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O Senador e a Sereia

Giuseppe Tomasi Di Lampedusa

No tardo outono daquele ano de 1938 eu me encontrava em plena crise de


misantropia. Residia em Turim e a "gata" n°1, fuçando nos meus bolsos à procura de alguma
nota de cinqüenta liras, tinha, enquanto eu dormia, descoberto também uma cartinha da "gata"
n° 2 que, embora com muitas incorreções ortográficas, não deixava dúvidas sobre a natureza
de nossas relações.
O meu despertar tinha sido imediato e borrascoso. O pequeno apartamento de Via
Peyron ressoou iradas impropriedades vernáculas; inclusive para arrancar-me os olhos foi
feita uma tentativa que só consegui neutralizar torcendo um pouco o pulso esquerdo da cara
filhota. Essa ação de defesa plenamente justificada pôs fim ao escândalo mas também ao
idílio. A moça vestiu-se apressadamente, meteu em gestos bruscos dentro da bolsinha batom,
ruge, lencinho, a nota de cinquenta liras causa de tantos males, atirou-me no rosto um tríplice
"porcão!" e partiu. Jamais tinha sido tão graciosa quanto naquele quarto de hora de fúria. Da
janela a vi sair e distanciar-se no nevoeiro da manhã, alta, desembaraçada, adornada por uma
elegância reconquistada.
Não a vi nunca mais como não mais revi um pulôver de cachemir negro que me
custou um olho da cara e que tinha a funesta qualidade de ser um modelo que podia ser usado
tanto por homens como por mulheres. Ela deixou somente, sobre o leito, dois grampos de
cabelo tortos.
Na mesma tarde eu tinha um encontro com a n° 2 numa confeitaria da Praça
Carlo Felice. Na mesinha redonda do canto oeste da segunda sala, que era o "nosso" cantinho,
não vi a cabeleira castanha da garota mais do que nunca desejada, mas sim o rosto sapeca de
Tonino, um seu irmãozinho de doze anos que unha apenas terminado de devorar um doce de
chocolate com nata batida em dose dupla. Quando me aproximei levantou-se com a
costumeira urbanidade turinense. "Senhor", falou-me, "a Pinotta não virá; disse-me que lhe
entregasse este bilhete. Tchau, senhor." E saiu levando junto dois brioches que tinham
sobrado no prato. Com um cartão cor de marfim era-me notificada uma despedida inecorrível
motivada pela minha infâmia e "desonestidade meridional". Era claro que a n° 1 tinha saído
no encalço da n° 2, feito uma denúncia completa, e que eu ficara sentado entre duas cadeiras.
Em doze horas tinha perdido duas garotas utilmente complementares entre elas
mais um pulôver ao qual era apegado; tinha sido também obrigado a pagar a despesa do
infernal Tonino na confeitaria. O meu sicilianíssimo amor-próprio estava humilhado: tinham-
me feito de bobo e decidi abandonar por algum tempo o mundo e as suas pompas.

Para esse período de retiro não se poderia encontrar lugar mais apropriado do que
aquele café da Via Po onde agora, solitário como um cão, me refugiava a todo o momento
livre e, sempre, à noite, depois do meu trabalho no jornal. Era uma espécie de Ade povoado
de exangues sombras de tenentes-coronéis, magistrados e professores aposentados. Muito
ciosos de suas ocas aparências, jogavam dama ou dominó imersos numa luminosidade que de
dia era obscurecida pelas arcadas e pelas nuvens e, à noite, pelos enormes quebra-luzes verdes
dos lampadários, e não levantavam jamais a voz temerosos como eram de que um som forte
demais pudesse decompor a débil trama de suas poses. Como se fosse um limbo.
Animal cheio de hábitos que sou, sentava-se sempre à mesma mesinha de canto
cuidadosamente desenhada para oferecer o máximo de incómodo possível ao cliente. À minha
esquerda dois espectros de oficiais superiores disputavam uma partida de dadinhos com dois
fantasmas de conselheiros da Corte de Apelação; os dados militares e judiciários
escorregavam silenciosamente para fora do copo de couro. Nas proximidades sentava também
um senhor de idade muito avançada, entrouxado num capote muito velho cuja gola era feita
de um astracã esfolado. Lia sem trégua revistas estrangeiras, fumava charutos toscanos e
cuspia frequentemente; cada vez que fechava as revistas parecia seguir nas volutas de fumo
alguma velha recordaão. Depois, recomeçava a ler e a cuspir. Tinha feíssimas mãos, nodosas,
avermelhadas, com as unhas cortadas rente e nem sempre limpas, mas uma vez em que uma
das suas revistas se abriu na fotografia de uma estátua grega arcaica, daquelas com os olhos
separados do nariz e com o sorriso ambíguo, surpreendi-me vendo que as suas deformadas
pontas dos dedos acariciavam a imagem com uma delicadeza absolutamente majestosa.
Percebeu que eu o tinha visto, grunhiu de fúria e pediu um segundo café expresso.
As nossas relações teriam ficado naquele nível de latente hostilidade se não
tivesse ocorrido um feliz incidente. Eu trazia comigo da redação cinco ou seis jornais, entre
eles, uma vez, o Giornale di Sicília. Eram os anos nos quais a propaganda e a censura fascista
assolavam com mais intensidade, e todos os jornais eram idênticos; aquele número do diário
palermitano era mais banal do que nunca e não se distinguia de um jornal de Milão ou de
Roma senão pela imperfeição tipográfica; a minha leitura foi por isso breve e logo abandonei
o jornal sobre a mesinha. Tinha apenas iniciado a contemplação de uma outra encarnação do
Ministério da Cultura Popular quando o meu vizinho dirigiu-me a palavra: "Desculpe-me,
senhor, seria incômodo emprestar-me o Giornale di Sicília para uma olhada rápida? Sou
siciliano e há vinte anos não me acontece de ver um jornal da minha terra". A voz era no
mínimo cultivada, a pronúncia impecável, os olhos cinzentos do velho fitavam-me com
profundo distanciamento. "Por favor, tenha a bondade. Sabe, sou siciliano também eu, se
quiser é muito fácil para mim trazer o jornal todas as noites." "Obrigado, não creio que seja
necessário, a minha é uma simples curiosidade física. Se a Sicília é ainda como no meu
tempo, imagino que não ocorra por lá nunca nada de bom, como há três mil anos."
Deu uma lida rápida no jornal, dobrou-o, devolveu-me e mergulhou na leitura de
um opúsculo. Quando se retirou queria evidentemente fugir sem despedidas mas levantei-me
e me apresentei; murmurou entredentes o próprio nome, que não compreendi; mas não me
estendeu a mão; na saída do café, porém, virou-se, tirou o chapéu e gritou forte: "Adeus,
conterrâneo". Desapareceu sob as arcadas deixando-me aturdido e provocando gemidos de
desaprovação entre as sombras que jogavam.
Realizei os ritos mágicos capazes de fazer materializar um garçom e perguntei-
lhe apontando a mesa vazia: "Quem era aquele senhor?"
"Aquele senhor é o Senador Rosário La Ciura."
O nome dizia muito, mesmo à minha lacunosa cultura jornalística: era o nome de
um dos cinco ou seis italianos que possuem uma reputação universal e indiscutível, era o mais
ilustre helenista dos nossos tempos. Estavam explicadas as volumosas revistas e a gravura
acariciada; também o mau humor e também o refinamento mal disfarçado.
No dia seguinte, no jornal, dei uma busca naquele singular fichário que contém
os necrológios ainda à espera. A ficha "La Ciura" estava ali, passavelmente redigida.
