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Universidade Federal de Santa Catarina

Centro de Filosofia e Ciências Humanas


Curso de Ciências Sociais
Aluna: Elis Rodrigues da Costa

Animais Domésticos e Seres Humanos: a legitimação de quem pode ter um cachorro

Enquanto em algumas passagens da bíblia percebe-se que em períodos remotos o cuidado e a proteção de
animais mantiveram-se como assuntos pautados pela esfera religiosa, mas não o respeito pelos animais em si, porém o
efeito sobre a dignidade humana que o maltrato poderia provocar (Thomas, 1982). Atualmente, o novo paradigma –
conjunto de “significados completos que organizam as percepções de quaisquer evidências, construindo gradientes de
ponderação e/ou descartando ou impugnando fatos que o contradizem” (GRÜN, 1999, p. 126) – os animais de
estimação passam a ser companhia, podendo ser considerados membros da família, deixando de ter uma função
somente utilitarista (proteção, guarda, guia, pastoreio e resgate). Segundo Mazon (2016) uma nova moralização da
relação entre humanos e animais é sustentada pela relação conflituosa entre seres humanos com eles mesmos.
Gradualmente aumenta o grau de afeto dedicado aos animais de estimação nas últimas décadas, principalmente
cachorros (MAZON; MOURA, 2017, p. 139). O IBGE revela que já é maior o número de cachorros nos lares do que o
número de crianças (RITTO; ALVARENGA, 2015), igualmente vem crescendo o número de lares com gatos. Neste
sentido, cresce os investimentos em animais aumentaram em áreas antes não imaginadas: hospedagens para públicos
diferentes (de spas com ofurô até hospedagens sociais para protetores sem espaço para cuidarem de cães e gatos
resgatados), pet shops com planos de banho e tosa, crematórios para cães e cemitério onde os cães podem ser enterrados
junto aos seus proprietários1, transportes especializados (taxi dog, uber pet), dog walkers (profissionais que levam
cachorros para passear, principalmente cachorros que vivem em apartamentos e que os donos não tem tempo para levar
para caminhar), pet sitter (babá de animais), creche de cachorros e gatos, consultoria em comportamento canino e
adestramento, marmitas com alimentação natural, terapias alternativas (homeopatia, florais, reiki, cromoterapia,
musicoterapia, etc), programas de TV com dicas de como adestrar cachorros e outros animais, acessórios para
embelezamento dos animais perante seus donos e brinquedos para entretenimento dos animais, rações específicas para
determinadas raças e problemas de saúde, etc. Outro mercado que cresce é o de cursos presenciais e online de auxiliares
veterinários, auxiliares de banho e tosa, adestradores, etc.
Aumenta o debate sobre a importância de castrar os animais para controlar população de animais abandonados
e o comportamento dos animais (como justificativa de reduzir fugas, agressividade, fugas e ataques a outros animais e
pessoas, bem como diminuir demarcação de território por parte dos animais através da urina). Surge uma pressão para o
surgimento de castração gratuita pelos órgãos públicos para população de baixa renda e castrações com preços
acessíveis, ao mesmo tempo que surge o questionamento da qualidade destas castrações2.

