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Metodologia da Pesquisa-Ação

Prof. Ms. Ricardo Matos Santana


Dep~ Ciên~ da Saúde/UESC
MaL. 73.380841..S
l

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Thiollent, Michel.. 194 7-


Metodologia da pe qui a-ação I Michel Thiollent. - 18. ed.
- São Paulo : Cortez 201 1.

Bibliografia.
ISB 978-85-249-1716-5

1. C1ências ociais - Pe qui a 2. Metodologia 3. Pe qui a


4. Pe qui a-ação 5. Pesqui a - Metodologia l. Título.

CDD-001.42
,
lndices para catálogo sistemático:
l . Metodologia da pe quisa-ação 001.42
2. Pe 'qui a-ação : Metodologia 00 J.42

-
Michel Thiollent

Metodologia da Pesquisa-Ação

18ª edição

Prof. Ms. Rioordo Matos Santana


D pt° Ciências da SaúdeJUESC
Mat... 73.380 1-a
METODOLOGLA DA PESQ ISA-AÇ- O
Michel Tlúollent

Capa: E túdio Graal


Preparação de originais: Nair Kayo
Revisão: Maria de Lourdes de Almeida
Cornposiçâo: Linea Editora Ltda.
Coordenação editorial: Danilo A. Q. :rvlorale

Texto revL to e aumentado a panir da 141\ edjção en1 etembro/2005.

>-Jenhuma parte desta obra pode , er reproduzida ou duplicada em autorização expre a do


autor e do editor.

© by Mic hel Thiollent

Direjto para esta edição


CORTEZ EDITORA
Rua Nlo nte Alegre. 1074 - Perdize
05014-001 - São Paulo - SP
Tel.: ( 11 ) 3864-01 11 Fax: ( l J) 3864-4290
E-mail : cort ez@cortezeditora.con1.br
ww\v.cortezeditora.com.br

Impre o no Brasil - abril de 201 1


5

Prof .Ms. .Ritardo Matos Santana


De • ÇiênciaS da SaúdeJUESC
pt° Mal. 73,380841-8

Sumário

Apresentação da 18ª edição ....................... ............................. .. ........... 7

Introdução ............................................................................................ . 13

CAPÍTULO I - Estratégia de conhecimento ........................... ....... .. 19


l . Definições e objeti,. o ................................................. .. ........... . 20
2. Exigência científica ....................................................... ......... 26
3. O papel da metodologia ....................... ......................... .. .......... . 31
4. Forma de raciocínio e argumentação ..................... ..... ........... . 34
5. Hipóte e e comprO\'ação ..................... ..................... ..... ......... . . 40
6. ln1erenc1a
J" " •
e genera 1·1zaçao
- ...................................................... . 44
7. Conhecimento e ação .................. .... .................... ...................... . 47
8. O alcance da tran formaçõe .................................................. . 49
9. Função política e valore .......................................................... . 51

CAPÍTULO II - Concepção e organização da pesquisa ........ ........ . 55


l . A fase exploratória ....... ... ... ....................................................... . 56
.
2. O tema da pe quisa ......................................... ....... .. ................. . 59
3. A colocação dos problemas ............. ......................................... . 61
4. O lugar da teoria ...................... ..................... ............................ . 63
5. Hipóte e ..................................... ...................... ...................... .. . 64
6. Seminário ........................ .......................................................... .. 67
6 ~~ICHEL TH OLLENT

7. Campo de ob ervação, amo tragem e representatividade


qu al .lt a tºlva • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • . ...................... .
• •• •• • • • •
70
8. Coleta de dados ................................................. ......................... . 73
9. Aprendizagem ........................................................................... . 75
1O. Saber for1nal/saber inforrnal ............. ........................................ . 76
11. Plano de aça- 0 • ••• ••• • •••••••• • ••••••••••••••••••••• •••••••••••••••
....................... . 79
12. Dl. vulgaça-o externa • ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••
........................ . 81

CAPÍTULO III Áreas de aplicação .................................. ············· .. 83


1. Educação .................................................. ................................. . 84
2 Cornunl· caça-o
• • .... . ......... # ••••••••••••••••• ••• •• ••••••• ••••••• • ••
....................... . 87
3. Serviço Social .................................................................... ....... . 90
4. Organização e sistemas ............................................... ·········· .... · 93
5. Desenvolvimento rural e difu ão de tecnologia ...................... . 98
1 as Pol"u·
6 • Pra"t'c l eª •••••••••••••• ••• ••• • ••••• •• • ••••••• ••••••••• ••
........................ . 102
7. Conclusão .................................................................................. . 105

-0
Conclusa • • ••••••••••••••••••• •••••• •••••••••••••••••••••••••••••• • ••••••••••••
....................... . 107

Posfácio à 14ª edição ........................... .......... ...................................... . 115

BI.bl1·ogratia ••••••••••••••••••••••••••••• • •••••••••• • •••••••••••••••••••••••••• ....................... . 133


Aê.CORTEZ
~EDITORA 7

Apresentação da 18ª edição

A cada reedição de te livro, fico feliz et ao me mo tempo~ preo-


cupado: fe li z, porque, mai uma vez, i so confirma a uti lidade da pesquisa-
-ação e da di cussão de sua metodologia na formação de milhares de
e tudante de Ciências Sociais aplicada e de profi ionai em diver a
áreas de atuação; preocupado . porque o tempo está pa ando e há tanta
no\'a abordagens e nO\'a técnica de pe quisa qualitati\i'a que o li\tro -
cuja primeira edição data de 1985 - e\ridentemente não abrange e pode,
a im. parecer ultrapa sado. De fato eria bom e crever um livro intei-
ramente novo . ma o percalço da vida acadêmica nem empre deixam
ao docente universitário o tempo e a liberdade uficientes para e cre\ er 1

li,·ro introdutórios, ou didáticos pouco ' 'alorizado na corrida à publi-


cação. Para que e te prefácio não e limite a con ideraçõe de atisfação
ou de lamento darei alguma indicaçõe na perspectiva de uma po ível
atualização da pesqui a-ação, reforçando uge tõe apre entadas no
Posfácio à 14ª edição.
O método de pe qui a-ação co11si te essencialmente em elucidar
-
problemas ociais e técnicos, cientjficamente relevantes, por intermédio de
grupos em que encontram-se reunidos pe qui adore , membro da situação-
-problema e outros atores e parceiros intere sado na re olução do problemas
levantados ou, pelo menos, no avanço a ser dado para que sejam formulada
adequadas respostas ·a· educacionai , técnica e/ou política . No pr -
ce so de pe qui a-ação e tão entrelaçado objeti\.'O de ação e objetÍ\'O de
conhecimento que remetem a quadro de referência teórico , com ba e no
8 1\.11Ct-'EL THIOLl ENT

quais ão e truturados o conce itos, a linhas de interpretação e as informa-


ções colhida durante a inve tigaçâo.
De pa agem, nota- se que a pe quisa-ação pode ser concebida como
1nétodo, isto quer dizer um caminho ou um conjunto de procedimento
para interligar conhecimento e ação, ou extrair da ação novos conheci-
mentos. Do lado dos pesquisadores , trata-se de for111ular conceitos, buscar
informaçõe obre situações; do lado dos a tores, a questão re mete à
di posição a agir, a aprender, a tran formar. a melhorar etc. Além de uma
imples coleta de dado , a pe qui a-ação requer um longo trabalho de grupo
reunindo atores interessados e pesquisadore ., educadores e outro pro-
fi " Íonai ~ qualificado em diferente áreas. No título do livro, usei o termo
1netodologia dei pesqitisa-ação entendido, ~ obretudo, como di cu ão ou
reflexão obre o método, de. cre\:endo ua , caracterí ticas. a\ alia11do mérito
1

e limitações., comenta11do o · contexto de aplicação. Frequentemente exi te


alguma confusão entre a noção de 1nél<>clo e a de 111etodologia . 1 to é
reconhecido, inclusi\:e em definições de dicionários. Adotamos a seguinte
di tinção: o método é o caminho prático da investigação, por ua \ ez, a 1

11zetodologia, relacionada com episten1ologia, con i te na discussão dos


métodos.
Nas duas últimas décadas~ alguns fatos marcaram a e\'olução da
pe quisa-ação. A área mai tradicionai em que se aplica esse método
continuam a de educação. formação de adultos, sen:iço ocial exten ão
ou comunicação rural. Todavia., hou,. e diver ificação e ampliação das área :
ciência an1bientai , ciência. da . aúde (enfermagem., promoção da saúde,
medicina coletiva), estudo organizacionais. ergonomia e engenharia de
produção. e tudo urbano . . de envol\1imento local. economia solidária,
direito hun1ano . prática culturai e artí ~ ticas.
U 1na tendência que também se fortaleceu é o u. o da pesquisa-ação
em projeto e programas de extensão uni ver itária, área de atividade ,,, ariadc1
que e estruturou em unÍ\'er idades públicas e particulare não reduzida à
!'

i1nple pre~tação de -er\ iço . Encontrou apoio do go\,. erno no quadro de


1

política públicas. N e se contexto . a pesqui a-ação não e limita mais a


fomentar pequenos projeto ou de pouca vi ibilidade, para se tornar um
quadro de referê11cia metodológico em projetos e programas sociais de
grande port~, apoiado por reitoria e órgão do poder público. Is. o re-
Rresenta um grande desafio para aqueles (como eu que e tavam aco -
~1 L"OOOLOGI A DA PESQUIS:\·AÇ.~O 9

,,
tumado a trabalhar junto a grupo de menor dimen ão. E preci o enfrentar
nova questões política ou estratégicas (Quem decide? Como a base é
repre entada? Quais são a for111as de participação?) e operacionai (Como
são coletados os dados e gerado os re . . ultados? Como usar so_ftlvares
específicos para pesquisa qualitativa? Como aplicar tecnologias de infor-
mação e comunicação para facilitar a interação de grupos e pe oa em
rede e à distância?).
Em projeto ociais, e pecialmente o de grande porte.. em as essoria
a política públicas, alguma veze . há risco de confusão entre a exigência
de conhecimento cientificamente emba ado e a expre ão de interes es
político que podem se re\1elar tri\>·iai . passageiros ou, até me mo, engano os.
Diante disso . é preciso reafir111ar o compromisso ocial e científico da
pesqui a-ação. Discordamo de colega que con ideram a pesquisa-ação
como imples ati,1idade de interv·enção social, calcada na vi ão de atores .
que não teria contas a prestar às instâncias de pe quisa científica e não
precisaria validação ou reconhecjmento acadêmico.
Seja qual for seu grau de intensidade a vontade de pesqui ar e de
transfor111ar situações não significa ''fazer agitação· ou ''propaganda'' a favor
de soluções pree tabelecjdas que, na maioria da \'eze , re\'elam-se ilusórias.
ão existe neutralidade na pesquisa ocial em geral . e tampouco na pesqui a-
-ação, mas isso não ignifica que tal propo ta metodológica de''ª e confundir
com a vontade (ou \'eleidade ) de tal ou qual entidade política ou religiosa.
Por meio de um maior grau de exigência metodológica e científica, podemos
evitar certa manipulaçõe ou \1iese inde ejáveis. Em particular, é preciso
evitar que a pe quisa-ação esteja po ta a erviço de propo ta populi ta e .
por ' 'ezes, comunitaristas, deixando lideranças mai ou menos cari máticas
se apoiarem em resultados de pesqui a e de ações para fazer prevalecer eus
fins particulares (aces o ao poder e concentração de recurso ), sempre em
nome do povo ou das comunidades. O pretenso diálogo pode virar monólogo
para os eguidores e pa1harern falsas prome as contra a pobreza e pro-
moverem novas formas de dominação e de conformismo.
No p1ano do conhecimento, foi algu1na vez objetado contra a nossa
proposta dos anos 1980 um exce so de objetivi mo ou de realismo. Talvez
certas formulaçõe enfatizando o caráter objetivo da realidade, indepen-
dentemente de no a con ci ência ou de no sa vontade podem induzir a
1

e e tipo de apreciação. No entanto'\ cada vez mai , não e deve e quecer


10 ~ilCHEL THIOLl ENT

que, mesmo endo objetiva, a realidade dá lugar a repre entaçõe con -


truídas com ba e no conhecimento humano. Os conceito e resultados
de pesquisa são constru ões. No ca o da pe quisa-ação, trata-se de con -
truções complexas, relacionadas com a visões do atores e as concei-
tuaçõe dos pe quisadores~ o todo mutável no decorrer da ação. e se
contexto, a realidade não pode ser considerada como independente da
consciência humana como se fosse um amontoado de pedras no solo de
outro planeta.
No entanto esse tipo de argumento não abre a porta ao ubjetivi mo
radical egundo o qual a realidade seria uma mera que tão de visão ou de
v·ontade do sujeito. A e uisa-a ão e apre enta comQ método de pe qui a
in erida em práticas ou ações sociais educacionais, técnica e tética etc.
1

Ao longo do ano . ela tem ido enriquecida na encruzilhadas de vária


tendência filo óficas. Hoje, ela pode e di tal)ciar tanto do objetivi mo
quªn_!o do ~ubjetivismo, encontrando certa afinidade com o construtivismo
-
social.
-
A leitura deste livro pode ser considerada como convite ou intro-
dução para uma capacitação em pesquisa-ação, que só se efetivará me-
diante experiências a serem adquiridas na prática, colaborando ou par-
ticipando em projetos sobre problemas reais e vividos por atores sociais
,,
bem identificados. E também aconselhável ampliar uma o ação meto-
dológica mais completa, em seus aspectos quantitativos e qualitativo ,
incluindo a literatura existente sobre pesquisa participante, planejamento
participativo, método de e tudo de caso, grupos de foco e outras técnica
semelhantes.
Podemos recomendar livro traduzido e publicado de autores como
André Morin (2004) Kbalid El Andalou si (2004), Hugues Dionne (2007).
Ainda temo que resgatar in1portantes subsídios para pe quisa-ação e
educação em João Bo co Pinto (1937-1995) a serem publicados.
Finalizando o prefácio desta nova edição, iy·olto a salientar que, no
atual contexto marcado por tran formações rápidas e urna grande diversidade
de iniciativas ociai , a pe qui a-ação continua bastante solicitada como
meio de identificação e re alução de problemas coletivos e corno foi 1r1a de
aprendizagem dos atore e do pesquisadores (profissionai ou estudantes).
C<l_Ol as novi4ades científicas e técnicas que urgem todo dia, a atualização
metodológica da pesqui a-ação é necessária e pas a pela contínua (re)di -
- -
i\i1fTODOLOCIA DA PESQUl~·AÇAO 11

cussão de _ eus fundamento teóricos, filo óficos, ético e de eu apri-


-
moramento no plano das técnicas de coleta e processamento de dado . Esse
esforço de atuaJjzação é muito vasto e só poderá ser coletivo. Que todos os
interessados participem!

Michel Thiollent
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 2011.
13

Introdução

O presente trabalho con i te em apresentar e discutir vário temas


relacionados com a metodologia da pesqui a social, dando particular desta-
que à pe quisa-ação~ enquanto linha de pe quisa a sociada a diver as for-
mas de ação coleti"'ª que é orientada em função da re olução de problemas
ou de objetiv~os de transformação.
Hoje em dia, no Bra il e noutro paí es, a linha da pe quisa-ação
tende a er aplicada em diver o campos de atuação: educação, comunica-
ção organização sen·iço ocial difu ão de tecnologia rural militância
política ou indica! etc. No entanto a pe quisa-ação ainda e tá em fa e de
di cu ão e não é objeto de unanimidade entre cienti ta ociais e profi s io-
nai da di ver a área .
Em muito lugare continuam pre\1 alecendo a técnica dita con-
vencionai que ão u ada de acordo com um padrão de ob ervação po iti-
''i ta no qual e manifesta uma grande preocupação em torno da quantifica-
ção de re ultados empíricos, em detrimento da bu ca de compreen ão e de
interação entre pesquisadore e membro da ituaçõe inve tigada . Es a
bu ca é justamente valorizada na concepção da pe qui a-ação. Todavia,
queremo deixar bem claro que e ta linha de pe qui a não é única e não
sub titui a demais. O e tudo de sua metodologia é apenas um tópico entre
os diferentes tópicos da metodologia das ciências sociai .
Um dos aspecto sobre o quais não há unanimidade é o da própria
denominação da proposta metodológica. A expressõe "'pe qui a partici-
pante 'e ''pe qui a.- ação . são frequent mente dadas como inônima . A no o
ve r~ não o ão porque a p qui a-ação além da participação, upõ uma
14 .\lllCHEL THIOLLENT

forma de ação planejada de caráter social, educacional, técnico ou outro,


que nem sempre e encontra em propostas de pesquisa participante. Seja
como for, consideramos que pesquisa-ação e pesquisa participante proce-
dem de uma mesma busca de alternativas ao padrão de pesquisa convencio-
nal. Não estamos propensos a atribuir muita importância aos ''rótulos''.
Mediante a aplicação dos princípios metodológicos aqui em discussão, acha-
mos que outro modo de designação possa ser cogitado, mas ainda não o
encontramos.
A pesquisa-ação e a pesquisa participante estão

ganhando grande au-
diência em vários meios sociais. Ainda é cedo para se ter uma avaliação da
amplitude e dos resultados realmente alcançados. Do lado oposto, alguns
partidários da metodologia convencional \'eem na pesquisa-ação e na pe -
quisa participante um grande perigo o do rebaixamento do nível de exigên-
cia acadêmica. Como \'eremos mais adiante, existem efetivos riscos e exa-
geros na concepção e na organização de pesq ujsas alternativas: abandono
1

do ideal científico, manipulação política etc. Nosso desafio consiste em


mostrar que tais riscos~ que também existem em outros tipos de pesquisa.,
são superáveis mediante um adequado embasamento metodológico.
Com o desenvolvimento de suas exigências metodológicas, as pro-
postas de pesquisa alternativa (participante e ação) poderão vir a desempe-
nhar um importante papel nos estudos e na aprendizagem dos pesquisado-
res e de todas as pessoas ou grupos implicados, em situações problemáticas.
Um dos principais objetivos dessas propostas consiste em dar aos pesquisa-
dores e grupos de participantes os meios de se tomarem capazes de respon-
der com maior eficiência aos problemas da situação em que vivem, em
particular sob fo1n1a de diretrizes de ação transformadora. Trata-se de faci-
litar a busca de soluções aos problemas reais para os quais os procedimen-
to convencionais têm pouco contribuído. Devido à urgência de tais proble-
mas (educação, infor1nação, práticas políticas etc.), os procedimentos a se-
rem escolhidos devem obedecer a prioridades estabelecidas a partir de um
diagnóstico da situação no qual os participantes tenham \i'OZ e vez.
Para evitarmos alguns equívocos quanto ao real alcance da pesquisa-
-ação, limjtaremos a sua pertinência à faixa inte1mediária entre o que é
geralmente designado com nível micros ocial (indivíduos, pequenos grupos)
e o que é considerado como nível macrossocial (sociedade, movimentos e
entidades de âmbito nacional ou internacional). Essa faixa intermediária de
observação corre ponde a uma grande diversidade de atividades de grupos
1\i1ETODOLOGIA DAPESQUl~A-AÇÁO 15

e indivíduo no eio ou à margem de in tituiçõe ou coJetividade . Entre a


principai atividades considerada , encontramo tudo o que é comumente
designado como educação, trabalho, comunicação, lazer etc. Tal como a
entendemos a pesquisa-ação não trata de p icologia individual e também,
não é adequada ao enfoque macrossocial. a condiçõe atuai , como pro-
posta bastante limitada não e conhecem
,,
exempJos de pesquisa-ação ao
nÍ\i'el da sociedade como um todo. E aQ_enas um instrumento de trabalho e
de in'lestigação com grupo , instituições, coletividades de pequeno ou mé-
dio porte. Contrariamente a certas tendências da pesquisa psicossocial, os
a pectos sociopolíticos nos parecem ser mais pertinente que o a pecto
p icológico das ~ relaçõe interpe soai ''. Na abordagem da interação ocial
aqui adotada, os aspectos sociopolítico são frequentemente privilegiados. O
que não quer dizer que a realidade p icológica e existencial seja desprezada.
Do ponto de vista sociológico, a proposta de pesquisa-ação dá ênfase
à análise das diferentes formas de ação. Os aspectos estruturais da realida-
de social não podem ficar desconhecidos, a ação só se manifesta num con-
junto de relações sociais estruturalmente determinadas. Para analisar a es-
trutura social, outros enfoques, de caráter mais abrangente, são necessários.
Os temas e problemas metodológicos aqui apre entado são limita-
dos ao contexto da pesquisa com base empírica, isto é, da pe quisa voltada
para a de crição de situaçõe concretas e para a intervenção ou a ação orien-
tada em função da resolução de problemas efetivamente detectado nas co-
letividades consideradas. 1 to não quer dizer que estejamo desprezando a
pesqui a teórica, sempre de fundamental importância. Ma preci amos co-
meçar por um dos lados pos íveis e escolhemos o lado empírico, com ob er-
vação e ação em meios sociais delimitados, principalmente com referência
aos campos constituídos e designados como educação, comunicação e or-
ganização. Não nos parece haver incompatibilidade no fato de progredir na
teorização a partir da observação e descrição de situações concretas e no
fato de encarar situações circunscritas a diversos campos de atuação antes
de se ter elaborado um conhecimento teórico relativo à sociedade como um
todo. Entre esses diversos níveis de análise, não nos parece haver dedução
do geral ao particular nem indução do particular ao geral. Trata-se de esta-
belecer um constante vaivém no qual privilegiamos aqui os níveis mais
acessíveis ao pesquisador principiante.
Embora privilegie o Jado empírico, nos a abordagem nunca deixa de

colocar as questões relativa aos quadros de referência teórica sem os quais
16 ,,~IC'1EL Tt-flOLLE~T

a pesqui a empírica - de pe qui a-ação ou não não faria entido. E sa


que tões são vista como endo relacionadas ao papel da teoria na pe qui a
e como contribuição específica dos pe quisadores nos discur os que acom-
panham o desenrolar da pe quis~ levando a uma deliberação acerca dos
argumentos a erem levados em conta para e tabelecer as conclusões.
Nos dias de hoje_, embora haja muita pesquisas em di\.·ersas áreas de
conhecimento aplicado, sente-se a falta de uma mruor segurança em maté-
ria de metodologia quando se trata de in\i·estigar situações concretas. Além
disso, no plano teórico, a retórica sem controle corre solta. Há um crescente
descompasso entre o conhecimento u sado na resolução de problema reai _
e o conhecimento u ado apena de modo retórico ou simbólico na e fera
cultural. A linha eguida pelo partidários da pe qui a-ação é diferente:
.
pretendem ficar atento às exigência teó1ica e prática para equacionarem
problemas relevantes dentro da situação social.

* * *
De acordo com a concepção didática deste livro, o conteúdo é organi-
zado em temas, cada um sendo apresentado de modo conciso. A nossa sele-
ção dos temas corresponde às respostas a diferentes perguntas que sempre
são formuladas nas di cussões sobre a pesquisa-ação de que temos partici-
pado no Brasil desde 1975 . Muita dessa perguntas nos foram sugeridas
por alunos e professores de ciências sociais e de outras disciplinas na O€a-
sião de cursos, conferência ou seminários em várias universidades e por
pe qui adore encontrado na realização de diversas consultorias. Em si pró-
prio o 'roteiro'' proposto não pretende ser a olução de todo o problemas.
O temas e colhidos foram agrupados em três capítulos:
1. E tratégia de conhecimento.
2. Concepção e organização da pesquisa.
,
3. Area de aplicação.
No Capítulo I estão ret1nidos alguns temas gerais da estratégia de
conhecimento, enfatizando o papel da metodologia no controle das exigên-
cia científica e a natureza argumentati\i·a das fonnas de raciocínio que
operam na concepção da pe quisa-ação. A formulação das hipóteses (ou
diretrize ), ua comprovação, a inferências e generalizações não ão ape-
nas ba eadas em dados e regras estatísticas. No conjunto do processo da
Íll\'e tigação e da ação, a argumentação (ou a deliberação) de empenha um
METODOLOGIA 0.1\ PE~ul A·AÇ~O 17

papel fundamental. Além di o, a implicaçõe política. e valorati va de-


''em ficar ·ob o controle do pe qui adore .
. . o Capítulo II apre entamo uma érie de tema relacionado com a
concepção e a organização prática de uma pe qui a-ação. São destacadas
que tões \i'inculada à fase exploratória, o diagnóstico a e colha do terna, a
colocação do problemas o lugar da teoria e das hipóte e , a função do
eminário no qual se reúne1n o pe qui adores e os den1ais participante . a
delimitação do campo de ob er\i·ação empírica, os problema de amo tra-
gem e de representati\ idade qua1itati\ a a coleta de dados . a aprendizagem,
1 1

o cotejo do aber formal e do aber infor111al, a elaboração de plano de


ação e, finalmente . a divulgação do re ultado .
No Capítulo III apre entamo como tema a di\1er a área de aplica-
ção da pe qui a-ação . em particular educação, comunicação, er\-·iço o-
cial" organização. tecnologia rural e prática políticas. Em cada uma de as
"
areas ão discutidas alguma das e pecificídades da abordagem propo ta.
Indicamos problemas a serem resolv·ido e potencialidade a serem apro-
veitada em futuras pesquisas.
Em conclusão são retomadas intetícamente importante questõe
relacionada com a condiçõe intelectuai e práticas do de envolvimento
da pe qui a-ação enquanto e tratégia de co11hecimento \'Oltada para a reso-
lução de problemas do mundo real.
19

Capítulo 1

Estratégia de conhecimento

Neste capítulo são apresentados temas gerais da estratégia de conhe-


cimento que é própria à orientação metodológica da pesquisa-ação tal como
a concebemos. Após uma discussão acerca das definições e dos objetivos,
apresentamos uma série de exigências oeces árias à manutenção da pesqui-
sa-ação no âmbito das ciências sociais. Em seguida é de crito o papel da
metodologia como sendo o de conduzir a pesquisa de acordo com as exi-
gências científicas. Procurando mostrar algumas da especificidade da pe -
quisa-ação no plano da formas de raciocínio, indicamos que _a natureza
~ unientativa ou deliberati\.'a) dos procedimento e tá explicitamente re-
conhecida, contrariamente à concepção tradicional da pe quisa, na qual são
-
valorizado critérios lógico-formais e estatí ticos. Desenvolvendo este ponto
de \.r ista, procuramos mostrar como é pos ível estabelecer um \'Ínculo entre
de um lado, o raciocínio hipotético e as exigências de comprovação, e, por
outro lado, as argumentaçõe dos pesquisadores e _participantes. Mostramos
que ª- concepção das bipóte e não deve er confundida com a elaboração
de te tes de h!pótese, que é apenas uma técnica estatí tica de aplicação
restritiva, o que nos pe11nite repensar as que tões relacionadas com inferên-
cias e generalizações de um modo que não e limita ao campo das técnicas
estatísticas. Essas questões ão também abordadas por intermédio dos re-
cursos da argumentação, de modo particularmente adequado no contexto
da pe quisa-ação, onde a interpretaçõe da realidade observada e as ações
transfo11nadora são objeto de deliberação. Em eguida são apresentada
alguma reflexõe introdutória acerca do tema do relacionamento entre
20 ,\•11CHEL THIOLLE~T

conhecimento e ação. Procuramo e pecificar o alcance da açõe ou das


tran for111açõe con ideradas na pe qui a em criar fal a expectati"'ª ao ní-
\'el da ociedade. Ter11rinamos o no o roteiro·' da estratégia de conheci-
mento por uma curta discussão obre a uas implicações políticas e valorativas.

1. Definições eobjetivos

Entre as div·er a definiçõe po sívei , daremos a seguinte: a pe qui-


a-ação é um tipo de pe qui a ocial com ba e empírica que é concebida e
realizada em estreita as ociação com uma ação ou com a re olução de um
problema coleti\'O e no qual o pesqui adore e o participante repre enta-
tivo da ituação ou do problema e tão en\'Olvido de modo cooperativo ou
participativo.
E te tipo de definição deixa pro\1i oriamente em aberto a que tão va-
lorativa, pois não se refere a uma predeterminada orientação da ação ou a
um predeterminado grupo social. ~ui to partidários restringem a conce ão
e o uso da pe qui a-ação a uma orientação de ação emancipatória e a gru-
-
po ociais que pertencem às elas es populares ou dominada . Nes e caso,
ã pesquisa-ação é vista como forma de engajamento sociopolítico a enriço
da cau a da classes populares. Esse engajamento é constitutivo de uma boa
parte da propostas de pesquisa-ação e pesquisa participante., tai como ão
conhecida na América Latina e em outro paíse do Terceiro Mundo. No
-
entanto a n1etodologl_a da_pes ui a-ação é igualmente discutida em área
- -
de atuação técnico-~rg~izati\ta com outro tipo de compromi so ociai
e ideológicos, entre os quai destaca- e o compromi o de tipo "refarma-
dor,., e ''participativo'', tal como no ca o das pesquj a ociotécnica efetua-
-
das egundo uma orientação de '"democracia industrial'' principalmente
em paí es do Norte da Europa.
Embora eja precária a di tinção entre o aspecto valorativo e o
a pecto propriamente metodológico ao nível de um proce so de in\··esti-
gação, con iderarnos que a e trutura metodológic~ da pesqui a-ação dá lu-
gar a uma g rande diver idade de propo tas de pesquisa nos di\rerso campo
de atuação sociaJ. O valores vigente em cada ociedade e em cada etor
pde
.. atuação alteram sen ivelmente o teor das propostas de pe qui a-ação .
Assim, existe uma grande di,,er idade entre a propostas de caráter militan-
te as propo ta infor111ativa e con cientizadoras das área educacionaJ e de
,\.1ETODOLOGIA DA PESQUISA-AÇ.~O 21


comunicação e: finalmente, a propo tas 'eficientizante " das área orgaru-
zacional e tecnológica. Certo autore recu am a po sibilidade de de ignar
e sa propo tas tão diversa por um me mo vocábulo_
Abordaremos questões metodológica gerai tentando dar conta de ta
diver idade de proposta .
Ao nível das definiçõe , uma que tão frequentemente discutida é a de
aber e exi te uma ~ferença entre pe qui a-ação e pesqui a participante
(Thiollent, l 984a, p. 82-103). Isto é uma ue tão de t~rminolo.gia acerca da
9._Ual não há unanimidade. tJ'o sapo ição con i te em cE~er ue toda e ui-
_a-ação é de tipo particiQ_ativo: a articipação das ..Pe oa jm_plicada no
e!ob1ema inve tigados é absolutafilente nece ária. No entanto, tudo o que
é chamado pe quisa partici.,Pante não é pesqui a-ação. I o porque pe quisa
participante é em algun ca o um tipo de pe qui a ba eado numa meto-
dologia de obsen'ação participante na qual o pesqui adores e tabelecem
re1açõe comunicati ''ª
com pessoa ou grupos da situação investigada com
o intuito de serem melhor aceitos. Ne e caso, a participação é obretudo
participação dos pesquisadores e con i te em aparente identificação com os
valore e o comportamentos que são neces ários para a sua aceitação pelo
grupo considerado.
_
.. --....:..
Para que não haja ambiguidade . uma _pe quisa pode er qualificada de
pesqui a-ação quando houver realmente uma ação por parte das pe oa ou
grupo implicados no problema sob ob er\.'ação ., ..pr ciso que_
a ação e· a uma açãQ não trivia t o que uer dizer uma ação robJemática _
merecendo inve tigaç__ão _para er elaborada e conduzida. ·
Entre a açõe encontrada , alguma ão de tipo reivindicatório, por
exemplo, no contexto a ociativo ou indical. Em certo ca o trata- e de
açõe de caráter prático dentro de uma atividade coletiva, por exemplo . o
lançamento de um jornal popular ou de outros meio de difusão no contexto
da animação cultural. um contexto organizacional a ação con iderada
vi a frequentemente resolver problema de ordem aparentemente mai téc-
~ca, por exemplo introduzir uma ºº''ª
tecnologia u de bloquear a circula-
ção da info1111ação dentro da organização. De fato por trá de problemas
desta natureza há sempre uma érie de condicionantes ociai a erem evi-
denciado pela investigação.
Na pe qui a-ação o pe qui adores de empenham um papel ativo no
equacionamento do problema en ontrado . no acompanhamento e na ava-
liação da açõe de encadeada em função dos problema . Sem dúvida a
-
22 f\'1I C~ l [L THIOll[NT

pe qui a-ação exige uma e - trutura de relação er1tre pe quisadores e pe oas


da ituação in e tigada qt1e eja de tipo participativo. O problen1a de acei-
tação do pesquisadore. no meio pe qui ado têm que er re olvido no de-
cur o da pesqui a. Ma a participação dope qui ador não qualifica a e pe-
cificidade da pe qui a-ação, que con i te em organizar a inve tigação em
..torno da concepção, do de enrolar e da avaliação de uma ação planejada .
Ne e entido . pesquisa-ação e pe qui a participante não dev·eriam er con-
fundidas embora autores tenham chamado pe quisa participante concep-
çõe de pesqui a-ação que não e limitam à aceitação do pe qui adore no
meio pe qui ado . como no ca o de imple '·observação participa11te''. A
participação do pe qui .. adores é explicitada dentro da ituação de investi-
gação. com o cuidado~ nece sários para que haja reciprocidade por parte
da pe oa e grupo implicado nesta ituação.j\lém di e;; o, a participação
do pe. qui adore 11ão de\1e chegar a ub tituir a ati\tidade própria dos gru-
po e uas iniciativas.
Em geral, a ideia de pe quisa-ação encontra um contexto fa\ orável 1

qt1ando o pesqui adore não querem limitar ua inve5tigaçõe ao aspec-


to acadêmico e burocrático . . da maioria da pesqui as con, encionai .
1

Querem pe qui a nas quais a pe oas implicadas tenham algo a ~~dizer'' e


a '"fazer··. Não se trata de simple le\'antamento de dados ou de relatórios a
serem arqui"·ado . Com a pe qui a-ação o pe quisadores pretendem de-
empenhar um papel ativo na própria realidade do fato obsef'lado .
Ne ta per pectiva. é nece. ário definir com preci ão, de um lado. qual
é a ação. quai ão o eu agente . eu objetivo e ob táculos e, por outro
lado, qual é a exigência de conhecimento a . er produzido em função cio
problema encontrado na ação ou entre o ~ atore da ituação.
Re umindo algun de eu principai a pecto , con ideramo que a
pe qui a-ação é uma e tratégia metodológica da pesqui a socia1 na qual:
a) há uma ampla e explícita interação entre pe 'qui adores e pe oa
implicadas na ~ituação inve~tigada:

b) de ta interação resulta a ordem de prioridade dos problemas a se-


rem pe. qui ado~ e da. oluções a erem encaminhada sob forma
de ação concreta:
c) o objeto de in\'e tigação não é constituído pela pessoa~ e impela
. itt1ação ocial e pelo problema de diferente natureza encon-
trado ne, ta , itt1ação:
~• ET()00lOGIA DA ,. "i0Ul5/ ...\ÇÃQ 23

d) o objeti\1 0 da pesqui a-ação cons i te em resol\i·er ou . pelo meno .


en1 e clarecer o proble111a~ da 5ituação ob eí\1ada; /
e) há. durante o proce o, um acompanhamento das decisões . das ações
e de toda a atividade intencional do atore da situação; . . . . __,,
f) a pe qui a não . e limita a uma forma de ação (ri co de ativ·ismo ):
pretende-. e aumentar o conhecimento do pe. qui adore e o co-
nhecimento ou o '"ní\·el de con ciência'" da pes oa e grupo con-
iderado . 'v

A configL1ração de uma pesqui. a-ação depende do eu objeti\;o e


do contexto no qual é aplicada. Vário ca o. deven1 er distinguidos.
- ~ Num primeiro ca<)o. a pe quisa-ação é organizada para realiLar o · obje-
tivo prático. de um ator social homogêneo di pondo de suficiente autono-
mia para encon1endar e controlar a pe quisa. O ator é frequentemente uma
as ociação ou um agrupamento ativo. Os pe qui adores a sume1n o objeti-
v·o definidos e orientam a in\re tigação em função do meio disponíveis.
l ~um segundo ca º~ a pe qui a-ação é realizada dentro de uma orga-
nização (empre a ou e. cola. por exemplo) na qual exi te hierarquia ou gru-
pos cujos relacionamentos são problemático . A pe quisa pode vir a ser
utilizada por uma das parte em detrin1ento do intere .. e das outra parte .
Nesse ca o, o relacionamento do pe qui~adore com o grupo da ituação
ob er\'ada é nluito mai~ complicado do que no caso precedente . tanto no
plano ético quanto no plano da prática da pe qui a. Considera-~e. no plano
ético. que o~ pe qui adores da linha da pesqui a-ação não podem aceitar
~abalhar en1 pe~quisas n1anipul<1dé1.. por unia da partes na organizaçõe .
e111 particular por aquela que e tá mai vinculada ao poder. Apó u1na fa'>e
de definição do intere ado na pesqui a e da exigência dos pe qui ado-
re. , e hou\rer possibilidade de conduzir a pesqui a de um modo satisfato-
riamente negociado. o. problemas de relacionamento entre o grupo serão
tecnicamente analisados por meio de reuniões no seio das quai toda a
parte deverão estar representada5.
"? Num terceiro ca o a pe qui a-ação é organizada em meio aberto, por
exemplo . bairro popular, comunidade rural etc. Ne e ca o, ela pode er
de encadeada com uma maior iniciativa por parte dos pe quisadore que,
à veze , de\1em e preca\ier de pos ívei inclinações '~mi ionária ,, , sem-
pre propícias à perda do mínimo de objeti\ idade que é requerido na pe qui-
1

a. Frequentemente a pe~qui a é organizada em ft1nção de in tituiçõe xte-


24 \itlCHEL ~IOL LENT

riore à comunidade. O pesqui adores elucidam o diver os intere es im-


plicado .
Na prática, os três caso que di tinguimo algumas vezes se apresen-
tam sob forma mesclada. Seja como for, a atitude do pesquisadores é sem . .
pre uma atitude de "e cuta" e de elucidação do vário aspectos da _itua}
ção, sem impo ição unilateral de uas concepções próprias.
Na fase de definição da pesquisa-ação, uma outra condição necessá-
ria con iste na elucidação dos objeti \' OS e, em particular, da relação existen-
te entre os objetivo de pe quisa e o objeti\ 0 de ação. Uma das e pecifici-
1

dade da pe qui a-ação coo i te no relacionamento desses dois tipo de


objeti\1os:
a) Objetivo prático: contribuir para o melhor equacionamento po ível
do problema considerado como central na pe qui a. com le\:anta-
mento de soluções e propo ta de açõe corre pondentes à ""solu-
ções para auxiliar o agente (ou ator) na ua ati\1idade transforma-
,
dora da situação. E claro que e te tipo de objetivo de\'e ser visto
com . realismo'' isto é, em exageros na definição da soluçõe
alcançáveis. Nem todos o probJemas têm soluções a curto prazo.
b) Objeti\'O de conhecimentio : obter infor1nações que seriam de difí-
cil acesso por meio de outros procedimento , aumentar nosso co-
nhecimento de deternLinada situações (rei\'·indicações, represen-
tações, capacidades de ação ou de mobilização etc.).

