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O POVO CEGO E AS FARSAS DO PODER u m a p a í s

O POVO CEGO

E AS FARSAS DO PODER

O POVO CEGO E AS FARSAS DO PODER u m a p a í s a

u m a p a í s

a v e n t u r a d o

r e a l

n o

f a z - d e - c o n t a

í s a v e n t u r a d o r e a l

A visão e a história de uma vítima de sucessivas tentativas de homicídio empreendidas pelo serviço secreto brasileiro

S

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P s i q

u i a t r

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P o l í

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H

o m o f o b i a

M a t e m á t i c a

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r o s t i t u i ç ã o

C o n s p i r a ç õ e s

P e d o f i l i a

i ç ã o C o n s p i r a ç õ e s

eric campos bastos guedes

r a ç õ e s P e d o f i l i a eric

“A culpa é do hipócrita, mentiroso e esperto ao contrário, que atira a pedra e esconde a mão.” Estamira

PREFÁCIO

Este não é um livro de ficção, lamentavelmente. Desde o início de 2007 1 venho sofrendo perseguições de caráter político e diversas ameaças. Tive meu nome difamado, sofri drogadições involuntárias e tentativas de homicídio. Sabemos que tais coisas ocorreram no passado e que talvez ocorram em algumas partes do mundo hoje. Porém sempre pensamos nisto como algo um tanto distante de nossa realidade. Até acontecer conosco. A maioria dos países tem um serviço secreto. Que propósitos tem tal atividade? Eles alegam proteger a soberania nacional e a democracia, entre outras coisas. No entanto é difícil imaginar que um governo tão corrupto esteja, ao mesmo tempo, tão preocupado em manter a democracia. A soberania nacional, por sua vez, continua sendo uma abstração sem base concreta. Basta citar o caso do nióbio – mineral absolutamente necessário para a indústria mundial. Somos o único país do mundo com quantidade significativa de nióbio e estamos vendendo este mineral a preços risíveis. O silêncio a esse respeito é total. A grande mídia distrai a população com questões que nos chocam. Somos submetidos a sucessivos sequestros emocionais e levados, assim, a ignorar os problemas reais – aqueles cujas soluções nos trariam mais qualidade de vida, prosperidade e paz. A mídia atribui a causa de nossos problemas ao chapéu que temos sobre cabeça e não aos pensamentos que nutrimos dentro dela. Então, compramos um chapéu novo e mais caro – e continuamos com nossos problemas. O presente texto convida a uma reflexão sobre a justiça e o poder no Brasil contemporâneo e no mundo. A sucessão dos acontecimentos por vir darão a tônica de nossas conclusões: um sopro de esperança no futuro ou a trágica constatação de uma realidade abjeta e inexorável. Os nomes das pessoas e instituições envolvidas foram trocados para evitar uma eventual proibição do comércio da presente obra, como já aconteceu com outro livro semelhante, a saber, “O Canto dos Malditos” de Austregésilo Carrano Bueno.

Eric Campos Bastos Guedes fator-n@hotmail.com / mathfire@gmail.com

1 Na verdade, pude verificar que um primeiro indício significativo de que estava sendo vítima de algum tipo de conspiração ou complô surgiu em 2006, talvez antes que eu tivesse sido premiado na Olimpíada Iberoamericana de Matemática Universitária. Este indício consiste na alteração do texto de um meu outro livro – Fórmulas para Números Primos – alteração esta feita, presumivelmente, via Internet por algum hacker. Após 10 anos acessando a Internet sem nunca ter tido esse tipo de problema, essa foi a primeira vez em que percebi, de modo relativamente claro, que dados contidos no HD de meu computador foram acessados e alterados. Tal alteração foi bastante sutil para não ser percebida imediatamente, mas nociva o bastante para fazer com que a proposta de publicação de meu livro pela Sociedade Brasileira de Matemática fosse recusada. Sem ter conhecimento da alteração do texto, acabei por publicá-lo eu mesmo em formato digital ao disponibiliza-lo no site www.docstoc.com .

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido considerado excelente. Às vésperas de uma eleição, Lula está a ponto de conseguir eleger sua candidata, a ex-ministra Dilma Housseff. Perguntando a pessoas do povo, vê-se logo que Lula é muito bem quisto pela população. Não é para menos! Hoje temos mais empregos que na época de Fernando Henrique Cardoso, os salários subiram e o salário mínimo, em particular, subiu bastante. O grande problema é o que tem sido feito por debaixo dos panos, sem alarde, sem divulgação. Venho denunciando o governo Lula por permitir que cidadãos brasileiros sejam mortos pela ABIN – Agência Brasileira de Inteligência. A ABIN é o serviço secreto brasileiro, o equivalente ao Serviço Nacional de Informações (SNI) da época da ditadura militar. Muitas pessoas que trabalharam para o antigo e opressor SNI, trabalham hoje para a ABIN. Inclusive gente envolvida com torturas, homicídios e coisas do gênero. Um grande indício de que o presidente Lula sabe que cidadãos brasileiros estão sendo mortos pela ABIN é o fato de que uma das funções da ABIN é justamente prover o poder executivo de informações. Isto significa que Lula tem todo o direito de saber o que a ABIN está fazendo. E se ele não sabe é porque não quer nem saber, isto é, não está nem aí. Apesar de tudo, tenho que reconhecer que, talvez, Lula seja refém da ABIN. Foi a ABIN a responsável pela criptografia do telefone presidencial. Essa criptografia protegeria, em tese, as ligações de Lula e de seus familiares de coisas como grampos telefônicos. No entanto, é lógico que se alguém faz a segurança das informações de outrem, poderá, se quiser, ter acesso a tais informações. Por exemplo, o sistema criptográfico dos telefones presidenciais pode ter uma falha que só a ABIN conhece, e a ABIN poderia se valer, hipoteticamente, de uma tal falha para ter acesso às ligações do presidente. Não somos governados por quem pensamos que nos governa. Gostaria de acrescentar que essa segunda edição tem várias melhorias em relação à primeira. Foram acrescentadas passagens antes omitidas, detalhes significativos e a perseguição que sofri após a primeira edição. Também corrigi alguns erros que haviam na edição precedente. Entretanto, esse texto ainda não está tão bom como gostaria que estivesse. O motivo é que tive de apressar o trabalho para que fosse publicado antes do segundo turno da eleição presidencial. Penso que a eleição pode mudar dramaticamente a minha sorte – para pior. Talvez meus inimigos se sintam muito mais a vontade para tentar me matar agora, já que Lula vai deixar a presidência da república. E se a denúncia que lanço neste trabalho ficar erroneamente desvinculada da imagem de Dilma Rousseff, candidata de Lula, o povo pode se enganar ao pensar que ela não tem nada a ver com os assassinos de estado pagos a peso de ouro pelo governo federal e que trabalham para a ABIN.

Eric Campos Bastos Guedes Escrito em Araruama, em 5 de setembro de 2010. Modificado em Araruama, em 30 de outubro de 2010.

Parte I

(Introito – Ilustrando o problema com textos relacionados)

http://www.obm.org.br/univ/oimu.htm

Olimpíada Iberoamericana de Matemática Universitária

O participante não deve possuir título Universitário a nível de graduação ou equivalente e deve estar matriculado em uma Universidade como estudante de graduação.

IX OIMU (2006) Nome

Prêmio

Cidade-Estado

Rafael Daigo Hirama

Ouro

S.J. dos Campos – SP

(1º)

Rafael Marini Silva

Prata

S.J. dos Campos – SP

(2º)

Thomás Yoiti Sasaki Hoshina

Bronze

Rio de Janeiro – RJ

(3º)

Felipe Rodrigues Nogueira de Souza

Menção

Campinas – SP

(4º)

Luty Rodrigues Ribeiro

Menção

Fortaleza – CE

(5º)

Luiz Felipe Marini Silva

Menção

S.J. dos Campos – SP

(6º)

Eric Campos Bastos Guedes

Menção

Rio de Janeiro – RJ

(7º)

Rafael Constant da Costa

Menção

Rio de Janeiro – RJ

(8º)

Ilustríssimo Dr. Delegado do 77° DP Icaraí

Eric Campos Bastos Guedes, filho de Winter Bastos Guedes (pai) e Vanda Campos Guedes (mãe), portador da CI nºXXXXXXXX-X, CPF nºYYYYYYYYY-YY, domiciliado à Rua Domingues de Sá, n°422 em Icaraí, Niterói, RJ, vem por meio desta requerer registro de ocorrência e apuração pelo seguinte: ameaça de morte, calúnia e difamação (texto abaixo, postado na página de recados da vítima, no Orkut):

“Seu arrombado do caralho Ao invés de ficar entrando em uma comunidade séria de policiais pra ficar fazendo chacota de nossas caras,porque não vai procurar um trabalho,ou algo do tipo? Filho da puta do caralho,cú de burro desgraçado! Bastardo maldito,no mínimo deve ser algum filho de alguma cadela desgraçada na vida que fica passabdo trotes para as autoridades

E digo mais,se ficar de graça com a gente,é 2 palitos eu falo com uns brothers ae no Rio e consigo seu endereço e passo você pros irmãos ae malucão,nem vem tirar que aqui é policía no baguio,se

liga ae comediagem

pra

desenrolar este barato é 2 palitos,tá avisado. ”

Nestes termos Pede deferimento

Niterói, 7 de novembro de 2008

Tópico de Discussão na comunidade “Denúncias, Dúvidas, Direito” no Orkut

Infecção Criminosa em Clínica Psiquiátrica Início > Comunidades > Governo e Política > DENÚNCIAS, DÚVIDAS, DIREITO. > Fórum: >

Mensagens mostrando 1-2 de 2

2 nov (5 dias atrás)

Eric Campos Infecção Criminosa em Clínica Psiquiátrica

Fui internado numa clínica psiquiátrica por motivos políticos. Não havia indicação real para uma internação, visto que eu estava calmo, lúcido e produtivo. No final da internação, como eles não tinham como me manter mais tempo preso, deram uma agulhada no meu pé esquerdo. Quando olhei para meu pé havia, no local da agulhada, uma gota de um líquido vermelho escuro. Não acreditei no que eu estava vendo e não reclamei na hora porque eu estava drogado com altas doses de antipsicóticos e tranquilizantes. Passei o dedo por cima do ponto vermelho em meu pé. Era sangue. Desconfio que me infectaram criminosamente (talvez HIV), já que estou sendo perseguido desde 2006 por motivos políticos, principalmente depois que obtive a sétima colocação no Brasil na Olimpíada Iberoamericana de Matemática Universitária (em 2006) sem estudar. Gostaria, em caso de confirmada a infecção, processar o hospital. Não há, no momento, nenhum teste que confirme qualquer infecção, mas preciso postar isto aqui para que fique o crime bem caracterizado. Como devo proceder?

[ eric campos bastos guedes ]

2 nov (5 dias atrás) Dra. Nancy

Boa Tarde Érico, lamento pelo que voce passou, mas uma coisa é certa, o bem sempre vence o mal! Como não há nenhuma indicação de infeccção ou manifestação criminosa, no meu entender, para deixar registrada tal situação para uma confirmação ou não de um crime, se dirija a um Distrito Policial para lavrar um Boletim de Ocorrência de Preservação de Direitos, também pode se dirigir diretamente ao Ministério Público e deixar sua denúncia lá, espero que não esteja contaminado, é o que te desejo de melhor, mas, se algo surgir após um tempo, voce já deixou registrado em dois órgãos que poderão investigar o ocorrido. Boa sorte!

Parte II

(Vida Pregressa – Uma Pequena Autobiografia)

A Matemática como princípio do pensamento lógico-racional

Gosto de Matemática desde os 7 ou 8 anos de idade 2 . Naquela época abria a Enciclopédia Novo Conhecer, ricamente ilustrada, para me divertir tentando determinar a velocidade de translação da Terra. Não encontrando essa velocidade explicitada na enciclopédia, imaginei que pudesse calculá-la. Primeiro supus que a Terra se movia em uma trajetória circular em torno do Sol, o que não está lá muito distante da realidade. Depois supus, corretamente, que o número pelo qual eu deveria multiplicar a distância da Terra ao Sol para ter o “comprimento da trajetória” da Terra em torno do Sol era o mesmo número pelo qual eu deveria multiplicar o raio de qualquer círculo para obter o comprimento da circunferência. Partindo desses pressupostos, apossei-me de um transferidor de formato circular e medi – com grau suficiente de precisão – o valor de tal número, que estimei como sendo aproximadamente 6. Fiz isso sem saber nada a respeito da célebre constante matemática (lê-se “pi”), que expressa a razão entre o comprimento da circunferência e seu diâmetro.

***

Um pouco sobre minha mãe

Eu perguntava pelas coisas que queria conhecer e geralmente elas tinham um caráter numérico. Perguntei certa vez sobre o significado dos números que apareciam numa bússola: “Você vai gastar o fosfato de seu cérebro”, respondeu minha mãe. Interessante notar que ela era professora – e uma ótima professora, conforme sempre tenho ouvido falar dela. Já imaginaram ela numa sala de aula dizendo isso para seus alunos? “Assim

vocês vão gastar o fosfato de seus cérebros”. Não é difícil imaginar porque o quociente de inteligência do povo brasileiro – em torno de 89 pontos – está próximo da imbecilidade. A boa professora dá sinais de caridade no trato com seus alunos na escola onde trabalha, mas tolhe a inteligência do próprio filho. É como se ela ensinasse os desfavorecidos para ostentar compaixão e dificultasse a vida dos mais promissores para mostrar que é melhor que eles. Há quem seja acusado por favorecer familiares, mas sabotar a inteligência do próprio filho é obra do diabo. Minha mãe sempre buscou manter uma imagem de santidade e correção perante todos. O objetivo dessa sua busca é o de criar uma fachada moralmente inatacável a fim de encobrir seus atos perversos. Ora, Vanda sabia que seu empenho em ensinar estudantes desfavorecidos seria tido como uma atitude de caridade. Por outro lado, ensinar ao próprio filho poderia ser visto como um tipo perigoso de egoísmo. Por outro lado, por que um mestre se preocuparia em educar alguém inteligente

e

interessado que pudesse vir a superá-lo? O único motivo que vejo para isso é imaginar

o

mestre que ele toma parte, de algum modo delirante, no sucesso intelectual de seus

alunos. Fora isso, ninguém gosta da ideia de ser intelectualmente inferior a outrem. Se não nos imaginamos tomando parte do sucesso de nosso próximo, não apreciaremos este sucesso.

***

Sobre os dois tipos de egoísmo e sobre o perdão

2 Ao examinar criteriosamente minha cronologia, verifiquei que é muito mais provável que meu gosto pela Matemática tenha começado a se estabelecer aos 9 ou 10 anos. Nessa idade tinha muito mais interesse por calculadoras que as demais crianças de minha faixa etária. Eu me interessava por questões como: “Quantos segundos há em um ano?” Então, fazia algumas contas para chegar ao resultado (cerca de trinta e um milhões).

Todos somos egoístas por natureza – o grande problema não é ser ou não ser, mas sim ser ou não ser patologicamente egoísta. A diferença entre o egoísmo patológico e o sadio é que o patológico quer ter sucesso às custas do fracasso dos demais, enquanto o sadio procura ter sucesso tomando parte no sucesso dos outros. Uma pessoa estará sendo patologicamente egoísta se se incomodar com o êxito de quem ela julga não merecê -lo; estará sendo saudavelmente egoísta se admirar o êxito de outrem, porque se sente engrandecida com o sucesso alheio, por estar tomando parte, emocionalmente, neste sucesso. Ninguém é saudavelmente egoísta o tempo todo, nem patologicamente egoísta por toda a vida. Normalmente nos sentimos bem com o sucesso das pessoas que gostamos, mas nos incomodamos com o de quem detestamos. Quem, por mais delirante que isto possa parecer, julga-se irremediavelmente superior a todos, tem a chance de mostrar sua superioridade ao distribuir seu conhecimento a quem lhe pedir. A sabedoria é uma das coisas que quanto mais distribuímos, mais passamos a ter. Um dos modos de dominar um assunto com excelência é ensinar esse assunto. O ato de expor um tema a outras pessoas é um fator importante para a fixação do conhecimento na mente do professor. Uma pessoa saudavelmente egoísta fica feliz em ensinar, porque isto confirma, emocionalmente, que ela sabe mais; uma pessoa patologicamente egoísta fica desconfortável quando ensina, porque ao repassar o conhecimento que possui, julga que seu aluno está mais próximo de saber tanto quanto o professor. O foco do egoísta patológico está no fracasso dos demais, sua intenção é destruir quem está acima e aumentar a vantagem que tem sobre quem está abaixo; o foco do egoísta saudável está no próprio êxito, sua intenção é ter mais sucesso hoje do que ontem, mais amanhã do que hoje. Para fazer isso sua estratégia consiste em cooperar para o êxito dos demais, partindo do pressuposto que toma ele próprio parte nesse êxito. Nutrir ódio, raiva ou antipatia pelas pessoas favorece o egoísmo patológico; já a ausência de ódio, de raiva e a simpatia pelos demais favorece o egoísmo saudável. Perdoar as pessoas e amá-las em espírito e em verdade é o que temos de fazer para não sermos pegos na armadilha do egoísmo patológico. Uma estratégia para fazer isso consiste em compreender as dificuldades alheias. De fato, se entendemos o porque de termos sido vítimas de maldades, passamos a perdoar nossos agressores. Se não há compreensão, dificilmente haverá perdão. É por isso que a traição de um amigo é muito mais difícil de perdoar que as agressões de um inimigo. A traição é uma surpresa desagradável, inesperada. Se temos um bom amigo a muitos anos, acabamos por justificar internamente nossa amizade. Passamos a responder subconscientemente a perguntas como: “porque somos amigos?”; “porque fulano é meu amigo?”; “porque eu sou amigo de fulano?”. Encontramos intimamente variadas respostas para essas questões, de modo a fortalecer nossa amizade. Quando ocorre uma traição não estamos preparados para ela. Não encontramos boas respostas para a pergunta “porque não somos mais amigos?”; “porque fulano me traiu?”, pois nossa fé na amizade nos levava a acreditar que esse tipo de coisa jamais aconteceria. Então, por não compreendermos a traição de nossos amigos, será muito mais difícil perdoá-los. Quando a agressão vem de um inimigo ela já é esperada e, portanto, muito fácil de a entendermos. Talvez por isso se diga que o ódio e o amor estão muito próximos. Se amamos alguém que nos decepciona, passamos a odiar essa pessoa, pois deixamos de ter prazer na amizade com ela; se perdoamos alguém que odiamos, deixamos de sofrer com o ódio que se foi e o sentimento de alívio pelo fim de um sofrimento nos torna aptos a sentir amor por aquela pessoa. O amor e o ódio são vizinhos muito próximos, mas totalmente antagônicos. O primeiro nos trás a vida e o segundo quer nos impor a morte. Se queremos ter sucesso será muito mais fácil obtê-lo pelo caminho do egoísmo

saudável do que pelo do egoísmo patológico. E se queremos ser saudavelmente egoístas o primeiro passo é perdoar nossos inimigos. Ora, para perdoarmos quem nos fez sofrer é necessário que compreendamos o porque do outro. Conhecer as motivações e dificuldades de nossos inimigos é um passo importante para conseguirmos perdoá -los. Então, pessoas mais sábias conseguem perdoar mais. Uma pessoa mais inteligente perdoa mais do que a menos inteligente; pessoas que conhecem mais sobre o mundo, sobre como funciona a sociedade realmente e, em particular, pessoas que conhecem mais sobre psicologia são mais eficientes em se tratando de perdoar as outras. Portanto, se queremos perdoar mais, um caminho é nos tornarmos mais sábios, seja pela aquisição de conhecimento, seja pelo aumento de nossa inteligência. O conhecimento precípuo a que devemos buscar para conseguirmos perdoar nossos inimigos é o da psicologia. Se somos bons psicólogos conseguimos entender melhor as dificuldades e motivações das pessoas que nos cercam, e essa compreensão poderá conduzir ao perdão. O segundo tipo de conhecimento que devemos buscar para alcançar o perdão é o que diz respeito à como as pessoas se relacionam entre si de modo organizado, em instituições e empresas. Conhecer a realidade, o mundo como ele é, nos leva a esse conhecimento. O estudo da filosofia pode ser um meio de se chegar a esse conhecimento. Um dos melhores meios de aprender filosofia é a pesquisa na Internet, pois ela é acessível à maioria da população, tem baixo custo e contém uma parcela imensa de todo o conhecimento de nossa civilização. Na Internet os canais que nos levam melhor a aquisição de saberes são a pesquisa de textos prontos no buscador Google e na Wikipédia; a pesquisa de vídeos – principalmente documentários – no YouTube e no Google Vídeo; a pesquisa do que eu chamo de verdade em estado bruto em comunidades do Orkut. A pesquisa no Orkut pode revelar muitas coisas que não estão claras nem nos textos prontos nem nos vídeos 3 . É um tipo de pesquisa que tem sido subvalorizado, mas é um meio novo – e ainda muito mal compreendido – de chegarmos a um conhecimento de excelente qualidade com muito pouco esforço, pois acabamos nos divertindo ao adquirirmos e repassarmos informações em comunidades de sites de relacionamento. O que leva a pesquisa em comunidades de sites de relacionamento ser altamente proveitosa é o fato bem conhecido de que falamos muitas coisas nesses sites que não diríamos face a face ou pelo telefone. Acabamos sendo mais sinceros no Orkut do que no trabalho, na igreja ou no seio familiar. O maior problema de aprender pelo Orkut é separar quem está sendo sincero de quem está jogando, ou trabalhando em silêncio para sustentar falsas crenças, mitos que dificultam a vida das pessoas por serem amplamente aceitos, embora falsos. Me parece que muitas pessoas tem criado e sustentado grandes comunidades com a finalidade de fazer esse tipo de jogo, perpetuando, assim, mitos malsãos que sangram a humanidade. Mas mesmo que alcancemos grande sabedoria ela pode, ainda assim, não ser suficiente para conseguirmos perdoar nossos inimigos. O problema é mais ter o saber correto do que ter muito saber. Podemos ser muito inteligentes e termos muito conhecimento. Entretanto, nunca chegaremos a ser oniscientes, sempre nos faltará saber algo. E pode ser que o pequeno detalhe que nos falta saber seja crucial para conseguirmos perdoar um inimigo específico. Talvez por isso Deus seja amor: ele perdoa sempre pois conhecendo tudo, sabe também de nossas motivações e dificuldades.

3 A pesquisa em comunidades do Orkut relacionadas com os temas que queremos conhecer conduz, não raro, à elucidação de questões cujas respostas nos são negadas pelos veículos socialmente autorizados que deveriam responder a contento as mesmas questões – mas não o fazem. E não o fazem porque o papel de muitas instituições bem estabelecidas e bem conceituadas está fortemente ligado à manutenção da ignorância do povo. Isso é muito comum em medicina, por exemplo. O detentor do saber médico – e do diploma – costuma se valer da ignorância do paciente sobre o tema para receitar remédios desnecessários que talvez tornem seu paciente realmente doente. E uma vez estabelecida a patologia, o adoentado deverá retornar muitas outras vezes ao consultório de seu médico.

Se não obtivermos sucesso em conseguir perdoar um inimigo pela aquisição de conhecimento e aumento da inteligência, há, ainda, um outro bom meio de chegarmos ao perdão: nos sentindo bem. Se estamos nos sentindo bem, acabamos esquecendo a ira e o ódio contra nossos agressores e nos concentramos em continuar a nos sentir bem. O melhor meio que eu conheço para me sentir bem é criar um círculo virtuoso em torno de meu autodesenvolvimento. Se funciona para mim, pode funcionar para outras pessoas também. Criamos um círculo virtuoso quando nos empenhamos com alegria e motivação em alcançar êxitos que valorizamos. No meu caso costumo buscar êxito em atividades como estudar livros de matemática ou física e escrever livros que julgo serem importantes. Jogos também me deixam motivado, particularmente o xadrez. Outra atividade que me deixa animado é participar de uma certa lista de discussão de Matemática de alto nível onde existe o desafio de resolver interessantes problemas de matemática. É claro que essas atividades são coisas que me motivam, que me animam, mas são as minhas atividades motivadoras. Cada pessoa deve ter seu próprio grupo de atividades motivadoras. Elas podem ter cunho intelectual ou físico. Tenho um grande amigo que se tornou um excelente corredor. A corrida passou a ocupar um lugar importante em sua vida. Ele participa de maratonas, meias-maratonas e passa bastante tempo treinando. Sente-se muito bem ao constatar seus próprios progressos. A corrida o tornou alguém mais feliz, mais realizado. A prática do esporte costuma nos tornar pessoas melhores. O que quero frisar é que você deve procurar ter suas próprias atividades motivadoras. O que me faz sentir bem pode fazer você se sentir muito mal e vice-versa. Suas atividades motivadoras devem lhe dar prazer, ainda que esse prazer seja precedido por um esforço persistente em sentir-se motivado por elas. Uma regra geral é que a atividade motivadora deve ser lícita, honesta e estar dentro da lei, pois caso contrário levará o praticante à ruína decorrente da punição imposta pela sociedade. Outra regra é ter uma atividade por vez – de fato, fazer várias coisas ao mesmo tempo ou ter muitos objetivos diferentes e simultâneos é garantia de fracasso na tentativa de estabelecer ou manter atividades motivadoras. Se quiser fazer de sua atividade motivadora um hábito salutar, procure introduzi-lo aos poucos e jamais tente implementar muitos hábitos de uma só vez – é muito mais fácil (mas ainda assim difícil) criar um hábito por vez do que criar muitos hábitos de repente. Na verdade, julgo ser praticamente impossível para a maioria das pessoas criar dois ou três hábitos de uma só vez. Uma quarta regra útil para que você se sinta bem com uma atividade motivadora é procurar enxergar seus próprios progressos, valorizando cada pequena vitória. Já os insucessos devem ser psicologicamente minimizados: se você não alcançar a marca que deseja hoje, poderá se sentir melhor dizendo a si mesmo que alcançar a tal marca amanhã será uma vitória ainda maior, pois o esforço tempera o banquete dos vencedores. Procure enaltecer para si mesmo cada pequeno progresso que você fizer 4 ; analogamente, procure minimizar toda queda ou fracasso que lhe ocorrer. Você pode fazer isso procurando enxergar o que ganhou de bom com aquela queda ou fracasso. Por exemplo, um sofrimento pode nos tornar pessoas mais experientes, mais vividas e mais fortes. Diante de uma traição, podemos dizer a nós mesmos que o erro quem cometeu foi o

4 Cada pequeno sucesso deve ser fator interno de motivação e conforto. Falar à outros sobre seu progresso o levará, muito provavelmente, à decepção de não ser devidamente reconhecido. Você não deve depender da boa vontade de outras pessoas em motivá-lo. É possível, inclusive, que todas as pessoas que você conhece intencionem desestimula-lo, declaradamente ou não. Quando você fala sobre um seu objetivo ou sobre um seu sucesso para alguém, poderá receber palavras de incentivo que não corresponderão à uma intenção verdadeira em motivá-lo, mas devem-se tão somente essas palavras à educação. A motivação emocional e psicológica não deve vir de palavras ou atitudes de pessoas próximas. Você mesmo deve se motivar.

traidor, logo, quem deveria estar preocupado é quem errou, não nós. E se quem errou não se preocupa, podemos dizer a nós mesmos que pessoas assim costumam fazer muitos inimigos e isso pode ser, literalmente, fatal. A quinta regra para estabelecer uma atividade motivadora é que você não deve falar de seu objetivo com outras pessoas. Por exemplo, se meu objetivo é me tornar um excelente corredor, eu não devo falar isso a ninguém, mas somente para mim mesmo. Quando falamos de nossos objetivos para outras pessoas perdemos o sentido do desafio e a motivação esfria. É muito mais valioso o trabalho silente em nossos próprios objetivos que a exibição ruidosa de um esforço que pode vir a dar em nada. Se falamos de uma de nossas metas para outrem, podemos deixar de buscá-la por nós mesmos, isto é, por amor, e passarmos a nos ver obrigados a trabalhar na meta para mostrar que não estávamos mentindo, que levamos realmente a sério nosso objetivo e coisas assim. Nosso objetivo deixa de ser nosso e passa a focar o outro; deixa de ser algo de nosso íntimo e se torna algo para ser visto pelo outro. E como é chato buscar um objetivo que não é nosso!

***

Meu primeiro computador e a aprendizagem do xadrez

Ganhei meu primeiro computador aos 9 ou 10 anos de idade. Era um TK82C, da Microdigital. Com ele aprendi os rudimentos de programação de computadores na linguagem Basic, muito popular na época. Tornei-me um programador de computadores competente para minha pouca idade. Estava sempre criando e executando programas que me permitissem investigar o mundo dos números. Também costumava jogar xadrez contra o computador – eu era péssimo, nunca venci uma só partida de meu modesto TK82C. Apesar de ser um mal jogador, gostava de jogar e ensinar xadrez a quem quer que fosse. O prazer de ensinar e aprender sempre me acompanhou. No início, ensinei xadrez a mim mesmo. Eu devia ter entre 9 e 10 anos quando aprendi a jogar. Mas ninguém me ensinou, eu aprendi pelas regras que estavam no Supermanual do Escoteiro Mirim, uma publicação que se valia dos personagens da Disney para passar conhecimentos úteis. Mas acabei cometendo um erro ao interpretar mal as regras do Supermanual: no início eu achava que as peças do xadrez tinham que passar por cima das do oponente para capturá-las, como no jogo de damas. Esse equívoco durou uns três anos. Ensinei errado para um amigo, mas alguém que sabia mais nos alertou de que estávamos jogando errado, então nós dois passamos a jogar da maneira correta. Isso ocorreu no Colégio Salesiano Santa Rosa, quando eu cursava a quinta série do antigo primeiro grau – o equivalente ao hoje chamado Ensino Fundamental.

***

Sobre a inteligência e a importância de sua busca

O interesse pelo xadrez partiu de mim mesmo, ninguém em minha família jogava. Buscar atividades inteligentes é atitude que favorece o aumento da inteligência e essa busca está muito mais relacionada com uma pré-disposição da personalidade e do caráter do que com uma uma arquitetura cerebral diferenciada. A inteligência está mais relacionada com nossos anseios e motivações do que com uma genética privilegiada. Esse tipo de ideia nos liberta da noção de que nosso quociente de inteligência – o popular QI – não depende

do que fazemos. Se acreditamos que não podemos fazer nada para aumentar nossa inteligência, nada faremos com este objetivo – e essa atitude acaba por nos tolher a própria inteligência. Se, por outro lado, acreditamos que podemos aumentar nosso QI, passamos a buscar atividades que nos levem a ter esse aumento. E nosso QI acaba subindo mesmo. Esse raciocínio vai ao encontro de uma máxima devida a Henry Ford que diz o seguinte: “Se você acredita que pode ou acredita que não pode, de qualquer forma você está certo”. Nossas crenças nos dizem o que somos ou não capazes de fazer. Se acreditamos que podemos resolver um problema difícil, nós nos debruçamos sobre ele até o resolver ou até fazer progressos importantes na busca da solução do tal problema. Mesmo que não tenhamos pleno êxito, nossa dedicação é premiada com um incremento de nosso saber técnico e com um aumento de nossa capacidade de resolver problemas. Claramente, a inteligência está intimamente relacionada com a capacidade de resolver problemas. Então, uma crença útil é a de que podemos, com esforço e tempo suficientes, resolver qualquer problema que queiramos. A grande questão é saber quanto tempo e esforço estamos dispostos a empregar na solução de cada problema ou na conquista de cada objetivo. Há uma sábia máxima que aconselha: “Saiba escolher suas batalhas”. Entre todos as metas que queremos atingir, quais nos darão mais felicidade? Quais serão mais rapidamente alcançadas? Em quais delas acreditamos mais? Que metas nos tornarão pessoas mais realizadas após serem cumpridas? Devido à nossa limitação referente à prazos, é fundamental saber escolher bem à que metas vamos nos dedicar de cada vez.

***

A morte de meu avô Antônio Pereira Campos

Segundo o que minha mãe me dissera, meu avô passaria por uma intervenção cirúrgica muito delicada e da qual pouquíssimas pessoas sobreviviam. Eu fiquei chateado com a notícia e esperava por sua morte. Quando ele voltou para casa fiquei impressionado. Estava aparentemente bem. Tão bem como sempre esteve. Acabei por atribuir a sobrevivência de meu avô Antônio a uma genética privilegiada. E fiquei satisfeito por ser seu neto. As coisas não estavam tão bem, entretanto. Antônio – ou seu caxeta para os antigos conhecidos – estava tomando uns remédios. Me disseram que ele estava sofrendo de depressão ou se tratando de uma aterosclerose. Talvez os remédios que ele tomava fossem antidepressivos, mas isso eu estou conjecturando. Naquela semana ele fizera para mim um alteres com um cabo de vassoura e dois pesos de chumbo que ele mesmo fabricou derretendo uns canos velhos do mesmo material. Parece que ele queria que eu praticasse musculação em casa com aquele halter, mas não me interessei muito por isso não. E num dia de sol, pela manhã, meu avô pegou uma escada, uma corda e se enforcou. Estávamos somente eu e ele em casa. Antes de sair para o colégio fui me despedir dele e o encontrei deitado no chão de seu quarto. Supus – erroneamente – que estivesse dormindo. Tentei acordá-lo de todos os modos, sem sucesso. Fiquei intrigado:

como ele poderia ter um sono tão profundo? Achei que ele estava fingindo que não acordava. Então peguei meu material e fui para o colégio. Naquela época, eu e meu irmão Winter Bastos Guedes Júnior estudávamos no Curso São Francisco de Assis, uma escola tradicional de Icaraí que tinha o melhor ensino fundamental de Niterói. Só ia até a quarta série primária, entretanto. Depois disso éramos encaminhados para outras escolas. Naquele tempo eu fazia a quarta série e meu irmão devia estar na primeira ou segunda série do primário. Nós estudávamos à tarde. Naquele

dia, ao terminar a aula, pediram-nos que não voltássemos direto para casa, mas que esperássemos um pouco até sermos liberados. Ao retornar do colégio vi minha avó chorando – coisa que nunca havia presenciado antes. Me disseram que meu avô Antônio Caxeta havia morrido. Mas não me disseram que ele tinha se matado, nem que ele já estava morto quando saí de casa. Simplesmente não liguei os fatos. Disseram-me que ele falecera vítima de um aneurisma ou de uma trombose. Em se tratando de crianças, é natural esconder tal fato. Acho, porém, que foi um desrespeito à minha dignidade de neto não me revelarem a verdade depois de eu adulto. Esse é um hábito que minha mãe, tia e irmão cultivaram por toda a vida: ocultar a verdade como forma de agredir emocionalmente o familiar “eleito” para ser o saco de pancadas emocional da família. Nesse caso, ao descobrimos a verdade por nós mesmos nos sentimos traídos e desprestigiados por nossos familiares. Aí vem aquela conversa fiada de “não contei para você para que você não ficasse nervoso”; “não contei para te poupar da dor” e coisas deste gênero. E eles se fazem parecer bons praticando o que é mal.

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A morte de meu pai Winter Bastos Guedes

Meu pai morreu de modo intrigante. Muito mais intrigante do que eu poderia supor em minha ingênua infância. Certo dia, quando cursava a 5ª série do ensino fundamental no Colégio Salesiano Santa Rosa, cheguei em casa após uma surra que levei de uns valentões da escola. Eles me surraram por eu ter feito chacota do cara que eles bateram primeiro. Eu não sabia que seria o segundo da lista. Não vou dizer que foi uma surra merecida, mas ao menos aprendi a não zombar de quem apanha. Eram cerca de cinco e meia da tarde quando cheguei em casa. Lembro que ainda não havia escurecido e que os valentões pisaram no livro de matemática adotado pela escola. Eu estava bastante chateado com o que ocorrera. Bati na porta da sala, como fazia todos os dias para entrar. Nada. Bati novamente. Silêncio. De repente a porta é aberta num rompante e meu pai passa carregado numa maca, aparentemente desacordado, sendo levado por dois enfermeiros. Ao entrar em casa sou informado de que ele sofrera um mal estar. Tudo bem. Ele não parecia estar tão mal na maca. Não deveria ser nada grave, ele seria medicado e voltaria logo para a casa. Ao ver a grande quantidade de sangue sendo lavada a baldes d’água mudei de opinião. Fiquei apavorado. Minha mãe disse que fôssemos rezar para que ele ficasse bom e não morresse. Foi a primeira coisa realmente importante que pedi a Deus e sem dúvida a oração mais fervorosa que já fiz. Uma semana depois recebo a notícia de que ele havia morrido no hospital. Minha mãe me disse que ele havia tido uma tontura quando estava no alto de uma escada. Caiu e bateu com a cabeça num murinho, sofrendo traumatismo craniano. A tontura teria sido causada por um infarto repentino. Provavelmente uma farsa, como descobri mais tarde, já adulto. De fato, num primeiro momento, ao ver meu pai passando por mim numa maca, não me alarmei: ele estava bem, não havia sangue na roupa dele. O absurdo era evidente: não havia sangue na roupa de meu pai, mas a escada que dava acesso ao segundo andar da casa era um rio vermelho. Ao comentar isso com minha mãe, anos mais tarde, ela disse: “Eles trocaram a camisa dele antes de levá-lo, para não assustar seu irmão Winter”. Com essa emenda a fraude tornou-se patente. E segue o demônio aplaudindo as mentiras de minha família. Cheguei à conclusão – verdadeira ou falsa, ela é mais plausível do que a que me

contaram – de que meu pai havia sido morto pela ditadura. O ano era 1983 e vivíamos ainda sob o jugo explícito da tirania militar que, embora mais branda do que nas duas décadas anteriores, ainda podia fazer o que bem entendesse com a população. A farsa toda seria para encobrir um crime horrendo, que de outro modo teria se tornado um escândalo, visto ser meu pai um ex-militar honesto ao extremo, pessoa instruída e culta ocupando posição de destaque no Ministério da Fazenda (ele trabalhava lá como farmacêutico-bioquímico). Minha mãe deveria saber de tudo, claro. Mas teria mantido o silêncio, mesmo após o fim da ditadura militar. Tudo isso faz sentido, mas ainda assim são conjecturas que não pude comprovar. Um ano após a morte de meu pai, minha mãe estava com outro companheiro. Um chupim bebum, ignorante e boa vida. Apesar de sentir grande antipatia por ele naquela época, hoje eu o aceito plenamente. Depois de uns 10 ou 12 anos, passei a enxergar meu padrasto como alguém humano e amigável. Ele não tinha obrigação ou culpa nenhuma por não atender aos requisitos que eu imaginava serem necessários a qualquer candidato a marido de minha mãe. Morto o chefe, a família desintegrava-se rapidamente. Minha mãe não me dava mais atenção – eu tinha 13 anos – deixando minha criação a cargo de minha avó Dermontina da Silva Campos e de minha tia Vera Lúcia de Campos. Vanda simplesmente foi morar em outro lugar com Lourenço – este é o nome de meu padrasto – e com meu irmão Winter. Não era um lugar distante, mas eu me sentia negligenciado, posto de lado como um objeto que perdera a serventia. Naquele momento de minha vida, eu passava pelas transformações próprias da puberdade que se iniciava. Apesar disso, não havia sequer tido a primeira ejaculação e sabia muito pouco sobre sexo. Só descobriria a masturbação no ano seguinte, em 1985. Uns poucos anos antes, eu pensava que os bebês nasciam após a grande emoção da esposa com seu casamento. Só entendi de onde vinham os bebês após assistir uma reportagem sobre isso no Fantástico – o show da vida, programa domingueiro tradicional da Rede Globo já naquela época.

