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Pierre

Bourdieu
homo academicus
2ª edicão
editora ufsc

Homo
PIERRE BOURDIEU

academicus
Tradução lone Ribeiro Valle Nilton Valle
Revisão técnica Maria Tereza de Queiroz
Piacentini
a
2 edição
editora ufsc
Agradeço a todos os que aceitaram
me ajudar respondendo às minhas
questões, me fornecendo documentos e
informações, relendo uma ou outra das
versões preliminares deste texto, e que
encontrarão aqui os traços, que espero
fiéis, de suas sugestões e de suas
críticas. As leituras preliminares que
consegui obter, num círculo mais
numeroso que de costume,
contribuíram muito, a meus olhos ao
menos, para o controle científico deste
trabalho. Meus primeiros leitores
também me ajudaram a superar a
angústia da publicação na medida em
que as correções ou as confirmações
que puderam apresentar, a partir de
pontos de vista muito diferentes,
pareciam contribuir para liberar minha
análise dos limites inerentes ao fato de
ocupar uma posição no espaço
analisado.
Quero agradecer especialmente a
Yvette Delsaut, que participou de todas
as fases do trabalho, desde o
levantamento das fontes e busca das
informações até a elaboração e análise
dos dados, e sem o que este trabalho
não teria sido o que é.
Sumário
Lista das tabelas e gráficos ............................................9
Lista de siglas ................................................................... 11
Apresentação | Ler Homo academicus .................. 13
Capítulo 1
Um “livro para queimar”? ............................................ 21
O trabalho de construção e seus efeitos................ 26
Indivíduos empíricos e indivíduos epistêmicos ... 44
Capítulo 2
O conflito das faculdades ............................................ 63
Distanciamento e adesão ............................................ 70
Competência científica e competência social....... 95
Capítulo 3
Espécies de capital e formas de poder ................. 103
A estrutura do espaço dos poderes ....................... 109
Os professores ordinários e a reprodução do
corpo................................................................................. 115
Tempo e poder.............................................................. 124
Os heréticos consagrados ......................................... 143
Adversários cúmplices ................................................ 152
O aggiornamento........................................................ 158
Posições e tomadas de posição .............................. 167
Capítulo 4
Defesa do corpo e ruptura dos equilíbrios.......... 171
As substituições funcionais ....................................... 181
Uma crise das sucessões ............................................ 188
Uma finalidade sem fins ............................................. 193
Uma ordem temporal ................................................. 197
A ruptura dos equilíbrios ........................................... 203
Capítulo 5
O momento crítico ....................................................... 207
Uma contradição específica ...................................... 211
A sincronização ............................................................. 224
A crise como delator ................................................... 231
Opiniões publicadas .................................................... 239
A ilusão da espontaneidade ..................................... 243
Anexo 1
As fontes utilizadas ...................................................... 249
1. Indicadores demográficos e indicadores de
capital
econômico e social herdado ou adquirido.......... 249
2. Indicadores do capital cultural, herdado ou
adquirido ......................................................................... 252
3. Indicadores do capital de poder universitário254
4. Indicadores do capital de poder e de
prestígio científico........................................................ 256
5. Indicadores do capital de notoriedade
intelectual........................................................................ 260
6. Indicadores do capital de poder político ou
econômico ...................................................................... 261
7. Indicadores das disposições políticas ........... 262
Anexo 2
Tabela 1, a ....................................................................... 265
Tabela 1, b....................................................................... 266
Tabela 1, c ....................................................................... 267
Tabela 2, a ....................................................................... 268
Tabela 2 , b ....................................................................... 270
A nexo 3
O hit parade dos intelectuais franceses ou quem
julgará a legitimidade dos examinadores? ......... 271
Anexo 4
As análises das correspondências .......................... 285
L. As quatro faculdades .............................................. 285
2. A faculdade de letras e de ciências humanas 286
Posfácio I Vinte anos depois .................................... 287
Índice remissivo ............................................................ 305
Lista das tabelas e gráficos
Capítulo 2
Tabela I - Indicadores demográficos e indicadores
de capital
herdado ou adquirido ....................................................73
Tabela II - Indicadores do capital escolar ...............75
Tabela III - Indicadores do capital de poder
universitário .......................................................................75
Tabela IV - Indicadores do capital de poder e de
prestígio
científico ............................................................................ 76
Tabela V - Indicadores do capital de notoriedade
intelectual...........................................................................76
Tabela VI - Indicadores do capital de poder
político ou
econômico ........................................................................ 76
Gráfico 1 - O espaço das faculdades ........................79
Capítulo 3
Gráfico 2-0 espaço das faculdades de letras e
ciências humanas ............................................................1 1 2
Gráfico 3-0 espaço das faculdades de letras e
ciências humanas ......................................................... 117
Capítulo 4
Gráfico 1 - A evolução do corpo professoral nas
faculdades de
direito, letras e ciências .............................................. 173
Gráfico 2 - A evolução morfológica nas faculdades
de letras ........................................................................... 175
Gráfico 3 - A evolução morfológica nas faculdades
de ciências.... 176
Anexo 2
Tabela 1, a ....................................................................... 265
Tabela 1, b....................................................................... 266
Tabela 1, c ....................................................................... 267
Tabela 2, a ....................................................................... 268
Tabela 2, b....................................................................... 270
Lista de siglas

AEERS Association d'étude pour l’expansion de la


recherche scientifique Associação de estudos
para a expansão da pesquisa científica
CAP Certificai d’aptitude professionnelle Diploma de
aptidão profissional
CAPES Certificat d’aptitude au professorat de
l’enseignement du second degré Certificado de
aptidão ao magistério do ensino de segundo
grau
CCU Comité consultatif des universités Comitê
consultivo das universidades
CEG Centre d’études de gramat Centro de estudos de
gramática
CET Collège d’enseignement technique Colégio de
ensino técnico
CHU Centre hospitalier universitaire Centro hospitalar
universitário
CNAM Conservatoire national des arts et métiers
Conservatório nacional das artes e ofícios
CNESER Conseil national de l’enseignement supérieur et de
la recherche Conselho nacional do ensino
superior e da pesquisa
CNRS Centre national de recherche scientifique Centro
nacional de pesquisa cientínca
CPEM Centre de promotion de 1 emploi par la micro-
entreprise Centro de promoção de empregos
para a microempresa
CREDOC Centre de recherche pour l’étude et l’observation
des conditions de vie Centro de pesquisa para o
estudo e a observação das condiçóes de vida
EHESS École des hautes études en sciences sociales Escola
dos altos estudos em ciências sociais
ENA École national d’administration Escola nacional de
administração
ENS École nortnale supérieur Escola normal superior
EPHE École pratique des hautes études Escola prática
dos altos estudos
FNSP Fondation nationale des sciences politiques
(sciences po) Fundação nacional de ciências
políticas
HEC Hautes études commerciales Altos estudos
comerciais
INED Institut national d’études démographiques Instituto
nacional de estudos demográficos
INRA Institut national de la recherche agronomique
Instituto nacional da pesquisa agronómica
INSEE Institut national de la statistique et des études
économiques Instituto nacional de estatística e
de estudos econômicos
INSERM Institut national de la santé et de la recherche
médicale Instituto nacional da saúde e da
pesquisa médica
iirr Instituts universitaires de technologie Institutos
universitários de tecnologia
OS Ouvrier spécialisé Operário especializado
PCB Certificat d'études physiques, chimiques et
biologiques Certificado de estudos físicos,
químicos e biológicos
PTT Postes, télégraphes et téléphones Correios,
telégrafos e telefones
PUF Presses universitaires de France Imprensa
universitária da França
SGEN Fédération des syndicats généraux de l’éducation
nationale et de la recherche publique
Federaçáo dos sindicatos gerais da educação
nacional e da pesquisa pública
SNESup Syndicat national de l’enseignement supérieur
Sindicato nacional do ensino superior
SNCS Syndicat national des chercheurs scientifiques
Sindicato nacional dos pesquisadores cientistas
UER Unités d’enseignement et de recherche Unidade de
ensino e de pesquisa
UNEF Union nationale des étudiants de France Uniáo
nacional dos estudantes da França

Apresentação Ler Homo academicus


“Quem olha, de fora, através de uma janela aberta, não vê
jamais tantas coisas quanto quem olha uma janela
fechada. Não há objeto mais profundo, mais misterioso,
mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante do que
uma janela iluminada por uma vela. O que se pode ver à
luz do sol é sempre menos interessante do que o que se
passa atrás de uma vidraça. Nesse buraco negro ou
luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.”
C. Baudelaire, As janelas.
Pierre Félix Bourdieu (1930-2002) descende da “tribo
dos filósofos” da prestigiosa École Normale
Supérieur de Paris, onde viveu o conjunto de “ritos
de instituição”, destinados a produzir uma
convicção íntima e uma adesão inspirada, que o
constituiu filósofo. Sem deixar de intervir no campo
propriamente filosófico (como mostram, por
exemplo, as obras A ontologia política de Martin
Heidegger, 1988, e Meditações pascalianas, 1997), ele
passa a se interessar pela sociologia - uma
disciplina paria na épora — ao efetuar seu serviço
militar na Argélia, entre 1958 e i960, fazendo dela sua
“vocação” e seu “esporte de combate”.
É portanto à sociologia que Pierre Bourdieu
dedica sua vida acadêmica, desenvolvendo um
trabalho científico de grande fôlego, regular,
cotidiano, sistemático, persistente, sólido, polêmico.
Valendo-se de um estilo hermético, de uma
linguagem relativamente austera, que traz a marca
do filósofo, Bourdieu produz uma sociologia crítica
que procura compreender as relações entre cultura,
ciência, escola, mídia c reprodução social, e, com
isso, torna sua reflexão no campo das áreas
humanas e sociais incontornável.
Ele se engaja num trabalho náo só de sociólogo,
mas de rpistemólogo da sociologia, interrogando-
se permanentemente sobre seu funcionamento,
seus fundamentos, seus princípios, suas hipóteses,
seus métodos, seus resultados. Sua capacidade
para apreender o essencial, sem negligenciar aquilo
que o Homo academicus prefere tratar como
banal, o leva a confrontar pensamentos, a retraçar
evoluções intelectuais,
.1 evitar oposições conceituais.
Enraizado numa cultura que é própria de um
tempo e de um lugar, Bourdieu constrói
fundamentos epistemológicos consequentes
tentando transcender esse tempo e esse lugar.
Encarnando a tradição intelectual francesa no que
ela tem de mais rico e de melhor, ele se torna um
pensador conhecido e reconhecido
internacionalmente. Convencido de que a
sociologia pode ajudar a responder mas não pode
prescrever, ele a vê como “uma arte de persuadir”
(o Honio politicus principalmente) por ser capaz de
elucidar as práticas sociais que, como todas as
praticas,
náo se deixam encerrar em leis absolutas.
Desvelar - e denunciar - a “miséria do mundo”
na posição de integrante desse illusio que
caracteriza o campo científico exigiu, todavia,
dialetizar sua própria posição no campo social e o
levou a desenvolver um pensamento que
amalgama melancolia e esperança, pois como
sublinha Blaise Pascal (1623-1662) em seus
Pensamentos e opusculos, a
afeição ou o ódio muda a justiça de face .
Sua obra, que se distingue por uma extrema
sensibilidade ao sentimento - e ao sofrimento - dos
desfavorecidos, às desigualdades e injustiças
sociais, e é orientada por um complexo modus
operand,f, instiga e desafia a escapar dos
"demónios da alienação”, reconhecendo que o
encanto se rompeu”, diria Stéphane Mallarmé (1842-
1898) em suas Divagações, e das imposições dos
todo-poderosos: “Eu náo falo dos loucos [ou
avarentos], eu falo dos sábios; e é entre eles que a
imaginação tem o grande dom de persuadir os
homens”, lembraria mais uma vez Blaise Pascal.
Mas é à educaçáo, na sua forma escolar, que
Pierre Bourdieu dedica a maior parte de sua vida
intelectual. Ele percebe desde os primeiros estudos
sobre o sistema de ensino (francês) que a cultura
escolar inculca um conjunto de categorias de
pensamento graças às quais os indivíduos se
comunicam e se relacionam, partilhando uma
cultura de classe fundada na primazia de certos
modos de refletir, exprimir,
julgar e agir que os predispõem a manter, com seus iguais,
uma relação de cumplicidade e de comunicação específica.
Apresentação | Lcr Homo acadcmictts
O interesse pela escola, no que concerne à ação, à
autoridade e ao trabalho pedagógicos, não é fruto de uma
escolha aleatória, pois, como afirma Bourdieu, todo objeto
enseja um ponto de vista, até mesmo o objeto produzido
com a intenção de aboli-lo. Essa escolha ganha
fundamentalmente sentido na medida em que promove um
debate de carater universal referente às bases
epistemológicas e às implicações culturais das transmissões
escolares nas sociedades contemporâneas. A instituição
escolar aparece como um instrumento dócil da reprodução
social, como uma arena onde se encontram e se
confrontam interesses, muitas vezes antagônicos (de
origem social, de categoria socioprofissional,' de cultura, de
religião, de sexo, de idade...). Esta premissa, levantada no
inicio dos anos i960, vai ser objeto de análise de quatro de
suas obras pilares sobre o sistema de ensino: Les héritiers
(publicada na França, em 1964) e A reprodução (publicada na
França, cm 1970, e no Brasil, em 1975), ambas elaboradas em
parceria com Jean-Claude Passeron’
Homo academicus (publicada na França, em I984) e La
noblesse d'Êtat (publicada na França em 1989).
A obra Les héritiers (1964) revela a força da herança
cultural e do ambiente familiar (onde a cultura é adquirida
“como por osmose”) no rendimento escolar. Ao demonstrar
que o sistema de ensino opera uma ehminaçao ainda mais
total quando se trata das classes mais desfavorecidas, 15

os autores colocam em xeque as políticas de


democratização e explicitam a face perversa” da educação
escolar, a qual dissimula uma aristocracia os méritos
(herdados). Esta perspectiva anaJítica se amplia e se
aprofunda na complexa e polêmica obra A reprodução
(1970). Nela os autores poem a nu os mecanismos
propriamente pedagógicos por meio dos quais se efetiva a
reprodução da estrutura de classes e mostram que a escola
e o lugar por excelência de transmissão de uma “lógica
secreta”, marcada pela violência simbólica, que disfarça seu
fundamento “profano” e sua finalidade real. Esta
abordagem, relativamente pessimista, dos sistemas de
ensino teve grande repercussão, inclusive no Brasil, e foi, de
forma simplista, identificada como “reprodutivista”. A
volumosJ obra La noblesse d'État (1989) dá mostra de uma
imperiosa coerência paradigmática e terminológica iniciada
cm 1964, que vai sendo afirmada
c reafirmada por uma renovaçáo constante dos campos dc
investigação. AN “grandes escolas” (instituições de ensino
superior) ou as “escolas do poder” operam uma admissão
cada vez mais burguesa apesar das intenções
“democratizantes”, comprova Pierre Bourdieu. Assim como
a "nobreza militar”, a “nobreza escolar” aparece como um
conjunto de indivíduos de essência superior, pois, ao
selecionar aqueles que a escola designa como mais bem
dotados, estabelece-se uma hierarquia no interior das
classes juridicamente instituída pelo veredicto escolar, que
légitima uma espécie de “racismo da inteligência .
Mas é na obra Homo academicus (1984)» ora apresentada,
que Pierre Bourdieu, provavelmente, mais expõe sua
“vocação científica , mais se desafia a testar sua “vigilância
epistemológica , mais se submete .1 uma “reflexibilidade
generalizada”. Ele reconhece que, ao analisar um domínio
marcado por controvérsias e por opiniões unilaterais, mas,
sobretudo por tratar-se de um mundo no qual se esta
profissionalmente inserido, não se pode fazer como o
etnologo que domestica o cxotico . Ao contrário, o
movimento na direção do mundo originário, e ordinário,
precisa tornar-se um movimento na direção de mundos
estrangeiros e extraordinários. Evidentemente, não se pode
ignorar que aqueles que imergiram, desde o nascimento,
num universo escolástico oriundo de um longo processo de
autonomização são afetados por uma verdadeira “amnésia
de origem”, que os leva a desconsiderar as condições
históricas c sociais de exceção que tornam possível uma
visão de mundo e das obras culturais postas sob o signo da
evidencia e do natural. Segundo Bourdieu, toda seleção é
também separação e “eleição” dos “eleitos”. Portanto, o
pertencimento a instituições universitárias de grande
prestígio social instaura uma fronteira mágica, que
consolida o milagre da eficácia simbólica”.
Contrariamente ao Homo academicus que gosta do
acabado , que aposta nas certezas, ele opta pelo insólito e
não vê razão para esconjurar a crítica. Sua ousadia
acadêmica se evidencia no título do primeiro capítulo desta
esplendorosa obra: “Um ‘livro para queimar ? . Ele parte do
pressuposto de que analisar cientificamente o mundo
universitário significa eleger como objeto uma instituição
que é socialmente reconhecida, que goza de toda
legitimidade graças ao seu caráter racional c que é vista
como mágica por realizar uma objetivação que se pretende
objetiva e universal. Apesar disso, procurou ir fundo ,
revelando conflitos, contradições, crises, desilusões,
interesses, relações de força, hierarquia de prestígios,
ruptura de equilíbrios.
Apresentação | I.er Homo academicus
Em Homo academicus, sáo explicitados os obstáculos
com os quais se confrontam os que pretendem transmudar
a ordem dominante e as dificuldades para sobreviver numa
luta que é de “todos contra todos”; uma luta em que uns
dependem dos outros, ao mesmo tempo concorrentes e
clientes, adversários e juizes, para determinar sua verdade e
seu valor, sua vida e sua morte simbólica. Para esta análise,
Bourdieu tomou como base empírica acontecimentos e
posicionamentos ocorridos durante e após o movimento de
Maio de 1968. Ele observa que a atenção imediata ao
imediato que, mergulhada no acontecimento e nos apegos
que suscita, isola o momento critico’, introduz uma filosofia
da história. Esta leva a supor que há na história momentos
privilegiados, “mais históricos que outros” (pode-se ver um
caso particular na visáo escatológica, clássica ou
modernizada, que descreve a revolução como termo final,
telos, e ponto culminante, acmè, e seus agentes -
proletários, estudantes ou outros - como classe universal,
portanto última).
Nesta obra, Bourdieu constrói uma espécie de topografia
social c mental do mundo universitário, e procura “demolir
o Homo academicusy classificador entre os classificadores,
nas suas próprias classificações”, mostrando que há dois
polos de uma mesma estrutura institucional que se opõem:
um polo de saber, definido essencialmente pela liberdade
acadêmica, e um polo de poder, que se conclama de
responsabilidade social. De um lado estão os saberes
“puros”, cujo desenvolvimento e legitimação obedecem a
uma lógica principalmente “teórica” e que supõem certa
“distância” em relação às normas culturais dominantes e às
instâncias de controle social. De outro lado, onde estáo o
direito e a medicina, não há esse paradoxo de “autonomia
da inteligência”, essa “autoridade sem responsabilidade”. As
competências que se desenvolvem são inseparavelmente
teóricas, técnicas e sociais; elas sáo constitucionalmente,
por fundação e destinação, e em razão da garantia jurídica
de que têm necessidade para se exercer, signos e meios de
poder. É essa oposição entre o verbalismo do pensamento
científico e tecnológico e o relativismo ensinados pelas
ciências humanas e sociais que o leva a caracterizar o
campo científico como um campo de poder.
Segundo uma concepção que pode parecer tipicamente
"cstruturalista”, Pierre Bourdieu considera a sociedade como
um conjunto de campos ou de “espaços de posições” e de
disposições formalmente homólogos e imbricados
hierarquicamente uns nos outros. Mas cada uma das partes
desse conjunto obedece à mesma lógica de segmentação e
de polarização. Ao olhar o campo universitário como campo
social, como espaço dinâmico constituído por um conjunto
de posições desigualmente desejáveis, ele evidencia a
oposição entre o que sc poderia chamar de “polo
mundano” e de “polo científico”: o primeiro norteado pela
“competência científica”, o segundo pela “competência
social”. Enquanto as faculdades e disciplinas dominantes na
ordem política têm por função formar agentes de execução
capazes de aplicar, sem discutir nem questionar, no limite
das leis de uma dada ordem social, as técnicas e prescrições
de uma ciência que não pretendem produzir nem
transformar, as faculdades e disciplinas dominantes na
ordem cultural se dedicam à construção dos fundamentos
racionais da ciência que as outras faculdades se contentam
em inculcar e aplicar, uma liberdade que é interditada às
atividades de execução.
Em Homo academicus, Bourdieu desenvolve uma
análise particularmente fina e penetrante do meio
universitário, que parece dever muito ao conhecimento
íntimo e familiar que ele tem desse espaço social,
explicitando, inclusive nas modificações morfológicas que
passaram a influenciá-lo, principalmente a partir de Maio de
1968,
a dialética da conservação e do reconhecimento.
Segundo ele, a tentação de multiplicar sem controle as
hipóteses sob medida nunca se exerce tanto sobre os
especialistas das ciências humanas e sociais quanto quando
eles têm necessidade de acontecimentos, e de
acontecimentos críticos. Os momentos de grandes
mudanças em que o sentido do mundo social oscila são um
desafio, e não unicamente para o intelectual, mas para
iodos os que têm por profissão 1er o sentido do mundo e
que, sob a aparência de enunciar o que ele é e como ele é,
acabam pretendendo lazer existir as coisas segundo o seu
dizer, portanto produzindo efeitos políticos imediatos, o
que os leva a tomar a palavra no ato c não após uma
necessária reflexão. Ora, ao deixar de analisar a postura
teórica que adotam em relação ao seu objeto c às
condições sociais que o tornam possível, os homens de
pensamento e ação acabam esquecendo que o mundo
onde se pensa (escolástico) não é o mundo onde se vive
(prático), como pondera Gaston Bachelard (1884-1962), pondo
em risco a especificidade da lógica prática.
Atribuindo grande valor explicativo ao fenômeno da
desvalorização social dos diplomas, ao medo da
desclassificação social e à hierarquia das posições, o autor
dedica uma grande parte de seu estudo ao caráter
ideológico e cultural do movimento interno do campo
científico, assinalando que há, na medida do possível, um
esforço de manutenção, por meio de uma admissão
homogênea do ponto de vista das trajetórias e dos habitus,
que se confronta permanentemente com os princípios
meritocráticos. Na verdade, os iniciados não têm
necessidade de escolher, e essa é uma das razões que
fazem com que eles sejam os escolhidos e acessem uma
espécie de casta dentro da casta. Não são, portanto, como
comumente se acredita, as tomadas de posição políticas
que determinam as tomadas de posição sobre as questões
universitárias, mas são as posições no campo universitário
que orientam as tomadas de posição sobre a política em
geral, e sobre as questões universitárias cm particular.
Afinal, não se pode ignorar que “a herança herda o
herdeiro”, que “o morto apodera-se do vivo”, que o passado
é reificado e incorporado, que o futuro atrela-se ao
passado, como afirma Bourdieu em diferentes momentos
do conjunto de sua obra. Nesse caso, o que estrutura a
experiência e, por meio dela, as disposições e as práticas
cotidianas é o peso relativo do econômico e do cultural
sobre o patrimônio herdado ou, mais precisamente, a
prioridade que se encontra objetivamente atribuída, nas
condições de existência associadas a uma posição
determinada, à cultura ou à economia, à arte ou ao
dinheiro, ao “poder espiritual” ou ao “poder secular”.
Enfim, para compreender efetivamente a obra Homo
academiciis e participar ativamente, sem verdadeira ou falsa
modéstia, da atividade crítica que ela suscita, é preciso lê-la
atendo-se ao contexto de fortes tensões em que foi
concebida, isto é, ao universo universitário no qual e contra
o qual ela se constituiu. É preciso lê-la pensando no espaço
das possibilidades acadêmicas objetivamente propostas
para o leitor no momento em que o autor procura lapidar
sua intenção científica; momento inaugural marcado pela
oposição de posições polares, pela combinação inédita de
tomadas de posição socialmente exclusivas que gestam
novas posições. É preciso lê-la como marco de uma ruptura
radical com os pressupostos tácitos do universo acadêmico
no qual as dissensões aparentes mascaram o consenso
profundo. É preciso lê-la imaginando que a escola e a
universidade sáo capazes de distribuir de maneira ampla c
plena as aquisições científicas e culturais acumuladas e que
o impossível possível, ao mesmo tempo rejeitado e
reivindicado, pode prometer - e promover - um futuro para
“crianças e povos sem futuro”.
lone Ribeiro Valle Florianópolis, primavera de 2011.
Capítulo 1
Um “livro para queimar”?
“E eles não querem que se faça a história dos
historiadores. Eles querem esgotar a infinitude do detalhe
histórico. Mas eles náo querem ser levados em
consideração nesta infinitude do detalhe histórico. Eles
não querem estar no ranking histórico. São como médicos
que não quisessem ficar doen tes e morrer.”
Ch. Péguy, L'argent, suite.
Ao tomar como objeto um mundo social no
qual se está preso, somos obrigados a encontrar,
numa forma que se pode dizer dramatizada, um
certo número de problemas epistemológicos
fundamentais, todos ligados à questão da
diferença entre o conhecimento prático e o
conhecimento erudito e principalmente à
dificuldade particular da ruptura com a experiência
autóctone e com a restituição do conhecimento
obtido à custa dessa ruptura. Conhece-se o
obstáculo ao conhecimento científico que tanto o
excesso de proximidade quanto o excesso de
distância representam e a dificuldade de instaurar
esta relação dc proximidade lompida e restaurada
que, à custa de um longo trabalho sobre o objeto
mas também sobre o sujeito da pesquisa, permite
integrar tudo o que só se pode conhecer se se está
lá e tudo o que não se pode ou náo se quer
conhecer porque náo se está lá. Conhecem-se
talvez menos os problemas, principalmente em
matéria de escrita, decorrentes do esforço para
transmitir o conhecimento científico do objeto, e
que aparecem especialmente a propósito da
exemplificação: esta estratégia retórica
comumente empregada para “fazer compreender”
mas que instiga o leitor a recorrer à sua
experiência, portanto a introduzir clandestinamente
na sua leitura uma informação incontrolada, tem
por efeito quase inevitável rebater no plano do
conhecimento ordinário construções científicas que
deveriam ser conquistadas contra ela.1 Basta
1
Cf. C. C. Gillispic, Science and Policy in France at the fold of the Old Regime, Princeton, Princeton University Press,
introduzir nomes próprios - e como deixar
completamente de fazê-lo quando se trata de um
universo em que uma das apostas é “fazer um
nome”? - para estimular a tendência do leitor a
reduzir ao indivíduo concreto, sincreticamente
apreendido, o indivíduo construído que existe
como tal somente no espaço teórico das relações
de identidade e de diferença entre o conjunto
explicitamente definido de suas propriedades c os
conjuntos singulares de propriedades, definidas
segundo os mesmos princípios que caracterizam os
outros indivíduos.
Mas não vale a pena levar ao limite extremo o
esforço para banir todas as ações ameaçadas de
funcionar na lógica ordinária, tais como a
tagarelice, a maledicência ou calúnia, a sátira e o
panfleto, que, embora hoje se disfarcem facilmente
em análises, não sacrificam uma única anedota, um
único traço, uma única palavra, pelo prazer de ferir
ou de brilhar; não vale a pena deixar
metodicamente, como aqui, de lembrar as
questões ainda que conhecidas de todos, as
ligações declaradas entre os universitários e o
jornalismo, sem falar das ligações dissimuladas,
familiares ou outras, que para os historiadores se
torna ponto de honra descobrir; sem dúvida não se
escapará, todavia, à suspeita de exercer uma ação
de denúncia da qual o próprio leitor é de fato
responsável: é ele que, lendo as entrelinhas,
preenchendo mais ou menos conscientemente os
brancos da análise ou, simplesmente, “pensando,
como se diz, no seu próprio caso”, transforma o
sentido e o valor do protocolo deliberadamente
censurado da enquete científica. Por não poder

1980, p. 290-330.
' Entre outros, pode-se citar o último desta veia, Hervé Couteau-Bcgarie, cujas análises da
escrever tudo o que sabe, e que seus leitores mais
prontos a denunciar suas “denúncias” geralmente
sabem melhor que ele, mas dc um outro modo, o
sociólogo corre o risco de parecer submisso às
estratégias mais testadas da polêmica, insinuação,
alusão, meias- palavras, subentendido,
procedimentos tais que interessam à retórica
universitária de modo especial. E no entanto esta
história sem nomes próprios ;\ qual ele está
reduzido não é mais adequada à verdade histórica
que o relato anedótico dos fatos e gestos dos
agentes singulares, célebres ou desconhecidos, ao
qual se submete tão facilmente a história, velha ou
nova: os efeitos da necessidade estrutural do
campo só se realizam por meio da contingência
aparente das ligações pessoais, fundadas nos
acasos socialmente organizados dos encontros e
dos convívios comuns e na afinidade dos habitus,
vivida como simpatia ou antipatia. E como não
lamentar que seja socialmente impossível provar e
pôr à prova o que acredito ser a verdadeira lógica
da ação histórica e a justa filosofia da história
usando plenamente vantagens inerentes à relação
de pertencimcnto, que permite acumular a
informação recolhida pelas técnicas objetivas da
enquete e pela intuição íntima da familiaridade?
Assim, o conhecimento sociológico é sempre
suscetível de ser levado, à primeira vista, pela
leitura “interessada” que se liga à anedota e aos
detalhes singulares e que, por não ser controlada
por um formalismo abstrato, reduz a seu sentido
ordinário as palavras comuns à língua erudita e à
língua ordinária. Esta leitura quase inevitavelmente
parcial busca uma falsa compreensão, fundada na
ignorância de tudo o que o conhecimento
propriamente científico define como tal, isto é, a
própria estrutura do sistema explicativo: ela desfaz
o que a construção científica havia feito,
misturando o que havia sido separado e sobretudo
o indivíduo construído (pessoa singular ou
instituição), que somente existe na rede das
relações elaboradas pelo trabalho científico, e o
indivíduo empírico, que se entrega diretamente à
instituição ordinária; ela faz desaparecer tudo o
que distingue a objetivação científica tanto do
conhecimento comum quanto do conhecimento
semierudito que, como se vê na maioria dos
ensaios, mais mistificados que desmistificadores,
sobre os intelectuais, quase sempre tem por
princípio o que se poderia chamar de ponto de
vista de Tersites, o simples soldado invejoso,
obstinado a difamar os grandes, do Troilo e
Créssida de Shakespeare, ou, mais próximo da
realidade histórica, o ponto de vista de Marat, de
quem se esquece que foi também, ou
primeiramente, um mau físico:2 a lucidez parcial
que favorece a necessidade de reduzir inspirada no
ressentimento leva a uma visão ingenuamente
finalista da história que, por não chegar até o
princípio oculto das práticas, prende-se à denúncia
anedótica dos responsáveis aparentes e termina
por insuflar os supostos autores dos "i o in p lös”
denunciados, fazendo deles sujeiros cínicos de
todas as ações detestadas, e primeiramente na sua
própria grandeza.»
Além disso, aqueles que se instalam na fronteira
entre o conhecimento erudito e o conhecimento
comum, ensaístas, jornalistas, universitários-
jornalistas e jornalistas-universitários, têm um
interesse vital em queimar esta fronteira e em
negar ou anular o que separa a análise científica
das objetivaçóes parciais que imputam a indivíduos
singulares ou a um lobby - como se fez com o
responsável por tal programa literário da televisão
ou com os membros da Escola dos altos estudos
ligados ao Le Nouvel Observateur - efeitos que na
realidade comprometem toda a estrutura do
campo: basta-lhes deixar-se levar aqui pela leitura
de mera curiosidade que faz funcionar os exemplos
c os casos particulares segundo a lógica da
bisbilhotice mundana ou do panfleto literário para
reduzir o mundo de explicação sistemática e
relacional que é próprio da ciência ao
procedimento mais ordinário da redução polêmica,
a explicação ad hoc por argumentos ad
hominem.
A análise (apresentada em anexo) do processo
ao final do qual se acha atribuída a notoriedade
jornalística tem por objetivo primeiro denunciar a
ingenuidade de todas as denúncias pessoais que,
sob a aparência de objetivar o jogo, dele
participam ainda mais plenamente na medida em
que tentam colocar as aparências da análise a
serviço dos interesses associados a uma posição
nesse jogo: o sujeito da técnica do hit parade
literário não c um agente singular (neste caso,
Bernard Pivot), mesmo sendo muito influente e
muito hábil, ou uma instituição particular
(programa de televisão, revista), nem mesmo o
conjunto dos órgáos jornalísticos capazes de
exercer um poder sobre o campo He produção
cultural, mas o conjunto das relações objetivas
constitutivas desse campo e principalmente as que
se estabelecem entre o campo de produção para
produtores e o campo da grande produção. A
lógica decorrente da análise científica transcende
amplamente as intenções e as vontades individuais
ou coletivas (o complô) dos agentes mais lúcidos e
mais poderosos, aqueles que a pesquisa denomina
de “responsáveis”. Dito isso, nada seria mais falso
do que extrair argumento dessas anáJises para
dissolver as responsabilidades na rede de relações
objetivas onde cada agente se insere. Aos que
gostariam de encontrar no enunciado de leis
sociais convertidas em destino o álibi de uma
demissão fatalista ou cínica, é preciso lcrnbrar que
a explicação científica, que oferece os meios para
compreender, e até mesmo inocentar, é também o
que pode permitir transformar. Um conhecimento
ampliado dos mecanismos que governam o mundo
intelectual não deveria (emprego como ilustração
essa linguagem ambígua) ter por finalidade “livrar
o indivíduo do fardo incômodo da
responsabilidade moral”, como teme Jacques
Bouveressc.4 Ele deveria ao contrário ensiná-lo a
situar suas responsabilidades onde realmente se
situam suas liberdades e a recusar obstinadamente
as fraquezas e os abandonos infinitesimais que
atribuem toda sua força à necessidade social, a
combater cm si e nos outros o indiferentismo
oportunista ou o conformismo desabusado que
concede ao mundo social o que ele pede, todos os
pequenos nadas da complacência resignada e da
cumplicidade dócil.
Sabe-se que os grupos não gostam muito dos
que “traem um segredo”, sobretudo quando a
transgressão ou a traição se protege sob seus
valores mais altos. Os mesmos que não deixariam
de saudar como “corajoso” ou “lúcido” o trabalho
de objetivação quando aplicado a grupos
estrangeiros e adversos serão instigados a atirar a
suspeita sobre os determinantes da lucidez
especial que reivindica o analista de seu próprio
grupo. O aprendiz de feiticeiro que corre o risco de
se interessar pela bruxaria indígena e por seus
fetiches, em vez de ir procurar nos trópicos
longínquos os charmes tranquilizadores de uma
magia exótica, deve esperar ver voltar-se contra si
a violência que desencadeou. Karl Kraus estava
bem colocado para enunciar a lei que quer que a
objetivação tenha mais chances de ser aprovada e
celebrada como “corajosa” nos “círculos familiares”
quando os objetos aos quais ela se aplica estão
mais afastados no espaço social; e ele dizia, no
editorial do primeiro número de sua revista, Die
Fackel, que aquele que recusa os prazeres e os
benefícios fáceis da crítica longínqua, para se
apegar ao ambiente imediato que tudo recomenda
ter como sagrado, deve esperar os tormentos da
“perseguição subjetiva”. Assim se estaria tentado a
retomar o título, Livro para queimar, que Li Zhi,
mandarim exilado, daria às tais obras
autodestrutivas a que ele atribuiria as regras do
jogo mandarínico. Não para lançar um desafio aos
que, embora prontos para se insurgir contra todos
os atos de fé, destinarão à fogueira toda obra
percebida como um atentado sacrílego contra suas
próprias crenças.5 Mas simplesmente para exprimir
a contradição que está inscrita na divulgação dos
segredos da tribo e que só é tão dolorosa porque a
publicação (mesmo parcial) do mais privado
também tem algo de confissão pública.2
A sociologia produz muito pouco de ilusão para
que o sociólogo possa pensar um único instante no
jogo do herói libertador: entretanto, mobilizando
toda a aquisição científica disponível para tentar
objetivar o mundo social, longe de exercer uma
violência redutora ou um império totalitário - como
às vezes se pretende, principalmente quando seu
trabalho se aplica aos que entendem objetivar sem
serem objetivados -, ele oferece a possibilidade de
liberdade; e pode ao menos esperar que seu
tratado das paixões acadêmicas seja para outros o
que foi para si, o instrumento de uma socioanálise.

Encontrar sc á adiante, no capitulo 3, uma descrição detalhada dos princípios dc construção desta
população. As características da amostragem representativa que serviu de base para a análise do conjunto
das faculdades (exceto farmácia) estáo descritas no capítulo 1. As fontes utilizadas nessas duas enquêtes estáo
descritas no Anexo I.
O trabalho de construção e seus efeitos
Colocado diante do desafio que representa o
estudo de um mundo ao qual se está ligado por
todas as formas de investimentos específicos,
inseparavelmente intelectuais e “temporais”, só se
pode sonhar primeiramente com a fuga: a
preocupação em escapar da suspeita de tomar
partido leva a um esforço para desaparecer como
sujeito "interessado”, “prevenido”,
antecipadamente suspeito de pôr as armas ila
ciência a serviço dos interesses particulares, para se
anular como sujeito conhecedor recorrendo aos
procedimentos mais impessoais, mais automáticos
e portanto, ao menos nesta lógica, que é a da
‘cicncia normal”, mais indiscutíveis. (Onde se vê a
atitude de demissão que muitas vezes sustenta a
escolha do hiperempirismo; e também a ambição
propriamente política — no sentido específico -
que esconde esse neutralismo cientificista, aquela
que separa, pelo trabalho científico e em nome da
cicncia, debates confusos, que se coloca como
árbitro ou como juiz, que se anula como sujeito
comprometido no campo, mas para ressurgir,
“acima da mistura”, com as aparências
irrepreensíveis do sujeito objetivo, transcendente).
Não se escapa ao trabalho de construção do
objetivo e à responsabilidade que isso implica. Não
há objeto que não envolva um ponto de vista,
mesmo em se tratando do objeto produzido com a
intenção de abolir o ponto de vista, isto é, a
parcialidade, de ultrapassar a perspectiva parcial
que está associada a uma posição no espaço
estudado. Mas as próprias operações da pesquisa,
que forçam a explicitar e a formalizar os critérios
implícitos da experiência ordinária, têm por
consequência tornar possível o controle lógico de
seus próprios pressupostos. Realmente não é
preciso dizer que o conjunto das escolhas
sucessivas - distribuídas aliás por vários anos, que,
no caso da enquete sobre o poder nas faculdades
de letras e de ciências humanas de 1967, levaram por
exemplo a determinar a lista dos indivíduos
estudados determinando-se o universo das
propriedades pertinentes com vistas a caracterizá-
las, isto é, a população dos universitários mais
“poderosos” ou mais “importantes” - não se
realizou com uma perfeita transparência
epistemológica e completa lucidez teórica.' É
preciso nunca ter feito pesquisa empírica para
acreditar ou pretender o contrário e não é certo
que esta espécie de obscuridade para consigo
mesmo das operações sucessivas, na qual entra de
um lado o que se chama “intuição”, isto é, uma
forma mais ou menos controlada do conhecimento
pré-científico do objeto diretamente envolvido e
também do conhecimento erudito de objetos
análogos, não seja o princípio verdadeiro da
fecundidade insubstituível da pesquisa empírica:
fazer sem saber completamente o que se faz é dar-
se uma chance de descobrir, no que se fez, algo
que não se sabia.
A construção erudita se obtem pela acumulação lenta
e difícil de diferentes indicadores, cuja consideração é
sugerida pelo conhecimento prático das diferentes
posições de poder (por exemplo, o Comitê consultivo ou
a banca de agregação)3 e das pessoas tidas como

3 Do originai "jury d'agrégation", banca examinadora dc concurso para atuar como professor dc liceu ou dc
faculdade c que confcrc aos aprovados o título de professor agregado {''agrège"). (N.T.). ' Nunca lamentaremos
o suficiente por náo termos tido um jornal de pesquisa que, melhor do que todos os discursos, teria tido a
função do trabalho empírico na realização progressiva da ruptura ..»ni a experiência primeira. Mas a leitura
do recenseamento das fontes utilizadas (ver Anexo i) deveria dar ao menos uma ideia do trabalho dc
levantamento controlado que é o princípio maior da diferença entre a experiência comum c o conhecimento
erudito.
35 Sobre iodos esses pontos, poder-se-á ver, além da discussão clássica das logicistas sobre o nome próprio c os
operadores de individuação (Russel, Gardiner, Quine, Strawson, etc.) c as reflexões dc Lévi-Strauss cm La pensée
sauvage, a excelente análise de J.-C Paricnte, Le langage et l’individuel.
“poderosas”, c até mesmo das propriedades comumente
designadas ou denunciadas como indícios de poder. A
“fisionomia”, globalmente e grosseiramente apreendida,
dos “poderosos” e do poder, cede assim pouco a pouco o
lugar a uma série analítica de traços distintivos dos
detentores de poderes e das diferentes formas de poder
cuja significação, mas também o peso, são precisados, no
andamento da pesquisa, por meio das relações
estatísticas que unem uns aos outros. Longe de ser, como
podem fazer crer certas representações “iniciáticas” do
“recorte cpistemológico”, uma espécie de ato ao mesmo
tempo inaugural e terminal, a ruptura com a intuição
primeira é a conclusão de um longo processo dialético no
qual a intuição, realizando-se numa operação empírica,
analisa-se e controla- se, envolvendo novas hipóteses,
agora mais informadas, que encontrarão sua transposição
graças às dificuldades, às faltas, às expectativas que
fizeram surgir.9 A lógica da pesquisa é uma engrenagem
de dificuldades maiores ou menores que condenam a
pessoa a se indagar, a cada momento, sobre o que se fez
e permitem saber cada vez mais o que se procura
fornecendo começos de resposta que levam a novas
questões, mais fundamentais c mais explícitas.
Mas seria extremamente perigoso satisfazer-se
com esta “douta ignorância”. E náo estou longe de
pensar que a virtude principal do trabalho
científico de objetivaçáo consiste naquilo que ele
permite, sob a condição, certamente, de que se
saiba analisar o produto, objetivar a objetivaçáo.
Na verdade, para o pesquisador preocupado em
saber o que faz, o código, instrumento de análise,
torna-se objeto de análise: o produto objetivado
do trabalho de codificação se torna, sob o olhar
reflexivo, o traço imediatamente legível da
operação de construção do objeto, a grade que foi
aplicada para construir o dado, o sistema mais ou
menos coerente das categorias de percepção que
produziram o objeto da análise científica; no caso
particular, o universo dos “universitários
importantes” e de suas propriedades. O conjunto
das propriedades retidas parece de um lado o
universo dos critérios (ou das propriedades) que,
fora do nome próprio, a mais preciosa de todas as
propriedades quando se trata de um nome famoso,
sáo efetivamente utilizáveis e utilizados na prática
cotidiana para identificar, e até mesmo classificar,
os universitários (o que é atestado pelo fato de
tratar-se essencialmente de informações
publicadas, e principalmente nas formas oficiais de
apresentação de si) e, de outro lado, uma série de
características que a experiência prática do campo
universitário instiga a considerar como pertinentes,
constituindo assim propriedades classificatórias.
Além disso, o retorno reflexivo sobre a própria
operação de codificação revela tudo o que separa
o código construído dos esquemas práticos e
implícitos da percepção ordinária, o qual, com
frequência, apenas retoma codificações
socialmente atestadas, como os títulos escolares ou
as categorias socioprofissionais do INSEE, e, da
mesma maneira, tudo o que implica, para uma
compreensão adequada do trabalho científico c de
seu objeto, a consciência desta diferença: assim, se
é verdade que todo código, tanto no sentido da
teoria da informação quanto no sentido do direito,
supõe um consenso sobre o conjunto acabado das
propriedades tidas como pertinentes (as fórmulas
jurídicas, diz Weber, “levam em conta
exclusivamente as características gerais unívocas
do caso considerado”) e sobre um conjunto de
relações formais entre essas propriedades, não se
pode consequentemente ignorar a distinção entre
os casos em que a codificação científica retoma
uma codificação já existente na realidade social e
os casos em que ela produz de todas as peças um
critério inédito, dando assim por resolvida a
questão da pertinência desse critério, que pode ser
uma aposta de conflito e, geralmente, de
escamoteação da questão das condições sociais e
dos efeitos sociais da codificação: uma das
propriedades mais importantes de toda
propriedade, que elimina a mistura dos critérios
construídos pelo pesquisador com os critérios
socialmente reconhecidos, é na verdade seu grau
de codificação, assim como uma das propriedade
mais significativas de um campo é o grau pelo qual
as relações sociais são nele objetivadas em códigos
públicos.
É claro na verdade que as diferentes
propriedades reservadas para construir a
identidade dos diferentes universitários sáo
desigualmente utilizadas na experiência ordinária
para perceber e apreciar a individualidade pré-
construída desses mesmos agentes e sobretudo
desigualmente objetivadas, portanto
desigualmente presentes nas fontes escritas. A
fronteira entre as propriedades institucionalizadas,
recuperáveis portanto em documentos oficiais, e as
propriedades pouco ou nada objetivadas é
relativamente tênue, e destinada a mudar segundo
as situações e segundo as épocas (tal critério
científico, a categoria socioprofissional por
exemplo, pode se tornar um critério prático em
certas conjunturas políticas): vai-se assim, por
graus de objetivaçáo e de oficialidade
decrescentes, do conjunto dos títulos utilizados na
autoapresentaçáo (por exemplo em papéis
timbrados, carteiras de identidade, cartões de
visita, etc.), como o pertencimcnto universitário
(“professor da Sorbonne”), as posições de poder
(“decano”) ou de autoridade (“membro do
Instituto”), os títulos universitários (“antigo aluno
da Escola normal superior”), esses termos de
referência oficiais, conhecidos e reconhecidos por
todos, que geralmente acompanham os termos de
tratamento (“Senhor Professor”, “Senhor Decano”,
etc.), às propriedades que, embora
institucionalizadas, sáo pouco utilizadas nas
classificações oficiais da existência cotidiana, como
a direção de um laboratório, o pertencimento ao
Conselho superior da Universidade ou às bancas
dos grandes concursos, e enfim a todos os indícios,
muitas vezes inapreensíveis pelo estrangeiro, que
definem o que se chama de “prestígio”, quer dizer,
a posiçáo nas hierarquias propriamente intelectuais
ou científicas. Nesse caso, o pesquisador se
confronta constantemente com uma alternativa:
seja introduzir classificações mais ou menos
artificiais ou mesmo arbitrárias (ou, ao menos,
sempre suscetíveis de serem denunciadas como
tais), seja colocar entre parênteses hierarquias que,
ainda que náo existam no estado objetivado,
público, oficial, estão incessantemente em questáo
e em jogo na própria objetividade. De fato, como
se verá, a mesma coisa vale para todos os critérios,
mesmo os mais “indiscutíveis”, como os
indicadores puramente “demográficos”, que
permitem a seus utilizadores titulados pensar sua
“ciência” como uma ciência da natureza.'0 Mas o
que se recorda na ocasião da escolha dos indícios
Seria necessário submeter a uma crítica aprofundada o efeito de naturalização, apoiando- sc
particularmente na demografia, a qual confcrc a certos parâmetros (idade, sexo ou mesmo estado civil), e aos
trabalhos que os manipulam sem outra forma de processo, as aparências da “objetividade" absoluta. De
maneira mais geral, c sem querer no entanto desencorajar a repetição
dc prestígio intelectual” ou “científico” — as
propriedades pertinentes que sáo as menos
objetivadas - é que a questão dos critérios, isto é,
dos princípios de pertencimento legítimo e de
hierarquização, e, mais precisamente, a questão
dos poderes e dos princípios de definição e de
hierarquização dos poderes a que o pesquisador é
levado a se colocar a propósito de seu objeto
encontram-se postas no objeto em si.
Assim, o trabalho de construção do objeto
delimita um conjunto finito de propriedades
pertinentes, instituídas por hipótese cm variáveis
eficazes, cujas variações estão associadas às
variações do fenômeno observado, e define assim
a população dos indivíduos construídosy
caracterizados pela posse em graus diferentes
dessas propriedades. Essas operações lógicas
produzem um conjunto de efeitos que é preciso
explicitar sob pena de registrá-los, sem saber, sob
o modo da constatação (o que constitui o erro
cardinal do positivismo objetivista). Em primeiro
lugar, a objetivação do não objetivado (por
exemplo o prestígio científico) equivale, como se
acaba de ver, a um efeito de oficialização, de
natureza quase jurídica: assim, o estabelecimento
de classes de notoriedade internacional fundadas
no número de citações ou a elaboração de um
indício de participação no jornalismo são
operações totalmente análogas às que realizam, no
centro do campo, os produtores de palmares [lista
de alunos premiados]." Esse efeito não pode passar
despercebido no caso-limite das propriedades que
estão oficialmente ou tacitamente excluídas de
todas as taxinomias oficiais e institucionalizadas ou
mesmo oficiosas ou informais, como o
pertencimento religioso ou as disposições sexuais
(heterossexualidade/homossexualidade), ainda que
elas possam intervir nos julgamentos práticos e
serem associadas a variações visíveis na realidade
observada (é sem dúvida nesse tipo de informação
que se pensa quando se denuncia o caráter
“policial” da enquete sociológica).
A fim de tornar visíveis os efeitos da codificação
erudita, e principalmente a homogeneização do
estatuto atribuído a propriedades
compulsiva dos trabalhos que visam reduzir a história à natureza biológica, geográfica ou outra, seria bom
descrever a forma que toma este efeito de desistoricizaçáo em cada uma das ciências sociais, desde a
etnologia quando se submete às analogias verbais com as ciências da natureza, à própria história quando
procura na “história imóvel” do solo e do clima a substância na qual os movimentos históricos seriam apenas
acidentes.
Náo se pode desconsiderar que a análise científica em si exerce um efeito dc teoria que acaba
transformando a visáo ordinária do campo.
desigualmente consagradas na realidade, basta
considerar o modo e o grau de existência como
grupos de populações correspondendo aos
diferentes critérios, que variam desde as classes de
idade ou, apesar do aparecimento de uma
consciência e de um movimento feministas, as
classes sexuais, até conjuntos tais como os dos
norma!istas ou dos agregados, que são
característicos de dois modos de existência coletiva
diferentes: o título de normalista é o suporte de
solidariedades práticas mantidas com um mínimo
de apoio institucional (associação dos antigos
alunos, boletim informativo, encontros
promocionais); o título de agregado, ao qual náo
corresponde uma verdadeira solidariedade prática
ligada a experiências comuns, serve de suporte a
uma organização, a Sociedade dos Agregados,
orientada para a defesa do valor do título e de
tudo aquilo com que é solidária e provida de
mandatários dotados dc poderes que lhes
permitem folar e agir pelo grupo em seu conjunto,
exprimindo c defendendo seus interesses (nas
negociações com o poder político, por exemplo).
Os efeitos de institucionalização e de
homogeneização que se exercem por meio da
simples codificação, e da forma elementar de reco-
nhecimento que ela atribui indistintamente a
critérios desigualmente reconhecidos, são os do
direito e, ainda que operem com o desconhe-
cimento do pesquisador, levam-no a dividir “em
nome da ciência” o que náo é dividido na
realidade: na verdade, os graus de reconhecimento
praticamente concedidos às diferentes
propriedades variam consideravelmente segundo
os agentes (e também segundo as situações e os
períodos) e algumas das propriedades que uns
poderão colocar em prática e reivindicar
publicamente, como o fato de escrever no Le
Nouvel Obsemateur (o caso náo é imaginário),
seráo percebidos pelos outros, situados em
posições diferentes no universo, como estigmas,
implicando a exclusão do universo. Os casos de
inversão perfeita, como aquele em que o título de
nobreza de um pode se tornar marca de infâmia
para o outro, o emblema insulta, e reciprocamente,
estão lá para lembrar que o campo universitário é,
como todo campo, o lugar de uma luta para
determinar as condições e os critérios de
pertencimento e de hierarquia legítimos, isto é, as
propriedades pertinentes, eficientes, próprias a
produzir - funcionando como capital - os
benefícios específicos assegurados pelo campo. Os
diferentes conjuntos de indivíduos (mais ou menos
constituídos em grupos) definidos por esses
diferentes critérios ligam- se a eles e, ao reivindicá-
los, esforçando-se por fazê-los reconhecidos e
afirmando sua pretensão em constituí-los como
propriedades legítimas, como capital específico,
trabalham para modificar as leis de formação dos
preços característicos do mercado universitário e
para aumentar assim suas chances de lucro.
É portanto na própria objetividade que existe
uma pluralidade de princípios de hierarquização
concorrentes e os valores que eles determinam são
incomensuráveis, e até mesmo incompatíveis,
porque estão associados a interesses antagônicos.
Pode-se acrescentar, como sem dúvida fariam os
que gostam de índices, a participação 110 Comitê
consultivo das universidades ou na banca de
agregação e o fato de publicar em Gallimard ou de
escrever no Le Nouvel Observateur, e a construção
falsamente erudita de índices acumulados apenas
reproduziria o amálgama polêmico que exerce o
uso semierudito da noção de “mandarim”. Muitos
critérios que a construção cientifica emprega como
instrumentos de conhecimento e de análise, sejam
os mais neutros ou os aparentemente mais naturais
, como a idade, funcionam tanto na realidade das
práticas como dos princípios de divisão e de
hierarquização (pense-se no uso classificatório, e
frequentemente polêmico, das oposiçóes
velho/jovem, palco/neo, antigo/novo, etc.) e, nesse
sentido, também são apostas de lutas. Isso quer
dizer que não se tem nenhuma chance de evitar
atribuir como verdade do campo universitário uma
ou outra das representações, mais ou menos
racionalizadas, que se envolvem na luta das
classificações, e principalmente as representações
semieruditas que os universos eruditos têm de si
mesmos, salvo se tomarmos como objeto a
operação de classificação que o pesquisador realiza
e a relação que ele mantém com as imputações
classificatórias a que se entregam os agentes (e o
próprio pesquisador desde que pare de se situar
no terreno da pesquisa).
Na verdade, é por não fazer claramente a
separação entre as duas lógicas tanto nesse
domínio como fora dele que a sociologia tende tão
frequentemente a propor sob o nome de
“tipologias” taxinomias semieruditas que misturam
as etiquetas autóctones, com frequência mais
próximas do estigma ou do insulto que do
conceito e das noções eruditas , construídas a
partir de uma análise mais ou menos informada.
Organizadas em torno de algumas personagens
típicas, essas “tipologias” náo são nem
verdadeiramente concretas, ainda que sem dúvida
sejam, como os “caracteres” dos moralistas, obtidas
a partir de figuras familiares da experiência
autóctone ou de categoremas mais ou menos
polêmicos, nem verdadeiramente construídas,
ainda que recorram a lermos em uso no jargão do
social scientist americano, como bcal ou paroquial
e cosmopolita. Sendo produto de uma intenção
realista, a de descrever indivíduos ou grupos
“típicos”, elas combinam, na desordem, diferentes
princípios de oposição, misturando critérios tão
heteróclitos como a idade, a relação com o poder
político ou com a ciência, etc. São por exemplo the
locals (entre os quais the dedicated, “fortemente
devotados à instituição”, the true bureaucrat, the
homeguard e the elders) c the cosmopolitans
(entre os quais the outsiders e the empire
builders) que Alvin W. Gouldner distingue cm
função de suas atitudes em relação à instituição
{faculty orientations), de seu investimento nas
competências profissionais c dc sua orientação
para o interior ou o exterior;'2 ou ainda, segundo
Burton Clark, que os vê como representantes de
diferentes “culturas”: the teacher, devotado a seus
estudantes, the scholar-researcher, “químico ou
biólogo totalmente engajado cm seu laboratório”,
the demonstrator espécie de monitor encarregado
dc transmitir competências técnicas, the consultant
enfim, “que passa no avião o mesmo tempo que no
campus”;“ ou enfim - embora se pudesse continuar
assim por muito tempo - os seis tipos distinguidos
por John W. Gustad: the scholar, que se considera
“náo como um empregado mas como um cidadão
livre da comunidade acadêmica”, the curriculum
adviser, the individual entrepreneur, the
consultant, “sempre fora do campus”, the
administrator e the cosmopolitan, “orientado para
o exterior”.'4
Vale a pena destacar todos os casos em que os
conceitos- injúrias e os estereótipos semieruditos -
como o de jet sociologist - se transformaram em
“tipos” scmicientíficos - consultant, outsider- e
todos os indícios sutis em que se trai a posição do
analista no espaço analisado.
De fato, essas tipologias só têm alguma
credibilidade na medida em que, sendo o produto
de esquemas classificatórios cm uso no universo
considerado, elas procedem por partições reais>
análogas às que exerce a intuição ordinária, de um
universo de relações objetivas reduzido assim a
uma população de professores universitários, e
impedem de pensar o campo universitário como
tal, e nas relações que o unem, nos diferentes
momentos de sua história e nas diferentes
sociedades nacionais, de um lado ao campo do
poder e de outro ao campo intelectual e científico.
Se esses produtos, infelizmente muito comuns e
perfeitamente representativos daquilo que com
frequência se chama de sociologia, merecem nossa
atenção é porque, devido à retradução em
linguagem à moda erudita que provocam, podem
fazer acreditar, e não somente a seus autores, que
eles dão acesso a um nível superior de
conhecimento e de realidade, enquanto
definitivamente dizem menos que a descrição
direta de um bom informante. As classificações
engendradas por uma aplicação mascarada dos
princípios de visão e de divisão, normalmente
utilizados para as necessidades da prática,
“parecem de fato, segundo a palavra de
Wittgenstein, ao que se obteria se se quisesse
classificar as nuvens a partir de sua forma”.1* Mas
as aparências geralmente estão para a aparência e
essas descrições sem objeto, que têm para elas a
lógica da experiência ordinária e os aspectos da
cientificidade, são feitas mais para satisfazer as
expectativas comuns que as construções da ciência,
confrontando-se ao mesmo tempo diretamente
com a particularidade do caso particular
apreendido na sua complexidade e distanciando-se
muito da representação primeira a que a
linguagem ordinária ou sua retradução semierudita
dão realidade.
Assim, a ciência social só pode romper com os
critérios e classificações comuns e subtrair-se às
lutas das quais eles são as apostas e os
instrumentos se os tomar explicitamente como
objeto em vez de deixá- los introduzir-se sub-
repticiamente no discurso científico. O universo ao
qual ela deve prestar conta é o objeto e ao menos
em parte o produto de representações
concorrentes, às vezes antagônicas, que pretendem
a verdade e por isso a existência. Toda tomada de
posição sobre o mundo social se ordena e se
organiza a partir de uma determinada posição
nesse
M
L. Wirtgenstein, Philosophische Bemerkungen, Oxford, B. Blackwell. 1964. p. 181, citado por J. Bouvcressc,
Le mythe de l’intériorité, Paris, Éd. de Minuit, 1976, p. 186.
mundo, isto c, do ponto de vista da conservação e
do aumento do poder associado a essa posição. É
por isso que, num universo que, como o campo
universitário, depende na sua própria realidade da
representação que têm os agentes, estes podem
tirar partido da pluralidade dos princípios de
hierarquização e do baixo grau de objetivação do
capital simbólico para tentar impor sua visão e
modificar, na medida de seu poder simbólico, sua
posição no espaço modificando a representação
que os outros (e eles mesmos) podem ter desta
posição. Nada mais revelador, a esse propósito,
que os prólogos, exórdios, preâmbulos ou
prefácios, que escondem frequentemente, sob as
aparências da preliminar metodológica
metodologicamente indispensável, tentativas mais
ou menos hábeis para transformar em virtudes
científicas as necessidades e sobretudo os limites
inscritos numa posição c numa trajetória, tanto
quanto para privar de seu encantamento as
virtudes inacessíveis. Ver- se-á assim o erudito que
facilmente se diz “estrito” - e que não pode não
sabê-lo (sem dúvida anunciaram-lhe mil vezes, e de
mil maneiras, na linguagem cruelmente eufemizada
dos julgamentos acadêmicos, e primeiramente,
talvez, por meio dos veredictos magistrais que lhe
concederam somente a “seriedade”) — trabalhar
para desacreditar as audácias dos ensaístas
“brilhantes” e dos teóricos “ambiciosos”; quanto a
estes últimos, recorrerão à retórica da antífrase
para exaltar a erudição que oferece “preciosos
materiais” à sua reflexão, e será preciso que se
sintam realmente ameaçados na posição
hegemônica que se atribuem para enunciar
abertamente seu desprezo soberano pelas
prudências mesquinhas e estéreis dos pedantes
“positivistas”.'4
Enfim, como se vê nas polêmicas, que são os
tempos fortes de uma concorrência simbólica de
todos os instantes, o conhecimento prático do
mundo social, c especialmente dos adversários,
obedece a um a priori de redução-, ele recorre a
etiquetas classificatórias que designam ou
referenciam grupos bem como grupos de
propriedades sincreticamente apreendidos e não
limitam o conhecimento de seus
16
Vamo-nos deter nesses casos um pouco irreais, uma vez que muito “depurados, por náo podermos nos
icinctci aos estudos dc casos, destinados a aparecer como execuçóes polêmicas, que permitiriam unicamente
desmontar as estratégias mais típicas desta retórica da autolegitimação e mostrar que as características
genéricas e específicas da posição ocupada no campo universitário e em tal subcampo especializado
exprimem-se com frequência de maneira altamente eufemizada, ainda que perfeitamente transparente para
as pessoas advertidas.
próprios princípios. É preciso ignorar tudo desta
lógica para dela esperar uma técnica como a dos
“juizes”, que consiste em interrogar um grupo de
agentes, tratados como peritos, sobre os
problemas em discussão - por exemplo, os critérios
pertinentes para definir o poder universitário ou a
hierarquia dos prestígios -, que permita escapar à
questão das instâncias fundadas para legitimar as
instâncias de legitimidade. Na verdade basta pôr à
prova esta técnica para ver que ela reproduz a
própria lógica do jogo que se presume ela arbitre:
os diferentes “juizes” - e o mesmo “juiz” em
diferentes momentos - aplicam critérios diferentes,
e até mesmo incompatíveis, reproduzindo assim,
mas somente de maneira imperfeita porque em
situação artificial* a lógica dos julgamentos
classificatórios que os agentes produzem na
existência ordinária. Mas, sobretudo, a mínima
atenção às relações entre os categoremas
recolhidos e as propriedades dos que os formulam
faz ver que se prejulga a natureza dos julgamentos
obtidos prejulgando-se critérios de seleção dos
“juizes”, isto é, de sua posição no espaço, ainda
desconhecido neste estágio da pesquisa, que está
no princípio de seus julgamentos.
Pode-se dizer que não teria o sociólogo outra
escolha a não ser usar a força técnica mas também
simbólica da ciência para se instaurar como juiz
dos juizes e impor um julgamento que não
consegue ultrapassar completamente pressupostos
e prejulgamentos associados à sua posição no
campo que ele pretende objetivar, ou abdicar os
poderes do absolutismo objetivista para se
contentar com um registro perspectivista dos
pontos de vista presentes (incluindo o seu)? Na
realidade, a liberdade em relação aos
determinismos sociais que pesam sobre ele está à
altura da potência de seus instrumentos teóricos e
técnicos de objetivação e sobretudo, talvez, de sua
capacidade de fazê-los voltar-se, de certa maneira,
contra si mesmo, de objetivar a sua própria posição
por meio da objetivação do espaço 110 interior do
qual se definem e a sua posição e sua visão
primeira de sua posição e das posições opostas; de
sua capacidade de objetivar da mesma maneira a
própria intenção de objetivar, de ter sobre o
mundo, e principalmente o mundo do qual faz
parte, um ponto de vista soberano, absoluto, e de
trabalhar para excluir da objetivação científica tudo
o que ela pode dever à ambição de dominar
servindo-se das armas da ciência; de sua
capacidade enfim de orientar o esforço de
objetivação para as disposições e os interesses que
o próprio pesquisador devc à sua trajetória e à sua
posiçáo e também para sua prática científica, para
os pressupostos que ela envolve em seus conceitos
e problemáticas e em todas as visões éticas ou
políticas associadas aos interesses sociais inerentes
a uma posição no campo científico.'7
Quando a pesquisa tem por objeto o próprio
universo no qual ela se realiza, as aquisições que
ela assegura podem ser imediatamente
reinvestidas no trabalho científico a título de
instrumentos do conhecimento reflexivo das
condições e dos limites sociais desse trabalho que
é uma das principais armas da vigilância
epistemológica. Talvez não se possa fazer de fato
avançar o conhecimento do campo científico a não
ser servindo-se da ciência que ainda se tem pela
frente para descobrir e superar os obstáculos à
ciência que estão implicados no fato de aí se
ocupar uma posição, c uma posiçáo determinada. E
não, como de ordinário, para reduzir as razões dos
adversários a causas, a interesses sociais. Tudo
permite pensar que o pesquisador tem menos
interesse, do ponto de vista da qualidade científica
dc seu trabalho, cm ver os interesses dos outros do
que em ver seus próprios interesses, em saber o
que ele mesmo tem interesse em ver c em náo ver.
E pode-se assim, sem a menor suspeita de
moralismo, adiantar que o benefício científico só
seria nesse caso alcançado com a condiçáo de se
renunciar ao benefício social, com a condição
evidentemente de prevenir-se contra a tentação de
se servir da ciência ou do efeito de ciência para
tentar triunfar socialmente no campo científico. Ou,
se preferimos, sem dúvida só teremos a chance de
contribuir com a ciência do poder se nos
recusarmos a fazer da ciência um instrumento de
poder, e primeiramente no universo da ciência.
Genealogia nietzschiana, crítica marxista das
ideologias, sociologia do conhecimento, todos os
procedimentos perfeitamente legítimos que visam
relacionar as produções culturais a interesses
sociais foram com frequência desviados pelo efeito
do jogo duplo ligado à tentação de utilizar nas
lutas a ciência das lutas. Esta espécie de uso ilegal
da ciência social (ou da autoridade que ela pode
dar) se realiza exemplarmente, porque
exemplarmente ingênua, num artigo cm que
17
O relativismo historicista ou sociológico, que invoca a inserção do pesquisador no mundo social para
questionar sua capacidade de alcançar uma verdade trans-histórica, ignora quase sempre a inserção no

é
campo científico, e os interesses correlatos, interditando-se assim toda possibilidade dc controle sobre o que
a mediação científica por meio da qual se exercem todos os determinismos.
Raymond Boudon considera como uma análise
científica do campo intelectual francês uma
denúncia do sucesso “extracientífico” que esconde
(muito mal) um discurso pro domo que consiste
em fazer da obscuridade virtude.'11 Uma descriçáo
que não contém nenhum retorno crítico sobre a
posição a partir da qual ela se exprime só pode ter
como princípio os interesses associados à relação
não analisada que o analista mantém com seu
objeto. Nada de surpreendente, portanto, se a tese
fundamental do artigo for apenas uma estratégia
social que visa desacreditar a hierarquia nacional
das celebridades acusando-a de ser puramente
francesa, isto é, ligada a “singularidades” e
particularismos, automaticamente identificados a
arcaísmos - com o tema do espírito literário -, e
opor a esta hierarquia (tacitamente) designada
como diferente da hierarquia internacional, única
científica, e por isso como extracientífica, uma
hierarquia supostamente científica porque
internacional, isto é, americana.'7 Fato marcante,
esta tomada de posição científica não recebe a
menor premissa de verificação empírica. O que nos
obrigaria a descobrir por exemplo que, como
veremos, uma fração importante dos produtores
que dominam o que, num artigo já antigo,*’0 chamei
de campo ou mercado restrito e que Raymond
Boudon, sempre preocupado com signos exteriores
de cientificidade, nomeia, sem referencia, de
“Mercado I”, sáo também os mais reconhecidos no
mercado de grande produção ou que os escores
mais elevados em matéria de traduções em línguas
estrangeiras ou de menções no Citation Index, que
não tem nada de tipicamente francês, sáo
geralmente obtidos - salvo pelas disciplinas mais
tradicionais, como a história antiga ou a
arqueologia, que náo têm nada de táo “literário” -
pelos pesquisadores mais reconhecidos nos setores
mais extracientíficos do mercado nacional.
'* Cf. R. Boudon. L'intcllcctud et ses publiques: les singularités françaises, em J.-D. Reynaud c Y. Grafmeyer,
éd.. Français qui êtes-vousl, Paris, la Documentation française, 1981, p. 465-480.
19
- O fato de que o essencial do raciocínio que sustenta esse discurso - a hierarquia francesa é diferente da
hierarquia internacional, a hierarquia internacional é a única científica, portanto a hierarquia francesa é
extracientífica - permanece no estado implícito, até mesmo num texto com pretensão científica, manifesta
uma das propriedades fundamentais dos procedimentos polêmicos mais característicos das lutas no interior
do campo intelectual: apoiando-sc em pressupostos partilhados por todo um grupo, as estratégias de
difamação que visam diminuir o crédito simbólico dos concorrentes procedem por insinuações mais ou
menos caluniosas que, com frequência, náo suportariam ser completamente explicitadas.
*° P. Bourdieu, Le marché des biens symboliques, l’Année sociologique, vol. 22,1971, p. 49-126.
Construindo o conjunto acabado e completo
das propriedades que f uncionam como poderes
eficientes na luta pelos poderes especificamente
universitários e que possuem em graus diversos o
conjunto dos agentes eficientes, o sociólogo
produz um espaço objetivo, definido de maneira
metódica e unívoca (portanto reprodutível) e
irredutível à soma de todas as representações
parciais dos agentes. Assim, a construção
“objetivista”, que é a condução da ruptura com a
visão primeira e com todos os discursos mistos,
misturando o semiconcreto e o semiconstruído, a
etiqueta e o conceito, é também o que permite
reintegrar na ciência do objeto as representações
pré-científicas que fazem parte integrante do
objeto. Não se pode de fato dissociar a intenção de
estabelecer a estrutura do campo universitário,
espaço de várias dimensões, construído a partir do
conjunto dos poderes que podem se tornar
eficientes, num momento ou noutro, nas lutas de
concorrência, e a intenção de descrever a lógica
das lutas que, tendo seu princípio nesta estrutura,
visam conservá- la ou transformá-la ao redefinir a
hierarquia dos poderes (portanto dos critérios).
Apesar de não se revestir da forma organizada de
uma concorrência entre grupos conscientemente
mobilizados ou tacitamente solidários, a luta cujos
critérios e propriedades que eles designam são ao
mesmo tempo o instrumento e a aposta é um fato
indiscutível que o pesquisador deve integrar no seu
modelo da realidade em vez de tentar excluí-lo
artificialmente ao insinuar-se como árbitro ou
como “espectador imparcial”, ou em última
instância como juiz, único capaz de produzir o
botn arranjo que põe todo mundo de acordo ao
colocar cada coisa em seu lugar. É preciso que ele
ultrapasse a alternativa da visão objetivista da
classificação objetiva — cuja busca dc uma cscala
única c dc indícios acumulados representa uma
expressão caricatural - e da visão subjetivista ou,
melhor, perspectivista, que se contentaria em
registrar a diversidade das hierarquias tratadas
como tantos pontos de vista incomensuráveis. De
fato, como o campo social tomado no seu
conjunto, o campo universitário é o lugar de uma
luta das classificações que, trabalhando para
conservar ou transformar o estado da relação de
força entre os diferentes critérios e entre os
diferentes poderes que elas designam, contribui
para fazer a classificação tal como pode ser
apreendida objetivamente num dado momento do
tempo; mas a representação que os agentes têm
da classificação e a força e a orientação das
estratégias que eles podem colocar em prática para
mantê-la ou subvertê-la dependeir. de sua posiçáo
nas classificações objetivas.1' O trabalho científico
visa portanto a estabelecer um conhecimento
adequado ao mesmo tempo das relações objetivas
entre as diferentes posições e das relações
necessárias que se estabelecem, pela mediaçáo dos
habitus de seus ocupantes, entre essas posições e
os posicionamentos correspondentes, isto é, entre
o ponto ocupado nesse espaço e o ponto de vista
sobre esse mesmo espaço, que participa da
realidade c do futuro desse espaço. Em outros
termos, a “classificação” que o trabalho científico
produz por meio da delimitação de regiões do
espaço das posições é o fundamento objetivo das
estratégias classificatórias pelas quais os agentes
visam conservá-lo ou modificá-lo e em nome das
quais é preciso contar a constituição em grupos
mobilizados com vistas a assegurar a defesa dos
interesses de seus membros.
A necessidade de integraras duas visões,
objetivista e perspectivista, à custa de um trabalho
que tende a objetivar a objetivaçáo, a fazer a teoria
do efeito de teoria, se impõe por outra razão, sem
dúvida fundamental, tanto do ponto dc vista
teórico quanto do ponto de vista ético ou político:
a construçáo erudita do espaço “objetivo” dos
agentes e das propriedades ativas tende a
substituir a percepçáo global e confusa da
população dos “poderosos” por uma percepçáo
analítica e reflexiva, destruindo assim a fluidez e a
nebulosa imprecisão e incerteza que são
constitutivos da experiência ordinária.
Compreender “objetivamente” o mundo em que se
vive sem compreender a lógica desta
compreensão, e o que a separa da compreensão
prática, é impedir-se de compreender o que faz
com que este mundo seja habitável e viável, isto é,
a própria fluidez da compreensão prática. Como no
caso da troca de dons, a apreensão objetivista que
náo se conhece na sua verdade anula as condições
de possibilidade da prática, isto é, o
desconhecimento do modelo próprio a explicar a
prática. E tão somente as satisfações que a visão
objetivista obtém no humor redutor poderiam nos
levar a esquecer de introduzir no modelo da
realidade a distância da experiência em relação ao
modelo objetivista, que faz toda a verdade vivida
da experiência.
Esta luta pode náo ser percebida como tal, e tal agente ou grupo de agentes pode ameaçar o credito
dos outros membros do campo unicamente por sua existência (impondo por exemplo modos dc pensamento
e de expressão novos c critérios dc avaliação favoráveis a suas próprias produções), sem colocá-los
conscientemente como concorrentes e menos ainda como inimigos c sem recorrer a estratégias
expressamente voltadas contra eles.
Há sem dúvida poucos universos que oferecem
tanta liberdade, c mesmo tantos suportes
institucionais, aos jogos da dissimulação de si
mesmo e à defasagcm entre a representação vivida
e a verdade da posição ocupada no campo ou no
espaço social; a tolerância concedida a essa
defasagem é sem dúvida a verdade mais profunda
de um meio que autoriza e favorece todas as
formas de clivagem do euy isto é, todas as
maneiras de fazer coexistir a verdade objetiva
confusamente percebida e sua negação,
permitindo assim aos mais despossuídos de capital
simbólico sobreviver nesta luta de todos contra
todos em que cada um depende de todos os
outros, ao mesmo tempo concorrentes e clientes,
adversários e juizes, para a determinação de sua
verdade e de seu valor, isto é, de sua vida e de sua
morte simbólicas.“ Fica entendido que esses
sistemas de defesa individuais não teriam muita
eficácia social se não encontrassem a cumplicidade
de todos aqueles cuja ocupação de uma posição
idêntica ou homóloga leva a reconhecer nesses
erros vitais e nessas ilusões de sobrevivência a
expressão de um esforço para perseverar
num ser social que é também o seu...
Muitas representações e práticas mais ou menos
institucionalizadas só podem na verdade ser
compreendidas como sistemas de defesa
coletivos, pelos quais os agentes encontram um
meio de escapar aos questionamentos brutais que
a aplicação rigorosa dos critérios proclamados
suscitaria, os da ciência ou da erudição, por
exemplo. É por isso que a multiplicidade das
escalas de avaliação, científica ou administrativa,
universitária ou intelectual, oferece uma
multiplicidade de motivos de saudação e de formas
dc excelência que permitem a cada um se
mascarar, com a cumplicidade de todos, das
verdades conhecidas por todos.2' O protocolo
científico deve levar em conta os efeitos de fluidez
que a indeterminaçáo dos critérios e dos princípios
de hierarquização engendra na própria

Seria necessário analisar os procedimentos da semiologia e da estatística espontâneas por meio dos quais se
constitui a intuição prática da posição ocupada na distribuição do capital espedhco, c principalmente a
decifração c o recenseamento dos indícios espontâneos ou institucionalizados da posição ocupada; e também
os mecanismos dc defesa ou dc negação da verdade, como todas as formas de clube dc admiração mútua,
assim como todas as estratégias de compcnsaçao e de substituição, como o sindicalismo universitário c a
política que oferecem um terreno favoravel às estratégias de dupla identidade e dc dupla linguagem
fovorccidas pelo uso dc conceitos indefinidamente extensíveis tais como “trabalhadores” ou pela
transferência dc palavras e de modos dc pensamento emprestados das lutas operárias.
Um dos fatores de confusão das hierarquias reside na divisão cm disciplinas e. no interior destas, era
especialidades, que, mesmo hierarquizadas, oferecem hierarquias autonomas.
objetividade: a incerteza, por exemplo, de critérios
como o lugar de publicação ou o número de
colóquios ou de conferências no estrangeiro deve-
se ao fato de que há, para cada ciência, uma
hierarquia, complexa e discutida, das revistas e das
editoras, dos países estrangeiros e dos colóquios, e
também de que os que se recusam a participar
podem reunir numa mesma frequência os que não
sáo convidados. Enfim, seria um grave atentado à
objetividade omitir de inscrever na teoria a
imprecisão objetiva das hierarquias que o modelo,
construído a partir de um recenseamento,
indispensável, dos indicadores de estatuto
científico, visa precisamente a superar. E deve-se
perguntar se a pluralidade das hierarquias e a
coexistência de poderes praticamente
incomensuráveis, prestígio científico e poder
universitário, reconhecimento interno e reputação
externa, náo sáo o resultado de uma espécie de lei
antiacúmulo, inscrita nas estruturas assim como
tacitamente reconhecida, e ao mesmo tempo uma
proteção contra as consequências de uma
aplicação sem concessão das normas oficialmente
professadas.
Pode-se ver outra manifestação no feto,
paradoxal, de que esse universo que se reclama da
ciência praticamente náo propóe signos
institucionalizados do prestígio científico
propriamente dito. Sem dúvida poder-sc-á invocar
o Instituto e a medalha de ouro do CNRS, mas a
primeira dessas distinções parece consagrar tanto
disposições ético-políticas quanto realizações
científicas, enquanto a segunda é totalmente
excepcional. E pode-se compreender na mesma
lógica, isto é, como uma concessão imposta pela
necessidade de obter c de dar garantias contra os
riscos específicos do métier de pesquisador, a
tendência de tantos comitês científicos a funcionar
como comissões paritárias, ou as estratégias
familiares aos ocupantes de posições dominadas
no interior do campo universitário ou científico que
consistem em usar da capacidade de
universalização oferecida pela retórica política ou
sindical para tratar como identidade de condição
homologias de posição (segundo por exemplo o
esquema dos “três P”, patrão, professor, pai, que
fez furor em 1968) e para estabelecer assim
identificações mais ou menos forçadas, cm nome
da solidariedade, que nunca é nula, de todos os
dominados de todos os campos possíveis, entre
poíições e posicionamentos tão distantes quanto
os OS da Renault e o bolsista do CNRS, a luta
contra a aceleração das cadências e a recusa dos
critérios científicos. Seria necessário também
recensear metodicamente todos os casos em que a
politização funciona como estratégia
compensatória que permite escapar às leis
específicas do mercado universitário ou científico,
por exemplo todas as formas de crítica política dos
trabalhos científicos que permitem a produtores
cientificamente defasados se dar e dar - a seus
semelhantes — a ilusão de ultrapassar o que os
ultrapassa: o estado do marxismo histórico — tal
como se observa na realidade dos usos sociais que
aí são feitos - não seria compreendido se não se
visse que ele frequentemente tem, com todas as
referências ao “povo” e ao “popular”, esta função
de último recurso que permite aos mais
desfavorecidos cientificamente instaurar- se como
juizes políticos dos juizes científicos.
Indivíduos empíricos e indivíduos epistêmicos
Se foi preciso tentar levantar, por uma reflexão
retrospectiva sobre as operações da pesquisa e
sobre o objeto que elas produziram, os princípios
de construção que foram colocados em prática, é
porque o trabalho lógico, por mais bem-sucedido
que seja, pode contribuir para reforçar o controle
lógico c sociológico da escrita e dc seus efeitos e
dar mais eficácia às advertências contra as leituras
que tenderiam a destruir o trabalho de construção.
É na verdade com a condição de saber, para falar
como Saussure, “o que o sociólogo faz” que se
pode 1er adequadamente o produto de suas
operações.
Os riscos de mal-entendido na transmissão do
discurso científico sobre o mundo social se devem,
dc modo geral, ao fato de que o leitor tende a
fazer funcionar os enunciados da linguagem
construída como eles funcionam no uso ordinário.
Isso se vê bem no caso cm que o leitor, ignorando
a distinção weberiana, apreende, como
julgamentos de valor do sociólogo, referências aos
valores inscritos no objeto que ele estuda:4 quando
fala, por exemplo, de “faculdade de segunda
ordem”, de “disciplina dominada” ou de “regiões
inferiores” do espaço universitário, o sociólogo
apenas constata um fato de valor que ele se
esforça para explicar relacionando-o ao conjunto
das condições sociais de sua existência, e pode até
mesmo ver o princípio explicativo da forma dos
julgamentos de valor destinados a “refutá-lo” (por
exemplo os protestos que, numa leitura apressada,
ele pode suscitar). Mas essa é apenas uma forma
menor, porque grosseira c grosseiramente visível,
de mal-entendido. E o efeito mais perigoso da
leitura consiste, como se pode ver a propósito dos
nomes próprios, em substituir a lógica do
conhecimento ordinário pela lógica do
conhecimento científico.
O discurso científico avoca uma leitura científica,
capaz de reproduzir as operações das quais ele é o
próprio produto. Ora, as palavras do discurso
científico, e principalmente as que designam
4
A ignorância desta distinçáo, táo fundamental, de Weber náo se encontra unicamente entre os profanos,
como testemunha o fato de que os “sociólogos” possam acusar a análise das práticas culturais dc registrar o
fato da menor legitimidade ou da ilegitimidade das práticas culturais das classes dominadas (para uma
crítica deste erro, ver P. Bourdieu, J.-C. Chamboredon c J.-C. Passcron, Le métier dc sociologue, Paris,
Mouton, 1968, p. 76).
pessoas (os nomes próprios) ou instituições (o
Colégio de França), são exatamente as do discurso
ordinário, do romance ou da história, enquanto os
referentes dessas duas espécies de discurso estão
separados pela distância que introduz a ruptura e a
construção científicas. Assim, na existência
ordinária, o nome próprio faz uma simples
recuperação e, à maneira do que os logicistas
chamam de indicadores, ele é em si quase
insignificante (Dupont não significa o homem “da
ponte” [du pont, em francês]) e não traz quase
nenhuma informação sobre a pessoa designada (a
náo ser que se trate de nome nobre ou famoso ou
evoque uma etnia particular). Etiqueta suscetível de
ser aplicada arbitrariamente em qualquer objeto,
ele diz daquele que designa que ele é diferente
sem enunciar em que difere; instrumento de
reconhecimento, e não de conhecimento, ele se
refere a um indivíduo empírico, globalmente
apreendido como singular, isto é, como diferente,
mas sem análise da diferença. O indivíduo
construído, ao contrário, é definido por um
conjunto finito de propriedades explicitamente
definidas que diferencia, por um sistema dc
diferenças atribuíveis, os conjuntos de
piopiiedadcs, construídos segundo os mesmos
critérios explícitos, que caracterizam os outros
indivíduos; mais exatamente, ele recupera seu
referente não no espaço ordinário, mas num
espaço construído de diferenças produzidas pela
própria definição do conjunto acabado das
variáveis eficazes.1’ Assim, o Lévi-Strauss construído
que trata e produz a análise científica não tem,
propriamente falando, o mesmo referente que o
nome próprio que utilizamos todos os dias para
designar o autor de Tristes trópicos'.
num enunciado ordinário, “Lévi-Strauss” é um
significante a que se pode aplicar o universo
infinito dos predicados que correspondem às
diferenças de alguma ordem, quais sejam, aquelas
que podem distinguir o etnólogo francês náo
somente de todos os outros professores mas do
conjunto dos seres humanos e que faremos existir,
em cada caso, em função do princípio de
pertinência implícita que nos será imposto pelas
necessidades ou u rgências da prática. A
construção sociológica se d isti ngue de outras
construções possíveis — a da psicanálise, por
exemplo - pela lista finita das propriedades
eficientes, das variáveis ativas que ela retém e da
mesma maneira pela lista infinita das propriedades
que ela exclui ao menos provisoriamente como náo
pertinentes. Variáveis como a cor dos olhos ou dos
cabelos, o grupo sanguíneo ou a altura são de
qualquer forma postas entre parênteses e tudo se
passa como se o Lévi-Strauss construído náo as
apresentasse. Todavia, como mostra o diagrama-
plano da análise das correspondências, onde ele se
distingue pela posição que ocupa num espaço
construído, o Lévi-Strauss cpistêmico se caracteriza
pelo sistema de diferenças de intensidade desigual
e desigualmente ligadas entre si que se
estabelecem entre o conjunto finito de suas
propriedades pertinentes no universo teórico
considerado e o conjunto dos conjuntos finitos de
propriedades ligados ao conjunto dos outros
indivíduos construídos. Enfim, ele é definido pela
posição que ocupa no espaço que suas
propriedades contribuíram para construir (em parte
que também contribui para defini-lo).
Diferentemente do Lévi-Strauss dóxico, que é
inesgotável, o indivíduo epistêmico não contém
nada que escape à conceituação; mas esta
transparência em si da construção é a
contrapartida dc uma redução, e o progresso da
reoria como ponto de vista, princípio de visão
seletiva, surgirá da invenção de categorias e de
operações próprias a integrar à teoria propriedades
provisoriamente excluídas (por exemplo, as que o
psicanalista construiria).xí
O diagrama-plano utiliza uma das propriedades
do espaço ordinário, a exterioridade recíproca dos
objetos a serem distinguidos, para reproduzir a
lógica de um espaço de diferenciação
propriamente teórico, isto é, a eficácia lógica de
um conjunto de princípios de diferenciação (os
fatores da análise das correspondências) que
permite distinguir, entre
16
Poder-se-ia também opor o agente, definido pelo conjunto finito das propriedades ativas no campo, ao
indivíduo pré-construído.
os indivíduos que foram construídos graças ao tratamento
estatístico as propriedades determinadas pela aplicação aos
diferentes indivíduos empíricos de uma definição comum,
isto é, de um ponto de vista comum concretizado num
conjunto de critérios idênticos.- E a melhor ilustração’ do
que fez a diferença entre o indivíduo epistêmico e o
indivíduo empírico pode ser encontrada no fato de que, num
determinado momento da anal.se, pode-se observar que
diversos pares de indivíduos empíricos (por exemplo
Raymond Polin e Frédéric Deloffre) eram confundidos,
(el nnham 25
“ «"«"»* coordenadas nos dois primeiros eixos)
do ponto de vista que era então o do analista e que estava 1
inscrito na lista das variavcis retidas nesta fàse da pesquisa. *
Um “livro para queimar”?
Este exemplo, que sugiro intencionalmente, coloca a
questão do efeito da leitura e do perigo da regressão em
direção ao conhecimento ordinário como simples
reconhecimento. A leitura simplista do diagrama tende a
fazer desaparecer o que faz a virtude científica de sua
construção- nesse espaço teonco de diferenças construído a
partir de um conjunto fin,to - e relativamente restrito - de
variáveis explicitamente definidas, cia pode reencontrar uma
vez que ele aí constitui efetivamente o principio, o conjunto
das diferenças empiricamente constatadas na expenenca
ordinaria, isto e, das próprias diferenças que não tinham _
ido introduzidas do ponto de vista inicialmente adotado
para construí- =
lo, como as diferenças nos posicionamentos políticos,
principalmente em maio de 1968 ou, seria necessário verificar,
47
as diferenças nos
estilos e nas obras Todo leitor dotado do senso prático da
localização que se adquire pela exposição prolongada às
regularidades e às regras I
do universo se reconhecerá facilmente (muito fecilmcme se
forem '
esquecidas as condições de construção) no espaço
epistêmico construído com um rigor e uma transparência em
si que estão completamente excluídos da experienca
ordinária. Compreende-se esse sentimento
K F —
determinada do espaço construído náo seria destruir o próprio irabSho cb 3^° ^
ou autorizando o leitor a rcintroduzir propriedades do XXn «^ruçao encorajando
indivíduo co„s„u,do tontado ao acJJL *•'TÍT * “
saturado em propriedades típicas da classe construída. q„e tepresentaria^m d VI ‘n<1,V,du0 mm das realizações da noçáo dc “tipo
ideal”. duvida a menos ruim
de evidência quando se sabe que, como um mapa ou um
plano bem construídos, o diagrama é um modelo da
realidade tal como a praticamos ou, mais precisamente, tal
como se revela a nos, na existência ordinária, sob a forma
(velada) de distâncias a manter, a marcar, a anular pela
transgressão ou pela condescendência, etc.; de hierarquias e
dc precedências, de afinidades ou incompatibilidades — de
estilo, de humor, etc. -, de simpatias ou antipatias, de
cumplicidades ou hostilidades; c, nesse sentido, pode
funcionar como a forma objetivada, codificada, dos
esquemas práticos de percepção e de ação que orientam as
práticas dos agentes mais bem ajustados à necessidade
imanente do universo. Na verdade, o espaço
multidimensional que o diagrama apresenta quer ser uma
representação isomorfa do campo universitário: imagem
verdadeira desse espaço estruturado, ele estabelece entre
cada um dos agentes e cada uma das propriedades dos dois
espaços uma correlação biumvoca, assim como o conjunto
das relações entre os agentes e as propriedades dos dois
espaços apresentam a mesma estrutura. Esta estrutura que a
pesquisa evidencia é o verdadeiro princípio do ser,
essencialmente racional, de cada um dos elementos e de
suas operações, e principalmente das estratégias dos
agentes, e, assim, do próprio futuro dos elementos e da
estrutura das relações que os definem.
Compreende-se melhor, realizadas essas análises, a
dificuldade de todo discurso científico sobre o mundo social,
que alcança seu paroxismo no caso de um discurso que se
refere diretamente ao próprio jogo no qual seu autor está
empenhado. Se é difícil, se não impossível, evitar que os
enunciados que contêm nomes próprios ou exemplos
singulares tenham um valor polêmico é porque o leitor
substitui quase inevitavelmente o sujeito c o objeto
epistêmicos do discurso pelo sujeito e objeto práticos,
convertendo o enunciado comprobatório sobre o agente
construído em denúncia performativa contra o indivíduo
empírico ou, como se diz, em polêmica ad hominem *
Aquele que escreve ocupa uma posição no espaço descrito:
ele
19
sabe disso e sabe que seu leitor o sabe. Ele sabe
Sc náo temesse me submeter à complacência narcísica, eu evocaria a questão da contaminação do ponto de vista dóxico do
pesquisador pelo seu ponto de vista epistêmico. Ou os problemas que póc praticamente o pcrtencimcnto ao espaço empírico que
se esforça para se submeter à objetivação: sentimento dc tiaiçáo. dc manobra desleal (ver sem ser visto), que supóc c avoca a
exclusão, ansiedade da confrontação c medo do contato corporal, face a fãce ( Cai-se a todo momento sobre M. Siegfried I-övvy ,
dizia Karl Kraus), etc.
que este tenderá a relacionar a visão construída que propõe
à posição que ele ocupa no campo, e a reduzi-la tanto num
ponto de vista como noutro; ele sabe que verá nas menores
nuances da escrita - um mais, um talvez ou, simplesmente, o
tempo dos verbos empregados - indícios de prejulgamentos;
ele sabe que corre o risco de reter, de todos os esforços
investidos para produzir uma linguagem neutra, despojada
de toda vibração pessoal, não mais que o efeito de
monotonia, julgando que se paga muito caro pelo que afinal
é apenas uma forma de autobiografia. É provável que o
esforço do sujeito conhecedor para anular-se como sujeito
empírico, para desaparecer atrás do protocolo anônimo de
suas operações e de seus resultados, esteja
antecipadamente destinado ao fracasso: assim, o emprego
da perífrase que substituiria o nome próprio pela
enumeração (parcial) das propriedades pertinentes, além de
assegurar apenas uma aparência de anonimato, reúne um
dos procedimentos clássicos da polêmica universitária que
designa os adversários somente pelas alusões, insinuações
ou subentendidos compreendidos unicamente pelos
detentores do código, isto é, em mais de um caso,
unicamente pelos adversários visados. A neutralidade
científica pode assim contribuir para conferir ao discurso
esse acréscimo de violência que dá à polêmica filtrada do
ódio acadêmico o apagamento metódico de todo sinal
exterior dc violência. Enfim, assim como o nome próprio
constituído de termos gerais, “Traces-dans-la-prairie”,
“Ourse-noire”, “Graisse-du- dos de l’ours”, “Le Poisson-
remue-la-qucue> não funciona na prática, ainda que o diga
Lévi-Strauss, como ato classificatório que atribui ao portador
do nome próprio as propriedades designadas pelos termos
gerais que ele combina, a perífrase (o professor-de-
etnologia-no-Colégio- de-França) que gostaria de marcar
que o agente assim designado não é o indivíduo Claude
Lévi-Strauss tem pouca chance, salvo advertência expressa,
de ser lida senão como um substituto eufemístico de Claude
Lévi-Strauss. E os conceitos construídos para designar as
regiões do espaço teórico das posições pertinentes ou, no
caso particular, as classes de indivíduos definidos pela
ocupação de uma mesma região do espaço construído
(graças à análise das correspondências) têm todas as
chances de se submeterem à mesma sorte, seja porque se
encontram eclipsados,
Cf. C. Lévi-Strauss, La pensée sauvage, Paris, Pion, 1962, p. 229 c 231 c J.-C. Paricntc, op. cit, p. 71-79- na leitura,
pelas instituições que abrangem parcialmente (Colégio de
França, Escola dos altos estudos, Sorbonne, etc.), seja porque
funcionam como simples etiquetas, próximas das pré-
noçócs realistas que ocorrem na vida cotidiana, e
principalmente na polêmica, e que retomam por sua conta,
sem saber muito o que fazem, os autores de “tipologias”.
Entre outras razões pelo fato de que a utilização rigorosa
das técnicas de análise dos dados mais refinados, como a
análise das correspondências, suporia um controle perfeito
dos princípios matemáticos sobre os quais elas repousam e
dos efeitos sociológicos que produzem por sua aplicação
mais ou menos consciente a dados sociais, não se tem
dúvida de que apesar de todas as advertências dos
“inventores”, numerosos utilizadores (e leitores) têm
dificuldade de atribuir seu verdadeiro estatuto
epistemológico às noções forjadas para nomear os fatores
ou as divisões que determinam: na verdade, essas unidades
não sáo classes lógicas estritamente definidas, separadas por
fronteiras claramente marcadas nas quais todos os membros
possuiriam todas as características pertinentes, isto é, um
número finito dc atributos todos necessários e em idêntico
grau para determinar o pertencimento (de maneira que a
posse de algumas propriedades náo pode ser compensada
pela posse de outras). Todos os agentes reunidos na mesma
regiáo do espaço encontram-se unidos pelo que
Wittgenstein chama de “agrupamento de família”, uma
espécie de fisionomia comum, muitas vezes próxima da que
apreende, de maneira confusa e implícita, a intuição
autóctone. E as propriedades que contribuem para
caracterizar esses conjuntos estão unidas por uma rede
complexa dc relações estatísticas que são também relações
de afinidade inteligível - mais do que de similitude lógica -
que o analista deve explicitar o mais completamente
possível e condensar numa designação ao mesmo tempo
estenográfica, mnemotécnica e sugestiva.
E mais, as escolhas de escrita se tornaram difíceis pelos
usos ordinários, e principalmente pela tradição que consiste
em utilizar os conceitos em -ismo como emblemas ou como
injúrias eufemizadas, isto é, mais amiúde, como nomes
próprios designando indivíduos ou grupos empíricos. A
designação de uma classe por um conceito se encontra
assim reduzida a um ato de nomeação, obedecendo à
lógica ordinária desse gênero de operação: dar um nome,
um nome único, a um indivíduo ou conjunto de indivíduos,
como se vê no cognome, que, diferentemente do nome
próprio ordinário, náo é em si insignificante e funciona como
o nome próprio segundo Lévi-Strauss, é adotar um tios
pontos de vista possíveis a seu sujeito e pretender impô-lo
como ponto de vista único, legítimo. A luta simbólica tem
como aposta o monopólio da nomeação legítima, ponto de
vista dominante que, fazendo-se reconhecer como ponto de
vista legítimo, faz-se desconhecer na verdade de ponto de
vista particular, situado e datado.“ Igualmente, para escapar
ao perigo de recuperação polêmica, poder-se-ia pensar em
designar cada um dos setores do espaço por uma
pluralidade dc conceitos próprios para lembrar que cada
uma das regióes do espaço só pode ser pensada e falada,
por definição, na sua relação com os outros e também que,
na prática — que a teoria deve incorporar —, cada um dos
setores representa o objeto de nomeações diferentes, c até
mesmo antagônicas, segundo o ponto do espaço a partir do
qual ele é percebido: dar a um indivíduo ou a um grupo o
nome que ele se dá (o Imperador, a nobreza) é reconhecê-
lo, aceitá-lo como dominante, admitir seu ponto de vista,
aceitar em tomar dele o ponto de vista de perfeita
coincidência que ele toma sobre si mesmo; mas pode-se
também dar-lhe outro nome, o nome que lhe dão os outros
e principalmente seus inimigos e que ele recusa como
insulto, calúnia, difamação (o Usurpador). Pode-se enfim
dar-lhe seu nome oficial\ conferido por uma instância oficial,
reconhecida como legítima, isto é, pelo Estado, detentor do
monopólio da violência simbólica legítima (as categorias
socioprofissionais do INSEE). No caso particular, o sociólogo,
ao mesmo tempo juiz e participante, tem poucas chances de
ver reconhecido em si esse monopólio da nomeação. Em
todo caso, há todas as chances para que suas designações
funcionem rapidamente na lógica ordinária, e que o leitor as
remeta ao exterior, do lado do inimigo, do estrangeiro,
portanto do insulto, quando se trata de si mesmo e de seu
próprio grupo, e que ao contrário ele as anexe e as deturpe
em seu proveito, ainda do lado do insulto, da agressão
polêmica, quando elas realizam a objetivação dos outros, do
out group.
Para lutar contra essas leituras, para impedir a redução dos
instrumentos da objetivação generalizada às armas das
objetivações
M
Aos que tomariam esta artalisc por uma visão pessoal, eu lembraria unicamente o lugar que ocupam, logicamente, num
universo dominado pelo capital simbólico, no qual todas as estratégias visam acumular crédito ou diminuir o crédito dos outros
(calúnias, denigraçáo, difamação, elogios, críticas, nos diferentes sentidos, etc.).
parciais, seria necessário poder combinar continuamente
(mas sob o risco da comunicação, que exige designações
simples e constantes) a perífrase metódica, que procede à
enumeração completa das propriedades pertinentes, ou o
conceito mais sinóptico , mais capaz de evocar rapidamente
o sistema de relações que o distinguem objetivamente, isto
é, do ponto de vista do observador externo,e a polionomasia
epistêmica que exprimiria bem os diferentes aspectos sob os
quais o mesmo conjunto pode ser definido na sua relação
objetiva com outros conjuntos; sem esquecer de evocar a
polionomasia empírica — isto é, a diversidade dos nomes
realmente empregados para designar os mesmos indivíduos
ou os mesmos grupos, portanto a diversidade dos aspectos
sob os quais uma pessoa ou um grupo aparece às outras
pessoas e aos outros grupos —, por meio da qual se
lembraria que a luta pela imposição do ponto de vista
legítimo faz parte da realidade objetiva.«
É necessária, creio eu, uma sólida segurança positivista
para ver nessas questões de escrita científica as
sobrevivências complacentes de uma disposição “literária”. A
preocupação em controlar seu discurso, isto é, a recepção de
seu discurso, impõe ao sociólogo uma retórica científica que
não é necessariamente uma retórica da cientificidadc: trata-
se para ele de impor uma leitura científica e não a crença na
cientificidadc da coisa lida - ou somente na medida em que
esta faz parte das condições tácitas da leitura científica. O
discurso científico distingue-se do discurso de ficção - do
romance, por exemplo, que aparece mais ou menos
abertamente como um discurso dissimulado c fictício - no
que, como observa John Searle, ele quer dizer o que diz, ele
leva a sério o que diz e aceita responder, isto é, se a ocasião
se apresentar, que está convencido do erro.5 Mas a
diferença não se situa somente, como crê Searle, no
J> Pode acomcccr que o conceito mais “sinóptico” esteja associado a uni ponto dc vista empírico (é o caso do pequeno-burguês).

