Você está na página 1de 8

ALGUNS TIPOS DE OPERAÇÕE POLICIAIS COMO MEIOS DE SEGURANÇA E

PROTEÇÃO DA ORDEM PÚBLICA


1

Introdução

As operações policiais se destacam no cenário da proteção ao indivíduo e da


sociedade, tendo em vista o uso da força pela Polícia Militar e outros órgãos de defesa social.
Podem trabalhar juntos ou ser uma referência unicamente da Polícia Militar. Destacam-se por
ser um conjunto de estratégias destinadas a levar segurança e estabilidade para a ordem
pública no cenário rural e urbano.
Em primeiro lugar, descrevemos a condução coercitiva, quando o juiz pede
auxílio à força policial para levar um indiciado, ofendido ou réu para prestar esclarecimentos
e ele não se apresenta por um motivo justo. Dentre as operações policiais igualmente
comentadas criticamente neste trabalho estão a abordagem policial, com as delicadas
interrrelações sociais dos policiais, a utilização de algemas, que ainda não foi regulamentada
na legislação brasileira, a realização de blitz e o apoio policial a reintegrações de posse,
principalmente em questões agrárias.

Desenvolvimento

As operações policiais se baseiam num conjunto de estratégias que levam à


segurança no momento em que os agentes atuam pelo bem da ordem pública. Essas
estratégias vêm assinaladas por uma série de ações estabelecidas na própria legislação com o
cuidado para que os direitos e garantias tanto do indivíduo quanto dos agentes sejam
especificamente preservados.
Um dessas ações é a condução coercitiva. Segundo o §1º do artigo 201 do Código
de Processo Penal (CPP), ela será feita sempre que o ofendido for intimado para prestar
declarações e deixar de comparecer sem motivo justo. O artigo 218 do mesmo CPP também
aplica o mesmo remédio legal. Se, regularmente intimada, a testemunha deixar de comparecer
sem motivo justificado, o juiz poderá requisitar à autoridade policial a sua apresentação ou
determinar que seja conduzida por oficial de justiça, que poderá solicitar o auxílio da força
policial.
Também o artigo 260 do CPP tem a mesma garantia. Se o acusado não atender à
intimação para o interrogatório, reconhecimento ou qualquer outro ato que, sem ele, não possa
ser realizado, a autoridade poderá mandar conduzi-lo à sua presença. No caso do perito, o
2

artigo 278 do CPP determina sua condução coercitiva caso não compareça em causa justa,
devendo a autoridade determinar sua condução (BRASIL, 1941).
Para Melo (2016), a condução coercitiva no CPP foi timidamente amparada,
porque faz menção apenas ao ofendido, testemunhas, perito e acusados. Não fala nada sobre o
indiciado. Discute-se ainda a realização desse procedimento no inquérito policial ou no
processo judicial em que o investigado ou indiciado, ou ainda o réu, são chamados e não
querem comparecer. Tem-se, por outro lado, o direito de nada dizer que autoincrimine o
indiciado. No entanto, o réu ou indiciado não pode calar-se quanto à sua qualificação.
O CPP, no âmbito da discricionariedade do agente público, afirma que se este for
notificado e não comparecer perante o delegado deve ser conduzido coercitivamente. Mas
todas essas possibilidades devem ser determinadas com a devida autorização judicial. O
delegado, caso entenda indispensável a oitiva do indiciado deve apresentar ao juiz do
processo a condução coercitiva, conforme defende a doutrina. Na fase de inquérito há,
portanto, o problema constitucional de o indiciado se manter em silêncio. Na fase judicial,
entretanto, o juiz poderá determinar a condução coercitiva do réu em juízo e este não possui
direito ao silêncio no que tange à sua qualificação. Isso não tem nada que ver com o direito de
ficar calado quanto a fatos imputados na peça acusatória. Ao mesmo tempo, acórdãos de
tribunais superiores já defendeu a constitucionalidade da condução coercitiva.
Outra atividade oficial das operações policiais é a abordagem policial, que deve
ser feita com experiência, tática, ética e legal. A abordagem é feita sempre que um policial
sob fundada suspeita de infração ou crime atenta para o comportamento de pessoas e as
aborda com esse fim. O resultado na maioria das vezes é tensão e reações do cidadão
abordado. Está baseada na busca da paz, da estabilidade e da segurança uma cidade. Depende
da capacidade de suas organizações de aplicação da lei, afastando todo o perigo que possa
afetar a ordem pública, em prejuízo à vida, à liberdade ou dos direitos de propriedade do
indivíduo.
Para se ter em mente os direitos legais da abordagem, deve-se ter em conta a paz e
a estabilidade, a liberdade de cada cidadão em respeito a liberdade dos outros. Num estado de
direito democrático, afirma Araújo (2008), tem que se debater e validar o consentimento do
cidadão a respeito da possibilidade de coerção do Estado em suas atividades para a própria
defesa da sociedade. Tem que se assegurar a capacidade do Estado de produzir obediência até
pela coação, em face dos direitos humanos e contra o desmando e a clientelização da força
pública.
3