Beijar uma garota

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Eu queria beijar uma garota. O nome dela era Gisele. Uma menina branca e loura, filha de uma amiga matemática de minha mãe que morava nas proximidades. Não tinha a menor ideia de como beijá-la e não fui feliz na execução de um plano que sequer existia. Foi meu primeiro “fora”. Refugiei-me nos livros, onde encontrei bom material para aprender sobre coisas que julgava importantes. Na sexta série já havia aprendido a resolver equações do segundo grau – que eram estudadas na oitava série – e um pouco de álgebra no livro “Álgebra I” de Augusto César Morgado e Eduardo Wagner. Nessa época frequentei um psicólogo chamado Eduardo Nicolau que mais tarde viria a me ajudar muito, me indicando um excelente curso de matemática: o método Kumon. Os livros não me impediram de me sentir em desvantagem perante meus colegas, que já conheciam as meninas na intimidade. Eu, por outro lado, sequer sabia como era o corpo nu de uma mulher. Até então, nunca havia visto uma mulher nua, nem ao vivo nem em fotos 5 . Por estranho que

5 Naquele tempo as revistas eróticas vinham embaladas num plastico preto que tapava os corpos nus das modelos, deixando à mostra somente os títulos das revistas. Também não existiam nos jornais as figuras picantes de mulheres seminuas, como há hoje em dia. A exibição de filmes ou programas com mulheres nuas ou em poses e trajes provocantes era muito mais rara que nos tempos atuais. A exibição das mulheres mais sensuais e menos vestidas ocorria em programas como O Cassino do Chacrinha e O Clube do Bolinha, mas nada comparado ao que há hoje.

possa parecer, isso fez de mim um péssimo aluno e estudante, apesar de estudar mais que os outros e ter uma inteligência um pouco maior (tenho um QI de 121). Já na quinta série, pouco depois da morte de meu pai, comecei a faltar às aulas. Perdi provas, inclusive de matemática. Fui fazer a 2ª chamada temendo uma possível reprovação, pois havia estudado muito pouco a matéria. Ao fazer a prova, entretanto,

achei tudo muito fácil. Foi uma surpresa agradável. A prova era sobre dízimas periódicas

e constatei que com um mínimo de conhecimento e o uso do mero bom senso, eu podia

resolvê-la toda. Passei de ano. Naquela época eu nutria uma paixão por Quênia Balbi, uma estudante de minha classe cuja beleza me fascinava. A professora pedia às vezes para que eu fosse pegar as

carteirinhas dos estudantes no final da aula para devolvê-las com o carimbo de presença. Quando estava a sós com a carteirinha de estudante de Quênia eu a beijava loucamente

– a carteirinha. Queria tocá-la. Imaginava que ela torceria o pé na saída do colégio e, então, eu a levaria nos braços até minha casa para ser tratada. Minha imaginação ia muito mais longe: via as paredes do Colégio Salesiano Santa Rosa cobertas por bumbuns femininos separados dos corpos. Eu imaginava tocá-los e acariciá-los. Não me julgando capaz de realizar meu intento com meninas de verdade, quis tocar estátuas, dessas que costumamos ver nos museus, despidas com as nádegas a mostra. Cheguei a fazer isso quando visitei um museu na cidade do Rio de Janeiro. Eu estava obcecado. O que quero dizer com tudo isso é que meninos de onze anos já se preocupam

muito com garotas. E se eles não tiverem quem os oriente no sentido de uma vida sexual

e afetiva salutar, terão muitos problemas que, aparentemente, não estariam relacionados

à sexo ou vida afetiva: queda brusca do rendimento escolar, faltas, fuga da realidade e coisas assim. Só fui beijar uma “garota” aos dezoito anos e depois disso meu aproveitamento escolar e meu rendimento intelectual sofreram um boom. Para deslanchar completamente ficou faltando me livrar das drogas psiquiátricas, o que só começou a acontecer em 2006, quando eu tinha 35 anos.

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Problemas na quinta e na sexta série

Na 6ª série saí do Curso Salesiano Santa Rosa, onde haviam me matriculado. Eu faltava quase todos os dias e cobrava de mim mesmo um desempenho acadêmico superior, como o que eu sempre havia tido até a quarta série, antes da morte de meu pai. As faltas não se deviam a “vagabundagem” ou coisas assim, pois eu não saía para vadiar, namorar, caminhar ou me divertir de algum modo. Eu só queria evitar a dor moral. Simplesmente passei a sofrer muito na escola. Era um suplício assistir as aulas, eu não conseguia prestar atenção ao que os professores diziam, ainda que me esforçasse para isto, e minhas notas medíocres me faziam sentir mal. Se pelo menos eu fosse namorador, poderia curtir mais a escola, ela teria alguma graça no recreio, pelo menos. Mas eu era virgem e não tinha nenhum contato íntimo com garotas. Achava que a matéria havia ficado muito mais complicada e muito maior e que por isso já não bastava simplesmente prestar atenção às aulas para aprender as disciplinas. Até certo ponto isso até ocorria, e eu tentei passar a estudar mais em casa para voltar a ter boas notas e me sentir melhor por isso. Mas a verdade é que eu estava sendo insidiosamente envenenado por drogas de uso psiquiátrico – e elas diminuem o rendimento escolar, como bem se sabe. Minha mãe e eu não sabíamos como lidar com a situação. Eu ainda tinha a desculpa de ser uma criança, mas o que dizer de minha mãe? As vezes penso que ela

sabia, sim, como resolver a maior parte de meus problemas, mas preferiu me abrir a porta larga do caminho largo que leva ao inferno. Era muito mais fácil para ela me por em clínicas, psicólogos e psiquiatras do que reconhecer que as “medicações” estavam destruindo minha vida e que o que eu precisava de verdade era de uma “boa massagem”, como diria dezesseis anos depois uma garota de programa chamada Sílvia. Essa atitude conservadora e socialmente irrepreensível de minha mãe não permitiu a ela ajudar o filho que de doze anos que se encontrava em dificuldades. Vanda passou a me levar numa clínica que se propunha a trabalhar com “radiestesia” ou algo do tipo. Era a clínica de um tal de frei Albino Ariesi. Situava -se na cidade do Rio de Janeiro e eu passei a frequentar uma psicóloga lá chamada Drª Petrônia. Ela só sabia me responsabilizar por tudo de ruim que acontecia comigo. Essa psicóloga dizia em tom acusatório “Isto é Fuga!” e “Você se condicionou a isto”. Era péssimo. Além de não resolver os problemas, eu saía de lá com o ego destroçado. Eu queria ser como Einstein e Petrônia sabia disto; entretanto eu mesmo não o sabia plenamente. Ela tentou me dissuadir de ideias dessa natureza dizendo que o trabalho de Einstein tinha centenas de páginas e era coisa muito difícil. Talvez ela quisesse me fazer concluir que a matemática e a ciência eram coisas tão difíceis que seria melhor nem pensar nisso. Graças a Deus aquele demônio de saias estava errado. Inclusive, talvez por ela ter reprovado de modo tão veemente meu desejo de ser um novo Einstein, essa a ideia tenha ganhado força em meus pensamentos. Ora, por ela reprovar tanto meu desejo de me tornar um cientista, entendi que Petrônia achava esse meu desejo perfeitamente realizável. Entendi também que a possibilidade de realização de tal desejo enfurecia o demônio de sais. Só pra contrariar, considerei muito boa a ideia de vir a ser um cientista. Consegui terminar minha quinta série no Colégio Salesiano Santa Rosa com dificuldades. O fracasso de meu tratamento com Drª Petrônia fez com que minha mãe procurasse outro profissional. Acabei chegando ao consultório do psicólogo Eduardo Nicolau. Ele trabalhava com uma psiquiatra que receitava remédios para ele. Naquele período, pelo que me lembro, eu estava tomando um antidepressivo chamado Tofranil e, talvez, um outro remédio de que não me lembro. Tomei meus “remédios” durante mais de vinte anos, sempre seguindo a prescrição médica com rigor. Até descobrir a farsa da psiquiatria, utilizada para anular indivíduos considerados uma “ameaça” aos planos da cúpula de poder que domina o mundo. Na sexta série iniciei no Salesiano meus estudos. Só que não consegui cursar. Pedimos transferência para uma outra escola: o Centro Educacional de Niterói – o popular “Centrinho”. Lá, por algum motivo, tudo ficou muito melhor. Lembro que foi lá que retomei meu interesse pela Matemática ao ter tirado uma ótima nota na prova. Eu apreciava o professor dessa matéria e ele também gostava de mim. Iniciei estudos por minha própria conta. Eles se baseavam muito mais em imaginação do que em matéria propriamente. Eu tive muitas ideias que gostava de desenvolver. Foi também nesse tempo que comecei a escrever meus primeiros poemas. Eu tinha uns treze anos quando escrevi meu primeiro poema. Não era um bom poema, mas eu gostava dele. Apareceram outros que também não eram bons, mas eu também gostava deles. Fui insistindo e não me abati com as críticas negativas que recebia uma hora ou outra. Hoje, graças a Deus, consigo escrever poemas de boa e de ótima qualidade. A persistência favorece o sucesso. Antes de terminar o ano letivo, entrei em pânico. A exposição de trabalhos de alunos – uma espécie de feira de ciências – estava se aproximando e eu não consegui me convencer de que meu trabalho era bom o suficiente para eles. Meu trabalho era bom para mim mesmo, mas eu achava que ele não seria apreciado nem pelos meus amigos, nem pelo professor de matemática. Parei de ir às aulas e faltei quase o bimestre final

todo. Mesmo sem ter feito as provas finais os professores do Centrinho acharam por bem me passar de ano devido ao meu ótimo desempenho nos outros bimestres. Essa atitude dos professores do Centrinho salvou minha alma. Fui para a sétima série.

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A descoberta da masturbação

O psicólogo Eduardo Nicolau me ensinara, através de desenhos, o que era a masturbação na teoria. Achei aquilo muito esquisito e totalmente sem propósito. Afinal, que benefício poderia haver em tal conduta? Eu não fazia ideia. Por vontade própria decidira que teria meu primeiro gozo com minha esposa, depois que casasse. Eu queria casar virgem. Descobri em 1985, nos meus 13 ou 14 anos, o que era a masturbação na prática. Naquele período eu não estava frequentando a escola e minha mãe já havia se amigado com meu padrasto Alcemir Lourenço de Souza. Numa noite eu estava deitado sozinho em meu quarto com o membro ereto, tentando dormir. Queria que meu membro ficasse “normal”, pois me sentia um pouco desconfortável com ele duro naquela posição. Como ele insistia em permanecer rijo, tentei colocá-lo na posição que considerava mais normal. Então, tentando por meu pênis numa posição que julgava mais adequada, gozei – não tinha essa intenção, entretanto. Foi algo absolutamente natural. Nunca havia sentido aquilo antes, foi ótimo. No início achava que o esperma saía da barriga, pois ela ficava sempre molhada. Não queria saber o que estava acontecendo, ou como acontecia, só sabia que me sentia muito bem com aquilo. Após alguns meses resolvi comprar revistas eróticas. Passei a ver como as pessoas faziam sexo. Eu também queria fazer, mas não conseguia me relacionar sexualmente com ninguém. Neste aspecto fiz a mim próprio. Ninguém me ajudou. Minha primeira revista erótica tinha pornografia pesada, era uma antiga Sex Appeal em preto e branco. Tinha fotos de mulheres com homens, de homens com homens e de mulheres com mulheres, mas eu me concentrei somente nas fotos heterossexuais, que eram as primeiras. O resto eu nem olhava. O “cinco contra um” foi uma grande descoberta para mim, mas eu ainda queria muito me relacionar com garotas. Isso só foi acontecer em 1989, quando eu fiz 18 anos e meu então psiquiatra, Eugênio Lamy Filho, entendeu que com a maioridade não havia nenhum risco para ele se me orientasse a buscar os serviços de uma prostituta. Mas vamos deixar este assunto para depois.

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Sétima série no Colégio Figueiredo Costa

Depois de ser aprovado na sexta série no Centrinho, tentei fazer lá mesmo minha sétima série. Mas foi estranho. Meus antigos amigos do ano passado estavam mudados. Quietos, calados e um tanto reservados demais. Eu não me sentia mais bem lá. Decidi mudar de colégio. Foi quando surgiu a chance de estudar com meu melhor amigo no Colégio Figueiredo Costa, então um dos grandes colégios tradicionais de Niterói. O nome desse meu melhor amigo é Raphael Oliveira de Rezende – o corredor que mencionei antes – e somos amigos até hoje por conta dos grandes perigos que nos irmanaram em nossas aventuras. Mas falemos disso mais adiante.

Eu e Rapha não ficamos na mesma classe. Fiquei na classe dos que sabiam menos e Rapha estava na classe dos que sabiam mais. Foi bom que fosse assim, pois me destaquei sobremaneira junto aos que estudavam menos. E foi isso que me motivou a estudar bastante e tentar conseguir só notas finais 10 nas disciplinas de matemática e geometria. O Colégio Figueiredo Costa foi ótimo para mim por esse lado. Mas eu estava ficando mais velho e ainda não havia me relacionado com garotas. Esse problema era muito pior do que parecia, pois, no final do ano comecei a me tornar um estudante agressivo com os demais. De compasso em punho, ameacei um folgado que zombara de mim e, graças a Deus ficou nisso. Noutra ocasião um sujeito que fazia o segundo grau lá implicou comigo e eu me vinguei na hora: tinha uma trave grande, de metal, usada na quadra próxima ao pé do implicante e eu levantei essa trave um pouco e a soltei em cima do pé dele. Ele ficou pulando num pé só e olhando assustado para mim. Eu mesmo me assustei com o que havia acabado de fazer, e pedi desculpas imediatamente, de modo ruidoso e suplicante, denotando algum desespero. Ninguém conversou comigo para explicar que o que eu passei a fazer estava errado e passei a adotar, ocasionalmente, uma conduta violenta. Isto quase destruiu minha vida. Acredito que se estivesse me relacionando com meninas, dificilmente teria recorrido a esse tipo de comportamento para me fazer respeitar. Apesar de ainda não ter me relacionado sexualmente com ninguém, tinha uma menina de quem eu gostava. Eu cheguei para ela e falei o que aconteceu: disse que havia sonhado com ela e ela me disse que eu estava mentindo, que aquilo não tinha acontecido. Eu tinha sonhado com ela realmente. Estávamos nus numa cama e nos batíamos com travesseiros de penas que esvoaçavam pelo ar. Acho que quem viu esta cena num anúncio televisivo da época talvez se lembre. Era assim mesmo, que nem o anúncio. No meu sonho eu e ela éramos os amantes que apareciam no comercial. O nome da garota era Andréa e o ano era 1986. Andréa era filha de um professor de matemática e fazia a sexta série no Figueiredo Costa. Ela tinha umas amigas gozadoras, de pele escura. Eu ajudei Andréa e suas amigas a apresentarem um trabalho na feira de ciências. Foi uma época muito boa, tirando a parte da violência. Raphael deixou um pouco de lado a amizade que tinha comigo e passou a preferir a companhia de um aluno chamado Erick Varjão, que estudava na classe dele. Varjão sabia se defender na base da conversa, sem violência. Sabia se fazer respeitar pela palavra e não pela força bruta. Se eu soubesse fazer isso naquela época, não teria feito tanta bobagem na vida. Acho que deveriam haver aulas nas escolas ensinando aos alunos como agir em certas situações, e sobre como não agir. Enquanto a educação escolar de crianças é obrigatória, não há nada que obrigue os pais a instruírem seus filhos sobre questões relativas à violência e à vida afetiva e sexual.

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Férias da sétima para a oitava série

Foi nessa época que decidi entrar de cara na Matemática. Criei uma técnica diferente para obter números primos que dois ou três anos depois viria a ser publicada na Revista do Professor de Matemática (RPM) sob o título Uma Construção de primos, no número 15 dessa revista. Quem me ajudou muito foi a professora Renate Watanabe. Foi ela que encaminhou esse meu primeiro trabalho para apreciação do comitê editorial da RPM. Seu apoio e suas orientações, que recebi por carta, me foram muito valiosas. Naquele período de férias de fim de ano pedi a minha mãe para contratar um certo professor particular de

matemática para mim. Esse professor eu conhecera no próprio Figueiredo Costa. Ele lecionou geometria lá, substituindo o professor Odilon. Foi com Odilon que tomei conhecimento de demonstrações de teoremas em matemática. As duas primeiras

demonstrações que conheci foram a da irracionalidade de 2 e a da soma dos ângulos internos do triângulo ser sempre 180°. Aproveitei as férias para aprender trigonometria, geometria e álgebra. Coisas que deveriam ser estudadas nos anos seguintes. Na verdade, naquelas férias eu passei a ter um domínio de toda a matemática da oitava série e a entender muitas coisas do ensino médio, então chamado de segundo grau.

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Sobre as aventuras: o barco

Aventurar-se é correr riscos na descoberta de novas fronteiras. Algumas das aventuras de que participei com meus amigos foram inesquecíveis. Teve uma vez que eu, Rapha e meu irmão Winter Bastos construímos um barco com madeira coletada na rua, câmaras de ar e pranchas de isopor. Pusemos o barco na praia de São Francisco, tivemos que carregá-lo nós mesmos, a pé, até São Francisco. Foi bastante cansativo, mas tivemos sucesso. Nosso barco flutuou no mar e fomos remando até um lugar onde havia vários barquinhos ancorados. Subimos num deles e não tinha ninguém por perto para nos impedir. Mas não conseguimos entrar na cabine do barquinho, pois ela estava trancada. Entrou água no pacote de biscoitos que levamos para fazer um lanche e perdemos um martelo que levamos para repregar o barco caso ele ameaçasse se desmanchar, indo uma parte para cada lado. Winter acabou tendo uma insolação por pegar muito sol na moleira. Essa aventura foi no início de 1987, nas minhas férias da sétima para a oitava série do antigo primeiro grau. Uns meses depois fui morar em Araruama com minha mãe, meu irmão Winter, o enteado de minha mãe, chamado Alexssandro ou Sandro e meu padrasto Lourenço que naquela época chamávamos de Blau.

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Outra aventura: a grande cruz ao longe

Numa tarde, eu, Sandro e Winter vimos uma espécie de cruz ao longe e resolvemos ir até aquela cruz para resolver o enigma e saber qual o significado dela. Mas era muito mais longe do que podíamos ir naquela tarde. Então resolvemos ir no dia seguinte, pela manhã. Não contamos nada para Blau nem para Vanda, pois eles iam “melar” nossos planos. No dia seguinte iniciamos uma jornada até a misteriosa cruz. Teve uma hora que tivemos que passar em frente a uma casinha que tinha um cão mal humorado tomando conta. Resolvemos que um cachorro, mesmo grande e oferecendo risco, não iria impedir nossa jornada. Então decidimos passar caminhando em frente à casinha, sem correr e nem olhar em direção ao cão. Ele rosnou ameaçadoramente, mas ficou nisso e nós conseguimos passar. Ao chegar na cruz misteriosa sondamos o lugar. Uma cruz grande sobre um canteiro circular, com círculos concêntricos que se sobrepunham, os menores sobre os maiores. Levantamos a hipótese daquele ser o túmulo de um cavalo muito bem quisto por seu proprietário que, após a morte do animal teria resolvido e homenageá-lo com a imensa cruz sobre o local de seu sepultamento. Voltamos para casa por outro caminho e descobrimos que a tal cruz era o que as pessoas chamam de cruzeiro, que é uma cruz numa parte visível da cidade que a consagra a Cristo. O cruzeiro mais famoso do mundo é o Cristo Redentor, localizado na cidade do Rio de Janeiro. Uma estátua com

Jesus de braços abertos acaba tendo a forma de uma cruz mesmo.

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Mais uma aventura: o morro misterioso

Nossa primeira aventura foi subir um morro em Niterói que tinha uma misteriosa construção no topo. Naquela época minha mãe, meu padrasto, meu irmão e Sandro

moravam num apartamentozinho no oitavo andar de um prédio situado na rua Noronha Torrezão, bairro de Santa Rosa, Niterói. Eu, Winter e Rapha resolvemos ir até o topo do morro para saber do que se tratava aquela construção. Minha mãe, alarmada, fez uma funesta previsão: “vocês vão morrer!”, mas nos deixou partir. A empregada fizera alguns sanduíches com ovos para que levássemos em nossa pequena excursão sem guia. Acho que chamamos Sandro para ir conosco, mas parece que ele não quis ir. Iniciamos nossa aventura subindo uma ruazinha de um morro próximo, passamos na casa da madrinha de Winter, que se chamava Rosa. Ela era meio enricada e morava numa casa grande perto do morro. Nos avistou vindo ao longe e, não nos reconhecendo devido à distância, mandou que os cães nos atacassem. Ficamos paradinhos e eles ameaçavam nos morder, latindo ferozmente a uma pequena distância. Mas quando Rosa nos reconheceu, ordenou que os cães retornassem. Fizemos um lanche na casa da madrinha Rosa e prosseguimos

a jornada. Teve uma ruazinha que subimos e na última casa precisávamos pedir

passagem para prosseguir. Pedimos água ali e o dono da casa nos orientou: “não vão por tal caminho, porque tem uns marginais por lá. Sigam por este outro caminho”. Então prosseguimos. Tivemos que jogar os sanduíches fora, pois entrou terra na sacola em que os carregávamos. Após atravessar uma matagal queimado, chegamos até a construção. Ela parecia abandonada, mas ao examinar melhor, avistei um sujeito sem camisa e com uma arma de fogo num cinturão. Nos afastamos um pouco do sujeito e tentamos decidir o que faríamos. Fiquei com medo dele nos matar. Não era bem medo o que eu sentia, mas um receio que misturava prudência e animação. Ele podia ser um bandido ou algo assim.

Era uma situação difícil. Enquanto conversávamos o sujeito nos achou. Ele era da polícia

e nos disse que aquele era o posto de telecomunicações da polícia. Lavamos nossas

mãos com um sabão de coco metido num prego. O policial perguntou se estávamos lá para pegar alguma pipa e dissemos que não. A vista era reveladora. De um lado estava São Francisco e um outro morro com uma outra construção. Do outro lado víamos o centro de Niterói, a ponte Rio-Niterói, e boa parte da Bahia de Guanabara. Era incrível. Voltamos por outro caminho e eu escorreguei e rasguei minha calça de moletom. Acabamos chegando no bairro de Fátima, próximo de Santa Rosa e voltamos a pé para casa.

Essas aventuras marcaram muito minha infância e início de adolescência.

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A descoberta do Método Kumon

Em 1983 havia iniciado um tratamento com o psicólogo Eduardo Nicolau. Ele soube de meu grande interesse por Matemática, mas na época em que me tratava achou que esse interesse me absorvia tanto que estava a dificultar meu amadurecimento e ingresso no mundo adulto e real. Era como se a energia e interesse que eu investia na Matemática me mantivessem longe de resolver questões mais mundanas, tais como arranjar uma namorada, me relacionar afetivamente, aprender sobre a vida etc.

Em 1985 eu deixei de ser paciente de Eduardo Nicolau e passei a me tratar com Drº Eugênio Lamy desde 23 de agosto daquele ano. Entretanto, Eduardo Nicolau foi um psicólogo tão bom para mim que, mesmo eu não sendo mais seu paciente, me deu uma dica de ouro para dominar a matemática. No final de 1986 ou início de 1987, ele me chamou em seu consultório e me instruiu a procurar um amigo seu, chamado Faraday Smith Correa dos Reis. O professor Faraday estava a ministrar um curso chamado Método Kumon, que se propunha a fazer o estudante gostar de matemática através do alcance da excelência nessa disciplina pela realização de elevado número de exercícios de crescente complexidade. Gostei muito da ideia e procurei por Faraday para iniciar o curso. Foi ótimo tê-lo conhecido, pois era grande apreciador e conhecedor da Matemática, pessoa inteligente que buscava ajudar, pela via da instrução, quem mostrasse interesse e/ou talento pela Matemática. Foi particularmente importante ter conhecido professor Faraday naquela época, pois, num período crítico de minha vida, ele manifestou interesse e admiração verdadeira por meu talento criador em Matemática e isso me motivou bastante à prosseguir com o desenvolvimento de minhas ideias nessa área. Infelizmente, de início, minha frustração afetivo-sexual dificultou muito minha adesão de corpo e alma ao Método Kumon. Era difícil estudar matemática com tanto empenho pensando na loura da escola 6 .

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Oitava série no Colégio Itapuca

Em 1987 eu cursava a 8ª série do ensino fundamental no colégio Itapuca, situado na rua Noronha Torrezão. Entretanto, já sabia mais matemática do que os estudantes do ensino médio. Não tendo interesse nas demais matérias e não vendo mais nenhuma graça nas aulas de matemática de minha classe, expliquei isso ao diretor Tomás e pedi permissão a ele para assistir também as aulas de matemática das classes do ensino médio. Tomás disse que eu poderia assistir as aulas do ensino médio depois que eu conseguisse a nota máxima em todas as matérias de minha própria classe. Descartei a ideia, pois não me interessava por outras disciplinas, somente por matemática e geometria. Ora, é fato bem conhecido o de que a inteligência é seletiva. Portanto, é muito natural que cada pessoa manifeste graus diferentes de interesse por assuntos diversos. Meu pedido de assistir as aulas de matemática das classes mais adiantadas fazia todo sentido, portanto. A conclusão que tiro é que a escola não se interessa pelo desenvolvimento pessoal, intelectual e social de seus alunos, mas sim pelo cumprimento de metas burocráticas. Tendo sido impedido de estudar o que queria, passei a me interessar por outras coisas. Eu queria muito ficar com uma menina chamada Marcela, uma loira descolada de cabelos curtos e corpo atraente. Na verdade eu queria levá-la para meu apartamento na Rua Comendador Queiroz, em Icaraí, onde morávamos eu, minha tia Vera Lúcia de Campos e minha avó Dermontina da Silva Campos. Queria fazer com ela tudo que vi os homens fazendo com as mulheres em minhas revistas de sexo explícito. Não tinha artifício para isso, entretanto. Se naquela época eu tivesse a cabeça que tenho hoje, poderia ter tido muitas namoradas e ficantes. Naquela época falava-se muito mais em namoro do que em ficar. O verbo “ficar” não era usado com o significado que tem hoje, de ficar beijando, acariciando e excitando descompromissadamente um parceiro ou parceira eventual. Eu propus a Marcela que ela fosse comigo para minha casa para nos relacionarmos sexualmente, mas ela não quis. Marcela se aproveitou da situação e

6 Nessa época eu cursava a oitava série do primeiro grau no Colégio Itapuca, em Santa Rosa. A loura referida no texto chamava-se Marcela e eu havia lhe proposto que fôssemos para meu apartamento fazer sexo.

passou a caçoar de mim, achando graça de minha proposta. Sua atitude autorizou os demais alunos a caçoarem de mim também, porque perceberam minha fraqueza. Passei

a ser alvo de zombaria no Itapuca e isso me deixava p. da vida. A escola ficou

insuportável e acabei reagindo a uma dessas provocações dando um murro na cara de um aluno. Ele, que antes era meu amigo, passou a me ignorar e quando o procurei ele disse que chamaria o irmão mais velho que era militar para me dar uma surra. Minha vida escolar ia de mal a pior, embora minhas notas estivessem acima da média.

Três pontos a ponderar

***

Quero destacar três coisas: primeiro, o mito de que o agressor quer ser agressor;

segundo, o silêncio sobre os malefícios do atraso da iniciação sexual dos adolescentes; terceiro, o fato pouco estudado de que drogas psiquiátricas são legalizadas, porém ainda são drogas. Sobre o agressor querer ser agressor quero dizer que isso não corresponde sempre a verdade. Cada caso é um caso. Um verdadeiro agressor quer ser agressor e pode ser. Se uma agressão ocorre, uma das perguntas que se deve procurar responder é:

“o agressor queria cometer a agressão ou ele perdeu o controle?”. Se o agressor perdeu

o controle ele precisa de ajuda, mas se ele fez o que fez por um exercício do livre arbítrio, deverá ser punido. Responder a pergunta proposta nos orienta sobre como resolver o problema e evitar que futuras agressões ocorram. Se queremos resolver um problema,

temos que entender o problema primeiro. O que tenho observado é a mídia eleger os vilões do momento, cada um deles teve a sua época: Josef Fritzl, como pedófilo, raptor e estuprador da própria filha; o casal Nardoni, pela morte de Isabela Nardoni; Suzane Von Richtofen pelo assassinato de seus pais; o maníaco do parque, pelo estupro e morte de muitas mulheres; Febrônio Índio do Brasil, pela morte e estupro de crianças. Examinando esses casos, podemos nos perguntar: “o que foi feito para evitar novas tragédias como essas?”. Não vale responder dizendo que houve um aumento da pena, por exemplo. Aumentar a pena para um crime fará o juiz relutar um pouco mais em condenar alguém por aquele crime. Na prática, talvez menos pessoas sejam condenadas. Além disso, se o mero aumento da pena resolvesse o problema ia ser muito fácil acabar com a criminalidade: bastaria punir todos os criminosos com pena máxima, digamos, uns 40 (quarenta) de reclusão. Será que o mundo passaria a ser um paraíso ou um inferno? Acho que viveríamos num inferno. Um indício forte que aponta nessa direção é o fato de as prisões da Islândia serem como hotéis de quatro estrelas: lá o condenado tem direito a duas horas por dia de Internet! Se uma punição branda favorecesse o crime, a Islândia seria um país com alto índice de criminalidade, o que não ocorre. Por outro lado, se uma punição mais severa fosse capaz de refrear o crime, o índice de criminalidade no Brasil deveria ser muito mais baixo que o da Islândia, o que também não acontece. Estamos olhando na direção errada se nos propusermos a combater o crime com o aumento das penas. Mas qual a solução para isso? Uma pista nos é dada se lembrarmos um pensamento devido a Pitágoras: “devemos educar as crianças para não ter que punir os homens”. Quero acrescentar que não é uma punição mais ou menos severa que irá resolver o problema da criminalidade. Para coibir o crime, as punições devem ser adequadas, mas não necessariamente severas. Para ilustrar o que digo lembro-me do caso do primo de um antigo amigo de meu irmão. O amigo atendia pela alcunha de Bob Cuspe. Ele nos contou que um primo seu – ou algum outro parente, não tenho certeza qual – fora preso por ter cometido um pequeno roubo ou algum delito de menor importância. Devido às ameaças, agressões e traumas que teve na prisão, saiu de lá tão

revoltado que pensava em fazer coisas muito piores. O que tenho observado é que a punição excessiva conduz a revolta do punido e à prática de crimes muito mais terríveis que os iniciais. A prisão de uma pessoa acaba sendo uma bola de neve em que cada vez que o preso é liberado por já ter cumprido a pena, ou por ter tido algum benefício, passa ele a cometer crimes muito piores. Algo análogo posso afirmar sobre internações em clínicas psiquiátricas. Em todos os casos que citei, de Fritzl, Nardoni etc, os agressores, provavelmente, queriam cometer os crimes. Não fizeram o que fizeram por terem, de algum modo, perdido o controle. O meu caso é diferente. Eu iniciei uma série de atos violentos por estar sob forte tensão e sem uma válvula de escape eficaz. Isso nos leva ao segundo tema que quero destacar: o atraso da iniciação sexual dos adolescentes. É esse atraso, muitas vezes, o responsável pelo comportamento violento de crianças e adolescentes intelectualmente promissores. É esse atraso que frustra o empenho de bons estudantes ao se sentirem na obrigação de tirar notas altas devido ao sentimento de inferioridade que tem em relação aos seus amigos e amigas que já se relacionam sexualmente. É como se notas excelentes compensassem um deficit na área afetivo-sexual. Em cada ambiente procuramos o respeito dos demais – principalmente os talentos mais promissores buscam esse respeito. A ironia é que os mais talentosos acabam negligenciando amiúde o sexo e o afeto por terem eles uma fonte muito mais interessante de prazer: sua inteligência e motivação. Porém, se essas crianças e adolescentes perdem o interesse em atividades intelectuais e se não conseguem ingressar a contento no mundo do sexo e do afeto, passam elas a correrem um risco muito grande cometerem suicídio, assassinatos, estupros, agressões violentas e coisas do gênero. O respeito que buscam pode não lhes ser dado, ainda que o mereçam. Isso deve acontecer bastante na transição da infância para a adolescência e na da adolescência para a vida adulta. Não por acaso é justamente nessas fases da vida que costumam surgir a maioria dos casos de esquizofrenia. Pode ser que essa esquizofrenia decorra da interrupção do prazer de ser inteligente e simultânea dificuldade em ingressar no mundo do sexo. A grande solução não está em pílulas, comprimidos, haloperidol ou carbamazepina, mas simplesmente numa orientação correta e bem intencionada da criança ou adolescente para fazê-los ingressar a contento no sexo! A solução pode ser simplesmente essa! E o porque de essa solução não estar sendo implementada é bem fácil de entender. O pai e, principalmente a mãe, não estão a vontade com a ideia do “bebezinho” deles ter uma vida sexualmente normal, sadia e ativa. O problema estaria muito mais na família do que na criança ou adolescente considerado problemático. A tal da criança-problema talvez seja apenas uma criança que precisa urgente de “uma boa massagem” – no segundo sentido da palavra, por favor! Sobre isso quero dizer que uma pu*a na cama é muito melhor que uma dama na sociedade. O terceiro tema está relacionado aos dois anteriores. A maioria das pessoas pensa que tranquilizantes realmente tornam as pessoas mais calmas. Extrapolando essa ideia, acham que muitas pessoas que são mentalmente enfermas precisam dos tranquilizantes para viverem em sociedade, caso contrário se tornariam agressivas e violentas. Nada disso é verdade. Se repararmos bem, as pessoas que tomam tranquilizantes – diazepam, haloperidol, carbamazepina, clonazepam, clozapina etc – tem mais propensão a serem justamente as desajustadas, as frustradas, as estranhas e as que ficam de fora dos círculos de amizade. Poder-se-ia argumentar que esse desajuste se deve à doença dessas pessoas e que o tranquilizante estaria tratando o desajuste. Esse argumento é uma distorção da verdade. O que vejo são pessoas adoecendo pelo uso de tranquilizantes. Tranquilizantes estes que, ao embotar a motivação do usuário e reduzir sua memória, atenção e capacidade de aprendizagem, sabotam o intelecto do “doente”,

privando-o do que, talvez, possa ser uma de suas maiores alegrias: o sucesso escolar e intelectual. Mais: ao reduzir a dose desses tranquilizantes ou suprimi-los, passamos por uma síndrome de abstinência. Esta última expressão costuma ser muito mais utilizada

quando nos referimos a drogas ilegais e/ou ilícitas. Mas o fato de termos adquirido drogas numa farmácia, com receita médica e agindo dentro da lei não transforma essas drogas em algo diferente do que são: drogas! Nosso corpo não está nem aí para a legalidade das drogas que utilizamos: o dano cerebral ocorrerá com drogas legais ou ilegais, em menor ou maior grau. A redução ou supressão do uso de tranquilizantes costuma levar, como eu estava dizendo, a uma síndrome de abstinência. Quando ela ocorre, se não estivermos preparados, entraremos em crise e ao sairmos da crise pelo retorno ao uso das drogas

eu acho que preciso realmente tomar meus remédios”. Isso

é tão errado como tratar o vício em crack ou cocaína com mais crack e mais cocaína.

dizemos a nós mesmos: “é

Simplesmente é o modo errado de enfrentar o problema. A relação do terceiro tema com os dois primeiros é que o uso de drogas, legais ou não, ao frustrar a criança ou adolescente pela redução de sua capacidade de aprendizagem, memória e atenção, favorece a agressão. Afinal, pessoas frustradas estão muito mais propensas a cometerem agressões do que as bem relacionadas. Além disso, a utilização de medicações psiquiátricas como o haloperidol e a clozapina tornam as

pessoas muito mais envergonhadas e medrosas, o que pode ser fatal se o usuário ainda não iniciou sua vida sexual. De fato, o haloperidol, a clozapina e a risperidona são drogas tranquilizantes que nos tornam pessoas afetivamente menos interessantes e sexualmente deficitárias. Ora, levando o usuário uma vida de sucessivas frustrações de caráter afetivo, sexual e intelectual, as drogas psiquiátricas produzem uma legião de agressores, suicidas

e incapazes. Não quero com isso justificar as graves agressões que cometi – falarei delas

ainda mais – mas quero pelo menos explicá-las. Tentar justificar o mal é impossível, pois

o mal não é justo; o que devemos, sim é entender o mal, exatamente para nos

defendermos dele. Sun-Tzu nos diz em seu livro “A arte da guerra” que conhecer o inimigo nos garante metade da vitória sobre ele. E se estamos em guerra contra o mal, temos que saber de onde ele vem e como ele age.

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O porteiro gay do Colégio Itapuca

Em 1987 um homossexual de nome Geraldo – funcionário do colégio Itapuca – se aproximou de mim. Ele me disse os maiores disparates. Disse que os tempos hoje são outros, mais liberais e que se eu decidisse sair na rua com o pinto duro para fora das calças, o melhor que ele poderia fazer seria ficar na minha frente para esconder meu órgão. Aquela conversa dele era um espetáculo grotesco que assisti estupefato, mas devido à novidade escutei o que ele dizia por algumas horas – veja bem: horas. Ele estava tão a fim de ficar comigo que me ofereceu o gabarito dos testes do colégio Itapuca. Recusei a ideia de cara. No fim, quando eu já estava para ir embora, me chamou para ir para sua casa transarmos. Eu não quis. Ele era um velho asqueroso e degenerado que só poderia dar tesão nem num Jegue tarado. Foi constrangedor, mas pelo menos aprendi um pouco sobre como são as pessoas. Naquela noite, em casa, fiquei profundamente angustiado. Enquanto Marcela – a loura descolada do Itapuca – me esnobava e dava bola para outros caras, eu era assediado por um gay. Abandonei o colégio Itapuca.

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Hábitos sexuais reprováveis

No primeiro semestre de 1987 ocorreu um pequeno incidente que mudou a história de minha vida e isto quase me destruiu. Academicamente, perdi uns 15 anos de estudo na UFF. Nesse tempo eu poderia ter concluído a graduação, feito o mestrado e também o doutorado. Estava indo ao apartamento onde Raphael morava com sua mãe Márcia e sua irmã Raquel quando avistei, na mesma calçada, vindo em minha direção, uma menina-mulher que devia ter mais ou menos a minha idade mesmo. Foi perto do Colégio Salesiano Santa Rosa, ou na Rua Mário Viana, ou na Rua Santa Rosa, acho. Naquela época eu ainda não havia me relacionado sexualmente e estava cheio dos hormônios próprios da adolescência. Quando via uma mulher – ou mesmo quando não via – acabava a

desejando muito, mas não tinha nenhum artifício para conseguir que mulher nenhuma transasse comigo. Na verdade, cada negativa que eu recebia ao propor sexo com mulheres me desgastava muito, razão pela qual eu fiz poucas propostas de sexo às pessoas. Quando aquela menina-mulher de shorts passou ao meu lado, minha mão escorregou furtivamente até suas nádegas e ela disse: “IIIIIIhhh, garoto!”. Meu ato não foi intencional – um lapso momentâneo em que fui guiado pela minha libido. Continuei meu caminho e percebi que ficara naquilo: não houve nenhum tipo de repreensão mais eficaz além do “IIIIIIhhh, garoto!”. Imaturo e cheio de “T”, passei a fazer tal coisa de modo rotineiro. Eu sabia que era perigoso e queria parar, mas se tornou um vício. Eu realmente tentei parar algumas vezes, mas sem êxito. Quando avistava um menina bonita a mostrar

o contorno da bunda em shortinhos ou calças jeans apertadas, logo me lembrava desse

mal hábito e ficava tentado à sair pela rua para tocar alguma mulher. Sei que para a

maioria das pessoas é difícil entender que isso era um vício: mal hábito que temos e que

é difícil pararmos por nós mesmos. O que quero dizer é que é muito mais fácil aconselhar

alguém a deixar um vício do que nós mesmos deixarmos os nossos. O alcoolismo, o cigarro e os tóxicos são vícios que só quem os tem saberá realmente o quanto é difícil parar. Mais que isso: certas pessoas são muito mais propensas a desenvolver vícios que outras. É muito fácil dizermos a um alcoólatra para parar de beber porque não estamos no corpo dele para saber o peso e a força de seu vício. Em se tratando de hábitos sexuais, também se pode desenvolver vícios e foi isso que aconteceu comigo.