A relação existente entre e e dois tipo de objetivo


-
é ''ariável. De
modo geral considera- e que com maior conhecimento a ação é melhor
conduzida. No entanto, a exigência cotidianas da prática frequentemente
limitam o tempo de dedicação ao conhecimento. Um equilíbrio entre as
dua ordens de preocupação deve er mantido. -
Como complemento à di cu ão do objetivo da pesqui a-ação, po:-
demo indicar ca os no quais o objetivo é obretudo ''jnstrumental''; isto
acontece quando a pe quisa tem um propósito limitado à sesoJução de um 1
problema prático de ordem técnica, embora a técnica não seja concebida )
fora do seu contexto ociocultural de geração e u o. Encontramos outras
ituaçõe nas quais o objetjvos ão \ oltado para a tomada de consciência
1

do agentes implicado na atividade in,,e tigada. Nesse caso. não se trata


apena de re ol\ er um problema imediato e im de en\'Olver a consciência
1

da coletividade nos planos político ou cultura] a re peito do problemas


~1ETODOLOGI A DA PESQUISA-AÇAO 25

importante que enfrenta, me t110 quando não e veem oluçõe a curto


prazo como por exemplo, nos casos de secas, efeitos da propriedade fun-
diária etc. O objetivo é tornar mais evidente ao olho do intere sado a
natureza e a complexjdade dos problema con iderado .
Finalmente, existe uma outra situação, quando o objetivo da pe qui-
sa-ação é principalmente voltado para a produção de conhecimento que não
seja útil apena para a coletividade considerada na in\.'estigação local. Tra-
ta-se de um conhecimento a er cotejado com outro e tudos e su cetí,rel de
parciai generalizaçõe no e tudo de problema ociológico , educacionai
ou outro , de maior alcance. A ênfase pode er dada a um do três a pectos:
resolução de problemas, tomada de consciência ou produção de conheci-
mento. Muitas vezes~ a pesqui a-ação só co11 egue alcançar um ou outro
des e três a pecto . Podemos imaginar que, com maior amadurecimento
metodológico. a pe qui a-ação, quando bem conduzida, poderá \'ir a a lcan-
çá-lo imultaneamente.
Uma última questão frequentemente abordada consiste na diferença
-
que eriste entre a pesquisa-ação e a pesqui a convencional . Numa pesqui a
con\:encional não há participação do pesquisadore junto com os u uário
ou pes oas da situação observada. Além di o, semR,re há uma grande dis-
-
tância entre os resultados de uma pesquisa convencional e a pos Í\rei de-
cisões ou ações decorrentes Em geral tal tipo de pesquisa e in ere no
funcionan1ento burocrático das i nstituiçõe . Os u uário não ão considera-
do como atore . Ao ní\1el da pe quisa. o u uário é n1ero informante . e ao_
i1ív·el da ação ele é mero executor. E ta concepção é incon1patível com a da
pe qui a-ação, empre pre supondo participação e ação efetiva do intere -

ado . Podemos acre centar que, na pesquisa ocial con\rencional, ão pri-
\ ilegiado os aspectos indi,,iduai , tais corno opiniões, atitudes moti\ a-
1 1

çõe , comportamentos etc. Esses aspectos são geraln1ente captados por meio
de que tionários e entre,,, ista que não permitem que e tenha uma \1isão
-
dinâmica da situação. ~ão há focalização da pesqui a na dinâmica de trans-
- ,, -- -
formação desta ituação numa outra ituação de ejada. Ao contrário pela...
-ges9...uisa-f!Ç_ão é p..Qssfyel estudar dinamicamente os QfOblemas deci õe .:.
a ões. n~ocia ões, conflito e tomada de consciên · ue_ ocorrem entre
os agentes durante o proces o de tran formação da situação. Por exemplo. -
no campo indu trial. é o ca o quando e trata de tran formar uma for[Ila de
-
organiza ão do trabalho individu lmente egmentada e rotinizada numa
forma de organização com grupo di pondo de autonomia e ílexibilidad~
26 .~ICHE L THIOLLENT

-
na execução do trabalho. De modo geral, a ob ervação do que ocorre no
processo de tran formação abrange problema de expectati,·as, reivindica-
çõe , deci õe , ações e é realizada atravé de reuniõe e eminários no
quais participam pessoas de diversos grupo implicados na transformação.
A reuniõe e seminário podem er alimentados por informações obti as
em grupo de pesquisa e pecializado por as unto e também por informa- 1
ções provenientes de outras fontes, inclusive - quando utilizáveis aque-
las que foram obtidas por meios convencionais: entrevistas, documentação
etc. Este tipo de concepção pode ser aplicado no ca o do estudo de inova-
ções ou de tran forrnações técnica e ociai na organizações e também
nos sistemas de ensino.

2. Exigências científicas
-
Entre o partidário da pesquisa-ação e da pesquisa participante é
frequente o clima de suspeita para com teoria métodos e outros elementos
valorizados pelo espírito científico. À \·'eze chega-se a muita particip~º'1
e a pouco conhecimento. A nos o ver, na pe quisa-ação e dev·em manter
algumas condições de pe quisa e algumas exigências de conhecimento asso-
ciadas ao ideal científico que contrariamente a uma certa opinião corrente,
não se confunde com o positivismo ou qualquer outra circunstancial ideo-
logia da ciência.
No contexto da animação e difu ão cultural em meio operário, D.
Charas e mo tra que a pe qui a-ação é in uficiente quando "4.desprovida do
questionamento próprio à pe quisa científica'' (Chara e, 1983, p. 133-40).
Tal experiência não pa a de uma compilação em enriquecimento da in-
formação. Além di o quando não há i11terrogação acerca ,,
do papel do
pesquisadores inten1eniente há risco de manipulação. E preciso e\. itar, de
-
um lado o tecnocrati smo e o academici mo e, por outro, o populi mo ingê-
nuo dos animado..res.
A nos o ver, um grande de afio metodológico con i te em fundame'Il:
tar a in erção da pe qui a-ação dentro de uma per pectiva de inve tigação
científica. concebida de modo aberto e na qual '"ciência.... não eja inônimo
de ''positivismo' , "funcionali mo" ou de outros ' rótulo ".
4

Como vi to no item precedente, na pe quisa-ação exi tem objetivos


-
prático de natureza ba tante imediata: propor oluçõe quando for po í-
---
~~ETODOLOGI A DA PESQLISA-AÇAO 2i

vel e acompanhar açõe corre pondente , ou, pelo meno , fazer progredir a
con ciência dos participante no que diz re peito à exi tência de oluçõe e
de ob táculos.
No contexto organizacional, onde há nítida divi ão entre dirigente e
dirigido , é claro que a pe quisa-ação pode ficar repleta de ambiguidades
e seu alcance pode ser limitado de modo utilitarista por parte do dirigentes
ao colocarem problemas de eu exclusivo interesse como prioritário , inde-
pendentemente de sua relevância científica, eventualmente muito fraca, tal
como no caso dos e tudos de ''liderança''_
Quando e trata de pe qui a-ação voltada para o problema da cole-
tividade, como, por exemplo, a organização do trabalho em mutirão o aces o
à e cola ou à moradia, o objetivo práticos con istem em fazer um levanta-
mento da situação, formular reivindicações e açõe . São objetivos práticos
voltado para se encontrar uma 'saída'' dentro do contexto. As soluções
imediatas são selecionadas em função de diferentes critérios corresponden-
tes a uma definição dos interes es da coletividade.
. \
Todos esses objetivos prátjcos não devem nos fazer esquecer que a ,
pesquisa-ação, como qualquer estratégia de pesquisa, possui também obje-
tivos de conhecimento que, a nosso ver, fazem parte da expectativa científi- \
ca que é própria às ciências sociai . ,,,
São muito variávei os pontos de vista de diferente autore acerca do
grau de intonia da pe qui a-ação com a ideia de ciência. Podemo até
encontrar autores e pesquisadores comprometidos com pesqui a-ação e pe -
qui a participante que perderam de \'i ta a ideia ou o ''ideal ' da ciências
ociai , ou da ciência em geral. A ação ou a participação, em i próprias,
seriam uficiente . Conhecimento e ação~ ciência e saber popular estariam
fundidos numa só atuação. Não haveria mais lugar autônomo para a ciência
que, no caso, seria apenas considerada como produto tipicamente ''acadê-
mico'', ''positivista", ''ocidental'' e ' decadente '. A pe quisa-ação não pre-
ci aria prestar contas à ciência e às uas in tituições.
A nosso ver, este ponto de vi ta é exagerado e perigo o. Algun as-
pecto da crítica ao sistema convencional da pe qui a científica (acade-
mici mo dependência institucional, unilateralidade da interpretação etc.)
são muito pertinente . Mas i to não deve no fazer abrir mão das ideia Ciel
ciência e de racionalidade, em a quai sempre há ri cos de ''recaídas'' no
irracionali mo que, tanto no pa ado como no presente, foi as ociado ao
ob curanti mo e à manipulaçõe de toda ordem. ~-
28 1\11CHEL THIOLLE T

Hoje em dia não exi te um padrão de cientificidad univer almente


aceito na ciência ociai . O po iti vi mo e ·O empirici mo, que prevalecem
na literatura do mundo anglo-saxão. ão conte tado inclusive nos eu cen-
tro de origem. Podemo optar por in trumentos de pe qui a não aceito
pela maioria do pe qui adore de rígida formação à moda antiga, em por -..

i o abandonar a preocupação científica.


Embora seja incompatível com a metodologia de experimentação em
laboratório e com os pre uposto do experimentali mo (neutralidade e não
interferência do observador, i olamento de variávei etc.) a pe qui a-ação
não deixa de er uma forma de experimentação em situação real, na qual o
pe qui adore intervêm co11 cientemente. O participante não ão redu.zi-

do a cobaia e de empenham um papel ativo. Além di o, na pe qui a em
itua~ão real a variávei não ão i olá\'ei . Todas ela interferem no que e tá
endo ob ervado. Ape ar di º" trata- e de uma forma de experimentação na
qual o indivíduo ou grupo mudam algun a pecto da ituação pelas açõe
gue decidiram aplicar. Da obsen:ação e da avaliação de a ações., e também
pela e\,. idenciação do ob táculo encontrado no caminho há um ganho de
informação a er captado e re tituído como elemento de conhecimento.
Con ideramos que a pesqui a-ação não é constituída apenas pela ação "
ou pela participação. Com ela é nece ário produzir conhecimentos, adqui- !
rir experiência, contribuir para a discu ão ou fazer ª''ançar o debate acerca
das que tõe abordada . Parte da informação gerada é divulgada, sob for-
mas e por meio apropriado , no eio da população. Outra parte da informa-
ção, cotejada com re ultado de pesqui a anteriore , é e truturada em co-
nhecimento . E tes são divulgado pelo canai próprio à ciência ociai
(revista , congre o etc.) e também por meio de canai próprio a e ta __.
linha de pe qui a.
Achamo que a pe qui a-ação de\'e ficar no âmbito da ciência o-
ciai , podendo inclu ive er enriquecida pela contribuiçõe de outra li-
nhas compatívei (em particular linha metodológicas concentradas na aná-
li e da linguagem em ituação ocial) (Thiollent 1981, p. 81-105). O pe -
qui adore da linha' p qui a-ação·' que negam eu papel próprio e tão em
ituação paradoxal: pe qui ar em er pe qui ador. Além di o, o de con-
tro]e da atividad d pe qui a deixa margem a toda a forma de manipu-
lação e de aproveitamento para fin particulare .
A manutenção da pe qui a-ação dentro do conjunto da exigência
científica tem que er melhor explicitada. A exigência con iderada ão
i\ttfTODOLOG ;\ DA PESQu15A·AÇAO 29

diferente daquela que ão comumente aceita de acordo com o padrão


con\i·encional de ob ervação, no qual há total eparação entre ob ervador e
observados, total substituibilidade dos pe qui adore e quantificação da in-
formação colhida na ob ervação, enquanto princípio de objetividade. Tai
princípio ob er\'acionai pertencem ao e pírito científico· porém . não ão
os únicos e não e aplicam em todas a área ~ com o mesmo grau de nece -
sidade. Sem abandonarmo o e pírito científico, podemos conceber dispo-
itivos de pe qui a ocial com ba e empírica nos quai . em vez de epara-
ção . haja um tipo de coparticipação do pe qui adore e da pessoa impli-
cadas no problema inve tigado. A ub tituibilidade do pe qui adore não é
total, poi o que cada pe qui ador ob erva e interpreta nunca é independen-
te da ua fo1mação de ua experiência anteriore e do próprio ''mergu-
lho'' na ituação inve tigada. Em lugar de ub tituibilidade, a condição de
objeti\i·idade pode er parcialmente re peitada por meio de um controle
metodológico do proce so inve tigativo e com o con en o de \.'ário pe qui-
adore acerca do que está endo ob ervado e interpretado. Por sua ·vez, a
quantificação é empre útil quando e trata de estudar fenômenos cuja
dimensões e variações são significativas e quando exi tem in trumento de
medição aplicáv'eis em dema iado artificialismo. Mas a quantificação~ apa-
rentemente mai preci a do que qualquer a\ aliação ubjetiva, é frequente-
1

mente uma ilusão. Em muito ca os a de crição \1erbal minucjo a, a apre-


ciação em e calas "'gro eira " do tipo forte-fraco, grande-médio-pequeno,
aumento-diminuição etc., ão uficiente para ati fazer o objetivo da
pe qui a. Tai apreciações são factívei no proce o de pe qui a-ação e,
inclu Í\1 e~ com recur o de procedimento argumentatÍ\'O para e chegar ao
co11 en o do participante em tomo da me ma .
Por er muito mai dialógico do que o di po itivo de observação con-
vencional. o di po iti'' º da pe qui a-ação pode parecer menos preciso e
menos objeti\'O. Relati v izando e sa noçõe., .Q_Qdemo con iderar que ela
não são . _Qor i o nece sariamente perdida de vista pelo pe quisadore . A
discussão e a participação dos pesqui adore e dos participantes em diver-
sas estruturas coletiva (seminário , grupo etc.) não ão em si própria ,
nociva à objetividade. A falta de objetividade também pode existir nos
modo de relacionamento burocrático do pe quisadores con\'encionai . O
caráter burocrático do relacionamento pode er ob ervado entre os pe qui-
adores principais confinado em gabinete e o pe qui adore (ou entre-
vistadore ) que atuam no campo empírico e. também~ entre este último e
o indivíduo e colhido como informante em função da amo tragem. O
lO 1Y11CHEL THIOLLE T

pesquisadores principai raciocinam em gabinete na base de uma grande


quantidade de inforcn.ações quantitativa obtidas pelos procedimentos roti-
neiros. Nessas condições, a qualidade e a objetividade do raciocínio não
são necessariamente superiores. Na pesquisa ativa há um constante ques-
tionamento, sempre é preciso argumentar a favor ou contra determinadas
-
~preciações e interpretações. Seu aspecto coletivo pode ser fonte de ma-
nipulações. Sob controle metodológico há também condições de uma
constante autocorreção, sempre melhorando a qualidad~ e a relevância
das observações.
Em si, a intercomunicação entre observadores e pessoas e grupos im-
plicados na situação e também a restituição do papel ativo a todos os parti-
cipante que acompanham as diver a fa e da pesquisa não con tituem
infraçõe ao ''código'' da ciência, quando este é entendido de modo plural,
em particular no plano metodológico.
A compreensão da situação, a seleção dos problemas, a busca de solu-
ções internas, a aprendizagem dos participantes, todas as características qua-
litati\ias da pesquisa-ação n.ão fogem ao espírito científico. O qualitativo e o
diálogo não são anticientíficos. Reduzir a ciência a umyrocedimento de pro-
cessamento de dados quantificados corresponde a um ponto de vista criticado
e ultrapassado, até mesmo em alguns setores das ciências da natureza.
Do ponto de 'lista científico, a pesquisa-ação é uma proposta metodo-
- -
lógica e técnica que oferece subsídios para organizar a pesquisa social aplica-
da sem os excessos da postura con\'encional ao nível da observação, proces-
samento de dados, experimentação etc. Com ela se introduz uma maior flexi-
bilidade na concepção e na a_plicação dos meios de investigação concreta.
Além disso, podemos considerar que, internamente ao processo de
pesquisa-ação, encontramos qualidades que não estão presentes nos pro-
cessos convencionais. Por exemplo, podemos captar informa Q_es geradas
------
ela mobilização coletiva em torno de ações concretas que não seriam al-
cançáveis nas circunstância.s da observação passiva. Quando as pessoas es-
tão fazendo alguma coisa relacionada com a solução de um problema seu,
há condição de estudar este problema num nível mais profundo e realista do
que no nível opinativo ou representativo no qual se reproduzem apenas
imagens individuais e estereotipadas.
Outra qualidade da pesquisa-ação consiste no fato de que as popula-
ções não são coo ideradas como ignorantes e desinteressadas. Levando a
sério o saber espontâneo e cotejando-o com as ''explicações'' dos pesquisa-
METODOLOGIA. DA PESQUISA-AÇÃO 31

dore um conhecimento de critivo e crítico é gerado acerca da ituação,


com toda as utileza e nuanças que em geral e capam ao procedimentos
padronizados. Com a divulgação de informação dentro da população com
o proces o de aprendizagem do pe qui adore e do participante . com o
eventual treinamento de pes oa ''leigas'' para desempenharem a função de
pesqui adores é possível esperar a geração de urna ma sa de informação
significati \'a, aproveitando um amplo concur o de competências diver as.

3. O papel da metodologia

A partir da concepção anteriormente e boçada, podemo con iderar


que, na organização e na conduta de uma pe qui a-ação, a metodologia da
ciência ociai tem um importante papel a desempenhar. E ta afirmação é
contrária a uma opinião difundida em certos meios acadêmicos, segundo a
qual a pesquisa-ação é um tipo de ati \ idade escolhida por pesqui adores
1

que não entendem de metodo1ogia e nem querem e submeter às sua exi-


gência . Todavia, tais pe qui adores existem e a no o ver, prejudicam a
imagem de sua própria atividade.
Para evitarmos certa confusõe , preci amos redefinir o que é a meto-
dologia e especificar eu papel. Uma da pergunta frequenteme.nte formu-
ladas é a eguinte: a pe quisa-a ão é um método? Uma técnica? Uma meto-
dologia? E ta pergunta parece e tar ligada à impreci ão relati\ra ao u o de -
e trê termo . não omente no campo da pe qui a-ação. ma também no •
. .
contexto geral da ciência oc1a1 .
Exi te uma confu ão terminológica que podemo anali ar como sen-
do uma confu ão entre, de um lado. o nível da efeti \'a abordagem da itua-
ção inve tigada com método e técnicas particulare e por outro lado, o
"metanível'", con tituído pela metodologia enquanto instância de reflexão
...
acerca do primeiro nível. E ta distinção exi te sob forma genérica como
di tinção entre informação e meta -informação ou conhecimento e
metaconhecimento. Podemo distinguir o ní'f·el do método efetivo (ou da
técnica) aplicado 11a captação da informação ocial e a metodologia como
metanível, no qual é determinado como e deve explicar ou interpretar a
informação colhida.
A metodologia é entendida como di ciplina que e relaciona com a
epistemologia ou a filo ofia da ciência. Seu objetivo con i te e1n anali ar a
32 fi.11CHEL THIOLLENT

caracterí tica do vário método di ponívei , avaJiar ua capacidade


potencialidade , limitaçõe ou di torçõ e criticar o pre uposto ou a
imp1icaçõe de ua utilização. Ao nível mai aplicado, a metodologia lida -
com a avaliação de técnica de pe qui a e com a geração ou a experimenta-
ção de novo método que remetem ao modo efetivos de captar e proce -
ar informaçõe e re olver diver a categorias de problemas teóricos e prá-
ticas da inve tigação. Além de ser uma disciplina que e tuda os método a '
metodologia é também con iderada como modo de conduzir a pe qui a.
~ te entido, a metodologia pode er '' i ta como conhecimento geral e
-
habilidade que ão nece ário ao pe qui ador para e orientar no proce o
-
de in\'e tigação tomar deci ões oportuna , elecionar conceito , hipótese ,
técnica e dado adequado . O estudo da 1netodologia auxilia o pe quisador
11a aqui ição de ta capacidade . .f\. ociado à prática da pe. qui a. o e tudo da
metodologia exerce uma in1portante função de ordem p dagógica i to é~ a
formação do e tado de e pírito e do hábito corre pendente ao ideaJ da
pe qui a científica.
'
A 1uz do que precede: a pe qui a-ação não é con iderada como m to-
dologia. Trata- ·e de um método. ou de uma e tratégia de pe qui a agr.eft)º~
do vário método ou técnica de pe qui a ocial, com o quais e e tab le-
ce uma e trutura coletiva . participativ·a e ati\,. a ao nÍ\ el da captação de in-
1

formação. _A metodologi a da ciências sociais con idera a .,pe ui a-a ão


como qualquer outro método. lsto quer dizer que ela a toma como objeto
para anali ar ua qualidade , potencialidade , limitaçõe e di torçõe . A
metodologia oferece ub ídio de conhecimento geral para orientar a con-
cepção da pe qui a-ação e controlar o eu u o.
Como e tratégia de pe qui a, a pe qui a-ação pode , er vi ta como
modo de co11ceber e de organi zar uma pe~qui a ocial de finalidade práti ca
e que esteja de acordo com a . e "igência. própria da ação da participação
do atore. da situação b. er\·ada. Ne te proce o, a nietodologia de empê-\
nha um papel de ~bú ... ola'" na ati\:idade do ., pe. qui adore. , e cJarecendo
cada uma da uas deci õe por meio de alguns princípio de cientificidade.
Uma pe qui a concebida e m e e ti po de exigência corre o ri co de e
limitar a uma ~imple reprodução de lugare ·-comun e de encobrir man_puj
laçõe por parte de quem "'fala mai alto,, na ituaçõe ob ervada . O fato
de 1nanter na pe qui a-ação algum tipo de exigência metodológica e cientí-
fica 11ão de\ e . er interp retado como ··cientifici mo'~. · ~po iti\ri n10·' ou
1

··academici. mo'~. E" apenas um elemento de defe a contra a ideologia pa -


ageira e contra a mediocridade do en o comum.
.\1fTODOLOGIA DA PESQLISA-AÇÃO 33

O papel da metodologia con iste também no controle detalhado de


cada técnica auxiliar utilizada na pe qui a. Como já indicamo , a pe quisa-
-ação, defmida corno método (ou como e tratégia de pe qui a), contém di-
ver os métodos ou técnicas particulare em cada fa e ou operação do pro-
ce o de inve tigação. Assim, há técnica para coletar e interpretar dado ,
resolver problemas, organizar açõe etc. A diferença entre método e técnica
reside no fato de que a segunda pos ui em geral um objeti''º muito mais
re trito do que o primeiro. Seja como for, podemos con iderar que, no de-
senvolvimento da pesqui a-ação, o pe qui adore recorrem a n1étodo e
técnica de grupo para lidar com a dimensão coletiva e interati\'a da in\re. -
tigação e também técnica de registro, de processamento e de expo ição de
re ultado . Em certos ca o o convencionais questionário e as técnicas de
entrevi ta individual são utilizado como meio de informação complemen-
tar. Também a documentação disponÍ\·' el é levantada. E1n certos momento
da in\'e tigação recorre- e igualmente a outro tipo de técnicas: diagnó ti-
cos de situação . resolução de problema mapeamento de repre entaçõ~s
etc. Na parte 'informativa'' da in\'e tigação, técnicas didáticas e técnicas de
divulgação ou de comunicação, inclu i\'e audio\'isual também fazem parte '
dos recursos mobilizado para o desen\'Olvimento da pe quisa-ação. Ne se -
quadro geral, o papel da metodologia con i te em ª''aliar as condições de
u o de cada uma das técnicas. As características de cada método ou de cada
t~cnica podem interferir no tipo de interpretação do dado que produzem.
E conhecido em particular, o fato de que as técnica de entre\'Í tas ou ou-
tra técnicas de origem p icológica podem contribuir, quando u ada inade-
quadamente . para '"p icologizar"' a realidade ocial ou cultural ob ervada
(ThioJJent, l 980a).
A preocupação metodológica do pesquisadore permite apontar e -
e ri co e criar condiçõe ati fatórias para uma combinação de técnica
a ro riada ao objetivo da pe q_uisa. Me mo quando a distorções intro-
duzidas pelo u o das técnicas não podem er corrigida , a simple eviden-
ciação metodológica da ua exi tência já con titui um aspecto altamente
po itivo . podendo inclusive ser aproveitado na a\ aliação qualitativa do grau
1

de objetividade alcançado.
Além do controle do método e técnicas o papel da metodologia
1

consiste em orientar o pe qui ador na estrutura da pe qui a: com que tipo


de raciocínio trabalhar? Qual o papel da hipótese ? Como chegar a uma
certeza maior na elaboração do re ultado e interpretaçõe ? E a ão al-
guma que tõe controve11ida que abordaremos agora.
34 ,\ UCHEL THIOLLE\T

4. Formas de raciocínio e argumentação

Numa pe quisa empre é preci o pensar, isto é buscar ou comparar


informaçõe , articular conceito , avaliar ou discutir resultado , elaborar
generalizações etc. Todo es e a pecto constituem uma e trutura de ra-
ciocínio subjacente à pe qui a. Na linha convencional o pesquisadores
valorizam, na estrutura de raciocínio, sobretudo regras l6gico-fo11nai e cri-
tério estatísticos que nem empre re peitam na prática. Na linha alternati-
va as forma de raciocínio são muito mai flexíveis. Ninguém pretende
enquadrá-la em rígida regras formais. No entanto, tai forma de raciocí-
nio não excluem recur o hipotético ~ inferenciai e comprobatório e tam-
bém incorporam componente de tipo di cur ivo ou argumentativo a erem
e\1 idenciado . E e a pecto ão raramente abordado na literatura obre
pe qui a-ação ou pe quisa participante. A no so \'er, ele preci am er ana-
li ado para e chegar a uma clara demarcação, no plano cognitivo, entre
pe quisa con\1encional e pe quisa alternativa. Esta demarcação não deve
ser \.' i ta como oposição entre dois mundos eparados. Os problemas tradi-
cionai do raciocínio (hipóte e , inferências etc.) encontram apenas solu-
çõe diferentes. As oluçõe próprias à pesquisa alternativa merecem er
melhor conhecidas e ampliada , para que ela po sa superar muita da con-
fu ões que lhe ão atribuída .
De,,ido ao seus objetivo e pecíficos e ao seu conteúdo social a pro-
posta de pe quisa-ação e tá muito afa tada das preocupaçõe metodológi-
ca relacionadas com a formalização ou com as que tões de lógica em ge-
ral. Porém algumas questõe ub istem. Parece-nos evidente que a lógica
forma l clá sica~ com ua formulaçõe binárias (\'erdade/falsidade, terceiro
excluído etc.) é de pouca valia para dar conta de conhecimento cuja ca-
racterí tica ão princi paimente informais e obtida em ituação comunica-
tiva (ou interativa). Além di so, entre o partidário da alternativa meto-
dológica há uma ampla condenação da antiga posição egundo a qual tudo
o que não e enquadra na lógica tradicional estaria fora do conhecimento
científico rigoro o, coerente etc.
Hoje em dia, independentemente da 'linha alternativa', exi te uma
pluralidade de lógica e de abordagen argumentativas que dão conta de
raciocínio informais e de uas expressõe em linguagem comum. Noutros
termo , o que antigamente era con iderado como de\.·endo e tar excluído da
c iência por fa1ta de ''co rência ... ou de ' clareza' lógica, hoje em dia é po-
i\iETODOLOGtA DA PESQUISA-AÇAO 35

tencialmente re gatável. A pesqui a não perde a ua legitimidade científica


pelo fato dela e tar em condição de incorporar raciocínio irnpreci o , dia-
lógicos ou argumentativos acerca de problema relevante . Tal incorpora-
-
ção supõe muito mais do que recursos lógicos: a metodologia de\'e incluir
no seu registro o estudo cuidadoso da linguagem em ituação e, com isto, o
pesquisador não precisa temer a que tão da impreci ão. Proce sar a infor-
mação e o conhecimento obtido em ituações interati\,as não constitui, em
si me mo, urna infração contra a ciência social.
Alguns detratores da pe quisa-ação (e da pesquisa participante) - e,
em certos casos, algun de seu partidários - divulgam a ideia segundo a
qual tal orientação de pesquisa não teria lógica, nem estrutura de raciocí-
nio, não haveria hipóteses, inferências, enfim, eria obretudo uma questão
de sentimento ou de vi,,ência. Como já foi ugerido, achamos este ponto de
vista equivocado, sobretudo quando são partidário da "linha alternativa''
que o defendem. Não há pesquisa sem raciocínio. Quando não queremos 1

pensar, raciocinar, conhecer algo sobre o mundo circundante, é melhor não


pretendermos pesquisar. Além disso, quando queremos interferir no mundo
vrecisamos de conceitos, hipóteses, estratégias, comprovações, avaliações
e outros aspectos de uma ati ' 'idade intelectual.
- ,,
E necessário descre\'er alguns a pectos da estrutura de raciocínio sub-
jacente à pe quisa-ação. A dificuldade está no fato de que não e trata de
uma e trutura lógica imple , enquadrável em poucas fórmula conhecidas.
!_al estrutura contém momento de raciocínio de tipo inferencial (não limi-
-
tados às inferências lógica e e tatí tica ) e é moldada por proce o de.........
argumentação ou de ''diálogo'' entre vário interlocutores. O objetivo da
-
análise (ou descrição) de ta estrutura cognitiva não é mero jogo formali ta.
Não se trata de chegar a uma formalização lógica nem a um cálculo de
proposições ou à manipulação de variáveis simbolicamente repre entadas.
O principal objetivo consiste em oferecer ao pesquisador melhore condi-
ções de compreensão, decifração, interpretação, análise e síntese do ' mate-
rial•' qualitativo gerado na situação investigativa. Este "material.' é e en-
-
cialmente feito de lin a em ob for rr1as de sim~les verbalizaçõe , impre:
ca ~2 discursos ou argumentações mais ou menos elaboradas. A signifi-
cação do que ocorre na situação de comunicação estabelecida pela investi-
gação passa pela compreensão e a análi e da linguagem em situação. Um
mínimo de conhecimento ne e etor é nece ário para que o pe qui ador
não caia em ingenuidade . Por exemplo, e de conhece e a natureza di -
36

cur iva do que está endo produzido, o pe quisador poderia não enxergar as
''jogada '' argumentativa do vário parceiro e, finalmente, tomar o que é
dito como imple e fiel expressão da '"realidade'' ou da' 'lerdade''.
No proces o inve tigativo a argumentação se manife ta de modo parti-
cularmente significativo no decorrer das deliberações relati 'las à interpreta-
ção dos fatos, da informações ou das ações dos diferentes atores da situação.
A argumentação, no no so contexto, designa várias formas de racio-
cínio que não se deixam enquadrar na regra da lógica convencional!! que
implicam um relacionamento entre pelo meno dois interlocutores, um de-
les procurando convencer o outro ou reft1tar eus argumer1to . E ta di cu -
ão adquire uma forma de diálogo, que pode er de caráter con trutivo quando
os interlocutore bu cam conjuntamente a oluções. A forma pode tam. .
bém er "'de trutiv·a'' quando houver polêmica" ca o em que um do inter-
locutore pretende de truir o argumentos do outro. De acordo com a teoria
de C. Perelman e L. Olbrecht.. -Tyteca ( 1976) os preces o argumentativo
levam em conta a presença real ou imaginária - de um auditório obre
o qual e exercem influência e cujas reaçõe ão capaze de fortalecer ou
de enfraquecer as po içõe de um ou outro interlocutor a respeito de um
determinado a u nto.
Çomo se sabe, na antiguidade grega o raciocínio próprio à argumen-
,tação era designado pela noção de ''dialética"'. Esta noção tem sido utiliza-
da em outros contexto com definições muito diferentes a partir do século
XIX, marcado pelo hegeliani mo e pelo marxi mo. No seu sentido antigo, a
noção de dialética pe1111itia alientar o caráter crítico do raciocínio articula-
dos em situaçõe de discus ão ou de debate , com vários grau de
polemicidade em torno de questõe contrO\'ertidas.
Do ponto de vista científico tradicional os proce so argumentati\'OS
da linguagem ordinária são repletos de ambiguidade e, logo inutilizá\1eis
como in trumento de raciocínio rigoroso. Apó ter prevalecido durante
\'ário éculo , e se ponto de ' 'ista ten·de a er sub tituído por um outro,
ainda e1n di cu ão ao nível t!lo ófico, egundo o qual a racionalidade da
1

lógica formal é rigoro a, porém não permite dar conta das ·'sutilezas'", ''fun-
çõe ''e '\flutuações'' da interaçõe argumentativas, di cursivas ou dialógicas.
Além do mai . algun filó ofos atuais consideram que a argumenta-
ção e tá presente inclusive na forma uperiores de racionalidade. Segun-
do V. Descombe, as istimo ao ''reconhecimento da natureza argumentati\'ª
1\tETODOLOGIA D.~ PESQUIS.\-AÇÃO 37

do que o filó ofos chamam razão e cujo u o não é evidentemente limitado


às ciência exatas nem às outra ciência , encontra-se tanto na diversa
transaçõe humanas como na deliberação prática~' (De combe, l 984 ).
No contexto_ específico da pesqui a ocial, que consideramo aqui, a
---
noção de argumentação pode chegar a ub tituir a tradicional noção de' de-
-
monstração~'. E ta últt.ma exige um grau maior de formalização ou de
-axiomatização que é muito difícil, raran1ente alcançá\·e) em ciência social
e praticamente impossível em pe quisas de finalidade prática. Embora objeto
......_
de discu são, a noção de demonstração ainda faz entido em matemática~
lógica e ciência- exata na quai o arcabouço matemático é muito de en-
v'olvido. A matematização da ciências ociai ainda é muito precária e
frequentemente não pas a de uma formulação e tatí tica do proces amento
de dado empíricos. a própria interpretação qualitativa do re ultados quan-
titativo empre há aspecto argumentati\'OS (ou deliberati\'O ) para dar sen-
tido ao que e pretende em função de objetivo científico (descrição obje-
tiva, compro\'ação etc.) e, alguma v·eze , extracientífico Uustificar uma
situação, enfraquecer um adversário~ influenciar o ''auditório' '). l:{Q. entan-
to é preci o fazer alguma re sal\•as. Se toda forma de razão é discus ão,
isto não quer dizer que toda a di cu sõe ejam expre ão da razão. Muito
pelo contrário. Dentro da di cu ão que acompanha a pe qui a, a bu ca da
racionalidade deve ser um con tante objetivo dos pe qui adores. o que exi-
ge, como já foi ugerido, um determinado tipo de precauçõe metodológi-
cas e a mi11imização do a pecto extracientífico .
A teoria da argumentação diz respeito ao procedimento ou regra
-
de con tituição do debat · público ·, da deliberaçõe jurídicas e das di -
cussõe em diversos campo de atuação, inclusive o da ciência ociai .. ,
-uando concebidas num quadro não po itivi ta. Segundo C. Perelman e L.
Olbrechts-Tyteca, a teoria da argumentação não se enquadra na lógica for-
mal e se limita ao conhecimento aproximativo. Escrevem ele : '"O domínio
da argumentação é o do vero sirnilbante, do plausível, do provável na me-
dida em que este último e capa à certezas do cálculo'' (Perelman e
Olbrechts-Tyteca, 1976, p. 1). ~~ \rez da e trutura lógico-formal, há na
investigação social o reconhecimento de um proce o argumentativo. Tal
tipo de inve tigação não é do tipo da ciência exatas e abandonou qualquer
\'eleidade de ê-lo. Com i o e procura reconhecer o valor cognoscitivo do
proce o argumentati\'O (ou de1iberativo). Abandonou- e também a ideia
egundo a qual haveria um único tipo de comprovação éria: a comprovação
38 i\11CHEL THIOLLEt\ T

ob ervacional e quantificada da ciência da natureza. Não e pretende fa-


zer previ õe a partir de cálculo numérico . Trata- e apena de previ õe
argumentada , e tabelecendo qualitativamente as condiçõe de êxito da
açõe e avaliando subjetivamente a probabilidade de tal ou qual aconteci-
mento, o gue, de fato , não e tá aquém da no a atual capacidade de anteci-
pação em matéria de as untos ociai .
A abordagem metodológica que é específica ao que designamos pela
noção de pesqui a-ação apresenta muita caracterí tica que ão própria
ao proce so argumentativos. Tai proce sos e encontram explicitamente
na explicação e nas interpretaçõe em ciência ociai e, a no so ver de-
sempenham um claro papel no ca o dos método alternativo em pe qui a
ocia1.
Aplicando alguma noçõ s da per pectiva argumentativa ao ca o par-
ticular da pe qui a-ação, podemo notar que o a pecto argumentativo e
encontram:
a) na colocação do problema a serem e tudados conjuntamente por
1 pe qui adore e participante ·
b) nas explicações' ou '(soluções' apresentadas pelos pesqui adore
e que ão submetidas à discussão entre os participante ;
e) na 'deliberações'' relativas à escolha dos meios de ação a serem
implementados~

d) nas 'avaliaçõe . , dos re ultados da pesqui a e da corre pondente


~ção desencadeada.

