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AMÉRICA - Economia· e Sociedade

• •
I •

· ca a1smo. e -

- escrav1 ao ·
ERIC WllliAMS

M·EM.ORIAL UCSAL
JOSÉ LUIS "AMPONET
AMÉRICA - Economia· e Sociedade

• •
'

· ca I a ISIO I
- escravi ao ·ERIC WILLIAMS

M-E.MOIUAL UCSAL
JOSÉ LUIS l'AMPONET
América: Economia & Sociedade ERIC WILLIAMS
~~-------------------------
Coordenação e Orientação

ILMAR ROHLOFF DE MATTOS


e
ARY DE ARAúJO VIANA

Vol. I - .CAPITALISMO E ESCRAVIDÃO

CAPITALISMO
E
ESCRAVIDÃO
INTRODUÇÃO:
D. W. BROGAN

FICHA CATALOGRAFICA TRADUÇÃO E NOTAS:


CARLOS NAYFELD
(Preparada 'j)elo Centro de Catalogação-na-fonte do
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, GB) -
REVISÃO TÉCNICA:
ILMAR ROHLOFF DE MATTOS
Willlams, Erlc.
W689c Capitalismo e escravidão; tradução e notas
1 de I Carlos Nayfeld, revisão técnica I de 1 li-
mar Rohloff de Mattos, Introdução I de I D. W.
Brogan. R lo de Janeiro, Ed. Americana, 1975.
vlll,295p. 21cm (América: economia & so-
ciedade, v. 1).
Do original em Inglês: Capltallsm and sla-
very.
Bibliografia.
1. Capitalismo. 2. Escravid'ão na Grã-Bre-
tanha. 3. Grã-Bretanha - Economia- História.
I. Titulo. II. Série.
"CDD -
330. 94206
330.94207
330. 1220942
331.117340942
CDU- 326:330.148(410) "17/18"
75-0007 33(140) "17/18"(091)
( 'OJl]/l'lq/tl 1944 by

Eric Willia ms

1f!. edição, abril 1964, por


André Deutsch Limited, London

Título do original em inglês:


Capitalism and Slavery

Coleção:
América: Economia & Sociedade
Ao Professor Lowell Joseph Ragatz
cujos trabalhos monumentais neste
Capa: campo podem ser ampliados e desen-
volvidos, mas nunca suplantados.
Hermes Teixeira

COMPOSTO E IMPRESSO NO BRASIL


nas oficinas próprias da Editora.
Ma rço de 1975 - 11). edição.
Código pa ra pedidos: EP-112.

DIREITOS DA PRESENTE EDIÇÃO,


em língua portuguesa, reservados à

I COMPANHIA EDITORA AMERICANA


Rua Viscond e d e Maranguape. 15 • ZC 06
20.000. Rio de Janeiro . GB ·Te I. 232-6004
SUMÁRIO

Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
Introdução de D. W. Brogan . . . . . . . . . . 3
1. Origens da Escravidão Negra . . . . . . . . . 7
2. O Desenvolvimento do Tráfico Negreiro 35
3. O Comércio Britânico e o Comércio
Triangular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
4. Os Interesses das índias Ocidentais . . . . 95
5. A Indústria Britânica e o Comércio
Triangular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109
6. A Revolução Americana . . . . . . . . . . . . . . 121
7. O Desenvolvimento do Capitalismo Bri-
tânico, 1783-1833 . . ....... . ..... . . . .. 141
8. A Nova Ordem Industrial . . . . . . . . . . . . 151
9. O Capitalismo Britânico e as índias Oci-
dentais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173
10 . "A Parte Comercial da Nação" e a Es-
cravidão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 189
11 . Os "Santos" e a Escravidão . . . . . . . . . . 199
12 . Os Escravos e a Escravidão . . . . . . . . . . 219
13 . Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 231
Notas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 235
Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 287
PREFÁCIO

l Esta obra é uma tentativa de colocar na perspectiva


histórica a relação entre a formação do capitalismo, exem-
plificado pela Grã-Bretanha, e o tráfico de escravos negros,
a escravidão negra e o comércio colonial em geral, dos sé-
culos XVII e XVIII. Cada época reescreve a história, mas
particularmente a nossa, que foi forçada pelos. acontecimen-
tos a reavaliar nossas concepções de história e de desen-
volvimento econômico e político. A marcha da Revolução
Industrial já foi tratada mais ou menos ade,quadamente em
inúmeros livros, tanto eruditos quanto populares, e suas li-
ções estão perfeitamente bem estabelecidas na consciên-
cia da classe culta em geral e das pessoas em particular
que são responsáveis pela criação e orientação da gpinião
pública. Por outro lado, enquanto se acumulou material e se
escreveram livros sobre o período que precedeu a Revolu-
ção Industrial, o caráter mundial e inter-relacionado do co-
mércio desse período, seu efeito direto sobre o desenvolvi-
mento da Revolução Industrial e a herança que deixou mes-
mo sobre a civilização de hoje, ainda não foram em parte
alguma colocados numa perspectiva concisa e contudo in-
teligível. Este estudo é uma tentativa de fazer isso, sem, po-
rém, deixar de dar indicações da origem econômica das cor-
rentes sociais, políticas e até intelectuais bem conhecidas.
Este livro não é um ensaio de idéias ou interpretação.
É estritamente um estudo econômico do papel da escravi-
dão negra e do tráfico de escravos na constituição do ca-
pital que financiou a Revolução Industrial na Inglaterra, e
do capitalismo industrial maturo em destruir o sistema es-
cravista. É portanto, inicialmente, um estudo da história eco-
nômica inglesa e, em segundo lugar, da história das ' fndias
Ocidentais e dos negros. Não é um estudo da instituição da
escravatura, mas da contribuição da escravatura para o de-
senvolvimento do capitalismo britânico.
Devo reconhecer muitas dívidas. Os funcionários das
seguintes instituições foram muito bondosos e prestativos

1
para mim : Museu Britânico ; Arquivo Público; Biblioteca do
Escritório da fndia; Comitê das fndias Ocidentais; Bibliote-
ca da Casa de Rhodes, Oxford; Arquivo do Banco da Ingla- INTRODUÇÃO
terra ; Sociedade Inglesa Antiescravista e de Proteção aos
Aborígines; Casa dos Quacres, Londres ; Biblioteca John
Rylands, Manchester; Biblioteca Central, Manchester; Biblio-
teca Pública, Liverpool; Museu Wilberforce, Hull; Biblioteca
do Congresso, Washington; Biblioteca Nacional, Havana; So- Não é com freqüência que um professor universitário
ciedad Económica de Amigos del País, Havana. Quero agra- tem a oportunidade de escrever uma introdução a uma no-
decer à Biblioteca Newberry, de Chicago, por sua bondade va edição do livro de um aluno brilhante que acabou tor-
em me possibilitar, através de um empréstimo que fez dire- nando-se Primeiro-Ministro. Mas, mesmo que o Dr. Eric
tamente à Biblioteca dos Fundadores, da Universidade Ho- Williams não fosse Primeiro-Ministro de Trinidad-Tobago, a
ward, de Washington, ver as valiosas estatísticas de Sir edição britânica de seu Capitalismo e Escravidão seria extre-
Charles Whitworth publicadas sob o título de State of the mamente bem acolhida. Publicado nos Estados Unidos du-
Trade of Great Britain inits imports and exports, progressi- rante a última guerra, este brilhante ensaio de interpretação
ve!y from the year 1697-1773 (Estado do Comércio da Grã- econômica da história foi, muito naturalmente, pouco nota-
Bretanha em suas importações e exportações, progressiva- do na Grã-Bretanha. Isso foi inevitável, emibora tenha sido
mente do ano de 1697 a 1773). uma pena . Mas é uma característica dos bons livros manter
Minhas pesquisas foram facilitadas por subvenções de sua atuali·d ade e este livro é tão oportuno quanto o foi em
diferentes fontes: o Governo de Trini·dad, que prolongou uma 1942.
1bolsa de estudo original; a Universidade de Oxford, que me É oportuno porque os problemas das velhas colônias
concedeu duas bolsas de estudo especiais; o Fundo Beit escravistas das fndias Ocidentais continuam a reclamar nos-
para o estudo da História Colonial Britânica, que me outor- sa atenção; na verdade reclamam mais nossa atenção ago-
gou dois subsídios; e a Fundação Julius Rosenwald, que me ra do que o faziam então, já que a imigração da Jamaica e
concedeu bolsas de estudo em 1940 e 1942. O Professor Lo- das outras ilhas pôs os habitantes de muitas. ci.dades ingle-
well J. Ragatz, da Universidade George Washington, de sas, mormente de Londres, frente a frente com algumas das
Washington, o Professor Frank W. Pitman, da Escola Pamo- conseqüências do empobrecimento das fndias Ocidentais
na, d·e Claremont, Califórnia, e o Professor Melville J. Hers- Britânicas que, como o Dr. Williams mostra, tornou os ata-
kovits, da Universidade do Noroeste, de Chicago, muito bon- ques ao tráfico de escravos e portanto à escravidão mais
dosamente leram o manuscrito e fizeram muitas sugestões. eficazes do que teriam sido de outro modo. Se o "interesse
O mesmo fez meu colega na Universidade Howard, Profes- das fndias Ocidentais" tivesse sido tão poderoso economi-
sor Charles Burch. O Dr. Vincent' Harlow, atua lmente profes- camente no começo do século XIX como fora em meados do
sor de História Imperial na Universidade de Londres dos alu- XVIII, os filantropos, os evangelistas., teriam agitado e roga-
nos agraciados com a bolsa de estudo Rhodes, supervis.ou do em vão. Mas as fndias Ocidentais Britânicas estavam per-
minha tese de formatura em Oxford e foi sempre muito pres- dendo rapidamente sua posição proeminente na economia
tativo. Finalmente, minha esposa me foi de grande ajuda ao ultramarina britânica. O esgotamento do solo nas ilhas me-
tomar minhas notas e datilografar o manuscrito. nores, a concorrência cada vez mais severa de São Domin-
gos (Hait'i) e em seguida das terras .quase virgens de Cuba
ERIC WILUAMS deixaram as ilhas britânicas para trás na competição. Co-
mo frisa o Dr. Williams, a Grande Guerra Francesa enfraque-
Universidade Howard
,. ceu as ilhas britânicas, ainda que tenha afastado seus com-
Washington, D. C. petidores mais formidáveis, os plantadores franceses de São
12 de setembro de 1943 Domingos. O bloqueio inglês acarretou o crescimento for-

2 3
ld loglna. Isso não quer dizer que as ideo-
emVAlor OU que todos OS homens são venais.
o oxomplo da fa míl ia Rathbone, de Liverpool, um
netrnsto com os grandes negoc iantes menos escrupulo- 1
sos. Mas a lição deste livro é enregelante, embora não nova.
"Onde estiver seu tesouro, aí estará também seu coração." ORIGENS
DA
D. W. BROGAN ESCRAVIDÃO NEGRA

Quando em 1492, Colombo, representando a monar-


quia espanhola, descobriu o Novo Mundo, desencadeou a
longa e feroz rivalidade internacional pelas possessões
coloniais, para as quais, depois de quatro séculos e meio,
nenhuma solução foi ainda encontrada. Portugal, que
iniciara o movimento de expansão internacional, recla-
mava o seu direito aos novos territórios, sob o fundamento
de que se enquadravam na bula papal de 1455 que autori-
zava a nação portuguesa a reduzir à servidão todos os
povos infiéis. As duas potências, para evitar controvérsia,
procuraram arbitragem e, como países católicos, recorre-
ram ao Papa- uma atitude natural e lóg1ca numa época
em que os direitos universais do Papado ainda não eram
contestados pelos indivíduos e governos. Depois de ana-
lisar minuciosamente as reclamações das duas nações
disputantes, o Papa emitiu em 14~3 uma série de bulas
que estabeleceram uma linha de demarcação entre as pos-
sessões coloniais dos dois Estados : o Leste coube a Portu-
gal e o Oeste à Espanha. A partilha, contudo, deixou de
satisfazer às aspirações portuguesas, e no ano subseqüente
as partes contendoras conseguiram um acordo mais satis-
fatório no Tratado de Tordesilhas, que retificou o julga-
mento papal para permitir a propriedade portuguesa do
Brasil.
Nem a arbitragem papal nem o tratado formal pre-
tendiam ser obrigatórios para as outras potências, e ambos
foram de fato repudiados. A viagem de Cabot à América
do Norte em 1497 foi a resposta imediata da Inglaterra à
partilha. Francisco I da França externou seu famoso pro-
testo: "O Sol brilha para mim como para os outros. Eu

6 7
gostaria imensamente de ver a cláusula no testamento suor de seu rosto ganhos minguados de um solo relutante,
de Adão que me exclui de uma parte do mundo." O rei da deveria capitular ante a equipe disciplinada do grande
Dinamarca recusou-se a aceitar a decisão do Papa no que capitalista praticando agricultura extensiva e produzindo
concernia às índias Orientais. Sir William Cecil, o famoso em grande escala. Sem essa compulsão, o trabalhador
estadista elisabetano, negou o direito do Papa de "dar e exerceria então sua inclinação natural para cuidar de sua
tomar reinos a quem quer que lhe aprouvesse". Em 1580, própria terra e labutar por conta própria. Conta-se fre-
o Governo inglês revidou com o princípio da ocupação qüentemente a h istória do grande capitalista inglês, Sir
efetiva como o fator determinante de soberania.1 Depois Peel, que levou 50.000 libras esterlinas e trezentos traba-
disso, na linguagem da época, "não houve paz abaixo da lhadores consigo para a colônia Swan River (Rio Swan)
linha". Era uma disputa, nas palavras de um posterior na Austrália. Seu plano era que seus trabalhadores labo-
governador de Barbados, quanto a "se o Rei da Inglaterra rassem para ele, como acontecia na Inglaterra. Chegando
ou o da França seria o monarca das índias Ocidentais, pois à Austrália, porém, onde a terra era abundante - dema-
o Rei da Espanha não poderia mantê-las por muito tem- siadamente abundante -, os trabalhadores preferiram
po . . . " 2 A Inglaterra, a França, e mesmo a Holanda, come-
çaram a desafiar o Eixo Ibérico e a reclamar um lugar ao labutar para si mesmos como pequenos proprietários, em
Sol. O negro, também, teria seu lugar, embora não o vez de para o capitalista, por salário. A Austrália não era
tivesse pedido : sob o sol escaldante das plantações de cana- a Inglaterra e o capitalista ficou sem um serviçal para
-de-açúcar, fumo e algodão do Novo Mundo. fazer-lhe a cama ou trazer-lhe' água. 7
Para as colônias antilhanas a solução para essa dis-
persão e "esgaravatamento da terra" foi a escravidão. A
De acordo com Adam Smith, a prosperidade de uma lição da história inicial da Geórgia é instrutiva. Proibidos
nova colônia depende de um único fator econômico ~ de empregar o trabalho escravo por mandatários que, em
"abundância de boa terra".'1 As possessões coloniais bri- alguns casos, possuíam eles próprios escravos em outras
tânicas até 1776 podem ser, de um modo geral, divididas colônias, os plantadores georgianos viram-se na situação,
em dois tipos. O primeiro é a economia auto-suficiente e como expressou Whitefield, de indivíduos cujas pernas
diversificada dos pequenos agricultores, "meros esgaravata- estavam amarradas e que recebiam ordem de andar. Assim,
dores da terra", como Gibbon Wakefield os chamou zom- os magistrados da Geórgia ergueram brindes "a uma coisa
beteiramente,'1 vivendo num solo em que, como o Canadá necessária" - a escravidão - até que a proibição foi
foi descrito em 1840, "não era uma loteria, com alguns suspensa.8 Embora pudesse ser um "recurso odioso", como
prêmios exorbitantes e um grande número de bilhetes Merivale a chamou,9 a escravidão foi uma instituição eco-
brancos, mas um investimento seguro e. certo". 5 O segundo nômica de primeira importância. Tinha sido a base da
tipo é a colônia que tem facilidades para a produção de economia grega e erguera o Império Romano. Nos tempos
artigos primários em grande escala para um mercado de modernos, forneceu o açúcar para as xícaras de chá e
exportação. Na primeira categoria, enquadravam-se as co- café do mundo ocidental. Produziu o algodão para servir
lônias setentrionais do continente americano; na segunda, de base ao capitalismo moderno. Propiciou a colonização
as colônias produtoras de fumo do continente e as ilhas do Sul dos Estados Unidos e das ilhas do mar das Antilhas.
produtoras de cana-de-açúcar do mar das Antilhas. Nas Vista na perspectiva histórica, ela faz parte desse quadro
colônias deste último tipo, como Merivale frisou, a terra geral do tratamento cruel das classes desprivilegiadas, das
e o capital eram inúteis a não ser que o trabalho pudesse insensíveis leis dos pobres e severas leis feudais, e da indi-
ser controlado. 6 O trabalho devia ser constante e funcio- ferença com que a classe capitalista ascendente estava
nar, ou levado a funcionar , em cooperação. Nessas colônias, "começando a calcular a prosperidade em termos de libras
o individualismo inflexível do lavrador de Massachusetts, esterlinas e. . . acostumando-se à idéia de sacrificar a vida
praticando sua agricultura intensiva e arrancando com o humana ao imperativo sagrado do aumento da produção".l 0

8 9
Á.dam Smith, o paladino intelectual da Classe media nadn pelo trabalho escravo ineficiente. 14 Onde todo o
industrial com a doutrina recém-descoberta da liberdade, onhrcimento requerido é simples e uma questão de rotina
mais tarde propagou o argumento de que, em geral, o I c•onstância e cooperação no trabalho, a escravidão é
orgulho e o amor ao poder por parte do amo é que levaram l'ncial, até o momento em que, pela importação de novos
à escravidão e que, nos países em que se empregavam r crutas e pela procriação, a população atinja o ponto de
escravos, o trabalho livre seria mais proveitoso. A expe- 1nturação e a terra disponível já esteja distribuída. Quan-
riência universal demonstrou conclusivamente que "o tra- do tal etapa é atingida, e somente então, as despesas da
balho feito por escravos, embora pareça custar apenas sua acmvidão, em forma de custo e manutenção de escravos,
manutenção, é no fim o mais caro de todos. Uma pessoa produtivos e improdutivos, excedem o custo de trabalha-
que não pode adquirir propr.iedade não pode ter p~tro dores assalariados. Como escreveu Merivale: "O trabalho
interesse senão comer o maximo, e trabalhar o mmimo OHCI·avo será mais caro do que o livre sempre que se puder
possível".H conseguir o trabalho livre." 15
Adam Smith não fez senão tratar como uma propo- Do ponto de vista produtor, o maior defeito da escra-
sição abstrata o que é uma questão específica de tempo, vidão reside no fato de que ela esgota rapidamente o
lugar, trabalho e solo. A superioridade econômica d? tra- aolo. A massa de trabalhadores de baixa condição social,
balho livre assalariado sobre o trabalho escravo é evidente dócil e barata, só pode ser mantida em sujeição pela
até para o dono de escravos. O trabalho escravo .é. obtido degradação sistemática e pelos esforços deliberados de su-
com relutância, é desajeitado, carece de versatllldade. 12 primir sua inteligência. A rotação de culturas e a agri-
Em igualdade de condições, homens livres são pr~feríve!s. cultura científica são portanto estranhas às sociedades
Mas nas fases iniciais do desenvolvimento colomal, nao escravistas. Como Jefferson escreveu a respeito da Virgí-
há igualdade de condições. Quando a escravidão é adotada, nia, "podemos comprar um acre de terra nova mais barato
não é adotada como uma escolha em detrimento do tra- do que nos custaria adubar um acre velho". 16 O plantador
balho livre; não há qualquer escolha. As razões para a escravista, na terminologia pitoresca do Sul dos Estados
escravidão, escreveu Gibbon Wakefield, "não são circuns- Unidos, é um "arrasador da terra". Esse defeito sério da
tâncias morais, mas econômicas; n ão se relacionam com o escravidão pode ser contrabalançado e protelado por algum
vício e a virtude, mas com a produção".13 Com a população tempo se o solo fértil for praticamente ilimitado. A ex-
limitada da Europa no século XVI, os trabalhadores livr;s pansão é uma necessidade das sociedades escravistas; o
necessários para cultivar cana-de-açúcar, tabaco e algodao poder escravista requer sempre novas conquistasY "É mais
no Novo Mundo, não podiam ser fornecidos em quantidades lucrativo", escreveu Merivale, " cultivar um solo virgem
adequadas para permitir a produção ~m grande escala. pelo trabalho caro de escravos do que um solo esgotado pelo
A escravidão foi necessária por causa disso e para conse- trabalho barato de homens livres". 18 Da Virgínia e Mary-
guir escravos os europeus recorreram primeiro aos aborí- land à Carolina, Geórgia , Texas e o Meio-Oeste; de Bar-
gines e depois à Africa. bados à Jamaica, São Domingos e depois à Cuba; a lógica
Em certas circunstâncias, a escravidão tem incontes- era inexorável e a mesma. Era uma corrida de reveza-
táveis vantagens. No cultivo de produtos como can~-de­ mento; o primeiro a partir passava o bastão - de má
-açúcar, algodão e tabaco, onde o custo da produçao é vontade, podemos estar certos - a outro e depois claudi-
apreciavelmente reduzido, em unidades maiores, o dono cava tristemente atrás.
de escravos, com sua produção em grande escala. e sua
turma de escravos organizada, pode fazer uso mais pro-
veitoso da terra do que o pequeno agricultor ou proprie- A escravidão nas Antilhas tem sido muito estritamente
tário lavrador. Para tais produtos agrícolas, os lucros Identificada com o negro. Deu-se, por conseguinte, uma
enormes podem bem suportar a despesa maior proporcio- deformação racial ao que é basicamente um fenômeno eco-

10 11
nômico. A escravidão não nasceu do racismo : ao contrário, lndlos) nunca foi suficientemente ampla para influir
o racismo foi uma conseqüência da escravidão. O trabalho cKr.ruvidão e tráfico dos negros, nunca recebeu qualquer
não-livre no Novo Mundo era moreno, branco, negro e W lll'llO do Governo metropolitano e, assim, existia como
amarelo; católico, protestante e pagão. l anl porque nunca foi declarada ilegal." 2 o
O primeiro exemplo de tráfico e trabalho de escravos Mas a escravidão dos índios nunca foi muito ampla
verificados no Novo Mundo refere-se, racialmente, não ao nn11 domínios britânicos. Ballagh, escrevendo sobre a Vir-
negro, mas ao índio. Os índios sucumbiram rapidamente &el n h~, diz que o sentimento popular nunca "exigiu a su-
ao trabalho excessivo deles exigido, à alimentação insu- J«' II,' HO da raça índia per se, como ocorreu praticamente
ficiente, às doenças do homem branco, à sua incapacidade com o negro na primeira lei escravista de 1661, mas apenas
de ajustar-se ao novo modo de vida. Acostumados a uma dt uma parte dela, e reconhecidamente uma parte muito
vida de liberdade, sua constituição e seu temperamento pc•qncna. . . No caso do índio . . . a escravidão era vista
não se adaptavam aos rigores da escravidão das planta- como de natureza ocasional, um castigo preventivo, e não
ções. Como escreveu Fernando Ortíz : "Submeter o índio r.omo uma condição normal e permanente" .21 Nas colônias
às minas, a seu trabalho monótono, insano e severo, sem til~ Nova Inglaterra, a escravidão dos índios não era lu-
sentido tribal, sem ritual religioso, . . . era como tirar-lhe o cl'ntiva, pois nenhuma espécie de escravidão ·era lucrativa
significado de sua vida ... Era escravizar não somente seus nll porque era imprópria para a agricultura diversificada
músculos, mas também seu espírito coletivo." 19 dessas colônias. Além disso, o escravo índio era ineficiente.
O visitante da Ciudad Trujillo, capital da República Os espanhóis descobriram que um negro valia quatro ín-
Dominicana (o nome atual de metade da ilha antiga- dios.22 Um funcionário proeminente de Hispaníola insistia
mente chamada Hispaníola), verá uma estátua de Co- ('m 1518 que "permissão fosse dada para trazer negros,
lombo onde se acha a figura de uma índia escrevendo, uma raça robusta para o trabalho, em vez de nativos, tão
agradecidamente, (assim diz a legenda) o nome do Des- fracos que só podem ser empregados em tarefas que reque-
cobridor. Conta-se, por outro lado, a história do cacique rem pouca resistência, tais como tomar conta de milha-
Hatuey que, condenado a morrer por resistir aos invasores, rais".23 Os futuros produtos do Novo Mundo, cana-de-
recusou-se firmemente a aceitar a fé cristã como a porta -açúcar e algodão, requeriam força que os índios não
da salvação, quando soube que seus executores esperavam possuíam e exigiam o robusto "negro do algodão", como
também ir para o Céu. É muito mais provável que Hatuey, a necessidade açucareira de burros fortes produziu na
em lugar da índia anônima, representasse a opinião con- Luisiana o epíteto "burros do açúcar". De acordo com
temporânea dos índios sobre seus novos suseranos. Lauber: "Quando comparados com as somas pagas pelos
A Inglaterra e a França, em suas colônias, seguiram negros no mesmo tempo e lugar, os preços dos escravos
a prática espanhola de escravização dos índios. Havia uma índios são consideravelmente inferiores." 24
diferença patente - as tentativas da Coroa espanhola, O reservatório índio, também, era limitado; o africano,
embora ineficazes, de restringir a escravidão aos índios inesgotável. Os negros, portanto, eram roubados na Africa
que se recusavam a aceitar o cristianismo e aos caraíbas para trabalhar as terras roubadas dos índios n a América.
guerreiros, sob a alegação especiosa de que eles eram As viagens do Príncipe Henrique, o Navegador, comple-
canibais. Do ponto de vista do Governo britânico, a escra- mentaram as de Colombo e a história da Africa Ocidental
vidão dos índios, ao contrário da posterior escravidão dos tornou-se o complemento da história das índias Ocidentais.
negros que encerrava interesses imperiais vitais, era uma
questão puramente colonial. Como escreveu Lauber : "O
Governo metropolitano só se interessava pelas condições e O sucessor imediato do índio, porém, não foi o negro,
legislação dos escravos nas colônias quando se tratava do mas o branco pobre. Esses trabalhadores brancos com-
tráfico de escravos africanos . .. Já que ela (a escravidão preendiam uma variedade de tipos. Alguns eram servos

12 13
sob contrato (indentured se:rvctnts) , assim chamados por- Um tráfico regular estabeleceu-se com esses servos sob
que, antes de partirem de sua terra natal, tinham assinado (l(llltrato. Entre 1654 e 1685, dez mil partiram somente
um contrato, reconhecido por lei, obrigando-os a prestar di' Bristol, principalmente para as índias Ocidentais e a
serviço, por um tempo estipulado, em troca da passagem. Vlrglnia. 20 Em 1683, serviçais brancos representavam um
Outros ainda, conhecidos como "resgatadores", combina- Ht'X LO da população da Virgínia. Dois terços dos imigrantes
vam com o comandante do navio para pagar a passagem na dn Pensilvânia durante o século XVIII eram serviçais
chegada ou após um tempo especificado; se não o fizessem, hmncos; em quatro anos, 25.000 chegaram à Filadélfia.
eram vendidos pelo comandante a quem oferecesse o lance Estima-se que mais de um quarto de um milhão de pes-
mais alto. Outros eram sentenciados, enviados por medida HQUS eram dessa classe durante o período coloniaP0 e que
deliberada do Governo metropolitano para servir durante ülns provavelmente constituíam metade dos imigrantes in-
um período especificado. gleses, a maioria indo para as colônias centrais.31
Essa emigração condizia com as teorias mercantilistas Quando a especulação comercial entrou em ação, co-
da época que preconizavam vigorosamente que se pusesse meçaram a ocorrer abusos. Os raptos foram incentivados
o pobre no trabalho industrioso e útil e se favorecesse a até certo ponto e se tornaram um negócio corriqueiro em
emigração, voluntária ou involuntária, a fim de aliviar a cidades tais como Londres e Brístol. Os adultos eram
proporção de pobres e achar ocupações mais proveitosas no atraídos com bebida, as crianças engabeladas com doces.
estrangeiro para os ociosos e vagabundos da metrópole. Os raptores eram chamados "espíritos", definindo-se "espí-
"A servidão sob contrato", escreve C. M. Haar, "foi posta rito" como "aquele que pega homens, mulheres e crianças
em ação por duas forças diferentes embora complemen- e os vende num navio para serem transportados além-mar".
tares : havia tanto uma atração positiva do Novo Mundo O comandante de um navio que traficava com a Jamaica
quanto uma repulsa negativa do Velho." 25 Num documen- visitava a Casa de Correção de Clerkenwell, oferecia' bebida
to oficial entregue a Jaime I , em 1606, Bacon salientou às moças que estavam presas ali como desordeiras e as
que pela emigração a Inglaterra ganharia "uma dupla "convidava" a ir para as índias Ocidentais.32 As tentações
conveniência na remoção de pessoas daqui e em fazer uso apresentadas aos incautos e crédulos eram tão atraentes
delas lá".26 que, como o prefeito de Brístol reclamou, maridos eram
Esse serviço temporário no início não denotava infe- induzidos a abandonar suas esposas, esposas seus mari-
rioridade ou degradação. Muitos dos trabalhadores eram dos, aprendizes seus mestres, enquanto criminosos pro-
rendeiros senhoriais fugindo das restrições penosas do feu- curados encontravam nos navios de transporte um refúgio
dalismo, irlandeses procurando libertar-se da opressão dos das armas da lei. 33 A onda de imigração alemã fez surgir
proprietários de terras e bispos, alemães escapando da então o "newlander", o agenciador de mão-de-obra daque-
devastação da guerra dos Trinta Anos. Carregavam em les tempos, que percorria de alto a baixo o va1e do Reno
seus corações um desejo ardente de terra, uma ânsia ardo- persuadindo os camponeses feudais a vender seus perten-
ces e emigrar para a América, recebendo uma comissão
rosa de independência. Vinham para a terra da oportu- por cada emigrante.a4
nidade para se tornarem homens livres, com a imaginação Muito já se escreveu sobre os embustes que esses
poderosamente excitada pelas descrições refulgentes e "newlanders" não se opunham a empregar.35 Mas fossem
extravagantes ouvidas na terra natal.2 7 Foi somente mais quais fossem as imposturas praticadas, continua· a ser
tarde quando, nas palavras do Dr. Williamson, "todos os verdade, como Friedrich Kapp assinalou, que "o motivo
ideais de uma sociedade colonial decente, de uma Ingla- real para a febre de emigração residia nas condições polí-
terra melhor e maior no ultramar, mergulharam na busca ticas e econômicas adversas. . . A miséria e opressão das
de um ganho imediato",28 que a introdução de elementos condições dos pequenos estados (alemães) promoviam a
desmoralizados se tornou a característica geral do serviço emigração da maneira muito mais perigosa e contínua do
sob contrato. que o pior "newlander". 36
14 15
Os sentenciados proporcionavam uma fonte segura de colônia infantil do que seus vícios ser perniciosos." 43 Não
trabalhadores brancos. As severas leis feudais da In gla- havia nada de estranho com respeito a essa atitude. O
terra reconheciam trezentos crimes capitais. Os delitos grande problema num país novo é o do trabalho, e o
típicos de condenação à forca abrangiam.: punguear al- trabalho dos sentenciados, como Merivale acentuou, equi-
guém em importância superior a um xelim; furtar uma valia a um presente livre pelo Governo aos colonos, sem
loja no valor de cinco xelins; roubar um cavalo ou uma sobrecarregar estes últimos com a despesa de importa-
ovelha; caçar coelhos ilicitamente na propriedade de um ção.44 O governador da Virgínia, em 1611, estava disposto
cavalheiro. 37 Delitos para os quais o castigo prescrito pela a acolher sentenciados perdoados da pena de morte como
lei era a deportação compreendiam o furto de pano, a "um meio fácil de suprir-nos de homens e nem sempre
queima de medas de trigo, o aleijamento e matança de com a pior espécie de homens". 4 5 As índias Ocidentais
gado, o embaraço a funcionários aduaneiros na execução estavam preparadas para aceitar todos os indivíduos, sem
de seu dever, e a corrupção de funcionários. 38 Propostas distinção, até os provenientes de Newgate e Bridewell, pois
feitas em 1664 baniram para as colônias todos os vagabun- "nenhum presidiário pode ser tão incorrigível, mas há es-
dos, vadios e desocupados, pequenos ladrões, ciganos e pes- perança de sua conformidade aqui, bem como de sua ele-
soas dissolutas freqüentando bordéis não-licenciados.39 vação, o que alguns venturosamente têm experimenta-
Uma petição piedosa, em 1667, suplicava a deportação, em do".46
lugar da pena de morte, para uma mulher, condenada Os distúrbios políticos e civis na Inglaterra entre 1640
por furtar bens avaliados em três xelins e quatro pence. 40 e 1740 aumentaram o suprimento de trabalhadores bran-
Em 1745, a deportação era a pena para o furto de uma cos. Os não-conformistas políticos e religic:sos pagaram
colher de prata e um relógio de ouro. 41 Um ano depois da por sua heterodoxia com a deportação, a mnioria para as
emancipação dos escr avos negros, a deportação era a pena ilhas açucareiras. Tal foi o destino de mui1.os dos prisio-
para a atividade sindical. É difícil resistir à conclusão de neiros irlandeses de Cromwell, que foram enviados para
que havia certa ligação ent re a lei e as necessidades de as índias Ocidentais.47 Essa política era seguida tão à
trabalhadores das plantações, e é de admirar que tão risca que um verbo foi acrescentado à língua inglesa -
pouca gente tenha terminado nas colônias ultramarinas. "to barbadoes" ("deportar para Barbados") uma pessoa.48
Benjamin Franklin opôs-se a esse "despejamento no Montserrat tornou-se principalmente uma colônia irlan-
Novo Mundo dos proscritos do Velho", considerando-o como desa49 e o sotaque irlandês ainda é freqüentemente ouvido
o insulto mais cruel jamais oferecido por uma n ação a hoje em muitas partes das índias Ocidentais Britânicas.
outra, e perguntou, se a Inglaterra se sentia com direito Os irlandeses, porém, eram trabalhadores pobres. Detes-
em mandar seus sentenciados para as colônias, não se tavam os ingleses, estavam sempre prontos a ajudar os
sentiriam estas últimas justificadas em mandar para a inimigos da Inglaterra e, numa revolta nas ilhas de Sota-
Inglaterra suas cascavéis em troca ? 42 Não está claro por vento em 1689,50 já podemos ver sinais dessa indignação
que Franklin se mostrava tão melindrado. Mesmo que os candente que, de acordo com Lecky, deu a Washington
sentenciados fossem criminosos inveterados, o grande au- alguns de seus melhores soldados. 51 Os vencidos nas cam-
mento de servos sob contrato e emigrantes livres tenderia panhas escocesas de Cromwell foram tratados como os
a tornar inócua a influência dos sentenciados, como quan- irlandeses antes deles, e os escoceses passaram a sei' con-
tidades crescentes de água derramadas num copo que siderados como "os trabalhadores e soldados em muitos
contém veneno. Sem os sentenciados, o desenvolvimento países estrangeiros".52 A intolerância religiosa mandou
inicial das colônias australianas no século XIX teria sido mais trabalhadores para as plantações. Em 1661, os qua-
impossível. Apenas alguns colonos, porém, eram tão escru- cres, recusando-se a prestar juramento pela terceira vez,
pulosos. A atitude geral foi r esumida por um contempo- tiveram de ser deportados; em 1664, a deportação, para
râneo: "O trabalho deles podia ser mais benéfico numa qualquer plantação exceto a Virgínia ou Nova Inglaterra,

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ou uma multa de cem libras, foi decretada para a terceira Rc-l, para examinar e informar sobre a exportação dê tra~
transgressão para pessoas maiores de dezesseis anos reu- lmlhadores. Em 1670, uma lei proibindo a deportação
nidas em grupos de cinco ou mais sob o pretexto de reli- dt' prisioneiros ingleses para o ultramar foi rejeitada;
gião.53 Muitos partidários de Mommouth foram enviados nutro projeto contra o furto de crianças deu em nada.
a Barbados, com ordem de serem detidos como servos Na deportação dos criminosos, uma hierarquia inteira,
durante dez anos. Os prisioneiros eram cedidos em grupos clrsde secretários da Corte e juízes solenes até os diretores
aos cortesãos favoritos, que obtinham consideráveis lucros ele prisão e carcereiros, insistia em ter uma parcela nos
do tráfico, de que, afirma-se, até a Rainha partilhava.G4 lucros. 50 Sugeriu-se que foi a humanidade por seus com-
Recorreu-se a política semelhante após os levantes jaco- patriotas e homens de sua própria cor que determinou a
bitas do século XVIII. preferência do plantador pelo escravo negro.60 Dessa hu-
O transporte desses trabalhadores brancos mostra à manidade não há um só vestígio nos anais da época, pelo
sua luz verdadeira os horrores da travessia do Atlântico menos no que diz respeito às colônias de plantação e pro-
não como uma coisa incomum ou desumana, mas como dução comercial. Tentativas para registrar os trabalha-
produto da época. Os emigrantes eram comprimidos como dores emigrantes e regularizar o processo de deportação-
sardinhas. De acordo com Mittelberger, cada trabalhador dando assim pleno reconhecimento legal ao sistema -
tinha direito a aproximadamente 60 centímetros de lar- não eram levadas avante. Os principais negociantes e fun-
gura e 185 centímetros de comprimento na cama.a 5 Os cionários públicos estavam todos envolvidos na prática. A
barcos eram pequenos, a viagem longa, a comida, na pena por rapto era a exposição no pelourinho, mas não se
falta de frigorificação, má, a doença inevitável. Uma toleravam projéteis arremessados pelos espectadores. A
petição ao Parlamento em 1659 descreve como 72 traba- oposição que havia provinha do povo. Bastava apontar
lhadores ficaram trancados abaixo do convés durante toda um dedo para uma mulher nas ruas de Londres e chamá-
a viagem de cinco semanas e meia, "entre cavalos, suas -la de "espírito" para provocar-se uma desordem.
almas, devido ao calor e vapor sob o trópico, esmoreceram Essa era a situação na Inglaterra quando Jeffreys
dentro deles". 5j) Inevitavelmente, abusos insinuavam-se no chegou a Brístol em seu giro pelo Oeste para eliminar os
sistema e Fearon ficou chocado com "o quadro horrível do remanescentes da rebelião de Mommouth. Jeffreys passou
sofrimento humano que esse sepulcro vivo'' de um barco à posteridade como um "carniceiro", o emissário tirânico
de emigrantes em Filadélfia apresentava.a7 -Mas as condi- de um rei arbitrário, e sua visita de inspeção legal é
ções mesmo para os passageiros livres não eram muito registrada nos compêndios como "Inquéritos Sangrentos".
melhores naqueles tempos, e o comentário de uma senhora Tinha um aspecto redentor. Jeffreys declarou que viera
da nobreza, descrevendo uma viagem da Escócia para as a Brístol com uma vassoura para limpar a cidade e sua
índias Ocidentais num navio cheio de servos sob contrato, ira recaía sobre os raptores que infestavam os mais altos
deve eliminar qualquer idéia de que os horrores do navio cargos municipais. Os negociantes e juízes tinham o há-
de escravos devem ser atribuídos ao fato de que as viti- bito de forçar a lei para aumentar o número de criminosos
mas eram negros. "É quase impossível acreditar", escreve que poderiam ser deportados para as plantações de cana-
ela, "que a natureza humana pudesse ser tão ~epravada, a -de-açúcar que possuíam nas índias Ocidentais. Aterrori-
ponto de tratar criaturas semelhantes a nós de tal ma- zavam os pequenos transgressores com a perspectiva de
neira por um ganho tão pequeno." 58 enforcamento e depois os induziam a solicitar deportação.
O transporte de trabalhadores e sentenciados criou Jeffreys investiu contra um prefeito, com toda a sua vesti-
sólidos interesses na Inglaterra. Quando a Junta Colonial menta escarlate e peliças, que estava prestes a sentenciar
foi criada em 1661, o menos importante de seus deveres um punguista à deportação para a Jamaica, e forçou-o,
não era o controle do tráfico de servos sob contrato. Em para grande espanto dos dignos cidadãos de Brístol, a
1664, foi nomeada uma comissão, chefiada pelo irmão do eatrar no recinto reservado aos réus, como um criminoso

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comum, para declarar-se culpado ou inocente e intimidou-o mo raro de Jeffreys parece menos estranho e pode ser
com linguagem característica: "Sim, Sr. Prefeito, é ao trlbnldo antes a considerações econômicas do que alcoóli-
senhor que me refiro, raptor, e um velho juiz de paz no 1 Seus patronos, a Família Real, já tinham dado seu
tribunal .. . Não o conheço, um bom patife: vai à taverna pata·oc:fnio à Real Companhia Africana e ao tráfico de
e, por um quartilho de vinho, obriga as pessoas a se l'rnvos negros. Para a população excedente necessária
tornarem trabalhadores, a serem enviadas às índias. Um pnm povoar as colônias do Novo Mundo, os ingleses haviam
patife de um raptor! Farei arrancar-lhe as orelhas antes fl l'OJTido à Africa e, em 1680, eles já tinham provas cate-
de ir embora da cidade ... Raptor, o senhor, é o que digo ... l(t'H'lcas, em Barbados, de que o africano satisfazia melhor
Não fosse pelo respeito à espada que está sobre a sua ua necessidades de produção do que o europeu.
cabeça, eu o mandaria para Newgate, seu patife de raptor. A situação desses trabalhadores tornou-se gradativa-
Você é pior do que o punguista que está ali ... Diz-se mente pior nas colônias de plantação. A servidão inicial-
que o negócio de rapto tem muita procura. Pode-se soltar mente uma relação pessoal livre baseada no contrato vo-
um criminoso ou traidor, contanto que vá para a planta- luntário _por um período definido de serviço, em vez da
ção do Sr. Vereador nas índias Ocidentais." O prefeito dcportaçao e sustento, tendia a tornar-se uma relação de
foi multado em mil libras, mas, com exceção da perda de propriedade que declarava o controle de extensão variada
dignidade e do medo que sentiram intimamente, os ne- sobre os corpos e liberdade da pessoa durante o serviço
gociantes nada perderam - seus ganhos permaneceram como se ela fosse uma coisa. 64 Eddis, escrevendo na vés-
inviolados. 61 pera da Revolução, encontrou os servos gemendo "sob uma
De acordo com uma explicação, os insultos de Jeffreys escr~v2dão pior do que a egípcia". 6G Em Maryland, a
foram resultado de embriaguez ou insânia.6 2 Não é im- serv1dao transformou-se numa instituição que se .aproxi-
provável que tivessem ligação com uma reviravolta com- mava, em certos aspectos, da verdadeira escravidão.na Da
pleta do pensamento mercantilista sobre a questão da Pensilvânia já se disse que "não importa quão bondosa-
emigração, em conseqüência do desenvolvimento interno mente possam ter sido tratados em determinados casos
da própria Inglaterra. Em fins do século XVII, a ênfase ou quão voluntariamente possam ter entrado em relação;
tinha mudado da acumulação dos metais preciosos como como classe e uma vez assumido o compromisso, os servos
a meta da política econômica nacional para o desenvolvi- sobre contrato eram temporariamente escravo.s".67 Nas
mento da indústria dentro do país, o fomento de empregos plantações de cana de Barbados, os servos passavam o
e o incentivo das exportações. Os mercantilistas argumen- tempo "trabalhando nas moendas e cuidando dos fornos,
tavam que a melhor maneira de reduzir os custos, e desse ou cavando nessa ilha abrasadora; não tendo nada para
modo competir com os outros países, era pagar salários comer (apesar de seu trabalho árduo) a não ser raízes de
baixos, que uma grande população tendia a assegurar. batatas, nem para beber, a não ser a água em que se
O medo da superpopulação no começo do século XVII deu lavavam tais raízes, além do pão e das lágrimas de suas
lugar ao medo da subpopulação em meados do mesmo próprias aflições; sendo ainda comprados e vendidos de
século. A condição essencial da colonização - emigração um plantador a outro, ou agregados como cavalos e reses
da metrópole - agora contrariava o princípio de que o pelas dívidas de seus amos, sendo açoitados no pelourinho
interesse nacional exigia uma grande população no próprio (como criminosos) para prazer de seus amos, e dormindo
pais. Sir Josiah Child negou que a emigração para a em chiqueiros piores do que os porcos na Inglaterra . . . "68
América enfraquecera a Inglaterra, mas foi obrigado a ?amo conclui o Professor Harlow, o peso da prova mostra
admitir que, nesse modo de ver, ele era uma minoria de Incontestavelmente que as condições sob as quais a mão-
possivelmente um em mil, enquanto endossava a opinião -de-obra branca era conseguida e utilizada em Barbados
geral de que "o que quer que tenda ao despovoamento de eram "persistentemente severas, ocasionalmente desonro-
um reino tende ao seu empobrecimento" .63 O humanita- sas e geralmente uma desgraça para o nome inglês".69

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As autoridades inglesas, porém, tinham a opinião de Idos pela lel e inseridos no contrato. Gozava, pbt
que a servidão não era muito ruim e de que o trabalhador mplo, de um direito limitado à propriedade. Na lei
na Jamaica estava em melhor situação do que o lavrador tlvn, a concepção do servo como uma propriedade nunca
na Inglaterra. "É um lugar tão agradável para se comer- Ultrapassava a da condição pessoal e nunca atingia o
ciar como qualquer parte do mundo. Não é tão odioso tndo de um bem móvel ou imóvel. As leis das colônias
como se apresenta." 70 Mas havia certa sensibilidade sobre mantinham essa distinção rigorosa e puniam a co-habita-
a questão. Os Senhores do Comércio e Plantações, em 1676, lo t•ntre as raças com penas severas. O trabalhador podia
opuseram-se ao uso da palavra "servidão", como um sinal uplrar, no fim de seu período, a um pedaço de terra,
de servidão e escravidão, e sugeriram "serviço'' em seu mbora, como Wertenbaker assinala com respeito à Virgí-
lugar. 71 A instituição não foi afetada pela mudança. Ma- nia, não fosse um direito legal,78 e as condições variassem
nifestara-se a esperança de que os servos brancos seriam do colônia para colônia. O servo europeu podia, portanto,
poupados das chicotadas tão liberalmente aplicadas nos sperar por uma liberdade antecipada na América. Os
seus camaradas negros. 72 Não tiveram tão boa sorte. Desde trnbalhadores livres tornavam-se pequenos proprietários
que tinham obrigação de servir por um período limitado, o rurais, estabelecidos no interior do país, ·Uma força demo-
plantador tinha menos interesse em seu bem-estar do crática numa sociedade de donos de grandes plantações
que nos dos negros que eram trabalhadores vitalícios e, aristocráticas, e eram os pioneiros da expansão para o
portanto, "os pertences mais úteis" de uma plantação. 78 oeste. Essa era a razão por que Jefferson na América, como
Eddis encontrou os negros "quase em todos os casos, em Saco em Cuba, favorecia a introdução de trabalhadores
circunstâncias mais confortáveis do que o miserável euro- europeus em lugar de escravos africanos - como que
peu, sobre quem o plantador rígido exerce uma severidade tendendo para a democracia e não para a aristocracia.79
inflexível".74 Os servos eram considerados pelos planta- A instituição da servidão branca, porém, teve sérias
dores como "refugo branco" e eram classificados, junta- desvantagens. Postlethwayt, um rígido mercantilista, ar-
mente com os negros, como trabalhadores. "Nenhuma des- gumentou que os trabalhadores brancos das colônias ten-
sas colônias jamais conseguiu ou jamais conseguirá qual- deriam a criar rivalidade com a mãe-pátria na atividade
quer melhoramento considerável sem um suprimento de ma!_lufatureira. Era melhor ter escravos negros nas plan-
serviçais brancos e negros", declarou o Conselho de Mont- taçoes do que trabalhadores brancos na indústria, o que
serrat em 1680. 75 Numa sociedade européia- em que a estimularia aspirações de independência.so O suprimento,
subordinação era considerada essencial, em que Burke além disso, estava tornando-se cada vez mais difícil e a
podia falar das classes trabalhadoras como "carneiros mi- necessidade das plantações sobrepujava as convicções in-
seráveis" e Voltaire como canaüle, e Linguet condenava glesas. Além do mais, os negociantes estavam envolvidos
o trabalhador ao uso apenas de sua força física, pois "tudo em muitos processos amolantes e dispendiosos, originados
estaria perdido assim que ele soubesse que tinha cabeça" 76 de pessoas que manifestavam vontade de emigrar, aceita-
- em tal sociedade é desnecessário procurar desculpa para vam comida e roupa adiantadamente e depois moviam
a condição do trabalhador branco nas colônias. ação por detenção ilegal. 81 Servos sob contrato não vinham
Defoe afirmou grosseiramente que o trabalhador em quantidades suficientes para substituir os que tinham
branco era um escravo. 77 Não era. A perda de liberdade terminado seu tempo de serviço. Nas plantações, o livra-
do servo era de duração limitada, o negro era escravo a mento era fácil para o servo branco; menos fácil para o
vida inteira. A condição do servo não podia passar para negro que, se libertado, tendia, em sua própria defesa, a
seus descendentes, os filhos do negro tomavam a condição permanecer em sua localidade onde era bem conhecido e
da mãe. O amo em tempo algum tinha controle absoluto havia menos probabilidade de ser preso como vagabundo
sobre a pessoa e a liberdade de seu servo como tinha sobre ou escravo fugido. O trabalhador branco esperava terra no
seu escravo. O servo tinha direitos, limitados, mas reco- fim de seu contrato; o negro, num ambiente estranho,

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facilmente notado por sua cor e feições, e ignorando a teoria, mas uma conclusão prática deduzida da experiên-
linguagem e as maneiras do homem branco, podia ser cia pessoal do plantador. Ele teria ido à Lua, se neces-
mantido permanentemente divorciado da terra. Diferenças sário, em busca de mão-de-obra. A Africa era mais perto
raciais tornavam mais fácil justificar e racionalizar a do que a Lua, mais perto também do que os países mais
escravidão negra, impor a obediência mecânica de um boi populosos da índia e China. Mas a vez destes chegaria.
de arado ou de um cavalo de carroça, exigir aquela resig- Essa servidão branca é de importância capital para a
nação e aquela completa submissão moral e intelectual compreensão do desenvolvimento do Novo Mundo e do
que tornavam possível o trabalho escravo. Finalmente, e lugar do negro nesse desenvolvimento. Desmente com-
esse era o fator decisivo, o escravo negro era mais barato. pletamente o velho mito de que os brancos não podiam
O dinheiro que custeava os serviços de um homem branco suportar o rigor do trabalho manual no clima do Novo
por dez anos poderia comprar um negro para a vida toda.82 Mundo e que, por essa razão e somente por essa razão, as
Como o governador de Barbados afirmou, os plantadores potências européias tinham recorrido aos africanos. O
barbadianos constataram por experiência que "três negros argumento é totalmente insustentável. Um dito do Mis-
trabalhavam melhor e mais barato do que um branco".83 sissippi afirma que "só os negros e os jumentos podem
Mas a experiência com a servidão branca era inesti- enfrentar o sol em julho". Mas os brancos enfrentavam
mável. O rapto na Africa não encontrava tantas dificulda- o sol há bem mais de cem anos em Barbados, e os salz-
des como acontecia na Inglaterra. Os comandantes e os burgueses da Geórgia negaram com indignação que a
navios tinham a experiência de um tráfico para guiá-los no cultura do arroz lhes fosse prejudicial. 86 As Antilhas estão
outro. Brístol, o centro do tráfico de trabalhadores, tor- bem dentro da zona tropical, mas seu clima é mais brando
nou-se um dos centros do tráfico de escravos. O capital do que o tropical, a temperatura raramente ultrapassa
acumulado de um financiava o outro. A servidão branca 27°C, embora permaneça uniforme o ano inteiro, estando
foi a base histórica em que se ergueu a escravidão negra. elas expostas aos ventos fracos vindos do mar. A umidade
Os feitores de criminosos nas plantações tornaram-se sem insuportável de um dia de agosto em algumas partes dos
esforço feitores de escravos. "Em números significantes", Estados Unidos não tem equivalente naquelas ilhas. Além
escreve o Professor Phillips, "os africanos foram retarda- disso, somente a extremidade meridional da Flórida nos
tários adaptados a um sistema já desenvolvido". 84 Estados Unidos é realmente tropical, contudo a mão-de-
-obra negra floresceu na Virgínia e Carolina. As partes
meridionais dos Estados Unidos não são mais quentes do
Aí, então, é que está a origem da escravidão negra. que o sul da Itália ou Espanha, e Tocqueville perguntou
A razão foi econômica, não racial; não teve relação com a por que os europeus não podiam trabalhar lá como tam-
cor do trabalhador, mas com o baixo preço do trabalho. bém naqueles dois países? 87 Quando Whitney inventou seu
Em comparação com a mão-de-obra indígena ou branca, descaroçador de algodão, esperava-se confiantemente que
a escravidão negra era eminentemente superior. "Em cada o algodão seria produzido pelo trabalho livre nas pequenas
caso", escreve Bassett referindo-se à Carolina do Norte, fazendas e, de fato, assim aconteceu. 88 De onde o agri-
"era a sobrevivência do mais apto. Tanto a escravidão dos cultor branco era expulso, o inimigo não era o clima, mas
índios quanto a servidão dos brancos tinham que declinar a plantação de escravos, e o agricultor branco marchava
ante a resistência superior, a docilidade e a capacidade de para o oeste até que a plantação em expansão o fazia
trabalho do negro".85 As feições do homem, seu cabelo, reencetar suas andanças. Escrevendo em 1857, Weston as-
cor e dentadura, suas características subuman as tão am-
plamente alegadas, foram apenas as últimas racionaliza- sinalou que o trabalho nos campos do extremo sul e todo
ções para justificar um simples fato econômico : us colônias o trabalho pesado externo em Nova Orleãs eram executa-
precisavam de mão-de-obra e recorriam i\ múo-de-obra dos por brancos, sem quaisquer más conseqüências.
negra porque era mais barata e melhor. IsHo nno era uma "Nenhuma parte dos limites continentais do golfo do

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México", escreveu ele, "e nenhuma das ilhas que o sepa- Essa gente sobrevive hoje, sem sinais visíveis de deteriora-
ram do oceano precisam entregar-se ao barbarismo da ção, contradizendo inteiramente a crença popular quanto à
escravidão negra."B9 Em nosso próprio tempo, nós, que possibilidade de sobrevivência do branco do Norte nos tró-
assistimos ao esbulhamento dos negros pelos meeiros bran- picos.94 Em suma, onde quer que a agricultura tropical
cos no Sul e a mi-gração em massa dos negros do Sul para per:naneceu organi~ada sob a forma de pequena explo-
os climas mais frios de Detroit, Nova Iorque, Pittsburgh e raçao, os brancos nao somente sobreviveram, mas também
outros centros industriais do Norte, não podemos mais prosperaram. Onde os brancos desapareceram, a causa
aceitar a racionalização conveniente de que a mão-de-obra não foi o clima, mas a substituição da pequena pela
negra era utilizada nas plantações de escravos porque o grande plantação, com a conseqüente exigência de um
clima era extremamente rigoroso par a a constituição do grande e sistemático suprimento de mão-de-obra.
homem branco. A teoria da plantação baseada no clima, portanto,
Uma emigração constante e sistemática de brancos nada mais é do que uma racionalização. Num excelente
pobres da Espanha para Cuba, até o fim do domínio ensaio sobre o assunto, o Professor Edgar Thompson escre-
espanhol, caracterizou a política colonial espanhola. Fer- ve: "A plantação não deve ser justificada pelo clima. É
nando Ortíz traçou um contraste notável entre o papel uma instituição política." Podemos acrescentar: é uma
do fumo e o da cana-de-açúcar na história cubana. O fumo instituição econômica. A teoria climática "faz parte de
era uma indústria branca livre, intensamente cultivada uma ideologia que racionaliza e naturaliza uma ordem
em pequenas fazendas; a cana era uma indústria de social e econômica existente, e isso em toda parte parece
escravos negros, extensivamente cultivada em grandes ser uma ordem em que há um problema racial".95
plantações. Ele também comparou a indústria livre de A história da Austrália encerra a discussão. Quase
fumo cubana com sua réplica escrava da Virgínia.90 O que metade desse continente-ilha situa-se dentro da zona tro-
determinava a diferença não era o clima, mas a estrutura pical. Em parte dessa área tropical, o Estado de Queens-
econômica das duas regiões. Os brancos não teriam supor- land, a principal cultura é a cana-de-açúcar. Quando a
tado o calor tropical de Cuba para sucumbir ao de Bar- indústria começou a desenvolver-se, a Austrália tinha uma
bados. Em Porto Rico, o jíbaro, o camponês branco pobre, escolha entre duas opções: mão-de-obra negra ou mão-
ainda é o tipo básico, demonstrando, no dizer de Grenfell ·de-obra branca. O Commonwealth começou o cultivo de
Price, quão errônea é a crença de que após .três gerações cana da maneira habitual - com mão-de-obra negra im-
o homem branco não pode criar-se nos trópicos. 91 Comu- portada das ilhas do Pacífico. Exigências crescentes, porém,
nidades brancas semelhantes sobreviveram nas Antilhas, foram feitas para uma política branca australiana, e no
desde as primeiras colonizações até os nossos próprios século XX proibiu-se a imigração não-branca. É descabido
tempos, nas ilhas deSabá e São Martinho, das índias Oci- considerar aqui que, em conseqüência, o custo da produção
dentais Holandesas. Há uns sessenta anos, colonos fran- açucareira da Austrália é proibitivo, que a indústria é
ceses vivem em São Tomás não somente como pescadores, artificial e sobrevive apenas por trás da muralha chinesa
mas também como agricultores, formando hoje a "mais da autarquia australiana. A Austrália está disposta a
importante classe camponesa" da ilha.92 Como conclui o pagar um preço elevado a fim de permanecer um país de
Dr. Price: "Parece que os brancos do Norte podem reter homens brancos. Nosso único interesse aqui com a ques-
um bom padrão durante gerações nos trópicos de ventos tão é que esse preço foi pago pelo próprio consumidor
alísios se o local estiver livre das piores formas de doenças australiano, nada tendo a ver com a degeneração física
tropicais, se o rendimento econômico for adequado e se a do trabalhador australiano.
comunidade estiver preparada para incumbir-sr de traba- A mão-de-obra na indústria açucareira de Queens-
lho físico pesado." 93 Há mais de cem f\l'lOS um grupo land hoje é inteiramente branca. "Queensland", escreve
de emigrantes alemães estabeleceu-se em Sonford , Jamaica. H. L. Wilkinson, "oferece o único exemplo no mundo de
26 27
colonização européia noR trópicos em escala extensiva. e servos a usarem panos de algodão fabricados em Bar-
Faz mais ainda, moRLt•n llllln população européia executan- bados (que diriam os mercantilistas ingleses?), pa.ra pro-
do a totalidadr elo Lr·nlmlho do sua civilização desde o porcionar emprego aos brancos pobres e impedir que os
serviço mais lllllltlldt•, t• n Lru.I.Jalho manual mais esmerado, negr os aprendessem a negociar .I01 O governador de Bar-
até a rormn tll ttl H l'h•vnda de intelectualismo."96 A ciência bados, em 1695, traçou um quadro doloroso desses ex-servos.
desmc•nl.lll tlt · Ltl ltHillClra a superstição que os cientistas Sem carne fresca ou rum, "eles são dominados tiranica-
a uHI ntllullnH ltojt• urgumentam que a única condição em
mente e usados como cachorros, e isso com o tempo indu-
cpw u 1 lumJPilll c mulheres brancos podem permanecer bitavelmente afugentará toda a comunidade de gente
HH dloR lllJiil t róplcos é realizando trabalho manual duro. branca". Sua única sugestão foi dar o direito de eleger
c )Jiclt · ll:t.P ram isso, como em Queensland, "o exame cien-
t 111 ,., , IHills rigoroso'', de acordo com o Congresso Médico membros para a Assembléia a todo homem branco pos-
A11HI.rnllano, em 1920, "deixou de mostrar qualquer altera- suidor de dois acres de terra. Os candidatos à eleição
c•Ho orgânica nos residentes brancos que os capacitasse a ser procuravam "às vezes dar às pobres cr iaturas miseráveis
distinguidos dos residentes de climas temperados". 97 um pouco de rum, mantimentos frescos e outras coisas
que lhes pudessem servir de alimento", a fim de angariar-
-lhes os votos - e eleições eram realizadas todo ano. 102
A escravidão n egra, portanto, nada teve a ver com o Não é de surpreender que o êxodo continuasse.
clima. Sua origem pode ser expressa em três palavras: nas Os brancos pobres começaram suas viagens, dirigindo-
Antilhas, Açúcar, no continente, Fumo e Algodão. Uma -se para todas as Antilhas, de Barbados para Nevis, para
modificação na estrutura econômica produziu uma modi- Antígua, e daí para a Guiana e Trinidad, e finalmente
ficação correspondente no suprimento de mão-de-obra. O para a Carolina. Em toda parte foram perseguidos ·e es-
fato fundamental foi "a criação de uma organização bulhados pela mesma força econômica inexoráve:J., o açúcar;
social e econômica inferior de exploradores e explorados". 98 e na Carolina estiveram a salvo do algodão apenas por uns
Açúcar , fumo e algodão requeriam a grande plantação e cem anos. Entre 1672 ~ 1708, os homens brancos em
hordas de trabalhadores baratos, e a pequena plantação Nevis diminuíram em mais de t rês quintos; a populaç~o
do trabalhador branco ex-engajado possivelmente não con- negra mais do que, duplicou. Entre 1672 e 1727, os homens
seguia sobreviver. O tabaco da pequena fazenda em Bar- brancos de Montserrat declinaram em mais de dois terços,
bados foi substituído pela cana-de-açúcar da -grande plan- no mesmo período a população negra aumentou em mais
tação. O crescimento da indústria açucareira nas Antilhas de onze vezes.l03 "Quanto mais compram", diziam os
foi o sinal de um gigantesco esbulhamento do pequeno barbadianos referindo-se a seus escravos, "tanto mais são
fazendeiro. Barbados, em 1645, tinha 11.200 pequenos capazes de comprar, pois dentro de um ano e meio ganha-
fazendeiros brancos e 5.680 escravos negros; em 1667, havia rão, com a graça de Deus, tanto quanto custaram." 104 O
745 proprietários de grandes plantações e 82.023 escravos. Rei Açúcar começou suas depredações, transformando as
Em 1645, a ilha tinha 18.300 brancos aptos para pegar comunidades florescentes dos pequenos fazendeiros em
em armas; em 1667, havia apenas 8.300. 99 Os agricultores vastas explorações de açúcar, de propr iedade de um grupo
brancos foram diminuindo. Os plantadores continuavam de magnatas capitalistas absenteístas e operadas por um
a oferecer incentivos aos recém-chegados, mas não podiam bando de proletários alienígenas. A economia das planta-
mais oferecer o incentivo principal : terra. Os trabalha- ções não tinha lugar para os brancos pobres; o proprietário
dores brancos preferiam as outras ilhas, onde podiam ou superintendente, um médico nas plantações mais prós-
esperar conseguir um pedaço de terra, a Barbados, onde peras, possivelmente suas famílias, isso era o suficiente.
tinham certeza de que não havia nenhuma. 100 Em deses- "Se um Estado", escreveu Weston, "pudesse supostamente
pero, os plantadores propuseram legislação que impedia ser constituído de plantações contínuas, a raça branca
o proprietário de adquirir mais terras, obrigava os negros não somente passaria fome, mas literalmente se compri-
28 29
miria." 10·' Os plantadores residentes, apreensivos com a sobre as ilhas açucareiras francesas informava que para
crescente desproporção entre brancos e negros, apro- fazer dez barris de açúcar havia necessidade de uma
varam Leis de Deficiência para obrigar os absenteístas, despesa tão grande em animais de carga, moendas e uten-
sob pena de multas, a ter trabalhadores brancos. Os sílios como para fazer cem. 112 J ames Knight, da Jamaica,
absenteístas preferiram pagar as multas. Nas índias Oci- calculou que se precisava de quatrocentos acres para come-
dentais hoje os brancos pobres sobrevivem nos chamados çar uma plantação de cana-de-açúcar.l13 De acordo com
"Pernas Vermelhas"* de Barbados, pálidos, fracos e dege- Edward Long, outro plantador e historiador da ilha, pre-
nerados pelo casamento consangüíneo, rum forte, comida cisava-se de 5.000 libras para iniciar uma pequena plan-
insuficiente e abstinência de trabalho manual. Pois, como tação de trezentos acres, produzindo de trinta a cinqüenta
Merivale escreveu, "num país em que a escravidão negra barris de açúcar por ano, 14.000 libras para uma plantação
predomina extensivamente, nenhum branco é esforçado no do mesmo tamanho produzindo cem barris.m Só podia
trabalho" .1oa haver duas classes em tal sociedade: plantadores ricos e
Foi um triunfo, não das condições geográficas, como escravos oprimidos.
afirma Harlow,l07 mas das condições econômicas. As víti- A moral é reforçada por uma consideração em torno
mas foram os negros da Africa e os pequenos fazendeiros da história da Virgínia, on(le a economia das plantações
brancos. O aumento da riqueza para um pequeno número se baseava não no açúcar, mas no fumo. As pesquisas
de branco foi tão fenomenal como o aumento da miséria do Professor Wertenbaker desmentiram a lenda de que a
para um grande número de negros. A produção agrícola Virgínia .desde o começo foi um domínio aristocrata. No
de Barbados em 1650, durante um período de vinte meses, início do século XVII, cerca de dois terços dos proprietários
representou um valor de mais de três milhões de libras,108 de terras não tjnham escravos nem servos sob contrato. A
cerca de quinze milhões em moeda atual. Em 1666, cal- força da colônia residia em seus inúmeros pequenos pro-
culava-se que Barbados era dezessete vezes mais rica do prietários brancos. As condições pioraram quando o mer-
que fora antes do plantio da cana-de-açúcar. "As cons- cado de fumo foi abarrotado pela concorrência espanhola
truções em 1643 eram ordinárias, com coisas apenas de e os virginianos exigiram, irados, que se fizesse algo com
necessidade, mas em 1666 a prataria, jóias e a mobília respeito "a essas pequenas plantações inglesas nas ilhas
eram estimadas em 500.000 libras, suas construções eram selvagens das índias Ocidentais", por meio das quais gran-
elegantes e bonitas e suas casas pareciam eastelos, seus des quantidades de fumo espanhol chegavam à Inglater-
engenhos e as cabanas dos negros mostravam-se do mar ra.m Não obstante, embora os preços continuassem a cair,
como muitas cidades pequenas, cada uma defendida por as exportações de Virgínia e Maryland cresceram mais de
seu castelo. "109 O preço da terra subiu vertiginosamente. seis vezes entre 1663 e 1699. A explicação reside em duas
Uma plantação de quinhentos acres que era vendida por palavras - escravidão negra, que barateava o custo da
400 libras em 1640 alcançava 7.000 libras por meia par- produção. Os escravos negros, um vigésimo da população
ticipação em 1648. 110 A propriedade de um tal Capitão em 1670, eram um quarto em 1730. "A escravidão, de sua
Waterman, compreendendo oitocentos acres, foi certa vez condição de fator insignificante na vida econômica da
dividida entre nada menos de quarenta possuidores. 111 colônia, tornou-se a base sobre a qual ela se estabeleceu."
Pois o açúcar era e é essencialmente um empreendimento Havia ainda lugar na Virgínia, como não havia em Bar-
capitalista, abrangendo não somente as operações agrí- bados, para o pequeno fazendeiro, mas a terra era-lhe
colas, mas também as fases de refinação. Um relatório inútil se ele não podia competir com o trabalho escravo.
Assim o camponês virginiano, como o barbadiano, foi
oprimido. "A Virgínia, que outrora fora tão abundante-
• Redlegs ("pernas vermelhas") ou Redshanks ("canelas verme- mente a terra do pequeno fazendeiro, tornara-se a terra
lhas"), descendentes de um clã celta da Alta Escócia e da Ir- de Senhores e Escravos. Para nada mais havia lugar." 11a
landa. <N. do T.)

30 31
Toda a história futura das Antilhas nada mais é do "embranquecer" a estrutura social cubana.120 A escravi-
que uma explicação minuciosa desse fenômeno. Aconteceu dão negra enegrecera essa estrutura em todas as Antilhas,
mais cedo nas ilhas inglesas e francesas do que nas espa- enquanto o sangue dos escravos negros avermelhara o
nholas, onde o processo foi retardado até o advento da Atlântico e suas praias de ambos os lados. Ironicamente,
diplomacia do dólar de nosso próprio tempo. Sob o capital um artigo como o açúcar, tão doce e necessário à existência
americano, assistimos à transformação de Cuba, Porto humana, tenha ocasionado tais crimes e derramamento de
Rico e República Dominicana em enormes explorações sangue!
açucareiras (embora a grande plantação, especialmente em Depois da emancipação, os plantadores britânicos
Cuba, não fosse conhecida sob o regime espanhol) de passaram a pensar na imigração branca, mesmo de sen-
propriedade estrangeira e operada por mão-de-obra aliení- tenciados. O governador da Guiana Inglesa escreveu em
gena, à moda das índias Ocidentais Britânicas. Que esse termos candentes, em 1845, sobre imigrantes portugueses
processo ocorra com mão-de-obra livre e em regiões nomi- de Madeira.121 Mas, embora os portugueses viessem em
nalmente independentes (com exceção de Porto Rico) nos grandes números, como é atestado por sua força até hoje
ajuda a ver em seu verdadeiro contexto a primeira im- em Trinidad e na Guiana Inglesa, preferiam o negócio
portação de escravos negros para as Antilhas inglesas - a varejo ao trabalho nas plantações. O governador da
uma fase na história da plantação. Nas palavras do Pro- Jamaica foi um tanto mais cauteloso em sua opinião sobre
fessor Phillips, o sistema de plantações "dependia menos os imigrantes ingleses e irlandeses. A doença irrompera,
da escravidão do que a escravidão dependia dele ... O sis- os salários eram muito baixos, a experiência podia ser
tema de plantações formava, por assim dizer, a estrutura útil apenas em parte, no que diz respeito a fazer um
industrial e social do Governo .. . , enquanto a escravidão acréscimo imediato à população trabalhadora e, portanto,
era um código de leis escritas promulgadas para esse a importação indiscriminada era desaconselhável. 122 Os imi-
fim." 117 grantes europeus em St. Christopher lamentavam seu des-
Onde a plantação não se desenvolvia, como na indús- tino pesarosamente e imploravam permissão para regres-
tria do fumo de Cuba, a mão-de-obra negra era rara e a sar à pátria. "Não há a menor relutância de nossa parte
mão-de-obra branca predominava. O setor liberal da po- em continuar na ilha por um meio de vida honesto, agra-
pulação cubana preconizava sistematicamente a cessação dando nossos patrões com nosso trabalho dedicado, se o
do tráfico de escravos negros e a introdução de imigrantes clima concordasse conosco, mas infelizmente não concorda;
brancos. Saco, porta-voz dos liberais, clamava pela imi- e estamos muito temerosos de que, se permanecermos nesse
gração de trabalhadores "brancos e livres, de todas as clima quente e maléfico (as índias Ocidentais), a morte
partes do mundo, de todas as raças, contanto que tenham será a conseqüência para a maior parte de nós ... " 123
cara branca e possam fazer trabalho honesto". 118 O açúcar Não era o clima que era contra a experiência. A
derrotou Saco. Foi a plantação de cana-de-açúcar, com escravidão criara a tradição perniciosa de que o trabalho
sua base escravista, que retardou a imigração branca em manual era a insígnia do escravo e a esfera de influência do
Cuba no século XIX, como a havia impedido em Barbados negro. O primeiro pensamento do escravo negro após a
no século XVII e em São Domingos no século XVIII. Não emancipação era abandonar a plantação assim que pudesse,
havendo cana-de-açúcar, não havia negros. Em Porto Rico, e fixar-se por conta própria onde houvesse terra disponível.
que só relativamente t arde se desenvolveu como um ver- Trabalhadores brancos de plantações dificilmente podiam
dadeiro sistema de plantações, e onde, antes do regime existir numa sociedade lado a lado com os negros. Os bran-
americano, o açúcar jamais dominara a vida e o pensa- cos prosperariam se as pequenas fazendas fossem incentiva-
mento da população como fazia em outras partes, os cam- das. Mas a abolição da escravatura não significou a destrui-
poneses brancos pobres sobreviveram e os escravos negros ção da plantação de cana-de-açúcar. A emancipação do
jamais ultrapassaram 14% da população.119 Saco desejava negro e a inadequação do trabalhador branco fizeram o

32 33
plantador de cana-de-açúcar voltar à situação do século
XVII. Continuava a precisar de mão-de-obra. Então ele
passa~a do índio para o branco e depois para o negro. Ago-
ra, pnvado de seu negro, retornara ao branco e depois ao
índio, dessa vez o índio do Oriente, o indiano. A índia
2.
substituiu a Africa; entre 1833 e 1917, Trinidad importou O DESENVOLVIMENTO
145.000 indianos• e a Guiana Inglesa, 238.000. O quadro DO
era o mesmo no que concerne às outras colônias antilha-
nas. Entre 1854 e 1883, entraram 39.000 indianos em Gua- TRÁFICO NEGREIRO
da1upe; entre 1853 e 1924, mais de 22.000 trabalhadores
das índias Orientais Holandesas e da índia Inglesa foram
transportados para a Guiana Holandesa.t24 Cuba, diante
da escassez de escravos negros, adotou a experiência in-
teressante de utilizar escravos negros lado a lado com cules Os escravos negros eram "a força e o nervo desse mundo
cJ:ineses sob contrato,125 e após a emancipação recorreu aos ocidental". 1 A escravidão negra exigia o trãfico de es-
milhares do Haiti e das índias Ocidentais Britânicas. Entre cravos. Portanto, a preservação e a melhoria do trãfico
1913 e 1924, Cuba importou 217.000 trabalhadores do Haiti com a Africa era "uma questão da mais alta importância
Jamaica e Porto Rico. 126 O que Saco escrevera hã mais d~ para este reino e as plantações a ele pertencentes".2 E
cem anos ainda acontecia sessenta anos depois da abolição assim continuou a ser, até 1783, um objetivo fundamental
da escravatura em Cuba. da política exterior inglesa.
A escravidão negra, portanto, era apenas uma solução, A primeira expedição inglesa de trãfico de escravos
em certas circunstâncias históricas, do problema de mão- foi a de Sir John Hawkins, em 1562. Como tantos outros
-de-obra das Antilhas. Açúcar significava mão-de-obra - empreendimentos elisabetanos, foi uma expedição de pira-
às vezes essa mão-de-obra era livre, outras vezes era no- taria, transgredindo a arbitragem papal de 1493 que
minalmente livre; às vezes mão-de-obra negra, outras tornara a Africa monopólio português. Os escravos con-
vezes branca, morena ou amarela. A escravidão, de maneira seguidos foram vendidos aos espanhóis nas índias Oci-
alguma, denotava, em qualquer sentido científico, a infe- dentais. O trãfico inglês de escravos manteve-se em carãter
rioridade do n egro. Sem ela, o grande desenvolvimento irregular e superficial até o estabelecimento das colônias
das plantações de cana-de-açúcar das Antilhas, entre 1650 br~tânicas nas Antilhas e a introdução da indústria açuca-
e 1850, teria sido impossível. reira. Quando, em 1660, as conturbações políticas e sociais
do período da Guerra Civil chegaram ao fim, a Inglaterra
estava pronta para abraçar fervorosamente um ramo do
comércio cuja importância para suas colônias produtoras
de açúcar e fumo estava começando a ser plenamente
reconhecida.
De acordo com a política econômica da monarquia
Stuart, o trãfico de escravos foi confiado a uma compa-
nhia monopolista, a Companhia dos Empreendedores Reais,
que para traficar com a Africa foi constituída em 1663
• Esta é a palavra correta utilizada nas Antilhas: tndtanos. t para um período de mil anos. O Conde de Clarendon
complet amente errado chamá·-los, como se faz em muitos paí- externou o entusiasmo, reinante na época, de que a com-
ses, de htndus. Nem todos os indianos são hindus. Há muitos panhia "seria igualmente um modelo para promover o co-
Indianos muçulmanos nas !ndlas Ocidentais. mércio da Inglaterra com o de qualquer outra companhia,
34 35
até com o das índias Orientais".3 A previsão otimista não época tivesse a mm1ma idéia das v1soes ainda piores que
se realizou, principalmente em virtude das perdas e trans- a palavra evocaria cento e cinqüenta anos mais tarde
tornos causados pela guerra com os holandeses, e em 1672 quando foi associada à tirania econômica do plantador de
foi criada uma nova companhia, a Real Companhia Afri- cana-de-açúcar das índias Ocidentais. Mas, na última
cana. década do século XVII, a corrente econômica fluía deci-
A política de monopólio, porém, continuou inalterada didamente contra o monopólio. Em 1672, o comércio bál-
e provocou resistência decidida em dois setores - o dos tico cindiu-se e o monopólio da Companhia Báltica des-
negociantes nos portos marítimos da Inglaterra, lutando moronou. Uma das conseqüências mais importantes da
para acabar com o monopólio do capital, e o dos planta- Revolução Gloriosa de 1688 e da expulsão dos Stuart foi
dor~s nas colônias, exigindo t ráfico livre de negros tão o ímpeto qu e isso deu ao princípio do livre-câmbio. Em
voc1ferantemente e com tanta volúpia como cento e cin- 1698, a Real Companhia Africana perdeu seu monopólio
qüenta anos mais tarde viriam a opor-se ao comércio livre e o direito do tráfico livre com escravos foi reconhecido
do açúcar. Os teóricos do mercantilismo estavam divididos como um direito fundamental e natural dos ingleses. No
na questão. Postlethwayt, o mais prolífico dos escritores mesmo ano, os Empreendedores Mercantis de Londres
mercantilistas, queria a companhia, a companhia inteira foram privados de seu monopólio do comércio de expor-
e n ada mais senão a companhia.4 Joshua Gee acentuava tação de tecido, e um ano depois o monopólio da Compa-
a frugalidade e a boa administração do comerciante pri- nhia de Moscóvia era revogado e o comércio com a Rússia
vado.5 Davenant, um dos mais competentes economistas e tornava-se livre. A liberdade concedida ao tráfico de es-
peritos financeiros de seu tempo, a princípio opôs-se ao cravos diferia somente numa particularidade da liberdade
monopólio,6 mais t arde então mudou de opinião, argu- concedida em outros negócios- a mercadoria em questão
mentando que outras nações acharam as companhias era o homem. ·
organizadas necessárias e que a companhia "ficaria em A Real Companhia Africana tornou-se impotente ante
lugar de uma academia, para treinar um número infinito a concorrência dos comerciantes livres. Logo foi à falência
de pessoas no conhecimento regular de todas as matérias e passou a depender de subsídio parlamentar. Em 1731,
relativas aos vários ramos do comércio africano". 7 ela deixou o tráfico de escravos e limitou-se ao comércio
A posição contra o monopólio foi sucintamente ex- de marfim e de ouro em pó. Em 1750, uma nova organi-
posta pelos comerciantes livres_:__ ou entrelopos, como eram zaç~o foi fundada, chamada a Companhia de Negociantes
então chamados - à Junta de Comércio, em 1711. O traficando com a Africa, com uma diretoria composta de
monopólio significava que a compra de produtos manu- nove membros, três de cada uma das cidades de Londres
faturados ingleses para venda na costa da Africa, o con- Brístol e Liverpool. Dos traficantes de escravos relacio~
t role de navios empregados no tráfico de escravos, a venda nados em 1755, 237 pertenciam a Brístol, 147 a Londres
de negros às plantações, a importação do produto das e 89 a Liverpool.lO
plantações - "esse grande círculo de comércio e navega-
ção", do qual a subsistência, direta e indireta, de milhares
de pessoas dependia - ficaria sob o controle de uma única Com a instauração do comércio livre e as exigências
companhia. 8 Os plantadores, por sua vez, queixavam-se crescentes das plantações de cana-de-açúcar, o volume do
da qualidade, preços e entregas irregulares, e recusavam-se tráfico inglês de escravos aumentou enormemente. A Real
a pagar suas dívidas à companhia. 9 Companhia Africana, entre 1680 e 1686, transportou uma
Não havia nada de extraordinário nessa oposição ao média anual de 5.000 escravos. 11 Nos primeiros nove anos
monopólio do tráfico de escravos. Monopólio era uma de comércio livre só Brístol remeteu 160.950 negros para
p~lavra ofensiva, que evocava lembranças da tirania polí- as plantações de cana.12 Em 1760, um total de 146 n avios
tica de Carlos I, embora nenhum "livre-cambista" da zarpou dos portos britânicos para a Africa, com uma capa-

36 37
cidade de 36.000 escravos; 13 em 1771, o número de navios 10.700 escravos foram introduzidos, mais de um sexto das
aumentou para 190 e o número de escravos para 47.000.14 importações de 1512 a 1763, mais de um terço das impor-
A importação para a Jamaica de 1700 a 1786 foi de 610.000 tações de 1763 a 1789.17 Quarenta mil negros foram intro-
e calcula-se que a importação total de escravos para todas duzidos em Guadalupe pelos ingleses, em três anos, du-
as colônias britânicas entre 1680 e 1786 foi superior a rante a mesma guerra. 1s A Comissão do Conselho Privado
dois milhões. 15 de 1788 deu especial atenção ao fato de que da exportação
Mas o tráfico de escravos era mais do que um meio anual britânica de escravos da Africa, dois terços foram
para atingir um fim, era também um fim em si mesmo. cedidos a estrangeiros. 19 Durante todo o século XVIII, os
Os traficantes ingleses de escravos forneciam os trabalha- traficantes ingleses de escravos forneceram aos plantadores
dores necessários não somente para suas próprias. plan- de cana da França e Espanha meio milhão de negros,
tações, mas também para as de seus rivais. O estímulo justificando suas dúvidas quanto "à sabedoria e diretriz
assim proporcionado aos estrangeiros era contrário não desse ramo do comércio africano". 20 A Grã-Bretanha não
somente ao bom senso, mas também ao estrito mercanti- era somente o principal país traficante de escravos do
lismo, mas, no que concerne ao tráfico de escravos para as mundo; tornara-se também, na expressão de Ramsay, o
colônias espanholas, havia certa razão para isso. A Es- "honroso transportador de escravos" de seus rivais.21
panha dependeu sempre, até o século XIX, de estrangeiros A história dessa expansão do tráfico de escravos é
para a obtenção de seus escravos, quer porque aderira à principalmente a história da ascensão de Liverpool. O
arbitragem papal que a excluía da Africa, quer porque primeiro navio mercante de escravos de Liverpool, uma
tinha falta de capital e dos artigos necessários para o embarcação modesta de trinta toneladas, zarpou para a
tráfico de escravos. O privilégio de fornecer esses escravos Africa em 1709. Esse foi o primeiro passo numa direção
às colônias espanholas - o Asiento - tornou-se um dos que, no fim do século, concedeu a Liverpool a distinção de
negócios, mais cobiçados e mais renhidamente disputados ser o maior porto de tráfico de escravos do Velho Mundo.
pela diplomacia internacional. Os mercantilistas ingleses O progresso a princípio foi lento. A cidade estava mais
defendiam o comércio, legal ou ilegal, com as colônias interessada no negócio de contrabando para as colônias
espanholas, de negros e artigos manufaturados, como de espanholas e no negócio de fumo. Mas, de acordo com um
valor incontestável, pelo fato de que os espanhóis pa:gavam historiador da cidade, ela logo tomou a dianteira com a
em metais preciosos e assim a provisão de ouro da Ingla- sua política de reduzir as despesas ao mínimo, o que a
terra aumentava. O fornecimento de escravos às colônias capacitou a vender mais barato do que suas rivais inglesas
francesas não podia pretextar tal justificação. Aí havia e continentais. Em 1730, Liverpool tinha quinze navios
claramente um choque de interesses entre o traficante no tráfico de escravos; em 1771, possuía sete vezes mais.
inglês de escravos e o plantador inglês de cana, como o A proporção dos navios negreiros para o movimento total
negócio da exportação de maquinaria inglesa de 1825 levou do porto era ligeiramente superior de um em cem, em
a um choque de interesses entre os armadores e os pro- 1709; em 1730, era de um em onze; em 1763, um em
dutores ingleses. quatro; em 1771, um em três.22 Em 1795, Liverpool detinha
O plantador de cana estava certo e o traficante de cinco oitavos do tráfico inglês de escravos e três sétimos
escravos estava errado. Mas na primeira metade do sé- do tráfico total europeu de escravos.23
culo XVIII isso só era notado pelos muito perspicazes. Os "horrores" da travessia do Atlântico foram contados
Postlethwayt condenou o Asiento de 1713 como escanda- de maneira exagerada. Os abolicionistas ingleses são, em
loso e ruinoso, uma troca da substância pela aparência: grande parte, responsáveis por isso. Há algo que cheira
"dificilmente se podia imaginar uma transação de tão a ignorância ou hipocrisia, ou às duas coisas, nas invec-
pouco benefício para a nação". 16 Durante os nove meses tivas assacadas por esses homens contra o tráfico que na
da ocupação britânica de Cuba na Guerra dos Sete Anos, época deles se tornara menos lucrativo e menos vital para
38 39
a Inglaterra. Um plantador das índias Ocidentais certa
vez lembrou ao Parlamento que não ficava bem ao repre-
sentante eleito de um país que embolsara os ganhos do O diário de um mercador de escravos durante sua
tráfico de escravos estigmatizá-lo como um crime.24 A residência na Africa admite que "não encontrei lugar em
época que vira a mortalidade entre os servos sob contrato todas essas diversas terras da Inglaterra, Irlanda, América,
não via razão para melindres em torno da mortalidade Portugal, Antilhas, Cabo Verde, Açores ou em todos os luga-
entre os escravos, nem tampouco a exploração dos escravos res em que estive... onde eu pudesse aumentar minha for-
nas plantações diferia fundamentalmente da exploração tuna tão rapidamente como onde vivo agora". O dinheiro
do camponês feudal ou do tratamento dispensado aos pobres fazia o homem. O pródigo que retornava à pátria de mãos
nas cidades européias. vazias tinha de contentar-se com a designação comum de
Motins e suicídios eram obviamente muito mais co- "o mulato que acaba de chegar da Guiné". Se, porém,
muns nos navios negreiros do que em outras embarcações, retornava com os bolsos abarrotados de ouro, "essa mesma
e o tratamento brutal e restrições maiores aos movimentos particularidade encobre todas as outras enfermidades,
dos escravos tendiam sem dúvida para aumentar-lhes a então você tem montes de amigos de todas as espécies
mortalidade. Mas as causas fundamentais dessa alta mor- acotovelando-se e aguardando suas ordens. Então você é
talidade nos navios negreiros, como também nos navios conhecido pelo nome de "o cavalheiro africano" na casa
que levavam servos sob contrato e até passageiros livres, de todo grande homem, e sua palestra é considerada tão
devem ser encontradas primeiro nas epidemias, resultado extraordinária como a expedição de Cristóvão Colombo à
inevitável das longas viagens e da dificuldade de manter América". 30
comida e água, e segundo na prática de superlotar os Por volta de 1730, em Brístol, estimava-se que numa
navios. O único objetivo dos mercadores de escravos era viagem afortunada o lucro sobre uma carga de 270 escra-
ter os tombadilhos dos navios "abarrotados de negros".25 vos atingia 7.000 ou 8.000 libras, sem incluir os ganhos
Não é incomum ler acerca de uma embarcação de 90 provenientes do marfim. No mesmo ano, a renda líquida
toneladas transportando 390 escravos ou uma de 100 to- de uma carga "medíocre" que chegou em más condições
neladas transportando 414. 26 As investigações de Clarkson foi superior a 5.700 libras. 31 Lucros de 100 % não eram
em Brístol revelaram uma chalupa de 25 toneladas desti- raros em Liverpool e uma viagem proporcionou um lucro
nada a setenta seres humanos e outra de apenas onze líquido de pelo menos 300%. O Lively, abastecido em
toneladas destinada a trinta escravos.27 O espaço concedido 1737 com uma carga no valor de 1.307 libras, retornou a
a cada escravo na travessia do Atlântico media 1,67 metro Liverpool com produtos coloniais e letras de câmbio tota-
de comprimento por 40 centímetros de largura. Arruma- lizando 3.080 libras, além de algodão e açúcar remetidos
dos como "filas de livros em estantes", como disse Clarkson, mais tarde. O Ann, outro navio de Liverpool, zarpou em
acorrentados dois a dois, perna direita com perna esquerda, 1751 com um equipamento e uma carga custando 1.604
mão direita com mão esquerda, cada escravo tinha menos libras; ao todo a viagem rendeu 3 .287 libras líquidas. Uma
espaço do que um homém num caixão de defunto. Era segunda viagem em 1753 rendeu 8.000 libras por uma carga
como o transporte de gado preto, e onde não havia negros e equipamento montando a 3.153 libras.32
suficientes embarcavam gado.28 O objetivo do traficante
de escravos era o lucro e não o conforto de suas vítimas, Um escritor do século XVIII calculou que o valor dos
e uma modesta medida de 1788, para regular o transporte 303.737 escravos transportados em navios de Liverpool
dos escravos de acordo com a capacidade do navio, susci- entre 1783 e 1793 foi superior a quinze milhões de libras es-
tou uma grita dos traficantes de escravos. "Se a alteração terlinas. Deduzindo as comissões e outras despesas, o custo
for levada a efeito", escreveu um deles a seu agente, "pre- do equipamento dos navios e manutenção dos escravos,
judicará o tráfico, portanto espero que você saiba como ele concluiu que o lucro anual médio foi superior a 30 % .33
deva fazer" .29 Os economistas modernos tendem a censurar os observado-