Contava-se de como o grande homem tinha nascido em Aci-Castello (Catania) de uma pobre
família da pequena burguesia, de como, devido a uma extraordinária dedicação ao estudo do
grego e à força de bolsas de estudo e publicações eruditas, tinha conseguido aos vinte e sete
anos a cátedra de literatura grega da Universidade de Pávia, de como, depois, tinha sido
chamado pela Universidade de Turim, onde permaneceu até chegar à aposentadoria
compulsória por limite de idade; tinha ministrado cursos regulares em Oxford e em Tübingen
e realizado muitas viagens, algumas delas bem longas porque, senador da fase pré-fascista e
membro da academia romana dos Lincei, era também doutor honoris causa de Yale, Harvard,
Nova Délhi e Tóquio, além, naturalmente, das mais ilustres universidades europeias, desde
Upsala até Salamanca. O elenco das suas publicações era longuíssimo e muitas de suas obras,
especialmente sobre dialetos jónicos, eram reputadas fundamentais; basta dizer que tinha
recebido o encargo, como único estrangeiro, para participar da supervisão de uma edição
histórica de Hesíodo para a qual redigiu uma introdução latina de insuperável profundidade
científica; enfim, glória máxima, não era membro da Academia da Itália. A qualidade que
sempre o distinguiu dos outros também eruditíssimos colegas era o senso vivaz, quase carnal,
que tinha da antiguidade clássica, característica que se manifestara em uma seleção de ensaios
italianos, Homens e Deuses, que tinha sido considerada obra não somente de alta erudição
mas também de viva poesia. Em suma era "a honra de uma nação e um farol de todas as
culturas", conforme concluía o compilador da ficha. Tinha setenta e cinco anos e vivia longe
da opulência mas decorosamente, com sua aposentadoria e os estipêndios senatoriais. Era
solteiro.
É inútil negá-lo: nós italianos filhos (ou pais) de primeiro leito do Renascimento
estimamos o Grande Humanista superior em detrimento de qualquer outro ser humano. A
possibilidade de encontrar-me agora em cotidiana proximidade com o mais alto representante
dessa sabedoria delicada, quase necromântica e pouco rendosa, me lisonjeava e perturbava;
experimentava as mesmas sensações de um jovem estadunidense que fosse apresentado ao Sr.
Gillette; temor, respeito e uma forma particular de inveja.

À noite desci ao limbo num espírito bem diverso do dos dias precedentes. O
senador já estava no seu posto e respondeu à minha saudação reverente com um grunhido
apenas perceptível. Quando porém terminou de ler um artigo e concluiu algumas anotações
sobre uma pequena agenda, voltou-se na minha direção com a voz estranhamente musical:
"Conterrâneo", disse-me, "pela maneira como me saudaste percebo que algum destes
fantasmas daqui te disse quem sou eu. Esquece e, se é que já não o fizeste, esquece também os
tempos de conjugação do grego estudados no ginásio. Dize-me antes de mais nada como te
chamas, porque ontem à noite fizeste a apresentação protocolar e eu não tenho, como tu, o
recurso de perguntar o teu nome a outros, porque aqui, certamente, ninguém te conhece".
Falava com insolente distanciamento; notava-se que eu significava para ele
bastante menos que um escaravelho, talvez uma daquelas partículas infinitesimais de pó
finíssimo visíveis nos raios de sol que entram numa peça. Entretanto a voz pacata, a palavra
exata, o "tu", davam a sensação de serenidade própria a um diálogo platônico.
"Chamo-me Paolo Corbera, nasci em Palermo, onde me formei em Direito; agora
trabalho aqui na redação da Stampa. Para tranquilizá-lo, senador, informarei que na formatura
do curso secundário obtive 'cinco mais' em grego, e que o 'mais' foi acrescentado para permitir
que eu ganhasse o diploma."
Sorriu com meia boca. "Obrigado por me dizer, é melhor assim. Detesto falar
com gente que pensa que sabe quando, ao contrário, é ignorante, como os meus colegas na
universidade; no fundo no fundo não conhecem além das formas exteriores do grego, as suas
esquisitices e deformações. O espírito vivo dessa língua tolamente chamada 'morta' não foi
revelado a eles. Nada foi revelado a eles, aliás. Pobre gente, de resto: como poderiam perceber
esse espírito se não tiveram nunca ocasião de ouvi-lo, o grego?"
O orgulho, sim, está certo, é preferível à falsa modéstia; mas a mim parecia que o
senador exagerava; ocorreu-me também a ideia de que os anos tivessem conseguido
enfraquecer uma parte daquele cérebro excepcional. Aqueles pobres-diabos dos seus colegas
tinham tido ocasião de ouvir o grego antigo exatamente quanto ele: isto é, nunca.
Prosseguia: "Paolo... tens sorte de chamar-te como o único apóstolo que tinha um
pouco de cultura e algumas noções de letras clássicas. Girolamo porém teria sido melhor. Os
outros nomes que vocês cristãos carregam por aí são verdadeiramente vis demais. Nomes de
escravos".
Continuava a desiludir-me; parecia de fato o clássico anticlerical acadêmico,
tendo a mais um leve toque de nietzscheísmo fascista. Seria possível?
Continuava a falar com a pequena modulação da sua voz e com o ímpeto de
quem, talvez, tenha ficado muito tempo em silêncio. "Corbera... engano-me ou não é este um
grande nome siciliano? Recordo que o meu pai pagava pela nossa casa de Aci-Castello um
pequeno arrendamento anual aos administradores de uma casa Corbera di Palina ou Salina,
não me lembro bem. Sempre caçoava, dizendo que se no mundo havia uma coisa segura era
que aquelas poucas liras não acabariam nos bolsos do 'domínio direto', como dizia ele —
acabariam ficando no bolso de algum administrador. Mas tu és mesmo um daqueles Corbera
ou apenas o descendente de algum camponês que tomou o nome do seu senhor?"
Confessei que era mesmo um Corbera di Salina, e mais, o último exemplar
sobrevivente dessa família: todos os faustos, todos os pecados, todos os arrendamentos
inexatos, todas as dívidas não pagas, todas as gattoparderie, em suma, estavam concentradas
em mim apenas. Paradoxalmente o senador pareceu contente.
"Bom, bom. Eu tenho muita consideração pelas velhas famílias. Elas possuem
uma memória, minúscula é verdade, mas de qualquer modo maior do que as outras. Vocês
têm a possibilidade, na prática, de atingir a imortalidade física. Deves casar-te logo, Corbera,
dado que vocês não têm encontrado nada de melhor para sobreviver do que disperdiçar a
semente de vocês nos buracos mais estranhos."
Decididamente, fazia-me perder a paciência. "Vocês, vocês." Quem eram os
"vocês"? Todo o vil rebanho que não tinha a sorte de ser o Senador La Ciura? E ele
conseguiria a imortalidade física? Não teria jamais percebido o seu próprio rosto rugoso, o
corpo pesado...
"Corbera di Salina", continuava ele, impávido. "Não te ofenderás se continuo a
chamar-te de tu como a um dos meus estudantezinhos que, por um instante, são jovens?"
Declarei-me não só honrado mas contente, como de fato estava. Depois de
superadas as questões de nomes e de protocolo, falou-se da Sicília. Havia vinte anos que ele
não botava os pés na ilha e da última vez que tinha estado lá embaixo (assim dizia, à maneira
piemontesa) permanecera somente cinco dias em Siracusa, para discutir com Paolo Orsi
algumas questões sobre o alternar-se dos semi-coros nas representações clássicas. "Lembro
que quiseram me levar de carro de Catania a Siracusa; aceitei somente quando fiquei seguro
que em Augusta a estrada passa longe do mar, enquanto a ferrovia é sobre o litoral. Conta-me
da nossa ilha; é uma bela terra apesar de povoada de asnos. Os deuses que arejavam vocês,
talvez nos agostos de calor insuportável, ainda vos arejam agora? Só não me fales daqueles
quatro templos recentíssimos que vocês têm, porque tu não entendes nada daquilo, tenho
certeza."