1
Em Florianópolis a lei complementar 1685.2017 autorizou animais domésticos de serem enterrados em cemitérios públicos e privados da cidade,
quando os tutores tiverem jazigos concessionados a sua família. Já existem projetos de cemitérios somente para animais. MARTINI, Rafael. Lei
autoriza que cães e gatos sejam enterrados junto aos donos em Florianópolis. Diário Catarinense. Florianópolis, 08 nov. 2017. Disponível em:
<http://dc.clicrbs.com.br/sc/colunistas/rafael-martini/noticia/2017/11/lei-autoriza-que-caes-e-gatos-sejam-enterrados-junto-aos-donos-em-
florianopolis-9988896.html>. Acesso em: 16 ago. 2018.
2
Em 2016 o jornalista Cacau Menezes provocou polêmica no meio da proteção animal ao escrever em sua coluna sobre a questão das castrações
sociais que seriam realizadas sem a estrutura necessária. MENEZES, Cacau. Mutirão de castração de cães e gatos divide médicos e
voluntários. Diário Catarinense. Florianópolis, 28 mar. 2018. Disponível em: <http://dc.clicrbs.com.br/sc/colunistas/cacau-
menezes/noticia/2016/03/mutirao-de-castracao-de-caes-e-gatos-divide-medicos-e-voluntarios-5498532.html>. Acesso em: 16 ago. 2018.
Inicia-se também discussões sobre as condições de tratamento diário dos animais: proibição do
acorrentamento, questionamento das condições dos canis de criação de cachorros de raça para comercialização
(kennels) ao mesmo tempo que revistas especializadas divulgam a cotação das principais raças comercializadas no
Brasil nos canis registrados na Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKN) 3. A comercialização de cães de raça
recentemente vem sendo gradualmente questionada devido a inúmeras denúncias e notícias nos últimos anos de
criadores que reproduzem os animais em condições insalubres e abandono das matrizes (cadelas e cachorros que
serviram para reprodução), após estes não terem mais condições de produzem animais saudáveis.
A discussão sobre direito dos animais ganha folego e começa a alterar os códigos civis considerando algumas
espécies animais como seres sencientes e sujeitos de direito: ou seja que sentem dor e angustia, bem como passam a ser
reconhecidos diante de suas especificidades e características face a outros seres vivos. Neste sentido, inaugura o
ambiente legal em que animais deixam de ser tratados como coisas e ganham o estatuto legal de seres dotados de
sensibilidade. No entanto, os animais que se enquadram nestas leis dependem muito da realidade local, em Santa
Catarina – por exemplo – o Código Estadual de Proteção Animal (Lei n o 12.854/2003, alterada em 2018) considera
seres sencientes somente cachorros, cavalos e gatos. Inclusive há uma alteração gradual das nomenclaturas antes
utilizadas: donos estão tornando-se a tutores (buscando desvincular-se a imagem dos animais como mercadoria ou
propriedade) e cães cuidados são cães comunitários (inclusive com debate sobre legislação que os defende)4.
Para compreender a construção deste quadro atual é importante realizar um levantamento bibliográfico da
relação entre humanos e animais, bem como da Sociologia Econômica. Esta pesquisa alinha-se com esta perspectiva da
Nova Sociologia Econômica (NSE) de forma analisar como o sistema de mercado não é puramente pautado pela
racionalidade instrumental, pois está solapado por outros sistemas sociais, os quais podem estar pautados por outras
formas de racionalidade. Assim, a partir das experiências concretas de sociabilidade questiona-se a razão indolente
(modelo de razão ocidental) e evidencia-se a impossibilidade de generalizações prematuras ou de uma teoria geral.
Como aponta Bourdieu,
no próprio campo econômico, a lógica do mercado nunca conseguiu suplantar
completamente os fatores não econômicos na produção ou no consumo (por exemplo, na
economia da casa, os aspectos simbólicos, que permanecem muito importantes, podem ser
explorados economicamente). As trocas nunca são completamente reduzidas a sua
dimensão econômica, e, como lembrava Durkheim, os contratos têm sempre clausulas não
contratuais (BOURDIEU, 2005, p. 22).

As relações de disputa dos agentes (empresas de produtos para animais, empresas de outros setores, protetores
de animais, órgãos públicos, imprensa, proprietários de animais, etc.) pela construção e classificação das representações
simbólicas ocorrem em microcosmos ou campos sociais com estrutura própria, ou seja, com uma lógica particular de
funcionamento e estruturação, além de determinada autonomia em relação a outros espaços sociais. Os campos se
apresentam à apreensão sincrônica como espaços estruturados de posições (ou de postos) cujas propriedades dependem
das posições nestes espaços, podendo ser analisadas independentemente das características de seus ocupantes (em parte
determinadas por elas). Os campos definem-se pelo domínio de determinadas atividades onde os indivíduos disputam