5 Dizer que somente a crítica científica poderá combater o trabalho científico será proclamar de terrorismo os
defensores dos direitos do ensaísmo. E o sociólogo se veria assim repreendido seja por ser muito fraco, muito facil dc refutar, ou
muito forte, irrefutável.
O corte entre o uso cpistêmico e o uso ordinário se impóc portanto de maneira particularmente imperativa.
» Sobre a polionomasia tal como é metodicamente empregada no Dom Quixote para exprimir a pluralidade dos pontos
Linguistics ami
dc vista possíveis sobre a mesma pessoa, ver L Spitzer, Linguistic Pcrspecuvism in the Don Quijote.
Literary History, Nova York. Russel and Russel, 1962.
Sens et expression, Études de théorie des actes de langage,
M j _R Searle, Paris. Éd. de Minuit, p.
101- 119. A própria história da arte e da literatura, cm que cada novo sistema de convenções faz aparecer na sua verdade, isto c,
como arbitrário, o sistema dc convcnçóes anterior, reúne o trabalho de romancistas como Alain Robbc-Grillct c Robert Pingct
(sobretudo em O apócrifo) que, lembrando

nível das intenções


o que havia dc trucado no contrato entre o romancista c o leitor, c sobretudo a coexistência da ficção declarada e da busca do

ilocutórias, e um recenseamento de todos os traços do


efeito dc realidade, instituem a ficção como ficçáo, até mesmo na

discurso destinados a significar a modalidade dóxica dos


enunciados, a fazer crer na verdade do que é dito ou, ao
contrário, a lembrar que se trata unicamente de um faz de
contas, mostraria sem dúvida que o romance pode recorrer a
uma retórica da veracidade ao passo que o discurso
científico pode obedecer a uma retórica da cientificidade
destinada a produzir uma ficção de ciência, exteriormente
conforme à ideia de que os detentores da “ciência normal”
produzem, no momento considerado, um discurso
socialmente reconhecido como capaz de responder por
aquilo que afirma.
Se a cientificidade socialmente reconhecida é uma aposta
tão importante é porque, embora náo haja uma força
intrínseca da verdade, há uma força da crença na verdade,
da crença que produz a aparência da verdade: na luta das
representações, a representação socialmente reconhecida
como científica, isto é, como verdadeira, contém uma força
social própria e, quando se trata do mundo social, a ciência
dá ao que a detém, ou que aparenta detê-la, o monopólio
do ponto de vista legítimo, da previsão autoverificadora. É
pelo fato de conter a possibilidade desta força propriamente
social que a ciência, quando se trata do mundo social, é
necessariamente contestada, e também pelo fato de que a
ameaça de golpe de força que ela contém é destinada a
suscitar, sobretudo da parte dos detentores do poder
temporal e dos que, no campo da produção cultural, sáo
seus homólogos e seus aliados, estratégias de defesa das
quais a mais comum consiste em reduzir a um simples ponto
de vista dóxico o ponto de vista epistêmico, ao menos
parcialmente livre dos determinismos sociais, relacionando-o
à posição do pesquisador no campo. Sem falar que esta
estratégia de desqualificação contém o reconhecimento da
própria intenção que define a sociologia da ciência e que só
se poderia dar-lhe alguma justificativa opondo ao discurso
científico uma ciência mais rigorosa dos limites associados
às suas condições de produção.’’
A importância das apostas sociais que estão ligadas, no
caso das ciências sociais, aos efeitos sociais da cientificidade
explica por que a retórica da cientificidade pode exercer
nessas ciências um papel tão decisivo. Todo discurso com
pretensão científica sobre o mundo social deve contar com o
estado das representações que concernem à cientificidade e
das normas que ele deve praticamente respeitar para
reproduzir o efeito de ciência e alcançar assim a eficácia
simbólica e os benefícios sociais associados à conformidade
às formas externas da ciência. É por isso que ele está
destinado a se situar no espaço dos discursos possíveis
sobre o mundo social e a receber uma parte de suas
propriedades da relação objetiva que o une a eles,
principalmente ao seu estilo, e no interior da qual se define,
de maneira bastante independente das vontades e das
consciências dos autores, seu valor social, seu estatuto de
ciência, de ficção ou de ficção de ciência. A arte que se
chama de realista, tanto na pintura como na literatura, nunca
é aquela capaz de produzir um efeito de realidade, isto é,
um efeito de conformidade com o real fundado na
conformidade com as normas sociais nas quais se reconhece
num dado momento o que está conforme com o real;
igualmente, o discurso que se chama de científico pode ser
aquele que produz um efeito de cientificidade fundado na
conformidade ao menos aparente com as normas nas quais
se reconhece a ciência. É nesta lógica que o estilo que se
diria literário ou científico exerce um papel determinante:
assim como, em outros tempos, a filosofia profissional
prestes a se constituir afirmou sua pretensão ao rigor e à
profundidade, principalmente com Kant, por meio dc um
estilo definido contra a facilidade e a leviandade mundanas,
ou, ao contrário, como mostrou Wolf Lepenies, BufFon
comprometeu, por excessiva atenção ao belo estilo, suas
pretensões à cientificidade, também os sociólogos, cuja
preocupação exagerada com a boa linguagem ameaçaria
seu status de pesquisador científico, podem se exceder, mais
ou menos conscientemente, ao rejeitar as elegâncias
literárias e ao revestir-se dos sinais da cientificidade (curvas
e tabelas estatísticas, e até formalismo matemático, etc.).
Dc fato, os posicionamentos no espaço dos estilos
correspondem estritamente às posições no campo
universitário. É por isso que, postos diante da alternativa do
escrever muito bem que pode trazer benefícios literários,
mas sob o risco do efeito de cientificidade, ou do escrever
mal que pode produzir um efeito de rigor ou de
profundidade (como cm filosofia), mas em detrimento do
sucesso mundano, os geógrafos, os historiadores e os
sociólogos adotam estratégias que, para além das variações
individuais, estáo conformes com suas respectivas posições.
Situados numa posiçáo central no campo das faculdades de
letras e de ciências humanas, portanto a meio caminho entre
os dois sistemas de exigências, os historiadores, dotando-se
dos atributos obrigatórios da cientificidade, geralmente se
mostram muito preocupados com sua escrita. Se os
geógrafos e os sociólogos têm cm comum o fato de mostrar
maior indiferença para com as qualidades literárias, os
primeiros manifestam a humildade das disposições que
convêm à sua posição tomando o partido do estilo neutro,
que é equivalente na ordem da expressão da abdicação
empirista àquela a que eles se resignam a maior parte do
tempo. Quanto aos sociólogos, eles frequentemente revelam
sua pretensão à hegemonia (inscrita desde a origem na
classificação comtiana das ciências) recorrendo
alternativamente ou simultaneamente às retóricas mais
poderosas nos dois campos em relação aos quais são
obrigados a se situar, a da matemática, geralmente utilizada
como signo exterior de cientificidade, ou a da filosofia,
geralmente reduzida aos efeitos do léxico.6

6 Isso náo significa que a pesquisa propriamente “literária’' náo possa encontrar uma justificativa científica. Assim, como
sublinhava Bateson a propósito do etnólogo, o poder evocativo do estilo constitui uma das formas indispensáveis da realização
científica quando se trata de objetivar os traços pertinentes dc uma configuração social e dc extrair assim os princípios da
apreensão sistemática dc uma necessidade histórica: quando o historiador da Idade Média evoca, pela eficácia própria da
linguagem, o isolamento e a desolação desses camponeses que, encurvados sobre ilhotas dc terreno desmoitadas, são
abandonados a todos os terrores, visa primeiramente a reproduzir para o leitor, cm c por palavras capazes dc produzir um efeito
de realidade, a renovação da visão que ele deve operar, contra os conceitos-tclas e os automatismos de pensamento, para chegar
O conhecimento do espaço social em que se realiza a
prática científica, e do universo dos possíveis, estilísticos ou
outros, em referência aos quais suas escolhas são definidas,
leva não a repudiar a ambição científica e a recusar a própria
possibilidade dc conhecer e de dizer o que é, mas a reforçar,
pela tomada de consciência e pela vigilância que ela
favorece, a capacidade de conhecer cientificamente a
realidade. Ele leva na verdade a questionamentos muito
mais radicais do que todas as senhas de segurança e as
normas de prudência que a “metodologia” atribui à “ciência
normal”, e que permitem obter por conta própria a
respeitabilidade científica: a “seriedade”, na ciência como
alhures, é uma virtude tipicamente social,
d. io i por acaso que é atribuída prioritariamente aos que,
tanto no seu cm il,, dc vida como no estilo de seus trabalhos,
oferecem as garantias ac previsibilidade e de calculabilidadc
características das pessoas "responsáveis”, ponderadas,
organizadas. Por isso sera prioridade para Iodos os
funcionários da ciência normal que, instalados na ciência
como muna lotação de fiinçáo, sáo instigados a levar a sério
somente o que merece sê-lo, a começar por si mesmos, isto
é, o que conta e com o que se pode contar. O caráter social
dessas exigências se ve no fato de que elas concernem
quase exclusivamente às manifestações externas da virtude
científica: os maiores benefícios simbólicos muitas vezes náo
vao para essas espécies de fariseus da ciência que sabem se
ornar dos signos mais variados da cientificidade, imitando,
por exemplo, os procedimentos e as linguagens de ciências
mais avançadas? A conformidade ostcntatoria às exigências
formalistas da ciência normal (testes dc sigmficaçao, cálculos
de erros, referências bibliográficas, etc.) e o respeito externo
às mínimas prescrições, necessárias mas náo suficientes,
virtudes propriamente sociais, nas quais se reconhecem sem
dificuldades todos os detentores dc uma autoridade social
no dom.mo da ciência, tem por efeito unicamente assegurar
a uma compreensão justa das estranhezas da cultura carolíngia. Poder-se-ia dizer o mesmo do sociólogo que pode alternar as
durezas da conceitualização inseparável da construção de objeto e as buscas de expressão, destinadas a restituir a experiência
construída c unitária de un» estilo de vida e dc um modo dc pensar.
aos dirigentes das grandes burocracias científicas uma
respeitabilidade científica que náo corresponde as suas reais
contribuições à ciência. A ciência de instituição tende a
instaurar como modelo da atividade científica uma prática
rotineira, na qual as operações cientificamente mais
decisivas podem ser realizadas sem reflexão nem controle
crítico, uma vez que a impecabilidade aparente dos
procedimentos visíveis - frequentemente confiados aos
executor« desvia-se de ioda interrogação própria a pôr em
dúvida a respeitabilida e do sábio e de sua ciência. É por isso
que, longe de ser uma forma cientista da reivindicação do
saber absoluto, uma ciência social armada do conhecimento
científico de suas determinações sociais constitui a arma
mais poderosa contra a “ciência normal” e contra a
segurançapositivista, que representa o obstáculo social mais
temível ao progresso da ciência.
Marx sugeria que, de vez em quando, alguns indivíduos
conseguiriam se liberar tão completamente das posiçoes a
eles atribuídas no espaço social que poderiam apreender
este espaço como um todo e transmitir sua visão aos que
ainda eram prisioneiros da estrutura. De lato, o sociólogo
pode afirmar a transcendência em relação as visoes comuns
da representação que produz com seu trabalho sem no
entanto pretender esta espécie de visão absoluta, capaz de
apreender no ato a totalidade do dado histórico. Tomado a
partir de um ponto que não é nem o ponto de vista bastante
parcial dos agentes engajados no jogo nem o ponto de vista
absoluto de um espectador divino, a visão científica
representa a totalização mais sistemática que pode ser
realizada, num determinado estágio dos instrumentos de
conhecimento, à custa de uma objetivaçáo tão completa
quanto possível, e do dado histórico, e do trabalho de
totalização. Dessa forma ela marca um ponto real da linha
alcançando o focus imaginarius do qual falava Kant, esse lar
imaginário a partir do qual se daria o sistema acabado mas
que a intenção propriamente científica só pode pensar como
ideal (ou ideia reguladora) de uma prática que só pode
esperar aproximá-lo sempre mais porque renunciou à
pretensão de ocupá-lo imediatamente.
Volta-se assim ao ponto de partida, isto é, ao trabalho
sobre si que o pesquisador deve realizar para tentar
objetivar tudo o que o liga ao seu objeto, c que o leitor deve
refazer por sua própria conta a fim dc controlar os princípios
sociais do interesse, mais ou menos malsão, que ele pode ter
pela leitura. Sob pena de universalizar um ponto de vista
particular e de liberar uma forma mais ou menos
racionalizada do inconsciente associado a uma posição no
espaço social, seria preciso abrir sucessivamente todas as
caixas no interior das quais o pesquisador - e a maioria de
seus leitores - está encerrado, e tanto mais seguramente
quanto menos quer saber: isto é, evocar a estrutura do
campo do poder e a relação que o campo universitário
considerado em seu conjunto mantém com ele, analisar -
tanto quanto os dados empíricos permitam - a estrutura do
campo universitário e a posiçáo que nele ocupam as
diferentes faculdades, e enfim a estrutura de cada faculdade
e a posição que nela ocupam as diferentes disciplinas. Assim,
não se poderá deixar de voltar à questão (no capítulo 3),
embora profundamente transformada, que estava no
princípio da pesquisa, sobre os fundamentos e as formas do
poder nas faculdades de letras e de ciências humanas na
véspera de 1968, terão sido mais bem definidas (no capítulo
2) a posiçáo do objeto inicial na articulação dos espaços
sociais e da mesma maneira a posiçáo do próprio
pesquisador, que participa desses diferentes espaços, com a
clareza e a cegueira associadas. Tendo desenhado a
estrutura do campo universitário em seu conjunto e a
estrutura do campo das faculdades de letras e de ciências
humanas que, pela sua posição central no campo
universitário e pela sua própria divisão entre as
humanidades e as ciências do homem, deixam ver com uma
evidência particular as tensões, nascidas do fortalecimento
das ciências e dos cientistas que habitam todo o campo
universitário e cada uma das faculdades, poder-se-á relegar
para a história as questões pertinentes e tentar apreender
novamente os determinantes e a lógica das transformações
cujo estado observado da estrutura representa um
momento: o aumento da população dos estudantes e o
crescimento correlato da população dos professores têm
modificado profundamente as relações de força no interior
do campo universitário e no interior de cada faculdade,
principalmente as relações entre os “graus” e entre as
disciplinas, também elas desigualmente atingidas pelas
transformações das relações hierárquicas; isso a despeito de
todas as ações objetivamente orquestradas (sem ser
intencionalmente preparadas) pelas quais os professores
tentaram assegurar a defesa do corpo (capítulo 4). As
mudanças morfológicas são aqui (como também no campo
literário) a mediação por meio da qual a história, que os
mecanismos de reprodução tendem a excluir, se introduz
nos campos, espaços abertos, forçados a empurrar para fora
os recursos necessários ao seu funcionamento e dispostos
assim a se tornar o lugar do encontro entre séries causais
independentes que faz o acontecimento, isto é, o histórico
por excelência (capítulo 5).
Esta tentativa de esboçar uma história estrutural da
evolução recente do sistema de ensino gera um problema
de escrita, que atinge o uso dos tempos e, por meio dele, o
estatuto epistemológico do discurso. Será preciso, em nome
da relativa especificidade dos documentos e das enquetes
utilizadas, e de sua limitação, claramente declarada, no
espaço e no tempo sociais, evitar dar ao discurso a
generalidade que marca o presente trans-histórico da
enunciação científica? Isso tornaria a repudiar o próprio
projeto de qualquer empreendimento intelectual visando
“imergir-se” na singularidade histórica para retirar dela os
invariantes trans-históricos (deixando aos ensaístas ou aos
compiladores o privilégio das generalidades intemporais que
não engloba nenhuma outra referência histórica que não
suas leituras ou experiências pessoais). Diferentemente do
“tempo do discurso” (frequentemente no presente), que,
segundo Benveniste, “supõe um locutor e um ouvinte e no
primeiro a intenção de influenciar o outro de qualquer
maneira”, e como o aoristo, “tempo histórico por excelência”,
que, sempre segundo Benveniste, “objetiva o acontecimento
descolando-o do presente” e “exclui toda forma linguística
autobiográfica”,'’ o presente onitemporal do discurso
científico marca a distância objetivante sem remeter a um
passado situado e datado. Nesse sentido, ele convém ao
protocolo científico quando este apresenta invariantes
estruturais que, como tais, podem se observar em contextos
históricos muito diferentes e podem funcionar, no mesmo
universo, como constantes ainda ativas. É, abrindo um
parêntese, esta presença no presente — entendido como
aquilo que está em jogo - que faz da sociologia uma ciência
de histórias, “controversial'> como dizem os anglo-saxões, e
ainda mais, sem dúvida, quando ela está mais avançada: é
claro que, se atribuímos mais facilmente ao historiador a
objetividade e a neutralidade do sábio é porque geralmente
somos mais indiferentes aos jogos e às expectativas que ele
evoca - estando entendido que a distância cronológica com
o presente cronológico não é uma boa medida da distância
histórica, como distância que se converteu cm história, em
passado histórico; e que o pertencimento ao presente como
atualidade, isto é, como universo de agentes, de objetos, de
acontecimentos, de ideias, que podem ser cronologicamente
passados ou presentes mas que estão efetivamente em
jogo, portanto praticamente atualizados no momento
considerado, define o fosso entre o presente ainda “vivo”,
“queimando”, e o passado “morto e enterrado”, como os
universos sociais pelos quais ele estava ainda em jogo, atual,
atualizado, ativo e atuante.
Assim, o presente parece impor-se para descrever todos
os mecanismos ou os processos que, além das mudanças
aparentes - em matéria sobretudo de vocabulário,
presidente em vez de decano, UER em vez de faculdade, etc.
-, ainda fazem parte do presente histórico porque continuam
exercendo seus efeitos e, para chegar ao limite, certamente
se poderá dizer no presente o princípio de clarificação, caro
a Tomás de Aquino, por tanto tempo que, no tempo imóvel
da vida universitária, as dissertações e tantas outras formas
de discurso se organizarão segundo as divisões e as
subdivisões triádicas do pensamento escolástico. Não é,
17
E. Benveniste, Problèmes de linguistique générale, Paris, Gallimard, 1966, p. Z39, 242,145, 249.
até o modelo a-histórico do acontecimento histórico por
excelência, a crise como sincronização de tempos sociais
diferentes, que só se possa escrever no presente
onitemporal como realização única de uma série de efeitos
onitemporais cuja conjunção produz uma conjuntura
histórica.
O presente vale também para tudo o que, verdadeiro no
momento da enquete, permanece verdadeiro no momento
da leitura, ou que pode ser compreendido a partir das
regularidades e dos mecanismos estabelecidos a partir da
enquete. É por isso que a diferença de quase vinte anos
entre o momento do estudo e o momento da publicação
permitirá a cada um verificar, a partir das mudanças
ocorridas nesse intervalo c das que eles anunciam, se o
modelo proposto - e em particular, a análise das
transformações das relações de força entre as disciplinas e
os graus - permite dar conta dos fenômenos que, sendo
posteriores à enquete c difíceis dc apreender de maneira
metódica, são apenas evocados aqui. Penso no surgimento
de novos poderes, sobretudo sindicais, que tendem a levar
até suas últimas consequências o processo iniciado pela
transformação do modo de admissao dos assistentes e
mestres-assistentes que atribui aos produtos do novo modo
de admissão o controle do emprego dos novos professores
subalternos - o que pode levar, em certos casos, à
eliminação de fato das categorias de eleição do antigo
modo de admissão, normalistas ou agregados.' E como não
ver que a contradição entre o novo modo de admissão e o
antigo modo de progressão na carreira que, protegido do
passado que ele visa manter, tende a encerrar em posições
subalternas os produtos do novo modo de admissão, está
no princípio de muitas reivindicações, pressões e
transformações institucionais que, favoráveis sobretudo à
mudança política, visam abolir as diferenças ligadas às
diferenças iniciais da trajetória escolar e universitária
(abolindo tanto as diferenças entre os graus quanto as
diferenças entre os títulos que dão a eles acesso)?
* É claro que a redefinição dos postos subalternos c dos interesses pedagógicos associados deve ser relacionada náo
somente à transformação das características sociais c escolares dos professores mas também às modificações profundas das
condições dc exercício do marque tem introduzido a transformação da quantidade e da qualidade social do público; de maneira
que a uma descrição do posto e da relação com o posto que, como a que 5cii proposta abaixo, toma inevitavelmente como
referência, devido às necessidades da comparação c da compreensão, o estado antigo do sistema tende a acentuar os sinais dc
inadaptação c a descrever dc maneira negativa as praticas c os interesses suscitados por uma nova demanda.
Seria preciso, para terminar, reunir todas as advertências
contra as más leituras que limitam essas análises e ao
mesmo tempo especificá- las até convertê-las cm respostas
ad hoc, isto é, cm mais de um caso, em argumentos ad
personam: na verdade tudo permite supor que a leitura da
restituição científica das variações e dos invariantes variará,
como a experiência da história real, segundo a relação do
leitor com o passado e com o presente da instituição
universitária. Compreender, nesse caso, é difícil apenas
porque se compreende muito pouco, de certa maneira, e
porque náo se quer nem ver nem saber o que se
compreende. Assim, o mais fácil pode ser também o mais
extraordinariamente difícil, porque, como diz nalgum lugar
Wittgenstein, “não é uma dificuldade do intelecto, mas da
vontade, que deve ser superada”. A sociologia que, entre
todas as ciências, é a mais bem posicionada para conhecer
os limites da força intrínseca da ideia verdadeira”, sabe que a
força das resistências que lhe serão opostas estará
exatamente à altura das “dificuldades da vontade” que ela
terá conseguido superar.
Capítulo 2
O conflito das faculdades
“A classe das faculdades superiores (de qualquer
maneira a direita do
parlamentodaciência)defendeosestatutosdogover
no;noentanto,também deve haver aí numa
constituição livre, como deve ser aquela onde se
trata da verdade, um público de oposição (a
esquerda), o banco da faculdade de filosofia, pois,
sem o exame e as objeções severas desta, o
governo não seria suficientemente informado
sobre o que lhe pode ser útil ou prejudicial".
E. Kant, Le conflit des facultés.
Como “capacidades”, cuja posiçáo no espaço
social repousa principalmente sobre a posse de
capital cultural, espécie dominada de capital, os
professores universitários se situam sobretudo do
lado do polo dominado do campo do poder e se
opõem claramente nesse sentido aos patrões da
indústria e do comércio. Mas, como detentores de
uma forma institucionalizada de capital cultural,
que lhes assegura uma carreira burocrática e
rendimentos regulares, eles se opõem aos
escritores e aos artistas: ocupando uma posição
temporalmente dominante no campo de
produção cultural, eles se distinguem, em graus
diversos segundo as faculdades, dos ocupantes
dos setores menos institucionalizados e mais
heréticos desse campo (e principalmente dos
escritores e dos artistas que se chamam “livres” ou
free-lance em oposição aos que pertencem à
universidade).'
1
Sobre a estrutura do campo do poder como espaço das posições de poder ocupadas, a partir das
diferentes espécies dc capital, pelas diferentes fiaçóes da classe dominante, com as frações
economicamente dominadas c culturalmente dominantes (artistas, intelectuais, professores de letras c dc
ciências) num polo, c noutro polo as frações economicamente dominantes c culturalmente dominadas
(dirigentes ou quadros dos setores público c privado), ver P. Bourdieu, La distinction. Paris, Éd. de Minuit,
1979, p. 362-363; c para uma análise mais précisa do setor dominante (temporalmente) do campo do
poder, ver também P. Bourdieu e M. dc Saint-Martin, Le patronat, Actes dc la recherche en sciences sociales,
20-21, março-abril dc 1978, p. 3-82.
Ainda que a comparação seja difícil em razao dos
problemas decorrentes da delimitação das duas
populações consideradas (e principalmente de sua
superposição parcial), pode-se, apoiando-se na
comparação com os colaboradores regulares de revistas
“intelectuais como Temps modernes ou Critique,
estabelecer que os professores universitários, próximos
nisso dos altos funcionários, apresentam com mais
frequência que os escritores e os intelectuais (que têm
taxas de celibato ou de divórcio relativamente elevadas e
um baixo número médio de filhos) os diferentes indícios
da integração social e da respeitabilidade (baixa taxa de
celibato, alto número médio de filhos, taxas elevadas de
condecorações, títulos de oficial de reserva, etc.) e ainda
mais quando mais se eleva na hierarquia social das
faculdades (ciências, letras, direito, medicina).
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
A esse lote de indicações convergentes pode-se
acrescentar os dados fornecidos pela enquete de Alain
Girard sobre o sucesso social, nos quais se vê que os
escritores imputam seu sucesso a fatores carismáticos
(dom, qualidades intelectuais, vocação) em 26,2% dos
casos, contra 19,1% para os professores, que invocam
com bastante frequência o papel de sua família de
origem (11,8% contra 7,5%), de seus mestres (9,1%
contra 4,4%) e dc sua esposa (1,7% contra 0,3%). Eles se
aprazam cm prestar homenagem a seus mestres.
Homenagem geral ao conjunto de seus mestres, dos
diferentes níveis de ensino, ou homenagem a um deles
mais especialmente, que os distinguiu, ou despertou sua
vocaçao, 64 ouaindamais tarde os orientou e ajudou
nas suas próprias pesquisas.
Um sentimento de gratidão c às vezes quase de
veneração ou de fervor em relação a seus mestres
atravessa frequentemente a leitura de suas respostas. No
mesmo estado de espírito, eles reconhecem também,
com mais frequência que outros, a influência dc sua
família, que desde a infância respeitou suas qualidades
intelectuais ou morais, que facilitou
a reahzaçáo de sua carreira. Eles náo são insensíveis ao
sentimento de ter obedecido a uma vocaçáo, e enfim,
com mais frequência que muitos outros, evocam a
compreensão que reina no seio de seu lar e o apoio que
sempre encontraram junto de sua mulher” (A. Girard, La
réussite sociale en France, ses caractères, ses lois, ses effets,
Paris, PUF, 1961 p. 158-159).»
De fato, mais que indícios da integração social e da
adesão à ordem dominante, é preciso levar em conta
indicadores da distância, variável segundo as sociedades
e os momentos, entre o campo universitário e o campo
do poder econômico ou político de um lado, e de outro
o campo intelectual. Assim, a autonomia do campo
universitário náo para de crescer ao longo do século XIX:
como mostra Christophe Charle, o professor de ensino
superior se distancia do notável diretamente nomeado
pelo poder político e engajado na política como era na
primeira metade do seculo para se tornar um mestre
selecionado e especializado, separado do meio dos
notáveis por uma atividade profissional incompatível
com a vida política, c animado por um ideal
propriamente universitário; paralelamente ele tende a se
distanciar do campo intelectual como se vê no caso dos
professores de literatura francesa (Lanson
principalmente) que, profissionalizando-se c dotando-se
de uma metodologia específica, tendem a romper com
as tradições mundanas da crítica.
É preciso todavia evitar levar muito longe a
comparação, destinada unicamente a fixar uma posição,
entre a população dos professores tomada cm seu
conjunto c uma ou outra fração da classe dominante. Na
verdade, como o campo das instituições de ensino
superior (isto é, o conjunto das faculdades e das grandes
escolas«) cuja estrutura reproduz na lógica propriamente
escolar a estrutura do campo do poder (ou, se se prefere,
qUC CU tCm c0nsc,cnc,a da
M Eficiência das bas« estatísticas desta
T °' parece-nie que, nesse caso como em outros, a necessidade de levar cm conta ° qUC ° Un,VCfS0/nahsado pode dever à sua
posiçáo num espaço abrangente se impóe dc maneira imperativa e é melhor marcar ao menos dc maneira grosseira a
posiçáo ocupada pelo
• .mpo univers,tár,o no campo do poder c no campo social cm seu conjunto do que registrar sem o
ÍÂT-" irreprocyvd por<luc
' “ -limte 1«—* -»
A» grandes escolas francesas formam os fUturos dirigentes principalmente nas áreas » II lógicas c administrativas,
propondo-lhes um ensino múltiplo ou específico (com a duração “ o mínimo cinco anos após o ensino médio)
reconhecido pelo Estado e assegurando-lhes as >res oportunidades de acesso aos cargos públicos c empresariais dc maior
prestígio. (N.T.)
as oposições entre as frações da classe dominance) a que
ele introduz, os professores das diferentes faculdades se
distribuem entre o polo do poder econômico e político e
o polo do prestígio cultural, segundo os mesmos
princípios das diferentes frações da classe dominante: vê-
se na verdade aumentar a frequência das propriedades
mais características das frações dominantes da classe
dominante à medida que se vai das faculdades dc
ciências às faculdades de letras, destas às faculdades de
direito e de medicina (enquanto a posse das marcas
distintivas da excelência escolar, como as nomeações ao
concurso geral, tende a variar em razão inversa da
hierarquia social das faculdades). De fato, tudo parece
indicar que a dependência em relação ao campo do
poder político ou econômico varia no mesmo sentido,
enquanto a dependência em relação às normas próprias
ao campo intelectual — que impõem, sobretudo após o
caso Dreyfus, a independência em relação aos poderes
temporais e aos posicionamentos políticos de uma
espécie totalmente nova, isto é, a um só tempo externos
e críticos -, se impõe sobretudo aos professores das
faculdades de letras e de ciências humanas, mas de
maneira muito desigual segundo sua posição nesse
espaço.
A análise estatística cujos resultados sáo apresentados
abaixo foi aplicada a uma amostra aleatória (n = 405),
cuja taxa varia entre 45% e 55% segundo as faculdades,
de professores titulares das faculdades parisienses
(faculdade dc farmácia excluída) recenseados no
Annuaire de l’Éducation nationale do ano de 1968.’ Ainda
que a coleta dos dados, feita em 1967, juntamente com
um conjúnto de entrevistas aprofundadas com
professores de ciências e letras, depois interrompida,
tenha sido realizada, essencialmente, em 1971, desejou-
se descrever o estado do campo universitário na véspera
de 1968 pela necessidade de comparação com a enquete
sobre o poder nas faculdades de letras e de ciências
humanas (que havia sido realizada nessa data e cujos
resultados serão apresentados abaixo) e também cm
nome da convicção de que nesse momento crítico em
que sobrevive ainda a tradição mais
f Como observam os redatores deste Anuário, esta obra dá uma visáo do corpo docente cm
1966, cm razáo dos prazos dc registro das novas nomeações. Quanto ao Anuário de 1970, ele oferece apenas, para cada
estabelecimento universitário, a lista das Unidades de ensino c de pesquisa (UER), com o nome do diretor. Rrrnrrrti-se
portanto a listas obtidas junto ao ministério para o ano dc 1970 que permitiram controlar a amostra c levar cm conta as
nomeações ocorridas entre 1966 c a data da enquete. (Dccidiu-sc conservar, ao longo da análise - c mesmo quando cia se
aplica a uma época mais rcccnte - a linguagem que estava cm uso cm 1967, como faculdade, substituída depois por
universidade, ou decano, substituída por diretor dc UER.)
antiga do corpo e em que se anunciam os sinais de
transformações ulteriores, principalmente todos os
efeitos das mudanças morfológicas da população
estudantil e do corpo docente, ele abrangia o princípio e
reações das diferentes categorias dc professores à crise
de maio de 1968 e os limites das transformações
institucionais que foram operadas pelas reformas
posteriores a esta crise/
Para realizar esta espécie de prosopografia dos
professores de faculdade, reuniu-se, para cada um dos
professores da amostra, o conjunto das informações
fornecidas pelas fontes escritas c por diferentes enquetes
efetuadas para outros fins, frequentemente
administrativos, com nossa colaboração (encontra-se em
anexo a descrição crítica das operações de coleta dos
dados e das fontes utilizadas) ou expressamente
realizadas para completar ou verificar as informações
obtidas por outras fontes (entrevistas aprofundadas e
enquetes telefônicas com os professores da amostra). A
decisão de recorrer principalmente, e exclusivamente
para todas as questões de opinião, a fontes escritas
impôs-se por várias razões. Primeiramente, como se
pôde observar durante as entrevistas, uma grande parte
dos professores interrogados se recusava a se classificar
na escala política e rejeitava ou anulava, a partir de
diferentes argumentos, todas as tentativas de apreender
seus posicionamentos políticos 011 sindicais. Em seguida,
era evidente que quase não se questionava isso,
A conipanrçáo entre os professores das diferentes faculdades deveria levar em conta a taxa dc crescimento das
populações docentes (c estudantis) depois dos anos 1950. As diferentes faculdades náo estão, se é que se pode dizer, no
mesmo nível dc evolução: enquanto as faculdades dc ciências conheceram seu crescimento máximo cm torno dos anos
1955-1960 c começam a se fechar cm torno de 1970, as faculdades dc letras começaram a admitir fortemente os
professores somente após 1960 c as faculdades de direito por volta de 1965. Decorre que os mesmos títulos náo têm o
mesmo valor nas diferentes faculdades. Por exemplo, em 1968, nas faculdades dc ciências que estavam na fase dc

é
fechamento, a nomeaçáo como mestre-assistente sobrevive por um prazo relativamente longo ( 6 3 7 anos), enquanto cm
letras, onde a expansão continua, esse prazo mais curto (isso sc deve sem dúvida cm parte ao foto dc que náo sendo
titulares os assistentes cm letras, diferentemente dos assistentes cm ciências, eles só poderiam ser mantidos cm virtude
da promoçáo ao grau dc mestre- assistente). Da mesma maneira, as condições do accsso à posiçáo dc professor foram sem
dúvida desigualmente afetadas pelos efeitos dc crescimento do corpo.
Mais que multiplicar os exemplos da argumentação, muito monótona, que os professores interrogados empregavam para
recusar as questões políticas ou sindicais, nos contentaremos cm citar esse professor da faculdade dc medicina que enuncia com
todas as letras o princípio: “lvu vou lhes dizer que náo tenho... eu crcio que isso náo é uma fúga, mas eu creio que sou
inclassificável, inclassificável porque, dc rwro. ru nunca p..d<* aderir a nenhum partido [...]. Vocês sabem, há uma fórmula de Jean
Guitton, que diz que... ‘Há pessoas cujo engajamento é náo sc engajar”. Mas. melhor que esses questionamentos do questionário, é
esta resposta dc um professor conhecido por pertencer ao Partido comunista que vale citar, porque ela introduz diretamente o
princípio.

quer se tratasse das posições de poder ocupadas, este


objeto eminente da contestação de 1968, ou dos
posicionamentos sobre as reformas ou sobre seus efeitos,
que náo foi afetada pela relação de enquete, e percebida
como um questionamento, no prolongamento da
contestaçao dos “mandarins” (à qual vários dos
professores interrogados espontaneamente faziam
alusão). Enfim, para escapar tão completamente quanto
possível das distorções, dissimulações e deformações,
mas também das suspeitas ou da acusação de
catalogação sectária e de inquisição policial que o
sociólogo e suas “fichas” atraem comumente nos meios
intelectuais e artísticos, decidimos nos deter
exclusivamente nas informações públicas ou destinadas
à publicação (como as informações deliberada e
conscientemente liberadas durante as diferentes
enquêtes visando o estabelecimento de anuários de
pesquisadores ou de escritores aos quais estivéramos
associados). Procedimento ainda mais necessário quando
se desejava poder publicar, como se fez por outros meios,
diagramas apresentando nomes próprios. Reuniram-se
assim todos os indicadores
Homo academicus | Pierre Bourdieu
pertinentes:
a) principais determinantes sociais das oportunidades de
acesso às posições ocupadas, isto é, os determinantes
da formação do habitus e do sucesso escolar, o capital
econômico e sobretudo o capital cultural e social
herdados: a origem social (profissão do pai, inscrição
no Bottin mondain7), a origem geográfica, a religião de
origem da
68 família;9
b) determinantes escolares, que são a
retradução escolar dos precedentes
__ (capital escolar): o estabelecimento
frequentado (liceu publico ou
colégio privado; parisiense ou provincial, etc.) e o sucesso
escolar (concurso geral) durante os estudos secundários;
o estabelecimento
frequentado durante os estudos superiores0(Paris,
província, estrangeiro) e os títulos obtidos;'

7 Anuí rio dos telefones editado por Bottin, que répertoria as personalidades de ma,or reputaçao.
'^Analisaram-se, unicamente para as faculdades de ciências e de medicina (onde dessas informações para 58% e 97% da
amostra), informações mais detalhadas sobre a família de origem (diploma do pai. profissão ediploma da máe.
profissãoediplomaifeavfec avos paternos e maternos c sobre a família a que pertenciam: profissão e diploma do conjugc).
c) capital de poder universitário: pertcncimcnto ao
Instituto, ao Comité consultivo das universidades
(CCU), ocupação de posições tais como decano ou
diretor de UER, diretor de instituto; etc. (o
pertencimento as bancas dos grandes concursos, ENS,
agregação, etc., que foi levantada apenas na enquete
das faculdades de letras nao pode ser levada em conta
para o conjunto das faculdades eni razao da
incompatibilidade das posições envolvidas);"
d) capital de poder científico: direção de um organismo
de pesquisa, de uma revista cientifica, ensino numa
instituição de ensino de pesquisa participaçao no
diretório do CNRS, nas comissões do CNRS, no
Conselho superior da pesquisa científica;
e) capital de prestígio científico: pertencimento ao
Instituto, distinções cientihcas, traduções em línguas
estrangeiras, participação em coloquios internacionais
(o número de menções no Citation Index, mu,to
flutuante segundo a faculdade, não pôde ser retido,
náo mais que a direção de revistas ou dc coleções
científicas);“
0 capital de notoriedade intelectual: pertencimento à
Academia francesa e menção no Larousse, aparições
na televisão, colaboração em cotidianos,
hebdomadários ou revistas intelectuais, publicação
em coleção de bolso, pertencimcnto ao comitê de
redação de revistas intelectuais;1’
g) capital de poder político ou econômico: inscrição no
Who’s> who,u pertencimcnto a gabinetes ministeriais,
às comissões do Plano, ensino nas escolas do poder,
condecorações diversas;1'
h) disposições “políticas” em sentido amplo: participação
nos colóquios de Caen e de Amiens, assinatura de
petições diversas.
Distanciamento e adesão
O campo universitário reproduz na sua estrutura o
campo do poder cuja ação própria de seleção e de
inculcação contribui para reproduzir a estrutura. E na
verdade no e por seu funcionamento como espaço de
diferenças entre posições (e, da mesma maneira, entre as
disposições de seus ocupantes) que se realiza, fora de
toda intervenção das consciências e das vontades
individuais ou coletivas, a reprodução do espaço das
posições diferentes que são constitutivas do campo do
poder.8 Como mostra claramente o diagrama da análise
das correspondências, as diferenças que separam as
faculdades e as disciplinas, tal como se pode apreendê-
las por meio das propriedades dos professores,
apresentam uma estrutura homóloga à do campo do
poder em seu conjunto: as faculdades temporalmente
dominadas, faculdade de ciências e, em menor grau,
faculdade de letras, sc opõem às faculdades socialmente
dominantes, nesse sentido praticamente confundidas,
faculdade de direito e faculdade de medicina, por todo
um conjunto de diferenças econômicas, culturais e
sociais, no qual se reconhece o essencial do que faz a
oposição, no interior do campo do poder, entre a fração
dominada e a fração dominante.
O conflito das faculdades
Esta oposição principal se revela como a única leitura
das tabelas estatísticas que apresentam a distribuição dos
diferentes indícios mais ou menos diretos do capital
econômico e cultural. A mesma hierarquia - ciências,
letras, direito, medicina - observada quando se
distribuem os professores das diferentes faculdades
segundo a origem social levantada por meio da profissão
do pai (as partes respectivas dos professores oriundos da
classe dominante sendo de 58%; 60%; 77%; 85,5%) se
encontra quando se consideram outros indicadores da

8
A estrutura das diferentes instituições de ensino superior distribuídas segundo as características sociais e escolares
dos estudantes ou dos alunos que cias acolhcm corresponde exatamente, em todos os casos cm que a vcrificaçáo é
possível, à estrutura das mesmas instituições distribuídas segundo as características sociais c escolares dos professores: é
por isso que os estudantes sáo mais frequentemente oriundos da classe dominante ou, no interior desta, das frações mais
favorecidas economicamente, como os industriais c os profissionais liberais, nas faculdades dc medicina c dc direito do
que nas faculdades dc letras c de ciências. Sabc-sc além disso que as faculdades de medicina e de direito levam a profissões
dc ranking mais elevado na hierarquia econômica do que as faculdades de ciências c dc letras, cujos produtos sáo em
grande parte destinados ao ensino. Podcr-se- ia extrair ricos comentários cpistemológicos c sociológicos do fato dc que
basta substituir a “ordem sócio-lógica", isto é, IUT, ciências, letras, direito, medicina, farmácia, pela ordem habitualmente
adotada nas estatísticas oficiais, direito, letras, ciências, medicina, farmácia, IUT, c proceder a uma operação análoga ao
nível das catcgoriais socioprofissionais, cias também uigauiiadas a despeito do bom senso, para revelar uma estrutura
quase constante (as raras discordáncias ganhando então um grande destaque) nas distribuições (cf. Ministère dc
l’éducation nationale. Service central ,dc la statistique et dc la conjoncture, Les étudiants dans les universités, année
scolaire 1967-1968,Statistiques des enseignements, Tableaux et informations, 5-2, 67-68,
março dc 1968).
posição social, como a passagem por um
estabelecimento de ensino privado, numa inversão
próxima para direito c medicina (9,5%; 12,5%; 30%; 23%).
E constata-se ainda que a parcela das diferentes frações -
hierarquizadas segundo o capital econômico e o capital
cultural - de onde são oriundos os professores das
diferentes faculdades varia segundo a mesma ordem: a
parcela dos filhos de professores é máxima entre os
professores de letras (23,3%) e mínima entre os
professores de medicina (10%), enquanto os professores
de medicina (exceto fúndamentalistas) e sobretudo os
professores de direito sáo com mais frcqucncia
originários de membros de profissões liberais e de
dirigentes ou quadros9 dos setores públicos ou
privados.'*
De fato, uma análise mais apurada mostra que os
indivíduos classificados na mesma categoria profissional
apresentam propriedades diferentes segundo as
faculdades. Assim, além de serem muito menos raros que
cm direito ou em medicina, os professores das faculdades
de letras ou de ciências que sáo oriundos das classes
populares têm sua própria habilitação de ascensão, a
Escola normal de professores primários; ao contrário, nas
faculdades de direito ou de medicina, quase todos sáo
originários da escola primária privada. A mesma oposição
se encontraria nos professores que vêm dos métiers de
ensino (e que sáo muito mais representados em letras c
em ciências do que em direito). De sorte que é impossível
determinar, nos limites das informações disponíveis (e
também das populações envolvidas, sempre muito
restritas), se, tratando-se de indivíduos de mesma origem
cujas práticas e representações variam segundo a
faculdade ou a disciplina, devemos imputar essas
diferenças a diferenças secundárias dc origem ou ao
efeito das diferenças na trajetória (como o grau de
improbabilidade das carreiras consideradas) ou, sem
9
Do original, cadres, abrange o pessoal com funções dc comando ou dc controle, que possui os níveis salariais mais
elevados numa empresa ou no serviço público francês, notadamcncc os portadores de um diploma dc ensino superior.
(N.T.)
dúvida o caso mais frequente, a uma combinação dos
dois efeitos.
Nota relativa às tabelas que seguem
As tabelas abaixo apresentam a distribuição segundo
as faculdades - ciências, letras, direito e medicina - de
alguns indicadores do capital herdado ou adquirido (em
suas diferentes espécies).* Desistiu-se de apresentar a
distribuição por disciplina ensinada (que, na análise das
correspondências, intervém somente como variável
ilustrativa). Na verdade, os reagrupamentos
indispensáveis apresentam muitas incertezas. Seria
preciso juntar a mecânica às matemáticas ou à física
fundamental, a genética às ciências naturais ou à
bioquímica? A filosofia árabe clássica deveria ser posta
junto com o ensino de línguas e literaturas estrangeiras,
da mesma maneira que a filosofia inglesa ou alemã, ou
com as letras e filosofias antigas? E a demografia que se
ensina nas faculdades de letras estaria do lado da filosofia
(como indicam os anuários), da geografia ou das ciências
humanas? No que concerne ao direito, seria menos
legítimo classificar o ensino da história das ideias políticas
ou da história do pensamento econômico na seção de
história do direito do que organizá-
locom o direito público ou a economia política? As coisas
náo sáo mais claras em medicina e nem sempre é
possível distinguir, por exemplo, os
w
Dado o método utilizado, que é o da prosopografta (cf. Anexo i. As fontes utilizadas), certos indivíduos que foram
colocados na categoria dos náo determinados (ND) podem ter as propriedades contempladas.
clínicos dos cirurgiócs. Poder-se-ia multiplicar os
exemplos. Ocorre que cada uma das decisões suporia
uma enquete aprofundada em cada um dos meios
envolvidos. Preferiu-se portanto manter as grandes
divisões administrativas em ciências, letras, direito,
medicina, que, por mais vastas e convencionais que
sejam, abrangem mais, no momento da enquete, uma
realidade da vida universitária.
O conflito das faculdades
I - Indicadores demográficos e indicadores de capital herdado ou
adquirido
ciências letras direit medici total
o na
Sexo 11=128 n=i2 n=87 n=70 n=40
0 5
homens 91.4 9i>7 96,6 100,0 94,o
mulheres 8,6 8,3 3.4 - 6,0
Ano de
nascimento
antes dc 1900 i»3 3»3 2,3 1,6 2,5
1900-1904 13,4 8.3 9.2 15,9 H,5
1905-1909 n,o 15.0 13.8 21,8 14,6
1910-1914 21,9 20,0 21,8 25,9 22,0
1915-1919 14.3 10,8 9.2 15,9 12,5
1920-1924 21,9 23>4 21,8 «4,5 21,0
1925-1929 7>9 12,5 16,2 2,9 io,4
1930 e após 5,6 5,9 3.5 i»5 4,5
ND (náo i»7 0,8 1,2 1,0
-

determinado)
Esrado civil
solteiros 4,1 4.2 6,1 - 3,9
casados 89>3 92,5 92,5 98,5 92,4
divorciados 2,5 0,8 - i,5 1,3
viúvos 4,1
2,5 M - 2,4
Número de
filhos
solteiros 4>i 4.2 6,1 - 3,9
sem filhos 6,4 10,0 8,3 5,9 7,7
I filho 19.6 15.0 11,6 10,4 14,9
2 filhos 23,6 21,6 20,7 24,4 22,5
3 filhos I9»6 25,0 20,7 23,1 22,1
4 filhos 17.2 12,5 19.7 21,6 17,2
5 filhos e mais 9.5 10,9 12,8 12,9 11,2
ND - 0,8 - »,7 0,5
Lugar de ciênci letras direit medici total
nascimento as o na
Paris e periferia 29.3 37.5 19.5 51.2 33.3
outro 69,9 62.5 79.3 45.9 65.7
ND 0,8 1,2 2.9 1,0
Residência
Paris 16a, 1710, -6,4 13.4 36.9 58.6 24,0
8J, 7a + Neuilly
Paris 5*, 6*, I3\ *25,1 28.3 18,7 28.6 25.3
14* *7,2 10,0 12.9 5.7 8.9
Paris c outros “9.5 18.3 21.9 13.9
bairros 4.3
*7.2 15,8 5.9
2.8
subúrbios 78 e 8,7
92 (fora Neuilly)
outro
Religião BH
judeus 15.6 3.3 5.9 7.3 8,4
protestantes 6.3 9.* 10,5 5.9 7.9
católicos 7.8 I9>* 21,8 41.6 20,0
notórios
outras 70,3 68,3 62,0 45.2 63.7
CSP do pai
assalariado 8,6 10,0 3.5 1.5 6,7
agrícola
operário
empregado,
artesão,
quadro médio, 33.6 30,0 »9.5 II,4 25.7
professor
primário
engenheiro, 25,8 23.4 27,6 32,8 26,7
industrial.
quadro superior
oficial,
magistrado.

10 Essas cifras têm valor apenas indicativo devido à taxa elevada


de professores dos quais a informação não pôde ser obtida
(mais de 40%).
profissional 12,5 13.3 37.9 42,8 23.5
liberal,
administradores
professor, 19.5 23.3 H,5 10,0 17.2
intelectual
ND - - - 1.5 0,2
Who’s who 40,6 46,7 60,9 50,0 48,4
Bottin mondain 1,6 1.7 12,6 37.1 10,1
Condecorações
legião de honra '28,9 25,8 41.4 61,4 36,3
ordem do mérito *ii.7 3.3 8,1 8,6 7.9
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
II - Indicadores do capital escolar
Estudo ciência letras direit medici total
secundário no s o na
privado
i
passou pelo 9.5 12,5 29.9 22,9 I7.I
privado
unicamente 78,5 81,7 68,9 75.6 77.0
público
ENI 8,7 5.0 4,2
- -

NR 3.3 0,8 1,2 1.5 1.7


Liceu
grandes liceus 22,7 39,2 10,4 11,5 22,9
parisienses
outros liceus *7»4 22,4 »2,7 41,2 24,9
parisienses
liceu 39.7 30,0 52,6 24.3 37.5
província/estran
geiro
privado Paris 1,6 3.4 3>5 12,9 4.4
privado 4,7 4,2 19 >6 2,9 7.4
província
NR 3.9 0,8 1,2 7,2 2,9
Estudos superiores
passou por Paris 86,7 87.5 63,2 88,6 82,4
província *3»3 12,5 36,8 5.7 16,7
unicamente
NR - - 5,7 0,9
-

Estudos no
estrangeiro mtnm
attm
sim 7.8 8,4 10,4 4.5 7.9
nao 85,1 91,6 89,6 91.0 89,1
NR 7.1 - - 4,5 3.0
Concurso geral
laureado 10,1 14,1 6,8 5.7 9.8 75
O conflito das faculdadcs
III - Indicadores do capital de poder universitário
■■■■■ ciências letras direit medicin total
o a
Comitê 27.4 34.2 26,4 41.4 31.6
consultivo
.. , r. i
Pa' nas 26,6 51.7 40,2 15.7 35.0
académicas
Incituto
Instituto 10,2 3.3 5.7
. _
Academia - - - 12,9 8,1
nacional dc
medicina
Decano n.7 17.5 32.2 20,0 19,3
Diretor de 15.2 34.2 31.1 14.3 22,7
UER wm
■■■■■■■ m
■■■■
ciências letras direito medici total
na
Comissões 33.<$ 37.5 9.2 10,0 25.4
CNRS mÊÊÊ
ÊÊ
Direção 22,6 15.0 10,3 8,6 15.3
laboratório
CNRS
Ensino em 17.* 39.* 5*7 2.9 18,8
escolas
Colóciuios ■■
De ia 3 24,2 30,8 5»»7 28,6 32,8
4 e mais 46,9 31.7 26,4 37.1 36.3
nenhum 28,9 37.5 21,9 34.3 30,9
WÊÊ
mm
2.4 o,8 - 1.4 1,2
■■■
■■■
Traduções
sim 15.6 25.0 16,1 8,6 17*3
náo 84.4 75.0 83.9 9M 82,7

Homo academicus \ Pierre Bourdieu


V - Indicadores do capital de notoriedade intelectual
ciências letras direitomedicina coral
Livros de bolso , míimillll 11°’° ^ mi'»!! —
Artigos n
9.1
5.7
11.5
15.0
76
2.8
10,9
Artigos cm revistas e hebdomadários
Programas de TV
*4*9

65,7
29»9
Órgãos públicos
2,3 M,7
10,0
1,1
15.0
5>5
VI - Indicadores do capital de poder político ou econômico
ciências letras dircH medicJffl iWÂ
14,8 16,7
41.4
2.5
4.3
5.7
0,8
0,9
VIo Plano
12,8
28,7
1.4
Ensino escolas do poder 12,5^^^>3
Os indícios do capital econômico ou social detidos
atualmente pelos membros das diferentes faculdades
se distribuem segundo a mesma
estrutura, quer se trate da residência num bairro
chique, XVIa, XVIIe, VIII0, VIIe, Neully (6,4%; 13,4%;
36,9% e 58,6%, respectivamente), ou da inscrição no
Bottin mondain (1,6%; 1,7%; 12,6%; 37,1%) ou ainda
do domínio de uma família de três filhos ou mais
(46,3%; 48,4%; 53,2%; 57,6%) que mantem sem dúvida
uma ligação com 0 capital econômico (e também com
o capital social, ao menos potencial), ainda que ela
exprima também, evidentemente, disposições que
estão ligadas a outros fatores, como a religião e, em
particular, a adesão notória ao catolicismo, também
ela distribuída segundo a mesma estrutura (7,8%;
19,2%; 21,8%; 4I,6%). Esses indícios, muito pobres e
ÍO

muito indiretos, não podem dar uma ideia exata das


diferenças econômicas entre os professores de
ciências e de letras e os professores de direito e
sobretudo de medicina que acrescentam aos
rendimentos de sua função de professor e de chefe de
serviço hospitalar os proventos decorrentes de uma
clientela privada.^ Decorre que, do ponto de vista
unicamente dos tratamentos, observam- se sem
dúvida importantes diferenças entre as faculdades
pelo fato de que as diferenças no desenvolvimento
das carreiras ocasionam diferenças importantes na
soma dos tratamentos adquiridos ao longo da vida
ativa: nesse sentido, as faculdadcs de letras parecem
mais desfavorecidas, pelo fato dc que o acesso aos
postos de assistente e de mestre-assistente aí é
particularmente tardio (31 e 37 anos em média, contra
25 e 32 em ciências e 28 e 34 em direito em 1978)
assim como o acesso aos títulos de mestre de
conferência e de professor (43 e 50 anos, contra 34 e
43 em direito, 35 e 44 em ciências).“
Consequentemente, a duração média de um posto de
ranking A (mestre de conferência ou professor) é
particularmente breve aí, a saber, em 1978, 25 anos
contra 29 em medicina (onde se chega a mestre de
conferência aos 39 anos e ao professorado aos 49), 33
em ciências e 34 cm direito.*'
Basta observar que todos os indícios de poder
político e econômico, como a participação em órgãos
públicos (gabinetes ministeriais, Conselho
constitucional, Conselho econômico e social, Conselho
de Estado, Inspeção das finanças) ou cm comissões do
Plano, variam no mesmo sentido, enquanto a parcela
dos laureados do concurso geral, bom indício do
sucesso escolar no ensino secundário,12 e os
diferentes indicadores do investimento na pesquisa e
da consagração científica variam cm sentido inverso,
para descobrir que o campo universitário é
organizado segundo dois princípios de hierarquização
12
Os dados recolhidos para as ciências c a medicina permitem supor que as taxas de menção ao bacharelado variam
segundo a mesma lógica.
antagônicos: a hierarquia social segundo o capital
herdado e o capital econômico e político atualmente
detido se opõe à hierarquia específica, propriamente
cultural, segundo o capital de autoridade científica ou
de notoriedade intelectual. Esta oposição está inscrita
nas próprias estruturas do campo universitário que é
o lugar de confronto entre dois princípios de
legitimação concorrentes: o primeiro, que é
propriamente temporal e político, e que manifesta na
lógica do campo universitário a dependência desse
campo do ponto de vista dos princípios em vigor no
campo do poder, se impõe cada vez mais
completamente à medida que é elevado na hierarquia
propriamente temporal que vai das faculdadcs de
ciências às faculdades de direito ou de medicina; o
outro, que está fundado na autonomia da ordem
científica e intelectual, se impõe cada vez mais
claramente quando se vai do direito ou da medicina
às ciências.
O fato de que as próprias oposições que se
observam no interior do campo do poder entre o
campo do poder económico e o campo do poder
cultural se encontram assim no centro de um campo
orientado para a produção e a reprodução cultural
explica sem dúvida que a oposição observada entre os
dois poios desse campo apresenta algo de tão total e
que concerne a todos os aspectos da existência,
caracterizando dois estilos dc vida profundamente
diferenciados em seus fundamentos econômicos e
culturais, mas também na ordem ética, religiosa,
política.
C) conflito das faculdades
Gráfico 1 O espaço das faculdades. Análise das
correspondências: plano do pnmeiro e segundo eixos de
inércia - propriedades. (As variáveis ilustrativas estào em
letras minúsculas).
Ainda que o próprio objetivo da enquete tenha
naturalmente levado a privilegiar as propriedades ligadas
mais especificamente à Universidade e à vida universitária,
encontram-se, entre as informações obtidas, indícios
indiretos das disposições mais profundas, mais gerais, que
estão no princípio de todo o estilo de vida. É por isso que
se pode ver no celibato ou no divórcio de um lado e no
tamanho da família de outro, os quais contribuem muito
fortemente para produzir a oposição principal do campo,
um indício não somente dc integração social, segundo a
visão clássica, mas também da integração à ordem social,
enfim, uma medida do que se poderia chamar dc gosto
pela ordem.
Na verdade, mais do que decifrar uma a uma as
diferentes relações estatísticas, como por exemplo a que
une a taxa de divorciados, indício de uma fraca integração
da família, ao baixo número de filhos, indício presumido
de uma fraca integração da família e sobretudo dc uma
fraca integração à ordem social, seria necessário tentar
dominar tudo o que revela à intuição do senso social o
conjunto dos indícios associados ao polo temporalmente
dominante do campo universitário, família numerosa e
Legião de honra, voto na direita e ensino do direito,
catolicismo e ensino privado, bairro chique e Bottin
mondain, estudos em Ciências políticas ou na ENA e
ensino nas escolas do poder, origem burguesa e
participação em órgãos públicos ou cm comissões do
Plano, ou, algo ainda mais difícil porque se definem
sobretudo negativamente, todos os que estão associados
ao polo dominado, às opiniões de esquerda e ao título de
normalista, à identidade judia ou à condição de oblato da
Escola. Se esses conjuntos de traços buscam um
sentimento de coerência e de necessidade, é porque a
intuição do senso prático reconhece nele a coerência sem
intenção de coerência das práticas ou das propriedades
produzidas pelo mesmo princípio gerador e unificador. É
esta coerência no estado prático que é preciso restituir em
palavras prevenindo-se contra a tentação, desse modo
encorajada, de converter os produtos objetivamente
sistemáticos, mas não verbalizados e menos ainda
sistematizados, do habitus cm sistema explicitamente
totalizado, em ideologia elaborada.
O que se revela ou se denuncia no primeiro conjunto
de indícios é sem dúvida o que a linguagem ordinária dos
dominantes designa como seriedade, gosto pela ordem,
que é primeiramente uma maneira de se levar a sério e
levar a sério o mundo tal como ele é, de se identificar, sem
distância, com a ordem das coisas, ser aquilo que é ao
mesmo tempo um dever-ser. Quanto ao outro conjunto, o
que ele evoca, por suas faltas, suas lacunas, que são
também recusas, é o distanciamento, que é o inverso da
integração, a recusa de tudo o que faz entrar na ordem,
que integra no mundo normal os homens de ordem,
cerimônias, rituais, ideias recebidas, tradições, honras,
legiões de honra (“as honras desonram”, dizia Flaubert),
convenções e conveniências, enfim, tudo o que liga
profundamente as práticas mais insignificantes da ordem
mundana à manutenção da ordem social, com todas as
disciplinas que elas impõem, as hierarquias que elas
recordam, a visão das divisões sociais que implicam.*5
Sente-se muito bem a relação que une esta oposição à
oposição entre a direita e a esquerda, no sentido das
mitologias ainda mais do que no sentido da política.
Também seria preciso evocar o que opõe a pesquisa
científica, pensamento livre que conhece como limite
apenas ele mesmo, não somente a uma disciplina
normativa como o direito mas também a essa arte
cientificamente garantida que é a medicina, encarregada
de pôr a ciência em prática, e também de impor uma
ordem, a ordem dos médicos, isto é, uma moral, um modo
e um modelo de vida, como se viu a propósito do aborto,
em nome de uma autoridade que não é unicamente a da
ciência, mas a das “capacidades”, “notáveis” predispostos
por sua posição e suas disposições a definir o que é bom
e o que está bem (conhece-se a intensidade notável da
participação dos professores de medicina nos órgãos
públicos, nas comissões e, geralmente, na política, e as
funções de perícia junto aos governos e aos organismos
internacionais que os juristas exercem, sobretudo os
especialistas de direito internacional, de direito comercial
ou dc direito público).* Uma adesão à ciência que se
circunscreve nos limites da simples razão social, mesmo da
religião, combina bem com a relação de desconfiança que
a burguesia católica sempre mantém com a ciência e que
por muito tempo a levou a enviar seus filhos para o ensino
privado, garantidor da ordem moral, da família, e
sobretudo das grandes famílias (no duplo sentido), de sua
honra, de sua moral e de seus costumes e, dessa forma, da
reprodução dos filhos de famdiay filhos de médicos ou de
magistrados empossados médicos ou magistrados,
herdeiros legítimos, isto é, legitimados e inclinados a
herdar a herança como dignos sucessores, reconhecidos e
reconhecedores. Duas relações totalmente opostas à
ciência e ao poder remetem a posições passadas e
presentes totalmente opostas no campo do poder:
aqueles dentre os professores de ciências e de letras que,
oriundos das classes populares ou médias, devem
unicamente ao seu sucesso escolar seu acesso as classes
superiores, e também aqueles que vêm do corpo docente
se encontram muito fortemente inclinados a reinvestir
totalmente na instituição que tão bem retribuiu seus
investimentos anteriores e não estão muito motivados a
buscar outros poderes que não os universitários; ao
contrário, os professores de direito, um terço deles
oriundos da burguesia, acumulam com mais frequência
que os professores de ciências ou de letras funções de
autoridade na Universidade c posições de poder no
universo político ou mesmo no mundo dos negócios.
Enfim, é preciso ir além das velhas oposições que
dividiram todo o século XIX, Homais e Bournisien,
cientificismo e clericalismo, para compreender o que faz a
afinidade vital entre as disposições éticas e as disposições
intelectuais associadas às posições ocupadas nesse espaço
organizado sob a dupla relação do capital econômico e do
capital intelectual e das relações corrclatas a essas duas
espécies dc capital, no qual os judeus e os católicos
notórios ocupam os dois poios opostos, os protestantes
situando-se cm posição mediana, afinidade entre as
disposições heréticas ou críticas que manifestam os
ocupantes das posições socialmente dominadas e
intelectualmente dominantes e as rupturas críticas
associadas à prática científica, sobretudo nas ciências
sociais; afinidade entre as disposições do homem de
ordem (é por acaso que essas posições de ordem ocupam
tal lugar entre os filhos dc oficiais?), de ortodoxia, de
adesão direta e de direita a um mundo social tão
evidentemente conforme com as expectativas que
parecem evidentes, c a recusa inseparavelmente burguesa
e católica da ciência, dc suas questões e de seus
questionamentos inquietantes, críticos, hereticos, que
orienta com frequência os cientistas orgânicos —
principalmente os politécnicos — para as regiões do
pensamento onde a física e a metafísica, a biologia e o
espiritismo, a arqueologia e a teosofia se confimdcm.
O conflito das fàcuidades
Homólogo do campo de poder, o campo universitário
tem sua lógica própria e os conflitos entre as frações de
classe mudam completamente de sentido quando se
revestem da forma específica de um conflito das
faculdades” - para falar como Kant. Se os dois polos do
campo universitário se opõem fundamentalmente
segundo seu grau de dependência cm relaçáo ao campo
do poder e às imposições ou às incitações que ele propõe
ou impõe, as posições mais heterônomas nunca estáo
totalmente livres das exigências específicas de um campo
oficialmente orientado para a produção e a reprodução do
saber c as posições mais autônomas nunca estão
completamente isentas das necessidades externas da
reprodução social. Esta autonomia se afirma sobretudo na
existência de uma segunda oposição, que a análise das
correspondências revela e que repousa, neste caso, sobre
os critérios puramente internos do sucesso específico no
campo universitário, estabelecendo, no centro de cada um
dos setores definidos pelo primeiro fator, uma oposição
dividida e fortemente ligada às diferenças de origem
social, entre os detentores das diferentes espécies de
capital específico e os demais. Assim, aos que, sendo
frequentemente de baixa extração e provinciais (é também
neste setor que se encontram as mulheres), estão do lado
do poder incerto, porque frequentemente eletivo, que a
participação nas comissões do CNRS confere, e do poder
puramente universitário sobre a reprodução do corpo que
possibilita u pertencimento ao Comitê consultivo das
universidades, opõem-se os detentores das diferentes
espécies de capital específico, quer se trate do prestígio
científico (com a medalha de ouro do CNRS) ou do
prestígio intelectual, quase monopolizado pelos
professores das faculdades de letras e de ciências
humanas (com a publicação em tradução e em coleção dc
bolso, a participação no comitê de redação de revistas
científicas ou intelectuais, a publicação de artigos no Le
Monde, a aparição frequente na televisão). Dc fato, essas
diferenças na realização universitária (que estão
evidentemente ligadas à idade) estão tão estreitamente
associadas a diferenças sociais que parecem ser a
retradução na lógica propriamente universitária das
diferenças iniciais dc capital incorporado (habitus) ou
objetivado associadas a origens sociais e geográficas
diferentes, a realização da transformação das vantagens
herdadas cm vantagens “merecidas” que se operou pouco
a pouco, ao longo de um curso escolar especialmente
bem-sucedido (como testemunha a consagração pelo
concurso geral) e de uma carreira universitária realizada, e
sobretudo na ocasião de cada uma das escolhas das
seções, das opções, das instituições (com a passagem
pelos estabelecimentos secundários mais prestigiosos,
Louis-le-Grand e Henri IV) onde se encerra o espaço dos
possíveis.
Sabendo que as diferentes faculdades se distribuem
segundo uma estrutura quiasmática, homóloga da
estrutura do campo do poder, num polo as faculdades
cientificamente dominantes mas socialmente dominadas
e, no outro extremo, as faculdades cientificamente domi-
nadas mas temporalmente dominantes, compreende-se
que a oposição principal concerne ao lugar e ao
significado que as diferentes categorias de professores
conferem praticamente (e primeiramente no seu
orçamento-tempo) à atividade científica e à própria ideia
que têm da ciência. As palavras comuns, pesquisa, ensino,
direção de laboratório, etc., abrangem realidades
profundamente diferentes e, sem dúvida, sendo ainda
mais enganadoras hoje que a difusão do modelo
científico, sob os efeitos combinados da moda e das
imposições homogeneizantes da administração da
pesquisa, levaram o conjunto dos membros do ensino
superior a prestar essa homenagem obrigatória à ciência
que é o emprego de uma linguagem emprestada das
ciências da natureza para designar realidades
frequentemente muito distantes das coisas da ciência
(penso por exemplo na noção de laboratório).13
É por isso que, mesmo sem falar do direito ou das
disciplinas literárias mais tradicionais nas quais as palavras
novas dissimulam mal, com muita frequência, realidades
antigas, as faculdades de medicina propõem
frequentemente como pesquisa atividades muito distantes
do que se entende com esse nome nas faculdades de
ciências. Por exemplo, tal professor a quem se pedia para
dizer quanto tempo dedicava, entre outras coisas, à
pesquisa, podia responder: “Muito pouco, infelizmente,
porque náo tenho muito tempo. A pesquisa é sobretudo
um trabalho de direçáo, dc orientação das pessoas, de
obtenção dc financiamento, dc busca dos homens, muito
mais do que um trabalho propriamente dito. Náo sou eu
quem faz a pesquisa, eu ajudo as pessoas a fazê-la, mas
eu não a faço pessoalmente, ou enfim, relativamente
13
Nunca sc acabaria dc recensear os consequências - na maior parte das vezes prejudiciais ao avanço real da pesquisa
- da generalização do modelo das ciências da natureza sob o efeito conjugado do modelo organizacional c tecnológico
dessas ciências c da lógica burocrática que levaram um corpo dc administradores da pesquisa dispostos por sua formação c
por seus interesses específicos a uma visão propriamente tecnocrática a conhcccr c reconheccr apenas os projetos
concebidos a partir do modelo das ciências da natureza; é por isso que sc viu acumular toda uma série dc grandes empresas
com grande orçamento, aplicando “tecnologias de ponta e contingentas importantes dc OS da pesquisa, destinados às
tarefas parcelares que sozinhas podem engendrar os programas oriundos da aliança dc tecnocratas que ignoram tudo das
ciências que pretendem gerir ou mesmo diricir e de pesquisadores suficientcmcntc destituídos para aceitar que seus objetos
c objcuvos sejam impostos por uma “demanda social” elaborada no brainstorming confuso dos comitês, com.ssocs c outros
agrupamentos de "responsáveis” cientistas cientificamente irresponsáveis.
pouco, infelizmente”. E um outro, igualmente professor na
faculdade de medicina: “A pesquisa, eu mesmo náo a faço;
dada a minha idade, eu a dirijo, eu a supervisiono, eu a
subvenciono, tento encontrar fundos para subvencioná-la,
para a pesquisa; e o ensino, eu também o faço, sou aliás
obrigado a dar um mínimo de três cursos por semana,
portanto eu também faço o ensino sob a forma de curso,
e também sob a forma de reuniões de serviço que
fazemos ao menos uma vez por semana, onde se estudam
os casos especialmente difíceis, isso também faz parte da
pesquisa..., isso abrange ao mesmo tempo a pesquisa, o
ensino e o tratamento dos doentes”. 'Iudo leva a supor
que em casos como este, que náo tem nada de particular,
o patrão1* patrimonial, que sacrifica a pesquisa dita
pessoal à busca de meios dc pesquisa para pesquisadores
que ele só pode orientar no sentido burocrático do termo
desde que fique fora da condiçáo dc orientá-los no seu
trabalho científico, pode encontrar na indiferenciaçáo dos
papéis o meio de confundir as aparências, para si mesmo
e para os outros, atribuindo a um papel de pesquisador
um papel de diretor administrativo ou de administrador
científico.14
O trabalho dc acumulação c de manutençáo do capitai
social necessário para manter uma vasta clientela,
assegurando-lhe os benefícios sociais esperados dc um
“patrão”, participação cm comitês, comissões,
bancas, etc., supóc um grande dispêndio dc tempo e entra
portanto cm concorrência com o trabalho científico que é
a condição (necessaria) da acumulação e da manutenção
do capital propriamente científico (ele também sempre
mais ou menos contaminado pelos poderes estatutários).’0
O sucesso desta operação de acumulação também supóe
o sentido de colocação - o valor de uma clientela
dependente da qualidade social dos clientes - e depois a
; a França, o termo patron de thèse foi, c às vezes ainda c, utilizado para caracterizar o “diretor de te« ou o orientador
de tese”, tal como no Brasil. No entanto, optamos por manter o termo patrao somente quando ele aparece entre aspas no
texto original c c apresentado de forma irónica pelo autor. Nas demais situações o traduzimos por orientador dc tese. (N.T.)
A mesma coisa vale para os professores dc direito c, cm muitos casos, dc letras. Sobretudo os professores de direito
identificam frequentemente a pesquisa a trabalhos pessoais. ligados ao seu ensino: Eu nao exerço nenhuma funçáo na ordem
da pesquisa, portanto a questão e sem objeto. M A pesquisa que c preciso tozer nas condições atuais permanece uma
pesquisa que c puramente individual c que se fez por conta e a suas próprias custas. (...) Eu não posso dissociar o ensino c a
pesquisa. Toda atividade pedagógica implica uma pesquisa c toda pesquisa desemboca num momento ou noutro numa
atividade pedagógica. (...) Tudo o que fazemos, em condiçócs muito ruins, e imediatamente absorvido pela pedagogia e nos
falta totalmente o distanciamento para preparar a longo prazo uma pesquisa" (Professor de direito público, Paris).
habilidade, o tato, enfim, o senso social que sem dúvida
está particularmente ligado ao pertencimcnto antigo ao
meio e à aquisição precoce das informações e das
disposições adequadas: é por isso que os orientadores
esclarecidos deviam saber praticar a tolerância e o
liberalismo, conformes em todo caso com a definição
oficial da instituição, e sacrificar a homogeneidade política
(ou cicntífica) da clientela à sua qualidade e à sua extensão
(o que, como observa J. Nettelbeck, op. cit., p. 44, faria por
exemplo com que os candidatos de esquerda pudessem
ingressar no professorado, mesmo no direito).
Esta espécie de contaminação da autoridade
propriamente cicntífica pela autoridade estatutária
fundada no arbitrário da instituição está no princípio do
funcionamento das faculdades de direito e de medicina (e
também, certamente, das disciplinas literárias dc maior
peso social). Isso se vê primeiramente no fato de que o
rendimento do capital social, herdado ou adquirido nas
interações universitárias, cresce à medida que se distancia
do polo da pesquisa e que, por consequência, como
atesta o fato de sempre contribuir mais para determinar as
trajetórias, portanto as condições dc acesso tácitas às
posições dominantes, ele entra com uma parte cada vez
maior na composição dessa mistura com taxa variável de
justificativas técnicas e de justificativas sociais que faz a
competência estatutária do professor. Sabe-se que a
existência de grandes dinastias de juristas e de médicos,
que supõem bem mais que a simples hereditariedade
profissional ligada aos efeitos da transmissão do capital
cultural, não é um mito. Mas, além disso, a escolha do
patrão influente nunca é tão determinante quanto nas
carreiras médicas cm que o professor é, mais
evidentemente que alhures, um protetor, encarregado dc
assegurar a carreira de seus clientes, antes de ser um
Isso vale no conjunto das faculdades, o efeito dc contaminação que o poder universitário exerce sobre a representação
da autoridade científica sendo sem dúvida maior quando a competência cicntífica e menos autônoma e formalizada.
mestre, encarregado de assegurar a formação científica ou
intelectual de seus alunos ou de seus discípulos.51
O conflito das faculdadcs
O que se revela pela lógica social de admissão do
corpo é também o direito de entrada mais escondido, e
talvez o mais categoricamente exigido: o nepotismo não é
somente uma estratégia de reprodução destinada a
conservar na linhagem a posse de uma posiçáo rara; é
uma maneira de conservar algo de mais essencial, que
alicerça a própria existência do grupo, isto é, a adesão ao
arbitrário cultural que está no próprio fundamento do
grupo, o illusio primordial sem o qual náo haveria mais
jogo nem aposta. Levar em conta expressa e
explicitamente as origens familiares é apenas a forma
declarada das estratégias de cooptaçáo que se encontram
nos indícios da adesão aos valores do grupo e ao valor do
grupo (como a convicção’ ou o “entusiasmo” evocados
pelas bancas de concurso), nos imponderáveis da prática,
e até mesmo das maneiras e da manutenção, para
determinar aqueles que são dignos de entrar no grupo,
de fazer parte do grupo, de fazer o grupo. O grupo na
verdade só existe duradouramente como tal, isto é, como
algo transcendente ao conjunto de seus membros,
quando cada um de seus membros está assim disposto
que ele exista por e para o grupo ou, mais precisamente,
em conformidade com os princípios que estão no
fundamento de sua existência. Verdadeiro direito de
entrada no grupo, o que se chama dc “espírito de corpo”
(ou em suas diferentes especificações, o “espírito jurídico”,
“filosófico”, “politécnico”, etc.), isto é, esta forma visceral
de reconhecimento de tudo o que faz a existência do
grupo, sua identidade, sua verdade, e que o grupo deve
reproduzir para se reproduzir, só aparece como indefinível
porque é irredutível às definições técnicas da competência
oficialmente exigida na entrada no grupo. E, sc a herança
social exerce um papel tão importante na reprodução de
todos os corpos que têm relação com a reprodução da
ordem social é porque, como se vê no momento das crises
que uma mudança profunda na composição social dos
novos entrantes introduz, o que mais absolutamente
exigem essas espécies de clubes altamente seletivos é
aprendido menos pelas aprendizagens escolares do que
por experiências anteriores e externas e se acha inscrito no
corpo, sob a forma das disposições duráveis que são
constitutivas de um etos, de uma hexis corporal, de um
modo de expressão e de pensamento e de todos esses
“náo sei o quê” eminentemente corporais que são
designados pelo nome de “espírito”.’15
Como mostrei alhures, apoiando-me na análise dc
relatórios de agregação, as operações dc cooptação
sempre visam selecionar “homens”, pessoas totais,
habitus. Eis aqui um testemunho que concerne à
agregação de direito: “Nada dc programa definido: nada
de coeficientes, nem mesmo notação obrigatória; trata-se
dc julgar homens, náo de adicionar pontos. Cabe a cada
banca determinar seus critérios c métodos. A experiência
mostra a virtude desse “impressionismo”, mais seguro que
o enganoso rigor das cifras” (J. Rivero, La formation et le
recrutement des professeurs des facultés de droit
françaises, Doctrina, Revista de dcrecho, jurisprudência y
administration (Uruguay), t. 59,1962, p. 249-261. - Jean
Rivero era professor titular de direito administrativo e
diretor das conferências de agregação de direito público
na faculdade de direito de Paris). O recurso a uma
cooptação fundada na intuição global da pessoa total
nunca se impóe tão imperativamente quanto no caso dos
professores de medicina. Basta pensar com efeito no que
faz o “grande cirurgião” ou o “grande chefe” de serviço
hospitalar que deve exercer, frequentemente na
emergência, uma arte que, igual à do chefe de guerra,
implica o controle perfeito das condições de seu exercício
prático, isto é, a combinação do domínio de si e da
segurança necessários para atrair a confiança e o
devotamento dos outros. O que a operação de cooptação
deve revelar e que o ensino deve transmitir ou reforçar,
nesse caso, náo é unicamente um saber, um conjunto dc
conhecimentos científicos, mas um saber-fazer ou, mais
exatamente, uma arte de pôr
M
“Oh, no meu entorno, há médicos por tudo na minha família. Nós somos verdadeiramente uma grande família de
médicos. Meu pai portanto era médico; entre os quatro tios que cu tinha, tres eram médicos. Entre os oito primos que
tenho, há ao menos quatro ou cinco que sáo médicos, cu náo fiz a conta. Meu irmáo náo é médico, mas é dentista, ele é

