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COLISÃO NO TRÂNSITO: ACORDO DE PAGAMENTO DA FRANQUIA

REALIZADO EM SEDE DE JUIZADO DE TRÂNSITO MÓVEL E A SUB-

ROGAÇÃO DA SEGURADORA PERANTE O CAUSADOR DO SINISTRO

Por Sheila Bandeira – OAB/Ce 14.439

O Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, bem como os tribunais de


outros estados da federação, instalaram Juizados de Trânsito Móveis objetivando a
realização de acordo no local da colisão entre as partes envolvidas em acidente de
trânsito, diminuindo, assim, o volume de ações judiciais referentes à reparação de danos
materiais sem vítimas de lesões e morte.

Para tanto, o Juizado Especial Móvel de Fortaleza/CE dispõe de


formulários prontos, que são preenchidos pelo conciliador, sendo, primeiramente,
consignada a reclamação pela vítima, com a descrição do local, hora, dinâmica do
acidente, danos ocasionados no veículo e valor aproximado do prejuízo.

Quando o condutor do veículo causador do acidente encontra-se no


local, é tentada a conciliação para a reparação dos danos materiais descritos na
reclamação. Caso o mesmo tenha se evadido, a reclamação será encaminhada para a
10ª unidade dos Juizados Especiais, que promoverá a citação do reclamado. Contudo,
ocorrendo o acordo, será preenchido um segundo formulário do qual já dispõe das
cláusulas da transação, prevendo, inclusive sua execução em caso de descumprimento.

Entretanto, o formulário de termo de acordo deverá ter uma atenção


especial em seu preenchimento, principalmente, quando ambos os veículos envolvidos
na colisão ou um deles possui contrato de seguro, a fim de restar devidamente
consignada a intenção dos acordantes e o esclarecimento da responsabilidade da
seguradora e da possível sub-rogação.

Para tanto, deverão ser analisadas as seguintes hipóteses de culpa: a


culpa concorrente e a culpa exclusiva de um dos veículos envolvidos no sinistro.

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Ocorre culpa concorrente quando a perícia ou as próprias partes
reconhecem que ambos os condutores dos veículos foram culpados para a ocorrência do
sinistro, ou seja, cada qual é responsável pelos danos ocorridos em seu veículo.

Neste caso, têm-se, ainda, as seguintes hipóteses a serem analisadas:


1º) ambos os veículos têm seguro e 2º) somente um dos veículos envolvidos tem seguro.

Conforme mencionado, como a responsabilidade pela reparação dos


danos caberá a cada condutor e/ou proprietário, se ambos os veículos possuírem seguro,
cada segurado pagará sua franquia e terá seu veículo reparado pela sua respectiva
Seguradora.

Contudo, se somente um dos veículos possui seguro, deverá o


condutor do veículo sem seguro arcar com os prejuízos para reparação de seu veículo.
Ressalte-se que, neste caso, o contrato de seguro somente prevê a indenização para
terceiros caso o segurado tenha causado exclusivamente o acidente. Portanto, em caso
de culpa concorrente, a Seguradora somente indenizará o veículo segurado, já que o
outro veículo envolvido no acidente, também, concorreu para a ocorrência do sinistro.

Já no caso de culpa exclusiva de um dos veículos envolvidos limita-


se as seguintes hipóteses de: 1) ambos os veículos têm seguro; 2) somente o veículo
causador do acidente tem seguro; 3) somente o veículo não culpado pelo sinistro tem
seguro.

No primeiro caso, quando ambos os veículos têm contrato de seguro,


deverá constar no termo de acordo que o veículo causador do acidente acionará sua
Seguradora, que mediante o pagamento da franquia pelo segurado, reparará ambos os
veículos. Já o segurado do veículo não culpado não deverá acionar a sua seguradora,
posto que seu veículo deverá ser reparado pela Seguradora do veículo culpado.

No segundo caso, deverá ocorrer o mesmo procedimento citado, pois já


que o veículo causador do sinistro tem seguro, deverá este acionar sua Seguradora,
mediante o pagamento da franquia, para que esta repare ambos os veículos.

Porém, no terceiro caso, quando o veículo não culpado pelo sinistro


tem seguro e o causador do sinistro não tem, geralmente, ocorre a transação entre as

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partes, em sede de Juizado, consignando o pagamento da franquia do veículo
segurado pelo causador do acidente.