Nesse aspecto, a abordagem policial ganha referências legais em termos de


policiamento militar nos Estados. Ela não deixa de ser uma invasão da intimidade e da
privacidade, podendo render ações constrangedoras e reações emocionais e agressivas. É
preciso, portanto, que o policial esteja preparado e equipado com conceitos de respeito à
dignidade humana das pessoas submetidas a seu poder. Não se sabe antes da abordagem se o
cidadão é mesmo cidadão respeitador das leis ou um bandido em potencial.
Esta ação se dá num complexo tecido de interações sociais, que são relações
humanas, conflitos, e até mesmo dramáticas. As pessoas surgem com expectativas diferentes,
ora como vítimas, ora como agressores, parceiros, adversários, necessitando de auxílio ou
proteção, e todos devem de alguma maneira ter os seus direitos protegidos pelos policiais
responsáveis pela abordagem.
O requisito da abordagem deve estar baseada na fundada suspeita, mas qual é essa
suspeita, ou como o policial considera como suspeito é a questão a ser solucionada pela
corporação. Os próprios policiais afirmam que bandido não tem cara, não está escrito na face,
o que só aumenta a expectativa e torna a função da abordagem um critério de se respeitar a
dignidade da pessoa humana, porém com a técnica e a experiência das ruas. Mas suspeitar é
parte do serviço policial. Assim se enquadra em duas motivações, a suspeita como parte do
serviço, da característica, mas centrado no respeito aos direitos do cidadão.
Nas operações policiais é costume, diante da periculosidade do indivíduo, a
utilização de algemas, outro ponto polêmico no Brasil. Custódio (2011) aponta que o artigo
199 da Lei de Execução Penal dispõe que o emprego de algemas deve ser disciplinado por
decreto federal. No entanto, esse decreto jamais foi estabelecido, julgado ou aprovado. O
referido artigo continua esperando sua complementação. Não faltaram projetos com esse fim e
alguns deles traziam sugestões tais como as algemas só deveriam ser empregadas durante o
deslocamento do preso quando oferecer resistência ou houvesse fundado receio de fuga.
Outras sugestões passavam pelo crivo do flagrante delito, oferecendo resistência
ou se tentasse fugir. Ou ainda durante audiência perante autoridade judiciária ou
administrativa, se houvesse fundado receio, com elementos concretos da periculosidade do
preso, de que pudesse tentar fugir, perturbar a ordem dos trabalhos ou ameaçar a integridade
física dos agentes. Havia também a ideia das circunstâncias excepcionais, quando julgado
indispensável pela autoridade competente ou quando não houvesse outros meios idôneos para
se atingirem os fins a que se destinassem as atividades.
O ajuizamento para o uso das algemas, na falta de complementação jurídica e de
projeto aprovado nesse sentido, é feito com base no artigo 284 do CPP. Nele se lê que não
4

será permitido o uso de força, salvo a indispensável no caso de resistência ou de tentativa de


