Você está na página 1de 112

z

Tratado Sobre
a Tolerância

~ - - --. - -
I

- --- -~

111111 ImUI" "1111 · O~OO16140


ISBN 85-33b-1258-3

II
9 788533 6 7

Martins Fontes
o r".,. SJny" Toler4ncill, de Voltaire,
fui .....ipIo em 1762 e teve como origem
o fàllMMO cuo Jean Calas. Neste episódio
~ eDCOIltrou uma vez mais a opor-
cuaicI8de pua encetar um novo combate
pela liberdade. Esta lição de uruversali-
. . , que continua válida ainda em nos-
101 cliu, ~ um magnífico testemunho TRATADO SOBRE
.... o auminiamo. No mundo em que A TOLERÂNCIA
fttClDOlt doia sku.los depois de Voltaite,
• uniyenalidade faz da tolerincia um
cIewr.
TRATADO SOBRE
A TOLERÂNCIA
A propósito da morte de Jean Calas
Volta ire

Introdução, notas e bibliografia


RENÉ POMEAU

Tradução
PAULO NEVES

Martins Fontes
São Paulo 2000
I lhhiBDlIRlhUi. ij(jh123Kj-;'IMÉRANCE.
Copyright © Flamar;on, Paris, Í989, para' o aparelho crítico.
Copyright © Livraria Martins Fontes Editora Ltda., Índice
São Paulo, 1993, para a presente edição.

I' edição
setembro de /993
2' edição
junho de 2000

Tradução
PAULO NEVES

Tradução do prefácio
Maria Ermantina Galvão
Revisão da tradução
Eduardo Brandão
Revisão gráfica
Andréa Stahel M. da Silva
Ivete Batista dos Santos
Introdução ...................................................... ~...... VII
Produção gráfica Cronologia .............................................................. XXXIII
Geraldo Alves
PaginaçãolFotolitos
Studio 3 Desenvolvimento Editorial 16957-7653) I. História resumida da morte de Jean Calas. 3
lI. Conseqüências do suplício de Jean Calas .. 15
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP. Brasil) lI!. Idéia da Reforma do século XVI ................ . 17
VOltair., 1694-1778. IV. Se a tolerância é perigosa, e em que povos
Tratado sobre a tolerância: a propósito da morte de Jean Calas I
Voltaire ; introdução. notas e bibliografia René Pomeau ; tradução ela é permitida ............................................ . 21
Paulo Neves. - 2. ed. - São PauJo : Martins Fontes, 2000. -
(Clássicos)
V. Como a tolerância pode ser admitida ....... . 29
Título original: Traité sur la tolérance.
VI. Se a intolerância é de direito natural e de
Bibliografia. direito humano ............................................ . 33
ISBN 85-336-1258-3
VII. Se a intolerância foi conhecida pelos gre-
1. Filosofia francesa 2. Literatura francesa I. Título. 11. Série.
gos .......................................................... . 35
00-1860 CDD-I94
VIII. Se os romanos foram tolerantes ................. . 39
Indices para catálogo sistemático:
1. Filosofia francesa 194 IX. Acerca dos mártires ..................................... . 45
2. França: Filosofia 194
X. Acerca do perigo das falsas lendas e acer-
Todos os direitos para a língua portuguesa reservados à ca da perseguição ..... ,................................. . 55
Livraria Martins Fontes Editora Ltda.
Rua Conselheiro Ramalho, 330/340
XI. Abuso da intolerância ................................. . 63
01325-000 São Paulo SP Brasil XII. Se a intolerância foi de direito divino no
Tel. (11) 239-3677 Fox (11) 3105-6867
e-mail: info@martinsfontes.com judaísmo e se foi sempre posta em prática 69
http://wWw.martinsfontes.com XIII. Extrema tolerância dos judeus ................... . 79
XIV. Se a intolerância foi ensinada por Jesus Introdução
Cristo .................. ······························ ............ . 83
XV. Testemunhos contra a intolerância ............ . 91
XVI. Diálogo entre um moribundo e um ho-
mem saudável ............................... ··············· 95
XVII. Carta escrita ao jesuíta Le Tellier, por um
beneficiado, em 6 de maio de 1714 .......... . 99
XVIII. Únicos casos em que a intolerância é de
direito humano ............................ ·················· 105
XIX. Relato de uma disputa de controvérsia na "

China ............................. ···················· ........... . 109 Voltaire não esperou o processo Calas para se preocu-
XX. Se é útil manter o povo na superstição .... . 113 par com a tolerância. A questão já agitava o meio em que foi
XXI. É preferível a virtude à ciência .................. . 117 criado: é notório o clima de discussões religiosas e de per-
XXII. Acerca da tolerância universal ................... . 121 seguições em que terminou, durante a juventude de Arouet,
XXIII. Oração a Deus ........................................... .. 125 o longo reinado de Luís XIV.
XXIV. Pós-escrito .................................. ··················· 127 Quando da morte do rei, em 1º de setembro de 1715,
XXV. Continuação e conclusão ........................... . 133 as prisões estavam cheias de jansenistas, pessoas muito
honestas, vítimas de sua fidelidade à teologia da "graça
Artigo posteriormente acrescentado, no qual se eficaz". Infelizmente, Luís XIV obtivera da corte de Ro-
fala da última sentença pronunciada em favor da ma, reticente, a bula Unigenitus. Arouet, por sua família
família Calas ................................. ··························· 139 e círculo de amigos, vira de perto essa última tentativa de
reduzir os partidários de Jansênio, de Arnauld, de Ques-
Notas ...................................................................... . 145
nel. Depois, com o advento do Regente, abrem-se as pri-
Bibliografia ......................................... ··················· . 179
sões, a pressão atenua-se, mas não desaparece. O sécu-
lo inteiro será preenchido pelos esforços do poder para
sufocar ou adormecer um partido religioso, poderoso,
inerradicável. O Tratado sobre a tolerância evoca as fa-
ses de crise desse enfrentamento prolongado. Como sói
acontecer, o conflito religioso permite que tensões de
outra ordem se manifestem. Na capital, o bairro jansenis-
ta por excelência vem a ser o mais miserável: o de Saint-
Médard, povoado de pobres-diabos, de indigentes. Um

VII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __
_ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

diácono da paróquia, chamado Pâris, asceta que literal- Quando lemos o Tratado de Voltaire, devemos re-
mente se matou de tantas privações, é reconhecido por memorar o ambiente da antiga França, onde o poder se
essa gente pobre como seu semelhante e herói, que con- arrogava mui normalmente o direito de atormentar ho-
denava, com seu exemplo, a religião corrompida dos bair- mens por suas crenças. Dentre as vítimas, os mais dignos
ros ricos e da corte. É "canonizado" pelo povo. Ao seu de pena eram seguramente os protestantes.
túmulo afluem multidões, sacudidas de crises histéricas.
São Pâris realiza milagres: as "convulsões" que agitam ***
seus fiéis passam por curá-los de suas doenças. Tendo a
polícia fechado o cemitério ("Em nome do rei, é proibi-
A consciência francesa ficou marcada pela lembran-
do a Deus/Fazer milagre neste local"), as "convulsões"
ça das guerras religiosas do século XVI, até que "93"
continuam a portas fechadas, nos sótãos. Alguns anos
viesse apagar antigos horrores por outros mais recentes.
mais tarde, o caso dos atestados de confissão faz recru-
Voltaire não se enganava ao escolher, por volta de 1720,
descer a perseguição. O Tratado sobre a tolerância, no
capítulo dezesseis, refere-se a esse episódio, ainda re- para sua Henríade épica, um herói e um tema que con-
centíssimo no momento da publicação da obra. O arce- tinuavam a repercutir na opinião contemporânea. Reper-
bispo de Paris, esperando acabar com o jansenismo, cussão amplificada ainda pela atualidade da perseguição
tivera uma idéia que se revelou das mais desastradas. Os antijansenista, bem como pelo que sobreviera aos pro-
últimos sacramentos só deviam ser administrados aos testantes.
agonizantes que pudessem apresentar um atestado de O fracasso da Revogação do edito de Nantes ficou,
confissão de um padre que acatasse a bula Unigenitus. no século XVIII, patentíssimo. Ao assinar o edito de Fon-
Ora, numerosos fiéis falecem sem poder cumprir o re- tainebleau, em 15 de outubro de 1685, Luís XIV pensava
quisito. Resulta daí ser-lhes recusada a sepultura cristã. que venceria a resistência dos últimos recalcitrantes. Num
Conseqüência mais grave: esses cristãos, não tendo sido regime autoritário, os relatórios que chegam ao príncipe
lavados de seus pecados pelo supremo sacramento, cor- infelizmente dizem não o que é, mas o que este deseja'
rem o risco da danação eterna. A emoção em Paris se ouvir. Fazia meses que só se falava ao rei de calvinistas
transforma em rebelião. O Parlamento apodera-se do ca- que aderiam aos magotes à verdadeira religião. Ele não
so. Agonizantes fazem lavrar, por tabelião, a recusa do se interrogava sobre a solidez de conversões, quer com-
sacramento. Depois disso, o tribunal de justiça processa pradas pela Comissão de Pellisson (às vezes após escan-
os párocos culpados de terem obedecido ao seu arcebis- dalosas barganhas), quer extorquidas pelos dragões, cujas
po. Luís XV intervém, exila os parlamentares, depois os práticas eram todavia conhecidas: pilhagens, roubos,
chama de volta. Ainda, à véspera de 1789, o jansenismo estupros, brutalidades de toda espécie ... A amplitude do
continua bem vivo. Tirará sua desforra ao inspirar larga- êxodo protestante surpreendeu as autoridades. Muitos,
mente a Constituição civil do clero, de 1790. porém, não conseguiram emigrar. Subsistiram massas

VIII IX
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _V o l t a i r e - - - - - - - - - - _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

compactas, intactas, em especial nas Cevenas. Luís XIV, no Calas, por exemplo, fora batizado pelo pároco católico
momento em que devia fazer frente nas fronteiras, com de seu local de nascimento. Mais tarde, casara-se regu-
dificuldade, à Europa coligada, foi também obrigado a larmente na igreja, não em Toulouse, mas numa aldeia
guerrear os camisards, seus súditos protestantes revolto- da Ile-de-France, onde o cura da paróquia não levantara
sos, no coração do reino. a menor dificuldade para administrar o sacramento. Jean
Depois da morte do rei, teria sido sensato aprender Calas batizara católicos seus seis filhos. Seus quatro fi-
a lição com o fracasso. Ora, foi a decisão contrária que lhos homens realizaram seus estudos no colégio dos je-
se adotou. O duque de Bourbon, primeiro-ministro, faz suítas da cidade. Nem por isso deixaram de ser hugue-
o jovem Luís XV declarar que o desígnio do rei da França notes, com exceção de um. Oficialmente, depois da Re-
continuava a ser o de extirpar a heresia (1724). As anti- vogação, já não existe no reino da França nenhum pro-
gas leis voltam a viger: pena capital contra os pastores sur- testante: somente "católicos novos". Mas todos sabiam
preendidos no exercício de seu ministério; quanto aos que esses supostos "católicos novos" que se abstinham
protestantes presos em flagrante delito de praticar o cul- de assistir à missa, de se confessar, de comungar, eram
to, galés perpétuas para os homens, prisão perpétua para realmente fiéis da R.P.R. ("religião pretensamente refor-
as mulheres. Houve empenho na aplicação de um códi- mada"). Eram tratados como tais. Em particular, eram
go tão cruelmente repressivo. Resolvia-se assim, é verda- excluídos de grande número de profissões, vedadas aos
de, um difícil problema: recrutar remadores para as gale- protestantes. Na verdade, ao longo dos anos, para tornar
ras do rei. Enviavam-se os camponeses languedocianos possível a vida cotidiana, as autoridades prestavam-se a
presos pelos guardas nas assembléias do "Deserto" para acordos. De modo que, graças a apóstolos como Antoine
remar em Marselha e Toulon: duzentos apenas nos anos Court, recomeçara certa vida religiosa na comunidade
1745 e 1746, segundo Antoine Court. Voltaire, por sua reformada. Um sínodo nacional pudera até efetuar-se na
vez, calcula que, entre 1745 e 1762, oito pastores foram clandestinidade, em 1744. Mas esse despertar inquietava.
enforcados por decisão da justiça. Ainda que provações O bispo de Agen fizera, por uma carta pública, em 1751,
tão rudes atingissem apenas pequeno número de protes- o elogio da Revogação do edito de Nantes, denunciando
tantes, todos, em compensação, eram sujeitos a medidas paradoxalmente, no calvinismo, "uma religião que con-
discriminatórias muito penosas. Não tinham estado civil. sagra os vícios, que permite a licenciosidade". Um abade
Seus nascimentos, seus casamentos fora da Igreja não de Caveyrac, em 1758, publicara uma Apologia da Re-
eram legalmente reconhecidos. Seus filhos eram consi- vogação e do massacre de São Bartolomeu; o Tratado de
derados bastardos, com todas as conseqüências daí de- Voltaire se referirá a essa escandalosa obra. Renasce, no
correntes, notadamente no que tange à transmissão das local, uma tensão entre católicos e protestantes, manifes-
heranças. Por isso, a maior parte dos protestantes se re- tada, em torno de 1760, por vários processos quase si-
signava a atos puramente formais de catolicidade. Jean multâneos.

x XI
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _~---- _ . : . . - - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

Em 14 de setembro de 1761, uma patrulha de guar- turadO na roda na mesma praça Saint-Georges de Toulouse
das prende perto de Caussade, ao norte de Montauban, onde haviam sido executados Rochette e os três irmãos.
um rapaz de uns vinte anos. Um vagabundo? Não. Ele
declara sua identidade: é o pastor Rochette. Sabe que •••
sua franqueza vai fazê-lo incorrer na pena de morte. No
dia seguinte, dia de feira em Caussade, os camponeses Na noite de 13 de outubro de 1761, Jean Calas, co-
huguenotes afluem à cidadezinha. Rebentam tumultos. merciante de tecidos na Rue des Filatiers, jantara com a
Três irmãos, fidalgos fabricantes de vidro, tentam libertar família, em seu modesto apartamento no primeiro andar,
Rochette. São· presos e chamados a juízo com ele diante em cima da loja. Recebiam o jovem Gaubert Lavaisse, de
do parlamento de Toulouse. Um protestante de Montau- uma família protestante de Toulouse, então fazendo es!
ban, Ribotte-Charron, solicita a Voltaire que intervenha. tágio com um armador de Bordeaux; vinha dizer adeus
O grande homem o faz, mas sem muito ardor (tendo ele aos seus antes de partir para São Domingos. À sobreme-
próprio rixas com os pastores de Genebra) e, infelizmen- sa, o filho mais velho, Marc-Antoine Calas, levanta-se e
te, sem resultado. Os quatro huguenotes são condena- desce; vai, pensam, dar uma volta pela cidade, como
dos à morte. O pastor, de camisa, pés descalços, trazen- está habituado. Por volta das 9h30min da noite, Gaubert
do no pescoço um cartaz, "Ministro da R.P.R.", é condu- Lavaisse se despede. O irmão caçula, Pierre Calas, acom-
zido ao suplício com seus companheiros pelas ruas de panha-o na escada, de vela na mão. Tendo chegado ao
Toulouse, apupados pela multidão. Ao pé do cadafalso, corredor do térreo, avistam na loja o corpo de Marc-An-
Rochette reza longamente. Exorta seus companheiros. toine, morto por estrangulamento: o pescoço tem as
Sobe ao patíbulo cantando salmos. Os três irmãos abra- marcas de uma corda.
çam-se antes de colocar suas cabeças sobre o cepo. Pois, Ante os gritos da família, os vizinhos saem à rua. As
sendo fidalgos, têm a honra de ser decapitados. pessoas do bairro se ajuntam. Um boato espalha-se na
Essa cena atroz (conhecida por uma carta de Ribotte- mesma hora: Marc-Antoine ia converter-se, como fizera
Charron a Rousseau) se passava em 19 de fevereiro de alguns anos antes seu irmão mais novo, Louis. Para im-
1762. Alguns dias antes, começara em Mazamet o pro- pedi-lo, os Calas, ajudados por Gaubert Lavaisse, agente
cesso Sirven: a filha de um geômetra-agrimensor, louca, de um complô calvinista, com toda evidência, o assassi-
matara-se atirando-se num poço. Acusam o pai, um pro- naram. Pouco depois, chega o chefe da polícia, o magis-
testante, de tê-la assassinado para impedir sua conversão·. trado municipal David de Beaudrigue. A versão da rua
Alguns dias mais tarde, o protestante Jean Calas será tor- parece-lhe convincente. Cerca de meia-noite, encarcera
na prisão do Capitole todas as pessoas da casa: Jean Ca-
las e sua mulher, seu filho Pierre, Gaubert Lavaisse e,
• Voltaire esperará o desfecho do processo Calas para encarregar-se da
causa de Sirven e de sua família. também, a velha criada católica, Jeanne Viguiere.

XII XIII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
_ - - - - - - - Tratado sobre a tolerâncía _ _ _ _ _ _ __

Entrou em ação uma máquina infernal que nada de- go fixo, subsistindo apenas da mesada paterna. Depois
terá mais. da morte de Marc-Antoine, diziam que também o filho
Em 9 de março, o tribunal criminal de Toulouse con- primogênito ia converter-se, e que esta era a causa do
dena à morte Jean Calas. No dia seguinte, o condenado assassínio.
é, perante uma multidão reunida, executado pelo suplí- Marc-Antoine ia completar vinte e nove anos. Auxi-
cio da roda. lia conscienciosamente o pai na loja, substituindo-o com
Drama da intolerância, por certo. Voltaire tinha toda freqüência, pois Jean Calas, de 63 anos, sente o peso da
razão em escolhê-lo como ponto de partida de sua cam- idade. Marc-Antoine assumirá logo a direção do negócio.
panha contra a perseguição religiosa. A família Calas so- Mas sonhara algo diferente dessa vida tacanha de comer-
frera as coerções da legislação antiprotestante. Foi esta ciante. Culto, amante da literatura eVoltaire o qualifica d~
que criou as condições do drama. Jean Calas exercia ha- "homem de letras"·), estuda direito. Gostaria de entrar na
via uns quarenta anos seu modesto comércio. Em sua advocacia. Mas esbarra na legislação antiprotestante: é
casa exígua, criara seis filhos: quatro filhos, seguidos de uma profissão vedada aos "pretensamente reformados".
duas filhas·. Com eles morava a velha Jeanne Viguiere, a Terá ele pensado, para afastar o obstáculo, em aderir ao
seu serviço por um quarto de século, considerada parte catolicismo? Tudo prova que se recusou a isso. O inqué-
da família. Era, segundo a sentença, católica e muito de- rito sem dúvida estabeleceu que ele costumava freqüen-
vota. Seu testemunho é decisivo para inocentar os Calas. tar os ofícios solenes da Igreja. Era apreciador da bela
O terceiro filho, Louis, com vinte e cinco anos em música. Um homem de condição tão humilde não tinha
1761, convertera-se cinco anos antes ao catolicismo, sob acesso aos concertos da boa sociedade. Não podia satis-
a influência de Jeanne Viguiere e do abade Durand. Rom- fazer seu gosto senão nas cerimônias abertas a todos nas
pera então com sua família. O bispo, após a abjuração, igrejas da cidade. Mas não adiantou procurarem o padre
obrigara o pai, como exigia a lei, a quitar as dívidas de a quem ele se teria aberto sobre suas intenções de abju-
Louis e a pagar-lhe uma pensão. Desde então, o rapaz le- rar: ~ão o encontraram. Em compensação, os inquirido-
vava uma vida preguiçosa, incapaz de ocupar um empre- r~s ti~eram de registrar o testemunho categórico de Jeanne
~l~lere: ela "jamais soube que ele tivesse alguma dispo-
• Rosine, vinte anos, e Nanette, dezenove anos, ausentes em 13 de outu-
slçao para se converter" ••.
bro: como todos os anos, foram ao campo para as vindimas. Os defensores do Marc-Antoine vivia, portanto, ensimesmado, habitual-
crime calvinista pretenderam que os pais as afastaram a fim de executar à von- mente taciturno e melancólico. Aos seus mostrou-se as-
tade o assassínio de Marc-Antoine. O mais jovem dos filhos, Donat, também
está ausente: está como aprendiz em N1mes. - Sobre a família Calas e a docu- sim, durante a refeição de 13 de outubro à noite. Ou tal-
mentação judiciária do drama da Rue des Filatiers, o estudo fundamental é o
..............
de Jean Orsoni, L'a.ffaire Calas avant Voltaire, tese de doutorado do terceiro
ciclo, Universidade de Paris, Sorbonne, três volumes datilografados de 605 • Tratado sobre a tolerância, p. 4.
páginas ao todo, trabalho infelizmente não publicado. •• Citado por Jean Orsoni, L'a.ffaire Calas avant Voltaire, p. 88.

XIV xv
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _~_ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

vez não tenham prestado atenção nele, ocupados que drigue sente pelos protestantes uma invencível aversão.
estavam com a conversa de Gaubert Lavaisse. Será que, Ao seu redor, a cidade manifesta, durante as semanas da
quando desceu ao térreo, ele se suicidou na loja por en- instrução, uma viva hostilidade por essa gente de uma
forcamento? A resposta dependia da posição do corpo minoria reprovada. Como se a conversão de Marc-An-
quando o descobriram. Nesse ponto capital os Calas di- toine fosse um fato estabelecido, a confraria de cogula
vergiram, o que agravou a presunção da sua culpabilida- dos penitentes brancos apodera-se de seu cadáver, en-
de. Na noite do dia 13, Pierre, apoiado pelo pai, afirmou terra-o na igreja de Saint-Étienne, faz em sua honra uma
que o corpo estava estendido no chão: primeira versão, procissão em que ele é representado por um esqueleto
por certo verídica. Tal posição não excluía a tese do sui- articulado empoleirado num catafa1co. Lançam uma es-
cídio por enforcamento; mas combinava melhor com um candalosa "monitória": uma advertência aos fiéis lida em
.assassínio por estrangulamento. Por isso, os Calas, já no todas as igrejas. O texto apresentava como incontestável
dia seguinte, mudaram seu depoimento. Teriam encon- o crime calvinista; os ouvintes eram intimados, sob pena
trado Marc-Antoine pendurado numa corda fixada num de excomunhão, a dizer tudo quanto sabiam sobre a con-
rolo de madeira (destinado a enrolar os tecidos), estan- versão de Marc-Antoine, sobre o assassínio deste pelos
do o referido rolo equilibrado nas duas folhas entreaber- seus por motivo de religião. Recolheram assim apenas
tas da porta que fazia a comunicação entre a loja e o de- mexericos.
pósito. Suicídio acrobático, mas existem alguns assim. Nem todos os parlamentares do tribunal criminal es-
O inquiridor, David de Beaudrigue, não era um Mai- tavam, por certo, cegados pelo fanatismo. Hesitaram. Ti-
gret, menos ainda um Sherlock Holmes. Negligenciou nham contra os Calas presunções fundamentadas nas
seguir pistas que, talvez, teriam levado à verdade. Marc- contradições destes quanto à posição do cadáver, na ati-
Antoine havia trocado à tarde, por ordem do pai, prata tude embaraçada do velho comerciante, nem um pouco
em luíses de ouro. Não encontraram esses luíses. Que fim preparado para enfrentar tamanha provação ao termo de
levaram eles? Beaudrigue não formulou a questão. Marc- uma vida pacata. Mas indícios não bastavam. A pressão
Antoine os teria perdido, no jogo ou de outro modo, o da opinião pública supriu a falta de provas. Faltavam dois
que explicaria o suicídio? Estaria um assassino amoitado votos de maioria para uma sentença capital. A mudança
no quintal da casa, espreitando-o para roubá-lo, ou por de opinião de um juiz no último momento permitiu ob-
outra razão (o inquérito não se interessou pelas amiza- tê-los. Entretanto, a sentença de morte ainda trai as in-
des femininas desse moço de vinte e oito anos)? Nunca certezas do tribunal. Na hipótese do crime calvinista,
o saberemos. cumpria que toda a família fosse coletivamente culpada,
Pois o inquérito orientou-se para uma única direção, notadamente dada a exigüidade da moradia dos Calas.
que se revelou um impasse: o crime calvinista. Os senti- Em boa lógica, o promotor requereu para o pai e o filho
mentos de intolerância foram aqui determinantes. Beau- Pierre a morte pelo suplício da roda, para a mãe a morte

XVI XVII
___________Voltaire----------- _ _- - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

por enforcamento. A sorte de Gaubert Lavaisse e de fazer. Em 18 de março, pronunciam contra Pierre uma
Jeanne Viguiere seria decidida posteriormente. Mas o tri- sentença de banimento e põem os outros réus para "fora
bunal não ousou ir tão longe. Condena em 9 de março do tribunal"; noutras palavras, absolvem-nos. Era reco-
de 1762 apenas Jean Calas a ser "quebrado vivo", depois nhecer implicitamente o erro judiciário.
estrangulado e "atirado numa fogueira ardente". "Esta úl- Não podemos ter dúvida disso hoje. Por culpa de
tima pena", especifica a sentença, "é uma reparação à uma instrução dominada pela prevenção e, por isso, mal
religião cuja feliz escolha feita pelo filho foi verossimil- conduzida, estamos até hoje reduzidos à "verossimilhan-
mente a causa de sua morte" (grifo nosso). Assim, Jean ça". Mas a maior verossimilhança é a favor da inocência
Calas foi condenado a uma morte atroz com base numa de Jean Calas e dos seus.
mera "verossimilhança". Fizeram um cálculo: durante a A comunidade protestante ficara abalada por tão
execução, Jean Calas faria afinal a confissão de seu crime. horrível desfecho. As minorias perseguidas sabem orga-
O suplício ia trazer a prova, sempre ausente, que justifi- nizar-se. Ribotte-Charron, o negociante marselhês Domi-
caria o suplício. nique Audibert, seus amigos de Genebra, alertam Voltai-
Os juízes não tiveram o que esperavam. Em 10 de re. O grande homem, depois de um exame que teria du-
março, o condenado foi, conforme a lei, previamente à rado três meses, depois de interrogar longamente o mais
execução, submetido à questão "ordinária" (seus mem- jovem dos Calas, Donat, vindo a Ferney, formou uma
bros são esticados por talhas), depois à "extraordinária" "convicção íntima": "o furor da facção e a singularidade
(fazem-no ingerir dez moringas de água). Beaudrigue, do destino concorreram para assassinar juridicamente na
ansioso, fica perto dele. Suplica-lhe, para abreviar o tor- roda o mais inocente e mais infeliz dos homens, para
mento, que confesse por fim, no momento de compare- dispersar-lhe a família e para reduzi-la à mendicância" (a
cer perante Deus, a verdade, ou seja, que matou Marc- Audibert, 9 de julho de 1762). Desde então encarrega-se
Antoine. Mas Jean Calas não pára de protestar sua ino- do caso. Multiplicando as diligências, as intervenções em
cência. Conduzido ao cadafalso, repete que morre ino- Versalhes, acabará obtendo, em 9 de março de 1765, a
cente. Deitado na roda, com braços e pernas quebrados reabilitação de Jean Calas.
a golpes de barra de ferro, fica lá, com o rosto voltado O Tratado sobre a tolerância, começado em outubro
para o céu, agonizando durante duas horas, tendo ao de 1762, situa-se num momento crucial dessa longa cam-
seu lado o padre Bourges. Depois é estrangulado, e seu panha. Uma vantagem decisiva foi obtida, em 7 de mar-
corpo queimado. Quando tudo terminou, o promotor cor- ço de 1763, quando o Conselho do rei autorizou a ape-
reu ao confessor: "Nosso homem confessou?" Não, não lação do julgamento do parlamento de Toulouse. Voltaire
"confessou". O padre Bourges testemunha lealmente a difunde no início de abril o Tratado, impresso em Gene-
firmeza de alma de Jean Calas. bra pelos Cramer. Envia exemplares a Madame de Pompa-
Os juízes ficam desconcertados. Já não ousam con- dour, aos ministros de Estado, ao rei da Prússia, a prínci-
denar os outros acusados, como logicamente deveriam pes da Alemanha (carta a Moultou, 3 de abril de 1763). É

XVIII XIX
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
_ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

perante a Europa das luzes que ele advoga a causa dos décadas do Antigo Regime, a monarquia francesa parece
Calas, e vai ganhá-la. atingida por uma impotência para realizar até mesmo as
reformas mais necessárias. O processo Calas teve, decer-
••• to , uma conseqüência nos fatos. Acabou-se com as exe-
cuções de pastores, com a prisão em massa de hugueno-
Partindo do "caso", o Tratado amplia as perspecti- tes "no Deserto" para abastecer as galés. Mas não se mo-
vas. O drama tinha, manifestamente, como primeira ori- dificou em nada a lei. Podia, portanto, ser a qualquer
gem, a legislação antiprotestante. Voltaire propõe modi- momento reativada. Foi somente em 1787 que Luís XVI
ficá-la. Mas procede aqui com extrema prudência, cons- decidiu-se a promulgar um edito de tolerância, em favor
ciente das poderosas oposições que encontrará. Um de de seus súditos que não pertenciam à religião católica (o
seus princípios é que "é preciso sempre partir do ponto texto não especificava se a medida era aplicável também
em que se está e daquele a que chegaram as nações"·. aos judeus). Vinte e quatro anos depois do Tratado de
Durante seu exílio na Inglaterra, ficara impressionadíssi- Voltaire, o rei adotava-lhe as recomendações. Restituía
mo com o pluralismo religioso instituído nessa "ilha da aos protestantes o estado civil. Tolerância, portanto, e
razão;', em contraste com a situação francesa. Existe, tan- tlada mais. Estamos, porém, a alguns meses da convoca-
to além-Mancha como aquém, uma Igreja de Estado: na ;ão dos estados-gerais. O Edito vai ser rapidamente su-
Inglaterra, a Igreja anglicana, "aquela em que se faz for- Derado. De fato, a Declaração dos direitos do homem de
tuna", escrevia maldosamente (quinta Carta filosófica). L789 institui que "todos os cidadãos [. ..] são igualmente
Mas, ao lado dessa Igreja oficial, deixam viver em paz os ldmissíveis a todas as funções graduadas, colocações e
dissidentes: quakers, presbiterianos, socinianos. Voltaire ~mpregos públicos [. ..] sem outras distinções além daque-
não pede, no Tratado, uma liberdade comparável para os as de suas virtudes e de seus talentos". Assim termina a
calvinistas do reino da França. Que concedam aos pro- ~xclusão dos protestantes, exclusão de há muito inad-
testantes apenas uma situação análoga à dos católicos no nissíveI, pois que, em 1777, Luís XVI havia nomeado
Reino Unido (dos quais as Cartasfilosóficasnão haviam, :omo principal ministro, e tornado a nomear em 1788,
aliás, dito uma só palavra). Sem "templos públicos", sem ~ecker, um protestante convicto e até mesmo militante.
acesso "aos cargos municipais, às funções graduadas". ~ Declaração de 1789 não afirma explicitamente a liber-
Mas que lhes restituam o estado civil de que a Revoga- lade do culto público, como pedira o pastor Rabaut
ção de 1685 lhes despojou: validade dos casamentos, le- :aint-Étienne, deputado na Assembléia Nacional. O arti-
gitimidade dos filhos, direito de herança, "franquia" das iO X estipula somente que "ninguém deve ser importu-
pessoas. Em 1763, ainda era pedir demais. Nas últimas lado por suas opiniões, inclusive religiosas, contanto que
Ua manifestação não perturbe a ordem pública estabe-
• Tratado sobre a tolerância, p. 31. ~cida pela lei". Mas o artigo seguinte, ao afirmar que "a

xx XXI
___________ Voltaire'----------- _ _- - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

livre comunicação dos pensamentos e das opiniões é um como idéia principal "a distinção entre a comunidade po-
dos direitos mais preciosos do homem", implicava uma lítica e a sociedade religiosa, a distinção e a separação
liberdade de culto que era, na verdade, daí em diante radical entre as funções da Igreja e as do Estado"·. Desse
praticada sem entraves. argumento, Voltaire quase que só retém a recusa galica-
O Tratado de 1763 deveria, por uma evolução nor- na ao poder dos papas de distribuir as coroas e de cole-
mal, redundar em mais do que mera "tolerância". A argu- tar as anatas (capítulo I1I). A separação entre a Igreja e o
mentação desenvolvida por Voltaire acarretava conse- Estado na França nunca foi um de seus objetivos. Ad-
qüências que iam muito além dos tímidos pedidos de seu voga, ao contrário, uma subordinação da Igreja ao Esta-
capítulo cinco. O Tratado sobre a tolerância revelava a do: vê nisso um meio de garantir a tolerância. O apelo
substância de um "Tratado sobre a liberdade de pensar". ao Conselho do rei no processo Calas prende-se a essa
política. O Estado não pode desinteressar-se da religião,
••• pois, "em todos os lugares onde há uma sociedade esta-
belecida, uma religião é necessária". É desejável que seja
Abordando a questão da tolerância, Voltaire alia-se a uma "religião pura e santa", isenta de superstição e de
textos clássicos: Locke, Bayle. Retoma-lhes as idéias, mas fanatismo: "não se deve procurar alimentar de frutos sil-
se estabelece, com relação a eles, numa perspectiva nova. vestres aqueles que Deus se digna alimentar de pão".
Uma nota do capítulo onze remete à "excelente Car- Mas Voltaire - quiçá para espanto de muitos - concede
ta de Locke sobre a tolerância". Obra de forma bem dife- que, numa população grosseiramente primitiva, as su-
rente do Tratado. Locke redigiu, em latim, Epístola de to- perstições, "desde que não sejam destruidoras", podem
lerantia, esse texto compacto, que será traduzido em se- ser justificadas. "O homem sempre necessitou de um
guida para o inglês e do inglês para o francês. Com toda freio." Por isso era, outrora, "bem mais razoável e útil
evidência, a Epístola se dirige a um público de doutos. O adorar aquelas imagens fantásticas da divindade [faunos,
Tratado de 1763 visa, ao contrário, ao grande público. silvanos, náiades, etc.] do que entregar-se ao ateísmo"
Faz parte de uma estratégia voltairiana que se esforça por (capítulo XX).
mobilizar a opinião pública. Voltaire citou Locke como penhor de uma idéia que
Daí a divisão em capítulos curtos, entremeados de di- ele extrai de fora do contexto da Epístola: é permitido "a
tos espirituosos e que apelam, no final, para a emoção. cada cidadão acreditar apenas em sua razão e pensar o
Locke escreve por volta de 1685-1686, exilado na Holan- que essa razão esclarecida ou enganada lhe ditar". For-
da. Tem como objetivo a situação inglesa sob o reinado mulação que está muito mais próxima de Bayle do que
do derradeiro dos Stuart, pouco antes da Revolução de ..............
1688, que expulsará do trono de um país protestante o • Raymond Polin, John Locke, Lettre sur la tolérance, PUF, 1965, introdu-
católico intolerante Jaime 11. Portanto, Locke desenvolve ção, p. XLVIII.

XXII XXIII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
_ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

de Locke. Sabe-se como em seu Commentaire pbiloso- menos quase tudo. Bayle já propusera esse apólogo: su-
pbique sur ces paroles de jésus-Cbrist "Contrains-les d'en- ponhamos uma cidade metade cristã, metade muçulma-
trer" (1686), Bayle fundamenta a tolerância numa teolo- na; se forem trocados os recém-nascidos entre as famí-
gia da consciência. Expõe que o conhecimento absoluto lias das duas religiões, é evidente que o bebê nascido
da verdade, em matéria metafísica, ultrapassa o alcance cristão será muçulmano, e o inverso. Voltaire levara ao
do espírito humano. Logo, basta que tenhamos o senti- palco uma situação análoga. Sua Za'ire, nascida de pais
mento interior de seguir a verdade. Em outras palavras, cristãos, criada desde o berço no serralho de Orosmane,
o que produz o valor de um credo não é seu conteúdo, é muçulmana. Ela mesma fazia sobre seu caso pessoal
mas a fé de que procede. Contra essa fé, a autoridade uma declaração de relativismo religioso:
não tem direito algum de empreender o que quer que
seja. Voltaire, por sua vez, bem diferente do crente se- Teria eu sido perto do Ganges escrava dos falsos deuses,
gundo Bayle, não é muito inclinado ao exame interior ou Cristã em Paris, muçulmana neste lugar.
ao ensimesmamento. Vê-se no Tratado e em outras obras
que ele tem tendência a reduzir a fé a seus elementos in- Que nem a prédica nem a força conseguem eliminar
telectuais, e ainda os mais fúteis: os de uma obscura teo- uma religião em proveito da outra, ficou suficientemen-
logia. Cita a procissão do Espírito Santo (na Trindade, o
te demonstrado pelo fracasso da política antijansenista e
Espírito Santo procede apenas do Pai ou do Pai e do Fi-
antiprotestante de Luís XIV, e o processo Calas acaba de
lho, Filioque?); ou ainda a questão de saber se Jesus,
fornecer a sangrenta ilustração desse fato. Voltaire, no
homem e Deus, tinha só uma ou duas vontades (capítu-
lo XI); ou a do Logos. ele foi feito ou gerado? Com toda Tratado de 1763, amplia o campo de visão. "Saiamos de
a certeza, "seria o auge da loucura pretender levar todos nossa pequena esfera e examinemos o resto de nosso
os homens a pensarem de uma maneira uniforme sobre globo" (capítulo N). Uma vista-d'olhos mundialista faz a
a metafísica" (capítulo XXI). Mas, nas guerras de religião humanidade aparecer como um imenso mosaico de reli-
que "ensangüentaram" a terra, os dogmas absconsos foram giões. Desse modo, os vastos impérios, necessariamente
algum dia algo mais que um pretexto? pluriconfessionais, praticam todos a tolerância. Voltaire
Voltaire não insiste, pois, como Bayle, nos direitos os examina. O império otomano tolera os cristãos gregos
da "consciência errante". Recorre a critérios mais exterio- e latinos, os coptas, os judeus, os guebros, os banianos,
res. O valor supremo para ele é "o bem físico e moral da etc. Assim também a Índia e a Pérsia. Da mesma forma o
sociedade" (capítulo IV). "O interesse das nações" exige império russo, desde Pedro, o Grande. A China confucia-
a tolerância, é isso que ele desenvolve através de um na tolera o budismo ("as superstições de Fô"). Se o
amplo panorama histórico. imperador, que Voltaire escreve Yung-Ching, expulsou
O pluralismo religioso da humanidade deve-se ao os jesuítas, foi porque tais jesuítas eram intolerantes. A
fato de que, nessa matéria, "a educação faz tudo", pelo Roma imperial acolhia liberalmente os cultos orientais,

XXIV xxv
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
_ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

mesmo os mais estranhos ao espírito romano. Mas per- homogêneo. Os judeus contemporâneos de Jesus se di-
seguiu os cristãos. Voltaire esforça-se por responder à videm entre várias seitas: fariseus, saduceus, essênios, em
objeção: os cristãos eram combatidos não como cristãos, desacordo sobre dogmas essenciais e mais diferentes
mas como facciosos, que recusavam celebrar o culto de entre si do que são os protestantes dos católicos. Contu-
Roma e do Império·. E talvez esses mártires cristãos não do, conseguem coabitar. Assim, Voltaire se diz espanta-
tenham sido tão numerosos como pretende a tradição. do de encontrar entre os judeus "a maior tolerância em
Voltaire acrescenta, por fim, uma espécie de argu- meio aos horrores mais bárbaros" (capítulo XIII).
mento ad hominem: os próprios judeus antigos eram to- Jesus Cristo teria vindo pôr fim a essa paz religiosa?
lerantes. Sabe-se hoje que o judaísmo arcaico era antes Voltaire, depois de Bayle, é levado a examinar o "Obriga-
monolátrico do que monoteísta. Embora a comunidade os a entrar" (Contrain;;-les d'entrer), invocado para justl-
judaica se consagrasse apenas ao culto de Javé, reconhe- ficar a perseguição. E conhecida a parábola de Lucas,
cia paralelamente a autêntica qualidade divina dos deu- XIV. Um pai de família preparou uma grande ceia, mas
ses venerados por Estados, tribos, povos vizinhos e ini- nenhum dos convidados compareceu. Para substituí-los,
migos. O povo de Javé chegava a invocar essas divin- ele manda buscar cegos e mancos. Como sobram ainda
dades rivais, de poderio reconhecido como incontestá- lugares vazios, envia um empregado: "Sai pelos caminhos
vel. Voltaire, que leu muito o Antigo Testamento, notou e atalhos e obriga todos a entrar." Deve-se compreender
os vestígios desse estado primitivo das coisas nos textos. que o empregado brutalizou os novos convidados e que,
Os juízes no deserto, assinala, adoraram não só o bezer- a seu exemplo, os dragões de Luís XIV apenas aplicaram
ro de ouro (que ele identifica com o deus egípcio Ápis) um preceito evangélico? Voltaire observa que um só cria-
mas também Moloch, Renfa, Kium. As infidelidades ao ciu- do não podia obrigar pela força tanta gente. "Obriga-os a
~ntrar" só pode evidentemente significar "rogai, suplicai,
mento Deus de Israel nem sempre eram reprimidas. O
mstai, obtende". "Qual a relação, vos pergunto, dessa sú-
próprio Moisés teria sido "obrigado a fechar os olhos à
plica e dessa ceia com a perseguição?" Jesus pregou "a
paixão do povo pelos deuses estrangeiros" (capítulo XII):
doçura, a paciência, a indulgência". Ele mesmo foi vítima
tolerância ...
da intolerância do sinédrio. "Se quereis vos assemelhar a
Quanto ao judaísmo na época das origens cristãs,
Jesus Cristo", conclui Voltaire, "sede mártires e não car-
Voltaire salienta que está muito longe de ser um bloco rascos" (capítulo XIV) .