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Mais agressões e a Marcela do Gay-Lussac

Fui estudar no Colégio Gay-Lussac, no centro de Niterói. Lá conheci outra garota que, como a anterior, chamava-se Marcela. Mas era uma Marcela muito diferente. Branca,

cabelos curtos e negros, inteligente, estudiosa. Ela me encantava com o que dizia e com

o interesse que manifestava por ideias, conceitos e teorias. Eu gostava muito dela e

Marcela estava sempre conversando comigo sobre os livros que lia e coisas assim. Era muito bom vê-la falar com tanto interesse e admiração dos livros que costumava ler. Mas eu me sentia frustrado por não acreditar ser capaz de estabelecer uma relação mais próxima com ela, tipo um namoro. Olhando em retrospecto, percebo que era isso que nós queríamos. Ou, mesmo que não quiséssemos isto, era exatamente isto que nos faria felizes.

Minha grande dificuldade em me relacionar a contento com o sexo oposto foi, sem dúvida, uma barreira que demorei muito para superar e que me causava grandes e

contínuas frustrações. Se eu me considerasse um estudante excelente – não bom ou ótimo, mas excelente – as frustrações se dissipavam fácil, fácil. Na verdade eu buscava uma excelência em relação aos outros estudantes de minha classe – isso implicava em ser o melhor ou estar entre os melhores estudantes da sala. Nem sempre eu conseguia isto, entretanto. Frustrado, acabei bancando o imbecil. Fustigado por um outro aluno que bagunçava uma aula de geometria, tirando toda a graça dela, meti a ponta de um compasso na barriga dele. O caso foi parar na diretoria, que foi complacente comigo. Talvez a complacência do diretor se devesse ao fato de eu ser considerado um aluno muito bom que teve um mal momento diante de outro aluno que já era considerado problemático. Por sorte não foi feita queixa na polícia. Após a agressão, passei a ser considerado o malfeitor de minha classe. E se não me falha a memória, minha vítima se tornou, momentaneamente, um herói. Ele foi, após a agressão sofrida, aclamado pela classe e carregado nos braços sob aplausos e gritos de “viva!” 7 . Apesar de eu ter sido o agressor e ele a vítima, julgo ter tido muito mais prejuízos que ele pela minha atitude irrefletida. Marcela nunca mais falou comigo e as últimas palavras que dirigiu a mim foram: “Cala a boca!” Teve uma aula de história em que fomos para a sala de audio-visual assistir um documentário a respeito do comunismo. Um outro estudante, que estava sentado atrás de mim, me cuspiu. Reclamei com o professor, que solenemente me ignorou. Pronto. Eu estava visado como o grande vilão de minha classe não tinha nada que eu pudesse fazer para reverter a situação. Era difícil prestar atenção às aulas pois passaram a jogar bolas de papel em mim, razão pela qual passei a me sentar na última fileira de carteiras da classe, lá no fundão. Também passei a ser vítima de comentários maldosos dirigidos a mim. Eu não podia me concentrar mais nas aulas, pois chegou a meu conhecimento que um grupo de alunos planejava me surrar quando estivesse só. Eu também sabia que nada do que fizesse reverteria a situação. Apesar de tudo, nada impediu que eu tirasse a maior nota da classe na prova de matemática. A nota 10. Meu professor comemorou isto, escrevendo vários recados motivadores na prova, tipo “Parabéns!”, “A melhor nota!” e coisas assim. Marcela deve ter tirado a segunda maior nota, mas cometeu pelo menos um erro, pelo que sei que sua nota não foi o 10. Aquelas palavras me motivaram a continuar a estudar.

Zoofilia

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O ambiente escolar no colégio Gay-Lussac havia se tornado insuportável. Minha mãe decidiu que eu poderia ir morar com ela e o resto da família. Ela, meu irmão, meu padrasto e seu filho Sandro já moravam em Araruama há cerca de três anos. Quando eles

7 Esse episódio ilustra bem a motivação do portador da Síndrome de Münchhausen (F68.1), também conhecida como Síndrome do doente poli-hospitalizado. Apesar de nenhum dos personagens do episódio supra-relatado sofrer dessa síndrome, o incidente mostra, claramente, que alguém que venha a sofrer uma agressão considerada indevida por seu entorno social receberá carinho, aplauso e manifestação de apoio desse mesmo entorno. O portador da Síndrome de Münchhausen busca dissimuladamente e com empenho receber essa mesma manifestação de apoio e esse mesmo carinho de seus amigos e conhecidos. Para isso, procura, sempre que possível, passar a ideia de que foi uma vítima inocente de reveses e infortúnios absolutamente imerecidos. Com a finalidade de desempenhar um papel de vítima, o portador dessa patologia costuma simular doenças em si mesmo ou em familiares muito próximos (que tecnicamente são chamados de substitutos). A fim de desempenhar o papel de vítima inocente, não hexita o portador dessa síndrome em por sua própria integridade física em risco ou causar graves danos a familiares próximos, podendo mesmo chegar a cometer o assassinato de familiares, desde que estejam convictos de que seu crime não será descoberto jamais (é imprescindível que sejam sempre considerados inocentes, caso contrário deixam de receber o carinho destinado às vítimas e passam a ser alvo da recriminação destinada aos agressores).

se mudaram para lá, em 1984, fui deixado para trás, embora quisesse ter ido com eles. Sofri horrores com a malícia dissimulada de minha tia Vera Lúcia de Campos. Antes que se possa levantar qualquer defesa a minha tia, quero dizer que foi ela a arquiteta da morte de sua própria mãe, minha avó Dermontina da Silva Campos. Explicarei isso detalhadamente mais adiante. Ao mudar para Araruama passei a frequentar o colégio homônimo, mas tive que deixar o curso Kumon de matemática, pois naquela época (1987) não havia uma filial do Kumon em Araruama (hoje há). Tinha já 16 anos completos, mas ainda era virgem. Não queria continuar a sê-lo, entretanto. Mesmo tendo os hormônios a flor da pele, não era capaz de cativar uma garota a ponto de tê-la como namorada ou ficante – fazer sexo com as garotas de minha classe era um sonho impossível para mim. Naquela época talvez eu concebesse a ideia de manter relações sexuais com prostitutas, mas até então não tinha conhecimento de onde funcionasse um bordel e também não conhecia ninguém que pudesse me instruir a esse respeito. Minha mãe nunca falara sobre isso comigo e eu não tinha intimidade com meu padrasto Lourenço para lhe perguntar sobre coisas que eu julgava tão íntimas. Também, não me lembro de meu irmão Winter, ou meu agora amigo Sandro (filho de meu padrasto Lourenço), haverem comentado sobre onde se pudesse ter sexo com meretrizes. Concluí que eles não sabiam onde eu poderia encontrar garotas de programa. Eu estava num mato sem cachorro. Então, decidi fazer amizade com alguém mais simples e que encarasse o sexo com mais naturalidade do que as garotas que eu conhecia. Quis ter intimidades com a cadela Laika, da raça fila brasileiro, que tínhamos em casa. Numa noite chamei Laika para o quartinho onde eu dormia. Tirei a roupa e tive uma ereção. Laika deu uma lambida no meu membro, mas não foi além disso. Quando tentei penetrá-la, ela rosnou. Fiquei com medo dela me atacar e desisti da ideia de penetrá-la. Depois, tive medo de contrair alguma doença por ter me encostado nela e quis urgentemente tomar um banho. Não posso dizer que foi uma relação. No máximo, foi uma tentativa.

***

OMERJ – Olimpíada de Matemática do Estado do Rio de Janeiro

Durante o recreio, decidi abandonar o colégio Araruama. Simplesmente pulei o muro do pátio e fui para casa 8 . Tendo deixado de me preocupar com a escola, passava, agora, bastante tempo lendo livros de matemática e desenvolvendo ideias nessa área. Nesse ínterim a professora Renate Watanabe – uma grande incentivadora de meus estudos – me sugeriu que participasse da OMERJ, Olimpíada de Matemática do Estado do Rio de Janeiro. Fiquei bastante animado com a ideia. Naquele tempo eu venerava os nomes dos monstros sagrados da Matemática olímpica brasileira. Considerava grandes heróis os dois únicos estudantes brasileiros que, naquela época, haviam obtido a medalha de ouro nas Olimpíadas Internacionais de Matemática: Ralph Costa Teixeira e Nicolau Corção Saldanha. Nunca os havia conhecido pessoalmente, mas tomei conhecimento da existência deles através do professor Faraday. Também soube dos feitos espetaculares desses dois grandes matemáticos pela Revista do Professor de Matemática (RPM) 9 . A OMERJ tinha duas fases. A primeira delas consistia numa prova objetiva

8 Naquele tempo (1987) era muito fácil fazer isso, pois o muro era suficientemente baixo. Depois puseram um muro bem mais alto.

9 A Revista do Professor de Matemática (RPM) é uma publicação periódica da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) destinada à professores e estudantes dessa disciplina. A professora Renate Watanabe providenciou que eu recebesse os números da RPM regularmente, na qualidade de assinante.

(assinalar com o tal do “X” a opção correta entre as 5 oferecidas) com 20 questões de dificuldade média. Passei nessa fase com certa facilidade. Nas 20 questões da prova, cometi um único erro. Fiquei bastante animado com isso e fiz muitas expectativas. Vislumbrava uma premiação após a segunda fase. Entretanto, para minha grande decepção, tive um resultado muito ruim na prova final, que tinha menos de 8 questões, mas eram muito mais difíceis que as da primeira fase. Fiz 4 pontos em 60 e devo ter ficado em penúltimo ou antepenúltimo lugar entre os 20 finalistas na minha categoria (prova para o 1º ano do segundo grau) 10 . Voltei desolado para Araruama.

Testosterona

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Cabe fazer alguns comentários muito pertinentes antes de continuar. Em primeiro lugar, é fato bem conhecido haver muito mais líderes do sexo masculino do que do sexo feminino. Se nos perguntarmos sobre o motivo para isso, uma das resposta possíveis será o hormônio chamado testosterona. Este hormônio é um dos grandes responsáveis pela qualidade de liderança. Quem tem mais testosterona terá, do ponto de vista endócrino, mais talento para liderar do que quem tem menos. E por esse hormônio ser muito mais atuante nos homens, isso explica porque é mais comum haver mais líderes homens do que do sexo oposto. Uma das principais características dos líderes talvez seja agressividade. A agressividade pode significar coisas ruins, como hostilidade, destrutividade ou violência física, mas nem sempre isso ocorre. Agressividade também pode significar coragem e ousadia. Pode-se encarar a agressividade como a qualidade de ser agressivo. Nesse caso, ser agressivo pode ser interpretado como ser empreendedor ou audacioso, como na expressão “vendedor agressivo”. Do mesmo modo, ser agressivo também pode significar ser arrojado e corajoso, como na expressão “campanha publicitária agressiva”. Vimos, pois, que agressividade pode nos remeter a qualidades típicas da liderança, a saber: coragem, ousadia e empreendedorismo. O principal hormônio regulador da agressividade no ser humano é a testosterona. Isso nos faz entender o maior número de líderes do sexo masculino do que do feminino. Também explica porque os homens costumam recorrer mais à violência física que as mulheres: eles tem muito mais testosterona. O fato notável é que impulsos sexuais e agressividade estão fortemente relacionados. A propensão ao sexo e à agressividade parecem brotar da mesma fonte. De fato, citando Steve Biddulph em seu livro “Criando Meninos”:

“Sexo e agressividade estão ligados de algum modo – controlados pelos mesmos centros no cérebro e pelo mesmo grupo de hormônios.”

Uma pesquisa reveladora mostrou, em 1980, uma forte conexão entre impulsos sexuais e delinquência juvenil. Citando a mesma fonte:

“os meninos são muito mais propensos a problemas com a polícia seis meses antes de

10 Naquela ocasião, Ralph Costa Teixeira também participou dessa mesma competição. Entretanto ele fez a prova referente ao 3º ano do segundo grau. O professor responsável – um matemático de origem portuguesa – anunciou, enlevado, que Ralph obtivera a medalha de ouro em sua categoria ao ser o único a resolver todas as questões da prova com absoluta correção. O mesmo professor, que antes da realização da prova soubera de meu grande interesse por Matemática, fez, em seu discurso de divulgação dos resultados, menção a uma certa “decepção”, sem explicar, entretanto, exatamente a que se referia. A carapuça acabou servindo.

sua primeira experiência sexual. Em outras palavras, eles se acalmam um pouco quando começam a fazer sexo.”

O meu palpite é que da mesma fonte que brota a violência física, mina também a energia psicossexual. A agressividade pode se transformar tanto em violência física quanto em força sexual, bem como em intensa produção intelectual, tenha ela caráter artístico, filosófico ou científico. Se a agressividade não for adequadamente canalizada, ela pode estourar como violência (auto)destrutiva e descontrolada. Se nos conscientizarmos que o atraso da iniciação sexual dos meninos pode torna-los vítimas de chacotas, comentários maldosos e insinuações que põem em dúvida sua masculinidade, estaremos aptos a concluir que um garoto com dificuldades em se relacionar com meninas terá sucessivas frustrações afetivo-sexuais ao mesmo tempo em que armazena grande agressividade. O resultado disso costuma ser trágico. Pode resultar em crimes aparentemente inexplicáveis, como os casos em que o filho mata os pais, tios ou os avós. Adolescentes considerados inteligentes e estudiosos, me parece, estão mais propensos a explodir sua agressividade como violência descontrolada contra sua família. Seriam considerados inteligentes por estarem canalizando sua energia para ciência e demais estudos, numa tentativa de manter aberta essa válvula de escape e, assim, reduzir suas frustrações afetivo-sexuais. Neste caso, quanto mais incentivo e facilidade encontrarem para estudar e aprender, quanto mais recompensas justas por seus esforços eles tiverem, mais longe irão. O caso emblemático foi o de Isaac Newton, físico e matemático inglês do século XVII que pode muito bem ser considerado o maior cientista de todos os tempos. Newton se absteve de relações sexuais durante toda sua longa vida e sua produção intelectual foi algo sem precedentes. Alguns chegaram a achar que ele não era humano. Sobre Newton, afirmou-se: “mais perto dos Deuses nenhum mortal pode chegar”. O caso de Newton foi o de ter tido ele êxito em canalizar quase toda sua agressividade para seus estudos, pesquisas e teorias.

Facada no padrasto

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Após o fracasso da participação na OMERJ, retornei a Araruama. Já havia saído da escola, desmoralizado, por não ter sido capaz de manter relações sexuais com garotas lá. Isso não teria sido problema se eu não as desejasse. Meu desejo por garotas foi aumentado muitas vezes após ter estabelecido o hábito de me masturbar e também aumentou muito após a aquisição de material pornográfico. No entanto, eu permanecia virgem. O episódio com a cadela Laika já demonstrara minha ânsia e era o tipo de coisa da qual eu não podia fugir. Em qualquer lugar que fosse, haveria pessoas. Os homens zombariam de mim – de um modo ou de outro – ao perceberem o quanto eu era incapaz de ter relações com garotas. As meninas, por sua vez, continuariam a me desprezar como amante, por culpa de minha própria imperícia. Somando minha ânsia por sexo à persistente incapacidade de me relacionar sexualmente e à inevitável frustração disso resultante, havia aí uma bomba relógio que esperava o momento de explodir. Já há algumas semanas minha convivência com meu padrasto Alcemir Lourenço de Souza estava insuportável. Lourenço tinha um palavreado grotesco e ofensivo que dirigia especialmente a mim. Certa vez eu havia dito “Hoje vou fazer uma coisa que não faço há muito tempo” e ele respondera de pronto “Vai dar três cagadas sem tirar o cu do vaso”. Apesar de meu comentário ser desnecessário e pretensioso, isso não era motivo para ter tido aquela resposta.

Certa noite, em agosto de 1987, acho, Lourenço chegara bêbado em casa. Achacou verbalmente minha mãe na cozinha e a fez chorar 11 . Se eu conhecesse realmente minha mãe, como hoje bem a conheço, isso teria tido muito pouca importância. Mas naquele tempo eu a venerava. E como se já não bastasse Lourenço ter levado minha mãe para longe de mim e me privado por anos da companhia dela e de meu irmão, agora ele descontava nela suas frustrações. Ora, foi para isso que ele se tornara marido de Vanda? Para fazê-la chorar? Porque deveria haver motivos muito bons para os dois ficarem juntos, já que, caso não tivessem notado, eu sofrera deveras com a ausência de minha mãe. Naquela noite eu perdi a cabeça. Eu o enfrentei e guardei uma faca sob a roupa. Era uma faca grande, uma corte laser, com o ponto vermelho característico no cabo. Essa faca havia sido anunciada na TV e meu padrasto e minha mãe a compraram. Minha mãe viu que eu tinha uma faca escondida e quando Lourenço se afastou ela disse para que eu a guardasse. Eu respondi que no dia seguinte ele se lembraria de tudo – e presumi que minha situação ficaria ainda muito pior. Então fui atrás de Lourenço quando ele se encaminhava para seu quarto. Num corredorzinho pequeno que dava no quarto de casal deles eu o alcancei; ele se virou rápido e e tentou se defender me dando um chute, mas seu golpe não me atingiu e eu avancei lhe dando uma facada no abdome. Com essa única facada a lâmina da corte laser se quebrou na barriga dele e eu corri desesperado para o quintal, onde peguei uma enxada e a ergui em posição de defesa, esperando o contra-ataque de Lourenço. Eu imaginava que ele viria com tudo para cima de mim, pois não estava morto. Ninguém apareceu. Ouvi Sandro a chorar desesperado e Lourenço dizendo: “que merda, heim!”. Saíram todos de casa, pelo que me pareceu. Levaram Lourenço para ser operado às pressas. Foi aí que comecei a me arrepender do que havia feito. Pensava comigo mesmo que, se eu pudesse, desfaria a agressão. Entretanto, como ouvi certa vez, “viver é desenhar sem borracha”; também, no jogo de xadrez a vera, não se pode desfazer um movimento. No xadrez temos que pensar muito antes de mexer uma peça, pois um movimento errado pode nos levar a derrota. Isso nos obriga a pensar nas consequências de nossos lances, assim como deveríamos pensar muito nas consequências de nossas atitudes na vida quotidiana. Peguei minha coleção da RPM (Revista do Professor de Matemática), meus cadernos diários, pus numa mochila e saí de casa. Na saída minha mãe passou por mim de carro e me chamou desesperada, mas eu continuei meu caminho. Fui até a estrada que saía de Araruama e iniciei minha caminhada. Pensei comigo mesmo que iria para Niterói e tentaria trabalhar em algum lugar para ter um meio de sustento. Então, passaria 20 anos sem me aproximar de minha família ou de conhecidos para que a polícia não me capturasse. Eu não sabia se Lourenço havia sobrevivido ou não, mas isso não dependia mais de mim. Torcia para que ele sobrevivesse, pois isso tornaria o crime menos grave e eu não queria realmente ser um assassino. Meu desespero ia se acentuando. A ideia de ter sido eu mesmo o culpado por minha desgraça me angustiava cada vez mais. Embora me preocupasse, não queria saber se Lourenço estava vivo ou não. Se ele não estivesse, isso faria de mim um assassino e alguém a quem a polícia deveria caçar impiedosamente. Nesse caso, eu também seria deixado de lado por minha família e por todos os amigos e amigas de meus parentes. Seria eu uma terrível decepção para todos. Por outro lado, mesmo se Lourenço estivesse vivo, eu continuaria enrascado. Estava verdadeiramente arrependido do que fizera e isso ficaria bem claro depois, com a mudança de meu comportamento diante de situações similares.

11

Alguns quilômetros depois cheguei a uma cidadezinha chamada Bacaxá. Parei no banco de uma pracinha e me deitei, tentando dormir. Não conseguindo, entrei na cidade a procura de um lugar mais confortável. Quando dei por mim estava próximo de um posto policial, achei melhor não dar meia volta retornando, para não levantar suspeitas. Passei em frente, mas um policial me chamou com voz de ordem. Pensei em fugir, mas sabia que não conseguiria. Além do mais, se tentasse, ele poderia ter um bom argumento para atirar em mim. Decidi me entregar. Eu esperava o pior deles. Que me batessem, que me torturassem, me achincalhassem, que me pusessem atrás das grades com outros criminosos etc. Para meu alívio, fui bem tratado. Fizeram algumas perguntas e foram simpáticos. Depois me levaram a um lugar onde, presumo, eu deveria ficar preso – talvez fosse algo como a FEBEM. Já clareara o dia e pude ver, num carro próximo, minha mãe conversando demoradamente com alguém que tinha poder para decidir se eu ficaria detido ou em liberdade. Eu fiquei em liberdade. Fiquei sabendo que, graças a Deus, Lourenço havia sobrevivido. Eu e minha mãe passamos em casa. Laika latia para mim, com raiva. Até ela sabia que o que eu tinha feito era muito ruim. Não gostei de vê-la me detestando. Minha mãe me levou para a rodoviária, eu teria que voltar para Niterói. Disse a ela que Lourenço devia estar com muita raiva de mim, mas Vanda disse que ele estava rezando por mim. Em Niterói fui ficar no apartamento em que moravam minha avó e minha tia Vera. Minha tia perguntou porque eu tinha retornado e eu não disse que havia esfaqueado Lourenço. Ela me disse que já sabia o que acontecera, segundo ela, da boca da ex-mulher de Lourenço. Imaginei que logo todos saberiam de meu crime e eu seria hostilizado, mas isso não aconteceu naquela época. Minha mãe disse para mim que contasse a Drº Lamy, meu psiquiatra, o que eu tinha feito e que pedisse a ele que me internasse. Fiz como ela disse, mas Lamy decidiu que eu não precisava de internação. Lembro que ri nervosamente naquela ocasião. Não era momento para rir e não me senti confortável fazendo isso. Eu sabia que meu ato era absolutamente condenável. Ainda assim, era como se eu tivesse me vingado da mesma civilização que julgara ter me infligido – e que ainda estaria a infligir – tanta humilhação e dor. Hoje percebo que se eu tivesse iniciado minha vida sexual antes, jamais teria feito o que fiz. Anos mais tarde, ao comentar o episódio com Vanda, ela negara que Lourenço a tivesse feito chorar naquela noite. Negou também que tivesse brigado com Lourenço na ocasião. Hoje, no meu entender, Vanda busca, com tal negativa, tirar de si e de Lourenço qualquer indício, por menor que seja, de que o casal pudesse ser minimamente responsabilizado pelo ocorrido. Entretanto, muito dificilmente ela poderá negar que, na noite fatídica, Lourenço chegara bêbado em casa. Inclusive, meu padrasto chegava embriagado em casa quase todas as noites e fez isso durante os vinte e dois anos seguintes, até que teve de amputar a perna, passando a ter uma vida muito mais caseira e menos dada a bares. Só não sei até quando a falta da perna o afastará dos bares e do álcool.

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Atirando em todas as direções

Depois que voltei a Niterói, passei vários meses (até o início de 1990, acho) tentando ter uma vida longe da escola regular. Acreditava que se estivesse em ambientes frequentados por pessoas mais velhas e mais sérias, elas não seriam tão cruéis comigo e

com minha imperícia sexual. Tentei fazer alguns cursos que me interessavam. Frequentei

o Curso Electra, no Rio de Janeiro, que se propunha a formar técnicos em manutenção de

rádio e TV 12 ; cursei durante uns poucos meses a Severus Artes Galeria, um atelier onde

pretendi aprender a desenhar e pintar 13 ; voltei a fazer o Curso Kumon de matemática com

o professor Faraday Smith Correa dos Reis 14 ; compareci durante algum tempo ao curso de álgebra, ministrado por Arnaldo Garcia, no IMPA 15 .

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Oitava série no CES – Cento de Ensino Supletivo

Em 1989 quis concluir o então chamado primeiro grau. Para isso, bastaria terminar a oitava série. Não quis estudar em colégios onde se exigisse assistir aulas, pois todo o inferno de minha frustração em não conseguir os carinhos de alguma menina desabaria novamente sobre mim. Optei por terminar a oitava série num curso supletivo, onde se pedia que estudássemos a matéria em módulos – pequenas apostilas com os tópicos que cairiam na prova. Embora os módulos fossem, em geral, pequenos e fáceis de entender, para ser aprovado num módulo era necessário tirar, pelo menos, a nota 8,0, isto é, ter um aproveitamento de 80%.

Iniciação sexual etc

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Quando completei 18 anos de idade, ainda virgem, meu psiquiatra, Drº Eugênio Lamy, insistiu para que eu procurasse uma sauna, lugar onde poderia trocar meu apoucado dinheiro pelos favores sexuais de uma prostituta. Eu não queria transar com nenhuma puta, pois tinha medo de tudo que a TV, os padres, e as piadinhas entre amigos diziam sobre elas. Naquela época interrompi temporariamente as drogas tranquilizantes que o próprio Lamy me receitara – haloperidol, carbamazepina e prometazina – e passei a ter uma coragem que eu mesmo desconhecia. Eu fazia a oitava série no CES e ter deixado de tomar meus “remédios” fez aflorar em mim uma sexualidade tão intensa que não se deixava domar facilmente. Não estava plenamente preparado para controlar aquilo, ainda. Essa energia intensa não se canalizava para o sexo de modo direto, porque eu ainda era virgem e desprovido de recursos para estabelecer relacionamento sexual que considerasse satisfatório. Mesmo sem falar em sexo ou buscá-lo de algum modo, a intensa vitalidade sexual acabou sendo percebida no CES e, não tendo eu firmado relações com mulheres na época, meu comportamento acabou sendo confundido como o de um gay. Pelo menos foi isso que pensei na época. Hoje minha opinião é bem diversa:

sem que eu ficasse sabendo, minha tia Vera Lúcia de Campos ou minha mãe Vanda

12 Foi um fracasso e ainda saí de lá injuriado por um velho que sugeriu que eu fosse gay – o infeliz me envergonhou diante de toda a turma e tive tanta raiva dele que quis trucidá-lo, mas lembrei do aperto que passei no episódio com meu padrasto e preferi não fazer nada.

13 Outro fracasso, assim como no caso do curso de eletrotécnica, pois não fui capaz de me interessar verdadeiramente por desenho e pintura – também fiquei com raiva do dono do curso e quis trucidá-lo, mas, novamente, me lembrei do desespero pelo qual passei ao esfaquear meu padrasto e não fiz nada.

14 Tive um sucesso relativo em meu retorno ao Kumon, tendo feito cerca de 1200 folhas de exercícios de matemática. Acabei cometendo o erro de dizer ao professor Faraday que eu havia metido uma faca em Lourenço. O tratamento que passei a receber de Faraday mudou muito pouco, mas percebi que ele não me recebia mais em sua residência. Foi bom ter cometido esse erro para que percebesse que não deveria mais comentar isso com ninguém.

15 Para alguém que não havia concluído sequer o primeiro grau, o curso de verão no IMPA foi um sucesso relativo, já que tive 65% de aproveitamento na primeira prova dele, que se dirigia principalmente a estudantes da graduação.

Campos Guedes devem ter plantado a notícia de que eu esfaqueara Lourenço de modo que tal notícia chegasse ao conhecimento de algumas pessoas no CES; do mesmo modo também devem ter posto minha sexualidade em dúvida. Muito excitado e sem aceitar o papel que queriam me impor, acordei certo dia decidido a ter relações com alguma meretriz. Fui ao local onde, segundo Lamy, havia um prostíbulo. Mas estava fechado, talvez já há muitos anos. Fui até um ponto de táxis, no centro de Niterói, pois na certa algum taxista saberia dizer onde havia uma sauna. Dito e feito. Fui instruído a pegar o ônibus Nº30, descer no ponto final e me informar no hospital da polícia militar sobre o lugar que chamavam “Floresta”. Assim fiz. Lá chegando vi uma mulher em trajes de banho e me dirigi à recepção. Uma das garotas, muito solícita, me mostrou todo o bordel. Ao terminar disse que eu poderia escolher a menina que quisesse e convidá-la para ir para o quarto. Havia uma jovem bonita que sorria para mim, oferecendo-se. Mas tive medo dela, talvez por ela ter tomado a iniciativa. Eu queria o privilégio da escolha. Chamei outra menina, de pele branca, cabelos curtos e negros e meio gordinha, que estava deitada, repousando de olhos fechados, e não havia mostrado nenhum interesse por mim. Acho que ela disse chamar-se Márcia – coincidentemente o mesmo nome de minha esposa hoje. Paguei o preço estipulado ao gerente do bordel que, no ato, se importou o suficiente comigo para me dar uma camisinha de brinde. Eu e Márcia fomos para o quarto – uma suíte. Meu membro nunca havia ficado tão duro. Antes de consumarmos a relação carnal, tomamos um banho e disse à mulher que aquela seria a primeira relação sexual de minha vida. Márcia não demonstrou se importar com esse meu comentário, mas acredito que ela se lembre dele. Depois do banho fomos para cama. A mulher pôs o preservativo em mim e eu a penetrei. Ficamos juntos durante o tempo combinado, porém não consegui gozar. Apesar da ereção bastante satisfatória, não houve ejaculação. Atribuo isto à ausência das drogas psiquiátricas – talvez meu corpo tivesse que passar algumas semanas sem medicamentos psiquiátricos para se adaptar. Um tempo depois de voltar para meu apartamento, percebi que meu pênis tinha uma grande mancha roxa. Relatei isso a Lamy e ele disse que deveria ser alguma doença venérea perfeitamente tratável. Não era nada disso, entretanto. É que Márcia tratou meu “dildo” com alguma brutalidade e ele não estava acostumado a isso.

Vexame no Hotel Raposo

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Ter ficado sem drogas psiquiátricas naquela época afetou negativamente meu psiquismo, ao contrário do que ocorre hoje em dia. Ao mesmo tempo em que parei de tomar remédios, adotei durante dez dias um hábito de sono muito diferente do usual: eu dormia noite sim, noite não. Quando ia para cama, acabava dormindo entre dez e dezesseis horas seguidas para compensar a ausência de sono na noite anterior. Naquela época, atribuí a meu psiquismo diverso a má interpretação de meu comportamento e a decorrente crença, por pessoas do CES, de que eu fosse gay 16 . Isso me revoltou, afinal, eu já havia comido uma garota – uma garota de programa, e também nunca havia tido relações com homens. Eu não sabia porque as pessoas estavam tendo uma ideia errada de minha sexualidade. A questão é que ter me relacionado sexualmente com uma prostituta não melhorou tanto minha capacidade de convencer outras mulheres a se relacionarem comigo. Na verdade, minha dificuldade em iniciar um relacionamento íntimo com mulheres não

16 Como já disse, talvez seja mais provável que essa crença tenha se estabelecido a partir de boatos espalhados por minha mãe Vanda ou minha tia Vera.

prostitutas foi pouco alterado. Em casa minha situação também não era boa – na época morava no térreo de um prediozinho antigo na rua Comendador Queiroz, em Icaraí, Niterói com minha avó e tia maternas. Então decidi passar um tempo fora, numa cidade chamada Raposo, num hotel homônimo. Pus algumas roupas em malas e também uma enciclopédia inteira, pois minha energia extra me fizera passar a ser mais amigo de livros. Parti para Raposo. Durante a viagem fiquei conversando com um menino que sentava-se no banco ao lado. Ele tinha um irmão menor que estava sentado com a mãe na poltrona em frente. Foi muito bom conversar com ele. Num dado momento sua mãe passou a apreciar nossa amizade e puxou conversa comigo. No fim de minha viagem, quando estava saindo do ônibus, ouvi o menino dizer para a mãe: “mãe, quero ver o meu pai”. Os pais do menino deviam ter se separado e a conversa comigo talvez tenha feito ele ter saudades de seu pai.

Minha estadia em Raposo foi um fiasco. Assim que cheguei um garçom me disse:

“tem uma pessoa querendo te chupar”. Tive medo que fosse algum pervertido como Geraldo – o porteiro gay do colégio Itapuca – ou uma mulher velha e horrivelmente feia. Era melhor nem saber quem queria me chupar. Além do mais, preferia eu mesmo escolher com quem iria me relacionar, e não o contrário. Meu comportamento estava muito estranho e decidi voltar a dormir todas as noites e a tomar meus remédios. Mesmo assim, acabei sendo considerado homossexual – ou coisa pior – pelos hóspedes e funcionários do Hotel Raposo. Não sei se isso aconteceu devido a estranheza de meus atos ou a boatos espalhados por meus familiares intrometidos. Talvez todos – todos – meus problemas tivessem uma origem até então insuspeita: a perversidade dissimulada de minha mãe e de minha tia. Na verdade, se minha mãe não tivesse permitido, eu não teria sido vítima de minha tia Vera Lúcia – também minha avó Dermontina seria, anos mais tarde, vítima de sua própria filha Vera, com a permissão de minha mãe Vanda. As irmãs eram comparsas em golpes nefastos e inconfessáveis. Não comi ninguém em Raposo, embora tenha convidado uma garota, que também era hóspede, a ir a meu quarto para transarmos. Não me lembro o nome dela, mas nós costumávamos conversar e era difícil eu conhecer alguém que tivesse afinidade comigo. Quando ela foi embora o hotel tornou-se insuportável. Então desabei num choro silencioso diante de uma funcionária do hotel que teve misericórdia de mim e me ajudou a voltar para casa.

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Ideias de homossexualidade e como lidei com elas

De volta a Niterói, passei a ser acometido de pensamentos de caráter homossexual. Eu batia os olhos num homem na rua e ria, achando absurdos meus próprios pensamentos. Não tinha desejo de me relacionar com homens, entretanto. O que estava acontecendo comigo talvez tenha arruinado a vida de muitas pessoas. Eu não queria isso para mim, mas não conseguia conter o riso ao ver homens na rua. Compreendia que ninguém poderia me ajudar, não havia meio de alguém entrar em minha mente e arrumar a bagunça que estavam meus pensamentos. Ademais, não confiava em ninguém o suficiente para dizer o que estava acontecendo. Foi uma decisão acertada não falar a ninguém o que ocorria. Decidi que eu mesmo deveria por fim àquela tortura. Então, toda vez que eu me pegava rindo com ideias de caráter homossexual, dava-me tapas no rosto com força suficiente para que eles me fossem desagradáveis. Não era tão importante que os tapas fossem fortes, mas sim que todo e qualquer pensamento de caráter

homossexual fosse seguido imediatamente por um tapa desses. Ao me verem na rua dando tapas em mim mesmo, talvez não houvesse ninguém que não me achasse um doido completo, mas minha persistência foi premiada: os tais pensamentos cessaram. E cessaram rapidamente, ao cabo de, no máximo, uns 15 dias. Não se pode dizer que não havia o dedo de minha tia nesse verdadeiro vírus de pensamento do qual fui vítima. Para ilustrar, lembro que certa vez ela me contou uma piada de profundo mal gosto como se fosse engraçada. A piada era dizer que um sujeito foi se confessar ao padre e dizia: “padre, eu comunguei”, e o padre dizia: “sim, meu filho, eu sei que você comungou, mas qual é seu pecado?”, e o outro respondia: “eu comunguei, padre!”, e o padre “mas comungar não é pecado, meu filho” e o outro: “meu pecado foi esse: eu comiunguei!”. Ao ouvir tal indecência, fiz uma cara de reprovação. Com uma família dessas, não me espanta ter um avô suicida e duas tias-avós idem.

De volta à Floresta

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Sexo com putas era algo que eu me permitia fazer. Depois que voltei do Hotel Raposo retornei ao prostíbulo conhecido como Floresta. Eu retornara ao uso de drogas psiquiátricas e chamei Márcia – a mesma mulher com quem tive minha primeira relação sexual – para ficarmos juntos novamente. Parece que ela não quis muito ficar comigo não. Ela se negou a ficar comigo de um modo tão sutil e carinhoso que não me abalei. Talvez tenha feito isso por eu não ter gozado com ela da primeira vez. Então escolhi outra menina, que dizia chamar-se Amanda. No quarto, nu e duro, perguntei a Amanda: “Você beija?”. Ela respondeu: “Claro que beijo” e tomando meu vigor nas mãos iniciou uma sessão de sexo oral. Quando perguntei se ela beijava não estava pedindo isso. O que queria era beijo na boca. No início essa era minha queixa principal. Elas, via de regra, evitam o beijo na boca. Amanda ficou de quatro e tendo eu a penetrado ela foi a primeira pessoa com quem gozei. Mas a achei muito larga, parecia faltar pressão. Retornei a “Floresta” na outra semana. Não vi nem Amanda nem Márcia e então fiquei com uma garota chamada Mirtes, de pele branca, cabelos negros e compridos de cerca de trinta e poucos anos e cujo apelido era “indiazinha”. Esse único contato com Mirtes foi o suficiente para que ela não me esquecesse mais. Após um ou dois anos sem nos vermos, ela ainda se lembrava de mim. Mistérios do amor. Na quarta vez em que retornei a “Floresta”, uma negra gostosa de nome Zuleica me perguntou decidida e natural: “Vamos trepar?” Fomos. Disse a ela que queria penetrá-la analmente. Ela me prometeu que faria isso da próxima vez que estivéssemos juntos. Depois de alguns dias, retornei à “Floresta”. Entretanto, a casa estava em obras e naquele dia ninguém seria atendido. Soube mais tarde que havia fechado as portas – o motivo umas pessoas disseram que foi por um cliente ter matado uma prostituta lá, por ele ter se apaixonado por ela; outros disseram que o problema fora o uso de tóxicos ilícitos naquele bordel.

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Outro bordel: Alameda São Boaventura, 250

Rodei a cidade perguntando a um e a outro onde havia uma sauna com meninas. Tomando as tais drogas psiquiátricas eu não conseguia mais resolver esse problema extremamente simples: bastava perguntar a algum taxista, como eu tinha feito antes.

Entretanto, me sentia incapaz de fazer isso, com uma espécie de vergonha nociva que não tinha quando sem drogas psiquiátricas. Por fim, num bar de esquina, próximo de minha casa uns camaradas me deram a dica: pegar o ônibus Nº49 e ir até a Alameda São Boaventura, no número 250, onde havia um bordel. Foi o que fiz. Lá reencontrei Márcia que me quis para ela de qualquer jeito. Mas eu queria outra menina. Entretanto, ela insistiu e eu cedi. Paguei o valor e subimos para o quarto para transamos. Gozei normalmente e foi bom. No final da transa, Márcia sugeriu que se ficássemos uma segunda vez. Ela disse só me custaria a metade do valor. Na hora não entendi bem o porquê, mas depois concluí que ela queria tanto transar comigo que deixaria de receber a parte que lhe cabia, só para me ter na cama de novo. Umas semanas depois retornei a 250 e Márcia não estava mais lá. Fiquei com uma mulher chamada Neide. Loira, baixinha, coxas grossas e cara de safada. Ela foi boa para mim. Deu-me alguns conselhos, como só casar depois dos trinta anos e coisas assim. Ficava sempre com Neide, fui monogâmico por escolha. Um dia, porém, Neide foi embora. Segundo amigas ela abrira seu próprio negócio. Um bar, acho. Procurei outra garota e encontrei Fátima, uma mulher esguia, branca e de cabelos curtos e negros. Passei a ficar sempre com ela, e depois de pegar algum carinho, até fiz um poema em sua homenagem. Um dia Fátima foi embora. Amigas disseram que ela foi para outro estado, na região norte ou nordeste. Novamente só, procurei outra garota que eu gostasse. Fiquei com algumas de que não gostei. Havia as que não faziam o que era obrigatório na época: o popular boquete; havia as sacanas que depois de furunfar te chamavam de viado; havia as de localização aleatória que vinham e sumiam sem que pudéssemos ter um relacionamento de fato. Decidi procurar outra sauna.

