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A LINGUAGEM DA TELEVISAO. LEANGE SEVERO ALVES* [SSN ov0r 3743] ‘RESUMO Este trabatho pretende mostrar como se processa a aedo da linguagem na televisao, abordando alguns dos elementos determinantes dessa linguagem televisiva. Detém-se principalmente na questdo dos signos televisuais relacionando-os aos de ‘outros meios de comunicagdo, em especial o cinema, salientando 0 complexo signico formado pela imagem cinética, o som ea fala INTRODUGAO Os dados referentes & televisso no Brasil, citados por MORAN(), embora relativos ao ano de 1980, podem de monstrar a abrangéncia desse meio de comunicagio. Séo 4,5 milhoes de apa- rellos de televsdo a cores que se somam aos 12,3 aparelhos em preto e brenco, espalhados por 14,800,000 domictios, que recebem a programagio de cerca de 120 emissoras Unindo-se a esses dados, a informa «0 do. curto espago de tempo decort do desde que a televiso foi implantada no Brasil, podemos deduzir 0 alto grau de ‘influéncia que a televisto vem aleangando e, em consequéncia disso, observamos 0 grande modifi cagdo de hibitos ocorrida entre a po pulagdo. Se a televisio € boa ou mi ‘nfo vent a0 880 aqui analisar, © mais relevante & que milhdes de’ pessoas vém softendo a sua influéncia, sendo a televisio parte integrante da’ vida de todas els. E, pois, através da televisio, muito mais Jo que por outro meio qualquer. uc as pestoas to) oportunidade de lazer e se mantém snformadas sobre 0s acontecimentos de importancia m0 amundo. E esse estado de se manter ‘em contato com mundo, esta neces: sidade de saber e pasticipar de tudo 0 que acontece, € uma caracteristiea da vida moderna, onde a informagio al- canga papel de destaque. Num imbito maior, WIENER) expe a impor Lincid da informagao. salientando que “o pais que desfrutaré de maior segu- ranga serd aquele cuja situago infor. ‘macional ¢ cientifica se mostrar a altu- ra. das exigéncias que the possam ser feitas ~ 0 pais no qual houver plena consciénela de que a informagdo € ime Portante como um estagio do processo continuo pelo qual observamos o mun- do exterior e agimos de modo efetivo sobre ele”. 1, A TELEVISAO COMO PRODUTO SOCIAL Antes de se passar a analisar os ele- mentos que determinam a linguagem da televisto, & preciso discutir, ainda, alguns pontos que julgamos de maxima Importancia, porque envolvem tanto a produgdo quanto a recepgdo da mensa- ‘gem televisiva, 1.1, Controle e Ideotogia Discorrendo sobre a possibilidade de controle ideo}tpico sobre a televsto, SANTAELLA(I0), reiterando a posigao de Engensberger, afirma que a dinami cidade © trusfonmaygo constante ine: rente 4 produedo de niveis ¢ classes do pessoal envolvido na criagiio dos progra- mas © a descentralizagdo dessa criago em uma série de setores dificultam as vias de controle absolutamente rigido sobre sua produgao, visto que todo con- role, exige, para ser exercido, uma organizagio fortemente centralizada, Também a abertura € liberdade de in- terpretagio inerentes i linguagem da imagem impossibilitam um controle absoluto sobre o processo de reeepeo ¢ consumo das mensagem teleisvas Desta forma, & preciso ir além de uma leitura exclusivamente_ superficial fe conteudistica, E presto ler © modo como essa linguagem se articula e trans forma os mecanismos de opressfo © reagdo diante da realdade. Iss0 signe fica, na visio de BUGGALEY(), que © conteido dos programas de televi- S70 supe um complexo conjunto de Imensagens e € preciso examinar nf0 6 a estrutura e 0 conteddo declarado da mensagem mas os processos subjacentes experiencia de ver Se por um lado SANTAELLACO) aeredita que a televifo ndo é "um mexo instrumento déci a serigo da opressfo, simples méquina neutta acima das contradigdes sociais © manipulivel a bel-prazer aos interesses das classes dominates", Anamatia Fadul, citada por CAPARELLIC), discute se a ideo- Togia nfo esti presente na propria construgio da televsdo. Ela justiic essa posipdo dizendo que “sso signifi Constatar que o desenvolvimento tecno- fogico que. pormite'a sua descoberta se" desenvolve em pleno capitalismo Gomo resultado’ de. suas conquistas civatifices e teenoldgices. Aceitar essa hipdtese significa aceitar que ji no existe uma tecnologia neutra, por outro Jado, a televisio, por sua propria cons trugdo, nfo permitiria uma verdadeira comunicago, ji que ea se liitaria a ser Simplesmente um transmissor de mensa- gens. Ela seria a palavra sem resposte, * Protessorado