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ENTRE HUMANOS E ANIMAIS – RELAÇÕES FAMILIARES NA

SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA1

Danilo Sanches Santos, Universidade Estadual de Londrina/PR


Martha Ramírez-Gálvez, Universidade Estadual de Londrina /PR

Resumo

Nota-se no país e nas últimas décadas uma mudança nas relações de coabitação
entre humanos e animais, principalmente no que diz respeito à relação com animais
domésticos, tidos como de estimação/companhia. Alguns fenômenos contemporâneos,
tais como a proliferação de estabelecimentos comerciais orientados para a
comercialização de produtos e serviços destinados para o chamado “público pet”,
ilustram tais mudanças. Outro fenômeno, desta “nova” dinâmica na relação entre
humanos e animais de estimação é o uso bastante generalizado da inclusão de bichos
nos adesivos conhecidos como “adesivos da família feliz”. Em tais decalques é possível
incluir os animais de estimação/companhia junto a membros humanos na representação
gráfica do grupo familiar. Buscamos uma primeira aproximação com relação a estas
mudanças entrevistando famílias na cidade de Londrina-PR que mantém relações de
coabitação com animais de estimação/companhia, com o intuito de compreender as
características desta relação e da própria idéia de família. Tal mudança de relações pode
refletir, também, mudanças sobre o entendimento do que “é” o animal, para o qual se
faz necessário um passar de olhos sobre a maneira pela qual o ocidente construiu
historicamente uma definição do animal.

Palavras-chave: Família, relações inter-espécies, animais de companhia

Introdução

1
Trabalho apresentado na 28ª. Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 02 e 05 de
julho de 2012, em São Paulo, SP, Brasil
1
Nas sociedades urbanas ocidentais, os limites entre aquilo que é tipicamente
humano e aquilo que se considera como tipicamente animal são aparentemente claros
para a maioria das pessoas. Fazemo-nos entender de forma satisfatória quando
afirmamos que determinados comportamentos são animalescos por excelência, ou
quando protestamos contra determinado tratamento dado às pessoas, “pois não somos
animais”.

Em diferentes esferas da vida social (em contextos políticos, científicos, etc.), as


marcas destas diferenciações são nítidas. Ultrapassar seus limites pode levar-nos a
esbarrar em tabus2, suscitando debates acalorados acerca da singularidade humana seja
no processo evolutivo, seja na capacidade de criação e em outros aspectos de ordem
cognitiva ou inclusive religiosos.

Alguns anos já se passaram desde que Lévi-Strauss disse que os animais são
“bons para pensar”. Por mais que este falava do animal totêmico e como este figurava
na organização cosmológica de determinados grupos humanos, o empréstimo da
expressão é válido – com as devida ressalvas – quando falamos do papel histórico do
animal no pensamento ocidental. Dominique Lestel (2011) reitera a acepção de Lévi-
Strauss e coloca que é notória e profunda a multiplicidade das interações entre humanos
e animais, uma vez que a humanidade tomada como um todo estabeleceu diversos tipos
de relações com diversas espécies de animais. Todavia, no pensamento ocidental o
estatuto do humano e do animal delimitaram domínios ontológicos distintos.

Por mais que seja impossível delimitar um critério objetivo que assinale o início
de tal ruptura, podemos buscar alguns elementos na história. Já na Antiguidade clássica,
Aristóteles falava das diferenças naturais entre os homens e entre estes e os animais.
Para Aristóteles a servidão é algo natural e a natureza se imbui de subordinar uns
animais aos outros, pois alguns não possuem nada para oferecer, senão seus corpos. O
pensador continua seu raciocínio ao afirmar que naturalmente o escravo é aquele
somente dotado de instinto, que percebe a racionalidade de outrem, mas que dela faz
pouco ou nenhum uso. E assim, a única diferença entre estes e animais é que os animais
não percebem a razão de outrem e nem dela compartilha, obedecendo somente às

2
Exemplos de tabus religiosos presentes nas doutrinas judaica e cristã quanto às diferenças tidas como
inatas entre humanos e animais, encontram-se no livro de Gênesis, Capítulo 1, versículos 24 a 28.. Para
outros tabus de ordem política e científica, ver Singer (2004).
2
sensações, concluindo que escravos e animais são equiparáveis uma vez que deles se
obtêm os mesmos serviços para as necessidades da vida (ARISTÓTELES, 2007).

Na idade média, encontramos em Tomás de Aquino mais indícios desta ruptura.


O Tomismo, amparado pelos escritos aristotélicos, afirma uma subordinação das
criaturas segundo o grau de perfeição das mesmas: “Há, por ordenação divina, um
escalonamento3 dos seres segundo a perfeição, partindo-se da vida em seu estágio mais
elementar, passando-se aos animais, e depois ao ápice da escala: o homem.”
(FERREIRA, 2008, p.12). Por maior que seja a inspiração aristotélica, Tomás de
Aquino busca uma validação de tal hierarquia numa lógica divina.

