Você está na página 1de 476

A BÍBLIA FALA HOJE

A M E NS AGE M D E

EFÉSIOS
A Nova Sociedade de Deus
JOHN STOTT
A \ Um líM
A MENSAGEM D E EF ESI O S

M ilhões de pessoas captaram a visão do Homem Novo e da


Socieda de Nova apresentada por Karl Marx. “ Paulo apresen ta uma
visão ainda mais gran dios a” , com enta John Stott. Na sua carta
aos Efésios o apóstolo vê que “o ponto chave da questão é algo
mais profundo do que a injustiça da estrutura econômica, e
propõ e então um a solução ainda mais radic al. Escreve acerca de
nada menos do que uma ‘nova criação’."

John Stott analisa o tema de Paulo. Todas as coisas serão unidas


em Cristo com eça ndo com a igreja e será. derru bado tudo o que
nos separa de Deus, tudo que separa um grupo étnico de outro, o
marido da muiher, os pais dos filhos, e os senhores dos escravos.
Um livro para todo s os que p rocuram edificar a i greja para ser a
nova socie dade q ue Deus planejou .

John R. W. Stott é conhecido mundialmente como pesquisador e expositor


bíblico. Serviu durante anos com o pastor da Igreja de Ali Souls em Lon-
dres. E diretor do London Institute fo r Contemporary Christianity e autor
de muitos livros, entre os quais: Os Desafios da Liderança Cristã, Ouça o
Espír ito - Ouça o Mu ndo , A Mensagem do Sermão do Mont e, A Mensagem
de Atos, e Crer é Também Pe nsar, A Men sagem de Rom anos entre outros.

si in m ISBN 85-208-0295-8
EDITORA
Respostas bíblicas para o
mundo hoje

www.abub.org.br/editora 9 7885 20 80295 3


A Bíblia Fala Hoje
Editores da série: J. A. Motyer (AT)
John R. W. Stott (NT)

A MENSAGEM DE EFÉSIOS
A Nova Sociedade
A BIBLIA fala h o je

A MENSAGEM DE

EFÉSIOS
A Nova Sociedade de Deus

JOHN STOTT
i U l
EDITORA
Traduzido do srcinal èm inglês
God’s New Society
InterVarsity Press, Inglaterra
Copyright © John R. W. Stott, 1979

Direitos reservados pela


ABU Editora S/C
Caixa Postal 2216
01060970  São Paulo  SP
Email: editora@abub.org.br
home page: www.abub.org.br/editora

Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem a permissão por escrito da
ABU Editora.

Tradução de Gordon Chown


Revisão de Isaltino Gomes Coelho Filho e Milton Azevedo Andrade

O texto utilizado neste livro é o da Edição Revista e Atualizada no Brasil, da


Sociedade Bíblica do Brasil, exceto quando outra versão é indicada.

l.a Edição  1986


6.a Edição  2001

A ABU Editora é a publicadora da


Aliança Bíblica Universitária do Brasil  ABUB

A ABUB é um movimento interdenominacional que tem como objetivo básico a


evangelízaçãoe o discipulado de estudantes universitáriossecundarista
e s, com apoio de igrejas
e profissionais cristãos
. Sua atuação sedá através dos próprios estudantes, rpomeio de núcleos
de estudo bíblico, acampamentos e cursos de treinamento. A ABUB faz parte da IFES,
entidade internacional que congrega movimentos estudantis semelhantes por todo o mundo.

Catalogação na fonte do Departamento Nacional do Livro

S427m
Stott, John R. W. Stott, 1921 
A mensagem de Efésios: a nova sociedade de Deus / John R. W. Stott;
[tradução de Gordon Chown]  6.a ed.  São Paulo: ABU Editora, 2001.
240p.; 21 cm.  (A Bíblia fala hoje)
Tradução de: God’s new society: the message of Ephesians.

ISBN 85  7055  007  3 (broch.)


1. Bíblia. N. T. Efésios  Comentários. 2. Série: A Bíblia fala hoje
CDD: 227.507
Prefácio Geral

A Bíblia Fala Hoje con stitui um a série de exposições, tan to do Velho co -


mo do Novo Testamento , caracterizadas p or um trip lo obje tivo: exposi-
ção acura da do texto bí blico, relacionar o text o com a vida con tem po râ-
nea, eEsses
leitura agradável.
livros não são, pois, “com entários”, já que um com entá rio bus ca
mais eluc idar o texto do que aplicálo, e tende a ser um a ob ra m ais de re -
ferência do que literári a. Por outro lado, esta sé rie também não apresen-
ta aquele tipo de “sermões” que, pretendendo ser contemporâneos e de
leitura acessível, deixam de abordar a Escritura com suficiente seriedade.
As pessoas que co ntrib uíra m nesta sér ie unemse na convicção de que
Deus aind a fala atra vés do que ele já falou, e que n ad a é mais necessário
para a vida, para o crescimento e para a saúde das igrejas ou dos cristãos
do que ouvir e atentar ao que o Espírito lhes diz através da sua velha (e
contudo sempre atual) Palavra.

J.A. MOTYER
J. R.W. STOTT
Editores da série
Outros livros desta série:

A Mensagem de Rute - David Atkinson


A Mensagem de Eclesiastes - Derek Kidner
A Mensagem de Daniel - Ronald S. Wallace
A Mensagem de Oséias - Derek Kidner
A Mensagem de Amós - (O Dia do Leão)  J. A. Motyer
A Mensagem do Sermão do Monte - John R. W. Stott
A Mensagem de Atos - John R. W. Stott
A Mensagem de Romanos - John R. W. Stott
A Mensagem de 1 Coríntios - David Prior
A Mensagem de Gálatas - John R. W. Stott
A Mensagem de 2 Timóteo - (Tu, Porém)  John R. W. Stott
A Mensagem de Apocalipse - Michael Wilcock
índice
Prefácio geral
Prefácio do autor
Principais
Intro du çãabreviações e bibliografia
o à c arta (1:1 2)

I. Vida nova
1. Toda bên ção espir itual (1:314)
2. Uma ora ção po r conhec imen to (1:1523)
3. Ressurretos com Cri sto (2:110)

II. Uma nova sociedade


4. Uma única nova hum anidad e (2:1122)
5. O privilégio sem igual de Pa ulo (3:113)
6. Con fian ça no pod er de Deus (3:1421)

III. Novos padrões


7. Unid ade e diversidade na igreja (4:116)
8. Uma nova roup agem (4:175 :4)
9. Mais incentivos à jus tiça (5:521)
IV. Novos relacionamentos
10. M arid os e esposas (5:2133)
11. Pais, filhos, senhores e servos (6 :1 9)
12. Prin cip ad os e potes tade s (6 :1020)
13. Conclusão (6:2124)
Prefácio do autor

Nós que nos chamamos cristãos evangélicos afirmamos, com este epíte
to, que somos o pov o do evan gelho e que não ab rim os m ão do autên tico
evangel ho cristão. É um a reivindica ção ous ada , e às vezes certas pessoas
se ressent em com isso. A fim de man têla, temos necessidade de const an-
temente voltar às Escrituras, pois é somente nel as que a definição n or m a-
tiva do evangelho pode ser achada . Devemos confe ssar que mu itas das no s-
sas formulações das boas novas são defeituosas, quando medidas por este
padrão. Uma das nossas manifestações de miopia como evangélicos tem
sido
mar adim
salvinuir
açãoaindivi
imp ortâ nc ia
dual, semcentra l da igr
enfatizar eja. N ossanatendênc
a integração ia é proe cla-
com unidad dos
salvos. P roclam am os que Cristo m orreu po r nós “a fim de remirnos de
tod a iniqüidade” m ais do que para “pu rificar p ara si mesmo um povo e x-
clusivamente seu”.1Pensamos em nós mesmos mais como cristãos do que
como homens da igr eja , e noss a mensagem é mais boa s novas de um a nova
vida do que de uma nova sociedade.
Ninguém pode chegar ao fim de uma cuidadosa leitura da carta de
Paulo aos Efésios com um evangelho privatizado, po rqu e Efésios é o evan-
gelho da igreja. E xpõe o pro pósito eterno de Deus em cri ar, através de Jesus
Cristo, uma nova sociedade que se destaca num brilhante relevo contra
o pan o de fu nd o som brio do velho mundo. A nova sociedade de Deus é,
pois, caracterizada pela vida em lugar da morte, pela união e pela recon-
ciliação em lugar d a divisão e da alienação, pelos padrões sadios d a jus -
tiça em lugar d a corrup ção e da iniqüi dade, pelo am or e pela paz em lu-
gar do ód io e da contend a, e pelo conflito sem trégua com o m al em lu-
gar de uma convivência pacífica com ele.
Estaente.
fundam visãoAod mesmo
e um a comun
tempo, idade hu m anadrenovada
as realidades mee de
e desam or como ve pro
pecado em-
muitas igrejas contemporâneas são de provocar lágrimas, pois desonram
a Cristo, contradizem a natureza da igreja, e privam o testemunho cris-
tão da sua inte grida de. Mesmo assim, um número cada vez maior de cris-
tãos está procurando a renovação radical da igreja.
E da m ais alta im po rtân cia que a igreja seja de fato a nova socied a-
de de Deus , e que sej a vista como tal, pa ra a glória de Deus e a evange li-
zação do m undo. Efési os nos dá um estím ulo forte e f irme em direção ao
cumprimento desta visão.
Po r cerca de quase se is anos, ten ho estu da do o texto de Ef ésios, a b-
sorvendo a sua mensagem, sentindo o seu impacto e assimilando o seu
ideal. O que muito m e aju do u neste perío do foi fazer a exposiçã o da car-
ta a vários grupos e receber as suas reações. Comecei com a ativa e lon
gânim a congrega ção da Igreja A li Souls em Londres, d epois fiz con ferên-
cias em Nepal, na í nd ia, no Can ad á e no Méxi co, e em ju lh o de 1975 na
inesquecível Convenção C enten ária de Ke swick. N enhu m aud itór io é mais
alerta e críti co do que aquele que se com põe de estudantes. A chei, p or is-
so, especialmente proveitoso compartilhar com grupos de estudantes na
índ ia, nos Estados Unidos, na E uropa, na Austrália e na Am érica Lati-
na,
Instite ser
utodesafi adoos
d e Estud pela
de exposiç ãoUniversidade
Ve rão, na mais ap rofunde
dad a, exigida
Maryla nd, em 1976
EUA, pelo
e pela
Esco la de Ve rão do Regent Colle ge, Vanc ouver. Sou ex trem am ente grato
pelo estímulo intelectual e espiritual destas experiências.
També m agradeç o a vári os indivíduos qu e me prestaram assistência
pessoal de várias m aneiras na composição deste livro, especialmente a Roy
McC loughry, po r providenciar algu mas referênci as úteis, a M yra Chav e
Jones por ter li do um a parte do m anuscrit o, a To m Coop er po r tê lo li do
totalmente, e pelos com entário s de todos. Também a Francês W hitehead
e Vivienne Curry, pelo cansativo trabalho de decifrar meus rabiscos e
transformálos num belo manuscrito datilografado.

JOHN R. W. STOTT
Principais Abreviações e Bibliografia

AG A Greek-English Lexicon o f The New Testament and


OtherE arly Christian Literat ure de Willia m F. A rnd t
e F. Wilbur Gingrich (University of Chicago Press an d
Cambridge University Press, 1957).

Armitage St Pau Ts Ep istle t o the Ephesi ans, with Exp osition


and Notes de J. ArmitageRobinson (Macmillan,
1903).

Barclay The Letter s to the Gala tians and Ephesians em Daily


Study Bibl e de William B arclay (The Saint A ndrew
Press, 1954. 2a. edição, 1958).

Barth, Wall
Broken The Broken
sians, Wall:Barth
de Markus A Stu (1959.
dy o f the Epistle1960).
Collins, to the Ep he

Barth, Ephesians, A Ne w Translation with I ntrod uction and


Ephesians, I, II Commentary de Markus Barth, na sér ie Anchor Bi
ble (Doubleday, 1974. Vol. I, Eph. 13; Vol. II, Eph.
46).

BJ A Bíblia de Jerusalém (Edições Paulinas).

BLH A Bíblia na Linguagem de H oje (Sociedade B íblica


do Brasil).

Bruce The Epistle to the Eph esians, A Verse-by-verse Exp o


sition de F. F. Bruce (Pickering & Inglis, 1961).

BV A Bíblia Viva (Editor a M undo Cristã o).


Caird PauVs Letters fr o m Prison por G. B. Caird, em The
New Clarendon Bible (Oxford, 1976).
Calvino Sermo ns on the Epistle to the Ephesians de Jo ão Cal-
vino (pregad os 15589, pub licado s pela prim eira ve z
em inglês em 1577, trad uç ão revisada po r B anner o f
Truth, 1973).

CIN Cartas às Igrejas Novas (Edições Vida Nova).


Dale Lectures on the Epistle to the Ephesians , its Doctri-
ne and E thic s de R. W. Dale (H od de r & Stoug hton,
1882; 5? edição 1890).

ERAB Edição Revista e Atualiz ada no B rasil (Sociedade Bí-


blica do Brasil).

ERC Edição Revista e Corrigida (Imprensa Bíblica


Brasileira).

Findlay The Ep istle to the Ephesians de G. G. Findlay, na sé-


rie Ex po sito r’s Bible (Hodder & Stoughton, 1892).

Foulkes Efésios, Introdução e Comentário de Francis Foulkes,


na Série Cultura Bíblica (Vida Nova e Mundo
Cristão).
Gurnall The Christian i n C om plete Arm our, or a Treatise o f
the Sa int s’ War agains t th e Devil de Willi an G urnall
(srcinalmente publicado em 3 partes, 1655, 1658 e
1661: 3 volumes, 8? edição, Londres, 1821).

Hendriksen Exposi tion o f Ep hesians de Willia m H endrikse n (Ba-


ker, 1967).
Hodge A Commentary on the Epistle to the Ephesians de
Charles Hodge (1856. Banner of Truth, 1964).

Houlden Pau Ts Let ters fr o m Pris on de J. H. Houlden, na sé-


rie Pelican New Testament Commentary (Penguin,
1970).
Hunter Galatians to Colossians de A. M. Hunter, na série
Layman’s Bible Commentaries (1959. SCM, 1960).
xii
Lightfoot Notes on Epistles o f St Paul, fro m unpuhlished com-
mentaries de J. B. Lightfoot (Macmillan, 1895). As
notas sobre Efésios abrangem apenas 1:114.

LloydJones, G od’s Way o f Reconciliat ion, Stu dies in Eph. 2 de D.


God’s Way Martyn LloydJones (Evangelical Press, 1972).

LloydJones, Life in the Spirit in Marriage, H om e and Work, A n


Life in the Expo siti on o fE ph . 5:18 to 6:9 de D. M arty n Lloyd
Spirit Jones (Banner of Truth, 1974).

LloydJones, The Christ ian Warfare, A n E xpo sitio n o f Eph.


Warfare 6:10-13 de Martyn LloydJones (Banner of Truth,
1976).

LXX O Antigo Testamento em grego confo rm e a Septua


ginta, século III a.C.

Mackay God ’s Order: The Ephesian L ette ra nd this Presen t Ti


me de Joh n A. Mac kay (as Preleções Croall de 1948;
Nisbet and Macmillian, 1953).

Mitton, NCB Ephesians de C. Les lie Mitto n, na série New Century


Bible (Oliphants, 1976).

Moule The Epistle to the Ephesians de Han dley C. G. Moule,


Ephesians na série Cambridge Bibl e fo r Schools and Colleges
(Cambridge University Press, 1886).

Moule, Grace an d Godl iness, Eig ht Stud ies in Ep hesian s de


Grace Handley C. G. Moule (Seeley, 1895).
Moule, Ephesian Studies de Handley C. G . M oule (Hod der
Studies & Stoughton, 1900).

Moule, Veni Creator de Handley C. G. Moule (Hodder &


Veni Creator Stoughton, 1890).

Moulton e The Vocabulary o f the Greek New Testament de J. H .


Milligan Moult on e G. Milligan (Hodder & Stoughton, 1930).
Salmon History o f the Roman World fro m 30 BC to A D 138
de Edward T. Salmon (Methuen, 1944).

Simpson Co mm entary on the Epistl es to the Ephesians an d the


Colossians de E. K. Simpson e F. F. Bruce, na série
New International Commenta ry on the New Testa-
ment (M arsha ll, Morgan & Sco tt e Eerd mans, 1957).
Thayer A Greek-English Lexicon o f the New Testament de J.
H. Thayer (4? edição, T. & T. Clark, 1901).

TDNT Theologi cal Dictionary o f the New Test ament ed. G.


Kittel e G. Friedrich, trad. inglesa de G. W. Bromiley
(Eerdmans, 19641974).

Westermann Between Slavery and Freedom de W. L. W esterm ann,


em The Ame rican Historical Re view (Vol. 50, N? 2,
Janeiro de 1945).

Yoder The Polit ics o f Jesus de John Howard Yoder


(Eerdmans, 1972).
xiv
Efésios 1:1-2
Introdução à carta
A ca rta aos Efés ios é um resumo, mu ito bem elaborado, das boas n o-
vas do cristianismo e de suas implicações. Ninguém pode lêla sem ser
com pelido a a do rar a Deus e a ser desafiad o a m elhora r a sua vida crist ã.
Era a carta predilet a de Joã o Calvin o. Arm itage Robinson chamoua
de “a coroa dos escritos de Paulo”.1William Barclay cita Samuel Taylor
Coleri dge que a ava
na” e acrescenta que,liou
emcomo “a composição
sua opinião, maisdas
é “a rainha divina da raça hu m a-
epístolas”.2
Muitos leitor es têm sido trazidos à fé e desafiad os às boas ob ras pe -
la sua mensagem. Um deles foi John Mackay, expresidente do Seminá-
rio Teológic o de Pr inc eto n. “A este livro devo a minha vida”, escreveu. E
explicou como, em julho de 1903, tend o catorze an os de idade, experimen-
tou através da leitura de Efésios um “arrebatamento juvenil na Região
M ontan hosa (da Esc ócia) ” e fez “u ma apaixo nad a manifestaçã o a Jesus
Cristo entre as rochas, à luz das estrelas”.3Segue o seu relato pessoal do
que aconteceu: “Vi um mun do diferent e... Tudo era novo... Tive um a no -
va compreensão, novas experiências, novas atitudes perante as pessoas.
Am ei a Deus. Jesus C risto veio a ser o centro de tudo... T in ha sido ‘vivi
ficado’; eu estava realmente vivo”.4
Jo hn Mackay nun ca perdeu o s eu fascínio por Efés ios. Qua nd o foi
convid ado a fazer a s Prele ções Croall na Universidade de Edim burgo, em
janeiro de 1948, escolheu Efésios como tema. Deu às suas preleções o tí-
tulo A Ordem de Deus. Nelas, referiuse a Efésios como sendo a “mais
m ad ura ” e “a mais re levante, pa ra o nosso tempo ” de todas as obras de
Paulo.5Aqui, pois, temos “a essência destilada do cristianismo, o com-
pêndio mais autorizado e mais completo da nossa fé cristã”.6 E mais: “es-
ta car ta é pu ra música.. . O q ue lemos aqui é verdade que canta, do ut rin a
musicada”.7Assim como o apóstolo proclamava a ordem de Deus à era
rom ana apó s Augus to, que seria marcada por um “proce sso de desinte-
gração social”, assim também Efésios é hoje “o livro mais atual da Bí-
1 Armitage Rob inson , pág. vii. 2 Barcklay, pags 71, 83.
3 Mackay, pág . 24. 4 Ib id ., pág. 21.
5 Ibid .,págs. 910. 6 Ib id .,pág. 31. 7 Ib id ., pág. 33.

1
INTRODUÇÃO À CARTA

blia”,8visto que promete comunidade num mundo de desunião, a recon-


ciliação ao invés da alienação e a paz ao invés da guerra. O entusiasmo
do Dr. M ackay pela carta ele va bas tante a nossa expectati va ao com eçar-
mos o nosso estudo.

Paulo,
vem emapó
Éfesstolo
o, ede
fié Cristo Jesus Je
is e m Cristo posur s:2
vo ntad e de
Graça Deus,
a vó aos esan
s outros tosdaque
paz vi
parte
de Deu s nosso Pai e do Sen ho r Jesus Cr isto.

Três ques tões intro du tór ias no s con fro nta m a o lermos est es dois ve r-
sículos iniciais da carta. Dizem respeito ao seu autor, aos seus destinatá-
rios e à sua mensagem.
O autor

Co nfo rm e as conve nções daqueles d ias, o au tor com eça declarand o


a sua indentidade. Identificase como sendo o apóstolo Paulo.
Ora, a a uto ria pa ulin a de Efésios era universalmente aceita desde o
século I até ao início do século XIX . P or que, então, estud ioso s alemães,
a partir de 1820, começaram a question ar a autenticidade d a carta, e por
que este ceticismo sobr e a au tor ia paulin a de Efés ios perm anece ain da h o-
je? P ara citar um só exemplo: “H á muitas razões para pensar que não vem
nem da sua mão nem sequer do tempo em que viveu!’9
A m aioria
singulares dos com
da carta. Contamentarist as cham
o número de apalavras
atençãoemao vocab
Efésios ulário e estilo
que não
ocorrem nas demais cartas de Paulo, e o núm ero das suas palavras predi-
letas que não se acham em Efésios. Seu estilo, acrescentam, é muito me-
nos apaixona do do qu e de costume. M arku s Barth, po r exemplo, comen ta
a “dicção pleonástica, r edun dante, prolixa” do au tor, e o seu “est ilo bar -
roco, bom bástico o u tipo litania”. 10Mas est e é um julg am ent o ba stan te
subjetivo. A lém do m ais, os argum entos lingüísticos e es tilísticos são cla-
ramente prec ários. Por que esper aríamos que um a mente tão criativa quan -
to a de Paulo permanecesse dentro das frontei ras de um vo cabulário li-
mitad o e de um estilo inflexível? Tem as diferentes reque rem p alavra s di-
ferentes, e circunstâncias alteradas criam um ambiente alterado.
Dois argum entos mais substa nciai s são propostos, no entanto, p ara
lançar dúvidas sobre a autenticidade da carta, sendo o primeiro históri-
co e o segundo teoló gico. O arg um ento histórico diz respeito a um a dis-
crepânci a entre o rela to em Atos , do longo e íntimo conhecimento que P au-
lo tinha da igreja de Éfeso, e o relacionamento inteiramente impessoal,
em segunda mão, que a carta expressa. Embora a sua primeira visita te-
8 lbid., pág. 36. 9 Houlde n, pág. 235. 10 Ba rth, Broken Wall, pág. 12.
2
efésios 1 : 12

nha sido breve (At 18:1921), a su a segunda visit a du rou três anos (At 19:1
— 20:1,31). Durante este período ele os ensinava sistematicamente, “pu-
blicamente e também de casa em casa” ; chegaram a conhecêlo bem, e na
sua despedid a final aos presbí teros da igreja, es tes demo nstr ara m su a afei-
ção através de abraços, pranto e beijos." É surpreendente, portanto, que
a carta aos Efésios não c onte nha sau dações pessoais tais com o as que ter-
minam as demais cartas de Paulo (na da m enos do que vint e e seis pessoas
são mencionadas pelo nome em Romanos 16). Ao invés disso, dirigese
aos leitores somente em termos genéricos, desejando paz aos “irmãos”
e graça a “to dos os que am am siceramente a nosso Senhor Jesus Cristo”
(6:2324). A lud e a si mesm o com o prisioneiro (3:1; 4:1; 6:20), mas não faz
nenhum com entário acerca d eles. C onclam aos a viver na un ião e na p u-
reza sexua l, mas nã o dá q ua lqu er sinal da existência de facçõe s ou de um
transgressor
mos gerais àmoral,
astúciatais como m(4:14),
dos mestres encionmas
a emnão
1 Corín tios. Refer
identifica esehe-
nenhuma em ter-
resia específic a como em Gá latas ou em C olossense s. Além disso , n ão dá
qualq uer indicaç ão de que el e os conhece pes soalmente. Pelo contrário ,
ele apenas diz que “ouviu” da sua fé e do seu amor, e que eles ouviram
do ministério dele (1:15; 3:24).
Este caráter impesso al da carta é certamente surpre endente. Mas nã o
há necessidade de deduzir daí q ue Pau lo n ão seja o s eu autor. Outras ex-
plicações são possíveis. Paulo pode ter se dirigido a um grupo de igrejas
asiáticas e não apenas à igreja de Éfeso, ou, conforme sugere Markus
Barth, “n ão à igre ja intei ra em Éfeso, mas somente aos membros de or i-
gem gentíli ca, pessoas que não conhecia pess oalmente, e que foram ba-
tizados ap ós a sua par tid a d aqu ela cidade” . 12
O segundo argum ento que é leva ntad o con tra a au toria pau lina de
Efési os é teoló gico. Qu an to a isto, os comentaristas ap on tam um a gran -
de variedade de aspectos difere ntes. Enfatizase, po r exemplo, q ue em E fé-
sios, em contraste com as cartas de Paulo de au tor ia incontroversa , o pa -
pel
nos de Cristo celestiais”
“lugares assume uma (u dimensão
ma exprescósmica; queque
são inéd ita a esfera
o corredecinco
interesse está
vez es),
em que o pera m as potestades e os poderes ; que o foco do interesse é a igre-
ja; que a justificação não é mencionada; que a reconciliação fica mais entre
os jud eu s e os gentios do q ue entre o pec ado r e Deu s; que a salvação é re-
tratad a não como um morrer com C risto mas, sim, somente como um res -
suscitar com ele; e que nã o há referênci a à segund a vinda de noss o Senhor.
No entanto, nenhum destes detalhes é mais de que uma pequena m udan-
ça de ê nfase. E temos de reconhecer que a teologia da ep ístola é essenc ial-
mente paulina. Até mesm o os que ne gam a a uto ria de Paulo reconhecem
11 Ver At 20:1738, especialm ente vs. 18,20,34 e 3638. 12 Barth, Ephesias, 1, págs. 34.

3
INTRODUÇÃO À CARTA

que a epístola está “repleta de idéias de autoria indubitavelmente


paulina.” 13
Além diss o, p ara alguns leit ores, a c ar ta tem algo dif erent e, algo es-
tranho. Ninguém express ou isso mais vivi damen te do que Mark us Barth
no seu estudo anterior (1959) intitulado The Broken Wall. Ele chama a
parte
ta comoinicial
“um do estudoà porta”.
estranho de “A epístola
O que háenigmática de em
de “estranho” Paulo”, e a apresen-
Efésios? O
Dr. Barth cita por exem plo, a do utrin a da predesti nação; a ênf ase dad a
à ilumina ção intele ctual; a “sup erstição” (como el e considera as r eferên-
cias aos an jos e demônios); u m “eclesi asticismo” que divorcia a igreja do
mun do; e, no ensino da epístola ace rca dos r elacionamen tos d o lar, o“ mo
ralismo” que e le chama de “p atriarcal, autoritário, pequeno burguês” e
carente de srcinalidade, de largura, de ousa dia e de alegr ia. É assim co -
mo resume sua im pressão ini cial de Efésios: “P arec e um perso nagem es-
tranho, u m enjeitado, sem pai nem mãe . Usa um a linguagem enf adonh a,
barroca. Baseiase no determ inismo, sofre do intelectualismo, combina
a fé em Cristo com um a dem onolo gia supersti ciosa , promove um ecles ias-
ticismo rígido, e term ina com um moralis mo trivia l e su pe rfic ial.” 14
Qua nd o li esta avaliação pela prim eira vez, fiquei na d úv ida se o que
o Dr. Barth estava descrevendo era realmente Efésios, pois a sua reação
à carta dive rgia muito da m inha. Mas, contin uan do a ler, ficou cla ro p a-
ra mim que ele mesmo não estava satisfeito com a sua análise. Em pri-
meiro lu gar, reconheceu que t alvez fo sse culp ado de fazer um a ca ric atu -
ra; depois explicou que quis ch oca r os seus leitore s ao p on to de sentirem
como se sentem os nãocristãos qu and o são abord ados com um a carica-
tura do evangelho e, finalmente, restabeleceu o equilíbrio ao retratar “o
encanto do conhecim ento” qu e as pess oas experi mentam q uan do fica m
conhe cendo melhor a ca rta aos Efési os. A ca rta nos cativ a, ob serva o Dr.
Barth, por três características.
Primeiramente, Efésios é intercessão. Mais do que qualquer outra
epístola no Novo Te stamento, “tem o caráter e a fo rm a de oração”. Quando
alguém argumenta conos co, pode nos persuadir ou não; mas q uan do ora
por nós, seu relacionamento conosco transformase. “Assim acontece com
o estranho à porta. Efési os ga nh ou o direito de entrar, porq ue seus leito-
res são obj eto da i nterc essão d o autor!’15
Em segundo luga r, Efésios é proclam ação. Não é apologé tica, nem
polêmica. Pelo contrário, está repleta de afirmações “ousadas” e até mes-
mo “jubilosas” acerca de Deus, de Cristo e do Espírito Santo. “Efésios
tornase bemvinda, e é um documento encantador, justamente porque
nã o deixa brilh ar ou tra coisa senão o am or e a eleição de De us, a mo rte
13 Houlden, pág. 242. 14 Barth, Broken Wall,pág. 22. 15 Ib id ., págs. 2324.
4
efésios 1 : 12

e a ressurreição de Cristo, e o poder e a obra do Espírito entre os


homens!’16
Em terceiro lugar, Efésios é evangelização. N o seu pan oram a do co n-
teúdo da carta, M arkus B arth enfat iza suas “declaraç ões intrép idas” acerca
do pro pósito e da ação salvado ra de Deus (capítulo s 1 e 2), acerca da “o bra
permanente
la” (capítulos de
3 eDeus,
4), e na sua “da
acerca automanifestação
obra corajosa e para
alegrea de
igreja e através de-
embaixado-
res, realizada pelos cristãos no mundo” (capítulos 5 e 6). Tudo isso, diz
ele, dá a Efésios “relevância especial para todos os que estão ocupados
com as ta refa s evangelísticas da igrej a ho je”. 17
Qua l é, então, a situaçã o atu al nos círcu los de estudiosos sobre a au -
toria de Ef ésios? M uito s ficam in decisos. Co nco rda riam co m J. H. H oul
den qu e “ não h á cons enso na opinião dos peritos”, pois “u m argumento
respon de a out ro sem um re sulta do claro”.18
Outros, ainda, negam que Paulo fo i o au tor e propõ em complicadas
teorias alternativas. Talvez a mais engenhosa delas seja a do estudioso
norteam ericano, E. J. Good speed. Ele especulou que, ao red or de 90 d.C.,
um discípulo ardente de Pau lo, af lito porq ue as carta s do seu herói esta-
vam então sendo negligen ciada s, percorreu as igr ejas que Paulo t in ha vi-
sitado, a fim de colecionar as cartas e, mais tarde, publicálas. Mas, an-
tes da publicação, viu a necessi dade de a lgum tip o de introdu ção. Dessa
maneira editou “Efésios”, como um mosaico de matérias tiradas de to-
das
atribasuiucartas de Paulo,
a a Paulo a fimespecialmente de Colossenses
de recom endála (queposterior.
a uma geração decorara),E.e J.
Goo dspeed foi além, e arriscou a opinião de que es te au to r e pub licado r
teria sido Onésimo, o escravo convertido, visto que alguém com o mes-
mo nom e era bispo de Éfe so naquele t empo. E m bora esta reconstrução
tenha ganhado alguma popularidade nos Estados Unidos, e tenha sido
adotada na Inglaterra pelo Dr.Leslie Mitton, é quase inteiramente
especulativa.
Outro s estudiosos estão voltando pa ra o conceito t radicional. A. M.
Hunt er diz, com razão, que “o ônus da prova r ecai sobre aqueles que ne-
gam a au tor ia pau lina”. 19Marku s B arth em prega a mesm a expres são e
aplica a máx im a “ inocente até que seja provad o cu lpa do ”.20 Qua nto a
mim, acho q ue até mesm o estes julgam entos são timid os demais. Parece
que não atrib ue m valor sufici ente à evidência externa, nem à interna . Ex -
ternamente , há o testemu nho impressionant e da igreja univ ersal duran te
dezoito séculos, que não pode ser levianamente posto de lado. Interna-
mente, a carta não somente declara ter sido escrita como um todo pelo
16 Ibid.,pág. 29. 17 Ib id ., pág. 30.
18 Houlden, pág. 236. 19 Hunter, pág. 45 . 20 Barth, Broken Walt, pág. 41.

5
INTRODUÇÃO À CARTA

Ap óstolo Paulo, como tam bém o tem a da u nião entre jud eus e gent ios,
pela graça da obra reconciliadora de Deus por meio de Cristo, está de acor-
do com aquilo que ficamos sabendo em outros lugares sobre o apóstolo
aos gentios.
Não acredito que G. G. Findlay estivesse exagerando quando escre-
veu queaoser
futuro ceticonsiderado
cismo m odern
“umo asobre
das. ..a curiosidades
au toria paude
lina um
de Efés
a era ios vi rá
hiper crítnoi
ca”.21A ausência de qua lqu er altern ativa é corretam ente en fatiz ada p or
F. F. Bruce: “O homem que pôde escrever Efésios deve ter sido igual ao
apóstolo, senão superior a ele, em estatura mental e entendimento espi-
ritual ... E a história cristã não tem conhecimento algum de um segundo
Paulo deste calibre!’22
Depois deste breve panorama sobre alguns pontos de vista moder-
nos, é um alívio voltar ao texto: Paulo, apóstolo de C risto Je sus po r von
tade d e Deus. Paulo reinvindi ca para si o mesmo títu lo que Jes us dera aos
doze.23Historicamente, tan to no Antigo Testamento qua nto n o jud aísm o
rabínico, esta palavra designava alguém especial mente escolhid o, c ham ado
e envi ado par a ensinar com autoridade. Não tin ha se ofer ecido como vo-
lun tário p ara este minis tério, nem a igreja o nom eara. Pelo contrário, seu
apos tola do viera da von tade de Deus e da escolha e comissão de Jesus Cris-
to. Logo , se assim foi, com o eu, e muitos ou tros, cremos, devemos escu-
ta r a mensagem de Efésio s com a devida aten ção e hum ildade. Devemos
considerar o se u auto r nã o com o um indivíduo qualqu er que estej a ven-
tilando suas opiniões pessoais, nem como um mestre humano, dotado,
porém falível, nem mesmo como o m aior herói missionário da igreja. Ele
é “apó stolo de Cristo Jesus por vo ntade de De us” e, po rtan to, u m mestre
cuja au torid ade é preci samente a autorida de do pr ópr io Jesu s Crist o, em
cujo n om e e po r cuja inspiração es creve. Co mo disse Ch arles Hodge, em
mead os do século passado: “A Ep ístola rev elase com o sendo a ob ra do
Espírito Santo, tã o claramente q uan to as estrelas declaram que o s eu Cria -
dor é Deus!’24

Os destinatários
Na segunda parte do versículo 1, Paulo em prega vários term os para des-
crever os seus leitores.
Em primeiro lugar, são os santos. Não está usando esta palavra fa-
miliar pa ra referirse a algu ma elite espiritual d entro da congregaçã o, um a
minoria de cristãos excepcionalmente piedosos mas, sim, à totalidade do
povo de Deus. Eram chamados de “santos” por terem sido separados para
21 Findlay, pág. 4. 22 Bruce, págs. 1112. 23 Lc 6:1213. 24 Hodge, pág. xv.

6
efésios 1 : 1-2

pertencer a Deus. A expressão era aplicada primeiramente a Israel como


a “naçã o san ta”, mas veio a ser estendida à tota lida de da co munid ade cris-
tã, que é o Israel de Deus.25
Em segundo lugar, também são fiéis. O adjetivo pistos pode ter ou
um significado ativ o (“con fian do”, “ten do fé”) ou um sig nificado passi-
vo (“fidedigno”, “sendo fiel”). Embora a ERAB escolha aqui o passivo,
o ativo parece melhor, visto que o povo de Deus é “a família da fé”,26 uni-
do por sua confiança comum em Deus mediante Jesus Cristo. Ao mes-
mo tempo, J. Armitage Robinson talvez tenha razão em sugerir que “os
dois sentidos de pis tis, ‘crença’ e ‘fidelidade’, parecem estar harmoniza-
do s”.27Certam ente, é difícil im agin ar um crente que nã o seja fidedigno,
ou um cristão digno de confiança que não tenha aprendido a ser assim
com a pessoa em quem colocou a sua confiança.
Em terceiro lugar, os leitores de Paulo estão em Cristo Jesus. Esta
expressãochave da ca rta ocorre, po rtanto , logo no prim eiro ver sículo. E s-
tar “em Cristo” é estar em união vital e pessoal com Cristo, e portanto
com o povo de Cristo, como os ramos com a videira e os membros com
o corpo. É impossível fazer parte do Corpo sem estar relacionado com
o Ca beça e tamb ém com os membros. M uita cois a que a Epístola desen-
volve mais tarde já está aqui como o botão de uma flor. O Novo Testa-
mento, e especialm ente Paulo, a fir ma qu e ser um cr istão é , em essê ncia,
estar “em Cristo”, unido com ele e com o seu povo.
Em q ua rto lugar, alguns m anuscritos acrescentam q ue os l eitores de
Paulo estão em Éfeso. Originalmente um a colônia g rega, Éfes o torno u
se a capital da província rom ana d a Ásia e um p orto comerci al ativo (há
muito temp o assoreado). Era, tam bém, a sede do culto à deusa D iana (ou
Artemis), cujo templo, depois de t er sido destru ído em m eados do sécu-
lo IV a.C., foi pouco a pou co reedifica do até tornar se um a das se te m a-
ravilhas do mundo. Aliás, o sucesso da missão de Paulo em Éfeso tinha
ameaçado de tal maneir a a venda de modelos em prat a do templo de Diana

que osA ourives provocara


descrição que Paulomd um alvoroço
á dos p úblicop de
se us leitores, p rot
ortan to,esto .28 preensí-
é com
vel. São santos porqu e pertencem a Deus; são fiéis porque c onfiaram em
Cristo; e têm dois lares, porque residem igualmente em Cristo e em Éfe
so. De fato, todo s os cristãos são santos e são fiéis, e vivem tan to em C risto
quanto no mundo secular, ou seja, nos lugares celesti ais e na terra. Mui-
tos dos nossos problemas espirituais surgem do nosso esquecimento de
que somos cidadã os de doi s reinos . Nossa t endênc ia é ou seguir a Cristo
e retirarnos do mundo, ou ficar preocupados com o mundo e esquecer
de que também estamos em Cristo.
25 G1 6:16. 26 G1 6:10. 27 Armitage Robinson, pág. 141. 28 Ver At 19:23 ss.

7
INTRODUÇÃO À CARTA

As palavras “em Éfeso” não se acham, no entanto, no papiro pauli


no mais antigo (Chester Beatty 46), que data do século II. Orígenes, no
século III, não as conhecia, e estão ausentes dos grandes códices do sé-
culo IV, o Vaticano e o Sinaítico. A questão tornouse ainda mais com-
plexa pelo fato de que Márciom, em meados do século II, referiuse à Epís-
tola aos Efésios
o próprio como tend
Paulo mandou queoossido endere çada
colossenses “aos laodicenses”.
cuidassem Visto que
para que a carta
endereçada a eles fosse “lida na igreja dos laodicenses” e que eles mes-
mos lessem a de L aodicéia.29Alguns têm p ens ado que esta “car ta de Lao
dicéia” tenha sido de fato a nossa “Efésios”, e que Paulo ordenou que as
igrejas trocassem as duas cartas que receberam dele. Certamente Tíqui-
co foi o po rta do r das duas c art as.30
Como, pois, p odemos reconstru ir a situação que lev ou a estas varian -
tes, sendo que algumas cópias têm “em Éfeso”, outras não têm designa-
ção alguma, e uma referese a Laodicéia? Perto do começo deste século,
Adolf H arnack suge riu que a carta teria si do srcinalmente endereçada
à igreja em Laodicéia, m as que, po r causa da frieza da qu ela igre ja, e sua
conseqüent e hu milhaç ão,31o nom e de Laodic éia foi apagado e o de Éfeso
colocado no lugar.
Um a expl icaç ão alternativ a foi pr op osta p or Beza, no fim do sécu lo
XVI, e po pu lariz ada pelo Arcebispo Ussher duran te o século XVII: que
Efési os fo i srcinalm ente um tip o de encí clic a ou carta circular ap ostó li-
ca
do endereçada
no prim eiroa ver
várias i grejas
sículo para cdaadÁsia. Um
a igreja espaço em
preencher o s branc
eu própo rio
foi nome,
deixa-
e o nome de Éfeso ficou ligado à carta porque era a principal cidade da
Ásia.
De mo do semelhante, Charles H odge pensava que ta lvez a car ta fosse
“escrita aos efésios e end ereç ada a eles, m as q ue visav a especialm ente os
cristã os gen tios com o classe, ma is do q ue os efésios com o igreja, e foi de-
liberada mente form ulada de ta l m aneir a que se tornasse apro priada a to -
dos os cristãos deste tipo nas igre jas da vizinhança, aos quais, sem dúv i-
da, o apó sto lo desejava que foss e com un ica da”.32
Tal grupo de leitores, de âmbito mais geral, explicaria não somente
as variantes no primeiro versículo, como tam bém a ausência na ca rta de
alusõe s p articulare s e de saudaçõ es pesso ais.
Mesm o ass im, a teo ria d a car ta circular é inteiramente especulati va.
Nenhum manuscrito tem um destino alternativo. E a Epístola aos Colos-
senses, que P aulo diz pertencer a ou tra igreja tam bém (Cl 4:16), nem por
isso deixa de incluir saudações pessoais. Assim, o mistério perm ane ce sem
solução.
29 Cl 4:16. 30 Ef 6:2122; Cl 4:78. 31 Ap 3:1422. 32 Hodge, pág. xiii.

8
efésios 1:1-2

3. A mensagem
O pon to central da ca rta é o que Deus f ez po r meio da obra histórica de
Jesus Cristo, e con tinu a fazend o atravé s do seu Es pírito hoje, a fim de edi 
ficar a sua nova sociedade no meio da velha. Conta como Jesus Cristo
verteu o seu sangue numa morte sacrificial pelo pecado, depois ressusci-
tou
querdentre os mortos
concorrente pelosupremo
ao lugar po der detanto
De us,
no sendo exalquanto
universo tado acima de qu al-
na igreja.
Mais do que is so, nós que estam os “em Cris to”, organ icam ente unid os com
ele pela fé, compartilhamos pessoalmente destes grandes eventos. Fomos
ressusci tados da m orte espiritual , exaltados ao céu e ident ificados ali com
ele. Fomos reconciliados com Deus e uns com os outros. Como resulta-
do, m ediante C risto e em Cristo, somos na da menos do que a nova s ocie-
dade de Deus, a nova hum anid ade que ele está criando e que inc lui judeu s
e gentios em pé de igualdade. Somos a família de Deus Pai, o corpo de
Jesus Cristo, seu Filho, e o templo do Espírito Santo.
Logo, devemos mostrar, de modo claro e visível, mediante a nossa
vida, a realidade desta obra q ue Deus te m feito. P rimeiro, pela un idade
e diversidade da nossa vida em comum; em segundo lugar, pela pureza
e pelo am or em nosso co mpo rtam ente cotidiano; em ter ceiro lugar, pela
mútua subm issão e por um relacionamento am oroso no lar; e , finalm en-
te, por no ssa estabilidade n a lut a con tra as potestades e os poderes do mal.
Então, na plenitud e do tempo, o pro pósito de De us, ou se ja, a con sum a-
ção da nova
de Jesus sociedad e se dar á sob a a firma ção plena da soberania total
Cristo.
Com este tema em mente, podemos analisar a carta como segue:

1. A nova vida qu e Deus nos deu em C rist o (1:3 — 2:10).


2. A nova sociedade que Deus criou mediante Cristo (2:11 —
3:21).
3. Os novos padrões que Deus espera da nova sociedade, especial-
mente a união e a pureza (4:1 — 5:21).
4. Os novos relacionamentos para os quais Deus nos trouxe: a
har m on ia n o lar e a luta con tra o diabo (5 :21 — 6:24) .

A carta inte ira, portanto, é um a combinação magnífica da doutrin a


cristã e do dever cristão, da fé cristã e da vida cristã, daquilo que Deus
fez através de Crist o e do que nós devemos ser e fazer em decorrên cia. O
seu tem a cen tral é “a nova sociedad e de Deus” : o que é, com o veio a exis-
tir por meio de Cristo, como suas srcens e natureza foram reveladas a
Paulo,
mos umseu cresci
a vida mento
digna atrav
desta és da
nova proclam eação,
s ociedade, com ao im
serápocortân
nsucia de viv
mada er-
fu tu-
ramente quando Cristo apresentar a sua noiva, a igreja, a si mesmo em

9
INTRODUÇÃO À CARTA

esplendor, “sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante... santa e sem
defeito” (5:27).
A atu alid ade desta mensagem é óbv ia. Karl Marx tam bém escreveu
acerca do “novo homem” e da “nova sociedade”. E milhões de pessoas
captaram a visão dele e estão se dedicando à sua realização. Marx, po-
rém,
mentevieconômicos.
a o problem aAhu“ mano e a solução
nova soci edade” em
seriatermos quasesem
a sociedade que excl usiva-
classes que
se seguiria após a rev olução, e o “ novo hom em ” em ergiria com o resu lta-
do da sua libert ação econômi ca.
Paulo ap resenta uma visão aind a mais grandiosa, p orque vê que o
ponto chave da questão é ainda mais profundo do que a injustiça da es-
tru tur a econômica, e então pro põe um a sol ução aind a mais radi cal. E s-
creve acerca de nada menos do que uma “nova criação”. Três vezes em-
prega palavras ligadas com a criação. Em Jesus Cristo, Deus está recriando
homens e mulheres “para boas obras”, formando uma nova humanida-
de única no lug ar d a divisão desastro sa entre jud eus e genti os, e nos re-
criando na sua pró pria im agem “em justiça e retidão procedent es da ver-
dad e”.13Assim, de aco rdo com o ensino de Paulo, o novo hom em e a no -
va sociedade são produtos da aç ão criad ora de Deus . A reestruturação eco-
nôm ica tem grande imp ortân cia, mas n ão pod e produz ir estas coisas. Elas
estão al ém da capaci dade, do pod er e da engenhosidade hum ana. Depen-
dem da ação divina do Criador.

munidEsta
ademensagem
de Deus , éda
de igreja, como
especial imp sendo a nova
ortâ ncia p aracriação
aqueleseque
a nova co- am,
s e cham
ou são chamados, de cristãos “evangélicos”. Por nosso temperamento e
por nossa tradição, tendem os a ser individualistas inflexíveis, e por vezes
pouco nos im portam os com a igreja. Aliás, muitos pensam que ser “evan-
gélico" é dar pouco valor à igreja.
Mas o verdadeiro e vangélico, que a pa rtir d a Bíblia constrói a s ua teo-
logia , forçosam ente terá aquele conceito e levado de i greja que a pr óp ria
Bíblia ensina . Hoje, mais do que nun ca, precisamos c apta r a vis ão bíbli-
ca da igreja. N o ocidente, a igreja está em declínio e precisa urge ntem en-
te de um a renov ação. M as qu al é a for ma de renovação que desejamos?
No m undo comunista, a igreja é sempre despojada de privilégios, freqüen-
temente perseguida, e às vezes forçada a ser um a igreja subterrânea. Es-
sa situação suscita a pergun ta bási ca: q ual é a razão de ser da igreja, sem
a qu al ela deixaria de se r igreja? E m várias r egiões do tercei ro m un do a
igreja está cr escendo rapid am ente e em alguns lugares sua taxa de cre sci-
mento é até mais rápida do que a do cresc iment o popu lacional. Mas que
tipo de igreja está surgindo e cre scendo? Precisamos ser corajosos em nosso
33 2:10,15; 4:24.

10
efésios 1:1-2

que stionam ento em relação à igreja nestas dive rsas situa ções: no m und o
livre, no m undo co munista e no te rceiro mundo. E encontrarem os respostas
para estas perguntas em Efésios, porque aqui temos as recomendações do
próprio Cristo para a sua igreja, a igreja pela qual certa vez se entregou
(5:25), a igreja a qual é o seu corpo, e até mesmo a sua plenitude (1:23).
Boa parteGraça
do apóstolo: d a mensagem de Efés
a vós outros iosda
e paz é antecip adaDeus
parte de na sanosso
uda ção
Paiinicial
e do
Senh or Jesus Crist o (v.2). É verdade que esta era a saudação costumeira
com que in iciava todas as sua s cartas, um a form a cristianizada das sa u-
dações hebraicas e grega s da época. Mesmo assim, podem os dizer c om
segura nça que nada do que s aiu da pen a de Paulo era , em qua lque r tem-
po, meramente convencional. Pelo contrário, estes dois substantivos são
especialmente apropriados no começo de Efésios: “graça” indica a ini-
ciativa salvado ra e gra tui ta de Deus, e “p az” indi ca o nível de vida em que
passamos a viver desde que ele reconciliou os pecadores consigo mesmo
e uns com os outros na sua nova comunidade.
“Graç a” e “p az”, po rtan to, são palavraschaves de Efésios. Em 6:15
as boa s novas são cham ada s de o evangelho da paz. Em 2:14 está es crito
que o próprio Jesus Cristo é a nossa pa z, porque fe z a paz pela sua cruz
(v. 15) e depois veio e evangel izou paz aos judeus e aos gentios (v. 17). Logo,
seu povo deve esforçar-se diligentemente po r preservar a un idade do Es
pírito no vínculo da p az (4:3). A “graça”, do outro lado, indica como e
por que Deuslivre
misericórdia tomou
e nãoa merecida.
iniciativa Éda“pela
reconciliação. A “graça”,
graça” que somos pois,
salvos, aliásé sua
pela “suprema riqueza da sua graça” (2:5,7,8), e é pela mesma graça que
recebemos dons pa ra o serviço (4:7; cf . 3:2,7). Por isso, s e dese jam os um
resumo sucinto das boas nov as que a carta anuncia, não pod eríam os achar
nada melhor do que esta: “paz pela graça”.
Finalmente, antes de dei xar a i ntrod uçã o à carta , n ão devemos dei-
xar desapercebido o elo vital entre o autor, os leitores e a mensagem. É
o pró prio Sen hor Jesus Cristo. Paulo, o autor, é ap ósto lo de C risto Jesu s,
os próprio s leitore s estão em Cristo J esus, e a bênç ão vem par a tod os eles
tanto da parte de De us Pa i quan to do Sen ho r Jesus Cris to, qu e estão co-
locados jun tos como sendo o único m anancial do qual fluem a graça e
a paz. Assim, o Senhor Jesus Cristo do mina a mente de Paulo e enche a
sua visã o. P arece que e le se sente compelid o a incluir Jesus Cristo em ca -
da frase que es creve, pelo meno s no com eço de sta carta. Pois é atravé s de
Jesus Cristo, e em Jesus Cristo, que a nova sociedade de Deus veio a existir.
11
I. Vida Nova
Efésios 1:3-2:10

1:3-14
1. Toda bênção espiritual
A seção inicial de Efésios (1:3 — 2:10), qu e descreve a nova vida qu e Deus
nos deu em Cristo, dividese naturalmente em duas partes, sendo a pri-
meira de louvor e a segunda de oração . No trecho dedicad o ao louvo r, P au-
lo bendi z a Deus por nos ter e le abenço ado com to da bên ção espiri tual
(1:3 14). No trecho dedicado à oração, Paulo pede que Deus abra nos-
sos olhos para com preendermo s a plenitude desta bênção (1:15— 2:10).
Neste capítulo nos ocuparemos com a expressão de louvor da parte do
apóstolo.

Bendito o D eus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem aben
çoad o co m toda sorte de bênçã o espiritual nas re giões celestias em Cris
to, 4assim com o n os escolheu nele antes da fu ndaç ão do mundo, para ser
mos san tos e irrepreensíveis perante el e; e em a m o r5nos predestinou p a
ra ele, para a adoção d e filh os , p o r m eio d e Jesus Cr isto, segu ndo o be
neplácito d e sua vontade , 6para louvor da glória de sua g raça, que ele nos
concedeu gratuitam ente no Am ad o, 1no qu al tem os a redenção, pelo seu
sangue, a rem issão d os pec ados, seg un do a riqu eza da sua g raça, %qu e
Deus derramou abundantemente sobre nós em toda sabedoria e prudên
cia, 9desv end and o-n os o mistério da sua vontade, s egu ndo o seu bene plá
cito q ue prop usera em Cristo, 10de fa ze r convergir ne le, na dispen sação
da ple nitu de do s tempos, todas as coisas, tanto as do céu com o as da te r
ra; u nele, digo, no qua lfo m o s tam bém fe ito s herança, predestinados se
gun do o pro pós ito daquele que fa z todas as coisas confo rm e o conselho
da sua vontade, 12a fim de serm os para lou vo r da sua g lória, nós, os que
de antemão esperamos em Cristo; l3em quem também vós, depois que
ouvi stes a pala vra da verdad e, o evangelho d a vossa sa lvação, ten do nele
étam bémhor
o pen crido, fo ste sherança
da vossa selados com
até aoo resgate
Santo E da
spírito
sua da promessa; em
pr opriedade, qual
14olou
vor da sua glória.
efésios 1:1-2

No grego original, estes doze versículos formam uma única senten-


ça gram atical compl exa. E nq ua nt o Pau lo vai ditando, as palavras fluem
da sua boca num a torrente contínua. Nã o faz pau sa para to m ar fôl ego,
nem pontua as frases com pontos finais. Os comentaristas têm procura-
do metáforas bem vividas para transmitir o impacto desta explosão ini-
cial de adoração. “Entram os nesta epíst ola por um p orta l m agnífico” , es-
creve Findlay.1É “uma corrente de ouro” com muitos aros,2ou “ um ca-
leidoscópio de luz es ofuscantes e cor es mutáveis” .3William Hendrik sen
assemelhaa a “u ma bola de neve rolan do colin a abaixo, gan ha nd o volu-
me ao descer”,4 e E. K. Simpson, talvez de um modo menos feliz, asse-
melhaa a “um cavalo de co rrid a com grande fôlego... corren do com to -
da a velocidade”.5Mais romântico é o símile musical de John Mackay:
“Esta adoraçã o rapsódica é co mparável à abertura de um a ópera, que con-
tém as sucessivas melod ias qu e se seguirã o!’6E A rm itag e Ro binso n suge-
re que é “como o vôo prelim inar de um a águia, sub indo e giran do em lar-
gos círculos, com o se, po r um mo mento , estivesse incerta sobre qual a di-
reção a escolher, pela sua liberdade ilimitada”.7
Um port al, um a corrente de ouro, um caleidosc ópio, um a bola de ne-
ve, um cava lo de corrid a, um a ab ertu ra de ópe ra e o vôo de um a águia:
todas estas metáforas, de diferentes maneiras, descrevem a impressão de
cor, de movimento e de grandeza que o trecho traz à mente do leitor.
Todo o parág rafo é um hino de lo uvor, um a doxologia ou, re alm en-
te, um elogio, pois é esta a palavra que Pa ulo emprega. Com eça louv an-
do a Deus por nos ter aben çoad o com tod a bênç ão conce bível. M ais es-
pecificam ente faz, segundo parece, uma referência deliberada à Trinda-
de. A srcem da bênção é o Deus e Pai de nosso S enh or Jesus Cristo, que
também é nosso Pai (v. 2); a esfera d a bên ção é Deus Filho, p ois é em Cris
to, em virtu de da nossa un ião com ele, que Deus nos abençoou ; e a nat u-
reza da b ênç ão é espiritual, toda sorte de bênção espiritual, frase esta que
mu ito bem po de signific ar “ tod a sorte d e bênção do E spírito Santo” que ,

como
me a exagente divino,
pressão aplicaHodge:
de Charles a obra de“Estas
Cristobênçãos
no nosso
sãocoração. Confor-
espirituais não ape-
nas por pert encerem à alm a mas, si m, po r derivarem do E spírito Sant o,
cuja presença e influência são a grande bênção o utorg ada p or Cristo”. 8
É esta ref erênci a trin itar ian a que, em parte, levou al guns estudiosos
a comentar aquilo que chamam de o toque “litúrgico” do parágrafo. É
um a “grande bên ção”, escreve Marcus Ba rth, “um a exclamaç ão de l ou -
vor e oração, semelhante àquelas que são pronunciadas nas sinagogas e
1 Findlay, pág. 21. 2 Dale, pág. 40.
3 Arm itage Robin son , pág. 19. 4 He ndri ksen , pág. 72. 5 Simp son, pág. 24.
6 Mack ay, pág. 75. 7 Arm itage Rob inso n, pág. 19. 8 Ho dge, pág . 28.

13
TODA BÊNÇÃO ESPIRITUAL

nos lares ju da ico s”, e “pode... ter vindo a P aulo da corrente viva da t ra -
dição cristã ora l, prova velmente litúrgica” .9 Algu ns co mentaristas foram
mais lo nge, e detec tar am no parágrafo um a estrutu ra trinitarian a como
aquela do Credo dos Apóstolos e do de Nicéia: o Pai elegendo (vs. 46),
o Filho re dim ind o (vs. 712) e o Esp írito sela nd o (vs. 1314), sen do q ue
cada estrofe
Em bora es teterm
planoinaseja
comporo demais arr em
estribilho umlouv
adinorhodapara
sua ser
glória (vs. 6,12,14).
p rovável, mes-
mo assim permanece óbvio o conteúdo trinitariano do parágrafo.
Primeira mente, Deus Pai é a font e ou srcem de tod a bênção de que
desfrutam os. Su a inicia tiva é expo sta d e m odo claro, pois ele mesm o é o
sujeito de qua se todo s os verbos princip ais nestes ve rsículos. É ele quem
nos tem abençoa do (v. 3), quem no s escol heu (v. 4) e nos predestinou.. .
para a adoção de filhos (v. 5), qu em nos concedeu gratuit amen te sua graça
(v. 6, literalmente “nos agraciou com sua graça”), até mesmo derramou
abundantemente sua graça sobre nós ( v. 8), qu e tamb ém “desven dou nos ”
sua vontade e se u propó sito que propusera em Cristo, de fazer convergir
nele... tod as as coisas (vs. 910). Além disso, faz, todas as coisas confor
me o consel ho da sua vontade (v. 11). Voltandonos dos verbos para os
substantivos, Paulo se refere, em sucessão rápida, ao amor e à graça de
Deus, à sua vontade, ao seu propó sito e ao seu plano. O pa rág rafo intei-
ro está repleto de Deus Pai, que nos deu o se u am or e derram ou sua g ra-
ça sobre nós, e que está desenvolvendo o seu plano eterno.

gad aEm segundoé lu


e recebida gar, a resfer
o Senho Jesusa Cristo.
dentro Nda osqual a bênção
qu atorz divina éversícu-
e primeiros outo r-
los da c arta aos Ef ésios, Jesus Cristo é mencionado ou pel o nom e ou pe -
lo título (“Cristo”, “Jesus Cristo” “Cristo Jesus”, “o Senhor Jesus Cris-
to”, “o Am ado”) ou p or p rono mes ou possess ivos (“ele”, “dele”) na da me-
nos que qu inze ve zes. E a frase “em Cris to” ou “nele” o corre onze ve zes.
Já no prim eiro versí culo o ap ósto lo descreveu os cristãos com o santos e
fiéis que estão em Cristo Jesus. A gora, no restante do parágr afo, d esen-
volve as implicações desta e xpressão pro fu nd a que de no ta um novo p rin -
cípio de solidariedade hu mana. Anteriormen te, est ávamos em Adão, per-
tencendo à antiga humanidade caída; agora estamos em Cristo, perten-
cendo à n ova hum anidad e red imida. É em Cristo que Deus no s aben çoou
no tem po e nos escolheu na et ernid ade (vs. 34). É no Am ado que nos con-
cede u a sua graça , de m odo que nele temos a redenção ou o perdã o (vs.
67). É nele que os primeiros crent es judeu s vieram a ser o pov o de Deus
(vs. 11 12); é nele que os cre ntes foram selados com o pertencentes a Deus
(vs. 1314). Foi também em Cristo que Deus desvendou o s eu plano para
unir todas as coisas nele, ou tendoo como cabeça (vs. 910). Anterior-
9 Barth, Ephesians , I. págs. 9798.

14
efésios 1:3-14

mente, nós, os gentios, estávamos se m C risto e , po rta nto , sem esperança


e sem Deus (2:12), mas agora em Cristo fomos cobertos de bênçãos.
Em terceir o lugar, há o Espí rito Santo. E mbo ra neste pa rág raf o seja
mencionado pelo nome somente nos versículos 13 e 14, sua atividade é
mencion ada desde o começo até o fim, e to da a s ua ob ra é descrita e m c a-
pítulos
nos dá emposteriores. O que Paulo
C risto é espiritual. ressaltaque
É provável aquiaqui
é que
hajaa um
bênção que in-
contraste Deus
tenci onal com os dias do A ntigo Tes tamen to, qua nd o as bênçãos pro me-
tidas por Deus eram, em grande medida, materiais. Talvez o exemplo mais
marcante se ache em Deuteronômio 28:114, onde as bênçãos prometi-
das a um Israel obediente eram muitos filh os, um a bo a colheita, um a ab un -
dân cia de gad o e de ove lhas, e a lideran ça entre as nações. É verdade que
Jesus também prom eteu aos s eus segu idore s algum as bên çãos materiais.
Proibiuos, p or isso, de serem ansiosos po r causa d a comida, da b ebida
e das vestes, e asseguroulhes de que o Pai celestial supriria as necessida-
des se colocassem em primeiro lugar os interesses do seu reino e da sua
justiça. Mesmo assim, as bênçãos distintivas da nova aliança são espiri-
tuais, nã o m ateriais. São, po r exemplo, a lei de Deus escrita e m n osso c o-
ração pelo E spírito Santo, um con hecim ento pessoal de Deu s, e o perdão
dos no ssos pe ca do s.1"
A fim de colocar es te fato al ém de qualq uer dúvida, Pau lo acres centa
ao seu adjetivo espiritual a cláusu la nas regiões celestiais , ou melhor, já
que epouraniois
tois nenh um a localização geográfica
). E sta é a prim é subenten
eira ocasião dida,
em que “nosu sa
Paulo celesti en
ais” (es-
esta expr
são notável, que oco rre cinco v ezes em Efésios , mas qu e não se enc on tra
em nenhum outro lugar nas suas cartas. O que significa? A palavra céu
é em preg ada nas Escrituras com significa dos dife rentes. Os autores a nti-
gos distinguiam o “céu da natureza” (o céu azul), do “céu da graça” (a
vida eterna já recebida e de sfru tad a pelo povo de Deus na terra) e do “céu
da glória” (o estado final dos redimidos). Mas o termo “celestiais” deve
ser entend ido de m odo diferente de todo s estes. N ão é nem o céu azul, nem
a graça, nem a glória , nem qua lqu er habitaç ão lit eral mas , sim, o mu ndo
invisível da realidade espiritual. Os cinco usos da expressão em Efésios
indic am que celestiais são a esfera em que os principados epotestades con-
tinu am a ope rar (3:10; 6 :12); a esfera em que C risto reina sup rem o e seu
povo reina com ele (1:20; 2:6), e onde, portanto, Deus nos abençoa com
toda bênção espiritual em Cristo (1:3).
Vêse, pois, q ue o ensino do versículo 3 é extrem amen te im por tante .
Os cristãos são trinitaria no s. Cremos em um só De us: Pai, Filho e Espí-
rito Santo. Afirmamos
(eulogêsas, comem
temp o aoristo) gratidão
Cristo ecom
alegria
toda que Deus espirit
b ênção nos abençoou
ual. O u seja:
l0 P. ex . Jr 31:31 34.

15
TODA BÊNÇÃO ESPIRITUAL

toda bênção do Espírito Santo nos é dada pelo Pai, se estamos no Filho.
Nenhuma bênção nos é negada. Naturalmente, ainda temos de crescer para
a maturidade em Cristo, sermos transformados na sua imagem e explo-
rarmos as riquezas da nossa herança nele. Naturalmente, Deus pode
outorgarnos muitas outras experiências mais profundas e mais ricas de
si mesmo
da bênçãoao longo dojácaminho.
espiritual é nossa. Ou,Mesm o assiom,apóstolo
conforme se estamos em Cristo,
expressou em to -
Colossenses, nós recebem os “a vida com pleta , em u niã o com ele”.11
Tendo declarado o prin cípio ger al, P aulo pass a para os pormenores.
Quais são estas bênçãos com que Deus nos abençoou em Cristo? No res-
tante do parágrafo ele as desdobra. Têm relação com o passado (antes da
fundação do m undo, v. 4), com o presente (o que temos em C rist o ago -
ra, v. 7) e com o futuro ( a plenitud e dos tem pos, v. 10). A bênção passa-
da é a eleição, a bên çao presente é a adoção para sermos filhos de Deus,
e a futura , a unificação, qu an do to das as co isas estarão unidas sob Cri sto.
1. A bênção passada da eleição (vs. 4-6)
Paulo volta mentalmente para o passado, antes da fund açã o do m undo
(v. 4), antes da criação, antes de o t em po ter começado, para um a eter ni-
dade anterior, em que somente o pró prio Deus e xistia na perfeição do seu
ser.
Naquela eternidade antes da criação, Deus fez alguma coisa. Formou
um
(seupro pósito
Filho na suacomo
unigênito) ment ae. Este
nóspropósito dizis aa respe
( ele se propô ito ar
nos torn tanto Cristo
a ad
filh os ot i-
vos, e tam bém filhas, pois, nat uralm ente, a palav ra abra nge os dois se xos).
Notese bem a declaração: no s escol heu nele. A posição dos pronomes
é enfática: Deus colocou a nós e a Cristo ju nto s na sua ment e. Resolveu
tornarnos (mesmo quando ainda não existíamos) seus próprios filhos
através da o bra reden tora de Cristo (que ain da n ão f ora real izada). Foi um a
decisão e specíf ica, po rqu e o verbo escolheu (exelexato ) é outro aoristo.
Surgi u tam bém d o seu favor inteiramen te imere cido, visto que nos esco-
lheu para sermos santos e irrepreensíveis perante ele, o que mostra que
nós, quando ele, na sua mente, nos escolheu, éramos ímpios e culpados,
e que merecía mos, não a ad oçã o mas, sim, o julgame nto. Além dis so (Pau -
lo repete a mesm a verdade com palavras difere ntes) , em a m or12 nospre-
11 BLH, Cl 2:10; c f. também 1 Co 3:2 1 23 .12 ERC coloca a expressão “ em caridade ” imedia
tamente depois de “santos e irrepreensíveis diante dele”, porque entende que se refere ao amor
que Deus quer v er em nós. Deste modo, a santid ade é definida em termos de amor. E sta pode
muito bem ser a tradu ção co rreta, visto que as palavras “ em am or” ocorrem em mais cinco con -
textos de Efésios e, em cada caso, descrevem os cristãos (3:17; 4:2, 15, 16; 5:2). ERAB, no en-
tanto, liga as palavras ao verbo “nos p redestin ou” porq ue entende que se referem ao am or de
Deus, não aò nosso (a ssim também BLH). Eu pessoalmente favor eço esta interpretação, po r-
que parece que o contexto enfatiza o a mo r como a fonte, e não com o o resultado, da nossa eleição.

16
efésios 1:3-14

destinou para e le, para a adoção de filho s, por m eio de Jesus Cri sto, se
gun do o beneplácito d e sua vontade, para lo uv or da glóri a de sua g raça,
que ele nos concedeu gratuitamente no Amado (vs. 56).
Ora, to dos acham difícil a do utrin a da eleição. “Não fui eu quem es-
colheu a Deus?” alguém pergun ta, indig nado; e a isso devemo s respo n-
der: “Sim,
nidade Deusrealmente
escol heuescol
vocêheu, e livrement e,“Nã
primeiramente!’ maso som ente
fui eu queporq ue na eter-
me decidi por
Cristo?” pe rgun ta outra pessoa; e a isto devemo s responder: “ Sim, real-
mente o fe z, e livremente, mas somente por qu e Deus primeiram ente tinh a
decidido em seu favor!’
A E scritu ra nã o esclarece em lugar algum o mistério da elei ção, e de-
vemos ter cuidado com aqueles que procuram sistematizálo de modo de-
masiada mente precis o ou ríg ido. É pou co provável que descubram os um a
solução simples para um problema que tem frustrado, durante séculos,
as melhores mentes da cr istandade. Mas a qui n o texto, pelo menos, há três
verdades importantes para serem aceitas e lembradas:
a. A do utrin a da el eição é um a reve lação divina e não u ma especu lação
humana
Não foi inventada por Agostinho da Hipônia, nem por Calvino de Ge-
nebra. Pelo contrári o, é se m dúvida um a do utr ina bíblic a, e nenhum cris-
tão bíblico pode ignorála. Conforme o Antigo Testamento, Deus esco-
lheu Israeledentre
Con form o Novtoda s as naçõesel edoestá
o Testamento, m undo
form para
ando ser
umseu povounidade
a com especiain-
l. 13
ternacional para que seja seus santos (v. 1), seu povo santo e especial.14
Não devemos, portanto, rejeitar a idéia d a eleição como se fosse uma es-
tranha fantasia dos homens. Pelo contrário, devemos aceitála humilde-
mente (embora não a entenda mos completa mente) como um a verdade qu e
o própr io D eus revelou. Parece natu ral que, a esta altura, p rocuremo s aju da
da p arte de Calvino. Ele prego u sobre Efési os, de co meço a fim, no pú l-
pito da igreja de São Pedro, em Genebra, em quarenta e oito sermões, a
partir de 1? de maio de 1558. Aqui temos um dos seus comentários: “E m -
bora não possam os conceber, quer por argumentos quer pela razão, co-
mo Deus nos ele geu antes da criação d o mu ndo, mesmo assim o sab emos,
porque ele nolo declarou; e a nossa própria experiência testifica a nós mes-
mos, de m od o suficiente, q ua nd o estamos ilum inado s n a fé!’15
b. A do utrin a da el eição é um incen tivo à santi dade, e não um a desculpa
para o pecado
13 P. ex. “sereis a min ha p ropri eda de peculiar dentre to dos os povos” (Êx 19:46; cf. Dt 7 :6ss.;
Is 42:1 e 43:1).
14 Cf. 1 Pe 2:910. 15 Calvino, pág. 69.

17
TODA BÊNÇÃO ESPIRITUAL

É ver dade que a dou trina nos dá um a forte certeza da segurança etern a,
visto que aquel e que nos es colheu e nos cham ou c ertamente nos gu ard a-
rá at é o fi m. Mas nossa segurança nã o p ode ser usad a pa ra desculpar o
pecado, e muito menos para encorajálo. Parece que algumas pessoas ima-
ginam um cristão falando p ara si mesmo em termos tais como estes: “Sou
mem bro do povo escolhid o de Deu s, salvo e seguro. Nã o há, p orta nto , ne-
cessidade al gum a de me preocu par com a santida de. Posso m e com por-
ta r como qu ero.” N o entanto, presunção tã o pavo rosa não acha ap oio na
verdadeira dou tri na da eleição. Pelo contrá rio, o inverso é a verdade. Paulo
escreve aqui que Deus nos escolheu em Cristo para que sejamos santos
e irrepr eensíveis per an te ele (v. 4). Irrepreensível (am õm os ) é a palavra
veterotestamentária par a um sacri fício imaculado. Sa nto s e irr epreensí
veis volta a ocorre r em 5:27 e em Colossenses 1:22, on de indica o n osso
estado fina l de perfeição. Mas o processo de santificaç ão com eça aqui e
agora. Ass im, longe de estimular o pecado, a d ou trina da elei ção o proí-
be e ao contrário, im põenos a necessidade de u m a vida santa, porque a
santidad e é o propósito da nossa ele ição. Em últim a anál ise, a ú nica ev i-
dência da eleição é um a vida santa. F. F. Bruce com enta com sabedoria:
“O a mor de Deus que nos predestina é recom endado mais po r aquel es que
levam vidas santas e semelhant es à d e Crist o, do que p or aqueles cujas ten-
tativa s de desemb araçar o mistério termin am em disputas sobre questõe s
irrele vantes de ló gica!’16
c. A doutrina da e leição é um estímu lo à hu mildade, não um m oti vo pa
ra o orgulho
Há quem pense que julgarse mem bro do povo escol hido de Deus é o pen -
samento mais arrogante que algué m po de aliment ar. E seria mesmo se ima -
ginásse mos qu e Deus nos ti vesse escolhido p or causa de algum mérito no s-
so! N ão há, porém , lugar algum pa ra o mérito na do utrin a bíblica da elei-
ção. M uito pelo contrário , Deus explic ou especifi camente ao povo de Is-

rael que
nem por ele
sernão o escolhera
maior por ser mais
ou po r ultrapass álas importante
de algum aque outras
forma, nações,
po rque is so não
era verdad e. P or que, então? Sim plesm ente po rqu e ele o am av a. 17A r a-
zão por que escolh eu o povo estava nele mesm o (se u am or) e nã o n aq ue -
le povo (o mérito). A m esm a verda de é muito enfa tizada em Efés ios. A
ênfase da totalidade do primeiro parágrafo recai sobre a graça de Deus,
o am or de Deus , a vontad e de Deu s, o pro pós ito de De us e a escolha de
Deus. Ele, pois, nos escolheu em Cristo (declara Paulo) antes da fu n d a
ção do m undo, que era antes de existi rmos, e muito mais, antes de pod er-
mos alegar termos qualquer mérito. Por isso “a eleição de Deus é livre,
16 Bruce, pág. 28. 17 Dt 7:78.
18
efésios 1:3-14

e abate e aniq uila tod o o mereciment o, to das as obras e todas as virtudes


dos hom ens. ” 18
Logo, a verdade da elei ção divina, po r mais nu mero sos que sejam seus
problemas não resolvidos, deve nos levar à justiça, não ao pecado; e a uma
sincera grati dão em espí rito de adoraç ão, não ao orgulho . E m co nseqü ên-
cia, devemos
de outro, paraser,louvor
de umda
lado, sande
glória tossua
e irrepreensí
graça (v. veis
6). pera nte ele (v. 4) e,
2. A bênção presente da adoção (vs. 5-8)
Deus em am or n os predestinou para e le, para a adoção de fi lh os. E sta ex-
pressão parece ser a chave para a compreensão das conseqüências presentes
da nossa e leição. A eleiçã o tem com o objetivo a adoção. Realmente, q uan -
do as pessoas nos fazem a pergunta especulativa de por que Deus conti-
nuou com a criação qu and o sabia que s eria segui da pela Queda, um a res -
posta que podemos dar é que ele nos destinou para uma dignidade mais
alta do que a p rópria criação po deria nos outorga r. Pretendia “adotar nos”,
fazernos filhos e filhas da sua família. E na lei romana (que faz parte do
contexto dos escr itos de Paulo) os filhos adotivos desfrutavam dos mesmos
direitos dos f ilhos leg ítimos. O Novo Testamento tem m uito a dizer acerca
dessa posição de “filiação”, dos seus ricos privilégios e das responsabilidades
inerentes. Estas duas verdades são mencionadas nestes versículos.
Consideraremos inicialmente o nosso privilégio. Somente aqueles que
foram
ção, peado tado
lo seu s n a fama remissão
sangue, ília d e Deus
do podem
s pecadodizer: no qoual
s, seg und temos adreden
a riqueza a sua
graça, que De us derramou abu nda ntem ente sobre nós (v s. 78). Os filhos
de Deus, pois, de sfru tam do livr e aces so ao Pai celest ial, e sua co nfianç a
diante de le é devida ao conhecim ento de que foram redimidos e pe rdo a-
dos. Redenção (apolutrõsis ) significava “livramento mediante o paga-
mento de um preço”, e era aplica da especialm ente no resgate de es cravos.
Aqui, é o equiv alente a remissão, pois o livram ento em qu estã o refer ese
a escapar do justo julgam ento de Deus pronu nciado contra os nossos pe-
cados, e cujo preço foi o derramamento do sangue de Cristo quando de
sua m orte p or nossos pecados na cr uz. Desta maneira, a redenção, a re-
missão e a adoção caminham juntas; l9a redenção ou a remissão é um pri-
vilégio presente que temos e desfrutam os agora. Torna po ssível um rela-
cionam ento filia l com Deus. Vem do der rama men to ab und ante da sua gra-
ça sobre nós.
Mas a filiação tamb ém subentende responsabil idade. O Pai celestial
não estraga os se us filhos. Pelo contrário, “nos disciplina pa ra o nosso
bem, a fim de sermos participantes da sua santidade”.20 Destarte, as duas
18 Calvino, pág. 33. 19 Cf. G1 4:5. 20 Hb 12:10.

19
TODA BÊNÇÃO ESPIRITUA L

decl araçõ es de Paulo são paralelas, que “ nos predestinou.. . pa ra a ad o-


ção de filhos” (v. 5) e “nos escolheu... para sermos santos”. O apóstolo
voltará pa ra este tem a vital mais tarde: Sede, pois, imitado res de Deus, co
mo fi lho s amad os (5:1). É inconcebível desfrutarmos de um relaciona-
men to com Deus como seus filhos s em aceitarmos a obrigaç ão de imitar
o nosso Pai epois
Assim, termos
, a aas
doçcaracterísticas
ão co mo filhda
os sua família.
e filhas de Deus traz cons igo um
“m ais” e um “me nos”, um ga nho imenso e um a perda nec essária. G an ha -
mos o acesso a ele como nosso Pai mediante a redenção ou a remissão.
Mas perde mos nossa s máculas , a pa rtir da ob ra santificad ora do Esp íri-
to Santo, até finalmente sermos perfeitos no céu. A palavra que parece
un ir o privi légio e a respon sabilidad e da no ssa ado ção é a expre ssão p e
rante ele (v. 4), que significa “à vista dele” ou “na presença dele”. Viver
a nossa vida cons cientes de estarmos na presença de nosso Pai é tan to um
privilégio enorm e como um desafio constante para agradálo.
3. A futura bênção da unificação (vs. 9-10)
Deus fez mais do que nos escolher em Cristo numa eternidade passada
e nos da r a filiação ago ra como um a possess ão presente, com tod as as ale-
grias e todo s os de veres que a ac om pan ham . Além disso, em toda a sabe
doria e prudênci a, desven dou-no s o mistéri o da sua vontade para o fu-
turo. Diz respeito ao seu benepl ácit o (seu pro pósito) que propusera em
Cristo para a plen itud e d os tem pos (vs. 910). A História não é sem sig-
nificado nem sem propósito. Está avançando para um alvo glorioso. O
que, pois, é este mistério que Deus desvendou, este segredo revelado, es-
ta vontade, ou propósito, ou pla no divino? No capítu lo 3, o mistério é a
inclusão dos gentios na nova sociedade de Deus em condições iguais às
dos judeus. Mas esta unid ade étnica pres ente é um símbolo ou antevisão
de uma unidade futura que será ainda maior e mais maravilhosa.
O plano de De us par a a plenitude dos tempos, quando o tempo vol -
tar a fundirse na eternidade, é fazer convergir nele (em Cr isto), todas as
coisas, tan to as do céu co mo as da te rra (v. 10). O verbo grego “fazer c on-
vergir” ( anakephalaioõ ) “é rico em alu sões e em sign ifica do”.21Era rar o
no grego s ecular. C onf orm e M ou lton e Milligan, emb ora a palavra foss e
desconhecida e m docum entos nãoliterários por ser demasiada men te ele-
vada par a eles, mesm o assim “pelo fato de kephalaion (“som a”, “to tal ”)
ser um termo comum isso faria com que o significado ficasse óbvio até
mesmo p ara leitor es com uns”. D este mo do o verbo anakephalaio signi-
ficava “trazer algo para um kep hala ion ”, “ resum ir”, ou no sentido de “ re-
sumir em ref lexão ou na fala” (“conden sar num resumo”  Thayer) ou no
21 DTNT I, pág. 681.

20
efésios 1:3-14

sentido de “ reunir as coisas” . A o utr a oco rrência deste verb o no Novo Tes-
tamento é em Romanos 13:9, onde todos os mandamentos da segunda
tábu a da lei “resumem se na sentença: ‘A marás a o teu próximo co mo a
ti mesmo”’
O contexto de Efésios 1 certam ente parece adaptar se me lhor ao sen-
tido de “ reu nir” do que ao de “resum ir”. Um pou co mais adiante, no ve r-
sículo 22, Pau lo vai afir mar q ue Deus “pôs tod as as coisas debaixo de seus
pés e, para ser o cabeça (kephale ) sobre todas as coisas, o deu à igreja”.
Aqui, pois, parece que Paulo está dizendo que “esta convergência para
Cristo acon tecerá com a subm issão do mun do a ele com o o C abeça ”.22
Cristo já é cabeça do seu corpo, a igreja, mas um dia toda s as cois as re-
conhece rão a sua autorid ade como cabeça. No tempo present e ainda há
discórdia no uni verso, mas n a plenitude do tem po esta c essa rá, e aquela
unidade pela qual ansiamos virá com o domínio de Jesus Cristo.
Esta perspectiva leva a um a pergu nta im portan te: quem e o que ser á
incluí do nesta unid ade fin al e neste domínio? Certo núm ero de teól ogos,
tanto antigos com o m odernos, têm se prendido à expr essão “ todas as coi-
sas” como base para a edificação de sonhos universalistas. Ou seja: es-
peculam que todos serão salvos no fim, que os que morrem impenitentes
serão um dia trazidos para o arrependim ento, e que até mesmo os dem ô-
nios serão finalmente redimidos, visto que, literalmente, “todas as coisas,
tanto as do céu como as da te rra” serão reunidas em uma u nidad e sob o
dom ínio salvífic o de Cri sto. Um dos mais eloqüentes defens ores contem -
porâneos do universalismo é Markus Barth. É verdade que, em um ou dois
trechos, parece negálo, dizendo que não devemos nos esquecer do ensi-
no de Cris to sobre o pec ado im perdo ável.23 Mesmo assim, a impressão
geral é clara. “A igreja... é o corpo de Cristo, que vive e que cresce. A igreja
inclui, por esta definição, virtualmente todos os que ainda são descren-
tes... Jesus Cristo não é apenas ‘cabeça da igreja’. Ele é igualmente... ca-
beça também de to do homem , quer este creia em Cristo, quer não!’24
Tratase simplesmente do fato de que nem todas as pessoas conhecem e
reconhecem a Cristo, conforme a igreja o faz. “Logo, podemos chamar
a igreja de os primeiros frutos, o começo, o exemplo, o sinal ou a mani-
festaçã o daqu ele dom ínio e louvor que serão conhecidos universalmente
e desfr utados conscientemente por to dos os homens. A igreja é apen as um a
instituição preliminar, tran sitó ria e s erviçal. Por enquan to, ela é a única
comunidade na terra que serve conscientemente a Jesus Cristo.”2'' Um
pouco mais à frente, quando comenta a parede da separação que Jesus
Cristo derru bou , declar a: “Nã o há parede entre a igreja e o m und o!” Mes-
22 DTNT I, pág. 682.
23 Barth, Broken Wall, pág. 255. 24 Ib id , pág. 110. 25 Ibid., pág. 139.
21
TODA BÊNÇÃO ESPIRITUAL

mo assim, muitos cristãos reúnemse por detrás das paredes de templos


e de tradições ecles iásticas. “U ma igreja que que r se conservar segu ra con-
tra o mundo... somente pode aprender de Efésios que o mundo tem ra-
zão em t ratála, ou evit ála, com o dó ou o desprez o ap rop riado s pa ra o
hipócrita.” Markus Barth rejeita semelhantemente “igreja tipo parede”.
“C onc luindo
parede entre o”, perto
escreve,
e o“ nã o h á,entre
longe, segundo o evange
a igreja e o mlho da paz, nenhuma
undo!”26
Ao ler o seu ataqu e ap aixo nad o co ntra as “ igrejas tipo parede”, sus-
peitamos que ele esteja reagindo contra as atitudes complacentes, retraí-
das e sem amor, de alguns cristãos de hoje, e isto com razão. Se quer di-
zer apenas que a igreja não deve erguer bar rica da s con tra o mu nd o m as,
pelo contrário, deve sair com serviço e testemunho compassivos, concor-
dam os com ele de tod o o coração. Mas ele vai bem além disso pa ra um a
declaração de “solida riedad e” entre a igre ja e o m und o e recusas e a re-
conhecer qu alqu er distinção entre el es senão que a igreja chegou a reco-
nhecer Jesus Cristo de modo consciente, e o mundo não.
Esta recusa em aceitar um a distinção radical entre a igreja e o m un -
do, entre a nova sociedade e a velha, realmente nã o po de ser def inid a com
base em Efésios. A parede da separação que Jesus aboliu não é a barrei-
ra qu e separa o mundo da igr eja; é a barre ira que segrega grup os e ind i-
víduos uns dos outros dentro d a igreja. Além diss o, o qu adr o qu e Efésios
pinta dos “gentios” não é apenas que estão ignorantes da salvação. Sua
con dição acrescenta
tos Paulo está descrita
a em 4 :17ss.
dureza vaid
do sÀseus ade dos seus
corações. próprios
Estão pens
alienados daam
vidaen
com Deus, vivem nas trevas e são ávidos pela im pureza. Duas vezes o ap ós-
tolo os cha ma de filhos da desobediência (referindose ao seu estado p re-
sente e outra vez ao seu destino futuro) e nos dois casos referese também
à ira terrível, porém j usta , de Deus : são filho s da ira agora, e a ira de Deu s
virá sobre eles no último dia (2:3; 5:6).
Assim, voltand o a Efé sios 1: 10, nã o pod em os forçar toda s as cois as
a entrar legitimamente num argum ento em prol da salvação uni versal , a
não ser que estejamos dispostos a acusar Paulo de confusão teológica e
de autocon tradição . Quais são, então, toda s as coisas, tanto as do céu co mo
as da terra que um dia serão unidas debaixo d e Cristo como cabeça? Cer-
tam ente incluem os cristãos vivo s e os cristãos m ortos, a igrej a na terra
e a igreja no céu. Ou seja: os que estão em Cristo agora (v. 1), e que em
Cristo receberam bênção (v. 3), eleição (v. 4), adoção (v. 5), graça (v. 6),
e redenção ou remissão (v. 7), e um dia serão perfeitamente unidos nele
(v. 10). Sem dúvida, os anjos serão incluídos também (cf. 3:10,15). Mas
todas as coisas (ta pan ta) normalmente significa o universo que Cristo
22 DTNT I, pág. 682.