3
Um dos meios de divulgação especializados sobre Kennels certificados pela CBKN (http://www.cbkc.org) e as características de cada raça, cotação
destas no mercado oficial e dicas de comportamento e saúde canina é a Revista Cães & Cia (https://www.caes-e-cia.com.br), da Editora Top Co que
também edita as Revistas CãesAmigos, Pulo do Gato, Pet Center e Groom Brasil. A Revista Cães & Cia possui 39 anos e considerando-se o maior
guia brasileiro de criadores de raça caninas, atualmente também possui dicas para criadores de felinos e outras espécies de animais de estimação.
Anualmente divulga o Anuário TopCães divulgando os Kennels ganhadores de concursos e exposições de mais de 200 raças de cães.
4
No mês de agosto de 2018 foi aprovada uma municipal do Cão Comunitário em Florianópolis que prevê cadastro, castração, vacinação e
microchipagem destes animais pela Diretoria de Bem Estar Animal (DIBEA). REDAÇÃO ANDA (Florianópolis) (Ed.). Lei do “cão comunitário”
entra em vigor em Florianópolis (SC). 2018. Disponível em: <https://www.anda.jor.br/2018/08/lei-do-cao-comunitario-entra-em-vigor-em-
florianopolis-sc/>. Acesso em: 16 ago. 2018.
pelo controle da produção, legitimação e hierarquização dos bens e discursos produzidos. Neste embate, os agentes que
se localizam em posições dominantes tendem a adotar estratégias conservadoras, conscientemente ou não, para manter
sua posição e a estrutura atual.
Surge uma nova moralização da relação humanos/animais que é sustentada pela relação conflituosa entre os
próprios seres humanos inaugurando novos itens de mercado. Mazon e Moura (2017) propõem pensar a relação entre
humanos e animais para explicar a relação dos humanos entre si através da observação do novo enquadramento
cognitivo dos animais de estimação que vem surgindo nas últimas décadas e o desenvolvimento de justificativas e
provas nas quais estes animais na intimidade e nos projetos de futuro encontram-se como substitutos de outros
humanos. Segundo a autora, a presença mais robusta de animais de estimação entre humanos surge a partir da chave
explicativa do ator racional que opta pelo afeto dirigido aos animais como forma de compensar os ninhos vazios da
sociedade industrial e suas frustrações com relação a outros seres humanos. Mazon e Moura questionam esta ideia para
pensar a relação humanos e animais como parte de um construção social. Esta pesquisa tem como referência autores
Bourdieu, Zelizer e Fligstein tomando como pressuposto a construção social dos diferentes mercados.
Para compreensão desta nova moralização, em estágio futuro da pesquisa pretende-se utilizar como
metodologia, além do levantamento bibliográfico, entrevistas semiestruturadas com donos de agropecuárias e pet shops,
bem como protetores de animais da cidade para analisar alguns dos fatores em embate na construção deste campo
social.