Por fim, podemos tomar o momento do pré-iluminismo. Segundo Lestel (2001),


A teoria dos “animais-máquinas” de René Descartes marcou muito o pensamento acerca
do animal em todo o Ocidente, principalmente o pensamento culto, influenciando
inclusive o desenvolvimento da etologia. De acordo com Singer (2004), ao advogar os
postulados mecanicistas e em consonância com sua formação cristã, René Descartes
afirmava, grosso modo, que tudo aquilo composto de matéria é governado por
princípios mecanicistas. Todavia, uma vez que o corpo humano também é composto de
matéria, o postulado mecanicista poderia incorrer em conflito com a doutrina cristã, que
propõe que somente humanos possuem uma alma imortal. Assim, Descartes introduz a
ideia de alma identificando-a com a consciência, para assinalar a singularidade humana.
Para ele, somente humanos possuíam alma, e o que tornava um animal diferente de
qualquer outro objeto mecânico criado pela inventiva humana é o fato de os animais
serem “mecanismos criados por Deus”, o que os tornaria infinitamente mais complexos.

Mais contemporaneamente, principalmente a partir da década de 1960


(HEYWOOD, 2010), é possível que a preocupação e a popularização de certos temas
como questões ambientais, sustentabilidade, manejo de flora e fauna, discussões sobre
os limites da atuação humana no meio ambiente tenham colaborado para o crescimento
considerável de preocupações de ordem moral sobre as relações entre humanos e
animais (SINGER 2004; MORRIS 199?; LEVAI, 2004). Tais preocupações renderam
alguns debates notáveis que, possivelmente, influenciaram o surgimento de certas
práticas ou tiveram alguns efeitos materiais nas sociedades ocidentais.

3
Por mais que o termo seja o mesmo, a ideia de escalonamento que iremos propor não guarda
semelhanças com a proposta tomista.
3
Um destes impactos de ordem prática poderia ser a proliferação de organizações
não governamentais atuando na área de proteção e de bem-estar de animais. Indo desde
organizações milionárias (como a PETA – People for the Ethical Treatment of
Animals), até associações menores, é significativo o numero de campanhas que visam
reeducar a sociedade no que tange aos intercâmbios entre humanos e animais. Questões
como a importância da castração para evitar a superpopulação de animais nas ruas, a
condenação da violência física em animais e de uso dos mesmos em testes de
laboratório, a necessidade de zelo constante para uma guarda responsável, entre outras
coisas, ganharam a luz do dia, sendo tema de programas de televisão, documentários,
livros, projetos de leis, plataformas para campanhas eleitorais e etc. Tais debates
também fomentaram a reestruturação na cadeia produtiva de insumos de origem animal
de algumas indústrias multinacionais4.
Possivelmente outro impacto de ordem prático desse debate seja uma alteração
na dinâmica das relações entre humanos e aqueles animais que são trazidos para o
ambiente doméstico (que denominaremos como animais de estimação/companhia) em
sociedades ocidentais urbanas, especialmente entre a classe media (RADAR PET,
2009).

Essas relações vêm ganhando um caráter intimista, baseadas na reciprocidade


das interações, transcendendo a esfera utilitária da posse de animais (como a caça e a
guarda de bens, por exemplo), para constituir relações pautadas pela afetividade
(PESSANHA e PORTILHO, 2008; KULICK, 2009). Hoje em dia não é difícil
encontrarmos Lulus da Pomerânia, Dálmatas, Labradores, gatos Persas e Siameses com
nome e sobrenome, apelidos, perfis pessoais em sites de relacionamento, etc.

Faz-se notar também a proliferação de lojas especializadas para produtos


animais (Pet shops) que ofertam diversos artigos para animais de estimação/companhia.
Entre estes, encontramos não só produtos alimentícios dos mais diversos sabores,
formatos, marcas e receitas, como também roupas, coleiras, brinquedos e outros
“mimos”. O mercado pet ganhou também o mercado editorial. A revista Negócios Pet,
sob a qual discorreremos mais adiante, tornou-se durante esta pesquisa uma interessante
fonte de análise desse fenômeno. O desenvolvimento deste nicho de mercado,
conhecido como fenômeno pet, também pode ser indicativo do crescimento do número

4
Ver Valor Econômico (2012).
4
de lares nos que as pessoas convivem com animais de companhia no Brasil. Além de
encontrarmos um mercado especifico voltado para animais de companhia, ocupando
uma parte do orçamento familiar (RIOS, 2010), não é incomum encontrarmos pessoas
se referirem a seus animais de companhia como filhas ou filhos. Em matéria publicada
pela Folha de São Paulo no dia das mães, lemos que a proprietária de um Golden
Retriever, cujo nome é Cleópatra Breezy, apelidada de Cléo, declara: “Eu me sinto
absolutamente mãe da Cléo. Eu me pego falando com ela, chamo de filha...”
(ROSSETO, 2011).

Também chama atenção o significativo aumento no número de matérias


jornalísticas em programas de televisão, cujo tema é o bem-estar animal e as relações de
coabitação e consumo estabelecidas entre humanos e animais de estimação/companhia
como cães e gatos5; em contraste com quadros televisivos tradicionais focalizados
apenas em algumas habilidades peculiares dos animais, tais como a capacidade dos
mesmos para diferenciar entre objetos, fazer contas simples de adição e habilidades
físicas, tratadas como mera curiosidade.

Fica evidente que o tema está em pauta, inclusive em nível acadêmico,


incorporado pelo campo interdisciplinar conhecido como animal studies. No Brasil,
segundo Pessanha e Portilho (2008), as pesquisas sobre a questão ainda são poucas,
sendo tratadas como um tema secundário, a despeito de o Brasil só perder para os
Estados Unidos no número de posse de animais de estimação/companhia. Todavia, no
plano acadêmico internacional, observamos uma preocupação crescente com a temática,
não só pensando a questão das relações estabelecidas entre espécies, como também os
marcadores que estabelecem as dicotomias natureza/cultura, humano/animal, tão caras
ao pensamento ocidental. Dentre os pensadores que problematizam o tema, podemos
citar os nomes de Donna Haraway (2003; 2008), Peter Singer (2004), Gilbert Simondon
(2008), Dominique Lestel (2001; 2011), Derrida (2002) e Tim Ingold (2000).

