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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo nº : 0007940-38.2012.8.05.0274
Classe: RECURSO INOMINADO
Recorrente: GOL LINHAS AEREAS INTELIGENTES S A
Recorrido: JOSE ALBERTO SOARES MACEDO
Origem:1ª VARA DO SISTEMA DOS JUIZADOS- VIT. DA CONQUISTA
Relatora: MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

EMENTA

RECURSO INOMINADO. CONSUMIDOR. INDENIZAÇÃO.


TRANSPORTE AÉREO. EXTRAVIO DE BAGAGEM. FALHA NA
PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA
(ART.14 DO CDC). DANOS MATERIAIS . VEROSSIMILHANÇA
DAS ALEGAÇÕES DA PARTE AUTORA QUANTO AO
CONTEÚDO DA BAGAGEM. COMPATIBILIDADE DOS BENS
EXTRAVIADOS LISTADOS COM A FINALIDADE DA VIAGEM.
DANOS MATERIAIS ARBITRADOS NO VALOR DAS NOTAS
FISCAIS ACOSTADAS. DANOS MORAIS IN RE IPSA.
QUANTUM INDENIZATÓRIO QUE DEVE SER ARBITRADO EM
HARMONIA COM OS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E
PROPORCIONALIDADE. SENTENÇA REFORMADA.

ACÓRDÃO

Acordam os Senhores Juízes da 2ª Turma Recursal dos Juizados


Especiais Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia,
MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE - Relatora, CÉLIA MARIA CARDOZO
DOS REIS QUEIROZ - Presidente, LEÔNIDES BISPO DOS SANTOS SILVA, em

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proferir a seguinte decisão: RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO.


UNÂNIME, de acordo com a ata do julgamento. Custas processuais e honorários
advocatícios pelo recorrente, que fixo em 20% sobre o valor da condenação.

Salvador, Sala das Sessões, 24 de Setembro de 2015.

BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE


Juíza Relatora

BELA. CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS QUEIROZ

Juíza Relatora

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2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo nº : 0007940-38.2012.8.05.0274
Classe: RECURSO INOMINADO
Recorrente: GOL LINHAS AEREAS INTELIGENTES S A
Recorrido: JOSE ALBERTO SOARES MACEDO
Origem:1ª VARA DO SISTEMA DOS JUIZADOS- VIT. DA CONQUISTA
Relatora: MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
EMENTA

RECURSO INOMINADO. CONSUMIDOR. INDENIZAÇÃO.


TRANSPORTE AÉREO. EXTRAVIO DE BAGAGEM. FALHA NA
PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA
(ART.14 DO CDC). DANOS MATERIAIS . VEROSSIMILHANÇA
DAS ALEGAÇÕES DA PARTE AUTORA QUANTO AO
CONTEÚDO DA BAGAGEM. COMPATIBILIDADE DOS BENS
EXTRAVIADOS LISTADOS COM A FINALIDADE DA VIAGEM.
DANOS MATERIAIS ARBITRADOS NO VALOR DAS NOTAS
FISCAIS ACOSTADAS. DANOS MORAIS IN RE IPSA.
QUANTUM INDENIZATÓRIO QUE DEVE SER ARBITRADO EM
HARMONIA COM OS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E
PROPORCIONALIDADE. SENTENÇA REFORMADA.

RELATÓRIO

Dispensado o relatório nos termos da Lei n.º 9.099/95.

Circunscrevendo a lide e a discussão recursal para efeito de registro,


saliento que o Recorrente VRG LINHAS AÉREAS S/A, , por meio de seu patrono
devidamente constituído, pretende a reforma da sentença lançada nos autos que
julgou procedentes os pedidos constantes na inicial, por entender que “Resta,
assim, evidenciada a má prestação do serviço pela Requerida, que resultou no extravio
da bagagem da autora, devendo a mesma ser indenizada pelos danos morais sofridos. Os
danos materiais, apesar de listados, não foram todos devidamente comprovados. Assim, consoante
as notas ficais anexa, evento 01, os danos materiais comprovados encontram-se no valor de R$
561,81 (quinhentos e sessenta e um reais e oitenta e um centavos), pelos quais, devem ser
indenizados.

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Insurge-se o autor recorrente, em suas razões recursais, alegando a


que “Caso o passageiro (por opção própria) não declare o conteúdo de suas bagagens (o
que é dever seu), a indenização por furto de seus pertences deverá seguirà regra geral
definida em Lei (levando em consideração o peso), não havendo que se pode transferir a
responsabilidade à companhia aérea quando, na verdade, ela é do próprio passageiro.”.
Apresentadas as contrarrazões,na qual o recorridosustenta a
manutenção do decisium, os autos foram distribuídos à 2ª Turma Recursal,
cabendo-me a função de Relatora.
Presentes as condições de admissibilidade do recurso, conheço-o,
apresentando voto com a fundamentação aqui expressa, o qual submeto aos
demais membros desta Egrégia Turma.