Departamento de Comunicagdo, da Universidade Estadsa da Londrinae mestrands em “Comunicarlo eSemvética"na PUCISP, 377 Aves j& que ela nfo supera 2 dualidade emissor/receptor”. Deduzse da, que a televiso € feita de contradigdes,fazendo parte integran- te das tensCes e contradigoes socials ‘que atravessam as sociedades. E, embora Gla sejaresultante da_debiidade de ‘utras altemativascultuais do patlico, 8 televisio wee obrigada a encontrar Solugdes de programayfo caracterstca- mente suas, tanto em termos de tipes de programas, como também em terms de linguagem. sea tentatva de encontrar solugbes leva a televisio a descobrir a sua lingua- geme, através dela, interferir de maneira Profunda. na vida’ do telespectador, pois tanto a programaggo. quanto 4 fstrutura do. proprio meio sto. deter- rminantes da mensagem Ainda de acordo com SANTAEL- LAC), ogo testa divida de que a indistia cultural busca veicular mensa gens que estejam em conformidade com ‘os valores ideoldgicos das classes domi- nantes. © modo, entretanto, pelo qual essas mensagens se engendram na tele tisfo, era modos de receppdo latente mente antagbnicos aqueles valores, ou Sela: prontidgo para a mudanga e para 2 a¢d0, sensibiidade dinamica, neces Sidade de participagfo,rapidez na com preensdo de relagdes estuaeSes comple- xis. Grandes “masas de. populagfo habituadas a0 convivio com as mens gens televsivas, to7namese eptes @ rom Per com os caracteres de. submisso, passividade e conformismo diante da realidade”. Esta afirmago coloca-se portanto, frontalmente contre aquela em que 4 tclevisfo seria “a palava sem resposta” Aereditamos, depois do. que aqui foi exposto, que 0 comportamento do Iei- tor ndo é passive como se supunha ¢ que embora aparentemente nfo ex tao didlogo emssor/receptor, a tee. visio induz agdoe &partcipago 1,2. Pablico e Repertorio Na tentativa de encontrar sua. pro ria linguagem, a televisio pesquisa alternativas proprias, nfo importadas, O que parece mais dificil superar € a ques- tWo do piblico to diferenciado em termos de Brasil, do diferente poder aquisitivo da populagdo © dos valores. culturais to diversificados, Dependent da faixa de horitio, da localizagio da emissora ¢ das carac- leristicas do pablico, @ programagao se modifica, embora persiga sempre o es: quema da sua principal geradora. Assim, 378 mesmo com a utilizagdo de redes hé a possibilidade de uma programagio regionalizada, que pretende atender aos interesses da populagio. Mas esse inte- resse, que muda segundo a idade, 0 sexo, a faixa etéria, o nivel cultural, etc, € evidenciado através do reperto- vio de cada grupo. tepertorio é a soma de conhec rmentos de alguém, de um grupo, vincu Jada a sua capatidade de manipular cédigos. Com isso queremos dizer {que 0 repertério é um dos fatores que fazem com que 0 pablico aceite ou nso ‘uma programagéo. O publico s6 part ciparé ativamente da programagdo se entender tudo, ou pelo menos uma grande parte do que esti ali sendo apre- sentado, Endo € s6 em termos de fala. Também 0 modo de apresentago da imagem tem que satisfazer a expecta. tivadesse pablico, Como na televisto a norma geral 6 atingir 0 maior publico possivel, muitas vezes as _mensagens so empobrecidas ou reduzidas a um denominador comum. Mas esse empo- brecimento, na maior parte das vezes decorre mais da incapacidade da emisso- ra de entender a natureza do vefculo que de uma necessidade de baixar 0 padréo em virtude do repert6rio, pois ‘mesmo utilizando-se de maior redundén- cia pode-se conseguir programas de nivel cultural satisfatori. 2. A SEMIOTICA DA TELEVISAO Partindo da afirmaggo de McLU- HANG) de que “o meio é a mensa- gem", procuramos através desse traba- Iho, levautar alguns elementos que sf determinantes da mensager televsiva Em alguns aspectos, a linguagem da te- levisfo assemelha-se & do cinema, como € 0 caso do complexo signico’ que é idéntico nos dois meios de comunica- gio. Ambos lidam com a imagem cinética, 0 som (misica € ruidos am- bientais) ¢ a fala, O modo téenico de produgdo é que comesa a diversificar es 2.1, A produgdo da imagem Um dos elementos que distancia a lelevisfo do cinema e faz com que ela caminhe para a sua propria linguagem € a técnica de produgfo da imagem, A televisto € impressa_em_ imagens eletro-letronicas, enquanto que 0 ci- nema utiliza imagens 6ticas, -mon- tadas em cima do fotograma, Na tele visdo, # imagem é constitu‘da, elemento por elemento, linha por linha, pela Semina, 4\13):377-381, 