5
Somente este ano (2012), o programa Repórter Record apresentou quatro matérias relacionadas a
animais, o que não é desprezível uma vez que o programa vai ao ar durante o horário nobre aos
Domingos. O Jornal da Band apresentou em 2011 uma série chamada “A invasão dos Cães”. As matérias
apresentavam de forma positiva algumas das “novas” relações estabelecidas entre humanos e animais de
estimação/companhia Fora matérias pontuais em outros telejornais e programas de variedades de outras
emissoras.
5
No Brasil, apesar deste tema ainda ser incipiente, podemos apontar publicações
recentes como a de Maria Esther Maciel, intitulada Escrever/Pensar o animal. Ensaios
sobre zoopoética e biopolítica (2011). Também podemos apontar os estudos sobre o
perspectivismo ameríndio de Eduardo Viveiros de Castro (2002). Segundo Guida
(2011), por mais que Europa e Estados Unidos venham se destacando, a Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG) vem estabelecendo um rico campo de diálogos em
animal studies. É notória também a maior incidência do tema nas mais diversas revistas
acadêmicas.

Na expectativa de contribuir para a fruição deste campo no Brasil, propusemos


uma pesquisa, em andamento, a partir da qual procuramos uma aproximação inicial do
tema, no contexto da cidade de Londrina-PR. O presente trabalho deriva de uma
pesquisa com famílias usuárias do adesivo a Família Feliz, que estabelecem relações de
coabitação com animais de estimação/companhia. Orientamos nossos esforços no
sentido de compreender o significado que as pessoas atribuem à inclusão de animais na
representação de suas famílias, expostas nas traseiras de seus automóveis. Mais especificamente
buscamos analisar de que maneira estas relações se dão, quais são os contornos que o
animal ganha no seio familiar, qual é a relevância do mesmo neste grupo; bem como a
maneira pela qual as pessoas que com ele coabitam o entendem. Para tais objetivos nos
propusemos a realizar um levantamento fotográfico de diversas opções de composição
familiar com a inclusão de animais de estimação/companhia e entrevista a membros de
famílias usuárias desse desenho. No entanto, por motivos que serão explicitados mais
adiante foi necessária uma readequação do recorte e da metodologia de coleta de
informação.

À procura da “Família Feliz”

Embora encontremos um uso muito generalizado do “Adesivo da família feliz”


na traseira dos carros que circulam na cidade de Londrina, uma das limitações para a
execução desta pesquisa foi a de conseguir informantes para a realização de entrevistas.
Em princípio, trabalharíamos com famílias que possuem adesivos, nos quais os animais
de estimação estariam representados no grupo familiar. Dado o fato de que tínhamos
feito um recorte do poder aquisitivo das famílias, definimos inicialmente fotografar
carros com os adesivos e contatar as pessoas nos estacionamentos de dois shoppings
centers (um de classe media baixa e outro de classe media/alta) e em dois
6
supermercados de uma grande e conhecida rede paranaense. Enviamos requerimentos
de autorização para as administrações destes locais e recebemos negativas, sempre com
o argumento de que isto iria ferir a privacidade dos consumidores e usuários dos
estabelecimentos. Prevíamos que tais dificuldades poderiam acontecer em função de
matérias jornalísticas que atentavam para o uso generalizado de tal adesivo no país e de
como as informações presentes no adesivo poderiam comprometer a segurança das
famílias6. Tais dificuldades nos levaram a redefinir como objeto deste estudo famílias
com relações de coabitação com animais de estimação/companhia já estabelecidas,
independentemente de serem ou não usuárias do adesivo.

As entrevistas com o Senhor Paulo e com a família Nishi oferecem questões


interessantes para pensarmos algumas das relações atuais de coabitação entre humanos e
animais. O Senhor Paulo costuma passear diariamente no Lago Igapó com Giuli, sua
cadela poodle. Foi durante um desses passeios matutino e rotineiros que fizemos contato
com ele. Ele está na casa dos 60 anos, é casado e pai de uma filha de aproximadamente
25 anos. A entrevista foi realizada no saguão do prédio de classe media/alta onde mora,
mas durante a mesma não contamos com a presença de sua cadela Giuli.

O contato com a família Nishi, de ascendência japonesa e de classe media/alta,


foi feito através de uma colega de graduação. Na chácara dos Nishi, a entrevista
aconteceu na sala da casa, com a presença de toda a família, integrada pelo pai (Ênio), a
mãe (Irene), ambos com mais de 60 anos, e dois filhos, os principais interlocutores,
Denise e Ivan, os dois com aproximadamente 25 anos. Os cinco cães (dois
Weimaraners, um Beagle e dois vira-latas) estavam soltos pelo quintal pouco antes da
entrevista iniciar. Além dos cães, os Nishi possuem um jaboti, um papagaio e galinhas.
A despeito das varias diferenças entre estas famílias, elas tem como principal
semelhança o fato de conviver com animais há muito tempo.