Assim, o causador do sinistro paga ao segurado somente o valor da


franquia, sendo este repassado à Seguradora, que arca com todas as despesas para a
reparação do veículo segurado.

Quando a transação ocorre desta forma, ou seja, quando fica


expressamente consignado que o valor pago pelo causador do acidente é referente a
franquia e não a reparação de todos os danos que tenha causado, ocorrerá a incidência
do instituto da sub-rogação em favor da seguradora.

A sub-rogação é o instituto do direito civil em que ocorre a substituição


do credor por terceiro interessado que resgata a obrigação alheia, permanecendo este no
lugar daquele. Neste caso, a lei garante ao terceiro interessado o direito de regresso
contra o devedor. Ou seja, é uma forma de pagamento que mantém a obrigação entre o
devedor e o terceiro interessado.

Assim, a relação jurídica entre o devedor e o credor primário deixa de


existir, surgindo outra relação com o credor sub-rogado. A sub-rogação não é pagamento
nem cessão, pois não ocorre a extinção da obrigação. A reparação dos danos efetuada
pelo terceiro interessado ao credor primitivo, não libera o devedor, porque o crédito se
transfere para credor sub-rogado, com todas as garantias.

Como é cediço, há duas espécies de sub-rogação: a legal, decorrente


de lei, e que as partes podem dispensar, e a convencional, que as partes concordam em
estabelecer.
Ressalte-se que, nos contratos de seguro, os riscos assumidos pela
seguradora devem ser inteiramente definidos na apólice e explicitados em documento
apartado intitulado como Manual do Segurado que prevê as Condições Gerais da
Apólice.

O instituto da sub-rogação que garante à seguradora o direito de


regresso contra o causador do dano, encontra-se previsto no artigo 786 do Novo Código
Civil de 2002, que diz:

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Art. 786 – Paga a indenização, o segurador sub-roga-se, nos
limites do valor respectivo, nos direitos e ações que competirem ao
segurado contra o autor do dano.

Além de prevista na lei civil vigente, a sub-rogação da seguradora


encontra-se pactuada em cláusula contratual prevista no manual do segurado, da qual
consta que a seguradora sub-roga-se em todos os direitos e ações de seu segurado,
incluindo, ainda, perdas e danos até o limite do que efetivamente desembolsou, com a
correção monetária, a partir do desembolso.

O Supremo Tribunal Federal já sumulou que:

188. O segurador tem ação regressiva contra o causador do dano,


pelo que efetivamente pagou, até ao limite previsto no contrato de
seguro.

Portanto, repita-se, quando fica expressamente consignado que o valor


pago pelo causador do acidente é referente à franquia e não a reparação de todos os
danos que tenha causado ocorrerá a incidência do instituto da sub-rogação em favor da
seguradora.

Merece destacar que, para os casos de culpa concorrente não se


aplicará o instituto da sub-rogação em favor da Seguradora, posto que ambos os
condutores dos veículos envolvidos concorreram com culpa para a ocorrência do
acidente, tendo cada condutor/proprietário que arcar com seus próprios prejuízos, como
já explicado.

Contudo, havendo transação entre o culpado pelo sinistro e o segurado


não culpado, sem referência expressa no termo de acordo sobre o pagamento da
franquia e sim que o valor refere-se à reparação de todos os danos causados, neste
caso, é discutível o direito de sub-rogação da seguradora, senão vejamos:

Isto porque, quando não consta no termo de transação, expressamente,


que a partes estão acordando somente sobre a franquia ou quando o valor pago pelo
causador do sinistro diverge do valor referente a esta, para maior ou menor, dessume-se
que ambas as partes firmaram acordo sobre direitos disponíveis, nos termos do artigo
840 do Código Civil de 2002:

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Art. 840. É lícito aos interessados prevenirem, ou terminarem o
litígio mediante concessões mútuas.

Ora, a transação é um negócio jurídico bilateral em que as partes


extinguem relações jurídicas litigiosas por meio de concessões recíprocas.

Por essa razão, a transação é igualmente denominada de composição


amigável, porque, por ela em verdade, se recompõem, voluntariamente, os direitos dos
transatores, ou transigentes.