22
efésios 1:3-14

criou e que su ste nta .27 Mais u ma vez parece que Pau lo está s e referindo
à renovação cósmica, à regeneração do universo, à libertação da criação
que geme, e sobre a qual já tin ha esc rito aos Romanos.2KO plano de Deus
é todas as coisas que foram criadas por Cristo e para Cristo, e que sub-
sistem em Cr isto,29 finalm ente serem un idas de baix o de Cristo ao se sub-
meterem á sua soberania, já que o Novo Testamento o declara “herdeiro
de todas as co isas”.30
Assim a BLH traduz o v. 10: “Este plano é unir...debaixo da autori-
dade de Cristo , tu do o que há no céu e na te rra ”, e J. B. L igh tfoo t escreve
acerca da “harmonia inteira do universo, que já não conterá elementos
estranhos e discordantes, mas no qual tod as as partes ach arão seu centro
e vínc ulo d e união em Cris to”.31
Na plenitude do tempo, as duas criações de Deus, todo o seu universo

eé oa sua igreja
cabeça por completo,
supremo das duas.serão unificadas sob o Cristo cósmico que
A esta altura, talvez seja sá bio fazer uma pau sa e considerar q uan to
Iodos nós precisamos desenvolver a perspectiva geral de Paulo. É bom lem-
brar que ele era um prisioneiro em Roma. Não, de fato, numa cela ou numa
masmorra mas, mesmo assim, sob prisão domiciliar e algemado a um sol-
dado romano. Apesar disso, embora seu pulso estivesse algemado e seu
corpo confina do, seu coração e sua mente habitavam a eternidade. O lhou
para trás ant es d a funda ção do mundo (v. 4) e para a frente, para a plen i
tude dos tem pos (v. 10), e apoderouse d o qu e temos ago ra (v. 7) e do q ue
devemos ser agora ( v. 4), à luz daqu elas d uas etern idades. Qua nto a nós,
quão bitolada é a nossa visão comparada com a dele, quão pequena é a
nossa mente, quão estreitos são os nossos horizontes! De modo tão fácil
e natural, deslizamos para u ma preocupação qualqu er, com nossos assun
linhos mesquinhos. Devemos, porém, ver o tempo à luz da eternidade, e
nossos atuais privilégios e obrigações à luz da nossa eleição no passado
e da nossa perfeição no futuro. Então, se compartilhássemos dá perspec

liva doleva
pois, apóstolo, tam bem
à adoração bém co mpartilh
como aríam
ao dever. A os dose
vida se transform
u louvor. Aaria
do em
utrinado-
a,
ração e bendiríamos a Deus constantemente por nos ter abençoado tão
ricamente em Cristo.
4. O alcance destas bênçãos (vs. 11-14)
Depois de descrever as bênçãos espirituais que Deus dá ao seu povo em
Cristo, Paulo acrescenta ma is um p arágrafo p ara enfatizar que as bênçãos
pertencem igualmente aos crentes judeus e gentios. A estrutura do pará-
27 Hb 1.23. 28 Rm 8 :18ss.; cf. Mt 19:28; 2 Pe 3:1013.
29 Cl 1:1617. 30 Hb 1:2. 31 Lightfoot, pág. 322.

23
TODA BÊNÇÃO ESPIRITUAL

grafo to rn a claro este f ato: nele... nós (judeus) os que de antemã o espe
ramos em Cristo... fo m o s predestinados ... a fim de sermos para lo uvo r da
sua glór ia. Nele tamb ém vós (gentios)... tendo nel e também erido, fo s
tes sela dos com o Santo Espírito da promess a; o qual é o pe nh or da no s
sa herança... O apóstolo muda do pronome nós (ele mesmo, com os de-
mais
sa cre ntes
herança (najudeus)
qual osp dois tambémparticipam
ara grupos vós (seusigualmente).
leit ores gentios) e pa ra nos
Está dando
um a am ost ra prévi a do seu tem a da reconciliação entre judeus e gentios,
que desenvolverá na segunda parte do capítulo 2. Porém, com a repeti-
ção de nele e em quem (vs. 11, 13), enfatiza que é Cristo quem faz a re-
conciliação e que é mediante a união com Cristo que o povo de Deus é
um só. D aí o apóstolo c om pa rtilh a conosco três grandes ve rdad es sobre
o povo de Deus.

a. O po vo de Deus é propriedade de Deus


O ap óstolo emprega duas expressões gregas cujo uso n o Antig o Testament o
sugere fortem ente est e significado de “pr op ried ad e”. A prim eira é o v er-
bo klêroõ, que pode significar dar ou receber um klêros, uma herança.
A pe rgu nta é: a qual h eran ça Pau lo se refere? Pode ser nossa, um dom qu e
recebemos. Uma tradução possível seria: “Em Cristo... recebemos nossa
participação na herança!’ Alternativamente, pode ser que Deus nos tomou
para sermos dele mesmo; assim a ERAB entende a expressão. Assim tam -
bém
LingüiArm itage Robinson:
sticamente “Fomos
, esta traduçã escolhidos
o é mais natural. como
O quea éporção depo
ma is im Deus!’3
rtan -2
te, o pa no de fu nd o vetero testam entá rio parece quase ex igila. Israel era
o kléros, a sua “herança”. Constantemente, esta verdade era repetida. Por
exemplo: “Porque a porção do S EN HO R é o seu povo; Jacó é a pa rte da
sua hera nça ”, e “Feliz a naç ão cu jo D eus é o SE NHO R, e o povo que el e
escolheu par a sua he rança”.33O uso que P aulo faz do verbo klêroõ nes-
te par ágra fo parece indicar a sua convicção de que tod os aqueles que es-
tão em Cristo, sejam genti os ou judeus, agora são o klêros de Deu s, em -
bora somente Israel o fosse nos tempos do Antigo Testamento.
Este ensino é con firm ado pelo segundo termo que ele emprega, tam -
bém rico em associações com o Antigo Testamento, e que aparece no fim
do p arág rafo (v. 14). A tr adução literal é “até ao resgate da possessão co m-
prada” (eis apolutrõsin tês peripo iêseõs). A per gun ta que d evemos fazer
acerca desta possessão é a mesma que fi zemos anteriormente qu anto a he
rança: ela é nossa ou de Deus? ER AB e ERC supõem ser nossa : “O qu al
é o penh or d a nossa herança. .!’ Mas J. H. Ho uld en vai ao pon to de cham á
32 Armitage Robinson, págs. 34, 146. 33 Cf. a versão da LXX de Dt 32:9; SI 33:12. Cf. Dt
4:20; 9:2 9; 1 Rs 8:51; S! 106:40; Jr 10:16; Zc 2:12; etc.

24
efésios 1:3 -14

la de “t radução frouxa e ten den cio sa”.34 Parece ma is provável que a p os-
sessão (como a heran ça) seja de Deus , e que m ais u ma vez se refir a ao seu
povo. Assim a BJ diz: “para a redenção do povo que ele adquiriu”. O ar-
gumento prin cipal p ara interp retála assi m é, mais um a vez, o fund o his-
tórico veterotestamentário. Pois o substantivo peripoiêsi.s (“posses são” ),
ou o seu
crição d eadjet ivoPor
Israel. cognato , ocorre
exemplo: freqüentemente
“Sereis a minh a pronaprie
LXdadXecomo umdentre
peculiar a des-
todos os povos”, e “O Senhor teu Deus te escolheu, para que lhe fosses
o seu povo pr óp rio ”.15Ce rtam ente esta fra seolog ia é reto mada no Novo
Testamento c om relação à igreja que C risto a dq uir iu p ara si mesm o.36

Coloc ando ju nta s esta s duas expre ssões gregas, com seu cl aro f un -
do histórico no An tigo Testamento , é difícil resistir à conclusão de que P au-
lo esteja alud ind o à igreja com o sendo a herança e possessão. Estas pa-
lavras antig am ente eram aplicada s exclus ivamente à nação de Isra el, mas
agor a são aplicadas de mo do novo a um pov o internacional cujo deno -
minador comum é todos os seus membros estarem “em Cristo”. Já que
o mesmo vocabulário é empregado para os dois povos, temos a indica-
ção da continuidade espiritual entre ambos.

Este e nsino, em bor a não seja tão óbvio em nosso text o, nã o deixa de
ser básico para o que Paulo está escrevendo neste parágrafo. O povo de
Deusdesão
são os santos
Deus (v. 14). de Deus (v.depois
Somente 1), é adisto
herança de Deus (v.é 11),
ser entendido, é a posses-
que estamos
prontos para fazer mais duas perguntas. Primeira: Como nos tornamos
o povo de Deus? E a segunda: Por que ele nos tornou seu povo? Paulo
responde à p rim eira referindose à von tade de Deus , e à segunda, referindo
se à sua glória. E declara cada uma destas verdades três vezes.
b. Som os o po vo de Deus pela vontad e de Deus
Com o ficam os sendo o povo de Deu s e a possessão de Deus? Não p ode
haver dúv ida qu an to à resposta de Pau lo. Foi pela von tade de Deu s. Ele
nos predestin ou p ara sermos seu s filhos segundo o beneplácito de sua von
tade (v. 5); desvendou a nós o mistério da sua vontade, seg undo o seu be
neplácito (v. 9); e ficamos sendo a herança de Deus segundo o prop ósito
daquel e qu e fa z todas as c oisas conform e o conselho da sua vontade (vs.
1112). A pa ssagem está rep leta de referências à vonta de ( thelèma ), ao be-
neplácito ( eudokia), e ao propósito (prothesis) de D eus, bem como ao pla -
no ou pro gram a em que es tes foram expressos. Pa ulo dificilmente po de -
34 Houlden, pág' 271. 35 Ver a versão da LXX de Êx 19:5; Dt 7:6 . Cf. Dt 14:2; 26:18; Is
43:21; Ml 3:17; etc.
36 Ver At 20:28; Tt 2:1 4 e 1 Pe 2:9.

25
TODA BÊNÇÃO ESPIRITUAL

ria ser mais enfáti co ao dizer q ue, q uan do nos tornam os m embros da nova
comuni dad e de Deus, isso não se deveu ao acaso n em à no ssa escolha mas,
sim, à von tade e ao beneplácito soberano s do pró prio Deus. Este fo i o fator
decisivo, conforme o é em cada conversão.
Isto não significa, n o entan to, que estávamos inativos . Longe di sso.
Neste
te contexto,
à vontade em que
de Deus, a nossa
a nossa p rópriabilidade
responsa salvação
també atrib
ém éuída inteiramen-
mostrad a. Isto
porque (v. 13) primeiramente ouv im os a palavra da verdade ; depois te
mos crido nel e (Cristo), e assim fomos selados com o Santo Espírit o da
promessa. Que ninguém diga, portanto, que a doutrina da eleição pela
vontade e misericórdia soberanas de Deus, por misteriosa que seja, tor-
na desnece ssário a evangeli zação e a fé. Pelo contrário! É so mente p or c au-
sa da vontad e graciosa de Deus pa ra salvar que a eva ngelização tem q ua l-
qu er espera nça de sucess o e a fé se to rn a possí vel. A pre gação do evange-
lho é o meio qu e Deus estabeleceu para liv rar da ce gueira e da escravidão
aqueles que escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, e para os
libertar para crerem em Jesus, e assim fazer com que se concretize sua
vontade.37
E a certeza de que Deus está assi m ativo na v ida do seu povo é da da
pelo Espírito Santo, que nos versículos 13 e 14 recebe três designações: um a
promessa, um selo e um a garantia. P rim eiram ente ele é o Espírit o da pro
messa porque Deus prometeu, pelos profetas do An tigo Test amento e tam -
bém por
mete dáloJesus,
h ojeque
a todo oenviaria
aqu ele (o
qu que
e se fez no dia
arr epen dede Pentecostes)
e crê (o que ele erealm
Deusente
pro-
faz).38
Em segundo lugar, o Espírito Santo não é somente a promessa de
Deus, como também o selo de Deus . Um selo é um a m arca de possessão
e de autenticidade. O gado, e até mesm o os escravos, eram marcado s com
um selo pelos se us donos, a fim de indicar a quem pertenciam. Mas tais
selos eram exter nos, ao passo qu e o de Deus está no coraç ão. Deus colo -
ca o seu Espírito dentro do seu povo á fim de marcálo como sua
propriedade.39

37 Para uma exposição mais completa deste tema importante, ver O Evangelismo e a Sobera
nia de Deus, de J I. Packer (Edições Vida Nova, 1966).
38 Ver, P. ex., E z 36:27; Jl 2:28; Jo 14-16; Lc 24:49; A t 1:4-5; 2:33, 38-39; Gi 3:14, 16.
39 para o conceito de “sela r" ver Ez 9:4ss., e A p 7:4ss ,• 9:4. Para o Espírito S anto como a marca
distintiv a do cristão, ver 2 Co 1:21-22; Ef4: 30 . A partir do século II, alguns autores têm id en
tificado o s elo do Espírito com o batismo, parcialmente porq ue o ba tismo e o do m do Espírito
estão ligados no No vo Testamento, e parcialmente po r analogia com a circu ncisão que Paulo
chama de s elo (R m 4:11). Mas o batism o é um sinal ou selo externo e visível, ao passo que o
selo interno e invisí vel que Deus dá para marc ar o seu pov o com o sua própria possessão é a pre
sença do Espír ito no coração. Ver Rm 8:16.

26
efésios 1:3-14

Em terceiro lu gar, o Es pírito San to é a garantia ou penhor de Deus,


com que ele se compromete a levar o seu povo com segurança à herança
final. Penhor aqui é arrabõn , srcinalmente um a palavra hebraica que pa -
rece ter entr ad o no uso grego através dos com erciantes fenícios. É em pre -
gada no gre go m oderno para um a aliança (a nel). Nas transações comer-
ciais antigas,
penhor, porém,
que paga parsignificava “ deprimeira
te do preço com praprestação,
de antemão, depósito,
e assimentrada,
obtém
um direito leg al sobr e o res pectivo artigo, ou to rn a váli do um co ntra to”
(AG). Neste caso o pe nh or n ão é algo separad o da quilo que ga rante, mas
é realmente a primeira parte des te. Um a aliança prom ete o casamen to mas
não é em si mesma uma parte do casamento. Um sinal pago na compra
de um a cas a ou nu ma com pra a prest ação, no entanto, é mai s do q ue uma
garantia do pagamento; em si mesmo é a primeira parcela do preço de
compra. Assim acont ece com o Espírito Santo. Ao dálo a nó s, Deus não
está apenas nos prometen do a nossa herança final, mas realmente está da n-
do uma antevisão dela, o que, no entanto, “é apenas uma pequena fra
ção da fut ur a do taçã o”.40
c. O po vo de D eus existe para a glória de Deus
Da pergunta “ como nos tornam os povo de De us?”, agora nos voltamos
para a pergunta “por que Deus no s torn ou seu povo?” e , entã o, o assu n-
to mu da de sua vont ade para a sua glór ia. J á vimos anteriormente como
Pau lo alu
lhantes. A diu
go ratrês v ezes aoverbeneplácito
devemos que tam bémde po
sua vonta
r três de ele
ve zes ou palavras
se refere seme-
à g ló-
ria de De us. Es creve que Deus nos destin ou p ara sermos seus filhos, para
louv or da glóri a de sua graça (56); que e le nos fe z sua he ra nça en os des-
tinou p ara viver mos para louvor da sua glória (v. 12); e que um dia fin al-
mente re mir á o seu povo, que é sua possess ão, em louvo r da sua gló ria (v.
14).
Es ta bela frase precisa ser analisa da. A glóri a de Deus é a reve lação
de Deus, e a glória da sua graça é a sua au torev elaçã o como um Deus gra-
cioso. Vive r par a louvor d a glória da sua graça é não som ente adorá lo
com nossas palavras e ações, pelo Deus gracioso que ele é, como também
levar outros a vêlo e a louválo. Esta era a vontade de Deus para Israel
nos dias do A ntig o Testamento,4 1e também é o seu pro pó sito pa ra o seu
povo hoje. Pessoalmente, sempre serei grato a um dos meus excolegas na
igreja Ali Soul s que, qu an do deixou a nossa equipe para aceitar ou tro tr a-
balho, deume um cortapapel para a minha escrivaninha, depois de m an-
dar gravar n ele as palavras “Par a louvor da sua glória” . Está n a min ha f ren-
te qua nd o escrevo, e é um a lem brança e um desafio perm anentes.
40 Lightfoot, pág. 324. Cf. 2 Co 1:22; 5:5; Rm 8:23. 41 P. ex. Is 43:21; Jr 13:11.

27
TODA BÊNÇÃO ESPIRITUAL

Aqui, pois , temos o “como ” e o “p or que” d o povo de Deus, qu e ta m -


bém é sua herança e sua possessão. Como ficamos sendo o seu povo? Res-
posta: “Segundo o beneplácito de sua vontade.” Por que ele nos tor no u
seu povo? Respost a: “P ara o louvo r d a glória da sua graça”. Assim, tu do
qu an to temos e somos em Cristo vem de Deu s e volta para Deus. C om e-
ça na sua vontade e termina na sua glória. É aqui que tudo começa e
termina.
Semelhante conve rsa cristã, no entanto, entra em ch oque violento com
o antropocen trismo e o egocent rismo do mundo. O homem caído, ap ri-
sionado no seu próprio ego minús culo , tem um a con fiança quase ili mi-
tad a no pod er d a sua própr ia vontade, e um apetite quase i nsaciável pelo
louvor da sua glória pes soal. M as o po vo de Deus, pelo menos, já c om e-
çou a ser virad o pelo avesso. A nova sociedad e tem novos valor es e novos
ideais. O povo de Deus é a possessão de Deus que vive pela vontade de
Deus e para a glória de Deus.
28
1:15-23
2. Uma oração de gratidão pelo conhecimento
Por isso tam bém eu, tendo o uvido af é que há entre vós no Senh or Je sus,
e o a mor para com todo s os santos, 16não cesso d e dar gr aças por vós, fa
zendo menção de vós nas minhas orações, ^para que o Deus de nosso Se
nh or Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito d e sab edoria e de
revelação no ple no conh ecim ento dele, 18iluminados os olhos do vosso
coração,
queza da para
glóriasaberdes qua l é aa esperanç
da sua heranç a do,9e
no s santos, seuqual
cham amen to,a grandeza
a suprem qu al a ri
do seu pod er para com os qu e cre mos, segundo a eficácia do seu poder;
20o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e
fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, 2lacima de todo prin
cipado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo no me que se pos sa re
ferir não só no presente século, mas também no vindouro.
22E pô s todas as coisas deba ixo do s seus pés e, para ser o cabeça de
todas as coisas, o deu à igreja, 23oqual é o s eu cor po, a plen itud e daqu e
le que a tudo enche em todas as coisas.

Em bora P aulo esteja nat uralm ente pensa ndo nos seus leitores da Ásia, aos
quais está e screvendo, m esmo assim, no d ecorrer do prim eiro cap ítulo d a
sua carta, dirigese mais a Deus do que a e les. Com eça com um a grande
bênção (1:314) e continua com uma grande intercessão (1:1523). Efé-
sios 1está, na realidade, dividido nestas duas seções. Primeiro, bendiz a
Deus po r nos ter abenço ado em Cristo; depoi s, ora pedin do que Deus abra
nossos olhos
Para para
se ter umentendermos
a vida cristã splenamente esta
audável, ain da bênção.
hoje, é de vital im por tânc ia
seguir o exemplo d e Pau lo e man ter un idos o louvor e a oração. Muitos,
no entanto, não conseguem este equil íbrio . Alguns cristãos apenas oram
em favor de novas bênçãos espirituais, aparentemente ignorando o fato
de que Deu s já os abençoou em Cristo co m t od a bênção espirit ual. Ou-
tros dão tan ta ênfas e à indubitável verdade que em Cristo tu do já é deles,
que s e tor na m negligentes e não dem onstram von tade de conh ecer ou ex -
perim entar com maior profundidade seus privilégios cristãos. Ambos se
polarizam, desviandose do ensino das Escrituras, perdendo assim o equi-
líbrio espiritual.
29
UMA ORAÇ ÃO DE GRATIDÃO PELO CONHECIMENTO

O que Paulo faz em Efésios 1 e nos encor aja a fazer o mesmo, é con -
tinu ar lou vando a Deus, p orque em Cristo todas as bênçã os espirit uais
são noss as, e também con tinu ar orand o par a que conheçamos a plenitu-
de daqu ilo q ue ele nos deu. Se conservarm os jun tos o louvor e a oração,
as ações de graças e a petiçã o, isto nos aju da rá a m an ter o nosso equilí-
brio Con
espiritual.
tinua nd o no ssa comp araçã o das duas seções de Efésio s 1, outr o
aspecto nos cha ma a atenção: am bas são ess encial mente trinitarian as. Es-
tão dirigidas a Deus Pai: as ações de graças ao Deus e Pai de nosso Se
nhor Jesus Cristo (v. 3) e a intercessão ao Deus de nosso Senhor Jesus Cris
to (v. 17), que tam bém é cha mad o de “o Pai da glória ” ou “o glorio so Pa i”
(BV). Além disso, as du as se referem especificam ente à ob ra de Deus em
e atravé s de Cristo, porq ue, de um lado, nos tem abençoado... em Cristo
(v. 3) e, por outro, exerceu em Cristo um eficaz ato de poder quan do o res-
suscitou e o ent ron izo u (v. 20). E, em tercei ro lugar, as duas seções do ca -
pítulo aludem , ainda que indiretam ente, à obra do Espírito Santo, visto
que as bênçãos que outorga em C risto são espirituais (v. 3), e somente me-
diante um espírito (ou E spírito) de sabedo ria e d e revelação podem os che-
gar a conhecêlas ( v. 17). Não ac ho qu e discernir esta estr utu ra tr ini tar ian a
seja forçar o texto. A fé cristã e a vida cristã sã o fun dam entalm ente t ri -
nitari anas. Uma é a resposta à ou tra. O Pai nos trouxe bênçãos atr avés
do Filho e por meio do Espírito , p or iss o podem os nos ap roxim ar de le em
oração, também
O que levouatravés
Paulo do Filho
a orar e por de
a favor meio
seusdoleitores
Espíritofoi(cf. 2:18).
o que ouviu a
respeito de les. N o par ág raf o an ter io r escreveu em term os gerais que nó s,
isto é, ele e os dem ais cristão s judeu s, eram os que de antemão esper amos
em Cristo (v. 12) e que seus leitores, cris tãos gentio s, tinham ouvido a pa
lavra da verdade... e crido em Cr isto (v. 13). A gora to rna se m ais pessoal:
...eu, tendo ouv ido a f é qu e há ent re vós no S en ho r Jesus , e o a mor para
com todos os sa ntos . Embora pareça estranho, os melhores manuscritos
omitem “o am or ”. Sem estas palavras, “o Senho r Jesus” e “todos os san-
tos” são colocad os no mesm o plan o com o objeto d a fé dos ef ésios. Tão
estra nha é esta noçã o d a fé em cri stãos tan to q uan to em Cristo, e tão di-
ferente daq uilo que Pa ulo esc reveu em outros lugares, que temos um a es-
colha a fazer: ou seg uimos Markus B arth que traduz “ fé” po r “ fidelida-
de” ou “lealdade”, que é “algo semelhante ao amor”1e que pode ser di-
rigida tan to a Cris to, qu an to aos crist ãos; ou concluí mos, mesmo contra
a forte evid ência dos manu scritos, que a s pala vras “o am or ” foram real-
mente e scritas por Paulo, m as pro vavelmente omitidas po r um copista an -
tigo. Neste últim o caso, temos p ara a dupla: fé em Cristo e am or p ara com
1Barth, Ephesians , I, pág. 146.

30
efésios 1:15-23

seu povo, um paralelo exato em Colossenses 1:4. Todo cristão crê quan-
to am a. A fé e o am or são graças cristãs básicas, com o tam bém é a espe-
rança, o terceiro mem bro da tríade, mencionada no v. 12 e que volta a ocor -
rer no v. 18. É impossível estar em Cristo e não se achar atraído tanto a
ele na fé como ao seu povo em amor (a todos eles também, neste caso os
judeus e osouvido
Tendo gentiosfalar
semdadistinção).
fé e do amor cristãos que eles expressavam,
Paulo diz que não cessa de dar graças a Deus por eles (reconhecendoo
como o autor de ambas as qualidades), e depois intercede por eles. Por-
que a despeito da sua inc essant e gratidã o a Deus po r eles, a ind a não está
satisfeito. Qual é, então, o seu pedido? Não é que recebam uma “segun-
da bênção” mas, si m, que reconheçam tod a a ext ensão da bênção que já
receberam. Assim sendo, a essência da sua oração por eles é para saber-
des (v. 18). Embora suas outras orações registradas tenham um alcance
maior do que es ta, todas inclue m um a peti ção semelhant e, ou pelo “p o-
der para com preen der” (3 :8), ou pel o “conhecim ento da sua vontade, e m
toda a sabedoria e entendimento espiritual”2 ,ou pelo “pleno conhecim en-
to e toda a percepção”.3Devemos estar atentos a esta ênfase. Crescer no
conhecimento é indispensável para crescer na santidade. Na realidade, o
conhecimento e a sa ntidade estão ainda mais intimam ente vinculados do
que com o meio e fim. O conhecimento, em prol do qual P aulo ora, é me-
lhor expre sso pelo conceito hebrai co, pois acrescenta o con hec im ento da
experiê ncia ao conhecim ento do entendimento, e também enfatiza o ple
no conhecimento dele (v. 17), conhe cim ento pessoal d o pr óp rio Deus, co-
mo o contexto dentro do qual é para sab erm os q ua l é... (v. 18), ou seja:
para que cheguemos a conhecer verdades sobre ele. Não existe nenhum
conheci mento m aior do que o conheci mento do próp rio Deu s. Confo r-
me a express ão de Ado lphe M onod: “A filoso fia que toma o hom em por
seu centro diz conhece-te a ti m es mo ; somente a palavra inspirada que pr o-
cede de Deus tem conseguido dizer conhece a D eu s”4
Tal conhecimento é impossível sem a revelação. Paulo, portanto, ora
que Deus lhes conceda espírit o de sabedori a e de revelação no ple no co
nhecimento dele (v. 17). Embora o texto citado escreva espírito com a inicial
minúscula, é provável que a referência seja ao Espírito Santo, visto que
as Escrituras falam dele como sendo “o Esp írito d a verdade ”, o agente da
revelação, e o mestre do povo de De us. N ão se tr at a de pedir mos a Deus
que “dê” o própr io Es pírito àqueles que já o recebera m e que foram se
lados com ele (v. 13) mas, sim, que podemos e devemos orar a favor do
seu ministério de il uminação. É po r causa da sua confia nça neste minis-
tério do Espírito que Paulo pôde continuar sua oração: iluminados os
2 Cl 1:9. 3 Fp l : 9 . 4 Citado por Findla y, pág. 68.

31
UMA ORAÇÃO DE GRATIDÃO PELO CONHECIMENTO

olhos do vosso coração, para saberdes... Na linguagem bíblica, o coração


é o completo eu, que consis te da mente bem com o d a emoção. P ortanto ,
os olhos d o coração são simplesmen te noss os “o lhos interiores”, que pre-
cisam ser aberto s ou iluminados ant es de poderm os com preender a ve r-
dade de Deus.
O apó stolo agor a reúne trê s grandes verdades que deseja que s eus lei-
tore s (através da ilum inação do E spírito Santo) saib am na m ente e na ex-
periência. Elas referemse ao cham am ento, à herança e ao poder de Deus.
Mais especificamente, ora p ara que conhe çam a esperança do chamamento
de Deus, a glória (at é m esmo a riqueza da glória) d a sua herança, e a gran
deza (até mesmo a suprema grandez a) do seu poder.
1. A esperança do chamamento de Deus
O chamamento de Deus nos faz relembrar o início da nossa vida cristã.
“E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a
esses tam bém ju sti fic ou!’5É verdade que invocamos a Deus pa ra nos sal-
var,6mas nossa chamada foi uma resposta à dele.
A pergunta agora é : para quê Deu s nos chamou? Seu cham am ento
não era algo s em sentido ou sem propósito. Deus tin ha um objetivo qu and o
nos chamou. Ch am ounos a alguma coisa e par a alguma cois a. Este é o
significado de a esperança do seu cham amen to (v. 18), que em 4 :4 é refe-
rida como sendo a “esper ança da vossa vocação”. É a expectativa que des-

frutamos
O prócomo
prio resultado do fato denos
Novo Testamento queconta
Deuso nosque
chamou.
é isto. É um a expecta-
tiva rica e variada. Deus, pois, nos cham ou “p ara serm os de Jesus C ris-
to” e “à com unh ão de... Jesus Cristo” .7C ham ouno s “ para sermos san-
tos” ou “ nos cha mou com sa nta vocação” , visto que aquele que nos ch a-
mou é santo e nos diz: “Sede santos, porq ue eu sou san to!’8Um a das ca-
racterísticas do povo “santo” ou especial de Deus é a libertação do jugo
da lei. Não devemos, por tant o, recair na escravidão, pois “ fomos cham ado s
à liber dade” .9O utra característica é a com unh ão har monio sa atra vés d as
barreiras das raças e das classes, porque “fomos chamados em um só cor-
po” para desfrutarm os da “paz de Cristo”, e devemos viver uma vida que
é “digna da vocaç ão a que fomos chamados... su porta ndo no s uns aos ou-
tros em am or ”. 10Ao mesmo tem po em que podem os d esfrutar de paz
dentro da comunidade cristã, forçosamente experimentamos oposição do
mundo descrente. Não devemos reagir com agressão, no entanto: “Por-
qua nto par a ist o mesm o (es te sofrim ento injusto e esta perse verança p a-
5 Rm 8:30. 6 Rm 10:12 — 13. 7 Rm 1:6; 1 Co 1:9.
8 Rm 1:7; 1 Co l : 2 ; 2 T m 1:9; 1 Pe 1: 15; cf. 1 Ts 4:7.
9 G1 5:1, 13. 10 Cl 3:15: Ef 4:1 —2:.

32
efésios 1:15-23

ciente) fostes cham ados, pois que tamb ém Cristo sofreu em voss o lugar,
deixand ovos exemplo pa ra seguirdes os s eus pass os!’11Além disso, s abe-
mos que a glór ia se en con tra após o sofrime nto. Deus, pois, tam bém nos
chamou “para o seu reino e glória” ou “à sua eterna glória em Cristo”.
É o que Paulo c ham a de “a soberan a vocação e m Cristo Jesus”, razão pela
qua l avança n a co rrid a cris tã em direção a o alvo. 12
Tudo isso estava na mente de Deus quando nos chamou. Chamou
nos para C risto e par a a santi dade, para a liberdade e par a a paz , p ara o
sofrimento e para a glória. Simplif ican do, tratas e de uma ch am ada p a-
ra um a vida t otalm ente nova e m que co nhecemos, am amo s, obedecemos
e serv imos a Cris to, desfruta mos d a com unh ão com ele e uns com os ou -
tros, e olham os além do nosso presen te sofrimen to p ara a glória que um
dia será revelada. E sta é a esperança do seu cha mam ento . Paulo ora que
nossos olhos sejam abertos para conhecêla.
2. A glória da herança de Deus
A segunda oração do apósto lo é para que saibamos qual a riquez a da gló
ria da sua herança nos santo s (v. 18b). A expressão grega, co mo tam bém
em português, pode significar ou a herança de Deus ou a nossa, ou sej a:
ou a heran ça que e le recebe ou a he rança que ele outorga. Algu ns com en-
taristas a entendem no p rimeiro sentido e dizem que se refere à herança
que Deus possui entre o seu povo. Ce rtam ente os autores do A ntig o Tes-
tam entoouensinavam
rança” de ,modo
“possessão” consistente
e no capítulo anterque
ioroacham
p ovo de
osDeu
um as era
refesua
rênci“he-
aa
esta verdade nos vs. 12 e 14. Mas a passagem correlata em Colossenses
1:12 sugere fortemente a out ra interpretação, a saber: q ue a “ heran ça de
Deus” referese àquilo que ele nos dará , pelo que de vemos dar graças ao
Pai “ que nos fez idôneos à pa rte que nos cabe da heranç a dos santos n a
luz”.
Neste caso, se o chamamento de De us ap on ta de vol ta para o come-
ço da nossa vida cris tã, a herança de De us apo nta par a a frente, p ara o seu
fim, para aquela herança final da qual o Espírito Santo é a garantia (v.
14) e que Pedro desc reve com o sendo “inco rrup tível, sem m ácula , im ar
cescível, res erv ada nos céus p ara vós ou tro s”. 13 Os filh os de Deus são,
pois, os herdeiros de Deus e, de fato, “coherdeiros com Cristo”,14e um
dia, pela sua graç a, a herança será nossa. E stá al ém d a nossa capacidad e
de imaginar como será. Portanto seremos sábios se não formos por de-
mais dogmáticos a respeito. Mesmo assim, certos aspectos foram revela-
dos n o Novo Test amento, e não erraremos se nos firm arm os neles. Somos
inform ados que hemos d e ver a Deus e a seu C risto, e que o ador arem os;
11 1 Pe 2:21 . 12 1 Ts 2:12; 1 Pe 5:10; Fp 3:14 . 13 1 Pe 1:4. 14 Rm 8:17.

33
UMA ORAÇÃO DE GRATIDÃO PELO CONHECIMENTO

que esta visão bendita será um a visão transfo rm ado ra, pois “qu and o ele
se manifestar, seremos semelhantes a ele ”, nã o somente n o c orp o com o
também no carát er; e que desfrutaremos de perfeita comu nhão uns co m
os outros. A h eranç a de Deus (a hera nça qu e ele nos dá) não será um a pe-
quen a festa pa rticu lar par a cada ind ivíduo mas, sim, em meio a muitos,
nos santoserar,
de enum aode
notodas
s juntarm os àquela
as nações, trib “grand e mu
os, povos lti dão que
e línguas, em ning uém
pé dia ntepo
do-
tro no e dia nte d o C orde iro”.15
Paulo não consider a que seja presunçoso pensarmo s acerca da n os-
sa herança celes tial ou até m esmo an tegoz ála com alegr ia e gratidão. Pelo
contrário, ele ora par a saberdes, a sua glória, de fato, a riqueza da glória
da sua herança
3. A grandeza do poder de Deus
Se o chamamento de Deus olh a pa ra trás, p ara o começo, e s e a herança
de Deus olha para a frente, para o fim, então, decerto, o poder de Deus
abrange o períod o interino, pois somente o se u pod er pod e cum prir a e x-
pectativa que pertence ao seu chamamento e nos trazer com segurança às
riquezas da glória da her ança final que nos dará no céu . P aulo está co n-
vencid o de que o po der de Deus é suficiente, e acu mula palavras p ara nos
convencer. Escr eve nã o so mente d o poder de De us, com o também da efi
cácia da for ça do seu po de r (v. 19), e ora para que saibamos a grandeza
dele, Com
realmente a grandeza
o chegaremo suprema
s a conhec dele, para
er a suprema com do
grandeza os pod
que cremos.
er de Deus ?
Porque el e deu um a de mons tração p ública na ressurreição e exalt ação de
Cristo (vs.2023). Paulo realm ente refer ese a três even tos sucessivos: pri-
meiro, ressuscitando-o dentre os mortos (v. 20a); em segundo lugar,
fazendo-o sentara sua direita nos lugares celestiais, m uito acima de qual-
quer concorrente (vs.20b , 21), E p ôs todas as c oisas debaixo do s seus pé s
(v. 22a); e, em tercei ro lugar, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu
à igreja, a qu al é o seu corpo... (v. 22b , 23). Estes três eventos são interli-
gados. É em fun ção da ressurreição de Cristo den tre os mo rtos e sua en 
tron ização sobre o s poderes do mal que ele se to rn ou o cabeça da igrej a.
A ressurreição e a ascensão eram dem onstrações decisivas do p od er divi-
no. Pois se há dois poderes que o homem não pode controlar, mas que,
pelo contrário, sobre ele exercem domínio, são a morte e o mal. O homem
é mortal. N ão p ode evit ar a morte . O hom em está caí do. N ão p ode ven-
cer o mal. D eus em Cris to, porém , der roto u a m orte e o mal e, port anto ,
pode nos salvar de ambos.
15 Para o ensino neotestamentário acerca da nossa herança celestial, aludido aqui, ver Ap
22:3— 4:; 1 Jo 3:2; Fp 3:21 ; Ap 7:9; cf . At 20 :32.

34
efésios 1:15-23

a. A ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos


A morte é uma inimiga amarga e implacável. Chegará a todos nós, um
dia. Há poucos anos, fui chamado a um hospital em Londres, para visi-
tar um a irm ã que ali chegara e m estad o de emergênc ia. Pensei que a acha-
ria próxima da morte, mas, pelo contrário, ela estava na cama e sorrin-
do. “Quando me trouxeram para cá”, disse ela, “os médicos e as enfer-
meiras se reunir am ao m eu re dor co mo se eu fosse morrer. Mas resolvi que
não ia morrer !” Era um a observaçã o corajosa, m as nã o inteiramente e xata.
Na realidade, aquela senhora morreu numa ocasião posterior. Podem os,
por vezes, adiar a morte; porém não podemos escapar dela. E, depois da
morte, na da pode im pedir o processo de decadência e de decomposição.
Até mesmo as técni cas mais sofisticadas de emb alsam ento us adas pelos
agentes funerários mais ca pazes n ão podem conserva r o corp o pa ra sem-
pre.
poderNão: somospode
humano pó, evitar
e paraisso,
o póe inevitavelmente voltaremos.
muito menos trazer 16Nenhum
um m orto de volta
à vida.
Deus, porém, tem feito o que o hom em n ão po de fazer. R essuscit ou
Jesus Cristo dentre o s mortos. Primeiro, p aralisou o processo natu ral da
decadência e não pe rmitiu q ue seu San to visse a corr upção .17Depois, n ão
somen te inverteu o pro cesso, restaurand o a vida ao Jesus morto, m as tam -
bém o transcendeu. Levantou Jesus para uma vida totalmente nova (imor-
tal, glori osa e livre), qu e ninguém e xpe rim entar a antes, e que ningu ém ex-
perimentou depois, pelo menos por enquanto.
Esta era a primeira par te da dem onstração p ública do pode r de De us.
Ressuscitou Jesus dentre os mo rtos p ara u ma nova dimensão de experiên-
cia hu mana . O tú mulo vazio e os aparecimentos após a ressurreiç ão eram
as evidências. Seria impossível, portanto, fazer o ensino de Paulo nesta
passagem encaixarse com as tentativas de reconstruções feitas pelos que
a querem desmist ificar. R udolp h B ultma nn sempre será lembrado pela sua
tese de que “C risto ress uscitou p ara den tro do Kerigma”. Ou seja: não res-
suscitou em qualquer
na recuperação da fé sentido
dos seusobjetivo histórico
discípulos ou físico, mas( somente
e na proclamação kerygma )
triunfante de les. O que, porém, Paulo propõe aqui como u ma dem ons-
tração do poder divino é o que Deus realizou em Cristo, não nos seus
seguidores.
b. A entronização de Jesus Cristo sobre todo o mal
Tendo ressuscitado Jesus dentre os mortos e fora do dom ínio da morte,
Deus fêlo sentar à sua direita nos lugares celestiais (v. 20). Ou seja:
promoveuo para o lugar de honra suprema e de autoridade executiva. Ao
16 Gn 3:19. 17 At 2:27.
35
UMA OR AÇÃO DE GRATIDÃO PELO CONHECIMENTO

fazer assim, cum priu a pro messa messiânica do s alm o 110:1: “Disse o Se-
nh or ao meu S enho r: A ssenta te à m inha direit a, até que eu pon ha os te us
inimigos de baixo dos teus pés! ’ Rem iniscências deste versí culo po dem ser
ach adas nã o somen te nas referê ncias à direita de Deus, e a Cristo levado
a sentar ali, como também na declaração posterio r que Deus col ocou to -
das as coisas “debaixo dos seus pés”, tornandoas, portanto, seu “esca
belo”. No salmo 110 são seus inimigos que ficam “debaixo dos seus pés”.
Parece seguro supor, portanto, que os “principados e potestades” acima
dos quais foi exaltado {tod o princip ado, ep otestade , epoder, e do mínio)
aqui não sejam anjos mas, sim, demônios, aqueles “dominadores deste
mu ndo tenebroso” ou as “ forças espirituais do m al” co ntra os quais Paulo
mais tarde nos conclam a a lutar ,18pois , sem dúvida, ain da n ão recon he-
ceram, de mo do def initivo, a vitó ria de Cris to. 19A expressão mais geral
que se segue, todo no me que se possa referir não s ó no presente s éculo,
mas também no vindouro (v. 21b), pode ser acrescentada a fim de tam-
bém incluir os anjos, bem como qualquer outro ser inteligente que se possa
conceber, sobre os quais Jesus reina com supremacia absoluta.
Qu e todas as coisas agora estão debaixo dos pés de Jesus é pro vavel -
mente tamb ém um a alusão a ou tra faceta do ensino b íblico. A dão, feito
à sem elhança de Deu s, receb eu o dom ínio sobre a terra e suas criaturas,
e não o perde u totalme nte qu and o caiu na desobediênc ia. Pelo contrári o,
o salmista, m editan do sobre o r egist ro da criação do hom em em Gênesi s
1, dirigese a Deus com as seguintes palavras: “Destelhe dom ínio sobre
as obras da tua mão, e sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas e bois, to-
dos, e também os animais do campo; as aves do céu e os peixes do
mar..!’20Mesm o assim, o dom ínio d o hom em tem sido lim itado pela qu e-
da, e é corro mpido sempre que el e explora ou polui o ambiente, pois o ri-
ginalmente foi nom ead o pa ra ser o m ord om o res ponsá vel por el e. Desta
maneira, o pleno domínio que Deus pretendeu que o homem des frutas-
se, presentem ente é exercido apena s pelo hom em Cristo Jesus: “Ago ra, po-
rém, ainda não vemos todas as coisas a ele (isto é, ao homem) sujeitas,
vemos todavia.. . Jesus... coroado de glória e de honra ..!’21Jesus já d est ro-
nou a morte e um diâ este “último inimigo” será definitivamente
destr uído .22
c. Jesus Cristo como cabeça da igreja
Paulo ain da não acab ou de expl icar a exaltaçã o sober ana de Jesus. Escre-
veu sobre a re ssurreição de Jesus dentr e os morto s (v. 20) e sob re a entro 
18 6:12; ver a discussão sobre a identidad e destes “ po deres ” .
19 1 Co 15:25; Hb 10:13. 20 Gn 1:27 —2:28 ; SI 8:6 — 8:.
21 Hb 2:5 —9 :. 22 H b2:1 4, 15; 1 Co 15:25—2:27.

36
efésios 1:15-23

nização acima de todo pri ncipad o (v. 21); agora, porém, passa a relatar
o significado de ste triu nfo dup lo para a igreja (v. 22). Esb oça esta ve rda-
de adicional com du as m agníficas ex pressões, sendo que am bas têm ca u-
sado muitos problemas aos com entaristas. A p rim eira é que Deus fe z Je -
sus “o cabeça sobre todas as coisas para a igreja, a qual é o seu corpo”
(vs.to2223a),
em e a segunda
das as coisa s (23b).éPaorfrase a pleneisitude
m ais difíc que daquele que a tud
estas cláusulas sejamo enche
, são
lão importantes que devemos dispender um pouco de tempo para
entendêlas.
A p rimeira fala de Je sus como cabeça, e lhe atribui uma soberania
que se estende sobre tod as as coisa s. “Tod as as coisas” são men cionada s
duas vezes no versículo 22, e, no contexto, abrange não somente o universo
material com o tam bém, e especial, todos os seres inteligentes, bons e maus,
angelicais e demon íacos, que o povoam. Cristo do mina sobre est e universo
e sobre estes seres. Visto que toda s as cois as foram postas debaixo de seus
pés por Deus, ele é então, o cabeça de todas as coisas. O “cabeça” e os
“pés”, o “sobre” e o “debaixo”, são obviamente complementares.
Mas Paulo vai além disso. Sua lição não é apenas que Deus fez de
Jesus cabeça sobre todas as coisas mas, sim, que o deu ( edõke) como
cabeça-sobre-todas-as-coi sas, à igreja, a qual é o se u cor po. Aquele, pois,
a quem Deus deu à igreja pa ra ser seu cabeça, já era cabeça do unive rso.
Logo, tanto o universo quanto a igreja têm em Jesus Cristo o mesmo
cabeça.
Outr a expres são enigmática, p ara cu ja tentativa de elucidação já se
gastaram rios de tinta de imp rensa é a últi ma: a plen itude daquele que a
tudo enche em todas as coisas. Todos os leitores de Efésios d evem ter con s-
ciência das três explicações alternativas principais destas palavras. No que
diz respeito à gramática e à linguagem, todas as três são possíveis, e to-
das as três têm seus defensores de distinção. A minha opção pela tercei-
ra, é po r razões de contexto e de ana log ia das Escr ituras, mais do q ue de
gramática e de vocabulário. O leitor, porém, deve chegar à sua própria
decisão.
A primeira explicação entende a frase como sendo uma descrição,
não da igreja (o corpo) mas, sim, de Cristo (o cabeça), isto é... a igreja,
a qual é o corpo daquele que é a plen itude daquele que a tudo enche e m
todas as coisas. Neste caso, P aulo está dizendo, nã o que a igrej a é a ple-
nitude de Cris to, m as que Cr isto é a plenitude de De us, o qual enche a C ris-
to assim como realmente enche todas as coisas. À primeira vista, esta é
uma in terpretação atraente. Ha rmo nizase no conte xto da supremacia d e
Cristo. Também
Deus “enche tem pe aralelos
os céus naseEscrituras,
a terra”22' pois dizse
em Colossenses nou tro
dizse que lugar que
a plenitu
22a Jr 23:24 ; cf. 1 Ts 8:27; SI 139:7.
37
UMA OR AÇÃO DE GRATIDÃO PELO CON HECIMENTO

de da D ivindade h ab ita em C risto.23 També m esta interpreta ção possui


partidários eruditos, que incluem, entre outros, Teodorete, e, nos tempos
modern os, C. F. D. M oul e de C am bridge24 e G. B. C air d de O xford.25
Mesmo assim, as dificuldades são consideráveis. Entre outras coisas, a sin-
taxe é desajeitada, po r requerer que Deus seja tanto o sujeito e o objeto
da m esm a fras e (“Deus.. . deu com o cabeça da igreja Cristo, q ue é a ple-
nitude de Deus”). Outra coisa: os paralelos não são exatos. Colossenses
diz, n a verdade, que a plenitud e de Deus habit a “em Cristo” , mas n ão chega
ao po nto de identificar C risto com a plenitude de Deus. H odge até mes-
mo diz que está última identificação não tem base bíblica: “Dizse que
a plenitude da Div indade está em Cristo; m as nu nca se diz que C risto é
a ple nit ud e de De us.” 26 E há ou tro paral elo inexato. Tanto em Efésios
quanto em Colossenses é Cristo, e não Deus, que “enche todas as
coisas”.27
Se, pois, rejeitamos com hesitação esta primeira explicação, passa-
mos para m ais duas, sendo que as duas en tendem ser “a plen itude” um a
descrição da igreja ao invés de Cristo. Estes versículos contêm o primei-
ro emprego da palavra “igreja” em Efésios. É inicialmente identificada
como sendo o “corpo” de Cristo, e depois como sua “plenitude”, a ple
nitude daqu ele que a tudo enche em todas a s coisas. A dificuldade aqui
é que o substantivo “plenitude’’ (pleêrõma) pod e ter um significa do a ti-
vo ou pas sivo. Ativamente, significa “aq uilo que enche” ou “o cont eúd o”
de alguma coisa; passivamente significa “aquilo que é enchido”, não o con-
teúdo, m as, sim, o r ecipiente. Os dois sentid os têm sido ap licad os ao tex-
to que estamos considerando.
Prim eiro tom emo s o sentido at ivo: “aquilo que enche ou com pleta”.
Os estudiosos estão de acordo que este era o uso mais comum de plerô-
ma. No Grego clá ssico era usado p ara o conteú do de um a tigela ou de um a
bacia, ou da carga do navio ou da sua tripulação. Este significado ativo
é freqüente no Novo Testamento. Por exemplo, os fragmentos de pães e
peixes que encheram os cestos são pleêrõmata ,28 Pleêrõma é a palavra
usada p ara um “ remendo ” de pano novo e não encolhido quan do é c os-
turad o numa veste velha, que enche o bu raco ou o rasgo.29Mais um a vez,
na citaçã o do Salm o 24:1, “ao Sen hor perten ce a ter ra”, a expressão gre-
ga que trad uz “e tu do o que nela s e con tém ” é “e a sua ple nitude ” isto é,
o seu conte údo .30E já vimos que a plenitude de Deus habita em Cristo,
o que significa que tu do qu an to o Pai é tam bém o Filho é.31

23 1:19; 2:9.
48.ColossiansandPhilemon (Cambridge Unive rsity Press, 1957), pág. 168.
24 25 Caird, pág.
26 Hodge, pág . 88 . 27 Ef 4:10; Cl 1:16— 1:7. 28Mc6:43; cf. 8:20.
29 Mc 2:21; Mt 9:16. 30 1 Co 10:26. 31 Cl 1:19; 2:9.

38
efésios 1:15-23

Se é este o sentido de pleèrõma em Efésios 1:23, então dizse que a


igreja enche ou completa a Cristo, e Cristo é representado com o esi .ndo
incom pleto sem e la. Não se pod e negar que este se ntido é com patível com
a metáfo ra de cab eçaco rpo que P aulo acab a de empregar. Assim, a igre-
ja é “o complemento de Cristo, que é o cabeça” (AG), “assim como o corpo
épleto”.’2
o com plem
Por ento necessár io que
surpreendente da cabeç a a fim
seja este de forma r comentaristas
pensamento, um hom em comno-
-
táveis do passado e do presente o abraçaram. Calvino adotou o seguinte
ponto de vista: “Como esta palavra plenitude Paulo quer dizer que o nosso
Senhor Jesus Cristo e até mesmo o próprio Deus Pai consideramse im-
perfeitos, a não ser que nós estejamos ligados a ele... como se um pai dis-
sesse: M inh a casa me parece vaz ia qu an do o meu filho n ão está. Um ho-
mem casado, dirá: Pareço s er apena s metade de um homem qu an do a mi-
nha esposa nã o está co migo. Da mesm a maneira, Deus diz que nã o se con-
sidera plen o e perfeito, a n ão ser que nos reu namos com ele e façam os com
que tod os nós sejamo s um com ele mesm o.11 De modo semelhante, Wil
liam He ndrik sen escreve acerca de Cristo: “Como noivo, é incom pleto sem
a noiva; com o videira, nã o se pod e pensa r nele sem os ramos; com o p as-
tor, não é visto sem suas ovelhas; e assim também, como cabeça tem ple-
na expressão no seu corpo, a igre ja.” 14Na mes ma trad ição da igreja refo r-
mada, Charles Hodge inclinase a esta interpretação, e baseia sua deci-
são na e vidência li ngüística: “Em qu alq ue r Outro caso em que oco rre no
Novo Testamento
enche. O uso com um o term o pleèrõm
da palavra no aNovo
, ele éTestament
usa do ativa aquilo
mente:que
o indica a pa que
la-
vra deve ser ent endida aq ui num sent ido ativo !’15
Além diss o, o pa rticíp io q ue se segue pod e ser trad uz ido de man eira
a apo iar esta e xplica ção. É verdade que pleêroumenou pode e star na voz
média, e assim ter um senti do ativo. Assim é entendido pela ERAB, “aqu e-
le que enche”. Assim é que as versões antigas (P. ex. Latina, Siríaca e Egíp-
cia) entenderam , bem com o os grande s com entaristas Orí genes e Crisós-
tomo. Então o substantiv o ativo e o verbo pas sivo se encaixam com per -
feição, e a igreja é “aqu ilo qu e enche a Cristo que está sendo ench ido p or
ela”. Dós com entaristas mais mod ernos, A rmitagem Robinson é que tem
tido m ais s uces so em po pu lariza r esta interpret ação. A firm and o que es-
ta é “talv ez a expres são m ais notável n a epístola”, 16 pas sa a explicál a:
“Num sentido misterios o a igreja é aquilo se m o qual Cristo nã o está com -
pleto, mas com o qual está, ou estará, completo. Ou seja, o apóstolo con-
sidera que Cristo, em certo sentido, espera a completação, e é destinado
no p rop ósit o de Deus a ac ha r a com pletação na igreja! ’17 Assim sendo,
32 Bruce, pág. 45. 33 Calvino, págs. 1223. 34 Hendriksen, pág. 104 . 35 Hodge,
págs. 8990.
36 Armitage Robinson, pág. 42 . 37 Ibid ., págs. 42, 43, cf. ibid., pág. 259.

39
UMA ORAÇÃO DE GRATIDÃO PELO CONHECIMENTO

parafraseia: “A Cabeça acha completação no Corpo: a Igreja é a comple


tação de Cristo: pois o C risto está sendo com pletad o em todas as coisas,
está avançando par a um a com pletaç ão ab solu ta e que a tud o abrange!’1"
Agora chegamos à terc eira alternativa, que entende pleêrõma no sen-
tido passivo, não como “aquilo que enche” mas, sim, como “aquilo que
é ench
do AG,ido” ; nã o omais
é “muito con provável
teúd o mas,
quesim,
sejao este
recipiente que ficaaqui”.
o significado c heio. S egun-
Logo,
se fo r assim, a igr eja é a ple nitu de d e Crist o po rq ue ele a en che. E aque -
le que a enche é descrit o ou com o enchend o todas as coisas , o u seja, a cria-
ção inteir a, q ue é exatam ente o q ue se diz que e le faz em 4:9 , 10, ou c o-
mo sendo ele mesm o enchido, isto é , por Deus, co mo em Colossenses 1:19
e 2:9. J un tan do as duas partes da cláusula, signif icará , então, ou que Cris-
to, que enche a igreja, enche o universo também; ou que Cristo que en-
che a igreja, está sendo ele mesmo enchido por Deus. A primeira inter-
pretação é a mais natural, porque Deus não é mencionado pelo nome. Mas,
de qualqu er maneira, a igreja é a “ plenitude” de Cristo no sentido de que
ela o completa.
Depois de considerável reflexão sobre a passagem inteira e sobre as
expo sições de mu itos com entaristas, cheguei a pen sar que esta últim a al -
ternativa te m a m aior pro babilidad e de ser a interpretação m ais corre ta,
por três razões. Primeiro, pela analogia das Escrituras. O mais seguro de
todos os princípi os d a interpretação bíbli ca é perm itir que as Escrituras
expliquem
crituras as Escri
dizse turas . Certame
explicitamente nte , em nenhu
que a igreja enche ma
ou outra p artea das
completa CrisEs-
to,39
ao passo qu e constan tem ente se diz que Cristo ha bita e enche a sua igre-
ja. A igreja, portanto, é o templo de Deus (2:21 22). Assim como sua glória
enchia o templo de Jerusalém, assim também hoje Jesus Cristo, que é a
glória de Deus , enche a igreja mediante o seu Espíri to.
Em segundo luga r, o cont exto confirm a esta inter pretação. N a pa r-
te poste rior de Efésios 1, Paulo referese à ressurreição e à en troniz ação
de Jesus como a dem onstração histórica mais destacada do pod er de Deu s.
Sua ênfase do começo ao fim rec ai so bre o senho rio e a sober ania de Je -
sus sobre todas as coisas. Para ele, dizer que a igreja de alguma maneira
“comp leta” este Cristo suprem o seria muito incoe rente. Um a solução mais
apr opria da decerto seria ressaltar que este Cristo sup remo enche a sua igr e-
ja, como também enche o universo.
O terceiro argumento diz respeito à associação, no versículo 23, de
seu corpo com sua plenitude, como descrições sucessivas da igreja. Es-
38 lbid., pág. 45. 39 É verdade que em Cl 1:24 Paulo declara que seus sofrim entos “ com -
pletam” os de Cristo, mas a referência diz respeito especificamente ao sofrimento e, realmen-
te, aos seus próprios sofrimentos, e não aos da igreja.

40
efésios 1:15-23

tando estes dois quad ros em aposição, é na tura l esperar que os dois ilus-
trem pelo menos uma verdade semelhante, a saber: o governo de Cristo
sobre a sua igreja. A igreja é o seu corpo (ele a dirige); a igreja é sua ple
nitude (ele a enche). Além disso, os dois quad ros ensina m o du plo d om í-
nio de Cristo sobre o universo e sobre a igrej a. Se po r u m la do Deus deu

éCristo à igreja
enc hida p or com o cabeçasobretod
Cristo que tam bém encheasascoisas ( v. 22),
todas as coisas po23).
( v. r ouÉtroisto
a igreja
que
leva M arkus Barth a ir além e pro po r até mes mo u ma fusão das m etáfo-
ras. Ind ican do q ue as figuras do corpo e da plenitude vê m jun tas em Efé-
sios 4:1316 e em Colossenses 1:1819, bem como aqui, e que médicos
escritores, com o Hipó crates e Galeno, que viv eram apro xim adam ente no
tempo de Paulo, pensavam na cabeça ou no cérebro como sendo aquilo
que con trola e coo rdena as funções do corpo, assim o Dr. Ba rth resume
o entendimento de Paulo de que “a cabeça enche õ corpo com poderes
de movimen to e de perc epção, e as sim inspira o c orp o inteiro com a vida
e direção”.40

Conclusão
Já é hora de deixarmos as detalhadas questões com que tivemos de nos
envolver para considerarmos o alcance da oração de Pau lo a favor dos lei -
tores. Pa ra mim, um dos aspectos mais imp ressionantes é a ênfas e dad a

por ele na jun


saberdes), im portância para
tam ente com a meaturidade
o seu nsino s obrecristã
comodo conhe cimentoé atin-
o conhecimento (para
gido e com o se relaciona com a fé . Es ta instru ção apo stólica une aquilo
que nós , nos dias de h oje, com muita freqüência separam os, com conse-
qüências desastrosas.
a. Ilum inação e pensa mento
O grande impacto da oração de Paulo está em que seus leitores tenham
um conhecimento total do chamam ento, da herança e do poder de Deus ,
especialmente dest e último. Mas com o espera va que sua ora ção fosse res-
pondida? Com o os cristãos crescem no entendimento? Alguns responderão
que o conhecimento depende da iluminação do Espírito Santo. E têm ra -
zão, pelo menos em part e. P aulo, poi s, ora par a que o “ Esp írito de sabe-
doria e de revelação” aumentelhes o conhecimento de Deus e ilumine
lhes os olhos d o coração. N ão tem os a liberdade de inf erir, a p ar tir disso ,
que a nossa responsabilidade é soment e ora r e esperar a iluminação, e não
raciocinar de mod o algum. Ou tros comet em o erro oposto: em pregam a
40 Barth, Ephesians, I, pág. 208 . Ver sua longa di scuss ão sobre “ Head, Body and Fullness” ,
págs. 183210.

41
UMA ORAÇ ÃO DE GRATIDÃO PELO CONHECIMENTO

mente e pensam, mas de ixam pou co lugar par a a ilum inação do E spírito
Santo.
O apó stolo Paulo coloca as duas coi sas juntas. Primeiro ora que os
olhos dos seus leitores sejam abertos para o conhecimento do poder de
Deus. Depois, ensina qu e Deus já forneceu ev idência histórica do seu pod er
qu and o ressusci
objetivam ente emtou e exaltou
Jesus Cristo,aeJesus
agora. ilum
Po rtanto
ina, as
D eus rev mentes
nossas elou o sepelo
u pod
se eru
Espírito pa ra ente nderm os esta revel ação. Toda s as nossas cogitações são
imp rodutivas sem o Espírito d a verdade; mesm o assí.n, a ilum inação d a
parte dele n ão visa pouparnos do trabalho de usar a nossa mente. É pre-
cisamente quando meditamos sobre o que Deus tem feito em Cristo que
o Espírito abr irá os nossos olhos para compreend ermos suas i mplicações.
b. Con hecimen to e f é
Supõem alguns que a fé e a razão são inc ompatíve is. N ão é assim. As du as
nu nca estão em opos ição nas E scrituras, com o se tivéssemos que e scolher
um a dentre as duas. A fé vai alé m d a razão, mas baseiase ne la. O con he-
cimento é a escada atr avés da q ual a fé sobe mais al to, é o tram po lim de
onde pula mais longe.
Entã o, Paulo ora: “ pa ra sab erde s... qu al a supre ma grand eza do s eu
poder para com os que cremos... o qual exerceu ele em Cristo..!’ É vital
ver como Pau lo ju nta os verbo s “conhecer” e “crer ”. O mesmíssimo po -
der adanós.
vel ressPrim
urreieiro,
ção que Deus
devem osdem onstrou
conhecer emsu Cristo
a sua prem agora estázâ,
a grande disponí-
com o é
dem on strad a na ressurreição e na en tronizaç ão de Cristo e , depois , dev e-
mos tom ar posse del a experimental mente atra vés da fé . C ertamen te já so-
mos crentes . N oss a fé foi men cio na da nos versículos 1, 13 e 15. Mas a go -
ra o particípio presente pisteuontas (v. 19) enfatiz a a necessid ade de um
desenvol viment o co ntínuo da fé par a compreenderm os o pod er de Deus .
Assim sendo, o conhecim ento e a fé têm necessidade um do ou tro. A fé
não p ode cre scer sem um a base firme de conhec imen to e o conhecim en-
to é estéril se não produz a fé.
Qua nto sabemos acerca do p od er de Deu s, que ress uscitou Jesus den-
tre os m ortos e que lhe deu a vitóri a sobr e o mal? É verdade que o mes-
míssi mo poder de Deu s nos ress usci tou juntam ente com Jesus da m orte
espiritual, e nos entroniz ou com Jesus nos l ugares celestiais, conf orm e Pa u-
lo passará a m ostr ar em 2:1 10. Mas qu anto disto é teoria e qu an to é ex-
periência? Não é difícil pensar na nossa fraqueza humana: nossa língua
ou nosso gênio , nossa m alíci a, nossa cobi ça, no ssa concupiscênc ia, n os-
sos ciú mesade
sa capacid ou nosso orgulhE o.
de controle. Estas coi sas
precisamos sercertamen
humild estepar
estão além d a no
a reconhecer es s-
te
fato. “As palavras que o apó stolo empreg a aqu i são como m uitos trov ões
42
efésios 1:15-23

e raios, para abater e subjugar todo o orgulho do hom em ”41Mas a s nos-


sas fraquezas estão além do poder de Deus? Paulo logo nos assegurará
que De us é capaz de fazer infinitam ente mais do que pedimos ou p en sa -
mos “conforme o seu poder que opera em nós” (3:20), e passará a nos
exortar a sermos “ fortalecidos no Senho r e na força do se u po de r” ( 6 :10).
Este é o po
suscitou comdere le.
de Deus que tress
Co locou odasuscitou
as coisJesus dentredos
as debaixo os m
seu ortos,
s pés eepode
nos res-
co -
locar todo o mal debaixo dos nossos.
41 Calvino, pág. 109.

43
2:1-10
3. Ressurretos com Cristo
Muitas vez es me in dag o se as pessoas de bem e de reflexã o já se sentira m
mais perp lexas s obre3 situação do hom em do que nos dia s atuai s. N atu -
ralmente , c ada geração forçosamente tem visão ofuscad a dos seus pró -
prios problemas, porque está demasiadamente envolvida para fazer uma
anális e adequ ada. Mesmo assim, os meios d e comunicação nos capaci-
tam a entender a ext ensã o m undial da iniqüida de contem porânea, e é es-
ta que faz com que o cenário m odern o pareça tão escuro. É em parte a
escalada dos problemas econômicos (o c resc imento populacion al, a má
utilização dos recursos naturais, a inflação, o desemprego, a fome); em
parte o alastramento dos conflitos sociais (o racismo, o nacionalismo ex-
tremad o, a lu ta de classes, a desintegração d a vida fam iliar); e em parte
a ausência de orientação moral (o que leva à violência, à desonestidade
e à pro miscuidad e sexual). O hom em parece ser incap az de dirigir os se us
próprios negócios ou de criar uma sociedade ju sta, livre, hum anitária e
tranqüila. O próprio homem está fora dos eixos.
Dentro da realid ade somb ria do m und o atual, Efésios 2:1 10 destaca
se com marc an te relevâ ncia. J?auÍQ^primeiramente son da as pro fyn dez as
do pessimismo acerca do homem, e depois sobe às alturas do otimismo
acerca de Deus. É esta combinação do pessimismo com o otimismo, do
desespero com a fé , que se cons titu i no realism o revigorante da Bíblia. Por-
que o que Pa ulo faz nest a passagem é pin tar um contra ste vivi do entre o
que o homem é por natureza e^que pode vir a ser mediante a graça.

Ele vo s deu vida, estand o vós mo rtos nos vossos deli tos e pecados, 2nos
quais andastes outrora, se gun do o curso deste mun do, segun do o pr ínc i
pe da potesta de do ar, do espírito que agora atua nos filho s da desobe
diência; 3entre os qua is tam bém todo s nós and am os outr ora, s egu ndo as
incl inaç ões d a nossa ca rne, fa zen do a v ontade da carne e dos pensa men
tos; e éramo s po r natureza fi lh o s da ira, com o tam bém os demais. 4Mas
Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos
amou, 5e estando nós m orto s em no ssos delitos, nos deu vida ju nta m en
te com Cristo, —pela graça sois salvos, 6e juntamente com ele nos ressus
citou e nos fe z assentar nos lugar es celestiais em Cristo Jes us; 1pa ra m os
44
efésios 2:1-10

trar nos séculos vind ou ros a suprema riqueza da sua gr aça, em bon dad e
para conosco, em Cristo Jesus. 8Po rqu e pe la graç a sois sa lvos, media nte
a fé; e isto não vem de vós, é do m de D eu s;9não de ob ras, para qu e nin
guém se glo rie. l0Pois so m os feit ur a dele, criados em Cris to Jesus para
boas obras, as quai s D eu s de antem ão preparou para que andássemos
nelas.
É im porta nte colo car este parágra fo no seu contexto. Consideram os
anteriorm ente a oração de P aulo (1:15 23) no sentido de que os olhos in-
teriores dos se us le itore s fossem ilum inados pelo Espírito Santo a fim de
conhe cere m as c onseqüências d o ch ama mento de Deu s, a riqueza da h e-
rança que o s aguard a no céu e, acima de tudo, a suprema grandeza do p o-
der de Deus que já está disponível para eles. Deus deu uma dsmonstra

eção
aohistór ica su
exaltálo prema
sobre dest
todos osepoderes
po der aodoress
mal.uscMas
itardeu
Cristuma
o d demonstra-
e n ta os mortos
ção adicionai dele áo nos ressuscitar e exaltar juntamente com Cristo,
livrandonos, assim, d a escrav idão à morte e ao mal. Este parágrafo, po r-
tant o, realment e faz par te da o ração de Paulo para que e les ( e nós tam -
bém!) soubessem quão poderoso Deus realmente é. Suas primeiras pala-
vras enfatiza m este fato: “estando vós morto s..:’ Na frase e m grego não
há nenhum verbo que retrate a ação de Deus até o verículo 5 (“nos deu
vida jun tam en te com Cristo” ); nossas ve rsões o trazem par a o vers ículo
1 simples mente para aliviar o desaj eit àdo suspe nse d e es pera r tanto tem-
po por ele. De qualquer maneira, a seqüência do pensamento está clara:
“Jesus Cri sto estava morto, mas De us o ressuscitou e o exaltou. E vós tam-
bém estáveis mortos, mas Deus vos ressuscitou e exaltou com Cristo!’
1. O homem por natureza, ou a condição humana (vs.1-3)
Antes de olharmos detalhadamente esta descrição desalentadora da ra-
ça hu man a d istanc iada de De us, precis amos saber com cla reza que é um a

descri ção dedtodas


ticularmente as pessoas
ecadente ou um. Paulo n ão
segment estáradado
o deg retratand o um dade
da socie a tribo
, epnem
ar-
mesmo o paganismo extremamente corrupto dos se us próprios dias. Não,
este é o dia gnóstico d o hom em caído na socieda de caída em todos os lu-
gares. É verdade que Pa ul o com eça c om um vós enfátic o, ind icand o em
primeiro lugar seus leitores gentios da Ásia Menor, mas passa rapidamente
a escrever (v. 3a) que tod os nós andamos outr ora da mesma m aneira (as -
sim acrescenta a s i mesm o e aos demais judeu s), e concl ui com um a refe-
rência aos demais seres humanos (v. 3b). Temos aqui, então, o conceito
do apóstolo q uan to a tod os os homens s em De us. É um quad ro da con -
dição hu m an a universal. É u ma condensação, em três versículos, dos tr ês
primeiros capítulos de Romanos, em que ele desenvolve um a tese sobre
45
RESSURRETOS COM CRISTO

0 pecado e a culpa, inicialmente dos pagãos, depois, dos judeu s, e então


da totalid ad e da raça hu mana. Aqu i sele ciona três verdade s terríveis so-
bre seres humanos nãoregenerados, que nos inclui também , até Deus ter
misericórd ia de nós .

a. Está vam os mo rtos


Ele vos deu vida, estando vós mor tos no s vossos delitos e pecados, nos
quais andastes outrora (vs. 12a). A m ort e à qual Paulo se refere não é um a
figura d e lingu agem, com o na par ábo la do filho pródig o: “Este meu fi-
lho est ava m ort o”. É um a declaração real da cond ição espiritual de todas
as pe ssoas for a de Cri sto. E su a srcem é acha da nos seu s del itos ep eca
dos. Estas duas palavras parec em ter sido cuidadosam ente es colhidas para
relatar d e mod o compree nsivo o mal humano. Um delito (paraptõma) é
um pa sso falso, que envolve ou a travessia de u ma fron teira conhecida ou
um desvio do cam inho ce rto. Um peca do (hamartia ), no entanto, signi-
fica mais um erro do alv o, deixando de chegar à altu ra de um padrão. Ju n-
tas, as duas palavras ab rangem os as pectos po sitivo e negat ivo, ou ativ o
e passivo, do m au proced im ento hum ano, ou seja , nossos pecados de co-
missão e de omiss ão. D iante de Deus somos ta nto rebe ldes qu an to fraca s-
sados. Como resultado, estamos “mortos” ou “alheios à vida de Deus”
(4:18). A vida verdadeira, p ois, a vida eterna, é a com unh ão com o Deus
vivo, e a m orte esp iritua l é a sepa raçã o dele que o p ecad o inevita velmèn
te traz: “Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso
Deus; e os voss os pecado s encob rem o seu rosto de vó s, pa ra que vos não
ouça:”
Esta declaração bíblica sobre a condição de estarem mortas as pes-
soas nãocristãs levanta problemas para muitos, porque não parece de
acordo com os fatos da realidade cotidi ana. Muitas pes soas que não fa-
zem qualqu er profissão de fé cristã, e que até mesmo repudiam Jesus Cris-
to declaradam ente, parecem estar bem v ivas. U ma dela s tem o corp o vi-

goroso de um lidad
ra, a persona atleta,e obrilha
utrante
, a de
mente
um alúcida
atri z de cinema.
um intelectual,
Devemos umdiazer
tercei-
que
tais pessoas , se Cristo nã o as salvou, estão mo rtas? Sim, de fa to, deve mos
dizer exatam ente is to, e o dizemos com segurança . Na esfer a que é de su-
prema im portância (que não é o corpo, nem a mente, nem a personalida-
de mas, sim, a alma), elas não têm vida. E podemos perceber o fato. Es-
tão cegas à glória de Jesus Cristo, e surdas à v oz do E spírito Santo. N ão
têm am or p or Deus, ne nhu ma consciênci a sensível da sua realidad e pes-
soal, nenhum impulso do seu espírito em direção a ele com exclamação,
“Aba, Pai”, nenhum anseio pela comunhão com o povo de Deus. Estão
1 Is 59:2.

46
efésios 2:1-10

tão indiferentes a ele quanto um cadáver. Logo, não devemos hesitar em


afir mar que um a vida s em Deus (por mais sadia físic a e mentalm ente que
seja) é um a m orte em vida, e que a s pessoas que assim viv em estão mor-
tas enquanto ainda vivem.2Afirmar este paradoxo é tornarse conscien-
te da tragéd ia básica da exi stên cia hum ana após a queda. É que pessoas
que foram
esta cr iada
foi a nossa s po r Deus
condição e paro aBom
até que DeusPastor
agora nos
vivem sem Deus . De fato,
encontrou.
b. Estávamos escravizados
Paulo não se limita a dizer simplesmente andastes outrora nos vossos de
litos epeca dos. A expr essão é um hebraísmo, e indica o nosso com po rta -
mento ou esti lo de vida anterior. Mas “an dar” sugere (pelo menos às men -
tes ocidentais) um passeio agradável, com liberdade e tempo para desfrutar
das belezas do nosso meio ambiente. Muito diferente, no entanto, era o
nosso andar em del itos epecad os. Ali não havia nenhuma verdadeira li-
berdade mas, sim, uma escravidão pavorosa a forças que nos controlavam
por completo. Quais eram elas? Se por trás da morte jaz o pecado, o que
jaz por trás do pecado a ponto de nos manter em tal cativeiro? A respos-
ta de Paul o, qua nd o coloca da na term inologia eclesi ástica posteri or, é o
mundo, a carn e e o diabo. Ele referese a estas três influên cias com o sen-
do as que controlavam e dirigiam a nossa exis tênci a ante rior précri stã.
Primeiramente, descrevenos seguindo o cur so dest e mu nd o. A fra-
se grega do
século” é “segu
mal endo
dasotrevas
século(em
deste mu ndo”.
contraste Ju “a
com ntaera
os do
doisporvir”
conceitos
que de
Je-“este
sus introduziu) e de “este mundo”, a sociedade organizada sem referên-
cia a Deus ou — con form e pod eríam os dizer — o “ secularismo” (em con -
traste com o reino de Deus, que é sua nova socied ade sob o seu domínio ).
Assim, as duas palavras, “ sécu lo” e “m un do ” expre ssam tod o um siste-
ma de valores sociais que está alienado de Deus. Permeia, e até mesmo
dom ina, a sociedade nãocristã, e subjuga as pessoas ao cati veiro. Sem -
pre que os seres humanos são desumanizados — pela opressão política
ou pela tirania burocrática, p or um pon to de vista se cular (repudiando
a Deus), ou amoral (repudiando absolutos), ou materialista (glorifican
do o mercado consumidor), pela pobreza, pela fome ou pelo desempre-
go, pela discriminação racial, ou por qualquer forma de injustiça — aí
podem os detectar os valores subhumanos do “presente século” e “deste
mundo”. A influência deles é persuasiva ao extremo. As pessoas tendem
a não ter um a mente própria, mas ent rega mse à cultura pop ular d a tel e-
visão e das revi stas sedutor as. É um a escravi dão cultural. Nós to dos éra -
mos iguais até que Jesu s nos libe rtasse. “Éreis arras tad os ao lon go d a cor-
2 C f. 1 Tm 5:6 .
47
RESSURRETOS COM CRISTO

rente das idéias deste mundo” (CIN).


Nosso segundo cativeiro foi ao diabo, que aqui é chamado de o prín
cipe da potesta de do ar ou “o governante do reino do ar” (AG). A pala-
vra ar pode se r traduzid a po r atmosfer a nebulosa, que indic a as trevas que
o diabo prefere à luz. Mas esta frase significa simplesmente que ele tem
o domínio
operam nosobre
m undaqueles principados
o invisível. Está fora dee mod
potestades já dia
a h oje em mencionados,
na igreja (mesque-
mo estando o satanismo vicejando fora dela) c rer num diabo pess oal ou
em int eligência s dem oníacas pessoais , sob o com and o dele. Não há, po -
rém, n enhu ma razão óbvia par a que sej a a m od a ecl esiástica o que d irija
a teologia, já que o ensino claro de Jesus e dos seu s apó stolos (sem m en-
cion ar a igreja dos sécu los subseqüentes) en dossav a a existência malévo -
la deles.
Uma frase adicional é do espí rito que agor a atua no s fi lh o s da d e
sobediência. Visto que a palavra espírito está no ge nitivo, não está em apo -
sição a príncipe (acusativo). Devemos ent ender, pelo contrário, que “o prín-
cipe da potestade do a r” também é “o príncipe do espíri to que atu a nas
pessoas desobedientes”. “Espírito” então passa a ser uma_força ou dis
posição impessoal que esta ativamente operando nas pessoasjQão^crktãs.
Cõ mó áTEs~crituras identificam o diabo nã o apenas co mo a fonte das ten -
tações ao p ecado, m as tamb ém com o um leão e um assassino, podemos
com segurança fazer rem ont ar a ele, em últim a anál ise, tod o o mal, to do
omoengano e tod
que ele a a violên
inspira cia. Q ua
agora atuam emndseres
o sehumanos,
diz que e leo everbo
a disposição
( de âni-) é
energeõ
o mesmo q ue se emprega p ar a o pod er de Deus (1:2 0), que ressuscitou Je-
sus dentre os mortos. Somente aquela energia ou ação divina pod eria nos
ter salvo do diabo.
A terceira influência que nos mantém na escravidão são as inclina
ções da nossa carn e (v. 3a), ond e carne nã o s ign ifica os tecidos v ivos que
cobre m o nosso esque leto ósse o mas, sim , a no ssa natureza h um ana caí-
da e egocêntrica. As inclinações são definidas, ainda mais, como sendo
a vontade da carne e do s pen sam ento s. Este acréscimo é especialmente
im portante porque dem onstra o err o de equip arar as incli nações da no s
sa carne com o que popu larm ente cham am os de “os pecados da ca rne” .
Dois esclarecimentos são necessários. Primeiro, nada há de erradoc&m
os des ejos naturais do corpo, seja par a a comida, p ara o sono ou par a o
sexo poi s Deus, criou o corp o h um ano desta m aneir a. É somente qu an -
do o apetite pel a com ida se transf orm a em glutonaria, o anseio pel o so-
no em preguiça, e o sexo é pervertido pela concupiscência, que os dese-
jos naturais seda
as inclinações transformam
carne incluememosdesejos
dese jospecaminosos. Em segundo
errados da mente lugar.
e não somente
do corpo, ou seja: p ecados tais com o a soberb a intelectual, a falsa amb i-
48
efésios 2:1-10

ção, a rejeição da verdade con hecida , e pen sam ento s malicio sos e vinga-
tivos. De fato, co nfor me a exposição de Paulo em Filipens es 3:3 -6, a carne
abrange to das as forma s de auto con fiança , até mesm o o orgulho dos an
tepassados, dos pais, d a raça, da relígíaõ”e da just iça. Sempre que o “eu”
levanta a sua te rrível cabeça contra Deus ou c õntra o hom em, eis aí a carne.
Conform e F. F. Bruce
mas respeitáveis cor retam
bem como nasente come nta,
atividades “pode do
infames manifestarse
pa gan ismo em do for-
sé-
culo I”.3E, por mais respeitável que seja a aparência externa (ou o disfar-
ce em público) que ele ado ta, o nosso eg ocentrismo inveter ado é um a es-
cravidão horrível.
Assim, pois, antes de Jesus Cristo nos libertar, estávamos sujeitos a
influências opressoras tanto internas como externas. Por fora estava o
mundo a (cultura secul ar pre valecente); po r den tro esta va a carne (nossa
natureza caída, profundamente ligada ao egocentrismo); e além desses
dois, o per and o ativamente atrav és des tas infl uências, havia aquele espí-
rito maligno, o diabo, o príncipe do reino das trevas, que nos mantinha
em cativeiro. N ão é que agora p ossamo s convenient emente trans ferir to -
da a culpa da nossa es cravi dão para o m undo, par a a carne e pa ra o d ia-
bo, sem aceitarmos pessoalm ente nenhuma responsabilidade. Pelo con-
trário, é significativo qu e, nest es versículos, “ vós” e “n ós” n ão são id en-
tificados com estas forças mas, sim, distinguidos delas, embora escravi-
zados por elas. Nós mesmos, no entanto, somos chamados d e filh o s da
desobediência (v. 2b),
nos tornado rebeldes, deou seja,consciente
modo “os súditose voluntário,
rebeldes decontra
Deus”.a Tínhamos
autori-
dade amorosa de Deus, e assim caímos sob o domínio de Satanás.
c. Estáva mo s condenados
Paulo ain da nã o term inou de descrever o nosso estado précris tão. Ele tem
mais um a verdade des agradável para nos co nta r acerca de nós mesmos.
Não somente estávamos mortos e escravizados, diz ele, mas também es-
távamos condenados: éramos p or natureza fil ho s da ira, com o tamb ém
os demais (v. 3b). N ão creio que h aja o ut ra expressão em Efésios que te-
nha provocad o mais reação hostil do que e sta. Alguns com entaristas fa -
zem poucas tentat ivas, ou m esmo nenhum a, p ara entend êla , e muito m e-
nos par a defend êla. Desconsideramna, até, com o sendo ins ustentável ho-
je. As causas dessa reação são três. Dizem respeito às palavras “ira”, “ fi-
lhos” e “ po r nature za”. Agora devemos considerar com cuidado o qu e Pau -
lo que r dizer com elas, e pro cu rar escla recer os malentendidos.
Primeiro, a ira de Deus . A ira de Deu s não é com o a do hom em. Não
é mau humor, co mo se ele pudesse perder as est ribeiras a q ualqu er m o-
3 Bruce, pág. 49.

49
RESSURRETOS COM CRISTO

mento. Não é despeito, nem malícia, nem animosidade, nem vingança.


Nunca é intempestiva, visto ser ela a reação divina a apenas uma situa-
ção, a saber : o mal. Logo, é inteiram ente prev isível e nu nc a está à disp o-
sição d e ânimo, à veneta, o u ao capricho. Além disso, não é a operaçã o
impessoal de retribuição na socie dade, “u m processo ine vitável de causa
evés
efeito nuministração
da adm universodamo ral”,nos
justiça sejatribunais,
at ravés da
ou desintegração
de algum a social , a tr a,
outra form a-
conforme C. H. Dodd argumentou no seu famoso comentário da série
“M off att ” sobre a carta aos R om anos.4 O fato de que “ira” (orgeé) ou “a
ira” ( heê orgeé) o corre se m o acré scimo das palavras “de Deus”, nã o to r-
na a sua ira impessoa l, assi m com o a sua graça não se tor na impessoa l
quando as palavras “de Deus” estão omitidas, como ocorre nos versícu-
los 5 e 8 deste capítulo (“pela graça sois salvos”). Não, a ira que julga e
a graça que salva são igu alm ente pes soais . São a ira e a graça de Deus .
Então , o que é a . sua ira se não é um a reação impulsiva ne m um pr o-
cesso impessoal? É a hos tilidad e pessoal, reta , e constante de Deus co n-
tra o mal, su a recusa fir me de ceder o mínimo que seja para o m al, e sua
resolução d e, pelo con trário, condenálo. A lém disso , a sua ira não é in-
com patível com o seu amor. O con traste e ntre os ver sículo s 3 e 4 é notá -
vel: éramos p o r natureza fil h o s da ira... M as Deus , sendo rico em miseri
córdia, p or causa do grande am or com qu e nos amou... Assim Paulo passa
da ira de Deus par a a m isericórdia e o am or de Deus , sem senti r q ualqu er
embaraço ou dificul dade. Pa ulo é c apaz de fi rmálas juntas na sua m en-
te porque acredita va esta rem jun tas na p ersonalida de de Deus . Devemos,
penso eu, estar mais gratos a Deus pela sua ira, e adorálo por isso: por-
que sua justiça é perfei ta, sempr e rea ge con tra o m al da m esma m aneira
imutável, previsível e intransigente. Sem sua constância moral, não po-
deríamos desfrutar de paz alguma.
O segundo p roblem a que as pessoas acham está na fras e filh os da ira.
Estas pal avras faz em pensar nu m quad ro de crianças pequena s, até mes-
mo, de recémnascido s, sob a ir a de Deus. Co mpreensivelm ente, as pes-
soas não g ostam desta proj eção m ental . M as podes e diz er com seguran-
ça que aqui não há alusão a crianças pequenas. A expressã o é ou tro he
braísmo, como “filhos da desobediência” no versículo 2, e referese a pes-
soas de todas as ida des. A BLH ajudano s ao tradu zir esta exp ressão as-
sim: “nó s também estávamos destinados a sofrer o castigo de Deus”.
O terceiro problema é o complemento adverbial po r natureza. Em
que sentido p o r natureza éramos objeto da ira e do julgam ento de Deu s?
Para come çar, podem os todos conc ordar que Paulo faz um co ntraste in-
tencional entre aquilo qu e éramos por natureza (phusei , v. 3) e aquilo que
4 (Hodder & Stoughton, 1932), pág. 23.

50
efésios 2:1-10

viemos a ser pela graça (chariti, v. 5). É um contraste entre o passado e


o presente, entre o que éramos qu and o fomos deixados a nós mesmos, e
o que viemos a ser po rqu e Deus interveio em no sso favor; e, assim, entre
o julgam ento e a salvação : “Po r na tureza estávamos sob a ira de De us,
pela graça fomos salvos!’ Até aqui, tudo é claro e sem controvérsias.
as phusei,
diçãoMnatural, por natureza,
quando p arecepor
somos deixados d escrever mais doTambém
conta própria. que nossa
pa-c on-
rece indicar a srcem da nossa condição “como mem bros de uma raça caí-
da”,5e assim levanta dificuldades sobre a no ssa hera nça genética e , p or -
tanto, sobre a nossa responsabilidad e moral. Será que a frase d e Pau lo é
uma f orm a abreviada de algo mais longo como, p or exem plo, que temos
por nascença uma tendência ao pecado, de modo que realmente pecamos,
e que o nosso pecado nos coloca debaixo do julg am ento de Deus? O u es-
tá dizendo que a noss a pró pr ia exi stência, com o seres hum anos, está su-
jeita, desde o nascimento, ao julgamento de Deus? Não há quem tenha
feito um rep údio m ais forte a est e últim o pensa mento d o que R. W . Dale
que, sem dúvida, fala em nome de muitos: “Esta frase às vezes é citada
como s e visasse afirm ar a do ut rin a terríve l de que pelo nosso mero n as-
cimento incorremos na ira divina e que, à parte de qualquer iniqüidade
voluntária, estamos sob a maldição divina. Esta teoria pavorosa não re-
cebe qu alq uer a poi o nem do A ntig o nem d o Novo Testamento .6 Mesmo
assim, R. W. Dale sabia que a própria doutrina que tão vigorosamente
repudiava
Trinta é ensin
e Nove Artigada
ospelas grandes
(da Igreja confiss ões
Episcopal) e nareform adaso tais
C onfissã de Fécodemo nos
West
minster (da Igreja Presbiteriana). Assim é o Artigo 9? dos e piscopa is: “O
pecado original não foi o de seguir a Adão (ou seja, imitálo)... mas, sim,
é a falta ou a corru pção da natureza de tod o hom em que é naturalm ente
gerad o d a descendênci a de Adão; por iss o, o hom em afastou se muito da
justiça original, e por sua própria natureza está inclinado para o m al, de
modo que a carne tem desejos s empre con trários ao espíri to; e, porta nto ,
toda p essoa nascida ne ste mu ndo merec e a ira e a c ondenação da par te
de Deus..!’ Noutras pala vras, nossa própria n atureza h um ana herda da me-
rece, em si mesma, a ira e o julgamento de Deus. Parece qu e é isso que P au-
lo está ensinando aqui; como podemos entendêlo?
Prova velmente , o m elhor com entário seja o de le mesmo, confo rm e
se ach a em Rom anos. A ssim com o estes versículos são u ma versã o co n-
den sada de Rom anos 13, assi m também a expres ão p o r natureza filhos
da ira é um resumo de Romanos 5:1214. Ali seu argumento de que “a
morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” não é que to-
dos herdaram um a natur eza pecam inosa que os levou a pecar e , p or tan -
5 F. F. Bruce num a no ta de ro da pé , Sim pson, pág. 46. 6 Da le, pág. 162.