Pensando com Konecki (2007) sobre a dicotomia animal/humano, percebemos


tanto nas falas do Senhor Paulo, como nas dos membros da Família Nishi a noção que
informa, por excelência, a categorização do animal na cosmologia ocidental. O primeiro
reitera várias vezes que sua cadela é muito inteligente e que ela, de fato, compreende as
situações e toma decisões baseada no entendimento da situação. Em contrapartida, a

6
Como a matéria apresentada pelo programa Hoje em dia da Rede Record, no dia 24/03/11.
7
família Nishi é categórica ao afirmar que embora possa existir algum tipo de
inteligência rudimentar nos animais, o comportamento dos mesmos é condicionado e
não racionalizado, não pautado em escolhas (atributo destacado da condição de
humanidade).

As apreensões destas diferenças também ganham outro parâmetro, um de ordem


moral, no que tange às relações que devam ser estabelecidas entre humanos e animais e
humanos e humanos. Por exemplo, Irene, em determinado momento da entrevista, disse
que uma pessoa que cuida bem de animais, cuidará bem de humanos e isso é importante
para se pensar as relações que os Nishi estabeleceram e ainda estabelecem com animais.
Já ao falarmos sobre os produtos e serviços oferecidos para animais de
estimação/companhia, Senhor Paulo destaca que em alguns casos certos limites são
extrapolados, uma vez que “tem gente que não dá uma ajuda para uma criança numa
praça. Não dá um ovo de páscoa pra uma criança, mas dá tudo pro cachorro”.

Isso aponta outro aspecto que perpassa ambas as entrevistas, certo


escalonamento entre os animais enquanto espécies e de acordo com a proximidade das
relações estabelecidas com estas. Em ambas as entrevistas, todos os entrevistados se
pautaram nos animais tidos tradicionalmente como de estimação/companhia para
embasar suas explicações. Para o Senhor Paulo, o exemplo básico é sua cadela Giuli, já
para a família Nishi são seus cinco cães. No entanto, por mais que ambas as famílias
trouxeram outros animais de estimação/companhia, bem como animais domésticos em
geral para balizar suas explicações, as descrições mais ricas emergiam quando o
referencial eram os cães7. A riqueza e a empolgação das considerações feitas diminuíam
à medida que se afastavam dos cães (que com muita frequência voltavam para ilustrar o
assunto) e tomavam outros animais por base.

Sobre a coabitação estabelecida com os animais, vale dizer que as diferenças na


ocupação do ambiente doméstico são notáveis. No apartamento do Senhor Paulo, Giuli
tem livre acesso aos cômodos, inclusive conta com espaço próprio dentro da casa,
localizado na área de serviço, referido em algum momento pelo Paulo como o
“quartinho dela”. Já os cães dos Nishi não adentram a casa, a porta é um limite claro –

7
Tal escalonamento ganha contornos mais nítidos quando os Nishi falam de suas galinhas. Ivan define a
criação delas como um hobby. Já criar cães implica em estabelecer relações com estes onde amizade e
companheirismo estão presentes.
8
este ponto é importante e será retomado quando falarmos sobre a composição familiar.
Para se abrigarem, contam com canil com baias individuais. Os Nishi explicam que isso
se dá tanto pela quantidade de cães, quanto pelo tamanho dos mesmos 8. Mas que
quando eram filhotes, muitas vezes dormiam na sala, no colo das pessoas da casa.

Outro ponto relevante diz respeito às responsabilidades mútuas. Os Nishi


afirmam que os animais têm funções a desempenhar na chácara. Os cães são
responsáveis pela segurança da casa, enquanto as galinhas são responsáveis pelo
reaproveitamento de dejetos orgânicos e pelo fornecimento de excremento para a
produção de compostos orgânicos. Em contrapartida, as pessoas da casa também têm
responsabilidades para com os animais e assumem diferentes tarefas no cuidado com
estes. Porém na maior parte do tempo quem cuida dos animais é o caseiro. Na casa do
Senhor Paulo, à Giuli não é atribuída alguma função específica, porém seu bem-estar é
uma preocupação recorrente, pelo menos para o Senhor Paulo.

Em ambos os casos, os gastos com os animais não comprometem uma parcela


muito grande do orçamento familiar. Para os Nishi, os gastos são maiores dada a maior
quantidade de animais na chácara, porém o próprio pai define tais como “parcela
ínfima”. O Senhor Paulo afirma que os gastos com Giuli não atingem 5% do orçamento
familiar. Ambos os grupos apontam um conjunto de gastos similares para os animais:
alimentação, cuidados veterinários e higiene9. Todavia, se faz interessante notar que o
Senhor Paulo inclui petiscos no conjunto dos gastos com Giuli, enquanto os Nishi não.
Os gastos com roupas, idas ao pet shop, brinquedos, etc., foram considerados supérfluos
pelos dois grupos. Destaque-se que os Nishi negaram, rindo, quando foram perguntados
se brinquedos e petiscos eram oferecidos aos cães. Senhor Paulo oferece para sua
cadela, além dos petiscos e dos itens descritos como “o mínimo”, dois travesseiros
(utilizados como cama) e duas cobertas.