E TEIXEIRA DE FREITAS, assim, a definia como o ‘contrato de


composição entre as partes para extinguirem obrigações litigiosas ou duvidosas’. (Cons.
das Leis Civis, nota 19 ao art. 359).

Embora um contrato, em que as partes advindas, como


fundamental e essencial, fazem concessões recíprocas, atribuindo
e renunciando pretensões, a transação, mesmo extrajudicial, tem
repercussão ou projeções processuais, produzindo entre as partes
a autoridade da coisa julgada. Possui, assim, efeito análogo ao da
sentença que passou em julgado." (in Vocabulário Jurídico Único,
Vol. IV, 12ª edição, editora Forense, págs. 403/404)

Corroborando com o entendimento aqui esposado, os arestos adiante


transcritos são bastante elucidativos:

EMENTA: "A transação constitui ato jurídico bilateral, pelo qual as


partes, fazendo concessões recíprocas, extinguem obrigações
litigiosas ou duvidosas, sendo de sua essência a reciprocidade de
ônus e vantagens, a existência de litígio, dúvida ou controvérsia
entre as partes. A transação é um equivalente jurisdicional, tendo
o efeito de compor a lide, sem intervenção do juiz, produzindo
resultado ao da SENTENÇA. A transação produz, entre as partes,
o efeito de COISA JULGADA - art. l.030 do CC" (Ac. unân. da 2ª
Câm. do TJGO de 21.06.85, no agr... 3.489, rel. des. José Roberto
Paixão (in Código de Processo Civil Anotado, Alexandre de Paula,
5ª Edição, pág. 1.094).

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EMENTA: "TRANSAÇÃO. Indenização. Verba decorrente de
acidente de trânsito. Ajuste realizado logo após a colisão ação
posterior pretendendo complementação da quantia.
Inadmissibilidade. Acordo irretratável unilateralmente. Carência
decretada. Ementa oficial: Acordo de vontade entre motoristas
logo após acidente de trânsito. Pagamento de valor que
estabeleceram como importância capaz de cobrir os danos.
Ajuizamento posterior de demanda para obter diferença de valor
com base em orçamentos de oficinas. Inviabilidade. Negócio
jurídico irretratável unilateralmente e incindível em sua substância,
a não ser por ação própria. Sentença que decretou a carência da
ação confirmada." (Ap. 366.214-7 2ª C. j. 11.2.87 rel. Juiz
Wanderley Rac RT-618 Pág. 126)

EMENTA: "INDENIZAÇÃO. Ato ilícito. Transação.


Complementação pretendida sob fundamento de lesão no
contrato. Inadmissibilidade. Instituto não amparado pelo Direito
pátrio, salvo exceções Inexistência, ademais, de vício de
consentimento. Impossibilidade jurídica do pedido. Não há que se
admitir pedido de complementação de indenização fixada em
transação sob o fundamento de lesão no contrato. Tal instituto,
salvo exceções, não foi reconhecido no Direito pátrio. A
inexistência de vício de consentimento impede qualquer pretensão
neste sentido, por impossibilidade jurídica do pedido. Ap. 418.079-
8 2ª C. j. 4.4.90 rel. Juiz Jacobina Rabello. RT.655 Pág. 105

LEVENHAGEM, ao comentar o art. l.030, do Código Civil Brasileiro,


assim leciona:

"As transações, envolvendo, como envolvem, convenções


entre as partes, produzem o efeito de COISA JULGADA.
Não é uma decisão judicial, mas, desde que legalmente
formalizada, a transação produz os mesmos efeitos da
sentença com respeito à determinação dos direitos.
Ultimada, portanto, a transação, extingue-se a controvérsia,
definem-se os direito". (in Código Civil, Comentários
Didáticos, Vol 4 - Direito das Obrigações, Editora Atlas, pág.
166/167).

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Como é cediço, quando as partes transacionam sobre os danos
decorrentes de acidente de trânsito, o acordo se dá sobre um direito disponível, não
cabendo mais discussão acerca da culpa, somente podendo ser anulada a transação se
for constatado algum vício de consentimento.
Em contra partida, existe na maioria dos contratos de seguro, a cláusula
contratual da qual prevê que o segurado somente poderá acordar sobre os direitos
referentes ao objeto do contrato de seguro, com a expressa anuência da seguradora, sob
pena de perder o direito a indenização.

