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Processo Nº.

:
0020220-16.2014.8.05.0001
Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : MARIA LAURA MATTOS DANTAS
Advogado(a) : MARCELE ISAAC DE BARROS
Recorrido(s) : AMERICAN AIRLINES
Advogado(a) : TEREZA CRISTINA DE OLIVEIRA CARNEIRO
Origem : Juizado Modelo Cível – JORGE AMADO
Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

EMENTA

RECURSO INOMINADO. TRANSPORTE AÉREO.


CANCELAMENTO DE VÔO SEM COMUNICAÇÃO PRÉVIA AO
PASSAGEIRO. PARTE AUTORA QUE TEVE QUE ANTECIPAR A
VIAGEM A MIAMI POR UM DIA. DANOS MORAIS
CONFIGURADOS. DANOS MATERIAIS NÃO COMPROVADOS.
REFORMA DO JULGADO PARA IMPOR A CONDENAÇÃO POR
DANOS MORAIS. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.

.A C Ó R D Ã O

Acordam as Senhoras Juízas da 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais


Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, MARIA AUXILIADORA
SOBRAL LEITE – Presidente e Relatora, CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS
QUEIROZ e ISABELA KRUSCHEWSKY PEDREIRA DA SILVA, em proferir a seguinte
decisão: RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. UNÂNIME, de acordo com a ata do
julgamento. Sem custas processuais e honorários, nos termos do art. 55 da lei 9.099/95.

Salvador, Sala das Sessões, 07 de abril de 2015.

BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE


Juíza Relatora
Processo Nº. :
0020220-16.2014.8.05.0001
Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : MARIA LAURA MATTOS DANTAS
Advogado(a) : MARCELE ISAAC DE BARROS
Recorrido(s) : AMERICAN AIRLINES
Advogado(a) : TEREZA CRISTINA DE OLIVEIRA
CARNEIRO
Origem : Juizado Modelo Cível – JORGE
AMADO
Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

EMENTA

RECURSO INOMINADO. TRANSPORTE AÉREO.


CANCELAMENTO DE VÔO SEM COMUNICAÇÃO PRÉVIA AO
PASSAGEIRO. PARTE AUTORA QUE TEVE QUE ANTECIPAR A
VIAGEM A MIAMI POR UM DIA. DANOS MORAIS
CONFIGURADOS. DANOS MATERIAIS NÃO COMPROVADOS.
REFORMA DO JULGADO PARA IMPOR A CONDENAÇÃO POR
DANOS MORAIS. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.

RELATÓRIO

Dispensado o relatório nos termos da Lei n.º 9.099/95.


Circunscrevendo a lide e a discussão recursal para efeito de registro,
saliento que a Recorrente MARIA LAURA MATTOS DANTAS, por meio de seu patrono
devidamente constituído, pretende a reforma da sentença lançada nos autos que julgou
improcedentes os pedidos formulados pela exordial por entender que “antecipando em um
dia o voo de volta, a autora se poupou de qualquer dissabor decorrente da inclusão da escala do
voo em São Paulo. Por outro lado, sequer esclareceu a parte autora o porquê da afirmação de
que a alteração do voo de retorno por outro com uma escala em São Paulo no mesmo dia 19
seria “totalmente inviável”, se limitando a dizer que escolheu o serviço da empresa ré por
oferecer voo direto Mia/Ssa”.

Ressalte-se que a controvérsia cinge-se na alegação da parte autora de


que adquiriu bilhetes aéreos para percorrer os trechos Salvador – Miami – Salvador, entre
os dias 07 e 19 de dezembro de 2013 e que, ao contatar os representantes da ré para
confirmar o itinerário de sua viagem, teria sido informada que o voo de retorno ao Brasil,
agendado para o dia 19, teria sido cancelado desde agosto, tendo sido oferecido à
passageira a opção de remarcar sua passagem para o dia 18 ou 20 de dezembro, ou
ainda para o dia 19 daquele mês, neste caso com a inclusão de uma escala em São
Paulo.

Afirmou a autora que, como a inclusão de uma escala em seu voo seria
algo “totalmente inviável”, optou por remarcar a passagem de retorno para o dia 18 de
dezembro de 2013, o que teria gerado inúmeros prejuízos à passageira, haja vista que
teria perdido uma diária de hotel e do aluguel de veículo, bem como teria perdido o valor
pago pela cabine extra para o voo que estava agendado para o dia 19 de dezembro de
2013, além de supostos danos morais.