VOTO

Inicialmente, impende delimitar a análise do caso concreto dentro dos


contornos do artigo 333, incisos I e II, do CPC. Nestes lindes, incumbe ao autor a
demonstração do fato descrito na peça vestibular, recaindo sobre a demandada o
ônus da prova desconstitutiva do fato referido.
De outra ponta, o CONTRATO DE TRANSPORTE AÉREO DE
PASSAGEIRO é aquele pelo qual alguém querendo ir, por avião, de um lugar a
outro, convenciona com um transportador levá-lo ao ponto desejado, mediante
preço e condições previamente ajustadas. Por sua vez, o transportador é quem
assume o encargo de transporte por aeronave fazendo a transferência de pessoa
de um lugar para outro, mediante pagamento.
Como bem salientado pelo magistrado sentenciante,
Restara comprovado nos autos que o recorrente adquirira as
passagens aéreas, conforme os documentos juntados no evento 01 do
Projudi, e ao perceber o extravio de sua bagagem, tomou todas as
providências cabíveis, notificando a empresa aérea do ocorrido, através dos
registros e reclamações efetuadas nos canais de atendimento próprios da
empresa, bem como ajuizara queixa junto ao procon. Tal fato, ademais, não

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restara devidamente impugnado pela demandada. Restou patente que a


recorrida incorreu em falha na prestação de serviço, devendo ser
responsabilizada pela situação de desconforto e angústia causada ao
consumidor.

A esse respeito dispõe o art.14 do CDC, in verbis:

Art. 14. O fornecedor de serviços responde,


independentemente da existência de culpa, pela
reparação dos danos causados aos consumidores por
defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como
por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua
fruição e riscos.

A recorrida, ademais, não demonstrou a ocorrência de quaisquer


das causas excludentes de responsabilidade.
Quanto aos danos materiais alegados pelo recorrente, não há
como refutar-se que o conteúdo da bagagem possui determinado valor,
sendo mister a adoção de critérios pautados pela objetividade e
verossimilhança para o seu correto arbitramento. A recorrente alega que
quando da devolução da bagagem, constarara a ausência de alguns objetos.
A recorrida alega por sua vez que, quando da entrega da mala , esta tinha o
mesmo peso de quando foi despachada, todavia não há nos autos
documento comprobatório de tal entrega, e de que no ato a bagagem
efetivamente tinha o mesmo peso.
O recorrido alega que os pertences que constavam da mala
extraviada alcançariam o valor de R$ 4.042,70 ( quatro mil e quarenta e dois
reais e setenta centavos ), todavia, em que pese a declaração firmadas,
acerca do conteúdo da mala, junta notas fiscais no valor de R$ R$ 561,81
( quinhentos e sessenta e um reais e oitenta centavos).

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Com efeito, em que pese a inexistência de critério matemático e


preciso para o arbitramento dos danos materiais sofridos pela recorrente, há
de se atentar pela busca de critérios objetivos para o justo dimensionamento
dos danos havidos. In casu., há de ser mantido o quantum condenatório
fixado a título de danos materiais, tendo em vista a existência de notas
fiscais, verossimilhançada das alegações da parte autora, levando em conta
a compatibilidade dos bens com a finalidade da viagem.

Nesse sentido, se posicionara a jurisprudência, em hipótese


análoga ao caso presente:

CONSUMIDOR. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. VIAGEM


INTERESTADUAL DE ÔNIBUS. BAGAGEM EXTRAVIADA.
PRESTAÇÃO DEFICIENTE DO SERVIÇO. DANOS
MATERIAIS. TARIFAÇÃO. DESCABIMENTO. DANOS
MORAIS. CONFIGURAÇÃO. ARBITRAMENTO.
OBSERVÂNCIA DOS CRITÉRIOS DE RAZOABILIDADE. 1.
Não é possível que norma infralegal, ao prever limitação
tarifária, restrinja a integral reparação do dano causado ao
consumidor. 2. Inexiste mácula na postura da magistrada
sentenciante que, tendo em vista a compatibilidade dos
bens extraviados listados pela parte autora com a natureza
da viagem, bem como diante da ausência de qualquer
irresignação direta da empresa ré contra os valores dos
bens arrolados na referida lista, acolheu o valor indicado
pelo requerente como a extensão do dano material por ele
suportado. 3. O extravio definitivo de bagagem, pela
própria natureza do evento, é capaz de sujeitar o
passageiro a tamanho desassossego que extrapola o mero
dissabor resultante da prestação insatisfatória do serviço

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e atinge seus direitos de personalidade, gerando a


obrigação de o fornecedor compensar a ofensa moral
injustamente impingida ao consumidor. 4. A demonstração
dos danos morais ocorre in re ipsa, isto é, deriva do
próprio fato ofensivo consubstanciado no
desaparecimento definitivo dos pertences pessoais de
propriedade do passageiro, sem que se tenha notícia nos
autos do paradeiro desses bens. 5. É certo que o
arbitramento do quantum compensatório dos danos
morais sofridos deve obedecer a critérios de
razoabilidade, ponderados com prudência os diversos
fatores envolvidos na situação fática em exame para a
fixação da indenização pela afronta perpetrada, de sorte
que a parte ofendida seja satisfatoriamente compensada,
sem que isso implique o seu enriquecimento sem causa
nem signifique a oneração desmedida do ofensor. 6.
Apelação desprovida. (TJ-DF - APC: 20140110202008 ,
Relator: J.J. COSTA CARVALHO, Data de Julgamento:
06/05/2015, 2ª Turma Cível, Data de Publicação: Publicado
no DJE : 19/05/2015 . Pág.: 230)