Assim, falamos da Sicília eterna, daquela das coisas da natureza; do perfume de
rosmaninho sobre os Nebrodi, do gosto de mel dos Melilli, do ondulado dos campos plantados
num dia ventoso de maio como se vê de Enna, das solidões em tomo a Siracusa, das rajadas
de perfume atiradas sobre Palermo desde os laranjais durante certos crepúsculos de junho.
Falamos do encanto de certas noites de verão diante do Golfo de Castellammare, quando as
estrelas se espelham no mar que dorme e o espírito de quem está estendido entre as arueiras se
perde no turbilhão do céu, enquanto o corpo, teso e alerta, teme a aproximação dos demônios.
Depois de uma ausência de quase cinqüenta anos, o senador conservava uma
recordação singularmente precisa de alguns fatos mínimos. "O mar: o mar da Sicília é o mais
colorido, o mais romântico de quantos jamais vi; será a única coisa que vocês não conseguirão
estragar, afora as cidades, bem entendido. Nos restaurantes à beira-mar são servidos ainda
ouriços cortados ao meio?" Tranqüilizei-o, mas tive que acrescentar que poucos os comiam
hoje em dia, com medo do tifo. "E no entanto são a mais bela coisa que vocês têm lá embaixo,
aquelas cartilagenzinhas sanguíneas, aqueles simulacros de órgãos femininos, perfumados de
sal e de algas. Que tifo, que nada! Isso é conversa! Serão perigosos como todos os dons do
mar, que dá a morte assim como a imortalidade. Em Siracusa exigi ouriços peremptoriamente
a Orsi. Que sabor, que aspecto divino! É a minha mais bela recordação dos últimos cinqüenta
anos!"
Eu me sentia confuso e fascinado; um homem semelhante que se abandonava a
metáforas quase obscenas, que demonstrava uma gula quase infantil pelas, afinal de contas
medíocres, delícias dos ouriços do mar!
Falamos ainda longamente e ele, quando partiu, insistiu em pagar o meu café
expresso, não sem manifestar a sua singular aspereza ("Quem não sabe?, esses rapazes de boa
família não têm nunca um níquel no bolso") e nos separamos amigos se não se quiser
considerar os cinqüenta anos que dividiam as nossas idades e os milhares de anos-luz que
separavam as nossas culturas.
Continuamos a nos encontrar todas as noites e, embora a fumaça da minha
irritação contra a humanidade começasse a se dissipar, impus-me o dever de não faltar nunca
ao encontro com o senador nos infernos de Via Po; não que se conversasse muito: ele
continuava a ler e tomar notas e me dirigia a palavra somente de tanto em tanto, mas quando
falava era sempre um harmonioso fluir de orgulho e insolência, misturado a alusões
disparatadas, a fluxos de incompreensível poesia. Continuava também a cuspir e acabei por
notar que o fazia somente quando lia. Creio que também ele tivesse sido tomado por um certo
afeto em relação a mim, mas não tenho ilusões: se afeto existia, não era aquele que um de
"nós" (a outra parte do mundo fora do senador) pode sentir por um ser humano, mas sim algo
semelhante àquele afeto que uma velha solteirona pode sentir em relação ao seu cãozinho, do
qual conhece a fatuidade e irracionalidade, mas cuja existência lhe permite exprimir em voz
alta suas lamentações nas quais o animal não tem parte alguma; porém se o cão não existisse
ela teria um grande mal-estar. Comecei a notar, de fato, que quando eu me atrasava os olhos
altivos do velho ficavam fixos na porta de entrada.
Foi preciso cerca de um mês para que das considerações, originalíssimas mas
sempre genéricas da parte dele, se passasse aos assuntos indiscretos que são afinal os únicos a
distinguir as conversas entre amigos daquelas entre simples conhecidos. Eu mesmo tomei a
iniciativa. Aquele seu cuspir freqüente me desagradava (tinha desagradado também a gerência
do Ade, que acabou por colocar perto do seu lugar uma escarradeira de latão) e assim uma
noite ousei perguntar-lhe por que não se tratava daquele insistente catarro. Fiz a pergunta sem
refletir, e me penitenciei em seguida de tê-la arriscado, esperando que a ira senatorial fizesse
abater sobre minha cabeça o estuque do teto. Em vez disso, a voz bem timbrada respondeu-me
pacata: "Mas, caro Corbera, eu não tenho nenhum catarro. Tu que observas com tanto
cuidado, deverás ter observado que jamais tusso antes de cuspir. A minha cuspida não é sinal
de doença mas ao contrário o é de saúde mental: cuspo por desgosto das bobagens que vou
lendo; se quiseres te dar à pena de examinar aquele utensílio ali (e mostrava a escarradeira), te
darás conta que ele guarda pouquíssima saliva e nenhum traço de muco. As minhas cuspidas
são simbólicas e altamente culturais; se não te agradam, volta aos teus salões natais onde não
se cospe somente porque não se quer nunca nausear ninguém por nada". A extraordinária
insolência era atenuada pelo olhar distante, mas não diminuiu a minha vontade de levantar-me
e deixá-lo plantado ali; por sorte tive tempo de refletir que a culpa estava na minha própria
imprudência. Fiquei, e o impassível senador passou em seguida ao contra-ataque. "E tu, então,
por que freqüentas este Erbo cheio de sombras e, como dizes, de cuspidas, este lugar
geométrico de vidas falidas? Em Turim não faltam aquelas criaturas que a vocês parecem tão
desejáveis. Uma excursão ao hotel do Castelo, a Rivoli ou a Moncalieri, ao estabelecimento
de banho e o vosso sujo passatempo seria logo realizado." Comecei a rir ouvindo de uma boca
tão sábia informações tão exatas sobre os locais de prazer turinenses. "Mas como é que o
senhor faz para conhecer esses endereços, senador?" "Conheço-os, Corbera, conheço-os.
Freqüentando os senados acadêmicos e políticos aprende-se isso, e isso somente. Faça-me,
porém, o favor de ficar certo que os sórdidos prazeres de vocês nunca foram coisa para
Rosário La Ciura." Percebia-se que era verdade: na compostura, nas palavras do senador
havia o sinal inequívoco (como se dizia em 1938) de uma abstinência sexual que não tinha
nada a ver com a idade.