40 41
res da época por exagero indevido. Mas, mesmo admitindo O "atraente met eoro africano", 37 como um historiador
as estimativas reduzidas do Professor Dumbell, o lucro contemporâneo de Liverpool chamou-o, portanto tornou-se
líquido do Enterprise, em 1803, calculado sobre o custo do imensamente popular. Embora uma grande parte do trá-
equipamento e o custo da carga, foi de 38%, enquanto o fico de escravos de Liverpool fosse monopolizada por cerca
do Fortune, em 1803, para uma carga de pobres escravos, de dez firmas, muitos dos navios pequenos empenhados
foi superior a 16%. Ainda com base nessas estimativas no negócio eram abastecidos por advogados, negociantes
reduzidas, o lucro do Lottery, em 1802, foi de 36 libras por de fazendas, merceeiros, barbeiros e alfaiates. As ações dos
escravos, o do Enterprise de 16 libras e o do Fortune de empreendimentos eram subdivididas, um tendo um oitavo,
cinco. 34 Calculou-se que o tráfico de escravos em geral outro quinze avos, um terceiro trinta e dois avos de uma
trouxe só a Liverpool na década de 1780 um lucro líquido ação, e assim por diante. "Quase todo mundo em Liverpool
de 300.000 libras por ano; e afirmava-se comumente na é negociante e aquele que não pode vender um fardo
cidade sobre o muito menos lucrativo tráfico das índias mandará uma caixa de chapéu .. . quase toda classe de
Ocidentais que se um navio em três chegasse a seu destino gente está interessada numa carga da Guiné, é para essa
não se perdia dinheiro, enquanto se dois chegasse a seu febre que (existem) tantos navios pequenos." 38
destino se ganhava bastante dinheiro. Em média apenas A compra de escravos exigia tino comercial e discri-
um navio em cinco extraviava-se.3s minação arguta. Um negro angolano era proverbialmente
sem valor; os coromantinos (achantis), da Costa do Ouro,
Tais lucros parecem pequenos e insignificantes, em eram bons trabalhadores, mas muito rebeldes; os mandin-
comparação com os fabulosos 5.000% da Companhia das gas (Senegal) eram muito propensos ao roubo; os ibos
índias Orientais Holandesas obtidas liquidamente em (Nigéria) eram tímidos e desanimados; os popós ou 11ídas
certas épocas de sua história. É mesmo provável que os (Daomé) eram os mais dóceis e mais bem dispostos. 39
lucros decorrentes do tráfico de escravos fossem menores Os escravos eram necessários para o trabalho árduo no
do que os conseguidos pela Companhia das índias Orien- campo, por conseguinte mulheres e crianças eram menos
tais Britânicas. Contudo, esses negócios eram muito menos valiosas do que homens robustos, as primeiras porque
importantes do que o tráfico de escravos. A explicação estavam sujeitas a interrupções do trabalho devido à gra-
repousa no fato de que, segundo o ponto de vista dos mer- videz, as segundas porque requeriam alguma atenção até
cantilistas, o comércio com a índia era um mau negócio. que fossem capazes de cuidar de si mesmas. Um nego-
Sugava ouro da Inglaterra para a compra de quinquilha- ciante de Liverpool advertia seus agentes quanto à compra
rias desnecessárias, o que levava muitos na época a pensar de escravos herniados, idiotas ou "portadores de alguma
que "seria uma coisa venturosa para a cristandade que a doença congênita".40 Um poeta das índias Ocidentais reco-
navegação para as índias Orientais, através do cabo da mendava ao traficante de escravos que se certificasse de
Boa Esperança, nunca tivesse sido descoberta".36 O tráfico que a língua do escravo era vermelha, o peito largo e a
de escravos, ao contrário, era ideal pelo fato de ser realizado barriga não fosse protuberante.41 Compre-os jovens, acon-
por meio de artigos manufaturados ingleses e de se achar, selhava um feitor de Nevis; "aqueles sujeitos já plena-
no que concernia às colônias britânicas, inseparavelmente mente desenvolvidos acham duro trabalhar; não tendo
ligado ao negócio das plantações que tornava a Grã-Breta- sido criados para fazê-lo, levam-no muito a sério e mor-
nha independente dos estrangeiros para seu suprimento rem ou nunca servem para coisa alguma . . . " 42
de produtos tropicais. Os enormes lucros do comércio holan- Mas o tráfico de escravos era sempre um negócio
dês, de especiarias, além disso, basearam-se na restrição arriscado. "O Comércio Africano", escreveu-se em 1795,
severa da produção para assegurar preços altos, ao passo "mantém sempre um encadeamento constante de incer-
que o tráfico de escravos criou a indústria inglesa na teza, o tempo do trabalho do escravo é precário, a duração
metrópole e a agricultura tropical nas colônias. da travessia do Atlântico é incerta, um navio pode ser
42 43
em parte ou totalmente destruído, as mortalidades podem participou abertamente do tráfico de escravos para Cuba.
ser grandes e várias outras ocorrências podem sobrevir, A Família Real Portuguesa, quando se mudou para o
impossíveis de serem previstas".43 O cultivo da cana, além Brasil a fim de evitar ser capturada por Napoleão, não
disso, era uma loteria. As dívidas dos plantadores, suas achou a atmosfera escravista de seu território colonial
falências e pedidos de créditos longos proporcionavam repugnante. Luís XIV reconheceu plenamente a impor-
aos negociantes muitas preocupações. "Como você sabe",
escreveu um dele~, "despacho rápido é a alma do negócio, tância do tráfico de escravos para a França metropolitana
tive muitas horas de apreensão este ano, eu não queria e a França ultramarina. Os planos do Grande Eleitor para
o mesmo novamente pelo dobro do lucro que eu pudesse o engrandecimento prussiano abrangiam o tráfico de es-
ter, se tivesse algum". 44 De 1763 a 1778, os negociantes de cravos africanos.49
Londres evitaram qualquer ligação com os traficantes de A expedição de tráfico de escravos de Hawkins foi
escravos, na convicção de que o tráfico de escravos estava lançada sob o patrocínio da Rainha Elisabete. Ela ex-
sendo realizado com prejuízo; entre 1772 e 1778, admitiu-se pressou a esperança de que os negros não seriam levados
que os negociantes de Liverpool perderam 700.000 libras.45 sem o seu livre consentimento, o que "seria detestável e
Das trinta casas importantes que dominavam o tráfico de atrairia a vingança do Céu sobre os empreendedores". Mas
escravos desde 1773, doze tinham ido à falência em 1788, havia tantas possibilidades de que o transporte dos negros
enquanto muitas outras suportaram prejuízos considerá- fosse efetuado democraticamente como havia de barga-
veis.4a A Revolução Americana interrompeu seriamente nha coletiva. A Companhia de Empreendedores Reais e a
o tráfico. "Nosso outrora extensivo tráfico com a Africa Real Companhia Africana tinham, como seus nomes indi-
está parado", lamentou um jornal de Liverpool em 1775. cam, o patrocínio real e, não infreqüentemente, investi-
Seus "navios garbosos, desarmados e inúteis", os trafi- mentos por membros da família real.5° De acordo· com
cantes de escravos de Liverpool recorreram à pirataria,47 Wilberforce, Jorge III mais tarde opôs-se à abolição,51 e
aguardando ansiosamente o retorno da paz, sem nunca grande foi a alegria dos traficantes de escravos de Liverpool
lhes passar pela cabeça o pensamento de que estavam e dos plantadores de cana jamaicanos quando o Duque
assistindo ao estertor de uma velha época e às dores de (real) de Clarence, o futuro Guilherme IV, "tomou posi-
nascimento de uma nova. ção" contra a abolição 52 e atacou Wilberforce como fanático
ou hipócrita.53
O Governo britânico, antes de 1783, era uniformemente
Antes de 1783, porém, todas as classes da sociedade coerente em seu incentivo ao tráfico de escravos. Os pri-
inglesa sustentavam o tráfico negreiro. A monarquia, o meiros grandes rivais eram os holandeses, que monopo-
Governo, a Igreja, a opinião pública em geral, apoiavam lizavam o tráfico mercante das colônias britânicas. A
o tráfico de escravos. Havia poucos protestos e esses eram encarniçada guerra comercial da segunda metade do sé-
ineficazes. culo XVII entre a Inglaterra e a Holanda representou um
A monarquia espanhola lançara a moda que a rea- esforço por parte da Grã-Bretanha de destruir a rede
leza européia seguiu até o último momento. Os palácios- comercial que os holandeses haviam tecido em torno da
-fortaleza de Madri e Toledo foram construídos com o Inglaterra e suas colônias. "O que queremos", disse o
pagamento à Coroa espanhola por licenças para trans- General Monk com rudeza militar, "é um pouco mais do
portar negros. Realizou-se uma reunião dos soberanos comércio que os holandeses têm agora". 54 Quer fosse uma
da Espanha e Portugal, em 1701, para discutirem o pro- paz nominal, quer uma guerra efetiva, uma espécie de
blema aritmético apresentado por um contrato de dez mil guerra particular foi mantida, durante trinta anos, entre
"toneladas" de negros concedidos aos portugueses.48 A a Companhia das índias Ocidentais Holandesas e a Real
rainha espanhola, Cristina, em meados do século XIX, Companhia Africana.
44 45
A vitória da Inglaterra sobre a Holanda deixou-a Em todo período de nossa história, em quase toda variação
frente a frente com a França. A guerra anglo-francesa, de nossa política, cada lado e discrição dos homens dos
colonial e comercial, é o tema dominante na história do partidos tem, deliberadamente, aprovado esse mesmo trá-
século XVIII. Foi um conflito de políticas mercantilistas fico, votado seu estímulo e considerado-o como benéfico
rivais. A luta foi travada nas Antilhas, na Africa, índia, à nação". 5B
Canadá e nas margens do Mississippi, pelo privilégio de O Parlamento reconheceu a importância da escravi-
saquear a índia e pelo controle de certas mercadorias dão e do tráfico de escravos para a Grã-Bretanha e suas
vitais e estratégicas- negros, açúcar e fumo, peixe, peles plantações. Em 1750, Horace Walpole escreveu sarcasti-
e suprimentos navais. 55 Dessas regiões as mais impor- camente a respeito do "Senado Britânico, esse templo de
tantes eram as Antilhas e a Africa; dessas mercadorias as liberdade e baluarte do cristianismo protestante, ... pon-
mais importantes eram os negros e o açúcar. O resultado derando métodos para tornar mais eficaz esse horrendo
mais importante foi o controle do Asiento. Esse privilégio tráfico de vender negros". 59 O Parlamento ouviu muitos
foi concedido à Inglaterra pelo Tratado de Utrecht, em debates em seus salões majestosos sobre a abolição e a
1713, como uma conseqüência de sua vitória na Guerra emancipação, e seus anais mostram os afoitos defensores
da Sucessão Espanhola, e produziu regozijos populares no que os traficantes e donos de escravos possuíam. Entre
país. Foi um orgulho para Chatham que sua guerra com eles estava Edmund Burke. O paladino da conciliação da
a França desse à Inglaterra o controle quase integral da América foi um instrumento da crucificação da Africa.
costa africana e do tráfico de escravos. Em 1772, um projeto de lei foi apresentado à Câmara dos
As assembléias coloniais freqüentemente dificultavam Comuns para proibir o controle da Comissão Africana por
a ação dos traficantes, em parte para aumentar a receita, estranhos que não estivessem empenhados no tráfico de
em parte devido ao medo da crescente população de es- escravos. Burke protestou, não contra o tráfico de escra-
cravos. Todas essas leis eram anuladas pelo Governo me- vos, mas contra a privação do direito de votar daqueles
tropolitano, por insistência dos negociantes ingleses, que que legalmente haviam adquirido esse direito. Apenas
se opunham aos tributos sobre o tráfico inglês. A Junta alguns, argumentou ele, eram assim acusados. "Não de-
de Comércio decidiu em 1708 que era "absolutamente víamos antes imitar o exemplo que nos oferece a escritura
necessário que um tráfico tão benéfico ao reino fosse rea- sagrada, se encontrarmos dez pessoas justas dentre elas,
lizado da maneira mais vantajosa. O bom fornecimento poupar o todo? ... Não contrariemos então a sabedoria de
às plantações e colônias de um número suficiente de nossos ancestrais, que consideraram e reconsideraram esse
negros a preços razoáveis é em nossa opinião o ponto assunto, nem coloquemos na condição de monopólio o que
principal a ser considerado". 56 Em 1773, a Assembléia da se destinava a um comércio livre."60 Brístol podia bem
Jamaica, com a finalidade de aumentar a receita e reduzir dar-se ao luxo de partilhar da admiração geral do grande
o medo das rebeliões de escravos, impôs uma taxa sobre liberal.
cada negro importado. Os negociantes de Londres, Liver- A Igreja também apoiava o tráfico de escravos. Os
pool e Brístol protestaram e a Junta de Comércio condenou espanhóis viram nisso uma oportunidade de converter o
a lei como injustificável, imprópria e prejudicial ao comér- pagão, e os jesuítas, dominicanos e franciscanos estavam
cio britânico. O governador foi severamente repreendido profundamente metidos no cultivo da cana, que signifi-
por seu fracasso em deter esforços para "restringir e cava posse de escravos. Conta-se a história de um velho
desencorajar um tráfico tão benéfico à nação".57 Como presbítero da igreja de Newport que invariavelmente, no
um parecer aos plantadores de cana, mais tarde argu- domingo seguinte à chegada de um navio negreiro da costa
mentava: "em toda variação de nossa administração dos africana, agradecia a Deus porque "outra carga de seres
negócios públicos, em toda mudança de partido, a polí- ignorantes tinha sido trazida à terra onde poderiam ter o
tica, com respeito a esse tráfico, tem sido a mesma ... benefício da dispensação evangélica".61 Mas, em geral, os

46 47
plantadores britânicos se opunham à conversão ao cris- mais recente escritor inglês sobre o tráfico de escro.voH,
tianismo de seus escravos. Ela tornava-os mais perversos, eles "consideravam que o melhor modo pelo qual se pode-
intratáveis e, portanto, menos valiosos. Significava tam- ria corrigir o mau trato dos escravos negros era estabele-
bém instrução na língua inglesa, o que permitia que di- cer um bom exemplo para os donos de plantações, man-
versas tribos se reunissem e tramassem a sedição.62 Havia tendo eles próprios escravos e propriedades, realizando
outras razões materiais para essa oposição. O governador dessa maneira prática a salvação dos plantadores e o
de Barbados, em 1695, atribuiu-a à recusa dos plantadores progresso de suas fundações". 73 Os missionários morávios
de dar folga aos escravos nos domingos e dias de festa,s3 das ilhas mantinham escravos sem hesitação; os batistas,
e em época tão posterior, como 1823, a opinião pública um historiador escreve com sutileza encantadora, n ão per-
britânica ficou chocada com a rejeição, por parte dos mitiam que seus missionários mais antigos condenassem a
plantadores, de uma proposta para dar aos negros um dia posse de escravos. 74 Até o último momento, o Bispo de
na semana, o que permitiria a abolição do mercado negro Exeter conservou seus 655 escravos, pelos quais recebeu
aos domingos. 64 A Igreja obedientemente seguiu a orien- mais de 12.700 libras de indenização em 1833.75
tação. A Sociedade para a Propagação do Evangelho proi- Os historiadores eclesiásticos apresentam desculpas
biu o ensinamento cristão a seus escravos em Barbadosss tolas, para o fato de ter a consciência despertado muito
e marcou a palavra "Sociedade" em seus novos escravos lentamente para a avaliação dos males infligidos pela es-
para distingui-los dos da classe leiga; 66 os escravos originais cravidão e que a defesa da escravidão pelos clérigos
eram um legado de Christopher Codrington. 67 Sherlock, usimplesmente resultou da falta 'd e sutileza da percepção
mais tarde Bispo de Londres, assegurou aos plantadores moral". 76 Não há necessidade de apresentar tais desculpas.
que "o cristianismo e a adoção do Evangelho não faziam A atitude do clérigo era a mesma atitude do leigo. O
a menor diferença na propriedade civil".68 Nem tampouco século XVIII, como qualauer outro século, não podia ele-
aquilo impunha qualquer entrave à atividade clerical; por
seus trabalhos com respeito ao Asiento, que ele ajudou a var-se acima de seus condicionamentos econômicos. Como
elaborar como plenipotenciário britânico em Utrecht, o Whitefield argumentou. ao preconizar a rejeicão daquele
Bispo Robinson , de Brístol, foi promovido para a sé de artigo da carta da Geórgia que proibia a escravidão, "é
Londres. 69 Os sinos das igrejas de Brístol repicaram ale- evidentemente claro que os países quentes não podem ser
gremente ante a notícia da rejeição pelo Parlamento do cultivados sem os negros".77
projeto de Wilberforce para a abolição do tráfico de escra- O não-conformismo quacre não se estendeu ao tráfico
vos.70 O traficante de escravos John Newton deu graças de escravos. Em 1756, havia 84 quacres na lista de mem-
a Deus nas igrejas de Liverpool pelo êxito de seu último bros da Companhia traficando com a Africa, entre eles as
empreendimento, antes de sua conversão, e implorou a famílias Barclay e Baring. 78 O negócio de escravos era
bênção de Deus para o empreendimento seguinte. Estabe- um dos investimentos mais lucrativos dos quacres ingleses
leceu o culto público duas vezes por dia em seu navio como tamhém dos americanos, e o nome de um navio
negreiro, ele próprio oficiando, e guardava um dia de jejum negreiro . The Willing QuoJcer (O Quac1·e Voluntário), ano-
e oração, não para os escravos, mas para a tripulação. tado em Boston como em Serra Leoa em 1793,79 simboliza
"Jamais conheci", confessou ele, "horas mais deliciosas ou a aprovação com que o tráfico de escravos era encarado nos
mais freqüentes. de comunhão divina do que nas duas círculos quacres. A ooosição quacre ao tráfico de escravos
últimas viagens à Guiné".71 O famoso Cardeal Manning veio primeiro e principalmente não da Inglaterra, mac; da
do século XIX era filho de· um rico negociante das índias América, e aí das peauenas comunidades rurais do Norte,
Ocidentais que comerciava com produtos agrícolas culti- independentes do trabalho escravo. "É difícil", escreve o
vados por escravos. 72 Muitos missionários acharam van- Dr. Gary, "evitar a pressuposição de que a oposição ao
tajoso expulsar Belzebu com Belzebu. De acordo com o sistema escravista a princípio se limitou a um grupo que

48 49
não obtinha vantagem direta dele e, conseqüentemente, do século XVIII em seu desejo de possuir um pretinho de
possuía uma atitude objetiva".so quem pudesse gostar como de seu gatinho dedicado.90
A Marinha estava impressionada com o valor das Negros libertos se encontravam entre os mendigos de Lon-
colônias das índias Ocidentais e se recusava a arriscar dres e eram conhecidos como membros de St. Giles. Eram
ou comprometer sua segurança. A estação naval das tão numerosos que uma comissão parlamentar foi criada
índias Ocidentais era uma "estação de honra" e muito::; em 1786 para socorrer os negros pobres. 91
almirantes haviam sido recepcionados pelos donos de es- "Os escravos não podem respirar na Inglaterra", es-
cravos. Rodney opunha-se à abolição.sl O Conde St. Vin· creveu o poeta Cowper. Mas era uma licença poética.
cent alegou que a vida nas plantações era para o negro Sustentava-se em 1677 que "os negros geralmente sendo
um verdadeiro paraíso em comparação com a sua exis- comprados e vendidos entre os negociantes, e portanto
tência na Africa.82 A abolição era uma "doutrina maldit.u mercadoria, e sendo também infiéis, devia haver uma pro-
e a~ominável, sustentada apenas por hipócritas".83 os priedade com relação a eles". Em 1729, o Procurador-Geral
sentimentos valorosos do almirante não eram inteiramente determinou que o batismo não outorgava liberdade nem
divorciados de outras considerações materiais. Ele recebeu fazia qualquer alteração na condição temporal do escravo;
mais de 6.000 libras de indenização, em 1837, pelos 416 além disso, o escravo não se tornava livre por ser trazido
escravos que possuía na Jamaica.s4 A esposa de Nelson para a Inglaterra, e uma vez na Inglaterra o dono podia
era natural das índias Ocidentais e as opiniões dele sobre legalmente obrigá-lo a retornar às plantações.92 Uma au-
o tráfico de escravos eram inequívocas. "Fui educado na toridade tão eminente como Sir William Blackstone afir-
boa e velha escola e aprendi a reconhecer o valor de nossus mava que "com respeito ·a qualquer direito que o senhor
possessões nas índias Ocidentais, e nem no campo nem (ou amo) possa ter adquirido legalmente ao serviço vita-
no Senado seus justos direitos serão infringidos, enquanto lício de João ou Tomás, este permanecerá exatamente no
eu tiver um braço para lutar em sua defesa, ou uma língua mesmo estado de sujeição a vida inteira", na Inglaterra
para lançar minha voz contra a doutrina odiosa de wn. ou em qualquer outro lugar.93
berforce e seus aliados hipócritas." ss Quando, portanto, o zelo assíduo de Granville Sharp
A escravidão existia ante os próprios olhos dos ingle~~ levou ao Juiz Mansfield, Presidente do Tribunal, em 1772,
do século XVIII. Uma moeda inglesa, o guinéu, rara como o caso do negro James Somersett que estava para ser
era e é, teve sua origem no tráfico com a Africa.s6 Um reembarcado para a Jamaica por seu dono, houve abun-
ourives de Westminster fazia cadeado para pretos e ca- dantes precedentes para provar a impureza do ar inglês.
chorros.87 Bustos de negros e elefantes, emblemas do trá- Mansfield tentou vigorosamente fugir à questão sugerindo
fico de escravos, adornavam o edifício da Municipalidade a alforria do escravo e contentou-se com a declaração
de Liverpool. As insígnias e o equipamento dos traficantes moderada de que o caso não era "permitido ou aprovado
de escravos eram audaciosamente expostos à venda nas pela lei da Inglaterra" e que o negro devia ser libertado.
lojas e anunciados na imprensa. Escravos eram vendidos Muito se tem enaltecido esse caso, principalmente de parte
abertamente em leilão. 88 Sendo os escravos uma proprie- das pessoas que procuram constantemente triunfos do
dade. valiosa, com título reconhecido por lei, o agente do humanitarismo. O Professor Coupland argumenta que por
correio era a pessoa incumbida, em certas ocasiões de trás do julgamento legal se encontra o julgamento moral
recapturar escravos fugidos e anúncios eram public~dos e que o caso Somersett assinalou o início do fim da escra-
no órgão oficial do Governo. 89 Servos negros eram comuns. vidão em todo o Império Britânico.94 Isso é simplesmente
Meninos pretos serviam e acompanhavam docilmente sentimentalismo poético, traduzido em história moderna.
comandantes de navios negreiros, senhoras da sociedade Benjamin Franklin frisou sarcasticamente "a hipocrisia
e .mulheres de vida_ fácil. A heroína de Hogarth, em A • desse pais, que incentiva tão detestável comércio, enquanto
Vida de uma Cor tesa, é servida por um pretinho, e Orabella se ufana de sua virtude, amor à liberdade e imparcialidade
Burmester, de Marguerite Steen, tipifica a opinião inglesa de seus tribunais em libertar um único negro".95 Dois
50 51
anos ~epois d? caso Somersett, o Governo britânico revogou cio e um ramo muito importante. Uma autoridade no
as Leis Jamaicanas que restringiam o tráfico de escravos assunto afirmou certa vez que "uma visão real, um mi-
Em 1783, uma petição quacre em favor da abolição foi nuto inteiramente gasto nos alojamentos dos escravos na
solenemente rejeitada pelo Parlamento. travessia do Atlântico faria mais pela causa da humani-
. :Jl2m 1783, além diss?, o mesmo Mansfield proferiu a dade do que a pena de um Robertson, ou toda a eloqüência
dec1sao no caso do navio Zong. Desprovido de água 0 coletiva do senado britânico". 99 Isso é duvidoso. Como se
com~ndante atir~ra 132 e~cravos ao mar e agora os do~os argumentou mais tarde a respeito do tráfico de escravos
moviam uma açao para receber o seguro, alegando que a cubano ou brasileiro, não adiantava dizer que era uma
perda dos escravos se enquadrava na cláusula da apólice ocupação profana ou anticristã. Era um negócio lucrativo
que segurava contra os "perigos do mar". Na opinião de e isso era o bastante.l 00 O tráfico de escravos foi até jus-
!1._1ansfield, ."ocas? dos escravos era o mesmo que se cavalos tificado como uma grande educação. "Pense no efeito,
t~vessem s1do atirados ao mar". Indenizações de trinta no resultado de uma viagem num navio negreiro num
~~b~as foram concedidas aos donos por escravo perdido, e a
jovem que estava ingressando na adolescência ... Que edu-
1dé1a de que o comandante e a tripulacão deviam ser cação era tal viagem para o filho do fazendeiro. Que am-
processados por homicídio em massa - jamais passou pela pliação de experiência para o garoto do campo. Se ele
cabeça de qualquer humanitarista. Em 1785, outro caso voltasse à fazenda, toda a sua perspectiva da vida se
de seguro, envolvendo um navio britânico e um motim modificaria. Ele saía menino, voltava homem." 101
entre os escravos, foi submetido a Mansfield. Sua decisão Os traficantes de escravos estavam entre os principais
de Salomão foi de que todos os escravos que haviam sido humanitaristas de sua época. John Cary, defensor do
mortos no motim ou tinham morrido de ferimentos e tráfico de escravos, era notável por sua integridade e
contusões deviam ser pagos a seus donos pelos segura- humanidade e foi o fundador de uma sociedade conhecida
dores; os que tinham morrido por pularem ao mar ou como "Associação do Pobre".l02 O navio negreiro South-
por terem engolido água ou por "contrariedade" não well foi assim denominado em homenagem a um parla-
deviam ser pagos pelos seguradores sob o fundame~to de mentar de Brístol, cujo monumento o descreve como fiel
q?e não havi~m morrido em conseqüência de lesões rece- ao rei e à pátria e firme naquilo que achava direito.1o3
bidas no motim; e os seguradores não eram responsáveis Bryan Blundell, de Liverpool, um dos comerciantes mais
por qualquer depreciação que viessem a sofver os sobre- prósperos da cidade, participou tanto do tráfico de escra-
viventes do motim.96 vos. quanto dos negócios das índias Ocidentais, foi por
mu~tos ~nos cura~or, tesoureiro, patrono principal e o
, ~ prática .do tráf!co de escravos não era exercida pela
escona da sociedade mglesa. A filha de um traficante de mais ativo patrocmador de uma escola de caridade o
escravos nos garante que seu pai, embora fosse coman- Blue Coat Hospital, fundada em 1709.104 Para essa c~ri­
dante de navio negreiro e corsário, era um homem bom dade, outro traficante de escravos de Liverpool, Foste·r
C~n.liffe, contribuiu grandemente. Foi um pioneiro no
e justo, um bom pai. bom marido e bom amigo.97 Isso
provavelmente era verdade. Os homens mais ativos nesse trafico de escravos. Ele e seus dois filhos constam da
negócio eram indivíduos dignos, pais de famílias e cidadãos lista: de membros do Comitê de Negociantes de Liverpool,
excelentes. O abolicionista Ramsay reconheceu isso com traficando com a Africa em 1752. Juntos, eles tinham
tristeza sincera, mas afirmou que "eles nunca tinham quatro navios capazes de comportar 1.120 escravos, cujos
h~cros foram suficientes para abastecer quatro navios, na
examinado a natureza desse comércio e entraram nele, e
se portaram nele como viagem de volta, com açúcar e rum. Uma inscrição dedi-
como uma cmsa . outros
. cornque1ra,. pelahaviam feito antes deles'
qual nenhuma conta cada a Foster Cunliffe na Igreja de São Pedro descreve-o
seria prestada neste mundo ou no outro".98 A desculpa é assim: "um cristão devoto e exemplar no exercício de todo
desnecessária. O tráfico de escravos era um ramo de negó- dever privado e público, amigo da misericórdia, patrono

52 53
do sofrimento, inimigo apenas do vicio e da preguiça, viveu a Câmara Alta.116 Não sem confiança a Assembléia du
estimado por todos aqueles que o conheceram ... e morreu Jamaica afirmou categoricamente, em 1792, que "a scgu
lamentado pelos judiciosos e bons ... " 105 Thomas Ley- rança das índias Ocidentais depende não somente de quo
land, um dos maiores traficantes de escravos do mesmo o tráfico de escravos não seja abolido, mas de uma decla-
porto, não teve, como prefeito, misericórdia pelo açambar- ração pronta da Câmara dos Lordes que não permitirá que
cador, pelo atravessador, pelo especulador e foi um terror o tráfico seja abolido".117
para os malfeitores.106 Os Heywood foram traficantes de
e-scravos e os primeiros a importar dos Estados Unidos
o algodão cultivado por escravos. Arthur Heywood foi Alguns protestos foram emitidos por intelectuais e
tesoureiro da Academia de Manchester onde seus filhos prelados do século XVIII. Defoe, em sua "Reforma de
foram educados. Um filho, Benjamin, foi eleito membro Costumes", condenou o tráfico de escravos. O poeta
da Sociedade Literária e Filosófica de Manchester e admi- Thomson, em seu "Verão", traçou um quadro lúgubre do
tido no Clube de Bilhar, o clube mais sofisticado que Man- tubarão seguindo na esteira do navio negreiro. Cowper,
chester já possuiu, que só admitia os melhores homens no depois de alguma hesitação, escreveu suas linhas memo-
que concerne a maneiras, posição e cultura. Ser admitido ráveis em "A Tarefa". Blake escreveu seu lindo poema
ao círculo encantado dos Quarenta significava reconheci- sobre o "Pretinho". Southey compôs alguns versos pun-
mento impecável como cavalheiro. Posteriormente, Ben- gentes sobre o "Marinheiro que serviu no tráfico de escra-
jamin Heywood organizou a primeira exposição de traba- vos". Mas grande parte dessa literatura do século XVIII,
lhos de arte e indústria de Manchester.1o7 como o Professor Sypher demonstrou numa análise exaus-
Esses traficantes de escravos ocupavam altos cargos tiva,118 concentrava-se no "negro nobre", o príncipe injus-
na Inglaterra. Os Empreendedores Reais traficando com tamente tornado cativo, superior, mesmo na servidão, a
a Africa, em 1667, estabeleceu uma lista de seus membros, seus captores. Esse sentimentalismo, típico do século XVIII
encabeçada pela realeza, e que incluía dois vereadores, três em geral, muito freqüentemente continha a implicação
duques, oito condes, sete lordes, uma condessa e vinte e malévola de que a escravidão do negro ignóbil se justi-
sete cavaleiros. 108 As assinaturas dos prefeitos de Liverpool ficava. Boswell, por outro lado, declarou enfaticamente
e Brístol aparecem numa petição dos traficantes de escra- que abolir o tráfico de escravos era fechar as portas da
vos em 1739.109 o Comitê de Brístol instituído em 1789 misericórdia à humanidade e tachou Wilberforce de um
para opor-se à abolição do tráfico de escravos -compreendia "anão com um grande nome ressoante".n9
cinco vereadores, um deles ex-comandante de um navio Dois negociantes do século XVIII, Bentley e Roscoe,
negreiro. 11 o Muitos traficantes de escravos mantinham a opuseram-se ao tráfico de escravos antes de 1783; eram
mais alta dignidade municipal de Liverpool.1 11 Os trafi- mais do que negociantes, eram negociantes de Liverpool.
cantes de escravos estavam firmemente estabelecidos nas Dois economistas do século XVIII condenaram o caráter
duas casas do Parlamento. Ellis Cunliffe representou Li- dispendioso e a ineficiência do trabalho escravo - Dean
verpool no Parlamento de 1755 a 1767.112 A família Tarle- Tucker e Adam Smith, o sinal de advertência, o pregoeiro
ton, proeminente no tráfico de escravos, expressava a da nova era. As notas discordantes não eram escutadas. O
oposição de Liverpool à abolição no Parlamento. 113 A Câ- século XVIII endossava o argumento de Temple Luttrell:
mara dos Lordes, tradicionalmente conservadora, era in- "Alguns cavalheiros podem, na verdade, objetar ser o
veterada em sua oposição instintiva à abolição pela pre- tráfico de escravos desumano e impiedoso; consideremos
sença de muitos traficantes de escravos elevados à nobreza. que se nossas colônias devem ser mantidas e cultivadas, o
Solidarizara-se com a declaração do conde de Westmor- que só pode ser feito pelos negros africanos, é certamente
land de que muitos deles deviam sua cadeira na Câmara melhor que nos supramos desses trabalhadores por nossa
Alta ao tráfico de escravos114 e de que a abolição era pFópria conta do que adquiri-los por intermédio de trafi-
jacobinismo.llS Não é de admirar que Wilberforce temesse cantes franceses, holandeses ou dinamarqueses." 120
54 55
Em certa ocasião, um cavalheiro da ilha Mauricia,
ansioso para convencer Buxton de que "os negros eram
o povo mais feliz do mundo", apelou para a esposa a fim
de que ela comprovasse a afirmação dele com as suas pró- 3
prias impressões dos escravos que vira. "Bem, sim", re-
plicou a boa esposa, "eles eram muito felizes, tenho cer- O COMÉRCIO BRITÂNICO
teza, só que eu costumava achar muito esquisito ver os EO
cozinheiros negros acorrentados à lareira". 121 Apenas al- COMÉRCIO TRIANGULAR
guns ingleses antes de 1783, como a boa esposa, tinham
dúvidas sobre a moralidade do tráfico de escravos. Aqueles
que formulavam tais objeções, como dizia Postlethwayt,
pesariam pouco para os estadistas que viam os grandes
emolumentos nacionais decorrentes do tráfico de escravos.
"Temos de ver as coisas como são e raciocinar sobre elas A. O comércio triangular
em seu estado atual, e não com base no que poderíamos
esperar que elas fossem ... Não podemos pensar em renun- De acordo com Adam Smith, a descoberta da América e
ciar ao tráfico de escravos, apesar de minha boa vontade ~ rota do Cabo para a índia são "os dois maiores e mais
para que isso pudesse ser feito." Mais tarde, talvez, algum Importantes acontecimentos registrados na história da
espírito cristão, nobre e benevolente, poderá pensar em humanida~e". A importância da descoberta da América
modificar o sistema, "o que, da maneira como as coisas repousa nay nos ~etais preciosos que ela forneceu, mas
estão agora, não será tão facilmente realizado". 12 2 Antes n_o novo e ~~esgotavel mercado que propiciou às mercado-
da Revolução Americana, a opinião pública inglesa em nas europems. Um de seus efeitos principais foi o de
geral aceitava o ponto de vista do traficante de escravos: "e!e~ar o sistema mercantil a um grau de esplendor e
"Ainda que traficar com criaturas humanas possa à pri- glon,a 9-ue de o~tro modo nunca teria sido alcançado".! o
meira vista parecer bárbaro, desumano e desnatural, os comerc1o mu~dml alcançou um crescimento sem prece-
traficantes neste particular têm tanto a alegar em sua dentes. Os seculos XVII e XVIII foram os séculos do
própria desculpa quanto se pode dizer sobre alguns outros comércio internacional, como o século XIX foi o século
ramos de negócio, a saber, a vantagem de1e... Numa da. p~odução. Para a Grã-Bretanha, esse comércio era
palavra, desse negócio provêm benefícios, que superam prmc1palmente o comércio triangular. Em 1718 William
em muito todas as maldades e inconveniências, quer reais, Wood disse que o tráfico de escravos era "a fonte' e1origem
quer pretensas." 123 de onde os outros negócios fluíam'? Alguns anos depois
Po~tleth'Yay,t ~escreveu o tráfico de escravos como "o pri~
me1ro prmc1p1o e fundamento de todos os outros a mola
mestra da máquina que põe toda a roda em movi~ento".3
~esse comércio triangular, a Inglaterra - da mesma
mane1ra que a França e a América colonial - fo;:necia
as exportações e os navios; a Africa, a mercadoria humana·
as plantações, a :natéria-prima colonial. O navio negreir~
zarpava da metropole com uma carga de artigos manufa-
tur~dos. Estes eram trocados com lucro, na costa da
Afnca, por negros, que eram traficados nas plantações,
com outro lucro, em troca de uma carga de produtos

56 57
coloniais a ser transportados para a metrópole. A medida mais do que uma pessoa semelhante na metrópole. 8 Wil-
que o volume do tráfico aumentava, o comércio triangular liam Wood avaliou que um lucro de sete xelins per capita
era completado, mas nunca suplantado, por um comércio por ano era suficiente para enriquecer um país; cada
direto entre a metrópole e as índias Ocidentais, trocando-se homem branco das colônias trazia um lucro de mais de
diretamente artigos de fabricação metropolitana por pro- sete libras. 9 Sir Dalby Thomas foi ainda mais longe -
dutos coloniais. toda pessoa empregada nas plantações de cana-de-açúcar
o comércio triangular proporcionava assim um estí- era 130 vezes mais valiosa para a Inglaterra do que uma
mulo triplo à indústria britânica. Os negros eram adquiri- na metrópole.10 O Professor Pitman estimou que, em 1775,
dos com artigos manufaturados britânicos; transportados as plantações das índias Ocidentais Britânicas represen-
para as plantações, produziam açúcar, algodão, anil, me~aço tavam um valor de cinqüenta milhões de libras esterlinas,u
e outros produtos tropicais, cujo beneficiamento cna=:a sendo que os próprios plantadores de cana calcularam tal
novas indústrias na Inglaterra; enquanto a manutençao cifra em setenta milhões em 1788. 12 Em 1798, Pitt avaliou
dos negros e seus donos nas plantações propiciava outro a renda anual das plantações das índias Ocidentais em
mercado para a indústria britânica, a agricultura da Nova quatro milhões de libras, em comparação com um milhão
Inglaterra e a pesca da Terra ~ova. Por volta d~ 1750, do resto do mundo. 13 Como. escreveu Adam Smith: "Os
quase não havia cidade comerctal ou manufature1ra na lucros de uma plantação de cana-de-açúcar em qualquer
Inglaterra que não estivesse .liga~a de alguma forma: ao uma de nossas colônias das índias Ocidentais são geral-
comércio triangular ou colomal d1reto.4 Os lucros oJ::tidos mente muito maiores do que os de qualquer outra cultura
forneceram um dos principais fluxos dessa a~umulaçao. de conhecida, quer na Europa, quer na América." 14
capital na Inglaterra que financiou a Revoluçao Ind~stnal. De acordo com Davenant, o comércio internacional
As ilhas das índias Ocidentais tornaram-se o eixo do da Grã-Bretanha no fim do século XVII deu um lucro de
Império Britânico, de importância imensa para a grandeza 2.000.000 de libras. O comércio com as plantações rendeu
~ prosperidade da Inglaterra. Foram os escr~vos n~gros 600.000 libras; a reexportação dos produtos das planta-
que fizeram dessas colônias açuca:eir~ as ~a1~ preciosas ções, 120.000 libras; o comércio com a Europa, Africa e
jamais registradas em todos os anaiS do Impenallsmo. Para Levante, 600.000 libras; com as índias Orientais, 500.000
Postlethwayt eles eram "o sustentáculo e apoio funda- libras; a reexportação dos produtos das índias Orientais,
mental" das' colônias, "gente valiosa" cujo .trabalho for- 180.000 libras.ls
necia à Inglaterra toda a produção das plantaç~e~. O Im- Sir Charles Whitworth, em 1776, fez uma compilação
pério Britânico era "uma superestrutura magmflcente ~e completa, com base em documentos oficiais, do comércio
comércio americano e poder naval sobre uma fundaçao de importação e exportação da Grã-Bretanha referente aos
africana". 5 anos 1697-1773. Seu livro é valioso para a constatação da
Sir J osiah Child estimou que todo inglês nas índias importância relativa das colônias das Antilhas e do con-
Ocidentais, "com os dez negros que trabalham com ele, tinente no Império Britânico do século XVIII. No ano
levando-se em conta o que comem, usam e gastam, garante de 1697, as colônias das índias Ocidentais forneceram 9%
emprego para quatro homens na Inglaterra".6 Pelo cálculo das importações britânicas, as colônias do continente 8%;
de Davenant, uma pessoa nas ilhas, branca ou negra, 4% das exportações britânicas foram para as índias Oci-
dava tanto lucro ao Império quanto ~~te na Ing~aterra: 7 dentais, pouco menos 'de 4% para o continente; as índias
Outro autor considerou que toda fam1lla d~s ít?-dtas Oc~­ Ocidentais representaram 7% do comércio total britânico,
dentais proporcionava emprego a cinco marmheiros e .ati- o continente 6% . Em 1773, as índias Ocidentais ainda
vidade a muitos mais artífices, manufatores ~ comer~tan­ mantinham sua dianteira, embora como mercado de ex-
tes e que toda pessoa branca das ilhas trazia ~ez hbras portação se tivessem tornado inferiores às colônias do
am~almente de lucro líquido para a Inglaterra, vmte vezes continente, com sua população branca maior. Naquele
58 59
tlgun foram mais de três vezes as da Nova Inglaterra. As
ano quase um quarto das importações b~itânicas ~roveio tmtx>rtações de Barbados foram mais de duas vezes maiores
das regiões das Antilhas, um oitavo proveiO do c?ntmente do que as das colônias de cereais, as importações da Ja-
inteiro; as Antilhas consumiram um pouco mais de 8% rnnlcn quase seis vezes maiores. Durante os mesmos anos,
das exportações britânicas, o continente 16 % ; ~5 % d? a Jnmaica como mercado de exportação valia tanto quanto
comércio total da Grã-Bretanha foram com as índ1as Oci- n Nova Inglaterra; Barbados e Antígua reunidas signüi-
dentais 14% com o continente. Tomando os totais refe- cn.vam tanto para os exportadores britânicos quanto Nova
rentes 'aos anos 1714-1773 e incluindo nesses totais o Iorque; Montserrat e Nevis reunidas eram um mercado
comércio com as novas conquistas, colônias estrangeiras melhor do que a Pensilvânia. As exportações britânicas
temporariamente ocupadas pelas forças britânicas durante para a Africa durante esses anos foram apenas um décimo
a guerra, ou colônias es~rangeiras. em ger~l, ob~e:rpo,s o menos do que as da Nova Inglate·r ra, as importações
seguinte quadro: um qumto das 1mport~çoes bntamcas britânicas da Africa um quarto mais do que as de Nova
proveio das Antilhas, um nono do contn:ente; 6 % das Iorque e mais do dobro as da Pensilvânia. 16
exportações britânicas foram, P:;tra as Antilhas, 9 % pa:_a Os mercantilistas estavam entusiasmados. O comér-
o continente; 12 % do comerciO externo total da Ora- cio triangular e o comércio associado às ilhas açucareiras,
-Bretanha verificaram-se com as Antilhas, 10% com o devido à navegação que incentivavam, eram mais valiosos
continente. Durante esses mesmos anos, 0,5 % das im- para a Inglaterra do que suas minas de estanho ou car-
portações britânicas provieram da .Africa, 2 % das expor- vão.17 Eram colônias ideais. Sem elas a Grã-Bretanha não
tações britânicas foram para a Afnca, enquant~ o. comér- teria ouro ou prata, a não ser o que recebia do comércio
cio africano representou quase 1,5% do comercio }o~al ilícito com as colônias espanholas, e um balanço comer-
britânico. Não levando em conta, portanto, as colomas cial desfavorável. 18 Seus produtos tropicais, ao contrário
de plantações no continente, Virgínia, Maryl:;tnd, c.arolin:;t, dos da parte setentrional do continente, não competiam
Geórgia, o comércio tria~gular e com ~s ~ndias Oci~ep.t~Is com os da metrópole. E mostravam pouco sinal desse
representou quase um setimo do comercio total bntamco desenvolvimento industrial que constituía o medo cons-
durante os anos 1714-1773. tante no que dizia respeito ao continente. Sua grande
O valor surpreendente dessas colônias das índias Oci- população negra era uma garantia efetiva contra as aspi-
dentais pode ser apresentado mal~ nitid~ment~ comparan- rações à independência. 19 Tudo se combinava para formar
do-se cada uma das ilhas das índias Ocidentais, com cada uma palavra: açúcar. "O prazer, a glória e a grandeza
uma das colônias do continente. Em 1697, as importações da Inglaterra", escrevia Sir Dalby Thomas, "têm sido
britânicas de Barbados foram cinco vezes as importações propiciados mais pelo açúcar do que por qualquer outro
reunidas das colônias de cereais; as exportações para produto, não se excetuando a lã".2o
Barbados foram um pouco maiores. A pequena ilha de Havia uma restrição - o monopólio. A filosofia eco-
Barbados com seus 430 km2 , valia mais para o capitalismo nômica da época não dava oportunidade à "porta aberta",
britânico' do que a Nova Inglaterra, ~ova Iorque ~ Pensil- e o comércio colonial era um rígido monopólio da metró-
vânia reunidas. Em 1773, as importaçoes da Jamaica eram pole. Os mercantilistas eram inflexíveis nesse ponto. "As
mais de cinco vezes as importações reunidas das colônias colônias", escreveu Davenant, "constituem uma força para
cerealiferas; as exportações britânicas para a Jamaica eram seu reino metropolitano, enquanto estiverem sob boa dis-
quase um terço maiores do que as da Nova Inglaterra e ciplina, enquanto forem obrigadas rigorosamente a obser-
apenas um pouco menores do que as de Nova Iorq:ue e var as leis fundamentais de seu país de origem e enquanto
Pensilvânia reunidas. Durante os anos 1714-1773, as lm- se conservarem dependentes dele. Mas, de outro modo,
portações britânicas de Montserrat foram três vezes as são piores do que os membros decepados do corpo político,
importações da Pensilvânia, as importações de Nevis foram sendo na verdade como armas ofensivas arrebatadas de
quase o dobro das de Nova Iorque, as importações de An-
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\

uma nação que se voltam contra ela quando a ocasião for O comércio livre é a vida de todas as colônias ... seja
favorável". 21 As colônias, em troca de sua prosperidade, quem for que tenha aconselhado Sua Majestade a refrear
devem à mãe-pátria, na opinião de Postlethwayt, gratidão e obstruir suas colônias é mais comerciante do que um
e obediência indispensável - "depender diretamente de bom súdito".27 Seu sucessor repetiu a advertência: "Vocês
sua metrópole e tornar seu interesse subserviente a ela".22 devem tornar seu porto um porto livre para todas as pes-
Foi com base nessas idéias que o sistema mercantilista soas que venham para negociar com eles. A medida legal
se ergueu. As colônias eram obrigadas a mandar seus que se adota com as novas plantações eu humildemente
produtos valiosos somente para a Inglaterra e a usar concebo como um pouco errônea. Meus senhores, a Lei do
navios ingleses. Não podiam comprar nada que não fosse Comércio e Navegação certamente, com o tempo, será a
inglês, a não ser que as mercadorias estrangeiras fossem ruína de todas as plantações estrangeiras de Sua Majes-
primeiro levadas para a Inglaterra. E desde que, como tade." 28 Os Senhores do Comércio decidiram "aplicar-lhe
crianças obedientes, deviam trabalhar para a maior glória uma sanção por defender essa máxima do livre-câmbio"
de seu progenitor, estavam reduzidas ao estado de vas- e o censuraram severamente por "esses princípios perigosos
salagem permanente e limitadas exclusivamente à explo- que defende, contrários às leis estabelecidas do reino e à
ração de seus recursos agrícolas. Nem sequer um prego, evidente prerrogativa dele".29
nem sequer uma ferradura, disse Chatham, podia ser Tais idéias subversivas não podiam absolutamente ser
fabricado, nem chapéus, nem ferro, nem açúcar refinado. toleradas numa época que ouvia exigências para que as
Em troca disso, a Inglaterra fazia uma concessão - os Leis de Navegação fossem estendidas para limitar o dispo-
produtos coloniais tinham o monopólio do mercado me- sitivo de navios "de construção inglesa" aos que fossem
tropolitano. construídos de madeira inglesa e usassem velas de confec-
A pedra angular da política mercantilista eram as ção britânica, e que aprovara legislação de que os mortos
Leis de Navegação, "medidas inglesas concebidas para fins fossem enterrado3 com lã inglesa e todos os serviçais e
ingleses".2 3 As Leis de Navegação visavam os holandeses, escravos das plantações usassem lã inglesa, para fomentar
"os pais adotivos", como Andrews os chamava, das pri- a principal indústria da Inglaterra. Negros, a exportação
meiras colônias britânicas,24 que forneciam crédito, entre- mais importante da Africa, e açúcar, a exportação mais
gavam mercadorias, compravam a produção colonial e a importante das índias Ocidentais, eram as principais mer-
transportavam para a Europa, tudo a tax,as e preços cadorias especificadas pelas Leis de Navegação. Mas os
mais atraentes do que os ingleses podiam oferecer no plantadores das índias Ocidentais nunca aceitaram essa
mercado livre. Mas as leis visavam também os escoceses limitação a seu comércio. Finalmente, em 1739, foi-lhes
e irlandeses 25 e a tentativa da Escócia de fundar uma concedida uma modificação nas Leis de Navegação, mas
Companhia Africana independente26 provocou grandes de forma tão limitada e apenas com relação a mercados
temores na Inglaterra e foi grandemente responsável pela estrangeiros tão pobres da Europa- ao sul do cabo Finis-
Lei de União* em 1707. As ilhas açucareiras protestaram terra - que suas vanta-gens eram insignificantes. Mas
contra esse monopólio de seu comércio externo. Aqueles mesmo essa concessão, extremamente reduzida como era,
que, em 1840, eram os mais veementes opositores do comér- provocou a ira dos negociantes ingleses. Seria, disse uma
cio livre, eram, em 1660, seus defensores mais fervorosos. petição de Liverpool antes que a medida se tornasse lei,
Em 1666, o governador de Barbados pediu "licença para "altamente prejudicial em muitos casos aos lucros e manu-
ser franco com Sua Majestade, pois ele sabe onde dói. .. faturas, ao comércio e navegação da Grã-Bretanha em
geral e deste porto em particular". 30 Cem anos depois, o
• Act ot Union (Lei de União) , uma das várias leis estabelecendo mesmo conflito se travaria, mais renhidamente, entre o
a união politica de diferentes partes do reino, como essa unin- monopólio e o livre-câmbio, o mercantilismo e o laisse1·-
do a Inglaterra e a Escócia, a que se refere o autor. (N. do T.) -jaire. Os antagonistas eram os mesmos, os comerciantes

62 63
I

e industriais britânicos, de um lado, e os plantadores de Entre 1719 e 1789, o transporte marítimo empregado no
cana-de-açúcar das índias Ocidentais, do outro. Mas o comércio exterior quadruplicou; 38 os navios despachados
capitalismo britânico, agora inteiramente pelo monopólio, para a Africa multiplicaram-se doze vezes e a tonelagem
era então inteiramente pelo livre-câmbio; os plantadores onze vezes. 39 1
das índias Ocidentais, por outro lado, esqueceram-se de A construção naval na Inglaterra recebeu um estí-
todos os seus nobres sentimentos em favor do livre-câmbio mulo direto do comércio triangular. Navios de um deter-
e aderiram tenazmente ao princípio do monopólio, que eles minado tipo foram construídos para o tráfico de escravos,
outrora condenavam, por fazê-los "escravos dos negocian- combinando capacidade com velocidade num esforço para
tes". 31 reduzir a mortalidade. Muitos construtores de navios, de
Liverpool, eram eles próprios traficantes de escravos. A
B. Navegaç.ão e construção naval firma mais importante era Baker & Dawson, uma das
maiores exportadoras de escravos para as índias Ocidentais
Esse comércio externo naturalmente acarretou um e empenhada, depois de 1783, no fornecimento de escravos
enorme desenvolvimento da frota mercante e da cons- para as colônias espanholas. John Gorell era um dos
trução naval. Tampouco a menor das vantagens do co- membros de Liverpool da Companhia de Negociantes tra-
mércio triangular foi sua contribuição para o poder marí- ficando com a Africa. Assim também era John Okill, um
timo da Inglaterra. Havia menos distinção entre um navio dos mais famosos construtores navais de Liverpool, que
mercante e um navio de guerra naqueles tempos do que ostensivamente se abstinha do tráfico de escravos. Num
há hoje. A "longa viagem" era um admirável adestra- porto cuja prosperidade estava intimamente ligada ao
mento para os marujos, os navios mercantes eram auxílios tráfico de escravos, William Rathbone era uma curiosidade
valiosos da marinha em tempo de guerra; e os defensores em sua recusa de fornecer madeira para a construÇão de
do tráfico de escravos argumentavam que sua abolição navios a ser empregados no tráfico de escravos, 40 ao qual
aniquilaria a marinha por eliminar uma grande fonte de metade dos marinheiros de Liverpool se dedicava. 41
marinheiros. 32 Como escreveu um traficante de escravos A indústria marítima estava dividida, como a indús-
de Liverpool: "É um assunto referente às duas coisas de tria em geral, sobre a questão da organização do tráfico
maior importância para esse reino - quando o tráfico de escravos. Alguns setores eram favoráveis à Real Com-
de escravos for abolido a importância naval deste reino panhia Africana, outros aos traficantes livres.42 Mas, na
será abolida com ele; nesse momento, nossa bandeira dei- questão da abolição, a indústria apresentava uma frente
xará gradativamente de flutuar triunfante nos mares."· 33 unida, argumentando que a abolição abalaria as próprias
Em 1678, os Comissários da Alfândega informaram que bases da supremacia naval e imperial da Grã-Bretanha. A
o comércio com as plantações era um dos sustentáculos do primeira reação de Liverpool à lei de 1788, regulamentando
transporte marítimo e dos marinheiros da Inglaterra, e a capacidade dos navios negreiros, foi deixar 22 coman-
um dos maiores ramos de seu comércio externo.34 Aqui, dantes, 47 imediatos e 350 marinheiros desempregados,
novamente as colônias açucareiras sobrepujavam as colô- com suas famílias e os traficantes dependendo mais indi-
nias do continente. Em 1690, as colônias açucareiras uti- retamente do tráfico com a Africa. 43
lizaram 114 navios, de 13.600 toneladas, e 1.203 marujos; Além dos marinheiros, havia os negócios auxiliares.
as colônias do continente utilizaram 111 navios, de 14.300 Carpinteiros, pintores e construtores de barcos; negocian-
toneladas, e 1.271 marujos. 35 Entre 1710 e 1714, 122.000 tes e artesãos ligados a consertos, equipamento e carrega-
toneladas de carga marítima foram para as índias Oci- mento; comissões, salários, direitos de doca, seguros -
dentais, 112.000 toneladas para o continente. 36 O comércio tudo dependia em parte dos navios que traficavam com
das índias Ocidentais em 1709 utilizou um décimo do a Africa. Para abastecer os navios, havia em 1774 quinze
transporte marítimo empregado no comércio exterior.3 7 cordoarias em Liverpool. 44 Havia pouca gente na cidade,

64 65
alegava-se, que não seria afetada, direta ou indiretamente, Os próprios negociantes das índias Ocidentais resolve-
pela abolição.45 ram enfrentar o problema. Organizaram uma força espe-
cial de guardas para cuidar dos roubos e criaram um
registro geral de trabalhadores para descarregar os navios
As ilhas açucareiras contribuíram de uma outra ma- das índias Ocidentais. Agiram junto aos membros do
neira para o crescimento da frota mercante inglesa. A Parlamento e finalmente conseguiram uma lei autori-
economia peculiar desenvolvida nas índias Ocidentais con- zando a construção das Docas das índias Ocidentais.
centrava-se nos produtos agrícolas de exportação, enquanto Obtiveram o monopólio de carregar e descarregar os navios
o alimento era importado. O mais importante de todos os empenhados no comércio das índias Ocidentais durante
abastecimentos alimentares era o peixe, um artigo caro 21 anos. A pedra fundamental foi lançada em 1800 e a
ao coração de todo mercantilista, porque propiciava o cerimônia foi seguida de uma recepção elegante para as
emprego dos navios e o adestramento dos marinheiros. notabilidades presentes, na qual se ergueu um brinde à
Leis foram promulgadas na Inglaterra para fomentar o prosperidade das colônias das índias Ocidentais. As docas
consumo de peixe. Sexta-feira e sábado eram reservados foram inauguradas em 1802, o primeiro navio sendo deno-
como dias de peixe. O peixe era um elemento importante minado em homenagem ao Primeiro-Ministro e o segundo
na alimentação dos escravos nas plantações, e o comércio estando carregado com seiscentas toneladas de açúcar.48
de arenque inglês encontrava seu mercado principal nas
plantações de cana.46 A pescaria na Terra Nova dependia C. Crescimento das grandes cidades portuárias inglesas
consideravelmente da exportação anual de peixe seco para
as índias Ocidentais, o peixe de refugo ou "peixe de pobre" O desenvolvimento do comércio triangular, da . frota
(bacalhau pequeno, seco e salgado), "impróprio para qual- mercante e da construção naval levou ao crescimento das
quer outro consumo".4 7 Uma tradição nas índias Ociden- grandes cidades portuárias. Brístol, Liverpool e Glasgow
tais criou-se em virtude disso. O bacalhau salgado im- ocuparam, como portos marítimos e centros comerciais, a
portado é até hoje um prato normal e preferido entre posição na época do comércio que Manchester, Birmingham
todas as famílias das índias Ocidentais, com exceção das e Sheffield ocupariam mais tarde na época da indústria.
mais abastadas; se ainda é "impróprio para qualquer Dizia-se em 1685 que praticamente não havia um
outro consumo" não se sabe. . lojista em Brístol que não tivesse um carregamento a bordo
O aumento da frota mercante submeteu as docas da de algum navio destinado à Virgínia ou às Antilhas. Até
Inglaterra, no século XVIII, a um esforço intolerável. O os pastores da Igreja não falavam noutra coisa a não ser
número de navios que entraram no porto de Londres em negócios, e afirmava-se satiricamente que os carrega-
triplicou entre 1705 e 1795, a tonelagem quadruplicou, sem mentos de Brístol pertenciam não a comerciantes, mas a
incluir as embarcações menores empenhadas no comér- artesãos.49 As tarüas alfandegárias subiram de 10.000
cio costeiro. Os armazéns do cais eram insuficientes pare. libras, em 1634, para 334.000 libras, em 1785. As taxas de
as importações. Os navios carvoeiros não podiam ser des~ atracação, pagas por todo navio de mais de sessenta tone-
carregados e o preço do carvão subiu enormemente. O ladas, duplicaram entre 1745 e 1775.so
açúcar era empilhado em seis ou oito barris de altura no Foram o tráfico de escravos e o comércio de açúcar
cais, aumentando o perigo de incêndio e estimulando o que tornaram Brístol a segunda cidade da Inglaterra
roubo. Uma grande máquina de crime organizado foi mon- durante os três primeiros quartéis do século XVIII. "Não
tada, abrangendo umas dez mil pessoas. As depredações há", disse um cronista local, "um tijolo na cidade que
anuais nas docas eram estimadas em meio milhão de não esteja argamassado com o sangue de um escravo.
libras, metade das quais dos navios provenientes das ·An- Mansões suntuosas, vida luxuosa, lacaios de libré, eram
tilhas. produtos da riqueza feita com o sofrimento e os gemidos
.66 67
dos escravos comprados e vendidos pelos negociantes de
Bristol . .. Em sua simplicidade infantil, não podiam sentir de cana e as ilhas se tornaram tão importantes para
a iniqüidade da mercadoria, mas podiam sentir que era Brístol que durante a primeira metade do século XIX
uma coisa lucrativa". 51 A análise de uma comissão, criada ela era sempre representada no Parlamento por alguém
das índias Ocidentais - um Baillie, um Protheroe ou
el'r!- .1789 para opor-se ao movimento para a abolição do .
um Miles. '
James Evans Baillie exortou seus concidadãos
trafico de escravos, mostra que entre os membros eleitos
estavam nove negociantes que em certa época haviam a não aplicar o machado à raiz de sua própria prosperi-
sido prefeitos de Brístol, cinco que haviam sido xerifes dade apoiando a abolição da escravatura nas ilhas.59 A
sete que tinham sido ou eram Mestres da Sociedade d~ própria prosperidade dele estava também em jogo. A in-
Empreendedores Mercantis.52 denização paga à família pela posse de inúmeros escravos
Quando Brístol foi sobrepujada no tráfico de escravos em Trinidad e na Guiana Inglesa ultrapas:>ou 62.000
por Liverpo?l, . vol~ou sua at:nção do comércio triangular libras.60 Brístol ofereceu uma decidida oposição à equi-
para o comercio direto de açucar. Menos navios de Brístol paração das tarifas açucareiras, que deu o golpe de mise-
zarparam para a Africa, um maior número foi diretamente ricórdia no monopólio das índias Ocidentais. Depois disso,
para as Antilhas. Em 1700, o porto tinha 46 navios no o comércio com as índias Ocidentais declinou rapidamente.
comércio com as índias Ocidentais. 53 Em 1787 havia 30 Em 1847, 40 % da tonelagem do porto se destinavam às
embarcações de Brístol empenhadas no tráfico d~ escravos, índias Ocidentais e os navios que retornavam das ilhas
7.2 no comérci? .com as índias Ocidentais; , as primeiras representavam apenas 11 %. Em 1871, nenhum navio
tmham em media 140 toneladas cada, as ultimas 240.54 partiu de Brístol para a Jamaica e a tonelagem importada
Em 1788, Brístol tinha tantos navios no comércio com as das ilhas constituiu menos de 2 % das chegadas. O comér-
ilhas de Sotavento, e quase tantos no comércio com a cio de Brístol com as ilhas só se restabeleceu no fim do
J amaica, quanto no comércio com a Africa.55 Quase um século XIX, com o advento da banana no mercado mun-
terço da tonelagem que entrava no porto, e mais de um dial.61
terço do que saía, correspondia ao comércio com as colô-
nias açucareiras; 56 e era um costume amistoso em Brístol
comemorar a chegada do primeiro navio de açúcar todo O que o comércio com as índias Ocidentais fez por
ano com um regalo de vinho por conta do feliz dono.s7 O Brístol o tráfico de escravos fez por Liverpool. Em 1565,
comércio com as índias Ocidentais valia pára Brístol o Liverpool tinha 138 chefes de família, sete ruas apenas
dobro de todo o seu outro comércio ultramarino reunido. eram habitadas, a marinha mercante do porto compreendia
Ainda em 1830, cinco oitavos de seu comércio eram com doze navios de 223 toneladas. Até o fim do século XVII o
as índias Ocidentais e dizia-se em 1833 que, sem o comér- único acontecimento local de importância fora o sítio da
cio com as índias Ocidentais, Brístol seria um porto de cidade durante a Guerra Civil Inglesa.62 Ao cobrar o
pesca.58 "imposto para a compra de navios",* Strafford arbitrou
Brístol tinha a sua própria Sociedade das índias Oci- Liverpool em quinze libras; Brístol pagou duas mi1.63 Os
dentais. O Conselho Municipal distribuía verbas para o navios que entraram em Liverpool aumentaram quatro
auxílio à calamidade causada por incêndio nas ilhas açuca- vezes e meia entre 1709 e 1771; a tonelagem exportada,
reiras. Era costume que os filhos mais jovens e os membros seis vezes e meia. O número de navios pertencentes ao
mais novos das firmas das índias Ocidentais passassem porto multiplicou-se quatro vezes durante o mesmo período,
alguns anos nas plantações antes de ingressarem nos
negócios na metrópole. Os membros do Parlamento pro- • Ship money (imposto para a compra de navios), tributo cobra-
venientes de Brístol, no século XVIII, eram freqüente- do dos portos e condados ingleses, geralmente em tempo de
mente ligados, de uma ou de outra maneira, às plantações guerra, para a compra de navios para a defesa nacional. Vi-
gorou intermitentemente de 1007 a 1640. <N. do T.)
68
69
a tonelagem e os marinheiros mais de seis vezes. M A liberdade", perguntava-se em Liverpool, upode seduzir o
receita alfandegária subiu da média de 51.000 libras, para povo a incorrer em tanta depravação a ponto de declarar
os anos de 1750 a 1757, para 648.000 libras, em 1785.65 que um negócio é ilegal, o qual o costume imemorial e
Os direitos de estocagem aumentaram duas vezes e meia várias Leis do Parlamento ratificaram e sancionaram?"74
entre 1752 e 1771.66 A população elevou-se de 5.000, em Essa dependência do tráfico de escravos demonstrou
1_700, para 34.000, ~m 1773. Em 1770, Liverpool já se ser muito incômoda para os historiadores sensíveis e
tinha tornado uma cidade muito famosa no mundo comer- patriotas. Uma geração, argumentou um historiador de
c~al para que Arthur Young passasse por ela em suas Brístol em 1939, que assistiu à pilhagem da Etiópia, ao
VIagens pela Inglaterra.a7 brutal desmembramento da China e ao estupro da Tche-
. O abolicionista Clarkson afirmou que a ascensão de coslováquia, não pode deixar de condenar o tráfico de
Liverpool foi devida a uma variedade de causas entre escravos. 75 Na opinião de um cronista de Liverpool, essa
as quais estavam o comércio de sal, o aumento prddigioso cidade bem merece o estigma que a associa ao tráfico de
da população do Lancashire e a rápida e grande expansão escravos. A perseverança e energia inquebrantáveis de
das manufaturas de Manchester. 68 Isso é um caso parti- seu povo teriam assegurado uma prosperidade igual nou-
cularmente flagrante de pôr o carro adiante dos bois tras direções, tão eficaz e talvez tão rapidamente, mesmo
Foi exclusivamente a acumulação de capital em Liver~ que não tivesse existido o tráfico de escravos, e o sucesso
pool que propiciou o aumento da população do Lancashire extremo do porto teria talvez sido retardado, embora não
e estimulou as manufaturas de Manchester. Essa acumu- prejudicado ou estorvado, sem o tráfico de escravos.7a Se-
laçã~ d~ ca~ital proveio do tráfico de escravos, cuja im- gundo ainda outro escritor de Liverpool, não havia nada
portancia fOI mais reconhecida pelos contemporâneos do de depreciativo no fato de que seus ancestrais tivessem
que por historiadores subseqüentes. lidado com negros, e os horrores do tráfico de escravos
. Era voz comum que várias das ruas principais de foram sobrepujados pelos horrores do tráfico de bebidas
Liverpool estavam marcadas pelas correntes, e que as de Liverpool. Mas, afinal de contas, "foi o capital feito
paredes das casas estavam argamassadas com o sangue com o tráfico de escravos africanos que construiu algumas
dos escravos africanos,69 e uma rua foi apelidada de "Negro de nossas docas. Foi o preço do corpo humano que nos
Row" ("Travessa do Negro") .7o A Alfândega de tijolos propiciou o início". Alguns daqueles que fizeram suas
vermelhos. e~t~va decorada com cabeças de negros.n Con- fortunas com o tráfico de escravos tinham grande com-
t8;-se. a histona de um ator na cidade, que, vaiado pelo paixão pelos pobres de Liverpool, enquanto os lucros pro-
publico por apresentar-se, não pela primeira vez em estado venientes da traficância de escravos representavam "um
de embriaguez, firmou-se e declarou com maje~tade ofen- influxo de riqueza que, talvez, nenhuma consideração in-
dida: duziria uma comunidade comercial a abrir mão dela".77
- Não vim aqui para ser insultado por um bando Só depois da Lei de União de 1707 foi que a Escócia
de miseráveis, em cuja cidade infernal todo tijolo está teve permissão para participar do comércio colonial. Essa
argamassado com o sangue de um africano. 72 permissão pôs Glasgow no mapa. Açúcar e fumo estearam
Estimou-se, em 1790, que os 138 navios quo zarparam a prosperidade da cidade no século XVIII. O comércio
de Liverpool para a Africa representaram um CltpUal su- colonial estimulou o crescimento de novas indústrias.
perior a um milhão de libras. O próprio prPjulr.o provável Como o Bispo Pococke escreveu, em 1760, depois de uma
de Liverpool, em decorrência da abo11çíio clu I'RI'I'HVtttura visita a Glasgow: "a cidade sentiu mais do que todas as
foi então calculado em mais de scto mllllot•H t• moto d~ outras as vantagens da União, pelo comércio com as índias
libras.73 A abolição, afirmou-se, arrulnnrln 11 l'illnclo. Des- Ocidentais que seus habitantes desfrutam, o qual é muito
truiria o fundamento de seu com6rcJo t n f'llllllfl primordial grande, especialmente em fumo, anil e açúcar."7B A refi-
da indústria e riqueza nacionnl. "Qun v ~ prrtt-nsuo de nação de açúcar continuou como uma indústria impor-

70 71
tante no vale do Clyde até o eclipse das ilhas das índias gewater no mercado colonial; Welsh Plaines (Planícies
Ocidentais em meados do século XIX. Galesas), um pano de lã da mais simples tecelagem, era
manufaturado na Inglaterra ocidental e no País de Gales.
Uma comissão parlamentar de 1695 expressou o sen-
D. Os artigos do comércio triangular timento público de que o tráfico com a Africa era um
incentivo à manufatura de lã.80 Entre os argumentos apre-
É necessário, agora, traçar o desenvolvimento indus- sentados para provar a importância do tráfico de escravos,
trial da Inglaterra que foi estimulado, direta ou indireta- as exportações de lã que esse tráfico incentivava eram
mente, pelos artigos do comércio triangular e pelo bene- sempre dadas em primeiro lugar. Um panfleto de 1680,
ficiamento dos produtos coloniais. ilustrando a utilidade pública e vantagens do tráfico afri-
As amplas ramüicações do tráfico de escravos na cano, começa com "a exportação de nossa lã nativa e
indústria inglesa são ilustradas por essa carga para a outras manufaturas de grande abundância, muitas das
Africa durante o ano de 1787: artigos de algodão e linho, quais eram outrora importadas da Holanda. . . pelo que
lenços de seda, panos grosseiros de lã azuis e vermelhos, a lã desta nação é muito mais consumida e gasta do que
pano escarlate, chapéus grosseiros e finos, toucas de lã, outrora; e muitos milhares da gente pobre empregados".81
espingardas, pólvora, balas, sabres, barras de chumbo, De modo semelhante, a Real Companhia Africana declarou
barras de ferro, bacias de peltre, chaleiras e caçarolas de numa petição, em 1696, que o tráfico de escravos devia ser
cobre, panelas de ferro, ferragens de vários tipos, peças apoiado pela Inglaterra, devido às importações que ele
de barro e de vidro, malas de couro dourado ou de pêlo, incentivava de artigos de lã e outras manufaturas ingle-
rosários de vários tipos, anéis e ornamentos de prata e sas.82
ouro, papel, panos axadrezados grosseiros e finos, camisas Os manufatores de lã do reino tiveram papel destacado
pregueadas e toucas de linho, bebidas alcoólicas e fumo na longa e acerba controvérsia travada entre a Real
britânicos e estrangeiros. 79 Companhia Africana e os mercadores autônomos. Aqueles
Esse sortimento variado era típico da carga do trafi- de quem a companhia fazia suas compras argumentavam
cante de escravos. Enfeites para os africanos, utensílios que os atravessadores causavam perturbações e transtorno
domésticos, panos de todos os tipos, ferro e outros metais, ao comércio exterior, e que este declinou quando o mono-
juntamente com espingardas, algemas e grilhões; a pro- pólio da companhia foi modificado. Em 1694, os nego-
dução desses artigos estimulava o capitalismo; criava em- ciantes de roupas de Witney fizeram uma petição ao Par-
pregos para a mão-de-obra inglesa e trazia grandes lucros lamento em favor do monopólio da companhia. Os fabri-
para a Inglaterra. cantes de panos de Shrewsbury seguiram-lhes o exemplo
em 1696 e os tecelões de Kidderminster o fizeram duas
1. LA vezes no mesmo ano. Em 1709, os tecelões de Exeter e os
negociantes de lã de Londres e, em 1713, diversos nego-
Até o imenso desenvolvimento da indústria algodoeira ciantes interessados na manufatura de lã também toma-
na Revolução Industrial, a lã era a menina dos olhos ram o partido da companhia.s3
das manufaturas inglesas. Figurou grandemente em todas Mas o peso dos interesses dos fabricantes de artigos
as considerações respeitantes ao tráfico de escravos no de lã foi lançado inteiramente do lado dos mercadores
século após 1680. A carga de um navio negreiro estava livres. O monopólio da companhia capacitava-a a "obrigar
incompleta sem algumas manufaturas de lã - sarjas, saios, os negociantes a um limite de quantidade e preço, compri-
perpetuanos, arrangoes e baetas. As vezes o pano era cha- mento, largura e peso". 84 Monopólio significava um com-
mado segundo a localidade onde fora primeiro manufa- prador e um vendedor apenas. Um investigador na alfân-
turado. Bridwaters representava a produção de Brid- dega atestou que quando o comércio era livre havia maior

72 73
exportação de lã. úe acordo com o depoimento de dois mente lavados.89 Mas a lã era o produto básico da Ingla-
comerciantes de Londres em 1693, o monopólio reduzira terra e considerações climáticas eram uma sutileza muito
as exportações de lã em quase um terço. Suffolk exportava grande para a concepção mercantilista. Qualquer pessoa
25.000 peças de lã por ano; dois anos após a fundação familiarizada com a sociedade das índias Ocidentais Bri-
da companhia, o número declinou para 500. 85 Em 1690, tânicas hoje perceberá a força da tradição assim criada.
os negociantes de roupas de Suffolk e Essex e os manufa- Roupas íntimas de lã ainda hoje são comuns nas ilhas,
tores de Exeter apresentaram uma petição contra o mo- embora mais entre a geração mais velha, e trajes de sarja
nopólio da companhia. Exeter apresentou petições nova- azul ainda são um sinal do homem bem vestido. Como o
mente, em 1694, 1696, 1709, 1710 e 1711, a favor do comércio inglês e ao contrário do norte-americano residente nas
livre. Os comerciantes de lã do reino reclamaram em colônias, a classe média antilhana de cor ainda hoje imita
1694, que as restrições tinham diminuído grandemente as modas da metrópole em sua preferência pelos tecidos
suas vendas. Petições semelhantes foram apresentadas mais pesados, que são tão ridículos e incômodos num
contra o monopólio pelos negociantes de lã de Londres e ambiente tropical.
os comerciantes de lã de Plymouth em 1710, os negociantes Mas o algodão posteriormente substituiu a lã nos
de lã de Totnes e Ashburton, os manufatores de lã de mercados coloniais como o fez no mercado interno. De
Kidderminster, os Empreendedores Mercantis de Minehead uma exportação total de quatro milhões de libras de manu-
devotados à manufatura da lã, em 1711.86 fatura de lã em 1772, menos de 3% foram para as índias
Outras petições ao Parlamento acentuaram a impor- Ocidentais e menos de 4 % para a Africa.9 o Os melhores
tância do mercado colonial para a indústria de lã. Em fregueses foram Europa e América. Em 1783, a indústria
1690, os plantadores da Jamaica protestaram contra o de lã estava começando vagarosamente sua imitação tardia
monopólio da companhia como um desestímulo ao comér- das modificações tecnológicas que haviam revolucionado
cio externo, especialmente o comércio de lã. Uma petição a indústria do algodão. Em seu progresso depois de 1783,
de Manchester em 1704 revelou que a lã inglesa era per- o comércio triangular e o mercado das índias Ocidentais
mutada na Holanda, Hamburgo e Oriente por fio e pano não desempenharam papel apreciável.
de linho, os quais, quando manufaturados, eram enviados
às plantações. Os comerciantes e negociantes de Liverpool 2. MANUFATURA ALGODOEIRA
em 1704, os comerciantes e habitantes de L~verpool em
1715, sustentaram que o monopólio da companhia era O que a construção de navios para o transporte de
prejudicial à indústria de lã. As petições do Norte indus- escravos fez por Liverpool no século XVIII, a manufatura
trial em 1735 revelaram que Wakefield, Halifax, Burnley, de artigos de algodão para a compra de escravos fez para
Colne e Kendal estavam todas interessadas na manufatura Manchester no século XVIII. O primeiro estímulo para o
de artigos de lã para a Africa e as índias Ocidentais. 87 crescimento de Manchester veio dos mercadores da Africa
Que artigos de lã figurassem de maneira tão destacada e índias Ocidentais.
nos mercados tropicais deve ser atribuído à política deli- O crescimento de Manchester esteve intimamente
berada da Inglaterra mercantilista. Argumentou-se, em associado ao crescimento de Liverpool, sua saída para o
1732, em favor das colônias do continen te, que a Pensil- mar e para o mercado mundial. O capital acumulado por
vânia sozinha consumia mais exportação de lã da Ingla- Liverpool com o tráfico de escravos escoou-se para o inte-
terra do que todas as ilhas açucareiras reunidas, e Nova rior e fecundou as energias de Manchester; os arti-gos de
Iorque mais do que qualquer ilha açucareira, com exceção Manchester destinados à Africa eram transportados nos
da Jamaica.BB Os artigos de lã eram mais apropriados navios negreiros de Liverpool. O mercado exterior do
para esses climas mais frios, e os plantadores barbadianos Lancashire significava principalmente as plantações das
preferiam tecidos leves de algodão que podiam ser facil- índias Ocidentais e Africa. O comércio de exportação
74 7i
foi de 14.000 libras em 1739; em 1759, aumentava quase Guerra dos Sete Anos, atingiu a cifra excepcionalmente
oito vezes; em 1779, era de 303.000 libras. Até 1770, um alta de 302.000 libras, mas depois de 1767 manteve-se
terço dessa exportação destinou-se à costa de escravos, entre 100.000 e 200.000 libras, quando a competição india-
metade às colônias americanas e às índias Ocidentais.91 na se mostrou formidável novamente.
Foi essa dependência extraordinária do comércio trian- As estatísticas existentes tornam impossível a com-
gular que contribuiu para o progresso de Manchester. paração entre o valor dos panos ingleses axadrezados de
Os artigos leves de lã eram populares na costa dos algodão e os artigos de algodão indianos exportados para
escravos; também o eram as sedas, contanto que fossem a Africa, pois os primeiros são dados pelo valor e os se-
espalhafatosas e tivessem flores grandes. Mas os artigos gundos pela quantidade. Mas o crescimento das exporta-
mais populares de todos eram os de algodão, pois o afri- ções indianas e inglesas de algodão para a Africa dará
cano já estava acostumado com os panos grosseiros de uma indicação da importância do mercado africano. As
algodão, azuis e brancos, de sua própria fabricação, e desde exportações totais de algodão atingiram 214.600 libras, em
o começo as tangas listradas chamadas anabasses eram 1751; em 1763, mais do que duplicaram; em 1772, foram
uma característica habitual da carga de todo navio negrei- mais de quatro vezes maiores, mas, em conseqüência da
ro. Os tecidos indianos, proibidos na Inglaterra, logo estabe- Revolução Americana, declinaram para 195.900 libras, em
lecera~ um monopólio do mercado africano. Brawls, tap- 1780. O efeito da guerra sobre os mercados de escravos
sells, nzccan~es, c'!ltt~nees, buckshaws, nillias, salempores e das plantações é, de imediato, evidente. Por volta de
- esses tecidos mdianos eram altamente apreciados e, 1780, os panos axadrezados deixaram de ser uma parte
contudo, outro poderoso interesse consolidado era atraído importante da indústria algodoeira. Mas não era só a
para a ?rbita do tráfico de escravos. Manchester procurou guerra que se devia culpar. Manchester só podia satisfazer
competir com a Comp:;nhia das índias Orientais; bafetás, o mercado africano quando os artigos de algodão indianos
por exemplo, eram tecidos baratos de algodão do Oriente eram escassos ou caros. Para o mercado das plantações,
mais tarde imitados na Inglaterra para o mercado afri~ a barateza era essencial e por volta de 1780 o algodão em
cano. Mas o atraso do processo inglês de tingir tornava rama estava tornando-se cada vez mais caro à medida
impossível que Manchester obtivesse as cores firmes ver- que a oferta se atrasava em relação à procura das novas
melha, verde e amarela populares na costa. Manchester invenções. 92
demonstrou ser incapaz de imitar as cores de~ses algodões Mas, de acordo com as estimativas fornecidas ao
indianos, e há provas também que mostram que os ma- Conselho Privado em 1788', Manchester exportava anual-
nufatores franceses de algodão da Normandia não conse- mente para a Africa mercadorias no valor de 200.000 libras,
guiram igualmente aprender os segredos do Oriente. 180.000 das quais somente para os negros; a manufatura
Manchester foi mais feliz em seu comércio de. pano dessas mercadorias representava um investimento de
axadrezado de algodão e linho, embora as cifras referentes 300.000 libras e proporcionava emprego a 180.000 homens,
à primeira parte do século XVIII sejam duvidosas. As mulheres e crianças. 93 Os manufatores franceses, impres-
guerras européias e coloniais de 1739-1748 e a reorganiza- sionados com a qualidade e barateza desses artigos espe-
ção que a Companhia Africana sofreu até 1750 causaram ciais, chamados panos de Guiné, produzidos em Manches-
um sério declínio no comércio de algodão com a Africa, e ter, estavam enviando agentes para obter detalhes e
apresentando ofertas abertas aos manufatores de Man-
quando este se restabeleceu depois de 1750 as exportações chester, caso a Grã-Bretanha abolisse o tráfico de escravos,
indianas eram inadequadas para satisfazer a procura. Os para se estabelecerem em Ruão onde lhes seria dado todo
manufatores ingleses fizeram pleno uso dessa oportuni- incentivo.94 Além disso, Manchester em 1788 forneceu ao
dade para colocar seus próprios artigos. Em 1752, a ex- comércio com as índias Ocidentais mais de 300.000 libras,
portação de panos axadrezados de algodão c linho somente durante o ano todo, em manufaturas, o que propiciou
da Inglaterra foi de 57.000 libras; em 1763, no fim da emprego a muitos milhares de pessoas.9s
76 77
Entre os manufatores de algodão de Manchester e os drezados e imitações de artigos indianos à Companhia
traficantes de escravos não havia ligações íntimas que já Africana para o tráfico de escravos. 9B
foram notadas com respeito aos construtores navais de
Liverpool. Mas existiam dois casos excepcionais de tais
ligações. Dois manufatores de algodão de Lancashire bem Manchester recebia um duplo estímulo do comércio
conhecidos, Sir William Fazackerly e Samuel Touchet, eram colonial. Se fornecia os artigos necessários à costa de
membros da Companhia de Negociantes traficando com a escravos e às plantações, seus manufatores dependiam por
Africa. Fazackerly, negociante londrino de fustão, apre- sua vez do fornecimento da matéria-prima. O interesse de
sentou o caso dos comerciantes autônomos de Brístol e Manchester nas ilhas era duplo.
Liverpool contra a Companhia Africana em 1726.96 Tou· A matéria-prima chegava à Inglaterra nos séculos XVII
chet membro de uma firma produtora de panos axadre· e XVIII principalmente de duas fontes, o Levante e as
zado's de Manchester, representou Liverpool no órgão dire- índias Ocidentais. No século XVIII, aquela competição
tivo da companhia durante o período 1753-1756. Estava indiana, que demonstrava ser tão formidável para Man-
interessado em equipar a expedição que tomou o Senegal chester na costa de escravos e que ameaçava abarrotar
em 1758 e procurou denodadamente obter o contrato para até o mercado interno de mercadorias indianas, foi efeti-
abastecer de mantimentos as tropas. Patrono da frustrada vamente esmagada, no que concernia à Inglaterra, pelos
máquina de fiar de Paul destinada a revolucionar a indús- direitos proibitivos impostos às importações indianas para
tria algodoeira, acusado abertamente de tentar monopo- a Inglaterra. Foi dado assim o primeiro passo pelo qual a
lizar a importação de algodão em rama, Touchet somava terra do algodão se tornou nos séculos XIX e XX o prin-
a seus inúmeros interesses uma sociedade, com seus ir- cipal mercado de Lancashire. No século XVIII, a medida
mãos, em cerca de vinte navios no comércio com as índias deu a Manchester o monopólio do mercado interno e os
Ocidentais. Touchet morreu deixando uma grande for· negociantes indianos particulares começaram a importar
tuna, e foi descrito em seu necrológio como "o comerciante o algodão em rama para as fábricas de Lancashire. Surgira
e manufator mais considerável de Manchester, notável um concorrente para as índias Ocidentais a ser seguido
pela grande capacidade e austera integridade, pela bene- posteriormente pelo Brasil, cujo produto em 1783 era reco-
volência universal e utilidade à humanidade". Dois autores nhecido como claramente superior a todas as outras varie-
modernos deixaram-nos esta descrição: "Ta:l como um dades.
ícaro elevando-se a grande altura", ele se destaca como Mas no começo do século XVIII a Inglaterra dependia
"o primeiro financista considerável que o comérci? ~e das ilhas das índias Ocidentais em uma proporção entre
Manchester produziu e, certamente, como um dos pnmel- dois terços e três quartos de seu algodão em rama. O al-
ros casos de um homem de Manchester que se interessava godão, não obstante, era essencialmente uma consideração
ao mesmo tempo pela atividade manufatureira e pelos em- secundária na perspectiva do plantador das índias Oci·
preendimentos financeiros e comerciais em grande escala dentais, por mais que os plantadores em conjunto olhas·
no país e no exterior." 97 sem com inveja para o seu cultivo na índia, na Africa ou
Outros casos acentuam a significância da carreira de no Brasil. Em oposição à manutenção de Guadalupe em
Touchet. Robert Diggles, traficante de escravos africanos 1763, o interesse das índias Ocidentais media seus argu-
de Liverpool, era filho de um negociante de panos de linho mentos em termos de açúcar, enquanto, significativamente,
de Manchester e irmão de outro. Em 1747, um homem de um panfletário contemporâneo atribuía às exportações de
Manchester estava em sociedade com dois homens de Li- algodão para a Inglaterra uma razão para conservar a
verpool numa viagem à Jamaica. Uma importante firma ilha. 99 Mas o consumo britânico era pequeno e a contri-
de Manchester, os Hibbert, possuía plantações de cana-de- buição das índias Ocidentais substancial. Em 1764, as
-açúcar na Jamaica, e em certa época forneceu panos axa· importações britânicas de algodão em rama montaram a

