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CIDADE DESCONHECIDA, OU SILENCIADA?

– PRIMEIRO GOVERNO DE
MÁRIO PESSÔA: urbanização, beleza, resistências e pobreza
Igor Campos Santos1

Localizada entre o mar e os morros, antes dominados por florestas


subequatoriais (FREITAS e PARAISO, 2001, p. 133), a pequena vila de São Jorge
dos Ilhéus conheceu um significativo progresso material, se transformando
rapidamente em apenas algumas décadas, a partir de sua elevação a categoria de
cidade (Idem). Segundo Ribeiro, o crescimento econômico e populacional foram os
motivos que levaram a antiga comarca a alcançar a categoria de cidade em 1881
(2005, p. 92). A lavoura cacaueira proporcionou esse crescimento material, a
economia do estado começava a se basear nas safras do “fruto de ouro”, a região do
litoral sul da Bahia começa a estabelecer laços econômicos com outras cidades além
de Salvador, daí em diante o desejo de trazer a civilidade à população de Ilhéus e
modernizar a cidade, através das modificações do meio urbano, se tornam presentes,
tudo isso para adequá-la ao seu novo quadro econômico (Idem).
As principais modificações da cidade, que levaram a cabo uma série de
melhorias nas condições de salubridade e na mudança do seu aspecto colonial,
começaram no início do século XX. Durante a administração do Coronel Domingos
Adami de Sá (1904-1908), obras como calçamento de ruas e estradas, rede de esgoto
e o início do cais do porto começaram a ser postas em ação (Idem). Os intendentes
seguintes deram continuidade à política de modernização da cidade, que consistia
num plano formulado pela elite local para transformar Ilhéus na “Capital do cacau”, o
que veio acontecer já na década de 1920.
Foi durante essa década que Ilhéus se firmara como o “principal centro da região
cacaueira” (FREITAS E PARAISO, Op. Cit., p. 137), passou por importantes
remodelações urbanas e recebeu um grande fluxo de visitantes vindos de todos os
lugares do mundo. Para uma cidade do interior havia uma variedade muito grande de
estabelecimentos comerciais e diversas fontes de lazer, que eram do agrado tanto
dos visitantes como da elite local, muitas das quais foram aqui introduzidas justamente
em decorrência do crescimento econômico da cidade e das novas exigências de seus
habitantes.

