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50 Coisas que os pais nunca devem dizer aos filhos

Antônio Siqueira

Rio de Janeiro, 2017


Prefácio
Sento-me lisonjeado e muito feliz quando Antônio Siqueira me convidou para
prefaciar este livro. Minha alegria tem dois motivos, os que justamente acabei de citar: o autor e
o livro.
Tenho com ele uma longa história de parceria e amizade. Lembro-me principalmente
da época em que convivemos em Manaus, há algumas décadas atrás, quando ele liderava um
grupo de jovens na igreja da cidade. Para mim, havia uma palavra que o definia muito bem:
“potencial”. Percebia-se naquele jovem um talento em botão, o início de uma carreira bem-
sucedida aos olhos de Deus e dos homens. Eram visíveis nele todos os elementos de um
empreendedor ousado, mas que ponderava os seus caminhos e cuja carreira era alicerçada na
determinação e na fé.
O prognóstico se confirmou, e as suas habilidades não ficaram restritas ao ambiente
eclesiástico. Ele fez — e continua fazendo — incursões bem-sucedidas, como psicólogo,
palestrante e escritor. E, agora, apresenta-nos este livro, que será muito útil a pais e mães.
O objetivo de todos os pais é instruir e criar os seus filhos de maneira que estes sejam cidadãos
de bem, de caráter e com a vida bem-sucedida. E tudo isso deve ser plantado desde a mais tenra
idade. Porém, o desafio é fazer isso de maneira correta e eficaz.
Creio que este livro ajudará muito em como e o que devemos dizer para nossos filhos. Em um
mundo tão violento, onde as crianças estão desprotegidas a todo o tipo de situação, o papel dos
pais é fundamental para que uma criança se torne um adulto emocionalmente saudável.

Este livro vem não só para os pais, mas para educadores e para aqueles que pensam em ter filhos
futuramente. Particularmente, creio que, se as recomendações que constam neste livro forem
observadas e vividas, tenho certeza de que formaremos jovens mais equilibrados e menos
rebeldes. Crianças amadas e orientadas com sabedoria resultam em adultos que formarão
famílias caracterizadas pelo amor e por valores saudáveis, virtudes que levam a sociedade a uma
posição mais pacífica.

Samuel Câmara
Introdução

Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará
dele (Pv 22:6).
A personalidade, o caráter e o comportamento da criança são influenciados por aquilo que ela
ouve dos pais. As palavras dos pais exercem um poder extraordinário sobre a vida dos filhos,
tanto para a formação de uma mente equilibrada, segura e confiante quanto para a destruição da
autoestima. Não devemos incorrer no erro de classificar o efeito das palavras negativas como
“maldição”, “praga” ou “mau agouro”. A força de tais palavras reside na capacidade que
possuem, por si só, de produzir uma estrutura emocional. Elas constituem dados psicológicos,
que aos poucos vão determinando uma crença, um estado mental, um ambiente e uma história de
vida. A autoestima da criança é determinada pelo valor que os pais atribuem a ela, a qual tem
necessidade intensa da aprovação e admiração deles. Por que você precisa estar no aniversário de
seu filho, na plateia que o aplaude, na apresentação da peça escolar, na formatura, nos momentos
que representam uma realização para ele? Para lhe conferir significado, que confirme seu status
de existência, de utilidade e de valorização.
Seu filho será, no sentido psíquico, o subproduto das palavras proferidas por você.
Por isso, cuidado com as frases, afirmações e tudo o que disser a ele, porque o discurso dos pais
é um dos modeladores do inconsciente do indivíduo.
O pai e a mãe representam a sustentação interna do filho. A autoafirmação e a criação
de uma identidade própria têm suas bases na aprovação, no amor e no relacionamento saudável
com os pais. Se você diz, por exemplo, que o seu filho não presta, o impacto dessa afirmativa
será devastador para a mente da criança, cujas consequências poderão acompanhá-la pela vida
inteira. As frases negativas causam fraturas no senso de utilidade que todo ser humano busca
desde pequeno. É como se ele ouvisse “você é imprestável, inútil e desprezível, comparado com
qualquer outra pessoa!”.
Já a aprovação dos pais, expressa em palavras, importa muito para a criança por dois
motivos. Primeiro, porque o desprezo dos pais representa perigo e desconforto físico. Segundo,
no sentido psicológico e emocional, é complicado para a criança manter a confiança em si
mesma se os próprios genitores não a tratam com respeito e dignidade.
O resultado disso é que ela irá reprimir inconscientemente o ódio contra quem lhe dirigiu aquelas
palavras negativas e manifestará o recalcamento – o que ficou guardado – na forma de depressão,
ansiedade, medo, agitação, hostilidade, ódio, violência, agressividade e até de doenças.
Os antigos já tinham noção do poder das palavras. Essa é a razão de encontrarmos na
Bíblia, por exemplo, nomes de pessoas que eram afirmações diárias e moldavam a história do
indivíduo. Isaque, no hebraico, é “sorriso”, “o que causa alegria”. E assim foi a vida de Isaque:
tranquila, sem belicosidade, brigas ou atribulações.
A vida nômade, às vezes, obrigava os donos de rebanho a cavar poços, a fim de
garantir a provisão de água para o gado e para o pessoal. Isaque teve de fazer isso em uma
localidade chamada Gerar, mas outros pastores, já assentados na terra, reclamaram a propriedade
do poço. Isaque não entrou na contenda. Reuniu sua caravana, e foram juntos procurar água em
outro lugar. Outro poço foi aberto, e ali, também, a população local reivindicou seus direitos de
posse sobre a água. Mais uma vez, Isaque evitou o litígio. Partiu com seu gado e seu pessoal para
outra região. Cavou outro poço, sobre o qual ninguém questionou a propriedade, e ali
permaneceu o tempo que julgou necessário (1 Consulte a história bíblica em Gênesis 26:19-22).
O patriarca era todos sorrisos e alegria, não houve guerra em toda a sua história. Tal como seu
pai o chamou, assim ele viveu.
Isaque, no entanto, deu ao seu filho o nome de Jacó, que significa “usurpador”, “enganador”. E
assim foi a vida de Jacó, até Deus lhe mudar o nome para Israel, que significa “príncipe”. Jacó, o
usurpador, enganou seu irmão Esaú e apossou-se indevidamente do direito de primogenitura,
negociando-o por um prato de comida. Disfarçado com as roupas de Esaú e com pele de cabra,
para lhe imitar o corpo peludo, tomou a bênção do irmão quando o pai estava prestes a morrer.
Com o sogro, Labão, teve problemas semelhantes. O nome, ou seja, uma palavra construiu todo
o caráter de Jacó, que correspondia exatamente ao seu significado, pois todos os dias lhe
chamavam “usurpador”.
A palavra tem um poder extraordinário. Mesmo sem intenção de fazer o mal ou de
profetizar um futuro turbulento para os filhos, muitos pais proferem sobre eles as mais terríveis
sentenças.
Para ajudar pais e mães, relacionei neste trabalho coisas que ninguém jamais deve
dizer ao seu filho. Além disso, explico de maneira simples os mecanismos psicológicos que
operam nas palavras negativas e suas consequências. Sugiro ainda o que deve ser dito em
substituição a essas frases.
Já que você é a pessoa que mais influencia a educação de seu filho, uma de suas
múltiplas responsabilidades é garantir-lhe a autoestima e uma vida plena de realizações.
1

"Você puxou ao seu avô!”

Cada ser humano é singular. Não há duas pessoas iguais no mundo, e essa realidade deve
ser levada em conta principalmente quando nos referimos a avós, tios ou irmãos mais velhos. A
estruturação psíquica é diferente em cada pessoa.
Embora a herança genética possa produzir um ser externamente semelhante a um
ascendente, ela não representa a totalidade do novo ser que chegou ao mundo. As experiências e
assimilações culturais que ele irá vivenciar constituirão uma personalidade única, irreproduzível,
onde residirão as diferenças mais notáveis.
Não há cópias de pessoas. Se a clonagem humana um dia se tornar realidade, aqueles que
imaginam um ser humano copiado em todos os aspectos terão uma grande surpresa. O clone
herdará apenas a aparência física da pessoa da qual foi originado: a cabeça, ou seja, a psique será
totalmente diferente. Isso porque o clone viveria em outro ambiente e teria experiências que
jamais teve o ser original. O cuidado materno seria radicalmente diferente. O tempo e o modo de
desenvolvimento se dariam em outras circunstâncias. A alimentação não seria a mesma, podendo
haver, por exemplo, diferença de peso.
A percepção da realidade seria desenvolvida em outro contexto tecnológico. Os
relacionamentos seriam outros. Assim, jamais se produzirá um clone absolutamente semelhante
ao doador da célula-mãe.
Portanto, imprimir na mente de seu filho que ele é igual à outra pessoa, principalmente no
que se refere a qualidades negativas, não é bom nem é verdadeiro.
Não bastasse a impossibilidade científica, essa frase enganosa poderá ter consequências danosas
para a formação da criança.

CONSEQUÊNCIAS

Em primeiro lugar, se seu filho não gosta da pessoa mencionada ficará entristecido, e
a comparação acabará despertando raiva nele. Se, pelo contrário, ele tiver admiração por ela, irá
se sentir ofendido pelo modo pouco lisonjeiro ou hostil em que a pessoa é considerada. Em razão
disso, irá interpretar todas as expressões de desprezo e insinuações negativas dirigidas à pessoa
pela qual tem apreço como endereçadas também a si.
Em segundo lugar, no caso de o familiar citado ser de má índole, ter mal
comportamento, ser agressivo ou criminoso, ficará registrado na mente da criança que é dessa
forma que todos a enxergam. Em consequência disso, uma destas duas atitudes geralmente é
tomada pela criança: passar a odiar o parente mencionado ou esforçar-se inconscientemente para
reproduzir, isto é, pôr em prática aquele comportamento como resposta agressiva aos ofensores –
os pais.
A criança se sentirá, de certo modo, obrigada a ser igual à pessoa a qual está sendo
comparada. Isso acionará um processo psicossomático, porque a necessidade de tal identificação
quase sempre é acompanhada de angústia, sintomas de doenças, temores e fobias.

O QUE DIZER?
Em vez de fazer comparações com algum familiar cuja atitude você não aprecie —
mesmo que com razão — para corrigir um mau hábito de seu filho, prefira dizer algo como: “O
que você fez não está correto. Gosto de você, mas não aprovo essa atitude. Você precisa mudar
este comportamento”.
Se você agir assim, ficará bem claro para seu filho que ele não é um mau-caráter, mas que apenas
se comportou de maneira inconveniente. Fazer a separação entre o ato praticado e a criança em si
é fundamental para um desenvolvimento saudável.
2
"Você não presta e nunca vai dar em nada.”

Uma frase como esta tem peso de maldição sobre a vida de seu filho. Equivale a profetizar para
ele um futuro sombrio, uma vida sem sentido. “Você não presta” é uma afirmação de que a
criança carece de boas qualidades, ou pior, que só possui qualidades ruins. Uma sentença como
essa pode implodir a estrutura emocional da criança. E “você nunca vai dar em nada” é uma
desanimadora previsão de sucessivos fracassos.

CONSEQUÊNCIAS

A criança que ouve seus pais dizerem que ela não possui nenhuma virtude no
presente e nenhuma chance de sucesso no futuro passa a nutrir um horrível sentimento de culpa,
ressentimento, raiva, auto piedade, remorso e revolta.
A partir da adolescência, ela começará a praticar atos de autopunição. Toda tentativa
de autodestruição esconde um grave sentimento de culpa. É como se a pessoa procurasse reparar
a culpa punindo a si mesma.
O adolescente tentará se punir de várias maneiras: atividades de alto risco, bebidas,
violência, velocidade exagerada ao dirigir, drogas que causam destruição e, não raro, constantes
pensamentos suicidas.
Uma menina de 16 anos de idade que atendi com depressão era também soropositiva.
Ela relatou que havia feito sexo sem proteção porque desejava morrer. Seu histórico era de uma
criança que desde os cinco anos de idade ouvia frases negativas de sua mãe.
Acrescente-se a isso o fato de a pessoa passar a acreditar que não é realmente capaz
de fazer nada que seja relevante. Passará, então, a ser guiada pela baixa autoestima e sofrerá com
a solidão e a ansiedade. Uma pessoa assim tem sempre uma percepção negativa da vida. Tomar
uma iniciativa representa sempre uma dificuldade para ela. Em geral, não tem motivação para o
trabalho, para a profissão e nem para atividades produtivas.