15ortanto, a gente só concorria quando rinha padrinhos que eram suscetíveis de fazer parte da banca. Entre um agregado c
um cirurgiáo dos hospitais que náo era agregado náo havia diferença, j ^ fßrc8a^° n,;*0 cra um t,tu*0> ou melhor, era um título, mas
esse náo era um título difícil dc adquirir (Professor na faculdade dc medicina. Paris).
professor na Escola dc odontologia dc Paris. Verdadeiramente, quando há um almoço dc família, parece um comeUw de
faculdade" (Professor na faculdade dc mcdicina, Paris).
em prática o saber, e de fazê-lo com discernimento, na
prática, que é indissociável de uma maneira global de agir,
dc uma arte de viver, dc um habitus. É isso que evocam os
defensores de uma medicina e dc um ensino da medicina
puramente clínicos: “Era um ensino um pouco escolástico
[...]: aprendia-se isso por meio de pequenas questões...
Numa grande coisa como a febre tifóide, preocupava-se
relativamente pouco com o problema puramente
biológico. Bem entendido, sabia-se que era causada pelo
bacilo dc Eberth mas, desde que se soubesse, isso era o
suficiente. A medicina que estudávamos era uma medicina
de sintomas que nos ajudava a fazer um diagnóstico; não
era a medicina fisiopatológica cara aos americanos, que é
uma coisa excelente, que é preciso praticar [...]. Mas é uma
pena abandonar por esta medicina fisiopatológica a
medicina clínica na qual éramos muito fortes, que nos
permitia fazer diagnósticos e que, por consequência, era
uma medicina essencialmente prática”. O externato dos
hospitais era o lugar privilegiado dessa aprendizagem “na
prática”, pela familiarização ou pelo exemplo. Lá se
formava esta grande classe dos “bons médicos médios”
que “estiveram em contato com os doentes, com chefes
sérios”, e que, sem ser, a exemplo da elite dos internos,
“médicos dc primeiro plano, extremamente estáveis”,
“conheciam seu métier'. Durante o serviço dos plantões,
os externos podiam ter a experiência “das síndromes que
impõem uma decisão urgente” e “vivenciar com o interno
a aplicação dos elementos do diagnóstico, os exames
radiológicos, as hesitações, etc., a confrontação com o
cirurgião chamado para consulta {...] e no seu contato
residia verdadeiramente o trabalho na prática...” (Clínico,
1972). A demonstração do saber-fazer que o mestre dava
não tinha muita coisa em comum com a exposição
didática do professor, não requeria as mesmas
competências nem sobretudo a mesma concepção do
saber. Essa aprendizagem totalmente tradicional, quase
artesanal, que se fazia uma a uma, exigia menos
conhecimentos teóricos que um investimento de toda a
pessoa numa relação de entrega dc si ao chefe ou ao
interno c, através deles, à instituição e à “arte médica” (“E
em seguida sc participava da intervenção, ajudava-se o
interno ou em primeiro ou em segundo, e ficávamos
muito contentes”).
A comparação revela assim diferenças que determinam
limites à comparação. E, de fato, entre os clínicos e os
matemáticos, e até mesmo entre os juristas e os
sociólogos, há uma distância entre dois modos de
produção e de reprodução do saber e, mais amplamente,
entre dois sistemas de valores e dois estilos de vida, ou se
se quiser, entre duas maneiras de conceber o homem
realizado. Membro responsável e respeitável da elite,
engajado num papel inseparavelmente técnico e social
que implica todo um conjunto de responsabilidades
administrativas e políticas, o professor de medicina deve
frequentemente seu sucesso - ao menos tanto quanto ao
seu capital cultural — ao seu capital social, as ligações de
nascimento ou de aliança; e também a disposições tais
como a seriedade, o respeito aos mestres e a
respeitabilidade na condução da vida privada (atestada
sobretudo pela condição social do cônjuge e uma
abundante progenitura), a docilidade em relação às
disciplinas mais que escolares da preparação do concurso
de internato (“Aprender de cor e ser inteligente mais
tarde”, diz um informante) ou mesmo a habilidade retórica
que valem sobretudo como garantias da adesão a valores
e virtudes sociais."
A importância diferencial da herança profissional
segundo as faculdades e as discipl i nas explica-se (fora
dos efeitos d i retos do nepotismo) sc vemos aí uma forma
de antiguidade na profissão, própria a fazer com que -
todas as coisas, e sobretudo a idade, ainda que iguais - os
agentes oriundos do corpo possuam uma vantagem
considerável na competição porque possuem em alto grau
certas propriedades explicitamente ou tacitamente
exigidas dos novos entrantes: primeiramente, o capital
simbólico ligado a um nome próprio e capaz dc assegurar,
como uma marca famosa no caso das empresas, uma
relação duradoura com uma clientela conquistada antes;
cm seguida, o capital cultural específico cuja posse
constitui sem dúvida uma vantagem ainda mais poderosa
quando o capital em vigor no campo considerado,
faculdade ou disciplina, é menos objetivado, formalizado,
e se reduz mais completamente às disposições e à
experiência constitutivas de uma arte que so pode ser
adquirida longamente, e na primeira pessoa.14 O fato de
que a origem social dos professores e a idade de ingresso
no professorado tendam a baixar quando se vai das
faculdades de medicina e de direito às faculdades
» Tem-se frequentemente destacado a importância da retórica, ou da eloquência, nos concursos de internato (cf. J.
Hamburger, Conseil aux étudiants en médiane de mon service, Paris, Flammarion, 1963, p. 9'io).
M
Tudo permite supor que esta relação entre o grau de objetivação do capital cspecinco necessário à produção c à
comercialização dos produtos c as chances diferenciais dos novos entrantes, portanto a força das barreiras na entrada,
aparece em todos os campos, a começar pelo campo econômico propriamente dito. (Assim, náo é por acaso que, no interior
do campo dc produção cultural, é no setor do teatro e sobretudo do teatro burguês que sc encontra, ao longo do século XIX,
a maior hereditariedade profissional).
de letras e sobretudo de ciências (ou o fato de que os
professores de ciências econômicas e os fundamentalistas
sejam frequentemente mais jovens e com frequência
menos originários do corpo que os juristas e os clínicos)
explica-se sem duvida cm pavte pelo fato de que o grau
ao qual os procedimentos e as condutas de produção e de
aquisição do saber são objetivados em instrumentos,
métodos, técnicas - em vez de existirem unicamente no
estado incorporado — varia no mesmo sentido: os novos
entrantes, e sobretudo os que dentre eles são desprovidos
dc capital herdado, têm chances maiores e mais precoces
na concorrência com os antigos quando as capacidades e
as disposições requeridas ocupam um lugar menor, tanto
na produção quanto na reprodução do saber (em
particular na aquisição das capacidades produtivas), que a
experiência sob todas as suas formas e o conhecimento
intuitivo, fundado num longo processo de familiarização, e
quando elas estão mais formalizadas, portanto mais
próprias a se constituírem como objeto de uma
transmissão e de uma aquisição racional - isto é,
universal.«
O conflito das faculdades
Mas a oposição entre as duas faculdades, entre as
competências científicas e a competência social, encontra-
sc também no centro de cada uma das faculdadcs
temporalmente dominantes (e mesmo no centro da
faculdade dc letras e de ciências humanas que, desse
ponto de vista, ocupa uma posição intermediária). É por
isso que a faculdade de medicina explicita de alguma
maneira por si só a totalidade do espaço das faculdadcs (e
mesmo do campo do poder):’6 ainda que náo seja possível
atingir em algumas frases todos os aspectos, a oposição
Náo sc pode explicar completamente a oposição entre uma cicncia e uma arte sem considerar que as práticas
científicas estáo ligadas aos processos propriamente sociais dc objetivaçáo c dc institucionalização: pensa-se evidentemente
no papel da escrita, como instrumento dc ruptura com
o imediatismo mimético do pensamento entregue ao oral, ou no papel dc todos os simbolismos formais, sobretudo
lógicos ou matemáticos, que levam à sua realização os efeitos da objetivaçáo pela escrita, substituindo a intuição, ainda que
seja geométrica, pela lógica autônoma do simbolismo c sua evidencia própria, “a evidência ccga” segundo a palavra de
Leibniz, que surge dos próprios símbolos (Leibniz também a chamara dc evtdentia ex terminis). É claro que esses avanços na
objetivaçáo dos métodos dc pensamento sempre sc realizam cm c por formas sociais que eles pressupõem c que levam à sua
realização (a dialética, donde saiu a lógica, sendo por exemplo indissociável da discussão institucionalizada, «pccic dc
combate entre dois adversários na presença de um público); e poder- sc-ia distinguir as disciplinas segundo o grau dc
racionalização e de formalização das formas dc comunicação que elas empregam.
Podcr-sc-ia descrever a partir do mesmo modelo as relações entre o direito c as ciências econômicas tal como sc
estabelece no final de um processo dc automatização que retirou as ciências econômicas do estatuto dc disciplinas
auxiliares (cf. L Lc Van-Lemesle, L’économie politique à la conquête d une légitimité (1896-1937), Actes de la recherche en
sciences sociales, 1983,47-48, p. 113-117).
complexa e multidimensional entre os clínicos e os
biólogos das faculdades dc medicina (de resto tão
diferentes, no seu passado social e escolar, dos biólogos
das faculdades de ciências) pode ser descrita como a da
arte orientada por uma “experiência” sustentada pelo
exemplo dos antigos que se adquire com o tempo, na
atenção a casos particulares, e pela ciência* que náo se
contenta com sinais exteriores servindo de base para um
diagnóstico, mas quer apreender causas gerais. ' Princípio
de duas concepções totalmente diferentes da prática
médica, a primeira, que confere o primado à relação
clínica entre o doente e o médico, ao famoso “colóquio
singular”, base dc toda defesa da medicina “liberal”, a
segunda, que privilegia a análise de laboratório e a
pesquisa fundamental, esta oposição se complica pelo
fato de que a arte e a ciência mudam de sentido e de
valor conforme o papel de direção ou de subordinado que
lhes damos. Os clínicos se acomodariam bem numa
pesquisa diretamente ordenada a suas exigências e os
imperativos da rentabilidade econômica foram invocados
para conter ou manter os fundamentalistas numa função
puramente técnica de pesquisa aplicada, que consiste
essencialmente em utilizar, a pedido dos clínicos, métodos
de análise comprovados, mais do que buscar métodos
novos e causar problemas a longo prazo* frequentemente
indiferentes c inacessíveis aos clínicos. Quanto aos
fundamentalistas, até então socialmente dominados,
aqueles dentre eles mais bem situados para reivindicar a
autoridade da ciência (isto é, mais os especialistas de
biologia molecular, em ascensão, que os anatomistas, em
declínio) tendem cada vez mais a afirmar, em nome dos
avanços da terapêutica trazidos pela ciência, os direitos de
uma pesquisa fundamental totalmente liberada das
flinçóes de puro serviço técnico
e, certos do prestígio de sua disciplina científica, sc fazem
os defensores de uma medicina moderna, livre das rotinas
que encobrem dos seus olhos a visão “clínica” e a
ideologia do “colóquio singular ’. Nesta luta, os
fundamentalistas parecem ter para si o fiituro, isto é, a
ciência, c de fato os mais prestigiosos entre eles, que os
mais apegados à imagem antiga da medicina colocam
acima dos clínicos ordinários, vêm questionar
» Esta oposição é totalmente homóloga à que se estabelece, num outro campo, entre engenhe.ro c arauiteio- neste caso, o
homem da arte pode invocar as necessidades imprescnnveis da Arte (c secundariamente da arte dc viver, isto é, do
“homem") contra as imposições inumanas e inestéticas da técnica.
a rcpresentaçao até entáo perfeitamente unificada e
simplesmente hierarquizada do corpo professoral.
Os fundamentalistas apresentam propriedades sociais c
escolares que os situam entre os professores de ciências e
os clínicos. Assim, embora sejam muito parecidos às
outras categorias de professores de medicina para a
geração dos pais (posta à parte uma representação
ligeiramente superior dos filhos de pequena burguesia),
eles parecem mais próximos dos cientistas para a geração
dos avôs: as chances de pertencer a uma família cuja
antiguidade na burguesia, medida a partir da profissão do
avô paterno, é de ao menos duas gerações sáo de 22%
unicamente para os fundamentalistas, contra 42,5% para
os clínicos, 54,5% para os cirurgiões (e 39% para o
conjunto dos professores dc medicina) e de 20% para os
professores de ciências. Sem duvida, oriundos de famílias
menos antigas e menos aquinhoadas, os fundamentalistas,
que diferentemente dos clínicos e dos cirurgiões não se
beneficiam de duas fontes de renda, o tratamento c a
clientela, residem com muito menos frequência nos
bairros chiques, estão com muito menos frequência
inscritos no Who's who e sobretudo no Bottiti mondain - c
é surpreendente que, como os cientistas, abranjam uma
parte relativamente importante de judeus. Essas diferenças
sociais sáo suficientes, num universo socialmente muito
homogêneo e muito preocupado com sua
homogeneidade, para instituir dois grupos socialmente
distintos e antagônicos, como testemunha entre outros
indícios o fato de que a maioria dos informantes, e sem
dúvida o conjunto dos professores, parece superestimar
essas diferenças: “Aquele que e um pouco maluco faz
pesquisa: sáo os jovens oriundos dos meios pobres que
vão para a pesquisa, em vez de sc preocupar em fazer o
que se chama de uma bela carreira” (Entrevista,
fundamentalista, 1972). Tudo parece indicar em todo caso
que essas diferenças se traduzem cm oposições políticas:
os fundamentalistas sc situam mais à esquerda enquanto
os clínicos e sobretudo os cirurgiões, cujo prestígio
propriamente científico é baixo - ainda que flutue cm
função da opinião do grande público, com o sucesso dos
implantes, por exemplo - e que são a ponta de lança de
todos os movimentos de conservação, organizam-se
sobretudo à direita (estas duas categorias parecem ter se
agrupado maciçamente no Sindicato autônomo que sc
criou em maio de 1968, a partir do modelo das faculdades
de letras e de ciências, e que detém todas as posições de
poder administrativo).
Sem dúvida esta oposição, que pode receber
conteúdos diferentes seuundo os campos, constitui um
invariante dos campos de produção cultural, no qual o
campo religioso fornece o paradigma, com a oposição
entre a ortodoxia e a heresia. Assim como veremos se
opor no interior das faculdades de letras e de ciências
humanas, a ortodoxia dos professores canônicos,
passados pela via real dos concursos, e a heresia
temperada dos pesquisadores e dos professores marginais
ou originais, frequentemente alçados à consagração por
vias transversas, tambem se distinguem, no interior das
faculdades de medicina, os defensores de uma ordem
médica inseparável de uma ordem social e fundada nos
concursos e seus ritos de consagração destinados a
assegurar a reprodução do corpo e os inovadores
heréticos que, assim como os inspiradores da reforma dos
estudos médicos, chegam por vias tortuosas, isto é, com
frequência, do estrangeiro (dos Estados Unidos
principalmente) e que, por não possuírem os títulos sociais
que abrem o acesso as posiçoes socialmente dominantes,
encontraram em instituições marginais, mais ou menos
prestigiosas, Museu, Faculdade de ciências, Instituto
Pasteur, Colégio de França, a possibilidade de perseguir
uma carreira de pesquisador mais bem-sucedida
cientificamente que socialmente.» Esta espécie de
antinomia entre a ciência e a respeitabilidade social, entre
a carreira desviante e arriscada do pesquisador e o curso
mais garantido mas também mais limitado do professor,
remete as diferenças inscritas na objetividade das posições
institucionais, à sua dependence ou independência no que
toca aos poderes temporais, e tambem as diferenças nas
disposições dos agentes, mais ou menos inclinados ou
condenados à conformidade ou à ruptura,
inseparavelmente centihca e social, à submissão ou à
transgressão, a gestão da ciência estabelecida ou à
renovação crítica da ortodoxia científica.
5 Vão i necessário falar dos efeitos propriamente científicos da hierarquia que se estabeleça
en, «"c^S^u. destinava algunjeadeiras fundamentais (como a dtedra de
passar de simples posições de espera antes do acesso a uma cade.ra mats prestlg.osa de dinca (sob* Ss esses pLfjH—* 1er o
belo estudo dc H. Jamous, * U
décision. La réforme des études médicales et des études hospitalières, Paris, CES, 1967)-
Competência científica e competência social
f i j jOC*eremos reconhecer, nas diferentes formas da oposição
entre as faculdades (ou as disciplinas) temporalmente
dominantes e as faculdades (ou as disciplinas) mais
voltadas à pesquisa científica, a distinção que Kant fazia
entre dois tipos de faculdades: de um lado, as três
“faculdades superiores (temporalmente), isto é, a
faculdade de teologia, a faculdade dc direito e a faculdade
de medicina, que, sendo capazes de proporcionar ao
governo a mais forte e mais durável influência sobre o
povo”, são as mais diretamente controladas por ele, as
menos autônomas nesse sentido ao mesmo tempo que as
mais diretamente encarregadas de formar e de controlar
os usos práticos e os usuários comuns do saber, padres,
juizes, médicos; do outro, a “faculdade inferior” que, não
tendo nenhuma eficácia temporal, está abandonada “à
própria razão do povo erudito . isto e, às suas próprias
leis, quer se trate de ciência histórica e empírica (história,
geografia, gramática, etc.) ou de ciência racional pura
(matematica pura ou filosofia pura). Do lado do que,
sempre segundo Kant, constitui “dc alguma maneira a
direita do parlamento da ciência”, a autoridade; do lado
da esquerda, a liberdade dc examinar e objetar;» as
faculdades dominantes na ordem política têm por fiinção
formar agentes de execução capazes de aplicar sem
discutir nem questionar, nos limites das leis de uma ordem
social determinada, as técnicas e as receitas de uma
cienciaque não pretendem nem produzir nem transformar;
no lado oposto, as faculdades dominantes na ordem
cultural estão destinadas a atribuir-se, dada a necessidade
da construção dos fundamentos racionais da ciência que
as outras faculdades se contentam em inculcar e aplicar,
uma liberdade que é proibida às atividades de execução,
ainda que sejam ráo respeitáveis na ordem temporal da
prática.
A competência do médico ou do jurista é uma
competência técnica juridicamente garantida, que dá
autoridade e autorização para se servir de saberes mais ou
menos científicos: a subordinação dos fundamentalistas
aos clínicos exprime esta subordinação da ciência a um
poder social, que lhe atribui suas funções e limites. E a
operação
Lrial!™'™'' Uc°"fti“Usf“cul,és- Pa™. Vrin, 1953, p. 14-, s c 37. A validade pardal da descrição
3q U d o
da Tf “ ' “mP° universitário e convida a uma comparaL metódica das diferentes tradições
P
nacionais nas diferentes épocas ^

que as faculdades superiores realizam, no sentido de Kant,


cm parte vem da magia social que, como nos ritos
iniciáticos, tende a consagrar inseparavelmente
competências sociais e competências técnicas. A
genealogia da ideia de clínica que estabeleceu Michel
Foucault evidencia esta dupla dimensão, técnica e social,
da competência médica; ela descreve a instituição
progressiva da necessidade social que alicerça a
importância social dos professores de medicina e
distingue sua arte de todas as competências técnicas que
náo conferem nenhuma autoridade social particular (como
a do engenheiro). A medicina é uma ciência prática cuja
verdade e sucessos interessam à nação inteira, e a clínica
“figura como uma estrutura essencial à coerência
científica, mas também à utilidade social” da ordem
médica, “ponto de contato por onde a arte de curar entra
na ordem civil” (como dizia um reformador do passado).16
E se poderia mostrar na mesma lógica que o próprio
exercício do ato clínico implica uma forma dc violência
simbólica: sistema dc esquemas de percepção mais ou
menos formalizados e codificados que é mais ou menos
completamente incorporado pelos agentes médicos, a
competência clínica só pode funcionar praticamente, isto
é, aplicar-se adequadamente ao caso particular - numa
operação análoga à do ato de jurisprudência do juiz -
apoiando-se nos indícios que lhe fornecem os pacientes,
indícios corporais (como os edemas ou os rubores) e
indícios verbais (como a informação sobre a frequência,
duração e localização dos indícios corporais visíveis ou
sobre a frequência e duração das dores, etc.) que, na
maior parte, deveriam ser suscitados pela etiquete clínica.
Mas esse trabalho dc produção dos sintomas que leva ao
diagnóstico (verdadeiro ou falso) acuniccc, como mostram
as análises dc Aaron Cicourel, numa relação social
dissimétrica em que o perito está habilitado a impor seus
próprios pressupostos cognitivos sobre os indícios
fornecidos pelo paciente sem ter que questionar a
diferença, geradora de mal-entendidos e de erros de
diagnóstico, entre os pressupostos tácitos do paciente e

16
Citado por M. Foucault, Naissance dc la clinique. Une archéologie du regard médical, Paris,
seus próprios pressupostos explícitos ou implícitos quanto
aos sinais clínicos, e da mesma forma sem colocar como
tal o problema, fundamental, da tradução do discurso
clínico espontâneo do paciente para o discurso clínico
codificado da medicina (como, por exemplo, a passagem à
inflamação do rubor designado ou nomeado). Outra
questáo eminencemente repelida é a dos efeitos
cognitivos do tempo de aquisição da informação, a
limitação do repertório cognitivo do perito (as questões
não postas) ou da aptidão a mobilizá-lo que pode se dar
pela falta de experiência mas também, e sobretudo, pela
precipitação ou prevenção (com as leading questions)
impostas pela urgência.
O conflito das faculdades
De maneira geral, o progresso, no interior de cada
faculdade, das disciplinas científicas corresponde à
substituição de uma necessidade científica socialmente
arbitrária por uma necessidade social cientificamente
arbitrária (um arbitrário cultural)/1 Ainda que a ciência
tenda a ver atribuído a si um reconhecimento social e,
desse modo, uma eficiência social que vão crescendo à
medida que os valores científicos são mais amplamente
reconhecidos (sobretudo sob o efeito das mudanças
tecnológicas e da ação do sistema de ensino), ela só pode
receber sua força social do exterior, sob a forma de uma
autoridade delegada que pode encontrar na necessidade
científica, a qual ela institui socialmente, uma legitimação
de seu arbitrário social. Mas esta autoridade estatutária
pode manter a mesma relação de legitimação circular com
uma arte, como a clínica, ou com uma tradição erudita,
como a teologia, o direito, ou mesmo a história da
literatura ou da filosofia, cuja necessidade,
fundamentalmente social, repousa em última análise
numa “opinião comum dos doutores”, enraizada não
apenas na necessidade racional da coerência e da
compatibilidade com os fatos mas na necessidade social
de um sistema de disposições objetivamente orquestradas
e do arbitrário cultural mais ou menos objetivado e
codificado no qual ele sc exprime. Sabc-se que as
construções ideológicas que indivíduos ou grupos
artísticos ou políticos podem produzir para dar às suas
“escolhas” nos mais diversos domínios, políticos, estéticos,
éticos, as aparências da coerência, apresentam-se de fato
como combinações de elementos logicamente díspares
que só se mantêm juntos pela força integradora das
disposições ou das posições comuns; de modo que
disciplinas que, como a história da filosofia, da arte ou da
literatura, tratem como autônomas construções que em si
mesmas não têm nem toda sua razão nem toda
*' Náo é por acaso que a faculdade dc direito foi táo lenta para renunciar aos sinais externos da autoridade estatutária, o
arminho e a toga sendo instrumentos indispensáveis ao trabalho de representação c dc explicitação da autoridade dos textos c
dc seus intérpretes que integram o próprio exercício da função, isto é, o ato de produzir o direito.
sua razão dc ser, ou que, como a filosofia do direito, a estética
ou a ética, tendam a dar por estribado na unidade da razáo o
que de fato repousa sobre a unidade da crença ou, numa
palavra, sobre a ortodoxia de grupo, redobram simplesmente
o efeito próprio dessas construçoes qu Lide precisamente na
ilusão da gênese puramente racional e franca de
toda determinação.4* „ . .
E se o lugar dedicado a tudo o que pode assegurar a coesão
social
do grupo dos doutores e principalmente todas as formas de
cooptaçao
(cujo é o nepotismo) destinadas a garantir a
l im it e

homogene,dade durável
Homo academicus | Pierre Bourdieu
dos habitus tende a crescer quando se vai dos físicos ou
clínicos ou juristas, é sem dúvida porque a necesstdade de
estabelecer na
unidade social do grupo a unidade intelectual da commun,s
doctorum opmw
se impóe mais fortemente quando a coerênc.a propriamente
cientifica
mais incerta e a responsabilidade social do corpo é mator,-
como se ve
particularmente bem no caso dos juristas, um corpo de
responsáveis
náo pode sem comprometer seu capital de autoridade se
apresen
ordem dispersa, à maneira dos intelectuais, e, amda que ele
deva fazer
desaparecer da “razão escrita” as contradições que são os
traços™
dos conflitos de onde ele vem e as questões que levariam a
descoberta dc
suas verdadeiras funções, ele deve afastar preventivamente
todos os que
poderiam ameaçar a ordem do corpo dos guardiões da ordem.
98 Seria necessário examinar aqui os contratos
tácitos de delegação
que embasam a autoridade das diferentes faculdades,
atribuindo à sua liberdade limites ainda mais estritos quando a
responsabilidade socai que lhe é concedida é mais importante;
e analisar as representações que os usuários privilegiados das
instituições de ensino superior isto é, os membros da classe
dominante - têm das funções dessas instituições. Como mostra
claramente a analise das respostas consulta nacional sobre o
ensino de 1969, a propensão a privilegiar as

33 S££Es= S^-“ 5
funções sociais da Universidade em relação às funções
propriamente científicas, a atribuir por exemplo o primado à
“formação dos quadros da nação” sobre o avanço do
conhecimento científico, cresce quando se vai dos membros
das frações dominadas aos membros das frações dominantes;
e igualmente quando se vai dos professores das faculdadcs de
ciências aos professores das faculdades de direito e de
medicina. De maneira que a coincidência das funções que os
professores conferem à sua ação pedagógica e das que os
destinatários privilegiados desta ação lhe atribuem tende a
crescer no mesmo sentido (e igualmente a improbabilidade dc
uma espécie de secessão ao final da qual os professores
exerceriam sua autonomia relativa para satisfazer seus próprios
interesses). A suspeição que as frações dominantes sempre
experimentam, e às vezes manifestam, sobretudo no período
posterior a 1968, em relação às faculdades, lugar de
“corrupção da juventude”, dirige-se antes de tudo às
faculdades de letras e de ciências humanas e,
secundariamente, às faculdadcs de ciências, muito menos
“seguras”, cm razão dos efeitos de “contaminação”, como dizia
um chefe de empresa numa entrevista, do que as grandes
escolas. Como se se estivesse pronto para romper o contrato
de delegação desde que apareça a possibilidade de que a
realização das funções técnicas de formação técnica ameace
ou comprometa a realização das funções sociais.
O conflito das faculdadcs
Coinpreende-se melhor, à luz dessas análises, o verdadeiro
significado das diferenças políticas entre as faculdades que se
pode estabelecer a partir das informações públicas ou
diretamente recolhidas de uma fração (muito variável segundo
as faculdades) dos professores. Frequentemente estranhos à
política e em todo caso pouco inclinados a tomar posição
publicamente nessas matérias, os professores de ciências
(permanecendo pouco sindicalizados) parecem pender
ligeiramente para a esquerda. Contrariamente à representação
comum, os professores das faculdades de letras e de ciências
humanas situam-se sem dúvida, globalmente, menos à
esquerda que os professores de ciências, isto é, com mais
frequência no centro-direita ou à direita que à esquerda; e isso
no nível dos posicionamentos públicos (como as petições ou
as listas de apoio), a minoria de esquerda sendo muito mais
fortemente representada, portanto muito mais visível (a fortiori
quando se reintroduz o conjunto do corpo docente,
assistentes e mestres-assistentes incluídos), o que se
compreende quando se sabe que a incitação social em se
declarar publicamente sobre
os problemas politicos é mais forte, nesta quadra da
história do campo intelectual, quando nos situamos mais
próximos do polo intelectual do campo universitário,
portanto mais à esquerda. Frequentemente inclinados à
indiferença política daqueles para quem a ordem social vai
muito bem e pouco instigados pela incongruência das
manifestações públicas, os professores de medicina, exceto
os fundamentalistas, situam-se quase todos no centro ou à
direita. Quanto aos professores de direito, mais fortemente
investidos na política que os professores de medicina, mas
sem dúvida menos maciçamente concentrados à direita,
estão mais inclinados a tomar posição publicamente sobre
os problemas políticos, sobretudo talvez quando eles
pertencem à minoria esquerda.44
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Esta análise supõe e introduz uma reflexão sobre o que
é preciso entender por opinião política de um agente e
sobre as condiçoes de sua apreensão e de sua medida, isto
é, sobre a relação entre a opinião política que se pode
chamar de privada (a que se afirma entre íntimos ou na
solidão da urna eleitoral) e a opinião política pública. Sabe-
se, e se pôde verificar interrogando informantes (seus
estudantes ou outros professores) sobre as opiniões
políticas de tal ou tal conjunto de professores, que as
opiniões sobre as opiniões políticas dos outros
111 variam, em certos limites, em função das opiniões
políticas dos juizes
(portanto dos sistemas de critérios explícitos ou
implícitos empregados para distribuir os agentes entre a
direita e a esquerda e sobre os quais não 100 existe
acordo entre a direita e a esquerda), mas também segundo
uma
definição, frequentemente implícita, da opinião política
verdadeira ,
-- “autêntica”, isto é, na realidade das condições em
que esta opinião se
manifesta “verdadeiramente”.4* De fato, se admitimos
que a opinião
« No comitê universitário de apoio à candidatura de Valéry Giscard d’Estaing (le Quotidien de Paris, «7 de maio
de .974). os professores de medicina, de direito e de cienaas econôm.^ estao muito fortemente representados, sobretudo cm
Paris: respectivamente 28 e 18 de 64 (cornu 10 de letras e o de ciéncias) cm Paris e 18 c 14 de 47 (contra 8 de lctras e 7 de
otocias ) na Provinc*(c™ Paris contam-sc além disso 5 membros do Instituto. ï professor do CNAM). As diferentes listas de
apoio a François Mitterrand náo permitem uma análise muito precisa pelo fato de ^ostkulos, quando indicados, sáo muito
vagos. Mas as faculdades de letras e de cencias estao fortemente
representadas. , , . „ „.
« Quando sc consideram os posicionamentos públicos como mais verdadeiros - ou sinceros” - que as opiniões privadas, as
confidências aos íntimos por exemplo, esquece-se tudo o que as manifestações públicas podem ter de obrigatório , c ate
mesmo de forçado semjseiem necessariamente menos “sinceras" - enquanto, por exemplo, elas lazcm parte dc um papel a
manter de uma identidade social a defender, etc. Poder-se-ia, nesta perspectiva. analisara influencia que a opiniáo comum
relativa à opiniáo “verdadeira” dc um agente - X c dc esquerda - pode excrccr,
política seja a opiniáo manifestada numa expressão visível
(segundo a fórmula platônica: “opinar é falar”), vê-se que,
como tal, a opiniáo po itica se definira na relação entre as
disposições éticas ou as inclinações propriamente políticas
c o mercado ao qual deve ser oferecida a opiniáo expressa.
Ignoram-se quase sempre as variações resultantes do
efeito e mercado (cujo efeito de enquete, variável segundo
as características sociais da enquete, é um aspecto) e,
principalmente, para um grupo determinado, a distância
entre as tendências que partem das opiniões privadas,
enunciadas no modo de confidência entre íntimos, ou, na
relação de enquete, protegida pelo anonimato e à custa de
diferentes ormas de eufemização (“centro” sendo posto
para “direita”, por exemplo), e as que partem das opiniões
publicamente professadas, dos manifestos e das
manifestações, e que têm por natureza se impor como o
normal ou como a norma do grupo, como a opiniáo modal
e na moda, à qual nos sentimos obrigados a nos
conformar, ainda que pelo silenco e pelo segredo. A
atenção a esta distância é indispensável para evitar imputar
a repentinas reviravoltas ou a bruscas conversões
posicionamentos que, como as tomadas de decisão dos
tempos dc crise, ligadas a um reforço generalizado da
tendência à publicação das opiniões, sao cm parte
imputáveis aos efeitos de mercado.«6 _
O conflito das faculdades
A análise de uma amostra aleatória dos membros do
Sindicato nacional do ensino superior em 1969 estabelece 101
que, para os professores de ciências,
de letras, de medicina e de direito respectivamente, as
taxas de inscrição sao de 15%, 30%, 6% (quase todos
admitidos entre os fiindamentalistas) e 1%, as taxas de
participação no Sindicato autônomo, mais à direita,
variando sem dúvida no sentido inverso. (Em maio de
1983, os professores ahliacos ao SNESup repartiam-se
assim entre as diferentes faculdades:
Direito, 1,2%; Medicina, 3% e Farmácia, 1,2%; Letras, 26,1%,
sendo 1,9% em sociologia, 1,1% em ciências da educação,
1,3% em psicologia, 1,9% em nlosona, 4,8% em literatura,
2,7% em história, 2,50/0 em geografia, 1,6% em
cm thvcrcas circunstâncias sobre seus posicionamentos públicos, estes podendo ter por princípio a intenção de confirmar ou
de desmentir aquela opiniáo.
dc °,',rldC PCT“PÇâ° apa Cr
T “ Profes°"* «Ic faculdades dc 1er« como globalmente
0 fc ,dad
*" E*" “ " "- meifos
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m2 oTZtt™ P CmC COm dc dteta
° •P“W«m e se aparecerem como hcríticos
Zinr» J enquanto, como se vê em maio de .968, eles têm do seu lado, na
t~rcCo“ OS P“'— H/..-COS • « compromissos jornalísticos, a grande
linguística, 7,8% em línguas; Ciências, 56,3%, sendo
16% em matemática, 16,4% em física, 1,6% cm
geologia, 7,1% em química, 15,2% em biologia e
1% em engenharia mecânica e engenharia civil.)
Nossa análise dos resultados da consulta nacional
da AEERS de 1969 permite adiantar, apesar dos
limites inerentes a toda amostra espontânea, que
os posicionamentos dos professores das diferentes
faculdades sobre o sistema dc ensino, quer sc trate
por exemplo da introdução das liberdades sindicais
ou políticas na Universidade ou da transformação
do sistema de admissão dos professores, são
também estritamente homólogos às posições de
sua faculdade no sistema das instituições de ensino
superior (estando entendido que as opiniões sobre
o sistema universitário e suas transformações
nunca são determinadas diretamente pela origem
social e se definem na relação entre uma
disposição e uma posição: é por isso que os
“milagrosos”, que devem tudo ao sistema, estão -
sendo em tudo iguais, aliás - entre os defensores
mais intratáveis do sistema e de suas hierarquias).
A oposição que Kant estabelecia entre as duas
categorias de faculdades, as primeiras submetidas
à ordem temporal a que servem, as segundas livres
de todas as disciplinas e de todos os limites
mundanos, encontra sua plenitude, e seu limite, na
relação entre as disciplinas jurídicas e as ciências
sociais que, introduzindo a liberdade, ou mesmo a
irresponsabilidade característica das faculdades
temporalmente inferiores no terreno reservado das
faculdades superiores, vêm pouco a pouco
disputando o monopólio do pensamento e do
discurso legítimo sobre o mundo social: de um
lado, uma ciência da ordem e do poder, visando a
racionalização, no duplo sentido, da ordem
estabelecida; de outro, uma ciência da ordem e do
poder, visando não pôr em ordem as coisas
públicas, mas pensá-las como tais, pensar o que é a
ordem social, e o Estado, ao reduzir a ordem e o
Estado estabelecidos, pela comparação histórica ou
pela variação imaginária, a um simples caso
particular 110 universo das possibilidades
realizadas ou realizáveis.4' Operação menos
anódina do que pode parecer, uma vez que supõe
colocar em suspenso a adesão ordinária ao estado
das coisas, o que, para os guardiões da ordem, já é
uma ruptura crítica ou um testemunho de
irresponsabilidade.
** Uma oposiçáo idêntica sc observa, no interior das faculdades de letras, entre a sociologia e as disciplinas
canônicas que ela pode tomar como objeto (sociologia da educação) ou da qual ela pode tomar o objeto
(sociologia da arte, da literatura ou da filosofia).
Capítulo 3
Espécies de capital e formas de poder
“Não é preciso sobretudo renunciar à Academia; eu
almoço precisamente, daqui a quinze dias, para em
seguida ir com ele a uma sessão importante, na
casa de Leroy-Beaulieu, sem o qual não se pode
fazer uma eleição; eu já tinha deixado sair diante
dele vosso nome que ele conhece, naturalmente, à
perfeição. Ele emitira certas objeções. Mas
acontece que ele precisa do apoio de meu grupo
para a próxima eleição, e eu tenho a intenção de
voltar à carga; eu lhe direi muito francamente que
ligações nos unem, eu não lhe esconderei que, se
vós vos apresentardes, eu pedirei a todos os meus
amigos para votar em vós [...] e ele sabe que eu
tenho amigos. Estimo que, se eu conseguir ganhar
sua colaboração, vossas chances se tomarão muito
grandes."
M. Proust, À la recherche du temps perdu.
Dada sua posição no espaço das faculdades,
entre o polo “mundano”, representado pelas
faculdades de direito e de medicina, e o polo
“científico”, representado pelas faculdades de
ciências, as faculdades dc letras (de 1967) são sem
dúvida o lugar privilegiado para observar a luta
entre as duas espécies de poderes universitários
que, nos dois polos do campo, tendem a se impor
mais ou menos sem reserva: tanto no caso da
medicina, como no do direito, a predominância do
poder universitário, fundado no acúmulo de
posições que permitem controlar outras posições e
seus ocupantes, é tão declarada que os
pesquisadores puros, isto é, os fundamentalistas,
aparecem como um pouco “deslocados” e são
enviados para outra ordem, a das faculdades de
ciências, onde são menos reconhecidos, salvo
exceções, do que os cientistas puros; no caso das
faculdades de ciências, ao contrário, o prestígio
científico, fundado no investimento bem-sucedido
unicamente na atividade de pesquisa, tende a fazer
aparecer como substituto compensatório o poder
dominado que exercem, no próprio lugar do náo
poder, os reitores, decanos ou outros
administradores cientistas (ainda que sempre se
possa opor alguns casos de administradores
cientificamente reconhecidos).
A especificidade da faculdade de letras e de
ciências humanas reside no fato de que as relações
entre os diferentes princípios de hierarquização são
mais equilibradas. Na verdade, de um lado ela
participa do campo científico, portanto da lógica
da pesquisa, e do campo intelectual' - tendo por
consequência o fato de que a notoriedade
intelectual constitui a única espécie de capital e de
benefício que verdadeiramente lhe pertence; do
outro, como instituição encarregada de transmitir a
cultura legítima e por isso investida dc uma função
social de consagração e de conservação, ela é o
lugar de poderes propriamente sociais que, assim
como os dos professores de direito e de medicina,
participam das estruturas mais fundamentais da
ordem social. Enfim, ela se divide segundo o
próprio princípio por meio do qual se organiza o
espaço das faculdades em seu conjunto: a oposição
entre os agentes e as instituições voltados
principalmente para a pesquisa e as apostas
científicas ou para o campo intelectual e as apostas
propriamente culturais, e os que são orientados
mais para a reprodução da ordem cultural e do
corpo dos reprodutores e para os interesses
associados ao exercício de um poder temporal na
ordem cultural, c portanto homóloga àquela que se
estabelece no interior do campo universitário em
seu conjunto entre as faculdades dominantes na
ordem cultural e as faculdades dominantes na
ordem propriamente temporal.
Poder-se-ia assim observar e descrever, nesta
escala mais restrita, as relações entre a estrutura do
espaço das posições constitutivas desse campo e
as lutas visando manter ou subverter esta estrutura,
isto é, entre a classificação “objetiva”, construída
tomando-se por critério o conjunto das
propriedades postas em jogo 110 campo, e a luta
pelas classificações que visa conservar ou
transformar essa classificação conservando ou
transformando a hierarquia dos critérios dc
classificação.17
Admitindo-se que, devido à organização
forremente hierarquizada da Universidade francesa,
os professores de letras e ciências humanas mais
“poderosos” deviam, com algumas exceções,

17
Sem dúvida, por essa razão, graças à expansão do corpo docente, ela absorveu um grande número de
escritores, dc escritores-jornalistas e dc jornal istas-escritores.
As faculdades que, num primeiro nível, podiam ser tratadas como conjuntos homogéneos do ponto dc
vista dc suas relações objetivas de concorrência podem assim, sem contradição, aparecer num outro nível dc
análise como campos que sáo cm si o lugar dc diferenças dc diferentes ordens.
pertencer às faculdades parisienses, manteve-se
como população inicial da enquete sobre o poder
o conjunto dos professores titulares das grandes
instituições parisienses de ensino superior em
1967, Colégio de França (excluindo os cientistas),
Sorbonne, faculdade de Nanterre, Escola prática
dos altos estudos (IVa, Vd e VIa seções), Escola de
artes e ofícios, Escola das línguas orientais e Escola
de documentos antigos' (o que levou a excluir os
intelectuais “livres” ou com posições
extrauniversitárias - Lacan por exemplo).
Estabelecimentos como o Museu de história
natural, o Observatório, o Bureau das longitudes, o
IN RA, o Palácio da descoberta foram excluídos por
náo contarem com professores titulares de letras
ou de ciências humanas. A Escola de documentos
antigos (dotada de um corpo professoral muito
restrito) e a Escola de línguas orientais, com apenas
um professor (que ensinava fora da EPHE) possuía
as propriedades requeridas (cuja definição se
encontrará abaixo). A faculdade dc Nanterre, que
contava com uma proporção importante de
mestres de conferência, tem uma taxa de
representação muito baixa. Adotou-se, para
codificar o pertencimento principal dos professores
ligados a várias instituições mantidas na
população-máe, a hierarquia socialmente admitida,
atribuindo por exemplo ao Colégio de França ou à
Sorbonne os que pertenciam ao mesmo tempo ao
Colégio de França ou à Sorbonne e à Escola dos
altos estudos — contendo esta operação, como se
vê, um posicionamento sobre uma hierarquia que é
em si uma questão para discussão. Decorre que a
Escola dos altos estudos encontra-se reduzida a
seus não acumuladores, o que não fàz justiça a
uma das propriedades mais raras da instituição,
quer se trate da V18 seção, destinada às ciências
religiosas, da IVa seção, consagrada às ciências
filosóficas e históricas e estritamente ligada ao
mesmo tempo à Sorbonne e ao Colégio de França,
ou da VI' seção que, por conta do patriotismo da
instituição, de seus investimentos na pesquisa e
também de suas relações privilegiadas com a
imprensa e as editoras, consegue produzir efeitos
simbólicos e práticos irredutíveis aos de seu
próprio corpo professoral.
Espécies de capital e formas de pod<
Do original. Écoles des chartes, unia escola instituída para preparar especialistas cm doeu memos
antigos, formando arqui%'istas-palcógrafos. (N.T.)
No interior da populaçáo-mãe dos titulares de
ao menos uma posiçáo nas instituições
universitárias parisienses em 1967, manteve-se o
conjunto dos professores definidos pela posse dc
ao menos duas das propriedades seguintes,
mantidas porque eficientes, em graus e títulos
diversos, no campo: o pertencimento ao Instituto, à
banca de agregaçáo, à banca da ENS, ao Comitê
consultivo das universidades (poder universitário),
à comissão do CNRS dc 1963 ou 1967 (poder
científico), a um comitê de redação de revista
intelectual - ou à direção de uma coleção
(notoriedade intelectual) -, a posse de uma taxa de
citação superior a 5 na Citation Index (prestígio
científico).4 Esse modo dc seleção baseado em
indicadores objetivos da posse de poderes
diferentes na sua força, seu modo de exercício e
’ Pelo fato dc que as informações disponíveis tendem a diminuir à medida que diminui a notoriedade, este
procedimento de seleção lem também a vantagem prática dc facilitar a pesquisa ao limitar a população
estudada à fração da população-máe mais representada nas fontes escritas. Mas sc vê tudo o que sc ganha em
rigor ao delimitar esta população por critérios explícitos e específicos (isto c, pertinentes), em vez de deixar
que os limites da população estudada sejam impostos pelos limites da documentação disponível, como fazem
por exemplo todos os que sc apoiam cm fontes do tipo Who's who (assim, a parcela dos professores estudados
que é recenseada no Who's who está desigualmente ligada às diferentes espécies dc poder universitário - cm
parte porque a inscrição no Who's who é recusada por alguns dos pesquisadores mais prestigiosos, como um
indício dc consagração “mundana’').
seus efeitos (entre os quais os mais objetivados dos
indícios do capital simbólico tal como os prêmios
científicos ou a presença no Citation Index) parece
infinitamente mais seguro que todas as formas do
método “reputacional”, no qual o pior é sem
dúvida a amostragem por bola de neve (snowball)
frequentemente empregada nesse gênero de
pesquisa: sem falar do fato que a escolha do
núcleo inicial predetermina as escolhas ulteriores,
portanto a população final, privilegiando uma
forma de poder dentre outras, a que repousa sobre
o fato de ser conhecido e reconhecido.
106
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
O método de seleção empregado para construir
a população estudada visava produzir uma imagem
reduzida, mas fiel, do campo universitário como
espaço de posições apreendidas por meio das
propriedades dos agentes que nele detêm os
atributos ou as atribuições e que lutam, com armas
e poderes capazes de produzir efeitos visíveis, para
prendê-los ou defendê-los, para conservá-los
imutáveis ou transformá- los. Em oposição à
amostragem aleatória, que destruiria as estruturas
(sobretudo na medida em que uma posição
estruturalmente determinante pode ser
representada por um pequeno número de pessoas,
e às vezes, como frequentemente é o caso nos
campos de produção cultural, por uma única), esse
modo de seleção permite caracterizar as posições
de poder através das propriedades e dos poderes
de seus ocupantes. O fato de que, para construir o
conjunto das relações constitutivas desse espaço,
sejamos obrigados a recorrer a informações ligadas
aos indivíduos náo implica jamais que sc adote a
teoria implícita ou explícita do poder como
substância exclusivamente possuída por alguns
indivíduos que a enquete tinha por finalidade
recuperar ( Who governs?) e até mesmo indicar ou
pôr no índex (os “patrões” ou os “mandarins”). Na
verdade, como as diferentes espécies de poder
específico ligadas às diferentes posições estão
pouco institucionalizadas, elas são difíceis de ser
dissociadas dos ocupantes das posições
consideradas. Salvo se se contentar com propósitos
teóricos, não se pode portanto apresentar uma
representação científica da estrutura das relações
objetivas que está no princípio de todos os
poderes ordinariamente percebidos e
experimentados como substâncias ou essências
ligadas a coisas ou pessoas a não ser apoiando-se
na análise das distribuições do conjunto das
propriedades pertinentes, isto é, eficientes num
espaço dc jogo determinado, que estão ligadas a
indivíduos: a soma de cada um dos atributos dos
membros de uma instituição (por exemplo, o
número global de normalistas ou de membros do
Instituto) define o peso social da instituição que,
em contrapartida, caracteriza cada um de seus
membros genérica e especificamente - na medida
em que sua posição na instituição depende ainda
mais da posse ou da não posse de uma
propriedade quando esta contribui mais ainda para
caracterizar a posição da instituição.'
Espccics de capital e formas dc pod<
É evidente que a composição da população
construída depende dos critérios - isto é, dos
poderes - retidos: a omissão de um indício de
notoriedade intelectual tal como o pertencimento
ao comitê dc redação de uma revista intelectual ou
a direção dc uma coleção teria feito desaparecer a
fração mais intelectual - e frequentemente mais
famosa nesse sentido - dos universitários; da
mesma maneira, a introdução de um critério como
o fato de escrever no Le Nouvel Observateur, cjue
sem dúvida seria violentamente recusado pelos
detentores dos atributos mais típicos do poder
universitário, teria feito entrar alguns universitários-
jornalistas que, apesar do menosprezo cm que os
mais consagrados universitariamente simulam
conservá-los, são investidos do poder de
celebração e de crítica que possibilita o acesso
privilegiado aos jornais e aos hebdomadários e por
isso estão em condições de exercer efeitos bem
reais no próprio campo/’ Sc parece, em todos os
casos verificados, que se introduziram, nos limites
da informação disponível, todos os critérios
pertinentes, isto é, próprios para determinar
diferenças significativas em vista do objetivo
perseguido, evidenciado na distribuição dos
poderes constitutiva da estrutura do campo
universitário no momento considerado, resta que a
pesquisa encontra e reproduz incertezas que estão
inscritas na própria realidade:19 as lutas pela
imposição do princípio de hierarquização legítima
fazem na verdade com que a fronteira entre os que
estão e os que não estão seja sempre discutida,

19
A enquete subestima sem dúvida a concentração do poder propriamente universitário pelo fato dc
que náo sc pôde, em mais dc um caso, levar cm conta a intensidade do poder associado à posse do atributo
tratado como indicador (por exemplo, o estatuto dc presidente dc comissáo do CNRS, do CCU, etc.) ou a
duração da posse desse poder as posições em um lugar, as dos grandes patrões universitários que dominaram,
durante muitos anos. toda uma disciplina, sáo sem dúvida menos claramente distintas na análise do que na
realidade. Por outro lado. nunca se pôde obter, para a totalidade da populaçáo, as informações sem dúvida
mais pertinentes, como o número dc teses orientadas c a qualidade social dos doutorandos (ainda que sc
tenha verificado, em algumas disciplinas, que esses indicadores variam como os indícios dc poder
universitário). Enfim, a introduçáo dc princípios dc diferenciação suplementares foi freada pelo fãto dc que
cada um deles (por exemplo, a oposição entre as Belas-Letras c Klincksieck) abrangia apenas um pequeno
setor do campo.
* Entre os fatores dc incerteza tanto para a inclusão na populaçáo estudada quanto para a
determinação da posiçáo no campo, um dos mais importantes é a riqueza desigual das informações
possuídas segundo a qualidade das fontes: os que sáo conhecidas por sete ou oito fontes diferentes correm o
risco - é sempre assim, aliás - de aparecer como dotados dc mais propriedades do que os que sáo conhecidos
somente pelo Who's who e por fontes complementares dc menor qualidade. Outro fator é a imprecisáo,
frequentemente deliberada, das declarações relativas à profissáo do pai: esta incerteza afeta especialmente as
categorias dos quadros c dos comerciantes (foi preciso desistir
disputada, portanto flutuante e movente, em cada
momento e sobretudo de acordo com os
momentos.* É por isso que, como resultado da
logica das carreiras individuais (c principalmente da
idade) ou das transformações do campo (e
sobretudo das relações com o jornalismo), algucm
que, alguns anos antes, teria ocupado uma posição
dominante pode estar ausente (este e o caso por
exemplo de Pierre Renouvin, que desaparece do
espaço quando abandona suas posições de poder
universitário cm 1964) ou relegado às fronteiras
inferiores do espaço (como Ernest Labrousse que,
tendo abdicado dc suas posições de poder
universitário, se encontra reduzido ao seu prestígio
científico),’ enquanto que ao contrário um outro
que náo foi retido porque náo possuía nenhuma
das propriedades determinantes o teria sido alguns
anos mais tarde.10
Espécies de capital e formas dc pod<
A estrutura do espaço dos poderes
Ve-se imediatamente que a população assim
constituída se distingue do conjunto dos
professores titulares dos estabelecimentos
parisienses de ensino superior “literário” no centro
do qual ela é mantida por diferenças sistemáticas,
as diferentes categorias de professores
apresentando taxas de representação ainda mais
elevadas quando ocupam posições mais bem
posicionadas no campo: o Colégio de França e a
Sorbonne estáo aí muito fortemente
representados, enquanto a parcela da Escola dos
altos estudos e sobretudo de Nanterrre é muito
mais fraca que a populaçáo-mãe; da mesma
maneira, para as disciplinas, as letras e a filologia
antiga, a história moderna e as ciências sociais e,
num grau menor, a filosofia, estão aí
sobrerrepresentadas, ao inverso das letras
modernas, das línguas e da geografia.
Estreitamente ligadas à idade, as chances de ter
acesso às diferentes formas de poder - aqui
dc distinguir quadros médios c quadros superiores e pequenos c grandes comerciantes) c mesmo a categoria
dos professores (o corte é com frcqucncia impreciso entre professores do secundário c professores do
superior).
Diga o que se disser dos efeitos de moda, o prestígio científico ou intelectual é muito mais estável que
o poder universitário, que está mais ligado à posiçáo c menos ao seu portador. (Sabe-se todavia - c essa é uma
das características mais reveladoras desse campo que proclama reconhecer unicamente os valores da ciência
- que náo existe, ou existe pouco, um verdadeiro critério institucional do valor científico)
No que concerne à coleta das informações, recorreu-se aos mesmos procedimentos e às mesmas fontes
utilizados no caso da amostra representativa dos professores das quatro faculdades. Com a diferença de que
náo sc reteve a participaçáo nos colóquios de Cacn c de Amiens c a religiáo da família de origem, pelo fato de
que as posiçócs marcadas náo permitiam caracterizar mais do que uma fraçáo insignificante da população e
dc que, ao contrário, acrcsccntaram-se todas as informações sobre a carreira c as posições dc poder interno
que, nesta escala, retomavam seu sentido.
confundidas - variam tanto quanto os diferentes
indícios do capital cultural e social herdado: como
a origem social, a parcela dos filhos de agricultores,
de operários, de empregados é menos importante
na população dos “poderosos” enquanto a parcela
dos filhos de professores primários, dos filhos de
artesãos e comerciantes e sobretudo dos filhos de
industriais é muito mais importante; ou como o
capital escolar, medido pelo título de normalista e
a idade na agregação. As relações sem dúvida
seriam mais claras se se pudesse distinguir as duas
grandes categorias de poder: na verdade, a
sobrerrepresentação dos professores do Colégio
de França, assim como a de ciências sociais e de
história, ou ainda a dos filhos de industriais é,
como se verá, ainda mais importante quando se vai
na direção dos professores cujo perfil pende para o
lado do prestígio intelectual ou cientifico, enquanto
a sobrerrepresentação dos professores da
Sorbonne, assim como a de letras e da filologia ou
da filosofia, ou a dos filhos de professores
primários e de professores, cresce quando se vai na
direção dos professores cujo perfil pende para o
lado do poder propriamente universitário, sendo o
título de normalista, parece, o modelo universal
que introduz, em associação com as disposições
diferentes, às duas formas de poder."
O campo das letras e das ciências humanas se
organiza cm tomo de uma oposição principal entre
duas espécies dc poder. O poder propriamente
universitário é fundado principalmente no controle
dos instrumentos de reprodução do corpo
professoral, banca de agregação, Comitê consultivo
das universidades (que designa os professores
titulares), isto é, na posse de um capital que se
adquire na Universidade, em particular na Escola
normal, e que é detido principalmente pelos
professores daUniversidade-da Sorbonne-,especialmentedas
disciplinas
canônicas, muito frequentemente filhos de
professores, professores do ensino secundário ou
superior e sobretudo professores primários, c
» Uma análise semelhante dos fatores escolares c extracscolares de sucesso para o conjunto das faculdades sc
confronta com muitas dificuldades: primeiramente, os indícios do capital escolar sao totalmente
incomparáveis (os títulos como a agregação ou o doutorado apresentando valores muito diferentes nas
diferentes faculdades) c náo existe um modelo universal que exerceria o papel do título dc normalista nas
faculdades dc letras e dc ciências; cm segundo lugar, a diferenciação dos poderes não c cm todos os lugares
tão dividida como cm letras c náo sc opera em todos os lugares segundo os mesmos princípios. Resta que.
como sc viu. a origem geográfica e social parece estar estreiramenie ligada no conjunto das faculdades às
diferenças dc sucesso que sc pode apreender pela aplicação dc critérios comuns (notoriedade externa,
consagração científica, etc.).
isso vale quase exclusivamente nos limites da
Universidade (francês;«). A esse poder socialmente
codificado opõe-se um conjunto de poderes de
espécies diferentes, que se encontram sobretudo
nos especialistas das ciências sociais: o poder ou
autoridade científica manifestado pela direçáo de
uma equipe de pesquisa, pelo prestígio científico
medido pelo reconhecimento concedido pelo
campo científico, principalmente no estrangeiro -
por meio das citações e das traduções -, a
notoriedade intelectual, mais ou menos
institucionalizada, com o pertencimento à
Academia francesa e a mençáo no Larousse, a
publicação em coleções que conferem uma espécie
de estatuto de clássico (“Idées”, “Points”, etc.), o
pertencimento ao comitê dc redação de revistas
intelectuais, e enfim a ligação com os instrumentos
de grande divulgação, televisão e hebdomadários
com grande tiragem (Le Nouvel Observateur), que
é o indício ao mesmo tempo de um poder de
consagração e de crítica e de um capital simbólico
de notoriedade.'*
O segundo princípio de divisão opõe de um
lado os professores mais velhos e os mais providos
de títulos de consagração estritamente
universitária, como o pertencimento ao Instituto (e,
secundariamente, à Academia francesa), ou
científica, como as citações ou as traduções, ou
puramente social, como a inscrição no Who's who,
a Legião de honra ou a ordem do Mérito, e de
outro lado os professores mais jovens, que se
definem sobretudo negativamente, pela privação
dos signos institucionalizados do prestígio e pela
posse das formas inferiores do poder universitário.
Esta oposição, que se estabelece também entre as
instituições universitarias, com o Colégio de França
de um lado — e em particular os especialistas das
disciplinas clássicas, principalmente a história
antiga e a arqueologia - e, do outro, a Escola dos
altos estudos e a faculdade de Nanterre, assim
como entre os professores, uns mais munidos de
poder científico - por meio do pertencimento às
comissões do CNRS -, outros ou voltados mais para
a reprodução escolar - com o
odcr-sc-ia sem dúvida relacionar a esta oposição inscrita ao mesmo tempo nas instituições c nas
disposições a distinção que estabelecem Elga Reuter c Pierre Tripier entre duas formas de produção
cientifica: de um lado. os “minimizadorcs”, que visam minimizar os riscos produzindo obras conformes, no
seu objeto e nos seus métodos, às normas em vigor (tese dc Estado) c. do outro, profissionais . que, com
frequência ligados a instituições dc pesquisa, produzem obras curtas, dc uma contribuição rápida à ciência
(cf. E. Rcuicr c P. Tripier, Travail et créativité dans um marche interne: le cas du système français de
recherche universitaire. Sociologie du travail, iulho- setembro de 1980, p. 241-256). ‘
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Gráfico 2-0 espaço das faculdades de letras e
ciências humanas. Análise das correspondências:
plano do primeiro e segundo eixos de inércia -
propriedades. (O plano correspondente para os
indivíduos foi reenviado ao anexo 4.) As variáveis
ilustrativas (e.g. estado civil) estão em letras
minúsculas.
pertencimento à banca dc agregaçáo - ou dotados
de certa notoriedade mas desprovidos de poder
universitário, corresponde a diferenças sistemáticas
no capital herdado: o grau de sucesso social sob
todas as suas formas tende a aumentar com a
proximidade social com a burguesia parisiense; os
filhos de industriais, de engenheiros ou de oficiais
de um lado, de professores de faculdade de outro,
frequentemente nascidos em Paris ou nas grandes
cidades provinciais, e tendo uma grande parte
deles passado pelo ensino privado, opõem-se
claramente aos filhos de pequenos agricultores, de
operários ou de empregados, frequentemente
vindos de pequenas comunidades provinciais,
sendo a região mediana ocupada por professores
originários das regiões intermediárias do espaço
social e geográfico.”
Espécies dc capital e fornias de poder
Quanto ao terceiro fator, ele opõe o grande
Establishment universitário, formado pelos
“universitários eminentes” e pelos “grandes
patrões”, na sua maior parte instalados na
Sorbonne, que dominam toda uma disciplina e
geralmente acumulam o controle da reprodução
interna (ensino na Escola normal, pertencimento à
banca de agregaçáo, ao comitê consultivo, à banca
da ENS) e um forte reconhecimento externo
(televisão, “Idées*, traduções), ao conjunto
negativo dos obscuros, geralmente especialistas de
disciplinas muito circunscritas (principalmente em
história antiga) e estrangeiros tanto pela
notoriedade mundana quanto pelo poder interno
(isto é, eruditos do Colégio de França tanto quanto
especialistas de disciplinas marginais na
Universidade, economistas, psicólogos sociais, que
parecem estrangeiros ao “meio” seja por sua
carreira universitária - eles são com menos
frequência normalistas - seja por sua origem social
- eles sáo com frequência filhos de comerciantes e
nascidos no estrangeiro) (cf. p. 117).
O espaço definido pelos dois primeiros eixos sc
organiza em regiões que correspondem a classes
de posições e de disposições que se opõem de
maneiras muito diferentes: a região do poder
universitário no estado (quase) puro (é sudeste do
diagrama) reúne os professores ordinários das
disciplinas mais ordinárias (com, no mais baixo da
hierarquia, todas as variantes modernas das
disciplinas clássicas, línguas
“ É notável que a estrutura dc relações aqui descrita sc mantem como tal, para além das deformações,
quando sc neutralizam - ao scrcm tratadas como variáveis ilustrativas - as instituições dc pcrtcncimcnto,
Colégio dc França, Sorbonne, EPHE IV* c V* seções, Nanterre.
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Gráfico 2-0 espaço das faculdades de letras e
ciências humanas. Análise das correspondências:
plano do primeiro e segundo eixos de inércia -
propriedades. (O plano correspondente para os
indivíduos foi reenviado ao anexo 4.) As variáveis
ilustrativas (e.g. estado civil) estão em letras
minúsculas.
pertencimento à banca dc agregação - ou dotados
de certa notoriedade mas desprovidos de poder
universitário, corresponde a diferenças sistemáticas
no capital herdado: o grau de sucesso social sob
todas as suas formas tende a aumentar com a
proximidade social com a burguesia parisiense; os
filhos de industriais, de engenheiros ou de oficiais
de um lado, de professores de faculdade de outro,
frequentemente nascidos em Paris ou nas grandes
cidades provinciais, e tendo uma grande parte
deles passado pelo ensino privado, opõem-se
claramente aos filhos de pequenos agricultores, de
operários ou de empregados, frequentemente
vindos de pequenas comunidades provinciais,
sendo a região mediana ocupada por professores
originários das regiões intermediárias do espaço
social e geográfico.”
Espécies dc capital e fornias de poder
Quanto ao terceiro fator, ele opõe o grande
Establishment universitário, formado pelos
“universitários eminentes” e pelos “grandes
patrões”, na sua maior parte instalados na
Sorbonne, que dominam toda uma disciplina e
geralmente acumulam o controle da reprodução
interna (ensino na Escola normal, pertencimento à
banca de agregação, ao comitê consultivo, à banca
da ENS) e um forte reconhecimento externo
(televisão, “Idées1, traduções), ao conjunto
negativo dos obscuros, geralmente especialistas de
disciplinas muito circunscritas (principalmente em
história antiga) e estrangeiros tanto pela
notoriedade mundana quanto pelo poder interno
(isto é, eruditos do Colégio de França tanto quanto
especialistas de disciplinas marginais na
Universidade, economistas, psicólogos sociais, que
parecem estrangeiros ao “meio” seja por sua
carreira universitária - eles são com menos
frequência normalistas - seja por sua origem social
- eles são com frequência filhos de comerciantes e
nascidos no estrangeiro) (cf. p. 117).
O espaço definido pelos dois primeiros eixos sc
organiza em regiões que correspondem a classes
de posições e de disposições que se opõem de
maneiras muito diferentes: a região do poder
universitário no estado (quase) puro (é sudeste do
diagrama) reúne os professores ordinários das
disciplinas mais ordinárias (com, no mais baixo da
hierarquia, todas as variantes modernas das
disciplinas clássicas, línguas
“ É notável que a estrutura dc relações aqui descrita sc mantem como tal, para além das deformações,
quando sc neutralizam - ao scrcm tratadas como variáveis ilustrativas - as instituições dc pcrtcncimcnto,
Colégio dc França, Sorbonne, EPHE IV* c V* seções, Nantcrrc.
estrangeiras, letras e filologia modernas) c
sobretudo muitos professores conhecidos pela
violência de suas reações ao movimento de maio
de 1968 ou pelo seu apoio público a um dos alvos
maiores da contestação estudantil: Robert
Flacelière, diretor da Escola normal superior. Ela se
opõe tanto ao setor (nordeste) do prestígio
propriamente interno, consagrado pelo Instituto,
onde se reúnem sobretudo os grandes eruditos,
quanto ao setor (oeste sudoeste) da notoriedade
externa e dos jovens (ou pequenos) mestres,
sobretudo abrigados pela VIa seção da Escola dos
altos estudos; e ela não tem quase nada em
comum com as altas esferas (norte) do grande
prestígio científico (Dumézil, Benveniste, Dupont-
Sommer) que, no caso dos especialistas das
ciências sociais e da história (noroeste), associa-se
ao prestígio intelectual (Lévi-Strauss, Aron, Perroux,
Braudel ou Duby) (cf. Anexo 4).
E evidentemente no nível das obras, de seus
temas, de seu estilo, que se revelaria
completamente tudo o que separa os grandes
eruditos dos professores ordinários. O lugar de
publicação, ainda que não se tenha podido manter
na análise final porque caracterizava uma fração
muito restrita da populaçáo, sem dúvida constitui
um bom indicador desta posiçáo: de um lado,
KJincksieck, antiga casa fundada no século XIX por
livreiros alemães, que reúne eruditos e trabalhos de
erudição altamente especializados e de nível muito
elevado; do outro, as Belas-Letras, instituição
nascida no início do século XX da reação da
Universidade francesa contra a influência
germânica, que reúne trabalhos mais preocupados
com a elegância francesa do que com a erudição.
Para dar uma ideia que não parece muito polêmica
da cultura prescrita pelo ensino oficial, seria
necessário evocar na linguagem autóctone essas
obras que “aplainam habilmente as dificuldades e
fornecem o essencial sob uma forma límpida e
atraente’, esses gramáticos que desconfiam “das
audácias terminológicas da linguística moderna e
que se angustiam um pouco com o peso do
aparelho científico das novas ciências de
importação, esses comentaristas que visam
somente > “uma melhor compreensão dos textos e
a aumentar assim o prazer literário , esses
professores que se sentem profundamente não
convencionais porque suas conferências são um
“fogo de artifício dc astúcias e de zombarias (rodas
as passagens entre aspas são extraídas de artigos
necrológicos).
O privilégio atribuído aos especialistas das
ciências sociais em relação aos eruditos se deve
sem dúvida ao peso do Citation Indexy que
contribui muito fortemente para a determinação do
primeiro fator e favorece mais as diferentes disciplinas e os
diferentes pesquisadores quando se voltam mais às
ciências sociais e à tradição americana. O peso da ligação
com os meios de grande difusão (jornalismo, televisão) se
vê quando nove dos trinta personagens citados no
palmarès da revista Lire (68, abril de 1981, p. 38-51) sc
encontram nos dois setores de prestígio científico e/ou
intelectual.
Espécies de capital e formas de pod<
Dominantes temporalmente-e temporariamente—, os
ocupantes das posições de poder mais estritamente
fundadas na instituição e limitadas à instituição, como as
bancas de grandes concursos ou o Comité consultivo, são
dominados do ponto dc vista da consagração
propriamente universitária c sobretudo do ponto de vista
da notoriedade intelectual (eles praticamente não são
traduzidos); cobertos dc louros escolares (eles são
frequentemente laureados do concurso geral, caciques de
concursos da Escola normal ou da agregação), eles são os
produtos acabados da dialética da consagração e do
reconhecimento que atrairia ao centro do sistema os mais
inclinados e os mais aptos a reproduzi-lo sem alteração. De
maneira geral, eles estão ainda mais brutalmente ligados a
instituição quando sua competência própria é mais
estreitamente tributária das condições institucionais dc seu
exercício — como é o caso da filologia ou do ensino das
línguas em geral - e quando devem mais à instituição como
oblatos de baixa extração ou oriundos da escola (filhos de
ia
professores primários).14 -5
Os professores ordinários e a reprodução do corpo
O capital universitário se obtém e se mantém por meio
da ocupação de posições que permitem dominar outras
posições e seus ocupantes, como todas as instituições
encarregadas de controlar o acesso
14
O fechamento quase total ao mundo extrauniversitário, que sc afirma frequentemente como uma recusa eletiva dos
compromissos mundanos, é sem dúvida apenas uma maneira dc assumir uma exclusão cada vez mais cruelmente ressentida à
medida que aumenta o peso do jornalismo na vida intelectual. Além dos testemunhos dos detentores de um poder jornalístico
(cf. a menção dc Mona Orouf em C. Sale*, L'intelligentsia, visite aux uiiisam de la cultura, monde de I education, fevereiro de
1976, p. 8), pode-se invocar declarações como a desse professor de filosofia dc Paris que, após ter manifestado que seria
preciso “manter uma grande distância entre o jornalismo e a pesquisa filosófica , lamentava nunca ccr conseguido, apesar dc
todos os seus esforços, ter um artigo aceito no Le Monde.
ao corpo, bancas dc concursos da Escola normal superior e
da agregação ou do doutorado, Comitê consultivo das
universidades: esse poder sobre as instâncias de
reprodução do corpo universitário assegura a seus
detentores uma autoridade estatutária, espécie de atributo
de função que está muito mais ligado à posição hierárquica
que a propriedades extraordinárias da obra ou da pessoa e
que se exerce não somente sobre o público de renovação
rápida dos estudantes mas também sobre a clientela dos
candidatos ao doutorado, no interior da qual se contratam
habitualmente os assistentes e que é colocada numa
relação de dependência difusa e prolongada.'5
Pode-se emprestar a uma entrevista com um grupo de
informantes esse retrato de uma encarnação ideal típica dc
tal poder de reprodução que, neste caso-limitc, é quase
independente do valor científico das produções. “X é um
antigo aluno da Escola de Atenas, mas que não perseverou
muito em arqueologia. Ele se orientou sobretudo para a
história da literatura, com uma tendência à divulgação. Mas
ele está em todos os conselhos universitários, no Comitê
consultivo, no CNRS, em todos os lugares onde sc tomam
decisões. Ele também foi eleito ao CNRS no ano passado
com um número de votos fantástico [...]. Ele não tem
nenhum prestígio intelectual, no entanto tem poder [...]. É
alguém conhecido, embora o que ele tenha produzido seja
fraco. Lê-lo é perder seu tempo. Ele é o Guy des Cars'6 do
helenismo na França [...]. Escreveu uma história literária da
Grécia. É uma obra de divulgação à base de textos com um
discurso conjuntivo. X visa o público das pessoas honestas.
Não é uma obra sobre a literatura grega mas, o título diz
bem, uma história literária da Grécia. Isso diz tudo [...].
Pode-se questionar o fenômeno X. Ele sempre foi
considerado como nulo [...]. Como um tipo tão nulo pôde
chegar praticamente ao topo? Na coleção Erasme, o mais
nulo é o livrinho de X. Pode-se dizer que não tem nada
dentro. Ele integrou a coleção ainda calouro. Foi cacique de
agregação. Isso devia ajudar naquela época. Publicou
enormemente. Ele trabalha muito rápido,
“ “Um elemento de poder é a orientação das teses que conduz à função dcNissistcnte, de mestre- assistente. É um meio de
ação essencial" (historiador, 1971 - Náo nos pareceu possível dar, nesse caso como cm outros, as indicações que permitem
situar com mais precisão os informantes no espaço das posições sem correr o risco de revelar seu anonimato).
16
Guy Augustin Marie Jean dc Pérussc des Cars, escritor parisiense (1911-1993), cujas obras foram consideradas pela crítica
como pertencendo à catcgoria dos “romances dc gare", superficiais c voltados à distração. (N.T.)
Espécies dc capital c formas de pod<
Gráfico 3 O espaço das faculdades de letras e ciências
humanas. Análise das correspondências: plano do primeiro
e terceiro eixos de inércia - propriedades. (As variáveis
ilustrativas estào em letras minúsculas.) porque reflete
pouco. Ele fala de tudo sem se embaraçar” (Entrevista,
letras clássicas, 1971). Caso-limite, sem dúvida, mas cujos
traços essenciais encontram-se alhures: “Manteve um
prestígio intelectual mas dc um tipo especial. O fato de ele
náo ser um pesquisador - atenção, essa é uma crítica que
lhe fazemos, que começa a ser feita com frequência há sete
ou oito anos... Eu lembro de ter dito isso em 1963: meus
colegas encheram o peito assim! “Como! Os manuais de
geografia que ele fez, isso náo é pesquisa?” “Eu disse náo;
isso náo é pesquisa. Isso é síntese [...]. Ele c um homem de
sínteses, de vulgarização, não um professor” (Entrevista
com um grupo de geógrafos, 1971). “Eu creio que não se
pode superestimar o prestígio. A consideração do valor
intelectual é muito menos importante [em geografia] do
que o poder propriamente universitário. Eu penso em Z,
que fez uma tese que é considerada pela maioria das
pessoas como uma tese ruim: é alguém que tem um poder
na Universidade muito maior do que aquele que teria se
dependesse de seu valor intelectual [...]. Existem cada vez
mais organizações; o que conta cada vez mais é o acesso
ao dinheiro, às missões, aos trabalhos financiados pelos
ministérios, etc., e nesse momento náo c automaticamente
o nível intelectual que conta” (Geografia, 1971).
A extensáo do poder semi-institucionalizado que cada
agente pode exercer em cada uma das posições de poder
que ocupa, seu “peso” como se diz, depende de todos os
atributos de poder que ele possui alhures (é sem dúvida o
que faz lembrar, nesse caso como em outros, o uso de
termos de tratamento como “Senhor Presidente” ou
“Senhor Decano”) e de todas as possibilidades de troca que
ele pode obter de suas diferentes posições. Dito de outra
maneira, cada agente importa de cada^ uma das
instituições secundárias o peso que ele detém
genericamente, mas também pessoalmente (por exemplo,
o título de presidente ou de grande eleitor) enquanto
membro da instituiçáo mais alta de que faz parte e à qual,
num universo hierarquizado e baseado na competição, os
membros das instituições de ranking inferior onde ele
intervém aspiram por definição. Assim se explica o fato de
que os membros do Instituto, que se dividem quase
igualmente entre os dois poios “universitário” e “erudito”
ou “intelectual”, do campo universitário, podem exercer
sobre u conjunto do campo, e cspccialmcntc sobre o setor
mais universitário, um imenso poder de controle e dc
censura. Aqui também, o capital vai ao capital, e a
ocupaçáo de posições que conferem peso social determina
e justifica a ocupação de novas posições, elas também
fortalecidas pelo peso do conjunto de seus ocupantes.'7
Espécics dc capital e formas dc pod<
É isso que faz com que se possa dizer de todos os
grandes monarcas universitários o que Jean-Baptiste
Duroselle escrevia de Pierre Rcnouvin: “Tinha-se a
impressão de que ele ascendia aos postos-chaves como
por uma necessidade natural, sem ter intrigado nem
brigado. Acabava-se sempre se dirigindo a ele”. Uma vez
realizada a acumulação inicial, não resta mais nada senão
gerir racionalmente as aquisições: “Assim, além de muitos
comitês e comissões que absorviam uma parte importante
de seu tempo, ele ascendera, desde o final dos anos 1930,
e mantivera de maneira mais ou menos contínua até 1964,
as três posições que, combinadas, davam-lhe um poder
ampliado sobre a historiografia francesa: a direção da
seção de história na Sorbonne, a presidência da seção dc
história no Comitê consultivo das universidades, a
presidência da comissão de história no CNRS [...]. Ele tentou
com sucesso controlar o valor dos candidatos aos postos e
exercer uma influência sobre as nomeações. Como quase
todas as teses eram defendidas cm Paris, e sendo desde
1938 o mais antigo contemporâneo da Sorbonne, ele
presidia todas as bancas; como era convidado às muito
raras defesas importantes que aconteciam na província, ele
conhecia pessoalmente os futuros mestres de conferência.“
Ele conseguia do Comitê consultivo que a “lista estrita” não
comportasse mais candidatos efetivos que postos vagos.
Evitava assim que toda nomeação ministerial fosse feita
sem ele. Além disso, náo há exemplo de que o diretor-geral
do Ensino superior não tenha pedido sua opinião antes das
designações. Como ele havia igualmente controlado a
preparação da tese - ainda que apenas pela gestão dos
postos ao CNRS -, ele dispunha realmente dc uma
autoridade que, não escrita, era preponderante”.'20’
De modo geral, o acúmulo das posições controladas é a

,7
A metáfora do “peso social” exprime perfeitamente a lógica do campo, a mesma que permite à análise das correspondências
restituir, por uma operação matemática análoga àquela que consiste cm pesquisar, os eixos dc inércia de um sistema dc
pontos pesados.
,8
A concentração cm Paris dc todas as teses dc £stado que contam (como onze teses dc história contemporânea tendo obtido
a menção “muito honorável” entre novembro dc 1939 e dezembro dc 1948 inclusive - segundo J.-B. Duroselle) permite um
controle total sobre a admissão dos titulares. 19 A essas posições, Pierre Rcnouvin ucrcsccmuu cufiui a dc dccano da faculdade
de letras dc Paris, c a de presidente da Fundação nacional das ciências políticas (cf. notícia nccrológica dc Pierre Rcnouvin por
J.-B. Duroselle, na Revue d'histoire moderne et contemporaine, XXII, outubro- dezembro dc 1975, p. 497-507).
condição das mudanças de serviços entre poderosos que
permitem constituir e manter clientelas: a circulação dos
serviços prestados só pode ser apreendida na escala de um
conjunto dc instituições, e é raro que ela tome a forma
visível de uma troca direta e imediata na qual a nomeação
de um aluno de X sob a intervenção de Y num
estabelecimento A teria por contrapartida a nomeação dc
um aluno de Y sob a intervenção de X num
estabelecimento B; quanto mais as redes de posições
controladas são ampliadas c diversificadas - nas instituições
de ensino, mas também nas de pesquisa; nas coleções e
revistas universitárias mas também, no outro polo do
campo, nos jornais e nos hebdomadários, etc. -, mais o
ciclo das trocas é longo, complicado e indecifrável para os
não iniciados, uma “recomendação” de Y em favor de um
aluno de X podendo ser retribuída por uma consideração
escrita num hebdomadário por um membro da família
“ideológica” de X cuja atenção teria sido atraída por X
sobre o livro de Y numa reunião de um comitê de redação,
de uma comissão eleitoral ou de um comitê de apoio.
Compreende-se, nesta lógica, que o título de normalista,
que certifica a aquisição de uma competência mas também
e sobretudo de uma disposição em relação à instituição
escolar, exerce um grande papel na acumulação do poder:
o capital social que representam as relações de escola,
quando são devidamente mantidas pelas trocas seguidas, é
uma das únicas bases de solidariedades transdisciplinares;
o que explica que ele exerce um papel determinante todas
as vezes que se trata de obter e de manter as posições de
poder universitário situadas além dos pequenos feudos
locais, demarcadas pela escala de uma disciplina, e mesmo
as posições de prestígio como as que oferece o Colégio de
França. Como capital social de relações atuais ou
potenciais, o fato de ser normalista exerce um efeito
multiplicador sobre todos os poderes sociais detidos; ele é
portanto ainda mais ativo quando o situam mais alto na
hierarquia desses poderes.
Pelo fato de que a acumulação do capital universitário
toma tempo (o que se vê pelo fato dc que o capital detido
está estreitamente ligado à idade), as distâncias, nesse
espaço, são medidas em tempo, em distâncias temporais,
em diferenças de idade. Resulta daí que a estrutura do
campo se manifesta aos agentes sob a forma de uma
carreira real - da Escola normal ao Instituto, passando pela
função de assistente, pela tese, pela lista de aptidão e pela
cadeira na Sorbonne - por meio da qual todas as outras
trajetórias são objetivamente medidas. Eles tendem a
associar a cada uma das etapas maiores desse curso, que é
também uma competição e um concurso, uma idade
normal de acesso, em referência à qual se pode aparecer
como jovem ou velho em qualquer idade (biológica). De
fato, sendo as posições de poder hierarquizadas e
separadas pelo tempo, a reprodução da hierarquia supõe a
manutenção das distâncias, isto é, da ordem das
sucessões. E esta mesma ordem que ameaça a celeritas
dos que querem “queimar etapas” (por exemplo, levando
para a ordem universitária propriedades ou poderes
adquiridos em outros terrenos), ao inverso da gravitas, esta
sadia lentidão que sc gosta de pensar que constitui em si
uma garantia de seriedade (na redação da tese, por
exemplo) e que é o atestado mais autêntico do
obsequium, respeito indiscutível dos princípios
fundamentais da ordem instituída.10
Longe de encerrar a ameaça de uma revolução
permanente, a luta de todos contra todos que o concurso
permanente instaura entre aqueles que entraram uma vez
na competição e que apresentam as disposições
competitivas ao mesmo tempo exigidas e reforçadas pela
competição contribui, por sua própria lógica, para a
reprodução da ordem como sistema de distâncias
temporais: de um lado, porque o próprio fato de concorrer
supõe e suscita o reconhecimento das apostas comuns na
competição; de outro lado, porque a concorrência se
circunscreve, a cada momento, aos concorrentes situados
mais ou menos no mesmo ponto da competição e porque
é arbitrada pelos que nela ocupam uma posiçáo mais
avançada.
Se é claro que todas as estratégias dc dominação não
seriam nada sem as estruturas que as tornam possíveis e
eficientes, não é menos evidente que a eficácia dos
poderes que conferem o controle das posições estratégicas
que permitem regular o progresso dos concorrentes só se
exerce realmente sobre os novos entrantes - os assistentes,
por exemplo -
,0
É por isso, como sc mostrará, que a crisc das relações entre os antigos c os novos entrantes nasceu de uma ruptura da
harmonia que sc estabelecia, na grande maioria dos novos entrantes, entre as estruturas incorporadas dc expectativa (as
esperanças) c as estruturas objetivas (as trajetórias prováveis), ruptura que sc operou sob o efeito simultâneo dc uma
transformação da estrutura das probabilidades de ascensão e dc uma modificação das disposições dos agentes. Numa tal
conjuntura, os “velhos” c os “jovens” cncontram-sc “defasados”, os primeiros vendo uma ambição carreirista no que c vivido
como uma reivindicação normal, c os segundos um conservadorismo dc mandarim no que aparccc como um chamado à
ordem ética.
com a condição de que aceitem entrar no jogo da
concorrência, reconhecendo assim suas apostas. Além
disso, o exercício do poder acadêmico supõe a aptidão e a
propensão, socialmente adquiridas, para interpretar
possibilidades oferecidas pelo campo: a capacidade de “ter
alunos, de colocá-los, de fazer com que permaneçam em
relação de dependência” e de assegurar também o
fundamento de um poder durável, o fato dc “ter alunos
bem colocados” (Geógrafo, 1971) supõe talvez antes de
tudo uma arte de manipular o tempo dos outros, ou, mais
precisamente, o ritmo de sua carreira, de seu curso, de
acelerar ou de adiar realizações tão diferentes quanto o
succsso nos concursos ou nos exames, a defesa de tese, a
publicação dc artigos ou de obras, a nomeação nos postos
universitários, etc. E, em contrapartida, essa arte, que
também é uma das dimensões do poder, com frequência
só se exerce com a cumplicidade mais ou menos
consciente do impetrante, mantido assim, às vezes até uma
idade bem avançada, na disposição dócil e submissa, enfim,
um pouco infantil - o diretor de tese, na Alemanha, se
chama Doktorvater, “pai de doutor” — que caracteriza o
bom aluno de todas as idades.
Os assistentes e os mestres-assistentes devem com
frequência penar um pouco antes de ter um artigo aceito
numa revista [...]. Ein Paris, em particular, pode-se fazê-los
penar um ano ou dois e, quando eles estão em processo de
inscrição na LAFMA (lista de aptidão à função de mestre-
assistente), isso pode ser péssimo” (Geógrafo, 1971). “Os
patrões têm o poder porque têm o poder dc fazer nomear
os assistentes. Eles têm o poder em dois níveis:
primeiramente escolhendo os assistentes, depois fazendo-
os pagar esse primeiro serviço. Por sua inscrição na lista dc
aptidão de mestre-assistente, o assistente deixa de ser
auxiliar: portanto inventam- se regras para fazê-lo constar
desta lista; para alguns orientadores é um determinado
número de páginas de tese que devem scr redigidas; para
outros é uma questão dc complacência” (Literato, 1971).
Em todas as situações em que o poder é pouco ou nada
institucionalizado,” a instauração de relações de autoridade
e de
é
u Menos institucionalizado que o poder burocrático tal como o existente nas empresas públicas ou privadas, o poder sobre as
instâncias de reprodução do corpo universitário bem mais institucionalizado que o poder dc consagração reconhecido no

dependência duráveis repousa sobre a expectativa


campo dc produçáo cultural. Ele é menos institucionalizado entretanto nas faculdades de letras do que nas faculdades de

como propósito interessado de algo a advir que modifica


medicina,

duradouramente - isto é, durante todo o tempo em que


dura a espera - a conduta daquele que conta com a coisa
esperada; e também sobre a arte de fazer esperar, no duplo
sentido de suscitar, de encorajar ou dc manter a esperança,
por promessas ou pela habilidade de não decepcionar,
desanimar ou desmentir as antecipações ao mesmo tempo
que pela capacidade de frear e de conter a impaciência, de
suportar e aceitar o prazo, a frustração contínua das
esperanças, das satisfações antecipadas, inscritas como
quase presentes nas promessas ou nos propósitos
encorajadorcs dos fiadores, e indefinidamente proteladas,
adiadas, suspensas.
Espécies dc capital c formas dc poder
O poder universitário consiste assim na capacidade de
agir sobre as esperanças - elas mesmas apoiadas de um
lado na disposição para jogar e no investimento no jogo, e
de outro na indeterminação objetiva do jogo - e de outra
parte sobre as probabilidades objetivas - delimitando
sobretudo o universo dos concorrentes possíveis. Mesmo
que um professor dc província aspire por muito tempo a ir
para a Sorbonne ou que um professor da Sorbonne ou do
Colégio de França espere o Instituto, o membro do
Instituto ou o professor da Sorbonne do qual ele depende
para sua eleição pode lhe impor seu assistente, obter seu
voto numa eleição (em particular, na que visa designar seu
próprio sucessor), ou, simplesmente, obter dele reverência
c referências (comprccnder-se-á que a exemplificação, que
deslocaria sua atitude peremptória à análise, seja
impossível aqui). A autoridade está fundada nas
expectativas dc carreira: só se mantém quando sc relaciona
a algo. Mas essas expectativas não são independentes da
existência objetiva dc futuros prováveis, nem totalmente
determinados nem totalmente indeterminados. Se, para
que o mecanismo funcione, for evidentemente preciso que
vários concorrentes dotados dos mesmos títulos e
pertencendo à mesma geração escolar estejam competindo
pelas mesmas vagas, é preciso que sejam em pequeno
número para poder razoavelmente aspirar aos postos
oferecidos e se identificar por antecipação a seus
ocupantes - coisa que se torna impossível quando as
probabilidades objetivas caem abaixo de um determinado
limite — e no entanto em número suficientemente
onde os orientadores dispóem dc toda uma série de instrumentos de controle institucionalizados, tais como todos os
concursos sucessivos (externato, internato, (unçáo de adjunto, agregação, etc.).
grande para que não tenham a certeza absoluta que faria
desaparecer a expectativa. No espaço de liberdade assim
definido, o mestre arbitra a competição entre os
concorrentes diferenciados por propriedades secundárias
(idade, sexo, estatuto de normalista), relembrando prece-
dências e prioridades (“eu os inscreverei na lista dc aptidão,
mas não antes de X”), promessas e hierarquias. E os
seminários em que ele acolhe cada semana os “alunos”
vindos de Poitiers, Rennes ou Lille estão muito mais
próximos, por sua função e seu funcionamento, dos
grandes agrupamentos profissionais que as associações
americanas de professores organizam anualmente, isto é,
da lógica do academic marketplace■ ,** do que do
seminário de pesquisa na tradição alemã: quase
obrigatórias para quem quer ter êxito, essas reuniões do
conjunto dos concorrentes para os postos cobiçados sáo
sem dúvida o lugar onde sc inculca e se reforça, na e pela
submissão mimética ao mestre ou aos concorrentes mais
avançados, a relação ética ao trabalho científico que, mais
do que qualquer outro fator, impõe suas formas e seus
limites à produção universitária.1’
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Tempo e poder
124
As relações dc dependência, e seu destino, dependem
das estratégias do “patrão”, elas também ligadas à sua
posição e às suas disposições, c das estratégias dos
“clientes”, isto, certamente, nos limites das condições em
que umas e outras se exercem, e delas a mais importante é
sem dúvida a tensão do mercado dos postos na disciplina
considerada (os dominantes tendo um jogo mais fácil
quando a tensão do mercado é mais forte e mais forte
também a concorrência entre os novos entrantes). Sc
deixarmos de lado os professores - minoritários sem dúvida
nesta
11
Cf. T. Caplow c R. J. McGcc, The Academic Marketplace, New York, Doublcday and Co., 1965 (1. ed., 1958), p. 99.
15
A mesma lógica se observava nos ateliês privados que, no século XIX, preparavam os pintores ao prêmio de Roma. Tudo
era feito para manter os alunos até uma idade bem avançada num estado dc subordinação absoluta cm relação ao mestre
(havia por exemplo toda uma série de níveis pelos quais era preciso passar - desenho a partir de gravura, depois a partir dc
gessos, depois a partir dc modelos- vivos, pintura, etc. num ritmo determinado pelo mestre). Pessoas dc idade avançada
podiam ser mantidas no nível do desenho. Não se sabia quanto tempo se permaneceria num determinado nível. Num ateliê
como o de Ddarochc, famoso por suas aprovaçóes nos concursos, somente os mais rijos conseguiam sobreviver ao
descncorajamcnto suscitado pelas manipulações c intrigas (cf. A. Boimc, The Academy atui French Painting in the Nineteenth
Century, Londres, Phaidon, 1971 c J. Lcthcvc, La vie quotidienne des artistes français au XIX' siècle, Paris, Hachette, 1968).
região do espaço universitário - que, como diz um
informante, “excitam intelectualmente, ajudam a trabalhar
e impelem a publicar” (Linguista,
Espccies de capital c formas de pod<
1971), vemos que os “patrões” ajustados à sua posição,
isto é, dotados do sentido do jogo necessário para colocar
seus clientes, assegurar-lhes uma carreira e garantir-se
assim nas alternâncias dc poder, devem realizar um
optimum entre a preocupação de manter o maior tempo
possível suas “crias”, evitando que cheguem muito
rapidamente à independência e até mesmo à concorrência
ativa (sobretudo com a clientela), e a necessidade de ‘
‘impeli-las” suficientemente para não as decepcionar, para
vinculá-las (evitando por exemplo que se aliem a
concorrentes) e também afirmar seu poder, reforçando
assim seu prestígio acadêmico e sua força dc atração.
Mas talvez seja suficiente citar a análise que um informante
especialmente prevenido propôs das estratégias
comparadas de dois orientadores: “X sc cercou, numa
determinada época, dc muitos tipos; havia muitos tipos
entre os mais fortes que procuravam estar com X Ele os
decepcionou? Ele náo os bajulou, salvo os que estavam
longe dele geograficamente [...], que náo eram seus
assistentes; ele os impulsionou, eles defenderam suas teses
c notabilizaram-se extremamente rápido pois Y chegou à
Sorbonne aos trinta e oito anos, algo assim. Os outros, ele
os deixou plantados, mestres-assistentes. Ele os deixou
para trás.
De um tipo como R que era assistente de X, ele não se
ocupava. Havia outros que estavam com X; cies
encarregaram-se enfim do ensino, mas com mais de
quarenta anos. Aproveitaram 1968 para serem nomeados 12
5
cm Vincennes. Se náo houvesse Vincennes eles ainda
seriam mestres- assistentes na Sorbonne. O que faz com
que não haja aluno de X que tenha chegado ao poder
recentemente, salvo D. Há os que lhe são fiéis como Y,
mais ainda [...]. Se chegam ao poder, eles náo sáo mais fiéis
a X, ou er.táo não chegam. Há pessoas que se ligaram a Z,
que tinham iniciado sem ele mas que, ao chegar perto da
defesa da tese, ligaram-se a ele e uma vez doutores foram
ajudados por ele. (Geógrafo, 1971).
Há sem dúvida poucos universos sociais em que o
poder dependa tanto da crença, em que ele seja tão
verdadeiro, pois, segundo as palavras de Hobbes, “ter
poder é ter seu poder reconhecido”. Igualmente, náo se
pode compreender completamente os fenômenos de
concentração dç poder universitário sem levar em conta
também a contribuição que lhe trazem os pretendentes,
por causa das estratégias que trazem para os protetores
mais poderosos. Estratégias do habitus, portanto mais
inconscientes que conscientes. Da mesma maneira que
o mestre, segundo seu panegirista, parecia ingressar nos
postos dominantes como por uma necessidade natural,
sem ter intrigado nem brigado”, assim também os alunos
mais prevenidos, que também sáo os mais aquinhoados,
náo tem necessidade de calcular nem dc medir suas
chances para levar aos mestres mais influentes seu
reconhecimento, sua clientela. Esse é outro desses efeitos
que fazem com que o capital vá ao capital. Verifica-se na
verdade que existe uma relação estreita entre o capital de
poder universitário possuído pelos diferentes “patrões” e o
número e a qualidade (medida pelo capital escolar) de
seus clientes - que representam uma dimensão e uma
manifestação de seu capital simbólico.
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Apenas o número de teses orientadas é suficiente para
distinguir, nas diferentes disciplinas, os grandes “patrões”.
Por exemplo, em história, disciplina em que os dados são
mais seguros:"21 Girard, 57 teses principais, Labrousse, 42,
Renouvin, 23, Guiral, 22, Perroy, 21, Mollat e Mousnier, 19.“
Igualmente, em grego: Fernand Robert, 33 teses principais
(3 teses complementares e 3 teses de 3“ ciclo); Madame de
Romilly, 21 (4 TC, 9 3- ciclo); Flacelière, 20 (8 TC);
Chantraine, 17 (8 TC); Madame Harl, 16 (12 3a ciclo).16 Ou
em filosofia: Ricocur, 10 (4TC); Hyppolite, 10 (3TC),
Schuhl, io (3 TC); Jankélévitch, 7; Walh, 6 (3 TC); Gandillac, 6
(7 TC); Alquié, 5 (iTC); Gouhier, 4 (12TC); Ganguilhem, 4
(4TC); Souriau, 4 (2 TC).17 Observa-se, em todas as
disciplinas, uma diferença evidente entre os eruditos ou os
pesquisadores eminentes que, especialmente quando
estão no Colégio de França, orientam em geral apenas um
pequeno número de candidatos, e num domínio muito
preciso, enquanto os mais poderosos dos professores
ordinários orientam um grande número de trabalhos
frequentemente muito diversos.
Espécies dc capital c formas de podcr
Mas é quando se leva em conta a qualidade social dos