Tratando dos cuidados dispensados aos animais de estimação/companhia, há


também outros contrastes nítidos. Quando Senhor Paulo fala sobre os mesmos se nota
um caráter mais próximo, intimista ao reiterar a atenção que dispensa a Giuli: as vacinas
são atualizadas periodicamente, lembradas pelo veterinário que costuma ligar sempre

8
A todos os animais da família são reservados locais próprios na chácara. Todavia, somente os cães e o
jaboti têm livre acesso ao quintal. As aves ficam reservadas tanto no galinheiro, quanto na gaiola.
9
Todos os entrevistados convencionaram em chamar estes gastos como “o mínimo”.
9
em sua casa para avisar da atualização das mesmas; os banhos semanais são dados pelo
Senhor Paulo, assim como a higiene das patas e do ânus, após o passeio que diariamente
ele faz com ela. Na casa dos Nishi, os responsáveis pelos passeios e idas ao veterinário
são Denise e Ivan. Ambos deixam entrever que os banhos não são tão constantes, e que
algumas vezes são banhos de mangueira “para refrescar os cães”. Todavia, os Nishi
enfatizam a importância do cuidado que devem ter para com seus cães, mas nitidamente
o caráter afetivo desta importância difere muito daquele exposto pelo Senhor Paulo.

Sobre o papel dos animais de estimação/companhia na organização do grupo


familiar encontramos outras diferenças notórias no arranjo. Enquanto o Senhor Paulo
não tem dúvidas ao afirmar que Giuli é um membro da família (aliás, “ela é a quarta
pessoa da família”), os Nishi estabelecem alguns critérios para descrever o lugar destes
na família. Um dos critérios mais fortes é o local que estes ocupam fisicamente. Eles
são os membros “do lado de fora”, segundo a Irene e o Ivan. Para Ênio, eles “são parte
complementar da vida familiar” uma vez que sempre estiveram presentes, mas não
chegam a compor a família: “nós somos nós”, eles têm o lugar deles, “convivendo
naturalmente entre eles”. Já Denise diz não acreditar que a mãe veja os cães como seus
filhos. Aliás, pensar os dois casos por um viés de categorias de parentesco é
interessante, pois nenhum dos entrevistados/as fornece tais categorias (como filha(o),
irmã(o), etc.). Por exemplo, enquanto o Senhor Paulo encontra dificuldades em
categorizar Giuli, Denise diz o exposto acima e a sua mãe diz que não vê os animais
como “fuga 10”.

Por mais que outros dados possam ser trazidos, o que apreendemos nessa análise
preliminar ratifica de certa forma a teoria proposta por Konecki (2007). Entre os
entrevistados, o transito entre as perspectivas animalistas e antropomórficas aparece de
maneira mais ou menos rígida, dependendo principalmente do contexto em que as
explicações são apresentadas. Acreditamos ser relevante notar que a família Nishi se
ateve com maior frequência a explicações de caráter animalista (inteligência rudimentar,
falta de racionalidade, comportamento instintivo/prescrito geneticamente) e de sentido
mais universal (“é da natureza deles”, “o que é natural para eles”) guardando poucas
explicações particulares para seus animais de estimação/companhia. Quando estas

10
Fuga num sentido de se furtar ao contato humano e ter com os animais de estimação/companhia as
relações que, por excelência, são estabelecidas com pessoas.
10
aparecem, geralmente vem para ilustrar certos condicionamentos comportamentais de
seus cães; enquanto a explicação do Senhor Paulo pautava-se mais em particularidades
de Giuli e em proximidades qualitativas, principalmente no que diz respeito a cães e
humanos. Porém, por vezes os Nishi explicam a relação com os cães pelo viés da
amizade, do companheirismo (principalmente os filhos), mas atentando para a
impossibilidade de se estabelecer tais relações com os outros animais presentes na
chácara e respeitando critérios biológicos próprios dos cães.

A relação com os animais entre os Nishi e o Senhor Paulo também nos força a
olhar as próprias explicações oferecidas sobre o que é o humano, o que é o animal e de
qual forma as características empregadas para definir possíveis continuidades e rupturas
influenciam na inclusão do animal dentro do universo familiar. Outro escopo
interessante é pensar, a partir destes elementos, como estas diferenças informam os
hábitos de consumo dos proprietários com relação aos seus animais de
estimação/companhia, quais produtos e serviços são oferecidos, quais cuidados são
dispensados e qual é a recorrência destes cuidados no cotidiano familiar. Também se
destaca a necessidade de averiguarmos como estas possíveis rupturas ou continuidades
informam as responsabilidades morais e éticas para com os animais, assumidas pelos
proprietários entrevistados.

O Fenômeno Pet e algumas considerações sobre a Revista Negócios Pet

Apesar das dificuldades de definir com precisão o Fenômeno Pet, este pode ser
entendido a partir das características que possivelmente circunscrevem seu surgimento.
Pessanha e Portilho (2008) apontam como critérios a verticalização dos lares, bem como
a diminuição de seu tamanho, que levariam ao compartilhamento dos cômodos entre os
animais e os humanos, bem como a diminuição da taxa de natalidade e fertilidade.
Concomitantemente, a inserção da mulher no mercado de trabalho e demais mudanças
nas relações intrafamiliares vêm acompanhadas de uma significativa mudança nos
padrões de consumo e lazer das famílias.

As autoras apontam estudos, que indicam que animais de estimação/companhia


funcionam como alternativas e substituições de filhos em lares onde, pelos mais
variados motivos, eles estão ausentes. Poderíamos indicar também a crescente
preocupação com questões sobre o bem-estar dos animais domésticos e a consequente
11
preocupação com relação aos maus tratos, sobretudo de animais de
estimação/companhia, como um elemento presente e destacado destas mudanças. Na
rede social Facebook, por exemplo, abundam postagens sobre denúncias de maus tratos
e abandono de animais que são oferecidos para adoção. Geralmente essas postagens são
amplamente compartilhadas e recebem comentários que muitas vezes ressaltam as
características positivas da afetividade e do caráter dos animais em detrimento da
perversidade humana.