• o que também admitem historiadores modernos: ver Pierre Grimal, Les •••
erreurs de la liberté, Paris, Les belles lettres, 1989. Durante a primeira perse-
guição, sob Nero, "os cristãos eram tidos L.. l como um grupo de facciosos, ini-
migos, precisamente, da ordem estabelecida, profetizando a derrocada de o fato de a filosofia da história de Voltaire abrir-se
Roma". para uma visão religiosa fica mais evidente, do que em

XXVI XXVII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

qualquer outra parte, nas últimas páginas do Tratado so- ramo Quanto mais Voltaire exalta o Ser dos seres, mais
bre a tolerância. Pode-se lamentar que tenha achado rebaixa-lhes as crenças irracionais, que tende a reduzir
bom acrescentar após o vigésimo terceiro capítulo mais ao nível de práticas derrisórias: "círios em pleno meio-
três capítulos de "post-scriptum", para levar em conside- dia", batinas de pano branco ou mantos de lã negra, jar-
ração o estado presente da polêmica e os progressos do gão antigo ou novo, hábitos tingidos de vermelho ou de
processo Calas. Na realidade, o Tratado culmina e con- roxo. Seria loucura para os homens degolarem-se por
clui com a impressionante "Prece a Deus": "Já não é aos tais misérias.
homens que me dirijo, é a Ti, Deus de todos os seres, de Com vistas a esse final, foram colocadas indicações
todos os mundos e de todos os tempos." Tal "prece", di- nos capítulos anteriores, às quais correspondem temas
rigida ao "Ser supremo", não é única na obra de Voltaire. abundantemente desenvolvidos por Voltaire no resto de
Um de seus primeiros textos, a Epítre à Uranie (Epístola sua obra. Por exemplo, a alusão à "adoração simples de
a Urânia) (ou Le pour et le contre), é também uma "prece um único Deus", esse "culto dos descendentes de Noé" ,
a Deus". Bem como os versos que concluem a profissão ou seja, da humanidade primitiva. Voltaire preza a idéia
de fé em quatro partes de La [oi naturelle: de que o teísmo foi a primeira religião dos homens e se
conservou na China de Confúcio (capítulo IV). A religião
Ó Deus que não reconhecemos, ó Deus que tudo pura degenerou noutros lugares em superstição e em
anuncia ... fanatismo, que produziram a intolerância. Mas um pou-
co em toda parte encontram-se vestígios das origens: "os
Essas eloqüentes declarações são provavelmente uma antigos povos civilizados [. ..] reconheciam todos um Deus
das raras expressões assumidas, em Voltaire, por certo supremo", ainda que, deploravelmente, associassem-lhe
sentimento religioso. Qualquer um que as aceita sem pre- "uma quantidade prodigiosa de divindades inferiores" (ca-
venção não pode deixar de ficar comovido com seu tom. pítulo IV). Os romanos, mormente, reconheciam esse Deus
É impossível não lhes reconhecer a sinceridade. Na "pre- supremo (capítulo IX). Voltaire acalenta a esperança de
ce a Deus" final se revela a evidência da qual procede o que a humanidade voltará à religião natural de seus pri-
alegado de Voltaire em defesa da tolerância. Com o "Deus mórdios. É a isso que tende o esforço de tolerância. Não
de todos os seres, de todos os mundos e de todos os vão as formigas, perdidas na imensidão cósmica, dizer
tempos" são confrontadas "fracas criaturas perdidas na consigo, cada uma de seu lado, "o meu formigueiro é o
imensidão e imperceptíveis ao resto do universo": os único que é caro a Deus, todos os outros lhe são odiosos
"átomos chamados homens". Esses insetos produziram, por toda a eternidade". Voltaire prega: "Digo-vos que é
ao mesmo tempo que suas "linguagens insuficientes", seus preciso olhar todos os homens como nossos irmãos. -
"costumes ridículos", suas "leis imperfeitas", suas "opi- Como! meu irmão, o turco? meu irmão, o chinês? o judeu?
niões insensatas", as religiões em cujo nome se dilace- o siamês? - Sim, sem dúvida, não somos todos ftlhos do

XXVIII XXIX
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
_ - - - - - - - T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

mesmo pai e criaturas do mesmo Deus?" O que termina o voto de Voltaire? A disparidade das culturas subsiste e
na invocação da "Prece a Deus": estas, justapostas e pouco assimiláveis entre si, não c;n-
Possam todos os homens duzem, mais do que à reconciliação, ao "choque dos
lembrar-se de que são irmãos! mundos", para repetir a expressão com que Alain Pey-
refitte define o início do contato da Europa com a China
*** no século XVIII*?
Contudo, tanto no universo atual como no Século
Que pensar hoje dessa filosofia da tolerância? Dirão das Luzes, delineia-se uma evolução em sentido inverso.
que Voltaire dava provas de demasiado otimismo. "Os Nã~ é de espantar que Voltaire, nas Cartas filosóficas,
costumes se abrandaram", nestes cinqüenta anos, cons- deslgne como um dos lugares privilegiados da tolerância
tatava ele. Abrandaram-se, certamente, no seio de uma a Bolsa de Londres (Carta VI). Ora, quanto progrediu
elite européia, mas bastante estrita: muitos acontecimen- desde então a internacionalização dos intercâmbios! A
tos posteriores mostrarão que o movimento era menos rapidez, a facilidade das comunicações de um extremo a
extenso e menos profundo do que se julgava. Não se outro do p~aneta, a interdependência entre todas as par-
pode ler sem um aperto no coração a página em que ele tes deste nao cessa de acentuar a mundialização de nos-
anuncia que a "Irlanda povoada e enriquecida não verá sa civiliza?ão. Impõe-se, por esse fato, uma ética que pres-
mais" católicos e protestantes matarem-se uns aos outros c:eve aceitar, na terra inteira, o estrangeiro em sua alte-
(capítulo IV). Será mesmo indubitável que a multiplici- ndade. Aqueles que ainda pretendem encerrar-se em seu
dade das seitas as enfraquece, por um efeito quase me- campo fechado, eriçados contra os outros, macerando
cânico? Não vemos ainda algumas que, instaladas em em seu próprio fanatismo, condenam-se a si mesmos.
número de quatro ou cinco num mesmo território, se . O movimento ascendente do Tratado chega a enfa-
combatem, de armas à mão, com um ardor que sua plu- tizar uma fórmula, inscrita no título do vigésimo segun-
ralidade não diminui? do capítulo: "Acerca da tolerância universal." Ressaltare-
O otimismo do Iluminismo se estribava numa filoso- mos o epíteto. No mundo em que vivemos dois séculos
fia da história que já não parece aceitável. Nossa antro- depois de Voltaire, a universalidade faz da ~olerância um
dever.
pologia já não é a de Voltaire, tampouco a de Rousseau.
Quem se atreveria a afirmar que os pequenos grupos ori- RENÉ POMEAU
ginais de Romo erectus ou de Romo habílis adoravam o
Ser supremo sem a sombra de uma idéia supersticiosa?
Quem pode esperar que a humanidade do futuro, liber- ..............
ta dos fantasmas do irracional e dos furores do fanatis-
• Alain Peyrefine, L 'empire immobile ou
Fayard, 1989.
te choc des mondes Paris
mo, comungará no culto puro do Ser dos seres, conforme ' ,

xxx XXXI
Cronologia

1572. 24 de agosto: Noite de São Bartolomeu. Por ordem


do rei Carlos IX, encorajado por sua mãe Catarina
de Médicis, massacre dos protestantes em Paris e
nas províncias.
1598. 13 de abril: Henrique N põe fIm às guerras de re-
ligião pelo edito de Nantes. A liberdade de culto é
garantida aos protestantes sob certas condições.
1685. 18 de outubro: revogação do edito de Nantes por
Luís XIV. A religião reformada é proibida no reino
da França. Os protestantes convertidos à força são
tidos como "novos católicos".
1694. Voltaire, de nome François-Marie Arouet, nasce
em Paris.
1702. Guerra de Sucessão da Espanha.
1704. Voltaire inicia estudos no colégio dos jesuítas Louis-
le-Grand.
Derrota dos exércitos franceses em Hochstedt.
1706. O príncipe Eugênio e Marlborough apoderam-se
de Lille.
1702-1710. Revolta dos camisards, camponeses protestantes
das Cevenas.
1710-1712. O convento dos religiosos cistercienses de Port
Royal des Champs (vale de Chevreuse), reduto do

XXXIII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _V o l t a i r e - - - - - - - - - - ~_----- Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ __

jansenismo, é destruído por ordem de Luís XIV. Os Dezembro: publica dois opúsculos em inglês: Essay
soldados devastam o cemitério. Cenas escandalosas. on Civil Wa~, Essay on Epic Poetry.
1713. Estada de voltaire em Haia como secretário do 1728. Publica em Londres, por subscrição, La Henriade,
embaixador da França. dedicada à rainha da Inglaterra.
8 de setembro: Luís XIV obtém do papa Clemente Novembro: retoma à França.
XI a bula ou constituição Unigenitus que condena O abade Prévost converte-se ao protestantismo e
o jansenismo. refugia-se em Londres.
Paz de Utrecht. 1729. Montesquieu na Inglaterra.
1715. Morte de Luís XIV; o duque de Orléans, regente, 1730. 15 de março: morte da grande atriz Adrienne Le-
assume o poder. couvreur. Tendo o clero recusado a sepultura, o'
1717. Voltaire é encerrado durante onze meses na Bas- corpo é lançado à lixeira. Voltaire indigna-se con-
tilha. tra isso no poema La mort de Mademoiselle Le-
1718. Ele alcança seu primeiro grande sucesso com couvreur.
Oedipe, tragédia. Agitação jansenista: convulsões sobre o túmulo do
1719. Inflação: o "sistema" de Law. diácono Pâris.
1720. Voltaire visita lorde Bolingbroke, no castelo de la 1731. Voltaire publica L'histoire de Charles XII, iniciada
Source, perto de Orléans. em Londres.
1721. Em Londres, Robert Walpole torna-se primeiro-mi- 1732. Agosto: sucesso triunfal de Zai're, tragédia de Vol-
nistro; ocupará o cargo até 1742. taire dedicada ao mercador inglês Falkener.
1722. Voltaire faz uma viagem à Holanda: admira a tole- 1733. Janeiro: Voltaire publica Le tempie du gout [O tem-
rância e a prosperidade comercial desse país. plo do gosto].
1723. Publica La Ligue, primeira versão de La Hentiade, Junho: ligação com Madame du Châtelet.
poema épico sobre as guerras de religião e Henri- Julho: acrescenta às Lettres philosophiques [Cartas fi-
que IV. losóficas] o texto Remarques sur Pascal [Notas so-
1726. 4 de fevereiro: é espancado por ordem do cavalei- bre Pascal].
ro de Rohan. 1734. As Cartas filosóficas são divulgadas em Paris.
17 de abril: preso na Bastilha. Voltaire refugia-se em Cirey, na Champanha, no
5 de maio: embarque para Londres. castelo de Madame du Châtelet.
O cardeal Fleury governa a França; conservará o Montesquieu: Considérations sur les Romains.
poder até sua morte (1743). 1735. Voltaire obtém a permissão de voltar a Paris.
1727. Janeiro: Voltaire é apresentado ao rei da Inglater- 1736. Le mondain [O mundano]: Voltaire refugia-se du-
ra, Jorge I. rante algumas semanas na Holanda.

XXXIV xxxv
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _Voltaire---------- _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ __

1737. Publica os Éléments de la pbilosopbie de Newton. Luís XV proíbe-lhe aproximar-se de Paris; passa
1738. Temporada em Cirey. uma temporada na Alsácia.
1740. Subida ao trono de Maria Teresa da Áustria. 1755. Instala-se em Délices, nos arredores de Genebra.
Subida ao trono de Frederico 11, rei da Prússia, que Morte de Montesquieu.
Rousseau: Discours sur l'origine de l'inegalité.
invade a Silésia.
1756. Voltaire publica Essai sur les moeurs et l'esprit des
Voltaire encontra Frederico 11, pela primeira vez,
nations [Ensaio sobre os costumes e o espírito das
em Cleves. nações].
1741. Guerra de Sucessão da Áustria. Início da Guerra dos Sete Anos.
1742. Mabomet, tragédia de Voltaire, é proibida em Paris. 1757. Desastre do exército francês em Rossbach.
1743. Voltaire faz representar Mérope, tragédia. Perseguições contra os mósofos: a publicação da
Realiza uma missão secreta em Berlim. Encyclopédie é interrompida.
Morte de Fleury. Entrada dos irmãos d'Angerson 1758. Voltaire adquire o castelo de Ferney, em território
no ministério. francês, na fronteira com a Suíça.
1745. Luís XV alcança a vitória de Fontenoy e toma Ma- O duque de Choiseul é nomeado para o ministério.
dame de Pompadour como favorita. 1759. Voltaire publica Candide.
Voltaire é nomeado historiógrafo do rei. 1761. O parlamento de Paris inicia o processo que cul-
. 1746. É eleito para a Academia Francesa. minará com a supressão dos jesuítas .
1747. Encontra dificuldades na corte. Zadig. Rousseau: La Nouvelle Héloi'se.
1748. Em Nancy, Lunéville, Commercy, freqüenta a corte 13 de outubro: Marc-Antoine Calas, após um jantar
de Stanislas, sogro de Luís XV. em família, é encontrado morto na loja de tecidos
da Rue des Filatiers, em Toulouse.
Paz de Aix-Ia-Chapelle.
1762. 19 de fevereiro: execução em Toulouse do pastor
Montesquieu: L'esprit des lois.
Rochette e três nobres protestantes.
1749. Morte de Madame du Châtelet. 9 de março: o parlamento de Toulouse condena à
1750. Nomeado secretário particular de Frederico lI, Vol- morte Jean Calas. Ele é executado no dia seguinte.
taire parte para Berlim. Por volta de 20 de março, em Ferney, Voltaire é
Rousseau: Discours sur les sciences et les arts. informado por Dominique Audibert.
1751. Voltaire publica Le siecle de Louis XIV. 9 de junho: após a publicação do Contrat social e
Publicação do tomo I da Encyclopédie. do Émile, Rousseau é condenado pelo parlamento
1752. Contra o cinismo filosófico de La Mettrie (e de Fre- de Paris por ter escrito a Profession de foi du vicai-
derico 11) Voltaire compõe La loi naturelle, poema re Savoyard. Ameaçado de prisão, é obrigado a fu-
inicialmente intitulado La religion naturelle. gir para a Suíça. Mas Genebra e Berna condenam
1753. Rompe com Frederico 11. igualmente a Profession de foi.

XXXVI XXXVII
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ __

7 de julho: A Monseigneur le chancelier, assinado 1767. Voltaire publica L'ingénu [O ingênuo].


por Donat Calas, mas redigido por Voltaire. 1770. Queda de Choiseul.
Agosto: Voltaire publica Histoire d'Elisabeth Canning 1771. O novo parlamento de Toulouse ("Parlamento Mau-
et de Jean Calas. peou") pronuncia a absolvição definitiva de Sirven.
Mémoire pour Anne-Rose Cabibel (a viúva de Jean 1774. Subida ao trono de Luís XVI. Ministério de Turgot.
Calas), pelo advogado Mariette. 1778. Retorno de Voltaire a Paris: apoteose e morte.
Mémoire à consulter, por Élie de Beaumont. 1787. 19 de novembro: Luís XVI assina o edito de Tole-
Mémoire pour Donat, Pierre et Louis Calas, por rância que restitui aos protestantes seus direitos
Loyseau de Mauléon. civis.
1763. Janeiro: Réflexions pour dame Anne-Rose Cabibel, 1789. Agosto: a Assembléia Nacional vota a DeclaraçãO',
dos direitos do homem e do cidadão.
por Mariette.
1790. 12 de julho: a Assembléia Nacional adota a Cons-
10 de fevereiro: o tratado de Paris põe fim à Guer-
tituição civil do clero.
ra dos Sete Anos. 1791. 11 de julho: transferência das cinzas de Voltaire
7 de março: o Conselho do rei autoriza o recurso para o Panthéon.
contra o julgamento de Toulouse. 1801. 15 de julho: Bonaparte, primeiro cônsul, conclui
Abril: a impressão do Traíté sur la tolérance pelos com o papa Pio VII a Concordata que restabelece
Cramer é concluída. A difusão do livro na França, na França a paz religiosa.
onde é proibido, enfrenta dificuldades. 1905. 9 de dezembro: lei de separação da Igreja e do Es-
1764. Fevereiro: intervenções de Voltaire em favor dos tado.
galerianos huguenotes. 1948. 10 de dezembro: a Assembléia da ONU em Paris
5 de maio: o parlamento de Toulouse condena a adota a Declaração internacional dos direitos do
família Sirven. homem, cujo artigo XVIII declara que "qualquer
Junho: primeira edição do Dictionnaire philoso- pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de
phique portatif. consciência e de religião".
1765. 9 de março: reabilitação de Jean Calas.
1766. 1Q de julho: o cavaleiro de La Barre, de 19 anos de
idade, condenado por sacrilégio, é decapitado.
Luís XV recusara seu indulto. O Dictíonnaire phi-
losophique é queimado sobre seu corpo.
Voltaire refugia-se por algum tempo na Suíça e pu-
blica La relatíon de la mort du chevalíer de La Barre.

XXXVIII XXXIX
TRATADO SOBRE
A TOLERÂNCIA
A PROPÓSITO DA MORTE
DE JEAN CALAS
CAPÍTULO I

História resumida da morte


de Jean Calas

o assassínio de Calas, cometido em Toulouse com o


gládio da justiça, a 9 de março de 1762, é um dos mais sin-
gulares acontecimentos que merecem a atenção de nossa
época e da posteridade. Esquece-se facilmente a quantida-
de de mortos em batalhas sem conta, não somente por tra-
tar-se da fatalidade da guerra, mas porque os que morrem
pela sorte das armas podiam também dar a morte a seus
inimigos, e não morreram sem se defender. Lá onde o peri-
go e a vantagem são iguais, o espanto cessa, e a própria
piedade diminui; mas, se um pai de família inocente é en-
tregue às mãos do erro, da paixão, ou do fanatismo; se o
acusado só tem como defesa sua virtude; se os árbitros de
sua vida, ao decapitarem-no, apenas correm o risco de se
enganar; se podem matar impunemente através de uma
sentença, então o clamor público se levanta, cada um teme
por si próprio, percebe-se que ninguém está seguro de sua
vida diante de um tribunal erigido para zelar pela vida dos
Cidadãos, e todas as vozes se juntam para pedir vingança.
Tratava-se, nesse estranho caso, de religião, de suicí-
dio, de parricídio; tratava-se de saber se um pai e uma
mãe haviam estrangulado seu filho para agradar a Deus,
Se um irmão havia estrangulado seu irmão, se um amigo

3
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

havia estrangulado seu amigo, e se os juízes deviam ser na casa dos Calas. O pai, a mãe, Marc-Antoine, o filho
censurados por terem feito morrer no suplício da roda mais velho, e Pierre, o segundo, jantaram juntos. Após o
um pai inocente, ou por haverem poupado uma mãe, um jantar retiraram-se para uma pequena sala. Marc-Antoine
irmão, um amigo culpados. desapareceu; enfim, quando o jovem Lavaisse quis par-
Jean Calas, de 68 anos de idade*, exercia a profissão tir, Pierre Calas e ele, tendo descido a escada, encontra-
de negociante em Toulouse há mais de quarenta anos e ram no térreo, junto à loja, Marc-Antoine de camisolão,
era reconhecido por todos que com ele viveram como enforcado numa porta, e sua roupa dobrada sobre o bal-
um bom pai. Era protestante, assim como sua mulher e cão; seu camisolão estava em perfeito estado; os cabelos
todos os seus filhos, com exceção de um, que havia ab- continuavam bem penteados; não havia no corpo ne-
jurado a heresia e a quem o pai concedia uma pequena nhum ferimento, nenhum machucad0 2•
pensão. Jean Calas parecia tão afastado desse absurdo fa- Damos aqui todos os detalhes apresentados pelos
natismo que rompe todos os vínculos da sociedade, que advogados; não descreveremos a dor e o desespero do
aprovou a conversão de seu filho Louis e mantinha em pai e da mãe; seus gritos foram ouvidos pelos vizinhos.
sua casa, há trinta anos, uma dedicada empregada cató- Lavaisse e Pierre Calas, fora de si, correram a procurar
lica que ajudara a criar todos os seus filhos. cirurgiões e a Justiça.
Um dos filhos de Jean, chamado Marc-Antoine, era Enquanto cumpriam esse dever, enquanto o pai e a
um homem de letras: diziam-no um espírito inquieto, som- mãe estavam aos soluços e em lágrimas, o povo de Tou-
brio e violento. Esse jovem, não conseguindo nem entrar louse junta-se em torno da casa. Esse povo é supersti-
no comércio, ao qual não se ajustava, nem ser aceito cioso e violento; vê como monstros seus irmãos que
como advogado, porque exigiam certificados de catolici- não são da mesma religião que ele. Foi em Toulouse que
dade que ele não pôde obter, decidiu acabar com sua agradeceram solenemente a Deus pela morte de Hen-
vida e fez pressentir esse propósito a um de seus amigos; rique III e que juraram decapitar o primeiro que falasse
firmou-se em sua resolução através da leitura de tudo o em reconhecer o grande, o bom Henrique IV. Esta cida-
que até então se escrevera sobre o suicídio. de soleniza ainda todos os anos 3, por meio de uma pro-
Certa vez, enfim, tendo perdido seu dinheiro no jo- cissão e fogos de festa, o dia em que massacrou quatro
go, decidiu naquele mesmo dia executar seu propósito. mil cidadãos heréticos, dois séculos atrás. Em vão seis
Um amigo seu e da família, chamado Lavaisse, jovem de decisões do conselho proibiram essa odiosa festa, os to-
19 anos, conhecido pela candura e delicadeza de seus losanos sempre a celebraram como o faziam com os jogos
hábitos, filho de um advogado célebre de Toulouse, ha- florais*.
via chegado de Bordéus na véspera!; casualmente jantou
..............
• Referência a um concurso poético anual, com esse nome, existente em
• Jean Calas nasceu em 1698 e morreu em 1762, portanto aos 64 anos. Toulo use desde 1323, inicialmente com o intuito de manter as tradições do sul
Trata-se aqui, sem dúvida, de um equívoco de Voltaire. (N. do E.) da França. (N. do T.)

4 5
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

Algum fanático da populaça gritou que Jean Calas ha- dois buracos para deixar a visão livre; tentaram fazer com
via enforcado seu próprio filho Marc-Antoine. Esse grito, que o senhor duque de Fitz-James, comandante da pro-
repetido, logo tornou-se unânime; outros acrescentaram víncia, entrasse na corporação, e este recusou. Os con-
que o morto pretendia fazer abjuração no dia seguinte; que frades brancos prestaram a Marc-Antoine Calas um servi-
sua família e o jovem Lavaisse o haviam estrangulado por ço solene, como a um mártir. Jamais uma Igreja celebrou
ódio contra a religião católica. Um momento depois, nin- a festa de um mártir verdadeiro com maior pompa; mas
guém duvidava mais; toda a cidade foi persuadida de que essa pompa foi terrível. Elevaram acima de um magnífi-
é um imperativo religioso entre os protestantes que um pai co catafalco um esqueleto que faziam mover e que re-
e uma mãe devem assassinar seu filho tão logo ele queira presentava Marc-Antoine Calas, tendo numa das mãos
converter-se. uma palma e na outra a pena com que devia assinar a '
Uma vez excitados, os espíritos não mais se detêm. abjuração da heresia, e que escrevia, na verdade, a sen-
Imaginou-se que os protestantes do Languedoc haviam tença de morte de seu pai.
se reunido na véspera; que haviam escolhido, em delibe- Ao infeliz que atentara contra si, só faltava mesmo a
ração conjunta, um carrasco da seita; que a escolha recaí- canonização. Todo o mundo o via como um santo; alguns
ra sobre o jovem Lavaisse; que esse jovem, em vinte e o invocavam, outros iam rezar junto ao seu túmulo, ou-
quatro horas, recebera a notícia de sua eleição e chegara tros pediam-lhe milagres, outros relatavam os que havia
de BOrdéus para ajudar Jean Calas, sua mulher e seu filho feito. Um monge arrancou-lhe alguns dentes para ter re-
Pierre, a estrangularem um amigo, um filho, um irmão. líquias duráveis. Uma devota, um pouco surda, disse que
O senhor David, magistrado de Toulouse, excitado escutara o som dos sinos. Um padre apoplético foi cura-
por esses rumores e querendo valorizar-se por uma ação do após ter tomado o vomitório. Prepararam-se relató-
imediata, fez um processo contrário às normas. A família rios sobre esses prodígios. O autor do presente relato
Calas, a empregada católica e Lavaisse foram postos na possui um testemunho de que um jovem de Toulouse
prisão. ficou louco por ter rezado várias noites junto ao túmulo
Publicou-se uma citação eclesiástica não menos vi- do novo santo e não ter podido obter um milagre que
ciosa que o processo. Foram mais longe: Marc-Antoine implorava.
Calas morrera calvinista e, se atentara contra a própria Alguns magistrados eram da confraria dos penitentes
vida, devia ser arrastado na lama; inumaram-no com a brancos. A partir desse momento a morte de Jean Calas
maior pompa na igreja Saint-Étienne, apesar do pároco, pareceu irreversível.
que protestou contra essa profanaçã04 • O que preparou seu suplício foi, sobretudo, a proxi-
Há, no Languedoc, quatro confrarias de penitentes, midade dessa festa singular que os tolosanos celebram
a branca, a azul, a cinza e a negra. Seus membros vestem todos os anos em memória de um massacre de quatro
um longo capuz, com uma máscara de pano provida de mil huguenotes. 1762 era o ano do bicentenári05 • Prepa-

6 7
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

rava-se na cidade o aparato dessa solenidade, o que ati- enquanto o outro voltou para dar seu voto contra aque-
çava ainda mais a imaginação exaltada do povo; dizia-se les que não devia julgar: esse voto é que determinou a
publicamente que o cadafalso sobre o qual seriam supli- condenação ao suplício da roda, pois foram apenas oito
ciados os Calas seria o maior ornamento da festa; dizia- votos contra cinco, havendo um dos seis juízes contrá-
se que a própria Providência trazia essas vítimas para se- rios, ao final, após muitas contestações, passado para o
rem sacrificadas à nossa santa religião. Vinte pessoas ou- partido mais severo.
viram tais discursos, e outros mais violentos ainda. E isso Creio que, quando se trata de um parricídio e de lan-
em nossos dias! E isso num tempo em que a filosofia fez çar um pai de família ao suplício mais terrível, o julga-
tantos progressos! E isso quando cem academias escre- mento deveria ser unânime, porque as provas de um
vem para inspirar a suavidade dos costumes! Parece que crime tão inusitadd deveriam ser de uma evidência sen-'
o fanatismo, indignado com os recentes êxitos da razão, sível a todo o mundo: a menor dúvida em semelhante
debate-se com maior furor a seus pés. caso deve ser suficiente para fazer tremer um juiz pres-
Treze juízes reuniram-se diariamente para concluir o
tes a assinar uma sentença de morte. A fraqueza de nos-
processo. Não tinham, não podiam ter nenhuma prova
sa razão e a insuficiência de nossas leis se fazem sentir
contra a família; mas a religião enganada fazia as vezes
diariamente; mas em que ocasião percebe-se melhor sua
de prova. Seis juízes persistiram por muito tempo em
miséria do que quando a preponderância de uma única
condenar Jean Calas, seu filho e Lavaisse ao suplício da
voz condena ao suplício um cidadão? Eram necessárias,
roda, e a mulher de Jean Calas à fogueira. Sete outros,
em Atenas, cinqüenta vozes além da metade para ousar-
mais moderados, queriam ao menos que se averiguasse.
Os debates foram reiterados e longos. Um dos juízes6 , se pronunciar uma sentença de morte. Que resulta disso?
convencido da inocência dos acusados e da impossibili- O que sabemos muito inutilmente, isto é, que os gregos
dade do crime, falou vivamente a favor deles; opôs o ze- eram mais sábios e mais humanos do que nós.
lo da humanidade ao zelo da severidade; tornou-se o Parecia impossível que Jean Calas, velho de 68 anos,
defensor público dos Calas em todas as casas de Toulou- tendo há muito tempo as pernas inchadas e fracas, tives-
se, onde os clamores contínuos da religião equivocada se estrangulado sozinho e enforcado um filho de 28 anos,
exigiam o sangue desses infortunados. Um outro juiz, que tinha uma força acima do comum; era absolutamen-
conhecido por sua violência7, falava na cidade com tanta te necessário que tivesse sido auxiliado nessa execução
exaltação contra os Calas quanto o primeiro se empe- por sua mulher, por seu filho Pierre Calas, por Lavaisse e
nhava em defendê-los. Enfim, a grita foi tão grande que pela empregada. Eles não haviam se separado um só
ambos foram obrigados a julgar-se incompetentes, reti- momento na noite dessa fatal aventura. Mas tal suposi-
rando-se do caso. ção era tão absurda quanto a outra: pois como é que uma
Mas, por estranha infelicidade, o juiz favorável aos dedicada empregada católica teria podido suportar que
Calas teve a delicadeza de persistir em seu afastamento, huguenotes assassinassem um jovem criado por ela, a

8 9
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

fim de puni-lo por amar a religião dessa mesma empre- inocência do pai de família executado, decidiram então
gada? Como é que Lavaisse teria vindo expressamente banir Pierre Calas, seu filho. Esse banimento parecia tão
de Bordéus para estrangular seu amigo, de quem ignora- inconseqüente, tão absurdo quanto o resto, pois Pierre
va a suposta conversão? Como é que uma mãe afetuosa Calas era ou culpado ou inocente do parricídio; se fosse
teria atacado seu filho? Como é que todos juntos teriam culpado, devia ser submetido ao suplício como seu pai;
podido estrangular um jovem tão robusto quanto eles to- se fosse inocente, não tinha cabimento bani-lo. Mas os
dos, sem um combate longo e violento, sem gritos terrí- juízes, assustados com o suplício do pai e a comovedo-
veis que teriam alertado a vizinhança, sem golpes reite- ra piedade com que morrera, imaginaram salvar sua
rados, sem ferimentos, sem roupas rasgadas? honra dando a entender que perdoavam o filho, como se
Era evidente que, se o parricídio pudesse ter sido perdoar não fosse uma nova prevaricação; e acreditaram '
cometido, todos os acusados eram igualmente culpados, que o banimento desse jovem pobre e sem apoio, não
por não se haverem separado em nenhum momento; tendo conseqüências, não era uma grande injustiça, de-
era evidente que não se haviam separado; era evidente pois daquela que haviam tido a infelicidade de cometer.
que o pai não podia ser o único culpado; não obstante Começaram ameaçando Pierre Calas, no cárcere, de
a sentença condenou apenas esse pai a expirar no suplí- que teria a mesma sorte de seu pai, se não abjurasse sua
cio da roda. religião. É o que este jovem9 atesta por juramento.
O motivo da sentença era tão inconcebível quanto o Pierre Calas, ao sair da cidade, encontrou um abade
resto. Os juízes favoráveis ao suplício de Jean Calas per- convertedor que o fez voltar a Toulouse; encerraram-no
suadiram os outros de que esse velho fraco não poderia num convento de dominicanos e lá foi constrangido a
resistir aos tormentos e de que confessaria, sob os gol- cumprir todas as funções da catolicidade. Era em parte o
pes do carrasco, seu crime e o de seus cúmplices. Fica- que queriam, era o preço do sangue de seu pai; e a reli-
ram perplexos, quando Q velho, ao morrer na roda, cla- gião, que acreditaram vingar, parecia satisfeita.
mou a Deus em testemunho de sua inocência e conju- As filhas foram retiradas da mãe e encerradas tam-
rou-o a perdoar seus juízes. bém num convento. Essa mulher, quase regada com o
Estes foram obrigados a pronunciar uma segunda sangue de seu marido, tendo amparado nos braços seu
sentença, contraditória com a primeira, ordenando a sol- filho primogênito morto, vendo o outro banido, privada
tura da mãe, de seu filho Pierre, do jovem Lavaisse e da de suas filhas, despojada de todos os bens, estava só no
empregada. Mas, tendo um dos conselheiros notado que mundo, sem pão, sem esperança e sucumbindo ao peso
essa sentença desmentia a outra, que elas se condena- de sua infelicidade. Algumas pessoas, tendo examinado
vam mutuamente e que, como os acusados sempre esti- com ponderação todas as circunstâncias dessa horrível
veram juntos no momento do suposto parricídio, a or- aventura, ficaram tão chocadas que instaram a senhora
dem de soltura dos sobreviventes provava cabalmente a Calas, retirada na solidão, a ousar pedir justiça ao pé do

10 11
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

trono. Ela não podia, então, sustentar-se, extinguia-se; No entanto essa família teve ainda alguns inimigos,
além disso, tendo nascido inglesa, transplantada a uma pois se tratava de religião. Várias pessoas, que na França
província da França desde a juventude, o simples nome são chamadas devotas 16 , disseram abertamente que era
da cidade de Paris a assustava. Supunha que a capital do preferível deixar supliciar um velho calvinista inocente
reino devia ser ainda mais bárbara que a do Languedoc. do que expor oito conselheiros do Languedoc a admiti-
Mas o dever de vingar a memória de seu marido acabou rem que haviam se enganado. Serviram-se inclusive des-
prevalecendo sobre sua fraqueza. Ela chegou a Paris ta expressão: "Há mais magistrados do que Calas"; e dela
quase morta. Ficou espantada de ali encontrar acolhida, inferiam que a família Calas devia ser imolada em honra
amparos e lágrimas 10. à magistratura. Não se imaginava que a honra dos juízes
consiste, como a dos outros homens, em reparar suas.
Em Paris a razão prevalece sobre o fanatismo, por
faltas. Na França não se acredita que o papa, assistido
maior que este seja, ao passo que, na província, o fana-
por seus cardeais, seja infalível: poder-se-ia, do mesmo
tismo quase sempre prevalece sobre a razão.
modo, crer que oito juízes de Toulouse não o são. As
O sr. de Beaumont, célebre advogado do parlamen-
pessoas sensatas e desinteressadas diziam que a senten-
to de Paris, assumiu inicialmente sua defesa e redigiu um
ça de Toulouse seria anulada em toda a Europa, ainda
parecer que foi assinado por quinze advogados ll . O sr.
que considerações particulares impedissem que fosse
Loiseau, não menos eloqüente, compôs um memoriap2 anulada no conselho.
em favor da família. O sr. Mariette, advogado no conse- Tal era o estado dessa espantosa aventura, quando
lho, elaborou um requerimento jurídico 13 que levava a ela fez surgir em pessoas imparciais, mas sensíveis, o pro-
convicção a todos os espíritos. pósito de apresentar ao público algumas reflexões sobre
Esses três generosos defensores das leis e da inocên- a tolerância, sobre a indulgência, sobre a comiseração,
cia destinaram à viúva o lucro das edições de seus arra- que o abade Houteville chama de dogma monstrnos(P,
zoados!4. Paris e a Europa inteira encheram-se de pieda- em seu discurso empolado e errôneo sobre fatos, e que
de e exigiram justiça com essa mulher infortunada. A sen- a razão chama de apanágio da natureza.
tença foi pronunciada pelo público bem antes que Ou os juízes de Toulouse, arrastados pelo fanatismo
pudesse ser assinada pelo conselho. da populaça, fizeram supliciar um pai de família inocen-
A piedade penetrou até no ministério, apesar do te, o que é inédito; ou esse pai de família e sua mulher
contínuo caudal de questões 15 , que geralmente exclui a estrangularam seu filho primogênito, ajudados nesse par-
piedade, e apesar do hábito de ver infelizes, que pode ricídio por um outro filho e um amigo, o que é antinatu-
endurecer ainda mais o coração. Devolveram-se as fi- raI. Num caso ou no outro, o abuso da religião mais sa-
lhas à mãe. As três foram vistas, cobertas de luto e ba- grada produziu um grande crime. É, portanto, do interes-
nhadas de lágrimas, suscitando lágrimas também em seus se do gênero humano examinar se a religião deve ser
juízes. caridosa ou bárbara.

