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AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO – ÉMILE DURKHEIM (1895)

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. Companhia Nacional, São Paulo, 1966.
Trad.: Maria Isaura Pereira de Queiroz (USP)

PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO


- Ciência das sociedades -> mostrar as coisas de um modo diferente do encarado pelo vulgo, dos preconceitos
tradicionais;
- Objetivo da ciência: descobrir; descobertas desconcertam opiniões formadas;
- Senso comum X Ciência => Autoridade;
- Estudo científico: “As maneiras de pensar mais habituais são antes contrárias do que favoráveis ao estudo
científico dos fenômenos sociais e, por conseguinte, é preciso desconfiar sempre das primeiras impressões – eis o
preceito que sempre se deve ter em mente.” (p. XIV); Ex: crimes → fenômeno normal – não busca
justificar/desculpar a prática, afinal a punição é também normal. Crime & Castigo ou Criminalidade & Sistema
repressivo;
- Método → fatos sociais (“coisas cuja natureza não é passível de modificação fácil”); Conservador (p. XV), não
revolucionário;
- Vida social → Representações → Conceitos ideais (desenvolvimento lógico);
- Materialista X Espiritualista (fenômenos psíquicos não derivados diretamente de fenômenos orgânicos);

- Reino Social ≠ Reino Psicológico // Reino Biológico ≠ Reino Psicológico;

- Relações de causa e efeito: causalidade;


- Racionalista: “fé no futuro da razão”, combate ao misticismo => positivismo (≠ metafísica positiva de Comte e
Spencer);

PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO


- Controvérsias despertadas pelo livro:
. Realismo, Ontologismo => Consciência (individual ou social) não é concreta, e sim um conjunto
sistematizado de fenômenos sui generis;
. Eliminar elemento mental da Sociologia => A vida social é toda feita de representações (p.XVII)
- Realidade social -> Prática -> Fórmulas (reformulações);
- Método -> modifica-se de acordo com o avanço científico;
I
- FATOS SOCIAIS → coisas; Realidades equivalentes: mundo social // mundo exterior;
O que é coisa? Coisa (exterior) X Ideia (interior): “É coisa todo objeto do conhecimento que a inteligência não
penetra de maneira natural, tudo aquilo de que não podemos formular uma noção adequada por simples
processo de análise mental, tudo o que o espírito não pode chegar a compreender senão sob condição de sair de
si mesmo, por meio da observação e da experimentação, passando progressivamente dos caracteres mais
exteriores e mais imediatamente acessíveis para os menos visíveis e mais profundos.”. (p.XIX)
- Fatos -> coisas -> representações -> consciência;
- Psicologia: fatos mentais a partir do exterior, como coisas; Sociologia: fatos sociais;
- Instituições sociais: herança coletiva; Razões/Causas para ação/empreendimentos.
- Sociólogo: estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos, fisiologistas; aventuram-se numa região ainda
inexplorada de seu domínio científico, conduz-se no desconhecido (p. XXI);
- Principais instituições sociais: Estado ou família, direito de propriedade ou o contrato, a pena ou a
responsabilidade; Causas (dependência), Funções (desempenho), Leis (evolução).