78
quase quatro milhões de libras, tendo as índias Ocidentais 3. REFINAÇAO DE AÇúCAR
fornecido a metade. Em 1780, a Grã-Bretanha importou
mais de seis milhões e meio de libras; as índias Ocidentais O beneficiamento das matérias-primas coloniais fez
forneceram dois terços.roo surgir novas indústrias na Inglaterra, proporcionou mais
Em 1783, as índias Ocidentais, portanto, ainda domi- empregos na frota mercante e também contribuiu para a
navam o comércio algodoeiro . Mas uma nova era estava expansão do mercado mundial e do comércio internacional.
surgindo. Na expansão fenomenal de uma indústria que Dentre essas matérias-primas, o açúcar ocupava um lugar
iria vestir o mundo, algumas minúsculas ilhas das índias preeminente e sua manufatura deu origem à indústria de
refinação desse produto. O processo de refinação trans-
Ocidentais dificilmente poderiam espe·r ar que forneceriam formava o açúcar mascavo bruto, manufaturado nas plan-
a necessária matéria-prima. Seu algodão era da variedade tações, em açúcar branco, que era durável e suscetível de
de fibra longa, o chamado algodão-de-barbados, que se conservação, e podia ser facilmente manuseado e distri-
pode limpar facilmente com a mão, limitado a certas áreas buído em todo o mundo.
e, portanto, dispendioso. Quando o descaroçador de algo- A referência mais antiga à refinação de açúcar na In-
dão permitiu o cultivo do algodão de fibra curta facilitando glaterra é uma ordem do Conselho Privado em 1615, proi-
a tarefa de limpeza, o centro de gravidade se deslocou bindo que estrangeiros fundassem estabelecimentos de
das ilhas para o continente, a fim de atender às procuras açúcar ou praticassem a arte de refinar açúcar.102 A im-
enormes da nova maquinaria montada na Inglaterra. Em portância da indústria foi aumentando em proporção à
1784, um embarque de algodão americano foi apreendido sua produção nas plantações e à medida que o açúcar
pelas autoridades alfandegárias de Liverpool, sob o fun- se tornava, com a disseminação do chá e do café, .uma
damento de que o algodão, não sendo um produto autên- das necessidades da vida e não um luxo de reis.
tico dos Estados Unidos, não podia ser legalmente trans- Por volta de meados do século XVIII, havia cento e
portado para a Inglaterra num navio americano. vinte refinarias na Inglaterra. Estimava-se que' cada re-
Foi um mau augúrio para as índias Ocidentais, coin- finaria proporcionava emprego para cerca de nove homens.
cidindo, como aconteceu, com outro desenvolvimento sig- Além disso, a distribuição do produto refinado fazia surgir
nificante. Durante a Revolução Americana, as exportações uma série de negócios subsidiários e r equeria navios e
de algodão de Manchester para a Europa quase triplica- vagões para o comércio marítimo e terrestre. 103
ram.l01 A própria Revolução criou outro mercado impor- A indústria de refinação de açúcar de Brístol foi uma
das mais importantes do reino. Foi em Brístol, em 1654,
tante para Manchester, os Estados Unidos independentes, que o diarista E·velyn viu pela primeira vez o método de
num momento em que o descaroçador de algodão estava fabricar açúcar em cubos,I04 e nos anais da história de
prestes a aparecer. Tanto para o mercado de importação Brístol o açúcar figura freqüentemente como um presente
quanto para o de exportação, portanto, o algodão estava aos visitantes ilustres da cidade- Ricardo, filho de Oliver
começando a estender-se para o mercado mundial. O en- Cronwell, e o Rei Carlos II, em troca do que o rei nomeou
solarado céu das Antilhas estava toldado por uma nuvem cavaleiros quatro dos comerciantes da cidade.105

l
quase imperceptível, mas agourenta, e a suave brisa das Em 1799, havia vinte refinarias em Brístol e a cidade
índias Ocidentais estava aumentando ameaçadoramente. fazia mais refinação do que Londres, em proporção ao
Isso prenunciava o furacão político que se aproximava tamanho e população. O açúcar de Brístol era considerado
que, para alterar a descrição de Edmund Burke daqueles superior em qualidade, sua proximidade do abastecimento
flagelos da natureza comuns nas índias Ocidentais, humi- de carvão para combustível capacitava Brístol a vender
lhou o orgulho do plantador de cana-de-açúcar, se também mais barato do que Londres, enquanto encontrava na Ir-
não corrigiu seus vícios. landa, em todo o sul de Gales e oeste da Inglaterra os
80 81
mercados para os quais estava destinado por sua locali- da cidade no século XVIII foi devida, pelo menos na mesma
zação g~ográfica. 106 A refinação de açúcar permaneceu proporção, a seu negócio de refinação de açúcar. A refi-
por mmto tempo como uma das atividades básicas de nação de açúcar remontava à segunda metade do sé-
B!istol. Os refinadores da cidade apresentaram uma peti- culo XVII. O estabelecimento ocidental foi construído em
çao ao Parlamento, em 1789, contra a abolição do tráfico 1667, seguido pelo estabelecimento oriental, em 1669, e
de escravos, do qual "o bem-estar e a prosperidade e logo depois o estabelecimento meridional e mais outro.
talvez a própria existência das ilhas das índias Ocidentais Seguiu-se ainda outro, em 1701. Mas Glasgow sofria a
dependiam". 107 Em 1811, havia dezesseis refinarias na grande desvantagem de que antes de 1707 as relações
cid~de, cuj;; ligação com essa indústria só cessou lá para comerciais diretas com as colônias eram ilegais, e os refi-
o f1m do seculo XIX, quando as bananas substituíram o nadares de açúcar de Glasgow eram forçados a depender
açúcar.1o8 de Brístol no que concernia à obtenção de matéria-prima.
Alguns dos cidadãos mais eminentes de Brístol esta- Pela Lei de União e uma ocorrência feliz, essa situação
vam ligados ao negócio de refinação de açúcar. Robert insatisfatória teve fim. Dois oficiais escoceses, o Coronel
Aldworth, vereador do século XVII, estava intimamente William Macdowall, membro de uma família antiga, e o
identificado com a refinação, enquanto ao mesmo tempo Major James Milliken, quando aquartelados em St. Kitts,
era comerciante e construiu duas docas para acomodar a cortejaram e contraíram núpcias com duas herdeiras, a
frota mercante crescente. 109 William Miles foi o refinador viúva Tovie e sua filha, proprietárias de grandes plantações
mais destacado do século XVIII. Sua carreira é típica em de cana-de-açúcar. O elo que faltava foi encontrado. A
muitos outros casos. Miles chegou a Brístol com três chegada das herdeiras e seus maridos significou que
moedas insignificantes no bolso, trabalhou como carrega- Glasgow se tornou um dos principais portos de entrada
dor, foi aprendiz numa empresa de construção de navios, dos carregamentos de açúcar das índias Ocidentais. No
economizou quinze libras e zarpou para a Jamaica, como próprio ano em que se verificou o acontecimento feliz, uma
carpinteiro de bordo, num navio mercante. Comprou um nova refinaria foi fundada. 112
ou dois barris de açúcar, que vendeu em Brístol, com um A maioria das refinarias se localizava na capital e
bom lucro, e com o dinheiro apurado comprou artigos de perto dela - oitenta, em comparação com as vinte de
grande procura na Jamaica e repetiu o investimento an- Brístol. Em 1774, havia oito refinarias em Liverpool, uma
terior. Miles logo se tornou muito rico e estabeleceu-se delas, o estabelecimento dos Brancker, uma firma também
em Brístol como refinador. Essa foi a origem humilde de dedicada ao tráfico de escravos, sendo uma das mais ex-
uma das maiores fortunas feitas no comércio com as tensas em todo o reino. 113 Havia outras em Manchester,
índias Ocidentais. Admitindo o filho como sócio, Miles Chester, Lancashire, Whitehaven, Newcastle, Hull, Sou-
já era bastante rico para dar-lhe um cheque de 100.000 thampton e Warrington.
libras a fim de habilitá-lo a casar com a filha de um Pode-se bem perguntar por que a refinação do açúcar
clérigo aristocrata. O velho Miles tornou-se vereador e bruto não era feita na fonte, nas plantações. A divisão
morreu rico e respeitado; o jovem continuou como comer- do trabalho, entre as operações agrícolas, no clima tropical,
ciante nas índias Ocidentais, negociando principalmente e as operações industriais, no clima temperado, subsiste
com açúcar e escravos, e ao morrer em 1848 deixou bens até o dia de hoje. A razão original nada teve a ver com
avaliados em mais de um milhão de libras.no Em 1833, a capacidade do trabalhador ou a presença de recursos
possuía 663 escravos em Trinidad e na Jamaica, pelos naturais. Foi conseqüência da política deliberada da mãe-
quais recebeu uma indenização na importância de 17.850 -pátria. A proibição de refinação de açúcar nas ilhas cor-
libras. 1n respondeu à proibição de fabricação de tecidos e ferro no
A freqüente associação de Glasgow com a indústria continente. Deviam ter rect'inadores na Inglaterra ou nas
do fumo é apenas uma parte da história. A prosperidade plantações?, perguntava Sir Thomas Clifford, em 1671.
82 83
"Çinco ;.tavios ~ão para os negros", foi sua resposta, "e francesas, espanholas e portuguesas, os plantadores b~i­
nao rna1,~ de dois, se for refinado nas plantações; e assim tânicos estavam resolvidos a manter o preço de monopólio
se destr01 a frota mercante e tudo o que se relaciona com no mercado interno.
ela; e se se perder essa vantagem da Inglaterra se perderá Os amigos dos plantadores advertiram-nos do "erro
tudo." Daí a tarifa elevada imposta ao açúcar refinado fatal e deplorável" que estavam cometendo, pois "se as
importado para a Inglaterra, quatro vezes mais do que a plantações britânicas não puderem, ou não quiserem, for-
referente ao açúcar mascavo. Por essa política, a Ingla- necer açúcar, etc., abundante e bastante barato, os fran-
ter~a pedi~ um, número maior de barris de açúcar bruto, ceses, holandeses e portugueses podem, e o farão". 117 Não
ma1s carvao e VIveres eram consumidos, e a receita natural faltou quem escrevesse, por volta de 1730, solicitando ao
a~rnentav~. 114 _As solic~tações _de Davenant para perrnis- Governo para "abrir as comportas das leis e deixar entrar
sao de refmaçao colomal115 nao eram atendidas. inclusive o açúcar francês, até que nos fornecessem pelo
É significativo que urna luta semelhante estivesse menos tão barato corno se fornece a nossos vizinhos". 118 Em
sendo travada na França, resultando em vitória seme- 1739, a Jamaica pediu assistência à mãe-pátria. O Con-
lhante para os mercantilistas. Colbert permitira a refina- selho de Comércio e Plantações lançou urna advertência
ção de açúcar nas índias Ocidentais Francesas, e o aço clara e inequívoca. A Jamaica tinha duas vezes tanta terra
br~to e o refinado procedentes das ilhas pagavam a mesma quanto todas as ilhas de Sotavento reunidas, contudo as
ta:1fa n~ França. Mas, em 1862, a tarifa sobre o aço refinado exportações das ilhas de Sotavento ultrapassavam as da
fOI duplicada, enquanto dois anos depois, sob pena de Jamaica. "De onde naturalmente se deduz que nem metade
urna multa de 3.000 libras, foi proibido construir-se novas de suas terras é atualmente cultivada, e que a Grã-Breta-
refinarias nas ilhas. Um decreto de 1698 foi ainda mais nha não colhe metade do benefício de sua colônia, que
drástico. A tarifa sobre o açúcar bruto proveniente das colheria se fosse inteiramente cultivada." no
Ilhas Ocidentais foi baixada de quatro para três libras Os plantadores não deram ouvidos. No século XVIII,
por quintal, enquanto a tarifa sobre o açúcar refinado foi não precisavam fazê-lo. Os refinadores de Londres, West-
aumentada de oito para vinte e duas libras e meia. Essa rninster, Southwark e Brístol apresentaram protesto ao
última cifra era a mesma tarifa cobrada sobre o açúcar Parlamento, em 1753, contra o egoísmo dos plantadores
refinado proveniente de terras estrangeiras: "a natureza e a "mais intolerável espécie de tributo" representada pelo
drástica da proteção outorgada aos refinadores franceses preço mais elevado do açúcar britânico. o.s refinadores
contra seus compatriotas das colônias se tornou eviden- solicitaram ao Parlamento que tornasse mteresse dos
te".ue
plantadores de cana produzir mais açúcar bruto aum~n­
O interesse da refinação de açúcar da Inglaterra foi tando a área de cultivo. Trataram de esclarecer, porem,
estimulado por tal legislação. Ele nem sempre concordava que não pretendiam "entrar em competição com os habi-
com o interesse das plantações, de quem dependia para tantes de todas as colônias açucareiras, por números,
seu abastecimento. Sob o sistema mercantil, os planta- riqueza ou importância para o públic~". O Parla~ento
dores de cana-de-açúcar tinham o monopólio do mercado contornou a questão aprovando resoluçoes sobre o mcen-
interno e as importações do exterior eram proibidas. Era tivo da fixação de colonos brancos na Jarnaica. 120
P.ortanto política dos plantadores restringir a produção a Outra crise nas relações entre os produtores e os bene-
f1rn de manter o preço alto. Seu monopólio legal do ficiadores verificou-se durante a Revolução Americana. As
mercado interno era urna arma poderosa em suas mãos, e importações de açúcar declinaram em um terço, entre 1774
eles a usavam irnpiedosarnente, às expensas de toda a e 1780. Os preços estavam altos e os refinadores, em
população da Inglaterra. Enquanto o preço do açúcar dificuldade, solicitaram ao Parlamento um auxílio em
era naturalmente forçado a baixar no mercado mundial forma da admissão do açúcar apreendido. Lendo nas en-
pelo aumento do cultivo da cana-de-açúcar nas colônias trelinhas do depoimento tornado pela comissão parlarnen-
84 85
tar sobre o assunto, vemos o conflito de interesses entre com oferecimentos de bebida, induzidos a beber até per-
refinador e plantador. Os preços altos beneficiavam o derem a cabeça e então o negócio era fechado. 12 ~ Um mer-
plantador, enquanto os refinadores queriam um aumento cador de escravos, com o saco cheio do ouro que lhe fora
do ~ornecimento que o~ plantadores n ão queriam, ou não pago pela venda de seus escravos, estupidamente aceitou o
podiam dar. Se eles nao quisessem, que se os obrigassem convite do comandante do navio negreiro para jantar.
os refinadores de Brístol recomendaram " uma lei salutar"' Embriagaram-no e quando ele acordou na manhã seguinte
que levaria a "tornar do interesse das colônias açucareira~ verificou que seu dinheiro desaparecera e ele próprio fora
britânicas, expandir o cultivo de suas terras a fim de desnudado, marcado e escravizado juntamente com suas
c.apacitá-la~ a obter ur;.ta pr_oduç3o maior, e a e~viar quan- próprias vítimas, para grande alegria dos marinheiros. 125
tidades maiores de açucar a Ora-Bretanha, e assim a tor- Em 1765, duas destilarias foram estabelecidas em Liverpool
ná-l~s ,r;tais úteis à mãe-pátria, seu comércio, navegação e com a finalidade expressa de abastecer os n avios destinados
receita .121 Se não pudessem, que se compre em outra à Africa.126 De igual importância para o mercantilista
parte, nas colônias francesas, por exemplo. "Fosse eu refi- era o fato de que do melaço era possível obter-se, além do
nadar", disse um depoente, um atacadista de secos e mo- rum, conhaque e vinhos inferiores importados da França.
lhados, "preferiria certamente o açúcar de São Domingos Os destiladores eram uma prova importante do interesse
a qualquer outro". 122 O abismo estava ampliando-se aos de Brístol pelas plantações de cana-de-açúcar, e muitas
pés do plantador de cana-de-açúcar, mas, com a cabeça foram as reclamações que eles enviaram ao Parlamento
orgulhosamente erguida no ar, ele seguia seu caminho em defesa de seus interesses e em oposição à importação
murmurando a lição que lhe haviam ensinado os mercan- dos conhaques franceses. O Bispo Barkeley expressou o
tilistas e que ele aprendera muito bem. sentimento predominante quando perguntou acrimon~osa­
mente, em linguagem estritamente mercantilista, "se a
4. DESTILAÇÃO DE RUM embriaguez é um mal necessário, os homens não podiam
igualmente embriagar-se com o crescimento de seu pró-
Contudo, outra matéria-prima colonial dera origem a prio país?"
mais outra indústria inglesa. Um dos importantes sub- O século XVIII na Inglaterra foi famoso por seu al-
produtos do açúcar é o melaço, do qual se pode destilar coolismo. A bebida popular era o gim, imortalizado por
rum. Mas o rum nunca atingiu a importância .do algodão, Hogarth em seu Beco do Gim. O anúncio clássico de uma
muito menos a do açúcar, como uma contribuição à indús- taberna de Southwark dizia: "Bêbedo por um penny, com-
tria britânica, em parte, talvez, porque muito rum era pletamente bêbedo por dois pence, cama limpa de graça."
importado diretamente das ilhas em seu estado acabado. O gim e o rum disputavam a primazia.
As importações provenientes das ilhas aumentaram de Os plantadores das índias Ocidentais argumentavam
58.000 galões, em 1721, para 320.000, em 1730. Em 1763 a que o rum que produziam era igual a um quarto do valor
cifra alcançava 1.250.000 galões e ultrapassava firmeme~te de todos os seus demais produtos. Proibir a venda do rum
os dois milhões entre 1765 e 1779.123 seria portanto arruiná-los e levar o povo a sucedâneos
O rum era indispensável nas pescarias e no comércio estrangeiros. Os plantadores expressavam a esperança de
de peles, e como ração naval. Mas sua ligação com o que a supressão dos males ocasionados pelo uso excessivo
comércio triangular era ainda mais direta. O rum era de bebidas alcoólicas não redundaria na destruição do
uma parte essencial da carga do navio negreiro, especial- comércio açucareiro. 127 Segundo o seu modo de ver, a
mente o navio negreiro americano colonial. Nenhum tra- questão não era se o povo devia beber, mas o que devia
ficante de escravos podia dispensar a carga de rum. Era beber. O gim, escrevia um an ônimo, era "grandemente
lucrativo espalhar o gosto da bebida na costa africana. mais destrutivo ao organismo humano" do que o rum.
Os mercadores de negros eram constantemente assediados "O gim é uma bebida muito ardente, corrosiva e infla-
86 87
mante para uso interno, mas ... O rum é uma bebida tão genas e sobretudo para a Africa. O comércio de rum na
suave, balsâmica e benigna, que se for adequadamente costa de escravos tornou-se um monopólio virtual da Nova
usada e temperada poderá tornar-se extremamente útil, Inglaterra. Em 1770, as exportações de rum da Nova
tanto para o alívio quanto para o regalo da natureza Inglaterra para a Africa representaram mais de quatro
humana." 128 Isso era uma descrição estranha da bebida quintos do total das exportações coloniais daquele anot32
que os barbadianos apropriadamente crismaram de "mata- e, contudo, outro importante interesse consolidado tirava
-diabo". sua sustentação do comércio triangular. Mas aqui, tam-
Contra os plantadores argumentou-se que o comércio bém, estava a semente da futura desintegração. O melaço
de rum das índias Ocidentais era muito insignificante das índias Ocidentais Francesas era mais barato do que o
para permitir a continuação de uma atrocidade gritante britânico, porque a destilação francesa não tinha per-
que tendia a destruir a saúde e a moral do povo da Grã- missão para competir com os conhaques da mãe-pátria.
-Bretanha.129 Não é improvável que outras considerações Em vez de dar o melaço aos cavalos, preferiam vendê-lo
envolvessem o assunto. O rum competia com a bebida feita aos colonos do continente. Estes últimos, portanto, recor-
de trigo. O interesse das índias Ocidentais estava portanto riam aos plantadores franceses, e o melaço era um dos
em choque com o interesse agrícola inglês. Os plantadores artigos principais naquele comércio entre o continente e
de cana-de-açúcar clamavam que destilar do trigo tendia as colônias açucareiras que, como a continuação demons-
a elevar o preço do pão. Esse interesse pelo pobre consu- trou, teve profundas conseqüências para os plantadores
midor de pão era comovente, vindo como vinha de extor- de cana britânicos.
sionários que queriam que o pobre gastasse mais dinheiro 5. "PACOTILLE"
em açúcar, e precedeu em cem anos um conflito seme-
lhante, porém mais significante, entre os fazendeiros e Os carregamentos dos navios negreiros estavam in-
industriais ingleses, em torno de pão mais barato ou salá- completos sem a pacotille (pacotilha), diversos artigos e
rios mais baixos para as classes trabalhadoras. "O melaço" bugingangas que atendiam ao gosto dos africanos por cores
amargou as relações entre o plantador de cana das índias berrantes e pelos quais, depois de terem vendido seus
Ocidentais e o proprietário de terras inglês, tal como amar- compatriotas, eles se desfariam, no fim do século XIX, de
gara as relações entre o plantador e o colono do conti- suas terras e outorgariam concessões de minas. Artigos
nente, e o interesse das índias Ocidentais estava sempre de vidro e contas eram sempre bem recebidos na costa de
pronto a recomendar a sua utilização na Inglaterra toda escravos, e nas plantações havia sempre uma grande pro-
vez que havia escassez de trigo, diziam eles, mas na rea- cura de garrafas. Muitos desses artigos eram manufatu-
lidade toda vez que havia uma superabundância de açúcar. rados em Bristol. 133 Um mercador de escravos recebeu de
"Doces cavalheiros!", escreveu um defensor anônimo dos um príncipe um belo negro em troca de treze contas de
condados da cevada em 1807. "Procuraram um argumento coral, meia enfiada de âmbar, vinte e oito guizos de prata
muito forçado em apoio de sua causa pela sacarina''; 130 e três pares de braceletes para suas mulheres; em reco-
e Michael Sadler, em 1831, opôs-se à idéia: "Uma bebida nhecimento dessa liberalidade, ele ofereceu à favorita do
salutar pode ser feita desse artigo, mas o povo da Ingla- príncipe um presente de algumas fileiras de contas de
terra não gostou dela." 131 vidro e cerca de quatro onças de lã escarlate. 134 Separa-
O verdadeiro inimigo, porém, do destilador das índias damente, esses artigos eram de valor desprezível; em
Ocidentais, não era o fazendeiro inglês, mas o destilador conjunto, porém, constituíam um negócio de grande im-
da Nova Inglaterra. Os negociantes da Nova Inglaterra portância, uma parte tão essencial das transações de
se recusavam a adquirir o rum das índias Ocidentais e escravos que a palavra pacotille ainda hoje é comumente
insistiam na compra de melaço, que eles próprios destila- usada nas índias Ocidentais para denotar uma buginganga
vam e mandavam para a Terra Nova, para as tribos indi- barata e vistosa dada em troca de objetos de grande valor.
88 89
6~ · :AS INDúSTRIAS METALúRGICAS No século XIX, as armas de Birmingham eram per-
mutadas por óleo de dendê da Africa, mas o século XVIII
A traficância de escravos exigia artigos mais horren- IISSistiu a uma permuta menos inocente. As armas de
dos, embora nem um pouco menos úteis, do que as manu- Blrmingham do século XVIII eram permutadas por ho-
faturas de lã e algodão. Grilhões, correntes e cadeados mens, e dizia-se geralmente que o preço de um negro era
eram necessários para prender os negros mais seguramente uma arma de Birmingham. O mosquete africano era
nos navios e assim evitar motins e suicídios. A prática. de uma importante exportação de Birmingham, atingindo
marcar os escravos para identificá-los requeria o emprego um total de 100.000 a 150.000 anualmente. Com o Governo
de ferros em brasa. Os regulamentos legais estipulavam britânico e a Companhia das índias Orientais, a Africa
que em qualquer navio destinado à Africa, às índias figurava como o cliente mais importante dos fabricantes
Orientais, ou às índias Ocidentais, "três quartos de sua de armas de Birmingham.141
proporção de cerveja deviam ser postos em cascos guar- As necessidades das plantações também não eram de
necidos de ferro, munidos de aros de ferro de boa subs- se desprezar. No fim do século XVII, os manufatores de
tância e ferro bem forjado". 135 Barras de ferro eram o aço, Sitwell, do Derbyshire, produziam entre seus artigos
meio de troca numa grande parte da costa africana e fornos de açúcar e cilindros para moer cana em Barbados,
equivaliam a quatro barras de cobre.136 As barras de ferro e Birmingham também estava inte·r essada nas planta-
constituíam quase três quartos do valor do carregamento ções.l42 Exportações de ferro forjado e pregos e·ram enca-
do Swallow, em 1679, quase um quarto do carregamento do minhadas para as plantações, embora essas exportações
Mary, em 1690, quase um quinto do carregamento de um tendessem a flutuar de acordo com as condições do comér-
navio negreiro, em 1733.137 Em 1682, a Real Companhia cio açucareiro. Como disse um manufator de ferro em
Africana exportava cerca de 10.000 barras de ferro por 1737: "O mau estado de algumas de nossas ilhas açuca-
ano.l3B Os manufatores de ferro encontravam, também, reiras tem sido . . . algum prejuízo para o comércio de
um mercado útil na Africa. ferro; pois o consumo de artigos de ferro, nessas ilhas, é
As armas de fogo formavam uma parte sistemática de mais ou é menos, segundo o seu comércio de açúcar é
todo carregamento africano. Birmingham tornou-se o melhor ou pior." 143 lJm antigo historiador da cidade de-i-
centro do comércio de armas, tal como Manchester era o xou-nos um quadro do interesse de Birmingham no sistema
do comércio de algodão. A luta entre BiJ;mingham e colonial: "machados para a índia e machados de guerra
Londres por causa do comércio de armas era simplesmente para a América do Norte; e para Cuba e os Brasis corren-
outro ângulo da luta pelo livre-câmbio ou monopólio, que tes, algemas e argolas de ferro para os pobres escravos .. .
já assinalamos com respeito ao tráfico de escravos em Nas florestas primitivas da América o machado de Bir-
geral entre a capital e os outros portos do país. Em 1709 mingham abatia as velhas árvores; nas pastagens de gado
e 1710, os fabricantes de armas de Londres apresentaram da Austrália ecoavam o som das campainhas de Birmin-
petição em favor do monopólio da Real Companhia Afri- gham; na índia Oriental e nas índias Ocidentais cuidavam
cana. Os fabricantes de armas e os manufatores de ferro dos campos de cana-de-açúcar com enxadas de Birmin-
de Birmingham lançaram sua força e influência contra gham." 144
a companhia e os interesses de Londres. Três vezes, em Junto com o ferro, iam bronze, cobre e chumbo. As
1708, 1709 e 1711, apresentaram petições contra a reno- exportações de panelas e chaleiras de bronze para a Africa
vação do monopólio da companhia que fora modificado remontavam a antes de 1660, mas aumentaram com o
em 1698.139 Seu comércio tinha aumentado desde então e livre-câmbio após 1698. Depois disso, Birmingham co-
eles receavam a renovação do monopólio, o que submeteria meçou a exportar grandes quantidades de cutelaria e
suas manufaturas "a um comprador, ou a alguém que artigos de bronze e, durante todo o século XVIII, os artigos
monopolizasse a sociedade, excluindo todos os outros".l40 ingleses efetivamente sustentaram concorrência com os

90 91
artigos estrangeiros nos mercados coloniais. A Companhia
Cheadle, fundada no Norte do Staffordshire em 1719, logo O interesse do manufator de ferro pelo tráfico de
se tornou uma das principais empresas de artigos de escravos continuou por todo o século. Quando a questão
bronze e cobre da Inglaterra. Estendeu o campo de suas da abolição foi apresentada. ao Parlamento, os manufatores
operações para incluir o arame, de bronze, "as varetas de e os negociantes de ferro, cobre, bronze e chumbo de
Guiné" e os manelloes (argolas de metal usadas pelas Liverpool fizeram uma petição contra o projeto, que afeta-
tribos africanas) utilizados no comércio africano. O capital ria o emprego na cidade e lançaria milhares como "vian-
da companhia aumentou onze vezes entre 1734 e 1780, dantes solitários pelo mundo, para procurar emprego em
quando a companhia foi reorganizada. "Partindo de pe- climas estranhos". 150 No mesmo ano, Birmingham decla-
quenos começos ... , tornou-se uma das mais importantes, rou que dependia consideravelmente do tráfico de escravos
se não a mais importante, das empresas de artigos de com respeito a uma grande parte de suas várias manu-
faturas. A abolição arruinaria a cidade e empobreceria
bronze e cobre do século XVIII." De acordo com a tra- muitos de seus habitantes.151
dição, navios zarpavam para a Africa com os porões cheios Essas apreensões eram exageradas. A necessidade de
de ídolos e manelloes, enquanto os camarotes eram ocupa- munições para as guerras comerciais do século XVIII pre-
dos por missionários - "um exemplo edificante de um parara os manufatores de ferro para as necessidades ainda
bem material em competição com um espiritual". 145 As maiores que viriam durante as Guerras Revolucionárias
Usinas Batistas, de Brístol, produziam uma quantidade e Napoleônicas. Os mercados coloniais, além disso, eram
prodigiosa de bronze que, estirado em arame e transfor- inadequados para absorver o aumento da produção, resul-
mado em "bateria", era amplamente usado no comércio tante das inovações tecnológicas. Entre 1710 e 1735, os
africano. 146 As oficinas Holywell, além de produzirem forros exportadores de ferro quase triplicaram. Em 1710, as ín-dias
de cobre para os navios de Liverpool, fabricavam panelas Ocidentais Britânicas foram responsáveis por um quinto
de bronze para os negociantes de açúcar das índias Oci- das exportações, em 1735 por menos de um sexto. Em
dentais e de chá das índias Orientais, bem como todas as 1710, mais de um terço das exportações para as plantações
variedades de instrumentos de bronze baratos e vistosos foram para as ilhas açucareiras, em 1735 mais de um
para o comércio africano. 147 Panelas e chaleiras de bronze quarto. O auge foi alcançado em 1729, quando as índias
eram exportadas para a Africa e para as plantações, e Ocidentais absorveram quase um quarto das exportações
numa lista, depois do item "panelas de bronze", lemos totais e quase metade das exportações para todas as plan-
"idem grandes para que lavem seus corpos nelas".148 Essas tações.152 Expansão na metrópole, contração nas ilhas
"panelas de banho", feitas agora de estanho galvanizado, açucareiras. Em 1783, os manufatores de ferro também
ainda são uma característica normal da vida de hoje nas estavam começando a olhar a coisa de outro modo. Mas a
índias Ocidentais. Gata Borralheira, ostentando momentaneamente sua fan-
As necessidades da construção naval deram novo tasia, estava divertindo-se bastante no baile para dar qual-
estímulo à indústria pesada. As fundições de correntes e quer atenção aos ponteiros do relógio.
âncoras de ferro, das quais existiam muitas em Liverpool,
existiam exclusivamente para a construção de navios. Os
forros de cobre para os navios deram origem a indústrias
locais na cidade e zonas circunvizinhas para atender à
procura. Entre trinta e quarenta embarcações eram em-
pregadas em transportar o cobre, fundido no Lancashire e
Cheshire, das oficinas de Holywell para os armazéns de
Liverpool.149

92
93
4
OS INTERESSES
DAS
fNDIAS OCIDENTAIS

"Nossas colônias de fumo", escreveu Adam Smith, "não


nos mandam plantadores tão ricos como os que vemos
chegar freqüentemente de nossas ilhas açucareiras". 1 O
plantador de cana-de-açúcar figurava entre os maiores
capitalistas da época mercantilista. Uma peça muito
popular. The West lndian, foi apresentada em Londres
em 1771. Começava com uma tremenda recepção que
estava sendo preparada para um plantador que vinha das
índias Ocidentais para a Inglaterra, como se fosse o Pre-
feito de Londres que estivesse sendo esperado. O criado
filosofava: "Ele é muito rico e isso é o bastante. Dizem
que possui rum e açúcar suficientes para transformar toda
a água do Tâmisa em ponche." 2
O plantador das índias Ocidentais era uma figura
familiar na sociedade inglesa do século XVIII. A expli-
cação encontra-se no latifundiarismo absenteísta que sem-
pre foi a praga das Antilhas e é ainda hoje um de seus
maiores problemas.
Um plantador absenteísta certa vez argumentou que
"o clima de nossas colônias açucareiras é tão inconveniente
para uma constituição inglesa que nenhum homem se
decidirá a viver lá, muito menos qualquer homem se
decidirá a se instalar lá, sem as esperanças de pelo menos
sustentar sua família de maneira mais agradável, ou de
poupar mais dinheiro, do que pode fazer por qualquer
negócio que poderá realizar na Inglaterra, ou nas nossas
plantações no continente da América". 3 Mas o clima das
índias Ocidentais não é desagradável e, depois de fazer
sua fortuna, o dono de escravos retornava à Grã-Bretanha.
Escrevendo em 1689, o representante de Barbados afirmou

95
que "por uma espécie de força magnética a Inglaterra atrai escravos. As Leis de Deficiência não conseguiram restrin-
para si tudo o que há de bom nas plantações. É o centro gir a prática do absenteísmo, portanto as assembléias
para o qual todas as coisas tendem. Nada a não ser a locais tentaram confiscar os .grandes tratos de terra man-
Inglaterra nos pode agradar ou deleitar: nosso coração tidos na ociosidade e pertencentes aos absenteístas, pro-
está aqui, esteja onde estiver nosso corpo ... Tudo o que pondo sua redivisão em pequenas propriedades. Ambas
podemos conseguir é trazido para a Inglaterra".4 Em 1698, as medidas foram impugnadas pelo Governo inglês por
as índias Ocidentais enviavam anualmente para a Ingla- insistência dos plantadores absenteístas. 9
terra cerca de trezentas crianças para serem educadas,
sendo que a diferença, de acordo com Davenant, era que
os pais saíram pobres e os filhos voltaram ricos.s "Bem", Dos plantadores de cana-de·açúcar residentes na In-
diz o Sr. Belcour, o plantador, na comédia The West In- glaterra, os mais importantes eram os Beckford, uma
dian, "pela primeira vez em minha vida, aqui estou na antiga família do Gloucestershire que remontava ao sé-
Inglaterra, na fonte do prazer, na terra da beleza, das culo XII. Um de seus membros faleceu lutando por seu
artes, das elegâncias. Minha boa estrela deu-me alguns rei em Bosworth Field em 1483, outro encontrou na con-
bens e os ventos favoráveis trouxeram-me para cá para quista inglesa da Jamaica um meio de restaurar a fortuna
gastá-los". 6 Depois do retorno à Inglaterra, o desejo mais da família. Em 1670, o vereador Sir Thomas Beckford,
ardente dos plantadores era adquirir uma propriedade, um dos primeiros proprietários absenteístas, estava obtendo
misturar-se com a aristocracia e apagar as marcas de sua 2.000 libras por ano de sua propriedade na Jamaica, livre
origem. A presença deles na Inglaterra, como frisou Brou- de todas as despesas. Peter Beckford tornou-se o mais
gham, tinha um efeito freqüentemente deletério sobre o ilustre dos novos colonizadores. Ocupou, no decorrer do
caráter e a moral ingleses; onde eles eram numerosos e tempo, todos os cargos civis e militares de maior impo~­
tinham adquirido terra, comumente introduziam uma si- tância na ilha, tornou-se Presidente do Conselho e ma1s
tuação de maus costumes na localidade.7 Sua riqueza tarde Governador e Comandante-Chefe. Ao morrer, em
colossal permitia-lhes dispêndios perdulários que cheira- 1710, "estava de posse da maior propriedade imobiliária
vam a vulgaridade e provocavam a inveja e reprovação e pessoal de qualquer súdito na Europa". Em 1737, seu
da aristocracia inglesa menos opulenta. neto, William, herdou a fortuna da família e tornou-se o
O economista político Merivale argumentou que, no mais poderoso plantador das índias Ocidentais na Ingla-
século XIX, a mudança de residência do absenteísta era terra.10
mais uma honra do que uma desonra para o caráter inglês, Beckford, em sua propriedade do Wiltshire co~struiu
como evidenciando uma aversão pela crueldade arraigada a Mansão Fonthill, há muito considerada como a vivenda
e o desregramento da vida nas colônias de escravos. Mas mais atraente e suntuosa do oeste da Inglaterra.
essa suscetibilidade peculiar que evitava o contato com a
escravidão enquanto não fazia objeção a fruir os lucros "Era um edifício bonito, uniforme, consistindo num cen-
proporcionados por ela, Merivale só podia explicar pela tro de quatro andares e duas alas de dois andares, ligados
por corredores, construído de pedra fina e adornado com
"desculpa geral da incoerência da natureza humana".s um pórtico audaz, assentado numa base rústica, coin dois
O absenteísmo, porém, tinha sérias conseqüências nas amplos lances de escadas, seus apartamentos eram nume-
ilhas. As plantações eram deixadas à mercê da má direção rosos e magnificamente mobiliados. Exibiam a riqueza e o
luxo do Oriente, e em determinadas ocasiões eram soberba-
de administradores e procuradores. Em certas ocasiões, os mente brilhantes e deslumbrantes. Enquanto suas paredes
governadores encontravam dificuldade em obter quorum eram adornadas com as obras de arte mais caras, seus apa-
para os conselhos. Muitos cargos eram ocupados por um radores e armários apresentavam uma resplandecente com-
só indivíduo e a desproporção entre a população negra e binação de ouro, prata, metais preciosos e pedras precio-
sas, dispostos e trabalhados pelos mais esmerados artistas
branca aumentava, agravando o perigo das rebeliões dos e artesãos. Anexada a esses esplendores, a esses objetos

96 97
deslumbrantes, ostensivamente aumentados e multiplica- rcumao da Diretoria do Porto de Londres. Grande cole-
dos por grandes espelhos de alto preço, havia uma vasta,
selecionada e valiosa biblioteca. . . Pode-se formar uma cionador de livros, a venda de sua biblioteca durou 42
idéia da extensão, etc., da casa, medindo-se o seu grande dias.1s Os Hibbert receberam 31.120 libras de indenização
vestíbulo, no andar térreo, que era de mais de 26 metros por seus 1.618 escravos. 16 A mansão da família em Kings-
de comprimento por quase 12 metros de largura. Seu teto ton, uma das casas mais antigas da Jamaica, ainda existe
era abobadado e sustentado por grandes pilastras de pe-
dra. Um apartamento era decorado à maneira turca, com hoje, enquanto o nome da família está perpetuado no
grandes espelhos, otomanas, etc., enquanto os outros eram Hibbert Journal, a famosa publicação trimestral dedicada
enriquecidos com consolos de chaminé de mármore fina- a Religião, Teologia e Filosofia. Publicado pela primeira
mente esculturados." n
vez em outubro de 1902, o J ournal teve "a sanção e apoio
Beckford Junior não seria superado. Possuindo uma dos Administradores do Fundo Hibbert", que, porém, re-
imaginação vívida e uma fortuna imensa que, de acordo cusaram a responsabilidade pelas opiniões expressas em
com o historiador da família, não podiam satisfazer-se suas páginas .17
com qualquer coisa vulgar, ele desejava novidade, grandio- Também ligados a Jamaica eram os Long. Charles
sidade, complexidade e até sublimidade. O resultado foi a Long, ao morrer, deixou propriedade em Suffolk, uma casa
Abadia Fonthill, cuja construção proporcionou emprego a em Bloomsbury, Londres, e uma propriedade total na Ja-
um número enorme de artífices e trabalhadores, sendo maica compreendendo 14.000 acres. Desfrutava uma renda
até construída uma vila nova para acomodar alguns dos muito grande, de longe a maior de qualquer proprietário
colonos. O terreno da abadia era num setor plantado jamaicano desse período e, por conseguinte, estava habi-
com todas as espécies de árvores e arbustos florescentes litado a viver no esplendor.18 Seu neto, um plantador
americanos, que cresciam em suas selvas nativas.12 Em jamaicano, escreveu uma bem conhecida história da ilha.
1837, Beckford recebeu 15.160 libras a título de indenização Um parente, Beeston Long Jr., foi presidente da Compa-
por 770 escravos que possuía na Jamaica.I3 nhia das Docas de Londres e diretor de banco, e a mansão
Os Hibbert eram plantadores nas índias Ocidentais, de sua família em Bishopsgate Street, Londres, era mereci-
assim como negociantes, que, como já vimos, forneciam damente famosa.l 9 Outro membro da família, Lorde Farn-
panos axadrezados de algodão e linho para a Africa e as borough, construiu Bromley Hill Place, em Kent, uma
plantações. Robert Hibbert vivia no Bedfordshire com a das mansões mais famosas da Inglaterra, notável por seus
renda que obtinha de sua propriedade nas índias Oci- maravilhosos jardins ornamentais.2 o
dentais. Sua plantação era uma das mais requintadas da Não contente com sua condição de sócio da firma Corrie
Jamaica; "embora ele fosse sempre um amo eminentemente & Companhia, de Liverpool, dedicada ao comércio de ce-
bondoso", seu biógrafo nos assegura, "não tinha repugnân- reais, John Gladstone estava indiretamente interessado no
cia a essa éspécie de propriedade por motivos morais". Ao tráfico de escravos como proprietário de escravos nas
morrer, deixou um fundo que rendia cerca de mil libras índias Ocidentais. "Como muitos outros comerciantes de
por ano para três ou mais bolsas de estudo de Teologia, reputada probidade e honestidade, (ele) podia satisfazer
para fomentar a propagação do cristianismo em sua forma sua consciência alegando ser uma necessidade." Gladstone,
mais simples e mais inteligível e o livre exercício do jul- por meio de execução hipotecária, adquirira grandes plan-
gamento privado em questões de religião. 14 Um parente tações na Guiana Inglesa e na Jamaica, enquanto ao mesmo
seu, George, foi sócio de uma opulenta firma comercial tempo se dedicava intensamente ao comércio com as índias
em Londres e foi por muitos anos representante da Ja- Ocidentais. O açúcar e outros produtos, que ele vendia na
maica na Inglaterra. George Hibbert tomou a iniciativa Bolsa de Liverpool, eram originários de suas próprias
da construção das Docas das índias Ocidentais. Foi eleito plantações e importados em seus próprios navios. A for-
o primeiro' presidente da diretoria e hoje seu retrato, tuna acumulada por esse meio permitiu-lhe estabelecer
pintado por Lawrence, encontra-se pendurado na sala de relações comerciais com a Rússia, índia e China e fazer
98
Real de Cirurgiões. No século XIX, outro Wa~·ner foi
grandes e felizes investimentos em terras e propriedades Presidente do Conselho de Antígua, enquaJltO odutrdo afinda:
como Procurador-Geral de Tnm · 'da d , fOI· o O'ran e e ensorb .0
imobiliárias em Liverpool. Ele contribuiu grandemente t::>
para obras de caridade em Liverpool, construiu e dotou da imigração das índias Ocidentais. Talve~ 0 n:em ~
igrejas, e foi um defensor eloqüente na cidade dos gregos mais conhecido dessa família das índias O~Identals SeJa
em sua 1uta pela independência. Quando seu filho famoso Pelham Warner, famoso jogador inglês de ~r~Iq~et;5 e reco-
William Ewart, estava fazendo campanha eleitoral eu-{ nhecida autoridade nesse grande jogo brltaniCo.
Newark, em 1832, um órgão oficial, com exatidão embora Outros nomes, menos espetaculares, leJ:?bra.m 0 g1o-
- '
nao com bom gosto, lembrou aos eleitores que o candidato rioso período do açúcar. Bryan Edwards, h1stonador d.as
era "filho do Gladstone de Liverpool, uma pessoa que índias Ocidentais Britânicas do fim do sécvlo.dXVIII, tena,
acumulou uma grande fortuna por meio de negócios com , . conf'1ssao,
segundo sua propna - VIVI
· 'do e morn o dno esque-
d te
as índias Ocidentais. Noutras palavras, uma grande parte cimento na pequena propneda e pat erna-. na eca en
. d d .
de sua riqueza provinha do sangue de escravos negros".2l cidade de Westbury, em vyntshire, não fqsse~a s~~~a-~~~
Durante a maior parte da agitação pela emancipação, John opulentos tios que se ded1caram ao cultJ.VO b h
Gladstone foi presidente da Associação das índias Ociden- -açúcar nas índias Ocidentais. 26 Os Pinney, em
cidos em Brístol, possuíam plantações de cana em ev . ·
J01
\ ~;
1
tais e, em certa ocasião, manteve uma controvérsia num
dos jornais de Liverpool com James Cropper, um aboli- O filho de Joseph Marryat foi o Comanclante Freder~ck
cionista de Liverpool, sobre a questão da escravatura nas Marryat, o famoso romancista da vida do ~ar e tambem
inventor de um código de sinais para a ma-rmha m~;.~~nte
índias Ocidentais. 22 A indenização paga a Gladstone em
1837, de acordo com a Lei de 1833, importou em 85.600 que SÓ foi abandonado em 1857.28 0 corone 1 ,! Iam
libras por 2.183 escravos. 23 Macdowall foi a figura mais notável em <J:lasgow. . ~0~0
Os Codrington eram outra família bem conhecida de uma nobre mansão no país e de uma r1ca propne a. e
que devia sua riqueza e posição social a suas plantações nas índias Ocidentais, com navios nos roares e c~rrega­
de cana-de-açúcar e escravos. Christopher Codrington foi mentos de açúcar e rum constante~ente cpegan~o a t.~:~a,
ele também tinha o prestígio social de seu p~s 0 dmlt 0 ~r
1
governador de Barbados, durante o século XVII, e suas
plantações em Barbados e Barbuda valiam 100.000 libras e ascendência familiar, e devia ter o respe\~ be
mundo quando vinha caminhando, com soa a a enga1a
°
em dinheiro moderno. Fundou ali uma escola, que ainda
conserva o seu nome, e ao morrer deixou 10.000 libras, a de castão de ouro pela estrada." 29 _

maior parte delas para uma biblioteca, e sua valiosa cole- Bryan Edwards negou com indignaçãO .a acusaça~ ~de
ção de livros no valor de 6.000 libras para o All Souls que seus colegas plantadores fossem notáv~ls pe~ opu en-
College, Oxford, onde formaram o núcleo da famosa Bi- cia gigantesca ou a exibição ostentosa d:JSSO. s provas
blioteca Codrington. Um de seus descendentes foi herói existentes atestam o contrário. A riquez~ do~plant~go~es
naval de Navarino, pela causa da Independência grega, no das índias Ocidentais tornou-se proverbial· omum a es
século XIX. 24 desses opulentos plantadores podiam ser encontAlrad as. et~
A família Warner se dispersou pelas ilhas de Sota- Londres e Brístol, e as placas comemorativ@<S na th1 8 al~ s
vento, alguns em Antigua, outros em Domínica, outros Church (Igreja de Todos os Santos), erO Sou amp on,
ainda em St. Vincent, outros finalmente em Trinidad. falam eloqüentemente da posição social que el;, o~tr.ora
Thomas Warner foi um pioneiro entre os colonizadores ocuparam.3o As escolas selecionadas de ~ton, . es ml~s­
britânicos das Antilhas. Joseph, um membro da família, ter Harrow e Winchester estavam cheias dos filhos os
chegou a ser um dos três principais cirurgiões de seu pla'ntadores das índias Ocidentais.31 As carru~gens dos
tempo, cirurgião no Hospital de Guy e o primeiro membro plantadores eram tão numerosas que, qua:Jld~. e es se r~~=
do Colégio de Cirurgiões fundado em 1750. Seu retrato, ulam, os londrinos reclamavam que as ru~s Icavam c
pintado por Samuel Medley, pertence agora ao Colégio 101
100
gestionadas numa certa distância. Conta-se a história de o conflito, já que o negociante podia sempre recorrer à
como, numa visita a Weymouth, Jorge III e Pitt encon- oxecução hipotecária. Mais importante do que o fator da
traram um rico jamaicano com uma imponente carruagem dívida era a determinação dos plantadores de manter os
de luxo, acompanhado de criados a cavalo e de libré. Diz-se preços de monopólio e, na luta para a permissão do co-
que Jorge III, muito contrariado, falou: mércio direto com a Europa em 1739, a animosidade entre
_ - Açúcar, açúcar, hein? Todo aquele açúcar 1 Como os dois grupos aumentou consideravelmente. 39 Mas, de
vao os impostos, hein, Pitt, como vão os impostos?32 modo geral, a identidade de interesses era maior e mais
Os plantadores das índias Ocidentais eram visitantes importante do que o choque entre eles, e os plantadores e
habituais das estações de água de Epsom e Cheltenham·33 os negociantes finalmente se coligaram por volta de 1780,
seus filhos misturavam-se em termos de igualdade com ~s quando toda a força que podiam reunir conjuntamente
aglomerações elegantes das Salas de Reunião e as Fontes seria necessária daí a pouco · para reforçar os diques do
Térmicas de Bristol. 34 Uma herdeira das índias Ocidentais monopólio contra a torrente em formação do livre-câmbio.
era. ';lm prêmio cobiçado, e Charles James Fax quase
decidiU que_ a fortuna de 80.000 libras da senhorita Phipps
era a soluçao para suas elevadas dívidas de jogo.3s Pode-se A combinação dessas forças, plantadores e negocian-
especular a respeito de que efeito tal casamento teria tes, aliada aos representantes coloniais na Inglaterra, cons-
na carreira de Fax como abolicionista. tituía os poderosos interesses das índias Ocidentais do
Muitos indivíduos humildes na Inglaterra atingiram século XVIII. Na era clássica da corrupção parlamentar e
a riqueza e a _opulência em virtude de um legado casual de venalidade eleitoral, o dinheir o deles mandava. Eles com-
uma plantaçao das índias Ocidentais. Houve época em pravam votos e "burgos podres" e assim ingressavam no
que tal legado era considerado como um dissabor e um tor- Parlamento. A competição deles forçava a elevação do
mento,36 mas não era assim no século XVIII. A peça de preço das cadeiras. O Conde de Chesterfield foi ridicula-
George Colman, Africanos, apresenta no jovem Sr. Mar- rizado com desprezo, em 1767, quando ofereceu 2.500 libras
rowbone, o açougueiro, uma situação que devia ser muito por uma cadeira pela qual um candidato das índias Oci-
familiar para o público. O açougueiro herda uma plan- dentais oferecia o dobro.4o Nenhuma fortuna inglesa
tação nas índias Ocidentais e "agora permuta pretos em hereditária particular podia resistir a essa torrente de ouro
vez de regatear bois".37 ' e corrupção colonial. A aristocracia agrária inglesa estava
A fo~ça dos plantadores aumentara, também, pelo indignada, "agastada, levada a realizar grandes despesas
grande numero de negociantes antilhanos que obtinham e até desconcertada" com a atitude do pessoal das índias
enormes lucros com o comércio das índias Ocidentais. Ocidentais nas eleições. 41 Há um sinal inequívoco dessa
De acordo com o Professor Namier, "havia relativamente preocupação no aviso emitido por Cumberland, em sua
muito poucos comerciantes na Grã-Bretanha em 1761 que, peça, ao personagem das índias Ocidentais que exibia
numa ou noutra ligação, não transacionassem com as ostentosamente sua riqueza e vangloriava-se de seus planos
índias Ocidentais e um número considerável de famílias para gastá-la. "Usá-la, não esbanjá-la, assim espero; tra-
distint,as tinha interesses nas Ilhas Açucareiras, tal como tá-la, Sr. Belcour, não como um vassalo, sobre quem o
um numero enorme de ingleses atualmente possui ações senhor tem um poder arbitrário e despótico; mas como
das plantações de borracha ou chá da Asia ou de campos um súdito, ao qual o senhor tem obrigação de governar
petrolíferos". 38 Os dois grupos nem sempre estavam de com autoridade comedida e contida." 42 Nas eleições de
perfeito acordo. No início, os plantadores e os negociantes 1830, um plantador das índias Ocidentais gastou provei-
representavam organizações distintas, e o vinculo entre tosamente 18.000 libras para conseguir eleger-se em
el.es - cr~dito -~em sempr~ contribuía para a harmo- Bristol.4 3 As despesas eleitorais do candidato fracassado
ma. Mas Isso por s1 mesmo nao seria a ca usa básica para das índias Ocidentais em Liverpool no mesmo ano atingi-
102 103
ram quase 50.000 libras, das quais um rico negociante das
índias Ocidentais, traficante e dono de escravos John tações e a estrutura social em que elas r;~ousava~. A
Bolton, forneceu um quinto.44 ' passagem de uma câmara para a outra era facll, ?S par;3:tos
eram conferidos prontamente em troca de apmo polltlco.
A dinastia Beckford estava apropriadamente repre- Havia poucas, se é que havia alguma , casas nobre.s na
sentada no Parlamento de acordo com sua riqueza. King Inglaterra, segundo um autor moderno, sem uma lmha-
William foi membro do Parlamento por Shaftesbury, de gem das índias Ocidentais. 56 Richard Pennant tornou-se
1747 a 1754, e pela metrópole, de 1754 a 1770. Outro Lorde Penrhyn. Os Lascelles, uma antiga família barba-
irmão representou Brístol, um terceiro Salisbury, enquanto diana foram enobrecidos e se tornaram os Harewood; um
um quarto estava destinado a um burgo do Wiltshire,.4s de se~s descendentes é atualmente casado com a irmã do
Richard Pennant certa vez representou Liverpooi.46 Um soberano reinante na Inglaterra. O Marquês de Chandos,
dos Codrington foi membro do Parlamento em 1737.47 responsável pela "Cláusula Chandos" da Lei de Reforma':'
George Hibbert representou Seaford de 1806 a 1812.48 de 1832, possuía plantações nas índias Ocidentais e era o
Ed~ard Colston, o Cunard do século XVII, foi eleito por porta-voz do interesse das índias Ocidentais, embora che-
Bnstol de 1710 a 1713.49 O interesse das índias Ocidentais gasse a ver o dia em que era quase infrutífero defender a
estabeleceu um monopólio em tudo, menos no nome, de causa das índias Ocidentais. 57 O Conde de Balcarres pos-
uma cadeira de Brístol. John Gladstone foi primeiro eleito suía plantações na Jamaica. A emancipa9ão encontrou-o
por Woodstock e depois por Lancaster; teve o prazer de como possuidor de 640 escr~vos, pelos qu~Is recebeu q~a~e
ouvir em maio de 1833 o discurso inaugural de seu filho, 12.300 libras de indenizaçao.5B Isso explica sua oposiçao
membro do Parlamento por Newark, em defesa das pro- histérica, como governador da ilha, ao trato feito p~lo
priedades da família na Guiana. 50 O grande estadista General Maitland com o chefe dos escravos, Toussamt
encontrou todos os seus sentimentos filiais envolvidos na L'Ouverture, para a evacução de São Doming?s depois ~o
questão da escravidão, e as ligações de sua família com as esforço frustrado da Grã-Bretanha em conqmstar a colo-
plantações de cana-de-açúcar das índias Ocidentais exigi- nia francesa. "Considerar-se-ia um tanto esquisito", escre-
ram a utilização de toda a sua eloqüência. 51 Um membro veu ele para a Inglaterra, "que a cidade de Londres mandas-
da família Lascelles foi eleito para o Parlamento em 1757.52 se uma quantidade imensa de :provisões e r~up~s para o ~so
Até o último extremo, Henry Goulburn lutou na batalha do exército sans culotte reumdo com a fmalldade de m-
das índias Ocidentais. Em 1833, ele ainda pedia ao Par- vadir a Inglaterra! "59 Lorde Hawkesbury, né Jenkinsor;,
lamento que assinalasse o impulso dado ao éomércio exte- era um proprietário n as índias Ocident:;is 6~ e, com? Presi-
rior e à agricultura e que atentasse para os povoados que dente do Conselho Privado para o Comercio Extenor, deu
se haviam tornado cidades em conseqüência da ligação apoio à causa dos donos e traficant~s. de escravos. Por
com as colônias.53 O Parlamento não deu atenção e Goul- essa devoção folhetos em favor do trafico de escravos lhe
burn teve de contentar-se com quase 5.000 libras de inde- eram dedlcados,B1 e Liverpool conferiu-lhe o tí~ulo de ci-
n~zação por seus 242 escravos. 54 Joseph Marryat, de Tri- dadão honorário em reconhecimento pelos serviços essen-
mdad, Henry Bright, de Brístol, Keith Douglas, Charles ciais prestados à cidade por sua atuação no P3:rlam~nto
Ellis, todos eram das índias Ocidentais. Dez dos quinze em apoio do tráfico de escravos. 62 Hawkes_bury s1mbol1zou
membros de um dos mais importantes comitês da Sociedade a ligação assumindo o titulo de Conde de L1verpool, q:uando
de Plantadores e Negociantes ocupavam cadeiras no Par- elevado ao pariato, e aceitando a oferta das autondades
lamento inglês.ss municipais de aquartelar as armas da cidade com as suas
Para garantir-se duplamente, os plantadores das próprias.63
índias Ocidentais, tal como os traficantes de escravos, esta-
vam entrincheirados não somente na Câmara baixa mas • Retorm Act (Lei de Reforma) ou Reform Bill (Projeto de Re-
também na Câmara dos Lordes, para defender suas 'plan- forma), uma das várias !eis (ou projetos de lei) para a reforma
do sistema eleitoral ingles. (N. do T.)
104 105
Não era somente o Parlamento britânico que os donos
de escravos dominavam. Tal como seus aliados, os nego- Huskisson e os plantadores lhe pareciam doidos;72 Welling-
ciantes de açúcar e os traficantes de escravos, eles estavam ton, antes que se dissesse a última palavra sobre a escra-
em evidência em toda parte, como vereadores, prefeitos e vidão inglesa, dispensou um tratamento um tanto bruto
conselheiros. William Beckford foi vereador de Londres a uma delegação das índias Ocidentais em Londres.73
e duas vezes prefeito da cidade. Os contemporâneos riam
de seu latim defeituoso e voz alta; eram forçados a respei-
tar sua riqueza, posição e influência política. Como pre- Aliados a outros grandes monopolistas do século XVIII
feito, seus espetáculos cívicos eram imponentes. Em certa a aristocracia agrária e a burguesia comercial das cidade~
ocasião, num banquete suntuoso, seis duques, dois mar- portuárias, esses poderosos interesses das índias Oci-
queses, vinte e três condes, quatro viscondes e quatorze dentais exerciam no Parlamento não-reformado uma in-
barões da Câmara Alta se juntaram aos membros da Câma- fluência suficiente para fazer qualquer estadista vacilar e
ra dos Comuns e foram em procissão ao centro da cidade representar uma falange sólida "de cujo apoio numa emer-
para homenageá-lo. Ele se tornou famoso, esse dono de gência toda administração por sua vez tinha experimentado
escravos, por sua defesa de Wilkes e liberdade de palavra, ? valor" .~4 O!erec~am uma_ resistência decidida à abolição,
indiferente ao descontentamento real. 64 Na Prefeitura de a emanc1paçao e a anulaçao de seu monopólio. Rompiam
Londres existe um esplêndido monumento erigido em sua sempre as hostilidades para opor-se a qualquer aumento
honra, com o famoso discurso, gravado com letras de ouro nas tarifas açucareiras, que Beckford uma vez descreveu
no pedestal, o que fez Jorge III corar. 65 Seu irmão Richard como "o golpe de misericórdia em nossas colônias açuca-
foi também vereador da cidade de Londres. William Miles reiras .e em nosso comércio açucareiro".75 Os interesses das
chegou a ser vereador de Brístol. George Hibbert foi verea- índias Ocidentais foram o enfant terrible da política inglesa
dor de Londres. 66 até que a Independência americana assestou o primeiro
Os interesses das índias Ocidentais tinham amigos grande golpe no mercantilismo e no monopólio.
poderosos. Chatham era defensor coerente das pretensões Em 168?, o ~o.vernador da Jamaica protestou que
dos plantadores das índias Ocidentais, cabíveis ou incabí- qualquer tanfa adiCional proposta sobre o açúcar desesti-
veis, e era amigo íntimo de Beckford. "Ele sempre consi- !llular~a. o planti?, !iraria do cultivo novas plantações e
derava as colônias açucareiras como um interesse territo- 1mpedma a ampllaçao de outras. Pela proposta, "Virgínia
rial deste reino e que era ignorância considerá-las de recebe uma punhalada mortal, Barbados e as ilhas são
outro modo." 67 John Gladstone e John Bolton eram par- atacadas de uma febre héctica e a Jamaica, de cons.un-
tidários vigorosos de Canning, que sempre repisava no ção".76 Em 1744, os plantadores enviam seu caso a cada
temor, melindre e "importância tremenda" da questão das membro do Parlamento na tentativa de instigar o clamor
índias Ocidentais. 68 Huskisson e Wellington eram cordial- popular contra outra proposta para aumentar as tarifas
mente favoráveis aos plantadores, o último recusando-se a açucareiras. A proposta foi aprovada por uma maioria
"saquear os proprietários nas índias Ocidentais a fim de de vinte e três votos. "Nem a sua pequenez foi matéria
adquirir para si mesmo um pouco de popularidade na de surpresa para aqueles que consideravam quantos esta-
Inglaterra",69 o primeiro considerando a emancipação ina- vam interessados, quer por si mesmos, quer por amigos,
tingível por intromissão legislativa ou promulgação de numa ou noutra parte do comércio de açúcar, e que a
leis. 70 Mais a recalcitrância dos plantadores e sua recusa própria causa sempre fora popular na Câmara dos Co-
obstinada em fazer concessões ao sentimento antiescravista muns." 77 Os plantadores das índias Ocidentais, porém,
da Inglaterra apartaram mais tarde esses amigos. Canning conseguiram transferir a tarifa adicional proposta sobre o
achava a escravidão nas índias Ocidentais um assunto açúcar para os linhos estrangeiros. O episódio inteiro
intragável; 71 as questões escravistas quase enlouqueceram simplesmente ilustrou "as dificuldades que resultavam da
aplicação de uma nova tarifa ao açúcar em conseqüência
106
107
do número e influência daqueles interessados, direta ou
indiretamente, naquele extenso ramo de comércio".78 5
A questão surgiu novamente quando foi necessário
financiar a Guerra dos Sete Anos. O aristocrata agrário A INDúSTRIA BRITÂNICA
da Inglaterra apoiava geralmente seu irmão das colônias, EO
mas quando chegou a hora de optar entre ele e seu parente COMÉRCIO TRIANGULAR
distante, adotou a opinião de que "sua camisa estava
perto dele, mas sua pele estava mais perto". Beckford,
em defesa de seus colegas, era interrompido por gargalha-
das estrondosas toda vez que pronunciava a palavra
"açúcar".79 A mudança ocorria como que por encanta- A Grã-Bretanha acumulava grande riqueza em decorrência
mento. O representante de Massachusetts informou em do comércio triangular. O aumento dos bens de consumo
1764 que havia cinqüenta ou sessenta votantes das índias provocado por t al atividade inevitavelmente acarretava o
desenv~lvimento da capacidade produtiva do país. Essa
Ocidentais que podiam fazer a balança pender para qual-
quer lado que quisessem. 80 Era o auge do poder dos inte- expansao industrial requeria financiamento. Quem nos
resses açucareiros das índias Ocidentais. Mas no novo P!imeiros três quartéis do século XVIII estava mais capa-
século, no Parlamento Reformado, apareceu outro agrupa- Citado a fornecer o dinheiro imediato do que um plantador
mento de cinqüenta ou sessenta votantes. Era o interesse de cana-de-açúcar das índias Ocidentais Õu um traficante
algodoeiro do Lancashire, e seu lema não era o monopólio de escravos de Liverpool? Já assinalamos a presteza com
e sim a livre concorrência. que os plantadores absenteístas adquiriam terras na In-
glaterra, onde podiam usar sua riqueza para financiar os
grandes desenvolvimentos relacionados com a Revolução
Agrícola. Devemos agora traçar o investimento dos lucros
?ecorrentes do comércio triangular na indústria britânica,
a qu~al forn~ceram p~rt~ do vultoso crédito para a cons-
truçao das Imensas fabncas para atender às necessidades
do novo processo produtivo e dos novos mercados.

A. O investimento dos lucros decorrentes


do comércio triangular
1. BANCOS
Muitos dos bancos do século XVIII estabelecidos em
Liverpool e Manchester, a metrópole do tráfico de escravos
e a capital do algodão respectivamente, estavam direta-
mente ligados ao comércio triangular. Aqui grandes somo.s
eram_ necessárias para as fábricas de algodão e para os
canais que melhoravam os meios de comunicação entro
as duas cidades.

109
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_Típica do banqueiro do século XVIII é a transição de
traf1cante para mercador e depois o progresso de mercador Clarkes & Roscoe. Leyland e Roscoe: curiosa combinação!
para banqueiro. O termo "mercador", na acepção do sé- Estranha união entre o bem sucedido traficante de escra-
culo XVIII, não infreqüentemente abrangia os graus de vos e o coerente adversário da escravidão! Leyland desli-
comandante de navio negreiro, comandante de navio cor- gou-se espontaneamente, em 1807, para formar uma socie-
sário, dono de navio corsário, antes do indivíduo se instalar dade mais coerente com seu sócio no tráfico de escravos
em terra no respeitável ramo do comércio. As várias ati- Bullins, e o título de Leyland & Bullins manteve-se orgu-
vidades de um comerciante de Liverpool compreendiam: lhosa e impolutamente durante 99 anos até a fusão do
cervejeiro, mercador de bebidas, merceeiro, negociante de banco, em 1901, com o North and South Wales Bank
bebidas, corretor de letras de câmbio, banqueiro, etc. Es- Limited (Banco da Gales do Norte e do Sul Limitado) .3
creve o historiador: "Não se sabe bem o que significa esse Os Heywood e os Leyland são apenas os exemplos
etc." 1 Tal como a canção que as sereias entoavam, esse mais notáveis da regra geral da história bancária da Liver-
etc. não está assim tão fora de conjetura. Abrangia, uma pool do século XVIII. William Gregson , banqueiro, foi
ou outra vez, um ou mais aspectos do comércio triangular. também traficante de escravos, proprietário de n avios, cor-
O Banco Heywood foi fundado em Liverpool em 1773 sário, segurador e dono de uma cordoaria. Francis Ingram
e durou como banco particular até 1883, quando foi adqui- foi traficante de escravos, membro da Companhia Africana
rido pelo Banco de Liverpool. Seus fundadores foram em 1777, enquanto teve participação também num negó-
mercadores bem sucedid.os, mais tarde eleitos para a cio de cordas e participou de uma empresa corsária em
Câmara de Comércio. "Tinham sua experiência", escreve sociedade com Thomas Leyland e os Earle. Estes últimos
o historiador, "do tráfico africano", além do corso. Ambos acumularam uma fortuna enorme no tráfico de escravos
figuram na lista de mercadores traficando com a Africa e continuaram como traficantes até 1807. O fundador do
em 1752 e seus interesses africanos perduraram até 1807. banco de Hanly foi o Comandante Richard Hanly, trafi-
O sócio principal de um dos ramos da firma era Thomas cante de escravos, cuja irmã era camda também com um
Perke, da firma bancária de William Gregson, Filhos, traficante de escravos. Hanly foi membro proeminente
Parke & Morland, cujo avô fora um eficiente comandante do "Liverpool Fireside" ("Lar de Liverpool"), uma socie-
no tráfico com as índias Ocidentais. Típico dos inter-rela- dade composta quase inteiramente de comandantes de
cionamentos comerciais do período, a filha de um dos sócios navios, traficantes de escravos e corsários, com laivos de
dos Heywood casou-se mais tarde com Robertson, filho de traficantes de alto gabarito. Robert Fairweather, tal como
John Gladstone, e o filho deles, Robertson Gladstone, Hanly, foi traficante de escravos, membro do "Liverpool
obteve sociedade no banco. Em 1788, a firma instalou Fireside", comerciante e banqueiro.
uma filial em Manchester, por sugestão de algum impor- Jonas Bold aliava o tráfico de escravos ao comércio
tante comerciante da cidade. A filial de Manchester, com as índias Ocidentais. Um dos membros da Companhia
chamada o "Banco de Manchester", foi bem conhecida por de Mercadores traficando com a Africa de 1777 a 1807,
muitos anos. Onze dos quatorze descendentes dos Heywood Bold foi refinador de açúcar e tornou-se sócio do banco de
até 1815 se tornaram comerciantes ou banqueiros.2 Ingram. Thomas Fletcher começou sua carreira como
O aparecimento de Thomas Leyland no cenário ban- aprendiz de um banqueiro mercador que realizava um
cário só veio a ocorrer nos primeiros anos do século XIX extenso comércio com a Jamaica. Elevado à condição de
mas seus investimentos no tráfico de escravos africano~ sócio, Fletcher mais tarde tornou-se sucessivamente Vice-
remontam ao último quartel do século XVIII. Leyland, -Presidente e Presidente da Associação das índias Ociden-
com seus sócios, foi um dos mais ativos traficantes de tais, de Liverpool, e ao morrer seus bens compreendiam
escravos em Liverpool e seus lucros foram imensos. Em interesses em hipotecas numa plantação de café e cana-
1802, tornou-se sócio principal da firma bancária de -de-açúcar, com os escravos aí existentes, na Jamaica.
Charles Caldwell, da firma bancária de Charles Caldwell
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111
~Co., era sóc~o ~a Oldham, Caldwell & Co., cujas transa- mente autorizado comecou a funcionar em 1750. Conhe-
çoes eram pnnc1palmente em açúcar. Isaac Hartman, cido como o Banco de Navios, um dos sócios fundadores
outro banqueiro possuía plantacões nas índias Ocidentais· foi Andrew Buchanan, um magnata do fumo da cidade.
enquanto James -Moss, banqueiro e cidadão proeminent~ Outro era o mesmo William Macdowall cujo encontro
com as herdeiras de açúcar de St. Kitts estabelecera tanto
no século XVIII, tinha algumas plantações de cana-de- a fortuna de sua casa quanto a da cidade. Um terceiro
-açúcar muito grandes na Guiana Inglesa.4 era Alexander Houston, um dos maiores negociantes com
O que dis~emos a respeito de Liverpool ocorria igual- as índias Ocidentais da cidade, cuja firma, Alexander
mente com Bnstol, Londres e Glasgow. Presidindo a reu- Hamilton & Companhia, era uma das principais casas
mao do poderoso comitê instituído em Brístol em 1789 das índias Ocidentais no reino. Essa mesma firma só
para opor-se à abolição, achava-se William MÚes. Entr~ surgiu depois da volta dos dois oficiais escoceses e suas
os memb:os do _comitê estavam o Vereador Daubeny, Ri- novas esposas da ilha para a cidade. Durante três quartéis
chard Bnght, Richard Vaughan, John Cave e Philip Pro- do século a firma realizou um comércio imenso, possuindo
theroe. Todos os seis eram banqueiros em Brístol. ·Cave , muitos navios e vastas plantações de cana-de-açúcar. Pre-
Bright e Daubeny eram sócios no "Novo Banco" fundado vendo a abolição do tráfico de escravos, ela especulou em
em 1786. Protheroe era sócio do Banco da Cidade de grande escala na compra de escravos. O projeto de lei,
Brístol. William Mil~s. comprou uma participação impor- porém, não foi aprovado. Os escravos tinham de ser ali-
tante na casa bancaria antiga de Vaughan . Barker & mentados e vestidos, seu preço caía acentuadamente, a
Companhia; dois de seu s filhos foram mencionados em doença matava-os às centenas. A firma conseqüentemente
1794 e o "Banco de Miles", como era popularmente cha- faliu em 1795, e esse foi o maior desastre financeiro a que
mado, teve uma longa e próspera carreira) Glasgow já assistiu.
. Quanto a Londres apenas um nome precisa ser men- O sucesso do Banco de Navios estimulou a formação
ciOnado, quando esse nome é Barclay. Dois membros de outros bancos. O Banco de Armas foi fundado no
dessa família quacre, David e Alexander, estavam metidos mesmo ano, tendo como um dos sócios principais Andrew
no tráfico de escravos em 1756. David começou sua car- Cochrane, outro magnata do fumo. O Ban co de Cardo
reira no comércio amer icano e com as índias Ocidentais, seguiu-se em 1761, um banco aristocrático, cujo negócio
tornando-se um dos comerciantes mais poderosos de sua girava grandemente em torno dos ricos negociantes das
época. A casa de seu pai em Cheapside era. uma 'das mais índias Ocidentais. Um dos sócios principais era John
elegantes da cidade de Londres, - sendo freqüentemente Glassford , que realizava negócios em grande escala. Em
visitada pela família real. Ele não er a simplesmente um certa época ele chegou a possuir vinte e cinco navios em
traficante de escravos, mas efetivamente possuía uma seus carregamentos no mar, e seu movimento anual era
grande plantação na Jamaica onde, segundo nos informam, superior a meio milhão de libras.7
libertou seus escravos e chegou à conclusão de que "a
pele negra envolvia coráções cheios de gratidão e mentes
tão capazes de progredir como o branco mais orgulhoso". Os 2. INDúSTRIA PESADA
Barclay casaram-se com membros das famílias de ban- A indústria pesada desempenhou um papel importante
queiros de Gurney e Freame, tal como ocorreu com outros no progresso da Revolução Industrial e no desenvolvimento
casamentos, entre famílias em outros ramos da indústria, do comércio triangular. Uma parte do capital que finan-
que mantiveram a riqueza quacre em mãos quacres. Da ciou o crescimento das indústrias m etalúrgicas foi forne-
união surgiu o Banco de Barc1ay cuja expansão e pro-
cido diretamente pelo comércio triangular.
gresso estão fora do âmbito deste estudo. 6 Foi o capital acumulado em decorrência do comércio
A ascensão dos bancos em Glasgow esteve intimamente com as índias Ocidentais que financiou James Watt e a
ligada ao comércio triangular. O primeiro banco devida-
113
112
Sua usina siderúrgica de Cyfartha ele arrendou a Craw-
máquina a vapor. Boulton e Watt receberam adianta- shay, reservando para si uma anuidade líquida de 10.~00
mentos de Lowe, Vere, Williams e Jennings- mais tarde libras, e o próprio Crawshay fez uma fortuna com a usma
Banco Williams Deacons. Watt viveu momentos de apre- de Cyfartha. Vendeu Penydaren a Homfray, o h?me~
ensão em 1778, durante a Revolução Americana, quando que aperfeiçoou o processo de pudelagem; Dowla~s f01
a frota das índias Ocidentais foi ameaçada de captura cedida a Lewis e a usina de Plymouth coube a H1ll. O
pelos franceses. "Mesmo nessa emergência", escreveu-lhe contrato de material bélico já havia sido transferido para
Boulton esperançosamente, "Lowe, Vere & Companhia Carron sucessor de Roebuck. Não é de admirar que se
podem ainda ser salvos, se a frota das índias Ocidentais afirma~se que Bacon se considerava como "movendo-se
conseguir safar-se da frota francesa. . . pois muitos de numa órbita superior".11
seus títulos de investimento dependem dela" .8 William Beckford se tornou um importante manufator
O banco superou a dificuldade e a preciosa invenção de ferro em 1753.12 Parte do capital fornecido para a
foi salva. Os plantadores de cana-de-açúcar estiveram usina siderúrgica de Thorncliffe, iniciada em 1792, proveio
entre os primeiros a compreender a sua importância. de um fabricante de navalhas, Henry Longden, que rece-
I Boulton escreveu a Watt em 1783: " . .. O Sr. Pennant, beu um legado de umas 15.000 libras de um tio rico, um
que é um homem muito amável, com dez ou doze mil negociante das índias Ocidentais de Sheffield. 13
libras por ano, tem a maior propriedade da J amaica;
havia também o Sr. Gale e o Sr. Beeston Long, que pos-
3. SEGUROS
suem umas plantações de cana muito grandes lá, que
queriam ver a solução do vapor em lugar de cavalos." 9 No século XVIII, quando o tráfico de escravos era o
Um dos principais manufatores de ferro do sé- negócio mais valioso e a propriedade nas índias Ocidentais
culo XVIII, Antony Bacon, estava intimamente ligado ao estava entre as mais valiosas do Império Britânico, o co-
comércio triangular. Seu sócio era Gilbert Francklyn, um mércio triangular ocupava um lugar importante segundo o
plantador das índias Ocidentais, que posteriormente es- modo de ver das companhias de seguros que surgiam;
creveu muitas cartas ao Lorde Presidente do Comitê do Nos primeiros anos, quando Lloyd's era uma casa de cafe
Conselho Privado assinalando a importância de tomar a e nada mais, muitos anúncios na London Gazette sobre
colônia açucareira francesa de São Domingos na guerra escravos fugidos indicavam Lloyd's como o lugar em que
com a França revolucionária.10 Bacon, como tantos outros, eles deviam ser devolvidos. 14
meteu-se no tráfico africano. Começou um comércio lu- o mais antigo anúncio existente que se refere a
crativo, a princípio abastecendo de mantimentos as tropas Lloyd's, datado de 1692, trata da venda de três n avios el?
e depois fornecendo negros experimentados e capazes para leilão. Os navios estavam desembaraçados para segmr
contratos do Governo nas índias Ocidentais. Durante os para Barbados e Virgínia. O único projeto const.a~te da
anos de 1768 a 1776 ele recebeu quase 67.000 libras sob lista da Lloyd's no golpe fraudulento* de ~ 720 diZia res-
esta última rubrica. Em 1765, montou sua usina siderúr- peito ao comércio com a Barbaria e a Afnca. Relton, o
gica em Merthyr Tydfill, a qual se expandiu rapidamente historiador do seguro contra incêndios, afirma que o seguro
devido aos contratos do Governo durante a guerra ame- contra incêndios nas índias Ocidentais era feito na Lloyd's
ricana; em 1776, montou outro forno em Cyfartha. O "desde uma data muito antiga". A Lloyd's como outras
minério de ferro para seus fornos era exportado de Whi-
tehaven e já em 1740 Bacon participara do empreendi-
mento de melhoria de seu porto. * Trata-se aqui do famoso South Sea Bubble ("Golpe do Pací-
Bacon fez uma fortuna com seus contratos de arti- fico") frustrado plano financeiro que surgiu na Inglaterra em
1711 é desmoronou em 172.0, causando sério descalabro econô-
lharia com o Governo britânico. Afastou-se dos negócios mico e moral ao país. (N. do T.)
em 1782, tendo granjeado um verdadeiro reino mineral.
115
114
companhias segurava escravos e navios negreiros, estando
vitalmente interessada em decisões legais quanto ao que
constituía "morte n atural" e "perigos do mar". Entre as de ardósia do País de Gales, que fornecia material para te-
suas subscrições a heróis públicos e comandantes de navios lhados, foi revolucionada pelos novos métodos adotados
20
mercantes existe uma de 1804 a um comandante de Liver- na propriedade do Carnarvonshire por Lorde Penrh~,
pool que, na travessia da Africa para a Guiana Inglesa, que, como já vimos, possuía plantaçoe~ ~e cana-d~-açuca.r
conseguiu burlar a vigilância de uma corveta francesa e na Jamaica e era presidente do Comite das índias Oci-
salvar sua valiosa carga. O terceiro filho de seu primeiro dentais no fim do século XVIII. A figura principal no
secretário, John Bennett, foi agente da Lloyd's em Antígua primeiro grande projeto ferroviário da Inglaterra, que
em 1833, e o único retrato conhecido de seu pai foi recen- ligava Liverpool a Manchester, foi Joseph Sandars, de
temente descoberto nas índias Ocidentais. Um dos mais quem pouco se sabe. Mas seu afastamento, em 18~4, da
destacados presidentes da Lloyd's em smt longa h istória Sociedade Antiescravista de Liverpool é de grande Impor-
foi Joseph Marryat, um plantador das índias Ocidentais, tância, já que pelo menos mostra uma relutância_ para
que eficaz e brilhantemente lutou para manter o mono- fazer pressão sobre os plantadores de cana-de-açucar. 21
pólio de seguro marítimo da Lloyd's contra uma companhia Três outros homens notoriamente identificados com o em-
rival, na Câmara dos Comuns, em 1810, onde teve como preendimento tinham ligações estreitas com o comércio
adversário outro elemento das índias Ocidentais, pai do triangular - o General Gascoyne, de Liverpool, defensor
famoso Cardeal Manning.15 Marryat foi contemplado com vigoroso dos interesses das índias Ocident~is, John Gla~s­
15.000 libras de indenização, em 1837, por 391 escravos tone e John Moss. 22 Os interesses de Bnstol nas índms
em Trinidad e na J amaica.1s Ocidentais também desempenharam um papel destacado
Em 1782, os interesses açucareiros das índias Oci- na construção da Great Western Railway.23
dentais tomaram a iniciativa de fundar uma outra com- Mas não se deve deduzir que o comércio triangular
panhia de seguros, a Phoenix, uma das primeiras compa- foi exclusiva e inteiramente responsável pelo desenvolvi-
nhias a abrir uma filial no ultramar - nas índias Oci- mento econômico. O crescimento do mercado interno na
dentais.l7 A Associação de Seguradores de Liverpool foi Inglaterra, a aplicação dos lucros da indústria para gerar
formada em 1802. O presidente da reunião foi o proemi- ainda mais capital e obter expansão ainda maior, desem-
nente negociante das índias Ocidentais, John Gladstone. 1s penhou um grande papel. Mas es~e. desenvolvi~ento in-
dustrial, estimulado pelo mercantlllsmo, postenormente
sobrepujou o mercantilismo e destruiu-o.
B. O desenvolvimento da indústria britânica Em 1783, a forma das coisas que viriam era clara-
até 1783 mente visível. As possibilidades da máquina a vapor não
eram uma questão abstrata. Vinte e seis máquinas esta-
Assim foi que o Abade Reynal um dos espíritos mais vam em funcionamento, dois terços delas em minas e
progressistas de sua época, um homem de amplo conheci- fundições.24 Métodos melhorados de mineração do carvão,
mento em contato íntimo com a burguesia francesa, pôde combinados com a influência do vapor, resultaram numa
perceber que a labuta do povo nas índias Ocidentais "pode grande expansão da indústria do ferro. A produção au-
ser considerada como a causa principal do rápido movi- mentou quatro vezes entre 1740 e 1788, o número de fornos
mento que agora agita o universo".l9 O comércio trian- cresceu cinqüenta por cento.25 A ponte de ferro e a
gular representou uma enorme contribuição paxa Ó-desen- estrada de ferro tinham aparecido; a Usina Carron tinha
volvimento industrial da Grã-Bretanha. Os lucros decor- sido fundada; e Wilkinson já era famoso ·como "pai do
rentes dessa transação fecundaram todo o sistema pro- comércio de ferro". O algodão, o rei da Revolução Indus-
dutivo do país. Três exemplos devem bastar. A indústria trial, reagiu pronta e favoravel~~nte às n~v~s invençõ~s,
desimpedido como era das tradiçoes e restr1çoes das gml-
116 das que estorvavam seu rival mais antigo, a lã. A livre
117
empresa tornou-se uma prática na nova indústria muito colônias. Nas próprias colônias a proibição às manufaturas
antes de penetrar nos compêndios como teoria econômica coloniais parecia-lhe "uma violação manifesta dos direitos
ortodoxa. A máquina de fiar e o tear hidráulico (ou fila- mais sagrados da humanidade. . . estigmas impertinentes
tório de Arkwright) revolucionaram a indústria que, em de escravidão impostas a elas, sem qualquer razão sufi-
ciente, pelo ciúme infundado dos comerciantes e manufa-
conseqüência, mostrava uma contínua tendência ascen- tores da mãe-pátria". O capital britânico fora transferido,
dente. Entre 1700 e 1780, as importações de algodão em à força, do comércio com os países vizinhos para o comér-
rama aumentaram mais de três vezes; as exportações de cio com países mais distantes; o dinheiro que poderia ter
artigos de algodão, quinze vezes. 26 A população de Man- sido usado para melhorar as terras, aumentar as manu-
chester cresceu quase cinqüenta por cento entre 1757 e faturas e ampliar o comércio da Grã-Bretanha fora des-
1773,27 o número dos que se ocupavam da indústria do algo- pendido em fomentar um comércio com regiões distantes
dão quadruplicou entre 1750 e 1785.28 Não somente a das quais a Inglaterra não obtinha nada a não ser pre-
indústria pesada, mas também o algodão - as duas in- juízo (!) e guerras freqüentes. Era um sistema adequado
dústrias que dominariam o período entre 1783 e 1850 - para uma nação cujo Governo era influenciado por lo-
estava reunindo força para o assalto ao sistema do mono- jistas.3t
pólio que por tanto tempo parecera essencial à existência A Riqueza das Nações foi o antecedente filosófico da
e prosperidade de ambas. Revolução Americana. Ambos foram produtos gêmeos da
Toda a economia da Inglaterra foi estimulada por mesma causa, o freio aplicado pelo sistema mercantil ao
e~se alento ~enéfico de aum~nto da produção. A produ- desenvolvimento da capacidade produtiva da Inglaterra e
çao das olanas de Staffordshire aumentou cinco vezes em suas colônias. O papel de Adam Smith foi verberar intelec-
valor entre 1725 e 1777.29 A tonelagem dos navi os que tualmente os "expedientes mesquinhos e maléficos" 32 de
partiram dos portos ingleses mais do que duplicou entre um sistema ao qual os exércitos de George Washington
1700 e 1781. As importações inglesas aumentaram quatro deram um golpe mortal nos campos de batalha da Amé-
vezes entre 1715 e 1775, as exportações triplicaram entre rica.
1700 e 1771.3° A indústria inglesa em 1783 estava como
Gulliver, amarrada pelas restrições liliputianas do mer-
cantilismo.