fuga do preso. Esta é a regra balizadora para o uso das algemas nos dias de hoje. Igualmente o
artigo 292 do CPP autoriza uma interpretação para a utilização das algemas, quando autoriza a
utilização dos meios necessários para se defender ou vencer a resistência, lavrando-se o auto,
subscrito por duas testemunhas.
Assim, a leitura dos dois artigos do CPP autoriza o uso das algemas caso seja
necessário usar de força ou se prestarem um serviço auxiliar para se vencer a resistência aos
executores da prisão. Deve-se levar em conta que os artigos não trazem qualquer referência
expressa ao instrumento, devendo ser levada em conta apenas sua interpretação.
Em 2008, uma indicação expressa da palavra apareceu na Lei 11.689, que deu
nova redação ao artigo 474, §3º do CPP, quando avisa que não se permitirá o uso de algemas
no acusado durante sua permanência no plenário do júri, salvo se absolutamente necessário à
ordem dos trabalhos, à segurança das testemunhas e à garantia da integridade física dos
presentes. Foi quando apareceu expressamente a palavra algemas no CPP. Desse modo, o uso
de algemas no plenário do júri traria estigma ao prisioneiro, afetando a imparcialidade do
corpo de jurados em relação ao réu. No artigo 478, outra vez a palavra aparece no sentido de
que não se deve durante os debates fazer referência ao uso de algemas que beneficie ou
prejudique o acusado. O princípio que rege todo esse pensamento, enfim, se baseia na
dignidade da pessoa humana ou nos prejulgamentos de valor em relação aos presos.
Nas operações policiais tem-se o costume também de se realizarem blitze, com
todas as atenções voltadas para uma situação controlada em termos táticos e de planejamento.
A definição da blitz é que ela é uma interrupção parcial e temporária, do fluxo de pessoas ou
de veículos em vias urbanas, rurais e rodoviárias, por meio de sinalização física, visual e
sonora, para abordar veículos e seus ocupantes para checagens e vistorias em geral. Os pontos
onde elas acontecem são cuidadosamente definidos para evitar que veículos tenham qualquer
facilidade em desviar da sua realização. Assim, pontos de grande acesso ou vias de uso
obrigatório pelos motoristas são cuidadosamente observados (MINAS GERAIS, 2010).
A blitz pode ser executada apenas por policiais militares ou por equipes
compostas de integrantes de diversos órgãos, dependendo da ênfase que se queira dar às
operações. Se for para policiamento ostensivo em geral, ênfase é na identificação de pessoas
procuradas, busca de armas, drogas e veículos roubados. A blitz no trânsito urbano e
rodoviário, a ênfase se faz na verificação de documentos e condições do veículo. Se ela for
destinada a verificação de elemento do meio ambiente, a ênfase se dá na verificação de
5

documentos e condições de transporte de produtos e animais protegidos por legislação


específica.
Existe ainda o interesse no apoio a fiscalizações realizadas por outros órgãos, que
podem ser de origem municipal, estadual ou federal, como fazendárias, sanitárias, dentre
outros.
As blitze podem ocorrer em três níveis, o educativo, visando informar, orientar e
conscientizar as pessoas sobre temas de interesse público; o preventivo, visando realizar
verificações após ocupação prévia de locais onde há incidência significação ou possibilidade
de ocorrerem infrações e delitos; e o nível 3, que é o repressivo, visando restaurar a
tranquilidade pública, após constatação de atos contrários à ordem pública.
Tudo é feito com grande planejamento e a Polícia Militar insiste em informar que
o objetivo genérico das blitze é servir e proteger a sociedade, preservar a ordem pública, as
pessoas e a propriedade, garantindo a integridade de todos. Se aparecerem outros tipos de
ocorrência fora das demandas planejadas para a operação, o policial deve requerer a solução
que o caso pedir. A escolha do local a partir de dados obtidos na análise criminal e em
conformidade com as metas estabelecidas, tomando por base a segurança da via, as condições
do tráfego, visibilidade e iluminação, índices de criminalidade, tipos de veículos a serem
parados e abordados, objetivo principal a ser atingido, as possibilidades de evasão,
necessidade de apoio de outros órgãos na operação, interferência no fluxo de trânsito e a
proximidade de locais de risco.
Quanto ao apoio policial nas reintegrações de posse, principalmente no meio
rural, muito se tem feito no sentido de reprimir a atuação desmedida ou os excessos. A
intervenção da PM é o último recurso. Rates (2017) afirma que o uso da força policial deve
ser feita com proporcionalidade e uso legítimo da força. A questão agrária, por exemplo,
envolve uso da violência, que abrange uma grande repercussão, como o dos direitos humanos.
As ações policiais são determinadas pelo Poder Judiciário, em que a PM atua com
o propósito de oferecer proteção aos oficiais de justiça e aos trabalhadores contratados para a
operação de despejo, bem como aos ocupantes, visando o cumprimento de mandado judicial.
Deve-se evitar o uso desproporcional da força, a derrubada de casebres, violência física e
verbal e exige todo um aparato e planejamento para alcançar o fim a que se destina: a
proteção das pessoas, tanto as encarregadas do mandado judicial, quanto a dos ocupantes da
propriedade. Isso tudo, porque se o policial é autorizado para usar a força, ele deve seguir os
princípios de legalidade, proporcionalidade, necessidade e conveniência.
6