O QUE DIZER?

Quando perceber um comportamento reprovável em seu filho ou sua inabilidade em


algum trabalho manual ou intelectual, a melhor atitude é conversar com ele nos seguintes termos:
“Vejo que você não está conseguindo cumprir suas tarefas. Esse seu comportamento precisa ser
melhorado. Vamos conversar sobre isso. Você não pode continuar com essas dificuldades, e sei
que pode superá-las se quiser. Talvez eu não tenha ajudado muito até agora, mas estou disposto a
fazer o que for possível para tirar você dessa situação”.
Esta é uma forma sensata de conversar e aconselhar, fazendo seu filho sentir que é
bem aceito. Você demonstrará interesse pelo bem-estar dele, revelando todo o amor que você
sente. Ele jamais esquecerá essas palavras, que poderão marcar o início de um processo de
mudança. E, quando perceber que ele está melhorando, reconheça isso. Diga-lhe que está
contente com o que você está vendo. Faça elogios. Dê afago e carinho.

"Que menino burro!”

O burro é um animal que tem como única utilidade o transporte de cargas e pessoas. Um
animal que apanha para trabalhar e quase sempre morre abandonado. Dizer que seu filho é um
burro é o mesmo que rebaixá-lo a uma existência infeliz. É dizer que, por mais que ele se
esforce, nunca será reconhecido ou que nunca fará nada de útil na vida.

CONSEQUÊNCIAS
Seu filho, ao ouvir essa frase, irá interpretá-la desta maneira: “Realmente, sou um
ignorante, incompetente e atrasado. Nunca vou ser nada na vida. Vou trabalhar como um animal
de carga só para conseguir um prato de comida e depois serei jogado fora”.
O mecanismo psicológico acionado nesse caso é a repressão. A criança reprime a
essência daquilo que ouve: “Você é burro”. Esse conteúdo reprimido vai para o inconsciente na
forma de raiva, baixa autoestima, desprezo e ódio. Estes, por sua vez, se transformarão num
impulso, e, em algum momento os sintomas da repressão irão aparecer, podendo ser observados
nas atitudes da pessoa.
Inconscientemente, ela começará a manifestar um comportamento estranho —
hostilidade ou timidez — como resposta à ansiedade produzida pelo que ouviu dos pais.

O QUE DIZER?

Se perceber que seu filho não está indo bem na escola, diga-lhe: “Vejo que você anda
disperso, que não está prestando atenção nas coisas como se deve. Você precisa interessar-se
mais pelos estudos. Sei que você é inteligente e capaz, mas não está chegando aonde deveria. É
preciso que você se dedique mais às tarefas e aos trabalhos escolares. Você sempre foi
inteligente. Não sei o que está acontecendo agora, mas é só se esforçar um pouco que as suas
notas vão melhorar”.

4
"Seja sempre o melhor.”

Esse é um estímulo errado e uma motivação totalmente equivocada. Você pensa que está
contribuindo para o desenvolvimento e o progresso de seu filho, mas pode estar incentivando a
formação de uma personalidade egocêntrica e narcisista.
“Você tem de ser o melhor” é uma frase tão comum que a consideramos absolutamente
normal. Contudo, ela encerra um forte estímulo à altivez, à competitividade e à agressão. Para
ser o primeiro, em qualquer competição, é preciso superar os demais concorrentes. Ser o
“número um” requer a capacidade de ultrapassar a todos e de permanecer no topo. Ser o melhor
implica convencer-se de que os outros não são bons. Na vida real, porém, não é assim.
Precisamos entender que há espaço para o sucesso de todos. Fazer amigos e ter aliados é melhor
que ter competidores. A competição esportiva é uma coisa, a vida cotidiana é orientada por
outras regras. No dia-a-dia, precisamos de solidariedade e de companheirismo.
CONSEQUÊNCIAS

Quando você diz que seu filho tem de ser o melhor, está instigando a constituição de
um espírito egoísta. A insistência para que ele vença sempre pode ainda prejudicá-lo de diversas
outras maneiras. A cobrança pode levá-lo à ansiedade, causada pela preocupação constante em
provar que é o primeiro em tudo. Quando não alcança a expectativa projetada pelos pais, a
criança começa a se sentir incapaz. Essa frustração é uma verdadeira fábrica de emoções
negativas e o estágio seguinte possivelmente será a depressão.
Caroline é inteligente. Sempre teve notas acima da média. Foi aprovada em dois
vestibulares. Optou por engenharia, mesmo sabendo que seu forte não eram os cálculos. No final
do primeiro semestre, trancou a matrícula. Motivos: síndrome do pânico e depressão devido à
frustração por não conseguir notas altas nas disciplinas de ciências exatas. A causa de tal
frustração é o fato de ela ter ouvido de seus pais, durante toda a sua infância, que deveria ser
impecável em tudo que fizesse.

O QUE DIZER?

Eis um extraordinário incentivo ao seu filho: “Tenho observado o grande potencial


que Deus lhe deu. Você tem dons naturais e habilidade para muitas coisas. Quem sabe, você pode
melhorar em algumas atividades em que ainda tem alguma limitação. Você não precisa se
comparar nem competir com ninguém, mas poderá realizar muito mais do que fez até agora. O
esforço sempre trará bons resultados, e eles nos deixam satisfeitos. Estou torcendo por você!”.

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"Pare de bancar o palhaço. Comporte-se!”

Há pessoas que são alegres brincalhonas e sorridentes desde pequenas. Nosso mau humor é que
nos impede de perceber que elas são a alegria do ambiente e a causa da descontração em
qualquer lugar. Em muitos casos, tal restrição é subproduto da repressão que há em nós, por
termos sido tratados assim na infância. Sem saber, estamos reeditando o comportamento paterno
que recebemos. Todavia, é bom lembrar que é melhor ter filhos alegres que tristes deprimidos e
solitários.

CONSEQUÊNCIAS

Esse tipo de repreensão equivale a jogar um balde de água fria na vitalidade da


criança, o que pode produzir sentimentos de culpa toda vez que ela disser algo engraçado e fizer
alguém rir. É o tipo de advertência que inibe a iniciativa da criança, uma vez que o bom humor
geralmente está associado a uma mente inteligente e criativa.

O que dizer?
Se notar uma tendência ao exagero nas alegres manifestações de seu filho, diga-lhe o seguinte:
“Gosto da sua alegria e da sua disposição para fazer os outros rirem. Não sei como seria esta casa
sem sua presença. Acho melhor você ser assim do que emburrado, só que, às vezes, você exagera
um pouco. Tenha cuidado em fazer essas brincadeiras somente nos momentos e lugares
adequados”.

"Porque você não termina a lição de casa a tempo igual a todo


mundo?”

Há vários problemas com esse tipo de reclamação. Em primeiro lugar, nem sempre conseguimos
cumprir com as nossas responsabilidades. Em segundo lugar, comparar a criança com todas as
pessoas que existem no mundo é fazer uma exigência desproporcional à sua capacidade. Em
terceiro lugar, isso atinge sua dignidade de ser humano: se ela é a única pessoa que não cumpre
com seus deveres, então é a pior de todas, a menos capacitada.

CONSEQUÊNCIAS

Esse tipo de comentário leva a criança a sentir-se marginalizada, rejeitada em seu meio e na
família. Sugere que ela não está cumprindo suas tarefas por ser incapaz e incompetente. Dessa
forma, a criança irá desenvolver um senso de inutilidade, fazendo com que ela se sinta deprimida
e ansiosa.

O QUE DIZER?

Você pode corrigir seu filho sem lhe causar mágoa e ainda motivá-lo se disser: “Vejo que
você está se prejudicando, estressando-se com esse padrão de constantes atrasos com o dever de
casa. Já percebeu que você é o único a sofrer as consequências? Por isso, gostaria que você
mudasse sua atitude a partir de hoje. Procure ser mais organizado e pontual e não deixe para
depois o que pode ser feito agora. Você vai descobrir como é bom realizar as coisas com
antecedência. Tente! Eu sei que você vai conseguir”. A orientação mais sensata é a que exorta
sem ferir, a que adverte sem hostilizar.

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"Seu irmão nunca cria problemas, diferente de você.”

Sempre haverá filhos mais competentes, mais rápidos, mais espertos ou mais talentosos
que os outros. Isso natural, porém com muita facilidade nos leva a fazer comparações injustas.
Assim, em vez de se fixar nas limitações e incapacidades de seus filhos, concentre-se em
perceber seus pontos fortes e suas qualidades.
No entanto, seja cauteloso. Temos a tendência de projetar nos filhos os nossos desejos
que não foram realizados, tentando fazer com que eles realizem as nossas expectativas. Com
isso, acabamos desrespeitando o potencial e as habilidades naturais deles.
Cada ser humano é inédito. É uma existência irreproduzível. Cada pessoa tem sua
originalidade e possui valor singular. Se nossos filhos não fossem diferentes, o tédio sufocaria a
dinâmica da família; a rotina e a mesmice tornariam a vida um aborrecimento. É muito bom,
portanto, constatar essas diferenças.
O problema está nas comparações indevidas. Fazer distinção entre os filhos nunca foi
uma boa atitude, porque, como já dissemos, os filhos não são produzidos em série. Nem mesmo
gêmeos são iguais. Nos tempos bíblicos, o patriarca Jacó, ingenuamente, não atentou para essa
realidade. Fez de José, seu filho predileto, sem se importar com os ciúmes e ressentimentos de
seus outros onze filhos, o que lhe custou muito caro (Conheça a história em Gênesis 37).
Quantos irmãos não se odiaram a vida inteira simplesmente porque os pais não tiveram a
perspicácia de considerar e respeitar a individualidade de cada um.

CONSEQUÊNCIAS
Comesse comportamento, você está induzindo seu filho a também fazer comparações. Quando
for adulto, ele terá a tendência de se perguntar: “Por que não sou como meu vizinho, que é mais
bem-sucedido? ” Ele irá sempre se comparar com os colegas de profissão ou de classe. A
comparação semeia ódio entre os irmãos: dizer que um filho é mais inteligente que o outro ou
que uma filha é a mais bonita da casa é subestimar e diminuir os demais. A distinção os levará à
competição. E o espírito de competição dentro de casa tende a criar um ambiente hostil e
insuportável.

O QUE DIZER?
Em vez de incentivar a competição entre seus filhos, prefira dizer: “Você é excelente com
esse seu jeito de ser. Criativo e original. Acredito no seu potencial e naquilo que é capaz de fazer,
mas percebo que, às vezes, você faz coisas que acabam prejudicando a si mesmo. Você precisa
pensar nos outros. “Quando pensamos somente em nós mesmos, acabamos machucando outras
pessoas”.

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"Faça tudo com perfeição.”

Ninguém consegue ser bom em todas as coisas. Fazer tudo sempre com excelência e
perfeição é uma tarefa praticamente impossível para o ser humano. Fazer esse tipo de exigência
ao seu filho é o mesmo que dizer que ele será considerado um incompetente e incapaz se não
conseguir concluir com êxito uma tarefa ou fazer algo perfeitamente.

CONSEQUÊNCIAS
A tensão produzida por esse tipo de frase pode levar a criança a querer fazer apenas o que
ela acha que é capaz de fazer com perfeição. O medo da desaprovação irá subtrair-lhe a
iniciativa, fazendo com que ela sinta medo de arriscar. A criança terá em mente que jamais
poderá falhar. Erros e acertos fazem parte do aprendizado, e a criança precisa saber aprender com
ambos. Se Thomas Edison não tivesse errado centenas de vezes antes que a primeira lâmpada
elétrica se acendesse, não estaríamos desfrutando esse maravilhoso invento.

O QUE DIZER?
Encoraje seu filho a simplesmente fazer as coisas. Diga-lhe: “Não se preocupe se falhar:
mesmo quando você não consegue, está aprendendo. Continue tentando. Sei que você vai
melhorar à medida que for treinando, refazendo e tentando novamente”. Outro exemplo: “Gostei
da arrumação que você fez no seu quarto. Não ficou impecável, mas o importante é que você
arrumou”.
Deixar claro que o erro é uma possibilidade propicia um ambiente de coragem e de
iniciativa. Seu filho deve saber que ele não é obrigado a impressionar você nem a qualquer outra
pessoa cada vez que realizar uma tarefa. O ser humano criativo é aquele que é estimulado a
tomar iniciativas.
Contudo, encorajar a independência não implica justificar a irresponsabilidade. A rigidez
é para quem quer criar filhos dependentes a vida inteira. A flexibilidade é o ambiente que permite
aos gênios e às pessoas comuns se manifestarem igualmente.