"A verdade, senador, é que comecei a vir aqui de fato como um temporário asilo
longe do mundo. Tive problemas exatamente com duas dessas garotas que o senhor com tanta
justiça estigmatiza." A resposta foi fulminante e cruel. "Foste corneado, hein, Corbera? Ou
terá sido doença venérea?" "Nenhuma das duas coisas, foi pior: abandono." E narrei-lhe os
ridículos acontecimentos de dois meses antes. Contei a história de modo lépido porque a
úlcera do meu amor já havia cicatrizado; qualquer pessoa que não tivesse sido aquele
helenista dos diabos teria debochado de mim ou, excepcionalmente, se compadecido. Mas o
temível velho não fez nem um nem outro; em vez disso, indignou-se. "É isso que acontece,
Corbera, quando a gente se une a seres doentios e esqüálidos. O mesmo diria s duas
prostitutazinhas sobre ti, se tivesse o desgosto de encontrá-las." "Doentias, senador? Estavam
em plena forma todas as duas; precisava vê-las como comiam quando se almoçava nos
Espelhos; e esqüálidas, decididamente não: eram pedaços de mulher magníficos, e eram
elegantes também." O senador deu uma de suas cuspidas desdenhosas. "Doentias, eu disse
bem, doentias; entre os cinqüenta ou sessenta anos, talvez muito antes, estarão decrépitas;
assim, são desde já doentes. E esqüálidas também: bela elegância essa delas, feita de
bugigangas, de pulo veres roubados e requebros aprendidos no cinema. Bela generosidade
essa delas de andar à caça de notas de dinheiro engorduradas nos bolsos do amante em vez de
presenteá-lo, como fazem outras, com pérolas rosadas e pedaços de coral. É isso que acontece
quando a gente se mete com pessoas dessa laia. E vocês não sentiam asco, elas em relação a
ti, e tu em relação a elas, ao chafurdarem nessas vossas futuras carcaças entre lençóis
malcheirosos?" Respondi estupidamente: "Mas os lençóis eram limpíssimos, senador!"
Enfureceu-se. "E o que é que os lençóis têm a ver com isso? O fedor de cadáver era de vocês.
Repito, como é possível fazer orgias misturando gente como elas e como tu?" Fiquei
ofendido. "Ora, não se pode ir para a cama só com as Altezas Sereníssimas!" "Quem é que
está falando em Altezas Sereníssimas? Essas são material para bordel, como as outras. Mas
essas coisas não consegues compreender, rapazote, cometi um erro em falarte. É fatal que tu e
as tuas amigas avançassem pelos pântanos fétidos dos vossos prazeres imundos.
Pouquíssimos são aqueles que sabem." Com os olhos voltados para o teto pôs-se a sorrir; seu
rosto tinha uma expressão arrebatada; depois apertou-me a mão e partiu.

Não o vi durante três dias; no quarto, um telefonema para mim na redação. "É o
Senhor Corbera? Aqui é Bettina, a governanta do senhor Senador La Ciura. Ele manda dizer-
lhe que teve um forte resfriado, que agora está melhor e que deseja vê-lo esta noite depois da
janta. Venha à Via Bertola 18, às nove, no segundo andar." A ligação, abruptamente
interrompida, tornou-se inapelável.
O número 18 da Via Bertola era um velho edifício decadente, mas o apartamento
do senador era amplo e bem conservado, suponho que em razão dos cuidados de Bettina.
Desde o vestíbulo começava o desfiar de livros, daqueles livros de aspecto modesto e de
encadernação económica de todas as bibliotecas vivas. Eram milhares nas três peças que
atravessei. Na quarta estava sentado o senador, envolto num amplíssimo manto de pêlo de
camelo, fino e macio como eu não tinha jamais visto. Soube depois que não se tratava de
camelo mas de preciosa lã de um animal peruano, lhama, e que era um presente do Senado
Académico de Lima. O senador evitou levantar-se quando eu entrei mas me recebeu com
grande cordialidade; estava melhor, ou talvez de todo bem, e pretendia voltar à circulação tão
logo a onda de gelo que naqueles dias pesava sobre Turim aliviasse. Ofereceu-me vinho
resinoso cipriota, presente do Instituto Italiano de Atenas, atrozes lukums rosa, oferecidos pela
Missão Arqueológica de Ankala e também os mais razoáveis doces turinenses adquiridos pela
previdente Bettina. Estava de tão bom humor que sorriu bem duas vezes com toda a boca e
chegou até mesmo a desculpar-se de suas esquisitices no Ade. "Eu sei, Corbera, que fui um
pouco excessivo nos termos, embora moderado nos conceitos. Não se fala mais nisso." Não
tinha mais pensado na discussão, verdadeiramente, e ao contrário me sentia pleno de respeito
por aquele velho que eu suspeitava ser quando nunca infeliz, apesar de sua carreira triunfal.
Ele devorava os abomináveis lukums. "Os doces, Corbera, devem ser doces e basta. Se
tiverem também outro sabor ficam como beijos perversos." Dava generosas migalhas a Eaco,
um grande boxer que entrara num certo momento. "Este, Corbera, para quem sabe
compreendê-lo, se parece mais aos imortais, apesar da sua feiúra, do que as tuas jovens
'gatinhas'." Recusou-se a me mostrar a biblioteca. "Tudo coisa clássica que não pode
interessar a alguém como tu, moralmente reprovado em grego." Mas me fez dar uma volta na
peça em que estávamos e que era seu escritório. Havia poucos livros e entre eles notei o
Teatro de Tirso de Molina, a Undine de Lamotte-Fouqué, o drama homónimo de Giraudox e,
para minha surpresa, as obras de H.G. Wells; mas, em compensação, nas paredes havia
enormes fotografias, em tamanho natural, de estátuas gregas arcaicas; e não eram as
fotografias comuns de que qualquer um de nós poderia dispor mas exemplares estupendos
evidentemente selecionados e escolhidos com autoridade e enviados com devoção pelos
museus de todo o mundo. Ali estavam, todas eram magníficas: o "Cavaleiro" do Louvre, a
"Deusa sentada" de Taranto que está em Berlim, o "Guerreiro" de Delfos, a "Core" da
Acrópole, o "Apoio de chumbo", o "Febo" de Olímpia, o celebérrimo "Auriga"... A sala
cintilava com os sorrisos estáticos e ao mesmo tempo irónicos do senador, se exaltava a faceta
oculta e arrogante do seu comportamento. "Veja, Corbera, essas sim, quem sabe podem ser
chamadas belezas; mas as tuas 'gatinhas', não." Sobre a pequena lareira ânforas e potes
antigos: Odisseo preso ao mastro do navio, as sereias que do alto do penhasco se espatifavam
sobre os rochedos em expiação por haver deixado fugir a presa. "Essas são lorotas, Corbera,
lorotas pequeno-burguesas dos poetas; ninguém foge delas e, se algum se livrasse, as sereias
não morreriam por tão pouco."
Sobre uma mesinha, em modesta moldura, uma fotografia velha e desbotada; um
jovem de uns vinte anos, quase nu, os cachos dos cabelos descompostos, com uma expressão
confiante sobre traços de rara beleza. Perplexo me detive um instante: pensei que tinha
descoberto tudo. Então, era isso... Nada feito. "E este, conterrâneo, este era e é, e será
(acentuou fortemente) Rosário La Ciura."
O pobre senador ali em trajes de dormir tinha sido um jovem deus.
Depois falamos de outras coisas e antes que eu fosse embora mostrou-me uma
carta em francês do reitor da Universidade de Coimbra que o convidava a fazer parte da
comissão de honra no congresso de estudos de grego que se realizaria em maio em Portugal.
"Estou muito contente; embarcarei em Gênova, no Rex, junto com congressistas franceses,
suíços e alemães. Como Odisseo, taparei as orelhas para não ouvir as patranhas daqueles
débeis mentais e serão belos dias de navegação: o sol, o azul, o odor do mar."
Saindo, passamos novamente diante da prateleira na qual estavam as obras de
Wells e ousei surpreender-me de vê-las ali. "Tens razão, Corbera, são um horror. Ali tem um
romancezinho que, se eu o relesse, me faria cuspir por um mês sem parar; e tu, cãozinho de
salão como és, ficarias escandalizado."