II
- Fatos Vida Individual ≠ Fatos Vida Coletiva; “Mas porque a sociedade é composta de indivíduos – a proposição
não é, todavia, senão parcialmente exata. Além dos indivíduos, há também coisas que são elementos integrantes
da sociedade. No entanto, é verdade que nela os indivíduos são os únicos elementos ativos –, parece ao senso
comum que a vida social não pode ter outro substrato senão a consciência individual; caso contrário, como que
ficaria no ar, planando no vácuo.”
- Indivíduos -> únicos elementos ativos da sociedade;
- Analogia química para a sociedade/Aplicação do mesmo princípio químico à sociologia: átomos (elementos
primários) → partículas (mistura) → célula ou substância (complexo formado);
- Fenômenos novos (síntese sui generis) => sede de tais fatos: sociedade e não seus membros;
- Psicologia / Sociologia:
. Fatos sociais apresentam um substrato diferente dos fatos psíquicos;
. Fatos sociais são também psíquicos, uma vez que consistem em maneiras de pensar e de agir;
- Matéria da vida social: Grupos (Representações Coletivas) / Indivíduos (Representações Individuais); Leis
abstratas similares que não invalidam diferenças significativas; Mitos, Lendas populares, Concepções religiosas,
Crenças morais: realidade diversa da realidade individual;
- Combinação de ideias individuais -> Leis de associação de ideias;
- Pensamento coletivo deve ser estudado em si mesmo e para si mesmo, deixando para o futuro o cuidado de
procurar semelhanças com o pensamento individual (p.XXVII);
- Fatos sociais: exteriores, pois, resultam de sínteses que têm lugar fora de nós;
III
- FATOS SOCIAIS:
. “Maneiras de fazer ou de pensar, reconhecíveis pela particularidade de serem suscetíveis de exercer
influência coercitiva sobre consciências particulares” (p. XXVIII);
. “é tudo o que se produz na sociedade” (p.XXIX); “o que interessa e afeta de algum modo o grupo
social”;
. Coercitivo;
- FENÔMENOS SOCIAIS => Reais, natureza própria;
Coerção (Durkheim) // Imitação (Tarde); Poder coercitivo: “O poder coercitivo que lhe atribuímos forma até
parte tão pequena do todo constituído pelo fato social, que ele pode apresentar também o caráter oposto. Pois,
ao mesmo tempo que as instituições se impõem a nós, aderimos a elas; elas comandam e nós as queremos; elas
nos constrangem e nós encontramos vantagem em seu funcionamento e no próprio constrangimento.”
- Meio físico → ação de coerção sobre os seres → adaptação;
- Meio Físico ≠ Meio Moral:
. Corpos, vontades / Consciências;
“A coerção social é devida, não à rigidez de certos arranjos moleculares, e sim ao prestígio de que estão
investidas certas representações.(...) É verdade que os hábitos individuais ou hereditários apresentam essa
mesma propriedade: dominam-nos, impõem-nos crenças ou práticas. Todavia, a dominação é interior; pois os
hábitos existem todos inteiros em cada um de nós. Ao contrário, as crenças e práticas sociais agem sobre nós a
partir do exterior: assim, a ascendência exercida por uns e outros é, no fundo, muito diferente.”;
. Coerção social: representações;
. Hábitos hereditários, individuais: imposição, domínio (interior) / Crenças e práticas sociais: ação sobre o
indivíduo a partir do exterior;
- Tudo o que é real possui uma natureza definida;
- Coerção social =>
. Maneiras coletivas de agir e de pensar apresentam realidade exterior aos indivíduos, os quais, a cada
momento do tempo, se conformam com elas.
. Indivíduos encontram-se com coisas que têm existência própria, já inteiramente formadas, sem
conseguir impedi-las de existir nem capaz de modificar a maneira pela qual se apresentam;
. Sociedade: supremacia material e moral sobre os membros;
. Mistura de várias ações individuais -> produto novo -> Fato Social;
- Instituição: crença, comportamento, instituído pela coletividade;
- Sociologia => Ciência das Instituições, gênese e funcionamento (p.XXXI);
- Indivíduos como agentes: “O fato de as crenças e práticas sociais nos penetrarem do exterior não implica que
as recebamos passivamente, sem lhes trazer modificações. Ao pensar as instituições coletivas, ao assimilá-las,
nós as individualizamos, dando-lhes, de certa maneira, nossa marca pessoal. (…). Não existe conformismo social
que não comporte toda uma gama de nuanças individuais.”
- Fenômenos sociais não deixam de ser coisas reais por não serem materiais;
- Postulado antropocêntrico recusa-se a renunciar o poder ilimitado atribuído a si mesmo pelo homem com relação
à ordem social, às forças coletivas;

INTRODUÇÃO – Estado rudimentar da metodologia nas ciências sociais. O objetivo deste trabalho

- Sociólogo: definir o método aplicado no estudo dos Fatos Sociais;