Os danos morais háo de ser reconhecidos no caso presente ,


tendo em vista a sua natureza in re ipsa.
.
Diante do cenário de extravio de bagagem em viagem, evidente é a
grande dimensão do abalo moral sofrido.
Resta claro a ocorrência de lesão de ordem subjetiva, uma vez que
teve frustradas suas legítimas expectativas, causando desconforto, dissabores e
contrariedades que merecem serem compensados através da indenização e nesse
contexto deve-se observar no tocante ao dano moral, ou melhor, quando se

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reclama uma indenização dessa ordem, o ofendido não esta pedindo um preço da
dor sentida, mas apenas que se lhe outorgue um meio de atenuar, em parte, as
consequências do prejuízo, melhorando seu futuro, superando o deficit acarretado
pelo dano, abrandando a dor ao propiciar alguma sensação de bem estar, pois,
injusto e imoral seria deixar impune o ofensor ante as graves consequências
provocadas pela sua falta. (vide Indenização Por Dano Moral, Revista Consultem
nº 03).
Nesse sentido ensina a jurisprudência:

VALOR DA INDENIZAÇÃO. A questão do extravio (embora


temporário) da bagagem do autor não é controvertida,
cumprindo serem examinados os desdobramentos do fato na
esfera do direito à reparação. Esta Câmara tem entendimento
consolidado no sentido de que os extravios de bagagem,
mesmo aqueles temporários, dão causa ao dano moral puro
e, destarte, merecem ser indenizados. No caso concreto,
tratou-se de viagem de férias para Europa, tendo o apelado
restado desprovido de seus pertences durante todo o período
da viagem, pois a mala foi devolvida um mês após o extravio.
DANOS MATERIAIS. Não se pode indenizar as despesas
decorrentes da compra de bens necessários para o tempo da
privação daqueles transportados, na medida em que o novo
acervo passou (mesmo que a contragosto) a compor a esfera
patrimonial do apelado, o qual detém, na atualidade, os bens
que já transportava (dada a recuperação daqueles
temporariamente perdidos) e os que comprou no solo
estrangeiro. Ausência de desfalque patrimonial que justifique a
condenação da ré a título de danos materiais. DANOS
MORAIS. Relativamente aos danos morais, fato inconteste é
que o autor, em solo estrangeiro e com os planos usuais que
são feitos para situações como esta em liça (férias na Europa),

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viu-se privado de sua mala por toda a extensão da viagem,


uma vez que a bagagem foi devolvida ao autor apenas um
mês após o incidente. QUANTUM INDENIZATÓRIO. A
indenização fixada a título de danos morais, no valor de R$
5.000,00 (cinco mil reais) não merece ser reduzida,
considerando indisponibilidade completa dos bens
selecionados para todo o período de lazer. Quantia que,
ademais, foi fixada abaixo da média praticada por esta Câmara
em situações parelhas. Ônus sucumbenciais
redistribuídos.haja vista o decaimento recíproco das partes.
APELO PROVIDO EM PARTE. (TJ-RS - AC: 70053743159
RS , Relator: Ana Lúcia Carvalho Pinto Vieira Rebout, Data de
Julgamento: 07/08/2014, Décima Segunda Câmara Cível, Data
de Publicação: Diário da Justiça do dia 08/08/2014)

Sobre o tema assinala a profa. Maria Helena Diniz, ao definir o dano,


o que faz a maestria que lhe é peculiar:
dano pode ser definido como a lesão (diminuição ou destruição) que,
devido a um certo evento, sofre uma pessoa, contra sua vontade, em
qualquer bem ou interesse jurídico, patrimonial ou moral.
(Curso de Direito Civil Brasileiro ? Saraiva, V. 07, p. 50).

Portanto:
Provado o nexo causal entre o fato lesivo e o dano moral, ante a
inexistência de culpa da vítima ou de terceiros e não se cuidando de caso
fortuito ou força maior, a indenização é cabível. Responsabilidade
objetiva. Recurso improvido.
(Rec. nº 00156/97 ? VC julgado em 24.09.98 ? in Revista dos Juizados
Especiais ? Tribunal de Justiça do Estado da Bahia p. 56/57).

Ponderando-se o ato lesivo, o patrimônio da lesante e o prejuízo

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sofrido pelo recorrido, entendo que o magistrado sentenciante agiu acertadamente


na fixação do quantum a títuo de danos morais, diante das peculiaridades do caso
concreto, nada havendo que ser reparado no tocante a este ponto.

Assim sendo, voto no sentido de CONHECER E NEGAR


PROVIMENTO AO RECURSO , mantendo a sentença objurgada pelos próprios
fundamentos. Custas e honorários advocatícios pelo recorrente, que fixo em
20% sobre o valor da causa.

Salvador, Sala das Sessões, 24 de setembro de 2015


BEL. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Relatora

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