Depois daquela minha visita, nossas relações se tomaram decididamente cordiais;
da minha parte, pelo menos. Fiz elaborados preparativos para fazer vir de Gênova ouriços do
mar bem frescos. Quando soube que eles chegariam no dia seguinte, saí em busca do vinho de
Etna e do pão caseiro e, temeroso, convidei o senador a visitar meu apartamentinho. Para meu
grande alívio aceitou cordialíssimo. Fui buscá-lo no meu pequeno automóvel Balilla e
transportei-o até Via Peyron, que é perto de onde o diabo perdeu as botas. No automóvel ele
tinha um pouco de medo e nenhuma confiança na minha perícia ao volante. "Conheço-te bem,
Corbera; se temos a desventura de encontrar uma das tuas sirigaitas, serás capaz de te virar e
aí sim íamos os dois nos espatifar contra um poste." Não cruzamos com nenhuma saia digna
de nota e chegamos intactos.
Pela primeira vez, desde que o conhecia, vi o senador rir: foi quando entramos no
meu quarto. "E então, Corbera, este é o centro de tuas sujas aventuras?" Examinou os meus
poucos livros. "Bom, bom. És talvez menos ignorante do que pareces. Este aqui", acrescentou
pegando na mão um livro de Shakespeare, "este aqui alguma coisa eu conhecia. 'A sea change
into something rich and strange.' 'What potions I drunk of Syren tears?'"
Quando, na sala de estar, a boa Senhora Carmagnola entrou carregando a bandeja
com os ouriços, os limões e o resto, o senador ficou estático. "Como? Pensaste até nisso?
Como é que fizeste para saber que isso é a coisa que mais desejo?" "Pode comê-los tranqüilo,
senador, que ainda esta manhã estavam no mar da Riviera." "Deixa disso; vocês são sempre os
mesmos, com os seus preconceitos de decadência, de putrefação; sempre com as longas
orelhas alertas tentando perceber o arrastar-se dos passos da morte. Pobres-diabos! Mas,
obrigado, Corbera, foste um bom "famulus". E uma pena que não sejam dos mares lá de baixo
esses ouriços, pena que não estejam envoltos nas nossas algas; os seus espinhos certamente
nunca fizeram correr sangue divino. De certo fizeste o quanto era possível, mas esses são
ouriços quase bravios, que cochilavam sob os frios recifes de Nervi ou de Arenzano." Via-se
que era um daqueles sicilianos para os quais a Costa da Liguria, região tropical para os
milaneses, é, ao contrário, uma espécie de Islândia. Os ouriços, cortados ao meio, mostravam
a sua carne ferida, sangüínea, estranhamente compartimentada. Não os tinha reparado nunca,
antes, mas agora, depois das bizarras comparações do senador, eles me pareciam
verdadeiramente um corte feito em quem sabe qual delicado órgão feminino. Ele os degustava
com avidez mas sem alegria, recolhido, quase compungido. Não quis espremer limão por
cima. "Vocês sempre com os seus sabores acrescentados e misturados! O ouriço para vocês
deve ter sabor também de limão, o açúcar também de chocolate, o amor também de paraíso!"
Quando acabou, bebeu um gole de vinho, fechou os olhos. Depois de um pouco me dei conta
que sob as pálpebras lhe escapavam duas lágrimas. Levantou-se, aproximou-se da janela,
enxugou-se. Depois voltou-se. "Nunca estiveste em Augusta, tu, Corbera?" Eu estivera lá
durante três meses como recruta; durante as horas de folga, em dois ou três, nós pegávamos
um barco e dávamos uma volta pelas águas transparentes dos golfos. Depois da minha
resposta ficou calado; mas logo em seguida com voz irritada: "E naquele pequeno golfo
interno, vocês milicos nunca estiveram por lá?" "Claro; é o lugar mais lindo da Sicília, por
sorte ainda não descoberto pelos excursionistas. A costa é selvagem, não é mesmo, senador?,
completamente deserta, não se vê nem ao menos uma casa; o mar é da cor dos pavões; e bem
defronte, muito além daquelas ondas instáveis, ergue-se o Etna; de nenhum outro lugar é belo
como dali, calmo, possante, verdadeiramente divino. É um dos lugares dos quais se vê um
aspecto eterno daquela ilha que tão tolamente voltou as costas à sua vocação que era a de
servir de pasto para os rebanhos do sol."
O senador calou-se. Depois: "És um bom rapaz, Corbera, se não fosses tão
ignorante seria possível fazer qualquer coisa de ti." Avizinhou-se, beijou-me a testa. "Agora
providencia um café para encerrar o jantar. Depois eu quero ir embora para casa."

Durante as semanas seguintes continuamos a nos encontrar seguidamente. Agora


fazíamos caminhadas notumas, em geral descíamos por Via Po e através da militaresca Praça
Vittorio. Íamos olhar o rio com sua correnteza veloz e a Coilina, de onde é possível perceber
um tantinho de fantasia no rigor geométrico da cidade. Começava a primavera, a comovente
estação das tentações da juventude; nos parapeitos das janelas despontavam os primeiros
lilases, mesmo os mais cuidadosos entre os jovens casais que não tinham um refúgio podiam
ser vistos estendidos, desafiando a umidade dos gramados dos parques. "Lá embaixo o sol já
está queimando, as algas florescem, os peixes aproximam-se da superfície nas noites de lua e
na oscilação das águas podem-se ver vultos de corpos entre as espumas luminosas; nós
estamos aqui diante desta corrente de água insípida e deserta, desses quartéis que parecem
soldados ou frades alinhados; e ouvimos esses soluços de casais agonizantes estendidos pela
grama." Alegrava-o, no entanto, pensar na viagem próxima de navio até Lisboa; faltava pouco
para o embarque. "Será agradável; deverias vir também tu; é uma pena que não hajatambém
uma delegação dos deficientes em grego; comigo ainda podes falar em italiano, mas se com
Zuckmayer ou Van der Voos não demonstrares conhecer as declinações de todos os verbos
irregulares estarás frito; ainda que talvez tu mesmo tenhas mais consciência da realidade
grega do que eles; não por cultura, certamente, mas por instinto animal."

Dois dias antes de sua partida para Génova disse-me que no dia seguinte não viria
ao café mas que me esperava em sua casa às nove da noite.
O cerimonial foi o mesmo da outra vez: as imagens dos deuses de três mil anos
atrás irradiavam juventude como uma estufa irradia calor; a desbotada fotografia do jovem de
cinqüenta anos antes parecia temerosa em olhar a própria metamorfose, encanecida e
afundada na poltrona.
Quando o vinho de Chipre foi bebido, o senador chamou Bettina e disse-lhe que
poderia ir para o quarto. "Eu mesmo acompanho o Sr. Corbera quando ele for embora." "Vê
só, Corbera, se te fiz vir até aqui hoje à noite sei que arrisco atrapalhar alguma fornicação tua
no Rivoli, mas faço isso porque preciso de ti. Embarco amanhã e quando na minha idade se
vai embora não se sabe nunca se não se ficará longe para sempre; especialmente quando se
viaja por mar. Sabes, eu, no fundo, te quero bem: a tua ingenuidade me comove, a franqueza
das tuas maquinações vitais me diverte; e depois me parece ter compreendido que tu, como
ocorre com alguns sicilianos da melhor espécie, conseguiste realizar a síntese dos sentidos e
da razão. Mereces, então, que eu não te deixe de mãos abanando, sem ter te explicado as
razões de algumas das minhas estranhezas, de algumas frases que eu disse diante de ti e que
decerto te pareceram dignas de um maluco." Protestei sem convicção: "Não compreendi
muitas coisas ditas pelo senhor: mas sempre atribuí essa incompreensão à falta de condições
da minha mente, nunca a uma aberração da sua." "Deixa estar, Corbera, dá no mesmo. Todos
nós velhos parecemos malucos a vocês jovens e, em vez disso, seguidamente ocorre o
contrário. Para explicar-me, porém, deverei contar-te a minha aventura, que é incomum. Ela
aconteceu quando eu era aquele rapaz ali." e me indicava a sua fotografia. "É preciso recuar a
1887, tempo que te parecerá pré-histórico mas que para mim não o é."