9
"Você é pequeno demais e muito fraco para fazer isso.”

É tipo de frase que esmorece a criança, rouba-lhe o vigor e subtrai sua energia. Ela está toda
empolgada para ajudar em alguma tarefa e é interrompida pelos pais com a declaração de que é
incapaz, fraca e sem habilidade.

CONSEQUÊNCIAS
A criança sempre acreditará que realmente não consegue realizar nenhuma tarefa um
pouco mais difícil porque é fraca, pequena e incapaz. É certo que existem muitas tarefas que uma
criança não pode realizar pelos motivos expostos, mas ela não pode ser repelida dessa maneira.
O maior problema é que esse pensamento pode acompanhá-la por toda a vida. Se isso ocorrer, a
pessoa sempre verá a si mesma como incompetente para atividades que exijam um pouco mais
de esforço, seja ele físico ou mental. Outra reação é o ódio contra quem o proíbe de dar vazão às
suas iniciativas, que pode se manifestar por meio da rebeldia, ira, medos, ansiedades, introversão
melancolia. Na fase adulta, ela sempre irá reagir — inconscientemente — de maneira negativa
quando alguém lhe disser que não pode fazer alguma coisa.

O QUE DIZER?

Quando seu filho se apresentar para fazer algo além da própria capacidade, diga-lhe:
“Que coragem! Não duvido que você seja capaz de fazer isso, mas eu gostaria que você poupasse
um pouco suas forças para outro momento. Esse trabalho deve ser feito por mim ou por fulano”.
Você pode dizer também: “Obrigado por querer ajudar, mas acho que você fará isso
melhor quando crescer mais um pouco. Por enquanto, deixe isso com o papai e com a mamãe”.
Pode dizer ainda: “Daqui a uns dias, você terá muitas oportunidades para fazer isso. Espere um
pouco mais, que sua vez irá chegar. Estou feliz por saber que você está sempre disposto a
ajudar”.

10
"Você sempre estraga tudo!”

Se a criança é mais travessa, mostra-se inquieta ou tende à hiperatividade, é muito


comum os pais concluírem que ela é o problema. O sentimento de culpa dos próprios pais os faz
projetar sobre a criança as coisas que dão errado para eles. Você já se perguntou por que seu filho
se atrapalha, quebra as coisas, deixa cair tudo, grita mais que o normal, cai com frequência,
machuca-se, chora sem motivo, irrita-se e tenta chamar atenção das pessoas da casa?
Quem de fato está estragando tudo? Pais ansiosos, nervosos ou deprimidos tendem a
jogar nos filhos a culpa de tudo que acontece. Por isso, dizer a uma criança que ela “sempre
estraga tudo” é uma atitude cruel e injusta.

CONSEQUÊNCIAS
A criança começa a catalisar as coisas erradas, e a ansiedade aumenta. Aos poucos, ela
vai se convencendo de que é realmente culpada por qualquer situação indesejável dentro de casa.

O QUE DIZER?
Com todo amor, aconselhe a criança: “Procure ter mais cuidado com o que faz. Vejo que
você é inteligente, gentil e bom, mas algumas atitudes suas precisam ser corrigidas. Preste mais
atenção quando for fazer algo. A tranquilidade e o respeito dentro de casa são coisas boas, mas é
preciso que todos contribuam para isso, e quero que você colabore a partir de agora”. Sabemos
que a autoridade é essencial para manter a ordem e o equilíbrio na família. Seu filho precisa
acreditar que você é essa figura no relacionamento entre pais e filhos. Quando essa autoridade é
exercida de forma gentil e amorosa, os limites são estabelecidos e as ordens são claras e firmes.
Com isso, a criança passa a se comportar de maneira adequada.

11

"Já pedi várias vezes com paciência, mas agora estou zangado.”

Há dois grandes problemas com essa frase. Em primeiro lugar, pedir várias vezes ao filho
que faça alguma coisa é um claro indício de uma educação equivocada. Se você se habituar a
repetir constantemente uma ordem ou um pedido, seu filho também se acostumará a nunca
atender à sua solicitação da primeira vez. Em segundo lugar, dizer que está ficando zangado
ensina a criança a obedecer somente para evitar a ira dos pais e não para cumprir suas tarefas ou
trabalhar em equipe. Nesse caso, o mau humor dos pais será o único motivo para ele realizar seu
trabalho.
CONSEQUÊNCIAS

A criança aprenderá a fazer as coisas apenas sob pressão. Ela só entenderá a


seriedade de um assunto ou de uma situação se a ira estiver envolvida. A comunicação terá
sempre de ser reforçada com um tom de ameaça. A raiva dos pais se tornará sua motivação.
A criança irá formando a ideia de que precisa trabalhar apenas para evitar problemas.
Jamais terá prazer em concluir uma tarefa. Da mesma forma, terá dificuldades para perceber a
importância ou avaliar os benefícios de qualquer trabalho que realize. O patrão ou líder que
costuma ameaçar seus subordinados para fazê-los trabalhar quase sempre é alguém que foi
educado dessa maneira.

O QUE DIZER?

Seja firme ao dizer: “Já deixei bem claro o que você deve fazer. Cada pessoa nesta
casa tem suas responsabilidades. Você não é exceção. Procure se organizar. Deixe as brincadeiras
para depois. Você terá bastante tempo para se divertir assim que terminar as suas tarefas”.
12
"Você me irrita com o seu jeito!”

Pense nisto: o filho que você ama é o objeto de sua irritação. Há duas razões para esse tipo de
comentário: ou você de fato o odeia e quer deixar isso bem claro ou você a ama, contudo projeta
nesse filho todas as suas iras. Se a última proposição for verdadeira, você precisa de terapia. O
filho não pode ser um saco de pancadas, um objeto no qual descontamos as frustrações de nossa
vida. Dizer que ele sempre o irrita é a mesma coisa que dizer: “Você só perturba e o problema
desta casa”. Imagine como se sente a criança convencida de que é o centro de todos os problemas
dos pais.

CONSEQUÊNCIAS

Esse tipo de comentário corresponde a depositar um grande fardo sobre os ombros da


criança, um monstruoso sentimento de culpa. Ela passará a acreditar que tudo o que dá errado
dentro de casa, seja o que for, é por culpa dela. Em contrapartida, quando quiser vingar-se dos
pais repetirá os comportamentos que os irritam, pois sabe que assim os estará atingindo.
A criança nessa situação costuma desenvolver uma baixa autoestima, acompanhada de
sentimentos colaterais: medos, fobias, síndrome do pânico, ansiedade e confusão mental.
Na vida adulta, poderá se mostrar uma pessoa instável, o tempo todo à procura de
autoafirmação e de uma identidade. Terá dificuldade nos relacionamentos e sempre que fracassar
na vida afetiva, tenderá a culpar a si mesma pelo insucesso. Na vida profissional, se mostrará
inibida, pois irá recear ser um desastre para os outros, aonde quer que se faça presente.
O que dizer?
Se seu filho tem sido motivo de constante irritação para você, diga-lhe o seguinte: “Você
é uma criança bondosa, que eu amo muito. Mas, ultimamente, você anda muito inquieto. Tente se
controlar, senão terei de tomar uma providência em relação a isso”.
13
"O homem pode fazer o que quiser a mulher não.”

Essa frase é típica do machismo arrogante, que considera a mulher como tendo uma
personalidade frágil e passiva e reproduz o estereótipo social que subestima o gênero feminino. É
a afirmação equivocada de que o homem pode ter a aventura que quiser, e tudo ficará bem. É o
velho conceito que dá ao homem o direito de adulterar, prostituir-se, deitar-se com quem quiser
sem que nenhuma nódoa moral se apegue à sua existência.

CONSEQUÊNCIAS
Esse tipo de declaração corresponde a uma tentativa de imunizar o rapaz contra a
imoralidade sexual. De acordo com essa mentalidade, o tempo absolverá o homem de qualquer
ato imoral que ele tenha cometido em relação ao sexo.
Nada mais errado para se ensinar a um filho, por dois motivos. Primeiro: você estará
dando a ele uma credencial para o erro. É uma permissão para a imoralidade, para os
relacionamentos sem respeito e para o amor sem compromisso. Segundo: você estará ensinando-
lhe a subestimar as mulheres. Equivale a afirmar que só elas erram e sofrem com seus erros, e
que os homens estão imunes a isso.

O que dizer?
O homem precisa ser ensinado sobre as consequências de seus atos. Ele precisa saber que
tudo o que semear, ele também colherá. Este é o ensinamento que você deve passar ao seu filho:
“Nos seus relacionamentos, jamais prejudique alguém. Nunca tire proveito de mulher alguma,
para depois descartá-la. O homem de verdade, que é amado e respeitado, é aquele que sabe
respeitar a namorada, noiva ou esposa”.
14

"Você nunca terá sucesso!”

Dizer a uma criança que ela nunca será bem-sucedida passar-lhe um atestado de
incompetência. Diante de qualquer coisa que ela queira realizar, as palavras irão ressoar em sua
mente: “Você é um fracassado. Você nasceu para a derrota”. Muitas vezes, acontece de não
conseguirmos concluir uma tarefa a tempo, cumprir determinado horário, entregar o serviço no
prazo, obter uma boa nota numa prova ou ver realizado algum empreendimento. No entanto,
durante nossa existência contabilizamos muitas conquistas. Por essa razão, não devemos desistir
de viver. Existe uma estrada larga e comprida à nossa frente, na qual muitas oportunidades nos
aguardam. Uma batalha perdida não significa o fim da guerra: ainda há muitas possibilidades de
conquista. Por isso, é precipitado dizer ao seu filho que ele nunca terá sucesso.
CONSEQUÊNCIAS
Essa frase negativa cai como uma bomba sobre os ideais da criança, causando-lhes danos
irreparáveis, e é capaz de pulverizar os mais belos sonhos de seu filho.
Isso porque a criança acredita que os pais conhecem sua capacidade e seus talentos.
Diante de tal sentença, irá deduzir que seus pais já consideraram todas as possibilidades e
concluíram que ela não tem a mínima condição de empreender uma carreira bem-sucedida. Na
vida adulta, poderá ser um pai omisso, um profissional tímido, uma pessoa sem iniciativas por
saber que o insucesso já foi decretado há muito tempo. Pessoas com esse perfil têm medo de
passar fome, de não casar, de nunca ter amigos, de se relacionar afetivamente e não se esforçam
para reverter à situação.

O que dizer?
Se seu filho tentou realizar alguma coisa e não conseguiu, diga-lhe: “É só um pequeno
contratempo. Vamos superar isso logo” ou “Vá em frente. Quando uma coisa não dá certo de um
jeito, temos de tentar de outro”. Também não se esqueça de lhe dizer que ele nasceu para ser um
vencedor.
15

"Parece que nada dá certo para nós.”

Essa declaração é própria de pais que se sentem derrotados. É a afirmação mais deprimente
que se pode fazer diante de um filho. Trata-se de uma demonstração de auto piedade,
ressentimento e negativismo. É a crença de que tudo conspira contra nós. O efeito dessa atitude
pessimista na mente da criança é devastador, porque ela precisa de um modelo de autoafirmação,
otimismo e coragem.

CONSEQUÊNCIAS
A criança é contagiada pelo pessimismo do ambiente, que irá produzir um estado de
fracasso. Será subtraído tudo que há de belo em sua perspectiva de vida. Seus objetivos ficarão
confusos, e ela tenderá a imaginar que não adianta tomar iniciativas nem fazer planos, pois tudo
resultará em fracasso.

O que dizer?
Se a família estiver enfrentando um momento difícil ou alguma frustração, tranquilize seu
filho da seguinte maneira: “Nem tudo sai do jeito que a gente pensa, porém sempre podemos
tirar alguma coisa boa da situação. Podemos aprender para não errar novamente. Podemos
ganhar experiências que irão nos ajudar no futuro. Nunca se esqueça de que sempre há algo de
bom em tudo de ruim que acontece”. Vale lembrar também as sábias palavras da Bíblia Sagrada:
Todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus (Rm8:28).
16
"Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.”