Outra característica que pode estar associada ao Fenômeno Pet é a grande oferta
e comercialização de produtos e serviços voltados para este público. A pesquisa Radar
Pet, realizada em 2009, encomendada pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos
Para Saúde Animal (SINDAN) dá uma dimensão do assunto. A pesquisa realizou
entrevistas em mais de 2.100 lares em oito cidades brasileiras. Segundo a pesquisa, 44%
dos lares entrevistados confirmaram a existência de algum cachorro o gato. Destes 44%
de lares, 79% possuíam cachorro, 10% declararam ter gato e 11% possuíam ambos.
Entre estes, 73% tinham um veterinário de confiança, enquanto somente 1% declarou
que nunca levou ou levou apenas uma vez o animal de estimação ao veterinário. São
números expressivos, uma vez que estamos falando de um universo amostral que
representa 20% dos lares brasileiros e entre estes, quase a metade declarou possuir ao
menos um cachorro ou gato.

Mas, para além dos serviços medicinais, a Revista Negócios Pet oferece dados
para pensarmos a dimensão, das atuais relações com animais de estimação/companhia,
levando em consideração outros serviços especializados e os bens de consumo ofertados
para esse público. Atualmente no seu oitavo ano, a revista é uma publicação direcionada
para os proprietários de Pet Shops e congêneres, de circulação nacional, com uma
tiragem de 10.000 exemplares por edição. Notadamente voltada para o comércio,
quando não oferta artigos de caráter motivacional para os empresários, cobertura de
eventos do ramo e estratégias para aperfeiçoar lucros ou dicas para tosadores11, a revista
apresenta artigos nos quais alerta para doenças e outras afecções às quais os pets estão
sujeitos. É comum a revista orientar os lojistas a se apropriarem da informação
divulgada, de certo modo especializada, para orientar seus clientes no cuidado dos
11
Também conhecidos como groomers. A revista além de apresentar dicas para a tosa, também traz em
todas as edições, na sessão “De tosador para tosador”, histórias de profissionais da área que alcançaram
algum nível de excelência e destaque dentro da profissão.
12
animais como uma estratégia para a fidelização dos mesmos. Outras matérias apontam
para a importância dos cuidados específicos e especializados dos Pets, sempre
destacando a necessidade de se procurar um profissional capacitado e de se utilizar
medicamentos e outros produtos certificados, próprios para o tratamento proposto pelos
profissionais de veterinária. Os artigos feitos com profissionais de veterinária disputam
em pé de igualdade o espaço da publicação com as matérias empreendedorísticas, com
as novidades do ”universo pet” e com os informes publicitários.

Nas edições analisadas, uma questão fica clara: o objetivo da revista é a


consolidação deste nicho de mercado e a articulação dos diversos ramos profissionais do
“universo pet”. O que não é desprezível para nossa análise, uma vez que a busca por
consolidação seguramente promove e/ou é reflexo do bom momento que este segmento
de mercado vive. A recorrente insistência da revista numa gradativa profissionalização
do ramo pode indicar também a amplitude que este mercado tem ou está angariando.
Também merece destaque a sessão que se encontra na última página de todas as
edições, chamada “Raças”, onde encontramos descrições de raças consagradas de cães,
sempre em diálogo com afirmações de experts e criadores de animais. Estes apontam as
características físicas e comportamentais dos cães que criam, elencando quais destas
características são determinantes para apontar a “pureza” do animal de determinada
raça.

Todavia, a revista também oferece outros elementos bons para pensarmos as


relações contemporâneas entre humanos e animais pela perspectiva dos vínculos que
são construídos e como estes orientam a oferta e o consumo de produtos e serviços. A
edição 85, de Janeiro de 2012, cuja chamada de capa é “Malas Prontas – É temporada
de férias”, ilustrada com a imagem de um cachorro na janela de um carro em
movimento, traz um bom exemplo. No interior da revista, há uma matéria ilustrada pela
imagem de dois cachorros (um Fox Terrier e um buldogue), usando boné, camisa polo
colorida e mochila nas costas, e que trata sobre serviços de hotelaria de qualidade para
os animais. Novamente, a preocupação da matéria é com o lojista ou o veterinário, em
função de o consultório veterinário ou do Pet Shop serem os locais onde proprietários
de animais de estimação/companhia buscam informações sobre serviços de hotelaria
para cães durante uma viagem de férias. Segundo os editores, se a referência dada pelo
lojista for ruim existe a possibilidade de o estabelecimento perder um cliente. A matéria
13
traz o depoimento de um proprietário de um hotel exclusivo para cães, e o mesmo
adverte: “Deve-se ter como prioridade o respeito e a ética profissional, pois somos
responsáveis por seres que hoje são tratados como membros da família”. As indicações
da matéria sugerem que a demanda por estes serviços aumenta em quase 200% durante
o período de ferias, de acordo com alguns empresários do ramo.

