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Gladys e Ventuil – O 1º Reinado e Revisão

Após a Revolução do Porto e o Constitucionalismo, surge uma idéia de


autonomia como liberdade, direito a vida e a propriedade. Conceitos jusnaturalistas
presentes em Locke, Hobbes, entre outros presentes na Constituição.

A historiografia, para os autores, tem abordado o Primeiro Reinado como


período tampão ou de transição entre a proclamação da independência e a verdadeira
libertação nacional, que seria o sete de abril de 1831 (consolidação da autonomia e
derrota de D. Pedro I pelos próprios liberais).

É costume também que os fatos políticos sejam apresentados com fraca conexão
entre si, enfileirados. Gladys e Ventuil falam de uma visão de causa e efeito e como
conseqüência disso, o sentimento antilusitano é visto como deflagrador do 7 de abril e
se naturaliza como se fosse partilhado por toda a sociedade. Esse é o contexto onde os
autores apontam a intensificação da atuação dos grupos políticos, relacionando a fatos
como a morte de Libero Badaró, em SP.

Sugerem a ampliação da idéia de uma crise limitada a fatos pontuais,


circunscrita em um tempo coeso. Ressalta que é nessa época que se dá a criação de
mecanismos legais do Estado (Constituição de 1824, lei dos juízes de Paz, Supremo
Tribunal, Código Criminal). Para os autores, esse é um período de construção de visões
acerca do Estado, do cidadão, de seus direitos. Construção das noções de liberdade civil
e política.

Faz um entrelaçamento entre a política em geral e o cotidiano. O povo é visto


como ator político, fundamental na trama do Primeiro Reinado, através de revoltas,
burburinhos, petições, queixas, etc.

Propõe que seja revisto o que foi o Primeiro Reinado brasileiro para que
se ultrapasse a datação tradicional: iniciado em 1820, extravasaria o marco temporal de
1831 e chegaria até 1837, quando o regresso assinala outro momento político, vindo
posteriormente a maioridade, momento importante para o destino do Segundo Reinado.
Os autores propõe, assim, que analise-se esses períodos à luz da problemática daqueles
anos e não de forma cronológica:
1- Ampliar marcos cronológicos de forma que perceba-se fatos mais
abrangentes do Primeiro Reinado, compreendendo a construção do Estado,
da constituição da nação, de uma identidade nacional, dos direitos comuns a
todos.
2- Sair da leitura feita pelo alto, que privilegia fatos políticos como o grito do
Ipiranga, Confederação do Equador, etc.

Os autores acreditam que teria havido 3 ondas políticas no Primeiro Reinado,


envolvendo intensos debates e conflitos de rua. A primeira teria começado a
crescer com a vitória do constitucionalismo e durado até 1824, com a outorga da
Constituição, perdendo-se nos acontecimentos diários, na celebração do Tratado
de Paz e Amizade, que reconheceu a emancipação do Brasil.

A segunda, ganha força em 1826 com a reabertura do Parlamento e com os ares


proporcionados pela discussão da lei de liberdade de imprensa. Destaca nesse
momento: a reforma da Justiça, o ódio estrangeiro tendo como pano de fundo a
edição de jornais de movimentação popular em busca de direitos.

1831 marca o fim do movimento de 1826 e o inicio da terceira onde que se


formou na Corte do RJ. Foi o auge dos movimentos de rua, das discussões sobre
o Código e a reforma da Constituição. Atrelam grande poder ao “povo” e seus
movimentos.

Afirma que as autoridades era pressionadas pela população, citando setembro de


1821, onde houve grande proliferação de panfletos com idéias sobre autonomia e
liberdade, entre outros fatos.

Aos escravos, não cabia a condição de cidadão. Era visto como uma propriedade
especial, já que havia a proibição de ferir e matar. O Correio do Rio de Janeiro,
ao mesmo tempo que não atribui aos negros o direito de cidadania, os
considerava brasileiros. Em 10 de abril de 1822 o Reverbero Constitucional
Fluminense fala de batalhões de pardos no RJ, em defesa da liberdade após a
independência.

Gladys e Vantuil acreditam que esses homens pensavam mais na liberdade para
si e não no desejo de se separar da metrópole. Esses escravos se alistavam aos
exércitos, as fugas aumentaram e muitos viram na construção de fortes uma
possibilidade de fuga, liberdade e de se aquilombar. Atrela isso a quilombos
perigosos na área, como o Quilombo do Rio Iguaçu, onde havia grande
circulação de idéia graças ao contato dos mocambos com os taberneiros.

Após a emancipação, houveram desafios. Ressalta o debate político, entre maio


e novembro de 1823, ao longo da realização da Assembléia Constituinte.
Pensavam em uma forma limitada de direitos políticos, já que esses não eram
válidos para qualquer individuo.

Outra discussão acalorada foi a que estabeleceu os juízes de paz. Esses tinham
poderes para mandar prender, ordenar diligências, comandar mandados de busca
e apreensão, ou seja, podiam incidir diretamente sobre os direitos dos cidadãos.

Entre 1828 e 1829, os autores falam de um clima de indefinição. Entre 1827 e


28, das 18 provincias, 11 tiveram seus presidentes trocados. Outro fator instável
foi a constante troca de ministros, onde em média se alterava 1 ministro por ano.

Após 1830, a ordem se quebra novamente com a chegada dos emigrados


portugueses que lutara a favor de Dona Maria da Gloria. Travaram-se acalorados
debates sobre a concessão de dinheiro público a esses estrangeiros. Esses não
contavam com a simpatia da população, sobretudo quando se soube que esses
foram empregados no serviço pessoal do Imperador.

No inicio de 1831 já destaca que as ruas passarão a dar a tônica dos


acontecimentos. Esse último movimento seria redefinido e 1837 com a política
do regresso. Conclui dizendo que a “sociedade civil” e os populares
amadureceram no processo político, fazendo leitura própria dos acontecimentos
e intervindo no jogo político, fazendo com o Primeiro Reinado fosse mais que
um momento transitório, trazendo um momento em que a liberdade (mais que o
liberalismo) se tornou palavra de ordem.