonstrar que a moderna integração já vinha sendo pensada quatro
anos antes15.
O Sela representava, nos anos 80, o foro de debate mais
concorrido sobre as questões latino-americanas. O Itamaraty andava
contudo aborrecido com o posicionamento politizado da secretaria
permanente do órgão que preparava de ordinário o documento básico
a ser debatido nas reuniões do conselho ou dos comitês de apoio. As
instruções da chancelaria brasileira para a delegação que compareceu à
IX Reunião Ordinária do Conselho do Sela, realizada em Caracas entre

14 MRE à legação em Buenos Aires, despacho, Brasília, 21 jul. 1982. AHIBR, caixa 269.
15 Idem, relatório, Brasília, 24 set. 1982, AHIBR, caixa 269.

272
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

12 e 21 de setembro de 1983, evidenciam a coerência e a continuidade


de concepções do Itamaraty acerca das relações interamericanas e da
inserção internacional da América Latina, que encaminhavam a nova
fase integracionista da região. A institucionalização e a ampliação da
burocracia do Sela eram indesejáveis para o Brasil, que preferia atuar
por meio dos grupos latino-americanos existentes, de caráter mais
informal e flexível. As atribuições daquele órgão econômico multilateral
latino-americano deveriam restringir-se às de um foro de consulta e
coordenação em assuntos para os quais fosse exigido um posicionamento
comum, o que na prática raramente ocorria, em razão da inviabilidade
operativa. No setor do comércio, as instruções tinham por irrealista a
proposta da secretaria de impor um tratamento simétrico para as
importações provindas dos países desenvolvidos que mantinham em
vigor políticas protecionistas. Da mesma forma, haveria de se
pronunciar a delegação brasileira contrariamente à proposta da secretaria
permanente, de promover uma ampla coordenação dos países latino-
americanos para atuar conjuntamente nos foros internacionais e ante
os governos dos países credores, na busca de soluções coletivas para a
conjuntura financeira do endividamento externo. As autoridades
brasileiras faziam restrições de princípio à ação conjunta dos países da
América Latina propalada pelo Sela e consideravam mais adequado
acionar os mecanismos existentes (FMI, BID e Bird) e o tratamento
isolado do caso brasileiro. As atribuições programadas do Sela acerca
de suas responsabilidades nos setores de energia e transporte também
eram tidas por inconvenientes pela inteligência diplomática brasileira;
eventuais soluções nesses domínios de ação, como ainda no do
planejamento prospectivo dos processos de cooperação e integração,
somente poderiam encaminhar-se no âmbito de grupos sub-regionais
em razão da complexidade da América Latina. Quanto às relações da
América Latina com os Estados Unidos e com a CEE, conviria ao Sela
restringir-se a estudos e abster-se de regulamentações coercitivas para
os países que dessem origem a confrontos externos. O Brasil apoiava
apenas o diálogonessas frentes e, mesmo assim, porque os países menores
da região lhe davam importância, e não porque via nesse diálogo um
instrumento prático.

273
AMADO LUIZ CERVO

Em suma, a diplomacia brasileira, na primeira metade dos anos


80, depreciava as diversas modalidades do consenso latino-americano,
por considerá-lo inexeqüível em campos essenciais das relações
internacionais como o comércio, as finanças, os transportes, o
provimento energético e as relações com parceiros estratégicos como
os Estados Unidos e a CEE. Essas questões, a menos que fossem
encaminhadas isoladamente por cada governo, teriam abrigo quando
muito em eixos bilaterais ou pequenos grupos integrados, onde as
soluções se ajustassem aos contornos da realidade comum16.
Na verdade, a diplomacia brasileira olhava tanto para a
Venezuela quanto para a Argentina, bem mais voltada para esta última,
“em vista da importância das relações entre os dois países e das
possibilidades de ação conjugada”17. Os demais foros eram paliativos
para o senso de união da América Latina que, por todos os títulos,
convinha nutrir constantemente, mesmo porque o desempenho de
cada país nos foros multilaterais e grupos operativos sub-regionais dele
dependiam.
Nesse contexto, triunfou a ação diplomática com a assinatura,
em 1986, dos doze protocolos de cooperação entre o Brasil e a Argentina,
o eixo em torno do qual, cinco anos depois, o Tratado de Assunção
criaria o Mercosul.
Presume-se que o sucesso da integração no Cone Sul retirou o
entusiasmo acerca de outro processo que se preparou, como foi visto
no parágrafo anterior, com a construção do eixo Brasil-Venezuela. Em
termos estratégicos, foi um erro abandonar a integração com a
Venezuela, visto que esta integração adquiria caráter complementar.
Com efeito, a Argentina, desprovida de grandes empresas, representava
um importante mercado de consumo para as exportações brasileiras,
fato que forçou a integração produtiva delineada nos protocolos de
1986 aconverter-seapenasem integração comercialistacom o tratado
de 1991. Mas a Venezuela abria a perspectiva de, por meio da associação,

16 MRE à delegação brasileira à IX Reunião Ordinária do Sela, instruções (anexas ao


despacho de 4 outubro de 1983 à legação em Caracas), caixa 273.
17 MRE à legação em Buenos Aires, despacho, Brasília, 2 set. 1985, caixa 286.

274
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

dar nascimento a grandes empresas de matriz venezuelano-brasileira,


capazes de se tornarem latino-americanas e transnacionais, nas áreas
da prospeção do petróleo, da petroquímica, da siderurgia e da
hidreletricidade, conforme já se aventara nos meios dirigentes.
O abandono do paradigma desenvolvimentista de política
exterior, ao final da década de 1980, está na origem tanto da feição
meramente comercialista que adquiriu o processo de integração do
Cone Sul quanto do esquecimento em que mergulhou a integração
produtiva ao norte do continente sul-americano.

275
AMADO LUIZ CERVO

276
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Terceira parte

O ciclo da diplomacia neoliberal

277
AMADO LUIZ CERVO

278
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

7. Sob o signo neoliberal: as relações


internacionais da América Latina na virada
do século

O abandono do paradigma de relações internacionais do Estado


desenvolvimentista, a favor do paradigma neoliberal, teve seu impulso
inicial em países de menor porte da América Latina, nos meados da
década de 1980, e concluiu-se por volta de 1990, com a chegada ao
poder do presidente Carlos Salinas de Gortari no México, Carlos Saúl
Menem na Argentina, Carlos Andrés Péres na Venezuela, Alberto
Fujimori no Peru e Fernando Collor de Mello no Brasil. Desse modo,
as experiências neoliberaisestender-se-iam sobre o subcontinentecomo
um todo durante a última década do século XX.
Embora a América Latina tenha demonstrado a maior coerência
dentre todas as regiões do mundo na adoção do consenso neoliberal,
não houve uniformidade na intensidade e nos ritmos das reformas
internas requeridas pelo nova forma de inserção internacional. A
modernização foi concebida pelos dirigentes como abertura do mercado
de bens e de valores e privatização das empresas públicas, como sugeria
o centro hegemônico do capitalismo, mas os países avançaram por
esta via com certo descompasso: Chile e Argentina são exemplos de
adaptações rápidas e radicais, Venezuela e Brasil exemplos de hesitações
políticas e tropeços operacionais, enquanto o México se afastava da
América do Sul e encaminhava com senso prático sua vinculação ao
bloco da América do Norte, o Nafta. No ano 2000, reviravoltas
eleitorais haviam afastado do poder os próceres do neoliberalismo no
México, no Uruguai, no Chile, na Venezuela e na Argentina. Com a
vitória de governos de oposição, cujas campanhas políticas se haviam
assentado na crítica ao neoliberalismo, a opinião pública deu provas de
que estava avaliando negativamente a década de consenso das
experiências neoliberais.