1
Graduando em Licenciatura em História pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).
Com a posse do intendente Mário Pessôa, a vida na cidade mudou ainda mais
a partir do ano de 1924. Um dos principais acontecimentos que influenciou na
ordenação da vida e no aspecto visual e sanitário da cidade foi a instituição de um
Código de Postura para a cidade de Ilhéus, pensado pelo então intendente. Além
disso, o mesmo encarregou “o engenheiro municipal Manoel Accioli Ferreira da Silva
de levantar a planta cadastral da cidade e do Pontal de São João da Barra, a primeira
da Bahia” (RIBEIRO, Op. Cit., p. 105). A partir do plano de ordenamento da cidade, a
intendência instituiu um modelo para as construções de prédios no perímetro urbano
da cidade, que deveriam seguir os princípios estéticos e higiênicos, além disso, foram
cedidas isenções fiscais para a construções ou reconstruções de luxuosos prédios no
centro, que deveriam seguir o alinhamento das ruas (ILHÉUS, 1924, p. 40).
Toda essa imagem construída de progresso econômico e organização espacial
da cidade nos leva a imaginar que na então “princesinha do Sul” não existia pobreza,
violência e nem espacialização ou diferenciação entre os territórios da cidade. Ao
contrário do que a memória local cristalizada, e hegemônica, nos atesta, os pobres –
entende-se por pobres todas aquelas pessoas que não possuíam grandes fortunas
(poder econômico), autoridade ou influência política e na maioria das vezes
encontravam-se em situação de subalternidade e discriminação – também faziam
parte, ativamente, do cotidiano da cidade. Acontece que essa parcela da população
teve suas memórias e práticas socioculturais “apagadas” pela historiografia tradicional
(ligada à história econômica e política, com foco nas famílias tradicionais dos
Coronéis) local, e só a partir da última década começa a ganhar espaço nas pesquisas
acadêmicas.
Durante muito tempo a história da região cacaueira ficou interligada aos diversos
discursos econômicos sobre a mesma. Várias narrativas sobre o grupo hegemônico
da sociedade do cacau foram produzidas ao longo do século XX com intuito de
preservar as memórias, tradições, práticas sociais e identidades do mesmo, dando
força a uma representação histórica focada na classe dominante e em personagens
poderosos política e economicamente (RIBEIRO, 2015, p. 335-6). Dessa maneira, a
memória social hegemônica ficou por muito tempo sustentada pela imagem dos
coronéis como dominadores de toda uma região, com poderes de vida de morte sobre
seus trabalhadores, esquecendo-se assim dos outros atores sociais que constituíam
a região (CARVALHO E SOUZA, 2015, p. 12). Esse processo de exclusão dos grupos
subalternos da história ocorre nas cidades brasileiras que, no período de sua
urbanização, pretendiam tornar-se modelos de civilidade e de progresso, o objetivo é
eliminar a presença de grupos discriminados (grupos esses compostos em sua
maioria por pessoas negras e indígenas) da história desses locais, descredibilizando
suas práticas cotidianas, maneiras de viver e sua importância para a formação da
sociedade brasileira, que se pretendia europeizada e embranquecida (SANTOS,
1998).
Em Ilhéus, tanto o jornal como obras memorialistas, a literatura amadiana e as
fotografias apresentam imagens de uma cidade próspera, bela, elegante, moderna;
essa cidade construída para e pela burguesia cacaueira foi cristalizada na memória
regional, tornando-se hegemônica e acabou por silenciar outras memórias. Mas esse
processo de silenciamento não foi pacifico, pelo contrário, a partir das lutas dos
populares pelo direito ao uso dos espaços públicos, na resistência diária, de forma
sutil ou violenta, os subalternos se fizeram presente no cotidiano da cidade, seja
noticiado como transgressores da ordem estabelecida ou como passantes
despreocupados nas fotografias, enfim, consequentemente essas pessoas
disputavam seu lugar na história da cidade a que pertenciam ou que adotaram como
sua.
Esse silenciamento sistemático das memórias populares não ocorreu por acaso.
A memória está estritamente ligada a história, logo, a exclusão de umas em detrimento
de outras está associada ao projeto político das classes hegemônicas, que buscaram