12 13
CAPÍTULO 11

Conseqüências do suplício
de Jean Calas

Se os penitentes brancos foram a causa do suplício


de um inocente, da ruína total de uma família, de sua dis-
persão e do opróbrio que só deveria associar-se à injus-
tiça, mas que está associado ao suplício; se a precipita-
ção dos penitentes brancos em celebrar como um santo
aquele que, segundo nossos costumes bárbaros, deveria
ter sido arrastado na lama, levou ao suplício um pai de
família virtuoso; essa infelicidade deve certamente torná-
los penitentes de fato para o resto de suas vidas; eles e
os juízes devem chorar, mas não com uma longa túnica
branca e uma máscara que ocultaria suas lágrimas.
Todas as confrarias merecem respeito: elas são edifi-
cantes. Todavia, por maior que seja o bem que possam
fazer ao Estado, igualar-se-á esse bem ao terrível mal que
causaram? Elas parecem instituídas pelo zelo que, no
Languedoc, anima os católicos contra aqueles a que cha-
mamos huguenotes. Dir-se-ia que fizeram voto de odiar
seus irmãos, pois temos religião de sobra para odiar e
perseguir, e pouca para amar e socorrer. E o que seria,
se tais confrarias fossem governadas por fanáticos, como
o foram outrora algumas congregações de artesãos e de
senhores 18, nas quais convertia-se em arte e sistema o

15
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __

hábito de ter visões, como diz um de nossos mais sábios CAPÍTULO III
e eloqüentes magistrados? O que seria, se nas confrarias
se estabelecessem essas câmaras escuras, chamadas câ- Idéia da Reforma do século XW
maras de meditação, onde eram pintados diabos arma-
dos de chifres e garras, abismos de chamas, cruzes e pu-
nhais, com o santo nome de Jesus acima do quadro? Que
espetáculo para olhos já fascinados e para imaginações
tão inflamadas quanto submissas a seus diretores!
Houve épocas, sabe-se bem, em que as confrarias fo-
ram perigosas. Os fraticelli, os flagelantes, causaram pro-
blemas. A Liga começou por tais associações. Por que Quando, no renascimento das letras, os espíritos co-
distinguirem-se assim dos outros cidadãos? Acreditavam- meçaram a iluminar-se, houve queixa geral contra os
se mais perfeitos? Isso já é um insulto ao resto da nação. abusos; todo o mundo reconhece que essa queixa era
Queriam que todos os cristãos entrassem na confraria? legítima.
Seria um belo espetáculo a Europa de capuz e máscara, O papa Alexandre VI havia comprado publicamente a
com dois pequenos orifícios redondos diante dos olhos! tiara, e seus cinco bastardos compartilhavam as vantagens.
Pensam de boa-fé que Deus prefere essa vestimenta ridí- Seu filho, o cardeal duque de Borgia, fez perecer, em man-
cula a um gibão? Tem mais: essa vestimenta é um unifor- comunação com o papa, seu pai, os Vitelli, os Urbino, os
me de controversistas, que adverte os adversários a se po- Gravina, os Oliveretto e cem outros senhores, para arreba-
rem de guarda; é capaz de excitar uma espécie de guer- tar seus domínios. Júlio 11, animado pelo mesmo espírito,
ra civil nos espíritos e resultaria talvez em funestos ex- excomungou Luís XII, deu seu reino ao primeiro ocupan-
cessos, se o rei e seus ministros não fossem tão pruden- te e, ele próprio vestindo capacete e couraça, pôs a ferro e
tes quanto os fanáticos são insensatos. fogo uma parte da Itália. Leão X, para pagar seus prazeres,
Sabe-se bem quanto isso custou desde que os cris- traficou com indulgências como se fossem gêneros alimen-
tãos disputam sobre o dogma: o sangue correu, seja nos tícios num mercado público. Os que se insurgiram contra
cadafalsos, seja nas batalhas, do século IV aos nossos tantos atos de banditismo não cometiam, pelo menos,
dias. Limitemo-nos aqui às guerras e aos horrores que as nenhum erro na moral. Vejamos se o cometiam contra nós
querelas da Reforma suscitaram e vejamos qual foi sua na política.
origem na França. Talvez um quadro resumido e fiel de Diziam que, não tendo Jesus Cristo jamais exigido
tantas calamidades abra os olhos de algumas pessoas pou- anatas 19 nem reservas, nem vendido dispensas para este
co instruídas e sensibilize os corações bem-feitos. mundo e indulgências para o outro, podiam eximir-se de
pagar a um príncipe estrangeiro o preço de todas essas

16 17
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

coisas. Ainda que as anatas, os processos no tribunal de Pouco tempo antes da morte de Francisco I, alguns
Roma e as dispensas que subsistem ainda hoje nos cus- membros do parlamento da Provença, animados por
tassem apenas quinhentos mil francos por ano, é claro eclesiásticos contra os habitantes de Mérindol e Ca-
que já pagamos desde Francisco I, em duzentos e cin- brieres, solicitaram ao rei tropas para apoiar a execu-
qüenta anos, cento e vinte e cinco milhões; e, conside- ção de dezenove pessoas da região, por eles condena-
rando os diferentes preços do marco de prata, essa soma das; seis mil acabaram sendo mortas, sem perdoar o se-
representa cerca de duzentos e cinqüenta milhões, atual- xo, a velhice ou a infância; trinta burgos foram reduzi-
mente. Pode-se, portanto, convir, sem blasfêmia, que os dos a cinzas. Esses povos, até então desconhecidos, eram
heréticos, ao proporem a abolição desses impostos sin- culpados, certamente, de terem nascido valdenses; era
gulares que haverão de espantar a posteridade, não fa- sua única iniqüidade. Haviam-se estabelecido há tre>'
ziam com isso um grande mal ao reino, sendo antes bons zentos anos em desertos e montanhas que tornaram
calculadores do que maus súditos. Acrescentemos que férteis por um trabalho inacreditável. Sua vida pastoril
eles eram os únicos que sabiam a língua grega e conhe- e tranqüila relembrava a inocência atribuída às primei-
ciam a Antiguidade. Não dissimulemos que, apesar de ras idades do mundo. As cidades vizinhas só eram co-
seus erros, devemos-lhes o desenvolvimento do espírito nhecidas deles pelo tráfico dos frutos que iam vender,
humano, por muito tempo enterrado na mais espessa ignoravam os processos e a guerra. Eles não se defen-
barbárie. deram: foram chacinados como animais fugitivos mor-
Entretanto, como negavam o purgatório, do qual não tos num cercad0 21 •
se deve duvidar e que, aliás, muito beneficiava os mon- Após a morte de Francisco I, príncipe não obstante
ges; como não reverenciavam relíquias que devem ser re- mais conhecido por suas galanterias e seus infortúnios
verenciadas, mas que proporcionavam benefícios ainda do que por suas crueldades, o suplício de mil heréticos,
maiores; enfim, como atacavam dogmas muito respeita- sobretudo o do conselheiro do parlamento Dubourg, e,
dos 20 , a primeira resposta que lhes deram foi jogá-los na finalmente, o massacre de Vassy, armaram os persegui-
fogueira. O rei, que os protegia e financiava na Alemanha, dos, cuja seita havia se multiplicado ao clarão das foguei-
marchou em Paris à frente de uma procissão, após a qual ras e sob o ferro dos carrascos. A raiva sucedeu à paciên-
foram executados vários desses infelizes. E eis qual foi cia. Eles imitaram as crueldades de seus inimigos: nove
essa execução: eram suspensos na ponta de um compri- guerras civis encheram a França de mortandade; uma
do poste que oscilava sobre uma árvore; acendia-se uma paz mais funesta do que a guerra produziu a Noite de
grande fogueira, sobre a qual o poste era abaixado e er- São Bartolomeu, da qual não havia nenhum exemplo
guido alternadamente; assim experimentavam aos pou- nos anais do crime.
cos os tormentos da morte, até expirarem através do mais A Liga assassinou Henrique III e Henrique IV, pelas
longo e terrível suplício que a barbárie jamais inventou. mãos de um frade dominicano e de um monstro que ha-

18 19
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __

via sido frade bernard022 • Há pessoas que pretendem CAPÍTULO IV


que a humanidade, a indulgência e a liberdade de cons-
ciência são coisas horríveis; mas, em boa-fé, teriam elas Se a tolerância é perigosa, e em
produzido calamidades comparáveis?
que povos ela é permitida

Alguns disseram que, se usássemos de uma indul-


gência paternal para com nossos irmãos errantes que re-
zam a Deus em mau francês, estaríamos pondo-lhes ar-
mas nas mãos; que veríamos novas batalhas de ]arnac,
de Moncontour, de Coutras, de Dreux, de Saint-Denis,
etc. Ignoro isso, porque não sou profeta; mas parece-me
que não é raciocinar conseqüentemente afirmar: "Esses
homens insurgiram-se quando lhes fiz o mal; portanto se
insurgirão quando lhes fizer o bem."
Eu ousaria tomar a liberdade de convidar os que
estão à testa do governo e os destinados aos grandes
postos a examinarem com ponderação se devemos de
fato temer que a doçura produza as mesmas revoltas que
a crueldade faz nascer; se o que aconteceu em certas cir-
cunstâncias deve acontecer em outras; se os tempos, a
opinião, os costumes são sempre os mesmos.
Os huguenotes, certamente, deixaram-se tomar pelo
fanatismo e manchar de sangue como nós; mas a gera-
ção presente é tão bárbara quanto seus pais? O tempo, a
razão que faz tantos progressos, os bons livros, a man-
suetude da sociedade não penetraram nos que condu-
zem o espírito desses povos? E não percebemos que

20 21
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

quase toda a Europa mudou de face de uns cinqüenta Na Holanda, não mais se teme que as disputas de
anos para cá? um Gomar23 sobre a predestinação façam rolar a cabeça
Por toda a parte o governo se fortaleceu, enquanto do grande pensionista*. Não se teme mais, em Londres,
os costumes abrandaram. Aliás, o policiamento geral, sus- que as querelas dos presbiterianos e dos episcopais, en-
tentado por exércitos numerosos sempre existentes, não volvendo uma liturgia e uma sobrepeliz, espalhem o san-
permite temer o retorno daqueles tempos anárquicos em gue de um rei sobre um cadafals024 • A Irlanda povoada e
que camponeses calvinistas combatiam camponeses ca- enriquecida não verá mais seus cidadãos católicos sacri-
tólicos arregimentados às pressas entre o plantio e as co- ficarem a Deus durante dois meses os cidadãos protes-
lheitas. tantes, enterrarem-nos vivos, suspenderem as mães em
Outros tempos, outros cuidados. Seria absurdo dizi- forcas, prendendo as filhas ao pescoço delas e verem'-
mar hoje a Sorbonne por ter requerido outrora que a Don- nas expirar juntas; abrirem o ventre das mulheres grávi-
zela de Orléans fosse queimada; por não ter reconheci- das, retirarem os fetos e darem-nos de comer aos porcos
do a Henrique III o direito de reinar, por ter excomunga- e aos cães; colocarem um punhal na mão dos prisionei-
do, proscrito, o grande Henrique IV. Certamente não se ros garroteados e conduzirem seus braços ao ventre de
irá investigar outras corporações do reino, que comete-
suas mulheres, de seus pais, de suas mães, de suas filhas,
ram os mesmos excessos naqueles tempos de frenesi:
imaginando, assim, tornarem-nos mutuamente parricidas
isso seria não apenas injusto, mas tão insensato como
e condenarem-nos à danação ao mesmo passo em que
purgar todos os habitantes de Marselha porque tiveram a
os exterminavam todos. É o que relata Rapin-Thoiras,
peste em 1720.
oficial na Irlanda, quase contemporâneo; é o que relatam
Acaso iremos saquear Roma, como fizeram as tropas
de Carlos v, porque Sisto V, em 1585, concedeu nove todos os anais, todas as histórias da Inglaterra e o que
anos de indulgência a todos os franceses que pegassem por certo jamais será imitado. A filosofia, a mera filoso-
em armas contra seu soberano? Não é suficiente impedir fia, essa irmã da religião, desarmou mãos que a supers-
Roma de entregar-se a excessos semelhantes? tição por muito tempo havia ensangüentado; e o espíri-
O furor que inspiram o espírito dogmático e o abuso to humano, ao despertar de sua embriaguez, espantou-
da religião cristã mal compreendida derramou sangue, se com os excessos a que o fanatismo o havia levado.
produziu desastres tanto na Alemanha, na Inglaterra e Nós mesmos, na França, temos uma província opu-
mesmo na Holanda, como na França. Hoje, no entanto, lenta em que o luteranismo prevalece sobre o catolicismo.
a diferença das religiões não causa nenhum problema nes- A universidade da Alsácia está em mãos dos luteranos;
ses Estados; o judeu, o católico, o grego, o luterano, o eles ocupam uma parte dos cargos municipais; jamais a
calvinista, o anabatista, o sociniano, o menonita, o morá-
vio e tantos outros vivem como irmãos nesses países e • Nome dado ao representante da assembléia e do conselho de Estado
contribuem igualmente para o bem da sociedade. da Holanda com funções comparáveis às de primeiro-ministro. (N. do T.)

22 23
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

menor querela religiosa perturbou o repouso dessa pro- Saiamos de nossa pequena esfera e examinemos o
víncia desde que ela pertence a nossos reis. Por quê? É que resto de nosso globo. O Grande Senhor governa em paz
lá não se perseguiu ninguém2s • Buscai não perturbar os vinte povos de diferentes religiões; duzentos mil gregos
corações, e todos os corações estarão a vosso dispor. vivem com segurança em Constantinopla; o próprio
Não digo que todos os que não são da religião do mufti [intérprete da lei muçulmana] nomeia e apresenta
príncipe devam ter acesso aos postos e às honras dos ao imperador o patriarca grego; tolera-se aí um patriarca
que são da religião dominante. Na Inglaterra, os católi- latino. O sultão nomeia bispos latinos para algumas ilhas
cos, vistos como adeptos do partido do pretendente, não da Grécia 26 , servindo-se da seguinte fórmula: "Ordeno-
podem aspirar aos cargos; pagam inclusive imposto do- lhe que vá residir como bispo na ilha de Quios, segundo
brado; mas, afora isso, gozam de todos os direitos dos seu antigo costume e suas vãs cerimônias." Esse impérió
cidadãos. está repleto de jacobitas, nestorianos, monotelistas; há
Suspeitaram-se alguns bispos franceses de pensar coptas, cristãos de São João, judeus, guebros, banianos.
não ser de sua honra nem de seu interesse ter calvinistas Os anais turcos não fazem menção de nenhuma revolta
em sua diocese; seria esse o maior obstáculo à tolerân- provocada por alguma dessas religiões.
cia. Não posso acreditar. O corpo dos bispos, na França, Ide à Índia, à Pérsia, à Tartária, e vereis a mesma to-
é composto de pessoas de qualidade que pensam e lerância e a mesma tranqüilidade. Pedro, o Grande, favo-
agem com uma nobreza digna de seu nascimento; são receu todos os cultos em seu vasto império; o comércio
caridosos e generosos, é uma justiça que devemos fazer- e a agricultura ganharam com isso, e o corpo político
lhes. Devem pensar que seus diocesanos fugitivos não nunca foi prejudicado.
se converterão, nos países estrangeiros, e que, voltando O governo da China jamais adotou, desde mais de
para junto de seus pastores, poderiam ser esclarecidos quatro mil anos que é conhecido, senão o culto dos noá-
por suas instruções e tocados por seus exemplos; have- chidas27 , a adoração simples de um único Deus; no en-
ria honra em convertê-los, o temporal não sairia perden- tanto, tolera as superstições de Fô 28 e uma quantidade de
do e, quanto maior o número de cidadãos, tanto mais as bonzos que seria perigosa, se a sabedoria dos tribunais
terras dos prelados renderiam. não os houvesse sempre contido.
Um bispo de Varmie, na Polônia, tinha um anabatis- É verdade que o grande imperador Yung-Ching, tal-
ta como feitor e um sociniano como coletor de impostos. vez o mais sábio e magnânimo que houve na China, ex-
Propuseram-lhe expulsar e perseguir um, porque não pulsou os jesuítas; mas não porque fosse intolerante, e
acreditava na consubstancialidade, e o outro, porque só sim porque os jesuítas, ao contrário, o eram. Eles mesmos
batizava seus filhos aos quinze anos; o bispo respondeu relatam, em suas Cartas cu riosas 29 , as palavras que lhes
que eles seriam eternamente condenados no outro mun- disse esse bom príncipe: "Sei que vossa religião é intole-
do, mas que, neste, eram-lhe muito necessários. rante; sei o que fizestes nas Manilas e no Japão; vós

24 25
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

enganastes meu pai, não espereis enganar-me também." Assim, portanto, nosso continente inteiro prova-nos
Lede todo o discurso que ele houve por bem fazer-lhes que não se deve anunciar nem exercer a intolerância.
e encontrareis o mais sábio e o mais clemente dos ho- Voltai os olhos para o outro hemisfério, vede a Caro-
mens. Podia ele, com efeito, acolher físicos da Europa lina, da qual o sábio Locke foi o legislador: bastam sete
que, a pretexto de mostrar termômetros e eolipilas à cor- pais de família para estabelecer um culto público apro-
te, já haviam incitado à revolta um príncipe real? E que vado por lei; essa liberdade não fez nascer nenhuma
teria dito esse imperador se houvesse lido nossas histó- desordem. Deus nos livre de citar esse exemplo para ins-
rias, se conhecesse nossos tempos da Liga e da conspi- tar a França a imitá-lo! Só o relatamos para mostrar que
ração dos barris de pólvora30? o maior excesso até onde pode chegar a tolerância não
Para ele, era suficiente estar informado das querelas foi seguido da mais leve dissensão. Mas o que é muito
indecentes dos jesuítas, dominicanos, capuchinhos, pa- útil e muito bom numa colônia nascente não é conve-
dres seculares, enviados da outra ponta do mundo a seus niente num antigo reino.
Estados: vinham pregar a verdade e anatematizavam-se Que diremos, então, dos primitivos, chamados qua-
uns aos outros. O imperador, portanto, não fez mais do kers por derrisão e que, com costumes talvez ridículos,
que mandar de volta perturbadores estrangeiros. Mas foram tão virtuosos e ensinaram inutilmente a paz ao
com que bondade os mandou de volta! Que cuidados resto dos homens? Na Pensilvânia, eles são em número
paternos dispensou-lhes para a viagem e para impedir de cem mil; a discórdia, a controvérsia são ignoradas na
que os insultassem no caminho! O próprio banimento pátria feliz que construíram para si e o simples nome de
deles foi um exemplo de tolerância e de humanidade. sua cidade de Filadélfia 32 , a lembrar-lhes a todo instante
Os japoneses31 eram os mais tolerantes de todos os que os homens são irmãos, é o exemplo e a vergonha
homens. Doze religiões pacíficas haviam se estabelecido dos povos que ainda não conhecem a tolerância.
em seu império; os jesuítas vieram completar a décima Enfim, essa tolerância jamais suscitou guerra civil,
terceira, mas, logo, não querendo tolerar as outras, sabe- enquanto a intolerância cobriu a terra de chacinas. Que se
mos o que resultou: uma guerra civil, não menos terrível julgue, pois, entre essas duas rivais, entre a mãe que quer
que a da Liga, assolou o país. A religião cristã foi, enfim, que matem seu filho e a mãe que o cede para que ele viva33!
afogada em ondas de sangue; os japoneses fecharam seu Não falo aqui senão do interesse das nações; e respei-
império ao resto do mundo e passaram a nos ver como tando, como devo, a teologia, considero neste artigo ape-
animais ferozes, semelhantes àqueles que os ingleses ex- nas o bem físico e moral da sociedade. Imploro todo lei-
purgaram de sua ilha. Em vão o ministro Colbert, sentin- tor imparcial a pesar essas verdades, retificá-las e desen-
do a necessidade que tínhamos dos japoneses, os quais volvê-las. Leitores atentos, que se comunicam com seus
não têm necessidade nenhuma de nós, tentou estabele- pensamentos, vão sempre mais longe que o autor34 •
cer um comércio com seu império: eles mostraram-se
inflexíveis.

26 27
CAPÍTULO V

Como a tolerância pode


ser admitida

Ouso supor que um ministro esclarecido e magnâni-


mo, um prelado humano e sensato, um príncipe que sa-
be que seu interesse consiste no maior número de súdi-
tos, e sua glória na felicidade deles, dignar-se-á lançar os
olhos sobre este escrito informe e defeituoso: suprem-no
suas próprias luzes; ele diz a si mesmo: que risco corre-
ria eu em ver a terra cultivada e melhorada por mais mãos
laboriosas, os tributos aumentados, o Estado florescendo
mais?
A Alemanha seria um deserto coberto pelas ossadas
de católicos, evangélicos, reformados, anabatistas mor-
tos uns pelos outros, se a paz de Vestefália não tivesse
proporcionado enfim a liberdade de consciência.
Temos judeus em Bordéus, em Metz, na Alsácia35 ;
temos luteranos, molinistas, jansenistas - não podemos
tolerar e admitir calvinistas mais ou menos nas mesmas
condições que os católicos são tolerados em Londres?
Quanto mais seitas houver, tanto menos perigosa cada
uma será; a multiplicidade as enfraquece; todas são re-
primidas por justas leis que proíbem as assembléias tu-
multuosas, as injúrias, as sedições e que estão sempre
em vigor pela força coativa.

29
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

Sabemos que vários chefes de família, que fizeram gâncias de todos os sectários. Os tempos passados são
grandes fortunas em países estrangeiros, estão dispostos como se jamais tivessem existido. É preciso sempre par-
a retornar à sua pátria; não pedem senão a proteção da tir do ponto em que se está e daquele a que chegaram
lei natural, a validade de seus casamentos, a certidão re- as nações.
conhecida de seus filhos, o direito de herdar dos pais, a Houve um tempo em que se julgou necessário emi-
franquia de suas pessoas; nada de templos públicos, tir decretos contra os que ensinavam uma doutrina con-
nada de direito aos cargos municipais, às dignidades - os trária às categorias de Aristóteles, ao horror do vazio, às
católicos não os têm em Londres nem em vários outros qüididades e ao universal por parte da coisa. Temos na
países. Não se trata mais de dar privilégios imensos, áreas Europa mais de cem volumes de jurisprudência sobre a
de segurança a uma facção, mas de deixar viver um povo feitiçaria e sobre a maneira de distinguir os falsos feiticei-
pacífico, de abrandar editos talvez necessários outrora, ros dos verdadeiros. A excomunhão dos gafanhotos e
mas que já não o são. Não cabe a nós indicar ao minis- dos insetos nocivos às colheitas esteve muito em moda e
tério o que ele pode fazer; basta implorá-lo em favor dos ainda subsiste em vários rituais. A moda passou; Aristó-
infortunados. teles, os feiticeiros e os gafanhotos foram deixados em
Quantos meios de torná-los úteis e de impedir que paz. Os exemplos dessas graves demências, outrora tão
jamais sejam perigosos! A prudência do ministério e do importantes, são inumeráveis. De tempos em tempos
conselho, apoiada pela força, encontrará com facilidade surgem outros; mas, quando fizeram seu efeito, quando
esses meios, que tantas outras nações empregam de se está farto deles, desaparecem. Se alguém ousasse hoje
maneira exitosa. ser carpocratiano, ou eutiquesiano, ou monotelista, mo-
Há fanáticos ainda na populaça calvinista; mas é nofisista, nestoriano, maniqueu, etc., o que aconteceria?
certo que os há em maior número na populaça convul- Ririam dele, como de um homem vestido à antiga, com
sionária. A escória dos insensatos de Saint-Médard con- um colarinho de pregas e um gibão.
tou muito pouco na nação; a dos profetas calvinistas, A nação começava a entreabrir os olhos quando os
quase nada 36 • O grande meio de diminuir o número de jesuítas Le Tellier e Doucin fabricaram a bula Unigenitus,
maníacos, se restarem, é submeter essa doença do espí- que enviaram a Roma. Acreditaram estar ainda naqueles
rito ao regime da razão, que esclarece lenta, mas infali- tempos de ignorância em que os povos adotavam sem
velmente, os homens. Essa razão é suave, humana, ins- exame as asserções mais absurdas. Ousaram proscrever
pira a indulgência, abafa a discórdia, fortalece a virtude, esta proposição, que é de uma verdade universal em to-
torna agradável a obediência às leis, mais ainda do que dos os casos e em todos os tempos: "O temor de uma
a força é capaz. E não se há de levar em conta o ridícu- excomunhão injusta não deve impedir de cumprir seu
lo hoje associado ao entusiasmo pelas pessoas de bem? dever." Era proscrever a razão, as liberdades da Igreja ga-
Esse ridículo é uma poderosa barreira contra as extrava- licana, e o fundamento da moral; era dizer aos homens:

30 31
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

Deus vos ordena jamais cumprir vosso dever, contanto CAPÍTULO VI


que temais a injustiça. Jamais o senso comum foi ferido
tão acintosamente. Os consultores de Roma não presta- Se a intolerância é de direito
ram atenção nisso. Persuadiu-se o tribunal de Roma que
essa bula era necessária e que a nação a desejava; foi as-
natural e de direito humano
sinada, selada e enviada. Sabemos os desdobramentos;
certamente, se os tivessem previsto, teriam mitigado a
bula. As querelas foram acirradas; a prudência e a bon-
dade do rei finalmente as apaziguaram.
O mesmo ocorre numa grande parte dos pontos que
dividem os protestantes e nós: há alguns que não têm a O direito natural é aquele que a natureza indica a
menor conseqüência; há outros mais graves, mas sobre todos os homens. Educastes vosso filho, ele vos deve
os quais o furor da disputa arrefeceu de tal maneira que respeito como a seu pai, reconhecimento como a seu
os próprios protestantes não pregam hoje a controvérsia benfeitor. Tendes direito aos frutos da terra que cultivas-
em nenhuma de suas igrejas. tes com vossas mãos. Fizestes e recebestes uma promes-
É, portanto, esse tempo de fastio, de saciedade, ou sa, ela deve ser cumprida.
melhor, de razão, que podemos perceber como uma épo- Em todos os casos, o direito humano só pode se fun-
ca e uma garantia da tranqüilidade pública. A controvér- dar nesse direito de natureza; e o grande princípio, o
sia é uma doença epidêmica a ponto de extinguir-se, e princípio universal de ambos, é, em toda a terra: "Não
essa peste, da qual nos curamos, não requer mais do que faças o que não gostarias que te fizessem." Ora, não se
um regime suave. Enfim, o interesse do Estado é que fi- percebe como, de acordo com esse princípio, um ho-
lhos expatriados retornem com modéstia à casa de seu
mem poderia dizer a outro: "Acredita no que acredito e
pai: a humanidade o exige, a razão o aconselha e a polí-
no que não podes acreditar, ou morrerás." É o que dizem
tica não se pode assustar com isso.
em Portugal, na Espanha, em Goa. Atualmente limitam-
se a dizer, em alguns países: "Crê, ou te abomino; crê, ou
te farei todo o mal que puder; monstro, não tens minha
religião, logo não tens religião alguma: cumpre que sejas
odiado por teus vizinhos, tua cidade, tua província."
Se fosse de direito humano conduzir-se dessa forma,
caberia então que o japonês detestasse o chinês, o qual
execraria o siamês; este perseguiria os gancares, que cai-
riam sobre os habitantes do Indo; o mongol arrancaria o

32 33
- -_ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __

coração do primeiro malabar que encontrasse; o malabar CAPÍTULO VII


poderia degolar o persa, que poderia massacrar o turco
- e todos juntos se lançariam sobre os cristãos, que por
muito tempo devoraram-se uns aos outros. Se a intolerância foi conhecida
O direito da intolerância é, pois, absurdo e bárbaro; pelos gregos
é o direito dos tigres, e bem mais horrível, pois os tigres
só atacam para comer, enquanto nós exterminamo-nos
por parágrafos.

Todos os povos de cuja história temos algum conhe-


cimento consideraram suas diferentes religiões como pon-
tos de união entre eles: tratava-se de uma associação do
gênero humano. Havia uma espécie de direito de hospi-
talidade entre os deuses como entre os homens. Um es-
trangeiro, chegando a uma cidade, começava por adorar
os deuses locais. Não se deixava de venerar nem mesmo os
deuses do inimigo. Os troianos dirigiam preces aos deu-
ses que combatiam pelos gregos.
Alexandre foi consultar nos desertos da Líbia o deus
Amon, ao qual os gregos deram o nome de Zeus, e os la-
tinos de Júpiter, embora ambos tivessem seus próprios jú-
pitere Zeus. Quando uma cidade era cercada, fazia-se um
sacrifício aos deuses da cidade para torná-los favoráveis.
Assim, no meio da guerra, a religião reunia os homens e
abrandava, às vezes, seus furores, ainda que eventualmen-
te lhes inspirasse ações desumanas e horríveis.
Posso estar enganado, mas parece-me que, de todos
os antigos povos civilizados, nenhum impediu a liberdade
de pensar. Todos tinham uma religião; mas creio que pro-
cediam com os homens da mesma forma que com os
deuses: reconheciam todos um Deus supremo, mas asso-

34 35
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - -_ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

ciavam-Ihe uma quantidade prodigiosa de divindades in- do; mas um tribunal requer fatos comprovados, pontos
feriores; tinham apenas um culto, mas permitiam grande de acusação precisos e circunstanciados: é o que o pro-
quantidade de sistemas particulares. cesso de Sócrates não nos fornece; sabemos apenas que
Os gregos, por exemplo, por mais religiosos que fos- ele chegou a ter duzentos e vinte votos a seu favor. O tri-
sem, achavam bom que os epicuristas negassem a Pro- bunal dos Quinhentos possuía portanto duzentos e vinte
vidência e a existência da alma. Não falo das outras sei- filósofos. É muito; duvido que fossem encontrados alhu-
tas, que feriam as idéias saudáveis que se deve ter do Ser res. A maioria, enfim, decidiu pela cicuta; mas considere-
criador e que eram todas toleradas. mos que os atenienses, caindo em si, abominaram os
Sócrates, que mais se aproximou do conhecimento acusadores e os juízes; que Melito, o principal autor da
do Criador, sofreu punição por isso, dizem, e morreu sentença, foi condenado à morte por essa injustiça; que
mártir da Divindade; foi o único que os gregos fizeram os outros foram banidos e que se ergueu um templo a
morrer por suas opiniões. Se esta foi, de fato, a causa de Sócrates. Jamais a filosofia foi tão bem vingada nem tão
sua condenação, não cabem honras à intolerância, já honrada. O exemplo de Sócrates é, no fundo, o mais ter-
que se puniu apenas o único a glorificar Deus, enquan-
rível argumento que se possa citar contra a intolerância.
to honravam-se os que davam da Divindade as noções
Os atenienses tinham um altar dedicado aos deuses es-
mais indignas. Os inimigos da tolerância não devem, em
trangeiros, aos deuses que não podiam conhecer. Há uma
minha opinião, prevalecer-se do exemplo odioso dos juí-
prova mais forte não apenas de indulgência para com
zes de Sócrates.
todas as nações, mas também de respeito por seus cultos?
É evidente, aliás, que Sócrates foi vítima de um par-
tido furioso animado contra ele. Fizera-se inimigo irre- Um homem fino, que não é inimigo da razão, nem
conciliável dos sofistas, oradores, poetas, que ensinavam da literatura, nem da probidade, nem da pátria, justifi-
nas escolas, e mesmo de todos os preceptores encarre- cando recentemente a Noite de São Bartolomeu, cita a
gados dos filhos da elite. Ele próprio confessa, em seu guerra dos fócios, chamada guerra sagrada, como se
discurso relatado por Platã037 , que ia de casa em casa essa guerra tivesse sido provocada pelo culto, pelo dog-
provar a esses preceptores que não passavam de igno- ma, por argumentos de teologia: tratava-se de saber a
rantes. Tal conduta não era digna daquele que um orá- quem pertenceria um território, é a questão de todas as
culo havia declarado o mais sábio dos homens. Lança- guerras. Feixes de trigo não são um símbolo de crença;
ram-se contra ele um sacerdote e um conselheiro dos jamais uma cidade grega combateu por opiniões. Aliás, o
Quinhentos, que o acusaram; confesso que não sei pre- que pretende esse homem modesto e suave? Quer que
cisamente de quê, vejo apenas algo vago em sua Apolo- façamos uma guerra sagrada38?
gia; atribui-se-Ihe, de maneira geral, a acusação de inspi:
rar aos jovens máximas contra a religião e o governo. E
assim que procedem diariamente os caluniadores no mun-

36 37
CAPÍTULO VIII

Se os romanos foram tolerantes

Entre os antigos romanos, desde Rômulo até os tem-


pos em que os cristãos disputaram com os sacerdotes do
Império, não encontreis um único homem perseguido
por suas opiniões. Cícero duvidou de tudo, Lucrécio ne-
gou tudo, e não lhes fizeram a menor censura. A licença
foi inclusive tão longe que Plínio, o Naturalista, começou
seu livro negando a Deus e dizendo que há só um: o sol.
Cícero diz, ao falar dos infernos: "Non est anus tam ex-
cors quae credat; não há sequer velho imbecil que acre-
dite neles 39 ." Diz Juvenal: "Nec pueri credunt (sátira II,
verso 152); nem as crianças acreditam." Cantava-se no
teatro de Roma:

Post mortem nibil est, ipsaque mors nibil.


(Sêneca, As Troianas, coro ao final do segundo ato.)

Não há nada após a morte, a própria morte é nada.


Abominemos essas máximas e, quando muito, per-
doemos um povo que os evangelhos não iluminam. Elas
são falsas, são ímpias. Mas concluamos que os romanos
eram muito tolerantes, já que elas não provocaram jamais
o menor murmúrio.

39
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

o grande princípio do senado e do povo romano maior de que a tolerância era vista pelos romanos como
era: "Deorum offensae diis curae; compete apenas aos a lei mais sagrada do direito dos povos?
deuses cuidar das ofensas feitas aos deuses." Esse povo- Dizem-nos que, tão logo os cristãos apareceram, fo-
rei não sonhava senão em conquistar, governar e civili- ram perseguidos por esses mesmos romanos que não
zar o universo. Foram nossos legisladores, assim como perseguiam ninguém. Parece-me evidente que esse fato
nossos vencedores; e jamais César, que nos deu grilhões, é completamente falso; tomo por prova o próprio São
leis e jogos, quis forçar-nos a abandonar nossos druidas Paulo. Os Atos dos Apóstolos nos mostram que 40 , tendo
por ele, embora sendo o grande pontífice de uma nação São Paulo sido acusado pelos judeus de querer destruir a
nossa soberana. lei mosaica em nome de Jesus Cristo, São Tiago propôs
Os romanos não professavam todos os cultos, não a São Paulo que raspasse a cabeça e fosse purificar-se no
davam a todos a sanção pública; mas permitiram todos. templo com quatro judeus, "e saberão todos que não é
Não tiveram nenhum objeto material de culto sob Numa, verdade o que se diz a teu respeito; e que, pelo contrá-
nem simulacros, nem estátuas; em seguida ergueram-nos rio, andas também, tu mesmo, guardando a lei".
aos deuses majorum gentium, que os gregos lhes fize- Paulo, cristão, foi portanto cumprir todas as cerimô-
ram conhecer. A lei das doze tábuas, Deos peregrinos ne nias judaicas durante sete dias; mas os sete dias não ha-
colunto, limitou-se a só conceder o culto público às di- viam ainda transcorrido quando judeus da Ásia o reco-
vindades superiores aprovadas pelo senado. Ísis teve um nheceram e, vendo que havia entrado no templo, não
templo em Roma, até que Tibério o demoliu, quando os apenas com judeus, mas com gentios, acusaram-no de
sacerdotes desse templo, corrompidos pelo dinheiro de profanação. Paulo foi preso, levado ante o governador
Mundus, fizeram-no deitar no templo, sob o nome do Félix e, em seguida, enviado ao tribunal de Festo. Os
deus Anúbis, com uma mulher chamada Paulina. É ver- judeus em coro exigiram sua morte; Festo respondeu-
dade que Josefo é o único a relatar essa história; não era Ihes 41 : "Não é costume dos romanos condenar quem quer
contemporâneo, era crédulo e costumava exagerar. É que seja, sem que o acusado tenha presentes os seus
pouco provável que, numa época tão esclarecida como acusadores e possa defender-se da acusação."
a de Tibério, uma dama da primeira classe tivesse sido Tais palavras são ainda mais notáveis nesse magis-
tão imbecil para acreditar nos favores do deus Anúbis. trado romano, pois ele aparentemente não teve nenhu-
Mas, verdadeira ou falsa essa anedota, o certo é que ma consideração por São Paulo, sentiu por ele apenas
a superstição egípcia havia erguido um templo em Roma desprezo; enganado pelas falsas luzes de sua razão, to-
com o consentimento público. Os judeus comerciavam mou-o por louco; diz ao próprio São Paulo que era insa-
nessa cidade desde o tempo da guerra púnica; passaram n0 42 : Multae te litterae ad insaniam convertunt. Portanto,
a ter sinagogas a partir de Augusto e as conservaram qua- Festo só escutou a eqüidade da lei romana ao dar sua
se sempre, assim como na Roma moderna. Há exemplo proteção a um desconhecido que não podia estimar.

40 41
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _~Vo/taire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - T r a t a d o sobre a to/erância _ _ _ _ _ _ __

Eis O próprio Espírito Santo a declarar que os roma- Nero, dizem, os perseguiu. Tácito nos conta que fo-
nos não eram perseguidores e que eram justos. Não fo- ram acusados do incêndio de Roma e que os entregaram
ram os romanos que se insurgiram contra São Paulo, ao furor do povo. Tratava-se, em tal acusação, da crença
foram os judeus. São Tiago, irmão de Jesus, foi apedre- dos cristãos? Certamente que não. Diremos que os chine-
jado por ordem de um judeu saduceu, e não de um ro- ses mortos pelos holandeses, há alguns anos, nos arre-
mano. Foram somente judeus que apedrejaram Santo Es- dores de Batávia, foram imolados à religião? Por mais
têvã0 43 ; e, quando São Paulo vestia a capa dos executo- que queiramos nos enganar, é impossível atribuir à into-
res 44 , certamente não agia como cidadão romano. lerância o desastre acontecido sob Nero a alguns infortu-
Os primeiros cristãos por certo não tinham questões nados semijudeus e semicristãos46 .
com os romanos; tinham como inimigos apenas os ju-
deus, dos quais começavam a separar-se. Sabemos o
ódio implacável que todos os sectários sentem pelos que
abandonam sua seita. Provavelmente houve tumulto nas
sinagogas de Roma. Suetônio diz, na Vida de Cláudio
(cap. XXV): judaeos, impulsore Christo assidue tumul-
tantes, Roma expulit. Ele se enganava, ao dizer que fora
por instigação de Cristo: não podia estar a par dos deta-
lhes de um povo tão desprezado em Roma como era o
povo judeu; mas não se enganava sobre a ocasião des-
sas querelas. Suetônio escrevia sob Adriano, no segundo
século; os cristãos ainda não se distinguiam dos judeus
aos olhos dos romanos. A passagem de Suetônio faz ver
que os romanos, longe de oprimir os primeiros cristãos,
reprimiam então os judeus que os perseguiam. Queriam
que a sinagoga de Roma tivesse para com seus irmãos
separados a mesma indulgência que o senado tinha para
com ela, e os judeus expulsos voltaram logo em seguida;
obtiveram até honrarias, apesar das leis que delas os
excluíam. É o que nos dizem Díon Cássio e Ulpian045 •
Será possível que, após a destruição de Jerusalém, os im-
peradores tivessem prodigalizado dignidades aos judeus
e perseguido, entregue aos carrascos e às feras, cristãos
que eram vistos como uma seita dos judeus?

42 43
CAPÍTULO IX

Acerca dos mártires

Posteriormente houve mártires cristãos. É bem difícil


saber com precisão por que razões esses mártires foram
condenados; mas ouso pensar que, sob os primeiros Cé-
sares, nenhum o foi simplesmente por sua religião. To-
das eram toleradas; como poderiam visar e perseguir ho-
mens obscuros, que tinham um culto particular, num tem-
po em que todos os outros eram permitidos?
Os Tito, os Trajano, os Antonino, os Décio não eram
bárbaros: como imaginar que teriam privado somente os
cristãos de uma liberdade que a terra inteira usufruía?
Teriam ousado acusar apenas os cristãos de ter mistérios
secretos, enquanto os mistérios de Ísis, Mitra, da deusa
da Síria, todos estranhos ao culto romano, eram permiti-
dos sem contradição? Cumpre que a perseguição tenha
tido outras causas e que os ódios particulares, sustenta-
dos pela razão de Estado, tenham derramado o sangue
dos cristãos.
Por exemplo, quando São Lourenço recusa ao pre-
feito de Roma, Cornelius Secularis, o dinheiro dos cris-
tãos que tinha em sua guarda, é natural que o prefeito e
o governador ficassem irritados; eles não sabiam que São
Lourenço havia distribuído esse dinheiro aos pobres e

45
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

que fizera uma obra caritativa e santa; julgaram-no um O quê! os romanos teriam suportado que o infame
rebelde, e o fizeram perecer17 • Antínoo fosse colocado entre os deuses secundários e
Consideremos o martírio de São Polieuto. Te-Io-ão teriam trucidado, entregue às feras, todos aqueles que
condenado apenas por sua religião? Ele vai ao templo, eram acusados apenas de adorar pacificamente um justo?
onde rendem-se aos deuses ações de graças pela vitória O quê! teriam reconhecido um Deus suprem048 , um
do imperador Décio; ali insulta os sacrificadores, derru- Deus soberano, senhor de todos os deuses secundários,
ba e quebra os altares e as estátuas: em que país do mun- o que é atestado pela fórmula Deus optímus maximus, e
do perdoariam semelhante atentado? O cristão que ras- teriam perseguido os que adoravam um Deus único?
gou publicamente o edito do imperador Diocleciano e Não é verossímil que alguma vez tenha havido uma
que atraiu sobre seus irmãos a grande perseguição nos inquisição contra os cristãos sob os imperadores, isto e,
dois últimos anos do reinado desse soberano não tinha que tenham vindo interrogá-los sobre suas crenças. So-
um zelo conforme a sabedoria e sentiu-se muito infeliz bre essa questão, nem judeus, nem sírios, nem egípcios,
por ser a causa do desastre de seu partido. Esse zelo irre- nem bardos, nem druidas, nem filósofos foram jamais
fletido, que irrompeu com freqüência e foi inclusive con- perturbados. Os mártires, portanto, foram os que se re-
denado por vários padres da Igreja, provavelmente cons-
belaram contra os falsos deuses. Era muito ajuizado e
tituiu a origem de todas as perseguições.
muito piedoso não crer nesses deuses; mas se, não con-
Certamente não comparo os primeiros sacramentá-
tentes de adorar um Deus em espírito e em verdade, ma-
rios aos primeiros cristãos: não coloco o erro ao lado da
nifestaram-se violentamente contra o culto estabelecido,
verdade. Mas FareI, predecessor de João Calvino, fez em
por mais absurdo que pudesse ser, somos forçados a re-
Arles a mesma coisa que São Polieuto havia feito na Ar-
mênia. Levavam pelas ruas a estátua de Santo Antônio, o conhecer que eles próprios eram intolerantes.
eremita, em procissão; Farel lança-se com alguns dos Tertuliano, em sua Apologética, admite 49 que os cris-
seus sobre os monges que levavam Santo Antônio, agri- tãos eram vistos como rebeldes. A acusação era injusta,
de-os, dispersa-os e atira a estátua de Santo Antônio no mas provava que não era apenas a religião dos cristãos
rio. Ele merecia a morte, que não recebeu, porque teve que excitava o zelo dos magistrados. Diz Tertulian050 que
tempo de fugir. Se tivesse se contentado em gritar a esses os cristãos recusavam-se a ornar suas portas com ramos
monges que não acreditava que um corvo tivesse trazido de louro nos festejos públicos pelas vitórias dos impera-
a metade de um pão a Santo Antônio eremita, nem que dores: podia-se facilmente tomar essa atitude condená-
este tivesse conversado com centauros e sátiros, teria me- vel por um crime de lesa-majestade.
recido uma forte reprimenda, porque perturbava a or- A primeira severidade jurídica exercida contra os
dem; mas se, à noite, após a procissão, houvesse exami- cristãos foi a de Domiciano; mas limitou-se a um exílio
nado pacificamente a história do corvo, dos centauros e que não durou um ano: "Facile coeptum repressit, resti-
dos sátiros, nada teriam a lhe censurar. tutis etiam quos relegaverat", diz Tertuliano (cap. V). Lac-

46 47
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

tâncio, cujo estilo é tão arrebatado, admite que, de Do- mundo; mas devia ser conhecido por pessoas próximas
miciano a Décio, a Igreja foi tranqüila e florescente 5'. Es- ao procônsul da África, devia atrair muito ódio ao autor.
sa longa paz, diz ele, foi interrompida quando esse exe- Tertuliano, porém, não sofreu o martírio.
crável animal Décio oprimiu a Igreja: "Exstitit enim post Orígenes ensinou publicamente em Alexandria e não
annos plurimos exsecrabile animal Decius, qui vexaret foi condenado à morte. Esse mesmo Orígenes, que fala-
Ecclesiam" CApol., capo IV). va com tanta liberdade aos pagãos e aos cristãos, anun-
Não queremos discutir aqui a opinião do erudito ciando Jesus a uns, negando um Deus em três pessoas
Dodwell sobre o pequeno número de mártires; mas se os aos outros, declara expressamente, em seu terceiro livro
romanos tivessem perseguido tanto a religião cristã, se o contra Celso, "que houve muito poucos mártires, e só de
senado tivesse feito morrer tantos inocentes por suplí- tempos em tempos. No entanto, diz ele, os cristãos nadà
cios inusitados, se tivessem mergulhado cristãos no óleo negligenciam para que sua religião seja abraçada por
fervente, se tivessem exposto jovens nuas às feras no cir- todo o mundo; percorrem as cidades, os povoados, as
co, como teriam deixado em paz todos os primeiros bis- aldeias".
pos de Roma? Santo Irineu conta como mártir entre esses É certo que essas missões contínuas podiam ser fa-
bispos apenas Telésforo, no ano 139 da era vulgar, e não cilmente acusadas de sedição pelos sacerdotes inimigos.
há nenhuma prova de que esse Telésforo tenha sido con- No entanto, elas são toleradas, apesar do povo egípcio,
denado à morte. Zeferino governou o rebanho de Roma sempre turbulento, sedicioso e covarde; povo que havia
durante dezoito anos e morreu pacificamente no ano 219. linchado um romano por ter matado um gato, povo des-
É verdade que, nos antigos martirológios, colocam-se prezível em qualquer circunstância, não obstante o que
quase todos os primeiros papas; mas a palavra martírio digam dele os admiradores das pirâmides52 •
era tomada então apenas em sua verdadeira significação: Quem haveria de incitar mais contra si os sacerdo-
martírio queria dizer testemunho, e não suplício. tes e o governo do que São Gregório Taumaturgo, dis-
É difícil combinar esse furor de perseguição com a cípulo de Orígenes? Gregório vira durante a noite um
liberdade que tiveram os cristãos de realizar cinqüenta e velho enviado por Deus, acompanhado de uma mulher
seis concílios que os escritores eclesiásticos contam nos resplandescente de luz: essa mulher era a Virgem Santa,
três primeiros séculos. e o velho, São João Evangelista. São João ditou-lhe uma
Houve perseguições; mas se tivessem sido tão vio- mensagem que São Gregório foi pregar. Indo à Neoce-
lentas como dizem, certamente Tertuliano, que escreveu saréia, passou por um templo onde faziam oráculos e
com tanta força contra o culto estabelecido, não teria mor- onde a chuva o obrigou a passar a noite; ali fez vários
rido em seu leito. Sabe-se bem que os imperadores não sinais da cruz. No dia seguinte, o sacrificador do templo
leram sua Apologética; que um texto obscuro, escrito na espantou-se de que os demônios, que lhe respondiam
África, não chega até os encarregados do governo do antes, não mais quisessem transmitir oráculos. Chamou-