279
AMADO LUIZ CERVO

7.1. A transição do Estado desenvolvimentista para o


Estado normal

Com o término da Guerra Fria e o fim da bipolaridade, estabe-


leceu-se um consenso em esfera planetária que a literatura definiu ora
com os termos de globalização, ora de nova interdependência, ora de
neoliberalismo. O mundo parecia uniformizar-se nos aspectos tanto
ideológico, quanto político, econômico e estratégico.
O consenso neoliberal global postulava a implementação dos
seguintes parâmetros de conduta por parte dos governos de todo o
mundo: democracia, direitos humanos, liberalismo econômico, cláusula
social, proteção ambiental e responsabilidade estratégica solidária tendo
em vista a promoção de tais valores. Como este consenso representava
o triunfo do centro capitalista– basicamente Estados Unidos, Europa
Ocidental e Japão – sobre as experiências socialistas e terceiro-mundistas,
parecia ter que prevalecer. Assim entenderam os dirigentes latino-
americanos dos anos noventa, que o abraçaram de corpo e alma, quase
sempre de forma acrítica, diante de uma opinião pública dominada
por pressões da imprensa, cuja informação vinha impregnada com os
novos princípios.
Os dirigentes argentinos à época dos dois mandatos de Menem
(1989-1999) cunharam com felicidade a expressão Estadonormal para
designar a adaptação ante o novo paradigma. Desde o início do governo
de Menem, a Argentina via-se como o país normal que aspirou ser. Tal
opção comportava padrões concretos de comportamento: não só não
abrir confronto político, ideológico e de segurança com os Estados
Unidos e seus aliados, mas apoiá-los e, quiçá, segui-los em quaisquer
iniciativas. Ser normal significava, no caso argentino, romper com os
princípios da autodeterminação e da não intervenção, tão caros à
tradição diplomática latino-americana, como também com osprincípios
do direito internacional de que a ONU é guardiã, em favor de uma
ordem regulada por relações de força. Significava, ademais, sujeitar a
estrutura econômica interna e os padrões de inserção econômica
internacional aosdogmasdo chamado Consenso de Washington. Em
conseqüência desse giro para a normalidade, a Argentina exibiu nos

280
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

anos noventa uma política exterior pragmática e clara em seus princípios


e objetivos, diferente da brasileira, feita de hesitações conceptuais e
estratégicas1.
Ser normal converteu-se, contudo, no desideratum de todos
os países da América Latina, exceto Cuba, que se apressavam em agradar
à matriz do novo sistema internacional, os Estados Unidos, porque
com eles os vínculos eram os mais fortes e cada um desses países
trabalhava com a hipótese de poder tirar os melhores proveitos dessa
subserviência. Assim, atransição do Estado desenvolvimentista para o
Estado normal significou nos anos noventa, na América Latina, a adoção
de um processo de modernização concebido pelo centro em
substituição à formulação da inteligência local, consubstanciada no
tradicional pensamento daCepal.
Com efeito, o acervo de idéias estruturalistas cepalino, ancorado
nos conceitos de centro-periferia, deterioração dos termos de troca,
indústria, mercado interno, expansão do emprego e da renda, que
inspirou a política dos países latino-americanos em sua estratégia de
superação do atraso histórico, foi despachado para o arquivo histórico
pelos dirigentes neoliberais. Em seu lugar, introduziu-se a visão de um
mundo harmônico, global, que compreendia a valorização do
individualismo e da iniciativa privada, o mercado mundial e a transferência
dos ativos nacionais para as empresas oligopólicas globais, em nome
da elevação da produtividade. Em poucos anos, a América Latina
avançou no caminho da desconstrução do núcleo central robusto de sua
economia, erguido em sessenta anos de esforços nacionais. Consumou,
desse modo, a transição paradigmática das políticas exteriores, quer em
sua formulação nacional quer na dos blocos regionais que o processo
de integração criava. Mesmo a concepção da segurança transitou do
âmbito nacional ou regional para o global, aceitando-se como naturais
as intervenções eventualmente empreendidas, sob a égide da Otan e
não mais da ONU, com a finalidade de salvaguardar a nova ordem.

1Certas passagens do texto coincidem com a parte do autor inserida em Guimarães, Samuel
Pinheiro. Argentina: visões brasileiras. Brasília: Funag, 2000.

281
AMADO LUIZ CERVO

As margens de manobra da política internacional da América


Latina, que o paradigma desenvolvimentista implementara durante
sessenta anos e que denominara de 3ª Posição ou Política Externa
Independente, foram consideradas nos anos 90 inadequadas para os
tempos da globalização.
O Estado normal não admitia o conceito de margens de
manobra e introduzia, em seu lugar, os conceitos de consentimento
diante das matrizes e de padronização de condutas em matéria de
macropolíticas internas e externas. Às críticas de indivíduos e grupos
intelectuais e das correntes da opinião política de oposição aos regimes
neoliberais, os dirigentes respondiam sem hesitar que não havia outra
opção para a América Latina.
Os condicionamentos externos que se encontram na origem
da mudança paradigmática das relações internacionais da América Latina
coincidiram com fenômenos internos, que também explicam a
transição. Com efeito, os anos 80 assistiram à queda do desempenho e
à exaustão do modelo desenvolvimentista. O fim da era das ditaduras
e a restauração da democracia engendraram crises políticas. O
endividamento externo agravou-se e a instabilidade monetária, com
surtos de hiperinflação, exacerbava os descontentamentos sociais. A
superproteção às empresas locais conduzira à baixa produtividade
sistêmica da economia. Os neoliberais extraíram desses malogros
argumentos com que seduzir a opinião eleitoral nas campanhas
presidenciais. A eles se somaram dirigentes por vezes eleitos com outro
discurso político, mas que também faziam referência ao malogro do
ciclo desenvolvimentista, para justificar a mudança de estratégia. E o
consenso cobriu o subcontinente.
Houve uma modificação importante no processo decisório
responsável pelos novos desígnios das políticas exteriores. Em quase
toda parte, os dirigentes latino-americanos dos anos 90 substituíram
grupos tradicionais que mantiveram a coerência do poder por décadas.
As novas autoridades vinham das margens da vida política, embora
utilizando partidos tradicionais, como no México e na Argentina, ou
de fora de tais partidos, como no Brasil. O certo é que os grupos de