Esse adágio popular soa aos nossos ouvidos como um sábio conselho, mas não é. O
empreendedor aposta na possibilidade de alcançar mais que dois pássaros de uma vez. Ele sabe
que aquilo que tem nas mãos está seguro, mas sabe também que pode alcançar muito mais.
Assim, não teme correr um risco calculado. Pode até não dar certo, mas existe a possibilidade de
dar. O problema com a frase em questão, considerada uma pérola de sabedoria é que ela produz
incerteza. E sabemos que a incerteza conduz ao medo. O psicólogo Richard Davidson, da
Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, publicou um excelente estudo sobre o medo
condicionado — o processo pelo qual uma coisa, embora em si mesma não represente uma
ameaça, simboliza sempre algo assustador por estar associada a alguma palavra negativa em
nossa mente.
Quando tais pavores são induzidos, o medo condicionado pode perdurar por muito tempo.
Como poderá alguém ter ousadia para enfrentar as lutas de um negócio próprio se pretende agir
somente com base na certeza absoluta? Não são poucos os que desejam mudar de emprego ou
pedir as contas para se tornar patrões, mas na hora aparece o pensamento: “Mais vale um pássaro
na mão do que dois voando”.
Essa frase tem o efeito de um freio de mão puxado na alma da pessoa, sempre impedindo
suas iniciativas para novos projetos e oportunidades.

CONSEQUÊNCIAS

A criança ensinada a agir apenas com base na segurança absoluta pode se transformar
naquele adulto que fica preso a um único emprego de baixa remuneração por longos anos, sem
ter coragem de se arriscar a procurar outro com medo de perder os dois. Irá morar na mesma
cidade a vida inteira, sem jamais se dispor a ir para outro lugar em busca de novas alternativas de
vida e de renda. Irá casar-se com a primeira pessoa que namorar, mesmo sabendo não ser a ideal,
por medo de morrer solitário. Perderá muitos negócios — os mais rendosos — apenas por haver
uma possibilidade mínima de não darem certo.
Consequentemente, deixará passar todos os cavalos encilhados e não os montará,
com medo de que a sela não seja segura ou que o cavalo seja bravo demais para permitir a
montaria. Será, portanto, um adulto cheio de dúvidas e indeciso.

O que dizer?

Em vez de ficar recitando o adágio da insegurança, diga ao seu filho: “As pessoas
fazem a própria sorte. A vida é construída com falhas e acertos. Não podemos ter a garantia
absoluta de que tudo vai dar certo, por isso, em algum momento, você precisará ter coragem e
arriscar um pouco”. Prefira repetir outro provérbio: “Quem não arrisca, não petisca”.

17
"A vida é um castigo!”

Quem afirma que a vida é um castigo vê no sofrimento uma virtude. São pais que,
por terem sido maltratados, quase sempre por pais sádicos, acreditam que nada na vida é obtido
sem sofrimento. O castigo serve para purgar os sentimentos de culpa que carregam desde a
infância.
Tudo na vida dessas pessoas é considerado pela perspectiva do sofrimento, por isso
interpretam a vida como uma luta com constantes sofrimentos em uma guerra sem fim. Acham
que a vida nos castiga cobrando o aluguel do viver. Para elas, a vida sempre é amarga, cinzenta e
difícil. Não conseguem celebrar os pequenos sucessos e vitórias, até porque para elas não existe
celebração, apenas castigo.
Assim, passam ao filho o lema de sua própria vida, na verdade, reeditando o que ouviram
na infância. Em geral, os pais que agem dessa maneira foram crianças programadas para
conseguir afeto, carinho, alimentação, brinquedos e tudo o mais que desejassem e necessitassem
à custa de muito choro, insistência e sofridas negociações. Sem dúvida, são pessoas de choro
fácil — a declaração habitual de suas necessidades e conflitos. Na maioria das vezes, nem estão
expressando um estado de sofrimento, apenas apresentando uma senha para obter o que desejam.
A exibição do sofrimento é um passaporte para quase tudo na vida deles.

CONSEQUÊNCIAS
Convencer seu filho de que a vida é um castigo irá imprimir nele um sentimento
masoquista. Ele verá o mundo como um ambiente hostil e agressivo. Jamais exercerá sua
profissão com prazer — ela também será um castigo imposto pela vida. Aprenderá a ser
resignado no sofrimento, sem procurar alternativas para superar as dificuldades, já que sofrer faz
parte da existência humana. Sua mente estará sempre voltada para a amargura.
Seu filho se tornará uma pessoa excessivamente séria, angustiada, achando que tudo está
contra ele.
Esse modo de encarar a vida, no entanto, nem sempre será evidente. O indivíduo
melancólico pode disfarçar seus sentimentos. Para escapar da tristeza, tentará se mostrar alegre
ou se entregará a uma atividade hipomaníaca*. Ele também terá a tendência de se comparar com
aqueles que vivem bem e felizes, o que lhe dará certa satisfação, pois considera o sofrimento
uma coisa nobre. Verá o sofrimento como um mérito que, junto com a tendência de refletir sobre
a amargura da vida terrena e a profunda necessidade de ajuda, o levará a buscar refúgio no
ostracismo ou no trabalho compulsivo.

_________________________________
* Elevação ligeira, mas persistente de humor, da energia e da atividade, associada em geral a um sentimento
intenso de bem-estar e de eficácia física e psíquica.

Seu pessimismo diante de todas as coisas encerrará certo fanatismo pela tragédia. Ao
mesmo tempo em que terá prazer no fracasso, será incapaz de desejar algo de bom para os
outros. Enfrentará a vida por meio da dependência e do auto depreciação. O sofrimento que atrair
sobre si servirá para justificar suas exigências de afeto, controle e reparação.

O que dizer?
Em vez de ficar repetindo o mantra do masoquismo, diga ao seu filho: “Há momentos na
vida em que enfrentamos situações de sofrimento, mas a vida é um presente de Deus e é muito
preciosa, por isso, devemos sempre celebrar os bons momentos que ela nos oferece”. Diga
também: “A vida é um banquete!”.
18

"Nunca dê um salto maior que a perna!”

Quando você faz essa afirmação, está dizendo que seu filho não pode arriscar nada na vida, que
temos de medir o tamanho dos passos, não a estratégia do salto. É um provérbio antigo,
semelhante àquele mencionado no capítulo 16, e tem sua importância para chamar a atenção de
quem é precipitado em suas atitudes. Contudo, é inadequado para ensinar o filho a ser
empreendedor.
CONSEQUÊNCIAS
A criança aprenderá que nada pode ser feito sem que primeiro seja calculado. É como dizer:
“Concentre-se nos problemas, não em como resolvê-los”.

O que dizer?
A exemplo do que recomendamos no capítulo 16, é muito melhor citar este outro provérbio:
“Quem não arrisca, não petisca”. Todo empreendedor sabe que muitas vezes precisa ir além do
que é permitido pelos seus recursos. Ele traça uma estratégia, olha para além do córrego e se
concentra no ponto da outra margem que o pé irá tocar. Proponha a seguinte questão ao seu filho:
“O que você faria se tivesse pernas curtas e precisasse pular um abismo? ”

19

"Duvido que você será alguém importante quando crescer.”

Você está apostando que seu filho não terá sucesso na vida. De acordo com essa
expectativa, ele será um fracasso na escola, um péssimo profissional, alguém de caráter duvidoso
e tudo aquilo que você pensar sobre ele. Essa afirmação tem o poder de destruir a autoconfiança
e o senso de identidade de quem a ouve. É como lhe tirar o chão firme debaixo dos pés. É uma
assertiva com poder de flecha envenenada.
CONSEQUÊNCIAS
Além do impacto da dor, o coração da criança ficará contaminado com o negativismo. Ela
não terá força emocional e psicológica para resistir às dúvidas e opiniões dos pais. Por isso, irá se
defender e atacará com a passividade. A frase em questão tem força de lei, e a criança aceitará a
sentença como um destino inexorável.
Na vida adulta, quando surgirem os problemas, ela pensará que não há solução. Quando
tiver de enfrentar algum obstáculo aos seus planos, irá considerá-lo intransponível e diante do
confronto, já se verá derrotada. Ao enfrentar as lutas, não encontrará forças e verá todas as
batalhas como perdidas.
O que dizer?
Substitua essa expressão negativa por uma que traga motivação. Afinal, você estará
contribuindo para o bem-estar de seu filho. Diga-lhe, por exemplo: “Sei que você um dia vai ser
alguém muito importante!”. Pesquisas indicam que as pessoas mais bem-sucedidas na vida
costumavam ouvir palavras que descreviam exatamente aquilo que elas se tornaram.
20

"Você ainda vai me matar!”

Há pais que costumam dizer ao filho: “Você ainda vai me matar! Ainda vou morrer por isso!”,
um caso típico de chantagem emocional, um meio de exercer pressão sobre o filho a fim de obter
o que desejam. A chantagem emocional é aplicada com algumas variantes, por exemplo: “Se
você não fizer isso é porque está querendo acabar com minha vida”, ou ainda “Se você não fizer
o que estou pedindo, vou acabar adoecendo. Quero ver o que você vai fazer se isso acontecer”.
Isso é a terceirização do sentimento de culpa. É uma maneira sutil de manipular as pessoas e
ensinar a arte de distorcer as emoções.

CONSEQUÊNCIAS
Você está produzindo em seu filho mais sentimento de culpa do que ele já possui como
ser humano. O relacionamento entre vocês ficará cada vez mais tenso, e o clima de hostilidade se
estabelecerá. A criança tenderá a fazer mais coisas erradas para punir e castigar os que lhe
atormentam, no caso, os pais.
Na adolescência, fase de maior tensão entre pais e filhos, inconscientemente o filho
tentará antecipar a morte dos pais com atitudes que lhes inflijam dor e mais sofrimento. Na vida
adulta, será um chantagista de carteirinha. Dirá, por exemplo, à namorada: “Você está me
fazendo sofrer. Não sei o que vai acontecer se você não se casar comigo”.
O que dizer?
Se perceber nas atitudes de seu filho algo que esteja machucando você, diga-lhe: “O que
você está fazendo está nos afetando, porém vai fazer mais mal a você. Com essa atitude, você
está agredindo a si mesmo e será o mais prejudicado”.

21
"Deus não gosta disso!”

Essa frase gera na mente da criança uma imagem distorcida de Deus. Ela tenderá a
imaginar um Deus irado, vingativo e mal-humorado, sempre com o dedo em riste para condená-
la por pequenos erros. Jesus, no entanto, disse: Deixai vir a mim os pequeninos, porque dos tais é
o Reino de Deus (Mt 19:14). Ele também declarou: Os sãos não precisam de médico, e sim os
doentes (Mc 2:17). E quanto a todas aquelas afirmações de que Deus é amor? Por exemplo, em
João 3:16 está escrito que Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito,
para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna e Romanos 5:8 diz que
Deus prova o Seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.
Com certeza, apresentar Deus daquela maneira a uma criança não é a coisa mais sábia a fazer.

CONSEQUÊNCIAS
À medida que cresce, a criança vai perdendo o desejo de se relacionar com Deus. Muitos
se tornaram céticos e até mesmo ateus por causa das afirmações que ouviram a respeito de Deus.
Karl Max, Charles Darwin e outros ateus famosos eram filhos de pais cristãos que lhes
apresentaram um Deus irado e vingativo.

O que dizer?
Sempre que seu filho fizer algo errado, em vez de apresentar Deus como carrasco diga o
seguinte: “O que você está fazendo é errado. Precisamos conversar sobre isso. Existem regras
aqui, e você as conhece. Uma criança inteligente como você já tem idade para saber que isso não
é bom. Se repetir, terá de sofrer as consequências”.
Se ele reincidir, aplique o castigo que prometeu. A criança precisa de ordem para
organizar seu mundo interno e se sentir segura. Os pais têm a obrigação de impor limites aos
filhos.

22
"Você está de castigo. Vá para o quarto orar!”

É inadmissível que alguém castigue o filho com oração. A oração é a comunicação


com Deus. É um momento especial que passamos na presença do Criador. Orar é a conexão mais
espetacular e instantânea que estabelecemos com nosso Pai do Céu. Quando você faz da oração
um castigo, está dizendo ao seu filho que ela não passa de uma penalidade, que é um sofrimento
imposto por Deus e que só serve para quem anda errado.

CONSEQUÊNCIAS
Essa forma de castigo irá formar na cabeça da criança a ideia de que a oração é uma
atividade chata, deprimente e punitiva. Seu filho irá considerar Deus um tirano que o castiga, um
carrasco que deseja condená-lo, um déspota que sente prazer em vê-lo humilhado, e não o Pai
amoroso que na verdade Ele é. Na vida adulta, inconscientemente, a desprezará e jamais terá um
momento agradável de oração. Pelo contrário, irá sempre achá-la cansativa e insuportável.

