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Jacques Maritain

SAINT-EXUPÉRY: O amigo pergunta se o pensador francês Jacques Maritain é herético;


em particular,... se é filiado aos erros de Lamennais.

— Nos últimos anos, uma controvérsia em torno do nome de Jacques Maritain empolgou as
escolas da França, dos Estados Unidos da América, do Canadá e também do Brasil,
tomando por vezes caráter apaixonado. Os ânimos tendem a se acalmar, mas os rumores
deixaram dúvidas na mente de muitos. Vejamos de que se trata propriamente. Jacques
Maritain nasceu em .Paris aos 18 de novembro de 1882. Fez-se primeiramente discípulo do
filósofo judeu Henri Bergson (cf. "P. R." 25/1960, qu. 1). Em 1906, porém, sob a influência
do escritor Léon Bloy, converteu -se ao Catolicismo, começando desde cedo uma produção
Literária até hoje muito fecunda. Maritain filiou-se à Filosofia Escolástica tal como foi
apresentada por São Tomás de Aquino; tem procurado torná-la viva e presente no mundo
moderno, focalizando, à luz dos princípios aristotélico-tomistas, as questões suscitadas
pelas ciências naturais e pelas correntes filosóficas contemporâneas.Em 1914 foi convidado
para lecionar História da Filosofia moderna no "Institut Catholique" de Paris. Em 1916
tornou-se membro da Academia Romana de São Tomás de Aquino. Mais tarde transferiu-se
para a América do Norte, regendo cadeiras filosóficas no Instituto de Estudos Medievais da
Universidade de Toronto (Canadá) e na de Columbia (U.S.A.). Após a segunda guerra
mundial, exerceu por algum tempo o cargo de Embaixador da França junto à Santa Sé (fato
este que do seu modo atesta a ortodoxia de Jacques Maritain).No tocante a questões de
Filosofia especulativa, o pensamento de Maritain não tem sofrido contestação; deve-se
mesmo admirar a clareza e a precisão com que esse autor aborda as mais árduas
questões. Contudo as opiniões dos comentadores se dividem quando consideram a
doutrina político-social do filósofo francês, que não hesitou em descer aos pontos mais
debatidos pelas escolas modernas, tomando posições aparentemente extremistas.Qual
seria então a doutrina de Maritain?Está claro que este pensador rejeita a comunismo e o
socialismo, denunciando o vício radical de tais sistemas, a saber: a falsa valorização do
homem ou um humanismo antropocêntrico, leigo e ateu. Todavia o ideal da futura
sociedade cristã que Maritain preconiza, apresenta estrutura comunitária ou "societária": na
medida do possível, o regime do salário deverá ceder ao da copropriedade; o operário será
chamado a participar da gestão e da direção da respectiva empresa... Tais idéias, Maritain
as enquadra dentro de uma perspectiva mais ampla, de índole filosófico-teológica, dita
"Humanismo integral". Conforme este modo de ver, o mundo presente se encaminha para
um novo tipo de "Cidade Cristã", diverso do que se realizou na Idade Média.Com efeito, diz
o filósofo francês, a Idade Média conheceu uma ordem de coisas "sacral", isto é, uma
ordem na qual todas as afirmações do cidadão, mesmo as que chamamos "profanas",
estavam impregnadas de caráter religioso ("aprender a ler", por exemplo, era entre os
medievais "psalmos discere — aprender os salmos", pois a criança tomava como cartilha,
para aprender a soletrar, o livro dos Salmos). Pois bem, na sociedade futura as instituições
profanas serão realmente consideradas profanas, mas ao mesmo tempo estarão
subordinadas aos valores sagrados; os valores temporais serão tidos como finalidades
dignas do labor humano (não como meros instrumentos dos valores eternos), finalidades,,
porém, subalternas e totalmente orientadas em demanda de um Fim último supremo (Deus
e a vida eterna).Eis, em poucas palavras, as concepções de Maritain que têm provocado
atitudes de reserva da parte de bons católicos.Diante das dúvidas apresentadas,
interessa-nos aqui dizer, apenas a titulo de esclarecimento (e não de apologia), que o
pensamento de Maritain é plenamente compatível com a ortodoxia católica. A força de uma
ou outra expressão do filósofo, isolada do seu contexto, talvez sugira alguma tese errônea
ou herética; contudo, desde que se considerem no seu respectivo quadro ou à luz de toda a
ideologia de Maritain, essas expressões perdem sua ambiguidade e evidenciam-se
católicas. Por exemplo, hoje em dia pode muito bem alguém crer que seria pouco
consentâneo com as condições concretas da vida moderna querer dar como livro didático
para os mais diversos cursos um único livro — um livro de história sagrada. Hoje em dia a
civilização cristã, para ser devidamente eficaz no seu programa de levar os homens a Deus,
não cultiva somente Religião e temas religiosos, mas dá atenção também aos fundamentos
da Religião que são a natureza humana e os valores deste mundo; assim se explica que na
"Cidade de Deus" contemporânea se propugnem atividades e profissões que estudam
psicologia, pedagogia, antropologia, geologia ..., sem querer dirimir todo e qualquer
problema mediante a autoridade da Revelação sobrenatural (esta ficará sendo, sim, critério
negativo impreterível, isto é, critério que em muitos casos dirá apenas o que não é licito
afirmar).Em particular, com referência ao regime de copropriedade ou de participação dos
operários na gestão da empresa, deve-se observar que a doutrina social da Igreja está
longe de se lhe opor; ela, antes, o favorece desde que corresponda às conveniências da
população à qual deva ser aplicado. Eis como a respeito se pronunciava o Santo Padre Pio
XI na famosa encíclica "Quadragesimo anno":"Julgamos que nas presentes condições
sociais é preferível, onde isto for possível, mitigar os contratos de trabalho, combinando-os
com os de sociedade, como já se começou a fazer de diversos modos, com não pequena
vantagem para os operários e os patrões. Deste modo, os operários são considerados
sócios no domínio ou na gestão, ou compartilham nos lucros".Quanto ao receio de que
Maritain seja um continuador das idéias heréticas de Lamennais, é vão. Félicité de
Lamennais (+1854) tornou-se no século passado o que se chamava "um católico liberal",
propugnando absoluta independência das atividades políticas em relação à Religião, assim
como a necessidade de separar Igreja e Estado; morreu como socialista e livre-pensador,
fora da comunhão da Igreja. Maritain, ao contrário, professa explicitamente a subordinação
da "Cidade dos homens" à "Cidade de Deus".Está claro que ninguém é obrigado a
compartilhar as ideias político-sociais desse filósofo. Quem, porem, delas discorde, ainda
pode, com imensa vantagem, apreender as mais puras e sábias lições da Verdade nas
obras de Filosofia especulativa desse pensador. O que Maritain escreveu nesse setor, é de
valor incontestável.