282
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Gortari no México, Menem na Argentina, Collor no Brasil, Fujimori


no Peru, Pinochet no Chile e outros substituíram as elites dirigentes
tradicionais por recém-chegados ao poder. Esses, com certa naturalidade
e muita desenvoltura, implementaram a nova visão de mundo,
desvinculada de objetivos, valores, idéias e compromissos políticos
relacionados à herança histórica.
Uma outra leitura dos interesses nacionais deu forma ao
processo decisório dos governos neoliberais. As chancelarias foram em
boa medida silenciadas, como guardiãs que eram do patrimônio político
da filosofia desenvolvimentista. Sua esfera de ação foi confinada à
diplomacia ornamental, os novos temas da moda, como a governança
global, o meio ambiente, os direitos humanos e as intervenções
humanitárias. A política internacional pesada, isto é, as relações
econômicas internacionais dos países como comércio, finanças,
vinculações empresariais ou transferências de ativos privatizados, passou
para o comando dos ministérios econômicos, ocupados por jovens
que em sua maioria haviam feito pós-graduação em universidades norte-
americanas ou haviam servido como técnicos de agências tais como o
FMI e o Banco Mundial. Aimprensa denunciava amiúde a petulância
com que estas autoridades aplicavam sem senso prático poucas teorias
assimiladas no centro do capitalismo e formuladas precisamente para
servirem de inspiração à periferia. Altas taxas de juro para manter a
estabilidade monetária, contenção do crescimento econômico para
combater a inflação, privatização e transferência de empresas públicas
ao controle estrangeiro, para aumentar a competitividade, tornaram-
se parâmetros de políticas públicas na América Latina.
As idéias expostas neste parágrafo espelham uma situação
homogênea da América Latina nos anos 90. Elas apresentam,
sobretudo, um interesse didático. Como se verá no próximo parágrafo,
as experiências foram bem diversas, unspaíses avançando mais e outros
menos no caminho neoliberal. Dois países de grande dimensão da
América do Sul realizaram experiências nos extremos: a Argentina, uma
experiência liberal radical e o Brasil, uma experiência mista, situada em
algum ponto entre o paradigma desenvolvimentista e o neoliberal.

283
AMADO LUIZ CERVO

7.2. Orientações externas dos regimes neoliberais

As tendências dos estudos de relações internacionais na América


Latina comprovaram certa perplexidade dos autores, postos diante do
desafio de explicar e avaliar a transição paradigmática do modelo
desenvolvimentista para o neoliberal, bem como osprimeiros resultados
deste último2. Um modo de introduzir este tema dos paradigmas de
política exterior consiste em comparar os estudos de relações
internacionais na América Latina e aprofundar as linhas de produção
acadêmica do Brasil e da Argentina nos anos 90. Estes dois países
vincularam-se estreitamente desde o Tratado de Assunção de 1991,
que criou o Mercosul. Brasileiros e argentinos estão desde então
considerando com maior atenção o que se faz do outro lado do rio da
Prata.
Abibliografia recente acerca das relações interamericanas e da
projeção mundial da América Latina não apresenta um padrão de
interpretação unívoco. Há grandes divergências de interpretação acerca
dos resultados do ciclo desenvolvimentista, que se estende de 1930 a
1986-1989. Em alguns países, a irrupção do liberalismo do fim do
século afetou a reflexão intelectual e aconselhou o revisionismo histórico.
Em outros, a inteligência nacional manteve o espírito crítico tanto
para o estudo do ciclo desenvolvimentista quanto para o do ciclo liberal
que o sucedeu. O pluralismo das correntes de interpretação não
desapareceu em nenhum país. Surgiram, contudo, na historiografia e
na ciência política aplicadas às relações internacionais no Brasil e na
Argentina, nos anos 90, linhagens que exemplificam aquela perplexidade
dos pesquisadores postos diante de dois desafios: por um lado, avaliar,
sob pressão das mudanças do fim do século, um passado de sessenta
anos; por outro, desvendar o grau de acerto dos parâmetros da nova
inserção internacional ou então lançar dúvidas sobre sua compatibilidade
com os interesses da região.

2 A bibliografia anexa a este texto foi examinada pelo autor com o intuito de fundamentar
suas interpretações. Serviram-lhe ao mesmo propósito grande número de artigos publicados
pela Revista Brasileira de Política Internacional, entre 1993 e 2000, acerca das relações
interamericanas e das relações internacionais da América Latina.

284
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Grande número de especialistas argentinos congregou-se em


verdadeira comunidade epistêmica, composta de acadêmicos,
diplomatas e burocratas, por vezes a mesma pessoa. Dedicaram-se a
uma implacável condenação do passado de sessenta anos. Além de
consertar o conhecimento, tiveram os epistêmicos por fim influir sobre
a opinião pública, o pensamento político e o processo decisório em
matéria de política interna e externa durante os dois mandatos do
presidente Carlos SaúlMenem, entre 1989 e 1999. Seu objetivo erao
de imprimir a racionalidade decorrente do neoliberalismo à nova
organização nacional e à nova inserção internacional do fim do século.
As publicações do grupo estiveram a cargo sobretudo do Consejo
Argentino para las Relaciones Internacionales e do Grupo Editor
Latinoamericano. Os epistêmicos almejaram, em vão, nos anos 90,
produzir o consenso nacional.
Podemos separar os analistas argentinos de relações internacionais
dos anos noventa em três grupos: (a) os revisionistas de direita,
conduzidos por Carlos Escudé, Andrés Cisneros e Felipe de la Balze;
(b) uma corrente revisionista de centro juntou-se a eles, sem contudo
sacrificar a autonomia mental à ideologia neoliberal; citamos entre os
centristas os nomes de Roberto Bouzas, Mônica Hirst, Juan Archibaldo
Lanús, Rubén M. Perina e Roberto Russell; (c) menos expressiva em
volume de textos publicados, mas não em profundidade de análise,
uma corrente de interpretação crítica sobreviveu à comoção intelectual
do fundamentalismo liberal e expressou-se nos anos noventa com os
nomes de Raúl Bernal-Meza, Aldo Ferrer, Alfredo Bruno Bologna,
José Paradiso, Silvia Ruth Jalabe, Víktor Sukup e Mario Rapoport,
entre outros3.
Qual o mais importante resultado epistemológico das novas
correntes argentinas de estudo das relações internacionais? Feito o
balanço dessa literatura, é difícil negar que irrompeu e projetou-se sobre
o meio intelectual da Argentina dos anos 90 um pensamento com
pretensão hegemônica que construiu a teoria da decadência nacional

3 Seus textos aparecem, na bibliografia anexa, tanto em obras individuais como em obras
coletivas, cujas referências indicam apenas o nome dos organizadores.