. Precauções na observação dos fatos;
. Maneira de colocar os principais problemas;
. Sentido norteador das pesquisas;
. Práticas especiais;
. Regras a presidir a administração das provas;

- Spencer (Introdução à Ciência Social): não expõe processos metodológicos para a sociologia.
. Mostrar como a lei da evolução universal se aplica às sociedades;
- Stuart Mill (Sistema de Lógica): se ocupa com a questão;
- Comte (Curso de Filosofia Positiva): estudo original e importante sobre a matéria;
- Criação de um curso regular de Sociologia na Faculdade de Letras de Bordéus: consagração de Durkheim no
estudo da ciência social;
CAPÍTULO I – Que é Fato Social?
O fato social não pode ser definido pela sua generalidade no interior de uma sociedade. Caracteres
distintivos do fato social: 1) exterioridade em relação às consciências individuais; 2) ação coercitiva que
exerce ou é suscetível de exercer sobre aquelas consciências. Aplicação desta definição às práticas
constituídas e às correntes sociais. Verificação da definição.
- Problemas de definição: fenômenos do interior da sociedade, certa generalidade e interesse social; PORÉM,
fatos individuais gerais não necessariamente são sociais, ex.: beber, comer, dormir, raciocinar de forma regular
(biologia, psicologia).
- Educação → deveres objetivos “fora do indivíduo”, direito e costumes;
- Vida religiosa: crenças e práticas;
- Regras jurídicas e morais;
- Sistemas de Sinais: linguagem, expressão do pensamento;
- Sistema de moedas, instrumentos de crédito: relações comerciais;
- Práticas profissionais;
F.S.: “Maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a propriedade marcante de existir fora das
consciências individuais.” (p.2)
. Poder coercitivo;
. Exterioridade;
- Tipos de conduta ou de pensamento, exteriores ao indivíduo, dotados de poder imperativo e coercitivo
(imposição); Coerção MENOR se há Conformidade; Coerção MAIOR se há Resistência; Ex. Roupas, idioma,
moeda, tendências técnicas;
- Maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo, dotadas de um poder de coerção em virtude do
qual se lhe impõem (p. 3);
- Fenômenos orgânico (corpo biológico), psíquicos (consciência individual) ≠ Fenômenos sociais (representações
e ações): consciência individual;
- Fatos sociais → domínio da sociologia; Grupos parciais (confissões religiosas, escolas políticas e literárias,
corporações profissionais → Sociedade política (regras jurídicas e morais, dogmas religiosos, sistemas financeiros
etc.);
- Sobre individualismo absoluto: indivíduo inteiramente autônomo; “porém, já que hoje se considera
incontestável que a maioria de nossas ideias e tendências não são elaboradas por nós, mas nos vêm de fora,
conclui-se que não podem penetrar em nós senão atrás de uma imposição;” (p.4)
- Fato social requer uma organização definida. ≠ Correntes sociais, momentos de integração passageiros =>
reunião onde movimento, sentimento, emoção comum, exercem pressão sobre indivíduos que resistem ou
conformam-se. “Ora, o que afirmamos a respeito destas explosões passageiras se aplica de maneira idêntica aos
movimentos de opinião mais duráveis que se produzem sem cessar em torno de nós, seja em toda a extensão da
sociedade, seja em círculos mais restritos, tendo por objeto assuntos religiosos, políticos, literários, artísticos,
etc.” (p.5)
- Educação infantil: esforço contínuo para impor às crianças maneiras de ver, de sentir e de agir às quais elas não
chegariam espontaneamente. Forçadas a comer, beber, dormir em horas regulares; Constrangidas a terem hábitos
higiênicos, serem calmas e obedientes; Obrigadas a aprender a pensar nos demais, respeitar usos e conveniências;