preservar seus costumes e práticas, concretizando sua dominação (CRUZ, FENELON
e PEIXOTO, 2004, p. 6). Dessa forma “a memória histórica constitui uma das formas
mais poderosas e sutis de dominação e de legitimação”, por isso, “é um campo minado
pelas lutas sociais” (Idem). Sendo assim, é dever do historiador, como prática política
“reavivar lembranças e narrativas de sujeitos excluídos e dissidentes”, produzindo
“outras histórias”, histórias essas que deem conta do cotidiano e das práticas de
sujeitos reais e comuns (Idem).
A partir disso, devemos observar com novos olhares a situação da Ilhéus durante
a década de 1920. Nem só de beleza era composta a cidade, muito menos puramente
moderna e totalmente urbanizada. Como se sabe, o processo de modernização e
embelezamento de Ilhéus gerou a exclusão e o afastamento de um setor
desprivilegiado da sociedade ilheense, que acabou tendo de sair do centro da cidade
e ocupar áreas mais afastadas dos arrabaldes ou áreas ainda ruralizadas. Dessa
forma, podemos notar a existência de duas realidades distintas na cidade, sendo
possível falar da coexistência de duas (ou até várias) cidades (PEACHMAN, 1994, p.
2): a cidade idealizada, planejada pela elite local e profissionais liberais, guiados pelos
ideais de modernidade e civilização, seguindo o exemplo de grandes metrópoles
brasileiras e europeias na aplicação dos saberes técnicos sobre o espaço que se
tinha, e a cidade real, palco dos conflitos sociais, lugar de desigualdades, com
lembranças do período colonial que remetiam ao atraso, tendo nos hábitos da
população pobre a oposição das ideias de modernidade e civilidade.
Segundo Guerreiro de Freitas e Hilda Paraíso, “as contradições sociais surgidas
com a exploração cacaueira eram ignoradas ou não reconhecidas” (Op. Cit. p. 139),
ou seja, enquanto a cidade passava por um intenso progresso material e a elite
cacaueira enriquecia ainda mais, a população pobre da cidade continuava vivendo em
miséria. Além disso, como dito antes, o processo de urbanização empurrou a
população pobre para áreas mais afastadas do centro, formando assim espaços de
habitações nos arrabaldes, que logo no decorrer da década de 1920 ficaram
conhecidos como áreas suburbanas, composta por barracos, principalmente nos
morros da Conquista e no Unhão (Outeiro de São Sebastião) (RIBEIRO, Op. Cit. p.
97). Dessa forma, a cidade se contrastava entre a beleza e a organização de seu
centro e a desordem e a “feiura” dos morros.
Como vimos, a “Princesinha do Sul” enriquecera com o fruto da amêndoa de
ouro, levando a cidade e seus governantes um surto de progresso e desenvolvimento
urbano. Porém, a monocultura cacaueira também gerou uma incrível desigualdade
socioeconômica na sociedade do cacau, e, além disso, em um território onde se
privilegiava a monocultura de um gênero voltado exclusivamente para a exportação,
a carestia de vida foi uma constante no cotidiano da população mais pobre, “os sinais
de riqueza eram acompanhados pelos de pobreza, não só nas ruas e praças de Ilhéus,
como também nas rotas e caminhos da região” (FREITAS e PARAISO, Op. Cit.). Ainda
assim, as feiras livres era uma paisagem frequente na urbe, segundo Amado (1998.
p. 82):
A feira semanal era uma festa. Ruidosa e colorida. Um vasto descampado
em frente ao ancoradouro, estendendo-se até às proximidades da estrada de
ferro. Postas de carne seca, de sol, de fumeiro, porcos, ovelhas, veados,
pacas e cotias, caça diversa. Sacos de alva farinha de mandioca. Bananas
cor de ouro, abóboras amarelas, verdes jilós, quiabos, laranjas. Nas barracas
serviam, em pratos de flandres, sarapatel, feijoada, moqueca de peixe.
Camponeses comiam, o copo de cachaça ao lado.
Mesmo com “tanta fartura”, viver em uma terra de “progresso” e “riquezas” não
era tão fácil para a população mais humilde, e os trabalhadores urbanos buscavam
alternativas para o aumento dos preços dos gêneros alimentícios. Nesse sentido, em
janeiro de 1924 os canoeiros do pontal, através da Colônia Z-10, “alegando a carestia
de vida, estabeleceu nova tabela de preços desta cidade ao Pontal e vice-versa”
(CORREIO DE ILHÉUS, 15/01/1924, nº 394). Em abril do ano seguinte foi a vez de
aumentarem o preço do pescado, e estabelecerem, juntamente com a municipalidade,