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O puteiro da Rua Marechal Deodoro, n.160

Por informações que tive com os próprios frequentadores da Alameda 250, cheguei a outro lugar, na Rua Marechal Deodoro n.160, no centro de Niterói. Fui até lá e reencontrei Mirtes. Passei por ela e reconhecendo-a tentei lembrar de seu nome, o que não consegui. Mas, atento, ouvi alguém mencionar seu nome, presumivelmente se dirigindo a ela, o que me fez recordar definitivamente. Fui procurar alguma garota de quem eu gostasse e acabei dizendo um “oi” para Mirtes que testou minha memória dizendo-me algo como:

“Meu nome é Diomara” e eu respondi: “Não, seu nome é Mirtes”. Ela se derreteu toda. Transamos. Eu pedi para penetrá-la analmente, mas ela se recusou. Desculpou-se e justificou a negativa dizendo que tinha um problema nos rins. Não a peguei mais desde então. Márcia, que me tirou a virgindade, também estava lá. Fez de tudo para ficarmos juntos. Tentei escolher outra menina, mas elas, percebendo o interesse da companheira, se recusaram a ficar comigo. Como eu resistia a ficar com ela, Márcia me disse que faria sexo anal. Foi a primeira bunda que comi. No entanto, por pouco não brochei, pois me senti pressionado, além de estar tomando várias substâncias psicotrópicas receitadas por meu psiquiatra, Eugênio Lamy. Esses remédios acabavam comigo, mas na época eu não sabia como seria a vida sem eles, além do que, devido minha juventude e grande saúde física, podia ter uma vida próxima do normal mesmo os utilizando.

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Hilda Shanna, minha melhor amante

Márcia tinha uma amiga conhecida com Shanna. Uma negra muito gostosa e sexy, que tinha um sorriso fácil e bonito além de beijar na boca e fazer muito bem o trivial obrigatório

– isto é, o boquete. Quando retornei à Marechal Deodoro 160, Márcia já não estava mais

lá. Aproveitei para ficar com Shanna. Foi bom. Depois disso, sempre que voltava na 160 ficava com ela. Tinha por norma esperar meia hora por Shanna caso não a encontrasse logo ao chegar. Foram seis anos ótimos, acho que de 1990 até 1996. Neste período fiquei com poucas garotas, só me interessava realmente por Shanna. Ela me disse que seu

nome verdadeiro era Hilda. Nas várias dezenas de vezes que transamos nunca brochei. Ao contrário, ardia de desejo por ela. Estimo que devemos ter transado umas 120 vezes nesses cinco anos. É muito pouco, se considerarmos que o brasileiro médio faz sexo cerca de 500 vezes no mesmo período. A falta de dinheiro foi um grande obstáculo para uma vida sexualmente mais ativa, mas isso pode ter evitado que eu contraísse doenças venéreas. Um ponto de suma importância foi o grande aumento de meu rendimento intelectual após o início de minha vida sexual em 1989. Já em 1990 obtive o terceiro prêmio na Olimpíada Brasileira de Matemática, colocação esta que antes julgava impossível obter.

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Como conheci minha esposa Márcia Regina

Em 1989 fomos fazer uma visita a meu tio Napoleão, minha tia Isabel – que chamávamos tia Belita – e meus primos Fabrício Campos e Isabela. Eles moravam em Muqui, uma cidadezinha do estado do Espírito Santo. Lá, meu irmão Winter e eu decidimos sair uma noite para passear. Não encontramos nenhum barzinho ou qualquer coisa do tipo, então ficamos andando sem rumo na noite silente de Muqui. Num dado instante, percebi algumas pessoas no alto de uma pequena construção

– uma casa de dois andares ou pequeno prédio. Eram umas meninas que jogavam umas

pedrinhas na gente. Nos aproximamos e eu as chamei para descerem e conversarem conosco. Para despertar o interesse das meninas eu disse que havia ganho um prêmio numa loteria, mas nem eu nem elas levaram minha afirmação a sério. Desceram duas ou três meninas. Uma delas era Márcia Regina, que viria a ser minha esposa doze anos mais tarde. Ficamos conversando durante algum tempo e me despedi de Márcia me inclinando e lhe dando respeitosamente um beijo na mão, como imaginava que os cavalheiros faziam – era assim que eu tinha visto nos filmes! No dia seguinte, pela manhã, ficamos esperando o ônibus que nos levaria de volta a Niterói. Mas uma das meninas que conhecêramos na véspera foi até lá e me pediu meu endereço, que eu dei solícito. Alguns meses depois, em minha casa em Niterói, já havia esquecido o episódio com as meninas. Foi aí que recebi uma carta de Márcia com letras bem grandes dizendo: “Mande notícias”. Começamos a nos corresponder e depois de meses decidimos nos encontrar novamente. Após uns meses me correspondendo com Márcia, voltei a Muqui para vê-la e nós ficamos juntos – nos beijamos muito, mas não houve sexo, nem oral nem com penetração. Havia pedido uns conselhos a meu então psiquiatra Dr. Eugênio Lamy, que acabaram se mostrando bastante úteis para conquistar Márcia. Finalmente eu conseguira uma namorada, coisa inédita para mim, embora já tivesse tido relações com prostitutas. Na volta para casa, eu me sentia o homem mais feliz do mundo. Se eu morresse na viagem de volta, teria morrido feliz. Nem mesmo a proximidade da morte poderia ter

me aborrecido naquele tempo, creio eu. Combinamos para eu retornar a Muqui em agosto de 1990, acho, mas o padrasto de Márcia acabou morrendo um mês antes disso e ela pediu para que eu fosse vê-la naquele mesmo mês. Imaturo, não compreendi a gravidade da situação e argumentei que iria só no mês seguinte, pois este fora o combinado. Quando retornei a Muqui no mês de agosto, Márcia me deu o fora por eu não tê-la amparado emocionalmente após a morte do padrasto. Fiquei muito chateado e meu retorno a Niterói foi muito diferente do anterior. Mas depois de alguns meses, acabei superando a situação.

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Proposta indecorosa versus identidade sexual

Naquela época conheci um sujeito chamado Fernando. Ele era jovem, alto e forte. Eramos da mesma turma do CIN – Centro de Informática de Niterói – um curso de informática. Um dia ele me chamou para sair, iríamos ao Plaza Shopping a noite. Ele acabou me contando que era bissexual e que queria ter relações comigo. Perguntou se eu era virgem. Eu disse que não, que me relacionava frequentemente com prostitutas e que era esse meu modo de encarar o sexo. Ele me contou a vida dele toda então. Que tinha tido um menino menor de idade por amante; que havia frequentado bacanais gays, mas que não fazia mais isso; que nestes bacanais ele era ativo, mas que uma vez, diante da insistência de outro frequentador, havia sido o passivo; que tinha ascendência portuguesa; que sua mãe lhe criou com muito carinho; que tinha uma garota do CIN lhe dando bola (por sinal uma que eu queria); que tinha uma rixa com um irmão etc etc etc. Após uma longa conversa, já de madrugada, ele me levou ao ponto de ônibus insistindo para que eu tivesse um comportamento homossexual, o que não aconteceu. Então peguei o ônibus e nos despedimos. Não fiquei angustiado como da vez que em Geraldo me cantou, no Itapuca. Dessa vez não fiquei em dúvidas quanto a minha sexualidade. Já tinha uma identidade sexual estabelecida. Eu era putanheiro. Ter uma identidade sexual é o mesmo que estar satisfeito com a vida sexual que se tem, qualquer que seja ela. Naquele momento da minha vida ser putanheiro era satisfatório para mim – ou quase. Na verdade eu ainda queria me relacionar com mulheres não-prostitutas, mas nesse particular tive somente um êxito em toda minha vida que é minha esposa hoje.

De taradinho a taradão

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Na década de 90 do século XX eu já havia atingido a maioridade. Se antes eu era “de menor” e tinha a vantagem de não ir para a cadeia com gente adulta, agora já não poderia contar mais com isso. A preocupação com meu vício de mão-boba passou a ser bem maior. Mesmo querendo, não conseguia parar. Eu tentava e, por alguns meses, conseguia evitar o vício. Entretanto as tentações eram contínuas. Sempre que avistava na rua uma mulher sensual de shortinho ou com jeans apertados, a lembrança do vício me atacava. Chegava a pensar que se todas elas se vestissem como nos países muçulmanos, de burca, véu e saiote, eu não teria esse tipo de tentação. Talvez por isso elas se vistam assim lá. O pecado se corta na fonte. Uma vez passei a mão numa mulher dentro do Plaza Shopping e ela se queixou ao segurança. Ele me conduziu à um dos chefes da segurança do Plaza que pediu a seus

subordinados para que localizassem a vítima a fim de que ela formalizasse uma queixa contra mim. Depois disso eu seria conduzido à polícia. Foram momentos de terror, mas não encontraram a mulher mais e a queixa não foi formalizada, razão pela qual não fui

parar na cadeia. Eles tiveram que me liberar e fiquei aliviado. Assim que ganhei a rua, fui até a entrada do Valonguinho – perto do Plaza – onde está um campus da UFF, olhei para

o prédio da faculdade de Matemática, ergui a mão direita e prometi que não voltaria mais

a apalpar mulheres desconhecidas na rua ou em qualquer outro lugar. Após isso, tentei

realmente honrar essa promessa, mas acabei retornando ao vício uns poucos meses depois. Estou falando sobre isso para que fique claro que se as mulheres que eu tocava eram vítimas de meu vício, então eu era ainda muito mais vítima desse mesmo vício. Se fosse fácil parar, eu teria parado pois entendia o risco que estava correndo. Realmente eu não queria fazer aquilo. Às vezes eu pensava que alguma mulher poderia desenvolver uma neurose grave depois de eu tê-la tocado e isso me preocupava um pouco, mas diante do vício inexorável, logo tirava esse pensamento da cabeça. Cheguei uma vez a chamar vários conhecidos para entrarem para a OMB – Organizações Mão Boba, como apelidamos nossa associação. Fizemos uma única reunião onde expus uma lista com uma série de normas que deveríamos seguir para não sermos pegos. Depois saímos todos, em bando, atrás de mulheres na rua, inclusive meu irmão Winter. Contudo, naquele dia, ninguém do grupo cometeu o delito, exceto, possivelmente, eu mesmo.

Pedofilia

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Em 1992 já havíamos voltado a morar na minha casinha da rua Domingues n.422. Eu e meu irmão Winter devíamos ter 21 e 18 anos, respectivamente. Fazíamos o segundo grau juntos, ou no Colégio Virgínia Patrick, ou no CECAP (curso supletivo do Centro Educacional de Niterói). Estávamos a caminhar pelas ruas alegremente ensolaradas do bairro de Icaraí quando uma garota de cerca de 13 ou 14 anos passou perto de nós e nos dirigiu uma única palavra: “tesão!”. Ela soube ser convincente, pondo a entonação em consonância com a palavra. Estava acompanhada de outra garota, um pouquinho mais nova. Ambas tinham a pele escura e a mais velha vestia um shortinho provocante, que se notava estar um tanto úmido nas reentrâncias. Presumivelmente, estavam voltando da praia pois me pareceu que a mais velha estava com um biquíni por debaixo do short. Naquele tempo não havia no Brasil a “caça às bruxas” típica do início do século XXI nesse país. A mídia ainda não promovia a pedofilia como a grande vilã de nossa civilização. Quando avistei aquelas meninas não vi ali o perigo da transgressão jurídica, mas sim a oportunidade biológica de ter prazer com o que eram elas de fato: dois belos exemplares de fêmeas férteis. Convenci meu irmão a irmos no encalço delas, como dois bons caçadores de mulheres. Ele me disse que sim, desde que ele ficasse com a maiorzinha. Convencemos elas a irem conosco para nossa casa. Lá chegando, fomos para meu quarto. Winter deitou-se com a maiorzinha e estava a beijar seus peitos. Ela gemia, e eu fiquei bastante excitado com a cena. A menorzinha não esboçava desejo, mas eu não podia ficar parado. Pus o frangão para fora das calças, já duro, e olhei para a menorzinha que estava sentada em minha cama. Mas ela fez uma cara de quem não gostou e um sinal feio de “dedo” para mim. Então, virou-se para a outra garota que estava com Winter e disse “vamos embora?” Eu perguntei surpreso: “mas já?” Nossa brincadeira terminou antes de começar. Levamos elas para a cozinha e lhes demos uns pãezinhos de queijo que, por

sinal, estavam um tanto passados, parecendo feitos uma borracha. Elas se foram em seguida e não voltaram mais. Fiquei chateado com o ocorrido e disse isso a meu irmão. Ele respondeu: “Foi melhor assim. De repente elas estavam até doentes.” Acabei concordando e me senti menos frustrado. Quero deixar claro que eu não toquei sexualmente na menorzinha. Não acariciei suas partes íntimas e muito menos ela as minhas; não nos beijamos nem houve nada entre nós que se pudesse chamar de sexo – nenhum tipo de penetração, nem sexo oral, tampouco masturbação. Não que eu não quisesse ter tido intimidade com ela, mas diante de sua negativa, não houve nada. Isso foi o mais perto que cheguei da pedofilia.

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Nalini, a mulher de meu irmão

Em 1993 Winter conheceu Nalini, uma garota que viria se tornar sua mulher. Eu fiquei animado, já que meu irmão, adepto da doutrina anarquista, havia mostrado simpatia por um episódio particular ocorrido numa comunidade anarquista: dois homens dividindo a mesma mulher como se eles estivessem, ambos, casados com ela. Algo análogo ao que acontece em certos países árabes e em alguns lugares da África, onde um mesmo homem pode ter mais de uma esposa; a diferença é que, naquele caso, uma mulher tinha mais de um marido. Expressei essa minha ideia a Winter que foi taxativo ao dizer que ele queria Nalini só para ele. Eu achei que sua decisão contrariava seu ideal anarquista. Ademais, me pareceu injusto da parte dele se opor a meu relacionamento com Nalini, já que eu o havia iniciado no excitante mundo dos bordéis e lhe ofereci a melhor mulher do bordel da rua Marechal Deodoro 160 – a minha muito querida Hilda Shanna. Winter e Shanna transaram com meu consentimento e incentivo. Na época eu me preocupei com a sexualidade de Winter. Pensava que se ele viesse a enfrentar problemas como os que eu enfrentei, poderia meu irmão não superar como eu superei. Por isso achei por bem incentiva-lo a manter relações sexuais com Hilda Shanna. Foi um ato de amor por meu irmão. Se eu não me importasse com ele, jamais o teria incentivado a ir num bordel (que eu saiba, ele só foi uma vez lá). Diante da negativa de meu irmão, decidi não procurar ter relações com Nalini. Acabei fazendo amizade com ela. Apreciei sobremodo a amizade não-sensual com Nalini. Era sentia como se ela fosse minha irmã e fiz até um poema para ela. Mas não divulguei a poesia para ninguém. De repente e sem aviso, Nalini começou a me evitar e ser irônica comigo. Perguntei a Winter porque ela estava fazendo isso e se ele havia dito a ela que eu esfaqueara Lourenço. Winter negou ter dito qualquer coisa desse tipo para Nalini, mas na certa outra pessoa deve ter falado alguma coisa. E minha amizade com Nalini morreu vítima da maledicência.

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Minha entrada na faculdade

Bem no início de 1994 concluí o ensino médio no CES e entrei no curso pré-vestibular Impacto. Nessa época meu psiquiatra era o Drº Eugênio Lamy. Sob sua orientação eu estava tentando substituir o uso do haloperidol pelo da risperidona, que me deixava muito mais motivado. Infelizmente, havia um efeito adverso tão bizarro quanto imprevisto:

alteração na sexualidade. Animado, passei a praticar corrida pela manhã e me

empenhava em estudar as matérias do pré-vestibular. Mas eu estava animado demais e fazia observações nas aulas de física, matemática e geometria. Por eu não estar envolvido sexualmente com nenhuma garota de lá do curso, acabaram achando que eu fosse gay e os comentários acabaram me fazendo abandonar o pré -vestibular. Eu parei de tomar a risperidona e voltei com o haloperidol, mas era tarde demais para fazer parar os cochichos. Não desisti, entretanto. Mudei de pré-vestibular indo cursar o Sala 2. Foi ótimo. Com o haloperidol não havia mais pessoas pondo minha sexualidade em dúvida. Meu rendimento lá foi muito bom. Passei para a Universidade Federal Fluminense (UFF) vindo a cursar matemática lá. Em todo o ano de 1995 e também no primeiro semestre de 1996 meu rendimento acadêmico foi excelente. Eu tinha o maior coeficiente de rendimento (CR) de toda a faculdade de matemática, além de ter conseguido um cargo de monitor da disciplina de álgebra e posteriormente uma bolsa de iniciação científica. Eu estava prosperando.

Estudo & vida sexual

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Devido a ter tido algum sucesso no estabelecimento de minha identidade sexual, passei a ser um excelente estudante. Não me via mais como um perdedor incapaz de transar mulheres. Em 1996 eu estava no auge de minha vida acadêmica. Estudava muito e tinha as maiores notas de toda a faculdade. Meu coeficiente de rendimento, média ponderada de minhas notas na faculdade, chegou a ser de 9,72 – é crível que um tal valor tenha sido superado por menos de 10 estudantes em toda a história do instituto de Matemática da UFF. Nessa época Hilda Shanna me disse que iria se casar. O cara era um sortudo. Anos antes eu havia perguntado à Hilda: “O que você diria se eu te pedisse em casamento?” Ela disse que não poderia viver com alguém que ganhava somente R$95 por mês. Este era meu ganho mensal na época, o de um monitor da disciplina de Álgebra I na Universidade Federal Fluminense.

O traseiro da perdição

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Em julho de 1996 ocorreu o inevitável – mexi com a mulher errada. Estava a voltar da UFF à pé para minha casa quando avistei uma mulher de shortinho jeans, cabelos curtos

e loiros se bem me lembro. Eu quis tocá-la. Então passei a segui-la com este intuito. Na

Rua Gavião Peixoto, próximo a um ponto de táxis, tive minha grande chance. Ela parou próxima ao meio fio e, a fim de atravessar a rua, esperava os carros passarem. Eu me ajoelhei atrás dela e vi, extasiado, as saliências do traseiro que me levaria a ruína. Era o traseiro da perdição. Botei o linguão para fora e dei uma gostosa lambida na popa da loirinha. Ela olhou para trás, surpresa. Eu me pus de pé diante dela e disse com um sorriso: “As pessoas devem fazer amor livremente!”. Então prossegui meu caminho de volta para a casa. Mas uns 100 metros depois, no calçadão do Campo de São Bento (o mais conhecido parque arborizado de Niterói) recebi um empurrão por trás. Olhei e vi a mulher muito zangada a se afastar e a dizer “E fazer violência também!”. Continuei meu caminho e logo recebi outro empurrão. Era ela de novo e agora exigia que eu entregasse minha carteira de identidade, caso contrario ela ameaçava dizer ao marido o que ocorrera. Eu disse que não tinha feito nada de mal com ela e por isso não merecia

castigo; ela disse que eu dera uma mordida em sua perna e por isso deveria ser punido; eu disse que não havia mordido a perna dela, mas não disse que havia lambido bunda dela, embora, tecnicamente fora isso que eu fizera. Eu disse ainda que eu era um estudante muito bom para ir parar na cadeia e ela disse que também era universitária, cursando direito na UFRJ. Então disse que ela não precisava se preocupar, pois ninguém havia visto o que acontecera; mas ela retrucou que seus amigos taxistas tinham visto a cena. Ela disse também que seu marido iria me matar se ficasse sabendo, mas que se eu entregasse minha carteira de identidade ela não diria nada a ele. Tive medo. Eu não estava com minha carteira de identidade original, então lhe dei uma cópia xerox plastificada. A moça exigiu a carteira original, mas viu que eu não estava com ela. Enquanto ela falava, percebi que usava um aparelho nos dentes que chamaria a atenção de qualquer um que a visse de boca aberta. Então, pareceu ficar satisfeita num dado momento e se afastou com um sorriso enigmático. Uns doze anos depois o fato de ela usar aparelho fora importante num episódio rápido, porém muito revelador.

Incesto

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Fiquei realmente preocupado com o que ocorrera. Sabia que o mundo seria um lugar muito mais perigoso para mim daquele dia em diante. Ao mesmo tempo, não entendia porque aquilo havia acontecido comigo. O que eu sabia é que se tivesse uma namorada, não precisaria tocar mulheres na rua e me arriscar tanto. O problema é que, tirando Márcia Regina – mulher que considerava problemática demais para mim – jamais havia tido outra namorada na vida. Eu acreditava ser incapaz de cativar uma não-prostituta a ponto de convencê-la a fazer sexo comigo. Eu não sabia bem o motivo na época, era como se eu não fosse deste mundo. Na minha cabeça eu só poderia ter os carinhos de alguma mulher não-prostituta se eu fosse muito íntimo dela desde o início. Já havia pedido para fazer sexo com minha mãe (em 1985, no prédio da Noronha Torrezão), mas ela se negara a isto, dizendo “Assim você me ofende”; também havia feito algumas insinuações desse tipo para minha tia Vera Lúcia de Campos, que fingiu não estar entendendo. Pensei comigo mesmo que deveria fazer sexo com uma filha minha e ter filhos com ela, depois que ela atingisse a maioridade. Não seria impossível ter uma filha sem precisar me casar, pensava eu. Bastaria pagar uma mulher para gerar uma filha minha. Então seríamos amantes e teríamos mais filhos e filhas. Minha crença na impossibilidade de ter o amor sensual de uma mulher não-prostituta, excetuando mulheres da família, me levara ao abismo delirante do incesto planejado. Naquela noite gravei uma fita cassete relatando minhas intenções pouco católicas de desposar uma filha gerada por minha sanha. A gravação se perdeu, mas acredito que talvez minha tia Vera Lúcia de Campos a tenha furtado de mim. Não ficaria surpreso se essa gravação aparecesse de repente e fosse divulgada.

A volta de Márcia

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Em agosto de 1996 recebi o telefonema de Márcia Regina Ribeiro, minha primeira e única namorada. Eu a chamei para vir passar um tempo comigo. Foi uma relação intensa e rápida, além de muito conturbada e problemática. Márcia queria toda a atenção para ela e

seus acessos já estavam me dando nos nervos. Ficava pensando nos ataques de Márcia durante as provas da faculdade. Eu me esforcei muito, mas foi impossível conciliar minha ambição acadêmica com as exigências descabidas daquela mulher. Em dezembro de 1996 nos separamos, cancelando nosso casamento. O fato notável é que durante os quatro meses em que eu e Márcia estivemos juntos, eu não tocara em nenhuma mulher na rua e nem pensara em fazer isto – eu não precisava mais. Queria ser fiel a Márcia e não provocar sua ira nem magoá-la. Também não sentia mais nenhuma necessidade de fazer isso. Essa foi a confirmação de que o compromisso com uma mulher me livrava do vício infame. O sexo com meretrizes, por si só, não era capaz de fazer isso. Talvez o compromisso do namoro me tornasse um homem realizado ao me fazer sentir ser realmente um membro sadio da raça humana.

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Ameaça de morte e saída da faculdade

Poucos dias após minha separação de Márcia, o marido de minha última vítima me encontrou. Ele era tenente da polícia militar, acho. Foi assim: eu estava a caminhar pela Rua da praia de Icaraí, em Niterói, do lado oposto ao calçadão. Ele passou de moto com sua mulher na garupa bem do meu lado e, parando logo em frente, desceu e perguntou:

“você se lembra dessa aqui?”. Eu estava perplexo, isso nunca acontecera comigo antes. Ele mostrou que estava realmente zangado e disse em alto e bom som “Eu pensei em arrancar seus olhos” e também “Eu sei que você mora na rua Domingues de Sá 422”, então eu pedi desculpas e sugeri que resolvêssemos aquela situação de algum modo civilizado. Ele respondeu que eu não tinha que pedir desculpas a ele, mas sim a mulher dele. E completou mandando que eu me ajoelhasse e pedisse desculpas à sua esposa e me pareceu que, se ela me desculpasse, ele também o faria. Então me senti momentaneamente aliviado, pois até aquele momento estava a pensar que eu seria morto ou apanharia muito. Fiz o que o tenente me disse. Me ajoelhei e pedi desculpas. Lembro bem de uma frase que usei, eu disse: “Eu mudei”. Então a mulher sorriu satisfeita e foram os dois embora. Mas antes de irem o tenente disse: “Agora desaparece!”. Ao contrário de sua mulher, ele não parecia nada, nada satisfeito com sua vingança. No caminho de volta para casa eu pensei como tinha sorte por ter escapado da ira do tal marido. Pensei que poderia ter sido morto ou ter apanhado muito. Meu primeiro sentimento foi o de alívio. Mas ainda bem antes de chegar em casa, passei a ter muito medo. Afinal, nada poderia garantir minha segurança se o tenente quisesse ir ainda mais longe. Ele sabia meu endereço e era um tenente da polícia militar. Se me matasse ou

mandasse alguém me matar, jamais seria preso por isso. Seu crime estaria plenamente justificado diante dos outros policiais, militares ou civis. A polícia civil dificilmente apuraria

a contento um crime cometido por um tenente da polícia militar em tais circunstâncias.

Eles, quase todos casados, pensariam “no lugar do tenente eu faria até pior”; na verdade, eu me coloquei no lugar dele e disse a mim mesmo que faria ainda muito pior. Mesmo se

a polícia civil apurasse o crime, o juiz não o condenaria, haja visto o grande número de crimes terrivelmente escandalosos em que os policiais que os cometeram jamais vão para

a cadeia. Esses raciocínios me terrificaram por muitos meses. A faculdade deixou de ter

tanta importância para mim – afinal, eu poderia ser morto no dia seguinte. Pelo mesmo mau raciocínio, deixei de cuidar tão bem de meus dentes como fizera durante tantos anos ao sempre escová-los antes de dormir, por mais cansado que estivesse. Não tinha sentido cuidar dos meus dentes sabendo que poderia ser morto em poucas semanas. Por conta disso desenvolvi um mau hálito difícil de tratar. Não me sentia mais em segurança nas

ruas. Uma ou duas vezes acordei sobressaltado no meio da noite, com pesadelos. Esse inferno perdurou por cerca de seis meses. Tinha constantemente a sensação de que poderia ser morto a qualquer instante, inclusive dentro de minha casa. Havia também a dificuldade em sair da cama pela manhã, o que era uma tentativa de fuga dos problemas que criei para mim mesmo. Me atrasava para as aulas e para as reuniões da bolsa de iniciação tecnológico-industrial, passei a negligenciar meus estudos. Acabei perdendo duas bolsas de estudo do CNPq/FAPERJ, a matrícula na faculdade e nunca mais fui o mesmo. Eu me retraí completamente. Shanna havia deixado o trabalho no bordel para se casar com outro cara e eu perdera o contato com ela. Também não tinha mais Márcia Regina para conversar e me dar apoio. Passei o natal e o ano novo só e profundamente angustiado. Chorei no réveillon, no momento em que a TV mostrava o estouro dos fogos saudando o novo ano que se iniciava. De janeiro de 1997 até meados de 1999, fiquei cerca de 30 meses sem manter relações sexuais e parei definitivamente de tocar as mulheres na rua. Pelo menos estava curado de meu vício. Lembrava do conselho que Hilda Shanna havia me dado alguns meses antes de ter tido problemas com o tenente: “Eric, tem muita gente má neste mundo!” - disse ela para mim, tomada de surpresa e preocupação sincera ao saber de meus hábitos sexuais reprováveis. Seu rosto era de temor ao saber que eu me engraçava com mulheres que não conhecia. Jamais alguém manifestara uma tal preocupação sincera assim comigo. Hilda Shanna não era uma mulher comum. Era especial. A ameaça que sofri do tal tenente me ensinou uma coisa. Nem toda vagabunda é honesta, algumas são mulheres de militares.

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1998: tentando retornar à UFF

Tentei voltar a UFF em 1998, sem sucesso. Naquela época começara um tratamento com um novo remédio: a risperidona, um antipsicótico que passei a tomar no lugar do haloperidol. Eu já havia feito isso em 1994, na época em que fazia o pré-vestibular no Impacto e fora um desastre, mas achei que dessa vez seria diferente. A substituição do haloperidol pela risperidona me deixou cheio de energia e motivação. Passei a estudar muito mais e percebi que estava um pouco mais inteligente, entendendo mais e mais rapidamente a explanação dos professores. Era como se tudo a minha volta ganhasse um verniz de novidade e interesse maior. Meu retorno foi frustrado por um problema para o qual não estava preparado na época: o bulling universitário. O que ocorreu, me parece, foi um efeito adverso da risperidona que, como quase todos os usuários dela sabem, produz variadas alterações a nível de sexualidade. São três os efeitos colaterais mais comuns sobre a sexualidade que a risperidona pode produzir, conforme constatei numa pequena pesquisa no Orkut, pelo exame dos depoimentos dos usuários dela. O primeiro efeito é o mais comum dos três: a redução drástica dos impulsos sexuais e da vontade de fazer sexo – talvez isso seja observado na maioria dos usuários de risperidona; outro efeito, possível, mas muito menos comum é um grande aumento de prazer no ato sexual – só me lembro de um depoimento em que tal efeito fora mencionado; um terceiro efeito, também raro, observei por duas vezes: em mim mesmo e no depoimento de outro homem: a propensão à homofobia enquanto medo patológico de ser considerado homossexual ou bissexual por pessoas próximas. O medo de ser gay, para ser curto e grosso. Eu não tive nenhum desejo de me relacionar sexualmente com outros homens,

mas várias pessoas a minha volta passaram a sugerir de modo bastante claro que eu devia ser gay. A frequência desses comentários acabou me abalando bastante, pois naquela época eu não sabia como me proteger disso. Voltei a tomar o haloperidol e parei com a risperidona, mas os comentários continuaram devido ao boato já ter se estabelecido. Acabei saindo novamente da UFF.

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A garota de programa Sílvia, a mulher abacaxi e um adendo necessário

Antes dos falsos boatos sobre minha sexualidade na UFF, eu não pretendia voltar a me relacionar com prostitutas. Preferia pensar que abster-me de sexo e, em particular, de minha atividade como putanheiro, me livraria da AIDS e de todas as outras doenças venéreas que se podia ter. Em certa medida, adotei a filosofia neurótica de que quem fazia sexo acabaria, em algum momento, contraindo AIDS. Passei a ver prostitutas e sexo casual como fontes inexoráveis de doenças venéreas. Eu não me relacionava mais com prostitutas naquela época e quem era descolado e tinha facilidade para ganhar as mulheres no papo, “deve acabar se infectando com HIV em algum momento da vida”, raciocinava eu. Enxergando nos outros a desvantagem de se fazer sexo, passei a ver como uma vantagem o fato neurótico de eu não ficar mais com ninguém. Isso mudou quando puseram minha identidade sexual em dúvida. Eu me senti carente dos carinhos de mulheres. Minha intenção era fazer parar as insinuações perversas que punham minha sexualidade em xeque. Deixar a UFF não foi o suficiente, pois os boatos se espalharam tanto que chegaram aos meus vizinhos, inclusive à alunos meus que eu tinha em alta conta (eu trabalhava com professor particular). Querer voltar a manter relações era, naquele momento, mais uma necessidade emocional do que propriamente sexual. Então, em 1999, voltei a me relacionar sexualmente. Encontrei nos classificados do jornal O Fluminense uma garota de programa chamada Sílvia, mas que atendia com o nome de Priscila. Ela não beijava na boca, mas fazia sexo anal. Tinha um jeito sapeca que eu apreciava muito e fazia o estilo ninfeta. Ela era uma daquelas garotas que eu sempre desejei ter na cama, nem que fosse só em sonho. Era descolada, independente, liberal e tinha um bom papo. Foi bom. Fiz um poema para ela, que transcrevo abaixo:

Será loucura ou pecado À meia-noite ligar-te Pra gente fazer uma arte Pra ter você do meu lado?

Espero ansioso na sala, Vigiando cada carro que passa, E chega brilhando, cheia de graça, A mulher que meus sonhos embala.

Quando Priscila vem me visitar, À trabalho, certo, não esqueço disto, Pego a melhor roupa que tenho e visto, Pra logo depois ter que tirar.

Priscila, Priscila, tu és uma rosa num jardim,

Teus cabelos são como pétalas douradas E tua pele tem o aroma de frutas delicadas Priscila, Priscila, nunca diga adeus para mim.

Ela só disse que seu nome era Sílvia depois que lhe mostrei o poema. Ficamos juntos muitas vezes e era sempre bom. Até que eu e minha primeira namorada, Márcia Regina – a mulher abacaxi – voltamos a nos relacionar. Nos casamos em julho de 2000 após ameaças, agressões e intimidações que visavam o estabelecimento de uma relação honesta e amorosa da qual apenas um de nós sairia vivo para contar a história. Demorei para entender muitas coisas. Creio que hoje tenho uma ideia mais concreta do que realmente seja um casamento. Faço aqui um necessário adendo: a expressão “mulher abacaxi” foi usada na mídia pouco depois de eu ter colocado a primeira edição dessa obra on line, em 10 de maio de 2009 no site www.docstoc.com. Naquela primeira edição o parágrafo precedente estava quase idêntico ao que você, leitor, viu agora a pouco. A grande sacada é que, enquanto eu utilizei a expressão “mulher abacaxi” para me referir a minha esposa problemática, a mídia utilizou, pouco depois de mim, a mesma expressão para se referir um certo travesti. Os grandes poderosos estão realmente preocupados comigo. Isso mostra que ainda ofereço perigo para eles. Se não fossem culpados, não se importariam comigo – quase toda a mídia de massa no Brasil toma parte nesse imenso e pouco entendido conluio para esconder a verdade e impedir que os verdadeiros culpados sejam punidos.

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Sobre a fidelidade conjugal

A mídia zomba terrivelmente de maridos traídos, quase sempre dando uma forte conotação de ridículo ao fato. Os homens que se julgam bem casados com mulheres fieis devem entender que a eventual descoberta de uma traição da esposa é responsabilidade dela, e não de quem sofreu a traição. Se eu cometo um erro, a responsabilidade é minha, de mais ninguém. A vítima de uma traição jamais deveria se sentir tão mal, pois não foi dela que partiu o ato insidioso. Está claro para mim, hoje, que a fidelidade é importante, embora eu tenha passado um período pensando o oposto. O que está ocorrendo é que em vez da mídia valorizar a fidelidade, ela ridiculariza o marido traído ao chamá -lo de nomes feios como corno. Transforma, assim, uma vítima legítima num palhaço risível. Um grande problema foi criado midiaticamente: o conceito de corno – isto é, do ridículo marido traído. O paradigma que a mídia tenta impor é que o culpado pela traição é a própria vítima dela. Dizem, por exemplo, que “mulher não trai, mulher se vinga”. Querem dizer com isso que todo marido traído foi, ele mesmo, o artífice do erro da esposa e de sua própria infelicidade. Quantas pessoas morrem vítimas desse conceito? Quando um marido mata sua esposa ao encontrá-la com outro homem, não foi ele quem puxou o gatilho, nem foi sua mão que desferiu os golpes. Foi o conceito de corno pregado pela mídia que o fez. Foi a ridicularização midiática e equivocada do marido traído que desferiu os golpes e puxou o gatilho. Foram as ridículas piadas sobre cornos que mataram aquela mulher. O incrível é que as pessoas simplesmente não se dão conta disso. Tal coisa é obvia para mim. Afinal, ninguém quer ser corno, ninguém admite ser ridicularizado num assunto sacralizado como o amor e o casamento. Fiquei sabendo por conhecidos que meu próprio irmão teria ameaçado se jogar da janela do apartamento em que morava por ter ele descoberto a traição da esposa. Quando um marido mata a esposa, o motivo amiúde é a traição do cônjuge. O número de vítimas do conceito midiaticamente criado de

corno é imenso. Hoje mesmo assisti uma comédia chamada “Lisbela e o prisioneiro” em que o corno não só era ridicularizado como também demonizado, ao passo que o Ricardão da estória era enaltecido como grande herói da trama. A fidelidade conjugal é importante para evitar a contaminação do casal e de sua prole por doenças venéreas, desde que ambos os cônjuges sejam fieis. Não basta só o marido ser fiel ou só a esposa ser. Os dois tem que ser fieis um ao outro para evitar a contaminação por doenças, inclusive para evitar que os filhos que possam vir a ter nasçam doentes. É por esse motivo que a infidelidade conjugal é um pecado. Apesar da fidelidade ser um meio muito eficiente de evitar doenças venéreas, ela tem uma falha:

podemos escolher nossas próprias ações, mas não as de outrem. Podemos adotar uma atitude de 100% de fidelidade ao nosso cônjuge, mas não temos como nos certificar plenamente de que nosso(a) parceiro(a) estejam fazendo o mesmo. Essa é a maior falha da adoção da fidelidade conjugal como meio de prevenção de doenças venéreas. Ainda

assim, é um meio muito eficiente – e o mais tradicional – de evitar doenças. Entretanto, estou pesquisando uma forma ainda muito mais eficiente de evitar doenças venéreas sem

a necessidade de casamento e podendo mesmo manter relações sexuais com prostitutas

de modo muito seguro – muito mais seguro do que simplesmente usar o preservativo.

Sobre o respeito

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Posso dizer que uma mulher tem que ser uma semideusa para merecer a fidelidade de um homem. Nenhuma das que conheci até hoje mereceu isto. Entretanto, meu dever é respeitar todas elas, não porque elas mereçam, mas porque eu mereço ser uma pessoa

correta. Respeitar o próximo – merecendo ele ou não este respeito – é um ato de respeito

a nós mesmos. Por outro lado, quem desrespeita outra pessoa deveria entender que sua

atitude é, antes de tudo, um ato de desrespeito contra si próprio. Sempre que estivermos prestes a fazer algo que prejudique a saúde física ou mental de alguém, devemos nos fazer pelo menos uma pergunta: “a pessoa que ofendo pode se defender?” Se a resposta

a esta questão for “não”, então estaremos sendo covardes ao infligir dano a alguém sem

possibilidade de defesa. E se nossa covardia for descoberta pelas pessoas que amamos,

podemos ser desprezados por nossos cônjuges ou, ainda pior, dar péssimo exemplo às crianças que nos admiram, tais como filhos e netos; por outro lado, se a resposta for

“sim”, tenha muito cuidado!, porque quem sofre uma agressão, de qualquer natureza que seja, poderá vir a vingar-se de modo dramático. Quero acrescentar algumas palavras a respeito desta questão sobre a possibilidade de defesa da vítima. Se alguém não pode defender-se de uma agressão física ou psicológica e se ao mesmo tempo acreditamos que, por algum motivo, esta pessoa mereça punição, podemos ser levados a pensar erroneamente que estamos com

a faca e o queijo nas mãos – e só falta fazer um banquete. A questão é que a aparente

ausência de defesa de nossas vítimas nos informa que podemos agredi-las sem temer retaliações, ao passo que atribuir culpa ou merecimento de castigo a elas nos faz querermos machuca-las. Se podemos e queremos fazer algo, seremos levados a pensar que devemos fazer. As falhas desse raciocínio são, principalmente, as duas seguintes: em primeiro lugar a ausência de chance de defesa da vítima pode ser apenas aparente. O fato inconteste é que por mais inteligente e conhecedora que seja uma pessoa, não estará isenta de erro em todos seus julgamentos. E se atacamos alguém que pode revidar nos ferindo mortalmente, sem que saibamos da possibilidade de revide, corremos sério risco de sairmos muito machucados do embate, por sermos surpreendidos por coisas que

não levamos em consideração ao avaliarmos a possibilidade de defesa da vítima. Um exemplo de inobservância desse fato simples ocorre vez ou outra nos EUA, quando estudantes vítimas de bulling decidem ir à escola armadas e promover um banho de sangue. Após se sentirem vingadas por toda humilhação que sofreram costumam tirar a própria vida. Estranhamente, a mídia não relaciona o massacre escolar com a prática de bulling. A imagem que fica é de um crime imotivado, sem explicação e cometido por loucos. Muitas vezes o que houve foi uma verdadeira vingança kamikaze, em que os assassinos-suicidas não toleraram mais as humilhações e agressões emocionais dos outros alunos. Acrescento a isto algo que poder-se-ia chamar de vingança dos sobreviventes. Se prejudicamos pessoas que, apesar de não poderem defender-se por si próprias, tem o amparo de outras que podem, estaremos em sérios apuros. Um grande exemplo disso foi Adolf Hitler, que precisou se matar para fugir da ira de todas as pessoas que sofreram os horrores do nazismo. Se Hitler tivesse sido capturado com vida, ele teria sofrido muito nas mãos de seus oponentes e, então, teria sido executado. O que destaco é que o grande erro de Hitler foi muito parecido com o que chamamos pecado original.