51
RESSURRETOS COM CRISTO

to, a morre r mas, s im, que “to dos pec aram ” em Adão e com ele. O A nt i-
go Test amento tem um forte sentido de soli dariedade d a raça hum ana. Fala
da geração se guinte com o estando j á “n os lom bos” da prese nte ge ração,
verdade e sta que, segundo se pode dizer, a genética mo derna sublinha. Pau -
lo es tá dizendo, poi s, que nã o po dem os fazer de Adã o o nosso b ode ex -
piatório
denação. N e culpálo porestamos
ós tam bém nosso pecado,
em Adãopor nossa
, pois podculpa e p orcom
e ser dito nossa
veracon-
ci-
dade que nele e com ele incorremos n a cu lpa e morrem os. Não é neste se n-
tido que pod em os ser descritos com o sendo p or natureza pecadores e su-
jeitos ao justo julgamento de Deus? A grande m aioria dos teólogos pro-
testantes sempre tem desejado (ao menos têm tentado) acrescentar que
acreditam q ue a graça de Deus e a expiação fei ta po r Cristo cobrem os anos
da in fância antes da idade d a responsabil idade, e aqu eles que estão den-
tro da trad ição refo rm ada têm dad o atenção à evidê ncia de que os fi lhos
com pai s crist ãos nasceram dentro d a aliança .7M as mesmo es tas qu ali-
ficações não alte ram os fat os do nosso pecado e da n ossa culpa herd ada,
ou do julga mento que mere cemos.
A m orte, a escravidão e a con denaç ão: estes são os t rês conceitos que
Paulo jun ta pa ra retratar nossa condiç ão hu m ana perdi da. É p or demai s
pessimista? Bem, devemos concordar (como ele teria feito) que esta não
é a verda de total acerca da raça hu mana. Nad a diz aqui acer ca da “ im a-
gem de Deus”, em que os seres humanos foram srcinalmente criados e
que
mente—cre
agora las timavel
ia nela mente
e fale da danredenção
n ossa ificada em
—term
aind a os
ret de
êm,um
ema bora
novacecria-
rta-
ção na imagem de Deus (v. 10 e 4:24). N ad a diz, tam po uco , dos d ifere n-
tes graus da depravação hum ana, embora tamb ém os tivesse aceito. A d ou -
trina bíblica da depravação total não significa então que todos os seres
hum anos estão igualm ente d epravado s, nem q ue ninguém é capaz de pra-
ticar qualq uer bem, mas, s im, que nenhu ma parte de qualq uer pessoa hu -
m an a (a mente , as emoções, a consciênci a, a vontade, etc.) perm aneceu
sem ser m aculad a pela queda. Mesmo assi m, a desp eito desta qualifica-
ção, que afirm a a continuad a dignid ade do homem por causa da image m
divina que não foi totalme nte perdida, o diagnóstico de Paulo pe rm ane -
ce válido. Fo ra de Cristo o hom em está mor to p or causa dos delitos e pe-
cados, escraviza do pelo m undo , pela carne e pelo diabo, e co nd en ado sob
a ira de Deus.
É po r não rec onh ecerem a gra vid ade da condição h um ana que tan -
tas pessoas buscam soluç ões com remédios super ficiais. A educação u ni-
versal é alta mente desejável. Assim tam bém são as leis justas ad minis trad as
com retidão. Ambas agradam a Deus que é o Criador e o justo Juiz de
7 Cf. 1 Co 7: 14.

52
efésios 2:1-10

toda a humanidade. Mas nem a educação nem a legis lação podem salvar
os seres humanos da morte, do cativeiro ou da condenação espirituais.
Uma doen ça séria exige um r em édio sério. É evidente que is to não quer
dizer que nos de sintere ssar emos de um a educação melhor ou de um a so-
ciedade mais justa. Mas acrescentaremo s a estas coisas um a nova dimensão
que os nãlização.
a evange ocristãos nãopois
Deus, p odem co mun
, co nfio preender
os um ca .men
por sagem
iss o, não valorizam;
de bo as nova s
que oferece vida aos mortos, libertação aos cativos e perdão aos,
condenados.
2. O homem pela graça, ou a compaixão divina (4-10)
O versículo começa com uma conjunção adversativa. Mas Deus... E es-
tas duas palavra s contrapõem à condição desesperadora da hum anidad e
caída a iniciativa graciosa e a ação soberana de Deus. Éramos o objeto
da sua ira, mas Deus... p or causa do gra nde am or com que no s am ou te-
ve misericórdia de nós. Nós estávam os mo rtos, e os mo rtos nãqjsç ressus-
citam, mas Deus nos vivificou com Cristo. Éram os escravos, num a situ a-
ção de deson ra e incapacidade , ma s Deu s nos ressuscitou juntam ente com
Crist o e nos colo cou à sua próp ria mão direita , n um a posição de honra
c poder. Deus entã o agiu para inverter a nossa con dição no pecado. É es-
sencial manter unidas as duas partes deste contraste, ou seja: o que soa-
mos po r natu reza e o que som os pela graça , a condiçã o hu mana e a com
paixão
crit divina,
icados a ira de Deus
po r ficarem e o amente
m orbidam or d.c Deus.pados
preocu Os cristãos,
com o sepor vezes, são
u pecado e
com a sua c ulpa . A crítica não é justa q uan do estamos enfren tando fa-
tos acerca d e nós mesmo s (pois nun ca deixa de ser saudável enc arar fra n-
camente a r eali dade), mas som ente quan do deixamos de avanç ar pa ra a
glória que há na misericórdia e na graça de Deus.
Ag ora precisa mos in dag ar exatamente o que Deu s fez, e também por
que o fez.

. Tanto no versículo 5 com o no 8 a mes-


ma declaração é feita. Pela gra ça sois salvo s. Alguns com entarist as têm
até mesmo sugerido que os versí culos 410 são um tipo de hino que cele -
bra as glórias da salvação e da sola grati a, que é duas ve zes interr om pido
pela aclamação litúrgica “Pela graça sois salvos”. Salvos é um p articípio
perfeito (sesbmenoi ). En fatiz a as co nseqüênci as permanentes da aç ão sal-
vadora de Deus no passado , c om o se Pàu lo dis sesse: “Sois pe ssoas que
fostes salvas e que permaneceis salvas para sempre!’ Muitas pessoas ho-
je, no entanto, estão dizendo que acham sem sentido a linguagem tradi-
cional sobre a salvação. É po r isto que pre cisamos sond ar aqu ilo que Paulo
escreveu.
53
RESSURRETOS COM CRISTO

N a realidade, ele u sa três verbos, que retomam o que Deus fez com
Cristo e , depois (pelo acréscimo do prefix o syn, “juntam ente com”), nos
ligam a Cr isto nestes eventos. Prim eiro, Deus nos deu vida juntamente com
Cristo (v. 5), depois ju n ta m e n te com ele nos ressuscitou (v. 6a) e, em ter-
ceiro lugar, nos fe z assent ar nos lugares cel estiais em Cris to Jesu s (v. 6b).
Estes verbos (“deu vida”, “ressuscitou” e “fez assentar”) referemse aos
,três eventos históricos sucessivos na carreira salvífica de Jesus, que nor-
ma lme nte são cham ado s de a res surrei ção, a ascensão e a exaltação. De-
claramos a nossa crença neles quando recitamos o Credo: “Ressuscitou
ao terceiro dia, subiu ao céu, e está sentadjxàjnão direita de Deus Pai”.
O que nos deixa atônitos, nó entanto, é que agora Paulo não está escre-
vendo a respe ito de Cristo, mas, sim, a respeito de nós. Está a firm and o,
não que D eus vivi ficou, ressuscit ou e exa ltou a Cristo, mas, sim, a ue nos
vivificou. nos ressuscitou e nos, exaltou com Cristo..
Este concei to da união entre o p ovo de Deus e Cristo é fundam ental
para o cristianismo do Novo Testamento. O que então constitui o aspec-
to distintivo dos membros da nova sociedade de Deus? Não apenas que
admirem e até mesmo a dor em a Jesus, ou qu e aceitem as dou trina s da igre -
ja, ou até mesmo que vivam dentro de certos padrões morais. Não! O que
os torn a disti ntiv o é a sua nova s olidariedade como um p o v o que está em
Cristol Em virtude da sua união com Cris to, real mente com partilharam
da sua ressurreição, ascensão e exaltação. Nos lugares celestiais, o m un-
do invi sível da rea lidade espiritual, em que os princ ipado s e as postest a
des operam (3:10; 6 : 12)e em que Cristo rein a suprem o (1:20 ), é que Deus
abençoo u o seu povo em C risto (1:3 ), e é ond e ele os fez assentar com Cris-
to (2:6). Se, pois, estamos assentados com Cristo nosJugares celestiais,
não pode haver dúvida sobre o que estamos sentado# em trõnps|>Além
disso, esta conversa da nossa identificação com Cristo na sua ressurrei-
ção e exaltação n ão é um item de misticismo c ristã o sem sentido. É o tes-
tem unho a um a expe riência viva, de que Cristo no s deu, p or um lado, um a

vida nova
por ele (comseu
e pelo um povo)
a consciência s ensível
e, por outro, um da re alidade
a vida de Deus
de vitória e um
(com am or
o mal ca-
da vez mais debaixo dos nossos p és). Estávam os morto s, mas lomos to r-
nados espiritu alm ente vi vos e alertas. Estávam os no cativ eiro, m as fom os
entronizados.
(Q_Por que D eus o f e z )
Paulo va i além de um a descriç ão da aç ão salvadora de Deu s; faznos com -
preender a sua motivação. Na realidade, a ênfase principal deste parágrafo
é que o que lev ou Deus a agir em nosso favor não foi algo em nós (algum
suposto mérito) mas, sim, algo nele mesmo (seu próprio favor que não
mere cíam os). Pa ulo reúne qu atro p alavras pa ra expressar a s srcens da
54
efésios 2:1-10

iniciativa salvadora de Deus. Escreve dá^“misericórdia” jde Deus (Deus,


sendo rico em misericórdia , v. 4a), do' <‘amof*Sriiié Deiis7por causa do gran
de amo r com que nos a mou-, y. 4b), da ^g ra ça ” ü e Deu s (pela graça sois
salvos, vs. 5 e 8) e da “bondad^’ de Deus "(ém bo nd ad e para conosc o, em
Cristo Jesus, v. 7). Estávamos mortos e, portanto, incapazes de salvarnos
amiseri
nós mesmos: somen
córdia é am misericórdia
or ptearaa com os tot almpod
enteiaprivados
alcan çardeosrecursos.
incapazes, Está-
po is
vamos debaixo da ira de Deu s: somen te o amor p o d eria triunfar sobre a
ira. Nada merecíamos nas mãos de Deus a não ser o julgamento, por causa
dos nossos delit os e pecados: som ente a graça pod eria salvarnos do que
merecíamos, pois a graca é o favor imerecido. Por que, pois, Deus agiu?
Movido pela sua pura misericórdia, pelo seu amor, pela sua graça e por
sua bondade! Mais ainda: ele salvounos para mostrar nos séculos vin
douros'_g suprema riqueza da sugjzrQ-Ça. (v. 7). Ao. re ssu sc i_tar. e_çm Ua r_a
Cristo. demonstroy. “a .suprema grandeza do seujao de r” (1:1 920); mas
aos nos ress uscit ar e exaltar dem onstro u tam bém “a suprema júqi^za_da
sua gradai’, e continuará a fazer assim por toda a eternidade. Nós, por-
tanto, com o testem unhas viva s da sua bond ade, exibiremos às pe ssoas d£
lora, sem chamar a atenção para nós mesmos, aquele a quem devemos^
a nossa salvação. .
Perto do fim do meu períod o de estudante de teologia em Ridley Hal
Cam bridge, o R ev. Paulo G ibso n apo sento use com o Presidente, e desce
raram um
elogio bemquadro comaoo artista.
merecido seu retrato.
DisseAo expressar
que, suaacreditava
no futuro, gratidão, fez
queui£
pessoas que olhassem o quadro não perguntariam: “Quem é esse homem?
mas, sim: “Q uem pintou ess e ret rato ?” Ora, em nosso c aso, Deus dem ons-
trou mais do que habilidade. Um paciente depois de um a cirurgia d elic
da é um a testem un ha viva da habilidade do seu cirurgião; e um hom e
conden ado, depois de ser perd oado , da m isericórdia do seu soberano. A
sim somos nós: am ostras d a com petência de Deus e troféus d a sua graç
Os versículos 810 desenvol vem o tem a da graç a de Deus, e expl icam
por que nas eras vindouras Deus demonstrará a sua graça e bondade pa-
ra conosco em C risto Jesus . É po r causa da nossa sa lvação. Deus nos m os-
trará a sua g raça porqu e foi po r ela que nos sal vou. Porque pela graça sois
salvos, median te a fé; e is to não vem de v ós, éd o m de De us. Aqui temos
três palavras fundamentais das boas novas cristãs — a salvação, a graça
e a fé. A salvação é mais do que o perdão. É a liberta ção da m orte, da es-
cravidão e da ira descritas no s versículos 13. Inclui a tota lid ad e da n os-
sa nova vida em Cristo, juntamente com quem fomos vivificados, exal-
tados
Deus, elivre
feitos assentar no
e imerecida âmbito
, p ara conosco, e /e éAa congraça
celestial. fian çaé hum
a misericórdia de
ilde com que
nós a recebemos.
55
RESSURRETOS COM CRISTO

Para reforça r esta declaraç ão p ositi va de que fom os salvos som ente
pela graça de Deus por meio da confiança errpCristo, Paulo acrescenta duas
negações que se equilibram : a pri meira é ^ istmnão vem de vó s, é do m de
Deus (v. 8b), a segunda é não de obras, para que ningué m se glorie. Al-
guns com entaristas t êm tom ado a palavra “isto” na prim eira negat iva co-
mo sendo uma referência à fé (i. é, “sois salvos mediante a fé, e até mes-
mo esta fé pela qual foste s salvos é dom de De us” ). Teologicament e, esta
é a verdade. Nunca devemos pensar na salvação como sendo um tipo de
transa ção entre Deu s e nós, ond e ele con tribu i com a graça e nós co nt ri-
buím os com a fé. Estávam os m ortos, e teríamos que ser vivificados p ara
poderm os crer. Não, os apóstolos claramente ensinam noutro lugar que
a fé salvadora também é dom gracioso de Deus.8Mesmo assim, Paulo
não está afirm and o este fat o aqui, po rque “isto” (touto) é neutro, a o passo
que “fé”rese
to” refe é umàsubstantivo
totalid ade feminino. Devemos,“pela
da frase anterior: portanto,
graçaentender
de Deusque
soi“is-
s pes-
soas que foram salvas mediante a fé, e a totalidade deste evento e desta
experiência é... o dom gratuito de Deus para vós”. Não se trata da vossa
realização ( isto não ve m d e vós) nem como recompensa por qu aisquer dos
vossos atos de reli gião ou de car idad e ( não de obras). Não havendo, en-
tão, lugar para o mér ito hum ano, também não h á luga r para a arrog ân-
cia hu mana. A salvação é dom de Deus, para que ninguém se glorie. Os
cristãos não se sentem bem com o orgulho, pois entendern a sua incon-
gruência. Não podemos empertigarnos no céu como pavões. O céu es-
tará cheio das façan has de Cristo e dos louvores de D eus. Realmente h a-
verá um a dem onstração no céu . N ão um a dem onstração de nós mes mos,
mas, sim, uma dem onstração d a inc omparável riqueza da graça, da m i-
sericórdia e da bondade de Deus por meio de Jesus Cristo.
Poderíamo s im aginar que Pau lo já ensinou sua liç ão e está pron to
para passar para outro tópico. Mas não, está decidido a não deixar o te-
ma até que o tenha expos to além de qualq uer poss ível malent endido. A s-
sim, acrescen
Pois so mos feitatu mais um criados
ra dele, a af irmem
aç ãoCristo
positiva,
Jesusdecisiva e glo
para boas riosaas(v.quais
ob ras, 10):
Deus de antemão preparou para que andássemos nelas. A pri meira pala -
vra na frase, na posi ção de ênfase, é autou, “dele”. Pau lo já decla rara que
a salvação não é nossa realização. Agora, não apenas declara o oposto,
ou seja, que é r ealização de Deus, mas va i além. Deixa pa ra trás qu alqu er
idéia de salvaç ão com o algo isolado, fora e à par te de nós mesmos. Está
preocupado conosco, com seres humanos vivos que estávamos mortos. O
que somos agora? Somos feitura de Deus ( poieêm a. “sua obra de arte,
sua obraprim a)9CA7fl<jas’ (ktisthentes) em Cristo Jesus. As duas palavras
8 P. ex. At 18:27; Fp 1:29. 9 Bruce, pág. 52.

56
efésios 2:1-10

gregas falam de criação. Até esta altu ra, Paulo j á descreveu a salvação em
termos de um a ressur reiçã o dentre os mortos, um a libertação da escr avi-
dão e um salvamento da condenação. E cada uma destas descrições de-
clara que a obra é d e Deus , p orqu e os mo rtos não podem ressusci tar a s i
mesmos, nem as pessoas presas e con den adas p odem liber tar a si mesmas.
Mas agoraé expl
salvação a criaçana
ão,aaquestão sem deixar
nova criação a m ínimad sombra
. E a linguagem a criaçãode dúvicontra
é um da. A
senso a não ser que haja um Criador; a autocriação é uma contradição
patente de termos. “Vedes, pois”, escreve Calvino, “que esta palavra ‘criar’
é sufici ente par a calar a bo ca e remover o cacarejar de tod os que sé van-
gloriam de possuir qu alquer mérito. Pois qu and o assim fal am, presumem
que fora m seus pró pio s cria do res .” 10
Não é que permanecemos passivos e inertes. Alguns críticos têm pen-
sado assi m e sunõem au £aji oiitrina_ de Paulo da salva ção pela graca so-
mente nos enc oraj a a viver no pecado . »j5stão inteiram ente e ngana3 ^7Ã s
boas obras sãoTnHíspensáveis para a salvação — não cõmõ sua base ou
meio, mas, sim, como sua conseqüência e evidência. Não somos salvos
por causa de obras {vs. 89)~mas, sim , som os criado s em Cristo Jesus para
boas obras (v. 10), boas obras estas que Deus de antemão preparou, se-
gundo o seu desígnio, num a eternidade pas sada e par a as quais nos criou ,
a fim de que continuadamente andásse mos nelas.
Assi m term ina o parágrafo como começou, com o nosso andar hu-
man o, u ma expres
Antigamente são idiom
andávamos em ática
delit hebr
os epeaica para
cado a nossa
s nos quais m aneiranode svpren-
o diabo iver.
dera; agor a andam os nas boa s obras, conform e Deus eternamente plane-
jou que fizéssemos. O contraste é completo. É um contraste entre dois es-
tilos de vida (o mau e o bom) e, por trás deles, dois senhores (o diabo e
Deus). O qu e poder ia ter ocasionado semelhant e mudança ? Somente uma
nova criação pela graça e pelo poder de Deus. As expressõeschaves do
parágrafo são, decerto, M as Deus (v. 4) epela graça (vs. 5, 8).
Paulo n ão n utria ilusões a re speito da degradação d a raça hum ana.
Recus ouse a passar u ma dem ão de cal na situação, pois iss o po de ria le-
var a prop ostas de soluçõe s superficiais d e sua part e. P elo contrário, co-
meçou est e parágrafo com um retrato fie l do hom em na sua sujeição a tr ês
poderes terríveis: o pecado, a morte e a ira. Porém, recusouse a cair em
desespe ro por que acredita va em Deu s. É verdade que a única esperança
para os mortos aohase num a ressurreição. Mas, afinal, o Deus vivo é o
Deus da ressurreição. Mais ain da, ele é o Deus da criação. As dua s m etá -
foras indicam a necessidade ind ispensável da graça divina. A re ssurrei-
ção, pois, é da
significado dentre os mortos, e a criação é do nada. Este é o verdadeiro
salvação.
10 Calvino, pág. 162.
57
II. Uma Nova
EfésiosSociedade
2:11 — 3:21

2:11-22
4. Uma nova humanidade
“Alienação” é uma palavra popular na cultura contemporânea. Muitas
pessoas, especialmente jovens no assim chamado “m undo desenvolvido”,
estão desiludidas com “o sistema”; são adversárias da “tecnocracia”, hostis
ao sistema e se apresen tam co mo sendo “aliena das ”. Algum as dess as pes-
soas traba lham em favo r de reformas, o utras conspiram par a fazer r evo-
luções, e outras se isolam. Não se ajustam de maneira alguma ao status
quo prevalecente.
Foi Karl M arx quem p op ula rizo u a palavra, sendo que e le mesmo a
tirou
ção dod opro
teólogo alemão,
letariado em tLudwig Fe aluerbac
ermos de ienaçãoh. econômica
Marx entendia
. C aada
triste
trabsitua-
alh a-
do r coloca na su a habilidade técnica um a parte de si mesmo. Q ua ndo seu
em prega dor en tão vende o pro duto , ele é culpado, pelo menos em parte,
de alienar o trabalhador de si mesmo. Esta, segundo Marx, é a base da
luta de classes.
Hoje em dia, a palavra é usa da mais generali zadamente com respe i-
to à alienação do trabalhad or, não apen as de sua reali zação co m a dev i-
da recom pensa, m as també m do exe rcício do poder, especialmente na t o-
mada de decisões. Noutras palavras, o termo ficou sendo mais político
do que econômic o. A “alienação” é um pou co de desgosto com o que exi s-
te, e também um senso de incapacidade para mudálo. Este é um senti-
me nto gen eralizado no s países dem ocráticos do ocidente , e os cristãos se-
riam insensatos se não o levassem em conta.
Muito tempo antes de Feuerba ch e Marx, n o entanto, a Bíblia fala-
va da a lienação hum ana. Descreve duas o utras aliena ções , m ais pro fun -
das do que a alienação política e a econômica. Uma delas é a alienação
de
çãoDeu s, nosso
a nosso próxiCriad
mo. or,
Nade aa éoumais
tra alienação
desum anoé do
a deque
nósesmesmos emno
te colapso rela-
re-
lacionam ento fun dam ental entre os homens. É então que no s tornam os
efésios 2:11-22

estranhos nu m mund o em que deve ríamos sent irnos à vont ade, e fica mos
sendo estrangeiros ao invés de cidadãos.
A ca rta aos Efésios re ferese a essas duas f orm as de alienação. Real-
mente, Pau lo em prega a palavr a com re lação às dua s condições. O verbo
grego é apallotrioò e significa “desafeiçoar”, “excluir”, ou “alienar”. No
Novo Testamento ocorre somente nestes dois versículos de Efésios, ju n -
tamente com o paralelo a um deles em Colossenses:

4:18 “alheios à vida de Deus” (cf. Cl 1:2021)


2:12 “separados da com unidade de Isra el”.

Ora, esta dup la alienaçã o, ou m elhor , sua sub stituição pela reconci-
liação, é o tem a de Efésios 2 . N a prim eira m etad e do ca pítu lo (vs. 110)
os seres humanos são retratados como estando alienados de Deus. O verbo
não chega a ser usa do ali com o o é em 4:18, m as é isto se m dú vid a o que
signi fica qu and o os hom ens são retratado s como estan do “ mortos nos. ..
delitos e pecados” e “por natureza filhos da ira” (vs. 1, 3). No capítulo
anterior, já consideramos o significado destas frases.
Na segunda metade de Efésios 2 (vs. 1122), que é o nosso texto no
presente capítulo, os seres humanos são retratados como estando aliena-
dos uns dos outros. Em especial, os gentios são descritos como estando
“separado s da com unidad e de Israel” (v. 12). É qu ase imposs ível par a nós,
perto do fim do século XX, imaginarmonos de volta àqueles dias em que
a hum anidad e era profundam ente dividida ent re judeus e gen tios. A Bí-
blia começa com uma declaração clara d a unidade da raça hum ana. De-
pois da queda, no entanto, e depois do dilúvio, segue a história das ori-
gens da divisão e separação humana. Pode parecer que o próprio Deus
contri buiu p ara esse processo qu ando escolheu Is rael dentre as nações para
ser o seu povo santo ou “separado”. Devemos, no entanto, lembrar que,
ao chamar Abraão, Deus prometeu, através da posteridade de Abraão,

abe nçoa
esta r todas
naç ão as famílias
se torna da ra
sse luz pa teras
ra nações.1A
e que, ao escolher Israe
trag édia l, prIsrae
é que etendl se
ia que
es-
queceu da su a vocação , inter pre tou mal o se u privilé gio, achan dose o fa-
vorito de Deus , e acab ou desprezando, e até mesm o detestan do os pagãos,
tratan do os com o “cac ho rros ”. William Bar clay nos ajud a a sentir a a lie-
nação entr e as duas c omun idades, e a hostilidade profund am ente ar rai-
gada entre elas, especialmente do lado judaico. Ele escreve:

“O ju de u tin ha desprezo imenso pelo gent io. Os gentios , diziam os


judeus, foram criados por Deus para serem combustível para o fogo do
1 Cf. Gn 12: 13; I s 42:16; 49:6.

59
UMA NOV A HUM ANIDADE

inferno. Deus, diziam ele s, am a som ente a Isr ael dentre tod as as nações
que fez... Não era nem sequer lícito prestar ajuda a uma mãe gentia na
sua nece ssidade mais urge nte, p orqu e isto seri a apenas traz er ou tro g en-
tio para o mundo. Até a vinda de Cristo, os gentios eram um objeto de
desprezo para os judeus. A barreira entre eles era total. Se um rapaz ju-
deu s e casasse com um a m oça gentia, ou um a m oça jud ia se casasse com
um rap az ge ntio, era realiza do o enterr o simból ico da m oça ou do rapaz
judeu. Sem elhante contato com um gentio era equivalente à morte.” 2
De sta dup la alien ação ge ntia — de Deus e de Israe l, povo de Deus
— a assim chamada “parede de separação” (v. 14) era o símbolo perm a-
nente. Era um aspect o notá vel do magnífico templo edificado em Je ru -
salém po r Herodes, o Grande. O prédio do tem plo pro priam ente dito era
cons truído sobre um a pla taf orm a elevada. Ao redo r dele havia o pát io dos
sace rdote
lheres. s. Atrês
Estes leste havia
pátios o páostio
para de Israe lpara
sacerdotes, e, mais além, eopara
os leigos pátioas das
mu-m u-
lheres de Is rael, respectivamente — est avam todo s no mes mo nível do tem -
plo. Deste nível desciase por cinco degraus a uma plataform a murada,
no outro lad o do muro, havia um a desci da de mais de quatorze graus pa-
ra um a parede do o utro lado da qual est ava o pátio externo, ou o pátio
dos gent ios. E ste era um pátio espaç oso localizado ao redor do templo
e dos seus pátios internos . De qualq uer parte dele os gentio s pod iam olhar
para cima e ver o templo, mas não tin ham licença de aproximarse dele.
Eram imp edidos pela parede que o cercava, um a barreira de pedra de um
metro e meio de altura, na q ual estava m af ixadas, em int ervalos regula
res, notificações de adve rtência em gre go e em latim. A advertên cia nã o
era “os transgressores serão pun idos pela lei ” mas, sim, “os que ult rap as -
sarem a barreira serão mortos”.
O famoso h istoriad or jud aico Josefo de screve esta barreira nas sua s
duas obr as. Em Antigüidades escreve que o tem plo era “cercado p or um a
parede de pedra para form ar uma divisão, com um a inscrição que proi-
bia qualquer
deus, estrangeiro
é um pouco entrar sob
mais explícito. pena
Havia, de morte”.3Em
escreve Guerrasfeita
ele, “uma divisão dos J u
de pedra, inteiram ente ao redor, cuja altu ra era de três côvados. Su a cons-
truç ão era mu ito elega nte; sobre el a havia pil ares a distâncias iguais , d e-
claran do a lei da pureza, alguns com letras g regas, outro s com letras ro -
manas, alertando que “nenhum estrangeiro entrasse naquele santuário”.4
Durante os últimos cem anos, du as das notificações g regas foram des-
cobertas, uma em 1871 e outra em 1935. A primeira, à mostra no museu
de Ist ambu l, é um a tábu a de calcá rio branco, com a largura de quase um
metro . Seu texto é precisamente o se guinte: “Ne nhu m estrangeiro pod e-
2 Ba rcla y, pág . 125. 3 Antigüidades, X V11. .5 4 Guerras dos Jude us, V. 5. 2.

60
efésios 2:11 - 22

rá passar além da barreira e do recint o ao redor d o temp lo. Quem for acha -
do assim fazendo terá que c ulpar a si mesmo pela s ua m orte qu e se seguirá!’
Paulo conhecia bem o fato p or experiê ncia própr ia. Cerca de três anos an -
tes ele mes mo quase foi l inchado po r um a tur ba juda ica furiosa que pen-
sou ter el e levado um gen tio consigo par a d entro do templo, e é interes-
sante que este era um efésio, com nome de Trófimo.5
Esta, pois , é a situação histórica, social e cultura l de Efésios 2 . E m -
bora todos os seres humanos estivessem alienados de Deus p or causa do
pecado, os gentios também estavam alienados do povo de Deus. E pior
até mesmo do que esta dupla alienação (da qu al a parede do templo era
um símbol o) er a a “inimizade ” ou “hostilidade” ( echthra) ativa em que
ela irrom pia continu am ente — a inimizade ent re o hom em e Deu s, e a ini-
mizade entre os gentios e os judeus.
O grande tem a de Efés ios 2 é que Jesus C risto de struiu as du as ini -
miza des. A mbas estão m encionadas na segund a metade do capítul o, em -
bora na ordem inversa:

v. 14 “Ele... de ambo s fez um; e, ten do d er ru ba do a parede da sep araç ão


que estava no meio, a inimizade (echthra)'.'
v.16 “E reconcili asse ambos em um só corpo com Deus, p or in termédio
da cruz, destruindo por ela a inimizade (echthra)'.'

Lado a lado com a destru ição dessa s duas inimizade s, Jesus conse-
guiu criar , de fato, uma nova s ocie dade , u ma nova hum anidad e, em que
a aliena ção cedeu lugar à reconci liaçã o, e a hos tilidad e à paz. E esta no -
va união humana em Cristo é o penhor e uma antevisão daquela união
final sob a soberania de Cristo, que Paulo já predissera em 1:10.
Depois des ta introduçã o, que diz respei to ao seu pano de fund o e te-
ma, estamos prontos para estudar o texto propriamente dito:

Portanto, lembrai-vos de qu e outrora vós, ge ntios na ca rne, cha mad os in-


circuncis ão por aqueles que se intitulam circuncisos, na ca rne, p o r mã os
hum anas, n naquele t empo, estáveis sem Cristo, separados da com un ida
de de Isr ael, e estranhos às alianças da prom essa, não tendo esperança,
e sem D eus no m undo. n Mas agora em Cristo Jesus, vós , que antes es
táveis l onge, fo st es apro xima dos pelo san gue de Cristo. HPorque ele é a
nossa paz, o qua l de amb os fe z um; e tendo derrubado a parede da sep a
ração que estava no meio, a inimizade, 15aboliu na sua carne a lei dos
man da men tos na fo rm a de ord enanças, para que do s dois c riasse em si
mesm o um novo hom em, faz en do a paz, l6e reconciliasse am bos em um
5 At 21:2731.

61
UMA NOVA HUMANIDADE

só corpo com Deus , p o r intermédio da cr uz, destruindo p or ela a inimi


zade. 11E, vindo, evangelizou p a z a vós outros q ue estáveis longe, e p az
também aos que esta vam per to; 18porque , po r ele, ambos temos acesso
ao Pai em um Espírito. 19Ass im já não sois estrang eiros e peregrinos , mas
concidadã os do s santos, e sois da fa m íli a de Deus: 2 0edificado s sobre o
fundam ento dos
pedra angular apóstolos
; 21no qua l todoe profetas, sendo
edifíc io, bem ele mesmo,
ajustado, cre sceCristo Jesus,
pa ra san tuá a
rio dedicado ao S enhor, 22no q ual tam bém vós ju nta m en te estai s sendo
edificad os para habitação de D eus no Espír ito.

É úti l, antes de entrarmos nu ma exp osiç ão mais detalhada, entender


a estru tura da passa gem como um todo. Paulo segue a biog rafia espiri -
tua l dos s eus leitore s gentios e m três etapas Este é o sentid o da su a men -
sagem a eles: “(1) Em certo te mpo estáveis alienado s de Deus e do seu povo,
Israel. (2) Median te a mor te na cruz, Cristo Jesus reconcilio u judeu s e gen -
tios entre si, e eles com Deus, cr ian do “um só H om em N ovo” (v. 15, BJ).
(3) Já n ão estão alienado s mas, sim, são mem bros integrai s com Israe l do
“povo” e da “ famí lia” de Deus (BLH). As tr ês etapas são m arcad as pe -
las expressões “outrora” (v. 11), “Mas agora” (v. 13) e “assim já” (v. 19).
E a seqüência corre ass im: P ortan to, lembra ivos de que ou tro ra vós... es-
táveis longe ... Mas ag ora em Cri sto Jesus.. . foste s aproxim ados... Po rqu e
ele é a nossa paz.. . A ssim já não sois est rangeiros ... mas c onc idadã os dos
santos... Darei os seguintes títulos às etapas do plano de Deus que se
desdobram:

1. O retrato de um a hum anidad e alienada, ou o que ér amos ou trora


(vs. 11 12);
2. O retrato do Cristo que faz a paz, ou o que Jesus Cristo fez (vs.
1318);
3. O retrato da nova sociedade de Deus , o u o que ago ra viemos a ser

(vs. 1922).
1. O retrato de uma humanidade alienada, ou o que éramos outrora (vs.
1 1 - 12)
Nos versículos 13, Paulo retratou a totalidade da raça hum ana (judeus
e gen tios igu alm ente ) no p eca do e na morte . A qui, nos versículos 11 e 12,
referese particularmente ao mundo gentio ou pagão antes de Cristo, àque-
les aos quais os jud eus (a circuncisão) chamavam, com desprezo, de in-
circuncisão. A circunci são naturalmen te fo i dad a po r Deus a Abraã o co-
mo o sinal ext erior dos membros do seu pov o da aliança. Mas tan to o ri-
to físico quan to a palavra tinham chegado a assumir um a im portância e xa
62
efésios 2:11-22

gerada. Os gentios e os jud eus se chama vam com umente com nomes ofe n-
sivos. Pau lo en fatiza est e fato aqui. Os gentios eram chamados de “a in
circuncis ão” p or aqueles que se intitulam “circuncisos, na carne, po r mãos
humanas”. É como se Paulo declarasse a insignificância de nomes e eti-
quetas , em com paraç ão com a realidade p or trás del es, e dan do a enten-
der que, po r trás “daquilo que é chamado a circuncisão que é feita na carne
por mãos humanas” há outro tipo, uma circuncisão do coração, espiri-
tual e não física, que era necessári a tanto aos judeu s como aos gent ios,
e disponível a todos eles.6
No versículo 12, ele deixa a questão das ofensas trocadas entre ju -
deus e gentios , e passa pa ra a realidade séria da alienação gentia. Em Ro-
manos, relacionou os pr ivilé gios judaic os (9 :35); aqui, apresen ta as in 
capacitações gentias. Primeiro, estavam sem Cristo. A expressão é tanto

mais trágica
pirituais por que
de estar em no capítulo
Cristo, 1 eleeira
e na prim desdpaobra ra ascapítulo
rte do grandes2 bênçãos
explic oues-
co-
mo Deus nos deu vida, no s ressuscitou e nos fez ass enta r com Cristo. Mas
naquele tempo, isto é, dur an te tod o o per íodo antes de Cristo, os gentios
não estavam em Cristo nem com Cristo mas, sim, separados de Cristo,
nem sequer tinham a expectativa de um Messias vindouro.
A seg unda e a terceir a incap acitação dos gentios eram m uito seme-
lhantes entre si. Eram tanto separ ados da com unid ad e de Isra el quanto
estranhos às aliança s da promessa (a refer ência é prov avelmente à promessa
funda me ntal feita por Deus a Abraão). Israel era um a comunidade ou na-
ção debaixo de Deus, uma teocracia, e um povo da aliança ao qual o Se-
nhor se obrigara por um juramento solene. Assim, Deus vincularase a
esse povo, e reinava sobre e le. Os gentios, n o entanto, eram excluídos dessa
aliança e desse reino.
A q ua rta e quinta incapacitação dos ge ntios sã o declarad as de m o-
do rígido: não tendo e sperança, e sem D eus no m un do. Estavam sem es-
perança, porque, em bora Deus planejasse incluílos um dia, e assim pro-
metera,
los. e les nãosem
E estavam o sabiam
Deus e, portan) porque,
(atheoi to, não tin
emham
boraesperança paralara
Deus se reve sustentá
a tod a
a humanidade na natureza e, portanto, não a deixava sem um testemu-
nho, mesmo assim os gentios suprimiam a verdade que conheciam e
voltavamse à idolatria.7Não era exagero, portanto, descrever o mundo
antigo nãojudaico como sendo sem esperança e sem Deus . A er a de ou-
ro dos g regos já se passara; não tinham nenhum futuro prom issor para
esperar. Além disso, os deuses da Grécia e de Ro ma deixaram to talm en te
de satisfazer a fome dos corações hum anos. As pessoas eram atheoi, não
no sentido de que descriam (pelo contrário, tinham deuses em excesso),
6 Cf. Rm 2:2 829 ; Fp 3:3; Cl 2:1 11 3. 7 Ver At 14:15ss.; 17:22ss.; Rm l:18 ss.

63
UMA NOVA HUMANIDADE

mas, sim , no sent ido de que não tinha m qualqu er conhecim ento verda-
deiro de Deus tal qual ele dera a Israel,8e (por causa da rejeição do co-
nhecimento que tinham) nenhuma comunhão pessoal com ele.
Esta era, entã o, a te rrível situação do antigo m un do gen tio antes de
Cris to. E ra separ ado do Messias, d a teocracia e da a liança, d a esperança
e“sem
do pró prio sem
Cristo, Deus.estado,
N o resumo de William
sem amigos, sem H enriks en
esperança os genti
e sem os esta vam
Deus”.9Nu-
ma frase única de Paulo, estavam longe (13), aliena do s de Deus e do p o-
vo de Deus.
Nós mesmos, em nossos dias, antes de sermos cristãos, é necessário
acrescentar, estávamos exatamente nessa mesma situação desalentadora.
Estávamos alienados de Deus e do seu povo. Pior, havia em nosso cora-
ção a inimizade à qual Pa ulo se refere mais tarde, de m odo que nos rebe-
lávamos contra a a utorida de de Deus e conhecía mos p ouco o u n ad a acerca
da ver dadei ra comunidade hu mana. A situação não é a mesma no m un -
do atua l sem Crist o? Os homens ain da edificam muros de separação e di-
visão como o terrível muro de Berlim, e levantam cortinas invisíveis de
ferro ou de bambu, ou constroem barreiras de raça, de cor, de casta, de
tribo ou de c lasse. A tendência par a a discrim inação é um a característica
constante de tod a com unida de sem Crist o. Nós m esmos ti vemos ex periên-
cia dela. A gora, o apó stolo diz: Portanto, lembrai-vos (v. 11). Há algumas
coisas que as Escrituras nos mandam esquecer (tais como as injúrias de
outras pess ados
mos orden oas contra
a nos nós
lemb).rar
H á, porém,
e não umer
esquec a coi sa em
nunca. É particular queaso-
o que éramos n-
tes do am or de Deus se estender p ara baixo e nos alcançar. P ois somente
se nos lem brarmos d a nossa an tiga alienação (p or mais desagrad ável qu e
ela seja pa ra nós), poderem os nos lembrar , da grand eza da g raça que nos
perdoou e que está nos transform ando.
2. O retrato do Cristo que faz a paz, ou o que Jesus Cristo fez (v s. 13-1 8)
O paral elo en tre duas seções de Efésios 2 é óbvio. P rim eiro vem, em em
bos os casos, uma descrição da vida sem Cristo: mortos (vs. 13) e alie
nados (vs. 1112). Seguese, também em ambos os casos, os grandes ad
versativos: M as Deus (v. 4) e Mas agora (v. 13). A distinção principal é
que na segun da seçã o P aulo r essalta a e xperiência ge ntia. D uas vezes em -
prega o pronome enfático vós (hymeis ): “Lembrai vos de que ou tro ra vós...
estáveis separados... M as ago ra em C risto Jesus, vós... fostes aproximados!’
Esta, pois, em essência, é a diferença que Cristo fez: vós, que antes
estáveis lon ge, fos te s aproxim ados pelo sangue d e Cristo. Semelhante li n-
guagem em termos de distância (“longe ” e “ próximo”) não era incom um
8 Sl 147:20. 9 Hendrikse n, pág. 129.

64
efésios 2:11-22

no Antigo Testamento. Sabiase que Deus e Israel estavam perto um do


outro , visto que Deus prom etera que seria o Deus d e Isra el e que o to rn a-
ria seu povo. Assim, M oisés pôde di zer: “Q ue grand e nação há que ten ha
deuses tão chegad os a si com o o S enhor nos so D eus?” 10Tal exclusividade
é rep etid a no Salm o 148:14, onde os israelitas são ch am ado s de “os filhos
de Israel,
vam longe,povo quepovos
eram lhe éque
chegado“Por
tinham de contraste, as nações gentias
ser conclamados esta-Deus
de longe'.'
porém, prometeu que um dia falaria “Paz, paz para os que estão longe
e para os que estão perto” , promessa esta que foi cump rida em Jesus Cristo
e que é citada aqu i p or P aulo com referência ao Senhor. 12E esta “ proxi-
midade com Deus” que todos os cristãos desfrutam através de Cristo é
um privil égio que co m mu ita freqüência tom amos com o certo. Nosso Deus
não m antém distância nem se escon de atrás da sua dignidad e, com o al-
gum po tentad o oriental, nem insiste em qualqu er ritual ou protocolo co m-
plicado. Pelo contrário, mediante Jesus Cristo e pelo Espírito Santo te-
mos imediato acesso a ele com o no sso Pai (v. 18). Pre cisam os exo rtar u ns
aos o utros p ar a fazer uso deste privilégio.1 3O versícul o 13 é mais d o que
um a de claração de que nós que está vamos longe agora fomos aproxima
dos', contém , além dis so, du as refe rênc ias impo rtantes a Crist o. Declara
que a n ossa proximidade de Deus é em Cristo Jesus e pelo sangue de Cristo.
É essencial, se desejamos ser fié is ao ensino do apó stolo, manter estas duas
expressões nu m m esmo nív el, e não enfa tizar u ma à custa da o utra. Pois
o sangu
por e de pecados,
nossos C risto (como emda1:7)
através signifi
qual ca sua m ortecom
nós reconciliou sacrifici
Deusalena
unscruz
aos
outros, ao passo que em Cristo Jesus signifi ca a união pessoal com C ris-
to hoje, mediante a qual a reconcilia ção conse guida po r ele é recebida e
desfru tada. Assim, as duas ex pressões dão testem unho às duas etapas pel as
quais os que estavam longe são aproximados. A prim eira delas é o even-
to his tóric o d a cruz, e a segunda, a conversão cristã, o u a experiênc ia con-
tem porâ nea da união com Cris to. O que Je sus Cristo real izou por meio
da cruz será explicado por Paulo nos próxi mos vers ículos. E ntrementes,
será um a atitud e sábia para nós observar mos b em a exp osição completa
da o br a reconciliadora de Cris to. N ão é um a reconci liação univer sal que
Cr isto realizou ou que Paulo proclamav a: pelo contrário, é um a proximi-
dad e de Deus e de uns a os outros expe rimentada com gratidão por aqu e-
les que estão p erto de Cristo, até mesmo em C risto num a união vital e pes-
soal. Isso que diz er, confo rm e a expre ssão de Joh n M ackay ao com entar
estes versículos, que o princípio divino de integração para unir os seres
hu m ano s nem é i ntele ctual (p ela fil osof ia), com o no catolic ismo rom a-
no, nem político ( pela conquista ), com o no islamismo ou no marxis mo,
10 Dt 4:7. 11 Is 49:1. 12 Is 57:19; Ef 2:17. 13 Hb 10:22; Tg 4:8.

65
UMA NOVA HUMANIDADE

mas, sim, espiritual (pela redenção por Cristo, que envolve a união entre
os judeus e os gentios, entre o homem e Deus e, finalmente, entre o céu
e a terra). A açã o inte gra do ra de Deus apare ce em três níveis: o prim eiro,
da mente; o segundo, da força; e o terceiro, do reino de Deus.
O apó stol o p assa a des envolver a descriç ão da o bra de Cristo, em ter-
mosé do
ele quesaele
a nos fezoequal
paz, de como
de ameleboosfez.
fe z O
um;que
e, ele fez derrubado
tendo Porque
está claro: a parede
da separ ação q ue estava no meio... (v. 14).Ele (autos ) é fortem ente enfá -
tico. É ele, C risto Jesus, que de rra mou o seu sangue n a cruz e que se ofe-
rece ao se u povo ho je pa ra ser uni do com ele ; é ele quem , p elo qu e fez no
passado e que agora oferece, é a nossa pa z, ou seja, é o pacific ado r entre
nós e Deus. O ambos de quem fe z um parece claramente significar os ju -
deus e os gentios , m as a reconciliação era mais am pla do que aqu ela po r-
que, confo rm e vimo s anteriormente, a pare de da separ ação qu e estava no
meio, que ele de rru bo u, simboliz ava a aliena ção gentia de Deus e nã o so-
mente de Israel.
Esta proclam ação que Paulo faz da de rru bad a da pare de por Jesus
Cristo é extremam ente notá vel. F aland o de mo do literal e históri co, a pa -
rede não foi der rub ada até as legiões romanas entrarem em Jerusalém, em
70 d.C. Portanto ainda estava em pé, ainda cercava o templo, enquanto
Paulo escr evia esta carta. M as em bo ra permanecesse materialm ente, es-
piritualmente já fora destruída em 30 d.C., aproximadamente, quando Je-
sus morre
estava em upé:
namas
cruz.jáCestava
onf ormanetiqu
a expressão de Arm
ad a, obsoleta, deitage
da taRobinson: “Aind
venci da, no quea
dizia respei to ao significado espiritual. O sinal ain da esta va lá: m as o que
significava, isso for a der ru bad o!’14
Voltamonos agora à ques tão de como Cristo o fez . O que fe z qua n-
do m orreu n a cruz, pa ra af asta r a inimizade entre o s jude us e os gent ios,
entre o homem e Deus? A resposta é dada nos versículos 15 e 16. Estão
carregados de teologia, e precisam ser esclarecidos.
Talvez a me lhor m anei ra de escl arecer a seqüência de pen sam ento do
ap ósto lo seja iso lar os três s ucessivos verbos prin cipa is que ele emprega:
aboliu... pa ra que do s dois criasse... e reconciliasse... Somo s informados
que aboliu a l ei de man dam entos a fim de criar uma, e um a só, nova hu -
manidade, e reconciliar com Deus as duas partes dela.
a. A abolição da lei dos mandamentos (v. 15a)
A prim eira afirma ção que Pau lo faz é que Cristo derrubo u a parede, a hos-
tilidade, quand o aboli u na sua car ne a lei dos m andam entos na fo rm a d e
ordenanças. À primeira vis ta, esta é uma declaração surpr eendent e, p ara
14 Armitage Robinson, pág. 60.

66
efésios 2:11-22

não d izer assustadora. C om o o apó stolo pôde declarar que Cristo ab o-


liu a lei, qu an do C risto me smo, no serm ão d a mo nta nh a, especi ficament e
declarou o oposto , que n ão veio para abolila mas, sim, p ara cu mprila? 15
Veremos que a discrepância é apenas verbal; em substância, eles estavam
se referindo à lei em dois sentidos diferentes.
No sermão da m ontanha, o contexto demonstra que Jesus estava se
referindo a lei moral. Estava ensinando a diferença e ntre a justiç a farisaica
e a justiça cristã, e insis tindo que a just iça cristã env olve um a ob ediência
profunda e radical à lei. A referência prim ária de Paulo aqui, no entan-
to, parece ser à lei cerimonial e àquilo que a BLH cham a de “seu s m an-
damentos e r egulam entos”, ou seja , à circuncisão (a principal distinção
física entre judeus e gentios, v. 11), aos sacrifícios materiais, aos regula-
mentos dieté ticos, e às regras acerca de “pure za” e “ imp ureza” que regiam

àoscircuncisão,
relacionamentos sociais.
e também A passagem
a “comida correlata
e bebida” em Colossenses
e regulamentos alude
acerca de
“dia de festa, ou lua no va, ou sába dos” (2:11, 1621); po rtan to parece pro -
vável que estes fossem os mand amentos, na form a de ordenanças, que P au-
lo tinha em mente aqui. Levantaram uma barreira séria entre os judeus
e os gentios, mas Jesus deixou de lado esta parte cerimonial. E o fez na
sua carne (dec erto um a referê ncia à sua m orte física), porque n a cruz cum -
priu todas as prefigurações do sistema cerimonial do A ntigo Testamento.
Pare ce provável, no entan to, que Pau lo esteja fazendo um a o utr a re-
ferência, em bora secundária, agora à le i moral, não à cerimonial. Jesus
certamente não aboliu a lei moral como um padrão de comportamento
(ainda está em vigor e é obrigatória para os seus seguidores); mas real-
mente a aboliu co mo ca minh o d a salva ção. S empre que a le i é vista a es-
ta luz, apres enta um a divisão. N ão conseguimos, pois, obedecêla, por mais
que tentemos. Separanos, po rtan to, de Deus, e uns dos outros. O p rópr io
Jesus, porém, obedeci a perfeitamente à le i na su a vida, e na sua m orte car-
regou sobre si as conseqüênc ias d a no ssa desobe diência. Tom ou sobre si
“a maldição
decem) a fim da
delei”
nos(olivrar
julgdela.
am ento quecon
16Ou, pa ira sobre
form e o aquel es em
paralelo queCa desobe-
olossen -
ses, Deus pode pe rdo ar toda s as nossas transgressões po rqu e “ tend o ca n-
celado o escri to de dívi da, que era con tra nós e que constava d e or de na n-
ças o qual nos era prejudicial, removeuo inteiramente, encravandoo na
cruz” (2:1 314). A aceitação com Deus agor a é através do C risto cruc ifi-
cado, exclusivamente, seja para judeus, seja para gentios. A lei era uma
barreira entre nós, mas a fé nos une, visto que todos nós devemos chegar
a Deus da m esma m aneira, através d e Cris to. E sta fô ra um a das ênfase s
principais de Paulo em Gálatas, a saber: que todos nós fomos colocados
15 Mt 5:17. 16 G1 3:10, 13.

67
UMA NOVA HUMANIDADE

no mesmo nível ao pé da cruz de Cristo.


Resumindo, Jesus aboliu tan to os regulam entos da le i cerim onial co-
mo a condenação da lei moral . Am bas eram div isórias. A mbas foram dei-
xadas de lado pela cruz.
b. A criação de uma nova humanidade (v. 15b).
É impos síve l deixar de perceber a ma neira como Pau lo avança do nega ti-
vo par a o posi tivo, d a aboliçã o de alg um a coisa velha (a tendência sepa
rado ra da le i) para a cri ação de algum a coi sa nova (uma única hum ani-
dade, sem divisões). Nos dois sentidos já considerados, a lei fizera uma
profunda divisão na humanidade. Os judeus e os gentios estavam aliena-
dos uns dos outros e havia inimizade entre eles. Uma vez que a lei sepa
radora foi deixad a de lado, n ad a havia para m anter as duas divi sões da
hum anida de separadas . Pelo contrári o, Cristo as trouxe jun tas m ediante
um ato soberano de criação. Literalmente: “criou os dois em um só ho-
mem novo, fazendo assi m a paz!’ “O novo ho mem aqui”, escreve F. F. Bru
ce, “com o o hom em plenam ente desenvolv ido de Efésios 4: 13, é a com u-
nida de cristã vista em con ju nto !’17 O que Pau lo está mencion and o, n a
realidade , n ão é um “novo homem ” mas, sim, um a “ nova raça hum ana ”,
unida por Jesus Cristo na sua próp ria Pessoa . Pois, embora a nova hu-
man idade fosse criada potencialmente qu and o Jesu s aboliu na cruz a l ei
divisória, na realida de ela pass a a existi r e a se d esenvolver som ente pela
uniãoEspessoal
ta novacom eleade
unid mesmo.
em e através de Cristo faz mais do qu e term ina r
com o abismo entre judeus e gentios. Noutras passagens Paulo diz que
tam bém abole distinçõ es sexua is e sociais, “...onde nã o p od e haver grego
nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre;
porém Cristo é tudo e em todos!’18Não é que os fatos da segregação hu-
mana sejam remov idos. Os homens perman ecem sendo hom ens e as mu-
lheres permanecem mulheres, os judeus permanecem judeus, e os gentios,
genti os. A desigualdade d iante de Deus, porém , é abolida. H á um a nova
unidade em Cristo.
c. A reconciliação de judeus e gentios com Deus (v. 16)
Depoi s da abo lição da le i divi sória e da criação d a hu manidad e nã o d i-
vidida veio a reconciliação dos dois blocos da antiga humanidade com
Deus, destruindo po r ela a inimiz ade. Aqui a inimizade é claramente en-
tre Deus e os homens, assim com o no versí culo 14 era princip alm ente en -
tre os jud eus e os gentios. E assim com o ali a hostilida de era mútu a, pe n-
so que d evemos v er também um a certa hostilidade n atural dos hom ens
17 Br uce , pág . 55. 18 Cl 3:1 1; G1 3:2 8.

68
efésios 2:11 - 22

para com Deus. Não se trata de ter sido somente um a rebeldia a nossa ati-
tude pa ra com ele; tratase tam bém de sua ira ter estado sobre n ós po r cau -
sa do n osso p eca do (v. 3). E so ment e por intermédio da cruz é que as duas
inimizade s ter minaram, porque qu and o Cristo carregou o noss o pecado
e o nosso julg amento n a cruz, Deus deixo u sua ira, e nó s, vendo o seu gran -
de amor,
zade. cessan mos
“Cristo a suaa morte
n ossa foi
rebeldia
morto. ”,Cristo matou
com enta Arm(liter
itage almente)
Robinson,a inim
“masi-
o mo rto tam bém m ato u”.19E, cessando a nossa rebeldia e tam bém a ira
de Deus por ela ocasionada, o resultado é a reconciliação.
Esta, pois, foi a realização da cruz de Cristo. Primeiro, aboliu a lei
(seus regulamentos c erimoniais e sua conde nação moral) com o instru men-
to de divisão entre os homens e Deus, e entre jud eus e gentios. Em segundo
lugar, criou um a, e um a só, nova hum anidad e das duas profun das divi -
sões anteriores, fazendo a paz entre elas. Em terceiro lugar, reconciliou
com Deu s est a nov a hum anidade unida, tendo m atado por intermédio da
cruz tod a a inimizade entre n ós. O Cristo cr ucifica do trouxe à exis tência,
desta maneira, n ada menos do que um a nov a raça hum ana, unid a consi-
go mesma e unida com o seu Criador.
Não se quer dizer com isto que a to talidade da raça hum ana esteja
agora u nid a e reconc iliada. Sabemos pela observação e pela experiên cia
que não é a ssim. E tam pou co P aulo est á alegando tal c oisa. H á mais um a
etapa na obra de Cristo que ele passa a mencionar. É que Cristo vindo,
evange
e que crilizou
ou upa
m za (v.
nova17).hum
Já fom os infofazendo
anidade, pazele
rm ados aq ue (v.é a15).
nossa
Masp az (v. ele
agora 14)
evangel izou pa z, pu blic and o as b oas novas da paz que fizera na cruz .20
Primeiro, realizoua; depois, anuncioua. E visto que a realização estava
na cruz, e como logicamente a p roclam ação deve vir após a reali zaçã o,
esta pregaçã o nã o pod e referirs e ao seu ministér io público. Deve referir
se, pelo contrário, aos seus aparecimentos após a ressurreição, em que a
primeira de todas as palavras que falou aos apóstolos foi: “Paz seja con
vosco! ”,21 e à sua pro clam ação do evang elho da paz p ara o m un do at ra -
vés dos apóstolos e através de gerações sub seqü entes de cris tãos .22 Hoje
Jesus Cristo ain da está pregand o a paz no m undo, através do s lábios dos
seus segu idore s. É verd adeiramen te um fato mar avilhoso que, sempre que
proclamamos a paz, é Cristo quem a proclama através de nós.
Além disso, estas boas novas foram d irigidas desd e o início aos que
estavam longe be m como perto, ou seja, aos gentios e judeus igualmen-
te: paz a vós outros que estáveis longe, epaz também aos que estavam per
to. E m uitos membros de cada com unidade a rece beram, e assim acharam
19 Armitage Robinson, pág. 65.
20 Cf. Is 52:7. 21 Jo 20:1921. 22 Cf. At 10:36; Ef 6:15.
69
UMA NOVA HUMANIDADE

se unido s com Deus e uns com os o utros. Porque, po r ele, a mbo s temo s
acesso ao Pai em um E spírito (v. 18). Em bora a reconc iliação seja um even-
to; o acesso é o relacion am ento cont ínu o ao qual ela leva. “Justificado s,
pois, madiante a fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Je-
sus Cristo; por interm édio de que m obtivemos igualm ente acesso. .!’23
Prosagõgeê (acesso ) fazcom
súdit os um a audiência pensar
o reinu ou
macom
corteoori ental , ondee então
imperador, é outorgada aos
são apre-
sentados a ele. O sabor da palavra permanece, mas a ênfase é alterada,
porque nosso acesso não é a um rei mas, sim, a um Pai, diante de quem
temos ousadia e acesso (3:12). E ao desfrutar deste livre acesso a Deus,
descobrimos que não temos qu alquer dificuldad e prática c om o mistéri o
da eterna Trindade. Nosso acesso, pois, é ao Pai , p o r ele (o Filh o q ue fez
a paz e a preg ou), e em ou por um Espír ito, o Espírito que regenera, sela
e habita em seu povo, qu e testifica com o n osso espírito que somo s filh os
de Deus, que nos socorre em n oss a fraqu eza e que nos ensina a orar, e que
nos une enquanto oramos. Somos, pois, ambos, judeus e gentios, mem-
bros da nova sociedade de Deus, e agora abordamos nosso Pai conjunta-
mente. Assim, a realização mais alta e plen a do Cristo p acif icad or é este
acesso trino do povo de De us, enqu anto po r ele e em um E spírito chega-
mos com confiança ao nosso Pai.
3. O retrato da nova sociedade de Deus, ou o que agora viemos a ser (vs.

19-22).
Assim , Paulo com eça o se u resumo. Exp licou passo a passo o que Cristo
tem feito para aproximar, de Deus e do seu povo, aqueles que anterior-
mente no m und o gentio e stavam longe. Cristo aboliu a lei dos man dam en-
tos, criou um a única nova hum anidad e no lugar das duas, reco nciliou am -
bas com Deus, e pregou a paz para aqueles que estavam perto e longe. A s
sim, qual é o resultado da realização de Cristo e da sua proclamação da
paz? É este: “vós” (os gentios) já não sois aqu ilo que ére is, estrangeiros
eperegrinos, “estrangeiros nem estranhos” (BLH), visitantes sem direi-
tos legais. Pelo contrário, vossa condição mudou dramaticamente. Ago-
ra “sois de casa” d e uma m aneira com o nun ca fostes antes. Ére is refugia-
dos; agora tendes um lar.
A fim de indica r a riquez a da sua nova posição, e de seus nov os pr i-
vilégios em Cristo, Paulo apela para três modelos familiares da igreja ,
que s e desenvolvem em m uitas o utras passagens das Escrituras. Retrata
a nova comunidade de judeus e gentios como sendo o reino de Deus, a
família de Deus e o templo de Deus.
23 Rm 5:12.

70
efésios 2:11 - 22

a. O reino de Deus (v. 19 a)


Con form e o versículo 12, os gentios eram forasteiro s sem cid ad an ia nem
voto, “ separados da comun idade ( politeia ) de Israel”. Agora, porém, se-
gundo Paulo lhes diz, sois concidadão s (sunpolitai ) d os sant os, que pa -
rece significar aqui o povo judaico, os santos ou a nação santa. Poucos
anos antes a palavra politeia tinha sido usada acer ca da cidadania rom a-
na na conve rsa entre Paulo e o tr ibun o em Jerusa lém .24Agor a tratase de
outr a cidadania. Em bora não desenvolva a metáfora, parece que est á alu-
dindo à cida dan ia do reino d e Deus. O rei no de Deus não é um a juris di -
ção territo rial nem se quer um a estru tura espiritual. O reino d e Deus é o
próprio Deus regendo o seu povo, e outorgandolhe os privilégios e as res-
ponsabilidades que o seu domínio subentende. Gentios e judeus perten-
cem em igualdade a esta nova comunidade interracial, governada por

Deus,
to queescreve,
Paulo substituíra a t eocracia
o Império Romanonacional do Antig
encontrase o Testamento.
no auge E nq ua n-
do seu esplen-
dor. Não havia surgido, por enquanto, qualquer sinal do seu futuro de-
clínio, m uito m enos da sua queda . M esmo assim, Paulo vê este ou tro rei-
no, nem juda ico nem rom ano, m as, sim, interna ciona l e inter racial, co-
mo sendo algo mai s esplê ndido e dura dou ro do que qua lquer império ter-
restre.25E exulta po r ser um cid adã o desse reino m uito mais do q ue p or
sua cid ad an ia rom ana . Seus cidadã os são li vres e seguros. As palavras já
não sois estra ngeiros eperegrinos, mas concidadã os enfatiz am o contraste
entre a falta de raíz es de um a vida fora de Cristo e a estabilidade de fazer
parte da nova sociedade de Deus. “Já não vivemos com passaporte, mas,
sim... re alm ente tem os as nossa s certidões de na sci mento..:’26
b. A fa m íli a d e Deus ( v. 19b)
A m etáfo ra altera se e torna se mais íntima: sois da fam ília de Deus . Em
Cristo , jud eus e gentios são mais do que con cidadão s sob o governo di-
vino; vive m jun tos como filhos e m um a famíli a. Paulo acabava de e scre-
ver
qualno versícul
jude o ant eri
us e gentios or acerca
desfru do rnovo
tam po meioedeprivileg
Cristo iado acesso
(v. 18) ao rmente
e, anterio Pai, do
na carta, desenvo lvera o tem a das bênçãos da adoção n a fam ília de Deus
(1:5). De ntro em br eve, terá m ais pa ra dize r sobre a pate rnid ade arquetí

24 At 22:2529.
25 De mod o semelhante, e m 1 Co 10:32 Pau lo refer ese à “ igreja de Deus” como sendo uma
terceira comunidade, distinta dos “ju deus” bem còmo dos “ gregos” . Sem dúvida, foi com base
em textos como este s que Clemente da A lexandria distinguia os cristãos dos judeu s e dos gre-
gos, como
salvas send o aque les
” (Miscelâneas, VI.que
5), ado ram aque
ao passo Deus “ na tercei
a Carta ra form do
a Diógenes, a” século
e “ a raça única de
II, cham p cristãos
a os essoas
de “uma nova raça” (cap. 1).
26 LloydJones, God’s Way, pág. 302.

71
UMA NOVA HUMANIDADE

pica de Deus (3:1415) e sobre “um só Deus e Pai de to dos” (4:6). Aqui,
porém, sua ênfase parece recair mais sobre a fraternidade humana do que
sobre a paternidade de Deus. Os filhos do Pai, ultrapassando as barrei-
ras raciais, são introduzidos nesta vida fraterna. Irm ãos (no sentido de
“irm ãos e irm ãs” ) é a palavra m ais comum pa ra os cristãos no Novo T es-
tamento.
de apoio. Expressa um estreito
Philadelphia relacionamento
, “amor de afeição,
fraternal”, sempre deuma
deve ser cuidado e
caracte-
rística especial da nova sociedade de Deus.
c. O templo de Deus (vs. 20-22)
Pau lo ago ra chega ao seu terceir o quadro. Essencialmente, a igreja é um a
com un idad e de pe ssoas . Mesmo assim, assemelhase em vários aspect os
a um edif ício, e particularm ente a um templo. O tem plo em Jeru salém —
primeiro o de Salomão, depois o de Zorobabel, depois o de Herodes —
tinha sido, p or q uase mil anos, o po nto central da identid ade de Isr ael co-
mo povo de Deus. Agora havia um novo povo. Haveria então um novo
templo, confo rm e a alusão indireta de J esus? O novo p ovo não era u ma
nova nação, mas uma nova humanidade, interracial e de alcance mun-
dial. Um centro geograficamente localizado, portant o, n ão seria apr op ria-
do para ele. O que, pois, poderia ser seu templo, seu elemento de união?
Nestes versículos 2022, Paulo explana a sua visão do novo templo com
maiores deta lhes do que no utro trecho; val e a pena estudála com c uida-
do.
damÀento
m edid
e à apedra
que desen volve
ang ular do sua
ediffigura
ício, àdeestru
linguagem,
tura comele referese
o um todo, eaos fuas
un -
pedras individuais, sua coesão e seu crescimento, sua função presente e
(pelo menos implicitamente) seu destino futuro.
Primei ro, o fundamento. Na da é mais im portan te para qualquer edi-
fício do que um alicerce sólido e es tável. E a p ará bo la bem co nhecid a com
que Jesus term inou o serm ão da m onta nha , sobre os dois hom ens que e di
ficaram casas, ensina a necessida de da rocha. Em que rocha, pois, a igre-
ja é edificada? Paulo responde: edif iça dos sobre o fun da m en to dos após
tolos e profetas, send o ele mesmo, Crist o Jes us, a ped ra angular (v. 20).
Visto que tanto os apóstol os qu anto os prof etas era m grupos com um
papel pedagógico, parece claro que o que constitui o fundamento da igreja
nã o é a pessoa del es nem o seu ofício, mas, sim, a sua instruçã o. A lém d is-
so, dev emos pen sar nel es como sen do educad ores inspirados, órgãos d a
revelação divi na, po rtador es desta autoridade. Aqui, a palavra apóstolos
não é um term o genér ico para os missionári os ou os implantadores de igr e-
jas, ou bispos ou outros líderes da igreja. Pelo contrário, denota aquele
grupo pequeno e especial que Jesus escolheu, chamou e autorizou a en-
sinar em seu nome, e que foram testemunhas oculares da sua ressurrei-
ção, e que consistia nos Doze, mais Pau lo e Tiago, e talvez um ou dois ou -
72
efésios 2:11 - 22

tros. Acreditavam que a igreja aceitaria com fé e conservaria o que ensi-


navam, e espera vam que a igreja o bedec esse ao q ue ordenavam. A pa la-
vra profetas t am bém indica mest res i nspirados aos quai s vinha a palavra
de Deus e que a transm itiam fielmente a outros. Apóstolos eprofetas talvez
reuna o An tigo Testamento (profetas) e o Novo Tes tamento (apóstolos),
como sendo
vras (não a base
“profe tas do
e apensino da igr
ósto los” eja.s im,
m as, M as“após
a ordem
tolosinvertida das pa
e pro fetas” la-
) suge-
re qu e provavelmente haja referência a profetas do Nov o Testamento. Se
for assim, sua comp aração com os apóstolos como o funda me nto d a igreja
é significativa. A referência d eve ser, mais u ma vez, a um pequ eno g rup o
de mest res inspir ados, associados com os apóstolos, que jun tam ente d a-
vam testem unh o de Cristo e cujo ensino era derivado da revelaç ão (3:5)
e era fundamental.
Em term os práticos, isto qu er dize r que a igreja est á edificad a sobre
as Esc ritura s do Novo Testament o. São os docu mentos fu nd am entais d a
igrej a. E , assim com o nã o se pod e mexe r com u m alicerce depois de ter
sido coloc ado e a est rutu ra sup erior esti ver edificada sobr e ele, assim tam -
bém o fundamento neotestamentário da igreja é inviolável. Este não po-
de ser altera do po r qu aisque r acréscimos, decré scimos, ou m odificações
ofere cidas por aqueles que em q ualqu er época alegu em ser apóstolos ou
profetas. A igreja fica em pé ou cai, conforme sua dependência leal às ver-
dade s fun dam enta is que Deus rev elou aos seu s apósto los e profetas, e que
agoraAsão
pe preservadas nas Escrituras
dra angular tam do portâ
bém é de im Novoncia
Testamento.
crucial para um edifício.
Ela m esma faz parte do fu ndam ento e l he é essencial; a jud a a m anter o
edifício fir me, e tamb ém o coloc a alinhado e o ma ntém assim. O tem plo
em Jerusalém tin ha pedras a ngulares enormes. Arm itage Robinson men-
cion a certo m onolito antigo escavado jun to ao m uro sul do t emplo, e que
tin ha cerca d e 12 metros de com prim ent o.27 A pedra angular do novo
tem plo é ele mesm o, Jesus Cristo . N outro s lugares e le tamb ém é a pedra
fu nd am en tal .28 Aqui, porém , Paulo tem em mente especialmente a fun -
ção d e Jesus Cristo de conservar junto, como um a unid ade, o templo em
crescim ento. Ele, pois, é a ped ra angu lar; no qu al tod o edifício, bem ajus
tado, cresce... A uni dade e o cresci mento da igreja vêm em conjunto, e Jesus
Cristo é o segredo de ambo s. V isto que o conceito de em C risto é de um a
un ião orgânica, as metáforas mai s naturais para ilustrá lo são metáforas
orgânicas, tais como os ramos na videira, e os mem bros no corpo. Aqui
o conceito é transferido p ara a obra da cons trução. Assim como um edi-
fício depend e, pa ra a sua coesão e para o seu desenvolvimento, de se r se-
27 Armitage Robinson, pág. 69.
28 Cf. Is 28:1 6; SI 118:22; 1 Co 3:11; 1 Pe 2: 48 .

73
UMA NOV A H UMANIDADE

guramente vinculado a uma pedra angular, assim também Cristo, a pe-


dra angular, é indis pensáve l par a a uniã o e o crescimento da igrej a. A nã o
ser que esteja constante e seguramente relacionada com Cristo, a união
da igreja desi ntegrar seá, e seu crescimento cessará ou será desor denado.
Paulo passa da estru tura do tem plo par a as pedr as individua is. Nos
dois casos
gular; , aaluntod
no qu iãoocom Cri sto
edifício, bemé indispensá
ajustado...vel: Cristo
no qu Je sus,
al tamb ém avós
pedjuranta
an
me nte estais sendo edificados. .. O ap óstolo P edro também desenvolve um
qua dro da igrej a como u m edifíci o, descr even do os mem bros individuais
da igreja com o “pedras que viv em” as quais “chega ndovos pa ra ele (Je-
sus)... sois edi ficad os cas a esp irit ua l”.29Aqu i, no qu adro de Paulo, as pe-
dras adici onais que estão sendo col ocadas n a estru tura são também vós ,
sendo q ue isso se refere ao seus leitores gentios. Conforme já vimos, o t em-
plo de Jerusalém era um edifício exclusivamente judaico, no qual todos
os gentios eram proib idos de entr ar. Agor a, porém , n ão ap enas lhes é per-
mitido a entrada como eles mesmos são partes integrantes do templo de
Deus. E vist o que um a das funções da pedra angu lar era l igar duas p are-
des, é p ossível que Paulo esteja e mpregando esta l inguage m figura da p a-
ra proclamar Cristo como a chave de ligação entre judeus e gentios.
Qual é o propósito do novo templo? Em princípio, é o mesmo que
o do vel ho, ou seja: ser a ha bitaç ão de Deus ( v. 22). N atur alm ente, os is-
raelitas possuíam a compreensão esp iritual de que Deus não habitava e m
templos feitos por homens, e que o universo inteiro não podia conter o
seu Se r infi nito.30 Mesm o assim, Deus pro metera q ue m anif estar ia a s ua
glória (sheki nah) no san tuário interior do templo, a fim de simbolizar a
verdade de que e le hab itava entre o seu povo. O novo tem plo, po rém , n ão
é um a construção m aterial , nem um santuário nacional, nem tem um ter-
reno locali zado. É um edifíci o espiritual (a fam ília de Deus e um a com u-
nidade interracial (que abrange tan to gentios com o judeus), e tem alcance
mund ial (ond e quer que s e achem mem bros do povo d e Deus ). É aí que
Deus habita. Ele nã o está vinculad o a edifí cios sagrados mas, sim, a pes-
soas santas, à sua pró pria nova sociedade. Com este povo ele fez um a alia n-
ça sole ne. Deu s vive nesse povo, in divid ualm ente e na com un ida de .31 O
que, pois, substitui a glória da shekinah no templo, como símbolo da pre-
sença de Deus e meio da sua m anifestação? Aqu i Paulo respond e a ess a
pergunta: a igreja é tanto santuário dedic ado ao Senho r (o qu e significa,
como sempr e no Novo Tes tame nto qu and o n ão h á ou tra defini ção, “o Se-
nh or Jesus” ) e habi taçã o de De us no E spírito. Mais um a vez, a Santíssi-
29 lP e 2:45. 30 Cf. 1 Rs 8:27; At 7:48, 49; 17:24.
31 Contrastar 1 Co6 :19 ; 3 :1 6e Ef 2:2122, o nde o templo de Deus é identifi cado suc essiva-
mente como sendo o corpo do cristão individual, a igreja local e a igreja universal.

74
efésios 2:11 - 22

ma Trindade cham a a no ssa atenção. Deus, poi s, hab ita no se u povo co-
mo seu templo no Senhor e no E spírit o, ou seja, através do seu Filho e
mediante o seu Espírito.
Quand o Paulo ditava esta sua carta, existia em Éfes o o m agnífi co tem -
plo de m árm ore de Artemis (“grande é Diana dos efésios”), uma das sete
maravil has do m undo antigo, e em cuj o sa ntu ário interior havia um a es-
tátu a da deus a. Ao mesmo tempo, havia em Jerusalém o t emplo judaico
edificado por H erodes, o G rande, cercado po r um a barreira contra os gen-
tios, e agora t ambém con tra Deus, cuja glória tinh a abrigado no seu san-
tuário interior durante séculos, mas, agora, revelada no Messias, procu-
rava extinguir. Dois templos, um pagão e outro judaico, projetados por
seus devotos como residê ncia divina, estavam vazios do Deus viv o. Pois
agora há um novo templo, um a habi taçã o de D eus no E spírito. É a sua

nova
mundo sociedade,
habita do.o seu povo bros
Os mem redimido espalhado
do povo por lar
s ão o seu todas
na as
ter partes do tam -
ra. Eles
bém serão o seu lar no céu. O edifício, pois, ainda não está completo. Cres
ce para santuário dedica do ao S enho r. Somente depois da cria ção do novo
céu e da nova terra é que a voz do tron o declara rá com ênfase definiti va:
“Eis o taber nác ulo de Deus com os hom ens ”.32

Conclusão
É maravilhoso olhar para trás e seguir a seqüência do ensino do apósto-
lo. Ele pin ta um a grand e tela com pinceladas fi rmes. Antes , co nfo rm e re-
lembra aos seus leitores gentios, estáveis alienados de Deus e do seu po-
vo. Cristo, porém, morre u p ara reconciliarvos com ambos. É po r isto que
já não sois os estrangeiros que éreis, mas, sim, o reino sobre o qual Deus
reina, a família que el e am a e o templo em que e le habita. De mod o mais
simples ainda : está veis alienado s, fostes reconciliados, e Cristo vos tr ou-
xe para casa.
Seria difícil enxergar a grandeza desta visão. A nova sociedade que
Deus fez existir é na da menos do que um a nova criaç ão, um a nova raça
humana, cuja característica já não é a alienação mas, sim, a reconcilia-
ção, já n ão é a divisão e a ho stilid ade mas, sim, a un ião e a paz. Deus rei-
na sobre esta nova sociedade, amaa e vive nela.
Esta é a visão. Q uan do, porém, nos voltamos do ideal retrata do nas
Escrituras p ara as reali dades concretas experim entadas hoje n a igreja, a
histór ia é muito diferente e muito trágica. Porque, até mesmo nela, h á fre-
qüentem ente alienaçã o, de sunião e discór dia. E os cristãos leva ntam n o-
32 Ap 21:15.
75
UMA NOVA HUMANIDADE

vas barreiras no lugar das antigas que Cristo demoliu: ora um a barreira
de cor, ora o r acismo, o nac iona lism o ou o regional ismo, o ra as animosi
dades pessoais engendradas pelo orgulho, pelo preconceito, pelos ciúmes
e pelo es pírit o que não perd oa, ora um sist ema discrim inatório de castas
ou de classes, ora um clericalismo que separa os clérigos dos leig os como
se fos sem es pécies diferentes de se res hum ano s, e ora um deno minacio
nalismo que tran sform a as igre jas em se itas e contra diz a união e a un i-
versalidade da igreja de Cristo.
Estas coi sas s ão dup lam ente ofens ivas. Em p rim eiro l ugar, são uma
ofensa contra Jesus Cristo. C om o ousam os edificar pare des de separação
dentro d a sua com unidad e qua nd o ele as destruiu? Naturalm ente, há as
barreiras de língua e de cultura no mundo exterior, assim como os novos
convertidos s e sen tem mais à von tade entre seu s semelhantes, q ue falam
e se vestem e comem e bebem e se comportam da mesma maneira, con-
forme sempre têm fe ito. M as deliberadam ente per pe tua r estas barreiras,
sem da r q ualquer passo ativo para ven cêlas, de m odo a de monstrar a u ni-
dad e transcu ltural d a nova sociedade de Deus , é col ocarse co nt ra a obra
reconciliadora de Cristo e até mesmo procurar desfazêla.
O que é ofen sivo a Cr isto tam bém é ofensivo, em bora de mo do d ife-
rente, ao m undo. Im pede o m un do de cre r em Cristo . Deus pretende que
o seu povo seja um mo delo visual do ev angelho, a fim de dem ons trar dian te
dos olhos das pessoas as boas novas da reconcili ação. Mas qu al é o valor
de cam pan ha s evangelísticas se nã o p roduz em igrejas fiéis ao evange lho?
É simplesmente impos síve l, com qu alqu er m igalha de integridade cristã,
co nti nu ar a pro clam ar que Jesus, pela sua cruz , ab oliu as velhas d ivisões
e criou um a nova hum anidad e de amor, enquanto, ao m esmo tempo, es-
tive rmos contrad izendo a nossa mensage m com tolerância a barreiras ra-
ciais ou soc iais, o u quaisq uer outras, dentro da c om unhã o da n ossa igr e-
ja. Não estou dizendo que uma igreja deve ser perfeita antes de poder pre-
gar o evan gelho, mas estou dizendo que n ão pod e pregar o evange lho en-

qua nto se mandeixar


Devemos tém deliberadamente i mperfeit
pesar sobre a nossa a. as falhas da igreja,
consciência
sentir que grande ofensa con tra Cristo e contr a o m und o estas falh as cons-
tituem; devemos ch orar sobre o vazio de credibil idade entr e o falar da igreja
e o and ar d a igr eja, ar rependendo nos d a nossa disposi ção pa ra descul-
par e até mesmo para perdoar os nossos próprios fracassos, e assim fa-
zer algo para rem ediar o c aso. Pergun to a mim m esmo s e há algum a coi-
sa mai s urgent e hoje, par a a ho nra de Cristo e para a prop agaçã o d o evan -
gelho, do q ue isto: a igreja s er aqu ilo qu e já é segundo o pro pós ito de Deus
e a realização de Cris to, e s er vista como tal : um a nova hum anidad e, um
modelo de comunidade humana, uma família de irmãos e irmãs recon-

76
efésios 2 : 11-22

ciliados que am am ao seu Pai e se am am uns aos outros, a hab itaçã o evi-
dente de Deus pel o seu Espírito. Somen te então o m un do crerá e m C ris-
to como P acificador. S om ente en tão é que Deus receber á a glória devida
ao seu nome.
3:1-13
5. O privilégio sem igual de Paulo
Por esta causa e u, Pau lo, o prisio neir o de Cristo Jes us, po r am or de vós,
gentios, 2se é que tendes ouvido a respeito da dispensação da graça de
Deus a m im confiada para vós o utros;3pois segundo uma revelação me
fo i dado conhecer o mistério conforme escrevi há pouco, resumidamen
te, Ape lo qual, q ua nd o lerdes, pod eis com pre end er o meu d iscer nim ento
no m istério de Cri sto, 5o qu al em o utras gera ções não fo i da do a conh e
cer
toloaos
s e fiprofetas,
lh os d os no
homEspírito,
ens, com6ao saber,
agora foqui erevelado
o s gentiaos seusco-herdeiros,
os são santos após
mem bros do m esm o corpo e co-parti cipant es da prom essa em Cris to Je
sus po r me io do evangelho.
1Do qual fu i constituído m inist ro con forme o do m da graça de De us,
a mi m concedida, seg undo a forç a operante do seu poder. 8A mim, o m e
no r de todos os santos, me fo i dada esta graça de pregar a os genti os o evan
gelho da s insond áveis riquezas de Cristo, 9e m anifestar qu al seja a dis
pensação do ministério, desde os séculos oculto em Deus, que criou to
das as coisas, ]()par a que, pela igreja, a m ultifo rm e sabedo ria d e Deu s se
torne conhecid a agora dos prin cipa dos e potes tad es nos lugares celestiais,
nsegun do o eterno prop ósito que est abeleceu em Crist o Jesus nosso Se
nhor, 12pe lo qua l tem os ou sadia e acesso com confiança, med ian te a fé
nele. 13Porta nto vos pe ço qu e não desfal eçais nas m inh as tribulações por
vós, po is nisso está a vossa glór ia.

Neste ponto, Paulo se apresenta e explica o seu papel pessoal e único no


propósito de Deus
conhecido como para com
“o apóstolo aososgentios”.
gentios. Não é sem razão que veio a ser
Na segunda parte, de Efésios 2, conform e vimos no capítulo ante-
rior, ele pintou um contraste vivido entre a dupla alienação que os gen-
tios padeciam diante de Cristo (alienação de Deus e alienação de Isra el)
e sua du pla reconciliação atra vés de Cristo . Sim, po rque com sua mo rte
Cristo dem oliu as bar reira s entre os jud eu s e os gentios, e entre D eus e o
homem , crian do ag ora em relação a s i mesmo, um a nova socie dade multi-
cultural , q ue é não apenas a família am ada por Deus, mas ta mbém o tem-
plo em que vive. Os leitores gentios de Paulo devem ter recebido com pro-
fundo júbilo esta exposição do evangelho da paz.

78
efésios 3:1-13

Mas, ab ruptam ente, el e desvia o pon to de atenção, antes centraliza-


do neles, p ara fixálo em s i mesmo. Eu, Paul o, o prision eiro de Cristo Je
sus, po r am or de vós, gentios (v. 1). Hu manam ente falando, não era o pri-
sioneiro de Cristo, mas, sim, de Nero. Ap elara ao Im pe rad or e, por tan to,
tinha sido levado preso para ser julgado diante dele.1

manos.Paulo , porém, nanun


Acreditava ca pens de
soberania avaDeus
nem sobre
falav aosem termosdos
assuntos pu homens.
ram ente h u-
Assim, chamavase (literalmente) o prisioneiro de Cristo Jesus (v. I)2ou
0 prisioneiro no Senhor ,3 por estar tão convicto de que a sua vida intei-
ra, inclusive a sua prisão tão estafante, estava sob o senhor io de Jesus. Tam-
bém é possível que pensasse em si mesmo como sendo o prisioneiro de
Cristo do mesmo modo como se via “o escravo de Cristo” e, neste caso,
sua autodescrição expressava uma “combinação de cativeiros externo e
interno”.4
Paulo passa, depois , a um a segunda frase descrit iva, ind icand o a na -
tureza e o propósito da sua prisão. Era prisioneiro de Jesus Cristo, por
am or de v ós, gen tios. E sta era um a realidade. O que o l evara à pri são em
Jerusalém, à prisão ali e em Cesaréia, aos sucessivos julgamentos e ao ape-
lo subseqüente a César, e que acabou levandoo a Roma, foi a oposição
fanática dos judeus à sua missão aos gentios. Lucas, seu amigo, médico
e com panh eiro de viagens, esta va com ele na ocasião, e registrou fielmente
os porm eno res na narra tiva de Atos. Explica qu e o que l evava os jud eus
atodos
incitarem as multidões
a ser cont ra o povo,contra
contraPaulo
a lei eera
cona tra
suaeste
reputação
luga r” por “ensinarComo
(o templo).
poderia ter adquirido semelhante reputação? Sem dúvida, por ensinar exa-
tam ente o que ac ab ara de en sina r em Efésios 2, ou sej a, que, ao ab oli r os
elementos divisórios da lei, Jesus estava criando um novo povo e edifi
cando um novo templo. Por isso foi preso. E quando o comandante
permitiulhe fazer sua defesa pública diante do povo judaico, este o ou-
viu em silêncio até o momento em que chegou à parte da história onde
Jesus lhe disse: “Vai, porque eu te enviarei para longe aos gentios!’ Com
isso, os jud eu s gritaram : “ Tirem tal homem da ter ra .” 5
Assim, o motivo da o posição juda ica a Paulo es tava em ter este ab ra-
çado com ous adia, sem meios termos, a causa gent ia. N ão som ente pre-
gava a su a visão d a nova hum anid ade, sem divi sões, e escrevia sobre e la;
naque le exat o mo mento estava sofren do pelas mesmíssimas verdades que
expunha.
Parece provável que o apóstolo pretendesse passar a orar pelos seus
leitores gentios. Com eçou dizendo: Por esta causa eu, Paulo... M as inter-
1 At 25:1112. 2 Também Fm l , 9 ; e c f . 2 T m 1:8.
3 4:1 . 4 Barth Ephesians, I, pág. 361. 5 At 21:17 ss.; 22:21ss.

79
O PRIVILÉGIO SEM IGUAL DE PAULO

rom peu a si mesmo, e nã o com eçou a or ar até o versículo 14. En treta nto ,
desenvolveu sua autodescrição a fim de enfatizar os privilégios ímpares
que Deus lhe outorg ara na concretização do seu propósito pa ra com os
gentios.
Duas vezes nestes versículos ele emprega a mesma expressão; de fa-

ato,graça
uma de
combinção
Deus a midêntica de palavras
im confiad a (vs 2 gregas, quesesão
e 7). E stá traduzidas
referind por privi-
o a dois
légios que Deus, num favor não merecido, lhe concedera.
O prim eiro foi um a revelação, como r esultad o d a qual viera a s aber
alguma coisa. Vejamos os versículos 23 se é que tendes ouv ido a respei
to... da graça de Deus a m im conf iada para vós outros; po is segu ndo um a
revelação m e fo i d ado conhecer o mistér io.
O segundo fo i um a certa c omissão, como resultado da qual ti nh a um a
responsabilidade para fazer conhecido algo a o utras pessoas: Deste evan
gelho fu i co nstituído m inistr o co nform e o do m da graça de Deus, a mim
conce dida, segund o a fo rç a operante do seu poder (vs. 7-8).
Está claro que es tes dois dons da graça divina, a reve lação e a com is-
são, o mistério revelado a ele e o ministério co nfiad o a ele, estavam estrei-
tam ente re lacion ado s entre s i. Pois , um a vez recebida a revel ação divina,
sabia que tinha a obrigação de tornar conhecido aquilo que lhe fora
revelado.
1. A revelação divina a Paulo, ou o mistério que lhe foi dado a conhecer
(vs. 1-6)
Três vezes neste curto pa rágra fo Paulo empreg a a pa lavra “mistério” : se
gund o um a revelação m e fo i d ado conhec er o mistér io (v. 3)...podeis co m
preender o meu discernimento no mistério de Cristo (v. 4) ...e man ifesta r
qua l seja a dispensação do mistério (v. 9). É uma palavra chave para a
nossa compreensão do pensamento de Paulo. Devemos reconhecer que
as palavras em portu guê s e em grego não significam a mesm a cois a. Em
português um “mistério” é algo obscuro, oculto, secreto, enigmático. O
que é “misterioso” é inexplicável, até mesmo imcompreensível. A pala-
vra grega mystèrion é diferente, no entanto. Em bo ra continue sendo um
“segredo” , já nã o está cuid ado sam ente gua rda do m as, sim, revelado. O ri-
ginalmente , a palavr a grega se referia a um a verdade em que alguém ti-
nha sido iniciado. Veio mesmo a ser usada para os ensinamentos secre-
tos das reli giões pagãs de mistéri o, ensinam entos este s que eram lim ita-
dos aos iniciados. No cristianismo, no entanto, não há “mistérios” eso-
téricos reservados para uma elite espiritual. Pelo contrário, os “mistérios”
cris
na, tãos sãoreveladas
foram ver dadespor
qu e, embe,ora
Deus est ejam, ag
portanto além
orada com em
pertenc preensão hu ente
abertam m a-
a toda a igreja. Mais simplesmente, mystèrion é um a verdade q ue esteve
80
efésios 3:113

ocul ta ao conhec imento ou entendi mento hum anos, mas que atualmen-
te está desvendada pela revelação de Deus.
Se é este o significado geral de “mistério” no Novo Testamento, qual
é o segredo aberto ou verdade revelada, especificamente, o qual em ou
tras geraçõ es não fo i dado a conhecer aos filh os dos homens, mas que ago
ra
quefode
i revelado
modo semaos seusPaulo
igual, santosacrescenta,
ap óstolos e prof etas
me fo , no Espírito
i dado conhecer? (v.
(v.5)3).e
Ele ch am a este mistério n o versículo 4, com o tam bém em Colos senses 4:3,
de o m istério de Cri sto. Assim, p arece claro qu e é um a verdade especial-
mente revelada, “da qual Cristo é tanto a fonte quanto a substância”.6
Paulo dec lara a natu reza exata do mistério com ênfase e clareza no versí-
culo 6. A saber, que os gentios são co-herdeiros, membros do mesm o corpo
e co-partici pantes da promessa em Cristo Jesus p or m eio d o evangelho.
Assim, o misté rio diz respeit o a C risto e ao seu únic o povo, jud eu e gen -
tio. A fim de definilo com mais exatidão, Paulo reúne (e, em um caso,
cria) três ex pressões com postas e pa ralel as. Cada u ma tem o mesmo p re-
fixo syn, “jun tam en te com ”, e indica aquilo qu e os crentes gentios agora
têm e são, em co nju nto com os crentes jude us. Qu e expressões s ão estas?
Os gentios são “coherdeiros” ( synklêronoma ), “membros do mesmo cor-
po” (syssõma) e “coparticip antes” ( summetocha ) da p romessa. Estas trê s
palavras gregas incomuns, no entanto, precisam ser analisadas com aten-
ção. O que P aulo está declaran do é que os cri stãos, tan to gentios como
judeus,
do mesmo sãocorpo,
agorae herdeiros juntos
participantes da mesma
da mesma bênção,
promessa. mem
E este bros comuns
privilégio
com partilhado é tanto em Cristo Jesus (porque é desfrutado igualmente
por todos os crentes, tanto judeus como gentios, posto que estejam em
união com Cris to) e por meio do evangelho (pois a proclam ação do evan-
gelho inclui esta unidade e assim a torna disponível para todos os que
crêem).
Resumindo, podemos dizer que o mistério de Crist o é a união com -
pleta entre judeus e gentios, através d a união de ambos com Cristo. É es-
ta du pla união, com C risto e entre e les, que e ra a substância do mistério.
Deus o revelara especialmente a Paulo, conforme este escrevera resumi-
dam ente (v. 3) no cap ítulo anterior. Mas tam bém fora reve lado aos seus
(de Deus) santos apóstolos eprofetas, no Espírit o (v. 5) e, através destes,
“aos se us santos ” (Cl 1:26).7Agor a era, p ortan to, a possess ão comum da
igreja universal.
Era uma nova revelação. Porque em outras g erações não fo i dado a
6 Hendriksen, pág. 153.
7 Um exe mplo foi a revela ção espec ial ao apó stolo Ped ro do prop ósito de Deus de incluir os
gentios, conforme está registrada em At 10 e 11.