Tal cláusula está legitimada no instituto da sub-rogação previsto no § 2°


do artigo 786 do Novo Código Civil que reza:

Art. 786 – Paga a indenização, o segurador sub-roga-se, nos


limites do valor respectivo, nos direitos e ações que competirem ao
segurado contra o autor do dano.

(...)

§2°. É ineficaz qualquer ato do segurado que diminua ou


extinga, em prejuízo do segurador, os direitos a que se refere
este artigo.

Ora, se o segurado transaciona diretamente com o causador do


acidente perante o juizado móvel, somente poderá fazer o aviso de sinistro, quando o
acordo realizado se refere expressamente a franquia, pois, conforme cláusula contratual
o segurado está impedido de transacionar sem a anuência da seguradora, sob pena de
perder o direito a indenização.

Até porque, se o segurado firma acordo sobre valor diverso da franquia,


significa que o valor transacionado será para reparar todos os danos sofridos, sem que
seja necessário avisar o sinistro à Seguradora, podendo, esta negar-se a reparar os
danos do veículo segurado, já que o segurado já recebeu a indenização pelos danos
sofridos, evitando assim, o enriquecimento ilícito deste.

Deve-se ressaltar, no entanto, que, o descumprimento contratual por


parte do segurado, consistente na não comunicação à seguradora da firmação de acordo
não tem muita aceitação nos Tribunais, pois o entendimento majoritário é de que não é

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razoável, que o segurado tenha que pedir a permissão da seguradora para firmar acordo
que lhe é extremamente benéfico. Como também, pelo fato de que o contrato de seguro é
permeado de cláusulas abusivas, entre elas a própria cláusula da comunicação restritiva
de direitos, que está em desacordo com disposições do CDC
O que não pode é o terceiro alheio ao contrato de seguro, e que
transacionou na forma prevista no artigo 840 do Novo Código Civil, ser novamente
compelido a reparar danos dos quais já acordou com o segurado.

A transação realizada entre as partes, na forma mencionada, fulmina


por completo o direito sub-rogado, pois o fato que gerou o direito a reparação de danos
não poderá ser rediscutido, visto que já foi acordada a sua reparação, não sub-rogando-
se a seguradora nestes direitos.

Até porque, a transação não implica em reconhecimento de culpa por


terceiro ao contrato de seguro. Na verdade, as partes estão fazendo concessões
recíprocas, evitando-se discutir quem deu causa ao evento. Não existe relação entre
credor e devedor.

Portanto, nos casos em o acordo não ressalvou, expressamente, que se


referia ao pagamento de uma franquia à seguradora, bem como não alertou ao terceiro
sobre o direito de sub-rogação desta, não deverá prosperar a futura ação regressiva, que
provavelmente, será proposta pela seguradora contra o causador do dano, já que não
caberá qualquer dilação probatória acerca do culpado pelo sinistro, pois ambas partes já
realizaram concessões recíprocas para a reparação dos danos nos termos acordados.

Desta forma, percebe-se que, quando o § 2° do artigo 786 do Código


Civil de 2002 prevê ser ineficaz qualquer ato do segurado que diminua ou extinga,
em prejuízo do segurador, os direitos a que se refere este artigo, refere-se aos casos
em que o segurado, a fim de beneficiar o causador do sinistro, assume a culpa ou alega
culpa concorrente no termo de acordo, bem como, mesmo culpado para a ocorrência do
sinistro, o segurado realiza acordo com terceiro prejudicado, em valor não autorizado pela
seguradora.

Contudo, entendemos que referido §2° do artigo 786 do NCC não pode
ser aplicado quando o acordo for realizado na forma do artigo 840 do mesmo diploma
legal.

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Assim, o acordo entabulado para pagamento da franquia não retira o
direito do segurador de ingressar regressivamente contra o autor do dano, com relação
ao dispêndio que teve com o conserto do veículo, deduzindo-se, para tanto, o valor da
franquia, já paga pelo causador do sinistro.

Entretanto, quando o acordo diverge do valor da franquia, não restando,


ainda, ressalvado no Termo de Transação o direito de regresso da Seguradora, esta não
terá direito de regresso contra o terceiro causador, pois o segurado e terceiro ao
acordarem, fizeram concessões mútuas a fim de englobar a reparação de todos os danos
materiais sofridos no sinistro, refutando, assim, a sub-rogação da seguradora.