285
AMADO LUIZ CERVO

engendrada pelo isolamento internacional do país, durante a fase que


se estende entre 1930-1943 e 1983-1989. E que reivindicou, como
terapia para todos os males, desesperadamente, o neoliberalismo da
década de 1990. Em outras palavras, o grupo epistêmico argentino
substituiu nos anos 90 pela teoria da decadência a teoria latino-
americana da dependência, formulada pelos marxistas dos anos 60 em
reação ao pensamento da Cepal.
A mudança sem confusão quanto aos conceitos ou decisões a
tomar, que se observou no plano da política interna, verificou-se
também no plano da política exterior durante o primeiro mandato de
Menem. Um pensamento presumivelmente realista – realista, segundo
os escritos de Carlos Escudé – alimentou a nova orientação e provocou
um giro dramático da política exterior com o fim de eliminar os efeitos
autodestrutivos das tendências confrontacionistas com grandes potências
ocidentais que haviam acompanhado a política exterior desde os anos
30 do século XX. A política exterior ajustou-se, em nome desse
presumível realismo, à condição de país periférico. Seus fundamentos
doutrinais foram explicitados em três princípios, expostos amplamente
nos textos de Escudé:
a) Um país periférico, dependente, pobre e estrategicamente
irrelevante para as grandes potências, deve eliminar suas
confrontações políticas com o exterior e lutar apenas por
assuntos materiais que afetem o bem-estar do povo. Deve
conformar seus objetivos externos com os da potência
hegemônica na área, tendo em vista obter algum ganho
econômico em troca da aceitação da liderança.
b) Apolítica exterior do país periférico deriva do cálculo entre
custos e benefícios materiais, como ainda do cálculo de
risco de custos eventuais. O desafio político à grande
potência pode não comportar custos imediatos, mas a longo
prazo sempre se revela autodestrutivo.
c) A autonomia da política exterior há de refletir a capacidade
real de confrontação do Estado mas, sobretudo, orientar-
se pelos custos relativos dessa confrontação. Ela não
corresponde à liberdade de ação mas à possibilidade de

286
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

eliminar perdas e promover ganhos nas relações exteriores


do país.
Formulados no momento em que a ordem internacional transitava
da bipolaridade à globalização, esses princípios de realismo periférico
inspiraram as formulações reativas do governo argentino, diante da
nova visão de mundo dos Estados Unidos.
O cientista político Felipe A. M. de la Balze identificou cinco
domínios de ação da nova política exterior argentina de realismo
periférico, também chamada de política exterior de reincorporação ao
Primeiro Mundo pelos dois ministros de Relações Exteriores de Menem,
Domingo Felipe Cavallo e Guido Di Tella. Esses domínios de ação
serão expostos e avaliados a seguir, porquanto servem de parâmetro
para qualificar, de modo geral, a política exterior dos Estados neoliberais
da América Latina, cujos dirigentes também afirmaram no início de
seus mandatos que pretendiam, por essa via, incorporar seus países ao
Primeiro Mundo.

1) Reinserir a economia argentina na economia mundial


O propósito apostava na premissa de que o processo de
globalização da economia mundial manteria sua tendência ascendente
no futuro e partia da convicção de que a abertura econômica induz o
progresso tecnológico. Esse domínio de ação estabeleceu como meta
alcançar a fronteira tecnológica dos países do Primeiro Mundo no espaço
de uma geração. Contudo, visto com espírito crítico, esse parâmetro
decisório surpreende o observador, já que não leva em conta o fato de
que a desnacionalização da economia interrompe a geração e a
apropriação de tecnologia pelo sistema produtivo nacional e acentua a
desigualdade estrutural. No fundo, por trás dessa linha de conduta
dissolve-se o conceito de sistema produtivo nacional, a indicar a ruptura
filosófica com o passado. Daí a ênfase no mais relevante dentre os
objetivos econômicos da política exterior, o de aumentar o fluxo de
investimentos externos no país com o intuito de provocar a modernização
da estrutura produtiva local. No entender de Cavallo, havia-se
difundido na cultura política argentina a convicção de que o

287
AMADO LUIZ CERVO

desenvolvimento era uma espécie de dívida caritativa das nações


avançadas para com os pobres. Mas ao fazer esta crítica, aliás com pouco
fundamento, à experiência do passado, não percebia o ministro
argentino que sua própria estratégia mantinha o desenvolvimento, da
mesma forma, como uma responsabilidade alheia, cuja indução era
posta a cargo da nova política exterior. O segundo objetivo econômico
relevante da Argentina consistia na busca de meios para reinserir o país
no comércio internacional. A abertura da economia à competição
internacional e a atuação junto aos órgãos reguladores multilaterais,
aos blocos regionais e aos países emergentes da Ásia foram meios
selecionados para realizar tal objetivo. As condições internas para tornar
exeqüíveis os dois objetivos da política econômica externa foram as
reformas estruturais e a estabilidade monetária. Fechou-se, desse modo,
o círculo da política econômica externa e interna.

2) Estabelecer relação especial com os Estados Unidos

O propósito reconhece o triunfo dos Estados Unidos sobre a


União Soviética ao termo da Guerra Fria. Assenta na convicção de que
o mundo se encaminha a longo prazo para um futuro multipolar,
com distribuição relativamente eqüitativa do poder, do prestígio e da
riqueza, mantendo, porém, a médio prazo, a preeminência dos Estados
Unidos nesses aspectos. Essa linha de força da política exterior de Menem
não esconde o caráter corretivo relativamente ao passado de confrontação,
embora ela se assemelhe a formulações de política exterior de períodos
anteriores, sobretudo de governos militares. Aposição de excepcionalidade
dos Estados Unidos no mundo sugere à Argentina que estabeleça com
esse país uma relação especial capaz de produzir os seguintes efeitos:
modernização das forças armadas, apoio para superação de questões
estratégicas regionais (Malvinas, corrida armamentista, estabilidade
democrática, eventuais desastres ecológicos), influência argentina sobre
o processo decisório norte-americano em política exterior, acesso especial
das exportações argentinas ao mercado dos Estados Unidos e do Nafta
e captação de uma parcela importante dos investimentos norte-
americanos no exterior. A nova relação pressupõe a conformação dos

288
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

valores que condicionam as visões dos dois países quanto à organização


interna e às relações internacionais, conformação essa que também foi
eleita como objetivo ou condição a criar pelos dirigentes do governo
de Menem. Admite-se entre aspartes apenas aquele tipo de confrontação
normal em matéria econômica, que os Estados Unidos enfrentam com
seus aliados europeus. Em sua formulação geopolítica, a relação especial
não recusa a intenção de a Argentina vir a tornar-se mão forte dos
Estados Unidos, quando a expansão de seus interesses (de um ou de
outro) requeira medidas de coerção regional. Tal recuperação da
tradicional empáfia argentina assenta-se na presunção segundo a qual o
país foi posto, em conseqüência da ruptura dos anos noventa com o
passado, em situação de superioridade sobre qualquer outro da América
Latina para implementar uma política de influência em Washington,
ao ponto de haver-se tornado indispensável à tomada de decisão das
autoridades norte-americanas com respeito aos países latino-americanos.
O objetivo de longo prazo, afirma Balze, “es llegar a una situación en
la cual los Estados Unidos encuentrem natural pedir nuestra opinión en
los temas claves de su política latinoamericana y se sientan incómodos de
ignorarla”. Nesse sentido, a singularidade do caráter da aproximação
entre a Argentina e os Estados Unidos era sua feição propriamente
ideológica, distinta da feição política chilena, operacional mexicana e
contextualizada na política brasileira de múltiplas parcerias estratégicas.

