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Relações de Compatibilidade de Deformações: os domínios de deformações

As relações de compatibilidade de deformações, conforme o próprio nome sugere, são relações


entre as deformações da fibra mais comprimida de concreto 𝜀𝑐 , armadura positiva (armadura 1)
𝜀1 e da armadura negativa (armadura 2) 𝜀2 . No caso geral, 𝜀𝑐 é a deformação da fibra mais
comprimida ou menos tracionada de concreto, 𝜀1 é a deformação da armadura mais tracionada
ou menos comprimida e 𝜀2 é a deformação da armadura mais comprimida ou menos tracionada.

Admite-se que as seções transversais permanecem planas na ruptura (modelo de viga de Euler-
Bernoulli), fazendo com que a deformação varie linearmente ao longo da altura da seção. Assim
as relações entre as deformações podem ser obtidas por semelhança de retângulos.

As deformações devem ser limitadas, no estado limite último, por um critério de ruptura. No
caso de estruturas em concreto armado, existem dois modos de ruptura convencionais:
deformação plástica excessiva na armadura e esmagamento do concreto. Daí surgem os
domínios de deformação do estado limite último, os quais estão estabelecidos na NBR
6118:2014.

As relações de compatibilidade de deformação são decorrentes, portanto, da hipótese que as


seções são planas e dos domínios de deformação. Conhecida a posição da linha neutra, podem-
se determinar os valores das deformações em qualquer fibra da seção transversal. A posição da
linha neutra é definida pelo valor da coordenada 𝑥 (distância da fibra de maior encurtamento
ou menor alongamento da seção até a linha neutra). Os domínios são apresentados na figura 1.

A ruptura por deformação plástica excessiva é representada pelo ponto A, cuja deformação
limite é 𝜀1 = 10‰. A ruptura por esmagamento do concreto passa pelo ponto B ou C, cujos
valores limites dependem da classe de concreto:

a) para concretos de classes até C50: 𝜀𝑐2 = 2,0‰ e 𝜀𝑐𝑢 = 3,5‰;


b) para concretos de classes C55 até C90: 𝜀𝑐2 = 2,0‰ + 0,085(𝑓𝑐𝑘 − 50)0,53 e
𝜀𝑐𝑢 = 2,6‰ + 35‰[(90 − 𝑓𝑐𝑘 )⁄100]4 , sendo 𝑓𝑐𝑘 a resistência característica
do concreto em MPa.

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Matheus Roman Carini. Concreto Armado II: Uniftec, 2017
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Figura 1 – Domínios do estado limite último

(fonte: elaborada pelo autor)

As definições das dimensões mostradas na figura 1 são:

ℎ: altura da seção transversal;


𝑑: distância da fibra mais comprimida até o centroide da armadura 1;
𝑑′: distância da fibra mais comprimida até o centroide da armadura 2.

Analisando-se a figura 1 conclui-se que:

a) domínio 1: tração não uniforme em toda a seção;


b) domínio 2: flexão simples ou composta com ruptura do aço;
c) domínio 3: flexão simples ou composta com ruptura do concreto e aço tracionado
com escoamento (𝜀1 > 𝜀𝑦𝑑 );
d) domínio 4: flexão simples ou composta com ruptura à compressão do concreto e
aço tracionado sem escoamento (𝜀1 < 𝜀𝑦𝑑 );
e) domínio 4a: flexão composta com armaduras comprimidas;
f) domínio 5: compressão não uniforme em toda a seção.

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Matheus Roman Carini. Concreto Armado II: Uniftec, 2017
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Esta página apresenta um resumo dos domínios para concretos até C50 e aço CA-50.

Quadro 1 – Resumo dos domínios de deformação para concretos até C50

Relação Domínio 1 Domínio 2 Domínio 3 Domínio 4 Domínio 4a Domínio 5

Intervalo
𝑥<0 0 < 𝑥 < 𝑥23 𝑥23 < 𝑥 < 𝑥𝑙𝑖𝑚 𝑥𝑙𝑖𝑚 < 𝑥 < 𝑑 𝑑<𝑥<ℎ 𝑥>ℎ
de 𝑥

𝑥 𝑥 𝑥
𝜀𝑐 (‰) −10 ( ) 10 ( ) 3,5 3,5 3,5 2( )
𝑑−𝑥 𝑑−𝑥 𝑥 − 3⁄7 ℎ

𝑑−𝑥 𝑑−𝑥 𝑥−𝑑 𝑥−𝑑


𝜀1 (‰) 10 10 3,5 ( ) 3,5 ( ) 3,5 ( ) 2( )
𝑥 𝑥 𝑥 𝑥 − 3⁄7 ℎ

𝑑′ − 𝑥 𝑥 − 𝑑′ 𝑥 − 𝑑′ 𝑥 − 𝑑′ 𝑥 − 𝑑′ 𝑥 − 𝑑′
𝜀2 (‰) 10 ( ) 10 ( ) 3,5 ( ) 3,5 ( ) 3,5 ( ) 2( )
𝑑−𝑥 𝑑−𝑥 𝑥 𝑥 𝑥 𝑥 − 3⁄7 ℎ

(fonte: elaborado pelo autor)

𝜀𝑐𝑢 3,5‰ (1)


𝑥23 = 𝑑= 𝑑 = 0,259𝑑
10‰ + 𝜀𝑐𝑢 10‰ + 3,5‰

𝜀𝑐𝑢 3,5‰ (2)


𝑥𝑙𝑖𝑚 = 𝑑= 𝑑 = 0,628𝑑
𝜀𝑦𝑑 + 𝜀𝑐𝑢 2,07‰ + 3,5‰

Lembre-se: conhecendo-se 𝒙, sabe-se o domínio e as deformações.

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Matheus Roman Carini. Concreto Armado II: Uniftec, 2017