Ob ervamo que no decorrer do proces o de inve tigação _o ___


argumentativo pre ente nas formas de raciocínio, ão articulado princi-
-
paimente em ituaçõe de di cu ão ou de "~diálogo' ) entre pe qui adores
e participante . Q!scu ão é diferente de debate poi esta última noção
remete a ituações na quai o intedocutore defendem po içõe geral-
rpente incompatívei . oca o da discussão, os pesqui adores e participan-
te efetivo e tabelecem uma 'comunidade de espíritos'' ou um ''vínculo
intelectual' . No entant , i to não exclui que de vez em quando haja tam-
bém elemento de polêmica. Além disso, a 'comunidade de e pírito '' não
preci a er de natureza religiosa. Não se trata de fazer os participantes ade-
rirem a dogmas pree tabelecido como no ca o da atividade de grupo re-
,
ligio o ou de grupú culo político ectário . E apena uma que tão de e
METODOLOG:\ DA PESQUISA-AÇ.~O 39

chegar ao consen o acerca da de crição de uma ituação e a uma conv icção


a respeito do modo de agir.
Todo recesso argumenta ·~'o_ supõe a exi tência de um auditório no
entido real e figurado. No caso do proce so argumentati''º operando
no contexto da pesquisa-ação podemos imaginar a presença de um auditó-
rio estruturado em \1ário nívei :
a) o ''auditório'· efeti\lO con tituído pe1os grupo de participante exer-
cendo um papel ati''º no diver o tipo de entinário de pe qui a
) ou a embleias de di cu ão de re ultado ;
b) o conjunto da população no qual a pe qui a é organizada e para o
qual é dirigida uma érie de informações por intermédio de di\··er-
os meio de con1unicação formal e informal·
e) o diferente setore ociai (ligado ao poder ou não) que não
são diretamente incluído , no campo de pe qui a, ma obre o
quai o re ultado da pesqui a podem exercer alguma forma de
influência;
d) etores acadêmicos interessado na pesquisa ocial e uscetíveis
de dar palpite fa,,.orávei ou desfavorá,rei acerca do pe quisado-
re e do re ultado de ua ati\ridade . Entre o po ívei efeito
que a pe quisa-ação pode exercer obre o ""auditório'' acadêmico
há todo um leque de atitude po Í\,, ei : reforçar o de prezo, abrir a
di cu ão . iniciar revi õe no padrõe metodológico etc.

No proce o argumentativo, ao le'larem em con ideração a pre ença


4
de um ou outro dos vário ~ auditório .... , o interlocutore não e tão nece a-
riamente procurando efeito vi ando a ua ati fação própria. Na argumen-
tação podemo encontrar tática de luta, manipulações de sentido, detur-
paçõe etc. O _pesqui adqr não aceita qualquer argumento na elaboração
das interpretações. Em particular, ele tem ue criticar o argumento con-
trário ao ideal científico (parei ·dade engano etc.) e promo 'e.L aquel
gue fortalecem a objetividade e a racionalidade do raciocínio .. embora
com flexibilidade.
Veremo nos próximo iten que exi tem aspecto argumentativos em
vário momentos importante do raciocínio ubjacente à pe qui a em par-
ticular quando e trata de lançar uma hipóte e fazer uma inferência, com-
provar um re u1tado ou enunciar uma generalização.
l\~ICHEL THIOLLENT

5. Hipóteses e comprovação
M_uitos ~utores consideram que na pesquisa-ação, não se aplica o
tradicional esquema: fo1111ulação de hipóteses/coleta de dado /comQrova:.._
ção (ou refutação) de hipóteses. E te e quema não seria aplicá\rel nas situa-
ções sociais de caráter emergente, com aspectos de conscientização, apren-
dizagem~ afetividade, criatividade etc. (Liu, s/d.). A pesquisa-ação seria um
procedimento diferente, capaz de explorar as situações e problemas para os
quais é difícil, enão impossível., formular hipóteses prévias e relacionadas
com um pequeno número de variá\'ei precisas, i olávei e quantificáveis.
,,.
E o ca o da pe quisa implicando interação de grupo sociai no qual se
manife tam muita ''ariávei impreci a dentro de um contexto em perma-
nente mo,. imento.
Seja como for podemo considerar que a pe quisa-ação opera a partir
de determinada instruções (ou diretrize ) relati\ras ao modo de encarar o
problema identificado na situação inve tigada e relati"'ª ao modo de
aç_ão. E a instruçõe pos uem um caráter bem menos rígido do que as
hipótese , porém desempenham uma função emelhante. Com o resulta-1
do da pe quisa, essas instruções podem sair fortalecidas ou. ca o contrá-
rio. devem er alteradas, abandonadas ou ubstituídas por outras. A nosso
-
---
\ er a ub tituição das hipótese por diretrizes não implica que a forma de
1

raciocínio hipotética seja di pensá\·· el no decorrer da pe qui a. Trata-se de


definir problema de conhecimento ou de ação cuja po ívei oluçõe .
num primeiro moment - con id radas como p si õe (qua e-hipóte-
e ) e, num egundo momento objeto de verificação, di criminação e cotn-
provação em função das ituações con taradas.
O padrão convencional de pe qui a ocial empírica adota, em geral 1

um e quema hipotético baseado em compro\1ação e tatí tica frequentemen-


te a ociado ao experimentali mo. E ta concepção tem seu n1érito e eus
defeito . Ma o que importa é alientarmo que e te esquema não é o único
po ível. sobretudo no contexto impreciso da pesquisa social. Sem abando-
-
narmo o racio ínio hipotético parece-no perfeitamente cabí,1el a formula-
ção de qua e-hipóte e dentro de um quadro de referência diferente e prin-
cipalmente qualitativo e argum ntativo.
O experimentalismo, ao qual pertence o esquema hipotético sob for-
ma quantitativa, pode er vi to como uma filo ofia da pesquisa de laborató-
rio de acordo com a qual o p quisador testa cada hipóte e e altera certa
fi.~ETODOLOGfA DA PESQU ISA-:\Ç~O 41

variávei para conhecer o efeito de alguma dela obre a outras. Ne ta


concepção, o experimento é válido quando ua repetição reproduz empre
os mesmos re ultados, independentemente do experimentador o que eria
condição do e tabelecimento de regularidades, lei e finalmente; teoria
comprovadas.
Ao nível epistemológico, os crítico do experimentali mo em ciên-
cias humana con ideram que e trata de uma inadequada transposição das
exigências das ciências da natureza (ciência experimentai ). Além disso a
relação entre a ''aiiá·vei é geralmente concebida de modo cau al e meca-
nici ta~ o que é fortemente criticado, inclu i\i'e em amplos etore das ciên-
cias da natureza. No caso particular da pesqui a social (e também p ico so-
cial), os fenômeno não pos uem o caráter de perfeita repeti ti \'idade, como
no ca o de fato mecânicos, e além do mais o papel do pe qui ador nunca é
neutro dentro do campo obsen"ado. Uma outra crítica frequentemente apre-
sentada consiste no argumento relati''º à impossibilidade de isolar~ no ex-
perimento ou no local de ob ervação ocial, os fatores intervenientes que
dependem do contexto ocial ou histórico. O conhecimento gerado ne sas
condiçõe teria então o aspecto de artefato (representação muito distorcida
pelas própria condiçõe da pesqui a).
Um outro aspecto negativo do e quema hipotético a ociado ao expe-
rimentalismo - particularmente en ível em ciência humana - e tá no
fato de que ao procurar as informaçõe neces ária à verificação das hipó-
tese o pe qui ador é frequentemente induzido a distorçõe quanto à ob er-
't

vação do fato e à eleção da infonnações pertinentes. 1 to foi ba tante


anali ado no contexto da pe qui a em p icologia ocial por R. Rosenthal e
R. Ro no\v ( 1981 ), que anali aram a inte1ferência da expectativas do pe -
qui adores sobre os re ultado da pe quisa e também a interferência do
pesquisados em função das expectativa que eles têm para com os pe quisa-
dore . Além do que precede, na crítica ao experimentali mo há igualmente
que tionamentos relacionado com o caráter a-ético de certo experimento
de laboratório (Ro no\v, 1981 ~ p. 55-72).
Na maioria das pe quisa sociais direcionadas em função de uma con ~
-
cepção experimentalista, os pesq11isadores não recorrem a experimentos de
li}boratório. A pesqujsa convencional abrange populaçõe reais, obretudo
por meio de um plano de amo tragem a partir do qual ão e colhida a
pes oas a erem interrogada . Oi olamento das variávei e a irnulação da
variação de a1guma dela ão efetuado por meio de análi e e tatí tica da
42 ,\tlCHEL THIOLLENT

re po tas coletada . Dentro da concepção experimentali ta, a hipóte e é


obretudo con iderada como upo ição relacionando \rariáveis quantitati-
vas a erem ubmetida a te te e tatí ticos.
Ma é exagero querer submeter a testes estatístico toda a hipóte-
es. Isto corresponde a uma visão re tritiva, pois na área de ciência sociais
(e humanas) nem todas a variáveis consideradas são quantificáveis. Fre-
quentemente a quantificação artificial por meio de escalas de certos a pec-
to (atitude , por exemplo) nada acrescenta ao que se pode pretender em
termo de compro\1ação.
O fato de que toda as hipóte es não precisam er testada estati tica-
- -
mente é amplamente reconhecido por diver os autore , até me mo no con-
texto da pe qui a de padrão clá ico. Por exemplo C. M. Ca tro con idera
que: ' O te te de hipóte e é uma maneira formal e elegante de mo trar a
confiança que pode ser atribuída a certas proposições. Se e a confian a
pode er medida e estabelecida . é injustificá\'el a omissão do te te. Ma ,
quando a natureza dos dados ou do problema não nos perntite avaliar for-
malmente a confiança, não há de douro para a ciência ou para o in\1estigador
em dizer apenas isso em eu relatório de pesqui a ' (Castro, 1977, p. 104 ).
Podemo também considerar que a redução de todos os tipos de hipó-
te es ao tipo de hipótese estatí tica constitui um equívoco relacionado com
o predomínio dos métodos quantitativos. Mas em si não se justifica. Os
próprio estatísticos profissionais reconhecem que se deve manter uma dis-
tinção entre 'hipótese científica' e Hhipótese estatística'':

"' ma rupóte e científica é uma ugestão de olução a um problema e con -


titui um tateio i_nteligente ba eado em uma ampla informação e em uma
educação e truturada ubjacente. ( ... ) A formulação de uma boa hipóte e
científica é um ato realmente criati\'O. Por outro lado, a hipóte e estalí tica
,,
não é enão um enunciado a re peito de um parâmetro de conhecido. (... ) E
de uma importância di tinguir a hipótese científica da e tatística, já que é
muito factí"·el provar ou contrapor hipóteses estatísticas muito reduzidas e
em a menor relevância científica" (Gla s e Stanley, 1974 p. 273). I

Após es a con ideraçõe , parece-nos mais claro que o raciocínio hi-


potético não deveria er confundido com os excessos da visão experimenta-
1i ta e quantitativi ta que é muito difundida entre pesquisadores de orienta-
ção tradicional. Pensamo que é perfeitamente viável a flexibilização do
~',ETODOLOGI.'\ DA PESQUISA-AÇAO 43

raciocíruo hipotético de acordo com a qua1 a hipóte e é uma supo ição


-criativa que é capaz de nortear a pe qui a inclu ive no seu a pectos qua-
-
litativos. As hipóteses (ou diretrize ) qualitativas orientam, em particular, a
busca de info1111ação pertinente e a argymentaçõe nece árias para au-
mentar (ou diminuir) o grau de certeza que podemo atribuir a elas. Isto não
quer dizer que devamos cair no excesso oposto: exi tem hipóteses acerca de
variáveis quantitativas a erem ubmetidas a testes estatí ticos quando for
julgado necessário.
-
A formulação de hipóteses (ou de qua e-hipóteses) permite ao pes-
quisador organizar o raciocínio estabelecendo ''ponte ' entre as ideia ge-
rais e a comprovações por meio de obser"'ação concreta. Sob forma ''sua-
ve,,, na concepção a1temativa da pesquisa social a mpóte e é também um
elemento na pauta das discu ões entre pesqui adore e outros participan-
tes. Apesar das aproximaçõe ou das impreci ões a hipótese qualitativa
permite orientar o esforço de quen1 estiver pesquisando na direção de even-
r
tuais elementos de prova que, mesmo quando não for definitiva, pelo men~
permitirá desenvolver a pesquisa. Com a hipótese e os meios colocados à
disposição do pesquisador para refutá-la ou corroborá-la, a produção do
discurso gerada pela pe quisa não perde o contato com a realidade e faz
progredir o conhecimento.
Até mesmo quando se trata de dado pouco 'transparentes", a busca de
prova é neces ária. Uma prO\'ª não preci a er ab olutamente rigorosa. No
no o campo de estudo muita veze basta uma boa refutação ,.·erbal ou uma
boa argumentação favorável que leve em conta te temunha e informações
empírica e pe111J.ita que o participante (ou o ' auditório ' de maior abran-
gênc}a) compartilhem uma noção de suficiente objetividade, convicção e jus-
teza. O espírito de prova exige que todas as informações colhidas ejam pas-
sadas pelo crivo da crítica dos pesquisadores e outros participantes dos semi-
nário
. de pesquisa. Em particular, é necessário ficarmos atentos às informa-
ções do tipo ''rumores'', geradas a partir de fontes ocultas, e a todos os tipos
de distorções que se manifestam na percepção da realidade exterior, nos
,,
envolvimentos emocionais ou outros. E necessário que o contexto de capta-
ção de cada informação seja perfeitamente identificado e que a con tatação
dos fatos controvertidos eja controlada por vários pesquisadores.
O fato de recorrer a procedimentos argumentativo leva o pesqui a-
dor a privilegiar a aJ?reen ão qualitativa. a devemo alientar que i to
não significa que o método e dados quantitativos e tejam de cartado ,
\~ICHEL THIOLLENT

poi em muita argumentaçõe o 'pe o'· ou a freq uência de um aconteci-


mento é levado em con ideração como meio de fortal cer ou de enfraqu -
cer um argumento. Além dis o, e o deliberante ignora em tudo do a -
pecto quantitati\'O implicado num determinado problema real, ua argu-
mentação eria provavelmente inadequada o u ·descontrolada . Em conclu-
ão a ê nfa e dada ao procedimento argumentativo não exclui o proce-
dimentos quantitati,;o . Este ão nece ário para o "balizamento'' do pro-
blema ou da oluçõe . O que é de cartado é a preten ão ·'quantitativi ta·
que algun pe qui adore têm de ''re ol'v·e r' todas a que tõe metodológi-
ca da pe qui a exclu ivamente por meio de mediçõe e número .

6. Inferências e generalização

Na pe qui a ocial mpre é metodologicamente problemática a pa -


sagem entre o nível local e o nível global. No primeiro ão reali zada a
ob ervaçõe de unidade particulares: indivíduos, grupos re tritos locai
de moradia. trabalho ou lazer etc. No egundo ão apreendido fenômeno
abrangendo toda a sociedade ou um amplo etor de ati\'Ídade , um movi-
mento de ela e, o funcionamento das in tituições etc. O problema da rela-
ção envolve a pecto quantitativos e qualitativo . o plano quantitativo, é
po sível tratá-lo com o c1á ico recur os e tatí ticos: técnicas de amo tra-
gem e inferência controlada com a quai a ob ervaçõe obtida na
amostra" ão generali zada ao nÍ\.'el do univer o global . con iderando mar-
gens de confiabilidade.
De modo geral a inferência é con iderada como pa o de raciocínio
po uindo qualidade lógica e meio de controle. No ca o da generalização ..
a inferência é obretudo tratada como problema estatí tico e pressupõe un1a
quantificação da variávei ob en radas. A inferências e tatí ticas ão con-
trolada pelo pe qui adore por n1eio de te te apropriados (Miller, 1977).
Tai inferê ncia por nece ária que ejam, dão lugar ao n1esmo tipo de di -
cu ão evocada anteriorm nte no que dizia re peito aos te te de hipóte e .

~
Noutra palavra pod mo con iderar que a concepção e tatí tica da
inferência não e gota t da a complexidade qualitati''ª da inferência no
contexto particular da pe qui a ocial.
A inferênc ia con tituem pa o do raciocínio na direção da genera-
lização. I to corre p nde à indução. E i te também infe rência em direção
/\~ETODOLOCIA DA PESQLJISA-AÇAO 45

opo ta: pas agem de proposiçõe gerai a propo ições relativas a ca o par-
ticulare . Antes de serem problema d e tatí tica, a inferência são tema
de lógica. O seu controle remete ao conhecimento de algumas regras de...
lógica elementar.
Na pe qui a social ocorre que muita expre õe anali ada no con-
texto de sua geração, e que muitos dos raciocínio que o pe quisadores
efetuam a partir delas, não se prestam facilmente a formalização e ao con-
trole lógico. Corno visto anteriormente, há sempre um grande espaço re er-
\'ado ao raciocínios informai , aproximativo argumentativos etc. O lei-
go como também os cienti tas, no eus raciocínio cotidianos recorrem
a inferência generalizantes ou particulaiizantes sem rigor lógico: ão infe-
rência formuladas em linguagem comum. Exemplo de forma generalizan-
te: "Cada vez que i to acontece a situação e deteriora''. Exemplo de forma
particularizante: ''Já que a situação econômica vai melhorar. a no sa condi-
ção vai também melhorar''. Essas inferências não estabelecem nece saria-
mente a verdade. Os passos de raciocínio operados por ela pressupõem um
dete1111inado contexto social. uma ideologia ou uma tradição cultural. Muitas
inferências são baseadas no senso comum e, algumas delas, no chamado ''bom
en o'', considerado por Antônio Grarnsci como núcleo racional da sabedoria

-
popular (Gramsci, 1959, p. 47 ss.). As inferências em linguagem comum ão
-
controláveis ou compreendida em função do contexto ociocultural no qual
e1as são proferida . Muita veze , para a entendermos isto é . reconhecer-
mo eu fundo de racionalidade (ou de irracionalidade), preci amo explici-
tar eu pre upo to ou fazer que o interlocutor o explicite.
No contexto qualitativo da pe qui a ocial, o problema da generaliza-
ção é ituado em dois nívei : o do pesquisadores quando estabelecem ge-
neralizaçõe mais ou menos abstrata (ou teóricas) acerca das característi-
ca da situações ou comportamento ob er\rados; e o dos participantes que 1
1
generalizam, em geral com meno ab trações e a partir de noções que lhes
são familiares. -
Mesmo em situação de pesquisa na qual participam conjuntamente o
pesqui adore e os membro de urna população observada os •
pesquisado-
res devem ficar atentos em não confundir as inferência efetuadas por eles e
as inferências efetuada pelo outro participante . Os pe quisadores de-
vem identificar as generalizaçõe populare e cotejá-las com a generaliza-
çõe teórica . A comparação dos doi tipo de raciocínio constitui uma im-
46 i\UCHEL THIOLL[t\ T

portante fonte de infor111ação para e aber até que ponto exi te uma real
intercompreensão, a pos ibilidade de diálogo e de tran formações no mo-
do de pensar acerca de deter11unados problemas.
Além di o, a partir desta orientação é possível avaliar diver o graus
'
de aproximação ou de adequação dos conhecimentos em questão. A vezes
o bom senso popular está mai próximo do que se pode chamar de verdade,
em tec111os realistas. Noutros casos, há nas generalizações populares exage-
ro , unilateralidade, ou erro cometidos em função do predomínio de uma
ideologia ou de crenças particulares. Mas isto não quer dizer que a genera-
lizaçõe do pe quisadores ejam empre de melhor qualidade. Alguma
,,.eze o pe qui adores ''e pontaneí ta ' 6 reproduzem ingenuamente a
generalizaçõe populare . Outro meno empiri ta , a reproduzem com
um jargão mai ofisticado, em e tarem em condição . no entanto, de con-
trolar o de vio . A no a per pecti''ª exige um controle mútuo e tabeleci-
do de forma dialógica a partir da di cu são entre pesquisadores e partici-
pante . Nesse diálogo os pesquisadores trazem o que sabem, isto é, o co-
nhecimento de diver os elementos de teoria ou de experiências anterior-
,mente adquiridas.
As inferências generalizantes e particularizantes que são efetuada
pelos pe quisadores são objeto de controle metodológico. De acordo com o
que já discutimos acerca do pape] da metodologia, os pesqui adore não
podem aceitar qualquer tipo de raciocínio ao nível da explicação ou da
interpretação dos fatos. Independentemente das exigência e tatí tica e ló-
gicas que podem er aplicada nos caso de uma quantificação ou de uma
'
formalização do conhecimento, os pesqui adore aplicam outros tipos de
exigência no que diz re peito ao a pecto qualitativos da inferências.
-
Urna primeira exigência de a ordem consiste em identificar o defeito da
generalização, em particular aquele que consistem em, a partir de pouca
infor111açõe locais, tirar conclusõe para o conjunto da população ou do
univer o. Em muita pe qui a feita localmente, como no ca o da pesqui-
a-ação: é po ível até renunciar a generalizaçõe superiore à situação efe-
tÍ\'amente inve tigada. No entanto, uma generalização pode er progre si-
' 'amente elaborada a partir da di cu ão dos resultados de várias pesquisas
~

organizada em locai ou situações diferentes.


lUma segunda exigênc\a consiste em identificar as forma ideológicas
que interferem na generalização. Não e trata de pretender pe qui ar em
nenhuma ideologia. Ma os pe qui adores deveriam e tarem condiçõe de.. /
1\1ETODOLOCL~ DA PESQUI A-AÇAO 47

estabelecer ua generalizaçõe com ba e em teorias explicitada e utiliza-


das dentro de um proce so de raciocínio no qual a informação concreta
fosse realmente tomada em consideração. Quando a interferência ideológi-
-
ca é exce siva os dados obtidos na investigação ão em \ aJor. Seja qual for
1

-a sua variabilidade, es es dados são encaixado em categorias e generaliza-


-
...ções que em i mesmas, podem ser discur ivamente pronunciada indepen-
dentemente de qualquer ob ervação.
- '
Defeitos emelhante devern er objeto de controle no que diz respei-1
to à particularização, em particular na passagem das ideias ou conceito
gerai ao indicadore que ão levado em con ideração na ob ervação do
campo empírico. ____.,,.-

7. Conhecimento e ação

A relação entre conhecimento e ação está no centro da problemática


-
metodológica da pesquisa social voltada para a ação coleti'.-ra. Em si pró-
pria, esta relação con titui um tema filosófico que foi desen\l'Olvido de di-
versas maneira por várias tendências filosóficas. Mas, ao nosso conhecer,
raramente foi tratado como tal ao nível da metodologia de pesquisa social.
Apresentaremos aqui apenas algumas observações introdutórias.
A relação entre conhecimento e ação existe tanto no campo do agir
(ação social política juridica, moral etc.) quanto no campo do fazer (ação
técnica). Entre a fo1111as de raciocínio exi tem analogia (e também dife-
rença ) entre a estrutura do ' conhecer para agir', e do 'conhecer para
fazer". O problema da relação entre conhecimento e ação pode ser aborda-
do no contexto das ciências sociai e também no da tecnologia (Thiollent,
1984b1 p. 517-44). Aqui só o abordaremos no primeiro.
A relação entre pesquisa social e ação consiste em obter informações
1
e conhecimentos selecionados em função de uma determinada ação de 9:-
ráter social. A passagem do conhecer ao agir se reflete na estrutura do ra-
-
ciocínio, em particular em matéria de transformação de proposiçõe
...
indicativas ou descriti\1 as (por exemplo: 'a situação está assim ... '') em pro-
posições normativas ou imperativas (''temos que fazer i to ou aquilo para
alterar a ituação''). Isto supõe que seja estabelecido algum tipo de relacio-
namento entre a de crição de fato e norma de ação dirigida em função de
uma ação sobre esses fato , ou de uma tran formação dos mesmo .
48 ,\tlC~EL THIOLLE~ T

,
E claro que a norma geralmente não ão gerada na própria ituação
empírica da pe qui a. Pertenc m a ideologia , per pecti va política ou
culturai aos movimento ociai ou ao funcionamento da in tituiçõe . O
raciocínio con i te em aplicar es as norma do plano geral, no qual e apre-
sentam, no plano concreto do fato ob ob ervação ubmetido a tran for-
maçõe . Todavia, a pa agem da propo ição de fato para a propo ição nor-
rnati va não oferece garantia lógico-formal (Blanché, 1973, p. 211), poi
não é a de crição do fato que determina o tipo de transfor1nação que lhe
erá aplicado. Sempre intervém um i tema normativo. com a pecto ideo-
lógico político , jurídico etc. que é ubjacente ao trabalho que con i te
em reunir pe qui a e ação. ão e trata de lamentar o en ol,,imento da
metodologia de pe qui a ocial com um i tema normati\ 0 . ó ba ta e tarmo
1

ciente da . ua implicaçõe . Deontologicamente o pe qui adore avalian1 !


a condiçõe ética do funcionamento da pe qui a e de ua finalidade
prática . Em certo ca o o pe qui adore podem er obrigado a imp dir a
realização de certas pe qui a ou de certo tipos de aproveitamentos de
eus re ultado ao ní,rel da ação. -
Na relação entre obtenção de conhecimento e direcionamento da ação
há espaço para um de dobramento do contro]e metodológico em controle
ético. O pe qui adores di cutem avaliam e retificam o envolvimento nor-
mativo da in\1e tigação e sua propo tas de ação decon·ente . Frequente-
mente, na relação entre de crição e no1111a de ação, o ponto de par1ida não é
a de crição objetiva e im a exigência a ociada a norma. 1 to é metodo-
logicamente condená"'el. Em função de uma norma de ação preexi tente
in tituída ou não o pe qui ador pode er levado a de crever o fato de um
modo favorá\1el à con equências prática corre pondente à exigência
daquela norma. Trata- e de um efeito de -'contaminação'' da norma de --
ação obre a ob er''ª ão ou a de crição. Não abemo e é po Í\'el neutra-
lizar e e efeito. Seja como for esta fonte de distorção deve ficar ob con-
trole do pe qui adore , do ponto de vista metodológico e ético.
( o que precede, ent ndemo por norma de ação in tituída uma nor-
ma que já faz parte do código explícito de uma in tituição. A norma de ação
é não in tituída quando e r fi r a um movimento social ou a uma ati\ idade 1

informal. A no11na d uma a ão informal pode e ,t ar relacionada com o


objetivo de modificar a nor111a do padrão de ação in tituída.)
,,.
E frequent m nt di cutida a real contribuição da pe qui a-ação em
termo de conhecim nto. a prática, nem t da as pe qui a -ação chegam
-
,\1ETODOLOGIA DA PESQUISA-AÇÃO 49

a contribuir para a produção de conhecimento novo . Aliá ejam quais


forem suas orientaçõe , nem todas a pe qui a particulare podem ter e sa
pretensão. Entre outras, muitas pesqui a de opinião e ]imitam a oferecer
uma ''fotografia'' numérica do que todo mundo já sabia.
Entre os objeti\ 0 de conhecimento potencialmente alcançáveis em
1

esqui a-ação temos:


a) A coleta de informação original acerca de situaçõe ou de atore
em movimento. /
b) A concretização de conhecimento teóricos, obtida de modo dialo-
gado na relação entre pesquisadores e membros repre entativos
da ituações ou problema investigados. ~
c) A comparação da representações próprias aos vários interlocuto-
res, com aspecto de cotejo entre saber formal e aber informal acerca
da resolução de diver as categorias de problemas. \ /
d) A produção de guias ou de regras práticas para resol\J·er os proble-
mas e planejar as correspondentes ações. ""'v
e) Os ensinamentos positivos ou negati \ 'OS quanto à conduta da ação
e suas condições de êxito. J
f) Pos íveis generalizaçõe e tabelecidas a partir de ' 'árias pe qui-
sas emelhante e com o aprimoramento da experiência dos pes-
quisadores. v

8. Oalcance das transformações


Com a pe qui a-ação pretende-se alcançar realizações, ações_efeti-
v·as, transformações ou I!!.~an as no campo social. Alguns autores tê~
mostrado toda a imprecisão e as ambi_guidade~~s-as expressoes. Segundo
J. Ezpeleta ( 1984), ~ !loção de "'transformação da realidade,' e indiscrim~
nadamente utilizada por partidários da pesqui a participante ou da _pesqui-
a-ação para designarem fat9s muitos diver os: modificaç__ão de comporta-
mento gru2al rno_illficação de hábitos alimentares fenômenos cogno citi-
vo de sujeitos individuai etc. A noção de ''transformação' é frequente-
mente assimilada à de ''mudança ocial''. Além di o, há uma confu ão

-
frequente entre ''cate_gorias e truturai '' ( i tema o · is ela e etc.) e
-
categ_orias relativa a ituaç_ões particulare .
50 f.tUCHEL THIOLLENT

A nos o ver, este tipo de crítica é procedente. Na literatura di ponível


-.
obre pe qui a-ação exi tem confu õe relacionada com a imprecisão da
1inguagem, que mesclam a de crição dos efeitos ao nível da sociedade como
um todo com a do efeito ao nível intermediário (instituições) e com a do
efeito ao nível do comportamento de pequenos grupo ou de indivíduQ_ .j
A não defirução das transformaçõe pe1111ite ocultar o real alcance da pe -
1

qui a-ação, frequentemente limitada aos efeitos sobre pequenos grupos, e


alimentar ilu õe sobre a transformação geral da sociedade em entidos,
modemizador ou re\rolucionário.
Na definição do real alcance da propo ta transformadora a ociada à
pe quj a é nece ário e clarecer cuidado amenle a po ívei interrelaçõ
-
entre o trê nívei : grupo e indivíduo in tituiçõe intermediária , ocie-
~

dade global. E reci o deixar de manter ilu õ acerca de tran formaçõ


da ociedade global quando e trata de um trabalho localizado ao nível de
grupo de pequena dimen ão, obretudo quando são grupo de prO\.'ido de
poder. Além di o, já que se trata de transfor111ar algo, é preciso ter uma
vi ão dinâmica acerca do desenvolvimento da pe quisa no qual devem estar
pre ente con iderações e tratégica e táticas para saber como alcançar o
objetivos, superar ou contornar o obstáculo , neutralizar as reações adver-1
sas etc.
A ue tão_9a ação transfarmadora deve er. colocada desde o início da
pesquisa em tennos realistas. V ária situaçõe podem er distinguidas:
-
a) Quando os participantes possuem uma clara ideia dos objetivos e da
ação neces ária, o papel do pesqui adores con i te e encialmente
em a e sorar a decisõe corre pondentes ao que for factível na
melhores condições e extrair da prática diver o ensinamentos.
b) Quando e trata de uma ação de tipo técnico (autocon trução pro-
-
dução de um jornal, u o de uma técnica agrícola etc.), a ação é
definida em função do meio técnicos e econômicos nece sários,
.
em função do aber próprio dos u uários e do contexto ocial.
-c) Quando e trata de uma ação de caráter cultural, educacional ou l
-
político o pe quisadores e participantes de\1em estar em condi-
ção de fazer uma avaliação reali ta dos objetivos e dos efeitos e
não ficarem ati feito ao nível das declaraçõe de intenção (como
muita veze ocorre). O de enro1ar e a avaliação de uma ação cul-
tural ão talvez mai difu o e meno evidente do que no caso de
ato técnico bem definido .
,\1ETODOLOGIA DA PESQL'l~.\-AÇÃO 51

Em matéria de conscientização e de comunicação, as transformações


se difundem através do discurso, da denúncia, do debate ou da discussão. O
que é transformado são as representações acerca das situações em que atuam
os interessados e os seus sentimentos de hostilidade ou de solidariedade.
- -
Devemos deixar bem claro que quando se consegue mudar algo den-
tro das delimitações de um campo de atuação de algumas dezenas ou ceate;;-
nas de pessoas, tais mudanças são necessariamente limitadas pela perma
.._ ---r
nência do sistema social como um todo, ou da situação geral. O sis ema
social nunca é alterado duravelmente por pequenas modificações ocorren-
do na consciência de algumas dezenas ou centenas de pes oas. Não de\i·e
haver confusão a respeito do real alcance da pesquisa-ação quando é apli-
cada em campos de pequena ou média dimensão. - ~
A justa apreciação do alcance das transformações associadas à pes-
____...,.- - ~

quisa-ação não passa por critérios únicos. Cãaa situação é diferente das
outras. Quando as ações adquirem uma dimensão objetiva de fácil identifi-
cação (por exemplo: produção, manifestação coletiva etc.), os resultados
podem ser avaliados em termos tangí\1eis: quantidade produzida, número
de pessoas mobilizadas etc. A ação é acoplada à esfera dos fatores subjeti-
vos e, portanto, faz-se mister distinguir vários graus na tomada de cons-
ciência. De acordo com Paulo Freire, pelo menos duas no ões devem ser
distinguidas: tomada de consciência e conscientização. A primeira tem um
alcance mais limitado do que a segunda. A tomada de consciência é fre-
~

quentemente limitada a uma ''aproximação espontânea", sem caráter críti-


co. A conscientização upõe um desen\ olvimento crítico da tomada de cons-
1

ciênci~ permite desvelar a realidade, incide ao nível do conhecimento numa.


postura epistemológica definida e contém até elementos .de utopia (Freire,
1980 e 1982). Todos esses aspectos merecem uma ava1iação concreta.