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O pecado original e o grande erro de Hitler

Se lermos o livro de Gênesis atentamente, perceberemos que Deus Jeová não ordenou que Adão não comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal – tratava-se muito mais de um conselho do que de uma ordem. Para esclarecer citarei os versículos 16 e 17 do capítulo 2 do livro de Gênesis, numa tradução católica de Ludovico Garmus (Bíblia Sagrada, 50° edição, editora Vozes)

16 O SENHOR Deus deu-lhe uma ordem, dizendo: 'podes comer de todas as árvores do jardim. 17 Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque no dia em que o fizeres serás condenado a morrer. [grifos meus]”

Se no versículo 16 o autor afirma, por ele mesmo, que se tratava de uma ordem,

basta ler o versículo seguinte para verificarmos que, segundo as palavras do próprio Deus

deves comer,

Ora, o uso do verbo dever na expressão “não deves comer” sugere que Jeová

estava dando um conselho a Adão, e não exatamente uma ordem. Esse argumento é reforçado pela palavra “porque”, utilizada para explicar a razão pela qual Adão não deveria comer daquele fruto. Ora, uma ordem não necessita de explicações – tudo que se

tem a fazer é segui-la. Imagine um general dizendo a um soldado: “engraxe minhas botas,

porque

precisa fazer isso. E não precisa fazê-lo porque não tem que convencer o soldado das vantagens em lhe obedecer tampouco das desvantagens em lhe desobedecer. Note que Deus procura mostrar a Adão o motivo de seu conselho para que ele não comesse do fruto daquela árvore, alertando-o para as consequências dessa atitude. Seria essa a atitude de um general que ordena? O soldado que mata obedece a ordens, mas o filho é aconselhado por seu pai que o ama. E naquele contexto havia muito mais razão para Adão ser considerado filho de Deus do que alguma espécie de soldado. Afinal, se tratava do paraíso. Poderíamos pensar porque motivo Deus Jeová colocara tal árvore malsã numa

[e segue-se o motivo]”. O general não explica o motivo de sua ordem, ele não

porque

Jeová, citadas pelo autor, não era bem assim. De fato, Deus diz: “

não

”.

posição tão privilegiada e acessível à Adão e Eva. Se Deus não queria que Adão comesse do fruto proibido, poderia ter colocado a árvore do conhecimento do bem e do mal num lugar extremamente difícil de se chegar, por exemplo, cercada por muitos e densos

espinheiros ou no interior de uma gruta afastada. Partindo do princípio de que Deus queria nosso bem, comecei a me indagar o motivo para o Criador ter colocado a árvore do conhecimento do bem e do mal no centro do Jardim do Éden. Me questionei então se Deus simplesmente não poderia deixar de ter criado a tal árvore. Porque ela fora criada? Ora, considerando que Deus Jeová queria o melhor para nós, ele não poderia criar uma árvore dessas sem que o motivo fosse justamente nosso bem. Então, a árvore do conhecimento do bem e do mal deveria servir, de algum modo, à felicidade do ser humano. Qual era a função daquela árvore? Como ela contribuía para a felicidade humana? Ora, ela tinha o papel preponderante de possibilitar ao homem mostrar gratidão

a Deus por tudo que ele fizera por nós. Não comer do fruto daquela árvore era um

excelente modo de Adão e Eva mostrarem gratidão ao Deus que lhes dera a vida. Se não temos gratidão a Deus pelo que possuímos, acabamos achando que não somos merecedores do que temos e passamos a não dar valor ao pequeno paraíso que Deus nos deu. E se não damos valor ao que possuímos, seremos miseráveis, ainda que cobertos de ouro e joias preciosas. Quando Adão e Eva comeram do fruto, seus olhos se abriram, pois deixaram de se achar merecedores do paraíso. Ao morderem a maçã perceberam que não teriam mais como mostrar gratidão a Deus por estarem no paraíso.

E então o perderam.

O que é que isso tem a ver com Hitler ou com a questão da possibilidade de defesa da vítima? Eu diria: muita coisa! Faltou a Hitler e a Adão importarem-se com as consequências de suas decisões para os outros. Se Adão tivesse refletido sobre como Deus Jeová se sentiria ao ser desobedecido, não teria comido do fruto. Se Hitler tivesse se colocado no lugar de suas vítimas e pensado sobre quanto sofrimento suas decisões trariam para as pessoas, talvez não tivesse feito o que fez. Tanto Adão quanto Hitler queriam fazer o que fizeram e, acreditaram que podiam fazer. Não há nada de errado em acreditar que se pode fazer algo. Quanto mais coisas acreditamos poder fazer, mais coisas seremos de fato capazes de fazer. O problema não é termos ou não a capacidade de fazermos coisas, mas sim querermos fazer. Há um ditado que diz: “Cuidado com o que você deseja, você pode conseguir”. Quando prejudicamos outras pessoas não pensamos, em geral, no bem estar delas. Pensamos primeiramente se queremos prejudicá-las, se vamos nos sentir bem ao fazer isso. Depois pensamos se podemos fazer o que queremos sem que nossos atos tragam consequências ruins para nós mesmos. A grande falha é concluir que se queremos e podemos ferir outras pessoas, então é o que devemos fazer. Esta é, na minha opinião, a essência do pecado original, que estamos a cometer já há milhares de anos.

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À procura de compromisso I - Proposta à Sílvia/Priscila

Apesar de estar comendo a Sílvia, só isso já não bastava para mim. Ela cobrava R$70 por duas horas de programa, mais R$10 para pagar o táxi, e esses valores me impossibilitavam manter uma vida satisfatória do ponto de vista da frequência de relações sexuais. Naquela etapa de minha vida eu necessitava de uma vida sexualmente mais intensa. Afinal, eu era um jovem de 28 anos, cheio de saúde e energia e que não tinha emprego e havia abandonado a faculdade. Também não estava satisfeito com os comentários maliciosos da vizinhança sobre minha sexualidade, que chegavam à meu

conhecimento por minha tia Vera Lúcia. Foi nesse contexto que passei a buscar ter sexo a um custo mais baixo, numa frequência maior e com alguém que pudesse me dar filhos e a respeitabilidade de um compromisso de caráter marital. Minha primeira tentativa nesse sentido foi propor a Sílvia que viesse morar comigo como se fôssemos marido e mulher. Ela respondeu de pronto algo como: “morar junto é juntar os problemas”. Disse isso com bom humor e com um sorriso no rosto. Na certa estava acostumada a receber e a recusar propostas dessa natureza de seus muitos clientes.

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À procura de compromisso II – A negativa de Jaidene

Diante da negativa, tentei firmar compromisso com uma garota chamada Jaidene, que conheci em conversas (chats) pelo então mais popular programa de comunicação on line, da Internet: o ICQ. Jaidene e eu conversamos durante várias semanas até que ela me chamou para ir em seu apartamento na cidade de Governador Valadares, em Minas Gerais. Ela era filha de um pastor evangélico e também professava essa fé. Fazia faculdade de farmácia, trabalhava numa drogaria e ganhava bem. Tinha a pele branca e era fofinha, mas não era gorda. Peguei um ônibus no Rio de Janeiro até Governador Valadares, viajei a noite toda e uma boa parte da manhã do dia seguinte, num total de 12 horas. Achei que, por Jaidene morar só e ter me chamado para passar uns dias em seu apartamento, seria muito fácil passar o ovo nela e depois ter uma relacionamento de fato, com filhos, casamento, compromisso etc. Mas, como em qualquer jogo, o jogo do amor tem resultados imprevistos e simplesmente não houve química – a não ser a química do Tegretol/Carbamazepina, que esqueci de trazer de casa e que, por estar eu dependente desse estabilizador de humor e ter deixado de usá-lo, me levou a apresentar um comportamento menos ajustado do que devia. Jaidene me recusou como amante e não nos relacionamos sexualmente; também não nos beijamos na boca e não rolou nenhuma intimidade física – porque ela não quis. Teve um momento em que nós nos desentendemos e ela ameaçou me por para fora de seu apartamento. Foi muito desagradável e eu chorei. Ela, ao contrário, riu. A falta do interesse dela em ter sexo comigo me transformou, quase automaticamente, num objeto absolutamente descartável. Uma vez coisificado, eu não tinha mais nada que pudesse interessar a Jaidene, então ela se sentiu a vontade em me humilhar. Contudo, momentos depois de rir de minhas lágrimas desesperadas, Jaidene deve ter pensado nas possíveis consequências do que sabia estar fazendo; deve ter se lembrado das histórias e casos relatados pela mídia nos quais pessoas que se conheceram pela Internet e se encontraram face a face acabaram protagonizando verdadeiras tragédias. E, procurando se assegurar de que não sofreria nenhuma consequência por sua atitude, me disse em tom sério, com um q de temor:

“Acho que você vai se esquecer rápido de mim”; e pediu para que eu apagasse seu nome de meu computador, depois que voltasse para casa. Eu respondi: “Vai ser difícil esquecer você”.

Depois que voltei para casa, liguei para Sílvia e falei a ela sobre minha frustração amorosa. Bem humorada e sem-vergonha ela me disse: “Acho que você precisa é de uma boa massagem!” Dito e feito. Chamei Sílvia para um programa e foi a melhor transa que tive com ela entre todas as outras.

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À procura de compromisso III – O casamento com Márcia

No início do ano 2000, Márcia telefonou para casa de minha tia. Eu havia perdido o contato com Hilda Shanna e os programas com Sílvia/Priscila se mostravam onerosos e, principalmente, arriscados. A ideia de contrair AIDS nessa época me alarmava muito mais do que na época de Hilda, pois uma tal infecção proveria munição pesada e inesgotável aos meus detratores, que sobre minha sexualidade, poderiam dizer aos meus amigos “viu? Eu não disse?” Uma minha contaminação por HIV faria a festa de meus inimigos e, definitivamente, tal ideia me horrorizava. Nesse contexto, uma relação com Márcia poderia ser muito bem vinda, pensava eu. Combinamos dela vir me visitar. Tentaríamos reatar, admitindo que poderíamos ter amadurecido e nos tornado pessoas mais compatíveis. Márcia chegou em Niterói no mesmo dia que minha avó Dermontina completou 86 anos de idade: dia 11 de fevereiro de 2000. Ela havia mudado bastante, estava mais dócil, mas ainda assim brigávamos muito. Logo concluí que não queria me casar com ela; a ideia do casamento me remetia a ideia da falta de liberdade e de tempo para me dedicar a minhas pesquisas na área de Matemática. De fato, naquela época eu estava bem no meio de uma série de intensas e instigantes pesquisas sobre fórmulas para números primos 17 que empreendia sob a orientação livre do professor Jorge Petrúcio Viana – doutor em Matemática e catedrático da UFF. Não pude fugir novamente do compromisso do casamento e diante disso sofri um episódio de depressão, logo diagnosticado por Dr. Eugênio Lamy e prontamente tratado com fluoxetina. Márcia e eu nos casamos em 15 de julho de 2000, numa cerimônia na Capela Santa Rosa de Viterbo, em Santa Rosa.

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Sobre Luiz Antônio e Greiciane

Antes de me casar, e durante muito tempo depois, eu queria ser fiel e honrar o compromisso que assumi. Eu apontava um casal idoso na rua e dizia para minha esposa Márcia Regina: “Olha. Nós vamos ficar juntos até nosso cabelo ficar daquela cor”. Só que minha mulher não pensava assim. Em 2006 ela me deixou só. Vivíamos juntos, porém não nos relacionávamos mais sexualmente. Ela preferia dormir com uma amiga chamada Greiciane Souza da Silva (também conhecida como Greiciane da Nascimento de Souza). Greice, ou Ci, como a chamávamos, tinha a pele parda, os cabelos curtos e crespos e era gordinha. Márcia e Greice se conheceram em 2005, num desses serviços telefônicos feitos para “fazer novas amizades”. Greice havia se apresentado como se fosse um rapaz e marcou um encontro com minha esposa. Fiquei sabendo disso depois, claro, porque Márcia sabia que eu não consentiria com tal coisa. Naquela época, Suenne, uma irmã de Márcia, morava conosco. Suenne se sentiu muito pouco a vontade com a presença cada vez mais frequente de Ci em nosso lar. Teve uma noite em que a briga estourou na forma de uma discussão escandalosa. Sol (apelido pelo qual também era chamada Suenne) não se conteve mais e fez um comentário sobre a diferença entre o tamanho das unhas da lésbica “fêmea” e da “macho”. Suenne acabou colocando em pauta, ostensivamente e de modo acusatório, a possibilidade – e até a certeza – de que Greiciane fosse bissexual e

17 Essas pesquisas viriam a ser disponibilizadas na Internet por mim em 2009, na forma de um e-book em formado pdf. O título desse e-book é Fórmulas para Números Primos e pode ser encontrado numa busca no Google. Trata-se do mais importante trabalho já publicado sobre esse tema, apesar de conter alguns erros introduzidos por hakers. Sites:

de que estaria iniciando uma relação desse tipo com Márcia. Minha esposa e sua nova amiga se posicionaram contra Suenne e sua colocação, que consideraram ofensiva. Eu interpretei o posicionamento de minha cunhada Sol como um protesto por ela ter sido posta de lado por Márcia após minha esposa se tornar amiga de Ci. Naquela época, era patente o desrespeito e o desprezo que minha cunhada ostentava em relação à Márcia. Diante disso, minha esposa fizera sérios esforços para conseguir a amizade de sua irmã, além de já a estar acolhendo em seu lar e lha proporcionando comida, roupa lavada e algum conforto. De fato, Suenne tinha seu próprio cantinho lá em casa, com computador e acesso a Internet. Também trabalhava fora e fazia faculdade, mas sua recusa contumaz em reconhecer Márcia como chefe de casa e como uma amiga dedicada acabaram fazendo com que minha esposa desistisse de ajudar e amparar Suenne, o que levou minha esposa a buscar amizade em outro lugar.

O pequeno Luiz Antônio

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Greice tinha um filho que eu estimava muito e ela também demonstrava bom humor e

interesse em nos ajudar, razão pela qual não tive dificuldade em aceita-la em minha casa. Eu me preocupava com o filho de Greice como se fosse o meu próprio. Comprei um jogo com números para Luiz Antônio e toda noite jogávamos. O filho de Ci começou a aprender os números comigo. Também estimulei a memória e inteligência dele com jogos educativos no computador. Greiciane sabia de meu afeto por Luiz Antônio e, conta Márcia, queria e aprovava minha amizade com seu filho. Márcia nunca vira com bons olhos minha afeição pelo pequeno Luiz Antônio. Eu pensava se tratar de algum tipo patológico de ciúme. Quando a questionei a respeito de sua desaprovação quanto a afeição entre mim

e Luiz Antônio, Márcia dizia, muitas vezes enraivecida, que essa afeição poderia ser

confundida com pedofilia e que isso poderia me levar para a cadeia ou me fazer levar um tiro do pai de Luiz Antônio; dizia que Luiz Antônio não sentia nada por mim realmente e

que era a mãe dele que mandava ele fingir que sentia, dizendo ao pequeno que me abraçasse, que me chamasse de pai etc; dizia que Luiz Antônio não era meu filho de fato e que ele nunca sentiria afeição verdadeira por mim; dizia que minha franca amizade com

o pequeno poderia autorizar Greice a dar queixa de mim na delegacia, o que tornaria

Greiciane uma chantagista em potencial – mas o único argumento de Márcia que eu realmente entendia era o da intimidação, com gritos, ameaças, beliscões, escândalos e uma careta tão feia que assustaria até o diabo. Apesar de tudo, minha dedicação ao filho de Ci deixava minha esposa livre de boa parte das críticas que eu pudesse lhe fazer. Por isso, talvez, eu tenha sido autorizado a dedicar alguns momentos à educação de Luiz Antônio. E durante algum tempo o exercício da paternidade proporcionado por Luiz Antônio compensou a ausência de Márcia. Eu estava feliz ensinando os números a ele e o considerava uma grande oportunidade para provar minha tese de que a inteligência é, principalmente, adquirida pela educação e pela estimulação – e não por atributos genéticos ou hereditários, que teriam, conforme eu queria mostrar, um peso muito menor do que se supõem. Devido ao fato de Luiz Antônio ter só três anos de idade na época (2006), ele poderia aprender muito comigo se eu me dedicasse à ensiná-lo.

Mudança de paradigma

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Mas isso tudo durou pouco. Quando Márcia insistiu em me recusar sexualmente por dois meses, fiz um ultimato a ela: ou nós ficávamos juntos ou eu procuraria outra mulher. Ela

Pela primeira vez durante o casamento, procurei

outra mulher – uma garota de programa. Brochei. Não satisfeito, chamei uma outra menina em casa e foi ruim. Eu realmente não queria trair Márcia, o que eu queria era a segurança do casamento, a segurança de poder me relacionar sexualmente com alguém sem ficar preocupado o tempo todo com doenças venéreas ou em ter que usar camisinha.

Eu não queria me separar, mas também não queria ficar casado com uma esposa que se recusava a manter relações comigo. Então aconteceu algo realmente importante que mudou toda minha vida de modo definitivo. Comecei a me perguntar o que estava acontecendo. Eu nunca havia tido duas brochadas seguidas. Meu desempenho sexual era quase sempre muito bom. Então achei

a resposta: os remédios que tomei durante mais de 20 anos estavam prejudicando minha

saúde. As coisas começaram a se encaixar. A faculdade que eu não terminava, minha cara de retardado nas fotos que havia tirado recentemente, meu desempenho medíocre em provas importantes. Tudo isso começou a fazer sentido. A conversa que tive com um amigo meu, Cláudio do Espirito Santo, foi reveladora. Ele disse: “Onde é que você compra

seus remédios? Não é na drogaria? Então taí. O que eles vendem para a gente são drogas. Tão prejudiciais quanto a maconha, só que legalizadas, com receita médica”. Eu senti que havia uma verdade importante aí, ao contrário dos demais comentários dele, sempre muito pessimistas, mas que eu conseguia refutar satisfatoriamente. Para esse comentário de meu amigo, entretanto, eu não achava uma réplica eficaz. Cláudio estava certo desta vez.

deu de ombros e disse: “Procura

”.

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O assassinato de minha avó

Minha avó era uma pessoa correta, inteligente e católica. Ela gostava muito de mim e eu dela. Apesar de ter morrido com idade avançada, aos 91 anos, não foi isso que a matou. Minha avó foi morta por envenenamento causado por drogas psiquiátricas. A assassina era sua própria filha, Vera Lúcia de Campos. Minha mãe, Vanda Campos Guedes sabia da intenção de sua irmã Vera e permitiu que tudo acontecesse. A motivação do crime foi Dermontina ter descoberto, após uns 60 anos convivência, quem realmente era sua filha. Segundo me relatou minha esposa, Dermontina teria dito: “Finalmente descobri quem é a Vera”. Isso era bastante plausível, pois minha avó acreditou durante décadas que sua filha Vera ainda era virgem. Apesar de Vera já conhecer bem o coito, dizia a sua mãe ser virgem ainda e não ter mantido relações sexuais com outras pessoas. A virgindade de Vera já havia ficado pelos caminhos da vida, entretanto. Um dos dois namorados que a louca teve, Deraní ou Luciano, homens que manifestaram interesse em se casar com Vera, devem já ter traçado a louca. A farsa da virgindade era fator crucial para Vera manter a credibilidade junto a Dermontina, sua mãe. Imagino que, ao perceber a iminente queda do teatro que construíra por tantos anos, Vera tenha decidido por fim a vida de sua mãe. A estratégia da beata matricida era muito boa: convenceu a mãe a ir a médicos e, tendo comparecido também às consultas, manipulou os médicos para receitarem a Dermontina as assim chamadas drogas neurolépticas, visando obliterar a inteligência de minha avó e deixando-a dócil e obediente. Me foi relatado por Vera que Dermontina estava a se tratar com uma certa “doutora Zulima”, que atendia – segundo Vera – na Policlínica Sérgio Arouca (em Niterói, no bairro do Vital Brasil) onde, por sinal, eu fazia

meu “tratamento” psiquiátrico (com o Dr. Luiz Sérgio) e acompanhamento psicológico (com a “doutora” Camila Cordeiro Donnola) além de participar de oficinas de terapia ocupacional (com o “terapeuta” ocupacional Marcos Mota Murtha). Dermontina iniciou tomando umas poucas gotas de haloperidol o que era uma dose que se podia dizer ser pequena. Mesmo com dose baixa o uso de haloperidol foi seriamente danoso a ela. Uma vez “tranquilizada” por drogas psiquiátricas, Dermontina tornou-se presa fácil para sua filha psicopata. Sabendo que eu me importava com a saúde de minha avó, Vera a convenceu a se afastar de mim. Em meu aniversário de 33 anos, em maio de 2004, Vera já havia convencido minha avó a se afastar e, ainda que morasse bem perto, a menos de 250 metros de distância, Dermontina não veio a minha pequena reunião familiar como costumava fazer todos os anos. Estando eu a fazer a mesma idade com que Cristo fora crucificado, considerava aquele aniversário mais importante que os demais. No dia em que fazia anos, ao saber que minha avó não viria para a reunião, pelo que me lembro, telefonei para ela e sugeri que viesse de táxi, o qual eu teria prazer em pagar. Mas ela se recusou assim mesmo e então perguntei o motivo de tal recusa: “porque você não vem me ver vó?”, perguntei; e minha avó dizia que não “podia” ir, sem explicar o verdadeiro motivo. Soube por minha esposa Márcia Regina que, num dado momento, Dermontina pedira ajuda a sua outra filha, Vanda Campos Guedes (minha mãe). Minha avó teria implorado a Vanda que a levasse embora com ela, pois Dermontina não queria mais morar com sua filha Vera. Infelizmente, Dermontina também não sabia quem era Vanda, sua filha mais nova. Acompanhou-a por muitas décadas e não sabia de quem se tratava de fato. As vezes vivemos uma vida inteira com alguém sem saber realmente com quem estamos lidando. O rápido declínio das capacidades cognitivas de minha avó teve que ser “tratado” com o aumento da dose de haloperidol ou troca por medicação mais pesada. A grande mentira da psiquiatria engoliu Dermontina como a areia movediça engole suas vítimas. A perda das capacidades mentais de minha avó era considerada um sintoma de alguma doença que ela tivesse, e não um efeito adverso das drogas. Por isso, ao invés de retirarem a “medicação” que a estava lesando, aumentaram ainda mais a dose dos “remédios”. E isso só fez decair muito mais rapidamente a saúde cerebral de Dermontina. Somente fiquei sabendo do aumento brutal da carga de drogas psiquiátricas imposto a minha avó no seu aniversário de 91 anos. Por ter ela se afastado de mim, achei por bem me afastar um pouco dela também. Foi uma decisão errada que tomei e que acabou sendo fatal para Dermontina. Deveras, sem que eu estivesse por perto para saber do estado de saúde dela, em fevereiro de 2005 Dermontina já se tornara absolutamente incapaz de ações quotidianas básicas, tais como tomar banho, escovar os dentes, preparar um pequeno lanche e, até mesmo, caminhar e falar. Em seu aniversário de 91 anos fomos visitá-la no apartamento em que morava com Vera. Fiquei assombrado ao ver uma caixa de Neozine 100mg (Levomepromazina) já quase no final. O medicamento Neozine, naquela dose, é pesado demais para alguém com 91 anos de idade. Ficou claro para mim o porque de minha avó passar o tempo todo na cama e não levantar nem falar mais. Algum tempo depois ela foi internada num asilo, onde tomava pesada carga de medicações psiquiátricas, tal como o haloperidol. Cheguei a questionar junto a Vanda – que é minha mãe e filha de Dermontina – se havia realmente a necessidade de minha avó tomar remédios como o haloperidol (Haldol). Vanda argumentou que se não tomasse o Haldol, Dermontina podia tirar toda a roupa e ficar nua em pêlo e concluiu: “E o que você prefere? Que sua avó tome o remédio ou que tire toda a roupa?” Se Vanda me fizesse essa pergunta hoje eu diria que ficar nua não seria tão ruim para ela quanto tomar Haldol. Mas naquela época eu mesmo tomava Haldol e não conseguia conviver socialmente sem ele. Por isso acabei concordando com o raciocínio malicioso de minha mãe.

Após algum tempo minha avó foi para um hospital. E lá morreu. Os médicos alegaram algo como derrame ou Alzheimer como causa mortis. Mas não chegou a meu conhecimento nenhum exame que pudesse confirmar isso de modo cabal. Nada de tomografias computadorizadas nem ressonâncias magnéticas. Quero acrescentar que minha tia Vera Lúcia já havia posto sua mãe Dermontina em risco de morte por pelo menos duas outras vezes. Numa ocasião, minha avó teve um problema sério na canela em que a região ficou bastante escurecida. Vera passou a tratar desse problema banhando a perna da mãe com substâncias medicinais. Entretanto, percebi que o problema não cedia com esse tratamento improvisado. Aconselhei enfaticamente Vera a levar sua mãe ao médico. Quando ela fez isso, o médico teria dito que se tivessem esperado mais tempo, Dermontina talvez tivesse que amputar a perna. Em outra ocasião, Vera levou sua mãe a uma médica ruim que lhe prescreveu um medicamento para o coração (ou para reduzir a pressão, não tenho certeza). Pouco tempo depois de iniciar o “tratamento” com esse remédio, minha avó esteve passando mal. Ao saber do mal estar de Dermontina, procurei me inteirar do que estava acontecendo e, tendo me sido dito estar minha avó a tomar remédio para o coração, recomendei de modo enfático que procurassem a opinião de um outro profissional, pois eu sempre soube que o sistema cardiovascular de Dermontina era excelente. Dito e feito. Ao pedirem o parecer de outro profissional, ele confirmou que Dermontina não deveria estar tomando aquele remédio e, de fato, ao interromper seu uso ela deixou de se sentir mal.

Também quero acrescentar que a malícia e a perversidade encontram modos sutis de se manifestarem. O perverso dissimulado não pode sair por aí a exibir sua maldade como um pavão hasteando o rabo multicor. Se fizesse isto perderia seu poder de causar dano sem ser notado. O que caracteriza o perverso dissimulado é seu bom nome, influência e aparente bondade e compaixão – a verdade sobre seu caráter e suas intenções, entretanto, é bem outra. Esse tipo de pessoa tem tanto artifício e inteligência que é capaz de enganar seus familiares por muitas décadas. O caso da morte de minha avó demonstra bem isso. Foi o engano a respeito do caráter de suas filhas que a fez vítima fácil delas. Quando minha avó estava com 90 anos de idade, minha mãe comentou comigo que ela estava no nonagésimo primeiro ano de vida – na verdade ela frisou isto. Não entendi bem porque Vanda fizera tal observação de modo sublinhado, destacando -a com uma entonação diferenciada. Houve até um pequeno debate sobre isto. A ficha demorou a cair, mas depois de alguns anos entendi que dizer que sua mãe estava no 91º ano de vida tornava a morte dela psicologicamente mais aceitável que dizer que ela tinha 90 anos completos, afinal 91>90. Ela usara a mesma técnica muitos anos antes com a finalidade de tornar a morte de meu avô mais aceitável ao me dizer que só 1% das pessoas sobreviviam à cirurgia que meu avô estava prestes a fazer. Estranhamente, meu avô sobrevivera àquela cirurgia, mas suicidou pouco tempo depois. A questão que levanto é:

ele suicidou ou foi “suicidado”? Fica aqui a dúvida. A morte de minha avó me ajudou a entender a grande fraude da psiquiatria. Passei a compreender que a medicina podia ser utilizada para matar pessoas. O que eu não sabia então era quão imenso se tornara o dano à civilização causado pela medicina e pelo endeusamento dos médicos, os quais tem quase sempre sido considerados como benévolos e isentos de erros.

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Ao parar os psicofármacos me torno uma potência sexual

Em 2006, ao concluir a leitura de um livro chamado “Seja seu Maior Aliado” (de Kenneth W. Christian), iniciei uma redução gradual da medicação. Ao mesmo tempo, decidi praticar caminhada diariamente. Minha recuperação foi notável. Participei da Olimpíada Brasileira de Matemática nesta época e obtive menção honrosa, uma colocação inédita para mim em competições universitárias de Matemática. Também fui o sétimo colocado na IX Olimpíada Iberoamericana de Matemática Universitária em 2006, um resultado absolutamente surpreendente. Principalmente se se levar em conta que eu havia parado de estudar a anos. Porém, quase vim a falecer sem saber dessa minha conquista. Também por conta da redução da medicação passei a me sentir muito mais atraído pelas mulheres – e elas por mim! Certa vez uma amiga de minha esposa veio nos visitar e eu quis ela para mim. Chamava-se Neinha, era branca, magra, cabelos compridos e tinha trinta e um anos. Ela vestia shorts que deixavam seus encantos a mostra. Eu estava atraído por ela de um modo que jamais estivera por nenhuma outra mulher antes. Certa noite, Márcia Regina me deixou a sós com Neinha e aqueles foram os únicos minutos de minha vida em que me senti verdadeiramente vivo. Eu disse que ela era linda, percebi que ela sabia o que eu queria. Então Neinha começou a se sentir cansada e meio adoentada, como se perdesse as forças. De repente. Márcia arrumou o colchonete para ela no chão da cozinha. Eu estive vivo. Neinha doente e eu cada vez com mais saúde. Concebi a ideia de ter relações com ela, e acreditei que realmente poderia ter. Por conta dessa crença tive uma ereção fabulosa, mas sem chegar às vias de fato. O entumescimento de deveu exclusivamente à soma de meu grande vigor sexual, de meu desejo por Neinha e, principalmente à minha crença de que poderia ter relações com ela. Mas, antes que qualquer coisa que pudesse ser chamada de sexo ocorresse entre eu e Neinha, minha esposa estragou tudo. Márcia ia se encontrar com Greiciane naquela noite e queria que eu ficasse em casa. Por mim tudo bem, desde que Neinha também ficasse em casa. Ela já estava deitada, repousando, e assim que Márcia saísse, poderíamos brincar um pouco. Se minha esposa podia sair e fazer novas amizades, eu também tinha este direito. Teríamos um casamento aberto, então. Cada um tratando de resolver sua vida e encontrar outros amores. Teria sido o paraíso (ou talvez o inferno!). Mas Márcia estragou tudo. As pessoas são engraçadas. Elas traem, mas não admitem que o parceiro o faça. Foi uma confusão dos diabos. Naquela noite Márcia e eu acompanhamos Neinha até o ponto de ônibus. Depois, minha esposa disse para que eu voltasse para casa, pois ela iria sair com Greiciane e com Lu – o travesti cabeleireiro da casa ao lado. Mas eu me recusei a voltar para casa. Márcia Regina não podia acabar com minha noite e me deixar só. Foi me dando murros e socos enquanto caminhávamos sem rumo pelas ruas de Icaraí. Ela me xingava enlouquecidamente, dizendo os maiores disparates. Dizia que todos me chamavam de doido e louco pelas costas e que tinham medo de mim. Foi um escândalo. As pessoas que nos viam ficavam constrangidas, perplexas e curiosas. Depois que chegamos em casa, Márcia me disse: “Quem dormir primeiro, morre!”. Preferi levar a ameaça a sério. Fui para meu quarto e tranquei a porta. Ela forçou a entrada, mas ao perceber que a porta estava trancada, foi dormir. No dia seguinte, acordei bem cedo e decidi que não poderia mais viver com alguém assim. Sabendo que seria difícil pô-la para fora de casa, li um livro chamado “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu. Foi muito útil e consegui botar Márcia Regina para fora. Usei mão de um recurso drástico: telefonei para a polícia militar e informei a situação. Não formalizei nenhuma queixa contra Márcia, mas quando ela se deu conta de que eu poderia fazer isso, preferiu ir embora. Depois disso minha situação viria a piorar muito. Sofreria ataques de pessoas falsas que fingiam ser indiferentes ou que fingiam ser

amigas, mas que estavam dispostas a fazer de tudo ao alcance delas para me destruir.

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Parte III

(Difamação e tentativas de homicídio - o ataque de inimigos ocultos)

A AGÊNCIA BRASILEIRA DE INTELIGÊNCIA COMO EXECUTORA DE HOMICÍDIOS CONSENTIDOS PELA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA (GOVERNO LULA/DILMA) ERIC CAMPOS BASTOS GUEDES: VÍTIMA E TESTEMUNHA

E Márcia voltou

Márcia e eu acabamos voltando a morar juntos. Não me lembro como foi isso, mas imagino que eu deva ter sentido misericórdia dela ao vê-la chorando e implorando para reatarmos. Devo ter resolvido dar outra chance a ela, afinal, ela fora minha única namorada e nosso amor tinha uma história de muita luta, sofrimento e superação.

Intriga imobiliária

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Sou um dos donos de duas casas situadas uma ao lado da outra, nos números 422 e 424 da Rua Domingues de Sá, em Icaraí – Niterói – RJ. Minha mãe afirma que fez uma promessa de compra e venda para uma mulher de nome Norma, que viria a comprar a casa número 424. Mas Norma desistiu da compra e minha mãe teria feito outra promessa de compra e venda da mesma casa para um travesti cabeleireiro chamado Luciano. Ele é conhecido pela alcunha de Lu e ocupa a casa de nº424 desde de 2005 ou antes disso. Lu, segundo minha mãe, pagou R$20 mil como promessa de compra e venda da casa 424. Eu recebi 25% deste valor – R$5 mil – que foi a parte que me cabia. Assim que o juiz liberasse o alvará, a venda seria efetivada e eu poderia receber o resto do dinheiro, que planejava investir na compra de uma sala comercial em algum prédio do centro de Niterói. Minha intenção era ganhar algum dinheiro com o aluguel dessa sala. Entretanto, segundo minha mãe, o alvará jamais foi liberado e a espera já dura mais de 5 anos. O cabeleireiro Luciano 18 , conhecido pelo nome de “Lu”, está morando há anos na casa sem me pagar aluguel. Se a casa fosse vendida por cem mil reais, como minha mãe me informou que seria, eu teria direito a receber mais R$20 mil. Jamais vi um tostão deste montante, pois Vanda afirma que estamos esperando o alvará do juiz que ainda não liberou a venda da casa 424. Ela me mostrou um papel que indicaria que o pedido de alvará já foi e voltou

das mãos do juiz umas 75 vezes, sem que se obtivesse a autorização para a venda ser definitivamente efetivada. Apesar de ter visto esse papel, hoje me questiono se o dinheiro

já não foi pago, sem que eu ficasse sabendo de nada.

Há bastante tempo o hospital Centrocardio quer comprar minhas casas. O último que se negou a vender foi Heraldo, dono de uma eletrotécnica próxima. Ele sempre disse

que não venderia de jeito nenhum. Certa vez o Centrocardio pôs o lixo hospitalar em frente ao estabelecimento de Heraldo. Ele pegou o lixo e jogou no estacionamento do hospital. Heraldo acabou morrendo de um ataque cardíaco fulminante. Deve haver muito dinheiro em jogo para o Centrocardio querer comprar aquelas casas. Esse hospital já comprou umas três casas próximas. O problema é que eles não querem pagar o que as casas valem.

Travesti versus mendigo

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Márcia havia saído um pouco para resolver alguns assuntos fora e eu estava sozinho em

18 Não confundir esse Luciano com o ex-namorado e ex-noivo de minha tia Vera Lúcia, também chamado Luciano.

casa. O telefone tocou e fui atendê-lo na sala. Era Márcia que queria falar comigo. Não ligou com nenhuma finalidade concreta, só para saber como eu estava mesmo. Então Lu me chamou no portão. Ele disse que ficara preso fora de “sua” casa, pois a porta fechara-se com a chave no interior. Era uma porta antiga aquela e não havia uma maçaneta do lado de fora que pudesse ser acionada para que se lhe abrisse. Exposto o problema, Lu me pediu para que “a” deixasse entrar pela minha casa de modo que “ela” pudesse usar uma escada para pular o pequeno muro que separava nossas residências nos fundos. Eu entendi o problema dela, mas não quis deixá-la entrar. Não poderia me prejudicar para ajudá-la. E se a deixasse entrar em minha casa sem que minha esposa estivesse lá, isto poderia por minha conduta em dúvida. Não seria bom para mim. Sugeri

a Lu que chamasse um chaveiro, mas ela insistia. Enquanto discutíamos, o telefone tocou

novamente e novamente era minha esposa. Falei com Márcia da situação que estava acontecendo e ela me disse que não havia problema em deixar Lu entrar. Eu discordava. Sem conversar mais nada de importante, nos despedimos e voltei para o portão para terminar de conversar com o transsexual. Lu insistia para entrar e eu tentava mostrar a ela o porque de não deixa-la fazer isso. Estávamos conversando quando surgiu um mendigo do nada. Ele levava consigo uma garrafa de pepsi-cola vazia e dirigiu-se a mim dizendo: “É a destruição da família”. Então Lu disse a ele em tom arrogante: “poderia nos dar licença? Estamos conversando!”. Mas o mendigo a ignorou e me pediu: “Estou com sede. Poderia colocar um pouco d'água para mim nesta garrafa?” Eu achei aquela uma ótima oportunidade para interromper a conversa constrangedora com Lu e pegando a garrafa vazia de Pepsi, fui buscar água para o mendigo. Quando voltei, ambos tinham ido embora. Lu acabou pedindo para um homem forçar a porta de “sua” casa e conseguiu entrar. O mendigo desapareceu sem deixar vestígios. Se é que era um mendigo.

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Um telefonema muito suspeito

Eu recebo, desde 2003 ou 2004, uma pensão deixada por meu pai para o caso de algum de seus filhos se tornar legalmente incapaz. Minha incapacidade foi atestada legalmente por um perito nomeado pelo juiz. O perito baseou suas conclusões no fato de eu estar fazendo uso de drogas psiquiátricas há muitos anos, já ter sido diagnosticado como esquizofrênico por outro psiquiatra de renome (Eugênio Lamy), no meu vasto e duradouro histórico de crises e internações psiquiátricas (confirmadas por minha mãe) e também no exame que fez de mim. Em 2006, reduzi, por minha própria conta, a dose de algumas medicações

psiquiátricas que me foram receitadas, e suprimi o uso de outras tantas. Com isso passei

a me sentir muito melhor e mais ativo, tendo passado a ter um desempenho intelectual muito superior, o que me tornou possível voltar a ser premiado em Olimpíadas de Matemática. No início de 2007 também passei a querer tomar para mim as rédeas de

minha vida. Na tentativa de ser mais independente, quis gerir eu mesmo minhas finanças

e tomei posse do cartão bancário utilizado para retirar o dinheiro de minha pensão, que

era depositado todos os meses em minha conta. Também quis movimentar o dinheiro de minha conta pela Internet, o que me permitiria ter mais conforto e poupar tempo na hora de pagar as contas de casa, tais como as de água, energia e telefone. Pensando assim, liguei para o Banco do Brasil para acertar alguns detalhes que me permitiriam ter uma senha que me possibilitasse fazer transações bancárias pela Internet. O telefone para o qual liguei foi: 0800-99-0001. Este número consta do cartão do Banco do Brasil. Na primeira tentativa estava ocupado. Na segunda ou terceira tentativa uma gravação pediu

para que eu ligasse para o número 0800-676-0001. Como esta gravação apareceu como resposta a uma ligação que fiz para o Banco do Brasil pelo número 0800 -99-0001, que constava de meu cartão, não desconfiei, na hora, que se tratava de uma armadilha. Liguei para o número indicado pela gravação (0800-676-0001), então. A atendente tinha uma voz macia e mais envolvente que o comum. Ela pediu que eu digitasse, no teclado telefônico, minhas senhas e outros números, para que ela pudesse me atender. No fim, após eu ter digitado algumas informações numéricas, ela disse que não seria possível fazer nada por mim, nem me dar qualquer informação. Desconfiei. Pensei em mudar a senha, mas era final de semana e o banco estava fechado. Liguei para o Banco do Brasil e fiquei sabendo que eles jamais tiveram o número 0800-676-0001 para o qual a gravação pedira que eu ligasse. Era realmente muito estranho. Liguei para minha cunhada Suenne Firmino Joaquim, em Santa Maria de Campos, e pedi para que ela ligasse para ambos os números 0800: o que constava no meu cartão do banco (0800-99-0001) e o que haviam me passado pela gravação (0800-676-0001). Ela conseguiu falar com o número que constava no cartão, mas não com o outro. Ao ligar para o Banco do Brasil e expor a situação, disseram-me que se eu quisesse proteger minha conta bancária, deveria invalidar minha senha, tentando números errados mais de 3 vezes seguidas. Preferi não fazer isso, paguei para ver o que poderia acontecer. Eu agira corretamente e não cometera nenhum erro. No meu entender, era menos provável que eu estivesse sendo vítima de um golpe de estelionatários, do que de um complô governamental. Raciocinei que estelionatários não teriam como interceptar uma ligação telefônica feita para um número legítimo e desviá-la para outro destino, como teria acontecido quando liguei para o número do banco (0800-99-0001) e ouvi a gravação pedindo para que eu ligasse para um número adulterado. Tentei localizar o telefone 0800-676-0001 pela Telemar, empresa telefônica responsável pela minha linha naquela época. Cada tentativa me conduzia a outro número telefônico, onde, teoricamente, eu deveria obter a informação desejada. Por fim, a última ligação me remeteu ao primeiro número que havia discado. Isso me fez considerar a possibilidade de uma trama de grandes proporções, envolvendo a Telemar e setores governamentais. Na segunda-feira fui ao Banco do Brasil e, examinando pelo caixa eletrônico, aparentemente estava tudo em ordem com minha conta bancária. Retirei R$400 e fui para casa. Isto foi em março de 2007.