81
O PRIVILÉGIO SEM IGUAL DE PAULO

conhecer aos fi lh os do s ho men s (v. 5) mas , sim, estav a desde os séculos


oculto (v. 9). Estas declarações têm sido um enigm a pa ra os leit ores da Bí-
blia, porque o Antigo Testamento já revelara que Deus tinha um propó-
sito para os gent ios. Prom etera que todas as famíli as da terra seriam aben-
çoad as atr avés da poste ridad e de Ab raão; que o Mess ias receberia a s na -
ções como sua herança; que Israe l seri a dad o com o um a luz pa ra as na -
ções; e que um dia as nações fariam um a peregrina ção a Jeru salém e até
mesmo “fluiriam para ela” como um rio poderoso.8Jesus também falou
da inclusão dos gentio s, e com issionou seus se guidore s a to rná los seus
discípulos. M as o que nem o An tigo Testam ento nem Jesus revelaram foi
a natureza radical do pla no de Deus, o u seja , que a te ocracia (a nação ju -
daica so b o gove rno de De us) term inaria e seri a substituída po r u ma n o-
va comuni dad e interraci al, a igreja, e que esta igreja seria o corpo de Cris
to, organicamente unido
Judeus e gentios a ele.incorporados em Cristo e na sua igreja em
seriam
igualdade, se m qualq uer d istinção. Esta uniã o co mp leta entre judeus, gen-
tios e Cristo era radicalmente nova, e Deus a revelou a Paulo, vencendo
o arraigado preconceito judeu.9
2. A comi ssão divina a Paulo ou o ministério que lhe foi conf iad o (vs. 7-13 )
No fim do versículo 6, Paulo virtualm ente equiparou o mistério com o
evangelho. Pelo menos escreve que é p o r m eio do evangelho que os cris-
tãos judeus e gentios são unid os a Cristo. Isto acontece som ente por que
o evangelh o anu nc ia o mistério, de m od o qu e as pessoas o ouça m, creiam
nele e venham a ter experiência dele.
Ora, esta equipar ação de mistério com evangelho é significativ a, po is
o m istério era essencialmente a verdade revel ada a Paulo, ao passo que
o evange lho era ess encialmente a verda de proc lam ada por Paulo. O pró -
prio Paulo fez a conexão, porque estava convicto de que as boas novas ti-
nham sido reveladas a ele somente a fim de serem comunicadas. Assim
dizmdedamograça
do do claro : Deste
de Deus, a mevangelho fu i constituído
im concedida ministro
(v. 7). Desta ma neirconfo
a, se orme
pr i-o
meiro dom da graça de Deus a e le foi o próp rio mistério que lhe fora re-
velado (v s. 23), o segu ndo era o ministé rio que lhe for a conf iado , e pelo
qual ele o com par tilha ria a ou tras pessoas. Receberao pela graça de Deus ,
e o exerceria segundo a forç a opera nte do seu pode r.
Paulo considera que esta comissão ou m inistério é um privilégio eno r-
me. Porque aquilo que chama de esta graça, que poderíamos chamar de
“este dom priviligiado de D eus”, lhe fora dado, a despeito do fa to de se r
8 Gn 12:13; SI 2:8; Is 42:6; 49:6; 2:24.
9 Cf. sua declaração que tem revelação direta de Deus em G1 1:12.

82
efésios 3:113

o menor de todos os santos (v. 8), ou “o membro mais vil do povo san-
to”.10É um a expressão mu ito m arcante. Toma o superlativo ( elachistos ,
“ínfim o” o u “mínim o”) e faz o que é imposs ível na lingüísti ca mas que
é possível na teologia; tra nf orm ao em com parativo ( elachisteros , “mais
mínimo” ou “m enor do que o mínim o”). Talvez estivesse delib eradam ente
jogando com o significado do seu nome. Seu sobrenome romano, “Pau
lus”, significa “ pequen o”, e a tradiçã o diz que era um hom em pequeno.
“Eu sou p eq ue no ”, talvez esteja di zendo, “ pequen o pelo nome , peq ueno
na estat ura, e mo ral e espirit ualmente m enor do que o mínimo de todos
os cristãos”. Ao afirmar isto, não está sendo hipócrita nem se afundan-
do em autodeprecia ção. E stá sendo s incero. Está profun dam ente conscien-
te tanto da sua pró pria indigni dade, pois “ nou tro tempo fôra blas femo,
perseguidor e insolente” contra Jesus Cristo,11como também da miseri-
córdia de m
que a sua Cristo quenão
odé stia transbordava
era fingidapara
ne com
m m ele.
órbidUma boanão
a é que indicação
o impedde ia de
aceit ar a respon sabilidad e de ser apóstolo. Pelo contrário, nesta mesm a
passagem ele em prega duas vezes o egõ “eu” apostólico autoconsciente
(3:1; 4: 1). Pau lo sabia com binar a hum ildade pess oal co m a au toridad e
apostólica. Na verdade, ao “minimizar a si mesmo, engrandecia o seu
ofício”.12
O m inistér io privilegiado de divulgar o evan gelho, co nfia do a ele pela
graça de Deus, é o que ele pas sa a desenv olver em três etapas:
a. Pregar aos gen tios o evangelho d as insondáveis riquezas de Cristo (v. 8)
Visto que o mistério que lhe fora revelado dizia respeito ao plano de Deus
de incorporar os gentios em Cristo, era lógico que o ministério que lhe
fora con fiad o se dirigisse primeiro e principa lm ente a eles. Foi comissio-
nado para pregar aos gentios. “Pregar” aqui é euangelizõ, “anunciar boas
novas”, porq ue estava bem consciente de que o seu evangelho era um a men-
sagem de boas novas grandiosas p ara os genti os. Co nsistia nas insondá
veis riqueza
outo rga àques de
les Cristo,
que v êmasariqueza s que Cristo
ele. P odemos ju lgapr ossu
quaisi em
sãosie stas
me sm o e que
riquezas
pela exposição de Paulo em Efésios 1e 2. São riquezas livremente dispo-
níveis por causa da cruz. Incluem a ressurreição da morte no pecado, a
entron ização vitorio sa com C risto nos luga res cel estiais, a reconciliação
com Deus, a incorporação com os crentes judeus na nova sociedade de
Deus, o fim da h ostilidad e e o começo da paz, o acess o ao Pai m ediante
Cristo e pelo Espíri to, o ingresso no reino e na família de Deus, sendo p arte
integrante da sua mora dia entre o s homens ; tu do isso representando apenas
um vislumbre de riquezas futuras, a sab er, das riquez as d a glória da he-

10 Arm ita ge Rob in so n, pág . 169. 11 I Tm 1:13. 12 Sim ps on , pá g. 70.

83
O PRIVILÉGIO SEM IGUAL DE PAULO

rança que Deus dará a todo o seu povo no último dia.


Não é de se admirar que Paulo chame de insondáveis as riqu ezas de
Cristo. A pa lavra anexniastos signi fica, li teral mente, “cuja pista nã o p o-
de ser ach ad a”. Na versão grega d e Jó 5:9 e 9:10 era aplica da às m aravi-
lhas da criação e da providência de De us, que estão além do nosso enten -
dimento,
rios profue ndo
o próp
s do rio P aulo
plano já a da
divino usasalv
ra em Rom
ação. As anos 11:33depaCristo
riquezas ra os são
misté
se--
melhantes. Como a terra, são vastas demais para serem exploradas; co-
mo o mar, profundas demais para serem sondadas. Os tradutores e co-
men tarist as esforç amse par a ach ar um equivalent e dinâ mico. As riq ue-
zas de Cristo, dizem eles, são “inescrutáveis”, “inexploráveis”, “incom-
preensíveis”, “inexauríveis”, “ ilimitáveis”, “imperscrutáveis” e “ incalcu-
láveis”. Talvez “insondáveis”, da ERAB seja a tradução mais simples, pois
o que está certo sobre a s riquezas que C risto tem e dá é que n un ca chega-
remos ao fim delas.
Indiretam ente, nestes últimos versí culos, o ap ósto lo indic a dois dos
incen tivos mais fortes à evangel ização. C om eça enf atiza ndo que a rev e-
lação e a comissã o qu e lhe foram dadas permanecem indi ssol uvelmente
juntas, pois o que lhe foi revelado deve sem falta tornarse conhecido de
outros. A verdade reve lada lhe foi comission ada. Foilhe dad a pa ra ser re-
partida, não para ser monopolizada. Se os homens não conseguem guar-
dar pa ra si suas descobertas científic as, devemos gu ard ar pa ra nós as re-
velações divi nas? P aulo
própria mensagem. passou,
Estavam então, como
convicto, a enf atizar
tambémo con teúdo valioso
precisamos estar,dade
que Cristo nu nca empobrece aquel es que colocam nele a sua confiança
mas, sim, sempre os enriquece incomensuravelmente. Aqui, pois, estava
a dupla obrigação que Paulo sentia: a primeira era compartilhar a ver-
dade de Deus ; e a segunda, co m pa rtilh ar as riquezas de Cristo . O que é
necessá rio hoje, por tanto , pa ra a recuperação d o zelo evangelístico na igre-
ja é a mesma convicção apostólica a respeito do evangelho. Uma vez que
tenha mos a certeza de que o evan gelho é tan to a verdade da p arte de Deu s
quan to riquezas para a hum anidade, ninguém consegui rá si lenciarnos.
b. Manifestando o mistério a todos os homens (v. 9)
A segun da par te ou eta pa do min istério privilegiado de Paulo é expressa
nestes termos: man ifestar qua l seja a dispens ação (plano) do mistério, des
de os séculos o culto em Deus, que criou to das as c oisas. O ver sículo 9 não
é uma repetição do versículo 8. Há três diferenças relevantes.
Em primeiro lugar, a pregação do evangelho agora é definida, não
como euangelizõ (“anu ncia r boas novas”) mas, sim, como phõtizõ (“ilu-
mina r”). Paulo já em pregara e sse verbo em 1:18. Agora o pensam ento m u-
da do co nteúd o d a mensagem (boas no vas) para a condição daqueles aos
84
ef ési o s 3:113

quais é pro clam ada (nas trevas da ignorância). O próp rio Jesus tinh a ca-
racterizad o a com issão de Paulo nestes termos, pois lh e disse que o esta-
va envian do aos gentios “p ara lhes abr ir os olhos e c onvert êlos das tre-
vas pa ra a luz, e da p otes tade de S atanás p ara De us”.13Pau lo n un ca se es-
queceu di sso. Sua pró pria conversão na estrada de Dam asco resultara do

brilho não mapenas


form e sua aneir aexterno
de expremas também
ssálo interno,“Pde
mais tarde: orqintensa
ue Deusluzque
nodis
céu.se:Con-
De
trevas resplandecerá luz —, ele mesmo resplandeceu em nossos cora-
ções” 14Realmente, phõtismos é a pa lavra q ue ali em prega pa ra descrever
a iluminação envolvida na sua convers ão. N ós m esmos devemos sempre
nos lembrar, n a evangelização, de que o príncip e das tre vas mantém os ho -
mens e as mulheres nas tre vas, e que som ente pela ilum inaçã o divina é que
os olhos serão abe rtos p ara ver. N ossa respon sabilidade é ser fié is em di-
vulgar o evangelho, visto ser este o meio que Deus ordenou para trazer
a luz aqueles que estão nas trevas.
Uma segunda diferença entre os versículos 8 e 9 achase na descri-
ção que P aulo d á da sua mensagem. No vers ículo 8 cham aa de as inson-
dáveis riquezas de Cristo ; no versículo 9 ch am aa de a dispensa ção (pla-
no) do misté rio. Estas nã o são apenas expres sões dife rente s p ara a mes-
ma coisa; mais uma vez, indicam uma mudança de ênfase. Poderíamos
dizer que as insondáveis riquezas de Cristo repres entam o mais am plo dos
dois conceitos. Abrang em o remédio de Cristo pa ra as duas ali enações gen-
tias
tério(de Deus e de em
concentrase Israel) e, porum
apenas tanato,dasa duas
totalidreconc
ad e dailiações.
su a salvação. mis
O que
E verdade
o mistério é o mistério d e Crist o; centralizase em Cristo. Mas o que de-
clara acerc a de Cristo é que através de le e nele jud eu s e gentios estão in-
corporado s em igualda de nu ma única comunid ade. Permitamme ress altar
a diferença com m ais nitidez da seguinte maneira : segundo o versículo 8,
a mensagem de Paulo era Cristo; no versículo 9, era a igreja.
A terce ira difer ença en tre os versículos 8 e 9 é que Paulo dirige o seu
min istério no ve rsículo an teri or aos gentios e, nest e últim o, a todos (a dis-
tinção é clara som ente na E RC e na BL H). Era necessário escrever assim,
porque o mistério envolvia tanto judeus como gentios. Era uma mensa-
gem de m út ua reconciliação e de particip ação co nju nta na nova socieda-
de de Deus, que tamb ém era a nov a hum anid ade que e le estava criando.
Talvez seja esta a razão po r que n o versícul o 9 Pau lo desc reve Deus com o
sendo aquele qu e criou t oda s as coisas. Aquele que criou o univers o ago -
ra com eçou u ma nova cri ação, e um dia a com pletará. Na verdade, o mis
tério inclui a grande prom essa de q ue finalmen te Deus unirá todas as coisas
em Crist o e debaixo de Cris to. 15D essa form a, no versícul o 9 Pa ulo ju n-
13 A t 26 :171 8. ,4 2 C o 4 :6 . 15 1:910.

85
O PRIVILÉGIO SEM IGUAL DE PAULO

ta a criação e a redenção . O Deus que criou tod as as coisas no p rincípio


criará todas as coisas de novo no fim.

c. Torn ando conhecida a sabedori a de Deus para os pod eres cósm icos (v.
10)

A pers pecti va do ap óstolo alarga se mai s ainda. Diznos q ue, e mbora o


evangelho seja endereçado prim ária e diretamente aos seres hum anos, traz
indire tamente um a mensa gem tam bém aos anjos , aos principados e p o
testades nos lugares celestiais. O que ele quer dizer?
O primeiro resultado a ser esperado da pregação das insond áveis ri
quezas de Cristo e do mistéri o seria o nasc imento e o crescimento da igrej a.
Os gentios e os jud eus ace itariam o evangelho, seriam convertidos, e s e
achariam junto s como m embros da família d e Deus e do corpo de Cris-
to.
nãoDe fato,
esta isto já hav
va tecendo ia aconteci
teorias. do, qu an
O mistério nãodoe Pau lo aestava
ra um escrevendo.
abstraçã o. E stavaEle
as-
sumindo um a for ma concreta diante dos olhos das pess oas. E neste novo
fenômeno, nesta no va hum anida de m ulti racial, a sabed oria de Deus e s-
tava sendo dem onstrada . Certame nte o fato de a igrej a ter vindo a existir
como um a co munid ade de pess oas salv as e reconciliadas é , de um a só vez,
um a dem onstração do poder, da graça e da sab edo ria d e Deus : primeiro,
da po der osa força de Deus pa ra ressuscitar,1 6depois, d a sua graça e bon-
dad e incomensuráv eis,17e agora, em terce iro lugar, d a sua multiforme sa
bedoria. A palavra “multiforme” (polupoikilos ) literalmente significa
“multicolo rido”, e era usa da p ara descrever flores, coroas, tecidos bor dad os
e tapetes trançados. A palavra mais simples poikilos foi usada na LXX
para a “túnica adornada” (BJ), um tipo de m anta ricamente ornam enta-
da que Jacó deu para o seu filho mais jovem, José (Gn 37:3, 23, 32). A
igreja, como um a com unidad e multi racial e multicultural é como um a
bela tapeçaria. Seus mem bros vêm de um a vasta gama de situações sin-
gulares. Ne nhu ma outr a comu nidad e hu m ana se assemelha a ela. Sua di-
versi
a comdade
unhãe osua h ar m on ia são
m ulticolorida d asem
igrejigu
a é al.
umÉaaref
nova sociedade
lexão da sabeddeoria
Deumulti
s. E
colorida (ou “m ultiesplendorosa” , usan do a palavra de Franci s Tho m p-
son) de Deus.
Assim, pois, e nq uan to o evange lho se esp alha em todas as par tes do
mun do, esta nova com unid ade cristã de cor es variad as des envolvese. É
como a encenação de um grande drama. A história é o teatr o, o mundo
é o palco, e os membro s d a igreja e m todos os países são os ator es. O pr ó-
prio Deus escreveu a peça e a dirige e a produz. Ato após ato, cena após
cena, a histór ia conti nua a desdo brarse. Mas quem está no auditório ? São
16 1:19 — 2:6. 17 2:7.

86
efésios 3:1-13

as inteligências cósmicas, os princip ad os e pote stades nos lugares celes


tiais. Devemos pen sar neles com o sendo os espectador es do d ram a da sal-
vação. P or iss o, “a história da igreja cristã fica sendo um a escola supe-
rio r pa ra os an jo s”. 18
Nosso conhecim ento desses seres espirituais é limitado, e devemos
tom ar cuidanadoespeculação
não caindo para não irmos além
ociosa. daqu
Fica claro,ilonoque a s Escri
entanto, queturas
elesensi
não nam,
são oniscientes. O apóstolo Pedro nos conta que não entendiam plena-
mente o ensino dos profetas do Antigo Testamento nem dos profetas do
Novo Testamento no que diz respeito às boas novas da salvação em Cris-
to, pois estas são “c oisas que anjos an elam per scr uta r”.19De m odo seme-
lhante, podemos inferir do versículo 10 que Deus não tinha revelado di-
retam ente a el es o seu plano mestre par a a igre ja, mas, sim, pr etend ia que
eles viessem a co nhecêlo precisam ente pela igreja, à medida em que est a
com eçav a a existir e a crescer. É através d a velha cria ção (o universo ) que
Deus rev ela a sua glór ia aos ser es hum ano s; é atravé s da nov a criaç ão (a
igreja) que revela a sua s abed oria aos anjos. Parece legítimo dizer que , em -
bora nós não possam os vêlos, eles podem nos ver. Olham fascinados ao
verem gentios e judeus sendo incor porad os na nova soci edade como iguais.
Ademai s, aprendem da comp osição da igrej a não soment e a multif orm e
sabed oria de Deu s (v. 10) com o também o seu etern o propó sito (v. 11). Este
propósito, ele o estabeleceu em Cristo Jesus nosso Senhor, no palco da
História, mediante
pregação a sua morte
do evangelho, e ressurreição,igreja.
e a emergência'da o dom Porque
do seu Espírito, a Je
é em Cristo
sus nosso Senh or mediante a f é nele que t odos nós, sejamos judeus ou gen-
tios, tem os ou sadia e acesso com confiança (v. 12). Este aces so un iversal
de to do o povo cristão a Deus at ravés de Cristo é aquilo que os refo rm a-
dores do século XVI chamavam de “o sacerdócio universal de todos os
crentes”; é um privilégio fundamental de todos os que estão em Cristo,
ou sej a, da igreja, a co munid ade univ ersal de jude us e gentio s, ac erca da
qual Paulo acabara de escrever.
Não acho que posso deixar estes versículos, especialmente o versículo
10, sem pelo menos men ciona r um a interpre tação bem d iferente que es-
tá ganh an do po pularidade. C onsist e em entender os principados epotes
tades com o sendo, não inteligências cósmicas (i . é, anjos e dem ônios) mas,
sim, estrutu ras políticoeconômicas da sociedade hum ana. Reservarei um a
exposição detalhada e crítica deste conceito quando estivermos com os
principados e potestades em 6 : 12, mas não p osso deixar passa r sem dar
lhes algum a atenção aqui . Sua imp ortân cia pode ser medida pela decla-
ração de G. B. Caird sobre o versículo 10: “Dificilmente seria um exage-
18 M ac ka y, pág . 84. 19 1 Pe 1:1 01 2.

87
O PRIVILÉGIO SEM IGUAL DE PAULO

ro diz er que qua lqu er interp retaçã o de Efési os fica firm e ou cai pelo se u
trata men to deste versículo!’ Ele acredita que o p rop ósito de Deus é usar
a igreja não somente para informar “as potestades” mas, sim, até mes-
mo redimi-las, vist o que “até mesmo tais estruturas de poder e au tor ida -
de como o estado secular são capazes d e serem trazidas para a ha rm on ia
com o amor de Deu s”.20Mark us Bart h desenvolve este conceito de grand e
alcance da influência “cósmica” da igreja:
“As forças políticas e sociai s, cu lturais e religiosas , bem com o to das
as demais instituições, tradições, ma iorias e min orias, estão exposta s ao
testemunho dela.” Ditaduras e democracias, organismos que promovem
o racismo e os direitos civis, etc., etc., “todos estes, e outros poderes, re-
cebem um a o po rtun idad e sem i gual da parte de Deus : rece bem o privilé-
gio de ver no m eio deles o com eço de novos céus e nov a te rra”.21Está se

referindo
ralment e, ao papel hesita
sintome da igreja condiform
nte em e éarindic
scord ado no vers
de estudioso ículo
s deste 10. Nmas
c alibre atu -,
tendo apreciado a questão com cuida do, sinto me obrigado a m e pron un -
ciar sobre a questão: não creio que Pau lo est ivesse se referindo a est ru tu -
ras soc iais na terr a ao escrever sobre o s prin cipa dos e potestad es nos lu -
gares celestiais, nem que, seja qual for a identidade deles, quisesse que a
ma nifestação da m ultiform e sabed oria de Deus a e les fosse entendida co-
mo um a atividade redentora (ao in vés de uma atividade inf ormativa). M as
não falarei mais sobre o tópico aqui.
Fazendo um retr ospecto da exposi ção feit a por Paulo acerca do p ri-
vilégio espe cial que lhe fora da do pela graç a de Deu s, p ara ser apóstolo
aos gent ios, é op or tu no no tar os di versos meios e fases da com unica ção
de Deus. P rimeiro, to rno u conhecido ao p róp rio Paulo o mistério do se u
plano (e aos demais apóstolos e profetas, v. 5) pela revelação. Depois, co-
missionou Paulo (e outros) a pregar o evangelho a todas as pessoas em
todas as partes do mundo. E em ter ceiro lugar to rn ou conhecida a sua mu l-
tiform e sabedoria e o seu et erno propósito aos principad os e potest ades
através
na, poisdaasigreja em cre
boas nov scimen
as foram to. Este de
passadas é Deus
o círculo
pa radaPaulo,
comdeunica çãoe ou-
Paulo divi-
tros para to da a human idade, e da igrej a na terra de volt a pa ra o cé u, p a-
ra os princ ipad os cósmic os. Em cad a etapa, o meio de comunica ção altera
se. Foi por revelação direta que Deus desvendou o seu plano a Paulo. É
pela proclamação verbal do evangelho que a mensagem se espalha hoje,
e po r um mod elo visu al (a comu nidade cristã multicult ural) que finalmente
chega aos espect adores ange licais que não podem os ver. N ad a é mais ho n-
roso para o ev angelho, nad a indica melhor sua im po rtânc ia suprema, do
que est e progra m a par a sua co mu nicação univ ersal.
20 Caird, págs. 66  67. 21 Barth, Ephesians, /, pág. 365.
efésios 3:113

Conclusão
A principal lição desta prim eira metade de Efésio s 3 é a centralidad e bí-
blica da igreja. Algumas pessoas constroem um cristianismo que consis-
te inteiram ente em um relacionam ento pessoal com Jesus Cristo, e que,
virtual mente, n ad a tem a ve r com a igreja. Ou tros fazem com m á von ta-
de um a ização
a organ concessão
ecleàsiástica
fili ação à igrej
com a, mirrecup
o sendo as acrescentam que éjácom
eráve l. Ora, rejeitaram
preensí-
vel, até mesm o inevitável, que critiquem os m uitas das estrutu ras e tra di -
ções herdad as pela ig reja. Toda igreja, em tod o lu gar e a tod o tempo, pre -
cisa de refor ma e de renovação. Dev emos, no entanto , ter cau tela pa ra não
desprezarmos a igreja de Deus, e pa ra que n ão sejamos ceg os diante d a
sua ação na H istória. P odemos dizer com segurança que Deus não ab an -
donou a s ua igrej a, p or mais insatisfeito com e la que ele talvez esteja. A in-
da a está edificando e refinando. E se Deus não aban dono u, como é que
nós podemo s abando nála? Ela o cupa um lugar central no se u pla no. O
que, pois, esta passagem nos ensina acerca da centralidade bíblica da
igreja?
a. A igreja ocupa lugar central na História
O versículo 11, conforme vimos, alude ao eterno propó sito de Deus. É tam -
bém chamado de seu palno ou o pla no de m istério (v. 9). Somos infor-
mados de que est e é o plano ou pro pó sito de Deus , q ue foi concebido na
eternidade,não
gerações conservado oculto desde
fo i dado a conhecer aos os
filhséculos (v. 9), o (v.
o s dos homens qual5).emEleoutr as
agora
o estabel eceu em Cristo Jesus nosso Senhor, pr imeiram ente at ravés da sua
obra h istórica na salvaçã o e através da sua proclam ação subseqüente no
mundo. Qu al é este propósito eterno que está sendo desen volvido n a H is-
tória, est e plan o divino que pe rten ce tan to à H istória qu anto à eternid a-
de? Diz respe ito à i greja, à criação de um a nova hum anid ade reconcilia-
da em uniã o com Jesus Cristo. Este é o mistério, oculto du rante séculos,
mas agora revelado.
É este o nosso conceito d a História? Todos nós estudam os H istór ia
na esco la, e talvez a tenhamos achado (como eu achei ) que era abo m ina-
velmente enfad onh a. Talvez tivéssemos de deco rar listas de datas dos pre-
sidentes que governaram o país. Q ual, porém, é a razão de ser da H istó -
ria? Será que Henry Ford tinha razão quan do disse: “A história é bo ba -
gem”, duran te o seu proce sso por calúnia contra o jo rn al Chicago Tribu-
nel Será a H istó ria apenas u ma suces são alea tória de ev entos, cad a efei-
to com a su a causa, e cada cau sa com o seu efeito, sem re velar, no co n-
junto, qualquer padrão objetivo, antes parecendo ser mais como um a se-
qüência sem senti do de fat os? M arx tinha razão no seu mod o d ialé tico

89
O PRIVILÉGIO SEM IGUAL DE PAULO

de entender o proces so hist órico ? Ou há o utr a chav e para a História?


Os crist ãos afirm am , em contraste com todos os demais pontos de
vista, qu e a H istó ria é a “h istó ria del e”, a histó ria de Deu s. Deus está ope -
rando, baseado num plano conceb ido na eterni dade , m ediante um dese n-
volvimento e um a reve laçã o históricos, levand oa a um clímax e , depois,
além dela, par
de entender o t aempo.
ou tra Eeternidad e doque
nos conta futuro. A Bíblia
o centro tem es
do p lano te modo
eterno linear
e históri-
co de Deus é Je sus Cristo, jun tam en te com o seu pov o redimido e recon -
ciliado. Par a entend erm os est e fato, tal vez seja útil co ntra star a p erspec-
tiva dos historiadores seculares com a da Bíblia.
A História secular concentra a sua atenção nos reis, nas rainhas, e
nos presidentes, nos políticos e nos generais, enfim, nas celebridades. A
Bíbl ia conce ntrase, pelo contrário, num grupo que cham a de os santos,
freqüentem ente gente pobre, insigni ficante, gente se m im po rtân cia que,
porém, ao mesmo tempo, é o povo de Deus — e p or esta razão são “co-
mo desconhecidos (do mundo), e entretanto bem conhecidos (de
Deus)”.22
A História secular conc entra se nas guer ras, nas batalhas e nos tra -
tados de paz, seguido s aind a po r mais guerr as, batalh as e trata do s de paz.
A Bíblia concentras e, pelo con trário, na gu erra entre o bem e o mal, n a
vitória deci siva ga nh a po r Jesus Cristo sobre os poderes das t revas, no t ra -
tado de paz ratifi cado pelo s eu sangue, e na proclamação soberana de um a
anistia para todos os rebeldes que se arrependem e crêem.
Além di sso, a His tória secul ar concentras e no m apa do m un do que
vai sendo alterado à m edida em que um a nação de rrota o utra e anex a o
seu território, e na ascensão e queda dos impérios. A Bíblia concentra
se, pel o contrário, nu ma comu nidade m ultinaci onal cham ada igreja, que
não tem fronteir as terri toriai s, que reivin dica nad a menos do q ue o m undo
inteiro para Cristo, e cujo império chegará ao fim.
Sem dúvida , p intei de m odo severo demais o contraste en tre os con-
ceitos secular e bíblico da H istó ria. A B íblia nã o deixa desapercebidos o s
grandes impérios da Babilônia, do Egito, da Grécia, e de Roma; e uma
história secular verdadeira não pode desconsiderar a existência da igre-
ja. É, porém, um a questão de perspectiva, de prioridades. O Deus vivo
é o Deus de todas as naç ões do m undo m as, dentro da com unidad e hu -
m ana univer sal existe um a “comun idade da aliança” , a nova socie dade de
Deus, o com eço d a su a nova criação. É a este povo som ente que ele se li-
gou com a e terna promessa: “Eu lhes serei por Deus, e eles serão meu pov o!’
b. A igreja é central pa ra o evangelho
O evange lho que alguns de nós proclam am os é po r demais individu a-
lista. “C risto m orreu p or m im”, dizemos, e passam os a can tar sobre o c éu:
90
efésios 3:113

“Será para mim, glória sem fim!’ As duas afirmações são verdadeiras.
Qu anto à primeira, o própr io ap óstolo P aulo pôd e escrever: “O F ilho de
Deus... me a mou e a si me sm o se entregou po r m im !’23 Qua nto ao assim
cham ado “cântico da g lória” , o evan gelho realmente promete glória pa-
ra os crentes no céu. M as isso está l onge de ser a plen itud e do evange lho.
Fica evidente em Efésios 3 que o evangelho integral diz respeito tanto a
Cris to quanto ao mistério de Cris to. As boa s novas das insondá veis riqu e-
zas pregadas po r Paulo é que Cristo mor reu e ressuscitou não som ente para
salvar pecadores tais como eu (emb ora não ten ha deixado de fazer i sso),
mas também p ara criar um a nova humanidade; não soment e par a nos re -
dimir do pecado mas t am bém p ara nos ado tar n a família de Deus ; não
somente para nos reconci liar com Deus , m as também pa ra nos reconci-
liar uns com o s outros. Po rtanto , a igreja é um a pa rte integrante do evan-
gelho. O evangelho é boas novas de u ma socieda de bem com o de u ma nova
vida.
c. A igreja é central na vida cristã
É digno de n ot a que Pau lo term ina esta seç ão com o a iniciou ( v. 1), a sa -
ber, com um a referência aos seus próprios sofrim entos na causa gentia.
Dirigelhes a seguinte exortação: Portanto vos pe ço que não desf aleçais
nas minha s t ribula ções por vós, po is nisto está a voss a glória (v. 13). Ora,
sofrimento e glória constantem ente estão ligados entre si no Novo Tes ta-
mento. Jesus di sse que en tra ria na su a glória a travé s do sofrimento, e que
seus seguidores teriam de palm ilhar o mesmo caminho. A qui, po rém, Pau-
lo escreve alg um a coisa diferente: os sofrim ento s dele tr arão glóri a a eles
(aos seus leitores gentios). Está sofrendo na prisão em prol deles, como
o camp eão deles, defen dend o firm emen te a inclusão deles na nova socie -
dade de Deus . Ele está tão convicto da srcem divina d a su a visã o que está
disposto a pagar qualquer preço para vêla tornarse realidade. É esta a
medida d a solic itude d e Pau lo p ara com a igreja.

Pode,
nal, era naturalm
o apó ente,gentios.
stolo aos ser argum
Tin entado que Paulo
ha recebid o u m aera umação
revel a exceção.
especi A
alfi-
e
uma comissão especial. Talvez fosse ele e ele só que tivesse de sofrer em
favor da igreja dos gentios . M as não, o princípio é apl icável a tod os os cris-
tãos. Se a igreja é central no prop ósit o de Deus , con for me se percebe tan to
na H istó ria como no evang elho, certamente tamb ém deve ser central pa -
ra as nos sas vi das. Com o pod emos trata r levianamente aquilo que Deus
leva tão a sério? Com o o usamos em pur rar par a a periferia aquilo que Deus
colocou no centro? Não, procuraremos tornarnos membros responsáveis
da igreja, ativo s em algum a manifestação local d a igreja univers al. Não
23 G1 2:20.
91
O PRIVILÉGIO SEM IGUAL DE PAULO

poderem os aquiescer com padrões inferiores, muito aquém dos ideais do


Novo Testamento para a nova sociedade de Deus, seja em se tratando de
cultos de adoração mecânicos e sem sentido, seja numa comunhão tor-
na da fria como gel o e até mesmo estragada po r riva lida des que fazem da
Ceia do Senhor um a fars a, ou num isol amento tal que transform a a igr e-
ja num gueto
Paulo), invisível
conserv ao mundo
amos diante de nósexterno sofredor.
a visão da novaSe,
socipelo contrário
edade de Deus(como
co-
mo sendo sua famíli a, sua hab itação e seu instrum ento no m undo, então
const antemente p rocura remos to rn ar mais autêntica a adoração n a nos-
sa igreja, mais solícita a com un hão e mais compassiva a sua extensão para
com os de for a. N outr as palavras (com o Paulo, também ), devemo s estar
pronto s a orar, a trabalhar e, se necessário, a sofrer, a fim de transform ar
esta visão numa realidade.
92
3:14-21
6.Confiança no poder de Deus
Por es ta ca usa m e po nh o de joe lho s diante do Pai, 15de qu em tom a o n o
me toda fam ília, tanto n o céu com o sobre a t erra, i6para que , se gun do a
riqueza da sua gl ória, vos conceda qu e sejais forta lecidos com poder, me
diante o seu Espírito no ho mem interior; 11e assim ha bite Cristo no s vos
sos cora ções, pe la fé , estan do vós arraigado s e alice rçados em amor, 18a
fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e a
altura, e a profu nd idad e, l9e conhece r o am or de Cristo que excede todo
entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.
20Ora, aquele que é pode roso para fa ze r infinitamen te mais do que tudo
quanto pedim os, ou pensam os, conform e o seu po de r que op era em nós,
21a ele seja a glór ia, na igreja e em Cristo Jesus, p o r todas as gerações, p a
ra todo o sempre. Amém.

Um a das
bições do melhores maneirasode
crente é analisar descobrirdeassuasprincipais
conteúdo orações eansiedades e am
a intensidade -
com
que as faz. Todos nós ora mos acerca do q ue nos pre ocu pa e, evidentemente,
não nos impo rtam os com assuntos que não incluímos em nossas or ações.
A ora ção expres sa um desejo. P or exe mplo, qu and o Paulo o rou p ela sal-
vação dos se us co m patr iotas israeli tas, es creveu sobre a “b oa v ontade do
meu coração e a m inh a súplica a Deus a f avor de les”.1Co nfo rm e bem ex-
pressa certo hino: “A oração é o desejo sincero da alma, falado ou não
expressado!’
Certamente, é assim a segunda ora ção de P aulo em Efés ios, ond e abre
a sua alm a diante de Deus . Estava expl icando tanto a obr a de Cristo em
fazer a paz, que resultou na criação de um a nova s ociedade, qu an to seu
envolvimento pessoal nela, p or causa d a revela ção e da com issão esp eciais
que rec ebera. A gora, volta se da exposiç ão pa ra a inte rcessão. Ora par a
que o plan o m aravilhoso de Deus, que es tava explicando, seja ain da mais
plenamente cumprido na experiência dos seus leitores. A oração e a pre-
gação se mpre caminha m juntas. Assi m como Jesus regou com oração as
boas sementes do ensino que semeara no Cenáculo,2 assim também Pau-
1 Rm 10:1. 2 Jo 1317.
93
CONFIANÇA NO PODER DE DEUS

lo completa o seu ensino com uma oração sincera e, registrandoa,


capacitan os a escutálo aind a hoje . C on for me expr essa o Rev. H andley
Moule: “Q uem n ão leu e releu os versículos finais do terceiro cap ítulo ao s
Efési os sem s entirse com o tend o licença de olhar, po r co rtinas abertas,
ao Santo dos Santos da vida cristã?”3
1. A introdução à sua oração (vs. 14-16a)
O apóstolo com eça dizendo Por esta causa. .., retom ando o fio do pensa-
mento que deixara no versícul o 1. Qu e cau sa “tem em mente? O q ue é que
o leva a orar? Decerto é tan to a obra reconciliadora de Cristo q uan to a
sua pró pr ia com preensão dela median te rev elação es pecial. E stas são as
convicções que sustentam a su a oração. Sendo este o caso , da í emerge um
princípio im portante. A base da oração de P aulo era o seu conhecim ento
do prop ósito de De us. El e tin ha a m otivação necessá ria pa ra o rar em fun -
ção do q ue Deus fizera em C risto e lhe reve lara. O p relú dio indispensável
a toda petição é a revelação da vontade de Deus. Não temos autoridade
alguma para orarmos por qualquer coisa que Deus não revelou ser sua
vontade. É p or isso que a leitura da Bíblia e a oraç ão devem cam inha r sem-
pre juntas. É nas Escrituras que Deus revelou a sua vontade, e é na ora-
ção qu e pedim os que el e a realiz e.4
Paulo continua: ...me po nh o de joelhos. A posiç ão normal para ora-
ção entre os jud eus era coloc ase em p é. N a p ará bo la de Jesus acerca do
fariseu e do publicano, os dois homens oraram em pé (Lc 18:11, 13).
Ajoelhar se, po rtant o, era incomum . Indic ava um grau excepcional de sin-
ceridade, como quando Esdras, contrito, confessou os pecados de Israel,
qua nd o Jesus caiu d e rost o no chão no Jar dim de Gets êmani, e quando
Estevão enfrentou o m artírio .5As Escrituras nã o defi nem regra alguma
a respe ito da posição que dev emos ado tar qu an do oramos. É possível orar
ajoelhad o, em pé, senta do, a nd and o, e até mesm o deitado, em bora ta lvez
nos disponham os a concordar com Wil liam H endriksen que “um a posi-
ção desleixada do corpo, quando se ora, é uma abominação diante do
Senhor”.6
M e ponho de joelhos diante do Pai. O apósto lo já cham ara Deu s de
nosso Pai e do Senh or Jesus Crist o e, portan to, p orq ue estamos em Cr is-
to, chamao de nosso Pai, de quem fluem todas as bênçãos.7Já declarou,
também , que os judeu s e os gent ios são junta m ente m embros da famíli a
do Pai, que des frutam de igual ac esso a ele pela oraç ão.8Aqui c ontinua
a afirmar que deste Pai, diante de quem se ajoelha em reverente humil-
3 Moule, Veni Creator, pág. 228. 4 Ver, P. ex., Jo 15:7 e 1 Jo 5:14.
5 Ed 9:5 ss.; Mt 26:39; Lc 22:41; At 7:59, 60.
6 Hendriksen, pág. 166. 7 1:23. 8 2:1819.
94
efésios 3:1421

dade, e de quem toma o nom e toda família, tanto no c éu com o sobre a


terra. E sta, pelo men os, é a traduç ão d a ERAB e pasa patria pode ser apro
priamente traduzida por toda f am ília. Há, porém, alguma coisa pouco
ap ro pr iad a nesta refe rênci a a um a variedade de famíli as, vis to que o te-
ma dominante destes capítulos é que, através de Cristo, aquele “um só
Deus e Pai de
igualmente os tod os ” (4:6)
crentes judeustem um a sóParece
e gentios. famíliamelhor,
ou casa portanto,
, à qual pertencem
tradu-
zir pasa patria por “to da a família” (ERC) no sentido de “tod a a famíli a
dos crentes”. En tão , o acréscimo de tanto n o céu com o sobre a te rra indi-
ca que a igreja militante sobre a terra e a igreja triunfa nte no céu, em bo-
ra sejam separadas pela morte, mesmo assim são apenas duas partes da
única grande família de Deus.
Ao mesmo tempo, há um deliberado jogo de palavras na frase gre-
ga, visto que “pai” é pater e “família” é patria. Em conseqüência, alguns
tradutore s p rocu raram conservar a assonância verba l com a frase “o Pa i
de quem tom a o nom e tod a paternidade.. !’ Os comen taristas indicam que
a palavra patria nã o signif ica norm alm ente “patern idade” mas, si m, “fa -
mília”. Mesmo assim, é um a fa mília que provém do mesm o pai, e fica as-
sim subenten dido o concei to da paternida de, e “a idéia abs trata de pater
nidade parece predominante aqui”.9É possível, portanto, que Paulo es-
teja di zendo não somente que a família cristã re cebe o seu nom e do Pai,
mas, sim, que a pró pria noçã o de paternidade é deri vada da patern idade
de Deus. Neste c aso, o verdadeiro relacionam ento entre a pa tern ida de h u-
mana e a paternidad e divina nem é d e analogia (“ Deus é um pai como os
pais humanos”), nem é de projeção (a teoria de Freud de que inventamos
Deus po rq ue precisávamos d a figu ra de um pai celesti al), mas, sim, é de
derivação (sendo que a pa tern ida de de Deus é a realidade arquetípica, “a
fonte de to da a pate rnid ade da qual se possa conc eber” ). 10
A este Pai, Paulo ora que ele dê aos leitores alguns dons segundo a
riqueza d a sua glória. Tanto riqueza quanto glória são palavras caracte-
rísticas desta carta, e aqui, com o em 1:1 8, estão em com binação. Paulo
não tem dúv ida algum a, nem de que Deus tem recursos i nesgotáveis à sua
disposi ção, nem de que com eles pod e atend er a su a oraçã o.
2. O conteúdo da sua oração (vs. 16b -19)
Gosto de pens ar na petiç ão do apó stolo com o sendo um a escadaria pel a
qual ele sobe cada vez mais aspirando pelos seus leitores. Sua escadaria
de oraç ão tem qu atr o degraus, cujas pala vraschaves são “força”, “am or”,
“compreen são” e “plen itude”. Mais exatamente, or a inicialmente p ara que
sejam fortalecidos pela inclusão de Cristo ne les m edian te o Espírito; a se-
9 F. F. Bruce em Simpson , pág. 78. 10 Arm itage Robin son , pág. 84.

95
CONFIANÇA NO PODER DE DEUS

guir, qu e sejam arraig ado s e ali cerçados em amor, em terceiro lugar, que
conheçam o amor de Cristo em todas as suas dimensões, embora esteja
além do conhecim ento; e , finalmente, que sejam tomados de tod a a ple-
nitude de Deus.

a. F ortalec idos com po de r


A oração começa: para que... vos conceda quesejais fortalecidos com p o
der, media nte o seu Espírito no ho mem interior; e assim habite Cristo nos
vossos cora ções, pe la f é (vs. 1 617a). Estas du as petições cla ram ente c a-
minham jun tas. As duas se referem ao p onto mais íntimo do crist ão, seu
hom em interior de um lado, e seu coração do outr o. Depois, em bora um a
das petições especifique o po der do Espírito e outra a habitação de Cris
to na pessoa, as du as dece rto se referem à me sma experiência. A ssim é que
Paulo n un ca faz distinção en tre a segunda e a terce ira pessoa d a Trind a-
de. Ter Cristo e o Espírito h ab itan do em nós é a mesm a coisa. De fato,
é precisamente median te o E spírito qu e C risto h abita em nosso c oração, 11
e o que e le nos dá qu an do ha bit a em nós é poder. Além disso, a experiên-
cia de Cristo em vós fazi a parte do mistério e, portan to, do privilégio dos
gen tios cren tes. 12
Alguns ficam perplexos com esta primeira petição, quando se lem-
bram que Paulo está orando em favor de cristãos. “Decerto”, dizem, “Cris-
to habite me diante o seu Esp írito em tod o crente. C omo, pois, Pau lo p o-
de pedir aqui que Cristo habite nos seus corações? Cristo já não estava
den tro deles?” A estas pergu ntas respondem os, de início, qu e realmente
cada cristão é habitad o pelo Espírito Santo e é templo do Espírito San-
to. 13Mesmo assim, conf orm e Charles Ho dge com enta com razão: “A h a-
bitação de Cristo na pessoa é questão de intensidade!’14Assim também
é o fortalecimento no interior m ediante o Espírito San to. O que Paulo pede
em favor de se us le itores é que sejam “fortalecidos, apoiad os, revigora-
do s”, 13pa ra que possam “rece ber aquela iluminação interior do E spíri-

to” (CIN), edesta


der divino, s e apropriem semprenacom
habitação divina m aior firmeza, pela fé, deste po -
pessoa.
O que con firm a que est e é o signif icado que Paulo tinh a em mente
é a escolha da pa lavra par a a idéia de habitação de Cristo no cora ção. H á
dois verbos semelhantes em Grego, paroikeõ e Katoikeõ. O primeiro é o
mais fraco . Sign ifica “h ab ita r (um luga r) com o estrang eiro” (AG) , viver,
realmen te, como u m paroikos, a mesma palavra que Paulo usou em 2:19
para um peregrino que está m orando longe de sua casa. Katoikeõ, por ou-
tro lado, significa estabelecerse em algum lugar. Referese a uma habi-
11 Ver Jo 14:1618 e Rm 8:9 11. 12 Cl 1:27.
13 Rm 8:9 , 10; 1 Co 6:19. 14 Hodge, pág. 186. 15 F. F. Bruce em Sim pson, pág. 78.

96
efésios 3:1421

tação perm anente em c ontras te com um a temporária, e é usado tanto para


a plenitude da D ivinda de hab itand o em C risto16qu anto par a a plenitu-
de de Cristo ha bit an do no co raçã o d o crente (aqui n o v. 17). O Rev.
Han dley M oule concl ui: “A palav ra que foi escolhida ( . Katoikein )... é um a
palavra que expressamente denota a residência em contraste com o alo -
jamento, a habitação do dono da casa no seu próprio lar em contraste com
o viajante que sai do caminho para pernoitar em algum lugar, e que no
dia seguint e já terá ido embora!’ Além dis so, é “sempre no coração do cren-
te que o M estre e Sen hor reside e , on de ele habi ta, tem de rein ar; e ele en-
tra não somente para animar e consolar, mas, acima de tudo, para rei-
nar”. 17Por isso, Pa ulo ora ao Pai qu e Cristo, pelo seu Espírito, se estabe -
leça nos corações deles e, a partir do trono ali colocado, os controle, os
fort aleça . Pela qu arta vez na carta ficamo s impressi onados com a estru-

tura trinita rian a natu ral do pensam ento do apó stolo. 18


b. A rraiga dos e ali cerçados em am or
Se tivéssemo s a op ortu nid ade de pergun tar a P aulo p or que orava para
que Cristo controlasse e fortalecesse seus leitores, creio que ele respon-
deria que desejava que e les se fortalecessem pa ra amar. É que n a h um a-
nidad e nova e reconciliada que Cristo está criando, o am or é a virtude mais
importante. A nova hum anid ade é a família de De us, cujos membros são
irmãos e irmãs que amam o seu Pai e que se amam uns aos outros. Ou,
pelo menos, deveriam se amar. Precisam da força do poder do Espírito
e da habitação de Cristo par a capaci tál os a am ar uns aos outros, p rinci-
palm ente atravessando o profundo abismo racial e cultural que anterior-
mente os separava.
Para expre ssar quão fundamentalm ente Paulo anseia que o am or de-
les seja, ju nta duas metáforas (um a botânica, ou tra arquitetônica), am -
bas enfatizando a profundidade em contraste com a superficialidade. Estes
cristão s devem ser arraigado s e alicerçados , ou ter “raízes e alicerces pr o-

fundepois,
e, do s” (BLH).
a um a Ass
casa im,
bemPaulo osada.
edific compara a uma
Nos dois árvore
casos, a cau bem arraig ada
sa invisível da
estabilidade é a mesma: o amor. O am or há de ser o sol o em que a vida
deles deve rá ser plan tada ; o am or h á de ser o fun dam ento em que a vida
deles será edificada. Po deríam os dizer que o am or deles deve ser na p rá -
tic a de naturez a tanto radical como fu ndamental, pois estas pala vras em
português se referem a nossas raízes e aos nossos fundamentos.
16 CI 2:9.
17 Moule, Veni Creator, págs. 235 e 240. 18 Cf. 1:3, 17 e2:1 8.

97
CONFIANÇA NO PODER DE DEUS

c. Conhecer o am or de Cris to
Observamos que o apóstolo agora passa do no sso am or (em que de vemos
ser arraig ado s e alicerçados ) pa ra o a mor de Cristo (e ele ora no sentido
de que conheçamos esse amor). Ademais, Paulo reconhece que precisa-
mos de força e pode r, força pa ra am ar e pod er par a compreender o am or
de Cristo. Certamente, estas duas coisas não podem ser separadas, e é
am and o que em parte ficamos sabendo o signifi cado do am or de Cri sto.
Paulo o ra que poss amos compreender o am or de Cristo em suas pl e-
nas dimensões — qu al é a largura , e o com prime nto, e a altura, e a pro
fundidade desse amor. C om entaristas mo derno s nos advert em que não
sejamos dem asiadam ente literais em nossa interpretação, visto que o após-
tolo tal vez s e tenh a entregu e a um pouco de ret órica ou à hipérbole poé -
tica. A mim, porém, parece legítimo dizer que o amor de Cristo é sufi-
cientemente
mente os judeuslargo
e ospara abranger
gentios, a total
o tema destesidade d a hum
capítulos), anidade (especial-
suficientemente
comprido pa ra d urar p or to da a eternidade, sufic ientemente profundo para
alcançar o p ecado r mais degradado, e sufici entemente alto para leválo
ao céu. Ou, con form e a expres são d e Leslie Mitton, ach and o um par ale-
lo com Ro manos 8:3739: “O nde quer que s e vá, pa ra a frent e ou para
trás, subindo até às alturas ou descendo às profundezas, nada nos sepa-
rará do am or de Cristo. ” 19C om entaristas an tigos fo ram ain da m ais lo n-
ge. Viram estas dim ensões ilustr ada s n a cruz. A estac a vertical avançava
para dentro da terra e apontava p ara o céu, e o travessão sustinha os bra-
ços de Jesus, esticados como que para convidar o mundo inteiro e dar
lhe as boasvindas. A rmitag e Ro binso n cham a isto de “ fan tasia bo nita”.20
Talvez ele ten ha razão: é fantasioso; m esmo assim, o que af irm a sobre o
amor de Cristo é verdade.
Pa ulo acresce nta: teremos o pod er de com preend er es tas dimensõe s
do am or de Cristo somente com todos os santos . O crist ão isolado certa-
mente pod e conhecer algo do a mor de Jesus. Su a compreensão desse amor,
no entanto, daforçosamente
Precisase estará
totalidad e do povoli d emitada po r sua
Deus para exper aiênc
entender ia limitada.
totalidad e do
amor de Deus, todos os santos jun tos, jude us e gentios, homens e mulheres,
jovens e velhos, pretos e brancos, com toda sua diversidade e experiências.
Mesmo assim, emb ora com a nossa men te, possamos compreender
as dimensõ es do am or de Deus at é cer to ponto, n ão o podemos conhecer
em nossa experi ência. É po r demais lar go, comp rido, pro fun do e alto até
mesmo par a todo s os santos ent enderem. Excede tod o entendiment o. Pau-
lo já u sa ra esta idéia de “su prem o”, “que ex cede”, no que diz respeito ao
poder21 e à graça22 de Deus. Agora a em prega com respeito ao amor de
19 M itto n, pág . 134 . 20 A rm ita ge R ob in so n, pá g. 176. 21 1:19. 22 2: 7.

98
efésios 3:1421

Deus. O amor de Cristo é tão inescrutável quanto suas riquezas são in
sondáveis (v. 8). Sem dúvida passaremos a eternidade explorando as ri-
quezas inesgotr veis da graça e do amor de Cristo.
d. E nchidos d e toda a plen itude de Deus
Plenitude é um a palavra caracte rística de Efésio s, assim com o de C olo s-
senses. E m Coloss enses , P aulo nos diz que a pl enitud e de Deus h ab ita em
Cristo, mas que , em Cristo, nós tam bém chegamos à plen itud e.23Ao m es-
mo tempo, deixa claro em Efésios que ainda temos espaço para crescer
mais. C om o indiv íduo s, devemos con tin uar a nos enche r do Es pír ito ,24 e
a igreja, em bora já seja a plen itud e de Cristo ,25a ind a deve crescer nele até
atingir a plenitud e de Cristo.2 6 O “cresci mento na plenitude”, po rtan to,
é o tema d a q ua rta e últim a petição que Pau lo faz po r seus leitores da Ásia
Menor.
bem Elecomo
certo ora que sejam
este tomado
genitivo s deentendido.
deve ser toda a plenitude de Deu as.plenitu-
Se é objetivo, Não é
de de Deus é a abun dâ nc ia de graça que ele outo rga. Se é subjetivo , é a
plenitude que enche o próprio Deus; noutras palavras, a sua perfeição. Por
estonteante que seja o pensamento, a ú ltima alternativa parec e ser mais
provável, porque a preposição grega é eis, que indica que devemos ser
cheios não com a plenitude de Deus mas sim até ela, a plenitu de o u per-
feição d e Deus sendo o pad rão ou o nív el até o qual oram os pa ra sermos
enchidos. A aspiração é a mesma, em pri ncípio, daq uela que é sub enten -
dida nos m andam entos para sermos sant os como Deus é santo , e perfei-
tos com o é perfeito noss o P ai celes te.27
Sem elhante oração d ecerto de ve antever o nosso estado final de per-
feição quando, juntam ente, entrarm os na plenitud e do propó sito de De us
para nós, e ficarmos cheios até o limite, cheios até aquela plenitude de Deus
que os s eres hu mano s são capazes de receber sem d eixar em de pe rm an e-
cer hum anos . Outr a ma neira de express ar esta pe rspectiva é que seremos
com o C risto, que é o pro prósi to e a prom essa de D eus, 28 pois o pró pr io
Cristoé édiazer
dade plenitud e de remos
que a tingi De us.aAplenitude
ind a ou tra
do m aneirdoa de equal
amor, xpres sar esta
Paulo a cabver-
a-
ra de fal ar na sua oraç ão. E ntão será cum prida a oração do pró prio Je-
sus: “... a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles
esteja”.29
Ao dizermos que esta últim a petição de Pa ulo indica a perfeição ce-
lestial, nã o temos liberdade alguma pa ra evitar o desaf io que ela traz pa -
ra o momento presente. Deus, pois, espera que estejamos crescendo em
23 Cl. 1:19; 2:910. 24 5:18.
25 1:23 . 26 4:1316.
27 1 Pe 1:1516; Mt 5:48 . 28 Rm 8:29; 1 Jo 3:2. 29 Jo 17:26.

99
CONFIANÇA NO PODER DE DEUS

direção àquela plenitude final, enquanto estamos sendo transformados


pelo Espírito Santo segundo a imagem de Cristo, de um grau de glória para
outro.30
Agora, ao olharmos p ara trás e para ba ixo, vendo a escadaria que s u-
bimos com Paulo, não podem os deixar de ficar im pressionados com a sua
audá
sençacia.
domEle orateque
inan de os se o,
Crist usoleitor
a proesfund
receam
bam a força
ento do E vida
das suas spírito
s noe aamor,
pre-
o conhecimento do am or de Cristo em todas as suas dimensõe s, e a ple-
nitude do pró prio Deus . São pet ições ousadas . Quem sobe po r esta e sca-
da fica um pou co ofega nte, até mesmo um pou co tonto. M as Paulo não
deixa em suspense.
3. A conclusão da sua oração (vs. 20-21)
Notamos agora que as quatro petições do apósto lo estão encaixadas en-
tre duas referências a Deus. N os versíc ulos 1416, Deus é o Pai d a fam ília
inteira, e po ssu i infi nit as riq uez as em glória ; n os versículos 2 0 e 21, Deus
é aquele que opera poderosam ente dentro de nó s. U m Deus assim pode
responder às orações.
A capacidade pa ra respond er às or ações é declarada pelo apóstolo
de mo do dinâm ico n um a expressã o com posta, com sete etapas . (1) Ele é
poderoso para fazer ou para operar ( poiêsai ), pois ele não está ocioso, nem
inativo, nem m orto. (2) Ele é pod eros o p ara fazer o que pedim os, pois es-
cuta a o ração epois
ou pensamos, a responde. (3) Ele
l ê os nossos penésame
pod eros
ntos;o pàsaravezes
fazerimaginam
o que pediosmos
co i-
sas que não ousam os pe dir e en tão d eixamos de pedi las. (4) Ele é po de-
roso para faze r tudo qu anto pedimos ou pensamos, porque sabe d e tudo
e tudo pode realizar. (5) Ele é poderoso para fazer mais do que (hyper,
“além”) tudo quanto pedimos, ou pensamos, pois suas expectativas são
mais altas do que as nos sas. (6) Ele é pod eroso p ar a fazer m uito mais, ou
ma is abu ndan tem ente (per issõs ), do que t udo quan to pedi mos ou pen-
samos , p orque a su a graça não é dad a po r m edidas racionadas. (7) Ele é
poderoso para fazer muitíssimo mais, infinitamente mais, do que tudo
qua nto pedim os ou pensamos, pois é um Deus de superabundância. Es-
te advérbio hyperekperissou é um dos “su persupe rlativos” 31 cunh ados
por Paulo. Equivalentes que têm sido propostos são “muito mais abun-
dantem ente” (ERC) ou “vastam ente mais do que m ais”, 32 mas talvez o
sent ido sej a melhor transmitido mesmo po r infinitamente mais (ERAB).
Simplesmente que não há limites àquilo que Deus pode fazer.
A capa cidade infin ita de Deus de opera r além das nossas o rações, dos
nossos pensamen tos e dos nossos sonhos é conform e o seu po de r que opera
3Ü2 Co 3:18. 31 Bruce, pág. 70 . 32 Sim pson, pág. 84.

100
efésios 3 : 1 4 2 1

em nós, em nós indi vidualmente (sen do que C risto habita em nossos co-
rações pela fé) e em nós como povo (o lugar da habitação de Deus me-
diante o seu Espírito). É o poder da ressurreição, o poder que ressusci-
tou C risto den tre os mo rtos, que o entro nizo u nos lugares celestiais, e que
depois nos ressuscitou e nos entronizou ali com ele. É este o poder que
opera no cristão e na igreja.
A o ração de Paulo est á ligada com o cump rimen to da sua vis ão da
nova sociedade de Deus, a do amor. Pede que s eus mem bros sejam fo rta -
lecidos para am ar e pa ra conhecer o am or de Cristo, em bora est e exceda
todo entendimento. Mas, então, voltase do amor de Deus que ultrapas-
sa o conhe cimento pa ra o po der de De us que ultrap assa a imaginação, do
am or ilimitado p ara o pode r ilimitado. Está, pois, conven cido as sim co-
mo nós devemos ficar convenc idos , de que som ente o po de r divino pode

gerarAcresc
o amorenta
divino na algum
r mais sociedade divina.
a coisa não seria aprop riado, a não ser a do
xologia. A ele seja a glória, exclama Paulo, a este Deus com poder para
ressuscitar, ao Ú nico que po de fazer com que o sonh o se torn e realidade .
O po de r vem d a pa rte dele; a g lória deve ser da da a ele. A ele seja a gló -
ria, na igreja e em Cristo Jesus, no corpo e na cabeça , na comunidade
da paz e no Pacificador, por todas as gerações (na H istória) , para todo
o sempre (na eternidade), A m ém .
III. Novos padrões
Efésios 4:1-5:21

4:1-16
7. Unidade e diversidade na igreja
Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de m odo digno
a vocaçã o a que fo stes chamados, 2com ioda hu milda de e mansidão, co m
longan imidade, sup ortand o-vos un s aos outros em a mor,3esforçando- vos
diligent emente p o r preser var a unidade do Espírito no vínculo da paz:
4H á somen te um cor po e um Esp írito, com o também fo stes chamados
nu ma só esperan ça da vossa vo cação; 5há u m s ó Senho r, um a só fé, um
só batismo; 6um s ó De us e Pai de tod os, o qu al é sobre todos , age por
meio de todos e est á em to dos.1E a graça fo i conc edida a ca da um de nós
segun do a prop orçã o do do m de Cri sto. 8Por isso diz:

“Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro, e concedeu


dons aos homens.”

9Ora, que q uer dizer subiu, senão q ue t am bém havia desci do a té às re


giões i nferiores da terra? 10Aqu ele qu e desceu é també m o me sm o que su
biu acima de to dos os céus, para en cher todas as coisas. nE ele mesm o
concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evange
listas, e outros para pastore s e mestres, n com vistas a o aperfeiçoa men to
do s santos para o dese mp enho do seu se rviço, para a edificação do cor
po de Cristo, n até que todos cheguemos à unidade da f é e do pleno co
nhe cim ento do Filho de De us, à perfeita varonilidad e, à medida da esta
tura da ple nitu de de Cristo, Hpara qu e não m ais sejamos c om o meninos ,
agitados de u m lado para out ro, e levados ao redor por todo vento de d ou
trina, pel a artiman ha do s homens, pela astúci a com que indu zem ao er
ro. l5Mas, se gu ind o a verdade em amor, cresçamos em tu do naqu ele que
é o cabeça, Cristo, 16de qu em todo o corpo, b em a justa do e conso lidado,
pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efe
tua o seu próp rio aum ento para a ed ificação de s i mesm o em amor.

102
efési o s 4:1-16

Nesses três capítulos Paulo desenvolveu para seus leitores o desenrolar do


propósito eterno de Deus na História. Através de Jesus Cristo, que mor-
reu pelos pecadores e que foi ressuscitado dentre os mortos, Deus está
criando alguma coisa inteiramente nova, não apenas uma vida nova pa-
ra os indivíduos mas, sim, uma nova sociedade. Paulo vê uma humani-
dade
unida,alienada sen do
até mesmo umareconc
nova iliada, uma h sendo
humanidade um anidad e frag
criada. mentada
É uma visãosend o
magnífica.
Ago ra, o ap ósto lo avança da no va soci edade para os novo s padrões
nos qua is ela deve andar. Voltase da exposição pa ra a exortação, da qu i-
lo que Deus tem feito (no indicativo) para aquilo que nós devemos ser e
fazer (no imperativo), da doutrina para o dever, “da credenda... para a
agenda ”,1da teologia intelectualizada para as suas implicações terrestres,
práticas e concretas, no viver de todos os dias.
Pau lo começa dizendo: Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor...
Ele os ens ino u e oro u po r eles (1:1523 e 3:1419). A gora , dirigelhes um
apelo solen e. A instrução, a intercessão e a exortação constit uem um trio
formidável de armas no arsenal de q ualqu er m estre cris tão. Além disso,
Paulo não era nenhum m estre comum. Ele empreg a o pronom e pess oal
enfático, o egõ da auto rida de ap ostólic a consciente, como em 3:1. E, mais
uma vez, descrevese como sendo o prisioneiro no Senhor , usando uma
co nstr uç ão gram atical leveme nte diferente, mas com o mesm o dup lo sen-
tido : é nã
Cristo, tanto um ente
o som prisioneir o deo Crist
vinculad o comcorrentes
a ele pelas o um prisionei
do amroorpcom
or amo taorma-
bém detido por causa da sua lealdade ao evangelho. Assim, a autoridade
de um dos apóstolos, e a convicção apaixonada de um homem sob pri-
são dom iciliar por cau sa da sua visã o de um a igreja unida, c onjun tam ente
sustentam a sua exort ação. Rogo-vos, escreve, que an deis de mo do digno
da voca ção a qu e fo ste s chamados .
A dignidade d a vida cristã s ó pode se r determinada pela nature za da
ch am ad a divina. Co mo é esta “dignidade” ? A nova socieda de que Deu s
está cham an do à existên cia tem duas caracter ísticas principais. Prim eiro
é um só pov o, co mposto igualmente de judeus e gentios, a única família
de Deus. Em segundo lugar, é um povo santo, distinto do mundo secu-
lar, separado (como Israel nos dias do Antigo Testamento) para perten-
cer a Deus. P ortan to, visto que os que sã o de Deus são cham ado s pa ra ser
um só povo, dev em man ifestar a sua união , e porque são cha mado s pa ra
ser um povo santo, devem manife star a sua pur eza. A uni ão e a pureza são
dois aspec tos fundam entais de um a vida di gna do cham amento divino da
igreja. O apóstolo trata da união da igreja nos vesículos 116, e da pure-
1 Simpson, pág. 8 7.

103
UNIDADE E DIVERSIDADE NA IGREJA

za da igreja de 4:17 até 5:21.


Dur ante esta s últim as décadas m uita coisa tem sido dita e escrita acer-
ca da união da igr eja. A p reocupação mo derna com e la remonta ao in-
fluente “ Ap elo a To das as Pe ssoas Crist ãs”, pub licado pela C onferência
de Lambeth de Bispos Anglicanos, em 1920, presidida por Randall Da
vidson, Arcebispo de Cantuária. Depois disso, o movimento em prol da
reunião ganhou impulso, sendo que duas notáveis marcas neste sentido
foram a ina ugu ração d a Igreja da ín dia do Sul, em 1947, e o Concilio M un -
dial de Igrejas, em 1948. Desde então, mais algumas igrejas unidas che-
garam a existir, ao passo que outros planos para a união naufragaram.
Presentemente, podese dizer que o movimento está em declínio.
É muito importante, então, olhar com novos olhos Efésios 4:116,
visto que est a é um a das du as passagens neo testam entár ias clás sicas so-
bre a questão da união cristã (a outra é João 17). Deve ser um forte estí-
mulo p ara fazer nos ocu par com a uniã o cristã, e também um corr etivo
sadio para um certo número de noções erradas sobre ela.
Paulo elabora qu atro verda des quan to ao tipo de unid ade que Deus
pretende para a sua nova sociedade. Podem ser declaradas nas quatro pro-
posições seguintes:

1. Depende da caridade do nosso caráter e a nossa conduta (v. 2)


2. Surge da unidade do nosso Deus (vs. 36)
3. É enriquecida pela diversidade dos nossos dons (vs. 712)
4. Exige a maturidade do nosso crescimento (vs. 1316)

Será observad o que a caridade, a unidade, a diversidade e a m at ur i-


dade parecem ser os conceitoschaves desta seção.
1. A unidade cristã depende da caridade da nossa conduta (v. 2)
Paulo imediatamente retrata a vida digna do nosso chamamento como

sendo caracterizada
gaminidade, po rmú
a tolerância cincotua
qualidades:
e o amor .aJáhumildad e, a mansidão,
o rou a Deus a lonar
pa ra sermos
raigados e alicerçados em amor (3:17); ago ra ap ela a nós no sentido de
vivermos um a vida de a mor. É aq ui que el e começa, e tam bém é aqui que
nós de vemos começar . H á pessoas em dem asia que começam com as es-
tru tur as (e estrutu ras de algum tipo são ind ispe nsáveis), m as o apóstolo
começa c om q ualidades morais. Certa mente, na busca d a unidad e cri s-
tã, se é que tem os de escolher, devemos dizer qu e o que é moral é mais im-
portante do que aquilo que é estrutural.
A humildade era mu ito desprezada no m und o antig o. Os gr egos nu n-
ca empregavam a palavra “humildade” ( tapeinotês ) num contexto de apro-
vação , m uito m enos de admiração. Pelo con trário, expressavam com ela
104
efésios 4:1-16

uma atitude abjeta, servil, subserviente, “a submissão bajulante de um es-


cravo”.2Foi só na vinda de Jesus C risto que se reconheceu um a h um ilda -
de verdadeira. Ele, pois, humilhouse a si mesmo. E somente ele, dentre
os mestres religios os e ético s, co loco u dian te de nós, p ar a nosso m odelo,
uma criancinha.
Além disso, a palavra que Paulo emprega aqui é tapeinophrosynê ,
que significa “h um ildade d a mente” , o reconhecimen to da dign idade e do
valor de outra s pessoas, a men talidad e hum ilde que havia em Cristo, que
o levou a esvaziarse a si mesmo e tornarse um servo.3
Ora, a hum ildade é essencial à unidade. O orgulh o fica espreitando
por detrás de toda discórdia, ao passo que o m aio r segredo individual da
concó rdia é a humildade. É fácil com provar isto pela exper iência. As p es-
soas de quem gostamos im ediata e i nstint ivamente, e com qu em tem os fa-
cilidade de c onviver, são aquelas qu e nos trata m com o respeit o que ju l-
gamos merec er, ao p asso que as pessoas com as quais instintiv am ente an
tipatizam os são as que nos trata m como li xo. N outr as palavra s, a vaida-
de pessoal é um fatorchave em todo s os nossos relacionam entos. Se, p o-
rém, ao invés de faze r tud o p ara obter o respeit o dos ou tros (que é org u-
lho), nós lhe s dermo s nosso respeit o ao reconhecerm os seu valor in trín -
seco dado po r Deus (o que é atitu de de humildad e), estaremos promov endo
a har m on ia n a socied ade de De us.
A man sidão (praõtê s ) era calorosamen te ap lau did a po r Arist óteles .
Porqu e odiava os extr emos e amava o “comprom isso idea l”, via na praõtês
a qualidade d a moderação, “o meioter mo en tre ser irado demais e nu n-
ca ficar irado de m odo algum” .4 A palavra t ambém era usada par a a ni-
mais domesticados. Assim, mansidão não é sinônimo de fraqueza', pelo
contrário, é a suavidade dos fortes, cuja força está s ob cont role. É a q ua -
lidade de um a perso nalidade for te que é, mesmo assim, senh ora de si mes-
ma e se rva de outras pessoa s. A meiguic e é “a ausência d a disposição p a-
ra ass everar direi tos pessoai s, seja n a presença de Deus, seja na dos ho -
mens” .5É espec ialmente apropria do em pastor es que tam bém devem usa r
a sua autoridade somente num espírito de mansidão.6
Humildade e mansidão formam um par natural. É que “ o homem
manso pen sa bem pou co nas suas reivi ndicaç ões pe ssoais, assim co mo o
hom em hu milde pensa bem pouco nos se us méritos pessoais”. 7 Essas
duas virtudes foram achadas juntas em perfei to equilí brio no caráter do
Senhor Jesus que se descreveu como sendo “manso e humilde de
coração”.8
23 Fp
F. F. Bruce
2:38, em Simpson,
sendo pág.substantivo
que o mesmo 88, nota. é empregado no versículo 3.
4 Barclay, pág. 162. 5 Find lay, pág. 265. 6 1 Co 4:21; 2 Tm 2:25.
7 Dale, pág. 215. 8 Mt 11:29 (praõs ... Kai tapeinos)-, Cf. 2 Co 10:1.

105
UNIDADE E DIVERSI DADE NA IGREJA

A ter ceira e qu arta qualidades ta mbém forma m u m p ar natural, pois


a longani midade (makrothym ia ) é agüentar com paciência pessoas pro-
vocant es, tal com o em C risto D eus nos cons ider ou ,9 ao passo que supor-
tanto u ns aos outr os fala daquela m útua tolerância se m a qual nenhum
gru po de se res hum anos pod e conv iver em paz. O amor é a qualidad e fi-
nal, que abrange os quatro anteriores, e é a coroa e a soma de todas as
virtu des. Visto que am ar é proc urar de mo do construtiv o o bemestar dos
outros e o bem da comunidade, suas propriedad es são celeb radas em Co -
lossenses 3:14.
Aqui, pois, temos cinco pedras fundamentais da unidade cristã.
Quan do estas es tão aus entes, ne nh um a estru tura externa de unid ade per-
manece . U ma vez lan çad a esta sólida ba se, há, então, ba stan te esperança
de que um a unid ade visível possa ser edifi cada. Podem os ter certeza de
que nenhuma unidade agrada a Deus se não é fruto da caridade.
2. A unidade cristã surge da unidade do nosso Deus (vs. 3-6)
Até mesmo o leitor casual dos ver sículos 36 (que alguns consideram co-
mo parte de um hino cristão ou de um credo para catecúmenos),
impressionas e com o nú mero de ve zes que P aulo usa a palavra “um ”; ela
ocorre, realmente , sete vezes. U ma leit ura mais mi nunci osa revela que três
destas se te unid ades fazem alusã o às tr ês pessoas da Trindade (um Espi
rito, v. 4; um só Senhor , v. 5, i. é, o Senhor Jesus; e um só Deu s e Pai de
todos, v. 6), ao pa sso que as ou tras qu atro dizem respei to à nos sa expe -
riência cristã com relação às três pe ssoas da Trindade. Es ta verdade pode
ser expressa com três afirmações simples.
Primeiro, há som ente um corpo po rque há somente um Espírito (v.
4). Este único c orp o é a igrej a, o co rpo de Cristo (1:23) , que é com posto
por crentes judeus e gentios; e a sua unidade ou coesão é devida ao único
Espírito Santo que habita nele e que o anima. Conforme Paulo escreve
nou tro lugar: “Pois, em um só Espíri to, todos n ós fomos batizado s em
um
nós co
foirpo,
dad qu
o bereber
jud de
eus,umquesór Espír
gregos, quer
ito!’1 es cravos,
0Logo, q uer
a n ossa livres. Ecoa todo
possessão mu ms
de um só Espírito Santo é que nos integra num só corpo.
Em segundo l ugar, há um a só esperança que pertence à nossa voca-
ção cristã (v. 4), uma só fé, um só batis mo (v. 5) po rq ue h á um só Senho r.
O Sen hor Jesus Cristo, pois, é o único objeto d a fé, da esperanç a e do b a-
tismo de todos os cristãos. É em Jesus Cristo que temos crido, é em Je-
sus Cristo que fo mo s bat iza do s, 11e é Jesus C risto que esperam os volt ar,
com viva esperança.
9 P. ex. Rm 2:4; 1 Tm 1:16.
10 1 Co 12:13. 11 P . ex. 1 Co 1:13; G 13: 27 .

106
EFÉSIOS 4 :1  1 6

Em terceiro luga r, há u ma só família cris tã, que abrang e a todos (v.


6), porque há um só Deu s e Pai... o q ual é sobre todos, age p or m eio de
todo s e está em todos. Alguns manuscritos dizem “em todos vós”, o que
esclarece que os “todos” dos quais Deus é Pai são “todos os cristãos”, e
não “todas as pessoas” sem discriminação, nem “todas as coisas” (o uni-
verso). Armitage
“um a glosa Robinson chama
tím ida”.12Talvez seja; este acréscimo
e certam ente ada
m palavra “vós”
aio ria esm agade
dora d a
evid ência dos ma nuscrito s a omite. M esmo assi m, é um a glosa c orreta.
Porque o s “to do s” sobre, p or m eio de e em quem Deus é Pai, são sua fa-
mília o u casa, seus filhos red im ido s.13
Ago ra estamos em condições de repetir as trê s afirma ções, desta v ez
na ordem correta, em que as p essoas da Trindade normalm ente são men-
cionadas. Primeiro, o único Pai cria a única família. Em segundo luga r,
o único Se nhor Jesus cria a única fé , a ú nica esperança e o único b ati s-
mo. Em terceiro lugar, o único Espírito cria o único corpo.
Podemos, na realidade, ir além. Devemos afirmar que só pode ha-
ver um a ún ica família cristã, um a só fé, um a só esperança e um só ba tis-
mo cristãos, e um só corp o crist ão, porqu e há um só Pa i, Filho e Espírito
Santo. Multiplicar a i grej a é tão absurdo com o m ultipli car Deu s. H á um
só Deus? Então, ele tem uma só igreja. A unidade de Deus é inviolável?
Então, assim também é a unidade d a igr eja. A unida de d a igrej a é tão in-
dest rutí vel quan to a unidade do p róprio Deus. Dividir a ig reja é tão ab-
surdoAocomo dividir
declarar Deus. ass im de forma tão aber ta e dogm ática (con-
o assunto
forme fez o próprio apóstolo Paulo), não me é difícil imaginar o que o
leitor está pensando. E stará me dize ndo alg o como: “Está mu ito bem d e-
clarar que não po dem os dividir a igreja; mas a verdade é que tivemos enor-
me sucesso fazendo exatamente isso que você diz que não podemos fa-
zer!” Como, pois, o fenômeno evidente da quebra da unidade da igreja
pode ser reconciliado com a insistência bíblica da indestrutibilidade da
sua unidade?
A esta altura, deve ser feita uma d istinção necessária. N ão é apenas
entre a igreja “visível” e a “invisível”. Aquela distinção é verídica, mas
o conceito de igreja invisível (cujos mem bros são conhecidos somente po r
Deus ) tem sid o usado de forma abusiv a por alguns como desculpa para
escolher a não p artic ipa ção responsável na igreja visível. Po rtanto , a dis-
tinção deve ser um pouco refinada. É entre a unidad e da igreja como rea-
lidade invisível, presente à mente de Deus (que diz a si mesmo: “Tenho
um a só igreja”), e a desun ião com o aparên cia vi sível que contra diz a rea-
lidade (que nos lev a a dizer a nós mes mos: “H á centenas de igr ejas sepa-
12 A rm itag e Ro bin so n, pá g. 93. 13 Cf . 1:2, 17; 2:1 81 9; 3:1 41 5.

107
UNIDADE E DIVERSIDADE NA IGREJA

radas, em com pe tiçã o entre si”) . Somos um , pois é Deus quem assim diz,
e nas convenções e nos congress os interdeno minacio nais sentimo s a nos -
sa uniã o su bjac ent e em Crist o. M esmo assim, ex terna e visivi lmente per-
tencemos a igrejas diferentes e a tradições diferente s, algu mas das quais
nem seq uer estão em com unhão umas com as outr as, ao passo que ou -
tras seO próp
desg arraram
rio apóstopalorareconhe
longe doce cristi anismo
est a com bíblico.
binação paradoxal de união
e desunião. N esta m esm a passagem, em que a un ião indestrutível da igreja
é tão enfaticam ente declarada, a poss ibilidade da desun ião é tamb ém re-
conhecida. Co nsidere mos o ve rsículo 3, que por ora havíamo s deixado à
parte, e que nos exorta assim: esfor çando-vos diligentemente p o r pre ser
var a unidade do E spírit o n o vínc ulo da paz. Esta é um a exort ação mui-
to estranha. Em princípio Paulo des creve a união da igrej a como sendo
“a unidad e do Esp írito” (o que signi fica um a unidade que o Espírito S anto
cria), e depois argu menta que esta unidade é tão indestr utível qua nto o
próprio Deus. No mesmo contexto, porém, nos diz também que devemos
man têla! O qu e ele estaria qu erend o dize r? Q ue sentido faz conclam ar
nos a ma nter u m a coisa indest rutível , dizendo que cabe a nós mantêla
sendo es sa “a unid ade do E spírito” , que e le mesmo crio u, sendo, p orta n-
to, de se esperar que Deus é que deve ser pessoalmente responsável por
sua preservaçã o?
Parece haver um a só resposta possí vel a e stas perguntas, a saber: pre
servar a uni da de da igr eja deve significa r preserv ála vi sivelmen te. Aqu i
temos uma exortação apostólica no sentido de preservarmos em verda-
deiros relacionamentos concre tos de am or {no vínculo da paz , ou seja, pela
paz que nos reúne uns com os outros) aquela unidade que Deus criou e
que nem os hom ens nem os demônio s podem destruir . Devemos demo ns-
trar ao m und o que a unid ade que dizemos ex istir de modo indest rutí vel
nã o é a piad a um po uco triste que parece s er, mas, sim, um a realidade v er-
dadeira e gloriosa.
Talvez a analogia de um a fam ília hu m an a nos ajud e a compreender
mais claramente a nossa responsabilidade. Imaginaremos um casal, Sr.
e Sra. J oão da Silva, com seus três filhos , Tomé, R icard o e Ari. São um a
só famí lia; não há d úvida algum a qu anto a is so. O casamen to e a pater-
nid ade os uniram . N o decurso do tempo, porém , a família Si lva se desin-
tegra. O pai e a mãe brigam entre s i, sustentam u m a trégua inquieta por
alguns anos, tor nam se cad a vez mais distantes, e finalm ente se divorciam.
Os três moços tam bém b rigam , prim eiro com seus pais, e depois , uns com
os outros, e se separam. Tomé vai mo rar em Perna mb uco, Ricard o no Rio
Gran de do Sul e Ari, em R ond ônia. N ão se enco ntram , nem se escrevem,
nem se telefonam. Perdem to do o co nta to entre s i. Além disso, estão tão
resol utos no senti do de s e repudiarem uns aos outros, que chegam a m u-
108
efésios 4:1-16

da r seus nomes em cartório. Seria difícil im agin ar u ma fam ília que e xpe-
rim entou u m a desintegração mais desastrosa do que es ta? Todo s os rela-
cionamentos mútuos foram cortados.
Agora, im aginan do que fôsse mos primos d a família Silva, como rea-
giríamos? Daríamos de ombro, sorrindo com complacência, e murmu-
raríavocê
lia, mos:sabe?”
“Ah, bTeríamos
em, não imp
toda orta, aindAos
a razão. a con tinuam
olhos send calculo
de Deus, o um a só
quefamí-
aind a são um a só famíli a, indestr utivelmente. O Sr. e a Sra. J oã o da Sil-
va aind a são m arid o e mulher , e aind a são pais dos seus três fil hos, que
continuam sendo irmãos. N ad a mes mo, poi s, pode alterar a unid ade da
família que as circunst âncias do casam ento e do nascim ento impu seram
sobre ela. Aquiesceríamos, no entanto, com uma situação desta? Procu-
raríamo s desculpar ou subestimar a tragédia da sua desuni ão, ap elando
para a indestrutibilidade dos seus laços familiares? Não, tal coisa não sa-
tisfaria nem a nossa ment e, nem o nosso coração, nem a n ossa consciên-
cia. O que faríamo s, pois? Decerto , deveríamos procur ar se r pacific ado -
res. In staría mos com ele s no sentido de “preservar a unidad e da fam ília
no vínculo da pa z”, ou seja, d em onstrar a unid ade da sua família po r meio
do arrependimento e da reconciliação de uns com os outros.
Exatam ente da mesma maneira, o fato da unidad e indestr utível da
igreja não é desculpa al gum a pa ra concordar com a tragédia da sua de-
sunião atual. Pelo contrário, o apóstolo nos fala: esforçando-vos diligen
temente po r preservar a unidade do Espírito. O verbo grego para “esforçar
se” (spoudazontes ) é enfático. Significa que não devemos poupar esfor-
ço algum, e po r isso cabe bem a palavra ad icional “diligentemente” . Por
contr aste, a traduç ão da ERC, “proc urando gu ard ar”, ou da B J “p rocu -
ran do c onse rvar”, é fraca. Antes, sendo um pa rticíp io do pre sente, é um a
cham ada p ara a atividade con tínua e di ligente. M arkus B arth expre ssa o
sentido de mo do vivi do: “Dificilmente s e pod e traduz ir com exatidão a
urgência contida no verbo grego subjacente. Não somente pressa e pai-
xão, com o tamb ém u m esfor ço total do homem integral está em mira, en-
volvendo a su a vontade, o seu sentimento, a sua razão, a sua força física ,
e a sua atitu de total. O m odo imperati vo do particípio qu e se acha n o texto
grego e xclui a passividade, o quietismo, u ma atitu de de ‘vamos ve r com o
fica ’, ou um a diligência tem per ada por u ma veloci dade be m deliberada.
A inic iativ a é sua! Façao agora! Seja sincero! Você deve fazêlo! Estou
sen do sério! E sta s são as im plicaç ões do versículo 3 .” 14
Onde, me pergunto, esta dili gência em prol da u nidade po de ser acha -
da entre os cristãos eva ngélicos, atualmente? Trata se de um m and am en -
to apo stólico que, em gran de medida, somos culpad os de nã o considerar!
14 Barth, pág. 428.

