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Camaçari, 20 de Abril de 2010,

Caríssimo senhor Zygmunt Bauman.

Se eu disser que será fácil a minha missão com esta carta estarei
mentindo ou pelo menos sendo hipócrita, analisarei aqui coisas que vejo e
sei, mesmo que o tempo não me permita ser “sábio”.
Consumismo versus consumo, duas vertentes que diferem tanto e
são necessariamente iguais, quando pensamos em consumo vêm à mente
das pessoas gastar, gastar excessivamente,o consumo existe em qualquer
nível trófico da natureza o que difere a humanidade (e de certa forma nos
torna interessante como objetos de estudo) é a total falta de necessidade
real, alimentada por uma campanha de rede global para ter sempre o
“mais novo”, esse é o problema, consumismo e consumo diferem na
essência da necessidade, neste fato as duas bebem da mesma fonte sendo
que, em apenas uma destas há a real falta disso, ou daquilo, o que nos leva
a um segundo problema, o que é preciso comprar para que o consumo,
natural de todos os seres, se torne consumismo, que é essencialmente
humano.
O termo bens de consumo já pode (e deveria) ser substituído por um
termo novo que abordarei aqui como bens do consumismo, sendo assim é
fácil perceber o porquê da transformação de valores não-éticos, mas
sociais; é um fato que a sociedade nos impele muitas coisas, na verdade se
formos buscar a raiz do nosso conhecimento este também é uma
construção humana, assim como o consumismo moderno na há como
negar que somos bombardeados por uma gama de produtos novos, e cada
vez mais novos, não dando tempo para nos acostumarmos com o velho, o
cheiro de novo paira no ar cada vez mais, mora aí a principal função do
capitalismo, alimentar esse nosso desejo animal de ser e poder, já que no
capitalismo os ser é poder (poder ter), provando assim que este é um plano
de desenvolvimento que já não se aplica ao progresso evolutivo do ser
humano. Realmente me questiono se nós conseguimos evoluir, e chego a
diferentes respostas diferentes vezes. Acredito que as técnicas evoluíram,
os objetos evoluíram, ideais evoluíram, mas o ser humano não, este último
se encontra estagnado no processo de crescimento. É o eterno vazio do ser
humano, é esse mesmo que é preenchido por n coisas, aquele vazio
quefica quando não se responde a pergunta: Quem nós somos? De onde
viemos? Pra onde vamos? Aquele vazio que fica quando pensamos no pós-
mortem, então resta ao humanos preenche-lo com “coisas” isso mesmo
coisas.
Quando digo coisas me refiro querido Bauman a todo tipo de objeto
que pode ser comprado: CDs, livros (sim conhecimento é poder, poder é
mercadoria logo conhecimento é mercadoria) roupas, acessórios, MPs,
câmeras, TVs, DVDs, rádios, notebooks, comida, água, terra, papel
higiênico, escovas, carros, motos, sapatos, jóias, óculos, e até sexo. O
consumismo é vivotem cérebro, sangue,coração e espírito. o cérebro
seríamos nós consumidores, o sangue são esses bens de consumismo
empurrados pra cima, e o coração, o que bombeia tudo isso, a máquina
que dá sustentação ao consumismo são os grandes produtores, essa
máquina que ninguém vê o rosto, e está inacessível a maioria dos
humanos, estes sim são beneficiados, mas há ainda a ser um aspecto
humano o campo metafísico, as coisas que existem não podem ser
provadas, as coisas que sentimos e que não explicamos, um termo surge,
teoria da conspiração, poucas são as pessoas que já pararam para se
perguntar: E se tudo o que vemos hoje for resultado de uma concessão de
dominação mundial?
Se alguém pudesse assistir ao que o mundo de hoje vive (e não ser
de forma alguma tendencioso) veria essa hipótese como uma possibilidade,
o ato de comprar o novo sempre escraviza, para os poucos que tomaram
consciência do plano que acima citei resta a terrível sensação de
impotência de que perante ao poderosos não temos nada a oferecer senão
talvez a única coisa que ainda se reluta em vender: A dignidade.
O consumo em si (quando me refiro a consumo, me refiro a real
necessidade de ter algo e usá-lo, de possuir bens que tornem sua vida mais
fácil ou menos chata) deve ser encorajado para que as técnicas de
produção se movimentem já que a complexa engrenagem do mercado
dever sempre funcionar, o consumo é bom, assim como o consumismo, nós
é que damos a ele características humanas.
Está acontecendo em escala (no meu neologismo) mais-que-humana
uma transformação; a sociedade parou de ser uma sociedade de