O que dizer?
Em vez de impor esse tipo de disciplina equivocada, pergunte ao seu filho como ele se
sente fazendo tal coisa. Pergunte também: “Você acha que isso está certo? Tem certeza de que
não está prejudicando outras pessoas e a você mesmo com essa atitude?”.
Se for necessário, suspenda algum privilégio. Diminua a mesada, proíba um passeio ou
suspenda temporariamente as brincadeiras com os colegas como forma de fazê-lo refletir sobre a
situação.

23
"Se apanhar na rua, vai apanhar de novo quando chegar em
casa! ”

Talvez sua intenção seja evitar que seu filho se envolva em brigas na escola ou na rua,
mas com certeza esse não é o melhor caminho. Há no mínimo três equívocos nessa exigência.
Primeiro: você está induzindo seu filho a pensar que, se um dia entrar em uma confusão,
para sair vitorioso terá de machucar seu oponente até ele perder a ação.
Segundo: você não está ajudando seu filho a evitar problemas, apenas ordenando que ele
não perca nenhuma briga. E se perder, você jamais ficará sabendo, porque ele não vai lhe contar.
Terceiro: estará incutindo na cabeça de seu filho que, se ele sofrer algum dano ou alguma
perda lá fora, nos embates da vida, será merecedor de castigo e enfrentará hostilidade em casa.

CONSEQUÊNCIAS
Quando adulto, sempre que tiver prejuízo nos negócios ou cometer algum erro, se fará
omisso ou acabará agredindo o cônjuge e os filhos para se punir pelas derrotas. Terá vergonha de
compartilhar os insucessos e de pedir ajuda a alguém, além disso, considerará formas
inadequadas para vencer. Acreditará que, se o mundo é hostil, o lar é ainda pior, e estará
habituado a simular, mentir e distorcer os fatos, com medo de ser castigado.
O que dizer?
Aconselhe seu filho: “Evite confusão com outras crianças. Lembre-se de que brigar,
xingar e insultar são atitudes de pessoas ignorantes e sem argumentos. Já o diálogo é próprio de
quem é inteligente”. Diga também: “Seja sempre pacificador”, sem perder a firmeza nem a
tranquilidade. E ainda: “Se algum dia você for insultado ou perseguido por alguém na escola, no
parque ou em qualquer lugar, conte para mim”.
24

"Vou contar para o seu pai quando ele chegar!”

Eis uma frase, dita por muitas mães, que cria no filho uma perspectiva ruim da figura paterna,
substituindo o amor e o respeito pelo medo. Além disso, você está se desvalorizando diante do
homem como mãe e mulher e desqualificando sua autoridade de genitora. Está passando a ideia
de que somente o pai é capaz de resolver os problemas em casa.

CONSEQUÊNCIAS
A criança ficará ansiosa e estressada com a chegada do pai, em vez de recebê-lo com
alegria. Quando crescer, irá subestimar o papel da mulher e terá desprezo pela figura feminina.
Ela sempre incluirá em seu discurso figuras de autoridade, a fim de referendar suas
ideias. Se ocupar a posição de líder, estará mais para inspetor que para mentor e motivador. Será
o tipo de profissional que tratará os subordinados com ameaças. Não se espante se ele proferir
frases como esta: “Mulheres, talheres, colheres e outros objetos de cama e mesa, calem a boca!”.
O que dizer?
Na ausência do pai, a mãe precisa manter a ordem, como o pai faria se estivesse presente.
Para estabelecer o controle da situação não é necessário ameaças, chantagem ou a menção de
pessoas de quem a criança tenha medo. Para impor autoridade, basta afirmar: “Não faça isso,
pois não é correto!”.
25

"Se você não se comportar, a polícia vem lhe prender!”

Fazer as coisas certas é uma regra que deve ser observada, porém invocara
autoridade policial para intimidar a criança é um equívoco. Será que você não tem autoridade
sobre seu filho? Não consegue fazê-lo se comportar? Está tão fragilizado perante ele que precisa
da ajuda da polícia? Apelar para o exército, o delegado ou a viatura policial para controlar uma
criança denota falta de firmeza e de serenidade.
Invocara polícia, o bicho-papão, o velho que devora criancinhas ou o monstro de sete
cabeças é uma forma de destruir a autoconfiança e a noção básica de segurança que seu filho
precisa ter. O medo desestabiliza o ambiente de apoio que a criança precisa para se desenvolver,
aprender, explorar, imaginar, brincar, levando-a a um estado de permanente tensão. Esse tipo de
ameaça também restringe a capacidade de se relacionar com as pessoas e de enfrentar com
tranquilidade outras situações.

CONSEQUÊNCIAS

Se a criança estiver incomodada com alguma coisa séria, sob a ameaça da polícia irá
reprimir o choro, controlar-se e ficar quieta. Criará a ideia que polícia existe para fazer mal, para
bater, matar e prender. Terá uma visão distorcida da ordem pública e da autoridade. Odiará
qualquer um que use farda ou uniforme e tudo que represente autoridade, pois são para ela a
imagem do mal. A maioria dos delinquentes ouviu essa frase de seus genitores. O
comportamento violento é quase sempre uma contestação a tais ameaças.
Certa vez, entrevistaram dez assassinos de policiais no Rio de Janeiro, e descobriu-se que
nove deles tinham raiva da polícia desde pequenos.

O que dizer?
A criança precisa de um reforço positivo para ter responsabilidade e uma conduta irrepreensível.
Diga-lhe o que você espera dela e o que fazer para atingir esse objetivo. mais fácil fazer seu filho
interromper um ato irreverente com um gesto que com a intervenção de terceiros. Estabeleça a
ordem quando necessário. Toque a criança com carinho. Segure-lhe as mãos, olhe-a nos olhos e
diga com firmeza e serenidade: “Você agora vai parar com isso. Não é assim que se faz”. Desse
modo, você obterá a atenção da criança, bem como sua obediência.
26
"Pau que nasce torto, morre torto.”

Isso é determinismo, a filosofia que afirma que as pessoas já nasceram destinadas para o
fracasso ou para o sucesso, para a bênção ou para a maldição, para a salvação ou para a perdição
eterna, e que nada pode ser feito para alterar seu destino. É uma frase que diz não existir escolha
e nem livre-arbítrio, o que é sempre será. Os membros de castas da Índia, por exemplo,
alimentam essa crença.
CONSEQUÊNCIAS
A criança passará a acreditar que seu destino já está traçado, e que é imutável e inflexível.
Na vida adulta, irá se conduzir por este paradigma, rejeitando qualquer nova ideia e maneira
diferente de fazer as coisas. Aceitará todos os fracassos e insucessos como sendo a força
inexorável do destino.
O que dizer?
Em vez de ficar repetindo o provérbio equivocado, diga ao seu filho: “Não existe destino
predeterminado. O que existe é um propósito de Deus para cada pessoa, e esse propósito é o que
Deus faz quando você cumpre a sua parte e a vontade do Senhor. A vida é cheia de escolhas,
precisamos ter discernimento para optar pelo melhor”.

27
"Agora não dá, estou muito ocupado.”

Quando chegamos à casa, quase sempre é com a ideia de descansar ou de concluir trabalhos
inacabados de outro dia. O problema é que atividades domésticas, televisão, revistas e jornais e
outros afazeres roubam tempo que deveríamos dedicar aos nossos filhos. E, quando eles
solicitam nossa atenção, temos a tendência de dispensá-los, com a desculpa de que estamos
ocupados.
CONSEQUÊNCIAS
A criança que não consegue a atenção dos pais se sente desvalorizada. Não raro, pais
ausentes são a causa do desequilíbrio emocional do filho. A personalidade histriônica* é própria
de indivíduos que sentiram a ausência da figura paterna na infância. Ataques de medo, acessos
irracionais de raiva, sentimentos de culpa e ódio de si mesmo procedem da mesma fonte.

_____________________________________________
*Tende à dramaticidade e busca atenções para si; também conhecido como “carente-afetivo”.

O que dizer?
Se você não puder atender ao seu filho no momento em que ele pedir atenção, diga-lhe:
“Gosto muito de brincar com você, mas agora preciso ir ao trabalho’ ou ‘Agora preciso concluir
esta tarefa’. Então, vamos brincar outra hora. Prepare tudo para nossa brincadeira”. E cumpra o
acordo feito com ele.
Programe alguma atividade com seu filho, para determinada hora do dia ou da noite.
Brinquem ou façam alguma coisa juntos. Por exemplo, crianças gostam de brincar de “cabana”.
Faça uma barraca com um lençol no meio da sala e “acampe” ali. Use a criatividade, seu filho
jamais irá esquecer. Sua carreira e seu trabalho não podem roubar de você o privilégio de
desfrutar a companhia dos filhos.

28
"Você é doido, menino? ”

Doido é alguém que sofreu um surto psicótico, ou está no manicômio, em uma clínica de
tratamento psiquiátrico, ou que vive perambulando pelas ruas. Não pode haver comparação mais
infeliz, pois dizer a uma criança em desenvolvimento e, portanto, inteligente que ela está doida é
um erro grave.

CONSEQUÊNCIAS
A criança pode se convencer de que é mesmo desatinada ou ruim da cabeça. Isso lhe servirá para
duas coisas: justificar todos os seus atos equivocados e impor suas vontades, já que todos dizem
que ela é doida mesmo.
O que dizer?
Quando seu filho praticar um ato que extrapole o comportamento normal de uma criança, diga-
lhe: “Você não está agindo com bom senso. Tudo que a gente faz deve ser com equilíbrio e
cautela, até mesmo as brincadeiras, e sei que você é capaz de agir direito”.

29
"O que você tem na cabeça?”

Essa frase é pronunciada quando a criança comete um erro que causa grande irritação aos pais.
Quase sempre é acompanhada da sugestão de que ela, em vez de massa cerebral, possui outra
coisa na cabeça: minhoca, “titica” de galinha ou mesmo um espaço vazio. É outra maneira
inadequada de censurar os erros do filho. Frases como essa depreciam a inteligência da criança.
Equivale a dizer que ela é burra e não pensa.

CONSEQUÊNCIAS
A criança irá assimilar a ideia de total incapacidade para lidar com a realidade da vida.
Tenderá a acreditar que realmente não sabe pensar nem fazer as coisas corretamente.
Na vida adulta, poderá sofrer de baixa autoestima ou conviver com um senso permanente
de inutilidade. Esses sentimentos, em geral, resultam em um comportamento depressivo e
melancólico.

O que dizer?
Quando seu filho praticar um ato que contrarie o bom senso, diga-lhe: “O que você fez
agora não está correto, mas sei que você pode fazer o que é certo. Todos nós nascemos com
muitos talentos e habilidades, e você deve desenvolver o seu”.
30
"O que os vizinhos vão pensar?”

Essa frase pode ter algumas variantes: “O que seus amigos vão pensar?”; “O que fulano vai
dizer?”. É um claro indício de que você é orientado pela cabeça dos outros, a opinião alheia vale
mais que a sua. Ao expressar essa preocupação diante de seu filho, você o está programando para
pensar que os conceitos e valores familiares não são tão importantes e que a interpretação alheia
é a que conta.

CONSEQUÊNCIAS
A criança passará a vida toda tentando ajustar sua imagem e seu comportamento à expectativa
dos outros. Deixará muitas vezes de tomar boas iniciativas por temer a censura de amigos,
vizinhos e parentes. No trabalho, será inibido e sem iniciativa, sempre temendo ser condenado
por suas atitudes.
O que dizer?
Se você perceber que o comportamento de seu filho pode gerar crítica de terceiros, diga-lhe: “A
situação é séria, mas sempre estarei do seu lado. Sempre que tomamos uma atitude, temos de
arcar com suas consequências, mas quem faz a coisa certa não tem nada a temer”.
31
"Pare de chorar à toa, ou eu vou lhe dar motivo! ”

Se a criança está chorando, ela está emocionalmente abalada por alguma coisa. Dizer que suas
emoções são irrelevantes e que ela não tem motivos para chorar é anular os sentimentos dela.
Além disso, quanto mais hostis vão ficando essas ameaças, mais possibilidade há de que o
comportamento do indivíduo seja paralisado pela ansiedade. Isso o incapacitará a lograr os
objetivos que tem em vista. A auto realização também pode ser bloqueada pela carência de afeto
e de motivação. A tensão interior causada pelo medo de ser castigado sem justa causa afeta o
organismo, o raciocínio e o equilíbrio emocional. O choro é o desabafo irreprimível. Outros
sentimentos são mais fáceis de controlar, mas não a denúncia do choro.