48 49
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

os. Os diabos vieram dizer-lhe que não viriam mais; co- no; e é óbvio que não foi o imperador Galo que o con-
municaram-lhe que não podiam mais habitar o templo, denou de tão longe por sua religião, uma vez que deixa-
porque Gregório nele havia passado a noite e fizera si- va em paz Comélio, que vivia sob seus olhos.
nais da cruz. Tantas causas secretas se misturam com freqüência à
O sacrificador mandou prender Gregório, que lhe causa aparente, tantos motivos desconhecidos servem
respondeu: "Posso expulsar os demônios de onde quiser para perseguir um homem, que é impossível identificar
e fazê-los entrar onde me agradar. - Então faça-os voltar nos séculos posteriores a origem oculta dos infortúnios
ao meu templo", diz o sacrificador. Gregório rasgou um dos homens mais importantes e, com mais forte razão, a
pedaço de um papiro que tinha na mão e nele traçou do suplício de um indivíduo que só podia ser conhecido
estas palavras: "Gregório a Satã: Eu te ordeno que voltes por aqueles de seu partido. '
a este templo." Puseram esse bilhete no altar. Os demô- Observe-se que São Gregório Taumaturgo e São Dio-
nios obedeceram e, naquele dia, transmitiram seus orá- nísio, bispo de Alexandria, que não foram supliciados,
culos como de costume; após o quê, cessaram, confor- viviam na mesma época de São Cipriano. Por que, sendo
me nos é dito. tão conhecidos ao menos quanto o bispo de Cartago,
É São Gregório de Nissa que relata esses fatos da foram deixados em paz? E por que São Cipriano foi en-
vida de São Gregório Taumaturgo. Os sacerdotes dos ído- tregue ao suplício? Isso acaso não parece indicar que um
los certamente deviam odiar Gregório e, na sua ceguei- sucumbiu a inimigos pessoais e poderosos, à calúnia, ao
ra, denunciá-lo ao magistrado; contudo, seu maior inimi- pretexto da razão de Estado, que amiúde junta-se à reli-
go não esboçou nenhuma perseguição. gião, enquanto os outros tiveram a felicidade de escapar
Conta-se na história de São Cipriano que ele foi o à maldade dos homens?
primeiro bispo de Cartago condenado à morte. O martí- É pouco provável que a simples acusação de cristia-
rio de São Cipriano é do ano 258 de nossa era; portanto, nismo tenha feito perecer Santo Inácio na época do cle-
durante um longo tempo nenhum bispo de Cartago foi mente e justo Trajano, já que permitiram aos cristãos
imolado por causa de sua religião. A história não nos diz acompanhá-lo e consolá-lo quando o conduziram a Ro-
que calúnias foram lançadas contra São Cipriano, que ma 53 • Houve freqüentes sedições em Antioquia, cidade
inimigos tinha, por que o procônsul da África irritou-se sempre turbulenta, onde Inácio era bispo secreto dos cris-
contra ele. São Cipriano escreve a Comélio, bispo de Ro- tãos. Talvez essas sedições, malignamente imputadas aos
ma: "Uma comoção popular irrompeu há pouco em Car- cristãos inocentes, tenham chamado a atenção do gover-
tago e por duas vezes gritaram que eu devia ser jogado no, que se enganou, como aconteceu muitas vezes.
aos leões." São Simeão, por exemplo, foi acusado perante Sapor
É bem provável que os arrebatamentos do povo fe- de ser espião dos romanos. A história de seu martírio
roz de Cartago tenham sido a causa da morte de Cipria- conta que o rei Sapor propôs-lhe adorar o Sol; mas sabe-

50 51
- -_ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

se que os persas não prestavam culto ao Sol: considera- te: "Enquanto a terra gemia sob a tirania de Diocleciano,
vam-no um emblema do bom princípio, de Oromase, ou o céu se povoava de mártires." Ora, essa aventura, como
Orosmade, do Deus criador que reconheciam. foi dito, teria acontecido em 286, quando Diocleciano
Por mais tolerante que se possa ser, é impossível mais favorecia os cristãos e quando o Império Romano
deixar de sentir alguma indignação contra esses decla- foi o mais ditoso. Enfim, o que deveria poupar toda essa
madores que acusam Diocleciano de haver perseguido discussão é que nunca houve legião tebana: os romanos
os cristãos assim que subiu ao trono. Confiemos em Eu- eram demasiado orgulhosos e sensatos para formar uma
sébio de Cesaréia: seu testemunho não pode ser recusa- legião de egípcios que só serviam em Roma como escra-
do; o favorito, o panegirista de Constantino, o inimigo vos, Verna CanoPi; é como se tivessem tido uma legião
violento dos imperadores precedentes, deve ser acredi- judaica. Temos os nomes das trinta e duas legiões que,
tado quando os justifica. Eis suas palavras54 : "Os impera- compunham as principais forças do Império Romano; o
dores deram por muito tempo aos cristãos grandes sinais da legião tebana seguramente não consta. Classifique-
de benevolência; confiaram-lhes províncias; vários cris- mos, pois, essa fábula juntamente com os versos acrósti-
tãos moraram no palácio; inclusive cristãs foram despo- cos das sibilas que prediziam os milagres de Jesus Cristo
sadas. Diocleciano tomou por esposa Prisca, cuja filha e com tantas outras suposições que um falso zelo difun-
foi mulher de Maximiano Galera, etc." diu para abusar da credulidade.
Que esse testemunho decisivo nos ensine, pois, a
não mais caluniar. Convém considerar se a perseguição
provocada por Galera, após dezenove anos de um reina-
do de clemência e de benefícios, não deve sua origem a
alguma intriga que desconhecemos.
Que se perceba o quanto a fábula da legião tebana
ou tebéia, massacrada, ao que se diz, apenas por moti-
vos de religião, é uma fábula absurda. É ridículo que ti-
vessem feito vir essa legião da Ásia por causa do grande
São Bernardo; é impossível que a tivessem chamado
para apaziguar uma sedição na Gália, um ano depois
que essa sedição fora reprimida; não é menos impossível
que tenham massacrado seis mil homens da infantaria e
setecentos cavaleiros numa passagem em que duzentos
homens poderiam deter um exército inteiro. O relato des-
sa suposta carnificina começa por uma impostura eviden-

52 53
CAPÍTULO X

Acerca do perigo das falsas lendas


e acerca da perseguição

A mentira por muito tempo iludiu os homens; está


na hora de conhecer o pouco de verdade que se pode
identificar nessas nuvens de fábulas que cobrem a histó-
ria romana desde Tácito e Suetônio, e que quase sempre
envolveram os anais das outras nações antigas.
Como se pode acreditar, por exemplo, que os roma-
nos, esse povo grave e severo de quem conservamos as
leis, tenham condenado virgens cristãs, moças de caráter,
à prostituição? É conhecer muito mal a austera dignida-
de de nossos legisladores, que puniam tão severamente
as fraquezas das vestais. Os Atos Sinceros de Ruinart rela-
tam essas torpezas. Mas deve-se crer nos Atos de Ruinart
como nos Atos dos Apóstolos? Esses Atos Sinceros dizem,
segundo Bollandus, que havia na cidade de Ancira sete
virgens cristãs, de cerca de 70 anos cada uma, que o go-
vernador Teodecto condenou a passar pelas mãos dos
jovens da cidade; mas tendo essas virgens sido poupa-
das, como é de se supor, ele as obrigou a servirem com-
pletamente nuas aos mistérios de Diana, aos quais po-
rém jamais se assistiu a não ser com um véu. São Teodato,
que na verdade era taberneiro, sem por isso ser menos
fervoroso, pediu ardentemente a Deus para que fizesse

55
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

morrer essas santas filhas, temendo que sucumbissem à normas, pegou um transeunte e cortou-lhe o mesmo tan-
tentação. Deus lhe atendeu: o governador mandou que to de língua que havia cortado de São Romano, o que
fossem atiradas num lago com uma pedra no pescoço. fez o transeunte morrer na hora; pois, acrescenta sabia-
Logo elas apareceram a Teodato e rogaram-lhe não dei- mente o autor, a anatomia nos ensina que um homem
xar que seus corpos fossem comidos pelos peixes; estas sem língua não poderia viver. Em verdade, se Eusébio
foram suas próprias palavras. escreveu semelhantes asneiras, se não foram acrescenta-
O santo taberneiro e seus amigos foram durante a das a seus escritos, que confiabilidade pode ter sua His-
noite à beira do lago vigiado por soldados; uma tocha tória?
celeste marchou sempre à frente deles e, quando chega- O martírio de Santa Felicidade e de seus sete filhos,
ram no lugar onde estavam os guardas, um cavaleiro ce- condenados à morte, segundo se diz, pelo sábio e piedo-
leste, armado dos pés à cabeça, perseguiu esses guardas so Antonino, é-nos apresentado sem se indicar o autor
com a lança na mão. São Teodato retirou do lago os cor- do relato.
pos das virgens. Foi levado perante o governador, e o É bem provável que algum autor mais zeloso que
cavaleiro celeste não impediu que lhe cortassem a cabe- verdadeiro tenha querido imitar a história dos Macabeus.
ça. Não cessamos de repetir que veneramos os verdadei- É assim que começa o relato: "Santa Felicidade era roma-
ros mártires, mas que é difícil acreditar nessa história de na, vivia sob o reinado de Antonino." Tais palavras dei-
Bollandus e de Ruinart. xam claro que o autor não era contemporâneo de Santa
Será preciso contar aqui a história do jovem São Ro- Felicidade. Diz que o pretor a julgou em seu tribunal no
mano? Lançaram-no na fogueira, diz Eusébio, e judeus campo de Marte; mas o prefeito de Roma tinha seu tribu-
que estavam presentes insultaram Jesus Cristo que deixa- nal no Capitólio, e não no campo de Marte, que, após ter
va queimar seus confessores, quando Deus havia tirado servido para os comícios, servia então para desfiles de sol-
Sidrach, Misach e Abdênago da fornalha ardente 55 • Mal dados, corridas e jogos militares. Somente isso já denota
os judeus acabaram de falar, eis que São Romano sai a falsificação.
triunfante da fogueira. O imperador ordenou que o per- É dito ainda que, após o julgamento, o imperador
doassem e disse ao juiz que não queria complicações confiou a diferentes juízes a tarefa de fazer executar a sen-
com Deus. Estranhas palavras para Diocleciano! O juiz, tença, o que é inteiramente contrário a todas as formali-
apesar da indulgência do imperador, ordenou que cor- dades daqueles e de todos os tempos.
tassem a língua de São Romano e, embora tivesse carras- Há também um Santo Hipólito, que se supõe ter sido
cos, mandou que a operação fosse feita por um médico. arrastado por cavalos, como Hipólito, filho de Teseu.
O jovem Romano, nascido gago, falou com loquacidade Esse suplício jamais foi conhecido dos antigos romanos,
assim que teve a língua cortada. O médico foi repreendi- e a mera semelhança do nome levou a inventar-se essa
do e, para mostrar que a operação fora feita segundo as lenda.

56 57
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

Observe-se ainda que, nos relatos dos martírios, com- ou ministros do Evangelho, cujo único crime foi ter ora-
postos unicamente pelos próprios cristãos, vemos sem- do a Deus pelo rei em patoá e ter dado uma gota de vi-
pre uma multidão de cristãos vir livremente à prisão do nho e um pedaço de pão levedado a alguns camponeses
condenado, acompanhá-lo ao suplício, recolher seu san- imbecis. Nada se sabe disso em Paris, onde o prazer é a
gue, enterrar seu corpo, fazer milagres com as relíquias. única coisa importante, onde se ignora tudo o que se pas-
Se tivessem perseguido apenas a religião, não teriam sa na província e no estrangeiro. Tais processos fazem-se
imolado esses cristãos declarados que assistiam a seus ir- em uma hora, mais depressa do que um desertor é julga-
mãos condenados e que eram acusados de fazer encan- do. Se o rei tivesse conhecimento deles, perdoaria.
tamentos com os restos dos corpos martirizados? Não os Em nenhum país protestante os padres católicos são
teriam tratado como tratamos os valdenses, os albigen- tratados desse modo. Há mais de cem padres católicos
ses, os hussitas, as diferentes seitas dos protestantes? Nós na Inglaterra e na Irlanda; são conhecidos, deixaram-nos
os degolamos, os queimamos em massa, sem distinção viver tranqüilos na última guerra 57 •
de idade nem de sexo. Acaso existe, nos relatos compro-
Seremos sempre os últimos a abraçar as opiniões
vados das perseguições antigas, um único traço que se
sensatas das outras nações? Elas se corrigiram; e nós, quan-
aproxime da Noite de São Bartolomeu e dos massacres
do nos corrigiremos? Foram precisos sessenta anos para
da Irlanda? Há um único só que se assemelhe à festa
que adotássemos o que Newton havia demonstrad0 5B ;
anual ainda celebrada em Toulouse, festa cruel, festa que
mal começamos a ousar salvar a vida de nossos filhos
deveria ser abolida para sempre, na qual um povo intei-
ro agradece a Deus em procissão e felicita-se por ter mas- pela inoculaçã0 59 • Faz muito pouco tempo que pratica-
sacrado, há duzentos anos 56 , quatro mil de seus concida- mos os verdadeiros princípios da agricultura, quando co-
dãos? meçaremos a praticar os verdadeiros princípios da hu-
Digo-o com horror, mas com verdade: nós, cristãos, manidade? E com que cara podemos censurar os pagãos
é que fomos perseguidores, carrascos, assassinos! E de por terem feito mártires, quando temos sido culpados da
quem? De nossos irmãos. Nós é que destruímos cidades, mesma crueldade nas mesmas circunstâncias?
com o crucifixo ou a Bíblia na mão, e não cessamos de Admitamos que os romanos tenham feito morrer
derramar sangue e de acender fogueiras, desde os tem- uma multidão de cristãos apenas por causa de sua reli-
pos de Constantino até os furores dos canibais que habi- gião: nesse caso, os romanos foram muito condenáveis.
tavam as Cevenas, furores que, graças a Deus, não mais Gostaríamos de cometer a mesma injustiça? E quando os
subsistem hoje. censuramos por ter perseguido, gostaríamos de ser per-
Ainda enviamos, por vezes, ao patíbulo pobres coi- seguidores?
tados do Poitou, do Vivarais, de Valence, de Montauban. Se aparecesse alguém bastante desprovido de boa-
Enforcamos, desde 1745, oito dos chamados predicantes fé, ou bastante fanático, para perguntar-me aqui: Por que

58 59
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

vindes denunciar nossos erros e nossas faltas? Por que cometemos tantos crimes em seu nome, dignar-se-á a
destruir nossos falsos milagres e nossas falsas lendas? consolar-nos de tão horríveis infortúnios: pois, conside-
Elas são o alimento da piedade de várias pessoas. Há er- rando as guerras de religião, os quarenta cismas dos
ros necessários. Não arranqueis do corpo uma úlcera ar- papas, quase todos sangrentos; as imposturas, quase to-
raigada que arrastaria consigo a destruição do corpo; eis das funestas; os ódios irreconciliáveis acesos pelas dife-
o que eu lhe responderia: rentes opiniões; considerando todos os males que o fal-
Todos esses falsos milagres com os quais abalais a fé so zelo produziu, os homens há muito têm tido o seu in-
que devemos aos verdadeiros, todas essas lendas absur- ferno nesta vida.
das que acrescentais às verdades do Evangelho extin-
guem a religião nos corações; muitas pessoas que que-
rem instruir-se, e que não têm tempo de fazê-lo suficien-
temente, dizem: Os mestres de minha religião me enga-
naram, portanto não há religião; mais vale lançar-me nos
braços da natureza do que nos do erro; prefiro depender
da lei natural do que das invenções dos homens. Outros
têm a infelicidade de ir ainda mais longe: vêem que a im-
postura lhes pôs um freio, e não querem sequer o freio
da verdade, inclinam-se para o ateísmo, tornam-se de-
pravados porque outros foram velhacos e cruéis.
Eis aí certamente as conseqüências de todas as frau-
des piedosas e de todas as superstições. Os homens em
geral só raciocinam pela metade; é um péssimo argu-
mento afirmar: Voragine, o autor da Lenda dourada, e o
jesuíta Ribadaneira, compilador da Flor dos santos, só dis-
seram tolices, logo, não existe Deus; os católicos liquida-
ram um certo número de huguenotes, e os huguenotes,
por sua vez, assassinaram um certo número de católicos,
logo, não existe Deus; serviram-se da confissão, da co-
munhão, e de todos os sacramentos, para cometer os cri-
mes mais horríveis, logo, não existe Deus. Eu concluiria
afirmando o contrário: logo, existe um Deus que, após
esta vida passageira, na qual o desconhecemos tanto, e

60 61
CAPÍTULO XI

Abuso da intolerância

Mas como! Cada cidadão só deverá acreditar em sua


razão e pensar o que essa razão esclarecida ou engana-
da lhe ditar? Exatamente60 , contanto que ele não pertur-
be a ordem, pois nào depende do homem acreditar ou
não acreditar, mas depende dele respeitar os costumes
de sua pátria. E se dissésseis que é um crime não crer na
religião dominante, vós mesmos acusaríeis os primeiros
cristãos vossos pais e justificaríeis aqueles que acusais de
os ter entregue aos suplícios.
Respondeis que a diferença é grande, que todas as
religiões são obras dos homens e que apenas a Igreja ca-
tólica, apostólica e romana é obra de Deus. Mas, em boa-
fé, deverá nossa religião, por ser divina, reinar pelo ódio,
pelos furores, pelo exílio, pelo açambarcamento de bens,
as prisões, as torturas, os crimes, e pelas ações de graças
prestadas a Deus por esses crimes? Quanto mais divina a
religião cristã, tanto menos compete ao homem coman-
dá-la; se Deus a fez, Deus irá sustentá-la sem vós. Sabeis
que a intolerância só produz hipócritas ou rebeldes. Que
péssima alternativa! Enfim, gostaríeis que fosse mantida
por carrascos a religião de um Deus que carrascos fize-
ram perecer e que pregou tão-só a doçura e a paciência?

63
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

Rogo-vos que vejais as conseqüências terríveis do Duperron levou mais longe a disputa, e eu a abre-
direito da intolerância. Se fosse permitido despojar de vio. Aqui não é o lugar de aprofundar essas quimeras re-
seus bens, lançar no cárcere, matar um cidadão que, em voltantes. Limitar-me-ei a dizer, com todos os cidadãos,
certo grau de latitude, não professasse a religião estabe- que não é porque Henrique IV fora sagrado em Chartres
lecida, que exceção eximiria os mandatários do Estado que lhe devíamos obediência, mas porque o direito in-
das mesmas penas? A religião une igualmente o monar- contestável de nascimento dava a coroa a esse príncipe,
ca e os mendigos. Assim, mais de cinqüenta doutores ou que a merecia por sua coragem e por sua bondade.
monges afirmaram este horror monstruoso: que era per- Seja, pois, permitido afirmar que todo cidadão deve
mitido depor e matar os soberanos que não pensassem herdar, pelo mesmo direito, bens de seu pai, e que não
como a Igreja dominante. E os parlamentos do reino não se pense que ele mereça ser privado disso e arrastado à
cessaram de proscrever essas abomináveis decisões de forca, por ser da opinião de Ratram contra Paschase
abomináveis teólogos61 • Ratbert, e de Bérenger contra Duns Escoto.
O sangue de Henrique, o Grande, ainda não secara Sabe-se que nem todos os nossos dogmas foram cla-
quando o parlamento de Paris aprovou um decreto que ramente explicados e universalmente aceitos em nossa
estabelecia a independência da coroa como uma lei fun- Igreja. Não havendo Jesus Cristo nos dito como procedia
damental. O cardeal Duperron, que devia a púrpura a o Espírito Santo, a Igreja latina por muito tempo acredi-
Henrique, o Grande, insurgiu-se, nos estados-gerais de tou, com a grega, que procedia apenas do Pai: por fim
1614, contra o decreto do parlamento, e mandou supri- acrescentou que procedia também do Filho. Pergunto se,
mi-lo. Todos os jornais da época relatam os termos que após essa decisão, um cidadão que se apegasse ao sím-
Duperron utilizou em seu discurso: "Se um príncipe se bolo da véspera teria sido digno de morte. A crueldade,
fizesse ariano, seríamos obrigados a depô-lo." a injustiça seriam menores em punir hoje aquele que
Seguramente não, senhor cardeal. Queremos preci- pensasse como se pensava outrora? Era-se culpado, no
samente adotar vossa suposição quimérica de que um de tempo de Honório I, por acreditar que Jesus não tinha
nossos reis, tendo lido a história dos concílios e dos pa- duas vontades?
dres da Igreja, impressionado, aliás, pelas palavras Meu Não faz muito tempo que a imaculada conceição foi
pai é maior do que eu 62 , tomando-as ao pé da letra e osci- estabelecida; os dominicanos ainda não crêem nela. Em
lando entre o concílio de Nicéia e o de Constantinopla, se que momento os dominicanos começarão a merecer cas-
declarasse a favor de Eusébio de Nicomédia: mesmo assim tigos neste mundo e no outro?
eu obedeceria a meu rei, não me julgaria menos compe- Se devemos aprender com alguém como nos condu-
lido pelo juramento que lhe fiz; e se ousásseis erguer-vos zir em nossas disputas intermináveis, é certamente com
contra ele, e eu fosse um de vossos juízes, vos declararia os apóstolos e os evangelistas. Havia motivos para pro-
criminoso de lesa-majestade. vocar um cisma violento entre São Paulo e São Pedro.

64 65
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - T r a t a d o sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

Paulo diz expressamente em sua Epístola aos Gálatas 63 São Paulo, em sua Epístola a alguns judeus de Roma
que resistiu a Pedro porque este era repreensível, por- convertidos ao cristianismo, dedica todo o final do ter-
que usava de dissimulação assim como Barnabé, porque ceiro capítulo a dizer que só a fé glorifica e que as obras
ambos comiam com os gentios antes da chegada de Tia- não justificam ninguém. São Tiago, ao contrário, em sua
go e em seguida retiraram-se secretamente, e separaram- Epístola às doze tribos dispersas por toda a terra, capítu-
se dos gentios com receio de ofender os circuncisos. lo 11, não cessa de dizer que é impossível ser salvo sem
Acrescenta Paulo: "Quando, porém, vi que não proce- as obras. Aí está o que separou duas grandes comunhões
diam corretamente segundo a verdade do Evangelho, dis- entre nós 66 , mas o que não dividiu os apóstolos.
se a Cefas [Pedro] na presença de todos: Se, sendo tu ju- Se a perseguição contra aqueles com quem disputa-
deu, vives como gentio, e não como judeu, por que obri- mos fosse uma ação santa, cumpre admitir que o que
gas os gentios a viverem como judeus?" matasse o maior número de heréticos seria o maior santo
Esse era um tema de querela violenta. Tratava-se de do paraíso. Que figura faria um homem que tivesse se
saber se os novos cristãos se judaizariam ou não. O pró- contentado em despojar seus irmãos e em jogá-los no
prio São Paulo, nessa época, foi oferecer sacrifícios no cárcere, perto de outro, mais zeloso, que teria massacra-
templo de Jerusalém. Sabe-se que os quinze primeiros do centenas deles na Noite de São Bartolomeu? Eis aqui
bispos de Jerusalém foram judeus circuncisos, que ob- a prova.
servavam o sabá e abstinham-se das carnes proibidas. O sucessor de São Pedro e seu consistório não po-
Um bispo espanhol ou português que se fizesse circun- dem errar; eles aprovaram, celebraram, consagraram a
cidar e que observasse o sabá, seria queimado num auto- ação da Noite de São Bartolomeu; logo, esta ação era
de-fé. No entanto, a paz não foi perturbada, por causa muito santa; logo, de dois assassinos iguais em piedade,
dessa questão fundamental, nem entre os apóstolos, nem o que tivesse estripado vinte e quatro mulheres hugue-
entre os primeiros cristãos. notes grávidas deve ser glorificado em dobro em relação
Se os evangelistas se assemelhassem aos escritores ao que só tivesse estripado doze. Pela mesma razão, os
modernos, teriam um campo bem vasto para combater fanáticos das Ceve nas deviam pensar que seriam glorifi-
uns aos outros. São Mateus64 conta vinte e oito gerações cados na proporção do número de padres, religiosos e
de Davi a Jesus; São Lucas65 conta quarenta e uma, e es- mulheres católicas que tivessem liquidado. Estranhos tí-
sas gerações são absolutamente diferentes. Contudo, não tulos, esses, para a glória eterna.
se vê nenhuma dissensão surgir entre os discípulos so-
bre essas contradições aparentes, muito bem conciliadas
por vários padres da Igreja. A caridade não foi ferida, a
paz foi conservada. Que lição maior para tolerar-nos em
nossas disputas e sermos humildes em tudo o que não
entendemos!

66 67
CAPÍTULO XII

Se a intolerância foi de direito


divino no judaísmo e se
foi sempre posta em prática

Chamam direito divino, creio eu, os preceitos que


foram dados pelo próprio Deus. Ele quis que os judeus
comessem um cordeiro cozido com alfaces 67 e que os co-
mensais o fizessem de pé, com um bastão na mão68 , em
comemoração do Phasé69 ; ordenou que a consagração
do sumo sacerdote se fizesse pondo sangue7° em sua
orelha direita, em sua mão direita e em seu pé direito,
costumes extraordinários para nós, mas não para a Anti-
guidade; quis que sacrificassem o bode Hazazel pelas
iniqüidades do pov07\ proibiu que se alimentassemn de
peixes sem escamas, porcos, lebres, ouriços, corujas, ga-
viões, etc.
Instituiu as festas, as cerimônias. Todas essas coisas,
que pareciam arbitrárias às outras nações e submetidas
ao direito positivo, ao costume, tornavam-se, ao serem
ordenadas pelo próprio Deus, um direito divino para os
judeus, assim como tudo o que Jesus Cristo, filho de
Maria, filho de Deus, nos ordenou é de direito divino
para nós.
Não nos preocupemos aqui em saber por que Deus
impôs uma lei nova em substituição à que havia dado a
Moisés e por que havia ordenado a Moisés mais coisas

69
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

do que ao patriarca Abraão, e mais a Abraão do que a ção à festa dos tabernáculos, nenhuma oração pública
Noé7 3 • Parece que ele tem por bem adaptar-se às épocas estabelecida; enfim, a circuncisão, sinal da aliança de Deus
e à população do gênero humano: é uma gradação pa- com Abraão, não foi praticada.
terna. Mas tais abismos são demasiado profundos para Também citam a seu favor a história de Josué. Esse
nossa débil compreensão. Atenhamo-nos aos limites de conquistador diz aos judeus79 : "Escolhei hoje a quem sir-
nosso tema; vejamos em primeiro lugar o que era a into- vais: se aos deuses a quem serviram vossos pais, que es-
lerância entre os judeus. tavam dalém do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus,
É verdade que, no Êxodo, nos Números, no Levítico, em cuja terra habitais." O povo responde: "Não, antes
no Deuteronômio, há leis muito severas sobre o culto, e serviremos ao Senhor." Josué replicou: "Deitai, pois, ago-
castigos mais severos ainda. Vários comentadores têm ra, fora os deuses estranhos que há no meio de vós~"
dificuldade de conciliar as palavras de Moisés com as Portanto eles tinham incontestavelmente outros deuses
passagens de Jeremias e Amós, e com o célebre discurso além de Adonai no tempo de Moisés.
de Santo Estêvão, relatado nos Atos dos Apóstolos. Amós É inútil refutar aqui os críticos para os quais o Pen-
diz74 que os judeus, no deserto, sempre adoraram Molo- tateuco não foi escrito por Moisés. Tudo já foi dito há
que, Renfã e Quium. Jeremias diz expressamente7 s que tempos sobre essa questão e, ainda que uma pequena
Deus não pediu nenhum sacrifício a seus pais quando parte dos livros de Moisés tivesse sido escrita no tempo
saíram do Egito. Santo Estêvão, em seu discurso aos ju- dos juízes ou dos pontífices, eles não seriam menos ins-
deus, exprime-se assim: "Mas Deus se afastou e os entre- pirados e menos divinos.
gou ao culto da milícia celestiaF6 ... Ó casa de Israel, por- Basta, parece-me, estar provado pela Sagrada Escri-
ventura me oferecestes vítimas e sacrifícios no deserto tura que, apesar da extraordinária punição que atraíram
pelo espaço de quarenta anos, e acaso não levantastes o devido ao culto de Ápis, os judeus conservaram por
tabernáculo de Moloque e a estrela do deus Renfã, figu- muito tempo uma completa liberdade. É possível até que
ras que fizestes para as adorar?" o massacre de vinte e três mil homens provocado por
Do culto de tantos deuses estrangeiros, outros críti- Moisés por causa do bezerro erigido por seu irmão, o te-
cos inferem que esses deuses foram tolerados por Moi- nha feito compreender que nada se ganhava com o ri-
sés e citam como prova as seguintes palavras do Deu- gor, obrigando-o a fechar os olhos sobre a paixão do
teronômio 77 : "Não procedereis em nada segundo esta- povo pelos deuses estrangeiros.
mos fazendo aqui, cada qual o que bem parece aos seus O próprio Moisés80 parece em seguida transgredir a
0Ihos."78 lei que ditou. Proibiu todo simulacro, não obstante erigiu
Apóiam sua opinião no fato de não ser mencionado uma serpente de bronze. A mesma exceção à lei verifica-
nenhum ato religioso do povo no deserto: nenhuma ce- se depois no templo de Salomão: esse príncipe manda
lebração da Páscoa, nem de Pentecostes, nenhuma men- esculpir 81 doze bois que sustentam a grande nave do

70 71
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

templo; querubins são colocados na arca; têm uma cabe- e duas meninas foram imoladas ao Senhor: Cesserunt in
ça de águia e outra de bezerro; e foi aparentemente essa partem Domini triginta duae animae. 91
cabeça de bezerro mal-feita, encontrada no templo por Na verdade, os judeus imolavam homens à divinda-
soldados romanos, que fez pensar por muito tempo que de. Testemunham-no os sacrifícios de Jefté92 e do rei
os judeus adoravam um asno. Agag93 , cortado em pedaços pelo sacerdote Samuel. O
Em vão o culto dos deuses estrangeiros foi proibido. próprio Ezequiel promete-Ihes94 , para encorajá-los, que
Salomão é pacificamente idólatra. Jeroboão, a quem Deus comerão carne humana: "Vós vos fartareis de cavalos e de
concedeu dez partes do rein0 82 , manda erigir dois bezer- cavaleiros; bebereis o sangue dos príncipes." Vários co-
ros de ouro e reina por vinte e dois anos, reunindo em mentadores aplicam dois versículos dessa profecia aos
sua pessoa as dignidades de monarca e pontífice. O pe- próprios judeus, e os demais aos animais carnívoros. Não
queno reino de Judá ergue, sob Roboã0 83 , altares e está- se encontra, em toda a história desse povo, nenhum tra-
tuas a deuses estrangeiros. O santo rei Asa não destrói os ço de generosidade, de magnanimidade, de beneficên-
altos 84 • O grande sacerdote Urias erige no templo, em cia; mas sempre escapam, na nuvem dessa barbárie tão
lugar do altar dos holocaustos, um altar do rei da Síria8s • longa e tão terrível, raios de uma tolerância universal.
Não se vê, em uma palavra, nenhuma coerção sobre a Jefté, inspirado por Deus, e que lhe imolou sua filha, diz
religião. Sei que a maior parte dos reis judeus extermina- aos amonitas 9s : "Não é certo que aquilo que Camos, teu
ram-se, assassinaram-se uns aos outros; mas isso foi sem- deus, te dá, consideras como tua possessão? Assim pos-
pre por causa de seus interesses, e não de suas crenças. suiremos nós o território de todos quantos o Senhor nos-
É verdade que, entre os profetas86 , houve aqueles so Deus expulsou de diante de nós." Essa declaração é
que invocaram o céu em sua vingança: Elias fez descer o precisa: pode levar muito longe; mas, ao menos, é uma
fogo celeste para consumir os sacerdotes de Baal; Eliseu prova evidente de que Deus tolerava Camos. Pois a Sa-
mandou vir ursas87 para devorarem quarenta e duas crian- grada Escritura não diz: julgais ter direito sobre as terras
ças que o haviam chamado de careca. Mas são milagres que dizeis vos terem sido dadas pelo deus Camos. Mas
raros, e fatos que seria um pouco duro querer imitar. diz, positivamente: "Tendes direito, tibi jure debentur", o
Objetam-nos, ainda, que o povo judeu foi muito que é o verdadeiro sentido das palavras hebraicas otho
ignorante e muito bárbaro. É dito 88 que, na guerra contra thirasch.
os madianitas89 , Moisés ordenou que fossem mortas to- A história de Mica e do levita, relatada nos capítulos
das as crianças do sexo masculino e todas as mães, e que XVII e XVIII do livro dos Juízes, é também uma prova
os despojos fossem partilhados. Os vencedores encon- incontestável da tolerância e da maior liberdade admiti-
traram no camp090 675 mil ovelhas, 72 mil bois, 61 mil da então entre os judeus. A mãe de Mica, esposa muito
burros e 32 mil meninas; fizeram a partilha e mataram o rica de Efraim, havia perdido mil e cem peças de prata;
resto. Vários comentadores afirmam inclusive que trinta seu filho lhas devolveu; ela consagrou essa prata ao

72 73
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

Senhor e mandou fazer ídolos com ela; construiu uma dade de ratos a seus campos; mas, quando os filisteus,
pequena capela. Um levita encarregou-se do serviço da para abrandar sua cólera, devolveram a arca puxada por
capela, mediante dez peças de prata, uma túnica, um duas vacas que nutriam seus bezerros e ofereceram a
manto por ano e sua alimentação. E Mica disse consigo Deus cinco ratos de ouro e cinco asnos de ouro, o Se-
mesmo96 ; "Sei agora que o Senhor me fará bem, por- nhor fez morrer setenta anciãos de Israel e cinqüenta mil
quanto tenho um levita por sacerdote." homens do povo por terem olhado a arca. Respondemos
Nesse ínterim, seiscentos homens da tribo de Dã, que o castigo do Senhor não incide sobre uma crença,
que buscavam apoderar-se de alguma aldeia da região e sobre uma diferença no culto, nem sobre uma idolatria.
nela estabelecer-se, mas não tendo sacerdote levita con- Se o Senhor tivesse querido punir a idolatria, teria
sigo e necessitando de um para que Deus favorecesse feito perecer todos os filisteus que ousaram tomar sua
sua empresa, foram à casa de Mica e tomaram seu éfode, arca e que adoravam Dagon; mas fez perecer cinqüenta
seus ídolos e seu levita, apesar dos protestos desse sa- mil e setenta homens de seu povo, unicamente porque
cerdote e apesar dos gritos de Mica e sua mãe. Foram, haviam olhado a arca, que não deviam olhar. Assim, as
leis, os costumes dessa época, a economia judaica dife-
então, com segurança atacar a aldeia chamada Laís e ali
rem de tudo o que conhecemos; assim, também, os ca-
espalharam fogo e sangue por tudo, como era seu costu-
minhos inescrutáveis de Deus encontram-se acima dos
me. Deram o nome de Dã a Laís, em memória de sua vi-
nossos. "O rigor exercido contra esse grande número de
tória; colocaram o ídolo de Mica num altar. E, o que mais
homens, diz o judicioso dom Calmet, só parecerá exces-
chama a atenção, ]ônatas, neto de Moisés, foi o grande
sivo aos que não compreenderam até que ponto Deus
sacerdote desse templo, onde era adorado o Deus de queria ser temido e respeitado entre seu povo e que jul-
Israel e o ídolo de Mica. gam os propósitos e os desígnios de Deus apenas segun-
Após a morte de Gedeão, os hebreus adoraram Baal- do as fracas luzes de sua razão."
Berite durante cerca de vinte anos e renunciaram ao cul- Portanto, Deus não pune um culto estrangeiro, mas
to de Adonai, sem que nenhum chefe, nenhum juiz, ne- uma profanação do seu, uma curiosidade indiscreta, uma
nhum sacerdote clamasse por vingança. Seu crime era desobediência, talvez até um espírito de revolta. Perce-
grande, reconheço-o; mas se mesmo essa idolatria foi be-se bem que tais castigos só competem a Deus na teo-
tolerada, como devem tê-lo sido as diferenças no verda- cracia judaica. Nunca é demais repetir que esses tempos
deiro culto! e costumes não têm nenhuma relação com os nossos.
Alguns dão como prova de intolerância que o pró- Enfim, quando, nos séculos posteriores, Naamã, o
prio Senhor, tendo permitido que sua arca fosse tomada idólatra, pergunta a Eliseu se teria permissão de seguir
pelos filisteus num combate, puniu estes últimos apenas seu rei 97 no templo de Rimon e ali adorar com ele, esse
com uma doença secreta parecida com hemorróidas, der- mesmo Eliseu, que havia feito as crianças serem devora-
rubando a estátua de Dagon e enviando grande quanti- das pelas ursas, não lhe responde: Vai em paz?

74 75
Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

Há mais ainda: o Senhor ordenou a Jeremias que pu- Deus!O! não favorece menos Kir, Koresch, ou Kosroes,
sesse cordas no pescoço, cabrestos 98 e cangas, e os que nós chamamos Ciro; chama-o seu cristo, seu ungido,
enviasse aos reizinhos, ou melchim, de Moabe , Amom , embora ele não fosse ungido, segundo a significação co-
Edom, Tiro e Sidom; e Jeremias transmitiu-lhes estas pa- mum dessa palavra, e seguisse a religião de Zoroastro;
lavras do Senhor: "Agora eu entregarei todas estas terras chama-o seu pastor, embora fosse usurpador aos olhos
ao poder de Nabucodonosor, rei de Babilônia, meu ser- dos homens. Não há, em toda a Sagrada Escritura, um si-
VO."99 Eis aí um rei idólatra declarado servidor de Deus e nal maior de predileção.
seu favorito. Lemos em Malaquias lO2 que "desde o nascente do sol
O mesmo Jeremias, que o melk ou régulo judeu Se- até ao poente é grande entre as nações o meu nome [de
decias havia mandado encarcerar, tendo obtido deste o Deus); e em todo lugar lhe é queimado incenso e trazi-
das ofertas puras". Deus preocupa-se tanto com os nini-
perdão, aconselha-o, da parte de Deus, a entregar-se ao
rei da Babilônia!oo: "Se te renderes voluntariamente aos vitas idólatras como com os judeus; ele os ameaça, e os
perdoa. Melquisedeque, que não era judeu, foi sacrifi-
príncipes do rei de Babilônia, então viverá tua alma."
cante de Deus. Balaão, idólatra, era profeta. A Escritura
Deus, portanto, toma enfim o partido de um rei idólatra;
nos ensina, portanto, que Deus não somente tolerava
entrega-lhe a arca, cuja mera visão havia custado a vida
todos os outros povos, como tinha por eles um cuidado
de cinqüenta mil e setenta judeus; entrega-lhe o Taber-
paterno. E nós ousamos ser intolerantes!
náculo e o resto do templo, cuja construção havia custa-
do cento e oito mil talentos de ouro, um milhão e dezes-
sete mil talentos de prata e dez mil dracmas de ouro, dei-
xados por Davi e seus ministros para a construção da
casa do Senhor; o que, sem contar os denários emprega-
dos por Salomão, eleva a quantia a aproximadamente
dezenove bilhões e sessenta e dois milhões nos valores
da época. Idolatria nenhuma foi melhor recompensada.
Sei que essa conta é exagerada, que houve provavel-
mente erro de copista; mas reduzi a soma pela metade,
à quarta parte, à oitava inclusive, ela ainda vos espanta-
rá. Não menos surpreendentes são as riquezas que He-
ródoto diz ter visto no templo de Éfeso. Mas, enfim, os
tesouros não são nada aos olhos de Deus, e o nome de
seu servidor, dado a Nabucodonosor, é o verdadeiro te-
souro inestimável.