produtores para ser uma sociedade de consumidores, natural ou não, o
consumo sempre foi ao longo dos séculos mediado e podado por um fator
mais forte que nós, uma característica do clima, a mudança das terras, a
guerra, a peste bubônica, uma crise inevitável, ou até os estágios iniciais
da globalização, mediação essa que deixa suas fronteiriças cada vez
maiores.
Podemos entender a fragilidade da relação consumismo x consumo
como o comprar e não precisar, e o realmente precisar, não há nada de
vanglorioso em precisar e obter o que se precisa sem maiores delongas, é
para isso que na teoria (e só nela) que a globalização serve, para tornar a
vida mais fácil. O ser humano construiu não só objetos, mas uma intensa
rede de relações interpessoais de dar inveja a qualquer formigueiro, então
o que é que falta (ou sobra) para que não chegamos a ver os resultado
positivos dessa maravilha toda, sinceramente não sei responder, e também
não sei onde o porque de eu não saber responder a essa pergunta, nossa!
Cheguei a um nível de razão como animal racional que eu me entristeço ao
ver que tudo o que deixaram pra nós é ruim, e isso não é o pior o mais
pútrido aspecto é que estamos piorando o que já está ruim, e onde isso se
encaixa no contexto consumista? A partir do momento em que o meu
celular já não presta mais porque não tem um novo recurso, e eu pura e
simplesmente pelo prazer burro e ignóbil de preencher esse meu vazio
humano, torno o velho em sucata, para quê, se ele ainda cumpre seu papel
perfeitamente, pra quê então substituí-lo? Fazer isso é piorar o que já está
ruim porque estou sendo hipócrita o suficiente pra saber que estou errado
e estar feliz com isso.
As raízes do consumismo, a mistura de competição sobre lugar ao
sol, e a constante massa propagandista, formaram esse crescente e
disforme corpo de compradores, o consumismo atual é o resultado de anos
de capitalismo, que talvez tenha berço na Inglaterra com a revolução
industrial, deu-se inicio ao que chamamos de tempos modernos, além de
surgir uma nova classe social (a gentry e os donos de manufaturas), surgiu
também a necessidade de fazer com que o que fosse produzido fosse
escoado, esboça-se assim o tema mais polêmico desse meu “monólogo
escrito”, a ideia deu tão certo que tudo hoje gira em torno de consumir
exageradamente, mesmo que para alguns signifique morte financeira, o
que era um plano de negócios se tornou hoje objetivo de vida de muitas
pessoas, talvez essa seja uma das maiores invenções humanas, o ato de
suprir o que não necessita ser suprido, apesar de todas as campanhas
publicitárias tentarem nos zumbificar, parte de nós, e apenas de nós, o ato
em si, de ir aos locais designados e ajudar a construir nosso quadro social
de maneira “negativa”, não se pode por a culpa inteiramente em quem
produz, quem compra também é cúmplice, talvez seja vítima também, não
há como ser exatamente certo a respeito disso, o fato é que estamos
comprando cada vez mais, e nos isolando em nossas casas, a relação
pessoa-pessoa está definhando, a internet toma lugar e ajuda ainda mais,
pra que melhor do que comprar em sua própria casa? No conforto do seu
lar? Entendo que não há como fugir de tudo o que foi supracitado, a
escolha de se “esquerdizar” a tudo isso é ilusão é metafísico
habita apenas no campo das ideias.
Tomando consciência do que está acontecendo a geração posterior a
minha pode mudar, pode lutar, assim como nossos pais fizeram, minha
geração nada mais pode fazer, falhamos, nos acomodamos no sofá de casa
assistindo tudo pelo pay-per-view, choca ao saber que o que eu tenho já
não é o topo do desejo alheio, as coisas mudam numa forma tão rápida que
engolem, segregam as pessoas o humanismo está em falta na
humanidade.
Olhe um grande shopping, veja a felicidade das pessoas em comprar,
em gastar um suado dinheiro em futilidades, em saber que no seu círculo
social será melhor reconhecido pela marca da roupa que usa, ou pelo
cabelo mais liso, ou por qualquer coisa que ascende o espírito do
consumismo, e que nos leva do nada ao lugar nenhum, que não ajuda o
próximo, que não marca as pessoas ao seu redor, que nada faz que possa
ser invejado, não invejado pelo fato de ser novo, mas invejado pelo
conteúdo humano que suas ações refletiram em quem as viveu (ou sofreu),
estamos nos tornando mercadorias, vendemos desde nossa força, até
nossas ideias, transformamos nossa passagem pela terra em nada, o
consumismo (e não só ele) nos faz assim.

E
derlan Fernandes Câmara