CONSEQUÊNCIAS
A criança aprenderá a reprimir e esconder suas emoções e se especializará na arte da
simulação. Será incutida nela a ideia de que não podemos expressar nossos sentimentos, que é
mais apropriado demonstrar o inverso de nossas emoções: a dor não está sendo sentida, o medo
não apavora, a tristeza é disfarçada pelo sorriso amarelo. O amor será substituído pela
compaixão, a compaixão pela indiferença, a celebração pela fleuma, a pressa pela aparente
calma. Mas quem será capaz de manter esse comportamento o tempo todo? Como poderá o
indivíduo ser sempre dividido, esquizofrênico, tentando ser o oposto do que é?
O que dizer?

Aproxime-se de seu filho e pergunte: “O que está acontecendo com você? Por que está chorando
assim? Depois que você parar de chorar, quero saber o motivo desse desespero”. Ouça com
atenção o motivo do choro de seu filho. Sua proximidade dará segurança a ele, e a ansiedade
cairá para o nível normal. Na maioria dos casos, a melhor atitude é permitir que a criança chore.
O choro alivia a tensão, atenua a raiva e minimiza a angústia.
32
"Em boca fechada não entra mosquito!”

Essa frase é paralisante, uma anestesia para o espírito empreendedor, porque subtrai a
participação e a criatividade. Parece ensinara prudência, mas, no fundo, está desestruturando a
capacidade da criança de ser ousada e corajosa. De fato, há situações em que é melhor ouvir que
falar, mas não podemos impedir a verbalização, a comunicação. Muitos problemas se desatam ao
assumira forma de palavras.
Impedir a voz da criança é debilitá-la, pois ela só começará a adquirir uma configuração mais
densa e definida se puder expressar sua personalidade. A fala é uma expressão antropogenética,
porque ajuda na constituição de um ser humano mais saudável.

CONSEQUÊNCIAS
A criança que não se pronuncia tende a se retrair e a manter sua existência em segredo. Evitará
contatos e conversas, com receio de que alguém a censure. Muitos traumas são resultados de
ideias que não foram verbalizadas. Quem não pode falar acaba guardando muitas coisas que se
transformam em monstros aterradores. Portanto, você está plantando em seu filho um paradigma
de fracasso.
Na vida profissional, quem foi ensinado a calar-se irá deparar-se com oportunidades de opinar e
de sugerir, no entanto se mostrará omisso, pois aquela voz lhe estará soando no inconsciente:
“Em boca fechada não entra mosquito”. Ele estará programado a nada dizer. Com certeza, irá
impor regras semelhantes aos filhos: “Criança aqui não tem opinião”; “Quando os adultos falam,
as crianças se calam”. E se alguém assim vier a ocupar um cargo de liderança, será que permitirá
opiniões de outras pessoas?

O que dizer?
Moderação e precaução são atitudes louváveis, porém não nos impedem de intervir quando a
ocasião exige. Aconselhe seu filho: “Tenha cautela, mas nunca deixe de fazer o que for preciso
quando surgir a oportunidade”. Ensine seu filho a ser prudente, mas não incentive a omissão. A
criança não é muda. Ela fala e desperta o falar. A criança é logos, irradia o verbo e dá expressão
aos sentimentos. Deixe-a falar, e na vida adulta saberá dizer com sabedoria o que é para ser dito.
33

Não fale com estranhos!”

Parece ser uma precaução sábia. Acontece que nossos filhos pequenos não andam sozinhos
pela rua nem costumam se encontrar com estranhos por aí. Além disso, quando alcançarem idade
suficiente para andar desacompanhados, terão de se comunicar com as pessoas. Essa frase cria na
mente da criança a ideia de que todas as pessoas que não conhecemos são perigosas e malignas.
Consequências
A ordem de não falar com estranhos programa o cérebro da criança para não gostar de
contatos. Quando crescer, terá enorme dificuldade para se relacionar com pessoas que não
conhecem. Já imaginou uma pessoa tímida em um departamento de vendas de uma empresa? Já
observou como as pessoas se comportam dentro de um elevador com gente desconhecida? É um
silêncio agressivo. Alguns ficam olhando para o mostrador dos andares, e os números parecem
levar uma eternidade para mudar. Por que não conversam? Porque não podem falar com
estranhos.
E que dizer dos passageiros de ônibus ou de avião, sentados juntos sem ao menos se
cumprimentar? Já vi pessoas passarem horas em salas de espera de clínicas e consultórios sem
emitir uma palavra, por não conseguirem conversar com desconhecidos. Por trás desse
comportamento, pode estar um pai ou uma mãe que lhes passou a ideia de que os estranhos são
suspeitos e violentos. Imagine a dificuldade que seu filho encontrará nas várias atividades
profissionais que exigem diálogo permanente.

O que dizer?

Instrua seu filho na escola, durante uma viagem ou em uma situação definida: “Tenha o máximo
cuidado e não dê nenhuma informação pessoal a pessoas que lhe pareçam mal-intencionadas.
Caso alguém insista em alguma conversa estranha ou inconveniente, comunique um adulto de
confiança ou ligue para mim”.
34
"Minha filha, Os homens são todos iguais. Não se pode confiar neles!”

A mãe desapontada, frustrada ou traída pode fazer essa afirmação precipitada para sua filha.
Talvez tenha razão em dizer que seu marido não é de confiança, mas não pode incluir todos os
homens nessa categoria. Por mais que a menina não entenda o que a mãe quer dizer, ela acabará
assimilando no inconsciente uma imagem negativa dos homens. Pois o que ela ouve é: “Todos os
homens são irresponsáveis, infiéis e traidores”.
CONSEQUÊNCIAS
Se a menina tem uma imagem ruim da figura masculina, seus relacionamentos afetivos serão
problemáticos. Isso porque as experiências negativas de outra pessoa estão registradas em sua
mente. Ainda que não a recorde em detalhes, elas irão determinar sua visão de mundo. Muitas
mulheres, sem motivo, sentem ciúmes e desconfiam do marido, porque foram ensinadas a pensar
assim. Mais que isso, farão sempre um juízo equivocado e injusto dos homens, considerando-os
perversos, enganadores e desleais.
O que dizer?
Se você, mãe, teve alguma experiência infeliz no casamento, não deixe de dizer à sua filha:
“Estou triste e desapontada com o que aconteceu, mas vou superar isso. Mesmo assim, não fique
pensando que todos os homens agem dessa mesma forma. Existem muitos que são fiéis, bons e
honestos”.
35
"Estou muito decepcionado com você!”

Dependendo do contexto, essa frase pode apenas refletir os sentimentos do adulto no


momento, mas se for usada para pequenas coisas e com frequência, levará a criança a pensar que
ela não é o que os pais desejavam, provocando um sentimento de inadequação e de rejeição. É
importante lembrar que a criança passa muitos anos desejando atender às expectativas dos pais.
Essas expectativas devem ser mais ou menos claras e, obviamente, dentro dos limites da
realidade. Exigências absurdas, como querer que seu filho seja sempre o primeiro da classe ou o
melhor esportista, por exemplo, tendem a aumentar a frustração. Há inúmeros casos de
adolescentes deprimidos por não serem o que os pais esperam deles. Isso costuma ocorrer porque
as expectativas dos pais são altas demais.
Dizer a um filho que está muito decepcionado com ele passa a ideia de uma brusca interrupção
da amizade e do amor que existe entre vocês. Ele terá a impressão de que um grande abismo
agora os separa, pois houve motivo para uma grande decepção. Isso é o que ficará registrado na
mente da criança.

Consequências
Um sentimento de rejeição irá se instalar no coração de quem ouve essas palavras. A criança
imaginará que passou dos limites e estragou em definitivo o relacionamento com os pais, sem
nenhuma possibilidade de restaurar os vínculos que os uniam. A impossibilidade de corresponder
às expectativas dos pais será frequente, e o desespero de se sentir abandonado em suas afeições
começará a se tornar realidade. Ela se culpará pela incapacidade de ser agradável e começará a
odiar a si mesma.

O que dizer?
Com toda a firmeza, diga ao seu filho: “Não concordo com o que você fez, é preciso rever a
situação imediatamente” ou “Precisamos conversar sobre o que aconteceu. Para seu bem, não
vou permitir que isso venha a se repetir”. Acrescente a isso o que for adequado à situação,
tratando o caso de maneira positiva. Assim, estará permitindo que seu filho avalie a imprudência,
o erro que cometeu, sem entrar em desespero. A criança perceberá que é amada, já que você fez a
separação entre ela e o ato praticado. Em seguida, procure a melhor maneira de resgatar o senso
de responsabilidade de seu filho. A criança saberá que infringiu regras, que não foi bem, porém
terá certeza de que continua sendo amada. Isso lhe dará forças para melhorar e atender às
expectativas dos pais.

36
"Você é uma lesma!”

A criança ouve essa proposição entende como uma sentença. Os pais têm autoridade para avaliar
o comportamento dos filhos, mas devem ter cuidado para não soar como um decreto. Lá no
íntimo, a criança acaba acreditando naquilo que ouviu. Inconscientemente, essa convicção gera
raiva, revolta e medo, e esse conteúdo reprimido, por sua vez, refletirá em seu comportamento.

CONSEQUÊNCIAS
A pulsão interiorizada faz a criança ser aquilo que tem pavor de ser. Sem saber, ela irá se
conformar à imagem projetada pelos pais: “Já que eles querem que eu seja isso, serei”. Assim,
inconscientemente, se dá o processo na alma e, mais tarde, concretizará o conceito que lhe foi
imposto. Carine chegou ao meu consultório com depressão. Constatou-se que o sintoma era
subproduto do estresse no trabalho por não conseguir atender às demandas de produtividade ali
exigidas e se achar muito lerda para a função. Quando lhe perguntei: “Você é lerda? ”, ela
respondeu: “Minha mãe dizia que eu era, e assim fiquei. Ainda ouço aquelas palavras ecoarem
dentro de mim quando não dou conta das minhas tarefas”. Carine chorou com amargura,
repetindo: “Ela venceu!”.

O que dizer?
“Tenho observado que, às vezes, você demora muito para fazer uma tarefa. Ser rápido é um
processo que aprendemos com tempo e com treinamento. Tente aprimorar a maneira como você
faz as coisas. Agilidade e rapidez estão associadas a maior produtividade. Sei que você é capaz e
tem talento para isso.
37
Você é feio e parece um bicho-do-mato!”

As diferenças entre os filhos devem ser celebradas e acolhidas. Diferença não é subtração, mas é
soma. Dizer que seu filho é feio reafirma o estereótipo mais injusto, patológico e doentio, que
estabelece uma identidade entre beleza e bondade, e consequentemente, entre feiura e maldade.
O belo é bom. Aprende-se desde criança, nas histórias infantis, que os heróis, os príncipes e
princesas são jovens e bonitos e os malvados e as bruxas são feios. É o equívoco de que a
estética é semelhante ao caráter.
Consequências
O xingamento e a zombaria resultam em timidez ou em revolta. A criança ouve um insulto dessa
natureza e se retrai. Geralmente é possuída por um pensamento ambíguo: não sabe se apazigua a
pessoa que a ofende ou se dela se afasta. O retraimento é a sua defesa contra a ridicularizarão. A
zombaria é entendida como desprezo, o que aumenta a insegurança e a timidez.
Às vezes, pessoas de aparência normal se acham ridículas ou não estão contentes consigo
mesmas. De onde vem essa rejeição às características do próprio corpo?
Alguém teve o trabalho de incutir-lhes na mente a ideia de que elas são feias. Os pais são os
únicos com essa capacidade.
Na vida adulta, seu filho andará oprimido pela pseudocensura à sua falta de beleza. O olhar do
cônjuge sempre lhe parecerá apontar defeitos. Ele tenderá a subestimar a si próprio.

O que dizer?

Elogie seus filhos no quesito aparência. Faça isso regularmente. Diga à sua filha: “Como você
está bonita! ”; “Gostei dessa roupa em você! ”; “Que lindo está o seu cabelo!
”. Diga ao seu filho: “Você tem uma elegância natural!”. Frases semelhantes a essas nutrem a
autoestima e reforçam a afeição que cada um precisa ter a si próprio.
38
"Minha filha não é para casar!”