depositadas entre duas datas relativamente próximas e do número de teses globalmente orientadas
por cada professor c do capital social que elas representam, porque elas mantem as teses destinadas
a serem realmente introduzidas no mercado universitário francês. 127
candidatos que se revelam as diferenças mais significativas:
vê-se na verdade se reagruparem em torno dos “patrões”
mais poderosos os candidatos com maior número de
propriedades eficientes no campo (a masculinidade, a
agregação - e mesmo o bom ranking neste concurso -, o
título de norma- lista) e por consequência os mais dotados
de “poder” potencial (como a carreira ulterior o atesta
claramente). É por isso que, em filosofia,58 onde sem
dúvida se encontram os virtuosos do sistema, Jean
Hyppolite, normalista e num momento diretor da Escola
normal, professor na Sorbonne depois no Colégio de
França, se opõe claramente a Paul Ricœur, não normalista
c professor em Nanterre (depois nos Estados
Unidos), o qual, embora disponha, como tradutor e
comentarista de Husserl, de uma autoridade e de uma
notoriedade ao menos equivalentes às de Hyppolite,
conhecido sobretudo como tradutor e comentarista de
Hegel, e ainda que aí acrescente uma obra de
fenomenólogo, depois de filósofo da linguagem e da
interpretação, acolhe doutorandos de um qualidade social
claramente inferior. Os 10 inscritos de Hyppolite são
homens, 9 são agregados, 6 normalistas, e, na data da
enquete, 6 estavam em Paris e 4 já eram mestres de
conferência, 2 mestres-assistentes, 2 assistentes e 4
associados à pesquisa no CNRS. Dos 10 candidatos de
Ricocur, contavam-se 8 homens, 8 agregados, nenhum
normalista, apenas 2 eram parisienses e 5 eram mestres-
assistentes, 3 assistentes, 1 mestre de conferência, 1
professor no ensino católico. Esse breve exame permite
contudo perceber claramente a função e o funcionamento
da tese no caso de uma disciplina canônica por meio da
qual o orientador controla de maneira absoluta o acesso à
única posiçáo possível, a de professor numa faculdade.1’
O sucesso de uma carreira universitária passa pela
“escolha” de um orientador poderoso, que não é
necessariamente o mais famoso nem mesmo o mais
competente tecnicamente; é por isso que as carreiras mais
prestigiosas, para os “filósofos”, da geração que chegará
ao controle nos anos 1970-1980 passavam pela proposição
dc um tema de tese a um dos professores da Sorbonne
dos anos 1950-1960 que haviam se encontrado trinta anos
antes em torno dc Émile Brehier e de Leon Brunschwicg. O
resultado da especialização que, ao atrair alguns
candidatos mais “promissores” para o especialista de uma
região bem delimitada do espaço filosófico (Schuhl,
Guitton, Gouhier ou Canguilhem), parece contrariar o
processo de monopolização, tende na realidade a reforçá-
lo: os temas mais gerais são na verdade, segundo uma
hierarquia implícita mas reconhecida por rodos, os mais prestigiosos
(como testemunha, entre outros indícios, o fato de que os temas mais
especializados estão reservados à tese secundaria e aos diretores
secundários que são os especialistas). Basta olhar detalhadamente a lista
dos temas entregues para os patrões mais atrativos para ver que o que é
esperado (objetivamente) do orientador náo e, salvo exceção, uma
verdadeira orientação de pesquisa, conselhos metodológicos ou técnicos e
até mesmo uma inspiração filosófica, mas uma espécie de
reconhecimento de qualidade e a liberdade aferente, e, mais
inconscientemente, uma orientação sobre a carreira, uma patronagem
(encontram-se assim, com Hyppolite, ao lado de um pequeno número de
temas sobre Hegel - que são aliás convenientes aos raros “marginais” -,
estudos sobre Leibniz, Nietzsche ou Alain, sobre o pensamento histórico
na Grécia, sobre a fenomenologia do sentido, etc.). Enfim, as afinidades
intelectuais entre os grandes orientadores e seus clientes sáo muito
menos evidentes que as afinidades sociais que os unem.
Espécies de capital e formas dc pod«
Dc fato, ainda que pareçam obedecer a dois princípios independentes,
a escolha do tema c a “escolha” do orientador traduzem as mesmas
disposições nas duas lógicas diferentes: o sentido da estatura filosofica
que se declara na amplitude dos temas e na nobreza dos autores se
manifesta simultaneamente na escolha de um “patrão” que, por sua
posiçáo universitária ao menos tanto quanto por sua obra, pode aparecer
no momento considerado como o mais filósofo dos professores de
filosofia, sendo o mais bem posicionado para assegurar ao pretendente
filosoficamente ambicioso as condições sociais do pleno exercício da
atividade filosófica, isto é, concretamente, um posto numa faculdade.
Uma e outra “escolha” exprimem esta espécie de sentido de colocação
inseparavelmente intelectual e social que leva os mais consagrados dos
impetrantes em direção aos objetos mais nobres e às posições mais
prestigiosas a que eles introduzem. Como a “escolha” do cônjuge, a
escolha do orientador também é em parte uma relação de capital a
capital: pela condição do orientador e do tema escolhidos, o candidato
afirma o sentido que ele tem de sua própria condição e da condição dos
diferentes orientadores possíveis, algo assim como um bom ou mau gosto
em matéria intelectual (com todos os efeitos de
alodoxia>° possíveis). O orientador é escolhido mais do
que escolhe; e o valor de seus alunos que, sem todavia
serem discípulos, lhe concedem apesar disso uma forma
de reconhecimento intelectual contribui para fazer seu
valor - assim como contribui para fazer o deles.»'
É através de todas as “escolhas” mútuas, feitas por
parceiros bem harmonizados até em seus princípios de
“escolha”, que se constituem solidariedadcs destinadas a
aparecer como o produto de operações de julgamento e
classificação fundadas em critérios explícitos e regras
expressas. Aqui como alhures, é preciso evitar imputar a
um efeito da regra, ou da intenção deliberada e metódica,
regularidades que têm por princípio as inclinações do
senso prático. A objetivaçáo, c principalmente aquela que a
estatística realiza ao incorporar o resultado dc múltiplas
estratégias individuais, produz por si uma alteração teórica
que é preciso manter na consciência: ela faz aparecer entre
as propriedades dos agentes e suas práticas relações que
se pode ser tentado a 1er como o resultado de um cálculo
cínico do interesse bem compreendido. Leitura ainda mais
provável quando esta filosofia ingenuamente utilitarista da
ação (dos outros) é o áindamento ordinário da polêmica
cotidiana, às vezes mascarada de ciência, que
frequentemente esgota sua falsa lucidez no ressentimento.
A audácia e até mesmo a imprudência estatutariamente
partilhadas com alguns fornecem suas melhores
justificativas e seus mais seguros álibis à prudência
institucional que incumbe ao maior número. O culto ao
“brilhante”, pelas facilidades que ele obtém, as falsas
audácias que favorece, os trabalhos humildes e obscuros
que desencoraja, opõe- se menos do que parece às
prudências da acadêmica mediocritas, à sua
epistemologia da suspeita e do ressentimento, ao seu
horror à liberdade e ao risco intelectuais; e ele concorre
com o apelo à “seriedade”, com suas colocações prudentes
e com seus pequenos benefícios, para contrariar ou
desencorajar todo pensamento próprio a perturbar uma
ordem fundada na desconfiança em relação à liberdade
intelectual e até numa forma
*° Termo amplamente utilizado no conjunto das obras do autor para caracterizar um erro de identificação, uma forma dc
falso reconhecimento decorrente do fato dc não possuir os conhecimentos necessários à interpretação dos fâtos. (N.T.)
Pode-se compreender nesta perspectiva os elogios obrigatórios de sucessor a predecessor, c seu conteúdo, que mistura
inextricavclmente as declarações dc reconhecimento - no sentido de gratidão - para com o “patrão” c as profissões de
reconhecimento intelectual para com o “mestre”.
muito especial de anti-intelectualismo. A surda resistência
à inovação e à invenção intelectual, a aversão pelas ideias,
pela liberdade de espírito e a crítica que com tanta
frequência orientam os julgamentos acadêmicos, tanto nas
defesas de tese ou prestações de contas críticas quanto
nos cursos bem equilibrados que viram as costas às
vanguardas do momento, são sem dúvida o efeito do
reconhecimento concedido a uma instituição que só
confere as garantias estatutárias vinculadas ao
pensamento da instituição aos que aceitam sem saber os
limites atribuídos pela instituição. E nada contribui tanto
quanto a tese de doutorado para reforçar as disposições
desejadas; isso por intermédio do controle difuso que a
autoridade patrimonial do “pai de doutor” tende a exercer
sobre todas as práticas, principalmente sobre a publicação,
por meio da autocensura e da reverência obrigatoria em
relação aos mestres e à produção universitária e sobretudo
por meio da relação prolongada de dependência em que
ela mantém o candidato e que muitas vezes não tem nada
a ver com as necessidades técnicas de uma verdadeira
aprendizagem.»1
Espccics dc capital e formas dc podi
Fazer sobressair, como se faz comumente, o ritual da
defesa é, em todo caso, mascarar o essencial, que reside na
espera submissa e no reconhecimento da ordem
acadêmica que ela implica. Como lembravam as
ordenanças que regiam o exame que, na Idade Média,
dava acesso ao domínio na profissão de seleiro, não há
mestre sem mestre: nul lus assumi debet in magi strum,
qui sub magistro non fuerit discipulus. Não há mestre
reconhecido que náo reconheça um mestre e, por meio
dele, a magistratura intelectual do sagrado colégio dos
mestres que o reconhecem. Não há mestre em uma
palavra que náo reconheça o valor da instituição c dos
valores institucionais que sc enraízam na recusa instituída
de todo pensamento não institucional, na exaltação da
“seriedade” universitária, esse instrumento de
normalização que tem para ele todas as aparências, as da
ciência e as da moral, ainda que frequentemente seja
apenas o instrumento da transmutação dos limites
individuais e coletivos da virtude científica em escolha.
Como toda forma de poder pouco institucionalizado e
que exclui a delegação de poderes22' ainda que bem
fundados, o poder propriamente universitário só pode ser
acumulado e mantido à custa de um gasto constante, e
importante, de tempo. Resulta que, como Weber já havia
observado, a aquisição e o exercício de um poder
administrativo no campo universitário - o de decano ou de
reitor por exemplo - ou de um poder oficioso de grande
eleitor ou de membro influente das assembleias eleitorais
ou das comissões e comitês de todas as ordens tendem de
fato a comprometer a acumulação de um capital de
autoridade científica, e reciprocamente. Como a
acumulação de um capital simbólico numa sociedade pré-
capitalista em que a objetivaçáo dos mecanismos
econômicos e culturais é pouco avançada, a acumulação
do capital específico dc autoridade acadêmica exige um
» Ver-sc-á que o podcr numa instituição dc produção ou dc reprodução cultural implica uma forma de autoridade
propriamente cultural, uma espécie dc carisma dc instituição.
dar de si, isto é, do seu tempo, para controlar a rede das
instituições onde se acumula e se exerce o poder
universitário e também para entrar nas trocas que esses
agrupamentos provocam e onde se constitui pouco a
pouco o capital de serviços prestados que c indispensável
à instauração das cumplicidades, das alianças e das
clientelas.
Para se convencer basta imaginar o emprego do tempo
de tal encarnação exemplar do professor onipresente:
Marcel Durry, que, nomeado professor na Sorbonne em
i944> acumula, durante uns trinta anos, os encargos
administrativos, as presidências, as participações nas mais
altas instâncias da “latinidade”, como, dizem, ele gostava
de dizer. Esse é o homem dos jetons: diretor do Instituto
dos estudos latinos e decano da Sorbonne, ele foi por
muito tempo presidente da banca de agregação e do
Comitê consultivo, e também administrador da Sociedade
dos estudos latinos, presidente da Federação internacional
dos estudos clássicos — e durante um tempo da
associação Roma-Atenas, membro do conselho de
administração da associação Guillaume Bude onde “ele
nunca faltou a uma seção” e onde representava o conselho
dc administração das Belas-Letras, membro do conselho
de administração da Casa Velasquez. “O ministério o
consulta de bom grado”, mas ele ainda encontra tempo
para viajar “por toda a Europa” e até Constantina [Argélia]
ou Brasil, onde é encarregado de uma missão (cf. J.
Heurgon, nécrologie de Marcel Durry no Bulletin de
I'association Guillaume Budé, 1978, na I, p. 1-3 e P. Grimai,
Revue d'études latines, 55, 1977, p. 28-32). Ter-se-á uma
imagem paradigmática do orientador de segundo plano,
assessor mais que decano, tesoureiro mais que presidente,
secretário mais que diretor, mas igualmente devotado e,
sem dúvida, pelo menos igualmente indispensável ao bom
funcionamento da instituição, na evocação da carreira de
Pierre Wuilleumier (F. Robert, Bulletin de l’association
Guillaume Budé, março de 1980, nfl 1, p. 1-4 e P. Grimai,
Revue d'études latines, 5,1979, p. 29-31).
Espécies dc capital e formas de pod<
A oblação de tempo que implica a participação em
ritos, cerimônias, reuniões, representações, é também a
condição mais rigorosamente necessária da acumulação
desta forma particular de capital simbólico que é uma
reputação dc honorabilidade universitária: o
reconhecimento que todo grupo concede em
contrapartida ao reconhecimento concedido ao grupo, a
seus valores, a suas obrigações, a suas tradições e aos
rituais através dos quais ele reafirma seu ser e seu valor,
está na base de uma forma de autoridade interna
relativamente independente da autoridade propriamente
científica. Somente um conjunto de monografias permitiria
apreender a lógica das trocas em que entram os
universitários por ocasião das bancas de tese (aquele que
pede a participação de um colega na banca de uma tese
que ele orientou se obriga tacitamente a conceder a
reciprocidade e entra portanto no circuito de trocas
contínuas), das eleições (aquele que toma a palavra em
favor do candidato de um colega conquista junto a ele —
e a seu candidato - um crédito que poderá fazer valer
numa outra eleição), dos comitês de redação (onde
funcionam mecanismos análogos), das comissões de
admissão, etc. Isso é sem dúvida o que fàz com que a
lógica da acumulação do poder tome a forma de uma
engrenagem de obrigações que engendram as obrigações,
de uma acumulação progressiva de poderes que lembra as
solicitações geradoras de poder.
Mas é preciso seguir aqui um informante na descrição
de um estado mais recente (por volta dos anos 1980) do
campo universitário onde, com o desenvolvimento das
instâncias consultivas, a lógica da equivalência do tempo e
do poder universitário parece ter atingido seu limite: “Há
uma grande vantagem em fazer parte desta comissão
porque tu és solicitado, és demandado, fazes parte dc uma
rede dc relações - se tu jogas o jogo -, dc uma rede que te
permite conhecer um pouco todo
mundo: da mesma maneira, és convidado nas faculdades
para fazer parte das comissões de especialistas,
eventualmente para fazer conferências. Uma vez X me
convidou a ir a L para fazer uma conferência, o que me
proporcionou quatrocentos ou quinhentos paus. Náo é
isso que é interessante, mas isso se torna interessante para
encontrar um posto. Um mestre-assistente que defende
sua tese, que trabalha com essas pessoas, mesmo que
sejam pessoas que náo sáo de seu partido (uns tendo sido
eleitos sindicalistas, outros tendo sido nomeados por um
governo de direita), há objetivamente, quer queiras ou náo,
alguma coisa que circula no fato de fazer parte desta
comissáo. É verdade que havia o costume a cada sessáo de
almoçarem juntos no restaurante os mestres-assistentes e
os professores [...]. Há uma vantagem considerável cm
ocupar uma cadeira nesta comissáo, porque isso te faz
conhecido; para um mestre-assistente que procura um
posto de professor, desde que tenha defendido sua tese,
sc ele participou de comissões locais, ainda que um pouco
periféricas, se há um posto criado lá, a comissáo dc
especialistas local lhe dará imediatamente a precedência.
Isso te cria uma rede de relações sociais decorrentes náo
das publicações ou dc um reconhecimento propriamente
intelectual” (Sociólogo, 1980). No caso desses poderes de
um tipo novo que se desenvolveram em favor do
sindicalismo e do corporativismo categorial, o poder se
paga mais do que nunca em tempo, isto é, renunciando à
acumulaçáo de um capital dc autoridade específica; c tudo
permite supor que a intensificação das lutas categoriais
tem como maior efeito diminuir o tempo global que fica
disponível para a pesquisa científica (resultado que, sem
ter sido desejado assim, está conforme com os interesses
dos que têm menos benefícios a esperar da pesquisa
propriamente dita): “Sete relatórios para fazer, para alguém
que tem a técnica, vai rápido, deve demandar um dia no
máximo. Ao contrário, participar dc comissões tomava
muito tempo (uma semana). Naquele ano, nos reunimos
uma vez durante uma semana e uma vez três dias e meio.
Isso é muito cansativo. Havia alem disso mais a reuniáo do
gabinete, que consistia em repartir os dossiês entre os
membros da comissão. Eu estava lá pelos mestres-
assistentes. Eu talvez tenha passado duas horas ou
facilmente meio expediente. “Ah, Um tal tem como diretor
de tese Um tal, portanto náo é preciso Um tal”. E X, além
disso, devia ir vários meios expedientes por ano ao
ministério porque o ministério trabalha diretamente com
os presidentes, dá instruções. Um presidente tem muito
mais trabalho que o membro básico da comissáo [...]. Há
algo que toma muito tempo, sáo os telefonemas entre os
membros
da comissão. Acho que isso deve ocorrer principalmente
entre os professores, náo somente entre os membros da
comissão mas também com os que moram na província,
etc. Para os militantes sindicais, há as cartas que se deve
escrever para os sindicalizados para prestar conta, as
reuniões preparatórias (entre eleitos sindicais SNESup). No
total esse tempo vale quase um mês de trabalho; creio, em
todo caso, que aquele foi um ano pesado. Náo é grande
coisa em relação ao CNRS; há quem acumule o CNRS c o
CSCU. Eles passam três meses do ano nisso (Sociólogo,
1980).
Espécies dc capital e formas dc poder
Assim, nada resumiria melhor o conjunto das oposiçóes
que se estabelecem entre os ocupantes dos dois polos do
campo universitário quanto à estrutura de seu orçamento-
tempo (pelo fato de que às diferentes espéciesdecapital
correspondem diferentes formasdcalocaçáodo tempo): de
um lado, os que investem sobretudo no trabalho de
acumulação e de gestão do capital universitário - inclusive
em seu trabalho “pessoal”, consagrado em grande parte à
produção de instrumentos intelectuais que sáo também
instrumentos de poder propriamente universitário, cursos,
manuais, dicionários, enciclopédias, etc.; do outro, os que
investem sobretudo na produção e, secundariamente, no
trabalho dc representação que contribui para a
acumulação de um capital simbólico de notoriedade
externa. De fato, os mais ricos em prestígio externo
poderiam ser divididos ainda segundo a parte do tempo
que dedicam à produção propriamente dita ou à
promoção direta de seus produtos (principalmente com o
trabalho de importaçáo-exportação científico, colóquios,
congressos, conferências, trocas de convites, etc.) ou ainda
a iodas as atividades públicas, sobretudo de tipo político,
que fazem parte do papel social do intelectual, e que, sem
serem necessariamente concebidas como tais, decorrem
em parte da lógica das relações públicas c da publicidade
(com, por exemplo, o contato com jornalistas, a produção
de artigos para os jornais, a participação em petições ou
manifestações, etc.).
Compreende-se que o poder universitário seja tão
frequentemente independente do capital propriamente
científico e do reconhecimento que ele atrai. Poder
temporal num universo que não é nem de fato nem de
direito dedicado a esta espécie de poder, ele sempre tende
a aparecer, talvez mesmo aos olhos de seus possuidores
mais certos, como uma forma inferior de poder, como um
substituto ou um prêmio de consolação. Compreende-se
também a profunda ambivalência dos universitários que se
devotam à administração em relação aos que se dedicam,
e com sucesso, à pesquisa - sobretudo numa tradição
universitária em que o patriotismo universitário é frágil e
pouco recompensado.
Tudo permite supor que a orientação inicial ou tardia na
direção das posições de poder temporal depende das
disposições do habitus c das chances - às quais essas
mesmas disposições contribuem por meio da antecipação
e do efeito de self-fulfilling prophecy- de conquistar as
únicas fichas oficialmente reconhecidas no campo, isto é, o
sucesso científico e o prestígio propriamente intelectual. A
lógica da causalidade circular que se instaura entre as
posições e as disposições, entre o habitus e o campo, faz
com que um mínimo sucesso dos investimentos científicos
possa levar a aceitar ou a buscar os investimentos
extracientíficos de tipo substitutivo ou compensatório que
contribuem em contrapartida para reduzir o rendimento
dos investimentos científicos. Segue-se que nada seria
mais vão do que tentar determinar se o menor sucesso
intelectual é o princípio determinante ou o efeito dessas
vocações negativas que levam às posições de poder
acadêmico ou de administração universitária - ou ainda a
esta forma particular de sindicalismo que, no ensino ou na
pesquisa, representa uma via secundária de sucesso
temporal; tanto que em mais de um caso, ao menos no
período anterior à crise, as disposições universitariamente
aprovadas em relação à cultura escolar pareciam conduzir
com muita naturalidade a cargos de gestão.
É lógico que essas regiões do espaço universitário
estejam ocupadas por agentes que, sendo produzidos para
a instituição escolar e por ela, têm apenas que se deixar
levar pelas suas disposições para produzir indefinidamente
as condições da reprodução da instituição, a começar pela
mais importante: impor ao mesmo tempo a limitação das
necessidades e das aspirações em matéria de cultura e a
ignorância desses limites, a restrição da visão do mundo e
a adesão a esta visão mutilada, que instiga a apreender
como universalidade, sob o nome de “cultura geral”, a mais
extrema particularidade.’4 Os oblatos são
M
Nesta perspectiva, não sc poderia dar muita atenção aos programas que cxcrccm um papel determinante no
condicionamento da clientela - estudantes c futuros mestres - definindo o universo dos saberes tscolarmente rentáveis c
contribuindo assim para produzir c reproduzir programas de pensamento.
sempre os mais inclinados a pensar que fora da Igreja náo
há salvação - sobretudo quando se tornam os grandes
pontífices de uma instituição de reprodução cultural que,
ao consagrá-los, consagra a sua ignorância ativa e
sobretudo passiva de todo um outro universo cultural.
Vítimas dc sua eleição, esses milagrosos do mérito
apresentam uma curiosa combinação de suficiência e de
insuficiência que impressiona facilmente o observador
estrangeiro — como Léo Spitzer que evoca várias vezes “o
isolamento escolar” e “a autarquia dupla, sorboniana c
nacional” dos adeptos franceses de Rabelais
Espécies de capital e formas dc poder
Deixa-se de compreender os traços mais constantes da
Universidade francesa quando se ignora que a sua
aristocracia cultural, vinda essencialmente da pequena
burguesia mais ligada ao sistema escolar - o coração da
Sorbonne pertence aos filhos de professores primários —
que é sem dúvida mais do que outros (o alemão, o inglês,
por exemplo) desprovida de tudo o que possibilita uma
herança dc aristocracia cultural e privada da consciência de
sua privação. O aristocratismo intelectual do pobre está no
princípio do círculo vicioso da pobreza cultural. E ele não
tem necessidade de invocar o caráter nacional para
compreender que a combinação de jacobinismo
igualitarista e de aristocratismo escolar que está
consolidada na instituição do concurso engendra uma
disposição profundamente ambivalente em relação a todas
as realizações científicas: a defesa coletiva contra toda
hierarquização objetivada das performances (que
desencoraja toda busca de indicadores institucionalizados
do estatuto científico) pode assim associar-se a uma
exaltação sem equivalente dos grandes intelectuais.
Vindos em grandíssima parte do corpo docente, e
sobretudo de suas camadas inferiores e médias, quase
todos tendo passado pela khâgnf23 e pela Escola normal
superior, onde com muita frequência ainda ensinam,
geralmente casados com professores, os professores
canônicos das disciplinas canônicas concedem à instituição
escolar que escolheram porque ela os escolheu - e
reciprocamente - uma adesão que, por ser totalmente
condicionada, tem algo de total, de absoluto, de
incondicional. A dialética da consagração que contribui
para conduzir os agentes para os lugares a que suas
disposições socialmente constituídas os predestinam
funciona a pleno vapor, e somente a ciência mais refinada
da comunicação infralinguística poderia recuperar os
indícios pelos quais, nos procedimentos de cooptaçáo, a
instituição reconhece os que a reconhecem, quer se trate
do que se chama de “seriedade”, isto é, a disposição para
levar a sério as sugestões ou as injunções escolares, ou de
seu complemento, o “brilhante” que, sendo
,7
Isso é sem dúvida ainda mais verdadeiro nas faculdadcs dc direito ou de medicina, onde o ar de seriedade, indício da adesão
aos valores de normalidade burguesa, é ainda mais fortemente exigido quando a oposição entre o brilhante e o sério náo é
pertinente c quando o maus brilhante também é o mais sério, aquele que manifesta mais claramente c mais cedo a adesão às
tradições do corpo (essa seriedade precoce náo exclui, bem ao contrário, o deboche controlado c estatutário, isto é,
ritualmente limitado no tempo e no espaço social).
frequentemente identificado com a precocidade, isto é,
com o sucesso rápido nas provas escolares, mede também
a precocidade da adesão aos valores de “seriedade”, sendo
o mais precoce nesse sentido aquele que é o mais velho
entre os jovens.’7
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
O poder propriamente universitário é típico das
disciplinas canônicas, história da literatura francesa, letras
clássicas ou filosofia, que estão estreitamente ligadas aos
programas e às provas escolares e, por meio deles, ao
ensino secundário, no qual elas controlam diretamente a
reprodução ao elaborar, pelos programas, os cursos e os
temas de concurso, as disposições duradouramente
inculcadas ao corpo docente. Investidos de uma espécie de
magistério social - como testemunha sua participação ativa
na defesa da língua e da cultura francesas e das
instituições encarregadas de apoiá-los -, os professores
dessas disciplinas subordinam o essencial de sua prática
pedagógica - e “científica” — às exigências dos exames e
concursos.
138
Esta função quase jurídica se evidencia no caso dos
gramáticos: jogando, sem o saber, com a ambiguidade da
gramática, que se pode entender num sentido positivo ou
normativo, eles dizem ao mesmo tempo o que é a língua e
o que ela deve ser: “O gramático exercia um papel duplo:
cabia-lhc dc um lado descobrir a natureza da linguagem, e
do outro ensinar suas normas aos jovens. Como
observador e descobridor, ele era o fundador da ciência da
linguística, mas, como professor e legislador, ele fazia parte
da mesma instituição que os padres, juizes ou príncipes.
Assim como eles fundavam ou administravam os códigos
da religião, do direito ou da etiqueta, ele estabelecia e
interpretava os códigos da “boa” linguagem ou da
linguagem “correta”.**
Espécics dc capital e formas de pod<
Os mestres canônicos das disciplinas canônicas dedicam
uma parte importante dc seu próprio trabalho à produção
de obras cuja intenção escolar é mais ou menos
sabiamente denegada, sendo ao mesmo tempo privilégios
— em geral frutuosos economicamente - e instrumentos
de poder cultural considerados como empreendimentos
de normalização do saber e de canonização das aquisições
legítimas: são certamente os manuais, os livros da coleção
“Que sais-je?' c também as inúmeras coleções de “síntese”,
especialmente florescentes e rentáveis em história, os
dicionários, as enciclopédias, etc.» Essas “vastas sínteses”,
frequentemente coletivas, além de permitirem reagrupar e
gratificar vastas clientelas, têm, pela seleção que realizam,
um efeito de consagração (ou de palmarès) que se exerce
primeiramente sobre o corpo docente e, por meio dele,
sobre os alunos das diferentes ordens de ensino.24
Oriundas dc cursos e destinadas a retornar à condição de
curso, elas frequentemente perpetuam um estado
ultrapassado do saber, instituindo e canonizando
problemas c debates que devem existir e subsistir à inércia
dos programas objetivados e incorporados da Escola. Elas
são o prolongamento natural do grande ensino de
reprodução que, como divulgação legítima, deve inculcar o
que a “opinião comum dos doutores” considera como
adquirido, e admitido, e assim instituí-lo como saber
certificado e conforme, academicamente ratificado e
homologado, portanto digno de ser ensinado e aprendido
(em oposição aos “modos” e a todas as heresias
modernistas), mais que produzir um saber novo, e até
mesmo herético, ou a aptidão e a inclinação para produzir
tal saber.
De modo mais geral, a diferença estrutural, maior ou
menor segundo as disciplinas, entre a pesquisa e o ensino
faz com que os professores de todos os rankings estejam
inclinados a encontrar num misoneísmo defensivo uma
maneira dc escapar da desclassificação, e náo é raro que
24
No outro polo do campo, o efeito dcpalmarès sc exerce por intermédio dos jornais e sobretudo dos hebdomadários
culturais, que permitem agir diretamente, cm certas conjunturas, sobre o público dos estudantes.
eles abusem da situaçáo de monopólio que o ensino
assegura para tomar falsas distâncias cm relaçáo a saberes
que teriam em todo caso dificuldade para transmitir:
“Quanto aos já defasados [da pesquisa atual], sua ação é
de estropiar as teorias difundindo-as; eles procuram se
distinguir dos autores que difundem por meio de
pseudocríticas e de pseudo-opiniões ou de
pseudotomadas de posiçáo sobre os problemas e a
maneira como sáo tratados” (Linguista, 1971).
Seria preciso submeter aqui a uma análise detalhada as
biografias e bibliografias, relacionando por exemplo as
produções às atividades de reproduçáo (cursos
ministrados, concursos corrigidos, etc.) concomitantes, e
também examinar como se dá a alocaçáo do tempo entre
as atividades de pesquisa e as atividades de ensino, e
enfim, no interior destas, determinar qual é o lugar
atribuído ao ensino destinado a preparar para a pesquisa
propriamente dita e ao ensino destinado a produzir
professores/' Desta última oposição se pode encontrar
indicadores relativos ao lugar que as diferentes instituições
e os diferentes professores atribuem à tese de 3“ ciclo e à
agregação. Ainda que sem dúvida seja objeto de usos
muito diferentes segundo a disciplina e, no interior da
mesma disciplina, segundo o grau de reconversão
científica dos mestres, a tese de ÿ ciclo representa a
possibilidade institucional de escapar da ambição,
encorajada pela instituição da tese de Estado, da obra-
prima singular e total, produzida ao final de um esforço
solitário de vários anos, e dc encontrar um modo dc
expressão adaptado às exigências da pesquisa, como o
artigo científico que traz uma contribuição original sobre
um ponto preciso. E, de fato, constata-se uma diminuição
da taxa de teses de doutorado defendidas ou em
preparação e, inversamente, um crescimento da taxa de
teses dc 3° ciclo defendidas ou em preparação quando se
passa das disciplinas tradicionais às disciplinas abertas à
pesquisa (sabe-se que o doutorado de 30 ciclo se
desenvolveu primeiramente nas faculdades dc ciências,
onde ele tende a suplantar a agregaçáo, principalmente
pelo acesso às vagas de professor no ensino superior):
assim, por exemplo, a parcela dos professores do colégio B
que náo defenderam e que náo preparam uma tese de 3°
ciclo passa de 40% em sociologia para 59,7% cm
linguística, 73,6% em latim e grego, 75,1% em literatura
(esses dados, obtidos pela enquete de 1967 da Maison das
ciências do homem sobre os pesquisadores em letras e em
ciências humanas, sáo confirmados pela depuraçáo da
compilaçáo das posições das teses que mostra que o
número de teses de 30 ciclo defendidas em Paris em 1968
é de 32 para a sociologia, 17 para a etnologia, 14 para a
psicologia, li para o grego, 3 para o inglês).
Espécies de capital e formas dc pod<
O futuro da tese de 3“ ciclo oferece uma ideia clara das
dificuldades da institucionalização de novos modos de
produção e dc avaliaçáo das obras culturais. É evidente na
verdade que os costumes universitários explicaram,
também neste ponto, as prescrições do direito: entre
outras razões porque muitos professores manifestaram o
pouco valor que lhe atribuíam discernindo-o amplamente,
o doutorado de 3° ciclo, que sanciona um trabalho de
pesquisa, está quase totalmente desprovido de valor no
mercado das disciplinas canônicas das faculdades, sempre
dominado pela agregaçáo e por seus exercícios escolares,
e continua com a grande concorrência dos títulos antigos
(sobretudo a agregaçáo) até mesmo no mercado das
ciências sociais. Esse é um dos fatores que fazem com que
as instituições mais voltadas para o ensino de pesquisa,
como o Colégio de França e a Escola dos altos estudos,
estejam quase totalmente desprovidas de peso social: “O
3a ciclo náo vale absolutamente nada. Eis um exemplo:
obteve-se depois de dois anos a dispensa da agregaçáo
para os literatos [da Escola normal]. No que isso deu?
Fomos os primeiros a aconselhar os normalistas a náo
aproveitar essa dispensa. Que benefício isso lhes traria? O
3“ ciclo? Mas o que o 3a ciclo lhes daria? Nada. [...] A gente
é obrigado a manter propósitos muito realistas e mesmo
muito cruamente realistas, e depois volta- se à escolha dos
orientadores, às vezes a expor um pouco o sistema”
(Literato, 1971). “O melhor diploma é a agregaçáo. Mesmo
a tese de 3a ciclo é considerada como inferior, muito
claramente” (Línguas clássicas, 1971). “No nível do
assistente, a agregaçáo sobe como flecha, a barreira é
verdadeiramente colocada no nível da agregaçáo. Em
1968, ela ameaçava desmoronar; ela nunca se portou táo
bem como atualmente: a política de admissão dos
orientadores lhe dá novamente importância” (Historiador,
1971).
Não se compreenderia nada do funcionamento desse poder temporal
na ordem cultural se não se visse que, apesar de tudo o que o separa do
prestígio propriamente intelectual e científico, ele consegue se fazer
reconhecer, sobretudo nos limites de sua força temporal, como uma
verdadeira autoridade intelectual ou científica e por isso pode exercer
efeitos de desvirtuamento e de retardamento no próprio terreno da
pesquisa. Isso porque ele permite obter toda espécie de atos de
reconhecimento e de homenagens obrigatórias (cujas referências e
prestações de conta de complacência são apenas o aspecto mais visível)
através dos efeitos de autoridade que toda instituição legítima exerce e de
docilidades conscientes ou inconscientes que o poder sobre posições
cobiçadas suscita. E também, mais profundamente, porque, em nome de
uma espécie dc submissão interna à ordem cultural estabelecida, todos os
que devem uma parte de seu valor real ou esperado à consagração escolar
tendem a reconhecer a legitimidade da pretensão em legislar em matéria
científica ou intelectual que todo poder temporal afirma cada vez que
intervém num universo onde as apostas são intelectuais ou científicas, por
meio de nomeações, dc atribuições de crédito ou, a fortiori, de atos de
consagração (nas bancas dc tese por exemplo).
O acúmulo não é absolutamente excluído e se encontram, no centro
do espaço, muitos professores que conseguem reunir e conciliar os
poderes do orientador, mestre quase absoluto de todos os destinos
acadêmicos, e a autoridade do erudito (é isso o que significa
frequentemente a associação de uma cadeira na Sorbonne e de um
seminário na EPHE). A alodoxia que tem um fundamento objetivo no
fato de que entre os dois extremos, em que as duas espécies de poderes
estariam totalmente dissociadas, existem todos os perfis intermediários,
fornece um suporte à má-fé individual e coletiva sem a qual a vida
intelectual ou científica talvez fosse inviável: ela é o que permite ao
orientador de tese à antiga perceber-se como um mestre procurado e
escutado unicamente pela sua competência científica, à custa dc algumas
mentiras a si mesmo duplicadas pela cumplicidade ou pela indulgência
dos alunos ocasionais que os poderes da instituição lhe atribuíram.
Esse poder sobre os mecanismos de reprodução, e portanto sobre o
futuro do corpo, que encontra sua plenitude nas faculdades de medicina,
repousa sobre o controle, pela cooptação, do acesso ao corpo
universitário, sobre as relações de proteção e de dependência duráveis
entre o orientador e seus clientes, e enfim sobre o controle das posições
institucionais de poder, bancas de concursos de admissão, Comitê
consultivo, conselhos de faculdade, ou mesmo comissões de reforma.25
Mas o melhor fiador da ordem acadêmica, inseparavelmente social e
cicntífica, reside sem dúvida nos mecanismos complexos que fazem com
que o avanço em direção ao topo das instituições dominantes
temporalmente vá de par com uma progressão na iniciação acadêmica,
marcada, no caso das faculdadcs de medicina, pela sucessão dos
concursos (que, como nota um observador, empurra para bem tarde a
verdadeira iniciação aos métodos científicos do laboratório), ou, nas
faculdades de letras, pela longa espera da tese dc doutoraco, isto é, nos
dois casos, por um reforço prolongado das disposições que foram
reconhecidas pelos procedimentos primitivos de coopração e que não
inclinavam muito à ruptura herctica com os saberes e os poderes
sabiamente entrelaçados da ortodoxia acadêmica.
Espécies dc capital e formas dc pod<
Os heréticos consagrados
Os que ocupam no campo posições situadas no lado oposto das dos
leitores, orientados prioritariamente para a reprodução da cultura e do
corpo dos reprodutores, têm em comum o fato de se dedicar com
prioridade à pesquisa, ainda que também exerçam funções de ensino
(mas sobretudo nas instituições universitariamente marginais como o
Colégio de França ou a Escola dos altos estudos): com frequência à frente
de uma equipe de pesquisadores, eles raramente se encontram em
posições de poder universitário cuja ocupação demanda muito tempo e
orientam menos teses. Particularmente representados nas novas
25
1
Sobre os fundamentos do poder nas faculdades dc medicina, pode-se er sobretudo H. Jamous, op. cit., p. loS-iii.
disciplinas, sobretudo a etnologia, a linguística, a sociologia, ou nas
disciplinas marginais, estranhas ao currículo canônico (como a
assiriologia, a egiptologia, o indianismo, a sinologia, os estudos islâmicos
ou berberes, as línguas ou literaturas indianas, etc.), ou ainda nas
disciplinas canônicas, mas renovadas nos seus métodos, como a história
econômica e social, eles têm uma notoriedade que, ao menos para alguns
deles, ultrapassa largamente as fronteiras do campo universitário.
Acumulandoos títulos de reconhecimento universitário mais prestigiosos
(como o Instituto, topo de uma longa serie dc relações de dependência),
aos quais muitas vezes acrescentam os indícios de consagração
“intelectual” mais reconhecidos do grande público (publicação em livro
de bolso, folheto informativo na Larousse ou pertencimento à
Academia francesa) e disposições de poder no campo intelectual
(participação em comitês de redação dc revistas intelectuais, direção de
coleções, etc.), conhecidos e reconhecidos no estrangeiro (a abundância
das citações e das traduções de suas obras o testemunha), escrevendo
com frequência em língua estrangeira, esses “mestres” cujo nome, ao
menos para os que fazem escola, está ligado a conceitos cm -ismo, têm
mais alunos ou disciplinas do que clientes, ainda que o capital simbólico
tenda a se fazer acompanhar, ao menos em alguns casos, dc um certo
poder social.
O fato de que a autoridade simbólica se encontra mais frequen-
temente entre os especialistas das ciências novas não deve dissimular que
essas disciplinas, pela combinação de poderes de tipo antigo - como o
Comitê consultivo - e dos poderes novos ligados à pesquisa que elas
oferecem (como as comissões que controlam os postos de pesquisadores
no CNRS e alhures, créditos de pesquisa, etc.), permitiram a alguns
orientadores “reconvertidos” realizar uma concentração de poderes sem
medida comum com os pequenos principados acadêmicos das disciplinas
canônicas. O tabuleiro das posições estando consideravelmente exposto,
aquele que controlava, tanto pelas teses de doutorado quanto pelo
Comitê consultivo, o ingresso no ensino superior e, pelas Comissões do
CNRS, o ingresso nos postos de pesquisador e uma parte importante dos
créditos, dispunha de possibilidades de troca sem precedente e podia
assim, diretamente ou indiretamente - sobretudo por meio do controle de
entrada no corpo -, definir, e por longo tempo, toda a orientação de uma
disciplina.
Sc os professores do Colégio de França ou da Escola dos altos estudos
e os professores das disciplinas menores e marginais das faculdades ou
ainda os professores mais especializados das disciplinas canônicas (por
exemplo, os historiadores da filosofia cristã) estáo particularmente
representados do lado do polo da pesquisa, é porque têm em comum
escapar quase totalmente das imposições que pesam sobre as disciplinas
dominantes das faculdades, a começar pelas que impõem os programas e
os públicos numerosos, com todas as cargas e também os prestígios e os
poderes daí decorrentes. Livres do tema de seu curso, eles
podem explorar objetos novos dc interesse de um
pequeno número de futuros especialistas, em vez de expor
a muitos alunos, destinados em sua maioria ao ensino, o
estado das pesquisas já realizadas (muitas vezes por
outros) sobre questões impostas cada ano pelos
programas dos exames e dos concursos, e num espírito
que inevitavelmente deve muito à lógica das provas
escolares.
Espccies de capital c formas de pod<
A oposição entre os dois poios náo se confunde com a
oposição entre as faculdades e os grandes
estabelecimentos. O próprio Colégio de França conta, ao
lado dos especialistas na tradição dos gabinetes de
eruditos do século XVIII, e até nas disciplinas mais
clássicas, como as línguas antigas, com alguns
“universitários eminentes” que seguiram a habilitação
clássica (passando pela Retórica superior e a Sorbonne) e
que acrescentaram aos títulos ordinários de excelência
acadêmica uma notoriedade mundana adquirida às vezes
no jornalismo.45 A isso se acrescenta que cm todos os
tempos o mérito puramente escolar (um bom ranking de
entrada na Escola normal e um bom ranking de
agregação) era uma via de acesso à erudição por
intermédio da Escola de Atenas e da arqueologia. De sua
parte, as faculdades também contam com professores
voltados à pesquisa, sobretudo nas ciências sociais c nas
disciplinas menores, mas também nos setores mais
especializados das disciplinas canônicas, como a filosofia
ou a história.
Em contrapartida, as posições marginais, seja qual for o
prestígio de algumas delas, tendem frequentemente a
excluir mais ou menos completamente o poder sobre os
mecanismos de reprodução. Conhecendo as características
desses postos, compreende-se que os que os ocupam, sem
jamais romper com a ordem universitária, tenham quase
todos realizado um desvio mais ou menos decisivo em
relação às trajetórias “normais’, conduzindo à simples
reprodução e às garantias psicológicas e sociais que elas
asseguram (quando não sáo totalmente estranhos à
carreira “normal” - como aqueles dentre eles que nasceram
fora da França).26
Exemplo típico dessas trajetórias universitárias às
margens ou fora da Universidade é a carreira de Claude
Lévi-Strauss, tal como cie mesmo a evoca numa entrevista
(mostrando que para ele o ensino sempre foi prioritário em
relação à pesquisa): “Eu peguei minha aposentadoria
exatamente cinquenta anos depois de ter ocupado meu
primeiro posto: professor de filosofia em Mont-de-Marsan.
Cinquenta anos no ensino público é um longo período. Eu
permaneci no ensino secundário apenas dois anos e meio,
porque fui para o Brasil em 1935 para ocupar um posto na
Universidade de São Paulo. Desde então, ensino e pesquisa
sempre estiveram estreitamente ligados. Para mim, o
ensino sempre foi um laboratório diante de um público -
obrigando-me a colocar em forma minhas ideias, ainda
que essa colocação em forma fosse provisória ou errônea,
o que, em seguida, deveria tomar a forma de publicações.
Todos os livros que escrevi foram primeiramente expressos
de maneira oral [...]. Minha carreira oscilava
constantemente conforme a ocasião. Depois os prós para
o Brasil mudaram profundamente. Eu não sonhava
absolutamente em ir para lá quando a oportunidade
26
Dado o fechamento extremo da Universidade canônica a tudo o que lhe é estranho, as instituições marginais, c
principalmente a Escola dos altos estudos, foram o lugar de acolhimento da imigração alemã durante o entreguerras c dos
imigrantes provenientes dos países do Leste após 1945.
apareceu. Depois as expedições ao interior do Brasil
reviraram minha rotina universitária. Houve em seguida a
mobilização e a guerra. Após o armistício, eu retornei por
algumas semanas ao ensino secundário. Mas as leis de
Vichy intervieram e fui destituído. Tive a oportunidade de ir
para os Estados Unidos, graças ao interesse que colegas
americanos demonstraram pelos meus primeiros trabalhos.
Passei portanto alguns anos em Nova York antes de ser
chamado à França, depois da liberação de Paris. Permaneci
somente seis meses em Paris, durante o inverno de 1944-
45. E fui reenviado aos Estados Unidos como conselheiro
cultural da embaixada. No meu retorno à França, em 1948,
ensinei no Museu do homem c na Escola dos altos
estudos. Depois, em 1959, no Colégio de França. Essa foi
portanto uma carreira universitária movimentada, cujo
traço mais marcante é sem dúvida o fato de ter se
desenvolvido sempre fora da Universidade propriamente
dita” (Libération27 2 dc junho de 1983)/’ Alguns desses
marginais consagrados, e entre os mais eminentes, tiveram
dificuldades ou conflitos com a Sorbonne. E sabe-se que
muitos dos mestres mais reconhecidos do Colégio de
França foram durante muito

Podcr-sc-ia cvocar também o caso de Georges Dumézil, cuja carreira se desenvolveu em grande parte no estrangeiro c
inteiramente fora da Universidade canônica.
tempo “condenados” na Sorbonne: é por isso que per volta
dos anos i960 os candidatos à licenciatura não podiam,
sem se condenar ao fracasso, citar o nome de Lévi-Strauss
diante de Gurvitch ou evocar o nome de Dumézil diante de
Heurgon (para nos determos nos exemplos mais
conhecidos, como os de Benveniste ou de Gourou, na
época da enquete).

27 Sc encontramos religiosos (por exemplo Fcstugière, historiador da religião grega) entre os especialistas mais eminentes
e sem dúvida porque sua vocação cicntífica está ligada às disposições ético-religiosas dc minorias que tinham de justificar seu
lugar no interior da Universidade laica pela excelência na pesquisa (a presença dc milagrosos oriundos das clasjcs dominadas
talvez possa scr compreendida segundo a mesma lógica): quanto aos católicos dc esquerda, como Marrou, sua presença em
posições cientificamente avançadas explica-se pelo fâ:o dc que eles precisavam sc afirmar ao mesmo tempo contra a tradição
laica dominante c contra a tradição católica majoritária que está do lado das bclas-letras (Heurgon, Courccllcs, etc.) c da
reação “humanista” contra a tradição republicana (a censura católica assumindo aqui a forma da censura literária pela
conveniência c elegância).
Espécies dc capiral e formas de podi
É sem dúvida por isso, isto é, por intermédio da disposição em
assumir os riscos (relativos) que todo desvio em relação ao curso
canônico implica, e da mesma maneira em relação ao modo de pensar e
ao estilo de vida associados, que se estabelece a rciação inteligível com
uma origem social e geográfica claramente mais favorável, globalmente,
que a dos professores ordinários: conhece-se, por se ter muitas vezes
observado os efeitos, a lei que quer que a propensão a correr os riscos -
nos investimentos de todas as ordens — seja função das garantias
objetivas e da segurança que elas favorecem/6 É por isso que a oposição
entre os professores mais voltados à pesquisa e os professores mais
voltados ao ensino reproduz nos limites do campo universitário (o que é
normal numa época cm que uma parte especialmente importante dos
escritores e das críticas entrou no corpo professoral), sem dúvida sob uma
forma atenuada, a oposição estrutural entre os escritores e os professores,
entre as liberdades e as audácias da vida de artista e o rigor estrito e um
pouco estreito do Homo academicus.
Dito isso, os professores situados do lado do polo da pesquisa e da
produção cultural, como os que se situam no polo oposto, se distribuem,
cada um na sua ordem — o Colégio de França sendo para a Escola dos
altos estudos, no primeiro setor, o que a Sorbonne é para Nanterre no
outro - segundo uma hierarquia cujo princípio está, nos dois casos, no
volume do capital, principalmente científico ou intelectual de um lado
(pertencimento ao Instituto, direção de um laboratório), sobretudo
universitário do outro (pertencimento ao Comitê
consultivo) que possuem e que está fortemente ligado ao
estatuto de normalista e à idade (assim como a variáveis
tais como o estado civil ou o lugar de nascimento). No
centro do setor mais universitário (onde a faculdade de
Nantcrre ocupa a posiçáo dominada), os princípios de
hierarquização são puramente universitários, e a hierarquia
corresponde simplesmente à hierarquia das idades mas
também dos títulos raros - como o de normalista - e das
disciplinas, com a filosofia e as letras clássicas no topo e a
geografia na posiçáo mais baixa. No outro polo, a
hierarquia se estabelece segundo o capital simbólico entre
um pequeno número de professores dotados de todos os
atributos da celebridade e os outros, muito menos
consagrados, frequentemente ligados à Escola dos altos
estudos e às ciências sociais, e também ao campo
intelectual, sobretudo por meio de uma participação mais
ou menos frequente no jornalismo/7 A análise estatística,
que amputa seus membros acumuladores, restitui mal a
posiçáo da VIa seçáo da Escola dos altos estudos e náo dá
conta de explicar o peso determinante que esta instituição
universitariamente menor detém no campo universitário. É
por isso que neste caso é preciso parar na própria
instituição e no efeito de instituição que ela sem dúvida,
entre todos os estabelecimentos universitários franceses, é
a única a exercer. No momento da enquete, isto é, na
véspera de 1968, ela é uma instituição marginal, mas
prestigiosa e dinâmica, que se distingue de todos os
outros estabelecimentos de ensino superior pela liberdade
que lhe dá a ausência de obrigações escolares das
faculdades comuns (como a preparação aos exames e
concursos de admissão e sobretudo à agregação) e
também pela ação organizacional de uma direçáo científica
e administrativa dotada de um projeto científico e
institucional ambicioso. Nesta fase de sua história, ela
inclui muitos professores ligados oficialmente a outras
instituições (“acumuladores”) a quem assegura as
condições materiais e institucionais (locais, enquadramento
administrativo e sobretudo, talvez, espírito de abertura e
de empreendimento) de uma atividade de pesquisa de
uma espécie nova, muitas vezes de longo prazo e coletiva,
da quai os grandes empreendimentos do Centro de
pesquisas históricas constituem o paradigma.
Espccies de capital e formas de pod<
Os primeiros “laboratórios” de ciências sociais (como o
Laboratório de antropologia social, o Centro de pesquisas
históricas, o Centro de pesquisas comparadas sobre as
sociedades antigas, etc.) não foram criados no CNRS, nem
na Sorbonne ou no Colégio de França, mas na Escola dos
altos estudos, que foi pouco a pouco se dotando de
instrumentos de trabalho coletivos, centros de
documentação, bibliotecas, laboratórios de cartografia,
centros de cálculo, etc. e de um conjunto de meios de pu-
blicação (dezessete revistas foram lançadas entre 1955 e
1970). Um dos fatores mais importantes desse
desenvolvimento que fez desta instituição o lugar por
excelência da inovação nas ciências sociais, tanto no
domínio da pesquisa quanto em matéria de pedagogia da
pesquisa, foi sem dúvida uma política de investimentos
arriscados fundada, primeiramente, na afirmação e na
exploração racional da marginalidade da instituição - com
por exemplo a preocupação de fazer o que não se fazia
alhures, de acolher as disciplinas ignoradas e esquecidas,
de prospectar os pesquisadores do futuro, etc.; em
seguida, na criação, excepcional na França, de um
verdadeiro patriotismo institucional;4* enfim e sobretudo,
na abertura para o estrangeiro, tendo a VI1 seção sempre
se mostrado especialmente acolhedora para os mestres, as
influências, as inovações e até mesmo os créditos
provenientes de outros países.”
Sem pretender caracterizar em algumas frases uma
longa e lenta evolução - ligada em particular às
transformações das faculdades parisienses após 1968 e à
melhoria correlativa da posição da Escola dos altos estudos
-, pode-se assinalar todavia que o peso dos professores
acumuladores, tanto no interior da equipe dirigente
(durante os anos i960, o conselho científico foi
inteiramente composto por acumuladores) quanto no
corpo docente, tende a enfraquecer, o aparelho
(presidente, gabinete, conselho científico) apresentando
atualmente uma admissão puramente interna. Em seguida,
se a enquete, pelo fato de amputar da VI4 seção os
membros acumuladores, subestima o peso desta
instituição em 1967, oferccc uma imagem bastante justa
do que ela tende cada vez mais a se tornar à medida que
se avança no tempo; uma imagem muito diferente, em
todo caso, da que ela consegue manter, graças ao capital
simbólico coletivamente acumulado pela Escola dos Anais,
ao efeito de contaminação simbólica assegurado ainda
pela presença de acumuladores prestigiosos c à ação de
relações públicas que favorecem e facilitam suas ligações
mais ou menos orgânicas com a imprensa e com as
editoras: uma parcela importante dc seus professores é
desprovida dos títulos e dos poderes do universitário
ortodoxo sem ser no entanto dotada de títulos de
consagração c dc obras científicas comparáveis aos dos
grandes mestres. Náo há propriedade dc seus membros
que náo possa ser descrita de duas maneiras opostas, na
linguagem da falta - a de seus adversários - ou na
linguagem da recusa eletiva. Poder-se-ia dizer a mesma
coisa a propósito dos modelos pedagógicos (o seminário
mais que o curso), dos títulos obtidos (o diploma da Escola
ou a tese de 3° ciclo mais que a agregação), ou mesmo da
notoriedade exterior dos professores, em que uns
perceberão o efeito de compromissos de má qualidade
com o jornalismo enquanto outros verão nisso um
testemunho de abertura para o mundo e dc
“modernidade”. Esta dissonância estrutural está inscrita
nos regulamentos institucionais sob a forma da
dependência da Escola dos altos estudos (ao menos ate
uma data rcccntc) cm relação às faculdades pela colação
dos graus, do doutorado principalmente, c também pela
distância entre os dois títulos que ela confere, o diploma
da Escola, acessível a estudantes desprovidos do
bacharelado, e a tese dc Ÿ ciclo, ainda muito pouco
reconhecida no mercado universitário - sem falar da
grande dispersão correlativa do público dos estudantes.
150
Homo academicus | Pierre Bourdieu
As tradições heréticas de uma instituição fundada numa
ruptura com a rotina acadêmica, e estruturalmente
inclinada à inovação pedagógica e científica, instigam seus
membros a sc tornarem os mais vigorosos defensores de
todos os valores de pesquisa, de abertura ao estrangeiro e
de modernidade científica; mas também é verdade que
elas encorajam na mesma medida as homenagens verbais
e as ficçóes nominais e incitam a cobrir de justificativas
prestigiosas as atividades que prometem o benefício
simbólico máximo por um custo real mínimo. É por isso
que, à medida que a instituição envelhece, a distância não
para de crescer entre o nível de aspiração e o nível de
realização, entre a representação ideal e a realidade das
práticas científicas e pedagógicas. Assim se explica sem
dúvida por que a necessidade de preencher essa diferença
estrutural se impõe sempre com mais força à instituição no
seu conjunto, a qual deve sc submeter cada vez mais a
uma política de relações públicas próprias que põe em
perigo sua autonomia; e também aos professores menos
seguros de realizar a ambição de cientificidade e de
modernidade tão intensamente proclamada, os quais
devem transgredir a antiga norma universitária que
impede todo comprometimento com o jornalismo para
adquirir, fora da instituição, e sobretudo no jornalismo dito
cultural, um capital simbólico de notoriedade parcialmente
independente do reconhecimento no interior da
instituição. A ambiguidade estrutural da posição da
instituição reforça as disposições daqueles que esta
mesma ambiguidade atrai ao oferecer-lhes a possibilidade
e a liberdade dc viver de alguma maneira acima de seus
meios intelectuais, a crédito: assim se explica por que ela
representa o ponto fraco da resistência do campo
universitário à intrusão dos critérios e valores
jornalísticos.28 A todos os pretendentes apressados que,
contra o ciclo de produção longo e o investimento de
longo prazo, representados pela tese de doutorado
monumental (sobretudo nos historiadores), escolheram a
produção de ciclo curto, cujo limite é o artigo de cotidiano
,0
A Escola dos altos estudos cm ciências sociais tomou-se assim a porta giratória das trocas entre o campo universitário e o
campo do jornalismo. Os que associam o podcr sobre uma instituiçáo universitária, isto è, sobre os postos c as carreiras, com
o podcr sobre a imprensa c as editoras estáo cm condições de acumular c dc exercer um podcr simbólico importante atraves
dc um circuito dc trocas muito complexo entre bens valorizados no campo universitário, como postos, promoções, c serviços
valorizados no campo jornalístico, como prestações dc contas e celebrações.
ou de hebdomadário, c dada a prioridade à
comercialização em detrimento da produção, o jornalismo
oferece um recurso e um atalho: ele permite preencher
rapidamente e adequadamente a distância entre as
aspirações e as possibilidades ao assegurar uma forma
menor da notoriedade partilhada entre os grandes sábios
e os intelectuais; e pode até mesmo, num certo estágio da
evolução da instituição em direção à heteronomia, tornar-
se uma via de promoção no interior da própria instituição.
Adversários cúmplices
Os conflitos que se enraízam e se criam na oposição estrutural entre
os oblatos consagrados do grande sacerdócio e os pequenos heresiarcas
modernistas reagrupados sobretudo em torno da Escola dos altos estudos
não excluem uma forma de cumplicidade c de complementaridade. Essas
oposiçóes sociais que devem sua intensidade particular, no caso francês,
ao fato de que o campo universitário foi por muito tempo dominado pelos
valores do campo literário, estáo predispostas a funcionar como “pares
epistemológicos” que levam a crer que o universo dos possíveis está
delimitado pelas duas posições polares, e impedem assim de perceber que
cada um dos dois campos encontra a melhor justificativa de seus limites
nos limites do adversário. Aqui como alhures, o integrismo se autoriza
facilidades que autorizam as audácias reais ou supostas do modernismo
para confirmar-se na submissáo à rotina, e o modernismo busca no
arcaísmo bastante evidente do integrismo as justificativas de uma
novação pela metade que, acumulando as liberdades e as facilidades, se
condena a servir de base para uma nova rotina acadêmica (como o
testemunha por exemplo a consagração rotineira que a semiologia
estruturalista conhece atualmente no sistema de ensino francês).
Este efeito de torquês é uma ilustração exemplar das imposições que a
própria estrutura do campo exerce c que permanecem invisíveis ou
ininteligíveis por longo tempo quando se apreendem os agentes, as
instituições ou as correntes intelectuais ou científicas no estado isolado,
independentemente das relações que os unem. Para realizar realmente a
passagem da sociologia do campo como espaço de posições à sociologia
das produções culturais esboçada aqui, é preciso relacionar as trajetórias
que correspondem às principais posições com a evolução das produções
correspondentes, elaborando por exemplo monografias de casos
significativos (o que as normas sociais tendem a impedir, tratando-se de
contemporâneos).
Na verdade não seria necessário, ao evidenciar as diferenças e até
mesmo as oposições, como a lógica da análise leva naturalmente a fazê-lo,
esquecer as solidariedades e as cumplicidades que se afirmam até mesmo
nos antagonismos. As oposições que dividem o campo náo são nem
contradições provisórias que preparam seu avanço inevitável para uma
unidade superior, nem antinomias indispensáveis. E nada
seria mais ingênuo do que se deixar impor, por exemplo, a
visão maniqueísta que organiza de um lado o “progresso”
e os “progressistas”, do outro as “resistências” e os
“conservadores”. Como no campo do poder ou no campo
universitário tomado em seu conjunto, não há aqui
dominação absoluta de um princípio de dominação mas
coexistência concorrencial de vários princípios dc
hierarquização relativamente independentes. Os diferentes
poderes são ao mesmo tempo concorrentes e
complementares, isto é, ao menos sob certas relações,
solidários: eles participam uns dos outros e devem uma
parte de sua eficácia simbólica ao fato de nunca serem
completamente exclusivos, ainda que fosse porque o
poder temporal permite aos mais totalmente desprovidos
de autoridade intelectual assegurar por intermédio das
imposições escolares - sobretudo da imposição de
programas - uma forma, mais ou menos tirânica, de poder
sobre os espíritos e porque o prestígio intelectual não
acontece sem uma forma muito especial e geralmente
muito circunscrita de poder temporal.
Espécies de capital e formas de pod<
A pluralidade dos princípios de hierarquização
concorrentes (que é o fundamento das lutas pela
imposição de um princípio dc dominação dominante) faz
com que, assim como o campo do poder no seu conjunto,
cada campo - o campo das letras e das ciências humanas,
mas também o subcampo da disciplina ou, no interior
desta, da especialidade - ofereça inúmeras satisfações que,
mesmo quando funcionam como prêmios de consolação
(esse é por exemplo o caso das posições de poder
temporal), podem ser vividas como insubstituíveis. Nesse
sentido, sem dúvida existem poucos universos sociais que
forneçam tantos suportes objetivos ao trabalho da má-fé
que leva à recusa do inacessível ou à escolha do inevitável.
Os universitários (e, geralmente, os membros da classe
dominante) sempre têm os meios de estar ao mesmo
tempo infinitamente mais satisfeitos (e primeiramente
consigo mesmos) do que uma análise dc sua posição no
seu campo específico e no campo de poder permitiria
esperar, e infinitamente mais descontentes (e
primeiramente com o mundo social) do que se esperaria
de seu privilégio relativo. Isso talvez porque eles
conservam a nostalgia do acúmulo de todos os princípios
de dominação e de todas as formas de excelência sem ver
as vantagens psicológicas associadas à pluralidade das
taxinomias concorrentes que faz com que, quando se
acumulam todos os princípios de classificação, se
obtenham quase tantas classes quanto indivíduos, assim
constituídos como incomparáveis, únicos, insubstituíveis; e
sem perceber mais os efeitos para a classe tomada em seu
conjunto da limitação resultante da concorrência entre os
indivíduos. O que náo os impede de agir continuamente,
tanto cm ordem dispersa, por ocasião principalmente das
operações de cooptaçáo ou de designação das
autoridades temporais, quanto coletivamente, em
estratégias de defesa corporativas mais ou menos
sabiamente dissimuladas sob a máscara da reivindicação
universalista, de tal forma que é desencorajado ou
impedido o acúmulo, pelas mesmas pessoas, da
autoridade intelectual e do podcr universitário.
Nada pode mostrar mais claramente a cumplicidade
estrutural entre os diferentes poderes e as diferentes
expressões, ortodoxas ou heréticas, nas quais eles se
manifestam e se legitimam, do que o debate que opôs um
dos detentores do monopólio do comentário legítimo dos
textos literários, Raymond Picard, ao porta-voz dos
exegetas modernistas, Roland Barthes. Na situação quase
experimental que foi criada, vê-se funcionar como campo
de lutas, com seus dois campos mobilizados em torno de
seu campeão, o campo de forças no qual o princípio da
oposição deles está definido. Basta na verdade conhecer as
posições ocupadas pelos dois protagonistas no campo
universitário para compreender o verdadeiro princípio do
debate que os opôs e que se procuraria em vão, como
constataram os observadores mais prevenidos, no próprio
conteúdo das tomadas de posição respectivas, simples
retraduções racionalizadas das oposições entre os postos
ocupados, os estudos literários e as ciências sociais, a
Sorbonne e a Escola dos altos estudos, etc.
Raymond Picard bem o sentiu, quando acusa Roland
Barthes de ignorar “a extrema diversidade dos métodos
praticados nas universidades” e lhe recusa o direito de
definir a “nova crítica” senão em oposição à “crítica
universitária, fantasma que ele suscitou para atacá-lo”.»1 E,
de fato, tanto seus inimigos como seus defensores
organizarão nesta “nova crítica” tudo o que parece opor-se
ao Establishment universitário: “a nova crítica” era até aqui
como a hidra de Lerna. Ela tinha uma cabeça
existencialista, uma cabeça fenomenológica, uma cabeça
marxista, uma cabeça estruturalista, uma cabeça
psicanalítica, etc., segundo a ideologia que invocavam seus
representantes para guiar sua “abordagem” das obras literárias/1 Roland
Barthes reivindica explicitamente esse enraizamento da crítica nas
ciências do homem, sociologia, história, psicanálise; e seus partidários
náo param de denunciar uma crítica universitária “que continua a se fazer
como se Marx, Freud, Adler, Saussure e Lévi-Strauss nunca tivessem dito
nada”.9 O porta-voz da “nova crítica” condensa de certa forma todos os
princípios sociais da luta quando considera que as regras da ‘leitura” sáo
“regras linguísticas, náo regras filológicas”.29 Esse conflito manifesta uma
ruptura que lhe precede - quase a mesma que ressurgirá em 68: no campo
do modernismo, dos escritores ou das críticas próximas das ciências

M
R. Bathes, Critique et vérité. Seuil, 1966, p. 53.
sociais e da filosofia (os partidários de Barthes enumeram
desordenadamente pessoas que têm cm comum o fato de estarem às
margens da instituição universitária, às vezes no estrangeiro: Tel Quel,
Jean-Paul Sartre, Gaston Bachelard, Lucien Goldmann, Georges Poulet,
Jean Starobinski, René Girard, Jean-Pierre Richard);” no campo do
integrismo, universitários canônicos, antigos normalistas ou antigos
khâguewí6, e jornalistas conservadores, muitas vezes tendo passado
também pela Escola ou pela khâgne, como P.-H. Simon, Thierry
Maulnier ou Jean Cau.r Nesta querela dos antigos e dos modernos que
suscita uma formidável excitaçáo no campo universitário e no campo
intelectual (tal comentarista fala do “caso Dreyfus do mundo das
letras”),’* os papéis parecem distribuídos antecipadamente pela lógica do
campo.
Espccies de capital e formas de pod<
Do lado da instituição, o lector se vê obrigado a instituir como
ortodoxia, profissão de fé explícita, a doxa dos doutores, crença
silenciosa e que não precisa de justificativa: forçado a produzir em plena
luz do dia o impensado dc uma instituição, ele anuncia com todas as
letras a verdade de seu posto de humilde e piedoso servidor de um culto
que o ultrapassa. Enraizado na estabilidade de sua posição, ele náo tem
nada para propor, a título de método, a náo ser seu etos, isto é, as
próprias disposições que a posiçáo invoca: ele é e sc vê
“paciente e modesto”.5’ Pregando sem cessar a
“prudência”ele restabelece os limites da função, que
também são os do funcionário: ele tenciona “se contentar
em estabelecer textos, trabalho essencial e difícil”, em
“determinar de maneira sólida tal fato diminuto relativo a
Racine.6’ Devotado à lista de trabalhos rotineiros c
rotinizantes do culto ordinário, ele escolhe se apagar
diante da única obra que lhe cabe “explicar e fazer
gostar”.30 Mas, como todo mandatário, esse homem dc
ordem encontra na sua humildade, que lhe vale o
reconhecimento do corpo, o princípio de uma
extraordinária segurança: consciente de exprimir os valores
últimos, e que nem seria preciso dizer, de toda uma

30
Id., p. 78-79-
comunidade de crença, a “objetividade”, o “gosto”, a
“clareza”, o “bom senso”, ele toma como um escândalo o
questionamento das estabilidades constitutivas da ordem
universitária da qual ele é o produto e se sente no direito e
no dever de denunciar e de condenar o que lhe parece
como o efeito da impostura indiscreta e do excesso
inconveniente. Um de seus defensores explicita bem o
horror ético que inspiram aos guardiões das conveniências
as insolências fáceis e as pretensões impacientes desses
pretendentes um pouco invejosos: “alguns, admito, têm a
arte de se impor e de impor: outros a de se apagar diante
de um texto, que de toda maneira não os esperou para
existir [...]. Se eu fosse o Petit Larousse, eu as [as duas
categorias de críticas] definiria assim: “crítica barroca”:
igual ou superior ao criador, criador por sua vez; leitor que
acrescenta à obra para completá-la, aperfeiçoá-la, para
transfigurá-la ou desfigurá-la. “Crítica clássica”: humilde
servidor das obras”.6* Essa linguagem, que é a das Igrejas,
explicita bem a indignação do sacerdócio diante do hubris
do lector imodesto, pequeno profeta que pretende ser o
substituto do profeta de origem, do auctor, usurpando a
auctoritas que somente a ele pertence.
E de fato, é bem um papel profético que reivindica
Roland Barthes: recusando o aborrecimento das “chás
explicações de textos” que a instituição escolar oferece,
devotada à repetição e à compilação, ele adota a
linguagem da política para denunciar a autoridade
usurpada dos guardiões do “Estado Literário”;*4 esotérico
por vontade própria, arvorando todos os sinais externos da
cicntificidade, fazendo um uso liberado e frequentemente
aproximativo dos léxicos acumulados da linguística, da
psicanálise c da antropologia, ele afirma intensamente sua
intenção de “subversão”6' e sua posição de “modernidade”.
Poi uma dupla ruptura com a humildade dos servidores,
ele se institui como hermeneuta modernista, capaz dc
forçar o sentido dos textos aplicando lhes as últimas armas
da ciência, e como criador capaz de recriar a obra por uma
interpretação instituída como obra literária e assim situada
para além do verdadeiro e do falso. Segundo a estratégia
do morcego, ele sc faz psicanalista, linguista, antropólogo
para denunciar o obscurantismo lansoniano da Sorbonne c
se transforma em escritor para reivindicar o direito ao
subjetivismo peremptório contra a mesquinharia miúda do
pedantismo cientificista, lavando-se assim do pecado
plebeu de positivismo.31 Afirmando-se capaz de reunir a
imaginação científica do pesquisador de ponta e a
liberdade iconoclasta do escritor de vanguarda, de anular a
oposição sociologicamente tão poderosa entre as
tradições c funções até então incompatíveis, Sainte-Beuve
e Marcel Proust, a Escola normal e os salões, o rigor
desencantado da ciência e o diletantismo inspirado dos
literatos, ele joga evidentemente nos dois quadros,
tentando assim, como é feito desde o sucesso social da
antropologia estrutural, acumular os benefícios da ciência
e os prestígios da filosofia ou da literatura. Como se, na
idade da ciência, o aggiomamento passasse
inevitavelmente por esta espécie de homenagem que o
vício ensaísta presta à virtude científica.
Para medir a ambiguidade desta luta, basta compará-la
ao que foi, no final do último século, o combate da “nova
Sorbonne” dos Durkheim, Lanson, Lavisse ou Seignobos
contra a velha Sorbonne literária e as críticas mundanas,
então estreitamente associados os Lamaítre, Faguet ou
Brunetière, sustentados, como se verá com Agathon, por
rodo o meio literário. A propósito de Dreyfus como em
maio dc 1968, as novas ciências, sociologia, psicologia,
história, se opunham às velhas disciplinas literárias e quase
segundo os mesmos princípios, ciência contra criação,
trabalho coletivo contra inspiração individual, abertura
internacional contra tradição nacional, esquerda contra
direita/1* Mas as analogias aparentes náo devem mascarar
o troca-troca que se realizou: os herdeiros decadentes da
31 "Quando sc lê Raymond Picard, tem-se às vezes a impressão dc ser aprovado no bacharelado'' (J. Duvignaud, Le
Nouvel Observateur, 3-9 de novembro dc 1965).
“nova Sorbonne” são pelo menos tão marcados pelas
complacências retóricas caras a Agathon quanto pelas
exigências científicas de Lanson; quanto aos semiólogos
dos anos i960, que a oposição a tal adversário e a seus
modos de pensamento arcaicos (“o homem c a obra”)
colocava do lado do “progressismo” científico e político,
eles perseguem de fato, com a ajuda da imprensa cultural
e o apoio do público estudantil que ela lhes garante, a
velha luta dos literatos e dos ensaístas mundanos contra o
“cientificismo”, o “positivismo” e o “racionalismo” da “nova
Sorbonne”. Mas esta luta sem cessar recomeçada contra o
“materialismo redutor das ciências sociais, agora
encarnadas numa caricatura sonhadora, realiza-se desde
entáo em nome de uma ciência que, com a semiologia e
até mesmo com a antropologia estrutural, julga-se capaz
de reconciliar as exigências do rigor científico e as
elegâncias mundanas da crítica de autores.
O aggiornamento
Esta polêmica poderia ter sido uma das manifestações
paradoxais da transformação das relações de força
simbólicas que se estabeleciam até então, no interior de
todo o sistema escolar e além dele, entre as ciências e as
letras, entre a cultura científica e a cultura literária, entre a
definição científica e a definição literária das faculdades, no
duplo sentido de corpo de professores e de capacidade ou
poder do espírito.32
O panfleto de Raymond Picard constitui a primeira grande
resposta visível das disciplinas antigas e outrora
dominantes, diretamente ligadas à reprodução da
instituição e da cultura escolares, contra os que, à custa de
uma reconversão parcial, que lhes permite reivindicar para
si ao mesmo tempo a “modernidade” científica e a
elegância literária, visam invadir o domínio reservado das

funcionamento do sistema escolar aos imperativos de produtividade praticamente náo está representada no corpo
professoral, mas que há um importante contingente dc professores, sobretudo nas faculdades de ciências, que estáo de
acordo com os grandes quadros do Estado porque desejam uma espécie dc ordenação científica, sendo que sua preocupação
de ver aumentados e concentrados os meios científicos raros coincide com a vontade tecnocrárica dc racionalizar a utilização
dos meios científicos.)
disciplinas canônicas, para tanto apoiando-se no público
estudantil e no grande público intelectual cujas exigências
ou expectativas são diretamente expressas e manipuladas
pelo jornalismo com pretensão intelectual, oriundo da
convergência entre os mais intelectuais dos jornalistas e os
mais jornalistas dos intelectuais.
Espécies dc capital e formas de podi
Ainda que não sejam verdadeiramente reconhecidos
como apostas de concorrência, e menos ainda como
árbitros desta concorrência, na definição tradicional do
ensino, os estudantes exercem na verdade um papel
determinante nas lutas internas cujo lugar é o campo
universitário, e primeiramente ao fornecer aos movimentos
de vanguarda - real ou suposta - o contingente mínimo de
fiéis e de militantes que lhes é necessário para se opor ao
Establishment universitário.33 É por isso que o crescimento
da população dos estudantes e também dos professores
subalternos esteve no princípio de um crescimento
quantitativo da demanda de produtos culturais e de uma
transformação qualitativa desta demanda: é evidente que
todas as “novidades” intelectuais encontram seu público
eletivo entre os estudantes das disciplinas novas das
faculdades dc letras, intelectuais de aspiração às categorias
de percepção e apreciação mal fixadas, levados a adotar os
sinais externos da profissão intelectual e frequentemente
inclinados a se satisfazer com versões similares às ciências
em moda - semiologia, antropologia, psicanálise ou
marxologia. E isso no momento em que produtores de um
tipo novo encontravam nas possibilidades oferecidas por
esse público novo (e pelos editores interessados em
conquistá-lo) a oportunidade de impor uma redefinição
33
Esse público estudantil exerceu sem dúvida um papel determinante, ao longo do século XIX, no acesso progressivo do
campo intelectual e artístico à autonomia (cm relação às autoridades académicas em especial) ao fornecer à produção “de
vanguarda” o que “a ane burguesa” era a única a dispor, isco é, um público importante demais para justificar o
desenvolvimento c o funcionamento de instâncias de produção e de divulgação específicas (isso sc ve a toda evidencia no
caso do cinema dc vanguarda), contribuindo assim para o fechamento sobre si do campo intelectual. Ucorre que o recurso ao
público externo ao campo pode também servir para estabelecer reais inovações ou para legitimar a incompetência c a
conservação (com, por exemplo, o recurso à politizaçáo, que foi muito praticado, mesmo na pintura, como álibi da
incompetência ou justificativa para o fracasso).
dos limites do publicável, de abolir as fronteiras entre a
pesquisa e o ensaísmo ou o jornalismo e de fazer com que
produtos dc cultura média passassem por autênticas
conquistas dc vanguarda.
160
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
Só se poderia explicar completamente a evolução das
relações de força simbólicas no interior do campo
universitário por meio de uma análise do conjunto dos
processos que levaram ao enfraquecimento de sua
autonomia e ao aumento da influência de instâncias de
consagração externas, e sobretudo do jornalismo cultural,
capazes de assegurar a alguns produtores e a alguns
produtos uma divulgação e uma notoriedade muito mais
rápidas e muito mais amplas do que aquelas que as
instâncias internas proporcionam às mesmas instâncias
que elas consagram após um lento e longo processo de
canonização. Seria preciso analisar nesse sentido as
propriedades das instituições e dos agentes mistos
(instituições universitárias fortemente ligadas às mídias,
como a EHESS, hebdomadários culturais, como Le Nouvel
Observateur, Le Magazine littéraire, Les nouvelles
littéraires, revistas de grande popularidade, como
L’Histoire, Le Débat, etc.), estruturalmente interessados na
mistura dos gêneros e no baralhamento das diferenças
entre o campo de produção restrito e o campo de grande
produção, entre os jornalistas e os universitários ou
escritores, ou, mais precisamente, entre os
empreendimentos de produção cultural de ciclo curto e
seus produtos anuais, rapidamente entrelaçados, que
abordam com intrepidez os maiores temas lançando mão
de qualquer meio e sem se entulhar de referências, notas,
bibliografias ou índex, e os empreendimentos de ciclo
longo e seus produtos de baixa circulação, teses de
doutorado, condenadas, cada vez com mais frequência, à
sina obscura das edições universitárias, ou artigos originais
das revistas científicas onde se abeberam sem muitos
escrúpulos nem discernimento os produtores de bens de
cultura média e de grande divulgação, intermediários
apressados em obter os benefícios imediatos de seu
contrabando cultural. Seria preciso reconstruir (mas como
fazê-lo sem se expor à acusação de inquisição policial?)
todas as redes de solidariedade e os circuitos de trocas por
meio dos quais o conjunto dos agentes definidos pelo
duplo pertencimento e pela dupla identidade, jornalistas-
escritores e escritores- jornalistas, universitários-jornalistas
e jornalistas-universitários, tendem a se consagrar como
dotados de um poder de consagração cultural ao misturar
seus iguais, tanto nos seus palmarès quanto em meio às
novas instâncias de consagração (comitês de redação,
editoras, etc.), por um erro de percepção e de apreciação
autojustificador, com os eruditos ou os escritores mais
reconhecidos entre seus pares, a quem asseguram ao final
sucessos de grande público em contrapartida à
consagração que sua presença confere aos ensaístas.'1
Seria preciso desmontar a lógica das estratégias pelas
quais se acumula esse poder de consagração parasitária:
analisar a troca que se instaura - não sem a suspeita do
desprezo recíproco que inevitavelmente a utilização mútua
implica - entre universitários ou intelectuais consagrados e
jornalistas que se consagram pretendendo- se capazes de
consagrá-los (tal universitário-jornalista que se tornou
conhecido por suas entrevistas com Sartre ou Lévi-Strauss
estará assim investido do poder de consagrar todos os que
fizer entrar na série, a começar por seus iguais, que lhe
retribuirão por igual num outro diário ou noutro
hebdomadário, ao consagrar como obra legítima seus
ensaios sobre o estruturalismo ou a psicanálise lacaniana
ou suas denúncias inspiradas nos regimes ou ideologias
totalitários); ou descrever as condições e formas de
transferência no mercado universitário (sobretudo na
EHESS, ponto de menor resistência à intrusão) do capital
do poder simbólico adquirido e exercido nas mídias ou da
comercialização da autoridade universitária no mercado do
jornalismo e da editoração (recenseando, a título de
exemplo, as prestações de contas atribuídas por
universitários aos escritos de jornalistas).
Para compreender a posição totalmente particular, a do
cavalo de Iroia, que volta às ciências sociais na luta pela
imposição de uma definição renovada da cultura legítima,
é preciso substituí-las nos dois espaços em que participam
mais ou menos estreitamente, o das faculdades literárias e
o das faculdades científicas. Se se toma como indicador a
taxa de normalistas (e, ao menos no caso das faculdades
de letras, a taxa de agregados), coloca-se em evidência
uma hierarquia social das disciplinas que corresponde,
grosso modo, à hierarquia segundo a origem social dos
Cf. Anexo 3, O bit paradt dos intelectuais franceses ou quem julgará a legitimidade dos examinadores?
estudantes e também dos professores (apesar da confusão
que os efeitos da sobresseleção apresentam).
Assim, por exemplo, sc se toma como medida do valor
atribuído às diferentes disciplinas a taxa de normalistas no
conjunto dos professores de ranking A em 1967, obtém-se
a seguinte hierarquia: filosofia e línguas antigas, 40%;
francês, 39%; psicologia, 27%; sociologia, 25%; história,
24%; linguística, 19%; geografia, 4%. Na população, mais
selecionada, dos professores e mestres de conferência da
Sorbonne e dc Nanterre em 1967, obtém-se; alemão,
grego, 75%; latim, 66%; filosofia, 60%; línguas estrangeiras
raras - escandinavo, russo, etc. — 53%; francês, 50%;
história 48%; psicologia, 35%; sociologia, 30%; inglês, 22%;
espanhol e geografia, 10%; italiano e etnologia, 0% - e a
hierarquia é quase a mesma, mas as taxas são muito mais
baixas entre os assistentes e mestres-assistentes.
Sem entrar no detalhe da análise, observa-se que as
ciências sociais ocupam uma posição duplamente
dominada, tanto segundo a hierarquia que tende cada vez
mais a se impor, a das ciências da natureza, quanto
segundo a antiga hierarquia, ameaçada atualmente pela
subida das ciências da natureza e dos valores científicos na
Bolsa cultural. O que explica por que elas ainda funcionam
como disciplinas-refúgio para os filhos da burguesia de
sucesso fraco ou medíocre.34 O que se poderia chamar de
efeito de ciência> típico da maioria dos trabalhos dc
semiologia e dc todas as combinações mais ou menos
fantasmagóricas dos diferentes léxicos das ciências do
homem, linguística e psicanálise, psicanálise e economia,
etc., que se multiplicaram nos anos 1970, pode ser
compreendido assim como uma tentativa de disciplinas
socialmente definidas como duplamente negativas (nem
literárias nem científicas) para reverter a situação
invertendo os sinais e acumular os prestígios e os
benefícios, por muito tempo exclusivos, do vanguardismo
literário (ou filosófico) e do vanguardismo científico no e
pela reunião milagrosa das aparências do rigor científico e
da elegância literária ou da estatura filosófica. Não se
compreenderia a estrutura circular de dominação que faz
com que disciplinas (duplamente) dominadas segundo os
critérios tradicionais possam ao mesmo tempo dominar
numa outra relação as disciplinas que as dominam, se não
se visse que ela caracteriza um momento crítico do
processo histórico que tende a submeter à cultura
científica, até então subordinada, a cidadela da cultura
literária.
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CIÊNCIAS
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ECONOMIA TRAS ® E DE
SOCIOLOGIA
ETNOLOGIA CIÊNCIAS
PSICOLOGIA
UNGUST1CA
HUMANAS
MAT. FÍSICA f GRAFIA

BIOLOGIA
MAT. Apue. GEO« HIST. FILOL.
[LOGIA FRANCÊS MOD. ANT.
QUÍMICA LET. CLAS. F1L0S.
TEÓRICA
PURA
PRÁTICA. APLICADA TEÓRICA

34
As ciências sociais sáo também um refúgio para alguns cspccialistas das ciências "duras", frequentemente inclinados a
oferecer ao seu universo dc origem, pelo qual permanecem dominados, a oblação obrigatória dc uma representação crítica c
desvalorizadora das ciências sociais, da qual eles frequentemente dominam mal a lógica cspccífica; isso ao se servir muitas
vezes dc seu capitai específico para fazer reinar sobre as ciências sociais uma forma dc censura metodológica sem nenhuma
relação com a lógica real da ciência.
EMPIRIC A. IMPURA PURA

