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DESAQUENDANDO O PREFÁCIO

“Queer nunca é um destino”, afirma Thiago Soares em seu texto “Há uma luz que nunca se
apaga” (2015). É uma busca, “um desvio de percurso e, ao mesmo tempo, a
querência/negação de ser o percurso”. E é também um deixar-se levar pelos encantos que
regem essa mudança de rumos e fazem dela mais sedutora do que a previsibilidade do
caminhar sempre em linha reta, sem que se permita experimentar a deriva, o inesperado,
o diferente. Ou seja: é aquilo que desarruma o que está tediosamente organizado e faz com
que a bijuteria que chama nossa atenção nas perambulações diárias brilhe mais que
qualquer ponto de chegada inicialmente proposto – até porque ela passa a ser o novo
ponto de partida. Reinventar o próprio corpo em drag é também uma forma de
experimentar essas novas rotas, saboreando em minúcias um intenso processo no qual
masculinidade e feminilidade, longe de serem categorias estanques e dadas de antemão,
são reconstruídas ao sabor dos desejos que movem esse corpo.

Um dos significados do verbo “to queer” na língua inglesa seria justamente o de “arruinar”,
no sentido que a existência “fora do armário” de indivíduos LGBTs “estragaria tudo” na
ordem social heteronormativa, justamente por destoar de um leque bastante restrito de
comportamentos permitidos nos quesitos gênero e sexualidade. Prefiro, contudo, pensar
num outro uso para a ideia de ruína – não no sentido do fracasso em se integrar à norma,
mas sim da recusa consciente desses padrões, buscando outros modos de existência que
não se limitem aos tradicionais papéis do masculino e do feminino. A partir dos vestígios,
fragmentos e escombros daquilo que talvez nunca tenha nos pertencido, podemos enfim
construir um suntuoso palácio, do jeito que quisermos.

Ao conjugar performance, gênero e possibilidades identitárias em uma reinvenção lúdica


do próprio corpo e seus alter egos, a condição drag é uma instância bastante rica para se
pensar formas de se viver sem se submeter à heteronormatividade. Ela nos permite
pensar no dissenso como potência, queerizando/reorganizando as coisas ao nosso redor,
tanto na superfície da pele maquiada e purpurinada quanto no íntimo de cada um.

É, por exemplo, fazer uso da dramaticidade e ironia do camp para denunciar o teatro das
relações sociais que vivemos no dia-a-dia. É reorientar os afetos em prol de uma
estetização extrema do mundo – que, no caso das drags, envolve lip sync, gestual,
maquiagem, entonações de voz e figurinos capazes de dar outro colorido e significado à
vida, em meio a tantos tons de cinza que tentam apagar cotidianamente os indíviduos
LGBT. O caminho sinuoso do transformismo é afetação pura, sim, mas não somente no
sentido que o senso comum costuma conferir ao termo: afetar é também fazer o outro
sentir-se tocado, para além da pele que nos reveste.

Mas, afinal, o que nos toca quando presenciamos uma performance drag? E como esse
toque pode colocar nossos corpos, ideias e sentimentos em movimento, inspirando
também, de alguma forma, nossas existências? Daí a empreitada que norteia este livro do
Lucas Bragança: contar, ou melhor, desaquendar a história drag dentro da cultura LGBT.
Lançar novas luzes a memórias, registros históricos e relatos diversos de drag queens das
mais diversas gerações, de modo que possamos olhar para o passado de modo a
compreender um pouco melhor o presente, bem como enfrentar as incertezas de um
futuro que sempre é, foi e será de muita luta para quem nunca se encaixou nas linhas retas
da heteronormatividade. E, assim, entender o desvio como um modo de existir bastante
intenso, que nos permite imaginar outros futuros, nos quais possamos existir a partir (e
não mais apesar) de nossas diferenças, de nossos desejos.