, n.uas figuras notáveis do século XVIII viram e, o que


e mais, compreenderam o conflito irreprimível: Adam
Smith, de sua cátedra de professor, e Thomas Jefferson
em sua plantação. '
. Adam S~ith denunciou a tolice e injustiça que ini-
cialmente onentaram o projeto de estabelecer colônias no
Novo Mun~o. Opôs-se a todo o sistema de monopólio, a
ch:av~ do sistelll:a colonial, sob o fundamento de que res-
trmgia a capacidade produtiva da Inglaterra, bem como
a das colônias. Se a indústria britânica progredira, fize-
ra-o não devido ao monopólio, mas apesar dele, e o mono-
pólio não representava nada mais senão o sacrifício do
bem geral aos interesses de uns poucos, o sacrifício do
interesse do consumidor da metrópole ao do produtor das
118 119
6
A REVOLUÇÃO AMERICANA

Em 1770, as colônias continentais enviaram para as índias


Ocidentais quase um terço de suas exportações de peixe
seco e quase todo o seu peixe salgado; sete oitavos de
sua aveia, sete décimos de seu trigo, quase toda a sua
ervilha e feijão, met ade de sua farinha de trigo, toda a
sua m anteiga e queijo, mais de um quarto de seu arroz,
quase toda a sua cebola; cinco quintos de suas tábuas de
pinho, carvalho e cedro, mais de metade de suas aduelas,
quase todos os seus arcos; todos os seus cavalos, carneiros,
porcos e galinhas; quase todo o seu sabão e velas.I Como
nos diz o Professor Pitman: "Foi a riqueza acumulada em
conseqüência do comércio com as índias Ocidentais que
mais do que qualquer outra coisa sustentou a prosperidade
e civilização da Nova Inglaterra e Colônias do Centro." 2
Mas no esquema imperial do século XVIII as colônias
do continente ocupavam um mau segundo lugar. O açúcar
era o rei e as ilhas das índias Ocidentais eram o grande
fornecedor de açúcar à Europa. A incorporação da Ja-
maica tornou Cromwell tão feliz que ele se recusou a
tratar de qualquer outro negócio no dia em que a boa
nova foi anunciada. Tiraria uma semana de férias se
tivesse tomado Hispaníola, cuja parte francesa, São Do-
mingos, mais tarde se tornou a pérola das Antilhas e a
desgraça dos plantadores france3es. Barbados era a "linda
jóia" da Coroa de Sua Majestade, uma perolazinha mais
preciosa e rara do que qualquer dos reis da Europa pos-
suía,3 e em 1661 Carlos II mostrou a importância dessa
ilha criando treze baronetes, entre seus plantadores, num
só dia.4 O cargo de govern ador da Jamaica classificava-se
imediatamente abaixo, nas nomeações coloniais, ao do vice-
-rei da Irlanda e o sistema postal dava mais atenção às
ilhas do que ao continente.
121
Os mercantilistas olhavam com desconfiança espe- Pois as colônias das índias Ocidentais precisavam de
cialmente para as colônias do Norte. Estavam cheias de alimentos. Para que pudessem concentrar-se na cana-de-
agricultores, comerciantes, pescadores, marinheiros -mas -açúcar a que a especialização econômica da época mer-
não plantadores. Eram, com exceção de suas manufaturas cantil as restringira, não tinham lugar remoto em que
ainda não-desenvolvidas, num sentido muito literal, a Nova seu produto básico não pudesse ser cultivado, e sua pro-
Inglaterra.s A rivalidade com a Velha Inglaterra era ine- dução era muito lucrativa para que se dessem ao luxo de
vitável. Eles estavam capacitados, em virtude de sua si- desviar terra e trabalho para o pasto de gado e a produção
tuação, a vender seus produtos agrícolas, mais barato do de alimentos. "Os homens estão tão decididos a plantar
que seus competidores ingleses nos mercados das ilhas. cana-de-açúcar", escreveu um correspondente ao governa-
Com essa concorrência, a Inglaterra estava perdendo, em dor Winthrop, em 1647, sobre as índias Ocidentais, "que
vendas e fretes, dois e meio milhões de libras por ano. preferem comprar alimentos a preços bem caros a pro-
"Pode alguém deduzir disso", perguntou um anônimo "que duzi-los por seu trabalho, tão infinito é o lucro da manu-
o comércio e a navegação de nossas colônias valem alguma fatura do açúcar depois que ela termina." 13 Estabeleceu-se
coisa para esta nação?" 6 Sir Josiah Child afirmou que assim a tradição pela qual o açúcar se tornou "o trigo ou
dez homens em Massachusetts não executavam o serviço o pão" das índias Ocidentais. 14 Somente a posse das colô-
de um só inglês lá na Inglaterra. "A Nova Inglaterra", nias continentais permitia esse monopólio açucareiro do
concluiu ele, "é a plantação mais prejudicial a este reino". 7 solo das índias Ocidentais. "Para sustentar uma colônia
Chichester preferiria trabalhar com as mãos na Irlanda a na América", escreveu o Abade Raynal, "é necessário culti-
"dançar e cantar na Virgínia". 8 Petty disse bruscamente var uma província na Europa".15 A Grã-Bretanha volunta-
que os habitantes da Nova Inglaterra deviam ser repa- riamente abdicou desse privilégio, como o menor de dois
triados ou enviados para a Irlanda.9 Quatro esforços sepa- males, em favor dos colonizadores do continente. O mer-
rados foram feitos para persuadir os habitantes da Nova cantilismo foi finalmente destruído por ser um sistema
Inglaterra a se mudarem para as Bahamas, para Trinidad, ruim, mas é um absurdo não reconhecer que era um siste-
para Maryland e para a Virgínia. Cromwelllançava para a ma e que havia método em sua ruindade.
Nova Inglaterra "apenas um olhar de piedade, conside- Assim, as colônias norte-americanas passaram a ter
rando-a pobre, fria e imprestável". 10 Ordens do Conselho um lugar reconhecido na economia imperial, como forne-
de Estado foram expedidas em 1655 aos governadores e cedores dos suprimentos necessitados pelos plantadores de
habitantes apresentando ofertas tentadoras para quem qui- cana-de-açúcar e seus escravos, e os habitantes da Nova
sesse ir para a Jamaica "para iluminar aquelas partes ... Inglaterra vieram a ser considerados como os holandeses
por gente que conheça e tema o Senhor; que aqueles da da América. A lavoura mista das colônias do Norte e do
Nova Inglaterra, impelidos da. terra de sua natividade para Centro completava a agricultura especializada das índias
aquela deserta e estéril região selvagem, por dever de Ocidentais, como no século XIX ela alimentou as regiões
.consciência se mudassem para uma terra de abundância". 11 de algodão e arroz do Sul dos Estados Unidos. Já no ano
Essas opiniões eram muito extremadas. Se as colônias de 1650 as· colônias da Nova Inglaterra alimentavam suas
do Norte fossem retiradas do comércio de provisões, seriam "irmãs mais velhas", Virgínia e Barbados. 16 Winthrop
incapazes de adquirir os artigos manufaturados ingleses, atribuiu o mérito à Providência,l7 mas o mercantilismo
cuja exportação era mais valiosa para a Inglaterra do tinha muito a ver com isso. "As colônias de Sua Majestade
que a exportação de produtos agrícolas e carne salgada. nestas partes", escreveu o governador Willoughby de Bar-
O que era pior, os colonizadores poderiam assim ser ten- bados, em 1667, "não podem em tempo de paz prosperar,
tados a criar suas próprias indústrias. Seria melhor então, nem em tempo de guerra subsistir, sem uma relação com
concluiu Davenant, que detivessem o comércio de gêneros o povo da Nova Inglaterra".18 Não somente alimento, mas
alimentícios .12 também cavalos para fornecer a força motriz das moen-
122 123
das primitivas usadas na manufatura do açúcar, e ma- levar os habitantes de lá a plantar as suas próprias pro-
deira para construções, eram os artigos de maior procura visões, em vez de cana-de-açúcar, algodão, gengibre e anil,
nas ilhas. "Não há ilha que os britânicos possuam nas o que será grandemente prejudicial à Inglaterra, com res-
índias Ocidentais", escreveu Samuel Vetch em 1708, "que peito à sua navegação e riqueza".23
seja capaz de subsistir sem a assistência do continente, As relações econômicas entre as ilhas e o continente
pois para eles transportamos seu pão, bebida e todas as eram reforçadas pelos contatos individuais. Os habitantes
necessidades da vida humana, seu gado e cavalos para das índias Ocidentais tinham propriedades no continente,
cultivarem suas plantações, madeira e aduelas de t9das os da América do Norte possuíam plantações, nas ilhas. A
as espécies para fazerem seus cascos para seu rum, açucar colonização do Sul partiu de Barbados. Os Middleton, Bull
e melaço, sem os quais eles não poderiam ter nenhum, e Colleton da Carolina do Sul possuíam plantações em
navios para transportar seus artigos para os mercados Jamaica e Barbados. Aaron Lopez, traficante de escravos
europeus e mais ainda, em ~uma, as próprias. casas que que morava em Rhode Island, era proprietário de uma
habitam são levadas para la em armaçoes, JUntamente plantação de cana em Antígua. Alexander Hamilton nas-
com as ripas que as cobrem, em tamanha quantidade que cera em Nevis. Os Gedney Clarke, de Salem, são o exem-
sua existência, muito mais do que seu bem-estar, depende plo notável do sucesso norte-americano nas ilhas. O pai
quase inteiramente do continente". 19 Os plantadores das possuía imensas plantações em Barbados e na Guiana.
índias Ocidentais não nutriam ilusões sobre a importância Seu filho tornou-se inspetor-geral da Alfândega em Bar-
das provisões e cavalos do continente. Os barbadian~s, bados, membro da Assembléia Legislativa e subseqüente-
escreveu um agente comercial de Boston, em 1674, estao mente do Conselho. Os norte-americanos logo descobriram
"inteiramente conscientes do grande prejuízo que terão o valor do sol das índias Ocidentais, os habitantes das
se perderem o benefício daqueles dois produtos,_ que não índias Ocidentais procuravam na América do Norte o res-
são vendidos em nenhuma parte do mundo a nao ser na tabelecimento da constituição alquebrada. "Eu aconse-
Nova Inglaterra e Virgínia".20 lharia Adam Chart", escreveu um americano a amigos em
Isso era uma política deliberada, por parte dos esta- Filadélfia, "a começar outra casa diretamente e chamá-la
distas na Inglaterra e dos plantadores nas colônias. M~itos Barbados Hotel, hospedando, por sinal, o esgotado habi-
dos artigos exportados pela Nova Inglaterra para as ilhas tante das índias Ocidentais, morrendo de hidropisia em
poderiam ter sido produzidos nas próprias ilhas. ~as, como conseqüência de vida intemperada". As herdeiras das ín-
um plantador jamaicano perguntou : "Se esta 1lha fosse dias Ocidentais, diz-se, eram tão cobiçadas na América do
capaz de manter-se com alimento e outras necessidades, Norte como eram na Inglaterra. 24
que seria do comércio da Nova Inglaterra?" 21 A resposta Em troca de suas provisões, os colonizadores do con-
é que sem as ilhas açucareiras as colônias do continente tinente levavam açúcar, rum e melaço das índias Oci-
sofreriam um sério contratempo. Tornaram-se "a chave dentais, em tais quantidades que já em 1676 os negociantes
das tndias",22 sem a qual as ilhas teriam sido incapazes ingleses reclamavam que a Nova Inglaterra estava tornan-
de alimentar-se a não ser por meio de um desvio da lucra- do-se o grande empório da produção coloniaJ.25 Havia
tiva terra produtora de cana-de-açúcar para cultivo de uma interdependência entre as duas unidades. A manu-
produtos alimentares, em detrimento não ~omente dos tenção da harmonia exigia imperiosamente duas coisas: a
agricultores da Nova Inglaterra, mas tambem da frota produção de açúcar e melaço das ilhas devia ser suficiente
mercante britânica, da refinação britânica de açúcar e da para satisfazer o consumo do continente; o consumo de
receita alfandegária, glória e grandeza da Inglaterra.- _Em artigos essenciais do continente pelas ilhas devia acom-
1698, o Parlamento rejeitou uma proposta para pr01b1r a panhar a ma.rcha da produção do continente.
exportação de trigo, farinha de ~rigo, pão e. ~o~ac~,a da Na realidade, isso seria difícil, devido ao tamanho re-
Inglaterra para as ilhas açucare1ras. A pr01b1çao pode lativo das duas áreas interdependentes. Mas o conflito

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iminente poderia ter sido adiado de uma das duas ma- do solo eram mais numerosas e lamentosas. Em 1717,
neiras seguintes, ou de ambas. Em primeiro lugar, o plan- Barbados, segundo uma representação à Junta de Co-
tador britânico de cana-de-açúcar poderia ter ampliado mércio, precisava de cinco vezes o número de negros e
seu cultivo. Mais terra requereria mais escravos, que pro- muito mais cabeças de gado e cavalos do que as ilhas
duziriam mais açúcar e precisariam de maiores suprimentos francesas para cultivar uma determinada área; um escra-
de alimento. A Jamaica poderia ter feito isso mais facil- vo na colônia francesa de São Domingos equivalia a quatro
mente do que Barbados, que no século XVIII já estava na Jamaica.31 Em 1737, o proprietário barbadiano de
sofrendo as conseqüências inevitáveis de mão-de-obra es- uma plantação de mil acres, que requeria um investimento
crava e da rápida exaustão do solo. Havia terra nova em de capital de 50.000 libras, estava obtendo um lucro de
abundância na Jamaica. O segundo remédio era a aqui- 2%, uma plantacão semelhante nas ilhas francesas custava
sição de mais colônias açucareiras. Isso amenizaria, em um sexto- dessa quantia e dava um lucro de 18% .32 Há
J

parte, as queixas razoáveis do continente'. Mas a essas algum exagero nessas cifras, mas a superioridade funda-
soluções, as únicas possíveis sem recorrer à força, os plan- mental do plantador francês de cana, em conseqüência
tadores britânicos de cana se opuseram decididamente. O de grandes tratos de solo fértil, n ão-esgotado, era notória.
cultivo de novas terras e a obtenção de mais colônias O açúcar francês estava invadindo os mercados europeus
açucareiras significavam um suprimento maior de açúcar e sendo vendido pela metade do preço que era vendido na
ao mercado britânico e uma conseqüente redução do preço. Inglaterra. 33 A aquisição dessas ilhas significaria o eclipse
Os barbadianos tinham, muito cedo em sua história, olhado dos plantadores britânicos mais antigos. Estes, portanto,
apreensivamente para a extensão das conquistas açuca- exigiam sua destruição, em lugar de sua aquisição. O
reiras britânicas. Opuseram-se à colonização britânica governador da Jamaica escreveu em 1748 que, a não ser
do Suriname (Guiana Holandesa) ;26 não gostaram do es- que a colônia francesa de São Domingos fosse destruída
coamento de seus trabalhadores brancos para as ilhas de durante a guerra, ela arruinaria, no retorno da paz, as
Sotavento e, quando solicitados pelo governador da Ja- colônias açucareiras britânicas pela qualidade e barateza
maica a contribuir para uma expedição a fim de reprimir de _sua produção. 34 Durante a Guerra dos Sete Anos, a
a pirataria nas ilhas de Sotavento, responderam que não Gra-Bretanha tomou Cuba da Espanha e Guadalupe da
gastariam vinte xelins para salvar as ilhas de Sotavento França. Ambas as ilhas foram devolvidas a seus donos
e a Jamaica.27 Em 1772, propôs-se no Parlamento que em 1763, a Grã-Bretanha ficando em troca com a Flórida
segurança adequada fosse oferecida aos estrangeiros dis- e o Canadá.
postos a adiantar dinheiro para o desenvolvimento das Justificar essa decisão à luz da importância das dife-
ilhas açucareiras anexadas depois da Guerra dos Sete rentes áreas hoje é inteiramente fora de propósito. Cuba
Anos. A proposta foi veementemente combatida, como uma ainda era um patinho feio em 1763, mas qualquer bobo
"inovação impolítica", pelos plantadores das índias Oci- poderia ter imaginado que belo cisne finalmente acabaria
dentais.28 Era a velha discórdia, no dizer do Professor sendo. Não havia desculpa quanto ao que concernia a
Namier, entre os "plantadores saturados" e os "plantado- Guadalupe. Os "poucos hectares de neve", como Voltaire
res em formação".29 ironicamente descrevia o Canadá, só podiam vangloriar-se
de peles de animais; Guadalupe tinha açúcar. "O que
As ilhas açucareiras estrangeiras também já estavam alguns chapéus significam", perguntava um astuto anô-
ilustrando a lei da produção escrava. Menos esgotadas do nimo, em ~,763, "em comparação com esse artigo de luxo,
que as ilhas inglesas há muito colonizadas, o cultivo nas o açucar? Ele acentuava, também, que a maneira do
ilhas francesas era mais fácil e o custo da produção era manter a América do Norte dependente era deixar os
menor. Já em 1663, apenas vinte anos depois do apare- franceses no Canadá.35
cimento da indústria açucareira, Barbados estava "de- É inconcebível que o ministério britânico da épocu.
caindo rapidamente",30 e as queixas sobre o esgotamento ignorasse o que era do conhecimento público na Ingla-
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terra, França e América. Entre 1759 e 1762, as importações para anexar ao continente, conquistou açúcar para anexar
britânicas de Quebec totalizaram 48.000 libras; as expor- peles de animais. A questão provocou grande controvérsia
t ações para Quebec, 426.400 libras. As importações britâ- na Inglaterra e Chatham certa vez perguntou se devia
nicas de Guadalupe atingiram 2.004.933 libras entre 1759 ser enforcado por devolver o Canadá ou por devolver
e 1765; as exportações para Guadalupe, 475.237 libras. As Guadalupe. 39 Se havia algum enforcamento a ser feito,
importações britânicas de Havana foram de 263.084 libras Beckford tinha a melhor razão.
entre 1762 e 1766; as exportações para Havana, 123.421 Tudo se reduzia a isso - o império todo devia ser in-
libras. Comparemos Canadá e Flórida com Granada e timidado a pagar tributo aos plantadores de cana e aceitar
Domínica, duas das conquistas das índias Ocidentais que o açúcar a um preço de monopólio porque era um cultivo
foram mantidas em 1763. Até 1773, as importações britâ- britânico. Os colonizadores do continente r ecorreram na-
nicas de Granada equivaleram a oito vezes as importações turalmente, e talvez impatrioticamente, às colônias açuca-
do Canadá; as exportações britânicas para o Canadá foram reiras estrangeiras. "Esquecendo todos os laços de dever
o dobro das exportações para Granada. As importações de a Sua Majestade", assim rezava uma petição de negociantes
Domínica foram mais de dezoito vezes as importações da de Londres em 1750, "o interesse da mãe-pátria e a reve-
Flórida; as exportações para Domínica foram apenas um rência devida a suas leis",40 os colonizadores do continente
sétimo menos do que as exportações para a Flórida. 36 só viam que o aumento de comércio era exigido pelo
Evidentemente, o Canadá e a Flórida foram mantidos não aumento de sua produção. Se eles não podiam comerciar
porque eram mais valiosos do que Cuba ou Guadalupe, com as colônias açucareiras estrangeiras tornadas britâ-
mas precisamente porque eram menos valiosos. nicas, comerciariam com as colônias fora da estrutura
Assim o tratado de paz de 1763 simplesmente não tem imperial - mesmo em tempo de guerra. A existência deles
sentido a menos que seja considerado como outra vitória estava em jogo. A luta decisiva entre as ilhas e o conti-
para o poderoso interesse das índias Ocidentais. Demons- nente começara e daí em diante o pessoal das índias Oci-
trou finalmente ser uma vitória de Pirro, mas em 1763 dentais e o da América do Norte estaria sempre se "con-
flitando".41
foi, não obstante, uma vitória. Os dois defen sores mais
ardorosos da devolução de Guadalupe eram dois planta- Naturalmente o colonizador do continente não boi-
dores das índias Ocidentais, Beckford e Fuller, 37 e a in- cotava as ilhas açucareiras br itânicas. Seria prejudicar a
si mesmo para vingar-se do plantador de cana. Em vez
fluência de Beckford junto a Chatham era notória. "Assim, disso, o continente continuou a abastecer as ilhas inglesas.
Guadalupe, uma das maiores aquisições que a Grã-Breta- Mas, em troca, insistiam no pagamento à vista, o que
nha já fez, adquire muitos inimigos poderosos, em virtude drenava as ilhas de espécie e erguia o espectro da infla-
de pontos de vista privados, e nada tem a alegar a não ção. Em 1753, o valor total do comércio entre as colônias
ser a sua utilidade pública, uma vantagem freqüentemente do Norte e a Jamaica era estimado em 75.000 libras. Os
considerada um oponente muito fraco para o interesse colonizadores do Norte levaram em troca produtos no valor
privado de alguns." ss Os plantadores das índias Ociden- de 25.000 libras; o resto foi pago em dinheiro.42 Com o
tais tinham dois objetivos em vista. Queriam impedir os dinheiro, eles foram às ilhas francesas onde compraram
franceses de tornar o Canadá uma América do Norte, açúcar a preços mais baratos e o melaço que o plantador
uma fonte de suprimentos para suas colônias açucareiras francês n ão tinha permissão para destilar em rum porque
- um medo infundado, como o plantador de cana bri- iria competir com os conhaques franceses. Os plantadores
tânico compreendeu depois de 1783 quando o Canadá de- de cana britânicos perderam um mercado para seu açúcar
monstrou ser um substituto impróprio das colônias do e rum. Seus competidores franceses roubaram-lhes esse
Norte perdidas; e, mais importante, estavam determinados mercado, enquanto além disso recebiam os suprimentos
a manter um temido competidor fora do mercado de de que necessitavam para capacitá-los a competir em con-
açúcar britânico. Assim Chatham conquistou nas ilhas dições mais vantajosas com os ingleses.
128 129
Esse complicado comércio triangular das colônias do nando-os brancos". 49 Esses "indivíduos desproporcionais
continente era uma violação completa do esquema impe~ das índias Ocidentais",50 que estavam alegando dificulda-
rial britânico. Os plantadores de cana achavam-na con~ des e apelando para a clemência do Parlamento, não eram
denável. A menor ilha açucareira, no ponto de vista deles, pobres nem indigentes. Eram plantadores ricos que quer iam
era dez vezes mais valiosa para a Inglaterra do que a rodar em suas luxuosas carruagens de ouro pelas ruas de
N?va Inglaterra.43 Era uma disputa, argumentavam eles, Londres à custa dos norte-americanos. 51 "Que diríamos
nao entre uma colônia e outra, mas entre a Inglaterra e a de um homem que pedisse a nossa caridade vestido num
França, pelo controle do comércio do açúcar.44 paletó bordado?" 52 Se os interesses das colônias do con-
Os mercantilistas ortodoxos endossavam essa opinião. tinente como também os dos consumidores ingleses tives-
O Governo francês, alegava-se, não somente era conivente sem de ser sacrificados em benefício de um punhado de
no gesto, mas também o incentivava, a fim de deprimir mimados magnatas do açúcar da minúscula Barbados,
as colônias açucareiras britânicas.4s Postlethwayt cha- então seria melhor que essa ilha afundasse no mar.53
mou-o de comércio licencioso e pernicioso, vendo pronta- "Parece-me", escreveu John Dickinson, "não haver para-
mente que isso "contribuíra imensamente para afrouxar doxo em dizer que o público seria um ganhador tão grande,
a .dependênci~ de nos~as ~olônias com respeito à mãe-pá- se as propriedades aqui (nas índias Ocidentais) fossem tão
tna e produzira tal llgaçao de interesses entre elas e as moderadas que nem uma décima parte dos cavalheiros
da França, como tendera a aliená-las da Grã-Bretanha e a das índias Ocidentais que agora ocupam cadeiras na Câ-
tornar bem diferente para elas que estivessem sob um mara dos Comuns pudesse obter essa honra freqüente-
Governo francês ou inglês".46 Chatham repetiu Postle- mente dispendiosa". 54 A Pensilvânia apresentou um argu-
thwayt. Era "um comércio ilegal e muito pernicioso ... mento curioso: as ilhas eram menos úteis à Inglaterr\3. do
práticas odiosas, extremamente subversivas de todas as ' que o continente; seus escravos andavam nus, tinham
leis e altamente repugnantes ao bem-estar deste reino".47 poucos residentes brancos, o grande calor de seu clima
Não está claro, porém, por que esse comércio americano destruía um bom número de marinheiros britânicos úteis.55
foi escolhido para ser condenado. Não era diferente do As exportações inglesas, especialmente as de lã, sofreriam
comércio realizado pela Jamaica com as colônias espanho- consideravelmente se as colônias do Norte fossem preju-
las, pelo qual muito açúcar colonial espanhol entrava dicadas.s6 As índias Ocidentais Britânicas não podiam
clandestinamente na Inglaterra como produto colonial consumir toda a produção da Nova Inglaterra, nem forne-
inglês. A política norte-americana dos colonos de forne- cer suprimentos de melaço a preços suficientemente baixos
cer provisões aos plantadores franceses não era pelo menos para as colônias do Norte. Era uma atitude de espírito
mais censurável do que a política britânica de fornecer~ de porco "impedir que seus co-súditos recebessem de outros
-lhes escravos. o que eles próprios não fornecem" .57 Em 1763, toda a
Os colonizadores do continente replicaram que "o importação, com exceção de 3%, de melaço de Massachu-
único grande fim sempre visado pelos plantadores de cana setts vinha das índias Ocidentais Francesas; as índias
(era) que podiam elevar quaisquer preços que achasse~ Ocidentais Britânicas mal forneciam um décimo da impor-
. conveniente cobrar de seus co-súditos, mais especialmente tação de Rhode Island e Massachusetts. O negócio de
os da América do Norte, pelas coisas necessárias à vida."48 destilação ocupava um lugar importante na economia
Era um absurdo que os plantadores tentassem manter os colonial. Massachusetts tinha sessenta destilarias em 1763,
preços de monopólio na Inglaterra quando as leis da oferta Rhode Island trinta. Além disso, somente por meio desse
e da procura estavam atuando em toda a Europa para comércio com as índias Ocidentais Francesas era que
reduzir o preço do açúcar como reação a um aumento da Rhode Island podia fazer remessas para a Inglaterra de
oferta; seria sensato que eles "rezassem por uma lei do 40.000 libras por ano. "Sem esse comércio", protestava a
Parlamento que os capacitasse a lavar seus negros tor- colônia, "seria, e sempre será, inteiramente impossível que
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os habitantes desta colônia se· sustentem, ou paguem uma derou que proibir aquele comércio seria estimular os fran-
quantidade considerável de artigos britânicos."58 Quanto ceses a desenvolver o Canadá.64
mais comércio tivessem com as colônias estrangeiras, alegou O Parlamento manteve-se leal ao Rei Açúcar e ao
Colden, tanto maior seria seu consumo das manufaturas interesse das í ndias Ocidentais. "Foi estabelecido como
britânicas. 59 fundamental que as ilhas eram as únicas colônias úteis
Se algum argumento podia amolecer o coração do que tínhamos e que o continente era antes uma amola-
mercantilista, era esse. Foi a alegação de um importante ção." 65 A Lei do Melaço de 1733 foi um triunfo para os
mercantilista, William Wood. Escrevendo ainda em 1718, plantadores de cana. Proibia as exportações americanas
para as ilhas estrangeiras e impunha tarifas elevadas à
ele estava disposto a permitir o comércio entre o continente entrada do açúcar e melaço estrangeiros. Foi, escreveu
e as plantações estrangeiras nas índias Ocidentais. Argu- Pitman, "um desafio ao progresso futuro de toda a região
mentou que, por meio desse comércio, as manufaturas desde Portland a Baltimore".66
inglesas seriam introduzidas clandestinamente nas ilhas Era uma coisa, porém, aprovar a Lei, outra coisa pô-la
francesas; em troca, os norte-americanos não poderiam em execução. Como alardeava James Otis, nem mesmo o
obter ouro nem prata, mas obteriam o que era exatamente Rei da Inglaterra, acampado no "terreno comum" de Bos-
tão valioso, os produtos desses países. "Isso talvez não ton à frente de 20.000 homens, poderia impor a obediência
agrade aos nossos plantadores; mas, se eles não admitirem àquela Lei.67 O desrespeito às leis fora elevado à virtude
que seja de seu interesse em particular, tenho certeza de cardeal da prática econômica americana, os funcionários
que não podem contestar que seja do interesse da Grã- aduaneiros executavam a tarefa lucrativa de fechar os
-Bretanha em geral. Pois por esse meio faremos que as olhos, ou pelo menos de não abri-los mais do que lhes
colônias e plantações estrangeiras sejam, com efeito, as exigisse o seu interesse particular. Como dizia a petição
colônias e plantações da Grã-Bretanha." O comércio au- da Pensilvânia de 1751: "toda comunidade pode permitir-se
mentaria a frota mercante e a marujada; aumentaria o alguns maus elementos". 68 A Lei de Tarifas do Açúcar de
suprimento da produção colonial para ser reexportado pela 1764 repetia as determinações da medida legislativa ante-
Inglaterra. Uma condição apenas deve ser respeitada: ri.or; para desencorajar o contrabando, porém, as tarifas
em troca de seus suprimentos, os americanos não devem· baixavam, mas tinham de ser cobradas. A lei causou, no
adquirir manufaturas estrangeiras.Bo dizer do governador Bernard, um sobressalto maior na
Isso era um argumento curioso para um mercantilista América do que causaria a tomada do Forte William
e antecipava a política do século XIX em muitos aspectos. Henry, em 1757, 69 e frisou que era um golpe maior à
Contrariaria os plantadores de cana-de-açúcar, mas con- consciência colonial revoltada do que a Lei do Selo.* Os
servaria a lealdade do continente. Mas era uma heresia norte-americanos comecaram a irritar-se com a inconve-
rematada contra a fé mercantilista. Os amigos do conti- niência de serem súdit"os britânicos. A tentativa de pôr
nente pediram então cautela. Não deviam, disse Ogle- a Lei em vigor e reprimir o contrabando levou diretamente
thorpe, "instigar ou levantar uma colônia para a destrui- à Revolução Americana. Era isso que John Adams tinha
ção ou detrimento de outra".61 Se o auxílio ou estímulo em mente quando declarou que não sabia por que os
americanos "deviam envergonhar-se de confessar que o
solicitado pelos plantadores parecia ser um dano para o melaço foi um ingrediente essencial na independência
império em geral, ou se parecia que faria mais mal a americana".70
outras partes do império do que bem às índias Ocidentais,
o auxílio devia ser recusado.62 Sir John Barnard advertiu
que nem todo o exército de funcionários do imposto de * Stamp Act (Lei do Selo), lei do Parlamento britânico exigindo
que as colônias americanas apusessem um selo, de valor va-
consumo poderia evitar o contrabando de uma mercadoria riável, aos livros e documentos. Aprovada em 1765, foi revogada
essencial à prosperidade do continente.63 Heathcote pon- no ano seguinte. (N. do T.)

132 133
nente foi reconhecida, o interesse econômico dos planta-
dores de cana levou-os a fazer a sugestão revolucionária
"Quando, no decurso dos acontecimentos humanos, de que a Lei de Navegação "deve adaptar-se a toda alte-
torna-se necessário que um povo dissolva os vínculos po- ração material de circunstâncias ou seus dispositivos não
líticos que o ligam a outro . .. " Jefferson escreveu aqui serão mais cabíveis ou salutares".75 Os americanos esta-
apenas uma parte da verdade. Eram econômicos, não vam igualmente cônscios dessa interdependência. "O co-
políticos, os vínculos que estavam sendo dissolvidos. Uma mércio das ilhas das índias Ocidentais", escreveu Adams,
nova era começara. O ano de 1776 distinguiu-se pela De- "faz parte do sistema de comércio americano. Eles não
claração da Independência e pela publicação da Riqueza podem passar sem nós, nem nós sem eles. O Criador nos
das Nações. Longe de acentuar o valor das ilhas açuca- colocou no globo numa situação tal que temos necessidade
reiras, a independência americana assinalou o início do uns dos outros". 76 Na Inglaterra, Adam Smith e William
declínio ininterrupto daquelas ilhas, sendo voz corrente Pitt apelavam em vão para que se permitisse que as antigas
na época que o ministério britânico perdera não somente relações econômicas continuassem. Mas, como Chalmers
treze colônias, mas também oito ilhas. afirmou, uma comunidade de 72.000 senhores e 400.000
A independência americana destruiu o sistema mer- escravos era muito insignificante para permitir o sacri-
cantil e desacreditou o antigo regime. Coincidindo com fício dos interesses ingleses essenciais. 77 "A Lei de Nave-
as etapas iniciais da Revolução Industrial, ela estimulou gação", escreveu Lorde Sheffield, "a base de nosso grande
aquele crescente sentimento de repulsa ao sistema colo- poder no mar, deu-nos o comércio do mundo. Se alte-
nial que Adam Smith expressava, que se elevou a um rarmos essa Lei, permitindo que qualquer Estado comercie
verdadeiro crescendo de denúncia no auge da era do livre- com nossas ilhas ... estaremos abandonando a Lei de Na-
-câmbio. Educado na mesma escola que Adam Smith, v~~ação e sacrificando a marinha da Inglaterra".7B A opi-
Arthur Young, o preconizador da revolução agrícola na mao de Lorde North representava a quinta-essência do
Inglaterra, extraiu importantes lições da revolta americana imperialismo britânico: "Os americanos se recusaram a
e chamou as colônias de coisas incômodas. "Essa grande comerciar com a Grã-Bretanha, foi apenas justo que não
lição da política moderna", escreveu ele com aspereza, "a tivessem permissão para comerciar com qualquer outra
independência da América do Norte, devia ampliar o ho- nação." 79
rizonte de nossa política comercial." Não que as ilhas Os americanos se tornaram estrangeiros, sujeitos a
açucareiras não fossem de importância; "foram tornadas todos os dispositivos das Leis de Navegação, e as ilhas
nocivamente de grande relevo: mas não têm a importância foram desviadas de seu mercado natural, de acordo com a
que seus defensores falsamente alegam". 71 situação histórica mundial daquela época. A Nova Escó-
Os plantadores de cana estavam plenamente cons- cia seria transformada noutra Nova Inglaterra. Mas a
cientes das implicações da secessão americana. A Lei do Nova Escócia não podia ser construída da noite para o dia
Selo era tão impopular com os negociantes das ilhas como e nada podia compensar a perda da América. A necessi-
era no continente; os selos eram queimados publicamente dade dos produtos americanos não diminuíra com a inde-
ao acompanhamento de gritos de liberdade. 72 "Só Deus pendência, apenas o fornecimento é que se tornara mais
sabe", escreveu Pinney, de Nevis, assim que as hostilidades difícil. As ilhas das Índias Ocidentais solicitavam a cria-
irromperam, "o que será de nós. Devemos morrer de fome ção de portos livres,80 os suprimentos americanos conti-
ou ficar arruinados."73 Foi pior. Aconteceram as duas nuavam a penetrar nas ilhas britânicas por rotas tortuo-
coisas. Quinze mil escravos morreram de fome na Jamaica, sas que resultavam simplesmente no aumento dos preços
somente entre 1780 e 1787,74 e a independência americana para o plantador britânico, enquanto em tempo de guerra
foi a primeira etapa do declínio das colônias açucareiras. sérias atenuações da proibição do comércio americano
Depois que a independência das colônias do conti- tinham de ser permitidas para aliviar as dificuldades e
134 135
apertos das ilhas. Em 1796, as exportações americanas falida, enquanto sete haviam sido abandonadas;B7 e os
para as índias Ocidentais foram trê3 vezes a cifra refe- plantadores das índias Ocidentais, endividados na soma
rente a 1793; as exportações britânicas declinaram em enorme .de ,v~nte milhões, podiam ser desafiados "sob qual-
cinqüenta por cento. 81 Em 1801, as exportações ameri- quer prmc1p10 para provarem que qualquer sistema novo
canas para as índias Ocidentais foram quase cinco vezes os envolveria tão profundamente quanto aquele no qual
o que haviam sido em 1792. Cinco sextos das exportações se achavam até agora". 88 As exportações de São Domingos,
em 1819 vieram através do Canadá e das ilhas suecas e em 1788, foram o dobro das da Jamaica· em 1789 foram
dinamarquesas.82 avaliadas c~mo sendo acima de um terÇo a mais 'do que
Impedidos de comerciar com as índias Ocidentais Bri- as exportaçoes de todas as índias Ocidentais Britânicas
tânicas, os americanos voltaram-se cada vez mais para reu~idas. No período de dez anos antes de 1789, a popu-
as ilhas estrangeiras; a deflagração da guerra entre a laça~ negra e a produção total de São Domingos quase
Inglaterra e a França e a destruição da marinha de guerra duphcar~~. 89 Todas as co.lôni::s açucareiras inglesas, jac-
e mercante francesas tornaram os Estados Unidos o grande to~-se Hilhard d'Auberteml, nao se igualavam a São Do-
transportador da produção francesa e espanhola. O trans- mmgos francesa; 90 e os plantadores britânicos admitiram
porte americano da produção das demais colônias das que não podiam mais continuar a "manter no mercado
índias Ocidentais para a Europa aumentou de menos de ~uropeu aquela ascendência que, agora receamos, está
um milhão de libras de café e 75.000 libras de açúcar, em Irreparavelmente perdida para a Grã-Bretanha".91 As ex-
1791, para 47.000.000 de libras de café e 145.000.000 de portações coloniais francesas, mais de oito milhões de li-
l!Pras de açúcar, em 1806.83 Apesar das guerras, no fim bras, e as importações, mais de quatro milhões, empre-
df> século XVIII a produção das plantações estrangeiras garam 164.~00 toneladas de navios e 33.000 marinheiros;
continuava a competir com a produção britânica nos mer- as exportaçoes coloniais britânicas, cinco milhões de libras
cados da Europa. e as importações, menos de dois milhões, empregaran{
Mas o maior desastre para os plantadores britânicos 148.000 toneladas de navios e 14.000 marujos.92 Em todos
de cana foi que a revolta da América os deixou frente a os aspectos, as colônias açucareiras se tinham tornado
frente com seus competidores franceses. A superioridade imensamente mais importantes para a França do que eram
das colônias açucareiras francesas era para os plantadores para a Inglaterra.
britânicos o I;Jrincipal dentre os inúmeros II,lales que esca- A~ A:ntilhas ~eixaram de ser um lago britânico quando
param da caixa de Pandora que era a Revolução Ameri- as colomas americanas conquistaram sua independência.
cana. Entre 1783 e 1789, o progresso das ilhas açucareiras O centro de gravidade do Império Britânico deslocou-se
francesas, de São Domingos especialmente, foi o fenômeno do mar das Antilhas para o oceano índico das índias
mais espantoso do desenvolvimento colonial. A fertilidade Ocidentais para a índia. Em 1783, ano n{omentoso o
do solo das colônias francesas foi decisiva. O açúcar Primeiro-Ministro Pitt começou a tomar um interesse a-dor-
francês custava um quinto menos do que o britânico a malmente grande pelos domínios britânicos no Oriente.93
produção média em São Domingos e na Jamaica era' de Em 1787, Wilberforce foi instigado por Pitt a patrocinar a
cinco para um. 84 Durante os anos de 1771 a 1781, as plan- proposta para a abolição do tráfico de escravos.94 No
tações da família Long na Jamaica obtiveram em média mesmo ano, a Companhia das índias Orientais voltou sua
o lucro de 9,5%, o lucro em 1774 tendo sido tão elevado atenção para o cultivo da cana da índia,as e em 1789 um
quanto 16 %.85 Em 1788, o lucro líquido na Jamaica foi de comitê da companhia recomendou formalmente seu cultivo
4%, em comparação com a média de 8 a 12 % em São à diretoria da empresa.96
Domingos. 86 Em 1775, a Jamaica tinha 775 plantações; Antes de 1783, o Governo britânico estava uniforme-
em 1791, de cada cem, vinte e três tinham sido vendidas mente coerente em sua política para com o tráfico de
por divida, doze estavam nas mãos dos síndicos de massa escravos. O desligamento das treze colônias diminuiu

136 137
1 ... • :,. • • . ,. )> ~

consideravelmente o numero de escravos no 1mper10 e primeiro dos livre-cambistas, perguntava sarcasticamente


tornou a abolição mais fácil do que seria se as treze col_?- "so o afastamento dos Estados Unidos do Império Britâ-
ni.as fossem inglesas quando o descaroçador de algodao hlco, visto como uma simples questão de comércio, tinha
ressuscitou uma economia escrava moribunda no Sul. causado dano a este país. Se a emancipação dos ameri-
"Enquanto a América fosse nossa", escreveu Clarkson em canos da servidão comercial do sistema colonial tinha sido
1788, "não havia possibilidade de que um .ministro sa~er­ realmente prejudicial ao comércio e indústria da Grã-
dote atendesse aos lamentos dos filhos e filhas da Afr1ca, -Bretanha. . . Não há nenhuma advertência útil a tirar
por mais que sentisse o ~ofrime~to deles. :ç>o m~smo desse exemplo?" 100 Havia, mas Rip van Winkle,* narcoti-
lugar, que foi outrora o me10 de cnar ui? obstaculo J?~u­ zado pela poção do mercantilismo, dormira durante cem
perável para o alívio dessa gen~e infeliz, no~sa afe1çao? anos em sua plantação de cana-de-açúcar.
por uma maravilhosa concatenaçao de acontecimentoJ, foi
tirada e uma perspectiva apresentada diante de nós, o que
mostra ser uma política para remover sua dor."97
o antigo sistema colonial se baseava na idéia de que,
sem o monopólio do mercado colonial, as manufaturas bri-
tânicas não seriam vendidas. O outro aspecto do quadro
monopolista, o monopólio colonial do mercado interno,
baseava-se na mesma pressuposição. O antigo sistema
colonial, noutras palavras, era uma negação do princípio
de que o comércío encontrará suas saídas nat~rais. A ~n­
dependência americana desmentiu essas falácias. Em JU-
lho de 1783 uma Ordem do Conselho* decretava o livre-
-câmbio ent~e a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. As
importações britânicas das ex-colônias aumentaram 50%
entre 1784 e 1790; quando a invenção do descaroçador de
algodão entrou em cena, as importações britânicas au-
mentaram de nove milhões de dólares, em 171)2, para quase
31 milhões, em 1801.98 "O comércio entre a mãe-pátria
e a colônia" como afirmou Merivale em 1831, "era apenas
-
um tráfico ' insignificante, em comparaçao com aquele
enorme intercâmbio internacional, o maior que o mundo
já conhecera, que se estabeleceu entre elas quando troca-
ram o vinculo da sujeição pelo da igualdade."99 Esses fatos
impressionaram a classe capitalista, que estava começando
a encarar o império do ponto de vista de lucro e perda, e
contribuíram para o sucesso do livro de Adam Smith em
minar a filosofia mercantilista. Em 1825, Huskisson, o
* Rip van Winkle, personagem e título de um conto do Sketch
.. Orde~ in ~ouncil ("ordem em conselho"), ordem do Rei (ou Book, de Washington Irving; trata-se de um colono holandês
Rainha) emitida juntamente e por sugestão do conselho pri- nos Estados Unidos que, ao ir caçar nas montanhas, cai num
vado. Geralmente só tem força de lei quando sancionada pelo sono que dura vinte anos e, quando acorda, encontra tudo mu-
Parlamento. <N. do T.) dado, ninguém mais se lembrando dele. <N. do T.)

138 139
7
O DESENVOLVIMENTO
DO CAPITALISMO BRITÂNICO
1783-1833

Longe de ser um desastre nacional, como era geralmente


considerada na Inglaterra e no mundo na época, a inde-
pendência americana na realidade assinalou o fim de
uma era antiquada e o aparecimento de uma nova. Nessa
nova era não havia lugar para o monopólio das índias
Ocidentais. Devemos agora traçar a expansão das forças
produtivas na Inglaterra, estimuladas e tornadas maduras
pelo sistema colonial, e ver como esse sistema colonial na
nova era atuou como um freio que teve de ser removido.

Em junho de 1783, o Primeiro-Ministro, Lorde· North,


elogiou os quacres adversários do tráfico de escravos por
sua humanidade, mas deplorou que a abolição desse trá-
fico fosse uma impossibilidade, já que o comércio se tor-
nara necessário para quase todas as nações da Europa. 1
Os traficantes de escravos e os plantadores de cana esfre-
garam as mãos de alegria. As colônias das índias Oci-
dentais ainda eram os encantos do império, as jóias mais
preciosas do diadema britânico.
Mas os estrondos da tempestade inevitável ainda eram
audíveis para aqueles que tinham ouvidos para ouvir. O
ano de Yorktown era o ano da segunda patente de
Watt, aquela do movimento rotativo que convertia a má-
quina a vapor numa fonte de força motriz. e tornava a
Inglaterra industrial, no dizer de Matthew Boulton, "louca
pela fábrica a vapor".2 A vitória de Rodney sobre os fran-
ceses, que salvou as colônias açucareiras, coincidiu com a
utilização por Watt da força expansiva do vapor para
obter o curso duplo para seus pistões. O tratado de paz de

141
178'3 estava sendo assinado enquanto Henry Cort traba- nham uma força média de trabalho de 300 em 1815; em
lhava em seu processo de pudelagem que revolucionou a 1832, a cifra subira para 401.7 A primeira máquina de
indústria do ferro. O palco estava montado para aquele fiar a vapor foi instalada na Inglaterra em 1785, e em
desenvolvimento gigantesco do capitalismo britânico que Manchester em 1789. Entre 178'5 e 1800, 82 máquinas a
abalou a estrutura política do país em 1832 e, por conse- vapor foram construídas para fábricas de algodão, 55
guinte, tornou possível o ataque ao monopólio em geral delas somente em Lancashire. 8 A primeira fábrica de
e ao monopólio das índias Ocidentais em particular. teares a vapor foi erguida em Manchester em 1806. Em
1835, havia 116.800 teares mecânicos em toda a Grã-Bre-
tanha, todos, com exceção de 6 % , na indústria algodoeira.9
Em 1833, nem uma só indústria britânica alcançara Em 1785, as exportações das manufaturas britânicas
uma revolução técnica completa; os tipos antigos de orga- de algodão ultrapassaram em um milhão de libras, em
nização subsistiam em toda ·parte e não simplesmente valor; 10 em 1830 foram de 31 milhões.1 1 O pano estampado
como fósseis ou curiosidades. A lã ainda era dada fora na Grã-Bretanha aumentou de 20 milhões de jardas, em
para ser fiada, o fio para ser tecido, a haste de ferro para 1796, para 347 milhões, em 1830.12 A população empregada
ser tornada pregos, o couro para ser devolvido como sapa- pela indústria elevou-se de 350.000, em 1788,13 para 800.000,
tos. Os teares eram geralmente trabalhados à mão, as em 1806.14 Havia 66 fábricas de algodão em Manchester
máquinas de fiar de madeira existiam aos montes e a e Salford em 1820, 96 em 1832.15 O algodão estava "pro-
palavra spinster se referia a uma categoria baseada na duzindo homens como cogumelos".16 Oldham, em 1760,
produção, isto é, significava "fiandeira", e ainda não tinha era uma aldeia de 400 habitantes; em 1801, tinha 20.000.
ligação com o matrimônio, como acontece hoje que sig- Em 1753, Bolton tinha uma só rua, escabrosa, mal calçada;
nifica "solteirona".a em 1801, a população era 17.000.17 A população de Man-
Mas se a produção doméstica ainda subsistia, deixara chester aumentou seis vezes entre 1773 e 1824.18 Os tece-
de ser típica. A fase inicial da Revolução Industrial estava lões e manufatores de algodão, não-representados na pro-
ligada à força hidráulica; a seguinte, à força do vapor. A cissão das profissões, em 1763, por ocasião da coroação de
aplicação do vapor foi, porém, um processo gradual. No Jorge III, foram a característica mais notável da procis-
início do século XIX, seu uso na indústria não era uni- são da coroação de Jorge IV, em 1820.19 Num sentido mais
versal nem difundido. O número total de máquinas exis- amplo, foi a coroação do Rei Algodão.
tentes no Reino Unido era de 321, o cavalo-vapor total eleva- O capitalista de Manchester, de sua montanha, como
va-se a 5.210.4 De acordo com Clapham, que escreveu em Moisés em Fasga, contemplava a Terra Prometida. As
fins da década de 1920, o cavalo-vapor total de Glasgow importações britânicas de algodão subiram de 11 milhões
e de Clyde em 1831 impulsionaria um cruzador moder- de libras, em 1784,2° para 283 milhões, em 1832.21 O Novo
no.5 Mas, no dizer de Mantoux, "havia mais diferença Mundo, graças a Eli Whitney, veio, não pela última vez,
entre uma máquina de fiar e uma oficina doméstica como em socorro do Velho. Os Estados Unidos forneceram menos
existiam lado a lado, entre 1780 e 1800, do que entre uma de uma centésima parte das importações britânicas de
fábrica daquela época e uma moderna".6 algodão nos anos de 1786 a 1790, três quartos nos anos
A indústria algodoeira era a indústria capitalista por de 1826 a 1830, quatro quintos de 1846 a 1850. O plantador
excelência. Um cálculo em 1835 deu uma cifra média de das índias Ocidentais Britânicas, fiel a seu primeiro amor,
mão-de-obra utilizada de 175 para todas as fábricas de o açúcar, não podia acompanhar o passo das necessidades
algodão, 125 para as de seda, 93 para as de linho, 44 para de Manchester. As ilhas açucareiras forneceram sete dé-
as de lã. O tamanho da fábrica de algodão média era cimos das importações britânicas de algodão entre 1786 e
algo sem precedente na história econômica britânica. 1790, um qüinquagésimo entre 1826 e 1830, menos de uma
Quarenta e três fábricas importantes em Manchester ti- centésima parte entre 1846 e 1850.22 As índias Ocidentais

142
tinham erguido Manchester no século XVIII. Mas haviam- cortar parafusos com precisão. Em 1834, a firma de
-se tornado um ponto minúsc.ulo no horizonte ilimitado Wllllnm Fairbairn oferecia-se para produzir uma fábrica
de Manchester no ano em que seus magnatas adventícios qulpada, por qualquer preço e para qualquer negócio,
enviaram seus primeiros representantes a Westminster, lugnr ou força motriz.3 1
e isso estava cheio de presságio para aqueles que persistiam Em 1832, o fabricante de ferro, como capitalista e
em sua ilusão de que os laços do império, como os do mprcsário, situava-se em geral no mesmo nível que o
matrimônio, eram indissolúveis. fnbrlcante de tecidos de algodão.32 No Parlamento Re-
formado, não somente o algodão, mas o ferro também, esta-
vn prestes a abandonar o monopólio como um processo já
Menos espetacular, talvez, mas não menos significa- utt.rapassado. As exportações de ferro em barras mais do
tivo, foi o progresso obtido nas indústrias metalúrgicas, que duplicaram entre 1815 e 1833 e, em 1825, a Grã-Bre-
sem o qual o reino da maquinaria teria sido impossível. tanha permitiu- o que resultou ser uma decisão fatal-
A produção de ferro gusa da Grã-Bretanha aumentou dez um abrandamento da proibição à exportação de máquinas.
vezes entre 1788 e 1830.23 Havia três vezes mais fornos Os trilhos britânicos cobriram as ferrovias da França e dos
em funcionamento em 1830 do que em 1788.24 O ferro Ec;tados Unidos. As colônias açucareiras adquiriram um
enviado através dos canais de Glamorganshire e de Mon- décimo das exportações de ferro britânicas em 1815, um
mouthshire aumentou duas vezes e meia entre os anos de trinta e três avos em 1833; os Estados Unidos um quarto
1820 e 1833; de Cyfartha, a exportação duplicou; de Dow- em 1815, um terço em 1833. 33 Os plantadores de cana,
lais, triplicou durante o mesmo período.25 Em 1800, a que durante tanto tempo haviam gozado o direito incon-
proporção da fabricação nacional em relação à importa- testável a uma cadeira de camarote, agora mal podiam
ção estrangeira era de quatro para um; em 1828, de cin- encontrar um lugar em pé.
qüenta para um.26 "A Grã-Bretanha depois de Waterloo",
escreve Clapham, "retinia o ferro como uma forja".27
A fundição do ferro exigia carvão. As minas de carvão "Em minha humilde opinião", escreveu um fabricante
de Northumberland e Durham quase duplicaram em nú- em 1804, "o comércio da lã não pode seguir de perto os
mero, entre 1800 e 1836; a produção aumentou de seis po.ssos do comércio do algodão". 34 A imitação, porém, foi
milhões de toneladas, em 1780, para trinta milhões, em lenta, e a persistência das formas antigas foi mais pro-
1836.28 Uma grande economia ocorreu quando, em 1829, nunciada na indústria da lã. A lançadeira volante não
a invenção do jato quente na fundição do ferro reduziu o entrou em uso geral no West Riding senão em 1800, sendo
combustível de carvão necessário em mais de dois terços.29 que a tecelagem mecânica continuou em fase experimental
O ferro começou a ser empregado numa variedade de até 1830. O tecelão doméstico ainda era um elemento
novos usos - colunas, trilhos, canos de gás e de água, poderoso na produção de lã, e ainda em 1856 somente
pontes, navios. Wilkinson construiu um "templo de ferro metade do número de pessoas que se dedicavam a essa
fundido" para os metodistas, em Bradley, 30 e Londres expe- Indústria trabalhava em fábricas. A fábrica de lã ou
rimentou inclusive a pavimentação de ferro. Mas a maior I'Stambre em 1835 continha em geral, como já vimos,
vitória foi na construção de máquinas. As primitivas npenas um quarto do número de trabalhadores das fábri-
máquinas de tecido eram feitas de madeira, pelos próprios eu.s de algodão.3s
fabricantes ou por encomenda deles. A década de 1820 Em 1817, a produção de artigos de lã no West Riding,
Viu o aparecimento do fornecedor profissional de máquinas, o principal centro dessa indústria, era seis vezes a cifra
feitas com o auxílio de outras máquinas, e o começo da <'Orrespondente a 1738.36 Em 1800, as importações de lã
fabricação de peças permutáveis, o que foi facilitado pela l'ram de 4.000 toneladas; no fim da década de 1830, eram
invenção das novas ferramentas e a descoberta da técnica l'lnco vezes mais. 37 O valor dos tecidos de lã exportados

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subiu de quatro milhões de libras, em 1772, para sete vnlcria a pena", escreveu Boulton em 1769 a propósito
milhões, em 1801. Em 1802, pela primeira vez, foram ([C suas máquinas a vapor, "fazer para três condados
suplantados pelas exportações de manufatura de algodão; npenas, mas acho que me vale bem a pena fazer para o
em 1830, eram cinco milhões de libras, um sexto do valor tllUndo inteiro" .43 O capital britânico, tal como a produção
das exportações de algodão.38 A população aumentava britânica, estava pensando em termos mundiais. "Entre
rapidamente, como nos centros de algodão. Leeds tinha 1815 e 1830", escreve Leland Jenks, "pelo menos cinqüenta
uma população de 17.000 habitantes, nas vésperas da Re- milhões de libras foram investidos mais ou menos perma-
volução Americana; sete vezes mais, em 1831. Halifax nentemente nos titulas dos Governos europeus mais está-
mais do que duplicou sua população, entre 1760 e 1831; a veis, mais de vinte milhões foram investidos numa forma
população de Bradford aumentou duas vezes e meia entre ou noutra na América Latina e cinco ou seis milhões
1801 e 1831; a de Huddersfield duplicou. Durante esses muito serenamente se encaminharam para os Estados
trinta anos, a população de todo o West Riding subiu de Unidos". 44 Mas ninguém adiantaria um xelin sobre as plan-
564.000 para 980.000 habitantes.39 tações das índias Ocidentais. 4s
Até 1815, a Grã-Bretanha dependia, quanto a seus Entre 1820 e 1830, mais de um terço das exportações
suprimentos de lã, principalmente da Espanha, Portugal dos Estados Unidos foram para a Grã-Bretanha, e os Es-
e Alemanha. O Comandante John Macarthur, a caminho tados Unidos adquiriram um sexto das exportações britâ-
de Nova Gales do Sul, comprou alguns carneiros merinos nicas, o que constituía mais de dois quintos de suas impor-
no Cabo. Em 1806, o primeiro embarque de lã australiana tações totais. 46 Em 1821, os Estados Unidos adquiriram
(246 libras) chegou à Inglaterra. Vinte e quatro anos um sétimo das importações britânicas, em 1832, um nono;
mais tarde, a importação foi de 3.564.532 libras. 40 Em 18·28, as exportações aumentaram em valor de um décimo.47
a lã australiana era descrita como sendo de extraordinária As compras britânicas de algodão sulista estimularam a
macieza e de qualidade bem superior a qualquer outra expansão do reino do algodão; os bancos particulares e
variedade, prevendo-se que daí a quinze ou vinte anos a estatais do Sul procuravam empréstimos em Londres.4s
Grã-Bretanha estaria obtendo da Austrália tanta lã fina As revoluções na América Latina abriram uma ampla
quanto n ecessitava. 41 A previsão foi confirmada. A Aus- perspectiva para o comércio exterior britânico, uma vez
trália gozou no século XIX com respeito à lã "algo que se que as barreiras do mercantilismo espanhol tinham sido
aproximava do tipo de monopólio", como afirma Merivale, postas abaixo, enquanto a antiga aliança da Grã-Bretanha
"que o México desfrutou, nos tempos de sua prosperidade, com Portugal dava-lhe uma posição privilegiada no Brasil.
na produção dos metais preciosos". 42 No novo mundo anti- "O prego está fincado", escrevia Canning exultante, "a
imperialista que surgiu na década de 1840, a ênfase América espanhola está livre, e se nós não dirigirmos
onde o império tinha de ser mantido foi deslocada das nossos negócios desastradamente ela será inglesa" .49 O
ilhas para os continentes, dos climas tropicais para os Brasil comprou um vigésimo das exportações britânicas
temperados, das plantações de negros para as colônias de totais em 1821, um duodécimo em 1832; as exportações
brancos. aumentaram duas vezes e meia.50 As colônias estrangeiras
da América do Norte e do Sul, que adquiriram um tredéci-
mo do comércio britânico total de exportação em 1821,
O poderio mecanizado da Grã-Bretanha estava pondo compraram mais de um sétimo em 1832; as exportações
o mundo inteiro a seus pés. A Inglaterra vestia o mundo, triplicaram em valor durante esses anos. 51 Os novos Go-
exportava homens e máquinas e se tornara o banqueiro vernos latino-americanos encontravam emprestadores solí-
do mundo. Com exceção da índia e Cingapura ~a chave citos nos círculos financeiros ingleses. "Quanto mais um
para o comércio da China - adquiridas em 1819, o Im- país tomava emprestado", diz Jenks, "melhor o seu cré-
pério Britânico era uma expressão geográfica. "Não me dito, assim parecia".52 Liverpool esqueceu-se de Jamaica,

146 147
Granada e ~arbados; negociava e pensava agora em termos algodão. De que adiantava, então, perguntava Manchester
de Valparaiso, Antofagasta, Calhau e Guaiaquil. com indignação, o sistema do monopólio para o industrial
Em 1821, as exportações britânicas para o mundo atin- britânico?58 Seu propósito inicial estava agora, como disse
giram 43 milhões de libras; em 1832, foram de 65 milhões, Merivale, "acossado por meios de sacrifícios de nossa parte,
ll:m aumento de 50 %. 53 Em ambos os anos, a Europa adqui- feitos absolutamente sem qualquer consideração pelos
nu quase metade do total.54 As índias Orientais e a China deles". 59 Se, modificando um pouco as palavras de um
compraram um duodécimo em 1821, um décimo em 1832· autor moderno, as índias Ocidentais Britânicas, em 1832,
as exportações aumentaram em três quartos.ss ' eram, socialmente, um inferno, economicamente, eram, o
Que aconteceu, então, com as índias Ocidentais Bri- que era ainda pior, um anacronismo.oo
tânicas? As exportações para todas as ilhas declinaram
em um quinto, para a Jamaica, em um terço. Em 1821, O mercantilismo completara o seu curso. Era neces-
as índias Ocidentais Britânicas adquiriram um nono do sário apenas dar expressão política à nova situação eco-
total, em 1832, um dezessete avos; em 1821 a Jamaica
comprou um tredécimo, em 18:31, um trinta e três avos.se nômica. A agitação pelo Projeto de Reforma era mais
As índias Ocidentais Britânicas estavam assim se tornando poderosa nos centros industriais e em seus satélites comer-
cada vez mais insignificantes para o capitalismo britânico ciais. Nessa luta política, os donos de escravos das índias
e isso era de profunda importância para uma época err{ Ocidentais estavam vitalmente interessados. "Deus nos
que a doutrina dos rendimentos crescentes estava pene- livre que houvesse algo como forçar o amo a abandonar
trando no corpo do pensamento econômico. Como escreve sua propriedade do escravo! Uma vez adotado esse princí-
Burn: "a julgar pelos padrões do imperialismo econômico, pio e seria o fim de toda propriedade." 61 A escravidão
as colônias das índias Ocidentais Britânicas, um enorme das índias Ocidentais dependia dos burgos podres, e Cob-
sucesso por volta de 1750, eram um fracasso oitenta anos bett só tardiamente reconheceu que "o fruto do trabalho
depois".s7 desses escravos há muito se converteu no meio de nos
Em 1825, além disso, as Leis de Navegação foram mo- tornar escravos em nossa própria terra".62
d~ficadas e as colônias receberam permissão para comerciar Quando o Projeto de Reforma foi rejeitado pela Câ-
diretamente com qualquer parte do mundo. A primeira mara dos Lordes, a imprensa reformista londrina saiu com
cunha na frente monopolista tinha sido introduzida. Foi seus exemplares tarjados de preto e, de noite, em todas
ampliada no mesmo ano, quando o açúcar de Maurícia as igrejas os sinos repicaram. O Castelo de Nottingham,
- .
uma possessao onental adquirida em 1815 foi admitido' de propriedade do Duque de Newcastle, o príncipe dos
em pé de igualdade com o açúcar das índias Ocidentais donos de burgos podres, foi totalmente arrasado por um
Britânicas. O monopólio colonial do mercado interno con- incêndio ateado por uma multidão enfurecida. O repre-
tinuou.. Isso era vital para as índias Ocidentais. No que sentante de Brístol, que se opusera à Reforma na Câmara
concern1a ao capitalista britânico, n enhuma legislação es- dos Comuns, estava em perigo de vida. A municipalidade
pecial era necessária para fazer o plantador de cana das foi saqueada, as cadeias e o palácio do bispo incendiados.
íD:dias Ocidentais comprar mercadorias que o mundo in- Attwood formou a União Política em Birmingham e amea-
teiro estava comprando porque eram mais baratas e me- çou uma revolução. A bandeira tricolor foi hasteada em
lhores. Se Manchester ainda prosperava com "camisas Bethnal Green, Londres; manifestos revolucionários apa-
para pretos", as índias Ocidentais Britânicas não tinham receram e cartazes foram exibidos trazendo a inscrição
o monopólio de negros, e as maiores populações escravas "não se pagam impostos aqui". O Conselho Municipal soli-
dos Estados Unidos e Brasil ofereciam mercados atraentes. citou à Câmara dos Comuns que n ão aprovasse o orça-
O pla~:ltador das índias Ocidentais não pagavam um níquel mento enquanto o Projeto de Reforma não se tornasse lei.
a mais do que seu competidor brasileiro pelos tecidos de A Família Real foi caricaturada e insultada e aconselhada

148 149
a deixàr Londres. Propôs-se um estratagema revolucionário
- a corrida aos bancos: "para impedir o Duque (Welling-
ton) de ir buscar ouro". A revolução era iminente. 63
Os opositores da medida, porém, recuaram depois da 8
promessa relutante do Rei de criar novos pares suficientes,
e o Projeto de Reforma se tornou lei. A estrutura política A NOVA ORDEM INDUSTRIAL
da Inglaterra chegou a um acordo com a revolução eco-
nômica que ocorrera. No novo Parlamento, os capitalistas,
suas necessidades a aspirações eram supremos. Outrora, o
comércio colonial significava tudo. Na nova sociedade ca- Era essa extraordinária expansão industrial que os mono-
pitalista, as colônias ocupavam um lugar insignificante. polistas das índias Ocidentais teriam de enfrentar. Eles
"A exportação de um pedaço de pano enfestado inglês", tinham as vantagens do prestigio e do costume, suas
escreveu Eden em 1802, "é mais benéfica para nós do que grandes contribuições à economia britânica no passado .e
a reexportação de uma quantidade de musselina de Ben- uma posição fortemente entrincheirada. Podemos ver hoJe
gala ou de café das índias Ocidentais de igual valor". 64 que eles estavam condenados, que os liliput!anos não po-
Em 1832, um funcionário da Companhia das índias Orien- diam subjugar Gulliver, nem suas flechas o mcomodavam.
tais explicava a uma comissão parlamentar que tecidos Falando aos estudantes de Oxford, em 1839, Merivale
de lã eram exportados para a China, mesmo quando o advertiu que "a rápida maré dos acontecimentos mundiais
mercado não estava bom, por uma questão de tradição e está nos levando inevitavelmente a ultrapassar o ponto
dever: "isso era considerado uma obrigação moral".65 O em que a manutenção dos sistemas col~';ia~s e leis _?e
comércio por "obrigação moral" era um dos pecados mor- navegação era praticável, quer fossem deseJaveis, quer nao.
tais no evangelho segundo Manches ter. Somos carregados indefesamente pela corrente; podemos
lutar e protestar, e nos admirar pelo fato de que as bar-
reiras que a previdência antiga erguera ~ol'!tr8: a corren~e
vergam agora como caniços ante a sua violencia, mas nao
podemos mudar nosso destino. O monopólio das ilhas das
índias Ocidentais não pode resistir .. . "1 Os plantadores
das índias Ocidentais, porém, não podiam ver isso e agiam
como fazem todos os interesses consolidados. Ofereceram
uma luta desesperada, "combatendo com o auxílio de sua
riqueza acumulada contra o princíp.io infiitrante da d.~~a­
dência'',2 desprezando todas as cons~_deraçoes e ?onsequen-
cias e visando apenas à manutençao de seu Sistema en-
fermo. ,
O ataque aos plantadores das índias Ocidentais foi
mais do que um ataque à escravidão. Foi um ataque ao
monopólio. Seus adv~rsários er~m .não somente. os huma-
nitaristas mas tambem os capitalistas. O motivo para o
ataque não era somente que o sistema econômico das í~­
dias Ocidentais era corrupto, mas que também era tao
pouco rentável, e por essa razão apenas ~ua des~ruição
era inevitável.3 O representante da Jamaica queixou-se

150 151
em 1827 que "a causa das colônias em geral, porém mais Cristo era o Livre-Câmbio, e o Livre-Câmbio era Jesus
especialmente aquela parte que se refere à propriedade de Cristo".s
escravos, é tão sem atração para os oradores fluentes e Se o Trigo era o rei dos monopólios, o Açúcar era a
tão impopular com o público que temos e devemos ter rainha. O ataque às tarifas preferenciais do açúcar das
muito pouca proteção da oratória parlamentar". 4 Hibbert índias Ocidentais foi uma parte daquela filosofia geral
tinha razão apenas em parte. Se a escravidão das índias
Ocidentais era detestável, o monopólio das índias Oci- que em 1812 destruiu o monopólio da Companhia das
índi~s Orientais e, em 1846, as Leis do Trigo da Inglaterra.
dentais era impopular, e o ódio unido dessas duas coisas A Liga contra as Leis do Trigo, disse seu tesoureiro foi
era mais do que as colônias podiam suportar.s
O ataque dividiu-se em três fases: o ataque ao tráfico "es~abelecida com base no mesmo princípio justo q~e a
de escravos, o ataque à escravidão, o ataque às tarifas Sociedade Antiescravista. O objetivo daquela sociedade
preferenciais do açúcar. O tráfico de escravos foi abolido era obter para os negros o direito de dispor livremente
em 1807, a escravidão em 1833, a preferência do açúcar em de seu san~ue e .ca~ne, e o objetivo desta era obter para
1846. Os três acontecimentos são inseparáveis. Os pró~ o p~vo o livre direito de trocar seu trabalho por tanta
prios interesses consolidados que foram estabelecidos pelo comida quanto pudesse". 9 No delírio dos sentimentos livre-
sistema escravista agora voltavam-se contra ele, destruin- -cambistas, o peso do avanço na frente antimonopolista
do-o. Os humanitaristas, ao atacarem o sistema em seu teve de ser suportado pelo monopólio das índias Ocidentais
ponto mais fraco e mais indefensável, falavam uma lin- que não era somente iníquo, mas também dispendioso. '
guagem que as massas podiam entender. Jamais poderiam Os defensores do açúcar das índias Orientais atacavam
obter sucesso cem anos antes quando os importantes inte- o monopólio das índias Ocidentais. Chamavam as ilhas de
resses capitalistas estavam ao lado do sistema colonial. "rochedos estéreis", cujas necessidades insaciáveis de di-
"Era um árduo monte para subir", cantava Wordsworth nheiro representavam uma "esponja eterna dos capitais
em louvor de Clarkson. O cume jamais teria sido atingido, deste país, tanto nacionais quanto comerciais". Mesmo
não fosse a deserção dos capitalistas das fileiras dos donos antes do fim do século XVIII, a Grã-Bretanha estava
e traficantes de escravos. Os plantadores das índias Oci- "madura para a abolição dos monopólios". Uma penúria
dentais, lisonjeados, acariciados e mimados durante um geral não podia ser infligida à comunidade inteira a fim
século e meio, cometeram o erro de elevar ·a uma lei da de proporcionar um benefício parcial e irracional a um
natureza o que era realmente apenas uma lei do mercan- pequeno número de seus membros.IO
tilismo. Consideravam-se, indispensáveis e transportaram A oposição das índias Orientais foi mais virulenta na
para uma era de antiimperialismo as lições que haviam década de 18'20. Não queriam, pelo menos era o que ale-
aprendido numa era de imperialismo comercial. Quando, gavam, favor, preferência ou proteção, exclusivos. Tudo
para sua surpresa, a "mão invisível" de Adam Smith virou- o que solicitavam era igualdade com as índias Ocidentais.u
-se contra eles, só puderam apelar para a mão invisível de Teriam os plantadores das índias Ocidentais direito ao
Deus. 6 A ascensão e queda do mercantilismo é a ascensão monopólio simplesmente porque o tinham gozado por um
e queda da escravidão. longo período de tempo? "Poder-se-ia alegar que como
muitas pessoas que costumavam ser empregadas na ma-
nufatura do algodão, ou outros artigos, à mão, estão sendo
A. Proteção ou livre empresa? atiradas ao desemprego pela invenção das máquinas, um
imposto sobre as máquinas devia portanto ser lançado ...
A Rainha Vitória certa vez mandou uma mensagem Poder-se-ia dizer que como o transporte pelos canais foi
famosa para dois chefes africanos: "A Inglaterra se tornou considerado mais barato e conveniente do que o velho
grande e feliz pelo conhecimento do verdadeiro Deus e modo de transporte por carroça, um imposto devia portanto
Jesus Cristo." 7 Para o capitalista de Manchester, "Jesus ser tributado sobre o transporte pelos canais."12 A alega-
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ção dos plantadores_ das índias <?cidentais ~e qu~ tinham Em 1844, estava custando ao país 70.000 libras, por sema-
direito à continuaçao da proteçao porque mvestiram seu na, e a Londres 6.000 libras.2o A Inglaterra estava pagando
capital no cultivo da cana era "uma alegação que pod}a por seu açúcar cinco milhões a mais por ano do que o
ser invocada com igual força no caso de toda espe~ulaç.ao Continente europeu. 21 Três milhões e meio de libras das
imprevidente".13 Não podiam afastar-se dos prmcíp10s exportações britânicas para as índias Ocidentais em 1838,
usuais do comércio a fim de beneficiar os plantadGres das disse Merivale, obtiveram menos de metade do açúcar e
índias Ocidentais.l4 Hume acreditava que o bom senso, o café que teriam obtido se fossem levados para Cuba e o
sentimento honesto e o patriotismo do povo britânico ja- Brasil. Mercadorias no valor de 1.750.000 libras "foram,
mais permitiria:n a continu!l9ão de tal ~onopólio, pois portanto, completamente jogadas fora, sem compensação,
todas as restriçoes e monopollos eram rums. 15 no que concerne à Grã-Bretanha, como se os navios que
Já em 1815 um protesto fora registrado nas Atas da as transportavam tivessem perecido na ·viagem".22 Dois
Câmara dos Lordes contra as Leis do Trigo, ameaçando quintos do preço de cada libra de açúcar consumido na
a pedra angular da política mercantilista. Em ~8~0, os Inglaterra representavam o custo da produção, dois quintos
negociantes de Londres apresentaram uma petiçao ao iam em receita para o Governo, um quinto em tributo
Parlamento na qual declaravam que a "liberação de qual- para o plantador das índias Ocidentais.23
quer restrição é it;dispensáve~ à p1áxima exte~são do ~o­ Já era tempo de revisar essa política "tenebrosa" que
mércio exterior e a melhor direçao para o capital e a m- amparava "a causa podre" do senhor de escravos das
dústria do país".1s No mesmo ano, o Sr: Finlay, de G:l8:s- índias Ocidentais. 24 Huskisson pediu cautela. "Se o plan-
gow, fez um discurso exaltado em apoiO. ~ uma pe~1çao tador das índias Ocidentais era dono de escravos não era
da Câmara de Comércio de Glasgow solicitando o livre- culpa sua, mas desgraça; e se era verdade que a produção
-câmbio e a revogação de todas as restrições às importa- do trabalho escravo era mais dispendiosa do que a da
ções e exportações comerciais. "Se se verificasse", disse mão-de-obra livre, não havia razão para privá-lo da van-
Finlay, "que a história de nossa política comercial tem tagem de sua tarifa protecionista." 25 Mas os plantadores
sido um amontoado de erros e idéias falsas, certamente das índias Ocidentais não deveriam desprezar isso. "Tem-
não seria demasiado manifestar a esperança de que a po haveria de chegar, e não poderia estar muito distante,
política fosse abandonada." 17 Todos os monopólios, afir- em que o súdito estaria maduro para a reflexão, e em que
maram os negociantes de Liverpool, que proibiam o comér- seria dever imperioso do Parlamento iniciar uma investi-
cio com qualquer outro país,. e e~ particular ~ n:;o.n?pólio gação completa de todas as circunstâncias relacionadas
da Companhia. das índias Onenta1s, e_:am pr~]Ud1~:a1s aos com ela. "26
interesses geraiS do pais. A Corporaçao da c1d~d~··· de?la- Os capitalistas, ansiosos por baixar os salários, defen-
rou que os súditos britânicos possuíam "um direito me- diam a política de the free breakfart table. Era injustiça
rente" ao intercâmbio livre com qualquer parte do mundo. e tolice impor tarifas protecionistas a alimentos.27 O mo-
Não sem razão Pitt lisonjeara Adam Smith, uns trinta nopólio era injustificado, caro para todos e destruíra os
anos antes num' banquete, dizendo: "Todos nos,
somos seus grandes impérios coloniais do passado.28 O interesse das
discípulos." 18 tndias Ocidentais estava condenado. "Não pode haver
o monopólio das índias Ocidentais não era somente prosperidade para as colônias das índias Ocidentais por
injustificado, na teoria, era também improfícuo, na ~rá­ ml'io de qualquer arranjo ou escamoteação de tarifas nesta
tica. Em 1828 estimou-se que ele custava ao povo bntâ- cnsa. Nenhuma maioria aqui concederá prosperidade às
nico, anualme~te, mais de um milhão e meio de libras. 19 lndias Ocidentais; e nenhum grupo de dança do Ministério
dns Colônias realizará tal fim. " 2 9 O sistema protecionista
• Corporation ot the town (Corporação da cidade), conjunto de rol comparado a vários macacos em diferentes gaiolas, cada
autoridades municipais. (N. do T.) um roubando do prato do vizinho e cada um perdendo
154 155
-. =

deles, ~legavam, não r:or favor, mas por direito. Sua posse
tanto quanto tinha roubado.3o Ricardo aconselhara os
plantadores a produzirem calculadamente; "a bola estava ~xcl~s~va do mercado mte:no era a recompensa justa pelas
rolando, e nada que pudessem fazer seria suficiente para restnçoes que lhes eram Impostas pelo sistema colonial3B
Noutras ocasiões. não relutavam em pedir caridade. Âs
detê-la" .31 vantagens supenores de seus concorrentes tornavam a
Houve tempo em que os principais estadistas estavam
do lado dos plantadores das índias Ocidentais. Agora Pal- competição i:Up.ossível e a tarifa protecionista indispensá-
vel a sua propna defesa. No caso da índia mencionavam
merston alinhava-se com os adversários dos plantadores.
A palavra "proteção" devia ser omitida de qualquer dicio-
~. b~rateza da mão-de-obra, a abundância' e a extensão
Ilimitada ~e solo m~is :ico, passível de irrigação e atraves-
nário comercial,32 como "um principio de dano fatal ao sad.o. por nos navegaveis. 39 No caso do Brasil, alegavam a
pais e inimigo da prosperidade de todo pais a cujos negó- facilidade com que os brasileiros podiam arranjar traba-
cios se aplique".33 lhadores :t:ar.a seu solo_ fértil. Fosse qual fosse a situação
Os protecionistas estavam do lado dos plantadores das ~ess~s ~oloma.s, o :efrao deles era o mesmo - proteção.
índias Ocidentais. A aristocracia agrária dos alqueires de Ruma, ~ra mvanavelmente a primeira palavra do seu
trigo aliou-se à aristocracia agrária dos barris de açúcar. vocabulano - uma_palavra usada para designar "não a
Peel, livre-cambista, quando se tratava de algodão e seda, pobreza do pAov~ , nao :;t falta de comida ou roupa, nem
era protecionista em trigo e açúcar. A causa das índias sequer a .ausencia de nqueza ou luxo, mas simplesmente
Ocidentais era habilmente defendida por Bentinck, Stan- o decréscimo do cultivo da cana-de-açúcar".4o Enquanto,
ley e Disraeli. Se o interesse das índias Ocidentais se como ~onos de escra~os antes de 1833, tinham exigido
tornara, como criticou Disraeli, "o estrepe da festa" ,34 ele pr~teçao contra o açucar plantado livremente na índia,
também cooperara para aquilo. Os debates sobre a rejeição apos 1833, como empregadores do trabalho livre, exigiam-
das leis do trigo e a equiparação das tarifas do açúcar -na cont.ra o açúcar produzido pela mão-de-obra escrava
deram-lhe um público para sua oratória incomparável e do Brasil e Cuba. Enquanto antigamente tinham ate-
espírito sarcástico, mas é duvidoso se alguma séria con- nuado os males do cultivo da cana por escravos, agora
vicção pessoal ou filosofia econômica motivou suas diatri- exageravam esses males. Como donos de escravos tinham
bes. Pois quando os plantadores das índias Ocidentais, justificado os male~· da escravidão; agora como emprega-
depois de 1846, estavam tentando adiar o funesto dia da dores de homens livres exaltavam os benefícios da liber-
verdadeira execução do princípio do livre-câmbio para o dade. Incoerentes em tod~s as coisas, eram 3;-inda coerentes
açúcar, Disraeli, também, virou-se contra eles. "Depois em uma - n a manutençao de seu monopólio.
da imensa revolução que foi levada a efeito, não podemos Até o fim, os plantadores das índias Ocidentais contt-
agarrar-nos aos trapos e farrapos de um sistema prote- ~uara:!l a sofrer em virtude de sua miopia e a exigir uma
cionista;35 e em Sybü ele escreveu com imparcialidade que, Sit?açao de século XVII num império de século XIX.
num país comercial como a Inglaterra, cada meio século L:Iam ~e'!s manifestos, folhetos e discursos - em vez de
produzia uma nova fonte de riqueza pública e punha em Sao Dommgos, encontra-se índia ou Maurícia Brasil ou
evidência uma nova e poderosa classe - o mercador do Cu~a. As datas mudaram, a liberdade substitu'iu a escra-
Levante, o plantador das índias Ocidentais, o nababo das yi~ao: Suas reiyindicações são as mesmas, suas falácias
índias Orientais.36 O mercantilismo não estava somente ldeJ:?-ticas. Contmuavam a "clamar por mais monopólio,
morto, mas também amaldiçoado. a fim de curar os males que o próprio monopólio infli-
g~a".41 S~o tratados com escárnio e desprezo,42 mas não

Os plantadores das índias Ocidentais tentaram deter dao atençao. De vez em quando, falam em livre-câmbio
como quando um plantador das índias Ocidentais opon~
a torrente livre-cambista. O sistema colonial era "um do-se à renovação do privilégio da Companhia de' Docas
pacto implícito .. . para um monopólio mútuo".3 7 Era
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156
das índias Ocidentais, advertiu o Parlamento sobre "a im- capitalistas industriais não queriam absolutamente colô-
política, como também injustiça, de continuar, numa era nias, muito menos ainda as índias Ocidentais.
esclarecida como esta, tais monopólios, que eram ao mesmo A tendência remontava, como já vimos, nos primeiros
tempo prejudiciais ao comércio e à receita do país".43 Em anos da Revolução Industrial. Seu desenvolvimento era
geral, porém, mantinham-se esquecidos da nova ordem e paralelo ao desenvolvimento do movimento livre-cambista.
do brilho em seus próprios olhos. O mundo inteiro se tornara agora uma colônia britânica
Proteção e Trabalho - estes eram seus slogans em e as índias Ocidentais estavam condenadas. O líder do
1846, como tinham sido em 1746. Proteção era simples- movimento era Cobden. Cobden referiu-se aprovadora-
mente justiça.44 Recusá-la era impatriótico.45 A tarifa mente aos capítulos de Adam Smith em sua "obra imor-
protecionista era necessária para salvaguardar a experiên- tal" sobre a despesa das colônias.51 Para ele a questão
cia da mão-de-obra livre.46 O cultivo de cana precisava colonial era uma questão pecuniári.a.52 As colônias eram
de mão-de-obra. Dêem-nos africanos sob contrato, india- estorvos dispendiosos, causando impressões deslumbrantes
nos sob contrato, sentenciados, a·gora que vocês emanci- aos sentimentos do povo, servindo apenas de "apêndices
param os negros e os tornaram preguiçosos; e alguns, vistosos e pesados para envaidecer nossa grandeza osten-
desesperados, defendiam até a restauração do tráfico de siva, mas, na realidade, para complicar e aumentar nosso
escravos. 47 dispêndio governamental, sem melhorar nosso balanço
O seu notável paladino era Gladstone. Mas Gladstone comercial". Ele não via nada mais do que uma "impolítica
era mais do que um defensor dos plantadores das índias monstruosa" a "sacrificar nosso comércio com um novo
Ocidentais; era um estadista do Império também, que continente, de extensão quase ilimitada de novo território,
nunca perdia de vista a floresta ao olhar as árvores. Com em favor de algumas ilhas pequenas, com solos relativa-
toda a casuística e eloqüência à sua disposição - e tinha mente esgotados". 53 Em 1852, os britânicos declararam
bastante de ambas - Gladstone procurou justificar o guerra à Birmânia e anexaram a Birmânia Inferior. Cob-
monopólio das índias Ocidentais sob o fundamento de den protestou. Escreveu um artigo intitulado "Como as
que era proteção para o açúcar produzido pela mão-de- guerras são atiçadas na índia", sugerindo que a Grã-Bre-
-obra livre contra o açúcar produzido pela mão-de-obra tanha devia "anunciar no Times pedindo um governador-
escrava. Mas foi obrigado a admitir que a distinção não -geral que pudesse cobrar uma dívida de mil libras sem
era tão clara que pudesse ser traçada com uma precisão anexar um território que fosse ruinoso para nossas fi-
uniforme e absoluta. 4s Nem podia ele ignorar o fato de nanças".54
que a exigência de proteção dos plantadores das índ~as Para Molesworth, um dos principais reformadores
Ocidentais se enfraqueceu depois de 1836 quando a tanfa coloniais, a política colonial da Grã-Bretanha era motivada
protecionista foi estendida ao açúcar das índias Orientais, por "um desejo insano de império sem valor", como na
que não podiam alegar tantas dificuldades e desvantagens fronteira da colônia do Cabo na Africa do Sul, onde "a
como as que enfrentavam as índias Ocidentais. 49 E Glads- perda de um machado e duas cabras. . . custou a este
tone sabia que o curso se completara. A proteção não pais (Inglaterra) uns dois milhões de libras esterlinas".
podia ser permanente e, mesmo que continuasse por mais A Austrália era uma coleção de "comunidades, o produto
vinte anos, não traria o cultivo das índias Ocidentais a da emigração de sentenciados". A Nova Zelândia era uma
uma situação segura e sadia.so constante dor de cabeça, com seus "governadores imbecis,
funcionários desacreditados e guerras desnecessárias com
B. O crescimento do antiimperialismo os nativos". A Africa do Sul era "um enorme império sem
valor e caro, estendendo-se por quase 800.000 km2 , prin·
O sistema colonial era a espinha dorsal do capitalismo cipalmente montanhas acidentadas, desertos áridos e pla-
comercial da época mercantil. Na era do livre-câmbio, os nícies estéreis, sem água, sem ervas, sem rios navegáveis,

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158
sem portos, em suma, sem coisa alguma a não ser os Ocldenta~s.~ 3 Pa~eci~ aos desesperados plantadores que
elementos de grande e crescente despesa para este país". uma coahzao havia sido formada para destruir as colônias.s4
Encarregado dessa coleção diversa e heterogênea de colô- As assembléias da Jamaica e da Guiana Inglesa entraram
nias estava o Ministro das Colônias, "cruzando e recru- t•rn greve em 1838 e 1840 e se recusaram a votar verbas
zando, em sua imaginação, o globo terráqueo - voando para o Governo. A Jamaica preferia o Yankee Doodle* ao
do pólo Artico para o pólo Antártico, correndo das neves God Save the Queen. 65 Quem se importava? Membros do
da América do Narte para as regiões abrasadoras dos Tró- Parlamento estavam dispostos a ceder as índias Ocidentais
picos, precipitando-se das ilhas férteis das índias Ociden- à América mediante uma pequena indenização.ss "Que a
tais para os desertos áridos da Africa do Sul e Austrália .Jamaica vá para o fundo do mar", trovejava Roebuck, "e
-como nada na Terra, ou na ficção, a não ser o Judeu todas as Antilhas depois dela." Essas "colônias estéreis"
Errante". 55 O custo da proteção desse Império represen- não eram senão uma fonte de guerra e despesa.s7 Tinham
tava um terço do comércio de exportação da Grã-Breta- sido sempre os "apêndices mais fatídicos" do Império bri-
nha para as colônias. A independência colonial era mais tânico, e se fossem riscadas da face da Terra a Inglaterra
barata. As colônias deviam ficar livres do "constantemente não ~erderia "uma migalha de sua força, um níquel de
mutável, freqüentemente bem-intencionado, mas invaria- sua nqueza, um instrumento de seu poder".ss
velmente fraco e ignorante despotismo" do Ministério das
Colônias.ss Era uma epidemia. Até Disraeli, o arquiimperialista
Hume, outro político radical, juntou-se ao ataque ao das últimas décadas, estava contagiado. Em 1846, as "de-
"Sr. Mãe-Pátria". Tirem as correntes de ferro que agri- samparadas Antilhas" ainda eram para ele "um frag-
lhoam os melhores esforços das colônias,57 deixem-nas mento, mas um fragmento que eu prezo, do sistema colonial
dirigir seus próprios negócios, em vez de serem mantidas da Inglaterra".69 Seis anos depois, o Canadá se tornara
em nadadeiras e submetidas à direção flutuante de um embaraço diplomático e as infortunadas colônias, uma
Downing Street.ss O Ministério das Colônias "é" um estor- dam'nosa hereditas, mós penduradas no pescoço da Grã-
vo e deve ser fechado.s9 -Bretanha.70 Nove casos em dez, segundo Gladstone, era
O mandato territorial estava fora de moda. Roebuck, impossível conseguir atenção parlamentar para os assuntos
um radical franco-atirador, opunha-se como insincera à coloniais e no décimo caso só era conseguida pela ação
recusa humanitarista de entregar as colônias ao Governo improvisada do espírito partidário.n A era do império
autônomo local. A história ensinava que o selvagem devia estava morta; a dos livre-cambistas, economistas e cal-
desaparecer em face do avanço implacável de uma raça culistas a tinha sucedido, e a glória das índias Ocidentais
superior; a justiça e a humanidade deviam ceder à lei se extinguira para sempre. Apenas mais uns trinta anos,
férrea de uma necessidade injusta.so James Stephen, Sub- porém, e a toada mudaria. Mas o Humpty Dumpty** das
secretário Permanente do Ministério das Colônias, nunca índias Ocidentais levara uma grande queda, e todos os
titubeou em sua determinação de não renunciar aos "in- cavalos e homens do Rei não conseguiriam juntar de novo
fortunados encargos que em má hora assumimos". Mas as partes do Humpty Dumpty.
os capitalistas, como Taylor, também do Ministério das
Colônias, não viam nas colônias nada mais do que "assem-
bléias furiosas, governadores, missionários e escravos • Yankee Doodle, canção reconhecida como uma das árias na-
cionais dos Estad~ Unidos; God Save the Queen, ou the King
bobos" ,s1 os quais, nas palavras de Merivale, deviam ser Weus Salve ~ Ramha, ou o Rei) , hino nacional britânico.
conservados pelo simples "prazer de governá-los". 62 Nada (Neste caso, f1guradamente, "preferia os Estados Unidos à In-
era verdade a não ser o que se referia à condenação dos glaterra".) (N. do T.)
•• Hu~pty Dumpty, J?ersona15em de uns versos infantis que sim-
plantadores das índias Ocidentais, nada era justo a não bollza um ovo; (flg.) coiSa ou pessoa que, quando cai, não
ser o que se referia à ruína dos plantadores das índias pode refazer-se ou tornar a levantar-se. (N. do T.)