Forçadas ao trabalho, etc. “Se com o tempo essa coerção deixa de ser sentida, é porque pouco a pouco dá lugar a
hábitos, a tendências internas que a tornam inútil, mas que não a substituem senão porque delas derivam.”
(idem) SPENCER e a Educação Racional (agir em liberdade);
- Educação => formar o Ser Social;
- Generalidade (pensamento, movimento, repetidos) não caracteriza fenômenos sociológicos;
- Fatos sociais: Crenças, tendências, práticas do grupo tomadas coletivamente;
Outra maneira ainda de caracterizar o fato social: o estado de independência em que se encontra
com relação às suas manifestações individuais. Aplicação desta característica às práticas constituídas e às
correntes sociais. O fato social se generaliza porque é social, em lugar de ser social por ser geral. Como esta
segunda definição se engloba na primeira.
- Fatos Sociais ≠ Repercussões individuais; porém, interdependentes.
- Correntes sociais => impelem com intensidade desigual, segundo épocas e países, indivíduos ao casamento, ao
suicídio, à alta natalidade, etc.
- Estatística → síntese numérica da evidência social nos casos particulares, da alma coletiva.
- “As manifestações privadas têm realmente algo de social também, uma vez que reproduzem em parte um modelo
coletivo; mas cada uma delas depende outrossim, e em larga parte, da constituição orgânico-psíquica do
indivíduo, das circunstâncias particulares em que está colocado.” (p.8)
. Não são fenômenos sociológicos propriamente, mas sociopsíquicos. Psicologia Social;
- A generalidade de um fenômeno deve-se ao fato de ser coletivo, e não o contrário.
. Existe nas partes porque existe no todo;
. Constitui um estado do grupo que se repete nos indivíduos porque se impõe a eles (coercitividade);
- Crenças, práticas (formuladas pelas gerações anteriores): obra coletiva, séculos de existência => autoridade
reconhecida e respeitada;
. “O sentimento coletivo que explode numa reunião, não exprime simplesmente há de comum em todos os
sentimentos. (…) É resultante da vida em comum, é produto das ações e reações travadas entre as consciências
individuais, e é em virtude da energia especial que lhe advém precisamente de sua origem coletiva que repercute
em cada uma delas. (…) Cada um é arrastado por todos.” (p.8-9)
- Domínio da Sociologia → fato social: 1) Poder de coerção externa // sanção [obrigatoriedade]; 2) Existência
independente das formas individuais; [direito, moral, crenças, usos, modas] Generalidade + Objetividade; O
comportamento que existe exteriormente às consciências individuais só se generaliza impondo-se a estas. [≠
TARDE e a imitação]
→ Modos de Agir (fisiologia), Maneiras de Ser Coletivos (anatomia), Substrato da Vida Coletiva.
. “No entanto, o número e a natureza das partes elementares de que é composta a sociedade, a maneira
pela qual estão dispostas, o grau de coalescência a que chegaram, a distribuição da população na superfície do
território, o número e a natureza das vias de comunicação [migrações e trocas], a forma das habitações
[obrigatória], etc., não parecem, a um primeiro exame, passíveis de se reduzirem a modos de agir, de sentir e de
pensar.” (p.9)
- Divisão Política de uma Sociedade => Divisão Moral; Direito público → organização moral (relações
domésticas e cívicas);
- Cidade/campo, tipo de habitação, regras jurídicas, roupas, trocas, migrações interiores: maneiras de ser
vinculadas a maneiras de agir já consolidadas.
- Estrutura política => modo pelo qual diferentes segmentos de uma sociedade tomaram o hábito de viver uns com
os outros; relações estreitas, confusão // distinção
Como os fatos da morfologia social se englobam nesta mesma definição. Fórmula geral do fato