1983 ago de um feixe eletrOnico mével, existente no tubo da camara, Nao sf0 transmitidos todos os elementos da ima- gem ao mesmo tempo, mas um em cada. momento, sucessivamente. Cada elemento impressiona @ retina durante um tempo muito curto, da ordem do milionésimo de segundo, A transmissfo & continua, isto é cada imagem é imediatamente seguida pelo primeiro ele- ‘mento da imagem posterior, sem inter- rupedo, O movimento explorador desse fixe eletronico, na transmissdo, 6 re- produzido exatamente pelo feixe eletro- nico no tubo da imagem do aparelho receptor. Portanto, 0 modo da imagem da televisfo nada tem em comum com 0 filme ou a fotografia exceto a disposi G40 de formas ou “gestalt” ngo-verbal ‘Segundo McLUHANG), “o contomo plistico resulta da Tux que atravessa e nfo da luz que ilumina, formando uma imagem que tem a qualidade da escul- tura e do fcone, mais do que a da pin. tua” No referente a produgao da imagem, temos ainda a salientar a reticule, Cabe, aqui a explicaggo do que seria a reticula, elemento que de certa forma aproxima a televisio do jomal ¢ a dis- tancia cada vez mais do cinema. A re- ticula ¢ um elemento intermedisrio que decomp6e a imagem de tons cont nuos em pequenos pontos, conseguin- do 0 efeito de tonalidades diferentes, Estes pequenos pontos aparecem na te- levisdo, mas como no jornal, no sto visiveis @ olho nu, produzindo simples mente a sensagdo de uma imagem “inteira”, O cinema, assim como a foto- grafla, ndo necessita desse recurso, dai, também uma das distingSes de alta ‘ou baixa definiggo de que falaremos mais adiante, PIGNATARI() salientando as pecu- liaridades da televisto, explica que “na televisdo néo se trata do efeito de lanterna magica, que € 0 do cinema uum fecho de luz vazando uma peli” cula, positivo processado de um nege- tivo, com diferentes camadas fotoqui- licas de luz e cor”, Em termos de te- levisdo, a imagem resulta de um chuvei- ro de elétrons projetados num ante- paro ou dculos do olho, que é 0 screen do cinescopio, com a imagem se for- mando ¢ desaparecendo em micro segundos, E a corluz, eletricidade colo. rida, que Pignatari identifica com um cliché eletronico. Dos trés milhoes de pontos por segundo que aparecem na televisio, 0 telespectador consegue ALVES capatar somente algumas dizias, com as quais forma a imagem, ‘A imagem da televisio 6, pois, uma trama_mosaica de pontos’ de luz sombrae, como em qualquer outro mosaico, a terceia dimensdo é estranha 4 televisfo, embora Ihe possa ser impos- ta, A ilusfo da terceira dimenséo é su. erida pelo cenério do estidio, mas a sua imagem, propriamente, € um mosai co plano, bidimensional, E é esa forma em mosaico que exige a participagdo ¢ 0 envolvimento ‘em profundidade de todo o ser, como 0 faz 0 sentido do tato, requerendo respostas critivase participantes, 2.2. A tatilidade e a participaggo “A televisio € menos um meio visual do que tétibauditivo, que envolve todos os sentidos em profunds inter relagéo”. Em virtude dessa. sua afir ago, McLUHANO) defende a post go de que a mudanga de atitude do {elespectador, a0 contato com a imagem em mostico da televisto, ocorreria igualmente, nfo importando a nature. za do acontecimento. Afirma, portan- to, que a mudanga de atitude mada tem a ver com a programagio do vei- culo, Embora este ponto de vista possa ser discutido, & inegivel que o telespec- tador & envoivido e torna-se ativamente participante pois a imagem exige que, @ cada instante “fechemos” os espagos da trama por meio de uma participagao convulsiva e sensorial que € profunda- mente cinética e tétil. Isso leva-o a de- finir a imagem de televisdo como sen- do de “baixa definigso”, para signifi car que ela oferece poucos detalhes © um baixo teor de informago, Em vir tude da alta ou baixa definigao, divide os meios de comunicagzo em meios quentes e meios frios. Os. meios quentes seriam aqueles em que haveria uma alta. definigao, no deixando muita coisa a ser preen- chida pela audigneia, A fotografia, a imprensa, 0 rédio e 0 cinema sfo consi- derados meios quentes porque prolon- Bam um nico dos nossos. sentidos, apresentando alta saturagio de dados. Enquanto isso, 0s meios frios, por for: necerem pouca informasgo, oportuni- zam uma maior participagio. Entre es tes esto 0 telefone, o desenho e a pré- pra televisto, ‘A baixa definigfo da televisio assegura um alto envolvimento da au- digncia e, por iss0, os programas mais eficazes so aqueles cujas situagdes consistem de processos que devem ser completados, E acreditase que a televi- sfo, que & considerada a mais recente extensio elétrica do nosso sistema nnervoso central, ainda no. se apreender em toda a sua profundidade embora afete a totalidade de nossas vi- «das pessoal, social e politica, a0 mudar ‘8 nossa vida sens6riale os nostos proces- sos mentais. 