160 161
C. O crescimento da produção açucareiro mundial pnra seus interesses".77 Para um Primeiro-Minis~ro cu.jo
pn.L estivera coerentemente do lado das índas Ocidentais,
A força das ilhas açucareiras britânicas antes de 1783 a cujo predecessor apenas dez anos antes brandamente
repousava no fato de que como produtoras de açúcar ti- rt•jcitara uma petição para a abolição, isso era uma con~
nham poucos competidores. Até onde podiam, impediam wrsão extraordinária. Pitt voltou-se para as índias.
qualquer outro. Resistiram à tentativa de introduzir o O plano de Pitt tinha dois objetivos: reconquistar o
cultivo de cana-de-açúcar (e de algodão) em Serra Leoa mercado europeu, com a ajuda do açúcar da índia,78 e
sob o fundamento de que seria um precedente para "na- conseguir a abolição internacional do tráfico de escravos,79
ções estrangeiras, que ainda não tinham colônias em parte o que arruinaria São Domingos. Se não a abolição inter-
alguma",72 e poderia ser prejudicial para as que possuíam nacional, então a abolição britânica. Os franceses depen-
colônias nas índias Ocidentais; 73 tal como um século antes dlam tanto dos traficantes britânicos de escravos que até
tinham-se oposto ao cultivo de anil na Africa. 74 Seus prin- uma abolição unilateral pela Inglaterra transtornaria seria~
cipais competidores no comércio açucareiro eram o Brasil mente a economia das colônias francesas.
e as colônias francesas, estando Cuba tolhida pelo exclusi- O plano de Pitt fracassou por dois motivos. A i~por­
vismo extremo do mercantilismo espanhol. Essa situação tnção de açúcar das índias Orientais, na escala planeJada,
foi radicalmente alterada quando São Domingos tomou a era impossível devido às altas tarifas impostas a todo
dianteira nos anos que se seguiram imediatamente à seces- n.çúcar que não fosse produzido pelas índias Ocident~is
são das colônias do continente. Britânicas.so Lorde Hawkesbury porta-voz dos monopolls~
O cultivo de Barbados e Jamaica transferira o comér- tas das índias Ocidentais, opôs-se à alteração da lei exis-
cio açucareiro da Europa de Portugal para a Inglaterra. tente "em favor de uma companhia monopolizadora" que
O progresso de São Domingos deu o controle do mercado rstava ultrapassando os limites de seu contrato. 81 ~as
açúcareiro europeu à França. Entre 1715 e 1789, as impor- IIawkesbury era mais do que um interessado pelas índias
tações francesas das colônias multiplicaram onze vezes, os Ocidentais. Estava em contato íntimo com o comércio e a
produtos coloniais franceses reexportados para o exterior, indústria da Grã-Bretanha, especialmente Liverpool. Re-
dez vezes.7s Em 1789, dois terços das exportações francesas eomendou, portanto, em seu lugar, a impo:tação de to.do
para o Báltico, mais de um terço das exportações para o açúcar estrangeiro contanto que fosse feita em navios
Levante, eram produtos coloniais. Foi "por meio disso, e britânicos e exclusivamente para refinação e re~xp~rt~çã9.
somente por meio disso, que ela transformou o balanço "O comércio e a frota mercante da França serao dimmm-
comercial com o mundo inteiro num resultado favorável". 76 dos e o comércio e a frota mercante da Grã-Bretanha
Era a velha lei da produção escrava em ação. São nu~entados, mais do que por qualquer medida isolada que
Domingos era maior do que qualquer colônia britânica, seu tenha sido adotada durante o último século." 82 Por esse
solo era mas fértil e estava menos esgotado, por conse- regulamento muito simples, a Grã-Bretanha recuperaria
guinte seus custos de produção eram menores. Essa dife- o comércio açucareiro que desfrutara de 1660 a 1713, mas
rença nos custos de produção tornou-se objeto de um que depois disso perdera para a França.83
inquérito especial por parte da Comissão do Conselho Em segundo lugar, os frances.es, holandeses e e~pa­
Privado de 1788. nhóis se recusaram, o que Lorde Liverpool chamou trmta
Do ponto de. vista do Primeiro-Ministro britânico, nnos mais tarde de "pura perversidade" ,84 a abolir o ~rá­
William Pitt esse foi o fator decisivo. A era das ilhas J'Ico de escravos.ss Não era difícil ver os motivos políticos
açucareiras britânicas estava superada. O sistema das }Jor trás da capa de humanitarismo de Pitt. G:aston-
índias Ocidentais não dava lucro, e o tráfico de escravos Martin o conhecido historiador francês do tráfico de
em que se baseava "em vez de .ser vantajoso par:=t a c:trã- escravo~ e das colônias das Antilhas, acusa Pitt de visar
-Bretanha. . . é o mais destrutivo que se pode 1magmar pela propaganda libertar os escravos "em nome sem dú-
162 163
vida de humanidade, mas também para arruinar o comér- Pltt pela abolição. Naturalmente ele não o disse. Já estava
cio francês", e conclui que nessa propaganda filantrópica demasiadamente comprometido aos olhos do público. Con-
havia motivos econômicos que explicam a liberdade com t.inuou a falar a favor da abolição, mesmo enquanto dava
que a Grã-Bretanha pôs fundos à disposição dos abolicio- lodo estímulo prático ao tráfico de escravos. Mas não era
nistas franceses e a maneira pela qual a França foi inun- o velho Pitt de 1789 a 1791, o Pitt de tiradas latinas, ora-
dada por traduções dos trabalhos antiescravistas do abo- tória brilhante e humanitarismo contagioso. A mudança
licionista britânico Clarkson.86 Como Ramsay admitira: pode ser verificada nos debates no Parlamento e no diário
"Podemos concluir confiantemente que o tráfico africano de Wilberforce. Em 1792, o diário de Wilberforce deu a
é mais limitado em sua utilidade do que geralmente se primeira nota vaticinadora: "Pitt manifestou-se contra a
imagina, e que nestes últimos anos contribuiu mais para moção de escravos por causa de São Domingos."93 Daí em
o engrandecimento de nossos competidores do que de nossa diante, o apoio de Pitt às moções anuais de Wilberforce
riqueza nacional. "87 _ . ,. tornou-se apenas maquinal. Numa ocasião, ele apoiou os
Nessa conjuntura a Revoluçao Francesa ve10 em auxilio plantadores das índias Ocidentais, noutra esquivou-se da
de Pitt. Temerosos de que o idealismo do movimento moção, numa terceira "manteve-se firmemente ao lado"
revolucionário destruiria o tráfico de escravos e a escravi- de Wilberforce, noutra simplesmente não compareceu. 94
dão, os plantadores franceses de São Domingos, em 1791, Sob o governo de Pitt, só o tráfico de escravos britânicos
ofereceram a ilha à Inglaterra88 e foram logo seguidos pelos mais do que duplicou,95 e a Grã-Bretanha conquistou mais
das ilhas de Barlavento.89 Pitt aceitou o oferecimento, duas ilhas açucareiras, Trinidad e Guiana Inglesa. Como
quando irrompeu a guerra com a França em 1793. Expe- o abolicionista Stephen escreveu com amargura: "O Sr.
dição após expedição foram enviadas infrutiferamente para Pitt, infelizmente para si mesmo, seu país e a humanidade,
tomar a preciosa colônia, primeiro dos franceses, depois não é bastante fervoroso na causa dos negros, para lutar
dos negros. Não era, afiançou-se ao Parlamento, "uma por eles tão decisivamente quanto devia, no gabinete mais
guerra por riquezas ou engrandecimento local, mas uma do que no Parlamento."96
guerra por segurança" .90 A causa aliada na Europa enfra- Os historiadores liberais alegam o medo de Pitt do
queceu-se pelos interesses do imperialismo britânico. "Po- jacobinismo. A verdadeira razão é mais simples. Pode-se
de-se dizer que o segredo da impotência da Inglaterra tomar como axiomático que nenhum homem ocupando
durante os seis primeiros anos da guerra", escreve For- um cargo tão importante como o de Primeiro-Ministro da
tescue, historiador do exército britânico, "repousa em duas Inglaterra adotaria uma medida tão importante como a
palavras fatais, São Domingos."91 A Grã-Bretanha perdeu abolição do tráfico de escravos puramente por razões hu-
milhares de homens e gastou milhares de libras na ten- manitários. Um Primeiro-Ministro é mais do que um ho-
tativa de tomar São Domingos. Fracassou, mas o grande mem, é um estadista. As razões de Pitt eram políticas e
produtor mundial de açúcar, foi entrementes destruído n,penas secundariamente pessoais. Ele estava interessado
e a superioridade colonial francesa esmagada para sempre. no comércio açucareiro. Ou ele devia arruinar São Do-
"Por essa razão", escreve Fortescue, "soldados da Ingla- mingos inundando a Europa de açúcar indiano mais
terra foram sacrificados, seu tesouro malbaratado, sua barato, ou abolindo o tráfico de escravos; ou devia con-
influência enfraquecida, seu braço por seis anos fatídicos (lUistar São Domingos para si mesmo. Se pudesse conquis-
agrilhoado, tolhido e paralisado." 92 tar São Domingos, o equilíbrio nas Antilhas seria resta-
Isso é um interesse mais do que acadêmico. Pitt não belecido. São Domingos seria "uma nobre compensação"
poderia ter São Domingos e a abolição també_:n. Sem. suas pela perda da América e "um glorioso acréscimo ao domí-
importações de 40.000 escravos por ano, Sao po;rmng~s lllo, navegação, comércio e manufaturas da Grã-Breta-
podia igualmente ir para o fundo do mar. A propr1a acei- llha".97 Daria à Grã-Bretanha o monopólio do açúcar, anil,
tação da ilha significava logicamente o fim do interesse de rtlgodão e café: "Essa ilha, por muitos séculos, daria tal

165
ajuda e força à indústria que seria mui venturosamente 10 xelins e 9 pence; em 1803; 18 xelins e 6 pence; em
sentida, em todas as partes do Reino." Seguida de uma 1805, 12 xelins; em 1806, nada. A comissão atribuiu o
aliança ofensiva e defensiva entre a Grã-Bretanha e a mal principal à situação desfavorável do mercado estran-
Espanha, "tal amizade por séculos excluiria a França e a geiro.101 Em 1806, o excedente de açúcar na Inglaterra
América do Novo Mundo e efetivamente garantiria as pos- montava a seis mil toneladas. 102 A produção tinha de ser
sessões valiosas da Espanha".98 Mas se Pitt tomasse São diminuída. Para restringir a produção, o tráfico de es-
Domingos, o tráfico de escravos devia continuar. Quando cravos devia ser abolido. As colônias "saturadas" preci-
São Domingos estava perdida para a França, o tráfico de savam apenas de sete mil escravos por ano.103 Foram, as
escravos tornou-se simplesmente uma questão humani- novas colônias, clamando por mão-de-obra, cheias de pos-
tária. sibilidades, que tiveram de ser restringidas, e ficaram
A destruição de São Domingos significou o fim do permanentemente manietadas pela abolição. Isso explica
comércio açucareiro francês. Nem todos os decretos de o apoio ao projeto de abolição por parte de tantos plan-
cônsules, negros ou brancos, escreveu Eden com compla- tadores das índias Ocidentais das ilhas mais antigas.
cência, poderiam preencher os claros na população da Ellis declarara categoricamente em 1804 que o tráfico de
ilha.99 Mas a ruína de São Domingos não significou a escravos devia continuar, mas somente para as colônias
salvação das índias Ocidentais Britânicas. Dois novos ini- mais antigas. 104 Era o mesmo velho conflito entre "plan-
migos entraram em cena. Cuba tomou a dianteira para tadores saturados" e "plantadores em formação".
preencher o claro deixado no mercado mundial pelo desa- A guerra e o bloqueio continental de Bonaparte torna-
parecimento de São Domingos. Bonaparte, derrotado em ram a abolição imperiosa para que as colônias mais an-
suas tentativas de retomar a colônia perdida e decidido tigas pudessem sobreviver. "Não estão elas agora", pergun-
a conquistar a Inglaterra pelo estrangulamento de seu tou o Primeiro-Ministro Grenville, "angustiadas pela
comércio exterior, deu o primeiro ímpeto ao açúcar de acumulação de produção em seu poder, para a qual não
beterraba e a guerra dos dois açúcares começou. En- conseguem encontrar mercado; e portanto não seria au-
quanto, sob a bandeira americana, o açúcar cubano e de mentar a angústia, e levar os plantadores à ruína, se vocês
outras procedências neutras encontrava mercado na Eu- consentissem na continuação de novas importações?"los
ropa, os excedentes das índias Ocidentais Britânicas se Wilberforce estava regozijante: a angústia das índias Oci-
amontoavam na Inglaterra. Falências eram a ordem do dentais não podia ser imputada à abolição.106 Na realidade,
dia. Entre 1799 e 1807, 65 plantações na Jamaica foram a abolição foi o resultado direto dessa angústia.
abandonadas, 32 foram vendidas por causa de dívidas e,
em 1807, pendiam processos contra 115 outras. Dívida,
doença e morte eram os únicos assuntos de conversa na Se a abolição do tráfico de escravos foi a solução dos
ilha.1oo Uma comissão parlamentar, instituída em 1807, problemas do plantador, foi apenas uma solução tempo-
descobriu que o plantador das índias Ocidentais Britânicas rária. Pois, como Merivale argumentou acertadamente,
estava produzindo com prejuízo. Em 1800, seu lucro era sem importação para substituir seus escravos, as índias
de 2,5 % ; em 1807, nada. Em 1787, o plantador obtinha Ocidentais, e especialmente as colônias mais novas, não
lucro de 19 xelins e 6 pence por quintal inglês;* em 1799, poderiam ter esperança de agüentar a competição ainda
mais feroz do século XIX. "Escravidão sem o tráfico de
• Hundredweight (quintal), abrev. cwt. Unidade de peso da qual escravos ... era antes uma perda do que um ganho." 1o7
existem dois tipos: o short hundredweight (quintal curto ou No fim das Guerras Napoleônicas em 1815, os plantadores
americano) , usado nos Estados Unidos e que equivale a 45,36 kg de cana n ão estavam melhores do que tinham estado antes.
(100 libras-peso); e o long hundredweight (quintal longo ou in- A índia ainda era um concorrente a ser temido. O diabo
glês), usado na Inglaterra e que equivale a 50,8 kg (112 li-
bras-peso). (N. do T.) único de São Domingos fora substituído por três: Maurícia,

166 167
Cuba, Brasil. O cultivo da cana foi mais tarde este!ldido o tamanho da plantação é limitado por um fator: o trans-
à Luisiana Austrália, Havaí, Java. A beterraba coll:tmuou porte. A cana, dentro de um determinado tempo depois de
sua march~ até a grande vitória de 1848,, quando llb~rt.ou cortada, deve ser levada para a usina. Mais do que qualquer
os escravos das plantações de cana-de-açucar das colom~.s outra ilha britânica, a Jamaica no século XVIII era a
francesas enauanto se tornou mais tarde uma caractens- krra dos grandes plantadores. Mas em 1753 havia apenas
tica per~aneAte européia e até americana do interesse da tr8s plantações da classe de 2.000 acres na Jamaica, que
autarquia econômica. Unha cerca de um décimo da terra cultivado com cana.
Entre 1793 e 1833, as importações de açúcar por parte A maior, pertencente a Philip Pinnock, e chamada por
da Grã-Bretanha mais do que duplicaram. Dados com- Pitman de "a atração" da Jamaica naquele tempo, com-
pletos, durante o mesmo período, referentes às índias preendia 2.872 acres, dos quais 242 cultivados com cana,
Ocidentais não existem, mas entre 1815 e 1833 a pro- empregava 280 escravos e produzia 184 toneladas de açúcar
dução das índias Ocidentais conservou-se estacionária --;- por ano. 114 Depois da emancipação, a Jamaica viu-se diante
3.381.700 barris em 1815, 3.351.800 em 1833, com um ma- da escassez de mão-de-obra e os salários subiram. A ilha
ximo de 4.068.000 em 1828. É significativo que esse nível foi incapaz de competir com o solo mais extenso e mais
de produção só foi mantido a expensas das ilhas mais fértil de Cuba, com sua população escrava. O desenvolvi-
antigas com seu solo esgotado. Entre 1813 e 1833, a pro- mento da estrada de ferro - a primeira foi construída
dução da Jamaica declinou em quase um. sexto; as expor- em Cuba em 1837 - capacitou o plantador cubano a
tações de Antígua, Nevis e Tobago em mais de um quarto, ampliar sua plantação, aumentar sua produção e reduzir
St. Kitts em quase metade, as de St. Lúcia em dois terços, os custos de produção, enquanto o plantador jamaicano
as de st. Vincent em um sexto, as de Granada em quase estava ainda pedindo proteção e mão-de-obra. A compe-
um oitavo. As exportações de Domínica apresent~ram um tição, por conseguinte, tornou-se mais desigual. Na dé-
ligeiro acréscimo, enquanto Barbados quase dup~ll~ou su3:s cada de 1860, tomamos conhecimento da existência de
exportações. Por outro lado, a produção das colomas mais plantações "monstro" em Cuba, a maior compreendendo
novas aumentou, a da Guiana Inglesa em duas vezes e 11.000 acres, da qual um décimo estava cultivado com
meia Trinidad em um terço. 108 cana, empregando 866 escravos e produzindo 2.670 tone-
Maurícia fornece nova comprovação dessa lei da pro- ladas de açúcar por ano.us
dução escrava. Suas exportações para a G:ã-Bretanha, As índias Ocidentais Britânicas haviam claramente
inferiores às de Antígua em 1820, foram maiS de quatro perdido seu monopólio do cultivo de cana. Em 1789, não
vezes maiores em 1833.1°9 O açúcar das índias Orientais podiam competir com São Domingos; nem, em 1820, com
vendido na Inglaterra aumentou 28 vezes? entre 1791 e Maurícia; nem, em 1830, com o Brasil; nem, em 1840,
1833.no Fontes estrangeiras estavam surgmdo para. for- com Cuba. Sua época passara. Limitadas em extensão,
necer a matéria-prima de que a Grã_:Bretanha neces~Itava escravas ou livres, não podiam competir com áreas maiores,
para refinação, consumo e exp.ortaçao. As export~çoes. de mais férteis, menos esgotadas, onde a escravidão ainda
Cingapura, em 1833, foram se.I~ ~ezes as de 18~7, as Im- era lucrativa. Cuba poderia conter todas as ilhas britâ-
portações provenientes das Fillpmas quadruplicaram, ~s nicas das Antilhas, inclusive a Jamaica. Um dos enormes
de Java aumentaram mais de vinte vezes. 111 A produçao rios do BrasU poderia comportar todas as ilhas das índias
cubana de açúcar aumentou_ mais .d~ quarenta ve~es, entre Ocidentais sem que a sua navegação ficasse obstruída.ll6
1775 e 1865.112 As importaçoes bntamcas provementes do A índia poderia produzir rum bastante para afogar as
Brasil aumentaram sete vezes entre 1817 e 1831, as de índias Ocidentais.m
Cuba seis vezes, entre 1817 e 1832. 113 • A situação das índias Ocidentais foi agravada pelo
A produção açucareira, como já vimos, é mais efl- fato de que a produção excedia o consumo interno. Esse
ciente numa grande plantação do que numa pequena. Mas excedente, estimado em 25 %, 118 tinha de ser vendido nos

168 169
merêaclôs europeus eni concorrência com o açó.car brasi- açúcar co~ o mundo inteiro. O monopólio, portanto, devia
leiro ou cubano mais barato. Isso só podia ser feito com l tn' destrmdo. Em 1836, o monopólio foi modificado admi-
subsídios e subvenções. Os plantadores das índias Oci- tln~o o açúcar das índias Orientais em igualdade de con-
dentais estavam, de fato, sendo pagos para que pudessem dlçoes. Em 18~6, o ano da rejeição das Leis do Trigo, as
competir com gente que, como já vimos, eram alguns dos tarifas açucare1ras foram igualadas. As colônias das índias
melhores fregueses da Grã-Bretanha. Entre 1824 e 1829, Ocldenta~ Britânicas forat;l conseqüentemente esquecidas,
as importações do açúcar cubano e brasileiro por parte de at6 que o Canal de Panama lembrou ao mundo a sua exis-
Hamburgo aumentaram 10%, enquanto as da Prússia Mncia e revoltas de seus trabalhadores livres mal pagos
duplicaram; o açúcar cubano importado pela Rússia au- as tornaram notícia de primeira página.
mentou 50% e o brasileiro, 25% no mesmo período. 119 Para
os capitalistas, isso era intolerável. A superprodução, em
1807, exigiu a emancipação. "No que concerne à quanti-
dade da produção de açúcar", declarou Stanley, patroci-
nador do projeto de 'emancipação, "não estou bem certo de
que até certo ponto uma diminuição dessa produção seria
uma causa a lamentar. . . não estou bem certo de que não
seria em benefício dos plantadores e das próprias colô-
nias, no fim, se essa produção tivesse de ser diminuída."120
Um século antes, os britânicos se haviam queixado da
subprodução das índias Ocidentais, agora se queixavam da
superprodução. O bom senso simplesmente demonstraria
que os negros emancipados só permaneceriam nas planta-
ções se não tivessem alternativa. De fato, comparando os
anos de 1839-1842 com os de 1831-1834, a produção da
Jamaica e de Granada declinou em 50 o/o , a da Guiana
Inglesa em três quintos, a de St. Vincent em dois quintos.
A de Trinidad em um quinto, a das outras ilhas propor-
cionalmente.121
Como justificativa da emancipação, argumentou-se
que a restrição da produção daria aos plantadores um
monopólio "real" do mercado interno igualando a pro-
dução ao consumo interno. Isso era estratégia parlamen-
tar. Todos os esforços eram feitos para tornar o cultivo
das índias Ocidentais tão dispendioso quanto possível. Em
1832 o Conselho de Trinidad solicitou a abolição da taxa
de e~cravo de uma libra per capita, em moeda da ilha. O
Ministério das Colônias recusou: era "de muito grande
importância que essa taxa. continuasse; em vez, de torn~r
a mão-de-obra escrava mais barata, é aconselhavel torna-
-la mais cara".122 A questão em jogo era o próprio mono-
pólio. Era só o monopóli? das índias O~id~ntai~ Aq~e res-
tringia o pleno desenvolvimento do comercio bntamco de

170 171
9
O CAPITALISMO BRITÂNICO
E AS
JNDIAS OCIDENTAIS

Enquanto, no século XVIII, todos os importantes interes-


ses da Inglaterra se alinhavam ao lado do monopólio e
do sistema colonial, após 1783, um por um, cada um desses
interesses se manifestou contra o monopólio e o sistema
escravista das índias Ocidentais. As exportações britâ-
nicas de artigos manufaturados só podiam ser pagas em
matérias-primas - o algodão dos Estados Unidos, o algo-
dão, o café e o açúcar do Brasil, o açúcar de Cuba, o
açúcar e o algodão da índia. A expansão das exportações
britânicas dependia da capacidade da Grã-Bretanha de
absorver a matéria-prima como pagamento. O monopólio
das índias Ocidentais Britânicas, proibindo a importação
de açúcar de plantações não-britânicas para o consumo
interno, entravava o caminho. Todos os importantes gru-
pos de interesse - os fabricantes de algodão, os proprie-
tários de navios, os refinadores de açúcar - todas as
importantes cidades industriais e comerciais - Londres,
Manchester, Liverpool, Birmingham, Sheffield, o West
Riding de Yorkshire - uniram-se no ataque à escravidão
e ao monopólio das índias Ocidentais. Os abolicionistas,
significativamente, concentraram seu ataque nos centros
industriais. 1

A. Os fabricantes de algodão
Os plantadores das índias Ocidentais no século XVIII
eram tanto exportadores de algodão em rama quanto im-
portadores de manufaturas de algodão. Em ambos os as-
pectos, como já vimos, eles se tornaram cada vez mais
insignificantes. A máquina a vapor e o descaroçador de

173
algodão mudaram a indiferença de Manchester em hosti- Nesse simples nom~ Ph,ilip~ se resume toda a evolução
de Manchester e sua mdustna algodoeira. Em 1749 a
lidade direta. Ainda em 1788, Wilberforce exultava com o ttrma de J. N. Philips & Companhia estava profundame~te
fato de que uma subscrição liberal para a abol~ção se empenhada no comércio com as índias Ocidentais. Em 1832
tivesse originado em Manchester, "profundamente mteres- Mark Philips foi eleito como um dos dois membros ~
sada no tráfico africano" .2 representar Manchester, pela primeira vez, no Parlamento
Manchester não era representada na Câmara dos Co- Rcformado. 8 As ligações de Philips com as índias Oci-
mun~ antes de 1832, portanto sua denúncia parlamentar dentais ainda persistiam. Sendo parente de Robert Hib-
do sistema das índias Ocidentais só ocorre após essa data. bcrt, .foi escolhido por este como um dos membros do
Mas o centro da indústria algodoeira já se interessava pelo primeiro .conselho diretor pa1~a administrar o Consórcio
problema antes de 1832. Em 1830, Cobbett, o paladino dos Robert. Hibbe~t . 9 M~s eco~om1eamente suas ligações com
trabalhadores apresentou-se como candidato pelo distrito as fndms ?C1denta1s t:a~mm terminado. Ele se opôs à
eleitoral de Manchester. Sua oposição ao interesse agrá- mancha SUJa da escrav1dao, um sentimento que provocou
rio o tornaria benquisto na futura sede da Liga contra as aplauso.s _num banquete dado na cidade para comemorar
Leis do Trigo. A prova veio em sua atitude para c?m a sua ele1çao. O humanitarismo eloqüente do Sr. Hadfield
escravidão nas índias Ocidentais. Cobbett odmva Wllber- na mesma ocasião suscitou estrondosa aclamação. "Apelo
force e os metodistas. Quando fugiu para os Estados Uni-
dos em 1818, escreveu uma carta ao tribuno Henry Hv.nt, para vocês . : . A liberdade poderia ser gozada por algum
homem raciOnal sem o desejo de transmiti-la aos ou-
na 'qual declarou que na América "não há W~lberforces. tros? ... Será que a mera distinção de negro e branco fará
Pense nisso! Não há Wilberforces". 3 Os metodistas eram que sempre uma raça seja de escravos enquanto outra é
"a súcia mais vil que Deus consentira em infestar a Terra",
e ele instigava o povo a atirar-lhes ovos podres. Em sua livre? Será que ~empre terá de ser que um homem seja
escravo porqu~ e negro e que outro seja livre porque é
opinião, os escravos eram "neg3o~ go~dos e indolentes", branco?. . . Digo-lhes que, enquanto não limparmos essa
que dão gargalhadas de manha a n01te, e _os donos de mancha imunda das instituições de nosso país a própria
escravos homens tão gentis, ,t~o genero~os e t~o bon.s como liberdade não está segura em parte alguma." 10 'A mancha
jamais existiram.4 O monopollo ·das índ1as ~?Identais nada
Jmun~a não era. a escravidão, mas o monopólio. Manches-
custava ao povo inglês.s Manchester o reJeltou, e a con-
ter nao estava mteressada nas Escrituras Sagradas mas
versão de Cobbett à causa veio muito tarde. nos resultados censitários. '
Manchester era abertamente a favor da campanha em Depois de 1833, os capitalistas de Manchester eram
prol do açúcar das índias Orientais. A 4 de maio de 1821, tod?s pelo livre-câmbio d? . açúcar! isto é, do açúcar pro-
a Câmara de Manchester apresentou uma petição à Câmara
du~Ido por esc~avos. Ph1llps apOiava a equiparação das
dos Comuns censurando a preferência a uma colônia em tanfas açuca!e1ras das índias Orientais. Os plantadores
detrimento de outra, e particularmente a preferênsia a tinha'? recebido sua indenização e não obteriam um níquel
uma colônia de escravos em detrimento de uma naçao de a ma1s. 11 Em 1839, ele era pela equiparação das tarifas
homens livres.6 Em 1833, Manchester defendeu a admissão
sobre tod? o açúcar estrangeiro, pois era dever do Parla-
do açúcar brasileiro para refinação. Mark Philips, repre- mento baixar os preços de todas as necessidades da vida
sentante de Manchester no Parlamento, falou breve, mas c proporcionar todo estímulo para o valioso comércio com
energicamente sobre a enorme importância do assunto o B~~sil. 12 Jo~n Brig~t e Milner Gibson, que em certa
para o grand~ centro da manufatura. algodoeira que ~le ocasmo fora VICe-Presidente da Junta de Comércio man-
representava. Acentuou os gravames Impostos aos navios tinham erguida a bandeira do livre-câmbio. Argu::Uenta-
que tinham de voltar do Brasil sem carga e argumentou vam que . a ta~ifa de proteção aos plantadores das índias
que o fomento da refinação de açúcar aumentaria 7os em- Ocidentais obngava a classe trabalhadora britânica a pagar
pregos para as industriosas classes trabalhadoras.
l'H>
174
preços mais altos pelo açúcar e assim tirava daquela gente detalhes da administração. Tornou-se o porta-voz dos fa-
o dinheiro ganho nas fábricas. 13 Chamavam a tarifa de bricantes de ferro junto ao Governo. 25 Esse era realmente
um "imposto odioso",14 uma "espécie de caridade parla- um homem perigoso de se ter como adversário, pois Garbett,
mentar",15 que era maior do que o custo de produção. no sentido mais amplo, era Birmingham.
Se os brasileiros podiam cultivar a cana de graça, se seu Numa reunião de vários habitantes respeitáveis de
açúcar caía do céu, se os plantadores das índias Ocidentais Birmingham, a 28 de janeiro de 1788, sob a presidência
tinham roubado seu açúcar, não fazia diferença.l6 A pro- de Samuel Garbett, decidiu-se enviar uma petição ao Par-
teção, dizia John Bright, era um ópio que tornava os lamento. A petição declarava, inter alia, que "como habi-
plantadores eternos resmungões - como Oliver Twist, tantes de uma cidade e zona industrial vossos requerentes
sempre pedindo mais.17 Os manufatores de algodão, van- têm os interesses comerciais desse reino arraigados pro-
gloriava-se ele, não pediam proteção e não precisavam de fundamente no coração; mas não podem esconder sua
nenhuma,1a esquecendo-se convenientemente da proteção aversão a qualquer comércio que sempre se origina na
que haviam pedido durante um século e meio antes contra violência e muito freqüentemente termina em crueldade".
as mercadorias indianas e ignorando a proteção que iriam Gustavus Vasa, um africano, visitou Birmingham e teve
pedir durante três quartos de século posteriormente contra uma acolhida cordiaJ.26
os tecidos japoneses. Os livre-cambistas, advertiu Bright, Isso não queria dizer que Birmingham era unânime
podiam ser derrotados, mas voltariam à carga com energia ou coerente na questão da abolição. Os fabricantes ainda
redobrada.1 9 As exigências dos plantadores eram indeco- interessados no tráfico de escravos realizavam contra-reu-
rosas;2o não era dever do Parlamento tornar o cultivo do niões e enviavam contrapetições ao Parlamento.27 Mas
açúcar lucrativo,21 e Bright aconselhava-os a cultivar cra- Samuel Garbett, os Lloyd e outras personalidades desse
vo-da-índia e noz-moscada.22 gabarito estavam, segundo o ponto de vista dos planta-
dores das índias Ocidentais, do lado errado da questão.
B. Os fabricantes de ferro Em 1832, Birmingham foi o centro de uma agitação
que, dirigida pelo fabricante de ferro Attwood, levou a
Já em 1788 uma sociedade abolicionista fora fundada Inglaterra à beira da revolução e culminou no Projeto de
em Birmingham e uma subscrição aberta para a causa. 23 Reforma de 1832. Outra vez a cidade estava dividida na
Nessa sociedade, os fabricantes de ferro eram elementos questão da emancipação. Uma sessão pública realizada na
de destaque. Três membros da família Lloyd, juntamente Sala de Reunião do Royal Hotel, a 16 de abril de 1833,
com seus interesses bancários, faziam parte do comitê. teve um caráter turbulento e terminou em desordem, o
A figura dominante, porém, era Samuel Garbett.24 Gar- proprietário reclamando indenização por cadeiras e copos
bett era uma personalidade importante da Revolução quebrados. 28 Birmingham era um dos inúmeros centros
Industrial, que lembra mais o século XX do que o sé- industriais que votaram em 1833 por um período mais
culo XVIII. Na amplitude de sua visão, no campo de suas curto de "aprendizado" sob o qual, pela Lei de Emanci-
atividades, na multiplicidade de seus interesses, ele nos pação, a escravidão negra foi perpetuada de uma forma
faz recordar Samuel Touchet. Como Touchet, sócio no modificada. J oseph Sturge era uma figura proeminente
empreendimento de fiação de Wyatt e Paul, Garbett era na luta pela emancipação. Depois de 1833, Sturge assumiu
associado de Roebuck na Usina Siderúrgica Carron, acio- a direção na Inglaterra do protesto contra o sistema de
nista com Boulton e Watt na Laminação Albion e nas aprendizado. Com o abolicionista Gurney, ele embarcou
minas de cobre de Cornualha. "Havia na verdade", escreve para as índias Ocidentais, em 1836, "com a idéia bene-
Ashton, "poucos domínios da vida industrial e comercial volente de colher informações pessoais quanto à situação
de seu tempo a que ele não se dedicasse". Além disso, sua da população negra, na esperança de obter nova melhoria
energia era aplicada mais à política industrial do que ao::; cte S'\la condi~ão". Sua volta. incói.ume po ano seguinte

176
foi comemorada por um almoço público em sua honra na Em maio de 18,33, a Sociedade Antiescravista da cidade
Municipalidade, em reconhecimento de "seus incansáveis remeteu um memorial ao Primeiro-Ministro solicitando
esforços filantrópicos pela causa da emancipação do ne- emancipação imediata e não gradual.32 No fim, protestava
gro".29 Essa era a Birmingham do século XIX e não mais contra a indenização aos donos de escravos e o projeto de
a do século XVIII: um outro grupo de interesses se voltara aprendizado, e Sheffield, como Birmingham, propunha que
contra o sistema colonial. se terminasse o aprendizado no tempo mais curto pos-
Juntamente com Birmingham, pode-se considerar sível.33
proveitosamente Sheffield como o centro da indústria do
aço. O interesse de Sheffield pelo sistema colonial tinha C. A indústria da lã
sido no máximo superficial; "sem interesse consolidado
na manutenção da escravidão colonial, (ela) oferecia um A indústria da lã também juntou-se ao coro da opo-
campo favorável para o abolicionista". Sheffield, como sição. Wilberforce e Brougham falavam não somente pelos
Manchester, Birmingham e outros centros industriais, não humanitaristas, mas também pelos centros de lã. Iria a
era representada no Parlamento antes de 1832. Fazia parte Câmara, perguntava o Sr. Strickland por Yorkshire em
do condado de York, cujo representante foi primeiro Wil- 1833, tomar a liberdade de comércio e a extensão do em-
berforce e depois Brougham - ambos destacados abolicio- prego do capital como a regra para legislar, ou iria tomar
nistas. "Sou um defensor da abolição da escravatura nas aquilo para aumentar os monopólios por meio de restri-
índias Ocidentais", afirmou Brougham em sua campanha ções? Ele próprio deu a resposta: todos os monopólios
na cidade em 1830, "e hei de arrancá-la pela raiz. Já a deveriam ser extirpados, como destrutivos ao progresso do
afrouxei e, se vocês me ajudarem, hei de brandi-la por cima comércio.34
de suas cabeças. "30 John Bright no algodão, Samuel Garbett no ferro.
Certa parte da ajuda de Sheffield pode ser atribuída a Eram homens poderosos, a que se juntaria um mais pode-
seu interesse pelo Oriente. Em 1825, os abolicionistas come- roso ainda, falando em nome da indústria da lã - Ri-
çaram a boicotar a produção das índias Ocidentais e a chard Cobden. Sobre a questão do monopólio das índias
estimular, em seu lugar, o consumo do açúcar e rum da Ocidentais, o evangelista do livre-câmbio e o líder da Liga
índia. Sheffield era o centro desse movimento. Uma so- contra as Leis do Trigo falava com um vigor, uma lógica
ciedade auxiliar foi formada no mesmo ano para a ajuda e um apoio popular que eram irresistíveis.
dos escravos negros. O comitê organizou uma campanha A pretensão do monopólio, por parte das índias Oci-
intensiva na cidade. Cada membro escolheu duas ruas a dentais, era, em princípio, uma audácia. Houve época,
fim de fazer uma verificação quanto à praticabilidade de trovejava Cobden, rememorando o Longo Parlamento•r. e
induzir as donas de casa a adotarem o uso dos produtos Carlos I, em que nenhum membro ousaria erguer-se no
das índias Orientais. O comitê estimou que para cada seis Parlamento para fazer uma reivindicação com base num
famílias que usassem o açúcar das índias Orientais um monopólio.35 Homens de negócios calculariam o custo, e
escravo a menos era necessário nas índias Ocidentais - presumivelmente não poderiam ficar satisfeitos se verifi-
obviamente um argumento artificial, mas qualquer açoite cassem que as despesas se elevavam a metade do valor
servia para fustigar os plantadores das índias Ocidentais, total do comércio colonial. 36 Se a Grã-Bretanha tivesse
desde que fossem fustigados. "Certamente", o comitê oferecido gratuitamente suas exportações aos plantadores,
advertiu a seus concidadãos, "libertar um semelhante de
um estado de servidão cruel e miséria, por um sacrifício
tão pequeno, merece a atenção de todos". Sheffield cor- • Long Parliament (Longo Parlamento), Parlamento que se reuniu
respondeu à expectativa: a venda do açúcar das índias em 1640 e foi dissolvido por Cromwell em 1653. Voltou a reunir-se
Orientais duplicou em seis meses.31 em 1659, depois da morte de Cromwell, e dissolveu-se no ano
seguinte. (N. do T.)

178 179
em troca do livre-câmbio com o Brasil e Cuba, ela ainda da. lã", declarava em 1848, "uma indústria autóctone contra
teria ganho.37 Então que espécie de comércio era esse? 1t qual não há ressentimento nesta Casa . . . Sou o repre-
"Era precisamente como se um lojista desse, com cada sentante de um condado que foi importante no movimento
lote de mercadorias no valor de uma libra, meio soberano da escravidão. . . Agora, sem hesitação, afirmo que quase
a seu freguês ." A Câmara dos Comuns realizava negócios todos os homens, que dirigiram a agitação pela emanci-
com menos perspicácia do que a necessária para dirigir-se pação dos escravos e que por sua influência na opinião
eficientemente uma tendinha. 38 pública ajudaram a produzir esse resultado, estão contra
- Sob a alegação de que a tarifa diferencial em favor os ilustres senhores desta Casa que defendem uma tarifa
do açúcar das índias Ocidentais visava proibir o consumo diferencial sobre o açúcar estrangeiro tendo em vista
de açúcar produzido por escravos, Cobden descarregou seu ncabar com a escravidão no exterior."42
sarcasmo fulminante. Que direito tinha um povo que era
o maior distribuidor de tecidos de ir ao Brasil, com seus
navios cheios de artigos de algodão manufaturados com D. Liverpool e Glasgow
material produzido por escravos e, após erguer os braços
aos céus derramar lágrimas de crocodilo pelos escravos Talvez o fato mais cruel para os plantadores das índias
e recusa'r-se a aceitar em troca açúcar produzido por Ocidentais era que Liverpool também virara a casaca e
escravos? 39 A situação era ridícula, e Cobden escreveu mordia a mão que a alimentara. Em 1807, havia ainda 72
uma paródia sobre ela na forma de uma entrevista ima- traficantes de escravos na cidade e foi de Liverpool que o
ginária na Junta de Comércio entre Lorde ~ipon e o último dos traficantes ingleses de escravos, o Comandante
embaixador brasileiro. O embaixador escarnecia do des- Hugh Crow, zarpou pouco antes que a lei da abolição
concertado Lorde Ripon: "Não há escrúpulos religiosos em entrasse em vigor. 43 Mas, se Tarleton continuou sua opo-
mandar tecidos de algodão produzidos por escravos para sicão no Parlamento a uma medida tão necessária como
todos os países do mundo? Não há escrúpulos religiosos a "abolição do tráfico inglês de escravos para as colônias
em comer o arroz produzido por escravos? Não há escrú- açucareiras estrangeiras,44 em 1807 Liverpool era também
pulos religiosos em fumar o tabaco produzido por escravos? representada por William Roscoe, cujos sentimentos an-
Não há escrúpulos reli:giosos em aspirar o rap~ produzid.o tiescravistas já assinalamos.
por escravos? .. . Devo entender que os escrupulos reli- Embora Liverpool realizasse tráfico de escravos em 1807,
giosos do povo inglês se l~mitam ao. açúc~r?'.' Ripon, tal tráfico se tornara menos vital para a existência do
obviamente constrangido, reitera sua Impossibilidade de porto. Em 1792, um em cada 12 navios pertencentes ao por-
adquirir o açúcar brasileiro e alega, em sua defesa, as to dedicava-se ao tráfico de escravos; em 1807, um em
recomendações do Partido Antiescravista dirigido por Jo- cada 24.45 Em 1772, quando 101 navios de Liverpool se
seph Sturge. Nesse momento entra Sturge, com uma dedicavam ao tráfico de escravos, os direitos das docas
gravata de algod~o, um chapéu ~errado com _pano de montaram a 4.552 libras; em 1779, quando, em conse-
algodão, um paleta costurado com lmha de algodao, bolsos qüência da Revolução Americana, apenas 11 navios zar-
bem forrados com ouro e prata trabalhados por escravos. param de Liverpool para a Africa, os direitos das docas
montaram a 4.957 libras.46 Em 1824, montaram a 130.000
Os dois diplomatas caem na gargalhada.40 libras. 47 Evidentemente, a abolição não podia arruinar
A lógica, se não a humanidade, estava do lado de Liverpool. Como afirmou Roscoe, os habitantes da cidade
Cobden. Assim era o Partido Antiescravista. Esse partido, não eram unânimes em opor-se à abolição, e àqueles que
vangloriava-se ele com justiça, tivera sua força e centros seriam atingidos pela medida ele apresentava a perspectiva
de atividades nas cidades industriais e estava agora nas tentadora de um comércio com a índia alegando que a
fileiras dos revogadores das Leis do Trigo.41 Ambos fala- revogação do monopólio da Companhia das índias Orien-
vam de comum acord,o. "~ou o representante c;la indústria tais seria a compensação por qualquer perda que a aboli-

181
ção do tráfico de escravos pudesse infligir aos negociantes dição atual e ó bem-estar futuro da população trabalhadora
britânicos. 4s da Inglaterra.ss
Mas se Liverpool se virou contra o tráfico de escravos, Em Glasgow, também, os plantadores das índias Oci-
ainda mantinha seu interesse pela escravidão. Não era dentais perderam outro amigo. Os tempos de Macdowall
mais, porém, a escravidão das índias Ocidentais, mas a e das herdeiras do açúcar tinham passado. A mudança
americana, não mais o açúcar, mas o algodão. O comércio pode ser simbolizada nas vicissitudes de uma família de
de algodão americano tornoú-se o mais importante comér- Glasgow. No século XVIII, um humilde cidadão de Glas-
cio de Liverpool. Em 1802, metade das importações de gow, Richard Oswald, emigrou para Londres. Lá, por meio
algodão da Grã-Bretanha veio através de Liverpool; em de um feliz casamento com uma herdeira de grandes
1812, dois terços; em 1833, nove décimos. 49 Liverpool er- plantações de cana-de-açúcar, ele fez sua fortuna.se Du-
guera Manchester no século XVIII; Manchester assumia rante anos, foi um grande mercador de escravos, possuindo
a dianteira no século XIX e Liverpool arrastava-se obe- sua própria fábrica na ilha Bence, na foz do rio Serra
dientemente atrás. Na era do mercantilismo Manchester Leoa. 57 A fortuna finalmente passou para James Oswald,
fora o interior de Liverpool, na era da livre empresa Liver- o primeiro representante de Glasgow no Parlamento Re-
pool era o subúrbio de Manchester. formado. Em 1833, Oswald apresentou uma petição, tra-
Liverpool seguiu a orientação livre-cambista dada pela zendo a assinatura de muitos homens respeitáveis, solici-
capital do algodão. Entre seus representantes depois de tando a redução das tarifas exorbitantes impostas ao
1807, escolheu Canning e Huskisson, homens que falavam açúcar brasileiro importado para refinação.58
a linguagem do livre-câmbio, embora em tom um tanto
moderado. Os privilégios exclusivos, disse Huskisson em E. Os refinadores de açúcar
1830, estavam fora de moda,50 ganhando assim a magní-
fica baixela de prata que a cidade lhe ofereceu como uma No século XIX, não menos do que no século XVIII, o
"prova da compreensão (dela) dos benefícios proporcio- plano ambicioso da Grã-Bretanha era tornar-se o empório
nados à nação em geral pelo sistema esclarecido de polí- uçucareiro do mundo, adoçar o chá e o café do mundo,
tica comercial apresentado por ele como Presidente da como a Revolução Industrial lhe permitira vestir o mundo.
Junta de Comércio". 51 Qualquer ministro, disse seu novo Essa visão mundial estava em conflito não somente com
representante Ewart em 1833, pensando nas mercadorias n importância declinante da produção das índias Ociden-
de Manchester, que continuasse a impor entraves ao co- tais relativa à produção mundial, mas também com a
mércio britânico merecia ser processado por alta traição. 52 determinação persistente dos plantadores das índias Oci-
Os negociantes e proprietários de navios da cidade apre- dentais de restringir seu cultivo a fim de manter os preços
sentaram uma petição ao Parlamento no mesmo ano, soli- de monopólio.
citando que se atendesse ao monopólio colonial exclusivo A insurreição dos escravos em São Domingos fez os
do mercado interno. 53 Havia uma poderosa Associação Bra- preços do açúcar no mercado europeu subir em espiral. Os
sileira na cidade, a qual acentuava que, em conseqüência preços elevaram-se em 50% entre setembro de 1788 e abril
do monopólio das índias Ocidentais, mais de dois milhões de 1793.59 Os refinadores de açúcar da Inglaterra enviaram
de capital britânico foram desviados, dando serviço a navios uma petição ao Parlamento em 1792. Não eram mais tão
estrangeiros e pagando a estrangeiros fretes, comissões e modestos como tinham sido quarenta anos antes. Conde-
custas, para grande prejuízo dos proprietários de navios naram os males do monopólio das índias Ocidentais, men-
britânicos. 54 Os negociantes e proprietários de navios de cionaram "a decadência de sua manufatura outrora flo-
Liverpool expressavam a esperança de que, embora o Par- rescente", solicitaram a admissão de açúcar estrangeiro
lamento estivesse legislando em benefício de escravos em em navios britânicos com tarifas mais elevadas, e pleitea-
colônias distantes, também levaria em consideração a con- ram a equalização das tarifas sobre o açúcar das índias

182 183
Ocidentais e das índias Orientais Britânicas.60 A sabota- Somente os interesses das índias Ocidentais, pergun-
gem começara bem no quintal do plantador das índi3;s tava John Wood pelos refinadores de açúcar de Preston,
Ocidentais. A opinião pública injustamente acusou os refl- devem ser levados em conta? 68 Iria o Parlamento, "para
nadqres pelos preços altos. 61 Mas uma comis~ão instituí~a satisfazer os monopolistas, consentir em arruinar nossos
numa reunião pública para examinar os n::e10s de reduzir recursos futuros?" 69 A Grã-Bretanha, disse Huskisson da
o preço do açúcar isentou de culpa os r.efmad?res ~ pre- Junta de Comércio, poderia tornar-se o entreposto de
conizou a admissão do açúcar das índias Onentais em açúcar do mundo, e poderia por conseguinte proporcionar
igualdade de condições como "~;n ~to de j~stiça" .62 emprego para seus homens ociosos e seu capital ocioso
A questão indiana, como Ja vimos, fo1 contornada refinando aquele açúcar para os mercados da Europa. De
quando o petisco dominicano foi alvo da gula do Governo fato ele não conhecia outro ramo em que o capital pudesse
ser ~ais beneficamente empregado do que na refinação do
inglês. Mas o caso foi revivido 1:}3; déca?a de 1820, quando açúcar.7o A supressão do monopólio das índias Ocidentais,
a índia precisava exportar matenas-pr~mas para pagar ~s disse William Clay pelo distrito de refinação de açúcar dos
manufaturas britânicas. A competiçao com o algodao Tower Hamlets,* "seria obtida por um preço barato, con-
americano era impossível; 63 assim, os nego~iantes indian?s, cedendo-se aos proprietários das índias Ocidentais a quan-
alegou-se, tinham de escolher entre o a~ucar Ae a~ areias tia exata da indenização proposta".71
do Ganges.s4 Os indianos falavam em liv~e~camb10, ~as Isso era ir muito depressa para um Governo ainda
seu objetivo real era participar do !llonopoho da~ índias dominado, em 1832, pela aristocracia agrária e, portanto,
Ocidentais no mercado interno. Aqm, eles e os refmadores simpático a seus irmãos coloniais. O Governo adotou um
estavam em desacordo. Como disse Ricardo: "Nenhuma meio-termo temporário. Em troca da emancipação, o direi-
proteção exclusiva devia ser concedida às ín.dias Orientais to dos plantadores das índias Ocidentais ao monopólio do
ou às índias Ocidentais, e devíamos ter hber~a~e para mercado interno seria mantido, enquanto a importação
importar nosso açúcar de onde quer que qmsessemos. irrestrita de açúcar estrangeiro era permitida, mas somente
Nenhum mal poderia advir disso." 65 para refinação e exportação para a Europa.
A situação dos refinadores de açúcar em 1831 era A situação era fantástica. A explicação oferecida foi
desesperada. Os plantadores das índias O~ident~is .tinha~ que o açúcar brasileiro e cubano era produzido por escra-
o monopólio do mercado interno .. O açucar :ndmno so vos. Mas também o eram o algodão americano e o café
podia ser importado a tarifas. exorbitantes, a nao ser para brasileiro. Se as mesmas restrições tivessem sido aplicadas
reexportação. Medidas anuais eram vot~das pelo. ~arla­ ao algodão estrangeiro como eram aplicadas ao açúcar
mento permitindo a importação ~o açucar bras~le1ro e estrangeiro, o que teria sido da preeminência industrial
cubano exclusivamente para refinaçao e reexportaçao. ~sso britânica no mundo? A distinção entre artigos produzidos
era evidentemente insatisfatório. Havia um grande capital pela mão-de-obra livre e por escravos era um princiJ?i? ~ara
investido na indústria de refinação do açúcar, est.~I?a~o ação individual, não uma regra que pudess~ dmg1r o
entre três e quatro milhões em 1831.66 Em conse.quenci~ comércio internacionai.72 Os capitalistas quenam apenas
da proibição de todo o açúcar, menos ? da~ índias ?ci- açúcar barato. Só podiam ver uma coisa, que era "mons-
dentais Britânicas, a indústria estava a be1~a da .rum~. truoso" ter de depender, para seu abastecimento, de
Os custos mais altos do açúcar das índias Ocidentais Bn- açúcar produzido a preço de monopól.io. 73 Não podiam,
tânicas significavam que os refinadores continentais esta- como afirmou Lorde Lansdowne, expenmentar coisas por
vam desalojando os britânicos em todos os ~ercados euro- um termômetro especial, que subia ao ponto de ebulição,
peus. Em 1830, havia 224 tachas em func10~amento e:r:n
Londres; em 1833, menos de um terço _?esse num~ro: D?IS
terços do comércio de refinação de açucar no pais mte1ro • Tower Hamlets (Povoados da Torre) , antigo burgo parlamentar
(distrito eleitoral), a leste de Londres. (N. do T.)
estavam completamente paralisados.67
185
184
I I

com o açúcar cubano, e baixava à temperatura mais agra· u•·rrumento para a sua abolição. Se temos alguma consi-
dável, com o algodão da Carolina.74 dl'l'ação pela vida dos marinheiros, devemos abandonar
11 rn ramo de comércio que dissipa os homens de maneira
F. Frota mercante e marinheiros t.11o improfícua." s2
Em 1807, o interesse dos proprietários de navios pelo
Os plantadores das índias. Ocidentais sempr~ ~e~cio­ Lráfico de escravos declinara consideravelmente. Na média
naram, para justificar seu sistema, sua, contnb~Içao à dos dez anos que precederam 1800, o capital investido no
supremacia naval da Inglaterra. Graças as pesquisas de t.l'áfico de escravos foi menos de 5% do comércio de ex-
Clarkson, a Inglaterra tomou co?I_:ecimento do preço q~e portação total do país; em 1807, foi 1,25%. Em 1805, 2%
teve de pagar por essa contribmçao: Enfrentando o leao rlt1 tonelagem de exportação britânica, excluindo a Irlanda
em seu covil Clarkson, com grande nsco pessoal, percorreu 1 o comércio costeiro, foram empregados no tráfico de
I •
as docas de Liverpool, Brístol e Londres, interrogou mari- ~·~cravos, apenas 4 % dos marinheiros empenhados no co-
nheiros examinou róis de equipagem e colheu provas do rnércio exterior em geral.S3
que er~ uma terrível acusação dos efeitos do tráfico de Os proprietários de navios também começaram a achar
escravos agora não sobre os negros, mas sobre os brancos. o monopólio das índias Ocidentais enfadonho. Promete-
Seg~ndo Clarkson, a proporção de mort~s no tráfico ~e rnm-lhes que a equiparação das tarifas sobre o açúcar da
escravos em comparação com as que ocornam no comer- rndia Oriental proporcionaria serviço para 40% a mais
cio com a Terra Nova era de vinte para uma. 75 Wilbe~­ do navios.s4 A frota mercante britânica empenhada no
force estimou as perdas anuais em um quarto do.s man- <'Omércio com a índia aumentou quatro vezes, entre 1812
nheiros.76 Com base nos róis de equipagem de Liverp?ol r 1828, e Huskisson admitiu que a dificuldade era encon-
e Brístol, ele mostrou ao Parlamento que em 350 navios Lmr retornos da fndia.s5
negreiros, com 12.263 marinheiros, houve 2.643 mortes - Os proprietários de navios estavam igualmente cientes
21,5% - em doze meses, enqua~to n?s 462. navios em- elo valor do açúcar brasileiro. Poulett Thomson, da Junta
penhados no comércio com as índias Ocidentais, com 7.640 de Comércio, frisou que a importação do açúcar estrangeiro
marinheiros, houvera apenas 118 mortes em sete meses -:- para refinação era muito benéfica para os interesses dos
ou menos de 3% anualmente. 77 William Smith d~smentlu proprietários de navios britânicos.s6 Segundo Ewart, tal
a falácia de que o tráfico de escravos e~?' respons~vel pelo Importação forneceria frete para 120.000 toneladas de
ingresso de muitos "homens d~ terra -~a man~ha. A tl.avios somente do Brasil, enquanto São Domingos (per-
proporção dos "homens de terra , pelos ro1s de eqmpagem t,cncente à Espanha), Cuba, Manilha e Cingapura propor-
de Brístol foi de um duodécimo; em Liverpool, de um cionariam cargas para outras 200.000 toneladas.s7 Mark
dezesseis ~vos.7s De acordo com Lorde Howick, as perdas Philips contou à Câmara uma história lastimosa de navios
entre os marinheiros no tráfico de escravos eram oito vezes retornando do Brasil vazios - 1832; 51 navios zarparam
as do comércio com as índias Ocidentais, e aquelas eram de Liverpool para o Rio de Janeiro, nem um só trouxe
notáveis pela presteza com que os homens desertavam ao um carregamento de retorno.ss Segundo William Clay, de
chegarem nas índias Ocidentais e se passavam para os quatro navios britânicos que zarparam mensalmente de
navios do Rei.79 O comitê de Abolição declarou que a Liverpool para o Brasil em 1832, nem um só retornou com
mortalidade no tráfico de escravos era mais do que o dobro n produção pela qual seus carregamentos tinham sido
de todos os outros ramos de comércio do reino.80 John ndquiridos. 89
Newton uma autoridade no assunto, fala da perda "ver- Os proprietários de navios eram todos pelo livre-câm-
dadeira~ente alarmante" no tráfico de escravos.81 Ramsay lllo, mas somente quando o monopólio de outros estava
resumiu o sentimento geral: "Não forma, mas destrói t•nvolvido. Em 1825, as Leis de Navegação foram modifi-
marinheiros. E essa destruição de marinheiros é um forte l'ndas. As índias Ocidentais Britânicas obtiveram permis-
186 187

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....... - - -- - - -- - -
são para comerciar com todas as partes do mundo. Isso
foi a brecha inicial. Em 1848, as Leis de Navegação, o
próprio sustentáculo do sistema colonial, foram arrastadas
pelas vagas do laissez-faire como refugo de tempos antigos. 10
Ricardo ridicularizou o meio tortuoso e dispendioso pelo
qual as trocas eram realizadas. Citou um caso em que "A PARTE COMERCIAL
couros americanos foram levados de Marselha para Roter- DA NACÃO"
dão. Não encontrando mercado, foram levados de volta E A ESCRAVIDÃO
para Marselha, de onde foram enviados para Liverpool.
Em Liverpool foram apreendidos sob o fundamento de que
tinham sido importados num navio francês e só foram
liberados sob a condição de que seriam enviados de volta
a Nova Iorque. Um espanhol, continuava Ricardo, não Os capitalistas primeiro estimularam a escravidão nas
tinha permissão pelas Leis de Navegação inglesas para 1ndias. O~identais_ e. d~pois ajudaram a destruí-la. Quando
embarcar um carregamento de açúcar em Cuba para en- o capit~lismo bntamco dependia das índias Ocidentais
trega num porto francês, onde embarcaria vinho para a el~s. a. Ignoravam ou defendiam. Quando o capitalism~
Inglaterra. Na Inglaterra, ele encontraria um funcionário bntan~c~ achou-a uma coisa incômoda, eles destruíram a
da alfândega, que lhe diria que ele não podia desembarcar escrav1dao n~s índia~ Ocidentais. Que a escravidão para
sua carga. "- Por quê?" - perguntaria o espanhol. eles _era relatrva, e nao absoluta, e dependia de latitude e
"- Pensei que vocês quisessem vinho." "- De fato, que- longitude, está pr~v~do por sua atitude, depois de 1833,
remos" - responderia o funcionário. Então o espanhol pa~a com a escravrdao em Cuba, no Brasil e nos Estados
diria: "- Vou trocar meu vinho por sua porcelana." U:n~dos. Censuravam seus adversários por verem a escra-
"- Isso não serve" - replicaria o funcionário da alfân- Vld::o somente onde viam açúcar e limitarem sua obser-
dega e acrescentaria: "- Tem de ser trazido por um vaçao ao. arco de uma barrica. 1 Recusavam-se a formular
francês ou por um navio francês." "-Mas o francês não suas tanfas. em base de moralidade, a erigir um púlpito
quer sua porcelana." "- Não podemos resolver isso" - re- em ca~a alfandega e a fazer seus administradores coloniais
trucaria o funcionário, explicando: ''-Não podemos deixar cumpnrem as doutrinas antiescravistas.2
que você viole nossas Leis de Navegação." Se os espanhóis Antes e depois de 1815, o Governo britânico tentou
queriam porcelana, concluía Ricardo, os franceses açúcar, subor~~r os Governos espanhol e português para a abolição
e os ingleses vinho, "por que razão devemos proibir o curso do trafrc? de escravos - em 1818, a Espanha recebeu
natural da transação?" 9o 400.900 libras em troca da promessa de fazê-la. Tudo
Os proprietários de navios não viam as coisas assim. tnutrlmente . . Os tratados eram considerados como pedaços
Eles tinham votado contra o monopólio do trigo e o mono- de papel, pms a abolição arruinaria Cuba e o Brasil. o
pólio do açúcar, mas não abandonariam o monopólio da Govern~ brit~nico, portanto, instigado pelos plantadores
navegação. Enquanto o trigo e o açúcar estavam perdendo das fndras Ocrdentais, resolveu adotar medidas mais drás-
o privilégio, a frota mercante não podia gozar imunidade. t.lcas. Wellington foi enviado à conferência internacional
Em 1848, as Leis de Navegação foram revogadas. A última de Verona para propor que as potências européias boico-
pá de cal foi atirada sobre o mercantilismo quando Ricardo tassem a produção dos países que ainda se dedicavam ao
aconselhou os defensores da "longa viagem" a fazerem sua tráfic_? de escravos. Se lhe fizessem a pergunta sobre se
carga dar três voltas em torno das Ilhas Britânicas. 91 1\ Gra-~retanha, estava. igualmente disposta a rejeitar a
produçao dos parses traficantes de escravos, importada não
para consumo, mas em trânsito, ele devia manifestar boa

188 189
vontade em submeter essa proposição à consideração ime- n conhecimento pleno das opiniões da parte comercial
diata de seu Governo. 3 Essas instruções faziam poúca. dt~ nação?" 10
justiça à perspicácia dos estadistas europeus. A proposta A parte comercial da nação não deixou Canning muito
de Wellington foi recebida em silêncio, e ele observou lt•mpo em dúvida. Um projeto já fora apresentado no
"aqueles sintomas de desaprovação e discordância que mê Jlnrlamento, em 1815, para proscrever o tráfico de escra-
convenceram não somente que não seria adotada, mas que vos como um investimento para o capital britânico. Ba-
a sugestão disso era atribuída a motivos de interesses não ,·tng, da grande casa bancária que teria posteriormente
ligados ao desejo humano de abolir o tráfico de escravos!" 4 rolações tão íntimas com a América espanhola indepen-
Como Canning informou a seu Gabinete: "A proposta da cll'nte, lançou uma advertência solene de que todas as
recusa de admitir o açúcar brasileiro nos domínios dos ol'ganizações comerciais da Grã-Bretanha deveriam pro-
Imperadores (isto é, da Rússia e Austria-Hungria) e do testar contra aquele projeto,11 e a Câmara dos Lordes
Rei da Prússia foi recebida (como era de esperar) com um I'Pjeitou-o. 12 Em 1824, 117 negociantes de Londres apre-
sorriso; o que indicava por parte dos estadistas continen- Mcntaram uma petição solicitando o reconhecimento da
tais a suspeita de que havia algo de interesse próprio em Independência da América do Sul - os peticionários eram,
nossa sugestão para excluir a produção das colônias rivais t•m suma, a cidade de Londres. 13 O Presidente, Vice-Pre-
de competição com as nossas próprias, e a surpresa deles 1\ldente e membros da Câmara de Comérico de Manchester
de que aceitaríamos transportar a produção que gostaría- declararam que a abertura do mercado sul-americano para
mos de dissuadi-los de consumir."5 n. indústria britânica seria um acontecimento que produ-
Era evidentemente o que um membro do Parlamento ziria os resultados mais benéficos para o comércio britâ-
chamaria mais tarde de "humanidade lucrativa".6 A in- nlco.t4 O capitalismo britânico n ão podia mais contentar-se
dependência do Brasil deu a Canning melhor oportunidade. com o contrabando.
Reconhecimento em troca de abolição. 7 Mas havia o perigo Esse mercado sul-americano, o Brasil especialmente,
de que a França reconhecesse o Brasil sob a condição de baseava-se na mão-de-obra escrava e precisava do tráfico
que o tráfico de escravos continuasse.s Que seria então de escravos. Os capitalistas britânicos, portanto, começa-
do transporte marítimo britânico e também das exporta- l'am uma campanha vigorosa contra a política de seu Go-
ções britânicas? "Há imensos interesses britânicos envol- verno de· suprimir forçadamente o tráfico de escravos pela
vidos no comércio com o Brasil", Canning lembrou a Wil- manutenção de navios de guerra na costa africana. A
berforce, "e devemos proceder com cautela e bastante política era dispendiosa, ultrapassando o valor anual do
atenção; e levar em conta os sentimentos comerciais, como comércio total com a Africa. As exportações africanas
também os morais do país".9 Moralidade ou lucro? A montaram a 154.000 libras em 1824; as importações ele-
Grã-Bretanha tinha de escolher. "Você argumenta", es- varam-se a 118.000 libras em mercadorias inglesas e 119.000
creve Canning francamente a Wilberforce, "contra o reco- libras em mercadorias estrangeiras. Isso era o grande
nhecimento do Brasil sem a extinção do tráfico de escra- volume de comércio, disse Hume, para o qual o país devia
vos. . . você está surpreso de que o Duque de Wellington rnzer tão vasto sacrifício de vida humana na costa mortal
não foi instruído a dizer que abandonaria o comércio com tlc escravos. 15 A humanidade pelos marinheiros ingleses
o Brasil (pois isso é, receio, o resultado de abandonar a Pxigia o seu abandono. Se alguns abolicionistas estavam
importação e a reexportação do açúcar e algodão), se a 1 ofrendo de uma ilusão humana, por que se devia permitir
Austria, a Rússia e a Prússia proibirem a entrada de sua que iludissem o Parlamento inglês?16 O povo inglês não
produção. Em são raciocínio, você tem o direito de ficar podia aceitar termos de indulgências tão extravagantes
surpreso, pois devemos estar prontos a fazer sacrifícios c·om respeito à Africa.17
quando os solicitamos, e sou favorável a que os façamos; Tudo isso foi antes de 1833, à época dos ataques cap~­
mas quem ousaria prometer um sacrifício como esse sem Lalistas à escravidão nas Índias Ocidenta~s. Depois ~e
190
1833, os capitalistas ainda estavam metidos no próprio Se os inescrupulosos de qualquer nação resolverem meter-se
tráfico de escravos. Mercadorias inglesas, de Manchester nele, que a culpa caia sobre as suas próprias cabeças; deixe
e Liverpool, artigos de algodão, grilhões e algemas, eram a um tribunal mais elevado o governo moral do mundo. 2s
enviados diretamente para a costa da Africa ou indireta- O dinheiro gasto em esforços infrutíferos para suprimir o
mente para o Rio de Janeiro e Havana, onde eram usados tráfico de escravos poderia ser mais benéfica e filosofica-
por seus consignatários cubanos e brasileiros com a fina- mente empregado no país (Inglaterra) .29 Bright criticou
lidade de adquirir escravos. 18 Dizia-se que sete décimos das como audácia a idéia de que a justiça à Africa devia ser
mercadorias usadas pelo Brasil para aquisições de escravos feita à custa da injustiça à Inglaterra.30 Eles têm muito o
eram manufaturas inglesas,19 e murmurava-se que os bri- que fazer no próprio país, argumentou Cobden, a uma
tânicos relutavam em destruir os barracões na costa porque distância bem curta das Casas do Parlamento, antes de
destruiriam conseqüentemente os panos britânicos de al- devotar-se a um plano de libertar do barbarismo toda a
godão.20 Em 1845, Peel recusou-se a negar o fato de que Africa.31 As atividades da esquadra britânica na costa
súditos britânicos estavam metidos no tráfico de escravos.21 africana eram descritas como expedições corsárias,32 o
O representante de Liverpool no Parlamento, interrogado que privava a Inglaterra anualmente de seus melhores e
à queima-roupa, não estava preparado para contradizer mais bravos jovens e causava desolação a inúmeros lares
que as exportações de Liverpool para a Africa ou outro ingleses.33 Havia outras ocasiões em que se poderia dedi-
lugar qualquer eram destinadas a "alguma finalidade im- car atenção à felicidade e não se devia intervir violenta-
própria".22 As firmas bancárias britânicas no Brasil fi- mente por meio de regulamentos fiscais nos sentimentos
nanciavam os traficantes de escravos e seguravam suas dos outros.34 A opinião pública nos países que traficam
cargas, conquistando assim a boa vontade de seus hospe- com escravos deve ser convertida à causa da humanidade·,
deiros. As companhias britânicas de mineração possuíam não alienada por uma política de coação, e n ão se podia
e adquiriam escravos, cujo trabalho empregavam em seus esperar que os brasileiros percorressem a estrada humani-
empreendimentos. "Temos forçosamente de adotar a dolo- tarista mais depressa do que os ingleses tinham feito. 35
rosa conclusão", disse Brougham com relação ao desen- A "humanidade estouvada e ignorante" da Grã-Bretanha
volvimento cubano e brasileiro, "de que em grande parte apenas agravara os sofrimentos dos escravos.36. Tin_ham
pelo menos um montante tão amplo de c~pital como o usado, disse Hutt, "a latitude extrema, pode-se dizer licen-
que era necessário devia pertencer aos homens ricos deste ciosidade, de meios - dinheiro público sem limite, arma-
país."23 John Bright estava bem ciente dos interesses de mentos navais vigiando toda praia e todo ~ar o~de u-r:n
seus constituintes de Lancashire quando argumentou elo- navio negreiro pudesse ser visto ou pressentido, tnbuna1s
qüentemente em 1843 contra um projeto proibindo o em- de jurisdição especial em metade das regiões intertropicais
prego de capital britânico, mesmo indiretamente, no trá- do globo -, influência e ação diplomáticas como talvez
fico de escravos, sob o fundamento de que seria letra morta rste país jamais reuniu antes em torno de qualquer as-
e de que a questão devia ficar a cargo dos sentimentos tmnto público".37 Apesar de tudo isso, o tráfico de escravos
honrosos e morais dos indivíduos. 24 Nesse mesmo ano, n.umentou. Era uma cruzada feroz e nem todas as forças
firmas britânicas cuidaram de três oitavos do açúcar, ela Armada britânica, nem todos os recursos do Tesouro
metade do café e cinco oitavos do algodão exportado de hritânico, poderiam suprimi-lo. 38 Estavam labutando há
Pernambuco, Rio de Janeiro e Bahia.25 t.l'inta anos, e nem mesmo um lunático alimentaria qual-
Os capitalistas já tinham bastante da "nobre expe- quer ilusão otimista sobre o êxito futuro desse empreendi-
riência" da Grã-Bretanha. O comércio era o grande eman- rncnto.39 Teria o Governo britânico abandonado sua
cipador.26 O único meio de acabar com a escravidão era rnzão, em favor da filantropia ?40 Teria prostituído sua
confiar nos princípios eternos e justos do livre-câmbio. 27 diplomacia, em favor das finalidades de um fanatismo
Deixe o tráfico de escravos de lado e ele cometerá suicídio. ll'l'acional ?41 Era curioso ver governantes, que não se dis-

192 193
tinguiam pela devoção às liberdades constitucionais inter- comércio córrl a :Espanha (Cuba) como estavam perdendo
namente, admitirem que um povo distante e bárbaro com o Brasil, tudo por causa da "tarifa absurda e política
sensibilizava mais sua consciência do que seus próprios nociva" do Góverno. "Tinham sacrificado os interesses
compatriotas. 42 As nações estavam contrariadas com "essa do país no comércio com o Brasil, no comércio com a Es-
cantilena filantrópica". 43 Essas extravagâncias, esse sis- panha, e receio que também com outros setores, prestes
tema irrefletido e ocioso,44 deviam ser abandonados, como a manifestar-se, e tudo com a finalidade de manter um
filosofia sinistra e espúria,45 experiências dispendiosas e capricho predileto, baseado em pretextos hipócritas."54 A
frustradas, 46 que punham em perigo a paz do mundo.47 As "última vela do século XIX" fora apagada.
leis do Céu não autorizavam o povo britânico a manter o Disraeli, também, condenou a supressão do tráfico de
mundo inteiro em polvorosa por causa do tráfico de es- escravos sob o fundamento de economia e de uma política
cravos.4a duvidosa que metia a Grã-Bretanha em dificuldade em
Onde estava Palmerston? O tráfico de escravos tinha todas as Cortes e em todas as colônias.ss Wellington cha-
sido chamado de "capricho benevolente" de Palmerston e mou-a de criminosa - "uma violação da lei das nações,
ele figura em nossos compêndios como o adversário per- uma violação dos tratados". 56 Até Gladstone foi obrigado
sistente do tráfico de escravos. No poder, Palmerston a escolher entre as necessidades dos capitalistas britânicos
realizou pouco. Fora do poder, incitou o Governo a maiores e as necessidades dos plantadores das índias Ocidentais.
esforços para realizar o que ele deixara de fazer. Uma Em 1841, ele era todo pela supressão e perguntava aos
simples moção para dados sobre o tráfico de escravos entre capitalistas se, por pequenas e mesquinhas vantagens pe-
1815 e 1843 foi acompanhada de um discurso que enche cuniárias, estavam dispostos a renunciar ao alto título e
mais de 25 colunas do Hansard; uma exibição retórica nobre caráter que tinham conquistado perante o mundo
rematada por uma peroração pomposa, que poderia ter inteiro. Estavam trazendo à luz toda incoerência com a
sido colhida nos discursos antiescravistas do último meio finalidade de usá-la como um pretexto para uma incoe-
século, acompanhava uma simples moção inócua. 49 Como rência posterior mais monstruosa, ou a fim de substituir
se estivesse apelando para que o Parlamento e o país apre- um recÕnhecimento incoerente do que era certo por uma
ciassem inteiramente os seus esforços pela causa, uma uniformidade no que era errado?57 Em 1850, porém, ele
vez por mês ele chamava a atenção para esses esforços.so condenou a política de supressão como anômala e despro-
Mas, quando o representante de Manchester ressaltou as positada. "Não é um decreto da Providência que obriga
dificuldades que a política de repressão da Grã-Bretanha o Governo de uma nação a corrigir os princípios morais de
estava causando com o Governo brasileiro e condenou a outra."58
interferência armada, Palmerston falou sobre a França, -E:-ra--;-b-a-stanteírônico que os antigos donos de escravos
Cuba, o emirato de Muscat, menos sobre o tráfico de escra- üas índias Ocidentais fossem agora os que erguessem o
vos brasileiro.51 E, com a campanha parlamentar contra a l'acho do humanitarismo. Aqueles que, em 1807, profeti-
política de supressão no auge, Palmerston contentou-se r.avam lugubremente que a abolição do tráfico de escravos
com a esperança de que "nenhuma Comissão recomendará 0
0Casionaria a redução do comércio, a diminuição da re-
um curso que seja o inverso daquele que temos seguido .. . ceita e a diminuição da navegação; e no fim solaparia e
ninguém dirá que devemos traçar um novo caminho". 52 destruiria totalmente a grande pedra fundamental da
Tinham dado prova, pensava ele, de zelo pela supressão prosperidade britânica",59 eram, depois de 1807, os mesmos
do tráfico de escravos e, se proibissem a importação do homens que protestavam contra "um sistema de raptos
açúcar brasileiro, o Brasil pensaria que eles não acredi- rontra um povo pobre e inofensivo". 60 Barham, das índias
tavam realmente que a mão-de-obra livre era mais barata Ocidentais, apresentou o projeto de lei de 1815 para tornar
do que a escrava.s3 Ao alegar a reivindicação espanhola punível o emprego de capital britânico no tráfico estran-
por reciprocidade, ele advertiu que eles perderiam seu "t•Jro de escravos e até para tornar criminoso o seguro de
194 195
navios utilizados no tráfico de escravos. 61 Entre os remé- da indústria britânica. Somos óS agentes_ do Sr. Le~re,~6:
dios sugeridos pelo interesse das índias Ocident ais, em ara a manufatura e venda de sua produç3:o _?e algodao ..
1830, para atender ao crescente sofrimento das colônias, b capitalismo britânico destruíra a escrav1dao nas ín~~s
Ocidentais mas continuava a faturar com a es~r~v1 ao
estava uma resolução "para adotar medidas mais decisivas
· ' cubana e amenca
brasileira · na. Mas o monopollo das
do que qualquer outra que tenha sido empregada até agora
para deter o tráfico estrangeiro de escravos; de cuja su- índias O~identais se extinguira para sempre. Na Guerra
pressão efetiva a prosperidade das colônias das índias Civil Americana, 0 Governo. inglês quase reconheceu ~
Ocidentais Britânicas ... finalmente depende". 62 Enviados confederação. Por uma iroma suprema coube a um e1e
jamaicanos, mandados para a Grã-Bretanha em 1832, de- mente das índias Ocidentais, Gladstone, I~n::brar a. uma
assistência em Newcastle que a Guerra C1vll Amencana
clararam que "as colônias se haviam conciliado facilmente havia-se "talvez tornado a mais inútil de ~odB:s .as grandes
com a abolição de um comércio bárbaro, que a civilização . ·s J·a' travadas" ' e que "não . ha duvida de
avançada da época não permitia mais que existisse; mas guerras c1v1 f d que
m
Jefferson Davis e outros líderes do Sul tmham orma ~ ~
eles pensavam, e aparentemente com razão, que os filan- exército· estão formando, assim parece, uma arma~· e
tropos não deviam estar satisfeitos com a extinção do formar~m, o que vale mais do que qualquer dessas uas
tráfico britânico". 63 Um grande movimento popular para .
coiSas, uma naçao - "66
.
a abolição do tráfico de escravos formou-se na Jamaica
em 1849. Todas as classes, raças, partidos e seitas se
uniram na questão de justiça para a Africa. Denuncia-
ram o tráfico de escravos e a escravidão como "opostos à
humanidade - produzindo os piores males para a Africa
-, degradantes para todos os que se dedicam ao tráfico
e nocivos para os interesses morais e espirituais dos escra-
vizados", e solicitavam que "o odioso termo escravo (seja)
expurgado do vocabulário do universo". "A ESCRAVIDÃO
DEVE CAIR e, quando cair, A JAMAICA FLORESCERA."
A Inglaterra, declaravam explicitamente, tinha ido à guerra
por causas menos injustificáveis.64
Os capitalistas britânicos, porém, permaneceram im-
passíveis. Em 1857, um editorial no Times de Londres
declarava: "Sabemos que para todos os fins mercantis a
Inglaterra faz parte dos Estados Unidos e que, com efeito,
somos sócios do plantador sulista; possuímos uma nota
de venda de seus bens e haveres, seus animais e imple~
mentes agrícolas, e ficamos com a parte de leão nos lucros
da escravidão .. . Festejamos a Sr.a Stowe, choramos com
seu livro e rezamos para um presidente antiescravista ... ,
mas durante esse tempo todo vestimos não somente a nós
mesmos, mas também o mundo todo, com o próprio algo-
dão colhido e limpo por Pai Tomás e seus companheiros de • Simon Legree 0 cruel feitor de escravos do romance A Cabana
sofrimento. É nosso comércio. É a grande matéria-prima do Pai Tomá;, de Harriet Stowe. (N. do T.)