A estrutura dos hotéis chama a atenção. Um local dispõe de um gramado para


brincadeiras e “jogos socializantes” entre os hóspedes, piscina aquecida, esterilizada
com lâmpada ultravioleta para reduzir a concentração de cloro na água e evitar a
irritação dos olhos e as agressões à pele e ao pelo do cão. O hotel também conta com
um ofurô, dormitórios e serviços agregados, como banho e tosa. Outro hotel oferece um
curioso serviço de monitoramento online, no qual o dono pode observar toda a rotina do
animal pela internet. A dona do hotel afirma que o estabelecimento não conta com baias
de contenção. Os cães hospedados dormem em dormitórios individuais, em suas
próprias camas, e são acompanhados por um monitor. A proprietária deste hotel
também oferece aos donos uma lista de itens que devem constar na “bagagem” do cão
durante sua estadia. Dentre estes itens estão a cama e o cobertor com os quais o cão está
acostumado a dormir, pois é importante que tais itens tenham o cheiro do animal.
Recomenda-se, também que o dono leve uma roupa sua para ficar na cama do cão, bem
como a guia de passeio e a alimentação com a qual o cão está acostumado. Segundo a
proprietária, “Assim, o dono também fica tranquilo sabendo que damos (ao cão) um
ambiente parecido com o que é oferecido por ele”. A matéria informa que os antigos
abrigos, conhecidos como canis e gatis, gradualmente estão se modificando e passando
a incorporar o conceito de hospitalidade como diferencial e que, apesar de o segmento
ainda estar se profissionalizando, o Brasil segue a tendência já presente nos Estados
Unidos ao proporcionar empreendimentos que, além de oferecer hospedagem, ofertam
uma gama de serviços especiais aos hóspedes. Isto é relevante, pois estamos falando dos
países que lideram o mercado pet.

Em outras matérias publicadas na edição 85, percebe-se alguns dos contrastes


similares aos vislumbrados em nossas famílias entrevistadas, que dizem respeito às
abordagens e às categorizações distintas de diferentes animais. Todavia, o foco principal
da publicação são os animais de estimação/companhia, mais particularmente os cães aos
quais se dedica um espaço muito maior do que para outras espécies Os cães são
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recorrentemente retratados por alguns adjetivos e substantivos diferenciados, carinhosos
de certa forma, que não são reproduzidos no trato com outras espécies: cãozito,
animaizinhos, bichinhos, etc. No entanto, na maioria das vezes ainda são usados
substantivos abrangentes como animal e bicho.

Na edição sobre animais exóticos, a redação deixa claro que o intuito é apontar
os equívocos mais comuns no trato com esses animais. A primeira matéria da revista,
chamada “Répteis em cativeiro: os principais cuidados” caracteriza a criação de répteis
como um hobby. A matéria sobre serpentes é dedicada a esclarecer confusões sob a
classificação taxonômica de ofídios, apontar seus possíveis usos pela indústria
farmacêutica, elencar curiosidades sobre algumas espécies de serpentes e desvelar seu
papel dentro da cadeia alimentar. A única matéria que parece destoar de alguma forma é
uma sobre Furões (Ferrets) e o faz ao colocar que criar animais exóticos como animais
de estimação se tornou um hábito mais fácil, dada a maior oferta dos mesmos e o fato
dos pet shops indicarem a forma adequada de mantê-los.

Chamam nossa atenção a sessão “galeria de produtos” e os anúncios


publicitários. Lestel (2011) reflete que pensar a amplitude das relações estabelecidas
entre humanos e animais, pautadas principalmente em explicações utilitaristas (guarda,
caça, transporte, etc.), não permite explicar com a profundidade necessária o papel dos
animais em nossa sociedade. Da mesma forma, pensar o fenômeno sob o escopo dos
animais de estimação/companhia, levando apenas em consideração as opções de
consumo que o “mercado pet” oferece, também parece ser insuficiente se nos apoiarmos
no consumo destes produtos somente como meios para a manutenção da vida destes
animais ou para solucionar problemas pontuais que possam surgir no decorrer da
convivência.

Em princípio podemos apontar a grande variedade de produtos ofertados pelos


informes publicitários. Os brinquedos anunciados na edição 85 apresentam uma grande
variedade de formas, cores e desenhos. Dos dez itens anunciados, sete são
representações de animais, insetos e alimentos (frutas e uma salsicha) com feições
humanas (olhos, boca, cabelo, etc.). Na página ao lado, uma empresa anuncia laços e
gravatas, ressaltando características como beleza, sofisticação, praticidade e bom gosto
como os grandes diferenciais de seus produtos. Um anúncio da edição 80 ilustra

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coleiras para cães e gatos com cores e estampas diversas, sendo o mote do anúncio: “Pet
stilo - seu pet na moda”. A sessão “galeria de produtos” da edição 85 traz informações
sobre a coleção primavera/verão de roupas e acessórios para cães (bonés, lenços e
camas, como ilustrados pela imagem que acompanha a matéria) da marca “Bichinho
Chic”.ao matéria informa que a responsável pelo desenvolvimento de novos produtos
recorre sempre a catálogos e desfiles de moda humana para buscar inspiração. Logo
abaixo, há o anúncio de “Roupas Fashion”, alertando para o fato de que estas não
podem faltar em nenhum Pet Shop. As roupas apresentam designs elaborados (nas fotos
que acompanham a matéria, uma manequim utiliza um vestido e a outra uma camisa),
com estampas, pregas e fivelas. Novamente, a referência a moda humana é feita,
avisando que a moda pet a cada dia mais se parece com a primeira.