109
UNIDADE E DIVERSIDADE NA IGREJA

Observem os prim eiro a igreja local, pois presumese que é a ela que
Pau lo se refere em primeiro lug ar. Algum as com unidades cristãs são m a-
culadas por rivalidades entre indivíduos ou grupos, agravadas durante
muitos anos. C om o podem os desculpar tais coisas? Devemos ser diligentes
em prol do amor, da un idade e da paz, e mais ati vos em procurá los.
Efési os, porém, conform e já vimos, pod e ter si do um a car ta cir cu-
lar d irigida a vár ias igrejas. Ta lvez até mesmo n a p ró pr ia cidad e de Éfeso
muitos cristãos se reuniam em vários diferentes laresigrejas. Sabemos, por
exemplo, que Á qüila e Priscila tinh am um a igr eja no seu lar q uan do m o-
rava m em Rom a (Rm 16:3 5), e proval mente tam bém qu and o se m ud a-
ram p ara Éfeso (At 18 :26). Então Paulo pode ter tido em mente a unida -
de entre as igrejas bem com o dentro delas. Sendo assi m, a sua pre oc up a-
ção se ap lica ria aos relacionam entos inteieclesi ásticos de hoje. Este não

épregados
o lugar para
paraentrar em detalhes
os vários tipos desobre os termos
relacionam técnicos
entos que são
existentes em-
entre as igre-
jas, tais quais a “comunhão aberta”, a “intercomunhão”, a “plena comu-
nhã o” e a “un ião orgânica” . H á lugar pa ra difere nças d e con vicção entr e
nós quanto à exata forma ou formas segundo as quais Deus deseja que
a unid ade cristã seja e xpre ssa. Todo s nós, porém , devemos desejar alg u-
ma expres são visível da un idad e cristã, tend o sempre em vista não sacri-
ficar verd ades c rist ãs fund am entais a fim de alcançá la. A unidad e cris-
tã tem a sua srcem em possuirmos um só Pai, um só Salvador, e um só
Espírit o que hab ita em nós. Nã o podemos, portanto, de modo algum, aca-
lentar um a unida de agr adável a De us se negarmo s a dou trin a da Trinda-
de ou se não tivermos chegado a conhecer Deus Pai através da obra re
concilado ra do seu Fil ho Jesus C risto e pelo poder do Espírito Santo. A
unidade cristã autên tica na verd ade, na vida e no a m or é muito mais im-
portante do que planos para “fusões” de um tipo estrutural, embora ideal-
mente as última s devam ser um a expre ssão visível da prim eira.
3. A unidade cristã é enriquecida pela diversidade dos nossos dons
(vs.7-12)
O co ntra ste en tre os versícul os 6 e 7 é notável. O versíc ulo 6 m os tra Deus
como Pai de nós todos, que está sobr e todos, age por meio de todos e es-
tá em todos. O versí culo 7, poré m, com eça: E a graça fo i concedida a ca
da um de nós... Desta maneira, Paulo passa de “todos nós” para “cada
um de nós” e, assim, da unidade para a diversidade da igreja.
Ele est á, na realidade, qua lificand o o que ac aba de escrever sobre a
unidade d a igreja. Em bora ha ja um só cor po, um a só f é e um a só fam í-
lia, esta un idad e não dev e ser interpreta da erroneam ente como sendo um a
un iform idad e sem vida e sem cor. N ão de vemo s imag inar que cada cris-
tão seja um a réplica exa ta de todo s os demais, com o se tivé ssemos sido
110
efésios 4:116

produzidos em m assa nalguma fábrica celestial. Pelo contrário, a u nid a-


de da igreja, longe de ser en fad on ha e m on óto na, é em ocionan te na sua
diversidade. Não é somente devido a nossas diferentes culturas, tempe-
ramentos e personalidades (as qu ais, em bora sejam re ais, n ão são aqu i con -
side radas por P aulo mas, sim, po r causa dos difer entes dons que C risto
distr ibui para o 7enriquecimento
O versículo de nossa
referese à graça de Cristovida e m comum.
em conceder vários do ns. Em -
bora Paulo não empregue aqui o termo charismata para “dons” (como
o faz em Rm 12:6 e em 1 Co 12:4), obvia mente é a eles que se refere. “G ra-
ça”, pois, é charis, e “dons” são charismata. A lém di sso, é muito im por -
tante entender a diferença entre os termos. A “graça salvadora”, a graça
que salva os pecadores, é da da p ara todos quanto s crêem; 15mas a que p o-
deria se r cha mada de “a graça p ara o serviço ”, a graça que equ ipa o povo
de Deus para servir, é dada em diferentes níveis segundo a proporção d o
dom de Cristo (v. 7). A unidade da igreja devese à charis, sendo que a
graça de Deus nos reconciliou consigo mesmo; mas a diversidade da igreja
devese aos charismata, aos dons de Deus distribuídos aos membros da
igreja.
É, naturalmente, desta palavra charismata que deriva o adjetivo “ca-
rismático”. O assim cham ado “movim ento carism ático”, em bora provo-
que controvérsias por algumas de suas ênfases peculiares, tem sido usa-
do, sem dúvida alguma, por Deus par a trazer a ren ovação espiritua l a mui-
tas igrejas
gistr e a muitos
ar um protest cr istãos,
o bíbli pessoalmente.
co co ntra a designaçãM oesmo assim, odevemos
“m oviment re-
ca rismáti-
co”, quer seus próp rios ad eptos a tenham escolhid o, que r a tenh am rece-
bido por parte de outras pessoas. “Carismático” não é um termo que possa
ser corr etamente apl icado a um determinado gru po ou movimento den-
tro d a igrej a, visto q ue, de acord o com o Novo Testament o, t oda a igreja
é um a com unidade carism ática. É o corp o de Cristo, e cada um de seus
membros tem um dom ( charisma ) para exercer ou uma função para
cumprir.
O que, então, este pa rágrafo nos ensin a sobre o s charismata ou dons
espirituais? Ensina nos sobre o seu doador, o seu caráter e o seu propósito.
a. O doador dos don s espirituais é o Cristo que ascendeu aos céus (v s. 7-10)
Conforme o versículo 7, cada dom é um dom de Cristo, e esta verdade é
reforçada no versículo segui nte po r um a citação do Salmo 68:18: Quan
do ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro, e concedeu dons aos
homens.
O salmo 68 é um apelo a D eus pa ra vir em soco rro d o seu povo, p a-
15 Ver 2:5 , 8: “ Pela graça sois sa lvo s.”

111
UNIDADE E DIVERSIDADE NA IGREJA

ra defendêlo novamente como no passado. Tal como Deus avançou em


triunfo à frente do seu povo depois do êxodo (v. 7), fazendo o Monte Si-
nai tremer (v. 8) e os reis serem espalhados (vs. 1114). Depois, desejan-
do o Monte Sião como sua habitação (v. 16), subiu até ele levando cati-
vos no seu séqüito. Tratase de linguagem figurada muito vivida. Parece
que
Iavéapara
transfe rência
a sua da arca a Sião é assemelhada à m arch a triun fan te de
capital.
Paulo aplica este qua dro à ascens ão de Cri sto, n ão arbitrariam ente
porque detectou uma vaga analogia entre as duas, mas, sim, de m odo jus-
tificáv el, pois via na exaltação de J esus mais um cum prim en to d esta des-
crição do triu nfo de De us. Cristo sub iu como vencedor pa ra a m ão direi -
ta de De us, sendo que seu séqüito de cativos con sistia nos princ ipad os e
nas potestades que derrotara, destronizara e desa rm ara .16
Na aplicação do Salmo 68:18 a Cristo, no entanto, há um problema
textual. O salmo diz que Deus subiu ao monte e “recebeu homens por dá -
divas”, ao passo que a citação feita po r Paulo é que C risto “concedeu dons
aos hom ens”. Alguns comentaristas nã o hesitam em dizer que Pau lo al-
terou a l inguagem pa ra servir ao seu propó sito. Po r exempl o, J. H. Houl
den e screve: “N ão há necessidade algum a de supor que a alteração não
tenh a sido um a to deliberado! ’17 Ou tros pensam ter sido “ um a cit ação
inexat a, nã o in tencio nal”.18Co nside rand o o respeito que, segu ndo se sa-
be, Paulo tinha para com as Escrituras, estas duas explicações parecem
a priori, improváveis.
O ponto de partida para uma explicação é ver que a aparente con-
tradição nesses dois textos é apenas formal mas não substancial. As pa-
lavras não p odem ser interpre tada s po r si mesmas, m as no seu contexto .
Devemos lembrarnos d e que dep ois d e um a conquista, no m und o an ti-
go, havia inva riavelmente tanto um recebimento de tribu to q uan to uma
distribuição de dádivas. O que os conquistadores tomavam dos cativos,
doavam p ara o seu pró prio povo. Os despojos eram divididos, a presa era
co mpa rtilh ad a.19Parec e possível que o pró prio texto hebraico subentenda
isso, visto que o verbo pode ser traduzido “trouxe” ao invés de “recebi-
do”, e nã o é sem relevância que d uas versõe s ou trad uç ões antigas, a Ara
maica e a Siríaca, traduze mno como “deu ”. Logo, parece cla ro que esta
já era um a interpretação tradicional.
Mais u m fato interessante de ve ser ressal tado. O costume litúrgico nas
sinagogas associava o Salm o 68 com o Pentecos te, a festa jud aic a que co -
memorava a outorga da lei. O emprego que Paulo fez dele com referên-
cia ao pent ecost e cri stão, portan to, form a um a ana logia no tável. Assi m
16 1:202 2; cf. Cl 2:15. 17 Houlden, pág. 310. 18 P. ex. Mitton, pág. 146.
19 Para exemplos do Antigo Testamento ver Gn 14; Jz5:30; 1Sm 30:2631; SI 68:12 e Is 53:12.

112
efésios 4:1-16

com o Moisés rece beu a lei e a deu a Israel, assim tam bém Cris to recebeu
o Esp írito e o deu ao seu povo a fim de escrever a lei de Deus nos seus co -
rações e, através dos past ore s que no meou (v. 11), ensin arl he a verdade .
Todo este argumento é no sentido de “receber” e “dar” pertencerem in
dissoluvelmente um ao outro, conforme é ilustrado muito bem em Atos
2:33,
Deus,on de Pedro
tendo dissedono
recebido Paidia de Pen tecos
a promessa do te: “Exaltado,
Espírito pois, à destr
Santo, (Jesus) der- a de
ramou isto que vedes e ouvis”. Cristo somente poderia dar o dom que
recebera.
Depois da citação do Salm o 68:1 8, P aulo acrescenta entre par êntese s
que o fato de Cristo ter subido ao céu subentende que tamb ém havi a des
cido até às reg iões inferi ores da terra (v. 9). Por causa do contexto ime-
diato, que diz r espeit o aos dons que C risto deu à igreja após a ascensã o,
G. B. Caird faz ou tra sugestão: q ue sua “descida” fosse sua “volta no P en-
tecoste pa ra d ar o Esp írito à igreja ”.20Mas, po r m ais enge nh osa qu e se-
ja esta idéia, a interpretação natural das palavras sugere que sua descida
antecedeu sua su bida ao inv és de seguila. C ristãos prim itivos entend iam
que se trata va de um a referência à descida de Cristo até o had es.21A sso-
ciava m a expressão com 1 Pedr o 3:19 (“ foi e preg ou aos espírito s em p ri-
são”) , que interpretavam no sentido de e le des poj ar ou “f erir” o inferno.
Mas, seja qual for o s ignificado do text o em 1 Pedro, não h á nen hu ma re-
ferên cia óbvi a ao hades ou in fern o em Efési os 4:9. Calvino (seguido po r
com entarist as da Reforma ta is como Charle s Hodge) argum entou a pa r-
tir da expressão “subiu ao céu” em João 3:13 que “às regiões inferiores
da terra ” é um genitivo de aposição ou definição, que si mplesm ente sig -
nifica “a terra”, e que a descida de Cristo referese à sua encarnação. J.
B. Phillips em CIN entende a expressão da mesma forma, dizendo que
Cristo desceu “ da a ltura do Céu ao abism o deste m un do ”. Talvez, no en-
tanto, a referê ncia sej a ainda m ais ge ral, o u seja , que C risto des ceu pa ra
as profundezas da humilhação quando veio à terra. Ou, possivelmente,
a alusão seja à c ruz, e “à experiência das profun deza s ulter iores , as pró -
prias agonias do inferno”22 que Cristo suportou ali.
Semelhante interpretação se encaixaria muito bem com Filipenses
2:511, on de “e morte de cru z” descreve sua mais pro fu nd a hum ilhação,
que foi seguida por sua suprem a exa ltação, “ acima de tod o principado,
e potestade, e poder, e domínio, e de to do nom e que se possa referir ” c on -
forme Efésios 1:21, e aqui, acima de todo s os céus, para encher todas as
coisas (v. 10), ou “qu e agora subiu acim a dos Céus , p ara q ue todo o un i-
verso, de alto a baixo, pudesse conhecer a sua presença” (CIN). O que P au-
lo tem em mente, portanto, não é tanto a descida e a subida em termos
20 C ai rd , pág s. 7374. 21 A t. 2:25 ss. e Rm 10:7. 22 H en dr ik se n, pá g. 193.

1 13
UNIDADE E DIVERSI DADE NA IGREJA

espaciais mas, sim, a hum ilhaç ão e a exaltação, sen do que esta últim a tro u-
xe a Cris to a auto rida de e o poder unive rsais. Co mo resultado, Cristo o u-
torga à sua igreja, tanto o próprio Espírito para habitar nela quanto os
dons do Espírito para edifi cála ou lev ála à maturidade.
À luz dessa ênfase dada a Cristo, ascendido, exaltado, enchendo o
unive rso,charismata
sar nos regendo a i greja
como, osendo
uto rgaexclusivamente
nd o dons, seria“dons
um e do
rro Espírito”
evide nte epe n-
asso ciá los muito estr eitamente com o E spírito Santo o u com exper iên-
cias do Espírito Santo. Aqui, pois, são os dons de Cristo, ao passo que
em Ro man os 12 são os dons de Deus Pai . Sempre é enga noso sepa rar as
três Pessoas da Trinda de, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Es tão envol -
vidas, juntas, em todos os aspectos do bemestar da igreja.
b. O caráter do s don s espirituais é extrem am ente variado
Pa ulo diz especific am ente em 1 Coríntio s 12:4: “ Ora, os dons são diver-
sos!’ É im port ante lembrar este fato, pois muitas pessoas hoje têm u m con -
ceito muito restrito dos charismatas. Por exemplo, algumas pessoas fa-
lam e escrevem sobre os “nove dons do Espírito”, presumivelmente para
formar um paralelo nítido, porém artificial, com os nove aspectos do fruto
do Esp írito.23Outros parecem estar preocup ados, até mesmo obce cados,
com apenas três dos dons mais espetaculares (línguas, profecia e cura).
Na realidade, porém , as cinco listas dadas no Novo Testamento mencio-
nam, no seu
quais são conjunto,
muito pelo
simples, m aspectos
sem enos vintsensacionalistas
e dons distintos(tais
entrecomo
s i, alguns
“exer-dos
cer misericó rdia”, Rm 12:8). Além disso, cad a lista di verge consideravel-
mente das demais , e dá sua sel eção de dons de for ma aparentem ente alea-
tória. Este fato suge re não apenas que nen hu m a lis ta individual é com -
pleta em si m esma, como também que até mesmo todas as cinco juntas
não represent am o universo de todos os dons. Sem dúvida, há m uitos ou -
tros que não estão listados.
Em nosso tex to, P aulo seleciona apena s cinco par a sere m men ciona-
dos. Cristo (auto s, ele mesm o, é enfático, v. 11) concedeu uns para após
tolos, outros pa ra profetas, outro s para evangelistas, e ou tros pa ra pas
tores e mestres. A palavr a “apó stolo ” tem três signific ados principais no
Novo Testamento. Um a só vez parece que é aplicada a todo cristão indi-
vidual, q ua nd o Jesus di sse: “ O servo nã o é maio r do que s eu senhor, nem
o enviado (apostolos) m aio r d o q ue a que le qu e o en viou!’24Assim , tod o
cristã o é tan to um servo quanto u m apósto lo. O verbo apostello signifi-
ca enviar, e todos os crist ãos são envi ados ao mun do como em baixado-
res e testemun has de Crist o, p ara participarem da missão ap ostólica de
23 GI 5: 22 2 3. 24 Jo 13:16.

114
efésios 4:116

to da a igreja .25Porém este não p ode ser o significado neste trecho, pois
neste sentido to dos os cri stãos seriam apósto los, ao passo que Pau lo es-
creve que Cristo concedeu apenas “uns” para serem apóstolos.
Em segun do lugar, havia “apó stol os das igrejas”,26men sageiros en-
viad os por um a igr eja como missioná rios ou com algum a ou tra incum -
bência. E, em terceiro lugar, havia os “apóstolos de Cristo”, um grupo mui-
to p eque no e dist intivo, que consistia nos doze (inclu sive Matias, que subs-
tituiu Juda s), Paulo, Tia go, irmão do Senhor , e possiv elmente um ou dois
mais. Foram pessoal mente esc olhid os e auto rizad os po r Jesus, e tinh am
de ser testemunhas oculares do S enh or ressur reto .27Deve ser neste sentido
que Paulo está usando a palavra apóstolos aqui, pois colocaos em pri-
meiro lugar na sua lista, assim como faz também em 1 Coríntios 12:28
(“primeiramente apóstolos” ), e é assim que até ago ra te m u sado a p ala-
vra na sua cart a, referindos e a si mesmo (1: 1) e aos seu s colegas ap ós to -
los como sendo o fundamento da igreja e os meios da revelação (2:20;
3:26).
Não devemos hesitar, portanto, em dizer que neste sentido não há
apó stolo s hoje. Em 1975 Joh n N oble es creveu e pub licou u m livreto com
o título: Firs t Apostl es, Last Apostles. Nele, sua preocup ação é “desper-
tar m eus irm ãos cri stãos a procur arem apóstolos p ara m oldar a vida da
igreja e m nossos dias” , sendo que el es “u nirã o e desenca dea rão um exér-
cito sob a liderança de Deus que cum prirá seus propósitos neste s tempos
do fim ”. Seu modo de e ntende r a Histó ria é que qua nd o os apóstolos ori-
ginais mo rrerram , “deixaram um vazi o de autoridade, que fo i preenchi-
do pelos homens errados”, isto é, pelos bispos. Critica tanto o catolicis-
mo qu anto o protestantismo, aque le po r “investir auto rida de abso luta em
um só hom em ” e este por “da r a cada indivíduo o direi to de dom inar na
igrej a”. Certamente podemos conco rdar com ele que no curso da long a
e acide ntad a história da i greja tem havido m uitos abusos de auto ridade ,
mas ele perde na sua exposição as verdades vitalmente importantes: (1)

de que ressurreto,
tórico os apóstolosobviamente
src inais, como testemun
nã o pod has oculares
em ter sucessor do Cristo
algum, e (2) deh que
is-
a au to rid ad e deles é conservada hoje no Novo Tes tamento, qu e é, essen-
cialmente, a “sucessão apostólica”. Mas, uma vez que nos firmemos no
ponto de que não há hoje apóstolos de Cristo com um a autoridade com-
parável com a dos apóstolos Paulo, Pedro e João, é certam ente possível
arg um en tar que ha pessoas com ministérios apostó licos de um tipo dife-
rente, inc lusive a jurisdição episc opal, a o bra m ission ária pioneira, a im-
plantação de igrejas, a liderança itinerante etc.
25 Jo 17:18; 20:21.
26 2 Co 8:23; cf. Fp 2:25 . 27 At 1:21, 22; 10:4041; 1 Co 9:1; 15:8 9.

11 5
UNIDADE E DIVERSIDADE NA IGREJA

O qu e se diz dos profetas ? Mais u ma vez, é necessário fazer um a dis-


tinç ão. N o sentido prim ário em que a Bíbl ia usa a pal avra, o pro feta era
um a pesso a que esteve no c onselho do Senhor, que ouvia e até mesmo via
a sua palavra, e que, com o conseqüência, fala o que vem da boca do Se
nhor e fala a sua pala vra co m verdade.2S No utras palavras , o profeta era
o portavoz
Neste sentidode Deus, um insistir
devemos meio deoutra
comunicação da sua
vez que não revelação
há profetas direta.
hoje. Nin-
guém pode reivi ndicar um a inspiração comparáve l àqu ela dos profetas ,
nem u sar a fór mula intr od utó ria dele s: “Assim diz o Sen hor”. Se isto fos se
possível, teríamos de acrescentar as palavras de tal pessoa às Escrituras,
e tod a a igreja teria q ue escu tar e ob edecer. Mas nã o é este o sentid o em
que Pau lo parece est ar em pregando a pala vra. Ele coloca os profetas em
segundo lugar após os apósto los (como em 1 Co 12:28; “em segundo lu-
gar prof etas” ), e associa apóstol os eprofeta s como sendo o fundam ento
da igreja e os que recebem nova revelação da parte de Deus (2:20; 3:6).
Com o o fund am ento sobre o qual a igrej a está sendo alicer çada, os pro -
fetas não têm sucessores, assim como os apóstolos n ão os tê m, pois o fun-
dam ento foi lançado e acab ado h á mu itos sé culos, e hoje não podemos
mexer com ele.
Mas, assim com o fez no caso dos apó stolos e no caso dos profetas,
Paulo inicialmente esta beleceu a un icidade dos primeiros mestre s da igreja,
e temos então que pergun tar s e há agora um dom subsidi ário de algum
tipo. Parece certo re spond er que “ sim”, mas, ao confess álo, não sabemos
com certeza o que é ! Alguns entendem que se tra ta de um dom especia l
de exposição bíblica, um grau incomum de entendimento da Palavra de
Deus, de mod o que , m edian te o min istério do Esp írito Santo, os profetas
modernos ouvem e recebem a Palavra de Deus, não como uma nova re-
velação, mas, sim, com o um a com preensão reno vada da an tiga rev elação.
Outros vêe m o dom como sendo um a sensibilidade para entende r o m und o
contemporâneo, um a capacidade para ler o s sinais dos temp os, juntam ente
com um a denúnc ia indignada dos pecados s ociais contemporâneos e uma
aplicação perceptiva das Escritu ras a eles. Aquel es qu e sustentam este po n-
to de vista chamam a atenção aos oráculos sóciopolíticos dos profetas
do Antig o Test ament o. U m terce iro pon to de vista concentrase no efeito
que o m inistério dos pro fetas do Novo Tes tamento te ve sobr e seus o uvin -
tes, traze nd o aos descrente s um a convicção dos s eus pecados, e aos cren -
tes, edificação, exortação e consolação ,29Nestes três pontos de vista, o
dom profético é detectad o no man useio d a Palavra de Deu s, pois nã o se
pode considerar os profetas de Deus à parte da Palavra de Deus. Este dom
é comp reendido com o o dom de pe rcepçã o do text o bíbl ico ou da situa-
28 Cf . Jr 23 :16 32 . 29 1 Co 14:3; cf. A t 15:32.

116
efésios 4:116

ção cont empo rânea, ou de ambos, ou seja , um a poderosa combinaç ão de


uma precisa exposição com uma aplicação pertinente.
H á outro p onto de vista, no entant o, pop ularizado p or cristã os “pen
tecostais” e “carismáticos”, a saber: que Deus está mais uma vez levan-
tando profetas e profetizas hoje, que falam a palavra de Deus em nome
de Deus
tação queancom
to ainsp
ess airação direta
reivindic delAe.queles
ação. Precisoque
confessar
a fazemm raras
inhav séria
ezes hesi-
reco-
nhec em, segundo par ece, a u nicidad e dos apó stolos e profetas srcinais
e a falta de necessidade de sucessores, uma vez que as Escrituras do No-
vo Testamento se tornaram disponíveis à igreja. Além disso, tem havido
muitas alegações semelhant es n a história d a igreja que não enc orajam nos -
sa confian ça no fenômeno m oderno. Nas igr ejas em que a possibi lidade
de tal dom no entanto, é aceita, é importante insistir que os assim cha-
mados “pronunciamentos prof éticos” n unca pod eriam ter um valor mai s
do que loca l e limitado (para indivíduos ou p ara um a congreg ação em par-
ticu lar, não à totalida de d a igrej a) e que dev em sempre ser cuidosamen te
testados pelas Escrituras e pelo caráter conhecido de quem fala. E tam-
bém que a exposição regular, sistemática e bem elaborada da Bíblia é muito
mais importante para a edificação do povo de Deus.
Depois dos apóstolos e profetas , Paulo mencion a os evangelistas. Este
sub stantivo o corre ap enas três v ezes no Novo Testamen to (aqui; em Atos
21:8 a respeit o de Fi lipe, e em 2 Tim óteo 4:5 a respeit o do p róp rio Ti mó-
teo), embora,
pregado para édescrever
evidente,aodivulgação
verbo “evangelizar” seja freqüentemente
do evangelho. Visto que todosem-os cris-
tãos estão obrigados a testificar de Cristo e de suas boas novas, o dom
de “evangelis ta” (co nferido ape nas a alguns) dev e ser algo diferente. Tal-
vez se refira ao dom da pregação evangelística, ou de fazer o evangelho
especia lmente claro e rel evante aos descr entes, ou de aju da r as pessoas m e-
drosas a dar o passo da entrega a Cristo, ou do testemunho pessoal efi-
ciente. Provavelmente o dom de evangelista tome todas estas formas di-
ferentes, e outras mais. Deve ter algum relacionamento com ministério
evangelístico, seja n a evangelização em massa, na evangelização pessoal,
na evangeli zaçã o p ela literatura, na evangeli zaçã o p or filmes, n a evange-
lização pelo rád io e pela te levis ão, na evangelização pela música, ou pelo
emprego de algum o utro meio de comunicaçã o. H á hoje grande neces si-
dade de evange listas que tenham esse dom , e que sej am pioneiros em no -
vas maneiras de exercêlo e desenvolvêlo, penetrando nos vastos seg mentos
da soci edade ainda nã o atingi dos e o s conquistand o p ara Cris to.
Uma vez que é feita uma citação em conjunto na expressão outros
para pastores e mestres, é pos sível que es tes sejam dois nomes p ara o mes-
mo ministério. Calvino não pensava assim, porque sugeriu que a admi-
nistraçã o da discipl ina, os sacramentos, a advertênc ia e a exortação per-
11 7
UNIDADE E DIVERSI DADE NA IGREJA

tenciam especialmente aos pastores. É claro,porém, que os pastores que


são chamados pa ra cuidar do rebanho de Deus, o fazem especialmente
por meio de alimentá-lo , isto é pelo ensino.30 Talvez se deva dizer que, em-
bora todo pastor deva ser um mestre, tendo o dom de m inistrar a Palavra
de Deus ao povo (seja a um a congrega ção, seja a gru pos ou a indivíduos ),
mesmo assim, nem tod o mestre cristão é tam bém um pasto r (vist o que é
possível que esteja ensinando somente num a escola ou numa faculdade
ao invés de numa igreja local).
Olhan do p ara trá s, ob servamos que o s cin co dons têm algum rela-
cionamento com o ministério do ensino. Embora não haja nem apósto-
los nem profetas, n o sentido srcinal, nos dias de hoje, há evang elistas para
pregar o evangelho, pastores para cuid ar do rebanho e mestres para ex-
por a palavra. N a verdade, h á urgente necessidade deles. N ada é mais ne-

cess
amp ário p ara aento
lo suprim edificaç
de mesão dtres
a igrej
que atenha
de Deus em cad
m dons d a aparte
ger ação do que
de Deu s. Mum
es-
mo assim, fico pensand o que esta ne cessi dade nunca foi maio r do que em
noss os próprios dias. Em algumas áreas do terc eiro mundo, grandes m o-
vimentos popula res estão se realizan do. G randes números, em alguns casos
aldeia s e tribo s inteir as, estão aceitando a Cristo, e o ritm o do cresciment o
da igrej a está ultrap assan do a tax a do cres ciment o po pulacional. N o en-
tanto, est e fato em ocionante traz c onsi go tanto problemas qu anto peri-
gos. Os convertidos recémbatiza dos são nenês es pirituais. C om o tais, es-
tão inclinados a o pec ado e ao err o, e quase indefe sos con tra os falsos en-
sinos. Acima de tudo, necessitam de ensino com base n a Palavr a de Deus.
Em algumas situações, por incrível que pareça, os missionários estão pe-
dindo u m a m orató ria nas con verções. “P or misericórdia ”, oram a Deu s,
“não nos dê mai s nenhum , p orque não sabemos o que faz er co m os mi-
lhares que já tem os”. Às vezes recom endo a m eus amigos carism áticos,
alguns dos quais estão preocupados, segundo me parece, com dons me-
nos impo rtantes, p ara que s e lembrem das palavras de Paulo: “Procu rai,
com
dons zelo, os melho
de ensinar. É ores do ns”,3
ensino qu e1eedifica
para qu e considerem
a igreja. A maio rsenecessidade,
estes não são os
hoje,
é de mestres.
Outr a pe rgun ta im po rtan te é levantada p or este versículo (11). Nele
não há menção de bispos ou diáconos (aos quais é feita referência, por
exemplo, em Fp 1:1 e 1 Tm 3:1 ,12 ), e muito m enos d a ordem tríplice “bis-
pos, presbíteros e diáconos” que veio a ser desenvolvida no século II e que
é reconhecida de modo generali zado na cristanda de hoje. Com o dever ía-
mos explica r ess a om issão aqui? Tratase apen as de um a etap a anterior,
antes da situaçã o m ais des envolvida refletid a nas e pístolas pastorais? A l-
30 Cf. Jo 21:15 17; At 20:28; 1 P e 5 :2 . 31 1 Co 12:31.

118
efésios 4:116

ternativamente, dev emos distinguir entre um ministério institucional no-


meado pela igr eja (“bis pos, presbí teros e diác on os” ) e um ministério ca
rismático nomeado por Cristo (“apóstolos, profetas, evangelistas, pastores
e mestres”)? Não, nenhuma destas explicações nos é recomendável. Se-
parar o institucional do carismático, ou a ordem m inisterial dos dons mi-
nisteriais,
de Deus, um é um a distinção
ministério falsa e desastrosa.
institucion al ou um a Que há, ministerial
ordem segundo a (sintenção
eja tr í-
plice, seja dupla, não im porta para nossos propósitos aqui) está claro nas
epístolas pastorais. Tim óteo d everia selecionar e ordenar presbíte ros e diá-
conos para todas as igrejas. Mas como os selecionaria? Quais deveriam
ser as qualificações deles? Deveria assegurarse do caráter moral, da or-
todoxia doutrinária , e também dos dons (por ex emplo, “apto par a ensi-
nar”, didaktikos )32 que eles tivessem. É incon cebível que a igreja selecio-
nasse, treinasse e ordenasse pessoas que não tivessem os dons apropria-
dos dados por Deus. A orde nação para o ministéri o pastoral de qualquer
igreja deve significar, no mínimo, (1) o reconhecimento público de que
Deus cham ou tal pessoa e que lhe deu dons, e (2) a auto rizaçã o p ública
desta pessoa par a obedecer à cham ada e e xercer o dom , com o ração pe-
dindo a graça capacita dor a do Espírito Santo. Ass im, n ão devemos separar
o que Deus un iu. De um lado, a igreja deve recon hecer os dons que Deus
deu às pessoas, e deve publicamente autorizálos e encorajar seu exercí-
cio no ministério. Por outro lado, o Novo Testamento nunca contempla
a situação grotesca e m que a igreja com issiona e autoriz a pessoas a exe r-
cer um ministéri o para o qual lhe s falt a tanto a cham ada divina quan to
o equipamento divino. Não: o dom e o ofício, a capacitação divina e o
comissionamento eclesiástico cam inham jun tos. Pare ceme que Paulo in-
dica e ste fato ao con tar pastores e mestres entre os dons de Cristo à sua
igreja, visto que a obra dos presbít eros orde nado s é preci samente pa sto -
rear e ens ina r o reban ho de Cristo. “Estão, p ort anto , lo ucos ”, escreve Cal-
vino sem p ou pa r palavras, “aqueles que, negligenciando est e meio (de e di
ficar a igrej a), esperam ser perfeitos em Cris to, co mo acontece com os fa -
náticos que pretendem ser portadores de revelações secretas do Espírito,
e com os orgulhosos, que se satis fazem ap enas com a leitura partic ular
das Escritu ras, e im aginam que n ão precisam do ministério da Igreja”. 33
c. O pr op ósito dos do ns espirit uais é o se rviç o
No versículo 12 Paulo diz claram ente por que Cristo deu estes dons à sua
igreja: Co m vistas ao aperf eiçoamento dos sa ntos, para o desempen ho do
seu serviço, para a edificação d o corpo d e Cristo. Será not ado que, de aco r-
32 1 Tm 3:2.
33 Citado por Hodge, pág. 230. Cf. as Institutos de Calvino, IV. 3, 4.
119
UNIDADE E DIVERSIDADE NA IGREJA

do com esta traduçã o, Cristo teve em mente três propósitos distintos. Creio
que Arm itage Robinson foi o primeiro com entarista a insist ir que se tra -
ta de um erro. “A segu nda d estas clá usu las”, escreveu, “deve ser con side-
rada d epend ente d a prim eira, e não... co ord ena da com ela!’34 Noutras pa-
lavras, a prim eira vírgula (” a vírgula f atal”35), que “ nã o tem a utori da de
lingü ística mas, sim, indu bitável te ndê nci a eclesiológica” 36, deve ser ap a-
gada. Se for perm itida a sua p resenç a, estarem os diante de “um resulta-
do entristecedor”, pois “o versículo significará, então, que somente os mi-
nistros e speciais, e nã o tod os os santos, são cham ado s pa ra fazer ‘o tra -
balho do ministério’ e para cooperar na ‘edificação do corpo”’ Esta in-
terpre tação “tem um sab or aristocrático, ou seja : um sabor cleri cal e ecle-
siástico, d istingue en tre a (m assa dos) ‘san tos’ e a (classe sup erio r dos) o fi-
ciais da igreja”.37

tos —Seum a vír


quegula
é imfor apagada,
ediato e ou tronoq ue
entanto, ficar emos
é ulte rior— com
par a os doisCristo
quais propódeusi-
dons par a a sua igr eja. Seu propó sito imediato era o “aperfeiçoamento
dos santos para o desempenho do seu serviço” ou, melhor, “preparar o
povo de Deus para o serviço cristão” (BLH), e o seu propósito ulterior
era “a edificação do corpo de Cristo”.
A prim eira exp ressão, sobre equip ar o povo de Deu s, possui um sig-
nificado e longo alcance pa ra qu alquer entendim ento verd adeir o do m i-
nistério cristão. A palavra serviço (“ministério”, diakonia) é usada aqui
não par a descrever a ob ra de pastores mas, sim, a obra do c ha mad o lai
cato, ou seja, de todo o povo de Deus, sem exceção. Aqui temos evidên-
cia indis cutível de com o o Novo Testamento v ê o ministério: não como
a prerrogativa de um a elite cleri cal mas, sim, co mo a vocação privilegia-
da de todo o povo de Deus. G raças a Deus que em nossa geração esta vi-
são bíbl ica de um “ministério de todos os memb ros” está tornandose coisa
firme na igreja.
Não se quer dizer com isto que não sobra nenhum ministério pasto-
ralneotestam
to par a os clérigos
entário. Pelo co ntrá
de pastor n rio,
ão éestabel
o de umecese o seuque
a pessoa caráte r. Ova
conser conc
a toei-
-
talidad e do m inistério nas suas próprias mão s, tend o ciúmes dele, e que
esmaga toda a iniciativa dos leigos, mas, sim, de uma pessoa que ajuda
e enco raja t odo o povo de Deus a descobrir, desenvol ver e exercer seus dons.
O ensino e o treinam ento d o p asto r se dirigem par a esta final idade, pa ra
capa citar o povo de Deus a ser um povo que se rve, m inistra ndo ativa, po -
rém humildemente, num mundo de alienação e de dor. Assim, ao invés
34
37 Armitage Robinson,
Marku s Barth. A prim pág. 99 .
eira citação foi35tirad
Mackay,
a de pág. 36 g.Ibid.
185.Wall, pá
Broken 165, e a segunda d a dis-
cussão mais longa em Ephesians, II: Co me ntário VI intitulad o “ A igreja s em Leigos e sem Sa-
cerdotes” págs. 477484.

120
efésios 4:116

de pessoal mente m ono polizar to do o minist ério , cheg a realmente a mu l-


tiplicar os ministérios.
Que modelo de igreja, portanto, devemos ter em mente? O modelo
tradicional é o d a pirâ mide, com o pa stor em poleirado precariamente no
seu pináculo, como um pequeno pa pa n a sua pró pria igr eja, ao passo que
os leigos estãoÉdispostos
inferioridade. um quadroabaixo dele em
totalmente fileiras ordenadas
antibíblico, porque osegundo sua
Novo Tes-
tamento contempla, não um único pastor com um rebanho dócil, mas,
sim, tanto um a direçã o p lural qua nto um minist ério de todos os memb ros.
Não muito melhor é a figura do ônibus, em que o pasto r é o único que
dirige, ao passo que a congregação é o grupo de passageiros dormindo
em segurança pacíf ica atrás dele. Bem difere nte da pirâm ide ou do ôn i-
bus é o m odelo bíblico do corpo. A igreja é o corpo de Cristo, e cada um
dos seus membros tem um a função dist inta. E mbora a m etáf ora do cor-
po certam ente possa acomodar o conceito de um pastorado distinto (em
termos de um min istéri o — e um de grande im portân cia — ent re muitos) ,
real mente não há lu gar nele para um a hierarquia ne m p ara aquele tipo
de cle rica lismo m and ão que concen tra todo o m inis tério nas mãos de um
só hom em, e que neg a ao povo de Deus se us própr ios ministéri os aos quais
têm direito.
Vi o princípio do ministério de todos os membros bem ilustrados
qua ndo visitei a igreja St. PauPs em Darien, Connecticut, h á pouco s anos.
É um a oigreja
viment epis copalNanorteam
carismático. cap a do ericana, quedominical
seu bolètim foi influenciada
li o nomepelo
do m o-
p as-
tor, o Reverendo Everett Fullam, e depois, os nomes do pastor adjunto,
e do assistente do pastor. Tinha, então, esta linha: “Ministros: a congre-
gação inteira”. Era surpreendente, mas inegavelmente bíblico!
Porta nto , o prop ósito im ediato de Cris to em da r pastores e mestr es
à sua igreja é , através do ministé rio d a palavra e xercido po r eles, equ ipar
todo o seu povo para os variados ministérios. E o propósito final disto
é edifi car o seu co rpo, a igreja. Pois é claro que a man eira pela qual o corpo
inteiro cresc e é através do uso, po r tod os os membros, d os d ons que Deus
lhes deu. E stes d ons sã o tã o benéficos p ara aqueles que e xercem o seu mi-
nistér io com fidelida de q ua nto par a aquel es que o r ecebem, po is a igrej a
tornase cada vez mais saudável e madura. Se o século XVI recuperou o
sacer dócio de t od os os crente s (sendo que todo cristão desf ruta, por meio
de Cristo, o livre acesso a Deus), talvez o século XX recupere o ministé
rio de todos os crentes (c ada cristão recebe de Cristo um minis tério p ri-
vile giad o p ara com os homens) .
o propTodos
ósito osdeles.
do nsN espiritu ais,os
ão são dad p ortant
p ara oo,ussão dons
o ego ístapmas,
ar a osi serviço.
m, para Este
o usoé
altruí sta, isto é, p ara servir a o utra s pessoas. C ada um a das lis tas dos cha-
121
UNIDADE E DIVERSIDADE NA IGREJA

rismata no Novo Testa mento en fatiza este fat o. A manifestação do Espí


rito é concedida a cada um, visando a um fim proveitoso ,38 Seguese que
sua im portância comp arativa (Paul o deixa bem claro que algu ns são me
lhores ou mais elevados do que o utro s)39 deve ser aq ui lat ad a pelo grau
com qu e edificam a igr eja. É p or esta razão q ue os dons de ensino na igrej a
sãoPalavra
da de s uprem a impo rtância, pois nad a edifica a i greja co mo a verdad e
de Deus.
Recapitulando, vimos que é o Cristo glorificado que outorga dons
à sua igreja, que os dons são muito diversos no seu caráter, que os dons
de ensin o são primordiais, e que o seu propósito é equipa r o povo de Deus
para exercer seus ministérios e, assim, edificar o co rpo de Cristo.
4. A unidade cristã exige a maturidade do nosso crescimento (vs.13-16)
O após tolo con tinua , desenv olvend o o seu pensa me nto com a edificação
do c orpo d e Cristo. Evidentem ente e ste será um processo longo, que fará
chegar (com três frase s repletas de sentido) à unida de da f é e do pleno co
nhecim ento d o Filho de Deus, àp erfe ita varoni lidade, e à medida d a es
tatura da plenitu de de Cristo. Este é o alvo e m que, com o a igreja, have-
mos de chegar um dia.
Este verbo chegar significa literalmente “vir ao encontro de”
(.Katantaõ), e com o a prim eira e a terceira frases refe remse e xplicitamente
ao Senhor Jesus (“Fil ho de Deus” e “Cristo”) , M arkus Barth interpreta
a segunda
cia a ele. E(“a perfeita
tr ad varonilidade”)
uz esta frase com “o Ho como
memsendo t am bém
Perfeito” um a referê
, e re trata a igrejn-
a
como sendo a noiva de Cristo saindo numa procissão jubilosa para
encontrarse com o N oivo n a sua vind a triu nfan te.40É um a rec onstrução
atraente, e certamente de acordo com o desenvolvimento da linguagem
figurada da noiva e do noivo em 5:2527. Entretanto, pare ce um pouco
forçada, porque onde havemos de chegar, ou o que encontraremos não
é simplesmente o Filho de Deus mas, sim, a unida de da f é e do ple no co
nhecimento do Filho de Deus, n ão simplesmente Cristo mas, sim, a me
dida da estatura da ple nitu de de Cristo. Noutr as palavras, o alvo da igre-
ja não é Cristo mas, sim, alcançar a perfeição no sentido de m aturidade
na unidad e, e isso provém de conhece r a Cristo, de con fia r nele, e de crescer
para dentro dele.
Faze mos um a pausa p ara no tar que a unidade da ig reja, embora em
cert o sentido já tenh a sido d ad a e já seja inviolável, conforme j á vimos,
ainda preci sa, num outro sent ido, ser tanto mantida (v. 3) como atingida
(v. 13). Os dois verbos são supre endentes. Se a un idade já exis te com o um
38 1 Co 12:7. 39 1 Co 12:31.
40 Barth, Ephesians, II, Comen tário VI I, “ En contran do o Homem Pe rfeito” , págs. 484496.

122
efésios 4:116

dom, com o po de ser atin gid a com o um alvo? Provavelmente devamos r es-
ponder que, assim como a unidade precisa ser preservada visivelmente,
assim também precisa ser atingida plenamente. Há, pois, graus de uni-
dade, assim como h á graus de sant idade. E a unid ade à qual devemos che-
gar um dia é aquela unidade p lena que s erá possibilitada por u ma plena
fé no
de F ilho
mod de Deus
o eficaz e um ento
o argum plenodeconh
queecimento
a uni dad edele.
po deEsta expressã
crescer se moarefuta
fé ou
sem o conhecim ento cristãos. Pelo contrário, é exatamente na me dida em
que conhecemos o Filho de Deus e confiam os nele que cr escemos no t i-
po de unidade uns com os outros como ele deseja.
Esta unidade plena também é cham ada de a perfeita varonilidade.
Alguns interpretam esta exp ressão individualmente par a cad a cristão que
cresce na m atu rida de em Cristo , o que é certam ente um conceit o neotes 
tamen tário. O contexto, porém , parece exigir que a entendam os co rp ora l-
mente. A igreja é retra tad a como sendo um único organismo, o co rpo de
Cristo, e deve crescer para a estatura adulta. De fato, Paulo já se referiu
a ela como sendo a nova hum anidad e que De us está cria ndo, o u com o sen-
do o nov o hom em (2:15). À unicida de e à novidade deste homem ele acres-
centa, agora, a maturidade. O novo homem deve chegar à perfeita varo
nilidade, que se rá na da menos do que a med ida da estatura da plen itude
de Cristo, a plenitude que o próprio Cristo possui e outorga.
Em bo ra pareça que e ste cresciment o para a m aturid ade seja um co n-
ceito corpo depende
claramente ral, descrevendo a igreja
da maturidade doscomo um a totalidade,
seus membros mesmo
individuais, con-assim
forme Pa ulo passa a dizer: para que não mais seja mos como meninos (v.
14). N atura lm ente devemo s ser se melhant es às crianças na sua hu m ilda-
de e inocê ncia ,41m as n ão n a su a ignorân cia nem n a sua instabil idade. As
crianças instáveis são como barquinhos num mar tempestuoso, inteira-
mente à mercê dos ventos e das ondas. Paulo pinta um quadro gráfico,
agitados de um lado para outro (Klydõnizomeno i, de Klydõn, “água tur-
bulenta” ou “ressaca”) que significa “jogados para cá e para lá pelas on-
das” (AG) e levados ao redor ( periphe rome noi ), que significa “rod opiand o
por ventos mutáveis”.42 Parece que Platão empregou esta últim a palavra
com referência aos piões, o que levou E. K. Simpson a rotular tais pes-
soas de “v entoinhas”. 43 A BL H capta a im agem de crianças nu m a tem -
pestade ao traduzir: “arrastados pelas ondas e empurrados por qualquer
vento”. Tais são os cristãos imaturos. Parece que nunca conhecem a sua
própria vontade nem chegam a convicções firmes. Pelo contrário, suas opi-
niõe s parecem ser as do últim o pre gador que ouv iram ou d o últim o liv ro
41 Mt 18:3; 1 Co 14:20.
42 Armi tage Robins on, pág. 183. 43 Simpson , pág. 97, no ta, e pág. 98.

123
UNIDADE E DIVERSI DADE NA IGREJ A

que leram, e caem facilmente como p resa de cad a nova m od a teológica.


Não podem resistir à artima nha do s hom en s (.Kybia signific a “jog o de da-
dos” e, por decorrência, “trapaça”), nem à astúc ia com q ue induzem ao
erro.
Em con traste c om a inst abil idade do utrin ária, que é um a marca da
imatos
çam uridade,
em tuddevemos que éseguin
o naqueleestar do a verd
o cabeça, adede
Cristo, emque
ammortodo
a fimo de cres
que bem
corpo,
ajustado e cons olidado, pe lo auxílio de toda jun ta, segundo a ju sta coo
peração de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de
si mesmo em amor (vs. 1516).
Não devemos procurar nestes versículos instrução inspirada sobre a
anato mia e sobre a fisiologi a hum anas. A intençã o do ap óstolo n ão é en-
sinar como funciona o corp o hum ano m as, si m, com o cresce o corpo de
Cristo . É verdade que emprega uns term os usad os po r antigos escri tore s
médicos gregos tais como Hipócrates e Galeno. “Quase podemos vêlo
voltarse para o ‘médico am ado’, de cuja presença nos co nta em ou tra epís-
tola (Cl 4:14) , antes de arriscarse a fala r em linguagem técn ica de ‘tod o
ligam ento d o a pa rat o in teiro’ do co rpo hu m an o.” 44Mas su a ênfase reca i
sobre a cabeça, “naquele” em que devemos crescer (v. 15), e “de quem”
o cor po cresce qua ndo “cada par te está funcionand o devidamente ”.Markus
Barth ressalt a claramente na sua t radu ção este ato de focaliza r a atenção
na iniciat iva e na obra do cabeça , Cris to: “Ele es tá operand o par a encai-
xar o cor po inteiro . Fornecel he sustento atra vés de todo c on tato con fo r-
me as necessi dades individuais de cada par te individual. C apa cita o cor-
po a fazer o seu próprio crescimento de m odo que se edifique em am or!’45
Agora, se deix armos de lado a m etáfora do corpo e perguntarmos co -
mo a igr eja c resce para a m aturidade, Paulo esta com a respo sta pronta.
Cresce mediante a verdade e o amor. Deixarnos se r jogado s p ara lá e pa-
ra cá pelas lufadas ferozes do falso ensino é condena rnos e a igreja à per-
pétua imaturidade (v. 14). Ao invés disso, precisamos da verdade , falan-
do a verdade em am or (v. 15). Porque é em amor que a igre ja cresce e se
edifica ( v. 16). O qu e P aulo p ede é um a com bina ção eq uilib rada dos dois.
A expressão seguindo a verda de em a mor significa literalmente “sendo
verdadeiros ( alêtheuontes ) em amor”, e inclui as noções de “m an ter”, “vi-
ver” e “pr atic ar” a verdade. Graças a Deus que há aqueles na igrej a con-
tem por âne a que estão resolutos, custe o que cus tar, no sentido de defen-
der e sustenta r a verdade revelada por Deus. M as às v ezes rev elam um a
falta not ável de amor. Qua nd o fa rejam heresia, se u nariz começa a fazer
movimentos bruscos, seus músculos com eçam a retesar, e o brilho d a b a-
talh a sur ge nos se us olh os. Parece que não têm m aior prazer do que o de
44 Ar m itag e Ro bin son , pág . 104. 45 B art h, Ephesians, II, pág. 426.

124
efésios 4:116

um a luta. O utro s cometem o erro oposto. Est ão resolut os, custe o que cus-
tar, a sus ten tar e dem onstra r o am or f raternal, m as, a fim de f azêlo, es-
tão dispo stos a sac rificar até mesmo as verdades centrais da r evelação. Es-
tas duas tend ências são antibíblicas e desequilibradas. A verdade se to r-
na ríspida se não for equili brada pel o amor; o am or tornase frouxidão
se
os não
dois for fo rtalecido
ju nto s, o qu e pela
nã o ve
deverdade. O apóstolo
ser d ifícil par a crenos
ntesexort aam
ch eios doanterm os
E spírito
Santo, visto q ue ele mesm o é o Espírito d a verdade, e o seu prim eiro fr u-
to é o amor.*6 N ão há ou tro rot eir o senão e ste par a che gar a um a unid a-
de cristã plenamente madura.
Conclusão
Aqui,pois , tem os a visão de Paulo pa ra a igrej a. A nova soc iedade d e Deus
deve demonstrar amor, unidade, diversidade, e uma maturidade sempre
crescente. E sta s sã o as caracterís ticas de uma vida digna da vocação a que
Deus nos chamou, e que o apóstolo nos roga a vivermos (v. 1).
Quan to m ais com partilharmos d a perspectiva de Paulo, mais profu n-
da ser á nossa insatisfação com o status quo eclesiástico. Alguns de nós
somos po r de m ais conser vador es, po r demais complac ente s, p or demai s
prontos a concordar com a situação presente e resistir a mudanças. Ou-
tros são p or dem ais radi cais, q uerendo desfazer totalmente a instit uição.
Devemos, pe lo c ontr ário , entende r mais claramente o tipo de nova soci e-
dade que Deus deseja que sua igreja seja. Então não ficaremos satisfei-
tos, nem com as coisa s como estão , nem com soluções parcia is mas, pelo
contrário, o rarem os e trabalharemos p ela r enovaç ão total da igre ja.
Alguns p roc ura m princi palmente a s estruturas de unid ade mas, se -
gun do parec e, não têm a m esma preocup ação n o sentido de que a igre ja
se torne u m a co munid ade verda deiramente solícita, m arcada pela humil-
dade, pela m ans idão , pela longani midade, pela paciê ncia e m su po rtar e
pelo amor. A preocupação principal de Paulo não é com estruturas; co-
meça e termina com o amor (vs. 2, 16).
Outros d ão muita ênf ase à unidade da igrej a como um conceito teo-
lógico claramente articulado na sua mente, mas, segundo parece, nada
vêem de anormal na desunião visível que contradiz a sua teologia.
Outros se satisf azem com um a uniform idade da vida e da liturgia da
igreja que é maç ante , enfado nha, sem cor, m on óto na e morta; nu nca ti-
veram um vis lum br e da variedade que Deus que r que ex ista, nem da d i-
versidade de ministér ios que deve enriquecer e vivificar sua filiação no cor-
po de Cristo.
46 P.ex. Jo 14:17; 15:26; 16:13; G1 5:22.

125
UNIDADE E DIVERSIDADE NA IGREJA

Outros têm um conceito estático da igrej a, e se darã o po r satisfeit os


se a congre gação conseg uir ma nter seu tama nh o e seu pr ogram a, sem di-
minui ções . Não têm visão algum a do cresci mento d a igre ja, nem pelo al-
cance evangelístico nem pelo amadurecimento dos seus membros.
Toda a complacência deste tipo não é digna da vocação da igreja.
Em
comcon
unhãtraste
o quecom el a,fund
se apro o apóstolo coloca
a, o prof und odiante
desej odedenós o qua
man ter dro decris
a unidade um tã
a
visível e de reavêl a se for pe rdid a, um ministério ativo de todo s os m em -
bros, e um crescimento firm e para a m aturidade sustentando a verdade
em amor. Precisamos m ante r este ideal bí blico claram ente diante de nós.
Somente então viveremos uma vida que valha a pena.
126
4:17-5:4
8. Uma nova roupagem
O apó stolo cont inua descrevendo os nov os padrões que se esperam d a nova
sociedade de Deu s, ou a vida que é digna de cham am ento de Deus . C ha -
mados p ara ser mos um só povo, argum entou, devemos cultivar a un ida -
de. C ham ado s para sermos u m povo santo, argumenta agora, devemos
tam bém cultivar a p ureza. A pure za é um a característica do povo de Deus
tão indispensável
Assim com oquanto
começoua unidade.
a seç ão anter ior sobre a unidad e da igreja, P au-
lo começa est a seç ão sobre a pureza da igr eja afirm and o a sua au tor ida -
de com o apóstolo de Cristo.

v. 1 Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor...


v. 17Isto, portanto, digo, e no Senhor testifico...

A frase no Senhor significa “em nome do Senhor” (GNB). É a de-


claração solene de Paulo de que escreve a eles com a autoridade do Se-
nhor Jesus.
A essência da sua mensagem é clara: não mais a ndeis com o tam bém
andam os gentios. Está generalizando, naturalmente. Nem todos os pa-
gãos eram (nem são) tão dissolutos quanto aqueles que agora está a re-
tratar. M as, assi m como há u ma vida cri stã típic a, assim ta mb ém h á um a
vida pagã típica. Se estas vidas forem leais ao seus próprios princípios,
estarão fundamentalmente opostas uma à outra. Os leitores sabiam por
experiência o que Paulo dizia; pois ele s mesmos tin ham sido pagão s, e ain -
da viviam num ambiente pa gão. Não mais, poré m, deveriam v iver assim,
ainda qu e todos em derredor continuassem a assim fazer ( como també m
andam os ge ntios). Outrora tinham sid o pagãos e , portanto, tinh am vi-
vido como pagãos; agora eram cristãos, e deveriam viver como cristãos.
Torn aram se agora pess oas dif erentes; devem com portarse de m odo di-
ferente. Su a nova posição com o nova sociedade de Deus envolvia novo s
padrões; e sua vida nova em Cristo, um novo estilo de vida.
O m od o de Paulo tra tar desse tema foi começando com a base dou -
trin ária da nova vida (4: 1724 ), e dep ois passando p ara sua concretiza-
ção prática no comportamento em todos os dias (4:25—5:4).
127
UMA NOVA ROUPAGEM

1. A base doutrinária (4:17-24)


Era essencial desde o início que os leitores compreendessem o contraste
entr e o que tinham sido como pagãos e o que agora eram com o crist ãos;
entre sua velha vida e sua nova vida; e, além disso , q ue com preend essem
a base teológica sobre a qual essa mudança se alicerçava.

Isto, portanto, digo, e no Senhor testifico, que não mais andeis como tam
bém andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos,
lsobscur ecidos de entendime nto, alheio s à vida de Deus p o r causa da ig
norânci a em qu e vivem, p ela dureza dos seus cor ações, 19os quais, tendo-
se tornad o insensív eis, se entr egaram à dissoluç ão para, com avidez, co
meterem toda sorte de impurez a. 20M as não fo i assim que aprendestes a
Cristo, 21se é que de fa to o tendes o uvido, e nel e fo st es instruídos , segun
do
vosédea spojeis
verdadedoemvelho
Jes us,
hom22no
em,sequnti docorrompe
e se de que, qusegundo
an to aoastrato
concupassado,
piscên-
cias do engano, 23e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, 24e
vos revistais do n ovo h om em , criado s egu ndo Deus, em ju stiç a e re tidão
procedentes da verdade.
O que s e no ta de im ediato é a ênfase dad a pelo apósto lo ao fator intelec-
tual no modo de vida de todas as pessoas. Quando descreve os pagãos,
cham a a atenç ão à vaidade d os seus próprios pensamen tos, acrescenta que
estão obscur ecido s de entendim ento e atribui su a alienação de Deus à ig
norância em qu e viv em . Referese, portanto, às suas mentes vazias, ao seu
entendimen to obscure cido e à ignorância que têm, o que o s torn ou em-
pedernidos, licenciosos e im puros. Mas, em contraste com eles, os cren-
tes tinham aprendido a Cristo, tinhamno ouvido, tinham sido instruí
dos nele, tu do de acordo com a verdade que está em Jes us. Em contra ste
com as trevas e com a ignorância dos pagãos, Paulo coloca, portanto, a
verdade de Cristo que os cristãos tinham aprendido. As Escrituras dão
test emunho, sem vac ilação, do pod er da ignorânc ia e do erro p ara ca usa-
rem a corrup ção, e do po der da verdade para libertar, enobrec er e refinar.
a. A vida pa gã (vs. 1719).
Qua l é, porém, a srcem das t revas nas mentes pagãs, qua nd o o pró prio
Deus é luz, e está continuamente falando à humanidade através da sua
cria ção, e tanto o céu quan to a terra declaram a sua gl ória? É devida à du
reza do s seus corações, diz Paulo. A p alavra que emprega é põrõsis, e quan -
to à sua deri vação e história, Arm itage Robinson forn ece uma lon ga n o-
ta adicio nal. 1Põro s era “um tipo de m ármore” ou, em termos médi cos,
um “calo” ou um a “ form ação óssea n as jun tas ”. Logo, o verbo põroun
1 Armit age Robins on, págs . 264274.

128
efésios 4:175:4

significava “petrificar”, tornarse “duro” e, portanto, “insensível”, e até


mesmo (quando “transferido dos órgãos do tato para os da vista”) “ce-
go”. Do ponto de vista dele, no entanto, não significa “teimosia”. É, pelo
contrário, “a ob tusidade intel ectu al, nã o o endurecimento d a vontade”.
Ele examina as oito ocorrências da palavra no Novo Testamento, e con-
clui: “A obtusidade, ou o em botam ento da fa culdad e de percepç ão, que
é o equivalente da cegue ira moral, sempre dá um sentido apr opriad o. Por
outro lado, o conte xto dec idida mente não co rrob ara para que o signifi -
cad o seja ‘du rez a’, e este significado, às vezes, parece ser tot alm ente i na -
dequado. Assim sendo, escolhe “cegueira” neste versículo, como sendo
a tradução “menos enganosa”.
A despeito de argumentar cuidadosam ente em prol da sua ca usa, no
entanto, Armitage Robinson não levou os tradutores e comentaristas a

seguilo.
dig nad o eCertamente
con do íd o Marcos 3:5 (onde
com a dureza Jesus
dos seu “olhandoosparece
s corações...”) ao redor,
sub in-
ente n-
der um a ob tusid ade delib erada . Voltando pa ra o nosso te xto em Efé sios,
a trad uç ão po de ria se r: “ suas mentes se torn ara m duras como pe dra”, e
poderseia até empregar a palavra “teim osos”. J. H. Houlden comenta:
“A im ora lida de pa gã é vis ta com o deliberad a e culpável..., o resultado da
sua de liber ada recusa à luz moral, qu e lhes é dispon ível no seu próp rio
pensamento e consciência!’3É verdade que no uso bíblico, o coração e a
mente não podem ser separados, visto que o coração inclui nossa capa-
cidade par a p en sar e entender. M esmo ass im, há um a distinção real en-
tre a ignorância e a dureza ou a teimosia.
. Se juntarmos as expressões de Paulo, notando cuidadosamente suas
conexões lógicas (especialmente po r causa de e pela , traduçõe s da prepo -
sição grega “dia”), parece que ele está retratando o terrível caminho do
mal, qu e com eça com um a rejeição obstinad a da verda de de Deus já co-
nhecida. E m prim eiro lugar ve m a dureza d os seus corações, depois, sua
ignorância, estando obscurecidos de enten dim ento, e depois, con seqüe n-
temente,
que, alheios àsevida
finalmente, de Deus,
tornaram visto queseDeus
insensíveis, se volta àcontra
entregaram eles, até
dissolução pa
ra, co m avidez, cometerem toda sorte de impureza. Nad a os refreia de sa-
tisfazer seu dese jo im undo. Deste modo, a dureza de coração le va prim ei-
ram ente às tre vas mentais, depois à i nsensibilidade da alma sob o ju lg a-
mento de Deu s e, finalmente, à vida desenfreada. Te ndo perdido tod a a
sensibil idade, a s pessoas perdem todo o autocontrole. É exatament e a se-
qüên cia que P au lo dese nvolve na p arte fina l de Romanos 1. Um a tabela
com parativa talvez ajude a dem onstrar es te fato:
2 Ib id., pág . 267. 3 Ho uld en, pág. 317.

129
UMA NOVA ROUPAGEM

Romanos 1:18 -32 Efésios 4:17-19

Etapa 1: A obstinação

18 “H om en s que detêm a ver- 18 “Pela dureza (põrõsis)

21 dade pelaconhec
“Tendo injustiça”
imen to d e dos seus coraçõe s”
Deus não o glorificaram co
mo Deus”
28 “Po r haverem despre zado o
conheci mento de Deu s”

Etapa 2: As trevas

21 “A nte s se tornaram nul os 17 “N a vaidade do s seus


em seus pró prio s raciocí próprios pensam entos”
nios, obscurecendo-se-lhes 18a “Obscurecidos de
o coração insensato.” entendimento”
22 “Tornar am-se lo uc os ” 18b “A ignorância em que
28 “U m a disposi ção mental vivem”
reprovável”

Etapa 3 : A m orte ou o julgamento


24 “Por isso Deu s e ntregou 18 “Alh ei os à vida de D eu s”
tais hom ens ”
26 “Por causa disso os entre
gou Deus”
28 “Deus os entreg ou ”

Etapa 4: A temeridade

Deus os entregou a  19 “Os quais, tendo-se tor


24 “Im un díc ia” nado insensíveis, se entre
26 “Paixões infames” garam à dissolução fasel
27 “Torpeza” geia, qu e significa a inde
28 “Coisas inconvenientes’ cênci a púb lica de um tipo
29-31 “Toda injustiça...” desenvergonha da) par a,
com avidez, cometerem
toda sorte de impureza”

130
efésios 4:175:4

b. A vida cristã (vs. 2024)


A ERAB não ress alta adequadam ente a nit idez do contraste “m as qu an -
to a vós” ( humeis de) ou, como na BJ, “Vós, porém, não aprendestes as-
sim a C risto”, no começo do versículo 2 0: Mas não fo i assim que apren
destes a Cristo . Em contraste com a du reza, com as trevas e com a teme-
ridad e dos pagãos, P aulo coloca um processo int eiro de educa ção mo ral
cristã. E mpreg a três expressões para lelas que se centraliz am em três v er-
bos, todos no tempo do aoristo, com o significado de “aprender”, “o u-
vir” e “ser instruíd o”, com u ma refe rênci a final à “verdade conform e ela
é em Jesus”.

Primeiro, “aprendestes a Cristo” (v. 20, emathete)


Em segundo lugar, “o tendes ouvido” (v. 21a, êkousate)

Em terceiro lugar, “nele fostes instruídos” (v. 21b,


Tedidachthete)

Estas são expr essões notáveis. “Trazem à men te o qua dro de um a es-
cola”4e referemse à instrução catequética que Paulo toma por certo, e
mesm o sabe, que rec eberam. Confo rm e a prim eira exp ressão, o próp rio
Cristo é a substâ ncia do ensin o cristão. Assim com o os evangel istas pre
gam a Cristo ,5 assim tamb ém seus ouvintes aprendem a Cristo, e o rece
bem, ou seja: uma tradição a respeito dele.6 Mas, que tipo de Cristo
aprendem? Não apenas o Verbo feito carne, o Deushomem sem igual, que
morreu, que ressuscitou e que reina. Mais do que isto. A implicação do
contexto é que também devemos pregar seu senhorio, o reino ou domí-
nio da justiça que ele inaug urou , e todas as exigências mo rais da nova vi-
da. O Cristo a quem os efésios tinham aprendido chamavaos para pa-
drões e valores totalmente em desacordo com sua vida pagão anterior.
Em segundo l ugar, Cristo, que é a substân cia do ensino (“apren des-
tes a C risto”) é ele mesmo o mestre (“ o tendes ouv ido”). Pau lo to m a p or
certo
ouv idoque,
a vatravés da vozLogo
oz de Cristo. dos seus mestres
, q uan cristãos,
do a instruç ãoeles realmente
m oral tinhames-
bíblica sadia
tá sendo dada, podese dizer que Cristo está ensinando sobre Cristo.
Em terce iro lugar, tinh am sido instruídos nele. Ou seja: Jesus Cris-
to, além de ser o ensinador e o ensino, também era o conteúdo, até mes-
mo o am biente em que o ensino era dado. Q ua nd o Jesus C risto é, ao mes-
mo tempo, o ass unto, o objeto e o ambiente da instru ção m oral que está
sendo d ada, podemos ter co nfianç a de que é verdade iramente cri stã. Por
4 Barth, Ephesians, II, pág. 504.
5 2 Co 4:5. 6 Cl 2:6.

131
UMA NOVA ROUPAGEM

que é a verdade em Jesus. A m udança do título “C ris to” para o s eu no -


me hum ano “J esus” parece ser intencional. O Jes us histórico é ele mes-
mo a corporificação da verdade, conforme a sua própria declaração.7
Mas o que, exatamente, é esta verdade qu e está em Jesus? Se as tre -
vas pagãs lev am à imp ureza tem erária, qual é a verdade que liberta os cris-
tãos e os leva
Aprender à justiça?
a Cristo é comOspreend
versículos seguintes
er a nova criaçã(2224) dãotoarnresposta.
o qu e ele ou poss ível,
e a vida inteiramente nova que dela resulta. É nada menos do que tirar
a nossa ve lha hum anidad e como um a roup a podre, e vestir, como um a rou-
pa nova, a nova humanidade criada na im agem de Deus.
Qua ndo isto acont ece? No srcinal, os verbo s estão no infinitivo, e
não po dem ser traduzidos com o impera tivos. N a passage m paralela em
Colossenses8os verbos são particípios do aoristo, e indicam o que os cris-
tãos colosse nses fizeram na ocasião da sua conversã o: “U ma vez que vo s
despistes do velho hom em ... e vos revestistes do nov o ho mem ” Além dis-
so, se são imperativos em Efésios 4:22, 24, o mandamento no versículo
25, torn ase um contras enso: Por isso, deixa ndo a m entira... Decerto, este
“po r isso”, que está edific and o sobre aquilo que já foi escrito, dificilmente
pode basear um m andam ento sobre outro, como se dissesse: “Despojai
vos do velho hom em ... e revistaiv os do novo hom em ... P or iss o, deixai a
mentira”. O paralelo em Coloss enses , d o o utr o lado, faz perfeito sentido,
porque edifica um mandamento presente sobre um fato passado. Diz:
“Despojaivos,
ledicência igualmente,
(etc.), de tudo
uma vez que isto: ira, indignação,
vos despistes maldade,
do velho homem... ma-re-
e vos
vestistes do novo homem” (3:810). É porque já nos despimos da nossa
velha natu reza, naque le ato deci sivo cha mad o conve rsão, que podem os,
logicamente, ser orde nado s a rejeitar todas as práticas que pertencem à que-
la vel ha vida que repudiam os. Em E fésios 4, bem como em Colossens es
3, por tanto , a mesm a lógica pod e ser ach ada . Os verbos “desp ojarse” e
“vestirse” nã o são novo s ma nda mento s que o apósto lo agora d irige aos
seus leitore s mas, si m, m and am ento s antigos que lhes dera qua nd o esta-
va com eles, e dos qu ais ago ra os relembra. Realmente, es tes m an da m en -
tos são a própria verda de em Jesu s que lhes fora ensina da e que tinh am
aprendido. Ressaltemos que a pontuação do texto, tal como aparece na
ERAB, com u ma vírgula (e nã o p on to final) no fim do versículo 21 está
corret a, p orque destaca b em a seqü ência do pensamento: nele fos tes ins
truídos... no sentido de que... vos despojeis do velho homem... e vos re
vistais do nov o... A BJ capta bem a seqüência de pensamento: “fostes en-
sinados a remover o vosso modo de vida anterior... e revestirvos...”
O que, pois, lhes tinha sido ensinado? Tinham sido ensinados que
7 Jo 14:6. 8 Cl 3:9 1 0.

132
efésios 4:175:4

tornarse cristão envolve uma mudança radical, a saber: a “conversão”


(conforme o lado h um ano da expe riência é usualmente chamad o) e “n o-
va criação” (o lado divino). Env olve o repúdio do n osso próp rio eu anti-
go, da nossa hu m anid ade caída, e a adoção de um novo eu, ou da h um a-
nidade c riad a de no vo. A ca da um destes doi s Paulo ch am a (li teralmen-
te) de um
de que m se“ho mem”:Charles
reveste. o “velho hom em”,
Hodge queessa
explica é despojado,
linguage:e“Aquilo
o novo qhomem,
ue aqui
é cha m ado de o vel ho hom em Paulo, n outro s lugares, cham ase a si mes-
mo, como em Rm 7:14 (sou carnal) ... ou a carne ... como em G1 5:16,
17... Usa o termo homem porqu e refere se a nós mesm os.” 9Além disso,
noss o pró prio “eu” anterio r e o noss o novo “eu” estão vividamente con-
trastados u m com o outro: “Assim como somos conclamados a despi r nos-
sa natureza c or rup ta como u ma roupa esfarrapada e suja , assi m também
reque rse de nós que nos revistamos da nossa nova natureza com o um a
veste de luz . E assim com o a prim eira e ra person ificada com o um velho
homem, decrépito, deformado, e tendendo à corrupção, assim também
a últim a é pe rso nific ad a com o um novo hom em, viçoso, belo, e vigoro 
soo, com o De us..” Isto é , criado à sua im agem .10
Os retra tos qu e Paul o pin ta dos dois “hom ens” equilibramse. O velho
era “co rr up to ”, no processo de d egenerarse, no cam inho p ara a ru ína ou
para a destruição; o novo tem sido criado segundo De us. O velho era do -
minado por concupiscências, po r paixões não con troladas; o novo foi cria-
do em justiç a e re tidã o. As concupiscênçias do velho eram do engano; a
justiça do novo é da verdade. Desta manei ra, a corru pçã o e a criação, a
paixão e a santidade, o engano e a verdade estão colocados em contraste
entre si, o que indica a total incompatibilidade entre o velho e o novo, o
que éramos em Adão e o que somos em Cristo.
Entre estes dois contrastantes tipos de pessoa que “despojamos” e
qu e “ no s reve stimo s” colo case o v ersículo 23: e vos renove is no espírito
do vosso entendim ento. Este verbo é um presente do infinitivo, em dis-
tinç ão co m os te mpos dos versí culos 22 e 24, que são aoristos. Ind ica que ,
além da reje ição decisiva do velh o e a aceitação do nov o, im plícita na co n-
versão, um a renovação interior, diária e até mesmo contín ua do nosso po n-
to de vista está envolvida em ser um cristão. Se a degradação dos pagã os
é devida à futilidade das suas mentes, a retidão cristã depende da cons-
tante renovação da nossa mente.
Em to do este ensino, o divino e o hum ano estão lindamen te har m o-
nizados. Ao m an da r que troquemos a nos sa velha hum anidad e po r um a
nova, P au lo n ão está d and o a entender q ue podem os levar a efeito o nos-
so novo n ascim ento. Ning uém deu à luz a si mesmo. Es ta idéia é ridícu -
9 H od ge , pá gs . 259260 . 10 Ib id ., pág s. 264265.

1 33
UMA NOVA ROUPAGEM

la. Não, a nov a hum anid ade que assumimos é criação d e Deus, n ão n os-
sa. M esmo assi m, q ua nd o Deus nos cria de novo em Crist o, concord am os
inteiramen te com aquilo qu e ele fez. “D esp ojam os” n ossa velha vida, e
“nos reves timos” da n ova vida que el e criou, abra çand oa e dando lhe as
boasvindas com alegria. Numa palavra, a nova criação (aquilo que Deus
faz) emojunto
nece arrepes ndim
e nãoento
podem(aquilo
ser que nósdos.
separa fazemos pela graça d ele) perm a-
Tudo isso tin ha sido ensinado aos cristãos de Éfeso e do re stante da
Ásia. Tinham sido efici entemente fund am entad os na n atureza e nas con-
seqüência s da nova criação e da nova vid a. Fazia parte da verdade em Jesus
que tinham aprendido. Não somente tinham sido ensinados a despojar
o velho e a revestir-se do novo. J á o tinham feito. A realidad e ocorreu n a
ocasião d a conversão de les. Depois, o simbolism o pode ters e seguido na
ocasião do seu batismo, pois alguns batismos primitivos incluíam uma
inve stidura ceri monial com u m a veste bra nc a." Ag ora Paulo os recorda
do que aprenderam e fizeram.
Olha nd o de volta par a este versículos, p odem os talvez entend er mais
clara mente os do is sóli dos fundame ntos d outrin ários par a a santidade cris -
tã que Paulo lançou. São como du as ra ízes das quais a santidade brota
e cresce. Prim eiro, p assam os p ela experiência de um a nova criaç ão e, em
segundo luga r, com o conseqüência, recebemo s um a nova mente que cons-
tantem ente está sendo renova da. Além dis so, as duas estão organicamente
relacionadas entre s i. É a nossa nova criação qu e nos deu um a nova ment e;
e é a noss a nova mente que entende a n ossa nova criação e suas conseqüên -
cias. Visto ser e la um a nova criação con form e a sa nta imagem de Deu s,
envolveu para nós a tot al rejeição da nossa antig a con dição de caídos, e
o nosso reve stimento c om gratidã o d a nossa nova condi ção hu mana.
Por isso, P aulo continua , “deixan do a mentira, fal e cada um a ver-
dade ” (v. 25). Ou seja, por qu e realm ente vos despojastes do seu velho “eu”
de uma ve z po r todas, deveis agora lançar fora tod a a con duta que per-
tencia à vos sa velha vida . Vosso novo com po rtam en to deve estar com ple-
tamente consistente com o tipo de pessoa que vos tornastes. Conforme
já notamos, a metáfora (“despojarse” e “vestirse”) é tirada da maneira
de nos vestirmos. Agora pode ser mais desenvolvida.
O tipo de roupas que usamos depende do tipo d e pap el que est amos
desempenhando. Por exe mplo, qua ndo vamos a um casamento, usamos
um certo tipo de roupa: qu an do vam os a um enterro, usamos ou tro tipo.
Reconheço, naturalmente, que alguns jovens no ocidente usam “jeans”
em todas as ocasiões. Mesmo assim, o costume de adaptar o nosso mo-
do de vestir de acordo com a ocasião, aind a perman ece como um princí-
11 Cf. G1 3:27.

134
efésios 4:175:4

pio geral. As roupas de m uitas pessoas são determinadas, além disso, pelo
ofício. Os soldados e os marinheiros usam uniformes diferentes. Os ad-
vogados têm roupas especiais, pelo menos quando comparecem no tri-
bunal. Assim também alguns dos clérigos. Assim também os presos e os
condenados. Quando, porém, mudamos de papel, trocamos de roupa.
Quando os presos
(despojandose de são soltos edaassumindo
um papel custódia eoutro),
voltamtrocam
a ser homens livres
as roupas que
usam (tirando o uniform e da prisão e vest indo roupas comuns). De mo -
do semelhante, qu an do o so lda do deixa o exército e torna se um civi l, ti -
ra o un ifor me e vestese à paisan a. Ex atam ente assim, visto que po r um a
nova criação tiram os a velha hum anid ade e vestimos a nova, devemos tam -
bém deixar de lado os velhos padrões, e ad otar os novos. Nosso novo pa-
pel envolverá novas roupas, e nossa nova vida, um novo estilo ético de viver.

2. Seis exemplos concretos (4:25-5:4)


É maravilhoso ver quão facilmente Paulo p ode pa ssar d e um a elevada dis-
sertação teológica sobre as nossas duas hum anidad es, sobre o Cristo que
aprendem os e sobre a nova criação que exper imentamos, descendo p ara
as duras realidades do co mpo rtam ento cristão: falar a ve rdade e co nt ro-
lar a ira, ter honestidad e no servi ço e bo nd ad e no falar, am or e au toc on -
trole sexu al. Tudo muit o prático. E antes de cheg arm os aos seis exemplos
que ele dá, precisamos notar três aspectos que todos têm em comum.
Primeiro, todo s dize m respe ito aos nossos rel acionamentos. A san-
tidade não é uma condição mística experimentada com relação a Deus,
isolada dos s eres hum anos. Ninguém po de se r bom “teoricam ente” ; tem
que sêlo no mundo real das pessoas. Além disso, “todas as qualidades
aqui recomendadas são aspectos daquela unidade na igreja que o nosso
escritor tem como preocupação primária esclarecer e desenvolver. Deli-
beradamente ele dá p rio rid ade a este assunto... De modo semelhante, os
male s a serem evitados são todos destruidores da ha rm on ia h um an a. 12
Em segundo luga r, em cad a exemplo um a proib ição negativa é equi-
librada por um mandam ento positivo corres ponden te. N ão basta despir
nos dos velhos farrapos; devemos vestir roupas novas. Não basta deixar
de mentir e d e fu rtar e de perder o nosso autocontrol e, a não ser que tam -
bém comecemos a falar a verdade, a trabalh ar honestamente e a ser bon-
dosos uns com os outros.
Em terce iro lugar, em cad a caso uma r azão par a o man dam ento é da -
da ou é subentendida: uma razão teológica, na realidade. No ensino de
Jesus e dos seus apóstolos, a doutrina e a ética, a crença e o comporta-
mento sempre estão encaixados uns nos outros.
12 Houlden, pág. 320.

135
UMA NOVA ROUPAGEM

a. Não contem mentiras mas, sim, falem a verdade (v. 25)


Po r isso, deixa ndo a mentir a, fa le cada um a verdade com o seu próximo,
porque somos membros uns dos outros.
De acordo com o texto grego, mentira é mais que falsi dade na form a abs-
trata. Significa, sim, a mentira (to pseud os). É possível, portanto, que Pau-
lo esteja se referindo aqu i como em Rom anos 1:25 à “grand e men tira da
idolatria”, e que, como seus leitores tinham renunciado aquela suprema
falsidade do paganismo, o sintoma principal de uma mente fútil e obs
curecida (vs. 1718) conclam aos agora a ab an do na r todas as m entiras me-
nores e falar a verdade. 13C ertame nte, evitar as men tiras é de pouc a u ti-
lidade sem a bu sca ativa d a verdade. Os seguid ores de Jesus ( em quem está
a verdade, v. 21) devem ser conh ecido s na su a co mun ida de co mo pessoas
honestas e fide dignas , em cu ja palavra se pode confiar. A ra zão d ad a não
somente
denam que é que a ou trampessoa
amemos, as que,é na
nosso próxim
ig reja, o, arelacion
o nosso q uem asamEscrituras or-a
ento é aind
mais estreito, porque som os m embros uns dos outros. Paulo nos traz de
volta à sua d ou tri na d a igreja com o o corpo de Cristo (cf . vs. 1216), e su-
bentende que “uma mentira é uma facada nas partes vitais do corpo de
Cristo ”.14A co munh ão, pois, é edifica da na c onf iança, e a co nfia nça é
edificada na verdade. Logo, a falsidade subverte a comunhão, ao passo
que a verdade a fortalece.

b. N ão perca a calm a mas , sim, tenha cert eza de que sua ira é ju st a (vs.
2627)
Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, 21nem deis
lugar ao diabo.
Irai-vos, e não pequeis é um eco do Salmo 4 :4. Parec e que esta form a de
palavras é um a expressão idiomática hebraica que permite, mas que res-
trin ge, a i ra, ao i nvés de ser realmente um a recom endaç ão dela . “Q ua n-
do estiver em irados, n ão p equ em ” (BV) seria um equivalente em nossa lin-
guagem. Mesmo
tã, e bem pou assim, os são
cos cristão versículo
os quereconhece
a sent emque
o u aexi stessam.
expre a ira que é cris-
Realm en-
te, qu an do deixamos de assim f azer, neg amos a Deus, prejud icam os a nós
mesmos, e encorajamos a divulgação do mal.
As Escrituras nos ensinam claramente que há dois tipos de ira: a ju st a
e a injusta . No ver sículo 31, a ira é um a das coisas desagr adávei s qu e de-
vemo s coloca r longe de nó s. D ecerto, a referência é à ira injusta. M as em
5:6 som os infor mado s sobre a ira d e Deus que virá sobre os desobed ien-
tes, e sabemos qu e a ira de Deus é just a. Justa ta mbém foi a ira de Je sus. 15
Deve, porta nto , haver um a ira bo a e verdadeira que o povo de Deus pode
13 Fi nd lay , pá g. 292. 14 M ac ka y, pá g. 213. 15 Mc 3:5 .

136
efésios 4:175:4

aprender, de Deus e do Senhor Jesus.


Vou além, e digo que h á um a grande neces sida de no m und o contem -
porâneo para mais ira cristã. Nós, os seres hum anos, entramos num meio
term o com o pecado de um a manei ra que Deus nunca faz. Devemos, diante
do mal descar ado, fica r indignados e não tolerantes , zangados e nã o a pá -
ticos.
despe Se
rta Deus
a suaodeia o pecado,deve
ira , também seu desp
povoertar
deveaodiálo
nossa. também. Seseo mal
“De mim ap od e-
rou a indignaçã o, p or caus a dos pecadores que aban do na ram a tua lei! ’16
Que ou tra reação podese esper ar que a maldade provoque naqueles que
amam a Deus?
É especia lmente digno de no ta que o apóstolo in troduz esta r eferên -
cia à ira num a carta dedic ada à nova sociedade de De us, que é de amor,
e num par ágrafo que se ocup a com relacionament os harmoniosos. Ele as-
sim faz porqu e a verda deira paz não é idêntica com o aplacar de um a ira .
“Num mundo tal como este”, comenta E. K. Simpson, “o maior pacifi-
cador tal vez tenh a de assumir o papel de rom pedor d a paz como um a obri-
gação sa gra da.” 17
Ao mesm o tempo, devemo s lembrarnos do nosso estado de caídos,
e noss a disposição con stante à intem perança e à v aidade. Em conseqüên-
cia, precisam os sempre fica r vigilantes e agir com o censores da no ssa pr ó-
pria ira. Se formos sábios, seremos tardios para no s irar, lembrandonos
de que “a ira do hom em n ão p rod uz a jus tiça de Deus”. 18Assim, Paulo
imed iatam ente qualifica sua expressão permissi va irai-vos com três nega-
tivos. Primeiro, não pequeis. Devemos assegurarnos de que a nossa ira
esteja livre do orgulh o ma goado , do despe ito, da m alíc ia, da an im osid a-
de e do es pírito de vingança. Em segundo lugar , não se po nh a o sol so bre
a vossa ira. E st a instru ção ilu stra bem a insensatez do liter alismo ex ces-
sivo ao in terp ret ar a Bíbl ia. N ão devemos entender Pau lo “tão literalmente
que possamos to m ar lic ença par a fica rmos irados até ao pôr do sol”, pois
“então a nos sa ira po der á prolongarse com os dias ; e os hom ens da Groe
lândia, onde u m dia du ra mais de um qu arto de an o, têm excelente des -
culpa pa ra a vin gança ”.19Não, a intenção do a pósto lo é advert irnos con-
tra f icar a ca len tan do a ira. Raras v ezes é seguro deixar as brasas arderem.
Certamente, se ficarm os conscie ntes d e algum elemen to pecaminoso ou
egoíst a nesta ir a (e se a nossa orgê, “ira”, degenerar em parogismos-, “res-
sentim ento”, a p alav ra usa da no fim do v. 26), en tão já é ho ra de desisti r-
mos dela, e ou de ped irm os desculpas ou de sermos reconci liados com a
respect iva pesso a. No Antig o Test amento, quem emprestasse dinheiro e
16 SI 119:53. 17 Simpson, pág. 108. 18 Tg 1:1920.
19 Citado de um co me ntário anterior por Armitage Robinso n, pág. 112, nota.

137
UMA NOVA ROUPAGEM

tomasse a cap a de um pobre com o penhor, tinh a de dev olvêla ao pô r do


sol, de modo que o pobre pudesse dorm ir envo lto ne la; e um em pregador
que tivesse quais que r empr egado s que fossem pobres e necessitados tinha
de pagarlhes o se u salário diaria mente “antes do p ôr d o sol”.20 H á m ui-
tas situações semelhantes em que é sábio v iver um d ia po r vez. “N unc a

do zang adocaso
que no p arde
a aum
camcasal.
a” é um a b oa regra, e poucas ve zes mais apli cável
A terceira qualificação de Paulo é nem deis lugar ao diabo (v. 27),
porque ele sabe quão fina é a linha entre a ira justa e injusta, e quão difí-
cil os seres humanos encontram um uso responsável para a sua ira. Por
isso, o diabo gosta de ficar espreitando as pessoas zangadas, esperando
poder tirar proveito da situação ao provocálas para o ódio ou à violên-
cia, ou a um rompimento d a comunhão.

c. Não fu rte mas, sim, trabalhe e contribua (v. 28)


Aquele que fu rta va, não fu rte mais; antes trabalhe, fa zendo com as pró
prias m ãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado.
“Nã o fu rtará s” foi o oi tavo ma ndam ento d a lei de Moisés. Tinha, e ain-
da tem, u ma am pla aplic ação, n ão soment e com res peito a fur tar o dinhei-
ro ou os bens de outras pessoas, mas tam bém com respeito à sonegação
de impo stos e a truqu es com a alfândeg a que roubam do gove rno aquilo
que lh e é devido; aplicase ain da aos empregadores que oprim em os tr a-
balhadores,
balham todas e aos empregados
as horas devidas.que fazem serviço inferior ou que não tra-
Ao repe tir o m andam ento ( aqu ele que furtava , não fu rt e mais) , no
entanto, o apó stol o vai além da proibiç ão e tira conclusões pos itivas. N ão
basta que o ladrão cesse de furtar. Ele deve começar a trabalhar, fazendo
com as pró prias mãos o que é bo m , ganha ndo a própria vi da. Depo is, não
somente pode rá sustentar a s i mesmo e a sua família, como tam bém acu
dir ao necessitado. Ao invés de ser uma parasita da comunidade, que é
a situação dos ladrõe s, com eçará a con tribu ir pa ra ela. E ninguém, senã o
Cristo, pode transformar um assaltante em benfeitor!
d. Não use a boca para o mal, mas, sim, para o bem (vs. 2930)
Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e, sim, unicamente a que
fo r boa para edificação, conforme a necessidade, e assim transmita gra
ça aos que ouv em. 30E não entr isteçai s o Espírit o de Deus, no qual fo s
tes selados para o dia da reden ção.
O ap óstolo volta se do uso das nossas mãos p ara o uso da n ossa boca .
A fala é um a maravilh osa dádiva d e Deus. É um a das capac idad es hum a-
20 Dt 24:1315.

138
efésios 4:175:4

nas que refletem a nossa sem elhança com o C riador. Nosso Deus, poi s,
fala, e como ele, nós tamb ém falamos. A fala disting uenos da c riação ani-
mal. As vacas podem m ugir, os cachorr os latem, os asnos zurra m, os po r-
cos grun hem , os cordeiros balem, os leões rugem, os macacos guincham
e os pássaros cantam, mas somente os seres humanos sabem falar.
Po raq
“Torpe” isso não s aia da vossa boca nen hu ma palavra torpe, dize Paulo.
ui,é sapros, palavra q ue se emprega pa ra árvores podres frutos
podres.21Q uando é aplicada à conversa podre, podem os ter a certeza de
que, de algum a m aneira, preju dic a os ouv inte s. P elo contrário, devemos
empregar o no sso dom sem igual da fala de modo const ruti vo, para edi
ficação, ou seja, para sermos construtivos com as pessoas e não para
prejudicálas ou destruílas, conforme a oportunidade. En tão nos sas pa-
lavras transmitirão graça aos que o uvem .
Jesus ensinou a grande relevância da fala. Nossas palavras revelam
o que há em nosso coração, disse ele, e teremos de prestar contas no dia
do juízo de to da palavra frí vola que t enham os pro nun ciado .22Desta ma -
neira, Tiag o estava apenas re petind o o ensino do se u Mestre qu and o en-
fatizou o imenso pod er d a língua hu m an a pa ra o bem e para o m al.23 Se
somos ver dadeiram ente um a nova criação de Deu s, dese nvolveremos, in-
dubitavelmen te, novos pad rõe s de conversação. Ao inv és de ferir as pes-
soas com n ossas palavras, desejaremos us álas par a ajudar, encorajar, ani-
mar, co nsolar e estim ular tais pessoas. Eu, pessoalmen te, m uita s vezes te-
nho sido desaf iado pela fa la contrasta nte entre o sábio e o insensato e m
Provérbios 12:18: “Alguém há cuja tagarelice é como pontas de espada,
mas a língua dos sábios é medicina”.
Não é evidente por que Paulo agora introduz o Espírito Santo: E não
entrist eçais o Espírito de Deus, no qual fo st es selados para o dia da re
denção (v. 30). O apóstolo, porém, estava constantemente consciente de
que, por trás das ações dos seres humanos, personalidades invisíveis es-
tão presentes e ativas. Acaba de nos advertir no sentido de não darmos
opo rtu nid ad e ao diab o (v. 27); ago ra nos conclam a a não en tris tecer mos
o Espírito Santo. Fica evidente aqui que o Espírito Santo é plenamente
pessoal, pois lypeõ é causar tristeza, dor, ou aflição, e somente pessoas
podem sentir estas coisas. Mas o que entristece a ele? Visto que ele é o “Es-
pírito Santo”, sempre está entristec ido pela fa lta de santidad e, e sendo e le
“um só Espírito” (2:18; 4:4), a desunião também lhe causará t risteza. Na
verdade, qualq uer coisa incompát ivel com a pureza ou com a unidade da
igreja é incom pátivel com a sua próp ria nat urez a e, po rtanto, fereo. Po -
deríam os acrescentar que , p orqu e ele também é o “Espírito d a verdade ”,
atra vés de quem Deus falou, ele é entriste cido po r tod o o nosso abuso da
21 M t 7:1 7 18 e 12:33 . 22 M t 12: 33 37 . 23 Tg 3:112.