Moveu-se do seu lugar, atrás da escrivaninha, e veio sentar-se no mesmo divã em
que eu estava. "Desculpa-me, sabes, mas devo falar em voz baixa. As palavras importantes
não podem ser berradas; o 'urro de amor' ou de ódio só se encontra nos melodramas ou entre a
gente mais inculta, que são enfim a mesma coisa. Então em 1887 eu tinha vinte e quatro anos;
o meu aspecto era aquele da fotografia; tinha já me formado em letras antigas, publicara dois
pequenos opúsculos sobre dialetos jônicos que tinham feito certo rumor na minha
universidade; e havia um ano preparava-me para o concurso na Universidade de Pávia. Por
outro lado não tinha jamais me aproximado de uma mulher. De mulher, para dizer a verdade,
nunca me aproximei nem antes nem depois daquele ano." Eu estava seguro que o meu rosto
tivesse permanecido em marmórea impassibilidade, mas me enganava. "É muito vilão esse teu
bater de cílios, Corbera: o que digo é a verdade; e verdade que me envaidece. Bem sei que
nós, cataneses, passamos por ser capazes de engravidar nossas amas-de-leite, e talvez seja
verdade. Mas não em relação a mim. Quando se freqüenta, noite e dia, deuses e semideuses,
como eu fazia naqueles tempos, sobra pouca vontade de subir as escadas dos prostíbulos de
São Berillio. Ainda mais que então eu era reprimido por escrúpulos religiosos. Corbera,
deverias verdadeiramente aprender a controlar os teus cílios: eles te traem continuamente.
Escrúpulos religiosos, eu disse, sim. Disse também então. Agora não os tenho mais; mas em
relação a isso não me serviu de nada perdê-lo.
"Tu, Corberuccio, que provavelmente conquistaste teu lugar no jornal graças a
um bilhetinho de algum dignatário fascista, não sabes o que seja a preparação para um
concurso para uma cátedra de literatura grega. Por dois anos é preciso estudar com afinco até
o limite da demência. A língua, por sorte, conhecia-a já bastante bem, tão bem quanto a
conheço agora; e, sabes, não é para me gabar... Mas o resto: as variantes alexandrinas e
bizantinas dos textos, os trechos citados, sempre mal, pelos autores latinos, as inumeráveis
conexões da literatura com a mitologia, a história, a filosofia, as ciências! É para enlouquecer,
repito. Estudava assim como um cão e ainda dava lições a alguns reprovados do colégio para
poder pagar meu alojamento na cidade. Pode-se dizer que me alimentava apenas de azeitonas
pretas e café. Por cima de tudo isso, sobreveio a catástrofe daquele verão de 1887, que foi
daquelas infernais como de vez em quando acontece lá embaixo. O vulcão Etna à noite
vomitava de volta o ardor do sol armazenado durante as quinze horas do dia; se ao meio-dia
alguém tocasse a balaustrada de uma sacada tinha que correr ao Pronto Socorro; as calçadas
feitas de pedra de lava pareciam a ponto de voltar ao estado fluido e quase todo o dia o Siroco
te batia no rosto como as asas de um morcego viscoso. Eu estava para estourar. Um amigo me
salvou: encontrou-me quando eu errava perturbado pelas ruas, balbuciando versos gregos que
já não entendia mais. O meu aspecto impressionou-o. "Ouve, Rosário, se continuares aqui
vais enlouquecer e adeus concurso. Eu vou embora para a Suíça (aquele rapaz tinha dinheiro)
mas em Augusta possuo uma casinha de três peças a vinte metros do mar, bem afastada do
lugarejo. Embrulha as tuas coisas, pega os livros e vai passar o verão lá. Dá uma passada na
minha casa dentro de uma hora que eu te passo as chaves. Vais ver, aquilo lá é belíssimo.
Quando chegares à estação é só perguntar pelo cassino Carobene que todos sabem onde é.
Mas vai mesmo, parte esta noite."
"Segui o conselho, parti na mesma noite e no dia seguinte, quando despertei, em
vez da perturbação das latrinas que do outro lado do pátio interno me saudavam ao
amanhecer, encontrei-me diante de uma bela extensão de mar, tendo ao fundo o Etna não mais
impiedoso, mas envolto nos vapores do amanhecer. O porto era completamente deserto, como
me disseste que ainda é até hoje, e de uma beleza única. A casinha com suas peças arruinadas
continha ao todo o sofá sobre o qual tinha passado a noite, uma mesa e três cadeiras; na
cozinha algumas panelas de barro e um velho lampião. Atrás da casa uma figueira e um poço.
Fui até o lugarejo à procura do camponês que cuidava do campo de Carobene, acertei com ele
que a cada dois ou três dias me levaria pão, massa, algumas verduras e petróleo. Azeite eu
tinha daquele nosso que a pobre mamãe tinha me mandado de Catania. Aluguei um barquinho
leve que o pescador me levou à tarde junto com uma cesta de vime de pescar e alguns anzóis.
Eu estava decidido a ficar ali no mínimo dois meses.
"Carobene tinha razão: era de fato outra coisa. O calor era violento também em
Augusta mas como não havia paredes e muros das ruas para absorvê-lo não provocava aquela
prostração bestial e sim uma espécie de tranqüila euforia, e o sol, abandonando sua careta de
carrasco, contentavase em ser um risonho embora brutal doador de energia, e também um
mago que fazia surgir diamantes em movimento ao mais leve encrespar das águas i do mar. O
estudo deixara de ser um cansaço: ao leve embalo do barco em que eu ficava longas horas,
cada um dos livros não me parecia mais um obstáculo a superar mas sim uma chave que me
abria a passagem a um mundo do qual tinha já sob os olhos um dos aspectos mais sedutores.
Seguidamente acontecia-me de declamar versos dos poetas e os nomes dos deuses esquecidos
afloravam de novo à superfície daquele mar que certa época, só ao ouvi-los, se erguia em
tumulto ou se aplacava em bonança.
"O meu isolamento era absoluto, interrompido somente pelas visitas do camponês
que a cada três ou quatro dias me levava as poucas provisões. Ele ficava só cinco minutos
porque, ao ver-me tão exaltado e desgrenhado, decerto me considerava à beira de uma
perigosa loucura. E, para dizer a verdade, o sol, a solidão, as noites passadas sob o rodar das
estrelas, o silêncio, a escassa alimentação, o estudo de assuntos remotos criavam em tomo de
mim um encanto que me predispunha ao prodígio.
"Então chegamos ao amanhecer do dia cinco de agosto, às seis. Tinha me
acordado havia pouco e de imediato fui para o barco; em poucas remadas afastei-me das
pedras da costa e parei sob o rochedo cuja sombra me protegeria do sol que já subia pleno de
uma bela fúria, mudando em ouro e azul a candura do mar da aurora. Eu declamava quando
senti um brusco abaixamento da beirada do barco, à direita, atrás de mim, como se alguém
tivesse ali se agarrado para subir. Virei-me e pude vê-la: o rosto singelo de uma garota de uns
dezesseis anos emergia do mar, duas pequenas mãos apertavam o madeiramento do barco.