76 77
CAPÍTULO XIII

Extrema tolerância dos judeus

Portanto, sob Moisés, sob os juízes, sob os reis, ve-


mos sempre exemplos de tolerância. Há muitos outros103:
Moisés diz várias vezes que "Deus pune os pais nos fi-
lhos até a quarta geração"; essa ameaça era necessária a
um povo a quem Deus não havia revelado a imortalida-
de da alma, nem os castigos e recompensas numa outra
vida. Essas verdades não lhe foram anunciadas nem no
Decálogo, nem em alguma lei do Levítico e do Deu-
teronômio. Eram os dogmas dos persas, dos babilônios,
dos gregos, dos cretenses; mas não constituíam de modo
algum a religião dos judeus. Moisés não diz: "Honra teu
pai e tua mãe, se queres ir ao céu", mas: "Honra a teu pai
e a tua mãe ... para que se prolonguem os teus dias."I04
Ele só os ameaça com males corporais lOS, com a sarna se-
ca, a sarna purulenta, úlceras malignas nos joelhos e na
barriga da perna, com serem expostos às infidelidades
de suas mulheres, tomarem empréstimo a juros dos es-
trangeiros e não poderem emprestar a juros; com morre-
rem de fome e serem obrigados a comer seus filhos; mas
em lugar nenhum lhes diz que suas almas imortais sofre-
rão tormentos após a morte, ou gozarão da felicidade.
Deus, que conduzia pessoalmente seu povo, punia-o e

79
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

recompensava-o imediatamente após suas boas ou más perecia conosco, como a força ativa, a capacidade de an-
ações. Tudo era temporal, e esta é uma verdade que War- dar e de digerir. Eles negavam a existência dos anjos. Di-
burton usa indevidamente para provar que a lei dos ju- vergiam muito mais dos outros judeus do que os protes-
deus era divina 106 , porque, sendo o próprio Deus seu rei, tantes divergem dos católicos; não obstante, permanece-
fazendo justiça imediatamente após a transgressão ou a ram na comunidade de seus irmãos. Houve inclusive su-
obediência, não havia necessidade de lhes revelar uma mos sacerdotes de sua seita.
doutrina que reservava para o momento em que não go- Os fariseus acreditavam na fatalidade 1l1 e na metem-
vernasse mais seu povo. Os que, por ignorância, preten- psicose ll2 . Os essênios pensavam que as almas dos justos
dem que Moisés ensinava a imortalidade da alma, reti- iam para as ilhas afortunadas ll3 e as dos maus, para uma
ram do Novo Testamento uma de suas maiores vanta- espécie de Tártaro. Não faziam sacrifícios; reuniam-se
gens sobre o Antigo. Está escrito que a lei de Moisés entre si numa sinagoga particular. Em uma palavra, se
anunciava apenas castigos corporais até a quarta gera- quisermos examinar mais de perto o judaísmo, ficaremos
ção. No entanto, apesar do enunciado preciso dessa lei, espantados de encontrar a maior tolerância em meio aos
apesar da declaração expressa de Deus de que puniria horrores mais bárbaros. É uma contradição, é verdade;
até a quarta geração, Ezequiel anuncia exatamente o mas quase todos os povos foram governados por contra-
dições. Feliz aquela que produz costumes suaves quan-
contrário aos judeus e lhes diz 107 que o filho não carrega-
rá a iniqüidade de seu pai; chega até a fazer Deus dizer do se tem leis de sangue!
que lhes havia dado 108 "estatutos que não eram bons"I09.
Mesmo assim, o livro de Ezequiel foi incluído no d-
none dos autores inspirados por Deus. É verdade que a
sinagoga não permitia sua leitura antes da idade de trin-
ta anos, como nos informa São Jerônimo; mas era por
receio de que a juventude abusasse das descrições muito
ingênuas da libertinagem das duas irmãs Oolá e Oolibá,
que se encontram nos capítulos XVI e XXIII. Em uma pa-
lavra, seu livro foi sempre aceito, apesar da contradição
formal com Moisés.
Enfimllo, quando a imortalidade da alma foi um dog-
ma aceito, o que provavelmente começara já no tempo
do cativeiro da Babilônia, a seita dos saduceus continuou
acreditando que não havia castigos nem recompensas
após a morte e que a faculdade de sentir e de pensar

80 81
CAPÍTULO XIV

Se a intolerância foi ensinada


porJesus Cristo

Vejamos agora se Jesus Cristo estabeleceu leis san-


guinárias, se ordenou a intolerância, se mandou cons-
truir os cárceres da Inquisição, se instituiu os carrascos
dos autos-de-fé.
Há, se não me engano, poucas passagens nos Evan-
gelhos a partir das quais o espírito perseguidor pudesse
inferir que a intolerância, a coerção, são legítimas. Uma
é a parábola em que o reino dos céus é comparado a um
rei que chama os convidados às bodas de seu filho;
manda-lhes dizer através de seus servidores 114 : "Os meus
bois e cevados já foram abatidos, e tudo está pronto; vin-
de para as bodas." Uns, sem se importarem com o con-
vite, saem para suas casas de campo, outros para seus
negócios; alguns ultrajam os servidores do rei, e os ma-
tam. O rei envia seus exércitos contra esses assassinos e
destrói sua cidade; ordena que seus servidores saiam pe-
las estradas a convidar ao banquete todos os que encon-
trarem. Um desses, estando à mesa sem a veste nupcial,
é manietado e lançado nas trevas exteriores.
Como essa alegoria refere-se apenas ao reino dos
céus, é evidente que não autoriza a nenhum homem o
direito de manietar e jogar no cárcere o vizinho que teria

83
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

vindo comer em sua casa sem a veste nupcial adequada, Tomando as coisas ao pé da letra, seria preciso ser
e não conheço na história príncipe nenhum que tenha cego, aleijado e conduzido à força, para estar no seio da
mandado enforcar um cortesão por tal motivo. Tampou- Igreja? Jesus diz na mesma parábola 1l7 : "Não convides os
co há que temer, quando o imperador, após matar seus teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem
cevados, envia seus pajens aos príncipes do império con- vizinhos ricos." E por acaso alguma vez se inferiu daí
vidando-os a cear, que esses príncipes matem os pajens. que não se devesse de fato jantar com seus parentes e
O convite ao banquete significa a pregação da salvação; amigos tão logo tenham um pouco de fortuna?
o assassinato dos enviados do rei simboliza a persegui- Jesus Cristo, após a parábola do banquete, diz 1l8 : "Se
ção contra os que pregam a sabedoria e a virtude. alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e
A outra 115 parábola é a de um homem que convida mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda sua própria
seus amigos para uma grande ceia e, estando tudo pre- vida, não pode ser meu discípulo ... Qual de vós, preten-
parado, manda seu servo chamá-los. Um desculpa-se di- dendo construir uma torre, não se assenta primeiro para
zendo que comprou uma terra e que precisa vê-la: essa calcular a despesa?" Há alguém no mundo tão desnatu-
desculpa não parece justificada, pois não é à noite que rado para concluir que se deve odiar seu pai e sua mãe?
se vai inspecionar sua terra; outro diz que comprou E não é fácil compreender que tais palavras significam:
cinco juntas de bois e que deve experimentá-las; um ter- Não oscilai entre mim e tuas afeições mais caras?
ceiro responde que acaba de se casar e seguramente sua Citam a passagem de São Mateus 1l9 : "E se recusar
desculpa é admissível. O pai de família, irado, manda vir também ouvir a Igreja, considera-o como gentio e publi-
a seu banquete os cegos e os aleijados, e, vendo que ain- cano." Isso não diz absolutamente que se deva perseguir
da sobram lugares, diz a seu criado 1l6: "Sai pelos cami- os pagãos e os coletores de impostos do rei: eles são
nhos e atalhos, e obriga todos a entrar." amaldiçoados, é verdade, mas não entregues ao braço
É verdade que não é dito expressamente que esta secular. Longe de retirar desses coletores de impostos
parábola seja um símbolo do reino dos .céus. Abusaram qualquer prerrogativa de cidadão, foram-lhes dados os
demais destas palavras: obriga-os a entrar. Mas é evi- maiores privilégios; é a única profissão condenada na
dente que um só criado não pode obrigar à força quem Escritura, e a mais favorecida pelos governos. Portanto,
ele encontra para vir cear na casa de seu senhor, e , ade- por que não teríamos por nossos irmãos errantes uma
mais, convivas assim forçados não tornariam a ceia mui- indulgência equivalente à consideração prodigalizada a
to agradável. Obriga-os a entrar não quer dizer outra nossos irmãos coletores de impostos?
coisa, segundo os comentadores mais autorizados, se- Uma outra passagem de que se abusou grosseira-
não: roga, suplica, insiste, esforça-te ao máximo. Qual a mente é a de São Mateus 120 e de São Marcos l2l , onde é dito
relação, vos pergunto, dessa súplica e dessa ceia com a que Jesus, tendo fome de manhã, aproximou-se de uma
perseguição? figueira na qual encontrou apenas folhas, pois não era

84 85
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

época dos figos: ele amaldiçoa a figueira, que seca em é o samaritano caridoso 12\ o próprio Jesus justifica seus
seguida. discípulos por não jejuarem125 ; perdoa a pecadora 126 ; con-
São dadas várias explicações diferentes desse mila- tenta-se em recomendar fidelidade à mulher adúltera 127;
gre; mas há uma só que possa autorizar a perseguição? condescende inclusive à inocente alegria dos convivas
Uma figueira não pôde dar figos no começo de março e das bodas de Caná 12B que, estando já afogueados de vi-
foi tornada seca: será uma razão para fazer secar nossos nho, pedem ainda mais: consente em fazer um milagre
irmãos de dor em todas as épocas do ano? Respeitemos em favor deles, transformando água em vinho.
na Escritura tudo o que pode fazer surgir dificuldades em Não se enfurece sequer contra Judas, que deve traí-
nossos espíritos curiosos e vãos, mas não abusemos dis- lo; ordena a Pedro jamais servir-se da espada 129 ; repreen-
so para sermos duros e implacáveis. de 130 os filhos de Zebedeu que, a exemplo de Elias, que-
O espírito perseguidor, que abusa de tudo, busca ain- riam fazer descer o fogo do céu sobre uma cidade que
da sua justificativa na expulsão dos mercadores do tem- não quisera acolhê-lo.
plo e na legião de demônios enviada do corpo de um Enfim, morre vítima da inveja. Se ousarmos compa-
possuído ao corpo de dois mil animais imundos. Mas rar o sagrado com o profano, e um Deus com um ho-
quem não vê que esses dois exemplos são apenas uma mem, sua morte, humanamente falando, tem muita se-
justiça feita pelo próprio Deus a uma contravenção da melhança com a de Sócrates. O filósofo grego perece
lei? Era uma falta de respeito à casa do Senhor transfor- pelo ódio dos sofistas, dos sacerdotes e dos mandatários
mar seu adro numa loja de mercadores. Em vão o siné- do povo: o legislador dos cristãos sucumbe sob o ódio
drio e os sacerdotes permitiam esse comércio para a co- dos escribas, dos fariseus e dos sacerdotes. Sócrates po-
modidade dos sacrifícios: o Deus a quem sacrificavam dia evitar a morte, e não o quis; Jesus Cristo ofereceu-se
podia certamente, embora oculto sob a figura humana, voluntariamente. O filósofo grego não apenas perdoou
destruir essa profanação; podia do mesmo modo punir seus caluniadores e seus juízes iníquos, como pediu-lhes
aqueles que introduziam no país rebanhos inteiros proi- que tratassem seus filhos da mesma forma, se estes fos-
bidos por uma lei que ele próprio havia estabelecido. sem um dia suficientemente felizes para merecer seu ódio
Tais exemplos nada têm a ver com perseguições relativas como ele; o legislador dos cristãos, infinitamente supe-
ao dogma. O espírito de intolerância deve estar apoiado rior, pediu a seu pai que perdoasse seus inimigos l3l •
em razões muito más, já que por toda parte busca os Se Jesus Cristo pareceu temer a morte, se a angústia
menores pretextos. que sentiu foi tão extrema que chegou a suar sangue 132 ,
Praticamente o restante das palavras e ações de Je- o que é o sintoma mais violento e mais raro, foi porque
sus Cristo prega a doçura, a paciência, a indulgência. É o dignou-se aceitar toda a fraqueza do corpo humano, que
pai de família que acolhe o filho pródigo 122 ; é o operário havia assumido. Seu corpo tremia e sua alma era inaba-
que vem na última hora 123 e que é pago como os demais; lável; ele nos ensinava que a verdadeira força, a verda-

86 87
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ - - - - - Tratado sobre a tolerância - - - - - - - -

deira grandeza consistem em suportar males sob os quais e reedificá-Io em três dias". Tal discurso era incompreen-
nossa natureza sucumbe. Há uma extrema coragem em sível para os judeus materialistas; mas não era uma acu-
dirigir-se à morte temendo-a. sação de querer fundar uma nova seita.
Sócrates havia chamado os sofistas de ignorantes e O sumo sacerdote o interrogou e disse-Ihe 136 : "Eu te
acusara-os de que tinham má-fé; Jesus, usando de seus conjuro pelo Deus vivo que nos diga se és o Cristo, o
direitos divinos, chamou os escribas 133 e os fariseus de hi- Filho de Deus." Não nos informam o que o sumo sacer-
pócritas, insensatos, cegos, maldosos, serpentes, raça de dote entendia por filho de Deus. Algumas vezes essa ex-
víboras. pressão era utilizada para designar um justo137 , assim
Sócrates não foi acusado de querer fundar uma nova como empregavam-se as palavras filho de Belial para sig-
seita; também não acusaram Jesus Cristo de ter querido nificar um homem mau. Os judeus grosseiros não tinham
introduzir uma 134. É dito que os príncipes dos sacerdotes a menor idéia do mistério sagrado de um filho de Deus,
e todo o conselho buscavam um falso testemunho con- ele próprio Deus, descendo à terra.
tra Jesus para fazê-lo perecer. Jesus responde-lhe 138 : "Tu o disseste; entretanto, eu
Ora, se buscavam um falso testemunho, logo não o vos declaro que desde agora vereis o Filho do homem
censuravam de haver pregado publicamente contra a assentado à direita do Todo-Poderoso, e vindo sobre as
lei. De fato, Jesus submeteu-se à lei de Moisés desde sua nuvens do céu."
infância até sua morte. Circuncidaram-no no oitavo dia , Essa resposta foi considerada uma blasfêmia pelo
como todas as outras crianças. Se, depois, foi batizado sinédrio irritado. Como este não tinha o direito de justi-
no Jordão, tratava-se de uma cerimônia consagrada en- çar, Jesus foi levado ao governador romano da província
tre os judeus, como entre todos os povos do Oriente. e acusado caluniosamente de ser um perturbador da or-
Todas as máculas legais limpavam-se pelo batismo. Era dem pública, que dizia não ser preciso pagar o tributo a
assim a consagração dos sacerdotes: mergulhavam-nos César e que, além do mais, se dizia rei dos judeus. É da
na água na festa de expiação solene, batizavam-se os maior evidência, portanto, que foi acusado de um crime
prosélitos. de Estado.
Jesus observou todos os pontos da lei: festejou todos O governador Pilatos, sabendo que ele era galileu,
os dias de sabá; absteve-se das carnes proibidas; celebrou primeiro o enviou a Herodes, tetrarca da Galiléia. Hero-
todas as festas e, inclusive, antes de sua morte, havia des julgou impossível que Jesus pudesse aspirar a ser
celebrado a Páscoa; não o acusaram de nenhuma opinião chefe de partido e pretender a realeza; tratou-o com des-
nova, nem de haver observado algum rito estranho. Nas- prezo e mandou-o de volta a Pilatos, que teve a indigna
cido israelita, viveu constantemente como israelita. fraqueza de condená-lo para apaziguar o tumulto excita-
Duas testemunhas que se apresentaram o acusaram do contra si próprio, tanto mais que já havia enfrentado
de haver dito 135 que poderia "destruir o santuário de Deus uma revolta dos judeus, pelo que nos conta Josefo. Pila-

88 89
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __

tos não teve a mesma generosidade manifestada depois CAPÍTULO xv


pelo governador Festo 139.
Pergunto, agora, se é a tolerância ou a intolerância
que é de direito divino? Se quereis vos assemelhar a Je-
Testemunhos contra a intolerância
sus Cristo, sede mártires e não carrascos.

É um sacrilégio tirar, em matéria de religião, a liber-


dade aos homens, impedir que escolham uma divinda-
de: nenhum homem, nenhum deus gostaria de um servi-
ço forçado. (Tertuliano, Apologética, capo XXIV.)
Se usassem de violência para a defesa da fé, os bis-
pos se oporiam a ela. (Santo Hilário, liv. I.)
A religião forçada não é mais religião; é preciso per-
suadir, e não coagir. A religião não se impõe. (Lactâncio,
liv. 111.)
É uma execrável heresia querer atrair pela força, à
base de pancadas e encarceramento, os que não pude-
ram ser convencidos pela razão. (Santo Atanásio, liv. I.)
Nada é mais contrário à religião do que a coerção.
(São Justino, mártir, liv. V)
Haveremos de perseguir aqueles que Deus tolera?,
indaga Santo Agostinho, antes que sua querela com os
donatistas o tornasse demasiado severo.
Que nenhuma violência seja praticada contra os ju-
deus. (Quarto concílio de Toledo, qüinquagésimo-sexto
cânone.)
Aconselhai, e não forçai. (Carta de São Bernardo.)
Não pretendemos destruir os erros pela violência.
(Discurso do clero da França a Luís XIII.)

90 91
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

Sempre desaprovamos as vias de rigor. (Assembléia Se o céu vos amou o bastante para vos fazer ver a ver-
do clero, 11 de agosto de 1560.) dade, ele vos proporcionou uma grande graça; mas cabe
Sabemos que a fé se persuade e não se impõe. (Flé- aos fllhos que têm a herança do pai odiar os que não a
chier, bispo de Ní'mes, carta 19.) tiveram? (Montesquieu, O espírito das leis, liv. XX\fl40.)
Não devemos sequer empregar termos insultantes. Poderíamos fazer um livro enorme, composto ape-
(Bispo Ou Bellai, numa Instrução pastoral.) nas de semelhantes passagens. Nossas histórias, nossos
Lembrai-vos que as doenças da alma não se curam discursos, nossos sermões, nossas publicações de moral,
pela coerção e pela violência. (Cardeal Le Camus, Instru- nossos catecismos, respiram todos, ensinam todos atual-
ção pastoral de 1688.) mente esse dever sagrado de indulgência. Por qual fata-
A cobrança forçada de uma religião é uma prova lidade, por qual inconseqüência desmentiríamos na pfá-
evidente de que o espírito que a conduz é um espírito tica uma teoria que anunciamos todos os dias? Quando
inimigo da verdade. (Oirois, doutor da Sorbonne, liv. VI, nossos atos desmentem nossa moral, é que acreditamos
capo iv.) haver alguma vantagem em fazer o contrário do que en-
A violência é capaz de gerar hipócritas; não se per- sinamos; mas certamente não há vantagem alguma em
suade quando por toda parte se fazem ressoar ameaças. perseguir os que não são de nossa opinião e em fazer-
(Tillemont, História eclesiástica, tomo VI.) nos odiar por isso. Há, portanto, mais uma vez, absurdo
Pareceu-nos conforme à eqüidade e à correta razão na intolerância. Mas, dirão, os que têm interesse em ator-
seguir o exemplo da antiga Igreja, que jamais usou de mentar as consciências não são absurdos. É a esses que
violência para estabelecer e expandir a religião. (Adver- se destina o capítulo seguinte.
tência do parlamento de Paris a Henrique lI.)
A experiência nos ensina que a violência é mais ca-
paz de irritar do que de curar um mal que tem sua raiz
no espírito, etc. (Oe Thou, Epístola dedicatória a Henri-
que IV)
A fé não se incute a golpes de espada. (Cerisiers, So-
bre os reinados de Henrique IVe Luís XIIL)
É um zelo bárbaro pretender plantar a religião nos
corações, como se a persuasão pudesse ser o efeito da
coerção. (Boulainvilliers, Estado da França.)
Com a religião ocorre o mesmo que com o amor: a
imposição nada consegue, a coerção muito menos; não há
nada mais independente do que amar e crer. (Amelot de la
Houssaie, a propósito das Cartas do cardeal d'Ossat.)

92 93
CAPÍTULO XVI

Diálogo entre um moribundo


e um homem saudável

Um cidadão estava agonizando numa cidade da pro-


víncia; um homem em bom estado de saúde veio insul-
tá-lo em seus últimos momentos, dizendo-lhe:

O bárbaro

Miserável! pensa como eu imediatamente: assina es-


te papel, confessa que cinco proposições encontram-se
num livro que nem tu nem eu jamais lemosl41 ; admite já
a opinião de Lanfranc contra Bérenger, de Santo Tomás
contra São Boaventura; adota o segundo concílio de
Nicéia contra o concílio de Frankfurt; explica-me agora
mesmo de que maneira estas palavras: "Meu pai é maior
do que eu"142 significam expressamente: "Sou tão grande
quanto ele."

Omorlbundo

Mal escuto o que me dizes; as ameaças que me fazes


chegam confusamente aos meus ouvidos, perturbam mi-
nha alma, tornam minha morte medonha. Pelo amor de
Deus, tem piedade de mim.

9S
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

O bárbaro O moribundo

Piedade! não posso tê-la se não fores da minha opi- Ai! desprezas a Deus ou não o reconheces, já que me
nião em tudo. pedes uma mentira na hora da morte, tu que em breve
serás julgado por ele e responderás por essa mentira.
Omorlbundo
O bárbaro

Ai! percebe que nestes últimos momentos todos os o que dizes, insolente! Que não reconheço Deus?
meus sentidos estão abalados, todas as portas do meu
entendimento fechadas, minhas idéias fogem, meu pen- O moribundo
samento extingue-se. Tenho condições de discutir?
Perdão, meu irmão, receio que não o conheças. Aque-
O bárbaro le que eu adoro reanima neste momento minhas forças
para dizer-te com uma voz moribunda que, se acreditas
Pois bem, se não podes crer o que quero, diz que em Deus, deves ter caridade para comigo. Ele me deu
crês, e isso me basta. minha mulher e meus filhos, não faças com que morram
de miséria. Quanto ao meu corpo, faz dele o que quise-
Ornaribundo res: entrego-o a ti. Mas crê em Deus, eu te suplico.

O bárbaro
Como posso perjurar para te agradar? Em breve esta-
rei diante de Deus, que pune o perjúrio.
Faz , sem discutir, o que te disse. Estou te mandando!

O bárbaro o moribundo
Não importa; terás o prazer de ser enterrado num E que interesse tens em me atormentar tanto?
cemitério, e tua mulher, teus filhos, terão do que viver.
Morre como hipócrita; a hipocrisia é algo bom: é, como O bárbaro
dizem, uma homenagem que o vício presta à virtude 143 .
Um pouco de hipocrisia, meu amigo, o que isso custa? Como! que interesse? Se tiver tua assinatura, ela me
valerá um bom canonicato.

96 97
- - - - - - - -_ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __

Ornarlbunda CAPÍTULO XVII

Ah! meu irmão, eis meu último momento; peço a


Deus, ao morrer, que ele te toque e te converta. Carta escrita ao jesuíta
Le TeUier, por um bene.ficiado,
Obdrbaro em 6 de maio de 1714 145
o diabo carregue o impertinente, que não assinou!
Vou assinar por ele e falsificar sua letra l44 •

A carta a seguir é uma confirmação da mesma moral. Meu reverendo padre,

Obedeço às ordens que recebi de Vossa Reverência


para apresentar-lhe os meios mais convenientes de livrar
Jesus e sua Companhia de seus inimigos. Creio que não
restam mais de quinhentos mil huguenotes no reino, al-
guns dizem um milhão, outros um milhão e quinhentos
mil. Mas, seja qual for o número, eis aqui minha opinião,
que submeto humildemente à vossa, como é meu dever.
1º É fácil pegar num só dia todos os pastores protes-
tantes e enforcá-los juntos numa mesma praça, não so-
mente para a edificação pública, mas pela beleza do es-
petáculo.
2º Eu mandaria assassinar em seus leitos todos os pais
e mães, porque se os matássemos nas ruas isso poderia
causar algum tumulto; vários inclusive poderiam esca-
par, o que deve ser evitado acima de tudo. Essa execu-
ção é um corolário necessário de nossos princípios; pois,
se devemos matar um herege, como tantos grandes teó-
logos o provam, é evidente que devemos matar todos.
3º Após a execução, eu faria todas as jovens serem
desposadas por bons católicos, visto que não convém

98 99
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

despovoar demasiadamente o Estado depois da última Uma vez destruídos os parlamentos, dareis seus car-
guerra; mas em relação aos rapazes de 14 e 15 anos, já gos aos membros de vossa congregação, que estão per-
imbuídos de maus princípios, que não podemos vanglo- feitamente a par das leis do reino.
riar-nos de destruir, minha opinião é que todos devem 6º Será fácil envenenar o cardeal de Noailles, que é
ser castrados, a fim de que essa corja não mais se repro- um homem simples e não desconfia de nada.
duza. Quanto aos garotos menores, serão educados em Vossa Reverência empregará os mesmos meios de
vossos colégios e açoitados até que saibam de cor as obras conversão junto a alguns bispos renitentes; seus bispa-
de Sanchez e de Molina. dos passarão para as mãos dos jesuítas, mediante uma
4º Penso, a menos que esteja enganado, que o mes- carta do papa. Sendo, então, todos os bispos do partido
mo deve ser feito a todos os luteranos da Alsácia, visto da boa causa e todos os párocos habilmente escolhidos
que, no ano de 1704, notei duas velhas daquela região pelos bispos, eis o que sugiro ao bom arbítrio de Vossa
que riam no dia da batalha de Hochstedt. Reverência.
5º A questão dos jansenistas parecerá talvez um pou- 7º Como dizem que os jansenistas comungam pelo
co mais embaraçosa. Calculo que são uns seis milhões menos na Páscoa, não seria difícil salpicar as hóstias com
pelo menos; mas um espírito como o vosso não se deve a droga utilizada para fazer justiça ao imperador Henri-
assustar com isso. Incluo entre os jansenistas todos os
que VII. Um crítico me dirá talvez que se correria o risco,
parlamentos, que tão indignamente apóiam as liberda-
nessa operação, de envenenar também os molinistas. A
des da Igreja galicana. Cabe à Vossa Reverência examinar,
objeção é forte; mas não há projeto que não tenha in-
com vossa costumeira prudência, os meios de submeter
convenientes, não há sistema que não cause danos sob
esses espíritos indesejáveis. A conspiração dos barris de
algum aspecto. Se nos detivéssemos diante dessas pe-
pólvora, na Inglaterra, não teve o sucesso desejado, por-
quenas dificuldades, jamais conseguiríamos nada. E, aliás,
que um dos conjurados teve a indiscrição de querer sal-
var a vida de um amigo; mas, como não tendes amigo, como se trata de buscar o maior bem possível, não con-
não há que temer tal inconveniente: vos será muito fácil vém escandalizar-se se esse grande bem arrasta consigo
fazer explodir todos os parlamentos do reino com a in- algumas más conseqüências, que não merecem conside-
venção do monge Schwartz, chamada pulvis pyrius l46 • ração alguma.
Calculo que serão precisos, um acionando o outro, trin- Nada temos a nos censurar. Está demonstrado que
ta e seis barris de pólvora para cada parlamento, logo, todos os pretensos reformados, todos os jansenistas, es-
multiplicando doze parlamentos 147 por trinta e seis barris, tão prometidos ao inferno; assim, não fazemos mais que
isso perfaz apenas quatrocentos e trinta e dois barris, que, apressar o momento em que devem tomar posse.
a cem escudos a peça, compõem a soma de cento e vin- Não é menos claro que o paraíso pertence de di-
te e nove mil e seiscentas libras: é uma bagatela para o reito aos molinistas; logo, fazendo-os perecer inadverti-
reverendo padre geral. damente e sem nenhuma má intenção, aceleramos sua

100 101
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

alegria. Em ambos os casos, somos ministros da Provi- do correspondente do padre Le Tellier. Parece que seria
dência. difícil executar o projeto em todos os pontos; mas con-
Quanto àqueles que poderiam ficar um pouco as- vém examinar em que ocasiões deve-se aplicar o suplí-
sombrados com o número, Vossa Paternidade poderá ex- cio da roda ou da forca, ou condenar às galés pessoas
plicar-lhes que, desde os dias florescentes da Igreja até que não são da nossa opinião. Esse é o objeto do próxi-
1707, isto é, em cerca de catorze séculos, a teologia pro- mo artigo.
vocou o massacre de mais de cinqüenta milhões de ho-
mens; e não proponho enforcar, degolar, ou envenenar
senão uns seis milhões e quinhentos mil.
Poderão ainda contrapor, talvez, que minha conta
não é justa e que violo a regra de três; pois, dirão, se
em catorze séculos só pereceram cinqüenta milhões de
homens por distinções, dilemas e antilemas teológicos,
isso representa apenas trinta e cinco mil e setecentas e
catorze pessoas por ano, logo, eu mato seis milhões,
quatrocentas e sessenta e quatro mil e duzentas e oiten-
ta pessoas a mais na fração correspondente ao presen-
te ano.
Mas, em verdade, essa contenda é bastante pueril;
pode-se mesmo dizer que é ímpia, pois não percebem,
por meu procedimento, que salvo a vida de todos os
católicos até o fim do mundo? Jamais se faria nada, se se
quisesse responder a todas as críticas. Sou, com um pro-
fundo respeito a Vossa Paternidade,
seu mui humilde, devoto e benigno R... 148
(natural de Angoulême, prefeito da Congregação)

Esse projeto não pôde ser executado porque o pa-


dre Le Tellier viu nele algumas dificuldades e porque Sua
Paternidade foi exilada no ano seguinte. Mas, como é
preciso examinar os prós e os contras, vejamos em que
casos se poderia legitimamente seguir em parte as idéias

102 103
CAPÍTULO XVIII

Únicos casos em que a intolerância


é de direito humano

Para que um governo não tenha o direito de punir os


erros dos homens, é necessário que esses erros não sejam
crimes; eles só são crimes quando perturbam a socieda-
de; perturbam a sociedade a partir do momento em que
inspiram o fanatismo. Cumpre, pois, que os homens co-
mecem por não ser fanáticos para merecer a tolerância.
Se alguns jovens jesuítas, sabendo que a Igreja os
reprovou com horror, que os jansenistas são condenados
por uma bula e que, portanto, os jansenistas são reprova-
dos, decidem queimar uma casa dos padres do Oratório
porque Quesnel, teólogo dessa congregação, era janse-
nista, é claro que será necessário punir esses jesuítas.
Do mesmo modo, se eles divulgaram máximas cen-
suráveis, se sua instituição é contrária às leis do reino,
não há como não dissolver sua companhia e abolir os je-
suítas para fazer deles cidadãos, o que, no fundo, é um
mal imaginário e um bem real para eles. Pois onde está
o mal de vestir um hábito curto em vez de uma batina, e
de ser livre ao invés de ser escravo? Nos períodos de
paz, regimentos inteiros são reformados sem queixas; por
que os jesuítas fazem tamanha gritaria quando os refor-
mamos para obter a paz?

105
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

Se os franciscanos, tomados de um santo zelo pela Os judeus aparentemente teriam mais do que nin-
Virgem Maria, forem demolir a Igreja dos dominicanos, guém o direito de nos roubar e nos matar, pois, embora
que pensam que Maria nasceu no pecado original, sere- haja centenas de exemplos de tolerância no Antigo Tes-
mos obrigados a tratar os franciscanos mais ou menos tamento, há também alguns casos e algumas leis de
como os jesuítas. rigor. Deus ordenou-lhes às vezes matar os idólatras, e
O mesmo diremos dos luteranos e dos calvinistas. não poupar senão as jovens núbeis; eles nos consideram
Não importa que digam: Seguimos os movimentos de idólatras e, embora hoje os toleremos, poderiam, de fato,
nossa consciência; é preferível obedecer a Deus do que se dominassem, deixar no mundo apenas nossas filhas.
aos homens 149 ; somos o verdadeiro rebanho, devemos Teriam sobretudo a obrigação indispensável de as-
exterminar os lobos. Nesse caso, é evidente que são eles sassinar todos os turcos, não resta a menor dúvida. Pbis
próprios os lobos. os turcos possuem o país dos eteus, jebuseus, amorreus,
Um dos mais espantosos exemplos de fanatismo foi jerseneus, heveus, araceus, cineus, hamateus, samarita-
uma pequena seita na Dinamarca, cujo princípio era o nos, e todos esses povos foram votados ao anátema;
melhor do mundo 150 • Esses crentes queriam obter a salva- suas terras, que tinham mais de vinte e cinco léguas de
ção eterna de seus irmãos; mas as conseqüências desse comprimento, foram dadas aos judeus por vários pactos
princípio eram singulares. Eles sabiam que todos os re- consecutivos; estes devem retomar o que é seu e que foi
cém-nascidos que morrem sem batismo são condenados usurpado pelos turcos maometanos há mais de mil anos.
Se os judeus pensassem deste modo hoje, é claro
e que os que têm a felicidade de morrer imediatamente
que não haveria outra resposta a dar-lhes senão mandá-
após receberem o batismo gozam da glória eterna. Saíam,
los às galés.
pois, a estrangular os meninos e meninas recém-batiza-
Estes são praticamente os únicos casos em que a in-
dos que encontrassem. Certamente, era fazer-lhes o maior
tolerância parece razoável.
bem possível: a uma só vez eram preservados do peca-
do, das misérias desta vida e do inferno, e enviados infa-
livelmente ao céu. Mas essas pessoas caridosas não con-
sideravam que não é permitido fazer um pequeno mal
tendo em vista um grande bem; que não tinham nenhum
direito sobre a vida dessas criancinhas; que a maior parte
dos pais e mães são suficientemente materialistas para
preferirem ter junto deles seus filhos e filhas do que vê-
los estrangulados para ir ao paraíso, e que, em uma pala-
vra, o magistrado deve punir o homicídio, ainda que fei-
to com boa intenção.

106 107
CAPÍTULO XIX

Relato de uma disputa


de controvérsia na China

Nos primeiros anos do reinado do grande imperador


Kang-hi, um mandarim da cidade de Cantão ouviu de sua
casa uma grande gritaria vinda da casa vizinha. Mandou
averiguar se matavam alguém; disseram-lhe que era o
capelão da companhia dinamarquesa, um capelão da Ba-
távia e um jesuíta que discutiam; o mandarim chamou os
três à sua presença, mandou servir-lhes chá e doces, e
perguntou-lhes qual o motivo da discussão.
O jesuíta respondeu-lhe que era muito doloroso
para ele, que sempre tinha razão, ter de lidar com gente
que sempre estava errada; que a princípio havia argu-
mentado com a maior calma, mas que no final perdera a
paciência.
O mandarim fez-lhes ver, com toda a discrição pos-
sível, o quanto a polidez é necessária na disputa, disse-
lhes que na China jamais se irritavam e perguntou-lhes
do que se tratava.
Respondeu-lhe o jesuíta: "Excelência, faço-vos juiz
da questão; estes dois senhores recusam-se a submeter-
se às decisões do concílio de Trento.
- Isso me espanta - fez o mandarim. E voltando-se
para os dois refratários: "Parece-me que deveríeis respei-

109
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

tar as opiniões de uma grande assembléia. Não sei o que O jesuíta fez então um longo discurso, durante o
vem a ser o concílio de Trento; mas várias pessoas são qual o dinamarquês e o holandês davam de ombros; o
sempre mais instruídas do que uma só. Ninguém deve mandarim não compreendeu nada. Foi a vez de o dina-
acreditar que sabe mais do que os outros e que a razão marquês falar; seus adversários olharam-no com pieda-
só habita em sua cabeça. É assim que ensina nosso gran- de, e o mandarim continuou sem compreender. O holan-
de Confúcio. E se acreditais em mim, fareis muito bem dês teve a mesma sorte. Enfim falaram os três juntos, dis-
em confiar na autoridade do concílio de Trento." seram-se grosseiras injúrias. O honesto mandarim com
O dinamarquês tomou então a palavra e disse: "Vos- muita dificuldade conseguiu apaziguá-los e disse-lhes:
sa Excelência fala com a maior sabedoria. Respeitamos "Se quereis que tolerem aqui vossa doutrina, começai
as grandes assembléias como é nosso dever; assim, esta- por não serem intolerantes nem intoleráveis."
mos inteiramente de acordo com várias assembléias rea- Ao sair da audiência, o jesuíta encontrou um missio-
lizadas antes da de Trento." nário dominicano; disse-lhe que havia ganho sua causa,
- Oh! se é assim - tornou o mandarim -, peço-vos assegurando que a verdade triunfava sempre. O domini-
perdão, poderíeis ter razão. Sois, portanto, da mesma cano respondeu: "Se eu estivesse lá, não a teríeis ganho;
opinião, vós e vosso colega holandês, contra esse pobre eu vos teria persuadido de mentira e idolatria." A quere-
jesuíta? la esquentou; o dominicano e o jesuíta agarraram-se
- Em absoluto - respondeu o holandês. - Este pelos cabelos. O mandarim, informado do escândalo,
homem tem opiniões quase tão extravagantes quanto as mandou os dois para a prisão. Um de seus ministros per-
guntou-lhe: "Quanto tempo Vossa Excelência quer que
desse jesuíta, que procura aqui ser gentil convosco. Não
eles fiquem detidos? - Até que estejam de acordo, res-
há como concordar com eles.
pondeu o mandarim. - Ah!, fez o ministro, então ficarão
- Não vos entendo - disse o mandarim. - Não sois
na prisão pelo resto da vida. - Pois bem, replicou o man-
todos os três cristãos? Não viestes todos os três ensinar o
darim, até que se perdoem. - Eles jamais se perdoarão,
cristianismo em nosso império? E não deveis por conse-
disse o outro; eu os conheço. - Pois então, concluiu o
guinte ter os mesmos dogmas?
mandarim, até que finjam perdoar-se."
- Vede, Excelência - falou o jesuíta. - Esses dois aí
são inimigos mortais, e ambos disputam contra mim; é
evidente que ambos estão errados, e que a razão está
apenas do meu lado.
- Isso não é tão evidente - asseverou o mandarim. -
Poderia perfeitamente ocorrer que estivésseis todos os
três errados; eu teria curiosidade de vos ouvir um após o
outro.