139
UMA NOV A ROUPAG EM

fala, que foi o tópico de Paulo no versículo anterior.


Notamos também no versículo 30 as referências ao ser selado com
o Espírito e ao dia da redenção. A selagem (conform e Paulo já explicou
em 1:13) ocorreu no início da nossa vida cri stã; o próp rio E spírito San-
to, habitando em nós, é o selo com que Deus nos carimbou como sendo
propriedade sua. O dia da redenção, no entanto, embora já tenhamos a
redenção no sen tido do perdã o (v. 1:7), levano s a olh ar pa ra o fim f ut u-
ro, qu and o o nosso corpo será r edimido, pois somente então estará com -
pleta a nossa redenção o u libertação. Desta m aneira, a “selagem” e a “re-
dençã o” refer emse, respe ctivamente , a o início e ao fim do processo de sal-
vação. E entre estes dois pontos terminais devemos crescer em nossa se-
melhança a Cris to, e tom ar cuidado p ara nã o entri stec er o Espírito S an-
to. O Espírito Santo, pois, é um Espírito sensível. Odeia o pecado, a dis-

cór
ta r dia
queeelaefalsidade,
fique entrise retraise pa ramos
tecido, deve longnos
e deles.
retrairLogo,
pa ra se quisdele
longe erm os evi--
s tam
bém. Todo crente cheio do Espírito deseja darlhe prazer, e não dor.
e. Não sejam maldosos ou amargos mas, sim, bondosos e amorosos
(4:315:2)
Longe de vós todos a amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e
bem assim to da a malícia. 32Ante s sede u ns para c om os outros benignos,
compa ssivos, perdoando-vos un s aos outros, com o ta mb ém D eus em Cris
to vos perd oou .
5:1Sede, pois, imitado res de Deus, co mo fi lh o s amados; 2e an dai em
amor, com o tam bém Cris to vos amou, e se entr egou a si me sm o p o r nós,
com o ofer ta e sacr ifício a Deus em aroma suave.
Aqui h á u ma série inteira de se is atitudes e ações desagr adávei s qu e de -
vem ser lanç ada s longe de nós. A amargura (pi/cria) é um espírito azedo
e um a convers a azeda. P ouc a coisa é mais triste nas pessoas idosas do que
um po nto de vista negati vo e cínico sobre a vida. C itan do Aristóteles, Ar

mitage
se Robinson
rec usa o define como
a reconciliarse”.24 “um espírito
A cólera (thymosama
) ergurad o e ressentid
a ira ( orgê o que
) obviamente
são semelh antes entre s i, sendo que a primeira den ota um a fú ria apaixo -
nada, e a última, uma hostilidade mais firmada e sombria. A gritaria
(kraugê) descreve as pessoas que ficam excitadas, que erguem a voz nu-
ma altercação, e começam a gritar, até mesmo a berrar, umas contra as
outras, ao passo que as blasfêmias (blasphêmia ) referemse a fala r m al
dos outros, especial mente pelas c ostas , chegand o, assim, a difam álos e
até mesmo d estruir a sua reputaçã o. A sexta palavra é malícia (kakia ), ou
má vont ade, desej ando, e p rovavelmen te tam bém tram ando , o mal co n-
tra as pess oas. Alterna tivam ente, podese incluir os cinco v ícios anterio
24 Armitage Robinson, pág. 194.

140
efésios 4:175:4

res, a saber : “o ressentimento silenciosamente acalentado, a explosão de


indignação, a fúria que fer ve, a brig a públic a e a zom bar ia ca lunio sa!’25
Não há lugar algum p ara qualquer dessas coisas horríveis na comunid a-
de cristã; devem ser totalmente rejeitadas.
No lugar delas, devemos dar as boasvindas às qualidades que carac-
terizam
para como com po rtamAento
os outros. de Deus
palavra e de Cristo.
é chrêstos, e poDeve
r caumos
sa daser benignos
óbvia uns
assonân
cia com o nome de Cristo ( Christos ), os cristãos desde o início a consi-
deravam e specialmente apropriada. Ocorre no Sermão da M ont anh a para
a bondade de Deus “até para com os ingratos e maus”.26 Compassivo é
quem tem tern ura de cor ação, ao passo que perdoando-vos uns aos ou
tros (charizomenoi ) é literalmente “agindo com graça” uns par a com os
outros, assim como Deus em Cristo agiu com graça para conosco. Por-
tanto, po r causa d a atitude graciosa de Deus e de suas açõ es generosas par a
conosco, devemos ser imitadores (mim êtai) de D eus, como filh o s am a
dos. Assim como os filhos imitam os pais, assim nós também devemos
im itar o noss o Pai, Deus, confo rm e Jesus nos m an do u fazer .27Devemo s
tam bém seguir a Cristo , e andar em amor, com o também Cristo nos amou,
e se entr egou a si me smo po r nós. O mesmo verb o pa ra a entrega de s i mes-
mo (paradidõmai) é emp regado pa ra os pagãos em 4:1 9. E ntregamse à
licenciosidade; nós, como Cristo, devemos entregarnos ao amor. Seme-
lhante entrega de si mesmo em prol dos outros é agradável a Deus. As-

esim comcio
sacrifí Cristo,
a Deusassem
im conosco, o am. orÉ,que
aroma suave po se sacrifica
rtanto, u m aa verdade é oferta
s i mesmomarcante
que o amor sacrificial para os outros fica sendo um sacrifício aceitável
a Deus.
É dign o de nota com o a ética de Paulo se centraliza e m Deus . É n a-
tural pa ra ele, ao promu lgar suas instr uções morais, menc ionar as três pe s-
soas da Trin dade . M andano s “im itar a Deus” , “aprender a C risto” e não
“entristecer o Espírito Santo”.

f. Não façam piadas acerca do sexo mas, sim, dêem graças po r ele (vs. 3 4)
Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas, ou cobiça, nem sequer se
no meie entre vó s, co mo conv ém a santos; 4nem conversação torp e, nem
palavras vãs, ou chocarrices, coisas essas inconvenientes, antes, pelo con
trário, ações de graça.

Paulo voltase da “abnegação... para o seu exato oposto, a auto


satisfação”,2 8do “am or” genuíno p ara aq uela perversão del e que é ch a-
25 Caird, pág. 83. 26 Lc 6:35.
27 Mt 5:45, 48. 28 Henriksen, pág. 227.
141
UMA NOVA ROUPAGEM

mad a de “concupiscência” . As palavras greg as par a impudicícia (porneia)


e impurezas (akatharsia) abrangem juntam ente tod o tipo de pecado se -
xual; no utr as palav ras, to das as relaçõe s sexuais fora do seu context o, o r-
dena do p or D eus, de um casam ento am oros o. A eles Paulo acrescenta a
cobiça, decert o po rqu e aquel es pecado s são um a fo rm a esp ecialme nte de-
gradan te de la, a saber : a cobiça do corpo de outra pessoa pa ra um p ra-
zer egoís ta. O décim o m andam ento, espec ificamen te, proibiu a cobiça da
esposa do próximo, e ante riorm ente nes ta cart a Paulo escreveu sobre a “avi-
dez” envolvida nas práti cas im puras ( 4:19).29De ste modo , segun do escre-
ve, to da form a de im oralidade sexu al nem sequer se nom eie entre vós. Não
somente devemos evitar a sua prática, como também evitar pensar e fa-
lar sobre e la, pois de ve ser tota lm ente ba nid a da com unid ade cristã. Este
era um pad rão alto e santo p ar a exigir, pois a im oralidade campeava na

Ásia.
deradaE visto qu esaa da
um a deu deusa
fertgr ega Ártemis,
ilidade, “Duais
orgi as sex ian aeram
dos regularmente
Efésios ”, eraasso-
consi-
ciadas com a adoração dela.
O versí culo 4 vai mais lo nge: da im oralid ade p ara a vulgaridade. A
convers ação torp e, pois, significa a obscenidade, e tan to as palavras vãs
quan to as chocarrices prova velment e são u ma alu são às pia das grossei-
ras, a forma mais barata do humor. Todas as três expressões referemse
a um a me nte suja ex pressandose em convers a suja. E stas cois as, porém,
são inconvenient es. Antes, p elo contrá rio, diz Paulo, que haja ações de
graça. O contraste é notável e belo. Em si mesmo, dar graças não é um
substituto p ar a a vulgaridade, visto que esta última é essenc ialmen te ego -
cêntrica, ao p asso que aqu ela se centrali za em Deus. Mas talve z seja es ta
a lição que P aulo está ensinando: “Ao passo que a imp ureza sexu al e a co-
biça expressam um a visão de vida egoísta, as ações de graças são exata-
mente opostas e, portanto, o necessário antídoto; tratase do reconheci-
mento da gene rosid ade d e De us”.30 Pareceme prováv el, no enta nto , que
Paulo esteja colocando a vulgaridade e as açõ es de graça ainda m ais cla -
ramente
pagã e aem oposição
cristã. Semum a à ouostra,cristãos
dúvida, com o atitudes
têm umaalternati vas ao sexo:
má reputação a
por se-
rem negativos para com o sexo. Dr. Michel Fourcault, que desde 1970 é
catedrático em Histó ria dos Sistemas de Pensam ento no Collège de France,
está, segun do parece, escrev endo um a História da Sexualidade em seis vo-
lumes. Ex plicando sua obra no jorn al Le Monde em jan eir o de 1977, fa-
lou do “legado m ais intol eravelmente pesado d o cristianis mo, o sexo co-
mo pecad o”. E é verdade que alguns dos nossos antepa ssados da era vi-
29 Ver também 1 Co 5:101 1; 6:9 10 e Cl 3:5 pa ra ou tras passagens em que o apósto lo asso-
cia a cobiça com a imoralidade.
30 Houlden, pág. 324.

142
efésios 4:175:4

torian a chegaram perto desta identif icaçã o. Mas a razão po r que os cris -
tãos não devem gostar da grosseria, e d evem evitála, n ão é porqu e temos
um conceito distorcido do sexo, e ou po rqu e temos m edo o u vergonh a dele
mas, sim, porque temos dele um conceito alto e santo, sendo, no seu lu-
gar, cer to, a bo a dádiva de Deus, que não querem os ve r bara teada. Todas
as dádivas de Deus, inclusive o sexo, são assuntos para ações de graças,
e não para piadas. Fazer piadas a respeito delas forçosamente as degra-
dará; d ar graças a Deus por elas é o m odo de conservar o se u valor como
bênçãos de um Criador am oroso.
Conclusão
Qual é o tema que passou pela totalidade do capítulo 4 e transb ord ou p ara
o capítulo 5? Estes capítulos são um a convoca ção emocion ante para a un i-
dade e a pu
da experi reza cristã
ência da igreja; e sãoque
(aquilo m ais do que
somos), d ist o. Seu tem
a teologia a é (aqu
cristã a integiloração
que
cremos), e da ética crist ã (como nos comp ortam os). Enfatizam que a ex is-
tência , o pensa me nto e a ação nu nca dev em ser separados. Aq uilo que so-
mos, pois, dirige a forma como pensamos, e como pensamos determina
como agimos. Somos a nova sociedade de Deus, um povo que se despiu
da velh a vid a e vestiu a nova; é assim que ele f ez conosco . Devemos, p or-
tanto, relem brar este fato pela r enovação diária d a nossa ment e, lemb rando
como “aprendemos a Cristo... segundo é a verdade em Jesus”, e pensan-
do de m odo cristão acerca de nós mesmos e da no ssa nova pos ição. D e-
pois, devemos ativamente cultivar uma vida cristã. A santidade não é, pois,
um a condição na qual est amos flu tuand o à de riva. N ão somos espect a-
dores pas sivos de um a santificação que Deus opera em nós . Pelo con trá-
rio, devemo s deliberadam ente “ deixar” tod a a con dut a que é inco mpáti-
vel com a no ssa nova vida em Cristo, e “ revestirnos” de um estilo de vi-
da compatível com ela.
Duas palavras s e destacam, resumindo este tema. E m 4:1 Paulo nos
roga
evitara aviver
imoralidade digna convém
uma vida“como da chamaada de Deu
santos”. s, e eminfeliz
É muito 5: 3 nos
quema nda
a pa-
lavra “san tos” t enh a chegado a se r usada, senão p ara os he róis da i greja
que for am can onizad os, então pelo menos p ara pessoas excepcionais e fre-
qüentem ente excênt ricas que se destacam das demais pelo seu rosto páli-
do, pelo seu olh ar p ara o cé u e po r su a auréola invi sível. “Os sa nto s”, no
entanto , são tod os os que são de Deu s, que fo ram reconciliados a ele e uns
aos outros. P or isso, certos ti pos de com porta mento são “dig nos” ou “con-
vêm”, pois são apr op riad os pa ra quem somos, ao passo que cer tos outros
são “indignos“ ou “inconvenientes”, sendo inapropriados.
Que ni nguém diga que a dou trina não importa ! A boa cond uta sur-
ge da b oa dou trina. É somente depois de termos en tendido clar amente
143
UMA NOVA ROUPAGEM

quem somos em Cristo, que crescerá dentro em nós o desejo de viver uma
vida digna da nossa vocação e conform e convém p ara o nosso caráter da
nova sociedade de Deus.
144
5:5-21
9. Mais incentivos à justiça
É um tan to a rb itrário sugerir que há um a divisão entre o versículo 4 e o
versículo 5 com o começo d e um novo parágrafo, j á q ue o mesmo tópico
de m ora lida de sexual está se ndo tr ata do nesses dois versículos. Apesar dis-
so, par ece qu e os vers ículos 3 e 4 per tencem aos exemplo s prát ico s da co n-
du ta ética da seç ão anterior, cada um man tendo u m equilíbrio de um a proi-
bição e de um mandam ento. Depois deles, em bora o versículo 5 continue
com o tem a do sexo, ficam os conscientes de que a ênfase alter ouse. P au -
lo ava nça, no tratame nto do com portam ento crist ão, de modelos par a a
motivação, e acrescenta quatro poderosos incentivos para o viver com
justiça.
Todos os empregadore s no comér cio e na ind ústria sabem d a imp or-
tân cia vita l dos i ncentivos. Com o os trabalhado res po dem ser persuadi-
dos a tra ba lhar mais e melhor , e assim aum entar a prod utividade ou as
vendas?
mais altos,Todos os tipos
condições de deserviço
estímulo sãoatraentes,
mais oferec idos na fo rmes,
bonificaçõ a de salários
férias, ins-
talações p ara a recr eação e a educação e , depoi s, boa s perspecti vas para
a apo sen tad ori a com um a pensão. Os me lhores incentivos, no entanto, n ão
são nem materiais nem egoístas. Os empregadores sábios procuram dar
ao seu quad ro de fun cionário s um intere sse maio r pelo emprego, mais le al-
dad e à firm a, e um a sensação de orgulho pelo que fabricam ou vende m.
Tudo isso dá testem unh o à natu reza dos hom ens e da s mulheres , feitos à
sem elhança de De us, os quais, além de um trabalh o, preci sam ter razões
para fazêlo, ter ideais para inspirálos, e ter um senso de realização cria-
do ra. Não é de admirar, n o entanto, que a pr óp ria Bíbli a que nos dá esta
do utr ina do hom em ocupase não somente com a obrigação mas também
com a motivação. A s pess oas sabem o que de vem fazer; com o po dem ser
motivad as a fazê lo? Aqui temos um aspecto da dou trina d a santificação
(ou seja, do processo de tornarse como Cristo) que é muito enfatizado
na Bíblia e muito negligenciado na igreja contemporânea.
O apóstolo estava argumentando que, porque somos a nova socie-
da de de Deus da
despojamos , devemos ad ota
velha vida e rnos
padreves
rões novo
timoss,da
e porqu
nova evida,
decisivame nos
nteusar
deve mos
rou pa s aprop riadas. A gora, acresc enta mais argumentos e m prol da san-
145
MAIS INCENTIVOS À JUSTIÇA

tidade. O prim eiro diz respe ito à certeza sole ne do julg am ento (vs. 57);
0 segundo, àq uilo que ch am a de “o fr uto d a luz” (v s. 814), isto é, as im -
plicações de serem pessoas que pertencem à luz; o terceiro, à natu reza da
sab edoria (vs. 1517); e o quarto, à plenitu de do Esp írito S anto (vs. 1821).
1. A certeza do julgamento (vs. 5-7)
Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, q ue é idó
latra, tem herança na reino de C risto e de Deus. 6Ninguém vos engane
com palavras vãs; po rqu e p o r estas co isas vem a ira de Deus sobre os f i
lhos da desobediência. 1 Portant o, não sejais particip antes com eles.

Muitas razões são da das no N ovo Testa mento po r qu e os cristãos devem


absterse da imoralida de. H á, po r exemplo, a teolog ia trin ita ria na do corp o
hum ano criado po r Deus , pertencendo a C risto e hab itado pelo Espírit o,
que Pau lo des envolve em 1 Coríntio s 6:12 20 . Alé m disso, há o fato de
ser claramente ina deq ua da a exi stên cia de práticas im puras no povo san -
to de Deus; no utras palavras, a licencios idade sexu al simplesmen te não
convém a santos (vs. 34). E, agora, há o temo r do julgam ento. A m aio-
ria das pess oas imorais cons egue praticar impunem ente i moralidade na
terra, mas n ão escapará da dete cção, d a conv icção e da condenação para
sempre. Sabei, pois, isto, Paulo adverte, visto não haver dúvida alguma
quanto a isto, nenhum incontinente, ou impuro... tem herança no reino
de CrisetoDeus
Cristo e de Deus. No tamo
nesta expr essão.s Visto
de pasque
sagem a eq uiparação
o artigo definid onotáve l ent re
nã o é repeti-
do, este único reino pertence àquele que é tanto Cristo quanto Deus. E
este reino divino é um reino de justiça, de onde será excluída toda a
injustiça.1
Devemo s ser cautelosos, no entan to, em no ssa aplicação d esta pesa-
da d eclara ção. Não deve ser e la entendid a no sentid o de que até mesmo
um só pensamento, palavra ou ação imoral seja suf iciente para nos des-
qualificar do céu; do utra forma, quem dentre nós qualifi cars eia pa ra lá
chegar? Não ; pa ra aquel es que cae m em tais pecado s por mo tivo de fra-
queza, mas depois se arrependem com vergonha e com humildade, para
esses há perdão. A pessoa im pu ra ou imoral qu e está sendo consid erada
aqui é alguém que se entregou sem vergonha e sem arre pen dim ento a es-
te mo do de vid a, o avarento no sentido já definido, ou seja, guloso pelo
sexo (4:19; 5:3), que é idólatra, acrescenta Paulo, entre parênteses. Tais
pessoas, cuja concupiscência se tornou em obsessão id ólatra, não terão
participarão no reino perfeito de Deus.
Ninguém vos engane, o apóstolo continua. Ele mesmo os c onclam ara
1Cf. 1Co 6:9, 10; G15:21.

146
efésios 5:521

a reconhecer a verd ade do julgam ento divino (Sabei, pois, isto); a gor a os
adverte contra as palavras vãs dos falsos mestres, que gostariam de
persuadilos de modo diferente. Nos seus dias os gnósticos argumentavam
que pecados no corpo podiam ser cometidos se m dan o pa ra a alma, e com
impunidade. Em nossos dias, há muitos enganadores no m undo, e até mes-
mo
den den tro da eigrque
ar todos, eja. Ensinam
todos que Deus
acabarão é po ao
chegando r demais bondoso par a con-
céu , independentemente
do seu com por tam ento n a terra. As palavras de ssas pessoas, no entanto,
são vãs, e seu ens ino, enganoso. O universalism o (isto é , a salvação final
universal) é um a mentira. A verdade é que p o r estas coisas (estas práti-
cas más, im puras, avarentas, idólatras) vem a ira de Deus sobre os filh o s
da desobediência. Esta últim a expr essão é um hebraís mo, j á presente em
2:2; significa, simplesmente, “os desobedientes”, aqueles que conhecem
a lei de Deus e deliberadamen te a de sobedecem. A ira de Deus rec ai so-
bre tais pessoas, a partir de agora, culm inando no dia do julg amento.2
Portanto, Paulo conclui, porqu e o reino de Deus é justo e a ira de Deus
sobrevirá aos injust os, não sejais particip antes com eles. Paulo não está
proib indo a existência de contatos ou de associação com tais pessoas. Se-
não, não poderíamos levarlhes as boas novas nem procurar refrear tais
pessoas dos seus maus caminhos. E teríamos de sair totalm ente do m un-
do, o qu e Cristo pro ibiu.3A palavra gr ega summetochoi referese à p ar -
ticipaç ão, nã o ape nas à as socia ção, com el es, e a proibição significa “não
vos torneis,
das suas pois coparticipantes
p ráticas, po is, confo rmedasLósuas ações” (BJ).
f oi advertido Se particip
em Sodom arm os
a, correre-
mos o risc o de participar d a sua cond enaç ão.
Seria fácil para os cristãos lerem apressadamente um parágrafo co-
mo este, sem p arar par a um a reflexão, sup on do que se aplica aos descren-
tes, e não a nós. Não é fat o que Paulo nos asse gurou na parte an terior d a
ca rta q ue temo s um a herança c elestial, e que o Espírito S anto den tro de
nós é a ga ran tia de Deu s, e até mesmo o antegoz o e primeir a sensação de la,
“até ao resgate d a sua pro prie dad e”,4 e que ele oro u que os nossos olhos
sejam abertos para ve rem “a riqueza da glória da sua herança” que um
dia será nossa? 5Sim, decerto falou as sim. Ao m esmo tempo, ele também
nos dirige esta advertência sobre perdermos o no sso direito ao reino de
Deus. Com o podem os conciliar estas coisas? Ap enas relem brando que a
certeza d a salvaç ão não é sin ônimo d a pres unção, nem um a desculpa para
ela. E se caí ssemos num a vida de imo ralidade e de co biça, n ão estaría
mos da nd o um a clara evidência de que so mos, afinal de co ntas , idólatra s,
e não ad or ad or es de Deus, pessoas desobedientes ao inv és de obedientes
2 Cf. Rm l:18ss.; Ef 4:1719.
3 Jo 17:15; 1 Co 5:9 10 . 4 1:1314. 5 1:18.

1 47
MAIS INCENTIVOS À JUSTIÇA

e, portanto, herde iros, não do céu, mas do inferno? O apóstolo nos d á uma
advertência solene. Faríamos bem em prestar atenção a ela.
2. O fruto da luz (vs. 8-14)
Pois outr ora é reis trevas, po rém agora sois luz no Senhor ; andai com o f i
lhoseda
ça, l uz 9(porque
verdade), o frdo
Apr ovan u tosempre
da lu zoconsist e em
q ue é ag toda laaobondade
radáve Senh or., ne ju
E st i
não
sejais cúm plice s nas obras infru tífera s das trevas; antes, poré m, reprovai-as.
12Po rque o q ue eles fa ze m em oculto, o só referir é vergonha. 13Mas to
das as coisas, qu an do reprovadas pe la luz, se torna m manifestas; po rq ue
tud o qu e se m an ifesta é luz. 14Pelo qu e diz:

“Desperta, ó tu q ue dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo


te iluminará.”

Paulo p assa a da r um a razão adicional p ara n ão se envolver na má


con du ta de pessoa s imorais. Baseia a, agora, n ão no futu ro (no julgam ento
divino vindouro) mas, sim, no passado e no presente (a diferença entre
o que seus leitores eram e o que são agora).
O pa rágrafo tod o faz uso d o rico simbolismo das tre vas e da luz, sendo
que trevas represe ntam a ignorância, o erro e o mal, ao passo que luz re-
presenta a verdade e a justiça. Em 4:1718 retrato u o obscurecido enten-
dimento dos pagãos. Anteriormente, seus leitores eram iguais: Pois ou
trora éreis trevas, por ém agora sois lu z n o Senhor. Notese que el e não diz
que antes eles estavam nas trevas, e que agora estavam na luz. Isto teria
sido verdade, con form e dizem os escrit ores no Novo T estamento. 6 Mas o
que P aulo escreve aqu i é ain da m ais notá vel: ele s mesm os ago ra realmente
eram luz. “Suas vidas e nã o a penas o am biente em que viviam”7 tinh am
sido transfo rm ada s de t revas em lu z. E esta transfo rm ação radical tinha
acontecido no Senh or, p ela uni ão co m aque le que declarava ser a luz do
m undo .8As sim, pois , porque se tornara m luz no Senho r, deviam andar
como filho s da luz (BJ). Seu com portam ento devi a conformarse à sua
nova identidade. Deviam irr ad iar a luz que eram, e viver “com o gente que
pertence à luz” (BLH).
O que signifi ca isso n a práti ca? Signi fica um a vida irradian do toda
a bondade, e justiça, e verdad e, pois estas coisas são o fru to da luz (al-
guns ma nusc ritos têm “o fru to do Espíri to”, mas tratase provave lment e
de um a assimilação de G 1 5:22; “o fruto da luz” é um texto me lhor). É
possível que Paulo esteja seguindo a metáfora e com parando a bondade j
6 Po r ex. Jo 8:12; 1 Pe 2:9; 1 Jo 1:57; 29.
7 Bruce, pág . 145. 8 Jo 8:12; cf. Mt 5:14.

148
efésios 5:5-21

e a ve rdad e que cre scem na luz de Cristo com um a colheit a am adurecen-


do a o sol. Certam ente, se é qu e vão vive r consistentemen te como filho s
da luz, provar ão (dokim azõ é tes tar, discernir e aprovar) o que é agradá
vel ao Senhor. A m etáfora da luz fala viv idamente que o cristão es tá aberto
e transparente, que vi ve alegre mente n a presença de Cristo, na da tendo
a ocultar ou a temer.
Infeli zmente, n o entan to, não é poss ível viver na luz e de sfru tar de-
la, sem também a do tar algum a atitud e para com aqueles que ain da vivem
nas tr evas, e pa ra com o estilo de v ida dess as pes soas. Que a titud e será
esta? N o se ntido negat ivo, a exo rtação é não sejais cúm plices nas obras
infru tífera s das trev as. Ao passo que a luz produz o fruto da bo ndad e e
da verdade , as obra s das trevas são infrutífe ras, im produ tivas, esté reis; nã o
têm resultados benéfi cos. Assim, nã o devemos partic ipa r delas; antes, p o
rém, reprovai-as,
no sentido
trazendoas p arpositivo,
a a luz (BLH). Tal vezonão
u seja desma caran
queiramos dotal
fazer o que
coiselas
a, msão,
as
não podemos evitálo, pois é isto q ue a luz invariavelmente faz. Além disso,
as más ações merecem ser des masca rada s, reveladas e repreen didas, por
que o qu e eles fa ze m em ocult o, o só referi r é verg onha.
O versículo 13 desenvolv e um du plo aspe cto existente no desm asca
ram ento do mal pelos cristã os. P rimeiro, todas as c oisas, q ua nd o repro
vadas pela luz, se tornam manifestas. Isto é sempre bom . A s trevas ocul-
tam as fei as realidades do mal; a luz torn aa s visíveis. E nt ão o m al é vis-
to com o ele é, sem qu alque r possibilidade de encobrim ento ou sub terfú-
gio. Em s egu ndo lugar, tudo que se manifest a é luz. A econ omia de pa la-
vras que Pau lo faz dificulta a perfeita com preensão d o qu e ele quer dizer
com esta declaração. M as pare ce des crever um a segu nda coisa que a luz
tam bém faz: ela aind a trans fo rm a em lu z aquilo que ilumina. T alvez Paulo
queira dize r que os crist ãos que têm u ma vida r eta ref reiam e reformam
os malfeitores desta maneira, e até mesmo os convertem. À medida em
que sua luz brilha, pois, aquilo qu e ela ilumin a repentinam ente é luz, as-

sim com o(aliás


possível os pró
j á prio s efé sios
sucedeu são luz que
convosco!) (v. 8). CINtransforme
a luz parafraseia:em
“Éluz
mesmo
aquilo
que ilu mina.” Se é assim, e ntã o P aul o trouxe o se u argu mento acerca da
luz e da s treva s a u m clímax exc elente. O desm ascaram ento parece nega -
tivo, m ostran do as pessoa s com o realmente s ão; el e julg a e conden a. E
realmen te faz isso. M as a luz qu e desm ascara te m po de r evangelí stico po -
sitivo também, “a luz de uma alma transformando outra em luz”.9 Ela
pode, pois, levar as pessoas, à medida em que vêem q uão feio é o mal, à
convicção d o seu pe cad o e, assim , a ar repend erse e ter fé em Jesus. Este,
pois, seria o duplo efeito que a luz do cristão tem sobre as trevas: torna
9 Foulkes, pág. 148.

149
MAIS INCENTIVOS À JUSTIÇA

visível e tran sfo rm a em luz.


O ver sículo 14 é um a conclusão n atural. Pau lo co nfirm a o seu argu-
men to com um a cit ação apr op riada , que ou res ume o ens ino de um ver-
sículo do A nti go Testamento, tal qua l Isaías 61 :1 (visto que legei, diz, nor-
malmente introduz uma citação das Escrituras) ou, conforme sugerem
muitos comentaristas
do batismo: modernos,
Desperta, ó tu queé um trecholevanta-te
dormes, de um hinodedaentre
Páscoa
os ou
mortos, e
Cristo te iluminará. Aqui, a nossa condição an terio r em A dão é v ivida
men te descrita em term os de sono, de mo rte e de trevas, send o que C risto
nos liberta de tud o isso. A convers ão é nad a m enos do qu e despertarm o
nos do sono, ress uscitar mos dentre os mortos, e sermos trazidos das tre-
vas pa ra a luz de Crist o. N ão adm ira que somos conclam ados a vi ver um a
nova vida como conseqüência!

3. A natureza da sabedoria (vs. 15-17)


Portanto, vede pr ud en tem en te com o andais, não co mo néscios, e, sim, co
m o sábios, i6rem indo o tempo, po rq ue os dias são maus. 17Por esta ra
zão não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vonta
de do Senhor.

O pequeno p arágrafo de Paulo que aqui pela orde m é baseado em duas


pressuposições: a primeira, que os cristãos são sophoi, — pesso as sábias,
não ensina
nos nésciascom
— eoa devemos
segunda, qu
come portarno
a sabedo ria
s. cristã é s abedo
Sua palavra pararia “com
prática, pois
portar
se” no decorrer de tod a a carta tem sido um conceito he braico, “an dar”.
Nosso andar ou comportamento cristão, Paulo já disse, não mais deve ser
conform e o mund o, a carn e e o diabo (2:13 ), ou com o os pag ãos (4:1 7).
Pelo contrário, deve ser digno da vocação que recebemos de Deus, em
amor, e como filho s da luz (4: 1; 5:1; 5:8). A go ra ele acrescenta um a exor-
tação m ais ge ral par a nos com portarm os como as pes soas sá bias que e le
nos dá o crédito de sermos: Vede pru den tem ente com o anda is, escreveu.
Tudo qu an to val e a pe na fazer requer cuidado. Todos nós tom am os cui-
dado com as coi sas que nos parece m im portantes: com o nosso empre-
go, com a nossa educação, com o nosso lar e com a nossa família, com
os noss os passatempos, com no sso m odo de ves tir e com a nossa a parê n-
cia. Assim, com o cristãos, devemos t er cuida do com a n ossa vida crist ã.
Devemo s trat ál a com o a coisa séria que é. “ Porta nto, vejam bem como
vivem” (BLH), “ nã o como tolos, mas como sábios” (BJ ). Com o são, en-
tão, as pess oas sábias que tom am cuidado com o seu discipulado cri stão?
verbo exagorazòas pessoa
po. OPrimeiramente, s sábias t“iram
pod e significar remoir”
m ou
aior“com
proveito
prarddeo seu
volt tem
a”, e
se for es te o seu significa do aqu i, o apelo é “rem ir o tem po d a sua escra-
150
efésios 5:521

vidão ao m al”. 10M as provav elme nte o significado seja “com prar to tal -
mente” e, neste caso, tirando o m aior proveito do tempo seria a melhor
tradução, sendo que “tem po” ( Kairos ) se refere a cada op ort un ida de que
passa.
Certam ente as pessoas sábias têm consciência de que o tem po é um
bem precioso.
posição, com Todos
sessentanósminutos
temos a por
mesma
horaquantidade de tempo
e vinte e quatro à nossa
horas dis-
por dia.
Nenhum de nós pode esticar o tempo. As pessoas sábias, porém, o em-
pregam com o maior proveito possível. Sabem que o tempo está passan-
do, e tam bém que os dia s são maus. Deste modo, agarr am cada o po rtu-
nidade fugaz enq uan to ain da podem . U ma vez tendo passado, até as pes-
soas mais sábias não p odem reavêla. Alguém coloco u um anúncio, cer-
ta vez, da seguin te forma: “PE RDID AS, on tem, nalg um lugar entre o na s-
cer e o pô r do sol, duas horas de ouro, cad a um a cravejada com sessenta
minutos de diamante. Nenhuma recompensa é oferecida, pois foramse
para sempre!’11Por contraste, Jonathan Edwards, o filósofoteólogo que
veio a ser o instrum ento de Deus no “ Gra nde D esperta mento” nos E sta-
dos Unidos em 17345, escreveu na septuagésima das suas famosas Re
soluções pouco an tes do seu vigésimo aniversário: “Resolvi do: nu nca per-
der um só mo mento de tem po m as, sim, tir ar proveito dele da m aneira mais
proveitosa que eu puder”. (Texto integral no jornal “Palavra da Fé” n? 5).
Era um hom em sábio, pois o primeiro sinal de sabedoria que Pa ulo d á aqui
é o uso disciplinado do tempo.
Em segundo lugar, pessoas sábias discernem a vontade de Deus. Têm
a certeza d e que, ao passo qu e a vontade p róp ria é insens atez, a sabed o-
ria pode ser achada na vontade de Deus e em nenhum outro lugar. Por
esta razão, não vos torneis insensatos , mas proc urai comp reen der qu al a
vont ade do Senh or (v. 17). O pró pr io Jesus orou: “Não se faça a min ha
vontade, e, sim, a tua” (Lc 22:42), e nos ensinou a orar: “Façase a tua
vontade, assim na terra como no céu”. Nada é mais importante na vida
do que descobrir e pr atic ar a von tade de Deus. A lém dis so, ao pro cu rar
descobrila, é essencia l distin gu ir entre a sua vonta de geral e a sua von ta-
de particular. A prim eira é assim cham ada porq ue diz respei to ao seu povo
em geral, e é a mesm a para tod os, ou sej a, tornarn os com o Cristo. A sua
vontade particul ar, n o entan to, que se estende às particularida des d a nossa
vida, é dif erente pa ra ca da um de nós, po r exemplo, q ua nto à carreira que
devemos s eguir, se devemos nos casar, e, se sim, com quem . Som ent e de-
pois desta distinção ter sido feita é que podem os considerar como p ode-
10 Armitage Robinson, pág. 201.
11 Horace Mann, citad o p or Ted W. Engstrom e Alex Mac kenzie em Administração do Tem
po (Editora Vida ), pág. 65.

151
MAIS INCENTIVOS À JUSTIÇA

remos descobrir qual a vontade do Senhor . A sua vontade geral é achad a


nas Escrituras; a vontade d e Deus pa ra o povo de Deus já foi revelada na
Palavra de De us. M as não acharem os a sua vontade particular nas Escri-
turas. Sem dúv ida alguma, acharemo s princípios g erais nas Escrituras para
guiarnos, m as decisões det alh ad as só de vem ser fe itas depois de um a cui-

dad osae refle


duros xão c om oração, depois de proc ura r conselhos de crentes m a-
experimentados.
4. A plenitude do Espírito Santo (vs.1821)
E não vos embriaguei s com vinho, n o qu al há d issolução, ma s enchei -vos
do Espíri to, 19'falando entr e vó s com salmos, en toa nd o e louv an do de co
ração ao Se nhor, com hi no s e cânt icos espir ituais, 2 0da nd o sem pre gra
ças p o r tudo a nosso Deus e P ai, em no me de nosso Senh or Jesus Cr isto,
21sujeitando -vos uns aos outros no tem or de Cri sto.

Pau lo já disse aos seus lei tores que el es foram selados c om o E spíri-
to Santo, e que nã o dev em entristecer o Espírito Santo (1: 13; 4:30). A go -
ra lhe s orden a: Ench ei-vos do Espír ito. Nã o há m aior s egredo pa ra a san-
tidade do que se r replet o daquele cuja p róp ria nature za e nome são san tos.
Gram aticalmente falando, este parágrafo cons iste em doi s im pera-
tivos ( os mand am entos no sen tido de não ficar bêbado, e de ficar che io
do Espírito), seg uido s por q ua tro p articípios pr esentes (falando, can tan -
do,
nos,dando graças, e sujeitandose).
primeiramente, Teologicamente
o nosso dever cristão falando, apresenta
(evitar a bebedeira, mas pro-
curar a p lenitud e do Esp írito) e depois de screve quatr o conseqüências desta
condição espiritual, em termos de noss os relaci onamentos. “E star cheio
do E spírito” é um tópico muito discutido e deba tido hoje ; é imp ortante
para nós estudar cuidadosamente o ensino de Paulo.
O apóstolo começa fazendo uma certa comparação entr e a em bria-
guez e a plenitud e do E spírito Santo: Não vos embriagueis com vinho, diz,
...mas enchei-vos do E spírit o. E, de f ato, há um a semelhança superfic ial
entre as duas condiç ões. U m a pessoa que está bêbada, dizemos, está s ob
a influência do álco ol; e certamente um cristão cheio do Espírito está s ob
a influência e sob o po de r do Espírito Santo. M as aí term ina a com para -
ção e começa o contrast e. N aturalmente, no culto pa gão a Dioní sio, a em-
briaguez era considerada um meio para se obter a inspiração. Mas é um
séri o erro sup or q ue estar che io do Esp írit o de Jesus C rist o seja um tipo
de embriaguez espiritual em que perdemo s o controle de nós mesmos. Pelo
contrário, o autoc ontro le ( enkrateia ) é a qu alidade final m enciona da co-
mo
Espírito o fr untoãodo
send oSanto Espír os
perdem itoo em
contGálatas 5:2223.
role; nós Sob a Éinfluência
o ganhamos. do
verdade que
no d ia do Pentecoste alguns disseram que os discípulos che ios do Esp íri-
152
ef ési o s 5:521

to estavam bêbad os; “estão cheios de mosto ” (ERC). Estes eram u ma mi-
noria, n o entanto, descrit os po r Luca s como sendo outros. A m aioria não
pensava assim, mas ficou atônita a ouvir as poderosas obras de Deus sendo
anunciadas em suas próprias línguas. Parece que a minoria nem sequer
estava sendo sincera em atr ibu ir a em briaguez aos cristãos chei os do Es-
pírito. Lucas diz
pírito estava que “erroneamente
sendo estavam zombando deles, de com
interpretada modoescárnio”.1
que a obra2 do Es-
O prim eiro capítulo d a exposiç ão do Dr. M arty n Lloyd Jones de Efé-
sios 5:1 8 6 :9, Life in the Spirit in Marriage, H om e and Work, é chama-
do de “O Estímulo do Espírito”. Escrevendo como médico e como pas-
tor, ele faz um a com paraç ão e um útil con traste entre os dois est ados de
embriaguez. Diz: “O vinho — o álcool —... farmacologicamente falan-
do n ão é um estimulante, é um depressivo. Tome qualqu er livro de Far-
macolo gia e procu re a referênc ia de ‘álcoo l’, e verá que está sempre clas-
sificado entre os dep ressivos. N ão é um est im ulan te”.13Além disso , “de -
prim e primeira e principalm ente os centros mais altos de todos no cére-
bro... Controlam tudo quanto dá ao homem autocontrole, sabedoria, en-
tendimento, discr iminação, jul gamento, equi líbr io, e pod er para a qu ila-
tar tudo; noutras palavras, tud o q uan to le va o hom em a comportars e da
melhor e mais nob re ma neir a possível”.14O qu e o Esp írito Santo faz, po -
rém, é exatamente o oposto. “Se fosse possível colocar o Espírito Santo
num manu al de Farmacologia, eu o classificaria entre os estimulant es, po r-
que é a esta
estimula cateasgofaculdades...
todas ria que ele pertence.
a mente eRoealmen te eleoestim
intelecto... ula mesmo...
coração... ea
vontade..!’15
Considere agora como Paulo p inta o co ntras te. O resul tado da em -
briaguez, escreve ele, é a dissolução (asõtia ). As pessoa s que estão bê ba -
das entregamse a ações desenfreadas, dissolutas e descontroladas.
Com portamse como animais , até mes mo de maneira pior que os a nimai s.
Os result ados de estar chei o do E spírito Santo são totalm ente diferentes.
Se um excesso de álcool desumaniza, e tra nsform a um ser humano em fera,
a plenitude do Espírito Santo nos torn a mais humano s, pois nos tor na co-
mo Cristo.
O a pósto lo ago ra alista o s quatro resultados bené ficos de e star c heio
do Espírit o.
a. Co mu nhão : fa la ndo entre vós com salmo s... c om hin os e cânticos es
pirituais (v. 19a).
A referênci a diz respeit o à com un hão cristã, e a me nção de “salmos, hi-
12 Bruce, pág. 110.
13 LloydJones, Life in the Spirit, pág. 19.

153
MAIS INCENTIVOS À JUSTIÇA

nos e cânticos espirituais” (que n ão se distinguem facilmente entre s i, em -


bora a primeira palavra subentenda um acompanham ento musical) indica
que o contexto é o culto público. Sempre que os cristão s se reunem , gos-
tam m uito de can tar tanto a Deus qua nto uns aos outros. Às vezes can ta-
mos em antifon ia, confo rm e os judeus fazi am no templo e na sinagoga ,
erora,
como“par
tama recita
bém faziam o s cri
r um hino emstãos, reunindose
antifon ia a C ristoa com
ntesodo
umromp
deus”er.16Além
da au -
disso, alguns dos salmos que cantam os são , n a rea lidade , não a adora ção
a Deus mas, sim, a m út ua exortação. U m bo m exempl o é o Salm o 95, o
Venite que, qu and o cantam os deve mos voltar nos uns ao s outros: “V in-
de, cantem os ao Senho r, com júbilo, celebremos o Rochedo d a nossa sa l-
vação” . Esta é a co mun hão na ad oração, um convi te recípr oco ao louv or.
b. Adoração: entoando e louv and o (tal vez os verbo s com binassem m úsi-
ca vocal e instrumental) de cora ção a o Se nho r (v. 19)
Aqu i o cântic o não é “entre vós” mas, sim, “a o Se nh or”. “De coração ”,
como em C olossens es 3:16, re ferese ou à sinceridade ou à interi orid ad e
do louvou cristão autêntico, ou a ambos. Ta lvez CIN tenha capta do bem
a lição, regist rando: “Fazendo música no coração, d estinad a aos ouvidos
de Deus! ”, instruç ão d a qua l pes soas afônicas que não conseguem ca n-
tar em ha rm on ia têm sempre enco ntrad o mu ito co nsol o. Neste caso, p o-
de se r ad oraçã o silencios a embora, ao m esmo tempo, seja al egre e melo-
diosadenoalegria
tico ín timo.
no Sem dúvida,
coração, os cristãos
e o culto c heios
público cheiodo
doEspírito
Espíritotêm um
é um acân-
ce-
lebraç ão jub ilosa dos atos poderosos de Deus , em bora Arm itage Robin-
son sugir a que Paulo “contra sta a ale gria ruido sa do vinho com a alegria
sób ria da salm od ia sa cra!’17
c. Gratidão: dan do semp re graças po r t ud o a nosso De us e Pai, em no me
do nosso Senh or Jes us Crist o (v. 20)
A ch am ada às ações de graças não é incom um nas cartas de P aulo. 18O
espíri to de murm úrio era um dos pecados dom inantes no povo de Isr ael;
sempr e murm uravam con tra o Senhor e contra Mois és. O cre nte cheio d o
Espírito, no entanto, está cheio, não de queixas mas, sim, de ações de
graças.
Em bo ra o texto diga que deve mos dar graças sempre p o r tud o, não
devemos aplicar as palavras po r dem ais li teralment e. N ão podem os, pois,

16 Extrato da carta famosa dirigida ao Impera dor T rajan o, c. de 11 2 d. C., po r Plínio, o Jo -


vem, proc urador da Bitínia.
17 Armitage Robinson, pág. 116.
18 Cf. as três referências a ela em Cl 3:1 517 ; tam bém 1 Ts 5:18.

154
efésios 5:521

da r graças a Deus por “tu do ” mesmo, inc lusive pelo mal óbv io. U ma no -
ção estranha está conquistand o po pula ridad e em alguns c írculos cris tãos
de que o gran de segr edo da liberdade e da v itória cristãs é o louvor in con -
dicional; que o ma rido deve louvar a Deus pelo adu ltério d a sua esposa
e a esposa, pe la embriaguez do marido, e que até m esmo as calamidad es
mais pavorosas
vor. Sem elhanted sugest
a vida ão
devam
é, naser motivos
m elhor d as phipóteses,
ara açõesum
de graça e de lou -
a meiaverdade
e, na pior, um a inse nsatez e até mesm o um a blasfêmia. Naturalm ente, os
filhos de De us aprendem a não discuti r com Deus nos mom entos de so-
frim ento mas, sim, a co nfia r nele e , na verda de, darlhe graças pela sua
am orosa providên cia mediante a qual ele pode fazer até mesmo o m al se r-
vir aos se us bons prop ósitos (cf. Rm 8:28). M as isto é louvar a Deus por
ser Deu s; n ão é louválo pelo mal. F azer a ssim seria r eagir de m od o in -
sensível à do r das pess oas (ao passo que as Escritura s nos ma nd am ch o-
rar com o que choram) e desculpar e at é mesmo e ncorajar o mal (ao pa s-
so que as Escrituras nos m an da m odiálo e resistir o diabo). O m al é um a
abom inação pa ra o Sen hor, e nã o podem os louvál o ou darlhe graças poi
aquilo que ele abomina.
Logo, o “tu do ” pelo qua l devemos dar graças a Deus d eve ser qu ali-
ficado pelo seu conte xto, a saber: a nosso Deus e Pai, em no me de nosso
Sen hor Jesus Cristo. N ossas ações de graça s devem ser po r tud o que é con -
sistente com a am oro sa pate rnid ade de Deus e com a reve lação de si mes-
mo
infoque
rm anos deu em
e dirige Jes us
a nossa Crist
devo ção.o. Quand
M ais um a vez, ache
o estamos do utrin
ios doa Esp
da trind ade -
írito San
to, damos graças a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus
Cristo.
d. Submissão: sujeit ando-vos uns aos outros no tem or de Cristo (v. 21)
Aqui temos mais um particípio presente ( hypotassomenoi: sujeitando-se ),
que de corre do m andam ento: enchei- vos d o Espírit o, como os t rês ante-
riores. À s vezes, um a pessoa que alega ter rece bido a p lenitude d o E spí-
rito Santo tornase agressiva, arrogante e impudente. O Espírito Santo,
porém, é um Espírito de humildade, e aqueles que recebem a sua pleni-
tud e sempre revel am a meiguice e a ma nsidã o de Cristo. U ma das suas ca-
racterísticas mais evidentes é que se submetem uns aos outros.
Além disso, submentem se a Cristo , porqu e sua submissão m útu a é
no tem or de Cri sto. A queles que estão verdadeiramente sujeitos a Jesus
Cristo não acham dificuldade em submeterse uns aos outros também.
Aliás, esta expressão no temo r de Cr isto é um testemunh o notáv el, con-
qu an toregu
gência indireto,
lar noà crença
AntigodeTesta
Paulomento
n a era
divind adeno
v iver de temo
Jes us,r de
vistDeus.
o q ueHa ex i-
á vá-

155
MAIS INCENTIVOS À JUSTIÇA

rias outras “cristianizações” do pen sam ento do Antigo Testa mento nes-
te capítulo. Por exemplo, o reino de Deus é o de Cristo (v. 5). Devemos
agrad ar a C risto e pro cu rar a sua vonta de, assi m como, antes de Cri sto,
as pessoas proc ura vam a vo nta de e o benep lácito de Deus (v s. 10, 17), e
ad or ar a Deus fica sendo ad or ar a C risto ( v. 19), já que nos tr ês últimos
versículos são os resultado osSenho
Este s mencionados sadiosrdaé um título epa
plenitud doraE Jesus.
spírito Santo. To dos
eles dizem respeito aos nossos relacionam entos. Se estive rmos cheios do
Espírito, ter emos um relacionam ento harm onioso com Deus (adorand oo
com a legria e com ações de graças ) e uns com os outros (f aland o uns com
os outros e nos subm etendo uns aos outros). Em resumo, os crent es cheios
do Espírito am am a Deus e amam uns aos outros, o que dific ilmente causa
surpresa, visto que o primeiro fruto do Espírito é o amor.

Devemos volta rnos ag ora p ara o imperativo do q ual dependem estes qu a-


tro p articípios, ou seja, ao dever e privilé gio cristãos dos quais resu ltam
estas quatro atitudes cristãs. É o mandamento: Enchei-vos do Espírito.
A forma çxata do verbo plêrousthe é sugestiva.
Em primeiro luga r, está no mod o imper ativo. “Ench eivos” não é um a
proposta alternativa mas, sim, um m andam ento autoritário. Não pode-
mos m ais evi tar es ta responsabili dade, tal com o se dá com m uitas o utras
que a cercam em Efésios. Ser cheio do Espírito é obrigatório, não é
opcional.
Em segundo lugar, está na for m a do pl ural . Noutras palavras, é en-
dereça do à totalidad e da comun idade crist ã. N inguém dentre nós de ve ficar
bêbado; todos nós devemos enchernos do Espírito. A plenitude do Es-
pírito não é um privilégio elitista mas, sim, um a possibilidade para todo
o povo de Deus.
Em terceir o luga r, está na voz passiva. O sentido é “dei xai o Esp íri-
to Santo enche rvos”. Não h á nen hum a técnica pa ra aprender e nen hu-
m a fórm ula pa ra reci tar. O que é essencial é evita r com arre pen dim ento
tud o qu anto entristeça o Espírito Sant o, e ter um a tal recept ividade a e le
pela fé que nada o im peça de enchernos. É significante que a passagem
paralela em Colossenses diz, ao invés de enchei -vos do Esp írito, “habite
ricamen te em v ós a palavr a de Cristo” (3:16). N un ca deve mos separa r o
Esp írito d a Palavra. Ob edecer à Palavra e entregars e ao Esp írito são vir-
tualmente dois procedimentos idênticos.
Em qu arto luga r, es tá no tempo pres ent e. N o greg o há dois tipos de
imperativo, um aoristo que de screve um a ação única, e um presente quan do
aná:ação é contínu
“Enchei dáguaa.asAssim,
talhas”qu(Joan2:7),
do Jesus di sse durante
o imperativo as bod
é aoristo, vistoasque
em Ca
as talhas d eviam s er enchidas um a só vez. Quan do, porém , P aul o nos di z:
156
efésios 5:5-21

Enchei-vos do Es pírito, em prega um i mperativo no aoristo, o que suben-


tende que de vemos co nti nuar ficand o cheios. A plenitude do Espírito, po is,
não é um a expe riênc ia de um a vez par a semp re, q ue nun ca podem os per-
der mas, sim, u m privilégio que de ve ser cont inua mente renovado pelo co n-
tinuad o crer e pela con tinua da apro priação obediente. Fomos selados com
o Espírito
pírito de um aficando
e continuar vez po r cheios
todas; todos
temos os
necessi
dias edade
todosdeosenchernos
momentosdodoE dia.
s-
Aqui, poi s, temos um a mensa gem tanto p ara os derrotados quanto
para os vitoriosos, ou seja, para os cristãos nos extremos opostos da vi-
da espiritual. Aos der rotado s, Pau lo diria : “Encheivo s do Espírito, e ele
vos dará u m a renovação de amor, de alegri a, de paz, de longanimida de,
de benignidade, de bondade , de fidelidade, de mansid ão e de dom ínio p ró -
prio.” Aos vitoriosos, Paulo diria: “Continuai enchendovos do Espírito.
Dai graças a Deus p or aquilo que v os deu até agora. M as não digais que
já chegastes ao alvo. Pois há mais, muito mais, ainda para vir!’
IV. Novos
relacionamentos
Efésios 5:21-6:24

5:21-33
10. Maridos e Esposas
Paulo estava delineando os novos padrões que Deus espera da sua nova
socie dade, a igr eja, especialmente em term os de unid ade e de pureza. Es-
tas duas qualidades são i ndispensáveis pa ra u ma vida que é tan to digna
da vocaç ão quanto apr opriad a para a posição do pov o de Deu s. Ago ra
ele passa pa ra os novo s relacionam entos em q ue o novo povo de Deus ine-
vitavelmente s e encontr a e, ao fazer isso, concentrase, no re stante d a carta ,
em mais duas dimensões do viver cristão.

lar, jáAque
prim eiraíliadizdivina
fam respeito aosderelacionamen
deixa tos acei
ser um conceito práticos e srotineiro
tável s doa
e ela mesm
não se subdividir em família s hum ana s que re velem o am or de Deus. Qual
é o va lor de h aver paz na igreja s e não há paz no lar? A segunda dim en-
são diz respe ito ao inimigo que enfrentamos e , portanto , ao eq uipam en-
to que precisamos para a nossa guerra espiritual sem tréguas.
Estas duas responsabilidades (o lar e o traba lho de um lado, e o com-
bate espiritual do outro) são bem diferentes entre si. O marido e a espo-
sa, os pais e os filhos, os senhores e os servos são seres humanos visíveis
e tangíve is, a o pas so q ue os principados e potestades dis post os a batalh ar
contra nós são seres demoníacos, invisíveis e intangíveis. Mesmo assim,
se é que a no ssa fé de ve ter algum valor prá tico, ela deve estar à alt ura das
duas situações. Deve ensinarnos como com po rta r cristãmente no lar e no
serviço, e deve capac itarnos a lutar co ntr a o mal de tal m aneira q ue fi-
quem os em pé e nã o caiamos. Assim s endo, a har m on ia no lar e a estabi-
lidade na luta são os dois tópicos finais que o apóstolo aborda.
Os m arid os e as esposas, os pais e ós filhos, os senhores e os ser vos,
todos
disso, podiam serpares
estes três achados nas congregações
de relacionamen cristãs
tos são maispar
b ásicos antigas.
a a totaAlém
lidad e da
exist ência hum ana. Marku s B arth expres sa bem este fato ao sugerir q ue,
158
efésios 5:2133

no primeir o, vemos o ser hu mano com o “u m ser sexual (antes de Dr. Freu d
ou Dr. Kinsey terem abo rdado este fato)” ; no segundo, com o “um ser tem
poral (vinculado à gera ção à q ua l pertence)” ; e no terc eiro, com o “um ser
material e parte de uma estrutura econômica”, sendo que assim Paulo
antecipouse a Marx. “Este, pois, é o homem: um ser sexual, temporal e
materia
te l que,nas
envolvido sem exceção,destas
estruturas está entrês
reddimensões!’1Uma
ado e, confo rm e parece,
instruçãofi deta-
rm em en-
lha da e prá tica sobre a vida cristã na família e sobre a respons abilidade
cristã no que hoje e m dia cham am os de “e mprego” parece ter sido dada
pelos apóstolos desde o início. H á vários exemplos nas cartas de Paulo
e nas de Ped ro.2 Há u ma necessidade urgen te em nossos dias de um pla-
no semelhante de educação moral. Um a grande parcela do assim cham ado
“ensino da s antidade” enf atiza um relacionam ento pess oal com Jesus Cris-
to sem qualquer tentativa no sentido de indicar suas conseqüências em
termo s de relacionam ento com as pessoas com as quais con vivemos e tra -
balham os. Em contraste com tal santidade etérea, que engrandece as ex-
periências e reduz a ética ao mínimo, o apóstolo definiu o dever cristão
nas situações concretas da vida e do trabalho de todos os dias.
Lutero, no seu Catecismo, parece ter sido a p rim eira pesso a a referirse
a esta s listas como sendo Haustafeln, que significa literalmente “tabelas
do lar”, mas que é freqüentemente traduzido como “relação dos deveres
do lar” (cf. “Moral doméstica” — BJ). Em anos recentes os estudiosos
as têm com parad o com prece itos se melhan tes tanto na halakah judaica
(sua coletân ea de leis e tradições) qu ant o na literatur a gentia , especialmente
a dos estóicos. Que os judeus, os estóicos e os cristãos todos se preocu-
passem com o comportamente moral no lar não deve nos surpreender. Mas
a sem elhança entre suas Haustafeln às vezes tem sido exagerada.3Se os
apóstolos de Jesus tinham consciência de adap tarem qualqu er m atéria d e
srcens documentárias judaicas ou gentias, cristianizaram totalmente o
que tom ara m emprestado . Não há m elhor exe mplo disso do que o di scurso
de Paulo aos marido s e às esposa s em Ef ésios, que é basead o na do utr i-
na de Cristo e sua igreja.
1. Autoridade e submissão
A BJ talvez tenha razão em começar o novo parágrafo com o versículo
21: “Submeteivos uns ao s outros no temor de Cristo!’ Já vim os qu e o verbo
grego é na verdade um particípio (“su jeitandovos” ) com o bem trad uz a
21 Por ex . Broken
Bar th, Ef,5 :22 Wall,
6 :9 ; págs. 205207.
Cl 3 :18 Cf.2 também
 4:1; Tt :l 1 0 e 1seu Ephesians
Pe 2:18  3:7. , II, pág. 755.
3 John Howard Yoder dá uma lista de oito “diferenças muito significativas” entre as Haus
tafeln estóicas e cristãs em The Politi cs o f Jesu s, págs. 170183.

159
MARIDOS E ESPOSAS

ERAB; é o mesmo tempo usado nas expressões “falando entre vós”, “en-
toando e louvando” (v. 19) e “dando graças” (v. 20); vimos também que
estes quat ro particípios depend em do m and am ento “encheivos do Espí-
rito ” (v. 18) e descrevem as conseq üên cias d a plenit ud e do E sp írito San -
to. M esmo assim, o partic ípio grego, às vezes, era usad o com o im per ati-

vo e, das
gida semesposas,
dúvid a,dos
a exigênc
filhos, eiados
da escravos.
subm issãoAlém
m útu a leva
disso, noàsrcinal
subm issão
não exi-
há verbo algum no versículo 22, porque a chamada à submissão no ver-
sículo 21 é para ser extendida no 22. Assim sendo, o versículo 21 é real-
mente um versí culo de transição, e form a um a pon te entre a s du as seçõ es
deste capítulo.
O q ue está fora de dúvid a é que os três parág rafos q ue se segu em são
dad os com o exe mplo s da sub missão cristã, e que a ênf ase, do com eço ao
fim, rec ai sobre a submis são. D este mo do, as mulheres são m encion adas
antes dos maridos, pa ra ser em instru ídas a serem submissas a eles (v. 22);
os filhos são mencio nados antes dos pais, e instruí dos a lhes obedecer (6 :1);
e os escravos são chamados antes dos seus senhores, e instruídos a obe
decer a eles (6:5).
Ora, até mesmo a noção de submis são à autorid ade está fora de mod a
hoje. E stá totalmente em desacordo com as atit udes con temp orâneas de
perm issividade e liberdade. Poucas questões despertam protestos tão ira-
dos do q ue fala r em “sujeição” . No ssa era é um a era de liberdade (não m e-
nos
algumpara
sabmulheres, criançasé eprof
or de disciplina trabalhadores),
und am ente eressentida
qualquerecoisa que tem
fortemente res is-
tida. Como os cristãos devem reagir a este estado de ânimo moderno?
Nossa reação inicial a estes movimentos de libertação, não hesito em
dizer (embor a venha a qu alificá la mais tarde), deve ser de boasvindas.
Devemos con cor dar qu e é verdade qu e as mulheres em muitas cultura s têm
sido ex plorad as, sendo trata das com o emp regadas no seu pró prio lar; que
os fil hos têm sido f reqüen tem ente reprimido s e silencia dos; e que tra ba-
lhadores m uitas v ezes têm sido tratad os com injustiça, recebendo salári os
inadequado s e condições impróprias p ara o trabal ho, e um a participação
insufic iente na to m ada de de cisões, sem men cionar as pavor osas injus ti-
ças e barbaridades da escravidão e do tráfico de escravos.
Nós que nos chamamos com o nome de Cristo devemos reconhecer
com vergonha que freqüentem ente temos co nsentido com o status quo e
assim aju dado a perpetuar algumas formas de opr essão hum ana, ao in-
vés de es tarmos n a vang uarda dos que procuram a transform ação social.
Nada nos parágrafos que vamos estudar é inconsistente com a verdadei-
ra
rio,liabertação
quem asdemulheres,
toda hu as
milhação, exploração
crianç as ou ad
e os trab alh opre
ore s ssão.
devem Pelo
a sucontr á-
a liber-
tação? N ão é a Je sus Cristo? É Jesus Cristo q ue tratava as mulheres com
160
h fési o s 5:2133

cortesia e ho nra nu ma era em que eram desprezadas. É Jesus Cristo que


disse: “Deixai vir a mim os peque ninos ” nu m períod o d a história em que
nenês não desej ados eram aba nd on ad os n o de pósito de l ixo loc al (como
hoje e stão co nsig nados ao i ncinerado r do hospital) , ou ab and on ado s no
foro para qualquer pessoa pegar e criar pa ra a escra vidão ou p ara a pro s-
tituição. E é Jesus Cristo que ensinou a dignidade do trabalho manual
quan do ele mesmo trabalh ou como carpinteir o, quan do lavou os pés dos
discípulos e disse: “Pois, no meio de vós, eu sou como quem serve” (Lc
22:27).
Não devemos, então, interpretar o que Paulo escreve, na sua “moral
dom éstica”, às mulheres, a os f ilho s e aos serv os, a respeito da submissão,
de man eira a contradize r est as atitudes fundam entais de Je sus. N em de-
vemos fazer Paulo contra dizer a si mesmo, con form e fazem alguns escri -

tores,
Devemospois colocar
agir assim
a “mna oral
exegese bíblica ”é solidam
doméstica uma açãoente
de dentro
desespero. Não! ou -
do arcab
ço da ca rta aos Ef ésios, em qu e Pau lo est ava descr even do a nova hu m a-
nidad e que Deus está crian do po r meio de Cris to. Estava enfatizando a
com pleta unidade, em Cristo, de pes soas de todas as culturas , especial-
mente de jude us e gentio s, ao passo que na s ua car ta para lela aos colos 
senses acrescentou o escrav o e o livre (3:11) e, n um a ca rta a nterior, o h o-
mem e a mulh er (G1 3:28) . Podem os ter certeza abso luta de qu e na sua
“m oral domést ica” não passa agora a destruir a sua pr óp ria te se ao le-
van tar novas barreir as de sexo, de idade e de posição social na nova so -
ciedade de Deus em que elas foram abolidas. Devemos dar ao apóstolo
o crédito po r ter um p ouco de consistência de pensamento, e deixá lo e x-
plicar por si mesmo.
À luz do ensi no de Jesu s e dos se us apóstolos, podem os a firm ar con -
fian tem ente e repetir pelo m enos três verdades rel evantes: prim eiro, a dig
nidade da condição d a mulher, d a crian ça e do servo; em segundo lugar ,
a igualdade diante de Deus de todos os seres hum anos , indepen dem ente

de raça,
dos são de
fei posiçã
tos à suao,imagem;
de cla sse, edea cultura
unidade, deaisexo ou deprofund
nda mais idade, p aorq
de ue to -
todos
os crentes cristãos, como membros em comum da família de Deus e do
cor po de Cri sto. É som ente quan do estas verdades estão firm emente con-
servadas em primeir o plano na nossa ment e que esta mos prontos par a con -
siderar o ensino de Haustafeln (“ moral doméstica”) .
Não devemos pensar que a subm issão que Paulo recomenda às es-
posas, às crianças e aos servos seja outra palavra para inferioridade. Pe-
lo contrário, é im po rtante com preende r a diferença que Luter o e seus se-
guidores fazem corretam ente entre pesso as, de um lado, e se us papéis , d o
outro lado. Eis aqui uma das exposições que Lutero fez do tema: “Fre-
qüentemente tenho dito que dev emos fazer um a nítida distinção entre duas
161
MARIDOS E ESPOSAS

coisas: o ofício e a pessoal . O hom em que se cham a Jo ão o u M artinho


é um homem bem diferent e daquele que é cha m ado de eleitor, ou m édi-
co, ou pregador. Aq ui temos du as pessoas dif erentes em um só homem .
Um a del as é aque la em que fomos criados e n ascemos, de acordo com a
qual som os todos igua is — hom em, mu lher ou criança, j ovem ou velho.

Mas, um a vez
tra pessoa. Faz que
co na scemos
m qu e um ,seja
Deusfilnos
ho,ado rn apai;
e outro e nos ve steque
com comum
o um
sejaa ou
se--
nhor, e ou tro, servo; um , príncip e, e outro, c id ad ão .” 4
Uma vez que percebe mos esta distinção, en tão aqueles que ocu pam
um a posição — sejam governa ntes, magistra dos, esposos, pais ou em pre-
gado res — têm um a certa autoridade, d ada por Deus, que esper am que
outra s pessoas reco nheçam . Os ma rido s e as esposas, os pais e os filhos,
os senhores e os servos têm d ignidade igual com o seres semelhan tes a Deus,
mas papéis diferen tes destinados po r Deus. C onf orm e J. H. Yoder expressa
de form a suci nta: “A igu aldade do valor não é a identidade do papel”.5
O marido, o pai e o senhor foram investidos de um a au toridad e à qual
outras pessoas devem submeterse.
Duas perguntas surg em im ediatamen te a res peit o desta autoridade:
De onde ela vem? E como deve ser exercida?
À prim eira pergunta, respondemos que vem de Deu s. O Deus da Bí-
blia é um Deus da ordem, e no seu ordenar da vida hum ana (por exem-
plo: no estado e na família) estabeleceu certos papéis de liderança ou au-
toridade. E visto que tal autoridade, embora seja exercida por seres hu-
manos, lhes é delegada po r Deus, outras pessoas são orden adas a submeter 
se a ela de m odo consciencios o. As palavras gregas subentendem este fa-
to, pois no âmago de hypotassomai (“submeter se”) há taxis (“ordem”).
A submissão é o reconhecimento humilde da ordem divina da socieda-
de. É claramente ensinada na “m oral dom éstica ” de Paulo . M an da as es -
posas serem subm issas aos respectivos m aridos como ao Senhor (v. 22),
os filhos serem obedientes aos seus pais no Senhor (6:1), e os escravos se-
rem obed ientes aos seus senhores terrestres com o a Cris to (6:5). O u seja,
por trás do m arido, d o pai e do senhor devem discernir o próprio Senhor
que lh es deu a au torid ad e que têm. Então, se quiser em submeter se a Cr is-
to, sub meter seão a e les, visto que é a au to rid ad e de C risto que exer cem.
O mesm o é verdade no que diz r espeito à m útu a subm issão que se esperà
de todo o povo cris tão. É no tem or de Cr isto que devemos sujeitar nos uns
aos ou tros; é e ste mesm o C risto qu e tan to exe rce a autor ida de com o Se-
nhor quanto se humilhou como servo.
4 Da sua exposição de “ Bemaventurados os mansos ” (Mt 5:5), em TheSermon on theMount,
Luth er’s Works, vol. 21 (Concordia, 1956), pág. 21.
5 Yoder, pág. 177 riota23.

162
efésios 5:2133

Deve mos tom ar m uito cu idado para não exagerar es te ensino b íbli-
co acerca da autori dade. Não qu er dize r que a autor idad e dos maridos,
dos pais e dos senhores é ilim itada, ou que as esposas, os filhos e os tr a-
balhadores são obrigados a prestar obediência incondicional. Não! A sub-
missão exigi da é à au tor ida de de Deus delegada aos seres hu manos . Se,
portanto
ordenar o, que
elesDeus
abusam da auto
pro ibe ou a oridproibir
ade que Deus
o que Deuslhes
orddeu (por
ena), exemplo,
então o nossoao
dever já nã o é mais subm eternos conscientemente mas, sim, co nsciente-
mente recusarm onos a fazêlo. Sub meterm onos em tais circunstâncias,
pois, seria desobedecer a Deus. O princípio é claro: devemos nos subme-
ter até ao pon to em que a obediênci a à autorid ade h um ana envolva a de-
sobediência a Deus; naqu ele ponto, a “deso bediência c ivil” fica sendo o
nosso deve r crist ão. A fim de nos subm eter a D eus, de vemo s recusarnos
à submissão aos se res hu mano s. Co nform e a expre ssão de Pedro diante
do sinédrio: “Antes im po rta obedecer a Deu s do que aos hom ens” 6 Es-
ta é a exceção, porém . A reg ra geral na q ua l o N ovo Testamento insiste é
a humilde subm issão à auto ridad e estabe lecida por Deus.
À segunda pergunt a, a respe ito do uso d a autoridad e divina mente de-
legad a, re spondemos que n un ca deve ser usad a de m odo egoísta mas, sim ,
sempre em prol dos ou tro s pa ra c ujo benefício foi outo rgad a. Talvez o as-
pecto mais notável da “ moral dom éstica” é que em cada par de relacio-
nam ento s definem se deveres recíproco s. É verdade que as esposas deve m
ser submissas
res, e que estaao s m arido
exigên s, su
cia de os bm
filhos aos( pais
issão e os escravos
hypoíagia aos seus
) pressupõe umasenho-
auto-
ridade ( exousia ) nos m arid os, nos pais e nos sen hores. Ape sar disso, a p a-
lavra exousia não é usa da u m a só v ez na pass agem. Q uando Paulo des-
creve os deveres dos maridos, dos pais e dos senhores, em nenhum caso
é a aut ori da de que os m an da exercer. Pel o contrário , explíci ta ou im pli-
citament e, adverte os con tra o u so imp róprio da autoridade, proibe os de
explorar a su a posição, e os co ncla ma, ao invés disso, a lemb rarse das sua s
responsabilidades e dos d ireitos d a ou tra parte. Assim se ndo, os maridos
devem am ar as esposas e cu id ar delas, os pais não devem provocar os seus
filh os à ira, mas criálos de m od o justo, e os se nhores não devem am ea-
çar os seus servos, mas tratálos com justiça.
Tem parecid o necessário, antes de chegar ao texto propria mente di-
to que chamemos de “m ora l doméstica” , abrir de m odo geral o tópico da
submissão à autori dade. Resumindo: autoridade no uso bíbli co n ão é um
sinônimo de tirania. Todos aqueles que ocupam posições de autoridade
na sociedad e são responsáveis tan to dian te de Deus, que as confio u a eles,
qua nto à pessoa ou às pessoas por cujo benefíc io a rec eberam.
6 At 5:29.

163
MARIDOS E ESPOSAS

As primeiras resp onsabilidad es que Paulo desenvolve são as dos m a-


ridos e das esposas. A essência do seu ensino é clara. As esposas deve m
ser submissas, e os maridos devem amar.

A23po
s mulheres sejam ésubmissas
rqu e o m arido a seus
o cabe ça da próprios
mul her, com o maridos
tam bém como
Crist oao
é oSenhor;
cabe
ça da igreja, sen do este m es mo salv ado r do corpo. 24Como, por ém, a igre
ja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sub
missas a seus maridos. 25Maridos, ama i vossas mulhe res, co mo tam bém
Cristo a mou a igreja, e a si m es mo se entrego u p o r ela, 26par a q ue a san-
tificasse, tendo- a pu rifica do p o r me io da lavage m de água pela pal avra,
21para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga,
nem coisa semelhant e, p or ém santa e sem defeito. 28Assim também os
maridos devem am ar as suas mulheres com o a seus próprio s corpos. Quem
ama a sua esp osa, a si m esm o se ama. 29Porque ninguém jam ais odiou
a sua pró pria car ne, antes a alim enta e dela c uida, com o tam bém Cris to
o fa z com a igreja; 30porq ue so mos me mb ros do seu c or po .31Eis p o r que
deixará o ho mem a seu p a i e a sua mãe , e se unirá à sua mulh er, e se tor
narão o s do is u ma só carne. 32Gra nde é este misté rio, mas eu me refir o
a Cristo e à igreja. 33Não obstante, vós, cada um de per si, t am bé m am e
a sua próp ria esposa c om o a si mesmo, e a esposa respei te a seu marido .
2. O dever das esposas (vs. 2224)
Duas razõe s são dadas, o u pelo menos subentendidas, pa ra a subm issão
da esposa ao marido. A prim eira é dedu zida d a criaç ão, e diz respe ito à
“chefia” ou “ posiç ão de cabeça” do m arid o sobre a sua esposa, ao passo
que a segund a é ded uzid a da redenção, e d iz respeito à “ posição de cabe-
ça” de Cristo sobre a igreja.
A s mulheres sejam submissas a seus próprios maridos, como ao Se
nhor; po rq ue o m arido é o cabeça da mul her... (vs. 2223a). A liderança
do marido n ão só é declarada como fato como também u sada como b a-
se da subm issão da sua espos a. Para u ma compreensão mais i ntegr al do
argum ento de Paulo , preci samos voltarn os pa ra outro s tre chos, especi al-
mente 1 Coríntios 11:312 e 1 Timóteo 2:1113. Nestas duas passagens,
ele volta à n arra tiva de G ênes is 2 e ressalta que a m ulh er foi feita depois
do homem, da parte do homem e para o homem. Acrescenta que o ho-
mem tam bém é nasci do d a mulh er, de mo do qu e o homem e a m ulher de-
pendem um do outro. Mesmo assim, sua ênfase recai sobre a ordem , so-
bre o modo e sobre o propósito da criação de Eva. E visto que é princi-
palm ente nestes fatos da criação que Paulo baseia o seu argumento para

164
efésios 5:2133

a liderança do m arido, o seu argumento tem vali dez perm anente e univ er-
sal, e nã o deve ser desconsiderado com o cu lturalm ente limitado. Os ele -
mentos culturais do seu ensino d evem ser achados nas apli caçõe s do pr in -
cípio, n a exig ência do “véu” certamente, e penso tam bém na exigênc ia do
“silêncio”. Mas a “liderança” do homem (e espec ialment e do m arido ) não
é uma aplicação
mental. culturalsmo,
Não é chauvini de um princípio;
é cri é o próprio
acioni smo. A nova princípio funda-
criação em C risto nos
liberta da d istorção dos relacionam entos entre os sexos causada pela que da
(por ex . G n 3:16), mas esta belec e a intenção o riginal d a criaç ão. Foi pa-
ra este “princ ípio” que o pró prio Jesus rem onto u (po r ex. Mt 19:46). C on-
firmou o ensino de Gênesis 1 e 2. Nós também devemos fazêlo. Aquilo
que a criação estabeleceu, nenh um a c ultura poder á dest ruir.
É po r esta razão tam bém que de vemos rejeit ar o argumento fácil de
que, já que a escravidão foi abolida, a subm issão d a esposa de ve ser, po r
analogia, abolida também. Se este fosse o caso, por que não completar
o trio e abolir a obediência da criança t ambém? Não! Os parale los são
inexatos! A escravidão é um a instituição desumanizante, sem qualq uer jus -
tificat iva bíbli ca. A liderança do marido, no entanto, está arraigad a na
criação.
Voltandose da reveleção bíblica para a experiência contemporânea,
os cris tãos con cord arão que a nossa s exualidade hum ana é parte integrant e
da nossa hum anidade. A masculinida de e a feminil idade represen tam um a
distinção p ro fu nda que é psicológica e tamb ém fisiológica. Naturalm ente,
os sexos são igua is diant e de Deu s, mas isto nã o significa que sejam idên-
ticos. O pr ópr io Deus criou o hom em à sua semelhança, masculino e fe-
minino. Desta maneira, ambos levam igualmente a sua imagem,7mas ca-
da um tam bém com plem enta o outro.8A pers pect iva bíblica é sustentar
sim ultan eam ente a ig ualdade e o complem ento dos s exos. “Parceria” é um a
boa palavra também, posto que se lem bra que a contribuição de cada um
não é idêntica mas, sim, distintiva. Logo, o homem achase a si mesmo
por ser homem, e a m ulher achase a si mesma ao ser mulher. A genuína
autod esco berta e autoreal ização nã o advé m de es forçarse pa ra ser ou -
tra pessoa e de imitar o sexo oposto.
Quais, pois, são as distintições que s e com plem entam nos dois sexos?
O ensino bíblico é que Deus deu ao homem (e especialmente ao homem
no relacionam ento do casamento) um a certa l ide ran ça, e qu e sua esposa
se achará a si m esm a e a se u ver dade iro papel dado por Deus , n ão em re -
belião ao seu m arido, ou contra a liderança dele, mas, sim, numa subm is-
são vo lun tária e ale gre.
O m od o m od ern o de entender a di feren ciaç ão sexual tende a confir-
7 Gn 1:2627 . 8 G n 2:1 82 4.

165
MARIDOS E ESPOSAS

mar este ensino bíblico. Esta, pelo menos, é a tese do sociólogo norte
americano, Pro fessor Ste ven Goldberg, n o seu li vro The Inevitabili ty o f
Patriarchy.9 Em bora seja um a resposta c onsci ente ao movimento feminis -
ta, declara que a sua abordagem é científ ica e não ideoló gica, pois baseia
o seu argu mento na evidência empírica. Nem se deve rejeitar o seu po nto
de
amvista como
ericana Dra.sendo masculino,
M argaret Mead pois a renomada
é citada na ca paantropóloga norte
do li vro, apoia ndo a sua
tese: “Todas as al egações tão le vian amente feitas acerca de socieda des re-
gidas po r mulheres são contra senso. N ão temos m otivo algum pa ra acre-
ditar que já tenh am existido!’
A prim eira parte do liv ro de le é um estudo an tropológ ico cu ja con-
clusão é expres sa da seguin te maneira: “E m t od a sociedade que já exis-
tiu encontramos o patriarcad o (os homens preenche m a p orcenta gem es-
magad ora das posi ções superi ores nas hierarquias políti cas e todas as de-
mais), a realização masc ulina (os hom ens chegam às pos ições de alto sta-
tus, seja m quais forem el as em qualqu er socie dade ) e o dom ínio m ascu-
lino (tanto os homens qua nto as mulheres sent em que o dom ínio nos en-
contro s e relacion am entos entre hom ens e mulheres res ide no ho me m, e
as expectativas sociais e sistemas de au to rid ad e refletem este fa to ).10
Esforça se p ara indicar que n ão está fazendo qu alquer julgam ento de va-
lores, nem m edin do as realizações, nem pronu nc iand o qu alqu er sexo “su-
perior” ou “inferior” ao outro; seu propósito é simplesmente demonstrar
queno
— o “patria
sentidorcad o”, oem
técnico “dom
queínio
emmasculino”
prega estese term
a “realizaçã
os — sãoo“três
mascurealida-
lina”
des universais”,1 1visto que “em ne nh um a sociedade, em qu alq uer lugar
ou em qu alqu er tempo, esta s realidades têm estado ausentes”.1 2
Pa ra o desenvolvi mento d a sua segun da tese, o D r. Goldberg passa
da antropologia pa ra a fis iologi a. A rgum enta que a evid ência antro po -
lógic a para o dom ínio m asculino que reuniu tem um a causa fisiológica.
As “três realidades universais” são a manifestação na sociedade de um
impulso m asculino bás ico (freqüe ntement e cham ado agressão, embora o
Dr. Goldberg prefira a “tendência ao domínio”) que, em si mesma, tem
srcem “neu roendocrinológica”. “N aquilo que te m de mais bá sico, a hi-
pótese no âmago da teoria aqui apresentada simplesmente declara que há
diferenças neuroend ocrinológicas entre os ho men s e as mulheres que for-
necem respostas masculinas e femininas diferentes diante do meio
ambiente e , portan to, u m dife rent e com porta mento m asculino e femini-
no”.13Não está neg and o que o no sso código genético sej a influenc iado
pelo nosso meio am biente e pela nossa educação, nem que há exceções in-
9 Publicado nos Estados Unidos em 1973 e na GrãBretanha por Maurice Temple Smith em 1977.
10 Op. cit.pág. 63. 11 Op. cit.pág. 60. 12 Op. cit. pág. 62. 13 Op. cit. pág. 121.
166
efési os 5:2133

dividuais à sua generalização, nem que muitas mulheres são frustradas


porque lhes falta oportunidades para usar os seus dons. Ao invés disso,
assevera que há diferenças básicas entre a m asculinidade e a feminilida-
de, que a masculinidade im po rta no im pulso par a o domín io e que a “t en-
dência para o dom ínio é prim ariam ente um resultado do desenv olvimento
hor m
ção onareflete
q ue l e nãoada anatom
ana tom iaia,
e ad iden
a identidade
tida de ddoo gêne ro ne m da socializ a-
gênero”.14
Ao cristão que lê a tese do Professor Goldberg, competelhe
posicionála teologicam ente em termos de criação. Deus criou o homem
e a mulher diferentes, e continua a fazêlos assim, e uma das diferenças
básicas achase na liderança que deu ao ho mem . É bem possível que is to
tenha uma base genética. Sendo assim, o “impulso” natural do homem
precisa ser controlado para que sua supremacia seja construtiva. É que
“pratiarcado” soa paternalista, e “domínio masculino”, opressivo. Até mes-
mo a p alavra bíblica submissão é freqüente me nte exposta com o se fosse
um sinônimo de “sujeição”, de “subordinação” e até mesmo de “subju
gação”. Todas estas palavras têm associações emotivas. Submissão não
é exceção. Devemos procurar d esinfe tar a palav ra destas associações e pe-
ne trar no seu significado ess encialmente b íblico. N ão descobriremos, nas
suas associações modernas, nem sequer na sua etimologia, mas na for-
ma como é apresentado no seu contexto em Efésios 5.
H á pou ca dúvi da quant o ao que submissão sign ificava no m und o a n-
tigo, Barclay
liam quando faz
o desdém para com
um r esumo as mulheres
da situação: “Osera quase
jude universal.
us tinh Wil con-
am um baixo
ceito da s mulhe res. Na form a judai ca das orações matinai s havia um a frase
em que tod o hom em judeu, to das as manhãs, dava graças a Deus por não
ter feito dele “ um gentio , um escravo ou u ma m ulh er”... N a lei judaica ,
a mu lher não era um a pes soa, mas um obj eto. N ão tinh a qua lquer direi-
to legal ; estava totalmen te à mercê do marido, par a ele faz er dela o que
quise sse. .. A po sição era pio r no mun do greg o... O m od o de vida gr ego
tornav a o c om panheirismo entre o marid o e a mulher quase impossível.
O grego esperava q ue sua espo sa cuidasse do seu lar e criasse os filhos le-
gítimos, mas achava seus prazeres e seu companheirismo noutros luga-
res... Na Grécia, o lar e a vida da família estavam perto da extinção, e a
fidelid ade estav a com pletamente aniquilada... Em Roma, nos dias d e Pau-
lo, a situ aç ão e ra pior ainda ... A degeneração de Roma era t rágica.. . N ão
é dem ais dizer que tod a a atmosfera do m und o inte iro e ra adúlt era. .. O
vínculo co nju ga l estava a cam inho de um colapso tota l.” 15C harles Selt
m an c onfir m a este fato. “N o im pério rom ano ”, ele escreve, “a jovem era
com pletam ente sujeita ao pai; a espo sa, completamente suje ita ao mari-
14 Op. cit.pá g. 81. 15 Ba rcla y, pá gs . 19920 3.

167
MARIDOS E ESPOSAS

do. Era escra va dele... Tinh a inc apac idad e lega l idêntic a à d a escrav idão ,
sendo s ua posi ção d escr ita com o sen do ‘im becilitas’ , de ond e se deriva a
palavra que temos.” 16 É verdade que este não era o quadro completo.
Markus Barth procura equi libr ar a situação: “Havia, t ambém , um m o-
vimento con trário que prom ovia direit os igua is pa ra as mulheres” , e “pe-

ríodo s diferentes
ta difere ntes! ’ Quae nto
áreasa geográficas
Éfeso e s eusdifarredores,
erentes pro
“Odu ziamà gra
culto po nto
ndes m
de ãe
vi s-
e
o templo de Ártemis m arcava m esta cidade, m ais do que a ou tras, como
bastão e baluarte dos direitos femininos!’17Mesmo assim, a opressão das
mulheres p reva lecia no m und o anti go, e sua emanc ipação quase nem se-
quer com eçara . É co ntra est e escur o context o que o ensi no de Pau lo b ri-
lha com um a luz tão intensa . M esmo as sim, ainda temos de pergu ntar pre-
cisamente qual o sentido correto de “ser o cabeça” e de “submissão”.
Pa ra começar , estas palavras por si mesm as nã o estabel ecem formas
fixas de com portam ento m asculino e femi nino . Cu lturas dif erentes atr i-
buem tarefas diferentes aos homens e às mulheres, aos maridos e às es-
posas. No ocidente, por exemplo, é bem aceito que a esposa possa fazer
as compras, cozinhar e cuidar da limpeza, assi m como cuida das cr ian-
ças, alimentando as, dan do b an ho nelas e até mesmo troca nd o as fra ldas.
Em muitas partes da Á frica e da Ásia as mul heres também trabalham nos
camp os e carregam cargas pesad as nas suas cab eças. H oje em dia, no en-
tanto, e com razão, es tes háb itos são reconhecidos com o sendo cu lturais
e, portan
rados. to, e stão
Muitos casaissendo
estãoq aprendendo
uestio nad os e, em alguns
a partilhar entrecsiasos, têm sido alte-
os trabalhos
domésticos.
A fim de ente nder a natureza da supremaci a do m arido como “ca-
beça” na nova sociedade que Deus inaugurou, devemos olhar para Jesus
Crist o. Ele, pois, é o contexto em que P aulo emp rega e des envolve as pa -
lavras “ cabeça ” e “ submissão” . Em bora Pa ulo fun dam ente na c riação o
fato d a liderança do hom em, defineo com relação à supremacia de Cris to,
o redentor: porque o m arido é o cabeça da mulher, como também Cristo
é o cabeç a da ig reja, send o este me sm o salva dor do corpo (v. 23). Ora,
a posiçã o de C risto com o cab eça d a sua igreja já foi descrita em 4:15 16.
É de Cristo como cabeça que o corpo deriva a sua saúde e cresce para a
matur idade. Sua suprem acia ex pressa cuid ado mais do que con trole , res-
ponsabilidade mais do que domínio. Esta verdade é endossada pelo acrés-
cimo surpreendente das palavras: sendo este m esm o salvador do corpo.
O cabeça do corp o é o salvador do corpo; a caracterís tica da sua condi-
ção de cabeça não é tan to a de Senhor qu an to a de Sal vador.
16 Women in Antiquity (Pan, 1956), págs. 136, 138.
17 Barth, Ephesians, II, págs. 655662.