197
19()

..
11
11
OS SANTOS" E
A ESCRAVIDÃO

I•iste estudo deliberadamente considerou de maneira se-


cundária a desumanidade do sistema escravista e o hu-
manitarismo que destruiu esse sistema. Desprezar isso
completamente porém, seria cometer um grave erro his-
tórico e ignorar um dos maiores movimentos de propaganda
elo todos os tempos. Os humanitaristas foram a ponta de
lnnça do assalto que destruiu o sistema das índias Ociden-
tais e libertou o negro. Mas sua importância foi mal
compreendida e gritantemente exagerada por homens que
Racrificaram a erudição pelo sentimentalismo e, como os
t'Scolásticos de outrora, puseram a fé acima da razão e
<la evidência. O Professor Coupland, numa entrevista ima-
ginária com Wilberforce, pergunta-lhe : "Na sua opinião,
tlual é a significância primordial de sua obra, a lição da
nbolição do sistema escravista?" A resposta instantânea
6 a seguinte : "Foi obra de Deus. Significa o triunfo de
Sua vontade sobre o egoísmo humano. Ensina que qual-
quer obstáculo, seja egoísmo ou preconceito, é removível
pela fé e pela prece." 1
Essa incompreensão provém, em parte, de uma ten-
Lativa deliberada dos contemporâneos de apresentar uma
visão deturpada do movimento abolicionista. Quando o
Lráfico de escravos foi abolido em 1807, o projeto de lei
continha uma frase no sentido de que o tráfico era "con-
trário aos princípios de justiça, humanidade e sã política".
Lorde Hawkesbury objetou; em sua opinião, as palavras
"justiça e humanidade" falavam em desabono dos trafi-
cantes de escravos. Portanto, propôs uma emenda excluin-
do aquelas palavras. Ao fazer isso, ele limitou a necessidade
ela abolição exclusivamente à conveniência. O Presidente
da Câmara dos Lordes protestou. A emenda tiraria o

199
único ~undamento sob o qual as outras potências poderiam Depois houve James Stephen, pai, e James Stephen,
ser solicitadas a cooperar na abolição. O Conde de Lau- filho. O pai tinha sido advogado nas índias Ocidentais e
derdale declarou que as palavras omitidas eram extrema- conhecia as condições locais. O filho se tornou o notável
mente essenciais no projeto. A omissão daria pretexto primeiro subsecretário permanente do Ministério das Co-
para que se desconfiasse na França de que a abolição era lônias, o "Supersecretário Stephen" e o "Sr. Mãe-Pátria"
ditada pelo motivo egoísta de que as colônias inglesas das chacotas inamistosas. Nessa função, ele mantinha
estavam bem abastecidas de negros. "Supondo-se assim uma vigilância incessante em favor de seus desamparados
que nós próprios não estamos fazendo sacrifício, como constituintes, os escravos negros. Estava constantemente
poderemos chamar com êxito as potências estrangeiras a instigando Wilberforce a esforços maiores e mais públicos
cooperar na abolição?" Os Lordes votaram a favor da em vez da política de memoriais e entrevistas com minis-
versão original.2 tros. A única coisa para refrear os crimes coloniais era
"alardeá-los para o público inglês e armar-nos com a indig-
Os humanitaristas britânicos formavam um grupo nação pública". 5 Stephen não se impressionava com os
brilhante. Clarkson personifica o que há de melhor no argumentos dos plantadores. "A privação de uma mansão
humanitarismo da época. Podemos apreciar mesmo hoje ou de uma carruagem, por mais dolorosa que seja, não
seus sentimentos quando, ao meditar sobre o assunto de pode predispor contra a exclusão protelada daquelas van-
seu excelente ensaio, ele despertou inicialmente para a tagens comuns da vida humana de que, segundo fatos
realidade da enorme injustiça da escravidão. Clarkson admitidos, os escravos comprovadamente estão padecen-
foi um trabalhador infatigável, que efetuou pesquisas in- do ... 6 O fim supremo da sociedade humana - a segu-
termináveis e perigosas sobre as condições e conseqüências rança da vida, propriedade e reputação - deve ser preferido
do tráfico de escravos, um prolífico panfletário, cuja his- a seus fins subalternos - o gozo de franquias particula-
tória do movimento abolicionista ainda é uma obra clás- res. " 7 Era curadoria em sua forma mais nobre e linguagem
sica. Sua labuta pela causa da justiça à África só foi mais apurada. Stephen redigiu o Projeto de Emancipação,
levada a cabo à custa de grande desconforto pessoal e que incluía concessões que ele detestava fazer aos plan-
impôs um ônus severo a seus minguados recursos. Em tadores. Enquanto os outros se acomodavam e se congra-
1793, ele escreveu uma carta a Josiah Wedgwood que tulavam consigo mesmos, o subsecretário permanente
contém alguns dos sentimentos mais elevados que moti- continuava a vigiar a legislação colonial com desvelo e
varam os humanitaristas. Ele precisava de dinheiro e desconfiança. "Franquias populares nas mãos dos senho-
queria vender duas de suas ações da Companhia de Serra res de um grande número de escravos", escreveu ele em
Leoa, fundada em 1791, para promover o comércio autên- 1841, "eram os piores instrumentos de tirania que já
tico com a Africa. "Mas", frisou ele, "eu só devia permitir foram forjados para a opressão da humanidade".8 Naque-
que as adquirisse aquele que ficasse mais satisfeito com o les tempos, e sob um tal administrador, o Governo de
bom resultado para a Africa do que pelos grandes lucros "Colônia da Coroa"* foi um passo notável para a proteção
comerciais para si mesmo; não que não se possa esperar dos povos mais fracos .
por tais lucros, mas em caso de decepção eu gostaria que Um dos mais antigos, mais capazes e mais diligentes
seu espírito se confortasse com a segurança de que ele dos abolicionistas foi James Ramsay que, como reitor nas
cooperara para introduzir luz e felicidade num país, onde índias Ocidentais, tinha uns vinte anos de experiência da
o espírito era mantido na escuridão e o corpo alimentado escravidão. "A única utilidade", escreveu ele a Wilber-
apenas por correntes européias." 3 Muito impulsivo e en-
tusiasta para alguns de seus colegas,4 Clarkson foi um "' Crown colony ("Colônia da Coroa"), colônia sobre qual a Co-
daqueles amigos dos quais a raça negra infelizmente teve roa (o soberano inglês) m ant ém certo poder de legislar.
muito poucos. (N. do T.)

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force em 1787, "que posso ter no negócio é como pioneiro tentam, a escravidão se enquadra no reino da Teologia, o
da remoção de obstáculos; use-me dessa maneira e me sen- monopólio muito enfaticamente não se enquadra.
tirei feliz. "9 Conhecia por experiência a grande mortali- Os abolicionistas não eram radicais. Em sua atitude
dade ocasionada pelo tráfico de escravos entre os mari- para com os problemas internos, eram reacionários. Os
nheiros brancos; podia falar em primeira mão da grande metodistas ofereciam ao trabalhador inglês Bíblias em vez
mortalidade ocasionada entre os escravos pela labuta de pão, e os capitalistas wesleyanos* demonstravam franco
excessiva nas plantações.10 Os plantadores perseguiam-no desprezo pela classe trabalhadora. Wilberforce sabia tudo
com uma implacabilidade reservada exclusivamente para o que se passava no porão de um navio negreiro, mas
ele. "Ramsay está morto", vangloriava-se um deles, "eu ignorava o que se passava no fundo do poço de uma mina.
o matei". Apoiou as Leis do Trigo, foi membro da comissão secreta
Ao lado desses homens, Wilberforce, com sua cara que investigou e reprimiu o descontentamento da classe
afeminada, parece pequeno em estatura. Há uma certa trabalhadora em 1817, opôs-se às associações antiescravis-
fatuidade em torno do homem, sua vida, sua religião. tas femininas e achou o Primeiro Projeto de Reforma muito
Como líder, era inepto, inclinado à moderação, conciliação radica1.1s
e protelação. Condenava as medidas extremas e temia a O primeiro erro em que muitos tê.m caído é a. sup?-
agitação popular. Confiava no êxito que se baseava no sição de que os abolicionistas, desde o começo, Jamais
patrocínio aristocrático, diplomacia parlamentar e influên- esconderam sua intenção de trabalhar para a emancipação
cia particular junto aos homens do poder. 11 Era um poli- completa. Os abolicionistas, por um longo tempo, evita-
tiqueiro, e era voz corrente que seu voto podia ser previsto ram e desmentiram qualquer idéia de emancipação. Seu
com segurança, pois era certo que seria oposto a seu interesse era exclusivamente no tráfico de escravos, cuja
discurso.12 "Geralmente", disse Tierney, "sua fraseologia nbolição, pensavam eles, levaria finalmente, sem interfe-
pode adaptar-se a qualquer partido; e se, de vez em quando, rência legislativa, à libertação. Em três ocasiões, o Comitê
ele perde o equilíbrio de sua argumentação e pende um da Abolição negou explicitamente qualquer intenção de
pouco para um lado, rapidamente se recupera e se desvia emancipar os escravos.16 Wilberforce em 1807 desmentiu
tanto na direção oposta que faz uma divisão justa de seu publicamente tais intenções.17 O Bispo de Rochester afir-
discurso entre os dois lados da questão." 13 Mas era um mou que os abolicionistas não agiam com base nas con-
orador persuasivo e eloqüente, com uma voz melodiosa rcpções visionárias de igualdade e direitos imprescritíveis
que lhe granjeou a alcunha de "o rouxinol da Câmara". dos homens; defendiam ardorosamente as graduações da
Acima de tudo, tinha a reputação de ser místico, e é certo sociedade civil.18 Em 1815, a Instituição Africana afirmou
que essa reputação de santidade e seu desinteresse na causa claramente que a emancipação deveria partir dos donos
foram fatores poderosos na instigação de Pitt de que ele de escravos.19
devia chefiar a cruzada parlamentar. Foi somente em 1823 que a emancipação se tornou o
Esses eram os homens que os plantadores chamavam objetivo declarado dos abolicionistas. A razão principal
de visionários e fanáticos, e comparavam a hienas e tigres.14 foi a perseguição aos missionários nas colônias - a morte
Com o auxílio dos outros, Macaulay, Wesley, Thornton e dt• Smith na Guiana, a expulsão de Shrewsbury em Bar-
Brougham conseguiram elevar os sentimentos antiescra- lmdos, a perseguição de Knibb na J amaica. Mesmo então,
vistas quase à condição de religião na Inglaterra, e esses n emancipação devia ser gradual. "Nada precipitado",
reformadores religiosos que fizeram de Clapham mais do ndvertiu Buxton, "nada rápido, nada abrupto, nada que
que um entroncamento ferroviário não eram impropria-
mente apelidados "os Santos". A própria emotividade que
• Wesleyan (wesleyano) , de ou relativo a John Wesley (1703-
tal fenômeno desperta exige maior cautela por parte do 1791 l , clérigo inglês, fundador de uma seita metodista. (N.
estudioso das Ciências Sociais. Pois se, como tantos sus- cio T.)

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encerre qualquer aspecto de violência." Acima de tudo, Em sua campanha contra os plantadores das índias
pas de zele. A escravidão nunca seria abolida. "Ela de- Ocidentais, os abolicionistas estabeleceram o que Cochin
crescerá, declinará, expirará, ela se queimará e desapare- chamou de "uma espécie de cruzada piedosa e boba".24
cerá ... Deixaremos que ela suavemente definhe - lenta- ~<>licitaram a seus simpatizantes que boicotassem a pro-
mente, silenciosamente, quase imperceptivelmente, até que dução da mão-de-obra escrava em favor da produção livre
morra e seja esquecida." 2 ° Como nos Estados Unidos, a da índia. Essa cruzada foi recomendada pelo Comitê da
escravidão iria murchar. A esperança não era concebida Abolição em 179525 e por muitos panfletários. William
na Inglaterra tampouco, embora o pessoal das índias Oci- Fox, em 1792, informou ao povo britânico que em cada
dentais fosse muito fraco e muito pouco numeroso para llbra de açúcar ele consumia duas onças de carne huma-
travar uma guerra civil. na.26 Por um complicado cálculo matemático estimou-se
Essa era a situação em 1830, quando a Revolução de que, se uma família que gastasse cinco libras de açúcar
Julho irrompeu na França e atiçou as chamas da reforma por semana se abstivesse por 21 meses, um negro seria
parlamentar na Inglaterra. Os abolicionistas ainda esta- poupado da escravidão e assassinato. 27 O consumidor de
vam procurando catequizar os legisladores e contempo- açúcar era realmente "a força motriz, a causa principal
rizar, enviando memoriais e delegações aos ministérios, de toda a horrível injustiça". 28 Substituindo o açúcar das
enquanto a escravidão e o monopólio coloniais continua- tndias Ocidentais pelo das índias Orientais, a Associação
vam inquebrantáveis. "Era portanto necessário que outra Antiescravista Africana Peckham de Senhoras foi infor-
ordem de homens, de natureza mais ousada e mais vigorosa, mada de que se minaria o sistema da escravidão da ma-
mesmo que um pouco menos requintada, aparecesse agora neira mais segura, fácil e eficaz:•9 Circulou um panfleto
para tomar o pulso da tarefa, não tanto para desbancar abolicionista intit ulado "A Queixa do Escravo Negro aos
quanto para reforçar as atividades de seus colegas mais Amigos da Humanidade". O negro suplicava: "E agora,
precavidos e hesitantes." 21 Os conservadores e radicais se sinhô, seja amigo da liberdcuii, bom homem, piedade com
chocaram numa grande reunião antiescravista em maio pobre negro, imploro que compre o açúcar do Oriente, não
de 1830. Buxton propusera ac; resoluções habituais, "admi- o açúcar de escravo, o livre, e depois meu sinhô vai pensar
ravelmente redigidas, admiravelmente indignadas, mas ... e dizer, não vendemos mais o açúcar de escravo, os escra-
admiravelmente prudentes". Pownall levantou-se para vos não devem ser escravos, devem ser livres, e pagamos
apresentar sua emenda: abolição imediata. O efeito nos os salários, e então trabalharão de boa vontade e produ-
delegados foi eletrizante. Buxton protestou, Brougham zirão mais, e então vendemos mais açúcar e ganhamos
interveio, Wilberforce fez sinal com a mão pedindo silên- mais dinheiro. Os homens do Oriente são homens sensa-
cio, mas a emenda foi finalmente apresentada e "aprovada tos, e os homens sensatos do Oriente não têm escravos -
com uma explosão de triunfo exultante". 22 A nova política fnzem açúcar livre, livre, livre."30 Não somente açúcar,
foi admiravelmente descrita por um dos amigos de Sturge: t,ftmbém algodão. Um movimento foi iniciado entre as
"A culpa recairá sobre nós, -se não agitarmos, agitarmos, senhoras para estimular o consumo de algodão produzido
agitarmos. . . O povo deve emancipar os escravos, pojs o pela mão-de-obra "livre",31 o que, segundo Gurney, faria
Governo nunca o fará." 23 ma.is para abolir a escravidão na América do que todos
0 '3 panfletos abolicionistas. 32 Como disseram os abolicionis-
No que concerne à liderança abolicionista, porém, sua t.ns irlandeses, seu objetivo era "universalizar o uso da
atitude para com a escravidão nas índias Ocidentais deve nulo-de-obra livre na pr odução t ropical".33
ser analisada em relação à escravidão noutras partes do Mas os homens sensatos do Oriente não eram mais
mundo. Sua condenação da escravidão aplicava-se somente IITCpreensíveis do que os plantadores pecadores do Oci-
ao negro e somente ao negro nas índias Ocidentais Britâ- dt•nte. A lei emancipando os escravos nas índias Ocidentais
nicas. Comecemos pela índia. Ht•itânicas foi aprovada em terceira discussão a 7 de agosto

204 205
de 1833. Quarenta e oito horas antes, a Carta da Com- onde pudéssemos influir, muito contribuiriam para supri-
panhia das índias Orientais chegara para renovação à mir a escravidão".40
Câmara dos Lordes. O projeto incluía uma cláusula que Contudo, essa era a produção tropical que os aboli-
declarava que a escravidão "devia ser abolida'' na índia. cionistas estavam recomendando ao povo da Inglaterra.
Lorde Ellenborough expressou seu espanto pelo fato de Clarkson rogou-lhes que "mostrassem sua aversão ao sis-
que tal proposição pudesse entrar na cabeça de um esta- tema dos plantadores deixando de usar sua produção",41
dista. Lorde Auckland defendeu o projeto: "Foi elaborado e posteriormente, em 1840, ainda estava confiando que a
com a máxima cautela, coerente com a destruição de um Companhia das índias Orientais iria extirpar a escravidão
sistema odioso; como também com o máximo cuidado "por meios que sejam perfeitamente morais e pacíficos ...
para não colidir com os costumes internos dos nativos." a saber, pelo cultivo da terra e pelo emprego de mão-de-
O Duque de Wellington apelou para que seus colegas da -obra livre".42
Câmara dos Lordes tratassem delicadamente da questão, Os abolicionistas não fizeram isso por ignorância.
se é que prezavam a manutenção da índia Britânica. Foi Como desculpa para a Companhia das índias Orientais,
uma inovação violenta, totalmente inoportuna, que pro- Zachary Macaulay alegou que "eles tinham obtido o do-
duziria a maior insatisfação, se não insurreição absoluta. 34 mínio sobre países que anteriormente estavam sob o Gover-
Repetidas declarações foram feitas posteriormente no no hindu e mongol. Portanto, não podiam ser acusados
Parlamento, em nome do Governo, de que a Companhia se, quando entraram na posse daqueles países, encontraram
das índias Orientais estava preparando uma legislação princípios em vigor nos quais, por mais contrários que
tendo em vista a "melhoria" da escravidão, e que tal legis- fossem a seus sentimentos, não seria seguro interferir sem
lação seria apresentada ao Parlamento. Mas a prometida a devida cautela".43 Em 1837, Buxton manifestou o receio
legislação nunca apareceu. "O Governo da índia estava de que o açúcar produziria um sistema de escravidão no
tomando tais medidas para melhorar a condição da escra- Oriente tão vergonhoso como produzira no Ocidente. O
vidão que, num período não distante, deveriam levar à sua porta-voz do Governo garantiu-lhe que não. Buxton "ficou
extinção total." 35 Isso foi em 1837. Em 1841 nenhuma muito agradecido .. . por essa garantia". 44 Em 1843, Brou-
das regras e regulamentos para a mitigação da escravidão gham ainda aguardava com ardente esperança a abolição
tinha sido apresentada. 36 E, quando a questão da equipa- da escravatura na índia, "uma consumação a ser realizada
ração das tarifas sobre o rum das índias Orientais veio à não tanto pela legislação, ou pela prática de violência à
discussão e argumentou-se que ele era produto de trabalho propriedade", como pelo incentivo aos donos de escravos
escravo, o Primeiro-Ministro Peel retrucou que "protelar nativos de declararem seus filhos livres depois de uma certa
a equiparação ... até que ele efetivamente resolvesse aquela data. 45
abolição, seria adiar sua execução para um período muito Alguns membros da Seita de Clapham tinham interes-
mais distante do que mesmo os mais ardorosos defensores ses nas índias Orientais e "talvez sua abominação à escra-
do pessoal das índias Ocidentais poderiam desejar" .37 Em vidão nas índias Ocidentais fosse agravada pela percepção
defesa dos indianos solicitou-se, em 1842, que se proibisse da injusta discriminação das tarifas açucareiras em favor
a venda de crianças para a escravidão em períodos de das índias Ocidentais e contra as crescentes plantações de
escassez.38 Dez anos depois da "grande expiação" da Grã- cana-de-açúcar da índia". 46 Os Thornton possuíam ações
-Bretanha, o Conde de Auckland não negaria que "certa da Companhia das índias Orientais; 47 um membro da
condição de servidão, mais ou menos dolorosa, não podia família participou do debate na Casa da índia Oriental,
mais existir"; 39 e Peel considerava que as medidas que em 1793, sobre o comércio de açúcar, e negou a existência
tinham sido adotadas "pareciam bem calculadas para deter de qualquer pacto em favor do monopólio das índias Oci-
o progresso da escravidão, coibir abusos e, quando executa- dentais.48 Zachary Macaulay tinha ações da Companhia
das em todas as partes da índia sob o nosso controle ou das índias Orientais e foi um dos nove signatários que

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convocaram a reunião da Corte dos Proprietários, em 1823, quando cooperavam com as causas n aturais".57 Quando
para discutir a questão açucareira. 49 Num panfleto vigo- escrevia, liricamente, sobre a habilidade e capacidade in-
roso, em 1823, declarou que os plantadores das índias dustriais da Grã-Bretanha, "sem os grilhões de subvenções
Ocidentais "não tinham mais o direito de exigir a conti- oficiais, sem a ajuda de monopólios inúteis, progredindo
nuação de uma tarifa protecionista sobre o açúcar, em com liberdade irrestrita",58 ele pensava menos na escra-
prejuízo manifesto da índia e da Grã-Bretanha, de que vidão do que no monopólio das índias Ocidentais. Por que
tinham antes o direito de exigir a continuação do tráfico a Grã-Bretanha não devia fornecer à Europa açúcar re-
de escravos, em prejuízo manüesto da Africa". 50 O discurso finado como também algodão manufaturado? 59 Mas, quan-
de Macaulay no debate da Casa da índia Oriental sobre o do os plantadores das índias Ocidentais lhe perguntaram
comércio de açúcar, em 1823, foi uma tal diatribe contra a claramente se ele pretendia aceitar o açúcar brasileiro
escravidão que um orador subseqüente teve de lembrar-lhe assim como o indiano, ele respondeu que todo açúcar devia
que ainda "que o tráfico de escravos fosse dez vezes pior ser admitido a uma tarifa uniforme, sob a condição de
do que se afirmara ser, eles n ão se haviam reunido para que o Brasil e Cuba concordassem em abolir o tráfico de
considerar aquela questão".sl escravos.so Que teria então acontecido a suas "causas
Mais importante do que Thornton ou Macaulay era Ja- naturais"? Sua situação dupla de humanitarista e eco-
mes Cropper. Destacado abolicionista, Cropper era o maior nomista o forçava a incoerências. Em sua casa, um apa-
importador de açúcar das índias Orientais em Liverpool, relho especial de jantar representava um negro acorrentado
sendo o fundador e o principal elemento da firma indepen- e, em 1837, ele adquiriu 12.000 garrafinhas as quais encheu
dente de Cropper, Benson & Companhia, de Liverpool, com de amostras de açúcar e café produzidos pela mão-de-obra
um comércio com as índias Orientais de mil libras por dia.52 livre e distribuiu entre simpatizantes e membros do Par-
Cropper tinha consciência de que seus interesses parti- lamento.Gt Mas o apoio · de "cidadão benevolente" 62 de Li-
culares tornavam seus motivos passíveis de suspeita.53 Os verpool fez um mal indizível à causa do humanitarismo.
plantadores das índias Ocidentais lembraram que ele Thomas Whitmore, líder das índias Orientais no Par-
outrora importara algodão produzido por escravos dos Es- lamento, foi vice-presidente da Sociedade Antiescravist~ e
tados Unidos.54 A própria explicação de Cropper é como foi certa vez candidato à sucessão na liderança do partido
se segue: "Vi esse monstro horrendo, a escravidão, ofegan- antiescravista.G3 O diário de Wilberforce, a 22 de maio
do, por assim dizer, nos estertores da morte, procurando de 1873, data da moção de Whitmore sobre as t~rifas
pelo único apoio que poderia prolongar sua existência. Eu aduaneiras, diz: "Ninguém interessado pela questao, a
poderia n ão suportar o temor de censuras, pelo fato de não ser os representantes das índias Orientais ~ algur:s de
estar interessado, de colocar-me acima do sentimento su- nós, antiescravistas; os representantes das ín~Ias Ociden-
premo de humanidade e dever. Eu não ousaria enfrentar tais e o Governo contra nós." 64 Os dois escrutmadores do
as censuras de minha própria consciência." s5 Em seus lado das índias Orientais foram Whitmore e Buxton. 65 De
argumentos antiescravistas, ele se recusava a afastar-se todos os abolicionistas, apenas um, Brougham, se opôs à
de considerações comerciais. A escravidão, escreveu ele, equiparação das tarifas, sob o fundamento de que dev~s­
"só pode ser lucrativa em solos f érteis, e entre uma popu- taria muito rapidamente todo o arquipélago das índias
l ação escassa, como nos novos estados da América, onde o Ocidentais.66
trabalho de dois dias vale um acre de terra". 56 Discutindo Essa ligação entre os defensores das índias Orienta~s e
a abolição da escravatura na Europa, n os estados nortistas certos abolicionistas não foi inteiramente compreendida.
dos E.ti.A. e em certas partes da América do Sul, chegou Coupland mostra-se claramente desfavorável a respeito de
à conclusão de que o fato de que a emancipação não fosse toda a história, como se vê em sua preocupação pela "sin-
ampla onde o trabalho escravo era lucrativo mostrava que ceridade'' dos dois grupos. 67 Klingberg fala em "coope::a-
1
'os esforços dos homens benevolentes eram bem sucedido~ ção".68 Bul·n está convencido. de que os ataques ao desm-

208 209
teresse de Cropper eram infundados. 69 A explicação de turas.72 Denunciaram a declaração formal do Congresso
Ragatz é a mais satisfatória de todas: a questão de Cropper de Viena contra o tráfico de escravos, onde conquistaram
era "um desses casos ocasionais em que a conduta não é a adesão do plenipotenciário britânico Wellington, e esta-
fundamentalmente influenciada pelo interesse pessoal, em- vam até dispostos a ir à guerra pela abolição.73 Obtiveram
bora possam casualmente coincidir". 70 A verdadeira signi- o apoio do Czar da Rússia. 74 Enviaram um observador
ficação, contudo, do apoio dos abolicionistas ao açúcar das especial, Clarkson, ao Congresso de Aix-la-Chapelle. Esta-
índias Orientais, e posteriormente ao brasileiro, é que as vam decididos a lutar com a França novamente, para
questões envolvidas não eram apenas a desumanidade da impedir a reconquista francesa de São Domingos,75 e esta-
escravidão nas índias Ocidentais, mas a improficuidade vam relutando em reconhecer a independência do Brasil
do monopólio das índias Ocidentais. sem uma promessa explícita de renúncia ao tráfico de
escravos. Obrigaram o Governo britânico, por sua "vi~­
lência amistosa" ,76 a manter uma esquadra na costa afn-
Depois da índia, o Brasil e Cuba. Por nenhum esforço cana para suprimir o tráfico de escravos pela força.
de imaginação poderia um humanitarista justificar qual- A pressão sobre o Governo era terrível. O Governo
quer proposta destinada a manter ainda mais firmemente solicitava tempo e também cautela. "Princípios morais",
as correntes da escravidão dos negros no Brasil e em Cuba. dizia Castlereagh, "não foram bem ensinados pela espa-
Isso era precisamente o que o livre-câmbio do açúcar da."77 Ele pediu aos humanitaristas para "moderar seus
significava. Pois após 1807 os plantadores das índias Oci- sentimentos virtuosos e pôr sua solicitude pela Africa sob
dentais Britânicas não tiveram mais permissão para o o domínio da razão". 78 Mas os abolicionistas não deram
tráfico de escravos, e depois de 1833 para a utilização do paz ao Governo. Como Liverpool confessou em certa oca-
trabalho escravo. Se os abolicionistas tivessem recomen- sião a Wilberforce: "Se eu não estivesse ansioso pela
dado o açúcar oriental, com base no falacioso princípio abolição do tráfico de escravos por princípio, estaria ciente
humanitarista de que era produzido pelo trabalho livre, do embaraço a que qualquer Governo devia estar exposto
era dever deles, de acordo com seus princípios e sua reli- pela situação atual dessa questão n.este país." 79 O Gov~r­
gião, boicotar o açúcar, produzido por escravos, no Brasil no estava consideravelmente tolhido em suas relaçoes
e em Cuba. Por deixarem de fazer isso, não se deve deduzir exteriores, pois sabia que todas as negociações eram fúteis.
que eles estivessem errados, mas é inegável que o seu Mas nunca ousava dizer abertamente. "Jamais consegui-
fracasso em adotar tal atitude destrói completamente o remos", escrevia Wellington a Aberdeen, "aboli: o tráfico
argumento humanitarista. Os abolicionistas, depois de estrangeiro de escravos. Mas devemos tomar cmdado para
1833, continuaram a opor-se aos plantadores das índias evitar de tomar qualquer atitude que possa induzir o
Ocidentais, que agora empregavam a mão-de-obra livre. povo da Inglaterra a acreditar que não fazemos tudo que
Enquanto, antes de 1833, eles boicotavam o inglês dono está ao nosso alcance para desencorajá-lo e destruí-lo o
de escravos, depois de 1833 esposavam a causa do brasileiro mais cedo possível." ao
dono de escravos. Numa eleição geral inesquecível em 1831, em que os
Os abolicionistas, a princípio, não tinham limitado candidatos eram indagados a respeito de suas opiniões
sua atenção ao tráfico britânico de escravos. Tinham ima- sobre a escravidão, os abolicionistas arrastavam negros
ginado nada menos do que a abolição total e universal do para a eleição com correntes de ouro e, onde n~o podiai?-
tráfico de escravos. Aproveitaram o retorno da paz em encontrar n egros, levavam limpadores de chammes. Afi-
1815 e as conferências internacionais então em voga para xaram cartazes nas tribunas eleitorais em t odo o reino
disseminar seus pontos de vista. Enviaram "cargas de com retratos em tamanho natural de plantadores brancos
mistificação" inteiras ao Parlamento; 71 em 34 dias em açoitando mulheres negras.B1 Em sua campanha apelavam
1814, mandaram 772 petições com um milhão de assina- para o coração e a consciência das mulheres britânicas e

,210 211
até procuravam aproximar-se das crianças. Leeds publicou uma hora em conceder auxílio a seus constituintes, que
uma série antiescravista para os leitores juvenis. Um não pediam subvenção, nem vantagens indevidas, nem
mostrador (de relógio) antiescravista foi fabricado, para monopólio injusto.a7 Ele tinha em mente os refinadores
que o povo benevolente, gozando os confortos domésticos de açúcar dos Towe Hamlets, não os negros das índias
de um serão ao pé da lareira na Inglaterra, soubesse que Ocidentais Britânicas. Buxton assumiu uma atitude curio-
os negros estavam labutando nas plantações sob o calor sa. Se se pudesse demonstrar que o açúcar estrangeiro a
opressivo de um sol tropical.82 Isso foi nos anos que pre- ser importado seria consumido no país, em vez de ser
cederam a 1833. A beatitude pairava sobre essa aurora. exportado, ele votaria não. Mas era preciso um terço a
Mas mesmo nessa aurora nuvens ameaçadoras come- mais de trabalho para refinar o açúcar no Brasil e depois
çavam a se formar. Os abolicionistas boicotavam a pro- importá-lo para a Grã-Bretanha em estado refinado. Ao
dução da mão-de-obra escrava das índias Ocidentais Bri- permitirem, portanto, que o açúcar estrangeiro fosse refi-
tânicas; tingida do sangue do negro. Mas a própria exis- nado na Grã-Bretanha, estavam substituindo o trabalho
tência do capitalismo britânico dependia do algodão, pro- escravo no exterior pela maquinaria britânica no país e
duzido por escravos, dos Estados Unidos, igualmente ligado conseqüentemente, até certo ponto, diminuindo o trabalho
à escravidão e manchado de sangue. Os plantadores das escravo e desencorajando o tráfico de escravos. 88 O Par-
índias Ocidentais podiam perguntar com razão se "a es- lamento ficou espantado. 89 Tinha mesmo de ficar.
cravidão só era condenável nos países com os quais aqueles Isso foi em setembro de 1831. Dois anos depois,
elementos não comerciam e onde suas ligações não eram Buxton estava regozijante com o sucesso de sua lida. "Um
inerentes". 83 As respostas dadas eram curiosas. A pessoa trabalho extraordinário se realizou no que concerne a este
que recebia produção de mão-de-obra escrava da América pais." 90 A Lei de Emancipação assinalou o fim dos esforços
lidava com a produção do trabalho realizado por escravos dos abolicionistas. Estavam satisfeitos. Jamais lhes viera
que não eram seus co-súditos e não havia, na escravidão à cabeça que a libertação do negro poderia ser apenas
dos Estados Unidos, qualquer prova daquela destruição nominal se se permitisse que a plantação de cana perdu-
de vida humana que era uma das características mais rasse. Quando Gladstone, em 1848, ainda defendia a tarifa
pavorosas do sistema nas índias Ocidentais Britânicas.84 protecionista para os plantadores, declarou muito enfa-
Os boicotadores do açúcar das índias Ocidentais senta- ticamente que nada tinha a ver com o negro. Ele não via
vam-se em cadeira de mogno cubano, diante de mesas de "nenhuma razão para que jogássemos fora os fundos do
pau-rosa brasileiro e usavam tinteiros de ébano cortado país em proporcionar uma melhoria a essa condição (a dos
por escravos, mas "não adiantava sair indagando a respeito negros), que é de conforto plenamente adequado a seu
da procedência de toda cadeira e mesa". Num país como a nível na sociedade e a seus desejos".91 Os abolicionistas
Inglaterra a abstinência total da produção escrava era ficaram calados. Nunca lhes ocorreu que o negro poderia
impossível, a não ser que se quisesse ir para o mato e querer a terra. Em Antígua, onde toda a terra estava
viver de raízes e frutas. 85 Como argumentavam os aboli- ocupada, os plantadores e escravos afluíram às igrejas
cionistas de Newcastle, somente "a compra desnecessária quando a notícia de emancipação chegou à ilha, agradece-
de uma quantidade ínfima de produção escrava impFca ram a Deus pela bênção da libertação e voltaram a seus
o comprador na culpa do dono de escravos". 86 labores, os escravos agora elevados à dignidade de assala-
Era o açúcar brasileiro necessário? Os capitalistas riados sem terra, ganhando 25 centavos de dólar por dia.
diziam que sim; era necessário para manter o capitalismo O mesmo aconteceu em Barbados, onde predominavam
britânico em funcionamento. Os abolicionistas tomaram o condições semelhantes, exceto que os barbadianos omiti-
partido dos capitalistas. Em 1833, Lushington, um dos ram a ação de graças. Onde estavam os abolicionistas? "A
mais antigos abolicionistas, representando um distrito de raça negra", escreveu Buxton, "é dotada de uma aptidão
refinação de açúcar, solicitou ao Governo que não perdesse peculiar para a recepção de instrução moral e religiosa, e

212 213
me parece que nunca se impôs uma obrigação mais forte Oxford, num grande com1c10 abolicionista em 1840, "de
a qualquer nação do que a que se nos impõe agora para toda tentativa por tratado, por admoestação e por arma-
atender a essa inclinação deles, para fornecer-lhes ampla- mentos navais, para deter a marcha do tráfico de escravos,
mente os meios de instrução, para enviar missionários, prova a necessidade de recorrer-se a uma política preventiva
para instituir escolas e para mandar Bíblias. É a única fundada em princípios diferentes e mais elevados". 95 O
compensação que podemos oferecer. É uma compensação jovem Buxton "podia ver apenas que aqueles altos prin-
generosa! Podemos dessa maneira recompensar todas as cipias pelos quais este país se guiou por muitos anos estão
tristezas e sofrimentos que infligimos e ser o meio de agora suplantados por outros que, embora importantes
transformar finalmente seu afastamento bárbaro de sua por si mesmos, eram bem inferiores àqueles princípios
própria terra no maior dos benefícios para eles" .92 Igual- segundo os quais ele agira em anos anteriores".96 A filan-
mente para a Africa. Em 1840, Gurney escreveu que "a tropia de Brougham só era excitada pelo açúcar e não
única cura definitiva e radical dos vícios e misérias da pelo algodão, só pelo tráfico de escravos e não pela escra-
Africa é o cristianismo. . . Nunca devemos esquecer o valor vidão, só pelo tráfico de escravos entre a Africa e o Brasil
supremo da evangelização".93 e não pelo tráfico de escravos entre a Virgínia e o Texas.
O afastamento bárbaro dos negros da Africa conti- Ele condenou, como "uma grossa perversão das doutrinas
nuou pelo menos por mais 25 anos depois de 1833, para as do livre-câmbio", a política de obter "açúcar barato ao
plantações de cana do Brasil e Cuba. A economia brasi- custo mais elevado de pirataria, tortura e sangue".97 Sabia
leira e cubana dependia do tráfico de escravos. Mas isso que seria loucura excluir o algodão americano, assim,
retardaria o desenvolvimento brasileiro e cubano e con- tomando como padrão de medida não a escravidão, mas o
seqüentemente estorvaria o comércio britânico. O desejo tráfico de escravos, argumentou que, embora não tivesse o
de açúcar barato depois de 1833 superou toda aversão à direito de intervir nas instituições internas de Estados
escravidão. Desaparecera o horror outrora provocado pela independentes, tinha todo o direito de exigir o cumpri-
idéia de um feitor de escravos das índias Ocidentais Bri- mento de tratados assinados por Estados independentes.98
tânicas armado de chicote; o feitor cubano de escravos, De acordo com sua interpretação, os Estados Unidos rea-
armado de chicote, facão, punhal e pistolas, e seguido de lizavam o tráfico de escravos. Havia uma diferença, alegou
cães de caça, não despertava nem sequer comentário dos ele, entre a expansão do açúcar produzido por escravos na
abolicionistas. Exeter Hall, * o centro do humanitarismo Luisiana, provocada pelo aumento natural dos escravos
britânico, submetera-se à Escola de Manchester,** a ponta ou pelo cultivo mais eficiente, e a ampliação do açúcar
de lança do livre-câmbio britânico. produzido por escravos no Brasil, provocada "pelo tráfico
Os abolicionistas, outrora tão belicosos no que dizia desnaturado, forçado e infernal de africanos realizado pela
respeito ao tráfico de escravos, eram agora pacifistas. Bux- força e pela fraude".99
ton escreveu um livro condenando a esquadra que vigiava Talvez o maior discurso já realizado sobre a questão
os navios negreiros e a política da supressão forçada do da escravidão foi o de Thomas Babington Macaulay, mais
tráfico de escravos, por causarem sofrimento agravado a tarde Lorde Macaulay, em 1845. Foi uma obra-prima de
um enorme número de pessoas. 94 Sturge reorganizou a clareza e lucidez, digna de um grande historiador. Tinha,
Sociedade Antiescravista numa base puramente pacifista. porém, um defeito: era a favor da escravidão, e não contra.
"O fracasso total", disse Wilberforce, filho, Bispo de "Minhas obrigações especiais com respeito à escravidão do
negro", disse Macaulay sarcasticamente, "cessaram quando
n. própria escravidão cessou nessa parte do mundo para o
* Exeter Hall, grupo evangélico da Igreja Anglicana; (fig.) fer- bem-estar do qual eu, como membro desta Casa, fui res-
vor evangélico. (N. do T.) ponsável." Recusou-se a transformar o código fiscal do
* * Manchester school, grupo de políticos ou economistas parti-
dários do livre-câmbio. (N. do T.) país num código penal com o propósito de corrigir vícios

214 215
nas instituições de Estados independen~s, ~u a tarifa eX? grau e qualidade, não em natureza, de muitos outros males
"um instrumento para recompens.ar a Justiça e ?umam- sociais que eram obrigados a tolerar, tais como a grande
dade de alguns Governos estrangeiros e _Para pumr ~ bar- desigualdade de fortunas, o pauperismo ou o trabalho
baridade de outros". Enfrentou destemida~ente a mco_e- excessivo das crianças.109
rência de importar açúcar brasileir? para re.fm.ar, mas nao Disraeli, como muitos a seguir na Grã-Bretanha e nos
para consumo. "Importamos a cmsa maldlt~~ armazena- Estados Unidos, condenou a emancipação como o maior
mo-la na alfândega; empregamos nossa habilidade e ma- erro já cometido pelo povo inglês. Foi "um tema exci-
quinaria para torná-la mais tentadora ao olhar e ao pala- tante ... dirigido a um povo insular de propósito firme,
dar- exportamo-la para Livorno e Hamburgo; mandamo-la mas informacão muito deficiente".11 0 Isso não era um
par~ todos os cafés da Itália e Alemanha; embolsam~s t;tm julgamento apressado, no decorrer de um brilhante desem-
lucro sobre isso tudo; e dep_?is assumimos um ar fansa1co penho oratório. Era uma opinião meditada, que ele deli-
e agradecemos a Deus por r:_ao s~rmos c~mo esses peca:ores beradamente repetiu em sua Life of Lord George Bentinck.
italianos e alemães que nao tem escrupulo em traoa! .o ''O movimento da classe média pela abolição da escrava-
açúcar produzido por escrav?s.:• 100 N~o ousaram pro~bir tura foi louvável, mas n ão foi judicioso. Foi um movimento
a importação do açúcar brasileiro, a n9:o ser q~e .deseJas- inepto. A história da abolição da escravatura pelos ingleses
sem tornar a Alemanha um Warwic~shire e ~ewz1g out:a e suas conseqüências seria uma narrativa da ignorância,
Manchester .101 "Não terei dois padr_?es ?e d7r~Ito . . . ANao injustiça, erro, desperdício e devastação, não sendo fácil
terei dois pesos e duas medidas._ Nao f~care1 a merce do encontrar paralelo na história da humanidade." 111
vento, não serei inconstante, nao ~ere1 escrupuloso em Até os intelectuais se deixaram envolver. Coleridge
coisas insignificantes para fazer vista grossa às gran- fora agraciado com a Medalha de Ouro Browne em Caro-
des." 102 . . bridge por uma ode sobre a escravidão e se abstivera de
Todos os grandes nomes estão aqm - Wllberforce, participar da questão do açúcar. Mas, em 1811, zombou
Buxton, Macaulay, Brougham. Todos, m~nos Clarkson~ do "comércio da filantropia", acusou Wilberforce de cuidar
uma voz no deserto clamando pela exclusao de todos o., somente de si mesmo e criticou Clarkson como um homem
artigos produzidos por mãos algemadas e aco~rentadas.~03 enfatuado pela benevolência, "a máquina a vapor moral
Contudo, mesmo Clarkson, em 18~9, opôs-se a s~~.ressao ou o gigante com uma idéia"; 112 enquanto em 1833 ele se
sob o fundamento curioso de que Isso era apena., m~,t~~ opôs vigorosamente às freqüentes discussões sobre os direi-
dinheiro no bolso dos homens de nossas forças ~rmadas .. tos dos negros que deviam "aprender a ser agradecidos à
A escravidão era agora encarada sob ':li? angu~o .dife- providência que os pusera ao alcance dos meios de gra-
rente. Para 0 Sr. Wilson, não se podia qualificar de mJusta ça".113 Em 1792, Wordsworth era completamente indiferen-
e opressiva a relação entre empregador e empregado porqu.e te "ao novo ardor de sentimento virtuoso" que se propagava
ela era a do senhor e escravo.105 O representante da Uni- pela Inglaterra. 114 Seus famosos sonetos a Clarkson, Tous-
saint Louverture e o "negro de traje branco" são simples-
versidade de Oxford opôs-se ao tráfico de ~s~ravos e estav~ mente retórica pomposa e, não casualmente, carecem da
predisposto a admitir a guerra, se ~e~~ssano , para supn- profundidade de sua poesia mais primorosa. Em 1833, ele
mi-lo 106 mas jamais aceitou a op1mao de ~ue a p~o­ declarou que a escravidão era, em princípio, monstruosa,
pried~de de homem fosse ilegal. 107 O econcmi~ta p_ohti~o mas n ão era a pior coisa da natureza humana; não era
M'Culloch lembrou que sem a escravidão os.tróJ?IC?S)ama.:s por si mesma em todo o tempo e em todas as circuns-
poderiam ter sido cultivados e que, ~on:o mstlt~Iça?, nao tâncias para ser deplorada e, em 1840, ele se recusou a
era justo que a submetessem ao oprobno e den~n~Ia que se associar publicamente aos abolicionistas.m Southey era
se lhe aplicavam.1os Olhemos o sistema da escrav:dao com a favor da alforria compulsória pela qual a escravidão,
mais serenidade, prelecionava o Professor Mer.Iva~e em com esperança racional, se extinguiria no decorrer de uma
Oxford; era um grande r:l.al social, mas que d1fena em geração. 116

216
217
Mas a reação mais tétrica e mais desprezível foi per-
sonificada por Carlyle. Ele escreveu um ensaio sobre "The
Nigger Question" ("A Questão do Negro"), escarnecendo
do "Exeter-Hallery e outras bobagens trágicas" que, par-
tindo do falso princípio de que todos os homens eram iguais,
12
fizera das índias Ocidentais uma Irlanda negra. Os cava- OS ESCRAVOS
los seriam os próximos a ser emancipados?, perguntava E A ESCRAVIDÃO
ele. Carlyle fazia um contraste entre "os negros bonitos
de lá, abarrotados de abóboras, e os brancos tristes daqui,
sem batata para comer". Fora só o homem branco que
valorizara as índias Ocidentais, e o "indolente gado de
dois pés" devia ser obrigado a trabalhar. Os abusos da Consideramos nos capítulos anteriores as diferentes ati-
escravidão deviam ser abolidos, mas as coisas preciosas tudes do Governo britânico, dos capitalistas britânicos
nela existentes deviam ser poupadas: o negro "tinha o doli ~lantadores absenteístas britânicos das índias Oci~
direito indiscutível e perpétuo de ser obrigado a traba- den~ta1s e dos humanitaristas britânicos para com a escra-
lhar. . . para ganhar sua subsistência". Não era que Car- vldn.o. Acompanhamos a batalha da escravidão na Me-
lyle odiasse o .negro. Não, gostava dele, e verificou que trópole. Seria ~m erro grave, porém, tratar a questão
com "um penny de óleo, pode-se fazer uma coisa bem co~? se fosse ~l~plesmente uma luta metropolitana. o
lustrosa de um pobre escravo". O negro africano, isolado destino das colomas estava em jogo e os próprios coloni-
dos homens selvagens, poderia viver entre os civilizados, zadores estavam numa agitação que indicava refletia e
mas só poderia ser útil na criação divina como um servo l'Pu_gia aos grandes acontecimentos que se veriÍicavam na
eterno, a não ser que as índias Ocidentais Britânicas vies- Ora-Bretanha.
sem a se tornar, como o Haiti, "um canil tropical", o Em primeiro lugar, havia os plantadores brancos que
Pedro negro exterminando o Paulo negro.117 A opinião tinham de lidar não somente com o Parlamento britânico
pública, como Lorde Denman se queixou, sofrera uma lll~~ ta;nbém_com os escravos. Em segundo, havia a popu~
mudança lamentável e vergonhosa.118 lnçao livre nao-branca. E em terceiro lugar, havia os pró-
prl.os escravo.s. ~uitos escritores desse período os igno-
rm am. Os histonadores modernos estão despertando gra-
dntivamente para a distorção que resultou disso.I Ao cor-
rigirem essa def~ciê~c.ia, corrig:I? um erro que os plan-
tndor~s, os funcwnar1os e polltrcos britânicos da época
Jnma1s cometeram.
. C?mecemos pelos plantadores. Em 1823, o Governo
brltân~c~ adotou uma nova política de reforma relativa à
t'Bc1·av1dao n as índias Ocidentais. A política devia ser
poRta em vigor, por "ordem em conselho'' nas colônias da
Coroa de Trinidad e Guiana Inglesa; s~u sucesso espe-
a·nva-se, estimularia as colônias dotadas de Gover:do pró-
prio a imitá-l~s- espontaneamente. As reformas compre-
rncli~m: abollçao do chicote; abolição do mercado de
dm~·ungo do negro, dando aos escravos. outro dia de folga,
p1~1 a. c_onceder-lhes tempo para a mstrução religiosa;
pa o1biçao de surrar as escravas; alforria compulsória das
218 219
escravas do campo e domésticas; liberdade das meninas '"'" vu disposto a sujeitar-se à inevitabilidade do gradua-
nascidas depois de, 1823; possibilidade do depoimento de li 11111
escravos nos tribunais de justiça; criação de caixas eco- n chicote, argumentavam os plantadores, era neces-
nômicas para os escravos; jornada de trabalho de nove n' lu para que se mantivesse a disciplina. Se o abolirmos,
horas; e a nomeação de um Protetor de Escravos cuja "tnl.nu adeus a toda paz e conforto nas plantações".6 Um
função, entre outras coisas, era manter um registro oficial plnntttdor de Trinidad chamou de "a mais injusta e opres-
dos castigos infligidos aos escravos. Não era emancipação, lvu invasão da propriedade" insistir na jornada de nove
mas abrandamento; não era revolução, mas evolução. A h• li'IIH para os escravos adultos nas índias Ocidentais,
escravidão seria exterminada pela bondade. 'uqunnto o inglês dono de fábrica podia exigir trabalho
A resposta dos plantadores, nas colônias da Coroa ti• tloze horas das crianças num ambiente calorento e
como também nas ilhas dotadas de Governo próprio, foi tlol'tltio. 7 Na Jamaica, o projeto para admitir o depoimento
uma recusa terminante a aprovar o que consideravam "um tlnli escravos provocou um grande e violento clamor, sendo
simples rol de indulgências aos negros". 1a. Sabiam que tl'jeitado na segunda discussão por uma maioria de 36
todas essas concessões significavam apenas novas conces- votos a um. 8 A Assembléia da ilha adiou a cláusula das
sões posteriormente. ,.,dxas econômicas para uma futura sessão, 9 e o governador
Nem uma só recomendação recebeu o apoio unânime nno se atreveu sequer a mencionar a questão da liberdade
dos plantadores das índias Ocidentais. Eles ficaram fu- elas meninas.IO O legislativo da Guiana Inglesa decidiu
riosos especialmente com as propostas de proibição de que "se o princípio da alforria i'nvito domino* deve ser
surrar as escravas e a abolição do mercado de domingo do adotado, é melhor para sua consistência e para os interesses
negro. ele seus constituintes que seja feito para eles do que por
Do ponto de vista dos plantadores, era necessário t'les". 11 Em Trinidad, o número de alforrias declinou con-
punir as mulheres. Mesmo nas sociedades civilizadas, slderavelmente,12 enquanto as avaliações da alforria au-
argumentavam, as mulheres eram surradas, como nas mentaram repentinamente; 13 "a possibilidade de avalia-
casas de correção da Inglaterra. "Nossas senhoras negras", dores juramentados pronunciarem uma decisão injusta",
disse Hamden no legislativo de Barbados, "têm antes uma confessou Stephen, "não foi levada em conta e não há
tendência para o tipo de índole das amazonas; e acredito como precaver-se dela".14 Um administrador em Trinidad
que seus maridos ficariam muito tristes em ouvir que falou sobre "as tolas ordens em conselho" e, ao registrar
elas foram colocadas fora do alcance de, castigo."2 os castigos, recorria a linguagem indigna de sua respon-
Na questão da abolição do mercado de domingo do sabilidade e insultante para os elaboradores da legislação.15
negro, Barbados recusou-se a renunciar a um sexto de O cargo de Protetor de Escravos na Guiana Inglesa era
sua já reduzida renda. 3 Jamaica respondeu que o "pre- uma "ilusão": "Não há proteção para a população escra-
va", escreveu o seu ocupante em 1832, "sou tremendamente
texto de ter tempo para deveres religiosos" apenas incen- impopular ... "16
tivaria a indolência entre os escravos.4 Tão grande foi a Não somente os plantadores das índias Ocidentais
oposição dos plantadores que o governador considerou rejeitaram as propostas específicas do Governo britânico,
qualquer tentativa de alteração como extremamente im- mas também contestaram o direito do Parlamento Im-
prudente e não podia ver alternativa a não ser deixar perial de legislar sobre os seus negócios internos e emitir
aquilo "à ação do tempo e à mudança de circunstâncias "mandatos arbitrários. . . tão positivos e descabidos, no
e opiniões que está lenta mas seguramente levando à tocante à matéria, e tão precisos e peremptórios, no tocante
melhoria dos hábitos e modos dos escravos". 5 Era um fato
certo e importante que, com o tempo, o simples contato
com a civilização melhorava o escravo, mas o escravo não • Invito domino, apesar do homem; contra a vontade do 'homem.
<N. do T,)
220 221
ao tempo". 17 De Barbados, o governador informou que 1 qm' sondagens tinham sido feitas por alguns plantadores
qualquer tentativa de imposição provocava imediatamente ltUII.o ao Governo dos Estados Unidos.29 O Gabinete levou
irritação e oposição. 1s A alegada incongruência dos donos '' qncstão suficientemente a sério para interrogar o gover-
de escravos em falar sobre direitos e liberdade foi rebatida tlltdor sobre o assunto.3° Não tinha São Domingos, em
como "o clamor da ignorância". Olhem a história, adver- l'lrctmstâncias semelhantes, se oferecido à Grã-Bretanha?
tiu Hamden, "vocês verão que não há nações no mundo Isso era mais do que a linguagem de homens desespe-
mais ciosas de suas liberdades do que aquelas entre as t'IHlos ou uma zombaria louca da "admoestação moderada,
quais existiu a instituição da escravidão".19 tllns autorizada",31 das autoridades imperiais. Era uma
Na Jamaica a excitação atingiu o auge. A Assembléia ll <;tl.o não tanto para o público da Grã-Bretanha, quanto
declarou que não iria "nunca fazer uma capitulação deli- pnra os escravos das índias Ocidentais. Se o governador
berada de seus direitos incontestados e reconhecidos", d1~ Jamaica encontrava nos · plantadores "uma relutância
legislando da maneira prescrita2o "sobre um assunto de mnior em desfazer-se do poder sobre o escravo do que seria
simples regulamentação municipal e política interna". 21 de esperar n a época atual",32 é óbvio como a recalcitrân-
Se o Parlamento britânico pretendia fazer leis para a l'la da "plantocracia" parecia aos ·escravos. Os negros,
Jamaica, devia exercer essa prerrogativa sem sócio.22 A menos do que todo mundo, provavelmente não esqueciam
doutrina do poder transcendental do Parlamento Imperial que, nas palavras do governador de Barbados, "o gosto do
foi declarada como sendo subversiva de seus direitos e poder desses plantadores sobre os pobres negros, cada um
perigosa para a vida e as propriedades dos jamaicanos.23 rm seu pequeno domínio açucareiro, tem constituído um
Segundo o governador, "os direitos incontestados do Par- obstáculo tão grande à liberdade como o gosto de seu trar
lamento britânico têm sido irresponsável e repetidamente balho".33 A emancipação viria não dos plantadores, mas
negados, (e) a n ão ser que a arrogância dessas pretensões apesar dos plantadores.
seja efetivamente refreada a autoridade de Sua Majestade Enquanto os brancos tramavam traição e falavam em
nesta colônia existirá apenas nominalmente".24 Dois dele- secessão, o povo livre de cor era firmemente leal. Conde-
gados jamaicanos, enviados a Londres em 1832 para apre- nava "a dissolução dos laços que nos prendem à Mãe-
sentarem suas queixas às autoridades metropolitanas, re- -Pátria como a maior calamidade que poderia ocorrer a
velaram claramente os arcana imperii*: "Não devemos nós e à nossa posteridade". 34 Para grande mérito desses
mais lealdade aos habitantes da Grã-Bretanha do que elementos, informou o governador da Jamaica, eles não
devemos aos nossos irmãos colonizadores do Canadá ... haviam participado daqueles comícios "de que tantas dores
não reconhecendo nem por um momento que a Jamaica têm sido tiradas para propagar as sementes do desconten-
possa ser trazida ao tribunal da opinião inglesa para tamento na colônia entre a população livre e também a
defender suas leis e costumes." 25 Um membro da assem- escrava". 35 Enquanto os brancos se recusavam a ocupar
bléia da ilha foi mais longe: "quanto ao Rei da Inglaterra", cargos oficiais, os mulatos insistiam em seu direito ao
perguntava ele, "que direito tem sobre a Jamaica, a não serviço público. 36 Eram leais não por virtude, mas porque
ser que a roubou da Espanha?" 26 Um representante das eram muito fracos para conquistar seus direitos por si
índias Ocidentais no Parlamento lembrou ao povo inglês mesmos, e não viam perspectiva de sua própria emanci-
que "por persistir na questão de direito perdemos a Amé- pação a não ser através do Governo britânico. Além disso,
rica".27 Boatos de secessão eram freqüentes. O Governo os Governos locais, desde que estavam procurando executar
metropolitano estava avisado de que havia comunicação a política dos antimonopolistas, tinham de apoiar-se neles.
constante da Jamaica com indivíduos dos Estados Unidos,28 Em Barbados, escreveu o governador, o equilíbrio de po-
lidez, moral, educação e energia estava do lado dos mulatos,
• Arcana imperii, os segredos ou mistérios do Império ou Gover-
enquanto os brancos tinham apenas antigos direitos e
no; segredos de Estado. (N. do T.) preconceitos para manter sua posição intolerante. "Vocês

222 223
verão", aconselhava ele ao Governo metropolitano, "que Muito menos estúpido do que seu senhor pensava e
é grande política nas circunstâncias atuais promover a historiadores posteriores o retrataram, o escravo prestava
elevação dessas castas. São uma raça sóbria, ativa, enér- atenção a seu ambiente e se interessava agudamente pelas
gica e leal; e poderei igualmente contar com eles, se ocorrer discussões sobre seu destino. "Nada", escreveu o governador
necessidade, contra os escravos ou a milícia branca".37 da Guiana Inglesa em 1830, "pode ser mais agudamente
Ao contrário da crença popular e até dos entendidos, observável do que os escravos com respeito a tudo o que
porém, à medida que a crise política se aprofundava na afeta seus interesses". 39 Os plantadores discutiam aberta-
Grã-Bretanha, a força social mais dinâmica e poderosa mente a questão da escravidão na presença das próprias
nas colônias passava a ser o próprio escravo. Esse aspecto pessoas, cujo futuro estava em consideração. "Se as reu-
do problema das índias Ocidentais tem sido meticulosa- niões turbulentas que se realizam aqui entre os proprietá-
mente ignorado, como se os escravos, quando se tornavam rios", escreveu o governador de Trinidad em 1832, "são
instrumentos da produção, pa~sassem por homens apenas apoiadas, nada que possa ocorrer precisa ser motivo de
na relação de nomes . O plantador considerava a escravi- surpresa . .. " 40 A imprensa local aumentava a matéria
dão como eterna, ordenada por Deus, e não se escusava de inflamável. Um jornal de Trinidad chamou a "ordem em
justificá-la com citações das Escrituras. Não havia razão conselho" de "ignóbil"; 41 outro falou sobre "os ridículos
para que o escravo não pensasse o mesmo. Ele pegava dispositivos do desastroso Código Negro".42 Um juiz re-
os mesmos trechos das Escrituras e adaptava-os a suas cusou-se a deliberar sobre qualquer julgamento decorrente
próprias finalidades. À coação e ao castigo, ele respondia da "ordem em conselho" e afastou-se do cargo.43 Os plan-
com a indolência, sabotagem e revolta. A maior parte do tadores têm sido acusados por essa atitude temerária. Mas
tempo ele simplesmente era tão ocioso quanto possível. eles não podiam evitá-la. É uma característica de todas
Essa era sua forma habitual de resistência - passiva. A as crises sociais profundas. Antes da Revolução Francesa,
docilidade do escravo negro é um mito. Os quilombolas a Corte e a aristocracia francesas discutiam Voltaire e
da Jamaica e os "negros do mato" da Guiana Inglesa eram Rousseau não somente livremente, mas, em certas esferas,
escravos fugidos, que firmaram pactos com o Governo com verdadeira apreciação intelectual. O comportamento
britânico, e viviam independentemente em seus redutos arrogante e a linguagem descomedida dos plantadores,
nas montanhas ou refúgios nas selvas. Eram exemplos porém, serviram apenas para inflamar a mente dos já
permanentes para os escravos das índias Ocidentais Bri- inquietos escravos.
tânicas de um caminho para a liberdade. A vitoriosa
revolta de escravos em São Domingos foi um marco na O consenso de opinião entre os escravos, toda vez que
história da escravidão no Novo Mundo, e depois de 1804, uma nova discussão surgia ou cada nova política era
quando a república independente do Haiti foi fundada, nnunciada, era que a emancipação fora aprovada na In-
todo senhor branco de escravos, na Jamaica, em Cuba ou glaterra, mas era negada por seus senhores. O governador
no Texas, vivia temeroso de outro Toussaint L'Ouverture. da Jamaica comunicou em 1807 que a abolição do tráfico
É inconcebível a priori que o transtorno econômico e as de escravos era interpretada por estes como "nada menos
imensas agitações que abalaram milhões de pessoas na qne a emancipação geral". 44 Em 1816, o Parlamento bri-
Grã-Bretanha poderiam passar sem produzir efeito nos t.linico aprovou uma lei tornando obrigatório o registro
próprios escravos e nas relações dos plantadores para com dt' todos os escravos, para evitar contrabandos na violação
os escravos. A pressão sobre o plantador de cana por dn lei de abolição. Os escravos na Jamaica tinham a im-
parte dos capitalistas da Grã-Bretanha foi agravada pela pressão de que o projeto de lei "considera alguns disposi-
pres~ão dos escravos n as colônias. Em comunidades como Uv()S em seu favor que a Assembléia aqui apoiada pelos
as índias Ocidentais, como o governador de Barbados es- hubitantes geralmente deseja negar",45 e os plantadores
creveu, "o espírito público está sempre apreensivamente tlvt•ram de recomendar uma declaração parlamentar de
atento aos perigos da insurreição".3B 'JIIl' a emancipação jamais fora considerada. 46 Incompre-

224 225
ensão semelhante reinava entre os escravos em Trinidad47 ture em São Domingos fora um "cocheiro escravo" de
e Barbados. 48 Em todas as índias Ocidentais os escravos confiança.
perguntavam "por que Bacchra não faz o que o Rei lhe Em 1816, chegou a vez de Barbados. Foi um rude
manda ?"49 Tão profundamente incrustada na cabeça dos choque para os plantadores barbadianos que alimentavam
escravos estava a idéia de que algum grande benefício a ilusã,o de que o bom tratamento dos escravos "impediria
estava sendo preparado para eles pelo Governo metropo- que eles recorressem à violência para estabelecer uma
lita~o em oposição a seus senhores, que eles se agarravam
reivindicação de direito natural que por um longo cos-
ansiosamente a qualquer circunstância insignificante como tume sancionado pela lei se tem até aqui recusado a
comprovação. 50 Toda mudança de governador era inter- reconhecer".57 Os rebeldes, quando interrogados, negaram
pretada por eles como emancipação. A chegada de D'Urban explicitamente que o mau tratamento fosse a causa. "Sus-
à Guiana Inglesa, em 1824, foi julgada pelos escravos como tentaram obstinadamente, porém", assim escreveu o co-
significando "algo interessante para suas perspectivas".sl mandante das tropas ao governador, "que a ilha pertencia
O governador de Trinidad seguiu para a Inglaterra em
gozo de licença em 1831; os negros pensaram que ele "ia a eles e não aos brancos, a quem tencionavam destruir,
arranjar a emancipação para todos os escravos" .s2 A che- conservando as mulheres." ss A revolta pegou os planta-
gad_a de Mulgrave à Jamaica, em 1832, criou grande exci- dores desprevenidos e somente a sua deflagração prema-
taçao. Numa revista perto de Kingston ele foi seguido de tura, em conseqüência da embriaguez de um dos rebeldes,
perto pelo maior número de escravos que já se reunira evitou que ela se propagasse à ilha inteira. 59 Os planta-
an.tes na ilha, todos com uma idéia na cabeça, de que ele dores jamaicanos não puderam ver na revolta nada mais
"viera com a emancipação no bolso". 53 A designação de do que "os primeiros frutos dos planos visionários de
Smith como governador de Barbados, em 1833 foi enten- alguns impetuosos teóricos filantrópicos, declamadores
dida pelos escravos como significando a e::Uancipação ignorantes e fanáticos intolerantes''. 60 Tudo em que pude-
geral. Sua chegada à ilha deu origem a um número consi- ram pensar foi no envio de representações urgentes ao
derável de deserções de plantações distantes para Brid- governador para chamar de volta um destacamento que
getown "para verificar se o Governador tinha trazido a tinha embarcado alguns dias antes para a Inglaterra e na
libertação ou não". s4 retenção do resto do regimento na Jamaica.61
Os escravos, porém, não estavam dispostos a esperar Mas a tensão estava crescendo rapidamente. A Guiana
que a libertação viesse a eles como um ato da Providência. Inglesa em 1808, Barbados em 1816. Em 1823, a Guiana
A freqüência e intensidade das revoltas de escravos depois Inglesa pegou fogo pela segunda vez. Cinqüenta planta-
de 1800 refletem as crescentes tensões que repercutiam ções se revoltaram, abrangendo uma população de 12.000.
nos majestosos salões de Westminster. Aqui também a revolta foi tão cuidadosa e secretamente
Em 1808, uma revolta de escravos irrompeu na Guiana planejada que pegou os plantadores de surpresa. Os es-
I~g!esa. A ~~v<;>lta foi traíd_a e os chefes aprisionados. Con- cravos exigiram emancipação incondicional. O governador
sistiam em feitores, artesaos e outros escravos mais cons- admoestou-os -eles deviam agir gradualmente e não ser
cientes nas propriedades",55 isto é, não os trabalhadores do precipitados. Os escravos ouviram friamente. "Essas coi-
campo, mas os escravos que estavam em situação mais sas, disseram eles, não lhes traziam nenhum consolo, Deus
confortável e eram mais bem tratados. Do mesmo modo, os fizera da mesma carne e osso que os brancos, que esta-
um rebelde na Jamaica em 1824, que cometeu suicídio vam cansados de ser escravos deles, que deviam ser livres
admitiu claramente que seu senhor era bondoso e indul~ c que não trabalhariam mais." O governador garantiu-lhes
gente, mas defendeu sua ação sob o fundamento de que a que "se pela conduta pacífica merecessem a mercê de
liberdade durante a sua vida lhe fora negada apenas por Sua Majestade veriam a sua sorte substancialmente, em-
seu senhor. 56 Era um sinal de perigo. Toussaint L'Ouver- bora gradualmente, melhorada, mas eles declararam que

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queriam ser livres".o2 Seguiram-se então as severidades lhava o boato de que, no caso de insurreição, as tropas
habituais a revolta foi sufocada, os plantadores comemo- do Rei haviam recebido ordem terminante para não atirar
raram e prosseguiram em seu caminho, desat~ntos a.o caso. nos escravos. 70
Sua única solicitude era a continuação da lei marc1~~ que O clímax sobreveio com uma revolta na Jamaica
fora declarada. 63 "Agora a bola começou a rolar , es- durante os festejos de Natal. A Jamaica era a maior e a
creveu o governador de Barbados confidex;c.ialmente ao mais importante colônia das índias Ocidentais Britânicas.
Ministro das Colônias, quando recebeu a notiCia da revolt:: Com a Jamaica pegando fogo, nada poderia impedir que
da Guiana, "ninguém sabe dizer quando ou onde ~ai as chamas se propagassem. Uma "insurreição extensa e
parar." 64 No ano seguinte, os escra':os de duas plantaçoes destrutiva" irrompeu entre os escravos na zona ocidental. 71
da paróquia de Hanover na Jamaica se revoltaram. A A insurreição, informou o governador, "não foi ocasionada
rebelião foi localizada e dominada por uma grande força por qualquer queixa repentina ou causa imediata de des-
militar, e os chefes executados. Os escr~vos C?mo gru:po, contentamento, já tinha sido há muito combinada e em
porém, somente com dificuldade foram Impedidos de m- diversos períodos adiada". Os líderes eram escravos colo-
terferir na execução. Além disso, os executados, escreveu cados em posições da maior confiança, que estavam conse-
o governador, "estavam completamente imbuídos da cre.nça qüentemente isentos de todo trabalho pesado. "Na si-
de que mereciam a liberdade e de que a ca'!sa. que .ha_via~ tuação deles, motivos não menos fortes do que aqueles
abraçado era justa e em defesa de seus prop_:10s .direlt~s . que parece tê-los impulsionado - o desejo de obter a
De acordo com um dos líderes, a revolta n ao tmha Sido liberdade e, em alguns casos, de se apoderar das proprie-
subjugada, "a guerra apenas come?ara".65 • dades pertencentes a seus senhores- poderiam ter influído
A calma aparente foi restabele~Ida na G.man~ Ingl~~a em sua conduta." 12
e na J amaica, mas os negros c<?,ntmuaram. mq,~Ietos. O Os plantadores das índias Ocidentais, porém, não
espírito de descontentamento n ao ~~tá _ext~nto , escrev~u viam nessas revoltas de escravos senão uma oportunidade
0 governador da Guiana Inglesa, esta vivo, po: assim de embaraçar a mãe-pátria e os humanitaristas. De Tri-
dizer, sob as cinzas, e a mente do negro, e~b~ra .na? apre- nidad, o governador escreveu em 1832: " ... a ilha, no que
sente nenhuma indicação acentuada de d1scord1a aqueles concerne aos escravos, está perfeitamente tranqüila e po-
que não estão acostumados a observá-la, ainda est~ agitada, deria muito facilmente ser conservada assim se tal fosse o
vigilante e desconf~ada." 66 O go~ern~dor adv~rtm ~on~ra desejo daqueles que devem guiar seus esforços nesse sen-
outro adiamento, nao somente devido a ~mmamdade mtrm- tido ... Parece às vezes que os motivos impulsionadores de
seca e ao acerto da medida, mas tambem porque ~ expec- algumas pessoas importantes daqui consistem em levar o
tativa e conjetura deviam cessar e os ne~ros ~evmm .s~r Governo a abandonar seus princípios, mesmo com o risco
libertados dessa ansiedade febril que. contm?~r~a a aglt~; de instigar os escravos à insurreição." 73 O governador da
-los, até que a questão fosse resolvida defm~tlva~e;nte. Jamaica constatou a mesma situação: "Não há dúvida de
Nenhum estado era tão perigoso como o de mdef1mda e que deve haver aqueles míopes demais para gozar no mo-
vaga expectativa do negr0.68 mento qualquer perturbação, por parte dos negros, decor-
Isso foi em 1824. Sete anos mais tarde.' ~s mesm13:s rente da decepção que essas pessoas desesperadas de suas
discussões sobre propriedade, indenização e direitos .adqUI- próprias pe:rspectivas considerariam como algum consolo,
ridos ainda prosseguiam. Em 1831, os es~ravos q:useram em virtude do embaraço que isso causaria ao Governo bri-
eles mesmos resolver a questão. Um movimento msurre- tl\.nico." 74 O plantador das índias Ocidentais, segundo as
cional irrompeu em Antígua. O governador de Barbados palavras de Daniel O'Connell, continuava sentado, "sujo
teve de mandar reforços.s9 Na própria Barb~dos _predo-- o lambuzado, sobre um paiol de pólvora, do qual n ão se
minava a idéia de que o Rei outorga:a. a emanc1paçao, mas l't'tirava, e constantemente receoso de que o escravo lan-
o governador estava retendo o benefiCIO, enquanto se espa- çnsse uma tocha nele".75

228 229
Mas o conflito ultrapassara a fase de discussões polí-
ticas abstratas sobre escravos como propriedade e medidas
políticas. Já se transformara nos desejos exaltados do povo.
"A questão", escreveu um jamaicano ao governador, "não 13
ficará a cargo do arbitramento de uma longa discussão
inflamada entre o Governo e o plantador. O próprio CONCLUSÃO
escravo aprendeu que existe uma terceira parte, e essa
terceira parte é ele mesmo. Conhece sua força e há de
reivindicar o seu direito à liberdade. Mesmo nesse mo-
mento, desassombrado do último fracasso, ele discute a Este estudo, embora trate especialmente da Grã-Bretanha
questão com uma determinação fixa." 76 De Barbados, o
governador acentuou a "dupla crueldade" da incerteza - recebeu o título geral de "Capitalismo e Escravidão".
título "O Capitalismo Britânico e a Escravidão" embora
o
paralisava os esforços dos plantadores e levava os escravos,
que há anos eram mantidos na esperança e expectativa, ao mais preciso, seria não obstante genericamente 'falso. O
desespero sombrio. 77 Nada poderia ser mais nocivo, ad- que e,ra caract~rís~ico do capitalismo britânico era típico
vertiu ele, do que prometer aos escravos de sessão em tambem do capitalismo na França. Gaston-Martin escreve:
sessão que sua liberdade estava chegando. 78 Era mais "Não houve um só grande proprietário de navios em
aconselhável, escreveu ele uma quinzena depois, que "o Nantes que, entre 1714 e 1789, não comprasse e vendesse
estado dessa gente infeliz seja logo examinado e decidido escravos; _não houve um só que vendesse apenas escravos;
pelas autoridades metropolitanas, pois o estado de ilusão é _qua~e tao cert~ que nenhum chegaria a ser o que foi se
no qual eles laboram torna-os desagradáveis a seus donos nao tlVesse vendido escravos. Nisso reside a importância
e, em alguns casos, aumenta a miséria inevitável de sua essencial do tráfico de escravos: do seu sucesso ou fracasso
condição". 79 dependia o progresso ou ruína de todos os demais co-
Em 1833, portanto, a alternativa era clara: emanci- mércios." 1
pação de cima ou emancipação de baixo. Mas EMANCI- A Grã-Bretanha, muito à frente do resto do mundo,
PAÇÃO. As mudanças econômicas, o declínio dos mo- c a França foram os países que introduziram o mundo
nopolistas, o desenvolvimento do capitalismo, a agitação moderno no desenvolvimento industrial e na democracia
humanitarista nas igrejas britânicas, as perorações con- parlamentar com suas conseqüentes liberdades. A outra
troversas nas salas do Parlamento, tinham agora atingido corrent€ e~trangeira que alimentou a acumulação de capi-
sua culminância na determinação dos próprios escravos em tul na Gra-Bretanha, o comércio com a índia foi secun-
se tornarem livres. Os negros haviam sido estimulados dária no período que apresentamos. Foi som~nte com a
para a liberdade pelo desenvolvimento da própria riqueza perda das colônias amencanas, em 1783, que a Grã-Bre-
que seu trabalho criara. tunha se voltou para a exploração séria de suas possessões
lndianas.
A c:ise que começou em 1776 e prosseguiu durante a
Hevoluçao Francesa e as guerras napoieônicas até o Projeto
dt• Reforma de 1832 foi, em muitos aspectos, uma crise
Juulldlal semelhante à crise de hoje, diferindo apenas na
1\lllplitude, profundidade e intensidade maiores da atual.
tiUl'1n estranho que o estudo da convulsão social anterior
nno nos fornecesse pelo menos certas idéias e princípios
plll'L~ o exame do que está ocorrendo hoje em nosso redor.

230 231
1. As forças decisivas no período da história que aca- tante encará-los com alguma experiência de argumentos
semelhantes e_ o privilégioA (aparentemente negado aos
bamos de discutir são as forças econômicas em homens de açao contemporaneos) do conhecimento desa-
desenvolvimento. paixonado sobre o que eles representam.
Essas modificações econômicas são graduais, imper- 3. As idéias políticas e morais da época devem ser
ceptíveis, mas têm um irresistível efeito cumulativo. Os examinadas em sua relação mais aproximada possí-
homens cuidando de seus interesses, raramente se aper-
cebem dos resultados finais de sua atividade. O capitalismo vel com o desenvolvimento econômico.
comercial do século XVIII desenvolveu a riqueza da Eu-
ropa por meio da escravidão e do m?nopólio .. Mas, ~o .A política e a moral no terreno abstrato não têm
fazer isso contribuiu para criar o capitalismo mdustnal sentido. Vemos os estadistas e publicistas britânicos defen-
do século' XIX, o qual destruiu o poder do capitalismo dendo a escravidão hoje, atacando a escravidão amanhã
comercial a escravidão e todas as suas obras. Sem uma def~n~endo a es?ravidão depois de amanhã. Hoje são im~
compreen~ão dessas modificações econômicas, a história penalistas, ~o dta. s~guinte antiimperialistas e igualmente
do período não tem sentido. a favor do Impena}Is~o uma geração depois. E sempre
com a mesma veemencia. A defesa ou o ataque está sempre
Os diversos grupos contendores de comerciantes, no plano, elevado moral ou político. A coisa defendida ou
2. atac~da e semp~e algo tangív~l e visível, que se pode medir
industriais e políticos dominantes, embora aguda- em libras esterlmas ou em libras-peso em dólares e cen-
mente conscientes dos seus interesses imediatos, tavos, em jardas, pés e polegadas ou 'em metros e centí-
estão por essa mesma razão geralmente desatentos metros. Isso não é um crime. É um fato. É compreensível
às conseqüências a longo prazo de suas diferentes na época. Mas os historiadores, escrevendo cem anos de-
ações, proposições e políticas. pois, não têm desculpa para envolver os interesses reais
em confusão.* Mesmo os grandes movimentos de massa
Para a grande maioria dos responsáveis pela polítíca e o movimento antiescravista foi um dos maiores deles'
britânica a perda das colônias americanas pareceu uma mostram. uma curiosa afi~idade com o aparecimento ~
desenvolvimento de novos mteresses e a necessidade da
catástrofe. Na realidade, como se viu rapidamente, provou destruição dos velhos.
ser o início de um período de riqueza criadora e poder
político para a Grã-Bretanha, que supero~ de longe todas
as realizações incontestadas da era antenor. Desse ponto 4. Um interesse desgastado, cuja falência aparece como
de vista, o problema da libertação da Africa e do Extremo uma providência na perspectiva histórica, pode exer-
Oriente do imperialismo será finalmente decidido pelas c~r um efeito de ~bstrução e de descontinuidade que
necessidades de produção. Assim como a nova capacidade so pode ser exphcado pelos extraordinários serviços
produtiva de 1833 destruiu as relações entre a _mãe-pát:ia que prestou e a solidez que adquiriu anteriormente.
e a colônia, que existiam sessenta anos antes, assim tambeJ?
a incomparavelmente maior capacidade produtiva de hoJe . Como explicar de outro modo a poderosa defesa er-
destruirá finalmente todas as relações que se interponham gmda pelos plantadores das índias Ocidentais quando um
no caminho. Isso não invalida a premência e a legitimi-
dade dos argumentos em prol da democracia, em P.rol da
libertação agora ou dep?is da g~erra. Ma~,. mutat~s mu- • Dessa deplorável tendência, o Professor Coupland, da Univer-
tandis, os argumentos tem um timbre familiar. É Impor- sidade de Oxford, é um exemplo notável.

233
232
observador imparcial - se existisse isso - podia ver que o
tempo deles tinha passado? Contudo, num relato simpli-
ficado como a história deve ser, as declarações contempo-
râneas, representativas e cautelosamente escolhidas, dão NOTAS
um efeito enganador da clareza de objetivos e propósitos.
. 5. As idéias criadas com base nesses interesses perdu-
ram muito depois que os interesses foram destruídos Add. MSS. = Additional Manuscripts (Manuscritos Adi-
e produzem seus males antigos, o que é bem mais d onais) .
nocivo porque os interesses a que eles correspondiam O. O. = Indicação do Catálogo (em bibliotecas e arquivos).
Hansard = Publicação oficial das atas do Parlamento bri-
não mais existem. Lii.nlco.
Eng. MS. = English Manuscript (Manuscrito Inglês).
Tais são as idéias da inadaptação do homem branco Ver bibliografia.
ao trabalho nos trópicos e da inferioridade do negro que
o condenaram à escravidão. Temos de nos precaver não
somente contra esses antigos preconceitos, mas também CAPíTULO 1
contra os novos, que são constantemente criados. Nenhuma 1. C. M. Andrews, The Colonial Period ot American History
época está isenta disso. (New Haven, 1934-1938) , I , 12-14, 19-20.
As observações feitas acima não são oferecidas como 2. N. M. Crouse, The French Struggle tor the West Indies,
soluções dos problemas dos dias atuais. São assinaladas 1-665-1713 (Nova Iorque, 1943), 7 .
como pontos de orientação que surgem ao se traçar a 3. Adam Smith, The Wealth oj Nations (Cannan, Nova Iorque,
carta de outro mar que foi em seu tempo tão tempestuoso 1937) , 538. A isso Smith acrescentou um fator político -
"liberdade para manobrar seus negócios a seu próprio modo".
quanto é o nosso agora. Os historiadores não fazem nem 4. H. Merivale, Lectures on ColoniZation and Colonies (Oxford,
guiam a história. Sua parcela nisso é geralmente tão edição de 1928), 262.
pequena que é quase insignificante. Mas, se não apren- 5 . Ibid., 385. A descrição é de Lorde Sydenham, Gov<ernador-
derem alguma coisa com a história, suas atividades serão ·Geral do Canadá.
6. Merivale, op. cit., 256.
então apenas um ornato cultural, ou um passatempo agra- 7. lbid.
dável, igualmente inútil nestes tempos conturbados. 8. R. B. Flanders, Plantation Slavery in Georgi a (Chapel Hill,
1933), 15-16, 20.
9. Merivale, op. cit., 269. .
10. M. James, Social Problems and Policy during the Puritan
Revolution, 1640-1660 (Londres, 1930), III.
11. Adam Smith, op. cit., 365.
12. J. Cairnes, The Slave Power (Nova Iorque, 1862), 39.
13. G. Wakefield, A View ot the Art ot Colonization (Londres,
1849 )' 323.
14. Adam Smith, op. cit., 365·-366.
15. Merivale, op. cit., 303. Grifo de Merivale.
16. M. B. iHiammond, The Cotton Industry: An Essay in Ame-
rican Economic History (Nova Iorque, 1897), 39.
17. Cair.nes, op. cit., 44; Merivale, op. ci t., 305-306. Sobre o
esgotamento do solo e a expansão da escravidão nos Esta-
dos Unidos, ver W. C. Bagley, Soil Exhaustion and the
Civil War (Washington, D . C., 1942).
18. Merivale, op. cit., 307-308.

234 235
19. J. A. Saco, Historia de la Escravitud de los Indios en el 46 . J . C. Jeaffreson (org.), A Young Squire ot the Seventeenth
Nuevo Mundo (Havana, edição de 1932), I, Introdução, Century, From the Papers . ( A. D. 1676-1686) ot Christo-
p. xxxviii. A Introdução é escrita por Fernando OrtiZ. pher Jeattreson (Londres, 1878), I, 258. Jeaffreson a
20 . A. w. Lauber, Indian Slavery in Colonial Times within Poyntz, em 6 de maio de 1681.
the Present Limits ot the United States (Nova Iorque, 1913), 47. Sobre a afirmação de Cromwell quanto a isso, ver St ock,
214-215. op. cit., I, 211. Cromwell a Lenthall, Presidente do Par-
21. J. C. Ballagh, A History ot Slavery in Virgínia (Baltimore, lamento, em 17 de setembro de 1649.
1902)' 51. 18. V. T. Harlow, A History ot Barbados, 1625-1685 (Oxford,
22. F. Ortíz, C'•)ntrapunteo Cubano clel Tabaco y el Azúcar 1926)' 295.
(Havana, 1940), 353. 19. J. A. Williamson, T he Caribbee Islands Under the Proprie-
tary Paten ts (Oxford, 1926), 95.
23. lbid., 359. 50. Calendar of State Papers, Colonial Series, XIII, 65. Joseph
24. Lauber, op. cit., 302. Crispe ao Coronel Bayer, em lO de junho de 1689, de Saint
25. C. M. Haar, "White Indentured Servants in Colonial New Christopher: "Além dos franceses, temos um inimigo ainda
York", Americana (julho de 1940), 371. pior nos católicos irlandeses." Em Montserrat, os irlande-
26. Cambridge History ot the British Empire (Cambridge, 1929), ses, em número de três para cada inglês, ameaçavam en-
I, 69. tregar a ilha aos franceses (Ibid . , 73 . Em 27 de junho de
27. Andrews, op. cit., I, 59; K. F. Geiser, Redemptioners and 1689). O governador Codrington , de Antígua, preferia con-
Inaenturea Servants in tt~e Colony and Commonwealth oj fiar a defesa de Montserr at aos poucos ingleses e seus es-
Pennsylvania (New Haven, 1901), 18. cravos a fiar-se na "fidelidade duvidosa" dos irlandeses
28. Cambridge History ot the British Empire, I, 236. (lbid., 112-113. Em 31 de julho de 1689) . Ele desarmou
29. C. M. Maclnnes, Brístol, a Gateway ot Empire (Brístol, os irlandeses em Nevis e mandou-os para a Jamaica (lbid.,
1939), 158-159 . 123. Em 15 de agosto de 1689).
M. W. Jernegan, Laboring and Dependent Classes in Colo- 51. H. J. Ford, The Scotch-Irish in America (Nova Iorque, 1941),
30. 208.
nial America, 1607-1783 (Chicago, 1931), 45.
52. Calendar ot State Papers, Colon ial Series, V, 495. Petição
31. H. E . Bolton e T. M. MarshaH, The Colonization oj North de Barba dos, 5 de setembro de 1667.
American, 1491-1783 (Nova Iorque, 1936), 336. 58. Stock, op. cit., I, 288 n., 321 n., 327.
32. J. W. Bready, England Before and Ajter Wesley - The 54. Harlow, op. cit ., 297-298.
Evangelical Revival and Soci al Rejom~ (Londres, 1938), 106. 55. Mittelberg·er, op. cit., 19.
33. Calendar ot State Papers, Colonial Series, V, 98. Em 16 66. Stock, op. cit. , I, 249. Em 25 de março de 1659.
de julho de 1962. 57. Geiser, op. cit ., 57.
34. Geiser, op. cit., 18. b8. E. W. An drews (org.), Journal ot a Lady ot Quality,· Being
35. Ver G. Mittelberger, Jaumey to Pennsylvania in the year the Narrative ot a Journey trom Scotland to the West In-
1750 (Filadélfia, 1818), 16; E. I. McCormac, White Ser- dies, North Carolina ·a nd Portugal, i n the years 1774-1776
vitude in Maryland (Baltimore, 1904), 44, 49; "Diary of (New Haven, 1923), 33.
John Harrower, 1773-1776", Ame?'ican H istorical Review b!). J eaffreso.n, op. cit., II, 4.
(outubro de 1900), 77. 60. J. A. Doyle, English Colonies in America - Virginia, Ma-
36. E. Abbott, Historical Aspects ot the Immigration Problem, ryland, and the Carolinas (Nova Iorque, 1889), 387.
Select Documents (Chicago, 1926), 12 n. 01. Macinnes, op. cit., 164-165; S. Seyer, Memoirs Historical
37. Bready, op. cit., 127 . and TO]Jographical ot Brístol cm d i ts Nei gh bourhood (Brís-
38. L. F. Stock (org.), Proceedings and Debates in the British tol, 1821-1823 ) , II, 531; R. North, The Life ot the Rt. Hon.
Parliament respecting North America (Washington, D. C., Francis North, Baron Guilford (Londres, 1826), II, 24-27.
1924-1941), I, 353, n., 355; III, 437, n., 494. 02. Seyer, op. cit., II, 532 .
39. Calendar ot State Papers, Colonial Series, V, 221. n:1 . Cambridge H istory ot the British Empire, I, 563-565.
40. Ibid., V, 463, abril de 1667 (?) . M. Balbagh, op. cit., 42.
41. Stock, op. cit., V, 229 n. !lu , McCormac, op. cit., 75.
42. Jernegan, op. cit., 49. no. lbid., 111.
43. J. D. Lang, Transportation and Colonization (Londres, fi'I o C. A. Herrick, White Servitude i n Pen.nsylvania (Filadél-
1837)' 10. fia, 1926), 3.
44. Merivale, op. cit., 125. IIIJ. Stock, op . cit ., I , 249.
45. J. D. Butler, "British Convicts Shipped to American Co- 110 . Harlow, op . cit., 306.
loni-es", American Historical Review (outubro de 1896), 25. '{() o Stock, op. cit., I, 250. Em 25 de março de 1659.