Considerações Parciais da pesquisa em andamento

No momento atual – final do século XX e início do século XXI – autores como Digard (2012) observam uma
virada obscurantista: o excesso de zelo pelos animais de estimação implicando na diabolização do próprio ser humano.
Neste sentido Mazon (2016), tenta situar elementos da sociogênese da presença de cachorros nos lares brasileiros e
refletir sobre a construção de significados que torna essa presença algo razoável.
Surge também todo um debate sobre alimentação vegetariana e vegana para minimização da exploração dos
animais, bem como a diminuição ou extinção de experiências em animais de produtos e processos que futuramente
serão utilizados em seres humanos.
O novo paradigma também como uma construção social faz apelo ao investimento de significados o qual
inaugura novos objetos de mercado (Bourdieu, 2005). Mazon (2016) analisa como a Revista Seleções constitui-se como
mecanismo de importação de ideias e projeta uma imagem de cachorros como amigos leais dos humanos no Brasil. A
autora menciona como o movimento de importação de ideias no Brasil a modernidade sempre foi associada a algo que
vem de fora e no período moderno e contemporâneo inaugura os pilares da obsessão pelos cães.
Neste primeiro momento a pesquisa PIBIC tratou de um levantamento bibliografico tão bem como pesquisa
em sites e jornais que tratavam da questão dos animais de rua e seus cuidados. Na etapa seguinte desta pesquisa
pretendo analisar o discurso construído sobre a adoção responsável presente nesta construção social atual divulgada nos
grupos de Facebook de protetores ou de pessoas que divulgam cães para adoção. O número gigantesco de animais
abandonados ou que já nasceram em situação de rua faz com que aumentem o número de grupos nas redes sociais para
divulgação dos animais (principalmente cachorros e gatos) que encontram-se perdidos ou disponíveis para adoção. Em
pesquisa preliminar, lendo os posts dos últimos dois meses da maior comunidade do facebook na região da Grande
Florianópolis, chamadas Cachorros Achados e Perdidos Florianópolis, com mais 35 mil participantes claramente
percebe-se um discurso da “adoção responsável” que critica as pessoas que adotam animais e precisam doá-los devido
à mudança de endereço ou a falta de espaço, ou ainda que questionam quando pessoas de baixa renda procuram
informações de onde podem conseguir atendimento gratuito para seus animais ou ainda se um morador de rua pode ou
não ter um animal de estimação. Por adoção responsável subtende-se castrar e vacinar o animal, garantir-lhe os devidos
cuidados veterinários, alimentares, espaço adequado, atenção e carinho, bem como levar o animal em caso de mudança
de endereços. Isto entra em confronto direto com a realidade de diversas famílias com baixo poder aquisitivo, mas que
adotam diversos animais alimentados com resto de comida e por vezes acorrentados, na impossibilidade de cercar um
espaço para manter o animal. Recentemente uma lei muito comemorada por protetores de animais na cidade de
Florianópolis, por exemplo, sobre a proibição de manter cachorros acorrentados 24 horas, mas que parece desconhecer a
realidade de diversas famílias que possuem cachorros e moram em casas alugadas com terreno conjugado com outras
residências ou sem muros, o que impossibilita o animal permanecer solto no espaço. Me interessa analisar este quadro
de tensão: são frequentes posts na comunidade sobre animais que os donos deixam soltos na rua, que são considerados
como negligentes. Desta maneira, em alguns momentos as afirmações muito frequentes entre protetores sobre a
importância de castrar porque “não existem lares e tutores para todos os animais que encontram-se na rua”, confronta-se
com a crítica de “porque adotou se não tem condições de cuidar” dentro do que considera-se necessário para os animais
diante da nova construção social.
REFERÊNCIAS

BOURDIEU, 2005. O campo econômico. Política & Sociedade, n. 6: 15-58

DIGARD, Jean-Pierre. 2012. Le tournant obscurantiste em Anthropologie: de la zoomanie à l’animalisme occidentaux.


L’Homme, v. 203-204(3): 555-578.

GRÜN, Roberto. Modelos de empresa, modelos de mundo: sobre algumas características culturais da nova ordem
econômica e da resistência a ela. RBCS, v. 14, n. 41, 1999, p.121-140.

SILVA-MAZON, Márcia da; MOURA, Wandgleisom Garcia de. Cachorros e Humanos: mercado pet em perspectiva
sociológica. In: Civitas, Porto Alegre, v. 17, n. 1, p. 138 – 158, jan.-abr. 2017

SILVA-MAZON, Márcia da. Ser Cachorro no Século XXI: a domesticação inversa e o mercado de pets em perspectiva
sociológica. In: 40o Encontro Anual da ANPOCS, 2016, Caxambú – MG. 40o Encontro Anual da ANPOCS. v. 1. p.25-
25.

RITTO, C.; ALVARENGA, B. A casa agora é dos cães – e não das crianças. 4 jun. 2015. Revista VEJA, 2015.
Disponível em: <http://veja.abril.com.br/noticia/entretenimento/a-casa-agora-e-dos-caes-e-nao-das-criancas>. Acesso
em: 12 jun. 2018.

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