Espécies de capital e formas dc podcr


O sucesso social do que se chamou de
“estruturalismo” explica-se sem dúvida pelo fato de que
aqueles que o jornalismo cultural reagrupou sob esta
etiqueta tinham ao menos em comum o parecer trazer
uma solução milagrosa à contradição diante da qual se
encontrava toda uma geração de professores e de
estudantes, tanto nas disciplinas canônicas mais abertas ao
exterior como a filosofia, as letras ou a história quanto nas
ciências sociais, permitindo-lhes se restabelecer no terreno
da “ciência”. Para se convencer disso bastaria analisar os
usos sociais da linguística estrutural e da semiologia, tanto
no ensino, onde os empréstimos mais ou menos
dominados dessas disciplinas exerceram o papel de
amparo último contra a confusão - sobretudo para os mais
jovens e os mais modernistas dos professores -, quanto na
produção cultural, onde eles permitiram fazer reconversões
ao menor custo.
Os interesses associados à posição ocupada num
espaço organizado em torno da oposição entre as
humanidades tradicionais e as novas disciplinas com
pretensão científica, linguística, psicologia, sociologia,
etnologia, inclusive a semiologia, sempre entram com uma
parte, a mais inconsciente, nos conflitos mais puramente
intelectuais; e as tomadas de posição em matéria de teoria,
de método, de técnica e até mesmo de estilo sáo também
estratégias sociais em que os poderes se afirmam e são
reivindicados. Sem dúvida é preciso evitar ver uma relação
de causa e efeito na correlação que se observa entre o
peso da pesquisa
Espécies de capital c formas de pod<
numa disciplina determinada e a maioria das
características ligadas ao conjunto da disciplina, a
começar pelas disposições dos professores em relação à
pesquisa; no entanto, quando, como é o caso nas
ciências sociais na França, a pesquisa foi primeiramente,
com frequência, uma escapatória ou um refugio para os
excluídos das carreiras tradicionais, o aparecimento, no
centro de uma disciplina universitária, de um corpo dc
pesquisadores profissionais, conduzindo sua pesquisa a
título de atividade principal, oficialmente reconhecida e
remunerada, por órgãos especialmente organizados para
esse fim (como o CNRS), constitui em si uma ruptura com
a característica mais específica do modelo universitário: a
indiferenciação da atividade dc ensino e da atividade de
pesquisa, que faz com que as problemáticas escolares
estejam tantas vezes no princípio de publicações de
ambição científica e com que os pesquisadores mais
“personalistas” possam com frequência fornecer a
matéria dos cursos preparatórios aos grandes concursos.
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Além disso, quando o peso numérico dos
pesquisadores aumenta, o estatuto dos professores,
divididos entre os produtos da antiga admissão e os
recém-chegados, que muitas vezes apresentam
propriedades escolares e sociais próximas às dos
pesquisadores,7* se transforma: por intermédio das
instituições voltadas à disciplina, comitês e comissões
encarregados de financiar a pesquisa e de nomear os
novos pesquisadores, mas também e sobretudo talvez
através da institucionalização do estatuto de
1
^ pesquisador, que tende a constituir a pesquisa e a
publicação científica como norma subjetiva de todas
as práticas relegando a segundo plano os
-- investimentos pedagógicos, essas são as novas
solidariedades e as novas
necessidades que se impõem, contrariando os efeitos do
pertencimento ao corpo professoral; de maneira que por
meio dos novos modos institucionalizados de produção
e de circulação das obras culturais (clubes de reflexão,
laboratórios de estudos, colóquios, etc.) que favorecem a
relação com as burocracias, esses são modos de
pensamento e de expressão novos, novas temáticas e
novas maneiras de conceber o trabalho intelectual e o
papel do intelectual que se insinuam no universo
intelectual. O aparecimento de uma demanda pública ou
privada de pesquisa aplicada e de um público de leitores
atentos aos usos sociais da ciência social, altos
funcionários e homens políticos, educadores e
71
Cf. capítulo 4.

trabalhadores sociais, publicitários e peritos da saúde,


etc., favorece o sucesso de produtores culturais de um
gênero novo, cuja presença no campo universitário (no
sentido amplo que tende cada vez mais a se impor)
constitui uma ruptura decisiva com os princípios
fundamentais da autonomia acadêmica e com os valores
de desinteresse, gratuidade e indiferença às sanções e às
exigências da prática; esses managers científicos,
ocupados em buscar créditos para seus “laboratórios”,
em frequentar os comitês e as comissões onde se
adquirem as relações, informações e subvenções
necessárias ao bom funcionamento de seus
empreendimentos, cm organizar colóquios destinados a
dar a conhecer suas produções tanto quanto a ampliar
suas capacidades produtivas, apresentam problemas
novos, frequentemente tomados emprestados tal e qual
e sem crítica prévia dos homens de açáo, e uma maneira
nova de abordá-los; eles produzem obras de um tom e
de um estilo que acumulam a neutralidade da prestação
de conta positivista e a insipidez da relação burocrática
para alcançar o efeito de respeitabilidade próprio para
cobrir com a autoridade da ciência as recomendações do
perito.35
Espécies de capital e formas dc poder
A reivindicação da seriedade burocrática que define o
intelectual responsável sob todas as suas formas (e
principalmente a permanência dos aparelhos políticos ou
35
O aparecimento desse novo mercado transformou a distribuição das chances entre os próprios professores, dc
geografia principalmente, e tambem dc sociologia. É isso que notava um observador, consciente de que novos critérios dc
apreciação c novas capacidades estavam desde então cm jogo: “Há cada vez mais órgãos: o que conta é o acesso ao
dinheiro, às missócs. aos trabalhos financiados pelos ministérios, pelo Distrito, pela prefeitura do Seine, etc., c nesse
momento não é necessariamente o nível intelectual que pesa para a distribuição do dinheiro” (Geógrafo, 1972).
sindicais) tem na verdade como contrapartida a
abdicação da tomada dc distância crítica em relação aos
poderes e à ambição total que definem o personagem
social do intelectual (tal como se constituiu, na França, de
Voltaire a Zola, e de Gide a Sartre).36 Esse novo
protagonista do campo das lutas culturais encontra um
apoio natural nas instâncias dc consagração de um tipo
novo, próprias a contrabalançar, ao menos politicamente,
o peso das instâncias universitárias ou intelectuais: clubes
(clube Jean Moulin, Prospective, Futuribles, etc.) onde os
mais intelectuais dos managers e os mais managers dos
intelectuais trocam suas visões do mundo, comissões
(principalmente as comissões do Plano e as comissões de
financiamento da pesquisa para uso dos planejadores)
onde os pesquisadores de administração e os
administradores da pesquisa se entendem para decretar
o futuro da ciência, sem falar das instituições
constitutivas da ordem cultural burocrática, como os
institutos de estudos políticos ou os críticos dos jornais
semioficiais cuja leitura é a prece da noite do intelectual
de ação.37
Mas, sobretudo, os assalariados da pesquisa que se
multiplicam à medida que se desenvolvem as grandes
unidades de produção socialmente e tecnicamente
diferenciadas (INSEE, INED, CREDOC, INSERM, etc.) não
podem mais se cercar da aura carismática que se liga ao
escritor ou ao professor tradicionais, pequenos
produtores independentes colocando em prática seu
único capital cultural, predisposto a ser percebido como
dom da graça.38 Tanto que os produtos de seu trabalho
trazem com frequência a marca das condições em que
36
Para uma expressão ideal-típica da reivindicação dc uma nova definição do intelectual, ver M. Crozier, La Révolution
culturelle, Daedalus, dezembro dc 1963.
37 Com certeza a ascensão da ENA cm detrimento da ENS não contribui muito para esta transformação da
representação dominante do intelectual.
38
Entre as transformações insensíveis que somente a estatística pode revelar, uma das mais importantes c o
crescimento considerável do número dc produtores assalariados, que está ligado ao desenvolvimento do rádio, da
televisão c dos órgãos dc pesquisa públicos c privados, c o declínio das profissões artísticas ou jurídicas independentes,
isco é, do artesanato intelectual.
foram realizados: os “relatórios” e as “prestações de
conta”, muitas vezes redigidos às pressas para respeitar
um prazo, segundo as normas padronizadas de uma
produção cm série, e determinados - dada a
preocupação em justificar os créditos despendidos - a
submeter-se à exibição do trabalho realizado - com as
intermináveis notas metodológicas, os anexos
volumosos, etc. - mais do que à interpretação ou à
sistematização dos resultados, estão tão distanciados da
obra ou do artigo científico quanto das teses de
doutorado mais tradicionais, elas também marcadas pela
necessidade social de fazer ver e de fazer valer o trabalho
por não poder exibir sempre produtos indiscutíveis.
De fato, o desenvolvimento de instituições de
pesquisa independentes reforçou a ação de princípios dc
divisão novos que concernem a todas as dimensões da
vida intelectual: diferentemente das que podiam sc
observar, na fase anterior, no setor mais escolar do
sistema escolar, e que, produzidas pelo próprio
funcionamento do sistema, eram indispensáveis ao seu
funcionamento, isto é, à reprodução de suas hierarquias,
as diferenças sempre mais marcadas que separam os
professores e os pesquisadores ou os produtos do antigo
e da nova admissão tendem a substituir, ao menos cm
termos, uma pluralidade dc mundos regidos por leis
diferentes pelo universo unificado das diferenças
produzidas por um princípio dominante de
hierarquização.7*
Posições e tomadas de posição
Espécies dc capital c formas de podcr
Compreende-se assim por que a posição no espaço
universitário tal como talvez ela possa ser definida a
partir de critérios e propriedades exclusivamente
universitários esteja tão estreitamente ligada às tomadas
de posição “políticas”. Observa-se na verdade que, num
espaço construído somente a partir das propriedades
universitárias, as vizinhanças e as distâncias
correspondem muito estreitamente a afinidades e a
antagonismos “políticos” nos conflitos dc maio de 1968 e
para além disso (assim, por exemplo, o conjunto dos
signatários de uma moção de apoio a Robert Flacelière
ocupam no espaço universitário posições mais próximas
da de seu colega “ameaçado”; igualmente, os professores
que tomaram posição publicamente, em petições,
declarações, obras, etc., a favor ou contra o movimento
dc maio de 1968 ocupam no espaço universitário
posições diametralmente opostas, os a favor situando-se
cm sua totalidade no setor sudoeste do diagrama, os
contra sobretudo no setor sudeste). Se é assim, é porque
a propensão dos diferentes professores a ligar a defesa
do corpo à defesa do mercado protegido que lhes
assegura um público escolar estreitamente controlado
varia como o grau pelo qual o valor de seus produtos
depende da constância desse mercado ou, se se quiser,
como o grau pelo qual a sua competência - isto é, seu
capital específico - depende da garantia estatutária
conferida pela instituição.39
A violência das reações que suscitou, nos mestres mais
tradicionalistas das disciplinas mais tradicionais, o
questionamento da instituição escolar e do mercado cujo
monopólio ela lhes garantia, está estritamente na medida
da dependência de sua produçáo em relaçáo a esse
mercado: estando quase sempre desprovidas de valor
fora dos limites do mercado escolar (elas sáo muito
pouco traduzidas no estrangeiro), as produções culturais
dos professores ordinários — a começar pelos seus
cursos — estáo ameaçadas de desvalorização pela crise
que atinge a instituição quando chegam ao mercado
produtos novos, oferecidos por disciplinas mais
formalizadas c mais poderosas, como a linguística ou as
ciências sociais.*0 O destino da filologia, velha disciplina

39
A dcpcndcncia diferencial das diferentes espccics dc capital universitário em relação ao mercado universitário se vê
muito bem por ocasião da emigraçáo para um país estrangeiro: a perda dc valor que afeta todos os capitais culturais
cscolarmcntc garantidos parece atingir mais fortemente
tipicamente escolar, remetida brutalmente ao Gabinete
das antiguidades pela linguística, representa o limite do
que aconteceu com a maioria das disciplinas literárias,
mesmo as mais protegidas, como a história da literatura,
as línguas antigas ou a filosofia.* A crise atingiu de estalo
os normalistas filólogos que, ficando totalmente alheios,
do alto de sua estabilidade estatutária, à evolução das
ciências da linguagem e a tudo o que acontecia fora, e
mesmo na França, mas em instituições marginais como a
Escola dos altos estudos e o Colégio de França, se viram
de repente desvalorizados, depois relegados ou forçados
a reconversões de antemão perigosas e perdidas, diante
da irrupção da linguística importada c defendida por
marginais, muitas vezes náo normalistas, provinciais ou
vindos de disciplinas “inferiores” (como as línguas vivas).Sl
Pelo efeito que se observa todas as vezes que
168
Homo academicus | Pierre Bourdieu
as espécies mais diretamente ligadas às particularidades de uma instituição escolar nacional, como a história literária ou o
direito.
*° O efeito do monopólio estatutário náo é táo bem observado quanto por ocasião das crises individuais que representam
as aposentadorias compulsórias: o fim dos reinos mais tirânicos foi frequentemente marcado por uma queda brutal do
curso desses autores obrigatórios.
0
As relações entre a filosofia e as ciências sociais obedecem à mesma lógica, com a diferença dc que uma fração dos
“filósofos" pódc escapar do destino comum (assim como, é verdade, para uma fração, mais ínfima, de “gramáticos”) à
custa de estratégias dc reconversão, mais ou menos audaciosas, que tendem entre outras coisas a “fundar”, a “pensar" ou a
anexar as ciências sociais - sobretudo
o cstruturalismo -ca salvar assim ao menos as aparências da ambição c da dominação antigas. A sorte dos que se ligaram
à definição antiga do posto é apenas mais difícil. As ciências sociais, c sobretudo a etnologia c a sociologia que, nos anos
1950. apareciam como disciplinas-refiígio, um pouco desprezadas pelos que tinham a possibilidade de seguir a via real,
Escola normal e agregação, podem parecer-lhes atualmente como sc fizessem pairar uma ameaça intolerável sobre a
filosofia e, cm todo caso, como capazes dc usurpar a posiçáo de regalia que esta disciplina sempre reivindicou. ** Do
filólogo cujo nome está ligado à resistência mais furiosa ao movimento dc maio de 1968. um informante diz: “Este é um

os lugares no espaço social de


puro produto do que se chamava outrora de agregação dc gramática; sua tese é de lexicografia ou dc lexilogia [...]. É

duas posições se invertem, de maneira insensível ou


alguém que..., enfim, ele disse..., estava muito orgulhoso

brutal, no decurso do tempo, os antigos dominantes da


posiçáo outrora dominante que vão sendo pouco a
pouco levados, sem o saber e apesar deles, a uma
posiçáo dominada contribuem para o seu próprio
declínio ao obedecer ao sentido da superioridade
estatutária que os impede de derrogar e de realizar em
tempo as reconversões necessárias. Pensa-se
evidentemente nas relações entre os aristocratas e os
burgueses na aurora do capitalismo; mas se pode evocar
também os mais velhos das “grandes” famílias
camponesas que, no Béarn dos anos 1950, foram
condenados ao celibato pela preocupação em evitar uma
má aliança num período de crise do mercado
matrimonial (crise determinada, entre outras razões, pela
modificação das posições relativas do pequeno
camponês e do pequeno funcionário). E compreende-se
assim qual deve ser a amargura dos normalistas
agregados oriundos da pequena burguesia ou das
classes populares que permaneceram nas habilitações e
nas posições outrora dominantes quando descobrem,
mas tarde demais, que, no final dc mudanças tão
imperceptíveis quanto a deriva dos continentes, seus
investimentos terão um retorno muito imperfeito. Vítimas
consentidas de sucessos escolares que, através do efeito
de consagração, os levaram primeiramente a obter um
posto de professor do ensino secundário, depois, graças
à expansão universitária, de assistente ou de encarregado
de ensino numa faculdade de província, com todos os
efeitos correlatos, os do isolamento provincial, dos
encargos pedagógicos, etc., eles veem seus infelizes
concorrentes, inicialmente relegados a posições
desdenhadas, serem promovidos, em virtude de uma
transformação da relação entre as disciplinas canônicas e
as disciplinas novas, à vanguarda da “pesquisa”,
frequentemente sem outros títulos que náo sua inserçáo
nos grupos que estão na moda e sem outras virtudes a
seus olhos que náo o fato de ser o “caçula da ninhada”,
muitas vezes associado a uma origem social mais
elevada, que lhes permitiu afrontar os riscos da
colocação em instituições marginais.*’
Espécies dc capital e formas dc poder
por ser o primeiro de sua promoção [da Escola normal] a defender sua tese c ele tinha escolhido dc propósito esse tipo dc
habilitação. Dc fato, a gramática foi para cie menos um objeto de escudo que um objeto dc promoção. FJc disse e redisse.
Da mesma maneira que sc gabava por não preparar seus cursos” (Letras clássicas, 1971).
8}
Seria preciso ter em mente essas análises para compreender as reaçóes desesperadas c, nesse sentido, patéticas, diante
do movimento dc Maio desses pequenos ou grandes portadores de açóes culturais, dc repente desvalorizadas como os
títulos dc empréstimos russos (cf. capítulo 5).
Capítulo 4
Defesa do corpo e ruptura dos equilíbrios
"A representação das idades, e da duração que as separa,
é relativa à composição da sociedade e de suas partes, às
suas necessidades, às suas possibilidades. Nas nossas
velhas nações, sobretudo antes da guerra, quando todos
os postos estavam ocupados, quando não se avançava
muito mais que o tempo de serviço, cada um devia ficar
na fila e esperar sua vez, e os jovens estavam separados
dos velhos por uma massa densa, incompressivel, cuja
espessura lhes impunha o sentimento das etapas que
deviam atravessar antes de se reunir aos mais velhos.”
M. Halbwachs, Classes sociales et morphologie.
A estrutura do campo universitário é apenas o estado,
num dado momento do tempo, da relação de forças
entre os agentes ou, mais exatamente, entre os poderes
que eles detêm a título pessoal e sobretudo por meio
das instituições de que fazem parte; a posiçáo ocupada
nesta estrutura está no princípio das estratégias que
visam transformá-la ou conservá-la modificando ou
mantendo a força relativa dos diferentes poderes ou, se
se prefere, as equivalências estabelecidas entre as
diferentes espécies de capital. Mas, se é certo que as
crises (a de maio de 1968, especialmente) dividem o
campo segundo linhas de fratura que lhe preexistem, de
maneira que todos os posicionamentos dos professores
sobre a instituição escolar c sobre o mundo social têm
em última análise seu princípio em sua posiçáo no
interior do campo, náo seria preciso concluir que o fim
das lutas internas depende unicamente das forças
presentes e da eficácia das estratégias dos diferentes
campos. As rransformações globais do campo social
afetam o campo universitário, principalmente por
intermédio das mudanças morfológicas, das quais a mais
importante é o afluxo da clientela de estudantes que cm
parte
Capítulo 4
Defesa do corpo e ruptura dos equilíbrios
"A representação das idades, e da duração que as separa,
é relativa à composição da sociedade e de suas partes, às
suas necessidades, às suas possibilidades. Nas nossas
velhas nações, sobretudo antes da guerra, quando todos
os postos estavam ocupados, quando não se avançava
muito mais que o tempo de serviço, cada um devia ficar
na fila e esperar sua vez, e os jovens estavam separados
dos velhos por uma massa densa, incompressivel, cuja
espessura lhes impunha o sentimento das etapas que
deviam atravessar antes de se reunir aos mais velhos.”
M. Halbwachs, Classes sociales et morphologie.
A estrutura do campo universitário é apenas o estado,
num dado momento do tempo, da relação de forças
entre os agentes ou, mais exatamente, entre os poderes
que eles detêm a título pessoal e sobretudo por meio
das instituições de que fazem parte; a posiçáo ocupada
nesta estrutura está no princípio das estratégias que
visam transformá-la ou conservá-la modificando ou
mantendo a força relativa dos diferentes poderes ou, se
se prefere, as equivalências estabelecidas entre as
diferentes espécies de capital. Mas, se é certo que as
crises (a de maio de 1968, especialmente) dividem o
campo segundo linhas de fratura que lhe preexistem, de
maneira que todos os posicionamentos dos professores
sobre a instituição escolar e sobre o mundo social têm
em última análise seu princípio em sua posição no
interior do campo, náo seria preciso concluir que o fim
das lutas internas depende unicamente das forças
presentes e da eficácia das estratégias dos diferentes
campos. As rransformações globais do campo social
afetam o campo universitário, principalmente por
intermédio das mudanças morfológicas, das quais a mais
importante é o afluxo da clientela de estudantes que cm
parte determina o crescimento desigual do volume das
diferentes partes do corpo docente e, assim, a
transformação da relação de forças entre as faculdades e
as disciplinas e, sobretudo, no interior de cada uma delas,
entre os diferentes graus.
Homo academicus | Pierre Bourdieu
É o que sentem, confusamente, os defensores da
ordem antiga: pelo fato de que a mudança advém em
grande parte em razão do número de estudantes que,
pelo crescimento correlato da demanda de professores,
ameaça transformar o funcionamento do mercado
universitário e modificar, por meio da transformação das
carreiras, o equilíbrio das forças no interior do corpo
docente, eles se tornam os defensores do numerus
claiisus e trabalham, sem premeditar, para defender o
corpo professoral contra os efeitos do crescimento
inevitável. Assim, para compreender as mudanças
ocorridas nas diferentes faculdades em resposta ao
problema causado pelo crescimento do número de
estudantes, é preciso levar em conta não somente a
forma particular que adquiriu, em cada caso, a
transformação morfológica da população estudantil, isto
é, variáveis externas tais como a importância do
crescimento, seu momento, sua intensidade e sua
duração, mas também as características próprias da
instituição confrontada com esta transformação, isto é,
variáveis internas tais como os princípios que regem a
admissão e a carreira nas diferentes faculdades e, no
interior delas, nas diferentes disciplinas.
172
O crescimento brutal e rápido da população estudantil
que resulta da conjunção da elevação da taxa de
fecundidade nos anos posteriores à guerra e do
crescimento geral da taxa de escolarização' determinou
por volta dos anos 1960 um crescimento do corpo
professoral ainda mais importante quando, no mesmo
tempo, o enquadramento dos estudantes crescia muito,
mesmo que em graus diferentes, em todas as
faculdades.1 A consequência mais direta desse processo
foi um crescimento importante dos postos oferecidos nas
faculdades e, ao menos para algumas categorias de
professores, uma aceleração das carreiras.
1
Por náo poder retomar aqui a análise dos fatores do crescimento da taxa dc escolarização, só sc pode remeter a P.
Bourdieu, Classement, déclassement, reclassement, Actes de la recherche en sciences sociales. 24, novembro de 1978, p. 2-22, c
La distinction, Paris, Éd. dc Minuit, 1979, p. 147-157.
* Encontram-sc no Ancxo 2 os dados sobre as transformações morfológicas da população estudantil, do corpo
professoral (por graus), das taxas dc enquadramento c das relações entre os graus (colégio A/colégio B) nas diferentes
faculdades entre 1949 c 1969.
É surpreendente que a maioria dos que se
interessaram pelas transformações da Universidade tenha
guardado do crescimento da população estudantil
apenas o efeito de número (ou de massa ou de
“massificação”), como faz comumente - a propósito dos
problemas de urbanização, por exemplo - a sociologia
espontânea ou semierudita. Temos sem dúvida na
lembrança os debates sobre “qualidade e quantidade”,
“elite e massa”, “massa e qualidade”, que fizeram a
alegria dos jornalistas universitários e dos universitários
jornalistas nos anos i960. Ora, pode-se estabelecer como
lei geral que, fora dos efeitos puramente mecânicos de
saturação que os agentes sociais, uma vez que são
dotados de corpos biológicos e de propriedades que
ocupam o espaço, exercem inevitavelmente, e dos efeitos
já mais especificamente sociais de anonimidade e de
“irresponsabilização” que resultam do fato de “passar
despercebido”, a ação dos fatores morfológicos só é
exercida por meio da lógica específica de cada campo
que dá sua forma própria a todos esses efeitos. Não se
passa mecanicamente do aumento do tamanho das
universidades ao aumento da complexidade (aliás, isso é
certo?) da burocracia universitária, ou, segundo o
estereótipo erudito, à transformação da “comunidade”
em “massa” ou, menos ainda, do scholar em educational
worker. Do mesmo modo, o surgimento de um corpo de
administradores científicos e o crescimento de seu peso
na estrutura dos poderes universitários só podem ser
compreendidos pela análise da estrutura do campo em
seu conjunto, das lutas que nele ocorrem e dos
benefícios que os diferentes campos podem extrair dos
efeitos do crescimento do número de estudantes e de
diferentes categorias de professores (isso sc vê
especialmente bem nos casos das universidades
americanas que, devido ao seu estatuto, estão mais
diretamente subordinadas à demanda do que a
Universidade francesa). É por isso que a análise do efeito
que as transformações morfológicas exerceram sobre o
corpo professoral, sobre sua visão do mundo
universitário e de suas divisões, passa por uma história
estrutural do campo universitário que é preciso ao
menos esboçar, a partir dos dados disponíveis.
O crescimento da rentabilidade dos títulos escolares
que resulta do crescimento da oferta de emprego no
mercado universitário aparece claramente nas diferenças
que separam as carreiras oferecidas aos normalistas e
aos agregados em diferentes épocas da história do
sistema de ensino.40
As profissões exercidas pelos antigos alunos da Escola normal superior cm 1938 e em 1969 (cm
porcentagem)
1938 (n = 535) 1969 (n = 629)

Professores:
- nos liceus 44» 5 16,4

- nas classes preparatórias 6,5 7>S


- nas faculdades 24,6 46,8
Pesquisadores M 6,8
Outras carreiras 22,9 22,5
Total 100 100

Estatística estabelecida a partir do Anuário da ENS (as porcentagens foram calculadas sem levar cm conta
antigos alunos cuja profissão náo era mencionada no Anuário, ou seja, 30,7% cm i<)?8 e 31,7% cm 1969).

A relaçáo entre a parcela dos antigos alunos da Escola


normal superior que ensinam num liceu e a parcela dos
que ensinam numa faculdade se inverteu entre 1938 e
1969. E a transformação é sem dúvida muito mais
importante do que sugerem os números, pelo fato de
que a maioria dos normalistas que ensinam nos liceus
pertence às promoções mais antigas: havia, em 1969, 40
professores do ensino secundário, contra 31 professores
do ensino superior entre os normalistas das promoções
1920 a 1929; ao contrário, havia apenas 23 professores
do ensino secundário (5 estando nas classes
preparatórias), contra 150 do ensino superior entre os
normalistas das promoções 1945 a 1959 (ou seja, I para
6,5). Igualmente, apesar de um crescimento considerável
do número de novos agregados (havia 970 em média por
ano entre 1965 e 1970, contra 250 entre 1945 e 1959), as
chances de um agregado de letras ensinar no ensino
superior mais que no ensino secundário aumentaram
muito entre 1949 e 1968. E tudo parece indicar que esta
evolução é ainda mais acentuada para os detentores de
40 Se, para analisar as flutuações na longa duração do valor global dos rírulos escolares, escolhemos estudar o destino
social dc duas séries dc promoções de normalistas, foi porque o título dc antigo aluno da Escola normal superior constitui
sem dúvida (contrariamente às diferentes agregações c a fortiori às diferentes licenciaturas) o título escolar cujo valor é
mais constante nos diferentes mercados em que pode ser negociado, isto é. nos diferentes submcrcados universitários c
mesmo nos mercados externos (ainda que em grau menor, devido à desvalorização provocada pda concorrência da ENA).
títulos científicos: assim, cm 1969, somente 7,6% dos
normalistas cientistas das promoções I945'I959
ensinavam no secundário, contra 46,5% dos cientistas
das promoções 1919-1930; para os literatos, as
proporções eram respectivamente de 11,6% e 31,7%.
A evolução do número de agregados no
1968

ensino superior entre 1949 «


Secundário Superior [S]* S/s
[si
»949 ......................... 5.000 (100)** 510 (100)** 0,10

i960 ................................ 7.200 (144) 1.110 (217) 0,15


1068 ............................... 6.020 (120) 4.200 (823) 0,69
Fontes: Service des statistiques et de la conjoncture e A. Prost. L’enseignement en France.

1800-1967, Paris, A. Colin, 1969, p. 462.


’ Estimativas
•• Base 100 cm 1949

Os benefícios bastante visíveis (sobretudo aos olhos


dos mais velhos) que a situação de expansão
proporciona aos mais jovens ao lhes permitir, entre
outras coisas, atravessar a um menor custo (como
testemunha a redução importante do tempo passado no
secundário) o limiar do ensino superior náo deveriam
deixar esquecer que todas as categorias de professores
aproveitaram, em graus diversos, esta conjuntura
favorável. Assim, o aumento do numero de cadeiras
disponíveis e a penúria dos professores dotados do titulo
necessário para ocupá-las (doutorado) tiveram como
resultado oferecer, aos professores e mestres de
conferência já atuando nas faculdades de província no
momento da expansão, oportunidades muito maiores de
ingresso na universidade de Paris, topo de toda
hierarquia universitária que até então era acessível
apenas a um pequeno número/ (Aqueles dentre os
professores titulares da faculdade de letras de Paris que
ingressaram nesse posto depois de i960 e que antes
ocupavam uma cadeira na província são menos
frequentemente normalistas ou agregados do que seus
colegas mais antigos - ou seja, 34% ou 80%
respectivamente, contra 47% ou 89% e, como se viu,
ocorre o mesmo com os professores da faculdade de
Nanterre). Quando se sabe além disso que a expansão
universitária teve como resultado assegurar carreiras
muitíssimo aceleradas aos professores de idade
intermediária que obtiveram o título de doutor durante
esse período, ve-se que esta dupla transformação levou,
de um lado, às posições mais elevadas professores em
segunda escolha (conforme os critérios de excelência do
antigo estado do sistema), sendo pouco provável que
fossem mais liberados por essa razão dos valores
tradicionais do corpo, e, de outro lado, os que dentre os
professores da geração seguinte se dobraram mais
facilmente ou mais docilmente, num período de crise de
modelos universitários e intelectuais (ao menos para as
faculdades de letras), as normas da produção
universitária.
Defesa do corpo e ruptura dos equilibria
Mas se, no nível dos professores titulares ou dos
mestres de conferência (colégio A), a simples translação
para o alto e as limitações trazidas ao crescimento
exigido (observa-se na verdade uma queda da taxa de
enquadramento de professores titulares que é
particularmente mais acentuada nas faculdades de letras)
permitem responder à nova situação da demanda sem
uma alteração importante dos princípios da antiga
admissão, náo acontece o mesmo nos níveis subalternos
do corpo docente: neste caso, a penúria corre o risco de
impor estratégias que podem ameaçar, ao menos em
parte, a reprodução do corpo professoral ao forçar os
professores a se valer cada vez mais da reserva limitada
dos candidatos tradicionalmente considerados como
legítimos. Ora, as diferentes disciplinas se distinguem a
partir dc três relações fundamentais: a importância de
sua necessidade de enquadramento, ligada à importância
do afluxo de estudantes; o volume da reserva de
agregados de que elas dispõem e enfim a propensão dos
professores titulares a se valer exclusivamente desta
reserva, propensáo que depende principalmente de seus
títulos escolares.' As disciplinas novas e as disciplinas
canônicas se
As análises que seguem apoiam-se em dados estatísticos retirados da enquete (já utiliíada acima) que foi realizada
cm 1967-1968 pela Maison das ciências do homem. Primeiramente destinada a preparação dc um Anuário, esta enquete
foi concebida de imediato como objeto de uma análise científica e M. Jean Viet, responsável pelo trabalho, nos ofereceu a
possibilidade dc participar da elaboração do questionário e dc inserir um conjunto dc questões detalhadas sobre a origem
social. Ainda que tenha obtido uma taxa dc respostas muito elevada (próxima dc 80% no conjunto, ela varia entre 86%
em história c 67% cm estudos literários), esta enquete sofre dos defeitos inerentes a toda enquete por correspondência.
Quando sc sabe que, como sc pode verificar alhures, a propensáo para responder varia cm fiinçáo do grau dc identificação
com a instituição.
opõem tão intensamente nessas três relações que se
pode tratá-las como dois mercados - ou dois subcampos
- diferentes. Na verdade, assim como só se pode dar
conta das variações dos salários segundo as regiões, as
áreas ou as profissões desde que se abandone a hipótese
de um mercado de trabalho unificado e sc desista, do
mesmo modo, de agregar dados radicalmente
heterogêneos para investigar as leis de funcionamento
(formas de capital e de investimento específicos, normas
de admissão e de carreira, procedimentos
institucionalizados ou não de gestão dos conflitos, etc.)
próprias aos diferentes campos relativamente
autônomos, espaços estruturados de relações duráveis
(entre produtores e entre os produtores e uma clientela)
que coexistem no interior de um mesmo espaço
econômico, também só se pode compreender as
variações que se observam não somente nas carreiras
mas também, por meio delas, nas práticas e nas
representações dos professores das diferentes faculdades
e mesmo em diferentes disciplinas, desde que se elabore
a hipótese de que essas diferentes unidades constituem
tantos mercados diferentes cm que títulos formalmente
identificados podem receber valores diferentes e
possibilitar remunerações propriamente incomensuráveis
(por exemplo, do “poder” universitário ou do prestígio
intelectual). Percebe-se assim de imediato que a parcela
dos agregados dentre os membros do colégio A (daí a
propensão em manter a agregação como critério
implícito na admissão dos novos entrantes) é claramente
mais importante nas disciplinas canônicas (97% em
línguas antigas, 96% em literatura, 87% em história) do
que nas disciplinas novas (53% em sociologia, 50% em
psicologia), as quais, tendo adquirido uma existência
autônoma somente ao se desligar das disciplinas antigas,
como a filosofia, e não sendo ensinadas no secundário,
têm em comum o fato de serem desprovidas de
concursos de admissão e, portanto, de reservas de mão
de obra próprias.6
180
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
que os responsáveis sc atribuíram como objetivo prioritário o recenseamento exaustivo dos pesquisadores e dos
professores que ocupam o topo da hierarquia, e enfim que o levantamento dos professores do colégio B é ao mesmo
tempo mais difícil c mais incerto, compreende-se que os professores do colégio B estejam ligeiramente sub-representados
em todas as disciplinas, como aparece na comparação sistemática das estruturas da população da amostra c das
estruturas da população global dos mestres do ensino superior. Segundo a mesma lógica, os provinciais c as mulheres
parecem um pouco sub-representados cm relação aos parisienses c aos homens.
6 Assim, a sociologia que encontrava lugar nas faculdades de letras somente no quadro de um certificado da licenciatura

cm filosofia (o certificado dc moral e sociologia) c cujo corpo doccntc náo sc distinguia do da filosofia nem por sua
admissão nem pelo estilo dc suas pesquisas, chcga à independência em 1958, com a criação da licenciatura cm sociologia,
no mesmo momento da chegada nas faculdades dc contingentes dc estudantes mais numerosos.
Quando se acrescenta que essas disciplinas novas
conheceram uma taxa de crescimento claramente mais
importante que as disciplinas antigas, compreende-se
por que se instituiu um modo de admissão dos novos
professores totalmente diferente do das disciplinas
clássicas.41
As substituições funcionais
Defesa do corpo c ruptura dos equilíbri«
É deixando-se guiar, como em todas as escolhas
práticas, por um sistema de critérios implícitos, e no
entanto grosseiramente hierarquizados, que os
professores responsáveis pela admissão têm, fora de
toda premeditaçáo, trabalhado para defender as
invariâncias sociais do corpo professoral. Isso à custa dc
uma série de substituições funcionais que a eles se
impunham ainda mais intensamente quando a reserva de
candidatos conformes era mais fraca ou mais restrita

Cf. Anexo 2, b.
pelas admissões anteriores. Eles precisaram desistir, mais
ou menos totalmente segundo as disciplinas, isto é,
segundo a relação entre a mão de obra demandada e a
reserva de postulantes legítimos, das exigências
secundárias concernentes aos títulos escolares, ao sexo e
à idade, que introduziam tacitamente e mesmo
inconscientemente em suas práticas de admissão (de
maneira mais estrita quando pertenciam a disciplinas
situadas no topo da hierarquia universitária, portanto
dotadas de uma abundante reserva de mão de obra
provida de propriedades mais raras). Assim, numa
disciplina que, como a literatura francesa, ocupa um
ranking elevado na hierarquia universitária e cujos
membros, rigorosamente selecionados, são praticamente
todos agregados e na maioria normalistas, a parcela
relativa dos antigos alunos da rua d’Ulm entre os
professores que foram admitidos após o início do
período de expansão (e que sáo relativamente
numerosos, pois o corpo docente dobrou entre 1963 e
1967 sem esgotar uma reserva de mão de obra muito
abundante) decresceu em favor dos antigos alunos da
Escola normal superior dc Saint-Cloud (outrora
extremamente raros, ao menos nas disciplinas canônicas)
e, geralmente, cm favor dos agregados que náo
passaram por uma grande escola, ao mesmo tempo que
a parcela dos titulares de uma agregação de letras
clássicas decrescia em favor dos titulares de uma
agregaçáo de gramática ou de letras modernas,
tradicionalmente menos reputadas.
Assim, há na literatura somente 20% de antigos
alunos da ENS da rua d’Ulm entre os professores
admitidos após i960, contra 34,4% entre os que entraram
antes de i960; ao contrário, há 7,4% antigos de Saint-
Cloud e 65,5% agregados náo normalistas entre os
professores admitidos após i960, contra 5,4% e 58%
entre os que entraram antes de i960. Entre os professores
de línguas antigas, a parcela dos agregados de letras
clássicas passa de 76% para os que entraram em
exercício antes de i960 a 62,5% para aqueles cuja
admissão é posterior a i960. Ao contrário, a parcela dos
agregados de gramática e de letras modernas passa de
24% para os professores que entraram em exercício
antes de i960 a 37,5% para os professores admitidos
depois dessa data.
A mesma preocupação em ampliar o corpo sem
contribuir com sua “degradação” também se exprime,
para disciplinas menos prestigiosas, como as línguas
antigas ou a história, na admissão de professores que
ocupam na hierarquia implícita ou explícita da excelência
escolar um nível imediatamente inferior ao que
ocupavam nesta hierarquia os titulares dos mesmos
postos na geração escolar precedente. Numa disciplina
que, como a geografia, se situa no último ranking da
hierarquia universitária - a parcela dos normalistas foi
sempre muito pequena e os professores sáo geralmente
antigos khâgneux, desprovidos, em sua maioria, de
títulos mais raros que a agregação -, a lógica da defesa
do corpo se traduz náo nos títulos universitários dos
professores recentemente admitidos, porque, nesse caso,
a agregaçáo constitui ao mesmo tempo o limite inferior e
o limite superior da reserva, mas numa feminização ou
numa extensáo da faixa dc idade de onde são retirados
os professores.
Assim, o colégio B que tinha apenas 15,2% de
mulheres em 1963, contava com 23,6% em 1967; de
outro lado, enquanto a maioria dos professores
admitidos antes de 1950 entrou no ensino superior com
menos de 28 anos, o modo da distribuição segundo o
mesmo critério situa-se, para os professores admitidos
após i960, entre 30 e 35 anos. Se a feminização e o
envelhecimento não são mais marcantes é porque a ação
dos fatores que, nas letras e nas línguas antigas, reforçam
a propensáo a privilegiar os agregados é sem dúvida
menos forte numa disciplina que se situa em posiçáo
inferior na hierarquia tradicional c está relativamente
aberta à pesquisa científica.
As estratégias do senso prático que tendem a manter
a homeóstase social do corpo levam a pensar nas
estratégias matrimoniais que fazem com que, no caso de
um desequilíbrio da sex-ratio, a mudança da idade
modal do casamento (e sobretudo talvez da dispersão
em torno dessa idade) dos indivíduos pertencentes ao
sexo deficitário torne possível um reajustamento do
mercado ao permitir aos membros de cada grupo social
buscarem um companheiro sem transigir os critérios
mais pertinentes na questão da união matrimonial, como
a condição econômica e social.8 O mesmo crescimento
da reserva de mão de obra que pode ser obtido à custa
de uma redução da idade de ingresso no ensino superior
também pode ser assegurado pela escolha oposta de
buscar no ensino secundário professores relativamente
velhos, em todo caso com muito tempo de carreira, que
nunca ingressariam no ensino superior, por ter “passado
da idade”, se a expansão não lhes houvesse oferecido
esta segunda chance. Se entre essas duas estratégias,
que nunca sáo completamente exclusivas, a segunda
parece ter predominado nas disciplinas mais tradicionais,
a saber, as línguas antigas e, em menor grau, a literatura,
é sem dúvida porque tudo predispõe os professores
dessas disciplinas a sentir com uma acuidade e uma
importância particulares as derrogações impostas pela
conjuntura e a tentar minimizar a carga x tomando o
partido de menor risco. É também porque eles tendem
inconscientemente a reproduzir, numa outra conjuntura,
o modelo de sua própria carreira: é surpreendente que
uma importante proporção dos assistentes entre nas
faculdades com a idade em que, vinte anos antes, os
professores responsáveis pela sua admissão entravam,
após ter passado igualmente dez a quinze anos num
liceu, mas com um grau mais elevado, geralmente o dc
mestre de conferência.
Defesa do corpo e ruptura dos equilibrii
Nas línguas antigas, 87% dos professores que
ingressaram em postos de assistente ou de mestre-
assistente entre 1950 e i960 tinham menos de 32 anos
quando entraram em exercício, contra 59% dos que
* Analisando as perturbações do mercado matrimonial consequentes ã primeira guerra mundial. Halbwachs mostra
como “a redução extremamente importante (quase um quarto) da populaçáo masculina (classes 1900 a 1915)
compreendendo, no final da guerra, as categorias dc idade dc 23 anos a 38 anos” teve por consequência “elevar os jovens
na escala das idades (c talvez fazer os mais velhos descerem alguns degraus)” (cf. M. Halbwachs, La nuptialité en France
pendant et depuis la guerre. Annales sociologiques, série E, fascículo 1,1935, p. 1-46, retomado cm M. Halbwachs, Classes
sociales et morphologie, Paris, Éd. dc Minuit. 1972, p. 231-274).
ingressaram nos mesmos postos após i960, enquanto
13% dos primeiros tinham idade superior a 35 anos,
contra 28% dos segundos. Igualmente, cm literatura,
ainda que a parcela das mulheres no colégio B passe de
19% em 1963 a 34,6% em 1967, 40% dos professores que
ingressaram no colégio B entre 1950 c i960 tinham
menos de 30 anos e 27% mais de 35 anos quando
entraram em exercício, contra respectivamente 25% e
33% dos que ingressaram nas mesmas vagas após i960.
Ao contrário, numa disciplina que, como a história, ocupa
uma posiçáo quase idêntica à das línguas antigas na
dupla relação da importância da reserva e da taxa de
crescimento, o aumento do volume da reserva foi obtido
diminuindo a idade de entrada no superior: 50% dos
historiadores que ingressaram no colégio B entre 1950 e
i960 tinham menos de 32 anos e 30% mais de 36 anos
quando entraram em exercício, contra respectivamente
57,8% e 23% dos que ingressaram nos mesmos postos
após i960.
Ainda que muitas vezes se justifique esta forma de
admissão invocando-se a “secundarizaçáo” que
determinaria inevitavelmente o aumento do número de
estudantes, recorrer aos agregados já velhos constitui
sem nenhuma dúvida o indicador mais claro da situação
dessas disciplinas em que a diferença entre o ensino
secundário c o ensino superior é pouco evidente, tanto
cm relação aos métodos quanto aos saberes
transmitidos, em que mestres que passaram por vários
anos de ensino secundário podem ter seu lugar e em
que, com a crise do sistema de ensino e da cultura que
ele deve transmitir, os jovens professores, mesmo feitos
sob medida, como os normalistas, representam uma
ameaça para a perpetuação do sistema. Ao escolher ou
“velhos” agregados desprovidos de toda competência
heterodoxa, portanto pouco dispostos a relativizar a
cultura dc seus mestres e reforçados (provisoriamente ao
menos) na adesão ao sistema por meio desta promoção
da última chance, ou aqueles entre os mais jovens
agregados cujos títulos e estilo os qualificam para
reproduzir a instituição, os professores das disciplinas
clássicas contribuem mais ou menos conscientemente
para evitar que uma brusca transformação do modo de
reprodução dos produtores e dos consumidores
escolares dc produtos escolares venha determinar o
“envelhecimento tecnológico” e a desvalorização dc sua
competência: a aposta da política de admissão é a
eternização do modo de reprodução escolar cuja
competência dos mestres é o produto e a perpetuação
do mercado no qual seus produtos podem receber um
valor, a clientela sempre recomeçada dos khâgneuxçàos
agregados. E o privilégio absoluto que se atribui à
agregação sobre qualquer outro critério é compreendido
quando se sabe que é por meio da dominação da
agregação, fim último de todos os cursos e de todos os
concursos, que as normas intelectuais que regem esse
concurso se impõem sobre todo ensino e toda
aprendizagem de grau inferior, quer se trate da
preparação da licenciatura ou mesmo da redação dc um
memorial.
Defesa do corpo c ruptura dos equilíbri*
A mesma lógica não podia produzir efeito nas
disciplinas novas. Por falta de reserva própria e, ainda
que pudessem contratar entre os agregados das
disciplinas canônicas - em filosofia principalmente -, os
professores titulares não podiam circunscrever a
admissão dos professores subalternos ao limite da
população dos agregados: a parcela dos agregados que
se mantém quase constante entre os professores de
letras decresce muito após i960 em todas as disciplinas
novas, passando por exemplo de 44,4% entre os
professores de psicologia admitidos antes de i960 a
22,8% entre os que foram admitidos depois e de 71,5% a
42% nas categorias correspondentes dos professores de
sociologia. Mas o essencial é que, nessas disciplinas, os
professores são dominados numericamente e, ao menos
em certas relações, socialmente, pelos pesquisadores que
importam e impõem disposições completamente
diferentes das que estavam em curso na ordem
universitária antiga. Sem dúvida os professores de
faculdade, que tinham um grande peso (ao menos até
1967, data da enquete) na Universidade e mesmo, até
certo ponto., nas instâncias de admissão da pesquisa,
esforçam-se para manter, na admissão dos professores,
princípios náo muito diferentes dos das disciplinas
tradicionais (continuando a atrair pesquisadores mais
bem dotados em títulos escolares que o conjunto da
categoria).42 Resulta que a distância não para de crescer
entre os professores titulares e os professores
subalternos ou os pesquisadores (que, ao menos nos
anos 1945-1960, sáo com frequência o produto de uma
seleção negativa no interior da clientela das disciplinas
canônicas) e que a dispersão, pouco favorável ao
consenso metodológico, é extrema, no próprio interior
das diferentes categorias estatutárias.
186
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
A diversidade das formações, dos cursos e dos títulos
vai crescendo entre os professores da mesma disciplina,

42 Vc-sc assim que dentre os pesquisadores cm sociologia os que deixaram a pesquisa para passar para o ensino
superior tem um nível dc fbrmaçáo mais elevado do que os que permaneceram na pesquisa: 46% dos pesquisadores do
colégio B que sc tornaram professores sáo agregados ou antigos alunos d;. ENS, cnquanco o conjunto dos pesquisadores
do colégio B conta apenas 9,5% de agregados ou de antigos alunos da ENS. Do mesmo modo, para o colégio A. a parcela
dos agregados ou antigos alunos da ENS é respectivamente de $0% entre os pesquisadores que sc tomaram professores c
dc 21% entre o conjunto dos pesquisadores.
à medida que se toma distância das disciplinas
tradicionais, cujo mercado permaneceu relativamente
tenso, para ir para as disciplinas novas: assim, a parcela
dos professores do colégio B que passaram pela khâgne
decresce continuamente quando se vai das disciplinas
tradicionais (33% em literatura, 32% em filosofia, 25% cm
línguas antigas, 21% cm história, 20% em inglês) às novas
disciplinas (18,8% em linguística, 16,3% cm psicologia,
8,4% em sociologia). Nessas disciplinas, os professores
receberam, frequentemente na faculdade, uma formação
mais curta, sem dúvida menos bem- sucedida
escolarmente (a julgar pela taxa de menções) e
totalmente disparatada, tanto no nível dos cursos
individuais (com o acúmulo de certificados de
licenciatura obtidos em disciplinas diferentes) quanto no
nível coletivo: a diversidade dos títulos detidos pelos
membros de uma disciplina e a heterogeneidade das
disciplinas postas em jogo em sua formação são cada vez
maiores à medida que se vai para as disciplinas cuja
consagração universitária é mais recente. Igualmente,
enquanto quase todos os professores das disciplinas
tradicionais começaram sua carreira no ensino
secundário, uma parte relativamente importante dos
professores das disciplinas novas (mais importante
quando se vai para as categorias mais recentemente
admitidas, portanto as mais jovens) entrou diretamente
no ensino superior e sobretudo na pesquisa, tendo
exercido previamente atividades muito diversas e muitas
vezes não relacionadas à
sua profissão atual.
A discordância extrema dos títulos escolares ou dos
tipos e níveis de formação dos especialistas das ciências
do homem resulta do fato de que os responsáveis pela
admissão não estáo à altura de recorrer ao modo de
admissão tradicional sem se aproveitar mais diretamente
da liberdade que lhes dá a independência em relação ao
ensino secundário (ligada à ausência, até recentemente,
de concurso de agregação e de carreiras de professor do
ensino secundário) para elaborar e impor critérios de
avaliação e exigências específicas. Nas faculdades de
ciências, em parte sem dúvida porque nelas a diferença e
infinitamente mais clara e mais evidente, ao menos nas
matemáticas e cm física, entre a lição de agregaçáo e a
pesquisa cicntífica, foram elaborados c impostos critérios
de avaliação novos, decorrentes em sua maioria da
atividade de pesquisa, como a tese de 3Ú ciclo, enquanto
os títulos mais exclusivamente escolares (como a
agregaçáo) tendiam a se tornar inúteis no mercado da
pesquisa e só podiam em rodo caso obter seu pleno
rendimento na medida em que se associavam a títulos
científicos (como mostra o fato de que o número de
professores do colégio B e o número de teses de 311 ciclo
aumentam quase paralelamente, enquanto de forma
inversa a agregaçáo parece reduzida ao seu papel oficial
de concurso dc admissáo do ensino secundário). Nas
disciplinas novas das faculdadcs de letras, ao contrário,
se é verdade que a parcela dos titulares de um
doutorado de 30 ciclo é maior entre os professores
desprovidos da agregaçáo, resta o fato de que esse título
está longe de constituir uma condiçáo necessária e
suficiente ao acesso ao ensino superior ou à pesquisa
científica: a agregaçáo (sem falar do título de antigo
aluno de uma grande escola) é táo evidentemente
reconhecida pelos responsáveis pela admissáo (e, até
1968, pelas próprias comissões do CNRS) que a maioria
dos agregados que se destinam à pesquisa ou que já a
estão fazendo sáo dispensados também com frequência
do doutorado de 3a ciclo, o qual, de forma inversa, está
longe de abrir automaticamente o acesso aos postos de
mestre-assistente ou mesmo de assistente — o que não
significa, viu-se, que o fato de náo possuir nem um nem
outro título seja suficiente para impedir o acesso ao
ensino superior.
Defesa do corpo c ruptura dos equilibria
Assim, numa disciplina como a sociologia, em que a
parcela dos professores que detém ou faz o doutorado
de 3“ ciclo é relativamente importante, a parcela dos
professores do colégio B que não tem doutorado de 3a
ciclo ou pelo menos náo declara estar fazendo-o é
apenas de 28%, contra 85% de agregados ou antigos
alunos de uma grande escola. Todavia, menos da metade
(44%) dos professores de sociologia do colégio B que
náo são titulares da agregaçáo nem antigos alunos dc
uma grande escola defenderam sua tese de 3a ciclo - e
isso, para uma parte importante deles, ainda que já
atuassem no ensino superior.
Resulta que a entrada no corpo é deixada ao arbítrio
dos diferentes responsáveis (e sobretudo dos diretores
de grupos de pesquisa), cujas escolhas acabam sendo
temporárias e ratificadas pelo corpo em seu conjunto;10 e
que, em consequência disso, as chances de ingressar na
pesquisa e, cada vez mais, no ensino superior tendem a
depender ao menos tanto da extensão da diversidade e
da qualidade das relações sociais universitariamente
rentáveis (e, desse modo, da residência e da origem
social) quanto do capital escolar. A ausência ou a
incoerência dos critérios de admissão condena a um
posto de pesquisador os aspirantes, que náo podem
ignorar o caráter quase aleatório da relação entre as
características ligadas ao indivíduo e as características
objetivas do posto, e a uma procura de emprego tão
garantida - porque nada é impossível - quanto ansiosa -
porque nada é certo - que pode levá-los a se colocar na
dependência de algum protetor poderoso ou a tentar
dotar-se de um plus dc raridade acumulando os títulos
mais disparatados.
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Uma crise das sucessões
188
O sistema universitário em seu estado anterior tendia
a assegurar sua própria reprodução produzindo mestres
dotados de características sociais c escolares quase
constantes e homogêneas, portanto quase
intercambiáveis tanto no tempo quanto no momento.
Mais precisamente, a constância do sistema através do
tempo supunha que os mestres fossem dotados, em
todos os níveis hierárquicos, de um habitus universitário,
verdadeiro lex insita, como diz Leibniz, lei imanente do
corpo social que, tendo se tornado imanente aos corpos
biológicos, faz com que os agentes individuais realizem a
lei do corpo social sem ter nem intenção nem
consciência de obedecer a ela: na ausência de toda
regulamentação expressa e de todo apelo à ordem
explícita, as aspirações tendem a se ajustar à trajetória
modal, portanto normal para uma categoria determinada
num momento determinado; os detentores dc um título
dotado de um valor determinado no mercado
universitário sempre aspiram verdadeiramente somente
às vagas dotadas de uma raridade e de um valor
correspondente ao valor de seu título ou, mais
exatamente, eles não se sentem autorizados, ou mesmo
inclinados, a postular um emprego quando são mais
jovens — ou mesmo mais velhos — que a média dos
titulares desse posto dotados de um título idêntico ao
seu. O bom aluno é aquele que, ajustado aos ritmos do
sistema, se
Como sc viu, recentcmentc, com a integração massiva dos “sem-estatuto"
conhece e se sente em atraso ou adiantado e,
consequentemente, age para manter as distâncias ou
anulá-las; igualmente, o professor conforme é o que,
tendo incorporado a estrutura das idades normais,
sempre pode se sentir muito jovem ou muito velho, seja
qual for sua idade, para postular ou reivindicar uma
posição, uma vantagem, um privilégio.
Defesa do corpo e ruptura dos cquilibri«
Princípio de prazer e princípio de realidade, a
instituição excita a libido sciendi e a libido dominandi
que esta esconde (e que a competição explora), mas ela
define seus limites, traçando fronteiras incorporadas
entre o que é legítimo obter, mesmo em matéria de
saber, e o que é legítimo esperar, querer, amar (foi assim
que funcionou, por muito tempo, a fronteira entre o
primário, ou os “primários”, e o secundário). Essas sáo as
vias pelas quais, na fase de equilíbrio, ela consegue, bem
ou mal, fazer com que todos os agentes comprometam
seus investimentos nos jogos e nas apostas que ela
propõe, sem que as frustrações que ela não pode deixar
de produzir em alguns se transformem em revolta contra
o princípio do investimento, isto é, contra o jogo em si (e
o drama da “primeira cola” ou a impostura do antigo
aluno de Saint-Cloud ou do candidato infeliz da rua
dUIm que se diz “normalista”, repetindo o fracasso no
esforço indefinido para negá-lo, estão lá para atestar que
a instituição consegue excluir naqueles que ela exclui a
própria ideia de contestar o princípio da exclusão).
Compreendem-se melhor, à luz dessas análises, os
efeitos destrutivos que pode ter uma transformação
objetiva da estrutura temporal que é constitutiva da
instituição, de sua ordem, dessa ordem das sucessões
que se retraduz, a cada momento, por uma
correspondência determinada entre idades e graus. Ao
escolher, para preservar o essencial, contratar (contra
tudo e contra todos) agregados, fossem eles não
normalistas, mulheres ou muito idosos - em comparação
às normas antigas -, os professores agiam, sem saber,
como bons defensores do corpo professoral: pode-se na
verdade esperar agentes que, tendo se submetido e
aceitado as manipulações pendulares da instituição, têm
como lei imanente a lei da instituição, que modificam
suas aspirações de acordo com as modificações das
oportunidades definidas pela lei da instituição. Assim, na
medida em que as instâncias de formação e de seleção
do corpo professoral estavam em condições de inculcar
em todos os professores uma disposição intensa e
durável para reconhecer as hierarquias e os valores desse
corpo, a instituição sem dúvida poderia controlar os
efeitos do crescimento do número de estudantes se a
falta de uma reserva suficiente de mão de obra devotada
a seus valores impusesse admitir agentes que, tendo
escapado das habilitações tradicionais de formação, eram
desprovidos de “lei interior”.
A transformação das práticas de admissão fez entrar
na profissão duas categorias de mestres por meio de
quem se podia introduzir na instituição o que ela excluía
acima de tudo, aspirações desprendidas das esperanças
legítimas: de um lado os que, embora dotados de
algumas propriedades exigidas pelo modo de admissão
antigo, estavam destinados a descobrir mais ou menos
rapidamente que tinham se beneficiado de uma falsa
promoção, pelo fato de que o posto que ocupavam
deixava de ser o que havia sido quando pessoas como
eles nele entravam c que não comportava mais a
estabilidade da carreira antes tacitamente garantida aos
beneficiários desse modo dc admissão (como lembra o
fato de que o número de assistentes excede tão
amplamente o de professores que uma parte cada vez
maior dos novos promovidos parece objetivamente
destinada a permanecer nos graus inferiores da
hierarquia); e do outro lado todos os que, estando
desprovidos dos títulos de acesso antigos e sobretudo
das disposições a eles associadas, estavam pouco
inclinados a perceber como uma consagração miraculosa
seu ingresso no ensino superior e a aceitar de se
contentar com uma carreira inferior. Todas as condições
estavam portanto preenchidas para que, num prazo mais
ou menos longo, os novos entrantes antes de possuir as
propriedades e as disposições que tinham por propósito
assegurar a carreira outrora garantida à quase totalidade
dos que ingressavam no ensino superior, isto é, tanto o
agregado de gramática que se tornou assistente aos 35
anos quanto o licenciado de sociologia nomeado
assistente aos 28 anos, viessem a descobrir que a
manutenção das normas de carreira (atestada pelas
propriedades dos professores titulares das universidades
parisienses no momento da enquete) tornava fictícia a
transgressão das normas de admissáo de que haviam se
beneficiado."
“ Essa diferença entre a transformação forçada dos princípios dc admissáo c a conservação dos princípios de progressão é
sem dúvida um fenómeno muito geral, que sc observa todas as vezes que um corpo visa defender-se contra a ameaça
apresentada pela qualidade c pela quantidade dos novos entrantes: por exemplo no caso do pessoal das bibliotecas
municipais (cf. B. Scibcl, Bibliothèque municipale et animation, Paris, Dalloz, 1983, p. 95).
Na medida em que náo é seguida por nenhuma
transformação real dos procedimentos de progressão na
carreira, a transformação do modo de admissão leva a
uma divisão dos mestres subalternos em duas categorias
de professores prometidos a carreiras tão diferentes
quanto suas formações e os critérios segundo os quais
foram admitidos: de um lado, os assistentes e os
mestres-assistentes destinados a obter os benefícios da
carreira implicitamente inscritos na sua posiçáo tal como
se definia num estado anterior da instituição e da
estrutura das oportunidades, e do outro, os que
terminarão sua carreira numa posiçáo subalterna (a de
mestre-assistente de primeira classe ou, em ciências, de
assistente titular). A identidade formal das posições
sincronicamente definidas mascara diferenças
consideráveis, ligadas ao capital escolar, entre as
trajetórias potenciais que sáo o verdadeiro princípio dos
posicionamentos sobre o sistema escolar. Essas
diferenças se revelam nesse indicador simples do pendor
da trajetória que é a precocidade relativa no posto (em
disciplina idêntica), sempre associada à posse de
propriedades que, como as que o título dc normalista ou
de agregado qualifica, favorecem uma carreira mais
rápida, portanto mais exitosa. E essas diferenças nas
trajetórias potenciais correspondem a relações
totalmente diferentes no que concerne ao sistema de
ensino (e mesmo em relação a títulos ou propriedades
que parecem sustentar essas diferenças nas trajetórias).
Por exemplo, se os assistentes ou mestres- assistentes
que são desprovidos da agregação sáo mais favoráveis à
supressão da agregação do que os que são agregados
(74% contra 44%), os agregados são ainda mais
favoráveis quando sáo mais jovens no grau ocupado (por
exemplo, entre os assistentes agregados, os com menos
de 30 anos sáo mais favoráveis à supressáo da agregação
do que os com mais de 30 anos: 48% contra 42%; a
mesma diferença se encontra nos mestres- assistentes).*1
Compreende-se esta liberdade em relação à agregação
quando se sabe que a posse desse título promete aos
novos entrantes posições cujo valor é independente da
posse da agregação: é por isso que a crítica ao concurso
de agregação e à formação aferente aparece quase
exclusivamente nos agregados que, devido à sua posiçáo
elevada na instituição escolar ou ao seu pertencimento a
disciplinas voltadas à
Defesa do corpo e ruptura dos equilíbrii
Esses dados estatísticos foram tirados da análise das respostas à Consulta nacional da Associação dc estudos para a
expansão da pesquisa cientifica dc 1969 (sobre esta enquête, ver Anexo 1, p. 264).
pesquisa, estáo em condições de impor seu valor
independentemente da referência à agregação.1'
Compreende-se segundo a mesma lógica que os
mestres-assistentes que não sáo titulares da agregaçáo e
que têm mais idade no seu grau esperam sua aclamação
sobretudo dos novos órgãos de gestão universitária: por
exemplo, os que têm mais de 35 anos estáo mais
propensos a considerar que os poderes dos novos
órgãos universitários são insuficientes (62%) do que os
mestres-assistentes agregados da mesma idade (21%)
(observa-se uma diferença no mesmo sentido mas
menos importante entre os assistentes com mais de 30
anos quando são agregados: 45% - ou não: 40%).
Compreende-se que, contrariamente ao que se acreditou
e se escreveu durante a crise de maio de 1968, o conflito
que dividiu as faculdades náo opunha gerações
entendidas no sentido de classes de idade mas gerações
universitárias, isto é, agentes que, mesmo sendo da
mesma idade, foram produzidos por dois modos de
geração universitária diferentes. Quer sejam velhos e já
estabelecidos ou ainda jovens e comprometidos com o
estabelecimento, os professores que sáo o produto do
modo de geração antigo têm interesse em manter nas
carreiras a diferença que eles náo conseguiram evitar na
instância de admissão nas faculdades; quer sejam velhos
e providos dos títulos mínimos que exigia 0 antigo modo
de admissão, ou jovens e desprovidos de títulos, os
produtos do novo modo dc admissão estão condenados
a descobrir que eles só podem esperar de uma
modificação das leis da carreira o acesso às vantagens
que o acesso às faculdades os fizera esperar. E quando se
sabe que as leis que decorrem exatamente da
regularidade das práticas não eram em absoluto regras
expressamente editadas e conscientemente aplicadas e
que os pretendentes colaboravam mais ou menos
conscientemente para determinar o ritmo de sua própria
progressão, compreende-se que tal tomada de
consciência constitui em si uma mudança objetiva, capaz
de engasgar todo o mecanismo.
Dc modo mais geral, esta enquete mostra que os professores sáo ainda mais indiferentes a uma propriedade (latim,
agregaçáo, grandes cscolas) quando seu valor atual dépende menos desta propriedade, mesmo que este valor só possa ser
adquirido graças à posse inicial desta propriedade.
Uma finalidade sem fins
Defesa do corpo e ruptura dos equilíbri
A estatística que explicita a lógica imanente às
condutas de um conjunto de agentes encoraja toda uma
série de erros teóricos, alternativos ou simultâneos.
Pode-se táo somente enunciar a constatação estatística
de regularidades sem que se introduza, por meio dos
automatismos da linguagem, a filosofia mecanicista ou
finalista da ação que parece inscrita nas próprias coisas.
A vigilância linguística mais extrema e todos os “tudo se
passa como se” do mundo não impedirão o leitor
convencido por suas atitudes de pensamento, aquela da
visão política principalmente, de ver o efeito de um
mecanismo misterioso ou de uma espécie de complô
coletivo no fato de que as diferentes disciplinas (tema
coletivo que encoraja tanto o mecanismo quanto o
finalismo dos coletivos) acolheriam agentes tão
conformes quanto possível com os princípios de
admissão antigos (rapidamente passíveis de ser
percebidos como regras expressas), isto é, tão diferentes
quanto possível do ideal do normalista (e recebido em
bom ranking), agregado (e nos primeiros), homem (isto é
evidente), jovem, quer dizer “brilhante”. A leitura mais
provável consistirá em compreender o resultado
registrado pela estatística como o produto da agregação
de ações apoiadas no cálculo racional do interesse bem
compreendido ou, pior, em pensar a ação daqueles a
quem a polêmica ordinária chama de “mandarins” como
o produto de uma estratégia coletiva, consciente e
organizada, de defesa dos interesses coletivos; isso sem
que se questionem as condições de tal conspiração,
consulta prévia, conhecimento claro das “regras” em
vigor, posiçáo explícita das regras novas de conduta,
estrutura hierárquica que permite impor sua aplicaçáo,
etc. O que obrigaria a descobrir que essas condições não
são evidentemente cumpridas, como aliás o testemunha
a estatística que atesta que a hierarquia das substituições
compensatórias - entre uma agregada mulher e um
agregado velho, que não é necessariamente um velho
agregado, qual escolher? - não tem nada de
perfeitamente estrito. Mas por menos que a prestação de
conta cicntífica tenha empregado a linguagem, cômoda,
do “mecanismo” (falando por exemplo de mecanismos
de admissão), pode-se pensar também no corpo
universitário como um aparelho capaz dc produzir, fora
de toda intervenção consciente ou inconsciente dos
agentes, as regularidades constatadas. Os demógrafos, e
todos os que gostariam de reduzir a história a uma
história da natureza, sucumbem frequentemente a esse
psicanalismo espontâneo, que aliás não é exclusivo de
um finalismo: o modelo de um mecanismo cibernético
programado para registrar os efeitos de sua própria ação
e aí reagir é o mito sonhado para prestar conta dos
misteriosos retornos ao equilíbrio com o qual se
maravilha o cientificismo conservador. Passa-se assim a
pensar o corpo professoral — as palavras são indutoras -
como um organismo habitado por misteriosos
mecanismos homeostáticos que, fora de toda
intervenção consciente dos agentes, tenderiam a
restabelecer os equilíbrios ameaçados, as taxas de
agregados entre os assistentes exercendo o papel de
uma dessas constantes orgânicas que a “sabedoria do
corpo” (The wisdom of the body, segundo o título de
Cannon) visaria manter. Mas onde situar o princípio desta
sabedoria, esta enteléquia que determina e orienta as
açóes desses agentes inconscientes e no entanto
ajustados aos fins coletivos definitivamente mais
conformes com seus interesses individuais e coletivos?
É somente com a condição de ver nisso o produto da
combinação — irredutível à simples agregação mecânica
- das estratégias engendradas por habitiis objetivamente
orquestrados que se pode explicar as regularidades
estatísticas das práticas e a aparência de finalidade que
daí decorre sem subscrever nem a teleologia subjetiva de
um universo de agentes racionalmente orientados para o
mesmo fim - neste caso, a defesa de privilégios de
dominantes - nem a teleologia objetiva dos coletivos
personificados que perseguem seus próprios fins —
neste caso, a defesa do corpo professoral.'4 Mas os
espíritos estão tão profundamente acostumados a pensar
a história segundo esta alternativa que toda tentativa
para ultrapassá-la é passível dc ser rebatida por um ou
outro dos modos de pensar ordinário.'5 A mudança é
ainda mais provável quando só pode ser evitada à custa
de uma luta permanente contra a linguagem ordinária.
Assim, basta colocar como sujeito de uma frase um
desses nomes de coletivos que a política preza para se
constituírem as “realidades” designadas como sujeitos
históricos capazes de pôr e de realizar seus próprios fins
(“o Povo pede...”). A teleologia objetiva que esse
antropomorfismo social implica coexiste muito bem com
uma espécie de personalismo espontâneo, ele também
inscrito nas frases com assuntos da linguagem comum,
que, como no relato romanesco, faz ver a história
individual ou coletiva como um encadeamento de ações
decisivas. A sociologia se encontra assim diante de um
problema dc escrita totalmente parecido com o que foi
colocado aos romancistas, Victor Hugo, principalmente
no Quatre-vingt-treize, e sobretudo Flaubert, quando
quiseram romper com o ponto de vista privilegiado do
“herói” - Fabrice em Waterloo - para, como diz Michel
Butor, evocar “o campo de batalha de maneira que
pudéssemos deduzir dele os movimentos e as
impressões de quaisquer indivíduos que estivessem
envolvidos nele” e, geralmente, para “revelar campos
históricos nos quais os indivíduos sáo introduzidos como
gráos dc limalha”.1* É preciso escapar à visáo mecanicista
que reduziria os agentes a simples partículas atiradas em
campos de força reintroduzindo náo sujeitos racionais
que trabalham para realizar suas preferências nos limites
das imposições, mas agentes socializados que, embora
biologicamente individualizados, são dotados de
disposições transindividuais, levados portanto a
engendrar práticas objetivamente orquestradas e mais
ou menos adaptadas às exigências objetivas, isto é,
irredutíveis tanto às forças estruturais do campo quanto
às disposições singulares.
Defesa do corpo e ruptura dos equilíbrii
A postura erudita leva a desconhecer a lógica das
“escolhas” da prática que se realizam muitas vezes fora
de todo cálculo e sem critérios explicitamente definidos:'"
não haveria muito sentido em perguntar a um “patrão”
como escolheu seu assistente lhe nem perguntar por
quais critérios escolheu sua esposa.* Isso não significa
que, num e noutro
M. Butor, Répertoire, II, Éd. dc Minuit, 1964, p. 214 c 228.
Este erro inerente à postura erudita é duplicado quando a enquete cientifica sc esforça para apreender como
situação artificial os atos de classificação c os critérios utilizados.
'* “Quem propôs a vocês entrar no ensino superior? - Não são coisas que sc precisam dc maneira tão precisa. Quando cu
era aluno da Escola normal, o diretor da Escola sc chamava Monsieur Bouglé. Ele simpatizou comigo c propôs que eu
preparasse uma tese. É por isso que me chamou para perto dele durante três anos como assistente na Escola. Esse foi o
início desta orientação. Naquele momento, a entrada no superior era difícil” (Professor de filosofia, 1972).
caso, ele não tenha aplicado princípios de seleção
práticos, esquemas de percepçáo e de apreciaçáo, cujos
efeitos acumulados, que a estatística retira a posteriori
do conjunto das práticas de cooptaçáo, não têm nada de
aleatório. O que pode parecer uma espécie de defesa
coletiva e organizada do corpo professoral nada mais é
que o resultado acumulado de milhares de estratégias de
reprodução independentes e contudo orquestradas, de
milhares de açóes que contribuem efetivamente à
conservação do corpo porque são o produto desta
espécie de instinto social de conservação que é um
habitus do dominante.
Para se convencer de que as diferentes filosofias da
ação que muitas vezes são aplicadas inconscientemente,
portanto em ordem dispersa, nas análises sociológicas,
sáo pura e simplesmente incompatíveis com os fatos,
basta acrescentar, à guisa de transiçáo para uma
descrição dos funcionamentos reais, que são um
verdadeiro desafio às alternativas tradicionais, esta
espécie de refutação experimental da visão finalista da
açáo dos indivíduos ou dos coletivos que foi trazida pela
crise do modo de funcionamento antigo. Sabe-se na
verdade que a crise de 1968 submeteu à lógica da açáo
coletiva dos professores uma transformaçáo profunda,
substituindo uma açáo premeditada e deliberadamente
orientada para a conservaçáo do status quo ao conjunto
espontaneamente orquestrado de ações inspiradas pela
solidariedade de uma “elite”: a mobilização reacional
suscitada pela contestação do que, do ponto de vista dos
dominantes, era evidente, isto é, a ordem ordinária da
Universidade, tendeu a transformar a cumplicidade difusa
c inapreensível que estava na base das redes fundadas na
afinidade dos habitus, as lembranças comuns, as
amizades de Escola normal, numa solidariedade ativa e
institucionalizada, baseada numa organização orientada
para a manutenção ou a restauração da ordem, o
Sindicato autônomo.* Desde então, tudo o que lembrava
a ordem antiga, as liberdades e as conivências
impalpáveis que se impõem entre pessoas do mesmo
mundo, a familiaridade respeitosa que é exigida entre
gerações de uma mesma família, foi abolido. Tratando-se
de defender aquilo que era tão evidente que ninguém
pensara em defender, vemos surgir personagens novos,
muitas vezes homens de aparelho e trânsfugas do campo
oposto, papéis secundários em todo caso e alçados ao
primeiro
19
plano pela
Pode-se reconhecer a orientação conservadora do Sindicato autônomo sem entretanto conferir um certificado de
progressisme ao SNESup ou à SGEN; toda esta análise tem como efeito fazer aparecer o que escondem essas oposições
afixadas.
aposentadoria dos antigos dominantes. Em virtude da
politízação e da profissionalização ligadas à constituição
de aparelhos, esses porta-vozes anônimos, geralmente
um pouco desprezados pelas antigas autoridades, têm,
como se diz, “colocado a mão na massa”: estabelecendo
como objetivo fins que, na situação antiga, só poderiam
ser atingidos com a condição de não serem colocados
como tais, constituindo como direitos de entrada
explícitos propriedades e títulos que se apreendiam até
então somente por meio dos indícios inefáveis da
manutenção ou dos rumores infalsificáveis da renomada
Escola, eles colheram todas as consequências e todos os
benefícios da transformação dc um clube seleto, ao qual
não se pode negar a entrada, em sindicato corporativo. E
eles contribuíram assim para reforçar a mesma lógica
que pretendiam combater: ao trabalhar para reduzir a
discordância aparente das liberdades, para minimizar as
contradições, os conflitos e concorrências entre
orientadores que dissimulavam o consenso sem
conspiração sobre os valores comuns, esforçando-se para
opor uma frente unida do sindicato patronal à frente
unida dos sindicatos dominados pelos professores
subalternos, enfim, ao apresentar a coerência de um
plano de defesa ao que era apenas o resultado quase
coerente da orquestração espontânea dos habitus> eles
reforçaram a ruptura entre as categorias que está no
princípio da contestação contra a qual entendiam lutar e
sobretudo contribuíram para destruir um dos
fundamentos principais da ordem antiga, o
desconhecimento ou, se se quer, a crença: há uma função
social da fluidez c, como acontece com os clubes, os
mais inatacáveis dos critérios são os mais indefiníveis.43
Defesa do corpo c ruptura dos equilibri«
Uma ordem temporal
A crise que dividiu o corpo docente é uma crise de
crença: as barreiras estatutárias, nesse momento, sáo
fronteiras sagradas que supõem o reconhecimento. E não
se pode compreender a crise sem compreender na sua
verdade a ordem dóxica com a qual ela rompe e a qual
esta própria ruptura permite compreender. Só é possível
descrever os dois estados, orgânico e crítico, da
instituição, na sua relação, ao passar sem cessar de um a
outro, funcionando o estado crítico como analisador
prático do estado orgânico. O modo de admissão antigo
era uma forma de cooptação antecipada pela qual os
antigos escolhiam não subordinados destinados a uma
carreira subalterna (institucionalizada depois sob a forma
da posiçáo de mestre-assistcnte), mas sim pares
potenciais, suscetíveis de serem chamados um dia para
sucedê-los. É por isso que ele repousava na aceitação
tácita de uma definição do posto e das condições de
acesso ao posto, portanto de critérios de seleção mais do
que imperativos que só poderiam funcionar no modo
implícito, como convém quando se trata da eleição de
uma “elite ”. Isso não suporia nada mais que um
consenso mínimo sobre as condições mínimas, isto é,
negativas, do ingresso na profissão ou, mais exatamente,
sobre os limites da população dos elegíveis: pelo fato de
que cada um concordava, sem nem mesmo precisar dizê-
lo, em admitir o valor dos critérios que estavam no
princípio dc seu próprio valor e do valor de seus colegas,
como o título de normalista ao qual os não normalistas
43 Cf. P. Bourdieu, La distinction, op. cit., p. 182.
davam o testemunho muitas vezes de seu
reconhecimento ao cercar-se de normalistas, ninguém
pensava em rejeitar ou contestar as escolhas dos outros
professores contanto que obedecessem a esses critérios.
É por isso que a homogeneidade sincrônica e diacrônica
do corpo repousava sobre o acordo dos habitus que,
produtos de condições de seleção e de formação
idênticas, engendram práticas e principalmente
operações de seleção objetivamente acordadas.
Se a crise das hierarquias universitárias cristalizou-se
em torno da oposição entre professores e mestres-
assistentes é porque estes últimos, e sobretudo os mais
velhos dentre eles, como produtos típicos do novo modo
de admissão, estavam condenados, mais que os
assistentes, sobretudo jovens, e os encarregados de
ensino, espécies de professor por antecipação, a sentir
em toda a sua intensidade a contradição entre as
promessas inscritas na sua admissão e o futuro
realmente assegurado por procedimentos imutáveis de
carreira. Os assistentes que, no estado antigo da
instituição, não eram mais numerosos do que os
professores titulares e que quase sempre eram
agregados e muitas vezes antigos alunos da Escola
normal superior, estavam separados somente pela idade,
isto é, pela duração, de professores de quem eram o
menos possível diferentes sob todos os outros aspectos.
Diferença ao mesmo tempo nula e absoluta, como a que
separa as gerações em toda ordem social fundada na
reprodução simples. Nula, porque a carreira era quase
totalmente previsível - o que não impedia aos agentes
(que em razão de todas as aprendizagens escolares
estavam acostumados a interpretar as competições
profissionais na lógica do curso de suas vidas como
incomparáveis) trajetórias que de fato eram separadas
apenas por diferenças ínfimas; e também porque a
estabilidade do número de cadeiras era tal que precisava
e bastava esperar que um ciclo de vida universitário
chegasse ao fim para que outro pudesse realizar-se. Se
bem que era quase inconcebível que os assistentes
pudessem somente conceber reivindicações categoriais
opostas às dos professores. Mas, simultaneamente, o
intervalo incompreensível de tempo que separava os
ocupantes dos diferentes graus estabelecia entre eles
uma distância intransponível: idênticos num ciclo de vida
universitária próximo, professores e assistentes não
podiam concorrer aos mesmos postos, às mesmas
funções, aos mesmos poderes.
Defesa do corpo e ruptura dos equilíbrii
Dotados dos mesmos títulos de nobreza universitária,
isto é, da mesma essência, os jovens e os velhos
alcançam apenas graus de realização diferentes dessa
essência. A carreira é tão somente o tempo que é preciso
esperar para que a essência se realize. O assistente é
promessa; o mestre é promessa realizada, ele passou por
suas provas.1' Tudo isso concorre para produzir um
universo sem surpresa; e para excluir os indivíduos
capazes de introduzir outros valores, outros interesses,
outros critérios em relação aos quais os antigos se
achavam desvalorizados, desqualificados. A nobreza
obriga:“ ela estabelece num mesmo movimento o direito
de suceder e os deveres do sucessor; ela inspira as
aspirações e lhes atribui limites; ela dá aos jovens uma
segurança que, estando à altura das seguranças
concedidas, implica a paciência, o reconhecimento da
distância, portanto a segurança dos antigos. Na verdade
não se pode conseguir que os assistentes se resignem
por muito tempo e até uma idade avançada a não ter
nada, a ocupar somente posições subalternas numa
hierarquia em que os graus intermediários, aliás muito
raros, não
Isso sc ve bem na enquete sobre o poder nas faculdadcs dc letras que estabelece (cf. acima, capítulo 3) que a
distribuição dos diferentes poderes está estritamente ligada à idade (o que sc compreende porque, aplicando-se a uma
populaçáo definida por uma posse mínima dc poderes, ela opóc poderosos reais c poderosos potenciais): os jovens tem os
fatores do poder (Escola normal, etc.) mas ainda náo tem todos os atributos e todos os benefícios.
“ Do original, "noblesse oblige(N.T.)
sáo definidos senáo negativamente, pela privaçáo de
alguns dos atributos ligados às posições superiores, a
não ser porque estáo seguros de ter tudo e tudo de
imediato, de passar sem transição da incompletude do
assistencialismo à plenitude do professorado e, da
mesma maneira, da classe dos herdeiros destituídos à
dos titulares legítimos. Assim como a certeza das
gratificações ligadas ao morgadio podia determinar que
os mais velhos das famílias nobres (ou, em algumas
tradições, das famílias camponesas) aceitassem os
sacrifícios e a servidáo de um estado de minoridade
prolongada, também a segurança do herdeiro designado
é, paradoxalmente, o princípio da longa resignação dos
pretendentes ao posto de professor e, como se vê com a
tese, as imposições das instituições que contribuem para
regular o ritmo das carreiras acontecem somente com a
cumplicidade daqueles que as suportam.1*
200
Homo academicus | Pierre Bourdieu
A tese de doutorado de Estado é, como se viu, o que
permite aos professores exercer um controle durável
sobre os aspirantes à sucessão; ela oferece um meio de
prolongar por longos anos a colocação à prova que
sempre implicam as operações de cooptação ao mesmo
tempo que permite conservar duradouramente os
aspirantes à sucessão, mantidos assim numa posição de
dependência (que exclui a polêmica, a crítica ou mesmo,
em virtude da regra que impede a publicação antecipada,
a concorrência). Sendo a distância temporal entre as
gerações universitárias (entre vinte e vinte e cinco anos) a
condição da boa conservação da ordem das sucessões, a
duração da preparação da tese deve situar-se entre dez e
quinze anos (aos quais se acrescentarão uma estadia de
dez a quinze anos em posições de mestre de conferência
e de professor de província) para que essa distância seja
mantida. E sem dúvida não é excessivo
** Todos esses efeitos escavam sem dúvida duplicados nas pequenas faculdades de província onde. cm razão do pequeno
número de professores, os membros do colégio B muitas vezes assumiam as mesmas tarefas pedagógicas que os
professores titulares (cursos de agregação, do CAPES, orientação dc memoriais dc licenciatura), reforçando a propensão,
náo despida dc ambivalência, a uma identificação antecipada com o posto professoral. De maneira geral, seria preciso
analisar mais cm detalhe esse outro princípio dc divisão do campo que é a oposição entre Paris c a província (as duas
populações analisadas são estritamente parisienses): ainda que, salvo exccçócs, a hierarquia das aglomerações
corresponda grosseiramente à hierarquia implícita das faculdades e que a centralização faça dc Paris o termo ideal dc
toda carreira realizada, o pertencimento à sociedade local pode estar no princípio dc poderes específicos náo
negligenciáveis, e cada uma das faculdades dc província tem seus notáveis universitários que, embora desconhecidos ou
ignorados cm nível nacional ou internacional, participam das instâncias de poder local (órgãos dc planejamento, comités
regionais, municipalidades, ctc.).
pensar que sáo as necessidades insritucionais da
reprodução feliz do corpo que determinam o tempo de
trabalho necessário à produção da tese e, assim, a
própria natureza do trabalho, seu volume, sua ambição,
mais que o inverso;*4 o fato de que a imposição da
instituição seja vivida como necessidade interna do
trabalho de pesquisa e da obra em si faz parte dos
efeitos de desconhecimento e de crença que contribuem
para a realização da necessidade institucional. Esse
investimento na própria obra, que é maior quando o
candidato se sente mais consagrado universitariamente,
portanto mais propenso a brilhar, e que pode ser
reforçado pelas injunções ou apelos à ordem do
orientador de tese, tende a compensar os efeitos das
disposições que levam à precocidade os mais
consagrados entre os impetrantes.
Defesa do corpo e ruptura dos equilibri«
A precocidade legítima (em oposição à precipitação
carreirista) é a exceção que confirma a regra,
contribuindo ao desconhecimento da lógica real das
carreiras. Sem dúvida não é por acaso que ela se liga
frequentemente à intervenção de mestres cuja ação
atípica também tende a mascarar a lógica comum. Tudo
parece indicar na verdade que os professores se
distanciam ainda mais da propensáo ordinária a frear as
impaciências quando sáo mais eminentes cientificamente
- isto é, sem dúvida, menos tributários das distâncias
estatutárias para manter sua autoridade. Pode-se ver isso
pelo testemunho de um professor (normalista, recebido
primeiro na agregação de filosofia nos anos 1920): “Ali
náo, eu não podia defendê-la [a tese] mais cedo, porque
eu já a defendi muito cedo, porque homens como Gilson
e Brunschvig, desde essa época, me disseram: ‘Náo
considerem sua tese como a obra de sua vida. É preciso
defender a tese jovem, esse é o primeiro trabalho de um
pesquisador’. [...] Era verdadeiramente a política
intelectual de homens como Gilson e Brunschvig (que era
muito mais velho que Gilson) dizer às pessoas: ‘Não
esperem 45 anos para fazer sua tese’. Era essa a ideia
deles. Diz-se: ‘Nas teses francesas, as pessoas demoram
muito tempo’, mas desde essa época homens totalmente
eminentes aconselhavam vocês
u “Pensam vocês que deveriam apresentar sua tese mais cedo? - Do ponto de vista da carreira, isso era impossível... do
ponto dc vista da maturidade da tese [...], náo. eu penso que daria” (Professor dc história, 197z). E a maioria dos
professores interrogados responde negativamente à questão, mesmo quando se situam fora do que c considerado como a
duração normal (um professor dc letras dedicou catorze anos à preparação de sua tese lamentando apenas o prazo muito
longo entre a defesa c a publicação).
não a ir muito rápido, mas a não considerar que essa era
a obra de toda a sua existência”. Poder-se-ia também
invocar o caso Meillet, responsável por toda uma série de
carreiras aceleradas (entre outras as de Benveniste e de
Chantraine).
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Mas o verdadeiro regulador não é nada mais do que
esta espécie de senso das ambições legítimas (para si)
que leva a se sentir ao mesmo tempo incitado e
autorizado a reivindicar as posições ou a fazer o que for
preciso para obtê-las, esse sentido do ritmo da vida
universitária que não se pode compreender senão como
o efeito da incorporação das estruturas de carreiras
prováveis (para o conjunto de uma geração e para um
indivíduo particular, dotado de propriedades
particulares). Tudo se passa como se o conjunto dos
agentes convenientemente socializados (dos quais os
normalistas e os antigos khâgneux são o núcleo)
tivessem na cabeça - o que não quer dizer na consciência
- o feixe das trajetórias prováveis dos agentes de sua
idade (reduzidos o mais das vezes ao grupo de
interconhecimento que constitui a promoção de Escola) e
pudessem a cada momento medir sua própria trajetória
passada, e a trajetória futura que ela implica, por este
padrão da normalidade universitária c portanto avaliar
seu sucesso e seu fracasso relativos.”
202
A ruptura do ciclo de reprodução simples que
propunha um futuro de professor para todos os
assistentes é causa e, parcialmente ao menos, efeito da
autonomização da produção da tese em relação às
estruturas temporais da carreira. A reviravolta (ao menos
aparente) no espaço das trajetórias possíveis que
determina o crescimento, mesmo limitado, do corpo de
professores titulares contribui sem dúvida para explicar
que, tratando o doutorado como um exame de
promoção interna, os menos socializados
universitariamente dos assistentes recentemente
admitidos passam a produzir teses num tempo muito
mais curto, portanto em ruptura com as convenções e as
conveniências que definiam a longa paciência dos
pretendentes; mas explica também que, ao mesmo
tempo, muitos detentores dos títulos oficiosos (os de
normalista e de agregado) que se obstinam a produzir no
ritmo do ciclo de vida universitária antiga, à maneira
desses animais marinhos que, atirados à margem,
continuam
é
** “Enfim, é preciso dizer que um espaço dc dez anos, porque eu passei à agregaçáo cm 1936 c defendi minha tese no
início dc 1947. normal para uma tese dc Estado, c normal cm letras, é o que conta [...]. Eu náo fiz uma estatística, mas
enfim, essa não é uma coisa que sc pode fazer rápido. Dez anos, do meu ponto de vista, é um bom período” (Professor dc
grego, 1972).
vivendo no ritmo das marés, estão na verdade privados,
sobretudo quando não são particularmente precoces,
dos benefícios da expansão universitária. A penúria de
candidatos que reúnem os títulos oficiosos e oficiais (o
de doutor de Estado) permitiu assim aos recém-
chegados que estavam mais prontos para compreender
o novo jogo ocupar uma boa parte dos postos de
professor recentemente criados.
Defesa do corpo e ruptura dos equilíbrios
A ruptura dos equilíbrios
203
Assim, sob o efeito de um aumento (limitado) das
chances de ascensão e sobretudo de uma transformação
das disposições dos agentes ligada a uma modificação
da admissão, o acordo imediato entre as expectativas e
as trajetórias prováveis, que levava a admitir como
evidente a ordem das sucessões, foi rompido, e a ordem
universitária fundada na concordância das estruturas
temporais incorporadas e das estruturas objetivas foi
submetida a dois tipos de desafios. De um lado, o
desafio individual dos novos entrantes que, desprovidos
de títulos e de disposições que supunham anteriormente
à entrada no corpo, repudiaram a lentidão e a prudência
até então julgadas convenientes: esse é particularmente
o caso nas disciplinas novas, nas quais o abandono dos
critérios antigos de admissão não foi seguido pela
constituição de um novo sistema dc critérios de avaliação
da competência pedagógica e científica; de maneira que
o crescimento do corpo de titulares beneficiou mais que
alhures tanto os recém-chegados desprovidos de títulos
canônicos que souberam queimar etapas oferecendo,
como direito de entrada, não uma nova forma de
produção mais conforme com as exigências da
cientificidade - por exemplo, trabalhos sustentados
empiricamente e livres das preliminares retórico-teóricas,
etc. -, mas sim uma forma atenuada e minorada da
antiga tese, quanto os detentores de títulos canônicos,
que náo garantiam nem a aquisição de uma competência
específica nem as disposições para adquiri-la.44 E de
outro lado, o desafio coletivo constituído pela
contestação aberta ou latente de hierarquias
universitárias assim fundadas em princípios
profundamente contraditórios e igualmente difíceis de
justificar segundo critérios propriamente científicos: o