236 237
71. Calendar of State Papers, Colonial Se1'ies, IX, 394. Em 30 101. Ibid., VII, 141. Sir Peter CoHeton ao governadol' OodrltlM
de maio de 1676. ton, em 14 de dezembro de 1670. Sugestão semolhnul"
72. Sir W. Besant, London in the Eighteenth Century (Lon- veio da Jamaica em 1686. Pedia -se permissão para n 111
dres, 1902), 557. tradução da indústria algodoeira, para proporcionar em
73. Calendar of State Papers, Colonial Series, V, 229. Rela- prego aos brancos pobres. A resposta das autoridades da
tório do Comitê de Consulta das Plantações Estrangeiras, Alfândega. inglesa foi que "quanto mais se incentivarem tais
agosto de 1664 (?). atividades manufatureiras nas Colônias tanto menos de-
74. G. S. Callender, Selections from the Economic History ot pender iam elas da Inglaterra". F. Cundall, The Gover-
the United States, 1765-1860 (Nova Iorque, 1909), 48 . nors ot Jamaica in the s.eventeeth Century (Londres 1936)
102-103. ' '
75. Calendar o f State Papers, Colonial Series, X, 574. Em 13 102 .
de julho de 1680. Calendar ot State Papers, Colonial Series, XIV, 446-447.
76. H. J. Laski. The Rise of European Liberalism (Londres, 1936), Governador Russell, em 23 de março de 1695.
199, 215, 221. 103 . C. S. S. Higham, The Development ot the Leward Islands
77. Daniel Defoe, Moll Flanders (edição Clássicos Abbey, Lon- under the Restoration, 1660-1688 (Cambridge, 1921), 145.
dres, s.d. ), 71.
104. Harlow, op . cit., 44.
105 . Callender, op. cit., 762.
78. T. J. Wertenbaker, The Planters ot Colonial Virgínia 106.
(Princeton, 1922), 61. Merivale, op. cit., 62.
107. Harlow, op. cit., 293.
79. Herrick, op. cit., 278.
80. Ibid., 12.
108. Ibid., 41.
81. Calendar ot State Papers, Colonial Series, V, 220. Petição 109. Calendar ot State Papers, Colonial Series, v, 529. "Some
dos Negociantes, Plantadores 'e Mestres de Navios, que co- Observations on the Island of Barbadoes", 1667.
merciam com as Plantações, em 12 de julho de 1664. 110. Harlow, op. cit., 41.
Harlow, op. cit., 307. 111. Ibid ., 43.
82.
83. Calendar ot State Papers, Colonial Series, IX, 445. Em 15 112. Merivale, op. cit., 81.
de agosto de 1676 . 113. F . W. Pit man, The Settlement and Financing o f British
84. U. B. Phillips, Lif e and Labor in the Old South (Boston West India Plantati ons in the Eighteenth Century, em Essays
1929)' 25. in Colonial H istory by Students of C. M. Andrews (New
85. J. S. Bassett, Slavery and Servitude in the Colony o f North Haven, 1931), 267.
Carolina (Baltimore, 1896), 77. Sobre a docilidade do es- 114 . Ibid., 267-269.
cravo negro, ver infra, pp. 201-208. 116. CaLe•n.dar of State Papers, O:>lonial Series, I, 79. (Governa-
86. Flanders, op. cit., 14. dor Sir Francis Wyatt e Conselho da Virgínia, em 6 de
87. Cairnes, op. cit. , 35 n. abril de 1626 .
88. Callender, op. cit., 764 n. 116. Wertenbaker, op . cit., 59, 115, 122-123, 131, 151.
89. Cairnes, op. cit., 36. 117. R. B. Vance, Human Factors in Cotton Culture: A Study
90 . Ortíz, op. cit., 6, 84. in the Social Geography of the American South (Chapel
91. A. G. Price, White Settlers in the Tropics (Nova Iorque, Hill, 1929) , 36.
1939)' 83. 118 . J. A. Saco, Historia de la Esclavitud de la Raza Africana
92. Ibid., 83, 95. en el Nuevo Mundo y en especial en los Países America-
93. Ibid. 92. -Hispanos (Havana, 1938), I, Introdução, p. xxviii. A In-
94. Ibid., 94. trodução é de Fernando Ortíz .
95. E. T. Thompson, "The Climatic Theory of the Plantation", 110. T. Blanco, "El Prejuicio Racial en Puerto Rico", Estudios
Agricultural History (janeiro de 1941), 60. Atrocubanos, II (1938), 26.
96. H. L. Wilkinson, The World's Population Problems and a t:ao. Saco, Historia de la Esclavitud de la Raza Africana ... In-
White Australia (Londres, 1930), 250. trodução, p. xxx.
97. Ibid., 251. 121. Immigration ot Labourers into the West Indian Colonies
98. R. Guerra, Azúcar y Población en Las Antillas (Havana, and the Mauritius, Parte II, Parliamentary Papers, 26 de
1935)' 20. agosto de 1846, 60. Henry Light a Lorde Stanley, em 17 de
99. Williamson, op. cit., 157-158. setembro de 1845 : "Como t rabalhadores são inestimáveis,
100. Calendar ot State Papers, Colonial Series, X, 503. Gover- como cidadãos estão entre os melhores e raramente são
nador Atkins, em 26 de março de 1680. levados perante os tribun:üs de justiça ou à polícia."

238 239
Papers Relative to the West Indies, 1841-1842, Jamaica- 7. Ibid., V, 140-141. Todo o ensaio, "Reflections upon the
122. Constitution and Management of tbe African Trade", vale
-Barbados, 18. C. T . Metcalfe a Lorde J ohn Russell, em
27 de outubro de 1841. a pena ler.
Immigration ot Labourers into the West I ndian Colonies .. . , 8. E. Donnan (org.), Documents Illustrative ot the History ot
123. the Slave Trade to America (Washington, D. C., 1930-1935)
III . William Reynolds a c. A. Fitzroy, em 20 de agosto de
II, 129-130. '
1845 .
Essas cifras foram tiradas dos quadros de I Ferenczi, In- 9. Ibid., I , 265. Em 1681, essas dívidas eram estimadas em
124. 271. 000 libras. E . D. Collins, Studies in the Colonial Policy
ternational Migrations (Nova Iorque, 1929), I, 506-509,
516-518, 520, 534, 537. ot England, 1672-1680 (Relatório Anual da Associação His-
O quadro seguinte ilustra o uso da mão-de-obra chinesa tórica Americana, 1900), 185.
125. 10. J. Latimer, Annals ot Brístol in the Eighteenth Century
nas plantações de cana-de-açúcar de Cuba em 1857:
(Brístol, 1893), 271.
Plantação Negros Chineses 11. Higham, op. cit., 158.
12. Latimer, op. cit., 272.
Flor de Cuba 409 170 13. Anônimo, Some Matters ot Fact relating to the present state
San Martín 452 125 ot the African Trade (Londres, 1720), 3.
El Progreso 550 40 14. Pitman, The Development of the British West Indies, 1700-
Armonía 330 20
300 30 -1763 (New Haven, 1917), 67.
Santa Rosa 15. Ibid., 69-70, 79.
San Rafael 260 20
Santa Susana 632 200 16. Postlethwayt, Great B ritain's Commercial Interest . .. , II,
479-480. Ver também pp. 149-151, 154-155.
A última plantação era rea~mente cos~opolita; o loye 17. H . H. S. Aimes, A H istory of Slavery in Cuba, 1511 to
de escr avos compreendia tambem 34 natlVos de Iucata. 1868 (Nova Iorque, 1907), 33, 269.
Essas cifras foram tiradas de J. G. Cantero, Los Ingenios 18. W. E. H. Lecky, A History of England in the Ei ghteenth
de za Isla de Cuba (Havana, 1857). O livro não é pagi- Century (Londres, 1892-1920), II, 244.
nado. Houve certa oposição a essa mão-de-obra chinesa, 19. Report ot the Lords ot the Committee ot Privy Council
sob o fundamento de que aumentava a heterogeneidade da appointed for the consideration all matters relating to
população. "E que perderemos com isso?", foi a r~plica Trade and Foreign Plantations, 1788. Part e VI, Depoimen-
mordaz. Anales de la Real Junta de Fomento e Soczedad to dos Srs. Baillie, King, Camden e Hubbert. As cifras
Económica de la Havana (Havana, 1851 ), 187. seguintes, tiradas do mesmo relatório (Parte IV, N.o 4 e
126. Ferenczi, op. cit . , I, 527 . N.0 15, Suplemento N.o 6, e Documentos recebidos desde a
data do relatório), dão alguma indicação da extensão do
CAPíTULO 2 comércio de reexportação:
1. Calendar ot State Papers, Colonial Series, V, 167. Rienatus
Enys ao secretário Bennet, em 1.0 de novembro de 1663. Colônia Anos Importações Exportações
2. c. Whitworth (org.), The Political and Commercial Works
ot Charles Davenant (Londres, 1781), V, 146. Jamaica 1784-1787 37.841 14.477
3. G. F. Zook, The Company ot Royal Adventurers trading St. Kitts 1778-1788 2.784 1.769
in to Africa (Lancaster, 1919), 9, 16. Domínica 1784-1788 27.553 15.781
4. M. Postlethwayt, Great Britain's Commercial I nterest Ex- Granada 1784-1792 44.712 31.210
plained and Improved (Londres, 1759), Il, ~48-149, 236; Pos-
tlethwayt, The African Trade, the Great Pzlla1· .and Support De acordo com Dundas, a importação total das !ndias
vt the British Plantation Trade in North Amerzca (Londres, Ociden_tais Britânicas, em 1791, montou a 74.000, as reex-
1745) 38-39· Postlethwayt, The National and Private Ad- portaçoes a 34.000. Cobbett's Parliamentary H istory ot
vantdges ot' the African Trade Considered (Londres, 1746), England (mencionado doravante como Parl. Hist.), XXIX,
113, 122 . 1206. Em 23 de abril de 1792.
5. J. Gee, The Trade and Navigation ot Great Britain Consi-
dered (Glasgow, 1750), 25-26. 10. B. Edwards, The History, Civil and Commercial ot the
6. Whitworth, op. cit., II, 37-40. Brttish Colonies in the West Indies (Londres, 1801). I, 299 .

241
240
21. J. Ramsay, um manuscrito inteiramente escrito por sua 36 .Cita.do com base em Sir Thomas Mun, segundo J. E. Gil-
própria mão principalmente dedicado a suas atividades para lespire, The Influence ot Oversea Expansion on Egland to
a Abolição do Tráfico de Escravos, 1787 (Biblioteca da Casa 1700 (Nova Iorque, 1920), 165.
de Rhodes, Oxford), 23 (v). "Memorial on the Supplying 37. Donnan, op. cit ., II, 627.
of the Navy with Seamen." 38. J: Wallace, A General and Descript ive History ot the An-
22. W. Enfield, An Essay towards the histonJ ot Liverpool (Lon- czent and Present State ot the Town ot Liverpool ... toge-
dres, 1774), 67. ~her with Cf Circurr;-stantial Account ot the True Causes ot
23. Donnan, op. cit., II, 630. O progresso de Liverpool pode ser tts Extenswe Afncan Trade (Liverpool, 1795) , 229-230.
visto no quadro seguinte: Para exemplos da subdivisão, ver também Wadsworth e
Mann, op. cit., 2.24-225.
Ano Liverpool Londres Brístol 39. Edwar d, op. cit., II, 72, 74, 87-89; J. Atkins, A Voyage to
Guinea, Brasil, and the West I ndies (Londres 1735) 179.
1720 21 60 39 Para uma apreciação moderna autorizada, 'ver :M:. J.
1753 64 13 27 Rerskovits, The Myth of the Negro Past (Nova Iorque 1941)
1771 107 58 34-50. , ,
23
40. Corr~spo~dência entre Robert Bostock ... Bostock a Fryer,
Entre 1756 e 1786, Brístol enviou 588 navios à Africa e em Janeiro de 1790; Bostock a Flint, em 11 de novembro
Liverpool, 1.858; entre 1795 e 1804, Liverpool enviou 1.099 de 1790.
navios à Africa, Londres 155, Brístol 29. (As cifras cor- 41. W. Sypher, Guinea's Captive Kings, British Anti-Slavery
respondentes a 1720 foram extraídas de Some Matters of Literature ot the XVII!th Century (Chapel Hill 1942), 170.
Fact .. . , 3; as outras, de Maclnnes, op. cit., 191.) Os escravos eram inspecionados tão rigorosamente como
gado no mercado d'e Smithfield; as principais qualidades
24. Cobbett's Parliamentary Debates (mencionado doravante destacadas sendo altura, dentes bons, membros flexíveis
como Parl. Deb. J, IX, 127. George Hibbert, em 16 de março e ausência de doença venérea. Atkins, op cit., 180.
de 1807. 42. E. F. Gay, "Letters from a Sugar Plantation in Nevis,
25. Correspondência entre Robert Bostock, comandante da ma- 1723-1732", Journal ot Economic and Business Hístory
rinha mercante e comerciante, e outros, dando pormenores (novembro de 1928), 164.
do tráfico de escravos dos navios de Liverpool nas índias 43. Donnan, op. cit., II, 626.
Ocidentais, 1789-1792 (volume manuscrito, Biblioteca Pú- 44. Correspondência entre Robert Bostock ... , Bostock a meve-
blica de LiV'erpool) . Bostock ao Comandante James Fryer land, em 1O de agosto de 1789.
em 17 de julho de 1790. ' 45. T . Clarkson, Essay on the Impolicy ot the African Slave
26. :Miacinnes, op. cit., 202 . Trade (Londres, 1788), 29.
27. T. Clarkson, History of the Rise, P1·ogress, and Accom- 46. W. Roscoe, A General View of the African Slave Trade de-
plishment ot the Abolition ot the A/rican Slave Trade by monstrating its Injustice and Impolicy (Londres 1788)
the British Parliament (Londres, 1839), 197.
23-24. , ,
28. Donnan, op. cit., I, 132. A Companhia da Guiné a Francis 47. A. Mackenzie-Grieve, The Last Years ot the English Slave
Soane, em 9 de dezembro de 1951. Trade (Londres, 1941), 178.
29. Diários dos Navios Negreiros de Liverpool C"Bloom" e ou- 48. F. Cara vaca, Esclavos! El Hombre Negro: Instrumento del
tros); com correspondência e preços de escravos vendidos Progreso del Blanco (Barcelona, 1933), 50.
(volume manuscrito, Biblioteca Pública de Liverpool) . 40. A ser realizado pela Companhia de Brandeburgo, às vezes
Bostock a Knowles, 'e m 19 de junho de 1788. chamada, devido à localização de sua sede, de Companhia
30. E. Martin (org.), Journal ot a Slave Dealer. "A View ot de Emden. Constituída em 1682, a companhia 'e stabeleceu
some Remarkable Axcedents in the Lif e ot Nics. Owen on dois núcleos na costa africana e tentou sem sucesso obter
the Coast ot A/rica and America trom the year 1746 to possessões nas índias Ocidentais. Donnan, op. cit., I, 103-
the year 1757". (Londres, 1930), 77-78, 97-98. -104.
31. Latime r, op. cit . , 144-145 .
no. Zook, op. cit ., 11-12, 19.
A. P. Wadsmorth e J. de L. Mann, The Cotton Trade and
nl. R. I. e S. Wilberforce, The Li/e ot William Wilbertorce
32. (Londres, 1838), I, 343. Jorge III certa vez sussurrou zom-
Industrial Lancashire (Manchester, 1931), 228-229 . b~teiramente, para o abolicionista numa recepção: :'Como
33. Donnan, op. cit., II, 625-627. vao passando seus clientes negros, Sr. Wilberfor<:~e?" Em
34. Ibid., II, 631. 1804, Wilberforce escreveu a Muncaster que "era efetiva -
35. Latimer, op. cit., 476; Wadsworth e Mann, op. ctt., 225. mente humilhante ver, na Câmara dos Lordes, quatro mern-

242 243
bros da Família Real descerem de sua posição para votar 74 . . G . R. Wynne, The Church in Greater Britain (Londre~
contra os pobres, desamparados e desprotegidos escravos''. 1911), 120.
Ibid., III, 182 . Em 6 de julho de 1804 . 75. H . ot C . Sess. Pap., 1837-8, Vol. 48. A cifra exata foJ
52. Correspondência entre Robert Bostock ... , Bostock a Fryer,
em 24 de maio de 1792. O Duque foi agraciado com um .:E 12,729.4. 4 (12 . 729 libras, 4 xelins e 4 penceJ, pp. 19, 22.
serviço de prata como "o testemunho pobre, mas honroso, 76. Wynne, op. cit., 120; C . J. Abbey e J . H. overton, The
da gratidão do povo de Jamaica". G. W. Bridges, The English Church in the Eighteenth Century (Londves 1878)
II, 107. , I
Annals of Jamaica (Londres, 1828), II, 263 n.
53. Parl. Hist., XXX, 659. Em 11 de abril de 1793. 77. Abbey e Overton, op. cit., II, 106.
54. Andrews, op. cit., IV, 61 . 78. A. T. Gary, The Political and Economic Relation of En-
55. C. M. Andrews, "Anglo-French Commercial Rivalry, 1700- glish and American Quakers, 1750-1785 (Tese de formatura
-1750", American Historical Review (abril de 1915), 546. em Filosofia, pela Universidade de Oxford 1935) 506 A
56. Donnan, op. cit., II, 45. cópia •examinada estava depositada na Libr~ry of 'Frie~ds'
57. H. ot C . Sess . Pap., Accounts and Papers, 1795-1796. A House (Biblioteca da Casa dos Quacres, em Londres) .
& P. 42, Série n<? 100, Documento 848, 1-21. 79 . H. J. Cadbury, Colonial QU(J)ker Antecedents to British
58. Add. MSS. 12433 (Museu Britânico), fls. 13, 19. Edward Abolition ot Slavery (Friends' House, Londres, 1933), I.
Law, em 14 de maio de 1792. 80. Gary, op . cit., 173-174.
59. P . Cunningham (org.), The Letters ot Horace Walpole 81. Ver Documentos de Liverpool, Add. MSS. 38227 (Museu
(Londres, 1891), II, 197. A Sir H. Mann, 25 de fevereiro Britânico), fl. 202, que consistJe numa carta sem data de
de 1750. Lorde Hawkesbury, Presidente do Conselho Privado, a Lorde
60 . Parl. Hist., XVII, 507-508, 5 de maio de 1772 . Rodney, concordando com a procuração de Rodney. Haw-
61. R. Terry, Some Old Papers relating to the Newport Slave kesbury prometeu "fazer o melhor uso dela defendendo a
Trade (Boletim da Sociedade Histórica de Newport, julho Ilha de Jamaica e as outras ilhas das índias Ocidentais
de 1927), 10 . ~u.e Sua Excelên~ia defendera tão gloriosamente contra um
62. Calendar ot State Papers, Colonial Series, X, 61. Depoi- 1mm1go estrangeuo no memorável 12 de abril", expressan-
mento dos plantadores de Barbados perante os Lordes de do seu pesar pelo fato de que apenas um sério ataque de
Comércio e Plantações, 8 de outubro de 1860. Para uma gota impedisse Rodney de "comparecer ao Parlamento e
vigorosa divergência da opinião de que os escravos não ti- oferecer seu apoio pessoal àqueles que tanto necessitam
nham outro meio de comunicação a não ser n a língua de dele".
seus senhores, ver Herskovits, op. cit., 7\9-81. 82. Parl. Deb. 1 VIII, 669. Em 5 de fevereiro de 1807 .
63 . Calendar ot State Papers, XIV, 448 . Governador Russell, em 83. F. J. Klingberg, The Anti-Slavery Movement in England
23 de março, de 1695. (New Haven, 1926), 127 .
64. Ver infra, p. 198 . O governador de Barbados opôs-se à 84 . H . ot C. Sess. Pap., 1837-8, Vol. 48 . A cifra exata é
construção de igrejas sob o fundamento de que a permis- .:E6,207.7.6 (6.207 libras, 7 xelins e 6 pence) , pp. 49, 62.
são aos negros de se reunirem fá-los-ia pensar em conluios 85 . Bready, op. cit., 341.
e insurJ.ieições. C. O. 28, 92 (Arquivo Público, Londres), 86. Zook, op. cit., 18 .
em 4 de novembro de 1823 . Os plantadores justificaram 87. Swinny, op. cit ., 140.
sua atitude com a alegação de que os missionários instila- 88. G. Williams, History ot the Liverpool Privateers with an
vam idéias perigosas na cabeça dos escravos, as quais sub- Account ot the Liverpool Slave Trade (Liv>erpÓol 1897)
vertiam a disciplina das plantações . 473-474. ' '
65. Lecky, op . cit., II, 249. 89. Latimer, op. cit., 147.
66. Sypher, op. cit., 14 . 90. M. Steen, The Sun is My Undoing (Nova Iorque, 1941), 50.
67 . V. T. Harlow, Christopher Codrington (Oxford, 1928), 91. M. D. George, London Life in the Eighteenth Century (Lon-
211, 215. dre~ 1925), 137-138 .
68. Sypher, op cit., 65. 92. H. T. Catterall, Judicial Cases concerning Negro Slavery
69. Latimer, op. cit., 100. (Washington, D. C., 1926-1927), I, 9, 12 .
70. lbid., 478. 93. Bready, op. cit., 104-105 .
71. S. H. Swinny, The Humanitarism of the Eighteenth Cen- 94. R. Coupland, The British Anti-Slavery Movement (Londres
tury and its results, em F. S. Marvin (org.), Western 1933)' 55-56. '
Races and the World (Oxford, 1922), 130-131. 95. Sypher, op. cit., 63.
72. L . Strachey, Eminent Victorians (ed. Phoenix, Londres, 06.
1929), 3 . Catterall, op. cit., 19-20; W. Massey, A History ot England
73 . Mackenzie-Grieve, op. cit., 162. during the Reign ot George the Third (Londres 1865) III
178-179. ' ' '

244
245
.fl7. Anônimo, Recollection ·o f Old Liverpo.ol, by a No(l,agertan acertado dizer, como faz Sypher (op. cit., 84), que Postle-
(Liverpool, 1863), 10. thwayt "tem uma opinião obscura" sobre o tráfico de es-
98. Ramsay, volume manuscrito, fl. 65. "An Address on the cravos.
Proposed Bill .for the Abolition· of the .Slave· Trade'' . ("Dis- 123 . W. Snelgrave, A New Account ot Guinea and the Slave Trade
curso sobre o Projeto Proposto para a Abolição do Tráfico (Londres, 1754), 160-161.
de Escravos").
99 . G. Williams, op. cit., 586. CAPiTULO 3
100. Hansard, Third Series, CIX, 1102 . Hutt, 19 de março de
1850. 1 . Adam Smith, op. cit., 415-416, 590-591.
101. H. W. Preston, Rhode lsland and the Sea (Providence, 2. W. Wood, A Survey of Trade (Londres, 1718), Parte III, 193.
1932), 70, 73. O autor foi Diretor do Serviço Estadual de 3. J. F. Rees, "The Phases o f British Commercial Policy in
Informação. the EightJeenth Century", Economica (junho de 1925), 143.
102. Latimer, op. cit., 142. 4. Gee, op. cit., 111.
103. J . W . D. Powell, Brístol Privateers and Ships ot War (Lon- 5. Postlethwayt, The Atrican Trade, the Great Pillar . . . , 4, 6.
dres, 1930), 167. 6. Cambridge History of the British Empire, I, 565.
104. H. R. F. Bourne, English Merchants, Memoirs in lllustra- 7. Whitworth, op. cit., II, 20 .
tion of the Progress ot British Commerce (Londres, 1866), 8. J. Bennett, Two Letters and Several Calculations on the
II, 63 ; J. B. Botsford, English Society in the Eighteenth Sugar Colonies and Trade (Londres, 1738), 55.
Century as Influenced trom Oversea (Nova Iorque, 1924) , 9. Wood, op. cit., 156 .
122; Enfield, op. cit., 48-49. Sobre a traficância de es- 10. Sir D. Thomas, An Historical Account ot the Rise and
cravos com Blundell, ver Donnan, op. cit., II, 492. Growth ot the w .est Indi a Colonies, and ot the Great Advan-
105 . Sobre Cunliffe, ver Bourne, op. cit., II, 57; Botsford, op. tages they are to England, in respect to Trade (Londres,
cit., 43, 49; Donna n, op. cit., II, 492, 497. 1690) . O ensaio faz parte da "Harleian Misc•e llany", II, 347 .
106. Donnan, op. cit., II, 631; J. Hughes, Liverpool Banks and 11. Pitman, The Settlement. . . ot British West lndia Planta-
Bankers, 1760-1817 (Liverpool, 1906), 174. tions . . . , 271 .
107. L. H. Grindon, Manchester Bank and Bankers (Manches- 12. Report ot the Committes ot Privy Council, 1'788, Parte IV,
ter, 1878), 55, 79-80, 187-188; Bourne, op . cit., II, 64, 78; N.o 18, Apêndice.
Botsford, op. cit . , 122; Donnan, op. cit., II, 492. 13. J. H. Rose, William Pitt and the Great War (Londres, 1911),
108. Donnan op. cit ., I, 169-172. 370.
109. lbid., II, 468. 14. Adam Smith, op. cit., 366.
110 . Latimer, op. cit., 476-477. 15. Whitworth, op. cit., II, 18.
111. Sobre exemplos, ver Wadsworth e Mann, op, cit., 216, n . ; 16. Os quadros seguintes foram compilados com base em Sir C.
Hughes, op. cit., 109, 139, 172, 174, 176; Donnan, op. cit ., •W hitworth, State ot Trade ot Great Britain in its imports
II, 492 n. and exports, progressively trom the year 1697-1773 (Londres,
112. L. B. Namier, "Antony Bacon, an Eighteenth Oentury Mer- 1776), Parte II, pp. 1-2, 47-50, 53-72, 75-76, 78, · 82-91. As
chant", Journal ot Economic and Business History (novem- cifras relativas ao comércio internacional são em libras es-
bro de 1929), 21. terlinas.
113. Do.nnan, op. cit., II, 642.-644, 656-657 n. Em geral, nas peroentagens dadas no texto com res-
114. Parl. Deb. , IX, 170. Em 23 de março de 1807. peito ao comércio com as índias Ocidentais e o continen-
115. Ibid ., VII, 230. Em 16 de maio de 1806. te, inclui as cifras referentes ao comércio de 1714-1773 com
116. Wilberforce, Lite ot Wilbertorce, III, 170. Wilberforce a lugares menores, tais como St. Croix, Monte Christi, St.
John Newton, •em junho de 1804. Eustatius, e também ao comércio com as ilhas conquistadas
117. C. o . 137/91. Petição à Comissão da Assembléia Legis- pela Grã-Bretanha na guerra, mas posteriormente resti-
lativa da Jamaica (encarregada) do Açúcar e do Tráfico tuídas - e. g., Cuba, Guadalupe, etc. Do mesmo modo,
de Escr a vos, 5 de dezembro de 1792. as cifras referentes ao continente, 1714-1773, abrangem
118. Sypher, op. cit., 157-158, 162-163, 186-188, 217-219. Canadá, Flórida, etc. Sobre a importância relativa dessas
119. Ibid., 59; Bready, op . cit., 341. diferentJes regiões, ver capitulo 6, pp. 114-115, e nota 36.
120. Parl. Hist., XIX, 305. Em 23 de maio de 1777. A fim de que essas estatísticas possam ser vistas em
121. Bready, op. cit., 102. sua perspectiva apropriada, é necessário apresentar as cifras
122. Postlethwayt, Great Britain's Commercial lnterest . . . , II, referentes ao comércio inglês em g.eral. Elas são como se
217-218; Savary des Bruslons, The Universal Dictionary ot segue (lbid ., Parte I, pp. 78-79).
Trad and Commerce. With large additions and improve-
ments by M. Postlethwayt (Londres, 1751), I, 25 . Não é

246 247
t-:1
~
(X) Ano Importações Britânicas Exportações Britânicas

1697 304820586 305250006


1773 11.4060841 14o763o252
1714-1773 492o146o670 730 o962 0105

% das %das % do
I m portaçõe.s Importações Exportações Exportações Comércio
Colônia Ano Britânicas Britânicas Britânicas Britân icas Britânico
Totais Totais Total

lndias Ocidentais o 1697 3260536 9,3 1420795 4 7


Continente ooo o.... 1697 2790852 8 1400129 3,9 6
Africa ......... .. . 1697 60615 . .. 130435
índias Ocidentais . 1773 208300853 24,8 1.2700846 8,6 15,5
Continente . o.. .... 1773 1.4200471 12,5 20375.797 16,1 14,5
Africa . o....... o.. 1773 68.424 ... 6620112
índias Ocidentais . 1714-1773 10102640818 20,5 45o389o988 6,2 12
Continente ... o... o 1714-1773 55o552o675 11,3 69o903o613 9,6 10,2
Africa ............ 1714-1773 20407.447 0,5 1502350829 2,1 1,4

Importações e exportações p ara as colõnias, de per si, são eorr.o seg"....e:

Importações Exportações Importações Exportações


Britânicas Britânicas Bri tâni cas Britânicas

Colônia 1697 1773 1697 1773 1714-1773 1714-1773

Antígua . oo. o..... . 280209 112.779 8.029 93.323 12o785o262 3.821°726


Barbados ooo.. ooo. o 196.532 1680682 77.465 1480817 140506.497 704420652
Jamaica . o..... o. o 70o000 1.2860888 40.726 6830451 420259.749 16o844o990
Montserrat ... o.. o. 14.699 470911 3.532 14.947 3.387.237 537.831
Nevis o. oo o o. oo o.. o. 170096 390299 13 0043 9.181 30636.504 5490564
Carolina o.... o... o 120374 4560513 50289 3440859 11.4100480 804230588
Nova Ing . . . . o... . 26o282 1240624 68.468 527.055 40134.392 160934 0316
N. Iorque o. o. o o. . o 100093 76 0246 4.579 2890214 1.9100 796 1103770696
Pensilvânia ... o o. o. 30347 360652 2.997 426.448 1.115.112 906270409
Vir~ín.ia e Maryland 2270756 5890803 580796 32.80 904 35.158 0481 18.391.097
Georg1a . o o. o.. o. o. 850391 620932 622.958 * 746.093 *
Sto Kitts . o. oo.... . 1500512 62.607 1303050659 30181.901
Tobago . o. oo...... . 20.453 30.049 490587 t 122.093 t
Granada . oo...... . 445.041 1020761 306200504 =F 1.1790279 =F
St. Vincent ... .... . 145.619 380444 672.991 2350665
Domínica ..... o.. . 248o868 43.679 1.469 . 704 § 3220294 §
índ. Ocido Espanhol. 35.941 15.114
Tortola oo. o. ..... . 480000 26.927 863.931 11 220 0036 11
Anguilla ....... .. . 290933 fi 1.241 fi
tnd. Ocid. em geral 22.00448 ** 7.1930839 **
Baía de Hudson oo 583.817 2110336

* 1732-1773
t 1764-1773
=F 1762--1773
§ 1763-1773
111748-1773
fi 1750-1770
.. 1714-1768
17. Bennett, op. cit., 50, 54. As firmas de transporte maritlmo de Londres apresenta-
18. Stock, op. cit., IV, 329. Sir John Barnard, em 28 de março ram uma petição em 1708, em favor do monopólio. Contra
de 1737. o monopólio vieram duas petições dos proprietários de na-
19. Postlethwayt, The African Trade, The Great Pillar ... , 13-14. vios de Whitehaven em 1709 e 1710; três petições dos cons-
20. E. D. Ellis, An Introduction to the History ot Sugar as a trutores de navios de Londres e seus arredores em 1708 e
Commodity (Filadélfia, 1905), 82. 1710; e uma petição dos construtores de navios de várias
21. Whitworth, Works of Davenant, II, 10. cidades em 1709. Stock, op. cit. , III, 204 n., 207 n., 225
22. Hi. See, Modern Capitalism, its Origin and Evolution <Nova n ., 226, 249, 250 n ., 251.
Iorque, 1928), 104. 43 . Documentos de Rolt & Gregson, X, 375, 377.
23. L. A. Harper, The English Navigation Laws (Nova Iorque, 41. Enfield, op. cit., 89 .
1939), 242. 116 . Documentos de Holt & Gregson, X, 435. Gregson a Brooke.
24. Andrews, The Colonial Period . .. , IV, 9. 40 . Macinnes, op. cit., 337.
25. Ibid., IV, 65, 71, 126, 154-155. 47. Parl. Hist., XXIX 343. Vereador Watson, em 18 de abril
26. Ver o estudo de G. P. Insh, The Company ot Scotland de 1791.
Trading to A/rica and the Indies (Londres, 1932) . 48. J. G. Broodbank, History ot the Port ot London (Londres,
27. Collins, op . cit., 43. 1921), I, 76-82, 89-108; W . S. Lindsay, A History of Mer-
28. Ibid., 157. Em 1697, o governador da Jamaica pediu um chant Shipping and Ancient Commerce (Londres, 1874-
abrandamento das Leis de Navegação por sete anos para - 1876), II, 415-420.
assegurar a recuperação. Calendar ot State Papers, Colo- 49. Latimer, op. cit., 6.
nial Series, XV, 386. Beeston a Blathwayt, em 27 de feve- 60. w. N. Reid e J. E. Hicks, Leading Events in the History
reiro de 1697. ot the Port ot Bristol <Brístol, s. d.), 106; J. Latimer,
29. Calendar ot State Papers, Coloni al Se1·i es, IX, 474-475. Em Annals ot Brístol in the Seventeenth Century (Brístol,
2 de outubro de 1676. 1900), 334; W. Barrett, The History and Antiquities ot the
30. Stock, op. cit., IV, 828. Em 30 de maio de 1739. Cily o! Br ístol (Brístol, 1780·), 186; J. A. Fraser, Spain
31. Andrews, The Colonial Period ... , II, 264. and the West Country (Londres, 1935), 254-255.
32. Parl. Hist., XXIX, 343. Vereador Watson, em 18 de abril 51. J. F. Nicholls e J. Taylor, Brístol Past and Present (Bris-
de 1791; Donnan, op. cit., II, 606. tot 1881-1882), III, 165.
33. Documentos de Holt e Gregson (Biblioteca Pública de Li- 52. Maclnnes, op. cit., 335.
verpool), X, 429. Carta intitulada "Comércio", escrita pelo 53. Ibid., 202.
próprio Gregson, sem data. 54. Ibid., 233.
34. G. L. Beer, The Old Colonial System (Nova Iorque, 1933), 55. Barrett, op, cit . , 189.
I, 17. 56. lbid., navios vindos das índias Ocidentais somaram 16.209
35. Ibid., I, 43 n. de um total de 48 .125 toneladas; na vi os saídos para as
36. Stock, op. cit ., III, 355. índias Ocidentais representaram 16.913 de um total de
37. Essa proporção é obtida tirando-se a média de 122. 000 46.729 toneladas.
toneladas para as índias Ocidentais, nos cinco anos entre 57. Macinnes, op. cit., 236, 367.
1710-1714, e comparando-a com a cifra de 243. 600 tone- 58. Ibid., 358, 370.
ladas, referentes ao comércio exterior em 1709, dada em A. 59. lbid., 228, 230, 235, 363, 370.
P. Usher, "The Growth of English Shipping, 1572-1922", 60. H. ot c. Sess. Pap ., 1837-8, Vol. 48. A cifra exata foi
Quarterly Journal of Economics (maio de 1928), 469. .E62,335.0.5 (62.335 libras e 5· pence) . A fam1lia possuía
38 . Usher, op. cit., 469. Em 1787, 998 . 637 toneladas. 954 escravos inteiramente, e tinha propriedade parcial nou-
39. Pitma.n, Development of the British West Indies, 66. tros 456 (páginas 117, 120, 132, 168).
40. R. Stewart-Browne, Liverpool Ships in the Eighteenth Cen- 61. Macinnes, op. cit., 371.
tury (Liverpool 1932), 117, 119, 12.6-127, 130. Sobre o trá- 62 . Enfield, op. cit., 11-12 .
fico de escravos de Baker & Dawson com as colônias espa- 63. P. Mantoux, The Industrial Revolution in the Eighteenth
nholas, ver Donnan, op. cit., II, 577 n. ; Aimes, op. cit., Century (Londres, 1928), 108.
36; Report ot the Committee ot Privy Council, 1788, Par- 64. Enfield, op. cit., 67.
te VI. 65. Fraser, op. cit., 254-255.
41. Enfield, op. cit., 26, dá a cifra de 5. 967 marítimos em 1771. 66. Enfield, op. cit., 69.
Gregson diz que 3. 000 eram empregados no tráfico de es- 67. Mantoux, op. cit., 109.
cravos. Documentos de Halt Gregson, X, 434. Carta sem 68. Clarkson, Essay on the Im,p olicy . .. , 123-125.
data a T. Brooke, membro do Parlamento. J. Corry, The History ot Lancashire (Londres, 1825), II, 690.
69 .
250 251
70. R. Smithers, LiverpooZ, its Commerce, Statistics and Insti- 106 . The New Brístol Guide (Bristol, 1799), 70.
tutions (Liverpool, 1825), 105. 107. Donna n , op. cit. , II, 602-604 :
71. Mackenzie-Grieve, op. cit . , 4 . 108. Rei~ e Hicks, op . ci t., 66; Macinnes, op. cit., 371.
72. G . Williams, op. cit., 594. 109. Latlmer , Annals of Brístol in the Seventeenth Century, 44-
73. Documentos de tH olt e Gregs on, X, 367, 369, 371, 373. -45, 88.
74. J. A. Picton, Memorials of Liverpool (Londres, 1873), I, 256. 110. B ourne, op. cit., II, 17-18; Botsford , op. cit., 120, 123.
75. Macinnes, op. cit., 191. 111. H. ot C . Sess . Pap. , 1837- 8, Vol. 48 . A soma exata foi
76. J. Touzeau, The Rise and Progress of Liverpool trom 1551 ,e 17,868.16. 8 07.868 libras, 16 xelins e 8 penceJ páginas
to 1835 (Liverpool, 1910), II, 589, 745. 68-69, 167- 168. '
77. "Robin Hood", "The Liverpool Slave T r ade", The Commer- 112. Eyre-Todd, op. cit., III, 39-40, 150-154.
cial World and Journal of Tramsport s (25 de fevereiro de 113. Enfield, .op. _cit ., 90; T. ~a~e, Th:e Stranger in Liverpool;
1893), pp. 8·-10; (4 de m a r ço de 1893), p . 3. or, an Hzst oncal and D escrzptzve v~ew ot the Town ot Liver-
78 . G. Eyre-Todd, Histon; ot Glasgow ( Glas gow, 1934), III, 295. pool and its environs (Liverpool, 1929), 184 . Sobre os Bran-
79 . Donnan, op. cit., II, 567-568 . cker e o trá fic o d e es cr a vos, ver Donnan, op. cit., II, 655 n.
80. Stock, op. cit., II, 109. 114. Stock, op. cit., I, 385, 390.
81. Donnan, op. cit., I, 267. 115. Whitworth, Wo7'ks of Davenant, II, 37.
82. Stock, op. cit., II, 179. 116. C. W. Cole, French Mercantili sm, 1683-1700 (Nova Iorque,
83. Donnan, op. cit., I, 413, 417-418; Stock, op. cit., II, 162 n., 1943) , 87-88. A proibição ainda está em vigor hoje. Ver
186 n . , III, 207 n., 302 n. J. E. Dalton, Sugm·, a Case Study of Government Control
84. Donnan, op. cit., I, 379. <Nova Iorque, 1937), 265-274.
85. lbid., I, 411, 418 n. 117. Bennett, op. cit., Introdução, p. xxvii.
86. Stock, op. ciil., II, 29 n., 89 n. , 94, 186 n. 118. A~ônimo, Some . Con_siderations humbly otter'd upon the
87 . lbid., II, 20; III, 90, 224 n. , 298; IV, 293-297. Bzll now dependzng zn the House of Lords, relating to the
88. lbid., IV, 161 n.-162 n. Trade between the Northern Colonies and the Sugar-lslands
89. Ibid . , III, 45 . (Londres, 1732), 15.
90. J. James, History ot the Worsted Manufacture in England 119. F. Cu n d a ll, T h e G overnors of J amaica jn the First Half
trom the Earliest T imes (Londres, 1857), apêndice, p. 7. ot the Ei ghteenth Century (Londres, 1937), 178.
91. A. S. Turberville, Johnson's England (Oxford, 1933), I, 120. Parl. H i st. , XIV, 1293-1294. Em 26 de janeiro de 1753;
231-232. Anônimo, An Accoun t of the Late Application to Parliament
92. Wadsworth e Mann, op. cit ., 147-166. from the S'u.gar Rejin eries, Grocers, et c., ot the Cities ot
93. Documentos de Holt e Gre gs on, X, 422-423. L ondon and Westminster, t he Borough Of Southwark, and
94. Report ot t h e Comm ittee o/ Pr ivy Council, 1788, Parte IV. ut the City ot Brístol (Londres, 1753), 3-5, 43 .
Depoimento do Sr. T a ylor. 121. Stock, op. ci.t., V, 559. Em 23 de março de 1753.
95. Documentos d e Holt e Gregson, X, 423. 122. H. ot C. Sess. Pap., R eports, Miscellaneous, 1778-1782, Vol.
96 . Donnan, op. cit., II, 337 n., 521-522. 35, 1781. Report trom the Committee to whom the Peti-
97. Wadsworth e Mann, op. cit., 149, 156-157, 231, 233, 243-247, tion ot the Sugar R·e tiners of London was retered. Ver es-
447 . pecialmente o depoimento de Frances Kemble.
98. lbid. , 229 n., 231, 231 n. 123. Stock , op. cit., I V, 132. n., R a gatz, Statistics .. . , 17, Qua-
99. Cambridge History ot Brit i sh Empire, II, 224; Wadsworth e dro XI.
Mann, op. cit ., 190. 124. Saugn ier e Brisson, V oyages to the Coast ot Africa (Lon-
100. As cifras referentes às importações inglesas são dadas em dres, 1792), 285.
J. Wheeler, Manchester, i t s Political, Soci al an d Commer- 125. R. Muir, A History ot Liverpool (Londres, 1907), 197.
cial History, Ancient and Modern (Manches ter, 1842), 148, 126 . Donnan, op. cit., II, 529 n.
170; as importações das índias Ocidentais, em L. J. Ragatz, 127. Stock, op. cit., IV, 303, 306, 309.
Statistics for the Study of Bri tish Cari bbean History, 1763- 128. Anônimo, Sho_rt Ani madversions on the Difjerence now set
-1833 (Londres, s.d.), 15, Quadro VI. up between Gm an d Ru m, rond Our MotliJer Country and Co-
101. Wadsworth e Mann, op. cit., 169 . lonies (Londres, 1769), 8-9 .
102. Fraser, op. cit. , 241 . 129. Stock, op. cit ., IV, 310.
103. Latimer, Annals of Brístol in the Ei g hteen th Century, 302; 130. Documentos de Windham (Museu Britânico) Add MSS .
Pitman, Development of the Brit ish West Indi es, 340. 37886, fls .. 125-128 . "Observations on the prÓposal ·o f thc
104. Nicholls e Taylor, op. cit., III, 34. West Ind1a Merchants to substitute sugar in the dls t!llc-
105 . Latimer , Annals ot B rístol i n the Seventeenth Century, 280- ries instead of barley". Anônimo, provavelmente 1807.
-281, 318-320
o
l31. Hansard, Third Series, V . 82. Em 20 de julho de 1831 ,

252 253
132. E. R. Johnson e outros, History ot Domestic and Foreign 9. L . J . Ragatz, Absentee Landlordism in the B rit ish Cari-
Commerce ot the United States (Washington, D.C., 1915), bean, 1750-1833 (Londres; s.d.) , 8-20; Pitman The West
I, 118. As exportações para a Africa foram de 292.966 Indian Absentee Planter ... , 117-121. '
galões de um total de 349.281. 10. R. M. Howard (org.), R ecords and Letters ot the Family
133 . J. Corry e J. Evans, The History of Brístol, Civil and Eccle- ot the Longs ot L ongville, Jamaica, and Hampton L odge
siastical CBristol, 1816), II, 307-308; Saugnier e Brisson, op. Surrey (Londres, 1925), I, 11-12; Cundall, T he Governors
cit., 296-299. of Jamaica in t he Seventeenth Century, 26.
134. Saugnier e Brisson, op. cit . , 217 . 11 . J . Britto~.· G~aphic_al and Li~erary Ilustrations ot Fonthil
135. Stock, op. cit., II, 264 n. Abbey, Wtltshzr e, w zth H eraldwal and G enealogical Notices
136. Donnan, op. cit., I, 234 n., 300 n. of the Beckford F amily (Londres, 1823), 25·-26.
137. Ibid., I, 256, 262; II, 445. 12. Ibid., 26-28, 35, 39. . .
138. Ibid., I, 283. 13. H. of C. Sess . Pap., 1837-38, Vol. 48. A quantia exata foi
139. Stock, op. cit., III, 207 n., 225 n., 250 n., 278 n. (Bir- .E 15,160.2.. 9 (15.160 libras, 2 xelins e 9 penoe), 20-21, 64-65.
mingham); 204 n. (Londres) . 14 . J. Murch, Memoir ot Robert Hibbert, Esquire (Bath 1874)
140. Donnan, op. cit., II, 98. 5-6, 15, 18-19, 97, 99, 104-105. ' '
141. w. H. B. Court, The Rise ot the Midland Industries (OX- 15. Broodbank, op. cit. , I, 102-103; A. Beaven The Aldermen
ford, 1938), 145-146. ot the City of Lon d on (Londres, 1908-1913) ,' II, 203 .
142. T. S. Ashton, Iron and Steel in the Industrial Revolution 16. H. ot C. Sess. Pap., 1837-38, Vol. 48. A cifra precisa foi
(Manchester, 1924), 195. .E31,121.16 . 0 (31. 121 libras e 16 xelins), pp , 20 22 46 52
143. Stock, op. cit., IV, 434. 67, 79. ' ' ' '
144. R. K. Dent, The Making ot BirminYham: being a History 17 . Ver capa interna da primeira edição do Hibbert Journal.
ot the Rise and Growth ot the Midland Metropolis (Bir- A mansão da família em Duke Street, Kingston Jamaica
mingham, 1894), 147. foi erigida por Thomas Hibbert, que chegou à ilh~ em 1734:
145. H. Hamilton, The English Brass and Copper Industries to Chamada a princípio de "Casa de Hibbert", serviu por al-
1800 (Londres, 1926), 137-138, 149-151, 286-292. gum tempo de quartel-general do Comandante-em-Chefe
146. E. Shiercliff, The Brístol and Hotwell Guide (Brístol, 1785), das forças armadas, e era popularmente conhecida como
16. Casa do Quartel-General. Mais tarde abrigou o escritório
147. A. H . Dodd, The Industrial Revolution in North Wales do Ministro das Colônias e a Câmara de Conselho Legisla-
(Cardiff, 1933), 156-157. t ivo. Ver Papers r elating to the Preservation of H istorie
148. Donnan, op. cit., I, 237 . Sites and Ancient Monuments and Buildings in the West
149. Stewart-Browne, op. cit., 52- 53 . Indian Colonies, CD. 6428 (His Majesty's Stationery Office,
150 . Donnan, op . cit., II, 610- 611. 1912)' 13.
151. Ibid., II, 609. 18. H!oward, op. cit ., I, 67, 71.
152. H. Scrivenor, A Comprehensive History ot the Iron Trade 19. Ibi d., I, 177.
(Londres, 1841), 344-346, 347-355. As percentagens foram 20. C. De Thierry, "Distinguished West Indian in England"
calculadas com base nos quadros aí apresentados. United Empire (12 de outubro de 1912) , 831. '
21. Anônimo, F ortunes made in Business (Londres, 1884) , II,
CAPíTULO 4 117-119, 122-124, 130, 134; Bourne, op. cit. , II, 303.
22. Correspondence between John Gladstone, M. P., e James
1. Adam Smith, op. cit., 158. Cropper, on the present state ot Slavery in the United Sta-
2. R. Cumberland, The West Indian: A Comedy (Londres, tes ot America, and on the I mportatíon ot Sugar trom
edição de 1775) , Ato I , Quadro III. Uma rápida notícia the British Settzements in India (Liverpool, 1824).
da peça é dada em SY'Pher, op. cit., 239. 23 . H. ot C. Sess Pap., 1837-38, Vol. 48. A soma exata foi
3. Stock, op. cit ., V. 259. William Beckford, em 8 de feve- .E85,606.0.2 (85.606 libras e 2 pence), pp. 23, 58, 120-121.
reiro de 1747. 24. Harlow, Christopher Codrington, 210, 242.
4 . F. W. Pitman, "The West Indian Absentee Planter as 25. A. Warner, Sir Thomas Warner, Pioneer of the West Indies
a British Colonial Type" (Proceedings ot the Pacific Coast (Londres, 1933) , 119-123, 126, 132.
Branch o f the American Historical Association, 1927), 113. 26 . Edwards, op. cit., I, Introdução, p . ix.
5. Whitworth, Works of Davenant, II, 7. 27. Macinnes, op . cit., 308-310.
6. Cumberland, op. cit., Ato I, Quadro V. Citado também em 28. C. Wright e C. E. Fayle, A History ot Lloyd's trom the
Pitman, The West Indian Absentee Planter ... , 124 . Founding of L loyd's Coffee House to the Present Day (Lon-
7. Pitman, The West Indian Absentee Planter ... , 125. dres, 1928), . 286 .
8. Merivale, op. cit., 82-83. 29. Eyre-Todd, op. cit., III, 151-152.

254 255
30. L. J. Ragatz, The Fall o-t the Planter Class in the British 58. H. ot C. Sess. Pap., 1837-38, Vol. 48. A soma paga foi
Caribbean, 1763-1833 (Nova Iorque, 1928), 51. .e 12,281.5. 10 (12. 281 libras, 5 xelins e 10 pence), páginas
31. Parl. Hist., XXXIV, 1102. Duque de Claren0e, em 5 de ju- 24, 53.
lho de 1799. 59. C. O. 137/100 . Balcarres a Portland, em 16 de setembro
32. Ragatz, Fall of the Planter Class . .. , 50. de 1798.
33. Botsford, op. cit., 48; A. Ponsonby, English Diaries (Lon- 60 . Anônimo, A Report of the Proceedings ot the Committee of
dres, 1923), 284. Sugar Refineries tor the purpose oj ettecting a reduction
34. Macinnes, op. cit., 236. in the high prices ot sugar, by lowering the bounty ot re-
35. Bready, op. cit., 157. jined sugar exported, and correcting the evils ot the West
36. G. w. Dasent, Annals ot an Eventful Lif e (Londres, 1870), India monopoly (Londres, 1792) , 34.
I, 9- 10. 61. Anônimo, A Merchant to his Friend on the Continent:
37. Syphen, op. cit., 255. Letters concerning the Slave Trade (Liverpool, s. d . ) . A
38. L. B. Namier, The Structure ot Politics at the Accesion ot Lorde HGtwkesbury, "como patrono do comércio desse pais
George III (Londres, 1929), I, 210. em geral, e um partidário desse tráfico (de escravos) , o
39. L. M. Penson, The Colonial Agents ot the British West motivo dessas cartas".
lndies (Londres, 1924), 185-187. 62. Documentos de Liverpool, Add. MSS. 38223, fls . 170, 175.
40. A. S. Turberville, English Men and Manners in the Eigh- Em 8 e 12 de setembro de 1788.
teenth Century (Oxford, 1926), 134. 63. Ibid., Add. MSS. 38231, fi. 59. Thomas Naylor, Prefeito, a
41. Lecky, op. cit., I, 251, citando Bolingbroke. Hawkesbury, em 10 de julho de 1796; fi. 60, Atas do Conse-
42. CUmberland, op. cit., Ato I, Quadro V. Também citado em lho Comum, em 6 de julho de 1796; fi. 64, Hawkesbury a
Pitman The West Indian Absentee Planter .. . , 124. Naylor, em 16 de julho de 1796.
43. J. LatÚner, Annals ot Brístol in the Nineteenth Century 64. Bourne, op. cit., II, 135 n. Macaulay descreveu-o como
(Brístol, 1887), 137-138. "um demagogo analfabeto, barulhento, orgulhoso de sua
44. Recollections of Old Liverpool, 76-82. Significativo da nova riqueza, cujo inglês Cockney e tiradas de latim mal pro-
tendência foi o fato de que o adversário do candidato das nunciado eram alvo de zombaria dos jornais". Ibid. Para
índias Ocidentais, William Ewart Gladstone, que iria de- Horaoe Walpole, ele era "um bobo barulhento e fanfarrão".
sempenhar um papel destacado na destruição da escrava- The Letters ot Horace Walpole, V, 248. Walpole ao Conde
tura e monopólio das índias Ocidentais, foi apoia~o e~tre de Stratford, em 9 de julho de 1770. A erudição la tina de
outros por tais nomes como Brancker e Earle, cuJas hga- Beckford é ilustrada por sua famosa frase omnium meum
ções com a escravidão e o tráfico de escravos já foram mecum porto. Beaven, op. cit., II, 211. Isso só 'era de es-
assinaladas. John Bolton recebeu .e 15,391.17.11 05.391 perar do produto de uma sociedade que falava apenas em
libras 17 xelins e 11 pence) por 289 escravos na Guiana plantar e para quem Dryden nada mais era que um nome.
Ing~e~a. H. ot c. Sess. Pap., 1837-38, Vol. 48 (página 131) . Steen, op. cit., 430, 433.
Em 1798 Bolton tinha seis navios que viajavam para a 65 . Guide to the Guildhall of the City of London (Londres,
Africa e' transportaram 3. 534 escravos. Donnan, op. cit., 1927)' 58-59.
II, 642-644. 66. Beaven, op. cit. , II, 139.
45. Penson, op . cit., 176. 67 . R. Pares, War and Trade in the West Indi es, 1739-1763 (Ox-
46. Enfiield, op . cit., 92 . ford, 1936), 509 .
47. C. de Thierry, "Coloniais at Westminster", United Empire 68. E . J. Stapleton (org.), Some 0//icial Correspondence ot
(12 de janeiro de 1912), 80. George Canning (Londres, 1887), I, 134. A Liverpool, em 9
48. Beaven, op. cit ., II, 139. de janeiro de 1824. "Essa questão muito temorosa ... Exis-
49. Reid e Hicks, op. cit ., 57 . tem laços que não podem ser desatados subitamente e não
50. Fortunes made in Business, II, 127, 129-131. devem ser cortados. . . Deve-se tomar cuidado para não se
51. Hansard, Third Series, LXXVIII, 469. John Bright em 7 confundir. . . o que é moralmente verdadeiro com o que é
de março de 1845. historicamente falso ... Não podemos legislar nesta Casa co-
52. De Thierry, "Coloniais at Westminster", 80. mo se estivéssemos legislando para um novo mundo." Han-
53. Hansard Third Series, XVIII, III. Em 30 de março de 1833. sard, Third Series, IX, 275, 278, 282. Em 15 de maio de 1823.
54. H. oj C~ Sess. Pap., 1837-38, Vol. 48. A indenização paga 69 . Despatches, Correspondence and Memoranda ot Field
foi .e 4,866.19.11 (4. 866 libras, 19 xelins e 11 pence), pági- Marshal Arthur, Duke ot Wellington (Londres, 1867-1880),
na 19. V, 603. Memorando para Sir G~eorge Murray, em 16 de maio
55 . Ragatz, Fall ot the Planter Class .. . , 53. de 1829.
56. De Thierry, "Coloniais at Westminster", 80. 70. Documentos de Huskisson (Museu Britânico), Add. MSS.
57. Hansard, Third Series, X, 1238. Em 7 de março de 1832. 38475, fls. 182·- 183. A Joseph Sandars, em 2.2 de janeiro

256 257
de 1824. Ver também Ibid., fi. 81: "Não me parece sem 10. Documentos de Liverpool, Add. MSS. 38227, fls. 43, 50, 140,
importâ ncia que o Presidente da Junta de Comé~cio e ~em· 141. Em 7 e 14 de setembro e 15 e 17 de novembro de 1791.
bro por Liverpool deva sair. ~ssim que puder. Hus~nsson 11. Namier, "Antony B a con .. .", 25-27, 32, 39, 41, 43; Ashton,
a Canning sobre a sua cond1çao de membro da Soc1edade op. cit., 52, 136, 241-242; J. H. Clapham, An Economic
Antiescravista, 2 de novembro de 1823. H istory of Modern Britain, The Early Railway Age, 1820-
71. Ibid., Add. MSS. 38752, fl. 26. Huskisson a H?rt<?n, em -1850 (Cambridge, 1930), 187-188.
7 de novembro de 1827. Sobre a carta de renune1a de 12. Beaven, op. cit., II, 131.
Canning da Diretoria da Instituição Africana, ver Ibid., 13. Ash ton, op. cit ., 157.
Add. MSS. 38745, fls. 69-70. Em 26 de outubro de 1823. 14. F. Martin, T he History ot L loyd's and ot Marine I nsurance
72. Ibi d., Add. MSS. 38572, fls. 2.6-27. in Great Britain (Londres, 1876), 62.
73. W. Smart, Economic Annals ot the Nineteenth Century 15 . Wright e Fayle, op. cit., 19, 91, 151, 212, 218-219, 243, 293,
(Londres, 1910-1917), II, 545 . 327. Outros nomes proeminentes ligados à Lloyd's eram
74 . The Right in the West India Merchants to a Double Mo- Baring e os abolicionistas Richard Thornton e Zachary
nopoly ot the Sugar-Market ot Great Britain, and the Ex- Macaulay. Ibi d., 1'96-197.
pedience ot all Monopolies examined (Londres, s. d.), 59-60. 16. H. ot C. Sess . Pap., 1837-8, Vol. 48. A cifra exata foi
75. Stock, op. cit., V, 261. Em 8 de fevereiro de 1747. .E 15,095.4. 4 (15. 095 libras, 4 xelins e 4 pence), pp. 12, 165,
76. Cundall, The Governors ot Jamaica in the Seventeenth 169.
Century, 100. 17. Clapham, op. cit., 286 .
77. Parl. Hist., XIII, 641. Em 13 de fevereiro de 1744. 18. Wright 'e Faye, op. cit., 240-241.
78. I bid., 652, 655. Em 20 c!Je fevereiro de 1744. 19 . Callender, op. cit., 78-79 .
79 . Pares, op. cit., 508-509. 20. Dodd, op. cit., 37, 91, 125, 204-208, 219. Ver também C. R .
80. Penson, op. cit., 228. Fay, Imperial Economy and its place in the tormation ot
Economic Doctrine (Oxford, 134) , 32 .
CAPíTULO 5 21. Documentos de Huskisson, Add. MSS. 38745, fls. 182-183 .
Huskisson a Sandars, em 22 de janeiro de 1824, concor-
1. tlfughes, op. cit., 56-57, 217 . dando com sua retirada. Ver também J. Francis, A H is-
2. Ibid., 91-97, 101; Grindon, op. cit., ~2, 54, 79-82.' 185-189; tory ot the English R ailway; its Social Relations and Re-
Botsford, op. cit., 122; Bourne, op. ctt., II, 78-79, Donnan, velations, 182D-1845 (Londres, 1851), I, 93.
op. cit., II, 493, 656. t 22. Ver H ansard. VI, 919, onde Gascoyne se opôs à proibição
3. Hughes, op. cit., 170-174. Em 1799, Leyland tinha qu a ro do tráfico britânico de escravos para as novas colônias con-
navios no tráfico de escravos, que transportaram 1. 641 quistadas durante as Guerras Na poleônicas como uma vio-
escr a vos. Donnan, op. cit., II, 646-649. lação da fé. Em 25 de abril de 1806. Sobre Gladstone,
4. Hughes, op. cit., 74-79, 84-85, 107-108, 111, 133, 138-141, 162, ver Francis, op. cit. , I, 123; F. S. Williams, Our I ron Roads:
165-166, 196-198, 220-221. Sobre os Earle, ver Botsford, op. their history, construction, and social influences (Londres,
cit., 123: Bourne, op. cit., II. 64. Em 1799, os Earle ti- 1852), 323-324, 337. Quanto a Moss, v~er Francis, op. cit.,
nham três n avios no tráfico de escravos, que transporta- I, 123; Hughes, op. cit. , 197-198.
ram 969 escravos; Ingra m, em 1798, três navios, com 1.005 23 . V. Sommerfield, English Railways, their beginnings, deve-
escravos; Bold, em 1799, dois navios, com 539 escravos. lopment and personalities (Londres, 1937), 34-38; Latimer,
Donnan op. cit., II, 642-649. Annals ot Brístol in the Nineteenth Century, 111, 189-190.
5. Latimer' Annals ot Brístol in the Eighteenth Century, 297- Três dos diretores 'estavam ligados às índias Ocidentais e
-298, 392, 468, 507; Annals ot .Brístol in the Nineteenth Cen- subscreveram 51.800 libras de um total de 217 .500.
tury, 113, 494; Bourne, op. ctt., II, 18. 24. Lord, op. cit., 166.
6
.
1
~2~i9~4~r.c :íi. 13fis~~~2~{ t~;6~~;~z~~gra~;;~, <~~~~ft~: 25. Scrivenor, op. cit., 86-87. Em 1740 : 17.350 t onela das em
89 fornos; em 1788: 68.300 t on eladas em 85 fornos.
194 22,1 506 · Bourne op. cit., II, 134-135; Botsford, op. c1.t., 26 . Wheeler, op. cit., 148, 170. Importações: de 1.985.868 para
120-121: outro nomé proeminente de banqueiro de ~ondres 6. 700.000 libras; exportações: de 23 . 253 para 355. 060 libras.
ligado ao tráfico de escr a vos era Baring. Gary, op. ett., 506. 27. W. T. Jackman, The Development ot Transportation in Mo-
7. Eyre-Todd, op. cit., III, 151, .218-220, 245, 3~2; J. Bucha- dern England (Cambridge, 1916), II, 514 n. De 19. 837 para
nau, Banking in Glasgow durmg the older ttme (Glasgow, 27.246.
1862), 5-6, 17, 23-26, 30-34. 28. Butterworth, op . cit., 57; Wheeler, op . cit., 171. De 20.000
8. J. Lord, Capital anà Steam-Power, 1750-1850 (Londres, para 80.000.
1923), 113 . 29. Lord, op. cit., 143.
9. Ibtà, 192. 30. Mantoux, op. cit., 102-103.

258. 2.59~
31. Adam Smith, op. cit., 549, 555, 558-559, 567, 573, 576, 579, 28. Parl. Hist., XVII; 482-485. Em 29 de abril de 1772. A ques-
581, 595, 625-626. tão é exposta em C. Wilson, Anglo-Dutch Commerce and
32 . lbid.1 577. Finance in the Eighteenth Century (Cambridge, 1941), 182-
-183.
CAPíTULO 6 29. Pares, op. cit. 1 220.
1. Johnson, op. cit. 1 I, 118-119. As proporções foram compu- 30 . Calendar ot State Papers, Colonial Series, V, 167. Gover-
tadas do quadro de exportações apres-entado. . , . nador Willoughby, em 4 de novembro de 1663.
2. Pitman, Development ot the Briti sh West Indzes1 Prefac1o, 31. Pitman, Development ot the British West Indies1 70-71;
p . VII . Stock, op. cit., IV, 97.
3. Calendar ot State Papers, Colonial Series1 V, 382. Gover- 32. Bennett, op. cit., 22-25.
nador Willoughby, em 12 de maio de 1666; Ibid., V, 414 . 33. Postlethwayt, Great Britain's Commercial Interests . .. 1 I,
John Reid ao Secretário Arlington, em 1666(?). 494; Postlethwayt, Universal Dictionary ... 1 1, 869; An
4 . Postlethwayt, Universal Dictionary . .. 1 II, 767. Account ot the late application. . . jrom the Sugar Refine-
5. Callender, op. cit. 1 96, citando American Husbandry 0775). ries1 4; Stock, op. cit. 1 IV, 101.
6. lbid., 96. 34. Pares, op. cit., 180.
7. Cambridge History ot the British Empire1 I, 572. 35. J. Almon, Anecdotes of the Life of the Right Honourable
8. Andrews The Colonial Period .. . , I, 72. William Pitt1 Earl ot Chatham, and ot the principal events
9. Cambridge History ot the British Empire, I, 564 . ot his time (Londves, 1797), III, 222, 225. As citações são
10 . Andrews, The Colonial Period . .. , I , 497-499. tiradas de um panfleto contemporâneo, Letter trom a Gen~
11. Calendar ot State Paper.s, Colonial Series, I , 429-430. Em tleman in Guadeloupe to his Friend in London (1760), o
26 de setembro de 1655. O governador Winthrop opôs-se à qual é transcrito em Almon.
emigração como "desagradável" a Deus. R. C. Winthrop, 36 . Whitworth, State ot the Trade ot Great Britain .. . , Parte
Life and Letters o f John Winthrop (Boston, 1864-1867), II, II, 85-86. As cifras referentes ao Canadá e à Flórida são
248. as seguintes:
12. Whitworth, Works of Devenant, II, 9, 21, 22.
13. H. A. Innis, The Cod Fisheries , the History ot an lnterna- Importações Britânicas Exportações Britânicas
tional Economy (New Haven, 1940), 78.
14. Stock, op. cit. , V, 259. William Beckford, em 8 de fev-e- Canadá 448. 563 libras 2. 383. 679 libras
reiro de 1747. Flórida 79. 993 libras 375. 068 libras
15. Callender, op. cit., 78.
· 16. p. w. Bidwell e J. I. Falconer, History of Agriculture in Quanto à Granada e Domínica, ver Capítulo 3, nota 16,
the Northern United States, 1620-1820 (Nova Iorque, 1941), supra.
43.
17. Harlow, A History of Barbados . .. , 272. 37. Pares, op. cit., 219.
18. lbid., 268. 38 . Almon, op. cit., III, 225.
19. Andrews, The Colonial Period . . . , IV, 347. 39. Pares, op . cit., 224.
20. Harlow, A History ot Barbados . .. , 387. 40. Stock, op . cit., V, 461. Em 7 de março de 1750.
21. Calendar ot State Papers1 Colonial Series, VII, 4. John 41. Whitson, op . cit. , 73 .
Style ao Secretário Morrice, em 14 de janeiro de 1669. 42. Stock, op. cit., V, 537 n.
22. Ibid., X, 297. "Narrative and Disposition of Capt. Breedon 43.
concerning N'ew England", 17 de outubro de 1678. Anônimo, The lmportance ot the Sugar Colonies to Great
Britain Stated (Londres, 1731), 7.
23. Stock, op. cit., II. 269. Em 27 dP. ianeiro de 1698. . 44. Stock, op. cit., IV, 136. Thomas Winnington, em 23 de fe-
24. A. M. Whitson, "The Outlook of t~e Continenta~, Ame~1?an vereiro de 1731.
Colonies on the British West Indws, 1760-1775 , Pohtzcal 45. lbid., v, 462 .
Science Quarterly (março de 1930), 61-63. 46.
. 25. Innis, op. cit. , 134-135 . Postlethwayt, Universal Dictionary .. . , I, 871-872, II, 769;
26. Calendar ot State Papers, Colonial Series, V, 167. Renatus Postlethwayt, Great Britain's Commercial Interest . .. 1 I,
482, 485, 489-490, 493.
Enys ao Secretário Bennett, 1e m. 1: de_ novembro de 1663: 47. Almon, op. cit., III, 16. Carta Circular aos Governadores
"Os inimigos inveterados da coloma sao os Dons de ~ar­ da América do No r te, em 23 de agosto de 1760 .
bados .. . ; usam os meios mais extremos para desmoralizar 48. Stock, OJJ . cit., V, 478. Em 16 de abril de 1751.
o país." 49. Anônimo, A Letter to a Noble Peer, relattng to the Bill in
27. Ibtd., IX, 431. Governador Lynch ao GoV1ernador Stapleton .tavour of the Sugar-Planters (Londres, 1733), 18.
das ilhas de Sotavento, em 16 de maio de 1683. 50. Whitson, op. cit. 1 76.
260 261
matura em Filosofia pela Universidade de Oxford, c. 1935),
51. A. M. Schlesinger, The Colonial Merchants and the Ame- 96. o Dr. Vincent Harlow, que supervisionou a tese, bon-
rican Revolution, 1763-1776 (Nova Iorque, 1918), 42-43. dosamente permitiu-me que a lesse.
52. Some Considerations Humbly otter'd ... , II. 82. lnnis, op. cit ., 221, 251.
53. A Letter to a Noble Peer .. . , 20. 83 . T. Pitkin, A Statistical View of the Commerce ot the United
54. Whitson, op. cit., 70. . States (Hartford, 1817), 167.
55. stock, op. cit., v, 477. Em 16 de abnl de 1751. 84. Report ot the Cornmíttee ot Privy Council, 1788, Parte V,
56 . Ibid., IV, 161 n., 162 n., 163 n. Questão 1. Depoimento dos Srs. Fuller, Longer e Chrishol-
57. Ibid., V, 453. Em 19 de abril de 1751. . . me, da Jamaica.
58. Donnan, op. cit. III, 203-205. Em 24 de Janeiro. de 1~64. 85. Pitman, The settlement ... ot British West Plantations ... ,
59. w. s. McClellan, Smuggling in the American Colantes at 276.
the Outbreak ot the Revolution (Nova Iorque, 1912), 37 · 86. Report ot the Committee of Privy Council, 1788. Ver nota
60. Wood, op. cit., 136-141. 84 supra.
61. Stock op. cit., IV, 143. Em 23 de fevereiro de 1731. 87. Pitman, The Settlement ... ot British West Plantations ... ,
62. Ibid.,' IV, 125. Em 28 de janeiro de 1731. 280.
63. Ibid. , IV, 185. Em 21 de fevereiro de 1732. 88. Parl. Hist., XXIX, 260. Wllberforce, em 18 de abril de 1791.
64. Ibid., IV, 139. Em 23 de fev>ereiro de 1.731. . 89 . Klingberg, op. cit., 13-14, 103; H. Brougham, An Inquiry
65. E. Donnan, "Eighteenth Century Engllsh M~rchants! Mi- into the Colonial Policy ot the European Powers (Edim-
cajah Perry", Journal ot Economic and Busmess Htstory burgo, 1803), I, 522.
(novembro de 1931), 96. Perry a Cadwallader Colden de
90. Documentos de Chathan (Arquivo Público, Londres) , G. D.
Nova Iorque. 8/349. As Ilhas das índias Ocidentais, Documentos relati-
66. Pitman Development of the British West Indies, 272.
c. w. ' Taussig, Rum, Romance and Rebellion (Nova Ior- vos à J amaica (1783-1804) e a São Domingos (1788-1800).
67. Extratos de "Considerações sobre o Estado de São Domin-
que, 1928), 39. . gos", por Hilliard d'Auberteuil, 303 .
68 . stock, op. cit., V, 471 . Em 16 de abnl de 1751.
69. Callender, op. cit., 133. 91. Report ot the Committee of Privy Council, 1788. Parte V.
70. Innis, op. cit., 212. Ver nota 84 supra.
71. Arthur Young, Annals o! Agriculture (Londr~s), IX, 1~88, 92. Brougham, op. cit., I, 539-540.
95-96; X, 1788, 335-362. O ensaio to~o, sob:e W~s~ Ind1an 93. Nos Documentos de Chatham, G. D. 8/102, há esta carta
Agriculture" ("Agricultura das tnd1as Oc1denta1s ) , d-eve curiosa de Pitt, datada de 25 de novembro de 1783, prova-
ser lido. velmente ao presidente da Companhia das índias Orien-
72. Whitson, op. cit., 77-78 . tais: "Ocorreu-me ser do interesse da Companhia mostrar
73. Macinnes, op. cit. , 295 . que os portadores de letras estão dispostos a conceder-lhe
74. Edwards, op. cit., II, 515. todo o tempo conveniente antes de exigirem o pagamento.
75. Whitson, op. cit., 86. Tenho em geral entendido que estão inclinados a fazer isso;
76. Ragatz, Fall ot the Planter Class ... , 174. . . mas pesaria muito se se pudesse obter uma declaraÇS.o pú-
77. G . Chalmers Opinions on Interesting Sub1ects ot Publtc blica deles, em conjunto, nesse sentido. Para esSie fim se-
Law and commercial Policy; arising trom Independence ria conveniente convocar uma reunião pública deles; em-
(Londres, 1784) , 60. bora tal medida não deva indubitavelmente ser proposta
78. Ragatz, Fall o! the Planter Class . .. ~ 176. . . . . sem uma certeza de êxito, não pude deixar de sugerir isso
79. c. p . Nettels, The Roots ot Amencan Cwtltzatwn (Nova a sua consideração. Devo, porém, pedir-lhe o favor de não
Iorque, 1939), 655. mencionar a idéia como tendo partido de mim, e de per-
80. As petições das várias ilhas para que os portos fossem aber- doar a liberdade que tomo em importuná-lo."
tos eram tão numerosas, que Lorde Hav:kesbury esta:va 94. R. Coupland, Wilbertorce (Oxford, 1923), 93.
"apreensivo de que todo porto em nossas 1lhas das íD;dms 95 . Açúcar: Vários manuscritos (de posse do autor). Adamson
Ocidentais V·enha a solicitar para se tornar J?Orto .llvr,;, a Ferguson, em 2.5 de março de 1787.
dada a impressão das grandes vantagens a se tlrar d1sso . 96. East India Sugar, Papers respecttng the Culture and Ma-
Documentos de Liverpool, Add. MSS, 38228, fl. 324 . Fe- , nutacture o! Sugar in B ritish I ndia (Londres, 1822), Apên-
vereiro de 1793. A 20 de fevereiro de 1784, o governa~or dice I, p. 3.
Orde escrevera de Domínica: "O povo aguarda com ansie- 97. Clarkson, Essay on the I mpolicy . .. , 34.
dade incomum a chegada de uma lei de porto livre". B. T. 98. Pitkin, op cit., 30, 200-201. Pitkin dá as cifras referentes a
6/103 (Arquivo Público, Londres) . 1784-1790 em libras, as referentes a 1792-1801 em dólares.
81. w . H. Elkins, Bri tish Policy in its Relation to the Commer- As proporções dadas no texto baseiam-se nos quadros apre-
ce and Navigation of the U. S .A., 1794-1807 (Tese de for-
263
262

- - --- - - - - - --
Sl. Clapham, op. cit., 152, 154; A. P . Usher, A H'lstory of Me-
sentados por Pitkin. Pareceu-me um meio mais satisfatório chanical Inventions (Nova Iorque, 1929), 332.
de mostrar o aumento do comércio do que tentar a conver- 32. Clapham, op. cit., 189.
são de libras ·e m dólares. 33. Scrivenor, op. cit., 421. As cifras são como se segue: 1815
99. Merivale, op . cit., 230. bl w·zr - exportações, 79 . 596 toneladas; para as índias OCidentais
100. Anônimo, The Speeches of ~he Right I;Ionoura e t tam Britânicas. 7. 381; para os Estados Unidos, 21. 501; 1833
Huskisson with a Biographtcal Memonal (Londres, 1831), - exportações, 179.312 tonela das; para as índias OCiden-
II, 392. Em 21 de m a rço de 1825. tais Britânicas, 5.400; para os Estados Unidos, 62.253.
34. Mantoux, op. cit., 276.
CAPíTULO 7 35. Clapham, op. cit., 144, 196; Buck, op. cit., 163.
36. Engels, op. cit., 9. De 75. 000 para 490.000 artigos.
1. Parl. Hist., XXIII, 1026-1027. Em 17 de junho de 1783. 37 . Cla pham, op. cit., 243, 478.
2. Mantoux, op. cit., 340. 38 . James, op. cit., 286; Mantoux, op. cit., 106 n.; Clapham,
3. Clapham, op. cit., cap. V . op. cit., 249. A exportação de algodão, em 1830, foi de
4. Lord, op. cit., 176. 31.810.474 libras . Buck, op . cit., 166.
5. Clapham, op. cit., 156. 39. Mantoux, op. cit., 369; Engels, op. cit., 9.
6. Mantoux, op. cit., 257. 40. Me ri vale, op. cit., 120.
7. Clapham, op. cit., 184-185, 196. 41. Cambridge History of the British Empire, II, 231.
8. Lord, op. cit., 174. d (L d 42. Merival'e , op. cit., 121.
9. A. Redford, The Economic History of Englan on res, 43. Redford, op. cit., 45.
1931)' 22 44. L. H. J enks, The Migration of British Capital to 1875 (Lon-
10. Mantoux, op. cit., 258. . . f A dres, 1927), 64.
11. N. S. Buck, The Development o(fN theHOrgantz1a9t2t5o)n 1066 n- 45. Hansard, New Series, XV, 385. Lorde Redesdale, em 19 de
glo-American Trade, 1800-1850 ew aven, , · abril de 1825 .
12. Ibid., 164. 46. Jenks, op. cit., 67.
13 . Wheeler, op. cit ., 175. 47. Customs 8 (Arquivo Público, Londres), Vols. 14 e 35. As
14. Butterworth, op. cit., 112. cifras são: 1821- 6.422.304libras; 1832- 7 .017.048 libras.
15. Buck, op. cit., 169 . , 48. Jenks, op. cit., 75-76.
16. Mantoux, op. cit., 368. A frase e de Arthur Young. 49. The Cambridge History of British Foreign Policy (Caro-
17. Ibid., 367-368. 63 888 bridge, 1923), II, 74. Canning a Granville, em 17 de dezem-
18 . Jackman, op. cit., II, 514 n. De 27.426 para 1 . . bro de 1824.
19. Butterworth, op. cit., 37. 50. Custons 8, Vols. 14 e 35. Em 1831 - 2.114.329 libras; em
20. Mantoux, op. cit., 258. . h' z 1832 - 9. 452. 822 libras.
21 c. H. Timperley, Annals of Manchester; _BwgraP_ tca, 51. Ibid. Em 1821 - 3.239.894 libras; em 1832 - 9.452.822
· Ecclesiastical and Commercial, from the earltest penod to libras.
the close of the year 1839 (Manchester, 1839), 89. 52. Jenks, op. cit., 47.
22 . Buck, op. cit., 36 n. ) . Cl _ 53. Customs 8, Vols. 14 e 35. Em 1821 - 43.113.855 libras ; em
23. scrivenor, op. cit., 87 (68.300 toneladas, em 1788 , a 1832 - 65. 025. 278 libras.
pham, op. cit., 149 (650.000-700.000 toneladas, em 1~30). 54. Ibid. Em 1821 - 19.082.693 libras; em 1832 - 29.908.964.
24. Scrivenor, op. cit., 87 (85 fornos, 'em 1788); op. ett., 149 55. Ibid. Em 1821 - 3.649.746 libras; em 1832 - 6.377.507
(250-300 fornos, em 1830) . libras.
25. Scrivenor, op. cit., 123- 124, 293-294. 56. Ibid. Para as índias Ocidentais Britânicas: 1821 -
26. Clapham, op. cit., 240. . 4.704.610 libras; 1832- 3.813.821 libras. Para a Jamaica:
27 cambridge History of the British Empire, _II, 223. O e~~a10, 1821 - 3.214.643 libras; 1832 - 2.022.435 libras .
· "The Industrial Revolution and the Colom.e~, 1_783;-1822 ~ de 57. W. L . Burn, Emancipation and Apprenticeship in the Brt-
J. H. Clapham, deve ser lido _como aux1llo. ~nd1spensa yel tish West Indies (Londres, 1937), 52.
para a compreensão da destruiçao do monopollo das índ1as 58. Hansard, Third Series, LXXVII, 1062 . Milner Gibson, em 24
Ocidentais. C d't" f the de fevereiro de 1845.
28 Clapham, op. cit., 431; F,. Engels, The on. t _ton o 59. Merivale, op. cit., 203.
· working Class in England w 1844 (Londres, ed1çao de 1936), 60. Burn, op. cit., 73 . Burn nega que eram um inferno .
13. o número de minas aumentou de 40 para 76. 61. W. L. Mathieson, British Slavery and its Abolition, J82!J·
29. scrivenor, op. cit., 297. -1838 (Londres, 1926), 222.
30 . Redford, op. cit., 41-42 .
205
264
62. A. Prentice, History oj the Anti-Corn Law League (Londres, 25. The Speeches oj ... Huskisson .. . , II, 198. Em 22 de maio
1853), I, 5. ( d de 1823.
63. E. Halévy, A History oj English People, 1830-1841 Lon res, 26. Ibid ., III, 146. Em 15 de maio de 1827.
1927), 42-43, 47, 56-58. 27. Hansard, Third Series, LVII, 920. Villiers, em 5 de abril
64. F. M. Eden, Eight Letters on the Peacei <?-nd on the de 1841.
Commerce and Manujactures oj Great Bntam (Londres, 28. Ibid., 162-163. Labouchere, em 12 de março de 1841.
1802), 129. . . . 29. Ibid., Third Series, LXXVII, 1056. Milner Gibson em 24
65. Cambridge History oj the Bntzsh Emptre, II, 239. de fevereiro de 1845. '
30. Ibid., Third Series, LVII, 920. Villiers, em 5 de abril de 1841.
CAPíTULO 8 31. Ibid., Third Series, LXXVII, 1078. Em 24 de fevereiro de
1845.
1. Merivale, op . cit., 238-239. 32. P. Guedalla, Gladstone and Palmerston (Londres, 1928), 30.
33. Hansard, Third Series, CXI, 592. Em 31 de maio de 1850.
2. Ibid., 93. 1 02 u 34. Ibid., Third Series, XCVI, 123. Em 4 de fevereiro de 1848.
3. Documentos de Liverpool, Add. MSS. 38295,. f . 1 . m
correspond1ente anônimo a Lorde Bexley, em JUlho de 1823. 35. Ibid., Third Series, CXXIV, 1036. Em 3 de março de 1853.
4. c. o. 137/166. Hibbert a Horton, em 2 de abril de 1827. 36. Pitman, The Settlement ... oj British West I ndia Planta-
5. Hansard, New Series, XIV, 1164. Lorde Dudley e Ward, em tions . .. , 282-283.
7 de março de 1826. 37. Penson, op. cit., 208.
6. Ibid., Third Series, III, 354. Sr. Robinson, em 11 de março 38. T .. ~letcher, Let~ers in Vindication ot the Rights oj the
de 1831 . Bntzsh West Indza Colonies (Liverpool, 1822), 27; Anônimo,
7. Bready, op. cit., 308. Memorandum on the Relative Importance ot the West and
8. A expressão é do Dr. Bowring. A data não consegui des- East I ndies to Great Britain (Londres, 1823), 30; c. o.
cobrir. 137/140. Relatório de uma Comissão da Insigne Assembléia
9. Prentice, op. cit., I, 75. Legislativa, designada para investigar a respeito de várias
10. The Right in the West India Merchants .. . , 17, 18-19, 26- questões relativas ao estado do comércio e agricultura da
-27, 50-51, 53, 74-75. . - . ilha; os efeitos prováveis nisso da abertura do comércio
11. Hansard, N ew Series, VIII, 339. Petlçao dos negoCI~ntes ~e com as índias Orientais; e a operação do máximo atual na
navios, etc., interessados no comércio com as índ1as Ocl- exportação de açúcar, Jamaica, 1813.
dentais, em 3 de março de 1823. . 39 . C. O. 137/140. Relatório de uma Comissão da Insigne As-
12. Report o! a Committee oj the Liverpool East Indta Trade sembléia Legislativa ... , Jamaica, 1813.
(Liverpool, 1822), 21-22. . 40. K. Bell e W. P. Morrell, Select Documents on British Colo-
13. z. Macaulay, East and West India Sugar; or a Reju~atzon oj nial Policy, 1830-1860 (Oxford, 1928), 414. Russell a Light
the Claims oj the West India Colonists to a Protectmg Duty em 15 de fevereiro de 1840. '
on East India Sugar (Londres, 1823), 37. 41. Merivale, op. cit., 84.
~;gc~e~na~f:~9?~n:~~l 2~~f'kgfc%rff;;e~o;st~~ ~~~~ ~~~~~
14 42. Hansard, Third Series, III, 537. Sr. Fitzgerald, 18 de mar-
" ço de 1831; Ibid ., Third Series, XVIII, 111. Henry Goul-
Sugar Trade (Londres, 1823), 12, Sr. Tucker. burn, em 30 de maio de 1833.
15. Ibid., 40-41. 43. Ibid., New Series, IV, 947. Marryat, em 28 de fevereiro de
16. cambridge Modern History (Cambridge, 1934), X, 771-7!2. 1821 .
17 . H ansard, Third Series, I, 424-425, 429. Em 16 de ma10 de 44. Ibid., Third Series, C, 356. Bentinck, em 10 de julho de 1848.
1s2o. A r · 45. Ibid., Third Series, LXXV, 213. Stewart, em 3 de junho de
18. Ibid., XXII, 111, 118. Em 23 d.e março de 1~12. lSOnJa 1844; Ibid., Third Series, XCIX, 1094. Miles, em 23 de junho
referente a Pitt está em Cambndge Modern Hzstory, X, 771. doe 1848 .
19. w. Naish, Reasons jor using East India Sugar (Londres, 46. Ibid., Third Series, LVI, 616. Visconde Sandon, em 12 de
1828), 12. d fevereiro de 1841.
20. Hansard, Third Series, LXXV, 438. Sr. Villiers, em 10 e 47. Ibid., Third Series, XCIX, 1098. Miles, em 23 de junho de
junho de 1844. 1848; Ibid., 1466. Nugent, em 30 de junho de 1848. Eles
21. Ibid., 444. argumentaram que quando os africanos, no fim de seu con-
22. Merivale, op. cit., 225. trato, retornassem à pátria, introduziriam a civilização na
23. Ibid., 205. . th · Africa, Ibid., Third Series, LXXXVIII, 91. Hogg, em 27
24 . J. B. Seely, A Few Hints to the West Indtan~ on etr de julho de 1846. Sobre o pedido de sentenciados, ver Ibid.,
Present Claims to Executive Favour and Protectton at the Third Series, LXXV, 1214. Sr. James, em 21 de junho de
Expense oj the India Interests (Londres, 1823), 89. 1844.