Sou de uma geração, que hoje está na casa dos 40 anos, e que conheceu o transformismo
pela televisão, ainda criança, nas apresentações de domingo à noite no Show de Calouros
do Programa Sílvio Santos. Eu mesmo ficava maravilhado vendo Eric Barreto começar sua
performance trajando um smoking e conclui-la de vestido longo, peruca e jóias
deslumbrantes, maquiando-se diante de nossos olhos sem errar a dublagem da chanson
francesa em momento algum. Também naquela época, começava a entender, nas
entrelinhas, o porquê de algumas bichas, trans e travestis, belíssimas, na flor da juventude,
desaparecerem repentinamente, no auge da fama, deixando de se apresentar no programa
de uma semana pra outra, sem maiores explicações – e assim, já aprendia,
silenciosamente, o quão complexa seria a vida LGBT que me (nos) aguardaria no mundo
dos adultos. É o mesmo tipo de entendimento que me enche de arrepios quando vejo a
foto do primeiro concurso Miss Gay Espírito Santo, de 1976, e percebo que, daquelas treze
belíssimas garotas em trajes de gala, apenas duas delas continuam neste plano da
existência, quarenta e dois anos depois – uma delas é a magnífica Waleska di Pigalle, que
chegou a inspirar uma personagem na peça A noite das longas facas (1985), de Amylton de
Almeida, um clássico do teatro queer capixaba.

Depois, ainda sem ter idade para poder frequentar “oficialmente” a boate Eros, minha
geração foi apresentada ao termo drag queen em algum momento entre a música da
RuPaul passar a tocar na programação das rádios (final de 1993) e a coluna da Erika
Palomino, na Folha de S. Paulo, nos contar os babados que rolavam na cena clubber
paulistana – fascinava-me em especial a figura luminosa de Márcia Pantera, a inventora do
bate-cabelo, ainda hoje arrasando em suas performances, como no filme Corpo Elétrico
(2017), de Marcelo Caetano, em que ressurge como matriarca das Panteras, uma espécie
de house brasileiríssima, preta, periférica, avassaladora.

Mas, com certeza, a estreia de Priscilla, a rainha do deserto, no Cine Metropolis (final de
1994), foi um marco histórico para a vida cultural LGBT capixaba: pela primeira vez,
bandos de bichas, trans, sapatões e drags, algumas montadíssimas, atravessavam a Grande
Vitória à luz do dia, para fazer de uma ida ao cinema uma verdadeira celebração de nossa
alegria de viver, renovada depois das incertezas da década anterior – e com direito a
recorrentes gritos de “O mundo é gay!”, ao final da sessão. Naquele tempo, o Centro de
Vivência da Ufes, com uma sala de cinema recém-inaugurada, era o ponto de encontro de
universitários LGBTs, reunidos ali dia e noite, ora de passagem, a caminho de casa, ora nos
intervalos das aulas, muitas vezes em grandes rodas de cadeiras plásticas, queerizando o
cotidiano universitário com um transbordamento coletivo de pinta e fechação. Aquele
verão, que seria passado em abafadas salas da aula, repondo os dias letivos parados
durante a greve de 1994, acabou sendo divertidíssimo justamente porque batíamos cartão
na porta do cinema antes e depois das sessões de Priscilla, a semana inteira, na certeza de
que encontraríamos algumxs das muitxs amigas fervidas da boate para conversar,
gargalhar e dar muita pinta. E, em alguns casos, presenciar demonstrações de alguns
truques básicos de montagem, gestual e lip sync. Muitas drags começaram ali, inspiradas
pelo filme – tal qual toda uma nova geração se iniciaria nesse ofício, na atual década,
motivada pelo sucesso de RuPaul’s Drag Race.