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Problemas com Márcia Regina

Desconfiei que a presença de minha esposa não estava me fazendo bem. Eu havia passado no vestibular para a UFF, no curso de matemática, mas não estava estudando como devia. Na verdade, não cheguei a estudar nada. Atribuí isto à presença de minha esposa Márcia, que interrompia amiúde meus estudos, dificultando muito minha concentração e aprendizagem. Sabendo que provavelmente seria interrompido, nem me dava ao trabalho de iniciar o estudo. Resolvi tentar viver longe de Márcia. Disse a ela que passasse um mês na casa de sua mãe, Dona Lúcia. Ao completar o prazo de um mês eu ligaria para ela e das duas, uma: ou diria que voltasse, pois não conseguia viver sem ela, ou terminaria nosso casamento, porque ela não me fazia falta. Márcia relutou muito e sentiu-se envergonhada

com sua situação. Ao que me parece, ela tinha medo de voltar para a casa da mãe como uma perdedora que fracassou no casamento. Perguntou angustiada: “O que as pessoas vão dizer, meu Deus? As minhas amigas, a minha família?!”. Também teve esse pensamento com respeito aos nossos vizinhos, que talvez pudessem achá-la uma perdedora. Mas eu não voltei atrás em minha decisão e levei ela com sua bagagem até um táxi. Quando eu dissera que ligaria para ela no fim do prazo de um mês, não estava sendo falso. Fui honesto ao querer saber se realmente viveria melhor sem ela ou não. Minha proposta de que Márcia passasse trinta dias longe não era um artifício para terminar a relação com ela, mas sim um meio de saber se o que sentia por ela era forte o bastante para valer a pena te-la de volta após um período de tranquila solidão.

O retorno de Márcia

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Pus Márcia num táxi e disse a ela que fosse para casa de sua mãe. Depois que o táxi se foi, voltei para minha casa achando que teria paz o bastante para voltar a me empenhar em meus estudos universitários. Entretanto, logo fiquei sabendo que Márcia não fora para casa de sua Mãe, em Santa Maria de Campos, mas sim para o apartamento de minha tia Vera Lúcia, em Niterói mesmo. Nós conversamos pelo telefone e pensei comigo mesmo que não teria como obriga-la a ir para Santa Maria. Além disso, raciocinei, se Márcia e eu não morássemos sob o mesmo teto, talvez eu tivesse períodos de tempo suficientemente prolongados que me permitissem estudar a contento para a faculdade. A vantagem é que eu continuaria casado, tendo Márcia como parceira sexual e amiga, além de ainda poder ter um filho com ela, coisa que sempre quis. Eu e Márcia conversávamos todos os dias pelo telefone e acabamos marcando de nos encontrarmos para almoçar. Ela veio até minha casa e transamos. Depois desse dia, passamos a nos encontrar com muita frequência. Acabávamos sempre na cama, era ótimo. Eu ficava o tempo todo pensando sobre como seria meu próximo encontro com ela.

Tínhamos uma fantasia em que ela fingia que era prostituta e eu fingia que era seu cliente. Acabei levando essa fantasia a sério demais e, depois da transa, passei a lhe dar um dinheiro, cerca de R$70. O resultado é que fiquei duro. Então pensei: “se Márcia voltar

a morar comigo, poderei ficar com ela todos os dias sem lhe pagar”. Acabei lhe

convidando a voltar para minha casa e ela logo aceitou. Infelizmente, as coisas não

aconteceram do jeito que eu imaginava.

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Calúnia e difamação – a vingança de Márcia

Espalharam mentiras a meu respeito. Não sei ao certo de quem partiram as infames calúnias que me atingiram. Dizer que a difamação partiu de um complô envolvendo minha mãe Vanda, minha esposa Márcia e minha tia Vera me parece um bom palpite. Isso me fez recordar o livro “O Processo” de Franz Kafka, que logo no início diz algo como: “Certamente espalharam mentiras sobre Josef K., pois naquela manhã não fora acordado para o desjejum pela senhoria, como de costume, mas sim por dois homens vestidos com jaquetas e calças compridas com vários bolsos e fivelas”. Na trama de Kafka o protagonista é acusado de um crime que ele sequer sabe qual foi. Procurando se defender, passa a investigar de que crime lhe acusam. Entretanto, ele não tem sucesso nesse intento e acaba sendo julgado e condenado, vindo a morrer sem saber

sequer do que estavam a lhe acusar. Eu também vivi uma tal situação kafkiana. E de tal sorte foram as injúrias contra mim que, enquanto caminhava pela calçada, em plena luz do dia, gritaram em minha direção do outro lado da rua:

“VIAAAAAAAAADO!”. Eu nem olhei, mas percebi que outras pessoas se sobressaltaram, escandalizadas. Este tipo de coisa começou a me perturbar. A verdade é que eu não havia dado nenhum motivo para ser vítima de uma injúria dessas, proclamada aos berros na claridade do dia. Por que alguém faria isso?

Intoxicação infame

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Em março de 2007, certa noite, minha mulher me deu algumas gotas, misturadas com água, que ela disse serem de haloperidol, um neuroléptico muito usado para o tratamento da doença de código F20, da qual, supostamente, eu seria portador (F20.9). Não consegui dormir de jeito nenhum. Meu esfincter ficou muito sensível, piscando descontroladamente. Eu não entendia o que estava acontecendo. Mas hoje está claro para mim que fui vítima de uma sórdida intoxicação provocada por minha tia Vera Lúcia de Campos. O recipiente de haloperidol em gotas que continha o líquido que me foi ministrado por minha esposa Márcia lhe fora dado por Vera Lúcia. Devia ser o recipiente de haloperidol que teria sido usado por minha avó. Está claro para mim que não era haloperidol o que aquele recipiente continha, mas sim algo muito diverso. Talvez uma substância adquirida em alguma sex shop que tivesse a função de causar um tal efeito anal. Por ter sido minha esposa quem me ministrou a substância, achei que era ela a responsável pela intoxicação infame. Tive essa suspeita por muito tempo, mas hoje, analisando os acontecimentos que se sucederam, penso que a verdadeira culpada é Vera Lúcia de Campos, minha tia matricida.

Sob vigilância

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Antes de sofrer minha primeira internação de caráter político, eu já desconfiava que estavam me vigiando. Lembro que uma vez, ao olhar pela janela que dava para a rua, avistei um rapaz de bicicleta, parado em frente ao portão de minha residência. Ao perceber que eu o observava, ele foi embora, pedalando. Esse tipo de situação viria a se repetir pelo menos mais duas vezes nos anos seguintes.

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Internação na Clínica Santa Catarina

Na noite do dia 2 de abril de 2007 fui internado na Clínica Santa Catarina, na cidade de São Gonçalo. Nas horas que antecederam minha entrada na clínica e durante toda minha estada lá, tive a certeza de que estava próximo da morte, de que havia pessoas que queriam me matar. Esse medo de algo que não se pode ver foi, possivelmente, provocado pela minha própria namorada e, provavelmente, teve o aval de minha mãe.

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Conhecidos de internação

Assim que entrei nas dependências da Clínica Santa Catarina, no local destinado aos pacientes, a primeira pessoa que vi foi uma mulher jovem, muito bonita, atraente e com um olhar lânguido e docemente provocante. Ela vestia um short curto e sexy que a tornava ainda mais interessante. Entretanto, olheiras enegrecidas sugeriam o uso de tóxicos. Para piorar muito a situação, ela tinha uma barriga saliente, que não combinava com seu tipo físico. Provavelmente estava grávida. Um tempo depois, conheci lá uma senhora com idade entre 50 e 80 anos. Ela usava colares e brincos chamativos e se vestia como uma socialite, dessas que tem muito dinheiro. Fiquei me indagando se seus colares e brincos eram simples bijuteria ou não. Certa vez, ela me perguntou que doença eu tinha. Eu não queria dizer que tinha esquizofrenia, pois acreditava que quem tem essa doença é muito mal visto por todos. Então respondi que era bipolar, mas disse isto com fala intencionalmente rápida, tentando aparentar ser um bipolar na fase maníaca. Parece que não deu certo. Havia um outro sujeito internado lá chamado Arlei. Ele ficava movendo as mãos de um lado para outro, quase que o tempo todo. Na época me pareceu que Arlei não tinha doença alguma, apenas estava fingindo. Entretanto, hoje penso que talvez ele não estivesse simulando doença alguma, mas sim sofrendo de uma discinesia causada pelos próprios psicofármacos de que fizera uso. Uma hipótese plausível, já que não raramente me deparo com casos de discinesia decorrente da ingesta de medicação neuroléptica. Lá também conheci um tipo estranho, de cerca de 18 anos e que parecia não ter o que chamamos de consciência – agia como um autômato, sem autocrítica. Certa vez, durante uma das refeições ele me perguntou qual era minha religião. Eu respondi, constrangido, que tinha um lado espiritual independente de religiões. Ele se aproximou e, pondo minha cabeça contra seu peito, me disse qualquer coisa de que não me lembro. Fiquei imaginando que tipo de coisas as pessoas que estavam na cozinha – eram várias – estariam imaginando.

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A enfermeira Ana Paula e um episódio de minha adolescência

Também havia a enfermeira chefe Ana Paula. Ela me lembrou uma Ana Paula que conhecera nos tempos de minha adolescência, em 1986. Naquela época ela devia ter uns 11 ou 12 anos e eu uns 14 ou 15. É possível que a enfermeira chefe Ana Paula fosse a mesma Ana Paula de meus tempos de rapaz, embora não tenha certeza disso. A Ana Paula menina que conheci tinha um comportamento sexual bastante promíscuo, na época, para sua pouca idade. Era uma ninfeta, mas muito diferente da Lola de Nabokov. Ana Paula tinha recursos tão toscos quanto eficazes. Vestia-se de modo provocante com shortinhos bem curtos e insinuava-se de maneira direta. Eu a queria alucinadamente. Não fazia ideia de como possuí-la, entretanto. Por outro lado, meu amigo Raphael já tinha se relacionado sexualmente com ela, segundo me contara. Eu o invejei muito e pedi indiretamente que ele me desse uma mãozinha para que eu também viesse a transar com Ana Paula. No entanto, Rapha ignorou esse meu pedido, coisa que me deixou chateado. Eu continuava a desejar Ana Paula e, um certo dia, no apartamento de meu amigo, ela estava deitada na cama dele e me lançou um olhar sensual. Naquela ocasião estávamos eu, Ana Paula, Rapha e sua irmã Raquel no quarto de meu amigo. Eu estava ávido por sexo e, ao ver a bacante oferecendo-se, agi irrefletidamente. Guiado por meus hormônios

joguei meu corpo sobre o dela, mas logo em seguida não soube o que fazer e fiquei inerte e sem graça pelo papel de bobo que acabara de fazer. Ana Paula se desvencilhou e pouco depois eu fui para minha casa. Ao me despedir de Raphael, perguntei o que ele achava do que eu havia feito com Ana Paula. Ele me disse que foi uma atitude ridícula, um papelão. Alguns dias depois voltei ao prédio de meu amigo e encontrei a devassa sentada no chão, ao lado de uma amiga. Então, tomado pela ira da grande frustração e sem saber como lidar com isso, banquei o imbecil e a agredi a ponta-pés. Tendo feito isso, subi para o apartamento de Raphael. O pai da menina era porteiro naquele prédio e estava trabalhando na ocasião. Ele foi até o apartamento de Rapha e me deu um soco no queixo, de baixo para cima. A mãe de Raphael me protegeu, felizmente. Ela se chamava Márcia e me acompanhou em minha saída do prédio, até uma distância segura. Márcia tinha personalidade forte e sou muito grato a ela por ter me protegido. O que quero dizer é que se eu tivesse, naquela época, a experiência e maturidade que hoje tenho, minha atitude teria sido completamente diferente.

Roberto

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De todos os tipos com quem tive algum contato nessa minha última internação na clínica Santa Catarina, quem me chamou mais a atenção, e de quem mais me aproximei, foi Roberto. Ele era um sujeito calmo, na dele e de poucas palavras. Certa vez me perguntou: “Quer conversar?” Eu respondi que sim e entrei em seu quarto para tentar falar coisas que não queria que as enfermeiras e enfermeiros escutassem. Ele disse “Mas aqui não”; e eu perguntei “Porque?”; e então ele respondeu: “Porque aqui é meu quarto”. Eu saí e voltei para meu próprio quarto. O motivo para eu evitar a proximidade com enfermeiros e enfermeiras foi ter a sensação de que eles eram, em algum sentido, meus inimigos e oponentes perigosos. E isto se mostrou ser uma verdade surreal. Roberto era branco, tinha 1,79m de altura e cerca de 80kg. Seus cabelos eram pretos ou castanho-escuros e ele me disse que era analista de sistemas. Disse também que tinha uma filha chamada Aline, com 9 (nove) anos na época (em abril de 2007). Roberto tinha uma camisa com a foto de sua filha, que era branca e tinha cabelos pretos ou castanho-escuros.

Suspeitas de abuso

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No início de minha estada na Clínica Santa Catarina, devido às injeções intramusculares de antipsicóticos, ou seja lá o que eles tenham me dado, fiquei com o intestino preso. Eu havia reclamado sobre isso com Márcia e com o Drº João Henrique Pinho Maia. Um dia, ao acordar, percebi que minha bunda estava cagada. Estranhei, pois não me lembrava de ter ido ao banheiro defecar. Talvez eu tivesse esquecido disso devido ao uso de antipsicóticos. Ou talvez fosse outra coisa. Impossível saber ao certo. Meu plano de saúde me dava direito a um acompanhante em minha estada na Clínica Santa Catarina e Márcia ficou comigo, dormindo em meu quarto, nesse período. Certa noite acordei momentaneamente com um ruído. Notei que havia alguém próximo à minha cama, atrás de mim, colocando luvas. Devia ser Márcia, minha esposa, pensei. Ergui o braço esquerdo como se alguém pudesse me puxar para cima e me tirar daquele inferno. Então adormeci.

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Nossas senhas nas mãos do governo

Márcia Regina me pedira a senha de meu cartão bancário. Ao começar a escrevê-la, me interrompeu quando faltavam dois dígitos. Minha senha era 29161369 e eu havia escrito 291613. A senha era a justaposição de dois quadrados perfeitos (2916 = 54x54 e 1369 = 37x37). Alguém que não conhecesse os quadrados perfeitos dificilmente desconfiaria. Eu, por outro lado, conhecia – e ainda conheço – todos os quadrados perfeitos entre 0 e 10000, pois me dedicara, paciente e persistentemente, a memorizá-los 19 . Pouco depois do episódio da senha, uma das enfermeiras da clínica Santa Catarina me pediu para que eu a ensinasse a extrair a raiz quadrada. Concordei. Então ela pegou seu caderno e

escreveu o número 169 e, ao colocar o sinal da raiz ( ) aplicado sobre o número 169, continuou o traçado sem tirar a caneta do papel, vindo a circular o número 69, formado pelos dois últimos algarismos do 169. Eram esses os dígitos que faltavam para completar a senha. Como ela descobrira? Não há outra resposta senão a espionagem. E não há nenhuma senha bancária segura num país corrupto como o nosso. Qualquer senha pode ser obtida por meios escusos nos computadores dos bancos. Porque haveria de ser diferente? Basta lembrar o caso do caseiro Francenildo, que derrubou o ministro Palocci (ex-ministro da fazenda do governo Lula). O pessoal da ABIN escarafunchou a vida de Francenildo para encontrar qualquer coisa que servisse para acusá-lo e desmerecer seu depoimento. Ninguém foi punido pela quebra de sigilo bancário do caseiro. Porque, então, haveriam de punir as pessoas que quebraram meu sigilo? Ao reportar o caso do Palocci e do Francenildo, a mídia fez parecer que havia um grau de segurança para senhas e para contas bancárias que de fato não existe. É coisa trivial para a ABIN saber cada uma das senhas de todos os cidadãos brasileiros. E faz isso tanto com senhas bancárias quanto com senhas da Internet. Logicamente, esse é o tipo de coisa que o governo e a cúpula mundial de poder não quer ver noticiado pela mídia. Pelo menos não num país dito democrático.

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Tentativa de fuga

As drogas que me ministraram na clínica Santa Catarina me deixavam num estado de medo contínuo. Era como se quisessem algo de mim, algo que talvez eu pudesse trocar por minha vida. Eu já percebera que coisas estranhas estavam ocorrendo: minha senha bancária descoberta por outrem, sabe-se lá como; o episódio da gravação e da ligação para um número telefônico que deveria ser do Banco do Brasil, mas não era; o tratamento diferente que estava recebendo de Márcia e de Vanda; a sensação de que eu não sairia vivo de lá, coisa que nunca sentira de modo tão intenso e persistente em nenhuma outra internação etc. Tamanha foi a angústia e desespero de me sentir cercado por inimigos que tentei fugir. Márcia Regina, minha namorada, falou que sabia uma hora que eles deixavam a

19 Uma tal memorização foi feita com o valiosíssimo auxílio do programa educacional Teach 2000, que tem a função de nos ajudar a memorizar lista de itens, tabuadas, significado de palavras etc. Meu interesse em decorar todos os quadrados perfeitos até dez mil vinha desde a época em que eu fazia o curso Kumon de matemática com o professor Faraday. No entanto, essa minha ambição foi refreada pelas drogas psiquiátricas e só voltei a me empenhar na memorização dos quadrados perfeitos após reduzi-las e passar, em decorrência dessa redução, a ser muito mais motivado para atingir minhas metas.

porta da clínica aberta, e que, nesse horário, eu poderia fugir. Num certo instante ela me fez um sinal de que os portões da Clínica estavam abertos. Tentei uma fuga. Desci até a sala de estar e abri a porta, que estava só encostada naquele momento, mas que estaria trancada em outra ocasião e segui em frente. Passei por algumas pessoas de aparência estranha e me aproximei de outra porta. Ouvi um barulho alto que lembrava uma motocicleta acelerando. “Devem ter arrumado alguém de moto para me ajudar a fugir”, pensei. Quanto mais eu me aproximava da segunda porta, mais o barulho ficava alto. Mas a porta estava trancada. Pulei o muro. O ruído ficou muito mais alto. Para minha surpresa havia ainda outro muro para pular. Agi rapidamente e pulei

o segundo muro. Já fora da clínica, estranhei que o ruído tão intenso de moto havia se

dissipado. Vi uma das enfermeiras fora da clínica e ela me reconheceu. Então corri em direção ao veículo que mais lembrava uma moto: uma bicicleta guiada por um adulto e com uma criança na garupa, que quase derrubei. Fui recapturado e retornei à clínica. Mais tarde liguei as coisas e concluí que o intenso ruído que ouvi não era o de uma motocicleta, mas sim de uma motosserra, que seria usada, possivelmente, com finalidade criminosa, conforme concluí algum tempo depois. Essa ideia estava equivocada, coisa que somente descobri anos mais tarde.

O verde-esperança

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Naqueles dias, Márcia deixara de passar algumas noites comigo em meu quarto na clínica Santa Catarina. Ela vinha me visitar na clínica sempre com um detalhe verde no trajar – interpretei esse verde como a representação da esperança. Talvez ela quisesse me dizer, com os detalhes verdes de suas roupas ou acessórios, que havia uma esperança para mim. Certa noite ela veio e não tinha mais nenhum detalhe verde em sua roupa nem em nenhum acessório. Minha esperança ameaçou me abandonar. Nessa ocasião estávamos lanchando (ou talvez jantando) no refeitório do hospício quando reparei no detalhe verde da camisa de Roberto. Assim como a esperança costuma insistir em sobreviver, de modo muitas vezes irracional, acabei querendo me convencer de que a esperança estava, agora, em Roberto. Passei a querer acreditar que Roberto talvez fosse alguém com quem eu pudesse aprender algo. Do mesmo modo que ele me disse que não poderíamos conversar no quarto dele, eu fiz o mesmo com o autômato sem consciência que havia entrado em meu quarto. Disse a mesma coisa para o outro interno que havia entrado no meu quarto. Fiquei estranhamente satisfeito em ter aprendido isso. Por este motivo, Roberto subiu no meu conceito. Então, inesperadamente, aconteceu o surreal.

Roberto esquartejado?

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Márcia se divertia a valer comigo. Arrebentou meu livro “Topologia dos Espaços Métricos”, partindo-o em dois pedaços diante de mim. Depois me apresentou um livro de auto -ajuda cujo título era “Seu Balde está Cheio?” – achei que ela queria chutar o balde e estava certo, pois pouco depois a sereia me disse que iria dormir no motel. Eu não podia dizer nem fazer nada. Estava acabado. Dependia dela para sair da clínica e por este motivo era obrigado a dizer amém para aquele demônio. Anoiteceu e ela foi embora. Era noite e eu estava deitado em meu quarto quando ouvi barulhos vindos de fora

– aparentemente Roberto havia levado um tombo, pois ouvi um som surdo de algo que parecia ter caído e batido no chão. Fui verificar o que acontecera e percebi movimentação no quarto dele (ele ficava no quarto C e eu no B, logo ao lado). Quando olhei para dentro do quarto de Roberto, o vi estirado no chão, próximo à cama, tentando levantar a cabeça, porém com o resto do corpo imóvel. Alguém que não identifiquei, mas que devia estar dentro do quarto dele, gritou "Ele está tentando levantar a cabeça!". Foi quando Ana Paula, a chefe da enfermagem, saiu do quarto de Roberto levando, se não me falha a memória, um material que servia, presumivelmente, para aplicar injeções. Quando ela passou por mim, perguntei: “Está tudo bem com Roberto?”. Ana Paula me ignorou e continuou seu caminho a passos ligeiros. Retornei a meu quarto e fiquei imaginando o que estaria acontecendo. Foi quando ouvi bem forte, durante três ou quatro segundos, o mesmo barulho que tinha ouvido em minha desastrada tentativa de fuga. Mas desta vez eu sabia que não era o ruído de uma moto. O ruído era bastante alto e aparentemente vinha do quarto de Roberto. Pelas circunstâncias, concluí que deveria ser o barulho de uma motosserra. Na hora veio biblicamente na minha cabeça o pensamento: “Que a esquerda não saiba o que fez a direita!” Apesar de estar fora do contexto em que originalmente ela surgiu, a citação bíblica mostrou ter grande valor, pois foi uma sugestão bastante convincente de que eu deveria manter segredo sobre o ocorrido. A citação teve muito mais valor do que eu poderia atribuir a ela anteriormente. Para permanecer vivo, e entendendo que expor minhas suspeitas seria motivo para ficar mais tempo no hospício, fingi não ter visto nem ouvido nada.

A evolução de minha fé

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Desde os 12 ou 13 anos eu já acreditava em Deus. Era como se a ideia da morte fosse tão absurdamente ruim que não poderíamos simplesmente morrer e jamais voltar a viver. Se a vida não é eterna, que sentido há nela? Com o passar do tempo, a crença na vida eterna tornou-se mais forte que a crença na existência de Deus. Na minha cabeça, a ideia de Deus acabava, cada vez mais, associando-se à má impressão que eu tinha de minha tia Vera e ao proceder antipático de minha mãe que, invariavelmente, preferia ir à missa à ter que me dar alguma atenção extra. Contudo, minha fé em Deus nunca desapareceu por completo. Nunca acreditei na perfeita factualidade do texto bíblico: ele teria sempre que ser corretamente interpretado. No meu entender, o valor do texto bíblico não estava tanto na verdade histórica de suas passagens, ou na comprovação científica dos episódios que relatava, mas sim na sabedoria advinda da correta interpretação do que Deus queria realmente dizer. Porém, na medida em que percebia o mal proceder de minha mãe e de minha tia ser perfeitamente justificado em sua religião, na medida em que via a iniquidade ser praticada sem punição e sem o menor indício de arrependimento ou remorso, passei a conceber a religiosidade cristã como uma aberração monstruosa, devoradora de almas e consciências. Isso explica o porque de, depois de adulto, ter me tornado um ateu militante. Esboçava vários raciocínios pretendendo mostrar a inexistência de Deus, o uso da religião como meio de espoliar o povo e as vantagens de um mundo sem igrejas. Mas não consegui convencer nem a mim mesmo. Numa época em que minha ira contra as religiões cristãs – o catolicismo em particular – havia sido aplacada por outros interesses, um grande amigo meu até então, Carlos Roberto Santos de Gregório, se tornou evangélico. Num primeiro momento, ele passou um período um tanto confuso. Pediu para que eu o encontrasse no calçadão da praia de Icaraí, por volta das 19h. No encontro, Beto – como o chamávamos –

demonstrou estar preocupado com algo. Meu amigo me perguntou o seguinte: “Eric, você já parou para pensar que se eu tomar uma garrafa de coca-cola, então é porque alguém não vai tomar?”, Respondi: “Não exatamente. Se ninguém tomar, a garrafa pode ser descartada”. Mas Beto insistia na ideia, vendo nela uma verdade e uma importância que eu julgava imerecidas. Aquilo parecia preocupá-lo muito. Algumas semanas depois, Beto se tornou evangélico. Eu considerava Beto meu melhor amigo na época. Éramos como unha e carne. Teve um episódio em que ambos ligamos um para o outro ao mesmo tempo por umas duas ou três vezes – isso indicava forte sintonia. Ele jamais me recriminou por eu ter agredido meu padrasto Lourenço e eu jamais o ofendi mencionando o fato de ele ser gordo. Os defeitos que um tinha não incomodava o outro e nunca precisamos pedir desculpas. Procurávamos nos ajudar da forma como podíamos e passamos um período fazendo caminhas juntos, para melhorar a condição física. Era uma amizade perfeita. Eu via neste meu amigo um exemplo a ser seguido. Beto era inteligente, sabia programar de computadores, e estava sempre atualizado quanto às novidades na área da informática. Parecia dominar com maestria as técnicas mais atuais e mais complexas no que se referia a microcomputadores. Vi a conversão dele como uma oportunidade de fazer as pazes com o cristianismo ao me engajar numa religião não-católica. Tornei-me evangélico e passei a frequentar as reuniões ministradas pelo pastor Ageu e outros líderes religiosos associados. No tempo que frequentei aquela pequena comunidade cristã, dois dos líderes que pregavam nela foram expulsos. Ouvi comentários do tipo “Você não faz ideia do que eles estavam fazendo!”, mas não quis nem saber o que os pastores expulsos faziam, fosse o que fosse, não achava que era da minha conta. Depois de algum tempo passei a não me sentir bem naquela igreja. As pregações do pastor Ageu amiúde soavam como críticas a mim mesmo. Numa dessas pregações, ele teria dito: “Há pessoas que precisam de perdão. E não é por terem matado ninguém, não.” – isso soou como a comunicação da impossibilidade de perdão diante da agressão que eu cometera contra meu padrasto (tal crítica não procedia, pois, se assim fosse, Ageu não poderia aprovar Moisés como líder escolhido por Deus, tampouco poderia concordar com as palavras de Cristo em Mateus 10.34: “Não pensem que eu vim trazer paz ao mundo. Não vim trazer a paz, mas a espada”); em outra pregação, Ageu disse: “há muita hipocrisia entre nós! Vemos um irmão desleixado com sua aparência e que não gosta de tomar banho e ficamos fazendo fofoca. Temos que dizer isso diretamente a ele.” – isso me pareceu uma crítica destrutiva quanto ao meu desânimo de então no que se referia à higiene pessoal (Ageu omitiu a verdade libertadora de eram as “medicações” psiquiátricas que me tornavam desleixado – o que eu não sabia na época – e preferiu a crítica vexatória). Noutra ocasião, Ageu pôs a mão sobre minha cabeça e orou a Deus para que um certo “espírito folgazão” abandonasse meu corpo. Por tudo isso, entre outras coisas, tive a forte impressão de estar sendo segregado. Talvez por sofrer de esquizofrenia; ou por ter esfaqueado Lourenço; ou por me masturbar regularmente; ou por ter sido chamado de bicha na faculdade (mentira!); ou por ficar desenhando indecências no computador com o paint; ou, ainda, por ser um usuário contumaz dos serviços de prostitutas. Dizem que quem abandona uma igreja evangélica, sai de lá com sete demônios no corpo. Após deixar a tal comunidade cristã, no entanto, eu estava tão bem quanto antes, talvez um pouquinho melhor. Foi quando, no caminho para a faculdade, decidi passar no apartamento de Beto a fim de fazer uma visita. Ele não me telefonava mais e também não me procurava, razão pela qual julguei ser especialmente importante fazer aquela visita. Ao entrar em seu quarto, Beto pediu para que sua noiva se retirasse e encostasse a porta do

quarto. Ele iniciou um discurso grave, sem me olhar nos olhos e disse que eu estava afastado dos princípios de Deus; que eu pensava ser uma espécie de “deus da matemática”, mas que na verdade “nem era tão bom assim”; disse que ele era “safo”, isto

é, seguro de si e sabedor de como se virar, e por esse raciocínio parecia contrapor sua imagem à minha, tentando, talvez, me fazer acreditar que eu não era “safo”, e que, portanto, não merecia a amizade dele. Terminado seu discurso, disse que estava ocupado

e que por esse motivo eu precisava sair. Ele nunca mais me procurou. O parágrafo precedente explica muita coisa. A partir do tratamento desdenhoso que recebi de meu “amigo”, os tais sete demônios passaram a frequentar meus pensamentos

e sentimentos. Após perceber a perversidade do procedimento a que certas igrejas ditas

cristãs levam seus adeptos a adotar, passei a acreditar ser importante combatê-las. Tomado pela ira e pelo ódio, adotei, em alguns momentos, uma postura satânica. Meu raciocínio era o de que, se o cristianismo precisava ser combatido, então o melhor caminho para isso seria fortalecer o lado oposto. Numa época suspeitei que Deus e o diabo eram o mesmo ser espiritual, essencialmente perverso. Achei que Deus e o diabo eram apenas designações diferentes para um mesmo ser espiritual. Num primeiro lugar esse ser se mostraria bondoso e justo, levando consigo as almas daqueles que o adorassem – essa identidade do ser espiritual seria dita ser o Deus cristão; mas em seguida o ser espiritual atuaria sob o nome de diabo, fazendo todos acreditarem que se tratava de um grande inimigo. Sob essa identidade, o ser espiritual levaria o terror e a morte às pessoas. Essas pessoas procurariam o amparo do maior inimigo do diabo:

Deus. Mas Deus seria, conforme eu queria acreditar na época, a outra identidade do mesmo ser espiritual. Estaríamos todos nas mãos do ser espiritual dono das identidades de Deus e do diabo. O hipotético ser binômio Deus/diabo teria todas as almas para si, então. A conduta de alguns crentes parece reforçar a tese de que muitos deles acreditam na existência desse ser espiritual binômio Deus/diabo. Por exemplo, quando ainda frequentava a igreja de Ageu, um dos crentes me disse que não se deveria ser morno, mas sim quente ou frio, conselho que encontra respaldo bíblico. O que ele disse, então, servia como recomendação para que se adotasse uma conduta ou do lado de Deus, ou do lado do diabo, mas sem ficar em cima do muro, sem dar margem a atitudes dúbias. Mas, ao escolher um dos lados de modo inequívoco – ou Deus, ou o diabo – eu estaria escolhendo, de fato, ser escravizado pelo mesmo ser binômio Deus/diabo! (um falso deus) E o conselho para que se escolha inequivocamente um dos lados faz, caso o acatemos, escolher ser escravizado pelo mesmo ser binômio Deus/diabo. Com o intuito de combater a cristandade, escrevi poemas satânicos, frutos de uma revolta que não encontrou um modo melhor de se manifestar na época. Eram poemas claramente diabólicos. Um deles iniciava assim: “Aba! Papa! Satã!”, outro chamava-se “O inferno de um proscrito”; e outros dois chamavam-se “Visões do inferno” e “Maldade”. O teor claramente diabólico dos poemas não deixava dúvida quanto ao que se tinha ali. Durante algum tempo tencionei publicá-los num livro, mas acabei desistindo da ideia por entender que a publicação de tais poemas jogaria na lama minha reputação enquanto poeta. Um amigo meu, Fábio Barrozo Rodrigues, já cometera esse erro ao publicar em livro um poema seu chamado “Cuelho” com o seguinte verso final: “Homem come c* da gente” [censura minha]. Fábio nunca mais publicou nada. E, se posso aprender com os erros dos outros, porque é que vou insistir em cometer os meus próprios? Já sabia que o resultado da publicação de tais poemas não seria bom. Deixei o ataque direto e passei a zombaria: estava sempre disposto a zombar de Deus, a ofendê-Lo e tentava mesmo mostrar que zombar e ofender a Deus não levaria ninguém a lugar algum, simplesmente porque Deus não existia. A estratégia passou a ser ridicularizar o culto a Deus. Não tenho muito a dizer sobre isso, porque sou muito ruim em

se tratando de zombaria. O que posso dizer é que a zombaria e o menosprezo são armas

muito utilizadas por algumas igrejas para anular qualquer respeitabilidade que uma ideia nova no campo teológico possa vir a ter. O escárnio e o desdém, a instrução para que

certas ideias libertadoras e salvadoras sejam mostradas como indignas e sem valor, são o tipo de coisa que se pode esperar da religiosidade dos fariseus, dos falsos cristãos. O grande líder indiano Gandhi tem uma frase que se aplica bem aqui: “Primeiro eles ignoram você, em seguida eles ridicularizam você, depois eles atacam você, então você vence”. Note o leitor que essa é uma ideia de mão dupla, pode caracterizar o comportamento de algumas igrejas quanto a certas pessoas e pode qualificar o comportamento de algumas pessoas quanto às igrejas. Eu mesmo tentei utilizar os artifícios do ridículo e do ataque direto, bem como também algumas igrejas assim também

o fazem. O ponto crucial é que o ataque direto nunca deveria ser executado: é

exatamente ele que causa a derrota! Ou a derrota social, que leva à execração pública; ou a derrota particular, que leva a degradação do caráter. Quando as igrejas atacam inocentes cristãos que tem uma visão considerada perigosa, não podem fazer isso às claras. Precisam, antes, transformar o líder nato que as desafia num verdadeiro demônio perante todos. E, desde que possam praticar o mal sem serem punidas por isso, não se importam com mais nada. Após o incidente com Beto, concluí que as religiões afastavam as pessoas umas das outras e que, se havia algum Deus, ele era o responsável por grande parte do sofrimento infligido às pessoas. Entretanto, após ter sobrevivido a tantos reveses, a tantas tentativas de assassinato, minha mentalidade com respeito a Deus e à religião mudou radicalmente. A ideia de que eu estaria sendo protegido por alguma força espiritual poderosa começou, gradualmente, a tomar forma. Passei a sentir que devia minha vida a Deus e que deveria retribuir de algum modo. Mas afinal, o que Deus requeria de mim?

***

Portugal, Itália ou Brasil?

Voltemos à Clínica Santa Catarina. Após o terrível ruído, apaguei a luz de meu quarto e fui dormir. No dia seguinte, ao acordar, ouvi a senhora dos brincos comentar: “liiiihh! o

Quando saí de meu quarto olhei discretamente para esquerda e

vi a porta do quarto dele fechada e uma das enfermeiras limpando a parede em frente ao

quarto que Roberto havia ocupado. Fingi ignorância. Nos dias que se seguiram tive uma taquicardia muito forte ao acordar e pouco antes de dormir. Na certa o plano deles era fazer com que eu tivesse uma parada cardíaca induzida por medicação. Já procurei me informar – perguntei à um clínico geral, o Dr. Cid Leite Villela, e ele confirmou que é possível fazer com que uma pessoa tenha uma parada cardíaca através da ingestão da mistura adequada de medicações. Minha morte teria sido considerada por problemas cardíacos. Outro recurso que eles poderiam usar seria dizer que eu fugi da clínica. Eu seria dado como desaparecido e, obviamente, jamais alguém voltaria a me ver. De fato, na entrada da Clínica Santa Catarina havia um painel com as fotos de várias pessoas "desaparecidas". Interpretei a fortíssima taquicardia que passou a me acometer como uma tentativa da clínica em fazer uma queima de arquivo, devido a eu, presumivelmente, ser uma possível testemunha do presumível assassinato de Roberto. Eu estava errado nesse ponto, mas não completamente. Reclamei com a enfermagem sobre a forte taquicardia que eu estava tendo. Falei que quando abria os olhos pela manhã meu coração disparava, batendo com muita força

Roberto foi transferido

”.

e rapidez. Parece que a luz desencadeava a taquicardia – e não era uma taquicardia comum, dessas que qualquer um tem quando faz algum esforço um pouco mais intenso, ou como a taquicardia que temos ao sermos acometidos por uma emoção intensa. Não. Essa taquicardia vinha pela manhã, ao abrir os olhos, e a noite, sem que eu houvesse realizado nenhum esforço físico intenso. Também não era uma taquicardia devida a alguma emoção forte, pois ela ocorria enquanto eu estava calmo, “tranquilizado” com várias medicações. A morte me pareceu próxima. Então um médico veio me examinar com um estetoscópio. Recordo-me da estranheza de sua fisionomia. Não era própria de um médico que examinava um paciente. Parecia sentir, ao mesmo tempo, um asco e um desprezo inexplicável por mim, como se eu fosse um ser absolutamente abjeto ou perigoso. Ele disse que eu estava bem e que não havia nada de errado comigo. Certo dia, comecei a pensar nos motivos pelos quais eu estaria preso ali. Ao perguntar à minha mãe quanto tempo mais eu ficaria na clínica, ela disse algo como:

“Pode ser um ano, dois anos, quem sabe é o juiz” disse minha mamãezinha querida, com ar fúnebre. Que diabos esse tal juiz tinha com minha vida? Será que eu havia sido internado por determinação judicial? Que teria feito eu? Acabei achando que eu tinha sido preso por ter me inscrito numa comunidade do Orkut sobre prostituição. Eu fiz isso usando o que os orkuteiros chamam de fake – um perfil falso feito com a intenção de não ser identificado. O nome dessa identidade era Arthur Mills. Fiquei preocupado com isso. E se me descobrissem? E se eu viesse a ser denunciado? Eu não poderia ficar num presídio, por ser curatelado, mas também não poderia ir para uma instituição de menores. Então ficaria num manicômio judiciário. Estava preocupado com tais assuntos, quando ouço, durante uma refeição, alguém pronunciar: “Arthur Mills”. Quem falou não se identificou, mas eu entendi que já haviam descoberto meu fake no Orkut. O nome da tal comunidade era “Paulinha, largue essa vida de prostituição!” Apesar do nome, era a única comunidade do Orkut que não era francamente contra a prática, mas também era de gosto bastante duvidoso. A falta de opções, na época, foi o único motivo que me fez assinar esta comunidade. Curiosamente, há hoje no Orkut várias comunidades em que se discute prostituição, sem que se tome partido favorável ou contra a prática. Certa vez minha companheira apareceu com os papeis em que eu guardava minhas senhas do Orkut. “Eu vou recortar e vender tudo”, disse ela, para meu desespero. Ela não fez isso, entretanto, mas, em outra ocasião, ao me visitar com Vanda, me ofereceu um bolo da Paulina, uma marca de bolo que é vendida no comércio. Eu fiquei visivelmente perturbado com isso, diante de minha mãe. Talvez por isso Vanda tenha dito que o juiz é que ia dizer quanto tempo eu ficaria internado. Já sabiam que eu assinara a tal comunidade. O Psiquiatra responsável, Dr. João Henrique Pinho Maia, veio conversar comigo certo dia. “E aí, Eric? Portugal, Itália ou Brasil? Eu por enquanto sou Brasil”, disse ele. Na época não soube interpretar isso. Talvez fosse um questionamento sobre para onde eu poderia fugir. Talvez isso indicasse que Dr. João sabia que eu estava sendo perseguido no Brasil. Eu disse a ele que pretendia ir com minha mulher para Santa Maria de Campos. “Eu sei onde fica. Perto de Santo Eduardo, não é?”, disse ele. E completou “Devo te dar alta hoje ou amanhã”, quer dizer, eu sairia no dia 21 ou 22 de abril; ou seja, no dia 21 (tipo, “você é quase doido”) ou no dia 22 (tipo “você é doido mesmo”). Saí no dia 22. Antes de ser liberado, porém, tomei uma injeção que me desnorteou. Ao sair, fiquei completamente imbecilizado, numa doce e idiota tranquilidade. Não imaginava o que aquela injeção tinha feito comigo. Fomos eu, minha mãe e minha mulher para o apartamento de minha tia Vera Lúcia. Após descer do taxi – ainda sob efeito da “medicação” – caminhávamos em direção ao prédio de Vera quando passamos por uma

mulher. Apesar de não a ter olhado diretamente – apenas a percebi de viés – pareceu-me ela absolutamente impressionante. Eu a imaginei desenhada, caminhando como um desenho colorido, desses feitos por estilistas. Não consegui olhar para ela, era como se ela fosse sagrada, uma deusa – no sentido religioso do termo. Que teriam feito comigo? Que substância era aquela? Qual a intenção deles? Eu não sabia. Antes de você, caro leitor, concluir que eu estava tendo uma alucinação, destaco que até aquele momento eu jamais havia tido qualquer tipo de visão. Não antes de ter sido internado na clínica Santa Catarina em 2007. Eu jamais havia tido uma alucinação visual antes, com ou sem medicação. Mesmo após ter interrompido a medicação de modo mais definitivo em 2007, nada que lembrasse uma alucinação – visual ou auditiva – ocorreu. A conclusão é ao mesmo tempo óbvia e estarrecedora: a medicação psiquiátrica causa as alucinações. De fato, sabe-se que o uso de drogas – tais como a maconha – aumenta em 10 vezes o risco de seu usuário desenvolver esquizofrenia. Talvez o uso de medicação psiquiátrica também tenha este efeito. Além disso, eu não havia tido alucinações visuais antes da internação em Santa Catarina e nem fui internado por este motivo. Entretanto, ao sair daquela clínica, ainda sob efeito de forte medicação, estava tendo o que se poderia chamar de alucinações. Efeitos ainda piores dos fármacos com que me drogaram a força estavam ainda por vir.