266 267
48. Ibid., Third Series, LXXVII, 1269. Em 26 de fevereiro de 76. Hansard, IX, 90-91 Hibbert
1845. 77. Parl,Hist.,XXIX, iJ 47 Em' 2erg 12 ~e março de 1807.
49. Ibid ., Third Series, CXI, 581. Em 31 de m aio de 1850. 78. Ragatz, The Fall ot the. Planter ~l~~~ll de 2g92.
50. Ibid., Third Series, LXXV, 198. Em 3 de junho de 1844. 79. Ver Documentos de Chatham a · · ., ·.
51. Ibid., Third, Series, CXV, 1440. Em 10 de abril de 1851. 7 de dezembro de 1787 . "Q~an't D. 8!102. P~tt a Eden, em
52. lbid., 1443. mais ansioso e impaciente fico P~ maiS refllt~ ~obre. isso,
53. The Political Writings ot Richard Cobden (Londres, 1878), solvido o mais rapidamente possíve~~. q~~tto negocio seJa re-
12, 14. siderar a suspensão temporâri · I r~cusou-se a con-
54. Ibid., 257. Cobden estav a preparado para deixar os Estados sobre "o principio de humanid:d do cjomércw e a transigir
Unidos apoderar-se de Cuba. Hansard, Third Series, repousa" . The Journal and Corre e e ustiça, no qual o todo
janeiro de 1788. Pitt pe~sa~a30 · Pltt a Eden, em 7 de
CXXXII, 429-430. Em 4 de abril de 1854. Auckland (Londres 1g61 ) I !Pon~ence ot William, Lord
55. Hansard, Third Series, CVI, 942, 951-952, 958. Em 26 de
junho de 1849; Ibid., Third Series, C, 825. Em 25 de julho nova constituição da Fran a que um bom resultado da
de 1848. sibilidade de estabel-ecer al~o ~~b88) seria que "nossa pos-
56. Ibid., Third Series, C, 831, 834, 849 . Em 25 de julho de 1848. melhorasse. The Manuscripts ot }e o trâfico de escravos"
57. Ibid., New Series, XXII, 855. Em 23 de fevereiro de 1830. served at Dropmore (Comissão . B. Fortescue Esq. pre-
58. Ibid., Third Series, XI, 834. Em 23 de março de 1832. Londres, 1892-1927) I 353 Pitt de Ma~uscritos Históricos,
59. Ibid., Third Series, XCIX, 875. Em 19 de junho de 1848. to de 1788. , , . a Grenvllle, em 29 de agos-
60. W. P. Morrell, Bri t ish Colonial Policy in the Age ot Peel 80. Ragatz, The Fall of Planter Class 213 214
and Russell (Oxford, 1930), 286. 81. Documentos de Liverpool Add M · ·' - ·
61. BeU e MorreU, op. cit., Introdução, pp. xiii xxiv. Provavelmente escrito em 1789. SS. 38409, Fls. 151, 155.
62. Merivale, op. cit., 78 . 82. Ibid., fls. 147-148. ·
63 . Hansard, XXXIV, 1192. Barham, em 19 de junho de 1816. 83. lbid., Add. MSS. 38349 fl 393 E ·
64. Ad1'esses and Memorials to His Majesty trom the House oj pois de 1791. ' · · sento provavelmente de-
Assembly at Jamaica, voted in the years 1821 to 1826, in- 84 · Correspondence, Despatches and 0 th
clusive, and which have presented to His Majesty by the Castlereagh (Londres 1848- 1853 ) x/r Pap~rs ot Viscount
I sland Agent (Londres, 1828), 22. tlereagh, em 2 de outubro de 18 !'5 • 41. LIVerpool a Cas·-
65 . Hansard, Third Series, XCIX, 872. Seymer, em 19 de junho tos de Liverpool, Add. MSS 38578. Ver tam?ém Documen-
de 1848. tler·e agh, em 20 de novemb~·o d • fl. 28. Liverpool a Cas-
66. Ibid., Third Series, XCVI, 75. Robinson, em 3 de fevereiro de de escravos das lndias Ocidental~ 1818. Vin5lo de um dono
1848. 85. Ver Documentos de Liverpool Ad~ expressao é engraçada.
67 . Ibid., Third Series, LXIII, 1218-1219. Em 3 de junho de Lord Dorset, embaixador britâni . MSS. ~8224, fl. 118.
1842. Lorde H:awkesbury, a 7 de maio dco em Pans, escre~eu. a
68. Ibid., Third Series, LXXV, 462. Em 10 de junho de 1844. agradâveis ao humanitarismo brii·l~89, ~ue as referenCias
69. Ibid., Third Series, LXXVIII, 164. Em 28 de junho de 1846. querer lisonjear-nos e manter-nos tmco .. '!pareciam apenas
70. E. L. Woodward, The Age at Retorm, 1815-1870 (Oxford, mor". Sir James Harris da Hol ranqm os e dle bom hu-
1938), 351. MorreU, up. cit., 519, fala disso como "a jamosa cípios de humanidade provavel~~~~· es_9reveu que os prin-
indiscrição" de Disraeli, embora não esteja .:!laro exatamen .. impressão aos negociantes holan e nao causaria_m ~uit!1
te como isso era indiscreto. A expressão "damnosa heredi- obter a aquiescência deles The Jeses e. que sena difícil
tas" é d'e Taylor, do Ministério das Colônias. Bell e MorreU, tescue . .. , III, 442-443 Hárri anus~npts ot J. B. For-
op. cit., Introdução, p. XXVI. ro de 1788. . s a Grenville, em 4 de janei-
71. J. Morley, The Li/e o! William Ewart Gladstone (Londres, 86. Gaston-Martin, La Doct1'ine Colon · z d
1912), I, 268. (Cahiers de la Révolution Franç ~a e e la Fran~e en 1789
72. P en son, op. cft., 209. 25, 39. a ise, n• 3, Bordeus, 1935),
73 . Documentos de Chatham, G. D. 8/352. "West India Plan- 87 · J. Ramsay, An Inquiry into the Ett t .
ters and Merchants, Resolutions", 19 de maio de 1791. the African Slave Trade (Londres ~~8~)o12~uttmg a Stop to
74. Calendar ot State Papers, Colonial Series, XIII, 719 . Peti- 88 . Documentos de Chatham G D ' ' ·
ção dos Negociantes da Jamaica, 11 de outubro de 1692. Ocidentais, Documentos r~lativos ·à 8~349 · . Ilhas ~as índias
75. A. M. Arnould, De la Balance du Commerc.e et des Rela- gos . O oferecimento foi feito 0 • amaiCa e Sao Domin-
tions Commerciales Extérieures de la France, dans Toutes Assembléia da Ilha, a 29 de ~utu~e Caduscy, Presidente da
0
les Parties du Globe, particulierement à la fin du Regne que a necessidade justificava um a{ de 1791. Ele declarou
de Louis XIV , et au Moment de la Révolution (Paris, 1791), traição, por motivos óbvios 0 ° que norm~lmente seria
"oficial", e solicitava a Pitt em oferecimento nao podia ser
I, 263, 326-328.
nome da politica como tam-
268
269
bém da humanidade a aceitar "a 'e xpressão da vontade ge- 111. Customs 5 (Arquivo Público, Londres), Vols. 6 e 22. As de
ral". o oferecimento não era uma coisa inesperada na Ingla- Cingapura aumentaram de 5.000 para 33.000 cwt· as das
terra. A 13 cite maio de 1791, o embaixador britânico em Paris Filipinas, de 8.800 para 32.500; as de Java de 950 pa;a 21.700.
informou que os colonizadores franceses estavam falando em 112. J: de La Pezuela, Dicionário Geográfico, Estatístico, Histó-
lançar-se nos braços da Inglaterra". F. O. 27/36 (Arquivo nco de la Isla de Cuba (Madri, 1862), I, 59; Anuario Azuca-
Público, Londres). Gower a Grenville. rero de Cuba (Havana, 1940), 59. De 14.000 para 620 . 000
89. F. o. 2,7/40. De CUrt a Hawkesbury, em 18 de dezembro toneladas.
de 1792. De CUrt solicitou para ser considerado em todos ?S 113. Customs 5, Vols. 6, 20 e 21. Do Brasil, 50.800 e 362.000 cwt;
aspectos cidadão inglês e mais tarde formalmente pedm de Cuba, 35.500 e 210.800 cwt.
proteção "no nome da humanidade e da lealdade inglesa". 114. Pitman, The Settlement ... of British West India Planta-
Documentos de Liverpool, Add. MSS. 38228, fl. 197. Em 3 tions . .. , 262 .
de janeiro de 1793 . 115. Pezuela, op. cit., I, 59. A plantação Alava, outro "mons-
90. Parl . Hist., XXXII, 752. Dundas, em 18 de fevereiro de 1796.
J. w. Fortescue, A History of the British Army (Londres, tro", compreendia 4.933 acres, empregava 600 escravos e
91. produzia 3. 570 toneladas de açúcar. Ibid.
1899-1930), IV, Parte I, 325. 116. Hansard, Third Series, LXX, 212. Cobden, em 22 de junho
92. lbid., 565. de 1843.
93 . Wilberforce, Life ot Wilberforce, I, 341.
Ibid., li, 147, 286; A. M. Wilberforce, The Private Papers 117. Ibid., Third Series, LVII, 610. Ellenborough, em 26 de mar-
94. ço de 1841. .......
ot William Wilbertorce (Londres, 1897), 31. Pitt a Wilber-
force, em 31 de maio de 1802. 118. Ibid ., Third Series, II, 790. Poulett Thomson, em 21 de fe-
95. Klingberg, op. cit., 116, citando Lecky . vereiro de 1831.
Wilberforce, Lite ot Wilbertorce, li, 225. Stephen a Wllber- 119 . Statements, Calculations and Explanations submitted to the
96.
force, em julho de 1797. Boa_r~ of T'rade relative to the Commercial, Financial and
Documentos de LiV'erpool, Add. MSS. 38227, fl. 5. Em 7 de Pol~tzcal State ot the British West India Colonies, since the
97. 19th ot May, 1830. (H. ot C. Sess, Pap., Accounts and Pa-
agosto de 1791. Um anônimo da Jamaica escrevendo a um
tal Sr. Brickwood. pers, 1830-1831, IX, n ° 120), 58. As importações por parte
98. Documentos de Chatham, G. D. 8 / 334. Documentos div~r­ de Hamburg<? e~evaram -se de 68. 798 para 75. 441 caixas; por
sos relativos à França, 1784-1795. James Chalmers a Pltt, parte da Pruss1a, de 207.801 para 415 .134. As importações
em 24 de dezembro de 1792. russas de açúcar cubano elevaram-se de 616 .542 para 935.395
99. Eden, op . cit., 18. pudes (16 quilos, aproximadamente), de açúcar brasileiro
100. Ragatz The Fall of the Planter Class .. . , 308. de 331.584 para 415.287 pudes.
101. H. ot C. Sess. Pap. Report on the Commercial State .ot the 120. Hansard, Third Series, XVII, 1209, 1211-1212. Em 14 de maio
West India Colonies, 1807, H-6; Hansard, IX, 98. H1bbert, de 1833.
em 12 de março de 1807. 121. Burn, op. cit., 367 n.
Hansard, VIII, 238-239. Em 30 de dezembro de 1806. 122. C. O. 295/93, s. d. A petição do Conselho foi anexada ao
102.
103. Ibid., 985. Hibbert, em 23 cite fev~r~iro de. 1807. A nec~s­ despacho do governador Grant de 29 de agosto de 1832.
sidade maior de escravos nas colomas ma1s novas expllca
essa migração peculiar das velhas para as novas colônias CAPíTULO 9
entre 1807 e 1833 sob o disfarce de "domésticos" a serviço
de seu amo . Ver Eric Williams, "The Intercolonial ~lave 1. tHl. Richard, Memoris, ot Joseph Sturge (Londres, 1864), 84.
Trade after its Abolition in 1807", Journal of Negro Htstory Cropper a Sturge, em 14 de outubro de 1825.
(abril de 1942). 2. Documentos de Auckland (Museu Britânico), Add. MSS .
104. H ansard II 652. Em 13 de junho de 1804 . Lorde Sheffield 34427, fls . 401-402 (v) . Wilberforce a Eden em janeiro d o
replicou 'qu~ isso seria abuso de confiança. Ibid., 235. Em 1788. ,
16 de maio de 1806. 3. Coupland, Wilbertorce, 422.
105. Ibid. , VIII, 658-659. Em 5 de f.evereiro de 1807. 4. Bready, op. cit., 302, 341.
106. Ibid., IX, 101. Em 12 de março de 1807. 5. Prentice, op. cit., I, 3-4.
107. Merivale, op. cit., 303, 313-317. 6. T . P. Martin, "Some International Aspects of tho AnL1-
108. Ragatz, Statistics .. . , 20 (Quadro XVII). -Sla.very M.ovement, 1818-1823", Journal ot Economic anel
109. Ibid., 20 (Quadros XVII, XIX e XX)_. Antígua, 162.573 e Buszness Hzstory (novembro de 1928), 146.
115.932 cwt. (quintais ingleses); Mauncia, 155.247 e 524.017 7. Hansard, Third Series, XVI, 290, em 6 de março do 183:l.
cwt. t 8. Wadsworth e Mann, op. cit., 288, 289.
110. Ibid., 20 (Quadros XIX e XXI) . De 4.000 para 110.000 cw . O. Murch, op. cit., 76.

270 271
10. Informe sobre os Discursos no Grande Banquete do Teatro, 40. J. E. Richtie, The Life and T i mes oj Viscount Palmersloll
em Manchester, para comemorar a eleição do Sr . Mark (Londres, 1866-1867) , II, 743-744.
Philips e do ilustríssimo Sr. P. c . Thomsom (Biblioteca John 41. Hansard, Thi rd Series, LXXVII, 1128 . Em 24 de fevereiro
Rylands) , 2, 8. de 1845 .
11. Hansard, Third Series XXXIII, 472. Em 29 de abril de 1836. 42. Ibi d ., Third Series, XV!X, 751-752. Em 16 de j unho de 1848.
12 . Ibid ., Thtrd Series, XLVIII, 1029 . Em 28 de junho de 1839. 43. Mackenzie-Grieve, op. cit., 283 .
13. Ibi d ., Third. Series, C, 54. Milner Gibson, em 3 de julho 44. Ha:nsard, VI, 918 . Em 25 de abril de 1806 .
de 1848. 45. Ibz.d. , VII, 612 . Lorde Howick, em 10 de junho de 1806.
14. Ibid ., 'Third Series, LXXVII, 1053. Gibson, em 24 de feve- 46. Ibzd., VIII, 948. Lorde Howick, em 23 de fevereiro de 1807 .
reiro de 1845. 47. Jackman, op. cit., II, 515 n.
15. Ibid. , Third Series, LVI, 605. Hawes, 1em 12 de fevereiro de 48. Hansard, VIII, 961-962. Em 23 de feV'eiro de 1807
1841. 49. Buck, op . cit. , 31-32. ·
16. Ibid., Third Series, LXXVII, 1053. Gibson, em 24 de feve- 50 . Hansard, New Series, XXIII, 180. Em 11 de março de 1830 .
reiro de 1845; Ibid., Third Series, C, 54 . Gibson, em 3 de 51. The Speeches of. . . Huskisson . .. , I, 115 E:rn fevereiro de
julho de 1848. 1826. .
17. Ibid. , Third Series, LXXVII, 1144 . Em 24 de f·evereiro de 52. H~ nsard! Thi rd Series. XIX, 793 . Em 17 de julho de 1833.
1845; Ibid ., Third Series, XCIX, 1428 . Em 30 de j unho de 53. Ib~d, Thz~d Series, XVIII, 909-910. Em 17 de junho de 1833.
1848 . 54. Ibzd., Thzrd Series, XVI, 285. Em 6 de março de 1833.
18. Ibi d. , Third Series, c, 324. Bentinck, em 10 de julho de 55. Ibid ., Thir d Series, XVIII, 910. Em 17 de julho de 1833 .
1848, citando Bright. Bentinck acentuou a proteção anterior 56 . Eyre-Todd, op. cit. , III, 256, 263-264.
contra os tecidos indianos . 57. Donnan, op. cit., II, 537 n . , 564, n. - 565 n.
19 .Ibid , Thi rd Seri es, LXXVIII, 930 . Em 14 de março de 1485. 58. Hansard, Third Seri es, XVI, 291. Em 6 de março de 1833.
20. Ibid ., Third Series, LXXVI, 37. Em 27 de junho de 1844. Em 1846, outro Oswald foi mais adiante: "Quando usáva-
21. Ibid. , Third Series, XCIX, 1420. Em 30 de junho de 1848 . mos algodão produzido por escravos, quando bebíamos café
22. Ibi d ., 747 . Em 16 de junho de 1848. produzido por escravos e fumávamos tabaco produzido por
23. Documentos de Auckland, Add. MSS. 34427, fls. 401-402 escravos, 'era-lhe humanamente impossível conceber com
(v) . Wilberforce a Eden, janeiro de 1788 . base e~?- que princípio eles não podiam também usar açúcar
24. J. A. Langford, A Century of Birmingham Lije: or a Chro- produz1do por escravos. Deviam procurar a melhoria dessQ
ma ~ noutro setor que não a Alfândega." Hansard, Third
nicle oj Local Events CBirmingham, 1870), I, 434.
25. Asthon, op. cit., 2:?.3. Serzes, LXXVIII, 122. Em 28 de julho de 1846 . Seria inte-
26. Langford, op. cit ., I, 436, 440. ressante saber se este era um membro da mesma família.
59. Ragatz, Statistics .. . , 9 (Quadro IV) .
27 . Ibid., I, 437. 60. Report oj the Proceedings of the Committee oj Sugar Refi-
28 . Dent, op. cit., 427. ners, 3, 8, 15.
29 . Ibid. 61. Ibid., 18 n .
30. N. B. Lewis, The Abolitionist Movement in Shejjield, 1823- 62. Documentos de Liverpool, Add. MSS. 38227, fl. 217 . Presi-
-1833 (Manchester, 1934), 4- 5. dente da comissão a Hawkesbury, em 23 de janeiro de 1792·
31 . Eng. MS. , 743 (Biblioteca John Rylands). Sociedade Au- fls . 219-222. Presidente da comissão a Pitt, em 12 de j a~
xiliar para a ajuda dos Escravos Negros, fl. 12 . Em 9 de neiro de 1792 .
janeiro de 1827; fl. 15. Em 10 de julho de 1827. O apelo 63. As exportações de algodão indiano foram de 7 milhões de
a seus concidadãos está num pequeno cartão, sem data, libras em 1816, 31 milhões em 1817, 67 milhões em 1818 mas
na mesma biblioteca, na caixa V. somente 4 milhões em 1822 . As ·exportações dos Estados
32 . Lewis, op. cit., 6. Unidos foram de 50 milhões em 1816, 59 milhões em 1822·
33 . Hansard, Third Series, XIX, 1270 . Em julho de 1833 . do Brasil, 20 milhões em 1816 e 24 milhões em 1822. Customs
34 . Ibid ., Thir d Series, XVI, 288. Em 6 de março de 1833; Ibid., 5, Vols . 5, 6, 7, 11. Mas o algodão indiano era "o pior do
Third Series, XVIII, 911. Em 17 de junho de 1833 . merca do inglês, devido ao cultivo e embalagem negligen-
35. Ibi d. , Third Series, LXXV, 446-447. Em 10 de junho de 1844. tes" . E . Baines, History of the Cotton Manutacture in
36 . Ibid ., Third Series, LXIII, 1174. Em 3 de junho de 1842 . Great Britain (Londres, 1835), 308 . John Bright posterlor-
37. Ibid ., 1173 . men~e costumava c.ontar a história de uma reunião para
38 . Ibid., Third Series, LXX, 210. Em 22 de junho de 1843. oraçao em Lancash1re, na qual se fazia a seguinte prece:
39. J. Bright e J . T. Rogers (orgs .), Speeches on Questi ons "ó Deu~ , rogamos a Ti que nos envies algodão; mas, ó
oj Public Policy by Richard Cobden, M. P . (Londres, 1878) , Deus, nao Shoorat." A referência diz respeito ao algodão
91-92 . de Surate (índia) e provavelmente tem relação com a Quer-

272 273
ra Civil Americana . G. M. Trevelyan, The Life ot John 3. Despatches ... o! Wellington, I, 329. Canning a Wellington,
Bright (Boston, 1913), 318 n. em 30 de setem bro de 1822.
64. T. p. Martin, op. cit., 144. A expressão é de M. Queen. 4. Ibid ., I, 453. Wellington a Canning, em 28 de outubro de
65. Debates. . . on the East India Sugar Trade, 19. 1822.
66. Hansard, Third Series, VII, 764 . John Wood, em 28 de se- 5. Correspondence . . . of Canning, I , 62. Memorando para o
tembro de 1831. Gabinete, em 15 de novembro de 1822.
67. Ibid., Third Series, XIX, 1165-1167. William Clay, em 24 6. Hansard, Third Series, XCVI, 1096 . Hutt, em 22 de fevereiro
de julho de 1833. de 1848 .
68. Ibid., Third Series, VII, 764. Em 28 de setembro de 1831. 7. D espatches ... ot Wellington, I, 329. Canning a Wellington,
69. Ibid., Third Series, VIII, 362. Em 7 de outubro de 1831. em 30 de setembro de 1822.
70. The Speeches ot. . . Huskissom . .. , III, 454 . Em 25 de maio 8. Correspondence .. . of Canni ng, I, 62. Memorando para o
de 1829. Gabinete, em 15 de novembro de 1822 .
71. Hansard, Third Series, XVIII, 589. Em 11 de junho de 1833. 9. R. I . e S. Wilberforce, T he Correspondence of Willi am Wil -
72. Ibid., Third Series, XVII, 75. William Ewart, em 3 de abril bertorce (Londres, 1840), II, 466. Em 24 de outubro de 1822.
de 1833; Ibid., Third Series, LVIII, 101. Ewart, em 10 de 10. Despatches .. . ot Wellim gton, I, 474-475. Em 31 de outu-
maio de 1841. bro de 1822.
73. Ibid., Third Series, LVI, 608. B. Hawes, em 12 de feve- 11. Hansard, XXX, 657-658. Em 18 de abril de 1815; Ibid.,
reiro de 1841. XX~~. 174 .. Em 5 de maio de 1815. Sobre os Baring e a
74. Ibid., Third Series, LXXXVIII, 517. Em 10 de agosto de AmeriCa Latma, ver Jenks, op. cit., 48.
1846. 12. Hansard, XXXI. ,Ver páginas 557, 606, 850-851, 1064. Em
75. Ramsay, manuscrito, fl. 64. "An Address on the proposed 1.0 , 5, 16 re 30 de JUnho de 1815 .
bill for the Abolition of the Slave Trade." 13. Ib~d. , New Series, XI, 1345. Em 15 de junho de 1824.
76. Documentos de Auckland, Add. MSS. 34227, fl. 123. Wil- 14. Ibzd ., 1475-1477. Em 23 de junho de 1824.
berforce a Eden, em 23 de novembro de 1787. 15. Ib~d., New Series, XXV, 398. Em 15 de junho de 1830.
77. Parl Hist., XXIX, 270. Em 18 de abril de 1791. 16. Ib~d . , 405 . G~neral Gascoyne, em 15 de junho de 183.0;
78. Ibid., 322. I bzd. , New Serzes, XX, 495. Gascoyne, em 23 de fevereiro de
79. Hansard VIII, 948-949. Em 23 de fevereiro de 1807. 1829.
80. Atas do' Comitê para a Abdicação do Tráfico de Escravos, 17 . Correspondence . . . ot Castzereagh, X, 112. Castlereagh a Li-
1769-1819 (Museu Britânico), Add. MSS. 21255, fl. 100 (v.) verpool, em 9 de setembro de 1814.
Em 14 de abril de 1789. 18. Hansard, T hird Series, LIX, 609. Brougham, em 20 de se-
81. J. Newton, Thoughts upon the African Slave Trade (Liver- tembro de 1841.
verpool, 1788), 8. 19. Ibid., Thirâ Series, XCVI, 1101-1102. J ackson, em 20 de fe-
82. Ramsay, manuscrito, fl. 64. vereiro de 1848.
83. Hansar d, VIII, 947-948. Lorde Howick, em 23 de fievereiro 20 . I bid., Third Series, CII, 1084 . Bispo d:e Oxford, em 22 de
de 1807. . . fevereiro de 1849.
84. Report ot a Comittee ot the Liverpool East Indza Assocza- 21. Ibid., Third Series, XCVI , 1095. Citado por Hutt, em 22 de
tion .. . , 56. . fevereiro de 1848.
85. The Speeches, ot ... Huskisson .. . , III, 442. Em 12. de ma1o 22 . I bid. , Third Series, XCVIII, 1168. Palmer ston em 17 de
de 1829. maio de 1848; Ibi d., 11 98. Caldwell, em 18 de m'aio de 1848.
86. Hansard, Third Series, VII, 755. Em 28 de setembro de 1831. 23. Ibid . , Third Series, LXV, 938, 942, 945. Em 2 de agosto de
87. Ibi d., T hird Series, XVI, 881-882. Em 20 de março de 1833. 1842.
88. Ibid. , 290. Em 6 de março de 1833 . 24. Ibid ., T hir d Series, LXXI, 941. Em 18 de agosto de 1843.
89. Ibid., Third Series, XIX, 1169. Em 24 de julho de 1833 . 25. A. K. Manchester, British Preminence in Brazil Its ! Use
90. Lindsay, op. cit., III, 85-86 . and D ecline (Chapel Hill, N. c., 1933), 315. '
91. Bell e MorreU, op. cit. , Int rodução, p. xli. 26. Hansard, Third Series, LXXVII, 1066 . Ewar t, em 24 de fe-
vereiro de 1845; Ibid., LXX, 224. Em 22 de junho de 1843 .
CAPITULO 10 27. Ibid ., Third Series, XCIX, 1121. Hawes em 23 de junho de
1848. '
1. Hansard Third Series, XCIX, 1223. G. Thomson, em 26 2.8. Ib~d., Third Series, XCVI, 1100. Hutt, em 22 de fevereiro
de junh~ de 1848. Thomson era um notável orador aboli·- de 1848.
cionista. 29. I bid ., Third Series, LXXXI, 1170. Hutt, em 24 de junho
2. Ibid., Third Series, LXXV, 170 . Lorde John Russell, em 3 de de 1845.
junho de 1844 . 30. Ibid ., Third Series, XCIX, 748. Em 16 de junho de 1848.

274 275

li
31. Ibid., Third Series, CXIII, 40. Em 19 de julho de 1850. Board o! Trade . .. , p. 84. Carta de Keith Douglas, em 30 de
32. Ibid ., Third series, XCVII, 988. Urquhart, oem 24 de março outubro de 1830.
~w~. . 63. C. O. 137/186. Memorial dos representantes da Jamaica,
33. Ibid., Third Series, LXXXI, 1169-1170. Hutt, em 24 de JU- em 29 de novembro de 1832.
nho de 1845 . 64. D. TUrnbull The Jamaica Movement, for promoting the en-
34. Ibid . , Third Series, LXXV, 170. Russell, 'em 3 de junho de forcement of the Slave Trade Treaties, and the Supression
1844. of the Slave Trade (Londres, 1850), 65, 94-95, 99, 120, 201,
35. Ibid., Third Series, CVII, 1036. Gibson, em 27 de julho de 249, 267.
1849. . 65. Times, 30 de janeiro de 1857.
36. Ibid., Third Series, XCVI, 1101. Hutt, em 22 de fevereiro 66. Guedalla, op. cit., 64-66.
de 1848. .
37. Ibid., Third Series, LXXXI, 1158-1159. Em 24 de JUnho de
1845. CAPíTULO 11
38. Ibid., Third Series, XCVI, 1092, 1096. Híutt, em 22 de feve-
reiro de 1848 . 1. R. Coupland, The Empire in These Days (Londres, 1935),
39. Ibid., 1092. 264. O Professor Coupland compreende tão p ouco a 'histó-
40. Ibid., Third Series, XCVII, 986-987. Urguhart, em 24 de mar- ria do movimento abolicionista quanto seu herói. "Como
ço de 1848. a abolição é popular agora", escreveu Wilberforce em 1807.
41. Ibid., Third Series, CI, 177. Urquhart, em 16 de agosto de "Deus pode mudar o coração dos homens." Wilberforce,
1848. . Li!e of Wilberforce, UI, 295. Em 11 de fevereiro de 1807.
42. Ibid., Third Series, LXXXI, 1156, 1158 . Hutt, em 24 de JU- 2. H ansard, VIII, 679-682. Em 6 de fevereiro de 1807 .
nho de 1845. 3. K. Farrer (org.), The Correspondence of Josiah Wedgwood
43. Ibid., Third Series, XCVII, 987. Urquhart, em 24 de março (Londres, 1906), I, 215-216 . Em 17 de junho de 1793.
de 1848. 4. Ver Atas do Comitê para a Abolição do Tráfico de Escra-
44. Ibid., Third Series, LXXXI, 1165, 1170. Hutt, em 24 de vos, Add. MSS. 21254, fls. 12-12 (v) . Samuel Hoare a
junho de 1845. Clarkson, em 25 de julho de 1787: "Espero que o fervor e
45. Ibid., Third Series, CIX, 1109. Hutt, em 19 de março de animação com que tu abraçaste a causa sejam acompanha-
1850. . dos de serenidade e moderação, que só poderão assegurar
46. Ibid., Third Series, CXIII, 61. Hutt, em 19 de JUlho. de 1850. seu sucesso."
47. Ibid., Third Series, LXXXI, 1158. Hutt, em 24 de JUnho de 5. Wilberforce, Life o! Wilberjorce, IV, 240-241. Escrito em 1811.
1845. 6. Bell e Morre op. cit., 376. Memorando de Stephen, em
48. w L Mathieson Great Britain and the Slave Trade, 1839- outubro de 1831.
-Ú56 ·(Londres, 1929), 90 n. A frase é de Carlyle. . 7. C. O. 295/93. Stephen a Howick, em 25 de agosto de 1832.
49. Hansard, Third Series, LXXVI, 947, 963. Peel em 16 de JU- 8. Bell e MorreU, op. cit., 420. Minuta de Stephen, em 15 de
lho de 1844. setembro de 1841.
50 . Ibid., Third Series, LXXX, 482 . Peel, em 16 de maio.de 1845. 9. Ramsay, manuscrito, fl. 28. Em 27 de d ezembro de 1787.
51. Ibid., Third Series, LXXXII, 1058-1064. Em 24 de JUlho de 10. IG!ngberg, op . cit., 60-61. O depoimento de Ramsay peran-
1845. . d 1848 . te o Conselho Privado em 1788 bem merece ser lido.
52. Ibid. Third s eries, XCVI, 1125. Em 22 de fevereiro e 11. Sir G. Stephen, Anti-Slavery Recollections (Londres, 1854),
53. Ibi d .; Third series, LVIII, 648, 653. Em 18 de maio ~e 1841. 77; Richard, op . cit., 78. Stephen ,e Richard efetivamente
54. Ibid., Third Series, LXXXII, 550, 552. Em 15 de JUlho d€ estavam discutindo a respeito da Instituição Africana e So-
1845. ciedade Antiescravista.
55. Ibid. , Third Series, XCVIII, 994-996. Em 24 de março de 12. Stephen, op. cit., 79.
1848 . 13. Coupland, Wilbertorce, 417.
56. Ibid., Third Series, L, 383. Em 19 de agosto de ~839. . 14. Ransard, New Series, XI, 1413. Wilberforce, em 15 de junho
57. Ibid., Third Series, LVIII, 167, 169. Em 10 de maw de 1841. de 1824.
58. Ibid., Third Series, CIX, 1162. Em 19 de março de 1850. 15. Coupland, Wilberforce, 406-408, 411-417. Sobre sua oposição
59. The Manuscripts of J. B. Fortescue .. . , IX, 14-99. Edmund às associações antiescravistas femininas, ver Wilberforce
Lyon a Grenvme, em 16 de janeiro de 1807. Lif e o f Wilberforce, V, 264-265. Wilberfowe a Babington, e:n{
60. Hansard, XXVIII, 349. Lorde Holland, em 27 de junho de 31 de janeiro de 1826. Sobre suas opiniões a respeito do
1814 . Primeiro Proj·eto de Reforma, ver Wilberforce, Correspon-
61. Ibid ., XXX, 657-658. Em 18 de abril de 1815. dence of Wilberforce, II, 265. Wilberforce a seu filho Sa-
62. Statements, Calcul.a tions and Explanatwns submítted to the muel, 4 de março de 1831 .

276 277
43. Debates . . . on the East l ndia Sugar Trade, 35.
At dcomitê para a Abolição do Tráfico de Escravos, Hansard, T hird Series, XXXVIII, 1853-1854 . Em 10 de julho
16 · Ad~ Jss 21255 , fl. 50 (v). Em 12 de agosto de. 1788; Add.
MSS·. 2125B, fls. 40 (v), 96 Em 31 de jane1ro de 1792,
(V).
44.
de 1837.
45. Ibid., Third Series, LXX, 1294. Em 21 de julho de 1843.
em 29 de março de 1797. 46. Bell e MorreU, op. cit., Introdução, p. xxx.
17 Hansard IX, 143-144. Em 17 de ma~ço de 180177~99 47. Registros de Subscrição da Companhia das índias Orientais
· p l H ! t XXXIII 1119 Em 5 de JUlho de · para aumento de 800.000 libras de ações, julho de 1786;
ig: Ha;nsard~ New Serie~, XIX, 1469. Citado por Lorde Seaford, Registros dle Ações da Companhia das índias Orientais,
1783-1791, 1791-1796. Essas anotações estão conservadas no
em 23 de junho de 1828. i d 1823
20. Ibid., New Series, IX, 265-266. Em 15 de ma o ·e · Arquivo do Banco da Inglaterra, Roehampton, Londres.
2.1. Richard, op cit., 79. Henry Thornton subscreveu 500 libras e John Thornton
22 stephen op cit. 120-122. 3 . 000 libras das ações emitidas em 1786. Ao morrer, John
23 ·· · hard' 0 · cit ' 101-102. Em 28 de março de 1833 · deixou 2. 000 libras para cada um dos outros, o que relevou
24 .
~c cochin,PL'AbÕÍition de L'Esclavage (Paris, 1861), Intro- o total de ações, dessa companhia, de Henry para 3. 000
libras, de Robert para 4 . 000 libras e de Samuel para 3. 000
~~~:odgp6o~rtêvpara a Abolição ~o Tráfico de Escravos, libras.
25
· Add MSS., 21256, fl. 95. Em 15 de JUlho d.e ~795. 48. Debates on the expediency of cultivating sugar in the ter-
w Fox Address to the People ot Great Bntatn on the Pro- ritories ot the East India Company (East India House, 1793 ).
26' priety dt Abstain_ing from West India Sugar and Rum (Lon- 49. Debates . .. on the East India Sugar Trade, 5. Somente Ra-
dres, 179ll , passtm. M t A Qua gatz, The Fall ot the Planter Class . .. , 363, menciona esse
27 · ~érKPr~t~~~m:ge~r:Ji ~fa~e~;e~;;:~:~~ N .ov~~~ef943l' g:.i~~ 50.
importante fato .
Macaulay, op. cit., 29.
28. (Anônimo)' RemarlcableCExtriadcts tq.onnds OonbstehrveatCt~~:u:ption 51. Debates . .. on the East India SugaT Trade, 36. Hume.
Slave Trade with Some ons era 2 d 52 . Correspondence between. . . Gladstone. . . and Cropper . .. ,
ot west India Produce (Stockton, 1792), 9. Exemplar o 15; F . A. Conybeare, D ingle Bank, the home ot CToppers
Museu Wilberforce, Hull. (Cambridge, 1925), 7; Ragatz, The Fall ot the Planter
29. Naish, op. cit., 3. Class . .. , 364.
30 . Folha sem data, no Museu Wilberforce. t (B' 53. J. Cropper, Letters to William Wilbertorce, M . P. recom-
Anônimo, The Ladies Free Grown Cotton Movemen 1- mending the encouragement ot the cultivation ot sugar in
31. blioteca John Rylands)' sem ddata. b d 1840 No Museu our dominions in the East Indies, as the natural and cer-
32 Gurney a Scoble, em 5 de ezem r? .e . 3 d d tain means ot ettecting the total and general abolition ot
· Wilberforce Há um número de referenCla, D. B. 88 , • a o the Slave Trade (Liverpool, 1822), Introdução, p. viii.
com certa ·hesitação, já que os documentos heterogeneos 54. Correspondence between. . . Gladstone. . . and Cropper . .. ,
não estavam bem organizados. . . 16. Cropper respondeu que essa ligação cessara, ao que
"The Principies Plans and Objects of The Htberman Gladstone retrucou: "Seria então uma coincidência curiosa
Negro's Friend society, contraste~ ~ith t~ose of. th1 prf~
33
· que descobríssemos que essa cessação foi coeva com a trans-
viously existing Anti- Slavery soc1etles, bemg a c1rc~ ar, f formação dele em escritor público contra a escravidão: e
the London Anti-Slavery Society. 3 de Janeiro e 3
the forro of a letter to Thomas ,~ringl-e? Es9- · • ~eci~ ~r~B~ _ nes&e caso não é notável que ele só se tivesse persuadido
a se tornar autor depois qne a sua atividade com o algo-
blioteca JO'hn Rylandsl · 5 d osto de dão produzido por escravos cessou? Ibid., 37.
34 Hansard Third Series, XX, 315, 323, 324. Em e ag 55. Correspondence between. . . Gladstone. . . and Cropper . .. ,
· 183 3. Ibid., 446 . Em 9 de agosto de 1833. 55.
35. Ibid:, Third Series, XXXVIII, 1853. Hobhouse, em 10 de 56. J. Cropper, "Slave Labour and Free Labour". The substan-
7 ce of Mr. Cropper's address on Wed•ne.sday November 22
36. 1~~~~~ d:hi:J series, LVI, 218. O'Connell, em 2 de fevereiro (1825), at the respectable meeting at the Kíng's Head,
de 1841 · · d 1841 · Derby (Derby, 1825), 3. Biblioteca John Rylands .
37 Ibid 619 Em 12 de fevere1ro e d 57. J. Cropper, A Letter addressed to the Líverpool Socíety for
38 : Ibid:; Thi~d series, LXV, 1075. Baring, em 5 de agosto e promoting the abolition ot Slavery, on the ínjuríons ettects

39
. Ibid
}giJ.:
Third SeTies, LXX, 1294. Em 21 de julho .ded 18 4
Third SeTies LXVIII, 753. Em 10 de abnl e 1 3 ·
i4 58 .
ot high prices ot produce, a.nd b enefíclal ejjects ot low
prices, on the condition ot slaves (Llverpool, 1823), 8-9.
Ibid. , 22 .
4
~ · Eng:' MS. 741. márkson a L. Townsen?~ e~ agosto de~~~·
!2: Documentos de Clarkson (Museu Bntaruco), Add. ·
59. J. Cropper, Relief tor West Indian distress, shewing the
inejjiciency of protecting duties on East India sugar, and
41267 A, fls. 178-179.
279
278
pointing out other modes ot certain reztef (Londres, 1823), 9. Free Labour Produce (Série Antiescravista de Newcastle,
n<? 10, s.d.) . Biblioteca John Rylands.
60 . Ibid., 30. . 87. Hansard, Third Series, XIX, 1177. Em 24 de julho de 1833.
61. Conybeare op. ctt., 25, 56-57. d t' 88. Ibi d. , Thir d Ser i es, VI, 1353. Em 12 de setembro de 1831 .
62. The L iverpool Mercury an d Lancashire General A ver tSer,
89 . Ibid ., 1355. Hum e.
7 de junho de 1833. t 4. Ma
63 coupland, The British Anti-.S lavery. l!fPVer;"en , 12 , - 90 . Eng. MS 415. Buxton à Sr!J. Rawson, em 6 de outubro de 1833.
· thiesen Brit i sh Slavery and tts A bolttwn, 12.5-. 91. Hansard, Thi rd Series, XCIX, 1022. Em 22 de junho de 1848.
92. Eng. MS. 415. Buxton à Sr~ Rawson, em 6 de outubro de
64 Wilberforce, Life ot Wilbertorce, V, 180 . . 23
Hansard, New Series, IX, 467. E~ 2~ de ~a1~ed~ ~~ ·
7 8
65: 1833.
66. Ibid., New Series, VII, 698 .. SElm Me meamloent 124 . 93. Gurney a Scoble, em 5 de dezembro de 1840. Museu Wilber-
67. coupland, The British Antt- aver v ov , · force, D. B. 883.
68. Klingberg, op. cit ., 203. 94. Hansard, Thi rd Series, LXXI, 1159 . Citado por Hutt, em 24
69. Burn, op. cit., 88. de junho de 1845.
70. Ragatz, The Fall ot the PlanteBr c.zasse .. . '1543d6e. maio de 1823 95. Ibid. , Third Series, CIX, 1098. Citado por Hutt, em 19 de
71. Hansar d, New Series, IX, 349 . armg, em · março de 1850. Em 1858, Wilberforce declarou: "Não tínha-
72. Klingberg, op. ctt., 146. mos o direito de nos apresenta r ao mundo como os supres-
73. Ibid., 147-148 . "ti a indole sares do tráfico de escravos, a não ser que estivéssemos
dispostos, honesta e firmemente, a cumprir aqueles trata-
~~~b;~;~r~: ~?~~~~r~o~:~~~n;!~~J!se~;da ;~~ ~ós ... em
0
74 . dos para sua supressão que nossos aliados haviam feito
ton~ muito favoráveis". Dirigindo-se a ~ady Ollvia Sp~ro~S conosco." Ibid., T hird Series, CL, 2200. ~m 17 de junho de
em 31 de m aio de 1814. No Museu Wllberforce, D. · 1858.
(60). Ele escreveu uma carta .enérgica ao czar sobre ~ as: 96 . Ibi d . , Thi rd Series, XCIX, 849. Em 19 de junho de 1848.
sunto Wilberforce, Lif e ot Wtlberf orce, V, 136-137: W1iber Em 1850, Buxton pediu a exclusão do açúcar produzido por
force ·a Macaulay, em 20 de novemb~o de 1~2~. W1lber orce escravos, embora n ão a do algodão e fumo produzidos por
considerava a importação da produçao braslle1ra pelo f~zar, escravos, argumentando que "não via razão para que ele
de ois de sua promessa de boicot e, um "abuso de con 1ança não se opusesse a um mal a que podia opor-se eficiente-
dePque qualquer homem privado que fosse acusado ~dis~~~ m ente, porque havia outros males aos quais lhe era im-
perderia 'Para sempre a dignidade de homem de onr ~ · possiv·el opor-se". Ibid., Third Series, CXI, 533 . Em 31 de
Documentos de Liv>erpool, Add. MSS. 38578,_fls. 31-32. Wll- maio de 1850. Em 1857, ele propôs uma petição à Rainha
berforce a Liverpool em 4 de setembro de 1822. solicit ando que todos os esforços fossem usados para acabar
75 . Correspondence . .. dt Cdastletreabgh, xd·II,184l:5 ;,r!i~~~~ardAf~: com o Tráfico de Escravos. Ibid., Third Series, CXLVI,
James Stephen em 8 e se em ro e , 1857. Em 14 de julho de 1857 . Essa mudança de opinião
ca e discussõe~ coloniais que podem ocorrer no Congresso coincidiu com a mudança do ponto de vista dos capitalistas.
de Aix-la-Ch apelle". Hutt foi presidente de uma comissão em 1849 que descre-
76. Wilberforce, L i f e ot Wilbe1·force, IV, 1~3. 1814 veu os esforços para suprimir o tráfico de escravos como
77 . Hansar d, XXVIII, 279, 284 . Em 27 de Junho de . impra ticáveis e sem esperança . Outra comissão em 1853
Ibid. , 393. Em 28 de junho de 1814.
78. Wilberforce, _ da qual tanto Hutt quanto Bright foram membros, declarou
L i te of Wil ber torce, IV, 209 . Em 7 de se tem que "esses esf or ços pela ca usa da humamdade, r eallzados
79.
ininterruptamente por tantos anos, devem ser considerados
80 . rge~p~etc~;:: .. of Wellington, v, 15. Em 4 de setembro de honrosos para a nação, e os resultados proporcionavam um
forte incentivo para persistir-se até que o comércio 1n1quo
81. H18:~~ard, T hird Series, XCVI, 37 . Bentinck, em 3 de feve- estivesse inteiramente abolido" . Mathieson, Great Brttain
and the Slave Trade, 133-134.
r eiro de 1848 .
82 P anfletos na Biblioteca J ohn Rylands. . 97. Hansard, Third Series, CXXXIX, 116. Em 26 de junho de
· The L iverpool Mercury an d L ancashir e G!3_neral Adver.tts~r, 1855.
83 . 23 de julho de 1832, relat~ndo uma r eumao da Assoclaçao 98 . Ibid ., Third Series, LXXVI, 187. Em 2 de julho de 1844 .
das índias Orientais de Llve~po~l. d "Um Eleitor" a "Outro 99. Ibid., Third Series, CL, 2205. Em 17 de junho de 1858 .
84. Ibi d. , 24 de agosto de 1832. ar a e 100. lbid ., Third Series, LXXVII, 1290, 1292, 1300, 1302. Em 26
Ele}t~r". T - '11 f Conscience The T r ade in Slave de fevereiro de 1845 .
85 · ~~~cf~~o, c~::s~derO:d a~d condemned (Série AntiesJ:avista 101. Ibid., Third Series, LVIII, 193 . Em 11 de m aio de 1841.
de Newcastle, n .o 11, s. d. ) . Biblioteca J ohn Rylan . 102. Ibid ., Third Series, LXXVII, 1290 . Em 26 de fevereiro de
1845.
86. Anônimo, conscience versus Cotton; or, the Preterence ot
281
280
. XXXVTII 4-5 Em 27 de julho de 1846 · 4. C. O . 137/145. Shand a Bathurst, em 26 de novembro de
103. Ibid., ~ htrd Sertties..: Ld ClarksÓn à. Câmara dos Lordes apre- 1817.
Isso fo1 uma pe çao e 5. C. O. 137/148. Manchester a Bathurst, em 10 de julho de
sentada por Brough~m. h Sl ve Trade, 34-35. A re- 1819.
104. Mathieson, Grea~ B:ttam an~t~r~" !!:._ 4 libras por tonelada 6. c . o. 28/92. Relato de um Debate no conselho ... Sr. Ham-
ferência é a ."prem~o pâr ~~m escravo, 5 libras per capita den, p. 24.
de todo navw ~ap ura ~ivos 2 libras e 10 xelins (isto é, 2 7. C. O. 295/92. Edward Jackson ao governador Grant, em
dos escravo~ e)n reguesueles q'ue morressem depois da cap- 31 de dezembro de 1831.
libras e me1a por aq 8. C. O. 137/156. Manchester a Bathurst, em 24 de dezem-
tura. . CVI 85 Em 4 de fevereiro de 1848. bro de 1824.
105. Hansard, _Third Senes, ~31 ÍngÚs em 8 de agosto de 1839. 9. C. O. 137/163. Manchester a Bathurst, em 13 de novem-
106. Ibid., Th~1'd Seri~s, LX,CIX. 1324 'I nglis em 29 de junho de bro de 1826 .
107 . Ibid., Thtrd, Sertes, ' · ' 10. C. o. 137/154. Manchester a Bathurst, em 13 de outu-
1848. . . LXXXVIII 163 Citado por Disraeli, bro de 1823.
108. lbid., Thtrd Sertes, ' · 11. C. O. 111/55. D'Urban a Bathurst, em 14 de julho de 1826.
em 28 de julho de 1846. 12. C. O. 295/85 . Em 29 de outubro de 1830. O que se segue
109. Merivale, op ·. cit ·' ~ 03 -X30
6\rr 133 Em 4 de fevereiro de 1848. é o número de alforrias entre 1825 e 1830:
110. Hansard, Thtrd senes, ' ·
111. Morley, op. ctt., I, 78.
112. Sypher, op.kcit.,T2h17e. Negro in English Romantic Thought Ano Número de Altorrias Escravos das Escravos
113. E. B. Dy es, Alforriados Pagas Plantações Domésticos
(Washington, D. c., 1942), 79-80.
Sypher, op. ~it. , 215-216; Dykes, op. cit., 70.
114.
115. Lewis, op. ctt., 15 17 . 1825 162 98 38 124
116. Ibid., 13-14. t' , em English and other 1826 167 108 46 121
117. T . carlyle, "Th(eE Nigg~l~n';u~di~ra~ Londres, 1925) . O en- 1827 167 129 49 118
Critical Essays. very deve ser' lido. 1828 128 84 33 95
saio todo, es~nto e~ 18X49C,VI 1052 Em 22 de fevereiro de 1829 87 41 15 72
118. Hansard, Thtrd Se~tes, , · 1830 32 22 6 26
1848. tnté 29 out.)
CAPíTULO 12 13. C. O. 295/72. Woodford a Bathurst, ~em 8 de agosto de 1826.
The Black Jacobins (Londres, 1938)' 14. C. O. 295/73. Stephen a Horton, em 5 de outubro de 1826.
1. Ver C. L. R. James, São Domingos. H. Apthe- 15. C. o. 295/67. Henry Gloster, Protetor de Escravos, ao go-
para a revoluçao de esrJav_os ~~ United States (Nova Ior- vernador Woodford, em 7 de julho de 1825. Os dados de
ker, Negro Slave Rev9 s m ultado um admirável su- Fitzgerald são como se segue: Escravo J ohn Philip - "7
que, 1943), deve t_~mbexroJ~r oc~esmisfério Ocidental, encon- vergastadas naquela parte do corpo onde aplicar hostilmen-
mário, com respel ? a . 6 109 te o pé é considerado em todos os países civilizados como
t'
tra-se em Herskovlts, ~P ctt. '· ~
la. C. o. 28/95. Assemblela Legls a lV '
a. Barbados 15 de no-
,
um ato da mais vil indignidade"; Escravo Philip - "2.3 ver-
gastadas naquela parte que meu Lorde Chest erfield vigoro-
vembro 2~j9~82tlato de um Debate no Conselho, num ;;es= samente recomenda que seja a última a entrar e a primeira
a retirar-se em todas as apresentações de tributos e cuja
· ~ác~Ô de Lo~·de Bathur~t a Sir ~i-~~r~:~ e:~bé~ s~. ~.
2
menção na presença das senhoras é considerada uma gran-
bro de 1823. Sr . Hamde~, P~. Trinidad argumentou que de violação das leis da gentileza"; Escravo Simon Mind -
. 295/59, onde_ o. go~~~~a~rserra considerada uma injustiça "23 vergastadas naquela determinada parte do corpo que
essa concessao as e df d a Bathurst em 6 de agosto de raramente é culpada de algum crime, mas que paga por
pelos homen~95Jciooo O o~r Burnley uih dos principais plan- transgressões cometidas por outros membros".
1823; C. O· · : pressou · "Confesso que a I 11 , Bell e MorreU, op. cit., p. 382.
tadores de Trinidt~d, ma~~~r~-~s:xe extraÔrdinária que nem 1'1. C. O. 28/99. -Carrington, Representa.nte de Barbados, a Ba-
idéia me parece ao , thurst, em 2 de março de 1826.
~.· g~~~~~~~!l~t~ ~!s~~ Debate no Conselho ... Sr · Ham-
1 0
lU . C. O. 28/93. Wade a Bathurst, em 21 de outubro de 1824.
íL 111 . C. O. 28/92. Relato de um Debate no Conselho .. . p . 33.
den, 5.
283
282

--------- --- - - -
48. C. ~· 28/85. Cor.onel Codd ao governa dor Leith 1
abnl de 1816; Ibtd., Contra-Almirante Ha rvey a .J
20. C. O . 137/165. Mensagem à Assembléia Legislativa, em de- ker, em 30 de abril de 1816.
zembro de 1827. 49. C. O . 295/60. Um comandante de Trinidad ao
21. C. O. 137/143. Em 31 de outubro de 1815. Woodford, em 30 de agosto de 1823 gOVI'rll
22. Bell e MorreU, op. cit., 405. Protesto à Assembléia de Ja-
maica, em junho de 1838.
60. fa ?·
1
137/145. Shand a Bathurst," em 26 de n ovembro do
23. C. O. 137/183. Manchester a Goderich, em 13 de novem- 51. C. O. 111/44. D'Urban a Bathurst em 5 de mai
bro de 1832. 52· C· O· 295/89. Grant a Howick, em' 10 de deze ? do 18~4
24. Ibid. Manchiester a Goderich, em 16 de dezembro de 1832. 53. C. O. 137/83. Mulgrave a Howick em 6 d mb~o do 111.11
25. C. O. 137/186. Memorial dos delegados da Jamaica à Grã- 54. C. O. 28/111. Smith a Stanley 'em 23 Je a~osi o de 1832 .
-Bretanha, 29 de novembro de 1832. 55. C. O. 111/8. Nicholson a Castléreagh em 6 daeo . de h183d3.
26. C. O. 137/183. Manchester a Goderich, secreto e confiden- 1808. • JUn o e

g.24do. C28/85.
cial, em 16 de dezembro de 1832. 56. fs ~. 137/156. Manchester a Bathurst, em 31 de julho de
27. Hansard, XXXI, 781- 782. Marryat, em 13 de junho de 1815.
28. c. O. 137/183. Manchester a Goderich, secreto e confiden- 57· Lei~h a Bathurst, em 30 de abril de 1816
cial, em 16 de dezembro de 1832. 58, t. ., odd a Lelth, em 25 de abril de 1816 ·
29. C. O. 137/187. Z. Jones a Goderich, em 22 de fevereiro de 59. Ibtd. Leith a Bat hurst, em 30 de abril de 181S
1832. 60. C. O .. 137/143. Alexander Aikman Jr a Bàth t
30. C. O. 137/187. Goderich a Manchester, secreto, em 5 de de ma10 de 1816 . • ·• urs, em 2
?s ~. 137/142 . Manchester a Bathurst, em 4 de maio de
1
março de 1832. 61.
31. A frase é de Canning.
32. C. O. 137/154. Manchester a Bathurst, em 24 de dezembro ~2 . fbido. J:ll/ 39.
Murray a Bathurst, em 24 de agosto de 1823
de 1823. 6~. C 6 urray a Bathurst, em 27 de setembro de 1823 .
· · . 28/ 92. Ward a Bathurst em 27 de a 0 t ·
65. C. O. 137/156. Manchester a Bathurst em ~1 sdo ~elh182d3.
33. C. O. 28/111. Smith a Stanley, 13 de julho de 1833.
34. C. O. 295/92. Memorial para nós mesmos e em defesa de 1824. • e JU o e
todos os nossos co-súditos de descendência africana (anexo
ao despacho do governador Grant a Goderich, em 26 de 66. C. O. 111/44. D'Urban a Bathurst em 5 d · 18 4
67 · lbid · D'Urban a Bathurst, 5 de maio de 1:2ra~~s~e f ? ·
março de 1832).
35. Ibid., Grant a Goderich, em 26 de março de 1832. se~unda carta num dia.) · a 01 a
36. Ibid. William Clunes a Goderich, em 27 de janeiro de 1832. ~8. ~btd. D'Urban a Bathurst, em 15 de maio de 1824
37. C. O. 28/111. Smith a stanley, em 23 de maio de 1833. 9· .. O. 28/107. Lyon a Goderich, em 28 de mar ·
70. Ibtd. Lyon a Goderich, em 2 de abril de 1831 ço de 1831.
38. C. o. 28/88. Combermere a Bathurst, em 15 de janeiro de
71. C. O. 137/181. Belmore a Goderich em 6 de :an
1~V;182. Belmore a G~derich, em 2 deJ m::~od~e ~~~ · 1
2
1819.
39. C. O. 111/69. D'Urban a Murray, em 20 de abril de 1830. 72 · g· g·
Ver também C. O. 295/87. Smith a Goderich, de Trinidad, ~~: c· o· 137/18~· 0i;:~?:r:v~~~c~, ~~ 30 de abril de 1832. ·
em 13 de julho de 1831: "Os escravos têm uma facilidade 75. Bansard, Thi~d series XIII ~7 er~~· ~,r ;6 de ai btd·ll de 1833.
incontável em obter informação parcial, e geralmente de- 76. C O 137/191 F B' ' · e m a o e 1832
turpada, toda vez que um documento público que está para 23 de. maio de. 183.2 . . Zuicke ao governador Belmore, em
ser recebido tpossa de algum m odo afetar sua condição ou
situação." ~~: fbid~ · 28/ 111. Smith a Goderich, em 7 de mato de 1833 .
40. C. O. 295/92.. Grant a Goderlch, em 26 de março de 1832. 79 · Ibid. Smith a Stanley, em 23 de maio de 1833.
41. Ibid ., Gazette Extraordinary, em 25 de março de 1832 .
42. C. O. 295/93 . Extraído de um documento de Trinidad, s.d.
43. C. O. 295/92. Grant ::~. Howick, em 30 de abril de 1832. CAPITULO 13
44. C. O. 137/ 119. Coote a Castlereagh, em 27 de junho de I.
1807; C. O. 137/120. Edmund Lyon, Representante de Ja- Gaston-Martin, L'trc d.es Négriers; 1714-1774 (Pa 1·ts, 1931), 424.
maica, a Castlereagh, em 17 de julho de 1807.
45. C. O. 137/142. Manchester a Bathurst, em 26 de janeiro de
1816.
46. C. O. 137/143. Extraído de uma carta de Jamaica, 11 de
maio de 1816.
47. C. O. 299/39. John Spoon~r. de Barbados, ao governador
Woodford, em 18 de abril de 1866.
265
284
BIBLIOGRAFIA

Este livro é baseado na tese de doutorado, intitulada "The


Economic Aspect of the Abolition of the British West Indian
Slave Trade and Slavery" ("0 Aspecto Econômico da Abolição do
Tráfico de Escravos e da Escravidão nas índias Ocidentais Britâ-
nicas") , submetida à Disciplina de História Moderna, da Univer-
sidade de Oxford, em setembro de 1938. Fontes manuscritas
foram consultadas, principalmente com respeito aos anos 1783-
-1833, período abrangido pela tese.

I. FONTES PRIMARIAS (MANUSCRITAS)


A. ARQUIVO PúBLICO, LONDRES
1. Documentos do Ministério das Colônias. Não há neces-
sidade de acentuar o valor desta fonte. Embora as citações
tenham sido reduzidas ao mínimo, as selecionadas para o texto
se basearam numa investigação completa de mais de 230 volumes,
compreendendo a Jamaica, Barbados, Trinidad e Demerara
(Guiana Inglesa), e abrangendo o período 1789-1796 (os anos
Iniciais do Movimento Abolicionist a ) e 1807-1833). As indicações
do catálogo são C. O. 27 (Barbados), C. O. 111 (Demerara, isto
é, Guiana Inglesa), C. O. 295 (Trinidad), C. O. 137 (Jamaica) .
2. Documentos de Chatham, G. D./8. Estes foram esqua-
drinhados apenas no que concerne à correspondência e documen-
tos do jovem William Pitt, e n ão de seu pai. Muitas informações
11obre Chatham acham-se espalhadas na obra de Pares. Os pa-
pt'>ls consultados forneceram material muito valioso sobre as
llhns britânicas das índias Ocidentais, São Domingos e índia, e
como Pitt dominou o cenário parlamentar britânico de 1784, até
ua morte, em 1806, a coleção é de capital importância.
3. Documentos do Ministério das Relações Exteriores . Estes
furnm usados especialmente no que concerne aos anos de 1787 a
1'111:.1, com referência específica à atitude do Governo britânico
&ttu·u com a São Domingos francesa; alguns detalhes importantes
fuaum acrescentados ao texto. A indicação do catálogo é F. O. 27
rtlltlÇa) o

iJ. Registros da Alfândega. Os registros consultados foram


Hlltoms 8, exportações britânicas, referentes aos anos de 1814
111:.12; c Customs 5, importações britânicas.

28~
B. MUSEU BRITANICO E. MUSEU WILBERFORCE, HULL
1. Documentos de Liverpool . Este é o mais importante da Esta instituição contém muito pouco material. Algumas <'111
coleção de Manuscritos Adicionais utilizados para este estudo. tas aqui e ~li, c~mo .a de Gurney sobre o valor da evangeliZIWHo
Os documentos formam diversos volumes; referências específicas para a Afn~a! sao CLtadas no texto, com as indicações do ca LL~
em cada caso são encontradas nas Notas. Como proprietário n as logo que existiam no tempo de minha visita (junho de 1939). o
índias Ocidentais e Presidente da Junta de Comércio, Lorde v~lç_>r do Museu reside não em seu acervo literário, mas na ex1-
Hawkesbury, posteriormente primeiro Conde de Liverpool, ocupou blçao dos horrendos instrumentos usados no tráfico de escravos.
uma posição destacada no período do Movimento da Aboliçâo . Numa das salas há uma lista de escravos emoldurada da "Orange
Sua correspondência abrange muitas cartas e memorandos valio- F!i~l Es_tate" (cuja localização não é dada), a qual, entre as clas-
sos relativos ao tráfico de escravos, às colônias britânicas e fran- ~lfiCaçoes segundo o trabalho, idade e cor, tem uma categoria
cesas, às negociações britânicas com os colonizadores franceses mteressante em que se enquadram cinco dos escravos, com idade
rebeldles, durante a guerra com a França, e à questão do açúcar variando de 1 ano e 8 meses a 20 anos - "mestiços". Exata-
das índias Orientais. n;.e!J-te o que constituía um mestiço, numa plantação com as di-
Vlsoes ma1s conhecidas de negros, mulatos, etc., não está claro.
2. Livros de Minutas do Comitê para a Abolição do Tráfico
de Escravos - três volumes contendo material muito útil e per- F. BIBLIOTECA DA CASA DE RHODES, OXFORD
tinente.
Em poder da Casa de Rhodes h á um volume manuscrito de
3. Documentos de Auckland. São os documento3 do enviado autoria do abolicionista James Ramsay. É uma coleção inte-
britânico remetidos para persuadir os franceses em 1787 a abolir ressante de notas, memorandos e discursos úteis não somente
o tráfico de escravos; contêm cinco cartas muito valiosas de para o estudo do movimento da abolição em geral, mas também
William Wilberforce para completar a biografia do abolicionista . p~la luz que lança sobre um abolicionista muito pouco conhe-
Cido por seus raros panfletos e o depoimento que prestou perante
4. Documtentos de Huskisson. Estes documentos contêm um o Conselho em 1788.
material excelente acerca das opiniões de Huskisson sobre a
emancipação, as índias Ocidentais e os abolicionistas . G. ARQUIVO DO BANCO DA INGLATERRA, ROEHAMPTON,
LONDRES
C. BIBLIOTECA PúBLIC'A DE LIVERPOOL O Livro de Registro de Acionistas da Companhia das índias
Orientais está guardado aí. Os volumes examinados foram os
Esta biblioteca possui três manuscritos importantes utilizados diários de Subscrição da Companhia das índias Orientais para o
neste estudo. São o volume 10 dos Documentos de Holt e Gregson, aumento de 800.000 libras de ações, em julho de 1786 e Os Livros
cheio de estatísticas sobre a dependência de Liverpool para com de Registro de Acionistas da Companhia das índias Orientais, de
o tráfico de escravos e cartas de Matthew Gregson sob!le o mes- 178~-1791 e 1791-1796. Foram consultados no que concerne à 11-
mo assunto; correspondência de um traficante de escravos, Ro- gaçao entre os negociantes das índias Orientais e os abolicionistas.
bert Bostock, com seus comandantes de navios, durante os anos
de 1789 a 1792; e os Journals ot Liverpool Slave Ships, 1779-1788 li. FONTES PRIMARIAS (IMPRESSAS)
(Diários dos Navios Negreiros de Liverpool, 1779-1788).
1. A importância dos Debates Parlamentares com
Hansard .
r~speito a esse :período ~ão precisa ser acentuada, pois com exce-
D. BIBLIOTECA JOHN RYLANDS, MANCHESTER çao de um escntor britanico, W. L. Mathieson, nenhuma tenta-
tiva rea~ foi feita para utilizar uma fonte cujo valor, deve-se pen-
Nesta famosa biblioteca provinciana, numa cidade funda- sar, sena prontamente evidente. Os debates foram cuidadosa-
mental para o desenvolvimento do capitalismo britânico e sua m ente examinados, desde 1650 a 1860. Para o período mais anti-
relação com a escravidão do negro, acham-se os Manuscritos In- go, que termina aproximadamente em 1760, os discursos são bem
gleses, até agora não utilizados. A coleção contém muito material esparsos, mas, felizmente para o estudioso, foram colecionados o
sobre o açúcar da índia Oriental e o boicote da produção dos compilados de uma forma que facilita a consulta por um traba-
escravos .das índias Ocidentais; a carta de Buxton oferecendo o lhador infatigável, L. F. Stock, sob o título de Proceedings and
Cristianismo aos negros como uma compensação pela escravidão; [)e bates in the British Parliament respecting North Amertca (Atas
e uma carta interessante de T. B. Macaulay alegando premência t' Debates do Parlamento Britânico com respeito à América do
de trabalho como a razão de sua impossibilidade de contribuir para Norte), e p~bl~c~dos em cinco volumes até agora, sob os auspí-
uma antologia planejada para comemorar a Lei de Emancipação. dos da InstltUiçao Carnegie.

288 289
No que concerne aos anos de 1760 a 1860, os debates parla- Documen.t<?s Diversos recebidos nas etapas finais da publicação
mentares aparecem sob os seguintes títulos diferentes: 1760 a do Relatono.
1803, Cobbett's Parliamentary History ot England (História Par-
lamentar da Inglaterra de Cobbett) ; 1803 a 1872., Cobbett's Par- . 5. A correspondência e os memorandos de vários estadistas
liamentary Debates (Debates Parlamentares de Cobbett); 1812 a unportantes do. período já foram publicados, pelo menos em parte
1820, Hansard; 1820 a 1830, Hansard, New Series (Hansard, Nova :- os de Cannm~, 9astloereagh, Wellington e Grenville -, os do
Série) ; 1830 a 1860, Hansard, Third Series (Hronsarà, Terceira ultimo pela Com1ssao de Manuscritos Históricos sob o título de
Série). Mantive está divisão . oficial para facilitar a v.erificação The M anuscripts ot J. B. Fortescue Esq., p1·eserved at Drop-
ou consulta. Isso me pareceu mais satisfatório do que o uso da more ( Os Manuscritos de J. B. Fortescue, conservados em Drop-
única palavra Hansard para abranger séries inteiramente dife- more). Nes~a. categ~ria podlem bem ser incluídos a Correspon-
rentes, o que ocasionaria séria confusão no que concerne aos dence ot Wzllz~m Wübertorce (Correspondência de Willi am Wil-
diferentes volumes. No período mais antigo, os debates de muitos be~torce) e Pr~v0:te Papers ot William Wilberforce (Documentos
anos são incluídos num só volume; para os debates de 1845 e Pnvados de Wzllzam Wilbertorce), publicados por seus filhos.
anos subseqüentes em geral, um único ano significa geralmente
quatro volumes separados. 6. Calendm· ot State Papers, Colonial Series America and
West !ndies (R.egistro Crc;nológico de Documentos' Oficiais, Série
2. Documentos Ilustrativos do Tráfico de Escravos para a Colonzal, . Amerzca _e tndzas Ocidentais) . Dotados de um exce-
América. Este notável trabalho em quatro volumes, outra pu- lente índiCe remissivo, estes volumes abrangem vários assuntos
blicação da Instituição Carnegie, põe o estudioso da escravidão ger~lmente em_ forma .conden~a~a, relativos às :índias Ocidentais;
do negro eternamente em dívida com a falecida Prof-essora Eliza- cultivo da cana-de-açucar, trafico de escravos e relações econô-
beth Donnan e seus competentes assistentes. Para as finalidades micas ~entre as. ilhas e 9 c01:;tinente americano, enquanto contêm
deste livro, o volume mais importante foi o II, que trata do sé- ainda muitas mformaçoes uteis sobre os trabalhadores brancos
culo XVIII e das :índias Ocidentais. Mas o volume I, século XVII, nas ilhas. Os volumes consultados compreendem o período de
é também muito útil, especialmente com respeito ao período pos- 1611 a 1697.
terior a 1688, enquanto, quando necessário, os volumes rrr e IV,
que tratam das Colônias do Norte e do Oentro, das Colônias do
Sul, do continente, respectivamente, foram consultados. III. FONTES SECUNDARIAS

3. Documentos Parlamentares. Sob este título, reuni os do- A. CONTEMPORANEAS


cumentos submetidos ao Parlamento e os depoimentos obtidos
pelas Comissões Parlamentares. Não é necessária uma lista de- O material contemporâneo é volumoso. Os escritos dos prin-
talhada, em vista das referências dadas nas Notas, mas de 1784 cipais mercantilistas, Po~tlethwayt, Davenant, Gee, Si r Dalby
a 1848 há muitos relatórios úteis que não podem ser ignorados Thomas, Wood, foram cUidadosamente examinados; assim tam-
para um estudo das :índias Ocidentais. Se sua existência é pouco bém A Riqueza das Nações, a clássica obra antimercantUista. As
conhecida e suas vastas possibilidades estão ainda por ser 'ex- i;nformaçoes contemporâneas sobre os s1ervos sob contrato são
ploradas, deve-se fazer menção especial ao volume 48 dos Do- limitadas, mas o que existe é útil. A acerba gu~erra polêmica
cumentos das Sessões referentes aos anos 1837-1838, que forne- entre os que tinham negócio com as índias Ocidentais e os que
ce uma lista detalhada das exigências de indenização pelos es- ~ tinham com as índias Orientais, de grande Importância foi to-
cravos de acordo com a Lei de Emancipação de 1833. A única talmente Investigada; além do material no Museu B~·itânico
eo1eção completa dos Documentos Parlamentares existente está havia os recursos da Biblioteca do Escritório da :fndia e a séri~
no Museu Britânico. de panfletos da Biblioteca John Rylands. A famosa Iltstory ot
th:e British West Indies (História das tndias Ocidentais Brittl-
4. Report of the Committee of the Lords ot the Privy Coun- n:cas), de Bryan Edwards, merece uma observação não somen-
cil tor all Matters Relating to Trade and Foreign Plantations te por seu valor intrínseco, mas como um desses 'raros marcos
(Relatório da Comissão dos Lordes do Conselho Privado para to- culturais numa sociedade de escravos que, ao contrário da socie-
das as Questões Relativas ao Comércio e Plantações Estrangeiras), da~e de escravos da Grécia, desprezou a educação c não repro-
1788. Este é um documento indispensável para qualquer pessoa duziU nenhuma das grandes dádivas da Grécia ao mundo. Além
que procura compreender a situação das colônias açucareiras disso, numero~as histórias locais, especialmente das grandes ci-
depois da Revolução Americana. É certo que ~este relatório é que dades portuánas e centros industriais, e rela tos contemporâneos
explica a atitude de Pitt para com o tráfico de escravos. Cons- do crescimento do comércio e indústria da Grã -Bretanha foram
tando de muitas páginas, suas seções mais importantes são a examinados. Os escritos dos próprios abolicionistas foram 'sobeja-
Parte III, que trata das condições dos escravos; a Parte V, da mente usados, especialmente a famosa biografia em cinco volu-
competição francesa no mercado açucareiro; e a Parte VI, de mes, dispersiva, mas informativa, de Wilberforee, por seus filhos.

290 291
B. MODERNAS
nas indias Ocidentais, 1739-i763j, de Rlchard. Pares, embora lne-
A relação de autoridades e fontes é desnecessária em qual- vitavelmente cheio de guerra e diplomacia, não obstante contém
quer ,estudo das índias Ocidentais Britânicas que abrange os informações vitais sobre as índias Ocidentais e é de grande im-
anos de 1763 a 1833. A propósito, há uma história de que nos portância quanto à atitude dos plantadores das índias Ocidentais
círculos abolicionistas, quando havia controvérsia sobre um as-' para com as colônias açucareiras estrang>eiras. Enquanto o as-
sunto, alguém dizia: "Veja em Macaulay." "Veja em Ragatz" não pecto social e o econômico são fatores subalternos para Pares,
seria um exagero para a história das Antilhas durante o período são dominantes para W. L. Burn. A obra deste último, Eman-
1763-1833. The Fall of the Planter Class in the British Caribbean cipation and Apprenticeship in the British West Indies (Eman-
(A Queda da Classe dos Plantadores nas Antilhas Britânicas), de cipaçao e Aprendizado nas tndias Ocidentais Britânicas), é uma
Ragatz, é um amplo estudo das fontes originais. Seu Guide for análise erud1ta do sistema de aprendizado, 1833-18::l8, €mbora os
the Study of British Caribbean History, 1'763-1834 (Guia para o três primeiros capítulos do livro, que tratam da emancipação,
Estudo da História das Antilhas Britânicas, 1763-1834), Washing- sejam de menos valor, em parte porque o autor se contentou
ton, D. C., 1932., é um auxilio indispensável ao estudioso das com fontes secundárias. Entre os autores ingleses menores, W.
Antilhas, que achará nele não somente uma lista completa de L. Mathieson faz jus à rápida menção pelo m <oü os porque, em-
obras de toda espécie, mas também um sumário das idéias prin- bora, como Coupland, utilizasse apenas fontes secundárias, ao
cipais apresentadas em cada obra. A Statistics for the Study of contrário deste, utilizou-as bem, e lembrou-se de que a Ingla-
British Caribbean History, 1763-1833 (Estatística para o Estudo terra tinha um Parlamento, onde se travavam debatles. Com um
da História das Antilhas Britânicas, 1763-1833), do mesmo autor, índice remissivo melhor, suas quatro obras sobre a escravidão
oferece valiosos dados estatísticos. As Check Lists of House of seriam úteis livros de consulta . Coupland representa a concepção
Commons and House of Lords Sessional Papers, 1763-1834 (Listas sentimental da história; suas obras nos ajudam a entender o que
de Verificação dos Documentos das Sessões da Câmara dos Lor- o movimento abolicionista não era . Comparado com sua incursão
des, 1763-1834), devem ser consultadas por todos os estudiosos anterior no campo da escravidão, England and Slavery (A In-
embaraçados pelos modos aparentemente conflitantes de pesqui- glaterra e a Escravidão), Londres, 1934, Bristol, a Gatewav of
sar os documentos desse período. As três bibliografias do Pro- Empire (Bristol, Porta do Impér io ) , de C. M. Macinnes, é um
fessor Ragatz: A List of Book.s and Articles on Colonial History afastamento sadio de história emocional para história científica;
and Overses Expansion published in the United States (Lista de esta última obra se baseia em material inédito dos arqmvos de
Livros e Artigos sobre a História Colonial e a Expansão Ultrama- Bristol. O idealismo histórico americano é representado por The
rina publicados nos Estados Unidos), referentes aos anos 1900- Anti-Slavery Movement in England (O Movimento Antiescravista
-1930, 1931-1932, 1933-1935, respectivamente, cita numerosos livros na I nglaterra), de F. J. Klingberg.
e artigos que tratam da situação do servo branco sob contrato. Menção especial deve ser feita a dois estudos que apresen-
Finalmente sua bibliografia mais rece.n te: A B i bliography for the tam de maneira g•eral a relação entre o capitalismo e a escra-
Study of European History, 1815 to 1939 (Bibliografia para o Es- vidão. O primeiro é o ensaio de licenciatura de W. E. Willlams:
tudo da História da Europa, 1815 a 1939), Ann Harbor, 1942, apre- Africa and the Rise of Capitalism (A Africa e a Ascensão do Capi-
senta, nas páginas 140-158, uma lista exaustiva de obras sobre talismo) , publicado pela Divisão das Ciências Sociais da Univer-
o Reino Unido, que contém muitos títulos úteis relativos ao de- sidade de Howard, em 1938. O segundo e o mais importante é
senvolvimento da Grã-Bretanha no século XIX. de autoria de c. L. R. James, The Black Jacobins, Toussaint
Depois do Professor Ragatz, v>em ainda outro erudito ame- L'Ouverture and the San Domingo Revolution (Os Jacobinos ne-
ricano cujo trabalho sobre as Antilhas mereoe menção especial, gros, Toussaint L'Ouverture e a Revoluçã o de São D omi ngos),
mais por realmente completar no período de que trata, a pes- Londres, 1938. Nas páginas 38-41, a tese apresentada neste livro
quisa de Ragatz. The Development of the British West Indies, é exposta de maneira clara e concisa e, ao que sei, pela primeira
1700-1763 (O Desenvolvimento das !ndias Ocidentais Britânicas, vez 'em inglês.
1700-1763), de Franz Pitman, é outra obra notável baseada, como No campo da política colonial, dois livros são indispensáveis.
os trabalhos de Ragatz, em cuidadosa análise de material origi- The Colonial Peri od of American History (0 Período Colonial da
nal. o estudo do mesmo autor, The Settlement and Financing of História Americana) , de C. M. Andrews, não somente oferece
British West India Plantations Eighteenth Century (A Coloni- capítulos excelentes sobre Barbados e a Jamaica; coloca as ilhal:l
zação e o Financiamento das Plantações das !ndias Ocidentais açucareiras em sua perspectiva apropriada no quadro mercan-
Britânicas no Século XVIII), um dos inúmeros ensaios escritos tilista, enquanto sua descrição e análise das leis do comércio ex-
por estudantes de C. M. Andrews em sua homenagem, é uma terior e do sistema colonial em geral são uma introdução ~811011•
obra-prima. cial a qualquer estudioso do I mpério Britânico. De âmbito mrnloM
Dois estudos ingleses merecem ser separados das versões idea- amplo, mas igualment e apropriado, é The Old Colonial Sy.~L('TIL (()
listas e deturpadas da escravidão, comuns na Inglaterra. War Antigo Sistema Colonial), de G. L . Beer. As preleções do M111'1
and Trade in the 1\'est Indice~ 1739-1763 (Guerrq, e Cowércia vale em Oxford durante os anos 1839 e 1841 sobre Colm/INtl/un
anel Colonies (Colonização e Colônias) é erudição do o x rol'!l IICI

:.m.l
max1mo, enquando Select Documents on British Colonial Policy, Em três artigos publicados, tratei mais detalhadamente do nt
1830-1860 (Documentos Seletos sobre a Política Colonial Britdni- gumas das questões comumente abordadas: "The Golden Ago or
ca, 1830-1860), de Bell e Morrell, apresenta algumas reproduções the Slav·e System in Britain" C"A Época Aurea do Sistema lllsc!'ll
muito valiosas de documentos originais relativos a um período vista na Grã-Bretanha"), Journal ot Negro History, janc!l·o
vital. Com respeito a estudos especiais das índias Ocidentais sob de 1940; "The Intercolonial Slave Trade after its Abolition ltt
o antigo regime colonial as obras de Harlow, Williamson e Higham 1~07" ("0 Tráfico Intercolonial de Escravos depois de sua Aboli
são muito importantes, sendo que a History o! Barbados (História çao 'em 1807"), Journal of Negro History abril de 1942: "ProLct•
de Barbados), de Harlow, é a melhor das três, pois mostra a com- tion, Laisser-Faire and Sugar" ("Proteçãb Livre Empresa e AQú
preensão do fato de que os problemas barbadianos - e, conse- car"), Political Science Quarterly, março 'de 1943.
qüentemente, das índias Ocidentais Britânicas - do século XX
têm mais raízes nas modificações econômicas e sociais do sé-
culo XVII, representadas pelo açúcar e a escravidão.
As obras sobre o crescimento e desenvolvimento das diferen-
tes indústrias britânicas são indicadas nas Notas corresponden-
tes aos vespectivos capítulos. Sobre a melhor explanação do de-
senvolvimento do capitalismo na Inglaterra, apenas dois nomes
precisam ser mencionados - Mantoux e Clapham. O capítulo V
da Economic Bistory ot Modern Britain, The Early R'ailway Age
(História Econômica da Grã-Bretanha Moderna, O Início da Era
da Ferrovia), de Clapham, é a melhor análise suscinta da Revo-
luçao Industrial, enquanto seu ensaio sobre "The Industrial Re-
volution and the Colonies, 1783-1822" ("A Revolução Industrial e
as Colônias, 1783-1822"), no vol. II da Cambridge History o/ the
British Empire (História do Império Britânico de Cambridge),
mostra uma compreensão mais arguta do movimento da aboli-
ção e da destruição da escravatura nas índias Ocidentais do que
geralmente se encontra em todas as obras dos historiadores bri-
trânicos "oficiais".
No campo da literatura, Guinea's Captive Kings: British Anti-
-Slavery Literature ot the XVlllth Century (Reis Cativos da
Guiné: Literatura Antiescravista Britânica do Século XVIII), do
Professor Sypher, é um desses excelentes estudos sobre a escra-
vidão do negro que já aprendemos a associar a edições da Uni-
versity of North Carolina Press. Embora o livro seja fraco - em
alguns aspectos, imperdoavelmente fraco - pelo ângulo político,
é uma análise penetrante e ampla da literatura do pedodo e,
como tal, um auxílio útil para as Ciências Sociais. Pode ser pro-
veitosamente completado por uma publicação recente de uma
colega minh a, a Dr~ Eva Dykes, The Negro in English Romantic
Thought (O Negro no Pensamento Romântico Inglês), Associated
Publishers, Washington, D. C., 1942. A novela best-seller de Mar-
guerite Steen, The Sun is My Undoing (0 Sol é Minha Ruína),
revela uma compreen são profunda do comércio triangular 'e sua
importância para o capitalismo britânico.
As fontes usadas sobre o desenvolvimento de São Domingos e
Cuba espanhola durante o período estudado foram forçosamente
fontes secundárias. No que concerne à França, o autor mais im-
portante é Gaston-Martin. Uma Bolsa Rosenwald, no verão de •
1940, permitiu-me trabalhar nos arquivos 'e bibliotecas de Cuba .
O amplo Diccionario de Pezuela sobre a ilha oferece exce~ente
material no verbete "Azúcar", enquanto Los Ingenios de la Isla
de Cuba, por um magnata do açúcar contemporâneo, Cantero, é
uma obra lírica, profusamente ilustrada, valiosa e rara.

294
ERIC WILLIAMS, Primeiro-Ministro de Tri-
nidad Tobagó, foi durante muitos anos profes-
sor de Ciência Política e Social da Universidade
de Howard, de Washington, e serviu na comis-
são das Antilhas. Autor de inúmeras outras
obras sobre as Antilhas e História Britânica,
neste seu livro, Capitalismo e Escravidão, faz
completo levantamento sócio-econômico da
época {1783-1833) em que o capitalismo britâ-
nico se consolidou a expensas do tráfico de
escravos africanos.

I
COMPANHIA EDITORA AMERICANA

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