Aquela adolescente sorria, uma leve abertura separava os lábios pálidos e deixava ver
dentinhos agudos e brancos como os dos cães. Não era entretanto um daqueles sorrisos como
se vê seguido entre vocês, sempre abastardados por uma expressão acessória, de benevolência
ou ironia, de piedade, crueldade ou o que seja; aquele sorriso exprimia somente a si mesmo,
isto é, uma quase animal alegria de viver, um júbilo quase divino. Esse sorriso foi o primeiro
dos sortilégios que agiu sobre mim revelando-me paraísos de esquecidas serenidades. Dos
desordenados cabelos cor de sol a água do mar escorria sobre olhos verdes abertíssimos, em
delineamentos de infantil pureza.
"A nossa obscura razão, mesmo quando predisposta, se desorganiza diante de um
prodígio e quando percebe algum procura apoiar-se na recordação de fenômenos banais;
como qualquer outro, eu quis crer que encontrara uma banhista e, movendo-me com
precaução, coloquei-me próximo dela, curvei-me e estendi a mão para fazê-la subir. Mas ela,
com espantoso vigor, emergiu da água até a cintura, me enlaçou o pescoço com os braços,
envolvendo-me num perfume jamais sentido e se deixou escorregar para dentro do barco: sob
a virilha, sob as nádegas, o seu corpo era como o de um peixe, revestido de muitas escamas
madrepérolas e azuis e terminava numa cauda bifurcada que batia lentamente no fundo do
barco. Era uma sereia.
"Estendida, apoiava a cabeça nas mãos cruzadas, mostrava com tranqüilo
despudor os delicados pelinhos sob as axilas, os seios nus, o ventre perfeito; dela subia o que
eu mal chamei de perfume, um odor mágico de mar, de voluptuosidade muito jovem.
Estávamos na sombra mas a vinte metros de nós a água do mar se abandonava ao sol e fremia
de prazer. A minha nudez quase total escondia pouco a emoção que eu sentia.
"Ela falava e assim fui submerso, depois daquele do sorriso e do odor, do terceiro
e maior sortilégio, o da voz. Era uma voz ligeiramente gutural, velada, ressonante de
harmonias inumeráveis; no fundo das palavras era possível perceber as ressacas preguiosas
dos mares de verão, o murmúrio das últimas espumas sobre a praia, a passagem dos ventos
sobre as ondas. O canto das sereias, Corbera, não existe: a música da qual ninguém consegue
fugir é apenas a voz delas.
"Falava grego e eu custava para compreendê-la. 'Ouvia-te falar sozinho numa
língua semelhante à minha; acaricia-me, pega-me. Sou Lighea, sou filha de Calliope. Não
acredita nas fábulas inventadas sobre nós: não matamos ninguém, amamos apenas.'
"Curvado sobre ela, eu remava, e fixava os olhos sorridentes. Atingimos a
margem: peguei entre meus braços o corpo aromático, passamos da luminosidade à sombra
densa; ela me transmitia já na boca aquela voluptuosidade que está para os beijos terrestres de
vocês assim como o vinho está para a água estagnada de uma poça."
O senador narrava em voz baixa a sua aventura; eu, que no fundo sempre havia
contraposto a ele as minhas experiências femininas (aquelas que ele considerava medíocres) e
que por isso sentia uma ligeira sensação de superioridade, me achava agora humilhado:
também em assuntos de amor o senador estava à minha frente, separado por um abismo de
distância incalculável. Nem por um instante me passou a suspeita que ele estivesse ali a me
contar lorotas – ainda que a pessoa mais cética do mundo ali estivesse, perceberia a verdade
mais segura no tom do velho.
"Assim tiveram início aquelas três semanas. Não é lícito, não seria nem mesmo
piedoso em relação a ti entrar em particulares. É suficiente dizer que naqueles abraços eu
gozei ao mesmo tempo as mais altas formas de volúpia espiritual e também aquela elementar,
destituída de qualquer conseqüência social, que os nossos pastores solitários provam quando
nas montanhas se unem às suas cabras; se a comparação te repugna é porque não estás em
condições de compreender a transposição necessária do plano animal ao sobre-humano,
planos, no meu caso, superpostos.
"Pensa novamente em quanto Balzac não ousou exprimir na Passion dons lê
Désert. Dos membros dela, imortais, brotava um tal potencial de vida que as perdas de
energia eram em seguida compensadas, mais do que isso, acrescentadas. Naqueles dias,
Corbera, amei tanto quanto cem dos Don Juans de vocês somados por toda a vida. E que
amores! Livres de conventos e de delitos, do rancor dos Comendadores e da trivialidade dos
Leporello longe das pretensões do coração, dos falsos suspiros, das degenerações fictícias que
inevitavelmente mancham os miseráveis beijos de vocês. Um Leporello, para dizer a verdade,
nos perturbou no primeiro dia, e foi a única vez: em tomo das dez horas ouvi o rumor dos
sapatões do camponês na estradinha que levava ao mar. Tive apenas o tempo de cobrir com
um lençol o corpo pouco comum de Lighea quando ele já estava na soleira da porta: a cabeça,
o pescoço, os braços dela, que não foram cobertos, fizeram crer ao Leporello que se tratasse
de uma amante vulgar e o fato lhe provocou um inesperado respeito por mim; ficou ainda
menos tempo que o habitual e, ao partir, piscou-me o olho com expressão de admiração antes
de desaparecer na estrada.
"Falei de vinte dias que passamos juntos; não queria porém que tu imaginasses
que durante aquelas três semanas ela e eu tenhamos vivido maritalmente, como se diz, tendo
em comum leito, comida e ocupações. As ausências de Lighea eram freqüentíssimas: sem
qualquer aviso ela se atirava no mar e desaparecia, às vezes por muitíssimas horas. Quando
retomava, quase sempre de manhã bem cedo, ou me encontrava no barco ou, se eu ainda
estava na casinha, arrastava-se pelas pedras da beira, metade fora, metade dentro da água,
sobre o dorso, fazendo força com os braços e chamando-me para ser ajudada a subir à
margem. 'Zazá', era como ela me chamava, pois lhe expliquei que era o diminutivo do meu
nome. Nesse ato de se arrastar, atrapalhada exatamente pela parte do seu corpo que lhe
conferia extrema agilidade no mar, ela apresentava o aspecto digno de compaixão de um
animal ferido, aspecto que o riso dos olhos apagava de imediato.
"Ela não comia nada que não fosse coisa viva: seguidamente a via emergir do
mar, o torso delicado brilhando ao sol, enquanto arrancava com os dentes pedaços de um
peixe prateado que fremia ainda; o sangue escorria-lhe pelo queixo e depois de algumas
mordidas a merluza destripada era atirada às suas costas e afundava manchando a água de
vermelho, enquanto ela infantilmente gritava limpando os dentes com a língua. Uma vez dei-
lhe vinho; do copo não aceitou beber, tive que servi-la na palma da sua própria mão, mão
minúscula, levemente esverdeada, e ela o bebeu fazendo estalar a língua como faz um cão,
enquanto nos olhos se desenhava a surpresa por aquele sabor desconhecido. Afirmou que era
bom, mas, depois, o recusou sempre. De quando em quando vinha à margem com as mãos
plenas de ostras, de caramujos, e enquanto eu lutava para abrir a casca com uma faca, ela
manejava uma pedra e furava o molusco palpitante, junto com pequenas conchas.
"Já te disse, Corbera: era um animal, mas no mesmo instante era também uma
imortal e é uma pena que falando não se possa exprimir com precisão essa síntese da mesma
forma que ela, com absoluta simplicidade, a exprimia com o próprio corpo. Não somente no
ato carnal ela manifestava uma alegria e uma delicadeza opostas ao triste ardor do cio animal
mas o seu falar era de uma potência imediata que só encontrei nuns poucos grandes poetas.