que “os pescados e os mariscos só poderão ser vendidos nos mercados da colônia
em Ilhéus e Pontal” (CORREIO DE ILHÉUS, 07/04/1925, nº 579), fazendo valer assim
seus interesses e a sua garantia de sobrevivência.
Desde o ano anterior o sistema de tabelamento do valor do pescado estava em
vigor na cidade, recebendo grandes elogios pelos redatores do periódico. Todos os
peixes passaram a ser vendidos por preço determinado, que segundo notícia do
Correio facilitava o acesso da população humilde aos produtos antes comercializado
pelo peso, foi montada uma fiscalização na Barra do Itaype, para que o pescado não
fosse vendido “ilegalmente”, e no centro da cidade os guardas municipais foram
orientados a “proibirem a venda de peixe pelas ruas da cidade sem que não seja
submetido ao peso competente” (CORREIO DE ILHÉUS, Op. Cit.). A multa pela
prevista era a prisão do infrator e o envio de seus produtos “as casas pias” da cidade
(Idem). Talvez a intendência estivesse pensando na carestia de vida dos habitantes
mais pobres da cidade, porém, acreditamos que essas atitudes podem ter sido mais
uma tentativa de controle sobre as profissões que não sofriam regulações diretas do
patronato, pois a medida atingia não só pescadores, mas também feirantes.
Nesse sentido, percebemos a frequência em que era noticiada a fiscalização
sobre os feirantes e açougueiros, e suas balanças além das reclamações das vendas
dos gêneros aos “atravessadores”. Sobre as balanças, o Código de Posturas
esclarecia o uso obrigatório dos pesos e medidas, como forma de regulação dos
preços e atividades dos feirantes, proibindo terminantemente o uso de “balança de
braço” (Art. 275) e obrigando que as balanças, os pesos e as medidas fossem aferidas
pelo padrão municipal (Art. 276) (ILHÉUS, Op. Cit.). De acordo com Carvalho (2016,
p. 245) essa pratica era utilizada pelo poder municipal e as classes produtoras de
cacau como uma forma de regular o preço dos gêneros de subsistência, evitando-se
assim as flutuações de preço e o livre mercado dos feirantes, que em sua maioria
eram pequenos agricultores. Em relação as ações dos “atravessadores”, segundo o
Correio de Ilhéus, “proprietários de quitandas e armazéns” compravam os gêneros de
primeira necessidade vendidos pelos feirantes desde as primeiras horas do dia, e as
revendiam por mais caro em seus estabelecimentos, cabendo a fiscalização municipal
fazer valer o regulamento de não se vender produtos em atacado nas feiras “antes da
hora regulamentar” (CORREIO DE ILHÉUS, 15/04/1924, nº 433). Essa era uma
prática dos feirantes e de pequenos agricultores que procuravam “recompensar a
perda dos dias de trabalho e tirar mais lucros” (CARVALHO, Op. Cit., p. 246).
Retornando à questão da carestia de vida na cidade, repetidas vezes se encontra
notas no jornal sobre o alto preço da carne verde, do pão e de adulteração do leite.
Além disso publicava-se frequentemente notícias sobre o pão que diminuíam de
tamanho, ou carnes podres comercializadas (CORREIO DE ILHÉUS, 26/07/1924, nº
474) e até mesmo café misturado com areia sendo vendido no comércio (CORREIO
DE ILHÉUS, 08/07/1924, nº 466). Todos esses pontos nos levam a pensar se a
população mais pobre teria meios de consumir esses produtos encarecidos ou se
utilizavam de outras estratégias para conseguir manter sua alimentação. Sobre essa
questão, pensamos que os habitantes dos arrabaldes aproveitavam seus quintais ou
os currais presentes em zonas suburbanas para a criação de animais que pudessem
servir de alimento. Isso explicaria a legislação municipal que proíbe a criação de gado
no perímetro urbano (Art. 371), assim como impedia a circulação de animais livres
pelas ruas da cidade, como “cães, galinhas e outros” cabendo a apreensão dos
mesmos pela fiscalização municipal (CORREIO DE ILHEUS, Op. Cit.). Dessa forma,
noticiava em um tom de admiração, as práticas da fiscalização municipal:
É de se louvar essa proveitosa iniciativa por isso que não se pode admitir que
numa cidade civilizada, possuindo belos jardins, cujo governador tanto se
empenha pela observância das prescrições de higiene, encontremos, aqui e
ali, burros, cavalos, porcos, cachorros, galinhas, etc. (Idem, 07/06/1924, nº
454)