Em outra sessão “galeria de produtos” (edição 80), é apresentada uma linha de


colônias para animais de estimação/companhia, com um apelo ao diferencial
competitivo da empresa que elaborou o produto, definida como inovadora e referência
de mercado: os perfumes são descritos como requintados e já aprovados por nossos
clientes. Um lembrete é oferecido ao leitor, concebendo que “O perfume é símbolo de
afeto e amor e isto também é comprovado entre seres humanos e seus bichinhos de
estimação”. As embalagens estampadas trazem referências explícitas aos cães: além do
próprio nome da empresa (Collie), os rótulos das embalagens são decorados com patas
de cachorro em cor dourada.

Os dados oferecidos pela análise da revista apontam questões significantes para


o propósito da pesquisa em curso. Num primeiro momento, a miríade de produtos
ofertados por este nicho de mercado indica a aceitação do mercado pet. No entanto, não
podemos perder de vista que as compras são realizadas por pessoas que ofertarão tais
produtos a seus animais de estimação. Independentemente de quais e quantos produtos
serão oferecidos aos animais, os dados estimulam-nos a direcionar nossos esforços no
sentido de pensar como a circulação de produtos para esse nicho pode influenciar a
inserção do animal de estimação/companhia nas famílias e a significação deste numa
sociedade marcada pela ruptura entre humanos e animais.

Por outro lado, a descrição dos mais diversos tipos de animais de


estimação/companhia, os adjetivos utilizados para uns e outros, as “modalidades” de

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criação, aliadas às entrevistas realizadas com famílias, reforçam (e de certa forma
ampliam a abrangência) a ideia de escalonamento indicada anteriormente.

Nem a revista e, até agora, nem as entrevistas, apontaram qualquer conflito sobre
a compra como meio para se adquirir um animal, nem com o critério da raça para a
escolha do animal a ser comprado. Isto nos faz pensar, mais uma vez acompanhando o
raciocínio de Lestel (2011), sobre o problema das fronteiras entre o animal e o
objeto/artefato. Este problema se torna intrínseco à questão da fronteira entre o homem
e o animal, uma vez que a bibliografia revisada por nós também aponta para o animal
como um ser com o qual seria possível estabelecer laços afetivos, que possivelmente
leva a sua inclusão no grupo familiar.

Considerações finais

A partir Konecki, entre outros autores, consideramos importante pensar as


particularidades das explicações ocidentais, que tem influenciado a reflexão em termos
abstratos da descontinuidade entre o humano e o animal. Todavia, tal descontinuidade
parece não estar presente na materialidade das relações entre espécies, observadas no
cotidiano de muitos proprietários de animais de estimação/companhia, especialmente de
cachorros e gatos, pelo menos não enquanto uma divisão ontológica crassa. Em outras
palavras, admitimos provisoriamente que antes de condicionar, tal descontinuidade pode
vir no sentido de informar as relações estabelecidas. O caráter que tais relações venham
a tomar pode ser perpassado por outros fatores como a frequência do contato,
experiências anteriores e atuais com animais, etc. As caracterizações antropomórficas
ou animalistas seriam, antes de tudo, estabelecidas no plano cultural.

Consideramos que tal antropomorfização possa ser pensada a partir da


experiência, da identificação de características singulares do animal específico com o
qual se estabelece a relação de cuidado, ao qual se atribuem características geralmente
consideradas humanas. Todavia, outra forma de antropomorfização pode ser analisada
levando em consideração a disseminação do chamado mercado pet, que a despeito de
criar ou responder a uma demanda, pode favorecer a ideia do animal de
companhia/estimação como “consumidor”. Logicamente, uma manifestação de um
consumo condicionado, mediado pela subjetividade do proprietário, que irá selecionar o
tipo de objetos e serviços a serem consumidos por suas mascotes, de acordo com as
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percepções e categorias que se podem considerar para entender a relação entre humanos
e animais de estimação/companhia.

Se faz mister pensar também um outro critério de diferenciação que separa


animais de estimação/companhia (estes entendidos como animais mais propensos ao
estreitamento de laços afetivos) dos animais domésticos como um todo (aqueles cuja
presença é recorrente, porém menos propensos ao estreitamento dos laços). Se
necessário, podemos pensar o estatuto do animal selvagem também. Porém a ênfase é
orientada ao escalonamento apresentado anteriormente.

A expressão de uma relação afetiva através do consumo ou de uma afetividade


que se expressa, entre outras formas, no tratamento e nos produtos consumidos para
“mimar” os bichos podem apontar para pensar a inserção dos pets nas famílias. Nestas
primeiras aproximações ao “fenômeno pet”, feitas a partir da análise de um fragmento
do mercado pet, das entrevistas realizadas e das observações participantes em diversos
contextos nos quais essa relação se destaca, observamos que as mascotes parecem
ocupar lugares de diferente natureza: ora são considerados “quase-pessoas”, ora são
considerados “quase-objetos” (bibelôs ou brinquedos) nos quais seus proprietários se
projetam. A questão da compra ou adoção é outro elemento que pode perpassar este
ponto uma vez que, no primeiro caso, há uma relação de consumo estabelecida,
possivelmente orientada pela escolha de uma raça específica. Já no segundo caso, é
plausível que elementos de ordem ética orientem tal escolha. Resta saber se existe
alguma espécie de conexão entre essas formas de antropomorfização e se tal
antropomorfização se torna uma condição para as “novas” formas de relação entre
humanos e algumas espécies animais.

Cabe indagar melhor a proficuidade das categorias “quase-pessoa” e “quase-


objeto” para analisar esta relação, como também pensar as questões que levam ao
escalonamento das espécies animais com as quais se estabelecem relações de
estimação/companhia.

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