Lucas Bragança, ao resgatar diversos momentos da memória drag capixaba, traça um rico
panorama, sempre numa prosa precisa, saborosa e acessível ao público. O livro se inicia
com uma discussão sobre drag, gênero e performance, para em seguida apresentar
episódios históricos e personagens centrais do contexto mundial e nacional, antes de
mergulhar na história da cena local, ainda muito pouco investigada, e até então inédita em
livro. Este trabalho, portanto, vem se juntar a alguns documentários de curta e média-
metragem realizados nos últimos anos – como Rainhas da noite (2010) e O aniversário de
Chica Chiclete (2012), de Diego Herzog; Cartas para Eros (2016) e Documento Eros (2017),
de Herbert Fieni; e Montação (2016), de Wanderson Viana – constituindo assim um
precioso conjunto de obras que registram a riqueza e diversidade da cultura LGBT no
Espírito Santo. Acredito, portanto, que este livro tem tudo para se transformar em leitura
de cabeceira para quem já curte ou quer conhecer mais sobre o universo drag.
Uma série de imagens, algumas delas relatadas neste livro e outras extraídas de minhas
memórias pessoais, foram emergindo à medida que lia o texto de Lucas e ele me colocava à
deriva: Dayse Lilica, a mais bela de todas as meninas do staff da Eros, dublando à perfeição
“Sonhos de um palhaço” e “Life is a cabaret”, e remodelando toda a sensibilidade camp dos
vídeos da Vanusa no Fantástico e dos musicais com Liza Minelli; a graciosidade e o gestual
preciso de Tarsila Open, cujos shows ficavam na nossa cabeça por muitos dias e sempre
eram citados com muita admiração por todo mundo; Miss Linda, num depoimento
emocionado, gravado no Mucane (Museu Capixaba do Negro), quando comemorava 35
anos de carreira, em 2013, contando que sua performance mais emocionante foi quando
dublou “Sangrando” (de Gonzaguinha, cantada por Simone), o sangue cenográfico tingindo
o vestido de noiva no meio da apresentação e a plateia em total silêncio, hipnotizada; o
Soft Drink Bar, que funcionou durante um curto período em cima da Eros, abrindo durante
a semana e que realizava um bingo animadíssimo, no qual pela primeira vez vi várias das
drags sem montação, peruca ou maquiagem; a própria pista de dança da Eros, que durante
um bom tempo foi a única boate LGBT capixaba (especialmente no começo dos anos 90,
em que aos poucos nossa comunidade recuperava a auto-estima destruída pela crise da
Aids nos 80), reunindo tanto as clubbers de classe média alta da zona norte quanto as
drags da periferia – e nessa mistura todo mundo aprendia o pajubá com as travestis, ao
mesmo tempo em que tomávamos contato com a música techno que tocava no final da
noite, já com a casa meio vazia (depois do show de drag, claro, porque antes só rolavam os
hits de eurodance). Além de tudo, beijava-se na boca um pouco mais democraticamente,
pouco antes do carão se enraizar na identidade cultural queer capixaba.

Em meu devaneio de leitor, veio à mente até o período de um ano inteiro (entre 1998 e
1999) em que “It’s not right but it’s okay”, da Whitney Houston, reinou absoluta na pista
da Queens, tocando no auge da noite, pouco antes do show das drags comandado por Chica
Chiclete – e bastavam as primeiras batidas pra música convocar todo mundo: as bichas
largavam o copo de bebida, a fila do banheiro, ou mesmo o boy que estavam aquendando
naquele exato momento e corriam pra pista pra dar close ao som daquela verdadeira
atualização do “I will survive” para o imaginário dos anos 90. Alguns anos depois, já no Bar
da Chica, houve uma belíssima homenagem de despedida a Whitney, essa diva trágica cujo
repertório motivou gerações e mais gerações de drags a criarem números memoráveis
durante décadas.

Ressoam aqui com força especial as histórias dos anos 70, em que bastava alguma bicha ou
travesti surgir montada na passarela de um desfile de moda para que todo mundo
terminasse preso, não antes de se divertir um bocado com toda essa confusão – ou mesmo
quando se frequentava a então quase deserta região da Barra do Jucu para se curtir em
paz, longe da perseguição policial, os espetáculos apresentados na Canoa Velha,
provavelmente o primeiro reduto LGBT destas terras. Aliás, escutar os relatos das drags e
mulheres trans das gerações mais velhas, como Andressa, Ednamara, Miss Linda e
Waleska, presentes neste livro ou apresentados em eventos realizados nesses últimos
anos no Mucane, só me faz lembrar que, de certo modo, a história das drags capixabas
também está intensamente presente em alguns capítulos importantes da história da
cultura negra no Espírito Santo.

