Você está na página 1de 6

Instituição: PPG em Psicologia UFRGS

Disciplina: Seminários Avançados em Estudos Interdisciplinares

Professores Responsáveis: Jerusa Salles e Lisiane Bizarro

Supervisora: Gabriella Koltermann

Supervisionado: Damião Soares de Almeida Segundo

Título da Palestra: Memorial para professor titular

Palestrante: Profa. Dra. Cleonice Alves Bosa

Instituição do Palestrante: Professora do PPG Psicologia Universidade Federal do Rio

Grande do Sul

Data de entrega: 02/04/2019

Seminário número: Primeiro seminário

O seminário do dia 18 de março de 2019 foi ministrado pela professora doutora


Cleonice Alves Bosa. Tratou-se de uma apresentação do seu memorial para professora
titular, que mostrou sua trajetória acadêmica desde a formação inicial em Psicologia até
as contribuições mais atuais, destacadamente, sua intensa dedicação ao campo do
desenvolvimento infantil com pesquisas sobre o autismo. A palestrante é professora e
pesquisadora no PPG Psicologia Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
onde se dedica à estudos na área do desenvolvimento humano típico e atípico, ministrando
as disciplinas de Psicologia do Desenvolvimento Humano, Seminários Temáticos em
desenvolvimento Humano II, Psicologia do Desenvolvimento e Inclusão e, na pós-
graduação, Concepção Teóricas em Psicologia. Sua linha de pesquisa é de transtornos do
desenvolvimento, com destaque para o transtorno do espectro autista (TEA).
Inicialmente, a professora explicou sobre o funcionamento do processo avaliativo
de progressão para professor titular. Um processo objetivo com intuito de reconhecer as
habilidades desenvolvidas ao longo da carreira do professor(a) e seu papel em termos de
liderança acadêmica, geração de conhecimento, formação de recursos humanos,
participação em atividades administrativas e, por fim, a atuação e o envolvimento com a
comunidade cientifica em geral.
Em seguida, expos sua trajetória como pesquisadora, iniciada junto ao Laboratório
de infância e família (NUDIF) no PPG de Psicologia e Desenvolvimento e da
Personalidade na UFRGS, onde desenvolveu sua pesquisa acerca das implicações do
temperamento infantil para os comportamentos interativos mãe-criança sob supervisão
do professor Cesar Augusto Piccinini (Bosa, 1993). Nesse primeiro estudo, relativo à sua
dissertação de mestrado, analisou a interação de 31 mão e seus bebês (15 a 17 meses),
por meio de uma escala de temperamento e uma adaptação do procedimento clássico de
situação estranha de Ainsworth. Dessa forma, estudou o apego numa abordagem
etiológica do desenvolvimento social infantil, semelhante à pesquisa anteriormente
realizada por Fullard, McDevitt e Carey (1984).
Nos anos seguintes, durante a década de 90, continuou publicando com o professor
Piccinini artigos relacionados ao tema da interação mãe-bebê. Nesse mesmo período
iniciou seu doutorado no Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres no Reino
Unido, onde foi recebida por Maria Callias e Andrew Pickles. Foi então que iniciou seus
trabalhos com a temática do autismo e, por meio da análise de vídeos, comparou crianças
com desenvolvimento típico e atípico, especificamente, com o objetivo de conhecer
possíveis indicadores de risco de autismo em crianças pequenas que ainda não tinham
desenvolvimento de linguagem oral. Isso porque, o atraso da fala seria o aspecto que leva
as pessoas mais a procurar ajuda, mas existem diversos indicadores do autismo ainda na
etapa pré-verbal.
Então, seu doutorado, inspirado no estudo em Bakeman e Adamson (1986), teve
como objetivo investigar quais indicadores seriam os mais potentes para a detecção do
autismo na fase pré-verbal (Bosa, 1998). Para tanto, contou com 45 díades mãe-criança
e, por meio de observação sistemática, constatou a importância de marcadores como o
contato visual e a formação do vínculo relacionada ao reconhecimento do outro. Em 1998
finalizou seu doutorado e pouco depois, em 2000, foi aprovada como professora na
UFRG. Em 2002, fundou o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Transtornos do
Desenvolvimento (NIEPED), com 22 dissertações e 8 teses defendidas até o ano de 2017.
O núcleo tem como foco de investigação o desenvolvimento atípico, visando como
contribuição principal a temática do autismo, contudo, abarcando outros temas como a
deficiência visual, o TDAH, a síndrome do x-frágil, entre outros.
As contribuições de sua trajetória em pesquisa, junto com orientadores e
orientandos, impactaram ao longo dos anos subáreas do desenvolvimento como: a
interação mãe-criança, autismo e família, a identificação precoce do TEA. Por exemplo,
na subárea da interação mãe-criança a pesquisadora, e colaboradores, contribuíram em
questões relacionadas ao reconhecimento da autoimagem em crianças com e sem autismo
(Di Napoli & Bosa, 2005); à presença de comportamentos característicos de autismo em
crianças com deficiência visual congênita; e o impacto da prematuridade e da deficiência
visual congênita do bebê na parentalidade (Sousa, Bosa, & Hugo, 2005).
Além disso, na subárea autismo e família contribuiu com temas como: o impacto
do autismo nos irmãos, estresse parental e recursos psicológicos (Gomes & Bosa, 2004);
e coparentalidade, quando os pais trabalham conjuntamente para cuidar da criança, e
fortalecimento de laços, especificamente, como isso impacta o desenvolvimento da
criança em diferentes etapas da sua vida (Sifuentes & Bosa, 2010). E ainda, na subárea
da identificação precoce de TEA, contribuiu com pesquisas acerca do papel da atenção
compartilhada como principal preditor de risco para autismo (Bosa, 2002), precursor
fundamental para uma das atividades mais importantes habilidades na área da cognição
social que é a teoria da mente (Mundy, Sigman, & Kasari, 1994).
É importante frisar que as pesquisas desenvolvidas durante a trajetória da
pesquisadora possuíam um pioneirismo ao trazer para o Brasil uma compreensão com
enfoques contemporâneos em TEA para além da abordagem até então predominante sob
o tema, a psicanalítica. Nesse sentido, sua revisão acerca das diferentes abordagens acerca
do autismo é um dos artigos principais sob o tema, mostrando a necessidade de ampliar a
abordagem sobre o tema (Bosa & Callias, 2000). Além disso, estudo seminal foi o que
analisa o papel da atenção compartilhada na identificação precoce do autismo (Bosa,
2002), um dos primeiros no país a abordar a questão dos denominados "sinais de alerta"
para o autismo. Seus trabalhos mais recentes consistiram no desenvolvimento do sistema
PROTEA-R (Bosa, Zanon, & Backes, 2016). Trata-se de um instrumento interdisciplinar
que sistematiza: (1) entrevistas com os responsáveis; (2) observação clínica do
desenvolvimento infantil, através de situações semiestruturadas de brincadeira; tendo
como objetivo o rastreamento da presença de comportamentos relacionados à
sintomatologia do TEA (Bosa & Salles, 2018).
Por fim, outro aspecto afim à sua atuação acadêmica foi no campo das políticas
públicas educacionais na perspectiva da educação inclusiva no Brasil e em Angola.Foi
colaboradora do grupo de trabalho sobre a política de educação especial na perspectiva
da educação inclusiva, tendo participado da elaboração da matriz de referência do exame
nacional de ingresso na carreira docente, identificação de competências e habilidades
necessárias a carreira de professor da educação infantil e ensino fundamental (educação
inclusiva). E em 2011, participou de uma missão internacional para a implementação de
políticas públicas de educação inclusiva em Angola, fruto da cooperação entre o
ministério da educação do Brasil e o do Angola. Compôs uma comissão, junto com outros
professores de diferentes universidades brasileiras, que treinou uma equipe local para
implementar no país políticas de educação inclusiva.
Referências