Conclusão

As operações policiais fazem parte das atividades da Polícia Militar, que podem
ser feitas somente por ela ou com inclusão de membros de outros órgãos do Estado. Na
primeira delas, a condução coercitiva, será feita sempre que o ofendido for chamado para
prestar declarações e não comparecer por motivo justo. O juiz poderá requisitar à autoridade
policial a apresentação do indiciado para prestar esclarecimentos, sendo levado com auxílio
da força pública.
As operações policiais se dão ainda com a abordagem policial, baseada na busca
da paz e da estabilidade da ordem pública, sendo feita a partir da suspeita genérica sem a
especificidade de o cidadão ser ou não um criminoso. O uso de algemas é outro ponto das
operações, sendo que não há ainda uma regulamentação do procedimento, baseando-se a força
policial em artigos do CPP a fim de evitar a resistência do indivíduo ou a tentativa de fuga.
Ainda se dão importância às blitze e ao apoio da PM às reintegrações de posse solicitadas por
mandado judicial, dentro do uso proporcional da força e da sua necessidade. Todos fazem
parte do serviço específico da polícia na garantia da ordem pública e proteção da sociedade.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Júlio César Rodrigues de. Abordagem policial: conduta ética e legal. 2008. TCC
(Especialização em Estudos de Criminalidade e Segurança Pública) – Faculdade de Filosofia
e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, 2008.
Disponível em:
<http://tmp.mpce.mp.br/orgaos/CAOCRIM/Publicacoes/AbordagemPolicial.pdf> Acesso em:
17/09/2018.
BRASIL. Código de Processo Penal. Decreto-Lei n. 3.689 de 3 de outubro de 1941.
Brasília: Planalto. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-
Lei/Del3689.htm> Acesso em: 17/09/2018.
CUSTÓDIO, Renata Martinez. Uso de algemas: uma análise do ordenamento jurídico
brasileiro. 2011. Monografia (Graduação em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade
Federal do Paraná, 2011. Disponível em:
<https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/31587/1484%20RENATA%20MARTIN
EZ%20CUSTODIO.pdf?sequence=1&isAllowed=y> Acesso em: 17/09/2018.
MELO, Júlio César Machado de. Condução coercitiva à luz da Constituição brasileira frente a
estratégias da política jurídica. Revista da Esmesc, v. 23, n. 29, p. 63-81, 2016. Disponível
em <http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/139-272-1-sm.pdf> Acesso em:
17/09/2018.
7

MINAS GERAIS. Polícia Militar. Blitz policial. Belo Horizonte: Academia de Polícia
Militar, 2010. Disponível em:
<http://www.aspra.org.br/old/images/aspra/arquivos/legislacao/cadernos/caderno_doutrinario
_03.pdf> Acesso em: 17/09/2018.
RATE, Talita Cutrim. Legitimidade da ação policial em reintegrações de posse. Revista
Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. ed. 4, v. 1, ano 2, p. 25-50, 2017.
Disponível em: <https://www.nucleodoconhecimento.com.br/lei/reintegracoes-de-posse>
Acesso em: 17/09/2018.