Você deseja que sua filha fique em casa até você morrer? Não pensa no futuro nem na
felicidade dela? Ou você desenvolveu uma simbiose, um vínculo doentio em relação a ela?
Quer mesmo destiná-la à solidão? Quase sempre, há ciúmes e outros sentimentos
envolvidos nessa declaração. Pais amorosos e sadios não fazem tal afirmação, que é subproduto
de insegurança. Cônjuges felizes querem que seus filhos se casem para serem também felizes no
casamento. Pais frustrados tentam evitar o casamento de seus filhos. Examine seus sentimentos.
Se estiver dizendo isso para restringir um namoro precipitado, está utilizando a estratégia errada.
Se o faz para conservar a agradável companhia de sua filha, não é a melhor abordagem.
Já percebeu em outras famílias o constrangimento que acontece quando uma filha
ultrapassa os 30 ou 40 anos de idade e não se casa? Surge a cobrança dos parentes, o título de
“titia” e a insatisfação dos pais.

CONSEQUÊNCIAS
A filha irá crescer evitando o tema do casamento para não ofender os pais, que reforçam o
discurso do celibato e da castidade com a justificativa de que não podem prescindir da
companhia da filha. Não é tanto o desejo de ficar solteira que lhe impossibilitará o matrimônio, e
sim a incapacidade de estabelecer vínculos afetivos para o casamento.

O que dizer?
Acostume-se a dizer à sua filha: “O casamento é uma grande bênção. É a maior realização do ser
humano. Casar-se coma pessoa certa é uma felicidade! ”. Assim, ela crescerá na expectativa de
que um dia encontrará alguém para se casar e isso dará alegria aos seus pais.
39
"Sua avó é uma chata!”

É uma frase que denota um desagrado malévolo para com alguém tão próximo afetivamente de
seu filho. A criança não é culpada pelas desavenças, intrigas e falta de compreensão entre você e
sua sogra. Falar mal, depreciar e subestimar qualquer parente diante dos filhos abre caminho para
o ódio.

CONSEQUÊNCIAS
As crianças começam a conceber uma imagem negativa da pessoa
criticada. Em seguida, começarão a repetir a mesma frase, porque a boca fala do que está cheio o
coração (Lc 6:45).
Por mais que essa avó tente estabelecer vínculos de afeto, de amor e de carinho, não conseguirá.
Qual o futuro desse relacionamento? Será distante, frio, hostil, carregado de queixas e rancores.
Por sua vez, será a raiz de todas as dificuldades que as crianças terão para se relacionar com os
futuros sogros ou mesmo com os futuros genros, porque foi erguida uma barreira que impede a
aceitação incondicional desses parentes.

O que dizer

Fale bem dos avós da criança. Minimize suas falhas e destaque suas virtudes. Dê aos seus filhos
uma versão sempre positiva e bela dos idosos mais amados por eles. Eles crescerão valorizando a
família e terão referências para a sustentação de uma identidade saudável.

40
"Este menino é uma peste!”

Alguns pais costumam chamar o filho de “peste” ou têm o hábito de comentar: “Você não sabe a
peste que eu tenho em casa! ”. Peste é uma doença contagiosa, uma epidemia, algo grave e
nocivo que se dissemina, causando danos e perdas.
É isso que você está dizendo de seu filho. Às vezes, a expressão é minimizada: “Seu pestinha! ”.
Contudo, não passa de inflexão do substantivo, a força da palavra continua a mesma. O título
original em inglês do filme O pestinha, de Dennis Dugan, é Problem Child, isto é, “criança-
problema”. O título brasileiro foi escolhido por-que é assim que chamam as crianças arteiras,
inteligentes e agitadas em nosso país, mas isso não é correto.

Ao rotular seu filho de peste, você está desistindo de impor limites, se conformando com a
situação. As regras são necessárias à formação da criança. Será que você jogou a toalha e
justifica sua negligência afirmando que é impossível lidar com uma peste?

CONSEQUÊNCIAS
Assumir o rótulo de peste é o mesmo que receber autorização para a anarquia. A criança irá se
investir do sentimento de onipotência em relação ao mal. É como se recebesse autorização para
praticar o que lhe vier à cabeça. Ela crescerá desdenhando as leis. Irá contestar a autoridade
paterna, dos professores, da pátria, das instituições, dos chefes, de tudo e de todos. As
comunidades terapêuticas para recuperação de dependentes e delinquentes estão cheias de
pessoas que ouviram esses vaticínios de seus pais.

O que dizer?
Diga ao seu filho: “Existem regras, e você precisa obedecer a elas. Os limites nesta casa têm de
ser respeitados!”. Faça essas observações olhando de frente, olho no olho, para seu filho. Toda
criança quer saber até onde pode ir. Na criação de filhos, o “não” tem seu lugar e hora, tanto
quanto o “sim”. Lembre-se: afeto, normas e exemplo são os três fundamentos em que se apoia a
estrutura psíquica equilibrada. Até mesmo a auto segurança, o senso de identidade e a autoestima
têm relação direta com os limites impostos pelos pais.

41
"Você é um sem-vergonha!”

É natural que algumas atitudes de seu filho deixem você contrariado ou mesmo causem revolta.
Contudo, não é sábio tanchá-lo de indecoroso, sem-vergonha ou mau-caráter. É preciso separar a
atitude do momento, o ato descontinuado, do caráter permanente da criança. Essa frase transmite
a ideia de que seu filho é lascivo, indecente, obsceno e de personalidade duvidosa. Dá a entender
um comportamento que infringe as regras do bom senso. Declara ainda insensatez premeditada,
principalmente quando a afirmação vem realçada pelo tom de voz raivoso.

Consequências
Um sentimento de vingança contra os pais começa a germinar e tende a se tornar cada vez mais
forte. A indecência é a falha moral pela qual ninguém deseja ser conhecido.
Essa frase decreta o perfil de alguém que está em desenvolvimento. A criança passa a acreditar
que não tem pudor, e isso pode abrir uma porta para a relativização das coisas, uma vez que a
criança introjeta a ideia de que realmente é perversa. Os promíscuos, em geral, são pessoas que
ouviram assertivas semelhantes em profusão, as quais determinaram seu caráter e forjaram sua
mente. Não há nessa censura interdito, regra ou norma que regule os atos da criança. O único
efeito é que a crítica acaba pavimentando a estrada para a irresponsabilidade.

O que dizer?
Diante de falhas morais, equívocos éticos, simulações, mentiras, omissões, indecências e
situações constrangedoras, chame seu filho para uma conversa séria. Lembre-o de que existem
limites, reedite as regras, porém, jamais, prediga o mal.

42
"Você é mesmo um malandro!”

Pense no peso dessa crítica. Ela forma em nossa mente a imagem de um vadio, um patife, um
gatuno ou um preguiçoso. Marcar seu filho com essa palavra pode ser o início do
desmoronamento do caráter e da vida dele.
Há uma grande diferença entre estar indisposto e ter preguiça crônica; entre ser displicente e
desorganizado e ser irresponsável; entre ser indisciplinado e ser vadio.
Trata-se de uma crítica muito contundente. E ninguém verbaliza tal impropério ou tal afronta
sem que esteja destilando ira e ódio.

Consequências
A criança pode internalizar esse discurso, acreditando que é assim mesmo. Com essa ideia em
mente, começará a se comportar como tal. Perderá o senso de responsabilidade e tenderá a levar
a vida sem a seriedade necessária. O trabalho será relegado como tarefa imprópria, e os
compromissos serão considerados irrelevantes. Em geral, pessoas assim são incapazes de
concluir seus projetos.

O que dizer?
É preciso ter uma atitude firme e disciplinar com o seu filho, que despreza as atividades
indispensáveis. Diga-lhe: “Você precisa cumprir suas tarefas com responsabilidade. Não vou
admitir essa omissão que estou percebendo em você”. Seja contundente e estabeleça um
cronograma mínimo de atividades a serem realizadas.

43
"Ah, eu mato você! ”

Imagine o que significa ouvir isso de alguém. Se for dito com real intenção, configura uma
ameaça de morte. Expressa disposição de privar da vida o semelhante, de extinguir sua vitalidade
e destruí-lo. Sem dúvida, a maioria dos que assim falam não o faz com intenção assassina, mas
como forma de intimidação. A sensação que a criança tem, no entanto, é que de fato você não a
ama e quer destruí-la, ou que está blefando. O cinismo tem origem nesse tipo de situação. Ele é
resultado de chantagem, manipulação, ameaças não cumpridas, ordens desobedecidas,
simulações e disfarces.
Essa frase carrega a ideia de exacerbada hostilidade, falta de amor e de acolhimento. É
extremamente agressiva e consiste no repúdio declarado ao seu filho pela via da eliminação e da
extinção.

Consequências
Seu filho usará do mesmo artifício sempre que estiver insatisfeito com alguém. Irá ameaçar o
cônjuge e os desafetos e reeditará essa atitude na criação dos filhos. Ele tenderá a distanciar-se
dos pais como forma de morrer para eles. Esse afastamento pode se caracterizar de várias
formas: indiferença, falta de afeto, ausência de vínculo e, também, obviamente, no sentido físico.
Sabe aqueles filhos que somem e não dão notícias? Eles estão morrendo para os pais.
Inconscientemente, cumprem o desejo manifestado no discurso deles.
A criança que ouve essa ameaça imagina que não merece viver. Nos estados depressivos, terá
maior propensão ao suicídio. A pulsão da morte, o thanatos NE, estará sempre presente. Será
uma pessoa inclinada a fazer ameaças aos filhos, aos subordinados e a todos os seus desafetos.
O que dizer?
Estabeleça critérios e limites claros. Seja firme ao falar, mas sem perder a serenidade, quando o
fato exigir correção. Caso ele seja reincidente, aplique a disciplina adequada: suspensão de
privilégios, do passeio programado, do presente,
do brinquedo esperado ou da festinha do amigo. Diga: “O que você fez foi errado, e por isso
ficará de castigo. Quero que você pense no que fez, para não repetir mais esse erro”.

44
"Eu não disse? Sempre tenho razão!”
À medida que vão crescendo, os filhos começam a perceber que seus pais não são infalíveis. A
constatação das limitações paternas é a despedida do período das fantasias e da ingenuidade. É o
início da fase do amadurecimento, e isso é bom.
Dizer-lhe que você sempre tem razão é reivindicar um atributo que ninguém possui: a
infalibilidade. E não é só isso. Você está impondo sua vontade e seu pensamento com um grau de
certeza que impede qualquer questionamento. Com isso, você subtrai à criança a possibilidade de
ela testar o próprio raciocínio. E quando você estiver errado? Como acha que seu filho fará essa
avaliação?

Consequências
Impedir seu filho de questionar determinadas coisas corresponde a podar-lhe o direito de opinar e
de ter iniciativa. Isso pode gerar timidez e incapacidade de contestar, mesmo quando necessário.
Na vida adulta, se tornará passivo à injustiça, inibido ao contraditório e sem ânimo para a
argumentação. Na escola, na equipe de pesquisa, no grupo de trabalho, na reunião de condomínio
ou quando for necessário não emitirá opinião. Será incapaz de exercer várias profissões,
principalmente as que exigem a habilidade do arrazoamento e da discussão: advocacia,
promotoria, vendas, marketing, investigação e outras. Essa inabilidade é subproduto do medo de
estar errado, pois os outros “sempre estão com a razão”.

O que dizer?
Em vez de passar a ideia de que é infalível, diga ao seu filho: “Quando eu disse que isso iria
acontecer, estava muito convicto, por isso falei”. Ou então: “Você não quis me ouvir, agora
precisa resolver o problema criado por você mesmo”. Quando afirmar suas convicções, permita a
argumentação. Dê ao seu filho as explicações necessárias e ouça o que ele tem a dizer. Diante de
um eventual fracasso, depois do alerta dado por você, não traga à tona a previsão nem o erro
cometido. Chame-o para conversar. Dê-lhe espaço para o perdão, para o recomeço e para a
correção de rumo. Mais tarde, ele também saberá conversar com seu cônjuge e com seus filhos,
amigos, patrões e colaboradores.

45
"Não posso brincar agora. Estou sem tempo!”
Precisamos ser generosos com nossos filhos em relação à quantidade e à qualidade do tempo que
lhes dispensamos. Nossa profissão, as tarefas e as responsabilidades subtraem o tempo que
deveríamos passar com as crianças. Contudo, isso não nos isenta de atender aos seus apelos para
brincar ou fazer algo junto.
Em Campinas, ocorreu um episódio que ilustra o perigo de ser negligente nesse aspecto. Um
médico, muito ocupado, tinha um filho de sete anos, que todos os dias pedia ao pai:
— Papai, vamos fazer nossa casinha hoje?