110 111
CAPÍTULO XX

Se é útil manter o povo


na superstição

Tal é a fraqueza do gênero humano e tal sua perver-


sidade, que, para ele, certamente é preferível ser subju-
gado por todas as superstições possíveis, contanto que
não sejam mortíferas, do que viver sem religião. O ho-
mem sempre teve necessidade de um freio e, ainda que
fosse ridículo fazer sacrifícios aos faunos, aos silvanos, às
náiades, era bem mais útil e razoável adorar essas ima-
gens fantásticas da divindade do que entregar-se ao ateís-
mo. Um ateu argumentador, violento e poderoso seria
um flagelo tão funesto quanto um supersticioso sangui-
nário.
Quando os homens não têm noções corretas da di-
vindade, as idéias falsas as substituem, assim como nos
tempos difíceis trafica-se com moeda ruim, quando não
se tem a boa. O pagão deixava de cometer um crime, com
medo de ser punido pelos falsos deuses; o mala bar teme
ser punido por seu pagode. Onde quer que haja uma
sociedade estabelecida, uma religião é necessária: as leis
protegem contra os crimes conhecidos, e a religião, con-
tra os crimes secretos.
Mas, quando os homens abraçam uma religião pura
e santa, a superstição torna-se não apenas inútil como

113
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância - - - - - - - -

muito perigosa. Não se deve querer alimentar com bolo- Enfim a burguesia começou a suspeitar que não era
tas aqueles que Deus digna-se alimentar com pão. Santa Genoveva quem trazia ou parava a chuva, mas que
A superstição é, em relação à religião, o que a astro- o próprio Deus dispunha dos elementos. Os monges fica-
logia é em relação à astronomia, a filha muito insensata ram espantados de que seus santos não fizessem mais
de uma mãe muito sensata. Essas duas filhas subjugaram milagres; e, se os escritores da Vida de São Francisco Xa-
por muito tempo a terra inteira. vier voltassem ao mundo, não ousariam escrever que este
Quando, em nossos séculos de barbárie, havia ape- santo ressuscitou nove mortos 151 , que foi visto ao mesmo
nas dois senhores feudais que tinham em sua casa um tempo no mar e em terra, e que, tendo seu crucifixo caí-
Novo Testamento, podia ser perdoável apresentar fábu- do no mar, um caranguejo o veio trazer-lhe de volta.
las ao vulgo, isto é, a esses senhores feudais, a suas mu- O mesmo aconteceu com as excomunhões. Nossos
lheres imbecis e aos brutos, seus vassalos; faziam-nos historiadores nos dizem que, quando o rei Roberto foi
acreditar que São Cristóvão havia levado o Menino Jesus excomungado pelo papa Gregório V, por ter desposado
de uma margem do rio à outra; alimentavam-nos com sua comadre, a princesa Berta, seus criados lançavam
histórias de feiticeiros e possuídos; eles imaginavam fa- pelas janelas as carnes que haviam servido ao rei e que
cilmente que São Genou curava a gota e que Santa Clara a rainha Berta deu à luz um ganso, em punição desse ca-
curava os olhos enfermos. As crianças acreditavam no lo- samento incestuoso. É improvável hoje que os mordo-
bisomem, e os adultos, no cordão de São Francisco. O
mos de um rei da França excomungado lançassem seu
número de relíquias e{a incontável.
jantar pela janela e que a rainha trouxesse ao mundo um
A ferrugem de tantas superstições subsistiu ainda al-
gansinho em semelhante caso.
gum tempo entre os povos, mesmo depois de a religião
Se persistem alguns convulsionários em alguma es-
ter sido finalmente depurada. Sabe-se que, quando o
quina de arrabalde 152, trata-se de uma pediculose que só
bispo Noailles mandou retirar e lançar no fogo a supos-
afeta a mais vil populaça. A cada dia a razão penetra na
ta relíquia do umbigo santo de Jesus Cristo, toda a cidade
de Châlons moveu-lhe um processo; mas ele teve cora- França, tanto nas lojas dos comerciantes como nas man-
gem e devoção, e acabou convencendo os habitantes da sões dos senhores. Cumpre, pois, cultivar os frutos des-
região de que era possível adorar Jesus Cristo em espíri- sa razão, tanto mais por ser impossível impedi-los de
to e em verdade, sem ter seu umbigo numa igreja. nascer. Não se pode governar a França, depois de ela ter
Os chamados jansenistas contribuíram bastante para sido esclarecida pelos Pascal, os Nicole, os Arnauld, os
desenraizar insensivelmente no espírito da nação a maior Bossuet, os Descartes, os Gassendi, os Bayle, os Fonte-
parte das falsas idéias que desonravam a religião cristã. nelle, etc., como a governavam no tempo dos Garasse e
Deixou-se de acreditar que bastava recitar a oração dos dos Menot.
trinta dias à Virgem Maria para obter tudo o que se que- Se os mestres de erros, refiro-me aos grandes, por
ria e para pecar impunemente. tanto tempo pagos e honrados para embrutecer a espé-

114 115
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

cie humana, ordenassem hoje que o grão deve apodre- CAPÍTULO XXI
cer para germinarl53 ; que a terra está imóvel sobre seus
fundamentos, que ela não gira ao redor do Sol; que as É preferível a virtude à ciência
marés não são um efeito natural da gravitação, que o arco-
íris não é formado pela refração e a reflexão dos raios lu-
minosos, etc., e se se baseassem em passagens mal com-
preendidas da Sagrada Escritura para fundamentar suas
ordens, como seriam vistos por todos os homens instruí-
dos? O termo animais seria demasiado forte? E se esses
sábios mestres empregassem a força e a perseguição para
fazer reinar sua ignorância insolente, o termo animais Quanto menos dogmas, menos disputas; e quanto me-
ferozes seria descabido? nos disputas, menos infelicidades. Se isso não for verda-
Quanto mais as superstições dos monges forem des- de, estou errado.
prezadas, tanto mais os bispos serão respeitados e os pa- A religião é instituída para nos tornar felizes nesta e
dres considerados; estes fazem apenas o bem, enquanto na outra vida. O que é preciso para ser feliz na vida futu-
as superstições monacais ul~montanas causam muito ra? Ser justo.
mal. Mas, de todas as superstições, a mais perigosa não Para ser feliz nesta, dentro do que permite a miséria
é a de odiar o próximo por suas opiniões? E não é evi- de nossa natureza, o que é preciso? Ser indulgente.
dente que seria ainda mais sensato adorar o santo umbi- Seria o cúmulo da loucura pretender fazer todos os
go, o santo prepúcio, o leite e o manto da Virgem Maria, homens pensarem de uma maneira uniforme sobre a me-
do que detestar e perseguir seu irmão? tafísica. Seria bem mais fácil subjugar o universo inteiro
pelas armas do que subjugar todos os espíritos de uma
única cidade.
Euclides conseguiu sem dificuldade persuadir todos
os homens sobre as verdades da geometria. Por quê? Por-
que não há uma só que não seja um corolário :vident:
deste pequeno axioma: dois e dois são quatro. ~~o se da
exatamente a mesma coisa na mistura da metaflslca com
a teologia. . .
Quando o bispo Alexandre e o padre Anos, ou Anus,
começaram a discutir sobre a maneira como o. Logos era
uma emanação do Pai, o imperador Constantmo escre-

116 117
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

veu-Ihes estas palavras inspiradas em Eusébio e em Só- co bem capaz de apagar minhas antigas barbáries; aju-
crates: "Sois uns grandes tolos em discutir sobre coisas dai-me a acabar meus dias em paz." Talvez não obtives-
que não podeis entender." se nada dos contendores; talvez fosse convidado a presi-
Se as duas partes tivessem sido bastante sensatas para dir um concílio com a longa túnica vermelha, com a ca-
admitir que o imperador tinha razão, o mundo cristão não beça coberta de pedrarias.
teria se ensangüentado durante trezentos anos. Eis, no entanto, o que abriu a porta a todos os flage-
Com efeito, que pode haver de mais tolo e mais ter- los que vieram da Ásia inundar o Ocidente. De cada ver-
rível do que dizer aos homens: "Meus amigos, não basta sículo contestado brotou uma fúria armada de um sofis-
sermos súditos fiéis, filhos submissos, pais amorosos, vi- ma e de um punhal, que tornou os homens insensatos e
zinhos equitativos, praticar todas as virtudes, cultivar a cruéis. Os hunos, os hérulos, os godos e os vândalps,
amizade, evitar a ingratidão, adorar Jesus Cristo em paz. que surgiram depois, fizeram infinitamente menos mal, e
Cumpre ainda saber como fomos engendrados por toda o maior que fizeram foi finalmente prestarem-se eles
a eternidade e, se não souberdes distinguir o omousion também a essas disputas fatais.
na hipóstase, afirmamos que havereis de arder no fogo
eterno; e, enquanto não chega esse momento, começa-
remos por vos degolar?"
Se tivessem aprese~ado uma tal resolução a um Ar-
quimedes, a um Posidônio, a um Varrão, a um Catão, a um
Cícero, o que eles teriam respondido?
Constantino não perseverou em sua resolução de im-
por silêncio aos dois antagonistas. Podia ter chamado es-
ses campeões do ergotismo a seu palácio; podia ter-lhes
perguntado com que autoridade perturbavam o mundo:
"Acaso possuís os títulos da família divina? Que vos im-
porta se o Lagos é produzido ou engendrado, contanto
que lhe sejamos fiéis, contanto que preguemos uma boa
moral e a pratiquemos dentro do possível? Cometi mui-
tas faltas em minha vida, e vós também; sois ambiciosos,
e eu também; o império custou-me patifarias e cruelda-
des; assassinei quase todos os meus próximos; arrepen-
do-me disso: quero expiar meus crimes tornando o im-
pério romano tranqüilo. Não me impeçais de fazer o úni-

118 119
CAPÍTULO XXII

Acerca da tolerância universal

Não é preciso uma grande arte, uma eloqüência mui-


to rebuscada, para provar que os cristãos devem tolerar-
se uns aos outros. Vou mais longe: afirmo que é preciso
considerar todos os homens como nossos irmãos. O quê!
O turco, meu irmão? O chinês? O judeu? O siamês? Sim,
certamente; porventura não somos todos filhos do mes-
mo Pai e criaturas do mesmo Deus?
Mas esses povos nos desprezam; mas eles nos tra-
tam de idólatras! Pois bem, eu lhes direi que estão erra-
dos! Penso que poderia ao menos surpreender a orgu-
lhosa obstinação de um imã ou de um monge budista, se
lhes falasse mais ou menos assim:
"Este pequeno globo, que não é mais do que um
ponto, gira no espaço como tantos outros globos; esta-
mos perdidos nessa imensidão. O homem, com cerca de
um metro e sessenta de altura, é seguramente algo pe-
queno na criação. Um desses seres imperceptíveis diz a
alguns de seus vizinhos, na Arábia ou na Cafraria: Es-
cutem-me, pois o Deus de todos esses mundos me falou:
há novecentos milhões de pequenas formigas como nós
sobre a terra, mas apenas o meu formigueiro é bem-visto
por Deus; todos os outros lhe causam horror desde toda

121
._ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

a eternidade; meu formigueiro será o único afortunado, quereis me fazer; mas eu não poderia ser salvo sem tudo
e todos os outros serão desafortunados." isso?"
Eles me agarrariam então e me perguntariam quem É verdade que esses horrores absurdos não man-
foi o louco que disse essa besteira. Eu seria obrigado a cham todos os dias a face da terra; mas foram freqüen-
responder-lhes: "Foram vocês mesmos." Procuraria em tes, e com eles facilmente se faria um volume bem mais
seguida acalmá-los, mas seria bem difícil. grosso do que os evangelhos que os reprovam. Não só é
Depois falaria aos cristãos e ousaria dizer, por exem- cruel perseguir nesta curta vida os que não pensam
plo, a um dominicano inquisidor em nome da fé: "Meu como nós, como também suponho ser ousado demais
irmão, sabeis que cada província da Itália tem seu lin- pronunciar sua condenação eterna. Parece-me que não
guajar e que não se fala em Veneza e em Bérgamo como compete a átomos de um momento, tais como somos,
em Florença. A Academia da Crusca fixou a língua; seu antecipar as decisões do Criador. Estou longe de comba-
dicionário é uma norma que deve ser respeitada, e a Gra- ter esta sentença: "Fora da Igreja não há salvação." Res-
mática de Buonmattei um guia infalível a ser seguido; peito-a, assim como tudo o que ela ensina, mas, em ver-
mas julgais que o cônsul da Academia e, na sua ausên-
dade, conhecemos todos os caminhos de Deus e a ex-
cia, Buonmattei, poderiam em sã consciência mandar cor-
tensão de sua misericórdia? Não é lícito confiar nele
tar a língua de todos os venezianos e bergamascos que
tanto quanto temê-lo? Não nos basta ser fiéis à Igreja? Se-
persistissem no seu patoá?"
rá preciso que cada indivíduo usurpe os direitos da Di-
O inquisidor me responde: "Há uma grande diferen-
vindade e decida por sua conta a sorte eterna de todos
ça. Trata-se aqui da salvação de vossa alma; é para o vos-
os homens?
so bem que o diretório da Inquisição ordena que vos
prendam por denúncia de uma única pessoa, ainda que Quando vestimos luto por um rei da Suécia, da Di-
ela seja infame e já condenada pela Justiça; que não te- namarca, da Inglaterra ou da Prússia, dizemos que vesti-
nhais advogado para vos defender; que o nome de vosso mos luto por um réprobo que arde eternamente no infer-
acusador nem sequer vos seja conhecido; que o inquisi- no? Há na Europa quarenta milhões de habitantes que
dor vos prometa perdão e, em seguida, vos condene; não pertencem à Igreja de Roma; diremos a cada um de-
que ele vos submeta a cinco torturas diferentes e que, les: "Senhor, como estais infalivelmente condenado, não
depois, sejais chicoteado, ou mandado às galés, ou quei- quero comer, nem negociar, nem conversar convosco?"
mado em cerimônia 154 . O padre Ivonet, o doutor Cucha- Qual o embaixador da França que, estando presente
lon, Zanchinus, Campegius, Roias, Felynus, Gomarus, Dia- à audiência do Grande Senhor, dir-se-á no fundo de seu
barus e Gemelinus 155 são claros nesse ponto e essa pie- coração: Sua Alteza arderá infalivelmente no inferno por
dosa prática não pode sofrer contradição." toda a eternidade, por ter-se submetido à circuncisão? Se
Eu tomaria a liberdade de responder-lhe: "Meu ir- acreditasse realmente que o Grande Senhor é inimigo
mão, talvez tenhais razão; estou convencido do bem que mortal de Deus e objeto de sua vingança, acaso poderia

122 123
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

falar-lhe? Deveria ser enviado até ele? Com que homem CAPÍTULO XXIII
poderíamos negociar, que dever da vida civil podería-
mos jamais cumprir, se de fato estivéssemos convencidos
da idéia de que conversamos com um réprobo? Oração a Deus
Ó partidários de um Deus clemente! Se tivésseis um
coração cruel; se, adorando aquele cuja única lei consis-
tia nestas palavras: "Amai a Deus e a vosso próximo" 156,
tivésseis sobrecarregado essa lei pura e santa de sofismas
e disputas incompreensíveis; se tivésseis semeado a dis-
córdia, ora por causa de uma palavra, ora por causa de
uma simples letra do alfabeto; se considerásseis merece- Não é mais aos homens que me dirijo, é a ti, Deus
dora de castigos eternos a omissão de algumas palavras, de todos os seres, de todos os mundos e de todos os
de algumas cerimônias que tantos outros povos não
tempos. Se é permitido a frágeis criaturas perdidas na
podiam conhecer, eu vos diria, derramando lágrimas so-
imensidão e imperceptíveis ao resto do universo, ousar
bre o gênero humano: "Transportai-vos comigo ao dia
te pedir alguma coisa, a ti que tudo criaste, a ti cujos de-
em que todos os homens serão julgados e em que Deus
cretos são imutáveis e eternos, digna-te olhar com pieda-
dará a cada um conforme suas obras."
de os erros decorrentes de nossa natureza. Que esses er-
"Vejo todos os mortos dos séculos passados e do nos-
ros não venham a ser nossas calamidades. Não nos deste
so comparecerem à sua presença. Acreditais realmente
que nosso Criador e nosso Pai dirá ao sábio e virtuoso um coração para nos odiarmos e mãos parà nos matar-
Confúcio, ao legislador Sólon, a Pitágoras, a Zaleuco, a mos. Faz com que nos ajudemos mutuamente a suportar
Sócrates, a Platão, aos divinos Antonino, ao bom Traja- o fardo de uma vida difícil e passag~ira; que as peque-
no, a Ti~, às maravilhas do gênero humano, a Epicteto nas diferenças entre as roupas que cobrem nossos corpos
e a tantos outros, modelos dos homens: Ide, monstros, diminutos, entre nossas linguagens insuficientes, entre
sofrer castigos infinitos em intensidade e duração; que nossos costumes ridículos, entre nossas leis imperfeitas,
vosso suplício seja eterno como eu! E vós, meus bem- entre nossas opiniões insensatas, entre nossas condições
amados Jean Châtel, Ravaillac, Damiens, Cartouche, etc., tão desproporcionadas a nossos olhos e tão iguais dian-
que morrestes com as fórmulas prescritas, partilhai para te de ti; que todas essas pequenas nuances que distin-
sempre à minha direita meu império e minha felicidade?" guem os átomos chamados homens não sejam sinais de
Recuais de horror a essas palavras e, depois que elas ódio e perseguição; que os que acendem velas em pleno
me escaparam, nada mais tenho a vos dizer. meio-dia para te celebrar suportem os que se contentam
com a luz de teu sol; que os que cobrem suas vestes com
linho branco para dizer que devemos te amar não detes-

124 125
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

tem os que dizem a mesma coisa sob um manto de lã ne- CAPÍTULO XXIV

gra; que seja igual te adorar num jargão formado de uma


antiga língua, ou num jargão mais novo; que aqueles Pós-escrito
cuja roupa é tingida de vermelho ou de violeta, que do-
minam sobre uma pequena porção de um montículo da
lama deste mundo e que possuem alguns fragmentos ar-
redondados de certo metal usufruam sem orgulho o que
chamam de grandeza e riqueza, e que os outros não os
invejem, pois sabes que não há nessas vaidades nem o
que invejar, nem do que se orgulhar.
Possam todos os homens lembrar-se de que são ir- Enquanto trabalhávamos nesta obra, com o único
mãos! Que abominem a tirania exercida sobre as almas, propósito de tornar os homens mais compassivos e mais
assim como execram o banditismo que toma pela força doces, um outro homem escrevia com um propósito in-
o fruto do trabalho e da indústria pacífica! Se os flagelos teiramente contrário, pois cada um tem sua opinião. Es-
da guerra são inevitáveis, não nos odiemos, não nos di- se homem imprimia um pequeno código de persegui-
laceremos uns aos outros em tempos de paz e empre- ção, intitulado A concordância da religião e da huma-
guemos o instante de nossa existência para abençoar nidade 157 Cé uma falha do impressor: leia-se da desumani-
igualmente em mil línguas diversas, do Sião à Califórnia, dade).
tua bondade que nos deu esse instante. O autor desse santo libelo apóia-se em Santo Agos-
tinho, o qual, após ter pregado a doçura, acabou pregan-
do a perseguição, visto que era então o mais forte e que
mudava freqüentemente de opinião. Cita também o bis-
po de Meaux, Bossuet, que perseguiu o célebre Fénelon,
arcebispo de Cambrai, culpado de ter escrito que Deus
merece ser amado por si mesmo.
Bossuet era eloqüente, admito; o bispo de Hipona,
às vezes inconseqüente, era mais diserto que os outros
africanos, admito-o também; mas tomarei a liberdade de
dizer ao autor desse santo libelo, com Armando, em Les
femmes savantes*:

• As sabicbonas, Moliere.

126 127
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _~ Tratado sobre a tolerância -------~

Quand sur une personne on prétend se régler, má argumentadora. Ele chega a citar Bayle entre os par-
C'est par les beaux côtés qu 'illui faut ressembler. tidários da intolerância. Isso é razoável e correto; e do
fato de Bayle admitir que os revoltosos e os larápios de-
Quando por alguém nos queremos pautar, vam ser punidos, nosso homem conclui que devemos
É o seu lado bom que convém imitar. perseguir a ferro e fogo gente pacífica e de boa-fé.
(Ato I, cena 1.) Quase todo o seu livro é uma imitação da Apologia
da Noite de São Bartolomeu158 • É o mesmo apologista ou
Direi ao bispo de Hipona: Eminência, mudastes de seu eco. Num ou noutro caso, cumpre esperar que nem
idéia, concedei-me o direito de ater-me à vossa primeira o mestre, nem o discípulo venham a governar o Estado.
opinião; em verdade, considero-a melhor. Mas, se isso acontecer, apresento-lhes desde já este
Direi ao bispo de Meaux: Eminência, sois um grande arrazoado, a propósito de duas linhas da página 93 do
homem; julgo-vos tão sábio, pelo menos, quanto Santo santo libelo:
Agostinho, e muito mais eloqüente; mas por que ator- "Caberá sacrificar à felicidade da vigésima parte da
mentar tanto vosso confrade, que era tão eloqüente quan- nação a felicidade da nação inteira?"
to vós num outro gênero e era mais amável? Supondo-se, com efeito, que haja vinte católicos ro-
O autor do santo libelo sobre a desumanidade não é manos na França contra um huguenote, não pretendo
nem um Bossuet, nem um Agostinho. Parece-me o tipo que o huguenote coma os vinte católicos; mas por que
capaz de ser um excelente inquisidor; gostaria que esti- esses vinte católicos haveriam de comer o huguenote e
vesse em Goa encabeçando esse belo tribunal. Além dis- por que impedir esse huguenote de casar? Não há bis-
so, é homem de Estado e demonstra grandes princípios pos, abades, monges que têm terras no Dauphiné, no
de política. "Se houver entre vós, diz ele, muitos hetero- Gévaudan, nos arredores de Agde, de Carcassone? Esses
doxos, tratai-os com deferência, persuadi-os; se não fo- bispos, abades e monges não possuem colonos que têm
rem mais que um pequeno número, empregai a forca e a infelicidade de não crer na transubstanciação? Não é
as galés, e estareis agindo bem"; é o que ele aconselha do interesse dos bispos, dos abades, dos monges e do
nas páginas 89 e 90. público que esses colonos tenham famílias numerosas?
Graças a Deus sou bom católico, não preciso temer Somente àqueles que comungarem de uma única forma
o que os huguenotes chamam de martírio; mas se esse será permitido ter filhos? Em verdade isso não é justo
homem algum dia for primeiro-ministro, como parece pre- nem conveniente.
tender em seu libelo, aviso que parto para a Inglaterra "A revogação do edito de Nantes não produziu tan-
no dia em que tiver suas cartas patentes. tos inconvenientes quanto lhe atribuem", diz o autor.
Enquanto isso, posso apenas agradecer à Providên- Se de fato lhe atribuem mais do que produziu, exa-
cia por permitir que gente de sua espécie seja sempre geram, e o erro de quase todos os historiadores é exage-

