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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS


Processo Nº. : 0115561-35.2015.8.05.0001
Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : JOELMA COSTA SANTOS

Recorrido(s) CONSORCIO NACIONAL GM LTDA


GNC AUTOMOTORES LTDA.

Origem : 3ª VSJE DO CONSUMIDOR (IMBUÍ MATUTINO)

Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

VOTO- E M E N T A

RECURSO INOMINADO. CONSÓRCIO. CONTRATO POSTERIOR A


VIGÊNCIA DA LEI Nº 11.795/2008 (06.02.09). DEVOLUÇÃO IMEDIATA
DOS VALORES PAGOS, INDEPENDENTEMENTE DO ENCERRAMENTO
DO GRUPO RESPECTIVO OU SUBMISSÃO A SORTEIO, COM
ABATIMENTO APENAS DA TAXA DE ADMINISTRAÇÃO . DANOS
MORAIS NÃO CONFIGURADOS. MERO DESCUMPRIMENTO
CONTRATUAL. SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA .

Trata-se de recurso inominado interposto contra sentença que julgou


improcedente a ação, por entender o magistrado sentenciante que : “ No caso em pauta, os
documentos juntados pela autora, apenas comprovam a compra do produto. Deixando de comprovar a
negativa da Assistência conveniada a rede autorizada de recebimento do produto, ante a justificativa de
não possuir peças. Restando impossibilitado a constatação de vício/defeito. A autora se limita a juntar aos
autos a declaração de compra do produto, não sendo possível verificar a existência ou não do defeito, já
que a autora não juntou nenhuma reclamação por escrito aos autos, nem ao menos durante a Instrução

processual produziu a prova da negativa da Assitencia em receber o produto para conserto..”

A recorrente busca a reforma da sentença, aduzindo, em síntese, que fora


constatado vício do produto adquirido junto à ré, que o produto fora efetivamente remetido
à assistência, todavia não fora consertado, requerendo portanto a restituição do produto
pago, bem como indenização por danos morais.

Preliminarmente cumpre-me registrar, vez que já houve


pronunciamento dessa magistrada de forma diversa da aqui exarada, que após
reuniões entre os membros das Turmas Recursais da Bahia objetivando uniformizar
o entendimento sobre a matéria dos consórcios, particularmente sobre o momento
da devolução das parcelas pagas ao consorciado desistente, ao final de estudo e
debates, foi firmado o entendimento da forma que se segue

Com efeito, considerando o entendimento das Turmas Recursais reunidas


da Bahia, que ao analisarem as razões do veto dos §§ (1º, 2º e 3º do art. 30 da Lei
11.795/2008, os quais previa que a devolução das parcelas pagas pelo desistente se
daria de duas formas 1. contemplação em assembleia e 2 - restituição após 60 dias da
data da última assembleia e ao ponderar referidos dispositivos, constataram que com o
veto a lei nada prevê sobre o momento da devolução,já que no projeto da referida lei onde
havia os parágrafoS vetados pela Presidência da República na mensagem 762 de
08/10/2008 justamente sobre tal veto, foi considerado que os parágrafos importavam em
afronta direta aos art. 51, IV c/c art. 51, incisos II e II, todos do CDC, que prevê regra
proibitória da utilização de cláusula abusiva nos contratos de consumo sem falar na
ofensa ao princípio da boa-fé que deve prevalecer nas relações contratuais dessa
natureza, finalmente concluiu-se que o referido dispositivo ser absolutamente antijurídico,
pois ofende ao direito do consumidor, razão pela qual ditos parágrafos do art. 30 da nova
lei dos consórcios foram vetados.

Sendo assim, aos contratos anteriores a Lei 11.795/2008, aplica-se o


posicionamento da Reclamação Constitucional nº 3752-GO, que inicialmente determinou
em liminar à suspensão de todos os feitos que versassem sobre o pedido de restituição
de parcelas de consórcio, como o caso dos autos, foi julgada no último da 26/05/2010,
cujo pronunciamento final da relatora Min. Nancy Andrighi se deu no sentido de: “ em
caso de desistência do plano de consórcio, a restituição das parcelas pagas pelo
participante desistente ocorrerá em trinta dias a contar do prazo previsto no
contrato para o encerramento do grupo correspondente e de forma corrigida”.

Enquanto que aos contratos posteriores a apontada legislação, aplicam-se


as disposições do Código de Defesa do Consumidor, ante a falta de regulamentação
específica sobre a matéria já que houve o veto aos parágrafos do art. 30, consoante
acima examinado.