9. Função política e valores

A função política da pesquisa-ação é intimamente relacionada com o


tipo de ação proposta e os atores considerados. A investigação está
valorativamente inserida numa política de transfo1111ação.
Podemos definir vários aspectos da função política, dependendo d9
- - -
grau de organização e de autonomia dos grupos participantes. Quando o
-
grupo o u· uma ampla autQ!!omia na conduta_de suas ações, a pesquisa
52 ~11( 1 IEL THIOLLE T

exerce a função de fortalecê-la. A produção de infor1r1a ão e a aplicação do


conhecimento ão orientada para i o. Um outro aspecto da função polí~
ca con i te em e treitar as relaçõe que exi tem entre a organização e sua\
ba e por meio do procedimento participativos, agregando o maior núme-
ro po Í\'el de eus membros na elucidação dos problen1as e das propo tas .
de ação. Há também uma função de elucidação estratégica e tática na reÍa-'
,ção do ator com eus adversários." c~ncorrentes ou aliados, incluindo a q~esj
tão da fixação de meta e das pnondades nos pla,nos de ação. Nes e a pe'D
to. a pe qui a visa eliminar o ' subjetivismo' dos líderes e certas forma de
conhecimento inapropriado, por exemplo, a forma livre ca. Outro a pec-
to da função política ão mai diretamente a ociado ao tema da con -
cientização daquele que participam na pe qui a e o conjunto do outros
para o quai ão divulgado o r u ltados. A di vulgaçâo rec rre a todo o
canai formai ou informai que po am er apro,reitado em campanha · de
explicação e . em certo caso . de propaganda.
Quando o grau de autonomia do grupo intere ado é fraco e, em
particular, quando se trata de uma pesquisa em situação ·m arcada por uma
polarização entre dirigente e dirigidos (como no caso de muita pe quisas1
em organização), o con enso é empre difícil precário e frequentemente
impo ível. Numa concepção democrática da pesquisa social é necessário
que haja negociação de ambas as parte para se estabelecer um tipo de
·'contrato'' de inve ligação acerca do prob1emas a serem levantado e dos
critérios de seleção das soluçõe e açõe a erem implementada . O pes-
qui adores estão lidando com o problema de a\1 aliar o que ele e tão pro-
pondo e as implicaçõe ao nível do \ralore . Vale a pena e clarecer o con-
teúdo da proposta em termo de reprodução ou de tran for111ação da itua-
ção con iderada e de conqui ta de maior autonomia ao nível da partes
ubalterna .
Partindo do que precede~ podemo apresentar alguma indagações
obre a que tão do valore operando na conduta da pe qui a. Toda e traté-
gia de pesqui a po ui algun critério de orientação valorativa. A pe qui-
a-ação não é exceção. A moralidade de uma pe quisa-ação depende sobre-
tudo da moralidade da ação con iderada e dos meios de in\l'e tigação mobi-
lizado . Em geral o agente ociai cuja práticas são marcadas de imora-
lidade (corrupção por exemplo) não precisam de pesquisa-ação. E ta é as-
sociada a escolhas valorativa tai como o reconhecimento de cau a popu-
lares, a prática da democracia ao nível local a bu ca de autonomia, a nega-
~t ETODOLOGIA DA PESQLISA-AÇAO 53

ção da dominação etc. Todos esses aspecto , ou uma e leção dos mesmos,
são di cutidos pelos pe quisadore . Há também controle dentro do proces-
so de investigação para e evitar po síveis deturpaçõe .
Em si ró ria, a concepção da pes !!J-ª-a ã nunca é liv..re. de ' 'alores.
Não há nisto qualquer anormalidade: ape ar de ua pretensa neutralidade .
-
as tendências con~-ncfonais e inserem em estratégia ociai deter1nina-
das: assessoramento do poder vigente, tomada de decisão à reve]ia do par-
ticipantes, práticas discutívei no plano ético (''e pionagem ideológica' ,
por exemplo).
De acordo com a concepção da pe qui a-ação, a que tão dos valore é
abordada de modo explícito, dando Lugar a discus ão entre pesqui adore e
grupo intere ados pela inve tigação e pela ação. O aspecto participativo
dos procedimentos é igualmente objeto de controle, poi o discur o da par-
ticipação não é uficiente, por si só, para assegurar a ausência de manipula-
ções e de escamoteamento das relações de poder subjacente .
A partir de diversa experiências de pesquisa-ação, em vários contex-
tos, têm surgido alguma regras deont.Qlógicas.
Todas ~ artes ou grnQ_os interessados na situação ou no problema
investigados de\'em ser consultados. A pesquisa não pode er feita a revelia
de uma da partes. Numa organização de tipo empre arial, não e podê
fazer urna pe quisa obre o problemas do pe oal em a participação dosj
eu representantes e em o acordo dos sindicatos. Em alguns casos, um -
comitê com representante de toda a parte envolvida é con tituído para
controlar o de enrolar da pe qui a. Cada parte tem direito de parar a expe- -
-
riência quando julgar que o objetivos da pe qui a. obre o quai ha\1 ia. . .
-
~cordo não ão re Qeitado . A avaliação do resultado é efetuada pelos parj
-
ticipantes e pelo J?e qui adores. O resultado ão difundidos sem restrição
Uma das art~ não pode pretender e apoderar dele exclusivamente. /
Essas regras existem no contexto da pe quisa-ação em contexto orga-
nizacional (Ort man 1978) e frequentemente ão formuladas de acordo com
o espírito da ''participação social" ou da democracia indu trial'', segundo
a qual todos os 'parceiros'' devem ser con ultados. Na prática nem sempre
foram aplicada . Quando a propo ta de pesquisa é muito mai radical, é pos-
sível recorrer a outras regras criando condiçõe de in erção mai profunda
dos pe quisadore no movimento no qual atuam os atores con iderados.
É obretudo em função da ua \ ertente radical que a pe qui a-ação
1

adquire ua e pecificidade. De acordo com R. Zufiiga:


54 ,\.UCHEL THIOLLENT

'A pe qui a-ação é inovadora do ponto de vi ta científico omente quando é


inovadora do ponto de vi ta ociopolítico, i to quer dizer, quando tenta colocar
o controle do aber nas mão do grupos e da coletividade que expre am
uma aprendizagem coletiva tanto na ua tomada de con ciência como no seu
comprometimento com a ação coletiva" (Zuiiig~ 1981, p. 35-44).

A função política da pesquisa-ação é frequentemente pensada como


colocação de um instrumento de investigação e ação à dispo ição dos gru-
po e ela e ociais populare . Segundo R. Franck, o principal objetivo da
pe qui a-ação não é apena o entro amento da pe quisa e da ação, poi um
tal entro amento existe em muitas pe quisa convencionai a erviço dos
grupos dominante na ,,ida econôntica e política. b_ principal que tão é a
eiuinte: ''como a pe qui a ( ... ) poderia tornar- e útil à ação de imple
cidadão , organizaçõe militantes, populações de fa,1orecida e explorada ?
(Franck 1981 p. 160-6).
~CORTEZ
'5'EDITORA 55

Capí"tullo li

Concepção e organização da pesquisa

Vamos abordar uma série de temas e itens relacionados com os aspec-


tos práticos da concepção e da organização de uma pesquisa social orienta-
da de acordo com os princípios da pesquisa-ação. Trata-se de apresentar um
roteiro que, naturalmente não deve er visto como sendo exaustivo ou como
o único possível. Em cada situação o pesquisadores, junto com o demai
participantes precisam redefinir tudo o que eles podem fazer. No o ''rotei-
..-J
ro ' é apenas um ponto de partida.
O planejamento de uma pe qui a-ação é muito flexível . Contraria-
mente a outro tipos de pe qui a, não se egue uma série de fa es rigida-
mente ordenadas.* Há sempre um vaivé entre várias preocupaçõe a se-
rem adaptadas em função da circun tâncias e da dinâmica interna do gru-
po de pesquisadores no seu relacionamento com a situação inve tigada.
A lista dos temas que apresentamos aqui ~egue parcialmente uma or-
dem sequencial no tempo: em primeiro lugar aparece a "fase exploratória' 1/-
e no final, a ''divulgação dos resultados". Mas, na ' 'erdade, os temas inter-
mediários não for ordenados numa determinada sequência temporal, pois
há um constante ~aivé _e_!l_tre as preocu_pações de organizar um eminário,
escolher um tem~ colocar um problema, coletar dados, colocar outro pro-

* Todavia, vários autore partidário · da pesqui a participante têm propo to sequências e


fases bem definidas. Ver artigo de M. Gajardo e G. Le Boterf em C. R. Brandão (org.). Repen-
sando a pesqui a participante. São Paulo: Bra ilien e, 1984. p. 15-50 e p. 51-81.
56 M'CHEL THIOLLEt\ T

blema, cotejar o aber formal dos e peciali ta com o aber informal do


"·u uário '' colocar outro problema., mudar de tema, elaborar um plano de
ação, divulgar re ultados etc. Toda e as tarefa não são con iderada como
·'fa e ''. Em geral, quando os planejadore de pesquisa elaboram a priorl
uma divisão em fases, ele empre têm de infringir a ordem em função dos
problemas imprevistos que aparecem em seguida. Preferimos apresentaiO
ponto de partida e o ponto de chegada, sabendo que, no intervalo, haverá
uma multiplicidade de caminhos a serem escolhidos em função das cir-
A •

cunstanc1a .

1. Afase exploratória
A fa e exploratória con i te em de cobrir o campo de pe qui a, o
intere ados e uas expectativa e e tabelecer um primeiro levantamento
(ou "diagnóstico'') da ituação, dos problemas prioritário e de eventuai
ações. esta fase também aparecem muitos problemas prático que ão re-
lacionado com a constituição da equipe de pesquisadores e com a ''cober-
tura'' institucional e financeira que será dada à pesquisa. __
.~ e,,ido à grande diversidade das situações e à sua imprevisibilidade,
é impo sÍ\ el enunciarmos regras precisas para organizar os estudo da fase
1

exploratória. Só daremos alguma indicaçõe .


- Um dos pontos de partida consiste na disponibilidade de pe qui ado-
res e na sua efeti\i·a capacidade de trabalhar de acordo com o espírito da
pesquisa-ação. O passo seguinte con i te em apreciar pro pectivamente a
viabilidade de uma inter,'enção de tipo pesquisa-ação no meio considera-
do.Trata-se de detectar apoio e resi tência , convergência e di\1ergências,
po ições otimi ta e céticas etc. Com o balanço deste aspectos, o e tudo de
viabilidade per 11úte aos pe qui adore tomarem a decisão e aceitarem o
de afio da pe qui a sem criar fal a expectativas. Além do mai , é necessá-
rio conceber o lançamento da pesquisa com a habilidade necessária para
ua aceitação por parte dos interes ados e, eventualmente, das instituições
financiadora Uma vez re olvido esse problemas o que nem empre é
fác il a pe qui a poderá começar.
No seu primeiros contatos com os interessados, o pesqui adores
!tentam identificar as expectativa , os problema da situação, as característi-
a da população e outros a pecto que fazem parte do que é tradicional-
~'.ETOOOLOG\ A DA PESQLISA-AÇÃO 57

\ mente chamado "diagnó tico". Paralelamente a esse primeiro contatos, a


equipe de pesquisa coleta toda a informaçõe di poní\ ei (documenta-
1

1ção, jornais etc.).


l
Em função da competência e do grau de envol-vfimento dos pesquisa-
dore com a linha da pe qui a-ação, a equipe define ua estratégia metodo-
lógica e divide a tarefa consequente : e qui a teórica e uisa de cam-
- - -
po, planejamento de ações etc. A divisão da tarefa nunca é e tanque e
definitiva. O pe qui adores participam de toda ela , porém a re pon a-
bilidades ão di tribuída em fu nção da competência e afinidade . To-
-
dos o aspecto ão coordenados no seminário. ~ando fQ! _preci o, tam-
bém é organ i zado~ na fa e inicial, um treinamento complementar para os
pe qui adore .
-
- De acordo com o princípio da participação ão destacadas as con-
diçõe da colaboração entre pe qui adore e pe oa ou ru o envolvi-
dos na ituação investigada. Quem ão e a pessoa ou grupo em termos
sociais e culturais? J:A... que interesse político estão vinculados? Já parti-
ciparam em experiência emelhante ? Com êxito ou fraca o? Dentro da
imaginação popular corno ão repre entado os problema e pos ívei
soluçõe ? Que tipo de crença e tá interferindo? Exi . te vontade de partici-
par? De que forma? Exi te dificuldade de cornpreen ão ou de exp re ão?
Tais ão algumas perguntas iniciai cuja re posta poden1 nortear a ex-
ploração dos problemas de partic ipação do potenciai interess,ados . Além
di so, o pe q ui adore co tumam praticar um reconhecimento de área.
I to inclui ob. ervação vi ual, con ulta de mapa. e organograma e di cu -
ão direta com representante direto ou indireto. das vária categoria.
sociai implicada .

- --
r\o que diz re peito à metodologia de "'diagnó tico'' devemo acre -
ce nlar algumas preci õe . Embora eja frequentemente incorporada à me-
todologia da pesquisa-ação, a metodologia de diagnóstico o ui outra
origen (medicina, serviço ocial etc.) e tem ido concebida de modo nã:,_
-
-
e
participati\10, estabelecendo uma dicotomia entre quem tabelece q r~ u...-_
tado do diagnó tico e quem deve e conformar ao mesmo. No context
-mé 1co, a terminologia do método de diag_nó tico não apre - enta noçõe _
de caráter participativo e não de taca noçõe relacionadas com as potencia-_
....
lidades e a inicíati va própria do paciente objeto do diagnóstico.
---
-----

o contexto do erviço ocial, o autore têm di tinguido o diagnó --


-
t!co como "proce so" do diagnóstico e como ''produto". De acordo com a
58 fl.~ICHEL THIOLLENT

rimeira acep ão trata- e de um ''proce o de identificação do roblema


........._

de uma ituação e deci ão de meio adequado para encontrar soluções''


. -
(Vaisbi eh, 1981). Na egun o diagnóstico é con tituído pelas infor1na-
ções a partir da quai ão e tabelecida as meta de ação. Dentro do pro-
ce o de diagnó tico, o membro da popula ão podem exercer alguma f~r­
ma de participação, ma , a no so ver nem toda as prática do ser\riço so-
cial permitem a participação e, sobretudo em contexto empresarial, muitos
diagnó tico do erviço social ão elaborado à revelia do interes ados
( trabalbadore a salariado ) .
Outra crítica à concepção do diagnó tico foram formuladas, no con-
texto peculiar do estudo rurai .. , por Ivandro da Co ta Sale ., Jo é Augu to
do Santo Ferro e Maria elly Cavalcanti Can,a1ho ( 1984, p. 32-44). O
autore mo tram que a concepção dominante en1 matéria de diagnó tico
fal eia a realidade do pequeno produtor rural, que empre é ,. . isto apenas
como ~ :carente' . O diagnóstico empre focaliza o que falta: educação,
-
recur o etc. Não são enxergada a potencialidades dos produtore e do
-
..eu meio circundante. Há também o pri\"ilegiamento da percepção do
produtore como indi,ríduos i alados em detrimento da ua apreensão como
grupos fazendo parte do proce soda produção coleti\ra. O autores enfatizam
que, em matéria de produção de conhecimento, o modo tradicional de diag.-
no ticar exerce profunda di torçõe : o proce o de conhecimento é reduzido.
a urna coleta de dado na quaJ o produtores ão meros informante (Sales,
Ferro e Carvalho, 1984, p. 35) . Encontramo no artigo citado uma grande
quantidade de outra ob ervaçõe muito pertinente para critjcar a concepção
tradicional do diagnó tico e desenvolver uma ''per pectiva de aprendiza-
gem da participação" e uma forma de colaboração ati\1 a entre o abere
do produtore , dos técnicos e dos acadêmico .. . Além da área da pe quisa
rural, e ta _per pectiva no parece suge_1i\1a e a licável, com adapta õe ,
-
em muita outra área .
- -
Voltando à caracterização da fa e exploratória da pe qui a, na qual a
metodologia do diagnó tico preci a er reequacionada, podemos consi-
derar que, apó o levantamento de toda -as informações
-
iniciais, os pe
ui-
-
ad9re e participante e tabelecem o principais objetivo da pe qui a. Os
objetivo dizem respeito ao problemas con iderados como p1ioritário , ao
campo d ob ervação ao atore e ao tipo de ação que e tarão focalizado
~
.\iETODOLOC A DA. PESQUISA-AÇÃO 59

2. O tema da pesquisa

O tema da pesquisa é a de ignação do problema prático e da área de


conhecimento a serem abordados. Por exemplo, podemos imaginar uma
pesquisa sobre o tema: os acidentes de trabalho na indú tria metalúrgica.
E te tema é imediatamente associado ao problema prático: como reduzir o
acidentes? O •
tema pode ser definido em termos concretos como relaciona-
1

do a um campo bem delimitado . por exemplo, o acidentes com pren a na


companhia X . ou, ao contrário, ser definido de modo mais conceitua!: e -
trutura de risco numa relação homem-máquina. De modo geral, o tema
deve er definido de modo simples e sugerir o problema e o enfoque que
serão elecionados. ~a pesqui a-ação a concretização do terna e eu de -
1

dobramento em problemas a serem detalhadamente pesquisados ão reali-


, ~

~ados a partir de um processo de discussão com os participantes. E útil que


-
a definição seja a mais precisa pos Í\'el, isto é sem ambiguidade , tanto no \
que se refere à delimitação empírica, quanto no que remete à delimitação \
concei tual.
-
Uma vez definido , o tema é utilizado corno 'chave'' de identificação
e de seleção de áreas de conhecimento disponÍ\'el em ciências ociais e
outras disciplinas relevantes. No exemplo anterior, elementos de conheci-
mento serão localizados nas áreas de psicologia indu trial, tecnologia, er-
gonomia direito trabalhista etc.
A formulação do tema pode ser de criti\.r a: as condiçõe de trabalho
na indú tria têxtil. Também exi te uma formulação de caráter normativo:
como melhorar as condiçõe de trabalho na indústria têxtil. Embora mui"'"""'
veze eja precária a di tinção entre o que é descritivo e o que é normativo, J
parece-no necessário tê-la em mente na hora de definir a temática de uma
pe quisa-ação. A ação é obrigatoriamente orientada em função de uma nor-
ma. No caso. a 'melhoria'' sempre supõe um ''ideal'' em comparação ao
qual a situação real deveria ser transformada. A ''melhoria' é definida em
termos relativos, marcando a diferença entre o que é e o que desejamos que
seja. Na pe quisa-ação, o caráter normativo das propostas é explicitamente
reconhecido. As normas ou critérios das transformações imaginadas são
progressivamente definidas. Na prática, as normas de ação dão lugar, algu-
mas vezes, a negociações entre as diversas categorias de participante .
Em geral o tema é e colhido em função de um certo tipo de compro-
rrti o entre a equipe de pe qui adores e o elemento ativo da ituação a
60 fi,\ C'1El THIOLLENT

ser inve tigada. Em certos ca o o tema é de antemão determinado pela


natureza e pela urgên·c ia do problema encontrado na situação. Por exemplo:
-
no caso de uma remoção de favela ou de uma campanha popular para
construir escolas. Em outros casos, o tema emerge progressivamente das
-
discussõe exploratórias entre pesqui adores e elementos ativos da si ~
-
ção. Quando um primeiro tema se revelar inviável a curto prazo, por e.xem-
-plo, por motivo de demasiada complexidade ou de despreparo da equipe, é
bom delimitar um tema que esteja ao alcance dentro de um prazo razoável,
levando em conta as condições concretas de atuação dos diversos grupos
implicados.
Muitos autores consideram que são apena as populações que deter-
minam o tema. Outro dizem que há sempre uma adequação a er e tabele-
cida entre as expectati\1 a da população e a · da equipe de pesqui adore . A
no so ver.. de\P·e haver entendimento. Um tema que não interessar à popula-
ção não poderá ser tratado de modo participativo. Um tema que não interes-
ar ao pesqui adores não será le,1 ado a sério e eles não de empenharão um
papel eficiente.
O acordo entre participantes e entre pesquisadores e participantes deve
ser procurado. Quando houver conflitos de interesses, a escolha do tema
poderá se revelar delicada. Quando possí\ el, o conse.nso é ideal. No amadu-
1

recimento do tema em discussões preliminares, a equjpe de pesquisadores


desempenha um papel ati\lO.
'
Frequentemente, o tema é solicitado pelos atores da ituação. As ve-
zes, sendo mal colocado o problema prático relacionado com o tema ini-
cial, o pe qui adores preci an1 deslocar um pouco a perspectiva por meio
de di cu são. No entanto, ?e\'e-se deixar bem claro que o tema e a que -
tões práticas a serem tratada devem ser ab olutamente endossadas elos
Earticipantes pois não poderiam participar numa pesquisa sobre temas..dis-
tantes de sua preoCUJ?açõe .
--
Junto com a pe soas que solicitaram a pesquisa, os pesquisadores
elucidam a natureza e as dimensõe dos problemas designados pelo tema.
Tais problema têm que er definidos de modo bastante prático e claro aos
olho de todo o participantes, porque a pesquisa será organizada em tomo
da bu ca de oluçõe .
Uma vez elecionado· o tema e os problemas inicicris, os pesquisado-
re poderão enquadrá-lo num marco referencial mai amplo de natureza
\·1ETODOLOCI.\ O.\ PESQL.ISA-AÇAO 61

teórica. Por exemplo, no caso de um estudo de ação junto a uma população


dita ""marginalizada"', o pe qui adore procuram dominar adi cu ão acerca
da problemática da '~marginalidade ocial'' e . inclu ive, da críticas a que
está submetida no contexto atual da ciência sociai .
De acordo com o que precede> entre o di ver o quadro teórico di -
ponÍ\'ei um marco e pecífico é e colhido para nortear a pe qui a e, princi-
palmente, atribuir relevância a certa categoria de dado a partir das quai
~erão e boçada a interpretaçõe e equacionada a po ívei ' oluçõe ".
E claro que, ne e proce o. o pe qui adore não podem aprender tudo o
que precisa1n apena no contato corn as populações. Precisam de uma for-
mação anterior, a mai completa po f v·el. para e tarem em condição de
definir a problemática adequada ao de enrolar da prática de pe qui a. Ne -
ta fa e . a pe qui a bibliográfica é nece sária. É possível, também, recorrer
ao saber de di ' 'er o e peciali ta do a unto implicados de de que te-
nham intere e em colaborar no projeto.
Quando os pesqui adores têm os objeti"·os de_pesquisa bem defini-
do . podem progredir no conhecimento teórico em deixar de lado a resolu-
ção do problemas práticos sem a qual a- e quisa-ação não faria entido e
não haveria participação. O estudo e desenrola paralelamente ao acompa-
nhamento da ação e dela depende a manutenção do interes e do partici-
pante . Nesta concepção, a pesqui a não é limitada ao aspecto prático .
Não e trata de imple ação pela ação. A media ão teórico-conceitua! per-
--
manece operando em toda a fa e de de envol\.'imento do projeto.

3. Acolocação dos problemas

a fa e inicial de uma pesqui a - seja qual for a ua e tratégia ati'v·a


ou não , junto com a definição do · tema e objetivos precisamos dar
atenção à colocação do principai problema a partir do quais a in\1estiga-
ção erá de encadeada. Noutra pala\1ras, trata-se de.definir lima problemá-
tica na qual o tema e colhido adquira sentido.
Em termo gerais, uma problemática pode er considerada como a
~olocação do problema que se pretende re olver dentro de um certo cam-
po teórico e prático. Um mesmo tema (ou a unto) pode er enquadrado em
-
problemática diferente . Por exemplo, ..Qroblem_a <!e saúde podem ser in-
erido numa problemática de medicina ou numa problemática ocial ou
62 ~ ICHEL THIOLLE\JT

política. A colocação do problema é feita em univer o diferente . A pro-


-
blemática é o _moQ2 de colocação do _problema de acordo com o marco
teórico-conceitual
..--- - adotado . --
Na pesquisa científica, o problema ideal pode remeter à con tatação
' -
de um fato real que não seja adequadamente explicado pelo conhecimento
di ponÍ\'el. Um outro tjpo de problema remete às ambiguidades interna
existente nas explicações anteriormente produzida . O porquê des as si-
tuações constitui o problema inicial, i to é o ponto de partida interrogati\~<.?
~a investigação. Notamo , de pa sagem, que na clássica formulação de um
problema, ão relacionados pelo meno dois elemento . O problema diz
re peito à relação entre um elemento real e um elemento explicativo inade-
quado ou à relação entre dois eleme11to explicativo concorrentes do me -
mo fato. Se houve se apena um elemento não eria um problema, ma
apena um tema.
Em pe qui a ocial aplicada e em particular no ca o da pe qui a-
-ação, os pro lemas colocado ão inicialmente de ordem rática. Trata-se
-
de procurar soluções para se chegar a alcançar um objetivo ou realizar uma
possível transformação dentro da situação observada. Na ua formulação
l!!Il problema desta natureza é colocado da seguinte forma:
a) análise e delimitação da situação inicial;
b) delineamento da situação final, em função de critérios de de ejabi-
lidade e de factibilidade; , ./
e) identificação de todos o problema a erem resol\'ido para per-
mitir a passagem de (a) a (b); J
d) planejamento das açõe corre pondente ·' /
e) execução e avaliação da açõe . /

E te tipo de colocação de problema prático em contexto ocial é


também encontrado em contextos técnico . Certo autores chegam a
caracterizá-lo co1no típico do modo de raciocínio tecnológico. Seja como
-
forcon ideramos que a colocação de problema em termos de passagem de
uma ituação inicial para uma ituação final é diferente da colocação de
problema em m todologia comparativa na qual se trata de in,,estigar as
analogia ou a diferenças entre dua ituações reais, diferenciada apenas
no tempo ou no e paço. No ca o da pa agem de uma situação inicial para
-
uma situação final, trata- e de projetar uma ituação desejada de acordo
- - -
.\t1ETODOtOC AJA PESQUISA-AÇÃO 63

- - --
com objetivo definido e o meio ou olu õe ue tomam o Í\'el a rea-
-------' -
lização desta situação.. o ca o comparativo, é sobretudo uma que tão de
-
ob ervação, con tatação de crição e comparação da analogias emelban-
ça ou diferença exi tente entre dua ituaçõe reai .
O roblema de tran forma ão colocado como pa agem de uma itua-
- - -
ção inicial para uma situação final (ou de ejada) é definido em função da
estratégia ou do interes e do atores. O que exige que a norma ou critério
ejam con tantemente evidenciado , tanto na bu ca de oluçõe quanto na
eleção de solu õe a partir da uai erão de encadeada determinada açõe . .
-
Não é a artir de imple le\.r antamento de critiv·os gue uma ação pode er
encaminhada. Há todo um trabalho obre a normati\ idade, muita veze ne-
1

gado como tal, que é preci o equacionar no plano metodológico.


De acordo com o anterior~ é claro que, para que haja realmente nece -
-
sidade de uma pesquisa. os problemas colocado não devem er triviais. /
- - - -
coletar três ou quatro informaçõe ba tasse para re ol \ter um problema d
dia-a-dia ou para tomar uma decisão rotineira na \1ida de uma associação
-
não precisaríamo de encadear um processo de inve tigação e ação. Na fa e
de colocação do problema é nece sário te tar ou di cutir a relevância
científica e prática do que e tá endo pe qui ado. A im é po ível redire-
cionar a pesqui a ou até tomar a deci ão de su pendê-la.

4. O lugar da teoria

Por ter uma vocação de pe qui a prática, a pe qui a-ação é frequente-


mente vi "'ta como uma concepção ernpiri ta da pe ·qui a ocial na qual não
haveria muita implicaçõe teórica . Bastaria o ''bom enso'· do pe qui a-
dores e a sabedoria popular do participante na identificação de problema
concreto e na busca de oluções.
No entanto como já foi mencionado anteriormente, ~i tem ca o
nos quai a preOCl!lJação teórica ocupa um e paço mai importante entre a
diferentes preocupações dos pesqui adore . 1 to ocorre em particular quan-
do o problema tratado, não ão 'evidente ,. no início e dão lugar a diver-
4

sa problemática ociológica ou outras. A im , por exemplo. não nos pa-


rece pos ível encaminhar uma pe qui a-ação com participação de migran-
te em e ter uma vi ão clara do quadro de interpretação do fenômeno
migratório . No contexto organizacional, não é po ível de envolver uma
64 tv\ICHEL THIOLLENT

pe qui a independentemente de um quadro teórico de natureza ociológica


tecnológica ou política. No contexto da comunicações, não parece viável
uma pesquisa obre a recepção das mensagen por parte de determinadas
categorias de ' público ' se não hOU\.'er uma teoria do meios de comunicação.
De modo geral J?Odemos considerar que o projeto de pe qui a-a ão
-
precisa ser articulado dentro de uma problemática com um quadro de refe-

rência
.._
teórica adaptado aos diferentes etores: educação, organização . co-
municação, §aúde~ trabalho, moradia vida política e sindical, lazer etc. O
papel da teoria consi te em gerar ideia hipóte e ou diretrizes para orientar
a pesquisa e a interpretaçõe ..
o plano da organização prática da pe qui ~ o pesqui adore deve~
ficar atento para que a di cu ão teórica não de e timule e não afete o
participantes que não di põem de uma formação teórica. Certo lemento.
teórico deverão er adaptados e ... traduzidos' en1 linguagem comum par
...
permitir um certo ní\reJ de compreen ão. Além di o, quando a discus ão1
teórica for incompatÍ\ el com o IlÍ \ 1el de e ntendimento do participantes, \
1

pode-se prever a organização de grupo de e tudos eparado do eminário


-
~entr~I ~ujas conclu õe serão encaminhada e discutida em tenno maj
acess1\ e1 .1

A concepção da relação entre pe quisa-ação e teoria sociológica não


é de caráter ''forçado·--, o que quer dizer que não se de\tem con truir ''gran-
des': teoria apenas na ba e das inforn1ações alcançadas e coletivamente
interpretadas no proces o de pe qui a local.
A con trução de uma teoria não depende apenas da infor111ação colhi-
da por intermédio de técnica empírica . A infonnação circun tanciada que
,
é trazida ao eminário é interpretada à luz de uma teo1ia. E claro que, se a
informação obtida de modo confiável chegar a pôr em dú\:ida certo ele-
mentos de uma teo1ia conhecida. o problema de\'erá er objeto de e tudos
aprofundado por parte dos pe qui , adore , que procurarão outro tipos de
explicação a erem cotejado com a informaçõe obtida em nO\'ª itua
- , .
J
çoes emp1nca .

5. Hipóteses
Como foi ug rido na di cussão acerca da forma de raciocínio e de
argumentação no eio da pe qui a ocial, O· u o de um procedimento hipo-
.\1ETOOOLOGIA DA PESQUIS.\-AÇAO 65

.
tético não está excluído ó que de maneira suavizada. Apresentaremo aqu1
alguns aspectos desta concepção ao nível da prática.
Uma hipótese é simple mente definida como upo ição formulada
-
pelo esquisador a respeito de possíveis soluçõe a um problema colocado
.na pesquisa, principalmente ao nível observ·acional. '[ambém exi tem hipó-
teses teóricas~a aqui abordamos a questão sobretudo em matéria de. obse -
''ª ão e de ação. A hipótese desempenha um importante papel na organiza-
-ção da pesquisa: a partir da ua formulação~ o pe quisador identifica as
informações necessárias, e\1ita a dispersão_, focaljza determinados segmen-
..tos do campo çle observação~ seleciona os dado etc.
Ao se negar a utilizar hipótese , inclusive sob a forma de diretrizes
sem uma neces ária men uração precisa, ~m pe qui ador social se expõe
ao risco de produzir matérias confusa .
.___,..
A formulação de hipóte e pertinentes depende de uma grande varie-
dade de fatores: a problemática teórica na qual se movem os pesqui adores~
o quadro de referência cultural do participantes, os insig}zts impre\ isíveis
1

surgjdos na prática ou na discussão coletiva, as analogias detectadas entre o


problema sob observação e outros problemas anteriormente encontrados etcj
Me mo quando não e pretende trabalhar com hipótese relacionando
\ 1 ariá'\i eis quantificáveis, é preciso observar muitos cuidado na ua formu-
1

lação. A hipótese, ou a diretriz, deve seJ formulada em te1111os claros e


- -
-
concisos, sem ambiguidade gramatical e designar os objetos em que tão a
-
re peito do quais seja poss ível fornecer prO\'as concretas ou argumento
con\rincente , favorá\ ei ou não. Ne e ponto. preci amos evitar a faltâ de
1

- -
e pecificidade da definiçõe adotada no proce so in\1estigati,:o, poi ter-
mo dema iadamente gerai permitem ''englobar"' qualquer observação
fatual, como no caso do raciocínio mágico ou do horóscopo .
No contexto que nos interessa: a formulação da hipóte e não é neces- 1
- - - -- - 1
sariamente de forma causal entre os elementos ou variá\ eis considerado . ~
1

- - -
Não se trata de querer mostrar que X determina y. Para fins descri ti \ ' OS a

-veis conexões
hipótese qualitativa é utilizada para organizar a pesquisa em torno de po sí-
- ou -implicações não causai ~,
mas uficientemente Erecisas
-
para e e tabelecer que X tem algo a ver com Y na situação con iderad .
- -
Além do plano de criti \ ' O a hipótese, ob fo11na de diretriz, é i ual-
- - -
mente utilizada no plano normativo no ue toca à orientação da ação com
aspectos e tratégicos e táticos. Trata- e de hipóte es obre o modo de
66 .\~ICH EL TH OLLEt\ T

alcançar dete11c1inado objeti''º , sobre o meio de tornar a ação mais efi-


ciente e obre a avaliação dos po ívei efeito , de ejado ou não. A formu-


lação deste tipo de hipóte e upõe que critérios (ou no11nas de deci, ão,/
ação e avaliação) estejam claramente definidos e evidenciado entre os pes-J
..
qu1sadores e participantes. A verificação de tai hipóte e se dá exclu . i va-
mente na prática. A justeza da hipóte e acerca de uma no1ma pas a pelo
"" .
ex1to da ação ou por uma constatação do efeitos diretos ou indireto dentro
da situação em transformação.
Tanto no plano de c:ritivo como no normativo, as hipóteses ou diretri-
zes são empre modificávei ou ub tituívei em função da informações
coletadas ou do argumento di ·cutido entre pesqui adore e participante .
~lém di o lembramo que, no planejamento de uma pesqui a, nãQ_
e encontra apena uma hipóte e e im uma érie de hipóte es articulada
em rede na qual diver a ub-hipót e contribuem para u tentar uma hi-
póte e principal. Em outro casos se encontra uma polarização de duas hi-
- -
póte e excludente .

Em função da hipótese ou diretri ze e colhidas, o pe q ui adores e


Participante sabem quais ão a infor111ações que ão necessária e as téc-
nicas de coleta a serem utilizadas. Na pesq_uisa-a ão, recorre-se a técnicas
de coleta de grupo e aos mais di\rer os procedimentos, inclusive que tioná-
.
rios e entrevi tas, que frequentemente são vi tos com alguma su peita por
erem os in trumentos prediletos da pesqui a convencional. Mediante um
controle metodológico adequado e a técnica ão, no entanto utilizadas
como instrumentos de captação auxiliar.
~a sua concepção do chamado "inquérito con cientizante' C. Humbert
e 1. Merlo utilizam explicitamente o e quema de formulação de hipótese e
de comprovação por meio de indicadore e de re posta a que tionário
(Humbert, 1978: Merlo J982). E te esquema con i te na definição de um
tema para cada um do grupo de pe qui a. O tema ren1ete a um ''objeto-
-problema'" específico a ser pesqui ado. Por exemplo, o tema da não renta-
bilidade da pequena propriedade rurai , con iderado pelos autore na
França, pode er e tudado em função do ''objeto-problema,, constituído pelo
istema de crédito rural. O objeto é anali ado a partir de uma seleção de
hipóte e . Uma hipótese é definida como '"tentativa de respo ta operati\,.a à
que tão contida no objeto'''. A hipóte e ão selecionadas em função da
po ibilidade de comprovação e de ua pertinência com relação à ação.
Cada hipóte e é \ierificada a partir de indicadore definido como ''e]emen- 1
f\1ETODOLOGIA DA PESQLISA-:\Ç~O 67

to ob ervá\rei e men urávei e colhidos e1n função de ua capacidade de


verificação da hipóte e'' . o exemplo con iderado, o indicadore ão o
critério de atribuição de crédito ao pequeno produtore . A informação
necessária para cada indicador é levantada por meio de diferente in tru-
mentos de pe quisa entre os quai a técnica de que tionário e de entrevi -
ta são as mais conhecjda .
Os dado levantados são computado de modo a mo trar a hipóte e
que tem maior ustentação empírica. Os re. ultado da pe qui a ão, em
eguida, amplamente divulgado no eio da população.

6. Seminário
A partir do momento em que os pe quisadore e os intere ado na
pe quisa e tão de acordo sobre o objeti\1 0 e os problemas a erem exami-
nados, começa a constitui ão do ru o que irão conduzir a in\re tigação e
o conjunto do roce so. A técnica rinci ai ao redor da qual a outra
gravitam, é a do ''seminário''.
- --
O seminário central reúne o rincipai membro da equipe de pe -
quisadore e membros ignificati ''ºS do grupo implicados no problema
ob ob en1 ação. O papel do eminário con i te em examinar. di cutir e to-
mar deci ões acerca do pr~e o de in~stigaÇão. O en-iinário de en1pénha
também a função de coordenar a ati\ idades do grupo "satélite (grupo
1
'1

de e tudo e pecializado , grupo de ob ervação, inforn1ante . con ultore


etc.). O grupo de ob r\1ação ão con tituído por pe qui adore e por
participante comuns que podem chegar a desempenhar a função de pe qu1-
sador. O grupo de ob er\'ação podem recorrer a diver as técnica de pe -
quisa individual ou coletiva. O erninário centraliza todas a inforrnaçõe
_...._... - ___.. .
coletadas e di cute as interpretaçõe . uas reuniões dão lugar a ''ata~"' com
ãs inforrr1açõe reunida e dentro da per pectiva teórica adotada, o eminá-
-rio elabora diretrize de pesqui a (hipóte e )-ediretrizes de ação ubmeti-
da à aprovação dos interessados, que serão te tada na Erática dos atore
con iderado . A a õe realmente de encadeadas ão objeto de permanente
acompanhamento e de avaliaçõe periódjca . A artir do conjunto de infor-
mação
.. proces ada, o eminário produz material. Parte de te material é de
natureza ''teórica' (análi e conceituai etc.), outra parte é de natureza empí-
rica (levantamento , análi e da ituação etc.). Outra parte ainda~ à veze
68 \·11CH[L THIOLLEf\ T

elaborada com colaboradore e t rno , é o material de divulga ão, de natu-


~

reza didática ou informativa de ti nado ao conjunto da população implica-


da no problema abordado .
Re umindo algumas da principai tarefa do seminário . indicamo :
-
1. Definir o tema e equacionar os problemas para os quai a pe quisa
foi olicitada.
2. Elaborar a problemática na qual serão tratados o problema e as
corre pondentes hipóte es de pe q ui a.
3. Con tituir o grupos de e tudo e equipe de pe qui a. Coordenar
ua ati ' ' idade .
4 . Centrali zar a inforrnaçõ pro\·' eniente da di \'er a fonte ~ e
grupo .
5. Elaborar a interpretações.
6. Bu car oluçõe e definir diretrizes de ação.
7. Acompanhar e a\ aliar a açõe .
1

8. Divulgar os resultado pelo canai apropriados.


.
Dentro do funcionamento norma1 do seminário, o papel do pe qu1 a-
dores Ort man, 1978 p. 230) con i te em:
1. Colocar à disposição do partjcipantes os conhecimento de ordem
teórica ou prática para facilitar a di cu são dos problema .
1· Elaborar as ata da reuniõe ~ elaborar o regi tros de infonnação
coletada e o relatórios de ínte e.