128 129
~~~ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire_~~~~~~~~~_ ~_ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância ~-------

rar; mas é também o erro de todos os controversistas re- dos recrutarem, fala de marujos que desertaram de três
duzir a nada o mal que lhes censuram. Não creiamos nem navios para servirem nos do príncipe de Orange. Além
nos doutores de Paris, nem nos pregadores de Amsterdam. desses dois regimentos, o príncipe de Orange forma ain-
Tomemos por juiz o conde d'Avaux, embaixador na da uma companhia de cadetes refugiados, comandados
Holanda de 1685 a 1688. Ele diz, na página 181, tomo por dois capitães (página 240). O embaixador escreve
V1S9, que um único homem propusera descobrir mais de ainda, em 9 de maio de 1686, ao sr. de Seignelai, "que não
vinte milhões que os perseguidos faziam sair da França. pode lhe dissimular o dó de ver as manufaturas da Fran-
Luís XIV responde ao conde d'Avaux: "As notícias que ça estabelecerem-se na Holanda, de onde não sairão
recebo diariamente de um número infinito de conver- jamais".
sões não me deixam mais duvidar de que os mais obsti- Juntai a esses testemunhos os de todos os intenden-
tes do reino em 1699 e considerai se a revogação do
nados seguirão o exemplo dos outros."
edito de Nantes não produziu mais mal do que bem,
Vê-se, por essa carta de Luís XIV, que ele era muito
apesar da opinião do respeitável autor de A concordân-
crédulo sobre a extensão de seu poder. Diziam-lhe todas
cia da religião e da desumanidade.
as manhãs: Majestade, sois o maior rei do universo; todo
Um marechal da França conhecido por seu espírito
o universo se vangloriará de pensar como vós assim que
superior dizia há alguns anos: "Não sei se a dragonada
tiverdes falado. Pelisson, que enriquecera no cargo de
foi necessária; mas é necessário que não se repita."
primeiro funcionário das finanças; Pelisson, que passara Confesso que julguei ir um pouco longe demais, ao
três anos na Bastilha como cúmplice de Fouquet; Pelis- tornar pública a carta do correspondente do padre Le
son, que de calvinista tornara-se diácono e beneficiado, Tellier, na qual o membro da congregação propõe uma
que mandava imprimir orações para a missa e versos ga- operação com barris de pólvora l6o . Dizia-me a mim mes-
lantes para damas, que obtivera o cargo de ecônomo e de mo: Não me acreditarão, julgarão esta carta uma peça
convertedor; Pelisson, dizia eu, trazia a cada três meses forjada. Meus escrúpulos felizmente dissiparam-se quan-
uma grande lista de abjurações a sete ou oito escudos do li em A concordância da religião e da desumanida-
cada, e fazia seu rei acreditar que, na hora que quisesse, de, página 149, estas doces palavras:
converteria todç>s os turcos ao mesmo preço. Revezavam- "A extinção total dos protestantes não debilitaria mais
se para enganá-lo. Podia Luís XIV resistir à sedução? a França do que uma sangria o faria com um doente bem
No entanto, o mesmo conde d'Avaux notifica ao rei constituído. "
que certo Vincent emprega mais de quinhentos operá- Esse cristão compassivo, que disse há pouco que os
rios perto de Angoulême e que sua saída causará prejuí- protestantes compõem a vigésima parte da nação, quer,
zos (tomo V, página 194). portanto, espalhar o sangue dessa vigésima p~rte e con-
O mesmo d'Avaux fala de dois regimentos que o prín- sidera essa operação apenas como uma sangna na omo-
cipe de Orange já mandou os oficiais franceses refugia- plata! Deus nos preserve com ele dos três vigésimos!

130 131
Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

Pois, se esse homem honrado propõe matar a vigé- CAPÍTULO xxv


sima parte da nação, por que o amigo do padre Le Tellier
não teria proposto explodir, enforcar e envenenar a terça Continuação e conclusão
parte? Portanto, é bem provável que a carta ao padre Le
Tellier tenha sido realmente escrita.
O santo autor irá finalmente concluir que a intole-
rância é algo excelente, "porque não foi, diz ele, expres-
samente condenada por Jesus Cristo". Mas Jesus Cristo
tampouco condenou os que ateariam fogo nos quatro
cantos de Paris; é uma razão para canonizar os incendiá-
rios? Assim, pois, quando a natureza faz ouvir de um lado Tomamos conhecimento de que, em 7 de março de
sua voz doce e benfazeja, o fanatismo, esse inimigo da 1763, perante o conselho de Estado reunido em Versa-
natureza, solta uivos; e quando a paz apresenta-se aos lhes, na presença dos ministros e sob a presidência do
homens, a intolerância forja suas armas. Ó vós, árbitro chanceler, o sr. de Crosne, promotor de justiça, reapre-
das nações, que destes a paz à Europa, decidi entre o sentou o caso dos Calas com a imparcialidade de um
espírito pacífico e o espírito assassino! juiz, a exatidão de um homem perfeitamente instruído, a
eloqüência simples e verdadeira de um orador do Esta-
do, a única que convém numa tal assembléia. Uma quan-
tidade enorme de pessoas de todas as classes aguardava
na galeria do castelo a decisão do conselho. Logo anun-
ciaram ao rei que todas as vozes, sem exceção, haviam
ordenado que o parlamento de Toulouse enviasse ao
conselho todas as peças do processo e os motivos de sua
sentença que fizera Jean Calas morrer no suplício da
roda. Sua Majestade aprovou a decisão do conselho.
Portanto, há humanidade e justiça entre os homens
e, principalmente, no conselho de um rei amado e digno
de sê-lo. O caso de uma infortunada família de obscuros
cidadãos ocupou Sua Majestade, seus ministros, o chan-
celer e todo o conselho, e foi discutido com a mesma
atenção dedicada às maiores questões da guerra e da paz.
O amor pela eqüidade, o interesse pelo gênero humano

132'
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ - - - - -_ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

conduziram todos os juízes. Graças sejam dadas ao Deus família agonizante no cadafalso. Essa crueldade é bas-
da clemência, o único a inspirar a eqüidade e todas as tante inédita; mas já que Deus perdoa, os homens devem
virtudes! também perdoar quem repara suas injustiças.
Atestamos que jamais conhecemos esse infortunado
Calas que oito juízes de Toulouse fizeram perecer com Escreveram-me do Languedoc esta carta de 20 de
base nos mais frágeis indícios, contra as ordens de nos- fevereiro de 1763.
sos reis e contra as leis de todas as nações; nem seu filho "(. ..) Vossa obra sobre a tolerância me parece reple-
Marc-Antoine, cuja estranha morte lançou esses oito juí- ta de humanidade e de verdade; mas receio que faça mais
zes no erro; nem a mãe, tão respeitável quanto infeliz; mal do que bem à família Calas. Poderá magoar os oito
nem suas inocentes filhas, que percorreram com ela du- juízes que opinaram pelo suplício; eles pedirão ao parla-
zentas léguas para deporem aos pés do trono seu infor- mento que vosso livro seja queimado, e os fanáticos
túnio e sua virtude. (pois sempre os há) responderão com gritos de furor à
Deus sabe que fomos movidos apenas por um espí- voz da razão, etc."
rito de justiça, de verdade e de paz, quando escrevemos Eis minha resposta:
o que pensamos da tolerância, a propósito de Jean Calas, "Os oito juízes de Toulouse podem mandar queimar
que o espírito de intolerância fez morrer. meu livro, se ele é bom; não há nada mais fácil; também
Não julgamos ofender os oito juízes de Toulouse ao queimaram as Cartas provinciais, que certamente valiam
dizer que eles se enganaram, assim como todo o conse- bem mais; cada um pode queimar em sua casa os livros
lho presumiu; ao contrário, abrimos-lhes um caminho e papéis que desejar.
para se justificarem perante a Europa inteira. Esse cami- Minha obra não pode fazer nem bem nem mal aos
nho é reconhecer que indícios equívocos e os gritos de Calas, que não conheço. O conselho do rei, imparcial e
uma multidão insensata os desviaram da justiça, pedir firme, julga segundo as leis, segundo a eqüidade, com
perdão à viúva e reparar, tanto quanto possível, a ruína base em peças e processos judiciais, e não num texto
inteira de uma família inocente, juntando-se àqueles que que não é jurídico e cujo fundo é absolutamente alheio
a amparam na sua aflição. Esses juízes fizeram o pai mor- ao caso em questão.
rer injustamente; cabe a eles substituir o pai junto aos Por mais que se imprimam in-fólios a favor ou con-
filhos, supondo-se que os órfãos queiram aceitar uma pe- tra os oito juízes de Toulouse e a favor ou contra a tole-
quena prova de"um justo arrependimento. Cabe aos juí- rância, nem o conselho, nem um tribunal qualquer con-
zes oferecê-la, e à família aceitar ou não. siderará esses livros como peças do processo.
Compete sobretudo ao senhor David, magistrado de Esse texto sobre a tolerância é uma petição que a
Toulouse, se foi o primeiro perseguidor da inocência, dar humanidade apresenta muito humildemente ao poder e
o exemplo do arrependimento. Ele insultou um pai de à prudência. Semeio um grão que algum dia poderá pro-

134 135
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ - - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

duzir uma grande colheita. Esperemos tudo do tempo, acaso e por uma necessidade passageira, diferentes de
da bondade do rei, da sabedoria de seus ministros e do província a província, de cidade a cidade e quase sem-
espírito de razão que começa a espalhar por toda parte pre contraditórias entre si numa mesma localidade. Só eu
sua luz. posso inspirar a justiça, quando as leis inspiram apenas
A natureza diz a todos os homens: Fiz todos vós nas- a chicana. Aquele que me escuta julga sempre bem; e
cerem fracos e ignorantes, para vegetarem alguns minu- aquele que busca somente conciliar opiniões que se
tos na terra e adubarem-na com vossos cadáveres. Já que contradizem acaba por se perder.
sois fracos, auxiliai-vos; já que sois ignorantes, instruí- Com minhas mãos plantei os alicerces de um pré-
vos e tolerai-vos. Ainda que fôsseis todos da mesma opi- dio imenso; ele era sólido e simples, todos os homens
nião, o que certamente jamais acontecerá, ainda que só nele podiam entrar com segurança; quiseram acrescentar
houvesse um único homem com opinião contrária, de- os ornamentos mais bizarros, mais grosseiros e mais inú-
veríeis perdoá-lo, pois sou eu que o faço pensar como teis; e o prédio começa a desmoronar por todos os la-
ele pensa. Eu vos dei braços para cultivar a terra e um dos; os homens pegam as pedras e as atiram uns contra
pequeno lume de razão para vos guiar; pus em vossos os outros; grito-lhes: Parai, afastai esses escombros fu-
corações um germe de compaixão para que uns ajudem nestos que são vossa obra e habitai comigo em paz no
os outros a suportar a vida. Não sufoqueis esse germe, prédio inabalável que é o meu 161 ."
não o corrompais, compreende i que ele é divino e não
troqueis a voz da natureza pelos miseráveis furores da
escola.
Sou eu apenas que vos une, sem que o saibais, por
vossas necessidades mútuas, mesmo em meio a vossas
guerras cruéis tão levianamente empreendidas, palco eter-
no das faltas, dos riscos e das infelicidades. Sou eu ape-
nas que, numa nação, detém as conseqüências funestas
da divisão interminável entre a nobreza e a magistratura,
entre esses dois corpos e o do clero, e também entre o
burguês e o agricultor. Todos ignoram os limites de seus
direitos; mas contra sua vontade acabam por escutar,
com o te)l1po, minha voz que fala a seu coração. Apenas
eu conservo a eqüidade nos tribunais, onde, sem mim,
tudo seria entregue à indecisão e aos caprichos, em meio
a um amontoado confuso de leis feitas geralmente ao

136 137
Artigo posteriormente acrescentado,
no qual se fala da última
sentença pronunciada em favor
da famüia Calas

De 7 de março de 1763 até o julgamento definitivo,


passaram-se mais dois anos: tanto é fácil ao fanatismo
arrancar a vida à inocência, como é difícil à razão resti-
tuir-lhe a justiça. Foi preciso suportar demoras inevitáveis,
necessariamente ligadas às formalidades. Quanto menos
essas formalidades foram observadas na condenação de
Calas, tanto mais deviam sê-lo rigorosamente pelo con-
selho de Estado. Um ano inteiro não é suficiente para
forçar o parlamento de Toulouse a fazer chegar ao con-
selho toda a documentação, para examiná-la, para rela-
tar o processo. O sr. de Crosne foi mais uma vez encar-
regado desse trabalho penoso. Uma assembléia de cerca
de oitenta juízes anulou a sentença de Toulouse e orde-
nou a revisão completa do processo.
Outras questões importantes ocupavam, então, qua-
se todos os tribunais do reino. Expulsavam-se os jesuítas;
aboliam sua sociedade na França: eles haviam sido into-
lerantes e perseguidores, foram perseguidos por sua vez.
A extravagância dos bilhetes de confissão, dos quais
supunha-se serem os autores secretos e dos quais eram
publicamente partidários, já havia despertado o ódio da
nação contra eles. Uma bancarrota imensa de um de seus

139
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância--------

missionários1 62 , bancarrota tida em parte como fraudu- Calas, seu filho e o jovem Lavaisse voltaram à prisão. Fi-
lenta, acabou por arruiná-los. As simples palavras missio- zeram vir do interior do Languedoc aquela velha empre-
nários e bancarroteiros, pouco adequadas para estarem gada católica que em instante algum abandonara seus
juntas, incitaram em todos os espíritos a decisão de sua patrões e sua patroa, num momento em que se supu-
condenação. Enfim, as ruínas de Port-Royal e as ossadas nha, contra toda a verossimilhança, que haviam estran-
de tantos homens célebres insultados por eles em suas gulado o jovem Marc-Antoine. Deliberou-se enfim com
sepulturas e exumados no começo do século por ordens base nas mesmas peças que haviam servido para conde-
que apenas os jesuítas haviam ditado levantaram-se to- nar Jean Calas ao suplício da roda e seu filho Pierre ao
das contra sua autoridade finda. Pode-se ver a história de banimento.
sua proscrição no excelente livro intitulado Sur la des- Foi então que surgiu uma nova memória do elo-
truction des jésuites en France 163 , obra imparcial, porque qüente sr. de Beaumont l64 , e outra do jovem Lavaisse, tão
de um filósofo, escrita com a fineza e a eloqüência de injustamente implicado nesse processo criminal pelos
um Pascal e, sobretudo, com uma superioridade de luzes juízes de Toulouse, que, por cúmulo de contradição, não
o haviam declarado absolvido. Esse jovem fez pessoal-
que não é ofuscada, como em Pascal, por preconceitos
mente uma exposição que todos consideraram tão boa
que às vezes seduziram grandes homens.
quanto a do sr. de Beaumont. Tinha a dupla vantagem
Essa grande questão, na qual alguns partidários dos
de falar a seu favor e a favor de uma família com quem
jesuítas diziam que a religião era ultrajada e em que o
partilhara os grilhões. Dependera apenas dele destruir
maior número a considerava vingada, fez com que, du-
seus amigos e sair da prisão de Toulouse: bastaria ter
rante vários meses, o público perdesse de vista o proces- dito que se afastara dos Calas por um momento, aquele
so Calas; mas, tendo o rei atribuído ao tribunal chamado em que se supunha que o pai e a mãe haviam assassina-
das questões do palácio o julgamento definitivo, o mes- do seu filho. Ameaçaram-no com o suplício; a tortura e
mo público, que adora passar de uma cena a outra, es- a morte haviam se apresentado a seus olhos; uma pala-
queceu os jesuítas, e os Calas prenderam toda a sua vra poderia devolver-lhe a liberdade, mas ele preferiu ex-
atenção. por-se ao suplício do que pronunciar essa palavra, que
A câmara das questões do palácio é uma corte sobe- teria sido uma mentira. Narrou esses detalhes em sua ex-
rana composta de promotores de justiça, para julgar os posição, com uma candura tão nobre, tão simples, tão
processos entre os funcionários da corte e as causas que distante de qualquer ostentação, que sensibilizou aque-
o rei lhes envia. Não se podia ter escolhido um tribunal les que desejava apenas convencer e fez-se admirar sem
mais instruído sobre o assunto: eram precisamente os pretender a reputação.
mesmos magistrados que haviam julgado duas vezes as Seu pai, famoso advogado, não teve participação ne-
preliminares da revisão e que estavam perfeitamente in- nhuma nessa apresentação; viu-se, de repente, igualado
formados quanto ao fundo e à forma. A viúva de Jean pelo filho, que jamais cursara a advocacia.

140 141
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ __

Enquanto isso, pessoas da maior consideração vi- dádivas a ruína da família. A carta foi escrita. O rei res-
nham em grande número à prisão onde a senhora Calas pondeu mandando entregar trinta e seis mil libras à mãe
e suas filhas estavam encerradas. Comoviam-se com elas e aos filhos; e, dessas trinta e seis mil libras, três mil para
até ãs lágrimas. A humanidade, a generosidade, prodiga- a virtuosa empregada que defendera constantemente a
lizavam-lhes amparos. O que chamam de caridade não verdade ao defender seus patrões.
lhes dava nenhum. A caridade, aliás geralmente tão mes- O rei, por essa bondade, mereceu, como por tantos
quinha e insultante, é o quinhão dos devotos, e os devo- outros atos, o cognome que o amor da nação lhe outor-
tos ainda se opunham aos Calas. gou 165. Possa esse exemplo servir para inspirar aos ho-
Chegou o dia (9 de março de 1765) em que a ino- mens a tolerância, sem a qual o fanatismo devastaria a
cência triunfou plenamente. Tendo o sr. Baquencourt terra, ou pelo menos a afligiria sempre! Sabemos que se
apresentado todo o processo, inclusive em suas menores trata, aqui, de apenas uma única família e que o furor
das seitas fez perecer milhares; mas, hoje que uma som-
circunstâncias, os juízes por unanimidade declararam a
bra de paz deixa repousar todas as sociedades cristãs,
família inocente, julgada de forma iníqua e abusiva pelo
após séculos de carnificina, é nesse tempo de tranqüili-
parlamento de Toulouse. Reabilitaram a memória do pai.
dade que o infortúnio dos Calas deve causar maior im-
Autorizaram a família a recorrer a quem de direito para
pressão, algo como o trovão irrompendo na serenidade
responsabilizar seus juízes e para reparar as despesas,
de um belo dia. Esses casos são raros , mas acontecem , e
perdas e danos que os magistrados tolosanos deveriam
são o efeito dessa triste superstição que leva as almas fra-
suprir por conta própria.
cas a imputarem crimes a todo aquele que não pensa
Foi uma grande festa em Paris; as pessoas reuniam-
como elas.
se nas praças públicas, nos passeios; todos queriam ver
essa família tão infortunada e tão bem justificada; os juí-
zes eram aplaudidos, cumulados de sentimentos de gra-
tidão. O que torna esse espetáculo ainda mais comoven-
te é que aquele dia, 9 de março, era o mesmo em que
Calas perecera pelo mais cruel suplício (três anos antes).
Os senhores promotores de justiça haviam prestado
à família Calas uma justiça completa, e nisto não fizeram
mais do que seu dever. Há um outro dever, o da benefi-
cência, mais raramente cumprido pelos tribunais, que
parecem julgar-se destinados a serem apenas eqüitativos.
Os promotores de justiça decidiram que escreveriam em
conjunto à Sua Majestade para rogar-lhe reparar por suas

142 143
Notas

1. 12 de outubro de 1761. (Nota de Voltaire.)


2. Não lhe encontraram, após o transporte do cadáver ã câmara
municipal, senão um pequeno arranhão na ponta do nariz, e uma
pequena mancha no peito, causada por algum descuido no transpor-
te do corpo. (Nota de Voltaire.)
3. Em realidade, essa procissão ocorria não em 10 de março
como supunha Voltaire, mas em 17 de maio, em memória à vitória
obtida pelos católicos sobre os protestantes em maio de 1562. (M.) -
Designamos por (B.) uma nota de Beuchot, Oeuvres de Voltaire, 1829-
1834, e por (M.) uma nota de Moland, Oeuvres completes de Voltaire,
1877-1885.
4. O pároco de Saint-Étienne não protestou de modo algum e
disputou inclusive o direito de inumação com o pároco de Taur, na
circunscrição do qual encontrava-se a câmara municipal. (M.)
5. Veja-se a nota 3. (M.)
6. Lasalle. (M.)
7. Laborde. (M.)
8. Conheço apenas dois exemplos, na história, de pais acusados
de terem assassinado seus filhos por causa da religião.
O primeiro é o do pai de Santa Bárbara. Ele mandara construir
duas janelas em sua sala de banhos; Bárbara, em sua ausência, cons-
truiu uma terceira em honra da Santíssima Trindade; com a ponta do
dedo, ela fez o sinal da cruz sobre colunas de mármore e esse sinal
gravou-se profundamente nas colunas. Seu pai, furioso, investiu con-
tra ela de espada na mão; mas Bárbara fugiu através de uma monta-
nha que se abriu para si. O pai deu a volta à montanha e alcançou a

145
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _________ Tratado sobre a tolerância - - - - - - - - - -

filha; ela foi chicoteada completamente nua, mas Deus cobriu-a com condenados outrora em Bérenger. Baseavam-se em várias passagens
uma nuvem branca; seu pai, enfim, cortou-lhe a cabeça. Eis o que re- dos primeiros padres da Igreja, sobretudo de São Justino, que diz
lata a Flor dos santos. expressamente em seu diálogo contra Trífon: "A oblação da farinha
O segundo exemplo é o do príncipe Hermenegildo. Revoltou-se pura ... é a figura da eucaristia que Jesus Cristo nos ordena fazer em
contra o rei, seu pai, enfrentou-o numa batalha em 584, foi vencido memória de sua Paixão." (Página 119, Edit. Londinensis, 1719, in-8º.)
e morto por um oficial: fizeram dele um mártir, porque seu pai era Lembravam tudo o que se dissera nos primeiros séculos contra
ariano. (Nota de Voltaire.) o culto das relíquias; citavam estas palavras de Vigilantius: "É neces-
9. Um dominicano veio até meu cárcere e me ameaçou com o sário que respeiteis ou mesmo adoreis uma vil poeira? As almas dos
mesmo tipo de morte se eu não abjurasse. É o que atesto perante mártires animam ainda suas cinzas? Os costumes dos idólatras intro-
Deus. 23 de julho de 1762. PIERRE CALAS. (Nota de Voltaire.) duziram-se na Igreja; começam a acender tochas em pleno meio-dia.
10. Ela foi acolhida em casa dos senhores Dufour e Mallet, ban- Durante nossa vida podemos rezar uns pelos outros, mas, após. a
queiros, e depois por d'Argental e Damilaville. (M.) morte, de que servem essas preces?"
11. Mémoire à consulter, et Consultation pour la da me Anne- Mas não diziam o quanto São Jerônimo se insurgira contra essas
Rose Cabibel, veuve Calas, et pour ses enfants, 23 aout 1 762. (M.) palavras de Vigilantius. Enfim, queriam fazer tudo voltar aos tempos
12. Mémoire pour Donat, Pierre et Louis Calas. (M.) apostólicos, sem admitir que, tendo a Igreja se ampliado e fortaleci-
13. Mémoire paur dame Anne-Rose Cabibel, veuve du sieurJean do, fora também necessário ampliar e fortalecer sua disciplina: con-
Calas, L. et L.-D. Calas, leurs fils, et Anne-Rose et Anne Calas, leurs fil- denavam as riquezas, que pareciam não obstante necessárias para
Ies, demandeurs en cassation d'un arrêt du parlament de Toulouse, sustentar a majestade do culto. (Nota de Voltaire.)
du 9 mars 1762. (M.) 21. O verídico e respeitável magistrado De Thou fala assim des-
14. Eles foram imitados em várias cidades e a senhora Calas per- ses homens tão inocentes e tão infortunados: "Homines esse qui tre-
deu a vantagem dessa generosidade. (Nota de Voltaire.) centis circiter abhinc annis asperum et incultum solum vectigale a
15. Choiseul ocupava-se, então, em fazer a paz com a Ingla- dominis acceperint, quod improbo labore et assiduo cultu frugum
terra. (M.) ferax et aptum pecori reddiderint; patientissimos eos laboris et ine-
16. Devoto vem da palavra latina devotus. Os devoti da antiga diae, a litibus abhorrentes, erga egenos munificos, tributa principi et
Roma eram os que se dedicavam à salvação da república: eram os sua jura dominis sedulo et summa fide pendere; Dei cultum assiduis
Curtius, os Decius. (Nota de Voltaire.) precibus et morum innocentia prae se ferre, caeterum raro divorum
17. Alusão à obra apologética do abade Houtteville, La religion templa adire, nisi si quando ad vicina suis finibus oppida mercandi
chrétienne prouvée par les faits, Paris, 1722. aut negotiorum causa divertant; quo si quandoque pedem inferant,
18. Ou seja, conselheiros do parlamento. (M.) non Dei divorumque statuis advolvi, nec cereos eis aut donoria ulla
19. As anatas eram a taxa que pagavam ã Santa Sé os detentores ponere; non sacerdotes ab eis rogari ut pro se aut propinquorum
de um benefício eclesiástico. Foram abolidas pela Assembléia Cons- manibus rem divinam faciant: non cruce frontem insignire uti aliorum
tituinte em 1789. moris est; cum coelum intonat, non se lustralit aqua aspergere, sed
20. Eles reiteravam a opinião de Bérenger sobre a Eucaristia; sublatis in coelum oculis Dei opem implorare; non religionis ergo
negavam que um corpo pudesse estar em cem mil lugares diferentes, peregre proficisci, non per vias ante cruciam sjmula~ra caput ~r:e.rire;
mesmo com a onipotência divina; negavam que os atributos pudes- sacra alio rito et populare lingua celebrare; non demque pontlflcl aut
sem subsistir sem sujeito; acreditavam que era absolutamente impos- episcopis honorem deferre, sed quosdam e suo n~mero delectos p.ro
sível que -;;-que é pão e vinho para os olhos, o paladar e o estômago, antistitibus et doctoribus habere. Haec uti FranClscum relata VI Id.
desaparecesse de uma hora para outra; sustentavam todos esses erros, feb., anni, etc." (THUANI, Hist., liv. VI.)

146 147
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ __

Madame de Cental, a quem pertencia uma parte das terras de- coitado, de espírito perturbado, "que durante uma refeição num mos-
vastadas e sobre as quais só se viam os cadáveres de seus habitantes, teiro proferiu palavras insensatas e foi enforcado, em vez de ser exor-
pediu justiça ao rei Henrique II, que a enviou ao parlamento de Paris. cizado e purificado". (Dictionnaire philosophique, "Suplícios".)
O procurador-geral da Provença, chamado Guérin, principal autor 25. A província da Alsácia foi anexada ao reino da França após
dos massacres, foi o único condenado à morte. De Thou diz que a promulgação do edito de Nantes. O edito não era ali aplicado e,
arcou sozinho com a pena dos outros culpados, quod aulicorum la- portanto, jamais foi "revogado". Além disso, o rei tinha a preocupa-
vore destitueretur, porque não tinha amigos na corte. (Nota de Vol- ção de não perder para a Alemanha vizinha seus aliados protestantes.
taire.) Assim, a perseguição poupou os luteranos da Alsácia.
22. Ravaillac não havia sido frade bernardo. (M.) 26. Veja-se Rycaut. (Nota de Voltaire.) - Rycaut é o autor de uma
23. François Gomar era um teólogo protestante; sustentou, con- História da situação atual da Igreja grega, 1696.
tra Arminius, seu colega, que Deus destinara desde toda a eternidade 27. Os descendentes de Noé, ou noáchidas, eram tidos como
a maior parte dos homens ao fogo eterno. Esse dogma infernal foi praticantes de uma religião natural primitiva, anterior a toda Revela-
apoiado, como era de esperar, pela perseguição. O grande pensio- ção, que teria se conservado na China.
nista Barneveldt, que era do partido contrário a Gomar, teve a cabe- 28. O budismo, sendo Fô o nome chinês de Buda.
ça cortada aos 72 anos, no dia 13 de maio de 1619, "por haver con- 29. As Cartas edificantes e curiosas, periódico dos jesuítas, pu-
tristado ao máximo possível a Igreja de Deus". (Nota de Voltaire.) blicavam (após censura) as cartas dos missionários da sociedade. Elas
24. Um pregador, na apologia da revogação do edito de Nantes, são, na Europa do século XVIII, a principal fonte de informação
diz, ao falar da Inglaterra: "Uma falsa religião devia produzir necessa- sobre a China.
riamente semelhantes frutos; restava um por amadurecer e esses insu- 30. Voltaire relata no capítulo 179 do Essai sur les moeurs [Ensaio
lares o recolhem: é o desprezo das nações. " Cumpre reconhecer que sobre os costumes] a conspiração dos barris de pólvora contra o rei
o autor escolhe bem mal a ocasião de dizer que os ingleses são des- da Inglaterra (1605). Católicos fanáticos, descontentes com Jaime I,
prezíveis e desprezados pela terra inteira. Quando uma nação de- decidiram matar, num único atentado, o rei, a família real e todos os
monstra sua bravura e sua generosidade, quando é vitoriosa nos qua- pares do reino. Trinta e seis toneladas de pólvora foram dispostas sob
tro cantos do mundo, parece-me não ser lícito afirmar que ela é des- a sala do parlamento onde Jaime I devia fazer uso da palavra. Mas a
prezível e desprezada. É num capítulo sobre a intolerância que se máquina infernal foi descoberta a tempo.
encontra essa singular passagem; os que pregam a intolerância mere- 31. Vejam-se Kempfer e todos os relatos do Japão. (Nota de
cem escrever assim. Esse abominável livro, que parece feito pelo Voltaire.)
louco de Verberie, é de um homem sem vocação; pois, que religioso 32. As duas palavras gregas que deram origem a esse nome sig-
escreveria deste modo? O furor é levado até a justificar a Noite de São nificam amigo e irmão. (M.)
Bartolomeu. Chegamos a pensar que semelhante obra, repleta de tão 33. Alusão ao julgamento de Salomão. (M.)
terríveis paradoxos, deveria ser lida por todo o mundo, ao menos por 34. O sr. de La Bourdonnaie, intendente de Rouen, diz que a
sua singularidade; no entanto ela é pouco conhecida. (Nota de Vol- manufatura de chapéus caiu em Caudebec e em Neuchâtel por causa
taire.) - O pregador objeto dessa nota é o abade de Caveyrac, que, da evasão dos refugiados. O sr. Foucaut, intendente de Caen, diz que
na--página 362 de sua Apologia de Luís XIV quanto à revogaçào do o comércio em geral diminuiu pela metade. O sr. de Maupeou, inten-
edito de Nantes, com uma dissertação sobre a jornada de São Bar- dente de Poitiers, diz que a manufatura de droguete acabou. O sr. de
tolomeu, 1758, escreveu de fato a frase citada por Voltaire. Os france- Bezons, intendente de Bordéus, queixa-se de que o comércio de
ses, na Guerra dos Sete Anos, sofreram derrotas nos quatro cantos do Clérac e de Nérac praticamente não existe mais. O sr. de Miroménil,
mundo. (M.) - Segundo Voltaire, o "louco de Verberie" era um pobre intendente de Touraine, diz que o comércio de Tours foi reduzido em

148 149
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ - - - - - - - - - - Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __

dez milhões por ano; e tudo isto por causa da perseguição. (Vejam- ou seja, quando, numa sublevação repentina, lapidavam por zelo
se os relatórios dos intendentes, em 1698.) Leve-se em conta sobretu- aqueles que julgavam ter blasfemado. (Nota de Voltaire.)
do o número de oficiais de terra e mar, e marinheiros, que foram obri- 44. Atos, capo VII, V. 57. (M.)
gados a ir servir contra a França, geralmente com uma funesta vanta- 45. Ulpianus, Digest., liv. I, tit. ii. "Eis qui judaicam superstitio-
gem, e vejam se a intolerância não causou mal nenhum ao Estado. nem sequuntur honores adipisci permiserunt, etc." (Nota de Voltaire.)
Não se tem aqui a temeridade de propor idéias a ministros cujo 46. Tácito diz (Annales, XV, 44): "Quos per flagitia invisos vul-
gênio e opiniões abalizadas são bem conhecidos e cujo coração é tão gus christianos appellabat."
nobre quanto seu nascimento. Eles perceberão muito bem que o res- Era pouco provável que o nome "cristão" fosse já conhecido em
tabelecimento da marinha demanda alguma indulgência para com os Roma. Tácito escrevia sob Vespasiano e sob Domiciano; falava dos
habitantes das nossas costas. (Nota de Voltaire.) - Os dois ministros cristãos como falavam a respeito deles em sua época. Eu ousaria di-
elogiados por Voltaire são o duque de Choiseul-Stainville e seu pri- zer que as palavras adio humani generis convicti poderiam perfeita-
mo, o duque de Praslin. (M.) mente significar, no estilo de Tácito, acusados de serem odiados pelo
35. Voltaire não menciona os judeus de Avignon e do condado gênero humano, tanto quanto acusados de odiar o gênero humano.
Venaissin. Esses territórios, pertencentes ao papa, não faziam parte Com efeito, o que faziam em Roma esses primeiros missionários?
do reino da França antes da Revolução. Procuravam ganhar algumas almas, ensinavam-lhes a moral mais pura;
36. Por volta de 1730, em Paris, no cemitério Saint-Médard, o não se insurgiam contra nenhum poder; a humildade de seu coração
túmulo do diácono Pâris, muito popular no pequeno grupo jansenis- era tão extrema como a de suas posses e de sua situação; mal eram
ta, era palco de manifestações histéricas: as "convulsões". Os "profe- conhecidos; mal haviam se separado dos outros judeus. De que manei-
tas calvinistas": os da revolta dos protestantes. ra o gênero humano, que os ignorava, podia odiá-los? E de que ma-
37. Voltaire supõe que a Apologia de Sócrates, de Platão, consti- neira podiam ser acusados de detestar o gênero humano?
tua o discurso realmente pronunciado diante dos juízes. Quando Londres foi incendiada, acusaram os católicos; mas isso
38. Este homem é o abade de Malvaux, que publicou, em 1762, foi depois das guerras de religião, foi depois da conspiração dos bar-
L'accord de la religion et de l'humanité sur l'intolérance, obra que é ris de pólvora, na qual vários católicos, indignos de sê-lo, haviam se
comentada no pós-escrito (cap. XXIV do Tratado sobre a tolerância), envolvido.
e que fez repercutir sobre o autor uma parte da justa indignação que Os primeiros cristãos do tempo de Nero seguramente não se
seu predecessor, o abade de Caveyrac, havia despertado, ao fazer-se encontravam na mesma situação. É muito difícil penetrar nas trevas
apologista da Noite de São Bartolomeu. É a este último que alguns da história. Tácito não dá nenhuma razão da suspeita levantada de
atribuem a autoria de L'accord, etc. Segui a opinião de Hébrail. (B.) que o próprio Nero quis reduzir Roma a cinzas. Teríamos bem mais
39. Eis o texto de Cícero: "Quaeve anus tam excors inveniri po- razões para suspeitar de Carlos 11 de ter incendiado Londres: o san-
test, quae illa, quae quondam credebantur, apud inferos portenta gue do rei, seu pai, executado num cadafalso aos olhos do povo que
extimescat". (De natura deornm, liv. 11, capo ii.) (M.) pedia sua morte, podia ao menos servir de escusa a Carlos 11. Mas
40. Capítulos XXI e XXIV. (Nota de Voltaire.) Nero não tinha escusa, nem pretexto, nem interesse. Esses rumores
41. Atos, capítulo XXV, V. 16. (Nota de Voltaire.) insensatos podem ser, em qualquer lugar, o quinhão do povo: sabe-
42. Atos, capítulo XXVI, V. 24 (Nota de Voltaire.) mos de alguns, tão dementes e injustos, espalhados nos dias de hoje.
43. Embora os judeus não tivessem o direito de fazer justiça des- Tácito, que conhece tão bem o caráter dos governantes, devia
d e que Arquelau fora relegado entre os alóbrogos e a Judéia era go- conhecer o do povo, sempre vão, sempre exagerado em suas opi-
vernada como província do império, os romanos freqüentemente fe- niões violentas e passageiras, incapaz de perceber alguma coisa e
chavam os olhos quando os judeus exerciam o julgamento do zelo, capaz de tudo afirmar, de tudo crer e de tudo esquecer.

150 151
- - - - - - - - - - - - _ V o l t a i r e _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ __________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __

Fílon (De Virtutibus, et Legatione ad Caium) diz que "Sejano os feito de Roma lhe tenha exigido o dinheiro dos cristãos; que o diáco-
perseguiu sob Tibério, mas que, após a morte de Sejano, o impera- no Lourenço tenha tido tempo de reunir todos os pobres da cidade;
dor os restabeleceu em todos os seus direitos." Tinham o direito à ci- que tenha ido até o prefeito para levá-lo ao lugar onde estavam esses
dadania romana, embora desprezados pelos cidadãos romanos, par- pobres; que lhe tenham aberto um processo e feito um interrogató-
ticipavam das distribuições de trigo; e, mesmo quando a distribuição rio; que o prefeito tenha encomendado a um ferreiro uma grelha bas-
era feita num dia de sabá, adiavam a deles para um outro dia, prova- tante grande para assar um homem; que o primeiro magistrado de
velmente em consideração às quantias em dinheiro que haviam dado Roma tenha assistido pessoalmente a esse estranho suplício; que São
ao Estado, pois em todo lugar eles compraram a tolerância e em Lourenço, nessa grelha, lhe tenha dito: "Estou bastante assado de um
pouco tempo foram ressarcidos do que ela havia custado. lado, podes me virar do outro se queres me comer." Essa grelha não
Essa passagem de Fílon explica perfeitamente a de Tácito, que faz muito o gênero dos romanos. E como se explica que nenhum au-
diz que quatro mil judeus ou egípcios foram enviados à Sardenha e tor pagão tenha falado dessas aventuras? (Nota de Voltaire.)
que, se a intempérie do clima os fizesse perecer, seria uma perda 48. Basta abrir Virgílio para ver que os romanos reconheciam
leve, vile damnum (Annales, II, 85). um deus supremo, soberano de todos os seres celestes.
Acrescentarei a essa nota que Fílon vê Tibério como um gover-
nante sábio e justo. Presumo que só era justo na medida em que essa ... O! qui res hominunque deumque
justiça correspondia a seus interesses; mas o bem que Fílon diz dele Aeternis regis imperiis, et fulmine terres.
me faz duvidar um pouco dos horrores que Tácito e Suetônio lhe atri- (Eneida, I, 233-34.)
buem. Não me parece verossímil que um velho doente, de 70 anos,
tenha se retirado à ilha de Capri para ali entregar-se a orgias requin- O pater, o hominum divumque aeterna potestas, etc.
tadas, que mal são naturais e que eram inclusive desconhecidas da (Eneida, X, 18.)
juventude mais desenfreada de Roma; nem Tácito nem Suetônio
conheceram esse imperador; eles recolhiam com prazer os boatos Horácio exprime-se bem mais enfaticamente:
populares. Otávio, Tibério e seus sucessores foram odiados, porque
reinavam sobre um povo que devia ser livre. Os historiadores com- Unde nil majus generatur ipso,
praziam-se em difamá-los, e acreditava-se na palavra desses historia- Nec viget quidquam simile, aut secundum.
dores porque, então, não havia anais, jornais da época, documentos; (Lib. I, od. xii, 17-18.)
assim, os historiadores não citam ninguém; era impossível contradi-
zê-los; difamavam quem queriam e decidiam a seu bel-prazer o jul- Não se cantava outra coisa, senão a unidade de Deus nos misté-
gamento da posteridade. Cabe ao leitor sensato perceber até que rios em que quase todos os romanos eram iniciados. Veja-se o belo
ponto deve-se desconfiar da veracidade desses historiadores, qual o hino de Orfeu; leia-se a carta de Máximo de Madaurus a Santo Agos-
crédito que merecem fatos públicos atestados por autores sérios, nas- tinho, na qual diz que "somente imbecis poderiam não reconhecer
cidos numa nação esclarecida, e quais os limites que devemos impor um Deus soberano". Mesmo sendo pagão, Longino escreve ao mes-
à credulidade em anedotas que esses mesmos autores relatam sem a mo Agostinho que Deus "é único, incompreensível, inefável"; o pró-
menor prova. (Nota de Voltaire.) prio Lactâncio, que não pode ser acusado de demasiado indulgente,
47. Evidentemente, respeitamos tudo o que a Igreja torna respei- admite em seu livro V (Divin. Institut., c. I1I), que "os romanos sub-
tável; invocamos os santos mártires, mas, mesmo reverenciando São metem' todos os deuses ao Deus supremo; illos subjicit et mancipat
Lourenço, podemos duvidar que São Sisto lhe tenha dito: Você me Deo". Mesmo Tertuliano, em sua Apologética (c. XXIV), afirma que todo
seguirá dentro de três dias; que nesse curto intervalo de tempo o pre- o Império reconhecia um deus senhor do mundo, cuja potência e

/
152 153
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire-------_ _ _ _ __ - - - -______ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __

majestade são infinitas, principem mundi, perfectae potentiae et natural que os habitantes robustos e ferozes do Cáucaso, os cólqui-
majestatis. Sobretudo em Platão, o mestre de Cícero na filosofia, lê- das e os citas, que vieram tantas vezes devastar a Ásia, tenham pene-
se que "há um só Deus; cumpre adorá-lo, amá-lo e procurar asseme- trado no Egito; e se os sacerdotes de Colcos adotaram a moda da cir-
lhar-se a ele pela santidade e pela justiça". Epicteto na prisão, Marco cuncisão, isso não é uma prova de que tenham sido subjugados pelos
Antônio no trono, dizem a mesma coisa em várias passagens. (Nota egípcios. Diodoro de Sicília conta que todos os reis vencidos por
de Voltaire.) Sesóstris vinham anualmente de seus reinos distantes pagar-lhe os tri-
49. Capítulo XXXIX. (Nota de Voltaire.) butos e que Sesóstris servia-se deles como de cavalos atrelados ã sua
50. Capítulo XXXV. (Nota de Voltaire.) carruagem para levá-lo ao templo. Essas histórias de Gargântua são
51. Capítulo III. (Nota de Voltaire.) todos os dias fielmente copiadas. Obviamente, os reis eram muito
52. Essa asserção deve ser provada. É preciso convir que, desde bondosos para virem de tão longe servir de cavalos.
que a história sucedeu ã fábula, os egípcios são vistos apenas como Quanto às pirâmides e outras antiguidades, não provam outra
um povo covarde e supersticioso. Cambises apodera-se do Egito me- coisa senão o orgulho e o mau gosto dos príncipes do Egito, bem
diante uma única batalha; Alexandre lhe dita leis sem experimentar como a escravidão de um povo imbecil, empregando seus braços, que
um só combate, não encontrando uma cidade que ouse resistir a um eram seu único bem, para satisfazer a grosseira ostentação de seus
assédio; os Ptolomeus o subjugam sem resistência; César e Augusto o senhores. O governo desse povo, mesmo nos períodos mais enalteci-
fazem também facilmente; Ornar ocupa todo o Egito numa única cam- dos, parece absurdo e tirânico; dizem que todas as terras pertenciam
panha; os mamelucos, povo da Cólquida e dos arredores do monte aos monarcas. E competia a tais escravos conquistar o mundo!
Cáucaso, são seus senhores após Ornar; são eles, e não os egípcios, A profunda ciência dos sacerdotes egípcios é também uma das
que derrotam o exército de São Luís e fazem esse rei prisioneiro. En- coisas mais ridículas da história antiga, isto é, da fábula. Gente que
fim, tendo os mamelucos se tornado egípcios, ou seja, indolentes, co- afirmava que, num período de onze mil anos, o sol havia surgido
vardes, relapsos e volúveis, como os habitantes naturais desse clima, duas vezes no poente e se posto duas vezes no nascente, recomeçan-
em pouco tempo caem sob o jugo de Selim I, que manda enforcar do seu curso, estava certamente muito abaixo do autor do Almana-
seu sultão e anexa essa província ao império dos turcos, até que ou- que de Liege. A religião desses sacerdotes, que governavam o Estado,
tros bárbaros apoderem-se dela um dia. não se comparava sequer à dos povos selvagens da América. Sabe-se
Heródoto relata que, nos tempos fabulosos, um rei egípcio cha- que adoravam crocodilos, macacos, gatos, cebolas; talvez, hoje, em
mado Sesóstris saiu de seu país com o propósito fonual de conquistar toda a terra, só o culto do grande lama seja tão absurdo.
o universo. Percebe-se que tal propósito só é digno de um Picrochole Suas artes não valem muito mais que sua religião: não há uma
[personagem do Gargântua de Rabelaisl ou de dom Quixote, sem con- única estátua egípcia que seja suportável, e tudo o que tiveram de
tar que o nome Sesóstris não é egípcio, pode-se colocar esse aconteci- bom foi feito em Alexandria, sob os Ptolomeus e os Césares, por ar-
mento, bem como todos os fatos anteriores, na conta das Mil e uma tistas da Grécia. Precisaram de um grego para aprender geometria.
noites. Nada é mais comum entre os povos conquistados do que reci- O ilustre Bossuet extasia-se com o mérito egípcio, em seu Dis-
tar fábulas sobre sua antiga grandeza, do mesmo modo que, em certas cours sur I'Histoire universelle dirigido ao filho de Luís XlV. O discur-
regiões, certas famílias miseráveis se fazem descender de antigos sobe- so é capaz de deslumbrar um jovem príncipe; mas satisfaz muito pou-
ranos. Os sacerdotes do Egito contaram a Heródoto que esse rei cha- co os estudiosos: trata-se de uma declamação eloqüente, mas um his-
mado Sesóstris fora subjugar a Cólquida: é como se disséssemos que toriador deve ser mais filósofo do que orador. De resto, essa reflexão
um rei da França partiu de Touraine para subjugar a Noruega. sobre os egípcios é dada apenas como uma conjetura. Que outro no-
Por mais que repitam todas essas histórias em milhares e milha- me pode dar-se a tudo o que se diz da Antiguidade? (Nota de Vol-
res de volumes, elas não se tornam mais verossímeis. É bem mais taire.)

/ -
154 155
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ - - - - - - -___ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __

53. Não se contesta a morte de Santo Inácio. Mas ao ler o relato em chamas, essas chamas afastaram-se dele e formaram um arco-íris
de seu martírio, um homem de bom senso não sentirá algumas dúvi- acima de sua cabeça; que uma pomba surgiu desse arco-íris; que o
das surgirem em seu espírito? O autor desconhecido desse relato diz santo, respeitado pelo fogo, exalou uma fragrância aromática que
que "Trajano julgou que faltaria algo à sua glória se não submetesse perfumou todo o ambiente; mas aquele de quem o fogo não ousava
a seu império o deus dos cristàos". Que idéia! Acaso Trajano era um aproximar-se não pôde resistir ao golpe da espada. É preciso reco-
homem que quisesse triunfar dos deuses? Quando Inácio apareceu nhecer que devemos perdoar os que vêem nessas histórias mais pie-
diante do imperador, este lhe disse: "Quem és tu, espírito impuro?" É dade do que verdade. (Nota de Voltaire.)
pouco provável que um imperador falasse a um prisioneiro e que ele 54. Histoire ecclésiastique, liv. VIII. (Nota de Voltaire.)
próprio o condenasse; não é assim que os soberanos costumam agir. 55. Daniel, capítulo m. (M.)
Se Trajano mandou vir Inácio à sua presença, não podia ter-lhe per- 56. Veja-se nota 3, retro.
guntado: Quem és tu? Ele o sabia perfeitamente. E a expressào espí- 57. A Guerra dos Sete Anos, terminada pelo tratado de 10 de
rito impuro poderia ter sido pronunciada por um homem como Tra- fevereiro de 1763. (M.)
jano? Nào se percebe que é uma expressão de exorcista, que um cris- 58. A grande lei da atração. (M.)
tão põe na boca de um imperador? Será este, santa ingenuidade, o 59. O parlamento de Paris havia, em 8 de junho de 1763, apro-
estilo de Trajano? vado um decreto contra a inoculação. (M.)
60. Veja-se a excelente carta de Locke sobre a tolerância. (Nota
Pode-se conceber que Inácio lhe tenha respondido chamar-se
de Voltaire.)
Teóforo, porque trazia Jesus em seu coraçào, e que Trajano tivesse
61. O jesuíta Busembaum, comentado pelo jesuíta Lacroix, diz
dissertado com ele acerca de Jesus Cristo? Fazem Trajano dizer, ao
que "é permitido matar um príncipe excomungado pelo papa, em
final da conversaçào: "Ordenamos que Inácio, que se glorifica de tra-
qualquer país onde se encontre esse príncipe, porque o universo per-
zer em si o crucificado, seja acorrentado, etc." Um sofista inimigo dos
tence ao papa, e aquele que aceita essa incumbência faz uma obra
cristãos podia chamar Jesus Cristo de crucificado; mas é pouco prová-
caridosa". Foi essa proposição, inventada nos manicômios do infer-
vel que, ao declarar a sentença, empregasse esse termo. O suplício da no, que mais mobilizou a França contra os jesuítas. Mais do que nun-
cruz era tão comum entre os romanos que era impossível, no estilo ca, reprovaram-lhes então esse dogma, por eles ensinado tantas ve-
das leis, designar por crucificado o objeto do culto dos cristãos; e não zes e tantas vezes negado. Acreditaram justificar-se mostrando apro-
é assim que as leis e os imperadores pronunciam seus julgamentos. ximadamente as mesmas decisões em Santo Tomás e em vários domi-
A seguir fazem Santo Inácio escrever uma longa carta aos cris- nicanos (leiam, se puderem, a Carta de um homem do mundo a um
tãos de Roma: "Eu vos escrevo - diz ele - completamente acorrenta- teólogo, sobre Santo Tomás; é uma brochura de jesuíta, de 1762). Com
do." Por certo, se lhe foi permitido escrever aos cristãos de Roma, efeito, Santo Tomás de Aquino, doutor angélico, intérprete da vontade
estes não eram procurados; Trajano, portanto, não tinha o propósito divina (são seus títulos), afirma que um príncipe apóstata perde seu
de submeter o Deus deles a seu império; caso contrário, se esses cris- direito à coroa e que não se deve mais obedecer-lhe; que a Igreja
tãos estivessem sob o flagelo da perseguição, Inácio cometia uma pode puni-lo com a morte (livro lI, parto 2, quest. 12); que o impera-
grande imprudência ao escrever-lhes: significava expor-lhes, entre- dor Juliano foi tolerado apenas porque era o mais forte (livro lI, parto
gar-lhes, significava tornar-se seu delator. 2, quest. 12); que é legítimo matar todo herético (livro II, parto 2,
Penso que os que redigiram esses atos deviam dar mais atenção quest. 11 e 12); que os que libertam o povo de um príncipe que go-
às verossimilhanças e às conveniências. O martírio de São Policarpo verna tiranicamente são muito louváveis, etc., etc. Respeita-se muito
faz surgir mais dúvidas. É dito que uma voz gritou do alto do céu: o anjo da escola; mas se, na época de Jacques Clément, seu confra-
Coragem, Polica/pol, que os cristãos a ouviram, mas os outros não. É de e do bernardo Ravaillac ele viesse sustentar na França tais propo-
dito que, quando amarraram Policarpo no poste e a fogueira ardeu siçÕes, de que maneira teri~m tratado o anjo da escola?

156 157
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ __________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __

Cumpre reconhecer que Jean Gerson, chanceler da Universida- dotar de um sentimento não raro mais delicado que o nosso e de