Fraude na medicina

***

Afigura-se uma situação em que o remédio que deveria tratar uma doença hipotética acaba por contribuir com o estabelecimento da doença. O primeiro exemplo disso foi exatamente o que relatei no parágrafo precedente: os antipsicóticos causando a psicose, os “medicamentos” que deveriam tratar a esquizofrenia agindo no sentido de evitar que o paciente chegue à cura por si mesmo. Tal situação também acontece em outras áreas da medicina. Por exemplo, o tratamento contra o câncer é o pior cancerígeno que há. Se alguém for submetido a uma radioterapia ou quimioterapia, terá chances muito grandes de desenvolver vários tipos de câncer nos 15 anos seguintes. Tal fato se deve unicamente ao tratamento. Se alguém que não tem câncer se submeter a um tratamento desses por tempo suficiente, passará a sofrer dessa doença. Naturalmente, não é o caso de propor aqui que os pacientes diagnosticados com câncer não façam o tratamento. Entretanto, essa questão deveria ser examinada mais detalhadamente pelos pesquisadores, principalmente pelo viés da estatística. Por exemplo: verificar se o número de pacientes com câncer curados por radioterapia/quimioterapia compensa, no que diz respeito ao aumento da expectativa de vida restante, a eventual morte de pacientes que foram submetidos a radioterapia e/ou quimioterapia, decorrente da perda de saúde imposta por esses tratamentos. A pergunta é: utilizar a radioterapia/quimioterapia em pacientes com um determinado tipo específico de câncer fará aumentar a sobrevida média desses pacientes ou a reduzirá? O aumento da probabilidade de uma cura rápida proporcionado pela radioterapia/quimioterapia compensa a fragilidade que advém com o emprego desses tratamentos? Respostas seguras a essas perguntas só podem ser dadas a contento mediante o estabelecimento de estatísticas suficientemente precisas sobre cada tipo de câncer e sobre cada detalhe tecnicamente relevante que influencie a probabilidade de cura daquele tipo específico de câncer. No caso do hipotireoidismo, ocorre algo semelhante ao que acontece com a esquizofrenia. Alguém que faça uso do hormônio T4 (tiroxina) usado no tratamento dessa

doença – tendo ou não hipotireoidismo – terá forte propensão a necessitar ingerir a tiroxina pelo resto da vida, pois seu organismo deixa de fabricar parte considerável do T4 de modo natural e passa a depender do hormônio exógeno, fabricado pelos laboratórios e vendido pelas farmácias. Também o caso em que pessoas com insônia utilizam pílulas para dormir – tranquilizantes ansiolíticos, hipnóticos ou depressores do sistema nervoso – é um bom exemplo da forma errada de tratar o problema. A princípio o medicamento parece ter um efeito muito bom: favorece o sono e não causa, aparentemente, nenhum efeito adverso significativamente relevante. O infortúnio pode demorar a ser notado. A medida que se usa regularmente pílulas para dormir, vai-se necessitando de doses cada vez maiores para ter o mesmo efeito. Então passa-se a utilizar drogas mais potentes sem as quais uma simples noite de sono pode parecer impossível. A medida que as doses aumentam e o período de utilização das tais pílulas cresce de semanas para meses e de meses para vários anos, torna-se difícil não perceber o estrago causado na memória do usuário. O pobre infeliz esquece tudo, até mesmo algo que acabou de ouvir. Assemelha-se a alguém desatento, mas é sua memória que não retém a nova informação que acabara de receber, sequer por um minuto que seja. Esquece também de coisas há muitos anos aprendida. O uso de tranquilizantes para dormir se mostra uma péssima ideia. Esses quatro exemplos ilustram um princípio geral da medicina moderna. O importante é vender medicamentos, recomendar tratamentos demorados ou onerosos, diagnosticar o que quer que se possa, desde que isso faça o paciente retornar ao consultório, tantas vezes quanto for possível. O médico não está a serviço de seu paciente, mas sim do grande capital – e é por isso que a existência de uma cura para a esquizofrenia tem sido negada, evitada e silenciada: o príncipe deste mundo acha muito melhor que sejam prescritas drogas.

***

Os números e a menininha

Subimos para o apartamento de minha tia Vera Lúcia de Campos. De lá segui no mesmo dia para Santa Maria de Campos, pois Márcia havia levado todos os nossos pertences para lá, numa casinha alugada às pressas. Na rodoviária pedimos poltronas juntas, mas as únicas poltronas juntas eram as de números 22 e 24, separadas pelo corredor. Compramos as passagens, mas comentei

com Marcinha: “Estes números não dão sorte

mostrou um misto de preocupação e desconfiança. Ela pareceu ter concordado tacitamente comigo. Próximo do ônibus avistei uma menininha de cerca de 4 anos que viajaria no mesmo ônibus. Ela me chamava a atenção sobremaneira, sem que eu conseguisse saber o porque, pelo menos não naquela época. “Calhordas! Que fizeram comigo?”, pensei. Só poderia atribuir meu estado alterado de consciência às drogas que me ministraram na clínica Santa Catarina contra minha vontade. Provavelmente a última injeção que me deram na clínica foi a principal responsável por meu estado patológico. Hoje, só posso interpretar esse interesse patologicamente aumentado pela tal menininha como advindo de uma regressão ao estado infantil proporcionado pela injeção. Essa tese foi reforçada mais tarde, depois de outras internações. Cada vez que recebia alta de um manicômio, após receber injeções e comprimidos de drogas psiquiátricas pesadas, passava a ter um interesse muito aumentado em relação a crianças e adolescentes. Esse efeito adverso ia se reduzindo aos poucos, a medida que as substâncias estranhas iam deixando meu organismo e eu ia me recuperando dos danos cerebrais causados por elas.

Por um momento sua fisionomia

”.

Sobre a homofobia

***

O sentido dicionarizado da palavra homofobia é incompleto e parcial. O radical homo- diz respeito à homossexualidade e o sufixo -fobia significa “medo”. Assim homofobia deveria significar algo como “medo de homossexuais” ou “aversão a homossexualidade”. Então a homofobia é uma doença, e não um crime como apregoam os homossexuais e as autoridades, pois se trata de um medo, uma fobia. A meu ver, uma definição muito mais clara e precisa para homofobia é “medo irracional e patológico de ser considerado homossexual ou bissexual por pessoas próximas”. Essa definição não inclui ódio, nem raiva, tampouco preconceito contra homossexuais. Isto faz sentido se aceitarmos que uma pessoa que tem pavor de viajar de avião não odeia aviões e não tem raiva deles. Nunca vi tal definição de homofobia em nenhum dicionário, mas é ela que corresponde à realidade. Antes de ter passado perto da morte várias vezes e durante meses ter a certeza de que não sairia vivo da clínica psiquiátrica para onde me mandaram, eu sofria de homofobia. Ficava profundamente angustiado quando percebia que pessoas próximas sugeriam que eu fosse gay. Entretanto, a exposição constante e contundente a esse medo fez com que ele deixasse de existir, ou fosse reduzido a quase nada. Por isso os números 22 e 24 eram os únicos que estavam juntos no ônibus 20 . O pessoal da ABIN 21 queria me provocar. Eu viajei na poltrona 22. Porque o número 22 está relacionado com insanidade? Essa é uma ideia que há a muito tempo e, parece-me, no mundo todo. Para fundamentar isto cito o filme – americano, acho – “Ardil 22”, no qual um soldado faz de tudo para tentar escapar dos horrores da guerra. Até que, no final do filme, ele descobre que pode recorrer ao ardil 22, uma regra militar segundo a qual alguém qualificado como louco pode abandonar a guerra não sendo mais forçado a cumprir suas obrigações militares. Fora isso há, em língua portuguesa, uma certa semelhança fonética de “Vinte e dois” que é dois e dois, com dô i dô – numa linguagem infantilizada. O número 22 – e também o 21 – parece estar ligado à ideia de loucura.

Digressões sobre a ABIN

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Durante a viagem fechei os olhos para não ver a menininha. Mas era inútil, pois ela ria e ria. E eu não conseguia parar de imaginar que ela estava me olhando e rindo de mim, reparando em mim com a curiosidade própria das crianças. É claro que não era nada disso, este era tão somente o efeito das drogas que me ministraram – em particular o da última injeção que me aplicaram. Mesmo após a substância estranha ter abandonado meu corpo, tal efeito persistiu, em intensidade decrescente, durante bastante tempo. Infelizmente, certas drogas psiquiátricas deixam marcas bastante persistentes, fato este comprovado pela discinesia tardia, que é um efeito adverso muito bem conhecido e de caráter irreversível da medicação antipsicótica. Acontece que a discinesia tardia é só um dos efeitos persistentes dos antipsicóticos – há outros, como a disfrenia tardia, por

20 Na UFF, quando iniciei a faculdade em 1995, meu apelido era Vinte e dois

21 ABIN – Agência Brasileira de Inteligência, o serviço secreto brasileiro. Hoje tenho 90% de certeza de que são eles que estão por trás da conspiração da qual tenho sido vítima.

exemplo. E nesse episódio da menininha eu estava a descobrir outro efeito adverso grave

e de caráter sequelante. Tudo indica que minha esposa desconfiava da encrenca em que eu, e ela por

tabela, estávamos metidos – apesar de hoje eu não estar tão certo disso. Descemos na rodoviária de Campos dos Goytacazes e pegamos um táxi para Santa Maria de Campos, gastando um dinheiro que poderia nos fazer falta. Jamais fizemos isto antes, descer antes de chegarmos ao nosso destino 22 . O ônibus sempre nos deixava próximos da casa de minha sogra em todas as vezes que fomos à Santa Maria de Campos. Atribuí isto à intenção de minha mulher em despistar os secretas – naquela época eu não sabia que eles eram isto realmente, pensava, erroneamente, que o presumível assassinato de Roberto era obra da Clínica Santa Catarina unicamente. Eu estava errado. Não passava pela minha cabeça que os responsáveis eram muito mais poderosos, gente ligada ao governo, à presidência da república, à ABIN e, possivelmente, aos militares também. Que diabos Roberto teria feito para desagradar essa gente à esse ponto? Eu não sabia. Talvez ele mesmo não soubesse, pois aparentava tranquilidade e não comentara nada a respeito comigo. Se ele tinha consciência de que estava visado, pensava eu, talvez achasse mais prudente ficar quieto para dar a impressão de que não oferecia perigo. Essa foi a estratégia que usei e que imaginei que Roberto também usara. Ela mostrou-se equivocada. A ABIN não é uma pessoa, é uma agência – ela não esquece das coisas com

o tempo, como se dá com alguém de carne e osso. Numa agência os nomes são escritos,

há a pasta de entrada e a de saída e há arquivos – com a ABIN e com os agentes dela não há conversa – quando eles chegam só querem cumprir logo sua missão e serem pagos. O ganho de um agente pode ser bastante alto, cerca de R$100 mil ou R$400 mil por missão cumprida. Talvez mais, caso a missão envolva um assassinato que ofereça um risco particularmente alto. Um flagrante desperdício do dinheiro público. Que diabos Roberto teria feito para desagradar essa gente a ponto de tomarem uma atitude tão drástica? – tornava a me perguntar – Eu não sabia a resposta. Porém, a questão, como descobri anos mais tarde, não era o que Roberto fez para desagradar aos poderosos, mas sim o que eu mesmo teria feito.

***

A chegada em Santa Maria e a música sinistra

Ao chegar a Santa Maria de Campos, fomos direto para a casa de minha sogra, Dona Lúcia. Já estava muito tarde e fomos dormir. Eu não parava de imaginar que estávamos numa espécie de fuga, sob ameaça de um poder que eu mesmo desconhecia. Custei a pegar no sono. No dia seguinte, pela manhã, meu sobrinho Gabriel cantarolou para mim uma estranha canção: “Você vai morrêeeeer, você vai sofrêeeeer! Você vai morrêeeeer, você vai sofrêeeeer!” Fiquei intrigado com esta sinistra cantoria. Onde ele aprendera tal coisa? Meses mais tarde me lembrei de tal fato e o interpretei como uma profecia, ou como algo que Gabriel ouvira de alguém que me queria mal.

Ataques verbais

***

22 Anos mais tarde, minha esposa diria que aquele ônibus não nos deixaria próximos da casa da mãe dela, pois seu itinerário seria um pouco diferente do que o dos outros ônibus que pegamos em viagens anteriores. Não estou certo da veracidade da informação.

Naquele dia começaram a me provocar através de um casal que visitava a casa de minha sogra com frequência. Eram um senhor e uma senhora já de certa idade e me lembro que, naquela manhã, enquanto eu estava ainda na cama, o velho falou na sala, em alto e bom som, algo como “Eu sou velho, mas valho muito mais do que aquele cu de mula (sic) que está lá dentro”, possivelmente se referindo a mim. Numa outra ocasião, semanas depois, a velha disse à minha companheira Márcia Regina: “Você é que está precisando de outro casamento!” e Márcia riu sem discordar. No dia seguinte ao de nossa chegada a Santa Maria, fomos eu e Márcia para nossa própria casa. Era uma casa alugada por minha mãe Vanda, com o aluguel pago com o dinheiro de minha pensão. Lá estavam meu computador, minha esteira eletrônica, meu aparelho de musculação, meus livros, que demorei vinte anos para juntar e que minha mulher disse, mais de uma vez, que iria jogar fora ou por fogo etc. Nossos pertences estavam, aparentemente, todos naquela casa em Santa Maria. Uma vez em Santa Maria de Campos (18º distrito de Campos dos Goytacazes) começaram a fazer pressão para me confundir, via homofobia. Começaram a sugerir que eu fosse homossexual, de modo bastante ostensivo. Por exemplo, minha cunhada Suenne pediu para que eu pegasse um pente vermelho em cima do armário. Após uma procura mais do que suficiente para encontrar o tal pente numa área demasiado exígua, localizo apenas um pente de cor rosa, que dou a ela. Mas Suenne me responde que era o pente vermelho que ela queria, sendo que só havia o pente rosa em cima do armário; Noutro dia a mesma Suenne me faz a seguinte pergunta: “Eric, o que é um loser?” Eu

sabia que loser significava perdedor em inglês, mas respondi irritado: “Você sabe o que loser!” Noutra ocasião, minha sogra Dona Lúcia disse para aquela amiga velha que comprou quatro objetos por R$15 a unidade (lembrar do livro "O Quinze") pagando um

total de R$60 ("sessenta", ou "você senta"), e a velha amiga responde “ Ah

entendi!”;

uma outra coisa que eu ouvia bastante e que desconfio que significava alguma coisa – embora eu nunca tenha sabido o que – eram as frequentes declarações de que estavam “cagando na beirada do vaso” (sic). Ouvi isso da boca de minha sogra e de um cara conhecido por , paciente da clínica Itabapoana (onde eu me internaria mais tarde); Numa certa manhã eu estava na varanda com Dona Lúcia quando passou um sujeito numa bicicleta na estrada e gritou em nossa direção: “Padeeeeeiro!”, numa alusão à expressão “queimar a rosca” (são os padeiros que fazem roscas e, as vezes, as deixam queimar), usada com frequência para caracterizar o comportamento homossexual. “Deve ser amigo de Kleyton”, disse Dona Lúcia, já que Kleyton, meu cunhado, trabalhava numa padaria. Meu nome estava mais sujo que pau de galinheiro, sem que eu tivesse dado motivo para isto. Eu mal saía de casa e meu comportamento sexual nos últimos anos havia sido bastante comportado. De fato, naqueles últimos 10 anos, de 1997 à 2007, eu havia me relacionado sexualmente apenas com 4 pessoas: 3 prostitutas 23 e minha companheira, Márcia Regina.

***

O ataque de Leomir: gravação e ventiladores

Há um homem em Santa Maria de Campos chamado Leomir. Ele cria porcos e galinhas e

23 Duas das três prostitutas eram as que Márcia havia me autorizado a contratar ao dizer “Procura

”, no episódio em

que ela me deixara muito tempo sem sexo e eu fiz um ultimato a ela, dizendo que se ela me recusasse mais eu

procuraria outra mulher. A terceira prostituta era Sílvia/Priscila.

faz alguns serviços, como instalar ventiladores de teto. Havia três ventiladores de teto para serem instalados em minha casa e Márcia o chamou para o serviço. Na noite anterior eu havia dormido num pequeno quartinho, por sugestão de minha mulher. Ela estava há dias insistindo para que eu fosse dormir naquele quartinho e eu cedi. Pela manhã Leomir iniciou seu trabalho de instalar os ventiladores. Eu ainda não havia levantado, mas já estava acordado e podia ouvir através da porta o som da broca manuseada por Leomir. Pelo som das vozes, notei que meu cunhado Marcelo, conhecido por Marcelão, também estava na casa, ajudando no serviço, e meu sobrinho Gabriel também estava lá. Permaneci deitado, escutando as conversas deles. Leomir usava uma furadeira elétrica para instalar os ventiladores. Eu estava tranquilo por meu cunhado Marcelo estar na casa. Não haveriam de me matar com tantas testemunhas. Mas Marcelo saiu e eu deixei de ouvir a voz de Márcia. Leomir e meu sobrinho Gabriel, na época com cerca de 10 anos de idade, conversavam. Num dado momento

Leomir diz para Gabriel: “Não mexe aí não que dá choque

sangue

e ele pronunciou as palavras choque e sangue com mais ênfase que as

se você se machucar vai sair

”,

demais. Num átimo, percebi que a porta do quartinho se movera e, automaticamente, meti

a cara debaixo das cobertas e fingi estar dormindo, como se isso fosse me proteger. Era Márcia que entrara no quartinho, sorrindo e oferecendo-me uma vitamina de maçã.

Aceitei. Bebi. Márcia saiu do quartinho e fechou a porta. Num dado momento, Leomir pareceu ter comentado: “Esse aí não morre fácil, não”. Fiquei apavorado. Principalmente ao perceber que naquele quartinho haviam malas suficientemente grandes para transportar meu corpo esquartejado. Logo imaginei que Leomir poderia usar a furadeira para me matar. Comecei a pensar cada vez mais que eu poderia ser morto e esquartejado com aquela furadeira. Diriam que eu saí e nunca mais voltei. “O Eric? Eric sumiu.” – e ninguém exigiria uma explicação melhor. Dificilmente alguém ficaria fazendo perguntas a respeito ou imaginando o porquê de meu sumiço. Não havia contado à ninguém sobre o possível homicídio de Roberto, mas eu achava que eles sabiam que eu desconfiava de algo. Realmente, eu havia estado muito próximo da cena do crime enquanto ele acontecia

– ou enquanto ele não acontecia. Até então tinha poucas informações sobre as pessoas

que deviam ter matado Roberto. Quanto mais eu pensava, mais me convencia de que a ABIN – Agência Brasileira de Inteligência – estava por traz daquele suposto homicídio. Não havia outra explicação mais plausível, tudo de suspeito que ocorrera remetia à um trabalho de espionagem. Eles, os agentes da ABIN, são muitos e muito bem articulados. O trabalho deles é coordenado por pessoas que sabem muitas coisas a respeito de suas vítimas, mesmo coisas que aconteceram há muitos anos e que ninguém mais faz questão de lembrar. Num dado momento fez-se o silêncio. Todos pareciam ter saído de casa ou terem ido para o quintal. Ouvi claramente o som tétrico de uma gravação em que uma voz ”

e seguiam-se afirmações sobre o

sinistra falava sobre psicopatas. “O psicopata

psicopata. O tom da voz era grave e terrificante, e o discurso igualmente assustador. Era como que a gravação tivesse sido feita para causar pavor. O que aquela gravação queria me dizer? Seria eu o psicopata? O psicopata era Leomir?

A certa altura a voz tétrica que falava sobre os psicopatas parou e Márcia entrou em cena. Não poderia deixar de ser diferente. Se Márcia tivesse ouvido a tal gravação,

teria me dado razão. Afinal, aquele som assustaria qualquer um. Anos mais tarde concluí que a função daquela gravação assustadora era fazer com que eu parecesse um louco delirante, alguém que necessitava de uma internação. Quem hoje lê meu relato tem dificuldades em saber se aquela voz era uma gravação ou uma alucinação.

esses dois eu

instalei. Amanhã às 9 horas eu instalo o terceiro” e finalmente foi embora. Apavorado,

Leomir acabara de instalar dois ventiladores. Ele disse a Márcia: “É

voltei para a casa de minha sogra Dona Lúcia. Não me sentia mais protegido em minha própria residência. Sobre os ventiladores, imaginei que Leomir havia criado uma alegoria. Os três ventiladores de teto representariam eu, minha mulher e minha mãe. Os dois ventiladores instalados representariam dois problemas resolvidos: Márcia e minha mãe Vanda não representariam mais problemas – talvez elas tivessem concordado em manter o silêncio a respeito do aparente assassinato de Roberto. O terceiro ventilador, a ser instalado, representaria eu mesmo, um problema ainda a ser resolvido. Pensei que Leomir queria ter certeza de que eu não sabia de nada. E quanto mais pressão ele fazia, mais evidente se tornava meu pavor, o que mostrava meu conhecimento a respeito do suposto crime.

Sem saída

***

Eu me sentia frágil e em perigo. Marcinha já não era mais a mesma comigo. Ela me tratava mal e não cuidava mais de mim. Pudera. Vanda trocara a senha de meu cartão bancário com o qual eu recebia o dinheiro de minha pensão e dera o cartão a Márcia. Com dinheiro na mão ela não precisava mais de mim. Mundo real, lógica real. Em Santa Maria de Campos não há bancos. O mais próximo ficava em Bom Jesus do Itabapoana. Isso tornava impossível para mim ir ao banco pegar meu pagamento, já que eu não tinha o dinheiro da passagem para Bom Jesus e também não sabia chegar ao banco daquela cidade. Bom Jesus do Itabapoana era completamente estranha para mim. Além disso, eu não fazia ideia de onde Márcia guardava o cartão bancário e também não sabia qual era a nova senha. Entretanto, nada disso representaria problema para mim se eu estivesse de cara limpa, sem drogas psiquiátricas. Se eu não estivesse sendo pesadamente drogado, acabaria dando um jeito, usaria minha inteligência e conseguiria pegar meu dinheiro, voltando para Niterói.

Covardia e canalhice

***

Após Leomir instalar os dois ventiladores, fomos para casa de Dona Lúcia. Decidi ir para lá, pois estava claro que minha casa em Santa Maria não era segura. Dormimos eu e Márcia Regina na casa da mãe dela. Eu dormi pouco e muito mal. Estava preocupado demais com o ventilador que faltava instalar às 9 horas do dia seguinte. Era improvável que me matassem às 9 da manhã, mas não era impossível. E eu já sabia que estava visado. Não conseguia ver outra explicação para o que estava acontecendo. Interpretei os dois ventiladores instalados como representando minha mulher e minha mãe. O terceiro ventilador seria eu, e, no meu entender, Leomir queria me testar para ver se eu sabia de algo, ou se eu estava disposto a fazer algum tipo de denúncia. Nunca fui bom em fingir ou em mentir, razão pela qual julguei que Leomir já deveria saber que não poderiam confiar em mim a ponto de me deixarem vivo. No dia seguinte, quando Márcia acordou olhou bem nos meus olhos. Notou que eu não havia dormido. Então ela foi para a cozinha, pegou um monte de fotos nossas e me chamou:

Eric, veja nossas fotos

É

,

respondi desanimado.

Quer seu remédio?, perguntou Márcia, sorrindo.

Mas eu não tomo antidepressivos. Disse eu, estranhando o comprimido de fluoxetina que ela me oferecia – uma droga para dar ânimo e não para tranquilizar.

Não precisa tomar, respondeu minha companheira, jogando o comprimido pela janela e abrindo um sorriso ainda mais bonito. E completou:

Vamos lá em casa para instalar o ventilador?

Não

não quero ir

,

respondi hesitante.

Ah

,

vamos, amor

Não quero

Eu acho que vou lá com Gabrielzinho

Então vai

,

respondi dando as costas e voltando para o quarto.

Na cama comecei a pensar que coisa terrível eu havia feito. Consenti que minha companheira e meu sobrinho fossem ao encontro de um possível homicida sozinhos! “Tenho que ir lá”, pensei. Mas o terror de ter que enfrentar um homicida foi mais forte. Tentei racionalizar, dizendo a mim mesmo que eles queriam me matar, mas não machucariam Marcinha e muito menos meu sobrinho Gabriel. Mesmo assim me senti péssimo e fiquei imaginando como eu era canalha e covarde. Esperei.

***

Tentativa de suicídio, altas doses de drogas psiquiátricas e impossibilidade de fuga

Márcia e Gabrielzinho retornaram incólumes, mas isso não foi suficiente para me deixar muito melhor do que eu estava. Até que tentei imaginar o que um assassino faria com

alguém tão covarde quanto eu e me desesperei. Talvez ele me torturasse até a morte com uma furadeira elétrica ou coisa assim. Tão desesperado fiquei que preferi morrer com menos dor. Me cobri todo com um lençol e enfiei a cabeça num saco plástico, segurando

a boca do saco contra o pescoço, de modo a impedir a entrada de ar. Minha respiração

começou a ficar mais e mais intensa, mais e mais veloz. Mas eu tinha medo de morrer.

Assim que a falta de oxigênio se tornava suficientemente incômoda, eu tirava a cabeça do saco, tentando me convencer de que eu não precisava me matar. Então, já mais aliviado, mudava de ideia e voltava a por a cabeça dentro do saco plástico. E tudo se repetia, pateticamente. Eu punha e tirava a cabeça do saco. Pensando bem, a falta de ar não me deixava com tanto medo de morrer a ponto de me fazer parar. O que tornava inútil cada uma de minhas tentativas era simplesmente o grande desconforto da sensação de estar sufocando. Até que Suenne, minha cunhada, entrou no quarto e interrompeu minhas sucessivas tentativas fracassadas de suicídio. Ela reprovou meu comportamento e contou

o que eu estava fazendo para Dona Lúcia. A partir desse dia, Márcia me manteve sedado com doses ainda mais altas de Haldol/haloperidol (20mg/dia) e Rivotril/clonazepan (80mg/dia). Minha esposa também me levou numa consulta com um psiquiatra de Bom Jesus de Itabapoana que me receitou drogas ainda mais fortes, como o Amplictil/clorpromazina (de 100mg). Com a pesada carga de drogas psiquiátricas, passei a ser acometido por uma coriza e por uma obstrução nasal bastante frequente, especialmente a noite, o que me fazia acordar no meio do sono para assoar o nariz, tentando tornar a respiração mais fácil. Devido à alta dose de medicações neurolépticas e ansiolíticas eu estava incapaz de reagir de modo

adequado ao turbilhão de problemas em que me encontrava imerso. Quando eu dizia que essas doses de remédio estavam sendo excessivas e que eu não queria tomar tantos comprimidos, Márcia ameaçava chamar o pessoal da clínica para me internar a força. Por outro lado, eu também não conseguia voltar para Niterói de ônibus, nem ir para o apartamento de minha mãe em Araruama, pois não tinha dinheiro para pagar a passagem

e,

por mais que eu pedisse, ninguém me emprestava. Márcia tinha o meu cartão do banco

e

a minha senha, e era ela quem retirava e cuidava de meu dinheiro. Dona Lúcia dizia:

“Você quer Niterói, mas Niterói não te quer, Eric.” Eu me tornara um refém.

***

Assassinato por morte, motivação financeira

Enquanto eu estive em Santa Maria de Campos, minha mãe telefonou algumas vezes para mim. Eu disse a ela que estava sendo maltratado lá, que não me deixavam voltar para minha casa em Niterói. Ela se limitava a desconversar perguntando: “Ah, é?” e “É mesmo?” Este comportamento foi inteiramente diverso do que ela teve comigo durante toda vida. Fiquei muito surpreso com isso. Atribuí essa atitude de Vanda ao conhecimento dela sobre o homicídio de Roberto. Para mim, o que ela estava fazendo era se proteger, evitando contato com alguém que estava marcado para morrer. Para mim esse era um indício de que Roberto havia sido morto realmente e que Vanda, minha mãe, sabia ou desconfiava disto. Outra hipótese era que Vanda queria receber o dinheiro da venda da casa nº424 da Rua Domingues de Sá, ao lado da casa onde eu morava. O juiz não liberava o alvará por ser eu interditado e um dos donos da casa. E é, muitas vezes, difícil vender bens imóveis de uma pessoa interditada. O juiz pode postergar por anos a liberação do alvará, segundo me fizeram crer. Comigo morto tudo ficaria muito mais fácil. Ela e meu irmão conseguiriam receber o dinheiro da casa e não teriam que me dar nada.

***

Polícia e hospício em prontidão

Em Santa Maria morávamos em frente a uma estradinha e carros passavam de vez em quando. Percebi, entretanto, um fluxo notável de ambulâncias e viaturas da polícia passando por aquela estrada, de um lado para outro, toda hora. Achei que isso fosse normal, mas minha sogra me mostrou que não, ao comentar certa vez “Nossa! Quantos carros passando pela estrada!” Mais tarde eu interpretaria o fluxo intensificado de viaturas policiais e ambulâncias como uma tentativa de facilitar minha prisão, fosse na cadeia, fosse no manicômio. A passagem intensificada de carros da polícia e de ambulâncias tornaria mais fácil minha remoção para a prisão.

***

A velha preta amiga de minha sogra apareceu certo dia dizendo: “Oi Lúcia! Eu ouvi no

rádio que sumiu uma criança por essas bandas. Não foi seu neto Gabriel que sumiu não?” Perguntou a velha numa ameaça velada. No dia seguinte a van que trazia Gabriel do colégio passou direto por nossa casa, parando um tanto longe. Dona Lúcia ficara preocupada com Gabriel, talvez em razão do

comentário da velha preta. Ao ver que a van passou direto pela porta de casa, Dona Lúcia saiu correndo desesperada atrás da condução. Ou era uma coincidência muito grande, ou estávamos sofrendo ameaças psicológicas.

***

Um dia decidimos assistir filmes. Entregaram-nos um sem som e sem legendas que começava já do meio. Mas era um filme muito interessante. Duas crianças amigas, com trajes típicos da arábia, resolveram brincar com um rifle. No deserto amplo e ermo vinha vindo um ônibus com uma das protagonistas – uma mulher de feitio benevolente, jovem e bonita. Escondidas num pequeno morro, os amigos dão um tiro no ônibus. O ônibus para. Daí mostra-se o interior da viação: a protagonista havia sido atingida e agonizava, os passageiros em pânico gritavam apavorados. A confusão em contraste com o deserto silencioso das crianças que brincavam de soldado. O sujeito que entregou este filme em nossa casa estava, por algum motivo, com medo, conforme comentou minha sogra Dona Lúcia. A finalidade daquele filme era causar exatamente este sentimento. Mostrar a fragilidade da vida, que se podia perder a qualquer instante, mesmo pelas mãos de crianças inocentes. Aquele não parecia ser um filme que qualquer locadora alugasse. Não sabíamos seu nome ou quem o havia alugado.

Gozado

***

Eu estava há dois meses sem gozar, desde que fora internado na clínica Santa Catarina. Certa manhã, ao acordar, percebi que minhas mãos haviam sido esporradas. O sêmen já tinha secado e não deixara marca visível, mas o odor característico estava lá. “Devo ter gozado durante a noite”, pensei. Quis acreditar que fora polução noturna, mas verificando meu short de pijama, vi que ele estava limpo e seco, sem sinal algum de sêmen. A porra não era minha. No entanto ela já havia secado e ninguém acreditaria em mim. Mantive silêncio a esse respeito. Tentei esquecer isso, já que não havia nada que eu pudesse fazer. Na manhã seguinte o episódio se repetiu. Tentei imaginar de quem era a porra. Só consegui dois candidatos: Kleyton, meu cunhado e Gabriel, meu sobrinho de 10 anos. Pensei que Gabriel poderia ter sido induzido por Márcia a fazer aquilo, e então ela teria batido uma foto do feito. Se tal foto fosse parar nas mãos do delegado, talvez eu fosse parar na polícia – dependendo da interpretação que fizessem da foto. Devido ao ódio generalizado que a mídia criou contra a pedofilia, eu seria alvo de agressões por parte dos demais presos. Bastariam alguns dias na cela e eu estaria morto. Minha morte seria uma estatística. Satanás é mesmo o príncipe deste mundo. Entretanto, o mais provável é que o gozador tenha sido meu cunhado Kleyton, negro retinto e esperto que, anos antes, aprendera a jogar xadrez comigo.

***

No desespero, dopado, acuado e abandonado por minha família, vendo ambulâncias da CRIL (Clínica de Repouso Itabapoana LTDA – tel. 0xx-22-3831-1383) passando a toda hora na estrada em frente à casa de minha sogra, acabei preferindo me internar, para fugir das agressões morais, das ameaças veladas e da possibilidade de ir para a cadeia vítima de uma armação. Eu não sabia que a tal clínica era praticamente um manicômio

judiciário e que eu ficaria ali muito mais tempo do que queria ou deveria. Também alimentei a ilusão de que minha mãe viria me tirar da Clínica de Repouso Itabapoana e eu retornaria assim a minha residência em Niterói. Também foi um meio de me sentir menos ameaçado e de, possivelmente, retornar à casa em Santa Maria tomando menos medicação. Chegando na Clínica Itabapoana, me puseram numa cama que tinha um dos pés menor que os outros. Isso me incomodou bastante, porque a cama balançava o tempo todo e eu era obrigado a deixar um dos pés de minhas sandálias como calço para o pé mais curto da cama. Certa vez o interno chamado Xuxa, um homem branco, barrigudo e de aspecto rude tirou o pé da sandália que eu tinha deixado de calço e o examinou sob o olhar de outro interno. Xuxa olhou o pé da sandália com a figura de um jogador de futebol marcando um gol e disse ao outro: “Não tem valor”. Hoje olho para essa época e chego a conclusão de que a CRIL era um manicômio judiciário de fato, caso não o fosse de direito. Foi quando um interno chamado Edésio, que mantinha a cabeça sempre raspada e era uma voz de comando na CRIL, me convidou para ficar na enfermaria dele, onde havia uma cama vaga. Eu achei o convite estranho por dois motivos. O primeiro é que o convite de Edésio veio após uma falha que cometi: Edésio me pediu para que eu pegasse uma vassoura com , amigo de Capixaba. Eu fiz o que ele me pediu, mas impôs a condição de que eu devolvesse a vassoura assim que pudesse. Porém me distraí e a vassoura desapareceu e nunca mais ninguém a viu. O convite para ir para a enfermaria de Edésio veio após este incidente, mas é estranho que uma falha seja recompensada ou que queiram proximidade com alguém que acabou de cometer um erro no cumprimento de uma ordem bastante simples. O segundo motivo pelo qual achei o convite estranho é que enquanto estávamos tirando minha roupa de cama para levar para a vaga da enfermaria de Edésio, eu disse: “Olha, Edésio, aquela cama ali ficou vaga, eu não posso ir para lá?” e Edésio respondeu: “Não, porque aquela cama pertence a alguém que ainda vai chegar” – disse ele. Se o dono da cama não estava na clínica, a cama não tinha dono, claro. Eu poderia ter permanecido na mesma enfermaria e mudado para uma cama em bom estado. Mas preferi não recusar o convite do “chefe”. Além disso, a enfermaria de Edésio ficava próxima à porta onde chegavam as visitas e eu estava ansioso por receber visitas.

Fui para a enfermaria de Edésio. Os internos de lá eram o próprio Edésio (branco, careca, baixo, de voz grave e com bigode), um amigo dele que parecia ser um pouco menos másculo que a média e que tinha um nome ligeiramente afeminado (esqueci o nome dele – era o único daquela enfermaria que não trabalhava na limpeza nem na cozinha e tampouco exercia atividade de liderança), Ênio (um negro alto conhecido como “Pezão”, que tinha uma das pernas toda costurada – provavelmente em decorrência de algum acidente bastante grave – e que trabalhava na cozinha), Capixaba (que era “sócio” ou “parceiro” de , e tinha a pele parda não sendo nem negro nem branco) e Zé (que era o líder da turma da limpeza, muito conversador e trabalhador, com 51 anos de idade). Tão logo me instalei nesta enfermaria, tendo estes sujeitos como companheiros de quarto, fizeram pressão para que eu tivesse um comportamento homossexual, o que felizmente não houve. Logo percebi que algo estava errado ali e na primeira noite, simplesmente não consegui dormir, fiquei virando de um lado para o outro e ouvi quando Capixaba comentou, parece-me, a meu respeito: “aí você já quer mudar a estória”. Na hora não entendi bem o que ele quis dizer com isso, mas suponho, talvez, e trata-se de uma mera conjectura, que eles esperavam que eu me comportasse de um modo inteiramente diverso do que eu mesmo estava acostumado – isso, talvez, devido a comentários falsos a meu respeito que corriam toda a CRIL, sabe-se lá vindos de onde.

***

Um sujeito que eu não conhecia me perguntou no início de minha internação na Clínica de Repouso Itabapoana LTDA:

Você veio de Santa Maria?

Vim, respondi.