2.3, A instantaneidade da informagso Entre as caracter(sticas que identifi- ‘cam a televisfo como o meio de comuni- cago de maior relevancia na sociedade atual est a instantaneidade que conse- gue imprimir & informagdo, A tecnolo- sa moderna oportunizou que @ televi- sfo transmitisse (ou teipasse e retrans- mitisse) as imagens praticamente no ‘mesmo momento em que tém lugar os acontecimentos, Em relaga0 20 cinema, esta é uma vantagem inigualével, pois este precisa de determinado tempo para a revelagio, montagem e outras fases téenicas até que possa ser levado 40 pablico, © aparecimento do videotape © as redes nacionais com transmiss6es via satélites conseguem interligar todos os locais, desde 0 de onde acontece 0 fato, © de’ transmissto_e€ 0 de recepgao. Esta instantaneidade, embora oportu- nize algumas falhas técnicas, acompanha © ritmo da vida modema, simultaneiza ‘© mundo, Depots de uma fase na qual 0 rigor da produgfo técnica era requer- do, entramos novamente numa fase fem que o improviso volta a se fazer presente. O piblico exige uma maior participagdo e isso faz com que des considere algumas falhas. Nao queremos dizer com isso que se trata de uma volta a0s tempos em que a televisdo era feita amadoristicamente, 1 6poca em que as gravagdes nfo tinham condigdes de serem feitas. Hoje, 6 a pro- pria técnica que assim requer. Assim, este modelo, onde todos s4o protagon tas, deriva diretsmente da natureza do meio. 2.4, A estrutura da imagem Podesse distinguirtrés tipos de mon- tagem, na estruturagéo da imagem que sdo a montagem propriamente. di ta, a colagem e a bricolagem, PIGNATA: RIC) explica que na montagem sintitk ca ou montagem propriamente dita, @ parataxe ou a paramorfismo coordenam © proceso. A_montagem semantica ou colagem & o normal médio do uni Semina,_4\13):377-381, 1983 verso icOnico, enquanto que a bicolagem acontece quando 0 universo da conti- guidade invade 0 pélo da similaridade. Neste tipo observa-se uma tendénci a saturagdo e superago do cédigo, No cinema, a base da signagem é a rmontagem mas na televisfo € a colagem- ‘montagem, chegando até mesmo ao bri- colagem. A televisio tende, portanto, a estruturarse por coordenagfo ou paracaxe, com elementos agrupados por justaposiggo, sob 0 comando da ana logica. Todo 0 programa televisivo € -composto por blocos estanques, separados por comerciais. O salto de tum plano para outro, com o simples apertar de um botio na mesa de corte também favorece uma colagem pois go tem um compromisso estrutural, no necessita de determinada hierar. quia. Esta propria mesa de controle oferece oportunidade de compor varias imagens dentro de um mesmo quadro televisivo, A fusdo de imagens é outro elemento, com grande forga icdnica, pois cria relagGes visuais que levam até mesmo a terceiridade, Quanto mais bricola, mais simbélico. E preciso salientar que a televisio possui recursos téenicos, que favorecem © aparecimento de uma linguagem, mas que ainda esté sendo pesquisada, ‘A utilizago de computadores sofisti- ccados, que geram imagens que vao desde as vinhetas até os mais rebruscados efe tos, demonstram a potencialidade técni ‘ca que pode ser empregada para que a televisdo passe a ser ela mesma, passe a falar por sie, consequentemente afaste-se da linguagem cinematografica a que esteve to ligada até agora ‘Um exemplo bem marcante de cola- gem pode ser observado no Especial da Rede Globo, comemorativo 20 primeiro ‘ano de falecimeto de Elis Regina. No programa, superpunham-se imagens da propria Elis como que alinhavadas com a interpretago de outros artistas. Sem necessariamente obedecer qualquer ordem cronol6gica, @ colagem ia se de- senvolvendo, chegando em alguns mo- ‘mentos a0 bricolagem, tal a dimensfo iconica alcangada, nestes momentos, conforme conceitua FER- RARAG), “o fcone caracteriza a ima- fem projetando-se no futuro em nivel de primeiridade, e olhando para o pas- sado em nivel de terceiridade, através de representagio.pragmética do inter- pretante na sua trama relacional gera- dora de possveis signos novos”, 2.4, Os planos e o tempo de leitura A tela também € relevante em tor. 379