44
Sc das surpreendem pelo seu caráter excepcional, as carreiras aceleradas dos outiiden náo sáo muito sensíveis
estatisticamente. Os normalistas c os agregados tem cm todos os lugares carreiras mais rápidas que as outras categorias
de professores c essa distância é mais importante nas ciências sociais, onde eles sáo mais raros, do que nas outras
disciplinas: assim, cm sociologia, somente 10% dos antigos da ENS que pcrtcnccm ao colégio B têm 36 anos ou mais.
contra 23% dos agregados náo normalistas e 36% dos licenciados, enquanto em letras 41% dos antigos alunos da ENS que
pertencem
movimento sindical muitas vezes falou por todos os que
tinham o sentimento de terem sido desiludidos nas suas
esperanças legítimas, quer se tratasse dos beneficiários
da nova admissão que não souberam tirar partido das
novas possibilidades oferecidas pelo crescimento do
corpo ou dos últimos a vir do antigo modo de admissão,
vítimas da hysteresis dos habitus que os leva a prolongar
a preparação de uma tese muitas vezes empreendida
tardiamente e concorrendo (no caso dos encargos de
ensino) com os encargos e obrigações inscritos nas
posições magistrais obtidas à custa de uma falsa
promoção acelerada.
A transformação das condições de admissão dos
professores subalternos determinou o surgimento e a
afirmação de interesses próprios dos assistentes e dos
mestres-assistentes e, da mesma maneira, a afirmação
dos interesses categoriais dos professores (com o
Sindicato autônomo), tendendo a lógica das “lutas”
sindicais sempre mais a ser substituída, ao menos nas
ocasiões oficiais (como as eleições ao CNRS ou nos CCU
das faculdades, por exemplo), pela lógica das relações
patrimoniais, marcadas pelo liberalismo e pelo fair play
que foi aceitável por muito tempo quando os professores
e os assistentes eram oriundos de um mesmo modo de
admissão.1' Todavia, as divisões e as coesões baseadas na
oposição entre categorias estatutárias (assistente,
mestre- assistente, encarregado de ensino, professor),
geralmente pensadas ou faladas a partir do modelo de
luta de classes ou dos conflitos de trabalho, escondem
diferenças consideráveis, em posiçáo igual, segundo a
trajetória prelibada; de sorte que os professores das
categorias intermediárias são levados a estratégias e
alianças flutuantes e destinados a balançar e a sc alternar
entre a salvação individual e a salvação coletiva segundo
a apreensão prática que têm de suas próprias chances de
ingressar nas posições dominantes.
ao colégio B têm \6 anos dc idade ou mais, contra 65% dos agregados e 67% dos licenciados.
*7 Seria preciso analisar todas as mudanças nas representações e nas práticas que esta situação determinou, como o
surgimento dc formas dc bargaininge de compromisso dc categoria a categoria (colégio A e colégio B) ou dc sindicato a
sindicato no Comitê consultivo das universidades ou no CNRS, etc.
Defesa do corpo c ruprura dos cquilíbrii
Ao romper a relação de identificação antecipada com
os mestres e com as posições magistrais e a cumplicidade
com os detentores e os pretendentes na adesão às
normas da progressão legítima, a transformação das
normas de admissão entregou o campo universitário aos
efeitos reunidos da antiga lei dc carreira e da
transgressão desta lei: e não se vê donde poderiam surgir
as forças capazes de impor a instauração prática de uma
ordem em que a admissáo e a progressão dependeriam
unicamente dos critérios de produtividade e de eficácia
pedagógicas ou científicas.
Capítulo 5
O momento crítico
“Como os afazeres estavam suspensos, a inquietude e a
curiosidade levavam todo mundo para fora de casa. A
negligência dos costumes atenuava a diferença das
classes sociais, o ódio se escondia, as esperanças se
espalhavam, a multidão estava cheia de doçura. O orgulho
de um direito conquistado explodia nas faces. Tinha-se
uma alegria de carnaval, ares de bivaque; nada foi tào
divertido como o aspecto de Paris, os primeiros dias.” “O
jogo do ator excitava a multidão, e moções subversivas se
cruzavam.
- Nada de academias! Nada de Instituto!
- Nada de missões!
- Nada de bacharelado!
- Abaixo os graus universitários! - Conservemo-los, diz
Sénécal, mas que sejam conferidos pelo sufrágio universal,
pelo Povo, único juiz verdadeiro!” “A razão pública estava
perturbada como depois das grandes reviravoltas da
natureza. Pessoas de espírito permaneceram idiotas por
toda a sua vida."
G. Flaubert, L’éducation sentimentale.
Limitados aos dados parciais e superficiais da
experiência biográfica mas orientados pela ambição
de julgar e de explicar, a maioria dos ensaios
consagrados às jornadas de Maio fazem pensar no
que Poincaré dizia das teorias de Lorentz:
“Precisava-se de uma explicação, ela foi encontrada;
encontra-se sempre; hipóteses é que não faltam”.'
A tentação de multiplicar sem medida as hipóteses
sob medida nunca se exerce tanto sobre os
especialistas das ciências sociais quanto quando
eles têm necessidade de acontecimentos, e de
acontecimentos críticos. Os instantes em que o
sentido do mundo social oscila são um desafio, que
' H. Poincaré, Congrès de physique de 1900, I, 1900, 22, citado por G. Holton, L’invention scientifique, TJjetruira et
interpretation, trad. P. Schcrcr. Paris, PUF, 1982, p. 368.
náo é unicamente intelectual, para todos os que
professam 1er o sentido do mundo e que, sob a
aparência de enunciar o que é, pretendem fazer
existir as coisas segundo o seu dizer e portanto
produzir efeitos políticos imediatos, o que implica
que tomem a palavra no ato, e náo após refletir,
mas também após a batalha. Os benefícios políticos
que se pode obter da interpretação de um
acontecimento social dependem estritamente de
sua “atualidade”, isto é, do grau de interesse que
ele suscita por ser a aposta de conflitos de
interesses materiais ou simbólicos (é a própria
definição do presente, jamais completamente
redutível ao que é imediatamente dado). Decorre
daí que o princípio da maioria das diferenças entre
as produções culturais reside nos mercados a que
elas estáo mais inconsciente que conscientemente
destinadas, mercado restrito, no qual o produtor
tem, no limite, como clientes apenas o conjunto de
seus concorrentes, ou mercado de grande
produção;45 esses mercados asseguram aos
produtos culturais (e a seus autores) benefícios
materiais e simbólicos, isto é, sucessos de venda,
públicos, clientelas, e uma visibilidade social, uma
reputação - da qual o espaço ocupado nos jornais
constitui uma boa medida - extremamente

45
Sobre esta oposição, ver P. Bourdieu, Le marché des biens symboliques, l’Année sociologique, vol. 22,1971,
p. 49-126.
desiguais, tanto na sua importância quanto na sua
duração. Uma das razões do atraso das ciências
sociais, incessantemente sujeitas a regredir ao
ensaísmo, é que as chances de obter o sucesso
puramente mundano, ligado ao interesse de
atualidade, diminuem à medida que se se distancia
no tempo do objeto estudado, isto é, à medida que
aumenta o tempo investido no trabalho científico,
condição necessária, ainda que insuficiente, à
qualidade científica do produto. O pesquisador só
pode chegar depois da festa, quando os lampiões
foram apagados e os cavaletes retirados, e com um
produto que não tem mais nenhum dos charmes
do impromptu. Construído por sobre as questões
surgidas da imediatidade do acontecimento,
enigmas mais que problemas, apelando a
posicionamentos totais e definitivos mais do que a
análises necessariamente parciais e revisáveis, o
protocolo científico não tem a bela clareza do
discurso do bom senso para aquele a quem náo é
difícil ser simples uma vez que ele sempre começa
por simplificar.
208
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
A atençáo imediata ao imediato que, mergulhada
110 acontecimento e nas impressões que ele
suscita, isola o momento crítico, assim
constituído como totalidade limitando em si
mesma sua explicação, introduz desse modo uma
filosofia da história: ela leva a pressupor que há na
história momentos privilegiados, de qualquer forma
mais históricos que os outros (pode-se ver um caso
particular na visão escatológica, clássica ou
modernizada, que descreve a revolução como
termo final, telos, e ponto culminante, acmèy e seus
agentes - proletários, estudantes ou outros - como
classe universal, portanto última). A intenção
científica ao contrário visa recolocar o
acontecimento extraordinário na série dos
acontecimentos ordinários, no interior dos quais ele
se explica. Isso para perguntar em seguida onde
reside a singularidade disso que caracteriza um
momento qualquer da série histórica, como se vê
com todos os fenômenos de limiar, saltos
qualitativos nos quais a adição contínua de
acontecimentos ordinários leva a um instante
singular, extraordinário.
Interseção de várias séries em parte
independentes dc acontecimentos vindos de vários
campos habitados por necessidades específicas,
uma crise como a de maio dc 1968 - e sem dúvida
toda crise - introduz uma ruptura visível em relação
ao que a precedeu, ainda que só se possa
compreendê-la ressituando-a na série dos
acontecimentos antecedentes. Crise universitária
que se transforma em crise geral, ela questiona as
condições da extensão diferencial da crise no
centro do campo universitário e fora dele: para
explicar que uma crise do modo de reprodução (na
sua dimensão escolar) possa ter estado no princípio
de uma crise geral, é preciso, sabendo-se da
contribuição cada vez mais importante que o
sistema de ensino traz à reprodução social e que
faz dela uma aposta cada vez mais disputada das
lutas sociais,» propor um modelo que permita
prestar conta dos efeitos sociais que ele produziu,
sendo o efeito mais surpreendente a
desclassificação estrutural, geradora de uma
espécie de disposição coletiva à revolta. Mas o
modelo que permite compreender, a partir dc uma
análise das condições estruturais da crise e sem
recorrer a hipóteses ad hoc, a lógica do surgimento
da crise nas diferentes regiões do espaço
universitário, depois do espaço social onde ela sc
manifestou, permitiria também compreender como
se instaurou, numa região bem determinada do
campo universitário, o estado critico da estrutura?
A probabilidade de que os fatores estruturais que,
num campo particular, estão no princípio de uma
tensão crítica venham a criar uma situação de crise,
favorável ao surgimento de acontecimentos
extraordinários, cujo funcionamento normal os
torne impensáveis ou, ao menos, “excepcionais” e
“acidentais”, portanto desnudados de eficácia e de
significado sociais, atinge seu máximo quando se
realiza a coincidência dos efeitos de várias criscs
latentes da máxima intensidade: que causas
específicas são responsáveis pela coincidência das
crises locais e, assim, da crise geral como
integração - e não simples soma
— dc crises sincronizadas e qual é o efeito
próprio desta sincronização de diferentes campos
que define o acontecimento histórico como
marcando época e a situação de crise geral como
colocando em sintonia diferentes campos?
Paradoxalmente, é sem dúvida com a condição dc
reinserir os momentos críticos nas séries onde
reside o princípio de sua inelegibilidade, anulando
o que lhe dá o sentido dc singularidade, que se
pode compreender o que define propriamente a
situação crítica, se não como “criação de
imprevisível novidade”, no mínimo como
surgimento da possibilidade da novidade, enfim,
como tempo aberto onde todos os futuros
parecem possíveis, e o são para uma parte, nesta
mesma medida.-' Todas essas questões, que se
poderiam dizer teóricas, devem ser pensadas como
questões históricas. O que supõe que sc trabalhe
para neutralizar os efeitos da divisão socialmente
instituída entre a simples descrição que, como
sublinhava Hegel no Prefácio da Fenomenologia
do espírito, não se adapta à “interrupção” pelo
conceito e o puro “raciocínio” que não suporta mais
a irrupção da realidade efetiva. Mas não se pode
questionar os princípios mais bem estabelecidos da
visão e da divisão do trabalho científico sem correr
o risco de que os produtos desse esforço dc
ruptura permaneçam incomprcendidos ou passem
despercebidos; sem se expor a parecer negligenciar
ao mesmo tempo as exigências da teoria e as
exigências da empiria e a ver as aquisições mais
certas da pesquisa escapar aos que só sabem
reconhecer as questões teóricas quando elas levam
a dissertações (sobre o poder, a política, etc.) assim
como aos que se inclinam à suspeição e à reticência
pelo esforço em si para tratar a série dos
acontecimentos que a descrição histórica
desenvolve como o produto de diferentes efeitos -
no sentido da física -, isto é, como integração
singular de sequências inteligíveis de
acontecimentos destinados a aparecer cada vez
que forem dadas - como sempre, aliás - certas
condições.
Uma contradição específica
Não sc pode justificar a crise, ou pelo menos as
condições estruturais de seu aparecimento e de sua
generalização, sem lembrar os efeitos principais do
crescimento da população escolarizada, isto é, a
desvalorização dos títulos escolares que determina
uma desclassificação generalizada, especialmente
intolerável para os mais favorecidos, e,
secundariamente, as transformações do
funcionamento do sistema de ensino que resultam
das transformações morfológicas e sociais de seu
público. O crescimento da população escolarizada e
a desvalorização correlativa dos títulos escolares
(ou das posições escolares a que eles dão acesso,
como a condição de estudante) afetaram toda uma
faixa etária, constituída como geração social
relativamente unificada por esta experiência
comum, determinando uma diferença estrutural
entre as aspirações estatutárias - inscritas em
posições c títulos que,
1 Sobre esse ponto, c principalmente sobre a lógica propriamente estatística da reprodução escolar c sobre
os efeitos unificantes da experiência comum da desvalorização, ver R Bourdieu, Classement, déclassement et
reclassement. Actes de la recherche eri science* sociales, 24. novembro de 1978, p. 2-23 c La distinction, p. 147-185.
no estado anterior do sistema, ofereciam realmente
as oportunidades correspondentes - e as chances
efetivamente asseguradas, no momento
considerado, por esses títulos e essas posições.46
Essa diferença é grande apenas nas crianças
oriundas da classe dominante que náo
conseguiram fazer a reconversão do capital cultural
herdado em capital escolar; isso, mesmo quando
seu futuro social não depende inteiramente do
capital escolar e quando o capital econômico ou
social de que dispõe sua família lhes permite obter
o rendimento máximo de seus títulos escolares no
mercado de trabalho e compensar assim seu
fracasso (relativo) por meio de outras carreiras.'
Enfim, a contradição específica do modo de
reprodução de componente escolar que só pode
contribuir para a reprodução da classe eliminando,
com seu assentimento, uma parte de seus
membros, reveste-se de uma forma cada vez mais
crítica à medida que aumenta o número dos que
veem suas chances de reprodução ameaçadas e
que, recusando sua exclusão, são levados a uma
contestação da legitimidade do instrumento de sua
exclusão disposto a ameaçar toda a classe ao
questionar um dos fundamentos de sua
perpetuação.
212

46 Vc-sc assim que todos os (e des sáo numerosos) que quiseram pensar a crise dc Maio segundo o
esquema do conflito dc gerações (no sentido ordinário) dcixaram-sc levar pelas aparências. Sabe- se alem
disso que a desvalorização dos titulos teve efeitos totalmente diferentes segundo a origem social dos agentes
envolvidos.
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
Os efeitos da desvalorização sem dúvida se
exercem cada vez mais plenamente, não sendo
nunca corrigidos pela adjunção de capital social, à
medida que, em qualidade ou posiçáo equivalentes,
se cai na hierarquia dos detentores segundo a
origem social: todavia, a tolerância a esses efeitos
varia também segundo o mesmo critério, mas em
sentido inverso, de um lado porque as aspirações
tendem a diminuir como as oportunidades
objetivas e de outro porque diversos mecanismos
tendem a mascarar a desvalorização, como a
pluralidade dos mercados - alguns diplomas
desvalorizados guardam certo valor simbólico aos
olhos dos mais destituídos - e os benefícios
secundários ligados à elevação do valor nominal
dos títulos. A ascensão parcialmente fictícia do
milagroso que chega a uma posição pouco
provável para os membros dc sua classe de origem
(como o filho de professor primário que se tornou
assistente cm ciências ou o filho de pequeno
camponês professor do CEG) num momento em
que esta posiçáo está desvalorizada pelo efeito de
translação, isto é, desclassificada, é fúndamen tal
mente diferente, apesar das analogias, do declínio
mais ou menos marcado daquele que, originário da
classe dominante, não consegue dotar-se dos
títulos necessários para manter sua posiçáo, tal
como o filho de médico que se tornou estudante
de letras modernas ou educador. Resulta que, ainda
que diferentes, as experiências ligadas à
desclassificação podem servir de fundamento a
alianças, mais ou menos fictícias, entre agentes
ocupantes das posições diferenciadas no espaço
escolar e no espaço social, ou, ao menos, a reações
parcialmente orquestradas diante da crise da qual
seria falso imputar a concordância objetiva
somente aos efeitos do “contágio”.
Para compreender as formas de que a crise se
revestiu no interior do sistema escolar, náo basta
perceber o crescimento do volume do público das
diferentes instituições dc ensino. É verdade que
esses fenômenos propriamente morfológicos sem
dúvida exerceram efeitos muito importantes,
favorecendo uma transformação da relação
pedagógica e de toda a experiência da condição de
estudante. Mas o essencial é que o crescimento do
volume do público de um estabelecimento escolar
e sobretudo a transformação correlata da
composição social desse público dependem da
posição que ela ocupa atualmente ou
potencialmente na hierarquia escolar (c social) dos
estabelecimentos. É por isso que as grandes escolas
(ou as classes preparatórias) foram menos afetadas
que as faculdades; que, no interior destas, as
faculdades de direito e de medicina foram menos
afetadas que as faculdades de ciências e sobretudo
de letras, e que, no centro destas últimas, as
disciplinas tradicionais foram menos atingidas pelo
afluxo de estudantes que as disciplinas novas,
sobretudo a psicologia e a sociologia. Dito de outra
forma, os efeitos sociais c escolares do aumento do
público sáo mais acentuados numa instituição
escolar (estabelecimento, faculdade ou disciplina)
quando sua posiçáo na hierarquia - e,
secundariamente, o conteúdo de ensino proposto -
a predispõe mais a servir de refúgio a estudantes
que, no estado anterior do sistema, teriam sido
excluídos ou se autoeliminariam. A isso se
acrescenta que os efeitos especificamente ligados à
discordância entre as aspirações e as oportunidades
objetivas nunca sáo tão poderosos quanto nesses
refúgios de luxo que representam algumas das
disciplinas novas, sobretudo a sociologia para os
rapazes e, em menor grau, a psicologia para as
moças: essas posições escolares mal determinadas
que abrem para posições sociais também mal
determinadas são feitas exatamente para permitir a
seus ocupantes manter um halo de indeterminação
e de fluidez, para si mesmos e para os outros, em
torno de seu presente e de seu futuro.
214
Homo academicus | Pierre Bourdieu
A mesma lei que rege a extensão da crise no
interior da instituição escolar também rege a
extensão fora da instituição da crise específica da
instituição: a frequência, entre os ocupantes de uma
posição social, dos agentes pertencentes à geração
escolar marcada pela desvalorização dos títulos
escolares, dotados portanto de aspirações
desajustadas em relação a suas oportunidades
objetivas de realização, explica as reações
diferenciais à crise dos ocupantes das diferentes
posições no espaço social. A crise que tem seu
princípio no sistema escolar nunca se confunde
totalmente com a crise de uma classe ou de uma
fração de classe determinada: sem dúvida o
movimento de contestação encontrou sua
plataforma de escolha nas frações intelectuais e,
mais particularmente, nas regiões do espaço social
apropriadas a acolher os agentes oriundos da
classe dominante mais do que o sistema de ensino
reconheceu; mas ele pôde também encontrar um
cco, ou mesmo uma cumplicidade, no centro das
diferentes frações das classes médias e até mesmo
na classe operária ou camponesa, entre os
adolescentes que, tendo passado pelo ensino
técnico ou mesmo pelo ensino geral longo, se
decepcionaram com as aspirações aparentemente
inscritas na situação de colegial ou dc liceal
(posições tanto mais valorizadas quanto mais raras
são no grupo dc urigem), uu mesmo de bacharel.
Esse é o caso, que tem valor dc limite, dos
detentores de um diploma de ensino geral ou de
um CAP, e até mesmo de um bacharelado (contam-
se, cm 1968, vários milhares de OS dotados desse
título), que sáo direcionados para as profissões
manuais que atribuem um baixo valor econômico e
simbólico aos diplomas de ensino geral e mesmo
aos diplomas técnicos e que se encontram assim
destinados à desqualificação objetiva e/ou
subjetiva, e à frustração engendrada pela
experiência da inutilidade do diploma (como esse
jovem operário diplomado que, condenado a
realizar o mesmo trabalho que operários sem
nenhum diploma escolar ou, “pior”, que
“estrangeiros”, conclui: “Eu náo fiz curso durante
quatro anos para cortar rodelas”). As respostas à
questão (levantada em 1969 numa amostra
representativa da populaçáo operária) para saber
sc, cm 1968, seria desejável que os estudantes
“pudessem vir às fábricas discutir com os
trabalhadores” fornece indicadores sobre as
características sociais dos que se sentem
“atingidos” pela crise do sistema de ensino: a parte
dos operários que sc declaram favoráveis à abertura
das fábricas aos estudante é maior na faixa etária
dc 20-24 anos c sobretudo na dc 15-19 anos e
entre os operários titulares de um CAP (cf. G. Adam,
F. Bon, J. Capdevielle, R. Mouriaux, L'ouvrier français
en 19jo, Paris, A. Colin, 1970, p. 223-224). E se
observou além disso que, entre os operários (que sc
sabe que, ao contrário dos membros da classe
dominante, se dizem cada vez com mais frequência
à esquerda à medida que vão ficando mais velhos),
como entre as outras categorias sociais, a
participação nas manifestações aumenta com o
nível de instrução e em razão inversa cia idade.
Os efeitos do crescimento do número de
agentes escolarizados e da desvalorização correlata
dos títulos conferidos náo acontecem de maneira
mecânica, portanto homogênea, mas têm sentido
apenas em funçáo das disposições dos agentes que
os experimentam. É por isso que, contra a própria
lógica da análise e do discurso no qual ela se
exprime, isto é, contra a tendência a sincronizar c a
universalizar 0 que tomou a forma de um processo
de lenta e desigual transformação dos espíritos,
seria preciso poder descrever as diferentes formas
de que se reveste, em função principalmente da
origem social e das disposições correlatas em
relaçáo ao sistema de ensino, o processo de
ajustamento das esperanças às oportunidades, das
aspirações às realizações, e em particular o trabalho
de desinvestimento necessário para aceitar o
menor sucesso ou o fracasso.
É preciso na verdade evitar esquecer a distância
temporal importante entre o momento em que
aparecem, e primeiramente nas faculdades dc
cicncias, as transformações morfológicas
responsáveis pelas tensões entre os professores e a
desclassificação dos estudantes, c o momento em
que explode, num setor bem particular do campo
universitário, a crise declarada que em seguida se
generalizará. Esse intervalo corresponde ao tempo
necessário para que aflorem, por intermitência, na
consciência de alguns dos agentes as
transformações que se manifestam na instituição e
os efeitos que essas transformações exercem sobre
sua condição presente e futura: isto é, no caso dos
estudantes, a desvalorização dos títulos escolares e
sua desclassificação relativa ou absoluta e, no caso
dos professores subalternos admitidos segundo os
novos critérios, a inacessibilidade dc fato às
carreiras aparentemente prometidas aos ocupantes
de sua posiçáo. E se o trabalho (dc sofrimento)
indispensável para ajustar as aspirações aos efeitos
da evoluçáo morfológica é necessariamente longo
é porque os agentes só percebem uma fraçáo
muito limitada do espaço social (além disso por
meio de categorias de percepção e de apreciação
que sáo o produto de um estado anterior do
sistema) e por isso sáo levados a interpretar sua
própria experiência e a dos agentes que pertencem
a seu universo de interconhecimento por uma
lógica individual mais do que categorial, de maneira
que as mudanças morfológicas só podem lhes
aparecer sob a forma de uma multidáo de
experiências parcelares, difíceis dc apreender e de
interpretar como totalidade. Seria preciso também
levar cm conta na análise desse processo de
transformação da visáo do futuro o papel das
instituições encarregadas dc produzir
representações eruditas do mundo social (como os
institutos oficiais e oficiosos de estatística) e de
manipular consequentemente as representações do
futuro suscetível de ser antegozado (como os
conselheiros de orientação e, geralmente, todos os
agentes encarregados de informar sobre o futuro
dos títulos e das vagas).
21Ó
Homo academicus | Pierre Bourdieu
No caso dessas espécies de milagrosos que são
os estudantes (ou os mestres) oriundos de
categorias sociais especialmente improváveis nas
posições que eles ocupam, unicamente o fato de
estar presente nessas posições, mesmo
desvalorizadas - e por sua própria presença -,
constitui uma forma de retribuição simbólica,
comparável à elevação do salário nominal em
período dc inflação: a alodoxia está inscrita no fato
de que os esquemas que eles aplicam para
perceber e apreender sua posição são o produto do
estado anterior do sistema. Além disso, os próprios
agentes têm um interesse psicológico em se tornar
cúmplices da mistificação da qual sáo as vítimas -
segundo um mecanismo muito geral que instiga
(sem dúvida mais quando se é mais desfavorecido)
a trabalhar para se contentar com o que se tem e
com o que se é, a gostar de seu destino, ainda que
ele seja muito medíocre.47 De fato, pode-se
duvidar que essas representações possam ser
completamente bem-sucedidas, mesmo com a
cumplicidade de um grupo, e é provável que a
imagem encantada sempre coexista com a
representação realista, a primeira vivida sobretudo
na concorrência com os vizinhos imediatos (no
espaço social) e a segunda nas reivindicações
coletivas em face do out group.
Esses efeitos de dupla consciência são ainda
mais visíveis na lógica que conduz os estudantes
oriundos da classe dominante e pouco dotados de
capital escolar para as disciplinas novas, cujo poder
de atração se deve sem dúvida muito à fluidez do
futuro que oferecem e à liberdade que dão para
diferir o desinvestimento. Ou na orientação para as
profissões mal determinadas que são criadas para
permitir perpetuar pelo maior tempo possível, tanto
para si quanto para os outros, a indetcrminação da
identidade social, tal como, outrora, as profissões
de escritor ou de artista c todos os pequenos
ofícios da produção cultural, ou todos os novos
ofícios, na fronteira entre o campo intelectual c o
campo universitário ou médico, que proliferaram
em relação direta com o esforço para escapar à
desvalorização ao produzir novas profissões. Tudo
permite supor que a tensão crítica é ainda mais
forte quando a distância entre a realidade e a
representação dc si e de seu futuro social é maior e
quando ela foi mantida por mais tempo, portanto à

*° Esse modelo náo permite compreender exatamente as reações individuais à crise: estas dependem dc
variáveis disposicionais, ligadas à origem social, dc variáveis posicionais, ligadas à posiçáo da disciplina c à
posiçáo na disciplina (estatuto universitário c prestígio intelectual), e dc variáveis conjunturais, sobretudo da
intensidade da crise e da crítica da instituiçáo universitária que depende da disciplina (c dc sua localização
parisiense ou provincial) e dos posicionamentos mais frequentes entre os agentes do mesmo ranking ou do
mesmo estatuto.
" Os historiadores do futuro talvez encontrem nos arquivos da polícia as informações necessárias para testar o
modelo.
custa de um trabalho psicológico mais importante.9
Pode-se assim afirmar, primeiramente, que a
crise patente conheceu sua intensidade máxima em
todos os lugares sociais favoráveis à perpetuação
de aspirações desajustadas; e, em seguida, que
esses lugares apropriados a favorecer um
desajustamento sujeito a revisões dramáticas sáo
os que, dada a imprecisão do futuro social que
prometem, atraem agentes com aspirações
desajustadas a quem asseguram as condições
favoráveis para a perpetuação desse
desajustamento. Para verificar essas hipóteses,
pode-se tomar como indício da homogeneidade ou
da heterogeneidade de uma posiçáo, faculdade,
escola, disciplina, a dispersão da distribuição da
população correspondente, seja segundo a origem
social, seja segundo o capital escolar (a seçáo do
bacharelado) ou, mais próximo à hipótese, segundo
a relaçáo entre a origem social e o capital escolar:
pode-se supor na verdade que a diferença entre as
aspirações e as oportunidades tem toda a
verossimilhança com o crescimento da taxa dos
estudantes de origem social elevada e de capital
escolar baixo. E determinar em seguida se as
variações do grau de homogeneidade social c
escolar segundo os setores da instituição escolar
correspondem às variações da intensidade da
crise.48
Somente a confrontação da distribuição
segundo a origem social e o capital escolar (e
também, secundariamente, segundo o sexo, a taxa
de crescimento e a residência) dos ocupantes
(estudantes ou professores, sobretudo subalternos)

48 p. 254, e tabela 6, p. 248).


Parece que, dc maneira geral, a crise se revestiu dc outras formas nas pequenas faculdades dc província,
onde o volume das populações reunidas c a “reserva" dc chcfcs políticos eram menos importantes c onde,
como sc viu, as relações entre os graus eram qualitativamente muito diferentes.
das diferentes posições (grandes escolas,
faculdades, disciplinas) no campo universitário e
das variações segundo as mesmas variáveis do
posicionamento desses grupos durante o mês dc
maio de 1968 permitiria verificar ou refutar o
modelo proposto. Pode-se todavia, conforme os
dados disponíveis, estabelecer que existe uma
correspondência entre essas duas séries. Ainda que
as estatísticas em que se lê um crescimento da
parte relativa das crianças oriundas das classes
médias nas instituições de ensino confundam os
públicos dos diferentes tipos de estabelecimento
(liceu, CEG, etc.), mascarando assim os mecanismos
de segregação escolar que tendem a manter uma
relativa homogeneidade social do público escolar
no interior de cada estabelecimento ou mesmo de
cada classe, observa-se uma tendência geral à
diminuição da homogeneidade social do público
escolar ao longo do período que precedeu a crise:
ainda muito forte nos estabelecimentos, nas seções
ou nas disciplinas superiores (como as grandes
escolas, as faculdades de medicina, ou mesmo as
seções clássicas dos liceus) ou nas inferiores (como
os CET ou os IUT), a homogeneidade social, escolar
c sobretudo, se se pode dizer, socioescolar é
geralmente fraca nos estabelecimentos, seções ou
disciplinas que ocupam uma posição intermediária
ou, ao menos, ambígua na hierarquia do sistema de
ensino. De outro lado," se por falta de indícios de
participação nas atividades subversivas, aceita- sc
um indicador da conformidade ou da adesão à
ordem universitária estabelecida nas taxas de
participação nas eleições universitárias de 1969
— indicador aliás ambíguo, porque uma taxa
elevada de abstenção pode ser ou o produto de
uma recusa explícita de participar, portanto uma
verdadeira tomada de posição negativa, ou a
expressão de um sentimento dc impotência política,
resultante de um processo de frustração -, observa-
se que a taxa de votantes é máxima nos
estabelecimentos, nas disciplinas ou nas faculdades
que se definem claramente em relação às
profissões precisas a que elas conduzem, seja, por
exemplo nas faculdades de medicina (68%) e, em
menor grau, nas faculdades de direito (53%) ou, no
outro extremo da hierarquia universitária, nos IUT
(77%); inversamente, a taxa é baixa nas faculdades
ou nas disciplinas que convergem a profissões
correspondentes a posições muito fortemente
dispersas na hierarquia social: claramente inferior
nas faculdades de letras (42%) e de ciências (43%)
no seu conjunto, estabelece-se no seu nível mais
baixo em disciplinas como a sociologia (26%) e a
psicologia (45%), as quais, levando a profissões
particularmente dispersas c ambíguas, opõem-se
claramente às disciplinas que dão direito ao
professorado do segundo grau, como a literatura
francesa (60%), o grego (68,5%), o latim (58%), a
história (55%) ou a geografia (54,4%) - a filosofia posta
à parte pois, pelo futuro que propõe, ela se
aparenta às ciências sociais e tem uma taxa muito
baixa, 20% (Le Monde, 13 dc março de 1969).» A
estrutura da distribuição segundo as faculdades e
as disciplinas é a mesma na província, ainda que a
participação se situe no conjunto em nível mais
elevado (sem dúvida, em boa medida em razão do
efeito do tamanho dos cstabclccimeutos que se
observa em todos os lugares)."
Mas não se compreende completamente o
papel especial das disciplinas novas, e sobretudo da
sociologia, no desencadeamento da crise, se não se
vê que essas posições são o lugar onde sc realiza a
coincidência dos efeitos dc duas crises latentes de
intensidade máxima. Ao mesmo tempo inferiores c
indeterminadas, as disciplinas novas das faculdades
de letras estavam predispostas a acolher sobretudo
estudantes originários da classe dominante que
conheccram baixo sucesso escolar, portanto
dotados de aspirações muito desajustadas em
relação a suas oportunidades objetivas de sucesso
social, e estudantes das classes médias banidos das
habilitações nobres e ameaçados dc ter suas
ambições frustradas por náo possuírem o capital
social indispensável para fazer valer títulos
desvalorizados; de outro lado, elas deveriam, como
se viu, responder ao crescimento muito rápido da
população dos estudantes ao admitir em grande
número os professores subalternos pouco
integrados à instituição universitária e levados ao
ressentimento pela contradição entre a elevação de
suas aspirações resultante de seu ingresso (mais ou
menos) inesperado no ensino superior e a
frustração dessas aspirações provocada pela
manutenção nos graus inferiores da hierarquia
universitária.'4
Assim como a hererogeneidade social e escolar
parece explicar as atitudes dos estudantes em
relação ao movimento de iVíaio, do mesmo modo a
dispersáo das trajetórias passadas, e sobretudo
potenciais, e as tensões correlatas entre os graus
parecem estar no princípio das atitudes diferentes
dos professores. Para se convencer disso basta
relacionar mentalmente as características
sincrônicas e diacrônicas do corpo docente das
diferentes disciplinas e sua participação
diferenciada no movimento de Maio ou a
intensidade com que se revestiram os conflitos
entre os professores de diferentes graus. Mas, para
ir o mais longe possível na demonstração, pode-se
aplicar a análise ao caso dos professores de
geografia e de sociologia, que, embora pertençam
14
Os dois processos que acham assim postos em sintonia tem seu princípio (ao menos parcialmente) fora
do campo, o primeiro no conjunto dos (atores que determinaram o crescimento geral da escolarização
secundária e superior c a distribuição diferencial dos alunos das diferentes origens sociais entre as faculdades
e as disciplinas; o segundo nas relações entre os diferentes setores do campo universitário e o mercado de
trabalho ou, sc sc prefere, entre os diferentes títulos c os postos oferecidos no momento considerado no
mercado dc emprego, com os efeitos de "desvalorização” diferencial que atingem os diferentes títulos c, mais
ou menos intensamente segundo seu capital social herdado, os diferentes detentores.
' N* maioria das disciplinas, os pesquisadores são de origem social mais elevada que os professores: 58% dos
pesquisadores em sociologia, 52% dos pesquisadores cm psicologia, 56,5% dos pesquisadores cm geografia são
originários das classes superiores, contra rcspcctivamentc 50%, 40% c 40,5% dos professores da mesma
disciplina. Fenômeno compreensível, porque as oportunidades de ingressar atualmente na carreira dc
pesquisador dependem fundamentalmente da possibilidade dc sc manter na posiçáo dc estudante ou de
aprendiz-pesquisador (o que. apesar das bolsas c ferias, Mipóc disposições e meios econômicos reservados dc
fato aos mais favorecidos) o tempo suficiente para sc impor num grupo dc pesquisa (graças a relações
também desigualmente distribuídas) ou para ganhar o apoio dc um “padrinho” influente.
33 45
Cf. G. Canguilhem, Idéologie e rationalité dans l’histoire des sciences de la vie, Paris. Vrin, 1977, P- - -
221
O momento crítico
a disciplinas ambas dominadas, apresentam
diferenças que explicam terem exercido papéis
muito diferentes no movimento e nos conflitos
ulteriores a propósito do futuro do sistema de
ensino. Enquanto os geógrafos, que estão situados
no nível mais baixo das hierarquias tanto sociais
quanto escolares, apresentam um conjunto de
características sociais e escolares muito cristalizadas
em todos os graus, os sociólogos se caracterizam
por uma discordância muito marcada entre essas
características, sobretudo nos níveis inferiores da
hierarquia: a parte dos normalistas, igualmente
baixa nos colégios A e B (4,5% e 3%) entre os
geógrafos, é relativamente alta (25%) entre os
sociólogos do topo da hierarquia (muito próximos
dos historiadores, 24%, e dos psicólogos, 27%) que,
além disso, sáo frequentemente oriundos da
filosofia, enquanto ela está entre as mais baixas
(5,5% contra 10% em psicologia e 13% em história)
entre os sociólogos do nível inferior (colégio B),
ainda que a parte dos professores oriundos da
classe dominante seja quase táo elevada nessas
categorias quanto no nível superior (colégio A).“
Esta dupla discordância (fundada numa distribuição
quase quiasmática dos títulos sociais e escolares
segundo os graus) entre o topo e a base da
hierarquia é sem dúvida a expressão mais visível dc
uma dualidade dos modos dc admissáo que resulta
da ambiguidade estrutural da disciplina ao mesmo
tempo que a reforça: a sociologia, disciplina
pretensiosa, como dizia cm algum lugar Georges
Canguilhem,'6 que aspira a se situar no topo da
hierarquia das ciências, rivaliza portanto com a
filosofia, da qual ela pretende cumprir as ambições
mas com o rigor da ciência, é também um refúgio,
mas um refúgio dc luxo que oferece a todos os que
querem afirmar as grandes ambições da teoria, da
política e da teoria política o benefício simbólico
máximo para o direito de entrada escolar mínimo (a
ligação com a política explica que ela seja para os
estudantes de origem social elevada e de sucesso
escolar medíocre o que a psicologia é para as
estudantes dotadas das mesmas
propriedades).'7 Compreende-se por que
sociólogos e geógrafos sáo tão claramente
distintos, em meio ao movimento de contestação
da Universidade, a ponto de simbolizar,
principalmente no movimento sindical, a oposição
entre a tendência “esquerdista” e a tendência
“reformista”, entre a contestação global e “radical”
da instituição universitária c do mundo social c a
reivindicação corporativista que enfatiza as carreiras
dos professores ou a transformação dos métodos e
dos conteúdos dc ensino.
222
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Para dar a intuição imediata da afinidade
estrutural entre os estudantes e os professores
subalternos das disciplinas novas dentre as quais
foi contratado um bom número dos líderes de
Maio, bastaria apresentar de um lado as curvas do
crescimento entre 1950 e 1968 dos alunos das
grandes escolas c dos estudantes dc letras ou de
ciências, e do outro, as dos professores titulares e
dos professores subalternos (assistentes e mestres-
assistentes); enquanto a população dos professores
e a dos alunos das Escolas normais superiores, que
têm chances de se tornar professores de ensino
superior claramente maiores do que os estudantes,
permanecem mais ou menos estáveis, as duas
outras populações, a dos professores subalternos e
a dos estudantes, conheceram um grande
crescimento. Em consequência, os alunos das
grandes escolas podem reconhecer nos seus
professores (de classe preparatória ou dc
faculdade) os ocupantes de uma posiçáo que um
dia poderá ser a sua; ao contrário, os estudantes,
mas também aqueles dentre os assistentes que,
tendo se beneficiado do novo modo de admissão,
náo apresentam as propriedades secundárias (o
título de normalista ou de agregado) sempre
necessárias de fato para ingressar no professorado,
e que, sobretudo em ciências e nas disciplinas
novas das faculdades de letras, estáo muito
próximos dos estudantes, sentem-se certamente
menos inclinados a instituir com os professores
titulares a relação de identificação antecipada que,
sem dúvida feita para favorecer a investida, é
sobretudo favorável à perpetuação da adesão à
ordem pedagógica.“ Dito de outra forma, a relação
paradoxal que se estabelecia há muito tempo em
ciências e cm letras - e que se impôs recentemente
em ciências econômicas - entre os mestres
oriundos dos concursos mais seletivos e os alunos
menos selecionados tende a se instaurar entre os
professores subalternos, muitas vezes originários da
populaçáo dos estudantes e excluídos de fato da
carreira que leva às posições de professor, e os
professores titulares, que, diferentemente dos
herdeiros legítimos, não podem ver a realização de
seu próprio futuro.* Enfim, a linha virtual de fratura
passa cada vez mais claramente entre os
professores e os assistentes ou mestres-assistentes,
que, na sua maioria, estão objetivamente mais
próximos dos estudantes do que dos professores
titulares. Esta ruptura da cadeia das identificações
antecipadas, fundadas na ordem das sucessões que
elas tendem a reproduzir, tem por natureza
favorecer uma espécie de secessão dos agentes
que, excluídos da competição para o futuro até
então inscrito na sua posiçáo, sáo levados a
questionar a competição em si. E se pode sem
dúvida reconhecer aí uma realização particular de
um modelo geral dos processos revolucionários: a
ruptura objetiva do círculo das esperanças e das
oportunidades leva uma fração importante dos
menos dominados entre os dominados (aqui as
categorias intermediárias de professores, alhures os
pequeno- burgueses) a sair da competição, isto é,
de uma luta dc concorrência que implica o
reconhecimento do jogo e das apostas colocadas
pelos dominantes, e a entrar numa luta que se
pode dizer revolucionária na medida em que visa
instituir outras apostas e redefinir assim mais ou
menos completamente o jogo e os trunfos que
permitem nele triunfar.
A sincronização
Os estudantes e os assistentes em sociologia
representam assim um dos casos da coincidência
entre as disposições e os interesses de agentes (jue
ocupam posições homólogas em campos diferentes
que, por meio da sincronização das crises latentes
de diferentes campos, tornou possível a
generalização da crise. Essas convergências,
favoráveis à harmonização
avsistcntes come des (P. Bourdieu, Épreuve scolaire et consécration sociale, les classes préparatoires JUX
grandes écoles, Actes de la recherche en sciences sociales, 39, setembro de 1981, p. 3-70).
J.-Y. Caro, Formation à la recherche économique: scénario pour une réforme, Revue économique, vol. 34.
4 de julho de 1983, p. 673-690.
das crises locais ou às alianças conjunturais, eram
observadas no conjunto das faculdades de letras e
de ciências, onde o desencantamento de uma
fração importante dos professores subalternos,
confrontados com um posto difícil e destinado a
carreiras mutiladas, reencontrava o dos estudantes
correspondentes, ameaçados pela desclassificação
ligada à desvalorização dos títulos; elas eram
observadas também entre o conjunto dos que, no
próprio campo universitário, entravam na
contestação e dos que, fora do campo, ocupavam
posições homólogas, estruturalmente e às vezes
funcionalmente, como os agentes subalternos das
instâncias de produção e difusão culturais.
224
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Uma crise regional pode se estender a outras
regiões do espaço social e se transformar numa
crise geral, num acontecimento histórico, enquanto
pelo efeito dc aceleração que produz, ela tem o
poder de fazer coincidir acontecimentos que, dado
o tempo diferente que cada campo deve à sua
autonomia relativa, normalmente deviam se abrir
ou se fechar em ordem dispersa ou, se se quer,
suceder-se sem necessariamente se organizar numa
série causai unificada, tal como a que sugere afinal,
em virtude da ilusão retrospectiva, a cronologia do
historiador. Segue-se que a posição dos diferentes
campos na crise geral e o comportamento dos
agentes correspondentes dependerão, em grande
parte, da relação entre os tempos sociais próprios a
cada um desses campos, isto e, entre os ritmos em
que se realizam cm cada um deles os processos
geradores das contradições específicas.
Só se pode compreender os papéis cxcrcidos na
crise pelas diferentes faculdades ou disciplinas ou
mesmo pelos indivíduos que apareceram como as
encarnações do movimento (sobretudo Daniel
Cohn-Bendit, estudante dc sociologia de Nantcrre,
Jacques Sauvageot, líder da UNEF, e Alain Geismar,
mestre-assistente de física em Paris e secretário-
geral do SNESup) com a condição de se saber que,
nesse momento do tempo objetivo em que a crise
se declara nas faculdades de letras, as condições
estruturais que favoreceram sua aparição estavam
presentes há mais dc dez anos nas faculdades de
ciências - onde o SNESup, que exerceu um papel
determinante na generalização do movimento,
estava muito fortemente implantado, e há muito
tempo - enquanto começavam apenas a aparecer
nas faculdades de direito.
A crise como conjuntura, isto é, como conjunção
de séries causais independentes, supõe a existência
de mundos separados mas que participam do
mesmo universo tanto no seu princípio como no
seu funcionamento atual: a independência de séries
causais que, como diz Cournot, “se desenvolvem
paralelamente’ supõe a autonomia relativa dos
campos; o encontro dessas séries supõe a
dependência relativa em relação às estruturas
fundamentais - principalmente as da economia - q
ue determ i nam o axiomático dos diferen tes
campos. É esta i ndependência na dependência que
torna possível o acontecimento histórico — as
sociedades sem história sendo talvez sociedades
tão indiferenciadas que náo há lugar para o
acontecimento propriamente histórico que nasce
no cruzamento das historias relativamente
autônomas. Levar em conta a existência desses
mundos “em cada um dos quais, como diz ainda
Cournot, pode-se observar um encadeamento de
causas e de efeitos que se desenvolvem
simultaneamente, sem ter conexão entre si, sem
exercer influência apreciável uns sobre os outros”, é
escapar à alternativa, na qual muitas vezes nos
fechamos, da história estrutural e da história
eventual e dar-se o meio de compreender que
campos diferentes, ao mesmo tempo relativamente
autônomos e estruturados, mas também abertos, e
ligados aos mesmos fatores, portanto entre si,
podem entrar em interação para produzir um
acontecimento histórico no qual se exprimem ao
mesmo tempo as potencialidades objetivamente
inscritas na estrutura de cada um deles e os
desenvolvimentos relativamente irredutíveis que
nascem de sua conjunção.
A sincronização como coincidência no mesmo
tempo objetivo (aquele que marca a data histórica)
de crises latentes próprias a cada setor do campo
universitário ou, o que dá no mesmo, a unificação
dos diferentes campos que resulta da suspensão
provisória dos mecanismos que tendem a manter a
autonomia relativa de cada um deles, engaja no
mesmo jogo, com posições idênticas, agentes que
até então ocupavam posições homólogas em
campos diferentes. O efeito dc sincronização
exercido pelos acontecimentos críticos que estão
na origem cronológica da crise e que podem
comportar uma parcela de acidente (imputável a
fatores externos ao campo, como a violência
policial) só acontece completamente quando existe
uma rclaçáo de orquestiaçào objetiva entre os
agentes em crise do campo que atinge o estado
crítico e outros agentes, dotados de posições
semelhantes, porque produzidas por condições
sociais de existência semelhantes (identidade de
condição). Mas, além disso, agentes submetidos a
condições de existência muito diferentes e dotados
assim dc habitus muito diferentes, ou mesmo
divergentes, mas ocupando em campos diferentes
posições estruturalmente homólogas à posição
ocupada pelos agentes em crise no campo em crise
(homologia de posição) podem se reconhecer
erradamente (alodoxia) ou acertadamente no
movimento ou, simplesmente, apreender a ocasião
criada pela ruptura crítica da ordem ordinária para
fazer avançar suas reivindicações ou defender seus
interesses.
Partindo das novas disciplinas das faculdades de
letras e de ciências humanas para se estender ao
conjunto do campo universitário, a crise encontrou
sua plataforma de escolha nas instituições de
produção e de difusão de bens culturais de grande
consumo - organismos de rádio e de televisão,
cinema, órgãos de imprensa, de publicidade ou
marketing, institutos de sondagem, organizações
de juventude, bibliotecas, etc. — que, tendo
oferecido, graças a um crescimento rápido c
considerável em volume, toda uma variedade de
posições novas aos produtos da Universidade
ameaçados de desclassificação, são o lugar de
contradições análogas às que o sistema de ensino
conhece: animados por ambições intelectuais que
nunca se puderam realizar nas obras apropriadas a
lhes abrir o acesso a posições reconhecidas no
campo intelectual, os novos agentes de
manipulação simbólica são levados a viver com
descontentamento ou ressentimento a oposição
entre a representação que têm de sua tarefa como
criação intelectual integral e as imposições
burocráticas a que devem submeter sua atividade;
seu humor anti- institucional, constituído
essencialmente na sua relação ambivalente com
uma Universidade que não os reconheceu
plenamente, só pode ser reconhecido em todas as
formas de contestação das hierarquias culturais da
qual a revolta dos estudantes e dos professores
subalternos contra a instituição escolar representa
sem dúvida a forma arquetípica. Quer dizer que não
se pode imputar unicamente aos efeitos de moda
ou de “contaminação” (pensou-se muito na
propagação pelo modo de contágio) o parentesco
entre os temas que se inventam e se exprimem nos
setores mais distantes do “movimento”, em virtude
do aumento das censuras que oferece a
oportunidade de fixar pretensões, e ate mesmo
pulsações sociais, muitas vezes apenas eufemizadas
por uma aparência de universalização política.50
A temática espontaneísta que faz a unidade das
“ideias de Maio”, combinação mais ou menos
anárquica de fragmentos descontex- tualizados de
mensagens diversas, e que está destinada
sobretudo a reafirmar as cumplicidades fundadoras
das comunidades emocionais, fUnciona à maneira
do que Malinowski chama de “phatica”, isto é,
como comunicação que só tem por fim ela mesma,
ou, o que dá no mesmo, o reforço da integração do
grupo.- O “esquerdismo prático” deve sem dúvida
muito menos do que se acreditou à difusão de
ideologias eruditas — como a de Marcuse,
invocada mais frequentemente pelos comentaristas
do que pelos atores - mesmo que, segundo a
lógica característica da profecia, alguns dos porta-
vozes devam uma parte de seus efeitos e de seu
carisma à sua arte de levar para a rua e para o
debate público versões popularizadas dos saberes
eruditos, com frequência reduzidos a temas e
palavras indutoras até então reservadas ao
intercâmbio restrito entre os doutores (“repressão”
e “repressivo”, por exemplo). A aparência da
difusão resulta de fato da multiplicidade das
invenções simultâneas, mas independentes, ainda
que objetivamente orquestradas, que realizam em
pontos diferentes do espaço social, mas cm
condições similares, os agentes dotados dc habitus
semelhantes e, sc é possível dizer, de um mesmo
conatus social, entendendo-se com isso esta
combinação das disposições e dos interesses
associados a uma classe particular de posição social
que inclina os agentes a se esforçarem
or nao poder revelar aqui nem as anotações etnográficas levantacas no campo, c inevitavelmente
parciais c descosidas - devido à impossibilidade prática da lotalizaçáo -, nem um relato reconstruído a partir
das observações c dos testemunhos, só podemos remeter, paia uma evocação do ambiente, às paginas que
Flaubert consagra à revolução dc 1848 no L'éducation sentimentale c principalmente, no tocante
às prátícas cujoprincipio se dá acima, aos clubes" onde se elaboram os sistemas de felicidade pública” e
onde se cruzam “as moções subversivas” (“Nada dc academias' Nada de Instituto!” etc.).
é
Essa uma das razões que fazem com que. contra as teorias ingenuamente utilitaristas tais como a que
Oison propõe no La logique de l’action collective (e sobre a quai Albert Hirschman assinala,
nào sem alguma crueldade, que ela sem dúvida deve scu sucesso, após 1968, ao fato de que tendia a
demonstrar a impossibilidade de movimentos como os de maio dc 1968), o trabalho político,
o do militante dos tempos ordinários ou o dos manifestantes das ocasiões extraordinárias, talvez tenha seu
proprio fim c sua própria recompensa: os próprios esforços da luta. sem falar das alegrias da solidariedade
militante ou do sentimento do dever cumprido ou ainda da experiência, real ou imaginária, do poder dc
transformar o mundo, constituem cm si muitas satisfações indiscutíveis (cr. A. Hirschman, Bonheur
privée, action publique. Fayard, 1984, p. 135-157).
para reproduzir, constantes ou aumentadas, sem
precisar saber nem querer, as propriedades
constitutivas de sua identidade social. Nenhuma
produção ideológica exprime melhor as
contradições específicas e os interesses materiais
ou simbólicos dos intelectuais subalternos — atuais
ou potenciais - das grandes burocracias da
produção cultural, cujo paradigma mais antigo é
evidentemente a Igreja, do que a temática que
então se inventa, na aparência da liberdade mais
anárquica, segundo um pequeno número de
esquemas geradores comuns tais como as
oposições entre a invenção e a rotina, a concepção
e a execução, a liberdade e a repressão, formas
transformadas da oposição entre o indivíduo e a
instituição. A contestação tipicamente herética das
hierarquias culturais c da palavra de aparelho que,
numa variante moderna da ideia de sacerdócio
universal, professa uma espécie dc direito universal
à expressão espontânea (o “direito à palavra”),
mantém uma relação evidente com os interesses
específicos dos intelectuais dominados das grandes
burocracias da ciência e da cultura: opor a
“criatividade natural” e “espontânea que todo
indivíduo encerra em si à competência socialmente,
ou seja, escolarmente garantida, é, por meio da
palavra de ordem humanista, denunciar o
monopólio da legitimação cultural que o sistema de
ensino se arroga e da mesma maneira desvalorizar
a competência, certificada e legitimada pela
instituição universitária, dos agentes que, em nome
desta competência, ocupam os escalões mais
elevados da hierarquia institucional. E se vê além
disso a afinidade especial que une a esta
representação da cultura todos os que náo
conseguiram fazer reconhecer e consagrar
escolarmente um capital cultural herdado.
É ainda ao efeito das solidariedades fundadas
nas homologias estruturais entre os ocupantes de
posições dominadas em campos diferentes c
frequentemente associadas à experiência da
desclassificação estrutural que se deve atribuir a
extensão da crise para além do campo universitário
e dos campos diretamente aparentados - sem
esquecer evidentemente a ação própria dos
aparelhos sindicais e políticos, dos quais uma das
funções ordinárias, como burocracias centrais
(nacionais), é precisamente trabalhar para a
generalização controlada dos movimentos locais
(com a ordem de greve geral, por exemplo). Na
verdade, pelo fato de que todo campo tende a se
organizar em torno da oposição entre posições
dominantes e posições dominadas, sempre existe
uma relação sob a qual os agentes de um campo
determinado podem agregar-se ou ser agregados a
agentes que ocupam uma posição homóloga num
outro campo, para afastar no espaço social seja
qual for esta posição e as condições de existencia
que ela oferece a seus ocupantes e, da mesma
maneira, os habitus dos quais são dotados: quer
dizer que todo agente pode se afirmar solidário aos
agentes que ocupam posições homologas em
outros campos, mas com a condição dc fazer como
se a afinidade que o une a eles sob este aspecto
abstrato e parcial também valesse, se não sob
todos os aspectos (o que é praticamente
impossível), ao menos sob um conjunto de
aspectos determinantes, sobretudo do ponto de
vista da probabilidade de se constituir como grupo
mobilizado e socialmente ativo. Mas a homologia
de posição não deve deixar esquecer a diferença
entre os campos, ainda que a história intelectual,
política e artística tenha fornecido muitos exemplos
históricos desta confusão. Conhece-se a
representação que os artistas e os escritores da
primeira metade do século XIX, mais atentos à sua
posição dominada no campo do poder do que à
sua posição dominante no campo social, tinham de
sua relação com os burgueses” na fase mais aguda
de sua luta pela conquista da autonomia do campo
de produção cultural. Mas, de maneira mais geral, o
subcampo de pertencimento (frequentemente
confundido com o espaço de interconhecimento e
de interação) sempre tende a produzir um efeito de
tela: os agentes tendem a perceber a posição que
nele ocupam mais distintamente e, no caso dos
dominados, mais dolorosamente, do que a posição
que ele mesmo ocupa no campo mais vasto onde
se inscreve, mais claramente, de qualquer maneira,
que a posição real deles no espaço global.
A homologia de posiçáo entre os dominados no
campo do poder e os dominados no campo social
tomado em seu conjunto fornece uma resposta
sociológica à questáo da “consciência do exterior”
(como dizia Kautsky), espécie de desvio em
benefício dos dominados de uma parte da energia
social acumulada. E a situação de dominados
(relativos) de segunda potência que e a dos
intelectuais de segunda ordem do ponto de vista
dos critérios específicos do campo intelectual num
momento determinado explica sua inclinação a
dirigir-se para os movimentos reformistas ou
revolucionários e neles introduzir, com frequência,
uma forma de anti-intelectualismo do qual o
jdanovismo” e também
O jdanovismo referc-sc ao pensamento de Andrei- Jdanov. 3“ sccrctario do Partido Comunista soviético

o humor völkisch' dos revolucionários-


e especialista nas questões artísticas c dc propaganda. (N.T.)

conservadores forneceram realizações exemplares.


Compreende-se assim que uma crise própria de um
campo em que a oposição entre dominantes e
dominados reveste- se da forma do acesso desigual
aos atributos da competência cultural legítima
tende a favorecer a eclosão de temas ideológicos
subversivos tais como a denúncia do “mandarinato”
e de todas as formas de autoridade estatutária
fundadas na competência escolarmente garantida,
as quais, a partir da homologia como semelhança
na diferença, portanto do malentendido parcial,
permitem pensar segundo a mesma lógica as crises
próprias de outros campos, divididos segundo
outros princípios. É por isso que, na maioria dos
movimentos revolucionários, os dominados
“relativos” que são os intelectuais e os artistas, ou,
mais precisamente, os intelectuais e os artistas
dominados, tendem a produzir formas de
apreensão, de apreciação e dc expressão que
podem impor-se aos dominados a partir da
homologia de posição.
230
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
De fato, a realidade é mais complexa: algumas
oposições próprias dos profissionais da política ou
do sindicalismo podem na verdade apoiar-se em
oposições homólogas entre os dominados,
principalmente a que sc estabelece entre os
trabalhadores permanentes, mais conscientes e
mais organizados, e os subproletârios,
desmoralizados e desmobilizados. É por isso que os
representantes, dentro do movimento operário, das
tendências cientificistas c autoritárias, ou, se se
quer, tecnocráticas, frequentemente detentores dc
um capital de competência específica (a teoria, a
ciência econômica, o materialismo dialético, etc.),
tendem a se apoiar espontaneamente no
proletariado mais estável c mais integrado,
enquanto os defensores de posições
cspontaneistas, libertarias, muitas vezes menos
ricos em capital cultural e mais ligados as atividades
práticas do caudilho ou do agitador do que as do
pensador, tendem a se fazer dc porta-vozes das
frações mais baixas e menos organizadas dos
dominados, sobretudo do subproletariado.
Pode-se determinar limites a priori ao jogo da
assimilação e da dissinmlaçáo pelo qual
solidariedades mais ou menos fictícias podem se
instaurar entre agentes que têm em comum uma
propriedade estrutural: as alianças que se criam
nesse jogo podem ser mais amplas quando são
O termo völkisch refere-se, esscncialmcntc, à interpretação alemá do movimento populista, com um
enfoque romântico do que seria o folclore. (N.T.)
mais fortemente dependentes da conjuntura
particular que as fez surgir e quando
comprometem menos fortemente os interesses
mais vitais de agentes que parecem entrar nele
somente de maneira parcial e distante, sob seu
aspecto social mais abstrato e mais genérico (por
exemplo como seres humanos submetidos a uma
forma qualquer de dominação ou de violência e à
custa de uma suspensão mais ou menos total dc
tudo o que está associado a condições de
existência particulares). As alianças fundadas em
homologias de posição — por exemplo aquelas
estabelecidas, conjunturalmente, entre agentes que
ocupam posições dominadas no campo
universitário e agentes que ocupam posições
dominadas no campo social tomado em seu
conjunto — são deste tipo: a menos que sc
mantenham no imaginário, como muitos encontros
sonhados entre os intelectuais e o proletariado”,
elas têm mais chances de surgir e dc durar quando
os parceiros que elas reúnem à distância cm torno
de palavras de ordem vagas, de plataformas
abstratas e de programas formais têm menos
oportunidade de entrar em interações diretas, de se
ver e de se falar; na verdade, os encontros põem
face a face não indivíduos abstratos, definidos
somente pela relação de sua posição numa região
determinada do espaço social, mas pessoas totais
de quem todas as práticas, todos os discursos c até
mesmo a simples aparência corporal exprimem
habitus divergentes e, ao menos potencialmente,
antagônicos.
A crise como delator
Ao instaurar um tempo objetivo ou, sc
quisermos, histórico, isto é, transcendente as
durações próprias dos diferentes campos, a
situação de crise geral torna praticamente
contemporâneos, por um tempo mais ou menos
longo, os agentes que, além de sua
contemporaneidade teórica, evoluíam em tempos
sociais mais ou menos completamente separados,
cada campo tendo sua duração e sua história
próprias, com suas datas, seus acontecimentos,
crises ou revoluções, seus ritmos de evolução
específicos. E mais, ela torna contemporâneos de si
mesmos agentes cuja biografia está mais sujeita à
jurisdição de sistemas de periodização quando há
campos com ritmos diferentes dos quais eles
participam. E o mesmo efeito de sincronização que
explica a lógica coletiva da crise, principalmente o
que se percebe como “politização”, explica também
a relação entre as crises individuais e as crises
coletivas que tem seu momento: ao favorecer a
interseção de espaços social s distintos e ao fazcr
corn que na consciência dos agentes se encontrem
praticas e discursos a que a autonomia dos
diferentes campos e o desdobramento na sucessão
das escolhas contraditórias que ela autoriza
asseguraria uma forma prática de compatibilidade,
a crise geral produz conflitos de legitimidade que
muitas vezes dão lugar a discussões últimas; ela
impõe revisões dilacerantes destinadas a restaurar,
ao menos simbolicamente, a
unidade da “condução da vida”.
A sincronização tem como efeito principal obrigar a
introduzir
nas tomadas dc posiçáo uma coerência relativa que
náo é exigida em tempo ordinário, isto é, quando a
autonomia relativa dos espaços e dos tempos
sociais torna possível ocupar sucessivamente
posições distintas e produzir posicionamentos
diferentes ou divergentes, mas conformes em cada
caso com as exigências da posiçáo ocupada: a
propensão as sinceridades sucessivas está inscrita
na pluralidade das posições sociais
(frequentemente ligada à pluralidade das
localizações espaciais) que cresce, sabe-se, quando
a pessoa se eleva na hierarquia social. (Esse e um
dos fundamentos da impressão de “autenticidade”
que buscam os ocupantes das posições dominadas,
socialmente circunscritos a uma posiçáo
profissional única e geralmente definida de maneira
rígida, e portanto pouco dotados das disposições
necessárias para ocupar sucessivamente posições
diferentes, visto que as disposições impostas por
essas condições de existência unitárias encontram
um reforço nas injunções explícitas da ética, que
valoriza as pessoas “direitas”, “quanto a mim, sou
assim”, etc.) Obrigando a organizar todos os
posicionamentos em referência à posiçáo ocupada
num campo determinado e somente a ela, a crise
tende a substituir a divisão em campos claramente
distintos (segundo a lógica da guerra civil) pela
distribuição continua entre dois polos e por todos
os pertencimentos múltiplos, parcialmente
contraditórios, que a separação dos espaços e
tempos permite conciliar. Além disso, impondo se
distinguir em todas as coisas a partir de um
princípio de escolha único e excluindo assim as
evasivas c os subterfúgios associados à pluralidade
dos quadros de referência, ela age como um
delator e desencoraja ou impede as concessões
mais frequentemente tácitas que explícitas (“deixa-
se falar”, “faz-se vista grossa), os
compromissos, as acomodações e até mesmo as
transações e arranjos que tornam a coexistência
tolerável; forçando a escolher e a proclamar sua
escolha, multiplicando as situações em que náo
escolher é também uma maneira de escolher, ela se
distingue na fluidez das relações mais ou menos
conscientemente mantida para com e contra todos
os fatores dc fissão. Os sentimentos e os
julgamentos reprimidos surgem aos olhos de todos
c se poderia empregar, para descrever os efeitos da
sincronização e da alternativa inevitável que ela
impõe, a palavra de Lanson a propósito do caso
Dreyfus (sublinhando ao mesmo tempo a validade
geral da análise proposta): “Cada grupo, cada
indivíduo mostra, sc eu posso dizer, o fundo de seu
saco e sua tendência interior”.**
Esse efeito reduplica-se, no caso de uma crise de
característica simbólica, pelo questionamento
global, que avoca uma resposta sistemática,
determinada pelo aparecimento num setor do
universo de atos e discursos paradoxais,
discrediting events, como diz Goffman, de natureza
a abalar a doxa sobre a qual repousa a ordem
ordinária: são as situações extraordinárias cujo
paradigma é sem dúvida a “assembleia geral” que
põem em cena, nos próprios locais universitários, e
às vezes na presença dos professores, a inversão
simbólica da relação pedagógica ordinária (como,
por exemplo, tratar por “tu” os professores de mais
idade) e a transgressão prática ou explícita dos
pressupostos objetivados c sobretudo incorporados
dessa relação; são os atores extraordinários que
essas situações revelam, estudantes bruscamente
saídos do anonimato, sindicalistas obscuros,
conhccidos somente dos iniciados, de repente
promovidos à condição de tribunos políticos e até
mesmo de líderes revolucionários, etc.; são enfim
todos os questionamentos dramáticos ou
teatralizados das crenças e das representações que
os agentes ordinários formam do mundo ordinário,
tais como as deposições e as destituições
simbólicas das autoridades universitárias e as
destruições simbólicas dos símbolos dos poderes
econômicos (a Bolsa), culturais (o Odéon ou o hotel
Massa) ou, ao contrário, todas as formas de
negação mágica das relações sociais reais, com as
diferentes cerimônias de fratemizaçáo simbólica.
É claro que os discursos e as manifestações
críticas não podem romper a relação dóxica com o
mundo social que é o resultado da
" Lanson, Histoire de la littérature française. Paris, 1902,7. ed., p. 1091, citado por A. Compagnon, la Troisième
République des lettres, de Flaubert à Proust, Paris, Seuil, 1983, p. 71.
correspondência entre as estruturas objetivas e as
estruturas incorporadas que por isso encontram, na
objetividade, o estado crítico próprio para
denunciar, por sua lógica própria, as antecipações c
as expectativas pré-perceptivas que fundamentam
a continuidade sem história das percepções e das
ações do senso comum. Se a crise tem uma parcela
ligada à crítica é porque introduz na duração uma
ruptura, porque põe em suspenso a ordem
ordinária das sucessões e a experiência ordinária do
tempo como presença num futuro já presente; ao
abalar na realidade ou na representação a estrutura
das oportunidades objetivas (de benefício, dc
sucesso social, etc.) à qual está espontaneamente
ajustada a conduta reputada razoável e que faz da
ordem social um mundo com o qual sc pode
contar, isto é, previsível e calculável, ela tende a
frustrar o sentido dc colocação, sense of ones
place e sentido do bom investimento, que é
inseparavelmente um sentido das realidades e das
possibilidades que sc dizem razoáveis. Esse é o
momento crítico em que, em ruptura com a
experiência ordinária do tempo como simples
recondução do passado ou de um futuro inscrito
no passado, tudo se torna possível (ao menos na
aparência), em que os futuros parecem
verdadeiramente contingentes, os futuros
realmente indeterminados, o instante
verdadeiramente instantâneo, suspenso, sem
sequência previsível ou prescrita.
234
Homo academicus | Pierre Bourdieu
A crise faz aparecer retrospectivamente o campo
(neste caso, o campo universitário) na sua verdade
objetiva de sistema de regularidades objetivas, mais
ou menos (muito pouco, neste caso) convertidas
em regras ou regulamentos explícitos, com os quais
cada agente pode e deve contar para organizar
seus investimentos; as possibilidades objetivamente
inscritas nesse mundo sáo, essencialmente,
atribuídas com antecedência, e o capital (objetivado
ou incorporado) confere direitos de preempção
sobre as possibilidades, posições suscetíveis de
serem ocupadas, poderes ou privilégios suscetíveis
de serem obtidos. É esta estrutura temporal do
campo, manifestada em carreiras, trajetórias, cursus
honorum, que se encontra abalada: a incerteza
concernente ao futuro que a crise institui na própria
objetividade faz com que cada um possa crer que
os processos de reprodução estão suspensos por
um momento e que todos os futuros são possíveis
e para todos.
É evidente que a indeterminaçào provisória dos
possíveis é diferentemente percebida e apreciada.
Ela cria esperanças mais ou menos
malucas em alguns, sobretudo em todos os que
ocupam posições intermediárias nos diferentes
campos, pretendentes inclinados a projetar, na
ordem antiga em que continuam a reconhecer
intimamente, as aspirações novas que ela excluía e
que seu questionamento toma possíveis. Para os
que ao contrário têm ligaçáo com a ordem
estabelecida e com sua reprodução, portanto com
o futuro “normal” desta economia na qual tudo
investiram, e desde sempre, o surgimento da
descontinuidade objetiva, que manifestam
brutalmente na imaginação algumas cenas
exemplares, feitas exatamente para atestar que
“tudo é possível” num mundo às avessas -
professores reduzidos a ouvir os alunos, Cohn-
Bendit entrevistado por Sartre, etc. - ganha ares
àtfim do mundo: as reações dos mestres mais
completamente identificados com esse mundo
social que, por estar há muito tempo inscrito no
tempo cíclico da reprodução simples, se
assemelhava às sociedades tradicionais, evocam o
desespero e o assombro dos mais antigos dessas
sociedades diante da irrupção de modos de vida e
de pensamento antagônicos à própria axiomática
de sua existência.
Tal como os velhos camponeses da Cabília
falando das maneiras de cultivar heréticas dos
jovens, eles náo podem senão expressar sua
estupefação, sua incredulidade diante do incrível,
do mundo revolto, desmentido dc sua crença mais
íntima, dc tudo o que é considerado muito
importante: “Hm compensação, mas como dizê-lo?
Isso c verdade? Isso náo é uma mentira ou uma
calúnia? Disseram-me que professores nessas
últimas semanas chegaram náo apenas a sc recusar
a aplicar as provas - o que em si é defensável - mas
a boicotá-las, avaliando-as deliberadamente dc
maneira incorreta. Disseram-mc, mas não consigo
acreditar. Professores que fizessem isso náo seriam
mais professores. Eles acabariam sem nenhuma
dúvida nos desconsiderando. Mas, sobretudo, eles
arruinariam os valores sobre os quais repousa
nossa vida profissional e cujo princípio exige que
nenhuma falta nisso seja possível (J. dc Romilly,
Nous autres professeurs. Paris, Fayard, 1969, p. 20).
... Os jornais e a rádio não pararam dc dizer durante
a crise dc maio c junho que os estudantes e os
professores diziam ou feziam isso ou aquilo. E
verdade que professores no sentido estrito do
termo se manifestaram do lado dos estudantes por
horror visceral à polícia, mas na imensa maioria dos
casos os universitários que se associaram aos
estudantes revolucionários para a conquista dc
objetivos precisos eram assistentes ou mestres-
assistentes. O público, que náo estava informado
sobre isso, se perguntava com espanto durante a
crise c continua a se perguntar como seria possível
que os ‘professores participassem com fúria em
manifestações dirigidas contra os professores’” (F.
Robert, Un mandarin prend la parole, Paris, PUF,
1970, p. 48)- De fato, esses professores que fizeram
a investida levaram muito tempo para sair do
“estupor” em que os havia jogado a “irrupção dos
bárbaros, inconscientes de sua barbárie” (R. Aron,
La révolution introuvable. Paris, Fayard, 1968, p.
13). Tendo que defender o inatacável, um universo
sem obrigações nem sanções explícitas fundado no
“consenso espontâneo e na “adesáo a evidencias”
(cf. R. Aron, op. cit., p. 13, 45> 5<>)> eles náo
tinham, para falar propriamente, argumentos. Alem
disso, pode- se e deve-se argumentar para
defender o que se mostra por si? Assim, cies náo
apenas relatam sua atividade de professor, como se
a descrição (maravilhada) de sua prática
circunscrevesse a prova evidente de sua excelência:
“Que um ensino digno desse nome implica a
objetividade intelectual e, em seguida, uma estrita
neutralidade política no exercício de nosso ofício é
uma evidência que precisaria ser lembrada” (J. de
Romilly, op. cit., p. 14)- O ensino é evocado numa
linguagem quase religiosa: a hora da aula é um
instante de graça, um momento de comunhão
intensa com os alunos; e o louvor à profissão se
realiza numa profissão de fé e de amor: “Eu sou dos
que amam seu trabalho (p. 9). “Eu tinha orgulho do
meu trabalho c tenho ainda (p. 8). Eu conheci a
alegria de ensinar; também conheci as virtudes
universitárias, no copo das quais está a probidade,
uma probidade frequentemente impulsionada até o
escrúpulo. Eles me divertem, os alunos ou os
estudantes que querem controlar os exames. Se
eles soubessem! (p. 15)-
Ao contrário, é claro que os professores estão
mais inclinados a se projetar nos possíveis
indeterminados quando lhes oferecem os
disrupting events, a atirar seus fantasmas, graças
ao aumento das censuras, sobre a página branca do
futuro assim oferecido, quando estão menos
ligados objetivamente e subjetivamente, no seu
presente e no seu futuro, ao estado antigo do
sistema e às garantias estatutárias de sua
competência específica, quando estão menos
investidos nele e quando têm menos a esperar de
retorno. Os habitus e os interesses associados a
uma trajetória e a uma posiçáo no espaço
universitário (faculdade, disciplina, trajetória
escolar, trajetória social) estão no princípio da
percepção e da apreciação
dos acontecimentos críticos e, desse modo, da
mediação através da quai os efeitos desses
acontecimentos se efetuam nas práticas.
Ao efeito da provocação simbólica que, fazendo
surgir o insólito ou o impensável, quebra a adesão
imediata à evidência da ordem instituída,
acrescenta-se o efeito de todas as técnicas sociais
de contestação ou de subversão, quer se trate das
manifestações como transgressões coletivas, da
ocupação de espaços reservados e do desvio para
fins inabituais dc objetos, ou de lugares sociais cuja
definição social se encontra suspensa, teatros,
anfiteatros, ateliês, fábricas, etc., ou enfim, com a
greve local ou geral, a suspensão das atividades
que estruturam a existência ordinária. A ruptura dos
ritmos temporais que determina a greve não tem
como resultado unicamente produzir tempo livre,
feriado, dia festivo; assim como os feriados
reproduzem o efeito de sincronização produzido
pelo efeito histórico que eles comemoram, a greve
manifesta e amplia o efeito de sincronização da
crise; ao substituir os tempos da existência
ordinária, tempos múltiplos, especificados segundo
os campos e preenchidos por todas as atividades
inscritas nos calendários particulares, por um tempo
vago e quase vazio, comum aos diferentes campos
e aos diferentes grupos, que, como o tempo da
festa na descrição durkheimiana, é definido pela
inversão da temporalidade ordinária, a greve
materializa e duplica, pelo efeito simbólico da
manifestação, todos os efeitos próprios da crise.
O efeito de sincronização age aqui a todo o
vapor: o tempo se torna um tempo público,
idêntico para todos, medido a partir das mesmas
referências, das mesmas presenças, as quais,
impondo-se a todos simultaneamente, impõem a
todos a presença no mesmo presente. Além disso,
assim como na festa cada um sente suas
disposições festivas reforçadas pelo espetáculo que
os outros lhe dão de sua alegria, também aqui cada
um sente a revelação de si mesmo, desse modo
reforçado, ou legitimado, 110 seu mal-estar ou
revolta, pelo fato de ver e ouvir se exprimir a
revolta ou o mal-estar dos outros (o que às vezes
dá aos debates ares dc psicodrama ou de
logotcrapia). Resulta que a coincidência nunca é
perfeita e que, atrás da aparência de
homogeneidade que se retira do discurso dos
porta-vozes, dissimula-se a diversidade das
experiências e das expressões. É por isso que, por
exemplo, quando o mal-estar dos estudantes e dos
mestres oriundos das categorias sociais até então
pouco representadas nas instituições de ensino
secundário c sobretudo superior veio a se exprimir,
em virtude da crise, e sobretudo nas regiões do
espaço escolar onde essas categorias são mais
representadas, como as pequenas universidades
provinciais, pôde-se ver que o questionamento que
ele abrangia, ainda que aparentemente menos
radical e universal que o da vanguarda parisiense,
mais inclinada as fraternizações simbólicas e ao
verbalismo revolucionário, sc orientava sem dúvida
mais diretamente para o imenso soclo de silêncio
que está no fundamento da instituição
universitária.2' Mas o movimento desencadeado
pela revolta nobiliária dos estudantes de origem
burguesa tinha pouca chance de explicitar tudo o
que escondia, na fase de equilíbrio, a cumplicidade
imediata entre os agentes e os pressupostos tácitos
da instituição, resultado da seleção
inseparavelmente social e escolar de indivíduos que
possuem disposições isomorfas às posições
constitutivas do espaço universitário. Na verdade,
os diferentes porta-vozes representantes do
movimento estudantil ou dos sindicatos de
professores (ou outros) não estavam muito
predispostos a exprimir um mal-estar que não tinha
nome na fraseologia dos aparelhos políticos c
sindicais, pouco preparados para perceber e para
enunciar a dimensão propriamente cultural da
dominação. Quanto ao discurso espontaneísta dos
dirigentes surgidos do movimento de contestação,
ele encontra com frequência seu princípio - como
dizem slogans do tipo “A Sorbonne para os
operários!” ou “Os operários na Sorbonne!” - na
denegação mágica dos fatores determinantes desse
mal-estar.
No caso do sindicato dc professores dominante,
o SNESup, a corrente que sem dúvida está mais
próxima dos novos entrantes e dos “intrusos” pela
sua base social é também a mais diretamente
inspirada ou controlada por aparelhos quase
totalmente desprovidos de reflexão livre e original
sobre o sistema de ensino. A tendência
“esquerdista que esteve na direção do sindicato de
1966 a 1969 e que, através dc Alain Geismar, então
secretário-geral, cxerccu um papel importante no
movimento dc Maio, propõe uma contestação
global da cultura veiculada pelo sistema escolar,
das relações hierárquicas (entre orientadores e
assistentes, entre professores c estudantes)
pensadas a partir do modelo das relações dc classe
como relações de opressores a oprimidos”, c
considera o sindicato como um órgáo de “combate
contra o sistema capitalista na sua instituição
universitária”. A tendência oposta, que toma a
direção do sindicato durante o congresso
extraordinário de março de 1969 (cf. F. Gaussen,
L’opposition proche du PC renverse la direction
“gauchiste” du SNESup, Le Monde* 18 de março de
1969) e que é dominada por militantes do Partido
comunista, entende se concentrar nas tarefas
propriamente sindicais e orienta o essencial de suas
reivindicações para os “meios materiais”, a reforma
das carreiras dos professores, a democratização do
acesso ao ensino superior, as possibilidades de
intervenção nos conselhos de unidade de ensino e
de pesquisa . A ausência quase total de análise do
funcionamento c das funções específicas do ensino,
o silêncio absoluto, justificado pela preocupação
em “preservar as aquisições”, sobre as contradições
maiores — entre as condições da qualidade
científica dos professores e do ensino e as
condições da democratização, por exemplo - fazem
com que esse programa tenda a utilizar o
imperativo da “democratização do acesso ao ensino
superior’, slogan vago e vazio, como ideologia
justificadora das reivindicações corporativas dos
professores subalternos que constituem a base
social do SNESup. Isso graças a um amálgama,
favorecido pela denúncia “esquerdista” dos
“mandarins” e dos conservadores”, entre as
hierarquias universitárias - que nunca estáo
completamente desprovidas de fundamento
científico ou técnico - e as hierarquias sociais, entre
a “democratização” da população do alunado e o
nivelamento da populaçáo dos professores.
Opiniões publicadas
Ao multiplicar as ocasiões propriamente
políticas, manifestações, assembleias, meetings, etc.,
onde se elaboram e se professam publicamente c
coletivamente posicionamentos políticos, moções,
petições, plataformas, manifestos, programas, etc.,
a crise leva à constituição de uma problemática
política comum, de um espaço dos
posicionamentos constituídos, isto é, explicitamente
postos e notoriamente ligados a agentes e a
grupos socialmente situados, sindicatos, partidos,
movimentos, associações, etc.;* desde então, quer
se queira ou não, quer se saiba
A manifestação do espaço de opiniões leva à sua intensidade máxima o efeito que produz a niquele dc opiniáo
quando, por meio de técnicas tão inocentes na aparência quanto na apresentação
ou náo, náo se pode mais evitar se situar ou ser
situado no espaço das posições possíveis.
Acabaram-se a ingenuidade e a inocência políticas.1
Concretamente, por meio de todas as ocasiões que
obrigam a pessoa a se declarar ou a se trair
publicamente, isto é, a “escolher seu campo”, de
bom ou mau grado, cujo limite é representado por
essas espécies de confissões públicas, livres ou
forçadas, que provocaram tantas intervenções nas
assembleias de 1968, enfim, pelo desvelamento
generalizado das opiniões políticas que ela
favorece, a crise política obriga cada agente
(impulsionado também nesse sentido por todos os
efeitos já analisados) a engendrar o conjunto de
suas escolhas a partir de um princípio propriamente
político e a aplicar esse mesmo princípio na
percepção e na apreciação das escolhas dos outros
agentes.* Ela tende igualmente a introduzir
separações definitivas entre pessoas que se
harmonizavam até então porque deixavam de lado,
ou no estado implícito, por uma espécie dc acordo
tácito, as diferenças que podiam separá-las,
sobretudo em matéria de política. O que se chama
de “politizaçáo” designa o processo ao final do qual
o princípio dc visão c de divisão política tende a se
sobrepor a todos os outros, aproximando pessoas
muito distantes segundo os antigos critérios e
distanciando pessoas totalmente próximas nos
julgamentos e nas escolhas da existência anterior: a
exaltação emocional suscitada pela “revolta dos
mestres-assistentes’ pôde assim levar alguns
“universitários eminentes” a reunir, no espaço de
uma petição e às vezes duradouramente,
“professores ordinários” pelos quais havia até então
apenas desprezo;29 enquanto que aproximações,
destinadas
dc uma escala dc opiniões ou de um conjunto dc respostas pre-formadas a uma questão determinada, impõe

17
uma problemática explícita, isto é, um espaço de posicionamentos constituídos.
Esta situação c, permanentemente, a dos homens políticos (ou, cm menor grau, dos intelectuais).
homens públicos incessantemente condenados à opinião publicada, pública , aííxada,
portanto instados a alinhar todas as suas opiniões e práticas à sua posição declarada no espaço político c a
reprimir no intimo as opiniões intimas próprias a contradizer as tomadas dc posiçáo oficialmente
ligadas à posiçáo c ao grupo que elas exprimem - o que implica uma linguagem fortemente censurada c
eufemizada. a Uma das consequências dessas análises é explicitar a ingenuidade da questão da opinião
“verdadeira”: a opinião se define cada vez na relação singular entre uma disposição expressiva e uma situação
dc mercado. E sc poderia tentar estabelecer, para cada agente ou classe dc agentes, um perfil politico
correspondente às opiniões que ele pode professar (sobre cada uma das questões politicamente constituídas
no momento considerado) cm função das leis específicas (dc censura, principalmente) do mercado
considerado (a situação dc enquete sendo um desses mercados, situado do lado do polo da oficialidade), bem
como determinar cm função dc quais características do agente varia a distância entre opiniões públicas e
opiniões íntimas.