Então eu sei quem você é, disse o tal sujeito que eu nunca tinha visto antes. Isso é para mostrar como comentários a respeito de pessoas novas correm rapidamente toda cidade do interior e adjacências. Em meu novo quarto tive, de início, dificuldade em adormecer. Na certa adivinhava a má intenção de meus companheiros de enfermaria. A noite fiquei na cama, tentando dormir. Virava de um lado para outro, inutilmente. Já quase pela manhã o colega de Edésio simulou soltar uma franga, como se ele fosse gay. Logo depois, neste mesmo dia, durante o banho de sol, no pátio, Edésio me chamou em particular e me disse em voz baixa: “Eu dei”. Na hora pensei ter escutado isso, e realmente foi o que escutei, embora me recusasse a crer que ele tivesse dito tal coisa.

As pressões e sugestões para que eu tivesse um comportamento homossexual e me tornasse gay vieram principalmente através Ênio “Pezão” que, mesmo com a perna toda remendada, caminhava sem claudicar, com desenvoltura. Ele tinha alguma liberdade para transitar fora do pavilhão e também fora da clínica. Seu maior e pior defeito era ser, quando queria, extremamente grosseiro, grotesco e mesmo repugnante ao conversar e falar sobre assuntos como sexo (era seu assunto preferido) num recinto onde só havia homens e a presença feminina era rara, limitando-se à visita esporádica de enfermeiras que ficavam por pouco tempo e demonstravam por nós – meros internos – um desprezo bastante compreensível. Pezão sugeria a todo momento que eu era bicha. Imaginem, caros leitores, minha situação. Se eu partisse para a agressão, ou levava um sacode do Ênio, que era muito maior e mais forte que eu, ou seria transferido para o pavilhão 4, que conseguia a proeza de ser ainda muito pior que o pavilhão 2, onde estávamos. De fato, segundo soube, no pavilhão 4 ocorriam assassinatos e agressões físicas rotineiramente. No pavilhão 4 os internos juntavam-se em bandos para surrar os demais. Um dos pacientes que conheci, de nome Romero, disse que um dos internos do pavilhão 4 havia ameaçado outro de morte. Este não deu importância à ameaça e, quando foi ao banheiro urinar, num intervalo de jogo de futebol que todos do pavilhão assistiam, aquele o matou a facadas. Ninguém viu nada. Ou seja, minha situação era realmente bastante delicada. O menor erro me conduziria à morte. Era revoltante e terrivelmente injusto que alguém, que no ano anterior (em 2006) havia sido menção honrosa na Olimpíada Iberoamericana de Matemática Universitária estivesse correndo risco de morte num lugar tão baixo e ordinariamente vil quanto aquele. Mais: eu me encontrava naquela situação não por a ter procurado, mas meramente por ter estado próximo, presumivelmente, da cena de um crime – e agora eu tinha certeza que o tal analista de sistemas de nome Roberto e pai de Aline estava morto realmente. Pois se não estivesse, ninguém teria se preocupado tanto em me matar. Isto, pelo menos, era o que eu pensava. Vou citar algumas situações que vivi lá na CRIL para que entendam um pouco melhor o que passei. Certa vez, quando Ênio estava fazendo a barba do pessoal e chegou a minha vez ele perguntou: "Vai deixar o bigode?" e eu respondi "Não, pode fazer tudo" e Pezão retrucou: "Pra ver se vira homem", como se eu tivesse pedido para deixar o

bigode. Pezão já ia deixando o meu bigode quando o enfermeiro Jorsélio, que viu a cena, disse: “Pezão, ele pediu para fazer o bigode também.” Em outra ocasião Ênio foi tomar banho e todos ouviram quando ele pegou a vassoura e varreu com força o chão do banheiro durante alguns instantes e concluiu, imitando a voz e modo de falar de um gay: “Ai! Que horror!”, numa alusão clara ao fato de, naquele dia, pela manhã, eu ter desistido de lavar o banheiro – que foi uma tarefa que Zé, amigo de Capixaba e chefe da limpeza, disse que eu poderia fazer. Eu só não lavei o banheiro porque ninguém se dignou a me ajudar e porque eu não conhecia bem o procedimento para lavar o banheiro, já que nunca havia feito isto. Por exemplo, haviam duas qualidades de produtos de limpeza para usar misturados à água, mas em que proporção? Eu não sabia. Além disso, eu estava sem luvas, requisito básico para a limpeza do banheiro. Eu preferia varrer o chão, o que era muito mais fácil de fazer, mas não me deixavam usar a vassoura. Era até estranho: ninguém ali recebia um centavo sequer para participar da faxina diária do pavilhão (com exceção dos dois funcionários da CRIL), mas as vassouras, rodos e panos de chão eram sempre muito requisitados e nunca faltava mão de obra para limpar o pavilhão. Em geral, quase sempre as mesmas pessoas participavam da limpeza. Haviam apenas dois funcionários da Clínica de Repouso Itabapoana LTDA que ajudavam na limpeza e todas as outras pessoas – cerca de umas dez – eram pacientes da CRIL. Semanas depois, quando Zé teve alta da clínica, eu passei a participar ativamente da equipe de limpeza. Todos os dias, pela manhã, eu e outros colegas mais responsáveis pegávamos vassouras, rodos e baldes d'água para dar uma faxina em todo pavilhão.

***

Uma ameaça constante era o contágio via sangue, na hora de fazer nossa barba. Não costumavam abrir a gilete na nossa frente, e não jogavam a gilete fora imediatamente depois do uso. Nunca procurei conferir, pois isto poderia criar problemas para mim, mas provavelmente muitas pessoas ali usaram a mesma lâmina de barbear que outros pacientes. Uma vez eu disse ao camarada que estava fazendo minha barba – um outro interno: “Você não trocou a lâmina de barbear” ele me respondeu que havia feito a barba do outro sujeito com o outro lado da lâmina. O risco de contagio via sangue me parecia bastante alto. É possível que outros pacientes tenham morrido por doenças contraídas desse modo na própria clínica. Durante minha estada lá um dos internos morreu, e eu havia estado com ele na véspera. Visivelmente ele tinha algum problema de saúde que não fora tratado. Meu risco de morte foi multiplicado várias vezes ao entrar na clínica. Eu sofri uma pressão muito grande na CRIL. Certa manhã, no pátio, o interno Edésio me disse: “Eric, se você não urinar no quarto, vai ter que urinar pelo ralo”. Grande diferença há entre urinar no ralo e urinar pelo ralo. A ideia que ele me passou foi de eu perder minha mangueirinha e passar a ter um ralo para urinar. Quem nunca passou por sofrimentos tão intensos não tem o direito de criticar quem quer que seja. Durante meus primeiros dias na Clínica de Repouso ltabapoana um sujeito cujo nome verdadeiro eu não sei, mas que dizia chamar-se José Roberto Abreu chegou à Clinica. Logo suspeitei que ele havia sido mandado para me matar, mas não era meramente isto. Ele queria fazer com que minha morte parecesse ser uma questão de saúde meramente e não um homicídio. Certa vez ele disse: “Se eu quisesse te matar você já estaria morto há muito tempo”. Com certeza era verdade, pois ele poderia pagar alguém para fazer o serviço (dentro ou fora da clínica); poderia oferecer alguma vantagem para alguém matar-me ou usar de ameaças veladas para fazer com que alguém me

envenenasse; poderia quebrar meu pescoço enquanto eu dormia etc. Existiam muitos modos de me matar, mas a maioria deles deixava tantas pistas e testemunhas que meu assassinato poderia, correria o risco de ser descoberto – ainda que fosse um risco pequeno. E as pessoas que mandaram José Roberto Abreu não poderiam correr riscos. Se pudessem, eu já estaria morto. Há assassinos que matam por R$50. Alguns matam

até por camaradagem, para agradar o mandante. Entretanto, estes deixam muitas pistas

e correm o risco de serem descobertos. E pessoas poderosas e endinheiradas não

precisam correr este risco. O que quero dizer é que quando um pé de chinelo quer matar

alguém paga um assassino de R$50; quando uma autoridade quer matar alguém chama a ABIN. O pé de chinelo corre o risco de ser preso, mas sequer é cogitada a culpa da autoridade. Neste caso, quem corre riscos são as eventuais testemunhas, que são perseguidas, ameaçadas e até mortas.

***

Suborno para facilitar minha morte

O

enfermeiro da CRIL conhecido como Baú costumava dizer que eu era dele. Desconfio,

e

isto não é uma certeza, mas uma conjectura, que Baú recebeu, ou receberia, dinheiro

para facilitar minha morte. Certa vez Baú me perguntou quanto dava por mês uma taxa de juro de 0,6% aplicada num capital de R$24 mil. Eu respondi de pronto: R$144 e ele me disse que este era, realmente, um valor próximo ao que ele havia obtido. Ora, R$144

corresponde exatamente a 0,6% de R$24 mil, e esta é uma conta muito fácil que qualquer pessoa munida de uma calculadora e que tenha um mínimo de conhecimento pode fazer. Isto mostra que provavelmente o valor combinado não era R$24 mil, mas sim R$25 mil. A troca de número era uma mera provocação, como muitas pelas quais passei. No caso de uma investigação ser efetuada para comprovar as denúncias que faço aqui, um exame muito sério das contas bancárias do enfermeiro Baú, de sua esposa e de seus filhos deve ser levado a cabo. Deve-se procurar por um depósito de R$25 mil ou algo próximo desse valor, ou mesmo por vários depósitos de valor menor que somem R$25 mil.

***

Até então eu não tinha entendido porque já não tinham me matado de uma vez. O motivo

é que a ABIN, por ser um órgão do governo, ligado à presidência da república e, me

parece, também à militares de alto escalão, não poderia em hipótese alguma ser acusada de praticar homicídios. Sim, porque o fato de políticos roubarem e se corromperem é muito bem aceito pela população, mas a notícia de que algumas autoridades são mandantes de homicídios contra o cidadão comum seria recebida como uma bomba atômica. Para o povo é comum, normal e até mesmo desejável, que alguns políticos sejam desonestos. Isto situa psicologicamente o cidadão comum num nível moral mais elevado que qualquer político – que tradicionalmente é “ladrão, corrupto e picareta”. Sabe- se que pedófilos, traficantes e milicianos são vistos como párias da pior espécie. O povo acredita que eles merecem a morte. Imagine o choque para o cidadão comum saber que o governo, que deveria protegê-lo com políticas públicas, com a aplicação da lei, e com programas assistenciais, também comete assassinatos, como os bandidos. As pessoas simplesmente não aceitariam isto, pois esta notícia transcenderia totalmente a repetição exaustiva, das mesmas ideias e dos mesmos conceitos que os jornais, revistas e emissoras de TV fazem diariamente. Quem diria? Autoridades dos mais altos escalões,

deputados, senadores, generais, além de ganharem rios de dinheiro são mandantes de homicídios de cidadãos comuns, que não cometeram crime algum. A população perderia o sentido de segurança que o governo costuma passar. O homem comum talvez seja

induzido pela mídia a pensar que somente a existência do governo e da polícia impede que sejamos todos roubados, estuprados e mortos pelos marginais que habitam nossas TVs e as páginas dos jornais. A verdade é bem outra. É a atitude irresponsável do governo que permite e favorece a prática de crimes. Se a questão da educação fosse levada a sério a maioria dos crimes não ocorreria. De fato, a presença de uma consciência cidadã na mente de uma pessoa faria, em tese – e uma boa tese – que ela buscasse agir corretamente com seu semelhante. O que faz com que o problema da educação seja um mal aparentemente sem cura é a ausência de vontade política. E não

há vontade política porque quem governa não é o povo e porque quem governa não é

atingido pelas consequências de seu mau governo. A única saída é a democracia direta, sem intermediários – o governo feito diretamente pela população, exercido pelas mesmas pessoas que trabalham, pelas mesmas pessoas que dependem do serviço público e pagam impostos. Quem deve decidir o destino das verbas públicas é justamente o público, e não quem hoje chamamos governo. Quem deve decidir o valor da taxa de impostos e o percentual de investimentos nos diversos setores é precisamente quem contribui com impostos e quem faz uso dos serviços públicos. Nada mais justo e sensato que isto. Enquanto questões importantes como esta sequer são cogitadas pela mídia, discute-se muito o sexo dos anjos e questões menores são hiperdimensionadas, tais como o ódio pedofóbico criado pela TV que o elegeu como o grande vilão do início do século.

***

O governo impede o acesso do povo a informações cruciais para o exercício da

democracia. A população deveria ter acesso facilitado aos nomes dos deputados e senadores que votaram a favor ou contra cada projeto de lei. Nós deveríamos saber se o deputado X ou o senador Y votaram a favor ou contra aquele projeto que julgávamos tão importante. Também deveríamos ter acesso aos textos dos projetos de lei propostos por cada parlamentar. Esta é uma proposta política razoável. Ela não oneraria o governo com despesas de vulto e seria de fácil implementação. Essas informações poderiam ser disponibilizadas na Internet e tal fato contribuiria de modo relevante para que o povo conhecesse os políticos que elegeu. A verdade é que no panorama político atual não sabemos em quem estamos votando. Desconhecemos o verdadeiro modo de fazer política dos candidatos. O que temos é uma simpatia ou antipatia por um ou outro político, mas não um conhecimento real sobre quem são os candidatos. Na ausência do conhecimento factual sobre os políticos, somos levados a imaginar quem seriam eles. Então votamos em imagens tecnicamente construídas pela mídia, esculpidas psicologicamente pela TV.

***

Certa manhã, após o banho frio e compulsório que diariamente tomávamos, fui à minha enfermaria buscar minha toalha para me enxugar. Ao abrir a parte do armário que me

cabia deparei não com meus pertences, mas com uma bola de couro amassada, um pedaço de pau num formato fálico e uma porção de jornal picado. Fingi não ter visto nada,

eu estava só na enfermaria. Peguei uma toalha em outro lugar e me enxuguei. Mais tarde,

quando já haviam outros internos na enfermaria, abri minha parte no guarda roupas e

estava tudo OK. Haviam tirado aquelas coisas e recolocado as outras. A bola amassada me fez pensar no esmagamento de minhas próprias, o pedaço de pau era uma alusão a violação sexual que poderiam praticar contra mim caso eu não cedesse e o jornal picado era um meio de dizerem que eu não poderia recorrer à mídia. Somente quem passa por este tipo de coisa pode dizer o quanto é angustiante. Eu me sentia no abismo de que fala a Bíblia. Totalmente abandonado e sem esperanças. Um dia, sem nenhum motivo aparente, Edésio começou a choramingar e fazer uma pirraça sem sentido. Levantava o tom de voz numa lamúria sem explicação. Num rompante virou sua própria cama de ponta cabeça. Desarrumou tudo, ignorou os conselhos dos amigos que tentavam acalmá-lo. A princípio pensei que se tratasse de uma curiosa idiossincrasia – coisa de doido mesmo – mas era mais complicado. Ele tanto fez que o enfermeiro Jorsélio lhe aplicou uma injeção para acalmá-lo, porém Edésio continuou o teatro. Alguns internos se aglomeraram, assistindo a cena. Um deles comentou com outro: “É birro”. O outro concordou. O interno recém chegado, que dizia chamar-se José Roberto Abreu, postou-se de pé diante da cama em que Edésio havia se deitado. José Roberto Abreu abriu uma bíblia e em silêncio se pôs a ensaiar o início de uma leitura que nunca aconteceu. José Roberto Abreu era agente da ABIN, como me certifiquei mais tarde. Aguardei pela leitura da Bíblia por um período que parecia estender- se demasiadamente. Não houve leitura. Talvez ele tenha entendido que seria uma heresia sem tamanho ler a Bíblia estando incumbido de tarefa tão inglória quanto cometer um assassinato. Por fim, diante da insistência de Edésio, decidiram transferi-lo para o pavilhão 4, como punição. O homem que dizia chamar-se José Roberto Abreu passou a ocupar a cama de Edésio. Era noite e percebi a fria em que estava. Peguei uma das sacolas plásticas que havia separado para ter a alternativa de uma morte menos dolorosa e esperei na enfermaria por uma oportunidade, mantendo a sacola oculta debaixo dos lençóis. Estava decidido a tentar o suicídio para livrar-me de coisa pior. Edésio veio à enfermaria pela última vez para pegar seus pertences. Entrou com seu colega menos másculo e me disse que não considerava válida a saída dos covardes. Ele sabia que eu pensava em me matar. E sabia disso porque minhas tentativas patéticas de suicídio já eram conhecidas de muitos, inclusive na Clínica Itabapoana. A diversão desse pessoal de cidade do interior é comentar a vida dos outros. E não importa se os comentários são verdadeiros ou falsos, o importante é falar. Para que o leitor tenha ideia do que estou dizendo cito um caso ocorrido com minha companheira Márcia, há muitos anos atrás. Ao retornar a sua cidade de origem, após alguns anos, foi recebida com espanto e medo. Quando a viam as pessoas se afastavam, assustadas, sem saber o que pensar. Haviam espalhado a notícia de que ela morrera atropelada numa rodovia e até missa fizeram para ela. Isto mostra bem que o que pensamos ser real, na verdade pode não ser. Mesmo que as pessoas com quem temos contato concordem conosco. De fato, pode ser que as pessoas próximas de nós também estejam sujeitas às mesmas ilusões e fantasias que nos estão confundindo.

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Diante da sincera opinião de Edésio, decidi viver. Lembro que nesta ocasião o amigo de Edésio disse que certa vez teve cera no ouvido e que o médico teve que por “um cano” no seu ouvido para tirar a cera. O comentário aludiu a imagem de um sujeito com um revólver na cabeça, claro, sugerindo um aspecto da realidade que não poderia, ou não deveria, ser mencionado de outro modo. Nesta rápida conversa que tivemos Edésio me

fez entender que havia rolado até ameaça de morte para que ele saísse da enfermaria. Não havia explicação melhor, já que Edésio sabia que seu comportamento o levaria para pavilhão 4 – que fazia o pavilhão 2, onde estávamos, parecer um jardim de infância. José Roberto Abreu estava agora alojado em minha enfermaria e, aproveitando-se disso tentou me intimidar. Ele passou a ler um livro espírita sobre a “vida depois da morte”, o que interpreto hoje como uma tentativa de fazer a morte parecer uma opção mais aceitável para mim. Engana-se quem pensa que as armas de agentes secretos são coisas mirabolantes, vistas nos filmes do agente 007. As armas deles são as ameaças veladas, a psicologia e a intimidação. Eles também são organizados e em grande número, agem de forma articulada, coordenados por outros agentes que, provavelmente, não aparecem. Certa noite, quando todos já haviam se deitado e eu tentava dormir, escutei, não muito alto, o barulho inconfundível de uma sessão de tortura. O infeliz gritava repetidas vezes: “Para! Para! Para!” urrando de dor. Então, já não conseguindo mais articular as palavras, gritava “Ah! Ah! Ah!”. Notava-se o mais puro desespero em sua voz. Até que pude reconhecer o momento em que ele morreu, parando de gritar num derradeiro e inequívoco suspiro. Fiquei quieto na cama, horrorizado. Imaginei logo um sujeito imobilizado tendo as penas perfuradas repetidas vezes por uma furadeira elétrica. Certamente os militares haviam matado pessoas assim durante a ditadura. O que eu havia escutado era a gravação de uma dessas seções de tortura. Fiquei pensando se a gravação era real ou não. Um ator poderia ter sido contratado para fingir aquilo. Mas recusei essa hipótese: era convincente demais para ser uma gravação falsa. Foi uma experiência assustadora. Seguiram-se outros sons, supostamente de pessoas sendo mortas sob tortura, mas não consegui imaginar como, pois só pelo áudio era difícil imaginar o que estava acontecendo. Na enfermaria todos já estavam deitados, de olhos fechados. Ninguém comentou nada a respeito nem no dia seguinte nem em nenhum momento posterior. Se eu falasse a respeito com algum médico ou enfermeiro, iam dizer que eu estava tendo alucinações e aumentariam a dose de meus remédios. Preferi silenciar.

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Deixei de ter medo da morte para ter medo de morrer sob tortura. Sobre o homem que dizia chamar-se José Roberto Abreu, tentei negociar minha vida com ele, dizendo que não se deve mentir, mas sim omitir. Até então eu achava que o problema deles era eu vir a denunciar a morte de Roberto na Clínica Santa Catarina. Meu comentário foi em vão, pois ele disse que era “furada". Fosse como fosse, me parece, José Roberto Abreu não decidia nada. Ele apenas cumpria ordens, e era muito bem pago para isto. Ele próprio falou algo como “Cem mil ou trezentos mil”. Interpretei estes valores como os preços pagos por minha cabeça. Hoje penso que os trezentos mil seriam os valores supostamente pagos pelas mortes de minha mãe Vanda, de Márcia e de mim mesmo. Pelo menos era isso que José Roberto Abreu queria que eu pensasse, para fazer com que eu mesmo aceitasse e buscasse minha morte. Esse pessoal da ABIN usa de muita psicologia. Essa é, na realidade, a principal arma deles. Nada de artefatos estranhos e engenhosos que podem matar ou ferir. A mente humana dotada da técnica certa é a melhor arma que pode existir. A primeira tentativa de José Roberto Abreu foi fazer como na Clinica Santa Catarina, simulando ataque cardíaco via medicamentos. Eu havia escrito um texto em que oferecia minha vida pela de minha mãe e de meu irmão. Mostrei o texto a José Roberto Abreu, na esperança de que seu comentário e atitude a respeito mostrassem a mim que

tudo não passava de um mal entendido de minha parte, uma interpretação equivocada que eu havia feito. O resultado foi o oposto. A postura de José Roberto Abreu diante do “documento” que redigi foi diferente da que teria qualquer pessoa que não soubesse nada

a respeito. Ao mesmo tempo em que ele não confirmou ou negou nada, nem que era

agente, nem que estava ali para me matar, seu modo de proceder não denotou nem surpresa, nem desconhecimento da situação, tampouco chacota ou ironia a respeito. Ele era mesmo um agente. Tentei conversar com ele em outra ocasião e disse que não queria morrer com dor. Ele comentou: “Eutanásia, a morte sem dor”, ou algo assim. Hoje penso que ao referir eutanásia, José Roberto Abreu queria fazer com que eu pensasse que minha morte seria útil de algum modo. Isso, supostamente, faria com que a ideia da morte me parecesse menos ruim, favorecendo um possível suicídio.

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Uma noite tive taquicardia sem motivo aparente. Não havia feito nenhum esforço físico nem tido raiva que justificasse tal sintoma. Concluí que os remédios estavam me causando a taquicardia. Reclamei enfática e veementemente na presença dos demais internos e dos enfermeiros. Então essa estratégia para me matar acabou ficando ruim, por várias pessoas terem escutado eu dizer que os remédios estavam me fazendo mal. Caso houvesse uma investigação, a clínica poderia ser responsabilizada, ou algum enfermeiro. Isto tornou este plano deles inviável, por haver risco de alguém denunciar o esquema e a partir daí chegar-se aos verdadeiros responsáveis – pessoas poderosas por trás da conspiração, gente graúda que não poderia aparecer. Ao ver frustrado seu plano para me matar, José Roberto Abreu entrou na enfermaria bradando em voz alta: “Vamos legalizar isso aí!”, referindo o tal documento no qual eu oferecia minha vida pela de minha mãe e de meu irmão, que haviam sido ameaçados por José Roberto de modo velado. De fato, ele fez menção, durante uma conversa com outro interno de nossa enfermaria, ao final de telefone 1541, que correspondia a um número meu antigo. E na hora ele até disse, sobre

o tal número telefônico: “Quem vai atender é a mãe ou o irmão”, donde ele sugeriu que

minha mãe e meu irmão corriam risco caso eu não morresse. Na verdade, tentei negociar com Zé Roberto, através do tal documento, uma "morte melhor" da que ele havia sugerido que eu teria, através de perfurações de furadeira nas pernas. De fato, José Roberto Abreu falava o tempo inteiro que havia um nervo na perna – chamado nervo ciático – cuja inflamação causava uma dor pior que a dor do parto. Ao fazer com que os enfermeiros – em particular Josias – me ministrassem drogas para forçar um enfarte, José Roberto Abreu estava cumprindo sua parte no trato, me possibilitando uma morte sem dor. Mas eu não me entregaria tão fácil. O fato é que eu mesmo estava preferindo morrer logo à passar por aquelas dificuldades. Eu costumava dormir com a cabeça virada para o lado da porta, para ver se ele começava – e terminava logo – a perfurar-me pela têmpora, para que eu morresse de forma rápida e sem dor. Expus esta minha ideia para J.R. Abreu, dizendo a ele que começasse a perfurara-me pela cabeça. Nesta ocasião, outro interno com quem eu nunca havia falado puxou assunto perguntando se eu queria um cigarro. Neguei sem dar muita importância e ele respondeu: “Já está na cabeça”. Fiquei com medo, achei que estavam referindo minha mãe, querendo dizer que ela havia levado um tiro na cabeça ou algo assim. Achei que era provável que pudessem tentar matá-la – talvez até mesmo tivessem feito isso. Pensei em como eu poderia, naquela situação, avisar minha mãe do risco. Eu não podia. Então José Roberto Abreu me disse: “Acho que você vai receber uma boa notícia nos próximos dias”. Comecei a pensar, então, que a morte de minha mãe pudesse

me favorecer de algum modo, fazendo com que eu saísse da clínica. Era precisamente o oposto. Se minha mãe viesse a morrer, eu poderia jamais sair da CRIL, caso o meu novo responsável legal fosse alguma instituição, pois sou interditado devido a esquizofrenia. Mas eu pensei que se o juiz nomeasse meu irmão como meu responsável legal, talvez ele me tirasse da clínica. Isso aquietou um pouco meu coração.

***

Um fato muito curioso e perturbador ocorreu na Clínica de Repouso Itabapoana LTDA. Uma noite, enquanto assistíamos TV, J.R. Abreu, o agente da ABIN, afirmou que era sexta-feira. Eu retruquei: “Não, hoje é quinta-feira.” O mostrador de meu relógio concordava comigo e até então não havia motivo para dúvidas. Então o agente chamou minha atenção para a TV – havia começado o Jornal Nacional. A repórter anunciou o dia

da semana em alto e bom som: SEXTA-FEIRA. J.R. Abreu completou “deus disse que hoje é sexta-feira”. Fiquei atônito. Eu sabia que era quinta-feira e meu relógio me dizia o mesmo. Em dúvida, fui conferir com outra pessoa. Perguntei o dia da semana ao enfermeiro Josias que trabalhava naquela noite e ele respondeu confirmando que era quinta-feira. Ou seja, certamente aquele programa não era o que o resto da população costumava ver. Havia aí um forte elemento conspiratório. Até mesmo a TV conspirava, talvez a própria rede globo estivesse envolvida. É claro que se eu levantasse tais questões na CRIL, me tomariam por um louco alucinado e perigoso que deveria ficar mais tempo internado e tomar mais haloperidol. O fato é que subia um fio da TV e ia sabe se lá deus onde. Talvez a imagem que víamos na CRIL proviesse de uma gravação, e não diretamente de uma emissora. Programas anunciados como “ao vivo” na verdade poderiam não ser. Um dos meios para controlar as pessoas é controlar o que elas assistem na TV. De fato, lembrei que em meu primeiro dia na CRIL a imagem da TV mostrava em relevo palavras como “tristeza”, “dor”

e coisas deprimentes assim. Ao comentar isto com outro interno ele fingiu desconhecer o

fato. Na verdade, não sei dizer se ele desconhecia o fato ou se ele preferia fingir não

saber de nada. Ou minha percepção era melhor que a dos demais internos, ou eu era mais corajoso que os outros.

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Mas J.R. Abreu não desistiu de sua missão. Na segunda tentativa ele teve mais sucesso. Explico: fui de uma estupidez suicida ao aceitar uma maçã do agente. Ele deu uma maçã

a cada colega da enfermaria. Como a comida da CRIL era péssima, eramos compelidos a

aceitar qualquer alimento que nos oferecessem. O que se deu, penso, foi uma simpatia patológica pelo carrasco, que ocorre, por exemplo, em sequestros, quando a vítima fica “amiga” do raptor. E tendo o agente estudado psicologia, conduziu a situação de modo a parecer mais simpático e amigável, favorecendo minha patológica simpatia. Provavelmente, se eu estivesse lendo a Bíblia teria sido mais cauteloso com minha própria saúde. Teria identificado o agente secreto como um enviado de Satanás e veria o mal em cada um de seus atos insidiosos. Veria a mim mesmo como um soldado de Jeová, cuja luta contra o mal assentava-se em bases divinas. Pensando assim, eu perceberia haver muito mais em jogo que minha própria vida: o destino de toda civilização humana seria definido pelo resultado do embate psíquico. Era a luta do bem contra o mal. Porém eu estava muito distraído com outro livro. O ótimo "Problems in Higher Mathematics" de V. P. Minorsky – livro russo vertido para o inglês com 2570 problemas de Matemática Superior. Cheguei a resolver cerca de 200 ou 300 problemas deste livro em

minha estada na CRIL. Fazia isso para manter a proximidade com a Matemática, minha amante imortal por Jeová designada.

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Era noite e eu me deitei, fechei os olhos e tentei dormir, pouco depois de ter comido a tal maçã. Não conseguia, entretanto. Meus joelhos formigavam. Fiquei imóvel na cama, deitado de olhos fechados. O agente José Roberto Abreu me importunou jogando uma toalha sobre mim e retirando-a em seguida. Demorei anos para entender porque ele fizera isso. Ele estava verificando se eu já havia morrido. Percebi que havia algo na maçã que aceitei de J.R. Abreu. Disse isso aos demais ocupantes da enfermaria. Capixaba respondeu: “Na minha maçã não tinha nada”. O problema era só meu. J.R. Abreu e eu saímos do quarto e reclamei com ele sobre a maçã, acusando-o de ter posto algo nela. Então o agente disse ao enfermeiro Baú, que estava próximo: “Baú, o Eric está reclamando que não morreu”. O enfermeiro Baú olhou para mim, olhou de volta para José Roberto Abreu e respondeu: “Mas ele vai morrer”. Este era um indício forte de que Baú estava envolvido na conspiração. O cálculo do juro da taxa de 0,6% que Baú me pedira para fazer fazia sentido agora. Este era o juro médio da caderneta de poupança naquela época. Talvez ele estivesse planejando manter o dinheiro recebido para facilitar minha morte depositado para retirar o juro mensal. Passei a me sentir ainda muito mais angustiado. Raciocinei que mesmo que eu sobrevivesse um pouco mais, estava com meu tempo se esgotando. Até então eu tinha como certo que uma hora ou outra eu teria alta, e depois disso Vanda ou Márcia teriam que me tirar daquele inferno. Agora minha esperança se desfazia. Mesmo que eu saísse da clínica, estaria doente. Quem acreditaria na história da maçã? Comecei a imaginar com que doença eu estaria. Teria que ser algo que matasse com relativa rapidez, ou que me anulasse rapidamente, comprometendo minha capacidade de raciocínio e pensamento. Então não deveria ser AIDS ou sífilis, se é que se poderia contrair AIDS ou sífilis deste modo. Imaginei que sofria de cisticercose, já que é uma doença sem cura e que anula a inteligência do indivíduo, além de causar psicose e cegueira. Esta seria a solução perfeita para meus algozes. Eu morreria psicótico e imbecilizado numa clínica psiquiátrica.

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Poucos dias depois de fazer com que eu comesse a tal maçã infectada, J.R. Abreu despediu-se dos companheiros de enfermaria dizendo: “Meu trabalho aqui está terminado”. O plano agora era fazer com que eu morresse internado na CRIL. Sobre isso José Roberto Abreu comentou: “O esquecimento é o maior castigo”

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Ênio Pezão tentou fugir. Aproveitou a liberdade que tinha para sair de vez em quando para tentar escapar. O interno de nome Adão, um negro gordinho e de fala mansa passou a ocupar o lugar de Ênio em nossa enfermaria. O nome de Adão era motivo de chacota o tempo todo por parte dos demais companheiros de enfermaria. Isso ocorria devido a semelhança fonética entre a expressão “Eva e Adão”, de caráter teológico e a expressão “É viadão”, vulgar e pejorativa . Mas Adão levava na esportiva e não se aborrecia com a gozação dos colegas. Eu ficava a imaginar como seus pais puderam dar um tal nome a ele sem atinar para a possibilidade deste trocadilho infame.

Acabaram recapturando Ênio na rodoviária de Bom Jesus de Itabapoana. Segundo soube, ele estava pedindo dinheiro às pessoas para completar o valor de sua passagem. Ao ser levado de volta para a CRIL, Ênio foi punido exemplarmente. Ficou uns 2 meses no inferno dantesco do pavilhão 4. Mesmo sendo alto, forte e sabendo se defender, Ênio Pezão retornou ao pavilhão 2 visivelmente abatido. Aparentava não ter dormido bem e seu humor era bem diferente do que tinha ao tentar a fuga. Haviam bolsas de pele rugosa sob seus olhos. Ênio estava mais na dele, menos expansivo e menos conversador.

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Minha companheira Márcia Regina me visitou muitas vezes e minha mãe me visitou algumas vezes. Nenhuma das duas assinou o termo de responsabilidade para me tirar da clínica, mesmo depois de meus insistentes pedidos. Elas foram absolutamente

indiferentes ao meu sofrimento. Na verdade, divertiram-se com ele. Aproveitaram minha fragilidade para tripudiar. Ao mesmo tempo, agiram com uma correção irrepreensível aos olhos da sociedade. Ninguém ousou questioná-las, ninguém pôs sua conduta em dúvida, ninguém as criticou. De fato, elas não fizeram nada de ilegal ou imoral. Eu era o doido, o louco de pedra, o agressor, o anormal e sabe-se lá deus que outros qualificativos injuriosos minha família atribuiu ao meu nome. Por outro lado, minha mãe era uma cristã devota, uma professora competente e esposa exemplar. Ninguém via o monstro sob o manto da Virgem Maria. Eu mesmo fui enganado pela astúcia do demônio que habita sua alma.Isso explica porque tantos esquizofrênicos assassinam suas mães e familiares. Eles vivem sob o jugo de mães esquizofrenogênicas e em famílias que lhes impõem agressões emocionais. Uma pesquisa na Internet pelos termos “agressão emocional” e “alta emoção expressa” elucida bem o que ocorre. O esquizofrênico é produto de um meio familiar patológico. Ele sofre agressões emocionais de modo sistemático e dissimulado por parte de familiares. Quem observar superficialmente a família esquizofrenogênica, pensará que o problema está no membro dito esquizofrênico. Um exame mais cuidadoso mostrará, entretanto, que ele tem sido vítima de repetidas agressões emocionais por parte de seus familiares, e esse é o motivo de sua revolta – vez ou outra convertida em violência física. É por isso que os neurolépticos reduzem os sintomas da esquizofrenia. Eles fazem com que o “doente” não perceba as sutis ironias de seus pais, o deboche de seus irmãos,

e as insinuações maldosas de suas tias. E quando há essa tal percepção, a irritação não

emerge, sufocada pela apatia e passividade decorrentes do uso de psicofármacos. Além disso, ao ver o “doente” frustrado e abatido, os familiares sentem-se menos motivados a agredi-lo. Afinal, ninguém bate em cachorro morto.

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Ver alguém como realmente é, além dos papéis sociais que exerce, pode ser uma experiência deliciosamente encantadora ou tragicamente perturbadora. Depende do que encontrarmos sob as mascaras dessas pessoas. A experiência me mostrou que, pelo menos numericamente, Satanás está vencendo a guerra. A maioria das pessoas sabe fingir muito bem – quase o tempo todo. Elas

aparentam serem algo que não são. Falam em honestidade, e praticam a insídia; elogiam

a bondade e fazem o mal; aparentam ter conhecimento e são ignorantes; oram a Deus e

pagam o dízimo à Lúcifer. Quando o Cristo reinar sobre todos os povos da Terra, ele porá,

definitivamente, um fim nesse odioso espetáculo da mentira que oprime os filhos de Deus. Como será doloroso o inferno dos maus! Não os invejo nem um pouco por seu

sucesso aparente. Eles não tem noção do que os aguarda. Tanto melhor. A surpresa deles será grande, mas o paraíso dos verdadeiros cristãos será eterno.

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Certa vez estávamos assistindo TV quando o enfermeiro Jorsélio comentou com um sorriso: “Homem que não trai não é homem.” Fiquei sem saber o que pensar. Anos mais tarde lembrei as palavras que Jorsélio proferira ao ler uns versos de Rui Barbosa que ora transcrevo:

De tanto ver triunfar as nulidades, De tanto ver prosperar a desonra, De tanto ver agigantar os poderes nas mãos dos maus O homem chega a desanimar-se da virtude A rir-se da honra, A ter vergonha de ser Honesto

A declaração sem máscaras do enfermeiro Jorsélio me fez rever os valores que havia

alimentado até então. De fato, eu, que havia sido fiel a minha esposa, estava preso como esquizofrênico e desprezado por minha mulher, ao passo que o enfermeiro traía, gozava de liberdade e tinha, presumivelmente, os favores das mulheres. A conclusão que se

segue é que o enaltecimento da fidelidade marital uma fraude. A sacralidade do conceito de fidelidade conjugal é um artifício concebido por pessoas mesquinhas para fornecer material de acusação contra os desafetos dos acusadores. Qualquer um que tenha um

parceiro sexual declarado único – e isto deixa de fora padres, tias solteironas e libertinos

– está sujeito a cometer adultério ou a ser vítima dele. Porém, quem tem juízo logo

compreende que o infeliz que põe sua confiança em outras pessoas é um maldito imbecil. De fato, a Bíblia afirma: “infeliz do homem que põe sua confiança no homem”. Ninguém tem o direito de exigir fidelidade de um cônjuge, pois não podemos controlar o comportamento de outrem, quem quer que seja. Podemos, sim, ser fiéis por nossa própria escolha e firmar um acordo com nossos parceiros para que a fidelidade seja recíproca. Isso propiciaria mais segurança ao casal, evitando doenças venéreas e a consequente contaminação da prole. Porém jamais tal fidelidade recíproca pode ser exigida. Ela tem que ser sempre uma escolha da própria pessoa. Se não compreendemos isso, ficamos furiosos ou depressivos ao descobrir uma traição, ou nos sentimos culpados ao trair. Nenhum desses sentimentos – fúria, tristeza e culpa – é desejável. Se um marido descobre o adultério de sua esposa, deve pensar: “sou livre para procurar uma outra companheira, do mesmo modo que ela foi livre para me trair”. Este modo de proceder tem base bíblica, inclusive. Com efeito, o livro sagrado prevê a dissolução do enlace conjugal no caso de prostituição – e uma traição é considerada prostituição pela Bíblia. Caso escolha continuar com sua esposa, o marido deve pensar “sou livre para agir do mesmo modo que minha mulher e procurar uma amante” - afinal, segundo o pensamento vivo de Carlos Massa, o apresentador Ratinho, “corno que trai não é corno”. Ninguém deve sentir-se humilhado pela traição do cônjuge, porque todos estão sujeitos a isso e o homem que todos julgam ser feliz no casamento pode, na verdade, ser o marido de uma prostituta discreta que encobre sua conduta.

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No ano de 2007 houve vários feriadões, e em cada um deles minha mãe veio me visitar. Antes para fazer figura de boa mãe perante a sociedade que por amor, amizade ou qualquer coisa do gênero. Certa vez ela levou meu tio Napoleão e sua filha Isabela para me visitarem. Soou como uma despedida. Algo como: “visitem ele agora que depois só no velório”. Foi constrangedor ser apresentado como um animal no zoológico ao meu tio Napoleão e à minha prima Isabela. Eles poderiam ter me tirado de lá, aconselhado minha mãe a me tirar ou qualquer coisa assim. Nada fizeram, entretanto. A salvação é mesmo individual. Não dá para contar com mãe, namorada, amigo nem com ninguém. As melhores pessoas só podem contar consigo mesmas. E algumas vezes nem mesmo com elas podem contar, mas somente com a misericórdia de Deus. Triste do homem que põe sua confiança no homem – eis uma grande verdade.

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Depois que J.R. Abreu foi embora minha situação melhorou muito. Consegui trocar algumas coisas que eu tinha por um pequeno armário portátil. Passei a guardar meu livro “Problems in Higher Mathematics