...3. _Em e tre ita colaboração co111 os demais participantes, co11ceber e


aplicar~ no de en\'olvimento do proj to, modalidade de ação.

---
4. Participar numa reflexão global para e\.r entuais generalizaçõe e
di cu ão do re ultado no quadro mai abrangente da ciência ociai ou
de outra di ciplinas implicada no problema.
O trabalho em eminário exige algun esclarecimento complemen-
tare . Quanto à con tituição do eminário, é precjso tomar muito cuidado
na de ignação do membro e de ua atribuições . Quando a pe quisa é
financiada por uma coletividade homogênea não há n1uito problemas: o
eminá rio conterá o principaí pe qui adore e os membro da coletivida-
de que forem julgado mai apto para tratar o problema con iderados.
Em geral ão lídere informai.. Quando o eminário é organizado em meio
f\.i~TODO~OCI /\ D:\ PESQU I ~ ~-AÇÃO 69

heterogêneo, a que tõe da repre entação da diver a parte podem e


tornar delicada . Em geral. ão re ol\•ida por meio de negociaçõe . No
contexto militante., a eleção do membros é prir1cipalmente de ordem polí-
tica. Em todo o ca o , o pe quisadore devem promo\'er a maior '~ tran -
parência como condição da continuidade da pe qui a.
Outra precaução diz re peito ao aces o à informação. Os _princi ai
as unto debatido em cada se são ão de crito ob forma de ata. e anali-
-
~ado em eguida. As ata e relatórios ão concebido e arquivado de modo
adequado a uma t,ácil consulta por parte de qualquer participante. E.m cer-
ta ituaçõe conflitÍ\'a , para e\ritar po Í\1e i manipulaçõe certa informa-

çõe de\.r em er retida pelos organizadore da pesqui a. A difu ão de infor-
mação é objeto de um acordo entre di\1e.rsa , parte implicada na pe qui a.
Uma última exigência e tá relacionada com o preparo dos pe qui a-
dore e do participante . O que parece muito imple . ma na prática não o
é. Para aplicarem técnica de pesqui a e de trabalho em grupo , dentro da
propo ta de pesquisa-ação, é necessário um certo preparo didático. Organi-
zar um eminário de pe qui a não con iste apena em reunir algumas pe -
soas-ao redor de urna me a. O trabalho deve ser metodicamente organizado .

ob pena de não funcionar. Não ba ta deixar falar aquela que falam muito.
.. -
E preci o, em cada in tante" procurar informaçõe pertinente relacionada
com o a sunto focaJizado. Há e paço para toda uma aprendizagem de estu-
do coleti\ta a er de envolvida na ituaçõe de pe qui a. A real aprendiza-
gem da técnica do trabalho de pe qui a é muito importante. Sem e]a . os
beJo di cur o obre teoria e prática permanecem inoperante..
Dev·ido ao u o de procedimento argumentati\'O na e õe do emi-
nário . \tale a pena acre centarmo. uma ob en·ação obre a participação efe-
tiva do div·er o tipo de interlocutores. De acordo com a teoria geral da
argumentação, aprese11ç a _fí ica dos participante , deliberante ou não . exerce
um efeito argumentativo obre o que e tá endo di cutido e obre as even-
-
tuais conclusões (Perelman, 1976, p . 154 s .). Dando um exemplo podemos
-
imaginar que dentro de uma e ão de e tudo obre a fome o argumentos
apresentado por famintos de verdade exerceriam um efeito eleti\10 muito
mai convincente do que qualquer leitura de dado numérico do anuários
e tatí tico oficiai . O efeito argumentativo ligado à pre ença fí ica dos
interlocutores ou te temunha é bem conhecido do juíze e advogados no
tribunai . Na e õe do eminário de pe qui a-a ão e e efeito também
,,.,.,.. ---- - -
exi tem. o entanto. o pe qui adore devem ficar atento a po ívei en-
.,. -
70 ~tlCHEL TI~ OLLEf\ T

volvj_mento emocionais _de aJgun do participante 't u cetívei d fazer


perder ao demai o entido da objetividade.
-

7. Campo de observação, amostragem e representatividade


qualitativa

A delimitação do campo de ob er-v'ação empírica, no qual e aplica o


terna da pesqui a, é objeto de di cu são entre o intere ado e os pe qui a-
dores. Uma pesqui a-ação pode abranger uma comunidade geograficarnen-
te concentrada (fa\ ela) ou espalhada (campone e ). Em algun cas·o , a de-
1
-
limitação empírica é relacionada com um quadro de atuação, como no ca ~
de uma in tituição, univer idade etc.
Quando o tamanho do ca1np delimitado é muito grande, coloca-se~
que tão da amo tragem e da repre entatividade. -1
A nece idade de con truir amo tras para a ob ervação de uma parte
repre entativ·a do conjunto da população con iderada na pe qui a-ação j
a-- unto controvertido. Existem \'ária o i õe :
-
@ _A _primeira exclui a pesqui a por amo tra. Seus partidário conside-
- - -- ---
ram que, para exercer um efeito conscientizador e de mobilização em torno
de uma ação coletiva, a pe qui a deve abranger o conjunto da população
que erá con ultada ob forma de que tionário ou de di cu õe em gru-
po . Tal postura é viá\1el quando a população é de tamanho limitado. Quan-
do se trata de milhare de pe soa , eria preci o prever um e quema orga-
nizativo dotado de muito pe qui adore e o problema de controle da
execução da pe qui a e tornariam rapidamente complicado . Numa pe -
quisa interna obre o problen1a uni\'er itário , que foi organizada na PUC
de Campina , o organizadore con eguiram de envolver uma pe~qui "a-ação
em amo tra abrangendo qua e a totalidade do 18 mil aluno em 1982. No
caso particular de uma univer idade, é factível controlar a coleta de dado a
partir da divi ões já existentes: faculdades departamento , turma etc.,
recorrendo a repre entante de cada unidade. uma população mai difu a
não compartimentada a coleta eria muito mai complicada do que no con-
• • J' •

texto un1ver 1tano.


Acreditamo que a po ição de exau ti,ridade é válida no ca o de uma
popula ão de dimen ão compatível com a carga de trabalho do pe quisa-
d re . A lução do probl ma d ve le\1 ar também em con ideração a facili-
•,~fTODOLOGIA DA PESQUIS.A-.-\ÇÃO 71

dade de ace o à pe oa da população e ua condiç-e de participação.


Por exemplo, é mai fácil e tab lecer contato de p qui a com 1O mil alu-
no de uma uni\ er idade do que com 10 mil lrabalhadore d uma região
1

suburbana.

--- e unda o i ão con -i te em recomendar o u o da amos


b Uma ~....._

gem. De acordo com a concepção da ondagem, a pe qui a é efetuada den-


tro de um pequeno número de unidade (pe oas ou outra ) que é e tati ti-
camente repre entati''º do conjunto da população. ,A.. determinação do ta-
manho da amo tra, o controle de ua repre entatividade e o cálculo da con-
fiabilidade ão realizado a partir de regra e tatí rica . Na concepção da
pe qui a-ação, e te procedimento apre enta o inconveniente de não permi-
tir efeito de con cientização. A unidade ão escolhida aleatoriamente e.
ão mantida em i olamento. De fato, e acontecer alguma forma de con -
cientização entre o indi\ íduo de uma amo tra i to normalmente não incide
1

obre a população global. Os partidário da pe qui a-ação re olvem e te


problema por meio da difu ão de informações: a grande maioria da popula-
ção abe que uma pe qui a é realizada por meio de informações em diver-
o canai de comunicação formai ou informai . A açõe ão também
di\ ulgada e dão lugar a operaçõe de popularização.
1

c Qma terceira osição consi te n<!_Yaloriza ão de critério de repre-


entati vidade qualitativa. Na prática da pe qui a ocial, a repre entati,,jda-
de do grupo inve tigado e dá por critério quantitativo (amo tragem
e taticame nte controlada) e or critério qualitati o (interpretativa ou ar-
gu mentativamente controlado ). Me mo em pe qui a convenc ional~ a pla-
-
n jarem amo tra de pe oa a erem entrevi tada com alguma profundi-
dade, o pe qui adore co tumam recorrer à chamada "'amostra inten-
cionai ''. Trata- e de um pequeno número de pe oas que ão e colhida
intencionalmente em função da relevância que ela apre entam em relação
a um detenninado a unto. E te princípio é i tematicamente aplicado no
caso da pe quisa-ação. Pes oa ou grupo ão e colhidos em função de ua
repre entatividade social dentro da ituação con iderada.
;

E claro que isto infringe o princípio da aleatoriedade que, em geral, é


con iderado como condição da objetividade. De acordo com e te princípio,
toda a unidade da população têm a me ma probabilidade de er e colhi-
da . A p1·iori, a informação gerada por cada unidade inve ti gada po ui a
me ma rele,.r ância. No ca o diferente, o rincí io de inten ionalidade é ade-
quado no contexto da pe qui a ocial com ênfa e no a p cto qualitativo ,
~
n. ~ilCHEL THIOllf NT

onde toda a unidade não ão con iderada como equivalente , ou de rele-_


\ância igual. Exi te, ne te ca o, um tratamento qualitativo da interpretação
1 -
do material captado em unidade qualitativamente repre entativa do con-

junto do univer o e de modo diferenciado em função da caracterí tica do
problema inve tigado. Na pe qui a-ação a representatividade da pe oa e
do grupos significativos é julgada e a e colha é decidida ao nível do emi-
nário central a partir do con en o do pesqui adore e participantes.
-- a aplicação do princípio de intencionalidade podem ocorrer di tor-
1

ções relacionada com as preferência individuais, mas e ta ão controla-


da e ''corrigida ., por meio da di cu ão e a partir de comparaçõe entre a
ob ervações obtida em unidade ignificativamente diferente .
A que tão da repr entati \1 idade qualitativa pode e r exemplificada
no contexto ociopolítico da ação operária. A pe qui a tradicional por on-
dage1n levaria em conta uma amo tra de trabalhadore. e colhido aleato-
riamente em fic hário de emprego o u a p,a rtir de uma seleção de locai de
moradia. Qualquer trabal hador te ria mai o u meno a mesma probabilidade
de er entrevi tado. Por ua vez, numa pe qui a com amo tra inte ncional,
eriam elecionado trabalhadore ou grupo de trabalhadore que ão co-
nhecido como elemento ativo do movimento sindical ou político. A sua
repre entatividade seria ignificativa da tendê ncia favorávei o u contrá-
ria a determinados objetivo em discu são. A informação que e e traba-
lhadores ão capaze de tra n mitir é muito mais rica que a que e pode
;

alcançar por meio de que tionários comun . E claro que a informação obti-
da não é generalizável ao nível do conjunto da população, ma há ub tân-
cia nece ária à percepção da dinâmica do movimento. Além di o para e
ter uma visão mai completa, pode- e contrabalançar a repre entação do
elemento mai '·a"·ançado ,. por um e tudo particular obre os elemento
tido como ~~atra ado '' na dinâmica do fenômeno e tudado. Tai elemento
ão igu almente elecionado por meio de amo tra intenciona l.
Como j á notamo em outra oportunidade (Thiollent, l 980b, p. 63-79).
o critério de repre entati~·idade do grupo investigados não é nece aria-
;

mente quantitativo. E importante, dentro de certo ""parâmetros'' quanti-


tati\10 levar em conta a repre entatividade ociopolítica de grupo ou de
opiniõe que ão minoritário em termos numérico , ma expre i''º de
uma ituação em te rmo ideológico e político . A repre entati vidade
expre iva pre upõc c1itério de avaliação política no eio da conjuntura.
A importância eia! do grupo ''mai a\·r ançado , é maior do que eu pe o
...
METODOLOGIA DA PESQUIS:\-AÇ~O 71

numérico no conjunto da população.:... A ideia de uma minoria podem se


tornar expres ivamente mai relevante do que a aparente ' au ência' de
fdeias, ou opiniões, da maioria. Seu pe o igni ficati\'O não e limita a uma
questão de frequência observacional. Por i o as pe qui a ba eada em
amostras estatisticamente representati''ª têm tendência a dar uma \'Ísão
bastante ' conformista da realidade, eu critério ão fal amente iguaLitá-
rios quando po tulam que cada indivíduo vale por um e que cada opinião é
equivalente a qualquer outra. Os critério numérico podem chegar a fazer
desaparecer as minoria . A nosso ver, a repre entatividade expre si\"ª (ou
qualitativa) é dada por uma avaliação da relevância política do grupos e
das ideia que veiculam dentro de uma certa conjuntura ou movimento.
Trata-se de chegar a uma repre entação de ordem cognitiva, ociológica e
politicamente fundamentada, com pos ível controle ou retificação de suas
di torçõe no decorrer da in\'e tigação.

8. Coleta de dados

A coleta de dados é efetuada por grupos de obervação e pe qui ado-


res sob controle do seminário central. As principais técnica uti1izada são
a entrevi ta coletiva nos locai de moradia ou de trabalho e a entrevista
individual aplicada de modo aprofundado. Os locai de inv'estigação e o
indivíduo ou grupos ão e colhido em função do plano de amostragem
com controle e tatístico ou com critérios intencionai (veja item anterior).
Ao lado dessas técnica , também ão utili zá\'eis questionários convencio-
nai. ue ão aplicávei em maior e cala No que diz re peito à informação
já exi tente di\ ersa técnicas documentai permitem re gatar e analisar o
1

conteúdo de arquivo ou de jornais. Algun pesqui adores recorrem tam-


bém a técnicas antropológicas: ob ervação participant~l- diários d amp.o~
histórias de vida etc. Algun autores recomendam técnicas de grupo tais
como o sociodrama: com o qual é possível reproduzir certas ituaçõe o-
ciais que vi vem os participantes. Por exemplo as situaçõe marcada pela
relaçõe de de igualdade: empregado/patrão, mulher/marido etc. e a re-
produção imbólica ão incorporadas formas de expre são cultural própria
ao grupo con iderados.
Sejam uai forem a técnica utilizada , o grupo de ob ervação
compo to de pesqui adore e de participante comuns procuram a infor-
ma ão_que · ulgada nece ária para o andamento da pe qui a, re ponden-
74 .\.ilCHEl THIOLLENT

,
do a olicitaçõe do eminário central. E claro que o grupo podem forne-'
cer outra informaçõe que não e tavam previ ta , o que pe11nite aumentar
a riqueza da de criçõe . ___...-;
Quando é nece sária, exi te uma divisão do trabalho entre o diver os
grupo de ob en·ação Assim dentro de uma população dada, um grupo pode
ob ervar a sunto relacionado com a aúde, outro com a habitação etc. Em
cada grupo de ob ervação. há membros da coletividade e pesquisadores
...
profi ionais. Os membros da coleti\ridade, ou pelo menos algun deles,
chegam a exercer funçõe de pe qui ador. Para isto é organizado um treina-
mento e pecífico e adaptado ao contexto cultural considerado.
Toda a informaçõe coletada pelo diver o grupo de ob ervaçao
e pe qui adore de campo ão tran ferida ao eminário central . onde ão
di cutida . anali ada , interpretada etc. __.,-
a concepção de roteiro de entrevi ta , que tionário ou de outro
in trumentos de coleta de dado , em pe quisa alternativa empre e coloca
a que tão do papel atribuído aos elementos explicativos associados à obten- 1
ção de informação e clarecida por parte dos respondentes. Con ideramo
que tai elemento não visam orientar as re postas em função da expecta-
tiva do pesquisadores e sim de condicionar as pessoas para que não res-
pondam apenas com 'facilidade" i to é, como se a sua respo ta fo se um
simple reflexo de senso comum ou do efeitos do condicionamento pelos
meio de comunicação de ma a. As ''explicações' são sugerida aos res-
pondente para que tenham um papel ativo na investigação. A "explica-
ções'' consistem em sugerir comparaçõe ou outros tipo de raciocínio não
cone] u i vos que permitam aos respondente uma reflexão individual ou
coletiva a re peito dos fato observado e cuja interpretação é objeto de
que tionamento. Esses a pecto explicativos podem estar relacionado com
o objetivo de coo cientização e erem ampliados numa fa e po terior, pela
divulgação do resultados. Con ideramos que o efeito de "explicação ' co11-
tido na fa e propriamente in\'e tigatória constitui uma importante caracte-
rí tica metodológica no di po iti\'OS de observação-questionamento.
Um outro problema frequentemente di cutido diz respeito ao uso de
que tionário ou formulário . Como e abe, na pesquisa convencional tais
in trumentos de empenham um importante papel na obtenção de informa-
ção obre a caracteri tica, ocioeconômicas e opina tivas da população. Na
p qui a-ação_nem empre ão aplicado que tionários codificados pois,
quando a _população é de pequena c§nen ão e ua e truturação em grupõS_
.\1fTODOLOGIA DA PESQLISA-AÇÃO 75

permite a fácil realização de di cus õe é po ível obter informaçõe prin-


cipalmente de modo coletivo em adrnini tração de que tionário indivi-
duais. No entanto, quando a população é ampla e o objetivo da de crição e
da análi e da informação é bem definido e detalhado, o que tionário geral-
mente é indispensável.
Os princípios gerais da elaboração de questionário e formulário con-
vencionais são úteis para que o pe qui adore po am dominar o a pecto
técnicos da concepção, da formulação e da codificação. No contexto parti-
cular da pes q11i.sa-ação, os questionário obedecem a alguma da regras
do que tionários comun (clareza das pergunta pergunta fechada , e co-
lha múltipla, perguntas aberta etc.). Todavia, há alguma diferença . Na
pe qui a-ação o que tionário não é suficiente em i mesmo. Ele traz infor-
maçõe obre o univer o con iderado que erão anali adas e di cutida em
-
reuniões e seminários com a participação de pessoas representativa . O pro-
cessamento e tatístico das resposta . com computadore ou não nunca é
suficiente. O processamento adequado empre requer uma função argumen-
tativa dando rele''º e conteúdo social às interpretações.
Internamente~,
a concepção do questionário é intimamente relaciona-
-
da com o tema e os problema que forem levantados nas di cu sõe iniciai
-
e com as hipóte es ou diretrizes correspondentes. A formulação do que tio-
nário dá lugar a di cus õe com diver os tipo de participante , com o
entrevi tadores e o pesqui adore extraído do meio social inve tigado.
Ante de er aplicado em grande e. cala, à pe oa elecionada na amo tra
ou intenc i onalmente~ o que tionário é testado ao nível de um pequeno nú-
mero de pe oa repre entativa , o que permite melhorar a formulação e
tirar alguma ambiguidade de linguagem.

9. Aprendizagem
_..a es uisa-a ã
uma ca__pacidade de aprendizagem é a ociada ao
proce so de investigação. 1 t pode er pensado no contexto da pe qui as
e m educação comunicação, organização ou outras. O fato de as ociar pes-
qui a-ação e aprendizage1n sem dúvida · m~or relevância na pesqui-
- -
sa educacional, mas é também válido nos outros ca o .
r -
A pe qui as em educação comunicação e organização acompanham
~ açõe de educar, comunicar e or anizar. O ' 'atores'' empre têm de ge-
76 MICHEL THIOLL[\ T

rar, utilizar informaçõe e também orientar a a ão tomar deci õe etc. 1 to


faz parte tanto da ati\1 idade planejada quanto da atividade cotidiana e não
pode deixar de er diretamente ob ervado na pesqui a-ação. As açõe in-
ve tigada envolvem produção e circulação de informação elucidação e
tomada de deci ões, e outro aspectos upondo urna capacidade de aprendi-
zagem do participante . E te já po suem e sa capacidade adquirida na
ativjdade normal. a condições peculiares da pesquisa-ação, essa capaci-
dade é aproveitada e enriquecida em função das exigências da ação em
tomo da qual e desenrola a inve tigação .
Para de ignar o ti o de colaboração que e e tabelece entre_p q11isa-
..
dore e participantes do meio ob enr ado~ é alguma veze utilizada a noção
de ' 'e trutura de aprendizagem conjunta'. No contexto da pe qui a-ação
a ociada a uma forma de con ultoria em as unto técnico , como no ca o
da análi e de i tema de informação, a e trutura de aprendizagem conjun-
ta reúne o anali tas e o usuário na bu ca de oluçõe apropriada (Jobim
Filho, 1979).
De modo geral a diver a categoria de pe qui adore e participan-
te aprendem alguma coi -a ao in\te tigar e di cutir po ívei açõe cujos
re ultado oferecem novo en inamento . A aprendizagem do participan-
te é facilitada pelas contribuições dos pesqui adores e . eventualmente, pela
colaboração temporária de especiali ta em a suntos técnicos cujo conhe-
cimento for útil ao grupo. Em algun ca o . a aprendizagem é si tematica-J
mente organizada por meio de eminário ou de grupo de e tudos comple-
mentare e também pela divulgação de material didático. _.,--
Segundo O. Ortsman ( 1978, p. 233) . o papel dos e peciali ta que
intervêm con i te em facilitar a aprendizagem do participante de diferente
maneira : pela re tituição de infor 111ação, pelo modo de di cu ão que
con eguem promo\·' er, pela modalidade de formação propo ta e pela
negociaçõe que e tabelecem para evitar que certa parte implicada na
icuação não ejam eliminada da di cu ão.

1O. Saber formal/saber informal

Dentro da concepção da pe qui a-ação o estudo da relação entre sa-


ber formal e aber inforrnal vi a e tabelecer (ou melhorar) a estrutura de
comunicação entre o doi univer o culturai : o do e peciali ta e o dos
.\ 1ETODOLOGIA DA PE.SQLISA-AÇ~.Q 77

intere ado . Para implificar, incluímo entre o e peciali ta o técnicos e


o pe qui adore . Em certo ca o , quando é grande a di tância entre técni-
cos e pe qui adore > o problema abrange o relacionamento de trê univer-
sos. E\1entualmente o probJema é mai compl icado quando exi tem diver-
as categorias de população>diversa categoria de pe qui adore e de ou-
tros e pecialistas envolvido no as unto.
Para fins de exposição didática. vamo reduzir o problema a uma re-
lação entre aber formal do e peciali ta (dotado de certa capacidade de
ab tração) e aber informal. ba eado na experiência concreta do partici-
pante comun . Deixamo de lado o fato de que o e peciali ta também
po uem aber informal e que o participantes ''leigo ' têm. frequenten1en-
te alguma faculdade de emitir hipóte e ou de generalizar. Todavia, o fato
é que exi te o problema da diferença do~ doi uni,1er o , que e manife ta
em dificuldade de compreen ão mútua.
De acordo com a po tura tradicional . muito pe qui adore con ide- \
ram que, de um lado, os membros das classe populares não sabem nada
não têm cultura, não têm educação, não dominam raciocínio ab trato só
podem dar opiniõe e, por outro lado o especiali tas abem tudo e nunca

temat1va· que e encontra na pe qu1 a-açao (e pe qu1 a part1c1pante .


O participante comum conhece o problema e a situaçõe na quai
está vi\1endo. Por exemplo o pequeno produtor rural conhece várias exi-
gência naturai e econômica à quai ele co tuma e ubmeter por expe-
riência. De modo geraJ~ quando exi tem condiçõe para ua expre ão~ o
aber popular é rico e pontâneo muito apropriado à ituação local. Porém
endo marcado por crença e tradiçõe . é in "Uficiente para que a pe oas
encarem rápida tran formaçõe .
Por sua vez, o aber do e pecialista é empre incompleto, não e apli-
ca sati fatoriamente a toda as ituaçõe . Para que isto aconteça, o e pecia-
li ta preci a estabelecer alguma fo111ta de co1nunicação e de intercompreen-
ão com o agentes do saber popular.
a bu ca de oluçõe ao problema colocado , o pe qui adore , e -
peciali ta e participante deve1n chegar a um relacionamento adequad.-.....
entre aber formal e aber informal. Tal r lacionamento pode er e tudado,
a nível ofi ticado, a partir de con ideraçõe de p icologia da cognição,
p icologia ocial ociolinguí tica etc . Com a no a reocupação é aqui.
-
18 ,\~ICHEL THIOLLEt-.1 T

de ordem Jllai átic~ y_a.mo ugerir urna técnica ba tante rudimentar que
-
con iste em comparar a temática do e peciali ta e a do participante comum.
-
Num primeiro momento o partic!J>ante ão levado a de crever a
situação ou o problema que estão focalizando, com a pecto de conheci-
mento (busca de explicações) e de ação (bu ca de soluçõe ). ~de crição dá
lugar a uma li ta de temas que são ponderados em função da relevância que
~

lhe é atribuída pelos participantes. Por ua vez, os e pecialistas e tabele-


-
cem a ua própria temática relativa ao me mo problema ou a sunto, _com.
indicação de sua ponderação.
Em eguida as dua temática ão comparada , procurando- e mos-
trar zonas de compatibilidade e de incompatibilidade, tanto ao níve l da ......,
li tagem como no da ponderação (ordem de prioridade). N a li tagem ob-
,
erva- e que e i te m diferença linguí tica . E nece ário e tabelecer e r-
re pondência ·'perfeita ., ou '·imperfeita " entre a terminologia popular .:_:j
terminologia erudita.
Para compreender a diferença . é preci o e clarecer o pres uposto
de cada tema. Daremo um exemplo (retirado de um depoimento oral de
um técnico da Pe agro .. Campo . RJ) sumário relativo à comparação das
representações técnicas de pequenos produtore de arroz do norte fluminen e
com as repre entaçõe dos técnico (agrônomo ). Entre os diferente tema
associados ao cultivo do arroz, aparece o da palha e de sua utilização . uma
vez colhido o arroz. Na representação do pequeno produtor a melhor solu-
ção con iste em queimar a palha antes de trabalhar a terra. Na repre enta-
ção do técnico .. a melhor oJução seria incorporar a palha ao o lo. Pro-
curando e tabelecer o pre upo to de ta divergência, e tabelece- e que,
na repre entação do produtor a questão é e encialmente mecânica. poi a
palha dificulta a técnica de aração com tração animal que ele utiliza. O
e forço preci aria er bem uperior à força do animal. Enquanto na repre-
entação do técnico o pre supo to é de natureza bioquímica., pois a decom-
po ição da palha no olo cria matéria orgânica fertilizante. E ste exemplo ó
mostra uma divergência acerca de um a sunto técnico.
A partir da comparação da temática é pos ível con tatar a di''er-
gênçia , como também a convergências, as diferenças de ponderação rela-,
cionada çom quai quer a pecto da \'ida ociaJ, econômica ou política. E
de grande intere e igualmente e tudar a diferenças de linguagem, de ta-
cando aquela que ão ob táculos à intercompreen ão. Não e trata apenas
de fazer com que o participante aceitem ponto de vi ta ou noçõe que
.\ t(TOOOLOGIA DA P[SQLISA-AÇÁO 79

não pertenciam ao eu tini \'er o de repre entaçõe . Do contato com te


último o especialistas podem alterar a ua própria repre entação no nti-
do de enriquecer completar ou concretizar o conteúdo do que Je conhe-
. .
ctam omente em ter111os gerai .
A técnica da comparação da temática pode er aplicada ao nível de
pequeno grupo de estudo com participação de pe qui adore e membro
da população considerada. Também é pos Í\'el recorrer a que tionário a
erem aplicado a um maior número de pe oas . ou a uma amo tra repre-
entati va.
O u o da técnica de comparação não re olve todo o prob lema da
relação entre aber forrr1al e aber informal. É apena um ponto de partida
que con i te em .:mapear'' o doi uni ver o de repre entação e em bu car
meio de intercompreen ão.

11. Plano de ação

Para corre ponder ao conjunto dos eus objetivo , ~ pesqui a-ação


deve e concretizar em alguma forma de ação planejada objeto de análi e
deliberação e avaliação. Contrariamente à opinião de algun pe qui adore ,
que utilizam a denominação ''pe qui a-ação' para designar qualquer tipo
de ''conversa' info1 1oal ou "'bate-papo' com pequeno grupo de trabalha-
dores ou moradore de um local con ideratno que a fo1111ulação d um
plano de ação con titui uma e ·igência fundamental. Em geraJ, trata- e de
uma ação na qual o principai participante ão o membro da situação ou
da organização sob ob ervação. Adi cu ão info111tal com pequeno grup'ós
e empre um pa o nece ário, principalmente na fa e exploratória da pes-
qui a, ma não chega a caracterizar o conteúdo da propo ta metodológica
no eu conjunto. --
A elaboraç~o do plano_d _aç- consiste~m definir com preci ão:
p Quem são os atores ou as unidades de intervenção?
b) ,Como e relacionam o atore e as instituiçõe : convergência, atri-
/ tos, conflito aberto?
c) Qu.em toma as deci õe ?
~

'Quai ão o objetivo (ou meta ) tangf\i'ei da ação e o critério


de ua a vali ação?
80 ~~ICH EL THIOlLENT

e) Como dar continuidade à ação, ape ar da dificuldades.


f) Como assegurar a participação da população e incorporar uas su-
/ gestões?
g) Como controlar o conjunto do processo e avaliar os resultados?
-
Alguns autores têm mantido uma relativa confusão acerca do papel 1
dos participantes ao darem a impressão de que o principal ator seria o pr~
prio pesquisador. De acordo com a nossa compreensão do assunto, o_princi-
-
pal ator é quem faz ou quem está efetivamente interes ado na ação. O pes-
. ~

quisador desempenha um papel auxiliar, ou de tipo ''assessoramento'', ell!:.


hora haja situações nas quai o pesquisadore preci am a umir maior en-
-
vol\rimento e re ponsabilidade, em particular nas situaçõe cercadas de
obstáculo políticos ou outros.
A definição da ação e a avaliação das suas consequências dão lugar a
um tipo de discussão que chamamos ~'deliberação''. Como foi visto no Ca-
pítulo 1~ a estrutura de raciocínio da pesqt1isa-açâo aprese]lta aspectos ar u-
mentati vo ou deliberativos. Tais as ~O§ existem na colocação dos pro-
-
bJemas, na interpretação dos dados para fins comgrobatórios e na defini_ção
-
das diretrizes de ação. No que toca a este último ponto, contrariamente à
visão tradicional, as propostas de ação ou as decisões a serem tomadas
dentro de uma ação preexistente não são obtidas a partir de uma simpJe~
~'leitura'' de dados. Não bá neutralidade por parte dos pesquisadores e dos
-
atores
,
da situação. A con\ticção a que podem chegar acerca da nece sidade
ou da justeza de uma ação amadurece durante a deliberação no seio do
seminário e dos outros grupos participantes da pesquisa. Na medida do __eo :
ív·el, o re ultados das deliberações são obtido por con enso. Quando os
ponto de \1ista são inconciliáveis, as di,1ersas alternativas são respeitadas e
registradas para futura continuaçã,o da discu ão e, eventualmente erá or-
ganizada urna implementação comparativa.
A ação corresponde ao que precisa ser feito (ou transformado) ara

realizar a solução de um determinado problema. Dependendo do campo de
atuação e da problemática adotada, existem v·ários tipos de lação, cuja tôni-
ca pode er educativa, comunicativa, técnica, política, cultural etc. ~o_ca~o
articular da ação técnica - como no da introdução de uma no\1a técnica
oo campo ou. do re gate de uma antiga técnica - é necessário levar em
conta o aspecto ociocultural do eu contexto de u o.
... - -
81

A implicações da ação ao nívei individuai e coletivo devem er


explicitadas e ª''aliadas em termo reali ta , evitando criar fal as expectati- \
vas entre os participantes no que diz re peito ao problema da o iedade .l
global.

12. Divulgação externa

Além do retorno da informação ao grupo implicado , também é


po ível, mediante acordo prév·io do participantes divulgar a info1111ação
externamente em diferente etore interes adas. A parte mai ino\1 adora
pode er in erida na discu ão de trabalho em ciência ociais e divulgada
no canai apropriado : conferência , congre os etc.
Para ati fazer as exigências de di'v'ulgação ao nível do meio popu-
lares, o treinamento dos pesquisadores inclui técnicas de apresentação de
re ultado , técnicas de comunicação por car1ais formais e informai , técni-
cas de organização de debates públicos, suportes audiovi uai etc.
A ideia de retorno da informação obre o resultado aos membros da
população não é objeto de con enso entre dí verso partidários da pe qui a-
-ação. Algun acham que a pe quisa-ação (e.ventualmente. pe qui a partici-
pante) por ter exigido uma forte participação da população no eu meca-
ni mo não preci a re tituir a informação. E ta já estaria conhecida na
hora da in\1estigação propriamente dita. Para outros partidário de ta orie-n-
tação de pe qui a, a re tituição da infonnação é neces ária ju tamente para
permitir um efeito de ''vi ão de conjunto'· ou de hgeneralização,, que não
se1ia po ível ao nível da imple captação de informação. -
A no o \1er, antes do retorno há todo um trabalho de inve tigação e
de interpretação dentro da problemática adotada e levando em conta a pes-
qui a com elementos ''explicativo ' e a discus ão em grupo e no eminá-
rio central. Esse trabalho exerce um efeito de sínte e de todas a informa-
çõe parciai coletadas e um efeito de convicção entre o participante . O
retomo é importante para e tender o conhecimento e fortalecer a con'licção
e não deve er vi to como simple efeito de ''propaganda,_ Trata- e de fazer
-
conhecer-o resultados. de uma pe qui a que, por sua vez, poderá gerar rea-
õe e contribuir _para a dinâmica da tomada de con ciência e, eventual-
mente, ugerir o início de mai um ciclo de ação e de inve tigação. O
-
canai de difu ão corre pondente ao retomo da informação ão \tariávei
82 1\•tlCHCL THIOLLENT

em função da caracterí tica de cada ituação. É po ível utilizar o canai


criado na oca ião da pe qui a: grupo de ob ervação, informantes etc. A
divulgação do resultados de\i·e er feita de modo compatível com o nível
de compreen ão dos de tinatários. Deve- e também pre\'er meios e canai
que permitam que a população manife te sua reaçõe e eventuai uge -
tões. No contexto particular da pe qui sa-ação em comunicação, quando e
trata de pe quisa relacionada com a criação ou o funcionamento de um
meio de comunicação Uornal rádio etc.) é po sível aproveitar o próprio
meio como in trumento de retomo da pe qui a.
Em conclu ão, parece-no de ejável haver um retomo da info1111ação
entre o participantes que conver aram , participaram, in\le tigaram, agiran1
,;

etc. E te retorno vi a promover uma vi ão de conjunto. E difícil imaginar


que um indivíduo que e teja participando do proce o tenha espontanea-
mente ace o ao conjunto. O canai de di \rulgação, obretudo o infor-
mai , são aproveitado para fortalecer a tomada de con c iência do conjunto
da população interessada (não limitada aos participantes efetivos). A toma-
da de con ciência se desen\101ve quando as pe soa de cobrem que outra
pe oas ou outros grupo vivem mai ou menos a mesma situação.
83

Capítulo Ili
,
Areas de aplicação

Em função de ua orientação prática, a pesqui a-ação é \.'Oltada para


diversificada aplicações em ctiferentes áreas de atuação. Sem reduzirmo a
nece sidade de uma constante reflexão teórica, podemos considerar que a
pesquisa-ação opera principalmente como pesquisa aplicada em suas áreas
prediletas que são educação, comunicação ocial, erviço ocial, organiza-
ção, tecnologia (em particular no meio rural) e prática política e indi-
cais. Por enquanto apresentaremos algumas indicaçõe relacjonada com
e a áreas empiricamente con tituída . Outras área poderiam e\'entual-
mente e tar incluída , tais como urbani mo e saúde, ma ainda faltam in-
formaçõe obre experiência ou tendência .
No no o Jevantamento daL área de aplicação não pretendemo mo -
trar exemplo de "boa'' ou de "'má'' pe qui a-ação. Queremo evitar dar "'li-
çõe aos e ileciali ta de cada área .. que, por definição, são o mais qualifi-
cados_par · cutir e re olver o problema metodológicos de uas ati\1idade
-
e pecíficas. Só queremo ugerir para adi cu são, numa rápida "'pincelada ,
-algumas informações e ideias sintéticas que e tão relacionadas com a aplica-
ção da orientação de pe qui a-ação em cada uma das áreas mencionada .
Além di o, ob ervamos que em geral os pe qui adore das di,. er a
áreas e ignoram e de conhecem a pe quisa-ação fora de sua especialidade.
Pesquisadore en\ olvido em práticas políticas acham frequentemente e -
1

tranho o fato de que a pe qui a-ação eja também uma propo ta metodoló-
gica para a áreas organizacionai e tecnológica . A nosso ver, um certo
84 1\-tlCHEL THIOlLENT

''recuo" é nece ário e um obrevoo na diver a área no permite apontar


a di,,·er idade, a di\'ergências e a con\1ergências que animam a propo tas
de pe qui a-ação.