3) Aprofundar a integração econômica e a cooperação política com o Brasil

O terceiro parâmetro da política exterior de Menem não


constitui propriamente um fim em si, segundo Balze, mas, sim, o
meio indispensável de se chegar, depois de décadas de tentativas mal
sucedidas, a uma genuína estratégia de cooperação e integração latino
americana. Seu pressuposto consiste na substituição da geopolítica pela
integração nas relações sub-regionais, particularmente entre os países
do Cone Sul. Com efeito, o grupo de Menem esperava daquela
influência em Washington solução prévia para a dimensão geopolítica
de sua política exterior. Assim, por coerência, essa dimensão podia ser
afastada das relações entre parceiros sub-regionais. Entretanto, como

289
AMADO LUIZ CERVO

adiante se verá, a geopolítica corria o risco de ser reintroduzida na área


por efeito involuntário ou maquiavélico, precisamente em razão daquele
papel que a Argentina presumia exercer na esteira de suas relações
especiais com os Estados Unidos. Por enquanto – no cálculo dos
dirigentes menemistas – uma relação de tipo especial com o Brasil
modificaria o jogo de duas maneiras: primeiro, ao contrabalançar aquela
que se buscava com os Estados Unidos e, segundo, ao relançar a relação
cooperativa com os vizinhos da América do Sul e com as grandes
potências, por modo a romper com a política de isolamento em que o
país vivera mergulhado no passado.

4) Criar uma zona de paz no Cone Sul da América


A garantia de paz para a Argentina seria fornecida pelo
fortalecimento da segurança decorrente da criação da zona de paz em
sua área de influência, o sul do continente. Para tanto, o entendimento
com a Inglaterra e a cooperação militar, primeiro com o Brasil e depois
com o Chile, seriam os passos da estratégia de confiança a alcançar.
Esse objetivo vem associado ao anterior, de promover a integração
econômica e política latino-americana a partir do Mercosul. Contudo,
a realização da política externa de segurança nacional aparece como
uma variável dependente de dois outros fatores: por um lado, da
obtenção de tratamento especial porpartedosEstadosUnidosmediante
acesso à condição de membro especial da Otan ou, quiçá, a própria
admissão à organização e, por outro, dadesconstrução das seguranças
nacionais. Em outros termos, a zona de paz seria efetiva quando os
meios de segurança dos países do Cone Sul fossem desmontados em
favor do controle externo por parte do aliado especial ou da Otan, que
auscultariam a Argentina antes de tomar decisões relativas à América
do Sul e, quiçá, lhe fornecessem modernos meios de ação externa.

5) Desenvolver uma política de prestígio internacional


Apolítica de prestígio recupera a tradição principista do passado,
particularmente o estilo diplomático de Juan Domingo Perón,
conferindo-lhe a legitimidade de que carecia, por vir desde Menem

290
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

estribada nos princípios universais da diplomacia do Primeiro Mundo.


Após reverter a opinião argentina aos novos valores – liberalismo
econômico, integração, democracia, direitos humanos, meio ambiente,
combate ao narcotráfico, ao terrorismo e às ditaduras – o Estado dispôs-
se a conduzir de forma ostensiva a política de prestígio como tática
voltada à epifania da nova política exterior da nação. Para realizar tal
empenho, o momento e o gesto espetacular foram escolhidos como
oportunidades da sorte. Aos olhos do observador externo, essa lógica
não levou em conta o realismo. Com efeito, a história está repleta de
exemplos dessa conduta malograda de algumas nações que carecem de
poder. Apesar disso os dirigentes argentinos não hesitaram em recorrer
a uma política de prestígio feita de gestos grandiloqüentes, consoante
velhas táticas do peronismo.
A comunidade epistêmica argentina que procedeu ao
revisionismo histórico, à fundamentação doutrinal e ao desenho
estratégico da nova política exterior, nos moldes dos cinco pilares acima
descritos, apresentou surpreendente coerência, além de convergir para
a convicção de que esse era o caminho da reincorporação do país ao
Primeiro Mundo. Esses analistas das relações internacionais do país,
que por vezes coincidem com seus protagonistas, pretendiam, na
prática, fechar o ciclo da decadência nacional resultante da política
exterior do isolamento implementada no segundo tempo da história
argentina, entre 1930-1945 e 1983-1989, econtribuir para empurrar
o país ao terceiro tempo, o da prosperidade.
Nas palavras de Raúl Bernal-Meza, “os epistêmicos certamente
produziram o suporte ideológico-conceptual e cognitivo que o modelo
neoliberal requeria”. Mas outro grupo intelectual e acadêmico da
Argentina contrapôs sistematicamente, por meio da cátedra, da
investigação e das publicações, uma oposição crítica a esta comunidade
epistêmica. Seus membros mais conhecidos foram Atilio Borón, Mario
Rapoport, Aldo Ferrer e o próprio Bernal-Meza. Estiveram a postos
desde os primeiros momentos. Prenunciaram os erros estratégicos da
opção neoliberal e não necessitaram aguardar os resultados negativos
para o país, provocados pela década menemista em termos de indicadores
econômicos e sociais, para expor suas interpretações.

291
AMADO LUIZ CERVO

No Brasil, as linhas de análise das relações internacionais do


país não se dispersaram nos anos noventa como na Argentina. Há muito,
por sinal, as teorias da dependência estavam em descrédito nos meios
acadêmicos brasileiros. Não se construiu no Brasil uma teoria da
decadência e tampouco se escreveu contra o isolamento nacional do
passado. Pelo contrário, os historiadores refletiram, de modo geral,
uma interpretação valorativa dos sessenta anos que precederam o
governo neoliberal de Fernando Collor de Mello. Promoveram uma
espécie de apologia do modelo de política exterior cujo vetor era o
desenvolvimento nacional. Esta visão positiva do passado, em
contraposição à visão argentina da decadência, foi hegemônica no Brasil.
Ela se reflete nas obras mais relevantes publicadas nos anos noventa
por eminentes scholarscomo José Augusto Guilhon de Albuquerque,
Moniz Bandeira, Paulo Roberto de Almeida, Clodoaldo Bueno, José
Flávio Sombra Saraiva e Paulo Gilberto Fagundes Vizentini, entre os
quais este autor e outros mais podem ser incluídos. Nada de comparável
à numerosa literatura revisionista e ideologizada da Argentina existe
no Brasil. Nada de comparável ao confronto de correntes de
interpretação das relações internacionais. Como se a base étnica e
cultural da nação, multirracial e pluralista, fosse capaz de engendrar
consensos nacionais.
Os resultados desiguais do modelo de desenvolvimento,
adotado com maior racionalidade e continuidade no Brasil do que na
Argentina e em outros países da América Latina, entre 1930 e 1989,
explicam por certo a reação dos intelectuais e essas divergências de
avaliação da experiência do passado em ambos os países. Essa observação
nos sugere a questão do ambiente em que se produz o conhecimento
das relações internacionais do Brasil nos anos 90.
Em nenhum país da América Latina foi tão difícil a transição
do paradigma de política exterior do Estado desenvolvimentista para
o paradigma do Estado neoliberal como no Brasil. A mudança que
ocorreu no Chile, no México e na Argentina não se verificou no Brasil
de forma abrupta, como naqueles países. O presidente Fernando Collor
de Mello ensaiou em 1990 uma ruptura ao estilo desses outros países,
mas Itamar Franco, que o substituiu em 1992, pisou no freio das