— Hoje não posso, estou muito ocupado — respondia o pai.

— Então quando vamos fazer a casinha?

— Não sei! Outro dia — retrucava o pai, impaciente. Certo dia, a criança foi consolada com a
promessa de que o pai estaria disponível no final de semana seguinte, por isso anunciou:
— Tudo bem, papai. Vou juntar mais madeira! Enquanto o pai estava no trabalho, o menino
dirigiu--se ao bosque defronte de sua casa, que ficava em um condomínio fechado, a fim de
buscar alguns galhos para completar a construção da casinha. Na volta, ao atravessar a rua, foi
atropelado por um carro. Alguém lhe prestou socorro, e o pai foi chamado às pressas. Ele deixou
sua equipe no centro cirúrgico do hospital e correu ofegante ao encontro do filho.
O acidente fora muito grave. O menino sofrera um traumatismo craniano de grande
proporção. Ao chegar ao local, o médico tomou o filho nos braços e gritou:
— Filhinho! Papai está aqui.

O pequeno, já agonizando, falou:

— Papai, não deu para fazermos nossa casinha. O carro me


pegou!

E morreu ali mesmo. Aquele competente profissional foi por alguns anos atendido por um amigo
meu, que era terapeuta naquela cidade. Disse-me esse amigo que aquele homem jamais superou a
perda do filho. E se você também se encontra assim
— sem tempo para o seu filho — não hesite em mudar logo essa situação.

Consequências
A criança que não obtém a atenção dos pais para suas brincadeiras se sente desvalorizada. O
mundo dela é o lúdico, o brincar é sua interpretação da realidade. Se você nunca participa do
mundo da criança, irá se tornar cada vez mais distante para ela. O tempo passará rapidamente.
Logo essa fase chegará ao fim, e seu filho entrará na adolescência. Você então desejará participar
com suas ideias, conselhos e orientações, mas seu mundo estará muito distante do mundo de seu
filho. Você descobrirá que há um grande abismo entre vocês e, consequentemente, sua voz não
será ouvida, seus conselhos serão rejeitados e o diálogo será impossível. A dor no coração será
imensa e constante.
O que dizer?
Quando sua parceria for solicitada numa brincadeira, a resposta correta é: “Claro! Você sabe que
gosto muito de brincar com você”. Para que essa resposta sempre seja possível, estabeleça
horários para estar com seu filho. Dê--lhe toda a atenção. A qualidade e a quantidade do tempo
são importantes. Quem ouve seu filho desde cedo, no futuro será ouvido por ele. Seja criança
com sua criança.
Mais tarde, ele será adulto com você.

46
"Se você não comer tudo, vai apanhar!”

A hora da refeição é de alegria, não de suplício. Afligir a criança com ameaças de castigo
para engolir o que ela não quer não parece razoável. Falta de apetite, dificuldade de ingestão,
distúrbio alimentar ou escolha de alimentos intragáveis para a criança podem estar por trás da
recusa de alimentar-se bem. É preciso avaliar o que está acontecendo. Isso costuma coincidir
com pais que anseiam ver a criança bem alimentada.
A primeira fase desse processo é a manifestação de um cuidado exagerado para prover a
qualquer custo a ingestão de nutrientes ao bebê. Os pais adotam todo o tipo de estratégia de
persuasão para que ele aceite o alimento: afeição, palavras amorosas, gestos de carinho e
acolhimento. Na segunda fase, a criança não é mais objeto de toda a atenção, como antes, porque
os pais começam a ficar ansiosos. Sentindo a falta de afeto, a criança imagina que, se não comer,
obterá o que deseja. É nesse momento que os pais, já ansiosos, se irritam e ameaçam castigá-la.
Há sempre que distinguir as crianças que comem pouco, das que têm bom apetite. Existem
também as que apresentam sintomas de anorexia. Nesse caso, providências precisam ser tomadas
para antecipar uma solução, antes que um quadro agudo seja formado. Contudo, qualquer que
seja o caso para a recusa de alimento, as ameaças só pioram a situação.
Consequências
A ingestão de alimentos pode se tornar um castigo, e a recusa da criança em alimentar-se será
mais pronunciada. O momento da refeição será associado com hostilidade e desprazer. A bulimia
e a anorexia quase sempre têm sua origem na maneira em que os pais administram o alimento
aos filhos.
Quando seu filho for adulto, ele recusará convites para aniversários, reuniões e celebrações em
que se ofereça comida. Terá dificuldades para ir a um jantar romântico com seu cônjuge, porque
sempre irá relacionar esse momento com ameaças e episódios ruins.

O que dizer?
Quando seu filho recusar alimento, diga-lhe: “Esse alimento é muito bom. Eu gosto muito
disso”. Fale com alegria e com calma sobre o alimento que a criança irá ingerir. Isso a motivará a
se alimentar.
Retire as ameaças. Comece a adotar uma postura que ajude a criança a fazer as refeições com
prazer. Sugiro estas atitudes na hora da refeição:
•Deixe a criança ter preferências, caso haja essa opção;

• Não ponha alimentos em grande quantidade, para não desencorajá-la de comer;


• Não ofereça nenhum tipo de recompensa. Devemos comer para atenuar a fome e
pelo sabor do alimento;
•Mantenha a calma. Fale do sabor da comida;

•Permita que o ambiente seja descontraído;

•Nada de "aviãozinho" ou "trenzinho”; isso causa irritação e ansiedade, além de


desviar a atenção e retirar a percepção acerca dos alimentos. Se tiver outros filhos, ponha-os para
fazerem as refeições juntos.
47
“Vá brincar! Não fique perto de mim!”

Posso imaginar quantas vezes você já ouviu essa frase. Talvez não tenha mais lembranças
conscientes, porém a história de sua infância provavelmente registrou momentos como este. Não
sei como você não percebe quanto está perdendo. Não há nada mais aprazível que a companhia
dos filhos. Meus pais tiveram 11 filhos, e sou o primogênito. Estávamos sempre perto de meu pai
quando ele trabalhava em casa, no comércio ou na fazenda, e perto de mamãe, na cozinha, na
copa, nas conversas e nas celebrações. Quando todos se ausentavam para a casa de algum
parente, ele dizia: “Estou sentindo falta do barulho, da alegria, do choro, das conversas e da
presença dos meus filhos”. Hoje são os netos.

Quando a casa está cheia, ele diz que foi premiado, que está sendo presenteado com todo aquele
bulício de crianças à volta dele. Quando você repele e afasta seu filho, está isolando a
comunicação e a possibilidade de integração, de intimidade e de amor. São raras as ocasiões em
que os filhos não são convidados, porque não se pode usurpar-lhes o direito à proximidade. É
bem provável que no futuro, quando a ausência total deles for uma realidade, você sinta
remorsos.
Ser privado da atenção e do carinho dos pais deixa cicatrizes na memória emotiva, resultando em
problemas na vida adulta, diz Daniel Goleman, em seu livro Inteligência emocional. O filho
rejeitado na infância apresenta sintomas de ansiedade, preocupação, inquietação e nervosismo.
Além disso, pode ficar deprimido e se sentir solitário.
Pesquisas constatam que a melhor prevenção para os problemas de saúde mental é o
relacionamento saudável que o indivíduo desfruta na infância.

Consequências
O medo de ser rejeitado passará a assombrara criança. Comisso, ela apresentará alto nível de
ansiedade e de preocupação e experimentará uma sensação de desamparo. O resultado será falto
de concentração, ódio contra si mesmo, sensação de inutilidade, lapsos de memória, desalento,
melancolia e apatia. Quando crescer, sentirá antipatia pelos outros— uma forma de justificara
incapacidade de se relacionar com as pessoas. Haverá uma persistente inibição na construção de
vínculos afetivos, amorosos e de companheirismo. Isso ocorre em razão da falta de um padrão
interno de afeto, que não foi formado. O mais grave é que a maioria dos rejeitados repete o
comportamento dos pais em relação a outros indivíduos, principalmente com os próprios filhos.

O que dizer?
Diga ao seu filho que você aprecia a companhia dele e que se sente muito bem quando ele está
próximo a você. Esse tipo de afirmação propicia uma enorme sensação de segurança e de
autoestima para a criança. Querer ficar perto é valorizar. É construir vínculos inquebráveis e
intensificara confiança. Isso fortalece o senso de identidade.
Na vida adulta, ele compreenderá o valor da amizade, do companheirismo, do trabalho em
equipe, da mutualidade, da cooperação e da cumplicidade. A intensidade de envolvimento e a
interação com os outros serão proporcionais ao que ele aprendeu com você.

48
"Não gosto mais de você!”

Quando alguém faz essa afirmação, está declarando que o afeto acabou. Trata-sede uma frase
que, por sua vez, elimina todo o vínculo de amor até então existente. Soa como o término do
relacionamento e sempre se constitui ameaça ou chantagem — ou no mínimo uma imprudência
sem precedentes. Sua raiva e sua chateação estão se manifestando como uma sentença
inapropriada. Será que você realmente não gosta mais de seu filho?
Consequências
A criança sente o impacto da ruptura do afeto que ela tanto preza. Não entende como pôde ser
tão má a ponto de provocar esse terrível afastamento. Logo, um sentimento de abandono invadirá
a alma, levando-a à solidão. Ela pode ficar vulnerável a medos e fobias, porque a ideia de
segurança lhe é subtraída pela rejeição. Na vida adulta, terá enorme facilidade para reeditar o
comportamento e agredir da mesma forma as pessoas que lhe desagradarem.
O que dizer?
Se seu filho vier a praticar algo que deixe você aborrecido, chame-lhe a atenção, dizendo que não
aprova o que ele fez. Peça para que ele não repita esse tipo de atitude, explicando-lhe o quanto
pode afetar as pessoas ao seu redor e a si próprio. Dê as instruções necessárias de forma clara e
objetiva. Seu filho certamente irá entender.

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“Você faz da minha vida um inferno!”

O inferno é o destino do castigo eterno, descreve e representa o ambiente mais hostil e aterrador.
Já imaginou quão deprimente é essa frase? O que significará, então, para a pessoa mais ligada a
você ouvi-lo dizer que ela faz você viver no inferno? Que imagem seu filho conceberá desse
relacionamento?

Consequências
Já que a vida dela, com suas atitudes e gestos, causa tão horroroso ambiente, a criança começará
a se culpar diante de qualquer irritação, incômodo, sofrimento, raiva, pressa, agressão e
ansiedade que os pais sentirem. Ela tenderá a punir da mesma forma os que a desagradam,
provocando-nos outros sentimentos semelhantes aos que provocou nos pais.
O que dizer?
Os filhos precisam saber que sua presença é sempre motivo de satisfação para os pais, por isso
diga: “Amo você. Gosto de sua companhia, mas, neste momento, estou muito ocupado e preciso
de um tempo a sós para terminar minhas tarefas”. Avalie sua irritação e procure manter-se
equilibrado ao proferir frases que possam prejudicar o estado emocional da criança.

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“Você é insuportável!”

A pessoa insuportável é aquela que inviabiliza qualquer possibilidade de convivência. É a


pessoa desumana, egoísta, hostil, crítica, nervosa e chata. O insuportável não tem amigos, não
cria vínculos, não se relaciona com ninguém, e todos querem distância dele. Qualificara criança
como insuportável é decretar-lhe o estigma do mal. Dizer isso a um filho, conscientemente, é
desequilíbrio ou insensatez.
Consequências

Se a crianças e vê como alguém tão prejudicial aos outros, principalmente aos pais, irá sentir-se
rejeitada. As consequências vão desde a agressividade à timidez.
O que dizer?

Faça afirmações positivas sobre o comportamento de seu filho. Estimule a criança a buscar uma
maneira de viver que agrade aos outros. Quando ela se afastar muito do padrão adequado à boa
convivência, imponha limites. Estabelecer regras não aniquila a felicidade de ninguém e traz
segurança. E não se esqueça de sempre dizer que o ama, porque o seu amor fará seu filho se
sentir protegido.
Referências Bibliográficas

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Sobre o autor

ANTONIO SIQUEIRA é psicólogo clínico e conferencista, com vasta experiência em palestras


no Brasil e no exterior. Reside na cidade de Joinville, Santa Catarina, com a esposa Anelise e a
filha Sarah.
As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida, Revista e Corrigida [ARC], publicada
pela Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicações em contrário.

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