Há também momentos em que ironia e emoção andaram de mãos dadas, como quando
Ednamara, depois de um período em que esteve fora, ressurgiu no palco da Querelle,
dublando Clementina de Jesus sentada numa cadeira de rodas, o que de início encheu de
lágrimas os olhos da plateia, acreditando ser talvez a última apresentação da drag (afinal,
era a segunda metade dos anos 80, e muitas estavam morrendo tão jovens) – até que ela se
levantou subitamente e terminou o show dançando empolgada, surpreendendo todo
mundo. Ou ainda quando Tiririca, a mais superpobrinha das bichas que faziam show na
Eros, performou igual robô, coberta de papel-alumínio da cabeça aos pés, já no final dos
anos 90, em pleno reinado do bate-cabelo. Ela era sempre gongadíssima quando seu show
era anunciado – mas as mesmas drags que jogavam o shade também faziam vaquinhas
para comprar remédios, mantimentos e colchões para ajudar a amiga em constante
precariedade financeira. Sem contar que Milton Neves, um dos proprietários da Eros na
primeira metade dos anos 90, tinha marcado a infância de diversos capixabas na década
anterior, com a personagem Vovó Bina, provavelmente a primeira (inocente) referência de
crossdressing na vida de muitos de nós.

(Neste momento, interrompo minha digressão e invento de ir ao Google pesquisar quanto


equivalia em dólares, o preço do ingresso da inauguração da Querelle, em março de 1988: em
torno de seis dólares, um valor bem próximo ao que paga-se hoje para ir às casas noturnas
da moda, como Fluente e Bolt. Mas aí também percebo que esse valor correspondia a dez por
cento do salário mínimo na Era Sarney/Collor, o que inclusive me faz entender e ser bastante
solidário às gays e travestis sem dinheiro, que pegavam água da torneira do banheiro das
boates para colocarem no copo e fingirem que tinham algum drink em mãos, como reconta
Jussara em uma das passagens deste volume.)

Este é um livro pra nos fazer mergulhar em tantas histórias e assim nos maravilharmos
com a exuberância drag. Da entrega dos troféus do Prêmio Chaplin (que homenageava os
destaques anuais da cena LGBT local), um quarto de século atrás, na Boate Eros, às
novinhas que incluem passos de vogue, como catwalks e duckwalks em suas
performances, sem deixar de passar pelo último hit de Pabllo Vittar, podemos ter a certeza
de que nunca se vai “longe demais”, porque, neste caso, quem vai leva junto toda uma
comunidade – e o que antes parecia ser “longe” acaba se tornando o novo “aqui e agora”. E,
nesse percurso, quem irá interromper esse fogo no rabo que move uma drag?

Penso nos garotos de vinte e poucos anos que, uns dois anos atrás, chegavam no final da
tarde de sexta-feira ao banheiro masculino do Bob (edifício do Centro de Artes da Ufes,
onde ficam os laboratórios de diversos cursos), trazendo sacolas e mochilas contendo cola
em bastão, maquiagem, purpurina, perucas, meias-calças e sapatos de salto alto. Em
seguida, debruçavam-se pacientemente diante do espelho, e entretiam-se nas minúcias da
montação, numa inesperada harmonia com o fluxo usual de estudantes de cinema e
música que por ali passavam. E assim, enquanto os rostos se reinventavam pela
maquiagem, num ritual ora silencioso, ora ruidoso, o tempo passava em pura leveza, até
quase a hora do prédio fechar, quando finalmente as drags da new generation estavam
prontas para dar uma volta pelos bares da Rua da Lama, a poucos metros dali. É quando a
noite finalmente começa: hora de dar pinta por aí. Por fim, vem-me à cabeça um
(proto)meme de mais de vinte anos atrás, que a gente repetia muito na fila para entrar na
boate – protagonizado pela jornalista Cristina Franco (quem já passou dos quarenta
lembra dela!), que mantinha, nos anos 80 e 90, uma coluna de moda e estilo no Jornal Hoje,
exibida sempre aos sábados. Com aquele tom blasé de quem comenta as últimas
tendências da temporada de desfiles em Paris, reza a lenda que Cristina certa vez fez a
seguinte transição entre dois assuntos de sua coluna: “O mundo amanheceu menos chique
hoje: (pausa) Morreu Jacqueline Kennedy Onassis. (pausa) E drag queen (pausa) é um
luuuuuuuuuuuuxo!”

Erly Vieira Jr

Professor do Departamento de Comunicação Social da Ufes, doutor em Comunicação e


Cultura pela UFRJ, cineasta e pesquisador audiovisual.