292
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

inovações em termos de políticas públicas nacionais e da política


exterior. Apolítica exterior de Fernando Henrique Cardoso, em seus
dois mandatos entre 1995 e 2002, corresponde a uma prática sem
paradigma. Por que tanta indefinição?
Foi difícil ao governo brasileiro adaptar sua agenda externa aos
novos temas globais. Aceitou de bom grado a emergência da democracia
e dos direitos humanos nas decisões de política internacional, mas
afastou com repugnância a nova ingerência da aliança ocidental, a Otan,
mesmo quando feita em nome desses valores, porém fora do sistema
de decisão coletiva das Nações Unidas. Considerou a irrupção da causa
ecológica e da cláusula social sobre o comércio internacional como
nova forma de proteção dos países avançados e reagiu no sentido de
corrigir distorções. Desconfiou do credo liberal difundido desde
Washington – liberalização do mercado interno e dos fluxos financeiros
internacionais, internacionalização dos empreendimentos nacionais,
particularmente dos serviços – e confrontou-o com o conceito de
globalização assimétrica.
Em suma, o Estado brasileiro dos anos 90 hesitou em tornar-
se um Estado normal, como fizeram a Argentina, o Chile, o México e
outros. Normal, isto é, receptivo, submisso e subserviente aos comandos
das estruturas hegemônicas do mundo globalizado. O passado nacional
de sessenta anos somente foi avaliado de forma negativa por um grupo
de economistas que aprenderam nos programas de pós-graduação dos
Estados Unidos o credo neoliberal e estavam dispostos a aplicá-lo
quando se tornavam autoridades da República. Estes economistas e
algumas outras autoridades, cujo pensamento com eles se conformava,
esforçaram-se por difundir a noção de globalização benéfica. Apesar de
deter a maior soma de poder em matéria de relações internacionais do
país, a esfera das relações econômicas, o grupo não se tornou
hegemônico sobre a inteligência nacional do Brasil, como ocorreu em
boa medida com o grupo epistêmico da Argentina. A maior parte do
meio político, talvez possamos dizer o mesmo do meio diplomático,
mas sobretudo o meio acadêmico, avaliou positivamente a estratégia
de desenvolvimento brasileiro das últimas décadas e avançou o conceito
de globalização assimétrica, que expressa uma interpretação mais nociva

293
AMADO LUIZ CERVO

que benéfica para a periferia do capitalismo. O próprio presidente


Cardoso, embora ideologicamente simpático à expansão do
neoliberalismo, usou o termo em conferências públicas, com o fim de
denunciar efeitos contraproducentes da nova ordem internacional
Estes condicionamentos influíram na produção do conheci
mento das relações internacionais do Brasil nos anos 90 e certamente
continuam influindo. Os estudos de relações internacionais feitos no
Brasil não são abundantes comparativamente com outros países até
mesmo de menor peso, como a Argentina. Os mais numerosos até o
ano 2000 foram, precisamente, os estudos históricos: da política exterior
e das relações internacionais do país. Em menor número existem ensaios
de politólogos e outros trabalhos no campo da economia, da sociologia
e do direito internacionais. Acarência fundamental desses estudos no
Brasil verifica-se no campo da teoria das relações internacionais, que
tanto avançou em muitos países, particularmente nos Estados Unidos.
Outra característica da produção brasileira em relações interna
cionais é sua distribuição entre diplomatas de carreira e universidade.
Existe ainda uma parceria efetiva entre acadêmicos e diplomatas no
campo de estudo das relações internacionais do Brasil e esta colaboração
certamente contribuiu para se atingir a maturidade científica, no
entender de Paulo Roberto de Almeida4.
Em sentido epistemológico, caberia perguntar se a América
Latina desenvolveu uma escola de interpretação das relações internacionais.
Se existe um paradigma analítico brasileiro ou argentino, mexicano ou
chileno, venezuelano.
A Universidade de Brasília, com seus departamentos de
História e de Relações Internacionais, e o Instituto de Investigaciones
de Historia Económica y Social da Faculdade de Ciências Econômicas
da Universidade de Buenos Aires reuniram nas últimas décadas grupos
precursores de estudos avançados que contribuíram para modernizar a
área de estudo das relações internacionais na região. Coincidentemente,

4 Vero livro de Almeida, Paulo Roberto de. O estudo das relações internacionais do Brasil. São
Paulo: Unimarco, 1999.

294
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

a produção desses dois centros colocou invariavelmente sob suspeita a


estratégia neoliberal latino-americana. Nessas instituições, os estudos
adquiriram o perfil próprio decorrente das visões de mundo que os
países da América Latina alimentaram com suas preocupações e seus
desígnios externos.
Se existe um paradigma latino-americano de análise das relações
internacionais, pode-se dizer que apresenta em sua gênese e evolução
dois fundamentos: por um lado, deprimiu o papel da guerra e da
segurança, já que este foi, desde a independência e a consolidação dos
Estados nacionais, um subcontinente pacífico e não uma zona de
pressão; por outro lado, introduziu o primado da luta pelo desenvol
vimento nosestudosinternacionais, jáqueo desenvolvimento se tornou
o vetor das políticas exteriores nos diversos países, desde os anos 30 ou
40 do século XX.
Além das histórias gerais das relações internacionais do Brasil e
Argentina (Juan Archibaldo Lanús, José Paradiso, Paulo Gilberto
Fagundes Vizentini, José Augusto Guilhon Albuquerque, Clodoaldo
Bueno, Amado Luiz Cervo), inúmeras obras aprofundaram as relações
entre o esses países e as grandes potências, Estados Unidos em primeiro
lugar, mas também a Inglaterra, a Alemanha, a França e a Itália (Gerson
Moura, Moniz Bandeira, Mario Rapoport), entre o Brasil e a África
(José Honório Rodrigues, José Flávio Sombra Saraiva), bem como as
relações regionais (Paulo Roberto de Almeida, Edmundo Anibal
Heredia, Francisco Doratioto, Moniz Bandeira). Não citamos a contri
buição de historiadores estrangeiros, muito importante décadas atrás.
Centremos a atenção sobre o paradigma analítico brasileiro,
que não se confunde com o latino-americano, mas espelha uma corrente
regional de interpretação das relações internacionais. Quando definem
as tendências gerais das relações internacionais do Brasil, quando
analisam as relações com os parceiros estratégicos, o desempenho diante
da grande política internacional ou a atuação junto aos órgãos
multilaterais, os analistas brasileiros manifestam preocupações próprias.
Concentraram suas análises nas possibilidades econômicas abertas pela
expansão do capitalismo e nos mecanismos de sustentação ou superação