Não se é filha de Calliope por nada: alheia a todas as culturas, ignorante de todas as
sabedorias, desprezando qualquer contrição moral, ela fazia parte, todavia, da nascente de
todas as culturas, de toda a sabedoria, de toda a ética e sabia exprimir essa sua primitiva
superioridade em termos de áspera beleza. 'Sou tudo porque sou somente corrente de vida que
jorra sem obstáculos, sou imortal porque todas as mortes confluem em mim desde aquela da
merluza que comi até a de Zeus, e em mim reunidas tornam-se vida não mais individual e
determinada mas algo genérico e, assim, livre.' Depois dizia: 'Tu és belo e jovem; deverias
seguir-me agora no mar e escaparias às dores, à velhice; viverias na minha morada sob os
altíssimos montes de águas imóveis e escuras, onde tudo é silenciosa paz – que é tão intensa e
tão arraigada que quem a possui nem ao menos percebe sua existência. Eu te amei e, recorda-
o, quando estiveres cansado, quando não suportares mais, basta que te estendas no mar e me
chames: estarei sempre ali, porque estou em toda a parte, e a tua sede de sono será saciada.'
"Contava-me de sua existência sob o mar, dos tritões barbudos, das glaucas
cavernas, mas me dizia que também elas tinham falsa aparência e que a verdade estava bem
mais no fundo, no cego e mudo edifício de águas informes, eternas, sem brilho, sem
sussurros.
"Uma vez me disse que se ausentaria por longo tempo, até a noite do dia
seguinte. 'Devo ir longe, lá onde sei que encontrarei um presente para ti.'
"Retomou de fato com um estupendo ramo de coral purpúreo incrustado de
conchinhas e mofo marinho. Conservei-o por longo tempo numa caixinha e todas as noites
beijava aqueles pontos sobre os quais me lembrava que haviam pousado os dedos da
Indiferente, isto é, da Benéfica. Um dia, porém, a Maria, que foi minha governanta antes da
Bettina, o roubou para dá-lo ao seu gigolô. Reencontrei-o tempo depois numa joalheria de
Ponte Vecchio, vituperado, limpo e lixado a ponto de ser quase irreconhecível. Comprei-o e à
noite joguei-o no Rio Amo: tinha passado por um número excessivo de mãos profanas.
"Falava-me também de não poucos amantes humanos que ela tivera durante sua
adolescência milenária: pescadores e marinheiros gregos, sicilianos, árabes, alguns náufragos
também, à deriva sobre destroços apodrecidos aos quais ela aparecera durante um instante no
auge da borrasca para transformar em prazer seu último estertor. 'Todos aceitaram meu
convite, vieram encontrar-me, alguns imediatamente, outros vieram depois de transcorrido o
que para eles era muito tempo. Um só nunca mais foi visto por mim: era um belo rapagão de
pele branquíssima e cabelos ruivos com o qual me uni numa praia longínqua, lá onde o nosso
mar se lança no grande oceano; cheirava a qualquer coisa bem mais forte do que o vinho que
você me deu para provar naquele dia. Creio que não tenha nunca mais aparecido, não por ter
encontrado a felicidade, mas sim porque quando nos encontramos estava de tal forma bêbado
que não entendia mais nada; acho que pensou que eu fosse uma simples pescadora.'
"Aquelas semanas de verão transcorreram rápidas como se fossem uma só
manhã; quando passaram, dei-me conta que havia transcorrido séculos. Aquela garota lasciva,
aquela pequena fera cruel tinha sido também mãe muito sábia que com apenas sua presença
tinha erradicado convicções, dissipado metafísicas; com os dedos frágeis, seguidamente
ensanguentados, havia me apontado o caminho em direção aos verdadeiros repousos, e
também a um ascetismo de vida derivado não da renúncia mas da impossibilidade de aceitar
outros prazeres inferiores. Não serei eu certamente o segundo a não obedecer ao chamado
feito por ela, não recusarei essa espécie de graça pagã que me foi concedida.
"Em razão de sua própria violência, aquele verão foi breve. Pouco depois de vinte
de agosto, reuniram-se as primeiras tímidas nuvens, choveram algumas gotas isoladas tépidas
como sangue. As noites foram todo um concatenar-se, sobre o longínquo horizonte, de lentos
e mudos lampejamentos que se deduziam um do outro, como as cogitações de um deus. De
manhã, o mar cor de pomba-rola, como uma pomba-rola sofria com suas ocultas inquietações
e à noite se encrespava, sem que se percebesse brisa, em gradações de cinza-fumo, cinza-aço,
cinza-pérola, suavíssimas todas e mais afetuosas que o esplendor de antes. Longíssimos
bocados de nevoeiro afloravam às águas: talvez sobre as costas gregas já tivesse começado a
chover, naquele início de outono. O humor de Lighea deslocaria-se do esplendor à
afetuosidade do cinza. Ficava muito tempo calada, passava horas estendida sobre uma pedra,
a observar o horizonte não mais imóvel, afastava-se pouco. 'Quero ficar ainda contigo; se
agora eu saísse ao largo, os meus companheiros do mar me deteriam. Consegues ouvi-los?
Estão me chamando.' Às vezes me parecia verdadeiramente ouvir uma nota diferente mais
baixa entre o guincho agudo das gaivotas, entrever libertinagens fulminantes entre uma pedra
e outra.
'Soam as conchas, chamam Lighea para as festas do tufão.'
"Ele investiu contra nós na madrugada do dia vinte e seis. Do recife vimos o
avizinhar-se do vento que sacudia as águas longínquas, peito de nós as vagas cinzentas
cresciam vastas e preguiçosas. Logo a rajada nos atingiu, assobiando nas orelhas, dobrou os
rosmaninhos ressequidos. O mar sob os recifes em que estávamos rugiu, a primeira ondada
avançou coroada de alvura. 'Adeus, Zazá. Não esquecerás.' O vagalhão rompeu-se sobre o
recife, a sereia se atirou no repuxo cintilante; não a vi cair; parecia que ela tinha se dissolvido
na espuma."

O senador partiu no dia seguinte pela manhã; fui à estação para saudá-lo. Estava
agressivo e cortante como sempre, mas quando o trem começou a se mover, da janela os seus
dedos deslizaram sobre a minha cabeça.
No dia seguinte, ao amanhecer, telefonaram de Gênova para o jornal: durante a
noite o Senador La Ciura tinha caído ao mar do convés do Rex, que navegava em direção a
Nápoles, e, apesar dos botes salva-vidas terem sido imediatamente lançados ao mar, o corpo
não fora encontrado.
Uma semana mais tarde foi aberto seu testamento: a Bettina tocava o dinheiro
depositado no banco e o mobiliário da casa; a biblioteca seria herdada pela Universidade de
Catania; num condicílio de data recente eu era nomeado legatário da escultura grega com a
figura das sereias e da grande fotografia da "Core" da Acrópole.
Os dois objetos foram enviados por mim à minha casa de Palermo. Depois veio a
guerra e, enquanto eu estava em Marmarica com meio litro de água por dia,
os liberators norte-americanos que invadiram a Itália destruíram a minha casa: quando voltei,
a fotografia tinha sido cortada em pedaços que serviram de archotes aos saqueadores
noturnos; a escultura foi feita em pedaços; no maior fragmento pode-se ver os pés de Ulisses
ligados ao mastro da nave. Conservo-o ainda. Os livros foram depositados no subsolo da
universidade mas como faltam fundos para a compra de novas prateleiras eles vão
apodrecendo lentamente.

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