O exame dos autos revela que a parte recorrente aderiu em 22/11/3013 ao


consórcio. Argumenta que desistiu do contrato, em virtude de dificuldades econômicas,
todavia tivera negado na via administrativo o pleito referente à restituição imediata da
quantia paga. Reconhecido o direito da parte autora à restituição imediata do valor pago,
aplicando-se ao caso as regras protetivas do CDC, que na hipótese se sobrepõe à lei
11.795/2008.

Quanto ao desconto dos valores a título de taxa de administração, a


jurisprudência pátria já consolidou o entendimento de que tal procedimento é permitido,
devendo o percentual do desconto ser estabelecido de acordo com a razoabilidade e
proporcionalidade. Nesse sentido:

RECURSO INOMINADO. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. CONSÓRCIO.


CONTRATAÇÃO POSTERIOR A LEI 11.795/08. DESISTÊNCIA DO
CONSORCIADO. DEDUÇÃO DA TAXA DE ADMINISTRAÇÃO DE
25%. ABUSIVIDADE NÃO EVIDENCIADA. PRECEDENTE DO STJ.
RETENÇÃO DOS VALORES PAGOS A TÍTULO DE CLÁUSULA
PENAL E TAXA DE ADESÃO. MULTA DE 10% EM BENEFÍCIO DO
GRUPO QUE VAI AFASTADA PELA ONEROSIDADE EXCESSIVA.
MESMA NATUREZA DA CLÁUSULA PENAL. SENTENÇA
PARCIALMENTE REFORMADA. 1. Caso em que as partes firmaram
contrato de consórcio após a vigência da Lei 11.795/08. O demandante
desistiu imotivadamente do consórcio e requereu a restituição integral dos
valores pagos. 2. Cabível a restituição ao consorciado desistente dos valores
pagos, permitida a retenção da taxa de administração, cláusula penal
devidamente contratada (fl. 20, item 16.7) e taxa de adesão, conforme
entendimento firmado na Súmula 15 das Turmas Recursais Cíveis. 3. A taxa
de administração pode ser fixada em patamar superior a 10%, segundo o
entendimento consolidado pela jurisprudencia do STJ. Caso concreto em
que se mantém a incidência do percentual de 25%, como contratado. 4.
Multa de 10% que se mostra abusiva, uma vez que tem a mesma natureza da
cláusula penal, alterando apenas o beneficiário. Onerosidade evidenciada.
RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO (TJ-RS - Recurso Cível:
71005543921 RS, Relator: José Ricardo de Bem Sanhudo, Data de
Julgamento: 01/10/2015, Primeira Turma Recursal Cível, Data de
Publicação: Diário da Justiça do dia 05/10/2015)

No que tange à eventuais verbas a serem descontadas, diante da


ausência de alegação por parte da empresa demandada no concernente á
possibilidade de sua ocorrência, mister seja determinada a restituição imediata dos
valores pagos, com o abatimento da taxa de administração.

ISTO POSTO, voto no sentido de CONHECER DO RECURSO INTERPOSTO


E DAR-LHE PROVIMENTO, para reformar a sentença, determinando que a
restituição dos valores pagos se dê de forma imediata, corrigidos pelo INPC,
abatendo-se a taxa de administração, se houver.Sem custas processuais e
honorários advocatícios, pelo êxito da parte no recurso.

Salvador, Sala das Sessões, 10 de Novembro de 2016.

BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE


Juíza Presidente e Relatora
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS


Processo Nº. : 0115561-35.2015.8.05.0001
Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : JOELMA COSTA SANTOS

Recorrido(s) CONSORCIO NACIONAL GM LTDA


GNC AUTOMOTORES LTDA.

Origem : 3ª VSJE DO CONSUMIDOR (IMBUÍ MATUTINO)

Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

ACÓRDÃO
Acordam as Senhoras Juízas da 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais
Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, MARIA
AUXILIADORA SOBRAL LEITE –Presidente e Relatora , CÉLIA MARIA
CARDOZO DOS REIS QUEIROZ E ANTÔNIO MARCELO OLIVEIRA LIBONATI,
em proferir a seguinte decisão:RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE
PROVIDO . UNÂNIME, de acordo com a ata do julgamento. Sem custas
processuais e honorários advocatícios, pelo êxito da parte no recurso.

Salvador, Sala das Sessões, 10 de Novembro de 2016.


BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Presidente e Relatora