295
AMADO LUIZ CERVO

do atraso histórico. Tiveram de enfrentar o dilema das opções de política


exterior, entre o desenvolvimento autônomo, à base de uma economia
nacional robusta e auto-sustentada, e o desenvolvimento associado às
forças da economia internacional, à base do capital e do empreendimento
estrangeiros. Em meio ao mundo bipolar da Guerra Fria e à globalização
do fim do século XX, foram vinculadas aos estudos internacionais
questões como a legitimidade do desenvolvimento, a desigualdade entre
as nações, as relações assimétricas entre as potências avançadas e os países
em desenvolvimento, a cooperação internacional, a exploração e a
dependência, a transferência de renda, a permanência de estruturas de
poder e de riqueza, entre outros ingredientes das experiências de inserção
internacional dospaíses da América Latina. Esse perfil próprio da política
exterior do Brasil assenta na identidade de um país heterogêneo em
sua base étnica e múltiplo em sua expressão cultural. A conduta histórica
de sua diplomacia pautou-se pela cooperação e pela não confrontação,
pelo legado feito de respeito ao direito internacional, à autodeterminação
dos povos e ao culto da paz. Mas sua essência, nos sessenta anos que vão
de 1930 a 1990, foi a diplomacia para o desenvolvimento.
Ao tentarem introduzir um novo paradigma latino-americano,
os autores de vertente neoliberal como as autoridades econômicas do
Brasil e os epistêmicos argentinos do fim do século XX afastaram essas
questões de fundo de suas categorias de análise. Em seu lugar, firmaram
a tese de que a conformação das políticas interna e externa ao consenso
neoliberal induz o progresso em todos os aspectos da vida e configura
uma ordem internacional sem alternativa. Eliminaram de suas
considerações o planejamento estratégico e a idéia de um projeto
nacional. Contudo, essas questões de fundo inspiram a corrente crítica
acima mencionada, que preexistiu às experiências neoliberais e se
manteve viva durante sua vigência. Entendem seus autores, mais realistas
e menos ideologizados, que a América Latina, ao termo do ciclo
desenvolvimentista, necessitava transitar para outro paradigma de
relações internacionais. Entendem, ademais, que o cânon neoliberal
não era a opção estratégica correta para implementar os interesses e o
bem-estar dos povos da região.

296
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

7.3. Balanço das relações internacionais do Estado


normal e primeiras reações

Poder-se-ia argumentar, com Andrew Hurrell, que a América


Latina, particularmente o Brasil, não é uma entidade fechada que
interage com o mundo exterior5. Que seus interesses, pelo contrário, são
constantemente repensados em razão dessas interações. Dado o alto
grau de desigualdade entre as nações, entre o norte e o sul, é natural
observar a transferência e a adoção de idéias externas, normas e práticas
e a miscigenação de tudo isso com valores e percepções internas. Ao
final do século XX, a América Latina não poderia ignorar as novas
condições em que se processavam externamente as relações interestatais,
a globalização dos mercados e a homogeneização da sociedade
internacional. As novas opções dos latino-americanos levaram tais
fenômenos em conta, o que pode explicar a irrupção do pensamento
neoliberal.
Teriam as duas experiências históricas de inserção internacional
da América Latina desde os anos 30, o desenvolvimentismo e o
neoliberalismo, reproduzido o mesmo erro de percepção das interações
com o exterior? Como se a causalidade externa induzisse resultados
em apenas uma direção? Com efeito, os desenvolvimentistas,
especialmente aqueles imbuídos das teorias da dependência, viram as
estruturas das relações internacionais entre a América Latina e o Primeiro
Mundo como obstáculos no caminho do desenvolvimento. No outro
extremo, os neoliberais viram no ajuste das estruturas latino-americanas
ao mundo globalizado o caminho da ascensão ao Primeiro Mundo.
A complexidade do real evidencia que uns e outros
compartilhavam boa dose de acerto e de erro em suas avaliações. As
estruturas da ordem internacional produziram efeitos perniciosos ao
esforço de desenvolvimento empreendido pelos países da periferia
durante a segunda metade do século XX. Contudo, certas distorções

5 Hurrell, Andrew. Brazil’s Foreign Policy and International RelationsTheory. In: Colóquio
Brazil’s International Relations in theTwentieth Century: History and Theory. Universidade
de Oxford, 26 maio 2000.

297
AMADO LUIZ CERVO

do modelo de Estado desenvolvimentista, já referidas, não haverão de


ser tributadas a causalidades externas e constituíram-se em óbices do
desenvolvimento. Para engendrar um processo contínuo de elevação
de seu status, os países da América Latina necessitavam remover aqueles
óbices internos e não apenas render-se à pressão internacional,
introduzindo o paradigma do Estado normal.
As interações da América Latina com o mundo exterior, seja
qual for a opção estratégica de um determinado período, apelam à
constante vigilância de seus governos diante dos esquemas de benefícios
e custos envolvidos nas relações internacionais. Autonomistas e
associacionistas, desenvolvimentistas e neoliberais podem exibir sua dose
de razão, conquanto temperem suas percepções com o indispensável
cálculo.
As reações dos meios intelectuais da América Latina diante das
experiências neoliberais dos anos noventa foram polêmicas. Prevaleceram,
no pensamento acadêmico brasileiro, um senso crítico dotado de certa
repugnância e, no pensamento argentino, uma adesão acrítica diante
da mudança de paradigma de relações internacionais. Já a opinião
eleitoral, cuja reação é lenta porém madura, expressou um julgamento
severo, ao afastar do poder os agentes da abertura econômica e da
alienação sem barganha e ao colocar, no governo, regimes de centro-
esquerda, na transição de um para outro século.
A reação pelo voto evidencia na percepção da opinião popular
as insuficiências das políticas exteriores do Estado normal: endividamento
para sustentar uma estabilidade monetária baseada na captação pelo
Estado de capitais especulativos; venda de empresas públicas para honrar
compromissos financeiros crescentes; queda da atividade produtiva
interna em razão da queda tarifária; abandono da integração produtiva
em favor da integração meramente comercialista; conflitos comerciais
intrazonais entre membros dos blocos econômicos, Mercosul e Pacto
Andino; desmonte dos sistemas nacionais de segurança; desativação da
pesquisa tecnológica transferida para as multinacionais; transferência
crescente de renda ao exterior, compensada pela ilusão dos ingressos
especulativos; crescimento do desemprego; aumento da massa dos
excluídos; crescimento da criminalidade e outras insuficiências.