168
efés ios 5:21 3 3

Se a posição que o m arido tem como cabeça da esposa ass emelh a


se à suprem acia de Cristo sobre sua igreja, en tão a submissão d a esposa
se assemelhará àqu ela d a igreja: Como, p orém, a igreja está sujei ta a Cristo,
assim tamb ém as mulheres sejam em tud o subm issas a seus maridos (v.
24). N ad a há de aviltante ni sto, pois sua su bm issão não deve ser um a obe-
diênc ia
cuida do.impen sadaMaoarkus
C itando domBínio
arthdelmais
e, mas
um, sim,
a vez:um“Aa submiss
grata aceitação
ão ao mdoarido
seu
e o res peito po r ele, que são especifi camente exigi dos por pa rte d a esp o-
sa... não é de mod o algum a subm issão de um gato de colo ou de um ca-
chorro agachado... Pa ulo. .. está pensand o no com panheirismo volu ntá-
rio, livre, alegre e bempensado, como demonstra o relacionamento en-
tre a igreja e Cristo .” 18Se a lidera nça d o m arido reflete a de Cristo, e ntã o
a submissão da esposa à proteção e provisão do seu amor, longe de de-
preciar a sua condição de mulher, positivamente a enriquecerá.
3. O dever dos maridos (vs. 2533)
Se a pa lavra q ue caracte riza o deve r da espo sa é submissão , a palavra que
caracteri za o do ma rido é amor. P odería mos pensar que a própria na tu-
reza ensinaria a os marido s esta obrigação prio ritária, m as muitas cultu-
ras, antigas e modern as, com provam o contrário . N aturalmente, um cer-
to elo de afeição e desejo liga cada casal, e o s con tem porân eos estóico s
de Pa ulo ensinavam que os maridos devia m amar. O verbo que empre ga-
vam, no entanto,
troduziu era asacrif
o am or forte, fraca icial,
palavra phileõ.
do tipo Foino
agapê, o ensino
casamencristão queem-
to. P aulo in-
prega, duas analogias para ilustrar que o amor do marido pela mulher deve
envolver um terno cuidado.
A p rimeira é que o m arido deve am ar a esposa ass im como Cristo
tem am ado a igreja. J á n o A ntigo Testamen to a aliança gr aciosa que Deu s
fez com o seu povo de Israel foi mui tas vezes referida com o sendo u m con -
tra to de casa mento .19Jesus adoto u este ensino, e se chama va de noivo , de
mod o marc an te.20 Pau lo desenvolv e esta figur a de linguagem aqu i e em
2 Co rintios 11:1  3, ao p asso q ue no Apo calipse temos o po rtun idad es de
vislumbrar a igreja glorificada “ataviada como noiva ad orn ada p ara o seu
esposo” e as futur as “b od as d o Co rdeiro”.21
O que se destaca no m od o de Pau lo dese nvolver o tem a é a firmeza
sacrificial que o noivo tem pela sua noiva. É este amor que os maridos
devem im itar’: Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo am ou
a igreja, e a si m esm o se entregou po r ela, para que a santif icass e.
18 Barth, Broken Wall, pág. 223.
19 Por ex. Is 54:58; Jr 2:13; 31:3132; Ez 23; Os 13.
20 Mc 2:1 82 0; cf. Jo 3:29. 21 Ap 19:6 9; 21:2, 9.

169
MARIDOS E ESPOSAS

Podese ver que P aulo em prega cinco v erbos par a indic ar as etapas
que se desdobram d a dedicação de Cristo à sua noiva, a igreja: amou-a,
a si m esm o se entregou p o r ela, para que a sant ificasse, tendoa purific a
do, para a apresent ar a si m esm o. E sta declar ação é tão comp leta e com -
preensiva que alguns estudiosos pensam que talvez seja a citação de al-

gum a confissã
de Crist o p ara o,com
liturgia ou eja
sua igr h ino
de cristão primitiv
um a eterni dadeo.passad
Pareceaseguir
para u omcuidad
a eter -o
nidade futura. Certam ente a s palavras Cristo a mou a igreja, que ant ece-
dem o sacrifício de s i mesm o em prol dela , parecem relem brar a sua eter-
na preexistência em que amou o seu povo e resolveu vir salválo. Desse
modo, tendo am ado a igr eja, a si m esm o se ent reg ou po r ela. A refe rên-
cia, é lógico, diz respeito inicialmente à cruz.
Mas po r que Jesus Cristo ass im agiu? Q ual foi o propó sito do seu
sacrifício? Foi para q ue a santificasse, tendo-a purificado p o r meio da la
vage m de água pela palavra. Talvez haja uma alusão deliberada ao ba-
nho que a noiva tomav a imediatamente antes dos casamentos judaicos e
gregos. Os tem pos dos verbos suge rem que a purifica ção d a igreja ante-
cede a sua c onsagração ou santific ação. Na verdade, a p urificação pare-
ce refer irse à pur ificaç ão ou limp eza ini cial do pecad o e da cu lpa q ue re-
cebe mos qu and o nos arrependem os e cremos em Jes us. É acom pan had a
pela lavagem de água pe la pal avra . A “lavagem de água” é um a refer ên-
cia ao batism o, sem amb igüidade, a o passo que a referênc ia adicion al à
palavra indi que
cânica , mas ca que o batismo
precisa de umn a palavra
ão é ne explicatória
nhum a cerimônia mágica
pa ra def inir oou
seume-
s ig-
nifi cado, p ar a expre ssar as pr omessas d a p urificação e da nova vida no
Esp írito que ele s imboliza, e despe rtar a n ossa fé. É verdade que alguns
pensam que a palavra referese à confissã o de fé23 ou ao apelo p ar a um a
consciência limpa,24 da parte do candito, ao invés da pregação do evan-
gelho po r par te do ministro ou d a fórm ula de administração. Par ece, no
enta nto, mais natural tom ar água e palavra como sendo administradas
juntas para o candidato. Q uando, portan to, Calvino chegou a es te versí-
culo na sua sér ie exposit ória, inculcou cuidado “p ara qu e nã o separemos
os sacr amentos da P alavra e m qualq uer tem po”, pois “ter o sinal s em a
promessa a ele acrescentada não passa de algo frustrador e sem provei-
to”.25 Markus Ba rth argum enta, de modo encantador, que no contexto a
palavra da promessa não pode ser outra senão “Eu te am o”. Continua:
“O Messia s, co mo o no iv o,... diz esta ‘ pal avr a’ decis iva à su a noiva e , as-
sim, em particular e em público, de modo decente e legal, unese a ela,
e ela a e le.” 26 É u m a p alav ra solen e do am or segu ndo a alianç a.
22 Cf. At 22:1 6. 23 Rm 10:81 0, 13. 24 1 Pe 3:21.
25 Calvino, págs. 583584. 26 Barth, Ephesians, II, pág. 691.

170
efésios 5:2133

Tendo purificado sua noiva c om a ág ua e a palavra , o plan o do noi-


vo celestial é santificá-la e finalm ente apresentá-la a si mesmo. A santifi
cação parece refer irse ao processo presente de torn á la san ta no c aráter
e na co nduta pelo poder do E spírit o que nela habita , ao passo que a apre
sentação é es catológica, e ocorrerá qu and o C risto voltar par a tomála para
si
sermesmo. Ele
um a alu a aprese
são ao belontará
vest aido d a noivagloriosa
si mesmo (endoxon
, visto que é usada). pAara
palavra
ro uppode
as.27
Significa, porém , mais do que isso. “Glóri a” ( doxa ) é o irra dia r de Deus,
o brilho e a man ifestação do seu ser, que d ou tra form a ficaria ocul to. As-
sim, também , a natu reza verdadeira da igreja s e tornará aparente. N a terra,
freqüentemente está em trapos e farrapos, manchada e feia, desprezada
e perseg uida. Um dia, porém, será vista pelo que ela é , na da m enos d o que
a noiva de Cristo, “sem mácula, sem ruga, sem qualquer deformação”
(CIN), santa e sem defeito, b ela e gloriosa. É com este fim construtiv o que
Cris to tem trabalh ado e contin ua trabalhando. A noiva não s e torn a apre-
sentável; é o noivo que tra ba lh a pa ra embelezála a fim de ap resentála
a si mesmo . Seu am or e s eu autosac rifício po r ela, a pu rificaç ão e sant i-
ficação d ela, tu do isso visa libertá la e aperfeiçoála, q uan do finalmen te
ele a apr esen tar a si mesm o na plen itude d a sua glória. O Dr. LloydJones
escreve: “ Pod erei expressar o fat o assim? O especialis ta em beleza terá co -
locado o se u toqu e final na igreja, a massagem terá sido tão perfe ita que
não sobra rá um a única ruga. E la pare cerá jovem, e na flor da juventude,
com cor nas faces,
permanecerá assime apara
peletoperfeita, sem quaisq uer m anchas ou rugas. E
do o sempre!’28
Esta, pois, é a ex posição feita po r P aulo acerca das implicaç ões da
primazia de Cristo. O cabeça da igreja é o noivo da igreja. Ele não opri-
me a igreja. P elo contrário, sacrific ouse a fim de ser vila, p ara que ela
se torne tu do qu an to ele anseia que ela sej a, ou seja: ela mesm a na p leni-
tude da sua gl ória. Assi m tam bém o m arido nunca deve usar da sua li de-
rança pa ra esm agar ou sufo car a esposa, ou p ara frustrála de ser ela mes-
ma. Se u am or p or ela o le vará pelo cam inho exatamente oposto. Darse
á po r ela, a fim de qu e ela dese nvolva seu pleno potencial debaixo de Deus
e assim fiq ue sendo mais com pletamente ela mes ma.
Depois de subir com P aulo p ara est as alturas subli mes do a m or ro-
mântico,mu itos leitore s sentem u m anticlímax n o versículo 28: Assim tam
bém os maridos devem am ar as suas mulher es com o a seus próp rios cor
pos. Na sua instrução aos m aridos no sentido de amarem suas es posas,
pois, parece que desce do padrão altaneiro do am or de Cristo para o p a-
drão pouco elev ado do amo rpróprio . E ste senso de anom alia tem leva -
27 Lc 7:25.
28 LloydJones, Life in the Spirit, págs. 175176.

171
MARIDOS E ESPOSAS

do algun s comentaristas a p rocu rar traduz ir a frase de mod o diferente, m as


suas tentati vas n ão têm tido êxito porq ue a frase seguint e recusase de mo -
do teimoso a transm itir qua lqu er significado senão aquele que é óbvio:
Quem am a a sua esp osa, a si m esm o se a ma. A explicação provável para
a descida de Paulo par a o nív el mais prosaico do am orpró prio é que ele
é sempre um realista. N ão pod em os capta r plenamente a grandeza do am or
de Cris to; “excede tod o enten dim ento”, con form e escreveu an terio rm en -
te.29Além disso, os m ari do s n ão ach am fácil apli ca r este pa dr ão par a as
realidades da vida da família. Todos nós, porém, sabemos da experiên-
cia da vida de todos os dias como am am os a nós mesmos. D aí a utilida-
de prática d a “regra áurea” que Jesus enunciou, de que de vemo s tratar
os outr os c on for me nós m esm os desejam os ser tra ta dos.30 Todos n ós,
pois, sabemos isto instintivamente. É, afinal de contas, nossa m aneira de
tratarnos a nó s m esmos. Porque ninguém jam ais odiou a sua própria car
ne, antes a alimenta e dela cuida (v. 29a). Ou seja, dálhe comida e rou-
pas e cuida dela, quaisquer que sejam as circunstâncias.
Esta exort ação ao ma rido no sentido de alimentar e cuida r da sua pró-
pria esposa como faz com o seu próprio corpo é mais do que um guia útil
para o com portamento diário, no entanto. Também tem um aspecto inti-
mam ente apropriad o, visto que el e e sua esposa s e torn aram um a só car
ne. Deus, porém , pretende q ue as relações sexuais não somente sejam um a
união de co rpos, como também um a união de pers onali dades . É quand o
o m arido e a esposa ficam assim prof und am ente un idos entre si que, ver -
dadeiramente, quem am a a sua es posa, a si me sm o se a ma.
Isto le va o apó stolo a voltar n o seu pensam ento para Cristo e, assim,
chegar ao cl ímax do argum ento. Po r enquanto, empregou duas analogias
para o am or que o m arid o tem pela esposa, a saber, o amoroso sacrifício
que Cristo fez po r sua noiva, a i greja, e o cuid ado am oroso que o espo so
tem para com o seu pró prio corpo. Agora, juntese as duas. A noiva d e
Cristo e o co rpo de Cristo são os m esmos (ver v. 23), porque somos mem
bros do seu corp o (v. 30). Ele no s in co rp or ou n ele mesmo, nos fez par te
dele mesmo nu ma un ião p rof und a, indisso lúvel. Este fato l eva Pau lo a citar
Gênesis 2:24: Eis por qu e deixará o ho me m a seu pa i e a sua mã e, e se un irá
a sua mulh er, e se tornar ão os do is uma só carne (v. 31) e a declarar que
grande é este m istério (v. 32).31 Não parece haver raz ão pa ra se du vida r
que, em prim eira instância, P aulo esteja se referindo a p rofun dida des mis-
teriosas e sagrada s da relação sex ual em si. Mas depois co ntin ua im edia-
tamente para o seu simbolismo ainda mais profundo: mas eu m e refiro
a Crist o e à igreja. Ao fazer assim, n ão som ente e mp rega o ego d a sua au-
toridad e apostólica, mas até mesmo emprega a pró pria expre ssão egò de
29 3:1 9. 30 M t 7:12 .

1 72
efésios 5:2133

lego (“eu, porém, vos digo ”) que o pró pr io Jesus usou nas sei s antít eses
do sermã o d a m on tan ha .32É ap rop riad o p ara P aulo assi m proceder por -
que um mistério é um a verdade revelada, e o pro fu ndo m istério aqui, a
saber: a un ião da igreja com C risto, é muito semelhant e à união entre ju -
deus e gentios no corp o de Cristo, q ue lhe tinh a sido revela da, e da qu al
escreveu
como em um
sendo 3:16. Paulo
a bela vê, aportanto,
figur da u niãoodrelacionamento do casamento
a igrej a em Cristo e c om Cristo.
Quan do é aplicada a Cristo e à sua igr eja, aq uela um a só carn e é idêntica
com aquele novo homem de 2:15. Realmente, os três quadros da igreja
que Pau lo dese nvolve em Efési os — o corp o, o edifíci o e a no iva — enf a-
tizam, todo s eles, a realidade da sua unidad e po r causa da sua uniã o com
Cristo.
O versículo 33 é um resumo sucinto do ensino m ais completo que Pau -
lo estava dando aos maridos e às esposas: Vós, cada um de per si, tam
bém am e a sua própria esp osa com o a si mesmo, pois el e e ela s e to rn a-
ram um só, e a esposa respeite a seu m arido. É verdade que “respeitar”
é a tradução de phobêtai, que significa literalm ente “t emer”, mas este verbo
“po de expre ssar a em oção d o tem or em toda s as suas modificaçõe s e em
todos os seus graus, desde o simples respeito, passando pela reverência,
e cheg ando a té à adoração, de acord o com o seu objeto” .33O ap ósto lo co-
meçou com um par, amor e submissão. Term ina c om ou tro, amor e res
peito. Já vimos que o amo r que tem em mente para o m arido dese nvol -
ver é sacrificial e s erve ao p rop ósito de capacit ar a e sposa a torna rse o
que Deus preten de que ela seja. Deste modo, a submissão e o respeito que
pede da esposa expressa a resposta dela ao seu am or, e o desejo dela que
ele, também, fique sendo aquilo que Deus pretende que seja, na sua
liderança.
4.Resumo
Tratando em primeiro lugar do m arido, o que Paulo ressalt a não é a au -

torida de do
de, a auto m arido
ridad e delesobre a espoa em
é definid sa, mas o se de
t ermos u am or por elalidade
responsabi . N a realida-
am oro-
sa. P ara a n ossa me nte, a palavra “autorid ade” tem um sentido de pode r,
de do mínio e at é mesm o de opressão. R etratamos o marid o “au toritá rio”
como sen do um a figura dom inante que tom a todas as decisões sozi nho,
11 A tra duç ão latina de Jerônimo na Vulgat a é sacrameníum hoc magnum est. Empregava sa-
cramentum no seu sentido mais antigo de “mistério” que contin ha algum a verdade escondida
ou algum simbolismo sagrado, como em 1Tm 3:16. Não deu a entender, nem o texto grego en-
sina, qu e o casamento é um “sacramen to” no sentido que a teologia católica romana p osterio r-
menteolhe
entre atribue iu.
marido É “sacramenta
a esposa simboliza l” somente
a união no Cristo
entre sentidoe que Paulo pretende aqui, que a união
a igreja.
12 Ver Mt 5:22, 28, 32, 34, 39, 44. 33 Hodge, pág. 353.
14 LloydJones, Life in lhe Spirit, pág. 148.

173
MARIDOS E ESPOSAS

que emite ordens e que espera a obediência, que inibe e an iqu ila a espo-
sa, e que assim ev ita que ela cres ça até s er um a pessoa m ad ura ou reali-
zada. M as este não é, de m od o algum, o tip o de liderança, co mo cabeça
do casal, que o apó stolo está descrevendo, cujo model o é Jesus Cristo. Cer-
tamente, a “liderança” subentende certo grau de mando e de iniciativa,
como qua nd o C risto ve io corte jar e conq uistar a sua noi va. Mas, mais es -
pecificamente, subentende o sacrifício, darse a si mesmo por amor à ama-
da, com o qu an do Jesus s e sacrific ou pela su a noiva. Se a “lidera nça” sig -
nific a “ pod er” em qualquer sen tido, então é poder para cuidar e não pa-
ra oprimir , po der p ara servir, n ão pa ra dominar, po der p ara facilit ar a auto
realização, não par a fr ustrála ou destruíl a. E em tudo iss o, o padr ão do
am or d o m arid o deve ser a cruz de Cristo, na q ual o Senhor se sacrificou
até à morte em a mor abn egado pela sua no iva. O Dr. LloydJones tem uma
maneira notável de inculcar esta verdade. “Quan tos de nó s”, pergunta, “re-
conhecemos que sempre devemos pen sar n o estado con jugal em termos
da do utr in a da expi ação? É este nosso m odo costumeiro de pensar sobre
o casamento? ... O nde descobrim os o qu e os livros têm p ara dizer so bre
o casamento? E m qu e seção? N a da Étic a. Mas não é aí o lugar cer to. De-
vemos considerar o casamento em termos da d ou trina d a expiaçã o” 34
Quan to ao dever da esposa no relacionamento do casamento, fico sur -
preso ao ver quão im popular esta passagem é entre muitas mulheres.
Quan do é lida nu m casamento, e provoca um protesto femini no, fico per-
gu ntan do a mim mesmo quão cuidado sam ente foi lida e, em espec ial, se
foi lida no seu contexto total. Deixemme extender em detalhes cinco li-
ções que, segundo espero, demonstrarão não se tratar de um projeto de
opressão como m uitas pes soas pensam mas, sim, ser um atestado de ge-
nuína liberdade.
a. A exigência de submis são é u m exem plo específico do dever c ristão geral
Isto é , a in jun ção “as mulheres sejam sub missas” (v. 22) é pre ced ida pel a
exigênci a de que nos “sujeitem os uns aos o utro s” (v. 21). Se, po rta nto, é
o dever da esposa, com o esposa, subm eterse ao m arido, tam bém é o de-
ver do m arido, com o m emb ro d a nova soci edade de Deu s, submete rse à
esposa. A submissão m útu a é um a obrigação cristã uni versal. E m todas
as áreas da igreja cristã, inclusive em todo lar cristão, a submissão deve
ser mútu a. E o pró prio Jesus Cristo é o suprem o exempl o de humildade.
Ele esv aziou se da sua posiç ão e dos seu s direi tos, e humilho use p ara ser-
vir. D esta maneira, na nova ordem que fund ou, cham ou todo s os se us se-
guidores a anda rem nos seu s passos. “Ou trossim, n o trato de uns com o s
outro s, cingi vos tod os de hu mildade”.35 Não dev e a esposa até mesmo
34 LloydJones, Life in lhe Spirit, pág. 148.
35 1 P e5:5 . 36 Yoder, pág. 174.

174
efési os 5 :2133

alegrarse porque tem o privilégio de demonstrar especialmente em sua


atitude pa ra com o m arido a beleza da hum ildade que de ve caracter izar
todos os membros da nova sociedade de Deus?
Assim acontece espec ialment e qua nd o se vê qu e a sua h um ildade nã o
é forçada, m as espontâne a. Dev e ter sido muito óbvio no m un do antigo.
A esposa
mos. M esmo assi m, status
não tinha o apósalgum, e tinse
tolo dirige ha po ucos
a ela direit
com o umos,agente
con form e jáli-
moral vi-
vre e a conclam a não a consentir num desti no que n ão pode escap ar, mas,
sim, a fazer uma decisão responsável diante de Deus. É isso que “come-
ça a i novação revoluci onária no esti lo crist ão prim itivo do pen samento
ético!’36A subm issão cr istã volun tári a ain da é m uito relevante hoje . “Je -
sus Cristo dem onstra possu ir, e não perd er, a sua dign idad e qu and o se su-
bordina ao Pai. Quando um a pessoa é voluntariam ente submissa a uma
outra, cede a ela, e colocase ao seu s erviço, dem on stra m aior dignidade
e liberdade do que quem nã o po de su po rtar ser um assi sten te ou sócio d e
pessoa alguma, senão de si mesmo. Efésios 5 apóia tudo menos a obediên-
cia cega ou a destruição d a vontade da esposa. P elo can trário, este cap í-
tulo dem onstra que no im pério do Serv oMes sias crucificado, os súdit os
respeitam um a ordem de liberdade e de igualdade em que um a pessoa aju-
da a o utra, aparentemente renun ciando aos dire itos possuídos mas, n a rea-
lidade exercendo o direito de imitar o próprio Messias... Uma descrição
mais grandiosa, mais sábia e mais positiva do casamento ainda não foi
ach ada na litera tura c ristã .37
b. A submissão d a esposa deve ser ao marido qu e a ama, não a um “bicho-
papão”
A instrução do apóstolo não é “esposas, submetamse; maridos, sejam
mandões”; mas é “esposas, submentamse; maridos, amem”. Naturalmente
tem havido exemplos em cada era e cultura de maridos cruéis e tiranos,
e tem havido ocasiões em que, a fim de ma nter a integ rida de d a consciên-
cia, a esposa tem sid o ob rigad a a res istir à au to rid ad e do m arido. Paulo,
porém, está descrevendo o ideal cristão, e não seus horripilantes desvios.
Este fato se mpre fo i óbvi o aos com enteristas . Já n o sécul o XVI, Calvino
pregava: “Os m aridos... não devem ser cruéis para com as esposas, nem
pensar que tudo quanto queiram seja permissível ou lícito, porque a au-
tor ida de del es deve ser mais um co mpan heir ism o do que um senhorio!’
Três vezes o ap ósto lo rep ete sua exortação pr inc ipa l: Maridos, amai vos
sas mulheres (v. 25); assim tam bém os maridos de ve m amar as suas es
posas (v. 28); vós, cada um de pe r si, tamb ém am e a sua própria esp osa
(v. 33). Se, pois, a liderança do marido é expressa em amor responsável
37 Barth, Ephesians, 11, págs. 714715.

175
MARIDOS E ESPOSAS

pela esposa, por que ela deve ficar relutante em submeterse a ele? E se
o marido deseja que ela assim faça, saberá que é somente por meio do
amor que ele conseguirá.
c. O marido deve amar com o Cristo am ou

A do m aridodeé submissão
doexigência mais d ifícilparece
ainda.difícil
N ão se à esposa?
trat a deAcho
ele “amque
ar”o com
que éa exi gi-
p ai-
xão rom ântica , sentimental e até mesmo agres siva que hoje freqüentemente
passa por amor genuíno. Ao invés disso, deve amála com o amor de Cristo.
Se a obrig ação do marido é repe tida três v ezes, assim tam bém é a exigê n-
cia no sentido de e le modelar a su a atitude e o seu com portam ento con -
form e os de Cristo. O m arid o é o cabeç a da esposa com o também Cristo
é o cabeça da igreja (v. 23); deve am ar a esposa com o também Cristo am ou
a igreja (v. 25); e deve alimentála e cuidar dela como também Cristo o
fa z com a igreja (v. 29). De sta maneira, sua liderança, seu am or e sua so-
licitude de vem as semelhars e aos de Cristo . O piná culo mais alto da exi-
gência é ating ido n o vers ículo 25, ond e é exortado a a m ar a esposa como
Cristo am ou a igreja, e a si m esm o se entregou p o r ela. Esta é a totalida-
de da abnegação. Dev e am ála com o que às v ezes é cham ado de “am or
do C alvário” . Nã o se pod e conce ber nenhum pad rão m ais a lto. O m ari-
do cristã o que, até mesm o parcialmente, cu mpre es te ideal prega o evan-
gelho se m sequer abr ir a boca, p orqu e as pessoas pode m ver nele aquela
qualidade de amor que levou Jesus Cristo à cruz.
d. O am or do marido, co mo o d e Cristo, s acrifi ca-se a fi m de se rvir
Consideramos anteriormente os cinco verbos dos versículos 25 e 26. Cristo
amou a igreja e se entregou por ela, a fim de purificá-la, santificá-la, e
finalmente apresentá-la a si mesm o com to do o seu esplendor e s em qu al-
quer defeit o. N ou tras palavras, seu am or e seu sacrifício pessoal nã o f o-
ram um a dem onstração fút il, m as ti nham um propósit o. E seu propósi-
to nã o era im por u m a identidade estranha sobr e a igr eja, m as liber tál a
das m anch as e rugas que estragam a sua bele za e dem onstrála n a sua ver -
dadeira glória. O m arido cristão dev e m ostrar u m a soli citude sem elhan-
te. S ua liderança nun ca de ve ser usad a para oprim ir a esposa. A nseia po r
vêla libertad a de tud o q ua nto estrag a sua identidade feminina ve rdadei-
ra, e cresc endo em direção à “gló ria”, à perfeição d a per sona lidade reali-
zada q ue será o destino final d e toda s as pessoa s que C risto r edime. Com
este propó sito, C risto entregouse a si mesmo. Com este propósito, tam -
bém, o m arido entregase em amor.
e. A subm issão da espos a é ma is um aspect o do a mo r
Já vimos que a essênc ia da instru ção de Paulo é “esposas, sejam submis
176
efési os 5 :2133

sas; m aridos, am ai”, e que estas palavras s ão diferentes entre si , visto que
reconh ecem a condição de cabeça que Deus deu ao marido. Quando , p o-
rém, procu ram os d efinir os dois verbo s, n ão é fácil distingu ir entre ele s.
O que significa ser s ubm isso ? É entregarse a alguém. O que significa
amar ? É entreg arse por alguém, assim com o C risto a si mesm o se entr e
gou
mesmpela igreja.
íssima coiDesta seja, da qusubmissão
sa, ou maneira, e amorístasão
ela entraga altru de dois aspectos
si mesm o quedaé
o fun dam ento de u m casam ento du rado uro que c resce.
Não se quer dizer que darse a si mesm o é fácil em qualquer tempo.
Receio ter pintado um q uadr o d a vida conjugal que é ma is rom ântico do
que realis ta. A ver dade é que to da a abnegação, em bo ra seja o cam inho
do serviço e o meio pa ra a autorealização, tam bém é doloro sa. De fato ,
parece que o am or e a d or são inseparáveis, especialmente em pecadores
como nós somos, vi sto que nossa condição de caídos não foi totalme nte
ap aga da p or nossa nova criação em Cr isto. N o casamento, há a dor do
ajustam ento, à medida em que o ve lho eu independente cede lugar pa ra
o novo nós interdep enden te. H á, tam bém, a dor da vulnerabil idade à me-
dida em que a aproximação entre os do is leva ao autodesmascaramento,
o autodesm ascaramento levand o ao conhecimento m útuo, e o conheci-
mento levando ao risco da rejeiç ão. Po r isso, os ma rido s e as esposas não
devem esperar a descoberta da ha rm on ia sem conflito. Dev em esfor çar
se para edificar um relacionamento de amor, de respeito e de verdade.
Entregarse
Se, pois, eu me e antrego,
alguémpoé deoser
reconhecimento d eodou
s omen te po rqu valortand to
a ou tra pessoa.
v alor à ou tra
pessoa que quero sacrificarme por causa dela pessoalmente, a fim de que
ela po ssa dese nvolver a sua persona lidade de fo rm a mais positi va. Ora,
perderse para que o outro possa acharse a si mesmo, esta é a essência
do evangelho de Cristo. É, também , a essência do relacionam ento n o ca -
sam ento, p orqu e à medida em que o marido am a a es posa, e a esposa se
submete ao m arido, cada um está procurando capacitar o outro a tornars e
ele mesmo, dentro do complemento harmonioso dos sexos.
177
6:1-9
11. Pais, filhos, senhores e servos
Filhos, obedecei a vossos pai s no Senhor, po is isto é justo . 2Hon ra a teu
pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa), 3para que
te vá bem, e seja s de longa vida sobre a te rra. AE vós, pais, não provoqueis
vossos fi lh os à ira, mas criai-os na di sciplina e na admo estação d o Senh or.

Paulo p assa
ridos com asagora, naspara
esposas Haustafeln,
suasos dos pais com dos dev eres
os filhos. recíprocos
Assim dosé dig-
fazendo, m a-
no de no ta que el e pensa n a congregaçã o local c omo sendo um a “famíli a
igreja”, composta pelos dois sexos, com pessoas de todas as idades.
Dirigindose aos filhos neste parágrafo, bem co mo os pais de les, eviden-
temente esperava que famílias inteiras se reuniss em pa ra o culto público,
não somente para louvar a Deus mas também para ouvir a Palavra de
Deus. As Escrituras d o A ntigo Testament o e as cartas do ap óstolo seriam
lidas em vo z alta e expost as; e qu an do as Haustafeln apo stólicas fosse m
lida s, ficariam sabendo de seus próp rios deveres e dos demais m embros
da família. O fato de os filhos terem sido incluídos nas instruções, rece-
bendo um a seção dedicada a eles, é um indício da aceitação já universal
na igreja daquele que di ssera: “Deixai vir a mim os pequeninos, nã o os
embareceis, porque dos tais é o reino de Deus”1e, outra vez, “E quem re-
ceber um a criança, tal com o esta, em me u nome, a mim m e recebe!’2E ra
um a m uda nça da crueldade em pedernida que pr evalecia no império ro -
mano, em que as crianças não desejadas eram abandonadas, as fracas e
defo
radasrm
poadas eramcomo
r muitos sacrifi
umcadas, e atého
empecil mesmo
parcial,asporq
saudáveis
ue inibiera
amma con
promside-
is-
cuidade sexual e complicavam o divórcio fácil.
1. O dever dos filhos (vs. 1-3)
Filhos, obede cei a vo ssos pais... Aqui temos um outro exemplo da sub-
missão geral q ue, co nfo rm e 5 :21, se espera de tod os os mem bros d a nova
socied ade de Deus. D esta ve z, porém , a exigência é mais forte , a sabe r, a
obediência , já que as espos as nã o foram ord enada s a obedecer. A m eu ver,
'M c 10:14. 2 Mc 18:5.

178
efés i os 6 :19

a litania do ca sam ento do Livro de Orações de 1662 errou ao inclu ir este


verbo entre os votos da noiva. O conceito de um marido que dá ordens
e uma esposa que lhe pr esta obe diênci a simpl esment e n ão é achado no N o-
vo Testament o. O que mais se apro xim a é a citação de Sara, “qu e obe de-
ceu a Abraão, chama ndolhe senho r”. Mas m esmo ness a pass agem a ins-
truçã o q ue o apó
de submissas stolo Pedro
a vossos deumaridos”.3E,
próprios às e sposas éconforme
a mesm avimos
que Paulo de u: “Se-
no capítulo
anterio r, a submissão d a esposa é algo bem diferente da obediênci a. É um a
entrega volun tária de s i mesm a àquel e que a ama, cuja responsabilidade
é defin ida em termos de cuidado construtivo; a responsabilidade do am or
é amar.
Os filhos , no en tanto, deve m obedecer aos p ais. Em bo ra Pau lo pa s-
se a restringir a au torid ade dos pais e a guiála no ca nal da educ ação cristã,
ain da assim fica claro que a auto rida de dos pais sobre o s filhos é distint a
da lideran ça do m arido sobre a esposa, e mais fo rte do que e la. M esmo
assim, Paulo não a toma por certa. Como no caso da submissão da es-
posa, assim também com a obediência dos filhos, ele edifica a sua instru-
ção sobre um alicerce cuidadosamente lançado. Dá três motivos para a
obediência dos filhos num lar cristão: a natureza, a lei e o evangelho.
Primeiramente, a natureza: filh os, obedecei a vossos pais... pois isto
é jus to (di kaios ). A ob ediência dos filhos pertence ao âmb ito que vei o a
ser cham ado n a teol ogia medi eval de “justiça natura l”. Nã o depende d a
revelação
os coraçõe especial.
s h umFazan parte
os .4 da lei natural
N ão é co nfque
ina Deus
da à escreveu em todosÉ o
ética cristã.
com porta mento pad rão em toda soc iedade. Os moralis tas pagãos, tanto
os gregos qu an to os rom anos, a ensi navam. Os filósofos estóic os viam a
obediência do filho como coisa axiomática, claramente exigida pela ra-
zão e faze nd o pa rte d a “n atur eza das coisas” . Muito antes di sso, e na cul-
tura oriental, um a das ênfa ses maior es de Confúcio foi dada ao respeito
filial, d e m od o que até mesm o hoje, depois de muitos sécul os, os costu -
mes chi neses , co reanos e japon eses continu am a refletir essa influência.
De fato, virtua lm ente tod as as ci vilizações têm con siderado o reconheci-
men to d a au torid ad e dos pais c omo sendo in dispensável a um a socieda-
de estável. Não nos surpreendemos nem um pouco, no entanto, quando
Paulo inclui “deso bedi entes aos pais” como u m a marca tanto da socie -
dade dec adente que foi ent regue à sua pró pria impiedade po r Deus, co-
mo d aquela dos últimos dias, que começaram com a vinda de Cristo.5
Se a obed iência dos filhos faz parte d a lei n atura l que Deus esc reveu
nos corações hum ano s, ela pertence também à lei revelada que Moisés re-
cebeu de D eus, escrita em tábu as de pedra. Po r isso Paulo co ntinua: Honra
3 1 Pe 3:16. 4 R m 2:14 15. 5 Rm 1:283 0; 2 Tm 3:12.

179
PAIS, FILHOS, SENHORES E SERVOS

a teu pa i e a tua mãe (que é o prim eiro m anda mento com promes sa) , p a
ra que te vá bem, e sejas de longa vida sob re a te rra (vs. 23). N esta c ita-
ção, Paulo livremente funde o text o grego de Êxodo 20:12 (“H on ra a teu
pai e a tua mãe, para que sejam longos os teus dias..”) e Deuteronômio
5:16 (“pa ra que te v á bem”). Sendo este o qu into dos de z man dam entos,

oe já que próximo,
nosso parece à prim
muitoseira vista que
cristãos diz respei
dividiram to ao nosso
o Decálogo dev ermeta-
em duas par a com
des desiguais, os quatro primeiros ma nda m ento s especificando o nos so
dever diante de Deus, e os outros seis, o nosso dever ao nosso próximo.
Os judeus, n o entanto, ensina vam regularm ente que cad a um a das duas
tábu as d a lei contém cinc o man dam ento s. A relevância deste arr an jo é que
coloca a ho nra aos nossos pais no âm bito do no sso de ver para com Deus.
E isto seguramente é corre to. É que du ran te a n ossa infância, pelo meno s,
os pais representam Deus diante de nós e são como que intermediários
tanto da au toridade q uanto do am or de Deu s. De vemos honrá-los, o u seja,
reconhecer a sua autorida de, da da p or Deus e , assim, prest arlhe s não so-
mente a noss a obediê ncia , como tam bém o nosso am or e o noss o respe i-
to. É porqu e a autorida de dos pais é autoridad e divinamente de legada qu e
a obediência r espeitosa aos pais era i nvest ida c om t ão grande im po rtân -
cia na vida d o povo da aliança de Deus . Moisé s foi ordena do a dizer a Is-
rael: “ santos ser eis, porq ue eu, o Senho r vosso Deus, sou sant o. Cad a um
respeitará a su a m ãe e a seu pai... Eu sou o S EN HOR vosso De us.” 6A re-
verência
verência para com oosSenh
pa ra com pai s orficou
comsen
o odo, po drtanto,
Deus parte
eles, abr ang integrante da ore-
end o ain da re-
lacionam ento especial com Deus na q ualida de de povo d e Deus. Daí a pe-
nalid ade extrem amen te severa (a pe na capital, de fato) que devia se r apli-
cada a qu alque r pessoa que amaldiçoasse se us pais e ao “filho contum az
e rebelde” q ue se recusasse a obedecerlhes, qu e desafias se a disc iplin a de
advertência dos pais, e que revelasse ser incorrigível.7
O apósto lo Paulo, no entant o, prefere reforç ar o m andam ento de Deus
com uma promessa e não com uma ameaça. Lembra a seus leitores que
o mand am ento no sen tido de ho nra r aos pai s é o primeiro m andam ento
com prom essa, e passa a cit ar a prom essa da prosperidade e da vida lon-
ga. E sta declaraç ão que parece ser tã o simples contém vários problemas.
Alguns comentaristas discordam de Paulo , e declaram que o quin to m an-
dam ento n ão é, na real idade, o primeiro que tem u ma promessa ligada a
ele, visto que o s egundo m anda mento tam bém tem um a promessa, a de
“misericó rdia até mil gerações” dos que am am e obedecem a Deu s. U ma
resposta sufici ente é que estas últimas palav ras “ são um a declaraçã o do
6 Lv 19:13. 7 L v2 0:9 ; Dt 21:182 1.

180
efésios 6:19

caráter de De us mais do que um a promessa” .8O utros expressam a op i-


nião de qu e, nes te caso, nã o é o primeiro, mas o único m and am ento com
promessa, pois nenhum outro m andamento a tem. A isto, F. F. Bruce res-
ponde de modo claro que P aulo está pensando “não somente no decálo
go mas também no todo da legislação do pentateuco que é introduzida
pelo decálogo”.9 Isto nã o satisf az a todos, no en tanto. Assim, algun s in-
terpretam “primeiro” com o sendo um a referênci a à prim azia e não à or-
dem (como qu and o o escriba perguntou “Q ual é o pri ncipal de todos os
mand am ento s?”) ,10e sugerem que s ignif ica “um m and am ento d a máxi-
ma relevância, com um a prom essa ligada a ele ” 11ou “o prim eiro em im -
portância dentre aqueles que dizem respeito aos nossos deveres sociais” 12
ou que “este, par a as crianças, é um m andam ento prim ário, aco mp anh ado
de u ma p rom essa”.13
A respectiva promessa era a prospe ridade m aterial (para que te vá
bem) e a longevidade (e sejas d e lon ga vida sob re a terra). D urante o tempo
da teocracia, quando Israel era tanto uma nação quanto uma igreja so-
bre as quais Deus reinava, as bênçãos de Deus segundo a aliança eram es-
treit amen te li gadas à terra prom etida, à seguran ça, à saúde e às boas co-
lheitas dentro daqu ela te rra. Agora, porém, os tempos mudara m, e os mo -
dos de com o Deus trata o seu povo também mudaram . Pare ce que Paulo
quer su bentender iss o com a alteração da pro messa srcinal “ na terra que
o Sen hor vosso Deus v os dá” que ele tran sfo rm a em sob re a terra . A ter -
ra pro metid a desapa rece da vi sta. O povo de Deus segundo a aliança agora
é um a com unidad e internacional, e s uas bênçã os são principalmente es-
pirituais em Cristo. Ao mesmo tempo, lado a lado com suas bênçãos nas
regiões celestiais (1:3), aqui há uma bênção prometida na terra. Prova-
velmente devamos interp retála de m odo geral ao inv és de em term os in-
dividuais. Depois, o que é prom etido não é tanto um a vida longa p ara cada
filho que obedece aos pais, ou estabilidade social para qualquer comu-
nidade em que os filh os honrem aos pais. C ertamente, um a sociedade sau-

dávelDué inconcebível
as p erguntas sem uma sólida
práticas surgemvida
da familiar.
exigên cia de os filhos ob edece-
rem aos pa is. O m and am ento é incondici onal? E para quem é dirigido?
Muitos jo vens cristãos , que estã o ansiosos po r con form arem suas vi-
das com o ensino das E scrituras, ficam per plexos com a exigê ncia da o be-
diência. Dev em fazer absolutamente tud o qu an to os pais mand em que fa-
çam? O que aconte ce se eles conhecem a C risto, ao p asso qu e os pais, pe -
lo que sabem, permanecem incrédulos? Se os pais os proibem de seguir
a C risto o u de filiarse à com unid ade crist ã, estão ob rigados a obed ecer?
8 Bruce, pág. 121. 9 Bruce, pág. 121. 10 Mc 12:28.
11 Hendriks en, pág. 258. 12 Hodge, pág. 358. 13 Hunter, pág. 24.

181
PAIS, FILHOS, SENHORES E SERVOS

Em respo sta a tais perguntas, que freqü entem ente são feit as com g rande
dor e ansie dade, ach o que preci so diz er que d uran te a m inorida de (e te-
nho mais p ar a dizer acerca disso mais tarde) a obediência ao s pais de ve
ser a norm a, e a desobediência a ra ra exceção.
Po r exemplo, supo nha mos que vo cê seja um jovem que, tendo sido
criado n um
agora ser l ar n ãocrist
batizado ão, ten
, mas seus paido
s orecente mente
proibem. chegado a Crist
Pessoalment o, deseja
e, eu não acon -
selharia você a agir em desafio aos desejos expressos dos seus pais. Até
mesmo o bati smo, em bora Jesus o tenh a ordenado, pode esperar até q ue
você ten ha m ais idade, e a lei do seu país lhe dê certa m edid a de indepe n-
dência. Se, por outro lado, seus pais lhe proibirem de adorar e seguir a
Cristo no seu coraç ão, a isto voc ê não deve obede cer. P ode ter sido exata-
mente um a situação tal como esta que Jes us teve em mente qua ndo ad-
vertiu sobre confli tos de fam ília e m que pais e filhos f icariam opostos uns
aos outros, e nossos ini migos estariam em nosso próp rio la r. Em tais cir-
cunstânci as, p or m ais dolorosas ou perigosas que seja m, a nossa lealda-
de a Cristo deve vir em primeiro lugar. Se am am os até mesm o nossos pais
mais do que a Cristo, ele disse, nã o so mo s digno s dele .14N ão é, nat ura l-
mente, que deva mos, em qualqu er ocas ião, pro cu rar conflitos na família
ou fomentálos. P elo contrário , todo s os s eguidores de Jesus são cham a-
dos pa ra ser pacificadores e , no que depe nde r de n ós, par a viv er em paz
com to do s. 15M esm o assim, às vezes as tensões e as r ixas não pod em ser
evitadas.
É bem verdade que, na passag em p aral ela de Colos senses , os filh os
são orde nado s a obede cer, aos pais em tud o.'6 Em Efésios, porém, estas
palavras são equilibradas pelo m andamento no sentido de obedecerlhes
no Senhor (6:1 ). E sta última instrução decert o altera a primeira. Os fi-
lhos não devem obedecer aos pais em absolutamente tudo sem exceção
mas, si m, em tudo que é compatív el com a sua lealdade fundam ental, ou
seja, ao Senhor Jesus Cristo.
E assim chegamos à segund a perg uta prática: quem são estes filhos
que devem obedecer aos pais? E qu and o cessam de ter esta condição? P au-
lo está s e dirigind o a crianças bem pequen as, e a menino s e meninas? Ou
inclui todo s os jove ns que ainda n ão se casaram e continuam no lar pa-
terno, embora agora sejam adultos que há muito tempo deixaram a in-
fância e a adole scência? N enhu ma resposta indivi dual pode ser dada a esta
pergunta, porque respostas diferentes teriam de ser dadas em culturas di-
ferentes. Na m aio ria dos países ocidentais a idad e em que os jovens che-
gam à m aioria tem sido reduzida de vinte e um p ara dezoito anos. Ag o-
ra, com a que la idade , já não são menores: recebe m o direito ao v oto, e es tão
14 Mt 10 :3439 . 15 Mt 5: 9; Rm 12:1 8. 16 Cl 3:20 .

182
efésios 6:19

livres pa ra casarse s em o consentim ento d os pais . No extremo oposto, no


império dos dias de Pa ulo, “o pod er do pai rom ano estendiase sobre a
totalida de d a vida do filho, enq uan to o pai v ivesse. Um filho rom ano nu n-
ca ating ia a ma iorid ade !’17Em alguns países do tercei ro m undo , hoje, um
costume semelhante prevalece. Tudo quanto se pode dizer com referên-
cia a tais
nhece pelositua çõesalgum
menos é que aoumedida
a le i ou o costume empara
de independência to daj sociedade
ovens, ou reco-
q ua n-
do se atinge a condição de homem ou mulh er, ou q uan do atingem certa
idade, ou qua nd o deixam a casa pater na ou se casa m. Os cri stãos não de-
vem desafiar a convenç ão aceit a p or sua próp ria cu ltura nesta questão.
Enq uanto são co nside rados como crianç as ou menores na sua próp ria cul-
tura, devem continuar a obedecer aos pais.
Mais uma consideração importante. Até mesmo depois de termos
atingido a maioridade, estando considerados e m nossa cultura como não
mais suj eito s à auto rida de dos nossos pa is e, portan to, já não sendo obri-
gados a lhes “obedecer”, ainda devemos continuar a honrálos. Nossos
pais ocupam uma posição sem igual em nossa vida. Se os honrarm os co-
mo devemos, nunca os negligenciaremos nem nos esqueceremos deles.
Muitas culturas do terce iro mundo, mesm o não cristãs , zelam pelos pai s
idosos de maneira m uito mais conscienc iosa e cuid ados a do que a m aio-
ria de nós, que viv emos no cha mado ocidente crist ão. E mbora em algu -
mas circ unstânci as seja in evitável, e em ou tras até mesm o desejável, é um a
reflexão triste sobre
que, ao invés a trad içã o ociden
de pessoalmente tal egoísta
cuidarmos da família
de nossos da eraidosos,
parentes nuclea r
enviamolos a um asilo de velhos. Isolar de tal mane ira, e até mesm o sim-
bolicamente rejeitar nossos próprios pais, raras vezes pode ser reconciliado
com o mandamento no sentido de honrálos.
Até aqui, temos seguido Paulo fundamentar a obediência do filho
aos pais tanto na natureza quanto nas Escrituras, isto é, na lei natural e
na lei revel ada. O u seja, insist e nela prime iram ente p orq ue é co rre ta e em
segundo lu gar p orqu e está escrito. Seu terceiro argumen to in trodu z o evan-
gelho e o novo dia que raiou com Jesus Crist o. É subentend ido n a injun
ção p ara os filhos obedecere m aos pais no Senhor, a saber, no Sen hor Je-
sus. Já vimos que estas palavras modificam o mandamento paralelo em
Colosse nses, no sentido de obedecer aos pais em tudo. Mas o significa-
do d as palavras n ão se esgota al i. Trazem a obediência dos filhos pa ra o
âm bito d o dever especificamente cris tão, e colocam sobre os filhos a res-
ponsabilidade de obedecer aos pais por causa do seu próprio relaciona-
men to com o Senh or Jesus Crist o. É ele que, como Criador, primeiro es-
tabelece u a o rdem na família e na socie dade, e na nova sociedade que agora
17 Barclay, pág. 208.

183
PAIS, FILHOS, SENHORES E SERVOS

está edifi cando nã o a subverte. H á um a con tinuid ade esse ncial entr e a ve-
lha e a nova ordem, en tre a criação srcinal e a nova criação em Cristo.
As famílias não foram a bolidas. Os homen s e as mulheres ain da se casam
e têm filhos. N o Senhor ain da h á m arido s e esposas, pais e f ilhos . O que
foi alterado tem relação com a devastação da queda. Porque a vida em
famíli a que Deus criou no iníc io e qu e pronu nciou com o sendo boa foi
estraga da pela rebeldi a e pelo egoísmo hum anos. Os relacionam entos se
desfizeram. A sociedade foi fracionada. O amor foi pervertido em con
cupiscência, e a au torid ade em opre ssão. Mas ag ora, no Senhor, m ediante
a sua obra reconcilia dora, a nova sociedade de Deus começou, co ntin ua n-
do a ve lha no âmbito d a vida f amil iar, m as descontínu a na sua q ualid a-
de. Agora, pois, todos os nossos rel acionamentos são transfo rm ado s exa-
tamente porque estão no Senhor . São purificados do egocentr ismo rui
noso, e cheios, ao invés disso, do amor e da paz de Cristo. Até mesmo a
obediênc ia aos pai s é transfo rm ada. Já n ão é um a conc ordância de mal
grado à a uto rida de dos pai s. Os filho s crist ãos aprendem a obedece r com
alegria, “pois fazêlo é gra to dia nte do S enhor”.18Lembram se da subm is-
são amorosa que o próprio Jesus, quando menino, dedicava aos seus
pais. 19Agora, este mesmo Jesus é Senhor e Salvador deles, e o criador da
nova o rdem, de modo que estão ansi osos po r fazer o que lhe agrada.
2. O dever dos pais (v. 4)

A in strução aos filhos no sentido de obe decer em aos pais pres supõe, con -
forme já vimos, o fato de os pais t erem autoridade. Ape sar dis so, qu an -
do Paulo delineia com o os pai s devem com porta rse p ara com os filhos,
não os conclam a a des envolver sua autoridade, mas sim a contêla .
O qua dro em que pin ta os pais com o educadores dos filhos, com a
tocontrole, m ansidão e paciência, está em m arcante contrast e com a nor ma
dos s eus próprios dias . “N a chefia da família rom ana... h avia o pater fa
mílias, que e xercia um a auto rida de sobe rana sobre todos os mem bros da
patriapote sta s
famílteia...
men no O caráterdoautocrático
direito d a mas tam bém no
pai em castigar, manifestavase não
seu iuo vitae necso-
is-
que”20 (matar os recémnascidos; o abandono dos filhinhos)... O pater
fa milia s tinh a pleno direit o de dispor dos filhos, como também dos e s-
cravos e obj etos ...21William Barcl ay acrescenta: “O pai ro mano ti nh a au -
torid ad e total sobre a sua família. Po der ia vendê la com o escrava, ou fa-
zer os mem bros traba lha r em seu s campos, pod eria tom ar a le i nas sua s
próprias mãos, pois a lei assim lhe facultava, e podia castigar como que-
18 Cl 3:20. 19 Lc 2:51.
20 Isto é, “ o dire ito da vida e da m orte” .
21 Do artigo Patria P otestas no Oxford Classical Dictionary (ed. de 1949), pág. 653.

184
efésios 6:19

ria, até me sm o apli can do a pe na de m orte ao seu filho, se quisesse.”22


O pai cristão era comp letam ente dif erent e, especialmente se se lem -
brasse daquilo que Paulo escrevera anteriormente, a saber, que sua pater-
nidad e era derivada de “ um só Deus e Pai de to do s” (3:1415; 4 : 6). O te-
ma que percorre a ca rta aos Efésios é que, m ediante a o bra reconciliado
ra de Cristo
Desta for ma, agora
os pa há um aanos
is hum só família
devem multiracial
cuida r dae sua
multicul tural,
família a decomo
as sim Deus.
Deus Pai cuida da família dele. E, aliás, as mães decerto estão incluídas
também . E mbo ra a palavra no ve rsículo seja, na real idade, “ pai s” (pate 
res), mesm o assim poderia ser usad a como “pais e mães”, da mesm a m a-
neira que “irm ãos ” ( adelphoi ) sign ificava “ irm ãos e irm ãs”. Certam ente
são os pais no sentido de “pais e mães” que são referidos nos versículos
13, de m od o que é inteira mente legítim o int erp re tar o versí culo 4 assim.
Uma exortaç ão negati va Paulo também dá: Não provoqueis vossos
filh o s à ira (v. 4), ou “Não vivam repreendendo e irritando seus filhos,
deixandoos irados e rancorosos” (BV). Paulo reconhece quão delicada
é a person alidade de um a criança. Alguns autores especul aram que na in-
fân cia Pau lo teria sido até certo ponto, privado de amor, e que nesta i ns-
trução aos pai s há u m a lembrança repent ina de al guma situação do co-
meço da su a infância. Nã o sabemos. O que sabemos mesmo é que os pa is
podem facilmente abusar da autoridade, ou por fazerem exigências irri-
tantes ou absurd as que nã o levam e m conta a inexper iência , ou p or se ve-
ridade
dos no eoutro,
crueldade
ou pornum extremo,
humilhar ou por os
e oprimir favoritismo
filhos, ouepor
agrados
fazer exagera-
uso de
duas arm as vingat ivas: a iro nia e a ridicularização. Estas são algum as das
atitudes dos pais que provocam ressentimento e ira nos filhos. Quantos
jovens irados, hostis à sociedade em geral, aprenderam a hostilidade co-
mo crianças nu m lar que nã o lhe s foi simpáti co? H á um lugar par a a dis-
ciplina, co mo Paulo co ntin ua dizen do, mas nun ca deve ser arb itrári a (por-
que as cri anças têm um senso de justiça em butido), nem rude . D ou tra for-
ma , “ fica rão de san im ad os ”.23 Inversamente, quas e na da leva a per so na -
lida de da c ria nç a a flor escer, e seus dons a se desen volver em, co mo o en -
co raja men to positivo de pais am orosos e compree nsivos . Realmente, as-
sim com o o am or do m arido pela espos a expressase em ajudála a d e-
senvolver o pleno potencial de la, assim t am bém o am or dos pais para com
seus filhos se expressa em ajudálos a desenvolver o deles.
Po r detrás dest e refrear da au torid ad e dos pa is há o claro reconheci-
mento de qu e, em bora os filhos devam obedecer aos seus pais no Senhor,
não deixam de ter um a vida e person alidad e só deles. São gente pequen a
no seu pró pr io dire ito. Com o tais, de vem ser respeitados e , de mo do al-
22 B arc lay , pá g. 208 . 23 Cl 3:21 .
185
PAIS, FILHOS, SENHORES E SERVOS

gum, expl orados, m anipulados ou esmagados. “ O pai dom inante das no-
velas vitori anas”, escreve Sir Frederick C athe rwood, “que exer cia sua pró-
pria autoridade para seus próprios fins não tem o direito de reivindicar
a autorid ade cristã, ass im como o filho rebelde. U m está abu san do da a u-
toridade, o outro está zom ban do dela. A mbos estão er rad o!’24

Não
nida de op éressora
apenaspode
nas ser
novelas
vista,danoInglaterra da era exemplo
en tanto. Outro vitorianavem
quedea pater-
tem-
pos mais recentes nos Estados Unidos. A novela Giant, de Ed na Ferb er,
con ta a história de um texa no, Jor da n Bene dict. D ono de um rancho de
gado, com dois milhões e meio de alqueires, fica fu rioso p orq ue o seu fi
lhinh o Jordy, com trê s anos de idade, não se dá com cava los. Qua nd o o
men ino é mon tad o nu m deles, vestido com o un iform e completo de “cow
boy”, chora para descer. Seu pai fica irado. “Eu m ontava cavalo antes de
saber a ndar”, diz ele. “ Muito b em”, resp onde sua esposa, Le slie, “era muito
bonitinho, mas tratase de você. Aqui temos outra pessoa, que talvez não
goste de c avalos...” “Ele é um Ben edict” o pa i retru ca, “e vou fazer dele
um cavaleiro mesm o se tiver de amarrá-lo pa ra con seguir”. “Vo cê tem agi-
do com o se fosse Deus po r tan to tem po q ue pensa que dirige o mun do ”.
“Dirijo a p arte dele que é minh a”. “Jo rdy n ão é só seu. É seu e meu. E
nem seq uer só nosso. Ele é de si mesm o..!’25
Cad a cria nça dev e ter licença pa ra ser ela mesma. Os pais sábios re -
conhec em que nem toda s as respostas d e inconfo rm ism o da infân cia me-
recemqusere cha
tação as crimadas
anças de rebeldia.
descobr Pelo contrário,
em tanto s os li miteésmediante a experiqu men-
da sua liberdade an -
to a q ualidad e do am or dos seus pais. Além dis so, a fim de s e tornarem
adultas, devem desenvolver a independência, não porque resistam à au-
toridade dos pais mas, sim, porque precisam exercitar a sua própria
autoridade.
Paulo não fica sat isfe ito com a sua instruç ão negat iva aos pais no
senti do de não provocarem seu s filho s à ira . Com plemen taa com um a
exortação positi va: Criai- os na dis cipli na e na admoestação do Senh or.
O verbo ( ektrephõ ) significa literalmente “nutrir” ou “alimentar” e foi
usad o em 5:29 ace rca d os cuidados que damo s ao nosso própr io corpo .
Mas tamb ém é usado para a criação de f ilhos. A trad uçã o de Calvino é :
“S ejam aca len tad os com afeição..., tra tai deles com b ra nd ur a”,26 e a de
William Hendriksen: “Criaios com ternu ra”. 27 Aqui temos um a com-
preensão, séculos antes de a psicologia m oderna ter enfatizado a im por-
tân cia vital dos prim eiros anos d a vida, de que as crianças são criaturas
24 A Better Way (InterVarsity Press, 1975), pág. 59.
25 (Victor Gollancz, 1952), págs 285286.
26 Calvin o, pág. 622 . 27 Hendriksen, pág. 262.

186
efésios 6:19

frágeis que precisam da ternura e da segurança do amor.


As conseqüências desta insistência na m aneira de os pais criarem os
filhos são muitas. Uma é que os pais cristãos devem zelosamente guar-
da r sua responsabilidade, delegand o pa rte dela, de fat o, pa ra a igreja e a
escola, mas n un ca abrindo m ão completam ente de la. É sua ta refa, que
Deus lhes
pleto. Outra deu; ninguém pode
conseqüência subst
é que ituí los
os pais de modo
devem adeq
dedicar uadoe ou
tempo com -
cuidados
aos seus filhos. Deixar de fa zêlo causa muitos pro blemas m ais tarde. Co n-
forme o Dr . LloydJ ones observa de mo do pertinente: “Se os pais dedi-
cassem tan ta atenção à criação dos seu s filhos qua nto ded icam à criação
de ca cho rros e flores, a situ açã o seria m uit o diferente”.2 8
Como, pois, os pais devem criar os filhos? Resposta: na disciplina
e na admoestação do S enhor. A segunda palavra ( nouthesia ), quer seja
trad uz ida po r “ instr uçã o” ou por “advertência” , parece referirse pr im a-
riame nte à educação verb al, a o passo que a prim eira palavra ( paideia ) sig-
nifica treina men to por disciplina, até mesm o com cas tigo. “ Paideia (dis
ciplina ) é trein am ento em que a ênfase recai n a corr eçã o dos jovens!’ 29 É
a palavra usa da em H ebreus 12, tan to com respeito aos pais t errestres qua n-
to ao nosso Pai cele stial que “nos discip lina par a apro veitam ento ”.30
Sobre a necessida de da disciplina e do castigo o Antig o Testamento
é claro. “O que retém a vara odeia a seu filh o, m as o q ue o am a, cedo o
disciplina” . Ou tra vez: “A estultícia está ligad a ao cor açã o da crian ça, m as
a vaian
tor raos
d aempregavam
disciplina a est
afaesstará de la!’31Sem
versículos dúvidosa,pnossos
de Provérbi ara justifancestrai
icar suasdis-
vi-
ciplina excessivamente severa. Em nossa geração, por outro lado, temos
testem unh ado um a reação qu e levou à perm issividade e xcessiva do tipo
laissez-faire. P ara um extremo pr ecisamos d izer: “o opo sto d a discipli na
err ad a não é a ausênc ia de discipli na mas, sim, a disciplina certa, a disc i-
plina verdadeira”.32 Ao outro extremo precisamos dizer: “o oposto de ne-
nh um a disciplina não é a crueldade ma s, si m, a disciplina equilibrada, a
disc iplin a co ntr ola da ”.33Acim a de tudo , os pais d evem ter clareza quan -
to aos seus motivos. É sempre perigoso pa ra eles discipli nar os filhos q ua n-
do estão zangados, q ua nd o seu orgulho fo i ferido, ou qua nd o perderem
o controle. Permitamme citar o Dr. Martin LloydJones mais uma vez,
pois sua exposição destes versículos está repleta de sabedoria prática: “Ao
disciplinar u m a criança, você d eve ter primeiram ente contro lado a si mes -

28 LloydJones, Life in the Spirit, pág. 290.


29 Houlden, pág. 336 . 30 Hb 12:511.
31 Pv 13:24; 22:15. Ver tamb ém P v 23:1 314 e 29:15.
32 LloydJones, Life in the Spirit, pág. 268.
33 Ib id ., pág. 283.

187
PAIS, FILHOS, SENHORES E SERVOS

mo... Que direito tem você de dizer ao seu filho que ele precisa de disci-
plina quando você obviamente está precisando dela também? O auto con-
trole, o co ntrole d o seu pró prio gênio, é um a cond ição prévia essen cial no
controle dos o utros!’34
Até este ponto, temos pensado principalmente n a discip lina das crian-
ças. A criação cristã das cr iança s, no en tanto, é mental bem com o m o-
ral. Incl ui a ins trução também. Certa mo da contem porânea pop ular é con-
clam ar os pais a se r totalm en te “isentos de or ienta ção ” e deixar os fil hos
acharem o seu próprio caminho. Paulo tem um conceito diferente. Cer-
tamente, alguns pais dão orientação em demasia, dominam demasiada-
mente, e assim inibem seus filhos de tomarem suas pr óprias decisões e cres-
cerem pa ra a m aturidad e. Temos de distinguir entre a educação verdadeir a
e a falsa. A falsa educação é a doutrinação em que os pais e os mestres

impõem
lado, a sua
é o est vontade
ímulo, em sobre
que paisa cri ança.res
e mest A edu
agemcação
com verda deira, do outro
o catalizadores e en-
corajam a criança a ter suas próprias respos tas. N ão pode m faze r assim
se deixa m a cria nça avan çar aos tropeços; devem ensin ar os valo res cris-
tãos da verdade e da b ondade , defe ndêlos, e recom endar a sua aceita ção,
mas ao m esmo tem po absterse de qual que r pressão, e muito mais de qu al-
quer coerção.
A disciplina e a instruçã o nas quais os pais de vem criar filhos, segun-
do Paulo escreve, são do Senhor. A lguns têm entendido que ist o signifi -
ca simplesmente instru ção e disciplina c ristãs (BL H), e que Pau lo está e s-
pecificando a educação cristã em contraste com um a educação secular.
Mas penso que signifique mais do que isso, ou seja, que por detrás dos
pais que ensinam e disciplinam seus filhos há o próprio Senhor. É ele que
é o Mestre supremo e o adm inistrado r da discipl ina. C ertam ente a preo-
cupação predominante dos pais não é apenas que seus filhos se subme-
tam à sua auto rid ad e mas, sim, que a travé s disso cheguem a conhecer o
Senhor e a obedec erlhe. H á m uito regozijo e ações de gr aças sempre que
osim,
ensino
natueralm
a disciplina de um larpela
ente, à aceitação cr istão le vam,
criança não artificialmente,
do ensino e da d isciplinamas,
do
próprio Senhor Jesus.
3. O dever dos servos (vs. 5-8)
Qu anto a vós outros , serv os, obedecei a vossos senhores segu ndo a car
ne com tem or e tremor, na sinceridad e do vosso cor ação, co mo a Cristo,
6não servindo à vista, co mo para agradar a homen s, mas com o servos de
Cristo, faz en do de co ração a vontade de D eu s;1servindo de boa vonta
34 Ibid., pág. 279. Sua exposição deste s qua tro versículos é feita em cinco capítulos, e ab ran -
ge as págs. 237302.

188
efésios 6:1-9

de, como ao Senhor, e não como a homens, 8certos de que cada um, se
fizer alguma coisa boa, receberá isto outra vez do Senhor, quer seja ser
vo, quer livre.
A escravidão parece ter sido universal no mundo antigo. Uma alta
porcentagem da população consistia em escravos. “Foi com putado que
no Im pério Ro mano havi a 60.000.000 de escravos.” 35Eles con sti tuíam a
força de trab alho , e incluíam n ão somente os empregad os domético s e os
trabalhad ores manuais, m as tamb ém pess oas cult as, tais como m édicos,
professores e adm inistradores. Os escravos podiam ser herdados ou com-
prados, ou adquiridos para saldar uma dívida, e os prisioneiros de guer-
ra geralmente tornavamse esc ravos. Ninguém questionav a ou desafiava
este estad o de coisas. “A inst ituiç ão d a escravidã o era um f ato d a vida eco-
nôm ica mediterrânea tão com pletamente ace ita como parte da estru tura
trabalh
ma ista daquelena temp
da escravidão o que não
antigüidade. se aceitação
Esta pode corretamente
do sistema falar deproble
da escravi-
dão sem questionála expl ica por que P latão, no seu plano d a vida vir -
tuosa retratado em República, não precisava m encion ar a clas se dos es -
cravos. Estav a sim plesm ente imp lícito .” 36
Par a nós qu e vivemos em paíse s em que a escravidão tem sido ab oli-
da po r lei há mais de um sécul o e meio, é d ifícil conceber com o a p osses-
são de um ser hum ano por outro p ode ter sido tolerad a des sa manei ra.
É até mais difícil compreender como os escravos podem ter sido consi-
derados mais como objetos do que como pessoas. Apesar de todo o seu
inte lecto e cultura, Arist ótele s nã o pod ia contem plar q ualque r amizade
entre o escravo e seu senhor, porque , disse ele: “U m escravo é um a ferr a-
menta viva, assim como uma ferramenta é um escravo inanimado”, em-
bora pudesse pelo menos reconhecer que “um escravo é uma espécie de
propriedade que tem alm a” 37
Esta desum anização dos escravos na mente pública era es pelhada n a
legisla ção rom an a antiga. “Legalmente eram ape nas bens mó veis sem di-
reitos, aos rom
“O estado quaisano
o seu senhoro problem
deixava po dia t rat ar discipli
a da v irtualmnaente
doscom o quisesse
es cravos !’38
na m ão
dos seus donos... O pater familias tin ha controle to tal dos es cravos que
pertenciam à sua família, o poder de castigar com açoites e com o confi
namento no ergastulum, e o direito da execução da pena d a m orte !’39Co-

35 Barclay , pág. 212. 36 Westerm ann, pág. 215.


37 Ética de Nicômaco, viii 11.6. e Política 1.2.4.
38 Salmon, pág. 70.
39 The Slave Syst ems ojC ree k andR om an Antiquity, de W. L. W estermann (The American
Philosophical Society, 1955), págs. 7576. O pater familias era o chefe do lar, e o ergastulum
era uma casa de trabalhos forçados ou prisão para os escravos transgressores.

189
PAIS, FILHOS, SENHORES E SERVOS

mo conseqü ência, relatos de atrocidad es terrí veis so breviveram, especial-


mente d a era précristã. Os escra vos e ram às vezes aço itados, mutilado s
e aprisi onad os em cadeia s, seu s dente s eram arra nca do s com pan cadas,
seus olhos eram vazados, até mesmo eram lançados às feras ou crucifi-
cados, e tu do isso às vezes pelos delitos mais triviais. O fato de q ue alguns
escravos
dos, e atéfugiam
mes mo(arriscando, ao serem
sum ariam ente presos,
executad os),serem
e queferreteados, açoita-vam,
ou tros se suicida
é evidênci a sufici ente de que a cru eldade p ar a com eles era generalizada.
Ao mesmo tempo, seri a um erro g rave sup or que es te tipo de trata -
mento bá rba ro fosse habitua l ou univer sal, ou que permanecess e sem di-
minuição no século I de nossa era . E m bora a lei pri meiramente n ão p ro-
mulgass e penalidade alg um a par a os donos de escravos que os m altrata s-
sem, estes donos, muito freqüentemente, eram refreados p or outr os fator es:
por seu p róprio senso de responsabilidade, pela opinião pública, ou pe-
los seus próprios int eresses. Q uan to à op inião pública, o contem porân eo
estóico de Paulo , Sêne ca, ensinava a frate rnid ade entre os hom ens e ins-
tava na bo nd ad e aos escravos. Q ua nto ao s seus própr ios inter esses, os do-
nos sabiam que seu s escravos repr esentavam um alto investi mento d e ca-
pital. Eralhes, portanto, vantajoso tratar com bastante cuidado os escra-
vos, assim com o faziam com seus anim ais do mésticos e com seus mó veis.
E notável que Paulo, nas suas Haustafeln, tenha até mesmo se diri-
gido aos esc ravos. O simples fato de assim ter feito indica que e ram m em -
bros aceitos
ponsáveis da os
p ara comunidade
quais, bemcristã
comoe aos
queseus
os considerava como
senhores envia umpessoas
apelo mres-
o-
ral. Se os filho s devem obedece r aos pais, os esc ravos d evem obedecer a
seus senhores segund o a carne (v. 5). E pela m esm a razão, a saber, que po r
detrás deles devem apren der a discernir a figu ra do seu Senhor... no s céus
(v. 9), qu e é o Sen hor Jesus Cristo. E m c ad a um d os q ua tro versículos, J e-
sus Cristo é mencionado. Devem ser obedientes como a Cristo (v. 5),
comportarse com o servos de Cris to (v. 6), prestar serviço como ao Se
nhor, e nã o com o a hom ens (v. 7), sabendo q ue receber ão o bem q ue fa-
zem ou tra vez do Senhor (v. 8). A cristocentricidade desta inst rução é muito
marcante. A p erspectiva do escravo alterou se. Seus horizo ntes se alarg a-
ram. Foi liberto da escravidão de agradar aos ho mens pa ra a liberdade de
servir a Cristo. Suas tarefas deste mundo foram absorvidas numa preo-
cupação mais alta, a saber, a vontade de Deus (v. 6) e o beneplácito de
Cristo.
Exatam ente o mesm o princípio pode s er aplicado p or cristãos con-
temporâ neos ao seu trab alh o e empr ego. N ossa grande necess idade é a cla-
reza de visão para ver Jesus Cristo e colocálo diante de nós. É possível
para uma dona de casa cozinhar uma refeição como se Jesus Cristo fos-
se comêla, ou fazer a limpeza geral da casa como se Jesus Cristo viesse
190
efési os 6 :19

a ser o hóspede de honra. É possível pa ra professor es educar crianças, p ara


médicos tra ta r de paci entes , e para enfermeiras cu idar del es, p ara a dvo -
gados ajudar clientes, para balconistas atender fregueses, para contado-
res fazer a audi toria dos liv ros, e pa ra as secretári as datilo gra far cartas ,
como se em cada caso servissem a Jesus Cristo. Pode o mesmo ser dito
com
tes derelação
oper aràsasmassas
máquindeas,trabalhadores industriais
e aos mineiros que têmemde rotinas fatigan
trab alh ar debaixo
da terra? Decerto que sim. A presença de Cristo na mina ou na fábrica
certamen te não é desculpa p ara más condi ções. Pelo contrár io, deve ser
um incent ivo para m elhorál as. Ao mesmo tem po, sua situação está lon -
ge de ser tão ruim como a escravidão no Im pério Romano, de mod o que,
se o trabalho dos escravos cristãos podia ser transformado por meio de
fazêlo como ao Senhor, o mesmo deve ser o caso dos mineiros, operá-
rios, li xeiros, varredores das rua s, e atendentes dos san itários públicos, que
são cristãos.
Uma vez que os escravos cristãos entende ssem clara mente qu e a sua
responsabilidad e prim ária era ser vir ao Senho r Jesus Cristo , o seu servi-
ço aos seus senhores terrestres se tornaria exemplar. Primeiramente, se-
riam respeito sos, obedecendolhes com temor e t remor (v. 5), que d á a e n-
tender, não um a servil idade agach ada diante de um senhor hu mano mas,
sim, um reconheci mento reverente do Senho r Jesus Cristo cuja autorid ade
é represen tada pelo dono. E ste fato fica cla ro nã o som ente nos context os
usuai s da expres
passagem são “temo
equivalente r e trem or” com
em Colossenses o também por
é substituída pelo“tem
fatoendo
de que
aonaSe-
nhor”.40 Depois, obedeceriam na singeleza do vosso coraç ão (5), com in-
tegridad e e sinceri dade, sem hipocrisia nem segundas intenç ões. E m ter-
ceiro lugar, seriam conscienciosos, não servindo à vista, com o para agradar
a homens, trab alh and o apenas q uand o o ch efe está olhand o, a fim de pro-
cura r lisonjeálo, mas com o servos de Cri sto, que de qualquer maneira
está olhando o tempo todo, e nunca se satisfaz com trabalho mal feito.
Em q ua rto lugar, se u trabalho se torn aria disposto e de boa vontade ao
invés de relut ante ou de m á vontade. Porq ue estariam conscientemente fa
zendo a vontade de Deus, a fariam de coração (v. 6) ede boa vontade (v.
7). Co mo po dería mos dizer, seu coração e alm a estariam n o serviço. E tudo
isto porq ue sabem que o se u Senhor é tamb ém o seu juiz, e que nen hum a
boa obra, seja quem a pratique (quer seja se rvo, qu er livre), é deixada em
qualquer tempo sem galardão da parte dele (v. 8).
4. O dever dos senhores (v. 9)
E vós, senh ores, de igual mod o procedei para com eles, deixando as ame a-
40 Cl 3:2 2; cf. È f 5:21.

191
PAIS, FILHOS, SENHORES E SERVOS

ças, saben do q ue o Se nhor, tanto deles co mo vosso, está no s céus, e que


para com ele não há acepção de pessoas.

Em bo ra os d everes dos e scravos e stejam d etalha dos com porm eno res, os
don os cr istãos de escr avos receb em ap enas três princípios, mas to do s eles
têm
era. implicações
Primeiro: dedeigual
longo
moalcance n a situaçã
do procedei para ocom
históric
eles.a do
Ouséculo I devocê
seja: se nossa
es-
pera recebe respeito, demonstre respeito; se espera receber serviço, preste
serviço. É um a aplicação da regra áurea. Seja com o for que os s enhores
esperam que seus escravos se comportem para com eles, devem se com-
portar para com os seus escravos da mesma maneira. Paulo não admite
nen hu ma supe riorida de privilegiada nos senhores , com o se eles mesmos
pudessem deixar de m ostrar a própria cortesia que desejam receber.
Em segundo lugar: deixan do as ameaças . Com o os pais não devem
provocar seus filhos, assim também os senhores não devem ameaçar os
seus servos. Q uer dizer que não deve m abu sar da s ua posiç ão de au to ri-
dade, fazendo ameaças de cas tigo. O castigo era aceito no Im pér io com o
a únic a m aneira de conserva r os es cravos s ob controle, e o cristianism o
não nega que, em algum as circunstân cias, o castig o é legítimo, e até mes-
mo neces sário. As ameaças , porém , são um a arm a que os pode rosos em -
punham contra os indefesos. E um relacionamento baseado em ameaças
não é um relacionamento hum ano, de modo algum. Por isso, Paulo proibiu
tal coisa.
Em terceiro lug ar, a razão p ara estas exigência s é que sabem q ue Je -
sus Cristo é Senh or tan to do escr avo como do senho r, e que para com ele
não há acepção de pessoas. Os senhores dos esc ravos estavam aco stum a-
dos a serem lisonjeados e bajulados, mas não deviam esperar (pois não
recebe riam) semelhant e favorit ismo discrim inatório da p arte do Senhor
Cris to. Assim sendo , os três princípios visava m re duzir a lacu na cu ltural
e social entre o escra vo e seu dono. Ao invés de consider ar o relac ionamento
com os seus escravos com o sendo o de um pro pr ietário pa ra com os seus
bens móveis, ou de um superior p ara com seus inferiores, o cristão devia
desenvolver um relacionam ento em que lhes dava igual tratam ento ao que
esper ava receber, devia renunciar à a rm a injus ta das ameaças , e relembrar
que ele e eles tinham em comum o mesmo senhor celestial e justo juiz.
5. A abolição da escravidão
O novo relacio nam ento que Jesus Cristo p ossib ilitou entre o e scravo e seu
senh or era algo novo e belo. É compreen sível, n o entanto , q ue mui tos crí-
ticos tenha muad
tão, inadeq acha.ado ser esta
O evang resposta
elho cristã
não ofer a es
ecia se mal,
nenh um a sem resolver
sol ução maisaradi-
ques-
cal da escra vidão senão um ajustamen to de relaciona mentos pess oais. A in-
192
efési os 6:1 9

da que P aulo se refreass e em inc itar os escravos a levantars e em reb elião


contra seus sen hores e tom ar a liberdade (confo rme algum as pess oas iras-
cíveis desejam que ele tivesse feito), po r que pelo m enos nã o ord enou que
os donos dos escravos os emancipassem? Por que os escritores do Novo
Testa mento são tão fracos e dissimulados, ao inv és de cond enarem aber-
tamente
Sejaa qua
escravidão por ser de
l for a maneira assim tãoosdesumana
n ós, e horrível?
cr istãos, procu rarm os defen der a
nós m esmos e a nossa fé co ntra tais críticas , n un ca deve ser po r m eio de
desculpar a escravidão. Se, pois, o Novo Testamento não condena expli-
citamente a es cravidão, tam pou co a descu lpa. E mbora tenh a havido gr aus
variáveis de degradação na escravidão em diferentes períodos e lugares,
e emb ora a es crav idão afroam ericana tenh a sid o pior do que a rom ana,
a rom ana do que a greg a, e a hebraica, mesm o assim, a consci ência cris-
tã dev e co nd ena r a escravi dão em tod as as suas formas. Seu mal n ão se
acha nem na servidão que env olve (porqu e Jesus vo luntariam ente se fez
um escravo dos ou tro s,41e assim tam bém o apó sto lo Pa ulo),42 nem m es-
mo no elemento de compulsão, mas reside em um ser humano ser pro-
prietário de um outro, degradandoo num bem subumano a ser usado, ex-
plorado e negociado, e na crueldade que freqüentemente acom panha es-
ta posse ssão. Sendo est e o caso, mais um a vez perguntamos: po r q ue o N o-
vo Testamento não exigiu a sua abolição?
A prim eira res posta é pragmática: é que o s cristã os prim eiramente

eeram um g rup
politicam enteonão
insignificante noer algum.
tinha m p od Império. Suadis
Além relso,
igiãaoescrav
ain daidão
era ilí
eracita,
na -
quel e tempo um a pa rte indis pensável do sist ema d a soci edade romana.
Na m aioria das cidades havia muito mais escravos do que livres. Teria si-
do, no e ntanto , impossíve l abolir a escra vidão de um só golpe se m a com -
pleta desintegração da sociedade. Mesmo se os cristãos tivessem liberta-
do seus escravos, teriam condenado a maioria deles ao desemprego a à
penúria. Conform e expressa G. B. Caird: “A sociedade antiga estava eco-
nom icamente tão dependente da esc ravidão qu anto a soci edade de hoje
depende das m áqu inas, e se alguém propusesse a sua abolição seria con -
siderado um faná tico seme ando sedição”.43 A escravidão tin ha de ser to-
lerada por m ais um pouco de tempo (embo ra, sem d úvida, est e “p ouco ”
fosse muito tem po!) como um sintom a do que os c ristãos chamavam de
este presen te século maligno.
H á um a segun da razão po r que nã o achamos no Novo Te stame nto
expressões mais fortes de con den ação a este sistema. “A ausência n a a n-
tigüidade de qualq uer aver são p rofu nda à escravidã o como u m m al so-
cial e eco nômico pode ser exp licad a parc ialm ente ”, escreve W. L. Weste r
41 P o re x . Fp 2:7; Jo 13:1416. 42 P o re x . 1 Co 9:19; 2 Co 4:5. 43 Caird, pág. 216 .

1 93
PAIS, FILHOS, SENHORES E SERVOS

mann, porque “a mudança legal de situação para a liberdade por meio


da a lfo rri a era. .. co ns tan te e fácil.. !’44 “A a titu de dos apó stolo s é melho r
explic ada pel a man eira se m igual de os rom ano s do século I d. C. tr at a-
rem seus escr avos, que liberta vam em g rand e nú mero !’45 Con for me os re-
sultados da pesquisa de Tenney Frank, entre 81 e 49 a.C. 500.000 escra-
vos rom ano
de viver s foram libertado
na servidão perpétua, s.pod
D esta man
ia ant eira,
ever um“odiaescravo rom ano, longe
de oportunidad e. Fi-
cou sendo a prática com um dos rom anos lib erta r seus escravos e depois
estabelecêlos num comércio ou profissão. Muitas vezes o exescravo fi-
cava mais r ico do que o seu pa tro ci nad or ”.46 Es ta evidência aj uda a ex-
plicar tanto o conselho de Paulo aos escravos em Corin to no sentido de
que, se pudessem ga nh ar a liberdade, que aproveitas sem com f irm eza a
oportunidade, com o também a sua forte insi nuação a Filemom pa ra que
liber tasse O nési mo.47
Um a tercei ra consid eração n a suavidade d a posição do Novo Te sta-
mento é que, já n aqueles tem pos, a posição legal dos escr avos estava co-
meçand o a ser aliviada, e dem onstrav a promissores sinais d e mais m elho -
rias a serem alcançadas. “Mudanças humanitárias de grande alcance ti-
nham sido introduzidas no m undo rom ano até o século I d. C., que pro-
piciaram um tratamento bem melhor dos escravos!’48 Paulatinam ente lhes
eram concedidos m uitos do s direit os legais desfru tados pelas pessoas li -
vres, inclusive o direito de casarse e ter a sua p ró pria família, e o direito
de possuir propriedades.
criminosos “N o an odeveri
qu e foss em escravos 20 d.C.
amumserajulg
to do
adoSenado
s da m decretou quei-
esma m ane
ra que os livres.”49 Vários im pera dore s in tro duzir am medida s liberalizan 
tes. “Cláudio, cerca do ano 50, decretou que os escravos doentes aban-
don ado s p or seus se nhores dever iam ser libertos se sara ssem. N o rein a-
do de Vespasiano, cerca do an o 75, uma escrava, em cer tas circunstâncias,
poderia obter a liberdade se fosse submetida à prostituição pelo seu se-
nhor. D omiciano, cerca do ano 90, proib iu a m utilação de escravos. A dria -
no, no começo d o sécu lo II, recusouse a tolera r a ven da de es cravos para
propósitos im orais ou de gladiação, e talvez tenha proibido a execução de
escravos pelos seus senhores !’50
Deste modo, um a legislação mais hum anitá ria já esta va sendo intro -
duzida no Império quando o evangelho chegou para acelerar e estender
este processo. M esmo assim, nós, cristãos, não po dem os deixar de ter um
sentimen to de vergonh a porq ue a escravi dão e o comérc io escravis ta fo-

44 Westermann, pág. 215.


45 Do artigo “ Slave, Slavery” de A. Rup precht em The Zondervan PictorialEncyclopedi a o f
the Bible, ed. Merrill C. Tenney (Zondervan, 1975), vol. V, pág. 458.
46 Ibid., pág. 459. 47 1 Co 7:21 ; Fm 16.
48 A. Rupprech t, op . cit., pág . 458. 49 Ib id .,pág . 459. 50 Salmo n, pág. 72.

194
efésios 6:19

ram tolerados po r tanto tempo, especia lmente nas colônias europé ias. Sua
abolição devia ter sido feita muitos séculos antes. E as melhores mentes
cristãs reconheceram este fato. Calvino, por exemplo, em meados do sé-
culo XVI, a tribu iu a escr avidão ao pecado srcinal. Deduziu que era “um a
coisa total mente con tra toda a ordem d a natureza” que seres hum anos “fei-
tos à imagem
a s em elhante de
op Deus” pudessem
rób rio ”.51 em qualquer tempo ser “submetidos
Em bora nã o possa mos defender a indolência ou a covardi a de mais
dois séculos cristãos que percebiam o mal social mas que deixavam de
erradicálo, podemo s, ao mesm o tempo, regozijarnos por que o eva nge-
lho com eçou imediatamente, até mesmo no sécu lo I, a debilitar ess a ins-
tituição. O evangelho acendeu um pavio que, depois de muito tempo, le-
vou à explosã o que a destruiu. E assim voltamos pa ra a ca rta aos Efésio s
e ao relaci onamento transfo rm ado entr e escravo e senhor que Pau lo des-
creveu. Três aspectos desse relacionamento transformado podem ser
mencionados.
O primeiro é a igualdade. Naturalmente, ninguém imaginaria que,
na c ultu ra o u dia nte d a lei, os senhores e os escravos fossem igua is. Cer-
tamente que não eram. Mesmo assim, eram iguais diante de Deus, por-
que tinham o mesmo S enhor e juiz, que não demonstrava parcial idade
alguma entre eles (v. 9). A lei romana ainda era discriminatória em cer-
tos aspec tos; a justiça celest ial não era as sim. Paulo relemb rou tan to os
escravos
co no quaqu an to osasenhores
l edificou sua d oudeste
trin afat
de o. Este, pois,
igualdade. Oseesra cravos
o alicerce teol
devia m ógi-
d ar
aos se us senhores te rrestres bom serviço com um a bo a vontade, co mo se
fosse par a o seu Senh or celestial , certos de qu e ele os recom pensaria e os
honraria. Os senhores não deviam ameaçar, antes deviam respeitar seus
escravos, certos de que tinh am o mesmo Senhor no céu. Log o, era o co-
nhecimento que tinha m do senhorio e do julgam ento de Jesus Cristo que
os tornou iguais. Se se lembrassem de que Jesus era igualmente Senhor
deles agora, e de que um d ia viria a ser juiz ta nto dos senhores com o dos
escravos, sua atitude uás para com os outros seria totalmente
transformada.
A segunda qualidade do seu relacionamento devia ser a justiça. O
que está implícit o aqui na i nstr ução gera l aos senhores: de igu al mod o pro
cede i para com eles (v. 9) está explícito em Colossen ses 4 :1: “ Senhores,
trata i aos servos com justiça e com eqüidade, certos de que também vós
tendes Senho r no céu.” E sta injunção de ve ter soado de form a pro fu nd a-
mente estranh a aos ouvidos dos p rimeir os que a ou viram. P orque em bo-
ra, com o já vimos, a le i rom ana estivesse se torna ndo paulatin am ente mais
51 Calvino, pág. 634.

195
PAIS, FILHOS, SENHORES E SERVOS

humanitária, os escravos ainda eram popularmente considerados como


propriedade dos seus senhores, que tinham poder total sobre eles. E, na-
tural mente, onde se considera que não há direitos, não pode haver jus ti-
ça. Assim sendo, a jus tiça par a os esc ravos era um conceito novo e re vo-
lucionário. Essencialmente, foi o evangelho que insistiu que os escravos
tinham entre
mento direitos.
escraEste
vo efato fica Se,
senhor. claro na os
pois, nature
escravzaosrecíproca do re laciona-
tinh am deveres dian te
dos seus senhores, os senhores tinham deveres diante dos seus escravos.
Então, os deveres do senhor ficaram sendo os direitos do escravo, assim
como os deveres do escravo eram os direitos do senhor.
Nos relacionam entos trabalhistas hoje o mesmo princípio básico
aplicase à jus tiça b asea da nos direit os recíproc os. Os empregadores e os
em pregados igualm ente têm deveres — o em pregado deve fazer um bo m
trab alh o e o empreg ador dev e pagarlhe um salário justo. E ntão, o dever
de um a pessoa fica se ndo o direito da o ut ra pessoa. Se é dever do emp re-
gad o fazer um bom traba lho, é direito do em preg ador exigilo. Se é dever
do em pregado r pag ar um salário justo, é direi to do empregado recebêlo.
O problem a hu mano principal nas disputas entre os empresários e os tra-
balhadores é que cada lado concentrase em obter seus próprios direitos,
e em indu zir o ou tro lad o a fazer seus deveres. Paulo, n o en tant o, inverte
a ênfase. Insta com cada lado no sentido de concentrarse nas suas res-
ponsabilidades, não nos seus direitos. Certamente, se nas disputas indus-
tria is m odernas
deveres e garan tira preocupação
os direitos do ofosse
utr opara cada
lado, as lado cumtrab
relações priralh
se istas
us próprios
seriam
imediatamente adocicadas.
O terceiro aspecto, e o mais alto, do relacionamento transformado
entre escravo e senhor é a fraternidade. Aparece com destacada clareza
na ca rta a Filemon, em que Pau lo apela pa ra ele no sentido de aceitar de
volta o seu escravo fugitivo, agora convertido, Onésimo, e darlhe as boas
vindas “n ão já como escravo; antes, mu ito acim a de escravo, como irm ão
caríssim o”.52As pala vras t eria m soad o incríveis a quais quer o uvid os n ão
cristãos. Sêneca ensinava a fraternidade universal da humanidade, mas
não consigo descobrir se aplicava sua do ut rin a aos esc ravos. C hamava
os de “colegas”, e até mesmo de “amigos”, mas não de “irmãos”. O con-
ceito de frate rnid ade era inovação de Paulo, e um dos temas prin cipais de
Efésio s. P orq ue a nova socieda de de Deus é a casa ou a fam ília de De us,
e todo s os se us memb ros têm parentesco entre si em Cristo co mo irmãos
e irmãs. Até mesmo n a prim eira cart a que escreveu, pôd e afir mar com c on-
fian ça que tod os os que estão em C risto sã o filhos e filhas de Deus, e que
“não pode haver... escravo nem liberto,... porque todos vós sois um em
52 Fm 16.