social.
Definição: “É fato social toda maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção
exterior; ou então ainda, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria,
independente das manifestações individuais que possa ter.” Vida // Estrutura; Órgão // Função;
CAPÍTULO II – Regras relativas à Observação dos Fatos Sociais
Regra fundamental: tratas os fatos sociais como coisas
- FENÔMENOS => Percepção → noções, ideias, reflexão // Estudo científico → conceitos;
“O homem não pode viver entre as coisas sem formular ideias a respeito delas, e regula sua conduta de acordo
com tais ideias.” (p. 13)
- Ciência (observar, descrever, comparar, analisar) X Análise ideológicas (consciência de ideias próprias)
- Noções, conceitos (produtos da experiência vulgar, harmonizar relação prática com o mundo) X Coisas:
. Véu interposto entre as coisas e nós;
. Formadas pela prática e para a prática;
. Confusão entre noções e a própria realidade;
- Copérnico e o movimento dos astros;
- Ciência / Arte;
- Realidade → Conhecimento → Interesse prático → Objetivo da ciência;
- Reflexão científica: remédio, cura, solução; não simples explicação;
- Bacon, prenoções, e as ciências naturais; “As noções que acabamos de citar são as notiones vulgares ou
paenotiones, cuja existência Bacon assinala na base de todas as ciências, nas quais tomam o lugar dos fatos.” (p.
15-16)
- Ciência Social/Sociologia X ideias de homens: Direito, Moral, Família, Estado, Sociedade;
. Não poderiam passar sem formular ideias sobre a sociedade;
. As prenoções (Bacon) estão em estado de dominar os espíritos e de se substituir às coisas.
. “Com efeito as coisas sociais só se realizam através dos homens; são um produto da atividade humana.
Não parecem, pois, constituir outra coisa senão a realização de ideias, inatas ou não, que trazemos em nós; não
passam da aplicação dessas ideias às diversas circunstâncias que acompanham as relações dos homens entre si.
A organização da família, do contrato, da repressão, do Estado, da sociedade aparecem assim com um simples
desenvolvimento das ideias que formulamos a respeito da sociedade, do Estado, da justiça, etc. Por conseguinte,
tais fatos e outros análogos parecem não ter realidade senão nas ideias e pelas ideias; e como estas parecem o
germe dos fatos, elas é que se tornam, então a matéria peculiar à sociologia.” (p. 16) Essa ideia será refutada
pelo autor posteriormente;
- Detalhes da vida social transbordam a consciência; realidade não sólida, flutuante; matéria plástica, irreal;
Aspectos gerais da vida coletiva são concebidos => representações esquemáticas => prenoções;
- Realidade social: consciência, percepção, prenoções, vida social/coletiva, arranjos sociais, hábito e autoridade,
representações;
I – Fase ideológica que atravessam todas as ciências e no decorrer da qual elaboram noções
vulgares e práticas, e lugar de descrever e de explicar as coisas. Porque esta fase, em sociologia, se
prolongaria mais ainda do que nas outras ciências. Dados tomados à sociologia de Comte e à de Spencer, ao
estado atual da moral e da economia política, mostrando que tal estágio ainda não foi ultrapassado.
- Sociologia: ocupou-se de conceitos e não de coisas; ideias como o germe dos fatos, como a matéria peculiar da
Sociologia;
COMTE :
. Fenômenos sociais são fatos naturais, submetidos às leis naturais, portanto, coisas.
. Toma as ideias como objeto de estudo;
. Progresso da humanidade no tempo: principal matéria de sua sociologia;
- Durkheim refuta a ideia de Comte de progresso da humanidade:
. Há sociedades particulares que nascem, se desenvolvem e morrem, independentemente umas das outras;