298
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Os economistas liberais que se apropriaram das decisões internas


e externas em matéria de comércio, finanças e propriedade empresarial
estavam isolados, mais de uma década depois de iniciado o processo
de mudança, na convicção de que a globalização era benéfica. Os
próprios neoliberais de bom senso contrapuseram-lhe a noção de
globalização assimétrica, ou seja, de benefícios desequilibrados entre as
nações. A globalização passou a ser vista como o fenômeno do fim do
século XX, por meio do qual algumas nações avançadas derramam sua
superioridade sobre as nações da periferia, aprofundando e prolongando
o desequilíbrio estrutural entre os dois mundos.
Este estudo sobre velhos e novos paradigmas de relações
internacionais da América Latina sugere uma conclusão. Ao invés de
transitar o Estado desenvolvimentista para o Estado normal, a
racionalidade do processo histórico demandava, diante do fenômeno
da globalização, um outro desfecho paradigmático. Admitindo-se
como inelutável o fim do Estado interventor, a evolução adequada a
implementar era do Estado desenvolvimentista para o Estado logístico.
Com efeito, todo o avanço no sentido do domínio de tecnologias, da
criação de grandes empresas com notável produtividade, do provimento
das necessidades do mercado, da expansão do emprego e da renda foi
obra do paradigma desenvolvimentista. Ao ostentar tais resultados,
robusteceu o poder regional em escala mundial. O modo como os
regimes neoliberais reagiram diante da nova interdependência global
correspondeu à disposição dedesconstruir esse patrimônio. Atodosos
títulos, correto seria o esforço que tomasse como desafio, no ponto
do avanço atingido, a expansão de alguns setores, mediante uma
integração produtiva regional em uma primeira fase, sistêmica global
em uma segunda fase.
Ao termo do ciclo desenvolvimentista, a América Latina
usufruía de condições adequadas para engendrar empreendimentos de
envergadura global. Dispunha dos quatro fatores requeridos para uma
inserção competitiva no mundo interdependente: grandes empresas,
tecnologias próprias, mercado e capitais. A internacionalização da
economia latino-americana poderia haver-se iniciado em setores de
atividades como siderurgia, aeronáutica, petróleo, comunicações,

299
AMADO LUIZ CERVO

alimentação e certas indústrias. A região não carecia nem de capital


nem de tecnologias externos para tanto, porque deles dispunha em
medida suficiente – sabe-se que a América Latina, desde a alta dos
juros internacionais de 1981, tornou-se um grande exportador líquido
de capitais. Carecia apenas de um Estado logístico que, ao invés de
desconstruir e alienar, houvesse preferido avançar por meio de
associações, dando suporte à expansão de empreendimentos de origem
regional. A opção do regresso neoliberal foi uma opção latino-
americana, não uma imposição devida a coerções externas. Se Estados
europeus, até mesmo de pequeno porte, como Portugal e Espanha,
fizeram opções corretas, que forças haveriam de impedir os dirigentes
latino-americanos de proceder da mesma forma? Com um Estado
logístico, de comportamento similar aos Estados avançados e tendo
como protótipo, precisamente, os Estados Unidos, a inserção da
América Latina no mundo globalizado não teria sido desastrosa nem
assimétrica.
Além de reverter o processo de desenvolvimento auto-sustentado
posto em marcha desde os anos 30, os liberais do fim do século exibiram
uma desmedida segurança em sua estratégia, chamando com desprezo
de saudosistas aqueles que porventura discordassem de suas idéias. De
um ponto de vista histórico, contudo, foram os dirigentes do fim do
século XX que reproduziram na América Latina o paradigma liberal-
conservador do século XIX. Quando o capitalismo exigiu da periferia,
durante a primeira metade do século XIX, a política das portas abertas,
fê-lo para escoar excedentes industriais, capitais e serviços. Quando
impôs a mesma política de portas abertas, ao final do século XX, fê-lo
para escoar excedentes de capitais, tecnologias, produtos e empresas.
Esses fatores, que sustentam a superioridade do centro, seus níveis de
emprego, derendaedebem-estar, não deveriam ser gerados naperiferia,
mas absorvidos passivamente, para retroalimentar o centro. O Estado
normal, Estado subserviente e sem criatividade, a invenção latino-
americana por excelência, consentiu na reprodução do desequilíbrio
estrutural do processo de desenvolvimento. Ele repôs a América Latina
no caminho de regresso à infância sócio-econômica, como se devesse
retomar sua função de exportadora de matérias-primas e produtos

300
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

agrícolas. Ele fez a ponte entre o primeiro e o terceiro paradigma de


relações internacionais, eliminando o ciclo intermediário. Quem foram,
pois, os saudosistas?
O debate paradigmático não se reduz a um divertimento
acadêmico. Faz sentido, na medida em que as opções estratégicas de
relações internacionais determinam, ao lado do desempenho interno
das sociedades, as condições de vida dos povos. Particularmente, no
caso do signo liberal prevalecente na América Latina no fim do século
XX, evidencia o peso da injunção ideológica sobre o processo decisório
dos governos.

301
AMADO LUIZ CERVO

302
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA AMÉRICA LATINA: VELHOS E NOVOS PARADIGMAS

Siglas

Ahibr Arquivo Histórico do Itamaraty


Aladi Associação Latino-Americana de Integração
Alac Associação Latino-Americana de Livre-Comércio
Alca Área de Livre Comércio das Américas
Aiea Agência Internacional de Energia Atômica
Apra Partido do Povo (Peru)
BID Banco Interamericano de Desenvolvimento
Bird Banco Internacional de Reconstrução eDesenvolvimento
(Banco Mundial)
Cecla Comisão Especial de Coordenação Latino-Americana
CEE Comunidade Econômica Européia
Cepal Comissão Econômica para a América Latina
CGT Confederação Geral de Trabalhadores
CIA Central Intelligence Agency
CIC Comitê Intergovernamental Coordenador
Copei Partido Social Cristão ( Venezuela)
EFE Agência de Notícias (Espanha)
FMI Fundo Monetário Internacional
Gatt General Agreement on Tariffs and Trade
Mercosul Mercado Comum do Sul
MCE Mercado Comum Europeu
MRE Ministério das Relações Exteriores
Nafta North American Free Trade Agreement

303
AMADO LUIZ CERVO

Odeca Organização dos Estados Centro-Americanos


OEA Organização dos Estados Americanos
OMC Organização Mundial do Comércio
ONU Organização das Nações Unidas
OPA Operação Pan-Americana
Opep Organização dos Países Exportadores de Petróleo
Otan Organização do Tratado Atlântico Norte
PEI Política Externa Independente
Sela Sistema Econômica Latino-Americano
Tiar Tratado Interamericano de Assistência Recíproca
TNPN Tratado da Não-Proliferação Nuclear
UDN União Democrática Nacional (Brasil )

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Título Relações internacionais da América Latina:
velhos e novos paradigmas
Coordenação editorial Ednete Lessa
Capa IzabelCarballo
Revisão de texto Heliomar de Alencar Arraes
Editoração eletrônica eprojeto gráfico Samuel Tabosa
Formato 160 x 230 mm
Mancha 110x210 mm
Tipologia AGaramond (textos) e Gill Sans (títulos, subtítulos)
Papel Cartão supremo 250g/m2, plastificação fosca (capa)
Offset 75g/m2 (miolo)
Número de páginas 320
Tiragem 3.000 exemplares
Impressão e acabamento PAX Gráfica e Editora Ltda.