196
efésios 6:19

Cristo Je sus”.53 Repe tiu, en tão, este sentim ento n a car ta paralela a Efé-
sios: “... onde não pode haver... escravo, livre; porém Cristo é tudo e em
to do s”.54 Uma mensagem que u nia assim o s enh or e o e scravo com o ir-
mãos lan çava, po r isso mes mo, u m desafio rad ical a um a instituição que
os separava como pro prie tário e propriedade. Depois di sso, tratase ap e-

nas de uma
dentro ”.55 questão de tempo. “A escravidão seria abolida a partir de
53 G1 3:26, 28 . 54 Cl 3:11. 5S Hendriksen, pág. 263. Ver também o capítulo “ O Após-
tolo Paulo e a Lei Romana da Escravidão” de P. R. ColemanNorton em Sludies i n Rom òn
Economic and Social Hisiory (Princeton University Press, 1951), págs. 155177.

197
6 : 10-20
12. Principados e potestades
Quan to ao mais, sede forta lecid os no Sen hor e na for ça do seu pode r.
11 Revesti-vos de toda a arm adura de Deus, para poderdes ficar firm es
contra as ciladas do diabo; l2po rq ue a nossa luta não é contra o sangue
e a carne, e, sim, contra os prin cipa do s e potestade s, contra os d om ina
dores deste m un do tenebroso, contra as fo rç as espirituais do mal, nas re
giões celestes. 13Portanto, tom ai toda a armadura de Deus, para qu ep os -
sais resistir no dia mau, e, dep ois de terde s vencido tudo, pem an ece r ina
baláveis. XAEstai, pois, firm es, cing indo-vo s com a verdade, e vestin do-v os
da couraç a d a justiça. 15Calçai os pés co m a preparação do evangelho da
paz; 16embraçando sem pre o escudo da fé, com o qual podereis apagar
todo s os dardos inflam ados do mali gno. 17Tomai tamb ém o capace te da
salvação e a espada d o Espírit o, qu e é a pala vra d e Deus; 18com tod a ora
ção e súplica, orando em todo tem po n o Espír ito, e para isto com toda
perseverança e súplica
que m e seja dada, p o r da
no abrir todos
m inhosa santos, 19e também
boca , a palavr a, parapcom
o r mim ; para
intrepi
dez fa ze r conhecido o mistério d o evange lho, 20pe lo qu al sou em baixa
do r em cad eias, para qu e em Cristo eu seja ousa do para falar , com o me
cum pre fazê- lo.

Já por várias vezes em no sso estudo desta ca rta pudem os m aravil harnos
com a amplitude da compreensão de Paulo. Ele começou desdobrando
o propó sito de Deus, concedido num a eternidade antes da f und ação do
mundo, par a criar um a única nova raça hu m an a através da m orte e da r es-
surreição de C risto e, fin almente, unir a igreja inteira e to da a criação sob
a supremacia de Cri sto como cab eça. Enfatizo u que um a form a distinti-
va foi da da a este pla no divin o pela inclu são n a nova sociedade de Deus ,
em completa igualdade, de judeus e gentios. Os dias antigos da divisão
e da discriminação acabaram . Um a unidade com pletamente no va emer-
giu, onde, m ediante a uniã o com C risto, os jud eu s e os gentios sã o m em -
bros iguais do mesmo corpo e coparticipantes iguais da mesma promes-
sa. Desta tem
Salvador m aneira,
um sóagpovo,
ora um
e umsósóPaiEspírito
t em umtem
a sóumfamília, um só
só corpo. Messãosias
Estes
os fatos seguros do que Deus fez através de Cristo, e pelo Espírito formam
198
efésios 6:10-20

a base sobre a qual Paulo passou a fazer seu eloqüente apelo. Seus leito-
res devem viver u ma vid a que é digna do se u chama men to e própria para
sua posição de sociedade nova e reconciliada de Deus. Devem demons-
trar sua unid ade n a com unhã o cri stã, ao mesmo tempo em que se rego-
zijam n a diversidade dos se us dons e , tamb ém, dos seu s ministérios. De-
vem
versãodespojarse
e v iver umdea vida
toda de
a impureza
“justiç ado seuretid
e de comãoportam ento an
procedentes d terio r à con-.
a verdade”
E devem ap ren der a subm eterse u ns aos outros em todos os tipos de re-
lacionam entos doméstico s e as sim promover a h arm on ia nos seus lares.
A unidade, a diver sida de, a pureza e a har m on ia — estas o ap óst olo res-
saltou com o características principais da nova vida e da no va sociedade
em Cristo. Seria um belo ideal, um alvo obviamente desejável, e não tão
difícil de ser atingido.
Agora , porém , Paulo nos traz de vol ta para a terra e , assim, par a rea-
lidade s m ais du ras do que os sonhos. Recordanos da oposição. Po r bai-
xo das aparê ncias na supe rfície, está send o travada furiosam ente um a ba -
talh a espir itu al invisível. Ele apresentanos o diabo, (já men cion ado em
2:2 e 4:27) e cert os principados e potestades sob seu com ando. Não nos
fornece ne nh um a biografia do diabo, e nenhum a expl icação da srce m
das forças da s trevas. Adm ite a ex istência delas com o um t erren o com um
entre ele e se us leit ores. De q ualqu er m aneira, seu prop ósito nã o é satifa
zer a nossa curiosidad e mas, sim, advert irnos quan to à hostilidade des-
sas forçasElas,
ciedade? e ensinarn os a vencêlas.
então, farão O pdestruíla.
de tudo para lano de Deus é cria
Deus, r um a nova
mediante Je- so-
sus Cristo, qu ebr ou as paredes que dividem os seres hum ano s de raças di-
ferentes e de culturas diferentes, uns dos outros? Então, o diabo, através
dos seus emissários, se esforçará para reedificálas. Deus pretende que o
seu povo rec onciliad o e redim ido viv a ju nto em harm on ia e em pureza?
En tão os pod ere s do infern o espa lharão entre e les as sementes da discór-
dia e do p eca do. É co ntra est es podere s que somos ord enad os a guerr ear,
ou —par a ser mais éxato— lutar (v. 12). Es ta m etáf ora não é nec essar ia-
ment e incompatível co m a do soldado arm ado que Paulo passa a dese n-
volver, como se tivesse “trocado o cenário do campo de batalha para o
ginásio”.1Simplesmente quer enfatizar a realidade do nosso confronto
com os pode res d o m al, e a terrível realidade do com bate cor po a corpo.
A tran siçã o ab ru pta dos “lares pacífi cos e dias de saúde” dos pa rá -
grafos anteriore s pa ra a malícia hedionda das tram as diabólicas deste pa-
rágrafo no s d á um susto dolo roso que é, aliás, essencial. Todos nós go s-
taríamos d e pass ar a nossa vida e m tranqülida de impertubável , com os
nossos entes qu eridos em casa e na com unh ão do povo de De us. O cam i-
1Hendriksen, pág. 273.

199
PRINCIPADOS E POTESTADES

nh o d o escapi sta, poré m, foi ef icazmente bloquead o. Os cristã os têm de


enfren tar a perspect iva de u m co nflito com o inimigo de De us, que ta m -
bém lhes defronta como inimigo. Precisamos aceitar as implicações des-
ta pass agem final da carta de Pa ulo . “É um a cham ada em ocionant e pa-
ra a batalha... Não escutas o clarim e a trombeta?... Estamos sendo de
pertados, estamos
sos pés; somos o rdesendo
nad osestim
a ser ulados,
hom ens.estam
O tomos inteiro
sendo écolocados
marc ial, éem nos-
varo -
nil, é forte” .2Além disso, n ão haverá qu alqu er cessação de hosti lidades,
nem sequer um a trégu a ou cessar fog o tempo rário, até o fim da vida, ou
da História, qu an do a pa z do cé u ser á alcançada. Pare ce claro que Paulo
subenten de isto ao dizer: Qu anto ao mais... Os mel hores manuscritos têm
um a expr essão que d eve ser tradu zida n ão com o intro duç ão à conclusã o
mas, si m, “a pa rtir de ago ra” no sentido de “dur ante o tempo que re sta”.3
Se isto for correto, o apó stolo está indicando que todo o período interi-
no entre a s duas vindas do S enhor será caracterizado p or conflitos . A paz
que Deus fez atravé s d a cru z de Cristo deve ser experim entada som ente
em meio a um a luta sem tr éguas con tra o mal. E, pa ra el a, a força do Se -
nh or e a arm ad ura de Deus são indi spensáveis.
1. O inimigo que enfrentamos (vs. 1012)
O conhecim ento to tal d o inimigo e um respeito sadio pela s suas proezas
fazem um p reliminar necessário para a vitória na batalha. Semelhante-
mente , se asub
dade para estim
arm arm de
ad ura os no sso, inimigo
Deus saire mosespiritual, n ão par
despreparados veremos nece ssi-
a a batalh a,
sem arm ad ura algum a senão o nosso frágil esforço, e seremos rapidamente
derrotados de mod o vergon hos o.
Deste modo, entre a cham ada par a buscarjnos a força do Senhor e
revestirmonos d a ar m ad ur a de Deus , d e um lad o (vs. 1011), e sua lista
de talh ad a de nossas arm as, do ou tro lado (v s. 13 20), Pau lo nos dá um a
descrição completa e assustadora das forças organizadas contra nós (v.
12). Porque a nossa lu ta n ão é contra o sangue e a ca rne, escreve, e, sim,
contra os princip ados e potestades. Nou tras pal avras, nossa luta não é con-
tra seres hum an os4, mas co nt ra inteli gências c ósmicas ; n ossos inimigos
não são humanos, mas demoníacos. Os leitores asiáticos de Paulo esta
vam bem fam iliariza do s com est e fato. Sem dúvid a se lembravam — ou
devia m ter o uvido c ont ar o caso — do incident e dos exor cistas jude us em
Éfeso que foram suficientemente atrev idos para procurarem expulsa r es-

2 LloydJones, Warfare, págs. 16, 22.


3 Barth, Ephesians, II, págs. 75960.
4 Que “ carne e sangue” signif ica “ seres hum ano s” na sua pre sente natureza hu man a mortal
fica claro em Mt 16:17; 1 Co 15:50; G1 1:16 e Hb 2:14.

200
efésios 6:10-20

píritos m alignos em nome de Jesus sem eles m esmos conhecerem o Jesus


cujo n om e invo cavam. Ao in vés de conseguirem o que te ntavam, foram
dom inados pelo endem oninh ado e f ugiram em pâ nico , desnud os e fe ri
dos .5Este tipo de acontecim ento p ode ter sido com um. É possível, pois,
que os co nvertidos de Paulo te nha m sido anterior mente dileta ntes nas ciên -
cias
livrosocultas, e depois
de magia. U m tenham
desafio tfeito um fogaréu
ão direto às for público dos não
ças do mal seusdeve
valiosos
ter pa s-
sado sem resposta.6
As forças em ordem de batalha contra nós têm três características
principais. Em primeiro lugar, são poderosas. Não sabemos se princip a
dos e potestades se referem a diferentes categorias na hierarqu ia d o inferno,
mas os doi s tít ulos cham am a atenção ao pod er e à autorida de que ex er-
cem. Também são cham ado s de os dom inadores deste m un do tenebroso.
A palavr a kosmokratores era usa da na astrologia para os planetas que ,
segundo se pensava , controla vam o destino da hu manidad e; os hinos ór
ficos pa ra Zeu s; nos esc ritos rabíni cos para N abu codo noso r e outros m o-
narcas pagãos; e em vári as insc rições antigas, pa ra o imp erad or romano .
Todos estes usos e xemplifi cam a no ção de um dom ínio de alcance m un -
dial. Q ua ndo é apli cada aos podere s do mal, relembra a alegaç ão do d ia-
bo de que podia dar a Jesus “todos os reinos do m undo”, relembra o tí-
tulo de “príncipe des te mund o” que Jes us lhe atribu iu, e aind a a decla-
ração d e Jo ão de que “o m un do inteiro ja z n o m aligno” .7Estes textos não
negam
des mas, a siconq uista de
m, indica cisiva
que comopor nosso Senhor
u surpado doss ão,
res que principados e potesta-
não adm itiram a der-
rota nem foram destruídos. Deste modo, continuam a exercer poder
considerável.
Em segundo l ugar, são mali gnos. O poder p ropriam ente dito é neu -
tro; po de ser bem usado ou não. Nosso s inimigos e spiritua is, porém, em-
pregam seu poder destrutivamente ao invés de construtivam ente, para o
mal e não para o bem. São os dominadores deste mundo tenebroso.
Od eiam a luz, e se retraem dian te del a. As tre vas são s ua ha bitaç ão n atu -
ral; as tr evas da fa lsidade e do pecad o. Também são descritos como sen-
do as for ça s espirituai s d o mal, que operam nas regiões celestes, ou seja,
na esfera da re alidad e invisível. São “ os agentes secretos do m al” (CIN).
Assi m, po rtanto , as trevas e o mal caracterizam sua ações, e ”o apareci-
mento de Cristo na terra foi o sinal para u m a explos ão sem preced entes
da atividade do po der do dom ínio das t revas co ntrolad o por estes dom i-
nadores mund iais”. 8Se esperamos ve ncêlos, temos que ter em m ente que
5 At 19:1317. 6 At 19:18 20.
7 Mt 4:89 ; Jo 12:31; 16: 11; 1 Jo 5:1 9. C f. também Ef 2:2.
8 Bruce, pag. 128.
201
PRINCIPADOS E POTESTADES

não possuem qu alquer princípio moral, nem código de hon ra, nem sen-
timentos mais nob res. Não recon hecem nenh um a Convenção d e Genebra
para restringir ou parcialm ente civilizar as armas de sua guerra. São to-
talmente inescrepulosos, e implacáveis na procura de seus desígnos
maldosos.
Emtendo
(v. 11), terceiro lugar,
declar adosão
n umastuto s. Pant
a ca rta aulo
eri escreve aqui
or qu e “b emdas ciladas
sabemos do ediabo
o qu está
procurando fazer”(BV) ou “conhecemos bem os planos dele” (BLH).9 G.
B. Caird ach a que ciladas “m enospr eza um po uco” como se Paulo “não
levasse o diab o a séri o”, e “n ão muito em h arm on ia com a m etáfora m i-
lita r de qu e aq ui ele se vale”. Sugere, em subst ituiçã o, que “ estratagemas
daria a necessár ia combinação de sagaci dade táti ca com engano engenho-
so”.10 Quan do o diabo se tra nf or m a em anjo de lu z, geralmente somos
ap anh ado s sem na da suspe itar. Isto porqu e raramente el e atac a desta for-
ma, prefe rind o sempre a s trevas à luz. É um lobo perigoso, mas tamb ém
entra no reba nho de Cristo disfar çado de ovelha. Po r vezes ruge com o leão,
mas m uito freqüentem ente é sutil como a serp ente.12Não devemos im a-
ginar, p ortan to, q ue a persegui ção aberta e a tentaçã o declarada pa ra pe-
carm os são as suas únicas armas, ou mesmo as mais comuns que el e tem.
Ele prefere seduzirnos par a entrarm os n um meiotermo, e assi m lograr 
nos p ar a nos lev ar ao erro . É signi fica nte que esta mesm a palavra ciladas
é traduz ida pela ERAB em 4:14 como astúcia no caso dos falsos mestre s
com s uas oartimanhas.
Simpson, “Com “um
diabo desenvolve Guerra
o na dupla San tainfernal”.
política de B unyan”, escreve
Ou seja, “a E. K.
tática de intimidação alternase com a da insinuação no plano de cam-
panha de Satanás. Ele faz o papel do valentão bem como o do trapacei-
ro. A força e a fraude constituem a sua ofensi va principal contr a o arraial
dos santos; ele revez a os do is m éto do s!’13
As ciladas do diabo tom am muitas formas, mas o se u mai or êxito em
astú cia é q ua nd o ele consegue persua dir as pessoas de que el e não existe.
Negar a sua existência é expornos ainda às suas sutilezas. O Dr. Lloyd
Jones expres sa seu po nto de vista sobr e esta questão nos seguin tes termos:
“Est ou certo de que u ma das principai s causas das más condi ções da igre ja
de hoj e é o fato de que o diabo está sendo esquec ido. Tbdo é atr ibu ído a
nós m esmos; tod os nós temos chegado a ser po r demais psi cológicos em
nossas atitud es e em nossos pensamentos. Ignoram os este grande fa to ob-
jetivo, a existência do diabo, o adversário, o acusador, com seus dardos
in fla mad os !’14
9 2 Co 2:11 . 10 Ca ird, pág. 92. 11 2 C o 11:14.
12 1 Pe 5:8; Gn 3:1. 13 Simpson, págs. 144145.
14 LloydJones, Warfare, pág. 292.

202
efésios 6:10-20

Na caracterização que Paulo faz dos poderes das trevas, no entanto,


estes são podero sos, maligno s e astutos. Co mo pod erem os resi stir aos as-
saltos de tais inimigos ? É imposs ível. Somo s dem asia dam ente fracos e in -
gênu os. M uitos, porém — senão a grand e m aior ia — dos nossos fracas-
sos e das nossas derrotas são devidos à nossa insensata autoconfiança
qua ndoespirituais.
migos descremos ou nos esquecemos quã o formidáveis são os nossos ini-
Apen as o pod er de Deus pode defendernos e livrarno s da força, da
maldade e da astúcia do diabo. É verdade que os principa dos e as potes
tades são forte s, m as o pod er de Deus é mais fo rte ainda . Foi o seu pod er
que ressus citou Jes us C risto dentre os morto s e o entronizo u nas regiões
celestes, e que nos ressuscit ou da m orte n o pe cado e nos en tronizo u com
Cristo. É verdade que é naqueles mesmos lugares celestes, naquele mes-
mo mundo invisível, que os principados e as potestades estão operando
(v. 12). Foram , n o entanto, der rota do s na cruz e agora estão debaixo dos
pés de Cristo e dos nossos. Assim sendo, o mundo invisível em que eles
nos atacam e nós nos defendemos é o próprio mundo em que Cristo rei-
na sobre e les e nós reinamos com Crist o. Q uan do Paulo nos co nclam a a
fazer uso do poder, da força e da fortaleza do Senhor Jesus (v. 10), usa
exatamente o mesm o trio de pal avras que u sou em 1:19 ( dynamis, kratos
e ischus) co m relação à o bra de Deus em ressusci tar Jesu s dentre os mortos.
Du as exort ações ficam lad o a lado. A p rim eira é geral: Sedefortale
cidos no Senhor e na
fica: Revesti-vos força ado
de toda seu po derde (v.
armadura 10).para
Deus, A segpoderes
unda é m ais especí-
ficar firm es
contra as cil adas do diabo (v. 11). Os dois ma ndam entos são exemplos des-
tacados d o ensino equilibrado das Escri turas . Alguns cristãos são tão au
toconfiantes que imaginam que podem defende rse sozi nhos se m a for-
ça e a ar m ad ura do Senh or. O utros estão tã o desconfiados de s i mesmo
que i maginam que nada têm p ara contribuir para a vitóri a na guerra es-
piritual. Ambos os tipos estão enganados. Paulo expressa uma combinação
apropriada de capacitação divina e cooperação humana. O poder real-
men te é do Senhor, e sem a força do seu poder falhare mos e cairemos mas,
mesmo assim, precisamos ser fortalecido s nele e na s ua força. O verbo ,
pois, é um presente passivo que pode tam bém ser traduzido “fortalecei
vos no Senhor” (BJ e ERC).
É a mesma construção de 2 Timóteo onde Paulo exorta Timóteo:
“fortificate n a graça que está em Cristo Jesus”. Sem elhante mente, a a r-
mad ur a é de Deu s e, sem el a, ficaremos fatalme nte desprotegidos e expos-
tos, mas de nossa p arte h á a necessida de de lanç ar m ão dela e vestila. E
realmente, dev versículos
a explicar nos emos assim13fazer,
a 17.peça po r peça, confo rme o ap óstolo passa

203
PRINCIPADOS E POTEST ADES

2. Os principados e as potestades
Até esta altura, tenho tomado por certo que Paulo, com “principados e
potestades” referiuse a inteligências dem oníacas. H á um a teoria que es-
tá ca da ve z mais em m od a entre teólogos rec entes e contempo râneos, no
entanto, de que Paulo estaria al udindose mais a estruturas de pensamento
(à tradiçã o, à conv ençã o, à le i, à a utorid ade, e até mesm o à reli gião), es -
pecialmente conforme estão incorporadas no Estado e nas instituições.
Conq uan to um cer to número de teól ogos al emães tenham debatido est a
possibilidade na década de 1930, no mundo da língua inglesa tem sido uma
discussã o de após a guerra. Tornou se tão po pu lar que penso que é ne-
cessário prime iram ente seguir a srcem do seu desenvolv imento, e depois
sujeitál a a u m a crí tica.
Em 1952 foi lançad o o livr o de Gord on R upp, Principali ties an d Po-
wers ,15co msob
Escrevendo o subitítulo
o impacto “Studies
da Segundain the Ch ristia
Guerra n C onflict
Mundial, in H isto ry ”.
Rupp contras-
tou a "falta de cor agem” do hom em m oderno com a “confi ança exu ltante”
e “valentia” do s cristãos primitivos ao enfrentarem o mal, 16e atribu iu es-
ta últim a atitude à cert eza de les ace rca da vitória de Je sus sobre os prin-
cipados e potestades. Paulo, com esta expressão, emprestada do pensa-
men to apoca líptico jud aico poste rior, quis dizer “ forças cósmicas sobre -
naturais, uma vasta hierarquia de seres angelicais e demoníacos que ha-
bitavam as estrelas e... eram os árbitros d o destino hum ano”, escravizan-
do os homens “debai xo de um to talitarism o cósmico ”. 17O Dr. R upp, p o-
rém, passo u a aplica r o conceito “à gent e peq uen a” que e m toda s as eras
“se sentir am na da m ais do que j oguetes de grandes forç as h istóricas” , '8
ora n a Ida de M édia, ora na revo lução industrial, e agora no sécul o vinte
em que se sent em v ítimas de “grandes pressõe s econôm icas e sociológi-
cas”.19Co ncluiu: “N o deco rrer dos sécul os, os prin cip ado s e as potência s
têm assumido muitos disfarces. Aterrorizantes e mortíferos são eles, às
vezes se esp alh an do p ela terr a em algum de spo tism o gigantesco, às vezes
estreitados a um único impulso na mente de um só indivíduo. A luta pros-
segue, no entanto. Pa ra os cre ntes, h á a certeza de um conflito até o fim .
Há, poré m, tam bém a ga rantia d a vitór ia!’20O Dr. Rupp escreve mais co-
mo um historiador do que como um teólogo. Sem qualquer argumento
exegético, sim plesmente transfere a expre ssão “ princ ipad os e potesta des”
a forças econômicas, sociais e políticas.
No ano seguinte foi publicado o original em Holandês do monógrafo
de Hen drik Berkhof, Ch rist and the Po wers, depois de um a preleção fe i-
ta n a Alem anha, em 1950.Sua tradução para o inglês por Joh n How ard
15 Publicad o por Epworth. 16 Op. cit. , pág. 9. 17 Ib id., pág. 10.
18 Ib id. , pág. 11. 19 Ibid. , pág. 83 . 20 Ib id. , pág. 2.

204
efésios 6:10-20

Yoder apareceu nos Estad os U nido s em 1962.21 A tese do P rofessor


Berkhof é que, embora Paulo tenha tomado emprestado o vocabulário
“potestades” da literatura apocalíptica judaica, sua maneira de
compreendêlo era diferente: “Em comparação com os apocalipticistas,
um a certa ‘demitologização’ ocorr eu no pens amento de Paulo. Resumindo:
os
com apocal
o sendipses pensam
o an jos celesptiais;
rimaP riam
aul o ente
os vênos
comprincip
o es trutados
ura s edenas potestades
existência ter-
restre!’22 Reconhece que Paulo pode ter “concebido as potestades como
sendo se res pessoais” , porém “este aspecto é tão secund ário que faz po u-
ca diferen ça se assim pen sava ou não”.23 Desta m aneir a conclui qu e “de-
vemos deixar de lado o pensamento de que as ‘potestades’ de Paulo se-
jam anjos”.24 A seguir identificaas com as stoicheia tou kosmou (“espí-
ritos elementares do universo”) de Gálatas 4:3, 9, e Colossenses 2:8, 20,
traduz a expressão por “potências mundiais” e sugere que estas podem
ser vistas nas tr adiç ões hu man as e nas regras religiosas e ética s.25
O Dr. Berk ho f passa a desenvolver o seu mod o de entend er o ensino
de Paulo sobre as potestades com relação à criaç ão, à queda, à rede nção,
e com relação ao papel d a igr eja. A s potest ades (a tr adição, a m oralida -
de, a justiç a e a ordem) foram criadas por Deus, m as se torn aram tirâni-
cas e ojetos de adora ção. Assim tanto preservam qua nto corrompem a so-
ciedade. “O E stado, a po lítica, a luta soci al, o i nteres se nacional, a opi-
nião pública, a m oralidade aceit a, as idéi as da decênc ia, da h um an ida -
de,
quedosa demo cracia”
sepa ram do — todas
Deus veresta s coisas
dadeiro un ificam
.26 Mesmo os hom
assim, ens,asaovenc
Cristo passo
eu,
porque mediante a cruz e a ressurreição foram “desmascaradas como deu-
ses falsos ”, e “o po de r pa ra ilu dir ” foi arra nc ad o das suas m ão s.27 Em
conseqüênci a, os cristãos “d esmascaram o engan o das potestade s” e ques-
tio na m a sua legitimidad e,28 ao passo q ue outro s, en coraja dos pela igre-
ja, não se deixam escravizar ou intimidar. Deste modo, as potestades são
“cristianizadas” (isto é, limitadas ao papel mo desto e instrum ental que
Deus pre tendeu ) ou “ne utr ali za da s”.29 Mais es pecialmente, “o Espí rito
Santo redu z as po testad es dian te do olho da fé”,30 de mo do que o crente
com discernim ento as v ê em suas verd adeira s proporçõ es com o criatu ras
(seja o nacionalism o, o estado, o dinhei ro, a convenção ou o militarismo)
e evita que o mundo seja deificado. Mais positivamente, a igreja tanto
anu ncia às potest ades m ediante a qualidade e a unidade d a sua vida “que
o seu domínio in interr upt o chegou ao fim” 31q ua nto trava um a guerra de-

21 (Herald Press, 2a. edição, 1977). 22 Op. cit., pág. 23.


23 Ibid . , pág. 24. 24 lbid. , págs. 2526. 25 Ib id ., págs. 2022.
26 íbid., pág. 32. 21 lbid.,págs. 3839. 28 Ibid., pág. 44.
29 Ibid.,pág. 58. 30 Ibid.,pág. 49. 31 lbid., págs. 5051.

205
PRINCIPADOS E POTESTADES

fens iva co ntr a elas a fim de “m anter. .. sua sedu ção e sua escravi zação a
um a b oa d istânc ia”.32E sta de claraçã o é a explicação de Efésios 3:10 e da
guerra defensiva de 6:1017 dada por Dr. Berkhof.
Uma terceira apr esentaç ão deste conceito das P otestades foi feita em
1954 po r G. B. C aird nu ma série de preleções no C ana dá, que fo ram pu -
blicadas em 1950 com o título Princi palit ies and Po wers, A Stu dy in Pau-
line Theology .33 É um estudo bíblico mais cuidadoso do que qualquer
um dos livros até agor a citados, em bora pessoalmente e u não possa ab or-
dar com qualqu er grau de confiança um a obra q ue não só s e refere a “ló-
gica falh a e à exegese igualmen te falha” de Paulo, com o tamb ém m encion a
“a insuficiê ncia dos argum entos espúrios de P aulo”. 34Afir man do na sua
introdu ção que “a idéi a de potest ades m undiais sini stras e sua subjuga 
ção por Cristo é embutida no próprio sistema do pensamento de Pau-

élo”,35o Dr. Cpa


“a rel igião aird
gã pa
e assa a isolar
potê ncia ptrê s “ inclusive
ag ã”, pote stadeos”Estado
p rincipais.
, e inteArpr
pr eta
imEfé-
eira
sios 3:10 no sentido de que o ensino ali contido é que estas já começa-
ram a ser redimid as através da ação social cris tã.36A segu nda p otes tade
é a lei, que é bo a em si mesma, porq ue é de Deus , m as quan do é “exal ta-
da em um sistema inde pend ente de religião, torn ase dem onía ca”.37A ter-
ceira pote stade diz respeit o àqueles el ementos recalcitrantes na nat urez a
que resistem ao domínio de Deus, inclusive as feras, as enfermidades, as
tempestades e a escr avidão d a nature za inteira à corrupção. Desta maneira ,
“o conceit o de Paulo q uan to ao dile ma do h om em ” é o s eguinte: “Ele v i-
ve sob autoridad es nom eadas p or Deu s — os poder es do estado, os po-
deres da religi ão legalis ta, os poderes da n atur eza — que através do pe-
cado se torn ara m em agênc ias de moníacas. Esp erar que o mal seja der -
rotado po r qua lquer um destes pode res, pela ação do Estado, pela auto
disci plina da consci ência , ou pelos proces sos da natureza, é pedir que Sa-
tanás expu lse Satan ás. A s potestades podem ser despojadas da su a influên-
cia tirâ nica e levadas à su a co rre ta sujeiçã o a De us som ente n a c ru z!’38

cipalitNo
iescomentário
and Power s,sobre
o Dr.Efésios publicado
Caird parece vinte anos
mais disposto quePrin
depois de
a conceder
Pau lo esti vesse se refe rind o a “seres espiritu ais que presidem sobre todas
as formas e estruturas de poder operantes na vida corpórea dos ho-
mens”.39Na realidade, “os inimigos verdadeiros são as forças espirituais
que ficam po r detrás de tod as as instituições de g overno, e que controlam
as vidas dos homens e das n ações!’40
O único au tor que mencionare i pelo nome é o D r. M arkus Barth, cujo
32 Ibid.,
pág. 52. 33 Oxford Univ ersity Press. 34 Op. cit., págs. 2021.
g. viii. 35 Ibid., 36 Ibid ., págs. 2730 .
38 Ibid.,
pág. 101. 39 Caird, pág. 46.
206
efésios 6 : 10-20

livro The Broken Wall (A Stu dy o f the Epistle to the Ephesians) foi pu -
blicado em 1959, e cujos dois volumes m onumentais na série Anchor Bi-
ble surgiram em 1974. No primeiro livro, ele identifica os principados e
potestades “com referência a quatro aspectos do pensamento e da term i-
nol ogia de Paulo ”, a saber, o Esta do (a uto rida des políticas, judiciais, ecle
siáticas), a morte, a moral
clusive a escravidão. e a lei os
“Concluím ritual,
q ue ecom
as estruturas econômicas,
pri ncipa dos in-Paulo
e potestades
referese ao mun do de axiom as e princípios da po lítica e da rel igiã o, das
ciênci as econômicas e da sociedad e, d a mo ral e da biologia, da h istória
e da cul tura ”, e, po rtan to, “é da essênci a do evangelho incluir declarações
concernentes às situaç ões, do gm as e problem as políticos, so ciais, eco nô-
mico s, cu ltu rais e psicol ógi cos ”.41
Na sua obra posterio r em dois volumes, no entanto, fico com a níti-
da impressão de que o D r. Ba rth está disposto a conceder a Paulo um a
co ntinua da cren ça “mitológica” ou “supersti ciosa ” (segundo o m odo de
Barth encarar o assunto) nos poderes sobrenatur ais. Parece es tar procu -
rand o algum tipo de meiotermo inquieto entre as duas int erpretações. P or
isto ele diz: “P aulo d en ot a os seres angelic ais ou dem oníaco s que residem
nos céus” , em bora h aja u m a “associação direta entre estes princip ado s e
potestades celestes com as estruturas e as instituições da vida na terra”.42
Além disso, “os ‘principados e potes tade s’ são, ao mes mo tempo, en tidade s
espirituais intan gíveis e estr utu ras ou instituições concretas, históricas, so-
ciais M
o uinha
psíqu icas”
prim eira.43reação a esta t entativa d e reconstruç ão, da qual dei
qu atro exemplos, é de adm iraçã o po r sua engenhosida de. Os citados es-
tudiosos empregaram m uita perícia em sua determinação de faz er es sas
nã o muito claras refe rências de Paulo às potestades celestiais referi rem
se de m odo relevante às nossas presentes situaçõ es deste mundo. Daí o atr a-
tivo desta teoria, que certo núm ero de autore s de form ação evan gélica tam -
bém começaram a adotar. Mas daí, também, seu caráter suspeito. Alguns,
pois, estão reconhecendo com grande simplicidade os dois embaraços que
os levaram a abr açála. E m primeiro lug ar, di zem, a interpretaçã o trad i-
cional refle tia um a cosmovisão arcai ca, com an jos e demônios, não m uito
longe de fantasmas e espíritos das sessões mediúnicas. Em segundo lu-
gar, não p od ia achar no Novo Tes tamento alusão algum a a estruturas so-
ciais, sendo que est as se tor na ra m um a preocup ação m od erna de relevân-
cia. Então, de repente, um a nova teoria é pro po sta, teoria que solucion a
os doi s problemas simultaneamente. Perdemos o s demônios e ganh am os
41 Barth, Broken Wall, págs. 8283.
42 Barth, Ephesians, I, pág. 154.
43 Ib id., pág. 800.

207
PRINCIPADOS E POTESTADES

as estruturas, pois os principados e as potestades são estruturas


disfarçadas!
Seria errado, no entanto, rejeitar a nova teo ria po rqu e talvez s uspei-
temos das pressuposições que leva ram as pessoas a prop ôla o u aceitál a.
O que é necessário e m am bos os lados é um trab alh o exegético mais sé -
rio,convencer
de pois a nova teoria “não
a maioria dos está comprovada”
exegetas. e deixou,
Tudo quanto possosegundo
ensaiar julgo,
aqui é
um a crítica introd utó ria. É verdade que o vocabu lário “prin cipado s e po -
testades” (archai e exousiai) às vezes é usado no Novo Testamento para
autorid ades políticas. P or exe mplo, os sac erdote s juda icos p rocuravam al-
gum m eio de entr egar Jes us “à jurisdição e auto rida de (archê e exousia)
do governado r”.44Naqu ele versí culo, as palav ras est ão no singular. Jesus
tamb ém advertiu seus se guidore s de que seriam lev ados pera nte “os go-
vernadores e as autoridades”, ao passo que Paulo mandou que seus lei-
tores foss em sujeit os “aos que governam, às au tor ida de s” ou “às au tor i-
dades superio res”,45sendo que em to das estas passagens as palavr as exou
siai e archai ou archontes ocorrem ju nta s e no p lural. Além diss o, e cada
caso o contexto deixa claro, sem ambigüidade, que autoridades humanas
estão em consideração.
Nos outros contextos, no entanto, em que as mesmas palavras são nor-
malm ente t raduzid as p or “principado s e potestades” , não fica c laro, d e
modo algum,,que a refe rênci a diz respeito às estruturas polític as ou à au -
toridade
térpretes sé judaicas. Pelo contrário,
que se referem a seres sobrenaturais. apriori
a suposição Não de gerações
devemos nos surprdeeen-
in -
der pelo fato de terem recebido os mesmos nom es e títulos dos governant es
hum anos, visto que “pensa vase que tinha m um a organização política” 46
e que são “govern antes e fun cio ná rio s do m un do dos es píritos”.47 Con -
fesso acha r as reconstruções do s novo s teóricos n ão som ente engenhosas ,
como também artifi ciais ao po nto de tere m sido inve ntadas.
Tomemos como exemplos as t rês referê ncias principais aos p rin cipa -
dos e potestades em Efé sios. A in terpretação natu ral de 1:2021 não é que
Deus exaltou Jesus ac ima de tod os o s governantes e instituições terre stres,
tornandoo “Rei dos reis e Senhor dos Senhores” (embora também isso
seja verdade e este pen sam ento poss a ser incluído), visto que o âm bito em
que foi suprem am ente exaltado é , confo rm e foi expressamente dito, "nos
lugares celestiais” à direita de Deus. Depois, para mim é extremamente
forçado sugerir que em 3:10 Paulo realmente esteja dizendo que é para
estruturas de poder na terra que a multiforme sabedoria de Deus é tor-
nad a conhecida pela ig reja. Par a os que o interpretam assim, a alusão aos
44 Lc 20:20. 45 Lc 12:11; Tt 3:1; Rm 13:13.
46 AG sobre arche. 47 AG sobre exousia.

208
efésios 6:10-20

“lugares celest iais” é, mais um a vez, um acréscimo qu e não se encaixa bem.


E em terc eiro lug ar, declara se esp ecificamente que a g uerra es piritual do
cristão “n ão é contra o sangu e e a carn e, e, sim, con tra os princip ado s e
potestades”, o que significa: “não contra forças humanas, mas, sim, contra
forças demoníac as”. As alusões aos “dom inador es deste mund o tenebroso”
enecessárias
às “ forçaspara
e spiri tuais do m são
resistirlhes, al”, muito
juntammais
enteapropriadas
com a ar mpara
adu ra e a s armas
poderes
sobrenaturais, especia lmente num context o que d uas vezes men ciona o dia -
bo (vs. 11 e 16), enquanto que, além disso, há o acréscimo de “nas regiões
celestes”, que dificilmente se aje ita n a teo ria deles. N a realidade, nã o achei
nenhu m novo teórico que l eve em conta a dequ ada mente o fato de que as
três refe rênci as aos princip ado s e potestades em Efé sios tam bém contêm
um a referência à s regiões celestes, ou seja, o m un do invisível da real ida -
de. É um a teimosia, como se Pau lo fosse deliberadam ente e xplic ar quem
são os principados e as potestades, e onde operam. De fato, as seis eta-
pas no drama dos principados e potestades — sua criação original, sua
qu eda subseqüent e, sua conq uista deci siva po r Cristo, o que aprenderem
atrav és da igreja, sua co nt in ua da hostilidade, e sua d estru ição fina l48 —
todas parecem aplicarse mais logi camente a seres sobrenaturais do q ue
a estruturas, a instituições e a tradições.
Voltandose agora das considerações exegéticas para as teológicas,
ninguém p ode dizer que o Jesus retratado nos evan gelhos não acredit ava
nos dem ônios Oe exorcismo,
acreditavam. nos anjos. Isso poderia ter
no entanto, foiocorrido,
par a Cristopois
parotes saduceus
integrantenão
do
seu ministério de compaixão, e um dos sinais principais do reino. É re-
gistrado, também, que ele falava sem inibições acerca dos anjos.49 Se,
pois, Jesus Cristo nosso Senhor acreditava neles e falava deles, por que
ficaremos nós envergonhados de neles crer? Os apóstolos receberam de
Jesus esta c rença. Bem à parte das ref erências aos princip ado s e às potes-
tades, há numerosas outras alusões aos anjos, feitas por Paulo, por Pe-
dro e pelo au to r de H ebreu s.50 Ora, os com entaristas tê m to da a liberd a-
de, se a teolog ia deles as sim lhe s permite de dis corda r de Jesus e dos apó s-
tolos, e de repudiar as crenças acerca dos seres sobrenaturais como sen-
do “mitológicas” ou “supersticiosas”, e de procurar “desmitologizar” o
ensino del es. Isto, porém , é algo bem difere nte de ten tar argu mentar que
o nosso Senhor e os apóstolos não tenham ensinado aquilo que , durante

48 Pa ra a criação deles, ver Cl 1:16; sua queda é suben tendid a porque Cris to precisou conquistá
los; para
deles, Ef a3:10;
conquista
pa ra deles ver Ef 1:2022;
sua hostilidade, Cl 2:15;
E f 6:12 e pa Rm 8:38
ra sua e 1Pe3:22;
destruição para aprendizagem
final, 1 Co 15:24.
49 Por ex.Mt 26:53; Mc 12:25; Lc 15:10; 16:22.
50 Po r ex. Rm 8:38; 1 Co 4:9; 1 Tm 5:21; 1 Pe 1:12; 3:22; Hb 1:4  2:9; 12:1824.

209
PRINCIPADOS E POTESTADES

séculos, a grande maioria dos comentaristas sempre aceitaram como ver-


dad eiro ensin o de Jesus. Razões exegéticas muito fortes, e não ape nas um
forte apelo , seriam necessárias para derrubar este ponto de vista quase
universal de entender a Bíblia.
Finalmente, ao reaf irm ar que os principa dos e potestades são se res
sobrenaturais,
mos não po ssampessoais , n ãoturas,
u sar estru estoutradições
dizendo, de modo algum
, instituições, et c.,, que
p araosomes-
bem
ou para o mal. Estou apenas desejando evitar a confusão que advém de
identificálas com esses seres. Que as estruturas sociais, políticas, judiciais
e econôm icas possam to rnar se dem oníacas, isso é evidente pa ra que m te-
nh a considerado q ue o Estado, que em R om anos 13 é ministro de Deus ,
tornouse, em Apocalip se 13, aliado do diabo. De mo do semelha nte, a l ei
moral que Deus deu para o bem do homem levouo à escravidão huma-
na e foi exp lora da pelos “e spíritos elem entais do universo”.51 Toda boa
dádiva de Deu s pod e ser perv ertida para usos malignos . Se, porém, iden-
tificarmos “as potest ades” com estruturas hum anas de um tipo ou de ou-
tro, e m decorrência haverá sérias conseqüências. P rimeiro, faltan os u ma
explicação ad equ ada de por que as estruturas tão regul armente , mas nem
sempre, se tor na m tirânicas. Em segundo luga r, restringimos de mod o in-
justificável o nosso entendimento da atividade malévola do diabo, ao passo
que ele é po r demais versáti l pa ra limitarse àquilo que é estrutu ral. Em
terceiro lugar, tornamonos por demais negativos para com a sociedade
esesuas
lutarestrutur
contra as.
elas.AsSe,
potestades, pois, são
pois, potestades sãomalig nas, destro
estruturas, nizad
esta fica as, eadeve
sendo
nossa atitud e para com as estruturas. A chamo s difí cil acreditar ou dizer
qualquer coisa boa acerca delas, pois parecem ser tão corruptas. Os de-
fensores da nova teoria nos advertem co ntra a deificação das estrutura s;
eu quero advertilos con tra a dem onizaç ão delas . São dois extremos a s e-
rem evitados. Sem dúvida alguma, a igreja, como a nova sociedade de
Deus, deve que stion ar os padrões e os valo res da sociedade co nte m po râ-
nea, desafiálos, e demonstrar uma alternativa viável. Se, porém, Deus
abenço ar o testemunho dela, tal vez algumas estru turas po ssam ser trans-
formadas para o bem e o que acontecerá, então, à nova teologia das
potestades?
3. A armadura de Deus (vs. 13-20)
O prop ósito de vos revestirdes de toda a arm ad ur a de Deus é para poder-
des fica r fir m es cont ra as cil adas do diabo (v. 11),para que possais resis
tir no dia m au, e, dep ois de terdes vencido tudo, perm ane cer ina baláveis.
51 G1 3:194:11.

210
ef ési o s 6:10-20

Estai, pois, firm es... Esta qu ád rup la ênf ase da da à nec essi dade de “ ficar
firme” ou “resistir ” dem onstra que o apóstolo se preocupa com a est abi-
lidade cristã. Cristãos inst áveis que não têm os pés firmes em Cristo são
um a presa fá cil para o diabo. E cristãos que t remem como taqu aras e ca-
nas não pod em resistir ao ve nto qu and o os principados e as potes tades
começam a soprar.
fiquem firmes Paulo deseja
até mesm verasosciladas
o co ntra cristãos
d tão
o difortes
ab o (v.e estáveis
11) e até que
m esmo
no d ia m au , ou se ja: nu m tem po de pres são espe cial. P ara tal estabilida-
de, tan to de caráter com o n a crise, a ar m ad ura de Deus é essencial.
A expressão toda a armadura de Deus traduz a palavra gre ga pano-
plia, que é “a arm ad ura completa d e um soldado p esadamente arm ado ”
(AG) embo ra “os aspecto di vino, mais do que o caráter completo do equi-
pam ento, é que é enfatizado”.52A lição é que este equipamento é “feito
e fornecid o“ po r De us.53 No A ntig o Testamento, é o pró pr io Deus que é
retra tado co mo um guerreiro luta nd o pa ra vindicar o seu povo: “Vestiu
se de justiça, com o de um a couraça , e pôs o capacete da salvação na ca -
beça!’54Até hoje as armas e a armadura continuam sendo dele, mas agora
as co m pa rtilha conos co. Te mos de vestir a arm ad ura , pegar em armas, e
ir à guerra contra as potestades do mal.
Pau lo alista em det alhes as s eis peças principais do eq uipam ento do
soldado — o cinto, a couraça, as botas, o escudo, o capacete, e a espada
— e empregaas como ilustrações da verdade, da justiça, do evangelho da
paz,
luta codantra
fé, as
dapotesta
salvação e da
des. Palavra
P aulo estavdea bem
Deus,familiarizado
que nos equipam
com os emsolda-
nossa
dos rom anos. Enco ntravase com m uitos del es em suas v iagens, e qu an -
do ditava Efés ios, estav a acorr enta do a um deles, pelo pulso . Pau lo refere
se à su a cad eia no versícul o 20. E em bora fosse improvável que semelhan te
guarda usas se a plena arm adu ra de um so ldado da infantaria no cam po
da b atalh a, m esmo assim, vê lo de perto pode m uito bem terlhe desper-
tado a imaginação.
Em 1655, o ministro pur itan o Willia m G urna ll “pas tor d a igrej a de
Cristo em Lavenham, Suffolk” (conforme se identi ficav a a si mesmo), p u-
blicou o tratado The Chr istian in C omplete A rm ou r. Seu subtítu lo é tão
minucioso, que p ara lêlo é necess ário respitar fund o: A guerra dos san
tos contra o Diabo , em que é fe ito o desmascarament o daquele grande ini
mig o d e Deus e do seu povo, nas suas polít icas, no seu poder, na sede do
seu império , na sua maldade, e no desígni o princ ipa l que tem contra os
santos; em qu e é aberto um arsenal de on de o cri stão é supr ido com ar
mas espi ritua is para a batalha, ajudad o a vestir um a armad ura; ju nta men te
52 Armitage Robinson, pág. 132.
53 Hendriksen, pág. 272. 54 Is 59:17.
211
PRINCIPADOS E POTESTADES

com o resultado fe li z da guer ra inte ira. Na ded icató ria do l ivro aos s eus
paroquianos, referese a si próprio modestamente como ministro “pobre”
e “indigno” deles, e ao seu tratad o com o sendo apenas u m a “m igalha”
e um “pequeno presente” para eles. Apesar disso, a oitava edição, de 1821,
ocupa três tomos, 261 capítulos e 1.472 páginas, embora seja uma expo-
siçãoDeixemme
de apenas onze versículos.
fazêlos apreciar um pouco da espiritualidade de Gur
nall. A respeito dá ar m ad ur a de Deus , ele escreve: “N o céu, comp arece-
remos não com arm adu ra, mas vesti ndo roupa s de glóri a; aqui, porém,
elas (ou seja, as peça s de arm ad ura especificadas) de vem ser usada s no i-
te e dia. Devemos anda r, tra ba lh ar e do rm ir vesti dos com e las, senão, nã o
somos verdadeiros sold ado s de Cristo !’55Com es ta armad ura devemos fi-
car em pé e v igiar, e nu nca relaxar a nossa vigilânc ia, pois “o tem po em
que os santos dormem é o temp o em que Satanás v ai tentar; qu alquer m os-
ca ousa av enturar se a an da r num leão ad orm ecido” 56Co ntinua, citan-
do como exemplos Sansão (cujos cabelos foram cortados por Dalila en-
qu anto ele dorm ia), o re i Saul (cuja lança f oi fur tad a p or Davi enquanto
ele dormia), Noé (que, enquanto estava num sono ébrio, foi de alguma
maneira m altratad o pelo s eu filho) e Êutico (q ue dorm ia enq uan to Pa u-
lo pregava).
O Dr. M art yn LloydJo nes, já em nossos dias, escr eveu um a excelente
e am pla exposição dos mesmos onze versículos em dois v olumes, c ham ada
The Christian
ginas. H á vinteWarfare The Christian
e um caepítulos n o primSoldier ,57com
eiro volume um“as
sobre to tal
ci deladas
73 6do
pá -
diabo”, que de screvem alguns dos ataque s mais sutis do diabo ao povo de
Deus (e m três âmbitos: d a ment e, da exper iênci a, e da prática ou c on du -
ta) e que destacam co mo precisamos ficar de sob reaviso. Estas páginas
estão cheias de conselhos sábios de um pastor experimentado.
A prim eira peça com que de vemo s nos equipar, q ue Pau lo m encio-
na, é o cinto d a verda de: cingindo-vos com a verdade (v. 14). Usualm ente
feito de couro , o cint o do soldado pertencia mais à sua rou pa de baixo do
que à arm adu ra. Mesmo assi m, era essencial. P rendia a túnica, e também
segurava a espada . Ga rantia que não sofreri a impedimento algum ao m ar-
char. Ao afivelar o cinto, o soldado recebia uma sensação de força e de
con fian ça escondidas. Isso ain da hoje é verdade. “Ape rtar o cinto” pode
signi ficar não som ente um temp o de austeridade dura nte um a care stia d e
alimentos , co mo tam bém prepararse pa ra a ação, o que os antigos teriam
chamado de “cingir os lombos”.
55 Gurnall, I, pág. 67. 56 Ibid., pág. 330.
57 The Chris tian S oldier, A n Exposition o f Eph. 6:10-20 (Banner of Truth, 1977).

212
efésios 6:10-20

Ora, o cinto do soldado cristão é a “verdade”. Muitos comentaris-


tas, especialmente nos primeiros séculos, entendiam que isto significava
“a verdade”, a revelação de Deus em Cristo e nas Escrituras. Afinal, so-
mente a verdade pod e dissipar as m entiras do diab o e nos lib ertar,58 e
Paulo já se referiu várias vezes nesta carta à importância e ao poder da
verdade.59
tigo Ouestá
def inido trosausente
com enta
narista s, no
frase en tant
grega, o, especialm
preferem entendente porq
er que ue o es-
P aulo ar-
teja se referindo à verdade no sentido de sinceridade ou integridade. Cer-
tam ente Deus requer “a verdade no íntim o”, e o cristão deve ser honesto
e verdadeiro a tod o custo .60 Ser enganador, cair n a hipocrisi a, ape lar p ara
intrigas e complôs, seria fazer o jog o do diabo, e não podere mos ven cê
lo seguindo suas próp rias regr as. O que o diab o ab om ina é a verdad e trans -
parente. Ele am a as trevas. A luz o põe em fuga. Tanto para a saúde espi-
ritual como mental, a honestidade sobre si mesmo é indispensável.
Talvez nã o precisemos fica r com um a só dessas duas altern ativas. O
judicioso Gurnall escreve: “Uns querem dizer, com verdad e, u ma verda
de de dou trina ; outros querem que seja a verdade do coração, a sinceri
dade-, penso que é melhor juntar as duas... uma não bastará sem a
outra!’61
O segundo ite m do equipam ento do cristão é a couraça da ju stiç a (v.
14). Alguns exposit ores têm susten tado que na arm ad ura de Deus, em bora
ha ja um a couraça, nen hu ma proteção é fornecida par a as costas. Passam,
então, a argum
gem e não fug ir entar que deveo asmos
dele, expond enfrentar
nossas costas odesprotegidas.
nosso i nimigoJohn
comBunyan
co ra-
ensinou esta lição em O Peregrino. Quando C ristão entrou no Vale da H u-
milhação, “saiu lhe ao encon tro um abominável demônio, cham ado Ap o
lião. Cristão teve medo, e começou a refletir se seria melhor fugir ou
conservar se firme no seu posto. M as lembrouse de que a arm ad ur a não
lhe protegia as costas, e que, portanto, voltálas ao inimigo seria darlhe
grande vantagem, porque poderia ferilo com as suas setas. Decidiuse,
então , a enf ren tar e a m anterse firme.”62É um bo m conse lho e spiritua l,
mas perm anece sendo u m exemplo duvidoso de exegese bíblica, po rque
a couraça do soldad o freqüent emente cobria as cost as bem como a fren-
te, e era sua peça princip al de arm ad ura, protegendo quase todas as suas
partes vitais.
Numa carta anterior, Paulo escreveu “revestindonos da couraça da
fé e am or”,63 mas aqui, com o em Isaías 59:17 , a co ura ça consiste na ju s
tiça. Ora, “justiça ( dikaiosynè ) nas cartas de Paulo signific a, freqüen te-
58 Cf. Jo 8:3 136 , 4345 . 59 Por ex. 4:21; 5:6, 9.
60 SI 51:6; Ef 4:15, 25. 61 Gurnall, 1, pág. 337.
62 O Peregrino (1678: Imp rensa Me tod ista, 1963), pág. 81. 63 1 Ts 5:8.

213
PRINCIPADOS E POTESTADES

mente, justificação, ou seja, a iniciati va graciosa de Deus em fazer com


que os pecadores fiqu em de bem consigo at ravés de Cnsto. É esta, então,
a couraça do cris tão? Certam ente nenhu ma proteção espiritual é maior
do que um relacionamento justo com Deus . Ter sido justificado pela sua
graça med iante a si mples f é em Cristo c rucificado, ser vestido nu m a jus -
tiça
não que não é sua
condenado, maspró
simpria , m asesta
aceito, a deé uma
Cristo, ficaressenc:a'
defesa em pé diante
contra de
umaDeus,
consciência acusadora e contra os ataques caluniadores do maligno, cu-
jo nome hebraico (“ Satanás”) significa adversário e cujo título em Gre-
go (diabolos , “diabo”) significa caluniador. “Agora, pois, já nenhuma
condenaçã o há p ara os que estão em Cristo J esus... Quem inten tará acu -
sação co ntra os el eitos de De us? É Deus quem os justifica. Q uem os con-
denará? É Cristo Jesus quem m orreu, ou antes, quem ressusci tou, o qual
está à direit a de Deus, e tam bém intercede p or nós!’64Esta é a cert eza cris-
tã da justiça, ou se ja, de um relacionam ento correto com Deus mediante
Cristo. É uma forte couraça para nos proteger contra as acusações
satânicas.
Do o utro lado, o ap óstolo esc reveu em 2 Corín tios 6:7 acerca das “ar-
mas da justiça, à direita e à esquerda” (ERC), ap arentem ente no sentido
de justiça m oral, e empregou a m esma palavra com o m esmo sentido em
Efésios 4:24 e 5:9. Desta forma, a couraça do cristão pode ser a justiç a
de cará ter e de co ndu ta, a retidão. Pois ass im com o cultivar a verdade é
atiça,
maneira
nestedesentido,
derru bar
é a os enganos
maneira de do diabo,àsassi
resistir suas m também cultiva r a ju s
tentações.
Alternativamente, tal como acontece com os dois possíveis signifi-
cados de verdade, assim tam bém ocorre com os dois pos síveis significa-
dos de justiç a. Bem pode ser correto combinálos, visto que, conforme
o evangelho de Paulo , um deles invari avelmente le va ao outro. Com o G.
G. Findlay exp ressa: “A qu alidad e comp leta do per dão p ara delitos pas-
sados e a integridade de caráter que pertencem à vida justifica da estão
tecidas junt as num a malh a im penetrável! ’65
As botas d o eva ngelho vêm em seguida na list a. Co nform e M arkus
Barth, há c oncordância entre os comentari stas de que Paulo “tem em m en-
te a caliga (a “ me iabota” ) do legion ário rom ano, que era feita de couro ,
deixava os dedos do pé livres, tinha solas pesadamente cravejadas, e era
fixa nos cal canhares e nas canel as com tiras de couro mais ou m enos o r-
namentais. Estas “equipavamno para marchas l ongas e par a tom ar po -
sição firmem ente.. . Em bo ra não im pedisse m a sua m obilida de, evitavam
que o pé deslizasse.”66
64 Rm 8:1, 3334. 65 Findla y, pág . 415. 66 Ba rth, Ephesians II, pág. 798.
214
efésios 6:10-20

Ora, as botas do soldado cristão sao a prepar ação do evangelho da


paz (v. 15). “Preparação ” é a tra du ção de hetoimasia, que si gnifica “pr on -
tid ão ”, “p rep aro 11ou “ firme za”. Não sabemo s, p orém , se o genitivo que
se segue é subjetivo ou objetivo. No primeiro caso, a referência diz res-
peito a uma certa firm eza ou qualidade inabalável que o evangelho dá
àqueles queusam.
les que as n ele A
crêem, como aassim
BV entende firmeza queafras
e par as botas
eia: fortes
“Calcemdãosappaatos
ra aqque
ue-
possam fazêlos andar depressa ao pregarem a Boa Nova da paz com
Deus!’ E, certamente, se recebemos as boas novas, e estamos desfrutan-
do da paz com Deus e de uns com os outros, paz que as boas novas nos
trazem, temos o apoio mais firme possível para nossos pés, com o qual
podemos lutar contra o mal.
O genitiv o, no en tanto , p od e ser objetivo, e neste caso os sap ato s do
soldado cr istão são “o entusiasmo pa ra anu ncia r as BoasNotícias de paz”
(BLH). Não pode haver dúv ida de que se mpre de vemos estar pronto s par a
dar testemunho de Jesus Cristo como pacificador da parte de Deus
(2:1 415 ) e tamb ém — conform e P aulo es creve num a passagem paralela
em Colossenses67— da r respostas graciosas , “tem peradas com sal” a per-
guntas que o s de fora nos faz em. S emelhante pro ntid ão “nas pon tas dos
pés” tem uma influência muito estabilizadora sobre a nossa própria vi-
da, além de apresentar a ou tras pesso as o ev angel ho que liberta. Quan to
a mim, inclinome levemen te pa ra esta exp licação, em p arte p or caus a do
paralelo em Colossenses, e em parte por causa dos leves ecos de 2:17 (“e,
vindo, evange lizou paz a vós ou tros ”) e de Isaías 52:7 (“Q ue form osos são
sobre os montes os pés do q ue an unc ia as boas nova s, que faz ouvir a p az”).
Co nform e Johan nes Blauw escreveu, “a obra m issionária é como um par
de sandálias que foi dado à igreja a fim de que ela se coloque no cami-
nho e continue andando para tornar conhecido o mistério do
evangelho”.68
De qualqu er m aneira, o diab o odeia o ev angelho po r ser o pode r de
Deus para salvar a s pessoas da su a tirania satânica,salvando tan to nó s que
recebemos e sse evange lho q ua nto aquel es com q ue o participam os. Por
isto, precisamos conservar atadas as nossas botas do evangelho.
Nossa quarta peça da arm adura é o escudo da f é (v. 16), que deve-
mos em braçar não tan to “sobre tudo” (ERC) como se fosse a mais imp or-
tante dentre toda s as arm as mas, si m, sempre, (ERAB) como algo indis-
pensável. A palavra que Paulo emprega denota, não o pequeno escudo re-
don do q ue dei xava a m aior parte do corpo desprotegida mas, si m, o lon-
go escudo retangular, m edin do 1,2 metros por 0,7 5, que cobr ia a pessoa
67 Cl 4:5, 6.
68 The Missionary N ature o f theC hurch , de Johan nes BIauw(1 962: Eerdmans, 1974),pág. 125.

215
PRINCIPADOS E POTESTADES

inteira. Seu nome em Latim era scutum. “C onsistia em... du as camadas


de mad eira coladas juntas, e cobertas prim eiram ente com linho e de pois
com couro: era fixado com ferro em cima e em baixo!’69 Era especialmen-
te pro jetad o pa ra apa ga r os peri gosos mí sseis incendiários que eram em -
pregados, especialmente as flechas m ergulhadas em paz, que eram acen-
didasQuais,
e atiradas.
pois, são todos os d ardo s inflama dos do maligno , e com que
escudo os cristãos podem protegerse? Os dardos do diabo sem dúvida in-
cluem suas acusa ções maliciosas que inf lam am a nossa consciência com
aquilo que (s e estamos abrigados em Crist o) somente pode ser cha ma da
de falsa culpa. Outros dardos são indesejados pensamentos de dúvida e
de desobediência, de rebeldia, de concupiscência, de malícia ou de me-
do. Há, porém, um escudo com o qual podem os apagar ou extingui r to -
dos es tes dar dos com po nta s de fog o. É o esc udo da fé . O própr io Deus
é “escud o p ar a os qu e nele con fiam ”,70 e é pela fé que fug imos p ar a ele,
procurando refúgio. A fé, pois, toma posse das promessas de Deus em tem-
pos de dúvida e de depressão, e a fé tom a posse do poder de Deus em tem -
pos de tentação. Apolião zombou de Cristão com a am eaça: “Vou
arrancarte a alma!’ “E, ao mesmo tempo!’ Bunyan continua, “expeliu com
grande força um d ard o de fogo contra o peito de Crist ão. Este , qu e tinh a
o escudo no braço, ap ar ou com ele o golpe e escapou do p erig o!’71
O capacete do sol dado rom ano, que é a peça da a rm adura que apa-
rece
comoemo bronze
seguidaounaolista, usualmente
fer ro. “Um forroerainterno
feito de
de um
felt metal
ro ouresistente,
de esponjataltor-
nava o pes o tolerável. Na da, senão um m achad o ou um martel o, po deria
fur ar um capacete pesado, e e m alguns casos um v isor mó vel dava uma
melho r prot eçã o fr on tal .” 72 Os capacetes eram deco rativos e protetores,
e alguns tinham plumas ou cristas magníficas.
Segundo um a declaração anterio r de Paul o, o capacet e do soldado
cristã o é “a espe ranç a d a salv ação”,73 ou seja, a no ssa ce rteza da salva-
ção futura e definitiva. Aqui, em Efésios, é simplesmente o capa cete d a
salvação (v. 17) que d evemos tom ar e usar. M as se a proteç ão p ar a a no s-
sa cabeça é a m edida de salvação que já recebe mos (o perdão, a liberta-
ção d a escravidão a Satanás, e a ado ção na família de Deus ) ou a expec-
tativa co nfia nte d a plena salvação no ú ltimo dia (inclusive a glóri a da res -
surreição e a sem elhança a Cristo no céu) , n ão h á dú vida de que o poder
salví fico de Deus é a noss a única defes a con tra o inimigo das no ssas al-
mas. Charles Hodge escreveu: “o que adorna e protege o cristão, que o
cap acita a levantar a cabeça com c on fianç a e alegria, é o fato de ser s al-
69 A rm itag e Ro bin son , pá g. 251. 70 Pv 30:5. 71 O Peregrino , pág. 83.
72 Barth, Ephesians , II, pág . 775 . 73 1 Ts 5:8.

216
efésios 6 : 10-20

vo”74 e, poderíamos acrescentar, de saber que a sua salvação será aperfei-


çoada no fim.
A sexta e última ar ma a ser especificada é a espada (v. 17). De todas
as seis peças da a rm adu ra ou arsenal alistadas , a espad a é a única que pode
claramente s er usada tan to pa ra defes a quan to p ara o ataque. Além dis-
so, o tipo de ata qu e em mira envo lverá um enco ntro pessoal bem de per-
to, pois a palav ra emp regada é machaira, a espada curta. É a espada do
Espírito que passa imediatamente a ser identificada com o sendo a pala
vra de De us, embo ra no Apocalips e seja vista proced endo d a boca de Cris-
to .75Pode m uito bem inclu ir as palavras de defesa e de testem unh o que,
como Jesus prom eteu, o E spírito S anto coloca rá nos lá bios dos seu s se-
guidores qu an do forem arra stad os diante dos m agistr ado s.76 Mas a ex-
pressão “a palavra de Deus” tem uma referência muito mais ampla do que
aquela, a saber, às Escrituras, à pa lavra de Deus escrit a, cu ja srcem é re-
petidas vezes atribuíd a à inspiração do Espírito Santo. Ainda hoje é a es-
pada divina porque o E spírito ainda a em prega para cortar as defesas das
pessoas, ferir suas consciências e despertálas espiritualmente com sua
ação penetra nte. M esmo assim, o Senhor tamb ém coloca a sua espad a em
noss as mãos, de m odo que a possamos usa r não soment e par a resi stir à
tentação (conforme fez Jesus, citando as Escrituras para repelir o diabo
no deserto d a Jud éia) m as tam bém na evangelização. Todo evangelista cris-
tão, seja e le um pregador ou um a testemunha pessoa l, sabe q ue a p ala-
vra de Deus te m poder para cortar, sendo “mais cortante do que qu alquer
espa da de dois gum es”.77N unca , po rtan to, devemos te r vergon ha de usá
la, ou de reconhecer a nossa conf iança de que a Bíbl ia é a espa da do Es-
pírito. Conform e escreveu E. K. Simpson, esta frase expõe “o poder cor-
tante das Escri turas ... Mas um a Bíb lia m utilada é o que Moody d enom i-
no u de "u m a espa da quebra da”. 78
Aqui, pois, estão as se is peças q ue, em conju nto, perfazem t od a a ar-
m adu ra de Deu s: o cinto d a ver dade e a couraça da justiça , as botas do

evangelho
to. São a a ermoad
escudo
ur a ded Deus,
a fé, o pois
capacete
é eleda salvaç
quem ão ece.
a forne a espa da doassim,
M esmo E sp íri-
é
nossa a responsabilidade de tomála, vestila, e empregála com con fiança
co ntra os poderes do m al. Além disso, dev emos ter a certez a de que fare-
mos uso de todos os equipam entos da arm adu ra, e que não deixa remo s
de lado ne nhu m deles. “N ossos inimigos estão de t odos os lados, e ass im
deve ser a n ossa a rm ad ura, à d ireita e à esq ue rda .” 79
74
75 Hodge,
Ap 1:16;págs.
2:12;387388.
19:15; cf. Is 11:4; Os 6:5.
76 Mt 10:1720. 77 Hb 4:12.
78 Simpson, pág. 151. 79 Gurnall, pág. 60.

217
PRINCIPADOS E POTESTADES

Finalmente, Paulo acrescenta uma oração (vs. 1820), não (proval


velmente) porque pensa na oração com o sendo ou tra arm a, nã o m encio-
nad a na lista mas , sim, p orque ela deve perme ar to da a nossa g uerra es -
piritual. Equiparnos com a arm adura de Deus não é uma operação me-
cânica. É em si mesma um a expre ssão da nossa depen dência a Deus. Nou -
tras palavras:
Espírito, denotae guiada
induzida a necessidade
por ele,daassim
oração.
comoAlém disso, de
a palavra Deus é “a no
é oração
espada do Espírito” que ele mesmo emprega. Deste modo as Escrituras
e a oração permanecem jun tas como as duas arm as principais que o Es-
pírito coloca em nossas mãos.
A o raç ão cristã q ue preva lece é admiravelm ente compreensível. Te m
qu atro unive rsais, indicados pelo us o qu ádr up lo d a palavra “to do”. De-
vemos orar em todo tempo (tanto r egular q uan to constantemente) , com
toda oraçã o e súplica (porque são necessárias muitas formas variadas),
com toda a persever ança (porque preci samos, com o bons soldados, ficar
vigiando, nunca esmorecendo nem adormecendo), fazendo súpli ca por
todos os santos (já que a unida de d a nova sociedade de Deus , q ue tem si-
do a preocup ação constante nesta carta, deve ser refletida em nossas ora -
ções). A m aio ria dos cristãos ora algum a vez, e com algum g rau de pes e
veranç a, p or algun s dentre o povo de Deus. M as sub stituir alguns por to
dos em cad a um a destas e xpressões seri a introduzirn os em um a nova di-
mensão de oraçã o. Foi qu ando Cristão pe rcebeu “a boca do infe rno, junto
da
viuestra da”infernais,
rugidos no Vale da S om bra da
e “reconh M orte,
ecendo e viu
q ue sair cham
a espad a pa raasnae da
fumo
lhe ,servi
e ou --
ria, reso lveu embainh ála e lança r mão de outra arma, isto é, da a rm a da
oração, e assim exclam ou: ‘Livra, Senhor, a m inha alm a’.” 80
Talvez mais importante seja o mandamento no sentido de manter
se vigilante e , por tan to , ale rta (v. 18). Rem on ta até ao ensino d o pró prio
Jesus, que enfatizava a necessidade d a vigilância ten do em vista que n ão
somente a sua volta81co mo tam bém o ata que da tenta ção 82seriam rep en-
tinos. Parece que sempre repe tia a mesm a advertência: “Digovos: Vigiai!”
Os apóstolos ecoavam e estendiam essa mesm a admoestação. “Vigiai!”
era sua conc lam ação geral à vigilânci a cris tã,83em parte por que o diabo
sempre estava à espreita como um leão faminto, e os falsos mestres, co-
mo lobo s ferozes,84e, em parte, pa ra que a volta do Sen hor nã o nos ap a-
nhe de su rpres a,85 mas especial mente po r cau sa da nossa tend ência de
do rm ir q ua ndo deveríam os esta r oran do .86 “Vigiai e ora i”, Jesus insistiu.

80 O Peregrino, pág. 88. 81 Por ex. Mc 13:33ss.; Lc 12:37ss.


82 Mc 14:34  38 . 83 1 Co 16:13; cf. Ap 3:23.
84 1 Pe 5:8; At 20:31. 85 1 Ts 5:1 8; Ap 16:15.
86 V. 18; Cl 4:2.

218
efésios 6:10-20

Foi a falta de obediência a esta ordem que levo u os apóstolos à sua d es-
lealdade desastrosa. U m fracasso semelhante le va a um a desleald ade se -
melhante hoj e. É median te a ora ção q ue esper amos no Senh or e renova-
mos as nossas forç as. Sem a oração somos m uito débeis e lassos para fi-
car firmes contra as forças do mal.

p ara també
sábioOrai m po
saber da suar pró
m im,pria
P aul o rog
neces ou (v.
sidade d e19). Elepara
força era sufic ientemcon
ficar firme ente-
tra o inimigo, e era tam bém suficientemente hum ilde para p edir q ue se us
amigos orassem com ele e por ele. As forças das qu ais precisava nã o eram
apenas p ara a sua con frontaçã o pessoa l com o diabo mas, sim, pa ra o se u
ministério evan gelístico pelo qual procurava libertar as pessoas do domí nio
do diabo. Esta tinha sido parte da sua comissã o srcin al quan do o Senhor
Jesus r essurreto o m an do u converter as pes soas “das tre vas par a a luz e
da p otestad e de Satanás par a D eus”.87 Daí o conflito espiritual d o q ual
tinha consciência. Além disso, não deixaria o campo de batalha, agora
que es tava sob prisão domicil iar, e impo ssibilitado de contin uar aq uelas
expedições militares . Não! Havia aqueles soldado s aos quais, um p or um ,
e cada um p or algumas horas alternadam ente el e ficava acorrentado ; e
havia ainda suas visi tas consta ntes ! Ainda p od ia testemu nhar a elas, e a s-
sim fazia. Deve ter havido outros indivíduos, além do escravo foragido
Onésimo, a quem levou a Cristo. Lucas cont a acerca de líderes jud eus que
vinham até el e no seu alojamen to, e que o ouvira m fazer um a exposiç ão
“desde qu
alguns am an hã até pers
e ficaram a tarde”
uad idoacerca do reino eLucas.8
s”, acrescentou acerca 8Deste
de Jes us. “Hou
modo, asve
la-
butas evangelísticas de Paulo continuavam. Durante “dois anos... recebia
a todos que o procuravam, pregan do o reino de Deus, e. .. o Senh or Jesus
Cristo ”. E o fez “com tod a a intrepidez, sem imped im ento algum ”.89
São essas últim as palavras que deve mos no tar especia lmente. Porq ue
“com tod a a intrepidez” tradu z a fra se grega “com tod a a parrêsia”. A
palavra originalmente denotava a liberdade democrática de expressão des-
fr uta da pelos cidadãos gregos. Depois ve io a significar “a sinceri dade, a
franqueza, a clareza da fala , que nad a escon de e não passa p or cima de
na da ”, jun tam en te com “a coragem, a confiança, a ousadia, o de stemor,
especialmente na presença de pe ssoas de alta posição ” (AG). E é precisa-
mente isto que Pa ulo solici ta aos ef ésios que orem p edind o que isso l he
seja concedido. É pela liberdade que anseia — não p ela liberdade do con
fin am ent o mas, sim, pela liberdad e para prega r o evangelho. Po r isso, em -
prega a palavra parrêsia duas vezes (primeiro como substantivo, depois,
com o verbo) n as expres sões no abrir da min ha boca... com intrepidez (v.
19) na pre gação do evangelho, e para que em Cristo eu seja ousado para
87 At 26:1 8 . 88 A t 28 :1 7, 232 4. 89A t28:3031.

219
PRINCIPADOS E POTESTADES

falar , com o me cum pre fazêlo (v. 20). Às boas novas que a nuncia ele ain da
as cham a de mistério, porqu e se tor no u con hecido apenas pela rev elação,
e se centrali za na un idade entre jud eus e gentios em Cristo ; e as duas qu a-
lidades principais que ele deseja que caracterizem sua pregação deste mis-
tério são palavra (v. 19) eintrepidez (vs. 1920).
A primeira
municação, destas duas
e a segunda, à suapalavras
coragem.parece r eferirse
Ele anseia à claobscurecer
por não reza da sua co-
cois a alguma com palavras i mprec isas, e po r não ocultar n ad a com um
meioterm o covarde. A clareza e a coragem perm anecem sendo du as das
característi cas mais cruc iais da pregaçã o cristã autêntica. É po rqu e rela-
cionam o conteúdo da m ensag em p regada com o estilo d a apresenta ção.
Alguns pregadores têm o dom do ensino lúcido, mas faltalhes nos ser-
mões conteúdo sól ido. A substância é diluída pelo medo. Ou tros são o u-
sados como le ões. Nã o temem a ninguém, e não omitem nada. Mas o que
dizem é só con fusã o e acaba m nã o esclarecendo nada. A clareza s em co-
ragem é com o a luz do so l no deserto: ba stant e luz, m as nad a que valha
a pen a olha r. A coragem sem clareza é com o um a bela paisagem à noit e:
mu itas coisa s pa ra ver, mas n en hu ma luz pa ra d esf rut ar essa visão. O que
é neces sári o nos púlpitos do m und o hoje é um a com binação de cla reza
e coragem, ou palavra e intrepidez. Paulo pediu que os efésios orassem
para que estas duas coisas lhe fossem dadas, pois as reconhecia como dá-
divas de Deu s. Devemos jun tarn os a eles em oraç ão em prol dos pa sto -
res e Isso
pregadores
tudo eradaem
igreja
prol contemporânea.
do evangelho pelo qual ele se tornara embai
xador em cadeias (v. 20). An terior mente n a ca rta Pau lo se design ara tan -
to “prisioneiro... por amor de vós, gentios” quanto “prisioneiro no Se-
nhor” (3:1; 4:1). Conseqüentemente, ele está dizendo que o evangelho,
o S enhor e o s gentios são trê s razõe s pa ra a sua prisão. Mesm o assim, es-
tas tr ês são um a só. As boa s novas que prega va eram a inclusão dos gen-
tios na nova socie dade, e fôra o Sen hor quem lhe con fiara a m ensag em.
Assim sen do, ao com unicála na sua plenitude, es tava sendo sim ultanea -
mente fiel ao próprio evangelho, ao Senhor que o revelara e aos gentios
que recebiam as bênção s desse e vangelho. S ua fid elid ade a estes tr ês lhes
custara a libe rdade. Era, então um p risioneiro po r causa de sses três fato-
res. Talvez ag ora às vezes foss e tent ad o a aceit ar um meiote rm o p ara ga -
ran tir a sua soltura. Isso porqu e “ser preso traz c onsig o a tentação n o sen-
tid o de curvarse dia nte do te mor ao ho mem ”.90 Mas se assim foi, P aulo
recebeu graça p ara resistir. “P aulo p ensa em s i mesmo com o sendo o em-
baixador de Jesus Cristo, devidam ente acreditado para representar o seu
Senhor na corte imperial em Ro ma!’91Co mo pod eria ter vergonh a do seu
90 Fo ulk es, pá g. 180. 91 Bruc e, pá g. 134.

220
efésios 6:10-20

Rei, ou ter medo de falar no nom e dele? Pelo con trário, orgulhava se de
ser o embaixa dor de Cris to, a ind a que es tivesse pass and o pela an om alia
de se r “em baixado r em cadeias”. É possí vel que até deliberadam ente te-
nh a feito um jog o de palavras com este paradoxo. Markus Barth es creve:
“O termo cadeia (alusis ) significa, entre outra s coisas, os ado rnos (de ouro)

usados
de alta ao redo rNas
posição. do pesco ço efestivas,
ocasiões nos pulsos po r damas ricas
os embaixadores ou potaisr homens
usavam cor-
rentes a fim de revelarem riqueza, poder e dignidade do governo que re-
presentavam. E Paulo, servindo a Cristo crucificado, consideraria as ca-
deias dolorosas de ferro que o prendiam como as insígn ias mais ap ro pri a-
das para a representação do seu Senhor !’92 O que mais preocupava Pau-
lo não era, no entan to, q ue os seus pulsos fossem libertos da s cadeias mas ,
sim, q ue a sua bo ca fosse abe rta em testemunho. Não qu e ele fosse liber-
tado, mas, sim, que o evangelho viesse a ser difundido livremente e sem
impedimento. É por isto, pois, que ele orou, e que pediu que os efésios
orass em também . Con tra esta ora ção, os principa dos e a s potestades não
teriam qualquer poder.
92 Barth, Ephesians, II, pág. 782.

221
6:21-24
Conclusão
E para qu e saibai s tamb ém a me u respeito, e o que faço, de tudo vos in
formará Tíquico, o irmão amado, e fiel ministro do Senhor. 22Foipara is
so que eu vo-lo enviei, par a q ue saibais a nos so respeito e el e conso le os
voss os corações.
23Paz sej a com os irmãos e a mor com fé, da par te de D eus Pai e do
Sen hor Jesu s Cristo. 24A graça seja com tod os os que am am sinceramen te
a nosso Sen ho r Jesus Cristo.

Paulo chega ao fim d a ca rta que estav a ditando. Talvez, a esta altura, to -
me a pe na da m ão do escri ba, e e screva um as frase s auten ticad oras com
a sua pr óp ria letra. C ertam ente fez isso na conclusão das cartas aos Gá
lata s, 1aos Te ssalonice nses,2 aos C orín tio s3 e aos Co lossen ses.4
A quem, pois, estava ditando? Provavelmente a Tíquico, que men-
ciona
cas nãago ra afetuosame
o somente diz que nte pelo nome. Tíquico
é proveniente era”,5como
“d a Ásia um nativo da Ásia.
também Lu-
o asso-
cia com Trófi mo, a quem mais ta rde c ham a de “o efés io”.6 Por isso, t al -
vez Tíquico fosse provenient e de Éfe so, tam bém . Paulo certam ente o e n-
viou par a lá durante a sua segunda prisão em Rom a,7e lendo entr e as li-
nhas das car tas aos Efésios e aos Colossens es, parece que Paulo tom a po r
certo que seus leitores já o conhecessem.
O que fica cl aro, te nh a sido Tíquico escriba de Paulo, ou não, é que
Paulo confia a carta a el e pa ra ser e ntregue, jun tam ente com a carta aos
Colossenses.8É evidente, então, que o apóstolo tem completa confiança
no seu co lega mais jovem. C ham ao de irmão amado, como também fie l
minist ro no Senh or (v. 21). Sua co nfianç a nele é nã o som ente p ar a en tre-
gar as cartas com segur ança, como também pa ra sup lementar sua men -
sagem com algum as notícias pessoai s. Diz que o está envia ndo, para que
saibai s tam bém a meu respeito, e o que fa ço \ de tud o vos informará (v.
21). Na realidade: Foi para isso qu e eu vo-lo enviei, para qu e saibais a nosso
respeito (v. 22). Assim, Paulo reitera três vezes a sua intenção de que Tí
1 GI 6:11. 2 2 Ts 3:17 . 31Co 16:21.4 C14:18 .
5 At 20:4. 6 At 21:29 . 7 2 Tm 4:12. 8 Cl 4:78.
222
efés i os 6 :212 4

quico colo que os leitores a p ar das notícias sobre ele mesmo. Este fato ex -
plica, sem dúvida, a ausência incomum no fim da carta de mensagens e
de saudações pessoais. Tíquico as levaria verbalmente.
Há, então, o utr a razão p ar a a visita de Tíquico a Éfeso e cidades c ir
cunvizinhas. Entre garia a carta, diria aos membro s das igrejas como Paulo
estava passa ndo e, além di sso, P aulo o estaria enviando par a que ele co n
sole o s vossos cor ações (v. 22). É to can te ver o desejo do apó sto lo no sen-
tid o de fo rja r elos pessoais mais fortes entre s i me sm o e estes cristão s da
Ásia. Su a expo siçã o d a nova socie dade de Deus nã o é mera teo ria teol ó-
gica; porque ele e eles também são membros dela. Assim sendo, deviam
apr ofu nd ar a com unhão uns com os outros, ao orarem uns pelos outros
(registrou dua s das suas o rações em pro l deles, nos ca pítu lo 1 e 3, antes
de pe dir as orações dele s pa ra si nos versícul os 19 e 20), po r m eio d a su a
car ta a ele s, e através de Tíquico que nã o som ente lhes tra ria in form ações
acerca de Paulo como tam bém proc uraria encoraj álo s. A oraçã o, a cor-
respond ência, e as visitas ain da são três principa is meios pel os quais os
cristã os e as igr ejas pod em enri quece rse mu tuam ente e ass im c ontribu ir
à edificação do corpo de Cristo.
Era costume no m und o antigo que correspo ndentes t erminass em suas
cartas co m um voto — usua lm ente um voto secu lar, aind a que os deu ses
foss em invoncados — pela saúde ou felicidade do lei tor. Paulo não viu
razão pa ra ab an do nar o costume como questão de p rinc ípio . M as as sim
como cristi anizou a saudação de abertura , tam bém agora cri stia niza o de-
sejo final. Realmente, o que escr eve é metad e desejo, met ade oração. As
bênçãos que deseja p ara os leitores viriam da parte de Deus Pa i e do Se
nhor Jesus Cristo. Que bênçãos seriam estas?
O prim eiro d esejooração de Paulo é e ste: Paz seja com os irmã os,
e amor com f é (v. 23). Paz é um a palavra caracterí stica des ta carta. Na se-
ção d ou trin ária n o começo e le explicou que Jesus Cristo “é a no ssa p az ”,
já que derrubou a parede d a separação e criou uma única nova hum ani-
dade, “fazendo a paz”, e que, “vindo, evangelizou a paz”.9Em conse-
qüência , n a seção ética que se seguiu, Pau lo os exortou a “preservar a un i-
dade do E spírito no vínculo da paz”, “suportandovos uns aos outro s em
am or ” (4:23 ), e a té mesmo: “andai em amor, como também Cristo vo s
am ou ” (5:2). A paz e o am or permanecem juntos , pois a paz é a reconci-
liação e o amo r é a sua fonte e a sua e fusão. Paulo pin ta um belo q uadro
da co m unh ão d a igrej a e do lar cristão permeados com o am or e a paz,
emb ora não seja p ossível em q ualquer tempo negociar um trata do de paz
com os principados e as potestades do mal. Quando acrescenta a amor
as palavras comfé , provavelmente estivesse pen san do n a fé como u ma ca-
9 2:1417.

223
CONCLUSÃO

racterística que já possuís sem, ao invés de algu ma ou tra que deseja sse que
lhes fos se dad a. A final, “a fé, já a tinham ; a oração de Paulo foi par a que
o am or fosse vin cula do co m ela ”.10
O segund o desejooraç ão de P aulo é e ste: A graça seja com todos os
que a ma m since ramente a nosso Senho r Jesus Cr isto. Com esta expres-
são, caracterizou os seu s leitores cristãos em termos do seu am or p or Cris-
to. As palavras aqui traduzid as p or sinceramente são literalmente “sem
corrupção” ( en aphtharsia). A m aioria dos com entarist as as entende co -
mo um a qualificação do am or que as pessoa s têm p or Cristo e , assim, co-
mo um a restrição sobre a graça de De us. N este caso, a oraçã o é que a graça
de Deu s acom pan he aquel es que amam a Cristo “com am or perene” ( BJ),
ou “com am or eterno” (BLH). Outros comen taristas não entendem que
semelha nte limitaç ão seja coerent e com a con clusão de Paulo. Sugerem,

então, que ac aso,


tãos. Neste frasea seja
oraçligada à graça
ão é que todosdeque
Deus
am ao
aminvnosso
és de ao amr Jesus
Senho or dosCristo
cris-
experimentem a graça de Deus na imortalidade ou para sempre. Se isto
for correto, então “a epístola que abriu com uma olhada corajosa para
o passa do eterno encerra se com a previsão de um a esperanç a eter na .11
Das quatro palavras “paz”, “amor”, “fé”, e “graça”, que são incluí-
das na saud ação final do apóstol o, as duas que se destacam como sendo
especialmente apropriadas são “graça” e “paz”. O apóstolo começou a
carta , d esejan do aos seus leitores “graça. .. e paz da p arte de Deus nosso
Pai e do S enho r Jesus Cristo” (1:2); ago ra term ina a com um a referência
semelhante à graç a e à paz. N enh um a dup la de pa lavra s p ode ria resumir
de m odo m ais suci nto a mensagem da carta. A paz, po rtanto, no sentido
de reconcili ação com Deus e uns com os outros, é a grande realização de
Jesus Cristo; e a graça é a razão por que assim fez, e a maneira de fazê
lo. Além disso, as duas são indispensáveis a todos os membros da nova
sociedade de Deu s. Daí P aulo desejou paz aos irmãos (v. 23), qu e dev iam
se cons iderar uns aos outros com o irmã os e irmãs na família de Deus, e

graça raça,todos
fosse apara que amavam
a posição, a idade aouJesus Cristo,
o sexo. É umsem discriminação,
desejo, uma oração,seja
no qua l
sentido de os membros d a nova sociedade de Deus vi verem em har m on ia
como i rm ãos e irmãs n a família de De us, em paz e e m ha rm on ia com ele
e uns com os outros, juntam ente com o reconhecim ento de que somente
mediante a graça de Deus é que este sonho pode realizarse.
Tomo a li berd ade, po rtanto, ao term inar o nosso estudo desta carta
aos Efésios, de fazer minh as as palavras d e Paulo, e dirigilas a meus lei-
tores: “Paz seja com os irmãos e irmãs” e “a graça seja com todos”.
10 H en drik sen , pág . 396. 11 A rm itag e Ro bin so n, pá g. 138.

224