Você está na página 1de 2

 Ricardo Santos 2016

FLUL, Ricardo Santos


Filosofia da Lógica (1º ciclo), Setembro-Dezembro 2016

Casos Difíceis para a Lógica Proposicional Clássica

(1) Se carregares no interruptor A e também no interruptor B, a luz acende-se.


Portanto, a luz acende-se se carregares em A ou a luz acende-se se carregares
em B. [Priest 2008: 14]

a. O nosso conhecimento geral de interruptores, circuitos eléctricos e luzes diz-


nos que este argumento não é válido. Quando dois interruptores estão ligados
em série, é preciso carregar em ambos para que a lâmpada acenda: numa
situação desse género, a premissa é verdadeira, mas a conclusão é falsa.

b. A forma lógica do argumento é a seguinte:

(p ∧ q) → r ∴ (p → r) ∨ (q → r)

c. Segundo a lógica proposicional, este argumento é válido. (Faça uma árvore


para confirmar.)

(2) Se João está em Paris, então está em França, e se João está em Londres,
então está em Inglaterra. Portanto, se João está em Paris então está
Inglaterra, ou se João está em Londres então está em França. [Priest 2008: 15]

a. O nosso conhecimento de geografia diz-nos que a premissa é verdadeira,


enquanto a conclusão é falsa. Portanto, o argumento não é válido.

b. A forma lógica do argumento é a seguinte:

(p → q) ∧ (r → s) ∴ (p → s) ∨ (r → q)

c. Segundo a lógica proposicional, este argumento é válido. (Faça uma árvore


para confirmar.)

(3) Sondagens de opinião feitas poucos dias antes das eleições presidenciais de
1980 nos EUA mostravam o republicano Ronald Reagan bem à frente do
democrata Jimmy Carter, com o outro republicano na corrida, John Anderson,
num terceiro lugar muito distanciado. Quem tomou conhecimento destes
resultados acreditava justificadamente que:
(i) Se ganha um republicano, então se não é Reagan, é Anderson.
(ii) Ganha um republicano.
No entanto, não tinham nenhuma razão para acreditar que:
(iii) Se não ganha Reagan, então ganha Anderson.
[Vann McGee 1985. A Counterexample to Modus Ponens]

a. Fazendo fé nos resultados da sondagem, (i) e (ii) são verdadeiras, mas (iii) é
falsa. O argumento não é válido.

1
 Ricardo Santos 2016

b. No entanto, (iii) segue-se de (i) e (ii) por Modus Ponens: A → B, A  B. A


forma lógica do argumento é a seguinte:

p → (¬q → r), p  ¬q → r

(4) Este argumento não é sólido, pois a sua conclusão é falsa, e se tem uma
conclusão falsa então não é sólido.
Um argumento sólido é, por definição, um argumento válido cujas premissas
são todas verdadeiras. O argumento apresentado acima é sólido? Justifique a
sua resposta.

a. Podemos chamar ao argumento A e reescrevê-lo assim:


(1) Se (3) é falsa, então A não é sólido.
(2) (3) é falsa.
logo,
(3) A não é sólido.

b. A premissa (1) é necessariamente verdadeira, pois um argumento sólido não


pode ter conclusão falsa.

c. A verdade ou falsidade da premissa (2) é um reflexo, e está dependente, da


verdade ou falsidade da conclusão (3). Se (3) é verdadeira, então (2) é falsa; e se
(3) é falsa, então (2) é verdadeira. Portanto, (2) e (3) têm necessariamente
valores opostos.

d. De acordo com o que foi dito em b. e c., só parece haver duas avaliações
possíveis do conjunto de proposições {1, 2, 3}: ou (i) 1 e 2 são verdadeiras, mas 3
é falsa, ou (ii) 1 e 3 são verdadeiras, mas 2 é falsa.
Mas a primeira destas avaliações não é realmente possível, pois, se 3 é falsa,
então A é sólido. Mas se A é sólido, então 3 não é falsa.

e. Resta, como única possibilidade, a segunda avaliação: 1 e 3 são verdadeiras,


mas 2 é falsa. Então, A não é sólido – apenas porque a 2ª premissa é falsa.

f. Este argumento não constitui, afinal, um caso difícil para a lógica


proposicional. Esta lógica diz que ele é válido, e não parece haver nenhuma
razão para duvidar desse juízo, uma vez que não há nenhuma situação possível
em que (1) e (2) sejam verdadeiras, mas (3) seja falsa. O caso seguinte talvez seja
mais problemático.

(5) Se Coelho vencer as eleições, Costa dedicar-se-á à agricultura. Se Costa


morrer antes das eleições, Coelho vencê-las-á. Portanto, se Costa morrer antes
das eleições, dedicar-se-á à agricultura.

O argumento apresentado acima é válido? Porquê?