a
19
Basta, para dar a essas análises toda a sua generalidade, lembrar os propósitos da duquesa dc

aparecer no oucro campo como fra tern izações


Gucrmantes quando destaca que, cm tal salão “táo charmoso outrora”, encontram-se “todas as

contranarureza, rambém se estabeleciam, para alem


das diferenças de grau, de status e de competência
reconhecida, entre os que comungavam do
“espírito de Maio”. A lógica do pensamento
classificatório que tende assim a se impor leva cada
um a se pensar como pessoa coletiva, falando com
toda a autoridade dc um grupo, ao mesmo tempo
que institui cada um dos membros da classe oposta
como responsável pelos feitos e malfeitos do
conjunto do grupo de que participa: tal professor
que, num seminário ocorrido durante as jornadas
de Maio, discute com seus estudantes pensa em si -
ele o dirá nas suas Memórias - como instaurando
uma discussão com os “estudantes0 maoístas” ou
com o “movimento esquerdista”;» c esse grupo de
professores eminentes que, no mesmo momento,
trabalha para preparar os princípios de uma
reforma da Universidade acolhe com a atenção
devida a uma pessoa moral as intervenções de um
estudante de ciências sem mandato que vem de
quando em quando tomar parte de suas
discussões.
Na existência ordinária, o princípio propriamente
político dc escolha não é em um sentido senão a
alternância visível de fatores que, como as
disposições e os interesses, estão ligados à posição
(no espaço social, no campo do poder e no campo
universitário); mas em razão de seu caráter explícito
e diferencial de partido (ou de “tomar partido”),
posição conscientemente afirmada e determinada
negativamente pelo conjunto das posições
diferentes ou opostas, ele permite a aplicação
generalizada e sistemática de critérios
especificamente políticos ao conjunto dos
problemas, e sobretudo aos que atingem
unicamente interesses secundários, marginais (esse
efeito de generalização e de
pessoas que cia passou sua vida evitando, sob o pretexto de elas serem contra Dreyfus, c outras que náo sc
tem ideia dc quem sejam” (M. Proust, A la recherche du temps perdu, II, Paris, Gallimard
(La Pléiade), 1954, p. 238).
E ainda, como cm cada um dos pontos da análise, pode-se invocar Proust: “M. dc Norpois la/.ia essas
perguntas a Bloch com uma vccmcncia que. mesmo intimidando meu camarada, tainbém o lisonjeava; porque
o embaixador tinha ar de quem se dirigia a todo um partido
0 , dc interrogar Bloch
como sc ele tivesse recebido as confidências desse partido c pudesse assumir a responsabilidade pelas
decisões que seriam tomadas. “Sc você náo serenasse, continuou M. de Norpois, sem esperar a resposta
coletiva de Bloch, sc, antes mesmo que sccassc a tinta do decreto que instituiria o proccdimcnto dc
revisáo, obcdcccndo a náo sei qual insidiosa palavra dc ordem, você náo serenasse, mas confirmasse uma
oposiçáo estéril que parece para alguns aultima ratio da política, sc você sc retirasse à sua tenda c
queimasse os seus navios, essa seria a sua grande perda” (M. Proust, op. cit., p. 245-246).
sistematização sendo evidentemente mais “bem-
sucedido49 quando o capital cultural é mais
importante e a inclinação e a aptidão a coerèticia
são maiores, o que coloca os universitários e os
intelectuais, profissionais da coisa, numa posição
privilegiada). É por isso que os mestres- assistentes
que sáo favoráveis à mudança num ponto
fundamental (para eles e também para a
reproduçáo do sistema), a saber, a questão das
carreiras, serão levados pela preocupação em
obedecer ao princípio explícito e objetivado de
suas opiniões políticas constituídas para tomar
posições progressistas sobre problemas,
universitários (como a seleção) ou outros, que náo
tocam diretamente seus interesses.5' E até se pode
compreender nesta lógica os casos, paradoxais,
cujo paradigma é o dos aristocratas do Antigo
Regime convertidos as novas ideias, em que as
imposições formais da coerência se sobrepõem ao
efeito dos interesses focais. Porque náo se passa
das posições sociais aos posicionamentos sobre
questões secundárias senão pela mediação das
opiniões políticas constituídas (o que náo quer
dizer necessariamente afixadas, públicas) é que
esses posicionamentos decorrentes de um princípio
explícito podem ameaçar (de maneira teórica, ao
menos fora dos tempos de crise) os interesses
inscritos na posiçáo. A crise do campo universitário
como revolução específica que questiona
diretamente os interesses associados a uma
posiçáo dominante nesse campo tem por fim
suspender a distância cm relação aos interesses
propriamente universitários que a autonomia
relativa da lógica propriamente política podia
49 No período imediatamente posterior à crise, o grau com que os problemas universitários sc impõem
como problemas políticos, devendo ser colocados c resolvidos a partir dc princípios políticos, cm vez dc
permanecer na ordem do indiscutível, varia segundo as faculdadcs, a ligação entre as opiniões sobre a
Universidade c as opiniões políticas (o que sc chama dc politizaçáo ). rcforçando-sc quando se vai das
faculdadcs de medicina ou dc direito às faculdadcs dc cicncias c de letras (Enquete da AEERS dc 1969).
apresentar: as reações primárias diante da crise têm
claramente por princípio a posição dos professores
no campo universitário, ou, mais precisamente, até
o ponto em que a satisfação presente e futura de
seus interesses específicos depende da conservação
ou da subversão das relações de força constitutivas
do campo universitário. Se esses posicionamentos,
cujos determinantes sociais sáo assim explicitados,
podem surgir como conversões ou negações é
porque, ao mesmo tempo que a ordem
universitária náo é ameaçada, as tomadas de
decisão, principalmente no terreno da política geral,
mas também, embora em limites mais restritos, no
terreno propriamente universitário, podem ter
como princípio náo a posição no campo
universitário mas, sobretudo para os professores
mais próximos do polo “intelectual”, a posiçáo no
campo do poder e no partido político que é
tradicionalmente inscrito, no modo do ser e do
dever-ser, nas posições dominadas desse campo. O
retorno aos interesses primários, inscritos no
campo de pertencimento mais próximo, força a
desistir dos jogos que permitiam os pertencimentos
de níveis diferentes; c muitas tomadas de decisão a
favor ou contra o movimento de Maio são
racionalizações políticas, impostas pelo efeito de
politizaçáo, de reações que náo têm a política como
princípio: a situação da filologia ou da linguistica,
ou mesmo de tal corrente da linguística, se deixa
perceber em compromissos de aparência
puramente políticos - contra o Partido comunista e
os esquerdistas, ou com o Partido comunista e
contra os esquerdistas, assimilados, nesse caso
particular, ao modernismo e, desse modo, à
América ou ao chomskismo — onde sc exprimem
as pulsões e as impulsões, frequentemente
patéticas, de indivíduos ou grupos preocupados em
defender seu ser social.
A ilusão da espontaneidade
O efeito de context awareness que resulta da
percepção global das posições manifestadas (e que
se exerce mais fortemente sobre os agentes
quando a competencia política lhes é mais
fortemente atribuída socialmente) tende sem
dúvida a reduzir a eficácia dos efeitos dc alodoxia
ao tornar menos fluida, menos confusa, portanto
mais legível que na c xistência ordinária, a relação
que se estabelece entre o espaço dos
posicionamentos políticos e o espaço das posições
sociais. Mas é evidente que as diferentes espécies
de opiniões objetivadas, manifestações, slogans,
petições, manifestos, plataformas e programas, que
surgem na situação de crise também estão tão
distanciadas da opinião dita pública obtida por
agregação estatística de opiniões isoladas
(conhece-se a hostilidade dos aparelhos políticos
ou sindicais em relação às consultas .mônimas)
quanto a opinião coletiva que nasceria
espontaneamente d.i dialética espontânea das
opiniões individuais livremente expressas e
confrontadas, na fusão e na efusão do elá
revolucionário. Nem adição mecânica das opiniões
individuais, nem fusão mística das consciências
exaltadas pela efervescência coletiva, a produção
simbólica dos tempos de crise não é diferente em
seu princípio da que se realiza em tempo ordinário,
por meio da troca - frequentemente em sentido
único - entre os profissionais da construção e da
imposição da definição do mundo social e os que
eles presumem exprimir - a não ser que, como se
viu, a ação política de mobilização dos dominados
encontre um reforço na crise e nos efeitos de
“politização” que ela determina. O mito da tomada
de consciência como fundamento do agrupamento
voluntário de um grupo em torno de interesses
comuns conscientemente apreendidos ou, se se
prefere, como coincidência imediata das
consciências individuais do conjunto dos membros
da classe teórica com as leis imanentes da história
que os constituem como grupo ao mesmo tempo
que lhes designam os fins a um só tempo
necessários e livres de sua ação mascara o trabalho
de construção do grupo e da visão coletiva do
mundo que se realiza na construção de instituições
comuns e de uma burocracia dc plenipotenciários
encarregados de representar o grupo potencial dos
agentes unidos por afinidades de habitus e de
interesses, e de fazê-lo existir como força política
na e por esta representação.
Esse trabalho sem dúvida nunca é tão
importante quanto em período de crise, quando o
sentido dc um mundo social mais que nunca
intotalizável vacila; e de fato, os aparelhos políticos
e sobretudo os homens de aparelho, formados
pelas técnicas sociais de manipulação dos grupos
pelo convívio nos aparelhos - tratar-se-ia dos que
fazem quase toda a realidade de tantos grupelhos e
seiras políticas, mais ricos em líderes do que em
militantes -, talvez nunca estejam tao presentes e
sejam tão ativos quanto nessas circunstâncias. Nos
vastos agrupamentos semianônimos dos
momentos críticos, os mecanismos da concorrência
para a expressão c a imposição da opinião legítima
que, à maneira dos mecanismos do mercado, agem,
como diz em algum lugar Engels, “a despeito da
anarquia, na e pela anarquia”, favorecem os
detentores dc técnicas da palavra e dc apropriação
dos lugares da palavra e de técnicas
organizacionais de unanimização e de
monopolização do sentido e da expressão do
sentido (como o voto de mão levantada ou por
aclamação de moções ou petições redigidas por
alguns e muitas vezes pouco inspiradas nas
discussões intermináveis que elas presumem
exprimir, etc.).u Paradoxalmente, o aparecimento de
porta-vozes até então desconhecidos e o desafio
que eles lançaram aos arautos titulados das
grandes organizações políticas e sobretudo
sindicais dissimularam o fato dc que sem dúvida
náo há situação mais favorável aos profissionais da
palavra pública do tipo político do que as situações
de crise que parecem totalmente relegadas à
“espontaneidade das massas”: e de fato, assim
como os profetas do antigo judaísmo
frequentemente eram trânsfugas da casta dos
padres, também a maioria dos líderes surgidos do
“elã popular” tinha na realidade feito suas aulas
políticas em aparelhos diversos, os dos sindicatos
estudantis ou universitários ou os dos partidos,
grupelhos ou seitas “revolucionárias” onde se
adquire uma competência específica, feita
essencialmente dc um conjunto de instrumentos
linguísticos c posturais, de uma retórica ao mesmo
tempo verbal e corporal, que permite tomar e
manter os lugares e os instrumentos
institucionalizados da palavra. Seria preciso poder
evocar o estilo típico do discurso de Maio,
teatralizaçáo populista do discurso “popular”, cujo
relaxamento sintático e articulatório mascara uma
formidável violência retórica, violência débil,
descontraída, mas cativante e lancinante,
especialmente visível nas técnicas de interpelação e
de interrupção, de questionamento c de
intimidação que permitem tomar e manter a
palavra, nas frases bruscas, que cortam rápido
todas as sutilezas analíticas, na repetição obsessiva,
destinada a desestimular a interrupção e a
interrogação, etc.” Esquece-se na verdade que a
tornada da palavra, da qual tanto se falou durante
e após Maio, é sempre uma tomada da palavra dos
outros, ou sobretudo dc seu silêncio, como diziam
tão cruelmcntc esses encontros enue estudantes e
“trabalhadores” em que os porta-vozes dos
primeiros colocavam em cena a palavra e o silêncio
dos segundos: na verdade, ao presidente dc uma
sociedade de agregados quase destituída de sócios
que fala cm nome dc todos os agregados, ao
secretário de um sindicato
" Não sc destacou que a maioria dos “textos de Maio” é anônima ou assinada por siglas que náo pentiitem
situar os autores. As possibilidades dc análise sáo consideravelmente limitadas: é preciso crer cegamente na
eficácia da análise interna para esperar compreender realmente tais escritos, nos quais náo se pode
caracterizar socialmente nem os autores nem sequer as condições sociais de produção e dc rcccpção (dc
aprovação). Isso valeria sem dúvida para muitos escritos produzidos cm condições semelhantes.
" A análise desses habitus duplos, dc ambição ambígua, e denegada, permitiria melhor » ompreender o sucesso
ulterior, na imprensa, nas editoras, nas relações públicas, no marketing, ou mesmo no empreendimento
capitalista, dc muitos líderes de Maio.
que exorta codos os seus associados com palavras
de ordem surgidas unicamente de seu habitus ou
do efeito de transmissão do modelo sonhado pelo
líder revolucionário, ao líder de um dia de uma
assembleia geral que convoca para votar uma
moção revolucionária em favor da abolição dos
diplomas ou uma reforma dos estatutos da
Universidade originária de sua imaginação
corporativa, os indivíduos objetivamente
comprometidos pelo efeito do pertencimento
categorial podem opor somente o silêncio
resignado, as vãs revoltas do protesto serial ou a
fundação sectária de grupos dissidentes, destinados
a desaparecer ou a conhecer por sua vez os efeitos
de desapossamento da delegação.
Acontece que existe uma espécie de
incompatibilidade entre as situações de crise e os
aparelhos, aqueles que, como os partidos de
esquerda ou os sindicatos operários, devem
reproduzir em tempo ordinário alguns dos efeitos
que a crise também produz, mas de maneira
essencialmente descontínua e extraordinária, como
os efeitos de “politizaçáo” e de mobilização. Assim,
a ação de representação que torna percebida a
existência da classe representada deve apoiar-se
nas instituições oficiais, dotadas de permanências
(edifícios, repartições, secretariados, etc.) e de
permanentes que devem cumprir continuamente,
ou numa periodicidade regrada e regular, atos
destinados a manter o estado de mobilização do
grupo representado e do grupo dos representantes
(produção de fôlderes, colagem de cartazes, venda
de jornais, distribuição de cartas, coleta de
cotizações, organização de congressos, festas,
reuniões e meetings, etc.) e que, apoiando-se nos
efeitos de sua ação permanente, podem produzir
crises em ordem tais como manifestações, greves,
paralisação de trabalho, etc. Há aí ao menos a
virtualidade de uma contradição entre as
tendências imanentes da organização permanente,
e dos que estão ligados a ela e à sua reprodução, e
os fins a que se presume que ela sirva: a
automatização de uma organização que se torna
fim em si mesma leva a submeter as funções
externas às funções internas de autorreproduçáo.
Assim se explica que aparelhos que oficialmente
receberam delegação para produzir ou manter os
estados críticos possam faltar a esta função quando
a crise náo é um efeito controlado de sua açáo e
quando ela contém por isso uma ameaça para sua
ordem interna, quando náo para sua própria
existência.
Sem dúvida a situação de crise é mais favorável
que a ordern ordinária a uma subversão do espaço
dos porta-vozes, isto é, do campo político como tal.
Na verdade, por mais poderoso que seja o efeito
das técnicas sociais que tendem a contrariar ou a
enquadrar a improvisação dos não profissionais,
estes, reforçados e apoiados pelo encontro de
disposições afins, podem se aproveitar do aumento
das censuras para contribuir com o efeito sem
dúvida mais importante e mais duradouro da crise:
a revolução simbólica como transformação
profunda dos modos de pensamento e de vida e,
mais precisamente, de toda a dimensão simbólica
da existência cotidiana. Funcionando como uma
espécie de ritual coletivo de ruptura com as rotinas
e apegos ordinários destinado a levar à metanoia, à
conversão espiritual, a crise suscita inúmeras
conversões simultâneas, que se reforçam e se
sustentam mutuamente; ela transforma o olhar que
os agentes têm habitualmente sobre a simbólica
das relações sociais, e principalmente das
hierarquias, fazendo ressurgir a dimensão política,
altamente reprimida, das práticas simbólicas mais
ordinárias: fórmulas de etiqueta, gestos de
precedência em uso nas classes sociais, a idade ou
o sexo, atitudes cosméticas e indumentárias, etc. E
somente as técnicas do Bildungsroman poderiam
permitir ver como a crise coletiva e crises pessoais
se servem mutuamente de quando em vez, como a
revisão política é acompanhada por uma
regeneração da pessoa, atestada pelas mudanças
da simbólica indumentária e cosmética que selam o
er.gajamento total numa visão ético-política do
mundo social, instituída como princípio de toda a
conduta da vida, tanto privada quanto pública.
Homo academicus | Pierre Bourdieu
210
Anexo i
As fontes utilizadas
I. Indicadores demográficos e indicadores de capital econômico e
social herdado ou adquirido
As informações sobre a idade, o lugar de
nascimento, o estado civil, o número de filhos, o
lugar de residência, a categoria socioprofissional do
pai e as condecorações foram coletadas pelo exame
minucioso e sistemático dos Annales de l'université
de Paris, revista trimestral publicada pela Sorbonne
até dezembro de 1968, a qual apresenta um
curriculum vitae detalhado de cada um dos
professores universitários nomeados cm Paris, uma
lista de suas publicações e trabalhos no curso,
relatórios de missões no estrangeiro, informações
sobre as distinções francesas ou estrangeiras que
obtiveram, ao mesmo tempo que uma “crônica”
contendo indicações preciosas sobre a “vida
universitária”, os contatos com a alta administração
e as cerimônias universitárias. (Foram encontradas
algumas informações úteis no arquivo biográfico da
biblioteca da Cidade de Paris.) Também se
examinou o Who’s who in France 1970 (e,
eventualmente, dos anos anteriores); diferentes
dicionários biográficos, como o International Who’s
ivho 1971-1973, o Nouveau dictionnaire national
des contemporains 1962, o Dictionary of
International Biography 1971, e Africanistes
spécialistes des sciences sociales 1963. (Não há
necessidade de dizer que a reunião dessas fontes é
cm si uma pesquisa longa e difícil c que algumas
delas, muitas vezes as mais preciosas, como os
Annales de l’université de Paris, foram descobertas
somente no final.) Mas se recorreu principalmente,
para precisar e controlar as informações publicadas,
aos dados fornecidos por enquetes administrativas
(respondendo ao esforço especialmente em relação
aos
professores de lerras e de ciências, que cram os
menos representados nas outras fontes). Entre
todas essas fontes complementares, as mais
preciosas foram sem nenhuma dúvida a Enquete
sobre os cientistas c sobretudo a Enquete sobre os
pesquisadores de letras, ciências sociais, ciência
econômica, ciência política e história do direito,
empreendidas com nossa colaboração em 1963-
1964 e 1967-1968 pelo Serviço de trocas e de
informações científicas da Maison das ciências do
homem, visando a elaboração de um anuário dos
pesquisadores: se, apesar de uma taxa de resposta
muito elevada, 80% no conjunto, ela sofre dos
defeitos inerentes a toda enquete por
correspondência, esta enquete tem o duplo mérito
de fornecer uma informação muito completa,
principalmente sobre a carreira universitária e as
publicações, e também sobre a origem social, para o
conjunto do corpo docente - com taxas de
representação que no entanto decrescem segundo
a posiçáo na hierarquia. Procuraram- se também
algumas informações nas respostas à consulta
nacional da Associação de estudos para a expansão
da pesquisa científica de 1969; na enquete junto à
Associação dos escritores cientistas da França de
1968 e junto aos escritores do Pen-club de 1973.
Outra fonte extremamente preciosa foram as
notícias necrológicas publicadas depois de 1970 nos
anuários de antigos alunos das grandes escolas e
em diversas revistas profissionais: examinou-se
assim o Annuaire de IAssociation amicale des
anciens élèves de l'École normale supérieure, dc
1970 a 1980; a Revue des études latines, de 1970 a
1980; o Bulletin de l'association Guillaume Budé, de
1970 a 1980; a Revue d'études grecques, dc 1970 a
1980; a Revue d'études italiennes, de 1970 a 1980;
e também os relatórios das seções da Académie
des inscriptions et belles lettres, dc 1970 a 1980.
Foram consultados enfim os dossiês especiais que o
jornal Le Monde detém sobre as personalidades
mais marcantes.
250
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Como último recurso, quando a informação não
podia ser recolhida nem por esses meios nem junto
a informantes seguros, procedeu-se a algumas
enquetes complementares junto aos próprios
interessados, seja por entrevista aprofundada no
domicílio, seja por telefone. A confrontação dessas
fontes múltiplas permitiu com frequência afinar, ou
mesmo corrigir, uma ou outra das informações que
os dicionários biográficos apresentavam no entanto
como certas. Assim por exemplo tal professor cujo
pai era, segundo o Who's who, “vinicultor”, era na
realidade “proprietário vinicultor, licenciado cm
direito”; o pai de tal outro, declarado “professor”,
era “professor primário, titular do brevê superior”; o
pai de tal ou tal outro não era “negociante” ou
“funcionário”, mas “representante de uma sociedade
de comércio de têxtil” ou “fiscal dos PTT”.' Noutro
caso se apreendeu pela interrogação direta que um
“agente dc negócios”, primeiramente classificado
entre os grandes negociantes, era na realidade um
pequeno notário público que se instalou por conta
própria como conselheiro dos negócios de
particulares. De maneira geral, os artigos dos
dicionários biográficos, que os interessados
preenchem, ou ao menos controlam, apresentam
um viés sistemático no sentido da indeterminação
máxima (os redatores do Who’s ivho dizem que é
preciso insistir para conseguir que uma resposta
seja dada e que eles muitas vezes propõem acertos
eufemísticos do gênero de “funcionário”). Esta
estratégia que, salvo em alguns casos particulares
de filiação ostentatória, parece muito comum, tende
a minimizar as diferenças sociais (portanto o peso
da origem social na análise). Além da recusa
ordinária a ser classificado que se exprime na
pesquisa da classe mais abrangente c mais vaga, a
preocupação em fabricar sua própria imagem,
modificando eventualmente a imagem de sua
origem, portanto de sua trajetória e de seus méritos,
leva segundo o caso a se dar um ponto de partida
mais ou menos elevado do que na realidade é
(pensou-se por um momento em codificar os casos
diversos c sua orientação para tentar determinar a
lógica). Tudo isso fez surgir problemas
extremamente difíceis em termos de codificação:
além do lato dc que um código rigoroso só poderia
ser estabelecido tendo por base um conhecimento
rigoroso e completo do que era a estrutura das
profissões para a geraçao dos pais de professores
que se distribuem em duas gerações (no sentido
biológico), a informação disponível é muito
desigual, de maneira que os códigos retidos correm
sempre o risco de ser muito apurados para os casos
menos documentados (o que leva a uma
sobrecodificação - no caso, por exemplo, em que se
tenta distinguir categorias de engenheiros ou de
comerciantes) ou muito grosseiros para os casos
mais documentados (o que leva a uma
subcodificação e a uma perda de informação).
No que concerne à religião, classificou-se como
judeus ou protestantes, religiões minoritárias, o
conjunto dos membros de
1
Correios, telégrafos e telefones (atual TELECOM). (N.T.)
origem (sem levar em conta a intensidade da
prática) enquanto paru os católicos, religião
majoritária, distinguiam-se os católicos notórios,
designados por seu pertencimento a órgãos ligados
à Igreja c recenseados no Annuaire Catholique de
France 1967 (e dos quais se recolheu alhures a
composição; cf. P. Bourdieu c M. de Saint-Martin, La
sainte Famille. L’Épiscopat français dans le champ du
pouvoir, Actes de la recherche en sciences sociales,
44-45, nov. 1982, p. 2-53) ou sua participação cm
atividades ou órgãos (revistas, associações, etc.) de
obediência católica declarada (como o Centro
católico dos intelectuais franceses). Para os judeus,
apoiou-se no Guide juif de France 1971 e, assim
como para os protestantes, consultaram-se
informantes competentes (pastores, rabinos,
responsáveis por associações religiosas, etc.).
Também foi consultado o Annuaire Châteaudun
sobre os movimentos confessionais. Ainda que sc
tenha feito tudo para tentar minimizar os riscos de
erro (principalmente tendo como certa somente a
informação confirmada por várias pessoas), não se
pode estar totalmente seguro dc tê-lo conseguido.
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
2. Indicadores do capital cultural, herdado ou adquirido
252
As fontes de informações biográficas já
mencionadas acima (dicionários bibliográficos,
enquetes complementares, notícias necrológicas,
informantes, entrevistados) revelaram, sobre os
estudos realizados no ciclo secundário (tipo de
estabelecimento frequentado, público ou privado,
parisiense ou provincial) c no ensino superior (em
Paris ou na província, parcialmente no estrangeiro
ou não, em universidade ou em grande escola),
informações que muitas vezes foi necessário
precisar, devido por exemplo à confusão frequente
entre o estabelecimento frequentado para os
estudos secundários e o estabelecimento de
preparação às grandes escolas. Além disso, foram
consultadas, para precisar o pertencimento a uma
grande escola, as listas de antigos alunos publicadas
pelos anuários das grandes escolas (o Annuaire de
l’association amicale des anciens élèves de L’École
normale supérieure d’Ulm, o Annuaire par
promotions de L’École normale supérieure de
Sèvres, o Annuaire de l’association des anciens
élèves de L’École normale supérieure de Saint-
Cloudy o Annuaire de l’Association amicale des
anciens élèves de L’École normale supérieure de
Fontenay-aux-Roses, o Annuaire des ändern de
Sciences-po, o Annuaire des Ponts et Chaussées,
HEC Annuaire oficiei, Anciens élèves de lËcole
dadministration. Société amicale des anciens
élèves de L'École polytechnique, o Annuaire des
Mines, o Annuaire de IAssociation des anciens
élèves de l'École centrale des arts et manufactures).
A passagem por uma grande escola rem valores
muito desiguais segundo as diferentes faculdades:
se a passagem pela Escola normal superior, por
exemplo, tem um peso muito importante dentro das
faculdades de letras, significa outra coisa nas
faculdades de ciências, onde a Escola normal
superior concorre com outras grandes escolas,
como a Escola politécnica, a Escola de minas ou a
Escola central; é quase desprovido de significado
nas faculdades de direito, onde predomina a
passagem pelo Instituto de estudos políticos, mais
banal, e pela Escola nacional de administração, mais
rara todavia que a passagem pela Escola normal
superior de letras. Enfim, ela não significa nada nas
faculdades de medicina.
Também pareceu necessário examinar um
critério de sucesso escolar mais uniformemente
significativo, a nomeação ao Concurso geral. Teria
sem dúvida sido mais conveniente poder referenciar
os professores que foram apresentados ao
Concurso geral numa ou várias matérias durante
suas classes de primeira ou de terminal,50 mas, na
falta dc uma lista exaustiva dos candidatos, só se

50 orresponde ao terceiro ano do ensino médio. (N.T.)


pôde registrar os sucessos. Consultou-se para isso o
Anuaire de l'Association des lauréats du Concours
général de 1974, e, como esse anuário recenseava
apenas os membros da Associação (e não o
conjunto dos laureados do Concurso), foram
consultados todos os anos precedentes do Anuário
que se conseguiu reunir, assim como os boletins
periódicos da Associação, para tentar encontrar a
maior parte possível dos sócios temporários. Resulta
que a taxa de laureados no Concurso geral sem
dúvida está subestimada aqui.
Outros critérios, capazes de dar uma indicação
de sucesso ou de precocidade (os dois aspectos
estando muitas vezes estreitamente ligados),
também foram examinados sem terem sido
mantidos. Também é assim com todas as
informações ligadas a algumas grandes provações
que marcam a vida universitária: a agregação e a
tese de Estado para as letras e as ciências, o
doutorado e a agregação para o direito, o internato
e a agregação para a medicina. Levantaram-se para
o conjunto da amostra, graças aos arquivos do
ministério da Educação nacional, os títulos obtidos
(agregado, doutor, interno, etc.), a idade com que
foram obtidos e o ranking de admissão. Mas as
informações recolhidas permanecem incomparáveis
entre as diferentes faculdades. Por exemplo, se, de
uma maneira muito grosseira, pode-se considerar
como equivalentes a tese de Estado dos literatos e
dos cientistas e a agregação dos juristas e dos
médicos, não sc pode contudo, como se seria
tentado a fazer, assimilá-los a ponto de comparar
diretamente as idades com que sáo obtidos esses
diferentes títulos; ou ainda, mesmo quando existe
uma similaridade nas estruturas, como é o caso
entre as faculdades de letras e de ciências, há
efeitos de instituição que explicam que a tese de
Estado é defendida mais cedo em ciências do que
cm letras.
Só se mencionarão de memória as outras pistas
de pesquisa exploradas num momento, depois
abandonadas, para tentar precisar o capital escolar
dos professores da amostra. Assim, o fato de ter
sido aprovado em um duplo bacharelado, ou
cursado uma dupla licenciatura, representa um
indício seguro de sucesso escolar e universitário,
mas náo foi possível estabelecê-lo de maneira
sistemática para o conjunto da amostra. Igualmente,
na outra extremidade da carreira universitária, a
idade de nomeação para a classe excepcional
(escalão E) é um bom indicador do sucesso
profissional, mas ele concerne apenas a um número
limitado de universitários da amostra. Assim, ainda
que a informaçáo neste caso esteja disponível
(diferentemente das informações sobre o duplo
bacharelado ou a dupla licenciatura) e
rigorosamente registrada, resignamo-nos a náo
utilizá-la. Foi preciso portanto desistir, em mais dc
um caso, de codificar e de explorar dados muito
significativos porque estavam disponíveis somente
para uma parcela muito pequena ou muito mal
distribuída da população.
3. Indicadores do capital de poder universitário
O pertencimento ao Comitê consultivo das
universidades foi estabelecido consultando-se o
Annuaire de l'Éducation nationale, 1968 (divisões
das letras, das ciências, das ciências médicas, do
direito c das ciências econômicas) que publica a lista
dos membros eleitos ou nomeados em 1966, o
Mémento SNESup datado de iû de maio de 1971 que
apresenta a lista dos membros do CCU de 1969, enfim Les
universités et la recherche scientifique, dossiê-enquete
do SNESup, Supplément na 60 do Bulletin du SNEPup, de
dezembro de 1975, que apresenta a lista dos membros do CCU
em 1975. Codificou-se o número de aparições.
O exame da composição do Conselho superior
da educação nacional e do Conselho do ensino
superior levou-nos a afastar esses indicadores. No
primeiro caso, na verdade, entre os 106 membros
do Conselho superior da Educação nacional,
segundo o Annuaire de l'Éducation nacionale 1968,
apenas 16 estavam ligados ao ensino superior (dos
quais somente sete no conjunto das faculdades
parisienses); no segundo caso, mais da metade dos
63 membros do Conselho do ensino superior
figuram nesse conselho seja a título de membros
representantes da administração (n = 19), seja a
título de representantes de associações e dc
organizações diversas, como a Comissão
interministerial dos estudos médicos ou a Federação
nacional das associações de alunos das grandes
escolas (n = 13); a parcela dos professores
parisienses entre os membros eleitos (n = 31) é
muito pequena.
Podendo o poder universitário se exercer
também nos limites das diferentes instituições
universitárias, levantaram-se, no Annuaire de
l'Éducation nacionale 1968 c nos Annales de
l'université de Paris, os professores que tinham
exercido funções de responsabilidade na sua
instituição, quer tenham sido, num momento ou
noutro, membro do Conselho da universidade de
Paris, decano, vice-decano, assessor de faculdade,
diretor de instituto de faculdade ou dc universidade,
diretor de colégio científico universitário, de colégio
literário universitário ou de colégio universitário de
direito e de ciências econômicas, decano de ( !HU,
diretor de IUT, etc., quer tenham sido, num
momento qualquer, diretor dc uma escola como a
Escola das constituições, do Louvre, de Atenas, dc
Roma, de físico-química, de línguas orientais, ou
ainda diretor dc uma Escola normal superior, etc.
O fato de ser membro do Instituto (da Academia
das inscrições C bclas-letras, da Academia das
ciências, ou da Academia das ciências morais c
políticas) ou da Academia nacional de medicina
confere um crédito particular e reforça assim o
poder associado à função. Os membros do Instituto
foram enumerados graças ao Annuaire de l'Institut
de Prance e os membros da Academia nacional de
medicina por meio do Annuaire de l'Éducation
nacionale de 1968. Desistiu-se de codificar o
pertencimento a outras academias e sociedades
eruditas, por náo se poder atribuir sem enquete
preliminar o justo valor a instituições muito diversas
c muito dispersas. Da mesma maneira em relaçáo a
distinções profissionais, informação que se podia
facilmente recolher seguindo por exemplo a rubrica
“Distinções e nomeações” do Courrier du CNRS:
essas distinções têm um valor muito desigual para
que se possa registrá- las pura e simplesmente sem
entrar nos detalhes. Somente os títulos de doutor
honoris causa obtidos em universidades
estrangeiras foram levantados, mas unicamente
para os professores de letras da amostra restrita
que, sendo mais selecionados, tinham mais chances
de figurar nos dicionários biográficos.
Enfim, no caso da enquete unicamente sobre os
professores das faculdades literárias, levantou-se a
participaçáo nas bancas de agregaçáo c do
concurso dc entrada na Escola normal superior da
rua d’Ulm. Consultaram-se também as listas das
bancas dc agregaçáo entre 1959 e
1980 e das bancas de exame ao concurso de
entrada na ENS de 1961 a
1981 (letras). Evidenciou-se naquele momento que
a participaçáo dos professores do ensino superior
nessas bancas vinha diminuindo desde o início dos
anos i960 e que essas posições pareciam ter
perdido um pouco de seu valor. Procurou-se além
disso conhecer a participaçáo dos professores de
letras nos comitês de redaçáo de revistas científicas:
estudou-se assim a composição dos comitês de
redaçáo das revistas de ciências humanas editadas
pelas Imprensas universitárias da França em 1970,
ou seja, 41 revistas, e pela Escola prática dos altos
estudos cm 1969, ou seja, 8 revistas.
4. Indicadores do capital de poder e de prestígio científico
As ligações que unem os professores de ensino
superior ao Centro nacional de pesquisa científica
(CNRS) representam os principais indicadores
retidos para medir seu prestígio científico. A
participaçáo no Diretório e nas diferentes seções do
Comitê nacional de pesquisa científica foi levantada
para os anos 1963,1967 e 1971, consultando-se as
listas dos membros do Diretório e do Comitê
publicadas pelo CNRS. Mediu-se a frequência de
aparição dos mesmos nomes nas três listas
e foram diferenciados os membros das seções
conforme tivessem sido nomeados ou eleitos. Mas
desistiu-se de levar cm conta essas informações na
analise.- o direito e a medicina são na verdade
menos voltados para o CNRS que as letras e
sobretudo as ciências. Do mesmo modo, pôde- se
codificar propriedades que, como a presidência de
comissões ou de bancas, atingem um pequeno
número de professores, além disso já caracterizados
pela multiplicidade dc posições desse tipo que
ocupam A direção de um laboratório do CNRS
pareceu constituir um indicio de prestígio científico
muito mais seguro que a direção de uma equipe de
pesquisa” sem mais precisáo. Na verdade, a direção
de uma equipe pode designar apenas uma
responsabilidade administrativa, ligada
3
,r,l”,Cmp0 dc SerVÍÇa Consult«am-se as plaquetas
publicadas pelo CNRS, Services et Laboratoires
1968, Les formations de recherche 1972 e 1973. e o
Annuaire de l'Éducation nationale 1968. É preciso
todavia náo esquecer que a proporção dc
professores que sáo concomitantemente diretores
de um laboratório é subestimada, e que seria
preciso, com todo o rigor, introduzir os diretores de
laboratório do CNAM, do Museu nacional, do
Colégio de França, etc. Mas isso era abrir escolhas
às quais teria sido impossível garantir a pertinência
e a exaustividade.
Para a medalha do CNRS, examinou-se a lista das
medalhas de ouro, dc prata e de bronze concedidas
pelo CNRS de 1962 a 1972.
A medida da participação nos colóquios
científicos foi obtida pelo exame, para os anos 1969
a 1971, dos anuários publicados pelas diferentes
instituições e que apresentam, com o relatório de
ensino do ano, a atividade científica de cada um dos
professores: congresso conferencias, missóes
científicas e publicações. Tinha-se pensado em levar
em conta o tema dos cursos ou seminários; mas
pareceu difícil delimitar, unicamente pelo título,
classes de ensino indiscutivelmente separadas e
sobretudo qualitativamente neutras.
O ensino numa instituição diferente da
instituição de ligação foi igualmente considerado,
distinguindo-se, entre os ensinos complemen- i.ircs,
o ensino dado em escolas “intelectuais” ou em
escolas “do poder”, or escolas intelectuais” é preciso
entender as escolas normais superiores cs’ Sa*nt-
Cioud, Fontenay) e as escolas como a Escola das
constituições, a Escola do Louvre, a Escola das
línguas orientais, a Escola s belas-artes. As
informações foram extraídas do Annuaire de I
education
nationale 1968 (para a Escola nacional dos
documentos antigos, a Escola nacional das línguas
orientais vivas, as Escolas normais superiores de
Ulm, de Sèvres, de Saint-Cloud e de Fontenay, a
Escola do Louvre, a Escola nacional superior de
belas-artes) e das listas de professores que as
escolas divulgam. Desistiu-se de codificar o número
dc horas de ensino complementares, bom indicador
da orientação para o ensino mais do que para a
pesquisa, por não se ter certeza de apreender em
cada caso a totalidade das horas de cursos dadas.
No que concerne à produção científica, recensear
as obras ou os artigos publicados a partir de fontes
imprecisas c muitas vezes parciais (como os
questionários destinados à constituição de anuários)
não teria muito sentido. Seria preciso examinar a
frequência de publicação, o número de páginas e
sobretudo o editor ou a revista de publicação, a fim
de levar em conta a hierarquia das coleções e das
revistas que varia segundo as disciplinas. Pareceu
preferível examinar o número de obras traduzidas
em língua estrangeira (ainda seria necessário fazer a
distinção entre elas), excluindo os artigos e tendo
por base o catálogo da Library of Congress (de
1942 a 1952) c o National Union Catalog (de 1953 a
1967): levantou-se assim, para cada autor da
amostra, o número de traduções registradas na
Library of Congress, indiferentemente da língua. E
evidente que ao proceder assim foram privilegiadas
as traduções em língua inglesa, desfavorecendo os
autores cujas obras figuram no catálogo da Library
of Congress em sua língua (francesa) de origem (o
que é o caso sobretudo das obras de direito); além
disso, totalizando pura e simplesmente o número
de traduções, contava-se várias vezes uma obra
única que aparecia 110 catálogo com traduções em
línguas diferentes.
O Social Sciences Citation Index, 1970 Annual
permitiu obter um indicador de prestígio científico
igualmente seguro (mas limitado às ciências
humanas), ainda que maculado pelo mesmo viés do
número de traduções. Tinha-se, num estágio
anterior da pesquisa, constituído um indício de
notoriedade no campo intelectual estabelecendo
uma lista dc nomes de intelectuais e de escritores
organizados segundo sua frequência de aparição
nos palmarès publicados ao longo de três anos
(1972 a 1974) pelo L’Express. Mas este método
preservava algo de contestável, pois o palmarès em
questão repousava sobre o sucesso das vendas em
livraria. Tomou-se portanto a decisão de contar para
cada indivíduo da amostra o número de citações
mencionadas no Citation
Index para o ano de 1970. Ainda que o conjunto
selecionado dc revistas internacionais de ciências
sociais sobre o qual repousam essas contagens seja
suficientemente representativo da produção
científica na matéria, ele apresenta sem dúvida
alguns defeitos: primeiramente, as citações em
obras, por exemplo, estão excluídas; em seguida, as
citações levantadas são de ordens muito diferentes,
desde as citações intencionais de interesse científico
até o simples relatório de obras que se pode
imaginar mais rotineiras e talvez complacentes;
enfim, pelo fato de que o recenseamento dessas
citações emana de um instituto americano, o
Institute for Scientific Information de Philadelphie, e
de que o peso das revistas americanas aí
recenseadas é enorme (57,2%), sendo que são
privilegiadas as disciplinas mais voltadas para a
ciência americana, isto é, a sociologia ou a
psicologia mais que a filologia ou a história antiga,
por exemplo, e, em cada disciplina, os professores
mais preocupados com sua difusão nos Estados
Unidos.
Tentou-se também levar em conta as estadias
profissionais no estrangeiro, e mais particularmente
nos Estados Unidos. Por isso, examinou-se a lista
dos bolsistas franceses da Comissão franco-
americana (bolsas Fulbright) de 1960-1961 a 1972-
1973 (professores, pesquisadores, estudantes). Mas
seria necessário, com todo o rigor, introduzir
variáveis secundárias, tais como a duração da
estadia e sobretudo o lugar, pois as universidades
americanas são muito hierarquizadas.
A orientação de tese também é sem dúvida um
dos indicadores mais poderosos c mais seguros do
poder universitário. Foi preciso desistir de levá-lo
em conta, porque não foi possível obter uma
informação homogênea para o conjunto das
disciplinas. Por não termos conseguido acessar o
fichário central das teses - apesar das repetidas
solicitações - tentamos reunir as poucas listas
disponíveis, mas pareceu que elas não existiam para
todas as disciplinas e que eram extremamente
disparatadas. Assim, a lista disponível para a
filosofia (Répertoire raisonné des sujets en cours
de doctorats d'État - lettres et sciences humaines -
incrits en France, l$6$-juillet 1970) refere-se às
inscrições entre 1965 e 1970, impedindo apreender
o capital de inscritos de cada professor - o que
permite supor que ele é mais importante quando o
tempo de serviço na função, portanto a
precocidade, é maior. Em história, as fontes
disponíveis (Liste > /<• thèses d’histoire
contemporaine déposées dans les facultés des
lettres de France métropolitaine, publicada em iü
de outubro de 1966 e estabelecida por pedido da
Associação dos professores de história
contemporânea das faculdades francesas)
recenseiam a totalidade das teses em preparação,
mas não permitem apreender o capital de inscritos,
isto c, a clientela, de cada professor, porque as teses
já defendidas com professores ainda em função
desapareceram. Geralmente, o número de inscritos
é uma medida totalmente imperfeita do capital de
um professor: de um lado, porque a inscrição tem
um sentido completamente diferente para um
estudante francês e para um estudante estrangeiro
que não colocará seu título no mercado francês; de
outro lado, porque seria preciso poder levar em
conta o peso social dos diferentes inscritos e o grau
de “realidade” das diferentes inscrições.
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
5. Indicadores do capital de notoriedade intelectual
O fato de ser publicado numa coleção de livros
de bolso ou de grande divulgação constitui uma
indicação sobre a relação dos professores com o
grande público. Examinou-se assim uma série de
catálogos de editoras que propõem coleções desse
tipo: Armand Colin, Les Belles Lettres, Gallimard
(para a coleção Idées), PUF (para a coleção Que
sais-je?), Seuil (para a coleção Points), Dcnoël (para
a coleção Méditations), Klincksieck.
2ÓO
Mediu-se igualmente a participaçáo em
programas de televisão, outro indicador da relaçáo
com o grande público. Examinou-se a revista Télé-
Sept-Jours durante quatro anos (1969-1970-1971-
1972), distinguindo-se a participaçáo direta num
programa e a participaçáo indireta (como objeto,
por exemplo). Bem entendido, seria preciso poder
introduzir diferenças mais apuradas, sobretudo de
acordo com os programas: o prestígio que traz a
participaçáo num programa médico ou científico é
idêntico ao que proporciona a participação num
debate literário? É evidente que a presença num
programa de televisão náo tem o mesmo status
quando se consulta tal professor de direito sobre
uma reforma eleitoral que acaba de ser introduzida,
portanto sobre uma questão quase técnica, ou
quando se interroga um historiador sobre a
concepção da história.
A publicação de um artigo 110 jornal Le Monde
foi igualmente mantida como indicador de prestígio
intelectual e de abertura para o grande público.
Procedeu-se ao exame do Mundo das Artes, das
Ciências, da Economia, dos Lazeres e dos Livros em
três anos (1968-1970-1971)
e das crônicas “Tribune Libre” e “Libres opinions” do
Le Monde para esses mesmos anos. Para conhecer
a contribuição que os professores da amostra
deram às revistas e aos hebdomadários intelectuais,
foram recenseados os artigos publicados durante
esses três mesmos anos em Les Temps modernes,
Esprit, Critique, La Pensée, La Nouvelle Critique,
Le Nouvel Observateur, Zrf Quinzaine littéraire,
Figaro littéraire, La NRF,
Tel Quel, Z,rf Revue ^ deux mondes, La Nef, Preuves,
L'Are, Contrepoint, Futuribles, diferenciando-se os
artigos de fundo, os relatórios, as entrevistas e as
participações em debates.
Todos esses indicadores (publicação de obras de
grande difusão, participação na televisão,
colaboração com o Le Monde ou com revistas
intelectuais) tem em comum referir-se muito
desigualmente às diferentes disciplinas e favorecer
os professores de letras em detrimento de todos os
outros.
Aprofundou-se também a pesquisa no que
concerne unicamente aos literatos. Num primeiro
momento elaboraram-se listas de intelectuais (de
primeiro e segundo ranking) fundamentando-se,
como indicado acima, nos palmarès publicados pela
imprensa. Para maior rigor, preferiu-se recorrer a
um indicador ao mesmo tempo mais seguro c mais
classificador, as colaborações com o Le Nouvel
Observateur em *975 c *977 (a partir das listas
publicadas por Louis Pinto, in Les affinités électives -
Les amis du Nouvel Observateur comme “groupe
ouvert”, Actes de la recherche en sciences
sociales, 36-37,1981, p. 105-124, e spec., p. 116 e
118). Codificou-se igualmente para os professores
de letras o fato de figurarem 110 Petit Larousse
1968 e de pertencerem à Academia francesa.
6. Indicadores do capital de poder político ou econômico
O ensino que os professores do ensino superior
asseguram, a título secundário, a escolas como a
ENA ou a Fundação nacional de cicncias políticas,
mas também às grandes escolas científicas como a
Escola politécnica, a Escola das minas, a Escola das
pontes e pavimentos, etc., loi tratado como um
indicador de capital de poder externo. Consultou- sc
para tanto o Annuaire de l'Éducation nationale
1968 (para a Escola politécnica, a Escola nacional
superior das minas, a Escola superior das
Ielccomunicaçóes, a Escola nacional dos PTT) e as
listas divulgadas pelas próprias escolas.
Procurou-se conhecer também as relações que
os professores da amostra mantinham com os
órgãos públicos, levantando-se aqueles que tinham
participado, num momento ou noutro de sua
carreira, de um gabinete ministerial, a título de
conselheiro técnico por exemplo, ou do Conselho
constitucional, do Conselho econômico e social, do
Conselho dc Estado, da Inspeção das finanças.
Reportou-se para isso, quando a informação ainda
não havia sido dada pelo Who's who, à série dos
Bottins administratifs e ao Annuaire Châteaudun
dedicado aos gabinetes presidenciais e ministeriais
(abril de 1973), à alta administração — onde sáo
recenseados os membros dos grupos de estudo e
dos grupos de trabalho próximos dos ministros
(janeiro de 1973) -, aos parlamentares (abril de
1973). A participaçáo nas comissões do VIa Plano foi
estabelecida examinando-se o relatório dos
trabalhos das comissões do Plano publicado pelo
comissariado do Plano cm dezembro de 1969.
Examinaram-se também as listas dos membros do
Conselho econômico e social - para constatar que
os professores da amostra eram muito raros nela
para justificar o recurso a esse critério.
Homo academicus | Pierre Bourdieu
7. Indicadores das disposições políticas
Tentou-se construir um índice acumulado de
pertencimento político tendo por base os
posicionamentos notórios, a saber, as assinaturas
de apoio recolhidas e publicadas em diferentes
ocasiões políticas. Assim, examinou-se de um lado a
lista dos signatários da “Chamada para a revogação
do decreto de dissolução da Liga comunista, para a
liberação imediata de Alain Krivine e Pierre
Rousset”, publicada no Le Monde dc 8-9 de julho
de 1973; a lista dos “7.000 universitários e
pesquisadores franceses [que] se levantam contra o
fascismo no Chile”, anúncio difundido pelo SNESup-
SNCS e datado de 11 de outubro de 1973; e enfim,
diferentes listas de apoio à candidatura de François
Mitterrand publicadas pelo Le Monde durante as
eleições presidenciais de 1974 (Chamada dos
economistas, dos Amigos de Israel, dos Artistas,
escritores, intelectuais, de Resistentes, de Juristas,
de médicos, etc.).
Examinaram-se de outro lado as listas de apoio à
candidatura dc Valéry Giscard d’Estaing publicadas
pelo Le Monde durante as eleições presidenciais de
1974 (Chamada das personalidades do mundo
artístico, literário, científico e esportivo, e do comitê
universitário de apoio à candidatura de Valéry
Giscard d’Estaing); e a lista de apoio à criação de
uma Associação para ajudar “a maioria silenciosa”,
publicada no Le Monde de 26 de fevereiro de 1970.
Após exame, pareceu preferível manter somente os
signatários das listas de apoio a François Mitterrand
e a Valéry Giscard d Estaing (a construção de um
índice acumulado dos posicionamentos públicos em
favor das causas de esquerda ou de direita
apresentando muitas incertezas tendo em vista um
baixo suplemento de informação).
Um dos grandes debates éticos dos anos 1970
constituiu-se em torno das novas leis relativas ao
aborto. Aqui também, a análise dos
posicionamentos públicos, a saber, as assinaturas de
apoio recolhidas a favor ou contra essas leis,
permitiu medir as disposições liberais ou
conservadoras dos universitários. Foram
examinados: a lista dos signatários da Declaração
contra a liberalização do aborto, publicada pela
Associação dos juristas pelo respeito à vida (n =
3.500), pela Associação dos médicos pelo respeito à
vida (n = 12.000) e pelos professores de
universidade, professores e pesquisadores (n = 432),
cm junho de 1973; o Manifesto de 390 médicos a
favor do aborto, em fevereiro de 1973; a Carta pelo
estudo do aborto, em fevereiro de 1973.
Na segunda análise, tratou-se como um indício
dc tradicionalismo universitário o fato de apoiar
publicamente a causa do monsieur Robert
Flacelière, diretor da Escola normal superior que
tinha apresentado sua demissão ao ministro da
Educação Nacional (cf. Le Monde de 3 de abril de
1971).
Vislumbrara-se igualmente recensear os
universitários que tinham escrito no jornal Le
Monde dos meses de maio, junho e julho do ano
de 1968, ou publicado livro sobre os
acontecimentos de 1968. Mas o levantamento bruto
dava nesse caso somente uma informação
indiferenciada sobre o simples fato de tomar a
palavra; seria necessário precisar cada vez o
conteúdo da intervenção para poder caracterizar as
posições tomadas, e isso dependia mais de análise
de conteúdo, com seus refinamentos, do que de
uma codificação forçosamente simplificada. Foi
preciso também desistir de recensear os
universitários que foram candidatos numa eleição
universitária, por não sc ter conseguido obter as
listas de candidaturas apresentadas pelos sindicatos.
Além disso, na perspectiva mantida, todas as
eleições universitárias eram importantes - inclusive
as eleições internas, próprias a cada universidade - e
náo simplesmente as que levavam à constituição
dos órgãos essenciais da estrutura universitária,
como o CNESER ou o Comitê nacional de pesquisa
científica. Ora, esses dados são praticamente
impossíveis de reunir.
A participação nos colóquios que ocorreram um
em Caen em novembro de 1966, o segundo em
Amiens em 1968 e o terceiro em Paris em 1973, e
que tinham como objeto uma reflexão crítica sobre
o sistema de ensino, pode fornecer um bom indício
de uma disposição reformadora. Também se
examinaram as listas de participantes nesses três
colóquios; para perceber que os universitários de
ranking A, todas as universidades misturadas, só
representavam mais ou menos 5% do conjunto: isto
é, se esse critério é pertinente para a comparação
entre as diferentes universidades, todas as
categorias misturadas, não poderia ser mantido
unicamente no quadro da faculdade de letras e de
ciências humanas.
Apoiamo-nos também, principalmente para a
análise das opiniões a propósito da Universidade e
de suas transformações, em um exame da enquete
sobre o sistema de ensino, realizada em 1969 por
solicitação da Associação de estudos para a
expansão da pesquisa científica (AEERS). O
questionário comportava 20 questões sobre o
desenrolar do ano escolar, a situação do ensino, as
transformações do conteúdo de ensino, dos
métodos pedagógicos e da organização
universitária, sobre a formação, a seleção e a
remuneração dos professores, as relações entre os
professores, os pais dc alunos e os alunos ou
estudantes, os poderes das diferentes categorias de
agentes, as funções acordadas na escola
(preparação para um métier, inculcaçáo dc uma
formação moral, etc.), a política nos
estabelecimentos escolares, o prolongamento da
escolaridade obrigatória, a ajuda ao ensino privado,
etc.
Teria sido importante igualmente obter dados
sobre a filiação sindical dos universitários da
amostra. Ainda que o SNESup e a SGEN tenham
acolhido favoravelmente nossa solicitação, seus
arquivos se revelaram dificilmente utilizáveis: eles
reagrupam o conjunto das pessoas que fizeram uma
subscrição ao menos uma vez na vida, e as
informações ali consignadas (principalmente o grau)
parecem corresponder frequentemente à posição
universitária ocupada no momento da adesão. Se a
repartição segundo a faculdade dos membros
desses dois sindicatos parece confiável, náo ocorre
o mesmo com a distribuição por grau ou por lugar
de ensino.
1. Os números inscritos nesta linha concernem à agregação de
letras para o francês e à agregação de gramática para as línguas
antigas na medida em que os professores de francês têm na
maioria dos casos uma agregação de letras e os professores de
línguas antigas, uma agregação de gramática.
2. Fonte: L'agrégation, Bulletin officiel de la Société des agrégés, assim
como para o período de 1927-1939/ Les agrégés, Bulletin trimestriel
de la Société des agrégés. Não se levaram em conta nos cálculos
os anos 1939-1944- Obter-se-ia uma estimativa mais justa do
número de agregados atualmente em atividade se se
considerassem cerca de 15% desses efetivos, que correspondem à
taxa estimada de mortes.
3. Fonte: Ministério da educação nacional, Serviço das estatísticas e
da conjuntura.
4. Estatística estabelecida a partir do Annuaire de l'Association amicale des
anciens élèves de l'École normale supérieure.
5. Esse número não concerne unicamente aos anglicistas, mas se
refere ao conjunto dos normalistas que se voltaram para as línguas
vivas.
Anexo 3
O hit parade dos intelectuais franceses ou quem
julgará a legitimidade dos examinadores?
Os palmares que jornais ou hebdomadários
publicam de tempos em tempos - por exemplo, na
virada de uma década, com o pretexto de
apresentar o balanço dos dez anos passados - são,
com as relações de força simbólicas que consistem
em profetizar o fim de uma corrente
supostamente dominante (marxismo,
existencialismo, estruturalismo, etc.) ou o começo
de uma nova tendência (o “pós-estruturalismo”, os
“novos filósofos”, etc.), as mais típicas das
estratégias mais inconscientemente que
conscientemente orientadas para a imposição de
uma visão do mundo intelectual, de suas divisões
e de suas hierarquias: segundo um procedimento
comum no campo político, os desejos, as
expectativas, as esperanças de um grupo de
interesses intelectuais (de terminar com...,
vivamente o fim de...) se dissimulam sob as
aparências externas irrepreensíveis da constatação
(terminou de...) ou da previsão do informante bem
informado. Quando os julgamentos
comprobatórios ou preditivos se apresentam sob a
forma de profissões de fé proféticas, proferidos
pelo primeiro interessado, ou levados para o
campo da imprensa por tal empresário
espontaneamente, membro menor do grupo,
cliente ou cúmplice, a relação de força tem uma
eficácia simbólica baixa (ainda que a ingenuidade
e a convicção que ela trai possam assegurar uma
forma de crédito); uma eficácia inversamente
proporcional em todo caso ao conhecimento que
os receptores podem ter dos interesses
comprometidos (portanto à sua proximidade
social e espacial em relação ao jogo e às apostas).
A suspeita dc indecência que, apesar da tradição
ila exposição e do direito ao exibicionismo
historicamente conquistado pelos artistas, se liga
às manifestações ingênuas dos interesses
específicos de um grupo ou de um indivíduo que
pretende sua autolegi ti mação (segundo o
paradigma de Napolcão coroando a si mesmo)
corre o risco de se extinguir quase completamente
com técnicas sociais tais como o hit parade dos
intelectuais (cf. a revista Lire, 68, abril de 1981):
primeiramente porque a amplitude da consulta (a
revista fala de “referendum”) oferece ao
julgamento uma base coletiva, portanto a
aparência dc uma validação consensual; em
seguida, mais sutilmente, porque o sujeito coletivo
desse julgamento parece coextensivo ao objeto
julgado, produzindo assim a aparência da
autonomia perfeita.
De fato, esse hit parade representa uma
espécie de experimentação in vitro que permite
observar processos de avaliação que de outra
maneira seriam muito difíceis de objetivar.
Possuindo ao mesmo tempo a lista dos “eleitos” e
a lista dos examinadores, descobre-se
imediatamente na segunda o princípio da
primeira: personagens mistos ou bastardos que
são um desafio para as taxinomias comuns, os
escritores-jornalistas e os jornalistas-escritores,
muito numerosos entre os nomes que a revista
classifica nas categorias dos jornalistas, dos
escritores ou mesmo dos escritores-professores,
são muito representados tanto entre os membros
das bancas quanto no palmarès que a agregação
de seus julgamentos produziu (enquanto o
número de “autoridades” mais reconhecidas, por
exemplo todos os escritores das Éditions de
Minuit, de Beckett a Simon, passando por Pinget e
Robbe-Grillet, estão ausentes da lista dos
membros das bancas, e, com exceção de Beckett c
de Marguerite Duras, do palmarès - e isso sem
que se possa supor que eles estejam de acordo; e
igualmente para os filósofos).51 O privilégio
concedido no palmarès aos intelectuais com forte
“peso na imprensa”, como se diz em algumas
redações, c bem colocados também no palmarès
dos bestsellers (como Roger Garaudy, André
Glucksmann e Bernard-Henri Lévy)1 encontra assim
seu princípio na lista dos examinadores:
predeterminou-se a lista dos eleitos
determinando-se o princípio dc eleição dos
eleitores predispostos a eleger segundo o
princípio de sua eleição. Tem-se assim um
primeiro efeito de desconhecimento, que contribui
51
Nos 448 “juizes" sc contam, confiando-sc na classificação operada pela Lire, 132 “jornalistas” (92 para a
“imprensa escrita”, 40 para a “rádio e a televisão"), 66 “escritores”, 34 “profissionais do livro“, editores,
livreiros, etc., 34 “escritorcs-profcssores”, 21 “acadêmicos” (a quem sc acrescentam 44 profissionais das
“artes c espetáculos”, 14 “homens políticos , 43 “professores e 34 estudantes e 16 “diversos"). De fàto, as
quatro primeiras categorias (que representam quase dois terços dos “examinadores”) comportam uma forte
proporção de personagens mistos, que escapam às classificações propostas: os autores classificados entre os
“jornalistas” têm quase todos ao menos um livro escrito, e. segundo esse critério, poderiam ser reunidos na
categoria dos “escritores”. É o que observam os autores da classificação que omitem ao invés dc anotar que
a maioria dos autores classificados entre os “escritores” estão também ligados de maneira mais ou menos
permanente c institucionalizada a jornais ou hebdomadários. Esta diferença de tratamento testemunha a
hierarquia tacitamente estabelecida entre as duas “qualidades”: é preciso se desculpar junto aos escritores
que foram reduzidos à condição de "jornalista"; náo se tem dc fazê-lo quando sc promoveu um jornalista ao
estatuto dc escritor. Quanto aos “escritores-professores”, quase a metade deles também poderiam ser
classificados na categoria (náo prevista pela Lire) dos “universitários-jornalistas que, quase inexistente há
uns trinta anos. é atualmente muito cotada, c onde se poderiam reunir também alguns dos autores que,
ainda que tenham por fonte dc rendimento principal o ensino, foram classificados pela Lire entre os
“jornalistas" (desistiu-se dc apresentar aqui as listas dc nomes próprios para evitar dar à demonstração ares
dc denúncia).
para a eficácia simbólica (não desejada) da técnica
do hit parade, verdadeira invenção social, obtida
pela transferência ao campo intelectual de um
procedimento comum em outros domínios
(canção, cozinha ou política): o mal-entendido
sobre a composição social do grupo dos
examinadores encoraja o leitor a tomar como um
veredicto dos intelectuais sobre os intelectuais o
que na realidade é a visão que um conjunto de
examinadores dominado pelos jornalistas-
intelectuaise pelos intelectuais-jornalistas têm do
mundo intelectual. Mas esse efeito de alodoxia,
que todos os comentários reforçam - por exemplo
ao adiantar os julgamentos formulados por alguns
autores citados ao palmarès que aceitaram
responder - está presente ao longo de todo o
processo, e no próprio projeto dos inventores da
técnica que tendem por exemplo a pensar o
campo intelectual por analogia com o campo
político- o que os leva entre outras coisas a
introduzir a questão da “sucessão”. De todos os
mecanismos que fizeram com que os iniciadores
da “enquete” c os respondentes produzissem sem
intenção o que pode parecer a expressão de uma
intenção coletiva - a de impor ao campo de
produção restrita, lugar da produção para
produtores, as normas de produção e de consumo
dos produtos culturais contra os quais ele se
constituiu -, um
Na lista dos "bestsellers do sctcnal" estabelecida pelo jornal L'Express cm março dc 1981 (ver anexo
abaixo) a partir do número dc semanas de presença na lista dos sucessos da semana, Roger (iaraudy chcga
ao 138 lugar no Appel aux vivants - após Jakez Hclias, Pyrcfutc (no Le malfrançais), Schwänzenberg. Viansson-
Ponté, R. Moody, Pyrcfutc (no Quand Lj Chine s'éveillera), Émilie (^irles, Dr. Roger Daict, Lapicrrc-Collins,
Murray Kendal, Pisar, Soljénitsyne, Troyat, de Closets e ao IIa lugar no Parole d'homme, Bcrnard-Hcnri Lévy
chcga ao 20° lugar no Testament de Dieu c ( ilucksmann ao 2iB no Les Maîtres penseurs. O efeito best-seller é
particularmente marcado, bem sc vc, no domínio das cicncias sociais e da filosofia, sem dúvida porque aí a
fronteira é mais fluida, ao menos aos olhos dos jornalistas c do grande público (que eles contribuem para
orientar) entre os lubalhos dc pcíquisa c os ensaios: nenhum dos romancistas, poetas ou homens de teatro
citados no palmarès da Lire aparece na lista dos best-sellers para o romance. Mais longe na lista, encontram-se
ainda obras qucjanick Jossin (L’Express, 18 de abril dc 1981) chama dc “bestsellers imprevistos” (por cxcrnplo o
Montaillou dc Emmanuel Le Roy Laduric, o Plaidoyer pour une Europe decadente dc Raymond Aron ou
Fragments d’un discours amoreux dc Roland Barthes). Janick Jossin cita ainda, un caso do rormncc. Michel
Tournier, Marguerite Yourccnar, J. M. G. Le Clézio, Julien Gracq.
dos mais poderosos é na verdade a alodoxia,
como quiproquo que leva a tomar uma coisa por
outra, com toda a boa-fé, um ensaísta televisivo
por um pretendente à “sucessão” do autor do
L'Être et le Néant e da Critique de la raison
dialectique, e um jornalista que escreve livros dos
quais os jornalistas falam porque ele fala dos livros
num jornal por um escritor do qual é preciso falar.
A indeterminação das coisas a classificar, nesse
universo cm que os jornalistas escrevem livros e os
escritores artigos e em que os editores se dedicam
a conseguir que os jornalistas - sobretudo quando
escrevem sobre os livros - escrevam livros para
eles, só se assemelha à incerteza dos sistemas de
classificação e compreende-se por que a redação
da Lire se perde um pouco quando quer classificar
seus classificadores: imagina-se que Jean Cau,
Jean-Claude Casanova, Catherine Clément, Jean-
Marie Domcnach, Paul Guth, Pierre Nora ou Paul
Thibaud (entre outros) não devem ter ficado muito
satisfeitos de se ver reunidos na categoria dos
jornalistas, ao lado de Jean Farran, de Jacques
Goddet ou de Louis Pauwels, enquanto Madeleine
Chapsal, Jacques Lanzamann, Bernard-Henry Lévy
ou Roger Stéphane (entre outros) se viam
classificados entre os escriiorcs e muitos
colaboradores regulares, e alguns regularmente
pagos, de jornais ou hebdomadários parisienses
encontravam lugar entre os escritores-professores.
Mas a incerteza dos sistemas de classificação
que os intelectuais intermediários põem em
prática é a expressão direta da posição que esses
classificadores inclassificáveis ocupam nas
classificações e dos interesses que se encontram
associados a isso, como a complacência fascinada
pelas cortesias dos “grandes homens” ou a
inclinação inconsciente a queimar as hierarquias, a
igualar-se ao inigualável igualando-lhe o alter ego.
Colocados em posição de permeio entre o campo
de produção restrito e o campo de grande
produção, os intelectuais-jornalistas e os
jornalistas- intelectuais não têm, geralmente, os
meios (c sobretudo o tempo) para fazer distinções
que em todo caso não têm interesse cm fazer:
como se trabalhassem inconscientemente para
anular divisões que os diminuem, eles tendem
naturalmente a justapor nas suas preferências os
grandes sábios consagrados, portanto inevitáveis
sob pena de desqualificação (Lévi-Strauss,
Dumézil, Braudel, Jacob), aos mais jornalistas dos
intelectuais ou os mais intelectuais dos jornalistas.
As aproximações frequentemente absurdas que
daí resultam têm como efeito assegurar a
consagração por contágio de toda a categoria
dos intermediários entre o escritor e o jornalista.
Esse efeito exerce-se primeiramente sobre os
próprios jornalistas, que nada pedem dc melhor,
reforçando assim a inclinação à confusão das
ordens.»
Espera-se sem dúvida que o sociólogo, para
afirmar o estatuto científico de sua disciplina ou,
simplesmente, sua própria dignidade de sábio,
critique esse pahnarès c lhe oponha
procedimentos rigorosos, próprios a liberar uma
hierarquia realmente “objetiva”. Dc fàto, seria fácil
encontrar na prática científica mais reconhecida
socialmente o equivalente estrito do hit parade,
quer se trate da técnica dos “examinadores” ou
dos procedimentos de amostragem em uso nas
enquetes sobre as “elites” (.mouhbaü) ou,
simplesmente, do recurso às definições ditas
operatórias que antes de toda enquete dividem
questões — como a das fronteiras — que na
realidade náo são divididas - “eu chamo de
intelectual...” -, pressupondo assim o resultado da
enquete pela eliminação da própria populaçáo
sobre a qual ela se exerce. Mas além disso, ao
ceder aos reflexos de defesa contra a
“concorrência desleal”, o sociólogo se privaria de
uma formação capital, que se torna acessível
desde que se dê ao trabalho de esclarecer a
questão - nesse caso cientificamente válida - à
qual responde defato a enquete herética. O hit
parade intelectual representa uma espécie de
reconstituição artificial, e nesse sentido mais facil
de observar, do processo que está
incessantemente em prática no campo de
produçáo cultural e no qual se elabora c se define
uma das representações mais poderosas (porque
objetivada e amplamente publicada) da hierarquia
dos valores intelectuais. Esse processo que
também é um processo ou, se se prefere, um
processo de formação dos preços (como veredicto
do mercado) se realiza por meio das trocas
“informais” dc julgamentos privados, ou mesmo
confidenciais (“o livro de fulano, nào repita isso,
mas é completamente nulo”) entre jornalistas,
entre jornalistas-escritores e escritores-jornalistas,
mas também por meio dos veredictos públicos
como os relatórios, as críticas, os convites da rádio
ou da televisão, e finalmente os palmarès, os
palrmrès dos palmarès ou os hit parades, sem
falar dos atos de consagração de instituição
Cada jornalista cultural tende, pelo efeito da concorrência entre os órgáos dc imprensa, a exercer o
papd dc taste-maker para o conjunto dos outros jornalistas. Além disso, algumas instituições fornecem aos
jornalistas referências objetivadas: “Ao longo destes sete anos, a literatura francesa viveu no ritmo desses dois
barómetros oficiosos que sc tornaram o programa televisivo “Apóstrofes” c a lista dos best-sellers do L’Express"
(J. Jossin, loc. cit.). É por isso que tende a se criar uma hierarquia dos intelectuais própria dos jornalistas c
uma categoria especial dc intelectuais-para- .Ls-mídias (o palmarès da Lire registrando de alguma maneira o
produto dc uma ação da qual ele mesmo representa a forma mais acabada).
mais antiga, como a nomeação numa academia,
que, por essência, apenas ratificam o conjunto
desses veredictos, etc. Acontece que o palmarès
da revista Lire é uma boa medida de uma das
visões do mundo intelectual, a que tem desse
mundo um conjunto de pessoas que, sendo
culturalmente dominadas, têm ein comum o fâto
de estar em condições de impor (por um tempo)
sua visáo (“dos homens e das mulheres, nos diz
Lire, que, por sua atividade profissional, exercem
uma influência sobre o movimento das ideias e
são detentores de um certo poder cultural”).
Além de fornecer uma boa medida da
visibilidadejornalística, esse palmarès permite
questionar fatores que contribuem para
determiná-la. É evidente que a visibilidade (a
mesma coisa valeria para o que os universitários
americanos chamam de visibility de um professor
e, geralmente, de toda realidade social) se define
na relação entre a coisa vista - no caso particular, a
obra e sobretudo o autor - e as categorias de
percepção e de apreciação suscetíveis de serem
aplicadas pela população envolvida—no caso
particular, os jornalistas ou, especialmente, os
jornalistas-escritores e os escritorcs- jornalistas
(sabe-se por exemplo que uma obra pode passar
despercebida dos contemporâneos e ser
ulteriormente redescoberta por uma posteridade
dotada de categorias de percepção e de interesses
perceptivos próprios a lhe permitir “fazer a
diferença”, escapar à indiferença e arrancar o
mundo percebido da indiferenciação).
Para compreender tudo o que contribui para
determinar o aspecto subjetivo do ato de
percepção, seria preciso levar em conta, além da
propensão estatutária à alodoxia, o conjunto das
condições sociais de produção dos
“examinadores”, principalmente sua relação
presente, e sobretudo passada, com o sistema
escolar, assim como as condições institucionais em
que se elaboram e se exercem seus veredictos: e
primeiramente todos os efeitos dc campo que
fàzem com que os jornalistas estejam sem dúvida
mais ocupados em 1er uns aos outros do que 1er
os livros de que se sentem forçados a falar porque
os outros falaram ou vão necessariamente folar
(igualmente quando se trata de “acontecimentos”
políticos); mas também a urgência, a pressa dos
jornalistas que, com a pressa, sempre suposta
pelos jornalistas, dos leitores da imprensa, impede
as leituras e as análises aprofundadas e tende a
fazer da legibilidade imediata um dos pré-
requisitos tacitamente exigidos das produções
culturais, excluindo a “descoberta” das obras e dos
autores de legibilidade e de visibilidade baixas
(como o testemunha a ausência quase total no
palmarès da vanguarda tanto em literatura como
em ciências humanas).
Háainda mestres que pensam? Gide, Camus, Sartre? Lire interrogou
varias centenas de escritores, jornalistas, professores, estudantes,
homens políticos, etc.
A questão era:
Quais são os(as) três intelectuais vivos(as), de língua francesa, cujos escritos parecem exercer, em
profundidade, mais influência sobre a evolução das ideias, das letras, das artes, das ciências, etc.?"
Eles responderam maciçamente. Admitindo seu embaraço. Não plebiscitando ninguém. Mas reconhecendo
a influência de Lévi-Strauss, Aron e Foucault.
1 Claude Lévi-Strauss 101 20 Louis Leprince-Ringuet físico 15

2 Raymond Aron 84 20 Michel Serres filósofo 15

3 Michel Foucault 83 24 Julian Gracq romancista 14

4 Jacques Lacan 51 24 Philippe Söllers romancista 14

5 Simone de Beauvoir 46 26 Louis Althusser filósofo 12

6 Marguerite Yourcenar 32 26 Claire Brétécher desenhista 12

7 Fernand Braudel historiador 27 26 René Char poeta 12

8 Michel Tournier romancista 24 26 Gilles Deleuze filósofo 12

9 Bernard-Henri Lévy filósofo 22 26 Georges Duby historiador 12


9 Henri Michaux poeta 22 26 Vladimir Jankélévitch filósofo 12

11 François Jacob biólogo 21 26 J. M. G. Le Clézio romancista 12


12 Samuel Beckett autor dramático e 20 26 Alfred Sauvy economista 12
romancista
12 Emmanuel Le Roy Ladurie historiador 20 34 Georges Dumézil historiador das 11
religiões
13 René Girard filósofo 18 34 Jean-Luc Godard cineasta 11
14 Louis Aragon poeta, romancista e homem 17 36 Jean Bernard médico 10
politico
15 Henri laborit biólogo 17 36 Pierre Boulez compositor, maestro 10
15 Edgar Morin sociólogo e filósofo 17 36 Pierre Bourdieu sociólogo 10

18 E. M. Cioran ensaísta e moralista 16 36 Albert Cohen romancista 10


18 Eugène Ionesco autor dramático 16 36 André Glucksmann filósofo 10

20 Marguerite Duras romancista e cineasta 15 36 René Huyghe historiador de arte 10

20 Roger Garaudy filósofo e homem político 15 36 Léopold Sedar Senghor poeta e 10


homem político
Lire, 68, abril de 1981, p. 38-39.
Para compreender, por outro lado, o que
determina o aspecto objetivo da relação em que
se define a visibilidade jornalística — ou o “peso
nas mídias” -, seria preciso considerar as
características das obras e principalmente as
disposições dos autores, mais ou menos inclinados
a se fazer ver c bem ver dos jornalistas ao manter
com eles relações fundadas na afinidade dos
habitus ou na condescendência interessada.4 Essas
disposições socialmente constituídas, portanto
variáveis segundo as trajetórias sociais e as
posições ocupadas no campo de produção,
podem receber expressões diferentes dc acordo
com o que entra, no momento considerado, na
definição dominante dos postos intelectuais. Ora,
é certo que atualmente a visibilidade jornalística,
ligada à frequência das intervenções fora do
campo dc produção restrita (ou do campo
universitário), principalmente na política (pela
petição, pela manifestação, etc.), é um
componente maior da definição do intelectual tal
como progressivamente se construiu na França, de
Zola a Sartre. Decorre daí que a propensão a
manter o papel público do intelectual implica por
meio da propensão correlata em responder à
demanda jornalística (que varia como a
visibilidade, parcialmente ligada à propensão a se
fazer ver e bem ver), portanto uma forma dc
reconhecimento de fato da legitimidade de seus
veredictos.
Tudo permite supor que o palmarès estaria
sem dúvida ainda mais distante daquele que o
obteria partindo de uma lista de examinadores
mais estritamente restrita aos produtores para
produtores, principalmente ao que de ordinário se
denomina a vanguarda (a qual se compreende
melhor porque está tão visivelmente ausente da
lista dos examinadores), sc o campo do jornalismo,
mesmo e sobretudo cultural, não periiianecessc
dominado pelo campo restrito e por seus
princípios específicos de percepção c de
apreciação e se os examinadores não tivessem um
« Uma das maiores diferenças entre o ponto de vista dos contemporâneos e o ponto dc vista da
posterioridade reside sem dúvida no fato dc que os contemporâneos tem um conhecimento (variável) dos
autores, de sua pessoa física c também dc tudo o que sc associa à contcmporancidade, insensatez, rumores,
mitologias pessoais. E esse intuituspersonae que constitui um dos princípios da pcrccpçâo e da apreciação
imediatas dos autores (mais que das obras, sem dúvida muito pouco lidas pelos que professam falar delas
na imprensa) c da distância cm relação à pcrccpçâo e à aprcdaçâo posteriores, mais diretamente c
exclusivamente fundadas na leitura da obra, é muito difícil de rcconstituir por meio dos testemunhos (por
exemplo, as notações sobre o sotaque dos pintores ou dos cscritoies do século XIX. sobre sua bexis corporal,
suas maneiras, etc., sáo muito raros c sempre ligados a casos dc cxccçáo).
conhecimento parcial dos sinais institucionalizados ou das
manifestações <
informais e difusas da hierarquia tácita e confusamente
admitida no interior do campo dos produtores para
produtores e também uma vaga consciência da lei que
quer que as classificações enunciadas corram sempre o
risco de denunciar a posiçáo de seu autor nas
classificações. 279
Os produtos culturais sáo providos de etiquetas (por
exemplo, os títulos profissionais atribuídos aos eleitos,
filósofo e sociólogo”), de marcas c de 1
rótulos de qualidade que representam verdadeiras
garantias institucionais (pertencimento institucional, editor,
coleçáo, prefácio, etc.) que orientam e predeterminam o
julgamento. Vê-se aí uma das propriedades mais gerais da
percepção do mundo social: o que os agentes têm a
perceber e, a cada momento, o produto de percepções
anteriores e de atos ou dc expressões destinados a
manifestá-los (o que faz, por exemplo, com que as chances
de se ver encerrado no círculo mágico das percepções
incessantemente confirmadas e reforçadas por uma
objetividade vinda da objetivação de subjetividades de
igual estrutura tendam sem dúvida a crescer com o poder
simbólico possuído).
A inclinação dos jornalistas a impor uma definição do inte-
lectual mais próxima de suas inclinações, isto é, dc suas
capacidades
produtivas e interpretativas, encontra-se contrabalançada
assim pela sua preocupação em afirmar seu pertencimento
ao círculo dos verdadeiros examinadores.’ Por náo poder
chegar até a subversão radical da tabela de valores, é
somente ao atribuir um prejulgamento favorável aos mais
jornalistas dos intelectuais que os jornalistas podem afirmar
seu pertencimento legítimo a um campo intelectual
alargado e seu direito de julgar os menos jornalistas ou
jornalísticos dos intelectuais, dos quais apesar de tudo
devem citar os mais visíveis, sob pena de se excluir do jogo
intelectual. Compreende-se assim o lugar eminente
conferido a Raymond Aron: mais que a lucidez - bem
natural dadas suas opções políticas - que ele manifestou
em relação à União Soviética e que tinha por contrapartida
tantas cegueiras, é sem dúvida sua condição de ponto de
honra intelectual dos intelectuais-jornalistas e dos
jornalistas-intelectuais que explica que, em virtude do
crescimento do empreendimento do jornalismo no campo
intelectual,52 alguns tenham conseguido reconhecer por um
momento a figura do grande intelectual nesse grande
jornalista universitariamente consagrado, universalmente
conhecido por esse clássico do anti-intelectualismo que é
O ópio dos intelectuais, e com frequência celebrado pela
clareza e pelo bom senso que o anti-intelectualismo latente
dos jornalistas gosta de opor à obscuridade e à
irresponsabilidade dos intelectuais.'
Assim, a estratégia do balanço - individual ou coletivo -,
da qual o hit parade representa a realização, tende a
substituir mudanças cotidianas pelos atos classificatórios
feitos ao acaso e a classificação não escrita, que está ao
mesmo tempo em vigor e sem cessar em questão no
campo, pela realidade objetiva, visível, publicada, quase
oficial, de uma classificação que, ainda que seja a expressão
da visão própria a um setor particular, e culturalmente
dominado, do campo de produção cultural, é dotada dc
todas as aparências da objetividade. Dá uma ideia justa da
ação que realizam, dia após dia, semana após semana, sem
ter necessidade de combinar-sc ou de conspirar, o conjunto
dos que responderam ao questionário da Lire e seus
similares. Assim, após o significado social do palmarès,
descobre-se o sentido da interrogação que tinha permitido
produzi-lo: a aposta talvez seja menos a lista dos
intelectuais consagrados que a lista dos examinadores que
têm competência para estabelecê-la e que, coisa muito
significativa, está publicada ao lado do palmarès dos “42
primeiros intelectuais”. Como o palmarès dos palmarès
publicado por Les Nouvelles littéraires, onde os
52
O hit parade dos intelectuais que, diferentemente da enquête dc Huret dc i88i. volrada unicamente a recolher opinióes de
escritores sobre escritores, é o produto dc uma intenção explicita de julgar e classificar c o privilégio que confere aos autores
maus “midiáticos” sáo apenas indícios entre outros do crescimento desse empreendimento: bastaria acrescentar o peso
institucional que os universitários-jornalistas adquiriram dentro dc uma instituição universitária como a Escola dos altos
estudos ou o próprio fato dc que os “jornalistas culturais" dos grandes jornais e hebdomadários, fortes unicamente pela
autoridade que lhes confere seu podcr, o qual se supõe buscar notoriedade fora do campo da imprensa c da editoração e de sua
capacidade real de produzi-la nos limites desse campo, principalmente nas editoras, para que se pudesse afirmar
coletivamente sua pretensão cm julgar legitimamente trabalhos (genericamente nomeados “ensaios’') cujo exame e crítica
cram cm outros tempos reservados ao campo científico e às suas revistas eruditas (cf. Les Nouvelles littéraires. 3-9 dc janeiro dc
1980).
examinadores ordinários se exibem e exibem seus
palmarès da década, a publicação desta lista de
examinadores, deste album judicum, como diziam os
romanos, declara a relação de força simbólica por onde um
novo princípio de legitimação pretende se instituir.
A questão da definição do intelectual ou, melhor, do
trabalho propriamente intelectual, é inseparável da questão
da delimitação da população que pode ser admitida a
participar desta definição. A verdadeira expectativa da luta
que se desenvolve dentro do campo de produção cultural,
e da qual o jogo anódino da revista Lire denuncia os mais
profundos mecanismos, é de fato a atribuição do direito de
julgar cm matéria de produção cultural. É quase sempre em
nome de uma ampliação da população dos examinadores
que se realizaram as relações de força contra a autonomia
dos diferentes campos de produção para
Tudo sc passa como sc, ao coroar o mais anti-intclcccualisca dos intelectuais, se esperasse destronar o intelectual ou, melhor,
anulá-lo. Intcnçáo que sc exprime também no apressamento com que os jornalistas de todos os lados se póem a declarar que
Sartre náo tem sucessor. Ou ainda na propensão cm acolher os defensores das diferentes formas de irracionalismo, as quais
náo sc tem procurado caber se favoreceram a submissão do campo intelectual aos problemas c aos procedimentos do
jornalismo ou se 0 determinaram; isso é táo evidente que elas estáo ligadas à ascensão dc uma nova definição social do
“intelectual” que faz da utilização racional das “mídias”, com tudo o que isso implica, uma das condições dc acesso à
dominação no campo intelectual.
produtores, a começar pelo campo científico: que se
reclame do “povo” para condenar as produções que sáo o
produto das exigências internas de um campo autônomo -
em biologia como em poesia ou em sociologia — ou, num
registro aparentemente diferente, da aptidáo para “passar
na televisão” ou da “clareza jornalística”, constituídas na
medida de todo valor cultural, o anti-intelectualismo que
floresceu espontaneamente entre os jornalistas e, mais
amplamente, entre os produtores desclassificados e
forçados a produzir para a demanda, e que pode encontrar
as mais diversas formas de expressáo e de justificativa —
com principalmente todas as variantes do humor populista,
de extrema direita, völkisch, ou de extrema esquerda,
jdanoviano -, faz pairar uma ameaça permanente sobre os
que têm o privilégio historicamente conquistado de
produzir para uma demanda por eles mesmos produzida.53
Náo é portanto por acaso que esse palmarès,
aparentemente orientado para o estabelecimento de
hierarquias, tenha como efeito principal abolir as fronteiras,
sempre incertas e ameaçadas, entre aqueles produtores
que, estando diretamente submetidos à demanda, recebem
sua problemática do exterior, c os que, devido à forma
específica da concorrência que os opõe, estáo em
condições de produzir uma demanda que pode estar à
frente de toda demanda social.
282
Homo academicus | Pierre Bourdieu
O sociólogo não podese instituir como julgador dos
examinadores, e de seu direito de examinar. Ele somente
lembra que esse direito é uma aposta de lutas, da qual ele
analisa a lógica. Pelo fato de que aí as hierarquias são
pouco codificadas, pouco objetivadas em normas ou
formas, a questão da legitimidade das instâncias de
legitimidade, da última instância, que é colocada em todo
campo, se coloca mais visivelmente no campo de produção
cultural: a insegurança extrema que nasce da incerteza das
aquisições tende a conferir uma violência particular à luta
simbólica de todos contra todos e a todos os atos de
jurisprudência ao mesmo tempo inumeráveis e ínfimos,
maledicências muito próximas da maldição, calúnias,
“palavras” mortíferas, rumores devastadores, cuja
classificação não escrita fundada no consenso,
necessariamente tácito, dos mais bem classificados na
classificação tácita é apenas a integral irrealizável.54 Resta
que a autonomia do campo se afirma no fato de que, como
se vê exatamente no caso-limite das ciências da natureza -
mas as coisas náo sáo muito diferentes na pintura ou na
poesia -, náo se pode vencer nessas lutas a náo ser que se
53 Para uma análise exemplar, que se deixa facilmente transpor, ver M. Goldman, Liberaty Dissent in Communist China,
Cambridge, Harvard University Press, 1967.
54
Sabe-se que alguns etnólogos observaram que as acusações de bruxaria aparecem cm universos sociais onde as rchçócs sáo
ao mesmo tempo mal definidas e competitivas, c onde as tcnsócs entre rivais não podem scr resolvidas dc outra forma (cf. M.
Douglas (cd.), Witchcraft, Confessions and Accusations, Londres, 'l'avistock Publications, 1970).
empreguem todas as armas, e somente estas, que foram
acumuladas em toda a história específica das lutas
anteriores. Em consequência, segundo seu controle dessas
armas, os diferentes concorrentes têm interesse desigual na
autonomia, no reforço das fronteiras que impedem a
irrupçáo de princípios de avaliação externos, ou, ao
contrário, na aliança mais ou menos cínica com as forças
externas e principalmente com todos os personagens
bastardos aos julgamentos equívocos que, instituindo-se
individualmente ou coletivamente como examinadores,
trabalham para privar os produtores mais autônomos do
direito de decidir no tribunal ao qual reconhecem o direito
de os julgar.
Homo academicus | Pierre Bourdieu
280
Anexo 3
283
Anexo 4
As análises das correspondências
I. As quatro faculdades
Variáveis principais (anotou-se entre parênteses o
número de possibilidades quando ele é superior a
dois):
Academia francesa; Bottin mondairr, categoria do
pai (20); Concurso geral; comissões CNRS (presença
nas três últimas); coleçáo de bolso; colóquios de
Caen ou Amiens (ao menos num dos dois);
colóquios (frequência) (10); Comitê consultivo das
universidades; direção de UER (após 1968); disciplina
direito (4); disciplina letras (9); disciplina medicina
(3); decano; filhos (número de) (5); ensino grandes
escolas intelectuais; ensino grandes escolas do
poder; estabelecimento secundário (público ou
privado) (4); faculdade (4); grande escola (9);
laboratório CNRS (direção); lugar dos estudos
superiores (3); medalha CNRS; Le Monde (escrito
no); nascimento (ano de) (10); nascimento (região
de) (3); ordem do Mérito; órgãos públicos
(participação em); Plano (comissáo do VIÚ); religião
(4); revistas intelectuais (comitê de redação); sexo;
traduções (3); televisão (aparição na); Who’s who
(presença no).
Tratou-se como variáveis ilustrativas o lugar de
nascimento (pouco seguro e redundante com a
região de nascimento), a residência, o estado civil
(redundante com o número de filhos), o título de
doutor honoris causa (pouco seguro), o
estabelecimento dos estudos secundários (pouco
seguro e redundante com a região de nascimento),
o apoio a Giscard e a Mitterrand, a agregação (a
informação sendo insuficiente), o pertencimento ao
SNESup, a Legião de honra e os louvores
acadêmicos.
Variáveis principais: Colégio dc França; Sorbonne;
Nanterre; EPHE VI4 seçáo; EPHE IV e V* seção; outro
pertencimento: EPHE VIa; outro pertencimento: EPHE
IVa e V*; outro pertencimento: diretor CNRS; outro
pertencimento: Línguas orientais; outro
pertencimento: ensino ENS; outro pertencimento:
outro grande estabelecimento; Instituto; diploma (8);
ano de nascimento (7); categoria pai (13); Who's
who (presença no); normalista; banca de agregação;
Comitê consultivo; Conselho do ensino superior;
comissão CNRS 1967 e 1963; gabinete ou Plano;
direção de uma equipe de pesquisa; região de
nascimento (10); filhos (número de) (8); Legião de
honra; ordem do Mérito; estabelecimento de
preparação (6); bairro de residência (9); louvores
acadêmicos; Academia francesa, Larrousse 1968; Le
Nouvel Observateur (escrito no); televisão (6); Que
sais-je? (6); Idées, Points, Méditations (4); revistas
intelectuais (comitê de redação de); Banca ENS;
traduções (3); citações (número de citações no
Citation Index) (3).
Foram tratados como variáveis ilustrativas: o
lugar de nascimento (pouco seguro e redundante
com a região de nascimento), o estado civil
(redundante com o número de filhos), a agregação
(a informação sendo insuficiente e pouco segura), o
título de doutor honoris causa (pouco seguro), o
estabelecimento dos estudos secundários (pouco
seguro e redundante com a região de nascimento),
o apoio a Giscard, a Mitterrand 011 a Flacelière.
Posfácio
Vinte anos depois
Conclusão da reflexão crítica sobre a prática
científica que não cessei de conduzir, na própria
pesquisa,' a análise sociológica do mundo
universitário visa demolir o Homo academicus,
classificador entre os classificadores, nas suas
próprias classificações. Situação de comédia, a do
enganador enganado, do irrigador regado» que
alguns, por terem medo ou para causarem medo,
gostam de dramatizar. De minha parte, penso que a
experiência da qual este livro apresenta os
resultados talvez não seja tão diferente daquela que
David Garnett empresta ao herói da novela
intitulada A Man in the Zoo: por causa de uma
desavença com sua namorada, um rapaz escreve, no
seu desespero, ao diretor do Zoo propondo-lhe um
mamífero ausente de seu acervo: ele mesmo; ele é
colocado numa gaiola, ao lado do chipanzé, com um
letreiro dizendo: “Homo sapiens. Este espécime foi
oferecido por John Cromantie, Escudeiro. Pede-se
aos visitantes para náo irritar o homem com
comentários pessoais”.
O sociólogo que toma como objeto seu próprio
mundo, no que ele tem de mais próximo e de mais
familiar, não deve, como faz o etnólogo, domesticar
o exótico, mas, se me permitem a expressão,
exotizar o doméstico por meio de uma ruptura da
relação primeira de intimidade com os modos de
vida e de pensamento que lhe permanecem
estranhos porque muito familiares. Esse movimento
para o mundo originário, e ordinário, deveria ser o
fim do movimento para os mundos estrangeiros e
extraordinários. O que praticamente nunca é: em
Durkheim como em Lévi-Strauss, não se trata de
submeter à análise as “formas de classificação” que
o erudito põe em prática e de procurar
Cf. por exemplo P. Bourdieu, “Célibat et conditions paysanne", Études rurales, abril-setembro dc 1962, p.