1. Educação

a área educacional1 em diver o paí e , exi te uma tradição de pe -


qui a participativa e de pe qui a-ação em matéria de formação de adulto ,
educação popular. formação indical etc. o etor convencional da educa-
ção ( lº e 2º grau ), a aplicação de a orientaçõe é mai rara e di fíc il ,
talvez por cau a de re i tência in titucionais e de hábito pro~e orai . No
entanto, no último tempo , nota- e uma maior d1. ponibilidade qt1e e re-
laciona talvez . com a de ilu ão de muito profi ionai para com a pe -
. . .
qu1 ª' convenc1ona1 .
No e tudo da metodologia da pe qui a educacional exi te um amplo
debate a re peito da dita opo ição entre a tendência quantitati''ª ba eada
na e tatí tica, e as tendências qualitativa ba eadas em diver a filo ofias.
Temos indicado que a opo ição entre 'quantitati,1ismo'' e "qualitativi mo'
é frequentemente um fal o debate. Quando eu exce so forerri adequada-
mente criticado no erá pos Í\tel articular o a pectos qualitati ''º e quanti-
tativo do conhecimento dando conta do real (Thio1lent . l 984c p. 45-50).
Um outro tema amplamente debatido diz re peito ao u o de método
participa ti \' OS e ao u o da pe qui a-ação em contexto educacional. ma da
mai difundida ju tificati''ª con i te na con tatação de uma de ilu ão para
com a metodologia convencional, cujo re ultado , ape ar de ua aparente
preci ão . e tão muito afa tado do problema urgente da situação atual da
educação. Por nece ária que ejan1, rev·elam- e in uficiente muita da
pe qui as que e limitam a uma imple de crição da ituação ou a uma
avaliação de rendimento escolare .
No Bra il, a pe qui a participante ocupa um e paço cre cente na área
de pe qui a educacional. inclu i\1e com apoio in titucional. Ela é principal-
mente concebida como n1etodologia derivada da ob enração antropológica
e como forma de comprometimento do pesqui adore com cau a popula-
re relevante . Por ua \'ez~ a

p qui a-ação é alguma veze di tinguida da
pe qui a participante pelo fato d focalizar ações ou transformaçõe e pe-
cífica que e igem um direci namento ba tante explicitado.
f\·tETODOLOCIA DAPESQJISA-AÇAO 85

Como elemento de di cu ão, retomaremo aqui alguma con idera-


çõe relacionada com um po ível papel da pe qui a-ação no contexto da
recon trução do i tema e colar (Thiollent l 984c, p. 45-50).
Dentro de uma concepção do conhecimento que eja também ação,
podemo conceber e planejar pe quisa cujo objeti \'O não se limitem à
de crição ou à avaliação. No contexto da con trução ou da recon trução do
sistema de en ino, não basta de crever e avaliar. Preci amo 2roduzir ideias
que antecipem o real ou que delineiem um ideal.
Ne e entido, os pe qui adore preci am definirºº''º tipo de exi-
gência e de utilização do conhecimento para contribuírem para a tran for-
mação da ituação. 1 to exige que as funçõe ociai do conhecimento e-
jam adequadamente controlada para favorecer a condiçõe do eu u o
efetivo. Dentro de um equacionamento reali ta do problemas educacio-
nai , tal controle vi a minimizar o u o meramente burocrático ou imbó-
licos e maximizar o uso, realmente transformadores.
Com a orientação metodológica da pesquisa-ação, o pe qui adores em
educação e tariam em condição de produzir informaçõe e conhecimentos de
u o mai efeti\10, inclusive ao nível pedagógico. Tal orientação contribuiria
para o e clarecimento da micros ituações e colares e para a defmição de
objetivo de ação pedagógica e de tran formações mais abrangente .
A pe qui a-ação promo\1 e a participação do u uário do i tema e -
colar na busca de soluçõe aos eus problema . Este proce o upõe que o
pesqui adore adotem uma linguagem apropriada. O objetivo teóricos da
p squi a ão con tantemente reafirmado e afinado no contato com a i-
tuaçõe aberta ao diálogo com o intere ado na ua linguagem popular.
Na recon trução, não e trata apenas de ob ervar ou de de crever. O a -
pecto principal é projetivo e remete à criação ou ao planejamento. O
problema con iste em aber como alcançar determinado objetivo , produ-
zir determinados efeitos, conceber objeto , organizaçõe , práticas educa-
cionai e suporte materiai com caracterí ticas e critério aceitos pelo
grupos interes ados.
A forma de raciocínio projetivo é diferente da forma de raciocínio
explicativo, que são relacionadas com a ob ervação de fatos. o caso da
projeção, pressupõe-se que o pesqui ador di põe de um conhecimento pré-
vio a partir do qual erão re olvido o problema de concepção do objeto
de acordo com regra ou critério a erem concretizado na di cu ão com
86 1'-'1ICHEL THIOLLENT

o u uário . Não é um método de obtenção de informação· ne e caso


particular é um método de ''injeção ' de info11nação na configuração do
projeto.
Numa vi ão recon trutiva, a concepção das atividades pedagógjca e
educacionai não é 'v'i ta como tran mi ão ou aplicação de informação. Tal
concepção po ui uma dimen ão con cientizadora. Na in,1estigação a o-
ciada ao proce o de recon trução, elemento de tomada de con ciência ão
le\1 ado em con ideração nas própria ituaçõe in\'e tigadas, em particular
entre o profe ore e na relação profes ore /aluno .
Na fa e de inve tigação~ uma reciclagem da id,e ia acompanha ades-
crição ou a explicação por meio de divulgação do primeiro re ultado . A
tomada de con ciência não é omente um pr ce o e..r po t. concebido de-
poi da di"rulgação do re ultado . E te proce o é a ociado à própria gera-
ção de dado . ob forma de que tionamento . pelo meno em e cala reduzi-
da. o contexto da práticas educacionai vi tas numa per pectiva tran -
formadora e emancipatória, as ideia dão lugar a uma reciclagem que é
diferente da formação da opinião pública, poi não e trata de promover
reaçõe emocionais e im dispo ições a conhecer e agir de modo racional.
Na reconstrução a pesqui a está inserida num proces o de caráter
con cientizador e comunicativ·o . que não deve ser confundido com a im-
ple propaganda. Os pe quisadore e tabelecem canais de inv·e tigação e de
divulgação no meio e tudado ~ no quai a interação entre os grupos 'mai
e clarecido ., e ··men e clarecido ·u gera e prepara mudança coleti ''ª
na repre entaçõe comportam nto e formas de ação. 1 to corre ponde a
um tipo de que tionamento a partir do qual ão levantados e di cutido o
vário a pecto da realidade, do objetivos e do critério de tran formação.
,,
E nece ário que o pe qui adore le\'em em conta o aspecto comu-
nicativos na e pontaneidade e no planejamento con ciente de ações tran -
formadora . Tal comunicação não é concebida como proce o unilateral de
emis ão-transmi ão-rec pção e im como processo multidirecionado e de
ampla interação. Este proce o é normativamente dirigido no entido de
fortalecer tendências criadora e con trutiva .
A que tão normativa . que empre e manifesta na articulação da pe -
qui a e da ação é contr lada pelo pe quisadore por meio da deliberação
coleti"'ª e ubmetida à apro\ ação do grupo de educadore ou de aluno
1

implicado .
ti,~ETODOLOCIA DA PESQLISA-AÇÃO 87

De acordo com a perspectiva e boçada, paralelamente à es uisa ha-


veria ta produção de material didático, gerada pelo participante e
para ser distribuído em escala maior.

2. Comunicação

A pesquisa em comunicação abrange urna multiplicidade de aspec-


tos : meio de comunicação de massa, audiência, grupos de influência, im-
prensa, jornalismo, efeitos sobre o público, recepção crítica, contexto polí-
tico, polftica go\'ernan1ental, opinião pública, cinema arte , nova tecnolo-
gia , prática religio as, práticas militante etc. O enfoques podem er o
mais diversos: econôn1ico, jurídico, sociológico~ psicológico, semiológico,
tecnológico, político etc.
A maior parte da pesquisa em comunicação é realizada dentro do
padrão da pesquisa empírica con\.rencional. No entanto, a busca de altema-
ti\tas está em discussão.
Entre os métodos de pesquisa convencional frequentemente utilizados,
o pesquisador em comunicação recorre à •'pesquisa de opinião'' para conhe-
cer o e tado de espírito do público por meio de entre\'Ístas e questionários
aplicado a uma amo tra repre entativa da população. Também são bastante
utiLizadas as técnicas de ''análise de conteúdo', para qualificar e interpretar o
conteúdo manifesto dos jornais ou de outros tipos de documentos.
Na pe qui a em comunicação, a 'matéria-prima" é feita de lingua-
gen . palavra , imagen a erem captada e interpretadas de um modo que
muita veze não e tá desprovido de valore estéticos, e cuja evidenciação
pode e tornar o ponto de partida para nova experiência comunicativas e
artf ticas. A dimen ão estética e tá associada quer à arte de comunicar,
quer à arte de pesquisar, o que quer dizer que se trata da produção de um
determinado retrato do mundo que é também reflexo de uma intenção esté-
tica do seu produtor. Nesta perspectiva a área comunicati\1a está aberta a
tjpos de intervenção situados a meio caminho da arte ou até mesmo a tipos
que pertencem a uma de suas formas, tal como, por exemplo, a forma au-
diovisual, com suas técnicas próprias.
Com alcance estético ou não, desenvolvem-se várias tentativas de
comunicação diferente para as quai são neces árias nova abordagens
metodológica . A pe quisa-ação é uma orientação minoritária que está sen-
88 MICHEt TH Oll ENT

do cogitada, especialmente no contexto da comunicação alternativa (Mata,


1981, p. 72-5 e 1983, p. 138-50), comunicação popular e de modo acoplado
a diferentes práticas culturais ou militante . Além di so, a pesquisa-ação é
também discutida como possível meio de crítica à comunicação de massa.
A crítjca dos meios de comunicação de massa em particular da tele-
visão, deixou de ser uma atividade limitada aos pequenos círculo de inte-
lectuai radjcai do anos 60. Esta crítica faz parte da ordem do d ia de
muito centros de pesquisa inclusive com apoio de organismos internacio-
nais. Tal como é adrnini trada na sua forma capitalista, a tele\1isão difunde
uma cultura comercial ou uma ideologia con umi sta que e torna um gra\'e
problema, em particular nos paí es do Terceiro Mt1ndo. Além dis o, é mui-
to grande o impacto da televi ão sobre a vida política, criando um fantásti-
co poder concentrado nas mão de um número de pe soas bem reduzido.
No quadro geral da comunicação de ma . a, os críticos apontam prin-
cipalmente fato de dependência, dominação, manipulação ou alienação.
Es es conceito precisam ser relativizados, pois diversas categorias de pú-
blico não são tão dependentes e e mostram capazes de dar uma reinterpre-
tação do conteúdo da mensagens.
De acordo com a orientação da pesquisa-ação, é possível organizar
um trabalho de reflexão sobre o uso da telev·isão a partir de experiências de
grupos de telespectadores, profiss·i onais, membros de associações voluntá-
rias etc. Este tipo de intervenção con iste na de crição dos programas por
parte de tele pectadore organizados em grupo e cujo objetivo são rela-
cionado com recepção crítica conscientização, participação social e, até
mesmo, contrainformação.
Tai pe qui as ão geralmente organizadas em pequena e cala e não
... e pretende produzir alteraçõe ao nível da ociedade como um todo. Além
do mai o meio de comunicação de massa dependem de intere e eco-
nômico e ·p olíticos que não se deixam abalar por pequenos mo,rimentos
crítico . Por parte dos grupo ou a ociações, a crítica é concebida como
forma de re istência à impo ição cultura] do conteúdos ' 'eiculado pelos
meio de comunicação de ma sa.
Ao nível da atividade comunicativa concreta esta perspectjva se con-
cretiza em elaboração de material didátic,o, concepção de meios de comu-
nicação alternativos tai como jornai , filme , \.rideoteipes etc. Sem ilusão
de competir com o meio · de comunicação de ma a e e meio conse-
guem divulgar informaçõe e, obretudo, 'modo de leitura'' alternativo .
,\·1ETODOLOGlA DA PESQUISA-AÇÃO 89

De modo geral, trata- e de evidenciar as e tratégia e tática de per ua ão e


procurar elementos de decodificação do conteúdos veiculado pelo meios
de comunicação. São identificados elemento de conteúdo da notícias, ar-
gumentos de propaganda, tipificação da vida social em ºº''elas etc. No
nível das pessoas diretamente implicadas na pesquisa, a decodificação fa-
vorece uma relati"'ª neutralização do efeito intencionais da comunicação.
A ampla di,ruJgação de algumas da chaves dessa decodificação constitui
um dos importantes objetiv·os dos partidários da pesquisa-ação na área de
comunicação. Essa atividade pode ser apoiada na crítica dos meios e se
estender a atividade de contrainformação ou de comunicação altemati\;a
junto aos movimento populare .
Além da ua função crítica a posqujsa-ação pode igualmente ser apli-
cada de modo construtivo para permitir uma maior participação do grupos
intere sados em tomo de diversas açõe comunicativa : criação de um jor-
nal, de uma rádio, espaço de lazer ou transformação de uma política d·e
informação.
A pesquisa-ação pode ser utilizada como forma de trabalho prepara-
tório para uma campanha de explicação acerca de algu1n assunto de grande
relevância social ou política, objeto de debates públicos. Nesse caso, delJ'e-
mos sa1ientar que a transformação é es encialmente uma transforrnação ao
ni\.'el discursivo. Trata- e de fazer que aqueles que não têm \ 0Z possam
1

gerar informações significativas sobre sua condições ou sobre seus possí-


veis relacionamentos com outros interlocutores. Há também caso de trans-
formação que ocorrem quando, a partir de uma pesquisa, torna-se po ível
produzir e fazer circular informaçõe ou conhecimento. que ão tradicio-
nalmente excluído ou meno prezado por parte do meio de comunicação
de massa. Sem dúvida é 11esse quadro que a pesqui a-ação pode represen-
tar uma contribuição específica em n1atéría de discurso ou de comunicação
alternativa a respejto dos quais os método con\'encionais têm pouco a ofe-
recer. Além disso, é também útil de tacar o fato de que o papel da pesquisa
não se limita a fazer falar determinados interlocutore e produzir um dis-
curso diferente. Trata-se de ''trabalhar'' sobre o discurso por meio de análi-
ses e interpretações. Isto supõe que seja ultrapassado o simples registro de
informação espontaneamente gerada pelos interlocutores implicados na
.
pesquisa.
Além de ua po ível aplicação nas áreas de comunicação política e
de comunicação alternativa, a pe .qui a-ação é também cogitada para ou-
90 1\41CI EL THIOLLENT

tra ubárea , tai como a comunicação rural e diferente forma de expre _


ão cultural ou artí tica.
' . .
A margem do que precede, notamo que existem ituaçõe na quai
o pesquisadore ou o produtore de material altemati vo de tinado à infor-
mação ou à comunicação não podem elaborar ozinho uma per pectiva de
ação ou de tran formação. 1 to acontece em particular, na conjuntura de
crise ou de "confu ão'" nos plano intelectual ou político. Ne te tipo de
ituação o pe qui ador-ator, ou o produtor da área comunicativa pode ado-
tar uma postura de 'te temunha'~. contribuindo para o debate atravé da
geração de documento ignificati''º · . E ta po tura é a umida entre ou-
tro , por \Vildenhah n., cinea ta e documentari . ta aJemão. E crev le:

'"Na medida em 4u a per. pe tiva o ial permanece confu.. a e contr vertida.


a elaboração do do umentário deveria e1.,tar col cada em primeiro Jugar'.t
porque o filme~ doc umentárjo ajudam a proct1rar nova per pecti\:as''
( vVilde nha hn ~ 1980).

Embora não eja em . i própria uma diretriz de pe qui a-ação a po tu-


ra fa\'Orável à produção de documentários: enquanto objetivo de pe qui a
no quadro de atividade con1unicati''ª , parece-nos importante não emen-
te no ca o peculiar da produção de material audiov·i uai. O documento
produzido pelo pe qui adore e outro profi ionai da comunicação, quan-
do concebido em função de a po tura. podem e revelar mui to i mportan-
tes para futura açõe e discu ões pública que não podiam er cogitada
no decorrer da pe qui a. Como conteúdo de tai documento , de\'e- e a-
lientar a importâncja de depoimento . populare .

3. Serviço social

A área de erviço ocial é uma da área em que ape ar dos ob táculo


'
já exi te uma tradição de aplicação da metodologia de pe qui a-ação. Tal
aplicação é, no entanto, marcada pela e pecificaçõe e pelas ambiguida-
de própria ao en'iço ocial enqL1anto forma de atuação na ociedade.
Em geral o pr fi ionai do erviço ocial ão empregado por e m-
pre a · pri\·· ada ou in. tituiçõe pública para inter\,ir em diver as ituaçõe
na quai e rta. cat goria da população (operário , fa\'elado , m n r
aband nado ido'"' o te.) nfrentam probl ma . ciai e exi tenciai que
1\1 fTODOLOGIA DA PESQUliA-..\ÇAO 91

re ultam do efeito do funcionamento da ociedad global (de igualdade,


desemprego, pobreza etc.) e das corre pondente relaçõe ociai que ão
determinantes de se efeito . É claro que em profundas alteraçõe da e tru-
tura ocial não se pode esperar grande e durávei tran formações na condi-
ção da pes oa implicadas e que e rejam ao alcance do ser\ iço ocial. 1

A observação e a intervenção de pe qui adore nas ituaçõe con ide-


rada ão limitadas em função das exigência in titucionais e da fraca capa-
cidade de ação autônoma dos grupos gue, em geral, ão de fa\ orecido e 1

mantido em situação de não poder. Além di o, o tipo de atuação do er\1i-


ço ocial é tradicionalmente limitado por concepçõe pre\ alecente (a sis- 1

tenciali mo, patemali moll redução do problema ociai a problemas psi-


cológicos como os do tipo ~'de aju te familiar',, predomínio das técmcas de
pe qui a individualizante, tipo entrevista ''clínica'' etc.). Nesse quadro ge-
ral, o serv·iço ocial tem sido, algumas vezes objeto de preconceito nega-
ti·vos por parte de profissionais de outras áreas.
Seja como for, muitos profissionais do serviço ocial, no Brasil e na
América Latina, desafiam os obstáculo e desenvol\1em um intenso traba-
lho de redefinição meto dológica da sua prática abrindo um profundo deba-
1

te \'isando um redirecio1namento crítico. O tradicional quadro teórico in pi-


rado no positivismo e no funcionalismo foi alvo de uma aguda crítica. Nos
últimos ano , a reflexão metodológica do serviço social abrangeu questões
relativas à diversidade das tendências filosóficas que são geradoras de me-
todologia. o intuito de substituírem o positivismo e o funcionali mo, que
prevalecem em muito lugare o trabalhadore sociai têm procurado ten-
dência diferente ligadas à fenomenologia, ao materialismo dialético e a
outra tendência da quais e e pera alguma alternati\1 a prática.* Além
di o, a categoria procurou não restringir eu campo de atuação ao da de-
manda oficial institucional ou ao do a·c ompanhamento do pe soai nas em-
presas e também tem desempenhado um papel de a ses oria no contexto
dos mov·imentos populares urbanos e rurais.

* Há uma longa lista de trabalho a re peito dessa discussões no Brasil e na Amé rica
Latina. Entre outro ~ indicamo : Teo1ização do serviço social. Documento de Araxá~ Tere ópoli
e Sumaré. Rio de Janeiro, Ag ir - CBCISS , 1984, 2 33 p. ~ L. V. ~lagalhãe . Metodologia do
servfço social na América Latina . São Paulo: Conez. 1982, 148 p.; M. H. de Almeida Lima
Serviço social e sociellade brasileira. São Paulo: Cortez, 1982, 141 p.; L. L . Santo . Texros de
servi ço social. São Paulo: Cortez, 1982.
92 MICHEL TH OLLENT

A bu ca de alternativa upõe uma redefinição do quadro teórico e


metodológico e a conqui ta de uma autonomia uficiente para que o pro-
fi ionai po am experimentá-la . Sem entrarmo em detalhe , notaremo
que o novo quadro teórico a erem adotado deveriam permitir uma
clara compreen ão da relaçõe exi tente entre as caracterí tica globai
da ociedade (ela se , E tado etc.) e a caracterí tica p icos ociai da
ituaçõe de vida da diver a categoria ociai de favorecidas que ão
con ideradas no enriço ocial.
N plano metodológico, parece-no altamente ignificativo o fato de
que a metodologia da pe qui a-ação e de outra for1na de intervenção e-
melhant estejam na pauta da discu õ . O erviço ocial con titui um
excelente ampo de aplicação e de po, ível de envol\rimento da pesqui a-
-ação. A experiência já realizada mereceriam maior divulgação.
No proce o de ob ervação e que tionamento que é próprio ao di . po-
iti \roda pe qui a-ação. pretende- e uperar o problema relacionado com
a individualização das observações do quadro da pe quisa convencional.
O pe qui adore de empenham um papel ati''º que con i te na dinamiza-
ção do meio ocial ob ervado. Além di o, certos grupo de se meio tam-
bém participam ati\1amente na definição de objetivo determinado .
A equipe de pesquisadores entra em contato e treito e prolongado
com o meio social. Este fato adquire, em geral, uma dimensão política que
e torna cada vez mai explícita à medida que progride a ação coletiva que
é objeto de acompanhamento. Na pe qui a convencional a dimen ão
ociopolítica empre exi te, ma frequentemente é ' ~recalcada~ por artifício
técnico psicologizante . Contrariamente à corrente p icologização da si-
tuaçõe de inve tigação, con ideramo que a pe qui a-ação pode er dirigi-
da de modo a tomar mai explícita a definição ociopolítica de ua ba e de
ob er\.·ação e de interv·enção. e ta definição é nece ário dar conta da e -
pecificidad da prática do erviço ocial, que não deve er confundida com
outras práticas.
No contexto do erviço ocial, a metodologia da pe qui a-ação pode
permitir um melhor equacionamento do problema de aproximação à rea-
lidade ·ocial de inserção do pe qui adore e profi ionai e de ua for-
ma de inter\'·enção. O ganho de conhecimento preci am er regi trado
e con tantemente i t matizado . Também ão objeto de atenção a práti-
ca educativa a ociada à pe qui a e à divulgação de inforrnaçõe na
coletividade.
~1flODOLOG I.\ DA P:SQL SA-AÇAO 93

O quadro in titucional do erviço ocial ainda apre enta muito ob -


táculo à prática prolongada da pe qui a-ação, entre o quai um do prin-
cipai . egundo A. Sauvin é a fa lta de di ponibilidade de tempo do traba-
lhadore ociai (no contexto da Suíça), empre atarefado no exercício de
sua profi ão e também por outra dificuldades na dedicação à pe qui a
(fraco domínio da Jinguagem escrita etc.) (Sauvin, l 981 p. 58-61 ). Tai
l

dificuldade precisam er uperada em particular por n1eio de treinamento


adequado.

4. Organização e sistemas

A área organizacional contén1 todas as atÍ\'idade cujo objeti\10 con- 1


i tem em coordenar diferente grupo de trabalho e decidir a re peito da
meta e meio neces ários para produzir um determinado produto ou servi-
ço. Embora existam organizaçõe sem fim lucrati\1 0 .. consideramo aqui
que a maioria das pesquisas e inten1ençõe e dão na organizaçõe de tipo
empresarial, de capital pri\ ado ou estatal. A organização é a umida por
1

diferentes tipo de gerentes ou de executivo subordinados aos interesse


do capital. A organização da produção não pode er executada em traba-
lhadores de diferente qualificaçõe . V ária e cola organizativa recomen-
dam a introdução de método participativo . . com o quai e pretende me-
lhorar o relacionamento entre organizadore e executores do trabalho no
intuito de aumentar a produtividade e, eventualmente. melhorar algun a . - (
pecto da, condições de trabalho.
A área organizacional é mal 'li ta por parte de muito pe qui adore
da outra área devido ao fato de que a organização é muito marcada pelo
e pírito ernpre arial: busca de eficiência, mudança controlada relacionada
com a informatização, reforma obre o fundo da intocabilidade da rela-
çõe de poder etc. Além di so, no mundo do pe qui adores e do consulto-
res da área, há um clima de competição, egredo, ~ arri\rismo . Muitos con-
sultores parecem sobretudo preocupados em ""faturarem'·, recorrendo inclu-
si\1e a método ~participativo ' em efetiva contribuição ao conhecimento.
es e quadro . hav'eria então certos receio quanto a um po sível aproveita-
mento da pesquisa-ação por parte de intere e particulares.
De fato, já exi te uma tradição de pe qui a-ação na área organizacio-
nal cujas ambiguidade são relacionadas com a e trutura de poder, tal vez
94 MICHEL THIOLLE\IT

mais evidente do que noutras áreas. Todavia, tai ambiguidade também


exi ten1 ne tas outras. Na educação ou na comunicação também podemos
encontrar patrões en1pregados e ''aproveitadores'', mas as relaçõe de po-
der ão aparentemente mais ''diluídas'' do que na área organizacional, onde
as decisõe são fortemente concentradas. ·o âmbito das empresa , qua e l
nenhuma pesquisa e nenhuma ação podem ser realizadas em o acordo ou
consentimento, do empre ário . Segundo M. Bourgeois e D. Carré:

"Sem incitação dos diretore , é ilusório esperar uma profunda modificação


,
do modo organizacionai . E claro que o _indicato. o juri ta e o intelectual
podem contribuir ao novo proce o , ma eu alcance permanecerá simbó-
lico~ ca o a di retorias não aderirem a e e projeto ... (Bourgeoi e Carré.
1982, p. 102).

Muitas tran formações precisam er cumprida para se alcançar o re-


conhecimento do caráter social da organização do trabalho co111 controle
dos trabalhadores. A organização do trabalho não poderá ser deixada entre-
gue ao poder autocrático do donos e ao bem-querer de seu familiares.
O poder prÍ\'ado cria uma limitação muito forte. No entanto existe
alguma mudança nas conjunturas de transformação social e política dos
últimos anos (na França e também no Brasil), quando intelectuais de oposi-
ção acederan1 a cargos de responsabilidade~ principalmente em organismo
do Estado e empresas importantes.
Mediante uma progressi\'a' moralização" da área organizacional, para
a ,qual a participação efetiva e a atuação sindica] do assalariados podem
contribuir. podemos esperar que haja uma demanda favorável por um no,.r o
tipo de pesquisa, cuja metodologia eria influenciada pela concepção da
pesquisa-ação. I to seria um instrumento de obtenção de informaçõe e de
negociação da soluções Je,,adas em consideração na resolução de proble-
mas de ordem técnico-organizativa. Seria também um meio de produzir e
de difundir conhecimento especializados que fos em utilizáveis de modo
coletivo, i to é, de 1nodo a quebrar o ' monopólio" ou o ''segredo'' do espe-
cialistas. Ha\1eria igualmente a pos ibilidade de uma ampla demistificação
das soluções ' técnica ,. que, tradicionalmente. são dada ao problemas
econômicos e sociai a revelia dos interessados.
Na medida do po síve1, e upondo que o obstáculo ejam superá-
\rei • podemo con iderar que a pesqui a-ação consi tiria em estabelecer
uma forma de cooperação entre pesqui adore , técnico e usuário para re-
,\·t f"OOOLOG A DA PESQUI A-AÇ~O 95

o1verem conjuntamente problema de ordem organ1zati\i·a e tecnológica. O


proce o eria orientado de modo que o grupos con iderados pude em
propor aluções ou açõe concreta e, ao me mo tempo, adquirir nova
habilidada ou conhecimento .
Em i própria a pe quisa-ação não é uma ideia recente no contexto
organizacional. Já foi ugerida nos anos 40, no trabalho de K. Le\vin no
Estado Unidos, e foi experimentada em ati\1 idade a sociada aos departa-
mento Cle ''recurso humano ''. Ne e ca o particular, a pe qui a-ação é 1
concebida dentro de um quadro teórico de natureza psicológica ou p i- '
cossocio1ógica e é frequentemente as ociada a operaçõe de treinamento_;_
K. Lev,.·in escrevia: ''Cumpre-nos con iderar a ação, a pe qui a e o treina- (
mento como triângulo que de\le e manter uno em benefício de qualque~ de1
eu ângulo '" (Lewin, 1973, p. 255). A relação entre pesqui a-ação e trei-
namento . ainda hoje é uma da caracterí tica importante da prática con -
titutiva da organização. No entanto, tal concepção tem ido criticada. O
treinamento é frequentemente concebido de modo direti\'O como se fo e
um tipo de ade tramento em conscientização e autonomia dos agentes im-
plicado . Além disso, a pe quisa-ação tem funcionado dentro de uma pro-
blemática p icossociológica na qual a relações sociai e políticas são vi -
tas principalmente como relações interpessoai ou psicológicas. Por e es e
outrq_ motivo a pesquisa-ação organizacional é criticada por partidários
da pe qui a-ação das outra áreas cuja per pectiva ão mai radicai .
..
A partir do ano 60. de acordo com a concepção reformi ta do
-
pro-
grama de "'democracia indu trial'', no paí e da Europa do Norte a e -
qui a-ação faz parte do in ·tru1nento utilizado para estudar e tran. formar
.------ -
_a organização do trabalho dentro da problemática ociotécnica. Ne ta é
anali ada a interrel ação do a pecto.. ociai (e trutura de grupos . hierar-
quia . fonTiação profi ional, qualidade de ,,. ida no trabalho etc.) com o
a pecto tecnológico (di po ição fí ica da máquina automatização etc.).
esse quadro, a pe quisa-ação é •1rn procedimento de estudo e ,de re olução
de problema por meio de eminário que reúnem pe qui adore e repre-
sentante de todas a categoria de p s oa implicadas. Tai eminário • âo )
!

dirigido por anali ta ou con ultore externo e podem er incorporado


e peciali ta de di\ er a formaçõe técnica (engenharia, analista de i te-
1

mas etc.) (Thiollept 1983, Cap. 3).


Qe aco~l-lo,Qlm ofia geral da tend@cia ociotécnica, a organi-
za ão taylori ta tá uperada e é Qreciso ub tituir o trabalho parcelado e
-
96 MICHEL THIOLLENT

as linha de montagem convencionai por diver a formas de recompo ição


do trabalho e pela criação de grupos di pondo de certa autonomia Com e ta
visão, pretende- e reduzir a monotonia do trabalho, o isolamento do indiví-
duos e envolvê-los em relações de caráter coletivo. Para alcançar tais objeti-
vos, são aplicados programas de pesquisa-ação (Ortsman, 1978; Liu, 1982)~

No plano metodológico, considerando o paradoxo e a impossibili- J

dade de realizar o ideal de não interferência do di positi\'O de pesqui a no


objeto ob ervado, os partidário da pe qui a-ação optam por uma concepçã2_:'
metodológica oposta: o di po itivo de pesqui a interfere explicitamente no
''objeto investigado'' e e te pas a a colaborar na própria inve tigação a sa-
ciada à ação. O método experimentais comun , válidos em laboratório ~
eriam inadequado na pe qui -a em organizaçõe reai . A pe qui a-ação é
então apre entada corno alternativa. Seu princípio fundamental con i te na
intervenção dentro da organização na qual o pe quisadore e os membro '
da organização colaboram na definição do problema, na bu ca de aluções
e imultaneamente, no aprofundamento do conhecimento científico dispo-
nÍ\ el. A pe qui a é acoplada a uma ação efeti\:a sobre a olução do proble-
1
-
ma e é também acompanhada por práticas pedagógic · difusão de onhe-
cimento . treinamento, simulação etc. A es ui a-ação, no quadro socio-
.. técnico, pretende aprOYeitar os fenômeno de tomada de con ciência, os
fluxo de afetividade e o potencial de criatividade contidos na organização
(Liu, /d.).
Corno vimo no capítulo anteriores o partidário da pe qui a-ação '
em contexto organizacionaJ pretendem resolver o problema da relaçõe de
poder pela participação do repre entantes de todas as parte ou intere se
implicado , inclu i ve o trabalhadore e o indicato , em o con en o do
quai é impo sível e praticar a pe qui a-ação dentro da regra deontológicas
aceita pelo pe quisadore para e\' Ítar manipulaçõe .
Independentemente da ociotécnica, a pe quisa-ação é igualmente uma
"'
propo ta conhecida pelo anali tas de sisten1as de informação. Seu papel
con i te em facilitar a aprendizagem. Segundo P. Jobim Filho, a pe quisa-
-ação dá ao relacionamento entre anali ta e usuário o caráter de' aprendiza-
gem conjunta" (Jobim Filho, 1979). es e contexto, a pe quisa-ação co~J
si te em identificar o problema e de en\i·olver um programa de ação a er
acompanhado e avaliado. A pe qui a-ação a im concebida é um modo-ae,
intervenção do anali ta de i temas na organizaçõe e, em geral limita-
- e à e fera do dirigente e u uário da infarmação. ..,,----
.\ tETODO OGIA DA PE QL·ISA-AÇÃO 9;

Ainda no meio do e p ciali ta em análi e de i tema. cibernética


a pe qui a-ação é encarada ob outro a pecto (Che kland. 19 1, 2ª Parte).
Para mui to anali ta a ação a ociada à pe qui a e limita a uma forma de
colaboração com os cliente ,. e e ba eia num pre upo lo de con en o ou
de harmonia entre as parte . Contrariamente a e te ponto de ''i ta. A. Thomas
aborda a análise de si ternas com outros pre supo tos: a cooperação da
parte e a geração de ten ão orientada para mudança controlada , em ' 'ez
de uma harmonia a priori (Thoma 1980, p. 339-53). e e quadro funciona
a pesqui a-ação que gera uma ten ão entre o que é e o que poderia ser, isto
é, fazendo intervir adi sociação entre, de um lado, o fatos que compõem a
ituação pre ente e por outro, a diretrize normati\. a a partir da quai é
definida a . ituação de ejá\1el.
No último anos, a pe qui a-ação tem sido pen ada como in trum n-
to adaptado ao e tudo. em ituação real, da mudança organizacionai que
acompanham a introdução de no\ta tecnologia principalmente a ba ea-
da na informática. Com ela pretende- e facilitar a implementação e a as i-
milação das novas técnicas informáticas, a circulação da informação, a apren-
dizagem coletiva a organização do trabalho em grupos com reuniã~ de
competência variadas. Pretende- e igualmente melhorar a condiçõe de
u o e a adaptações do equipamento e promover a organização do traba-
lho com i tema de con ulta do membro dos diferente ní\rei hierár ui-
co . Dentro da organização a técnica informáticas \ t i am fazer circular a
informação de modo propício ao aumento da produti~'idade. Vário estu-
dio o e con ultore da área organizacional têm recomendado o u o de
método participativo . definido corno "'n1étodos recorrendo à sen ibiliza-
ção, informação . treinamento, implicação do u uário do ,i tema técn · -
-
co ao ní\1el da deci ão ..... O · autore acre centam: ... Em geral . tai método
a eguram uma melhor aceitação da organização e uma melhor aceitação _,
da nova di\'Í ão da tarefas'' (Cottave e Faverge . 1982, p. 47).
Por ua v'ez M. Bourgeoi e D. Carré con ideram que a pe qui a-
-ação '' u cita e facilita a mudança da organização ao me mo tempo que
permite formular e difundir a experiência adquirida no decorrer dessa
mudança ' (Bourgeoi e Carré 1982, p. 98).
No contexto da info11c1atização da organizaçõe ., a pe qui a-ação é
considerada corno operação mai profunda do que uma simples técnica de
con ultoria. o decorrer da ua aplicação, egundo H. Tardieu, -"é preci o
identificar e eparar de um lado, o re ultado generalizávei · de tinado à
98 MICHEL THIOLLENT

difu ão e por outro, as recomendaçõe e pecífica , de tinadas à empresa .


(Tardieu, 1982 . p. 124).
Em torno das neces idades do desenvolvimento da pesqui a organi-
zacional sob todos os seus aspecto , faz-se nece sário um programa de di-
\rulgação e treinamento em matéria de pesquisa-ação. Tal programa visaria
facilitar a pluridi ciplinaridade, o relacionamento dos pesquisadores entre
i, a sua colaboração com membro representativo das organizações e com
consultore e outro profi sionais. Haveria também uma rediscu" ão dos
critério de avaliação do re ultado da pesqui a em função da exigência de
produção de conhecimento e da ati fação do intere se prático .