“Um povo que substitui outro não é um simples prolongamento do anterior com o acréscimo de alguns caracteres
novos; é diferente, ora tem propriedades a mais, ora a menos; constitui uma nova individualidade e todas estas
individualidades distintas, sendo heterogêneas, não podem se fundir numa mesma série contínua, nem sobretudo
numa série única.” (p. 18)
. Contra evolucionismo; Evolução social;
. Desenvolvimento histórico: aspecto seriado e simples -> sucessão de indivíduos com a mesma natureza,
marchando numa mesma direção;
SPENCER (Sociologie, Principes de Sociologie):
. Objeto da sociologia: sociedades e não a humanidade;
. Cooperação como a essência da vida social;
. Industriais (cooperação espontânea: caráter privado) / Militares (cooperação instituída: interesse
público);
- Formular cientificamente conceitos centrais à Sociologia: Estado, soberania, liberdade política, socialismo,
comunismo, democracia (p.20);
. Noções confusas, misturas de impressões vagas, preconceitos e paixões (caráter ideológico);
- Moral: empiristas (ideia se forma no decorrer da história) / racionalista (ideia imanente desde o nascimento);
STUART MILL (Système de Logique, Principes d’économie politique):
. Economia política: fatos sociais que se produzem tendem em vista a aquisição de riquezas;
Razões para ultrapassá-lo:
1) Os fatos sociais devem ser tratados como coisas porque são os data imediatos da ciência, enquanto as
ideias, a partir das quais se acredita que eles se desenvolveram, não são dadas diretamente
. Fatos -> Observação da cientista -> Coisas;
. Concepções do espírito X Realidades concretas (p.22);
- Teoria do valor: construída de acordo com o método que retira da ideia da pesquisadora os elementos para
definição, exemplos ilustrativos etc.;
- Formulações normativas: dever ser; melhor se => máximas de ação, preceitos práticas X Leis sociais;
. Lei da Oferta e da Procura: não foi indutivamente estabelecida como expressão de uma realidade
econômica (p. 24);
2) Apresentam todos os caracteres das coisas.
- Coisa: tudo o que é dado, tudo o que se oferece ou antes se impõe a observação (p. 25);
. Não pode ser modificada por um simples decreto de vontade;
- É preciso considerar os fenômenos sociais em si mesmos, fora dos indivíduos conscientes que formulam
representações a seu respeito. É preciso estudá-los como coisas exteriores, tal como se apresentam a nós (p. 25);
- O caráter convencional de uma prática ou de uma instituição não deve jamais ser pressuposto para considerá-la
um fenômeno social (p.26);
. Constância, regularidade  Objetividade;
Analogias entre esta nova maneira de encarar os fatos sociais e a que recentemente
transformou a psicologia. Razões para esperar, no futuro, um progresso rápido da sociologia.
- Escolas empíricas reconheceram o caráter natural dos fenômenos psicológicos, embora continuassem a aplicar
um método ideológico;
- COMTE e SPENCER reconhecem que os fatos sociais são fatos da natureza, porém não os tratam como coisas;
- LOCKE, CONDILLAC, não consideram os fenômenos psíquicos de um ponto de vista objetivo;
- Os estados de consciência podem e devem ser considerados do exterior, e não do ponto de vista da consciência
que os experimenta;
- Sociologia precisa ultrapassar o estágio subjetivo para alcançar a fase objetiva: menos difícil do que na
psicologia (trata necessariamente dos estados do indivíduo, i. é, interiores por definição);
- Fatos sociais  Coisas: Fora das consciências individuais: as dominam;
. Direito: códigos;
. Vida cotidiana: estatística, monumentos históricos;
. Moda: roupagens;
. Gostos: obras de arte;