Além disso, uma notícia publicada em março de 1924 comprova a hipótese da


criação de animais para consumo. A publicação expõe os efeitos de uma forte chuva
que ocorreu na noite anterior e que causou imensos prejuízos à área central da cidade,
como alagamentos de estabelecimentos comerciais e de casas, falando quase nada
sobre os bairros onde habitavam os “subalternos”, porém, o que é falado desses
lugares nos interessa muito: “Vários moradores desses lugares [Conquista, Unhão,
Alto da Pimenta, São Sebastião e Pontal] tiveram prejuízos de roupas, calçados,
móveis, galinhas, patos, perús, etc.” (Idem, 29/03/1924, nº426).
Podemos concluir a presença de pequenas criações de galinhas também na Rua
do Café, uma área consideravelmente mais próxima do centro recém-urbanizado, e
no lugar denominado Alto do Ceará, através de uma notícia sobre roubos de galinhas
que vinha ocorrendo nesses locais, como podemos ver:
As <<raposas humanas>> abandonaram o Alto do Ceará, e agora estão
agindo na rua A, ao Café. Hoje mesmo esteve em nossa redação, o nosso
amigo capitão Pacífico do Amor Divino, residente naquele trecho de rua,
queixando-se de que as referidas <<raposas>> deram em seu quintal,
conduzindo várias galinhas.
Iguais reclamações temos recebidos de vários moradores daquele lugarejo.
Urge da polícia uma providência. (Idem, 08/06/1926, nº 757).

Provavelmente, para a população mais pobre, era mais fácil se manter com suas
pequenas criações de animais para consumo, do que com a compra dos produtos
vendidos nas quitandas, encarecidos ou até, em alguns casos, adulterados. Além
disso, também podemos pensar na opção de comercializar esses animais nas feiras
livres para assim complementar suas rendas, ou até mesmo ter uma.
Entretanto a carestia não se resumia somente aos altos preços dos gêneros
alimentícios, mas também aos excessivos impostos e alugueis cobrados na cidade.
Com a política de valorização do solo urbano, incentivou-se a construção de inúmeros
palacetes no centro da cidade e em territórios que adquiriam algum valor imobiliário,
em paralelo a isso, os prédios de aspectos antiquados, as ruinas e os terrenos baldios
sofreram taxações mais altas de impostos, pela intendência:
A forte campanha exercida pela Intendência Municipal, louvada aliás pela
população, de não permitir a continuação de prédios em ruínas, muros e
terrenos baldios com área suficiente para edificação, taxando-os
pesadamente, tem sido um dos principais fatores do aumento da prediação
(sic.) urbana, o que vai dando uma certa importância a nossa já adiantada
cidade. (Idem, 05/10/1926, nº 805).

Isso também provocou o aumento dos preços nos quartos alugados em cortiços
e a consequente saída de pessoas que não podiam arcar com esses tributos pesados,
que acabavam encontrando em outras áreas, ao redor do centro, um custo de vida
mais barato, porém, isso significava não ter acesso a serviços básicos, como a energia
elétrica, o abastecimento de água e o calçamento e higienização das ruas.
As vias públicas desses bairros eram de terra ou barro, que em tempos de
chuvas cobriam-se de lama, provocando dificuldades de acesso ao centro da cidade,
além de doenças provocadas pela insalubridade, como podemos ver em uma
reivindicação dos moradores da Conquista:
Os moradores do Alto da Conquista, dirigiram ao ilustre dr. Intendente, um
abaixo assinado, pedindo calçamento de um trecho daquela via pública,
intransitável nos dias chuvosos. O digno dr. Intendente em consideração o
pedido dos habitantes do aprazível arrabalde, prometendo iniciar o
calcamento, quando permitirem as condições financeiras do município (Idem,
24/01/1925, nº 549)
O calçamento foi realizado um ano após ao “pedido” e em apenas uma ladeira
do bairro, a que faz ligação com o perímetro central.
Como o abastecimento de água não chegava a esses locais, em alguns deles
existiam fontes públicas utilizadas para o consumo da população, que do mesmo
modo que as ruas desses locais, não recebiam cuidado algum por parte da
intendência:
Os moradores da Rua do Café, inclusive negociantes, artistas e operários,
dirigiram um abaixo assinado ao ilustre Dr. Intendente, pedindo providências
no sentido da melhor conservação da <<Fonte de Vespasiano>> que ali se
serve para o gozo público. Alegaram os peticionários que as pessoas que dali
retiram água formam em torno da mesma fonte um lamaçal horrível,
concorrendo para o prejuízo daqueles que se servem do precioso líquido. (...)
(Idem, 30/07/1925, nº 627)