5. Desenvolvimento rural e difusão de tecnologia

A pe qui as voltada para a agricultura abrangem problema de agro-


nomia biologia, pecuária, tecnologia, economia, sociologia, comunicação~
difu ão de tecnologia, extensão rural etc. .A pesquisa obre o de en\1olvi-
meato rural é pluridi ciplinar e possui uma finalidade de conhecimento da
situação dos produtores e de elaboração de propostas de planejamento nos
plano local, regional ou nacional. A pe quisa sobre a difusão de tecnologia
\tisa, em geral facilitar a adoção de nova técnica entre o produtore . A
pe qui a obre o de envolvimento e a difu ão são alguma "'ezes separa-
da · outra vezes ão relacionadas entre i e \i'inculada a preocupaçõe de
caráter educativo comunicativo ou organizativo. De modo prevalecente.
nas in tituiçõe de pe quisa agropecuária, as metodologia de pe qui a uti-
lizada pertencem ao padrão de pe qui a con,.:encional (método quantitati-
vos aplicado em participação dos u uários). Nos últimos anos obretudo
em função do intere e do pequenos e médio produtores . foi experi-
mentada ou pelo meno discutida, a possibilidade de aplicação de alterna-
tivas metodológicas de tipo 'pesquisa participante'' ou ''pesquisa-ação em
matéria de de en\'olvimento rural e de difusão de tecnologia.
a concepção participativa do de en\i·olvimento rural, considera-se
que os produtore devem se organizar em tomo dos problemas que acham
mai importantes para adquirir uma capacidade coletiva de decisão e de
controle quanto à utilização de recur o (Go\v e Van ant, 1983 . p. L.27-46) .
Não e deve confundir o de envolvimento rural participativo e a pe qui a
ativa ou participativa sobre o de envolvimento rural. Em termo gerai , não
1\.tETO::>O..OG .\ DA P:SQLISA-.\Ç.~O 99

e deve confundir a pe qui a e o objeto pe qui ado. Todavia, a concepção


participativa do desenvolvimento rural ugere que a concepção da pe qui a
que lhe é as ociada eja também participativa. No ca o . i to implica que o
pesquisadores recorram à técnica utilizada em pe qui a participante e
pesqui a-ação: reuniões, eminários entrevi ta coletiva aprendizagem con-
junta na resolução do problema identificado etc.
Internacionalmente existem programas de ati\i·idade de desenvolvi-
mento rural junto a populaçôe rurai pobre em vário paí e do Terceiro
Mundo com aplicação de método de pe qui a ativa e participativa. E o
caso . por exemplo, do programa elaborado por M. A. Rahman ( 1983 e 1984)
e promo,1ido pela Organização Internacional do Trabalho com ede em
Genebra (Suíça). O autor aborda diver o problema de fundamentação teó-
rico-metodológica da pe qui a participativa e da pe qui a-ação (reunida
por ele na expressão 'pe quisa-ação participati''ª ')e indaga obre ua pos-
ível contribuição para a transformação ocial em meio rural a partir de
alguma experiências em paí e asiático (Índia Sri Lanka, Banglade h). A
temática de sas experiência é relacionada com o desenvol\ imento da con -
1

cientização do campe inato desfavorecido, com 'li ta à definição de eu


interes es próprio . A metodologia é de tipo participati\'O e ati\'·o, ou mobi-
lizador. O aspecto de autonomia (self relia11ce) é enfatizado. Como funda-
mento des e tipo de pesqui a são le,,adas en1 consideração as contribui-
ções de Paulo Freire e de Orlando Fal Borda.
O autor mo tra também que o mo\ imento internacional fa\1 orá\rel à
1

pesqui a-ação participati\1a vi,:e urna ten ão. De um lado . o eu partidá-


rio adotam uma estratégia de crítica radical e de mobilização popular. Por
outro lado, há um reconhecimento oficial por parte de certa in tituiçõe ou
go\1emo , nem empre progre si ta o que coloca certo pe quisadore em
ituação de dilema. No que diz re peito ao a pecto epi temológico , M.
A. Rahman mostra que a pe qui a-ação participati'' ª não pode aceitar a
exclu ão dos valores como no caso do empirí mo do po itivi mo lógico ou
do estruturali mo. O valore operando na pesqui a-ação participativa ão
aquele que pertencem à aplicação do conhecimento na prática da ela e
ociai con iderada . A preten a neutralidade do métodos convencionai é
considerada como ilusão. A objetividade é empre relativa e remete ao con-
sen o do pe quisadore dentro de uma concepção da inve tigação científi-
ca que não é única. No ca o particular da pesqui a-ação participativa, a
objetividade é relacionada com a condiçõe de uma verificação coletiva
pelo participante .
100 "1\ICHEL Tb OLLE'.'JT

r2J os e tudos e pecífico de difu ão d tecnologia, tem prevalecido.,


nas última décadas . a aplicação de técnica convencionais de pe qui a em
comunicação . e pecialmente sob influência de E. Roger e outros (Rogers e
Shoemaker, 1971 ). O padrão de análi e comunicati''º tem sido criticado
por vário autores (Thiollent, 1984d, p. 43-51 ).. em particular no que diz
respeito ao modo de encarar a adoção de ino\1 ações pelo produtores. As
inO\.'ações corre pondem obretudo ao produtos do setor indu trial (tratores,
adubos, pe ticida ) para a venda do quai é preciso influenciar os produto-
re , por intermédio do meios de comunicação e da influência pe oal do
exten ioni ta . De acordo com e ta vi ão do mundo rural a pe qui a foca-
liza a · atitude e comportamento indi,1iduais e categoriza o~ produtor
em função da facilidade ou da dificuldade de ua per ua~ ão. O prodL1torcs
de fácil per ua ão em matéria de adoção de ºº''ª
técnica são con idera-
do como moderno . , o outro ão tradicionai .
Hoje em dia'.' em vário paíse , grupo de pe qui adore di cutem e
tendem a experimentar orientaçõe diferente , frequentemente favorávei à
pe quisa participante e à pe qui a-ação. As que. tõe tecnológica não e
limitam ao a pecto de difusão ou de adoção de técnica prontas. Preten e-
- e redefinir o diferente aspecto da difu ão sem epará-lo do aspecto
de geração.. adaptação e avaliação em um determinado contexto socioeco-
-
nômico e cultural. A ideia de imple difu ão pre supõe que a técnica 'iem
pronta de fora para dentro do mundo rural e que não preci a er adaptada
ativ·an1ente pelo produtores em função do eu aber próprio e em função de
outra circun tância locais. Além di o. frequentemente e perde de vi ta
que o produtore po uem potencialidade próprias em matéria de geração
de técnica imple e adaptada às ua condiçõe econômica . Po uem
também potencialidade de aprendizagem, habilidades e sabem que podem
contribuir para a adaptação de técnica exi tente . De acordo com Paulo
Freire:

4.Subestimar a capacidade criadora e recriadora dos campone es . de.. prezar


eu .. conhecimento. ~ não in1porta o nível em que se achem, tentar ·enchê-
-los' com o que ao técni co. lhe parece certo, ão expre. ões, em última
análi .. e, da ideol gia dominante (Freire, 1982 .. p. 32).

No estudo. rurai . . de acordo com l. C. Sale , J. A. S. Ferro e M. N.


C. Carvalho ( 1984~ p. 32-44 ), preci amo rever a metodologia de diagnó ti-
co para uperarmo o 11ível da simple . con tatação de carência entre os ,,
•viETODOLOGIA O:\ PESQL S:\ ·AÇAO 101

pequeno · produtore e darmo ~ atenção à ua potencialidade e capacidade


de aprendizagem e de organização coletiva. J

De modo geral. a participação do produtore na pe quisa é vi ta como


meio de identificação do problemas concreto , definição das prioridades.
e co1ha das soluçõe praticá\:eis em função da condiçõe ocioeconômica
e do saber popular exi tente. Por ua ''ez'I a a\raliação dos re u ltado e da
propo tas técnica é também efetuada de modo coleti\'O. E ta a\ aliação 1

visa salientar a pos Í\1ei melhorias das condiçõe de u o da té.cnica e


minimizar o u o inadequado e ri co decorrente no plano ocial e
ecológico. A participação dos produtore con titui uma condição importan-
te para uma adequada orientação do trabalho do pe qui adore e e pe-
cia.Jista ., inclu ive em matéria de ciência da natureza e biologia (Torchelli1
1984. p. 27-41 ). Esta colaboração dá um relev·o particular ao problen1as da
relação entre aber formal e aber informal que se manife tam ao nível da
comunicação e da aprendizagem.
Além di o, no programa de de en\.r olvimento rural concebidos de
modo participati\:o, a questão da difu. ão de tecnologia não é abordada ozi-
nha e e tá in erida numa conjugação de outros a pectos: educação., saúde1
bem-e tar, cultura etc.
~ $n1 re umo., entre o as ·unto relevante a erem tratado numa
per pecti''ª de pesquisa-ação~ em matéria de de envol\'imento rural e de
difL1 ão de tecnologia . podemo de tacar o eguinte :
a) Redefini ção do enfoque , no . planos conceitua} e metodológico
da difu ão de tecnologia e comunicação rural.
b) Re\'isão da. técnica de diagnó. tico de modo a e\"Ídenciar a . po-
tencial idade') dos produtore. em \ · ez de ua carência .
c) Divulgação da metodologia de pe qui .. a participante. pe . qui a-ação,
ou ainda, pe quisa-ação participati\ a. 1

tl) Método de re alução de problema com participação de produto-


re , pe qui adore , técnico , exten "' ioni ta etc.
e) E tudo da relação entre aber formal do e peciali ta e aber infor-
mal do produtor com mapeamento do problema de comunicação.
{) Metodologia de planejamento de ações de de envolvimento local
ou regional.
g) Experimentação de pe qui a agropecuária em ituação real, isto
é, na fazendas e não ap na em e taçõe experimentai .
102 MJCHEl THIOLL[NT

h) Experimentação de técnica geradas por produtore .


i) Metodologia de avaliação de caráter participati"'º·
j) PossÍ\'eis sub ídios didático e informático .

6. Práticas políticas

No iten anteriores, sobre educação, comunicação, serviço social


organização, de envolvimento rural, ficou mai ou meno evidente que as
proposta de pe quisa-ação empre apre entam algun1 a pecto po1ítico quanto
ao tipo de co1nprometimento do pe qui adore con1 a ação de grupo o-
ciais, dentro de t1ma situação em transformação. No entanto es e a pecto
político permanece vinculado a uma atividade sub tantiva (educar, infor-
mar organizar etc.) para a qual é preci o pesqui ar e articular objetivamen-
te a informações obtidas entre os representantes da situação investigada e
o conhecimento . di ponívei entre pe qui adores e peciali tas e outros
profi sionais de cada área.
o caso das práticas políticas, a pesquisa-ação toma como objeto uma
atividade explicitamente política. Por exemplo, a con tituição de um grupo
político, a organização de uma campanha de adesão a redefmição de uma
estratégia o u tática a conduta de uma campanha eleitoral. a denúncia po-
pular da política do governo, a mobilização de uma categoria da população
para formuJar reivindicações e conquistar determinados objetivo etc. A
práticas política não e limitam ao a pecto profis ional, empre pos uem
um aspecto militante e exigem maior comprometimento por parte do orga-
nizadore d a pe quisa.
A prática política são concentrada em torno de grupo militantes
atuando em organizaçõe político-partidárias. organizaçõe sindicai ou
outros tipo de mo\'imento . Não é nece ária a completa identificação do
pesqui adore com o militantes do grupo ou movimento considerado. Fre-
quentemente exi te alguma forma de simpatia. No caso particular da atua-
ção indicai. a pe qui a-ação pode er aplicada dentro de uma vi ão mili-
tante i to é, uma li11ha que não se limita à função de defe a econômica,
jurídico-a i tencial de determinadas categorias profi sionais.
A prática política podem er objeto de pe qui a ao nível do movi-
mento do trabalhadore urbano ou rurai e també1n ao nível de movimen-
to e pecífico : movimento e tudantil . fi mini ta, ecológico e movimento
\·lETODOLOCIA DA PESQUISA-.~ÇÃO 103

de afirmação de identidade cultural. Na América Latina já exi te uma rica


experiência em projeto de pesqui a-ação obre prática política junto a
movimento de mulheres e movimento de educação popular (ver documen-
tos do Celadec).
Por enquanto só retomaren10 aqui uma que tão relacionada com a
pesquisa em meio operário, frequentemente di cutida: quai ão a diferen-
ças e a possíveis relações entre pe qui a-ação e enquete operária?
A enquete operária é uma noção que urgiu no éculo XIX na Euro-
pa, para de ignar um tipo de pe qui a ou de cen o obre a ituação da ela e
trabalhadora com aspecto ociais econômico , sindicai e político . lni- 1
1

cialmente a enquete operária foi concebida a pedido da autoridade para


'entenderem'' o problema da classe trabalhadora. Mai tarde, a enquete
operária foi utilizada por grupo sociali ta no intuito de produzir autono-
mamente informaçõe e conhecin1ento obre a situação da elas e.
Vimo em ot1tra oportunidade (Thiollent, 1980a, Cap. 4) que, na enquete
operária~ especialmente no questionário formulado por K. Marx em 1880.
exi tem princípios prefigurando algun aspectos da pe qui a-ação, com di-
mensão crítica e política. Por exemplo, o princípio egundo o qual são as o-
ciados à pesqui a elementos exp1icativ·os ao ní,1el dos re pondentes para faci-
litar o de condicionamento em relação à re postas e tereotipadas. No entan-
to, a enquete operária permaneceu como noção a sociada a urna concepção
da inve tigação mai próxima à de l.'censo'' do que à de pe quisa-ação.
A noção de pe quisa-ação é mai recente e foi a ociada a uma per -
pecti va p ico ociológica no ano 40 e 50 com finalidade prática de orien-
tação ba tante conformi ta. No ano 60 e 70, a pe qui a-ação re surgiu
numa per. pectiva crítica as ociada a forma de militância política ou de
. ;

intervenção cultural. E obretudo ne ta linha que pe qui a-ação e enquete


operária podem ser repen adas conjuntamente.
Embora faltem exemplo na literatura disponível . a pesquisa-ação
relacionada com o movimento operário é possível, com objetivos compará-
vei ao da enquete operária. Seria um tipo de inve tigação sobre a práti-
cas políticas ou sindicai da classe operária. A metodologia eria atualizada
em função do saber-fazer hoje em dia di ponível na ciências sociai .
A problemática da pesqui a-ação aplicada às práticas políticas da ela e
operária poderia levar em conta a linha teórica e prática influenciada por A.
Gram ci no que diz re peito ao relacionamento interativo entre intelectuai
e ma a . E e relacionamento não é concebido de modo unilateral: o inte-
104 1\11( EL THIOLLENT

lectuai en inam à ma a e a ma a en inam ao intelectuai . De ta


troca, no plano inve tigativo e pedagógico~ re "'Ullaria uma contribuição à
tran formação cultural e política, orientada em função da formação da he-
gemonia da cJas e dominada .
Podemo conceber um tipo de inve tigação ativa que eja capaz, no
eu próprio procedimento .. de fazer conhecer a condiçõe de trabalho
a condiçõe de \'ida e de atuação política dos trabalhadore e de oferecer
indicaçõe para a tran formação das repre entações ideológica .
Para elaborar uma pe qui a no contexto atual da ela e operária . é
preci o rever a problemática da tran forrnaçõ qu ocorrem na organiza-
ção do trabalho (auton1ação etc.) e a e\'Olução da ação . indicai e política.
O tema e a. pergunta a ~erem abordada não p dem er uma imple
adaptaçã do antigo que tionário de K. Marx. Junto ao próprio trabalha-
dore , o pe qui adore precisam identificar todo o problema ''inculado
à atuai forma de remuneração~ nível de vida horário de trabalho empre-
go, saúde, transporte, moradia e também o problema específico da mu-
lhere , migrante , jo\'·en etc. Entre o tema importante a erem e tuda-
do , e tão: a formulação da reivindicaçõe e do plano da ação a evolução
dos conflito e o efeito da luta obre a \'ida cotidiana e a forma de
expres ão cultural. Além di so, há toda uma parte relativa ao contexto eco-
nômico e político, à e tratégia das empre a e à linha partidária e indi-
cai em debate. A abordagem de todo e e tema e tá ituada dentro de
uma problemática ociológica global que de taca o trabalho a alariado e
os a pecto político e culturaí que interferem na percepção e na relevân-
cia atribuída a cada um do elemento da temática.
Relacionado com a inv·e tigação obre a prática políticas, um outro
problema - objeto de muita di cu õe - diz re peito à relação entre 0
aber '~ ofi ticado' do intelectuai e o aber . popular" ou a repre enta-
çõe "imediata " com a quai a ma a de crevem ua condiçõe ociai
(Trnol1ent, 1980b), E te problema é empre objeto de ten ão e, na ua for-
ma geral, remete à relação entre . de um lado, o marco teóricos e o con-
ceito científico e . por outro lado o en o comum. Exi tem vária manei-
ra de re olver e te problema, dependendo da orientação metodológica ou
epi temológica adotada. A mai di,1ulgada da orientaçõe a po itiv·i ta
- é inco111patí'"el com modo ativo de conceber a inve tigação. Muito
ociólogo têm pretendido afa tar de uma \'ez por toda o en o comum de
ua cone itua õe e análi - e por meio de regra de ob er ação em diálo-
METODOLOCLA.DA PESQUISA-AÇÃO 105

go com o interessado . Ao contrário numa concepção ativa, o tratam nto


a er dado ao en o comum pa sa pelo diálogo entre inve tigadore e mem-
bro representativos da situação inve tigada. Além do mais e e tratamento
adquire uma dimensão crítica e transformadora. É preciso sublinhar que
tratamento ativo do senso comum não quer dizer aceitação do me mo como
explicação ou representação adequada da realidade. No plano da investiga-
ção científica, a regra segundo a qual se de,,e manter uma distância entre a
conceituação e às representações ''imediata ,, é plenamente ju tificada. O
-
conhecimento científico se de envolve em ruptura com a repre entações
'imediata " ugeridas pelo en o comum. egar essa di tância le''ª ao em-
piricismo ou ao ubjetivi mo. No entanto, a aceitação de tal regra não im-
pJica que seja adotado, como único padrão de observação cjentífica o pa-
drão convencional, unilateral e antidialógico; herdado de uma concepção
da c iências da natureza que já é parcialmente uperada. Em contrapo ição,
podemos sugerir um tipo de observação-que tionamento no qual eja man-
tida a exigência de distanciamento para com o senso comum, mas de uma
maneira interativa, como seria o caso na pesquisa-ação.

7. Conclusão

No pre ente capítulo apre entamos, em visão panorâmica, a aplica-


çõe da pe quisa-ação em várias área de conhecimento e de atuação na
sociedade: educação, comunicação, erviço social .. organização e i tema ,
de envolvimento rural, difusão de tecnologia e práticas política . Descre-
vemo alguma da tendência exi tente e também indagamos po ibilida-
des abertas para o futuro. Ficou bastante claro o fato de que não é monolítica
a per pectiv·a ideológica ou política na quaJ funcionam o , . ário tipo de
propo ta de pe qui a-ação. Exi te uma grande diver idade de objetivos.
Na concepção da prática educativa ou políticas, o partidário da pe qui-
a-ação adotam frequentemente uma orientação crítica mai ou rneno ra-
dical, voltada para a conscientização ou para a mobilização popular. Ao
passo que, entre o partidário da pe qui a-ação no contexto organizacio-
nal e tecnológico a orientação é mai ''acomodada ' , procurando transfor-
maçõe satisfatórias e compatÍ\'eis com a adaptação e o funcionamento da
organizaçõe existente . Tai pesqui adores apagam o conteúdo potencial-
mente radical da propo ta metodológica da pe quisa-ação fazendo dela
-
apenas urna técnica de re alução de proble1nas.
106 .~ICHEL TH.OLLENT

Toda pe qui a é permeada pela per pectiva intelectual, pelo objeti-


vo práticos pelo quadro institucional, pela expectativas do intere sados
no eu resultados etc. Porém, o pe quisadore não são neutro nem pa -
ivos. Sem desconhecerem a presença dos interesses, de\lem conqui tar su-
ficiente autonomiat com inevitáveis "'negociações' ~ para terem condição de
aplicar regras de uma metodologia de pe qui a que não e limite a uma
satisfação circunstancial das expectativas do atore . Atrá da demanda ex-
plícita que recebem, os pesqui adore e clarecem a intençõe ubjacente
e aplicam tática de pe quisa vi ando compatibilizar os objeti,,os de c,o nhe-
cimento e os objeti\'O de ação.
o plano normativo, foi salientada a di'1'ergência existente entre as
propo tas de pe qui a-ação con1 finalidade crítica e a propo ta com fina-
lidade técnica ou adaptativa. Ao nível da reflexão obre o conjunto das
aplicaçõe nas diferentes área tal di,rergência não deixa de criar certa ten-
ão quanto a unidade de per pecti"'ª da pe quisa-ação. No fundo, a diver-
gência é reflexo da ambivalência de mujta açõe sociais. Trata- e de co-
nhecer para agir, de agir para transformar mas as possíveis transformaçõe
nem empre são radicais ou aquelas que de ejaríamos a priori. A transfor-
maçõe propo tas le\"am em conta normas de ad1equação ao contexto que é
favorável a ruptura ou a adaptaçõe limitadas. Em todas as circunstância ,
os pesquisadores não podem aplicar uma norma de ação preestabelecida e
devem ficar atento à negociação do que é realmente transfo1111ável em
função das formas de, poder, do grau de participação dos interes ado e da
e pecificidade das f 01 reias de ação: ação pedagógica, ação educacional, ação
. . . . ".
comun1cat1va, organ1zat1va, tecnológica e pol1t1ca etc.
@c.oRlU 107
\liiEDITORR

Conclusão

'
A guisa de conclu ão, formularemos alguns comentários adicionais
que estão diretamente relacionados com o possível desenvol ''imento da
pesquisa-ação enquanto estratégia de conhecimento e método de investiga-
ção concreta e de atuação em várias áreas sociais.
Na concepção da pesquisa-ação, as condições de captação da infor-
mação empírica são marcadas pelo caráter coletivo do proces o de investi-
gação: uso de técnicas de seminário, entrevistas coletivas, reuniõe de dis-
cussão com os interessado etc. A preferência dada às técnicas coletiva e
ativas não exclui que em certas condições, as técnicas indi \1iduais" entre-1
vista ou questionários, sejam também utilizado de modo crítico. Além
disso, pode- e recorrer a explicaçõe e pecíficas e a discu õe orientada
no intuito de favorecer o de vendamento da realidade. Uma outra caracte-
rística da pe quisa-ação, ao nível da captação de informação, diz re peito
ao modo de determinar e elecionar o indivíduos ou grupo . Embora eja
po sível recorrer a técnicas e tatí ticas de amostragem convencionais, pre-
fere-se, na maioria dos casos pe qui ar e agir com o conjunto da população
implicada na situação-problema, quando isto é factível, ou com uma amos-
tra intencional, cuja representatividade é sobretudo de ordem qualitativa. A
constituição de uma amostra intencional resulta de um processo de discu -
são entre os pesquisadores e os demais participantes.
Na concepção da pesquisa-ação há um reconhecimento do papel ati-
vo dos observadores na situação inve tigada e dos membros repre entativos
desta situação. Logo, a questão da objetividade deve ser colocada em ter-
mos diferentes do padrão ob ervacional da pesquisa empírica clás ica, fre-
108 ,\11CHEL THIOllENT

quentemente influenciado pela filo ofia po itivista da ciência da natureza.


Em todo caso, a questão da objetividade não desaparece. Para que uma
ação seja realizável, não basta a vontade subjetiva de alguns indivíduos. A
ação proposta tem de corresponder à exigências da ituação. Tais exigên-
cia ão conhecidas por meio da observação, da análise da situação e por
meio de uma avaliação das possibilidades. A ação é baseada em descrição
objetiva mas ubjetivamente é a sumida pelo conjunto dos participantes
que se comprometem na ua efetiva realização.
A noção de objeti,1idade estática é ub tituída pela noção de relativi-
dade ob ervacional egundo a qual a realidade não é fixa e o ob ervador e
eus in trumento de empenham um papel ativo na captação da informação
e nas decorrente repre entações. Além di o no contexto ocial, a relativi-
dade remete à interação entre ob en'adore e repre entantes da ituação
ob ervada, levando em conta, inclu ive, a diferença de linguagem exi -
tente entre a duas categoria con iderada . ~
A observação social adquire um aspecto de questionamento que no
caso da pesquisa-ação. não é monopolizado pelos pe quisadores, já que a
função normal do pesquisador é fazer perguntas e recolher as resposta dos
''investigado ,.. . o ca o que nos interessa aqui, os membros representativos
da situação-problema sob investigação nunca são considerados como me-
ros informantes. Também desempenham uma função interrogativa, fazendo
pergunta e procurando elucidar os as unto coletivamente in\1estigados.
A diferença de linguagem remetem a desnívei de abstração no modo
de comunicação dos pe qui adore e dos demai participante . O controle
da objetividade relativizada consiste num controle das di torções durante a
f a e da co1eta de dado ba e ado na análi e da linguagem do interlocuto-
re . O controle ocorre também no diálogo com o intuito de e chegar a uma
uficiente compreen ão e con en o acerca das interpretações do que e tá
endo ob ervado ou tran formado.
Uma das diferenças que existem entre a nossa perspectiva de pesqui- -
sa-ação e outra proposta de pesquisa-ação ou de pesquisa participante
consiste no fato de que reconhecemos a necessidade de manter a pesquisa-
-ação no âmbito da pesqui a ocial de caráter científico e logo . submetê-la
a uma forma de controle metodológico-epistemológico.
No entanto esse controle não é exercido com a regra da metodolo-
gia empiri ta convencionalmente aceita em muitas instituiçõe de pe qui a.
A metodologia não e limita à ua forma empirici ta e quantitativista. Pre-
~.~cOOOLOGIA DA PESQUISA-AÇ.~O 109

ci amo aplicar uma metodologia na qual, em se negar a nece


ob ervar, medir ou quantificar, haja e paço para o procedimento
mentação e interpretação, com base na di cu ão coleti ''ª·
Além do mai
podemos manter em u o a forma de raciocínio hipotético, mas de forma
flexibilizada, não reduzida a uma noção de teste e tatí tico. A hipóte ~ él
norteadora da pesqui a; sob fonna de diretriz, ela desempenha a função dej
orientar o questionamento e bu car as informaçõe relevante . Sua compro-
-
1
vação permanece aberta à argumentação e ao diálogo entre interlocuto,_,
com cotejo dos diferente saberes.
Embora a contribuição da pe qui a-ação seja, muitas vezes de ordem'
prática, não é de cartada a po ibilidade de utilização do conhecimento
teórico. A pe quisa é organizada dentro de um quadro teórico adotado pelo
pe quisadores e aberto à discus ão quando e trata de definir o objetivo ,
formular problemas e hipótese encaminhar explicações ou interpretaçõe
dos fatos observados. O pesquisadores podem contribuir no plano teórico,
a partir de ua experiência em várias pesqui as.
O reconhecimento da argumentação no processo de investigação não
é tão extraordinário, porque a argumentação existe em dÍ\'ersa · disciplinas
tradicionai , nas quais é limitada ao encadeamento de argumentos ou de
fórmulas no papel, por assim dizer. Na pe qui a-ação a argumentação é
realizada '"ao vi,,ro ', ob forma de discussõe e deliberações entre diferente
interlocutores reunidos em seminários ou reunjõe .
Sem um encaminhamento da propo ta metodológica para um viés
anticientífico, con ideramos que o objetivo da di posição argumentativa
consi te em re tituir o caráter dialogado da ituação ocial.
A no o \1er, não há contradição entre, de um lado, o fato de reafirmar
a exigência do e pírito científico e, por outro lado, o fato de reabilitar o
papel da argumentação na investigação científica. O espírito científico não
e limita à caricatura quantitativi ta que aparece no espetáculo da pe quisa
convencional. Por ua vez, a argumentação não ignifica uma volta ao ra-
ciocínio pré-científico,
,
nem uma ruptura com o racionali mo ou a aceitação
de qualquer crença. E apenas uma reafirmação das dimensões discursiva e
coletiva da elucidação e da interpretação da situações ociai . Razão cien-
tífica e razão argumentativa não são excludentes e esta última não significa
um ''retrocesso" na evolução da cientificização da investigação social.
O fato de termo salientado o caráter argumentativo-deliberati''º dos
raciocínios operando na pe quisa-ação não significa que só esta orientação
110 1\11CHEL THIOLLENT

eja dotada de e caráter poi argumento e negociaçõe "exi tem em mui-


ta práticas de pe quisa inclusive nas ciências ditas exata ''.

O procedimentos argumentativos não excluem a necessidade de uma


coleta de dado a mais exaustiva possível, inclusive ob forma quantificada,
para se ter uma imagem da realidade na qual se desenrolam a pesqui a e a
ação transformadora. Assim, os pesquisadores devem reunir todas as in-ar-
mações disponíveis obre a população o tipos de atividade, as faixa etárias
fontes de renda, moradia, nível educacional, cultura, hábitos de con umo
direitos adquiridos etc. Este tipo de levantamento é necessário. Porém, con- -
trariamente à pe qui a de critiva comum, é apenas um dos pontos de parti-
da para o trabalho de inve tigação e de ação e não um produto final a er
burocraticainente arquivado.
A perspectiva adotada não se limita a obsen'ar ou medir o a pectos
aparentes de uma situação. Há um con iderável interesse dos pesquisadores
no que diz re peito à ação dos atores da situação . Com a participação dos,
mesmos, os pesquisadores elucidam as condições da ação. Seria paradoxal
conceber uma investigação visando a transformação de uma ituação den-
tro de um contexto no qual nada pudes e ser mudado o que frequentemente,
acontece. Quando os atores não conseguem transformar o que pretendem, o
objetivo da investigação é redefinido em função do estudo das condições
deste fato. Quando a análise da situação mostra que uma ação inicialmente
cogitada ou planejada é impossível, o pe qui adores reorientam o proces-
so da investigação de modo a contornar o paradoxo junto ao demai parti . .
cipantes, por meio da elucidação do bloqueio.
A pesqui a-ação tem ido concebida principalmente como metodolo-
gia de articulação do conhecer e do agir (no sentido de ação social, ação
comunicativa, ação pedagógica, ação militante etc.). De modo geral, o agir
remete a uma transformação de conteúdo social , valorativamente orientada
no contexto da sociedade. paralelamente ao agir existe o fazer que corres-
ponde a uma ação transformadora de conteúdo técnico delimitado. Sem
separarmos a técnica do seu ·Conteúdo sociocultural, precisamos dar mais
atenção ao fazer e ao saber fazer que, por enquanto, foram entregues aos
''técnicos'' e aos outros especialistas que cocnpartilbam de uma \1isão tecni-
cista das atividades humanas. - -
o plano da ação, o maior de afio talvez seja o de juntar as exigêfl°:l
cias da tomada de con ciência (ou da conscientização, a um nível mai
profundo) com a exigência científico-técnica . As transformaçõe inten-
~1ETODOLOGIA DA PESQL S.i\-i\Ç~O 111

cionalmente definida não e traduzem apenas ao nível da con ciência


individual ou coletiva. Há também a rendizagem de aber fazer e a uisi ão
-- - -
de novas habilidades.
Na pe quisa-ação a tomada de con ciência é importante no plano do
agir, mas existe.m também outra preocupaçõe ligada a ba e material da
atividades ociais e eus correspondentes modos de fazer e de aber fazer
que são relacionados com técnicas produtiva em meio rural ou industrial .
meio de comunicação, instituições e técnicas educacionai , ''nova . , tec-
nologias baseadas na informática etc.
Algun partidário da pesqui a-ação poderão ver ne a · preocupa-
çõe um ri co de utilização tecnicista . , ou até '~tecnocratizante . , . Nla . na
nossa opinião, o sentido da propo ta é ju tamente o contrário. o e uacio-
- -
namento de problema técnico in erido no contexto de atividade ociai t

a pe quisa-ação oferece meio para romper o monopólio do tecnocrata ao


-
permitir uma participação ativa dos diferente tipos de usuários, com exer-
cício e aprimoramento de suas capacidades. O saber informal do u uário
não é desprezado e sim posto em relação com o saber formal do especiali -
tas no intuito de um enriquecimento mútuo. Isto constitui um importante
desafio para o futuro em matéria de metodologia de pesquisa e de ação em
diferentes áreas de atividade.
Um do objetivo de conhecimento da pesqui a científica con iste em
e tabelecer generalizações a partir de obsen'ações delimitada no tempo (o
que foi constatado hoje ainda será constatável no futuro) e no e paço (o que
foi constatado aqui, localmente, exi te também globalmente na ociedade).
Na pe quisa orientada em função de objetivos prático como no ca o da --- --
pesquisa-ação, o objetivo principal nem se1npre é a generalização . e pecial-
mente em pe qui as voJtadas para a aplicação do conhecimento di ponível
para a resolução de problema e para a organização de açõe e pecífica .
Como vimos, é possí\ el alcançar um certo nível de generalização a
1

partir da experiência em ,,ária pe quisa . Ma quando o objeti\'O da pe -


quisa-ação consiste em resolver um problema prático e formular um plano
de ação, a forma de raciocínio utilizada consiste em particularização e não
-
em generalízaçao. es e caso, é bastante inadequada a crítica segundo a
qual a pesqui a-ação eria marcada por uma fraca capacidade~ ou até uma
impossibilidade de generalização. Com a particularização trata-se de pas-
sar do conhecimento geral aos conhecimento concreto sob fo11na de dire-
trize e comprovações argumentadas. E a pa sagem é progre i\'amente
concretizada pela interação entre o aber formal do pe qui adore e espe-
112 ,\ttlCHELTHIOLLf ~T

ciali ta e o aber informal do intere ado . Contrariamente à concepção


corrente da chamada 'engenharia ocial'', não é unilateral a aplicação do
aber formal dos especialista e não é aceita a sua pretensa superioridade.
o di po itivo de pesqui a-ação com finalidade prática há interação entre
o doi tipos de saber e a pecto de con ciência. Numa concepção da pes-
qui a-ação voltada para a co.n trução ou a reconstrução, na área educacio-
nal ou outra, o conhecimento di ponível (e em parte gerado na ocasião da
investigação) e aplicado a problema ou ações particulares. O primeiro pa -
o con iste numa particularização. Em seguida, a partir da dificuldade e
aluções encontrada em ' 'ária ituaçõe _ podemos imaginar um egundo
pa o no e ntido de uma generalização.
a no a opinião, a aplica ão particularizante do conhecimento di poní-
vel no momento da re o1ução de problemas não é vi ta no contexto da pe gui-
a-ação de modo formal, como no ca o da '"engenharia ocial, poi o que
importa é o contexto ocial e a ação autônoma do atores que é va1orati vamente
orientada no entido con trutivo. Em ituaçõe marcada por antagoni mos
profundo e manifestaçõe de poder con en'ador ou repre ivo. a ação con -
truti''ª é impossível. Ne e ca o, a ação erá orientada em função de objeti-
vo limitado à busca de compreen ão da situação e de denúncia.
Em termo de uma política de conhecimento, podemos con iderar
que, ao lado da urgência do de envol\ imento e da difu ão de conhecimen-
1

to de ciência bá icas, manife ta- e a nece idade de uma política e peci-


ficamente voltada para o conhecimento intermediário. Entendemo por e ta
expre ão o conhecimento de finalidade prática que opera em diver a área
de atua ão entre as quai de tacamo a educação a comun icação, o erviço
ocial, a organização o de envolvimento rural, a difu ão de tecnologia e as
prática políticas. Tratar- e-ia de fortalecer a produção e a divulgação de
conhecimento que~ ape ar de não erem muito v·alorizado no plano cultu-
ral- imbólico, ão de grande utilidade na re olução de problema do mundo
-
real. Além di o, o que entendemos por conhecimento intermediário é dife-
,
rente do imple bom en o. E um conhecimento que não e d á imediata-
mente na prática e é nu ter produzi-lo e adaptá-lo dentro de um proce o
participativo no qual e tão envolvido um grande número de pe qui adore
(e outro profi ionai ·)e o interlocutore repre entati\.'OS do problemas a
erem abordado . Are olução de problema efetivo e encontra na coleti-
-- 1
"'idad e ó pode er le\ ada adiante com a participação cfo eu membro . .
Me rno quando a '' oluçõe ,, não forem imediatamente aplicávei no i te-
- --
- -
ma vigente poderão ser aproveitada como meio de en ibilização e de
- .
1\tETODO~OCIA DA PESQUISA-AÇÃO 113

~mada de con ciência. Ne ta per pectiva, con ideramo que a metodolo-


gia da pe qui a-ação con titui um modo de pesquisa. uma forma de raciocí-
nio e um tipo de intenrenção que ão adequados para produzir e difundir
conhecimentos intermediário relacionados com os problema concre~t.::;..;
o ___,.,
encontrados nas várias áreas considerada . -
No entrosamento do conhecimento e da ação pretende- e reduzir ao
mínimo a distância existente entre a obtenção de conhecimento e a formu-
lação de planos de ação. A sim eria possível reduzir os u o imbólicos
frequentemente ''parasitário '" ou 'o tentati,ros~' . que exi tem na e fera de
conhecimento con\tencional. Trata- e de aumentar o u o efeti\ 0 do conhe-
1

cimento na configuração de determinada açõe tran formadora .


Na definição de uma política de conhecimento mai abrangente, a me-
todologia da pesquisa-ação é apena um item entre outros. Poi não de\i·emo
deixar a impressão de que tal orientação ub titui a outra . Sempre serão
necessárias pesquisas experimentai em Jaboratório . metodologias com ênfa-
se na formalização, modelagem, quantificação e simulação. A pesquisa-ação
; -
e uma orientação destinada ao estudo e à inten·enção em situações reais. este
~

ca o, ela se a resenta como alternativa a tipos de _pes ui a convencional.