Requereu a condenação da Ré American Airlines ao pagamento de


indenização a título de danos materiais, no valor de R$ 1.596,00 (um mil, quinhentos e
noventa e seis reais), referente ao valor despendido pela Autora com as diárias de hotel e
aluguel de veículo que não foram utilizadas, bem como, com o valor pago pela cabine
extra para o voo que estava agendado para o dia 19 de dezembro de 2013, e, ainda, a
título de danos morais, o valor de R$ 20.000,00 (vinte mil reais).

No tocante ao dano material o juízo de primeiro grau entendeu no seguinte


sentido: “os suposto danos materiais decorrentes da antecipação do retorno por um dia não
ficaram demonstrados nos autos. De acordo com as regras de distribuição do ônus da prova e a
ressalva supra, cabia à parte autora a prova de tais fatos constitutivos do seu direito. Cabia a
autora, assim, trazer aos autos os documentos comprobatórios de que experimentou prejuízo
financeiro com a aludida antecipação, com o pagamento de diária de hotel e locação de veículo
não utilizados. Ademais, o documento produzido pela American Express, juntado pela ré no
evento 16, denominado carta de cancelamento, comprova que houve o estorno no cartão de
crédito da autora da quantia debitada a título de taxa de cabine extra”.
Por sua vez, em relação ao pedido do autor de reparação por danos morais
o juiz sentenciante considerou que “não se reconhece a existência dos aludidos danos morais,
pois ausentes nos autos quaisquer indicativos de prejuízo de ordem moral, decorrentes de
constrangimentos, transtornos, problemas e outras conseqüências naturais ou intrínsecas ao fato
do cancelamento do voo. Antecipando em um dia o voo de volta, a autora se poupou de qualquer
dissabor decorrente da inclusão da escala do voo em São Paulo. Por outro lado, sequer
esclareceu a parte autora o porquê da afirmação de que a alteração do voo de retorno por outro
com uma escala em São Paulo no mesmo dia 19 seria “totalmente inviável”, se limitando a dizer
que escolheu o serviço da empresa ré por oferecer voo direto Mia/Ssa”.
Destarte, a pretensão recursal da autora recorrente é pela condenação
da ré por danos materiais e morais.
Apresentadas contrarrazões, vieram conclusos os autos.
Presentes as condições de admissibilidade do recurso, conheço-o,
apresentando voto com a fundamentação aqui expressa, o qual submeto aos demais
membros desta Egrégia Turma.

VOTO

Inicialmente, impende delimitar a análise do caso concreto dentro dos


contornos do artigo 333, incisos I e II, do CPC. Nestes lindes, incumbe ao autor a
demonstração do fato descrito na peça vestibular, recaindo sobre a demandada o ônus da
prova desconstitutiva do fato referido.

De outra ponta, o CONTRATO DE TRANSPORTE AÉREO DE


PASSAGEIRO é aquele pelo qual alguém querendo ir, por avião, de um lugar a outro,
convenciona com um transportador levá-lo ao ponto desejado, mediante preço e
condições previamente ajustadas. Por sua vez, o transportador é quem assume o encargo
de transporte por aeronave fazendo a transferência de pessoa de um lugar para outro,
mediante pagamento.

Nesta linha, o bilhete de passagem constitui prova do contrato (art. 227 do


Código Brasileiro de Aeronáutica e art. 1º da Portaria do Ministério da Aeronáutica, de nº
957 de 19 de dezembro de 1989) e dele constam as principais condições contratuais, com
o nome do passageiro, valor da tarifa paga, dia, hora, local, número e classe do voo,
origem e destino da viagem, data da validade do bilhete e suas eventuais restrições,
inclusive relativas ao peso da bagagem a ser transportada.

Com notável acuidade, o saudoso J. J. CALMON DE PASSOS sintetizava


todo esse contexto histórico: Os proveitos e vantagens do mundo tecnológico são postos num
dos pratos da balança. No outro, a necessidade de o vitimado em benefício de todos poder
responsabilizar alguém, em que pese o coletivo da culpa. O desafio é como equilibrá-los. Nessas
circunstâncias, fala-se em responsabilidade objetiva e elabora-se a teoria do risco, dando-se
ênfase à mera relação de causalidade, abstraindo-se, inclusive, tanto da ilicitude do ato quanto da
existência de culpa.(PASSOS, José Joaquim Calmon de. O Imoral nas Indenizações por Dano
Moral).

Restou evidenciado nos autos que o cancelamento do voo inicialmente


contratado pela autora importou em prejuízos morais.

O caso em tela demonstra claramente a má prestação de serviço e a


responsabilidade civil objetiva da empresa aérea, considerando que o consumidor
adquiriu uma passagem aérea em aeronave de retorno de Miami para Salvador no
dia 19/12/2013, todavia, houve o cancelamento deste voo e a imposição à autora de
outro voo direto nos dias 18/12/2013 ou 20/12/2013, o que, consequentemente
causou prejuízos de ordem extrapatrimonial. Assim, entendo que os danos morais,
indubitavelmente se apresentam de forma inequívoca, in re ipsa, daí porque, o que
se deve examinar é apenas a fixação do quantum.