Para indicar o pertencimento principal dos


32-136.

professores ligados a várias instituições mantidas na


população-mãe, adotou-se a hierarquia socialmente
admitida, inscrevendo-se por exemplo no Colégio
de França ou na Sorbonne os que pertenciam ao
mesmo tempo ao Colégio de França ou à Sorbonne
e à Escola prática dos altos estudos.
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
O espaço das faculdades de letras e de ciências
humanas. Análise dc correspondências: planos do
primeiro e segundo eixos de inércia indivíduos.
nas estruturas sociais do mundo universitário (que
Durkheim analisou magistralmente em L'Evolution
pédagogique en France) os fundamentos das
categorias do entendimento professoral. Ora, a
ciência social pode esperar seus avanços mais
decisivos de um esforço constante para proceder a
uma crítica sociológica da razáo sociológica: ela
deve trabalhar para reconstruir a gênese social não
somente das categorias de pensamento que
conscientemente ou inconscientemente aplica, tais
como esses pares de termos opostos que com
frequência orientam a construção científica do
mundo social, mas também dos conceitos que ela
utiliza e que muitas vezes são apenas noções do
senso comum introduzidas sem exame no discurso
erudito (como a noção de profissão, tacitamente
recusada aqui) ou nos problemas que ela se propõe
c que em mais de um caso são somente uma forma
mais ou menos sabiamente dissimulada dos
“problemas sociais” do momento, “pobreza” ou
“delinquência”, “fracasso escolar” ou “terceira idade”,
etc.
Posfácio I Vinre anos depois
Náo se pode fazer a economia do trabalho de
objetivação do sujeito objetivante. É ao tomar como
objeto as condições históricas de sua própria
produção, e náo por uma forma qualquer de
reflexão transcendental, que o sujeito científico
pode obter certo domínio teórico de suas estruturas
e de suas inclinações bem como das determinações
das quais elas são o produto, assegurando-se assim
do meio concreto de duplicar suas capacidades de
objetivação. Somente tal socioanálise, que não deve
e náo concede nada à complacência narcísica, pode
realmente contribuir para colocar o pesquisador em
condições de dirigir sobre o mundo familiar o olhar
distante que o etnólogo dirige espontaneamente
sobre um mundo ao qual não está ligado pela
cumplicidade inerente ao pertencimento a um jogo
social, esta illusio que faz o valor completamente
real das apostas e do jogo em si.
Analisar cientificamente o mundo universitário é
tomar como objeto uma instituição que é
socialmente reconhecida como fundada para realizar
uma objetivação que pretende a objetividade e a
universalidade. Longe de conduzir um
questionamento niilista da ciência, como algumas
análises ditas pós-modernas que só fazem seguir a
moda, conferindo-lhe um ar de French radical chic,
a velha rejeição irracionalista da ciência e
especialmente da ciência social, dissimulada em
denúncia do “positivismo” e do “cientificismo”, esta
espécie de experimentação sociológica aplicada ao
próprio trabalho sociológico visa mostrar que a
sociologia pode escapar ao círculo histórico ou
sociológico; e que por isso basta servir-se do
conhecimento que ela busca a propósito do mundo
social onde a ciência é produzida para tentar
dominar os efeitos dos determinismos sociais que se
exercem sobre esse mundo e, salvo vigilância
extrema, sobre o discurso científico cm si. Dito de
outra forma, longe de destruir seus próprios
fundamentos quando explicita as determinações
sociais que a lógica dos campos dc produção fazem
pesar sobre todas as produções culturais, a
sociologia reivindica um privilégio epistemológico: o
que lhe assegura o fato de poder reinvestir na
prática científica, sob a forma de duplicação
sociológica da vigilância epistemológica, suas
próprias aquisições científicas.
290
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Que benefício científico pode haver em tentar
saber o que se encontra implicado no fato de
pertencer ao campo universitário, lugar de uma
concorrência permanente a propósito da verdade do
mundo social e do próprio mundo universitário, e dc
nele ocupar uma posiçáo determinada, definida por
certo número dc propriedades, uma formação,
títulos, um estatuto, com todas as solidariedades ou
as adesões associadas? É primeiramente dar-se uma
chance de neutralizar conscientemente as
probabilidades de erro que estão inscritas numa
posição entendida como ponto de vista que implica
uma visão perspectiva, portanto uma forma
particular de lucidez e de cegueira. Mas é
principalmente descobrir os fundamentos sociais da
propensão ao teoricismo, ou ao intelectualismo, que
é inerente à própria posição de erudito, livre para se
retirar do jogo para pensá-lo, e na ambição,
socialmente reconhecida como científica, de tomar
sobre o mundo uma visão em sobrevoo, desenhada
a partir de um ponto exterior e superior. A má-fé
das resistências que recusam à ciência, quando ela
se aplica aos mundos eruditos, aquilo que se atribui
sem grande dificuldade ao objetivismo estruturalista
quando ele se exerce sobre um “pensamento
selvagem” considerado obscuro em si mesmo é
evidente; ela não deve no entanto impedir de se
perguntar se a vontade de saber náo é
subterraneamente animada nesse caso por uma
forma particular de vontade de poder, que se afirma
no fato de pretender adotar sobre os concorrentes
reduzidos ao estado de objetos um ponto de vista
que eles náo podem ou não querem adotar sobre si
mesmos. Mas pouco importa, de fato, a intenção do
empreendimento, que funciona como uma
engrenagem geradora de problem situations, como
diria Popper. A tendência a esquecer de inscrever na
teoria completa do mundo analisado a distância
entre a experiência reórica e a experiência prárica
desse mundo encontra seu corretivo na visão
inevitavelmente reflexiva que a análise sociológica
das condições sociais da análise sociológica impõe.
A construção objetiva, ou mesmo objetivista, das
estruturas de um mundo no qual o responsável pelo
trabalho de objetivaçáo está inserido e do qual ele
tem uma representação primeira que pode
sobreviver à análise objetiva revela seu próprio
limite. Ela se confronta por exemplo com as
estratégias de defesa, individuais ou coletivas, que
muitas vezes tomam a forma de um trabalho de
denegação e pelas quais os agentes visam manter
vivas, para si mesmos e para os outros,
representações do mundo social em desacordo com
aquela que a ciência constrói por uma totalização
que é excluída, de fato e de direito, da existência
ordinária. Ela obriga a perceber que as duas
aproximações, estruturalista e construtivista
(entendendo-se com isso uma forma de
fenomenologia da experiência primeira do mundo
social e da contribuição que ela aporta à construção
desse mundo), são dois momentos complementares
da mesma démarche. Se os agentes contribuem
efetivamente para construir as estruturas, é, a cada
momento, nos limites das imposições estruturais
que se exercem sobre seus atos de construção ao
mesmo tempo de fora, por meio dos determinantes
associados à sua posiçáo nas estruturas objetivas, e
de dentro, por meio das estruturas mentais - as
categorias do entendimento professoral, por
exemplo - que organizam sua percepção e sua
apreciação do mundo social. Dito de outra maneira,
ainda que elas nunca sejam vistas senão como
perspectivas tomadas a partir de pontos dc vista que
a analysis situs objetivista constitui como tais, as
visões bastante parciais dos agentes engajados no
jogo e nas lutas individuais ou coletivas que eles
visam impor-lhes fazem parte da verdade objetiva
desse jogo, contribuindo ativamente para conservá-
lo ou transformá-lo, nos limites impostos pelas
obrigações objetivas.
Posfácio I Vinte anos depois
Uma obra visando prestar conta de um percurso
iniciático orientado para uma reapropriação de si
mesmo que só se obtém, paradoxalmente, pela
objetivaçáo do mundo familiar está destinada a ser
lida diferentemente por leitores que participam
desse mundo e por leitores estrangeiros. Isso,
mesmo que ele tenha a particularidade, dado seu
objeto, de trazer consigo seu próprio contexto -
com a diferença de que se passa ao ordinário, na
circulação internacional (e também intergeracional)
das ideias, onde os textos se transmitem sem seu
contexto de produção e de utilização, apelando para
uma leitura dita “interna” que os universaliza e os
eterniza descontextualizando-os pelo fato de
relacioná- los a cada momento unicamente ao
contexto de recepção/ Pode-se supor que,
diferentemente do leitor autóctone, que, num
sentido, compreende apenas o suficiente, mas que
pode ser levado a resistir à objetivação, o leitor
estrangeiro, pelo fato de não fazer (ao menos à
primeira vista) apostas diretas no jogo que está
descrito, estará menos inclinado a resistir à análise.
Tanto mais que, como acontece no teatro, onde a
gente ri - sem se reconhecer - do retrato dos
próprios defeitos, ele sempre poderá se esquivar dos
questionamentos encerrados em situações ou
relações que conhece bem ao reter, para melhor
tomar distância, somente os traços mais
visivelmente exóticos, mas talvez também menos
significativos, de tradições acadêmicas assim
remetidas à condição de arcaísmo.' Dc fato, mutatis
mutandis, o leitor estrangeiro encontra-se diante da
mesma alternativa que o leitor autóctone (e o
próprio sociólogo): ele pode servir- se da
objetivação de um mundo do qual participa ao
menos por analogia (como o testemunham as
solidariedades internacionais entre ocupantes de
posições equivalentes em campos nacionais
diferentes) para reforçar os instrumentos de defesa
da má-fé, acentuando as diferenças que fazem a
singularidade da espécie Homo academicus
gaüicus\ ele pode ao contrário procurar aí
instrumentos de autoanálise, recorrendo às
invariantes do gênero Homo academicus ou,
melhor, instruindo-se sobre o que lhe revela sobre si
mesmo a objetivação, à primeira vista um pouco
cruel, de uma das posições do Homo academiais
gallicus que é homóloga à sua no seu próprio
campo. Seria preciso, para favorecer a segunda
leitura, a única de acordo, me parece, com a
intenção epistemológica da obra, propor quer um
conjunto construído de regras de transformação que
permitem passar metodicamente de uma tradição
histórica a outra/ quer ao menos, c mais
modestamente, pontos de partida para a
transposição: penso por exemplo na análise dos
fundamentos objetivos e subjetivos da gestão do
tempo que permite manter a hierarquia dos
poderes, isto é, “a ordem das sucessões” sobre a
qual repousa a perpetuação no tempo da ordem
social.
Posfácio j Vinte anos depois
A virtude científica (e talvez também ética) da
noção dc campo sem dúvida reside no fato de que
ela tende a excluir essas objetivaçóes parciais e
unilaterais do impensado dos outros, concorrentes
ou adversários, com quem se identifica a “sociologia
dos intelectuais” c que diferem da sociologia
espontânea daquele de quem se dirá intelectual
somente por sua pretensão à “neutralidade ética” da
ciência, que provoca verdadeiros abusos de poder
simbólico. É por isso por exemplo que quando, no
clássico do gênero, L'Opium des intellectuels,
Raymond Aron procura reduzir a causas as razões de
seus adversários do momento c descreve os
determinantes sociais dos posicionamentos éticos
ou políticos daqueles que chama de intelectuais
(excluindo-se evidentemente da classe
estigmatizada), isto é, Jean-Paul Sartre, Simone de
Beauvoir c os outros “intelectuais dc esquerda”, ele
nunca se pergunta sobre o ponto de vista a partir do
qual ele realiza esta objetivação soberana - não mais
aliás do que a própria Simone de Beauvoir no artigo
simétrico e inverso que dedica quase no mesmo
momento, e com a mesma certeza ética, ao
“pensamento de direita”:' na sua lucidez interessada,
ele ignora o espaço em que está situado, assim
como o daqueles de quem denuncia a cegueira, e
no interior do qual se define a relaçáo objetiva que
o uniu a eles e que está no princípio de suas visões e
menosprezos.
294
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
A ruptura com a boa consciência das
objetivaçóes inconscientes de seu princípio está
implicada na construção do campo de produção que
substitui a polêmica do preconceito travestido dc
análise pela polêmica da razão científica contra si
mesma, isto é, contra seus próprios limites. É
somente por uma abstração injustificável (poder-se-
ia nesse caso falar de redução) que se procura o
princípio da compreensão das produções culturais
nas próprias produções, tomadas em estado isolado
e fora de suas condições de produção e de
utilização, como quer a tradição da discourse
analysis que, nas fronteiras entre a sociologia e a
linguística, volta atualmente a formas indefensáveis
de análise interna. A análise científica deve fazer o
relacionamento de dois conjuntos de relações, o
espaço das obras ou discursos como
posicionamentos diferenciais e o espaço das
posições ocupadas pelos que os produzem. O que
quer dizer por exemplo que uma ou outra das obras
produzidas por universitários sobre as jornadas de
maio de 1968 ganha sentido somente se as
recolocamos, segundo o princípio da
intertextualidade, no espaço das obras que se
referem a este tema, no interior do qual se definem
suas propriedades simbólicas pertinentes, e se
relacionamos este espaço ao espaço homólogo das
posições ocupadas por seus autores no campo
universitário. Todo leitor familiarizado com esta
literatura poderá verificar, reportando-se ao
diagrama da análise das correspondências,55 que as
diferenças observadas entre os autores na
distribuição dos poderes e dos prestígios
correspondem às diferenças, desejadas ou não, que
eles manifestam não somente no seu julgamento
global sobre os acontecimentos mas também na sua
maneira de exprimi-los. A hipótese de que existe
uma homologia quase perfeita entre o espaço dos
posicionamentos, concebido como espaço de
formas, estilos, modos de expressão tanto quanto
de conteúdos expressos, e o espaço das posições
ocupadas por seus autores no campo de produção
encontra sua confirmação mais surpreendente no
fato de que - o que saltará aos olhos de todos os
observadores familiarizados com o detalhe dos
acontecimentos universitários de 1968 - a
distribuição no campo universitário construída
levando-se em conta exclusivamente as
características mais tipicamente universitárias dos
diferentes professores (instituição de pertencimento,
55
Consciente de que a análise do campo universitário proposta neste livro perderia uma grande parte do
interesse que pode apresentar para todos os que sc interessam pela produçáo cultural francesa dos últimos
vinte anos sc eles náo estivessem cm condiçócs dc 1er o espaço das obras c das correntes que sc desenha cm
filigrana atrás do espaço das posições, decidi dar corp todas as letras os nomes dos universitários estudados cm
vez dc deixá-los no quase anonimato das iniciais como tinha feito na edição inicial a fim dc evitar o efeito dc
denúncia ou dc “alfinetada” que, com o tempo (vinte anos sc passaram) c a distância que o olhar estranho
conccdc, deveria scr hoje atenuado. O diagrama do espaço das propriedades que corresponde ao diagrama dos
indivíduos foi apresentado anteriormente. Sc o leitor desejar atualizar mentalmente o esquema, basta lembrar
que a idade contribui muito fortemente para a segunda dimensão (vertical) do espaço c que os mais jovens, no
momento da enquete, ocupantes da regiáo inferior do espaço (sobretudo o setor esquerdo) ocupariam sem
dúvida atualmente posições mais elevadas c muito mais dispersas na primeira dimensão (as posições relativas
dos mais jovens nesta dimensáo indicando as direções cm que suas trajetórias, provisoriamente pouco
diferenciadas, têm todas as chances dc sc orientar: ao polo do prestígio intelectual para os que estão mais à
esquerda, ao polo do podcr temporal para os que estão niais à direita).
títulos escolares, etc.) corresponde muito
estritamente à distribuição segundo as posições
políticas ou as afiliações sindicais c mesmo segundo
os posicionamentos durante as jornadas de Maio. É
por isso que o Diretor da Escola normal, Robert
Flacelière, que firmemente se opôs ao movimento
estudantil, está cercado, no diagrama, pelos nomes
dos professores que assinaram moções de apoio em
favor de sua ação, enquanto os que assumiram
posições favoráveis ao movimento situam-se todos
11a região oposta. O que significa que não são,
como sc acredita comumcntc, os posicionamentos
políticos que determinam os posicionamentos sobre
as coisas universitárias, mas as posições no campo
universitário que orientam os posicionamentos
sobre a política em geral e sobre os problemas
universitários; ficando entendido que a parcela de
autonomia que é atribuída apesar de tudo ao
princípio propriamente político de produção das
opiniões varia segundo o grau com que os
interesses associados à posiçáo no campo
universitário são atingidos ou, tratando-se de
dominantes, ameaçados.
Posfácio j Vime anos depoi:
Mas se poderia ir mais longe c reintroduzir no
modelo não somente os posicionamentos políticos
mas também as próprias obras, consideradas em
suas propriedades mais visivelmente sociais como o
gênero ou o lugar de edição, e em seu objeto e
forma: assim, por exemplo, a distribuição das obras
segundo seu grau de conformidade com as normas
acadêmicas corresponde muito visivelmente à
distribuição dos autores segundo a posse de
poderes propriamente universitários. E para dar uma
ideia mais concreta desta relação, evoquei apenas a
surpresa desse jovem visitante americano a quem eu
devia explicar, no início dos anos 1970, que todos os
seus heróis intelectuais, os Althusser, Barthes,
Deleuze, Derrida, Foucault, sem falar dos profetas
menores do momento, ocupavam posições
marginais na Universidade que muitas vezes os
impediam de orientar oficialmente alguns trabalhos
(muitos deles não tinham produzido tese, ao menos
de forma canônica, e portanto não podiam orientá-
las).
Se pararmos no caso desses filósofos que têm
mais chances de ser familiares aos leitores anglo-
saxóes, veremos que o conhecimento da estrutura
do espaço global no qual estão situados permite
colocar- se assim no seu lugar no espaço social, por
meio dc uma verdadeira objetivação participante
que não tem nada de uma polêmica redutora e
reconstruir o ponto de vista a partir do qual se
define seu projeto intelectual. Como se pode ver no
diagrama (todos se situam no setor inferior
esquerdo), eles estavam inseridos numa dupla
relação: de um lado a relação com o polo
temporalmente dominante, com a filosofia da
instituição, fixada no tempo imóvel dos cursos
orientados pelo eterno retorno dos temas de
concursos, encarnada pelos professores de
universidade que controlam os órgãos de
reprodução do corpo, instâncias encarregadas da
seleção dos professores do ensino secundário, como
o concurso de agregação, ou do ensino superior,
como o Comitê consultivo das universidades; de
outro lado, a relação com o polo “intelectualmente”
dominante, ocupado por todos os grandes mestres
das ciências humanas e dominado pela figura de
Lévi-Strauss.
Na relação com o grande sacerdócio filosófico da
Sorbonne que, como a maioria deles, é oriundo do
“grande seminário” laico que é a Escola normal
superior, topo de toda a hierarquia escolar, eles
aparecem como heréticos dc Igreja ou, se se prefere,
como espécies de free-lance intelectuais instalados
na própria Universidade ou ao menos, para fazer um
jogo de palavras com Derrida, nas margens ou nos
degraus de um império acadêmico ameaçado por
todos os lados pela invasão dos bárbaros (essa é,
certamente, a visão dos dominantes). Quase
totalmente privados ou livres dos poderes e dos
privilégios, mas também dos encargos e das
obrigações do professor ordinário (bancas de
concurso, orientação de teses, etc.), eles estão muito
ligados ao mundo intelectual, e principalmente às
revistas de vanguarda (Critique, Tel Quel, etc.) e ao
jornalismo (especialmente o Le Nouvel
Observateur)'. Michel Foucault é sem dúvida o mais
representativo desta posiçáo, porque, até o fim de
sua vida, e mesmo quando se tornou (após a
enquete) professor do Colégio de França,
permaneceu quase totalmente desprovido de
poderes propriamente acadêmicos e mesmo
científicos, portanto da clientela que esses poderes
possibilitam, ainda que sua notoriedade lhe
assegurasse uma influência considerável sobre a
imprensa e, por meio dela, sobre todo o campo de
produçáo cultural. A marginalidade desta posição,
ainda mais evidente em Althusser ou Derrida, que
ocupavam postos menores na Escola normal, está
evidentemente relacionada ao fato de que todos
estes heréticos chamados a se tornarem heresiarcas
têm em comum, além das diferenças, as
divergências e muitas vezes os conflitos que os
separam, uma espécie de humor anti-institucional
homólogo na sua ordem ao dc uma fraçáo
importante dos estudantes: eles são levados a viver
com impaciência a defasagem entre seu renome, já
grande, alhures, isto é, fora da universidade e
também fora da França, e o estatuto minorado que
se lhes atribui aqui dentro, com a cumplicidade de
seu desdém e de suas rejeições, uma instituição que,
adolescentes, os atraíra e consagrara.56
Posfácio I Vinte anos dep(
Se foi preciso começar considerando o polo mais
obscuro é porque ele tem todas as chances de
escapar ao olhar estrangeiro e ao analista superficial
(sem falar do polemista nele situado). Entretanto,
não somente a título de contraste, mas também
como adversário ao qual é preciso arrancar, por uma
luta de todos os instantes, o direito de viver ou de
sobreviver, ele sem dúvida exerceu um papel
determinante, assim como a velha Sorbonne diante
da equipe dos Anais, na constituição ou no reforço
das disposições éticas ou políticas que definirão a
orientação geral das obras. Acontece que é
sobretudo em relaçáo a outro polo, o das ciências
do homem triunfantes, encarnadas por Lévi-Strauss,
que reabilita essas disciplinas tradicionalmente
desprezadas pelos normalistas filósofos e as institui
como modelo da realização intelectual, que devem
se redefinir projetos filosóficos que foram
inicialmente constituídos, entre 1945 e 1955, em
referência à tradição fenomcnológica e
existencialista e à figura do filósofo dotada por
Sartre de uma estatura exemplar, e também e
sobretudo contra ela. A adoção, no lugar da banal e
restritiva palavra etnologia, do termo antropologia
que, emprestado da tradição anglo-saxá, também
está carregado de todos os prestígios de um grande

56
A universidade de Vincennes, criada após 1968, cristalizou a nova maneira de viver a vida inrclcctual c
instituiu na própria universidade, para escândalo dos defensores da antiga universidade, uma versão da vida
intelectual que, em outros tempos, teria sido relegada às revistas intelectuais ou aos cafcs da boemia.
passado filosófico alemão (Foucault traduz e publica,
nesses anos, a Antropologia de Kant) simboliza o
formidável desafio que as ciências sociais, por meio
de seu representante mais eminente, lançam à
filosofia, até então soberana, e que se afirma
diretamente na confrontação entre Lévi-Strauss e
Sartre, primeira contestação real de um longo
reinado sem igual em todo o campo intelectual. Na
verdade, se na geração precedente Sartre e
Merleau-Ponty também precisaram contar com as
ciências do homem, eles estavam numa posição
incomparavelmente mais fácil, uma vez que tinham
diante de si - devido ao rebaixamento extremo da
escola durkheimiana e do estatuto muito inferior de
uma sociologia empírica ainda em estado nascente,
e “comprometida”, em tempos de grande
politizaçáo, por suas origens americanas - uma
psicologia “cientificista” (todavia com a exceção
representada por Piaget) e uma psicanálise sem
influência (apesar da presença na Sorbonne de
Lagache, condiscípulo de Sartre e Merleau-Ponty na
Escola normal).
Desde então, são as ciências do homem em seu
conjunto que ocupam a posição simbolicamente
dominante, colocando os representantes da filosofia,
ameaçada náo somente na sua posiçáo de
“disciplina do coroamento”, como diz Jean-Louis
Fabiani, mas também na sua identidade intelectual e
no seu programa de pesquisa, diante de uma
situação totalmente nova: é a linguística, verdadeira
disciplina- farol, com Benveniste, e virtualmente
Jakobson, consagrado por Lévi- Strauss, e, com um
peso menor, Martinet; é a “antropologia”, com Lévi-
Strauss, reforçado por Dumézil; é a história, com
Braudel que, há muito tempo consagrado
filosoficamente pela longa discussão que Sartre
tinha concedido ao seu Mediterrâneo, trabalha para
criar as bases institucionais das ciências do homem
renovadas, e integradas, com a sexta seção da
Escola prática dos altos estudos, seu conselho
científico prestigioso (nele se encontram Lévi-
Strauss, Aron, Le Braz, Friedmann), seus centros de
pesquisa em pleno desenvolvimento, suas revistas
(entre as quais Les Annales, herdada de Marc Bloch
e Lucien Febvre, c L’Homme, fundada por Lévi-
Strauss, que suplanta a velha Temps modernes,
relegada ao ensaísmo sectário e parisiense) e, logo,
seu elevado lugar parisiense, a Maison das ciências
do homem; é a psicanálise com Lacan que,
socialmente e simbolicamente aliado a Lévi-Strauss
e a Merleau-Ponty, detém um grande peso no
campo (ainda que não tenha sido incluído na análise
das correspondências, portanto no diagrama, por
não ocupar nenhuma posiçáo oficial na universidade
- a recusa a autorizá-lo a dar um curso na Escola
normal superior foi a origem da revolta contra
Flacelière); é a própria sociologia que, mesmo
relegada ao último ranking das novas grandes
potências intelectuais, consegue, através de
Raymond Aron e suas polêmicas contra Sartre ou as
novas correntes filosóficas (De urna santa família a
outra)* se impor a uma geração de filósofos que
ainda havia dissertado sobre os temas lançados, no
entreguerras, pela Introdução à filosofia da História.
299
Posfácio I Vinte anos depois
Seria preciso também parar um momento no
caso de Roland Barthes, que deixa transparecer mais
claramente que outros os efeitos da relação de
dupla diferença, característica da vanguarda dos
anos 1970: não estando entre os eleitos da
instituição (ele náo é nem normalista, nem
agregado, nem “filósofo”), ele pode, movido sem
dúvida pelo obscuro sentimento de revanche do
excluído, se empenhar com os professores
ordinários (representados neste caso por Picard) em
polêmicas públicas que o sentimento de sua
dignidade estatutária impede aos mais consagrados
dos jovens heresiarcas; e ele tambem pode
manifestar cm relação aos grandes mestres, que
acumulam todos os títulos ordinários e
extraordinários ao seu reconhecimento, uma
reverência sem rodeios, que outros fariam apenas
sob uma forma muito mais sutil ou perversa.
Condensando na sua pessoa social as tensões ou as
contradições inscritas na posiçáo em falso das
instituições universitárias marginais (como a Escola
dos altos estudos “pós-braudeliana” ou, em
momentos diferentes do tempo, Nanterre ou
Vincennes), que tentam converter uma dupla
oposiçáo, muitas vezes associada a uma dupla
privação, em transcendência eletiva, e que, como
lugar de passagem para uns e realização para
outros, fazem se encontrar num momento trajetórias
divergentes, Roland Barthes representa o topo da
classe dos ensaístas que, não tendo nada a opor às
forças do campo, sáo condenados, para existir e
para sobreviver, a dançar conforme as forças
externas ou internas que agitam o universo, por
meio principalmente do jornalismo. Ele evoca a
imagem de um Théophile Gautier que um
contemporâneo descrevia como “um espírito
flutuando em todas as brisas, vibrando em todos os
embates, disposto a receber todas as impressões e a
transmiti-las por sua vez, mas tendo necessidade de
se colocar em movimento por um espírito
semelhante, procurando sempre tomar uma palavra
de ordem, que tantos outros vieram lhe pedir em
seguida”: como o bom Théo, a quem seu amigo
Flaubert recriminava a falta de “caráter” sem ver que
sua própria inconsistência estava no princípio de sua
importância, e de quem outro assinalava que ele
estudava sucessivamente chinês, grego, espanhol,
idade média, século XVI, Luís XIII, Luís XIV, rococó e
romântico, Roland Barthes exprime
instantaneamente, aparentando precedê-las, todas
as mudanças nas forças do campo, e desse modo
basta seguir seu itinerário e seus entusiasmos
sucessivos para ver todas as tensões que se
exerceram sobre o ponto de menor resistência do
campo, onde eclode continuamente o que se chama
dc moda.
300
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
É claro que a relação dc dupla oposição só
poderia ser vivida muito diferentemente segundo a
posição ocupada no campo e a trajetória anterior,
como se acaba de ver a propósito de Roland
Barthes, e segundo o capital propriamente filosófico
que poderia ser investido no esforço para superar a
tensão que ela engendra. Aqueles que, como
Althusser c sobretudo Foucault, tinham se
encaminhado, pela rejeição ao que se chamou de
“filosofia do sujeito” e pelo “humanismo” associado
à ideia de existencialismo, para uma tradição de
epistemologia e de história das ciências e da
filosofia representada por Gaston Bachelard,
Georges Canguilhem e Alexandre Koyré (entre
outros), estavam predispostos a sc reconhecer, com
nada desse excesso ostentatório que marca a
distância do “positivismo” dos eruditos (“O homem
está morto”...), dentro da “filosofia sem sujeito” que
Lévi-Strauss» fiel nissoàuadiçaoduikheimiana,
acabava de reafirmar, dando-lhe ares modernistas
pela referência a uma noção de inconsciente que
reconciliava Freud revisto por Lacan, Saussure
resumido por Jakobson, e quando náo o velho
Durkheim, sempre excluído do círculo muito
fechado da filosofia distinta, Marcel Mauss, mais fácil
de acomodar, à custa de algumas reinterpretações
audaciosas, ao novo regime intelectual (Merleau-
Ponty, que exerceu um grande papel na transição
entre as duas gerações intelectuais, em razão de sua
atitude particularmente aberta e compreensiva em
relação às ciências do homem, principalmente a
biologia, a psicologia e a linguística, escrevera um
artigo intitulado “De Mauss a Lévi-Strauss”). É por
isso que, por uma estranha astúcia cia razão
intelectual, a filosofia durkheimiana do homem se
encontrava reabilitada, sob a figura mais
apresentável de uma antropologia legitimada pela
linguística, contra a “filosofia do sujeito” a que, nos
anos 1930, uma outra geração de normalistas, a de
Sartre, Aron e Nizan, havia contraposto, entre outras,
a filosofia “totalitária” dos durkheimianos...
Posfácio I Vin te a nos depoi:
Mas, que náo nos enganemos, a referência às
ciências do homem não tem nada de adesão
incondicional. Se, cada um à sua maneira, todos os
filósofos denunciassem sua reverência ou sua
dependência em relação às ciências do homem, nem
por isso, como Derrida, ao tomá-los como alvo de
sua crítica ou ao emprestar-lhes temas (por exemplo
a crítica dos efeitos teóricos do pensamento em
duplas), eles deixam de marcar - c primeiramente no
seu estilo, como em Foucault, que multiplica os
trechos de elegância escolar, ou como em Derrida,
que importa para o campo filosófico procedimentos
e efeitos em uso por parte da Tel Quel - sua
distância estatutária em relação aos praticantes
ordinários das “ciências ditas sociais”, como se
alegrava em dizer Althusser (o que lhe vale,
evidentemente, um outro tratamento da parte dos
que o leem e que esperam da leitura de suas obras
o atestado de dignidade que inscrevem na sua
escrita). E eles põem em prática todos os recursos
de sua cultura para transfigurar, e sem dúvida
primeiramente aos seus próprios olhos, a filosofia
“historicista” que emprestam às ciências históricas
juntamente com muitos de seus temas, seus
problemas e seu modo de pensar. É por isso que
Foucault encontra em Nietzsche o fiador
filosoficamente aceitável da combinação
socialmente improvável de transgressão artística c
dc invenção científica que ele realiza e 05 couccilos-
telas que, como
o de genealogia, lhe permitem cobrir de
honorabilidade filosófica um empreendimento de
história social ou de sociologia genética. Da mesma
maneira, como já mostrei a propósito da análise que
ele dedicou ao Lu Critique de la faculté de juger,
Derrida sabe interromper a “desconstruçáo” no
ponto em que, passando para uma análise
sociológica destinada a ser percebida como uma
vulgar “redução sociológica”, ele próprio se
“desconstruiria” como filósofo.57
302
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Dico tudo isso, quem não soubesse se manter
numa verdadeira sociologia genética das próprias
obras, apreendidas a partir dos pontos de vista
singulares com que foram elaboradas (e que
especificam as características secundárias, sociais,
religiosas ou sexuais dos diferentes produtores), não
compreenderia a liberdade crítica que lhes confere
um ar familiar e faz com que sejam muito mais que
* Cf. P. Bourdieu, Post-scripiutn. Éléments pour une critique “vulgaire" des critiques “pures". La Distintion,
Paris, Éd. dc Minuit, 1979. p. 565-585.
readaptações mais ou menos bem-sucedidas do
empreendimento filosófico se não visse que ela se
enraíza numa experiência particularmente intensa de
uma crise particularmente dramática. As antigas
disciplinas dominantes, a filologia, a história literária
e a própria filosofia, que estão ameaçadas em seus
fundamentos intelectuais pelas novas disciplinas
concorrentes, como a linguística, a etnologia, a
semiologia ou mesmo a sociologia, também são
atingidas nos fundamentos sociais de sua existência
universitária pela crítica que surge de todos os
lados, frequentemente em nome das ciências do
homem e por iniciativa dos professores dessas
disciplinas, contra o arcaísmo de seus conteúdos e
dc suas estruturas pedagógicas. Este duplo
questionamento suscita nos professores que não
tiveram suficiente perspicácia e audácia para fazer
em tempo a reconversão, e cm particular nos que
chamo dc oblatos c que, votados desde a infância à
instituição escolar, são totalmente devotados a ela,
reações geralmente patéticas de conservadorismo
integrista que sáo feitas justamente para exasperar a
revolta daqueles cujo capital e disposições os levam
a romper, no mesmo movimento, com a filosofia da
instituição e com a instituição filosófica. A ruptura,
que toma às vezes ares de guerra civil, foi de fato
realizada, bem antes de 1968, entre os professores
que permaneceram presos à definição tradicional da
disciplina e aos fundamentos sociais de sua
existência como corpo social (como a agregação) e
entre os membros da nova vanguarda que
conseguiram encontrar nos recursos inerentes ao
pertencimento a uma disciplina prestigiosa os meios
necessários para fazer uma reconversão com
sucesso e que sáo percebidos pelos guardiões da
ortodoxia-vindos, como eles, do “grande seminário”
- como traidores ou renegados. De tal maneira que
esses modernistas, mesmo prometidos às mais altas
destinações universitárias por uma consagração
precoce e geralmente espetacular, acham-se
relegados, com frequência com sua própria
cumplicidade, a posições em falso que os
predispõem a sentir e a exprimir, sob forma direta
ou transposta, uma crise da instituição universitária
cm que sua própria posição na instituição é a
expressão. Uma crise que afeta uma instituição e
cuja função é inculcar e impor formas de
pensamento enfraquece ou arruina os fundamentos
sociais do pensamento, levando a uma crise da
crença, uma verdadeira epochè prática da doxa, que
favorece e facilita o surgimento de uma consciência
reflexiva desses fundamentos. Sc a experiência e a
expressão desta crise tomaram na França uma forma
mais radical que alhures é porque, devido ao
arcaísmo particular de uma instituição escolar
imobilizada na ilusão dc sua grandeza, os que foram
consagrados por uma instituição em falência
deviam, para estar à altura das ambições que ela
lhes inculcou, romper com os papéis irrisórios e
desde então insustentáveis a que ela os destinou:
eles foram levados a inventar novas maneiras, todas
fundadas na distância reflexiva e numa espécie de
jogo duplo com a definição ordinária da função, de
fazer o personagem do mestre atribuindo-lhe a
figura estranha de um mestre-pensador que se
pensa e, assim fazendo, contribui para destruir-se
como tal.58
Posfácio I Vinte anos depoi:

58
Igualmente, é uma singularidade totalmente análoga à instituição acadêmica encarregada de formar c
consagrar os pintores, c especialmente a concentração extraordinária do poder de consagração, c portanto do
acesso ao mercado, nas mãos dos grandes dignitários académicos que explica, cm grande parte, por que a
revolução de onde veio a pintura moderna, com Manet e o impressionismo, apareceu na França mais que
alhures.
Devido a suas disposições autocríticas e à sua
impaciência em relação aos poderes, e
especialmente aos poderes que se exercem em
nome da ciência, esses mestres capazes de fundar
seu domínio sobre um questionamento do domínio
estavam preparados para entrar em ressonância
com os movimentos que agitavam a vanguarda ética
e política do mundo estudantil: vítimas dc veredictos
que, como os da escola, se valem da razão e da
ciência para interditar as vias que (re)conduzem ao
poder, os estudantes de origem burguesa
escolarmentc desclassificados que povoam as
faculdades de letras e especialmente as disciplinas
novas sáo espontaneamente inclinados a denunciar
a ciência, o poder, o poder da ciência e sobretudo,
talvez, um poder que, como a tecnocracia triunfante
daquele momento, invoca a ciência para se
legitimar. Além disso, a nova “vida estudantil”, que
se inventa em faculdades de repente invadidas por
uma clientela incomparavelmente mais numerosa e
mais diversificada do que no passado segundo a
origem social e sobretudo segundo o sexo (é em
torno dos anos 1970 que as moças se tornam tão
numerosas quanto os rapazes nas faculdades de
letras), é uma espécie de experimentação social por meio
da qual, como no século XIX na “vida de boêmia”, se
inventa uma nova arte de viver, fazendo parte dos
valores excluídos da velha universidade kantiana de
antes da guerra e ainda rejeitados pelas disciplinas dos
internatos que levam às “escolas de elite” o desejo, o
prazer e todas as disposições antiautoritárias ou,
segundo a linguagem da época, “antirrepressivas”.
Tantos temas que, de Deleuze a Foucault, passando por
Derrida e mesmo Althusser (com seus “aparelhos
ideológicos dc Estado”), sem falar dos heresiarcas
menores, mais diretamente “ligados” na nova vulgata,
serão poderosamente orquestrados por toda a
vanguarda filosófica.
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
Tudo o que foi dito, sem complacência, creio, nem
malevolência, comporta, compreender-sc-á, uma grande
parte dc autoanálise por procuração, juntamente com
uma distância que a sociologia sem nenhuma dúvida
tem favorecido mas que se afirmou primeiramente no
fato de abandonar a filosofia às ciências sociais - isso,
evidentemente, num momento em que, graças à
reabilitação da etnologia por Lévi- Strauss, se tornava
possível fazê-lo sem muito derrogar... E o lugar que
ocupa no meu trabalho uma sociologia bastante
particular da instituição universitária se explica sem
dúvida pela força particular com que se impunha a mim
a necessidade dc dominar racionalmente, em vez dc
evitar num ressentimento autodestruidor, o
descncantamento do oblato ^°^diante da futilidade ou do cinismo de tantos p
tratamento reservado, na realidade das práticas, às
verdades e aos valores
-- que a instituição professa e aos quais, estando votado à instituição, ele
estava votado e devotado.
Janeiro de 1987.
índice remissivo
A
Académica mediocriras, 130. Acontecimento
(histórico); v. tb. sincronização, 58-60, 208-210,
224, 225, 310.
ADAM, G., 215.
Administrador (gestor ou manager), 132, 165, 166.
Agente (e indivíduo), 45, 46,47. Aggiomamento,
157, 158.
Agregaçáo, 28.
Alianças, 231.
Alodoxia, 130, 142, 216, 226, 243, 273, 274,276,
292.
ALTHUSSER, L., 148, 277, 296, 297, 300, 301,304.
Alunos (ou discípulos); v. tb. clientela, “mestre”,
31-32, 70, 87, 122, 124, 126,
128, 130, 139, 142, 144-145, 177, 181, 182, 185,
187, 199, 204, 209, 219, 220- 223,235, 236, 250,
252, 255, 264.
Anti-intelectualismo, 131, 230, 283, 284.
Aprendizagem, 132.
ARON, R., 114, 236, 273, 277, 280, 293, 298, 299,
301.
Arte, 81, 88-92, 96-97, 122, 123, 156. Aspirações (e
chances), acordo das -, discordância das -, 188-
190, 199, 212,
214- 218, 220, 235.
Audácia (vs. prudência), 131.
Autoridade (científica) c autoridade (estatutária),
76, 84, 85, 91, 94-96, 111, 116, 132.
B
BARBÉ, A., 219.
BARTHES, R., 148, 154-157, 273, 296,
299, 300.
BATESON, G., 55.
BENVENISTE, E., 59, 114, 147, 202, 298.
BOIME, A., 125.
BON, F., 215.
BOUDON, R., 39, 194. BOURRICAUD, F., 194.
BOUVERESSEJ., 25,35.
BRAUDEL, F., 114, 274, 277, 298. Brilhante (vs.
sérios), 130, 138, 193. BUFFON, G.-L., 54.
Burocracia (da produção cultural), 174, 244.
BUTOR, M., 195.
C
Cálculo (racional), 130, 195. CANGUILHEM, G., 128,
221, 300. CANNON, W., 194.
Canonização, 139, 160.
CAPDEVIELLE, J., 215.
CAPLOW, T., 124.
CARO, J.-Y., 223.
CASANOVA, J.-C, 274.
CHARLE, C., 65, 158.
Cido longo (vs. ciclo curto), 161. CICOUREL, A., 96.
Ciência (vs. letras), - e artes, - normal, v. tb.
instituição, efeito de -, relação com a -, v. tb.
pesquisa, 18, 26, 27, 30, 32,
33, 35-38, 40, 42, 43, 53-56, 59, 61-78, 80-83,
90-95, 101, 109, 111. 131-132, 138-139, 158-159,
163-167, 222, 228, 231, 250-252, 255, 265-266,
268, 277. CLARK, B., 32.
Classificações (luta pelas), 28, 31, 38, 104.
Clientela, 75, 84, 89, 92, 125, 126, 172, 180, 184.
Clínicos (e fundamentalistas), 71, 87-92, 94-96.
Clivagem do eu, 42.
Clube, 40, 166, 197.
CNRS, 41-42, 67, 82, 106, 113, 116, 118-120, 128,
135, 145, 149, 187, 204. Código, codificação, 26-
28, 30, 47, 80. COHN-BENDIT, D., 224, 235.
Homo acadcmicus | Pierre Bourdieu
Colégio de França, 93, 105, 109-114, 121, 124, 142,
144-149, 169, 171,253, 275, 304.
COMPAGNON, A., 159, 233. Competência
científica (e competência social), 84, 90, 93, 143.
Compreender, 59.
Conatus (social), 228.
Concorrência (luta de), 34, 38, 122, 153,
223.
Concurso (permanente), 122, 123, 143,
186, 187, 191.
Confissão (pública), 26.
306
Conhecimento ordinário (c conhecimento erudito),
20, 22, 25-26,43,45. Consagração (dialética da - e
do reconhecimento), 115, 123, 138, 140,
143, 144.
Contradição (específica), 211,212, 220. Cooptação,
86, 87, 96, 138, 143, 144,
154, 196, 198, 200.
Corpo (espírito de), 86.
Correspondência (das posiçóes e das disposições),
v. tb. Posiçóes, 189, 218, 234, 268.
COURNOT, J.-B., 225. COUTEAU-BEGARIE, H., 22.
Crença, v. tb. Doxa, 24, 50, 51, 96, 126,
156, 157, 197, 201,234, 235, 303.
Crise, - coletivas e individuais, - das sucessócs, v.
sucessões, crise sobre a ordem, v. tb. politizaçáo,
58, 65, 86, 100, 121,
137, 146, 169, 171, 179, 184, 188, 192, 196-198,
209-218, 220, 224-226, 229, 230,232-238, 240,
242-247, 302-305.
CROZIER, M., 166. “Cultura geral", 137.
DAVY, M., 298.
DEBRAY, R., 22.
DELOFFRE, F., 45.
Decisão (tomada de), 65, 88, 100, 243,
259.
Demografia, 29, 71.
Desclassificação, - estrutural, 140, 210, 211,213,
215, 216, 224, 226, 229. Desconhecimento, 30, 39,
197, 201,
291.
Descontinuidadc (vs. continuidade),
168, 235.
Desinvestimento, 215, 217.
Direito, - de entrada, 27, 75, 85, 91,
155, 157, 158, 203, 207, 209, 212, 219,
222, 228, 235, 253, 254, 257, 258. Disciplinas, —
canônicas, — novas, — refiígios, hierarquia das -,
57, 58, 60, 69, 90, 91, 95, 97-98, 102, 108-111, 113,
126, 127, 137-141, 143-145, 148, 149, 158, 159,
162-164, 167-170, 172, 179-
187, 192, 193, 203, 204, 213, 214, 217-
224, 226, 258, 259, 261, 297, 302-304.
Dissonância (estrutural), 150. DOUGLAS. M., 283.
Doxa (isso c evidente), 156, 233, 303. DREYFUS,
(caso), 66, 155, 158, 233,
241.
DUBY, G., 114, 277.
DUMÉZIL, G., 114, 147, 148, 274, 277, 298.
Dupla consciência (jogo), v. tb. clivagem do eu,
sistema de defesa, 217. DUPONT-SOMMER, A.,
114. DÜRKHEIM, É., 157, 287, 289-300.
DUROSELLE, J.-B., 119, 126.
DURRY, M., 132.
E
ENGELS, F, 244.
Ensaismo, 22, 53, 160, 208, 298.
Escola dos altos estudos, 11, 24, 50, 105, 106, 108,
109, 111, 114, 126, 128, 141, 143-152, 154, 168,
280, 299.
“Escolha”, 128-130.
Escrita (da sociologia), 21,44,49, 50, 52, 55,
58,91,98, 119, 120, 195, 272, 281, 282, 301.
Especialização (vs. generalidade), 128. Espera (e
fazer esperar), 94, 123, 131, 143. Espontaneidade,
243, 245.
Esquerdismo, “esquerdistas", 227, 243. Estado
crítico (v. tb. estado orgânico), 198,210, 226, 234.
Estado, “- literário”, 30, 39, 40, 44, 54,
58,60,64,66,71,80,91,102,112,113, 124, 133, 139,
145, 148, 152, 171, 179, 188, 191. 198, 200, 209,
210, 212, 213, 216, 226, 234, 236, 240, 249, 285,
286, 290, 294, 298.
Estatística (efeito da), 12, 42, 66, 130,
148, 166, 193, 197, 204,211,216, 243. Estratégia,
v. tb. cálculo retórico, sistema de defesa coletivo,
21, 39, 44, 53, 87,
157, 193, 251,280, 281.
Estrutura temporal (do campo), 189,
234.
“Estruturalismo”, 98, 161, 163, 168, 271.
Estudantes, - como público, 34, 58, 70, 100, 116,
136, 139, 150, 159-163, 171, 172, 174, 179, 181,
184, 190, 209,213,
215- 218, 220, 222-224, 226, 233, 235, 236-239,
241, 245, 259, 264-267, 272, 277,297,303.
Etnologia, 31, 49, 141, 143, 162, 163,
168, 298, 302, 304.
F
Faculdade, - de direito, - de medicina, - das letras
e cicncias humanas, - das ciências, conflito das -,
28, 44, 57-59, 63,
66, 67, 69, 71, 72,77, 81, 85, 87-88, 90, 91,95, 97,
102,104-105, 111, 113, 128,
129, 143, 148, 169, 177-179, 185, 186,
213, 217,222, 237, 255, 264, 285, 286.
FESTUGIÈRE, 147.
Filósofos, 128, 168, 271-272, 296-297,
299- 301.
FLACELIÈRE, R., 114, 126, 167, 263, 286, 295, 299.
FLAUBERT, G.: 81,195, 207,227, 233,
300.
FOUCAULT, iM., 96, 148, 296-298,
300- 301,304.
FREUD, S., 26,155, 300.
Funcionalismo do pior, 194.
G
GAUSSEN, F., 239.
GEISMAR, A., 224, 238.
Geógrafos, 54-55, 118, 221, 222. Geração
(universitária), idade e -, modo de-, 69, 93, 1243
128, 163, 179, 182, 192, 202, 211, 214, 251, 298,
299, 301. GILLISPIE, C. C., 23.
GIRARD, A., 64-65, 126, 128, 155,
277.
GOFFMAN, E., 233.
GOLDMANN, M., 155.
GOULDNER, A. W., 34.
Gramática, 95, 138, 168-169, 182, 190, 269.
Greve, 229, 237.
G RJ MAL, P., 133.
Grupo, gênese do -, modo de existência
do -, 25, 32, 37,39, 41, 46, 51, 52, 87, 98, 101, 103
116, 118, 133, 183, 202,
214, 217, 221, 227, 229, 233, 240, 241, 244,246,
271,273.
Guerra civil, 232,302.
GURVITCH, G., 147.
GUSTAD, J. W., 34.
H
Habitus, orquestração dos -, 19, 23, 41, 68, 80, 83, 88,
89, 98, 125, 136, 188,
194, 197, 198, 205, 226, 228, 229, 231, 237, 244-
246, 278.
HALBWACHS, M., 171, 183. HAMBURGER, J., 90.
HAUGEN, R., 139.
Homo academicus | Pierre Bourdieu
HEGEL, G. W. F., 128, 129,211. Heresia (modelo dc),
92.
HEURGON, J., 133, 147-148. HIRSCHMAN, A., 227.
História (estrutural), - e história eventual,
23,31,39,45, 52, 58-59,61,72,95,97, 100, 101, 105,
109-119, 126, 128, 143- 145, 155, 158, 162-163,
168, 174, 177, 179, 180, 182-186, 194, 195, 201,
209,
219, 221, 225, 229, 231-234, 244, 259,
260, 283, 298, 300-302.
Historiadores, 21, 24, 55, 128, 144, 151, 184,219,
221.
Historicismo (v. sociologismo), 194.
Hit parade, v. tb. palmam, 24, 161, 271, 273,
275,280, 281.
HOBBES,T., 125.
308
HOLTON, G., 207.
Homologias, — de posiçáo e identidade dc
condição; v. tb. posição, 43, 228, 231. HUGO, V.,
195.
Humor (anti-institucional), 226, 297.
I
Idade (normal); v. normal, geração, 121. Identificação
(antecipada); v. tb. sucessões (ordem das), 45, 130,
179, 200, 205,
223.
Igreja, 137, 228, 252, 296. lUusio, 14, 87, 289.
Incorporação (das estruturas), 202. Indivíduo
construído (indivíduo concreto), 22, 23, 45, 47.
INSEE, 12,29,51, 166.
Instante, v. tb. crise, doxa, acontecimento, 26, 209,
234, 236.
Instituição, carisma dc -, efeito de -, legitimidade
de —, pensamento dc -, 34,
56,61,69,82,86,89,96,104,105,107, 108, 114, 115,
118-120, 131-133, 136- 140, 142, 148-151, 155,
156, 159, 167,
168, 171, 189-192, 198, 201, 213-215, 218, 220,
222, 227, 228, 238, 239, 254,
255, 257, 276, 280, 289, 295-297, 299, 302-305.
Instituto, 11, 12, 30, 43, 69, 75, 81, 94, 100,
111,253,255,259, 286.
Insulto, 33, 51.
Integrismo (vs. modernismo), 152, 155. Intelectual
responsável, 165.
Invariantes (estruturais), 58, 59, 61, 95, 293.
Investimento (específico); v. tb. illusio,
34, 78, 89, 103, 123, 151, 180, 189, 201,234.
JAMOUS, H., 94, 143.
Jdanovismo, 230.
Jornalismo (relação ao); v. tb. Le Monde, Le Nouvel
Observateur, 22, 31, 108-109, 115, 145, 148, 150-
152, 159, 160-163,
278, 280, 281, 297, 299.
K
KANT, E., 54, 57, 63, 83, 95-96, 102,
298.
KAUTSKY, K., 229.
Khâgne, 137, 155, 167, 182, 186. Khâgneux, 155,
182. 185, 202.
KNOPF, A. A., 26.
KRAUS, K.. 25,26, 48.
LABROUSSE, E., 109, 127, 128. LADD, E. C., 68.
LANG, S., 68.
LANSON, G., 65, 157, 158-159, 233.
Le Monde, 76, 83, 115, 155, 156, 219, 239, 250,
260, 261-263, 285. LEVAN-LEMESLE, L., 91.
LEIBNIZ, W. G., 91, 129, 188.
Leitor (vs. autor), 44,47,48, 51-57,132,
156, 193,273, 292, 294.
Le Nouvel Observateur, 24-33, 108, 111,
155, 161,286, 297.
LEPENIES, W., 54.
LETHÈVE, J., 124.
Letras clássicas, filologia. 118, 138, 148,
169, 182.
LÉVI-STRAUSS, C., 45, 46-49, 114, 146-147, 155,
161, 249, 258, 260-263,
266, 275, 277, 287, 296-300, 304.
LI ZHI, 26.
LUC, J. N., 219.
Limites (ignorância dos); v. tb. habitus, 36, 38, 53,
61, 67, 72-80, 89, 95, 98, 100-102, 107-108, 111,
124, 131-132, 136, 142, 147, 152, 156, 160, 168,
189,
195, 198, 199, 231, 243, 255, 280, 291. Linguística,
57, 100, 115,139, 141, 144,
158, 163-164, 169, 186, 193-194, 243,
256, 260, 263-264, 286, 288.
LIPSET, S. M., 66.
M
Má-fé coletiva, v. tb. dupla consciência, sistema de
defesa coletivo, 142, 153, 290,
292.
MALINOWSKI, B., 227.
Mandarim, 26, 121.
Mandatário (ou porta-voz); v. tb. sindicato, 31,
156-157, 197, 227, 230, 237, 238, 245-247.
MARAT (ponto de vista de), 23. MARCUSE, H., 227.
MARROU, I., 147.
MARX, K., 155.
MCGEE, R. J., 124.
Mecanismo (vs. finalismo); v. tb. cálculo, estratégia,
123, 193, 194, 216.
Medicina, 64, 66, 67, 85-98, 103-104,
123, 138, 143, 168-181, 213, 218-219,
253, 255, 257, 271-273, 275, 285, 303.
“Mestres” (vs. professores); v. tb. alunos (ou
discípulos), 47, 60, 64, 90, 99, 105, 114, 119, 120,
122, 125, 126, 131, 141,
144, 147, 150-151, 163, 169, 178-180, 184, 188,
190-192, 198, 201, 204, 205,
216, 222, 223, 235-238, 240, 241, 265,
267, 277, 296, 299, 303.
MOURIAUX, J., 215.
N
Nanterre, 105, 111, 113, 126-128, 148, 162, 179,
226, 286, 299.
Nepotismo, 87, 90, 98.
NETTELBECK, J., 77, 86, 87.
Nobreza, 16,32,51, 129, 199.
Nome (próprio), 29, 33, 45, 49-51, 66,
85,88,90,103,147,169, 236,238,280. Nomeação, 51,
67, 119, 120, 122, 253, 254, 276.
NORA, P., 274.
Normal (idade, duração, trajetória); v. tb.
precocidade, sucessões (ordem das), 101, 147,
188, 201,202,210, 238. Normalista (título dc), 32,
80, 110, 120,
124, 128, 148, 189, 191, 193, 198, 201- 204, 219,
221, 222, 269, 286, 297, 299,
301.
Normas (de carreira), decalagem entre - e normas
dc recrutamento, 41, 52, 54, 64, 111, 139, 153, 167,
179-180, 185, 189- 191,205, 273, 295.
Notáveis (universitários), 200.
Numerus claustisy 172.
O
Objetivismo, 290.
Oblato, 78, 80, 115, 116, 136, 137, 152, 164,
266,302, 304.
Oficial, oficialização, 28, 30, 49, 51» 62, 64, 72, 74, 84, 86,
114, 115, 187, 209, 261,281,299, 300.
OLSON, F. 227.
Opiniáo (comum dos doutores), - política (e posiçáo
universitária); v. tb. politizaçáo, - publicada (pública), -
pública/privada, coerência das - 67, 93, 97, 98, 100, 101,
119, 139, 209, 240,
242, 244.
Homo academicus | Pierre Bourdieu
Orçamento-tempo, 84, 135.
Ordem (temporal), 44, 46, 55, 65, 70, 78, 80-82, 85, 88,
94-98, 102, 104, 111, 121, 126, 131, 142, 145, 148, 154.
166, 172, 185, 188, 189, 196-205, 219, 223- 231, 233-237,
241-243, 246-247, 285, 286, 293, 297, 300-304.
Ortodoxia (heresia), 82, 94, 98, 143,
156, 302.
OZOUF, M., 115.
P
Palmarès (efeito de), 31, 115, 139, 161. PARIENTE, J. C.,
45, 49.
PÉGUY, C., 21.
PERROUX, F., 114.
310Perspectivista, 37, 40-41.
Peso social, 86, 107, 119, 141, 260. Pesquisa (vs. ensino),
relaçáo com a -, 25-26, 31, 35-36, 42-46, 53, 56, 64, 67,
76,78,82-85, 91 -93,103-108, 111 -120,
124, 128-129, 135-137, 140-146, 148- 151, 161-168,
170, 182, 185-188, 191- 192, 201, 211, 217, 221, 239, 249,
260-
261, 267-269, 272, 274-276, 279, 282, 291,304.
PICARD, R., 154-159, 160-163, 165,
299.
PINGET, R., 52, 272.
PIVOT, B., 24.
Podcr, - como - sobre os mecanismos de reprodução, -
temporal como prêmio de consolação, - universitário (e
tempo), complementaridade dos -, instrumentos
do - cultural, relação ao - político e econômico,
reconhecimento do -, 25-26, 28, 30-36, 41-45, 49-53, 55-
56, 61-71, 74-78, 81-84, 90-94, 99-101, 103-119, 121-
129, 131-139, 141-149, 151-155, 159-169, 172, 180, 194,
199-202, 211-
217, 224, 227-230, 242-245, 251, 254-
257, 265-266, 271-279, 281, 294, 299, 303.
POINCARÉ, H., 207.
POLIN, R., 47.
Politizaçáo, política; v. tb. crise, 42, 159, 197, 232, 241-
246, 298.
Posições, - e disposições, - c posicionamentos,
homologia de -, 26, 28, 30,
35, 39, 41-42, 48, 53, 55, 59, 61, 66- 68, 80-81, 85, 92-93,
96, 100, 103-109, 114-116, 119-122, 130, 136-137, 141-
149, 153-155, 168, 170, 179, 191, 200- 202, 204-205,
209, 211-214, 216, 218-
220, 223-224, 226, 228-229, 231-232,
235, 238, 240, 242-244, 254-258, 265, 274-275, 281,
297.
Precocidade (legítima); v. tb. brilhante,
138, 191,201,253, 259.
Presente (como atualidade), 57-61, 208, 214, 216, 234,
237, 243, 291, 294. Privado (ensino), 61, 67, 69, 73, 77, 80,
112-113, 270, 282, 303.
Profecia, 227.
Professor primário (filho dc), 72, 213, 269.
Professores (c escritores), - c jornalismo; v. tb. jornalismo
e - mestres; v. “mestres”, 33, 44, 56-58, 61-78, 80-100,
104-116, 124-130, 134-135, 137-145-160, 162-
169, 171-174, 177-187, 189-192, 196- 209, 215-227,
233-243, 257-258, 261, 264, 267, 271-292, 295, 298.
Programas, 75, 83, 137, 139-140, 145, 154, 231,240, 244,
278.
Proletários (vs. subproletârios), 209, 230. PROST, A., 178.
Proteção (c dependência); v. tb. clientela, poder,
tempo, 41, 85, 143.
PROUST, M., 103, 157, 233, 240. Província (vs.
Paris), 69, 75,100,119, 123, 135,169,178,200-
201,219-220,252. Prudência (institucional); v. tb.
acadêmica mediocritasy audácia, risco, seriedade,
34, 54, 131, 156, 203.
Psicologia, 158, 164, 180, 185-186,213-
214, 222, 259, 298, 300.
R
Reconversão, 140, 159, 168, 212, 302. Regra (vs.
regularidade), 130, 193, 200. Religião, 15, 68, 74,
77, 82, 109, 139- 147, 252, 285.
RENOUVIN, P., 109, 119-120, 127. Representação
isomorfa, 48.
Reprodução (do corpo professoral), modo de -,
56, 68, 77, 80-86, 88-92, 104, 110-116, 121-123,
132, 137-140, 143-146, 159-160, 167, 179, 184,
185,
188, 196, 199, 201-202, 209-212, 235,
242, 247, 252, 968.
Ressentimento; v. tb. seriedade, 131, 220, 226,
266.
Retóricas (estratégias), 53, 159. REUTER, E., 111.
Revolução, - específica, - simbólica, 122, 209-210,
227, 242,247, 303.
Risco, 47, 50, 53, 108, 116, 131, 179,
183,211,251,271,279.
ROBBE-GRILLET, A., 51, 272. ROBERT, F, 127, 133,
236.
Romance (e sociologia), 43.
ROM ILLY, J. dc, 127, 236.
S
Sacerdócio universal, 228.
SARTRE, J.-P., 155, 162, 166, 235, 293, 298,301.
SAUVAGEOT, J., 224.
SCHORSKE, C., 26.
SEARLE, J. R., 52.
Segurança (e seguranças), 52, 55, 56 88, 147, 156,
199, 200.
SEI BEL, B., 191.
Senso (sentido), - de ordern, - das ambições
legítimas, - da colocação, - prático, 47, 69, 80, 86
130, 157, 183, 202, 208, 234, 280, 289.
Seriedade; v. tb. brilhante, 34, 54, 78, 88, 121, 131-
132, 138, 166. SHAKESPEARE, W., 23.
Sincronização, 60, 210, 224-226, 232- 233, 237.
Sindicalismo universitário, 42.
Sindicatos, 197, 238,239,245-246,263- 264.
Síntese (escolar), 139.
Sistema de defesa coletivo, 40. Sociólogos, 43, 53,
88, 221-222. Sorbonne, 30, 50, 105, 109-113, 119-
121, 123-130, 132, 137, 139, 141, 140, 142-149,
154, 157-158, 162, 238, 249, 286, 296-298.
SPITZER, L., 52, 137.
STAROBINSK, J., 137, 155. STRAWSON, P. F., 45-
47.
Sucessões, crise das -; v. tb. geração, reprodução,
tempo cíclico, 121, 188-
189, 200, 203, 223, 234, 293.
T
Tela (efeito dc), 229.
Tempo, - cíclico, - e poder, - publico, oblação de -
; v. tb. sucessões (ordem das),
125, 133, 199-200, 235, 237.
Teoria (efeito de), 29, 39.
Tese, - de 3“ ciclo; v. tb. académica mediocritas,
esperar (c fazer esperar), poder, prudência, 37, 67,
84, 108, 111- 118, 120-123, 126-131, 134-135,
139-
145, 151-152, 161, 167, 170, 178, 180,
187, 196, 200-204, 207, 296.
Tersitcs (ponto de vista de), 23.
TOMÁS dc AQUINO, 59.
TIANO, A., 78.
Tipologias (crítica das),
33-35, 50. Tomada dc
consciência, 55, 193,
217, 244.
Trajetória; ponta da -,
36, 38,60, 70, 86, 121,
145, 146, 152, 188, 191,
199-204, 221, 235, 237,
278, 294, 300.
TRIPIER, P., 111.
Homo academicus |
Pierre Bourdieu
Trocas (universitárias),
120-121, 133- 136, 152,
161.
U
Universal
(universalização); v.
retórica, 41,227.
Utilitarista, 131, 227.
V
Violência simbólica
(monopólio da), 49, 94.
Visibilidade
(jornalística), 24, 208,
276- 278.
Völkisch (humor), 230,
282, 297. Vulgarização
legítima; v. canonização,
139, 161.
W
WEBER, M., 29, 44, 132.
WITTGENSTEIN, L., 35,
50, 61.
Tomei compléta consciência desse problema quando vários de meus primeiros leitores me priliram para “dar exemplos" a propósito de
análises das quais eu tinha conscientemcntc excluído Unias as informações “anedóticas“, mesmo as mais conhecidas dos "meios bem informados”,
mesmo .is que o jornalismo ou o ensaísmo sensacionalista apressa-se para desvelar.
I \t ol.i dos Anais denunciam com a maior ingenuidade a violência reprimida que suscita a exclusáo Intelectual duplicada pela distância
provincial: “Os novos historiadores apresentam portanto um prttjelo comute c ideologicamente adaptado ao público ao qual se destina. [...). É esta
expansão que explica o sucesso dos novos historiadores. Em seguida, eles puderam partira conquista da ediçáo e «l.is mídias visando obter o que
Régis Debray chama de “visibilidade social” (H. Couteau-Bcgarie, It phénomène nouvelle histoire. Paris, Economica, 1983, p. 247 e 248).
* J. Bouvercsse, Le philosophe chez les autophages, Paris. Éd. de Minuit.
1984, p. 93 sq.
Para uma espécie de ato de fe simbólico, sem dúvida náo premeditado, todos os jornais vienenses fizeram o mais absoluto silêncio sobre Die
Fackel, durante toda a vida de Karl Kraus.
'• Sabe-se que a interpretação dos sonhos, que Freud tinha como sua obra científica mais importante, encerra, sob a lógica manifesta do tratado
científico, um discurso profundo no qual, por meio de Ulna sequência de sonhas peuoai*, Ficud apiocma uma análise dc suas rclaçócs,
incxtricavclmente
mmuradas, com seu pai, com a política c com a Universidade. Cf. principalmente Cari E. Schorske, lin </e Siècle Vienna, Politics and Culture, Nova
77 9
York, Alfred A. Knopf, 1980, p. 181-207 (Viennefin ,le siècle, Politique et culture, trad. Y. Thoraval, Paris, Seuil, 1983. P- > -> 6)-
u
A. \V. Gouldner, Cosmopolitan and Locais: toward an Analysis of Latent Social Rules. Administrative Science Quarterly, 2, dezembro dc 1957, p. 281-
307.
11
B. Clark, Faculty Organization and Authority, cm T. F. Lunsford (ed.). 77 ;«* Study of Academic Administration, Boulder, Colorado, Western
Interstate Commission for Higher Education, 1963, p. 37-51 c Faculty Culture, no V)e Study of Campus Culture, Boulder, Colorado, Western Interstate
Commission for Higher Education, 1963.
M
J. W. Gustad. Community Consensus and Conflict, The Educational Record, 47. Fall 1966.
ficçáo dc realidade onde se cumpre sua verdade de ficçáo.
* Tudo permite supor que o fosso entre as universidades e os «critor« ou.os livres é sem dúvida menos evidente que no entreguerras ou
no final do século XIX, pelo fato d referir-se cm parte ao interior do campo universitário, em razao da abertura da VmveTSldzj profcssorcs-c.scriiorcs ou

ï
a profcssores-jomalistas graças ao aumento do corpo M
expansão da população estudantil e das mudanças correlatas dos procedimentos dc admissao. Uma história estrutural c uma sociologia
comparada do campo universitário ^^'am cons.dcrar particularmente essas variações segundo os momentos c as sociedades, a distança ^
nwaa0 dc
dois campos (que sc pode mcdir a P"* dc diferemcs ind,c;os’ COm° ° l
de um campo a outro, a frequência da ocupação simultânea dc posição num e noutro campo . distância social - em relação à origem social, escolar,
etc. - entre as duas populaç^ a ftequêno. dos encontros institucionalizados ou náo. etc.) e os efeitos sociais que podem estar ligados, nos dois
campos, a essas variações.
demifico c ético, que no, 1™ a manter somcn.c as opiniões política, publicamente “Eu disse que náo repondo a essas cnquc.es. Minhas opiniões sâo
conhec.das dc todo mundo. Eu não as escondo. Mas não respondo à enquete. Eu disse que nao respondo,a ers,a enquete (Encontrar-se-á uma
crónica, muito apaixoname, das reações suscitadas por um S““'“""10 pouco defensável - de E. C. Ladd c S. M. Lipset sobre os professores americanos
na obra de S. Lang, TK RU. Nova York, Heidelberg, Berlim, Springer-Verlag. 198t.)
Somente uma parte da informação recolhida sobre esse ponto pôde ser utilizada no «tudo omparativo dos professores das diferentes faculdades, pois os
cursos os concursTos exanTcl t mulos, sao profundamente incomparáveis e só podem sc prestar a comparações no interior
POr 35 isdplinas (ainda Uc C5sas
de cada
f ^ comparações sejam difíceis, em muitos
casos pela incompatibilidade relativa das disciplinas c também pela exiguidade das populações
Ä Emr; 05 dadOS ná° UtÍ,Í2ad0S- -encionar por exemplo, para asCe"-
ciências, o lugar dc preparação para o concurso da ENS ou da licenciatura, o número de anos de p paraçao para o concurso da ENS. o ranking dc entrada, a
idade na entrada, a idade na agrecaçáo a idade do ™KntC’ n° pr0{CSS07d°; "a da tese de doutorado, etc.. ou. para a mSTcL'
ÄTC° a idadc d imcrna, C
° ° ° admissão, a idade
de assKtcntc, nos hospitais, no professorado, a condição dc orientador (grande ou pequeno iovem
< u velho, etc.), que constitui sem dúvida um elemento determinante do capital social específico e cu,a escolha parece depender muito do capital social
P
herdado. an;í, SC
^
Ipe^CoLíTd^U Í ’ ? PCrtCndmcni° ao Conselho do ensino
superior, ao Conselho da Umvers.dadc, a direção de coleções na Imprensa universitária da Fiança.
(c par^rülTJrH r ° PCr,eiKÍmenr; a acadcmias ««“»gd™. os doutorados honoris causa / ' ° nTCr° dc ***** c dc ‘,b™ Publicadas). Foi preciso desistir dc
um indicio aparentemente tao simples como o número dc artigos ou obn» publicadas ípara rvirar comparar o incomparável ignorando as
diferenças que separam cm seus objetos seus métodos seus

fe. «c5roduçós das difercm“ 1« Ä


Náo sc pôde manter os prêmios “intelectuais”, extremamente numerosos e disparatados, que náo poderiam ser codificados adequadamente
sem um estudo preliminar.
'* “Dicionário biográfico dos que contam na França” ( Who’s who in France). Quern é quem No podem ser encontradas
biografias ou grupos dc referenda cm diferentes domínios. (N.T.)
,f
Náo sc manteve o pertencimcnto ao Conselho econômico c social, muito raro.
18
Os dados recolhidos para uma parte ($8%) dos professores dc cicncias c para os professores dc mcdicina permitem supor que a hierarquia
seria a mesma sc fosse levada crr. conta a profissáo dos avôs, paterno e materno, ou, devido à tendência à homogamia, o estado profissional da
esposa, com, do lado das faculdades de letras c dc ciências, uma taxa elevada dc professores c do outro uma taxa elevada de inativos e de médicos.
10
Tudo parece indicar que o significado subjetivo c objetivo da adesão declarada ao catolicismo varia segundo sua frequência no conjunto da
faculdade ou da disciplina e, secundariamente, segundo o conteúdo, mais ou menos científico c “modernista”, da disciplina.
u Sobre esse ponto como sobre tantos outros, verdadeiras monografias seriam necessárias para determinar a parcela do salário nos rendimentos

globais c a natureza dos recursos complementares, ligadas evidentemente à estrutura dos orçamentos-tempo. Do lado do poJer universitário, os
cursos suplementares podem ser fonte dc rendimentos importantes, assim como os direitos dc autor de manuais dc sucesso (seria preciso
estabelecer como eles variam segundo as faculdades). Decorre que as gratificações indiretas devem aumentar consideravelmente quando sc vai
das ciências para a mcdicina.
11
Cf. J. Ncttdbcck, Le recrutement des professeurs d'université, Paris, Maison des sciences dc
l’homme, 1979, ronéoté, p. 80 sq. (anexo estatístico).
0 Sobre as consequências financeiras, no nível da soma dos tratamentos adquiridos pelo conjunto da carreira, das disparidades dc carreira, cf.
A. Tiano, Les trainnents des fonctionnaires, Paris, Éd. (Jenin. 1957, especialmente p. 172 sq.
*’ É prcciso analisar, por exemplo, o verdadeiro "ciclo da Kula” que representavam os depósitos dc cartáo dc votos, no Primeiro do Ano, entre os
professores dc medicina.
16
Muitos professores dc direito prccnchcm hinçóes dc cspccialistas ou dc consultores junto a órgãos públicos ou privados, nacionais
(ministério da Justiça, por exemplo) ou internacionais (UNESCO), ou dc delegados oficiais das instâncias governamentais (nas conferências
internacionais, nas comissóes do Mercado comum, no Bureau internacional do trabalho, nas Nações unidas, etc.). Eis um exemplo: “Eu fui
delegado do governo francês na conferência dc Haia (...]. Eu tenho atualmente a cada dois meses em Bruxelas uma comissão do Mercado comum
que se ocupa cm unificar todos os projetos de lei. Eu tive no ano passado no ministério da Justiça uma comissão dc revisão do código dc
nacionalidade. Atualmente, continuo cm Bruxelas. Eu fiz parte durante muitos anos da comissão dc cspccialistas do Bureau internacional do
trabalho [...]. Há os congressos. Eu faço parte do Instituto do direito internacional” (Professor na fàculdadc dc direito de Paris).

é,
Noa» do direito, os candidatos ao concurso dc agregação sáo admitidos num universo dc familiares, doutorandos, encarregados dc
concursos complementares, assistentes, isto entre pessoas que souberam sc fezer conhecer (cf. J. Nettelbeck, op. cit., p. 25). No caso da
medicina, a proteção dc um padrinho era uma condição absoluta do sucesso. Isso fazia com que o concurso cm si fosse frequentemente uma
simples ficção. Esse era por exemplo o caso, segundo um dos professores interrogados, da agregação: Foi um concurso, eu posso dizer entre nós,
que absolutamente náo subestimamos. Estimava-se que era um truque que vinha dc cima, porque tinha que ter a banca.
* Desistiu-se dc manter a direçáo dc laboratório entre as propriedades que determinam o pcrtcncimento: é dc fato muito difícil

distinguir os casos cm que esse título é um atributo estatutário do professor, como c frequente nas faculdades ou mesmo, cm mais dc um caso.
na Escola dos altos estudos, c os casos cm que esse título implica a direçáo efetiva dc uma verdadeira equipe dc pesquisa: de maneira que náo sc
pode tratá-lo nem como um indício de poder universitário nem como um indício dc cientificidadc ou dc engajamento na pesquisa.
6
Os profcssorcs-jornalistas sc distinguem dos jornalistas, c cm particular dos jornalistas culturais, que exerccm efeitos sobre o campo
universitário, no sentido dc que eles podem sc servir no próprio campo universitário do poder que lhe dá o accsso ao jornalismo, com todos os
benefícios corrclatos. (Seria portanto necessário, pela lógica, manter esse critério, cujo peso náo cessa de crescer, ainda que fosse para ter os meios
dc prestar conta dc algumas carreiras universitárias, principalmente na VI* seção da Escola dos altos estudos c da evoluçáo global desta
instituiçáo.)
* Essas contagens apoiam-se numa Lista das teses de história contemporânea apresentadas nas faculdades de letras da França metropolitana, portaria de
i- de outubro dc 1966 (n - 756 das quais 12Ó 347 tescs principais.60tesescomplementares. 271 teses de 3a
ciclo c 78 teses de umversidade),
estabelecida a pedido da Associação dos professores dc historia contemporânea das faculdades francesas. Encontrar-se-á uma descrição desse
documento em J.-B. Doroscllc, Les thèses d histoire contemporaine. Aires cultivées et zones en friche. Revuedhistoire moderne et
contemporaine,,anc.ro-
marco de 1967, p. 71 77 - - . „
*> Esta hierarquia, que difere pouco sc lhe acrescentamos as teses complementares, modÆca-« profundamente se consideramos o conjunto das
3
teses orientadas, te» para o doutorado de inclusive (e a fortiori somente essas teses). Se Girard. Duroselle, Mollat e Perroy estao sempre entre os
dez primeiros e nessa ordem, vemos aparecer Rémond e Remhardi e n. sequcncia, todo um conjumo de professores de Ciências políticas e da
Escola dos altos estudos. Essa vanaçao se ™d'nc' ainda mais se se consideram apenas as orientaçóes de teses do 3“ ado: Rémond (Nanterre. aanc as
8
políticas), 44. Vilar (Sorbonne, EPHE), 20. Reinhardt (Sorbonne, Gêneras políticas). . , Chesncaux (EPHE), H. Gagniage (Sorbonne) e Grosser
(Ciências portais)' 14, Uvau (Ciências políticas), 12 , hLI Ciências políticas), Lhuillicr (Estrasburgo). Touchard (Ciências polit, a».«* (o significado
dessas contagens é limitado pelo fato de que alguns professores - sobretudo os de C,encras polit,cas - também podem orientar teses
concernentes a outras disciphnas, portanto nao contabilizadas).
* Essas contagens estão fiindadas num agrupamento por orientador das teses (preparadas e defendidas) declarada« na enquete
da Maison das ciências do homem sobre os pesquisadores: elas subestimam portanto a taxa de teses orientadas em relaçao as listas oficiais tais
como a Lista dos trabalhos m grtgo. m latim (Associação dos professores de línguas antigas do ensmo superior junho de 1971). ainda mais que nem
todos os pesquisadores ou professores da disciplina responderam á enquete; mas elas oferecem uma medida mais correta do que as listas das teses
*7 Esta lista que sc apoia na enquete da Maison das ciências do homem dc 1967 traz as mesmas
observações que a lista das teses de grego. Certamente ela minimiza o número global dos inscritos:
por exemplo, Henri Gouhier declara numa entrevista ter tido sempre entre 50 e 80 inscritos e ter
participado de mais ou menos 15 defesas por ano: outro professor, menos solicitado, diz ter, no
momento da enquete, entre 25 e 35 inscritos, tanto cm tese dc Estado quanto cm tese dc 3a0 ciclo, c
ter participado de cinco ou seis defesas. O recenseamento para os anos 1965 a 1968 incluindo teses
depositadas na Sorbonne (Répertoire raisonné des sujets ai cours des doctorats d'État - lettres et sciences
humaines - inscrits en France, 1965-1970, Université dc Paris X-Nanterre c Centre dc documentation
sciences humaines) conduz a uma lista ligeiramente diferente, o que sc compreende porque ele
apreende melhor a atração dos diferentes patróes num período restrito do que o capital de clientes que
eles acumularam durante sua carreira (assim Hyppolite, tendo passado pelo Colégio dc França cm
1961, regressa, enquanto Souriau c Wahl, atingidos pela aposentadoria, desaparecem). Uma análise
rigorosa deveria distinguir as gerações universitárias - que náo coincidem com as gerações biológicas
c que fazem com que professores da mesma idade biológica mas com ingresso na Sorbonne em
idades diferentes possam ser totalmente incomparáveis do ponto dc vista do volume c da qualidade
de sua dicntela; c também com que os mais poderosos sejam frequentemente os que, tendo chegado
ao podcr mais jovens, detêm podcr há muito tempo.
u
A partir da lista já citada das teses de filosofia (registradas e classificadas por autor estudado), redistribuíram-se as teses entre os diferentes
orientadores e foram relacionadas a cada uma delas as características disponíveis de seu autor (tiradas da enquete da Maison das ciências do
homem sobre os pesquisadores).
** A comparação entre os inscritos de Ernest Labrousse, diretor de estudos na Escola dos altos estudos c ao mesmo tempo professor na Sorbonne
(ou mesmo de Pierre Vilar, também membro das duas instituições), e os de Louis Girard, professor na Sorbonne, que foi por muito tempo
presidente do CCU, permite ver que as coisas se tornam diferentes quando a Universidade canônica náo possui mais, como é o caso em história, o
monopólio das carreiras possíveis, devido às possibilidades oferecidas por outras instituições, tais como a Escola dos altos estudos ou Ciências
políticas. Enquanto a maioria dos alunos de Louis Girard teve carreira obscura ou sc tornou conhecida fora da Universidade, como Louis Mcrmaz.
Jean HJleinstein ou Louis Mexandeau, muitos alunos de Ernest Labrousse estáo entre os mais prestigiosos historiadores de sua geração e cm
grande proporção fizeram sua carreira na Escola dos altos estudos (ou em Vincennes).
* É cvidcncc que a necessidade social só pode sc exercer ocultando-se sob a aparência da necessidade técnica. Dc maneira que o duplo jogo
entre as duas necessidades que tende a se tornar a regra, com a cumplicidade das duas partes, constitui um dos obstáculos maiores à instituição
dc verdadeiros contratos dc aprendizagem livremente consentidos cm que as exigências c os controles impostos visam preparar seu próprio
enfraquecimento ao fornecer os instrumentos dc trabalho, que sáo a condição da verdadeira liberdade intelectual.
” L Spitzer, Études de style, prefácio dc J. Starobinski, Paris, Gallimard, 1970, p. 165, n. 26 c p. 159, n. 2.
* Classe que prepara para o ingresso na Escola normal superior. (N.T.)
** Cf. E. Haugen, Language Conflict and Language Planning, Cambridge, Harvard University Press, 1966, p. 4.
w
Conhecc-sc a ligação que unia as Imprensas universitárias da França aos professores da Sorbonne, detentores estatutários da direção das grandes
coleções onde sc publicam teses subvencionadas c obras de síntese socialmente caucionadas pela autoridade de instituição. (Seria preciso analisar,
na mesma lógica, o funcionamento c a função ambígua dos Ateliers de impressão universitária).
41
Seria interessante medir a intensidade da orientação para o ensino inventariando as horas "complementares” de ensino na instituição de lotaçáo
ou alhures: tudo leva a pensar que. quanto mais nos aproximamos do polo dos ''reprodutores’ 1, mais frequentes são os que sc garantem benefícios
econômicos importantes multiplicando os cursos, dc maneira frequentemente muito econômica - intelectualmente -, sobre o mesmo programa dc
concurso - dc agregaçáo, sobretudo - na Sorbonne, na Escola normal superior, na escola Sévigné. etc.
4
* A parcela dc« “universitários eminentes" parece ter aumentado após 1968 graças à reaproximação provocada pela crise entre os grandes eruditos
c os grandes retóricos, ate então fortemente opostos.
47
Quanto mais sc vai para o polo da pesquisa, mais sc ve crescer a possibilidade de um distanciamento entre o capital propriamente simbólico c o
estatuto universitário, podendo alguns dos intelectuais mais prestigiosos ocupar posições universitárias completamente secundárias (como, no
momento da enquete, Louis Althusser, Roland Barthes ou Michel Foucault).
** Sc a originalidade principal da Escola dos altos estudos, isto é, a contribuição determinante que ela trouxe ao desenvolvimento de uma
verdadeira pesquisa em ciências sociais, encontra-se minimizada, e tambem porque a enquete a apreendeu num momento cm que seus
investimentos mais bem-sucedidos já haviam trazido benefícios importantes, mas frequentemente imputados a outras instituições (o Colégio de
França principalmente).
49
As relações com o estrangeiro, c principalmente com os Estados Unidos, sáo um dos princípios dc difcrcnciaçáo mais poderosos entre os
agentes, as disciplinas e as instituições, c portanto uma das fichas mais disputadas das lutas simbólicas para o reconhecimento. A VI1 seçáo é um
dos importantes lugares do “intcrnacionalismo" científico; ela foi o lugar da importação dc muitas novidades científicas c também uma das bases
mais importantes da exportação para o estrangeiro (principalmente no domínio da história c da semiologia).
51
R. Picard, Nouvelle critique ou nouvelle imposture, Paris, Pauvcnt, 1965, p. 84; c Le Monde dc 14 c 28 dc março, 4 c 11 dc abril dc 1964.
51
J. Piaticr, La “nouvelle critique” est-elle une imposture? U Monde, 13 dc outubro dc 1965.
” J. Bloch-Michel, “Barthes-Picard: troisième round". Le Nouvel Observateur, 30 de março-5 de
abril de 1966.
55
Le Monde, 5 dc fevereiro de 1966. Outros acrescentam Mauron ou Rousset.
57
Encontra-se uma lista dos artigos cm favor de Raymond Picard em R. Barthes, op. cit., p. 10, n. 1.
** R. Matignon, Le manticn dc l’ordre, L’Express, 2-8 dc maio dc 1966
w
R. Picard, op. cit., p. 69.
60
Id., p. 72.
6t R. Picard. “Un nihilisme confortable”. Le Nouvel Observateur, 13-19 de abril de 1964.
61
E. Guiiion, Le Monde, 13 de novembro de 1965.
64
R. Banhes, op. cit., p. 13.
** Id., p. 14.
69 Cf. C. Charle, La crise littéraire à l’époque du naturalisme, Paris, Pens, 1970, p. 157 sq., c A. Compagnon, La Troisième République des lettres, Paris, 1983.
69 A oposiçáo entre os defensores modernistas da cultura científica que encontram aliados entre os altos funcionários e os administradores
científicos, portadores privilegiadas de um modernismo tecnocrático c detentores de um poder novo, diferindo ao mesmo tempo do poder dc
produção e do poder dc reprodução, e os defensores tradicionalistas da cultura literária náo deve disMinulai a emergência de um terceiro polo, a
cultura econômico-politica, cujo peso tende a crescer à medida que aumenta sua eficácia simbólica no campo político. (A análise das respostas à
consulta nacional da AEERS sobre a Universidade mostra que a posiçáo tecnocrática pura que subordinaria todo o
78
Do ponto dc vista da divisão do tempo entre o ensino c a pesquisa, a oposiçáo é muito marcada entre os dois poios extremos que marcam de
um lado os professores das disciplinas canônicas das faculdadcs dc letras (ou. em último caso, os professores das classes preparatórias para as
grandes cscolas) c do outro os professores e os pesquisadores dc cicncias sociais que podem se dedicar mais completamente à pesquisa. Encontra-
sc o mesmo tipo dc oposiçáo no que concerne à relação entre a formação recebida e a prática profissional: a continuidade perfeita que caracteriza
a carreira escolar c profissional dos professores de khâgne ou de taupe c, quase no mesmo grau, professores de letras ou de gramática, se opóe à
dcscontinuidadc quase total (c às vezes deliberadamente duplicada pela preocupação em manifestar a convcrsáo c a ruptura) que se observa nos
pesquisadores dc cicncias sociais (cf. abaixo, capítulo 4).
4
Nas faculdadcs dc letras, o número dc professores ou o número dc doutores varia muito pouco entre 1949 e 1969. enquanto o número dc
assistentes e mestres-assistentes cresce muito rapidamente, sobretudo após 1959. Alem disso, o número dc teses dc 3° ciclo aumenta num ritmo
muito elevado, sem que a agregaçáo deixe de ocupar um lugar central.
M
Preciso dizer que, tendo há muito denunciado o que chamo dc funcionalismo do piore fomccido. com a noção de habitus, a maneira dc explicar a
aparência dc teleologia objetiva que possibilitam alguns coletivos, náo me reconheço de maneira nenhuma cm rótulos, como os de sociologismo .
“realismo totalitário” ou “hipcrfuncionalismo". que muitas vezes me são aplicados (cf. F. Bourricaud, Contre le sociologisme: une critique et des
propositions, Revue française de sociologie, 16, 1975, suplemento, p. 583-60} e R. Boudon. Effets pervers et ordre social, Paris, PUF, 1977)?
15
Penso por exemplo nesse relatório (aliás muito compreensivo) dc um dc meus livros que dizia: “Esta competência {linguística} sc parece
com um capital, remunerado em distinção c cm poder. Seus detentores a defendem como quem resguarda um mercado, c velam para que o capital
linguístico permaneça desigualmente repartido. Importa que, acima do falar ordinário, reine uma língua erudita, pouco acessível, única suscetível de
ser escrita, publicada, citada como exemplo”.
’ Pelo fato de que o sistema de ensino tende a sc tornar o instrumento oficial da redistribuiçáo do direito dc ocupar uma parte incessantemente
crescente das posições c um dos principais instrumentos da conservação ou da transformação da estrutura das relações de classe pela mediação da
manutenção ou da mudança da quantidade c da qualidade (social) dos ocupantes das posições nesta estrutura, o número dc agentes individuais
ou coletivos (associações dc país dc alunos, administração, chefes de empresas, ccc.) que sc interessam pelo seu funcionamento e pretendem
modificá-lo porque esperam a satisfação dc seus interesses tende a aumentar. Pode-se ver indícios desse processo na extensão das associações dc
pais dc alunos às classes medias, na criação dc um novo tipo dc associação familiar cuja açáo sc volta principalmente para o sistema dc ensino, no
surgimento dc grupos depressão cspccíficos - tais como os que organizam os colóquios dc Cacn, Amiens ou Orleans - reunindo patrões,
tccnocratas c professores (e, secundariamente,
o lugar reservado aos problemas do ensino nos jornais, que têm todos atualmente um ou mais especialistas agrupados cm associação, ou ainda a
parte das questões consagradas a esses problemas nas sondagens de opiniáo).
4
Essas reflexões e essas interrogações podem, parece, ser estendidas a qualquer crise (ou revolução): por náo apreender como tal a lógica dos
diferentes campos, náo sc deixou levar seja por uma aparente unidade dos acontecimentos revolucionários, seja, ao contrário, pelo tratamento dc
diferentes criscs locais como momentos sucessivos, correspondentes a grupos diferentes (revolução aristocrática, parlamentar, camponesa, etc.),
movidos por motivos diferentes, de um conjunto aditivo dc criscs separadas, justificáveis em último caso por explicações separadas? Se cada
revolução abrange na realidade várias revoluções ligadas entre si c rcmctc portanto a vários sistemas dc causas, não seria preciso questionar causas
c efeitos da integração das criscs particulares? Etc.
7
Entre as razões que limitam a validade da analogia da inflaçáo - à qual recorri numa fàse antiga dc meu trabalho (cf. P. Bourdieu, L’inflation
des titres scolaires, mimeografado, Montreal, 1975) - há o fàto dc que os agentes podem opor à desvalorização estratégias individuais ou coletivas,
como as que consistem cm produzir novos mercados próprios a fazer valer os títulos (criaçáo dc novas profissões) ou a modificar mais ou menos
completamente os critérios que definem o direito dc ocupar as posições dominantes c, correlativamente, a estrutura das posições no interior do
campo do podcr.
* Muitas interações, e mesmo relaçóes sociais mais ou menos duráveis, têm por princípio a pesquisa inconsciente de um reforço objetivo dos
sistemas dc defesa que sáo sempre cm parte (mas cm graus muito variáveis) as visões do mundo social.
O retorno às realidades, verdadeiro retorno do rejeitado social (que náo tem nada a ver com o que sc entende ordinariamente por “tomada de
consciência”), c o cnfraquccimcnto das defesas por muito tempo opostas à descoberta da verdade objetiva da posiçáo ocupada podem tomar a
forma dc uma crise cuja violência é sem dúvida maior quando foi por muito tempo diferenciada (cf. a “crise da quarentena”) c pode encontrar na
crise coletiva um gatilho c uma ocasião dc sc exprimir sob uma forma mais ou menos sublimada (como testemunham todos os casos dc conversão
ética ou política associados à crise dc Maio).
Aos que veriam uma exceção no papel que certo número dc normalistas exerceu, antes e durante maio dc 1968. nos movimentos
subversivos, basta lembrar que o período 1960-1970 foi marcado por um declínio da posição escolar da Escola normal c também, sem dúvida, das
posições sociais objetivamente oferecidas aos normalistas — apesar do aumento da admissão dc normalistas nas faculdades -, que coincide com
uma elevação da origem social dos alunos. Assim, a parte dos filhos de membros das profissões liberais, engenheiros e quadros superiores passou
dc 38% entre 1958 c 1965 a 42% entre 1966 c 1973 e 43 3 . % entre 1974 c 1977 na ENS da rua d’Ulm, dc 14% entre 1956 c 1965 a 28,6% entre 1966 c
0
1973 c 32.2% entre 1974 e 1979 na ENS dc Saint-Cloud - N. Luc c A. Barbé, Histoire de l’École normale supérieure de
Saint-Cloud, Paris. Presses da la FNSP, 1982, tabela
17
Vê-sc que a intensidade particular de que sc revestem os conflitos no campo da sociologia se deve sem dúvida antes dc tudo à dispersão do
corpo c que náo se pode cm todo caso ver aí, como sc faz frequentemente, um indício de um menor grau dc cientificidade da disciplina.
18
Mostrou-sc como alguns assistentes das faculdades dc ciências são levados a sc aproximar dc seus alunos e a abandonar o papel magistral
para cscapar às dificuldades que lhes traz a concorrência dos mestres e dos “normalistas", cuja “ameaça" é fiequentemente evocada nas entrevistas,
que podem ser
15
Simbolicamente dominadas na instituição escolar, essas espécies de intrusos exprimiram apenas
parcialmente o questionamento que fizeram surgir por sua presença deslocada c pelo mal-estar que experimentam diante de um sistema
transformado pelo efeito de sua presença c dc seu mal-estar (como sc vê no caso limite dos filhos dc imigrantes, que levantam as questócs mais
radicalmente excluídas do funcionamento normal da instituição).
Classe de primeira correspondo ao segundo ano do ensino médio c classe de terminal
6. Estatística estabelecida a partir do Bulletin du Syndicat autonome de l'enseignement supérieur.
!
É portanto provável que o viés cm favor dos intelectuais-jornalistas ou dos escritores com forte “peso nas mídias’“ seria ainda mais marcado se
tivéssemos pedido para dar uma lista dc nomes mais longa, deixando assim mais liberdade à estratégia de pan-mixia.
7
É surpreendente, como notam os próprios responsáveis pela enquete, que Aron seja “o nome citado pelos que náo desejam citar ninguém”
(J. Jaubcrt, Lire, 68, abril de 1981, p. 45): “Intelectuais influentes náo há mais, meu senhor, “mal c mal Raymond Aron” (Yves Berger), “à cxccção dc
Raymond Aron” (Alain Buhler), “Aron, procurando bem", dix Annie Coppcrman. Ela acrescenta: “São as mídias que tomaram o lugar”. O que
Jacques Lanzmann corrobora quando cita “Bernard Henri l.évy, cuja bela cara televisiva vem apoiar ideias verdadeiramente originais c
impactantcs .
* Por essa razáo, os autores estáo reduzidos (mais ou menos completamente segundo a informação
do leitor) à obra que leva seu nome: despojados de todas as propriedades sociais associadas à sua posiçáo no seu campo dc origem, isto é, da
dimensão mais institucionalizada de sua autoridade e de seu capital simbólico (podendo os prefácios, eventualmente, servir para restaurar, por
uma transferencia, o capital simbólico ameaçado). A liberdade que sc encontra assim abandonada ao julgamento é relativa pelo fato de que os
efeitos dc autoridade podem continuar se exercendo por intermédio das solidariedades entre ocupantes dc posiçócs homólogas em campos
científicos nacionais diferentes, c cm particular, entre dominantes: estes podem se aproveitar do poder que detém sobre os fluxos dc traduções c
sobre as instâncias dc consagração para assegurar transferencias internacionais de poder universitário c também para controlar o acesso ao
mercado nacional dos produtos capazes de ameaçar sua própria produção. De outro lado, esta liberdade relativa tem como contrapartida o perigo
de quiproquo c de alodoxia a que leva a ignorância do contento: é por isso por exemplo que alguns ensaístas podem eclipsar no estrangeiro os
astros de primeira grandeza a quem eles emprestam o próprio princípio dc seu brilhantismo.
J
Não faltarão leitores estrangeiros que, por náo saberem dirigir sobre seu próprio mundo o olhar desapegado do estrangeiro, encontrarão neste
livro, oriundo de um esforço metódico para chegar a esse olhar sem perder os benefícios da familiaridade, uma oportunidade dc reforçar a
confiança autóctone no seu próprio mundo - a que se exprime com grande ingenuidade eni algumas obras escritas por autores estrangeiros a
propósito da França e de sua universidade. O paradigma desta sociologia que institui o ctnoccntrismo como método (e que pode ser o fato de
imigrantes terem que justificar, aos próprios olhos, o feito dc sua emigração) é uma obra de Terry Clark que mede a universidade francesa por um
conjunto dc critérios náo analisados que sáo apenas traços idealizados da universidade americana (cf. T. Clark, Prophets and Patrons, Tf)e French
University and the Emergence of the Social Science, Cambridge, Harvard University Press, 1973).
A Em cada ponto da análise, e no que concerne por exemplo à distância entre o campo universitário c o poder político ou econômico - que, parece,

e (ao menos era) maior, por razóes históricas, na França do que em qualquer outro país, seria preciso examinar o que é variável c o que e
invariante e procurar descobrir na variaçáo dos parâmetros considerados no modelo o princípio das variações observadas na realidade.
’ Cf. S. de Beauvoir, “La pensée de droite aujourd’hui”, Les temps modernes, n. 112-113 c 114-115, 1985, p. 1539-1575 e 2219-2261.