Bakeman, R., & Adamson, L. B. (1986). Infants' conventionalized acts: Gestures and
words with mothers and peers. Infant behavior and development, 9(2), 215-230.

Bosa, C. A. (1993). Implicações do temperamento infantil para os comportamentos


interativos mãe-criança e criança-estranha. Dissertação de mestrado não-publicada,
Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento, Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

________. (1998). Affect, communication and self-stimulation in children with and


without autism: a systematic observation study of joint attention and requesting
behaviours. Tese de Doutorado. Department of Psychology. Institute of Psychiatry.
University of London.

________. (2002). Atenção compartilhada e identificação precoce do


autismo. Psicologia: reflexão e crítica. Porto Alegre. Vol. 15, n. 1 (2002), p. 77-88.

Bosa, C. A., & Callias, M. (2000). Autismo: breve revisão de diferentes


abordagens. Psicologia: reflexão e crítica. Porto Alegre. Vol. 13, n. 1 (2000), p. 167-
177.

Bosa, C. A., & Salles, J. F. (2018). Coleção Protea - R - Sistema PROTEA-R de


Avaliação do Transtorno do Espectro Autista. Recuperado de
http://www.vetoreditora.com.br/produto/2111150/colecao-protea-r-sistema-protea-r-de-
avaliacao-do-tra

Bosa, C. A., Zanon, R. B., & Backes, B. (2016). Autismo: construção do protocolo de
avaliação do comportamento da criança-PROTEA-R. Revista Psicologia-Teoria e
Prática, 18(1).

Di Napoli, F. O., & Bosa, C. A. (2005). As relações entre a qualidade da interação mãe-
criança e o reconhecimento da imagem de si em crianças com autismo. Journal of
Human Growth and Development, 15(3), 11-25.

Gomes, V. F., & Bosa, C. A. (2004). Estresse e relações familiares na perspectiva de


irmãos de indivíduos com transtornos globais do desenvolvimento. Estudos de
psicologia (Natal). Vol. 9, n. 3 (set./dez. 2004), p. 553-561.
Fullard, W., McDevitt, S. C., & Carey, W. B. (1984). Assessing temperament in one-to
three-year-old children. Journal of pediatric psychology, 9(2), 205-217.

Mundy, P., Sigman, M., & Kasari, C. (1994). Joint attention, developmental level, and
symptom presentation in autism. Development and Psychopathology, 6(3), 389-401.

Sifuentes, M., & Bosa, C. A. (2010). Criando pré-escolares com autismo: características
e desafios da coparentalidade. Psicologia em estudo, 15(3), 477-485.

Sousa, A. D. D., Bosa, C. A., & Hugo, C. N. (2005). Possible relations among
congenital blindness, autistic features and maternal interaction style. Estudos de
Psicologia (Campinas), 22(4), 355-364.