II – Corolários imediatos da regra precedente:


. Rigorosa disciplina: evitar erros;
1) Afastar da ciência todas as prenoções. O ponto de vista místico que se opõe à aplicação desta regra.
- Descartes: dúvida metódica  aplicação deste método;
- Bacon: teoria dos ídolos;
- Socióloga deve proibir a si própria de utilizar conceitos formados exteriormente à ciência; libertar-se de falsas
evidências;
- Sociologia: sentimento afetivo em questão  crenças políticas, religiosas, práticas morais;
. Negar proposições discordantes;
. Senso moral, sentimentos;
2) Maneira de se construir o objeto positivo da pesquisa: agrupar os fatos segundo seus caracteres
exteriores comuns. Relações do conceito assim formado com o conceito vulgar. Exemplos dos erros aos
quais nos expomos negligenciando esta regra, ou aplicando-a mal: Spencer e sua teoria sobre a evolução do
casamento; Garofalo e sua definição de crime; o erro habitual de se negar a existência de uma moral nas
sociedades inferiores. A exterioridade dos caracteres que entram nestas definições iniciais não constitui um
obstáculo às explicações científicas.
- Como apoderar-se dos fatos para estudá-los;
1ª tarefa da socióloga: definir as coisas de que trata  prova e verificação;
. Definição objetiva: exprimir as propriedades inerentes aos fenômenos;
. Definição não deve abarcar ideias pessoais, noções ideais;
Regra: “Nunca tomar por objeto de pesquisa senão um grupo de fenômenos previamente definidos por certos
caracteres exteriores que lhes são comuns, e compreender na mesma pesquisa todos aqueles que correspondem a
esta definição.” (p. 32)
. Ex.: Conjunto de atos com caráter exterior comum: punição  Crimes (p. 33);
. Ex.: Sociedade parcial, formada por indivíduos consanguíneos, unidos por laços jurídicos  Família;
- Necessário à ciência: construir inteiramente conceitos novos, expressos com o auxílio de uma terminologia
especial (p.34);
. Na prática, parte-se sempre do conceito, do termo, vulgar;
- Como a Sociologia trata de coisas referidas usualmente pelos indivíduos – família, propriedade, crime – não
parece útil ou necessário ao sociólogo dar uma definição prévia e rigorosa (p. 34);
- Necessário definir termos correntes;
. Monogamia (Spencer e o estudo sobre a evolução do casamento);
. Democracia (primitiva e moderna: diferenças);
. Crime (Garofalo): ausência de comparações entre os atos que são reprimidos por punições e os
diferentes de sociedades em que se inserem (p. 36);
. Evolução moral: atos antes tachados de crimes continuam a ser crimes mesmo após variações
que resultaram na perda desta qualificação;
. Não inclui crime anormal: crimes religiosos, contra etiqueta, contra o cerimonial, contra a
tradição;
. Princípio da causalidade: Causa  Fenômeno;
- Povos primitivas (selvagens): Sem moral;
. Ao definir um preceito moral como “uma sanção repressiva difusa, i. é, numa condenação formulada
pela opinião pública que vinga a violação do preceito”, Durkheim encontra que nas sociedades inferiores normas
deste gênero não só existem como são ainda mais numerosas (p.38);
- Definir os fenômenos a partir de seus caracteres aparentes não é preponderar mais propriedades superficiais do
que atributos fundamentais? Ex.: Definir o crime a partir da punição. Resposta: É pela punição que o crime se
revela exteriormente a nós e a função da definição é unicamente fazer-nos entrar em contato com as coisas (p. 39);
. Superfície e base: “Se todo um grupo de ações dadas apresenta sem discrepância a particularidade de
estar uma sanção penal ligada a elas, é porque existe um laço íntimo entre a punição e os atributos constitutivos
daqueles atos.”
- Sensação  alcançar o exterior das coisas;
- Ciência: criar novos conceitos; afastar as noções comuns; retornar à sensação (matéria primeira);
. É da sensação que se desprendem todas as ideias gerais, verdadeiras ou falsas, científicas ou não (p.40);
. Ponto de partida da ciência é idêntico ao do conhecimento vulgar ou prático;
3) Estes caracteres exteriores devem, além disso, ser os mais objetivos dentre todos. Meio de chegar a tal:
apreender os fatos sociais pelo aspecto em que se apresentam isolados de suas manifestações individuais.
- Sensações podem ser subjetivas;
- Dados sensíveis ligados ao observador  reter os que possuem grau suficiente de objetividade;
. Físico: temperatura, eletricidade -> termômetro, electrómetro;
. Sociólogo: caracteres exteriores devem ser tão objetivos quanto possível;
- Fatos Sociais são tão mais objetivamente representados quanto mais se desprendem completamente dos fatos
individuais em que se manifestam (p. 40);
- Objetividade  Ponto de apoio constante e idêntico; Medida comum;
- Vida social:
. Não se desintegra dos acontecimentos particulares;
. Consiste em correntes livres, em vias de transformação;
. Hábitos coletivos: regras jurídicas, morais, provérbios populares, fatos de estrutura social etc.;
- Formas da vida social existem de modo mais ou menos permanente, portanto, constituem um objeto fixo, uma
medida constante, que não deixa lugar para impressões subjetivas ou observações pessoais;
- Sociólogo  Ao explorar uma ordem qualquer de fatos sociais, deve se esforçar para considerá-los no aspecto
em que se apresentam isolados de suas manifestações individuais (p. 41);

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