Diante do cenário de impossibilidade de utilizar a passagem adquirida pela


autora junto à recorrida, exatamente naquela aeronave pretendida, evidente é a grande
dimensão do abalo moral sofrido, ainda mais considerando tratar-se de voo direto na data
pactuada, não sendo possível impor à autora voo com conexão para aquela mesma data,
tendo em vista que a recorrente haveria contratado com a ré justamente em virtude de a
mesma ofertar o voo direto Salvador/Miami.

Nesse diapasão, o desconforto, o estresse, a preocupação proveniente da


impossibilidade de utilizar o bilhete adquirido por problemas da ré, caracteriza sim, o
dever de indenizar.

Sobre o tema assinala a profa. Maria Helena Diniz, ao definir o dano, o que
faz a maestria que lhe é peculiar:

“dano pode ser definido como a lesão (diminuição ou destruição) que, devido a
um certo evento, sofre uma pessoa, contra sua vontade, em qualquer bem ou
interesse jurídico, patrimonial ou moral.

(Curso de Direito Civil Brasileiro - Saraiva, V. 07, p. 50).

Portanto:
Provado o nexo causal entre o fato lesivo e o dano moral, ante a inexistência de
culpa da vítima ou de terceiros e não se cuidando de caso fortuito ou força maior,
a indenização é cabível. Responsabilidade objetiva. Recurso improvido.

(Rec. nº 00156/97 - VC julgado em 24.09.98 - in Revista dos Juizados Especiais -


Tribunal de Justiça do Estado da Bahia p. 56/57).

Nesse contexto deve-se observar no tocante ao dano moral, ou melhor,


quando se reclama uma indenização dessa ordem, o ofendido não esta pedindo um preço
da dor sentida, mas apenas que se lhe outorgue um meio de atenuar, em parte, as
consequências do prejuízo, melhorando seu futuro, superando o deficit acarretado pelo
dano, abrandando a dor ao propiciar alguma sensação de bem estar, pois, injusto e imoral
seria deixar impune o ofensor ante o grave resultado de sua falta. (vide Indenização Por
Dano Moral, Revista Consulex nº 03).

Ao tratar da fixação do dano moral merece ser destacado que esta, ao ser
determinada pelo juiz, tem por escopo atingir duas finalidades distintas, quais sejam: a)
ressarcitório, para que haja satisfação à vítima, pelo dano sofrido por ela; b) punitivo, para
desestimular o ofensor à prática de novos danos, aqui cumpre ao julgador observar os
princípios da proporcionalidade e da razoabilidade para que o valor da reparação seja o
efetivamente justo.

Reiteradamente manifestei posição de que o arbitramento do dano deve


obedecer aos critérios da prudência, da moderação, das condições da ré em suportar o
encargo e não aceitação do dano como fonte de riqueza.

Da mesma forma, a fixação do montante indenizatório deve guardar uma


equivalência entre as situações que tragam semelhante colorido fático. As variações nos
valores das indenizações existem conforme as circunstâncias fáticas que envolvam o
evento.

Ponderando-se o ato lesivo, o patrimônio da lesante e o prejuízo sofrido pela


recorrente, conclui-se merecer guarida a fixação dos danos extrapatrimoniais.

No tocante aos danos materiais consistente na diária de hotel no valor de R$


R$ 1.358,28 (um mil trezentos e cinquenta e oito reais e vinte e oito centavos) entendo
que o voucher do hotel juntado no evento 01 do PROJUDI não é prova suficiente para
comprovar prejuízo de ordem material tendo em vista que para tanto deveria a parte
autora ter colacionado aos autos as faturas do cartão de crédito com a efetiva cobrança
do valor constante do voucher ou outra prova efetiva de que a mesma de fato despendeu
o valor pleiteado a título de diária de hotel não utilizada em decorrência do cancelamento
do voo pela ré.

Assim sendo, ante ao exposto, voto no sentido de CONHECER e DAR


PROVIMENTO PARCIAL ao recurso interposto pela Recorrente MARIA LAURA MATTOS
DANTAS para fixar os danos morais em R$ 3.000,00 (três mil reais) e manter no mais, os
mesmos termos da sentença objurgada, pelos seus próprios fundamentos. Sem custas
processuais e honorários advocatícios.

Salvador, Sala das Sessões, 07 de abril de 2015.

BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

Juíza Relatora