Sobre os aluguéis, o Correio de Ilhéus publicava com certa frequência a lei do


inquilinato, para alertar aos inquilinos sobre seus direitos e apontar aos proprietários
suas injustiças. Porém, ao que parece, essas publicações eram mais voltadas ao
público endinheirado do jornal, do que a população pobre, visto que se falava mais
em relação a área central do que as adjacentes. Entretanto, a intendência tentava
contornar o problema das habitações populares através de modelos prontos já
testados nos grandes centros urbanos brasileiros:
(...) Nos centros mais civilizados, Rio, S. Paulo e Minas, vai-se suavizando a
sorte do proletário, com a fundação de companhias que exploram a indústria
de construção de casas, mediante módicas prestações mensais, as quais
findas, um certo número dão direito a entrega do imóvel ao inquilino.
Fomos informados que se cogita a fundação de uma agência de uma dessas
companhias entre nós, com o fim de facilitar ao povo as construções
modestas mediante módicas prestações mensais, que serão mais ou menos
as do aluguel do prédio. (...) (Idem, 06/05/1926, nº 744)

O local escolhido pela intendência para desenvolver o empreendimento foi o


Pontal, pois era um local que ainda não havia sido urbanizado “despertando, por esse
meio, a construção de casas baratas num sítio onde o terreno, pela sua extensão,
ainda não se tornou inacessível às classes menos protegidas de fortuna” (Idem,
02/12/1926, nº 826). Além disso, ainda não existia a ponte que ligava a área central
aquele distrito, o que, talvez, dificultaria a transição de pessoas “indesejadas” desse
local para a cidade, visto que o transporte era feito por barcos de uma companhia de
transportes privada. O que sabemos desse plano nos dias atuais, é que o local
escolhido pela intendência para a construção de casas populares hoje é conhecido
como Sapetinga, um espaço em que, diferentemente do plano de Mário Pessôa,
prevalece habitações de famílias mais abastadas.
Com o que foi aqui exposto, podemos concluir que a história da cidade de Ilhéus
é permeada de conflitos e disputas entre memórias de vários grupos que foram ao
longo do tempo sendo silenciados, prevalecendo assim somente a memória de um
setor da sociedade cacaueira, e seu discurso hegemônico motivou vários outros
autores a construírem uma imagem para a região cacaueira, baseado na história
oficial. Além disso, percebemos que a imagem de “Princesinha do Sul”, construída
para Ilhéus, excluiu propositalmente os setores desprivilegiados da cidade, imperando
até os dias atuais a ideia de que no período estudado, a cidade era tão rica e tão
próspera, que não existia pobreza ou desigualdades.
Neste trabalho tentamos apresentar um pouco do outro lado, as histórias de
pessoas comuns, que viviam e compartilhavam do uso da cidade de diferentes formas.
Compreendemos que deixamos de explorar diversos outros espaços, como a ilha das
cobras, e personagens como as “meretrizes”, os “moleques” que viviam nas ruas, os
“vadios” da cidade, os mendigos, os loucos e os bêbados, assim como não
explanamos os casos de agressões e brigas que ocorriam frequentemente em uma
cidade que se pretendia civilizada. Porém, entendemos que esses assuntos e muitos
outros podem ser tratados futuramente, em pesquisas mais aprofundadas e mais
desenvolvidas, por hora, o trabalho realizado cumpriu com o que pretendia.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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FONTES:
Jornal Correio de Ilhéus (1924-1926)
Código de Posturas da Cidade de Ilhéus (1925)

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