* * *
Sem pretendermos cobrir todo o problemas e toda a po sibilida-
de contidas na concepção da pesquisa-ação, enfatizamos a pecto metodo-
lógicos relati\ramente ab tratos. como as formas de raciocínio, e bastante
concreto , co1no o roteiro da organização de pesqui a.
Ainda faltam muito a pecto para podermos alcançar uma visão com-
pleta do proce so de inve tigação e ação. Por opção. não di cutimo o con-
teúdo ub tantivo dos quadro teórico e não aprofundamo a que tõe
relati\1as ao quadro institucional, à in erção dos pe qui adore à negocia-
çõe em matéria de demanda do intere ados e de uso do resultados.
No entanto, acreditamo ter percorrido algun pas o no caminho da
elaboração da metodologia da pesqui a-ação, evitando ''palavrismo'',
'participacionismo'', ''ativismo'' , ''populismo' , "tecnici mo' e outros exa-
geros frequentemente cometidos. Pensamos que tais passos podem contri-
buir para renovar a metodologia da pesquisa social, promover aplicações
criati\ras em várias áreas específica e ensejar a geração e a difu ão de co-
nhecimento úteis à re o1ução de problema do mundo real.
115

Posfácio à 14ª edição

Na ocasião da publicação da 14ª edição deste livro, pareceu necessá-


rio acrescentar um posfácio para atualizar a apresentação da metodologia
de pesquisa-ação, sabendo que a~ e<!!_ção data de 1985. Durante os últimos
vinte anos, milhares de estudantes, pesquisadores, educadores, respon á-
veis de projetos, consultores, militantes e outros interessado tiveram opor-
tunidade de ler e, às vezes, de aplicar a metodologia de pesquisa-ação. Adap-
tando-se às exigências de compromisso social e de rigor científico, e sendo
dinâmica por natureza, tal metodologia não e re ume em regras e procedi-
mentos imutá"·eis.
Ao longo des e anos, muito acontecimento ociai . político inte-
lectuais modificaram bastante as modalidade de conhecer, de pe qui ar e
agir no seio das instituições ou dos movimentos da sociedade tanto no
Brasil como no mundo. Questões relativas ao pensamento crítico, à contes-
tação de fora ou à participação de dentro das esferas de poder não e apre-
sentam em 2005 da mesma maneira que em 1985. ~~ década de 1980t a
metodologia de pesquisa g_attici ante e de pesquisa-a ~Q. estava .assocjada à
- -
democratização e à busca de maior liberdade após décadas de autoritaris-
-
mo. Havia uma dimensão potencialmente militante na vontade de conduzir
projetos que pudes em avançar naquela direção. A_pa~r~o anos 90, com
o ~ecuo do socialismo e o avanç_o do capitali mo em e cala global, marufes-
ta-se uma nova situação de crise social, com agravamento do de emprego,
116 >vUCHEL THIOLLENT

5!_a de igualdade e da precarização da vida. Diante de tal cri e o E tado, 0


atore político o indicato , o representantes do etor privado e as enti-
dade da ociedade civil hoje desempenham papéi diferente . Na pers-
pectiva neoliberal de reduzir o papel do E tado na sociedade \'árias ativi-
dade educacionai , ociai e ambientais ão deixadas ao etor privado ou
conduzida ob a re pon abilidade de ONG . A militância não e exerce
mai no molde do ano 60/80. O sindicatos perderam parte de eu e pa-
ço reivindicatório. A re ponsabilidade ocial abrange um maior Jeque de
atore e intere ado , inc]usi ,,e no mundo empre aria1. Por ua \'ez a
univer idade ão incitada por meio de diver a medida compen ató-
ria , a urna n1aior abertura para reduzir a exclu ão o iaJ reproduzida pelo
i tema de en ino. Em uma, o quadro de atuação ocial mudo u muito no
último a nos. A e \rol ução da tecnologia da informação também repre enta
uma muda nça importante. Em 1985 ninguém imaginava poder dispor in _
tantaneamente de informaçõe do mundo inteiro e e tabelecer rede com-
plexa com muito parceiro e atores., inclu ive com finalidade social.
Participação e cooperação são requerida para coordenar a con trução de
conhecimentos intonizada com uma efetiva atuação social. O conjunto
de a mudanças con titui o pano de fundo a partir do qua1 dá-se uma
nova atualidade às propostas de metodologia participativa e de pesqui-
a-ação ue e concretizam em projeto de en ino, formação permanente,
exten ão pe qui a, planejamento, avaliação, na mai djver as área de
conhecimento.
Ne te po fácio de tacamo algun tema que não eram uficiente-
mente abordado na ediçõe anteriore e que evoluíram bas tante nos úl-
timo ano . A im ~erão recon iderado a pectos da modalidade de pe _
qui a-ação e de metodologia participativ ~ fã ampliação e diferenciação
da área de aplica.ç ão mostrando que exi tem "º''ª área de intere se
,,
ocial e de conteúdo técnic~ E apre entado o tema da in erção da pe qui-i
a -ação no en ino, na pe qui a acadêmica de alto nível e em projeto _..,,
de
exten ão univer itária Depoi são abordadas a difíceis questõe relati-
''ª ao modo de lidar com a diferença culturais o relacionamento in-
tercuJturai f e a :_ignificação da mudança e da tran formações propo tà~
ambém ão levantada que tõe de étic~ na pesqui ~e de ~nvolvimento
ou engajamento do pe qui adores em projeto de pe quisa-ação. Final-
mente ão ugerida algumas indicaçõe bibliográfica para atualizar 0
e tudo da referida metodologia.
~tETODOLOGIA DA PESQUISA-AÇÃO 117

Pesquisa-ação e metodologia participativa

Paralelamente à pe quisa-ação, cuja finalidade con i te na pe qui-


sa, com obtenção de informação sobre um determinado problema e en\·· ol-
vimento dos atores, desenvolvem-se \•'ários outro método participativo
destinados a resolver problemas práticos (gestão, planejamento, monito-
,
ramento, avaliação, moderação de grupos etc.). A \'eze , tais métodos
são globalmente designados como 'metodoJogia participativa· (Brose,
2001). Sua caracterí tica participativa reside no fato de erem aplicados
co]etivamente com diversos grau de participação dos interessado . Pode-
-se con iderar que a diferen a ex istent<;_ entre ~pesquisa-ação e a metodo-
lo i~ _participati''ª as im concebida con iste no fato de que a _primeira é
essencialmente voltada para a pe qui a orientada em função de objetivo
e condiçõe de ação, ao pas o que o conjunto do in trumento participa-
ti\ros _po sui finalidade distinta e variadas. Facilitam o relacionamento
-
entre es~cialistas l! uários ou atore , sem terem a PLetensão de produ~r
- --
Conhecimentos uovo .
Sem dúvida existem diferenças entre vário tipos de propo ta meto-
dológicas que se vinculam à participação e, até, di,rergência quanto ao
grau de efetiva participação requerido. Todavia, podemo considerar que as
" .
convergenc1as
. . . . -
seJam mais importante e que a pe qu1sa-açao po a ser con-

iderada antes como estratégia de conhecimento ancorada na ação de que
como imples ferramenta dentre outra .
No Bra il e na América Latina exj te uma longa tradição de pe quisa
pru1icipante que às veze con\1erge, à veze diverge com relação à pe qu_!:.
a-ação. Hoje, podemo con iderar que, além de possívei diferenças em
função dos contextos, do atore e objetivo pe qui a-ação e pe qui a par-
ticipante tendem a fu ionar em uma alternativa à prática metodológicas
das ciências saciai convencionais, principalmente influenciada por for- \
mas tardias de positivismo (Ver o estado da arte da pe qui a participante
-i:..-

em Danilo Streck, 2005).


No plano internacional, as fortes divergências das década de 1970 e
1980 parecem estar superadas. A aproximação, ou até a fusão, pode er
observada entre os partidários da PAR - Participatory Action Research
(McTaggart, 1997). Foram realizado importante e forços de i tematiza-
ção da pesquisa-ação, por parte de autore como Orlando Fals Borda e
Mohammad Anisur Rahman ( 1991 ), Rea on e Bradbury (2001 ), Barbier
(2002), Mesnier e Mis otte (2003).
118 '-1ICHEL THIOLLE~T

A relação entre pe qui a e ação e tabelece uma forma de compromis-


o que alcança uma dimensão comunicativa, ocial, política~ cultural, ética,
à vezes, e tética, e que promove o retorno da informação ao interessados,
e capacitação coletiva. Vale alientar que a pe quisa-ação não se limita a
uma relação pesquisadorlpe quisado. Trata-se de considerar o conjunto dos
-
atores direta ou indiretamente implicado na situação ou no problema ob
observação e para o qual pretende-se elaborar soluções coleti\'as, ou con -
truir ignificado a partir do fato inve tigados das ações e do contexto. é._
Nes e entido, o trabalho em parceria adquire maior relevância dentro de
projeto de pe qui a-ação. E te tema é abordado por E1 Andalous i (2004)
e por Gadoua~ Morin e Potvin (2007). Além di o, com o aumento do grau
de interação entre atore e de complexidade do entorno , a abordagem
i têmica ganha e paço oferecendo ub ídio para novos padrões de meto-
dologia de pe qui a-ação (Morin . 2004 ).

Ampliação e diferenciação das áreas de aplicação

Nos últimos tempos, é pos ível obser\rar uma renovação da pesquisa-


-ação, que abrange uma maior variedade de áreas que no passado e que se
de envolve,. inclusive, em área técnicas. No contexto universitário a pes~
qui a-ação e outros métodos participativos ganharam espaço em várias área ,
de conhecimento: admini tração organização (Liu, 1996; Thiollent, 1997),
-..;

ergonomia (Tele , 2000), engenharia e arquitetura (Shimbo, 2004) . Inicia-


ti''ª centrada na bu ca de olidariedade também e tão contribuindo para a
divu1gação de método participativo , inclu ive no domínio do de envolvi-
mento ocial, de envolvimento local tecnologia apropriada , cooperati-
vi mo etc.
Como praticar a pe qui a-ação em área que envolvem fato e ques-
tõe relacionada com ciência da natureza, engenharia, biologia etc.? Mes-
mo sem aber muito bem em que con i te a pesqui a-ação certos profi sio-
nais da área tecnológica co tumam reagir negativamente a priori: o que a
pe qui a-ação tem a er com mo1éculas ou circuito elétricos? Há nisso um
problema de falta de compreensão. De fato, a pesquisa-ação não pode, por
i 6, revolver que tõe e pecífica da realidade naturai ou artificiai .
Entretanto, a per pecti va é diferente quando e con idera que a con tru-
çõe científica ou tecnológicas ão de natureza ocial, por intermédio de
1\iITODOLOGIA DA PESQUISA-AÇÃO 119

grupo de pe oa (pe quisadores e técnico ) in erido em in tituiçõe que


respondem a diversa demanda e interesse de certo grupo o iai e ao
requisitos sociais e políticos do funcjonamento do istema vigente. A
atividades do cienti ta ou do engenheiro podem er acompanhada pe1a
pesquisa-ação, ju .tamente nas relaçõe que se e tabelecem entre reflexão
e ação dentro dos múltiplos proce sos sociais de identificação e resolução
de problemas técnicos.
Além disso, nas atividade científicas e técnica , a utilidade da pes-

quisa-ação é mais evidente quando se trata de lidar com artefato com o
quais as pe soas interagem, por exemplo, na oca ião da elaboração de
uma interface homem/máquina. De fato, no plano internacional . já exi te
longa tradição de pesquisa-ação na área dos sistemas sociotécnicos (Liu,
1996), ou em matéria de interface homem/computador e para conceber
si temas de informação. Além do mais, os di positivos da pesqui a-ação
permitem aos pesquisadores a inclusão dos usuários dentro do proce o
de concepção, de desen\101,rimento ou de implementação. Isso pode ocor-
rer facilmente em pesquisa ergonômica, em pesquisa sobre si temas agrá-
rios (AJbaladejo e Casabianca, 1997)~ em engenharia de produção, em
tecnologia da informação etc.
Em áreas da medicina, a pesquisa é também amplamente utilizada
quando ~privilegiado o trato com pessoas (medicina de família, medicina
coieti\'ª~ medicina preventiva)c medicina do trabalho, promoção à saúde, e
--
outros tipos de medicina que e dedicam ao relacionamento do paciente
c.om o meio social, inclusive em matéria de aúde mental). Ne e contexto
o médicos e outro profissionai da aúde. em particular os da enferma-
-oem podem colaborar em equipe de pe qui a-ação e combinar conheci-

mentos técnicos de suas respectivas áreas e conhecimentos psicossociai ou
comunicacionais relacionados com os meios sociais em que atuam.
A pesquisa-ação não se limita mais às tradicionais áreas saciai e
educacionais de aplicação. Encontram-se cada vez mais adeptos da pesqui-
-
sa-ação e pe quisa participante em áreas técnicas de saúde coleti,,a, de es-
tudos de trabalho industrial, e em diversas engenharias, em particular aque-
las.ºª~ q~ais ~ intervenç~~ buma~a ocupa um ~ugar central (produçâ~
soc1otecn1ca, sistemas agrar1os, projetos cooperativos etc.).
Com propó ito de criar ati ''idades socioeconômica de ti nadas à ca-
madas mais pobre da população, o empreendedori mo ocial e os projetos
120 ~tlCHEL THIOLLENT

olidário estão endo de envolvido em função de cliver a concepçõe mai


abrangentes: economia ocial, economia solidária, cooperativismo etc., vistas
como po ívei alternativa à economia liberal prevalecente.
Em alguns caso propõe- e a criação de cooperativas ou de a socia-
ções~ em outras, diversos tipos de atividade com ajuda mútua entre pessoas
das comunidades ou com a participa ão em redes de trocas ou, ainda, com
4

acesso a redes de distribuição alternativas ao mercado. De modo comple-


mentar à sobrevivência econômica dos grupos os projetos solidários adqui-
rem uma dimensão ocial e cultural, incluindo aspectos ético , e téticos e,
à veze , religioso . Conforme a dimen ão coletiva, interativa e solidária
de e projeto , parece óbvio que o método de diagnó tico, pe qui a, pla-
nejamento~ monitoramento e avaliação necessários tenham uma dimensão
participativa. Assim, a pesquisa-ação e a metodologia participativa encon-
tram ne sa área um amplo leque de aplicações.

Apesquisa-ação no ensino, na pesquisa e na extensão universitária


Em educação em qualquer nível, da alfabetização à pós-graduação a
pesqui a-ação empre ocupou um lugar importante tanto para pesquisar e
agir obre os processo educacionais, quanto para conceber programas de
ensino implicando os aluno pedagogicamente o alunos em in\restigações
obre problemas de eu entorno a partir dos quai podem con truir conhe-
cimentos. Em particular na Inglaterra e na Austrália, exi tem importante
autores, grupo de pe quisa e in tituiçõe que se dedicam à pesqui a-ação
educacional (McTaggart, 1997).
No Bra il e na América Latina, a pe quisa-ação educacional e con-
centrou principalmente na educação de adultos e na educação ambiental.
Junto à pesqui a participante, erve também de base de reflexão para a
educação popular.
Para aumentar a bibliografia di ponível sobre a pesqui a-ação na edu-
cação temo traduzido e publicado livros de Khalid El Andaloussi (2004) e
de André Morin (2004) que oferecem uma rica sistematização da metodo-
logia de pesqui a-ação em contexto educacional, com base em experiên-
cias no Marroco e no Quebec, respectivamente.
Além do en ino, a pesqui a-ação também é objeto de di cu ão no
contexto da e qui a acadêmica. Será que a pesqui a-ação e re tringe a
-
1\1ETOOOLOGIA DA PESQUISA·AÇÁO 121

áreas de atuação social, comunitária, popular? Será que tem também espa-
ço no ambiente acadêmico, nas instituiçõe científicas e tecnológicas, nos
canai de publicação valorizados? A recente e\1olução mostra que a meto-
dologia de pesquisa-ação não se limite ao ensino, à educação popular e a
outros contextos semelhantes. De fato, encontram-se dis ertações de mes-
trado, teses de doutorado, publicações de a lto ní~'el, em várias áreas de
c.onbecirnento científico e tecnológico, que adotam princípios de pesquisa-
-ação, às vezes de modo parcial.
A pesquisa-ação requer um aspecto coletivo, uma interação entre ato-
res e, por isso, nem sempre é de fácil aplicação para a realização de uma
tese acadêmica, em geral concebida como exercício solitário. No entanto, é
possível vincular a pesquisa de teses a projetos mai amplos, com parceria
de atores entre os quais é possível estabelecer um entendimento sobre a
delimitação e as modalidades de trabalho científico associado à ação, den- j
tro de um quadro ético definido.
A aceitação da pesquisa-ação tende a crescer em certas área cientffi-
cas e tecnológicas valorizadas (sistemas de informação, pesquisa so-
ciotécnica, abordagem sistêmica), em particular em perspectiva epistemo-
lógica associada a certas formas de construtivismo, ou ao construcionisnio
social.
Em matéria de publicação de alto nível, uma rápida consulta aos catá-
lo<YOS
e
de li ''fatias eletrônicas indica a existência de várias centenas de livros
sobre pe quisa-ação em língua inglesa, e de algumas dezenas em francês e
espanhol. Nos acervos de artigo publicados em revistas indexadas . existem
milhares de referência sobre a pe quisa-ação, por exemplo nas revi tas
catalogadas na ba e de dados ERIC da Silver Platter (El Andai ou si, 2004)
e também no sistema ISI da firma norte-americana Thompson, que é consi-
derado base de referência para a a\1aliação acadêmica, inclusive no Brasil.
Em geral, esses sistemas de indexação privilegiam as revistas científicas de
tradição positi\1ista ou convencional. Neles, o espaço ocupado pela pesquisa-
-ação, vinculada à busca de novos paradigmas, é relativamente reduzido.
No entanto, é fácil encontrar muitas referências.
Trabalhar na perspectiva da pesquisa-ação não significa necessaria-
mente que a pesquisa seja avaliada como sendo de segunda categoria, den-
tro dos padrões de produção científica vigentes. O de afio consiste em di-
vulgar um maior número de artigos sobre a pe qui a-ação nos etores mais
valorizados das revi tas indexadas. Com is o, será possível uperar os pre-
122 MfCHEL THIOLLENT

conceito ideológico com os quai certo avaliadore pretendem de quali-


ficar a pe qui a-ação.
Além de ua frequente aplicação em ati\'idades de eo ino-aprendiza-
gem ou em projetos de pe qui a geradora de publicações científicas a me-
todologia pe quisa-ação encontra rica possibilidade nas ati\ridade d ex-
tensão universitária Quando o papel da exten ão universitária for redefinido
de modo a desenvolver conhecimento e formas de interação com o conjun-
to dos atores da sociedade com forma democrática de atuação a pe qui-
a-ação encontrará um e paço mai favorável.
De fato ao longo dos último ano , na atividade de exten ão a
uni ver idade pública têm atuado ne e entido. O projeto U niver idade
Cidadã e o Plano Nacional de Exten ão . promovido pelo Fórum Nacional
do Pró-Rei tore de Extensão das Uni ver idade Pública Bra ileira ~ rede-
finem o papel da extensão univer itária em todo os etore de atividades
(direitos humano , meio ambiente saúde coleti\·'a, cultura popular etc.) e
nes e contexto, ampliou- e o e paço para a metodologia participativas e
em dúvida, para a pesquisa-ação enquanto uma de suas variantes (Thiollent
et ai., 2003). i
Embora já antiga, uma ideia fundamental precisa ser reafirmada: a
exten ão não é transferência ou imple ''transplante' de conhecimento; ela
~ ante de tudo, criação e compartilhamento (vide Sempe, 2005). /
Conforme a perspectjva aqui adotada, no projeto de extensão, em-
-
pre é necessário promover a dialogicidade. Não se trata de impor uma
temática aos supo to intere sados. A dialogicidade é uma preocupação
em tomo da comunicação de mão dupla que e estabelece entre di,'erso
grupos implicado no proce so de extensão. Antes de querer explicar tra-
zendo no\ros conhecimento , é bom que os extensionista aibam enten-
der o prob1ema de eu interlocutore . O partidários do diálogo devem
ficar atentos para que este não vire monólogo, preocupação constante na
obra de Paulo Freire.
A metodologia participativa e a pe quisa-ação ão recomendadas para
dinamizar a exten ão univer itária. A men agem não é nova ma não é
dogma, trata- e apena de urna atitude favorável à con trução e à difu ão de
conhecimento no trabalho univer itário, como modo de conceber a apren-
dizagem e a participação da univer idade na re olução do problema do
meio circundante.
f\1ETODOLOGIA DA PESQUISA-AÇ.\O 123

A propo ta de metodologia partjcipativa/pe qui a-ação permite re -


gatar as ideia de grupo populares, com diálogo e aproximação crítica. Há
também um efeito de aprendizagem e um trabalho de reformulação de a
ideias para tomá-Jas útei nas atividades do grupos envolvido no proces Q..
de extensão. Em outro termos, trata-se de transfo_!!l1ar a idei~ em ações. '-

Diferenças culturais e relacionamento intercultural

O estudo da metodologia de pe qui a-ação le\.·a a uma problematiza-


ção da condições de ação de determinados atores. Considera-se que, em
função de ua identidade cultural e ''i õe de mundo, e e atore podem
identificar o problemas e bu car soluçõe criati\1as. Os pe quisadores auxi-
liam a conduta do proce o a\'aliam os efeitos da ação experimentada e
aprendem com o conjunto da atividades desencadeadas pelo projeto.
Em muitos projetos de pesquisa os pesquisadores precisam lidar com
diferenças culturais exi tentes entre eles e os membro da situação observa-
da e, eventualmente, entre vários subgrupos desses membros. Por exemplo,
diferença entre pesquisadores de classe média e moradores de bairro po-
bres, e djferenças entre moradores ricos e pobres. Quando estão envolvidas
populações diferenciada no plano étnico as diferença culturais ão ainda
mais acentuadas e exigem muito cuidado durante a concepção e execução
do projeto. E se cuidado tem sido con iderado como preocupação central
em pe qui a antropológica, mas deveria exi tir de alguma fonna em qual-
quer área de conhecimento.
O problema corrente em projeto com ba e intercultural é a inade-
quada po ição do pe qui adores que, por diverso motivo , acabam repro-
duzindo algum tipo de etnocentrismo, impondo determinada problemáti-
cas sociais a populações ou grupos que dispõem de outro referenciais cul-
turais. O pesquisadores não devem pressupor que ua categorias de análi-
se são válidas em qualquer situação ou época . ou que os tipo de relaciona-
mento que adotam são de valor univer al. A própria noçõe de participa-
ção ou de democracia não têm o mesmo ignificado em qualquer lugar e
para todo os grupo ociai po sívei . Os critério de racionalidade em um
proce o de tomada de deci ão não ão o me mo em firma capitalista e
em atividade popu1are . Também ão diferente o critério de deci ão de
um órgão público e o de uma comunidade indígena.
124 t\ilCHEL THIOlLE~T

Nos projeto de pe qwsa-ação, é frequente que interajam grupos so-


ciais ou culturalmente diferentes. Os atores ou seus representantes envolvi-
dos no proces o de pesquisa et em particular, no momento da interpretação
dos resultados e da definição das possibilidades de ação, podem encontrar
mal-entendidos ou até manifestar atitudes de conflito. Na atividade presencial
desses grupos, é importante observar os aspectos simbólicos da linguagem
e dos comportamentos e , e possível, !!Japear os conhecimentos, verbalizar
as percepções dos problemas sob in\restigação e outros aspectos cognitivos
próprios ao atores. Além disso no plano valorativo, também devem ser
evidenciados critério , normas e valore que o diferentes atores aceitam
respe1tam, rejeitam ou adaptam.
Me mo na pesquisas de natureza aparentemente mais operacional
ou técnica, existe o problema das diferença e do relacionamento intercul-
tural. Ba ta ]embrar as dificuldades encontradas por agrônomos em suas
relações com pequenos produtores, ou entre qualquer engenheiro e os usuá-
rios de equipamentos ou de interfaces por ele projetados.
Para avançar na olução prática desse tipo de problema, uma proposta
consiste em trabalhar preferencialmente com profissionais já sensibiliza-
dos com os aspectos culturais de seus ofícios. Seria de pouca valia a contri-
buição do técnico de mentalidade ''quadrada'', querendo impor sua visão a
priori racional, tecnjcista e supostamente superior à dos demais atores. Pior,
boa parte do problema sob investigação seria agravada por esse tipo de atitu-
de. Em outros te1111os, preci amos de profissionais "críticos" e ''reflexivos".
Um outro aspecto da metodologia participativa e da pesquisa-ação
-
consiste em fazer um tipo de mapeamento cognitivo dos problemas encon-
trado na situação investigada, por meio de trabalho coletivo (reuniões de
grupos, oficinas, eminários, fóruns etc.). E se mapeamento deveria abran-
ger tanto as representações do não especialistas (membros da situação),
,
quanto às dos especialistas e pesquisadores. E importante mostrar a todos
como cada um dos grupos representa os problemas, por exemplo, quanto à
adoção de uma determinada técnica de plantio no meio de produtores ru-
rais. Entre os diferentes grupos, nem empre as representações coincidem.
Alguns aspecto enfatizados por uns podem estar ausentes na representação
do outros. Me mo e não houver possibilidade de completa identidade,
deve se procurar saber pelo menos, quai são as zonas de possível entendi-
mento. Paralelamente, devem er evidenciadas a área de de entendimen-
to, e sua ubjacente Jógica argumentativa. Com isso, sem condição a priori
ti;iETODOLOGIA DA PESQvlSA-AÇÃO lli

quanto à que tão de aber quem e tá certo ou errado, podem er compara-


,
dos o ponto de vista e a repre entaçõe de cada grupo. A veze o diálo-
go é difícil: um grupo não percebe ou não tem ace o ao conhecimento de
certo aspectos levantados por um outro grupo. O objetivo é caminhar em
direção ao con enso ou, pelo meno " à con tatação do ponto de compati-
bilidade ou de incompatibilidade. A oluçõe imaginadas pelos não e pe-
ciali tas são, muitas vezes, rnai apropriada ao contexto que as oluçõe
dos especiali tas externos. O profissjonai têm de aceitar questionamen-
to e ugestões, e i so exige, de ua parte, modé tia e capacidade reflexi-
''ª·Por o utro lado devemo de cobrir em preconceito como o ator pode
aceitar algum a pecto da repre entação, da explicação ou da solução pro-
po ta pelo profi iona1. Tal que tão deve er colocada e re olvida na prá-
tica. O ponto de partida apropriado está no reconhecimento dos doi uni-
ver o (o do e peciali ta e do não e peciali ta )" com ba e em mapea-
mento e na elucidação dos encaminhamento a erem dado pelo inter-
locutores de modo conjunto. Sobre a questão do con enso e da bu ca de
uma linguagem comum ver Morin (2004).

Significado da mudança e das transformações propostas


Além da questão da participação, a percepção cultural do significado
da mudança proposta constitui um problema às veze delicado. Os pe qui-
adores não podem pre upor uma mudança em a boa vontade ou o con-
entimento do intere ado , O ideal é quando a mudança é concebida e
con cientetnente praticada pelo grupo interes ado . No plano ético, não é
mai po ível impor mudança modernizadora que não fazem entido na
cultura de determinado grupos ociai . Contrariamente ao que e praticava
correntemente nos ano 60/70, o moderno não deve er impo to sem o con-
sentimento dos grupo . A resistência à modernidade ocidental ou à globali-
zação, em nome da tradições e culturas locais, muitas veze revelou- e
u1na atitude cautelosa e pôde corresponder à preservação da identidade cul-
tural dos grupos. Na atual vi ão pó -moderna, as soluções indu triali tas ou
desenvolvimenti tas do anos 60/70 aparecem como mito que se re,rela-
ram inoperante (cre ceu a pobreza) e até destruidores de identidade cul-
turais, além de prejudiciai ao meio ambiente. Proposto ou impo to em
nome da globalização o atual programa d modernização econômico- o-
cial e educacional leva ao me mo re ultado (ZaouaJt 2003).
126 MICHEL THIOLLE~ T

O projeto de pe quisa-ação não impõe uma ação tran formadora aos


grupos de modo predefinido. A ação ocorre somente se for do interes e dos
grupos e concretamente elaborada e praticada por e]es. O papel dos pesqui-
adores é mode to: apenas acompanhar, e timular, catalisar certos aspectos
da mudança decidida pelos grupos interessados. Se es es grupos não esti-
ve em em condição de de encadear as açõe , os pe quisadores não pode-
riam se sub tituir a ele , ó procurariam entender por que motivos tal itua-
ção ocorre com quai possíveis de dobramento . De modo ge~a~ deve- e
abandonar a ideia de mudar o comportamento dos outros. São os próprios
atores que podem decidir se querem ou não mudar. No plano ético, é permi-
tido ao pe qui ador-ator auxiliar ou faciJitar uma mudança omente e hou-
ver con entimento do atore diretamente implicado . '

Questões éticas
A ética da pesquisa-ação pas a pela con ideração da relações de p~- l
der entre os grupos implicado no processo de pesquisa e nos processos
_/

simultâneos ou posteriores ao projeto. De modo geral, a restituição e o


compartilhamento de informaçõe geradas pela realização do projeto le-
\'am a certas formas de empoderamento (ou autonomização) dos grupos,
que em situação de pe quisa convencional teriam ficado em posição de
objeto, ou de grupos ubalternos. .
A pesqui a-ação é válida quando a ética do atore ~ do conheci- }
mento e das ações em questão estão acima de qualquer uspeita no lano
da ética profi s ional e da moralidade mais ampla. A crítica pode ser pu-
blicamente exercida para desestimular indevidos jogos de poder e apr9- 4'

veitamento tendencioso de re ultados. Uma comi são de ética deveria


acompanhar o projeto de pesqui a-ação e salvaguardar a re pon abili-
dade do proponente e participantes em termos de conhecimento e de
conduta política.
Em termo de estrita metodologia, pode- e considerar que a pe qui-
a-ação eja aplicável na bu ca de olução aos problemas encontrá,reis em
vário grupo ociai , ricos ou pobre . No entanto, considerando a desi-
gualdades de ace o ao conhecimento técnico-científico, é legítimo atribuir
prioridade de caráter ociaJ ao uso da pe qui a-ação no contexto de grupo
de favorecido ~ em particular no ca o de iniciativas ociai e olidária .
i\1ETODOLOCIA DA PESQLISA-Aç.~O 127

Em particular na per p ctiva da olidariedade, a açõe tran forn1a-


dora , pe qui ada ou planejada no projetos de pe qui a-ação, devem er
objeto de controle ético por membro internos e externo às equipe . Além
dis o, são também objetos de avaliação concreta, evitando efeitos de gene-
ralização ou de mistificação dos re ultados alcançado .
Um bom projeto deve propiciar qualidade do conhecimento, efetivi-
dade das ações promo\ridas, fortalecimento ou autonomização dos benefi-
ciários dos projetos, sem que e criem falsas expectativas.
Contra a eventuais prática pouco e crupulo a de certa entidade
(privada , públicas ou do terceiro etor) interessada em pe qui a partici-
pante ou em pe qui a-ação, o pe qui adore que entendem manter um alto
padrão de ética de\'em redobrar a vigilância. Particularmente, devem pres-
tar atenção à possível manipulação de populações pobres que, às vezes, são
utilizadas como base de apoio para alavancar recursos ou ganhos de poder,
por parte de grupos ou entidades cujos interesses acabam se distanciando
daqueles que pretendem defender. Os pesquisadores críticos não devem he-
sitar em denunciar publicamente tais práticas desqualificantes e em deixar
de participar nos projetos em que houver suspeição. Vide crítica da manipu-
lação operada em certos projetos de desenvolvimento participativo, em
Panhuy (no prelo).

Questão de engajamento
Na di cu ão da pesqui a-ação, muitas vezes, aparece a questão do
- ,,.,
militantismo. a década de 1950, a pesquisa-ação, principalmente a de tipo
-
le\\'Íniano, era vi ta como uma metodologia de pe quisa aplicada f avore-
cendo mudança nas populações, principalmente de modo adaptativo mas
-
sem aspecto militante. A dimensão militante urgiu sobretudo a partir dos
ano 60 em contexto de radicalização das ciências ociais e da participação
de e tudantes e intelectuais em luta de diferentes tipos (antiimperialismo,
novos movimentos populares, ambientalismo femini mo, alter111undialismº, J
mais recentemente). Do ponto de vi ta acadêmico, era sem dúvida difícil
conciliar a dimensão militante com a preten ão científica das pesqui a .
Is o foi objeto de inúmeros debates. Graves exce sos ideológicos foram
cometidos por parte de diver o grupo . De qualquer modo, a experiência
serviu para a formação de uma no''ª en ibilidade e de uma nova vi ão da
128 ti.i CHEL THIOLLENT

pe qui a em vária área (educação, comunicação, minoria , aúde alterna-


tiva, ecologia, vida cotidiana etc.).
Pe quisa-ação e pe quisa participativa abriram o horizonte de mui-
tos estudantes que descobriram como aprender junto com grupo popula-
res urbanos ou rurais. Entretanto, do ponto de vista das instituiçõe cien-
tíficas, e sas proposta de pe qui a eram vista como marginai e em al-
cance científico.
Por outro lado, o mo,,. imento político e sindicais nem sempre e
mo traram intere ado na pe quisa-ação. Para ele . o dogma ão geral-
mente mai importante que a pe qui a empírica , e além di o, o diri-
gente de organizaçõe que tendem a e burocratizar não percebem a nece -
idade de uma inten a participação e da di cu ão entre o membro da
base, tai proce o podendo chegar a minar ua própria autoridade.
E es diferentes a pecto dificultaram o crescimento da pesqui a-ação
tanto em meio acadêmicos quanto no mo\7imentos sociais. Todavia, obre-
tudo a partir do ano 2000, com o desenvolvimento de ati,ridade de entidades
da sociedade civil, e com o redirecionamento das atividades de extensão uni-
versitária, as metodologias participativas ampliaram sua audiência.
No contexto universitário atual, o engajamento (ou comprometimen-
to) das pes oa intere adas em pesqui a-ação não se limita ao tipo políti-
co-partidário. Redescobre- e a ignificação do engajamento individual e
coleti\10, em amplo sentido social, humano, à \reze com entimento reli-
gioso ou filo ófico, com referência ao humani mo, ao existencialismo ou a
certa formas de ociali mo. A ideia de pe qui a-ação não pertence a uma
única e cola de pen amento, pode e de env·ol\,r er dentro de per pectiva
diferenciada e convergente .
No atual contexto, quando se diz que a pesqui a-ação não está envol-
vida em uma prática militante e que ela adquire um u o mais profi ional,
isso não significa que o militantes de hoje não pos am usar tal método ou
adotar uma per pectiva de trabalho participativo. Para fin militante , em
função de uma cau a legítima o militantes podem fazer uso de diversos
método . Podem u ar método quantitati\10 para denunciar por exemplo,
certo mecani mo de extor ão econômica relacionado com a globaliza-
ção. Poder u ar método qualitativo e participati''º para interagir de modo
mais adequado com o grupo implicado nas tran formaç-e que preten-
dem promover. 'U ruma atitude militante não ignifica neces ariamente igno-
~1ETODOLOCIA DA PESQU ISA-AÇ~O 129

raras exigências científicas de uma investigação ou o c1itério de raciona-


lidade de um planejamento ou de uma tornada de decisão.
As formas de engajamento mudam: diz-se que, atualmente, existe uma
crise de participação voluntária ou de mobilização. Não é mais possível
convocar assembleias gerais como no passado, ninguém comparece. Nos
novos mo,1imentos sociais, as mobilizações têm um caráter episódico, em
função dos acontecimentos. O engajamento é menos presencial que no pas-
sado e mais mediatizado pelos meios de comunicação, pelas redes infor-
.
mais e os contatos virtuais.
Seja como for nada impede que os militantes de boje, com visão
aberta~ em particular no tocante a questões étnicas, ecológicas, culturais .
possam fazer bom proveito da metodologia participativa e da pesquisa-ação~
inclusive para evitar que eles se tomem os burocratas de amanhã.

Conclusão

Apesar de alguns obstáculos de origem ideológica, a metodologia par-


ticipativa e a pesquisa-ação encontram novos desafios e ampliam seu leque
de aplicações neste início de novo século, tanto em co11texto univer itário
(em particular em projetos de extensão) quanto no contexto ocial, com a
participação de diversas entidades. A realização de projetos em parceria
com interlocutores diferenciados nos planos técnico-científico e institucio-
nal, contribui para a legitimação prática de projeto participativos, promo-
vendo efeitos de sinergia. Decorrente da diver ificação da áreas de conhe-
cimento e de atuação, ocorre uma ampliação dos públicos reais e potenciai
da metodologia participativa e da pesqui a-ação.
Problemáticas de desen\rolvimento local empreendedorismo ocial,
preservação ambiental, ações comunitárias, educação em contextos abertos
facilitam tan1bém o u o de métodos e procedimentos que e aproximam da
pesquisa-ação e da metodologia participativa. No planejamento de institui-
ções e ou de atividades complexas, a ênfa e na participação dos interessa-
dos diretos, condição de democracia. constitui um fator favorável à divul-
gação de vários tipo de métodos participativo adaptado para a forn1ula-
ção coletiva de objetivo específico de planejamento.
Esta rápida tentati\i·a de atualização, sem dúvida, está longe de esgo-
tar o assunto e não permite mencionar toda a que tões, tendências e nD\'i-
130 .\itlCHEL THIOLLE~ T

dade que urgiram em torno da metodologia participativa e da pe qui a-


-ação. No últimos anos, a bibliografia e pecializada tem cre cido con ide-
ravelmente, principalmente em língua ingle a. Sem preten ão à exaustivi-
dade, indicamos a seguir algumas referências de obras ba tante recentes,
vindas de diferente horizontes e, em sua maioria, de fácil ace so. No intui-
to de contribuir para a atualização da pe quisa-ação, traduzimos obras de
vários autores francófono , que vêm enriquecendo o repertório e a base de
interlocução metodológica. Recentemente, resgatamos a concepção de Henri
De roche ( 1914-1994) que é de fundamental importância para a compreen-
ão da metodologia de pesqui a-ação e ua relação com a problemática do
cooperati,,i mo (Thiollent, 2006).

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