de, foi ainda mais longe que Santo Tomás, e o franciscano Jean Petit, algumas idéias necessariamente associadas a esse sentimento. Por
infinitamente mais longe ainda. Vários franciscanos sustentaram as isso ele não quer a barbárie de nos alimentarmos do sangue desses
horríveis teses de Jean Petit. É preciso dizer que essa doutrina diabó- animais, porque o sangue é a fonte da vida e, conseqüentemente, do
lica do regicídio advém unicamente da idéia maluca partilhada há sentimento. Prive-se um animal de seu sangue e todos os seus órgãos
muito tempo por quase todos os monges, segundo a qual o papa é ficam sem ação. É, pois, com muita razão que a Escritura diz em vá-
um Deus na terra, podendo dispor à vontade do trono e da vida dos rias passagens que a alma, isto é, o que era chamado de alma sensi-
reis. Nesse ponto estamos muito abaixo dos tártaros que crêem no tiva, está no sangue; e essa idéia tào natural foi a de todos os povos.
grande lama imortal; este entrega-lhes sua cadeira de retrete; eles fa- É sobre essa idéia que se fundou a comiseração que devemos
zem secar essas relíquias, guardam-nas em relicário e as beijam devo- ter para com os animais. Dos sete preceitos dos noáchidas, adotados
tamente. De minha parte, confesso que preferiria, para o bem da paz, pelos judeus, há um que proíbe comer o membro de um animal em
levar no pescoço tais relíquias do que acreditar que o papa tenha o vida. Esse preceito prova que os homens tiveram a crueldade de mu-
menor direito sobre o temporal dos reis, ou mesmo sobre o meu, em tilar os animais para comer seus membros e que os deixavam viver
que circunstância for. (Nota de Voltaire.) para se alimentar sucessivamente das partes de seu corpo. Esse cos-
62. Joào, XIV, 28. (M,) tume subsistiu, com efeito, entre alguns povos bárbaros, como vemos
63. lI, 14. (M.) pelos sacrifícios da ilha de Quios, a Baco Omadios, o comedor de
64. I, 17. (M.) carne crua. Deus, ao permitir que os animais nos sirvam de comida,
65. III, 23-31. (M,) recomenda portanto humanidade para com eles. É preciso convir que
66. Católicos e protestantes. (M.) há barbárie em fazê-los sofrer; certamente só o costume é capaz de
67. Êxodo, XII, 8. (M.) diminuir em nós o horror natural de degolar um animal que nutrimos
68. Ibid., lI. (M.) com as nossas màos. Sempre houve povos que tiveram um grande
69. Pascha, a Páscoa, festa anual dos judeus, em memória de escrúpulo disso. Esse escrúpulo subsiste ainda em quase toda a Índia;
sua saída do Egito. (M,) toda a seita de Pitágoras, na Itália e na Grécia, sempre se absteve de
70. Levítico, XIII, 23. (M.) comer carne. Porfírio, em seu livro da Abstinência, censura um discí-
71. Ibid., XVI, 22. (M.) pulo por ter abandonado sua seita apenas para entregar-se a seu ape-
72. Deuteronômio, capo XIV. (Nota de Voltaire.) tite bárbaro.
73. Dentro de nossa idéia de fazer sobre esta obra algumas notas É preciso, penso eu, ter renunciado à luz natural, para ousar
úteis, assinalaremos aqui que é dito ter feito Deus uma aliança com afirmar que os animais são somente máquinas. Há uma contradição
Noé e com todos os animais. No entanto, ele permite a Noé comer de manifesta em admitir que Deus deu aos animais todos os órgàos do
tudo o que tenha vida e movimento; excetua apenas o sangue, do sentimento e em sustentar que não lhes deu sentimento.
qual não permite que se alimentem. Deus acrescenta (Gênesis, IX, 5) Parece-me também que é preciso não ter jamais observado os
"que se vingará de todos os animais que derramaram o sangue do animais para não distinguir neles as diferentes vozes da necessidade,
homem". da alegria, do temor, do amor, da cólera e de todos os seus afetos; se-
Pode-se inferir dessas passagens e de várias outras o que toda a ria muito estranho que exprimissem tão bem o que não sentem.
Antiguidade sempre pensou até os nossos dias e o que todos os Essa nota pode fornecer muitas reflexões aos espíritos sabedo-
homens sensatos pensam: que os animais têm algum conhecimento. res do poder e da bondade do Criador, que se digna conceder a vida,
Deus não faz um pacto com as árvores nem com as pedras, que não o sentimento, as idéias, a memória, aos seres que ele próprio organi-
têm sentimento; mas faz com os animais, que ele houve por bem zou com sua mào onipotente. Não sabemos nem como esses órgãos

158 159
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __

se formaram, nem como se desenvolveram, nem como se recebe a ra do dia em que Moisés desceu da montanha, todo esse povo tenha
vida, nem por que leis os sentimentos, as idéias, a memória, a vonta- se dirigido ao irmão de Moisés para obter o bezerro de ouro maciço.
de ligam-se a essa vida; e nessa profunda e eterna ignorância, ineren- Como pôde Aarão fundi-lo num só dia (Êxodo, XXXII, 4)? E como
te ã nossa natureza, não cessamos de discutir, perseguimo-nos uns Moisés o reduziu a pó em seguida (Êxodo, XXXII, 20)? Dizem ser
aos outros, como os touros que se batem com seus chifres sem saber impossível a qualquer artista fazer em menos de três meses uma está-
por que e como têm chifres. (Nota de Voltaire.) tua de ouro, e que, para reduzi-la a pó, a arte da química mais erudi-
74. Amós, V, 26. (Nota de Voltaire.) ta não é suficiente. Assim, tanto a prevaricação de Aarão como a ope-
75. jeremias, VII, 22. (Nota de Voltaire.) ração de Moisés teriam sido milagres.
76. Atos, VII, 42-43. (Nota de Voltaire.) A humanidade, a bondade de coração, que os enganam, os im-
77. Deuteronômio, XII, 8. (Nota de Voltaire.) pedem de acreditar que Moisés tenha mandado matar vinte e três mil
78. Vários escritores concluíram temerariamente dessa passagem pessoas (Êxodo, XXXII, 28) para expiar esse pecado; não concebem
que o capítulo concernente ao bezerro de ouro (que não é senão o que vinte e três mil homens tenham se deixado deste modo mas~a­
deus Ápis) foi acrescentado aos livros de Moisés, bem como vários crar por levitas, a menos que se trate de um terceiro milagre. Enfim,
outros capítulos. acham estranho que Aarão, de todos o mais culpado, tenha sido re-
Aben-Hezra foi o primeiro que julgou demonstrar que o Penta- compensado do crime que causou tão terrível punição aos demais
teuco fora redigido no tempo dos reis. Wollaston, Collins, Tindal, (Êxodo, XXXIII, 19; e Levítico, VIII, 2), tornando-se grande sacerdote,
Shaftesbury, Bolingbroke e muitos outros alegaram que a arte de gra- enquanto os cadáveres ensangüentados de vinte e três mil de seus
var os pensamentos na pedra polida, na argila, no chumbo ou na ma- irmãos eram empilhados ao pé do altar onde foi oferecer sacrifícios.
deira era, então, a única maneira de escrever; dizem que, no tempo Levantam os mesmos problemas em relação aos vinte e quatro
de Moisés, os caldeus e os egípcios não escreviam de outro modo; mil israelitas massacrados por ordem de Moisés (Números, XXV, 9),
que, portanto, só podiam gravar de forma muito abreviada, e em hie- para expiar a falta de um só que fora surpreendido com uma jovem
róglifos, a substância das coisas que queriam transmitir ã posteridade, madianita. Vêem-se tantos reis judeus, sobretudo Salomão, esposar
e não histórias detalhadas; que não era possível gravar livros volumo- impunemente estrangeiras, que esses críticos não conseguem admitir
sos num deserto onde se mudava freqüentemente de lugar, onde não que a união com uma madianita fosse tão grande crime: Rute era moa-
havia ninguém que pudesse produzir roupas, nem cortá-las, nem bita, embora sua família fosse originária de Belém; a Sagrada Escritura
sequer consertar as sandálias, e onde Deus foi obrigado a fazer um designa sempre Rute, a moabita; no entanto, ela foi ter ao leito de
milagre de quarenta anos (Deuteronômio, VIII, 5) para conservar as Boaz a conselho de sua mãe; dele recebeu seis alqueires de cevada, o
roupas e os calçados de seu povo. Dizem que não é verossímil que desposou em seguida e foi a avó de Davi. Raabe era não apenas es-
houvesse tantos gravadores de caracteres, quando faltavam os ofícios trangeira, mas uma mulher pública; a Vulgata não lhe dá outro título
mais necessários e nem mesmo se podia fazer pão; e, se lhes dizem senão o de meretrix (Josué, VI, 17); ela esposou Salmom, príncipe de
que as colunas do tabernáculo eram de bronze e os capitéis de prata Judá; e é ainda desse Salmom que Davi descende. Consideram inclu-
maciça, respondem que a ordem pode ter sido dada no deserto, mas sive Raabe como a figura da Igreja cristã: é a opinião de vários padres,
que só foi executada em épocas mais favoráveis. e sobretudo de Orígenes em sua sétima homilia sobre Josué.
Não conseguem conceber que esse povo pobre tenha exigido Betsabé, mulher de Urias, da qual Davi teve Salomão, era etéia.
um bezerro de ouro maciço (Êxodo, XXXII, 1) para adorá-lo ao pé da Se remontarmos mais acima, o patriarca Judá esposou uma mulher
mesma montanha em que Deus falava a Moisés, em meio a raios e cananéia; seus filhos tiveram por mulher Tamar, da raça de Aram.
relâmpagos que o povo avistava (Êxodo, XIX, 18-19) e ao som da Essa mulher, com quem Judá cometeu, sem saber, um incesto, não
trombeta celeste que ouvia. Espantam-se de que exatamente na véspe- era da raça de Israel.

160 161
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ __________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __

Assim, nosso Senhor Jesus Cristo dignou-se encarnar entre os hebraica. Atemo-nos firmemente à decisào da Igreja, conforme o de-
judeus uma família com cinco estrangeiras em sua árvore genealógi- ver razoável de um fiel.
ca, para fazer ver que as nações estrangeiras teriam parte na sua Encerramos esta nota com uma passagem importante do Levíti-
herança. co, livro composto após a adoração do bezerro de ouro. Ele ordena os
O rabino Aben-Hezra foi, como disse, o primeiro a ousar afirmar judeus a não mais adorar os lanosos, "os bodes, com os quais inclusi-
que o Pentateuco fora redigido muito tempo depois de Moisés. Ele ve praticaram abominações infames". Não se sabe se esse estranho
baseia-se em várias passagens. "O cananeu (Gênesis, IX, 6) estava culto vinha do Egito, pátria da superstição e do sortilégio; mas acredi-
então nesse país. A montanha de Moriá (lI Paralip., I1I, 1), chamada ta-se que o costume de nossos supostos feiticeiros de adorar um bode
a montanha de Deus. O leito de Og, rei de Bazan, se vê ainda em no sabá e de com ele entregar-se a infâmias inconcebíveis, cuja idéia
Rabat, e ele denominou toda essa região de Bazan aldeias de Jair, até causa horror, proveio dos antigos judeus. Com efeito, foram eles que
hoje. Jamais se viu, em Israel, profeta como Moisés. São estes os reis ensinaram, numa parte da Europa, a feitiçaria. Que povo! Tão estranha
que reinaram em Edom (Gênesis, XXXVI, 31) antes que algum reinas- infâmia parecia merecer um castigo comparável ao ocasionado pelo
se sobre Israel." Aben-Hezra afirma que essas passagens, em que se bezerro de ouro; no entanto, o legislador contenta-se em fazer-lhe
fala de coisas acontecidas depois de Moisés, não podem ser de Moi- uma simples defesa. Relatamos aqui esse fato apenas para fazer
sés. Objetam-lhe que tais passagens são notas acrescentadas muito conhecer a nação judaica: nela, a bestialidade devia ser comum, por
tempo depois pelos copistas. ser a única nação conhecida na qual as leis foram forçadas a proibir
Newton, cujo nome aliás só merece ser pronunciado com res- um crime jamais suspeitado alhures por algum legislador.
peito, mas que pode ter-se enganado por ser homem, atribui, na É de supor que nas fadigas e na penúria que os judeus expe-
introdução a seus comentários sobre Daniel e São João, os livros de rimentaram nos desertos de Farã, Oreb e Cades-Barné, a espécie fe-
Moisés, Josué e dos Juízes a autores sagrados muito posteriores: ba- minina, mais frágil que a outra, tenha sucumbido. É provável, de fato,
seia-se no capítulo XXXVI do Gênesis, em quatro capítulos dos Juízes, que os judeus carecessem de mulheres, já que sempre lhes foi orde-
XVII, XVIII, XIX, XXI; em Samuel, capo VIII; nas Crônicas, capo 11; no nado, quando se apoderavam de uma cidade ou aldeia, seja à esquer-
livro de Rute, capo IV. Com efeito, se no capo XXXVI do Gênesis se da, seja à direita do lago Asfaltite, matar todos, exceto as jovens
fala dos reis, se eles são mencionados no livro dos Juízes, se no livro núbeis.
de Rute há referência a Davi, tudo leva a crer que esses livros foram Os árabes que habitam ainda uma parte desses desertos estipu-
escritos no tempo dos reis. É também a opinião de alguns teólogos, lam sempre, nos tratados que fazem com as caravanas, que lhes
a começar pelo famoso Leclerc. Mas essa opinião tem apenas um darão jovens núbeis. É possível que os rapazes, nessa região terrível,
pequeno número de adeptos cuja curiosidade sonda tais abismos. levassem a depravação da natureza até acasalarem-se com cabras,
Essa curiosidade, por certo, não faz parte dos deveres do homem. como é dito de alguns pastores da Calábria.
Quando os sábios e os ignorantes, os príncipes e os pastores apresen- Resta saber se esses acasalamentos produziram monstros e se há
tarem-se após esta curta vida perante o senhor da eternidade, todos algum fundamento nos antigos contos de sátiros, faunos, centauros e
desejarão ser justos, humanos, compassivos, generosos; ninguém se minotauros; a história o afirma, mas a física não nos esclareceu ainda
vangloriará de ter sabido precisamente em que ano o Pentateuco foi sobre esse assunto monstruoso. (Nota de Voltaire.)
escrito e de ter decifrado o texto de notas que os escribas costuma- 79. Josué, capo XXIV, V. 15 sS. (Nota de Voltaire.)
vam tomar. Deus não nos perguntará se fomos a favor dos massore- 80. Números, capo XXI, V. 9. (Nota de Voltaire.)
tes contra o Talmude, se alguma vez tomamos um caph por um beth, 81. lI. paralip., capo IV. (M.)
um yod por um vaü, um daleth por um res; com toda a certeza, ele 82. lI. Reis, XII, 28. (M.) [Corresponde a I Reis.)
nos julgará por nossas ações, e não pela compreensão da língua 83. Ibid., 31. eM.)

162 163
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ __________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __

84. Reis, liv. m, capo XV, V. 14 [corresponde a I Reis); ibid., capo Vemos, nessa fatal aventura, uma devoção, um sacerdote, uma
XXII, v. 44. (Nota de Voltaire.) vítima: tratava-se, pois, de um sacrifício.
85. Reis, liv. IV, capo XVI. (Id.) [II Reis) Todos os povos cuja história conhecemos sacrificaram homens
86. Ibid., liv. m [I Reis], capo XVIII, V. 38 e 40; ibid., liv. IV, capo à Divindade, exceto os chineses. Plutarco (Quest. rom. LXXXII) conta
II, V. 24. (Id.) que os próprios romanos fizeram imolações na época da república.
87. Iv. Reis [II Reis], II, 24. (M.) Nos Comentários de César(De bello gall., I, xxiv), lemos que os
88. Números, capo XXXI. (Nota de Voltaire.) germanos imolaram os reféns que ele lhes devolvera após sua vitória.
89. Mádian não fazia parte da terra prometida. Era um pequeno Observei alhures que essa violação do direito das pessoas para
cantão da Iduméia, na Arábia Pétrea; começa ao norte no curso do rio com os reféns de César, e essas vítimas humanas imoladas, para cúmu-
Arnon e vai até o Zared, em meio aos rochedos e na margem orien- lo do horror, pela mào de mulheres, desmente um pouco o panegíri-
tal do lago Asfaltite. Essa região é hoje habitada por uma pequena co que Tácito faz dos germanos, em seu tratado De moribus germa-
horda de árabes; deve ter cerca de oito léguas de comprimento e um norum. Parece que, nesse tratado, Tácito preocupa-se mais em fazer
pouco menos de largura. (Id.) a sátira dos romanos do que o elogio dos germanos, que ele não co-
90. Números, XXXI, 32 sS. (M.) nhecia.
91. Números, XXXI, 40. (M.) Diga-se de passagem que Tácito gostava mais da sátira do que
92. É certo pelo texto (juízes, XI, 39) que Jefté imolou sua filha.
da verdade. Ele quer tornar tudo odioso, inclusive as ações indiferen-
"Deus não aprova esses sacrifícios, diz dom Calmet em sua Disserta-
tes, e sua malignidade nos agrada quase tanto quanto seu estilo por-
ção sobre o juramento de jefté; mas quando foram oferecidos, ele quer
que gostamos da maledicência e do engenho.
que os executem, ainda que para punir aqueles que os faziam, ou
Voltemos às vítimas humanas. Nossos antepassados as imolavam
para reprimir a leviandade com que seriam feitos se não temessem a
da mesma forma que os germanos: é o último grau da estupidez de
execução." Santo Agostinho e quase todos os padres condenam a
nossa natureza abandonada a si mesma e é um dos frutos da fragili-
ação de Jefté. É verdade que a Escritura (juízes, XI, 29) diz que ele foi
dade de nosso julgamento. Dizemos: Cumpre oferecer a Deus o que
tomado pelo espírito de Deus, e São Paulo, em sua Epístola aos hebreus,
temos de mais precioso e de mais belo; o que temos de mais precio-
capo XI, V. 32, faz o elogio de Jefté; equipara-o a Samuel e Davi.
São Jerônimo, em sua epístola a Juliano, diz: "Jefté imolou sua so são nossos filhos; logo, cumpre escolher os mais belos e os mais
filha ao Senhor, e é por isso que o apóstolo o inclui entre os santos." jovens para sacrificá-los à Divindade.
Eis aí, de um lado e de outro, julgamentos sobre os quais não nos é Fílon diz que, na terra de Canaà, imolavam-se às vezes crianças,
permitido acrescentar o nosso; deve-se temer inclusive ter uma opi- antes que Deus ordenasse a Abraão sacrificar-lhe seu filho único,
nião. (Nota de Voltaire.) Isaque, para provar sua fé.
93. Pode-se considerar a morte do rei Agag como um verdadei- Sanchoniathon, citado por Eusébio, conta que os fenícios sacri-
ro sacrifício. Saul havia feito esse rei dos amalecitas prisioneiro de ficavam, nas situações de maior perigo, o mais querido de todos os
guerra e aceitara negociar com ele; mas o sacerdote Samuel ordenou- seus filhos, e que Ilus imolou seu filho Jehud mais ou menos na
lhe nada poupar; disse-lhe com estas palavras (J. Samuel, XV, 3): época em que Deus pôs à prova a fé de Abraào. É difícil penetrar nas
"Nada lhe poupes, porém matarás homem e mulher, meninos e crian- trevas dessa antiguidade; mas nào resta dúvida de que esses horríveis
ças de peito." sacrifícios eram praticados quase por toda parte; os povos só os
"E Samuel despedaçou a Agague perante o Senhor em Gilgal." abandonaram à medida que se civilizaram: a civilidade traz a huma-
"O zelo que animava o profeta", diz dom Calmet, "pôs-lhe a espa- nidade. (Nota de Voltaire.)
da na mão nessa ocasião para vingar a glória do Senhor e para humi- 94. XXXIX, 20, 18. (M.)
lhar Saul." 95. juízes, capo XI, V. 24. (Nota de Voltaire.)

164 165
- - - - - - - - - -_ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ __________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __

96. juízes, capo XVII, último versículo. (Nota de Voltaire.) manece deitado sobre seu lado esquerdo trezentos e noventa dias, e
97. Reis, liv. IV [lI. Reis], capo V, v. 18 e 19. (Nota de Voltaire.) sobre seu lado direito quarenta dias, para dar a entender que os
98. Os que estão pouco a par dos costumes da Antiguidade e judeus não terão pão e para indicar quantos anos haveria de durar o
que só julgam segundo o que vêem a seu redor podem ficar espan- cativeiro. Prende-se com correntes, que representam as do povo;
tados com essas singularidades; mas é preciso pensar que, então, no corta seus cabelos e sua barba e os divide em três partes: o primeiro
Egito e numa grande parte da Ásia, a maior parte das coisas exprimia- terço designa os que devem perecer na Cidade; o segundo, os que
se por figuras, hieróglifos, sinais, modelos. serão mortos fora das muralhas; o terceiro, os que serão levados à
Os profetas, que eram chamados videntes entre os egípcios e os Babilônia.
judeus, não apenas se exprimiam em alegorias, como também repre- O profeta Oséias (cap. 111) une-se a uma mulher adúltera, que ele
sentavam por sinais os acontecimentos que anunciavam. Assim, Isaías, adquire por quinze peças de prata e um saco e meio de cevada: "Tu
o primeiro dos quatro grandes profetas judeus, pega um rolo (cap. esperarás por mim muitos dias, diz-lhe Oséias; não te prostituirás,
VIII) e escreve: "Shas bas, toma depressa os despojos"; depois apro- nem serás de outro homem; assim também esperarei por ti. Porque
xima-se da profetisa. Ela dá à luz um menino que ele chama de os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, sem príncipe, sem
Maher-chalal-shas-bas: é uma figura dos males que os povos do Egito sacrifício, sem coluna, sem estola sacerdotal ou ídolos do lar." Em
e da Assíria farão aos judeus. uma palavra, os na bis, os profetas, os videntes, quase nunca predi-
Esse profeta diz (VII, 15, 16, 18, 20} "Ele comerá manteiga e mel zem sem representar por um sinal a coisa predita.
quando souber desprezar o mal e escolher o bem. Na verdade, antes Jeremias, portanto, não faz senão seguir o costume ao amarrar-
que este menino saiba desprezar o mal e escolher o bem, será desam- se com cordas e colocar cabrestos e jugos nas costas, para significar
parada a terra, ante cujos dois reis tu tremes de medo ... Porque há de a escravidão daqueles aos quais envia esses modelos. Se prestarmos
acontecer que naquele dia assobiará o Senhor às moscas que há no bem atenção, esses tempos são como os de um mundo antigo, que
extremo dos rios do Egito, e às abelhas que andam na terra da Assíria ... em tudo difere do novo: a vida civil, as leis, a maneira de fazer a
Naquele dia rapar-te-á o Senhor com uma navalha alugada doutro guerra, as cerimônias da religião, tudo é absolutamente diferente.
lado do rio, a saber, por meio da Assíria, a cabeça e os cabelos das ver- Basta abrir Homero e o primeiro livro de Heródoto para nos conven-
gonhas, e tirará também a barba." cermos de que não temos nenhuma semelhança com os povos da alta
Essa profecia das abelhas, da barba e dos cabelos das vergonhas Antiguidade e de que devemos desconfiar de nosso julgamento quan-
raspados, só pode ser entendida por aqueles que sabem que era cos- do buscamos comparar seus costumes com os nossos.
tume chamar os enxames com o som da flauta ou de algum outro ins- A própria natureza não era o que é hoje. Os magos tinham sobre
trumento campestre; que a maior afronta que se podia fazer a um ela um poder que não têm mais: encantavam serpentes, evocavam os
homem era cortar-lhe a barba; que se chamava de cabelos das vergo- mortos, etc. Deus enviava sonhos, e homens os explicavam. O dom
nhas o pêlo do púbis; que esse pêlo só era raspado nas doenças da profecia era comum. Viam-se metamorfoses como as de Nabuco-
imundas, como a lepra. Todas essas figuras estranhas ao nosso estilo donosor transformado em boi, da mulher de Ló em estátua de sal, de
não significam senão que o Senhor, dentro de alguns anos, libertará cinco cidades num lago betuminoso.
seu povo da opressão. Havia espécies de homens que não mais existem. A raça dos gi-
O mesmo Isaías (cap. XX) marcha completamente nu, para assi- gantes Refaím, Enim, Nefilim, Enacim, desapareceu. Santo Agostinho,
nalar que o rei da Assíria levará uma multidão de cativos do Egito e no livro V da Cidade de Deus, diz ter visto o dente de um antigo
da Etiópia, que não terão com que cobrir sua nudez. gigante cem vezes maior que os nossos molares. Ezequiel (XXVII, 11)
Ezequiel (cap. IVe seguinte) come o volume de pergaminho que fala dos pigmeus gamaditas, da altura de um côvado, que combatiam
lhe é apresentado; em seguida cobre seu pão de excrementos e per- no cerco de Tiro. E em quase tudo isto os autores sagrados estão de

166 167
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _________ Tratado sobre a tolerância - - - - - - - - - -

acordo com os profanos. As doenças e os remédios não eram os mes- terada. O hebraico sempre teve apenas dois modos para os verbos, o
mos de nossos dias: os possessos eram curados com a raiz barad en- presente e o futuro: é preciso adivinhar os outros modos pelo senti-
gastada num anel que lhes punham sob o nariz. ' do. Vogais diferentes eram com freqüência expressas pelos mesmos
E~fim, todo esse mundo antigo era tão diferente do nosso, que caracteres; ou, então, não se expressavam as vogais, e os inventores
de~e nao se pode tirar nenhuma regra de conduta; e se, nessa Anti- dos pontos só fizeram aumentar a dificuldade. Cada advérbio tem
gUidade recuada, os homens se perseguiram e oprimiram sucessiva- vinte significados diferentes. A mesma palavra é tomada em sentidos
mente a propósito de seu culto, não deveríamos imitar essa cruelda- contrários.
de sob a lei da misericórdia. (Nota de Volta ire.) Acrescente-se a isso a secura e a pobreza da linguagem: os ju-
99. jeremias, capo XXVII, V. 6. (Nota de Voltaire.) deus, privados das artes, não podiam exprimir o que ignoravam. Em
100. jeremias, capo XXVIII, V. 17. (Nota de Voltaire.) uma palavra, o hebraico está para o grego assim como a linguagem
101. Isaías, capo XLIV e XLV. (Nota de Voltaire.) de um camponês para a de um acadêmico. (Nota de Voltaire.) Vol-
102. I, V. 11. (M.) taire tem em vista o livro do teólogo inglês W. Warburton, The divine
103. Êxodo, capo XX, V. 5. (Nota de Voltaire.) legation of Moses demonstrated.
104. Deuteronômio, V, V. 16. (M.) 107. Ezequiel, capo XVIII, V. 20. (Nota de Voltaire.)
105. Deuteronômio, XXVIII. (Nota de Voltaire.) 108. Ibid., capo XX, V. 25. (Nota de Voltaire.)
. 106. ~á uma única passagem nas leis de Moisés da qual se pode- 109. A opinião de Ezequiel prevaleceu enfim na sinagoga; mas
na conclUir q~e ele conhecia a opinião reinante entre os egípcios, de houve judeus que, acreditando nos castigos eternos, acreditavam
que a alma nao morre com o corpo; essa passagem é muito impor- também que Deus perseguia nos filhos as iniqüidades dos pais; hoje
tante, e se encontra no capítulo XVIII do Deuteronômio: "Não se eles são punidos para além da qüinquagésima geração e têm ainda a
achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha temer os castigos eternos. Pergunta-se de que maneira os descenden-
nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro: tes dos judeus, que não eram cúmplices da morte de Jesus Cristo, os
nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consult~ que, estando em Jerusalém, não participaram dela e os que se espa-
os mortos." lharam pelo resto da terra podem ser temporalmente punidos em
Essa passagem parece indicar que, se evocavam as almas dos seus filhos, tão inocentes quanto seus pais. Essa punição temporal,
mortos, tal sortilégio supunha a permanência das almas. Pode ser
ou, antes, essa maneira de existir diferente de outros povos e de pra-
ta_mb~m que os magos de que fala Moisés, sendo apenas trapaceiros
ticar o comércio sem ter pátria, pode não ser vista como um castigo
nao tivessem uma idéia clara do sortilégio que julgavam operar. Ele~
em comparação com as penas eternas que eles atraem sobre si por
faZiam crer que ~orçavam os mortos a falar, que os repunham, por sua
sua incredulidade e que são capazes de evitar através de uma conver-
magia, na sltuaçao em que esses corpos tinham estado em vida sem
~x:minar ao menos se era possível inferir ou não de suas oper~ções são sincera. (Nota de Voltaire.)
110. Os que quiseram encontrar no Pentateuco a doutrina do
ndlcula~ ,o dogma da imortalidade da alma. Os feiticeiros jamais
inferno e do paraíso, tais como os concebemos, equivocaram-se es-
foram filosofos, sempre foram charlatães que representavam diante
tranhamente. Seu erro baseou-se apenas numa vã disputa de pala-
de imbecis.
vras; tendo a Vulgata traduzido o termo hebraicO sheol, fossa, pelo la-
Pode-se observar ainda que é bastante estranho a palavra Píton
encontrar-se no Deuteronômio, muito tempo antes que essa palavra tino infernum, inferno, serviram-se desse equívoco para fazer crer que
grega pudesse ser conhecida pelos hebreus: assim, Píton não tem os antigos hebreus tinham a noção de Hades e de Tártaro dos gre-
nenhuma tradução exata na língua hebraica. gos, que outras nações conheceram antes sob nomes diferentes.
Essa língua tem dificuldades insuperáveis: é uma mistura de fe- É dito no capítulo XVI dos Números (31-33) que a terra abriu
nício, egípcio, sírio e árabe; e essa mistura encontra-se hoje muito al- sua boca sob as tendas de Coré, Datã e Abirã, que os devorou com

168 169
- - - - - - - - - -_ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __

suas tendas e seus bens, e que eles foram precipitados vivos na mo- que pecam"; ou ainda, segundo a versão dos Setenta, "Seu pecado foi
rada dos mortos. Certamente esse lugar não se refere ãs almas des- trazido ã memória".
ses três hebreus, nem aos tormentos do inferno, nem a uma punição Cito as passagens inteiras, e literalmente, sem o quê é sempre
eterna. impossível formar-se a respeito delas uma idéia verdadeira.
É estranho que, no Dictionnaire encyclopédique, no termo IN- Existe aí, eu vos pergunto, a menor palavra a partir da qual se
FERNO, seja dito que os antigos hebreus reconheceram sua realida- possa concluir que Moisés ensinou aos judeus a doutrina clara e sim-
de. Se fosse assim, haveria uma contradição insustentável no Penta- ples dos castigos e recompensas após a morte?
teuco. Como se explicaria que Moisés tivesse falado numa passagem O livro de Jó não tem relação com as leis de Moisés. Ademais, é
isolada e única dos castigos após a morte e que deles não tivesse fala- muito provável que JÓ não fosse judeu: é a opinião de São Jerônimo
do em suas leis? Cita-se o trigésimo segundo capítulo do Deutero- em suas questões hebraicas sobre o Gênesis. A palavra Satanás, que
nômio (versículos 21-24), mas de maneira truncada; ei-lo aqui na ín- está em JÓ O, 1, 6, 12), não era conhecida dos judeus, e jamais apa-
tegra: "Provocaram-me com aquilo que não era Deus, e irritaram-me rece no Pentateuco. Os judeus só ficaram sabendo desse nome 'na
com sua vaidade; também eu os provocarei naquilo que não é um Caldéia, assim como os nomes Gabriel e Rafael, desconhecidos antes
povo, e os irritarei com uma nação insensata. Porque se acendeu o de sua escravidão na Babilônia. Portanto Jó é muito mal citado a esse
fogo de minha cólera, e ele arderá até ao fundo da terra; devorará a respeito.
terra com seus produtos e abrasará os fundamentos das montanhas' Cita-se ainda o último capítulo de Isaías (23, 24): "E de uma lua
e acumularei sobre eles os males, e empregarei contra eles minha~ nova ã outra, e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar
flechas; serão consumidos pela fome, as aves os atacarão com bica- perante mim, diz o Senhor. Eles sairão, e verão os cadáveres dos ho-
das dolorosas; mandarei sobre eles os dentes das feras e das serpen- mens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca mor-
tes que se arrastam com furor sobre a terra.'" rerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a
Acaso existe alguma relação entre essas expressões e a idéia das carne."
punições infernais tais como as concebemos? Parece antes que essas Certamente, se são expostos ã visão dos passantes e comidos
palavras só tenham sido mencionadas para tornar evidente que nosso pelos vermes, isso não quer dizer que Moisés ensinou aos judeus o
inferno era ignorado pelos antigos judeus. dogma da imortalidade da alma; e as palavras O fogo não se apagará
O autor desse artigo no Dictionnaire encyclopédique cita ainda não significam que cadáveres expostos ã visão do povo sofram as
a passagem de Jó, no capítulo XXIV (15-19). "Aguardam o crepúscu- penas eternas do inferno.
lo os olhos do adúltero; este diz consigo: Ninguém me reconhecerá; Como se pode citar uma passagem de Isaías para provar que os
e cobre o rosto. Nas trevas minam as casas, de dia se conservam en- judeus do tempo de Moisés receberam o dogma da imortalidade da
cerrados, nada querem com a luz. Pois a manhã para todos eles é alma? Isaías profetizava, segundo o cálculo hebraico, no ano 3380 do
como sombra de morte; mas os terrores da noite lhes são familiares. mundo. Moisés viveu por volta do ano 2500; transcorreram oito sécu-
Vós dizeis: Os perversos são levados rapidamente na superfície das los entre um e outro. É um insulto ao senso comum, ou uma simples
águas; maldita é a porção dos tais na terra; já não andam pelo cami- brincadeira, abusar assim da permissão de citar e pretender provar
nho das vinhas. A secura e o calor desfazem as águas da neve; assim que um autor sustentou tal opinião através de uma passagem de um
faz a sepultura dos que pecaram." Ou então: "O túmulo dissipou os autor vindo oitocentos anos depois e não falou dessa opinião. É indu-
bitável que a imortalidade da alma, os castigos e as recompensas
após a morte são anunciados, reconhecidos, constatados no Novo
• Esta citação é traduzida de Voltaire. A tradução de João Ferreira de Al- Testamento, e é indubitável que não se encontram em nenhum lugar
meida, aqui empregada, apresenta diferenças. Notadamente, diz "ao mais pro- do Pentateuco; e isto é o que o grande Arnauld diz claramente e com
fundo do inferno", onde está "ao fundo da terra". (N. do T.) vigor em sua apologia de Port-Royal.

170 171
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ __________ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ _ __

Os judeus, acreditando depois na imortalidade da alma, não sopro, vento, espírito, remetendo-nos involuntariamente à idéia de
foram esclarecidos sobre sua espiritualidade; pensaram, como quase uma substância solta e leve, nós ainda tiramos o que podemos, para
todas as outras nações, que a alma é algo de solto, aéreo, uma subs- chegar a conceber a espiritualidade pura. Mas não chegamos jamais
tância leve, que conservava alguma semelhança com o corpo que ha- a uma noção distinta; não sabemos sequer o que dizemos ao pronun-
via animado; é o que chamam de sombras, os manes dos co1pos. Essa ciarmos a palavra substância; significa, literalmente, o que está abai-
opinião foi a de vários padres da Igreja. Tertuliano, em seu capítulo xo e, por isso mesmo, nos adverte que é incompreensível: pois o que
XXII de Acerca da alma, exprime-se assim: "Definimus animam Dei vem a ser, de fato, o que está abaixo? O conhecimento dos segredos
flatu natam, immortalem, corporal em, effigiatam, substantia simpli- de Deus não está destinado a esta vida. Mergulhados em trevas pro-
cem. - Definimos a alma nascida do sopro de Deus, imortal, corpo- fundas, batem-nos uns contra os outros e atingimo-nos ao acaso em
ral, figurada, simples em sua substância." meio a essa noite, sem saber precisamente por que combatemos.
Santo Irineu diz, em seu livro II, capo XXXIV: "Incorporales sunt Se quisermos refletir atentamente sobre tudo isso, não haverá
animae quantum ad comparationem mortalium corporum. - As almas homem razoável que não conclua que devemos ter indulgência para
são incorpóreas em comparação com os corpos mortais." Ele acres- com as opiniões dos outros, e reconhecer seu direito.
centa que "Jesus Cristo ensinou que as almas conservam as imagens do Todas essas observações não são alheias ao fundo da questão,
corpo - caracterem corporum in quo adoptantur, etc." Ao que se saiba, que consiste em saber se os homens devem se tolerar; pois, se elas
Jesus Cristo jamais ensinou essa doutrina, e é difícil adivinhar o sentido provam o quanto houve de enganos de parte a parte em todos os
de Santo Irineu. tempos, provam também que os homens precisaram, em todos os tem-
Santo Hilário é mais formal e mais positivo em seu comentário sobre pos, tratar-se com indulgência. (Nota de Volta ire.)
Santo Mateus. Atribui claramente uma substância corporal à alma: "Corpo- 111. O dogma da fatalidade é antigo e universal; encontra-se a
ream naturae suae substantiam sortiuntur." todo momento em Homero. Júpiter queria salvar a vida de seu filho
Santo Ambrósio, acerca de Abraão, livro II, capo VIII, afirma que não Sarpédon; mas o destino o condenou à morte e Júpiter teve de obe-
há nada de separado da matéria, a não ser a substância da Santíssima decer. Entre os filósofos, o destino era, ou o encadeamento necessá-
Trindade.
rio das causas e dos efeitos necessariamente produzidos pela nature-
Poder-se-ia censurar esses homens respeitáveis de fazerem má filo-
za, ou esse mesmo encadeamento ordenado pela Providência, o que
sofia; mas é de supor que, no fundo, sua teologia fosse bastante correta,
é bem mais razoável. Todo o sistema da fatalidade está contido nesta
uma vez que, não conhecendo a natureza incompreensível da alma, asse-
frase de Sêneca (epístola CV1I): Ducunt volentem fata, nolentem tra-
guravam-na imortal e a queriam cristã.
hunt [Os fatos guiam a quem se deixa levar, arrastam a quem resiste].
Sabemos que a alma é espiritual, mas não sabemos em absoluto o
Sempre se esteve de acordo com que Deus governava o univer-
que vem a ser o espírito. Conhecemos muito imperfeitamente a matéria,
so por leis eternas, universais, imutáveis. Essa verdade foi a origem
e nos é impossível ter uma idéia clara do que não é matéria. Muito pouco
de todas as disputas ininteligíveis sobre a liberdade, porque jamais se
informados sobre o que afeta nossos sentidos, nada podemos conhecer
por nós mesmos acerca do que está além dos sentidos. Transpor- definiu a liberdade, até surgir o sábio Locke. Este demonstrou que a
tamos algumas palavras de nossa linguagem comum aos abismos da liberdade é o poder de agir. Deus concede esse poder; e o homem,
metafísica e da teologia, para termos uma vaga idéia das coisas que agindo livremente segundo as ordens eternas de Deus, é uma das
não podemos conceber nem exprimir; procuramos nos apoiar nessas rodas da grande máquina do mundo. Toda a Antiguidade discutiu so-
palavras, para sustentar, se possível, nosso frágil entendimento nes- bre a liberdade; mas até os nossos dias ninguém foi perseguido por
sas regiões ignoradas. isso. Que horror absurdo terem aprisionado, exilado, por causa dessa
Assim, utilizamo-nos da palavra espírito, que corresponde a so- disputa, um Arnauld, um Sacy, um Nicole e tantos outros que foram
pro e vento, para exprimir algo que não é matéria; e dessas palavras a luz da França! (Nota de Voltaire.)

172 173
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância - - - - - - - - -

112. O romance teológico da metempsicose vem da Índia, da 127. João, VIII, 11. (M.)
qual recebemos muitas outras fábulas sem que geralmente o saiba- 128. João, lI, 9. (M.)
mos. Esse dogma é explicado no admirável décimo quinto livro das 129. Mateus, XXVI, 52; João, XVIII, 11. (M.)
Metamorfoses de Ovídio. Foi aceito em quase toda a terra e sempre 130. Lucas, IX, 55. (M.)
foi combatido; mas não sabemos de nenhum sacerdote da Antigui- 131. Lucas, XXIII, 34. (M.)
dade que alguma vez tenha dado uma ordem de prisão a um discípu- 132. Lucas, XXII, 44. (M.)
lo de Pitágoras. (Nota de Voltaire.) 133. São Mateus, capo XXIII. (Nota de Voltaire.)
113. Nem os antigos judeus, nem os egípcios, nem seus contem- 134. Ibid., capo XXVI, V. 59. (Nota de Voltaire.)
porâneos gregos acreditavam que a alma do homem fosse para o céu 135. Mateus, capo XXVI, V. 61. (Nota de Voltaire.)
após a morte. Os judeus pensavam que a Lua e o Sol estavam a algu- 136. Mateus, capo XXVI, V. 63. (M.)
mas léguas acima de nós, no mesmo círculo, e que o firmamento era 137. Era de fato muito difícil aos judeus, para não dizer impos-
uma abóbada espessa e sólida que sustentava o peso das águas, que sível, compreender, sem uma revelação particular, esse mistério int~­
escapavam por algumas aberturas. O palácio dos deuses, entre os fável da encarnação do Filho de Deus, do próprio Deus. O Gênesis
antigos gregos, encontrava-se no monte Olimpo. A morada dos heróis (cap. VI) chama filhos de Deus os filhos dos homens poderosos; do
após a morte situava-se, no tempo de Homero, numa ilha além do mesmo modo, os grandes cedros, nos salmos (LXXIX, 11), são cha-
oceano, e era esta a opinião dos essênios. mados cedros de Deus. Samuel (J. Reis, XVI, 15) diz que um terror de
Desde Homero, atribuíram-se planetas aos deuses, mas para os Deus tomou conta do povo, ou seja, um grande terror; um grande
homens não havia mais razão de colocar um deus na Lua do que para vento, um vento de Deus; a doença de Saul, melancolia de Deus. No
os habitantes da Lua de colocar um deus no planeta Terra. Juno e Íris entanto, parece que os judeus entenderam literalmente que Jesus se
não tiveram outros palácios, a não ser as nuvens; lá não havia onde disse filho de Deus no sentido próprio; mas, se consideraram essas
repousar o pé. Entre os sabeus, cada deus tinha sua estrela; mas sen- palavras uma blasfêmia, talvez seja uma prova a mais de sua ignorân-
do uma estrela um sol, não há como habitá-la, a menos que se tenha cia a respeito do mistério da encarnação e de Deus, filho de Deus,
a natureza do fogo. Portanto é uma questão bastante inútil perguntar
enviado ã terra para a salvação dos homens. (Nota de Voltaire.)
o que os antigos pensavam do céu. A melhor resposta é que não pen-
138. Mateus, XXVI, 64. (M.)
savam. (Nota de Voltaire.)
139. Acta apost., XXV, 16. (M.)
114. São Mateus, capo XXII, V. 4. (Nota de Voltaire.)
140. Capítulo 13, "Admoestação mui respeitosa aos Inquisidores
115. São Lucas, capo XIV. (Nota de VoltaireJ
da Espanha e Portugal".
116. Versículo 23. eM.)
141. Em 1653, o papa havia condenado no Augustinus de Jan-
117. Lucas, XIV, 12. (M.)
senius cinco proposições. Os jansenistas opuseram uma longa resis-
118. São Lucas, capo XIV, V. 26 e ss. (Nota de Voltaire.)
tência, baseando-se no fato de que elas não aparecem literalmente no
119. São Mateus, capo XVIII, V. 17. (Nota de Voltaire.)
120. Mateus, XI, 19. (M.) Augustinus.
121. Marcos, XI, 13. (M.) 142. João, XIV, 28. (M.)
122. Lucas, XV. (M.) 143. La Rochefoucauld, máxima 223.
123. Mateus, XX. (M.) 144. Quando escrevíamos assim, em 1762, a ordem dos jesuítas
124. Lucas, X. (M.) não havia sido abolida na França. Se eles tivessem sido injustiçados,
125. Mateus, IX, 15. (M.) o autor certamente os teria respeitado. Mas que se saiba para sempre
126. Lucas, VII, 48. eM.) que foram perseguidos apenas porque haviam sido perseguidores; e

174 175
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Tratado sobre a tolerância _ _ _ _ _ _ _ __

que seu exemplo faça tremer aqueles que, sendo mais intolerantes Gemelinus, talvez devêssemos ler Gomez e Geminianus, mas não
que os jesuítas, gostariam de oprimir um dia os concidadãos que não posso explicar Diabarus. (B.)
abraçassem suas opiniões duras e absurdas. (Nota de Voltaire.) Essa 156. Lucas, X, 27. (M.)
nota foi acrescentada em 1771. (M.) 157. O abade Malvaux. Veja-se a nota 38. (M.)
145. O padre Le Tellier foi o confessor de Luís XIV ao final de sua 158. Do abade de Caveyrac.
vida. Acusavam-no de haver inspirado a política intolerante do rei. 159. Négociations en Hollande, 6 vol., 1752-53. (M.)
146. A pólvora de canhão. (M.) 160. Veja-se acima, capítulo XVII. (M.)
147. Em 1714, ano em que Voltaire supõe ter sido escrita a carta 161. Aqui termina o Traité de la tolérance na edição de 1763; o
que forma esse capítulo, só existiam na França doze parlamentos. (M.) artigo que segue foi acrescentado, em 1765, na impressão que faz
148. Essa inicial é a do nome de Ravaillac; é o próprio Voltaire parte do segundo tomo de Nouveaux mélanges. (M.)
que o informa em seu Avis au public sur les parricides imputés aux 162. O arcebispo de Paris, Christophe de Beaumont, imitado por
Calas e aux Sirven [Esclarecimento ao público sobre os parricídios alguns bispos de província, decidiu recusar os últimos sacramentos
imputados aos Calas e aos Sirvenl. (M.) aos agonizantes que não apresentassem um bilhete de confissão assi-
149. Act., v. 29. (M.) nado por um padre não jansenista; a conseqüência era que o defun-
150. Voltaire fala também dessa seita, sem dar seu nome, num to não obtinha a sepultura cristã. Disso resultou uma forte agitação
adendo ao artigo "Batismo" do Dictionnaire philosophique (1767) e popular, apoiada pelo parlamento de Paris. Luís XV só conseguirá pôr
no capítulo 42 de Dieu et les hommes (1769). fim a ela, mediante um compromisso, em 1757. - O padre La Valette,
151. Voltaire refere-se a oito crianças ressuscitadas, em seu ver- missionário jesuíta nas Antilhas, havia se lançado, sem o conhecimen-
bete sobre São Francisco Xavier do Dictionnaíre philosophique. (M.) to dos superiores, em vastas operações comerciais. Foi à bancarrota,
152. O arrabalde Saint-Marceau, no bairro que conserva ainda arrastando em sua ruína banqueiros de Marselha. A Companhia recu-
hoje esse nome, um dos bairros mais miseráveis de Paris no século sou-se a reembolsar os credores do padre La Valette e preferiu levar
XVIII, onde se encontravam o cemitério de Saint-Médard e o túmulo o caso ao parlamento de Paris, muito hostil aos jesuítas. As medidas
do diácono Pâris, local de reunião dos "convulsionários" jansenistas. tomadas pelo parlamento culminaram na supressão da Companhia
Uma pediculose é uma doença "na qual se forma um grande núme- de Jesus na França (1764) e em seu banimento (1767).
ro de piolhos" (Littré). 163. Por d'Alembert, 1765, in-12; 1767, in-12; e nas Obras deste
153. I. Cor., XV, 36. (M.) autor. (M.)
154. Veja-se o excelente livro intitulado Le manuel de I1nquísi- 164. Mémoire à consulter et Consultation pour les enfants du
tion. (Nota de Voltaire.) - O livro que Voltaire recomenda aqui, com défuntj. Calas, marchand à Toulouse. Deliberado em Paris, em 22 de
razão, é Le manuel des inquísiteurs à l'usage des Inquisitions d'Es- janeiro de 1765. Assinado: Lambon, Mallard, d'Outremont, Mariette,
pagne et de Portugal, ou Abrégé de l'ouvrage intitulé Directorium Gerbier, Legouvé, Loyseau de Mauléon, Élie de Beaumont. (M.)
inquisitorum, composé, vers 1358, par Nicolas Eymerie, etc., 1762, in- 165. Em 1744, os exércitos ingleses e austríacos invadiam a
12; o autor do Manual é o abade Morellet. (B.) Lorena e a Alsácia. Luís XV assumiu pessoalmente o comando do
155. É de acordo com a obra do abade Morellet, citada na nota exército. Chegando a Metz, cai gravemente enfermo. Teme-se por sua
precedente, que redijo os nomes Cuchalon, Roias e Felynus (em vez vida. Esse acontecimento suscitou em todo o reino uma emoção in-
de Chucalon, Royas e Telinus que se lêem em outras edições). Os tensa. O povo afluía às igrejas para pedir a Deus a cura do rei. Foi
nomes Gomarus, Diabarus e Gemelinus me parecem também altera- então que Luís XV recebeu o cognome de Bem-Amado.
dos; procurei-os em vào, não somente na obra de Morellet, mas ainda
em vários bibliógrafos nacionais e profissionais; em vez de Gomarus,

176 177
Bibliografia

1. Outros textos de Voltaire sobre a tolerância:

La Henriade (1728), em Oeuvres completes, The Volta ire Foundation,


Oxford, 1970, t. II, em particular cantos II (a Noite de São Bar-
tolomeu) e V (assassinato de Henrique IIO.
Zafre, tragédia (1732), em Oeuvres completes, The Voltaire Foun-
dation, Oxford, 1988, t. VIII.
Lettres pbilosopbiques(1734), ed. Lanson, nova tiragem, Paris, Didier,
1964,2 vol.
Mabomet, tragédia (1741), em 1béâtre do XVII!' siecle, t. I, p. p. J.
Truchet, Bibliotheque de la Pléaide, 1972.
La loi naturelle (1752), em Oeuvres completes, ed. L. Moland, Paris,
Garnier, 1877, t. IX.
Textos de Voltaire em favor dos Calas (1762) em Oeuvres completes,
ed. L. Moland, 1879, t. XXIV, pp. 365-411.
Dictionnaire pbilosopbique (1764-1765), art. "Tolérance", Paris, GF,
1964.
Relation de la mort du cbevalier de La Barre (1766), em Oeuvres com-
pletes, ed. L. Moland, 1879, t. xxv, pp. 503-16.
Avis au public sur /es parricides imputés aux Calas et aux Sirven (1766),
em Oeuvres completes, ed. L. Moland, 1879, t. XXV, pp. 517-37.
Questions sur l'Encyclopédie, art. "Tolérance" (1772), em Oeuvres
completes, ed. L. Moland, 1879, t. XX.
Le cri du sang innocent (1775), a Luís XVI, por uma revisão do pro-
cesso La Barre, em Oeuvres completes, ed. L. Moland, 1879, t. XXIX,
pp.375-89.

179
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Voltaire _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

Voltaire, L'aifaire Calas, prefácio de ). Van den Henvel, Paris, Folio,


1975 (textos de Voltaire sobre os casos Calas, Sirven, Lally, La Barre).

2. Sobre o caso Calas:

BIEN (David D.), 1be Calas Affair, Princeton, 1960.


CHOSSAIGNE (Marc), L'aifaire Calas, Paris, Perrin, 1929.
ORSONI Qean), L'aifaire Calas avant Voltaire, tese de Terceiro Ciclo,
Université de Paris-Sorbonne, 3 vol., exemplares datilografados,
1981.
POMEAU (René), "Nouveau regard sur le dossier Calas", Europe,
junho de 1962.
POMEAU (René), "Volta ire et Rousseau devant l'affaire Calas", em Vol-
taire, Rousseau et la toleránce, Amsterdam, Maison Descartes, 1980.

3. Sobre a questão da tolerância:

BAYLE (Pierre), Oeuvres diverses, p. p. Alain Niderst, Paris, "Les clas-


siques du peuple", 1971.
BAYLE (Pierre), Ce que c'est que la France toute catholique, Paris,
Vrin, 1973, ed. por E. Labrousse com a colaboração de H. Himel-
farb e R. Zuber.
LOCKE (John), Lettre sur la tolérance, texto latino e tradução france-
sa, introdução e tradução de R. polin, Paris, P.u.F., 1965.

Número especial da Revue de la Société d'histoire du protestantisme


jrançais: atas do colóquio sobre o segundo centenário do Edito
de Tolerância de 1787, Paris, 9-11 de outubro de 1987.
La tolérance, république de l'esprit, atas do colóquio "Liberté des
consciences, conscience des libertés", Toulouse, 26-28 de novem-
bro de 1987, Paris, "Les Bergers et les Mages", 1988.
POMEAU (René), La religion de Voltaire, Paris, Nizet, 1969.
POMEAU (René), "Une idée neuve au XVIII< siêcle, la tolérance", na
Revue de la Societé d'histoire du protestantisme jrançais, acima.
POMEAU (René), "Voltaire et la tolérance", em La tolérance, réPubli-
que de l'esprit, acima.

180